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CONCILIAÇÃO DA ÉTICA CRISTÃ COM A ERA DA GLOBALIZAÇÃO - um olhar reflexivo

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da fé”, motivados pela globalização. Karnal (2015, s.p) explica que uma característica do mundo líquido é que “o aqui e agora não junta mais corpo e alma”, pois há a intermediação e a dependência da tecnologia; um mundo onde nada é mais sólido, e “essa liquidez atinge os valores”. Para o historiador e professor, o homem é submetido a uma velocidade intensa aliada ao individualismo total, pois ele vive enclausurado no seu “eu”.
Nesse contexto, Karnal (2015) compara a era globalizada com o quadro “O Grito”, do pintor norueguês Edvard Munch, o qual representa um momento de profunda angústia e desespero existencial. As formas distorcidas e a expressão do personagem revelam a dor e as dificuldades que “a era globalizada pode apresentar”, causando um grito como forma de expressão desse sentimento. Esse grito é o grito das pessoas excluídas da “globalização da indiferença, pois a cultura do bem-estar torna-nos insensíveis aos gritos dos outros” (PAPA FRANCISCO, 2013).
(...) O grito – enquanto ruído, rugido, clamor, protopalavra ainda não articulada, interpretada de acordo com o seu sentido apenas por quem “tem ouvidos para ouvir” – indica simplesmente que alguém está sofrendo e que do íntimo da sua dor nos lança um grito, um pranto, uma súplica. É a interpelação primitiva. (DUSSEL, 2005, p. 19).
Todavia, essa “globalização da indiferença” citada pelo Santo Papa e também por Dussel (2012) e que torna todos “anônimos”, responsáveis “sem nome e sem face”, aponta a insegurança, a injustiça, a instabilidade, o medo, os “ouvidos moucos” insensíveis aos gritos dos outros e a incerteza para se viver em comunhão, para ser “bem-vindo à esquiva comunidade”, segundo Bauman (2008, p. 70), uma vez que a proximidade já não garante intensa interação. O sociólogo comenta que é bom “ter uma comunidade”, “estar em uma comunidade”, pois a sociedade pode ser má, mas não a comunidade, “que é sempre uma coisa boa”. 
Em contrapartida, Bauman (2001, 2005) também considera que a individualização radicalizada impede a sociabilidade, a “comum-união”, pois como o indivíduo vive num mundo líquido, sem fixidez, seus relacionamentos tornam-se frágeis, e ele se torna ‘livre’ na comunidade, mas essa liberdade é relativa na medida em que suas opções de construção da individualidade são limitadas (ou ilimitadas) pelo consumo. 
Assim, solitário e não solidário, o ser humano vive um vazio ético, característico desses novos tempos, quando, na verdade, para buscar a paz e a segurança deveria olhar o Outro, seu próximo, ter a disponibilidade existencial para o Outro cumprindo assim, um papel humanizador (LÉVINAS, 2010). E é justamente o que se espera dessa era globalizada, o universalismo concreto em que o “eu” vê o “outro” como “igual”, mas, entretanto, reconhece que esse outro possa ser “diferente”, uma vez que a postura interculturalista também promove o diálogo, a complementaridade e é capaz de pensar a unidade na pluralidade (QUINTANA, 2003).
Entende-se que a solidariedade deveria ser a tônica dessa era globalizada. A “globalização solidária” deveria estar centrada em valores e não ligada à hegemonia dos países ricos, e contribuir para o desenvolvimento sustentável de todos. Apesar do seu aspecto positivo (solidariedade em tempos de catástrofes), Sales (2010, p. 311) acrescenta que a “racionalidade da globalização atual enfraquece tanto a noção de solidariedade quanto a preservação do planeta”. No entanto, a preservação do planeta e os vínculos de solidariedade social “são indispensáveis à convivência humana” (CARVALHO, 2008, p. 169).
Nessa esteira, Sales (2010) aponta ainda que o acesso imediato ao mundo do outro possibilita a formação de redes de solidariedade, que tragédias locais mobilizam globalmente as pessoas em prol da preservação da vida (como exemplo, cita-se a “tragédia da lama” em Mariana (MG)), porém, o ser humano hoje valoriza mais a “estética hedonista” do que a ética; a técnica com a obtenção do lucro do que a promoção da vida; os valores imediatos efêmeros do que os essenciais e duradouros; cresce o número de cristãos que “customizam” suas práticas religiosas, e fazem “troca de favores com o sagrado”.
Em relação a essa inversão dos valores, Vattimo (1992, p. 10) reflete que “a sociedade ainda não é mais transparente, mais consciente de si, mais iluminada, mas é vista como uma sociedade mais complexa, até caótica”. Acrescenta-se aqui a reflexão de Ianni (2003, p. 220): “Fala-se mesmo em outra história e outra geografia: novas formas de espaço e tempo, às vezes, límpidos e transparentes, outras vezes caleidoscópios e labirínticos”. Refletir sobre essa “nova era” é preciso.
Por conseguinte, percebe-se que a humanidade corre perigo, e a civilização científico-tecnológica precisa, urgentemente, estabelecer limites principalmente éticos a essa expansão tecnológica. Singer (2004, p. 28) questiona: “o que é uma questão ética fundamental quando devemos nos preocupar com o bem-estar das pessoas de todo o mundo, independentemente de nacionalidade?” O filósofo australiano ressalta que na era da globalização o homem deve preocupar-se com todos os tipos de problemas além das fronteiras (macroeconômicos, legais, comunitários, ecológicos de caráter global), e os valores devem ser “sólidos, defensáveis e justificáveis”.
Assim sendo, é preciso construir uma sociedade mais aberta, criativa, solidária e tolerante como propõe Grenz (2008). Quando se lê no livro do Gênesis (Gn 1,28): [...] “enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre...”, Drewermann (2004, p. 7) pontua que este versículo “é o mais utilizado pelo homem nos dias de hoje”, interpretando-o a sua maneira, como dono de todo o planeta sujeito ao bel-prazer. Entretanto, os Evangelhos de Mateus (Mt 16, 26) e de Marcos (Mc 8, 36) ressaltam: “Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” O autor entende que para nada adianta e serve “conquistar o mundo inteiro e perder-se a si próprio” (DREWERMANN, 2004, p. 96).
Enfim, refletir e buscar desafios sobre a ética ‘global’, essencialmente sobre a Ética Cristã na era da globalização é preciso, uma vez que quase todos os problemas apresentados são, sobretudo, de cunho ético. 
CAPÍTULO 2
ÉTICA E ÉTICA CRISTÃ NA CONTEMPORANEIDADE
O fenômeno da “aldeia global", "planetização" ou "cosmificação", como pontua Libanio (2007) tem conduzido o homem ao enfrentamento de uma série de dilemas éticos surgidos na sociedade e na cultura e que indicam caminhos diferentes daqueles apontados pela Ética Cristã. A ciência e a tecnologia se desenvolvem muito mais do que a existência humana interior. Porém, as inegáveis conquistas do homem não proporcionam igual evolução no campo da ética e da moral. A sociedade passa por uma profunda crise ética e moral, isso porque a prática dos valores humanos tem sido esquecida. A modernidade vem mudando os valores éticos: hoje os indivíduos buscam o imediatismo e a instantaneidade das coisas; os valores são “atributos de experiências momentâneas” cita Bauman (2011, p.225), e o relativismo, quando a ética pode contornar a situação e conduzir a uma moralidade de que “os fins justificam os meios”.
O mundo contemporâneo vive uma globalização da violência, fruto das relações econômicas, políticas e sociais. Os princípios éticos e morais estão cada vez mais distantes do cotidiano dos indivíduos. Apenas o anseio por riquezas predomina, além da corrupção, da necessidade de levar vantagem em tudo, da desonestidade, da dissimulação e fingimento nas atitudes. Frente a essa realidade, faz-se urgente arquitetar uma ética capaz de pensar e propor normas para os problemas que afetam a humanidade e o planeta, mas uma ética “global”, embasada nos princípios da Ética Cristã como enfatiza Apel (2004). 
No Brasil como em todo o mundo, em todos os locais que vivem uma vida ‘moderna’, ou ainda ‘pós-moderna’, os indivíduos enfrentam problemas espirituais e sociais semelhantes, como os já citados pelo teólogo inglês Stott (2011) que analisa essa problemática desde a década de 1980. 
O homem é um ser no mundo, que só realiza