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Em 1919, a Conferência de Paz de Paris reuniu 32 nações em torno da elaboração do acordo que deveria ser o marco de encerramento da Primeira Guerra Mundial – e, na visão triunfalista de alguns, o fim de qualquer possibilidade de novo conflito da mesma proporção. O resultado foi um dos maiores equívocos diplomáticos de todos os tempos. O tratado de Versalhes, que supostamente viria a pacificar o mundo, acabou por se tornar a semente de uma violência ainda maior, criando condições para a ascensão do nazismo na Alemanha e a eclosão da Segunda Guerra Mundial, apenas vinte anos mais tarde. O livro O tratado de Versalhes – mais um lançamento da Coleção Globo Livros História – revela com riqueza de detalhes os bastidores das negociações que formataram o documento. Tudo relatado por uma testemunha privilegiada daquele momento histórico: o escritor Harold Nicolson, que em 1919 atuou como membro júnior da delegação diplomática inglesa à Conferência de Paz de Paris. Então um jovem diplomata especializado em questões territoriais, Nicolson descreve com lucidez a distância entre ações e intenções dos grandes líderes – entre eles, o presidente norte-americano Woodrow Wilson, o primeiro-ministro britânico David Lloyd George e o premiê francês Georges Clemenceau –, bem como as circunstâncias que levaram a escolhas irrefletidas, como, por exemplo, a pressão das massas por uma implacável reparação aos danos que o lado perdedor (sobretudo a Alemanha) causara aos países vencedores. O título se divide em duas partes. Na primeira, o autor faz uma avaliação crítica do encontro diplomático, relacionando a desorganização, os erros, os infortúnios e as desavenças que levaram a um acordo final completamente diferente daquele que havia sido imaginado inicialmente como justo, viável e favorável ao restabelecimento da paz no continente europeu. A segunda parte do volume apresenta trechos selecionados do diário que Nicolson escreveu ao longo dos seis meses de missão diplomática, da abertura da conferência até a assinatura do tratado que praticamente decretou a ruína econômica da Alemanha. Ao publicar este livro em 1933, o autor fez questão de esclarecer que, mais do que um registro histórico, buscou reproduzir a “infeliz e doentia atmosfera” da Conferência de Paz de Paris. Seis anos antes do início da Segunda Guerra, Nicolson garantia que desde 1919 muitos dos diplomatas envolvidos na elaboração do Tratado de Versalhes experimentaram “por longo tempo um sentimento de descrença, uma convicção de que a natureza humana, como uma geleira, se move apenas uma ou duas polegadas a cada mil anos”. LIVRO I MEMÓRIAS DA PAZ DE VERSALHES como parece hoje 1 Armistício DE TODOS OS RAMOS DA ATIVIDADE HUMANA, A DIPLOMACIA é a mais versátil. O historiador e o jurista, confiando no protocolo e no procès verbal, podem procurar manter suas condutas dentro dos contornos estritos de uma ciência. O ensaísta pode capturar as cores nas vinhetas de uma arte. Os especialistas – e houve muitos, de Callière a Jusserand, de Maquiavel a Jules Cambon – podem conseguir adensar suas experiências em livros capazes de orientar os que vêm depois. O jornalista pode dar ao quadro os enfoques e a interpretação do pitoresco. Em tais imagens, porém, sempre surge um elemento que escapa à realidade, há sempre o aspecto que se nega a ser registrado ou definido. Essa incerteza de tratamento resulta de causas diversas. Em primeiro lugar, a discrepância entre o protocolo criado e os estágios que levaram à sua adoção. Existe a divergência entre a evolução aparente da negociação e a que realmente ocorreu. Existe a tendência a atribuir efeitos manifestos a causas que só parecem manifestas. Existe a tentação de simplificar motivos mistos de forma a falsificar esses motivos. Existe a dificuldade em determinar a proporção entre iniciativa pessoal e viés de massa. Existe a permanente confusão de línguas, temperamentos, propósitos e interpretações. Acima de tudo, existe o risco de interpretar valores erroneamente, de atribuir a circunstâncias que parecem significativas uma importância que de fato não têm, de subestimar outras circunstâncias aparentemente triviais, mas que no momento foram fatores determinantes. Havia muito eu desejava descrever a nova diplomacia como uma sequela ou contraparte da feição da velha diplomacia que delineei na biografia de meu pai. Quanto mais considero o assunto, menos acredito numa real oposição entre as duas. Diplomacia é essencialmente o sistema organizado de negociação entre estados soberanos. O mais importante fator em tal organização é o elemento da representação – a necessidade fundamental de qualquer negociador ser plenamente representativo de seu próprio soberano. Pequenas mudanças que têm ocorrido nos procedimentos diplomáticos não devem, portanto, ser descritas como um rompimento abrupto entre os conceitos éticos de uma geração e os da geração seguinte. É menos uma questão de ética e mais de método: em outras palavras, foi a incidência da soberania que tem se deslocado, e não os princípios essenciais por que uma diplomacia eficiente se conduz. Hoje, que democracia significa a soberania de todos nós, certas transformações óbvias na prática diplomática foram, estão sendo e serão introduzidas. Mas descrever estas mudanças em termos de valores éticos e não práticos é uma interpretação equivocada de toda a função da diplomacia. O contraste entre a velha e a nova diplomacia não só traduz um exagero como pode prejudicar o estudo científico das relações internacionais. Fortalecido por esta convicção, decidi que não devia tentar esse confronto. Desejo, contudo, dar prosseguimento, de uma forma ou de outra, a meu estudo prévio da diplomacia anterior à guerra e completá-lo na forma de uma trilogia, da qual este volume representa a segunda das três obras. No fim, espero completar o trio com outra biografia e focalizar a diplomacia posterior à guerra em torno da personalidade de Lord Curzon. Neste, o segundo volume de minha trilogia, procurei analisar a fase de transição entre a diplomacia de pré-guerra e de pós-guerra, e dar uma ideia sobre a Conferência de Paz de Paris. Inicialmente, pretendi organizar este estudo também sob a forma de uma biografia, centrando minha história na personalidade de Mr Woodrow Wilson ou de Mr Lloyd George. Todavia, cheguei à conclusão que tal concentração do tema em torno de uma pessoa não daria o necessário destaque à espantosa dispersão de energia que constituiu o verdadeiro ponto-chave da Conferência de Paris. A perspectiva fechada e a continuidade pessoal características do método biográfico teriam prejudicado meu propósito. Estou bem ciente de que abandonando minha intenção inicial perdi imensamente na estruturação da obra, no interesse e no lucro financeiro. Porém, adotando tal método, estaria simplificando os assuntos em vez de proporcionar um quadro das confusões e complicações que de fato ocorreram. Decidi, pois, descrever simplesmente a Conferência de Paz na forma em que a vivi. Mais uma vez me encontrei diante de uma dificuldade. Constatei a impossibilidade de, neste momento, oferecer qualquer narrativa conexa da conferência em termos de assunto ou de cronologia. Por um lado, muitos documentos vitais ainda estão indisponíveis e, por outro, o método consecutivo não daria uma impressão acurada. O ponto importante a entender sobre a Conferência de Paris é sua espantosa inconsequência, a falta completa de qualquer método consecutivo de negociação ou mesmo de imposição. A verdadeira história da Conferência será escrita um dia de forma oficial, coberta de autoridade e legível. O que pode permanecer sem registro é a atmosfera daqueles mesesinfelizes, a névoa em que fomos envolvidos. Meu estudo, portanto, é um estudo em meio à neblina. O leitor não deve esperar qualquer lucidez contínua. Isso não existiu. Creio que li a maioria dos muitos livros que, desde 1919, foram publicados sobre a Conferência de Paz, alguns deles admiráveis, outros pelo contrário. Todavia, de todos extraí a impressão de que faltava algo essencial e estou convencido de que esta omissão crucial é a do elemento de confusão. É esse ingrediente – e somente este – que pretendi deixar bem patente neste volume. A lembrança daqueles dias congestionados é muito viva em mim. Foi reforçada pela leitura do diário que redigi na época. Quando decidi publicar, na segunda metade deste volume, os principais trechos do diário, o fiz convencido de que, em sua jovial trivialidade, reflete, melhor do que comentários da meia-idade desiludida, a atmosfera que pretendo transmitir. Mas a crítica que faço de meu próprio diário está implícita e não explícita. Na época, eu era jovem e estava compreensivelmente agitado. Não é necessário me desculpar por tais falhas. Mas confio em que minha tese principal fique bem clara. É esta. Dado o clima da época, considerando as paixões despertadas em todas as democracias por quatro anos de guerra, teria sido impossível, até mesmo para super-homens, imaginar uma paz de moderação e justiça. A missão dos negociadores de Paris ainda se complicava por circunstâncias particularmente confusas. Os ideais a que foram penhorados pelo Presidente Wilson eram não apenas impraticáveis em si mesmos, mas exigiam, para sua observância, a íntima e incessante colaboração dos Estados Unidos. Sentimos que sua colaboração talvez pudesse ser íntima, mas não poderia ser incessante. Foi portanto a tentativa de homens como Clemenceau e Lloyd George encontrar um meio-termo entre os anseios de suas democracias e os ditames mais moderados de suas próprias experiências, bem como o meio-termo entre a teologia do Presidente Wilson e as necessidades práticas de uma Europa furiosa. Esse duplo abismo tinha de ser transposto por meior-termos que, para uma geração seguinte, parecem hipócritas e enganosos. Mas não eram inevitáveis? E poder-se-ia esperar que a natureza humana, tão recentemente mergulhada na loucura da Grande Guerra, pudesse subitamente demonstrar a branda serenidade de uma sabedoria quase sobre-humana? Não respondo a essas perguntas. Deixo-as como indagações a serem respondidas por alguma geração futura. Tudo que espero alvitrar é que o erro humano é um fator permanente, não episódico, em história e que futuros negociadores estarão expostos, por nobres que sejam suas intenções, a futilidades de intenções e a omissões tão graves como as que caracterizaram o Conselho dos Cinco. Eles estavam convencidos de que jamais cometeriam os erros e as iniquidades do Congresso de Viena. Gerações futuras estarão igualmente convictas de serem imunes aos defeitos que acometeram os negociadores de Paris. Mas, por sua vez, estarão expostas aos mesmos micróbios e à eterna inadequação da inteligência humana. É com triste pesar que hoje em dia recordo aquela manhã de novembro em que Mr Lloyd George anunciou o armistício da entrada de Downing Street. A cena, até hoje, está indelevelmente impressa em minha mente. Eu trabalhava no porão do Foreign Office, num abrigo verde e roxo que, até poucas semanas antes, me protegera dos ataques aéreos dos alemães. Preparava-me para a eventual Conferência de Paz. Mais especificamente, naquela manhã de 11 de novembro estudava o problema do enclave de Strumnitza. Depois de trabalhar cerca de uma hora, constatei que precisava de mais um mapa. Subi as escadas para a torre onde se localizava nossa sala de mapas. A caminho, fui até a sala do administrador solicitar mais algumas caixas de lata para minhas necessidades na Conferência. Fui até a janela e olhei para baixo, na direção do nº 10 de Downing Street. Um grupo estava postado na faixa central da rua e havia meia dúzia de policiais. Eram dez e cinquenta e cinco da manhã. De repente, a porta da frente se abriu. Mr Lloyd George, com os cabelos brancos agitados pelo vento, surgiu na entrada. Acenou com os braços estendidos para a frente. Abri apressadamente a janela. Ele repetia insistentemente a mesma frase. Escutei suas palavras. “Às onze horas desta manhã a guerra estará terminada.” O pessoal se aproximou dele. Direto e sorridente, fez um gesto de despedida e se retirou, desaparecendo por trás da grande porta de entrada. Afluía gente a Downing Street, e em poucos minutos toda a rua ficou cheia. Não houve manifestações. A multidão se espraiou silenciosamente na direção do pátio dos Horse Guards Parade e espalhou-se em volta do muro do jardim de Downing Street. De meu privilegiado posto de observação, vi Lloyd George aparecer naquele jardim, agitado e entusiasmado. Foi até a porta do jardim e em seguida recuou. Dois secretários que o acompanhavam o estimularam a prosseguir. Ele abriu a porta. Pisou no lado de fora, no terreno de Parada. Acenou por um momento e novamente recuou. A multidão avançou em sua direção e as pessoas davam-lhe tapinhas nas costas. A mais viva lembrança de Mr Lloyd George é a deste momento. Um homem se afastando de admiradores muito ansiosos que se esforçavam histericamente para cumprimentá-lo. Deveria ter ido? Tendo ido, deveria ter recuado de forma tão pueril? Aquela cena foi um símbolo de muito do que estava para acontecer. Tendo-se recolhido ao abrigo de seu jardim, Mr Lloyd George riu à vontade com os dois secretários que o acompanhavam. Foi uma cena inesquecível. Afinal, os alemães tinham assinado. Voltei para meu porão e para o enclave de Strumnitza. Quando subi novamente, toda Londres estava enlouquecida. Foi dessa maneira que ouvi sobre a chegada da paz. Muitos anos se passaram desde aqueles dias de novembro quando, em meu subsolo verde e roxo, mergulhava no problema do enclave de Strumnitza. Hoje estou ciente de que, no mesmo período, os governantes do mundo estavam preocupados com questões de relevância muito mais grave. É necessário, ao examinar a base legal dos Tratados de Paz, concentrar-se desde o começo em saber se a correspondência triangular que teve lugar em outubro entre Washington, Berlim e as capitais das Potências Associadas constituiu um contrato no sentido legal do termo. Antes de irmos adiante uma só página, é essencial declarar o seguinte problema: “Os alemães depuseram suas armas em confiança ante o penhor dado por seus inimigos de que os termos da paz a seguir se ajustariam plenamente aos vinte e três princípios[1] enunciados pelo Presidente Wilson? Se assim foi, as Potências Aliadas e Associadas cumpriram ou violaram esse penhor, quando a Alemanha ficou a sua mercê? O problema é tão material para qualquer registro da Conferência de Paz que me sinto obrigado a repetir o procedimento de meus antecessores a propósito deste espinhoso ponto, revendo, em meu primeiro capítulo, os principais aspectos do acordo pré-armistício (o “pactum de contrahendo”) entre a Alemanha e as potências vitoriosas. As peças fundamentais da questão podem ser sintetizadas como se segue. Em 5 de outubro, o Príncipe Max de Baden, após inúmeras e ansiosas ligações telefônicas para o quartel-general alemão, dirigiu uma Nota Oficial ao Presidente Wilson pedindo-lhe para negociar uma paz com base em seus próprios Quatorze Pontos e nos nove princípios subsequentes e para facilitar a imediata conclusão do Armistício. Em 8 de outubro,o Presidente Wilson respondeu na forma de três perguntas: (a) O governo alemão aceitava os Quatorze Pontos como base para o desejado tratado? (b) Ordenaria a imediata retirada de suas tropas de todo o solo estrangeiro? (c) Poderia assegurar que o governo presente e futuro da Alemanha estaria sobre uma base verdadeiramente democrática? Em 12 de outubro, o Chanceler respondeu afirmativamente cada uma destas perguntas. Acrescentou que seu “objetivo ao entrar na discussão era simplesmente acertar detalhes práticos da aplicação” dos “termos” contidos nos Quatorze Pontos do Presidente Wilson e em seus pronunciamentos subsequentes. Em 14 de outubro, o Presidente Wilson novamente se dirigiu ao governo alemão. Disse-lhe que nenhum armistício poderia ser negociado sem “oferecer salvaguardas absolutamente confiáveis da manutenção da presente supremacia militar” dos exércitos Aliados e Associados. Acrescentou que a guerra submarina devia ser imediatamente terminada, e que um governo democrático e representativo devia ser instalado em Berlim. Em 20 de outubro, o Chanceler alemão respondeu acatando estas condições. Em 23 de outubro, o Presidente Wilson informou ao Governo alemão que, tendo agora recebido sua garantia de que aceitava sem restrições os “termos de paz” corporificados em seus próprios pronunciamentos, estava disposto a discutir com seus associados a concessão de um armistício sobre essa base. Repetiu que os termos excluíam toda a possibilidade de retomada de hostilidades. Deu a entender que o caminho para a paz seria facilitado pelo prévio desaparecimento de “autocratas monárquicos.” Acrescentou que comunicara aos Governos Associados a correspondência trocada com o governo alemão, perguntando-lhes se, de sua parte, estariam “dispostos a celebrar a paz com base nos termos e princípios assinalados.” Em 5 de novembro, o Presidente enviou ao Governo Alemão as respostas recebidas de seus associados. Os Governos Aliados haviam manifestado seu desejo de concluir um Tratado com o Governo Alemão fundado nos “termos de paz” estabelecidos pelo Presidente, com duas ressalvas. A primeira delas se referia à questão da Liberdade dos Mares. A segunda ampliava o princípio da “reparação” de modo a cobrir “todos os danos causados à população civil dos Aliados e a suas propriedades pela agressão alemã por terra, por mar e do ar.” Tão logo recebeu esta garantia, o Governo Alemão despachou seus emissários para receberem os termos do armistício. Os termos tinham sido redigidos em conferência do Conselho Supremo em Versalhes: eram tais que deixavam a Alemanha à completa mercê das Potências Aliadas em terra e no mar. Foram assinados na Floresta de Compiègne às 5 horas da manhã da segunda-feira, 11 de novembro. No próximo capítulo descreverei minha particular veneração pelos Quatorze Pontos; resumirei aqueles pontos e os princípios acompanhantes; e mostrarei como dezenove dos vinte e três “termos de paz” do Presidente Wilson foram flagrantemente violados na redação final do Tratado de Versalhes. Por ora, estou voltado apenas para o acordo pré-armistício, pelo qual a Alemanha consentiu em render-se no entendimento explícito de que os termos de paz que lhe seriam impostos observariam inteiramente os princípios wilsonianos e seriam de fato meramente “o detalhe prático de aplicação” daquelas vinte e três condições sobre as quais concordara em deixar cair as armas. Linhas atrás, sintetizei a troca de correspondência que deu forma ao acordo. Mas ainda não é a história completa. Não foi dada importância suficiente, a não ser por Mr Winston Churchill, à “Interpretação” dos Quatorze Pontos dada pelo coronel House, que precedeu sua aceitação pelas Potências Associadas. Na época, o coronel House era o representante dos Estados Unidos no Conselho Supremo de Guerra em Versalhes. Foi esse órgão que aprovou os “Termos de Armistício” conforme redigidos, e pelos quais as Potências Aliadas aceitaram os “termos de paz” do Presidente Wilson. A “Interpretação” ou “comentário” do coronel House dos ou sobre os Quatorze Pontos, é, portanto, um documento de importância realmente vital. Esse “comentário” foi transmitido por cabograma em 29 de outubro de 1918 para o Presidente Wilson, para aprovação. Continha as seguintes aplicações de brilho sobre os Quatorze Pontos e os Novos Princípios. A expressão “open covenants,” pactos abertos, não devia ser interpretada como impedimento a negociações diplomáticas confidenciais. Com a Liberdade dos Mares o Presidente não pretendia abolir a arma do bloqueio naval, mas apenas inculcar algum respeito pela propriedade e pelos direitos privados. O próprio Presidente avançara a cativante teoria de que, em futuras guerras, devido à Liga das Nações, “não haveria neutros.” Diante desse duplo lustro, o parágrafo 2 dos Quatorze Pontos tornou-se a mais vaga expressão de opinião. A exigência de livre-comércio entre as nações da terra não devia ser interpretada como obstáculo a qualquer tipo de proteção de indústrias nacionais. Longe disso. Tudo que exigia era a “porta aberta” para matérias-primas e a proibição de tarifas discriminatórias entre membros da Liga das Nações. O ponto referente a “desarmamento” implicava apenas que as Potências deveriam aceitar a ideia em princípio, e concordariam em nomear uma Comissão para examinar os pormenores. As Colônias Alemãs poderiam, no devido momento, ser encaradas, em princípio, como propriedade da Liga das Nações e, dessa forma, cultivadas por mandatários desejáveis. A Bélgica devia ser indenizada por todos os custos da guerra, uma vez que cada dispêndio que aquela infeliz nação fora obrigada a fazer a partir de agosto de 1914 fora uma despesa “ilegítima.” A França, por outro lado, não devia receber todos os custos de guerra, apenas indenização completa pelos danos realmente sofridos. Sua reivindicação do território do Sarre constituía “clara violação da proposta do Presidente.” A Itália, por razões de segurança, poderia reclamar a fronteira no Brenner, mas as populações alemãs que fossem assim incorporadas teriam assegurada “completa autonomia” à que ficasse dentro de território italiano. As raças súditas da Áustria-Hungria deviam ter completa independência, desde que fosse garantida proteção das minorias raciais e linguísticas. A simples oferta de autonomia “já não servia.” Por outro lado, a Bulgária (país com o qual os Estados Unidos não estavam em guerra e ao qual tinham concedido grande apoio educacional e filantrópico no passado) seria compensada por ter entrado na guerra contra nós. Receberia não só Dobrudja e a Trácia Ocidental, mas também a Trácia Oriental, até a linha Midia-Rodosto. Constantinopla e os Estreitos ficariam sob controle internacional. A Ásia Menor Central permaneceria turca. A Inglaterra obteria a Palestina, a Arábia e o Iraque. Os gregos possivelmente receberiam um mandato sobre Smyrna e os distritos adjacentes. A Armênia deveria surgir como estado independente sob a tutela de alguma Grande Potência. A Polônia deveria ter acesso ao mar, embora esse acesso implicasse uma dificuldade. A dificuldade era a separação da Prússia Oriental do restante da Alemanha. O coronel House foi cuidadoso em alertar o Presidente de que essa solução não seria fácil. E, finalmente, a Liga das Nações deveria ser o “alicerce da estrutura diplomática de uma paz permanente.” Não quero insinuar que o coronel House, ao apresentar isso, sua “interpretação” às Potências Associadas, fosse culpado de algum desejo de modificar osquatorze mandamentos. Tenho o mais profundo respeito pelo coronel House – considerando-o a mais brilhante cabeça diplomática que a América já produziu, mas confesso que uma obscuridade muito indesejável paira sobre sua “interpretação.” Foi com base nessa “interpretação” que os aliados aceitaram os Quatorze Pontos, os Quatro Princípios e os Cinco Detalhamentos como fundamento do eventual Tratado de Paz? Se assim foi, as Potências inimigas certamente deveriam ter sido informadas na época. Escrevo sujeito a correção, uma vez que os documentos exatos, a troca exata de sugestão e concordância hoje não estão disponíveis. Mas é difícil resistir à impressão de que as Potências Inimigas aceitaram os Quatorze Pontos como eram, enquanto as Potências Aliadas só os aceitaram como interpretados pelo coronel House nas reuniões que culminaram com seu cabograma de 29 de outubro. Em algum lugar, em meio às imprecisões apressadas e ansiosas daqueles dias de outubro, espreita a explicação do mal-entendido fundamental que desde então surgiu. De qualquer modo, nós, a equipe técnica, os servidores civis, não tivemos conhecimento da “Interpretação” do coronel House. Também olhávamos os Quatorze Pontos e os pronunciamentos acompanhantes como a carta para nossa atividade futura. Como demonstrarei, abriu-se um grande abismo entre nossos termos de referência e as conclusões posteriores. Se soubéssemos do glossário do coronel House, em abril o teríamos adotado como justificativa para nossa marcha atrás. Mas foi só muitos anos mais tarde que sequer vim a ouvir a respeito desse glossário. E não posso, por um só momento, fingir que ele tenha tido a menor influência sobre minha atitude. Traí minha própria fidelidade aos Quatorze Pontos. A finalidade deste livro é dar uma indicação, alguma tênue pista das razões daquela traição, ou melhor, da atmosfera daquela traição. Porém, minha intenção ao escrever esta história não é comentar documentos; minha única finalidade é reconstituir estados de espírito. Sei que não posso pretender remontar um estado de espírito a não ser com relação ao meu próprio – uma captura de menor valor. Mas afirmo que o que senti na época foi também sentido por noventa e cinco por cento daqueles que, embora não sendo políticos, estávamos ativamente ligados aos assuntos públicos. Quando uso o termo “nós,” refiro-me a muita gente que, em Paris, sentia e pensava como eu. Dessa forma, representávamos parcela de opinião ampla e não totalmente ignorante. Creio que meu próprio estado de espírito com relação à base contratual do Armistício e do Tratado consequente na verdade representa um termo médio de pontos de vista amplamente defendidos, não de todo sem motivo. Não me lembro de, na época, a divergência entre nosso conceito do “pactum de contrahendo” e a interpretação que lhe foi dada na Alemanha se apresentasse em termos tão extremos quanto desde então foi apresentada. Por um lado, estávamos convencidos de que com o desabamento das defesas de oeste – diante do colapso da Áustria, da Turquia e da Bulgária – a Alemanha de qualquer modo estava de joelhos. Foi um alívio quando o armistício foi aceito, pois significava um abreviamento da guerra: mas também estávamos convictos de que se a Alemanha se recusasse a capitular, a imposição de uma completa rendição em solo alemão teria sido questão de meses apenas, talvez semanas. Por outro lado, no outono de 1918 acreditávamos honestamente que só os princípios do Presidente Wilson poderiam fundamentar uma paz duradoura. Em outras palavras, nunca passou por nossa mente que tínhamos comprado a rendição alemã oferecendo os Quatorze Pontos. Aquilo nos parecia, em qualquer hipótese, inevitável. Isto, na época, considerávamos indiscutível. Argumentar doutra forma é admitir, em novembro de 1918, ideias e anseios que só vieram à tona em março seguinte. Essa “datação” incorreta de opinião é de fato um erro mais comum para um historiador do que a atribuição a motivos falsos. Neste caso, ele poderia observar que uma visão, identificável em março, guarda coerência com uma série de documentos públicos trocados (obedecendo a outra visão totalmente diferente) no outono anterior. Inevitavelmente o historiador confunde uma com a outra. É essa confusão que dá origem a erros de julgamento histórico. Outra causa semelhante e não reconhecida de equívocos de compreensão histórica é a prematura e muitas vezes fortuita criação de lendas. Algum pormenor pitoresco, algum floreio de expressão fica gravado na memória do público. Destaca-se. Inevitavelmente, os fatos (aquela hierarquia de circunstâncias que denominamos “os fatos”) acomodam-se bem por trás dessa pitoresca faixa de rua no quadro geral. Olhando por esse ângulo obtém-se uma determinada vista, frequentemente enganadora. Duas faixas de rua dessa natureza surgem durante os primeiros dias da Conferência. A primeira frase-pôster famosa é “Vamos espremer a laranja até as sementes chiarem.” A segunda é a admissão por Mr Lloyd George de que nunca ouvira falar de Teschen. Por trás do primeiro post se junta todo o problema da “eleição kaki” de dezembro de 1918. Por trás do segundo, estão reunidas as inúmeras lendas de que os membros da Conferência de Paz foram para Paris sem nenhuma preparação: de que eram, sem exceção, ignorantes e mal-informados. Contra cada uma dessas lendas, eu gostaria de alertar o futuro historiador. É para ele que escrevo estas notas. A eleição geral de dezembro de 1918 foi, sem dúvida, um desastre. É discutível se foi também um erro. Mr Asquith na época a descreveu como “um erro estúpido e uma calamidade.” Calamidade, certamente foi. Fez com que retornasse a Westminster o mais ignorante grupo de rapazes oriundos das public schools que a Mãe dos Parlamentos já conhecera, e se pode questionar se não foi um erro que poderia ser evitado. O termo “erro estúpido” hoje em dia se refere a atos de estadistas sobre os quais deixaram de consultar previamente um ou outro de nossos magnatas da imprensa. Porém, na Inglaterra, significa o tipo de erro que, com um pouco de previsão, poderia ter sido facilmente evitado. Não acredito que a eleição kaki de 1918 pudesse ser evitada com facilidade. Prefiro chamá-la de uma necessidade lamentável que foi satisfeita sem a constatação plena de sua potencialidade para causar arrependimento. Mr Lloyd George recentemente me assegurou que, se pudesse voltar a novembro de 1918, ainda se lançaria na eleição. Suas razões para essa posição são interessantes e, no meu entendimento, legítimas. Ele argumenta que a coalizão governamental naquele momento era ameaçada por conspirações tanto de direita quanto de esquerda. A da direita, liderada pelo egocêntrico Lord Northcliffe, era radicalmente a favor de uma paz imposta pelos vencedores. A da esquerda, apoiada pela maré violenta de uma corrente ignorante de opinião, clamava pela imediata desmobilização. Se tivesse ido para Paris com ambos os flancos assim expostos, se veria em dificuldades e enfrentaria incertezas em cada uma de suas decisões. Para ele, era essencial precaver-se com um mandato incontestável. Sem dúvida, não poderia ter previsto que sua chapa o sobrecarregaria com uma Câmara dos Comuns tão incompetente, a ponto de ficar subserviente a pessoas desequilibradas como o coronel Claude Lowther e Mr Clement Jones. Mas isso não era tudo. Mr Lloyd George previu que, se tinha de lidar adequadamente com o sinuoso nacionalismo francês, com o místico e arrogante republicanismo americano e com o potencial de desunião das representações dos Domínios da Comunidade Britânica, precisaria de uma titularidaderepresentativa que ficasse acima de qualquer contestação possível. Mesmo assim, houve momentos em que seu direito de falar pela Inglaterra foi insidiosamente questionado. Houve ocasiões em que estadistas de outros países tentaram mobilizar contra ele elementos da própria oposição inglesa, quando flertaram tanto com tories, quanto com liberais de esquerda e trabalhistas recalcitrantes. Durante todo o período da Conferência, Lord Northcliffe, contrariado por não ter sido designado delegado na conferência de paz, dirigiu contra Lloyd George um jato constante de água fervente. É discutível se o primeiro-ministro poderia ter sobrevivido a tais ataques furiosos se não contasse com o respaldo de um mandato concedido pela maioria esmagadora do eleitorado inglês. Contudo, permanece o fato de ter sido uma infelicidade um liberal inglês ter se posto a mercê de uma Câmara dos Comuns e uma imprensa jingoístas. Mas não é em virtude desses traços mais gerais que a eleição de 1918 veio a decepcionar o historiador. Acreditando na lenda popular, ele estará perpetuando o argumento de que Mr Lloyd George, ao partir para Paris, estava irremediavelmente tolhido por suas promessas eleitorais. Esse entendimento seria incorreto. Em primeiro lugar, Mr Lloyd George é suficientemente realista para não ficar preso por qualquer oratória de plataforma. Segundo, ele se comprometeu nos pronunciamentos da campanha com pouca coisa incompatível com a busca de uma paz justa. Não foi ele que usou a imortal frase sobre a laranja e as sementes. O autor foi um dos mais inexperientes de seus colegas. Tem sido difícil reconstituir os termos exatos em que foram proferidas as promessas eleitorais de Mr Lloyd George, a fim de compará-los com a opinião pública esclarecida da época. Dessa análise cheguei à convicção de que na verdade Mr Lloyd George foi mais cauteloso, mais liberal do que as pessoas que hoje em dia procuram defamá-lo. Esse ponto tem certa importância para meu propósito e me disponho a abordá-lo com mais profundidade. Em 12 de novembro – “le jour après le fameux jour” – Mr Lloyd George falou para seus partidários liberais no nº 10 de Downing Street. Assim se expressou: “Nenhum acordo que contrarie os princípios de uma justiça duradoura terá vida longa. Atentemos para o exemplo de 1871. Não podemos nos permitir nenhum sentimento de vingança, nenhum espírito de ganância, nenhum desejo opressor que venha se sobrepor ao princípio fundamental da justica. Surgirão veementes tentativas para bravatear e intimidar o governo procurando fazê-lo se afastar dos rígidos princípios do direito e satisfazer ideias mesquinhas, sórdidas e vulgares de vingança e cobiça.” Manteve (intermitentemente) esta mesma postura liberal ao longo da Conferência e mesmo durante as fases iniciais da campanha eleitoral. Concentrou-se na reconstrução. Em Wolverhampton, em 24 de novembro, manifestou seu desagrado com os “embotados” e reafirmou que seu único propósito era “fazer da Inglaterra uma terra digna de ser berço de heróis.” Foi o Dr Addison, candidato da coalizão em Shoreditch, que pela primeira vez adotou um discurso mais populista. O Times, na época vivendo período de profunda humilhação sob o controle de Lord Northcliffe, estava pronto para aproveitar os ventos da histeria popular. “O ponto crucial,” escreveu The Times em 29 de novembro, “para o eleitor comum é, sem dúvida, a posição do Kaiser.” Em 2 de dezembro, repetiu, “isto é indiscutivelmente uma das questões-chave da eleição.” Havia outra questão-chave: “Nenhuma compensação,” proclamou Mr Austen Chamberlain em West Birmingham, “é alta demais para que não possamos pedi-la.” Não havia como evitar que Mr Lloyd George ficasse afetado por tal onda de patriotismo oriunda de seus seguidores e do Times. Podemos vê-lo em Newcastle, em 30 de novembro, falando de uma “paz implacavelmente justa,” de “condições não de vingança, mas de prudência.” Podemos vê-lo acusando o imperador alemão de “assassino.” Podemos vê-lo afirmando que a Alemanha deve pagar compensações por todos os custos da guerra “até o limite de sua capacidade.” Expondo sua proposta de política, em dezembro, o julgamento do ex-Kaiser e “todo o custo da guerra” figuravam em primeiro lugar. Em Leeds, em 9 de dezembro, mencionou os “frutos da vitória.” Em Bristol, três dias depois, usou a expressão “quem perde paga.” Em consequência desse clima emocional, a coalizão retornou ao poder com uma maioria de 262 assentos. Mr Asquith foi derrotado por Sir Alexander Sprott. Mr Ramsay MacDonald e Mr Snowden foram arrasados. Mr Horatio Bottomley ressurgiu com uma vitoriosa maioria em Hackney. Mr Pemberton Billing venceu a eleição em East Herts. Os “pacifistas foram completamente derrotados,” proclamou The Times. A chapa eleitoral tinha atingido seu objetivo. Hoje podemos constatar que, em meio a toda essa confusão democrática, Mr Lloyd George jamais perdeu inteiramente a cabeça. Ao exigir que os alemães indenizassem os custos da guerra, sempre foi cauteloso ao vincular esta bem recebida declaração a duas condições. Alertou sua plateia que o pagamento devia se limitar, em primeiro lugar, à capacidade alemã para pagar e, segundo, especificando que tal indenização não poderia prejudicar nosso próprio comércio interno e as exportações. Foi duramente censurado pelo Times por essas duas condições. “A única razão plausível,” escreveu o jornal, “ao vincular as indenizações à capacidade de pagamento deve ser o interesse dos aliados.” Por sua vez, o slogan “Julgamento do Kaiser” é um episódio que deixará o futuro historiador muito confuso. Ficará tentado a atribuí-lo à recente extensão do voto às mulheres e à supostamente crescente histeria da política inglesa. Assim fazendo, estará tirando deduções injustas. Pode ser uma característica feminina atribuir a uma pessoa sofrimentos causados por um conjunto de circunstâncias. O professor Fedor Vergin, por exemplo, recentemente defendeu que pode ter sido bom para a saúde psicológica da Europa Wilhelm II ter sido tomado como bode expiatório, uma vez que o sentimento de culpa acumulado ao longo daqueles quatro terríveis anos pôde, desta forma, ser “descarregado.” Na verdade, o desejo de punir a Alemanha na pessoa dessa vítima infeliz não foi privilégio da parcela feminina do eleitorado. Anteriormente já me referi a um discurso proferido em 11 de novembro no Carnegie Hall em Nova York por Mr Alfred Noyes. Informou a uma plateia horrorizada que entre os aliados havia “reacionários” se empenhando em salvar o Kaiser do julgamento pela Corte Internacional de Justiça. “Essa gente,” exclamou Mr Alfred Noyes, “quer permitir que o Kaiser volte a seu iate e seus jantares faustosos enquanto os corpos de vinte milhões de homens assassinados se decompõem na terra.” Mas Mr Noyes não estava sozinho ao fazer esta declaração. A mente do povo inglês durante as semanas logo após o armistício estava deformada pela vitória e estigmatizada pelas cicatrizes do medo. O ódio também sobreviveu. Se os alemães se tivessem portado com discrição nas semanas que precederam o armistício, é possível que a opinião pública inglesa, a menos disposta a alimentar ressentimentos em toda a terra, esquecesse o misto de temor e ódio vivido em 1914-1917. Mas os alemães não procederam com cautela. Em 16 de outubro (onze dias depois de seu primeiro pedido de mediação ao Presidente Wilson) torpedearam, ao largo de Kingston, o vapor Leinster da Irish Mail, causando a morte de 450 homens, mulheres e crianças que se afogaram. A lembrança desta atrocidade ao apagar das luzes ficou vivana mente do povo. “Gente,” escreveu Mr Kipling, “com coração de fera.” “São uns desalmados,” disse o contido Arthur Balfour, “e sempre serão.” Peço a atenção do historiador para as repercussões psicológicas do torpedeamento do S.S. Leinster. Teve um efeito mais profundo e imediato do que hoje em dia se pode recordar. Um segundo pôster que pode levar o historiador a um ramal inútil é a admissão por Mr Lloyd George de “nunca ter ouvido falar de Teschen.” Dirigindo-se à Câmara dos Comuns em 16 de abril de 1919, ele fez a seguinte observação franca, comedida e absolutamente racional: “Quantos membros desta casa já ouviram falar em Teschen? Não me furto a afirmar que jamais ouvi falar a respeito.” Obviamente não mais de sete membros da Câmara dos Comuns poderiam ter ouvido referências a esse remoto e miserável ducado, mas o fato de Mr Lloyd George tê-lo admitido horrorizou entendidos como Mr Wickham Steed, que havia muitos anos se mantinha familiarizado com o problema de Teschen. A grita surgiu de imediato. “Lloyd George não sabe nada sobre as questões que está tentando resolver. Ouvimos de seus próprios lábios. Toda a delegação inglesa em Paris e na verdade todas as que integram a Conferência desconhecem os assuntos e não estão preparadas. Estamos à beira do desastre.” Este clamor repercutiu na mente de todos os leitores do Daily Mail. Transformou-se em opinião inabalável. Mas é realmente errônea. O problema com a Conferência de Paris não era a falta de informação, era o excesso. A falha não era falta de preparo, mas a ausência de coordenação. Foi esta última falha que, desde o início, contaminou todo o sistema. O tema merece uma explicação mais ampla. Evidentemente teria sido difícil para o Gabinete ou mesmo para os funcionários de carreira, durante os quatro anos de guerra, elaborar planejamentos detalhados para uma eventual celebração da paz. Em primeiro lugar, o fluxo de assuntos de rotina era tão absorvente que não havia disponibilidade alguma de tempo e energia humana para tal tarefa. Em segundo lugar, até os meses finais de 1918, era impossível prever com precisão razoável as reais circunstâncias em que se encerraria o conflito. Em terceiro lugar, os governantes em todo o mundo não estavam dispostos a se comprometer com condições pormenorizadas de paz que, caso ocorresse um impasse, se revelassem rígidas em demasia, ou muito restritivas, em caso de uma vitória completa. Todavia, isto não quer dizer que não tenha sido feito um trabalho preparatório. Longe disso. Em cada um dos três principais países foram criados grupos especiais de trabalho para preparar subsídios a serem utilizados em um eventual Congresso. Na Inglaterra, na primavera de 1917, foi criado um órgão especial para a coleta de material e treinamento de um grupo voltado para as negociações da paz. Mr Alwyn Parker, bibliotecário do Foreign Office, dedicou seu reconhecido talento administrativo à organização de toda uma conferência de paz que viesse a acontecer. Chegou a elaborar um quadro colorido apresentando a futura sistematização do setor inglês da conferência. Cada um dos primeiros-ministros e representantes dos domínios identificava sua própria órbita naquele sistema planetário de pontos verdes, vermelhos e azuis. Mr Parker podia se localizar modestamente em uma órbita lunar, assessorando Júpiter, Lord Hardine of Penshurst, “embaixador encarregado da organização.” O planisfério de Mr Parker na verdade não cumpriu esse papel – na forma planejada por seu criador – na Conferência de Paz que finalmente se realizou. Ao ver o projeto, Mr Lloyd George deu uma sonora risada. Mas outro planejamento de Mr Parker acabou sendo de maior utilidade e foi realmente muito valioso. Deveu-se à sua exata previsão de que a enorme delegação inglesa se acomodaria sem qualquer dificuldade nos hotéis Majestic e Astoria. Graças à sua capacidade de coordenação, o Ministério da Guerra, o Almirantado, o Departamento de Inteligência de Comércio de Guerra e o Ministério de Relações Exteriores foram capazes de preparar material sem superposições em qualquer aspecto vital. Finalmente, a seção de história do Ministério de Relações Exteriores preparou, sob a direção do Dr G.W. Prothero, os inestimáveis manuais de paz, escritos por especialistas de renome, que proporcionaram à delegação informações detalhadas sobre qualquer tema que viesse a ser ventilado. Esses manuais vêem sendo publicados desde então. Se algum historiador duvidar da qualidade de nossa preparação, eu o convido a obter toda a coleção na London Library e a examinar atentamente seu conteúdo. Concordará que dificilmente poderia haver fonte mais competente, abrangente e lúcida de informações. Nos Estados Unidos foi criado um órgão semelhante em setembro de 1917, sob o nome “The Inquiry.” Diretamente subordinado ao coronel House e sob a supervisão imediata do Dr Mezes, este grupo de 150 acadêmicos trabalhou doze meses em instalações da American Geographical Society de Nova York. A quantidade de material que colheram é espantosa. O George Washington rangeu e vergou através do Atlântico sob o peso de sua erudição, que foi suplementada pelos inestimáveis relatórios do professor A.C. Coolidge, que desde dezembro estava encarregado da “comissão americana de estudos sobre a Europa central.” Houve instantes em que esse homem brilhante e sensível foi a única fonte confiável de informações à disposição da Conferência de Paz. Hoje em dia, parece incrível que nem os representantes americanos e tampouco a Conferência em geral tenham dado muita atenção às palavras sensatas e moderadas de Archibald Coolidge. A equipe técnica da delegação dos Estados Unidos foi recrutada em sua maioria no “Inquiry” do coronel House. Surgiu na América, principalmente durante a investigação feita pelo senado, um comentário de que a delegação americana não estava bem preparada. Tal observação é descabida e injusta. Nunca trabalhei com um grupo mais inteligente, mais competente, de mente mais aberta ou mais precisamente informado do que a delegação americana presente à Conferência de Paz. Em todas as oportunidades em que discordei de suas opiniões, acabei concluindo que eu estava errado e eles, certos. Se o Tratado de Paz tivesse sido redigido somente pelos especialistas americanos teria sido um dos mais criteriosos e precisos documentos de que se poderia ter notícia. Infelizmente, por motivos que comentarei mais tarde, a comissão americana, durante as semanas iniciais, perdeu a autoconfiança e, em consequência a autoridade que, por direito, deveria lhe ser atribuída. Os preparativos do governo francês foram menos detalhados e, como os fatos acabaram comprovando, menos eficientes. É verdade que tinha sido organizado um “Comité d’Études” sob a direção do professor Lavisse e uma pesquisa subsidiária sobre questões econômicas fora realizada por alguns meses sob a supervisão de M Morel. No último momento, M Tardieu assumiu ele próprio o trabalho de coordenação dos trabalhos dessas duas comissões. Parece que esta coordenação não foi muito longe. Por minha experiência afirmo que a delegação mais bem informada era a americana, vindo a inglesa em segundo lugar. Quanto à francesa, penso que lhe faltava uma base de informações e rapidez de assimilação dos fatos. Os italianos só sabiam o que eles mesmos desejavam. Portanto, não está certo acusar a Conferência de Paris de falta de preparação e conhecimento técnico. Porém, como muitas críticas que conseguiram ampla e duradoura aceitação, a acusação contém um fundo de verdade. Em primeiro lugar, as informaçõesnão eram plenamente discutidas nem entre as diversas delegações nem tampouco entre os peritos de qualquer delegação com seus respectivos plenipotenciários. Por exemplo, tinha pouca importância eu obter todas as informações possíveis sobre o enclave de Strumnitza se não recebesse dos chefes de minha delegação uma orientação sobre a política em relação à Bulgária. A falta de comunicação entre os plenipotenciários e seus especialistas será abordada no capítulo 4, quando examinarei a organização propriamente dita da conferência. Aparecerá sob o título “Erros.” Mas também poderia figurar no capítulo 3, sob o título “Infelicidades.” Entretanto, antes de examinar nossos infortúnios em Paris, devo comentar as ideias, esperanças e intenções armados das quais desembarcamos em janeiro de 1919 na Gare du Nord. 2 Atraso A HISTÓRIA DA CONFERÊNCIA DE PARIS AINDA ESTÁ por ser escrita. Levará muitos anos até que se consiga reunir e digerir todo o material pertinente. As provas documentais (digamos, no ano de 1953) serão abundantes e autênticas. Nessa época, os testemunhos humanos estarão silenciados ou nebulosos. Ainda assim, estou convencido de que em qualquer congresso internacional é o elemento humano que determina a evolução de uma negociação e seu conteúdo. A finalidade destas notas é cristalizar este elemento antes que se evapore nos resíduos do tempo. Qual era meu estado de espírito quando cruzei o canal rumo a Paris naquele 3 de janeiro de 1919? Quero reafirmar que não alimento nenhuma ilusão quanto à minha importância naqueles infelizes eventos. Corro o risco de ser considerado egoísta ao apresentar uma opinião pessoal. Estou absolutamente certo de que, no Congresso de Montreal, em agosto de 1965, o estado-maior de especialistas estará constituído por jovens homens e mulheres sujeitos aos mesmos estímulos emocionais e à mesma confiança presunçosa que me inspiraram quando, naquela manhã, almoçava na viagem entre Calais e a Gare du Nord, convicto de que me lançava a uma tarefa para a qual estava qualificado por alentado estudo, elevados ideais e uma completa ausência de paixões e preconceitos. Assim pensando, estava tragicamente enganado. Um dos “Manuais da Conferência de Paz” preparados para nossa orientação foi o elaborado pelo professor Webster com base no Congresso de Viena. Li atentamente esse pequeno, conciso e competente trabalho. À medida que o trem se aproximava de St. Denis, senti que sabia exatamente os erros que tinham sido cometidos pelos mal orientados, reacionários e, afinal, patéticos aristocratas que tinham representado a Inglaterra em 1814. Tinham trabalhado em segredo. Nós, por outro lado, estávamos decididos a “chegar a acordos negociados com toda transparência.” Não haveria segredo sobre os procedimentos. Os povos em todo o mundo compartilhariam conosco cada etapa da negociação. Ainda me reportando a Viena, eles acreditavam na doutrina das “compensações.” Mencionaram um tanto cinicamente a “transferência de almas.” Nós, de nossa parte, não estávamos dispostos a cometer este erro. Acreditávamos no nacionalismo, acreditávamos na autodeterminação dos povos. “Povos e Províncias,” assim pregavam os “Quatro Princípios” de nosso Profeta, “não serão jogados de uma soberania para outra como se fossem peças de mobília ou peões de um jogo de xadrez.” Diante destas palavras “peões” e “mobília,” nossos lábios se contraíam com democrática repulsa. Mas não era só isso. Estávamos a caminho de Paris não apenas para pôr um fim à guerra, mas para definir uma nova ordem europeia. Estávamos preparando não só uma Paz, mas a Paz Eterna. Pairava sobre nós um halo de missão divina. Devíamos nos manter alertas, firmes, íntegros e devotados. Estávamos destinados a realizar coisas grandiosas, duradouras e nobres. É com certa tristeza que hoje recordo uma conversa que tive com Mr J.L. Garvin em 5 de dezembro, quando ainda estava em Londres. Por alguma estranha razão, tínhamos estado juntos em um teatro e depois caminhávamos de volta à casa por St. Martin’s in the Fields. Paramos na calçada e continuamos a discussão sobre a Conferência que se avizinhava. Olhei fixa e desafiadoramente para Whitehall e expliquei a Mr Garvin o quanto realmente eram nobres, muito nobres, meus princípios. Ele ouviu com sua habitual complacência as loucuras de moço. “Bem,” disse, “se realmente é esse o espírito que o move ao partir para Paris, fico muito contente.” Hoje em dia fico rindo de tal excesso de fantasia. Todavia, naquele momento estava sendo absolutamente sincero. Quero analisar os ingredientes desta sinceridade. A Conferência foi uma imposição, por um grupo de países vencedores, de determinadas cláusulas de rendição a um grupo de países derrotados. Mas não era nesses termos que nós, os mais moços, encarávamos nossa missão. Pensávamos menos nos antigos inimigos e mais nos novos países que tinham emergido de suas entranhas exaustas. Nossas emoções giravam menos em torno do velho e mais em torno do novo. Concito os jovens que estarão assessorando os representantes ingleses na Conferência de Montreal em 1965 a acreditar quando digo que os conceitos de “Alemanha,” “Áustria,” “Hungria,” “Bulgária” ou “Turquia” não eram prioritários em nosso pensamento. O que fazia nossos corações cantarem hinos nos portões do céu era pensar em uma nova Sérvia, uma nova Grécia, uma nova Boêmia, uma nova Polônia. É muito significativo esse ângulo de abordagem emocional. Acredito que era um ângulo generalizado, mas que não ficará visível nos documentos pertinentes. Requer um demorado e atento estudo de “The New Europe” – revista publicada na época por iniciativa dos Drs Ronald Burrows e Seton Watson, discorrendo sobre a doutrina da qual eu estava profundamente imbuído. Surgiram tendências e preconceitos que obtiveram sucesso, não em consequência de um desejo vingativo de subjugar e castigar nossos antigos inimigos, mas de um ardoroso anseio de criar e fortalecer as novas nações para as quais voltávamos nossa atenção, com instinto maternal, como justificação para nossos sofrimentos e de nossa vitória. A Conferência de Paris nunca será interpretada corretamente se esse componente emocional não for sublinhado em cada fase. Posso, acredito, recordar com certa precisão o que sentia na época em relação a nossos últimos inimigos. Minha posição em relação à Alemanha era um misto de medo, admiração, simpatia e desconfiança. Por um lado, naquela ocasião eu gostava dos alemães tanto quanto antes da guerra. Estava muito impressionado com a coragem da população civil alemã ao enfrentar o bloqueio e também com os grandiosos feitos da esquadra e do exército alemães no mar e em terra. Por outro lado, tinha me assustado com seus bombardeios, apreensivo com o sucesso de seus submarinos e humilhado por suas vitórias incessantes. Eu os odiava por sua crueldade natural e os desprezava por sua inabilidade política. Desconfiava deles por sua falta de confiabilidade diplomática. Todavia, esta mistura de sentimentos não me deixou nenhum resíduo de desejo de vingança. Deixou-me apenas com o anseio premente de que no futuro a Alemanha pudesse se tornar inofensiva. Com relação à Áustria, alimentava um sentimento “de mortuis.” Meus interesses antiquários lamentavam seu desaparecimento. Minhas tendências modernistas comemoravam a vitalidade que agora devia emergir daquele solo exausto. Minha posição em relação à Áustria era uma reflexão um tanto triste sobre o que restaria dela quando se criasse a Nova Europa. Não a encarava como uma entidadeviva: pensava na Áustria apenas como uma relíquia patética. Meus sentimentos relacionados com a Hungria eram menos imparciais. Confesso que encarava – e ainda encaro – aquela tribo turaniana com profundo desagrado. Como seus primos, os turcos, tinham destruído muito e nada construído. Buda Pest era uma cidade espúria, despida de qualquer realidade autóctone. Por séculos, os magiares oprimiram as nacionalidades por eles subjugadas. Chegara a hora da libertação e da desforra. Para com os búlgaros, eu alimentava um sentimento de desdém. Suas tradições, sua história, suas vinculações na época deveriam tê-los ligado à causa da Rússia e da Entente. Tinham se portado traiçoeiramente em 1913, e, na Grande Guerra, reincidiram nesse ato pérfido. Motivados por ambições materiais, aliaram-se à Alemanha e, ao fazê-lo, estenderam a guerra por mais dois anos. Quando vitoriosos, foram impiedosos e imprevidentes na Sérvia e na Macedônia. Tinham se aliado a nossos inimigos por motivos exclusivamente egoístas, mas suas previsões mostraram-se erradas. Agora, se empenhavam em lançar sobre o rei Ferdinand a culpa pelo que na realidade fora um movimento de egoísmo nacional. Não achava que os búlgaros merecessem condescendência maior do que a que estariam dispostos a conceder em circunstâncias semelhantes. Pelos turcos não tinha e não tenho a mínima simpatia. A longa residência em Constantinopla me convencera de que, por trás de sua máscara de indolência, o turco esconde impulsos da mais brutal selvageria. Essa convicção diminuiu ante seu comportamento com a guarnição de Kut ou com os armênios no interior de suas fronteiras. Os turcos em nada contribuíram para o progresso da humanidade. Não passam de uma raça de saqueadores anatólios. Meu desejo era que no Tratado de Paz ficassem confinados ao território da Anatólia. Esses eram os sentimentos, – e creio que este resumo seja uma representação precisa – bem diferentes das ideias com que fui para Paris. Porém, se quero transmitir corretamente o estado de espírito dominante e médio em janeiro de 1919, também devo falar dos propósitos mais definidos em nós induzidos pelas doutrinas e pelo árido revivalismo de Woodrow Wilson. No fim do outono de 1913, certo dia almocei com Mr Henry Morgenthau, que chegara recentemente a Constantinopla como embaixador dos Estados Unidos. Depois do almoço sentamos no terraço apreciando o contorno de Istambul por entre esparsos e cansados ciprestes. Fiz perguntas sobre Woodrow Wilson, que acabara de surgir para nós orientais como um planeta flamante no longínquo oeste. Mr Morgenthau levantou-se, de repente, e entrou em seu gabinete. Voltou com um livro e o depôs em minhas mãos. “Se quer realmente,” disse, “aprender a lição de wilsonismo, leia este livro.” Hoje já não recordo qual das muitas obras de Mr Wilson foi posta em minhas mãos naquela tarde suave. Sei apenas que a expressão “wilsonismo” prendeu minha atenção. “Eis aqui,” refleti, “um homem que é algo mais do que um político; é o expoente de uma nova teoria política. Senti algo na entonação do embaixador que parecia mais do que simples companheirismo, mais ainda do que respeito profundo. Havia um traço de fervor religioso. Preciso estudar as palavras e os feitos deste novo profeta.” Foi a partir daquele momento que comecei a absorver “a filosofia política completa” de Woodrow Wilson. Naquela tarde de outono não fui capaz de prever a que picos de fé e a que vales de reação o breve gesto de proselitismo de Mr Morgenthau iria me levar. Pelo fim de 1918, os ensinamentos de Woodrow Wilson tinham se acomodado em minha mente em três categorias principais. Havia os principais artigos de fé, simples e, portanto, místicos. Havia a aplicação dessas crenças ao grande problema da neutralidade americana. Havia, como corolário de sua proposta, os “Quatorze Pontos,” os “Quatro Princípios” e os “Cinco Detalhes.” Os dogmas de sua filosofia política eu aceitava com credulidade ardorosa. Ainda hoje creio neles, apesar de amarga desilusão. Acreditava com ele que o padrão de conduta política e internacional devia ser tão alto e sensível quanto o da conduta pessoal. Acreditava e ainda acredito que o único patriotismo verdadeiro é um ativo desejo de que a tribo ou o país da gente sirva a esse ideal em cada manifestação. Compartilhava com ele o ódio pela violência em qualquer forma e a aversão ao despotismo em qualquer forma. Entendia, como ele, que esse ódio é o que sente a maior parte da humanidade, e que no novo mundo essa força silenciosa de sentimento popular podia tornar-se o poder controlador no destino da humanidade. “As novas coisas mundiais,” proclamou o Presidente Wilson em 5 de junho de 1914, “são as coisas que se distanciam da força. São as compulsões morais da consciência humana.” “Homem nenhum,” declarou, “pode se desviar destes valores sem se afastar da esperança de todo o mundo.” Eu admitia, claro, que nas semanas que se seguiram a esta afirmação as “compulsões morais da consciência humana” não tinham se revelado muito obrigatórias. Também admitia que Wilson, como profeta, era um profeta muito americano – que sua filosofia na prática era aplicável apenas às proporções do poder disponíveis no Hemisfério Ocidental. Eu estava consciente, sobretudo, de que havia em seus pronunciamentos um ligeiro traço de revivalismo, um toque de arrogância metodista, mais do que um traço de presunção presbiteriana. Mas não me sentia dissuadido por essas restrições. “Os Estados Unidos,” li, “não se podem arvorar em donos do mundo” – Mr Wilson falava em 1914 – “mas podem proclamar a distinção de levar certas luzes que o mundo jamais viu com tanta nitidez, fachos que iluminam os caminhos da liberdade, do princípio e da justiça.” Não me desconcertavam o toque bíblico dessas palavras, tampouco seu sabor Princeton. Também me agrada pensar que, com os nervos atingidos pela duração da guerra, conservei minha crença em Wilson como um profeta da racionalidade humana. Minha fé era reforçada, de tempos em tempos, pelo privilégio da convivência com Walter Page. “É algo que existe,” li em maio de 1915, “um homem ser orgulhoso demais para lutar. É algo que existe, uma nação ser tão certa que não precisa convencer outras pela força que está certa. Ao contrário da maioria de meus compatriotas, não considerava esta declaração irritante, antes a considerava consistente, corajosa, sã. Também não fiquei muito incomodado, em janeiro de 1917, pelo tom ditatorial, quase teocrático, que desde aquela data começou a invadir o didatismo de Princeton. “Existem,” li, “princípios americanos, políticas americanas. Não seguimos nenhum outro. São os princípios da humanidade e devem prevalecer.” Senti que essa afirmação deveria ter usado palavras com mais tato. Mas como afirmação era bastante sólida e com ela concordei. Nove dias mais tarde, os alemães, em sua cegueira, anunciaram a decisão de lançar a guerra submarina sem limites. Em 4 de abril, os Estados Unidos entraram na guerra. A partir daquele momento, eu não estava em minoria na minha fé em Woodrow Wilson. Pouco depois, no dia 8 de janeiro de 1918, surgiram os Quatorze Pontos. Muito casuísmo e alguma perspicácia têm sido empregados sobre esses pronunciamentos históricos. O próprio Presidente Wilson a eles se referiu em 1919 como “certos princípios claramente definidos que devem criar uma nova ordem em que imperem o direito e a justiça.” Nesse mesmo dia, vemos Mr Balfour mencioná-los como “certos princípios admiráveis, mas muito abstratos.” No entento, seriam realmente tão“muito abstratos”? Considerando a data em que foram emitidos, os Quatorze Pontos são precisos a ponto de temeridade. Podem perfeitamente ser resumidos da forma a seguir: Discurso de 8 de janeiro de 1918. O programa da paz mundial é, portanto, o nosso programa, e esse programa, o único possível, como o vemos, é este: 1. “Pactos abertos de paz abertamente negociados, depois dos quais não haja entendimentos privados de nenhum tipo, mas sim diplomacia efetuada sempre francamente e à vista do público.” 2. “Absoluta liberdade de navegação sobre os mares além das águas territoriais, tanto na paz quanto na guerra...” 3. “Remoção até onde possível de todas as barreiras econômicas...” 4. “Garantias adequadas dadas e recebidas de que armamentos nacionais serão reduzidos ao mais baixo nível compatível com a segurança interna.” 5. “Um ajuste livre, aberto, razoável e absolutamente imparcial de reivindicações coloniais, com base na estrita observância do princípio segundo o qual, na solução de todas essas questões de soberania, os interesses das populações concernentes devem ter o mesmo peso das reivindicações dos governos cujo domínio está em causa.” 6. “A evacuação de todo o território russo.” (...) “A Rússia deve ter a oportunidade sem constrangimentos, sem obstruções, de determinar com toda a independência seu próprio desenvolvimento político e sua política nacional.” A Rússia ser bem-vinda, ”mais do que bem-vinda,” na Liga das Nações, “com instituições de sua própria escolha” e recebendo toda forma de ajuda. 7. A Bélgica a ser evacuada e restaurada. 8. A França a ser evacuada, as porções invadidas “restauradas,” e a Alsácia-Lorena devolvida a ela. 9. “Reajuste das fronteiras da Itália efetuado segundo linhas claramente reconhecíveis de nacionalidade.” 10. “Aos povos da Áustria-Hungria (...) a mais livre oportunidade de desenvolvimento autônomo.” (N.B. – Esse ponto foi subsequentemente modificado para completa independência em lugar de “desenvolvimento autônomo.) 11. Romênia, Sérvia e Montenegro evacuados, e os territórios ocupados “restaurados.” A Sérvia receber livre acesso ao mar. 12. As porções turcas do Império Otomano terem “uma soberania segura.” Nacionalidades subjugadas terão segurança e “a oportunidade de desenvolvimento autônomo absolutamente sem constrangimentos.” Garantida a liberdade dos Estreitos. 13. Erigir-se um Estado Polonês Independente, que “deve incluir territórios habitados por populações inquestionavelmente polonesas e receber acesso ao mar livre e seguro.” 14. Deve ser formada uma associação geral de nações, segundo pactos específicos, “com o fim de proporcionar garantias mútuas de independência política e integridade territorial para grandes e pequenos estados igualmente.” A esses quatorze pontos devem ser acrescentados os “Quatro Princípios” e os “Cinco Detalhes.” Os Princípios surgiram num discurso de 11 de fevereiro de 1918, prefaciados por uma declaração de que a Paz eventual não conteria “anexações, contribuições e danos punitivos.” Os Princípios poder ser assim resumidos: 1. “Cada parte do acordo final deve basear-se na justiça inerente ao caso particular.” 2. “Povos e províncias não devem ser trocados e destrocados de uma soberania a outra como permuta de mobiliário ou de peões num jogo de xadrez.” 3. “Todo acerto territorial deve ser do interesse das populações envolvidas, e não mero componente de compromissos para conciliar reivindicações de estados rivais.” 4. “Todos os elementos nacionais bem definidos receberão a máxima satisfação possível, sem introduzirem novos ou perpetuar antigos vetores de discórdia e antagonismo.” Os “Cinco Detalhes” aparecem num discurso de 27 de setembro de 1918. São menos esclarecedores. O primeiro insistia na justiça para amigos e inimigos igualmente. O segundo denunciava todos os “interesses em separado.” O terceiro dispunha que não haveria alianças no corpo da Liga, e o quarto proibia as combinações econômicas entre membros da Liga. O quinto “detalhamento” reafirmava a proibição de Tratados secretos. Eu não só acreditava profundamente nesses princípios, mas também tinha como certo que os Tratados de Paz se baseariam exclusivamente neles. Afora sua inerente compulsão moral e à parte o fato de que constituíam a única base consensual para nossa negociação, eu sabia que o Presidente dispunha de irrestrito poder físico para impor seus pontos de vista. Naquele momento, éramos todos dependentes da América, não só para os tendões da guerra, mas também para os tendões da paz. Nosso suprimento de alimentos, nossas finanças, estavam inteiramente subordinados aos ditados de Washington. A força de compulsão possuída de Woodrow Wilson naqueles primeiros meses de 1919 era esmagadora. Jamais nos ocorreu que, se houvesse necessidade, ele hesitaria em usá-la. “Nunca,” escreve Mr Keynes, “um filósofo possuiu tantas armas com que dobrar os Príncipes do mundo.” Ele não usou aquelas armas. Não era (e para nós foi doloroso aos poucos constatar) um filósofo. Era apenas um profeta. Tais eram, portanto, minhas percepções, meus pensamentos e minhas intenções quando fiz o caminho rumo a Paris. Não tinha dúvida, como disse, de que nos princípios do Presidente Wilson se fundamentaria a paz. Minha confiança, estou convencido, era compartilhada pelos colegas que eram meus iguais em idade e em status. Claro que se pode dizer que as emoções e os conceitos de servidores civis são de menor importância para o desfecho dos grandes acontecimentos políticos. Ponho em dúvida essa argumentação. Se tivéssemos todos, embora vinculados a nossas funções, preservado nossas crenças originais e nosso estado de espírito, nossa capacidade de atuar conjuntamente teria sido importante. Na verdade, porém, à medida que as semanas passaram, sofremos uma perda de confiança, uma queda de idealismo e uma mudança de espírito. Estas memórias têm por finalidade registrar e explicar tal mudança. Ela deveu-se em grande parte a causas além de nosso controle, mesmo quando, no momento, delas não tínhamos consciência. Causas semelhantes estarão presentes em qualquer congresso de igual complexidade e magnitude. Escrevo este livro para alertar futuros servidores civis. Neste instante, permitam-me voltar no tempo. Vejo-me, em 3 de janeiro de 1919, entre volumes com documentos e caixas-arquivo de estanho dirigindo-me da Gare du Nord para o Hotel Majestic. Permitam-me fazer uma avaliação de quanto os princípios enunciados nos Quatorze Pontos foram realmente adotados pelos eventuais Tratados de Paz. Nossos pactos de paz não foram negociados com transparência. Poucas vezes se viu tanto segredo no curso de um encontro diplomático. A Liberdade dos mares não foi assegurada. Longe do estabelecimento do Livre-Comércio na Europa, levantou-se uma barreira de tarifas maior e mais numerosa do que jamais se vira. Não se reduziram os armamentos nacionais. As Colônias Alemãs foram distribuídas entre os vencedores de uma forma que não se caracterizou por liberalidade, nem desprendimento e tampouco imparcialidade. Os desejos, para não falar nos interesses, das populações (como no Sarre, em Shantung e na Síria) foram flagrantemente ignorados. A Rússia não foi bem recebida na Sociedade das Nações e não lhe foi concedida liberdade para organizar suas próprias instituições. As fronteiras da Itália não foram reajustadas pela linha das nacionalidades. Às porções turcas do Império Otomano não se garantiu uma soberania segura. O território da Polônia incluiu muitagente indiscutivelmente não polonesa. Na prática, a Liga das Nações não foi capaz de assegurar independência política às Grandes e Pequenas nações igualmente. Províncias e povos na verdade foram tratados como peças de mobiliário e peões do xadrez. Os arranjos territoriais, em quase todos os casos, se basearam em meras acomodações e compromissos, conciliando reivindicações de estados rivais. Na prática, perpetuaram-se elementos de discórdia e antagonismo. Nem mesmo o velho sistema de Tratados Secretos foi inteira e universalmente destruído. Das vinte e três condições do Presidente Wilson, apenas quatro, pode-se dizer com alguma precisão, foram incorporadas aos Tratados de Paz. A delegação inglesa em Paris ficou hospedada no Hotel Majestic, na Avenue Kléber. Esse gigantesco caravanserai fora construído quase todo em mármore ônix, para ser usufruído pelas senhoras brasileiras que, antes da guerra, iam a Paris comprar suas roupas. Mr Alwyn Parker, ao nos distribuir as acomodações, levou na devida consideração os perigos e tentações a que poderíamos ficar expostos. Na primeira categoria – perigos – ele tinha (tal como pensava habitualmente) previsto as duas subcategorias (a) espionagem e (b) doença. Como proteção contra (a), encarregou Sir Basil Thomson da Scotland Yard da missão de organizar um “serviço de segurança.” Em consequência, embora fosse bastante fácil sair do Majestic, entrar era extremamente difícil. Muitos representantes estrangeiros foram detidos por suspeita de forçarem a entrada. Mr Parker foi mais além. Tinha estudado a fundo o Congresso de Viena e estava decidido, com toda razão, a não permitir que a Conferência de Paris repetisse o despropósito de Metternich. Deste modo, o Hotel Majestic foi ocupado, do porão ao último andar, por empregados ingleses bem preparados, oriundos de nossos hotéis do interior. A alimentação, por conseguinte, era do tipo anglo-suíço, enquanto o café era genuinamente inglês. Todavia, todo o nosso trabalho acabou sendo realizado no vizinho Hotel Astoria. Foi lá que arquivamos nossos documentos e guardamos nossos mapas. Os empregados do Astoria eram de nacionalidade francesa. Houve momentos (geralmente no café da manhã) em que sentimos que tinha ocorrido um ligeiro lapso na lógica de Mr Parker. Mas como organizador Mr Parker foi soberbo. A fim de se proteger contra a categoria (b), tinha contratado um médico obstetra de grande renome. O quadro de funcionárias ficou subordinado a um supervisor. Desta forma, o clima no Majestic era de alegria e companheirismo anglicanos. A delegação inglesa englobava 207 pessoas, sendo: 12 do Foreign Office, com 6 secretários; 28 do Ministério da Guerra; 22 do Almirantado; 13 da Força Aérea; 26 do Tesouro e do Comércio; e 75 dos Domínios. Com frequência, ouve-se afirmar que havia gente demais. Seria mais apropriado dizer que a pressão do trabalho estava desigualmente distribuída. Determinados membros da delegação, em particular os especialistas políticos e econômicos, ficaram evidentemente sobrecarregados. Outros membros, em especial os grupos assessores dos representantes dos Domínios, viam as horas passarem lentas. Inevitável e compreensivelmente, fizeram o melhor uso de sua posição de certa forma inútil. O grande saguão do Majestic ficava tomado pelo barulho das xícaras de chá e a melodia das músicas para dançar ecoando escadas acima. Nossos visitantes mais críticos viriam a exagerar estes sintomas de relaxamento. Em Londres correu o boato de que o Majestic era o reduto dos preguiçosos. Houve em Pall Mall quem resmungasse que Lord Castlereagh fora para Viena acompanhado por um grupo de apenas dezessete auxiliares. Eu mesmo reconheço que houve momentos em que me senti desconfortável naquele saguão agitado, pois me desagradava ver o espetáculo daquela gente alegre que não tinha como preencher seu tempo. Tempo, tempo, tempo! Tornou-se uma obsessão para nós, à medida que as semanas se passavam. Ficar vendo o tempo balançar e dançar ante nossos olhos era realmente uma terrível provação. Entretanto, não creio que a acusação de excesso de gente fosse totalmente justificada. Era essencial ter à disposição muitos especialistas que poderiam ser solicitados a qualquer instante. Não se podia evitar que os representantes dos Domínios viessem acompanhados por secretários e assistentes. Também convém lembrar que, tão logo as linhas gerais de trabalho foram claramente definidas, os vadios mais óbvios foram mandados de volta para Londres. A organização interna da delegação inglesa foi estabelecida logo nos primeiros dias. Lord Hardinge, na condição de “embaixador encarregado da organização,” assumiu principalmente os deveres administrativos. Sir Maurice Hankey foi designado secretário da delegação e montou seu escritório na Villa Majestic, no outro lado da rua. Mr Clement Jones conviveu alegre e fraternalmente com os representantes dos Domínios e Mr Lloyd George se refugiou na Rue Nitot, com Mr Balfour no andar de cima. Na pista de corridas em Auteil foi instalada, para desagrado dos parisienses, o setor encarregado da impressão de documentos. A vizinhança do Majestic ficava aturdida com o barulho dos motociclistas. Uma frota de carros do exército facilitava nossos deslocamentos. Um sofisticado sistema telefônico nos ligava a Londres e ao mundo exterior. Um serviço expresso de aviões ligava diariamente Buc e Croydon. Antes da abertura da conferência, toda a parafernália do Majestic, do Astoria, da Villa Majestic e da Rue Nitot funcionava com a reconhecida eficiência de um ministério inglês. No sábado, 11 de janeiro, chegaram a Paris o primeiro-ministro e os representantes diplomáticos dos Domínios. No domingo, 12 de janeiro, teve lugar no Quai d’Orsay a primeira reunião não oficial entre os plenipotenciários. Na segunda-feira, 13 de janeiro, a delegação do Império Britânico teve sua primeira reunião, e na tarde do mesmo dia os plenipotenciários voltaram a se reunir, sob o título de “Conselho Supremo de Guerra,” a fim de ratificar o armistício. Mas somente no sábado, 18 de janeiro, a conferência foi oficialmente aberta, e apenas uma semana mais tarde foram designados os cinco comitês encarregados de preparar o material técnico. Os Comitês Territoriais, porém, que deviam criar as futuras fronteiras da Europa, só foram formados na primeira semana de fevereiro. O atraso de mais de nove semanas entre a assinatura do armistício e a primeira tentativa séria de se debruçar sobre o trabalho certamente permanecerá sendo uma das mais irrespondíveis críticas que se fazem à Conferência de Paris e para as quais não se encontra resposta. Por conseguinte, é necessário examinar as causas, psicológicas e outras mais, que provocaram esse atraso. É possível identificar duas fases distintas. A primeira corresponde ao atraso entre o armistício e a reunião da Conferência. A segunda diz respeito ao que ocorreu entre a abertura da Conferência e o início dos trabalhos propriamente ditos. Os motivos para escusar a postergação da Conferência de Paz em geral são estranhos e variados. Surge em primeiro lugar o argumento histórico. O Congresso de Viena foi mais dilatório ainda. As procrastinações do Congresso de Westfália foram infinitamente mais dilatadas. Em segundo lugar, aparece o argumento ético. Era preciso, era justo que se desse tempo para que as mais extremadas paixões geradas pela guerra declinassem, antes que os governantes de todo o mundo se reunissem para estabeleceruma nova ordem de justiça e equidade. Em terceiro lugar está o argumento prático. A Paz nos pegara de surpresa. Estávamos tão familiarizados com a derrota que a vitória, quando aconteceu, pareceu inacreditável. Foram necessárias muitas semanas para que pudéssemos tomar consciência de que tínhamos triunfado. Também era preciso que o Presidente Wilson, o protagonista da conferência, tivesse tempo suficiente para se familiarizar com a opinião continental. Precisava ver as áreas devastadas com seus próprios olhos e sentir com seus próprios dedos secos o pulso quente da Itália, o pulso intermitente da Bélgica, o pulso febril da França e o pulso de yeoman da Inglaterra. Mr Wilson devia se adaptar à Europa antes que lhe fosse confiado estabelecer-lhe os futuros destinos. Do mesmo modo, Mr Lloyd George teve de consultar o povo antes de se dirigir a Paris com seu mandato. O Dr Kramarsh, da Boêmia, M Dmowsky da Polônia, M Bratianu da Romênia, Messrs Pasic e Trumbic da Sérvia, Croácia e União Eslovena, cada um deles devia dispor de tempo para consolidar a surpreendente mudança de status e território experimentada por seus países; cada um devia dispor de tempo para poder se apresentar em Paris como representante de algo organizado e real. A Alemanha também constituía um problema. O colapso do Império Hohenzollern, em sua gigantesca precipitação, levantara uma nuvem de poeira. Vagamente, em meio à névoa criada pelo cimento e a argamassa desabados, apareceram certas figuras: Liebknecht, Noske, Scheidmann, os “spartacistas.” Quais desses personagens eram centrais? Não sabíamos. Talvez tenha sido melhor deixar baixar a poeira antes de ir adiante. Pouco adiantaria tentar celebrar a paz com a Alemanha enquanto não se soubesse se realmente surgiria uma entidade como o Reich Alemão com o qual se pudesse fazer a paz. Era melhor esperar. Cada um desses argumentos continha um componente verdadeiro e um falso. É possível, raciocinando logicamente, alegar que a Conferência de Paz já estava completamente montada desde o Conselho de Versalhes em outubro e novembro de 1918. O coronel House, sem um momento de hesitação, estava plenamente preparado (uma afável Atena) para representar seu amigo ausente. Os outros já estavam lá. Todavia, pode-se questionar se o teocrata da Casa Branca teria consentido em tal acerto. O Presidente, a despeito de toda dissuasão, estava decidido a aparecer em pessoa. Sua decisão, uma vez anunciada, era incontestável. Em 2 de dezembro, ele estava agendado para apresentar sua mensagem anual ao congresso. Portanto, de qualquer forma, não havia a possibilidade de a Conferência se reunir antes de 15 de dezembro. Por aquela data, as eleições na Inglaterra já estariam facilmente concluídas. Não encontro explicação para a Conferência não ter sido aberta em 18 de dezembro. Está registrado que o próprio Presidente Wilson fixara aquela data como dia da abertura. É injusto acusá-lo de ter desperdiçado as três semanas seguintes visitando Londres e Roma. Essas visitas eram desnecessárias e foram realizadas unicamente para salvar a face do Presidente. Eram mais do que desnecessárias: eram muito perturbadoras. Poucos homens teriam resistido a tal apoteose. O Presidente Wilson reagiu com seu modo característico, mas foi uma pena. Ficou obcecado pelos “olhos mudos do povo.” As multidões na Victoria Station e no Corso o aclamaram como símbolo de sua própria vitória. Ele imaginou que o aclamavam como símbolo da Nova Europa. Essas visitas, essas lamentáveis e histéricas visitas, convenceram Woodrow Wilson de que os povos da Europa estavam de corpo e alma a seu lado. Uma convicção tremendamente enganadora. Mr Robert Lansing, em seu pretensioso livro sobre a Conferência de Paz, dá a entender que M Clemenceau estava ansioso por adiar a abertura da Conferência até que o armistício fosse revisto nos termos da mentalidade francesa e que ele próprio “conhecesse melhor o presidente.” Tenho dúvida de que essas considerações de ordem militarista ou social realmente tenham entrado no pensamento de Clemenceau, homem rude, mas razoável. Consultei muitas personalidades importantes da Conferência a propósito dessa questão. “Por que,” perguntei, “a Conferência foi adiada de 18 de dezembro para 18 de janeiro”? Responderam: “Oh, tinha o Natal, claro, e queríamos estar livres. Além disso, era necessário dar tempo para as emoções baixarem e, afinal, tínhamos de avaliar a situação. A Rússia, é bom lembrar, estava convulsionada, e o mesmo acontecia com a Alemanha. Achamos que se esperássemos um pouco as coisas se acomodariam.” Pode ser que o historiador encontre nos arquivos que venham a ficar disponíveis explicações mais convincentes do que estas. De minha parte, não consigo apresentar nada que explique melhor. Até hoje também não entendi a razão de, após terem se reunido, adiarem por tantas semanas vitais o objetivo principal de sua discussão. Afinal, desde o começo sabiam que na segunda semana de fevereiro o Presidente Wilson teria de voltar a Washington para estar presente ao encerramento dos trabalhos do 65º Congresso. Sabiam que a cada semana transcorrida os exércitos aliados estariam se desintegrando sob o clamor popular pela desmobilização imediata. Sabiam que cada dia não aproveitado para o objetivo fundamental de celebrar a paz com a Alemanha era um dia perdido, um dia a menos para usar o poder das armas para impor a paz, um dia que significava mais fome em uma Alemanha sofrendo bloqueio e maior perigo de bolchevização da Europa Central. Apesar disto, seis semanas foram desperdiçadas tratando de assuntos que, embora urgentes, não contribuíram para a finalidade principal da reunião. Somente em 25 de março, sob a fogosa pressão de Mr Lloyd George, os governantes do mundo realmente se concentraram em acertar a paz com a Alemanha. Durante o mês de abril trabalharam a uma velocidade vertiginosa e muito imprudente. Desde então, muitos jornalistas têm atribuído estes atrasos de janeiro, fevereiro e das três primeiras semanas de março inteiramente à determinação do Presidente Wilson para que nenhum tratado, nem mesmo um de natureza preliminar, deveria ser concluído se não incorporasse em sua estrutura, como parte integrante, o Pacto da Liga das Nações. Deve-se admitir que o Presidente Wilson era “homem de ideias fixas.” É estranho e até patético assinalar que o Presidente, uma vez instalado em Villa Murat, tenha ficado profundamente entediado com seus Quatorze Pontos, seus Quatro Princípios e seus Cinco Detalhamentos. Já não se identificava com as potentes passagens do passado na prosa inglesa. Passou a identificar-se com a nova, a mística carta dos direitos do homem. É impossível entender o caráter e a política de Woodrow Wilson a menos que se dê todo destaque à forte tendência ao misticismo fanático que desfigurou um raciocínio que, caso contrário, seria de natureza meramente acadêmica. Sua superstição infantil no poder do número 13 é um sintoma do misticismo que naqueles dias chegou a ser quase patológico. Acreditava de todo coração que a voz do povo era a voz de Deus. Os “olhos mudos do povo” o assombravam num apelo silencioso e pessoal. Sentia que aquela miríade de olhos o via como um profeta surgido no Oeste; um eleito de Deus para levar ao mundo inteiro uma nova mensagem e implantar uma ordem mais justa. O fato de evitar a convivência com [o secretário de Estado] Mr Lansing se deve à sua preferência pela comunhão silenciosa com Deus. O fato de tratar o senado dos Estados Unidos com umdistanciamento irritado decorreu de sua convicção de que não era como representante deles que Deus o enviara para Villa Murat, mas como representante do Grande Povo Mudo. Dizer que o Presidente Wilson era presunçoso, obstinado, inconformista e reservado não é explicação satisfatória. Também era um obcecado. Mais que isso, um possuído. Acreditava, como Marat, que era a personificação da “vontade geral.” Tinha a ideia fixa de que o Covenant da Liga era sua própria Revelação e a solução de todas as dificuldades humanas. Estava absolutamente convencido de que, se a sua nova Carta dos Direitos das Nações pudesse ser adaptada e incorporada aos Tratados de Paz, pouco importariam as incoerências, injustiças e flagrantes violações de seus próprios princípios que tais tratados pudessem conter. Era capaz, como todos os homens de fervor religioso, de atribuir a Deus o que era de César. Era capaz de se convencer, em ardentes agonias da alma, que seus princípios não tinham sido violados, que não abdicara de uma só ideia, de uma só letra de seu conteúdo original. Ficou amargamente ressentido com as sugestões de certas pessoas, como o Conde Brockdorff Rantzau, que não compartilhava de suas convicções. “Não as entendo,” confessou a membros de sua própria delegação, “elas me cansam.” No início de janeiro, se isolou metido em sua Arca da Aliança.” A partir de então, ninguém, muito menos Mr Lansing, conseguiu tirá-lo dela. Na página 186 de seu livro sobre a Conferência de Paz, Mr Lansing afirma que se o Presidente Wilson não tivesse insistido desta forma com a inclusão do texto da Convenção da Liga em um tratado preliminar, este poderia ter sido “assinado, ratificado e posto em vigor no mês de abril de 1919.” Em 20 de março de 1919, Mr Lansing anotou em seu diário: “O mundo inteiro quer a paz. O Presidente quer sua Liga. Acho que o mundo terá de esperar.” Foi diante dessas provas que os franceses e italianos argumentaram que o atraso na elaboração do Tratado de Versalhes resultou exclusivamente do egoísmo do Presidente Wilson. Convém reconhecer que a redação do Covenant da Liga realmente provocou um certo atraso. Quando o Presidente, em fevereiro, regressou a Washington, viu que a oposição no senado era mais séria do que lhe parecera inicialmente. Mr Lowell e Mr Taft, em quem confiara como intermediários junto aos republicanos descontentes, informaram-lhe que a Convenção da Liga teria de ser revista em pontos fundamentais se ele a quisesse ratificada por um senado de maioria republicana. Eram notícias desagradáveis. O Presidente, antes de deixar Paris, declarara em sessão plenária que nenhuma palavra, “nem mesmo um ponto parágrafo” do texto original da Convenção seria alterado. Agora, retornando a Paris, teria de propor emendas de importância vital. Isto permitiria aos japoneses reapresentar sua reivindicação de igualdade, e aos franceses voltar a pressionar por um exército da Liga com um QG “internacional.” Quando a notícia deste contratempo chegou a Paris, logo se percebeu que o Comitê da Liga teria de ser novamente convocado e que haveria novas discussões por várias semanas. M Pichon, em impulso momentâneo, declarou à imprensa que, em tais circunstâncias, a Convenção da Liga não poderia ser parte integrante do Tratado final. Essa afirmação foi desmentida no dia seguinte. Muito longe de demovê-lo de sua postura, as dificuldades no senado reforçaram a posição do Presidente e sua crença na missão divina. Como lembra o coronel House, ele voltou “muito combativo e determinado.” A partir de então, pressionou para que não apenas o tratado sobre a Alemanha, mas os acordos sobre todas as questões mundiais ficassem indissoluvelmente ligados à Convenção da Liga. Achava que o senado jamais ousaria rejeitar todo o “connnexus” dos tratados de paz, e estava decidido a lhe impor a Convenção, envolvendo-a de forma irreversível em toda a teia dos acordos mundiais. Esta determinação, sem dúvida, tornou impossível a conclusão de uma paz imediata e preliminar com a Alemanha. Esse é, portanto, o argumento daqueles que desejariam atribuir ao Presidente Wilson toda a culpa pelo atraso. Entretanto, muita coisa pode ser dita em contrário. Wilson sabia que os pormenores dos tratados seriam inevitavelmente injustos em muitos aspectos. Sabia que a disposição das Potências Aliadas e Associadas, em janeiro de 1919, não permitia um acordo realmente moderado. Esperava que a Convenção pudesse oferecer um instrumento pelo qual, quando prevalecessem opiniões mais sensatas, o Tratado pudesse ser modificado e tornado menos punitivo. Também sabia que a Liga das Nações não seria inteiramente capaz de cumprir sua nobre missão se não contasse com a pressão direta e sobretudo o poder moral, material e principalmente financeiro dos Estados Unidos. Os meios pelos quais esperava compelir o senado a aceitar a Convenção podiam não ser muito hábeis e tampouco nobres. Procuraria se defender alegando que o senado era um órgão reacionário e indiferente ao “grande e caloroso coração do povo.” Todavia, sua firme determinação em fazer do Covenant parte integrante de todos os tratados certamente se justificava. Pode até haver quem defenda que a concretização desse desejo compensava o atraso de muitas semanas, valia todo o “connexus” dos tratados. Também penso assim. Essas considerações à parte, convém salientar que o atraso na elaboração do Tratado de Paz com a Alemanha também se deve a outras causas. A redação da Convenção na verdade não interferiu praticamente no trabalho principal da Conferência. A comissão da Liga das Nações trabalhou rapidamente. Suas sessões se realizaram quase sempre depois do horário de expediente. A ênfase que alguns historiadores atribuem à responsabilidade do Presidente Wilson tira o foco de outra causa que, em meu entendimento, é a mais importante. Trata-se da ausência de um propósito pactuado e uniforme. Esta ambiguidade de propósitos foi uma das maiores infelicidades da Conferência. 3 Infelicidades DESDE SEU INÍCIO, A CONFERÊNCIA DE PARIS – tal como aconteceu e sempre acontecerá em qualquer conferência – desenrolou-se em meio a desvantagens iniciais. Algumas poderiam ter sido evitadas, e as discutirei no próximo capítulo sob o título “erros.” Outras eram absolutamente inevitáveis, ou poderiam ser evitadas por uma capacidade de visão e direção não possuída pelos que ditavam o destino do mundo em 1919. Estas discutirei no presente capítulo sob o título “infelicidades.” Entre as infelicidades totalmente inevitáveis, a dominante foi a opinião democrática. Talvez seja desnecessário dizer que o humor dos franceses, dos italianos, dos tchecoslovacos, dos iugoslavos, dos poloneses, dos portugueses, dos brasileiros, dos japoneses, dos belgas, dos albaneses, dos romenos, dos chineses, dos sul-africanos, dos australianos e dos povos helênicos foi irrefletido e inconsiderado ao extremo. Será mais útil indicar que as emoções das duas principais democracias anglo-saxônicas foram pouquíssimo mais inteligentes, mais razoáveis e mais compostas. Os Estados Unidos, tendo passado pelos conflitos internos da neutralidade, tendo emergido como uma nação unida numa vitória dos últimos instantes, ainda sofriam do impulso psicológico que os atirou na guerra; ainda estavam envergonhados pela ideologia que por tanto tempo os mantivera de fora. Havia muito, o Presidente Wilson deixara de ser um profeta para seu próprio povo. Não foi simplesmente a eleição do congresso em novembro de 1918 que causou nos membros da delegação americana uma certa hesitação de comportamento;foi a consciência de que, quando Theodore Roosevelt afirmou que os Quatorze Pontos não guardavam qualquer relação com a opinião pública nos Estados Unidos, aquele soberbo realista estava dizendo algo, naquele momento, absolutamente verdadeiro. A tragédia da Delegação Americana em Paris foi o fato de representar algo que a América sentira profundamente em 1915 e voltaria a sentir em 1922. Mas não representava o que a América sentia naquele janeiro de 1919. A consciência desse descompasso tomou-lhes a consciência democrática de um terrível vácuo. Só o presidente (sozinho com Deus e o povo) não percebeu o vácuo. Na Inglaterra, o pensamento público atravessava um das mais lamentáveis fases de sua história. Deve-se reconhecer que depois de uma guerra em que foram mobilizados setenta milhões de moços, na qual dez milhões morreram e trinta milhões foram feridos, não seria razoável supor que qualquer democracia viesse a encarar com nervos de aço o espetáculo de quatro senhores reunidos em uma sala protegida a discutir o resultado. Nem seria sensato esperar um povo que estivera na iminência da derrota terrestre e naval, aterrorizado pelo bombardeio aéreo e angustiado pela ameaça da fome, no momento em que alcançou uma vitória inimaginável comportar-se com o cavalheirismo medieval do Príncipe Negro. A mente de um Winston Churchill podia, é verdade, elevar-se a tão patrícias alturas. Recorde-se que na mesma noite do Armistício seus pensamentos voltaram- se com simpatia para o “inimigo batido.” Relembre-se que, naquele instante, Winston Churchill quis enviar seis navios carregados de alimentos para Hamburgo. Para mentes menores, foi mais difícil. A guerra fora um negócio cruel e sem trégua. Seria injusto acusar o povo inglês de incivilidade unicamente porque, nos seus primeiros meses de convalescença, exigiu que a paz também fosse cruel e sem trégua. O que espanta no povo inglês não é seu breve ataque de histeria, mas a rapidez com que recuperou o controle. Essa notável recuperação teria sido ainda mais rápida se pudesse ter convalescido em silêncio. Mas essa tranquilidade não veio facilmente. É sobre a imprensa inglesa – esta combinação de insensatez e hermetismo – que deve pesar todo o ônus da responsabilidade. Alguns de nossos principais jornais, o Observer, o Daily News, o Daily Chronicle, o Westminster Gazette e o Manchester Guardian repartem entre si parcelas dessa responsabilidade. Os demais, sem excluir The Times e outros igualmente esclarecidos, foram tolos e irresponsáveis ao extremo. Não foi sempre culpa de seus correspondentes. O Daily Mail era representado em Paris por Mr Valentine Williams, tão inteligente e correto quanto Mr Wilson Harris. De tempos em tempos, o próprio Mr Wickham Steed contribuiu com artigos competentes e de influência passageira para as páginas daquele diário. O Morning Post era representado pelo atento Mr Grant e pelo bem informado Mr Knox. Porém, nessa época os jornais ingleses eram sensíveis demais ao seu volume de circulação. E o tom da circulação era dado pelo grupo Northcliffe: o objetivo não era o que pensavam seus compatriotas, mas as emoções deles. A figura de Lord Northcliffe pesou morbidamente sobre a conferência como um miasma. Esse ponto é importante. Neste instante, muitos homens e mulheres na Inglaterra darão a explicação fácil de que Mr Lloyd George, embora tivesse vencido a guerra, perdera a paz. A falta de base dessa asserção é preocupante. Essa mesma gente na verdade seria incapaz de definir as premissas em que se baseou para chegar a tal conclusão. São as mesmas pessoas que, em 1919, assimilaram com aprovação a propaganda da imprensa Harmsworth, uma forma de histeria comprovadamente provocada pelo apaixonado ressentimento e pelas ilusões do próprio Lord Northcliffe. Admito que havia uma tragédia latente na psicologia de Lord Northcliffe. Ele constatou que possuía o máximo poder de destruição e o mínimo poder de criação. Sabia arruinar, não sabia construir. Imediatamente concluo que possuir uma gigantesca máquina de destruição, sem dispor sequer de uma colher de pedreiro para construção, pode levar finalmente a uma séria perturbação psicológica. Mas vamos comentar, com esta ressalva indulgente, a atitude adotada tanto antes quanto depois do armistício pelo Daily Mail. Em 4 de novembro de 1918, Lord Northcliffe anunciou seus treze pontos. Foram publicados num momento em que julgou poder levá-lo a ser incluído entre os plenipotenciários na eventual Conferência de Paz. Em todos os aspectos são admiráveis definições dos objetivos então em voga. Sua coincidência com os quatorze pontos do Presidente Wilson é realmente espantosa. Não há o que se possa dizer contra os treze pontos de Lord Northcliffe. Nove dias após esse manifesto, vemos o Daily Mail transpirando patriotismo. O ex-imperador, assim declarou em 13 de novembro, devia ser entregue de corpo e alma aos Aliados. Três dias mais tarde, a imprensa de Northcliffe atacava o desejo de uma Alemanha derrotada de ser liberada do extremo rigor do bloqueio. Sua manchete era: “Choradeira dos hunos por comida.” A matéria principal esposava a seguinte opinião: “Ainda existe gente neste mundo que prefere dar atenção aos soluços alemães por alimentos.” Durante a eleição geral, o Daily Mail conclamou seus colaboradores a negar apoio ao candidato que revelasse indícios de “qualquer ternura com os hunos.” Em 15 de dezembro, ficou quase analfabeto seu clamor pelo custo total da guerra. “A Alemanha,” gritou o Daily Mail, “pode pagar, se existe resquício de vigor nos Governos Aliados.” Já em 11 de dezembro começaram a agitar em favor da desmobilização imediata, sem cogitar do problema de como intimidar o Huno sem uma arma. Logo após a eleição, surgiram referências a “terríveis rumores” de que Mr Lloyd George levaria para Paris, não Lord Northcliffe, mas a “velha gang” de Mr Balfour, Lord Curzon e até Mr Asquith. Durante as primeiras fases da Conferência, a imprensa de Northcliffe dividiu sua energia entre “O Huno sem-vergonha” e “Como esmagar Lênin.” Clamava pela ocupação de Moscou e Petrogrado. Ao mesmo tempo, clamava pela desmobilização. Em abril, levantou o pânico sobre a “capitulação,” exclamando, “Não é problema nosso perguntar o que a Alemanha pensa sobre os termos da rendição. Nosso dever é impor termos tais que nos proporcionem segurança material e deixar que o Huno pense o que quiser sobre eles.” E ainda clamava pela desmobilização. A partir de então, o Daily Mail inseriu um “box” bem visível na primeira página com os dizeres “Os Junkers ainda vão trapacear.” Esse pequeno slogan aparecia todos os dias no topo de seu artigo de fundo. Quando os alemães finalmente chegaram a Versalhes, esse alerta foi complementado por outro “box” que dizia: “Para que não se esqueça. Mortos: 670.986. Feridos: 1.041.000. Desaparecidos: 350.243.” E ainda clamava pela desmobilização. Depois do ataque extremamente espirituoso que Lloyd George com toda razão desferiu sobre Lord Northcliffe na Câmara dos Comuns, em 7 de abril, a imprensa deste se rendeu alegremente aos propagandistas do Ministério da Guerra francês. Na cabeça deles e em suas colunas, as contrapropostas alemãs eram apenas “esperneio.” O Lusitania e até Miss Edith Cavell foram arrastados para cada um destes artigos, na esperança de impedir que Mr Lloyd George introduzisse nos Termos de Paz alguns poucos elementos de sabedoria e moderação. Essa foi a atitude pouco inteligente, pessoal e histérica deles do começo ao fim. Outros mais respeitados jornais ingleses tampoucoficaram atrás em extravagância emocional. A segunda infelicidade totalmente inevitável ocorrida na Conferência de Paris foi o fato de os plenipotenciários das cinco Grandes Potências ocuparem uma posição política; cada um representava algum eleitorado atento mas ignorante. Já comentei como Mr Lloyd George, com todo seu essencial liberalismo e sua visão, sentiu-se envergonhado e decepcionado por ter contribuído para a composição de uma Câmara dos Comuns possuída pela forma de pensar do Daily Mail. Poder-se-ia alegar que o primeiro-ministro não deveria ter ido pessoalmente a Paris, e que teria sido melhor enviar um representante, fosse algum diplomata ou economista profissional, ou mesmo alguém com experiência mundial, como Lord Milner ou Lord Reading. Sem dúvida, se na prática fosse exequível essa hipótese de um representante, um Tratado mais calmo, mais tranquilo poderia ter resultado. Há uma crítica mais grave, segundo a qual Mr Lloyd George deveria ter levado com ele algum representante do Socialismo competente e bem informado, como Mr Hyndman. Uma delegação desse tipo ou mesmo uma fusão de autoridade era totalmente impossível diante dos terríveis interesses nacionais envolvidos. Foi inevitável que Mr Lloyd George comparecesse em pessoa. Não me incluo entre os que descreveriam essa necessidade como uma infelicidade inevitável. Questiono mesmo se qualquer estadista inglês então vivo poderia, considerando a opinião pública na Inglaterra, ter conseguido tanto, ou melhor, ter evitado tanto. Contudo, é preciso reconhecer que um primeiro-ministro, com a atenção desviada – e sua ausência frequentemente resultada – pelas exigências da política interna, na realidade não possui o distanciamento essencial a uma negociação que requer absoluta concentração e imperturbável placidez mental. Inevitavelmente, o presente político, ou o passado, dos principais plenipotenciários produziu certa dualidade de aspecto. É difícil ser um grande europeu e, ao mesmo tempo, um grande homem de partido. As Potências continentais desejavam uma solução que satisfizesse não sua ganância (por mais que se afirme o contrário, havia relativamente pouca avidez em Paris), mas sua ansiedade. Ansiedade essa que, em cada caso, se compunha, por assim dizer, de um elemento pessoal e um impessoal. Os delegados das Grandes Potências eram, por um lado, homens de experiência e sabedoria, desejando fundamentar o Tratado na razão e na moderação. Por outro lado, eram políticos, representando, se não um determinado partido político, pelo menos um nexus bem definido de ideias políticas. Eram obrigados a acomodar suas próprias ideias, que poderiam ser esclarecidas, às emoções de seus partidários, que certamente não o eram. A diplomacia democrática conta com muitas vantagens, mas sofre uma desvantagem suprema: seus representantes são obrigados a baixar o padrão de seu pensamento ao sentimento de outras pessoas. Não fosse o intervalo de tempo que afeta a inteligência democrática, essa necessidade constituiria uma seguranca em vez de um perigo. Mas, em circunstâncias que exigem grande rapidez e autonomia para decidir, a democracia diplomática na verdade constitui um perigo mais insidioso e muito menos administrável do que o mais inescrupuloso intelectualismo do antigo sistema. M Clemenceau, é bem verdade, poderia alegar que não era mais um político, apenas um patriota. Estava em fim de carreira. Pouco se importava com a Câmara. Pelo menos em janeiro, não alimentava qualquer ambição política. Podia afirmar, com certa dose de verdade, que tinha completo distanciamento político. Mas a verdade é que Clemenceau era muito influenciado pela política partidária, pelas animosidades dentro de seu antigo partido. Detestava M Poincaré com a fúria de um tigre. Era também amargamento contra os doutrinários da extrema esquerda. Tinha um desejo pessoal de adotar um rumo Clemenceau – algo entre o meticuloso nacionalismo de Poincaré, o oportunismo enfadonho de Franklin Bouillon e o comunismo – para ele patético – da extrema esquerda. O Signor Orlando estava ainda mais tolhido pelos tentáculos do octópode democrático. A fim de impressionar o Presidente Wilson com sua própria representatividade, tinha injetado a estricnina do patriotismo no polvo italiano. Ficou prisioneiro de sua própria propaganda. Ao longo de toda a Conferência viu-se na mais desconfortável posição; seu colega, o Barão Sonnino, não perdia oportunidade para relembrar-lhe esse desconforto. O Signor Orlando nunca foi capaz de subir ao nível de sua inteligência. Havia também em seus conceitos um elemento impessoal e de natureza genuinamente nacional. Clemenceau (tendo visto com seus próprios olhos o palácio de St. Cloud esfumar-se chamas em 1871) tinha todos os motivos para sua obsessão de garantir a segurança da França. Mr Lloyd George, constrangido, não tanto por suas promessas eleitorais, mas pela Câmara dos Comuns, pela qual, por suas mesmas afirmações sentia-se responsável, esperava combinar o vae victis ansiado pelo povo inglês com uma pacificação mais justa que seus instintos lhe ditavam. O Signor Orlando, expoente do sagrado egoísmo, ingenuamente se esforçou para proporcionar à sua instável nação os espólios com os quais (imaginava ele) seria possível exorcizar o demônio do socialismo. É de se estranhar que tal mistura de motivações tivesse produzido certa complexidade de propósitos? Por um lado, esses homens queriam uma paz punitiva para satisfazer os respectivos eleitorados; por outro, desejavam uma paz razoável, capaz de restabelecer a tranquilidade na Europa. Causa surpresa, diante de tal ambiguidade de intenções, que tenham olhado com cauteloso desagrado todas as definições preliminares de seus propósitos essenciais? É fácil resistir à percepção de que a principal razão para os atrasos sofridos pela Conferência foi uma esperança perfeitamente compreensível por parte deles de que o “Grande Demos de Deus” se acalmaria dentro de um ou dois meses? As duas infelicidades acima mencionadas eram, esperemos, peculiares à Conferência de Paris. Porém, os diretores da infeliz reunião também sofreram outras desvantagens eternamente inseparáveis das discussões de homens com homens. Deve ser plenamente dado espaço, por exemplo, para a mui limitada capacidade de resistência disponível mesmo aos mais bem preparados cérebros humanos. Sob a tensão do incessante excesso de trabalho, as qualidades imaginativas e criativas tendem a enfraquecer: quanto mais cansado o cérebro, maior a tendência de se ater ao círculo mais restrito dos detalhes de interesse imediato; cada vez menos ele volta aos temas de mais ampla visão que, abordados, exigem discussões alentadas, esforço mental adicional e renúncia a muito trabalho e a pontos de concordância já alcançados com grande esforço. Essas limitações e debilidades próprias do ser humano tendem a, mais cedo ou mais tarde, dominar o ritmo de qualquer conferência de longa duração. Em Paris, a tortura da exaustão ficou mais evidente que nunca. Convém lembrar que os protagonistas do confronto já vinham expostos havia muitos terríveis anos a tensões sem paralelo na história da governança da humanidade. A vitalidade deles era extraordinária. Todavia, energia humana alguma poderia resistir a tal experiência cumulativa sem ceder a uma tendência para o superficial em detrimento do essencial, para o rotineiro em prejuízo do inesperado, para o improviso como fuga ao ponderado. Não está certo criticar a Conferência de Paris, a menos quese dê total proeminência ao elemento da exaustão agregada e da insensibilidade consequente. No entanto, seria um erro para quem estuda a diplomacia de conferências concentrar-se exclusivamente nessas fraquezas da natureza humana que impedem uma condução inteligente de discussões. As dificuldades de negociações precisas derivam com quase igual frequência das qualidades mais amigáveis do coração humano. Seria interessante analisar quantas decisões falsas, quantos mal-entendidos fatais brotaram de qualidades simpáticas, como timidez, consideração, afabilidade ou boas maneiras em geral. Uma das desvantagens mais persistentes em toda diplomacia por conferência é essa dificuldade humana em se manter desagradável com a mesma gente por muitos dias seguidos. Inevitavelmente, se na segunda-feira você se recusou terminantemente a concordar com um assunto, contrariando a opinião de uma maioria, seria extremamente desagradável continuar obstinado na terça-feira, quando uma questão totalmente diferente estiver sendo discutida. A tentação muito humana de evitar posições antipáticas, de temperar as obstruções com as aquiescências, de postergar a contestação por algum tempo até que possa ser misturada à “água com açúcar” da concordância ficaram muito evidentes na Conferência de Paris. De fato, seria possível sustentar que o fracasso do Presidente Wilson se deveu a algo mais do que a pressão normal da rotineira cortesia humana: ele desagradava reagindo a quase tudo que seus colegas propunham. Eles bem sabiam como era doloroso para ele esse constante desacordo e, inevitavelmente, aproveitavam para explorar a situação assim criada. É interessante refletir sobre o que aconteceria com o Presidente se ele fosse (como era Mr Lansing) um homem realmente combativo. Inúmeros problemas do Signor Orlando também resultaram de seu natural desagrado de ser antipático. A restrição que apresentava ao Ponto Nove dos Quatorze Pontos foi expressada lateralmente num resmungo, tal o desconforto do Signor Orlando em incomodar todos aqueles encantadores amigos em torno da mesa. Mas esse infeliz resmungo quase dividiu a Conferência em duas correntes. Talvez tenha sido justificável a impaciência do coronel House ao anotar em seu diário: “Desperdiçou-se muito tempo da Conferência num grotesco esforço de não desagradar.” Esses floreios do comportamento humano, como já disse, são inseparáveis de qualquer Conferência. Outras infelicidades houve, ainda mais concretas, às quais a Conferência de Paris foi particularmente exposta. Uma foi a questão dos Tratados Secretos assinados no calor da batalha, dos quais os Estados Unidos não tinham participado, e dos quais, na maioria dos casos, tomaram conhecimento por acaso. Houve também o problema das Potências Menores, cujos representantes foram forçados pela opinião pública nacionalista de seus países a adotar uma atitude de intransigência bulhenta. Esses dois problemas serão discutidas mais adiante com pormenores. No presente capítulo, falta examinar mais duas infelicidades que atrapalharam o trabalho da Conferência desde o início. A primeira infelicidade foi a presença do Presidente Wilson. A segunda foi a escolha de Paris para sede da Conferência. Ambas as infelicidades foram inevitáveis, considerando que seriam necessárias previsão e persistência quase sobre- humanas primeiro para antever, depois para combater a forte ameaça dessas duas decisões iniciais. A infelicidade do comparecimento pessoal do Presidente Wilson à Conferência de Paris deve ser examinada por dois ângulos. A primeira pergunta a responder é: “Por que ele veio?” A segunda pergunta a responder é: “Por que, tendo decidido vir, compareceu pessoalmente às reuniões?” Devo repetir que extrapola o objetivo deste livro entrar em qualquer maior detalhe em assuntos sobre os quais não tenho impressão direta. Na época, eu estava consciente, embora um pouco vagamente, das desvantagens da participação do presidente no Conselho dos Dez e dos Quatro. Posso ver, hoje, que muito da desmoralização, da “mudança de ânimo” que nos afetou durante os meses de abril e maio se deveu a constatarmos, quase em pânico, que o profeta da Casa Branca não só desejava apelar para o fogo do céu, mas mostrava idêntica falta de vontade de pedir relatórios a seus próprios especialistas. Paris era algo muito diferente de Delfos, e, quando pressionado a se explicar, nosso Oráculo terminava por revelar-se. Não há exagero em atribuir o súbito “declínio do idealismo” que tomou conta da Conferência em meados de março à horrorizada suspeita de que o wilsonismo vazava sem controle, e que o barco no qual todos tínhamos entrado com tanta confiança estava indo a pique. Nossos olhos deslocaram-se inquietos para o salva-vidas mais próximo. O fim da Conferência transformou-se num sauve qui peut: chamamos busca de segurança, mas foi quase uma briga louca para chegar aos botes, e quando os alcançávamos lá estavam confortavelmente instalados nossos colegas da delegação italiana, que nos davam boas- vindas. A comparação não é sem sentido. Instintivamente e com razão sentíamos que, se o wilsonismo se destinava a moldar a organização da Nova Europa, devia ser aplicado universal, integral, obrigatória e cientificamente. Partindo de uma América unida no apoio à doutrina wilsoniana inteira, tivemos confiança em embarcar na viagem segura para as Ilhas dos Abençoados. Só quando percebemos que recebíamos apenas a colcha de retalhos do wilsonismo a ansiedade nos dominou. Essa ansiedade logo triplicou, tão logo ficou claro para nós que para sustentar aquela colcha não contaríamos com o apoio dos Estados Unidos. Tendo o Novo Mundo se negado a responder ao clarim de seu próprio arauto, voltamo-nos em pânico para o equilíbrio do velho. Foi inevitável retomar o terreno familiar da Velha Europa que, com todos seus perigos, pelo menos era território que conhecíamos. O colapso de Wilson significou o colapso da Conferência. É muito provável que, se o presidente tivesse permanecido em Washington, não teria desabado. Sua presença em Paris constitui, portanto, um desastre histórico de primeira magnitude. Há também considerações menores de que teria sido mais conveniente para todos se o Presidente Wilson não se instalasse na Villa Murat. Em primeiro lugar, ele seria compelido, permanecendo em Washington, a fornecer a seus plenipotenciários instruções escritas, que teriam proporcionado à Conferência base sólida sobre a qual evoluir. Como veremos no próximo capítulo, a falta dessa base sólida constituiu uma das mais sérias dificuldades práticas de toda a Conferência. Em segundo lugar, o presidente, mantendo contato com a opinião pública e o senado, teria sido capaz de guiar essas correntes de opinião para canais construtivos, ou de alertar a tempo sua delegação que o povo americano absolutamente não estava disposto a oferecer à Europa novas lâmpadas em troca das velhas. E em terceiro lugar, os Plenipotenciários dos Estados Unidos ganhariam imensamente em suas discussões com os cérebros mais ágeis da Europa se pudessem adiar decisões dependentes de aprovação do Presidente, caso este tivesse permanecido em seu país. Os americanos, com todas as suas grandes virtudes, são uma raça que pensa devagar, e foi a lentidão do processo mental do Presidente que o pôs em posição desvantajosa em suas conversas com homens como Clemenceau e Lloyd George. Foi inevitável que ele se sentisse desconfortável sempreque, em cada questão e a cada oportunidade, teve de pedir que algo fosse repetido mais devagar, ou confessar que não tinha acompanhado a rápida evolução da conversa. Essa sensação de estar sempre um pouco atrás dos outros afetou a confiança e os nervos de todos os negociadores americanos. Teriam sido valiosos para eles uma pausa legítima nos trabalhos e um tempo para respirarem, insistindo que tinham de ouvir Washington. Não ganhariam apenas tempo. Também teriam um álibi. Já assinalei como, em todos os debates entre pessoas civilizadas, é importante o fator da polidez humana comum. Teria sido muito mais fácil para os plenipotenciários americanos jogar o ônus da constante recusa e obstrução nos ombros de um potentado ausente. O próprio Presidente, durante toda a Conferência, recusou-se a usar um álibi, embora fosse cabível e mesmo útil se, em determinadas situações, tivesse retido o anúncio de sua decisão até consultar o Comitê do Senado. Mr Lloyd George, quando se via diante de algum dilema a requerer tempo, sempre se mostrava agudamente sensível às opiniões da Delegação do Império Britânico e até mesmo da Câmara dos Comuns. O Presidente não se vergava a usar tal pseudônimo, a tais álibis. Contra ele mesmo não havia apelação. Ficava ali, sentado naquele aposento pequeno e abafado, ele, o porta-voz do Soberano Povo Americano. Não havia alternativa a si mesmo, nem fuga de si mesmo, nem qualquer pretexto para sua necessidade de momentos para reflexão silenciosa. Somente ele entre aqueles quatro personagens dispunha da arma da decisão imediata. Uma arma terrivelmente letal. Muito já disse para indicar que a presença do Presidente Wilson em Paris foi uma séria infelicidade. Resta comentar como essa infelicidade surgiu. Não é explicação suficiente atribuir ao Presidente Wilson falhas de caráter que o impediam de olhar sua própria personalidade com distanciamento. Sua decisão não era só errada: era também deliberada, até mesmo obstinada. Do ponto de vista constitucional, a presença do Presidente em Paris desacompanhado de um devido Comitê do Senado era, pelo menos, questionável. Mr Lansing e o coronel House revelaram a grande preocupação com que encaravam essa decisão. House atribui a determinação do presidente à sua convicção de que se considerava o mediador indicado para as negociações face a face. Em 12 de novembro, Lansing, o secretário de Estado, implorou ao Presidente que não fosse a Paris. Este “mudou o rumo da conversa para outros assuntos.” Em 18 de novembro, o Presidente, novamente sem consultar seu secretário de Estado, distribuiu à imprensa uma declaração de que compareceria pessoalmente à Conferência. “Estou convencido,” anotou Mr Lansing em seu diário, “de que ele está cometendo um dos maiores erros de sua carreira e vai pôr em risco sua reputação.” Foi esse desentendimento que desde o começo estremeceu as relações entre o Presidente Wilson e Mr Lansing. O coronel House também se empenhou, sem dúvida com mais tato do que o sempre franco Mr Lansing, para dissuadir seu amigo de embarcar em aventura tão incerta. Suas exortações foram inúteis. O Presidente se aborreceu com sua tentativa de desencorajá-lo. “Ele via Paris,” lembra o coronel House, “como uma festa de intelectuais.” Poucas vezes a antevisão de um acontecimento se revelou tão falsa. Acrescenta o coronel House, “quando ele desceu de seu imponente pedestal para debater com os representantes de outros estados em termos de igualdade, se transformou em barro comum.” E mais: “uma sensação de desamparo baixou sobre ele.” Não se pode presumir, além do mais, que a decisão do Presidente tenha resultado de pressões da Inglaterra ou da França. Mr Lloyd George desde então confessou que ficou “espantado” quando teve notícia de que o Presidente decidira comparecer pessoalmente. M Clemenceau ficou mais do que espantado, ficou terrivelmente alarmado. Alarmado com a possibilidade de Poincaré argumentar que a presença do Presidente dos Estados Unidos em Paris obrigava a que o Chairman da Conferência fosse não o primeiro-ministro francês, mas o Presidente da República Francesa. Não tendo conseguido reter o presidente em Washington, M Clemenceau dedicou todos os seus esforços para que ele se mantivesse num santuário em Villa Murat. Ainda não se sabe exatamente por que estágios e por quem o Presidente foi persuadido a deixar sua reclusão e entrar pessoalmente na arena das discussões. Mr Lansing sustenta, mas sem apresentar nenhuma prova, que Mr Wilson era avesso a comparecer às negociações como delegado e que foi convencido a fazê-lo por Mr Lloyd George. De fato é possível que este, achando que, uma vez que o Presidente já cometera o erro inicial de deixar Washington, seria preferível que, além de sofrer as desvantagens, desfrutasse os benefícios de sua presença em Paris. Também é provável que Mr Wilson estivesse convencido de que somente ele seria capaz de impor a uma Europa reacionária a brilhante inovação de um Covenant da Liga das Nações. Quanto a M Clemenceau, tão logo recebeu do coronel House a garantia de que não se cogitaria retirá-lo de Chairman da Conferência, passou a querer que o Presidente tomasse seu lugar como delegado entre os demais. Correria o risco. Foi uma decisão realmente infeliz. Nas manifestações exteriores, é verdade, o Presidente Wilson era tratado com uma deferência não dispensada aos primeiros-ministros com os quais tinha de competir. Seu segurança podia ficar na antessala do Quai d’Orsay, enquanto os dos demais representantes eram obrigados a permanecer do lado de fora, com os motoristas. Em especial, à chegada do presidente, M Pichon saía apressado porta afora e descia agitado os degraus que conduziam à porta de entrada. O presidente (“Boa tarrrrde,” nos cumprimentava, quando nos levantávamos à sua chegada. “Boa tarrrde, gentlemen”) era conduzido até seu lugar no gabinete de Monsieur Pichon pelo próprio M Pinchon. Mr Lloyd George, por outro lado, entrava jovialmente naquele salão aquecido na companhia de Sir Maurice Hankey. Aí cessavam as deferências. Dentro daquelas paredes altas e calorosas, ao pé daquelas tapeçarias vistosas e alegres penduradas nas paredes, Mr Wilson não passava de plenipotenciário dos Estados Unidos. E não era um bom plenipotenciário. Inicialmente, esperou-se que a Conferência se realizasse em alguma cidade neutra como Genebra ou Lausanne. Tanto Mr Lloyd George quanto o coronel House eram decididamente a favor da Suíça. Mas o Presidente Wilson inclinou-se ao ponto de vista de que o Lago de Genebra estava “saturado de elementos venenosos e aberto a toda influência hostil.” Não se sabe bem de que fontes ele adquiriu essa impressão desfavorável sobre aquele enevoado litoral. Bruxelas também pareceu aos organizadores da Conferência propícia à exaustão nervosa. Haia foi igualmente sugerida, mas também considerada inconveniente. Como símbolo de uma nova ordem, Haia, apesar do Palácio da Paz, não era particularmente estimulante. E havia a questão do ex-Kaiser em Amerongen, proximidade não muito prazerosa e, por fim, o fato de ser na Holanda. Em relação a Londres, os plenipotenciários dos governos continentais, transatlânticos e, acima de todos, britânicos e dos Domínios, não mostraram inclinação. Desse modo, a escolha inevitavelmente, recaiu em Paris. Ao escolher aquela capital da neurose de guerra, os governantes mundiais cometeram um grave erro inicial. Como era erro inevitável, chamo-o de infelicidade. Mas Paris,sob quaisquer circunstâncias, é muito voltada para si, muito insistente para ser uma sede compatível com qualquer Congresso de Paz. Já em 1814, Lord Castlereagh notara essa incompatibilidade. “Paris,” escreveu ele a Bathurst, “era um mau lugar para negócios.” Esse defeito, em 1919, ficou bem marcado. “Éramos dificultados,” assinala o Dr Charles Seymour naquela admirável compilação The Intimate Papers of Colonel House, “pela atmosfera reinante em Paris, onde a culpa alemã era considerada fato comprovado. Todo mundo tinha medo de ser chamado de pró-Alemanha.” Inconscientemente, a neurose de guerra em Paris afetou os nervos de todos os delegados. “Paris,” assinala Mr Keynes, “foi um pesadelo e todos tinham um ar mórbido.” Seu porte e suas muitas diversões por si só conspiravam contra a necessidade de filtrar e organizar toda aquela torrente de conhecimento e opinião. Sentíamo-nos como cirurgiões operando no salão de baile com as tias dos pacientes reunidas à nossa volta. Mesmo para os que alegavam o privilégio de compreender Paris, aquela melancólica e dominadora capital, durante aquelas semanas bárbaras, pareceu ter perdido sua dignidade. A imanente seriedade que cerca o Institut; a seriedade inquieta que alvoroça as bancas de livros do Odeon; a tradicional seriedade que ressoa nas calçadas tranquilas da Rue de Lille; a seriedade familiar que emana das pequeninas casas de Passy ou de Auteuil; a seriedade física que lateja de Ménilmontant a Clichy; a seriedade intelectual (aquele vulto oculto no gesto do braço estendido buscando um livro no alto da estante) por trás daquela miríade de balcões; a seriedade moral subjacente a toda sua iridescência; a seriedade histórica que, sem se fazer notar, acompanha vigilante a passagem inquieta das águas; tudo isto concentrado no brilho de uma limusine reluzente refletida nos giros da porta de um hotel. Paris, retalhada até o fundo da alma, recolheu-se para lamber as feridas. Seu lugar foi ocupado pela Compagnie des Grands Express Européens ou, mais precisamente, pela American Express Company. A polícia militar americana ficou lado a lado com os policiais nos Champs Elysées. Os uniformes de vinte e seis exércitos estrangeiros confundiram a monocromia das ruas. Durante aquelas poucas semanas, Paris ficou sem alma. Seu espírito, aquela realização suprema da civilização ocidental, esteve ausente. Os nervos de Paris altercavam no ar. Os franceses reagiram a essa barbarização de seu foyer da maneira mais inábil. Praticamente desde os primeiros dias se voltaram contra os americanos com amargo ressentimento. O clamor constante de seus jornais e a estridência dos ataques pessoais cresceram em volume. A inépcia dos jornais publicados em Paris no idioma inglês poucas vezes foi superada. O efeito cumulativo dessa gritaria do lado de fora das portas da Conferência produziu um efeito nervoso, e como tal, nocivo. Nossas mesas do café da manhã tornaram-se um coro de manifestações exaltadas. O próprio Presidente foi estranhamente afetado por essas formas de animosidade. Não se importou muito quando foi taxado de teocrata, quando foi injuriado por não visitar as áreas devastadas, ou quando foi abertamente acusado de ser pró-Alemanha ou um profeta obcecado por suas Utopias. Sozinho com Deus e o Povo, conseguia suportar, quase sem pestanejar, esses ataques. O que o incomodava eram as pequenas piadas que os jornais franceses faziam sobre sua pessoa, com a permanente nuvem, não de incenso, mas de ridículo com que coloriam sua caminhada. Cada incidente (e houve muitos) era usado pela imprensa francesa para expor o Presidente ao ridículo. Para um presbiteriano, a perseguição é uma coroa de glória e a adversidade é uma oportunidade oferecida por Deus. É o silêncio de um sorriso constante que o leva ao desespero. Mr Wilson sofria mais intensamente sob as alegres sátiras que Paris lhe lançava. Essa sobrecarga a suas muitas preocupações, essas labaredas brilhantes e cortantes alimentando a chama de seu desespero não podem ser subestimadas como fatores de seu colapso final. O Presidente chegara a Paris dispondo de um poder que nenhum homem jamais possuíra na história. Chegara inflamado por nobres ideais como jamais se vira um autocrata no passado. E Paris, em vez de vê-lo como a personificação do rei-filósofo, nele viu muito mais: um professor ridículo e extremamente irritante. O efeito acumulado dessas pequenas mas penetrantes aguilhoadas foi muito maior do que se supõe. A escolha de Paris, portanto, se transformou em uma das mais potentes de nossas infelicidades. Mas nenhuma das que acabo de analisar teria sido fator decisivo na situação se não fosse alimentada e cristalizada por nossos erros. No próximo capítulo proponho-me a examinar os erros de organização e método que, desde o início, condenaram a conferência, comparativamente, a um fracasso. 4 Erros NA COLEÇÃO DE “MANUAIS PARA A CONFERÊNCIA DE PAZ” que nos tinham sido distribuídos pelo Foreign Office havia um escrito por Sir Ernest Satow versando sobre “Congressos Internacionais.” Nessa admirável monografia, a maior autoridade viva em questões de prática diplomática sintetizou para nós os métodos e procedimentos adotados em congressos passados e chamou nossa atenção para os erros de organização cometidos. Seu livrinho foi estudado a fundo pelos membros mais moços da Delegação Inglesa, que em seguida os cederam a seus colegas americanos que, por sua vez, também o leram com interesse e respeito. Pode-se perguntar se foram lidos com a mesma aplicação pelos próprios Plenipotenciários. Poderia ter sido útil, por exemplo, se os que dirigiam a política inglesa, antes de deixar Londres, tivessem lido aquelas passagens incisivas em que Sir Ernest Satow frisa a necessidade de (a) uma prévia concordância a respeito dos objetivos em vista e (b) um programa definido e inflexível. “Um Congresso ou Conferência,”escreveu Sir Ernst Satow, “é em geral precedido pela conclusão de preliminares de paz entre as partes beligerantes (...) Começar um congresso ou uma conferência sem tais preparativos é um caminho perigoso, pois pode vir a provocar divisões entre aliados de um ou outro lado (...) É de se esperar um programa bem definido de assuntos a serem discutidos entre os plenipotenciários. Deve haver absoluta concordância com este programa, e, se for apresentada alguma proposta para introduzir outras questões, ela precisa ser cuidadosamente avaliada antes de ser aceita.” “A experiência demonstra que, a fim de assegurar o êxito de um Congresso ou Conferência, deve haver prévia concordância em torno das bases em que se fundamentará o evento, e quanto maior a clareza com que os pontos principais dessa base forem definidos, maior a probabilidade de um acordo geral. Na história, quando Congressos fracassam em chegar a um resultado definido, a falha geralmente se deve à má preparação do terreno.” M André Tardieu, em seu livro The Truth about the Peace Treaty, reconhece que a falha na coordenação de alguma base preparatória para a política a ser seguida está na raiz dos métodos incertos adotados nas fases iniciais da Conferência, dos atrasos que se seguiram e dos apressados acertos de março e abril. Ele sustenta que essa omissão se deveu a dois fatores. Alega, em primeiro lugar, que foi difícil manter uma frente unida quanto aos objetivos da guerra e que esta dificuldade teria sido seriamente agravada se fosse inserida uma discussão sobre a eventual política final de paz numa negociação tão delicada, envolvendointeresses e orgulho nacionais. De certa forma, este argumento faz sentido. Em segundo lugar, ele diz que, depois do armistício, chegou a haver uma tentativa de coordenação durante a visita de M Clemenceau a Londres, em 2 e 3 de dezembro de 1918. Esta afirmação é falaz. As discussões em Londres abordaram apenas quatro pontos, nenhum deles contribuindo em dose digna de nota para aperfeiçoar o funcionamento da Conferência em vista. Houve concordância em que fosse imediatamente organizado um Comitê para avaliar a capacidade de pagamento pela Alemanha. Também foi acertado que o ex-Kaiser devia ser julgado por um tribunal internacional, e que os representantes dos Domínios britânicos deviam estar presentes à conferência sempre que se discutissem seus interesses específicos. Concordou-se ainda que um Comitê seria encarregado do exame da questão de suprimentos e ajuda. Por conseguinte, não se pode dizer que as conversas em Londres, em 2 e 3 de dezembro, em algum momento trataram do estabelecimento de “base ou de bases” para o funcionamento do Congresso que se aproximava. Poder-se-ia alegar, com razão ainda maior, que na verdade essa base fora proporcionada pelos Pontos, Princípios e Detalhes enunciados pelo Presidente Wilson e aceitos por todos os beligerantes como base para a redação dos pormenores do texto. Realmente era essa a impressão que tínhamos na ocasião. Mas era correta? Temo que não. Do ângulo da técnica diplomática, é importante examinar o quanto esses princípios realmente se constituíram em base para a negociação entre as diversas partes envolvidas. Esse exame aponta uma anomalia muito séria. Enquanto em teoria essas bases eram aceitas como o “pacto de contrahendo” para uma negociação entre dois grupos de beligerantes, não eram (mesmo quando acrescentamos a interpretação do coronel House) acatadas sem reservas como base consensual de negociação entre as Potências Aliadas e Associadas. M Clemenceau, por exemplo, desde o começo alimentava no íntimo certas preocupações com relação à “segurança” da França. Tais inquietações, na medida em que implicavam alguma separação da Renânia da Alemanha, alguma proibição à autodeterminação da Áustria, alguma intenção de obter pelo menos os recursos econômicos da bacia do Sarre – ficavam em franca oposição aos princípios que, no pertinente a nossos antigos inimigos e também aos Estados Unidos, ele aceitara com entusiasmo. Também Mr Lloyd George desde o começo alimentou dúvidas que se aplicavam não somente à importância que de público ele atribuía à questão dos direitos marítimos, mas igualmente às inesperadas, mas certamente previstas, dificuldades em assuntos como o custo da guerra e a alocação das colônias alemãs à Austrália e à União da África do Sul. O Signor Orlando, volto a dizer, a despeito de sua ponderação resmungada, devia saber muito bem que a fronteira no Brenner, para não falar dos enclaves no Adriático, não podia ser – e jamais seria – apresentada como atendimento da pretensão italiana de ter suas fronteiras fixadas segundo o critério da “nacionalidade claramente reconhecida.” Assim, cada protagonista compareceu à conferência com a nítida (ou que deveria ter sido ‘nítida’) percepção de que seus propósitos não estavam em completa harmonia com as posições que assumiam. Até certo ponto, esta elasticidade de propósitos é inerente a qualquer Congresso internacional. Porém, em Paris, o abismo entre o proclamado e a intenção real dos participantes foi muito largo, dificultando uma “base consensual de acordo.” Não é minha intenção entrar em considerações éticas ou repartir culpas ou elogios. Tudo que afirmo é que certos fatores atuaram de forma totalmente inevitável. As observações que hoje faço não estão voltadas para o que devia ter acontecido e muito menos para o que não devia ter acontecido. Descrevo o que foi, na verdade, não uma Conferência, mas uma doença muito grave. Trato apenas de registrar sintomas e de marcar um gráfico da febre. A discrepância que assinalei é vital para o meu argumento. Vou botá-la doutra forma. A Conferência foi representada, em especial pelos propagandistas americanos do tipo de Mr Ray Stannard Baker, como um conflito entre as “Potências da Luz” (representadas pelo Presidente Wilson) e as “Potências das Trevas” (representadas por Clemenceau). Tal dramatização simplista da questão está longe de ser legítima. No meu entendimento, também é irrelevante o confronto visto por Mr Keynes entre uma paz Cartaginesa e uma paz Wilsoniana. Nada – nem mesmo seus contrastes e confrontos – era nítido em Paris. O acontecimento todo, como observou Mr Balfour, afinal, não passou de um “negócio áspero e confuso.” Também desencaminha, embora seja bem mais inteligente, o argumento oposto, que vê a Conferência não como um conflito entre dois princípios que se excluíam, mas como um ajuste de complexos pormenores práticos. Reconheço que esta última interpretação realmente descreve bem o funcionamento do mecanismo da conferência. Descreve o que foi a Conferência, e não como ela deveria ter sido ou como queríamos que fosse. Nesse sentido, é mais uma crítica do que uma exposição. Estudiosos que no futuro analisarem essa linha de crítica se satisfarão ponderando que (se forem versados em economia) não farão os mesmos erros que cometemos em 1919. É por esta razão que encaro esse argumento como um registro quase igualmente inútil da ininterrupta interação entre os vetores de esperança e exaustão, de sabedoria e conveniência, de imensas exigências étnicas e minúsculas preocupações pessoais, de conhecimento e ignorância, de justiça e vingança, de poder e covardia, de razão e emoção, de imediato e final, de passado e futuro, de conveniente e desejável, de exequível e impraticável, de popular e técnico – a interação que decorre menos do conflito que do entendimento e da motivação; menos de uma luta do que de um enfado; a interação que, à medida que as semanas se passaram, envolveu a Conferência num manto de fadiga, indisposição, suspeita e desespero. Permitam-me fornecer, como exemplo dessa crítica, a excelente passagem do volume IV da edição dos Papéis do Coronel House feita pelo Dr Charles Seymour: “Vários historiadores, especialmente aqueles que escrevem de um ponto de vista americano, têm apresentado a Conferência de Paz como se fosse um conflito nítido entre dois ideais, personificados, por um lado, por Clemenceau e, por outro, por Wilson; um conflito entre o mal do antigo sistema diplomático e a virtude do novo idealismo mundial. Esse quadro atrai os que não compreendem a complexidade da verdade histórica. Na realidade, a Conferência de Paz não foi assim tão simples. Não foi tanto um duelo quanto foi uma melée geral em que os representantes de cada nação brigavam para conseguir apoio a seus métodos particulares de garantir a paz. O objetivo de todos era o mesmo – evitar a repetição dos quatro anos de devastação mundial. Os métodos logicamente eram diferentes, uma vez que cada um enfrentava um conjunto diferente de problemas. Inevitavelmente cada nação apresentava uma solução com as cores de seus interesses. De certo modo, isto foi verdadeiro para os Estados Unidos, bem como para a França, a Itália e a Inglaterra. Nós pouco sacrificamos ao anunciar que não tomaríamos nenhum território (que não queríamos), nem receberíamos reparações (que não podíamos cobrar). Nosso interesse repousava inteiramente em assegurar um regime de tranquilidade mundial. Nossa posição geográfica era tal que podíamos advogar o desarmamento ea arbitragem em total segurança. O idealismo de Wilson coincidia com uma saudável Realpolitik. Mas os métodos americanos não se ajustavam tão bem aos problemas peculiares de nações europeias, dominados como eram por fatores históricos e geográficos. Segundo o programa americano, nós particularmente abríamos mão de coisas quase sem valor, mas pedíamos aos países europeus que desistissem do que lhes parecia essencial à sua segurança. Podíamos insistir em que a prevenção mais adequada contra a guerra repousava no desarmamento e na reconciliação. Os franceses retrucariam que ingleses e americanos, protegidos pelo canal e pelo Atlântico, podiam argumentar dessa forma, mas a França fora invadida vezes demais para não insistir em garantias melhores que promessas escritas. Podíamos insistir que era bom negócio cancelar indenizações alemãs como débito ruim. Os europeus respondiam: “Então vamos nós, os atacados, ficar com todo o ônus e deixar o agressor escapar incólume? Não até que esgotemos todas as possibilidades de fazê-los pagar.” Mesmo depois de concordarem com a sensatez das propostas americanas, os líderes aliados se mantiveram cautelosos em aceitá-las, diante da força da opinião pública. Clemenceau foi considerado traidor por ter se recusado a destruir a Alemanha. Se tivesse cedido na questão da ocupação da Renânia, teria sido derrubado do poder e substituído por um premier mais inflexível. Lloyd George reconheceu que a avaliação pública da capacidade da Alemanha para pagar era absurda, mas não se preocupou em dizer isso ao eleitorado. Orlando teria aceitado com satisfação uma solução de meio-termo para a questão do Adriático, mas as forças políticas na Itália não permitiram que o fizesse. Os primeiros-ministros estavam longe de exercer um poder supremo. Ao estimularem o sentimento popular durante a guerra, medida ortodoxa em tempos de beligerância, tinham criado um Frankenstein que agora os desamparava. Podiam se ajustar, se tivessem condições para tal, mas ceder não lhes era permitido.” O conceito de Mr Stannard Baker, a teoria do Dr Charles Seymour, cada um representa um extremo da interpretação da dualidade de intenções com que os principais negociadores chegaram a Paris. O primeiro defende que os propósitos do velho e do novo mundo não eram meramente diferentes, eram na verdade antagônicos. O último tende a explicar que esses propósitos, embora diferentes em grau, em sua natureza não eram realmente distintos. Prefiro a linha de pensamento do Dr Charles Seymour ao enfoque emocional adotado por Mr Stannard Baker. Todavia, não posso deixar de admitir que, das duas concepções, a de Mr Baker é a que mais se aproxima da verdade. Em outras palavras, o fracasso da Conferência de Paris em manter vivos os ideais defendidos desde sua abertura só pode ser compreendido se partirmos da concepção popular, embora não totalmente imprecisa, de que realmente existia um conflito de princípios; de que esse conflito nunca foi enfrentado diretamente, mas, ao contrário, foi contornado por meio de todos os subterfúgios possíveis; e de que a existência dessa divergência, constante mas nunca ostensiva, obrigou os dirigentes mundiais a “tecer” (citando Mr Keynes), “aquela rede de sofismas e exegeses jesuíticas que no fim revestiria de insinceridade a linguagem e a substância de todo o Tratado.” Pode-se questionar se a divergência inicial de propósitos era totalmente inevitável e se poderia ser classificada na categoria “infelicidades” do capítulo anterior e, portanto, não ser transferida para o presente capítulo dos “erros.” Concordo plenamente que em grande parte um conflito de intenções foi inevitável. Os EUA, eternamente protegidos pelo Atlântico, queriam satisfazer sua retidão e, ao mesmo tempo, se livrar da responsabilidade. Estavam na posição muito ingrata de impedir outros povos de fazer o que desejavam, eles próprios sem disposição para fazer alguma coisa. A França, vitoriosa em circunstâncias que, sabia muito bem, nunca seriam tão favoráveis novamente, estava firme e decidida a fazer uso desse limitado espaço para respirar a fim de criar para si mesma uma zona de proteção contra o dia em que o perigo alemão voltasse a se manifestar ameaçadoramente a leste. A Inglaterra, abalada e empobrecida, queria reabastecer seus cofres arruinados e conservar as relações com seus Domínios em uma base de cooperação amigável. O Japão e a Itália estavam francamente a fim da pilhagem. Os Estados Menores só pensavam em aumentar seus territórios e recursos à custa de seus inimigos derrotados. Tais intenções podem ter sido lamentáveis. O ponto é que eram de todo inevitáveis. Se M Clemenceau abandonasse seu esforço em ganhar a Renânia e o Sarre; se insistisse para que poloneses, tchecos e romenos reduzissem suas reivindicações contra a Alemanha, a Áustria e a Hungria a limites estritamente compatíveis com os Quatorze Pontos; se não tivesse tomado providências para o desarmamento desproporcional da Alemanha por um período que pelo menos permitisse aos novos aliados da França consolidarem seu poder e sua independência; se M Clemenceau fizesse ou deixasse de fazer alguma dessas coisas, em poucos dias seria alijado do poder, e seu lugar seria ocupado por um estadista mais sintonizado com o clima que dominava a França. Se Mr Lloyd George tivesse repudiado abertamente suas promessas eleitorais; se tivesse cedido ao Presidente Wilson em assuntos como as pensões de guerra e a frota comercial alemã; se, sobretudo, entrasse abertamente em choque com a Austrália e a África do Sul sobre a repartição das colônias alemãs; se tivesse agido contra o Japão opondo-se a sua reivindicação de Shantung; se também tivesse de enfrentar uma Câmara dos Comuns hostil, teria sido substituído por um estadista de visões mais nitidamente revanchistas. Se o Marquês Sauionji, ou o Signor Orlando, ou M Bratianu, ou M Kramarsh, ou M Pasic, ou M Paderewsky, ou M Venizelos insistissem numa interpretação wilsoniana das exigências dos respectivos eleitorados, imediatamente teriam sido forçados a renunciar, e seus postos logo seriam ocupados por representantes mais em sintonia com os sentimentos nacionais de seus povos. Este fator essencial não pode ser mencionado com muita frequência. Os plenipotenciários das Potências Vitoriosas em Paris representavam uma opinião pública bem informada e até mesmo esclarecida. Para eles, era totalmente impossível contradizer flagrantemente essa opinião. Era totalmente impossível, naqueles primeiros meses de 1919, esboçar um tratado com base numa transposição literal dos Quatorze Pontos. Como já salientei, esta foi a infelicidade fundamental. Mas não há nenhuma razão importante para que essa infelicidade pudesse ter sido tratada de forma a também transformá-la em erro. O erro fundamental da Conferência foi ninguém possuir visão e coragem para lidar com as infelicidades desde o início. A questão deveria ter sido posta, em dezembro de 1918, nos seguintes termos: “Estamos na iminência de nos reunir em Paris para elaborar o Tratado de Paz. Assumimos o compromisso de que os termos desse tratado estarão de acordo com os quatorze pontos. Sucede, porém, que a opinião pública não nos permitirá cumprir esse compromisso. Portanto, devemos adiar o Tratado Final até que a opinião pública mostre mais sanidade. Nossa tarefa imediata é, portanto, montar condições de uma Paz Preliminar que nos permita desmobilizar, levantar o bloqueio e eventualmente negociar com nossos ex-inimigos um tratado de acordo com as condições de sua rendição.” Sei muito bem que tal decisão teria sido extremamente impopulare, na prática, muito difícil de ser adotada. Convém salientar que Mr Lloyd George tomou providências (na prática, mas não ostensivamente) para que se adotasse essa alternativa do adiamento. Tendo deixado a cargo da comissão de reparações a fixação de quanto a Alemanha seria realmente capaz de pagar, tanto satisfazia a opinião interna naquele instante quanto assegurava que a questão das reparações pudesse ser tratada mais adiante pelos técnicos em circunstâncias mais razoáveis e, dessa forma, sem violar o tratado estabelecido. Recebeu muito pouco reconhecimento por esta sábia iniciativa. Mas não foi só isso. Os principais estadistas em Paris, sem excluir o Presidente Wilson, estavam vividamente cientes de que o Tratado em elaboração demandaria uma revisão mais adiante, quando a histeria da guerra estivesse abrandada. Tomaram providências visando a essa revisão. Inseriram na Convenção da Liga das Nações um artigo mui pouco lembrado e muitas vezes esquecido. Ei-lo: ARTIGO XIX “A assembleia pode, de tempos em tempos, recomendar a reconsideração pelos Membros da Liga, de tratados tornados inaplicáveis e a consideração de condições internacionais cuja permanência possa pôr em perigo a paz mundial.” O cínico, ao ler este artigo nos dias atuais, ao refletir sobre como a regra da “unanimidade” no passado bloqueou, em Genebra, todas as iniciativas audaciosas como esta, pode sorrir amargamente e condenar esse artigo simplesmente como mais uma daquelas teias de “exegeses jesuíticas” com que a Conferência de Paris envolveu o fracasso do Tratado que produziu. Não estou certo de que seria histórica ou presentemente correto desprezar o artigo XIX de forma tão radical. Pelo ângulo histórico, pelo ângulo de como as decisões terminaram tomadas em Paris, o artigo foi extremamente importante. Pelo fim de fevereiro, abandonávamos qualquer esperança de celebrar uma paz wilsoniana naquele ano angustiado de 1919. É impossível estimar quantas decisões foram acatadas, a frequência com que obstruções foram retiradas e erros foram tolerados à sombra do abençoado artigo XIX. “Bem,” podíamos ser levados a pensar, “essa decisão parece insensata e injusta. Mas é melhor aceitá-la do que atrasar o Tratado por mais alguns dias. Total, sua falta de visão logo será visível mesmo para os que hoje a defendem. Quando chegar esse dia, podemos recorrer ao artigo XIX.” Estou convencido de que, na verdade, em sua consciência, o Presidente Wilson justificava todos os seus recuos com o pensamento de que “o Covenant corrigirá.” Ainda hoje em dia, o artigo XIX tem e terá sua aplicabilidade. Mesmo os que não acreditam mais que a Assembleia da Liga sempre será desejosa e capaz impor seu ponto de vista às Grandes Potências, devem concordar que é conveniente dispor desse artigo como instrumento de revisão do Tratado quando essa revisão for aceita pelas próprias Potências interessadas. Seria conveniente, pelo menos, contar com o mecanismo oferecido por esse artigo a fim de rever certas disposições do Tratado de Versalhes, sem afetar a validade do conjunto. Reciprocamente, o artigo proporciona argumento útil para contrapor às alegações dos que afirmam que o Tratado é uma unidade integral e que nenhuma parte pode ser atacada sem destruir toda sua estrutura. Chego a ver que uma certa dualidade de propósitos era inerente à Conferência de 1918-1919. Vejo mesmo que reconhecer essa dualidade na época teria sido difícil e até mesmo odioso. Chego a admitir que Mr Lloyd George e Mr Wilson na verdade viam na Comissão de Reparações, assim como no artigo XIX, uma via de escape para suas infelicidades. Porém, embora vendo essas coisas, permaneço com o dedo acusador em riste. Apontando para isso. Apontando para o fato inegável de que eles não enfrentaram desde o início esta dualidade essencial de propósitos. A consequência foi a mistura de improviso com acomodação. Pelo infeliz colapso entre essas duas banquetas de apoio, os americanos são menos culpados do que as Potências Associadas. Estas tinham se comprometido antecipadamente a aceitar os princípios proclamados por Wilson. Aqueles, desde os primeiros dias da conferência, ficaram enfraquecidos por acontecimentos internos. “A Delegação americana,” assinala o coronel House, “não está em posição de atuar plenamente. As eleições de novembro passado nos Estados Unidos constituíram um restringente à livre atuação de nossos delegados.” Lembrado seja, é verdade, que durante todo o desenrolar da Conferência o Presidente Wilson e sua equipe não puderam contar com o apoio do congresso nem da opinião pública em seu país. Quando eclodiu a crise essencial em Paris, Mr Wilson só poderia ter triunfado tirando do poder Mr Lloyd George e M Clemenceau. Teria o apoio de seu próprio país em tal intransigência? Certamente não. Foi a percepção de que o Presidente na verdade não possuia poder político – distinto do poder físico – para levar adiante as conclusões lógicas de sua própria política o que destruiu sua autoridade em Paris e permitiu que outros estadistas extraíssem dele concessões que ele profundamente desaprovava. Qual foi a alavanca que lhes permitiu deslocar aquele homem cimentado de sua posição inicial? Foi a seguinte. Eles sabiam que, em fevereiro de 1919, o Presidente Wilson não representava a América. Sabiam também que ele preferia morrer (e morreu afinal) a admitir esse fato. Sabiam que sua crença na democracia era a convicção mais profundamente enraizada em sua alma sensível. Também sabiam que – para os propósitos imediatos, bem distintos dos derradeiros – democracia era uma burla. Sabiam que Mr Wilson jamais encararia o fato de que o seu próprio povo americano o abandonara. Sabiam que, para disfarçar o fato a si mesmo, se submeteria a qualquer humilhação. Sabiam que a única maneira de lidar com Mr Wilson era ameaçar desmascará-lo, recuando em seguida. A vaidade e o egoísmo de Mr Wilson devem, é óbvio, ser reconhecidos, mas não passavam de fiapos de palha na correnteza profunda de sua fé. Foi sua fé que eles exploraram. Sua fé no Povo e em Deus. Sabiam que para ele seria insuportável reconhecer que nenhuma destas duas ilusões desempenhava qualquer papel na Conferência de Paz. O Presidente Wilson não foi destruído por seus defeitos, mas por suas virtudes. Mas o que tem tudo isso a ver com os Erros – claramente distintos das Infelicidades – cometidos durante a Conferência de Paz de Paris? Tem muito a ver. É difícil resistir à impressão de que os estadistas europeus sabiam muito bem que o Presidente, devido à teocracia mística que o caracterizava, estava numa posição falsa. É difícil resistir à impressão de que eles queriam ganhar tempo até que a falsidade dessa posição viesse à tona. É difícil resistir à impressão de desejarem que o Presidente “absorvesse a atmosfera de guerra” antes de ditar as disposições para a paz. É difícil resistir à impressão de que retardaram deliberadamente o enfrentamento com o Presidente até que ele perdesse sua frente. Da parte deles, essa decisão não foi tão perversa quanto foi tola. Deviam ter concluído que não havia meio-termo entre uma paz Wilsoniana e uma paz Cartaginesa. Deviam ter concluído que qualquer delas seria melhor do que um meio-termo hipócrita. Diante dessas conclusões, deviam ter organizado toda a Conferência sobre uma base maior de realidade. Permitam-me exemplificar essa irrealidade – o charco de imprecisões sobre o qual repousou toda a estrutura da Conferência – citando dois fenômenos curiosos. O primeiro é o fato de que, até o último momento, os Plenipotenciáriosnão sabiam se a Paz que negociavam era preliminar ou final, se era imposta ou negociada. O segundo foi a ausência, na verdade a rejeição, de qualquer programa definido. Esses dois erros parecerão inexplicáveis aos que, no futuro, estudarem a questão. Mas de fato aconteceram. Seria de pressupor que, por mais ansiosos que os estadistas europeus estivessem por retardar as decisões essenciais até que Mr Wilson se familiarizasse com a atmosfera menos límpida do Velho Mundo, havia dois pontos vitais de procedimentos sobre os quais deveriam ser claros e unidos desde o começo. O primeiro é se o Tratado devia ser preliminar ou final. O segundo é se devia ser imposto ou negociado, ou, em outras palavras, se, no último instante, o inimigo seria autorizado a comparecer e a se pronunciar na Conferência, ou se seria impedido de participar das discussões do início ao fim. É estranho mas indiscutível o fato de nenhum destes dois importantes pontos relacionados com o mecanismo de funcionamento tivesse sido discutido e resolvido nas fases iniciais da Conferência. Durante janeiro, fevereiro e a primeira metade de março – portanto um período de mais de dez semanas – os dirigentes mundiais ignoraram totalmente se o Tratado que discutiam devia ser imposto ou negociado. Parece realmente estranho que esta consideração essencial não fosse analisada desde o começo e decidida de imediato. Mas a verdade é que o problema foi mantido na gaveta durante todo aquele período como algo muito doloroso para se levantar imediatamente, como questão que se resolveria por si mesma. A ideia original sem dúvida era haver um Tratado preliminar, cujos termos seriam acertados antecipadamente entre as Potências vitoriosas. Este tratado, que seria imposto ao inimigo derrotado, conteria unicamente os termos do desarmamento terrestre e naval, assim como as linhas principais do futuro acordo territorial. Todos os demais pormenores seriam definidos em um “Congresso” subsequente no qual o inimigo teria representação e ocasião para apresentar contrapropostas. Mais tarde foi sugerida a elaboração pela Conferência de um “Ato Geral” englobando os pontos fundamentais de todos os Tratados de Paz com os quatro países inimigos. Já em março de 1919 o Presidente Wilson continuava indeciso se desejava um Tratado Preliminar ou Final. Mr Lansing e os juristas lhe asseguraram que mesmo um tratado preliminar teria que ser ratificado pelo Senado, deixando-o temeroso de que os senadores se apegassem a essa prerrogativa de ratificação para recusar a subsequente Convenção da Liga. “Diante desta declaração,” salienta Mr Lansing, “o Presidente ficou visivelmente muito perturbado.” Durante o afastamento de Mr Wilson, que viajou para os Estados Unidos, foi levantada a ideia de um tratado preliminar ser redigido e assinado sob a forma de um “Armistício Final.” Em 22 de fevereiro ficou decidido que os itens principais de tal Armistício deviam ser elaborados antes do regresso do Presidente, e os assessores militar e naval do Conselho foram instruídos a prepará-los imediatamente. Mas quando essas cláusulas foram finalmente redigidas e aprovadas, o Presidente já regressara a Paris. Foi quando se constatou que os tópicos territoriais e alguns outros, durante esse período, tinham progredido a ponto de, com pequenos acertos adicionais, também poderem ser incluídos no Tratado de Paz. A teoria toda de uma Paz Preliminar foi, como por acaso, abandonada. Essa hesitação entre o conceito de um Tratado Preliminar e um Tratado Final guarda relação direta com o problema da representação inimiga. Até hoje os alemães estão convencidos de que desde o começo era intenção deliberada dos Aliados excluí-los de qualquer parte nas discussões de Paz. Na verdade, esse ponto, como outros de natureza semelhante, ficou girando como um pedacinho de palha nas águas que confluíam à Conferência. Em novembro de 1918, o coronel House reservou cinco lugares no cogitado Congresso para os Representantes da Alemanha. Nessa data e até março era tido como certo por todos que laboravam em Paris, que, tendo os Aliados entrado em acordo entre eles sobre os termos a serem apresentados à Alemanha, o conclave deixaria de ser uma “Conferência” e se transformaria num “Congresso.” Em outras palavras, deveríamos nos voltar para a segunda etapa de nossas tarefas: a discussão sobre os termos do acordo eventual com nossos ex-inimigos e na presença das Potências neutras. Como pôde esta louvável ideia ter sumido de nossa consciência imediata à medida que as semanas passaram? A história se negará a crer que “nos esquecemos do inimigo” e nos atribuirá motivos e um nível de consciência dos fatos que certamente não tínhamos naquela ocasião. É difícil explicar a exclusão de nossos inimigos da discussão, exceto em condições que parecerão inacreditáveis ou pelo menos forçadas. Mas acredito firmemente que os estágios pelos quais a necessidade de consultar nossos inimigos se diluiu no fundo de nossas mentes são os que comento adiante. Subconscientemente pensávamos em termos de uma “Conferência de Aliados,” seguida por um “Congresso” com participação de todos os beligerantes e neutros. O primeiro conceito se identificava com a expressão “Tratado Preliminar,” e a segunda tomou a descrição de “Tratado Final.” O “Tratado Preliminar” seria imposto pela força ao inimigo derrotado, e o “Tratado Final” seria uma questão de negociação mundial e aceitação mundial. À medida que a Conferência progrediu, mais e mais os Comitês técnicos produziram recomendações sob a forma de artigos prontos para serem imediatamente introduzidos num documento final – o conceito de um Tratado Preliminar fundiu-se gradualmente com o de um Tratado Final cobrindo o todo. Sempre se presumira que os artigos essenciais – como os que regulavam o desarmamento alemão e as principais cessões territoriais – fariam parte do Tratado Preliminar e, portanto, não seriam negociados, mas impostos. Também se supunha que os talvez chamados artigos secundários – especialmente as cláusulas econômicas, se não também as financeiras – seriam objeto de discussão. Porém, quando o Tratado Preliminar foi abandonado e substituído pelo Tratado Final, este herdou do anterior a ideia original de imposição versus negociação. E tudo isto aconteceu antes que muitos de nós percebêssemos exatamente o que ocorrera. Não sustento que deslizamos da negociação para a imposição num acesso de completa inconsciência. Obviamente, houve certos fatores deliberados que nos impeliram para essa decisão. Em primeiro lugar, a insistência do Presidente Wilson para que, de alguma forma, se incluísse o Covenant em qualquer forma de Tratado, atrasou nossas deliberações além do momento em que um Tratado Preliminar era sensato ou necessário. Em segundo lugar, as ausências do Presidente e de Mr Lloyd George, ao lado da tentativa de assassinato de M Clemenceau, geraram, em instante crucial, a suspensão da direção suprema da Conferência e um acúmulo de material que ficou pronto nesse período. Em terceiro lugar, o marechal Foch temia que a conclusão do Tratado Preliminar levasse a uma desmobilização ainda mais rápida por parte da Inglaterra e dos Estados Unidos, após a qual haveria pouca esperança de negociar qualquer paz. E em quarto lugar, os agudos desentendimentos que, naquelas semanas, cresceram entre os próprios Aliados, criaram uma sensação próxima do terror de que a presença de um elemento tão desagregador quanto nossos ex-inimigos nos divididos conselhos da Europa provocasse uma desintegração ainda mais alarmante. De qualquermodo, permanece o fato de que, ao longo dos estágios iniciais da Conferência, as Potências diretoras jamais deixaram constar se o Tratado em fase de elaboração era um texto final a ser imposto à Alemanha ou uma simples base de um acordo entre os Aliados para uma eventual negociação com a Alemanha num Congresso final. Essa omissão por parte delas foi muito séria e não foi, exceto por Mr Keynes, suficientemente frisada. Muitos parágrafos do Tratado, particularmente nas seções econômicas, na verdade foram inseridos como maximum statements, como para providenciar que, no Congresso Final, houvesse um certo grau de concessão à Alemanha. Esse Congresso nunca se concretizou, e as derradeiras semanas da Conferência voaram por nós como um pesadelo histérico. Aqueles maximum statements permaneceram inalterados e finalmente foram impostos como um ultimato. Se desde o começo se soubesse que nenhuma negociação com o inimigo viria a ocorrer, certamente muitas das cláusulas do tratado, consideradas menos razoáveis, nunca teriam sido introduzidas. Até este ponto apontei os dois erros fundamentais cometidos pelos responsáveis pela abertura e condução da Conferência de Paz de Paris. Defendi que a falha em reconhecer a dualidade de propósitos deixou a conferência, desde o início, em posição equivocada e, ao fim, levou a excessiva falsidade. Também defendi que a falha em decidir desde o começo se a Paz seria Preliminar ou Final, negociada ou imposta, foi causa de muitas confusões, incompreensões e injustiças posteriores. Os erros menores de organização que retardaram os trabalhos da Conferência serão comentados em capítulos mais adiante, à medida que surgirem. Resta discutir neste capítulo aquele que foi o maior e realmente fundamental erro na organização inicial. Devo apreciar agora essa omissão da Conferência em estabelecer com antecedência seu programa de trabalho. Já aludi à opinião de Sir Ernest Satow a respeito da necessidade de um programa rígido. Esta exigência se fazia mais premente tratando-se de uma conferência em que os principais dirigentes desde o início se confrontaram com uma dualidade, para não dizer divergência, de propósitos. O observador cínico pode concluir que eles premeditadamente desejavam gastar um mês ou dois para rodear os volteios wilsonianos. Não excluo essa possibilidade, mas detesto ter de admiti-la. Prefiro imaginar que, como acontece com muitas das questões que dependem de nossos governantes, estávamos à mercê dos improvisos. Os membros do Supremo Conselho de Guerra tinham adquirido o hábito de deixar a iniciativa com os alemães ou com o marechal Foch. Tinham aprendido que a marcha dos acontecimentos, ou talvez a marcha dos alemães, era um fator mais determinante que qualquer dos planos elaborados que foram postos diante deles. Desconfiavam de todos os planos escritos. Não surpreende que, quando os membros do Supremo Conselho de Guerra se transformaram, no breve espaço de dois dias, em Supremo Conselho de Paz, esse hábito de improvisar, essa aversão à iniciativa, esta preferência por considerar eventos que já ocorreram em vez de se preocupar com os que podem ocorrer ou deixar de ocorrer no futuro se transformaram na essência de seu pensamento. Tanta coisa que esperavam nunca aconteceu. Tanta coisa que seus assessores jamais os aconselharam a esperar, aconteceu. Surpreende o fato de terem se atemorizado com o esperado, o aconselhado, o previsto? Não, não surpreende. Na verdade, os franceses tinham preparado um programa que foi entregue ao Presidente Wilson pelo embaixador francês em Washington, M Jusserand, em 29 de novembro. Apresentava, em primeiro lugar, um elenco de condições preliminares que deveriam ser impostas ao inimigo sem discussão. Em segundo lugar, previa um subsequente Congresso no qual estariam representados tanto os países inimigos quanto os neutros. Propunha, em terceiro lugar, um calendário a ser seguido pelo Conselho Supremo para discutir inicialmente as questões urgentes, deixando as menos urgentes para deliberação posterior. Mais importante que tudo, tratava da revogação imediata de todos os Tratados secretos. Apesar de todas estas propostas serem de todo pertinentes, o programa apresentado por M Jusserand não era um documento feito com tato. Falava da “Federalização” (isto é, desintegração) da Alemanha. Propunha que o destino do Império Otomano fosse decidido exclusivamente pelas Grandes Potências. E se referia em termos realistas demais para serem elogiosos à ideia da Liga das Nações e aos Pontos, Princípios e Detalhamentos de Mr Wilson. “Aqueles princípios do Presidente Wilson” – assim dizia o documento – “que em sua essência não são suficientes para se adotarem como base de um acordo sólido (...) retomarão sua plena força na questão do futuro acordo de direito público, e isso afastará uma das dificuldades que poderiam obstruir os aliados.” “As quatorze proposições” – assim continuava esse documento sincero mas nada conciliatório – “que são princípios de direito público, não podem proporcionar uma base concreta para os trabalhos da Conferência.” Isto pelo menos era inteligente, honesto e franco. Mas não agradou ao Presidente. O programa francês foi parar em seus arquivos menos consultados. “A grande falha dos líderes políticos,” escreve o coronel House, “foi não terem preparado um programa de trabalho.” M Tardieu, por seu lado, lança o ônus dessa falha no temperamento anglo-saxônico. Atribui a rejeição do programa francês à nossa aversão congênita à precisão lógica do pensamento latino. Pode ser que esteja certo. Acho que está. Mas permanece o fato de tanto Mr Wilson (diante das ásperas definições do memorando de Jusserand) quanto Mr Lloyd George (tendo em vista sua espantosa predileção pelo inesperado), além de ficarem contrariados, terem rejeitado qualquer formulação escrita que fixasse o que, como e quando deviam discutir. As consequências dessa tendência de ambos foram deploráveis ao extremo. 5 Desorganização SEM ME PREOCUPAR, NO MOMENTO, COM ERROS E COM INFELICIDADES, durante os primeiros pouco dias da Conferência, encontrei tempo para sair caçando sozinho. Meu trabalho preparatório estava pronto, e pouco mais podia aprender de livros, mapas ou estatísticas. Resolvi que o tempo disponível até meus serviços serem solicitados seria mais bem aproveitado estabelecendo contato com meus colegas dos Estados Unidos. Farejei como um spaniel no campo, decididamente ativo e ativamente decidido. Não recebera qualquer orientação de meus superiores; raramente recebi. Cacei com satisfação, esperando ouvir o apito que me chamaria para junto dos calcanhares do dono. Fui inspirado e ajudado nesse ótimo passatempo por Mr Allen Leeper, um colega próximo na seção da Delegação Britânica encarregada da Europa Central e do Sudeste. Na ocasião, Mr Leeper ainda não era membro regular do Foreign Office, mas se juntara a nós por canais tortuosos como o British Museum, o escritório de imprensa de Mr George Mair, mais tarde Ministro de Informações. Nascido na Austrália, era capaz de abordar nossos problemas por um ângulo antípoda ao insular. Formado em Balliol, aprendera que o conhecimento tem pequena valia a não ser quando interpretado com a necessária compreensão, e que a inteligência não passa de mero adorno se não produzir ações criativas. Sem jamais ter sofrido a rotina de um grande órgão governamental, seus olhos não se ofuscavam com a poeira dos arquivos do serviço civil.Sendo um cidadão do Novo Mundo, podia encarar o Velho com o sabor romântico de um estudante em sua primeira visita ao Partenon. Sem ter sido submetido aos embaraços característicos da educação em public schools inglesas, nunca lhe ocorria que, entre nós, uma dedicação exagerada ao trabalho poderia ser mal interpretada. Era homem de nobres ideais, movido pelo mais puro wilsonismo e por alguma ambição filológica, com uma saúde irregular, dotado de energia infatigável e uma curiosidade desabrida. Não escondia o fato de realmente querer saber o que Také Ionescu pensava sobre o Banat. Queria, muito sinceramente, saber se o rei Nikita de Montenegro (vivendo no exílio, no Hotel Meurice, indignado e subsidiado) era realmente tão terrível quanto todos nós supúnhamos. Porém, o mais importante foi ter chagado à conclusão de que nossa tarefa mais útil era estabelecer relações de confiança e entendimento mútuo com os membros correspondentes a nós na Missão Americana. Nessa louvável tarefa foi beneficiado por uma circunstância casual, o fato de Mr Rhys Carpenter, integrante da Missão Americana para Negociar a Paz, ter sido seu colega em Balliol. Mr Carpenter, que mais tarde veio a ser Diretor da Escola Americana em Atenas, era, acima de tudo, um scholar. Ciciava palavras em grego à medida que lhe ocorriam. Era um homem tímido e agradável. Para nós sua ajuda teve valor inestimável, aplainando o caminho para lidarmos com os tímidos, os desconfiados, os esclarecidos, os afáveis, os assustadíssimos, os muitas vezes desarticulados, os algumas vezes lentos de raciocínio, os invariavelmente atentos, os realmente notáveis sábios do grupo de trabalho “Inquiry” do coronel House. Por seu intermédio fui apresentado, logo nos primeiros dias, ao Dr Charles Seymour, ao Dr Lybyer e ao Dr Clive Day. Mr Allen Dulles, com o qual em etapas posteriores da Conferência mantive duradoura e harmoniosa cooperação, se não me engano chegou um pouco mais tarde. Comparamos nossas anotações. Nossas opiniões a respeito de cada um dos assuntos em nossa órbita se revelaram idênticas. A nós parecia que elaborar os contornos da paz seria uma tarefa rápida, cordial e amplamente justa. Eu não era ingênuo a ponto de achar que os membros da Delegação dos Estados Unidos teriam permissão para uma aberta associação com seus correspondentes ingleses. Para dizer a verdade, achava que qualquer identidade de opinião muito ostensiva entre os anglo-saxões seria malvista pelos colegas de outras nacionalidades. Eu estava interessado apenas nos acordos secretos alcançados em sigilo. Nossa identidade de opiniões foi realmente extraordinária. Onde antes eram os cabinets particuliers do Maxim’s, foi preparada uma “hipótese anglo-americana” em que houve concordância em torno de todas as fronteiras da Iugoslávia, da Tchecoslováquia, da Romênia, da Áustria e da Hungria. Na Europa, só houve algumas divergências no que se referia à Grécia, à Albânia, à Bulgária e à Turquia. Mesmo nestes casos, divergência em detalhes, raramente em princípios. É verdade que, nas semanas seguintes, esse acordo não oficial nem sempre foi observado. Em alguns aspectos, ampliei minhas exigências, e, em outros, eles recuaram em suas concessões. Durante toda a duração da Conferência nos sentíamos obrigados a discutir outra vez questões que julgávamos já estarem assentadas entre nós. Mas nunca foi abandonada a disposição para discussão franca e direta entre as delegações inglesa e americana estabelecida ao longo daqueles primeiros dias. Mr Ray Stannard Baker pode dizer o que quiser, mas o entendimento entre o Crillon e o Astoria era mais sólido do que entre quaisquer outras duas delegações em Paris. Confesso, claro, que a despeito do otimismo de Rhys Carpenter, nunca conquistei a confiança incondicional dos americanos. Em suas cabeças sempre esteve presente aquela barreira sombria entre o Velho Mundo e o Novo. À medida que a Conferência avançou, nossas relações foram obscurecidas pelas disputas entre nossos respectivos chefes – quidquid delirant reges... Porém, até hoje tenho o maior respeito pelos membros do “grupo de trabalho” do coronel House, adquirido durante aquelas primeiras discussões na Place de la Concorde. Seu nível de conhecimento era superior ao meu, seu poder infinitamente mais impressionante, seu escopo muito mais amplo. Acontece que eu era um diplomata profissional, e eles, professores de história. Começou a surgir um absurdo conflito de vaidades, pouco antes de a confiança mútua e a franqueza iniciais que nutríamos perder parte de seu frescor matinal. Nós, do Majestic, ficávamos impacientes com suas significativas hesitações, irritados com sua sensibilidade pela falsidade da posição que defendiam. Ficávamos nos debatendo num brejo de tratados secretos e esperando que eles nos salvassem. Permaneciam na margem, admitindo, sempre simpáticos, que o brejo era um negócio incômodo e imundo. Eles, do Crillon, sentiam-se desanimados e confusos com a agitação e a barulheira do funcionamento da Conferência. Estavam decididos a não se deixar enganar pela diabólica astúcia da Velha Diplomacia, vendo malícia onde não existia. À medida que brotou neles (e em nós) a ideia de que a América estava pedindo à Europa para fazer sacrifícios vitais, em nome de um ideal que a própria América era a primeira a trair, um desconforto irremediável tomou conta de todos nós. A terrível suspeita de que o povo americano não honraria a assinatura de seus próprios delegados nunca foi mencionada entre nós, mas pairou como um fantasma turvando todos os nossos banquetes. Porém se a colaboração que mantivemos nos primeiros dias com a Missão Americana fosse preservada com consistência e sinceridade de propósitos, se tivesse sido encarada como sólida base para nossos procedimentos, os Tratados de Paz certamente teriam sido desfigurados por menos erros. Quando para trás, de tudo este é o ponto que mais lamento. Já declarei que a organização interna da Delegação Inglesa era uma obra- prima de precisão e tranquilidade. Até onde é possível a criatividade humana prover, em condições de extrema mobilidade e que variavam constantemente, a máquina montada por Mr Parker e dirigida por Sir Maurice Hankey foi um trinfo de eficiência administrativa e previsão. Poderia servir de modelo para qualquer organização futura de semelhante magnitude. É com essa disposição de espírito que aponto, como crítica, os aspectos em que este mecanismo, tão notável no papel, se mostrou inadequado para mitigar as fraquezas da natureza humana. A falta de um programa rígido para o desenrolar da conferência e o longo atraso na criação dos comitês técnicos tornou inevitável que os membros mais competentes da delegação ficassem inativos nas fases iniciais. Mesmo compreendendo essa talvez inevitável circunstância, permanece o fato de que, desde o começo, a Delegação se voltou para determinados setores fortuitos, e estes, à medida que se tornou irresistível a pressão da sobrecarga de trabalho, tenderam a se cristalizar em compartimentos estanques. Esses setores, como já disse, em grande parte, mas não totalmente, eram acidentais. Nesses assuntos, Mr Lloyd George confiava em Sir Maurice Hankey. Mr Balfour confiava quase totalmente em Sir Eyre Crowe. Era natural que este último escolhesse para seus assistentes os membros do Foreign Office com quem trabalhara em íntimo contato durante a guerra. O tempo era muito curto, e os riscos muito altos para fazer experiências com pessoal. Daí, a seção do Foreign Officerecebeu, desde o começo, um destaque talvez indevido, assim como uma exagerada carga de trabalho. A seção militar, que incluía homens de reconhecida competência como o general Thwaites, o coronel Cornwall, o coronel Meinertzhagen, o coronel Heywood, o coronel Kisch e o professor Webster, viu seus membros praticamente excluídos de nossas deliberações nas fases iniciais. Convém reconhecer que influiu para essa discriminação uma certa dose de ciúme ministerial e profissional. Foi um fator lamentável, e o professor Webster tem toda razão quando a ele se refere em sua contribuição para a sóbria narrativa do professor Temperley. Em grande parte, a falta de coordenação entre as diversas seções da Delegação resultou de real falta de tempo. Mas, em certa dose, também se deveu ao componente da rivalidade, a um temor, lamentável mas característico do ser humano, de que consultar detalhadamente outros especialistas geraria não apenas um aumento de trabalho, mas também o risco de uns começarem a invadir a seara dos outros. Claro que, teoricamente, a coordenação foi mantida pela circulação constante no Astoria de minutas e memorandos de todos os comitês e seções, bem como dos procès verbaux do Conselho Supremo. Na prática, entretanto, havia pouco tempo para estudar esses alentados documentos, e nem seria bem recebido o membro de uma seção interferir nas preocupações de outra simplesmente porque tivera em suas mãos um documento com o qual discordava. Ciumeira semelhante impediu ligações harmoniosas entre a Delegação e a Embaixada em Paris. É bem verdade que não havia tempo para muitas consultas. Como também é verdade que não havia muita vontade. Não quero exagerar esse aspecto da coordenação falha. Obviamente, as relações entre as diferentes seções do Astoria eram amistosas e até certo ponto corteses. Evidentemente, também, durante aquelas intermináveis refeições no Majestic, se conseguia muita intercomunicação detalhada. Só me refiro a esse componente de rivalidade pessoal e ministerial porque na verdade constitui um obstáculo à perfeita coordenação e porque é algo inerente a qualquer organização que englobe seções recrutadas de diferentes serviços e departamentos. É um fator contra o qual os participantes de qualquer Congresso futuro devem se precaver, ou, pelo menos, a ter em mente. Entretanto, tais falhas assinaladas na coordenação entre as diversas seções da Delegação nada foram comparadas aos métodos de coordenação inteiramente aleatórios praticados entre os Plenipotenciários e a Delegação como um todo. Raramente nos diziam o que fazer. Nunca nos disseram o que faziam nossos chefes. No começo da Conferência, isso foi totalmente inevitável. Em primeiro lugar, eles não dispunham de tempo para nos orientar sobre suas políticas. Em segundo lugar, eles próprios não sabiam quais eram essas políticas. Por fim, em terceiro lugar, se as soubessem teriam tomado muito cuidado para não as revelar com antecedência. Mas também não posso afirmar que meu trabalho na seção política tivesse sido, de algum modo, atrapalhado por desconhecer nossos principais objetivos. Parti do princípio de que o necessário era um acordo territorial tão compatível quanto possível com o princípio da necessidade nacional e econômica de um país. Presumi também que essa exigência estava, dentro de limites razoáveis, subordinada à necessidade de evitar qualquer brecha séria com os Estados Unidos ou a França. Observados esses limites, eu ficava inteiramente feliz remando meu esquife sem instruções específicas. Mas em outras seções da Delegação esta falta de coordenação entre os plenipotenciários e os especialistas foi bastante nociva. Gerava os compartimentos estanques, impedia a definição de responsabilidade, permitia a superposição e, em casos extremos, provocava uma completa divergência de intenção. A seção econômica, por exemplo, trabalhava intensamente para mostrar que era impossível à Alemanha pagar as enormes somas que a seção de reparações, com igual empenho, se preparava para extrair. Em consequência, só no derradeiro instante nossos Plenipotenciários puderam ter uma visão conjunta do tratado. Só então puderam perceber que, no seu todo, os termos estavam muito mais cartagineses do que desejavam ou supunham. Nas fases posteriores da Conferência, Mr Balfour passou a fazer uma reunião matinal em que os chefes das diferentes seções apresentavam relatórios e obtinham orientação para o trabalho diário. A experiência colhida do valor dessas breves reuniões aumenta meu pesar por tal sistema não ter sido adotado nas etapas iniciais. Como exemplo, o fato de o tratado com a Bulgária ser mais objetivo do que o referente à Alemanha se deve em grande parte à contínua discussão de suas linhas principais, sob a direção de Mr Balfour, pelos responsáveis por sua redação nas diversas seções. Nenhuma coordenação ou discussão técnica dessa natureza precedeu a elaboração do Tratado de Versalhes. Era igualmente fortuita e aleatória a distribuição aos diversos especialistas dos diferentes assuntos que lhes cabiam. Eu próprio, por exemplo, me especializara por dez anos em questões dos Bálcãs e do sudeste da Europa e, mesmo assim, fui designado para o Comitê de Fronteiras da Tchecoslováquia, assunto para o qual estava totalmente despreparado. Em fase posterior, tive de me ocupar com os destinos da Turquia europeia e da asiática, matéria que certamente deveria ter sido atribuída às mãos mais competentes de Mr Arnold Toynbee. Também não sei dizer bem até hoje como foi que me vi envolvido tão profundamente com as reivindicações da Itália no Adriático ou com as compensações na Ásia Menor com as quais pensávamos subornar esse sôfrego país a moderar suas ambições. Essas coisas simplesmente “aconteceram.” Subitamente, um servidor podia se tornar necessário, conveniente e disponível. Mr Lloyd George não gostava muito de “caras novas.” Mr Balfour gostava de gente que sabia redigir rapidamente as resoluções. Foi devido a tais causas aleatórias que me foi atribuído um trabalho acima de minha capacidade e um grau de responsabilidade totalmente incompatível com minha experiência e minha idade. Coisas dessas não podiam ter acontecido. Mais importante e mais destrutivo do que quaisquer defeitos na organização ou nos procedimentos internos da Delegação Britânica foi a inadequação estrutural da Conferência propriamente dita. Já chamei a atenção para a lamentável consequência da rejeição pelo Presidente Wilson das propostas francesas de 29 de novembro. M Clemenceau parece ter-se desencorajado em demasia por essa rejeição e não fez nenhuma nova tentativa para trocar o programa que propôs por outro de palavras menos cruamente realistas. Será difícil para um historiador explicar no futuro a natureza tentativa da Conferência nas fases iniciais, e ele inevitavelmente será tentado a atribuir importância exagerada à ideia (que existia, mas não era predominante) de que as Potências Europeias “manobravam por posição” contra os Estados Unidos. É inegável, e não considero vergonhoso, que os líderes da Conferência desejassem evitar se comprometer com qualquer matéria vital antes de testarem o Presidente Wilson em assuntos de menor importância e se certificarem de que a interpretação dos Quatorze Pontos por House realmente correspondia à do Presidente. Mas a verdadeira essência da desorganização da Conferência deve ser procurada em outras direções. Para começar, o Conselho Supremo da Conferência herdara ostatus do Conselho Supremo de Guerra e com ele o método de pensamento. Como já salientei, seus membros haviam adquirido o hábito de supor que sua agenda seria imposta pelos acontecimentos, e não gerada por processos de sua própria antevisão e escolha. Um bom exemplo desse método de abordagem está nas relações com as Potências Menores. Concluíram, com toda propriedade, que discussões entre todos os vinte e sete estados representados em Paris degeneraria em uma farsa. Viram, desde o começo, que as Cinco Grandes Potências teriam que constituir seu “Conselho dos Dez,” representando o poder de doze milhões de soldados e marinheiros bem armados. Constataram que as Potências Menores teriam de ser, por esta razão, excluídas da direção da Conferência. Reconheceram o fato de que essas Potências Menores se melindrariam com tal exclusão. Em consequência, decidiram que algo teria de ser feito para satisfazer não apenas o sentimento pessoal dos Representantes menores na Conferência, mas também as expectativas nacionalistas dos respectivos legislativos e eleitorados. Assim, desde o início, foi necessário imaginar um método que permitisse aos delegados das Potências Menores aparentarem estar realmente tendo alguma influência nas deliberações do Conselho Supremo. Esse mecanismo funcionou de duas maneiras. Em primeiro lugar, foi pedido aos delegados desses estados menores e estados sucessores que declarassem por escrito o que desejavam obter do Tratado de Paz. Em segundo lugar, cada um desses delegados foi convidado para expor oralmente ante o Conselho Supremo os argumentos em que se baseavam suas reivindicações. Isso ocasionou perda de tempo e falsificação de proporções. De fato, houve quatorze dessas “audiências” somente em fevereiro, cada uma durando muitas horas. Inevitavelmente, também, as Potências Menores apresentaram memorandos de reivindicações que excediam de muito suas reais expectativas. Ao exporem suas pretensões oralmente diante do Conselho, apenas repetiram o que já estava em suas Declarações escritas e minaram o poder de resistência que os idosos senhores do Conselho podiam apresentar no salão quente e abafado. Essa perda inicial de tempo e energia é um ponto para o qual o historiador deve dirigir sua atenção. Deu os membros do Conselho Supremo a sensação de realizarem um trabalho valioso e produtivo, mas, na verdade, estavam apenas submetidos, com variados graus de cortesia, a um exaustivo e desnecessário embuste. Esse método particular, essa fase de improvisação, teve consequências além da simples perda de tempo. Tomando como seu ponto de partida as “reivindicações” dos estados menores e de estados sucessores, desde o começo o Conselho dos Dez falseou o foco de sua atenção. Permitindo que a Grécia, a Iugoslávia, a Tchecoslováquia e os outros estados menores abrissem a Conferência com uma declaração de suas pretensões, introduziu nas etapas iniciais da Conferência o problema da Áustria, da Hungria, da Bulgária e da Turquia. O programa óbvio seria abordar sucessivamente cada tratado de paz, tratando os ex-inimigos pela ordem de importância. Assim, devíamos concentrar-nos (1) no Tratado com a Alemanha, (2) no Tratado com a Áustria, (3) no Tratado com a Hungria, (4) no Tratado com a Turquia e (5) no Tratado com a Bulgária. Mas em consequência da confusão inicial de representações, os cinco tratados desde o princípio se misturaram. As pretensões de cada uma das Potências Menores incidiam, em variados graus, no território de nossos ex-inimigos. Assim resultou que, desde as primeiras semanas, a Conferência se viu absorvida por intermináveis debates em busca de soluções que só puderam ser postas em prática nos tratados finais. E assim resultou que, em vez de concentrar suas energias e seu trabalho no problema principal que era concluir a paz com a Alemanha, o Conselho Supremo dissipou seus esforços tentando, simultaneamente, chegar a artigos de acerto com nossos adversários menos importantes. Esse erro foi uma das maiores causas de atrasos, confusões, superposições e eventuais improvisos. Essa falha fundamental, é bom repetir, resultou da falta de uma programação pactuada. Desde o começo, as proporções da conferência ficaram viciadas. Também não foi só isso. A circunstância acidental que levou a Conferência a abordar suas questões em termos não de Potências inimigas, mas das respectivas “reivindicações” de estados sucessores e de estados menores, responde por grande parcela das superposições e falhas de coordenação a que aludi anteriormente. Com um comitê central “alemão,” um comitê central “húngaro” e um comitê central “turco,” é possível que esses comitês tivessem sido capazes de tratar a questão com noção mais exata do que, no agregado, estava sendo tirado de nossos ex-inimigos e menos ênfase no que, em cada caso, estava sendo dado aos estados sucessores. Haverá mais a comentar sobre Comitês Territoriais na seção final deste capítulo. No próximo segmento, vou abordar outros aspectos da organização da Conferência de Paz no seu todo. Como já disse, não foi possível evitar que, desde o início, a Conferência fosse dirigida por um Comitê ou Conselho das Cinco Grandes Potências. É de lamentar apenas que essa necessidade essencial não fosse considerada e aceita antes que a Conferência se reunisse. Também foi inevitável que, naquele momento, a Conferência se ocupasse tanto com o que se poderiam chamar assuntos puramente executivos. Essa foi uma causa adicional de sério atraso, mas não consigo ver como poderia ter sido evitada. Havia, em primeiro lugar, o problema russo. Extrapola a finalidade deste livro analisar se o Conselho Supremo agiu inteligentemente com a Rússia durante aqueles meses ou se propostas como a da Conferência de Prinkipo eram equivocadas e impulsivas. Permanece o fato de que a Rússia constituía grave problema a levar em conta desde o começo, e que a questão só poderia ter sido discutida pelos líderes mundiais em reunião conjunta. No entanto, houve outros assuntos de ordem executiva que a Conferência podia perfeitamente ter delegado a algum órgão vinculado, como o Conselho Interaliado de Versalhes. Tais assuntos envolviam as hostilidades que ainda prosseguiam ou ameaçavam na Galícia, em Teschen, na Carinthia, na Polônia e nos Estados Bálticos; a observância de inúmeros armistícios e a renovação do armistício com a Alemanha; a repatriação do exército do general Haller; a continuação do bloqueio e o fornecimento de suprimentos e ajuda aos exércitos das nações ex-inimigas que agora eram nossas aliadas. O tempo do Conselho Supremo foi indevidamente desperdiçado em discussões sobre essas matérias, que eram secundárias a fazer a paz com a Alemanha. Somente em 26 de março M Clemenceau e o Presidente Wilson se deram conta deste fato tão óbvio. Como registrou o coronel House: “Em vez de fazer apenas um esboço do quadro em suas linhas gerais, o estavam desenhando como se fosse uma gravura a água forte.” Esse método de detalhar o quadro durou várias semanas. O fato de a Conferência ser em Paris tornou necessário que M Clemenceau fosse seu chairman e que o Secrétariat Général e o bureau central também ficassem sob direção francesa. Muitas vezes se tem dito que M Clemenceau esteve, como presidente, incontrolável e sem controle; que só despertava de longos períodos de sonolência quando estavam em jogo os interesses da França ou quando surgia oportunidade para intimidar o Representante de alguma Potência menor. A acusação é injusta. Verdade, sim, é que oPresidente da Conferência, por longos períodos de cada vez, cerrava suas pálpebras cor de marfim sob aquelas sobrancelhas surpresas, procuradoras, interrogatórias e céticas. Mas não dormia. É verdade que em certas ocasiões insultou os primeiros-ministros das Potências menos importantes, atacando-os com uma virulência que fazia corar a face de todos os presentes. Porém é igualmente verdade que esse rude mas sensato octogenário demonstrou um alerta mental e uma capacidade de controle que homens menores, diante de personalidades tão preponderantes, teriam hesitado em exercer. Entretanto, não há como negar que M Clemenceau estava mais preocupado em controlar os acontecimentos do que em planejar como os assuntos em discussão deveriam ser ordenados de forma mais objetiva. O controle que exerceu foi mais do que apropriado, fez mais do que simplesmente supervisionar. O defeito foi no planejamento e na aplicação. Essa deficiência por parte do Presidente da Conferência estava refletida na personalidade do Secretário-Geral. Por fatalidade, M Dutasta – homem fraco, confuso, afobado mas não inamistoso – foi escolhido para essa alta posição. Comentou-se que sua indicação se deveu às íntimas relações que tinha com M Clemenceau. Realmente, tudo indica que M Dutasta aguentava deste último desconsideração e insulto em grau muito superior ao que se poderia esperar de pessoa com menor intimidade. Foi uma pena que uma cabeça privilegiada como a de M Philippe Berthelot não estivesse à disposição da Conferência desde seu começo. M Berthelot, nessa ocasião, estava obscurecido pela nuvem que de vez em quando pairava sobre sua Olímpica e luminosa carreira. Estava autorizado a sugerir. Não estava autorizado a organizar. A superior capacidade em matéria organizacional, que vem a ser um subproduto do gênio francês, não se manifestou na Conferência de Paris. A convincente precisão de um Berthelot ou um Massigli ficou reservada para reuniões posteriores. Em Paris, sofremos com a timidez aflita de M Dutasta e a desastrada teimosia de coruja de M Pichon. Os defeitos do Secrétariat Général aos poucos foram sendo remediados pela dedicação e eficiência inglesa de Mr Maurice Hankey, porém, pelas consequências que apontei, causaram grave prejuízo nos estágios iniciais dos trabalhos. Um Secretário realmente brilhante, como Gentz ou Massigli, poderia ter corrigido a falta de um programa pactuado por meio de uma sólida preparação de documentos objetivos para compor a agenda. M Dutasta era muito confuso para adotar iniciativas de tal visão e responsabilidade. Abordava os assuntos em função de sua necessidade no tempo e não por sua real importância. Em consequência, as seis primeiras semanas da Conferência foram desperdiçadas na discussão de “actualités,” em vez de se voltarem para as finalidades vitais que lhe tinham provocado a convocação. Na “tática,” nos detalhes, o trabalho do Secretariado-Geral foi do admirável no mais alto grau. A falta de uma “estratégia secretarial” é que contribuiu para que a Conferência não dispusesse de uma alternativa para o programa que fora rejeitado. Presentemente, a Conferência de Paris é acusada de ignorância e ineficiência. A questão é saber se essa será realmente a principal crítica da posteridade. À medida que os primeiros contrafortes das dificuldades imediatas forem transpostos e ficarem para trás na poeira do tempo, surgirão com mais clareza os picos dos verdadeiros erros cometidos. Tenho a sensação de que o julgamento da posteridade se concentrará não nas falhas da Conferência (que foram relativamente pequenas e já estão sendo corrigidas), mas em sua espantosa hipocrisia. As causas dessa monumental falta de sinceridade foram comentadas em capítulos anteriores. Suas consequências serão abordadas no próximo. Porém, ainda sob o título organização, é necessária uma referência aos métodos extremamente ingênuos, para não dizer hipócritas, utilizados para fugir dos problemas das Potências Menores e da Imprensa. Já ressaltei como o desejo de aliviar o ressentimento até certo ponto artificial das Potências Menores por serem excluídas da direção suprema da Conferência gerou uma deturpação na abordagem das questões e uma consequente confusão entre o principal e o secundário. Passo a comentar, agora, a farsa das Sessões Plenárias. Deram a entender às Potências Menores que as recomendações do Comitê Territorial e de outros comitês da Conferência seriam submetidas a uma Sessão Plenária na qual teriam a oportunidade de expor suas opiniões. Na prática, os representantes daquelas Potências foram inteligentes o bastante para não levar a sério tal promessa. Mas nós, que integrávamos os Comitês, fomos menos céticos. Acreditávamos que nossas recomendações, em instância final, seriam submetidas a algum tipo de discussão derradeira, na qual as partes interessadas teriam oportunidade de se pronunciar. Nem por um instante chegamos a supor que nossas recomendações eram absolutamente finais. Assim, nos dispusemos a aceitar meios-termos e mesmo apoiar decisões que esperávamos ardentemente que, nessa última instância, não fossem aprovadas. Não creio que fosse possível rever as recomendações dos Comitês no Conselho dos Dez, nem no dos Quatro e muito menos no Plenário da Conferência. A revisão de Mr Lloyd George das recomendações do Comitê Polonês, embora totalmente justificada, causou uma explosão. Mas permanece o fato de que deveríamos ter sido informados de que nossas recomendações provavelmente seriam aprovadas sem uma nova discussão, e as Potências Menores deveriam ter sido igualmente esclarecidas que, na prática, os Comitês representariam a instância final de recurso. Mais uma vez uma imprecisão no mecanismo de funcionamento produziu efeitos infelizes. Voltarei a me referir a ela mais tarde. As relações com a imprensa também foram vítimas de uma tímida acomodação de natureza semelhante. Cerca de 500 correspondentes especiais foram destacadoss para Paris com grandes despesas. Desde o começo, protestaram contra o tratamento secreto dispensado aos Covenants negociados. O Conselho Supremo ficou seriamente perturbado com tais protestos. Decidiu que a Imprensa seria admitida em todas as Reuniões Plenárias. Resultou que só foram realizadas seis reuniões plenárias, das quais apenas a que tratou da Convenção da Liga teve um pouco mais que um caráter puramente fictício. A fim de amenizar a indignação dos correspondentes de jornais de seus próprios países, os Plenipotenciários se viram obrigados a fornecer “bombons” de informação por sua conta, levando a acusações mútuas de “vazamento” e a recriminações muito ásperas. Vemos, mais uma vez, o exemplo de um modo covarde de encarar os fatos. A Imprensa deveria ter sido alertada antes da abertura da Conferência de que não valeria a pena enviar correspondentes especiais a Paris. Deveria ter sido informada de que as discussões teriam de ser conduzidas em sigilo, e que apenas communiqués feitos por acordo seriam emitidos para publicação. Há somente duas maneiras de lidar com uma Imprensa democrática. A melhor é lhe dizer tudo, o que a desconcerta ao ponto de fastio. A segunda melhor forma é nada dizer, o que pelo menos lhe confere a glória de realizar a proeza de descobrir o que é “secreto” e vem a ser um modo extremamente gostoso de valorizar a notícia. O pior método é dizer meias-verdades sob a forma de vazamentos destinados a manter o bom relacionamento. Este método ambíguo foi o adotado pela Conferência de Paris. Entre outras, estas foram as falhas de organização que poderiamter sido evitadas com um pouco de previsão. Chamo a atenção para elas por terem relação com as dificuldades que poderão surgir em congressos futuros e para que uma secretaria que venha a ser constituída possa ter a presciência e a determinação necessárias para extrair dos Plenipotenciários uma posição definida sobre os problemas antes que o Congresso realmente se reúna. Passo, agora, à organização dos comitês, que constituem o embasamento do trabalho de qualquer conferência. Vou abordar os Comitês Territoriais, uma vez que foi integrando um deles que colhi mais experiência. O Congresso de Viena, depois de um atraso de dois meses e meio, criou oito comitês. A Conferência de Paris, com igual retardo, organizou cinquenta e oito. Funcionaram por seis meses e realizaram 1.646 reuniões. Suas conclusões foram verificadas por 26 investigações locais e discutidas em 72 reuniões do Conselho dos Dez, em 39 do Conselho dos Cinco e em 145 do Conselho dos Quatro. Extraí estes dados do trabalho de M Tardieu, Truth about the Peace Treaty. São impressionantes. Não questiono sua exatidão. Na prática, porém, os Comitês da conferência não foram tão organizados, tão supervisionados, tão verificados e tão excelentes quanto possa parecer. Em primeiro lugar, ocorreu um atraso desnecessário em sua constituição. É bem verdade que em 25 de janeiro foram criados cinco Comitês para tratar de Culpa pela Guerra e Criminosos de Guerra, de Reparações, de Portos, Vias Navegáveis e Ferrovias, de Mão-de-obra e da Liga das Nações. Mas os Comitês Territoriais só foram plenamente constituídos em fevereiro, e mesmo então sua eficiência foi reduzida pela natureza de sua composição, assim como pelas imprecisões e limitações dos termos de referência recebidos. Esses comitês consistiam de dez delegados, e cada uma das Cinco Grandes Potências tinha dois representantes. Pelo menos um deles era o chamado “expert técnico,” em outras palavras, o indivíduo que, supostamente, tinha se especializado na área particular que constituía o objeto do trabalho do Comitê. O termo “expert” tem sido atacado porque, em muitos casos, esses infelizes especialistas tinham pouco ou nenhum conhecimento em primeira mão sobre os países cujo destino lhes cabia definir. Não acho que essa linha de crítica seja plenamente justificável. Por um lado, tivemos a oportunidade de consultar gente que passara a vida inteira nos países que estávamos reagrupando, ou tinham dedicado anos de estudo aos problemas que éramos chamados a resolver. Allen Leeper e eu, por exemplo, nunca movemos uma palha sem prévia consulta a peritos com a competência do Dr Seton Watson, que naquela ocasião se encontrava em Paris. Por outro lado, fico em dúvida se uma longa familiaridade com um país é sempre uma vantagem quando se trata de formular decisões que devem ser de ampla visão, imparciais, despidas de preconceitos e compatível com as necessidades e repercussões fora da área especificamente em discussão. “Uma decisão,” assinala o Dr Day, “sobre o valor de cada alternativa de fronteira envolve não somente um conhecimento dos detalhes, mas também da avaliação da importância relativa dos diferentes interesses humanos e de uma avaliação prospectiva da evolução do homem no futuro.” Nem sempre encontramos essa visão ampla em pessoas que desde a infância viveram em Tirana, ou cuja carreira foi devotada à questão de Koutzo-Vlachs. De fato, considero que a acusação de “desconhecimento” não passa de uma tentativa de distrair a atenção das falhas e erros essenciais nesses Comitês Territoriais. Não era conhecimento o que faltava, mas guia, precisão, coordenação, critério e visão. “Criar novas fronteiras,” escreve o coronel House, “é sempre criar novas encrencas.” Obviamente, as novas fronteiras na Europa causaram intensa indignação local e inconveniência generalizada. Mas a questão é que elas tinham de ser desenhadas. Não creio que um crítico esclarecido e objetivo, ciente das dificuldades então vividas, chegasse à conclusão que, em seu conjunto, as novas fronteiras foram pouco científicas. Convém lembrar que fomos forçados a operar em carne viva do que era ainda um organismo: era inevitável e previsível que as feridas que criamos levassem algum tempo para cicatrizar. Por exemplo, toda a estrutura econômica e de transportes do Império Austro-Húngaro visava cortar as linhas entre as diferentes nacionalidades: a finalidade toda da Conferência foi restabelecer aquelas nacionalidades. Muitos nervos econômicos e mesmo algumas artérias foram, desta forma, cortados. Mas não havia como evitar, conforme se constatou claramente na época. É por outras razões, totalmente diversas, que devo criticar a composição e o funcionamento dos Comitês Territoriais. Em primeiro lugar, como já expliquei, foram constituídos ad hoc, isto é, foram criados caso a caso, não em observância a um critério geral, mas para tratar de pretensões fortuitas que algum Aliado ou Novo Estado apresentara à Conferência por meio de um documento exigindo determinado território. Sua principal missão não era, portanto, propor um acerto territorial geral, mas se manifestar sobre as reivindicações particulares de certos Estados. Esse método empírico e de todo adventício de organização dos Comitês gerou infelizes resultados. O Comitê das Exigências Romenas, por exemplo, só pensou em termos de Transilvânia, o Comitê das Reivindicações Tchecas concentrou-se na fronteira sul da Eslováquia. Só mais tarde percebeu-se que esses dois comitês inteiramente estanques tinham, em conjunto, imposto à Hungria uma perda de território e população de fato muito grande. Se o trabalho tivesse sido concentrado nas mãos de um Comitê “Húngaro,” não apenas se disporia de maior parcela de fronteira para o dá- e-toma das discussões, mas ver-se-ia que o total da cessão imposta deixaria mais magiares sob o governo estrangeiro do que o estabelecido na doutrina da Autodeterminação. É verdade que, nas etapas finais, foi criado um “Comitê de Coordenação” para atenuar superposições dessa natureza. Porém, nessa ocasião, já era difícil rever decisões resultantes de longas semanas de debates exaustivos. Ademais, os membros deste comitê, embora tenham realizado muita coisa, de fato não estavam em condições de conduzir alguma revisão profunda nos termos já acordados. Um segundo erro na sistemática de organização dos Comitês Territoriais foi o fato de, desde o começo, seus membros não terem recebido, como orientação, nenhuma indicação de que suas propostas na realidade seriam finais e decisivas. Já me referi a esse ponto, mas é tão importante que exige melhor exame. Permito-me reproduzir os termos da orientação transmitida ao Comitê Romeno. São os seguintes: “Houve concordância de que as questões levantadas na declaração de M Bratianu (...) devem ser encaminhadas para exame, em primeira instância, a um Expert Committee (...) Será encargo do Comitê reduzir as questões para decisão aos limites mais estreitos possíveis e fazer recomendações para um acordo justo (...) O Comitê está autorizado a consultar os Representantes do povo concernente.” Como tantas decisões do Conselho Supremo, essa orientação era vaga e hermética, a ponto de parecer evasiva. Além disso, todas as questões políticas que afetassem algum dos Aliados (questões como Klagenfurt e o Trentino) foram retiradas da agenda dos Comitês, que eram naturalmente levados a admitir que suas funções eram de simples assessoramento e, em nenhuma hipótese, de caráter executivo. De que essa foi a intenção inicial do Conselho Supremo, não tenho qualquer dúvida. Todavia, com a únicaexceção do Relatório Polonês, todos os relatórios unânimes dos Comitês foram adotados sem discussão adicional, e, nos casos em que os pareceres não eram unânimes, os Comitês eram solicitados a discutirem novamente a matéria, na esperança de que a unanimidade fosse alcançada. Não afirmo que a importância decisória assim adquirida pelos Comitês tenha sido infeliz ou errada. Digo apenas que, desde os primeiros dias, deveria ter sido previsto que seus membros seriam escolhidos mediante prévio reconhecimento da grande responsabilidade que inevitavelmente lhes caberia. Não foram selecionados segundo este critério. Um terceiro equívoco foi os Comitês terem sido, desde o início, desestimulados a expressar qualquer opinião que envolvesse “princípios” e “política.” O Comitê Grego, por exemplo, segundo a orientação recebida, ficou encarregado de examinar as reivindicações de M Venizelos. E foi solicitado a decidir se a área reclamada pela Grécia na região de Smyrna se enquadrava como área de população grega. Não lhe foi pedido que informasse se era ou não sensato permitir a presença dos gregos na Ásia Menor. Acresce que não nos foi dada qualquer orientação relacionada com o inevitável conflito entre “autodeterminação” e “economia.” Os franceses sempre insistiram que nossa tarefa principal era deixar os Novos Estados “viables,” como chamavam, ou, em outras palavras, provê-los do essencial em segurança, transporte e recursos econômicos, sem o que eles seriam incapazes de criar sua independência. Nunca nos disseram até onde podíamos ir observando este argumento. Tampouco havia uma orientação geral aceita para a questão de reivindicações “históricas,” se deviam ser reconhecidas (os italianos, por exemplo, tinham nítida predileção pelo Império de Adriano), ou se devia realmente ser preservado o princípio da “Santidade dos Tratados” (geralmente dos Tratados Secretos). Então, todos esses princípios eram invocados ao mesmo tempo para justificar nossas recomendações. Em suas contrapropostas de 29 de maio, os alemães tinham toda razão ao alegar que o acerto territorial se baseava ora no princípio da autodeterminação, ora no da necessidade econômica, ora no dos “direitos históricos imemoriais” e que “em todos os casos, a decisão é contra a Alemanha.” Foi desta maneira, por uma sucessão de compromissos frágeis e por um acúmulo de argumentações casuais baseadas em falsos critérios, que a estrutura do wilsonismo foi demolida, tijolo por tijolo. Mais uma vez, o curso dos acontecimentos foi consequência não de uma intenção malévola, mas de uma persistente indefinição de propósitos. O quarto erro, o que está na raiz de todo o fracasso da Conferência, foi o fato de não estarmos obrigados a ter cada uma de nossas propostas examinada pelos economistas. É verdade que, em momentos de muita dificuldade, consultávamos particularmente especialistas em assuntos como transporte ferroviário e aquático. Posso recordar como o general Mance conseguiu, certa ocasião, me convencer como, com custo mínimo, uma ferrovia alternativa podia ser construída na Eslováquia, permitindo que muitos milhares de magiares se livrassem da incorporação a outra comunidade. Mas em geral não levávamos suficientemente em conta considerações de ordem econômica. E nossa omissão causou grande sofrimento a muitos milhões. Não digo que o Conselho Supremo deva ser totalmente responsabilizado por essas nossas faltas. A falha repousa mais na inadequação de nossa visão e nosso equipamento mental. Apenas defendo que também houve um momento em que a “falta de um foco central” deixou nosso trabalho fora de perspectiva e comprometeu a inteireza do planejamento. Em toda obra de fazer a paz é absolutamente imprescindível um “foco central.” Esperemos que um erro similar não se cometa de novo. Hoje em dia, olho horrorizado para o passado, lembrando aqueles intermináveis Comitês nos salões abrasadores do Quai d’Orsay. Vejo um grupo de homens pequeninos na extremidade de uma mesa enorme: mapas, intérpretes, secretárias e filas atrás de filas de cadeiras douradas vazias. As grandes cortinas vermelhas estão cerradas, escarlates contra o sol poente que se esconde suavemente por trás do Sena. Os candelabros brilham com todo o poder do gênio latino. Passamos para o salão de banquetes adjacente por alguns minutos para um chá com brioches e biscoitos de amêndoa. É um aposento grande e elegante, os bules de chá gotejam na bandeja. De volta à nossa longa mesa: “Messieurs, nous avons donc examiné la frontière entre Csepany et Saros Patâg. Il résult que la junction du chemin de fer Miskovec-Kaschau avec la ligne St. Peter-Losoncz doit être attribuée...” Regressando ao Majestic, o som da música do salão de baile chegava aos nossos ouvidos. 6 Desavença OS TRATADOS SECRETOS CELEBRADOS DURANTE A GUERRA com nossos aliados reais ou potenciais estavam, como comentei anteriormente, entre os maiores obstáculos à nossa liberdade de ação na Conferência de Paz. O mais embaraçoso desses tratados foi aquele com que, em abril de 1915, seduzimos a Itália a abandonar a Tríplice Aliança e aderir à causa das Potências Ocidentais. Esse acordo, conhecido como o Tratado de Londres, será discutido no próximo capítulo, quando entrarei em considerações a respeito dos efeitos do “sacro egoísmo” de Orlando e Sonnino sobre os princípios de Mr Wilson. No presente capítulo, desejo examinar as dificuldades e os atrasos causados por outras divergências, talvez menos relevantes, surgidas entre as Potências Aliadas e Associadas reunidas em Conferência. Para que essas divergências possam ser apreciadas na devida proporção, será necessário fazer uma referência aos Tratados Secretos secundários nos quais também estávamos enrolados. Abordarei esses tratados e as complicações resultantes em ordem crescente de importância, começando com o mais insignificante e finalizando com os que, com exceção dos Tratados Italianos, causaram maior grau de problemas. Começo então examinando o Tratado Romeno de 17 de agosto de 1916, cuja história é a seguinte: Em 30 de outubro de 1883, um tratado fora resolvido entre o Conde Andrassy e M Bratianu – o velho – pelo qual a Romênia aderia à Tríplice Aliança constituída de Alemanha, Áustria-Hungria e Itália. Embora esse Tratado nunca fosse ratificado pelo parlamento romeno, o Rei Karl (Carol) da Romênia, sendo um Hohenzollern e homem honrado, com a eclosão da Guerra Europeia ficou ansioso por cumprir o compromisso assumido pelo Tratado e juntar forças com a Alemanha. Com esse propósito, convocou um Conselho da Coroa na isolada floresta de pinheiros da região de Sinaia. M Carp, líder dos conservadores, estava de acordo com o Rei Karl. O Bratianu mais jovem, líder dos liberais, contrariando a posição do pai, defendeu que o tratado com a Alemanha fosse ignorado. M Také Ionescu, líder do Partido Conservador Democrático, pressionou por uma imediata intervenção do lado da Entente. Ficou decidido, diante da divergência entre os líderes políticos, que seria adotada uma postura de “neutralidade vigilante.” M Bratianu manteve essa atitude de expectativa por dois anos. A vitoriosa ofensiva do general Brusiloff em junho de 1916 o convenceu de que finalmente chegara o momento de intervir. Abriram-se negociações com os países da Entente, e o preço da Romênia foi posto em termos nada modestos. Devia receber a posse de toda a Transilvânia e de toda a região da Bukovina ao sul do Dniester. Também ficaria com toda a área do Banat de Temesvar até o Theiss.Pelo artigo do Tratado Secreto, devia gozar dos “mesmos direitos de seus aliados” no que se refere a negociação e discussão em uma eventual conferência de paz. Segundo o artigo V, os signatários do tratado se comprometiam a não fazer uma paz em separado. Em 27 de agosto, a Romênia entrou na guerra e, tomada de uma loucura triunfante, invadiu fundamente a Transilvânia. A retaliação das Potências Centrais foi imediata e fulminante. Os alemães entraram em Bucarest em 6 de dezembro. O exército romeno recuou para a Moldávia e, sob o comando do general Berthelot, executou uma defensiva muito corajosa ao longo de doze meses. A eclosão da Revolução Russa acabou com qualquer esperança de resistência. M Bratianu, depois de se esforçar em vão para induzir seus aliados a liberá-lo das disposições do artigo V, viu-se forçado a concluir um armistício em 9 de dezembro de 1917 e assinar em separado a capitulação pela Paz de Bucareste, em 7 de maio seguinte. Por esse Tratado, a Romênia foi obrigada a ceder praticamente toda a região de Dobrudja e a se colocar sob o protetorado econômico das Potências Centrais. Esse tratado nunca foi ratificado pelo parlamento romeno. Em 9 de novembro de 1918, dois dias antes do armistício final, a Romênia repudiou o tratado de 7 de maio e novamente declarou guerra à Alemanha. O motivo para esta renovada declaração foi uma alegada violação do Tratado de Bucarest por parte da Alemanha. Com tal alegação, o governo romeno reconheceu que o Tratado, embora ainda pendente de ratificação, era um instrumento válido. Para os romenos, foi uma péssima admissão. A situação resultante caracterizou bem o tipo de problema com o qual a Conferência de Paz teve de se defrontar. M Bratianu defendia que o Tratado Secreto de agosto de 1916, entre a Romênia e os Aliados vitoriosos, permanecia plenamente em vigor. Por conseguinte, reivindicava não somente a Transilvânia, mas toda a região do Banat. Também reclamava, com amparo no artigo VI do Tratado Secreto, status idêntico ao dos representantes das Grandes Potências, que não atenderam nenhuma de suas pretensões. Não se importavam tanto com a Transilvânia e a Bukovina (que pertencia ao inimigo), mas se preocupavam muito com a região do Banat, que era reclamada, com grande dose de justiça, pelos iugoslavos. Mas sobretudo a ideia de a Romênia – e especialmente de M Bratianu – desfrutar o mesmo status de uma Grande Potência foi um martírio para a alma. Assim, deixaram bem claro para M Bratianu que, ao celebrar uma paz em separado com a Alemanha, em maio de 1918, a Romênia violara o artigo V do tratado original de agosto de 1916 e, em consequência, o tornara nulo e inócuo. M Také Ionescu, é bom reconhecer, sendo um homem com discernimento da Europa, previra que desde o início essa seria a posição da Conferência e que, de acordo com a lei, tentar contestá-la seria inútil. Em novembro, apressou-se em ir a Londres e Paris e, com a ajuda de M Venizelos, teve êxito negociando com M Pasic uma proposta mais sensata, segundo a qual o Banat seria dividido entre a Iugoslávia e a Romênia, observando-se o critério da nacionalidade. Foi além. Esboçara o texto de um acordo para os Bálcãs, estabelecendo que os quatro estados balcânicos acertariam suas diferenças e constituiriam uma frente única, comprometendo-se a se apoiar mutuamente contra o previsto ditado das Grandes Potências. Esse bloco balcânico na verdade atrairia a Tchecoslováquia e talvez a Polônia para sua órbita e representaria um elemento bastante poderoso na Conferência de Paz. M Bratianu, contudo, recusou-se a acatar a opinião de M Také Ionescu, que não foi incluído na delegação romena em Paris. Permaneceu no Hotel Meurice, balançando sua lúcida cabeça diante das loucuras, as vaidades e a obstinada cegueira de M Bratianu. Este conduziu de forma tão desastrada as questões de interesse da Romênia na Conferência que se indispôs com seus mais ardorosos amigos em seu país e, afinal, teve de ser dispensado do cargo por um verdadeiro ultimato emitido pelo Conselho Supremo. A pequena história que relatei é, pelo ângulo do presente trabalho, mais importante do que possa parecer. Tem-se dito que os membros do Conselho Supremo eram exageradamente sensíveis a considerações de ordem pessoal, e que a simpatia e habilidade de M Venizelos (para citar um exemplo óbvio) conseguiu concessões para a Grécia que um homem com menor pendor diplomático dificilmente teria obtido. Longe de mim qualquer intenção de depreciar a fama de M Venizelos como mestre consumado da técnica diplomática, ou de subestimar o êxito que o magnetismo pessoal daquele estadista permitiu alcançar. Todavia, convém assinalar, fazendo justiça ao Conselho Supremo, que suas decisões na verdade não eram totalmente governadas por emoções subjetivas. O incidente Bratianu é uma valiosa evidência da objetividade com que o Conselho atuava. Ninguém poderia ter sido mais leviano, irracional, irritante e provocador do que Ion Bratianu. Apesar disso, a antipatia quase generalizada que despertava não prejudicou realmente as pretensões de seu país na Conferência de Paz. A Romênia obteve “tudo e mais um pouco.” E o conseguiu por razões absolutamente impessoais. Parto do princípio – e espero que assim aconteça – que quem futuramente analisar a Conferência de Paz previamente afastará todos os reflexos emocionais e éticos que a expressão “Tratados Secretos” possa despertar. Creio que terão a necessária sensibilidade para concluir que, no calor da beligerância, os estadistas tendem a se apegar a qualquer barganha capaz de assegurar o prosseguimento vitorioso de uma guerra. Assim fizeram no passado e assim continuarão a fazer no futuro. Não é sensato supor que um estadista comprometa seu país em uma guerra integrando uma coalizão previamente existente sem obter antecipadamente uma garantia formal por parte dessa coalizão de que, uma vez conquistada a vitória, poderá conseguir uma parcela do espólio. É mais ilógico ainda exigir que desde logo os termos desse acordo sejam anunciados. Na verdade, a objeção aos Tratados feitos com nossos Aliados durante a guerra não é tanto pelo fato de serem secretos, mas por serem pouco científicos e, em muitos casos, mutuamente conflitantes. As pessoas que estudam o passado com a convicção de que certamente agiriam melhor no presente adotam um hábito mental perigoso. Estão introduzindo parâmetros éticos de tranquilidade em um cenário emocional dominado pelo perigo. Seria melhor que os estudiosos de assuntos internacionais se concentrassem menos em comparações éticas e mais na questão do comportamento humano em tempos de tensão para a humanidade. A generosidade, quando se envolve com as máquinas de necessidade humana, não é suficientemente forte. Tratando-se de negociações de paz, tornam-se indispensáveis reforços de outra natureza. O estadista de status mais idoso necessitará de capacidade de previsão e planejamento, de programas rígidos, tempo, obstinação, independência, método e a faculdade de insistir nas exigências mais inconvenientes. Também necessitará de uma equipe de assessores técnicos numerosos e bem preparados. Que qualidades esses experts devem ter? As seguintes: boa saúde, rapidez de compreensão, paciência, sanidade comparativa, grande resistência à fadiga física, encanto, ausência de preconceito de classe para cima e para baixo, imensa curiosidade, desembaraço com mapas e papéis, operosidade, precisão, o poder de fazer as perguntas mais inconvenientes em momento errado, não apresentar limitações físicas muito visíveis, intimidade com os Secretários Particulares de seus própriosPlenipotenciários, bom senso para não deixar transparecer essa intimidade, algum conhecimento com os correspondentes de imprensa mais obscuros (N.B.: os correspondentes menos obscuros tendem a rejeitar essa aproximação), hábito de olhar para cima e não para baixo quando não sabem a resposta, cortesia, capacidade de datilografar com cópia a carbono, leve mas não obstrutiva familiaridade com economia, limpeza, sobriedade compatível com as devidas ocasiões, animação, estatísticas de fontes ainda mais recônditas e anônimas do que as invocadas por seus colegas estrangeiros, alguma proficiência na literatura ou na arquitetura de pelo menos uma nacionalidade muito oprimida, capacidade de suportar longos banquetes, honestidade, capacidade de falar correta e fluentemente idiomas que seus colegas estrangeiros não são capazes de falar correta e fluentemente, nenhuma crença consumada na sabedoria do Povo e da Imprensa, boa memória, falar a verdade e, acima de tudo, absoluta imunidade contra qualquer manifestação de vaidade humana. Só possuindo todas essas qualidades pode um rapaz aspirar vir a ser de real valia para seus superiores na negociação de uma paz de justiça, equidade e duração. Afasto-me desta digressão e retorno à questão dos Tratados Secretos e das resultantes desavenças entre os próprios Aliados. É impossível, dentro dos limites deste trabalho, definir a proporção exata de tempo e energia absorvidos por essas disputas desagregadoras. Posso afirmar que cerca de 30% de toda a energia do Conselho Supremo foi absorvida por funções executivas, que uns 10% foram desperdiçados em detalhes desnecessários e 40% dedicados a impedir um rompimento entre os Aliados. Os 20% restantes foram devotados à missão de promover a paz. Dos demais Tratados Secretos, aquele pelo qual nos comprometemos a ceder Constantinopla à Rússia fora denunciado pelo Governo Soviético. O Tratado Franco-Russo de 11 de março de 1917 (pelo qual, em troca de liberdade para agir na Polônia, a Rússia garantia à França a posse não apenas da Alsácia-Lorena e do vale do Sarre, mas também uma Renânia independente com uma guarnição do exército francês) também perdera a validade. Com exceção dos dois tratados italianos, o de Londres e o St. Jean de Maurienne (que serão abordados no próximo capítulo), restam nosso acordo com os árabes, o acordo Sykes-Picot com os franceses, e nosso compromisso com o Japão no sentido de apoiar sua reivindicação de herdar todos os direitos da Alemanha na província de Shantung. Não é minha intenção entrar em detalhes sobre estes tratados e as complicações que geraram, já que, pessoalmente, estive totalmente alheio a tais evoluções. Contudo, é necessário que sejam mencionados, pois em grande parte foi através deles que prosperou na Conferência um ambiente de discórdia e desordem, considerando ainda que nesse ambiente tenso e febril foram conduzidas todas as negociações posteriores. As promessas que fizéramos aos árabes, conflitando com as feitas à França no posterior acordo Sykes-Picot, provocaram uma situação muito constrangedora envolvendo os vértices de um triângulo: os franceses, o Presidente Wilson e nós mesmos. Os principais fatores desta situação foram os seguintes. Entre outubro de 1914 e novembro de 1915, mensagens haviam sido trocadas entre o Alto-Comissariado inglês no Cairo e o Sherif de Meca, mais tarde rei Hussein do Hedjaz. Essas comunicações foram revestidas da ambiguidade inseparável de toda correspondência oriental, mas deixaram na mente do rei Hussein a impressão de que a Inglaterra lhe garantira apoio na fundação de um império árabe unido com capital em Damasco. É verdade que, no curso da correspondência, o governo inglês (que estava comprometido por um entendimento com a França datando de 1912, de “desinteresse pela Síria”) deixara transparecer uma certa ressalva sobre Damasco. Essa ressalva, contudo, fora estudadamente imprecisa, e convém notar que não comunicamos o posterior acordo Sykes-Picot aos árabes, assim como nossas promessas ao rei Hussein não foram, até março de 1919, reveladas aos franceses. Com a eclosão da revolução árabe, em maio de 1916, o governo francês, em vista do que considerava serem seus direitos consagrados à Síria e à Cilícia, ficou temeroso que pudessem ser ameaçados. A fim de tranquilizá- los, foi assinado um acordo entre M Georges Picot e Sir Mark Sykes, em 16 de maio de 1916. Esse acordo estabeleceu a divisão da Ásia Menor, assim como das partes árabes do Império Otomano, entre a Rússia, a França e nós ingleses. Ficaríamos com a Mesopotâmia, os franceses com a Síria, e os russos com a Armênia e o Curdistão. O território entre as fatias francesa e inglesa seria deixado para o Império Árabe, mas seria subdividido em zonas de influência inglesa e francesa. Os italianos foram excluídos de qualquer parcela nesta divisão. Em 3 de outubro de 1918, o Emir Feisal, acompanhado pelo coronel T.E. Lawrence, galopou rumo a Damasco à testa de 1500 cavalarianos árabes, deixando bem clara sua disposição. Foi um acontecimento totalmente inesperado, de imediato soaram os alarmes em Londres e Paris, sendo expedida uma série de communiqués conjuntos. O assunto também foi levantado durante a visita de M Clemenceau a Londres. Porém, quando a Conferência se reuniu, a opinião pública francesa já estava partant pour la Syrie, e o governo inglês se viu diante do dilema de quebrar as vagas promessas feitas aos árabes ou o compromisso mais explícito com os franceses. Na realidade, a questão se resumiu à linha Homs-Harna-Aleppo; a quem seria atribuída Mosul; e ao destino eventual da Palestina. Nesses detalhes não precisamos nos interessar. Dentro da abordagem deste trabalho, o interessante é notar que a questão árabe envolvia Mr Lloyd George, M Clemenceau e o Presidente Wilson em três distintas mas extremamente desagradáveis situações. Mr Lloyd George não via por que, depois de ter conquistado a Síria, devia passá-la adiante, com as fronteiras ampliadas e violando nossas promessas implícitas aos árabes. M Clemenceau não sabia como poderia conter o clamor do Partido Colonial Francês sem abrir uma brecha com a Inglaterra. E o Presidente Wilson, informado pelo Dr Howard Bliss e outros que os sírios de forma alguma desejavam nem mesmo um “mandato” francês, se esforçava por conciliar essa posição desfavorável dos sírios com, por um lado, a doutrina da autodeterminação e, por outro, com o fato inegável de a França e a Inglaterra terem se comprometido por tratado com uma solução que violaria flagrantemente a doutrina. Esta controvérsia se intensificou durante os meses de janeiro e fevereiro. Foi concedida ao Emir Feisal a oportunidade de uma “exposição” para o Conselho dos Dez. “Sua voz,” lembra Mr Lansing, “parecia exalar o perfume do incenso.” Enquanto isso, o coronel T.E. Lawrence caminhava para lá e para cá pelos corredores do Majestic, as marcas do ressentimento acentuadas em torno de seus lábios de menino: um universitário de queixo erguido. A controvérsia culminou com uma reunião na Rue Nitot em 20 de março de 1919. Mr Lloyd George afirmou que, se Damasco, Homs, Harna e Aleppo fossem incluídas na esfera de jurisdição direta da França, os ingleses estariam traindo a confiança dos árabes. Lord Allenby, que também estava presente, foi mais além. Expôs a opinião de que se os franceses fossem impostos à Síria contra a vontade desta, “haveria problemas e possivelmente guerra.” M Pichon disse que a França não podia liberar a Inglaterra das disposições de um tratado celebrado solenementeapenas porque seus termos conflitavam com obrigações prévias assumidas com terceiros, que não tinham sido informadas oportunamente à França. O Presidente Wilson (foi praticamente a última ocasião em que manteve seus princípios) disse que para ele pouco interessava o que a Inglaterra e a França tivessem decidido num Tratado Secreto; que os dois países tinham aceito os Quatorze Pontos; que, em consequência, estavam obrigados a obedecer somente aos anseios das populações envolvidas, não importando o que tivessem combinado previamente. Havia alguma incerteza sobre tais anseios. De acordo com M Chukri Ganem (poeta siríaco de Paris que, embora nunca tivesse posto os pés na Síria nos últimos vinte anos, fora transformado por M Pichon em porta-voz dos árabes sírios), o coração da Síria pulsava com uma única esperança, a de um mandato francês. Segundo o Emir Feisal, os sírios não aspiravam nada que não fosse sua própria independência e que as divergências só poderiam ser solucionadas por meio de um “Inquérito.” Com uma certa relutância, os representantes reunidos concordaram com a criação de uma Comissão de Inquérito. De fato, Mr King e Mr Crane foram enviados para o Oriente Médio no mês de julho. Seu relatório, quando por fim recebido, foi altamente inconveniente, mas por então o Presidente Wilson já deixara Paris a caminho de seu colapso final. O relatório King-Crane ficou enterrado sob a poeira dos procedimentos diplomáticos que se seguiram. Embora dessa forma o Presidente Wilson tenha sido capaz de arquivar o problema sírio sem nenhuma dissensão entre França e Inglaterra e sem violar ostensivamente os Quatorze Pontos, não dispunha de tal via de escape na questão de Shantung. É um incidente que também deve ser explicado. Nos primeiros meses de 1917, o Almirantado inglês encontrava crescente dificuldade em fornecer navios de superfície para os comboios de transporte de tropas e gêneros alimentícios através do Mediterrâneo. Apelou aos japoneses no sentido de conseguir uma flotilha de barcos torpedeiros para auxiliar os ingleses no cumprimento daquela missão. O governo japonês respondeu que só forneceria essa ajuda a seus aliados desde que lhe prometessem não apenas as ilhas alemãs no Pacífico ao norte do equador, mas também todos os direitos detidos pela Alemanha em Kiao Chau e na província chinesa de Shantung. Um tratado assegurando nosso apoio a essa recompensa foi assinado em 16 de fevereiro de 1917. Mais tarde, os franceses aderiram a esse Tratado em troca de uma retirada, por parte dos japoneses, do veto até então mantido à entrada da China na guerra ao lado dos Aliados. A situação ficou mais complicada pelas “vinte e uma exigências” que o Japão impusera à China em janeiro de 1915, assim como pelos acordos sino-japoneses de 25 de maio de 1915 e 24 de setembro de 1918. Todavia, estou menos interessado nos pormenores desta disputa do que com suas consequências para a Conferência de Paz. Estas consequências foram extremamente danosas. Vamos pôr a questão nos termos mais simples. Os japoneses queriam obter de um aliado, a China, certos privilégios que esse aliado estava decidido a recusar. O Japão, insistindo em suas exigências, apelou para o apoio da França e da Inglaterra se baseando no Tratado Secreto. A China, mantendo sua recusa, argumentou com o inquestionável fato de que as demandas japonesas constituíam flagrante violação dos princípios do Presidente Wilson. O Japão ameaçou se retirar da Conferência, a menos que suas exigências fossem aceitas. Que devia fazer o Presidente? A posição de Mr Wilson foi complicada por duas considerações. Em primeiro lugar, nas fases iniciais do Comitê da Liga das Nações, ele se confrontara um dilema incômodo. Em 13 de fevereiro, os japoneses tinham proposto que, na cláusula que garantia a igualdade religiosa, as palavras “racial e” deveriam ser introduzidas entre as palavras “igualdade” e “religiosa.” Foram persuadidos a deixar de lado por algum tempo essa trabalhosa emenda, mas voltaram a ela em 11 de abril. Mr Wilson viu-se então em séria dificuldade. Por um lado, a igualdade entre os homens, tal como acolhida no Covenant, implicava a igualdade do amarelo com o branco e poderia até mesmo chegar à terrível ideia de igualadade do branco com o negro. Por outro lado, Senado americano nenhum jamais sonharia em ratificar qualquer Covenant que erigisse princípio tão perigoso. Nessa ocasião, o Presidente escapara por um triz, salvo por Mr Hughes, da Austrália, que insistiu em que tal teoria sem sentido como igualdade de raças não deveria figurar na Convenção. Lord Cecil foi instruído pela Delegação do Império Britânico a apoiar a argumentação de Mr Hughes no Comitê da Liga. Os japoneses, contudo, não estavam dispostos a permitir a Mr Wilson esse álibi providencial. Submeteram o assunto a votação. Venceram por onze votos contra seis. Mr Wilson, como chairman, viu-se na desagradável necessidade de ter de expedir um decreto de que a emenda japonesa “não fora adotada” por não ter alcançado “aprovação unânime.” O incidente o deixara desconfortável consigo mesmo. Em segundo lugar, os japoneses haviam planejado a oportunidade para apresentar sua pretensão a Shantung com extraordinária astúcia. Escolheram o momento exato em que a Itália abandonou a Conferência de Paz alegando intransigência do Presidente Wilson. Poderia o presidente permitir-se (pois os ventos da crítica já começavam a assobiar sinistramente em seus ouvidos) mais uma defecção da Conferência justamente quando os alemães já esperavam por trás das estacas de sua paliçada em Versalhes? Estava numa minoria de um voto. Capitulou. Ajeitou-se um meio-termo pelo qual, na verdade, deu ao Japão tudo que queria. De todas as derrotas do Presidente Wilson, o acordo sobre Shantung foi o mais flagrante. Como deve ter sido amargo para ele se arrepender por não ter aceito, talvez nem mesmo lido, a proposta de normas de procedimento que lhe fora apresentada por M Jusserand em 29 de novembro. Por mais que esse programa pudesse ter chocado sua mente hesitante mas competente, continha pelo menos uma cláusula que, adotada, teria sido uma bênção de inestimável valia. Dispunha que todos os Tratados concluídos antes do Armistício seriam considerados nulos e sem força legal. Mas, sobre o memorando de M Jusserand, o Presidente se omitira até de dar uma resposta. É quase patético ler nas páginas escritas por Mr Stannard Baker os termos em que o próprio Mr Wilson explicou sua palpável rendição sobre Shantung. Em sua mente, evolveu a ideia de que se o Japão tivesse sido forçado a se afastar da Conferência, faria uma aliança militar com a Rússia e a Alemanha. “Sei,” disse então, “que serei acusado de violar meus próprios princípios, mas, apesar disso, devo trabalhar em prol da ordem e da organização mundial contra a anarquia e o retorno ao velho militarismo.” Ao comentar o acordo de Shantung, antecipei a apreciação de tragédias que deviam mais adequadamente figurar no último capítulo deste livro, quando devo abordar o colapso americano. O incidente de Shantung, porém, é tão ilustrativo da repercussão dessas constantes e complexas desavenças sobre a doutrina wilsoniana que julguei convir incluí-lo no presente capítulo, que trata da enorme dificuldade, não tanto de promover a paz com o inimigo, mas de manter a paz entre os Aliados. Com exceção da divergência de opiniões sobre problemas centrais como a Segurança Francesa, a Renânia, Reparações, o Vale do Sarre, o destino da Esquadra Alemã, o Bloqueio,a Conscrição e a Fronteira Polonesa, os esforços do Conselho Supremo foram constantemente gastos e desperdiçados em problemas de menor expressão decorrentes de divergências entre as Potências Menores. Essas dificuldades menos importantes não tiveram origens nos Tratados Secretos. Algumas delas representavam disputas antigas; outras foram criadas pela súbita emergência de Estados Novos ou pela repentina expansão de Estados Velhos, cada um reclamando para si a ocupação exclusiva de áreas do território de ex-inimigo nas quais viviam populações de nacionalidade mesclada. Assim foi a disputa entre a Romênia e a Iugoslávia em relação ao Banat. A disputa entre os poloneses e os tchecos pelo ducado de Teschen. A diferença de opinião entre os romenos e os tchecos com relação aos cárpato-russos e aos rutênios. O germe de uma séria divergência entre os poloneses e a Lituânia. A cautelosa hesitação com que as Grandes Potências conduziram a questão do futuro de Constantinopla e dos Estreitos. A questão da Armênia. O problema de atribuir Mandatos entre diferentes Potências e Domínios. A dificuldade entre a Grécia e a Iugoslávia na questão da Albânia e de Salônica. E, para culminar, as intermináveis dificuldades interaliadas no problema italiano que, por essa razão, será comentado no próximo capítulo. Como ilustração, ou tipo, desses problemas secundários, apresentarei um que é por si mesmo interessante e que já caiu no esquecimento. Trata-se do caso de Montenegro. Poucos desses problemas de menor expressão nos deixaram com o coração tão vazio e com um senso tão duradouro de insatisfação. Antes da guerra, Montenegro fora um principado pequeno, independente e empobrecido sob o governo patriarcal do rei Nikita, da dinastia Petrovic. Seu único objetivo nacional fora assegurar a união com seus irmãos sérvios, dos quais fora separado pela Áustria e pelo Sandjak de Novi Bazar. Quando da invasão da Sérvia e Montenegro pelos exércitos austro-alemães, o rei Nikita se transferiu para Neuilly, onde vivia em condições modestas, mas sem deixar de reclamar, de subsídios concedidos pelos governos da França, da Rússia e da Inglaterra. Ao mesmo tempo enviou seu segundo filho para Viena com a intenção, assim foi dito, de assegurar sua própria posição e o futuro da dinastia, no caso de uma vitória das Potências Centrais. O rei Nikita, embora sogro do Rei da Itália, não era um soberano que inspirasse respeito geral. Dizia-se que, por ocasião da primeira guerra dos Bálcãs, pusera em risco todo o esquema da aliança balcânica antecipando em vinte e quatro horas sua declaração de guerra à Turquia. Também se disse que a razão desse gesto impulsivo fora uma operação de viés “bear” sobre a bolsa de Viena. Insinuou-se que durante a Grande Guerra ele não concedera aos irmãos sérvios o apoio entusiasmado que estes tinham o direito de esperar. A pronta capitulação da fortaleza de Monte Lovcen foi atribuída pelos sérvios mais às habilidades financeiras do que às capacidades militares do “Peasant King”(o Rei Campônio). Mas o fato é que, com a retirada das forças austríacas de Sérvia e Montenegro, foi organizado um governo neste último estado que convocou uma “assembleia nacional” em Podgoritza, no qual uma votação deliberou pela imediata união com a Sérvia e a deposição do rei Nikita e toda a dinastia Petrovic. Quando a Conferência de Paris se reuniu, havia duas delegações de Montenegro, cada uma reclamando o direito de representar o país. Uma, chefiada por M Radovic, proclamava ter sido constituída, de pleno direito, pela assembleia de Podgoritza. A outra, designada pelo Rei Nikita (que na ocasião se transferira em meio a agitada indignação de Neuilly para o Hotel Meurice), alegava o mesmo direito e argumentava que a assembleia de Podgoritza era um bando de velhacos que votara sob a ameaça das baionetas sérvias. M Radovic anunciou em alto e bom som que tudo que Montenegro desejava era a total incorporação à Iugoslávia sob o governo do Príncipe Regente Alexander. O Rei Nikita, por outro lado, sustentou que os montenegrinos não desejavam ser absorvidos no seio de seus irmãos sérvios, croatas e eslovenos, mas queriam simplesmente alguma forma bem liberal de federação que lhes permitisse preservar a independência e, o que era mais importante, a dinastia Petrovic, na pessoa dele próprio. Embora nós da delegação inglesa tivéssemos pouca simpatia pelo rei Nikita e apesar de sentirmos que para Montenegro era uma exigência econômica integrar a União Iugoslava, também suspeitávamos que de fato a assembleia de Podgoritza fora convocada pelos gendarmes sérvios e não representava a verdadeira vontade do povo montenegrino. Preocupados, chegamos a enviar o Conde de Salis a Cettinje para apurar os fatos. Seu relato foi que a assembleia de Podgoritza era realmente uma farsa e que, embora os montenegrinos desejassem integrar a União Iugoslava, preferiam fazê-lo não sob a persuasão das baionetas sérvias, mas em suas próprias condições e como povo livre. Diante dessa perplexidade, a Conferência resguardou-se da maneira que lhe era peculiar. Montenegro não estava, é bem verdade, representada nas sessões plenárias da Conferência e era identificada apenas por uma cadeira dourada vazia e um cartão branco sobre a pasta mata-borrão. “Montenegro,” dizia o communiqué do Conselho Supremo de 15 de janeiro, “será representado por um delegado, mas as normas referentes à designação desse representante não serão definidas até que a situação política do país esteja esclarecida.” No que interessava à Conferência, a situação permaneceu assim. Contudo, a causa de Montenegro, personificada pelo rei Nikita, foi esposada na Inglaterra por Mr Ronald McNeill. A discussão continuou por anos a fio. Mandamos o professor Temperley para investigar. Também enviamos Mr Roland Bryce. Afinal, não sem alguma persistente dor na consciência, aceitamos a “união” de Montenegro com a Iugoslávia com base nas eleições montenegrinas para a Assembleia constituinte. Em 1º de março de 1921, o rei Nikita morreu. A história da submersão, ou como diria Lord Cushendun, da supressão de Montenegro, não é muito agradável. Registro-a não só por oferecer um bom exemplo do tipo de problema secundário que enfrentávamos constantemente, mas porque despertou em minha mente um sério conflito de motivações. Não gostava do rei Nikita e nele não confiava, mas sentia que ele estava quase no direito. Eu tive paixão pelo estado iugoslavo, mas achei que procederam mal com todas aquelas baionetas e aquela assembleia de Podgoritza. Considerei que, a longo prazo, seria melhor, por razões econômicas e políticas, que Montenegro fosse realmente absorvido pela Sérvia ou, como então preferíamos dizer, “admitido em íntima união pelo Estado Sérvio, Croata e Esloveno.” Mas alimentava séria dúvida se essa solução de fato era desejada pelo próprio povo montenegrino. Eis um caso em que interesses dinásticos de um lado eram medidos contra a união de um povo admirável e liberto. Foi constrangedor constatar que a balança do certo se inclinou para a dinastia, e a balança do errado para os libertadores sérvios. Foi devido a essa questão de Montenegro que minha crença inicial na Autodeterminação como solução para todos os males humanos turvou- se de dúvidas e restrições. Não é fácil, utilizando o instrumento silencioso das palavras escritas, reproduzir a dupla tensão provocada pelo tumulto e pela pressão do tempo que, em Paris, representaram o principal obstáculo a uma reflexão serena e a procedimentos planejados. A gente escreve: “Foi um período de tensão ininterrupta” – e o tom tranquilizante dessa frase, aplicadoà desarmonia e à correria que foi a Conferência de Paz, nos faz sorrir. Só o meio de um filme sonoro seria capaz de reproduzir alguma impressão daquela sensação de desordem em casa de papagaios. Se tentasse esboçar um cenário com as minhas próprias impressões resultaria o seguinte. Ecoaria por toda parte o ruído surdo da célere carruagem do tempo. As pressões que exercia se repetiam e atuavam incessantemente: jornais protestando nas manchetes contra os “ociosos de Paris”; o clamor pela desmobilização: “Tragam os rapazes de volta”; os milhões de famintos na Europa central; as colunas de prisioneiros cabisbaixos ainda atrás do arame farpado; as chamas do comunismo em expansão agora em Munique e em Budapest. Em meio ao estrondo de raios e trovoadas que se repetiam ao sabor do tempo, se escutavam os sons de agudas dissonâncias: o matraquear de metralhadoras de milhões de máquinas de escrever; o tilintar incessante e penetrante das campainhas de telefones; a descarga das motocicletas; o ronco dos aviões; a voz fria dos intérpretes; “le délegué des Etats-Unis constate qu’il ne peut se ranger...”(o representante dos Estados Unidos declara que não pode se alinhar com...); o toque dos clarins; o ribombar das salvas dos canhões nos Invalides; o farfalhar das folhas dos fichários; uma mulher envolta em um xale de lã cantando “Madelon” em frente a um café; o ruído das rodas dos Rolls Royces sobre o cascalho dos pátios suntuosos; e o som de passos apressados, ora sobre o piso de alguma galeria, ora nas escadarias de pedra de algum ministério, ora abafado por um pesado Aubusson de algum salão superaquecido. Esses sound-motifs acompanhados por uma rápida projeção de imagens desconexas: as pálpebras cansadas e desdenhosas de Clemenceau; os borzeguins pretos de abotoar de Woodrow Wilson; os gestos pomposos e joviais das mãos de Mr Lloyd George; a melancolia de Mr Balfour ao descruzar lentamente as pernas; a sucessão de secretários e experts debruçados sobre mapas; Foch caminhando a passos largos e resolutos com Weygand correndo atrás; as correntes de prata dos hussardos no Quai d’Orsay. Essas imagens se misturam com arquivos, documentos de trabalho, resoluções, procès verbaux e communiqués. Sucedem-se com extrema rapidez e de vez em quando têm que ser sincronizadas e superpostas. “Os Plenipotenciários dos Estados Unidos da América, da Inglaterra, da França, da Itália e do Japão, de um lado (...) Fica decidido que, sujeito à aprovação pelas Casas do Congresso, o Presidente dos Estados Unidos da América, em nome dos Estados Unidos, aceita (...) Si cette frontière était prise en considération, il serait nécessaire de faire la correction indiquée en bleu. Autrement le chemin de fer vers Kaschau serait coupé... (Se esta fronteira fosse levada em consideração, seria necessário fazer a correção assinalada em azul. De outro modo, a ferrovia para Kaschau seria cortada) (...) Estes cupons serão aceitos em pagamento das refeições feitas no hotel e o tíquete inteiro deve ser entregue no jantar (...) M Venizelos me disse na noite passada que concluiu um acordo com a Itália nos seguintes termos: (1) A Itália apoiará as reivindicações gregas no Épiro setentrional (...) Do ponto em que o limite oeste da área deixa o Drave na direção norte, até o ponto cerca de um quilômetro a leste de Rosegg (Saint Michel). O curso do Drave para jusante. Em seguida, na direção nordeste até o extremo ocidental do Wörthersee, ao sul de Vlelden. Linha a ser demarcada no terreno. A linha mediana daquele lago. Em seguida para leste até a confluência com o rio Glan. O curso do Glanfurt para jusante (...) (1) Exposição de M Dmosky. (2) Rapport de la Commission Interalliée de Teschen. (3) Le repatriement des troupes du Général Hallerr. (4) Rapport de M Hoover. (5) Prisonniers de guerre. (6) Répartition de la marine marchande allemande (...) A partir da vigência do presente Tratado, as Altas Partes Contratantes devem rever, no que lhes for pertinente e com as ressalvas definidas no parágrafo segundo do presente artigo, os convênios e acordos assinados em Berna, em 14 de outubro de 1890, em 20 de setembro de 1893, em 16 de julho de 1895, em 16 de junho de 1898 e em 19 de setembro de 1906, que dispõem sobre transporte de bens por ferrovia. Se dentro de cinco anos de vigência do presente Tratado (...) Le traité concernant l’entrée de la Bavière dans la Confédération de l’Allemagne du Nord, conclu à Versailles le 23 novembre 1870, contient, dans les articles 7 et 8 du protocole final, des dispositions toujours en vigueur, reconaissant... (O tratado concernente ao ingresso da Baviera na Confederação da Alemanha do Norte, concluído em Versalhes em 23 de novembro de 1870, contém, nos artigos 7 e 8 do protocolo final, disposições já em vigor, reconhecendo) (...) Haverá uma reunião da Delegação do Império Britânico na terça-feira, dia 14 do corrente mês, na Villa Majestic, às onze e trinta da manhã (...) O Dr Nansen veio me ver esta manhã. Ele revela a urgente necessidade de induzir o Conselho Supremo (...) Será realizada uma festa no próximo sábado, às nove e meia da noite, no salão de baile do Hotel Majestic, em apoio à caridade do Dockland Settlement. Miss Ruth Draper foi muito atenciosa dispondo-se a nos apresentar dois dos mais conhecidos personagens de suas comédias. Os ingressos podem ser obtidos na portaria (...) Le Baron Sonnino estimait qu’il y avait lieu d’établir une distinction entre les représentants des soviets et ceux des autres gouvernements. Les alliés combattaient les bolcheviques et les considérant comme des ennemis. Il n’en était pas de même en ce qui concernait les Finlandais, les Lettons (O Barão Sonnino achava que devia haver uma distinção entre os representantes dos soviéticos e os de outros governos. Os aliados se opunham aos bolcheviques e os consideravam inimigos. O mesmo não sucedia no que se referia aos finlandeses e letões) (...) Telegrama de Viena. O Conde Karolyi se demitiu e, segundo mensagem telefônica recebida por Mr Coolidge esta manhã de seu representante em Budapeste, o governo comunista foi organizado sob a chefia de Bela Kun. Incerto o destino das missões aliadas (...) Wir wissen das die Gewalt der deutschen Waffen gebrochen ist. Wir kennen die Macht des Hasses, die uns hier entgegentritt, und wir haben die leidenschaftliche Förderung gehört, dass die Siege runs Zugleich als Ueberwundene zahlen lessen und als Schuldige bestraffen sollen... (Sabemos que o poder bélico alemão foi destroçado. Estamos conscientes do vigor do ódio que aqui nos dirigem e ouvimos a infeliz exigência dos vitoriosos que, ao mesmo tempo, nos obriga a pagar como subjugados e nos pune como culpados).” Uma rápida sucessão destas imagens, acompanhada por todo o espectro de sons que descrevi, forneceriam um retrato bem mais nítido do ambiente da Conferência de Paz do que qualquer registro cronológico por escrito. Se pudéssemos acrescentar as cores, os odores e as sensações do tato, o quadro ficaria quase completo. A tonalidade dominante é preto e branco, pesados ternos pretos, papéis e punhos brancos, atenuados por azul e bege. As únicas outras cores seriam o escarlate adamascado das cortinas do Quai d’Orsay, o verde dos panos de mesa, o rosa das pastas mata-borrão e os inúmeros tons de dourado das pequenas cadeiras. Quanto aos odores, teríamos o da gasolina, das fitas das máquinas de escrever, da cera francesa, do aquecimento central e um pouco do xampu de violetas. Os motifs tácteis viriam do toque empapéis, na seda, na alça de couro de uma pesada pasta de documentos, dos passos ora sobre os tapetes espessos ora sobre os pisos de parquet, da distensão dos músculos pela posição inclinada sobre mapas enormes, da sensação de insegurança em uma cadeira de vime ocupada horas a fio. Por trás de tudo, a dor da exaustão e do desespero. 7 Meio-Termo OS ESCRITORES QUE SE AVENTURARAM A RELATOS COMPLETOS da Conferência de Paz de Paris se inclinaram para adoção de uma de três formas de abordagem, tentando deste modo descobrir, em meio a toda aquela rudimentar confusão, alguma indicação de continuidade, algum fio lógico de narrativa. Poucos deles escolheram o método cronológico e procuraram contar a história em termos de tempo. Outros dividiram sua narrativa segundo chaves de assuntos, discutindo cada tema em separado como um problema isolado. E os demais deram um toque dramático a toda negociação na forma de um choque de vontades e, desta forma, conseguiram um relato atraente, mas essencialmente impreciso. Cada um desses três métodos de abordagem encerra uma certa falsificação de valores. O cronológico pode causar uma impressão errônea de continuidade e omitir o componente da sincronização, tanto quanto o das paradas e retomadas. A abordagem fragmentada, embora valiosa para fins de lucidez, ignora o efeito de uma obstrução em uma área sobre uma concessão em outra. O método do “choque de vontades” erra pela supersimplificação, muitas vezes exagerando ao atribuir a Wilson, Lloyd George e Clemenceau posições antagonísticas bem como protagonísticas. Existe, contudo, um problema bastante central na Conferência de Paz que se manifesta com bastante clareza em todos os três métodos. Trata-se da questão do Adriático ou, em sentido mais amplo, a posição da Itália na Conferência de Paz. É um assunto que se fez praticamente contínuo no tempo, de certo modo se conteve dentro de seus próprios limites e que, sem dúvida, apresentou, em sua forma mais crua, o conflito entre as esperanças do Novo Mundo e os desejos do Velho. Proponho, neste capítulo, abordar a questão italiana como um todo isolado, assinalando a influência corrosiva que teve sobre a base moral e diplomática da Conferência de Paris. Oferece um exemplo apropriado e relativamente simples do tipo de complexidade em que se envolveu a Conferência. O mesmo tipo de dificuldade (o conflito entre o egoísmo intensivo de um membro de uma coalizão e o egoísmo extensivo de outros membros) sem dúvida pode ocorrer em futuros congressos. Os fatores essenciais que precedem a controvérsia italiana em Paris podem ser apresentados de forma sumária. A Itália, no início da Guerra Europeia, era aliada da Alemanha e da Áustria. Recusou-se, desde o primeiro momento, a cumprir seus compromissos na Tríplice Aliança, alegando, com toda razão, que, com seu extenso litoral, ficaria à mercê da Esquadra Inglesa. Foi mais além. No começo de janeiro de 1915, fez sondagens em Viena para verificar o quanto a Áustria estava disposta a lhe pagar para manter sua “neutralidade.” Pediu Trieste e o Trentino. O governo austríaco recusou essa concessão. O Barão Sonnino, ministro do Exterior italiano, então inquiriu em Londres e Paris que preço os inimigos da Áustria pagariam para induzir a Itália a desertar de seus aliados. Simultaneamente, continuou os entendimentos em Viena, obtendo a oferta, feita de má vontade, de algum território na região de Trento. Em 3 de maio de 1915, informou o Governo Austríaco que “a Itália deve renunciar à esperança de chegar a um acordo e proclama, a partir deste momento, sua completa liberdade de ação.” A expressão “a partir deste momento” foi um eufemismo, pois ao longo das cinco semanas anteriores a Itália já estava engajada em negociações com os inimigos da Áustria: o Tratado de Londres, que foi o preço a ser pago por França, Inglaterra e Rússia à Itália, já fora assinado em 26 de abril, uma semana antes de o Barão Sonnino descontinuar suas gestões em Viena. Os sentimentalistas do Foreign Office inglês não entraram nessa negociação com exuberância de coração. Em primeiro lugar, tinham a sensação de que a Itália, como aliada, podia ser até mais um problema que uma vantagem. Em segundo lugar, não lhes encantava prometer um preço tão alto pelo ato de traição da Itália, e às custas do próprio povo que ela estava na iminência de trair. Porém, essas emoções de velho-mundo deviam ser suprimidas em favor da “necessidade da guerra.” Mas o fato é que o Foreign Office assumiu o encargo a contragosto. Sir Edward Grey ficou tão desconcertado com a conduta e as exigências da Itália que foi para o interior alegando doença. O Subsecretário Permanente, na primeira conversa mantida com o Embaixador Italiano, se permitiu uma expressão que traduz um realismo de desprezo. “Vocês falam,” disse o Embaixador, “como se estivessem comprando nosso apoio.” “Bem,” respondeu o Subsecretário, “realmente estamos.” O Marquês Imperiali ficou muito ofendido por esta observação e foi buscar simpatia alhures. Os detalhes do Tratado foram negociados por funcionários subalternos sob a supervisão meio penitente de Mr Asquith. As principais disposições do Tratado Secreto de Londres podem ser tabuladas da seguinte forma: 1. A Itália teve a promessa da posse não somente do Trentino, mas de todo o sul do Tirol até o Passo de Brenner. Significava pôr 229.261 austríacos legítimos sob jurisdição italiana. 2. A Itália teve a promessa de outros territórios e ilhas, tais como Trieste, Gorícia, Gradisca, Lussin, Istria, Cherso e porções da Carniola e da Carinthia, que poriam sob sua jurisdição 477.387 iugoslavos. 3. A Itália teve a promessa da Dalmácia do Norte e da maior parte das ilhas dálmatas, o que significava a jurisdição sobre mais 751.571 iugoslavos. 4. Também lhe foi prometida a plena soberania sobre a cidade e base naval albanesa de Valona, mais um protetorado sobre o futuro estado da Albânia. As partes norte e sul daquele estado seriam anexadas à Sérvia e à Grécia, respectivamente. 5. Também lhe foi prometida a plena soberania sobre Rhodes e as outras onze ilhas do Dodecaneso, com uma população exclusivamente grega e que ela ocupara “temporariamente” por ocasião da guerra de Trípoli. 6. No caso de uma divisão da Turquia, a Itália teve a promessa de “uma justa parcela” na região de Adalia. 7. No caso de a Inglaterra e a França ampliarem suas possessões coloniais na África às custas da Alemanha, ela recebeu a promessa de uma “compensação proporcional.” Em outras palavras, o Tratado de Londres prometia à Itália territórios que deixariam sob seu domínio cerca de 1.300.000 iugoslavos, 230.000 alemães, toda a população grega do Dodecaneso, os turcos e gregos da Adalia, tudo que restara de albaneses e algumas áreas indefinidas na África. Foi, portanto, um tratado absolutamente conflitante com o princípio da autodeterminação e a doutrina dos Quatorze Pontos. Em troca destas imensas e totalmente indefensáveis concessões, a Itália assumiu apenas duas obrigações. A primeira era conceder o porto de Fiume aos iugoslavos. A segunda, declarar guerra a todos os nossos inimigos. Fugiu de ambas as obrigações. A primeira será apreciada mais tarde e a última também não foi obedecida. É bem verdade que a Itália declarou guerra à Áustria em maio de 1915, à Turquia em agosto do mesmo ano e à Bulgária poucas semanas depois. Contudo, só veio a declarar guerra à Alemanha em 27 de agostode 1916. O Signor Salandra na verdade se vangloriou afirmando que esta atitude evasiva “foi um grande serviço prestado a meu país.” Foi feita uma tentativa em Paris para conseguir que Mr Balfour, argumentando que este ato de consagrado egoísmo se constituía em omissão suficientemente grave, procurasse invalidar o Tratado de Londres em sua totalidade. Ele respondeu à vontade, aristocrático e contrário dizendo: “Isso é argumento de advogado.” Mr Lloyd George foi parcialmente sincero ao levantar esse ponto em fase posterior das negociações. Os italianos, com sua habitual irreverência e infalível impropriedade, resmungaram algo sobre “um pedaço de papel.” Basta sobre o Tratado de Londres em sua fase pré-armistício. Entre sua conclusão e o colapso da Áustria-Hungria aconteceram determinados fatos que devem ser mencionados sucintamente. Os bolcheviques foram os primeiros a publicar os termos do Tratado, que foi imediatamente atacado não apenas na Inglaterra, nos Estados Unidos e França, mas também na Câmara dos Deputados da Itália. Foi chamado de documento desavergonhadamente imperialista. Teve o poder de galvanizar a parcela iugoslava do exército austríaco, que passou, mais do que nunca, a hostilizar a Itália. Caporetto mostrou aos italianos que algo tinha de ser feito para acalmar estes iugoslavos hostis. O Signor Orlando, que então era primeiro-ministro, estimulou alguns deputados a formarem um comitê de conciliação. Sob a serena orientação, bem ao estilo escocês, do Dr Seton Watson e o perseverante europeísmo de Mr Wickham Steed, foi estabelecido contato em Londres entre o Signor Torre, da Câmara dos Deputados italiana e M Trumbic, porta-voz do Comitê Iugoslavo. Em 10 de abril de 1918, o “Pacto de Roma” foi celebrado entre aqueles dois competentes representantes não oficiais. Por esse pacto, as desavenças ítalo-iugoslavas deveriam ser solucionadas segundo o critério da nacionalidade. O Governo Italiano, em 8 de setembro de 1918, deu declaração afirmando sua profunda simpatia pelo anseio dos iugoslavos no sentido de criar um reino unido e independente. Foi, como demonstrou a batalha de Vittorio Veneto, um pronunciamento que rendeu frutos. Na época, foi compreendido por todos que o Tratado de Londres estava ultrapassado, diante de acordos e pronunciamentos aprovados, embora não oficiais. Essa sentimento cresceu quando a Itália aceitou entusiasticamente os Quatorze Pontos do Presidente Wilson. O ponto nove estabelecia que as fronteiras italianas seriam definidas sobre “linhas de nacionalidade claramente reconhecíveis.” É verdade que, em 1o de novembro, o Signor Orlando murmurou algo que pareceu uma ressalva. Quando solicitado a repeti-la, simplesmente murmurou de novo. Nessa ocasião, lhe foi indicado que o nono dos Quatorze Pontos não tinha nenhuma relação com o armistício com a Alemanha, então em discussão. Ele acatou alegremente a insinuação. Não publicou o fato de ter feito qualquer ressalva até 1o de maio de 1919. Trata-se de um exemplo clássico dos riscos de imprecisão afável em negociação internacional. O Signor Orlando ficou com a impressão de que aceitara os Quatorze Pontos com a ressalva referente ao ponto nove. O Presidente Wilson e o resto do mundo entenderam que ele aceitara os Quatorze Pontos sem restrições. Foi esse mal-entendido que juntou mais um complicador à controvérsia que se seguiu. Deve-se admitir que os Representantes Italianos estavam em posição muito delicada quando chegaram a Paris. Na guerra, a Itália se voltara contra seus aliados, colocando-se ao lado de seus inimigos, pelo princípio do “egoísmo sagrado.” Esse princípio se traduzia na troca de compensações materiais em vez de morais. A Inglaterra e a França tinham se comprometido a proporcionar essa satisfação material na moeda do velho imperialismo, qual seja, sob a forma de anexações e protetorados. Nenhuma engenhosidade humana, nenhuma manobra estatística ou de outra natureza seria capaz de fazer com que essa dívida pudesse ser saldada na nova moeda criada pelos Quatorze Pontos. Nada podia ocultar o fato primordial de que o cumprimento das disposições do Tratado Secreto violaria o princípio da Autodeterminação, uma vez que punha sob domínio italiano, e a contra-vontade, uma população de dois milhões desejosa de escolher o próprio destino. A batalha era, pois, inescapável entre um Tratado Secreto e os Quatorze Pontos, entre imperialismo e autodeterminação, entre a velha ordem e a nova, entre a convenção diplomática e o Sermão da Montanha. A França e a Inglaterra estavam presas pelos termos de sua hipoteca. As mãos do Presidente Wilson estavam atadas apenas por seus próprios princípios. Ali estava, se alguma houvesse, a melhor oportunidade para o Profeta do Novo Mundo impor sua mensagem ao Velho. A questão italiana tornou-se, assim, para os que a conheciam, um teste para toda a Conferência. Foi no tratamento dispensado por Woodrow Wilson ao Tratado de Londres que decidimos julgar seu verdadeiro valor. O Presidente foi testado e fraquejou. Talvez tivéssemos escolhido um assunto injusto para testá-lo, mas foi o tema que selecionamos. Ele falhou perante nós. Ficamos abalados com seu fracasso. Desde aquele instante deixamos de acreditar que o Presidente Wilson era o Profeta que tínhamos seguido. A partir daquele momento passamos a ver nele não mais do que um clérigo presbiteriano. Narro estas emoções tal como afloraram na época. Vejo claramente que foi fácil para nós escolher uma cirurgia de oportunidade para testar a habilidade de Mr Wilson como cirurgião. Não digo que estávamos certos, que fomos altruístas, perspicazes ou mesmo honestos ao fazê-lo. Digo apenas que assim fizemos. As exigências italianas foram enfraquecidas por outras circunstâncias. Signor Orlando e Signor Sonnino tinham presumido que o princípio da Autodeterminação não seria aplicado com um rigor acadêmico que favorecesse a Alemanha ou mesmo a Hungria. Para os italianos, foi embaraçoso constatar que suas reivindicações incidiam justamente sobre aquelas porções de território inimigo que despertavam sentimentos mais calorosos no coração tanto de associados quanto de aliados. Todos simpatizavam com os tiroleses. Foi dito que Mr Lloyd George alimentava profunda admiração, um sentimento de camaradagem, pela memória de Andreas Hofer. E também havia os iugoslavos. Aos olhos dos italianos, croatas e eslovenos eram os mais perniciosos de todos os nossos ex- inimigos. Ao chegar a Paris, foi desagradável para o Barão Sonnino descobrir que os americanos, assim como os ingleses e franceses, encaravam os sérvios libertados como as ovelhas perdidas pelas quais se regozijavam. Os gregos podiam, igualmente e com toda justiça, reclamar a posse do Dodecaneso, onde população e anseios eram totalmente gregos. Ademais, a opinião pública na Itália não era das mais favoráveis. Havia murmúrios de socialismo; pior, tais murmúrios só podiam ser neutralizados por generosas fatias de imperialismo vitorioso. Mas como era possível conseguir essas fatias, com o Presidente Wilson exibindo seu evangélico sorriso de Princeton? É forçoso reconhecer que, em geral, a natureza humana leva a ver os italianos com uma certa simpatia. Por trás de toda aquela perplexidade, havia preocupação com um aspecto mais constrangedor. O colapso total da Áustria surpreendera a Itália. Eles prefeririam algum tipo de “combinazione” que deixasse um cordão de estados fracos e isolados ao longode suas fronteiras setentrional e oriental. Ao invés disto, viram-se diante dos alemães como seus vizinhos no norte e, no leste, diante de um novo e poderoso estado com mais de treze milhões de iugoslavos. Mais à frente voltarei a comentar este importante aspecto. Por enquanto, basta salientar como foi inevitável que passassem a concentrar seus pensamentos em Brenner e no Monte Nevoso. Distraio-me descobrindo em meu diário tanta ingenuidade e convicta indignação com as manobras diplomáticas dos Signori Orlando e Sonnino. Agora que constato as imensas dificuldades que enfrentavam e a inacreditável futilidade daqueles aos quais se opunham, fico em dúvida se eles eram totalmente incompetentes. Externa e internamente estavam em posição muito fraca. Sabiam que seu poder político e militar, terrestre e naval, ganhava-lhes pouca estima dos Aliados. Sabiam que tudo que postulavam se opunha aos princípios do Presidente Wilson. Sabiam que tais princípios seriam intensamente exigidos em outras áreas, sob pressão da França, da Bélgica, dos Novos Estados e outros atores mais fortes do que eles. Sabiam que até a opinião pública italiana, ainda estimulada pela propaganda de guerra, esperava triunfos que provavelmente não alcançariam. Assim sendo, resolveram manobrar para ganhar tempo e posição com uma sutileza e persistência que hoje em dia desperta minha indignação e um relutante respeito pela manobra. Gostaria de pensar que a Itália teria se saído melhor se lançando, casta e chorosa, nos braços do Presidente Wilson para, em gesto arrebatador, se aliar ao bom, ao belo e ao verdadeiro. Todavia, me pergunto se tal gesto teria originado o Tratado de Rapallo, de 12 de novembro de 1920. Teria produzido o comunismo na Itália, quando Mussolini ainda não passava de simples jornalista em Milão. De certo modo, a Itália era um anacronismo em nossos Conselhos, e ainda um anacronismo desprezado e maltratado. Presentemente, não acho que Sonnino e Orlando estivessem inteiramente sem razão em seus procedimentos. Só lamento que esta inevitável combinação de fatores negativos tivesse destruído o wilsonismo na Conferência de Paris. A tentativa de combinar o século quinze com o século trinta, na melhor das hipóteses, poderia levar a um juízo falso sobre seus motivos. E Paris em 1919 não foi a melhor das circunstâncias. Os estágios da rendição do Presidente Wilson à Itália e as atitudes erráticas que adotou para recuperar sua posição original não têm sido divulgadas com clareza. É evidente, creio, que Orlando e Sonnino, que não concordavam em tudo, repartiam as atribuições. Orlando, que era um liberal de coração, concentrava-se em conquistar a aprovação do coronel House, no que quase sempre obteve êxito. Sabia que havia dois pontos fracos na armadura dos americanos, resultante de dois ardentes anseios. O primeiro era alcançar uma vitória moral sobre a Europa, capaz, de uma vez por todas, de satisfazer sua volúpia pelo trabalho de amenizar e superar seu complexo de inferioridade cultural e histórica. O segundo era chegar à vitória sem o menor esforço de abnegação pessoal. Estes dois propósitos estavam admiravelmente combinados em uma Convenção da Liga das Nações que absorveria a doutrina de Monroe. O Signor Orlando, sendo um homem inteligente, embora ligeiramente incrédulo, foi o primeiro a perceber que o Presidente Wilson fecharia os olhos a inúmeras incongruências se ao menos o Covenant da Liga, ainda que castrada, pudesse ficar inserida de forma inexorável no tecido dos tratados. Quando o Presidente regressou de sua breve estada em Washington, logo percebeu que a oposição do Senado americano deixara a delegação dos Estados Unidos em Paris em situação altamente ilógica. Prontamente ofereceu ao coronel House o apoio da Itália no Comitê da Liga. Com a mesma presteza assegurou ao Presidente que não haveria nada mais fácil ou mais justo do que excluir o continente americano tanto das sanções quanto das responsabilidades no mecanismo de funcionamento da Liga, concedendo-lhe as benesses do soerguimento moral, sem o ônus de ter que agir e interferir. O Signor Orlando, com a maior afabilidade, defendeu a cláusula pela qual a doutrina Monroe deveria ser absorvida em sua plenitude pela Liga das Nações. Mas cometeu um erro. Deixou de reparar que desde o Presidente retornar de Washington – desde aquele sombrio banquete em que o Senador Lodge permaneceu tão calado – o coronel House já não estava prestigiado. Tinha aderido às ideias de Clemenceau. Em consequência, a partir de então duas facções passaram a conviver no Hotel Crillon. A primeira, que podia ser chamada a facção da conciliação, era representada pelo coronel House e Mr Henry White. A segunda era a do wilsonismo, representada pelos especialistas americanos. Ninguém, e menos ainda o próprio Mr Wilson, tinha uma noção exata da facção à qual o Presidente pertencia. O Signor Orlando supunha que o presidente e o coronel House ainda estavam do mesmo lado, o que o levou a adotar uma postura que, sem o apoio americano, se mostrou muito ingênua. O ministro do Exterior da Itália, o Barão Sonnino, defendia outros propósitos e neles se concentrava. Representava a “rigorosa honestidade,” fama que adquirira em virtude de uma (deliberada) casualidade. Sua mãe tinha a nacionalidade escocesa, o que nos fez acreditar em sua sinceridade. Colocara sobre a lareira em sua casa o lema “aliis licet, tibi non licet” (outros podem fazer, mas você não pode). Ao sabermos dessa inscrição, ficamos convictos de que o Barão Sonnino era um homem independente, magnânimo, humano e de inteligência ágil. São atributos imortais. Permitiram que o Barão Sonnino continuasse gozando de nossa confiança até que o conhecêssemos bem. Entretanto, apesar das vantagens iniciais da adoção de dupla personalidade e abordagem, continua sendo um completo mistério como a delegação italiana conseguiu convencer o Presidente Wilson a permitir que a Itália ficasse com a fronteira no Brenner e com o sul do Tirol. Parece que ele já concordara com esta concessão extremamente nociva em janeiro de 1919. Comentou-se que o Presidente ainda estava sob a exaltada emoção de seu triunfo romano. Comentou-se que os italianos ameaçaram se opor à inclusão da Convenção da Liga no Tratado de Paz, a menos que ele acatasse suas postulações. Também se comentou que prometeram que, se a concessão fosse autorizada, apoiariam as ideias wilsonianas e seriam cordatos em todas as outras matérias, como as que diziam respeito a iugoslavos, albaneses, gregos e turcos. Nenhum desses comentários se baseia em fontes totalmente convincentes. Nada há que explique como o Presidente, logo no início da Conferência, pôde concordar com a transferência de 230 mil tiroleses para o domínio italiano, em flagrante violação do mais central de seus princípios. Prefiro aceitar a simples explicação de que Woodrow Wilson naquele momento praticamente desconhecia as reais implicações da concessão. Mais tarde, confessou ao Dr Charles Seymour que capitulara neste assunto em consequência de “estudo insuficiente.” O professor Coolidge fez o seguinte registro: “Entre nossa gente, existe uma crença bem fundamentada de que ele deu seu consentimento sem a devida apreciação do assunto e arrependeu-se francamente mais tarde, mas estava tolhido pela palavra dada.” Quaisquer que tenham sido os motivos que levaram o Presidente a entregar o Tirol aos italianos, as consequências deste ato foram desastrosas. Fizeram-se sentir da seguinte maneira.Desde os primeiros dias da conferência havia um entendimento generalizado de que o Presidente já sacrificara o princípio da nacionalidade em uma questão que não admitia justificação para tal abandono, a não ser a necessidade estratégica. Aparentemente, fizera esta concessão gratuitamente e sem exigir nada em troca. Assim procedendo, paralelamente aprovava o Tratado de Londres. Dessa forma, desde logo comprometeu sua própria posição moral e a autoridade de sua Delegação. Se Wilson podia engolir o Brenner, podia engolir qualquer coisa. O efeito moral desta constatação não pode ser exagerado. Mesmo por razões práticas, distintas das de ordem moral, sua concessão foi uma tremenda asneira. Quando, em seguida, teve que enfrentar a questão do Adriático, viu que já tinha desperdiçado seus trunfos. Em seu desejo de retificar aquele gesto impensado, ficou teimoso e professoral em assuntos de muito menor importância. Fez suas jogadas com atitude pedante e provocativa. Devido a isso, o problema do Adriático passou do nível de mera diferença de opinião para o dos picos nervosos de uma crise mundial. Observe-se que nesse assunto de vital importância Mr Wilson também arcou com as consequências de ter recusado de forma arrogante e irrefletida a proposta de programa apresentada por Jusserand em 29 de novembro. Se esse programa fosse aceito e implantado, não só o Tratado de Londres teria sido automaticamente invalidado, mas também teria sido possível evitar desperdício de tempo e trabalho no trato de todas as imposições italianas. A Conferência poderia até mesmo, desde as sessões iniciais, ter estabelecido que o primeiro objetivo era a conclusão da paz com o principal inimigo, e, assim, as divergências adriáticas só viriam à tona com inevitável insistência nas fases finais e menos críticas. Mais uma vez, foi a falta de um planejamento científico que, desde o começo, lançou sobre o Conselho Supremo todas estas complexas questões. Na ânsia de aplacar as Potências menores, os membros do Conselho gratuitamente os convidaram a declarar suas reivindicações. Foram essas declarações de demandas que, no caso de Iugoslávia, Grécia e Albânia, impuseram ao Conselho Supremo a necessidade de avaliar já em fevereiro até que ponto essas reivindicações conflitavam com as da Itália. É verdade, claro, que os italianos, de qualquer forma, teriam pressionado para postergar a assinatura da Convenção e do tratado com a Alemanha até que suas reivindicações que afetavam a Áustria, a Iugoslávia, a Grécia e mesmo a Turquia, fossem aceitas, pelo menos em princípio. Mas a falta de um programa inflexível lhes permitiu chegar a seu objetivo sem um mínimo de esforço. O que deveria ser uma manobra espinhosa e desgastante, graças ao amadorismo do Conselho Supremo, se transformou num passeio. O ponto principal da questão italiana, já que o Brenner fora concedido, foi o que ficou conhecido por todos como o “Problema Adriático.” Em outras palavras, centrou-se na disputa entre a Itália e a Iugoslávia em torno de sua fronteira, mais particularmente quanto à posse de Fiume, da Dalmácia e das Ilhas. O Problema Adriático abrange complexos pormenores que dificultam uma apreciação imediata e objetiva. Cuidarei disso mais tarde, considerando os princípios e métodos envolvidos. Mas é impossível transmitir com precisão o efeito que a incessante controvérsia com a Itália gerou sobre a Conferência de Paz, a menos que se tente descrever o constante fluxo e refluxo entre fato e princípio, princípio e fato. Eis por que devo escolher como meus exhibits (ou inhibits) dessas dificuldades de detalhe não o problema central de Fiume e o Adriático, mas dois efeitos secundários e muito mais manejáveis do Tratado Secreto de Londres. Vou optar pelos problemas da Albânia e do Dodecaneso. Até as guerras dos Bálcãs em 1912-1913, a Albânia, embora possuindo uma nacionalidade ilíria própria, fora uma província do Império Turco. Com o colapso do domínio turco na Macedônia e na Trácia, a Albânia viu-se independente, mas, de certa forma, no ar. Seu futuro status e suas fronteiras foram objeto de apreciação na Conferência de Embaixadores que então se realizava em Londres sob a presidência se Sir Edward Grey. Em 29 de julho de 1913, os embaixadores, depois de intenso debate, generosamente entraram em acordo a propósito da fronteira setentrional do futuro Principado Albanês. Essa fronteira colocou Scutari em território albanês, mas transferiu as cidades albanesas de Ipek e Djakova para Montenegro. A delimitação da fronteira meridional entre Albânia e Grécia seria decidida depois de examinada por uma comissão no local. As recomendações dessa comissão ainda não estavam inteiramente aprovadas quando eclodiu a Guerra Europeia. Entrementes, a coroa da Albânia fora oferecida ao Príncipe Wilhelm de Wied, que desembarcou em Durazzo em 7 de maio de 1914 e deixou o país em 4 de setembro, forçado por Essad Pasha, seu próprio ministro da Guerra, que o substituiu. Em 25 de novembro, a Itália, embora na época fosse neutra, se apossou da base naval de Valona, enquanto as tropas austríacas ocuparam o norte e o centro. Em abril seguinte, o Tratado de Londres concedeu à Itália Valona e o protetorado de um pequeno estado central albanês, enquanto o restante da Albânia devia ser dividido entre a Sérvia e a Grécia. Em 3 de junho de 1917, a Itália, sem consultar seus Aliados, proclamou a independência da Albânia sob proteção italiana. Os franceses reagiram criando uma república independente em Koritza, no sul da Albânia, dominando a importante e estratégica estrada de Santi Quaranta para a Grécia. Obstinadamente e, em meu modo de ver, com justa razão, mantiveram suas forças naquele remoto distrito até maio de 1920. De sua parte, os sérvios cruzaram a fronteira norte e ocuparam Scutari e a linha do Drin. Mais adiante foram obrigados a entregar Scutari a uma força interaliada, mas permaneceram ocupando o restante da Albânia setentrional. Na abertura da Conferência de Paris essa situação da Albânia era, portanto, anômala e confusa. A situação deteriorou-se ainda mais porque cada um dos vizinhos e protetores da Albânia alimentava projetos próprios sobre a definição territorial e as fronteiras do país, e pelo fato de, pelo menos no sul, as populações serem cerradamente misturadas, e os dados estatísticos não confiáveis. Os gregos reclamavam todo o sul da Albânia, inclusive Koritsa, alegando que constituía o “Épiro Setentrional” e era habitado predominantemente por gregos. Os sérvios queriam todo o norte da Albânia, em parte por razões estratégicas e em parte por motivos étnicos. Contudo, seu principal argumento era a ferrovia Grand Trunk, que devia ligar a Iugoslávia ao sul do Adriático, e só teria saída em Scutari e ao longo do vale do Drin. A atitude das Grandes Potências diante desse intricado problema foi ilustrativa e diversa. Os americanos e ingleses eram pró-Albânia em simpatia, embora no sul nosso entusiasmo ficasse ofuscado por uma dúvida: se seria prudente, uma vez que a Itália fincasse pé na Albânia, dar- lhe a vantagem estratégica de Koritsa e da estrada de Santi Quaranta, que, na verdade, era a única via de comunicação entre Janina e Salônica. Os franceses tendiam para nossa posição, e foram eles que finalmente nos convenceram que Koritsa devia ser atribuída à Grécia. A atitude da Itália nesse problema era ilógica, irritante e estranha. Desde abril de 1915 a seção do Tratado de Londres pertinente à Albânia desagradava aos italianos. Eles ainda queriam a plena soberania sobre a base naval de Valona.Ainda queriam um protetorado no futuro estado albanês. Ainda queriam, como sempre, o Tratado de Londres. Porém, não mais estavam dispostos a observar as disposições restantes daquela seção do Tratado e entregar à Sérvia e à Grécia as porções norte e sul da Albânia. A primeira cessão representaria um acesso ao território da Iugoslávia, e a segunda concederia à Grécia o domínio estratégico do canal de Corfu. Em qualquer caso, se a Itália recebesse o protetorado da Albânia, convinha-lhe que o território deste estado se estendesse o máximo possível, para o norte e para o sul. O resultado foi que – embora em todos os outros pontos (exceto Fiume) os italianos clamassem pela obediência plena do Tratado de Londres com base na “Santidade dos Tratados” – em relação à Albânia, eles alegavam que o Tratado não estava em completo acordo com o princípio da autodeterminação. Quando lhes foi salientado que a retenção de Valona também podia ser considerada uma violação desse princípio, contra- argumentaram afirmando que a posse de Valona envolvia “a honra da Itália.” Dia após dia fomos obrigados a ouvir pacientemente essa exegese da doutrina de Wilson por nossos colegas italianos sem poder expressar o desagrado e, na verdade, a fúria cega que tais sofismas despertavam. A tolerância demonstrada pelos americanos e pela Conferência em geral diante de tal distorção de doutrina me causava um efeito terrivelmente desmoralizante. A cortesia própria da conduta internacional nos impedia de manifestar a justa indignação, a não ser por um dorido silêncio. Mas a qualquer momento poderia haver uma explosão dos Representantes dos Estados Unidos, como a seguinte: “Nesta questão, vocês acabaram de apelar para a doutrina da autodeterminação, alegando que se sobrepõe ao Tratado de Londres. Posso informar meu Presidente que a Itália aplicará esse princípio a todas as questões em que os interesses italianos estão envolvidos?” Essa pergunta não teria resposta. Mas nunca foi feita. Aguentamos em silêncio. E assim, dia após dia, nossa confiança no wilsonismo, como doutrina altiva e passível de aplicação, foi destruída. É necessário acrescentar que a questão albanesa nunca chegou a ser resolvida pela Conferência de Paris. Os italianos continuaram ocupando militarmente aquele país até agosto de 1920, quando os albaneses levantaram-se contra eles e os jogaram no mar. Foi apressadamente negociado um armistício, e os italianos, mal conseguindo preservar sua dignidade, se retiraram. A partir de então foi adotada uma política de penetração pela via financeira. Foi extremamente bem-sucedida. Bem depois da Conferência de Paris, as fronteiras da Albânia e a posição da Itália em relação a esse país foram regularizadas por acordo diplomático. A questão de Rhodes e das onze outras Ilhas Gregas do Dodecaneso podem ser abordadas mais resumidamente. Os italianos não possuíam direito moral e apenas parcial direito jurídico àquelas ilhas. O Barão Sonnino continuou tentando negociar com M Venizelos um acordo direto para a resolução das dificuldades greco-italianas. Os americanos e ingleses eram seguidamente iludidos com garantias de que um acerto conveniente para ambos os lados estava a ponto de ser feito. Tal acerto foi realmente alcançado entre M Venizelos e o Signor Tittoni, sucessor do Barão Sonnino. Mas quando dias de desgraça cairam sobre os gregos, o acordo foi repudiado por um governo seguinte e até hoje a bandeira italiana drapeja indevidamente (mas reconheço que saudável) sobre o Dodecaneso. Mencionei esses dois problemas não apenas como exemplo das guinadas, hipocrisias e fingimentos que éramos obrigados a suportar em educado silêncio, mas para demonstrar até onde infelizmente se estendeu a hesitação do Presidente Wilson e seus assessores, oscilando entre princípio e detalhe. Neste aspecto, tenho de admitir, sua preparação profissional se revelou desastrosa. Nossas próprias mãos ficaram atadas pelo Tratado de Londres, e não podíamos dizer nada. Esperávamos que os americanos fizessem chover fogo do céu e sustentassem a validade de seus princípios contra qualquer ajuste de pormenores. Foram hesitantes, em parte por temerem exageradamente provocar uma “ruptura da Conferência de Paz” e, por outro lado, por um acanhamento excessivamente escrupuloso. Porém, uma vez que abandonaram a fortaleza inexpugnável de seus próprios princípios e saíram para o pantanal de detalhes que os cercava, imediatamente capitularam, superados em número e desarmados. A tragédia da Conferência de Paz foi o fato de o Novo Mundo ter consentido em se encontrar com o Velho Mundo no campo escolhido por este. É fácil, e não muito histórico, apontar os italianos como vilões de todo esse drama. Objetivamente, hoje constato que havia e ainda há muito que se possa dizer em sua defesa. Reconheço (já o fiz antes) suas dificuldades. As emoções da Câmara dos Deputados italiana eram ainda mais desordenadas do que as da Câmara dos Comuns. Deixava-os loucos sentir que os Quatorze Pontos eram flexíveis em favor da França e da Inglaterra e rigidamente aplicados contra a Itália. A têmpera do país era ainda mais histérico do que a provocada pelo Daily Mail. A situação trabalhista era ainda mais ameaçadora do que a de Glasgow. O apetite da Itália era maior e sua capacidade de digestão muito menor do que em qualquer outro país. Ela estava decidida a se tornar uma Grande Potência, sem a força interna que justificasse tal ambição. Em janeiro de 1919, a Itália estava obviamente em seu pior momento. Há outras considerações que tornam os assuntos enfrentados por Orlando e Sonnino particularmente desconcertantes. Já deixei claro que a desmontagem completa da Áustria-Hungria surpreendeu os italianos. É conveniente examinar essa afirmação do ângulo da necessidade italiana. O Tratado de Londres fora elaborado com base na premissa de que pelo menos alguma coisa restaria do velho Império Austro-Húngaro e que algum tipo de equilíbrio de poder persistiria junto às fronteiras norte e leste da Itália, como aquele entre os teutônicos e o eslavos. Esta suposição fora contrariada pelos acontecimentos. Contra a ameaça alemã, de fato eles eram protegidos pela linha do Brenner. Mas no leste ficaram expostos, não (como tinham previsto) a um perigo puramente naval ou de uma “polinésia” de pequenas ilhas, mas à ameaça militar de uma fronteira terrestre a ser defendida contra treze milhões de iugoslavos. Em outras palavras, o Tratado de Londres fora pensado em termos do Império Austro- Húngaro. Os termos já não se aplicavam. Para um país fraco como a Itália, eram essenciais garantias estratégicas e econômicas contra essa nova ameaça. Essas garantias se expressavam em termos de dois objetivos. (1) O Monte Nevoso como defesa estratégica contra o exército iugoslavo. (2) Fiume, como garantia – e e também uma vítima – da prosperidade econômica de Trieste. Nenhum destes dois objetivos fora prometido à Itália pelo Tratado de Londres. Ambos violavam o princípio do Presidente Wilson. Somente pensando em termos de necessidade essencial da Itália podemos tentar compreender o aparente engano do Signor Orlando (uma vez obtido o que queria no Brenner) ao eleger como seus principais objetivos os únicos dois pontos (Fiume e Monte Nevoso) em que os signatários do Tratado de Londres tinham liberdade para se aliar ao Presidente Wilson. Frequentemente se afirma (Mr Lansing, entre outros) que o Signor Orlando soltou sobre a questão de Fiume uma opinião pública que não foi mais capaz de controlar.Há certa dose de verdade nesta afirmação. Contudo, questiono se a Delegação italiana foi até um ponto sério vítima de sua própria propaganda. Obviamente seus membros sabiam que o Tratado de Londres prometeu-lhes a Dalmácia, mas negou-lhes Fiume. Também sabiam que, pelos Quatorze Pontos, a Dalmácia era inobtível, e que, com alguns artifícios estatísticos, poderiam vencer em Fiume. Podem ter sentido que se a “Grande Voz” do povo italiano fosse incitada a um alarido por Fiume, o grande coração desse mesmo povo acabaria aceitando a consequente perda da Dalmácia. Até certo ponto esta pode ter sido sua intenção e infelicidade. Porém, sem dúvida, sentiram que as circunstâncias tinham mudado e que a posse de Fiume e do Monte Nevoso era, para a Itália, uma necessidade, muito mais premente do que qualquer floreio de brilho na Dalmácia ou nas Ilhas. Abordo desta forma sumária o ponto central do problema do Adriático. Não faço menção ao armistício da Villa Giusti de 3 de novembro de 1918, à recusa italiana em Paris em sentar à mesma mesa dos croatas e eslovenos, à tentativa iugoslava de assegurar a decisão arbitral do Presidente Wilson, a todas as notas e negociações acontecidas entre 13 e 23 de abril, às dissensões entre o grupo House e o Grupo Bowman dentro da delegação americana e à consequente “linha Wilson,” à nossa própria atitude de, embora tendo o direito de impor exigências ao amparo do Tratado de Londres, não nos dispormos a fazê-lo, ou às idas e vindas de todo indiferentes de Mr Lloyd George entre o Hotel Crillon e o Hotel Edouard VII. A questão principal pode ser fervida até a seguinte forma: 1. O Tratado de Londres prometeu à Itália a Dalmácia e algumas Ilhas Adriáticas. Não lhe destinou nem Fiume, nem o Monte Nevoso. 2. A França e a Inglaterra estavam comprometidas com o Tratado de Londres. O Presidente Wilson se recusou sequer a levá-lo em consideração. 3. O sumiço do Império Austro-Húngaro e o inesperado surgimento de um compacto e poderoso Estado Iugoslavo tornaram essencial para a Itália conseguir a posse de Fiume por razões econômicas e do Monte Nevoso por necessidade estratégica. 4. Se os italianos abandonassem o Tratado de Londres, liberariam a Inglaterra e a França de qualquer obrigação por ele. Se insistissem em sua aplicação, seriam frustrados pelo veto do Presidente Wilson. 5. Portanto, sua política foi com uma mão segurar a Inglaterra e a França no Tratado de Londres, com a outra negociar com o Presidente Wilson sobre Fiume e o Monte Nevoso. Uma vez estes obtidos, um novo Tratado podia ser negociado com a França e a Inglaterra a fim de, liberando-os das cláusulas europeias do Tratado de Londres, comprometê-las nas disposições relativas à Ásia e à África. Não é de surpreender que a Delegação Italiana tenha se esforçado tanto para pôr um pé em cada canoa. Realmente desalentador é que o Presidente Wilson (que tinha todos os trunfos na mão, com exceção do caso de Brenner) tivesse adotado um método precisamente similar de afugentar e atrair. Inicialmente, em 14 de abril, deu a entender ao Signor Orlando que se dispunha a ceder na questão de Fiume. Em seguida, em 23 de abril, expediu para a imprensa um comunicado em que apelava ao povo italiano, passando por cima de seu representante eleito. Dessa forma, combinou o sigilo da velha diplomacia com as mais flagrantes indiscrições da nova. Pode-se conjeturar que essa dualidade de ações do presidente se deveu às influências conflitantes do coronel House e do grupo de especialistas americanos que se alinhavam com Mr Isaiah Bowman. O coronel estava tomado, com toda razão, pelo temor do atraso, e acreditava que qualquer Tratado rapidamente concluído seria melhor do que qualquer Tratado que demorasse. Convém lembrar que o coronel House era um homem muito inteligente, mas, até certo ponto, desarticulado. Os especialistas achavam que o Presidente devia fazer dessa última trincheira o baluarte para defesa de seus princípios. Dirigiram-lhe, então, um apelo do tipo capaz de despertar seus sentimentos teocráticos. “Nunca,” escreveram, “o Presidente teve uma oportunidade como esta para desfechar um golpe de morte nos métodos desacreditados da velha diplomacia (...) O Presidente dispõe do raro privilégio de entrar para a história como o estadista que destruiu, através de uma decisão clara contra um vil arranjo, o derradeiro vestígio da velha ordem.” Na verdade, não foi o derradeiro vestígio. Shantung permaneceu como humilhação final. Certamente não foi uma decisão clara. Mas o Presidente tomou força com essas palavras revivalistas. Em 23 de abril expediu para a imprensa uma declaração com seus pontos de vista sobre a questão de Fiume, na qual apelava, não sem sua velha eloquência, ao coração da Itália contra o cérebro da Delegação Italiana em Paris. No dia seguinte, o Signor Orlando deixou Paris com dramática, embora até certo ponto ensaiada, indignação. O sentimento do povo italiano explodiu apaixonadamente contra o Presidente Wilson, bradando “Fiume ou a Morte.” O Presidente apelara a ambos, a seus princípios e ao Povo. E O Povo rangeu furiosamente os dentes contra ele de ódio. Ele ficou muito abatido. A partir daquele momento parece ter abandonado qualquer esperança de impor suas doutrinas às falsas democracias da Europa. Os detalhes do imbróglio que se seguiu são menos importantes do que esta derrota do Princípio. Em 5 de maio, os italianos retornaram a Paris. Mr Lloyd George, a partir daquele momento, se empenhou (em meu entendimento corretamente) para efetuar um acerto baseado em amplas compensações na Ásia Menor. Em 30 de maio, M Tardieu apresentou sua própria proposta de acordo. Em junho e julho ocorreram distúrbios em Fiume e alguns soldados franceses foram mortos. Em 12 de setembro D’Annunzio ocupou a cidade. Em dezembro, o Signor Nitti fez uma tentativa de meio-termo. Em janeiro de 1920, esse meio-termo foi substituído por outro. Tanto Trumbic quanto o Presidente Wilson (já então adoentado na distante Washington) rejeitaram tal acerto. O Presidente aventou negociações diretas entre os dois disputantes. Mais tarde, o problema foi discutido em San Remo, em maio de 1920, entre Trumbic e Nitti. Quase chegaram a um acordo, mas Nitti caiu. Em novembro de 1920, os iugoslavos estavam desanimados. O Presidente Wilson naquela ocasião era um homem batido pela doença e não havia esperança de ajuda. As Potências Aliadas estavam cansadas dessa controvérsia. Os iugoslavos tinham sido obrigados a se render ao Conde Sforza em Rapallo e a conceder à Itália o que na realidade significava Fiume e o Monte Nevoso. Foi dessa maneira, dezoito meses depois da Conferência de Paris, que, enquanto Wilson morria em Washington, a Itália conseguiu o que desajava. Não estou preocupado com a solução final do Problema Adriático. Só me preocupa o que aconteceu em Paris entre 18 de janeiro e 28 de junho de 1919. Depois de ceder na questão de Brenner, por que o Presidente Wilson não foi capaz de impingir à Itália uma solução equitativa nas questões do Adriático e do Dodecaneso? Pode-se argumentar que o Presidente, até o dia de sua morte, de fato nunca concordou com qualquer concessão nesses pontos e que sua atitude foi, pelo menos no pertinente à controvérsia, menos ilógica do que a posição que adotou em relação a Shantung, à Polônia, aos mandatos e à inclusão de pensões de guerra nas reparações. À luz fria da história, pode até parecer que, no trato com os italianos, Woodrow Wilson, a não ser no erro envolvendo o suldo Tirol, realmente manteve seus princípios incólumes. Todavia, essa não foi a impressão disseminada nos abafados salões de Paris. Reconhecemos, mais nos métodos do que nos objetivos da Delegação Italiana, tudo que havia de mais detestável na diplomacia antiga. Confiávamos que o Presidente também reconhecesse este perigo e enfrentasse os italianos com as poderosas armas de que dispunha. O espetáculo de Woodrow Wilson arrulhando de namoro com Orlando nos deixava absolutamente desesperados. Não é que negociasse inabilmente. O problema era ele concordar em negociar. Se desde o começo ele tivesse adotado uma posição firme contra as pretensões italianas, poderia mais adiante ter alcançado êxito contra a Inglaterra, a França e o Japão. Foi sua prematura hesitação na questão italiana que nos convenceu de que Woodrow Wilson não era um grande homem enérgico. Essa convicção foi um profundo desapontamento. Em suas pegadas, a desmoralização se espalhou por Paris como uma doença. 8 Fracasso A FINALIDADE DESTE LIVRO, DEVO REPETIR, NÃO É tanto descrever uma sequência de eventos, mas focalizar, antes que se evapore, a infeliz e doentia atmosfera da Conferência de Paz; transmitir alguma percepção da derivação gradual que a afastou de nossos altos anseios iniciais em favor dos países menores, onde se trabalhou num conjunto apressado em meio à neblina cada vez mais espessa. Receio que se a pressão (realmente inevitável) dessa atmosfera não for entendida como fator determinante, o historiador possa ver a Conferência com uma sabedoria que só aflora depois de realizado o evento e se concentre em plácidas críticas, distribuindo elogios e censuras. Mas não acho que um relato útil da Conferência de Paris possa ser transmitido em termos de valores éticos, ao contrário de técnicos. A Conferência pode ter sido, como disse Mr Winston Churchill, “uma colisão ruidosa de demagogos atrapalhados.” Já indiquei algumas das causas que produziram esse ruído, a colisão e os métodos demagógicos. Porém, a despeito disso, muita coisa útil e duradoura se realizou. Muita coisa ruim foi evitada. No entanto, poucos de nós não nos decepcionamos e, em alguns de nós, a Conferência inculcou por longo tempo um sentimento de descrença, uma convicção de que a natureza humana pode, como uma geleira, se mover apenas uma ou duas polegadas a cada mil anos. Neste capítulo final desejo resumir pelo menos alguns do que podemos chamar fatores psicológicos (ou seriam sintomas?) do fracasso; comentar a progressiva deterioração de nosso estado de espírito; assinalar nossa “mudança de ânimo”; e, se possível, atribuir esse declínio mental e afetivo a causas concretas. O historiador, com toda razão, chegará à conclusão de que fomos uns idiotas. Acho que fomos. Mas também acho que o fator burrice é inseparável de todas as atividades humanas. Muitas vezes é deixado de fora como componente inevitável do comportamento humano; e também é muito usado apenas como termo de afronta pessoal. Em primeiro lugar, qual foi a natureza dessa deterioração moral e intelectual? Posso falar com segurança apenas sobre minha própria mudança de ânimo, no entanto acredito que as mutações por que passei foram compartilhadas por muitos outros, e que minha perda de idealismo coincidiu com uma perda similar da parte daqueles (e eram muitos) que chegaram para a Conferência inflamados pelas mesmas certezas que eu. Nossa mudança de ânimo pode ser descrita assim. Chegamos a Paris acreditando que a nova ordem estava na iminência de se estabelecer; deixamos a cidade convencidos de que a nova ordem apenas elameara a velha. Chegamos como ferventes aprendizes na escola do Presidente Wilson; partimos como renegados. Quero alvitrar, neste capítulo (e sem amargura), que a infeliz deterioração de padrões foi em grande parte o defeito (ou se poderia dizer com mais compreensão “a infelicidade”) da diplomacia democrática. Chegamos convictos de que seria negociada uma paz de justiça e sabedoria. Partimos convictos de que os tratados impostos a nossos inimigos não foram justos e nem sábios. Àqueles que desejarem medir a extensão do abismo que se abriu entre intenção e realidade, recomendo uma leitura atenta das diversas notas dirigidas ao Conselho Supremo pela Delegação Alemã em Versalhes. O professor Hazeltine, no volume II do livro History of the Peace Conference, de Temperley, apresenta excelente sumário e apreciação comparativa dessas notas. É impossível ler os comentários alemães sem ficar com a impressão de que a Conferência de Paz de Paris foi responsável por disfarçar uma paz imperial com a sobrepeliz do wilsonismo, e de que raramente na história da humanidade tal revanchismo se escondeu sob tão untuoso sofisma. Hipocrisia foi o predominante e inescapável resultado. Mas foi essa hipocrisia totalmente consciente, deliberada? Creio que não. Sem dúvida, concordo em que a santimônia farisaica dos tratados é sua falha mais grave. Mas houve uma dissimulação consciente? Em alguns casos (como o do artigo que proibia a Áustria de se juntar à Alemanha) foi consciente uma forma deliberadamente evasiva de linguagem. Mas, na maioria dos casos, a hipocrisia simplesmente aconteceu. Como aconteceu? O fato de, à medida que a conferência avançava, mal percebermos o quanto estávamos afastados da realidade, pode indicar que estava ocorrendo alguma deterioração de consciência moral. Não nos dávamos conta do que fazíamos. Não notamos o quanto nos afastávamos da base original. Estávamos exaustos e sobrecarregados de trabalho. Ficávamos balbuciando velhas fórmulas na esperança de que conservassem alguma pertinência com nossos atos. Foram poucas as ocasiões em que dissemos a nós mesmos: “Isto é injusto.” Mais das vezes nos dissemos: “Melhor um mau Tratado hoje do que um bom Tratado daqui a quatro meses.” Na poeira da controvérsia, no crepitar da pressão do tempo, perdemos contato com nossas estrelas-guias. Em certos momentos a poeira baixava, a máquina parava e podíamos constatar, com cansado pesar, que a estrelas empalideciam contra o céu. “Il faut aboutir!” É preciso terminar, gritavam, e lá voltávamos nós para o tumulto e a obscuridade de nossas obrigações. Ainda desejávamos ardentemente manter nossos princípios incólumes; só mais tarde, depois do intervalo, percebemos que eles permaneciam conosco apenas como palavras vazias. Foi quando, e só então, encaramos o fato de que a falsidade de nossa posição nos levara a ser falsos. Já era então muito tarde. O que acima escrevi não traduz nenhum desejo de defender nosso estado de espírito. Estou só examinando, não defendendo. Minha tese é que esse declínio de nossa consciência moral constituiu o mais lamentável e talvez único elemento interessante em nossa deterioração. Quero explicar como, em meio a incessantes discussões e embrenhados nos becos de intermináveis detalhes, nos afastamos das avenidas principais de nossas intenções, e como foi de forma inconsciente, e não deliberada, que, ao chegar, nos orgulhávamos de ter feito o caminho que pretendíamos. Creio que este ponto tem certa importância. Se as futuras gerações vierem a acreditar que a Conferência de Paris foi, sob todos os ângulos, deliberada e extraordinariamente, hipócrita estarão (quando também se fizerem presentes em Congressos) desprotegidas contra a desgastante falsidade inseparável de qualquer tentativa para acomodar elevados princípios gerais com detalhes práticos de menor importância. Em todas as discussões entre estadossoberanos que afirmam igualdade entre si, decisões só podem ser tomadas por unanimidade, e não por voto de maioria. Essa maldição inevitável da unanimidade leva ao não menos inevitável rumo do compromisso, do meio-termo. Todos os meios-termos têm um componente de falsidade, mas quando têm de se referir de volta aos princípios ou generalizações orientadores surge uma dupla falsidade. Não nego a pavorosa hipocrisia dos Tratados de Paris. Apenas defendo que tal hipocrisia não foi sempre consciente ou deliberada; que não era humanamente evitável; e que hipocrisia similar também pode não ser evitável em todos os casos futuros. Qualquer leitor inteligente poderá argumentar que essa análise da natureza de nossa hipocrisia afinal não é uma explicação, mas simplesmente uma desculpa esfarrapada e vazia. No entanto, a explicação está implícita em meu argumento e é a seguinte. Os negociadores em Paris estiveram desde o começo numa posição falsa. Essa falsidade cresceu durante todo o tempo em que Tratado Alemão foi discutido. O Tratado da Alemanha é a raiz e causa de todo o fracasso, da rápida deterioração do alerta moral. Requer, pois, uma análise de suas partes componentes. Já indiquei em capítulos precedentes muitos dos elementos de falsidade que afligiram a Conferência de Paris desde os primeiros dias. Chamei a atenção para a incoerência entre o quadro existente nos momentos em que a vitória ainda era incerta e a interpretação desse quadro quando o triunfo, esmagador e insaciável, estava em nossas mãos. Lembrei que um idealismo surgido para mitigar a angústia de possível derrota pode se transformar na prática, quando aplicado ao apetite despertado pela vitória consumada. Também salientei a aguda dificuldade enfrentada pelos negociadores em Paris de conciliar as exaltadas expectativas de suas democracias com as considerações mais serenas indispensáveis à edificação de uma paz duradoura. Tais contrastes podem ser listados sob a chave do que sempre será o principal problema da diplomacia democrática: o ajustamento da emoção das massas ao pensamento dos governantes. A nova diplomacia pode ser imune a alguns dos vírus de fingimento que afetavam a velha: mas é agudamente sensível ao seu vírus peculiar – ao vírus da imprecisão. O que os estadistas pensam hoje, as massas poderão vir a sentir amanhã. Mas nas condições em que se realizou a Conferência de Paz, requerendo extrema rapidez de decisão, o intervalo de tempo entre as emoções das massas e os pensamentos dos estadistas é um fator muito desvantajoso. A tentativa de preencher rapidamente a lacuna entre emoção de massa e raciocínio de especialistas leva, na pior hipótese, a aberta falsidade e, na melhor, a grave imprecisão. A Conferência de Paz de Paris não foi um exemplo de diplomacia democrática na sua melhor forma. Então, a lacuna foi preenchida por falsidade aberta. Esse tipo geral de falsidade, inseparável de todas as tentativas de diplomacia democrática, em Paris foi complicada e fortalecida por circunstâncias especiais que, por sua vez, requerem ser declaradas e analisadas. O contraste entre emoção de massa e raciocínio de especialistas apresentou-se a nós em termos agudos e difíceis. Tomou a forma – a desnecessária e desconcertante forma – de um contraste não apenas entre a nova diplomacia e a velha, mas entre o novo mundo e o velho, entre a Europa e os Estados Unidos. Não digo que esse contraste, em todas as suas implicações, fosse inteiramente percebido na época. Sustento apenas que foi determinante ao longo de toda a Conferência; que era, na verdade, irreal e não um contraste real; e que a tentativa de conciliar essas duas irrealidades foi o principal erro de conceito da Conferência e a raiz de toda a falsidade resultante. Permitam-me pôr esse contraste em termos bem simples. De um lado, tinha-se o wilsonismo – doutrina muito fácil de declarar e muito difícil de aplicar. Mr Wilson não inventara nenhuma nova filosofia política, ou descobrira qualquer doutrina nunca sonhada e apreciada em muitas centenas de anos. A única coisa que tornou o wilsonismo tão apaixonadamente interessante na época foi o fato de esse sonho centenário se ver subitamente respaldado pelos recursos esmagadores do mais poderoso país do mundo. Lá estava o homem que representava a maior força física que jamais existira, comprometido claramente com a mais ambiciosa teoria moral que qualquer estadista já enunciara. Não que as ideias de Woodrow Wilson fossem tão apocalípticas; é que pela primeira vez na história havia um homem que dispunha não apenas da vontade, não só do poder, mas da inquestionánel oportunidade de impor essas ideias ao mundo inteiro. Seríamos realmente muito insensíveis se não fôssemos inspirados pela magnitude de tal ocasião. Do outro lado estava a Europa, produto de uma civilização totalmente diferente, herdeira de circunstâncias inalteráveis, possuidora de experiência mais longa e prática. Através séculos de conflitos, os europeus vieram a aprender que guerras são tramadas quase sempre com a expectativa de vitória, e que tal expectativa diminui num sistema de equilíbrio de forças que torna a vitória difícil, se não incerta. O valor defensivo de armamentos, fronteiras estratégicas, alianças e neutralidades pode ser computado com precisão aproximada; já o valor defensivo do “comportamento virtuoso de todos” não pode. Se realmente o wilsonismo pudesse aplicar-se integral e universalmente, e se de fato a Europa pudesse confiar na América para sua implantação e imposição, então seria mesmo uma alternativa infinitamente preferível aos perigosos e provocativo equilíbrios de poder do sistema europeu. Respaldados pela garantia de apoio imediato e incondicional da América, os estadistas da Europa possivelmente poderiam jogar fora seu velho modelo de segurança e adotar a segurança mais ampla oferecida pelas teorias de Woodrow Wilson. Mas estavam eles certos de que a América seria tão altruísta, quase tão quixotesca, a ponto de garantir o wilsonismo para a Europa? Estariam convencidos até mesmo de que os países europeus, quando chegasse a hora, aplicariam o wilsonismo a si próprios? Os Quatorze Pontos foram exaltados como um admirável método de tirar cisco dos olhos dos outros. Mas estaria qualquer grande e vitoriosa Potência disposta a retirar vigas de seu próprio corpo político? Os mais ardentes defensores ingleses do princípio da autodeterminação viram-se, mais cedo ou mais tarde, numa posição falsa. Por mais que fervesse nossa indignação diante das exigências italianas com relação à Dalmácia e ao Dodecaneso, poderia ser esfriada por uma referência, não só a Chipre, mas à Irlanda, ao Egito e à Índia. Tínhamos aceitado para os outros um sistema que, na prática, recusaríamos a aceitar para nós. Esse não foi o único elemento de falsidade que desde o começo desacreditou o evangelho de Woodrow Wilson. O anglo-saxão é dotado de uma ilimitada capacidade de excluir suas próprias necessidades práticas da aplicação das teorias idealistas que procura impor aos outros. Os latinos são diferentes. A precisão lógica do gênio francês e, em menor dose, do italiano não permite tal obscuridade. O anglo-saxão é capaz de acusar o latino de “cinismo” porque hesita em aderir a uma religião que não está preparado para aplicar à sua própria conduta, tão distinta da dos outros. O latino acusa o anglo-saxão de “hipocrisia” porque deseja impor aos outros uma norma de comportamento que se recusa, ele próprio, a adotar. Na verdade, o contrasteentre os dois não é entre cinismo e hipocrisia, mas entre dois hábitos mentais divergentes. O anglo-saxão é capaz de sentir antes de pensar, e o latino é capaz de pensar antes de sentir. Foi esta divergência de hábito, este hiato entre razão e emoção, que induziu os latinos a examinar a Revelação de Woodrow Wilson de forma mais científica e, portanto, mais crítica do que nós. Por essa análise chegaram a certas conclusões que destruíram sua crença. Observaram, por exemplo, que os Estados Unidos, ao longo de sua história curta mas marcadamente imperialista, tinham constantemente se proclamado virtuosos, enquanto, com a mesma constância, violavam sua profissão e recorriam ao materialismo mais flagrante. Observaram que todos os americanos gostavam de sentir como Thomas Jefferson e de agir como Alexander Hamilton. Observaram que princípios como o da igualdade do homem não se aplicava aos amarelos ou aos negros. Observaram que a doutrina da autodeterminação não fora aplicada aos peles-vermelhas e nem mesmo aos estados sulistas. Foram capazes de examinar “os princípios e as tendências americanas” não em termos da declaração de Filadelfia, mas em termos da guerra com o México, da Louisiana, daqueles inúmeros tratados com os índios que foram violados impudentemente antes que a tinta secasse. Também observaram, quase com memória viva, que o grande Império Americano fora conquistado pelo emprego da força implacável. Podemos culpá-los se duvidaram, não tanto da sinceridade, mas da real aplicabilidade do evangelho de Woodrow Wilson? Podemos culpá-los por temerem que o realismo americano, quando chegasse a hora, rejeitaria a responsabilidade de fazer o idealismo americano funcionar na Europa? Podemos surpreender-nos que preferissem as precisões de seu velho sistema ao vago idealismo de um novo sistema que a América podia se recusar a aplicar até mesmo em seu próprio continente? Apenas para fazer justiça, convém mencionar que no seio da Delegação americana essa infeliz dissonância gerou um sentido de impotência. O próprio Presidente conseguiu dispensar de sua consciência todas as considerações que pudessem incomodar as fundações de sua fé mística. O coronel House, homem de inteligência robusta, se possuísse o controle supremo teria sido capaz de transpor o abismo de forma científica e de ter um triunfo honesto de engenharia diplomática. Mas sobre os outros membros da delegação, ardentes e sinceros, a suspeita de que a América pedia da Europa em nome da justiça sacrifícios que a América jamais fez e jamais faria, produziu um sentimento de acanhamento, incerteza e crescente desespero. Fosse o Presidente Wilson um homem de amplitude de visão excepcional, de determinação sobre-humana, poderia ter superado todas essas dificuldades. Infelizmente nem a força de vontade do Presidente Wilson e nem sua força mental eram, de forma alguma, sobre- humanas. O colapso do Presidente Wilson na Conferência de Paz de Paris é uma das maiores tragédias da história moderna. Em grande parte, esse colapso pode ser atribuído aos defeitos de sua inteligência e caráter. É preciso examinar esses defeitos e relacioná-los com os erros estratégicos e táticos que cometeu. “Ele possuía,” escreve o coronel House, “uma das personalidades mais complexas e difíceis que já conheci.” A desorientação com que, em Paris, sua cegueira e indecisão encheram os que lhe eram próximos está refletida nas explicações extravagantes que procuram inventar. Mr Stannard Baker, por exemplo, fez o que pôde para provar que Woodrow Wilson foi a vítima de uma conspiração da velha diplomacia. Mr Lansing, mais equilibrado em seu julgamento, diz que a recepção apoteótica ao desembarcar na Europa perturbou seu equilíbrio mental. Outros chegaram a dar a entender que a constante contração do lado esquerdo de seu rosto e a doença que, disfarçada em gripe, o atacou em abril, eram os primeiros sintomas da paralisia que o abateria em outubro. Mesmo que assim fosse, permanece o fato de as falhas de caráter do Presidente Wilson, sua inflexibilidade e arrogância espiritual terem se acentuado patologicamente após sua chegada à Europa. E pairaram, como um fenômeno quase físico sobre a Conferência de Paris. Não se pode dizer que Woodrow Wilson subestimou a importância de sua missão na Europa ou o papel decisivo que se esperava ele desempenhasse pessoalmente. Pode ser, como insinua o coronel House, que tenha encarado a Conferência como “um delicioso acontecimento intelectual.” Mas estava bem consciente da imensa responsabilidade recaída nele e convicto das terríveis dificuldades que teria de enfrentar. Viu a si mesmo (e nisso, na época, não houve ilusão) como o profeta da humanidade, como um embaixador acreditado junto à justiça por todo o mundo. Ao desembarcar, proclamou: “Se não tivermos cuidado com os mandatos da humanidade, seremos, merecidamente, o mais estrondoso fracasso da história mundial.” Apesar de tal componente emocional, não seria exato ver Woodrow Wilson somente como um demagogo místico, crente que umas poucas palavras na prosa inglesa demoliriam de um sopro os velhos parapeitos da Europa. Já acentuei seu lado místico, supersticioso. Sua crença pueril na relação pessoal dele com o número 13, tão vulgar quanto sua ideia de a “voz da gente comum” equivaler ao juízo de Deus, é uma importante manifestação deste misticismo. Mas há facetas objetivas. Alertou os membros da delegação, quando discursou para eles a bordo do George Washington, que a batalha que enfrentariam não seria fácil. Advertiu-os, com palavras de Josiah Quincy, que deveriam lutar por uma nova ordem “de maneira agradável se for possível, desagradável, se for necessário.” É verdade que Mr Lansing condena o presidente por seus métodos nada business, por sua falta de um projeto ou de coordenação. “Em momento algum,” escreveu, “houve trabalho em equipe, opinião comum e ação coordenada.” Essa crítica, se me aventuro a reparar, poderia ser dirigida a outros entre os plenipotenciários. Comparado a seus colegas na mesa do Conselho, Mr Wilson era objetivo, muito bem informado e perfeitamente preciso. Mr Balfour sempre nos assegurava não ver falhas na técnica do Presidente. Durante as reuniões, era invariavelmente paciente, conciliatório e sereno. Em alguns momentos raciocinava com certa lentidão, mas estava lidando com as flechas velozes do intelecto latino de Clemenceau ou com as rápidas viradas de peixe da intuição de Mr Lloyd George. O colapso de Woodrow Wilson deve ser atribuído a razões muito mais profundas do que simples insuficiência diplomática ou de equipamento de conferência. O presidente, convém lembrar, descendia de Covenanters, participantes da reforma protestante na Escócia, herdeiro de uma tradição presbiteriana mais direta. Aquela arrogância espiritual que parece inseparável das formas mais duras de religião mordera profundamente sua alma e se consolidara no curso de muitas lutas com o Professorado de Princeton. Sua visão se estreitara em virtude da sólida formação ética que recebera. Possuía – ele mesmo admitia – “uma mente de mão única.” Essa redução, esse defeito intelectual o fez cegamente hermético, não apenas no referente às características das pessoas, mas também a matizes de opinião. Não tinha o dom estabelecer distinções, nenhuma capacidade para se ajustar às circunstâncias. Foi sua rigidez espiritual e mental que provocou sua destruição. Tornou-o incapaz de suportar críticas e de absorver conselhos.Cegou-o a todas as ações práticas que não se ajustassem às suas ideias preconcebidas, e até para as realidades de suas próprias decisões. Ele e sua consciência gozavam de tal intimidade que qualquer pequena divergência podia ser facilmente superada. A profunda, inflexível e mui justificada convicção de sua própria retitude espiritual, aliada à sólida crença de que Deus, Wilson e o Povo no fim seriam vitoriosos, o levaram a encarar suas próprias deficiências como meros e passageiros detalhes na grande empreitada rumo ao direito e à justiça. Identificava o Covenant da Liga das Nações com esse impulso central e, diante da “Arca da Aliança” sacrificou, um a um, seus Quatorze Pontos. Tomara que a turvação final de seu cérebro o tenha poupado do horror de compreender o que fizera à Europa e o que os políticos americanos fizeram com ele. Sua arrogância espiritual e a natureza dura mas mesquinha de sua mente ficam bem evidentes na alienação à realidade política, ao lado de sua perturbadora percepção da realidade partidária. De um lado, por motivo partidário, recusava-se a se aliar a qualquer figura de destaque entre seus opositores políticos. Mr Henry White, diplomata convidado por ele para a Delegação, embora republicano, não era o representante que os próprios republicanos teriam indicado. A extrema severidade com que Woodrow Wilson encarava todos os políticos contrários é um dos menos agradáveis e sensatos traços de seu caráter. De outro lado, embora sendo um membro entusiasta do partido, estranhamente parece ter ignorado sua própria posição na política. Em solene pronunciamento feito a bordo do George Washington para os membros de sua delegação, informou-os não só que os Estados Unidos seriam a única nação sem interesses na Conferência, mas também que ele próprio era o único plenipotenciário que possuía um total mandato do povo. Na ocasião, disse: “Os homens com que vamos lidar não representam seu próprio povo.” Acontece que naquele mesmo instante estavam em curso na Inglaterra as eleições que levariam Lloyd George a Paris com o mandato popular conquistado com a mais esmagadora vitória que já se vira. M Clemenceau, poucos dias mais tarde, obteve na Câmara da França um voto de confiança com maioria de quatro para um. Ao passo que Mr Wilson, em consequência do resultado das eleições de um mês antes, estava diante de uma maioria contra ele nas duas Casas do Congresso. Sua recusa em enfrentar a realidade dos fatos evidencia a estreiteza de uma mente que apagou toda luz que viesse do exterior. Indica (e não pode haver exemplo melhor) que sua mente estava iluminada exclusivamente pelo incenso da própria autoadoração; da adoração a Deus; da adoração ao Povo. Como acontece com a maior parte dos teocratas, Woodrow Wilson era um homem solitário e inacessível. Como no caso de muita gente de consciência presbiteriana atuante, era reservado até consigo mesmo. “Nunca,” assim recorda seu mais ardoroso defensor, “pareceu apreciar o valor do contato comum com as pessoas.” “Parecia,” diz Mr Lansing, “que encarava uma oposição como afronta pessoal.” Estava sempre disposto a procurar seus notáveis especialistas para obter informações, mas raramente se propunha a ouvi-los quando se aventuravam a dar um conselho. Nesta predileção pelas informações em detrimento das ideias de seus especialistas, o Presidente Wilson não estava sozinho entre os plenipotenciários da Conferência. E não podemos culpá-los; eram tantas ideias; eram tantas informações! Inevitavelmente, os plenipotenciários, soterrados como estavam, preferiam selecionar, dentre as Informações, os elementos que mais se ajustava a seu próprio conceito sobre as Ideias. Essa tendência comum entre os plenipotenciários responde pela divergência de opinião manifestada pelos especialistas americanos quando inquiridos por seu próprio Senado sobre este ponto. Mr William Lamont, uma das figuras mais inatacáveis da Conferência de Paz, afirmou que o Presidente fazia consultas frequentes. Mas Mr Lamont era um assessor econômico e financeiro e, nessa área, o Presidente não possuía conhecimento pessoal. Já Mr Lansing, cujo pensamento era voltado para as áreas jurídica e política, afirma nunca ter sido consultado pelo Presidente: “Para ele, era um assunto absolutamente pessoal.” Nesse aspecto, pelo menos, o Presidente Wilson estava na mesma situação de seus colegas. A insistência de seus críticos com relação à sua inabilidade em consultar seus assessores não é, a meu ver, realmente válida. O que interessa não é a atitude mental em que o Presidente Wilson se igualava aos colegas do Conselho, mas aquela em que ele diferia. Esta é a que desejo explorar. Um luz lateral do caráter do Presidente, para a qual já chamei a atenção, era sua sensibilidade às críticas da imprensa, particularmente às zombarias. Esse ponto, embora já mencionado anteriormente, merece ser examinado. Mr Lloyd George e M Clemenceau eram, a este respeito, maravilhosamente paquidérmicos. Mr Wilson mantinha a sensibilidade à flor da pele. Em 10 de fevereiro, M Capus escreveu um artigo no Figaro que dizia o seguinte: “O Presidente Wilson assumiu airosamente uma responsabilidade que poucos jamais suportaram. O êxito de seus esforços idealistas o deixará sem dúvida entre os maiores vultos da história. Mais il faut dire hardiment, que s’il échouait il plongerait le monde dans un chaos dont le bolschévisme russe ne nous offre qu’une faible image et sa responsabilité devant la conscience humaine dépasserait ce que peut supporter un simple mortel.” (Mas é preciso dizer corajosamente que, se fracassar, mergulhará o mundo num caos do qual o bolchevismo russo não passa de pálido exemplo e sua responsabilidade perante a consciência da humanidade excederá o que um simples mortal é capaz de suportar.) O Presidente Wilson reagiu a essa tremenda lucidez de M Capus ameaçando transferir a Conferência para Genebra. Mas sofreu muito. Nos dias da crise de abril, sua posição enfraqueceu por causa dessa estranha forma de se atormentar. A imprensa francesa, àquela altura, descobrira que o Presidente Wilson era não apenas teológico e inconveniente, mas realmente engraçado. Divertia-se às suas custas com posturas levianas. M Clemenceau conseguiu muitas concessões do Presidente em troca da promessa de dar um fim naquelas gracinhas. Senso de humor, portanto, nem sempre leva à fraqueza, mas sua imunidade a isso foi uma desvantagem para Woodrow Wilson em Paris. Mr Lansing comenta o risinho discreto sob o qual o Presidente ocultava sua lentidão mental. “Parecia,” afirmou, “quase um pedido de desculpa.” Mr Lansing passava hora após hora sentado ao lado do Presidente naquele salão extravagante que era o centro do Conselho Supremo, ouvindo calado o riso inapropriado com que seu Presidente procurava esquivar-se da tragédia de sua própria incompreensão. Mr Lansing passava seu subserviente tempo rabiscando desenhos de duendes em seu bloco de notas. Há muito a ser perdoado em Mr Lansing por aguentar em silêncio ao longo daquelas horas intermináveis, ver a areia do poder de resolução escorrer monotonamente entre os dedos do presidente. “O mundo,” assim se expressara o Presidente na sala para fumantes cheia de expectativa do George Washington, dirigindo-se a seus futuros assistentes, “o mundo não tolerará que haja apenas arranjos. Esta é uma Conferência de Paz em que não se podem fazer combinações à moda antiga.” Depois de dizer isso, Woodrow Wilson meteu-se em combinações tal qual um agente de viagens monta conexões. Em poucosdias, aceitou um esquema sobre a fronteira no Brenner. Deixou-se persuadir que as pensões de guerra podiam ser classificadas como “danos às populações civis.” Permitiu-se acreditar que o sistema de mandatos era mesmo algo diferente de anexação. Engoliu a cláusula da Culpa pela Guerra e as grotescas cláusulas que injustamente puseram inocentes entre os criminosos de guerra. Permitiu que toda a questão do desarmamento fosse desviada para a esfera do desarmamento unilateral da Alemanha. Capitulou em Shantung como capitulara na Polônia. Cedeu sobre a Renânia, da mesma forma como cedeu sobre o Sarre. Nas cláusulas de reparações financeiras e econômicas não teve nenhuma boa influência, uma vez que, como reconhecia, “não se interessava muito por assuntos econômicos.” Permitiu a proibição da autodeterminação da Áustria com base em uma das expressões mais especiosas jamais redigida por juristas. Permitiu que as fronteiras da Alemanha, da Áustria e da Hungria fossem fixadas de uma forma em flagrante violação de sua própria doutrina. Disse a seus opositores: “Devo me ater a meus princípios, e apenas peço que me mostrem como vossos desejos podem se harmonizar com as profissões que fiz.” Ao fim de tergiversações desta natureza, continuava a sustentar que, na verdade, suas intenções originais não tinham sido contrariadas e que na Convenção da Liga poderiam identificar toda a pletora de bênçãos que se empenhara em proporcionar ao mundo. Nunca lhe passou pela cabeça que ao assinar o Tratado de Garantias com a França desfechara no prestígio de sua própria Convenção da Liga um golpe do qual a messiânica doutrina jamais se recuperaria. Buscava deploráveis desculpas para sua fraqueza. O acordo sobre Shantung fora aceito para salvar o mundo de uma nova forma de militarismo. O acordo da Renânia fora celebrado para salvar o mundo de um deslocamento de população. “O problema principal,” disse ele na ocasião, “é o de sempre haver acordo, porque a pior coisa que pode acontecer, eu diria, é configura- ser uma divisão nítida entre as Potências Aliadas e Associadas.” “Pessoalmente,” acrescentou, “creio que a questão se resolverá sozinha pela admissão da Alemanha na Liga das Nações.” A Convenção realmente foi para ele o depósito em que guardava toda a mobília inconveniente. “Há em sua cabeça,” disse Mr Lansing, “uma estranha mistura de afirmação e indecisão (...) O inopinado, e não a presteza, sempre marcou suas decisões.” Sem dúvida, são as manifestações de um caráter essencialmente fraco. A transferência de sua crença dos Quatorze Pontos para o Covenant, a Convenção da Liga, é outro sintoma dessa insegurança interior. A Liga, por mais valiosa que tenha sido e que venha a ser como balcão de agência onde solucionar divergências internacionais, jamais poderia se transformar, mesmo que os EUA aderissem a ela, num superestado a dirigir toda a atividade internacional. Mr Wilson, tendo cedido tanto no domínio dos fatos, tentou se recuperar dessas derrotas no domínio da teoria. Uma vez mais, faltou-lhe o senso de realidade. Como escreveu o Dr Dillon: “Ele deu à Liga crédito por virtudes que tornariam a própria Liga desnecessária, e foi indulgente com emoções que tornaram sua imediata concretização impossível.” Deve ter havido momentos, lá pelo fim de abril, em que o Presidente Wilson, apesar de sua obscuridade, constatou angustiado que transformara sua doutrina numa trapalhada. Mas com que dor na alma deve ter refletido sobre a crescente probabilidade de o Povo Americano, aquela divindade em que ele confiava tão cegamente, ser o primeiro a repudiar o único trabalho de respeito que realizara? Frequentemente se afirma que o menos perdoável entre os erros do Presidente Wilson foi a falha em avisar seus Associados que os Estados Unidos talvez não se dispusessem a assumir a obrigação de apoiar um sistema para cujo sucesso a esses mesmos associados se pediam pesados sacrifícios em segurança e vantagens particulares. Tal alegação não é bem precisa nem inteiramente justa. Por um lado, as Potências Europeias estavam perfeitamente cientes de que o Presidente Wilson naquele momento não representava realmente a opinião pública americana. No início de janeiro, Mr Lloyd George, em reunião secreta da Delegação do Império Britânico, explicou a dificuldade em que o Presidente se encontrava. As eleições de novembro para o Congresso, os pronunciamentos do ex-presidente [Theodore] Roosevelt, a atitude do Senado de então, tudo indicava que a América não honraria o cheque em branco que Mr Wilson queria que a Europa aceitasse em lugar da velha moeda. Que fazer? Constitucionalmente, o Presidente ainda era o executivo e falava em nome de seu país. Era possível dizer- -lhe cruamente que não confiávamos em suas credenciais? Obviamente essa linha de ação era impossível. A única coisa que a Europa poderia fazer era salvar a face do Presidente; e a única coisa que o próprio Wilson podia fazer era salvar a face da Europa. Mais uma vez constata-se uma falsidade de posição que, embora crucial, nunca foi suficientemente exposta. Como a maioria das posições falsas, pareceu delicada demais para ser imediata e sistematicamente confrontada. Nunca lancetaram esse abscesso. Por outro lado, o Presidente Wilson não fazia uma ideia exata de até que ponto seu próprio povo iria repudiá-lo. M Clemenceau recordou que, questionado sobre uma possível mudança na opinião pública americana, o presidente “invariavelmente respondia com imperturbável confiança.” “A América,” dizia, “já aguentou muito de mim. Aguentará isso também.” Em 20 de março, informou ao Conselho Supremo: “Reconheço que os Estados Unidos devem assumir as responsabilidades, tanto quanto os benefícios, da Liga das Nações. No entanto, há grande antipatia nos Estados Unidos a assumi-las.” Seu otimismo em afirmar com toda seriedade que os Estados Unidos aceitariam um mandato sobre a Armênia e até sobre Constantinopla nos deixou muito apreensivos. Mas isso não era apenas uma autoconfiança pessoal. Convém lembrar que, em março de 1919, 34 das 36 legislaturas estaduais e 33 governadores tinham endossado a Liga. Mesmo críticos veementes como Mr Lansing admitem que já em junho de 1919 “era crença geral que o Presidente acertaria suas diferenças com um número suficiente de senadores republicanos.” Não se podia prever que Mr Lodge fosse capaz de transformar uma responsabilidade mundial em assunto partidário. Entretanto, permanece o fato de, após sua ida a Washington em fevereiro, Mr Wilson tinha de saber que, mesmo a doutrina de Monroe sendo incluída na Convenção e, por conseguinte, livrando os EUA de qualquer responsabilidade para com a Europa, era discutível que o senado ratificasse o que ele fizera. Pode-se até alegar que foi a constatação desse fato espantoso que o convenceu a abrir mão de seus princípios em favor das vontades da Europa. Pode ser, mas não há provas que confirmem essa ideia. Tampouco os métodos e procedimentos do Presidente Wilson, antes e depois de sua visita de fevereiro, diferem entre si a ponto de justificar a suposição. O fato parecia terrível demais para se enfrentar. Todo o Tratado se erigira sobre a premissa de que os Estados Unidos não seriam um mero signatário, mas sim um executante ativo. A França fora persuadida a abandonar sua reivindicação de um estado-tampão entre ela e a Alemanha em troca da garantia de apoio militar dos Estados Unidos. Todo o acordo sobre reparações dependia, para se implementar, da presença de um representante do principal credor da Europa na respectiva comissão. Todo o Tratado fora deliberada e engenhosamenteestruturado pelo próprio Mr Wilson para tornar essencial a cooperação americana. Claramente, como assinalara M Capus em janeiro, a aceitação e o subsequente abandono traidor das responsabilidades assumidas foram uma carga à qual nenhum ser humano poderia sobreviver. E Mr Wilson não sobreviveu. Alguma experiência e muito estudo de negociações internacionais me deixaram com uma sólida convicção. Participei de muitas conferências e de cada uma extraí um resíduo dessa convicção, que é a seguinte: o essencial da boa diplomacia é a precisão, e seu maior inimigo a imprecisão. Por essa razão empenhei-me, neste livro, em transmitir uma certeza sobre os horrores da imprecisão. A velha diplomacia podia ter graves defeitos, mas eram veniais comparados às ameaças enfrentadas pela nova diplomacia. Essas ameaças podem se classificar sob dois títulos distintos. O primeiro é diplomacia ostensiva versus diplomacia secreta. Em outras palavras, uma conduta democrática dos negócios internacionais em contraposição a uma conduta por especialistas. Amadorismo em todos esses assuntos leva à improvisação. Franqueza, em todos os mesmos assuntos, leva à imprecisão. Nenhum estadista quer vincular-se antecipada e abertamente a uma política precisa. Uma política imprecisa significa não haver política. Traduz unicamente aspiração. Todos temos nossas expectativas. A segunda ameaça está implícita na expressão “Diplomacia de Conferência.” Nada pode ser mais fatal que o hábito (hoje persistente e pernicioso) de contato pessoal entre os Estadistas do Mundo. Alega-se em defesa desse passatempo que os Ministros do Exterior das Nações “precisam se conhecer bem.” É um conhecimento extremamente perigoso. Contato pessoal gera inevitavelmente familiaridade pessoal que, por seu turno, leva em muitos casos à amizade: não há nada mais danoso à precisão em relações internacionais do que a amizade entre as Partes Contratantes. Locarno, para não falar em Thoiry, devia ter nos convencido da conveniência de manter nossos estadistas segregados, imunes e mutuamente afastados. Isso não é mero paradoxo. Diplomacia é a arte de negociar documentos numa forma ratificável e, portanto, confiável. Não é absolutamente a arte da conversação. A afabilidade inseparável de qualquer conversação entre ministros do Exterior produz alusões, compromissos e altas intenções. Diplomacia, para ser eficaz, deve ser um atividade desagradável. E escrita em linguagem dura. Na minha própria evolução posso identificar os estágios pelos quais cheguei a essa tese seguramente inquestionável. Posso ver minha estrada para Damasco na minha “estrada” para a Conferência de Paz de Paris. Viajei inspirado apenas pelas ideias de Woodrow Wilson. No meu coração não havia nenhum triunfo vitorioso, nenhum desejo de punição ou de vingança. Pensava apenas em termos de Nova Europa, e interpretava esses termos por meio da revelação do profeta da Casa Branca. Descobri que esse profeta era um homem seco e inseguro. Fiquei desconcertado com a descoberta. Mais tarde cheguei à penosa constatação de que meu profeta não tinha a menor condição de fazer valer sua própria profecia. Desertei para outros mestres. Estavam disponíveis a meu lado. Mr Balfour, Mr Lloyd George, o general Smuts, Robert Cecil, Venizelos, Benes e Eyre Crowe. Foi com eles que aprendi minha lição. Mr Balfour ensinou-me que emocionalismo em política é sempre um erro; que existe um termo médio entre emocionalismo e cinismo difícil de definir, mas que, com inteligência é possível alcançá-lo, embora parcial e temporariamente. Mr Lloyd George ensinou-me que oportunismo evidente nem sempre é irreconciliável com visão, que inconstância de método nem sempre indica volatilidade de intenção. Em seu memorando de 25 de março e em sua grande batalha de 4 de maio, mostrou que, no que tange à razoabilidade, um político é melhor que um teocrata. O fim de minha adoração por Wilson ocorreu quando um membro de sua delegação contou-me como o Presidente reagira ao empenho de Lloyd George para tornar o Tratado mais justo e razoável. Mr Wilson disse a seus assessores que esse esforços o “tinham deixado exausto.” Fiquei abismado com essa revelação. O general Smuts ensinou-me que, quaisquer que fossem os erros que tivermos cometido em Paris, a única derrota que realmente importou foi o reconhecimento de que era uma derrota duradoura. Foi Smuts – bem preparado, cortês e enxergando horizontes presentes e futuros além do que eu podia distinguir – quem me ensinou a discordar, a nunca esquecer de discordar, mas a não deixar a discordância impregnar minha alma. Robert Cecil – com quem tive pouco contato – ensinou-me uma coisa. Fez um discurso no banquete da estreia de uma instituição de inestimável valor– o Royal Institute of International Affairs. Disse que nosso valor é avaliado na medida de nossa insatisfação. Essa observação foi uma grande descoberta e um incentivo para mim. Ao lado desses idealistas práticos vieram os idealistas profissionais. Sem dúvida Venizelos era um imperialista, e suponho que, na fé em seu país, estava errado. Mas era homem mais humano que todos os outros, uma inteligência sempre pronta para o ataque, uma brandura quase mortal em sua aplicabilidade. Benes ensinou-me que o Equilíbrio de Poder não era necessariamente coisa para causar vergonha, mas possivelmente científica. Mostrou-me que somente sobre a base firme desse equilíbrio os fluidos da amizade poderiam circular na Europa sem interrupção. E houve também Eyre Crowe. Meu chefe imediato, e sempre no controle, esse homem de extrema violência e extrema gentileza tornou-se quase uma obsessão. Era tão humano. Super-humano. Em determinado instante olhávamos com apreensão sua abusiva insolência diante de M Clemenceau ou de algum outro homem forte. “Crowe,” dizia Clemenceau (que sabia reconhecer valor), “c’est un homme à part.” No momento seguinte podíamos ver sua extrema solicitude com uma datilógrafa adoentada. É difícil falar de Crowe sem cair no terreno delicado do sentimentalismo. Mas ali estava, se já houve, um homem de verdade e de vigor. Gostaria de pensar que Eyre Crowe exercera influência decisiva sobre minha pessoa. Todavia, sinto que sou copo pequeno demais para toda a fartura de tal safra. Mas ao menos uma coisa aprendi com ele: a desonestidade emocional pode ser perdoada, pois não sabe o que faz. Desonestidade intelectual jamais pode ser perdoada. Por esse motivo, por causa dessa lição, dedico este livro à memória de Eyre Crowe. Conferência de Paris, 1919. Sessão plenária na “Salle de l’Horloge” do Quai d’Orsay. (The Bridgeman Art Library/Keystone Brasil) Georges Clemenceau. (©Bettmann/Corbis) O Conselho dos Quatro: Orlando, Lloyd George, Clemenceau, Wilson. (Latinstock/©Bettmann/CORBIS/Corbis(DC)) Os alemães assinam o Tratado de Versalhes, 28 de junho de 1919. Dr Johannes Bell assina, com Herr Hermann Müller ao lado. Sentados à mesa: Gen Tasker H. Bliss, Cel E.M. House, Mr Henry White, Mr Robert Lansing, Presidente Woodrow Wilson (EUA); M Georges Clemenceau (França); Mr Lloyd George, Mr Bonar Law, Mr Arthur J. Balfour, Visconde Milner, Mr G.N. Barnes (Inglaterra); Marquês Saionji (Japão). Em pé: M Eleutherios Venizelos (Grécia); Dr Afonso Costa (Portugal); Lord Riddell (Imprensa inglesa); Sir George E. Foster (Canadá); M Nikola Pachitch (Sérvia); M Stephen Pichon (França); Cel Sir Maurice Hankey, Mr Edwin S. Montagu (Inglaterra); Marajá de Bikaner (Índia); Signor Vittorio Emanuele Orlando (Itália); M Paul Hymans (Bélgica); Gen Louis Botha (África do Sul); Mr W.M. Hughes (Austrália). (Da pintura de Sir WilliamOrpen/Hulton Archive/Getty Images) LIVRO II DIÁRIO DA CONFERÊNCIA DE PARIS JANEIRO A JUNHO DE 1919 como parecia então Nota sobre o Diário Os trechos de meu diário de 1919 aqui reproduzidos exigem alguma explicação. Vou dá-la da forma mais sucinta possível. Quero deixar bem entendido que as entradas não são uma transcrição exata do diário. Em primeiro lugar, achei conveniente deixar de lado passagens que pudessem magoar ou constranger pessoas ainda ativas na vida pública. Em segundo lugar, considerei importante inserir palavras e episódios em todos os pontos em que o texto original era defeituoso ou telegráfico. As omissões não aborrecerão ninguém. As inserções temo que possam prejudicar a credibilidade. Devo, então, justificá-las e esclarecê-las. O diário não foi escrito para publicação. Foi simplesmente para reforçar minha memória. Escrevi sob grande pressão e, em certos momentos, em notas taquigráficas. Por conseguinte, preenchi as lacunas de conjunções e artigos. Fui além. Em alguns pontos, reconstruí passagens inteiras. Temo que, ao admiti-lo, possa desacreditar o diário em seu conjunto, mas não quero que meus leitores imaginem de forma nenhuma que o diário seja fabricado. Deixem-me dar um exemplo do tipo de “edição” a que me permiti. Vou selecionar uma passagem relativamente curta. No sábado, 10 de maio, jantei com o Conde Potocki. Esse evento está assim registrado em meu diário: “Jantar Joseph P. no Ritz; anacronismo, falar com ele sobre P.; sua resposta absurda; Chepetowka: ‘como um igual.’” Esta anotação, por mais fiel que fosse, nada significaria para o leitor comum. Mas minha memória auditiva, diferente da visual, é boa. Esta mesma passagem na versão impressa neste livro, é a seguinte: “Jantar com Joseph Potocki no Ritz. Um grande anacronismo. Disse-lhe como ficara impressionado ouvindo Paderewski em seu discurso no Conselho Supremo. Resposta dele: ‘Sim, um homem notável, realmente notável. Sabe que ele nasceu em uma de minhas aldeias? Na verdade, em Chepetowka. Mesmo assim, quando falo com ele, tenho a nítida impressão de que estou conversando com um igual.’” É uma versão absolutamente precisa das notas abreviadas que aparecem no diário. Tenho a convicção de que todas as outras inserções que fiz são igualmente justificadas e legítimas. Em certos momentos – como nas anotações sobre as conversas políticas ou entrevistas com estadistas de destaque – registrei no diário o diálogo exato que ocorreu. Somente em passagens acidentais, como as acima mencionadas, muitas vezes surge um hiato entre o escrito no diário e neste livro. O relato que faço da assinatura do Tratado de Versalhes, por exemplo, exigiu pouquíssima edição, assim como minhas referências aos Conselhos dos Dez e dos Quatro, ou meus diálogos com Mr Lloyd George e Mr Balfour. Em nenhum ponto tampouco atribui a mim mesmo ideias ou previsões não existentes no texto original. Àqueles com tendência a adquir novos vícios, recomendo a terrível tentação de publicar um diário escrito quatorze anos antes. O desejo de suprimir uma palavra aqui e ali, de alterar uma outra lá e cá, de acrescentar uma expressão é mais poderoso e insidioso que qualquer das estranhas tentações que enfrentei e às quais em geral sucumbi generosamente. Mas nesse aspecto afirmo minha virgindade. O leitor não precisa acreditar em mim, mas creio que o fará. Acho que, ao ler este diário, verá o quanto devo ter sido tentado, terrivelmente tentado, a suprimir certas expressões e opiniões que na fria impressão de 1933 são, até certo ponto, motivo de vergonha. Creio que o leitor inteligente em geral aceitará o diário de boa-fé. Ao menos de uma coisa estou absolutamente convencido. Tenho a certeza de que o diário apresentado neste livro realmente reproduz o desconhecimento, a vaidade, a depressão, a esperança, as intenções essencialmente boas que impulsionavam muitos daqueles que lutaram às cegas em meio ao tumulto da Conferência de Paris. A redação do diário pode ter sido um pouco “arrumada,” mas, se isso aconteceu, foi em muito menor dose do que se pode supor. O espírito do trabalho foi chegar ao máximo de precisão na essência. Todos os que estiveram comigo em Paris poderão confirmar que a exatidão do que é apresentado é a maior possível. Existe uma segunda explicação que desejo dar. O diário de forma nenhuma é um documento histórico. Tampouco uma narrativa sistematizada do que aconteceu em Paris em 1919. Prefiro que o leiam como se lessem reminiscências de um subalterno nas trincheiras. Surge a mesma desconfiança no quartel-general; a mesma irritação com o oficial de estado-maior que interrompe; a mesma crença de que seu próprio setor é o centro do front inteiro; a mesma convicção de que, com toda grandeza d’alma, se está vencendo a guerra praticamente sozinho. É fácil sorrir desse tipo de coisas. Eu era moço e, como tal, presunçoso. Mas, se, ao partir para a Conferência de Paris, tivesse sido capaz de ler um diário como este, abordando experiências semelhantes no Congresso de Viena, poderia ter sido mais modesto em Paris, com definições mais claras sobre o que era essencial, mais equilibrado e menos disposto a pôr a culpa nos dirigentes. Repito que este diário só é publicado para uso de jovens integrantes do Foreign Office que venham a ser designados para integrar o grupo de assessores no próximo Congresso Mundial. Tenho certeza de que o rapaz lerá atentamente o diário e de que não aceitará logo a ideia de que, à medida que se intensificar o atropelo e a agitação dos trabalhos, ele será capaz de evitar as vaidades, os preconceitos, o cansaço extremo e o declínio do vigor moral que eu próprio experimentei. Pode concluir que fico mal neste diário. E está absolutamente certo. Mas que ele ao menos se prepare para enfrentar similares tentações complexas e subconscientes, pois certamente haverá recorrência. Devo pedir ao leitor comum e menos afeito ao assunto que não leve este diário muito a sério. É tão somente uma tentativa de transmitir o ambiente, e não o de fornecer informações, menos ainda um esforço para registrar história. Justamente por não querer exagerar a verdadeira importância deste registro, evitei deliberadamente todo tipo de nota de rodapé e de anexos. Os assuntos que me deixaram perplexo muitas vezes eram inteiramente sem importância. Portanto, é absolutamente secundário que o leitor seja capaz de compreender os assuntos de que então tratei. O que interessa saber quem era Bratianu, ou que era o Banat, ou onde era Miskolcz? A importância é mínima. O que desejo transmitir é a mistura, a interligação, a constante variação de princípio para detalhe, de detalhe para princípio. Gostaria que o leitor comum passasse rapidamente os olhos por este diário, sem tentar entender o que acontecia. Gostaria que o lesse com a disposição de quem assiste um filme moderno, pensando apenas no efeito agregado, cumulativo, não nos pormenores. Ao close-up do apito de uma fábrica segue a cena de uma rua deserta com uma folha de jornal a voar ao vento da madrugada. Um rosto crispado falando freneticamente surge na tela e, em seguida, uma grande extensão de terras pontilhada por moinhos de vento em giro simétrico. Não é a continuidade deste trabalho que possui algum valor representativo, mas sua descontinuidade. Não são minhas opiniões ou meu conhecimento o que tem algum interesse, mas minha insensatez e ignorância. Desse ponto de vista, afirmo com toda convicção que o retrato que apresento é exato. Observação final. Em geral substituí as iniciaisna minha narrativa pelos nomes completos. Conservei apenas três iniciais. “Ll.G.” é Mr Lloyd George – cuja grande obra na Conferência de Paz não cheguei a apreciar plenamente na ocasião. “P.W.” quer dizer Presidente Wilson. Uma das coisas mais curiosas em meu diário é que muito pouco registrei sobre minha permanente suspeita de que os americanos não conseguiriam cumprir suas promessas. Porém, se bem me recordo, essa foi a mais constante de nossas muitas preocupações: e foi a mais presente das muitas tentações que tive, a de incluí-la no diário. “A.J.B.” corresponde a Mr Balfour, na época ministro do Exterior. Sou grato a meu diário pelas passagens sobre Mr Balfour. Creio que, pelo menos nesse aspecto, na época eu estava certo. “Crowe” quer dizer Sir Eyre Crowe, meu querido chefe. Creio que não aparecem outras abreviaturas dignas de nota. 1º de Janeiro – 12 de Janeiro de 1919 Contatos 1º de janeiro de 1919, quarta-feira Ocupado o dia inteiro no Foreign Office pondo meus papéis e mapas nas caixas metálicas. À noite, jantar com Gerald Tyrwhitt e depois um teatro. De lá, para os aposentos de Henry Churchill. Holmesdale, Pratt Barlow, Ronnie Griffin e Gorsky, um oficial polonês em uniforme azul- -celeste. Também um americano desconhecido e desarticulado. 2 de janeiro, quinta-feira Arrumação final no Foreign Office e partida, após trabalhosos quatro anos e meio no Ministério da Guerra. Alguma Abschiedsstimmung. Almoço no Marlborough. Jantar cuidadoso em guarda no St. James’ com Sam St. Aubyn. 3 de janeiro, sexta-feira Partida de Londres rumo a Paris às onze da manhã na Charing Cross. Encontro Eustace Percy e sua noiva na estação. No navio encontro Taliani, um italiano pequenino, amigo dos tempos de Constantinopla. O trem se atrasa a partir de Boulogne por algum acidente na linha. Ainda muita devastação em torno de Amiens. Jantar no trem com Taliani, Casati (marido da marquesa Casati) e De Martino, chefe do Ministério do Exterior da Itália, um baixinho ranzinza, sempre se lamentando. Integrará a delegação de seu país na Conferência. Insiste em pagar meu jantar, dizendo que minha primeira refeição na França após a guerra deve ficar por conta da Itália. Comenta o Tratado de Londres de 1915, afirmando que assegura o “equilíbrio do Mediterrâneo.” Digo que concordo inteiramente. Disse-me que provavelmente os plenipotenciários italianos serão Orlando, Sonnino, Diaz e talvez Bosdari. Chegada na Gare du Nord por volta das onze da noite, indo direto para o Majestic. Ao chegar, encontro Rex e Allen Leeper no saguão. Subo com eles para meu apartamento – no 89. Paris muito bem iluminada. 4 de janeiro, sábado Providências para liberar minha bagagem e as caixas metálicas na Gare du Nord. Até o momento, não há membros oficiais da delegação, a não ser Eustace Percy, os dois Leepers e eu. Eustace, recém-casado, instalou-se em um apartamento na Avenue d’Iena, no 72, térreo, à esquerda. Vou até o apartamento de Eddie Knoblock no Palais Royal. Ele desfaz as malas, arrumando suas coisas. Almoço com ele e depois vou ver Walter Berry. Uma bomba lançada por um Gotha (avião bombardeiro alemão) caíra em seu quintal e destruíra a casa aos fundos. Todas as janelas quebradas, mas nenhum dano mais grave. Jantar com os dois Leepers, que trazem um amigo americano, Rhys Carpenter, que estudara com eles no Balliol. Tem alguma função na delegação dos Estados Unidos. É bem preparado e tímido. 5 de janeiro, domingo Passo o dia com Eddie Knoblock e a noite conferindo meus documentos e mapas. Tudo em ordem. 6 de janeiro, segunda-feira Chegam Crowe e Vansittart. Longa reunião de trabalho com Allen Leeper. Almoço no Majestic e vou com ele visitar a delegação americana na Place de la Concorde, 4. Está instalada precariamente, espalhada pelo Maxim’s. O lugar está cheio de fuzileiros navais americanos desfazendo caixas. Na sala mais distante, que com certeza foi uma sala privada do Maxim’s, encontrei os três membros da delegação americana, os quais, segundo nos diz Rhys Carpenter, serão nossos correspondentes. Todos integram o grupo de trabalho “Inquiry” do Coronel House e são do meio universitário. Um deles é o professor Clive Day, de Yale, de meia-idade, pálido, esguio, seco e de boa aparência. Outro é o professor Charles Seymour, também de Yale, jovem e moreno, podia ser um major dos sapadores. O terceiro é o professor Lybyer, calado, meio distante. Mostram seus mapas. Há um imenso mapa topográfico com várias seções, realçando a região do Adriático, muito bonito. Evidentemente conhecem a fundo os assuntos de sua responsabilidade. Gente agradável, mas não entramos em detalhes. Todavia, fica a impressão de que nossas opiniões coincidem. De lá, fomos ver Také Ionescu no Meurice. Um quarto quente e abafado, e no corredor as fustanellas dos seguranças montenegrinos mal-encarados do Rei Nikita. Exoticamente instalados sobre o tapete turco do corredor. Také é corado, vivo, europeu continental típico. Tenta falar inglês e acaba no francês. Refere-se de forma extremamente áspera a Bratianu. Este lhe oferecera cinco cargos no gabinete de coalizão, a saber, finanças (já comprometido por promessas feitas aos franceses), comércio, agricultura e duas outras pastas. Nestas condições, ele poderia ser um dos plenipotenciários romenos. Recusou com indignação e disse que tencionava ir a Cannes. Por que Cannes? Portanto, os delegados romenos serão Misu, Antonescu (seu representante em Paris, que Také detesta) e possivelmente o próprio Bratianu. Také diz que o gabinete de Bratianu é muito impopular no país, que a inclusão de Constantinescu (“Porco”) afastou as classes dominantes, que as classes menos favorecidas estão afetadas pelo bolchevismo e pelas condições econômicas em geral. Porém, os habitantes da Transilvânia contrários a Bratianu se aliaram a ele em face de sua promessa de que conseguirá todo o Banat, com amparo no tratado de 1916. Také tinha chegado a algum tipo de acordo com Trumbic pelo qual o Banat seria dividido amigavelmente entre a Romênia e os S.C.S.[2]– e os Estados Sucessores se apresentariam em Paris como um bloco unido diante das Grandes Potências. Bratianu fizera uso do conhecimento que tinha desse acordo para desacreditar Také perante os círculos de patriotas em Bucarest. Falou demoradamente sobre a posição do Rei, sua impulsividade, sua subordinação à Rainha, e o tratamento que ele e ela dispensavam a Averescu, o líder dos agricultores. Falou-nos que a rainha tinha insultado publicamente Averescu, reconhecendo mais tarde para Také que errara.“J’ai eu tort” (Fui injusta). Také também criticou o cancelamento das bodas do Príncipe Carol e assinalou que isso prejudicara o Príncipe seriamente. Také evidentemente amargurado e vingativo. Afeta muito sua moderação e seu julgamento. Em último recurso, encara a situação por um ângulo parlamentar. É uma pena, pois é o único que percebe (1) que é um erro os romenos insistirem no tratado de 1916, (2) que os transilvanos só se aliarão com base em uma “união com autonomia,” e não em termos de anexação, (3) que a disputa com os S.C.S. sobre o Banat enfraqueceria a posição, o bloco todo dos Estados Sucessores diante das Grandes Potências. Seu afastamento da cena prejudicará seriamente o bloco, e a Itália é que será beneficiada. Jantar no Majestic. Eric Maclagan lá. Está fazendo algum tipo de trabalho para a imprensa e tem um escritório perto da embaixada. Em seguida, para o apartamento de Eustace Percy. Ele me fala sobre a Liga das Nações e os vários planos que no momento estão sobre o tapete. 7de janeiro, terça-feira Ao escritório de Eric Maclagan e obter pormenores sobre o tratamento dispensado a escolas, língua, etc. de canadenses de origem francesa no Canadá. Pode vir a ser útil com vistas à autonomia cultural de minorias nos Novos Estados. Almoço com a delegação americana no Crillon. O lugar parece um encouraçado americano e tem um cheiro estranho. Day, Seymour e Lybyer no almoço. Também Beer, o secretário encarregado da organização. Colhi o seguinte: (1) Albânia. Não tão a favor da Albânia como eu esperava. Um tanto contrários a um mandato italiano, mas no fim aceitarão. A favor de Itek e Djakova irem para a Albânia ao norte e uma concessão limitada aos gregos no Épiro setentrional. Koritsa, não. Sem dúvida, é o mesmo ponto de vista nosso. (2) Grécia. Cessão de Doiran e Ghevgueli. Algumas ideias sobre ceder Kavalla aos búlgaros. Jogaram o anzol para saber nossa posição a respeito de Chipre. O peixe não mordeu. (3) Sérvia. Claro que são pró-iugo- slavos, mas não loucamente. Não se sensibilizaram com as pretensões sérvias por Pirot e Widin. (4) Bulgária. Parecem ter as mesmas ideias que nós quanto à cessão de Ishtib e Kochana, mas confiam mais em fronteiras com base em divisores de água do que em rios, pela simples razão de os primeiros serem menos habitados do que os últimos. Francamente contrários à cessão da Trácia ocidental à Grécia, no que concordo com eles. Preferível ceder a linha Enos-Midia na Trácia oriental à Bulgária, mas empurrando Enos para o sul (pântanos de Maritza) e Midia para o norte (suprimento de água de Dercos). (5) Turquia. Querem os turcos fora de Constantinopla. Obviamente pensam em confiar a resultante zona dos Estreitos a países menores, Dinamarca e Bélgica. Mas para nós não fica claro qual seria essa zona (Gallipoli?). Estariam perfeitamente dispostos a nos aceitar como detentores de um mandato em Constantinopla, mas não tanto de terem eles mesmos essa delegação. A opinião pública americana não se dispõe a aceitar essa responsabilidade, mas “poderia” estar disposta a aceitá-la na Armênia. São bem simpáticos à ideia de uma zona grega em Smyrna. Devo saber mais na quinta-feira. Jantar com Eddie Knoblock novamente no Prunier. Voltei a pé. Tive uma longa conversa com Crowe. É realista. Quer fatos, não ideias, mesmo atraentes. Fala sobre desarmamento, sobre Liga. Deverá dispor de uma força armada? Em caso positivo, qual? E quem comandará? E seu estado- maior permanente? E as Pequenas Potências? Integrarão a Liga em base de igualdade? Isso seria “muito irreal.” Mas sem igualdade, como defendê-los? Arbitragem compulsória? E a “honra e interesses nacionais”? Disse-me que Lloyd George não quer os Estados Unidos em Constantinopla. O Presidente Wilson voltou de Roma. 8 de janeiro, quarta-feira Uma volta até o Astoria, onde está instalado nosso outro escritório, bem no alto, quinto andar. Vista do Arco do Triunfo, cheiro de desinfetante e iodofórmio, mesas vazias. Acaba de ser desocupado pelos japoneses, que o usavam como hospital. Falo com Mance, especialista do Ministério da Guerra em ferrovias, a respeito de tráfego e comunicações no que nos interessa no novo mapa da Europa. É muito inteligente e prestativo. Os mapas mostram claramente que as fronteiras étnicas e o princípio que norteia as ligações ferroviárias nunca entram em acordo, deixam imensas lacunas. Na Transilvânia em especial, as veias e artérias correm todas articuladas com as linhas-tronco austríacas e não se articulam com as romenas. Isso será problema muito difícil de resolver. Depois do almoço vou com Allen ver Goga, um poeta e político da Transilvânia. Um jovem transilvânio, Virgil Tiles, está presente. Dizem sentir-se “muito envergonhados para falar sobre questões internas.” Sobre as externas, porém, não sentem nenhuma vergonha e exigem a maior parte da Hungria. Vão nos enviar documento sobre Bukowina. Enquanto isso, tropas romenas ocuparam Arad e Nagyvarad, mas não foram além. Enquanto estamos lá, chega um rapaz da Bukowina que esteve servindo na Legião Estrangeira francesa. Pouco esclarecedor e mal informado. Jantar no hotel. Chegam Hardinge, Mallet, Hurst, Ronnie Campbell e Armitage Smith. 9 de janeiro, quinta-feira Lybyer e Day vieram nos visitar no Astoria. Entramos em detalhes. (1) Bulgária. Justiça inflexível. Macedônia, Ishtib e Kochana, com ferrovia alternativa. Dificuldade com a linha Gostivar-Monastir. Fronteira sérvio- húngara, pouca mudança. Não acreditam naquela ideia sem sentido de Pirot e Widin. Franca oposição à cessão da Trácia Ocidental à Grécia e chegam a preferir conceder a fronteira de Struma à Bulgária, compensando (sic) a Grécia na Ásia Menor. Dobrudja – a linha de 1913 sem a Silistria e com algumas pequenas retificações. (2) Albânia. Obviamente sem muita certeza. A ferrovia do norte deve ser da Sérvia? E Ipek e Djakova? Tendência a incluí-las na Albânia. Fronteira oriental, a mesma coisa. Fronteira sul, neste ponto estão divididos. Alguns querem ceder Koritsa à Grécia, outros ceder a linha Voiussa. Alegam que a estrada de Koritsa não é essencial à Grécia, já que pode ser construída uma alternativa. Seria dado um mandato à Itália se desistir de sua pretensão à posse de Valona. Governo interno na base de cantões. (3) Grécia. Não abrir mão da renúncia da Itália ao Dodecaneso. Posição firme em relação a Smyrna. Anti-Trácia. (4) Turquia. Evidentemente, firmes na decisão de afastar os turcos da Europa, mas vagos a respeito de seu sucessor na região de Constantinopla. Quanto aos limites dessa região, sugerem duas alternativas. (a) Zona restrita, ou seja, as linhas Chataldja-Gallipoli-Ilhas do Mármara – e, na Ásia, de Shile a Gebze. (b) Zona ampliada: leste de Enos ao norte da Midia; na Ásia, a linha de Edremid a Sakharia. A primeira zona teria três soberanias distintas ao longo do litoral de Mármara e, portanto, é preferível a segunda. Entendo que o Presidente Wilson quer uma Pequena Potência ou grupo de Potências Menores para governar essa Zona de Constantinopla ou dos Estreitos. Seus especialistas são contrários à ideia (riscos de um governo compartilhado etc.) e preferem que os Estados Unidos ou a Inglaterra assumam esse mandato. Contudo, têm dúvida se a opinião pública americana aceitaria tal responsabilidade. Com relação à Turquia na Ásia, fica evidente que esperam ter de se apossar da Armênia, mas são reticentes sobre o restante. De maneira geral, uma conversa bastante satisfatória. São preparados e não tão desconfiados ou cautelosos. À noite, conversa com Crowe e Valentine Chirol sobre o seguinte problema: “Se, segundo o princípio da autodeterminação, uma nacionalidade opta pelos Estados Unidos para receber um mandato e estes se recusam a aceitar a responsabilidade, constitui violação da autodeterminação delegar o mandato a outro país, como a Itália por exemplo?” Não há resposta para esta questão. Qualquer solução pareceria conduzir a uma partilha disfarçada e um embuste. Ouvimos dizer que os russos estão organizando um comitê ou “conferência” de embaixadores contando com o Príncipe Lvoff, Sazonof, Giers, Maklakoff, Bakhmetieff e, creio, Nabokoff. Será algo bastante incômodo para os que pretendem ignorar a Rússia. Fico muito contente. Afinal, estamos lidando com interesses russos pelas costas deles, e o mencionado comitê só terá de apresentar um protesto formal para que a conferência fique marcada na história por ter abandonado aquele país quando estava em dificuldades. Espero que o comitê receba algum tipo de atenção. Mas nossos governantes parecemver na Rússia unicamente o embrulho do bolchevismo. 10 de janeiro, sexta-feira Longa discussão com Crowe sobre política geral. É uma alegria estar trabalhando sob a direção de alguém tão arguto e preciso. Junto a ele, sempre me sinto à vontade. Crowe ficou impressionado, assim espero, com os argumentos de Allen Leeper, que, como sempre, foram admiráveis. Mais tarde almoçamos, ele e eu, com Tiles no Griffon. Insisti no assunto de autonomia cultural para as minorias que deverão ser englobadas pela nova fronteira romena. Ele pensa em certo plano pelo qual as comunidades de vilarejos elegeriam três representantes (magiares) que, em acordo com três representantes do governo central, poderiam nomear os professores das escolas e acertar questões como idioma e currículos. Tudo muito simples – se funcionar. Foi organizado um “Conselho de Ajuda.” Sob a chefia de Hoover. Jantar com Lord Hardinge sozinho. Ele fala de reforma na diplomacia. Como foi ele quem reformou o Foreign Office, nada mais justo que também reformasse o serviço irmão. Assinalo que, depois de dez anos de serviço, meu salário real, descontado o imposto de renda, é de 86 libras anuais. Como recrutar os mais capazes em tal sistema? Ele parece concordar. Ele nunca é antiprogressista quando abordado de forma adequada. Mas não gosta de gente queixosa. E diz, “eu criei as minhas oportunidades, por que esses moços agora vêm pedir que lhes sejam oferecidas oportunidades?” Ignora completamente o fato de que, com a minha idade, havia muito ele era segundo secretário e não enfrentava as filas mortais que presentemente atrasam as promoções. Mas de certa forma concordo com ele. Podemos não subir muito rapidamente em posto e salário, mas qualquer pessoa dinâmica desde o início recebe missões importantes. 11 de janeiro, sábado Ontem tentaram assassinar Kramarsh, primeiro-ministro tcheco. Seton Watson vem nos ver pela manhã. Fala sobre Fiume, dizendo (1) que não pode ficar separado do subúrbio de Susak e que juntos, os dois asseguram uma maioria eslava, (2) que é dominado pelas montanhas ao fundo e quem tiver de manter Fiume terá que contar com áreas interiores. Esse interior é totalmente eslavo. Enquanto ele ainda está conosco, chega Pangal, editor do Rumanie. Uma longa discussão sobre Szeklers, Banat, os rutênios etc. Nenhum estadista romeno, com exceção de Také, ousaria propor uma solução razoável para todos estes problemas. Teremos de impor uma solução. Os americanos vêm almoçar. Discutimos a dificuldade em definir uma fronteira territorial que, proporcionando uma sensação definitiva (e, portanto, de segurança da posse), também deixe a porta aberta para futura revisão. Concordam comigo que, com relação aos Bálcãs, o que se deve fazer é enfiar em suas cabeças duras que acordo era definitivo no que diz respeito à propaganda interna: sem mais massacres, sem mais comitadjis [organização revolucionária clandestina macedônia que se opunha às forças búlgaras de ocupação]. Mas algum poder para revisão posterior permaneceria com a Liga das Nações. Após o almoço Crowe me fala sobre as objeções levantadas pelo Departamento das Colônias e outros a propósito de cedermos Chipre à Grécia. Essas objeções me parecem ao mesmo tempo materiais e imateriais. Ele mesmo está impressionado. Chegam Lloyd George e os primeiros-ministros das colônias. 12 de janeiro, domingo Trabalhando a manhã inteira nas ferrovias albanesas. É evidente que a linha Nish – Prishtina – Prisrend – Scutari – San Giovanni é a única que oferece qualquer vantagem real sobre a solução Salonika (400 versus 450 quilômetros). Há uma reunião preliminar, embora não oficial, dos plenipotenciários para discutir normas de procedimento. É a primeira vez que se reúnem. Almoço com Rhys Carpenter, da delegação americana. Homem espirituoso, filólogo e arqueólogo, inteligência refinada. Conversa com Edwin Montagu. Vou visitar Pierre de Lacretelle. Saiu. Depois, ao apartamento de Eustace Percy. 13 de Janeiro – 20 de Janeiro de 1919 Primeiras Reuniões 13 de janeiro, segunda-feira Primeira reunião oficial da conferência, embora não a denominassem desta forma; reúnem-se como Supremo Conselho de Guerra. A primeira verdadeira reunião só ocorrerá no próximo sábado. Trabalho a manhã inteira em assuntos de nosso interesse. Almoço com Seton Watson no Castiglione; Marianu, Pangal e Walter Lippmann presentes. Pouco interesse. A delegação do Império Britânico faz uma reunião conjunta. Conversa com Edwin Montagu sobre o futuro de Constantinopla. Concluo que se os americanos assumirem, ele não se oporá à expulsão dos turcos. Conseguimos o programa francês de procedimentos, elaborado por Berthelot: não muito esclarecedor. Jantar com Eddie Knoblock no Griffon. Sir William Wiseman presente. Ele é “o amigo de House”, tanto quanto House é “o amigo de Wilson.” Arcades ambo. Bebemos um Pouilly 1906, excelente. Wiseman diz que após uma longa conversa do Presidente Wilson e House com Sonnino sobre as reivindicações italianas no Adriático, House disse: “Esse homem está convicto. Pode ter suas razões.” Ao que o P.W. respondeu: “Então vamos deixá-lo apresentar suas pretensões publicamente. Se existem tais razões, se transformará em uma grande causa. Se não existirem, vai definhar.” Não consigo imaginar Sonnino fazendo algo assim. 14 de janeiro, terça-feira Crowe me diz que ficou decidido cada Potência apresentar por escrito seus pontos de vista sobre todas as questões. Tanto para Crowe quanto para mim parece uma resolução impraticável, uma vez que não deixa margem para negociação e desde o começo compromete todos com o máximo de reivindicações. De qualquer modo, ainda temos que saber o que efetivamente implica tal decisão. Lybyer aparece e o apresentamos a Arnold Toynbee. Discutimos os limites da zona de Constantinopla e ele nos mostra no mapa a linha prevista pelos americanos. É muito melhor do que a nossa. Almoço com Eustace Percy e sua esposa. De lá para o Crillon com Esme Howard e E.H. Carr. Levo comigo documentos sobre o Tratado Italiano (o Tratado Secreto de abril de 1915), pois nos informaram que Lloyd George e Balfour iam discuti-lo com os americanos. Temos alguma dificuldade ao chegar ao Crillon, ninguém sabia de tal reunião, ninguém sabia ao certo para onde devíamos ir ou onde devíamos ficar esperando. Incerteza também dos fuzileiros navais da delegação dos Estados Unidos, sem saber nem mesmo se deviam permitir que ficássemos esperando. Em meio a esta situação embaraçosa, chegam Balfour e Eric Drummond. Subimos no elevador para os aposentos do Coronel House no 4o andar. Ficamos então sabendo que a reunião será na casa do Presidente Wilson, perto do Parque Monceau. Rapidamente voltamos para nosso carro e seguimos Balfour pelas ruas. Ao chegarmos, fileiras de policiais, de militares, muitas continências. Wilson está bem protegido. Somos conduzidos para uma galeria no piso superior, com teto de vidro e uma estátua de Napoleão no Egito. A casa é a Villa Murat e seu estilo é napoleônico. Balfour é conduzido para um aposento à direita. Nós ficamos esperando no lado de fora por duas horas e meia, enquanto nos chega o som das vozes na sala vizinha. Mrs. Wilson passa por nós, os saltos altos fazendo ruído no parquet, um buquê de mimosas nos braços. O velho mordomo entra e acende as luzes, uma a uma. Leio o Irish Times. Subitamente, por volta de 4h45, abre-se a porta, e sai Lloyd George, seguido por Bonar Law, Balfour e o P.W. “Oh, meu caro!” exclama A.J.B. “Você ficou esperando todo este tempo? Nuncaimaginei! Há várias coisas que queríamos lhe perguntar. Por exemplo...” Voltando-se para o presidente: “Este é um jovem amigo que poderia nos ter dito tudo que queríamos. Agora, deixe-me ver, o que queríamos saber? Ah, sim, Fiume...” P.W. – “Não, Fiume não. Já sabemos tudo a respeito. O que queremos é saber o número exato de alemães que seriam absorvidos pela Itália se esta conseguir a fronteira no Brenner. Então, o que pode nos dizer sobre isso?” H.N. – “Bem, não precisamente, sr. Presidente. Não tenho o número exato. Seriam uns 240.000...” P.W. – “Ou seriam 250.000?” H.N. – “Bem, sr. Presidente, eu ia dizer 245.000.” P.W. – “Bem, de qualquer modo, é questão de milhares.” H.N. – “Sem dúvida, e milhares de contrários aos italianos.” P.W. – “Você quer dizer que são pró-alemães, pró-austríacos?” H.N. – “Bem, pró-Tirol, sobretudo em Bozen.” P.W. – “Bem, existe outra questão. Ah, sim, sobre Fiume. Pode me fornecer os dados?” H.N. confiante – “Ah, sim, o senhor quer dizer, com ou sem os subúrbios?” P.W. – “Sim, há um subúrbio chamado Ashak, ou coisa parecida.” H.N. – “Susak. Bem, os dados são, os dados são...” pausa... “eu os tenho aqui” (remexo o bolso, rápida coleta de dados e os apresento com segurança). P.W. – “É o que eu achava – e a linha entre Fiume e Ashak é insignificante.” H.N. – “Um simples arroio, senhor presidente, praticamente não se podem separar os dois.” P.W. – “É o que estou vendo. Mas os italianos dizem que quem tenta passar de Fiume para Ashak é morto na certa.” H.N. – “Mas sr. Presidente...” P.W. – “Waal! Achei que ele estava exagerando. Bem, cavalheiros, boa- noite. Boa-noite, Mr Balfour.” Nos retiramos. Isso se chama “dar opinião de especialista.” P.W. é mais jovem do que aparenta nas fotografias; glabre; não se vêem seus dentes, a não ser quando esboça um sorriso, que assusta; ombros largos e cintura fina; seus ombros são desproporcionais à altura; assim também seu rosto (não a cabeça propriamente dita, mas a porção entre as orelhas e o queixo). Sua roupa é confeccionada em alfaiate, preta, bem cortada, bem passada; calça listrada, colarinho alto, alfinete rosa. Fala pausada do sul. Descendo as escadas, A.J.B. atencioso como sempre. “Não sei como me desculpar por tê-lo feito esperar tanto tempo. Para falar a verdade, na última meia hora ficamos apenas discutindo se Napoleão e Frederick, o Grande, podiam ser considerados patriotas indiferentes.” “E qual foi a conclusão?” “Ah, esqueci a conclusão.” E assim, de volta ao Majestic. Jantar com Armitage Smith e Louis Mallet. Este me diz que o P.W. leu para Balfour uma carta dirigida a Sonnino recusando, de sua parte, vincular-se ao Tratado de Londres. Tudo bem. Também recebera a visita de Weizmann, o sionista. Weizmann tinha preparado uma longa série de argumentos defendendo que o mandato da Palestina deveria ser concedido à Inglaterra. O Presidente o interrompeu dizendo: “Sim, já sei tudo isso. Só quero que os ingleses estejam dispostos a assumir tudo o que queremos que assumam.” Weizmann então explicou como era difícil entrar em acordo com os franceses. P.W.: “Nisso concordo com o senhor. Nós não temos comunhão de ideias.” 15 de janeiro, quarta-feira O Dr Madge, médico inglês junto à Corte Romena, homem pequenino e inteligente, vem nos visitar. É interessado em política. Diz que Také Ionescu está realmente contente por não ser membro da delegação, pois vê para onde se dirige o chauvinismo romeno e está satisfeito por ficar de fora e poder criticar os erros de outros. Chega um inglês que acaba de regressar de Kolosvar, na Transilvânia. Diz que Budapest está caminhando celeremente para o bolchevismo, com Karolyi à testa. Acha que, quando chegar, o bolchevismo terá vida curta e que logo haverá uma revolta branca. A Hungria está francamente a favor dos ingleses e quer ver o Príncipe Henry como rei. Os lavradores nada semearam neste outono. Almoço no Griffon com Tilea e Pangal. Outra vez o Banat. Uma referência à restituição de Dobrudja à Bulgária provoca estridentes reclamações dos transilvanos. De volta ao escritório. Redijo memorando para Mr Balfour explicando por que a Itália não deve receber Fiume, mesmo declarado porto livre. Às cinco, uma volta até o Mercedes para ver os gregos. T... fala-me sobre Koritsa como centro de cultura grega, acrescentando que a primeira obra grega impressa foi em Moschopolis. Segundo ele, os italianos não podem receber um mandato sobre a Albânia; jamais teriam êxito; os albaneses se rebelariam; seria muito dispendioso. Também explica o acordo com a Sérvia relativo ao acesso ao Egeu em Salônica. Os sérvios têm seus próprios cais, funcionários, material rodante, polícia e mão-de-obra. Está convencido de que um acordo semelhante daria certo com os búlgaros em Kavalla e com os turcos em Smyrna. Em seguida, vou ver Venizelos. Apesar do calor na sala, ele usa seu gorro preto de seda. Dois evzones de unidades de elite ficam no corredor, do lado de fora. Venizelos me mostra dados estatísticos sobre etnias. “Je me suis fait un point d’honneur de préparer une estatistique exacte”. Cita Dietrich como tendo confirmado seus dados e afirmado que toda a costa da Ásia Menor a oeste do meridiano de Constantinopla é grega em seus elementos físico e climático. Com relação à Trácia ocidental e oriental, faço ver que se a Grécia obtiver tudo que reivindica, ficará com uma fronteira impossível de defender. Ele replica: “Mais de nos jours on ne fait pas de guerres géographiques. L’ Allemagne en a fait, et vous en voyez bien le resultat.” Argumentei sobre o risco do irredentismo e de agitação entre gregos de Constantinopla e da Trácia oriental. Ele replica: “E daí? Acha você que atacaríamos a Liga das Nações? Não é melhor ter em Constantinopla um vizinho amigo em vez de um hostil?” Pondero a ele que a Bulgária deve dispor de saídas econômicas para o Egeu. Ele diz: “Que tal Varna e Bourgas, que com a permanente abertura dos Estreitos, ganharão considerável valor? Se a Romênia só dispõe da saída para o Mar Negro, por que a Bulgária deveria ter mais? Considere também o perigo de submarinos em Porto Lagos.” Eu tenho em mente este perigo, mas não dou maior importância. Evidentemente ele tem promessas do P.W. sobre o Dodecaneso; nesse assunto, estamos de mãos amarradas pelo tratado de 1915. Ele sabe disso. Nenhuma palavra sobre Chipre. Jantar no hotel. Lloyd George presente. Muito trabalho depois do jantar. 16 de janeiro, quinta-feira Trabalho a manhã toda. No almoço, Benes, ministro do Exterior tcheco e membro da delegação. Seus pontos são: (1) A Boêmia quer reconstituir a Mittel Europa em uma nova base, nem germânica, nem russa. Portanto, fundamenta suas demandas “não tanto em justificativas de ordem nacional, mas de ordem internacional.” Para ela, embora a unidade nacional venha em primeiro lugar e a prosperidade nacional em segundo, o objetivo supremo é a estabilidade da Europa Central. Para isso, deve haver uma conexão territorial tanto com a Iugoslávia quanto com a Romênia. Esta última a ser estabelecida na Rutênia; os rutênios da Galícia, preponderantemente judeus, não querem pertencer à Rússia e muito menos à Romênia. (2) Relações amistosas com a Hungria acabarão impostas pela necessidade econômica. A Hungria sempre foi pró-alemães, mesmo sendo contrária aos austríacos. Nós ocidentais temos nos enganado ao pensar que sua posição anti-Viena também traduz posição anti-Berlim. (3) Acha que existe uma grande diferença entre ele e seus colegas que, como Kramarsh, permaneceram em Praga durante toda a guerra. Eles só pensam