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Em 1919, a Conferência de Paz de Paris reuniu 32 nações em torno da 
elaboração do acordo que deveria ser o marco de encerramento da 
Primeira Guerra Mundial – e, na visão triunfalista de alguns, o fim de 
qualquer possibilidade de novo conflito da mesma proporção. O resultado 
foi um dos maiores equívocos diplomáticos de todos os tempos. O tratado 
de Versalhes, que supostamente viria a pacificar o mundo, acabou por se 
tornar a semente de uma violência ainda maior, criando condições para a 
ascensão do nazismo na Alemanha e a eclosão da Segunda Guerra 
Mundial, apenas vinte anos mais tarde. O livro O tratado de Versalhes – 
mais um lançamento da Coleção Globo Livros História – revela com 
riqueza de detalhes os bastidores das negociações que formataram o 
documento. Tudo relatado por uma testemunha privilegiada daquele 
momento histórico: o escritor Harold Nicolson, que em 1919 atuou como 
membro júnior da delegação diplomática inglesa à Conferência de Paz de 
Paris. Então um jovem diplomata especializado em questões territoriais, 
Nicolson descreve com lucidez a distância entre ações e intenções dos 
grandes líderes – entre eles, o presidente norte-americano Woodrow 
Wilson, o primeiro-ministro britânico David Lloyd George e o premiê 
francês Georges Clemenceau –, bem como as circunstâncias que levaram 
a escolhas irrefletidas, como, por exemplo, a pressão das massas por uma 
implacável reparação aos danos que o lado perdedor (sobretudo a 
Alemanha) causara aos países vencedores. O título se divide em duas 
partes. Na primeira, o autor faz uma avaliação crítica do encontro 
diplomático, relacionando a desorganização, os erros, os infortúnios e as 
desavenças que levaram a um acordo final completamente diferente 
daquele que havia sido imaginado inicialmente como justo, viável e 
favorável ao restabelecimento da paz no continente europeu. A segunda 
parte do volume apresenta trechos selecionados do diário que Nicolson 
escreveu ao longo dos seis meses de missão diplomática, da abertura da 
conferência até a assinatura do tratado que praticamente decretou a ruína 
econômica da Alemanha. Ao publicar este livro em 1933, o autor fez 
questão de esclarecer que, mais do que um registro histórico, buscou 
reproduzir a “infeliz e doentia atmosfera” da Conferência de Paz de Paris. 
Seis anos antes do início da Segunda Guerra, Nicolson garantia que desde 
1919 muitos dos diplomatas envolvidos na elaboração do Tratado de 
Versalhes experimentaram “por longo tempo um sentimento de 
descrença, uma convicção de que a natureza humana, como uma geleira, 
se move apenas uma ou duas polegadas a cada mil anos”.
LIVRO	I	MEMÓRIAS	DA	PAZ	DE	VERSALHES
como	parece	hoje
1	
Armistício
DE	TODOS	OS	RAMOS	DA	ATIVIDADE	HUMANA,	A	DIPLOMACIA	é	a	mais	versátil.	O	historiador	e	o
jurista,	confiando	no	protocolo	e	no	procès	verbal,	podem	procurar	manter
suas	 condutas	 dentro	 dos	 contornos	 estritos	 de	 uma	 ciência.	 O	 ensaísta
pode	capturar	as	cores	nas	vinhetas	de	uma	arte.	Os	especialistas	–	e	houve
muitos,	 de	 Callière	 a	 Jusserand,	 de	 Maquiavel	 a	 Jules	 Cambon	 –	 podem
conseguir	adensar	suas	experiências	em	livros	capazes	de	orientar	os	que
vêm	depois.	O	jornalista	pode	dar	ao	quadro	os	enfoques	e	a	interpretação
do	 pitoresco.	 Em	 tais	 imagens,	 porém,	 sempre	 surge	 um	 elemento	 que
escapa	 à	 realidade,	 há	 sempre	 o	 aspecto	 que	 se	 nega	 a	 ser	 registrado	 ou
definido.
Essa	 incerteza	 de	 tratamento	 resulta	 de	 causas	 diversas.	 Em	 primeiro
lugar,	a	discrepância	entre	o	protocolo	criado	e	os	estágios	que	levaram	à
sua	adoção.	Existe	a	divergência	entre	a	evolução	aparente	da	negociação	e
a	que	realmente	ocorreu.	Existe	a	tendência	a	atribuir	efeitos	manifestos	a
causas	que	só	parecem	manifestas.	Existe	a	tentação	de	simplificar	motivos
mistos	 de	 forma	 a	 falsificar	 esses	 motivos.	 Existe	 a	 dificuldade	 em
determinar	 a	proporção	entre	 iniciativa	pessoal	 e	 viés	de	massa.	Existe	 a
permanente	 confusão	 de	 línguas,	 temperamentos,	 propósitos	 e
interpretações.	 Acima	 de	 tudo,	 existe	 o	 risco	 de	 interpretar	 valores
erroneamente,	de	atribuir	a	circunstâncias	que	parecem	significativas	uma
importância	 que	 de	 fato	 não	 têm,	 de	 subestimar	 outras	 circunstâncias
aparentemente	triviais,	mas	que	no	momento	foram	fatores	determinantes.
Havia	muito	eu	desejava	descrever	a	nova	diplomacia	como	uma	sequela
ou	contraparte	da	feição	da	velha	diplomacia	que	delineei	na	biografia	de
meu	 pai.	 Quanto	 mais	 considero	 o	 assunto,	 menos	 acredito	 numa	 real
oposição	entre	as	duas.	Diplomacia	é	essencialmente	o	sistema	organizado
de	 negociação	 entre	 estados	 soberanos.	 O	 mais	 importante	 fator	 em	 tal
organização	é	o	elemento	da	representação	–	a	necessidade	fundamental	de
qualquer	 negociador	 ser	 plenamente	 representativo	 de	 seu	 próprio
soberano.	 Pequenas	 mudanças	 que	 têm	 ocorrido	 nos	 procedimentos
diplomáticos	 não	 devem,	 portanto,	 ser	 descritas	 como	 um	 rompimento
abrupto	entre	os	conceitos	éticos	de	uma	geração	e	os	da	geração	seguinte.
É	menos	uma	questão	de	ética	e	mais	de	método:	em	outras	palavras,	foi	a
incidência	 da	 soberania	 que	 tem	 se	 deslocado,	 e	 não	 os	 princípios
essenciais	 por	 que	 uma	 diplomacia	 eficiente	 se	 conduz.	 Hoje,	 que
democracia	 significa	 a	 soberania	 de	 todos	 nós,	 certas	 transformações
óbvias	na	prática	diplomática	foram,	estão	sendo	e	serão	introduzidas.	Mas
descrever	 estas	 mudanças	 em	 termos	 de	 valores	 éticos	 e	 não	 práticos	 é
uma	interpretação	equivocada	de	toda	a	função	da	diplomacia.	O	contraste
entre	 a	 velha	 e	 a	 nova	 diplomacia	 não	 só	 traduz	 um	 exagero	 como	pode
prejudicar	o	estudo	científico	das	relações	internacionais.
Fortalecido	 por	 esta	 convicção,	 decidi	 que	 não	 devia	 tentar	 esse
confronto.	Desejo,	contudo,	dar	prosseguimento,	de	uma	forma	ou	de	outra,
a	 meu	 estudo	 prévio	 da	 diplomacia	 anterior	 à	 guerra	 e	 completá-lo	 na
forma	de	uma	trilogia,	da	qual	este	volume	representa	a	segunda	das	três
obras.	 No	 fim,	 espero	 completar	 o	 trio	 com	 outra	 biografia	 e	 focalizar	 a
diplomacia	posterior	à	guerra	em	torno	da	personalidade	de	Lord	Curzon.
Neste,	 o	 segundo	 volume	de	minha	 trilogia,	 procurei	 analisar	 a	 fase	 de
transição	entre	a	diplomacia	de	pré-guerra	e	de	pós-guerra,	e	dar	uma	ideia
sobre	a	Conferência	de	Paz	de	Paris.	 Inicialmente,	pretendi	organizar	este
estudo	também	sob	a	forma	de	uma	biografia,	centrando	minha	história	na
personalidade	 de	 Mr	Woodrow	Wilson	 ou	 de	 Mr	 Lloyd	 George.	 Todavia,
cheguei	à	conclusão	que	tal	concentração	do	tema	em	torno	de	uma	pessoa
não	 daria	 o	 necessário	 destaque	 à	 espantosa	 dispersão	 de	 energia	 que
constituiu	o	verdadeiro	ponto-chave	da	Conferência	de	Paris.	A	perspectiva
fechada	 e	 a	 continuidade	 pessoal	 características	 do	 método	 biográfico
teriam	prejudicado	meu	propósito.	Estou	bem	ciente	de	que	abandonando
minha	 intenção	 inicial	 perdi	 imensamente	 na	 estruturação	 da	 obra,	 no
interesse	 e	 no	 lucro	 financeiro.	 Porém,	 adotando	 tal	 método,	 estaria
simplificando	 os	 assuntos	 em	 vez	 de	 proporcionar	 um	 quadro	 das
confusões	 e	 complicações	 que	 de	 fato	 ocorreram.	 Decidi,	 pois,	 descrever
simplesmente	a	Conferência	de	Paz	na	forma	em	que	a	vivi.
Mais	 uma	 vez	 me	 encontrei	 diante	 de	 uma	 dificuldade.	 Constatei	 a
impossibilidade	de,	neste	momento,	oferecer	qualquer	narrativa	conexa	da
conferência	em	termos	de	assunto	ou	de	cronologia.	Por	um	 lado,	muitos
documentos	 vitais	 ainda	 estão	 indisponíveis	 e,	 por	 outro,	 o	 método
consecutivo	 não	 daria	 uma	 impressão	 acurada.	 O	 ponto	 importante	 a
entender	 sobre	a	Conferência	de	Paris	 é	 sua	espantosa	 inconsequência,	 a
falta	 completa	de	qualquer	método	 consecutivo	de	negociação	ou	mesmo
de	imposição.	A	verdadeira	história	da	Conferência	será	escrita	um	dia	de
forma	oficial,	coberta	de	autoridade	e	legível.	O	que	pode	permanecer	sem
registro	 é	 a	 atmosfera	 daqueles	 mesesinfelizes,	 a	 névoa	 em	 que	 fomos
envolvidos.	Meu	estudo,	portanto,	é	um	estudo	em	meio	à	neblina.	O	leitor
não	deve	esperar	qualquer	lucidez	contínua.	Isso	não	existiu.
Creio	 que	 li	 a	 maioria	 dos	 muitos	 livros	 que,	 desde	 1919,	 foram
publicados	 sobre	 a	 Conferência	 de	 Paz,	 alguns	 deles	 admiráveis,	 outros
pelo	 contrário.	 Todavia,	 de	 todos	 extraí	 a	 impressão	 de	 que	 faltava	 algo
essencial	e	estou	convencido	de	que	esta	omissão	crucial	é	a	do	elemento
de	confusão.	É	esse	ingrediente	–	e	somente	este	–	que	pretendi	deixar	bem
patente	neste	volume.
A	 lembrança	 daqueles	 dias	 congestionados	 é	 muito	 viva	 em	 mim.	 Foi
reforçada	 pela	 leitura	 do	 diário	 que	 redigi	 na	 época.	 Quando	 decidi
publicar,	na	segunda	metade	deste	volume,	os	principais	trechos	do	diário,
o	 fiz	convencido	de	que,	em	sua	 jovial	 trivialidade,	reflete,	melhor	do	que
comentários	 da	 meia-idade	 desiludida,	 a	 atmosfera	 que	 pretendo
transmitir.	Mas	a	crítica	que	faço	de	meu	próprio	diário	está	implícita	e	não
explícita.	 Na	 época,	 eu	 era	 jovem	 e	 estava	 compreensivelmente	 agitado.
Não	é	necessário	me	desculpar	por	tais	falhas.
Mas	confio	em	que	minha	tese	principal	 fique	bem	clara.	É	esta.	Dado	o
clima	 da	 época,	 considerando	 as	 paixões	 despertadas	 em	 todas	 as
democracias	por	quatro	anos	de	guerra,	 teria	sido	 impossível,	até	mesmo
para	 super-homens,	 imaginar	 uma	 paz	 de	moderação	 e	 justiça.	 A	missão
dos	 negociadores	 de	 Paris	 ainda	 se	 complicava	 por	 circunstâncias
particularmente	 confusas.	 Os	 ideais	 a	 que	 foram	 penhorados	 pelo
Presidente	 Wilson	 eram	 não	 apenas	 impraticáveis	 em	 si	 mesmos,	 mas
exigiam,	 para	 sua	 observância,	 a	 íntima	 e	 incessante	 colaboração	 dos
Estados	Unidos.	 Sentimos	que	 sua	 colaboração	 talvez	pudesse	 ser	 íntima,
mas	não	poderia	ser	incessante.	Foi	portanto	a	tentativa	de	homens	como
Clemenceau	e	Lloyd	George	encontrar	um	meio-termo	entre	os	anseios	de
suas	 democracias	 e	 os	 ditames	 mais	 moderados	 de	 suas	 próprias
experiências,	 bem	 como	 o	 meio-termo	 entre	 a	 teologia	 do	 Presidente
Wilson	 e	 as	 necessidades	 práticas	 de	 uma	 Europa	 furiosa.	 Esse	 duplo
abismo	 tinha	de	 ser	 transposto	por	meior-termos	que,	 para	uma	geração
seguinte,	 parecem	 hipócritas	 e	 enganosos.	 Mas	 não	 eram	 inevitáveis?	 E
poder-se-ia	esperar	que	a	natureza	humana,	tão	recentemente	mergulhada
na	 loucura	da	Grande	Guerra,	pudesse	 subitamente	demonstrar	 a	branda
serenidade	de	uma	sabedoria	quase	sobre-humana?
Não	 respondo	 a	 essas	 perguntas.	 Deixo-as	 como	 indagações	 a	 serem
respondidas	por	alguma	geração	 futura.	Tudo	que	espero	alvitrar	é	que	o
erro	 humano	 é	 um	 fator	 permanente,	 não	 episódico,	 em	 história	 e	 que
futuros	 negociadores	 estarão	 expostos,	 por	 nobres	 que	 sejam	 suas
intenções,	a	 futilidades	de	 intenções	e	a	omissões	tão	graves	como	as	que
caracterizaram	 o	 Conselho	 dos	 Cinco.	 Eles	 estavam	 convencidos	 de	 que
jamais	 cometeriam	 os	 erros	 e	 as	 iniquidades	 do	 Congresso	 de	 Viena.
Gerações	 futuras	 estarão	 igualmente	 convictas	 de	 serem	 imunes	 aos
defeitos	 que	 acometeram	 os	 negociadores	 de	 Paris.	 Mas,	 por	 sua	 vez,
estarão	 expostas	 aos	 mesmos	 micróbios	 e	 à	 eterna	 inadequação	 da
inteligência	humana.
É	com	triste	pesar	que	hoje	em	dia	recordo	aquela	manhã	de	novembro
em	 que	 Mr	 Lloyd	 George	 anunciou	 o	 armistício	 da	 entrada	 de	 Downing
Street.	A	cena,	até	hoje,	está	indelevelmente	impressa	em	minha	mente.	Eu
trabalhava	no	porão	do	 Foreign	Office,	 num	abrigo	 verde	 e	 roxo	que,	 até
poucas	 semanas	 antes,	 me	 protegera	 dos	 ataques	 aéreos	 dos	 alemães.
Preparava-me	 para	 a	 eventual	 Conferência	 de	 Paz.	Mais	 especificamente,
naquela	 manhã	 de	 11	 de	 novembro	 estudava	 o	 problema	 do	 enclave	 de
Strumnitza.
Depois	de	trabalhar	cerca	de	uma	hora,	constatei	que	precisava	de	mais
um	mapa.	 Subi	 as	 escadas	 para	 a	 torre	 onde	 se	 localizava	 nossa	 sala	 de
mapas.	A	 caminho,	 fui	 até	a	 sala	do	administrador	 solicitar	mais	algumas
caixas	de	lata	para	minhas	necessidades	na	Conferência.	Fui	até	a	janela	e
olhei	para	baixo,	na	direção	do	nº	10	de	Downing	Street.	Um	grupo	estava
postado	na	faixa	central	da	rua	e	havia	meia	dúzia	de	policiais.	Eram	dez	e
cinquenta	 e	 cinco	 da	 manhã.	 De	 repente,	 a	 porta	 da	 frente	 se	 abriu.	 Mr
Lloyd	 George,	 com	 os	 cabelos	 brancos	 agitados	 pelo	 vento,	 surgiu	 na
entrada.	 Acenou	 com	 os	 braços	 estendidos	 para	 a	 frente.	 Abri
apressadamente	 a	 janela.	 Ele	 repetia	 insistentemente	 a	 mesma	 frase.
Escutei	 suas	 palavras.	 “Às	 onze	 horas	 desta	 manhã	 a	 guerra	 estará
terminada.”
O	 pessoal	 se	 aproximou	 dele.	 Direto	 e	 sorridente,	 fez	 um	 gesto	 de
despedida	e	se	retirou,	desaparecendo	por	trás	da	grande	porta	de	entrada.
Afluía	gente	a	Downing	Street,	e	em	poucos	minutos	toda	a	rua	ficou	cheia.
Não	 houve	 manifestações.	 A	 multidão	 se	 espraiou	 silenciosamente	 na
direção	do	pátio	dos	Horse	Guards	Parade	e	espalhou-se	em	volta	do	muro
do	jardim	de	Downing	Street.	De	meu	privilegiado	posto	de	observação,	vi
Lloyd	George	 aparecer	 naquele	 jardim,	 agitado	 e	 entusiasmado.	 Foi	 até	 a
porta	 do	 jardim	 e	 em	 seguida	 recuou.	 Dois	 secretários	 que	 o
acompanhavam	 o	 estimularam	 a	 prosseguir.	 Ele	 abriu	 a	 porta.	 Pisou	 no
lado	de	fora,	no	terreno	de	Parada.	Acenou	por	um	momento	e	novamente
recuou.	 A	 multidão	 avançou	 em	 sua	 direção	 e	 as	 pessoas	 davam-lhe
tapinhas	nas	costas.	A	mais	viva	 lembrança	de	Mr	Lloyd	George	é	a	deste
momento.	Um	homem	se	afastando	de	admiradores	muito	ansiosos	que	se
esforçavam	 histericamente	 para	 cumprimentá-lo.	 Deveria	 ter	 ido?	 Tendo
ido,	deveria	ter	recuado	de	forma	tão	pueril?	Aquela	cena	foi	um	símbolo	de
muito	do	que	estava	para	acontecer.	Tendo-se	recolhido	ao	abrigo	de	seu
jardim,	 Mr	 Lloyd	 George	 riu	 à	 vontade	 com	 os	 dois	 secretários	 que	 o
acompanhavam.	Foi	uma	cena	inesquecível.
Afinal,	 os	 alemães	 tinham	 assinado.	 Voltei	 para	 meu	 porão	 e	 para	 o
enclave	 de	 Strumnitza.	 Quando	 subi	 novamente,	 toda	 Londres	 estava
enlouquecida.
Foi	dessa	maneira	que	ouvi	sobre	a	chegada	da	paz.
Muitos	anos	se	passaram	desde	aqueles	dias	de	novembro	quando,	em	meu
subsolo	verde	e	roxo,	mergulhava	no	problema	do	enclave	de	Strumnitza.
Hoje	 estou	 ciente	 de	 que,	 no	mesmo	 período,	 os	 governantes	 do	mundo
estavam	preocupados	com	questões	de	relevância	muito	mais	grave.
É	necessário,	ao	examinar	a	base	legal	dos	Tratados	de	Paz,	concentrar-se
desde	o	começo	em	saber	se	a	correspondência	 triangular	que	 teve	 lugar
em	 outubro	 entre	 Washington,	 Berlim	 e	 as	 capitais	 das	 Potências
Associadas	 constituiu	 um	 contrato	 no	 sentido	 legal	 do	 termo.	 Antes	 de
irmos	adiante	uma	só	página,	é	essencial	declarar	o	seguinte	problema:	“Os
alemães	depuseram	suas	armas	em	confiança	ante	o	penhor	dado	por	seus
inimigos	de	que	os	 termos	da	paz	 a	 seguir	 se	 ajustariam	plenamente	 aos
vinte	e	três	princípios[1]	enunciados	pelo	Presidente	Wilson?	Se	assim	foi,
as	 Potências	 Aliadas	 e	 Associadas	 cumpriram	 ou	 violaram	 esse	 penhor,
quando	a	Alemanha	ficou	a	sua	mercê?
O	problema	é	tão	material	para	qualquer	registro	da	Conferência	de	Paz
que	me	 sinto	 obrigado	 a	 repetir	 o	 procedimento	 de	meus	 antecessores	 a
propósito	 deste	 espinhoso	 ponto,	 revendo,	 em	meu	 primeiro	 capítulo,	 os
principais	aspectos	do	acordo	pré-armistício	(o	“pactum	de	contrahendo”)
entre	 a	 Alemanha	 e	 as	 potências	 vitoriosas.	 As	 peças	 fundamentais	 da
questão	podem	ser	sintetizadas	como	se	segue.
Em	 5	 de	 outubro,	 o	 Príncipe	Max	 de	 Baden,	 após	 inúmeras	 e	 ansiosas
ligações	telefônicas	para	o	quartel-general	alemão,	dirigiu	uma	Nota	Oficial
ao	Presidente	Wilson	pedindo-lhe	para	negociar	uma	paz	com	base	em	seus
próprios	 Quatorze	 Pontos	 e	 nos	 nove	 princípios	 subsequentes	 e	 para
facilitar	a	imediata	conclusão	do	Armistício.	Em	8	de	outubro,o	Presidente
Wilson	respondeu	na	forma	de	três	perguntas:
(a)	 O	 governo	 alemão	 aceitava	 os	 Quatorze	 Pontos	 como	 base	 para	 o
desejado	tratado?
(b)	 Ordenaria	 a	 imediata	 retirada	 de	 suas	 tropas	 de	 todo	 o	 solo
estrangeiro?
(c)	 Poderia	 assegurar	 que	 o	 governo	 presente	 e	 futuro	 da	 Alemanha
estaria	sobre	uma	base	verdadeiramente	democrática?
Em	 12	 de	 outubro,	 o	 Chanceler	 respondeu	 afirmativamente	 cada	 uma
destas	perguntas.	Acrescentou	que	seu	“objetivo	ao	entrar	na	discussão	era
simplesmente	 acertar	 detalhes	 práticos	 da	 aplicação”	 dos	 “termos”
contidos	 nos	 Quatorze	 Pontos	 do	 Presidente	 Wilson	 e	 em	 seus
pronunciamentos	 subsequentes.	 Em	 14	 de	 outubro,	 o	 Presidente	Wilson
novamente	se	dirigiu	ao	governo	alemão.	Disse-lhe	que	nenhum	armistício
poderia	 ser	 negociado	 sem	 “oferecer	 salvaguardas	 absolutamente
confiáveis	 da	manutenção	 da	 presente	 supremacia	militar”	 dos	 exércitos
Aliados	 e	 Associados.	 Acrescentou	 que	 a	 guerra	 submarina	 devia	 ser
imediatamente	terminada,	e	que	um	governo	democrático	e	representativo
devia	 ser	 instalado	 em	 Berlim.	 Em	 20	 de	 outubro,	 o	 Chanceler	 alemão
respondeu	 acatando	 estas	 condições.	 Em	 23	 de	 outubro,	 o	 Presidente
Wilson	 informou	 ao	 Governo	 alemão	 que,	 tendo	 agora	 recebido	 sua
garantia	de	que	aceitava	sem	restrições	os	“termos	de	paz”	corporificados
em	 seus	 próprios	 pronunciamentos,	 estava	 disposto	 a	 discutir	 com	 seus
associados	a	 concessão	de	um	armistício	 sobre	essa	base.	Repetiu	que	os
termos	excluíam	 toda	a	possibilidade	de	 retomada	de	hostilidades.	Deu	a
entender	 que	 o	 caminho	 para	 a	 paz	 seria	 facilitado	 pelo	 prévio
desaparecimento	 de	 “autocratas	 monárquicos.”	 Acrescentou	 que
comunicara	 aos	 Governos	 Associados	 a	 correspondência	 trocada	 com	 o
governo	alemão,	perguntando-lhes	se,	de	sua	parte,	estariam	“dispostos	a
celebrar	 a	 paz	 com	 base	 nos	 termos	 e	 princípios	 assinalados.”	 Em	 5	 de
novembro,	o	Presidente	enviou	ao	Governo	Alemão	as	respostas	recebidas
de	seus	associados.	Os	Governos	Aliados	haviam	manifestado	seu	desejo	de
concluir	um	Tratado	com	o	Governo	Alemão	fundado	nos	“termos	de	paz”
estabelecidos	 pelo	 Presidente,	 com	 duas	 ressalvas.	 A	 primeira	 delas	 se
referia	à	questão	da	Liberdade	dos	Mares.	A	segunda	ampliava	o	princípio
da	 “reparação”	 de	 modo	 a	 cobrir	 “todos	 os	 danos	 causados	 à	 população
civil	dos	Aliados	e	a	suas	propriedades	pela	agressão	alemã	por	terra,	por
mar	e	do	ar.”	Tão	logo	recebeu	esta	garantia,	o	Governo	Alemão	despachou
seus	emissários	para	receberem	os	termos	do	armistício.	Os	termos	tinham
sido	 redigidos	 em	 conferência	 do	 Conselho	 Supremo	 em	Versalhes:	 eram
tais	que	deixavam	a	Alemanha	à	completa	mercê	das	Potências	Aliadas	em
terra	e	no	mar.	Foram	assinados	na	Floresta	de	Compiègne	às	5	horas	da
manhã	da	segunda-feira,	11	de	novembro.
No	 próximo	 capítulo	 descreverei	 minha	 particular	 veneração	 pelos
Quatorze	Pontos;	resumirei	aqueles	pontos	e	os	princípios	acompanhantes;
e	mostrarei	como	dezenove	dos	vinte	e	três	“termos	de	paz”	do	Presidente
Wilson	 foram	 flagrantemente	 violados	 na	 redação	 final	 do	 Tratado	 de
Versalhes.
Por	ora,	estou	voltado	apenas	para	o	acordo	pré-armistício,	pelo	qual	a
Alemanha	 consentiu	 em	 render-se	 no	 entendimento	 explícito	 de	 que	 os
termos	 de	 paz	 que	 lhe	 seriam	 impostos	 observariam	 inteiramente	 os
princípios	wilsonianos	 e	 seriam	de	 fato	meramente	 “o	detalhe	prático	de
aplicação”	 daquelas	 vinte	 e	 três	 condições	 sobre	 as	 quais	 concordara	 em
deixar	cair	as	armas.	Linhas	atrás,	sintetizei	a	troca	de	correspondência	que
deu	 forma	 ao	 acordo.	Mas	 ainda	 não	 é	 a	 história	 completa.	 Não	 foi	 dada
importância	 suficiente,	 a	 não	 ser	 por	 Mr	 Winston	 Churchill,	 à
“Interpretação”	 dos	 Quatorze	 Pontos	 dada	 pelo	 coronel	 House,	 que
precedeu	 sua	 aceitação	 pelas	 Potências	 Associadas.	 Na	 época,	 o	 coronel
House	 era	 o	 representante	 dos	 Estados	 Unidos	 no	 Conselho	 Supremo	 de
Guerra	 em	 Versalhes.	 Foi	 esse	 órgão	 que	 aprovou	 os	 “Termos	 de
Armistício”	 conforme	 redigidos,	 e	 pelos	 quais	 as	 Potências	 Aliadas
aceitaram	os	 “termos	de	paz”	do	Presidente	Wilson.	A	 “Interpretação”	ou
“comentário”	 do	 coronel	 House	 dos	 ou	 sobre	 os	 Quatorze	 Pontos,	 é,
portanto,	um	documento	de	importância	realmente	vital.
Esse	 “comentário”	 foi	 transmitido	por	 cabograma	em	29	de	outubro	de
1918	 para	 o	 Presidente	 Wilson,	 para	 aprovação.	 Continha	 as	 seguintes
aplicações	 de	 brilho	 sobre	 os	 Quatorze	 Pontos	 e	 os	 Novos	 Princípios.	 A
expressão	 “open	 covenants,”	 pactos	 abertos,	 não	 devia	 ser	 interpretada
como	 impedimento	 a	 negociações	 diplomáticas	 confidenciais.	 Com	 a
Liberdade	dos	Mares	o	Presidente	não	pretendia	abolir	a	arma	do	bloqueio
naval,	 mas	 apenas	 inculcar	 algum	 respeito	 pela	 propriedade	 e	 pelos
direitos	privados.	O	próprio	Presidente	avançara	a	cativante	teoria	de	que,
em	futuras	guerras,	devido	à	Liga	das	Nações,	“não	haveria	neutros.”	Diante
desse	 duplo	 lustro,	 o	 parágrafo	 2	 dos	 Quatorze	 Pontos	 tornou-se	 a	mais
vaga	expressão	de	opinião.	A	exigência	de	 livre-comércio	entre	as	nações
da	 terra	 não	 devia	 ser	 interpretada	 como	 obstáculo	 a	 qualquer	 tipo	 de
proteção	de	indústrias	nacionais.	Longe	disso.	Tudo	que	exigia	era	a	“porta
aberta”	 para	 matérias-primas	 e	 a	 proibição	 de	 tarifas	 discriminatórias
entre	membros	da	Liga	das	Nações.
O	ponto	referente	a	“desarmamento”	implicava	apenas	que	as	Potências
deveriam	 aceitar	 a	 ideia	 em	 princípio,	 e	 concordariam	 em	 nomear	 uma
Comissão	para	examinar	os	pormenores.	As	Colônias	Alemãs	poderiam,	no
devido	momento,	 ser	 encaradas,	 em	princípio,	 como	propriedade	da	Liga
das	Nações	e,	dessa	forma,	cultivadas	por	mandatários	desejáveis.	A	Bélgica
devia	 ser	 indenizada	 por	 todos	 os	 custos	 da	 guerra,	 uma	 vez	 que	 cada
dispêndio	que	aquela	infeliz	nação	fora	obrigada	a	fazer	a	partir	de	agosto
de	1914	fora	uma	despesa	“ilegítima.”	A	França,	por	outro	lado,	não	devia
receber	 todos	 os	 custos	 de	 guerra,	 apenas	 indenização	 completa	 pelos
danos	 realmente	 sofridos.	 Sua	 reivindicação	 do	 território	 do	 Sarre
constituía	“clara	violação	da	proposta	do	Presidente.”	A	Itália,	por	razões	de
segurança,	 poderia	 reclamar	 a	 fronteira	 no	 Brenner,	 mas	 as	 populações
alemãs	 que	 fossem	 assim	 incorporadas	 teriam	 assegurada	 “completa
autonomia”	à	que	ficasse	dentro	de	território	 italiano.	As	raças	súditas	da
Áustria-Hungria	 deviam	 ter	 completa	 independência,	 desde	 que	 fosse
garantida	proteção	das	minorias	raciais	e	 linguísticas.	A	simples	oferta	de
autonomia	“já	não	servia.”
Por	 outro	 lado,	 a	 Bulgária	 (país	 com	 o	 qual	 os	 Estados	 Unidos	 não
estavam	em	guerra	e	ao	qual	tinham	concedido	grande	apoio	educacional	e
filantrópico	 no	 passado)	 seria	 compensada	 por	 ter	 entrado	 na	 guerra
contra	nós.	Receberia	não	só	Dobrudja	e	a	Trácia	Ocidental,	mas	também	a
Trácia	 Oriental,	 até	 a	 linha	 Midia-Rodosto.	 Constantinopla	 e	 os	 Estreitos
ficariam	 sob	 controle	 internacional.	 A	 Ásia	 Menor	 Central	 permaneceria
turca.	 A	 Inglaterra	 obteria	 a	 Palestina,	 a	 Arábia	 e	 o	 Iraque.	 Os	 gregos
possivelmente	 receberiam	 um	 mandato	 sobre	 Smyrna	 e	 os	 distritos
adjacentes.	 A	 Armênia	 deveria	 surgir	 como	 estado	 independente	 sob	 a
tutela	de	alguma	Grande	Potência.
A	Polônia	deveria	ter	acesso	ao	mar,	embora	esse	acesso	implicasse	uma
dificuldade.	A	dificuldade	era	a	 separação	da	Prússia	Oriental	do	restante
da	 Alemanha.	 O	 coronel	 House	 foi	 cuidadoso	 em	 alertar	 o	 Presidente	 de
que	essa	solução	não	seria	fácil.	E,	finalmente,	a	Liga	das	Nações	deveria	ser
o	“alicerce	da	estrutura	diplomática	de	uma	paz	permanente.”
Não	 quero	 insinuar	 que	 o	 coronel	 House,	 ao	 apresentar	 isso,	 sua
“interpretação”	às	Potências	Associadas,	fosse	culpado	de	algum	desejo	de
modificar	osquatorze	mandamentos.	Tenho	o	mais	profundo	respeito	pelo
coronel	House	–	considerando-o	a	mais	brilhante	cabeça	diplomática	que	a
América	já	produziu,	mas	confesso	que	uma	obscuridade	muito	indesejável
paira	sobre	sua	“interpretação.”	Foi	com	base	nessa	“interpretação”	que	os
aliados	 aceitaram	 os	 Quatorze	 Pontos,	 os	 Quatro	 Princípios	 e	 os	 Cinco
Detalhamentos	como	fundamento	do	eventual	Tratado	de	Paz?	Se	assim	foi,
as	Potências	 inimigas	certamente	deveriam	ter	sido	 informadas	na	época.
Escrevo	 sujeito	 a	 correção,	 uma	 vez	 que	 os	 documentos	 exatos,	 a	 troca
exata	de	sugestão	e	concordância	hoje	não	estão	disponíveis.	Mas	é	difícil
resistir	 à	 impressão	 de	 que	 as	 Potências	 Inimigas	 aceitaram	 os	 Quatorze
Pontos	 como	 eram,	 enquanto	 as	 Potências	 Aliadas	 só	 os	 aceitaram	 como
interpretados	 pelo	 coronel	House	 nas	 reuniões	 que	 culminaram	 com	 seu
cabograma	 de	 29	 de	 outubro.	 Em	 algum	 lugar,	 em	 meio	 às	 imprecisões
apressadas	 e	 ansiosas	daqueles	dias	de	outubro,	 espreita	 a	 explicação	do
mal-entendido	fundamental	que	desde	então	surgiu.
De	qualquer	modo,	nós,	a	equipe	técnica,	os	servidores	civis,	não	tivemos
conhecimento	da	“Interpretação”	do	coronel	House.	Também	olhávamos	os
Quatorze	Pontos	e	os	pronunciamentos	acompanhantes	como	a	carta	para
nossa	 atividade	 futura.	 Como	 demonstrarei,	 abriu-se	 um	 grande	 abismo
entre	 nossos	 termos	 de	 referência	 e	 as	 conclusões	 posteriores.	 Se
soubéssemos	do	glossário	do	coronel	House,	em	abril	o	 teríamos	adotado
como	 justificativa	 para	 nossa	marcha	 atrás.	Mas	 foi	 só	muitos	 anos	mais
tarde	que	sequer	vim	a	ouvir	a	respeito	desse	glossário.	E	não	posso,	por
um	só	momento,	fingir	que	ele	tenha	tido	a	menor	influência	sobre	minha
atitude.	 Traí	 minha	 própria	 fidelidade	 aos	 Quatorze	 Pontos.	 A	 finalidade
deste	 livro	 é	 dar	 uma	 indicação,	 alguma	 tênue	 pista	 das	 razões	 daquela
traição,	ou	melhor,	da	atmosfera	daquela	traição.
Porém,	 minha	 intenção	 ao	 escrever	 esta	 história	 não	 é	 comentar
documentos;	minha	única	finalidade	é	reconstituir	estados	de	espírito.	Sei
que	 não	 posso	 pretender	 remontar	 um	 estado	 de	 espírito	 a	 não	 ser	 com
relação	ao	meu	próprio	–	uma	captura	de	menor	valor.	Mas	afirmo	que	o
que	 senti	 na	 época	 foi	 também	 sentido	 por	 noventa	 e	 cinco	 por	 cento
daqueles	 que,	 embora	 não	 sendo	 políticos,	 estávamos	 ativamente	 ligados
aos	assuntos	públicos.	Quando	uso	o	termo	“nós,”	refiro-me	a	muita	gente
que,	 em	 Paris,	 sentia	 e	 pensava	 como	 eu.	 Dessa	 forma,	 representávamos
parcela	 de	 opinião	 ampla	 e	 não	 totalmente	 ignorante.	 Creio	 que	 meu
próprio	estado	de	espírito	com	relação	à	base	contratual	do	Armistício	e	do
Tratado	consequente	na	verdade	representa	um	termo	médio	de	pontos	de
vista	amplamente	defendidos,	não	de	todo	sem	motivo.	Não	me	lembro	de,
na	época,	a	divergência	entre	nosso	conceito	do	“pactum	de	contrahendo”	e
a	 interpretação	que	 lhe	 foi	dada	na	Alemanha	se	apresentasse	em	termos
tão	extremos	quanto	desde	então	foi	apresentada.
Por	 um	 lado,	 estávamos	 convencidos	 de	 que	 com	 o	 desabamento	 das
defesas	de	oeste	–	diante	do	colapso	da	Áustria,	da	Turquia	e	da	Bulgária	–
a	Alemanha	de	qualquer	modo	estava	de	 joelhos.	 Foi	um	alívio	quando	o
armistício	 foi	 aceito,	 pois	 significava	 um	 abreviamento	 da	 guerra:	 mas
também	 estávamos	 convictos	 de	 que	 se	 a	 Alemanha	 se	 recusasse	 a
capitular,	a	imposição	de	uma	completa	rendição	em	solo	alemão	teria	sido
questão	 de	meses	 apenas,	 talvez	 semanas.	 Por	 outro	 lado,	 no	 outono	 de
1918	 acreditávamos	 honestamente	 que	 só	 os	 princípios	 do	 Presidente
Wilson	 poderiam	 fundamentar	 uma	 paz	 duradoura.	 Em	 outras	 palavras,
nunca	passou	por	nossa	mente	que	tínhamos	comprado	a	rendição	alemã
oferecendo	os	Quatorze	Pontos.	Aquilo	nos	parecia,	em	qualquer	hipótese,
inevitável.	Isto,	na	época,	considerávamos	indiscutível.	Argumentar	doutra
forma	é	admitir,	em	novembro	de	1918,	 ideias	e	anseios	que	só	vieram	à
tona	em	março	seguinte.
Essa	“datação”	incorreta	de	opinião	é	de	fato	um	erro	mais	comum	para	um
historiador	 do	 que	 a	 atribuição	 a	motivos	 falsos.	 Neste	 caso,	 ele	 poderia
observar	que	uma	visão,	identificável	em	março,	guarda	coerência	com	uma
série	 de	 documentos	 públicos	 trocados	 (obedecendo	 a	 outra	 visão
totalmente	 diferente)	 no	 outono	 anterior.	 Inevitavelmente	 o	 historiador
confunde	 uma	 com	 a	 outra.	 É	 essa	 confusão	 que	 dá	 origem	 a	 erros	 de
julgamento	 histórico.	 Outra	 causa	 semelhante	 e	 não	 reconhecida	 de
equívocos	de	compreensão	histórica	é	a	prematura	e	muitas	vezes	fortuita
criação	de	 lendas.	Algum	pormenor	pitoresco,	algum	floreio	de	expressão
fica	gravado	na	memória	do	público.	Destaca-se.	 Inevitavelmente,	os	 fatos
(aquela	 hierarquia	 de	 circunstâncias	 que	 denominamos	 “os	 fatos”)
acomodam-se	bem	por	 trás	dessa	pitoresca	 faixa	de	 rua	no	quadro	geral.
Olhando	por	esse	ângulo	obtém-se	uma	determinada	vista,	frequentemente
enganadora.
Duas	faixas	de	rua	dessa	natureza	surgem	durante	os	primeiros	dias	da
Conferência.	A	primeira	 frase-pôster	 famosa	é	“Vamos	espremer	a	 laranja
até	as	sementes	chiarem.”	A	segunda	é	a	admissão	por	Mr	Lloyd	George	de
que	nunca	ouvira	falar	de	Teschen.	Por	trás	do	primeiro	post	se	junta	todo
o	problema	da	 “eleição	kaki”	de	dezembro	de	1918.	Por	 trás	do	segundo,
estão	reunidas	as	 inúmeras	 lendas	de	que	os	membros	da	Conferência	de
Paz	foram	para	Paris	sem	nenhuma	preparação:	de	que	eram,	sem	exceção,
ignorantes	e	mal-informados.	Contra	cada	uma	dessas	 lendas,	eu	gostaria
de	alertar	o	futuro	historiador.	É	para	ele	que	escrevo	estas	notas.
A	 eleição	 geral	 de	 dezembro	 de	 1918	 foi,	 sem	 dúvida,	 um	 desastre.	 É
discutível	se	foi	 também	um	erro.	Mr	Asquith	na	época	a	descreveu	como
“um	erro	estúpido	e	uma	calamidade.”	Calamidade,	certamente	foi.	Fez	com
que	retornasse	a	Westminster	o	mais	ignorante	grupo	de	rapazes	oriundos
das	 public	 schools	 que	 a	 Mãe	 dos	 Parlamentos	 já	 conhecera,	 e	 se	 pode
questionar	 se	 não	 foi	 um	 erro	 que	 poderia	 ser	 evitado.	 O	 termo	 “erro
estúpido”	 hoje	 em	 dia	 se	 refere	 a	 atos	 de	 estadistas	 sobre	 os	 quais
deixaram	 de	 consultar	 previamente	 um	 ou	 outro	 de	 nossos	magnatas	 da
imprensa.	Porém,	na	Inglaterra,	significa	o	tipo	de	erro	que,	com	um	pouco
de	previsão,	poderia	ter	sido	facilmente	evitado.	Não	acredito	que	a	eleição
kaki	de	1918	pudesse	ser	evitada	com	facilidade.	Prefiro	chamá-la	de	uma
necessidade	 lamentável	 que	 foi	 satisfeita	 sem	a	 constatação	plena	de	 sua
potencialidade	para	causar	arrependimento.
Mr	 Lloyd	 George	 recentemente	me	 assegurou	 que,	 se	 pudesse	 voltar	 a
novembro	 de	 1918,	 ainda	 se	 lançaria	 na	 eleição.	 Suas	 razões	 para	 essa
posição	 são	 interessantes	 e,	 no	 meu	 entendimento,	 legítimas.	 Ele
argumenta	que	a	coalizão	governamental	naquele	momento	era	ameaçada
por	conspirações	tanto	de	direita	quanto	de	esquerda.	A	da	direita,	liderada
pelo	 egocêntrico	 Lord	 Northcliffe,	 era	 radicalmente	 a	 favor	 de	 uma	 paz
imposta	 pelos	 vencedores.	 A	 da	 esquerda,	 apoiada	 pela	maré	 violenta	 de
uma	corrente	ignorante	de	opinião,	clamava	pela	imediata	desmobilização.
Se	tivesse	ido	para	Paris	com	ambos	os	flancos	assim	expostos,	se	veria	em
dificuldades	e	enfrentaria	 incertezas	em	cada	uma	de	 suas	decisões.	Para
ele,	era	essencial	precaver-se	com	um	mandato	incontestável.	Sem	dúvida,
não	poderia	ter	previsto	que	sua	chapa	o	sobrecarregaria	com	uma	Câmara
dos	 Comuns	 tão	 incompetente,	 a	 ponto	 de	 ficar	 subserviente	 a	 pessoas
desequilibradas	como	o	coronel	Claude	Lowther	e	Mr	Clement	Jones.
Mas	 isso	 não	 era	 tudo.	 Mr	 Lloyd	 George	 previu	 que,	 se	 tinha	 de	 lidar
adequadamente	 com	 o	 sinuoso	 nacionalismo	 francês,	 com	 o	 místico	 e
arrogante	 republicanismo	 americano	 e	 com	 o	 potencial	 de	 desunião	 das
representações	dos	Domínios	da	Comunidade	Britânica,	precisaria	de	uma
titularidaderepresentativa	 que	 ficasse	 acima	 de	 qualquer	 contestação
possível.	Mesmo	assim,	houve	momentos	em	que	seu	direito	de	falar	pela
Inglaterra	 foi	 insidiosamente	 questionado.	 Houve	 ocasiões	 em	 que
estadistas	 de	 outros	 países	 tentaram	 mobilizar	 contra	 ele	 elementos	 da
própria	oposição	 inglesa,	 quando	 flertaram	 tanto	 com	 tories,	 quanto	 com
liberais	de	esquerda	e	 trabalhistas	 recalcitrantes.	Durante	 todo	o	período
da	 Conferência,	 Lord	 Northcliffe,	 contrariado	 por	 não	 ter	 sido	 designado
delegado	 na	 conferência	 de	 paz,	 dirigiu	 contra	 Lloyd	 George	 um	 jato
constante	de	água	fervente.	É	discutível	se	o	primeiro-ministro	poderia	ter
sobrevivido	a	tais	ataques	furiosos	se	não	contasse	com	o	respaldo	de	um
mandato	concedido	pela	maioria	esmagadora	do	eleitorado	inglês.
Contudo,	permanece	o	fato	de	ter	sido	uma	infelicidade	um	liberal	inglês
ter	 se	 posto	 a	 mercê	 de	 uma	 Câmara	 dos	 Comuns	 e	 uma	 imprensa
jingoístas.
Mas	 não	 é	 em	 virtude	 desses	 traços	mais	 gerais	 que	 a	 eleição	 de	 1918
veio	a	decepcionar	o	historiador.	Acreditando	na	lenda	popular,	ele	estará
perpetuando	 o	 argumento	 de	 que	Mr	 Lloyd	 George,	 ao	 partir	 para	 Paris,
estava	 irremediavelmente	 tolhido	 por	 suas	 promessas	 eleitorais.	 Esse
entendimento	 seria	 incorreto.	 Em	 primeiro	 lugar,	 Mr	 Lloyd	 George	 é
suficientemente	 realista	 para	 não	 ficar	 preso	 por	 qualquer	 oratória	 de
plataforma.	 Segundo,	 ele	 se	 comprometeu	 nos	 pronunciamentos	 da
campanha	 com	 pouca	 coisa	 incompatível	 com	 a	 busca	 de	 uma	 paz	 justa.
Não	foi	ele	que	usou	a	imortal	frase	sobre	a	laranja	e	as	sementes.	O	autor
foi	um	dos	mais	inexperientes	de	seus	colegas.	Tem	sido	difícil	reconstituir
os	 termos	exatos	em	que	 foram	proferidas	as	promessas	eleitorais	de	Mr
Lloyd	George,	 a	 fim	de	 compará-los	 com	a	opinião	pública	 esclarecida	da
época.	 Dessa	 análise	 cheguei	 à	 convicção	 de	 que	 na	 verdade	 Mr	 Lloyd
George	foi	mais	cauteloso,	mais	liberal	do	que	as	pessoas	que	hoje	em	dia
procuram	defamá-lo.
Esse	ponto	tem	certa	 importância	para	meu	propósito	e	me	disponho	a
abordá-lo	com	mais	profundidade.	Em	12	de	novembro	–	“le	 jour	après	 le
fameux	jour”	–	Mr	Lloyd	George	 falou	para	seus	partidários	 liberais	no	nº
10	de	Downing	Street.	Assim	se	expressou:	“Nenhum	acordo	que	contrarie
os	princípios	de	uma	justiça	duradoura	terá	vida	longa.	Atentemos	para	o
exemplo	 de	 1871.	 Não	 podemos	 nos	 permitir	 nenhum	 sentimento	 de
vingança,	nenhum	espírito	de	ganância,	nenhum	desejo	opressor	que	venha
se	 sobrepor	 ao	 princípio	 fundamental	 da	 justica.	 Surgirão	 veementes
tentativas	 para	 bravatear	 e	 intimidar	 o	 governo	 procurando	 fazê-lo	 se
afastar	 dos	 rígidos	 princípios	 do	 direito	 e	 satisfazer	 ideias	 mesquinhas,
sórdidas	 e	 vulgares	 de	 vingança	 e	 cobiça.”	 Manteve	 (intermitentemente)
esta	mesma	postura	 liberal	 ao	 longo	da	Conferência	 e	mesmo	durante	 as
fases	 iniciais	 da	 campanha	 eleitoral.	 Concentrou-se	 na	 reconstrução.	 Em
Wolverhampton,	 em	 24	 de	 novembro,	manifestou	 seu	 desagrado	 com	 os
“embotados”	e	reafirmou	que	seu	único	propósito	era	“fazer	da	Inglaterra
uma	 terra	 digna	 de	 ser	 berço	 de	 heróis.”	 Foi	 o	Dr	 Addison,	 candidato	 da
coalizão	 em	 Shoreditch,	 que	 pela	 primeira	 vez	 adotou	 um	 discurso	mais
populista.	O	Times,	na	época	vivendo	período	de	profunda	humilhação	sob
o	controle	de	Lord	Northcliffe,	estava	pronto	para	aproveitar	os	ventos	da
histeria	popular.	“O	ponto	crucial,”	escreveu	The	Times	em	29	de	novembro,
“para	 o	 eleitor	 comum	 é,	 sem	 dúvida,	 a	 posição	 do	 Kaiser.”	 Em	 2	 de
dezembro,	 repetiu,	 “isto	 é	 indiscutivelmente	 uma	 das	 questões-chave	 da
eleição.”	Havia	outra	questão-chave:	“Nenhuma	compensação,”	proclamou
Mr	Austen	Chamberlain	em	West	Birmingham,	“é	alta	demais	para	que	não
possamos	pedi-la.”
Não	havia	como	evitar	que	Mr	Lloyd	George	ficasse	afetado	por	tal	onda
de	patriotismo	oriunda	de	seus	seguidores	e	do	Times.	Podemos	vê-lo	em
Newcastle,	 em	 30	 de	 novembro,	 falando	 de	 uma	 “paz	 implacavelmente
justa,”	de	 “condições	não	de	vingança,	mas	de	prudência.”	Podemos	vê-lo
acusando	 o	 imperador	 alemão	 de	 “assassino.”	 Podemos	 vê-lo	 afirmando
que	a	Alemanha	deve	pagar	compensações	por	 todos	os	custos	da	guerra
“até	 o	 limite	 de	 sua	 capacidade.”	 Expondo	 sua	 proposta	 de	 política,	 em
dezembro,	o	julgamento	do	ex-Kaiser	e	“todo	o	custo	da	guerra”	figuravam
em	primeiro	lugar.	Em	Leeds,	em	9	de	dezembro,	mencionou	os	“frutos	da
vitória.”	Em	Bristol,	três	dias	depois,	usou	a	expressão	“quem	perde	paga.”
Em	consequência	desse	clima	emocional,	a	coalizão	retornou	ao	poder	com
uma	maioria	de	262	assentos.	Mr	Asquith	foi	derrotado	por	Sir	Alexander
Sprott.	Mr	Ramsay	MacDonald	e	Mr	Snowden	foram	arrasados.	Mr	Horatio
Bottomley	 ressurgiu	 com	 uma	 vitoriosa	 maioria	 em	 Hackney.	 Mr
Pemberton	 Billing	 venceu	 a	 eleição	 em	 East	 Herts.	 Os	 “pacifistas	 foram
completamente	derrotados,”	proclamou	The	Times.	A	chapa	eleitoral	tinha
atingido	seu	objetivo.
Hoje	podemos	constatar	que,	em	meio	a	toda	essa	confusão	democrática,
Mr	 Lloyd	 George	 jamais	 perdeu	 inteiramente	 a	 cabeça.	 Ao	 exigir	 que	 os
alemães	 indenizassem	 os	 custos	 da	 guerra,	 sempre	 foi	 cauteloso	 ao
vincular	esta	bem	recebida	declaração	a	duas	condições.	Alertou	sua	plateia
que	o	pagamento	devia	se	 limitar,	em	primeiro	 lugar,	à	capacidade	alemã
para	 pagar	 e,	 segundo,	 especificando	 que	 tal	 indenização	 não	 poderia
prejudicar	nosso	próprio	comércio	interno	e	as	exportações.	Foi	duramente
censurado	pelo	Times	por	essas	duas	condições.	“A	única	razão	plausível,”
escreveu	o	jornal,	“ao	vincular	as	indenizações	à	capacidade	de	pagamento
deve	ser	o	interesse	dos	aliados.”
Por	sua	vez,	o	slogan	“Julgamento	do	Kaiser”	é	um	episódio	que	deixará	o
futuro	 historiador	 muito	 confuso.	 Ficará	 tentado	 a	 atribuí-lo	 à	 recente
extensão	 do	 voto	 às	 mulheres	 e	 à	 supostamente	 crescente	 histeria	 da
política	inglesa.	Assim	fazendo,	estará	tirando	deduções	injustas.	Pode	ser
uma	 característica	 feminina	 atribuir	 a	 uma	 pessoa	 sofrimentos	 causados
por	um	conjunto	de	circunstâncias.	O	professor	Fedor	Vergin,	por	exemplo,
recentemente	defendeu	que	pode	ter	sido	bom	para	a	saúde	psicológica	da
Europa	Wilhelm	 II	 ter	 sido	 tomado	como	bode	expiatório,	uma	vez	que	o
sentimento	 de	 culpa	 acumulado	 ao	 longo	 daqueles	 quatro	 terríveis	 anos
pôde,	 desta	 forma,	 ser	 “descarregado.”	 Na	 verdade,	 o	 desejo	 de	 punir	 a
Alemanha	 na	 pessoa	 dessa	 vítima	 infeliz	 não	 foi	 privilégio	 da	 parcela
feminina	do	eleitorado.	Anteriormente	já	me	referi	a	um	discurso	proferido
em	11	de	novembro	no	Carnegie	Hall	em	Nova	York	por	Mr	Alfred	Noyes.
Informou	 a	 uma	 plateia	 horrorizada	 que	 entre	 os	 aliados	 havia
“reacionários”	se	empenhando	em	salvar	o	Kaiser	do	julgamento	pela	Corte
Internacional	 de	 Justiça.	 “Essa	 gente,”	 exclamou	 Mr	 Alfred	 Noyes,	 “quer
permitir	que	o	Kaiser	volte	a	seu	iate	e	seus	jantares	faustosos	enquanto	os
corpos	de	vinte	milhões	de	homens	assassinados	se	decompõem	na	terra.”
Mas	 Mr	 Noyes	 não	 estava	 sozinho	 ao	 fazer	 esta	 declaração.	 A	 mente	 do
povo	 inglês	durante	 as	 semanas	 logo	após	o	 armistício	 estava	deformada
pela	vitória	e	estigmatizada	pelas	cicatrizes	do	medo.
O	 ódio	 também	 sobreviveu.	 Se	 os	 alemães	 se	 tivessem	 portado	 com
discrição	 nas	 semanas	 que	 precederam	 o	 armistício,	 é	 possível	 que	 a
opinião	pública	 inglesa,	 a	menos	disposta	 a	 alimentar	 ressentimentos	 em
toda	a	terra,	esquecesse	o	misto	de	temor	e	ódio	vivido	em	1914-1917.	Mas
os	 alemães	 não	 procederam	 com	 cautela.	 Em	 16	 de	 outubro	 (onze	 dias
depois	 de	 seu	 primeiro	 pedido	 de	 mediação	 ao	 Presidente	 Wilson)
torpedearam,	ao	largo	de	Kingston,	o	vapor	Leinster	da	Irish	Mail,	causando
a	morte	de	450	homens,	mulheres	e	crianças	que	se	afogaram.	A	lembrança
desta	atrocidade	ao	apagar	das	luzes	ficou	vivana	mente	do	povo.	“Gente,”
escreveu	Mr	Kipling,	“com	coração	de	fera.”	“São	uns	desalmados,”	disse	o
contido	 Arthur	 Balfour,	 “e	 sempre	 serão.”	 Peço	 a	 atenção	 do	 historiador
para	as	repercussões	psicológicas	do	torpedeamento	do	S.S.	Leinster.	Teve
um	efeito	mais	profundo	e	imediato	do	que	hoje	em	dia	se	pode	recordar.
Um	 segundo	 pôster	 que	 pode	 levar	 o	 historiador	 a	 um	 ramal	 inútil	 é	 a
admissão	 por	 Mr	 Lloyd	 George	 de	 “nunca	 ter	 ouvido	 falar	 de	 Teschen.”
Dirigindo-se	 à	 Câmara	 dos	 Comuns	 em	 16	 de	 abril	 de	 1919,	 ele	 fez	 a
seguinte	observação	franca,	comedida	e	absolutamente	racional:	“Quantos
membros	desta	casa	já	ouviram	falar	em	Teschen?	Não	me	furto	a	afirmar
que	jamais	ouvi	falar	a	respeito.”	Obviamente	não	mais	de	sete	membros	da
Câmara	 dos	 Comuns	 poderiam	 ter	 ouvido	 referências	 a	 esse	 remoto	 e
miserável	ducado,	mas	o	fato	de	Mr	Lloyd	George	tê-lo	admitido	horrorizou
entendidos	como	Mr	Wickham	Steed,	que	havia	muitos	anos	se	mantinha
familiarizado	 com	 o	 problema	 de	 Teschen.	 A	 grita	 surgiu	 de	 imediato.
“Lloyd	George	não	sabe	nada	sobre	as	questões	que	está	tentando	resolver.
Ouvimos	de	 seus	próprios	 lábios.	Toda	a	delegação	 inglesa	em	Paris	 e	na
verdade	 todas	as	que	 integram	a	Conferência	desconhecem	os	assuntos	e
não	estão	preparadas.	Estamos	à	beira	do	desastre.”	Este	clamor	repercutiu
na	mente	 de	 todos	 os	 leitores	 do	Daily	Mail.	 Transformou-se	 em	 opinião
inabalável.	 Mas	 é	 realmente	 errônea.	 O	 problema	 com	 a	 Conferência	 de
Paris	não	era	a	falta	de	informação,	era	o	excesso.	A	falha	não	era	falta	de
preparo,	mas	a	ausência	de	coordenação.	Foi	esta	última	falha	que,	desde	o
início,	contaminou	todo	o	sistema.
O	 tema	 merece	 uma	 explicação	 mais	 ampla.	 Evidentemente	 teria	 sido
difícil	para	o	Gabinete	ou	mesmo	para	os	funcionários	de	carreira,	durante
os	 quatro	 anos	 de	 guerra,	 elaborar	 planejamentos	 detalhados	 para	 uma
eventual	 celebração	 da	 paz.	 Em	 primeiro	 lugar,	 o	 fluxo	 de	 assuntos	 de
rotina	era	tão	absorvente	que	não	havia	disponibilidade	alguma	de	tempo	e
energia	humana	para	 tal	 tarefa.	Em	segundo	 lugar,	até	os	meses	 finais	de
1918,	era	impossível	prever	com	precisão	razoável	as	reais	circunstâncias
em	que	se	encerraria	o	conflito.	Em	terceiro	lugar,	os	governantes	em	todo
o	 mundo	 não	 estavam	 dispostos	 a	 se	 comprometer	 com	 condições
pormenorizadas	 de	 paz	 que,	 caso	 ocorresse	 um	 impasse,	 se	 revelassem
rígidas	em	demasia,	ou	muito	restritivas,	em	caso	de	uma	vitória	completa.
Todavia,	 isto	 não	 quer	 dizer	 que	 não	 tenha	 sido	 feito	 um	 trabalho
preparatório.	 Longe	 disso.	 Em	 cada	 um	 dos	 três	 principais	 países	 foram
criados	 grupos	 especiais	 de	 trabalho	 para	 preparar	 subsídios	 a	 serem
utilizados	em	um	eventual	Congresso.
Na	Inglaterra,	na	primavera	de	1917,	foi	criado	um	órgão	especial	para	a
coleta	de	material	e	treinamento	de	um	grupo	voltado	para	as	negociações
da	 paz.	 Mr	 Alwyn	 Parker,	 bibliotecário	 do	 Foreign	 Office,	 dedicou	 seu
reconhecido	talento	administrativo	à	organização	de	toda	uma	conferência
de	 paz	 que	 viesse	 a	 acontecer.	 Chegou	 a	 elaborar	 um	 quadro	 colorido
apresentando	a	futura	sistematização	do	setor	inglês	da	conferência.	Cada
um	 dos	 primeiros-ministros	 e	 representantes	 dos	 domínios	 identificava
sua	própria	órbita	naquele	sistema	planetário	de	pontos	verdes,	vermelhos
e	azuis.	Mr	Parker	podia	se	 localizar	modestamente	em	uma	órbita	 lunar,
assessorando	Júpiter,	Lord	Hardine	of	Penshurst,	“embaixador	encarregado
da	organização.”	O	planisfério	de	Mr	Parker	na	verdade	não	cumpriu	esse
papel	 –	 na	 forma	planejada	 por	 seu	 criador	 –	 na	 Conferência	 de	 Paz	 que
finalmente	se	realizou.	Ao	ver	o	projeto,	Mr	Lloyd	George	deu	uma	sonora
risada.	 Mas	 outro	 planejamento	 de	 Mr	 Parker	 acabou	 sendo	 de	 maior
utilidade	e	 foi	 realmente	muito	valioso.	Deveu-se	à	 sua	exata	previsão	de
que	 a	 enorme	delegação	 inglesa	 se	 acomodaria	 sem	qualquer	 dificuldade
nos	hotéis	Majestic	 e	Astoria.	Graças	 à	 sua	 capacidade	de	 coordenação,	 o
Ministério	 da	 Guerra,	 o	 Almirantado,	 o	 Departamento	 de	 Inteligência	 de
Comércio	de	Guerra	e	o	Ministério	de	Relações	Exteriores	foram	capazes	de
preparar	 material	 sem	 superposições	 em	 qualquer	 aspecto	 vital.
Finalmente,	 a	 seção	 de	 história	 do	 Ministério	 de	 Relações	 Exteriores
preparou,	sob	a	direção	do	Dr	G.W.	Prothero,	os	 inestimáveis	manuais	de
paz,	escritos	por	especialistas	de	renome,	que	proporcionaram	à	delegação
informações	 detalhadas	 sobre	 qualquer	 tema	 que	 viesse	 a	 ser	 ventilado.
Esses	manuais	 vêem	sendo	publicados	desde	então.	 Se	 algum	historiador
duvidar	 da	 qualidade	 de	 nossa	 preparação,	 eu	 o	 convido	 a	 obter	 toda	 a
coleção	 na	 London	 Library	 e	 a	 examinar	 atentamente	 seu	 conteúdo.
Concordará	 que	 dificilmente	 poderia	 haver	 fonte	 mais	 competente,
abrangente	e	lúcida	de	informações.
Nos	 Estados	 Unidos	 foi	 criado	 um	 órgão	 semelhante	 em	 setembro	 de
1917,	 sob	 o	 nome	 “The	 Inquiry.”	 Diretamente	 subordinado	 ao	 coronel
House	 e	 sob	 a	 supervisão	 imediata	 do	 Dr	 Mezes,	 este	 grupo	 de	 150
acadêmicos	 trabalhou	 doze	 meses	 em	 instalações	 da	 American
Geographical	Society	de	Nova	York.	A	quantidade	de	material	que	colheram
é	espantosa.	O	George	Washington	rangeu	e	vergou	através	do	Atlântico	sob
o	peso	de	sua	erudição,	que	foi	suplementada	pelos	inestimáveis	relatórios
do	 professor	 A.C.	 Coolidge,	 que	 desde	 dezembro	 estava	 encarregado	 da
“comissão	americana	de	estudos	sobre	a	Europa	central.”	Houve	instantes
em	 que	 esse	 homem	 brilhante	 e	 sensível	 foi	 a	 única	 fonte	 confiável	 de
informações	 à	 disposição	 da	 Conferência	 de	 Paz.	 Hoje	 em	 dia,	 parece
incrível	que	nem	os	representantes	americanos	e	tampouco	a	Conferência
em	geral	tenham	dado	muita	atenção	às	palavras	sensatas	e	moderadas	de
Archibald	Coolidge.
A	equipe	técnica	da	delegação	dos	Estados	Unidos	foi	recrutada	em	sua
maioria	no	“Inquiry”	do	coronel	House.	Surgiu	na	América,	principalmente
durante	 a	 investigação	 feita	 pelo	 senado,	 um	 comentário	 de	 que	 a
delegação	 americana	 não	 estava	 bem	 preparada.	 Tal	 observação	 é
descabida	e	 injusta.	Nunca	trabalhei	com	um	grupo	mais	 inteligente,	mais
competente,	de	mente	mais	aberta	ou	mais	precisamente	informado	do	que
a	 delegação	 americana	 presente	 à	 Conferência	 de	 Paz.	 Em	 todas	 as
oportunidades	 em	que	 discordei	 de	 suas	 opiniões,	 acabei	 concluindo	 que
eu	estava	errado	e	 eles,	 certos.	 Se	o	Tratado	de	Paz	 tivesse	 sido	 redigido
somente	pelos	especialistas	americanos	teria	sido	um	dos	mais	criteriosos
e	 precisos	 documentos	 de	 que	 se	 poderia	 ter	 notícia.	 Infelizmente,	 por
motivos	 que	 comentarei	 mais	 tarde,	 a	 comissão	 americana,	 durante	 as
semanas	iniciais,	perdeu	a	autoconfiança	e,	em	consequência	a	autoridade
que,	por	direito,	deveria	lhe	ser	atribuída.
Os	preparativos	do	governo	francês	foram	menos	detalhados	e,	como	os
fatos	acabaram	comprovando,	menos	eficientes.	É	verdade	que	 tinha	sido
organizado	um	“Comité	d’Études”	sob	a	direção	do	professor	Lavisse	e	uma
pesquisa	subsidiária	sobre	questões	econômicas	fora	realizada	por	alguns
meses	 sob	 a	 supervisão	 de	 M	 Morel.	 No	 último	 momento,	 M	 Tardieu
assumiu	ele	próprio	o	trabalho	de	coordenação	dos	trabalhos	dessas	duas
comissões.	 Parece	 que	 esta	 coordenação	 não	 foi	 muito	 longe.	 Por	minha
experiência	afirmo	que	a	delegação	mais	bem	informada	era	a	americana,
vindo	a	inglesa	em	segundo	lugar.	Quanto	à	francesa,	penso	que	lhe	faltava
uma	base	de	informações	e	rapidez	de	assimilação	dos	fatos.	Os	italianos	só
sabiam	o	que	eles	mesmos	desejavam.
Portanto,	 não	 está	 certo	 acusar	 a	 Conferência	 de	 Paris	 de	 falta	 de
preparação	 e	 conhecimento	 técnico.	 Porém,	 como	 muitas	 críticas	 que
conseguiram	ampla	e	duradoura	aceitação,	a	acusação	contém	um	fundo	de
verdade.	 Em	 primeiro	 lugar,	 as	 informaçõesnão	 eram	 plenamente
discutidas	 nem	 entre	 as	 diversas	 delegações	 nem	 tampouco	 entre	 os
peritos	de	qualquer	delegação	com	seus	respectivos	plenipotenciários.	Por
exemplo,	tinha	pouca	importância	eu	obter	todas	as	informações	possíveis
sobre	 o	 enclave	 de	 Strumnitza	 se	 não	 recebesse	 dos	 chefes	 de	 minha
delegação	uma	orientação	sobre	a	política	em	relação	à	Bulgária.	A	falta	de
comunicação	entre	os	plenipotenciários	e	seus	especialistas	será	abordada
no	 capítulo	 4,	 quando	 examinarei	 a	 organização	 propriamente	 dita	 da
conferência.	Aparecerá	sob	o	título	“Erros.”	Mas	também	poderia	figurar	no
capítulo	 3,	 sob	 o	 título	 “Infelicidades.”	 Entretanto,	 antes	 de	 examinar
nossos	 infortúnios	 em	 Paris,	 devo	 comentar	 as	 ideias,	 esperanças	 e
intenções	armados	das	quais	desembarcamos	em	janeiro	de	1919	na	Gare
du	Nord.
2
Atraso
A	HISTÓRIA	DA	CONFERÊNCIA	DE	PARIS	AINDA	ESTÁ	por	ser	escrita.	Levará	muitos	anos	até
que	 se	 consiga	 reunir	 e	 digerir	 todo	 o	 material	 pertinente.	 As	 provas
documentais	 (digamos,	 no	 ano	 de	 1953)	 serão	 abundantes	 e	 autênticas.
Nessa	 época,	 os	 testemunhos	 humanos	 estarão	 silenciados	 ou	 nebulosos.
Ainda	assim,	estou	convencido	de	que	em	qualquer	congresso	internacional
é	o	elemento	humano	que	determina	a	evolução	de	uma	negociação	e	seu
conteúdo.	A	finalidade	destas	notas	é	cristalizar	este	elemento	antes	que	se
evapore	nos	resíduos	do	tempo.
Qual	 era	 meu	 estado	 de	 espírito	 quando	 cruzei	 o	 canal	 rumo	 a	 Paris
naquele	3	de	janeiro	de	1919?	Quero	reafirmar	que	não	alimento	nenhuma
ilusão	quanto	à	minha	importância	naqueles	infelizes	eventos.	Corro	o	risco
de	 ser	 considerado	 egoísta	 ao	 apresentar	 uma	 opinião	 pessoal.	 Estou
absolutamente	certo	de	que,	no	Congresso	de	Montreal,	em	agosto	de	1965,
o	 estado-maior	 de	 especialistas	 estará	 constituído	 por	 jovens	 homens	 e
mulheres	sujeitos	aos	mesmos	estímulos	emocionais	e	à	mesma	confiança
presunçosa	 que	 me	 inspiraram	 quando,	 naquela	 manhã,	 almoçava	 na
viagem	entre	Calais	e	a	Gare	du	Nord,	 convicto	de	que	me	 lançava	a	uma
tarefa	para	a	qual	estava	qualificado	por	alentado	estudo,	elevados	ideais	e
uma	completa	ausência	de	paixões	e	preconceitos.	Assim	pensando,	estava
tragicamente	enganado.
Um	 dos	 “Manuais	 da	 Conferência	 de	 Paz”	 preparados	 para	 nossa
orientação	foi	o	elaborado	pelo	professor	Webster	com	base	no	Congresso
de	Viena.	Li	atentamente	esse	pequeno,	 conciso	e	competente	 trabalho.	À
medida	que	o	trem	se	aproximava	de	St.	Denis,	senti	que	sabia	exatamente
os	erros	que	 tinham	sido	cometidos	pelos	mal	orientados,	 reacionários	e,
afinal,	 patéticos	 aristocratas	 que	 tinham	 representado	 a	 Inglaterra	 em
1814.
Tinham	trabalhado	em	segredo.	Nós,	por	outro	lado,	estávamos	decididos
a	 “chegar	 a	 acordos	 negociados	 com	 toda	 transparência.”	 Não	 haveria
segredo	 sobre	 os	 procedimentos.	 Os	 povos	 em	 todo	 o	 mundo
compartilhariam	conosco	cada	etapa	da	negociação.
Ainda	 me	 reportando	 a	 Viena,	 eles	 acreditavam	 na	 doutrina	 das
“compensações.”	 Mencionaram	 um	 tanto	 cinicamente	 a	 “transferência	 de
almas.”	Nós,	de	nossa	parte,	não	estávamos	dispostos	a	cometer	este	erro.
Acreditávamos	no	nacionalismo,	 acreditávamos	na	 autodeterminação	dos
povos.	 “Povos	 e	 Províncias,”	 assim	 pregavam	 os	 “Quatro	 Princípios”	 de
nosso	 Profeta,	 “não	 serão	 jogados	 de	 uma	 soberania	 para	 outra	 como	 se
fossem	 peças	 de	mobília	 ou	 peões	 de	 um	 jogo	 de	 xadrez.”	 Diante	 destas
palavras	“peões”	e	“mobília,”	nossos	lábios	se	contraíam	com	democrática
repulsa.
Mas	não	era	só	isso.	Estávamos	a	caminho	de	Paris	não	apenas	para	pôr
um	 fim	à	 guerra,	mas	para	definir	 uma	nova	ordem	europeia.	 Estávamos
preparando	não	só	uma	Paz,	mas	a	Paz	Eterna.	Pairava	sobre	nós	um	halo
de	 missão	 divina.	 Devíamos	 nos	 manter	 alertas,	 firmes,	 íntegros	 e
devotados.	Estávamos	destinados	a	realizar	coisas	grandiosas,	duradouras
e	nobres.
É	com	certa	tristeza	que	hoje	recordo	uma	conversa	que	tive	com	Mr	J.L.
Garvin	 em	5	de	dezembro,	 quando	ainda	 estava	 em	Londres.	 Por	 alguma
estranha	 razão,	 tínhamos	 estado	 juntos	 em	 um	 teatro	 e	 depois
caminhávamos	 de	 volta	 à	 casa	 por	 St.	Martin’s	 in	 the	 Fields.	 Paramos	 na
calçada	e	continuamos	a	discussão	sobre	a	Conferência	que	se	avizinhava.
Olhei	 fixa	 e	 desafiadoramente	 para	 Whitehall	 e	 expliquei	 a	 Mr	 Garvin	 o
quanto	 realmente	 eram	nobres,	muito	nobres,	meus	princípios.	Ele	ouviu
com	 sua	 habitual	 complacência	 as	 loucuras	 de	 moço.	 “Bem,”	 disse,	 “se
realmente	 é	 esse	 o	 espírito	 que	 o	 move	 ao	 partir	 para	 Paris,	 fico	 muito
contente.”
Hoje	 em	 dia	 fico	 rindo	 de	 tal	 excesso	 de	 fantasia.	 Todavia,	 naquele
momento	 estava	 sendo	 absolutamente	 sincero.	 Quero	 analisar	 os
ingredientes	desta	sinceridade.
A	Conferência	foi	uma	imposição,	por	um	grupo	de	países	vencedores,	de
determinadas	cláusulas	de	rendição	a	um	grupo	de	países	derrotados.	Mas
não	era	nesses	termos	que	nós,	os	mais	moços,	encarávamos	nossa	missão.
Pensávamos	 menos	 nos	 antigos	 inimigos	 e	 mais	 nos	 novos	 países	 que
tinham	 emergido	 de	 suas	 entranhas	 exaustas.	 Nossas	 emoções	 giravam
menos	em	torno	do	velho	e	mais	em	torno	do	novo.	Concito	os	jovens	que
estarão	 assessorando	 os	 representantes	 ingleses	 na	 Conferência	 de
Montreal	 em	 1965	 a	 acreditar	 quando	 digo	 que	 os	 conceitos	 de
“Alemanha,”	 “Áustria,”	 “Hungria,”	 “Bulgária”	 ou	 “Turquia”	 não	 eram
prioritários	em	nosso	pensamento.	O	que	 fazia	nossos	corações	cantarem
hinos	nos	portões	do	céu	era	pensar	em	uma	nova	Sérvia,	uma	nova	Grécia,
uma	nova	Boêmia,	uma	nova	Polônia.	É	muito	significativo	esse	ângulo	de
abordagem	emocional.	Acredito	que	era	um	ângulo	generalizado,	mas	que
não	 ficará	 visível	 nos	 documentos	 pertinentes.	 Requer	 um	 demorado	 e
atento	 estudo	 de	 “The	 New	 Europe”	 –	 revista	 publicada	 na	 época	 por
iniciativa	 dos	 Drs	 Ronald	 Burrows	 e	 Seton	Watson,	 discorrendo	 sobre	 a
doutrina	da	qual	eu	estava	profundamente	imbuído.	Surgiram	tendências	e
preconceitos	 que	 obtiveram	 sucesso,	 não	 em	 consequência	 de	 um	desejo
vingativo	 de	 subjugar	 e	 castigar	 nossos	 antigos	 inimigos,	 mas	 de	 um
ardoroso	 anseio	 de	 criar	 e	 fortalecer	 as	 novas	 nações	 para	 as	 quais
voltávamos	 nossa	 atenção,	 com	 instinto	maternal,	 como	 justificação	 para
nossos	 sofrimentos	 e	de	nossa	vitória.	A	Conferência	de	Paris	nunca	 será
interpretada	 corretamente	 se	 esse	 componente	 emocional	 não	 for
sublinhado	em	cada	fase.
Posso,	 acredito,	 recordar	 com	 certa	 precisão	 o	 que	 sentia	 na	 época	 em
relação	a	nossos	últimos	 inimigos.	Minha	posição	em	relação	à	Alemanha
era	um	misto	de	medo,	 admiração,	 simpatia	e	desconfiança.	Por	um	 lado,
naquela	 ocasião	 eu	 gostava	 dos	 alemães	 tanto	 quanto	 antes	 da	 guerra.
Estava	muito	 impressionado	 com	 a	 coragem	da	 população	 civil	 alemã	 ao
enfrentar	o	bloqueio	e	também	com	os	grandiosos	feitos	da	esquadra	e	do
exército	 alemães	 no	mar	 e	 em	 terra.	 Por	 outro	 lado,	 tinha	me	 assustado
com	 seus	 bombardeios,	 apreensivo	 com	 o	 sucesso	 de	 seus	 submarinos	 e
humilhado	 por	 suas	 vitórias	 incessantes.	 Eu	 os	 odiava	 por	 sua	 crueldade
natural	e	os	desprezava	por	sua	inabilidade	política.	Desconfiava	deles	por
sua	 falta	 de	 confiabilidade	 diplomática.	 Todavia,	 esta	 mistura	 de
sentimentos	 não	 me	 deixou	 nenhum	 resíduo	 de	 desejo	 de	 vingança.
Deixou-me	 apenas	 com	 o	 anseio	 premente	 de	 que	 no	 futuro	 a	 Alemanha
pudesse	se	tornar	inofensiva.
Com	 relação	 à	 Áustria,	 alimentava	 um	 sentimento	 “de	 mortuis.”	 Meus
interesses	 antiquários	 lamentavam	 seu	 desaparecimento.	 Minhas
tendências	 modernistas	 comemoravam	 a	 vitalidade	 que	 agora	 devia
emergir	daquele	solo	exausto.	Minha	posição	em	relação	à	Áustria	era	uma
reflexão	um	tanto	triste	sobre	o	que	restaria	dela	quando	se	criasse	a	Nova
Europa.	 Não	 a	 encarava	 como	 uma	 entidadeviva:	 pensava	 na	 Áustria
apenas	como	uma	relíquia	patética.
Meus	 sentimentos	 relacionados	 com	a	Hungria	 eram	menos	 imparciais.
Confesso	 que	 encarava	 –	 e	 ainda	 encaro	 –	 aquela	 tribo	 turaniana	 com
profundo	desagrado.	Como	seus	primos,	os	turcos,	tinham	destruído	muito
e	nada	construído.	Buda	Pest	era	uma	cidade	espúria,	despida	de	qualquer
realidade	autóctone.	Por	séculos,	os	magiares	oprimiram	as	nacionalidades
por	eles	subjugadas.	Chegara	a	hora	da	libertação	e	da	desforra.
Para	 com	 os	 búlgaros,	 eu	 alimentava	 um	 sentimento	 de	 desdém.	 Suas
tradições,	sua	história,	suas	vinculações	na	época	deveriam	tê-los	ligado	à
causa	da	Rússia	e	da	Entente.	Tinham	se	portado	traiçoeiramente	em	1913,
e,	 na	 Grande	 Guerra,	 reincidiram	 nesse	 ato	 pérfido.	 Motivados	 por
ambições	 materiais,	 aliaram-se	 à	 Alemanha	 e,	 ao	 fazê-lo,	 estenderam	 a
guerra	 por	 mais	 dois	 anos.	 Quando	 vitoriosos,	 foram	 impiedosos	 e
imprevidentes	 na	 Sérvia	 e	 na	 Macedônia.	 Tinham	 se	 aliado	 a	 nossos
inimigos	 por	 motivos	 exclusivamente	 egoístas,	 mas	 suas	 previsões
mostraram-se	 erradas.	 Agora,	 se	 empenhavam	 em	 lançar	 sobre	 o	 rei
Ferdinand	a	 culpa	pelo	que	na	 realidade	 fora	um	movimento	de	egoísmo
nacional.	Não	achava	que	os	búlgaros	merecessem	condescendência	maior
do	que	a	que	estariam	dispostos	a	conceder	em	circunstâncias	semelhantes.
Pelos	turcos	não	tinha	e	não	tenho	a	mínima	simpatia.	A	longa	residência
em	 Constantinopla	 me	 convencera	 de	 que,	 por	 trás	 de	 sua	 máscara	 de
indolência,	 o	 turco	 esconde	 impulsos	 da	 mais	 brutal	 selvageria.	 Essa
convicção	 diminuiu	 ante	 seu	 comportamento	 com	 a	 guarnição	 de	 Kut	 ou
com	 os	 armênios	 no	 interior	 de	 suas	 fronteiras.	 Os	 turcos	 em	 nada
contribuíram	para	o	progresso	da	humanidade.	Não	passam	de	uma	raça	de
saqueadores	 anatólios.	 Meu	 desejo	 era	 que	 no	 Tratado	 de	 Paz	 ficassem
confinados	ao	território	da	Anatólia.
Esses	 eram	 os	 sentimentos,	 –	 e	 creio	 que	 este	 resumo	 seja	 uma
representação	precisa	–	bem	diferentes	das	ideias	com	que	fui	para	Paris.
Porém,	se	quero	transmitir	corretamente	o	estado	de	espírito	dominante	e
médio	 em	 janeiro	 de	 1919,	 também	 devo	 falar	 dos	 propósitos	 mais
definidos	 em	 nós	 induzidos	 pelas	 doutrinas	 e	 pelo	 árido	 revivalismo	 de
Woodrow	Wilson.
No	 fim	do	outono	de	1913,	certo	dia	almocei	com	Mr	Henry	Morgenthau,
que	chegara	recentemente	a	Constantinopla	como	embaixador	dos	Estados
Unidos.	Depois	do	almoço	sentamos	no	 terraço	apreciando	o	contorno	de
Istambul	 por	 entre	 esparsos	 e	 cansados	 ciprestes.	 Fiz	 perguntas	 sobre
Woodrow	 Wilson,	 que	 acabara	 de	 surgir	 para	 nós	 orientais	 como	 um
planeta	 flamante	 no	 longínquo	 oeste.	 Mr	 Morgenthau	 levantou-se,	 de
repente,	 e	 entrou	 em	 seu	 gabinete.	 Voltou	 com	 um	 livro	 e	 o	 depôs	 em
minhas	mãos.	“Se	quer	realmente,”	disse,	“aprender	a	lição	de	wilsonismo,
leia	este	livro.”
Hoje	 já	 não	 recordo	 qual	 das	muitas	 obras	 de	Mr	Wilson	 foi	 posta	 em
minhas	 mãos	 naquela	 tarde	 suave.	 Sei	 apenas	 que	 a	 expressão
“wilsonismo”	prendeu	minha	atenção.	“Eis	aqui,”	refleti,	“um	homem	que	é
algo	mais	 do	 que	 um	 político;	 é	 o	 expoente	 de	 uma	 nova	 teoria	 política.
Senti	 algo	na	 entonação	do	 embaixador	que	parecia	mais	do	que	 simples
companheirismo,	mais	ainda	do	que	respeito	profundo.	Havia	um	traço	de
fervor	religioso.	Preciso	estudar	as	palavras	e	os	feitos	deste	novo	profeta.”
Foi	a	partir	daquele	momento	que	comecei	a	absorver	“a	 filosofia	política
completa”	de	Woodrow	Wilson.	Naquela	tarde	de	outono	não	fui	capaz	de
prever	 a	 que	 picos	 de	 fé	 e	 a	 que	 vales	 de	 reação	 o	 breve	 gesto	 de
proselitismo	 de	 Mr	 Morgenthau	 iria	 me	 levar.	 Pelo	 fim	 de	 1918,	 os
ensinamentos	de	Woodrow	Wilson	tinham	se	acomodado	em	minha	mente
em	três	categorias	principais.	Havia	os	principais	artigos	de	 fé,	 simples	e,
portanto,	místicos.	Havia	a	aplicação	dessas	crenças	ao	grande	problema	da
neutralidade	 americana.	 Havia,	 como	 corolário	 de	 sua	 proposta,	 os
“Quatorze	Pontos,”	os	“Quatro	Princípios”	e	os	“Cinco	Detalhes.”
Os	dogmas	de	sua	filosofia	política	eu	aceitava	com	credulidade	ardorosa.
Ainda	hoje	creio	neles,	apesar	de	amarga	desilusão.	Acreditava	com	ele	que
o	padrão	de	 conduta	política	 e	 internacional	 devia	 ser	 tão	 alto	 e	 sensível
quanto	 o	 da	 conduta	 pessoal.	 Acreditava	 e	 ainda	 acredito	 que	 o	 único
patriotismo	verdadeiro	é	um	ativo	desejo	de	que	a	tribo	ou	o	país	da	gente
sirva	a	esse	ideal	em	cada	manifestação.	Compartilhava	com	ele	o	ódio	pela
violência	 em	 qualquer	 forma	 e	 a	 aversão	 ao	 despotismo	 em	 qualquer
forma.	 Entendia,	 como	 ele,	 que	 esse	 ódio	 é	 o	 que	 sente	 a	maior	 parte	 da
humanidade,	 e	 que	 no	 novo	 mundo	 essa	 força	 silenciosa	 de	 sentimento
popular	 podia	 tornar-se	 o	 poder	 controlador	 no	 destino	 da	 humanidade.
“As	novas	coisas	mundiais,”	proclamou	o	Presidente	Wilson	em	5	de	junho
de	 1914,	 “são	 as	 coisas	 que	 se	 distanciam	 da	 força.	 São	 as	 compulsões
morais	 da	 consciência	 humana.”	 “Homem	 nenhum,”	 declarou,	 “pode	 se
desviar	destes	valores	sem	se	afastar	da	esperança	de	todo	o	mundo.”
Eu	admitia,	claro,	que	nas	semanas	que	se	seguiram	a	esta	afirmação	as
“compulsões	morais	da	consciência	humana”	não	tinham	se	revelado	muito
obrigatórias.	 Também	 admitia	 que	Wilson,	 como	 profeta,	 era	 um	 profeta
muito	 americano	 –	 que	 sua	 filosofia	 na	 prática	 era	 aplicável	 apenas	 às
proporções	 do	 poder	 disponíveis	 no	 Hemisfério	 Ocidental.	 Eu	 estava
consciente,	 sobretudo,	de	que	havia	em	seus	pronunciamentos	um	 ligeiro
traço	de	revivalismo,	um	toque	de	arrogância	metodista,	mais	do	que	um
traço	de	presunção	presbiteriana.	Mas	não	me	sentia	dissuadido	por	essas
restrições.	 “Os	 Estados	 Unidos,”	 li,	 “não	 se	 podem	 arvorar	 em	 donos	 do
mundo”	–	Mr	Wilson	falava	em	1914	–	“mas	podem	proclamar	a	distinção
de	levar	certas	luzes	que	o	mundo	jamais	viu	com	tanta	nitidez,	fachos	que
iluminam	 os	 caminhos	 da	 liberdade,	 do	 princípio	 e	 da	 justiça.”	 Não	 me
desconcertavam	 o	 toque	 bíblico	 dessas	 palavras,	 tampouco	 seu	 sabor
Princeton.
Também	me	agrada	pensar	que,	com	os	nervos	atingidos	pela	duração	da
guerra,	 conservei	 minha	 crença	 em	 Wilson	 como	 um	 profeta	 da
racionalidade	humana.	Minha	fé	era	reforçada,	de	tempos	em	tempos,	pelo
privilégio	da	convivência	com	Walter	Page.	“É	algo	que	existe,”	li	em	maio
de	1915,	 “um	homem	ser	orgulhoso	demais	para	 lutar.	É	 algo	que	existe,
uma	nação	ser	 tão	certa	que	não	precisa	convencer	outras	pela	 força	que
está	certa.	Ao	contrário	da	maioria	de	meus	compatriotas,	não	considerava
esta	 declaração	 irritante,	 antes	 a	 considerava	 consistente,	 corajosa,	 sã.
Também	 não	 fiquei	 muito	 incomodado,	 em	 janeiro	 de	 1917,	 pelo	 tom
ditatorial,	 quase	 teocrático,	 que	 desde	 aquela	 data	 começou	 a	 invadir	 o
didatismo	 de	 Princeton.	 “Existem,”	 li,	 “princípios	 americanos,	 políticas
americanas.	Não	seguimos	nenhum	outro.	São	os	princípios	da	humanidade
e	devem	prevalecer.”	Senti	que	essa	afirmação	deveria	 ter	usado	palavras
com	 mais	 tato.	 Mas	 como	 afirmação	 era	 bastante	 sólida	 e	 com	 ela
concordei.	Nove	dias	mais	tarde,	os	alemães,	em	sua	cegueira,	anunciaram	a
decisão	de	lançar	a	guerra	submarina	sem	limites.	Em	4	de	abril,	os	Estados
Unidos	entraram	na	guerra.	A	partir	daquele	momento,	eu	não	estava	em
minoria	na	minha	fé	em	Woodrow	Wilson.
Pouco	depois,	no	dia	8	de	janeiro	de	1918,	surgiram	os	Quatorze	Pontos.
Muito	 casuísmo	 e	 alguma	 perspicácia	 têm	 sido	 empregados	 sobre	 esses
pronunciamentos	históricos.	O	próprio	Presidente	Wilson	a	eles	se	referiu
em	 1919	 como	 “certos	 princípios	 claramente	 definidos	 que	 devem	 criar
uma	nova	ordem	em	que	imperem	o	direito	e	a	justiça.”	Nesse	mesmo	dia,
vemos	Mr	Balfour	mencioná-los	 como	 “certos	 princípios	 admiráveis,	mas
muito	 abstratos.”	 No	 entento,	 seriam	 realmente	 tão“muito	 abstratos”?
Considerando	 a	 data	 em	 que	 foram	 emitidos,	 os	 Quatorze	 Pontos	 são
precisos	 a	 ponto	 de	 temeridade.	 Podem	 perfeitamente	 ser	 resumidos	 da
forma	a	seguir:
	
Discurso	de	8	de	janeiro	de	1918.
	
	 	 	 	 	 	 	 	 O	 programa	da	 paz	mundial	 é,	 portanto,	 o	 nosso	 programa,	 e	 esse
programa,	o	único	possível,	como	o	vemos,	é	este:
	
1.	 “Pactos	abertos	de	paz	abertamente	negociados,	depois	dos	quais
não	 haja	 entendimentos	 privados	 de	 nenhum	 tipo,	 mas	 sim
diplomacia	efetuada	sempre	francamente	e	à	vista	do	público.”
2.	 “Absoluta	liberdade	de	navegação	sobre	os	mares	além	das	águas
territoriais,	tanto	na	paz	quanto	na	guerra...”
3.	 “Remoção	até	onde	possível	de	todas	as	barreiras	econômicas...”
4.	 “Garantias	 adequadas	 dadas	 e	 recebidas	 de	 que	 armamentos
nacionais	serão	reduzidos	ao	mais	baixo	nível	compatível	com	a
segurança	interna.”
5.	 “Um	 ajuste	 livre,	 aberto,	 razoável	 e	 absolutamente	 imparcial	 de
reivindicações	 coloniais,	 com	 base	 na	 estrita	 observância	 do
princípio	segundo	o	qual,	na	solução	de	todas	essas	questões	de
soberania,	os	interesses	das	populações	concernentes	devem	ter
o	mesmo	peso	das	reivindicações	dos	governos	cujo	domínio	está
em	causa.”
6.	 “A	evacuação	de	todo	o	território	russo.”	(...)	“A	Rússia	deve	ter	a
oportunidade	 sem	 constrangimentos,	 sem	 obstruções,	 de
determinar	 com	 toda	 a	 independência	 seu	 próprio
desenvolvimento	 político	 e	 sua	 política	 nacional.”	 A	 Rússia	 ser
bem-vinda,	 ”mais	 do	 que	 bem-vinda,”	 na	 Liga	 das	Nações,	 “com
instituições	 de	 sua	 própria	 escolha”	 e	 recebendo	 toda	 forma	 de
ajuda.
7.	 A	Bélgica	a	ser	evacuada	e	restaurada.
8.	 A	França	a	ser	evacuada,	as	porções	invadidas	“restauradas,”	e	a
Alsácia-Lorena	devolvida	a	ela.
9.	 “Reajuste	 das	 fronteiras	 da	 Itália	 efetuado	 segundo	 linhas
claramente	reconhecíveis	de	nacionalidade.”
10.	 “Aos	povos	da	Áustria-Hungria	(...)	a	mais	 livre	oportunidade	de
desenvolvimento	 autônomo.”	 (N.B.	 –	 Esse	 ponto	 foi
subsequentemente	modificado	para	completa	 independência	em
lugar	de	“desenvolvimento	autônomo.)
11.	 Romênia,	 Sérvia	 e	 Montenegro	 evacuados,	 e	 os	 territórios
ocupados	“restaurados.”	A	Sérvia	receber	livre	acesso	ao	mar.
12.	 As	 porções	 turcas	 do	 Império	 Otomano	 terem	 “uma	 soberania
segura.”	 Nacionalidades	 subjugadas	 terão	 segurança	 e	 “a
oportunidade	de	desenvolvimento	autônomo	absolutamente	sem
constrangimentos.”	Garantida	a	liberdade	dos	Estreitos.
13.	 Erigir-se	 um	 Estado	 Polonês	 Independente,	 que	 “deve	 incluir
territórios	 habitados	 por	 populações	 inquestionavelmente
polonesas	e	receber	acesso	ao	mar	livre	e	seguro.”
14.	 Deve	 ser	 formada	 uma	 associação	 geral	 de	 nações,	 segundo
pactos	específicos,	“com	o	fim	de	proporcionar	garantias	mútuas
de	independência	política	e	integridade	territorial	para	grandes	e
pequenos	estados	igualmente.”
	
A	esses	quatorze	pontos	devem	ser	acrescentados	os	“Quatro	Princípios”	e
os	 “Cinco	 Detalhes.”	 Os	 Princípios	 surgiram	 num	 discurso	 de	 11	 de
fevereiro	de	1918,	prefaciados	por	uma	declaração	de	que	a	Paz	eventual
não	 conteria	 “anexações,	 contribuições	 e	 danos	 punitivos.”	 Os	 Princípios
poder	ser	assim	resumidos:
	
1.	 “Cada	parte	do	acordo	final	deve	basear-se	na	justiça	inerente	ao
caso	particular.”
2.	 “Povos	 e	 províncias	 não	 devem	 ser	 trocados	 e	 destrocados	 de
uma	soberania	a	outra	como	permuta	de	mobiliário	ou	de	peões
num	jogo	de	xadrez.”
3.	 “Todo	 acerto	 territorial	 deve	 ser	 do	 interesse	 das	 populações
envolvidas,	 e	 não	 mero	 componente	 de	 compromissos	 para
conciliar	reivindicações	de	estados	rivais.”
4.	 “Todos	 os	 elementos	 nacionais	 bem	 definidos	 receberão	 a
máxima	 satisfação	 possível,	 sem	 introduzirem	 novos	 ou
perpetuar	antigos	vetores	de	discórdia	e	antagonismo.”
	
Os	 “Cinco	Detalhes”	 aparecem	num	discurso	de	27	de	 setembro	de	1918.
São	 menos	 esclarecedores.	 O	 primeiro	 insistia	 na	 justiça	 para	 amigos	 e
inimigos	 igualmente.	 O	 segundo	 denunciava	 todos	 os	 “interesses	 em
separado.”	O	terceiro	dispunha	que	não	haveria	alianças	no	corpo	da	Liga,	e
o	 quarto	 proibia	 as	 combinações	 econômicas	 entre	 membros	 da	 Liga.	 O
quinto	“detalhamento”	reafirmava	a	proibição	de	Tratados	secretos.
	
Eu	 não	 só	 acreditava	 profundamente	 nesses	 princípios,	 mas	 também
tinha	 como	 certo	 que	 os	 Tratados	 de	 Paz	 se	 baseariam	 exclusivamente
neles.	 Afora	 sua	 inerente	 compulsão	 moral	 e	 à	 parte	 o	 fato	 de	 que
constituíam	a	única	base	consensual	para	nossa	negociação,	eu	sabia	que	o
Presidente	dispunha	de	 irrestrito	poder	 físico	para	 impor	 seus	pontos	de
vista.	 Naquele	 momento,	 éramos	 todos	 dependentes	 da	 América,	 não	 só
para	 os	 tendões	 da	 guerra,	 mas	 também	 para	 os	 tendões	 da	 paz.	 Nosso
suprimento	 de	 alimentos,	 nossas	 finanças,	 estavam	 inteiramente
subordinados	aos	ditados	de	Washington.	A	 força	de	compulsão	possuída
de	Woodrow	Wilson	naqueles	primeiros	meses	de	1919	era	 esmagadora.
Jamais	nos	ocorreu	que,	se	houvesse	necessidade,	ele	hesitaria	em	usá-la.
“Nunca,”	 escreve	Mr	 Keynes,	 “um	 filósofo	 possuiu	 tantas	 armas	 com	 que
dobrar	os	Príncipes	do	mundo.”
Ele	não	usou	aquelas	armas.	Não	era	(e	para	nós	foi	doloroso	aos	poucos
constatar)	um	filósofo.	Era	apenas	um	profeta.
Tais	 eram,	 portanto,	 minhas	 percepções,	 meus	 pensamentos	 e	 minhas
intenções	quando	fiz	o	caminho	rumo	a	Paris.	Não	tinha	dúvida,	como	disse,
de	que	nos	princípios	do	Presidente	Wilson	se	fundamentaria	a	paz.	Minha
confiança,	 estou	 convencido,	 era	 compartilhada	 pelos	 colegas	 que	 eram
meus	iguais	em	idade	e	em	status.	Claro	que	se	pode	dizer	que	as	emoções
e	 os	 conceitos	 de	 servidores	 civis	 são	 de	 menor	 importância	 para	 o
desfecho	 dos	 grandes	 acontecimentos	 políticos.	 Ponho	 em	 dúvida	 essa
argumentação.	 Se	 tivéssemos	 todos,	 embora	vinculados	a	nossas	 funções,
preservado	 nossas	 crenças	 originais	 e	 nosso	 estado	 de	 espírito,	 nossa
capacidade	 de	 atuar	 conjuntamente	 teria	 sido	 importante.	 Na	 verdade,
porém,	 à	 medida	 que	 as	 semanas	 passaram,	 sofremos	 uma	 perda	 de
confiança,	 uma	 queda	 de	 idealismo	 e	 uma	 mudança	 de	 espírito.	 Estas
memórias	têm	por	finalidade	registrar	e	explicar	tal	mudança.	Ela	deveu-se
em	 grande	 parte	 a	 causas	 além	 de	 nosso	 controle,	 mesmo	 quando,	 no
momento,	 delas	 não	 tínhamos	 consciência.	 Causas	 semelhantes	 estarão
presentes	 em	 qualquer	 congresso	 de	 igual	 complexidade	 e	 magnitude.
Escrevo	este	livro	para	alertar	futuros	servidores	civis.
Neste	instante,	permitam-me	voltar	no	tempo.	Vejo-me,	em	3	de	janeiro
de	 1919,	 entre	 volumes	 com	 documentos	 e	 caixas-arquivo	 de	 estanho
dirigindo-me	 da	 Gare	 du	Nord	 para	 o	Hotel	Majestic.	 Permitam-me	 fazer
uma	 avaliação	 de	 quanto	 os	 princípios	 enunciados	 nos	 Quatorze	 Pontos
foram	realmente	adotados	pelos	eventuais	Tratados	de	Paz.
Nossos	pactos	de	paz	não	 foram	negociados	com	 transparência.	Poucas
vezes	 se	 viu	 tanto	 segredo	 no	 curso	 de	 um	 encontro	 diplomático.	 A
Liberdade	 dos	 mares	 não	 foi	 assegurada.	 Longe	 do	 estabelecimento	 do
Livre-Comércio	 na	 Europa,	 levantou-se	 uma	 barreira	 de	 tarifas	 maior	 e
mais	 numerosa	 do	 que	 jamais	 se	 vira.	 Não	 se	 reduziram	 os	 armamentos
nacionais.	As	Colônias	Alemãs	 foram	distribuídas	 entre	 os	 vencedores	de
uma	forma	que	não	se	caracterizou	por	liberalidade,	nem	desprendimento
e	 tampouco	 imparcialidade.	Os	desejos,	para	não	 falar	nos	 interesses,	das
populações	(como	no	Sarre,	em	Shantung	e	na	Síria)	foram	flagrantemente
ignorados.	A	Rússia	não	 foi	bem	recebida	na	Sociedade	das	Nações	e	não
lhe	 foi	 concedida	 liberdade	 para	 organizar	 suas	 próprias	 instituições.	 As
fronteiras	da	Itália	não	foram	reajustadas	pela	linha	das	nacionalidades.	Às
porções	turcas	do	Império	Otomano	não	se	garantiu	uma	soberania	segura.
O	território	da	Polônia	incluiu	muitagente	indiscutivelmente	não	polonesa.
Na	 prática,	 a	 Liga	 das	 Nações	 não	 foi	 capaz	 de	 assegurar	 independência
política	 às	Grandes	e	Pequenas	nações	 igualmente.	Províncias	 e	povos	na
verdade	 foram	 tratados	 como	 peças	 de	mobiliário	 e	 peões	 do	 xadrez.	 Os
arranjos	 territoriais,	 em	 quase	 todos	 os	 casos,	 se	 basearam	 em	 meras
acomodações	 e	 compromissos,	 conciliando	 reivindicações	 de	 estados
rivais.	Na	prática,	perpetuaram-se	elementos	de	discórdia	e	antagonismo.
Nem	 mesmo	 o	 velho	 sistema	 de	 Tratados	 Secretos	 foi	 inteira	 e
universalmente	destruído.
Das	vinte	e	três	condições	do	Presidente	Wilson,	apenas	quatro,	pode-se
dizer	com	alguma	precisão,	foram	incorporadas	aos	Tratados	de	Paz.
A	delegação	inglesa	em	Paris	ficou	hospedada	no	Hotel	Majestic,	na	Avenue
Kléber.	 Esse	 gigantesco	 caravanserai	 fora	 construído	 quase	 todo	 em
mármore	ônix,	para	ser	usufruído	pelas	senhoras	brasileiras	que,	antes	da
guerra,	 iam	 a	 Paris	 comprar	 suas	 roupas.	 Mr	 Alwyn	 Parker,	 ao	 nos
distribuir	 as	 acomodações,	 levou	 na	 devida	 consideração	 os	 perigos	 e
tentações	a	que	poderíamos	ficar	expostos.	Na	primeira	categoria	–	perigos
–	 ele	 tinha	 (tal	 como	 pensava	 habitualmente)	 previsto	 as	 duas
subcategorias	 (a)	 espionagem	 e	 (b)	 doença.	 Como	 proteção	 contra	 (a),
encarregou	Sir	Basil	Thomson	da	Scotland	Yard	da	missão	de	organizar	um
“serviço	de	segurança.”	Em	consequência,	embora	fosse	bastante	fácil	sair
do	 Majestic,	 entrar	 era	 extremamente	 difícil.	 Muitos	 representantes
estrangeiros	foram	detidos	por	suspeita	de	forçarem	a	entrada.	Mr	Parker
foi	 mais	 além.	 Tinha	 estudado	 a	 fundo	 o	 Congresso	 de	 Viena	 e	 estava
decidido,	 com	 toda	 razão,	 a	 não	 permitir	 que	 a	 Conferência	 de	 Paris
repetisse	 o	 despropósito	 de	Metternich.	Deste	modo,	 o	Hotel	Majestic	 foi
ocupado,	 do	 porão	 ao	 último	 andar,	 por	 empregados	 ingleses	 bem
preparados,	 oriundos	 de	 nossos	 hotéis	 do	 interior.	 A	 alimentação,	 por
conseguinte,	 era	 do	 tipo	 anglo-suíço,	 enquanto	 o	 café	 era	 genuinamente
inglês.	Todavia,	 todo	o	nosso	 trabalho	acabou	sendo	realizado	no	vizinho
Hotel	 Astoria.	 Foi	 lá	 que	 arquivamos	 nossos	 documentos	 e	 guardamos
nossos	mapas.	Os	empregados	do	Astoria	eram	de	nacionalidade	francesa.
Houve	 momentos	 (geralmente	 no	 café	 da	 manhã)	 em	 que	 sentimos	 que
tinha	ocorrido	um	ligeiro	lapso	na	lógica	de	Mr	Parker.
Mas	como	organizador	Mr	Parker	foi	soberbo.	A	fim	de	se	proteger	contra
a	categoria	(b),	tinha	contratado	um	médico	obstetra	de	grande	renome.	O
quadro	de	funcionárias	ficou	subordinado	a	um	supervisor.	Desta	forma,	o
clima	no	Majestic	era	de	alegria	e	companheirismo	anglicanos.
A	delegação	inglesa	englobava	207	pessoas,	sendo:	12	do	Foreign	Office,
com	6	secretários;	28	do	Ministério	da	Guerra;	22	do	Almirantado;	13	da
Força	Aérea;	26	do	Tesouro	e	do	Comércio;	e	75	dos	Domínios.
Com	 frequência,	 ouve-se	 afirmar	 que	 havia	 gente	 demais.	 Seria	 mais
apropriado	 dizer	 que	 a	 pressão	 do	 trabalho	 estava	 desigualmente
distribuída.	 Determinados	 membros	 da	 delegação,	 em	 particular	 os
especialistas	 políticos	 e	 econômicos,	 ficaram	 evidentemente
sobrecarregados.	 Outros	membros,	 em	 especial	 os	 grupos	 assessores	 dos
representantes	dos	Domínios,	viam	as	horas	passarem	lentas.	 Inevitável	e
compreensivelmente,	fizeram	o	melhor	uso	de	sua	posição	de	certa	forma
inútil.	O	grande	saguão	do	Majestic	ficava	tomado	pelo	barulho	das	xícaras
de	chá	e	a	melodia	das	músicas	para	dançar	ecoando	escadas	acima.	Nossos
visitantes	mais	 críticos	 viriam	a	 exagerar	 estes	 sintomas	de	 relaxamento.
Em	Londres	correu	o	boato	de	que	o	Majestic	era	o	reduto	dos	preguiçosos.
Houve	 em	 Pall	 Mall	 quem	 resmungasse	 que	 Lord	 Castlereagh	 fora	 para
Viena	 acompanhado	 por	 um	 grupo	 de	 apenas	 dezessete	 auxiliares.	 Eu
mesmo	 reconheço	 que	 houve	momentos	 em	que	me	 senti	 desconfortável
naquele	 saguão	 agitado,	 pois	 me	 desagradava	 ver	 o	 espetáculo	 daquela
gente	 alegre	 que	 não	 tinha	 como	 preencher	 seu	 tempo.	 Tempo,	 tempo,
tempo!	 Tornou-se	 uma	 obsessão	 para	 nós,	 à	 medida	 que	 as	 semanas	 se
passavam.	 Ficar	 vendo	 o	 tempo	 balançar	 e	 dançar	 ante	 nossos	 olhos	 era
realmente	uma	terrível	provação.	Entretanto,	não	creio	que	a	acusação	de
excesso	de	gente	fosse	totalmente	justificada.	Era	essencial	ter	à	disposição
muitos	especialistas	que	poderiam	ser	solicitados	a	qualquer	instante.	Não
se	 podia	 evitar	 que	 os	 representantes	 dos	 Domínios	 viessem
acompanhados	 por	 secretários	 e	 assistentes.	 Também	 convém	 lembrar
que,	 tão	 logo	 as	 linhas	 gerais	 de	 trabalho	 foram	 claramente	 definidas,	 os
vadios	mais	óbvios	foram	mandados	de	volta	para	Londres.
A	 organização	 interna	 da	 delegação	 inglesa	 foi	 estabelecida	 logo	 nos
primeiros	dias.	Lord	Hardinge,	na	condição	de	“embaixador	encarregado	da
organização,”	 assumiu	 principalmente	 os	 deveres	 administrativos.	 Sir
Maurice	 Hankey	 foi	 designado	 secretário	 da	 delegação	 e	 montou	 seu
escritório	 na	 Villa	 Majestic,	 no	 outro	 lado	 da	 rua.	 Mr	 Clement	 Jones
conviveu	 alegre	 e	 fraternalmente	 com	 os	 representantes	 dos	 Domínios	 e
Mr	 Lloyd	 George	 se	 refugiou	 na	 Rue	 Nitot,	 com	Mr	 Balfour	 no	 andar	 de
cima.
Na	 pista	 de	 corridas	 em	 Auteil	 foi	 instalada,	 para	 desagrado	 dos
parisienses,	 o	 setor	 encarregado	 da	 impressão	 de	 documentos.	 A
vizinhança	 do	 Majestic	 ficava	 aturdida	 com	 o	 barulho	 dos	 motociclistas.
Uma	 frota	 de	 carros	 do	 exército	 facilitava	 nossos	 deslocamentos.	 Um
sofisticado	 sistema	 telefônico	 nos	 ligava	 a	 Londres	 e	 ao	mundo	 exterior.
Um	serviço	expresso	de	aviões	ligava	diariamente	Buc	e	Croydon.	Antes	da
abertura	da	conferência,	toda	a	parafernália	do	Majestic,	do	Astoria,	da	Villa
Majestic	 e	 da	 Rue	 Nitot	 funcionava	 com	 a	 reconhecida	 eficiência	 de	 um
ministério	inglês.
No	 sábado,	 11	 de	 janeiro,	 chegaram	 a	 Paris	 o	 primeiro-ministro	 e	 os
representantes	diplomáticos	dos	Domínios.	No	domingo,	12	de	janeiro,	teve
lugar	 no	 Quai	 d’Orsay	 a	 primeira	 reunião	 não	 oficial	 entre	 os
plenipotenciários.	Na	segunda-feira,	13	de	janeiro,	a	delegação	do	Império
Britânico	 teve	 sua	 primeira	 reunião,	 e	 na	 tarde	 do	 mesmo	 dia	 os
plenipotenciários	voltaram	a	se	reunir,	sob	o	título	de	“Conselho	Supremo
de	Guerra,”	a	 fim	de	ratificar	o	armistício.	Mas	somente	no	sábado,	18	de
janeiro,	 a	 conferência	 foi	 oficialmente	 aberta,	 e	 apenas	uma	 semana	mais
tarde	 foram	 designados	 os	 cinco	 comitês	 encarregados	 de	 preparar	 o
material	 técnico.	 Os	 Comitês	 Territoriais,	 porém,	 que	 deviam	 criar	 as
futuras	 fronteiras	 da	 Europa,	 só	 foram	 formados	 na	 primeira	 semana	 de
fevereiro.
O	atraso	de	mais	de	nove	 semanas	entre	a	assinatura	do	armistício	e	a
primeira	 tentativa	 séria	 de	 se	 debruçar	 sobre	 o	 trabalho	 certamente
permanecerá	 sendo	 uma	 das	mais	 irrespondíveis	 críticas	 que	 se	 fazem	 à
Conferência	 de	 Paris	 e	 para	 as	 quais	 não	 se	 encontra	 resposta.	 Por
conseguinte,	 é	 necessário	 examinar	 as	 causas,	 psicológicas	 e	 outras	mais,
que	provocaram	esse	 atraso.	 É	possível	 identificar	duas	 fases	distintas.	A
primeira	 corresponde	 ao	 atraso	 entre	 o	 armistício	 e	 a	 reunião	 da
Conferência.	 A	 segunda	 diz	 respeito	 ao	 que	 ocorreu	 entre	 a	 abertura	 da
Conferência	e	o	início	dos	trabalhos	propriamente	ditos.
Os	motivos	para	escusar	a	postergação	da	Conferência	de	Paz	em	geral	são
estranhos	 e	 variados.	 Surge	 em	 primeiro	 lugar	 o	 argumento	 histórico.	 O
Congresso	 de	 Viena	 foi	 mais	 dilatório	 ainda.	 As	 procrastinações	 do
Congresso	 de	Westfália	 foram	 infinitamente	 mais	 dilatadas.	 Em	 segundo
lugar,	aparece	o	argumento	ético.	Era	preciso,	era	justo	que	se	desse	tempo
para	 que	 as	 mais	 extremadas	 paixões	 geradas	 pela	 guerra	 declinassem,
antes	que	os	governantes	de	todo	o	mundo	se	reunissem	para	estabeleceruma	nova	ordem	de	justiça	e	equidade.	Em	terceiro	lugar	está	o	argumento
prático.	A	Paz	nos	pegara	de	surpresa.	Estávamos	tão	familiarizados	com	a
derrota	 que	 a	 vitória,	 quando	 aconteceu,	 pareceu	 inacreditável.	 Foram
necessárias	 muitas	 semanas	 para	 que	 pudéssemos	 tomar	 consciência	 de
que	 tínhamos	 triunfado.	 Também	 era	 preciso	 que	 o	 Presidente	Wilson,	 o
protagonista	 da	 conferência,	 tivesse	 tempo	 suficiente	para	 se	 familiarizar
com	 a	 opinião	 continental.	 Precisava	 ver	 as	 áreas	 devastadas	 com	 seus
próprios	olhos	e	 sentir	 com	seus	próprios	dedos	secos	o	pulso	quente	da
Itália,	o	pulso	intermitente	da	Bélgica,	o	pulso	febril	da	França	e	o	pulso	de
yeoman	da	Inglaterra.	Mr	Wilson	devia	se	adaptar	à	Europa	antes	que	lhe
fosse	confiado	estabelecer-lhe	os	futuros	destinos.
Do	mesmo	modo,	Mr	Lloyd	George	teve	de	consultar	o	povo	antes	de	se
dirigir	a	Paris	com	seu	mandato.	O	Dr	Kramarsh,	da	Boêmia,	M	Dmowsky
da	 Polônia,	 M	 Bratianu	 da	 Romênia,	 Messrs	 Pasic	 e	 Trumbic	 da	 Sérvia,
Croácia	 e	 União	 Eslovena,	 cada	 um	 deles	 devia	 dispor	 de	 tempo	 para
consolidar	a	surpreendente	mudança	de	status	e	território	experimentada
por	seus	países;	cada	um	devia	dispor	de	tempo	para	poder	se	apresentar
em	Paris	como	representante	de	algo	organizado	e	real.
A	 Alemanha	 também	 constituía	 um	 problema.	 O	 colapso	 do	 Império
Hohenzollern,	 em	 sua	 gigantesca	 precipitação,	 levantara	 uma	 nuvem	 de
poeira.	 Vagamente,	 em	meio	 à	 névoa	 criada	 pelo	 cimento	 e	 a	 argamassa
desabados,	apareceram	certas	 figuras:	Liebknecht,	Noske,	Scheidmann,	os
“spartacistas.”	 Quais	 desses	 personagens	 eram	 centrais?	 Não	 sabíamos.
Talvez	tenha	sido	melhor	deixar	baixar	a	poeira	antes	de	ir	adiante.	Pouco
adiantaria	tentar	celebrar	a	paz	com	a	Alemanha	enquanto	não	se	soubesse
se	 realmente	 surgiria	 uma	 entidade	 como	o	Reich	Alemão	 com	o	 qual	 se
pudesse	fazer	a	paz.
Era	melhor	esperar.
Cada	um	desses	argumentos	continha	um	componente	verdadeiro	e	um
falso.	É	possível,	raciocinando	logicamente,	alegar	que	a	Conferência	de	Paz
já	 estava	 completamente	 montada	 desde	 o	 Conselho	 de	 Versalhes	 em
outubro	 e	 novembro	 de	 1918.	 O	 coronel	 House,	 sem	 um	 momento	 de
hesitação,	 estava	 plenamente	 preparado	 (uma	 afável	 Atena)	 para
representar	seu	amigo	ausente.	Os	outros	já	estavam	lá.
Todavia,	 pode-se	 questionar	 se	 o	 teocrata	 da	 Casa	 Branca	 teria
consentido	em	tal	acerto.	O	Presidente,	a	despeito	de	toda	dissuasão,	estava
decidido	 a	 aparecer	 em	 pessoa.	 Sua	 decisão,	 uma	 vez	 anunciada,	 era
incontestável.	Em	2	de	dezembro,	ele	estava	agendado	para	apresentar	sua
mensagem	 anual	 ao	 congresso.	 Portanto,	 de	 qualquer	 forma,	 não	 havia	 a
possibilidade	 de	 a	 Conferência	 se	 reunir	 antes	 de	 15	 de	 dezembro.	 Por
aquela	 data,	 as	 eleições	 na	 Inglaterra	 já	 estariam	 facilmente	 concluídas.
Não	encontro	explicação	para	a	Conferência	não	ter	sido	aberta	em	18	de
dezembro.
Está	registrado	que	o	próprio	Presidente	Wilson	fixara	aquela	data	como
dia	 da	 abertura.	 É	 injusto	 acusá-lo	 de	 ter	 desperdiçado	 as	 três	 semanas
seguintes	 visitando	 Londres	 e	 Roma.	 Essas	 visitas	 eram	desnecessárias	 e
foram	realizadas	unicamente	para	salvar	a	 face	do	Presidente.	Eram	mais
do	que	desnecessárias:	eram	muito	perturbadoras.	Poucos	homens	teriam
resistido	 a	 tal	 apoteose.	 O	 Presidente	 Wilson	 reagiu	 com	 seu	 modo
característico,	mas	 foi	 uma	 pena.	 Ficou	 obcecado	 pelos	 “olhos	mudos	 do
povo.”	 As	 multidões	 na	 Victoria	 Station	 e	 no	 Corso	 o	 aclamaram	 como
símbolo	 de	 sua	 própria	 vitória.	 Ele	 imaginou	 que	 o	 aclamavam	 como
símbolo	 da	 Nova	 Europa.	 Essas	 visitas,	 essas	 lamentáveis	 e	 histéricas
visitas,	convenceram	Woodrow	Wilson	de	que	os	povos	da	Europa	estavam
de	corpo	e	alma	a	seu	lado.	Uma	convicção	tremendamente	enganadora.
Mr	Robert	Lansing,	em	seu	pretensioso	livro	sobre	a	Conferência	de	Paz,
dá	 a	 entender	que	M	Clemenceau	 estava	 ansioso	por	 adiar	 a	 abertura	da
Conferência	até	que	o	armistício	 fosse	revisto	nos	 termos	da	mentalidade
francesa	e	que	ele	próprio	“conhecesse	melhor	o	presidente.”	Tenho	dúvida
de	 que	 essas	 considerações	 de	 ordem	 militarista	 ou	 social	 realmente
tenham	 entrado	 no	 pensamento	 de	 Clemenceau,	 homem	 rude,	 mas
razoável.	 Consultei	 muitas	 personalidades	 importantes	 da	 Conferência	 a
propósito	dessa	questão.	“Por	que,”	perguntei,	“a	Conferência	foi	adiada	de
18	 de	 dezembro	 para	 18	 de	 janeiro”?	 Responderam:	 “Oh,	 tinha	 o	 Natal,
claro,	e	queríamos	estar	livres.	Além	disso,	era	necessário	dar	tempo	para
as	emoções	baixarem	e,	afinal,	 tínhamos	de	avaliar	a	situação.	A	Rússia,	é
bom	lembrar,	estava	convulsionada,	e	o	mesmo	acontecia	com	a	Alemanha.
Achamos	que	se	esperássemos	um	pouco	as	coisas	se	acomodariam.”
Pode	 ser	 que	 o	 historiador	 encontre	 nos	 arquivos	 que	 venham	 a	 ficar
disponíveis	 explicações	mais	 convincentes	 do	 que	 estas.	 De	minha	 parte,
não	 consigo	 apresentar	 nada	 que	 explique	melhor.	 Até	 hoje	 também	não
entendi	 a	 razão	 de,	 após	 terem	 se	 reunido,	 adiarem	 por	 tantas	 semanas
vitais	o	objetivo	principal	de	sua	discussão.	Afinal,	desde	o	começo	sabiam
que	na	segunda	semana	de	fevereiro	o	Presidente	Wilson	teria	de	voltar	a
Washington	 para	 estar	 presente	 ao	 encerramento	 dos	 trabalhos	 do	 65º
Congresso.	 Sabiam	 que	 a	 cada	 semana	 transcorrida	 os	 exércitos	 aliados
estariam	 se	 desintegrando	 sob	 o	 clamor	 popular	 pela	 desmobilização
imediata.	 Sabiam	 que	 cada	 dia	 não	 aproveitado	 para	 o	 objetivo
fundamental	de	celebrar	a	paz	com	a	Alemanha	era	um	dia	perdido,	um	dia
a	 menos	 para	 usar	 o	 poder	 das	 armas	 para	 impor	 a	 paz,	 um	 dia	 que
significava	mais	fome	em	uma	Alemanha	sofrendo	bloqueio	e	maior	perigo
de	 bolchevização	 da	 Europa	 Central.	 Apesar	 disto,	 seis	 semanas	 foram
desperdiçadas	 tratando	 de	 assuntos	 que,	 embora	 urgentes,	 não
contribuíram	 para	 a	 finalidade	 principal	 da	 reunião.	 Somente	 em	 25	 de
março,	sob	a	fogosa	pressão	de	Mr	Lloyd	George,	os	governantes	do	mundo
realmente	se	concentraram	em	acertar	a	paz	com	a	Alemanha.	Durante	o
mês	 de	 abril	 trabalharam	 a	 uma	 velocidade	 vertiginosa	 e	 muito
imprudente.
Desde	 então,	muitos	 jornalistas	 têm	 atribuído	 estes	 atrasos	 de	 janeiro,
fevereiro	 e	 das	 três	 primeiras	 semanas	 de	 março	 inteiramente	 à
determinação	do	Presidente	Wilson	para	que	nenhum	tratado,	nem	mesmo
um	de	natureza	preliminar,	deveria	ser	concluído	se	não	incorporasse	em
sua	estrutura,	como	parte	integrante,	o	Pacto	da	Liga	das	Nações.
Deve-se	admitir	que	o	Presidente	Wilson	era	“homem	de	ideias	fixas.”	É
estranho	e	 até	patético	 assinalar	que	o	Presidente,	 uma	vez	 instalado	em
Villa	 Murat,	 tenha	 ficado	 profundamente	 entediado	 com	 seus	 Quatorze
Pontos,	 seus	 Quatro	 Princípios	 e	 seus	 Cinco	 Detalhamentos.	 Já	 não	 se
identificava	 com	 as	 potentes	 passagens	 do	 passado	 na	 prosa	 inglesa.
Passou	a	identificar-se	com	a	nova,	a	mística	carta	dos	direitos	do	homem.
É	impossível	entender	o	caráter	e	a	política	de	Woodrow	Wilson	a	menos
que	 se	 dê	 todo	 destaque	 à	 forte	 tendência	 ao	 misticismo	 fanático	 que
desfigurou	um	raciocínio	que,	caso	contrário,	seria	de	natureza	meramente
acadêmica.	Sua	superstição	infantil	no	poder	do	número	13	é	um	sintoma
do	misticismo	que	naqueles	dias	chegou	a	ser	quase	patológico.	Acreditava
de	todo	coração	que	a	voz	do	povo	era	a	voz	de	Deus.	Os	“olhos	mudos	do
povo”	 o	 assombravam	num	 apelo	 silencioso	 e	 pessoal.	 Sentia	 que	 aquela
miríade	 de	 olhos	 o	 via	 como	 um	 profeta	 surgido	 no	 Oeste;	 um	 eleito	 de
Deus	para	 levar	 ao	mundo	 inteiro	uma	nova	mensagem	e	 implantar	uma
ordem	 mais	 justa.	 O	 fato	 de	 evitar	 a	 convivência	 com	 [o	 secretário	 de
Estado]	 Mr	 Lansing	 se	 deve	 à	 sua	 preferência	 pela	 comunhão	 silenciosa
com	 Deus.	 O	 fato	 de	 tratar	 o	 senado	 dos	 Estados	 Unidos	 com	 umdistanciamento	 irritado	 decorreu	 de	 sua	 convicção	 de	 que	 não	 era	 como
representante	 deles	 que	 Deus	 o	 enviara	 para	 Villa	 Murat,	 mas	 como
representante	do	Grande	Povo	Mudo.
Dizer	que	o	Presidente	Wilson	era	presunçoso,	obstinado,	inconformista
e	reservado	não	é	explicação	satisfatória.	Também	era	um	obcecado.	Mais
que	isso,	um	possuído.	Acreditava,	como	Marat,	que	era	a	personificação	da
“vontade	 geral.”	 Tinha	 a	 ideia	 fixa	 de	 que	 o	 Covenant	 da	 Liga	 era	 sua
própria	 Revelação	 e	 a	 solução	 de	 todas	 as	 dificuldades	 humanas.	 Estava
absolutamente	 convencido	 de	 que,	 se	 a	 sua	 nova	 Carta	 dos	 Direitos	 das
Nações	 pudesse	 ser	 adaptada	 e	 incorporada	 aos	 Tratados	 de	 Paz,	 pouco
importariam	 as	 incoerências,	 injustiças	 e	 flagrantes	 violações	 de	 seus
próprios	 princípios	 que	 tais	 tratados	 pudessem	 conter.	 Era	 capaz,	 como
todos	os	homens	de	fervor	religioso,	de	atribuir	a	Deus	o	que	era	de	César.
Era	 capaz	 de	 se	 convencer,	 em	 ardentes	 agonias	 da	 alma,	 que	 seus
princípios	não	tinham	sido	violados,	que	não	abdicara	de	uma	só	ideia,	de
uma	só	letra	de	seu	conteúdo	original.	Ficou	amargamente	ressentido	com
as	sugestões	de	certas	pessoas,	como	o	Conde	Brockdorff	Rantzau,	que	não
compartilhava	de	suas	convicções.	“Não	as	entendo,”	confessou	a	membros
de	sua	própria	delegação,	“elas	me	cansam.”	No	início	de	janeiro,	se	isolou
metido	em	sua	Arca	da	Aliança.”	A	partir	de	então,	ninguém,	muito	menos
Mr	Lansing,	conseguiu	tirá-lo	dela.
Na	página	186	de	seu	livro	sobre	a	Conferência	de	Paz,	Mr	Lansing	afirma
que	se	o	Presidente	Wilson	não	tivesse	insistido	desta	forma	com	a	inclusão
do	texto	da	Convenção	da	Liga	em	um	tratado	preliminar,	este	poderia	ter
sido	“assinado,	ratificado	e	posto	em	vigor	no	mês	de	abril	de	1919.”	Em	20
de	março	de	1919,	Mr	Lansing	anotou	em	seu	diário:	“O	mundo	inteiro	quer
a	paz.	O	Presidente	quer	sua	Liga.	Acho	que	o	mundo	terá	de	esperar.”	Foi
diante	 dessas	 provas	 que	 os	 franceses	 e	 italianos	 argumentaram	 que	 o
atraso	na	elaboração	do	Tratado	de	Versalhes	resultou	exclusivamente	do
egoísmo	do	Presidente	Wilson.
Convém	 reconhecer	 que	 a	 redação	 do	 Covenant	 da	 Liga	 realmente
provocou	um	certo	atraso.	Quando	o	Presidente,	em	fevereiro,	regressou	a
Washington,	 viu	 que	 a	 oposição	 no	 senado	 era	 mais	 séria	 do	 que	 lhe
parecera	 inicialmente.	 Mr	 Lowell	 e	 Mr	 Taft,	 em	 quem	 confiara	 como
intermediários	junto	aos	republicanos	descontentes,	informaram-lhe	que	a
Convenção	 da	 Liga	 teria	 de	 ser	 revista	 em	 pontos	 fundamentais	 se	 ele	 a
quisesse	 ratificada	 por	 um	 senado	 de	maioria	 republicana.	 Eram	notícias
desagradáveis.	 O	 Presidente,	 antes	 de	 deixar	 Paris,	 declarara	 em	 sessão
plenária	que	nenhuma	palavra,	“nem	mesmo	um	ponto	parágrafo”	do	texto
original	 da	 Convenção	 seria	 alterado.	 Agora,	 retornando	 a	 Paris,	 teria	 de
propor	 emendas	 de	 importância	 vital.	 Isto	 permitiria	 aos	 japoneses
reapresentar	 sua	 reivindicação	 de	 igualdade,	 e	 aos	 franceses	 voltar	 a
pressionar	por	um	exército	da	Liga	com	um	QG	“internacional.”	Quando	a
notícia	deste	contratempo	chegou	a	Paris,	logo	se	percebeu	que	o	Comitê	da
Liga	teria	de	ser	novamente	convocado	e	que	haveria	novas	discussões	por
várias	semanas.	M	Pichon,	em	impulso	momentâneo,	declarou	à	 imprensa
que,	 em	 tais	 circunstâncias,	 a	 Convenção	 da	 Liga	 não	 poderia	 ser	 parte
integrante	do	Tratado	final.	Essa	afirmação	foi	desmentida	no	dia	seguinte.
Muito	 longe	 de	 demovê-lo	 de	 sua	 postura,	 as	 dificuldades	 no	 senado
reforçaram	a	posição	do	Presidente	 e	 sua	 crença	na	missão	divina.	Como
lembra	 o	 coronel	 House,	 ele	 voltou	 “muito	 combativo	 e	 determinado.”	 A
partir	 de	 então,	 pressionou	 para	 que	 não	 apenas	 o	 tratado	 sobre	 a
Alemanha,	 mas	 os	 acordos	 sobre	 todas	 as	 questões	 mundiais	 ficassem
indissoluvelmente	 ligados	 à	 Convenção	 da	 Liga.	 Achava	 que	 o	 senado
jamais	 ousaria	 rejeitar	 todo	 o	 “connnexus”	 dos	 tratados	 de	 paz,	 e	 estava
decidido	a	lhe	impor	a	Convenção,	envolvendo-a	de	forma	irreversível	em
toda	a	 teia	dos	acordos	mundiais.	Esta	determinação,	 sem	dúvida,	 tornou
impossível	a	conclusão	de	uma	paz	imediata	e	preliminar	com	a	Alemanha.
Esse	 é,	 portanto,	 o	 argumento	 daqueles	 que	 desejariam	 atribuir	 ao
Presidente	Wilson	 toda	 a	 culpa	pelo	 atraso.	 Entretanto,	muita	 coisa	pode
ser	dita	em	contrário.	Wilson	sabia	que	os	pormenores	dos	tratados	seriam
inevitavelmente	 injustos	 em	muitos	 aspectos.	 Sabia	 que	 a	 disposição	 das
Potências	 Aliadas	 e	 Associadas,	 em	 janeiro	 de	 1919,	 não	 permitia	 um
acordo	realmente	moderado.	Esperava	que	a	Convenção	pudesse	oferecer
um	instrumento	pelo	qual,	quando	prevalecessem	opiniões	mais	sensatas,	o
Tratado	pudesse	ser	modificado	e	tornado	menos	punitivo.	Também	sabia
que	a	Liga	das	Nações	não	seria	inteiramente	capaz	de	cumprir	sua	nobre
missão	 se	não	 contasse	 com	a	pressão	direta	 e	 sobretudo	o	poder	moral,
material	 e	 principalmente	 financeiro	 dos	 Estados	Unidos.	Os	meios	 pelos
quais	 esperava	 compelir	 o	 senado	 a	 aceitar	 a	 Convenção	podiam	não	 ser
muito	 hábeis	 e	 tampouco	nobres.	 Procuraria	 se	 defender	 alegando	que	 o
senado	 era	 um	 órgão	 reacionário	 e	 indiferente	 ao	 “grande	 e	 caloroso
coração	do	povo.”	Todavia,	sua	firme	determinação	em	fazer	do	Covenant
parte	 integrante	 de	 todos	 os	 tratados	 certamente	 se	 justificava.	 Pode	 até
haver	quem	defenda	que	a	concretização	desse	desejo	compensava	o	atraso
de	muitas	semanas,	valia	 todo	o	 “connexus”	dos	 tratados.	Também	penso
assim.
Essas	considerações	à	parte,	convém	salientar	que	o	atraso	na	elaboração
do	 Tratado	 de	 Paz	 com	 a	 Alemanha	 também	 se	 deve	 a	 outras	 causas.	 A
redação	da	Convenção	na	verdade	não	interferiu	praticamente	no	trabalho
principal	 da	 Conferência.	 A	 comissão	 da	 Liga	 das	 Nações	 trabalhou
rapidamente.	Suas	sessões	se	realizaram	quase	sempre	depois	do	horário
de	 expediente.	 A	 ênfase	 que	 alguns	 historiadores	 atribuem	 à
responsabilidade	do	Presidente	Wilson	tira	o	foco	de	outra	causa	que,	em
meu	 entendimento,	 é	 a	 mais	 importante.	 Trata-se	 da	 ausência	 de	 um
propósito	 pactuado	 e	 uniforme.	 Esta	 ambiguidade	 de	 propósitos	 foi	 uma
das	maiores	infelicidades	da	Conferência.
3	
Infelicidades
DESDE	SEU	 INÍCIO,	A	 CONFERÊNCIA	 DE	 PARIS	 –	 tal	 como	aconteceu	e	 sempre	acontecerá
em	qualquer	conferência	–	desenrolou-se	em	meio	a	desvantagens	iniciais.
Algumas	poderiam	ter	sido	evitadas,	e	as	discutirei	no	próximo	capítulo
sob	o	 título	 “erros.”	Outras	 eram	absolutamente	 inevitáveis,	 ou	poderiam
ser	evitadas	por	uma	capacidade	de	visão	e	direção	não	possuída	pelos	que
ditavam	o	destino	do	mundo	em	1919.	Estas	discutirei	no	presente	capítulo
sob	o	título	“infelicidades.”
Entre	 as	 infelicidades	 totalmente	 inevitáveis,	 a	 dominante	 foi	 a	 opinião
democrática.	 Talvez	 seja	 desnecessário	 dizer	 que	 o	 humor	 dos	 franceses,
dos	 italianos,	 dos	 tchecoslovacos,	 dos	 iugoslavos,	 dos	 poloneses,	 dos
portugueses,	dos	brasileiros,	dos	japoneses,	dos	belgas,	dos	albaneses,	dos
romenos,	 dos	 chineses,	 dos	 sul-africanos,	 dos	 australianos	 e	 dos	 povos
helênicos	foi	irrefletido	e	inconsiderado	ao	extremo.	Será	mais	útil	indicar
que	 as	 emoções	 das	 duas	 principais	 democracias	 anglo-saxônicas	 foram
pouquíssimo	mais	inteligentes,	mais	razoáveis	e	mais	compostas.
Os	 Estados	 Unidos,	 tendo	 passado	 pelos	 conflitos	 internos	 da
neutralidade,	 tendo	 emergido	 como	 uma	 nação	 unida	 numa	 vitória	 dos
últimos	 instantes,	 ainda	 sofriam	 do	 impulso	 psicológico	 que	 os	 atirou	 na
guerra;	ainda	estavam	envergonhados	pela	ideologia	que	por	tanto	tempo
os	mantivera	de	fora.	Havia	muito,	o	Presidente	Wilson	deixara	de	ser	um
profeta	 para	 seu	 próprio	 povo.	 Não	 foi	 simplesmente	 a	 eleição	 do
congresso	em	novembro	de	1918	que	causou	nos	membros	da	delegação
americana	 uma	 certa	 hesitação	 de	 comportamento;foi	 a	 consciência	 de
que,	 quando	 Theodore	 Roosevelt	 afirmou	 que	 os	 Quatorze	 Pontos	 não
guardavam	 qualquer	 relação	 com	 a	 opinião	 pública	 nos	 Estados	 Unidos,
aquele	 soberbo	 realista	 estava	 dizendo	 algo,	 naquele	 momento,
absolutamente	verdadeiro.	A	tragédia	da	Delegação	Americana	em	Paris	foi
o	fato	de	representar	algo	que	a	América	sentira	profundamente	em	1915	e
voltaria	 a	 sentir	 em	1922.	Mas	 não	 representava	 o	 que	 a	 América	 sentia
naquele	 janeiro	 de	 1919.	 A	 consciência	 desse	 descompasso	 tomou-lhes	 a
consciência	 democrática	 de	 um	 terrível	 vácuo.	 Só	 o	 presidente	 (sozinho
com	Deus	e	o	povo)	não	percebeu	o	vácuo.
Na	 Inglaterra,	 o	 pensamento	 público	 atravessava	 um	 das	 mais
lamentáveis	 fases	de	sua	história.	Deve-se	reconhecer	que	depois	de	uma
guerra	em	que	 foram	mobilizados	 setenta	milhões	de	moços,	na	qual	dez
milhões	morreram	e	trinta	milhões	foram	feridos,	não	seria	razoável	supor
que	qualquer	democracia	viesse	a	encarar	com	nervos	de	aço	o	espetáculo
de	quatro	senhores	reunidos	em	uma	sala	protegida	a	discutir	o	resultado.
Nem	seria	sensato	esperar	um	povo	que	estivera	na	 iminência	da	derrota
terrestre	 e	 naval,	 aterrorizado	 pelo	 bombardeio	 aéreo	 e	 angustiado	 pela
ameaça	da	 fome,	no	momento	em	que	alcançou	uma	vitória	 inimaginável
comportar-se	com	o	cavalheirismo	medieval	do	Príncipe	Negro.	A	mente	de
um	Winston	 Churchill	 podia,	 é	 verdade,	 elevar-se	 a	 tão	 patrícias	 alturas.
Recorde-se	que	na	mesma	noite	do	Armistício	seus	pensamentos	voltaram-
se	 com	 simpatia	 para	 o	 “inimigo	 batido.”	 Relembre-se	 que,	 naquele
instante,	Winston	Churchill	quis	enviar	seis	navios	carregados	de	alimentos
para	Hamburgo.
Para	mentes	menores,	 foi	mais	difícil.	A	guerra	 fora	um	negócio	cruel	e
sem	trégua.	Seria	 injusto	acusar	o	povo	 inglês	de	 incivilidade	unicamente
porque,	 nos	 seus	 primeiros	 meses	 de	 convalescença,	 exigiu	 que	 a	 paz
também	fosse	cruel	e	sem	trégua.	O	que	espanta	no	povo	inglês	não	é	seu
breve	ataque	de	histeria,	mas	a	rapidez	com	que	recuperou	o	controle.	Essa
notável	 recuperação	 teria	 sido	 ainda	 mais	 rápida	 se	 pudesse	 ter
convalescido	em	silêncio.	Mas	essa	tranquilidade	não	veio	facilmente.
É	 sobre	 a	 imprensa	 inglesa	 –	 esta	 combinação	 de	 insensatez	 e
hermetismo	–	que	deve	pesar	todo	o	ônus	da	responsabilidade.	Alguns	de
nossos	 principais	 jornais,	 o	 Observer,	 o	 Daily	 News,	 o	 Daily	 Chronicle,	 o
Westminster	Gazette	 e	 o	Manchester	Guardian	 repartem	 entre	 si	 parcelas
dessa	 responsabilidade.	 Os	 demais,	 sem	 excluir	 The	 Times	 e	 outros
igualmente	esclarecidos,	 foram	tolos	e	 irresponsáveis	ao	extremo.	Não	foi
sempre	culpa	de	seus	correspondentes.	O	Daily	Mail	era	representado	em
Paris	por	Mr	Valentine	Williams,	tão	inteligente	e	correto	quanto	Mr	Wilson
Harris.	De	tempos	em	tempos,	o	próprio	Mr	Wickham	Steed	contribuiu	com
artigos	 competentes	 e	 de	 influência	 passageira	 para	 as	 páginas	 daquele
diário.	O	Morning	Post	era	representado	pelo	atento	Mr	Grant	e	pelo	bem
informado	Mr	Knox.	Porém,	nessa	época	os	jornais	ingleses	eram	sensíveis
demais	ao	seu	volume	de	circulação.	E	o	 tom	da	circulação	era	dado	pelo
grupo	Northcliffe:	 o	 objetivo	 não	 era	 o	 que	 pensavam	 seus	 compatriotas,
mas	 as	 emoções	 deles.	 A	 figura	 de	 Lord	Northcliffe	 pesou	morbidamente
sobre	a	conferência	como	um	miasma.
Esse	ponto	é	 importante.	Neste	 instante,	muitos	homens	e	mulheres	na
Inglaterra	darão	a	explicação	fácil	de	que	Mr	Lloyd	George,	embora	tivesse
vencido	 a	 guerra,	 perdera	 a	 paz.	 A	 falta	 de	 base	 dessa	 asserção	 é
preocupante.	 Essa	 mesma	 gente	 na	 verdade	 seria	 incapaz	 de	 definir	 as
premissas	 em	que	 se	baseou	para	 chegar	 a	 tal	 conclusão.	 São	 as	mesmas
pessoas	 que,	 em	 1919,	 assimilaram	 com	 aprovação	 a	 propaganda	 da
imprensa	 Harmsworth,	 uma	 forma	 de	 histeria	 comprovadamente
provocada	pelo	apaixonado	ressentimento	e	pelas	ilusões	do	próprio	Lord
Northcliffe.	Admito	que	havia	uma	 tragédia	 latente	na	psicologia	de	Lord
Northcliffe.	 Ele	 constatou	que	possuía	 o	máximo	poder	de	destruição	 e	 o
mínimo	 poder	 de	 criação.	 Sabia	 arruinar,	 não	 sabia	 construir.
Imediatamente	 concluo	 que	 possuir	 uma	 gigantesca	 máquina	 de
destruição,	sem	dispor	sequer	de	uma	colher	de	pedreiro	para	construção,
pode	 levar	 finalmente	 a	 uma	 séria	 perturbação	 psicológica.	 Mas	 vamos
comentar,	 com	 esta	 ressalva	 indulgente,	 a	 atitude	 adotada	 tanto	 antes
quanto	depois	do	armistício	pelo	Daily	Mail.
Em	4	de	novembro	de	1918,	Lord	Northcliffe	anunciou	seus	treze	pontos.
Foram	publicados	num	momento	em	que	julgou	poder	levá-lo	a	ser	incluído
entre	 os	 plenipotenciários	 na	 eventual	 Conferência	 de	 Paz.	 Em	 todos	 os
aspectos	 são	 admiráveis	 definições	 dos	 objetivos	 então	 em	 voga.	 Sua
coincidência	 com	 os	 quatorze	 pontos	 do	 Presidente	 Wilson	 é	 realmente
espantosa.	 Não	 há	 o	 que	 se	 possa	 dizer	 contra	 os	 treze	 pontos	 de	 Lord
Northcliffe.
Nove	 dias	 após	 esse	 manifesto,	 vemos	 o	 Daily	 Mail	 transpirando
patriotismo.	O	ex-imperador,	assim	declarou	em	13	de	novembro,	devia	ser
entregue	de	corpo	e	alma	aos	Aliados.	Três	dias	mais	tarde,	a	imprensa	de
Northcliffe	atacava	o	desejo	de	uma	Alemanha	derrotada	de	ser	liberada	do
extremo	rigor	do	bloqueio.	Sua	manchete	era:	 “Choradeira	dos	hunos	por
comida.”	 A	 matéria	 principal	 esposava	 a	 seguinte	 opinião:	 “Ainda	 existe
gente	 neste	 mundo	 que	 prefere	 dar	 atenção	 aos	 soluços	 alemães	 por
alimentos.”	 Durante	 a	 eleição	 geral,	 o	 Daily	 Mail	 conclamou	 seus
colaboradores	 a	 negar	 apoio	 ao	 candidato	 que	 revelasse	 indícios	 de
“qualquer	 ternura	 com	 os	 hunos.”	 Em	 15	 de	 dezembro,	 ficou	 quase
analfabeto	 seu	 clamor	 pelo	 custo	 total	 da	 guerra.	 “A	Alemanha,”	 gritou	 o
Daily	Mail,	“pode	pagar,	se	existe	resquício	de	vigor	nos	Governos	Aliados.”
Já	 em	 11	 de	 dezembro	 começaram	 a	 agitar	 em	 favor	 da	 desmobilização
imediata,	 sem	 cogitar	 do	 problema	 de	 como	 intimidar	 o	 Huno	 sem	 uma
arma.	 Logo	 após	 a	 eleição,	 surgiram	 referências	 a	 “terríveis	 rumores”	 de
que	Mr	Lloyd	George	levaria	para	Paris,	não	Lord	Northcliffe,	mas	a	“velha
gang”	de	Mr	Balfour,	Lord	Curzon	e	até	Mr	Asquith.	Durante	as	primeiras
fases	da	Conferência,	a	imprensa	de	Northcliffe	dividiu	sua	energia	entre	“O
Huno	sem-vergonha”	e	 “Como	esmagar	Lênin.”	Clamava	pela	ocupação	de
Moscou	e	Petrogrado.	Ao	mesmo	tempo,	clamava	pela	desmobilização.
Em	 abril,	 levantou	 o	 pânico	 sobre	 a	 “capitulação,”	 exclamando,	 “Não	 é
problema	 nosso	 perguntar	 o	 que	 a	 Alemanha	 pensa	 sobre	 os	 termos	 da
rendição.	 Nosso	 dever	 é	 impor	 termos	 tais	 que	 nos	 proporcionem
segurança	material	e	deixar	que	o	Huno	pense	o	que	quiser	sobre	eles.”	E
ainda	clamava	pela	desmobilização.	A	partir	de	então,	o	Daily	Mail	 inseriu
um	“box”	bem	visível	na	primeira	página	com	os	dizeres	“Os	Junkers	ainda
vão	trapacear.”	Esse	pequeno	slogan	aparecia	todos	os	dias	no	topo	de	seu
artigo	de	fundo.	Quando	os	alemães	finalmente	chegaram	a	Versalhes,	esse
alerta	 foi	 complementado	 por	 outro	 “box”	 que	 dizia:	 “Para	 que	 não	 se
esqueça.	Mortos:	670.986.	Feridos:	1.041.000.	Desaparecidos:	350.243.”	E
ainda	 clamava	 pela	 desmobilização.	 Depois	 do	 ataque	 extremamente
espirituoso	 que	 Lloyd	 George	 com	 toda	 razão	 desferiu	 sobre	 Lord
Northcliffe	 na	 Câmara	 dos	 Comuns,	 em	 7	 de	 abril,	 a	 imprensa	 deste	 se
rendeu	 alegremente	 aos	 propagandistas	 do	Ministério	 da	Guerra	 francês.
Na	cabeça	deles	e	em	suas	colunas,	as	contrapropostas	alemãs	eram	apenas
“esperneio.”	O	Lusitania	e	até	Miss	Edith	Cavell	foram	arrastados	para	cada
um	 destes	 artigos,	 na	 esperança	 de	 impedir	 que	 Mr	 Lloyd	 George
introduzisse	nos	Termos	de	Paz	 alguns	poucos	 elementos	de	 sabedoria	 e
moderação.	Essa	foi	a	atitude	pouco	inteligente,	pessoal	e	histérica	deles	do
começo	ao	fim.	Outros	mais	respeitados	jornais	ingleses	tampoucoficaram
atrás	em	extravagância	emocional.
A	 segunda	 infelicidade	 totalmente	 inevitável	 ocorrida	 na	 Conferência	 de
Paris	 foi	 o	 fato	 de	 os	 plenipotenciários	 das	 cinco	 Grandes	 Potências
ocuparem	 uma	 posição	 política;	 cada	 um	 representava	 algum	 eleitorado
atento	mas	 ignorante.	 Já	 comentei	 como	Mr	 Lloyd	 George,	 com	 todo	 seu
essencial	 liberalismo	e	sua	visão,	 sentiu-se	envergonhado	e	decepcionado
por	 ter	 contribuído	 para	 a	 composição	 de	 uma	 Câmara	 dos	 Comuns
possuída	 pela	 forma	 de	 pensar	 do	 Daily	 Mail.	 Poder-se-ia	 alegar	 que	 o
primeiro-ministro	 não	 deveria	 ter	 ido	 pessoalmente	 a	 Paris,	 e	 que	 teria
sido	 melhor	 enviar	 um	 representante,	 fosse	 algum	 diplomata	 ou
economista	profissional,	ou	mesmo	alguém	com	experiência	mundial,	como
Lord	Milner	 ou	 Lord	 Reading.	 Sem	 dúvida,	 se	 na	 prática	 fosse	 exequível
essa	hipótese	de	um	representante,	um	Tratado	mais	calmo,	mais	tranquilo
poderia	ter	resultado.	Há	uma	crítica	mais	grave,	segundo	a	qual	Mr	Lloyd
George	 deveria	 ter	 levado	 com	 ele	 algum	 representante	 do	 Socialismo
competente	 e	 bem	 informado,	 como	Mr	 Hyndman.	 Uma	 delegação	 desse
tipo	ou	mesmo	uma	fusão	de	autoridade	era	totalmente	impossível	diante
dos	terríveis	interesses	nacionais	envolvidos.
Foi	 inevitável	 que	 Mr	 Lloyd	 George	 comparecesse	 em	 pessoa.	 Não	 me
incluo	entre	os	que	descreveriam	essa	necessidade	como	uma	infelicidade
inevitável.	 Questiono	 mesmo	 se	 qualquer	 estadista	 inglês	 então	 vivo
poderia,	 considerando	 a	 opinião	 pública	 na	 Inglaterra,	 ter	 conseguido
tanto,	ou	melhor,	ter	evitado	tanto.	Contudo,	é	preciso	reconhecer	que	um
primeiro-ministro,	 com	 a	 atenção	 desviada	 –	 e	 sua	 ausência
frequentemente	 resultada	 –	 pelas	 exigências	 da	 política	 interna,	 na
realidade	 não	 possui	 o	 distanciamento	 essencial	 a	 uma	 negociação	 que
requer	absoluta	concentração	e	imperturbável	placidez	mental.
Inevitavelmente,	 o	 presente	 político,	 ou	 o	 passado,	 dos	 principais
plenipotenciários	 produziu	 certa	 dualidade	 de	 aspecto.	 É	 difícil	 ser	 um
grande	 europeu	 e,	 ao	 mesmo	 tempo,	 um	 grande	 homem	 de	 partido.	 As
Potências	 continentais	 desejavam	 uma	 solução	 que	 satisfizesse	 não	 sua
ganância	 (por	mais	 que	 se	 afirme	 o	 contrário,	 havia	 relativamente	 pouca
avidez	em	Paris),	mas	sua	ansiedade.	Ansiedade	essa	que,	em	cada	caso,	se
compunha,	por	assim	dizer,	de	um	elemento	pessoal	e	um	impessoal.
Os	 delegados	 das	 Grandes	 Potências	 eram,	 por	 um	 lado,	 homens	 de
experiência	 e	 sabedoria,	 desejando	 fundamentar	o	Tratado	na	 razão	e	na
moderação.	 Por	 outro	 lado,	 eram	 políticos,	 representando,	 se	 não	 um
determinado	partido	político,	pelo	menos	um	nexus	bem	definido	de	ideias
políticas.	Eram	obrigados	a	acomodar	suas	próprias	 ideias,	que	poderiam
ser	 esclarecidas,	 às	 emoções	 de	 seus	 partidários,	 que	 certamente	 não	 o
eram.	 A	 diplomacia	 democrática	 conta	 com	muitas	 vantagens,	 mas	 sofre
uma	desvantagem	suprema:	seus	representantes	são	obrigados	a	baixar	o
padrão	de	 seu	pensamento	ao	 sentimento	de	outras	pessoas.	Não	 fosse	o
intervalo	de	tempo	que	afeta	a	 inteligência	democrática,	essa	necessidade
constituiria	uma	 seguranca	em	vez	de	um	perigo.	Mas,	 em	circunstâncias
que	 exigem	 grande	 rapidez	 e	 autonomia	 para	 decidir,	 a	 democracia
diplomática	na	verdade	constitui	um	perigo	mais	insidioso	e	muito	menos
administrável	 do	 que	 o	 mais	 inescrupuloso	 intelectualismo	 do	 antigo
sistema.
M	 Clemenceau,	 é	 bem	 verdade,	 poderia	 alegar	 que	 não	 era	 mais	 um
político,	apenas	um	patriota.	Estava	em	fim	de	carreira.	Pouco	se	importava
com	a	Câmara.	Pelo	menos	em	 janeiro,	não	alimentava	qualquer	ambição
política.	 Podia	 afirmar,	 com	 certa	 dose	 de	 verdade,	 que	 tinha	 completo
distanciamento	 político.	 Mas	 a	 verdade	 é	 que	 Clemenceau	 era	 muito
influenciado	 pela	 política	 partidária,	 pelas	 animosidades	 dentro	 de	 seu
antigo	partido.	Detestava	M	Poincaré	com	a	fúria	de	um	tigre.	Era	também
amargamento	 contra	 os	 doutrinários	 da	 extrema	 esquerda.	 Tinha	 um
desejo	pessoal	de	adotar	um	rumo	Clemenceau	–	algo	entre	o	meticuloso
nacionalismo	de	Poincaré,	o	oportunismo	enfadonho	de	Franklin	Bouillon	e
o	comunismo	–	para	ele	patético	–	da	extrema	esquerda.
O	Signor	Orlando	estava	ainda	mais	tolhido	pelos	tentáculos	do	octópode
democrático.	A	 fim	de	 impressionar	o	Presidente	Wilson	com	sua	própria
representatividade,	 tinha	 injetado	 a	 estricnina	 do	 patriotismo	 no	 polvo
italiano.	Ficou	prisioneiro	de	sua	própria	propaganda.	Ao	 longo	de	 toda	a
Conferência	 viu-se	 na	 mais	 desconfortável	 posição;	 seu	 colega,	 o	 Barão
Sonnino,	não	perdia	oportunidade	para	relembrar-lhe	esse	desconforto.	O
Signor	Orlando	nunca	foi	capaz	de	subir	ao	nível	de	sua	inteligência.
Havia	também	em	seus	conceitos	um	elemento	impessoal	e	de	natureza
genuinamente	nacional.	Clemenceau	(tendo	visto	com	seus	próprios	olhos
o	palácio	de	St.	Cloud	esfumar-se	chamas	em	1871)	tinha	todos	os	motivos
para	 sua	 obsessão	 de	 garantir	 a	 segurança	 da	 França.	 Mr	 Lloyd	 George,
constrangido,	 não	 tanto	 por	 suas	 promessas	 eleitorais,	 mas	 pela	 Câmara
dos	Comuns,	pela	qual,	por	suas	mesmas	afirmações	sentia-se	responsável,
esperava	 combinar	 o	 vae	 victis	 ansiado	 pelo	 povo	 inglês	 com	 uma
pacificação	 mais	 justa	 que	 seus	 instintos	 lhe	 ditavam.	 O	 Signor	 Orlando,
expoente	 do	 sagrado	 egoísmo,	 ingenuamente	 se	 esforçou	 para
proporcionar	à	sua	instável	nação	os	espólios	com	os	quais	(imaginava	ele)
seria	possível	exorcizar	o	demônio	do	socialismo.
É	de	se	estranhar	que	tal	mistura	de	motivações	tivesse	produzido	certa
complexidade	de	propósitos?	Por	um	lado,	esses	homens	queriam	uma	paz
punitiva	 para	 satisfazer	 os	 respectivos	 eleitorados;	 por	 outro,	 desejavam
uma	paz	razoável,	capaz	de	restabelecer	a	tranquilidade	na	Europa.	Causa
surpresa,	diante	de	tal	ambiguidade	de	intenções,	que	tenham	olhado	com
cauteloso	 desagrado	 todas	 as	 definições	 preliminares	 de	 seus	 propósitos
essenciais?	 É	 fácil	 resistir	 à	 percepção	 de	 que	 a	 principal	 razão	 para	 os
atrasos	 sofridos	 pela	 Conferência	 foi	 uma	 esperança	 perfeitamente
compreensível	 por	 parte	 deles	 de	 que	 o	 “Grande	 Demos	 de	 Deus”	 se
acalmaria	dentro	de	um	ou	dois	meses?
As	 duas	 infelicidades	 acima	 mencionadas	 eram,	 esperemos,	 peculiares	 à
Conferência	 de	 Paris.	 Porém,	 os	 diretores	 da	 infeliz	 reunião	 também
sofreram	outras	desvantagens	eternamente	inseparáveis	das	discussões	de
homens	com	homens.	Deve	ser	plenamente	dado	espaço,	por	exemplo,	para
a	mui	 limitada	capacidade	de	resistência	disponível	mesmo	aos	mais	bem
preparados	 cérebros	 humanos.	 Sob	 a	 tensão	 do	 incessante	 excesso	 de
trabalho,	 as	 qualidades	 imaginativas	 e	 criativas	 tendem	 a	 enfraquecer:
quanto	mais	 cansado	 o	 cérebro,	 maior	 a	 tendência	 de	 se	 ater	 ao	 círculo
mais	restrito	dos	detalhes	de	interesse	imediato;	cada	vez	menos	ele	volta
aos	 temas	 de	 mais	 ampla	 visão	 que,	 abordados,	 exigem	 discussões
alentadas,	esforço	mental	adicional	e	renúncia	a	muito	trabalho	e	a	pontos
de	concordância	já	alcançados	com	grande	esforço.
Essas	 limitações	 e	 debilidades	 próprias	 do	 ser	 humano	 tendem	a,	mais
cedo	 ou	 mais	 tarde,	 dominar	 o	 ritmo	 de	 qualquer	 conferência	 de	 longa
duração.	 Em	 Paris,	 a	 tortura	 da	 exaustão	 ficou	mais	 evidente	 que	 nunca.
Convém	 lembrar	 que	 os	 protagonistas	 do	 confronto	 já	 vinham	 expostos
havia	 muitos	 terríveis	 anos	 a	 tensões	 sem	 paralelo	 na	 história	 da
governança	da	humanidade.	A	vitalidade	deles	era	extraordinária.	Todavia,
energia	humana	alguma	poderia	 resistir	a	 tal	experiência	cumulativa	sem
ceder	a	uma	tendência	para	o	superficial	em	detrimento	do	essencial,	para
o	 rotineiro	 em	 prejuízo	 do	 inesperado,	 para	 o	 improviso	 como	 fuga	 ao
ponderado.	Não	está	certo	criticar	a	Conferência	de	Paris,	a	menos	quese
dê	 total	 proeminência	 ao	 elemento	 da	 exaustão	 agregada	 e	 da
insensibilidade	consequente.
No	 entanto,	 seria	 um	 erro	 para	 quem	 estuda	 a	 diplomacia	 de
conferências	 concentrar-se	 exclusivamente	 nessas	 fraquezas	 da	 natureza
humana	 que	 impedem	 uma	 condução	 inteligente	 de	 discussões.	 As
dificuldades	de	negociações	precisas	derivam	com	quase	 igual	 frequência
das	 qualidades	 mais	 amigáveis	 do	 coração	 humano.	 Seria	 interessante
analisar	 quantas	 decisões	 falsas,	 quantos	mal-entendidos	 fatais	 brotaram
de	qualidades	simpáticas,	como	timidez,	consideração,	afabilidade	ou	boas
maneiras	 em	 geral.	 Uma	 das	 desvantagens	 mais	 persistentes	 em	 toda
diplomacia	 por	 conferência	 é	 essa	 dificuldade	 humana	 em	 se	 manter
desagradável	 com	 a	 mesma	 gente	 por	 muitos	 dias	 seguidos.
Inevitavelmente,	 se	 na	 segunda-feira	 você	 se	 recusou	 terminantemente	 a
concordar	com	um	assunto,	contrariando	a	opinião	de	uma	maioria,	 seria
extremamente	 desagradável	 continuar	 obstinado	 na	 terça-feira,	 quando
uma	 questão	 totalmente	 diferente	 estiver	 sendo	 discutida.	 A	 tentação
muito	 humana	 de	 evitar	 posições	 antipáticas,	 de	 temperar	 as	 obstruções
com	as	aquiescências,	de	postergar	a	contestação	por	algum	tempo	até	que
possa	 ser	misturada	 à	 “água	 com	açúcar”	 da	 concordância	 ficaram	muito
evidentes	na	Conferência	de	Paris.
De	fato,	seria	possível	sustentar	que	o	fracasso	do	Presidente	Wilson	se
deveu	a	algo	mais	do	que	a	pressão	normal	da	rotineira	cortesia	humana:
ele	desagradava	reagindo	a	quase	tudo	que	seus	colegas	propunham.	Eles
bem	 sabiam	 como	 era	 doloroso	 para	 ele	 esse	 constante	 desacordo	 e,
inevitavelmente,	 aproveitavam	 para	 explorar	 a	 situação	 assim	 criada.	 É
interessante	refletir	sobre	o	que	aconteceria	com	o	Presidente	se	ele	fosse
(como	 era	 Mr	 Lansing)	 um	 homem	 realmente	 combativo.	 Inúmeros
problemas	do	Signor	Orlando	também	resultaram	de	seu	natural	desagrado
de	ser	antipático.	A	restrição	que	apresentava	ao	Ponto	Nove	dos	Quatorze
Pontos	 foi	 expressada	 lateralmente	 num	 resmungo,	 tal	 o	 desconforto	 do
Signor	 Orlando	 em	 incomodar	 todos	 aqueles	 encantadores	 amigos	 em
torno	da	mesa.	Mas	esse	infeliz	resmungo	quase	dividiu	a	Conferência	em
duas	 correntes.	 Talvez	 tenha	 sido	 justificável	 a	 impaciência	 do	 coronel
House	 ao	 anotar	 em	 seu	 diário:	 “Desperdiçou-se	 muito	 tempo	 da
Conferência	num	grotesco	esforço	de	não	desagradar.”
Esses	 floreios	 do	 comportamento	 humano,	 como	 já	 disse,	 são
inseparáveis	 de	 qualquer	 Conferência.	 Outras	 infelicidades	 houve,	 ainda
mais	concretas,	às	quais	a	Conferência	de	Paris	foi	particularmente	exposta.
Uma	foi	a	questão	dos	Tratados	Secretos	assinados	no	calor	da	batalha,	dos
quais	 os	 Estados	Unidos	 não	 tinham	participado,	 e	 dos	 quais,	 na	maioria
dos	 casos,	 tomaram	conhecimento	por	 acaso.	Houve	 também	o	problema
das	Potências	Menores,	 cujos	 representantes	 foram	 forçados	pela	opinião
pública	nacionalista	de	seus	países	a	adotar	uma	atitude	de	intransigência
bulhenta.	 Esses	 dois	 problemas	 serão	 discutidas	 mais	 adiante	 com
pormenores.	No	presente	 capítulo,	 falta	examinar	mais	duas	 infelicidades
que	 atrapalharam	 o	 trabalho	 da	 Conferência	 desde	 o	 início.	 A	 primeira
infelicidade	foi	a	presença	do	Presidente	Wilson.	A	segunda	foi	a	escolha	de
Paris	para	 sede	da	Conferência.	Ambas	as	 infelicidades	 foram	 inevitáveis,
considerando	que	seriam	necessárias	previsão	e	persistência	quase	sobre-
humanas	 primeiro	 para	 antever,	 depois	 para	 combater	 a	 forte	 ameaça
dessas	duas	decisões	iniciais.
A	 infelicidade	 do	 comparecimento	 pessoal	 do	 Presidente	 Wilson	 à
Conferência	 de	 Paris	 deve	 ser	 examinada	 por	 dois	 ângulos.	 A	 primeira
pergunta	 a	 responder	 é:	 “Por	 que	 ele	 veio?”	 A	 segunda	 pergunta	 a
responder	 é:	 “Por	 que,	 tendo	 decidido	 vir,	 compareceu	 pessoalmente	 às
reuniões?”
Devo	 repetir	 que	 extrapola	 o	 objetivo	 deste	 livro	 entrar	 em	 qualquer
maior	detalhe	em	assuntos	sobre	os	quais	não	tenho	impressão	direta.	Na
época,	 eu	 estava	 consciente,	 embora	 um	 pouco	 vagamente,	 das
desvantagens	 da	 participação	 do	 presidente	 no	 Conselho	 dos	 Dez	 e	 dos
Quatro.	 Posso	 ver,	 hoje,	 que	 muito	 da	 desmoralização,	 da	 “mudança	 de
ânimo”	 que	 nos	 afetou	 durante	 os	 meses	 de	 abril	 e	 maio	 se	 deveu	 a
constatarmos,	 quase	 em	 pânico,	 que	 o	 profeta	 da	 Casa	 Branca	 não	 só
desejava	apelar	para	o	fogo	do	céu,	mas	mostrava	idêntica	falta	de	vontade
de	 pedir	 relatórios	 a	 seus	 próprios	 especialistas.	 Paris	 era	 algo	 muito
diferente	 de	 Delfos,	 e,	 quando	 pressionado	 a	 se	 explicar,	 nosso	 Oráculo
terminava	por	revelar-se.	Não	há	exagero	em	atribuir	o	súbito	“declínio	do
idealismo”	 que	 tomou	 conta	 da	 Conferência	 em	 meados	 de	 março	 à
horrorizada	 suspeita	 de	 que	 o	 wilsonismo	 vazava	 sem	 controle,	 e	 que	 o
barco	no	qual	 todos	 tínhamos	entrado	 com	 tanta	 confiança	estava	 indo	a
pique.	 Nossos	 olhos	 deslocaram-se	 inquietos	 para	 o	 salva-vidas	 mais
próximo.	 O	 fim	 da	 Conferência	 transformou-se	 num	 sauve	 qui	 peut:
chamamos	busca	de	segurança,	mas	foi	quase	uma	briga	louca	para	chegar
aos	 botes,	 e	 quando	 os	 alcançávamos	 lá	 estavam	 confortavelmente
instalados	 nossos	 colegas	 da	 delegação	 italiana,	 que	 nos	 davam	 boas-
vindas.
A	comparação	não	é	sem	sentido.	Instintivamente	e	com	razão	sentíamos
que,	se	o	wilsonismo	se	destinava	a	moldar	a	organização	da	Nova	Europa,
devia	 ser	 aplicado	 universal,	 integral,	 obrigatória	 e	 cientificamente.
Partindo	 de	 uma	 América	 unida	 no	 apoio	 à	 doutrina	 wilsoniana	 inteira,
tivemos	 confiança	 em	 embarcar	 na	 viagem	 segura	 para	 as	 Ilhas	 dos
Abençoados.	 Só	 quando	 percebemos	 que	 recebíamos	 apenas	 a	 colcha	 de
retalhos	 do	 wilsonismo	 a	 ansiedade	 nos	 dominou.	 Essa	 ansiedade	 logo
triplicou,	tão	logo	ficou	claro	para	nós	que	para	sustentar	aquela	colcha	não
contaríamos	 com	 o	 apoio	 dos	 Estados	 Unidos.	 Tendo	 o	 Novo	 Mundo	 se
negado	 a	 responder	 ao	 clarim	 de	 seu	 próprio	 arauto,	 voltamo-nos	 em
pânico	para	o	equilíbrio	do	velho.	Foi	inevitável	retomar	o	terreno	familiar
da	Velha	Europa	que,	com	todos	seus	perigos,	pelo	menos	era	território	que
conhecíamos.
O	 colapso	 de	 Wilson	 significou	 o	 colapso	 da	 Conferência.	 É	 muito
provável	 que,	 se	 o	 presidente	 tivesse	 permanecido	 em	Washington,	 não
teria	 desabado.	 Sua	 presença	 em	 Paris	 constitui,	 portanto,	 um	 desastre
histórico	de	primeira	magnitude.
Há	 também	considerações	menores	de	que	 teria	 sido	mais	 conveniente
para	 todos	 se	 o	 Presidente	 Wilson	 não	 se	 instalasse	 na	 Villa	 Murat.	 Em
primeiro	 lugar,	 ele	 seria	 compelido,	 permanecendo	 em	 Washington,	 a
fornecer	 a	 seus	 plenipotenciários	 instruções	 escritas,	 que	 teriam
proporcionado	 à	 Conferência	 base	 sólida	 sobre	 a	 qual	 evoluir.	 Como
veremos	no	próximo	capítulo,	a	falta	dessa	base	sólida	constituiu	uma	das
mais	sérias	dificuldades	práticas	de	toda	a	Conferência.	Em	segundo	lugar,
o	 presidente,	 mantendo	 contato	 com	 a	 opinião	 pública	 e	 o	 senado,	 teria
sido	capaz	de	guiar	essas	correntes	de	opinião	para	canais	construtivos,	ou
de	alertar	a	tempo	sua	delegação	que	o	povo	americano	absolutamente	não
estava	disposto	a	oferecer	à	Europa	novas	lâmpadas	em	troca	das	velhas.	E
em	 terceiro	 lugar,	 os	 Plenipotenciários	 dos	 Estados	 Unidos	 ganhariam
imensamente	em	suas	discussões	com	os	cérebros	mais	ágeis	da	Europa	se
pudessem	 adiar	 decisões	 dependentes	 de	 aprovação	 do	 Presidente,	 caso
este	tivesse	permanecido	em	seu	país.
Os	 americanos,	 com	 todas	 as	 suas	 grandes	 virtudes,	 são	 uma	 raça	 que
pensa	devagar,	e	foi	a	lentidão	do	processo	mental	do	Presidente	que	o	pôs
em	 posição	 desvantajosa	 em	 suas	 conversas	 com	 homens	 como
Clemenceau	 e	 Lloyd	 George.	 Foi	 inevitável	 que	 ele	 se	 sentisse
desconfortável	 sempreque,	 em	cada	questão	e	a	 cada	oportunidade,	 teve
de	pedir	que	algo	fosse	repetido	mais	devagar,	ou	confessar	que	não	tinha
acompanhado	 a	 rápida	 evolução	 da	 conversa.	 Essa	 sensação	 de	 estar
sempre	um	pouco	atrás	dos	outros	afetou	a	confiança	e	os	nervos	de	todos
os	 negociadores	 americanos.	 Teriam	 sido	 valiosos	 para	 eles	 uma	 pausa
legítima	nos	trabalhos	e	um	tempo	para	respirarem,	insistindo	que	tinham
de	 ouvir	Washington.	Não	 ganhariam	 apenas	 tempo.	 Também	 teriam	um
álibi.	 Já	 assinalei	 como,	 em	 todos	 os	 debates	 entre	 pessoas	 civilizadas,	 é
importante	o	fator	da	polidez	humana	comum.	Teria	sido	muito	mais	fácil
para	os	plenipotenciários	 americanos	 jogar	 o	 ônus	da	 constante	 recusa	 e
obstrução	 nos	 ombros	 de	 um	 potentado	 ausente.	 O	 próprio	 Presidente,
durante	 toda	 a	 Conferência,	 recusou-se	 a	 usar	 um	 álibi,	 embora	 fosse
cabível	 e	 mesmo	 útil	 se,	 em	 determinadas	 situações,	 tivesse	 retido	 o
anúncio	de	sua	decisão	até	consultar	o	Comitê	do	Senado.	Mr	Lloyd	George,
quando	 se	 via	 diante	 de	 algum	 dilema	 a	 requerer	 tempo,	 sempre	 se
mostrava	 agudamente	 sensível	 às	 opiniões	 da	 Delegação	 do	 Império
Britânico	e	até	mesmo	da	Câmara	dos	Comuns.	O	Presidente	não	se	vergava
a	usar	tal	pseudônimo,	a	tais	álibis.	Contra	ele	mesmo	não	havia	apelação.
Ficava	ali,	sentado	naquele	aposento	pequeno	e	abafado,	ele,	o	porta-voz	do
Soberano	Povo	Americano.	Não	havia	alternativa	a	si	mesmo,	nem	fuga	de
si	mesmo,	nem	qualquer	pretexto	para	sua	necessidade	de	momentos	para
reflexão	 silenciosa.	 Somente	 ele	 entre	 aqueles	 quatro	 personagens
dispunha	da	arma	da	decisão	imediata.	Uma	arma	terrivelmente	letal.
Muito	já	disse	para	indicar	que	a	presença	do	Presidente	Wilson	em	Paris
foi	 uma	 séria	 infelicidade.	 Resta	 comentar	 como	 essa	 infelicidade	 surgiu.
Não	é	explicação	suficiente	atribuir	ao	Presidente	Wilson	falhas	de	caráter
que	o	 impediam	de	olhar	 sua	própria	personalidade	com	distanciamento.
Sua	 decisão	 não	 era	 só	 errada:	 era	 também	 deliberada,	 até	 mesmo
obstinada.	Do	ponto	de	vista	 constitucional,	 a	presença	do	Presidente	em
Paris	desacompanhado	de	um	devido	Comitê	do	Senado	era,	 pelo	menos,
questionável.	 Mr	 Lansing	 e	 o	 coronel	 House	 revelaram	 a	 grande
preocupação	 com	 que	 encaravam	 essa	 decisão.	 House	 atribui	 a
determinação	 do	 presidente	 à	 sua	 convicção	 de	 que	 se	 considerava	 o
mediador	 indicado	 para	 as	 negociações	 face	 a	 face.	 Em	 12	 de	 novembro,
Lansing,	 o	 secretário	 de	 Estado,	 implorou	 ao	 Presidente	 que	 não	 fosse	 a
Paris.	 Este	 “mudou	o	 rumo	da	 conversa	para	outros	 assuntos.”	 Em	18	de
novembro,	 o	 Presidente,	 novamente	 sem	 consultar	 seu	 secretário	 de
Estado,	 distribuiu	 à	 imprensa	 uma	 declaração	 de	 que	 compareceria
pessoalmente	 à	 Conferência.	 “Estou	 convencido,”	 anotou	 Mr	 Lansing	 em
seu	 diário,	 “de	 que	 ele	 está	 cometendo	 um	 dos	 maiores	 erros	 de	 sua
carreira	e	vai	pôr	em	risco	sua	reputação.”	Foi	esse	desentendimento	que
desde	 o	 começo	 estremeceu	 as	 relações	 entre	 o	 Presidente	Wilson	 e	Mr
Lansing.
O	coronel	House	também	se	empenhou,	sem	dúvida	com	mais	tato	do	que
o	 sempre	 franco	 Mr	 Lansing,	 para	 dissuadir	 seu	 amigo	 de	 embarcar	 em
aventura	 tão	 incerta.	 Suas	 exortações	 foram	 inúteis.	 O	 Presidente	 se
aborreceu	 com	 sua	 tentativa	 de	 desencorajá-lo.	 “Ele	 via	 Paris,”	 lembra	 o
coronel	House,	“como	uma	festa	de	intelectuais.”	Poucas	vezes	a	antevisão
de	 um	 acontecimento	 se	 revelou	 tão	 falsa.	 Acrescenta	 o	 coronel	 House,
“quando	 ele	 desceu	 de	 seu	 imponente	 pedestal	 para	 debater	 com	 os
representantes	de	outros	estados	em	termos	de	igualdade,	se	transformou
em	barro	comum.”	E	mais:	“uma	sensação	de	desamparo	baixou	sobre	ele.”
Não	se	pode	presumir,	além	do	mais,	que	a	decisão	do	Presidente	tenha
resultado	de	pressões	da	 Inglaterra	ou	da	França.	Mr	Lloyd	George	desde
então	 confessou	 que	 ficou	 “espantado”	 quando	 teve	 notícia	 de	 que	 o
Presidente	 decidira	 comparecer	 pessoalmente.	 M	 Clemenceau	 ficou	mais
do	 que	 espantado,	 ficou	 terrivelmente	 alarmado.	 Alarmado	 com	 a
possibilidade	 de	 Poincaré	 argumentar	 que	 a	 presença	 do	 Presidente	 dos
Estados	Unidos	em	Paris	obrigava	a	que	o	Chairman	da	Conferência	 fosse
não	o	primeiro-ministro	francês,	mas	o	Presidente	da	República	Francesa.
Não	 tendo	 conseguido	 reter	 o	 presidente	 em	Washington,	M	Clemenceau
dedicou	todos	os	seus	esforços	para	que	ele	se	mantivesse	num	santuário
em	Villa	Murat.	Ainda	não	se	sabe	exatamente	por	que	estágios	e	por	quem
o	Presidente	foi	persuadido	a	deixar	sua	reclusão	e	entrar	pessoalmente	na
arena	das	discussões.
Mr	Lansing	sustenta,	mas	sem	apresentar	nenhuma	prova,	que	Mr	Wilson
era	 avesso	 a	 comparecer	 às	 negociações	 como	 delegado	 e	 que	 foi
convencido	 a	 fazê-lo	 por	 Mr	 Lloyd	 George.	 De	 fato	 é	 possível	 que	 este,
achando	que,	uma	vez	que	o	Presidente	já	cometera	o	erro	inicial	de	deixar
Washington,	 seria	 preferível	 que,	 além	 de	 sofrer	 as	 desvantagens,
desfrutasse	 os	 benefícios	 de	 sua	 presença	 em	 Paris.	 Também	 é	 provável
que	 Mr	Wilson	 estivesse	 convencido	 de	 que	 somente	 ele	 seria	 capaz	 de
impor	a	uma	Europa	reacionária	a	brilhante	 inovação	de	um	Covenant	da
Liga	 das	 Nações.	 Quanto	 a	 M	 Clemenceau,	 tão	 logo	 recebeu	 do	 coronel
House	 a	 garantia	 de	 que	 não	 se	 cogitaria	 retirá-lo	 de	 Chairman	 da
Conferência,	 passou	 a	 querer	 que	 o	 Presidente	 tomasse	 seu	 lugar	 como
delegado	entre	os	demais.	Correria	o	risco.
Foi	 uma	 decisão	 realmente	 infeliz.	 Nas	 manifestações	 exteriores,	 é
verdade,	 o	 Presidente	 Wilson	 era	 tratado	 com	 uma	 deferência	 não
dispensada	 aos	 primeiros-ministros	 com	 os	 quais	 tinha	 de	 competir.	 Seu
segurança	 podia	 ficar	 na	 antessala	 do	 Quai	 d’Orsay,	 enquanto	 os	 dos
demais	representantes	eram	obrigados	a	permanecer	do	lado	de	fora,	com
os	 motoristas.	 Em	 especial,	 à	 chegada	 do	 presidente,	 M	 Pichon	 saía
apressado	porta	afora	e	descia	agitado	os	degraus	que	conduziam	à	porta
de	entrada.	O	presidente	(“Boa	tarrrrde,”	nos	cumprimentava,	quando	nos
levantávamos	à	sua	chegada.	“Boa	tarrrde,	gentlemen”)	era	conduzido	até
seu	 lugar	 no	 gabinete	 de	 Monsieur	 Pichon	 pelo	 próprio	 M	 Pinchon.	 Mr
Lloyd	George,	por	outro	 lado,	entrava	 jovialmente	naquele	salão	aquecido
na	companhia	de	Sir	Maurice	Hankey.	Aí	cessavam	as	deferências.	Dentro
daquelas	 paredes	 altas	 e	 calorosas,	 ao	 pé	 daquelas	 tapeçarias	 vistosas	 e
alegres	 penduradas	 nas	 paredes,	 Mr	 Wilson	 não	 passava	 de
plenipotenciário	dos	Estados	Unidos.	E	não	era	um	bom	plenipotenciário.
Inicialmente,	 esperou-se	 que	 a	 Conferência	 se	 realizasse	 em	 alguma
cidade	neutra	como	Genebra	ou	Lausanne.	Tanto	Mr	Lloyd	George	quanto	o
coronel	 House	 eram	 decididamente	 a	 favor	 da	 Suíça.	 Mas	 o	 Presidente
Wilson	 inclinou-se	 ao	 ponto	 de	 vista	 de	 que	 o	 Lago	 de	 Genebra	 estava
“saturado	de	elementos	venenosos	e	aberto	a	toda	influência	hostil.”	Não	se
sabe	 bem	 de	 que	 fontes	 ele	 adquiriu	 essa	 impressão	 desfavorável	 sobre
aquele	 enevoado	 litoral.	 Bruxelas	 também	 pareceu	 aos	 organizadores	 da
Conferência	propícia	à	exaustão	nervosa.	Haia	foi	igualmente	sugerida,	mas
também	 considerada	 inconveniente.	 Como	 símbolo	 de	 uma	 nova	 ordem,
Haia,	 apesar	 do	 Palácio	 da	 Paz,	 não	 era	 particularmente	 estimulante.	 E
havia	 a	 questão	 do	 ex-Kaiser	 em	 Amerongen,	 proximidade	 não	 muito
prazerosa	 e,	 por	 fim,	 o	 fato	 de	 ser	 na	Holanda.	 Em	 relação	 a	 Londres,	 os
plenipotenciários	 dos	 governos	 continentais,	 transatlânticos	 e,	 acima	 de
todos,	britânicos	e	dos	Domínios,	não	mostraram	inclinação.	Desse	modo,	a
escolha	inevitavelmente,	recaiu	em	Paris.
Ao	 escolher	 aquela	 capital	 da	 neurose	 de	 guerra,	 os	 governantes
mundiais	 cometeram	 um	 grave	 erro	 inicial.	 Como	 era	 erro	 inevitável,
chamo-o	de	 infelicidade.	Mas	Paris,sob	quaisquer	circunstâncias,	é	muito
voltada	 para	 si,	 muito	 insistente	 para	 ser	 uma	 sede	 compatível	 com
qualquer	 Congresso	 de	 Paz.	 Já	 em	 1814,	 Lord	 Castlereagh	 notara	 essa
incompatibilidade.	“Paris,”	escreveu	ele	a	Bathurst,	“era	um	mau	lugar	para
negócios.”	 Esse	 defeito,	 em	 1919,	 ficou	 bem	 marcado.	 “Éramos
dificultados,”	assinala	o	Dr	Charles	Seymour	naquela	admirável	compilação
The	 Intimate	 Papers	 of	 Colonel	 House,	 “pela	 atmosfera	 reinante	 em	 Paris,
onde	a	 culpa	alemã	era	 considerada	 fato	 comprovado.	Todo	mundo	 tinha
medo	de	ser	chamado	de	pró-Alemanha.”	Inconscientemente,	a	neurose	de
guerra	 em	Paris	 afetou	os	nervos	de	 todos	os	delegados.	 “Paris,”	 assinala
Mr	Keynes,	 “foi	um	pesadelo	e	 todos	tinham	um	ar	mórbido.”	Seu	porte	e
suas	muitas	diversões	por	si	só	conspiravam	contra	a	necessidade	de	filtrar
e	organizar	toda	aquela	torrente	de	conhecimento	e	opinião.	Sentíamo-nos
como	 cirurgiões	 operando	 no	 salão	 de	 baile	 com	 as	 tias	 dos	 pacientes
reunidas	à	nossa	volta.
Mesmo	para	os	que	alegavam	o	privilégio	de	compreender	Paris,	aquela
melancólica	 e	 dominadora	 capital,	 durante	 aquelas	 semanas	 bárbaras,
pareceu	ter	perdido	sua	dignidade.
A	 imanente	 seriedade	 que	 cerca	 o	 Institut;	 a	 seriedade	 inquieta	 que
alvoroça	as	bancas	de	livros	do	Odeon;	a	tradicional	seriedade	que	ressoa
nas	calçadas	tranquilas	da	Rue	de	Lille;	a	seriedade	familiar	que	emana	das
pequeninas	 casas	de	Passy	ou	de	Auteuil;	 a	 seriedade	 física	que	 lateja	de
Ménilmontant	 a	 Clichy;	 a	 seriedade	 intelectual	 (aquele	 vulto	 oculto	 no
gesto	do	 braço	 estendido	buscando	um	 livro	no	 alto	 da	 estante)	 por	 trás
daquela	 miríade	 de	 balcões;	 a	 seriedade	 moral	 subjacente	 a	 toda	 sua
iridescência;	 a	 seriedade	 histórica	 que,	 sem	 se	 fazer	 notar,	 acompanha
vigilante	a	passagem	inquieta	das	águas;	tudo	isto	concentrado	no	brilho	de
uma	limusine	reluzente	refletida	nos	giros	da	porta	de	um	hotel.
Paris,	retalhada	até	o	fundo	da	alma,	recolheu-se	para	lamber	as	feridas.
Seu	 lugar	 foi	ocupado	pela	Compagnie	des	Grands	Express	Européens	ou,
mais	 precisamente,	 pela	 American	 Express	 Company.	 A	 polícia	 militar
americana	 ficou	 lado	 a	 lado	 com	 os	 policiais	 nos	 Champs	 Elysées.	 Os
uniformes	 de	 vinte	 e	 seis	 exércitos	 estrangeiros	 confundiram	 a
monocromia	 das	 ruas.	 Durante	 aquelas	 poucas	 semanas,	 Paris	 ficou	 sem
alma.	 Seu	 espírito,	 aquela	 realização	 suprema	 da	 civilização	 ocidental,
esteve	ausente.	Os	nervos	de	Paris	altercavam	no	ar.
Os	franceses	reagiram	a	essa	barbarização	de	seu	foyer	da	maneira	mais
inábil.	 Praticamente	 desde	 os	 primeiros	 dias	 se	 voltaram	 contra	 os
americanos	com	amargo	ressentimento.	O	clamor	constante	de	seus	jornais
e	a	estridência	dos	ataques	pessoais	cresceram	em	volume.	A	 inépcia	dos
jornais	publicados	em	Paris	no	idioma	inglês	poucas	vezes	foi	superada.	O
efeito	cumulativo	dessa	gritaria	do	lado	de	fora	das	portas	da	Conferência
produziu	um	efeito	nervoso,	 e	 como	 tal,	 nocivo.	Nossas	mesas	do	 café	da
manhã	tornaram-se	um	coro	de	manifestações	exaltadas.
O	 próprio	 Presidente	 foi	 estranhamente	 afetado	 por	 essas	 formas	 de
animosidade.	 Não	 se	 importou	 muito	 quando	 foi	 taxado	 de	 teocrata,
quando	 foi	 injuriado	 por	 não	 visitar	 as	 áreas	 devastadas,	 ou	 quando	 foi
abertamente	 acusado	 de	 ser	 pró-Alemanha	 ou	 um	 profeta	 obcecado	 por
suas	Utopias.	Sozinho	com	Deus	e	o	Povo,	 conseguia	suportar,	quase	sem
pestanejar,	 esses	 ataques.	 O	 que	 o	 incomodava	 eram	 as	 pequenas	 piadas
que	 os	 jornais	 franceses	 faziam	 sobre	 sua	 pessoa,	 com	 a	 permanente
nuvem,	não	de	incenso,	mas	de	ridículo	com	que	coloriam	sua	caminhada.
Cada	 incidente	 (e	 houve	muitos)	 era	 usado	 pela	 imprensa	 francesa	 para
expor	o	Presidente	ao	ridículo.	Para	um	presbiteriano,	a	perseguição	é	uma
coroa	de	glória	e	a	adversidade	é	uma	oportunidade	oferecida	por	Deus.	É	o
silêncio	de	um	sorriso	constante	que	o	leva	ao	desespero.	Mr	Wilson	sofria
mais	 intensamente	 sob	 as	 alegres	 sátiras	 que	 Paris	 lhe	 lançava.	 Essa
sobrecarga	 a	 suas	 muitas	 preocupações,	 essas	 labaredas	 brilhantes	 e
cortantes	 alimentando	 a	 chama	 de	 seu	 desespero	 não	 podem	 ser
subestimadas	 como	 fatores	 de	 seu	 colapso	 final.	 O	 Presidente	 chegara	 a
Paris	 dispondo	 de	 um	 poder	 que	 nenhum	 homem	 jamais	 possuíra	 na
história.	 Chegara	 inflamado	 por	 nobres	 ideais	 como	 jamais	 se	 vira	 um
autocrata	 no	 passado.	 E	 Paris,	 em	 vez	 de	 vê-lo	 como	 a	 personificação	 do
rei-filósofo,	 nele	 viu	 muito	 mais:	 um	 professor	 ridículo	 e	 extremamente
irritante.	 O	 efeito	 acumulado	 dessas	 pequenas	 mas	 penetrantes
aguilhoadas	foi	muito	maior	do	que	se	supõe.
A	escolha	de	Paris,	portanto,	se	transformou	em	uma	das	mais	potentes
de	nossas	infelicidades.	Mas	nenhuma	das	que	acabo	de	analisar	teria	sido
fator	decisivo	na	situação	se	não	fosse	alimentada	e	cristalizada	por	nossos
erros.
No	próximo	capítulo	proponho-me	a	examinar	os	erros	de	organização	e
método	que,	desde	o	início,	condenaram	a	conferência,	comparativamente,
a	um	fracasso.
4	
Erros
NA	COLEÇÃO	DE	 “MANUAIS	 PARA	 A	 CONFERÊNCIA	 DE	 PAZ”	 que	nos	 tinham	sido	distribuídos
pelo	Foreign	Office	havia	um	escrito	por	Sir	Ernest	Satow	versando	sobre
“Congressos	 Internacionais.”	 Nessa	 admirável	 monografia,	 a	 maior
autoridade	viva	em	questões	de	prática	diplomática	sintetizou	para	nós	os
métodos	 e	 procedimentos	 adotados	 em	 congressos	 passados	 e	 chamou
nossa	 atenção	 para	 os	 erros	 de	 organização	 cometidos.	 Seu	 livrinho	 foi
estudado	a	fundo	pelos	membros	mais	moços	da	Delegação	Inglesa,	que	em
seguida	os	cederam	a	seus	colegas	americanos	que,	por	sua	vez,	também	o
leram	 com	 interesse	 e	 respeito.	 Pode-se	 perguntar	 se	 foram	 lidos	 com	 a
mesma	 aplicação	 pelos	 próprios	 Plenipotenciários.	 Poderia	 ter	 sido	 útil,
por	exemplo,	se	os	que	dirigiam	a	política	inglesa,	antes	de	deixar	Londres,
tivessem	lido	aquelas	passagens	 incisivas	em	que	Sir	Ernest	Satow	frisa	a
necessidade	de	 (a)	 uma	prévia	 concordância	 a	 respeito	 dos	 objetivos	 em
vista	e	(b)	um	programa	definido	e	inflexível.
“Um	 Congresso	 ou	 Conferência,”escreveu	 Sir	 Ernst	 Satow,	 “é	 em	 geral
precedido	 pela	 conclusão	 de	 preliminares	 de	 paz	 entre	 as	 partes
beligerantes	 (...)	 Começar	 um	 congresso	 ou	 uma	 conferência	 sem	 tais
preparativos	 é	 um	 caminho	 perigoso,	 pois	 pode	 vir	 a	 provocar	 divisões
entre	aliados	de	um	ou	outro	 lado	(...)	É	de	se	esperar	um	programa	bem
definido	 de	 assuntos	 a	 serem	discutidos	 entre	 os	 plenipotenciários.	Deve
haver	 absoluta	 concordância	 com	 este	 programa,	 e,	 se	 for	 apresentada
alguma	 proposta	 para	 introduzir	 outras	 questões,	 ela	 precisa	 ser
cuidadosamente	avaliada	antes	de	ser	aceita.”
“A	 experiência	 demonstra	 que,	 a	 fim	 de	 assegurar	 o	 êxito	 de	 um
Congresso	 ou	 Conferência,	 deve	 haver	 prévia	 concordância	 em	 torno	 das
bases	em	que	se	fundamentará	o	evento,	e	quanto	maior	a	clareza	com	que
os	pontos	principais	dessa	base	forem	definidos,	maior	a	probabilidade	de
um	 acordo	 geral.	 Na	 história,	 quando	 Congressos	 fracassam	 em	 chegar	 a
um	 resultado	 definido,	 a	 falha	 geralmente	 se	 deve	 à	 má	 preparação	 do
terreno.”
M	 André	 Tardieu,	 em	 seu	 livro	 The	 Truth	 about	 the	 Peace	 Treaty,
reconhece	que	a	falha	na	coordenação	de	alguma	base	preparatória	para	a
política	a	ser	seguida	está	na	raiz	dos	métodos	incertos	adotados	nas	fases
iniciais	 da	 Conferência,	 dos	 atrasos	 que	 se	 seguiram	 e	 dos	 apressados
acertos	 de	março	 e	 abril.	 Ele	 sustenta	 que	 essa	 omissão	 se	 deveu	 a	 dois
fatores.	Alega,	 em	primeiro	 lugar,	 que	 foi	difícil	manter	uma	 frente	unida
quanto	aos	objetivos	da	guerra	e	que	esta	dificuldade	teria	sido	seriamente
agravada	se	fosse	inserida	uma	discussão	sobre	a	eventual	política	final	de
paz	 numa	 negociação	 tão	 delicada,	 envolvendointeresses	 e	 orgulho
nacionais.	De	certa	forma,	este	argumento	faz	sentido.
Em	segundo	lugar,	ele	diz	que,	depois	do	armistício,	chegou	a	haver	uma
tentativa	de	coordenação	durante	a	visita	de	M	Clemenceau	a	Londres,	em
2	 e	 3	 de	 dezembro	 de	 1918.	 Esta	 afirmação	 é	 falaz.	 As	 discussões	 em
Londres	abordaram	apenas	quatro	pontos,	nenhum	deles	contribuindo	em
dose	digna	 de	 nota	 para	 aperfeiçoar	 o	 funcionamento	 da	 Conferência	 em
vista.	 Houve	 concordância	 em	 que	 fosse	 imediatamente	 organizado	 um
Comitê	para	 avaliar	 a	 capacidade	de	pagamento	pela	Alemanha.	Também
foi	 acertado	 que	 o	 ex-Kaiser	 devia	 ser	 julgado	 por	 um	 tribunal
internacional,	 e	 que	 os	 representantes	 dos	 Domínios	 britânicos	 deviam
estar	 presentes	 à	 conferência	 sempre	 que	 se	 discutissem	 seus	 interesses
específicos.	 Concordou-se	 ainda	 que	 um	 Comitê	 seria	 encarregado	 do
exame	da	questão	de	suprimentos	e	ajuda.
Por	conseguinte,	não	se	pode	dizer	que	as	conversas	em	Londres,	em	2	e
3	de	dezembro,	em	algum	momento	trataram	do	estabelecimento	de	“base
ou	de	bases”	para	o	funcionamento	do	Congresso	que	se	aproximava.
Poder-se-ia	alegar,	com	razão	ainda	maior,	que	na	verdade	essa	base	fora
proporcionada	 pelos	 Pontos,	 Princípios	 e	 Detalhes	 enunciados	 pelo
Presidente	Wilson	 e	 aceitos	 por	 todos	 os	 beligerantes	 como	 base	 para	 a
redação	 dos	 pormenores	 do	 texto.	 Realmente	 era	 essa	 a	 impressão	 que
tínhamos	na	ocasião.	Mas	era	correta?	Temo	que	não.
Do	ângulo	da	técnica	diplomática,	é	importante	examinar	o	quanto	esses
princípios	 realmente	 se	 constituíram	em	base	para	 a	negociação	entre	 as
diversas	partes	envolvidas.	Esse	exame	aponta	uma	anomalia	muito	séria.
Enquanto	 em	 teoria	 essas	 bases	 eram	 aceitas	 como	 o	 “pacto	 de
contrahendo”	para	uma	negociação	entre	dois	grupos	de	beligerantes,	não
eram	 (mesmo	 quando	 acrescentamos	 a	 interpretação	 do	 coronel	 House)
acatadas	 sem	 reservas	 como	 base	 consensual	 de	 negociação	 entre	 as
Potências	 Aliadas	 e	 Associadas.	 M	 Clemenceau,	 por	 exemplo,	 desde	 o
começo	 alimentava	 no	 íntimo	 certas	 preocupações	 com	 relação	 à
“segurança”	 da	 França.	 Tais	 inquietações,	 na	medida	 em	 que	 implicavam
alguma	 separação	 da	 Renânia	 da	 Alemanha,	 alguma	 proibição	 à
autodeterminação	 da	 Áustria,	 alguma	 intenção	 de	 obter	 pelo	 menos	 os
recursos	econômicos	da	bacia	do	Sarre	–	 ficavam	em	 franca	oposição	aos
princípios	 que,	 no	 pertinente	 a	 nossos	 antigos	 inimigos	 e	 também	 aos
Estados	Unidos,	ele	aceitara	com	entusiasmo.
Também	 Mr	 Lloyd	 George	 desde	 o	 começo	 alimentou	 dúvidas	 que	 se
aplicavam	não	somente	à	importância	que	de	público	ele	atribuía	à	questão
dos	 direitos	 marítimos,	 mas	 igualmente	 às	 inesperadas,	 mas	 certamente
previstas,	 dificuldades	 em	 assuntos	 como	 o	 custo	 da	 guerra	 e	 a	 alocação
das	colônias	alemãs	à	Austrália	e	à	União	da	África	do	Sul.
O	 Signor	 Orlando,	 volto	 a	 dizer,	 a	 despeito	 de	 sua	 ponderação
resmungada,	devia	saber	muito	bem	que	a	fronteira	no	Brenner,	para	não
falar	 dos	 enclaves	 no	 Adriático,	 não	 podia	 ser	 –	 e	 jamais	 seria	 –
apresentada	como	atendimento	da	pretensão	italiana	de	ter	suas	fronteiras
fixadas	segundo	o	critério	da	“nacionalidade	claramente	reconhecida.”
Assim,	cada	protagonista	compareceu	à	conferência	com	a	nítida	(ou	que
deveria	ter	sido	‘nítida’)	percepção	de	que	seus	propósitos	não	estavam	em
completa	harmonia	 com	as	posições	que	assumiam.	Até	 certo	ponto,	 esta
elasticidade	de	propósitos	é	 inerente	a	qualquer	Congresso	 internacional.
Porém,	 em	 Paris,	 o	 abismo	 entre	 o	 proclamado	 e	 a	 intenção	 real	 dos
participantes	 foi	 muito	 largo,	 dificultando	 uma	 “base	 consensual	 de
acordo.”
Não	é	minha	intenção	entrar	em	considerações	éticas	ou	repartir	culpas
ou	 elogios.	 Tudo	 que	 afirmo	 é	 que	 certos	 fatores	 atuaram	 de	 forma
totalmente	inevitável.	As	observações	que	hoje	faço	não	estão	voltadas	para
o	 que	 devia	 ter	 acontecido	 e	 muito	 menos	 para	 o	 que	 não	 devia	 ter
acontecido.	Descrevo	o	que	foi,	na	verdade,	não	uma	Conferência,	mas	uma
doença	muito	 grave.	 Trato	 apenas	 de	 registrar	 sintomas	 e	 de	marcar	 um
gráfico	da	febre.	A	discrepância	que	assinalei	é	vital	para	o	meu	argumento.
Vou	botá-la	doutra	forma.
A	 Conferência	 foi	 representada,	 em	 especial	 pelos	 propagandistas
americanos	do	tipo	de	Mr	Ray	Stannard	Baker,	como	um	conflito	entre	as
“Potências	da	Luz”	(representadas	pelo	Presidente	Wilson)	e	as	“Potências
das	 Trevas”	 (representadas	 por	 Clemenceau).	 Tal	 dramatização	 simplista
da	 questão	 está	 longe	 de	 ser	 legítima.	 No	meu	 entendimento,	 também	 é
irrelevante	o	confronto	visto	por	Mr	Keynes	entre	uma	paz	Cartaginesa	e
uma	paz	Wilsoniana.	Nada	–	nem	mesmo	seus	contrastes	e	confrontos	–	era
nítido	em	Paris.	O	acontecimento	 todo,	como	observou	Mr	Balfour,	afinal,
não	passou	de	um	“negócio	áspero	e	confuso.”
Também	desencaminha,	embora	seja	bem	mais	inteligente,	o	argumento
oposto,	 que	 vê	 a	 Conferência	 não	 como	um	 conflito	 entre	 dois	 princípios
que	se	excluíam,	mas	como	um	ajuste	de	complexos	pormenores	práticos.
Reconheço	 que	 esta	 última	 interpretação	 realmente	 descreve	 bem	 o
funcionamento	 do	 mecanismo	 da	 conferência.	 Descreve	 o	 que	 foi	 a
Conferência,	e	não	como	ela	deveria	ter	sido	ou	como	queríamos	que	fosse.
Nesse	sentido,	é	mais	uma	crítica	do	que	uma	exposição.	Estudiosos	que	no
futuro	 analisarem	 essa	 linha	 de	 crítica	 se	 satisfarão	 ponderando	 que	 (se
forem	versados	em	economia)	não	farão	os	mesmos	erros	que	cometemos
em	1919.	É	por	esta	 razão	que	encaro	esse	argumento	como	um	registro
quase	 igualmente	 inútil	 da	 ininterrupta	 interação	 entre	 os	 vetores	 de
esperança	e	exaustão,	de	sabedoria	e	conveniência,	de	imensas	exigências
étnicas	e	minúsculas	preocupações	pessoais,	de	conhecimento	e	ignorância,
de	justiça	e	vingança,	de	poder	e	covardia,	de	razão	e	emoção,	de	imediato	e
final,	 de	 passado	 e	 futuro,	 de	 conveniente	 e	 desejável,	 de	 exequível	 e
impraticável,	 de	 popular	 e	 técnico	 –	 a	 interação	 que	 decorre	 menos	 do
conflito	que	do	entendimento	e	da	motivação;	menos	de	uma	luta	do	que	de
um	 enfado;	 a	 interação	 que,	 à	 medida	 que	 as	 semanas	 se	 passaram,
envolveu	 a	 Conferência	 num	 manto	 de	 fadiga,	 indisposição,	 suspeita	 e
desespero.
Permitam-me	 fornecer,	 como	 exemplo	 dessa	 crítica,	 a	 excelente
passagem	do	volume	IV	da	edição	dos	Papéis	do	Coronel	House	feita	pelo	Dr
Charles	Seymour:
	
“Vários	historiadores,	especialmente	aqueles	que	escrevem	de	um	ponto	de	vista	americano,
têm	 apresentado	 a	 Conferência	 de	 Paz	 como	 se	 fosse	 um	 conflito	 nítido	 entre	 dois	 ideais,
personificados,	por	um	lado,	por	Clemenceau	e,	por	outro,	por	Wilson;	um	conflito	entre	o	mal
do	antigo	sistema	diplomático	e	a	virtude	do	novo	idealismo	mundial.	Esse	quadro	atrai	os	que
não	 compreendem	a	 complexidade	 da	 verdade	 histórica.	Na	 realidade,	 a	 Conferência	 de	 Paz
não	 foi	 assim	 tão	 simples.	 Não	 foi	 tanto	 um	 duelo	 quanto	 foi	 uma	melée	 geral	 em	 que	 os
representantes	de	cada	nação	brigavam	para	conseguir	apoio	a	seus	métodos	particulares	de
garantir	 a	 paz.	 O	 objetivo	 de	 todos	 era	 o	 mesmo	 –	 evitar	 a	 repetição	 dos	 quatro	 anos	 de
devastação	 mundial.	 Os	 métodos	 logicamente	 eram	 diferentes,	 uma	 vez	 que	 cada	 um
enfrentava	um	conjunto	diferente	de	problemas.
Inevitavelmente	 cada	 nação	 apresentava	 uma	 solução	 com	 as	 cores	 de	 seus	 interesses.	 De
certo	modo,	 isto	 foi	verdadeiro	para	os	Estados	Unidos,	bem	como	para	a	França,	a	 Itália	e	a
Inglaterra.	Nós	pouco	 sacrificamos	 ao	 anunciar	que	não	 tomaríamos	nenhum	 território	 (que
não	 queríamos),	 nem	 receberíamos	 reparações	 (que	 não	 podíamos	 cobrar).	 Nosso	 interesse
repousava	 inteiramente	 em	 assegurar	 um	 regime	 de	 tranquilidade	 mundial.	 Nossa	 posição
geográfica	era	tal	que	podíamos	advogar	o	desarmamento	ea	arbitragem	em	total	segurança.	O
idealismo	de	Wilson	coincidia	com	uma	saudável	Realpolitik.
Mas	os	métodos	americanos	não	se	ajustavam	tão	bem	aos	problemas	peculiares	de	nações
europeias,	 dominados	 como	 eram	 por	 fatores	 históricos	 e	 geográficos.	 Segundo	 o	 programa
americano,	nós	particularmente	abríamos	mão	de	coisas	quase	sem	valor,	mas	pedíamos	aos
países	 europeus	 que	 desistissem	 do	 que	 lhes	 parecia	 essencial	 à	 sua	 segurança.	 Podíamos
insistir	em	que	a	prevenção	mais	adequada	contra	a	guerra	repousava	no	desarmamento	e	na
reconciliação.	Os	franceses	retrucariam	que	ingleses	e	americanos,	protegidos	pelo	canal	e	pelo
Atlântico,	podiam	argumentar	dessa	forma,	mas	a	França	fora	invadida	vezes	demais	para	não
insistir	em	garantias	melhores	que	promessas	escritas.	Podíamos	insistir	que	era	bom	negócio
cancelar	indenizações	alemãs	como	débito	ruim.	Os	europeus	respondiam:	“Então	vamos	nós,
os	 atacados,	 ficar	 com	 todo	 o	 ônus	 e	 deixar	 o	 agressor	 escapar	 incólume?	 Não	 até	 que
esgotemos	todas	as	possibilidades	de	fazê-los	pagar.”
Mesmo	depois	de	concordarem	com	a	sensatez	das	propostas	americanas,	os	líderes	aliados
se	mantiveram	 cautelosos	 em	 aceitá-las,	 diante	 da	 força	 da	 opinião	 pública.	 Clemenceau	 foi
considerado	traidor	por	ter	se	recusado	a	destruir	a	Alemanha.	Se	tivesse	cedido	na	questão	da
ocupação	 da	 Renânia,	 teria	 sido	 derrubado	 do	 poder	 e	 substituído	 por	 um	 premier	 mais
inflexível.	Lloyd	George	reconheceu	que	a	avaliação	pública	da	capacidade	da	Alemanha	para
pagar	era	absurda,	mas	não	se	preocupou	em	dizer	isso	ao	eleitorado.	Orlando	teria	aceitado
com	satisfação	uma	solução	de	meio-termo	para	a	questão	do	Adriático,	mas	as	forças	políticas
na	 Itália	não	permitiram	que	o	 fizesse.	Os	primeiros-ministros	estavam	 longe	de	exercer	um
poder	supremo.	Ao	estimularem	o	sentimento	popular	durante	a	guerra,	medida	ortodoxa	em
tempos	de	beligerância,	tinham	criado	um	Frankenstein	que	agora	os	desamparava.	Podiam	se
ajustar,	se	tivessem	condições	para	tal,	mas	ceder	não	lhes	era	permitido.”
	
O	conceito	de	Mr	Stannard	Baker,	a	teoria	do	Dr	Charles	Seymour,	cada	um
representa	 um	 extremo	 da	 interpretação	 da	 dualidade	 de	 intenções	 com
que	os	principais	negociadores	chegaram	a	Paris.	O	primeiro	defende	que
os	propósitos	do	velho	e	do	novo	mundo	não	eram	meramente	diferentes,
eram	 na	 verdade	 antagônicos.	 O	 último	 tende	 a	 explicar	 que	 esses
propósitos,	 embora	 diferentes	 em	 grau,	 em	 sua	 natureza	 não	 eram
realmente	distintos.	Prefiro	a	linha	de	pensamento	do	Dr	Charles	Seymour
ao	enfoque	emocional	adotado	por	Mr	Stannard	Baker.	Todavia,	não	posso
deixar	de	admitir	que,	das	duas	concepções,	a	de	Mr	Baker	é	a	que	mais	se
aproxima	 da	 verdade.	 Em	 outras	 palavras,	 o	 fracasso	 da	 Conferência	 de
Paris	em	manter	vivos	os	ideais	defendidos	desde	sua	abertura	só	pode	ser
compreendido	se	partirmos	da	concepção	popular,	embora	não	totalmente
imprecisa,	de	que	realmente	existia	um	conflito	de	princípios;	de	que	esse
conflito	 nunca	 foi	 enfrentado	 diretamente,	 mas,	 ao	 contrário,	 foi
contornado	 por	 meio	 de	 todos	 os	 subterfúgios	 possíveis;	 e	 de	 que	 a
existência	 dessa	 divergência,	 constante	 mas	 nunca	 ostensiva,	 obrigou	 os
dirigentes	 mundiais	 a	 “tecer”	 (citando	 Mr	 Keynes),	 “aquela	 rede	 de
sofismas	 e	 exegeses	 jesuíticas	 que	 no	 fim	 revestiria	 de	 insinceridade	 a
linguagem	e	a	substância	de	todo	o	Tratado.”
Pode-se	questionar	se	a	divergência	inicial	de	propósitos	era	totalmente
inevitável	 e	 se	 poderia	 ser	 classificada	 na	 categoria	 “infelicidades”	 do
capítulo	anterior	e,	portanto,	não	ser	 transferida	para	o	presente	capítulo
dos	 “erros.”	 Concordo	 plenamente	 que	 em	 grande	 parte	 um	 conflito	 de
intenções	 foi	 inevitável.	 Os	 EUA,	 eternamente	 protegidos	 pelo	 Atlântico,
queriam	 satisfazer	 sua	 retidão	 e,	 ao	 mesmo	 tempo,	 se	 livrar	 da
responsabilidade.	 Estavam	 na	 posição	 muito	 ingrata	 de	 impedir	 outros
povos	de	 fazer	 o	que	desejavam,	 eles	próprios	 sem	disposição	para	 fazer
alguma	coisa.	A	França,	vitoriosa	em	circunstâncias	que,	sabia	muito	bem,
nunca	seriam	tão	favoráveis	novamente,	estava	firme	e	decidida	a	fazer	uso
desse	limitado	espaço	para	respirar	a	fim	de	criar	para	si	mesma	uma	zona
de	proteção	contra	o	dia	em	que	o	perigo	alemão	voltasse	a	se	manifestar
ameaçadoramente	 a	 leste.	 A	 Inglaterra,	 abalada	 e	 empobrecida,	 queria
reabastecer	 seus	 cofres	 arruinados	 e	 conservar	 as	 relações	 com	 seus
Domínios	em	uma	base	de	cooperação	amigável.	O	Japão	e	a	Itália	estavam
francamente	 a	 fim	 da	 pilhagem.	 Os	 Estados	 Menores	 só	 pensavam	 em
aumentar	seus	territórios	e	recursos	à	custa	de	seus	inimigos	derrotados.
Tais	intenções	podem	ter	sido	lamentáveis.	O	ponto	é	que	eram	de	todo
inevitáveis.	 Se	 M	 Clemenceau	 abandonasse	 seu	 esforço	 em	 ganhar	 a
Renânia	 e	 o	 Sarre;	 se	 insistisse	 para	 que	 poloneses,	 tchecos	 e	 romenos
reduzissem	suas	reivindicações	contra	a	Alemanha,	a	Áustria	e	a	Hungria	a
limites	 estritamente	 compatíveis	 com	 os	Quatorze	 Pontos;	 se	 não	 tivesse
tomado	providências	para	o	desarmamento	desproporcional	da	Alemanha
por	 um	 período	 que	 pelo	menos	 permitisse	 aos	 novos	 aliados	 da	 França
consolidarem	seu	poder	e	sua	independência;	se	M	Clemenceau	fizesse	ou
deixasse	 de	 fazer	 alguma	 dessas	 coisas,	 em	 poucos	 dias	 seria	 alijado	 do
poder,	e	seu	lugar	seria	ocupado	por	um	estadista	mais	sintonizado	com	o
clima	que	dominava	a	França.
Se	 Mr	 Lloyd	 George	 tivesse	 repudiado	 abertamente	 suas	 promessas
eleitorais;	 se	 tivesse	 cedido	 ao	 Presidente	 Wilson	 em	 assuntos	 como	 as
pensões	 de	 guerra	 e	 a	 frota	 comercial	 alemã;	 se,	 sobretudo,	 entrasse
abertamente	em	choque	com	a	Austrália	e	a	África	do	Sul	sobre	a	repartição
das	 colônias	 alemãs;	 se	 tivesse	 agido	 contra	 o	 Japão	 opondo-se	 a	 sua
reivindicação	 de	 Shantung;	 se	 também	 tivesse	 de	 enfrentar	 uma	 Câmara
dos	Comuns	hostil,	 teria	sido	substituído	por	um	estadista	de	visões	mais
nitidamente	revanchistas.
Se	 o	 Marquês	 Sauionji,	 ou	 o	 Signor	 Orlando,	 ou	 M	 Bratianu,	 ou	 M
Kramarsh,	ou	M	Pasic,	ou	M	Paderewsky,	ou	M	Venizelos	insistissem	numa
interpretação	 wilsoniana	 das	 exigências	 dos	 respectivos	 eleitorados,
imediatamente	teriam	sido	forçados	a	renunciar,	e	seus	postos	logo	seriam
ocupados	 por	 representantes	 mais	 em	 sintonia	 com	 os	 sentimentos
nacionais	de	seus	povos.
Este	fator	essencial	não	pode	ser	mencionado	com	muita	frequência.	Os
plenipotenciários	 das	 Potências	 Vitoriosas	 em	 Paris	 representavam	 uma
opinião	 pública	 bem	 informada	 e	 até	 mesmo	 esclarecida.	 Para	 eles,	 era
totalmente	 impossível	 contradizer	 flagrantemente	 essa	 opinião.	 Era
totalmente	 impossível,	 naqueles	 primeiros	 meses	 de	 1919,	 esboçar	 um
tratado	com	base	numa	transposição	literal	dos	Quatorze	Pontos.	Como	já
salientei,	 esta	 foi	 a	 infelicidade	 fundamental.	Mas	 não	 há	 nenhuma	 razão
importante	para	que	essa	infelicidade	pudesse	ter	sido	tratada	de	forma	a
também	 transformá-la	 em	 erro.	 O	 erro	 fundamental	 da	 Conferência	 foi
ninguém	possuir	visão	e	coragem	para	 lidar	com	as	 infelicidades	desde	o
início.
A	 questão	 deveria	 ter	 sido	 posta,	 em	 dezembro	 de	 1918,	 nos	 seguintes
termos:	 “Estamos	 na	 iminência	 de	 nos	 reunir	 em	 Paris	 para	 elaborar	 o
Tratado	de	Paz.	Assumimos	o	compromisso	de	que	os	termos	desse	tratado
estarão	de	acordo	com	os	quatorze	pontos.	 Sucede,	porém,	que	a	opinião
pública	não	nos	permitirá	 cumprir	 esse	 compromisso.	Portanto,	devemos
adiar	 o	 Tratado	 Final	 até	 que	 a	 opinião	 pública	 mostre	 mais	 sanidade.
Nossa	tarefa	imediata	é,	portanto,	montar	condições	de	uma	Paz	Preliminar
que	 nos	 permita	 desmobilizar,	 levantar	 o	 bloqueio	 e	 eventualmente
negociar	com	nossos	ex-inimigos	um	tratado	de	acordo	com	as	condições
de	sua	rendição.”
Sei	muito	bem	que	tal	decisão	teria	sido	extremamente	 impopulare,	na
prática,	muito	difícil	de	ser	adotada.	Convém	salientar	que	Mr	Lloyd	George
tomou	 providências	 (na	 prática,	 mas	 não	 ostensivamente)	 para	 que	 se
adotasse	 essa	 alternativa	 do	 adiamento.	 Tendo	 deixado	 a	 cargo	 da
comissão	 de	 reparações	 a	 fixação	 de	 quanto	 a	 Alemanha	 seria	 realmente
capaz	de	pagar,	 tanto	satisfazia	a	opinião	interna	naquele	 instante	quanto
assegurava	que	a	questão	das	reparações	pudesse	ser	tratada	mais	adiante
pelos	técnicos	em	circunstâncias	mais	razoáveis	e,	dessa	forma,	sem	violar
o	 tratado	 estabelecido.	 Recebeu	 muito	 pouco	 reconhecimento	 por	 esta
sábia	iniciativa.	Mas	não	foi	só	isso.	Os	principais	estadistas	em	Paris,	sem
excluir	o	Presidente	Wilson,	estavam	vividamente	cientes	de	que	o	Tratado
em	elaboração	demandaria	uma	revisão	mais	adiante,	quando	a	histeria	da
guerra	estivesse	abrandada.	Tomaram	providências	visando	a	essa	revisão.
Inseriram	na	Convenção	da	Liga	das	Nações	um	artigo	mui	pouco	lembrado
e	muitas	vezes	esquecido.	Ei-lo:
	
ARTIGO	XIX
“A	assembleia	pode,	de	tempos	em	tempos,	recomendar	a	reconsideração	pelos	Membros	da
Liga,	 de	 tratados	 tornados	 inaplicáveis	 e	 a	 consideração	 de	 condições	 internacionais	 cuja
permanência	possa	pôr	em	perigo	a	paz	mundial.”
	
O	cínico,	ao	ler	este	artigo	nos	dias	atuais,	ao	refletir	sobre	como	a	regra	da
“unanimidade”	 no	 passado	 bloqueou,	 em	 Genebra,	 todas	 as	 iniciativas
audaciosas	 como	 esta,	 pode	 sorrir	 amargamente	 e	 condenar	 esse	 artigo
simplesmente	como	mais	uma	daquelas	teias	de	“exegeses	jesuíticas”	com
que	a	Conferência	de	Paris	envolveu	o	 fracasso	do	Tratado	que	produziu.
Não	estou	certo	de	que	seria	histórica	ou	presentemente	correto	desprezar
o	 artigo	 XIX	 de	 forma	 tão	 radical.	 Pelo	 ângulo	 histórico,	 pelo	 ângulo	 de
como	as	decisões	terminaram	tomadas	em	Paris,	o	artigo	foi	extremamente
importante.	Pelo	fim	de	fevereiro,	abandonávamos	qualquer	esperança	de
celebrar	uma	paz	wilsoniana	naquele	ano	angustiado	de	1919.	É	impossível
estimar	quantas	decisões	foram	acatadas,	a	frequência	com	que	obstruções
foram	retiradas	e	erros	foram	tolerados	à	sombra	do	abençoado	artigo	XIX.
“Bem,”	 podíamos	 ser	 levados	 a	 pensar,	 “essa	 decisão	 parece	 insensata	 e
injusta.	Mas	é	melhor	 aceitá-la	do	que	atrasar	o	Tratado	por	mais	 alguns
dias.	Total,	 sua	 falta	de	visão	 logo	 será	visível	mesmo	para	os	que	hoje	 a
defendem.	Quando	chegar	esse	dia,	podemos	recorrer	ao	artigo	XIX.”	Estou
convencido	 de	 que,	 na	 verdade,	 em	 sua	 consciência,	 o	 Presidente	Wilson
justificava	 todos	 os	 seus	 recuos	 com	 o	 pensamento	 de	 que	 “o	 Covenant
corrigirá.”
Ainda	hoje	em	dia,	o	artigo	XIX	tem	e	terá	sua	aplicabilidade.	Mesmo	os
que	não	acreditam	mais	que	a	Assembleia	da	Liga	sempre	será	desejosa	e
capaz	impor	seu	ponto	de	vista	às	Grandes	Potências,	devem	concordar	que
é	conveniente	dispor	desse	artigo	como	instrumento	de	revisão	do	Tratado
quando	essa	revisão	for	aceita	pelas	próprias	Potências	interessadas.	Seria
conveniente,	 pelo	 menos,	 contar	 com	 o	 mecanismo	 oferecido	 por	 esse
artigo	a	fim	de	rever	certas	disposições	do	Tratado	de	Versalhes,	sem	afetar
a	validade	do	 conjunto.	Reciprocamente,	 o	 artigo	proporciona	argumento
útil	 para	 contrapor	 às	 alegações	 dos	 que	 afirmam	 que	 o	 Tratado	 é	 uma
unidade	integral	e	que	nenhuma	parte	pode	ser	atacada	sem	destruir	toda
sua	estrutura.
Chego	 a	 ver	 que	 uma	 certa	 dualidade	 de	 propósitos	 era	 inerente	 à
Conferência	de	1918-1919.	Vejo	mesmo	que	reconhecer	essa	dualidade	na
época	teria	sido	difícil	e	até	mesmo	odioso.	Chego	a	admitir	que	Mr	Lloyd
George	 e	Mr	Wilson	 na	 verdade	 viam	na	 Comissão	 de	 Reparações,	 assim
como	 no	 artigo	 XIX,	 uma	 via	 de	 escape	 para	 suas	 infelicidades.	 Porém,
embora	 vendo	 essas	 coisas,	 permaneço	 com	 o	 dedo	 acusador	 em	 riste.
Apontando	 para	 isso.	 Apontando	 para	 o	 fato	 inegável	 de	 que	 eles	 não
enfrentaram	 desde	 o	 início	 esta	 dualidade	 essencial	 de	 propósitos.	 A
consequência	foi	a	mistura	de	improviso	com	acomodação.
Pelo	infeliz	colapso	entre	essas	duas	banquetas	de	apoio,	os	americanos
são	 menos	 culpados	 do	 que	 as	 Potências	 Associadas.	 Estas	 tinham	 se
comprometido	 antecipadamente	 a	 aceitar	 os	 princípios	 proclamados	 por
Wilson.	 Aqueles,	 desde	 os	 primeiros	 dias	 da	 conferência,	 ficaram
enfraquecidos	 por	 acontecimentos	 internos.	 “A	 Delegação	 americana,”
assinala	 o	 coronel	 House,	 “não	 está	 em	 posição	 de	 atuar	 plenamente.	 As
eleições	 de	 novembro	 passado	 nos	 Estados	 Unidos	 constituíram	 um
restringente	 à	 livre	 atuação	 de	 nossos	 delegados.”	 Lembrado	 seja,	 é
verdade,	 que	 durante	 todo	 o	 desenrolar	 da	 Conferência	 o	 Presidente
Wilson	e	sua	equipe	não	puderam	contar	com	o	apoio	do	congresso	nem	da
opinião	pública	em	seu	país.	Quando	eclodiu	a	crise	essencial	em	Paris,	Mr
Wilson	 só	 poderia	 ter	 triunfado	 tirando	 do	 poder	 Mr	 Lloyd	 George	 e	 M
Clemenceau.	 Teria	 o	 apoio	 de	 seu	 próprio	 país	 em	 tal	 intransigência?
Certamente	 não.	 Foi	 a	 percepção	 de	 que	 o	 Presidente	 na	 verdade	 não
possuia	 poder	 político	 –	 distinto	 do	 poder	 físico	 –	 para	 levar	 adiante	 as
conclusões	lógicas	de	sua	própria	política	o	que	destruiu	sua	autoridade	em
Paris	e	permitiu	que	outros	estadistas	extraíssem	dele	concessões	que	ele
profundamente	desaprovava.
Qual	foi	a	alavanca	que	lhes	permitiu	deslocar	aquele	homem	cimentado
de	 sua	 posição	 inicial?	 Foi	 a	 seguinte.	 Eles	 sabiam	 que,	 em	 fevereiro	 de
1919,	 o	 Presidente	Wilson	 não	 representava	 a	 América.	 Sabiam	 também
que	ele	preferia	morrer	 (e	morreu	afinal)	a	admitir	esse	 fato.	Sabiam	que
sua	crença	na	democracia	era	a	convicção	mais	profundamente	enraizada
em	sua	alma	sensível.	Também	sabiam	que	–	para	os	propósitos	imediatos,
bem	distintos	dos	derradeiros	–	democracia	era	uma	burla.	Sabiam	que	Mr
Wilson	 jamais	 encararia	 o	 fato	 de	 que	 o	 seu	 próprio	 povo	 americano	 o
abandonara.	Sabiam	que,	para	disfarçar	o	fato	a	si	mesmo,	se	submeteria	a
qualquer	humilhação.	Sabiam	que	a	única	maneira	de	lidar	com	Mr	Wilson
era	ameaçar	desmascará-lo,	 recuando	em	seguida.	A	vaidade	e	o	egoísmo
de	 Mr	 Wilson	 devem,	 é	 óbvio,	 ser	 reconhecidos,	 mas	 não	 passavam	 de
fiapos	 de	 palha	 na	 correnteza	 profunda	 de	 sua	 fé.	 Foi	 sua	 fé	 que	 eles
exploraram.	 Sua	 fé	 no	 Povo	 e	 em	 Deus.	 Sabiam	 que	 para	 ele	 seria
insuportável	reconhecer	que	nenhuma	destas	duas	ilusões	desempenhava
qualquer	 papel	 na	 Conferência	 de	 Paz.	 O	 Presidente	 Wilson	 não	 foi
destruído	por	seus	defeitos,	mas	por	suas	virtudes.
Mas	o	que	 tem	tudo	 isso	a	ver	com	os	Erros	–	claramente	distintos	das
Infelicidades	 –	 cometidos	 durante	 a	 Conferência	 de	 Paz	 de	 Paris?	 Tem
muito	 a	 ver.	 É	 difícil	 resistir	 à	 impressão	 de	 que	 os	 estadistas	 europeus
sabiam	 muito	 bem	 que	 o	 Presidente,	 devido	 à	 teocracia	 mística	 que	 o
caracterizava,	 estava	 numa	 posição	 falsa.	 É	 difícil	 resistir	 à	 impressão	 de
que	eles	queriam	ganhar	tempo	até	que	a	falsidade	dessa	posição	viesse	à
tona.	 É	 difícil	 resistir	 à	 impressão	 de	 desejarem	 que	 o	 Presidente
“absorvesse	 a	 atmosfera	 de	 guerra”	 antes	 de	 ditar	 as	 disposições	 para	 a
paz.	 É	 difícil	 resistir	 à	 impressão	 de	 que	 retardaram	 deliberadamente	 o
enfrentamento	com	o	Presidente	até	que	ele	perdesse	sua	frente.
Da	parte	deles,	essa	decisão	não	foi	tão	perversa	quanto	foi	tola.	Deviam
ter	concluído	que	não	havia	meio-termo	entre	uma	paz	Wilsoniana	e	uma
paz	Cartaginesa.	Deviam	ter	concluído	que	qualquer	delas	seria	melhor	do
que	 um	 meio-termo	 hipócrita.	 Diante	 dessas	 conclusões,	 deviam	 ter
organizado	toda	a	Conferência	sobre	uma	base	maior	de	realidade.
Permitam-me	 exemplificar	 essa	 irrealidade	 –	 o	 charco	 de	 imprecisões
sobre	 o	 qual	 repousou	 toda	 a	 estrutura	 da	 Conferência	 –	 citando	 dois
fenômenos	curiosos.	O	primeiro	é	o	fato	de	que,	até	o	último	momento,	os
Plenipotenciáriosnão	 sabiam	se	a	Paz	que	negociavam	era	preliminar	ou
final,	se	era	imposta	ou	negociada.	O	segundo	foi	a	ausência,	na	verdade	a
rejeição,	 de	 qualquer	 programa	 definido.	 Esses	 dois	 erros	 parecerão
inexplicáveis	 aos	 que,	 no	 futuro,	 estudarem	 a	 questão.	 Mas	 de	 fato
aconteceram.
Seria	 de	 pressupor	 que,	 por	 mais	 ansiosos	 que	 os	 estadistas	 europeus
estivessem	 por	 retardar	 as	 decisões	 essenciais	 até	 que	 Mr	 Wilson	 se
familiarizasse	com	a	atmosfera	menos	límpida	do	Velho	Mundo,	havia	dois
pontos	vitais	de	procedimentos	sobre	os	quais	deveriam	ser	claros	e	unidos
desde	o	começo.
O	primeiro	é	se	o	Tratado	devia	ser	preliminar	ou	final.	O	segundo	é	se
devia	 ser	 imposto	 ou	 negociado,	 ou,	 em	 outras	 palavras,	 se,	 no	 último
instante,	 o	 inimigo	 seria	 autorizado	 a	 comparecer	 e	 a	 se	 pronunciar	 na
Conferência,	ou	se	seria	impedido	de	participar	das	discussões	do	início	ao
fim.
É	 estranho	mas	 indiscutível	 o	 fato	 de	 nenhum	destes	 dois	 importantes
pontos	 relacionados	 com	 o	 mecanismo	 de	 funcionamento	 tivesse	 sido
discutido	 e	 resolvido	 nas	 fases	 iniciais	 da	 Conferência.	 Durante	 janeiro,
fevereiro	e	a	primeira	metade	de	março	–	portanto	um	período	de	mais	de
dez	semanas	–	os	dirigentes	mundiais	 ignoraram	totalmente	se	o	Tratado
que	discutiam	devia	ser	imposto	ou	negociado.	Parece	realmente	estranho
que	 esta	 consideração	 essencial	 não	 fosse	 analisada	 desde	 o	 começo	 e
decidida	 de	 imediato.	 Mas	 a	 verdade	 é	 que	 o	 problema	 foi	 mantido	 na
gaveta	 durante	 todo	 aquele	 período	 como	 algo	 muito	 doloroso	 para	 se
levantar	imediatamente,	como	questão	que	se	resolveria	por	si	mesma.
A	 ideia	 original	 sem	 dúvida	 era	 haver	 um	 Tratado	 preliminar,	 cujos
termos	 seriam	 acertados	 antecipadamente	 entre	 as	 Potências	 vitoriosas.
Este	tratado,	que	seria	imposto	ao	inimigo	derrotado,	conteria	unicamente
os	 termos	 do	 desarmamento	 terrestre	 e	 naval,	 assim	 como	 as	 linhas
principais	 do	 futuro	 acordo	 territorial.	 Todos	 os	 demais	 pormenores
seriam	definidos	em	um	“Congresso”	subsequente	no	qual	o	 inimigo	 teria
representação	e	ocasião	para	apresentar	contrapropostas.
Mais	tarde	foi	sugerida	a	elaboração	pela	Conferência	de	um	“Ato	Geral”
englobando	os	pontos	 fundamentais	 de	 todos	os	Tratados	de	Paz	 com	os
quatro	 países	 inimigos.	 Já	 em	 março	 de	 1919	 o	 Presidente	 Wilson
continuava	 indeciso	 se	 desejava	 um	 Tratado	 Preliminar	 ou	 Final.	 Mr
Lansing	 e	 os	 juristas	 lhe	 asseguraram	que	mesmo	um	 tratado	preliminar
teria	 que	 ser	 ratificado	 pelo	 Senado,	 deixando-o	 temeroso	 de	 que	 os
senadores	se	apegassem	a	essa	prerrogativa	de	ratificação	para	recusar	a
subsequente	 Convenção	 da	 Liga.	 “Diante	 desta	 declaração,”	 salienta	 Mr
Lansing,	 “o	 Presidente	 ficou	 visivelmente	 muito	 perturbado.”	 Durante	 o
afastamento	de	Mr	Wilson,	que	viajou	para	os	Estados	Unidos,	foi	levantada
a	ideia	de	um	tratado	preliminar	ser	redigido	e	assinado	sob	a	forma	de	um
“Armistício	Final.”	Em	22	de	fevereiro	ficou	decidido	que	os	itens	principais
de	tal	Armistício	deviam	ser	elaborados	antes	do	regresso	do	Presidente,	e
os	 assessores	militar	 e	 naval	 do	 Conselho	 foram	 instruídos	 a	 prepará-los
imediatamente.	Mas	quando	essas	 cláusulas	 foram	 finalmente	 redigidas	e
aprovadas,	o	Presidente	já	regressara	a	Paris.	Foi	quando	se	constatou	que
os	 tópicos	 territoriais	 e	 alguns	 outros,	 durante	 esse	 período,	 tinham
progredido	a	ponto	de,	com	pequenos	acertos	adicionais,	também	poderem
ser	 incluídos	no	Tratado	de	Paz.	A	 teoria	 toda	de	uma	Paz	Preliminar	 foi,
como	por	acaso,	abandonada.
Essa	hesitação	entre	o	conceito	de	um	Tratado	Preliminar	e	um	Tratado
Final	guarda	relação	direta	com	o	problema	da	representação	inimiga.	Até
hoje	 os	 alemães	 estão	 convencidos	 de	 que	 desde	 o	 começo	 era	 intenção
deliberada	dos	Aliados	excluí-los	de	qualquer	parte	nas	discussões	de	Paz.
Na	verdade,	esse	ponto,	como	outros	de	natureza	semelhante,	ficou	girando
como	um	pedacinho	de	palha	nas	águas	que	confluíam	à	Conferência.	Em
novembro	 de	 1918,	 o	 coronel	 House	 reservou	 cinco	 lugares	 no	 cogitado
Congresso	 para	 os	 Representantes	 da	 Alemanha.	 Nessa	 data	 e	 até	março
era	 tido	 como	 certo	 por	 todos	 que	 laboravam	 em	 Paris,	 que,	 tendo	 os
Aliados	 entrado	 em	 acordo	 entre	 eles	 sobre	 os	 termos	 a	 serem
apresentados	à	Alemanha,	o	conclave	deixaria	de	ser	uma	“Conferência”	e
se	 transformaria	 num	 “Congresso.”	 Em	 outras	 palavras,	 deveríamos	 nos
voltar	para	a	segunda	etapa	de	nossas	tarefas:	a	discussão	sobre	os	termos
do	 acordo	 eventual	 com	 nossos	 ex-inimigos	 e	 na	 presença	 das	 Potências
neutras.
Como	pôde	esta	louvável	ideia	ter	sumido	de	nossa	consciência	imediata
à	medida	que	as	semanas	passaram?	A	história	se	negará	a	crer	que	“nos
esquecemos	do	inimigo”	e	nos	atribuirá	motivos	e	um	nível	de	consciência
dos	fatos	que	certamente	não	tínhamos	naquela	ocasião.	É	difícil	explicar	a
exclusão	 de	 nossos	 inimigos	 da	 discussão,	 exceto	 em	 condições	 que
parecerão	inacreditáveis	ou	pelo	menos	forçadas.	Mas	acredito	firmemente
que	os	estágios	pelos	quais	a	necessidade	de	consultar	nossos	inimigos	se
diluiu	no	fundo	de	nossas	mentes	são	os	que	comento	adiante.
Subconscientemente	 pensávamos	 em	 termos	 de	 uma	 “Conferência	 de
Aliados,”	 seguida	 por	 um	 “Congresso”	 com	 participação	 de	 todos	 os
beligerantes	e	neutros.	O	primeiro	conceito	se	identificava	com	a	expressão
“Tratado	Preliminar,”	e	a	segunda	tomou	a	descrição	de	“Tratado	Final.”	O
“Tratado	 Preliminar”	 seria	 imposto	 pela	 força	 ao	 inimigo	 derrotado,	 e	 o
“Tratado	 Final”	 seria	 uma	 questão	 de	 negociação	 mundial	 e	 aceitação
mundial.
À	medida	que	a	Conferência	progrediu,	mais	e	mais	os	Comitês	técnicos
produziram	 recomendações	 sob	 a	 forma	 de	 artigos	 prontos	 para	 serem
imediatamente	 introduzidos	 num	 documento	 final	 –	 o	 conceito	 de	 um
Tratado	 Preliminar	 fundiu-se	 gradualmente	 com	 o	 de	 um	 Tratado	 Final
cobrindo	o	todo.	Sempre	se	presumira	que	os	artigos	essenciais	–	como	os
que	regulavam	o	desarmamento	alemão	e	as	principais	cessões	territoriais
–	 fariam	parte	do	Tratado	Preliminar	e,	portanto,	não	seriam	negociados,
mas	 impostos.	 Também	 se	 supunha	 que	 os	 talvez	 chamados	 artigos
secundários	 –	 especialmente	 as	 cláusulas	 econômicas,	 se	 não	 também	 as
financeiras	 –	 seriam	 objeto	 de	 discussão.	 Porém,	 quando	 o	 Tratado
Preliminar	foi	abandonado	e	substituído	pelo	Tratado	Final,	este	herdou	do
anterior	 a	 ideia	 original	 de	 imposição	 versus	 negociação.	 E	 tudo	 isto
aconteceu	 antes	 que	 muitos	 de	 nós	 percebêssemos	 exatamente	 o	 que
ocorrera.
Não	sustento	que	deslizamos	da	negociação	para	a	imposição	num	acesso
de	 completa	 inconsciência.	 Obviamente,	 houve	 certos	 fatores	 deliberados
que	nos	 impeliram	para	essa	decisão.	Em	primeiro	 lugar,	a	 insistência	do
Presidente	Wilson	para	que,	de	alguma	forma,	se	incluísse	o	Covenant	em
qualquer	forma	de	Tratado,	atrasou	nossas	deliberações	além	do	momento
em	 que	 um	 Tratado	 Preliminar	 era	 sensato	 ou	 necessário.	 Em	 segundo
lugar,	as	ausências	do	Presidente	e	de	Mr	Lloyd	George,	ao	lado	da	tentativa
de	assassinato	de	M	Clemenceau,	geraram,	em	instante	crucial,	a	suspensão
da	 direção	 suprema	 da	 Conferência	 e	 um	 acúmulo	 de	material	 que	 ficou
pronto	 nesse	 período.	 Em	 terceiro	 lugar,	 o	 marechal	 Foch	 temia	 que	 a
conclusão	do	Tratado	Preliminar	levasse	a	uma	desmobilização	ainda	mais
rápida	por	parte	da	 Inglaterra	 e	dos	Estados	Unidos,	 após	 a	qual	 haveria
pouca	esperança	de	negociar	qualquer	paz.	E	em	quarto	 lugar,	os	agudos
desentendimentos	 que,	 naquelas	 semanas,	 cresceram	 entre	 os	 próprios
Aliados,	criaram	uma	sensação	próxima	do	terror	de	que	a	presença	de	um
elemento	 tão	 desagregador	 quanto	 nossos	 ex-inimigos	 nos	 divididos
conselhos	da	Europa	provocasse	uma	desintegração	ainda	mais	alarmante.
De	 qualquermodo,	 permanece	 o	 fato	 de	 que,	 ao	 longo	 dos	 estágios
iniciais	da	Conferência,	as	Potências	diretoras	jamais	deixaram	constar	se	o
Tratado	em	fase	de	elaboração	era	um	texto	final	a	ser	imposto	à	Alemanha
ou	 uma	 simples	 base	 de	 um	 acordo	 entre	 os	 Aliados	 para	 uma	 eventual
negociação	com	a	Alemanha	num	Congresso	final.	Essa	omissão	por	parte
delas	 foi	 muito	 séria	 e	 não	 foi,	 exceto	 por	 Mr	 Keynes,	 suficientemente
frisada.	 Muitos	 parágrafos	 do	 Tratado,	 particularmente	 nas	 seções
econômicas,	na	verdade	foram	inseridos	como	maximum	statements,	como
para	 providenciar	 que,	 no	 Congresso	 Final,	 houvesse	 um	 certo	 grau	 de
concessão	 à	 Alemanha.	 Esse	 Congresso	 nunca	 se	 concretizou,	 e	 as
derradeiras	 semanas	 da	 Conferência	 voaram	 por	 nós	 como	 um	 pesadelo
histérico.	 Aqueles	 maximum	 statements	 permaneceram	 inalterados	 e
finalmente	 foram	 impostos	 como	 um	 ultimato.	 Se	 desde	 o	 começo	 se
soubesse	 que	 nenhuma	 negociação	 com	 o	 inimigo	 viria	 a	 ocorrer,
certamente	muitas	das	cláusulas	do	tratado,	consideradas	menos	razoáveis,
nunca	teriam	sido	introduzidas.
Até	 este	 ponto	 apontei	 os	 dois	 erros	 fundamentais	 cometidos	 pelos
responsáveis	 pela	 abertura	 e	 condução	 da	 Conferência	 de	 Paz	 de	 Paris.
Defendi	 que	 a	 falha	 em	 reconhecer	 a	 dualidade	 de	 propósitos	 deixou	 a
conferência,	 desde	 o	 início,	 em	 posição	 equivocada	 e,	 ao	 fim,	 levou	 a
excessiva	 falsidade.	 Também	 defendi	 que	 a	 falha	 em	 decidir	 desde	 o
começo	se	a	Paz	seria	Preliminar	ou	Final,	negociada	ou	imposta,	foi	causa
de	 muitas	 confusões,	 incompreensões	 e	 injustiças	 posteriores.	 Os	 erros
menores	de	organização	que	retardaram	os	trabalhos	da	Conferência	serão
comentados	 em	 capítulos	 mais	 adiante,	 à	 medida	 que	 surgirem.	 Resta
discutir	neste	capítulo	aquele	que	foi	o	maior	e	realmente	fundamental	erro
na	organização	inicial.	Devo	apreciar	agora	essa	omissão	da	Conferência	em
estabelecer	com	antecedência	seu	programa	de	trabalho.
Já	aludi	à	opinião	de	Sir	Ernest	Satow	a	respeito	da	necessidade	de	um
programa	rígido.	Esta	exigência	se	fazia	mais	premente	tratando-se	de	uma
conferência	em	que	os	principais	dirigentes	desde	o	início	se	confrontaram
com	 uma	 dualidade,	 para	 não	 dizer	 divergência,	 de	 propósitos.	 O
observador	 cínico	 pode	 concluir	 que	 eles	 premeditadamente	 desejavam
gastar	um	mês	ou	dois	para	rodear	os	volteios	wilsonianos.	Não	excluo	essa
possibilidade,	 mas	 detesto	 ter	 de	 admiti-la.	 Prefiro	 imaginar	 que,	 como
acontece	com	muitas	das	questões	que	dependem	de	nossos	governantes,
estávamos	à	mercê	dos	improvisos.
Os	membros	do	Supremo	Conselho	de	Guerra	tinham	adquirido	o	hábito
de	 deixar	 a	 iniciativa	 com	 os	 alemães	 ou	 com	 o	 marechal	 Foch.	 Tinham
aprendido	 que	 a	 marcha	 dos	 acontecimentos,	 ou	 talvez	 a	 marcha	 dos
alemães,	 era	 um	 fator	 mais	 determinante	 que	 qualquer	 dos	 planos
elaborados	 que	 foram	 postos	 diante	 deles.	 Desconfiavam	 de	 todos	 os
planos	 escritos.	 Não	 surpreende	 que,	 quando	 os	 membros	 do	 Supremo
Conselho	 de	 Guerra	 se	 transformaram,	 no	 breve	 espaço	 de	 dois	 dias,	 em
Supremo	 Conselho	 de	 Paz,	 esse	 hábito	 de	 improvisar,	 essa	 aversão	 à
iniciativa,	esta	preferência	por	considerar	eventos	que	já	ocorreram	em	vez
de	se	preocupar	com	os	que	podem	ocorrer	ou	deixar	de	ocorrer	no	futuro
se	 transformaram	 na	 essência	 de	 seu	 pensamento.	 Tanta	 coisa	 que
esperavam	 nunca	 aconteceu.	 Tanta	 coisa	 que	 seus	 assessores	 jamais	 os
aconselharam	 a	 esperar,	 aconteceu.	 Surpreende	 o	 fato	 de	 terem	 se
atemorizado	 com	 o	 esperado,	 o	 aconselhado,	 o	 previsto?	 Não,	 não
surpreende.
Na	 verdade,	 os	 franceses	 tinham	 preparado	 um	 programa	 que	 foi
entregue	ao	Presidente	Wilson	pelo	embaixador	francês	em	Washington,	M
Jusserand,	em	29	de	novembro.	Apresentava,	em	primeiro	lugar,	um	elenco
de	 condições	 preliminares	 que	 deveriam	 ser	 impostas	 ao	 inimigo	 sem
discussão.	 Em	 segundo	 lugar,	 previa	 um	 subsequente	 Congresso	 no	 qual
estariam	 representados	 tanto	 os	 países	 inimigos	 quanto	 os	 neutros.
Propunha,	 em	 terceiro	 lugar,	 um	 calendário	 a	 ser	 seguido	 pelo	 Conselho
Supremo	 para	 discutir	 inicialmente	 as	 questões	 urgentes,	 deixando	 as
menos	 urgentes	 para	 deliberação	 posterior.	 Mais	 importante	 que	 tudo,
tratava	 da	 revogação	 imediata	 de	 todos	 os	 Tratados	 secretos.	 Apesar	 de
todas	estas	propostas	serem	de	todo	pertinentes,	o	programa	apresentado
por	 M	 Jusserand	 não	 era	 um	 documento	 feito	 com	 tato.	 Falava	 da
“Federalização”	 (isto	 é,	 desintegração)	 da	 Alemanha.	 Propunha	 que	 o
destino	do	Império	Otomano	fosse	decidido	exclusivamente	pelas	Grandes
Potências.	E	se	referia	em	termos	realistas	demais	para	serem	elogiosos	à
ideia	da	Liga	das	Nações	e	aos	Pontos,	Princípios	e	Detalhamentos	de	Mr
Wilson.	 “Aqueles	 princípios	 do	 Presidente	 Wilson”	 –	 assim	 dizia	 o
documento	 –	 “que	 em	 sua	 essência	 não	 são	 suficientes	 para	 se	 adotarem
como	base	de	um	acordo	sólido	(...)	retomarão	sua	plena	força	na	questão
do	 futuro	 acordo	 de	 direito	 público,	 e	 isso	 afastará	 uma	das	 dificuldades
que	 poderiam	 obstruir	 os	 aliados.”	 “As	 quatorze	 proposições”	 –	 assim
continuava	 esse	 documento	 sincero	 mas	 nada	 conciliatório	 –	 “que	 são
princípios	de	direito	público,	não	podem	proporcionar	uma	base	concreta
para	os	trabalhos	da	Conferência.”	Isto	pelo	menos	era	inteligente,	honesto
e	franco.	Mas	não	agradou	ao	Presidente.	O	programa	francês	foi	parar	em
seus	arquivos	menos	consultados.
“A	grande	 falha	dos	 líderes	políticos,”	escreve	o	coronel	House,	 “foi	não
terem	preparado	um	programa	de	trabalho.”	M	Tardieu,	por	seu	lado,	lança
o	ônus	dessa	falha	no	temperamento	anglo-saxônico.	Atribui	a	rejeição	do
programa	 francês	 à	 nossa	 aversão	 congênita	 à	 precisão	 lógica	 do
pensamento	 latino.	 Pode	 ser	 que	 esteja	 certo.	 Acho	 que	 está.	 Mas
permanece	 o	 fato	 de	 tanto	 Mr	Wilson	 (diante	 das	 ásperas	 definições	 do
memorando	 de	 Jusserand)	 quanto	Mr	 Lloyd	 George	 (tendo	 em	 vista	 sua
espantosa	 predileção	 pelo	 inesperado),	 além	 de	 ficarem	 contrariados,
terem	 rejeitado	 qualquer	 formulação	 escrita	 que	 fixasse	 o	 que,	 como	 e
quando	deviam	discutir.
As	 consequências	 dessa	 tendência	 de	 ambos	 foram	 deploráveis	 ao
extremo.
5	
Desorganização
SEM	ME	PREOCUPAR,	NO	MOMENTO,	COM	ERROS	E	COM	 INFELICIDADES,	durante	os	primeiros	pouco
dias	 da	 Conferência,	 encontrei	 tempo	 para	 sair	 caçando	 sozinho.	 Meu
trabalho	 preparatório	 estava	 pronto,	 e	 pouco	 mais	 podia	 aprender	 de
livros,	 mapas	 ou	 estatísticas.	 Resolvi	 que	 o	 tempo	 disponível	 até	 meus
serviços	 serem	 solicitados	 seria	 mais	 bem	 aproveitado	 estabelecendo
contato	com	meus	colegas	dos	Estados	Unidos.	Farejei	como	um	spaniel	no
campo,	decididamente	ativo	e	ativamente	decidido.	Não	recebera	qualquer
orientação	 de	 meus	 superiores;	 raramente	 recebi.	 Cacei	 com	 satisfação,
esperando	ouvir	 o	 apito	 que	me	 chamaria	 para	 junto	 dos	 calcanhares	 do
dono.
Fui	 inspirado	 e	 ajudado	 nesse	 ótimo	 passatempo	 por	Mr	 Allen	 Leeper,
um	colega	próximo	na	seção	da	Delegação	Britânica	encarregada	da	Europa
Central	e	do	Sudeste.	Na	ocasião,	Mr	Leeper	ainda	não	era	membro	regular
do	Foreign	Office,	mas	se	juntara	a	nós	por	canais	tortuosos	como	o	British
Museum,	o	escritório	de	imprensa	de	Mr	George	Mair,	mais	tarde	Ministro
de	 Informações.	 Nascido	 na	 Austrália,	 era	 capaz	 de	 abordar	 nossos
problemas	 por	 um	 ângulo	 antípoda	 ao	 insular.	 Formado	 em	 Balliol,
aprendera	 que	 o	 conhecimento	 tem	 pequena	 valia	 a	 não	 ser	 quando
interpretado	com	a	necessária	compreensão,	e	que	a	inteligência	não	passa
de	mero	adorno	se	não	produzir	ações	criativas.	Sem	 jamais	 ter	sofrido	a
rotina	 de	 um	 grande	 órgão	 governamental,	 seus	 olhos	 não	 se	 ofuscavam
com	 a	 poeira	 dos	 arquivos	 do	 serviço	 civil.Sendo	 um	 cidadão	 do	 Novo
Mundo,	podia	encarar	o	Velho	com	o	sabor	romântico	de	um	estudante	em
sua	 primeira	 visita	 ao	 Partenon.	 Sem	 ter	 sido	 submetido	 aos	 embaraços
característicos	 da	 educação	 em	public	 schools	 inglesas,	 nunca	 lhe	 ocorria
que,	 entre	 nós,	 uma	 dedicação	 exagerada	 ao	 trabalho	 poderia	 ser	 mal
interpretada.	 Era	 homem	 de	 nobres	 ideais,	 movido	 pelo	 mais	 puro
wilsonismo	 e	 por	 alguma	 ambição	 filológica,	 com	 uma	 saúde	 irregular,
dotado	de	energia	infatigável	e	uma	curiosidade	desabrida.	Não	escondia	o
fato	de	realmente	querer	saber	o	que	Také	Ionescu	pensava	sobre	o	Banat.
Queria,	muito	sinceramente,	saber	se	o	rei	Nikita	de	Montenegro	(vivendo
no	 exílio,	 no	 Hotel	 Meurice,	 indignado	 e	 subsidiado)	 era	 realmente	 tão
terrível	 quanto	 todos	 nós	 supúnhamos.	 Porém,	 o	mais	 importante	 foi	 ter
chagado	à	conclusão	de	que	nossa	tarefa	mais	útil	era	estabelecer	relações
de	 confiança	 e	 entendimento	mútuo	 com	os	membros	 correspondentes	 a
nós	na	Missão	Americana.
Nessa	louvável	tarefa	foi	beneficiado	por	uma	circunstância	casual,	o	fato
de	Mr	 Rhys	 Carpenter,	 integrante	 da	 Missão	 Americana	 para	 Negociar	 a
Paz,	ter	sido	seu	colega	em	Balliol.	Mr	Carpenter,	que	mais	tarde	veio	a	ser
Diretor	 da	 Escola	 Americana	 em	 Atenas,	 era,	 acima	 de	 tudo,	 um	 scholar.
Ciciava	 palavras	 em	 grego	 à	 medida	 que	 lhe	 ocorriam.	 Era	 um	 homem
tímido	e	agradável.	Para	nós	sua	ajuda	teve	valor	inestimável,	aplainando	o
caminho	para	lidarmos	com	os	tímidos,	os	desconfiados,	os	esclarecidos,	os
afáveis,	 os	 assustadíssimos,	 os	 muitas	 vezes	 desarticulados,	 os	 algumas
vezes	 lentos	 de	 raciocínio,	 os	 invariavelmente	 atentos,	 os	 realmente
notáveis	sábios	do	grupo	de	trabalho	“Inquiry”	do	coronel	House.	Por	seu
intermédio	 fui	 apresentado,	 logo	 nos	 primeiros	 dias,	 ao	 Dr	 Charles
Seymour,	ao	Dr	Lybyer	e	ao	Dr	Clive	Day.	Mr	Allen	Dulles,	com	o	qual	em
etapas	 posteriores	 da	 Conferência	 mantive	 duradoura	 e	 harmoniosa
cooperação,	se	não	me	engano	chegou	um	pouco	mais	tarde.	Comparamos
nossas	anotações.	Nossas	opiniões	a	respeito	de	cada	um	dos	assuntos	em
nossa	 órbita	 se	 revelaram	 idênticas.	 A	 nós	 parecia	 que	 elaborar	 os
contornos	da	paz	seria	uma	tarefa	rápida,	cordial	e	amplamente	justa.
Eu	não	era	ingênuo	a	ponto	de	achar	que	os	membros	da	Delegação	dos
Estados	 Unidos	 teriam	 permissão	 para	 uma	 aberta	 associação	 com	 seus
correspondentes	 ingleses.	 Para	 dizer	 a	 verdade,	 achava	 que	 qualquer
identidade	de	opinião	muito	ostensiva	entre	os	anglo-saxões	seria	malvista
pelos	colegas	de	outras	nacionalidades.	Eu	estava	 interessado	apenas	nos
acordos	 secretos	 alcançados	 em	 sigilo.	 Nossa	 identidade	 de	 opiniões	 foi
realmente	 extraordinária.	 Onde	 antes	 eram	 os	 cabinets	 particuliers	 do
Maxim’s,	 foi	 preparada	 uma	 “hipótese	 anglo-americana”	 em	 que	 houve
concordância	 em	 torno	 de	 todas	 as	 fronteiras	 da	 Iugoslávia,	 da
Tchecoslováquia,	 da	 Romênia,	 da	 Áustria	 e	 da	 Hungria.	 Na	 Europa,	 só
houve	algumas	divergências	no	que	se	referia	à	Grécia,	à	Albânia,	à	Bulgária
e	à	Turquia.	Mesmo	nestes	casos,	divergência	em	detalhes,	 raramente	em
princípios.
É	 verdade	 que,	 nas	 semanas	 seguintes,	 esse	 acordo	 não	 oficial	 nem
sempre	 foi	 observado.	 Em	 alguns	 aspectos,	 ampliei	minhas	 exigências,	 e,
em	outros,	eles	recuaram	em	suas	concessões.	Durante	toda	a	duração	da
Conferência	 nos	 sentíamos	 obrigados	 a	 discutir	 outra	 vez	 questões	 que
julgávamos	 já	estarem	assentadas	entre	nós.	Mas	nunca	 foi	abandonada	a
disposição	 para	 discussão	 franca	 e	 direta	 entre	 as	 delegações	 inglesa	 e
americana	estabelecida	ao	longo	daqueles	primeiros	dias.	Mr	Ray	Stannard
Baker	 pode	 dizer	 o	 que	 quiser,	 mas	 o	 entendimento	 entre	 o	 Crillon	 e	 o
Astoria	era	mais	sólido	do	que	entre	quaisquer	outras	duas	delegações	em
Paris.
Confesso,	 claro,	 que	 a	 despeito	 do	 otimismo	 de	 Rhys	 Carpenter,	 nunca
conquistei	 a	 confiança	 incondicional	 dos	 americanos.	 Em	 suas	 cabeças
sempre	esteve	presente	aquela	barreira	sombria	entre	o	Velho	Mundo	e	o
Novo.	 À	 medida	 que	 a	 Conferência	 avançou,	 nossas	 relações	 foram
obscurecidas	 pelas	 disputas	 entre	 nossos	 respectivos	 chefes	 –	 quidquid
delirant	reges...
Porém,	 até	 hoje	 tenho	 o	 maior	 respeito	 pelos	 membros	 do	 “grupo	 de
trabalho”	 do	 coronel	 House,	 adquirido	 durante	 aquelas	 primeiras
discussões	na	Place	de	la	Concorde.	Seu	nível	de	conhecimento	era	superior
ao	meu,	 seu	 poder	 infinitamente	mais	 impressionante,	 seu	 escopo	muito
mais	 amplo.	 Acontece	 que	 eu	 era	 um	 diplomata	 profissional,	 e	 eles,
professores	de	história.	Começou	a	surgir	um	absurdo	conflito	de	vaidades,
pouco	 antes	 de	 a	 confiança	 mútua	 e	 a	 franqueza	 iniciais	 que	 nutríamos
perder	 parte	 de	 seu	 frescor	 matinal.	 Nós,	 do	 Majestic,	 ficávamos
impacientes	 com	 suas	 significativas	 hesitações,	 irritados	 com	 sua
sensibilidade	 pela	 falsidade	 da	 posição	 que	 defendiam.	 Ficávamos	 nos
debatendo	 num	 brejo	 de	 tratados	 secretos	 e	 esperando	 que	 eles	 nos
salvassem.	Permaneciam	na	margem,	admitindo,	sempre	simpáticos,	que	o
brejo	 era	 um	 negócio	 incômodo	 e	 imundo.	 Eles,	 do	 Crillon,	 sentiam-se
desanimados	e	confusos	com	a	agitação	e	a	barulheira	do	funcionamento	da
Conferência.	 Estavam	 decididos	 a	 não	 se	 deixar	 enganar	 pela	 diabólica
astúcia	da	Velha	Diplomacia,	vendo	malícia	onde	não	existia.	À	medida	que
brotou	neles	(e	em	nós)	a	ideia	de	que	a	América	estava	pedindo	à	Europa
para	 fazer	 sacrifícios	 vitais,	 em	nome	de	um	 ideal	que	a	própria	América
era	a	primeira	a	trair,	um	desconforto	irremediável	tomou	conta	de	todos
nós.	A	terrível	suspeita	de	que	o	povo	americano	não	honraria	a	assinatura
de	 seus	 próprios	 delegados	 nunca	 foi	mencionada	 entre	 nós,	mas	 pairou
como	 um	 fantasma	 turvando	 todos	 os	 nossos	 banquetes.	 Porém	 se	 a
colaboração	que	mantivemos	nos	primeiros	dias	com	a	Missão	Americana
fosse	preservada	com	consistência	e	sinceridade	de	propósitos,	se	 tivesse
sido	encarada	como	sólida	base	para	nossos	procedimentos,	os	Tratados	de
Paz	certamente	teriam	sido	desfigurados	por	menos	erros.
Quando	para	trás,	de	tudo	este	é	o	ponto	que	mais	lamento.
Já	declarei	que	a	organização	 interna	da	Delegação	Inglesa	era	uma	obra-
prima	 de	 precisão	 e	 tranquilidade.	 Até	 onde	 é	 possível	 a	 criatividade
humana	 prover,	 em	 condições	 de	 extrema	 mobilidade	 e	 que	 variavam
constantemente,	 a	 máquina	 montada	 por	 Mr	 Parker	 e	 dirigida	 por	 Sir
Maurice	 Hankey	 foi	 um	 trinfo	 de	 eficiência	 administrativa	 e	 previsão.
Poderia	servir	de	modelo	para	qualquer	organização	futura	de	semelhante
magnitude.	É	com	essa	disposição	de	espírito	que	aponto,	como	crítica,	os
aspectos	 em	 que	 este	 mecanismo,	 tão	 notável	 no	 papel,	 se	 mostrou
inadequado	para	mitigar	as	fraquezas	da	natureza	humana.
A	falta	de	um	programa	rígido	para	o	desenrolar	da	conferência	e	o	longo
atraso	na	criação	dos	comitês	 técnicos	 tornou	 inevitável	que	os	membros
mais	competentes	da	delegação	ficassem	inativos	nas	fases	iniciais.	Mesmo
compreendendo	essa	 talvez	 inevitável	 circunstância,	permanece	o	 fato	de
que,	 desde	 o	 começo,	 a	 Delegação	 se	 voltou	 para	 determinados	 setores
fortuitos,	 e	 estes,	 à	 medida	 que	 se	 tornou	 irresistível	 a	 pressão	 da
sobrecarga	 de	 trabalho,	 tenderam	 a	 se	 cristalizar	 em	 compartimentos
estanques.	 Esses	 setores,	 como	 já	 disse,	 em	 grande	 parte,	 mas	 não
totalmente,	eram	acidentais.	Nesses	assuntos,	Mr	Lloyd	George	confiava	em
Sir	 Maurice	 Hankey.	 Mr	 Balfour	 confiava	 quase	 totalmente	 em	 Sir	 Eyre
Crowe.	 Era	 natural	 que	 este	 último	 escolhesse	 para	 seus	 assistentes	 os
membros	 do	 Foreign	 Office	 com	 quem	 trabalhara	 em	 íntimo	 contato
durante	a	guerra.
O	tempo	era	muito	curto,	e	os	riscos	muito	altos	para	fazer	experiências
com	pessoal.	Daí,	 a	 seção	do	Foreign	Officerecebeu,	desde	o	 começo,	um
destaque	talvez	indevido,	assim	como	uma	exagerada	carga	de	trabalho.	A
seção	 militar,	 que	 incluía	 homens	 de	 reconhecida	 competência	 como	 o
general	Thwaites,	o	coronel	Cornwall,	o	coronel	Meinertzhagen,	o	coronel
Heywood,	 o	 coronel	 Kisch	 e	 o	 professor	 Webster,	 viu	 seus	 membros
praticamente	excluídos	de	nossas	deliberações	nas	 fases	 iniciais.	 Convém
reconhecer	que	 influiu	para	 essa	discriminação	uma	 certa	dose	de	 ciúme
ministerial	e	profissional.	Foi	um	fator	 lamentável,	e	o	professor	Webster
tem	 toda	 razão	quando	a	ele	 se	 refere	em	sua	 contribuição	para	a	 sóbria
narrativa	do	professor	Temperley.	Em	grande	parte,	a	falta	de	coordenação
entre	as	diversas	seções	da	Delegação	resultou	de	real	falta	de	tempo.	Mas,
em	certa	dose,	também	se	deveu	ao	componente	da	rivalidade,	a	um	temor,
lamentável	 mas	 característico	 do	 ser	 humano,	 de	 que	 consultar
detalhadamente	 outros	 especialistas	 geraria	 não	 apenas	 um	 aumento	 de
trabalho,	 mas	 também	 o	 risco	 de	 uns	 começarem	 a	 invadir	 a	 seara	 dos
outros.
Claro	 que,	 teoricamente,	 a	 coordenação	 foi	 mantida	 pela	 circulação
constante	 no	 Astoria	 de	 minutas	 e	 memorandos	 de	 todos	 os	 comitês	 e
seções,	 bem	 como	 dos	 procès	 verbaux	 do	 Conselho	 Supremo.	 Na	 prática,
entretanto,	havia	pouco	tempo	para	estudar	esses	alentados	documentos,	e
nem	 seria	 bem	 recebido	 o	 membro	 de	 uma	 seção	 interferir	 nas
preocupações	 de	 outra	 simplesmente	 porque	 tivera	 em	 suas	 mãos	 um
documento	com	o	qual	discordava.	Ciumeira	semelhante	 impediu	 ligações
harmoniosas	 entre	 a	 Delegação	 e	 a	 Embaixada	 em	 Paris.	 É	 bem	 verdade
que	não	havia	tempo	para	muitas	consultas.	Como	também	é	verdade	que
não	havia	muita	vontade.
Não	quero	exagerar	 esse	 aspecto	da	 coordenação	 falha.	Obviamente,	 as
relações	entre	as	diferentes	seções	do	Astoria	eram	amistosas	e	até	certo
ponto	 corteses.	 Evidentemente,	 também,	 durante	 aquelas	 intermináveis
refeições	no	Majestic,	 se	 conseguia	muita	 intercomunicação	detalhada.	Só
me	refiro	a	esse	componente	de	rivalidade	pessoal	e	ministerial	porque	na
verdade	 constitui	 um	 obstáculo	 à	 perfeita	 coordenação	 e	 porque	 é	 algo
inerente	 a	 qualquer	 organização	 que	 englobe	 seções	 recrutadas	 de
diferentes	 serviços	 e	 departamentos.	 É	 um	 fator	 contra	 o	 qual	 os
participantes	 de	 qualquer	 Congresso	 futuro	 devem	 se	 precaver,	 ou,	 pelo
menos,	a	ter	em	mente.
Entretanto,	 tais	 falhas	 assinaladas	 na	 coordenação	 entre	 as	 diversas
seções	da	Delegação	nada	foram	comparadas	aos	métodos	de	coordenação
inteiramente	aleatórios	praticados	entre	os	Plenipotenciários	e	a	Delegação
como	um	todo.	Raramente	nos	diziam	o	que	 fazer.	Nunca	nos	disseram	o
que	 faziam	nossos	 chefes.	 No	 começo	 da	 Conferência,	 isso	 foi	 totalmente
inevitável.	 Em	 primeiro	 lugar,	 eles	 não	 dispunham	 de	 tempo	 para	 nos
orientar	sobre	suas	políticas.	Em	segundo	lugar,	eles	próprios	não	sabiam
quais	 eram	 essas	 políticas.	 Por	 fim,	 em	 terceiro	 lugar,	 se	 as	 soubessem
teriam	tomado	muito	cuidado	para	não	as	revelar	com	antecedência.	Mas
também	não	posso	afirmar	que	meu	trabalho	na	seção	política	tivesse	sido,
de	algum	modo,	atrapalhado	por	desconhecer	nossos	principais	objetivos.
Parti	 do	 princípio	 de	 que	 o	 necessário	 era	 um	 acordo	 territorial	 tão
compatível	 quanto	 possível	 com	 o	 princípio	 da	 necessidade	 nacional	 e
econômica	de	um	país.	Presumi	também	que	essa	exigência	estava,	dentro
de	limites	razoáveis,	subordinada	à	necessidade	de	evitar	qualquer	brecha
séria	 com	 os	 Estados	 Unidos	 ou	 a	 França.	 Observados	 esses	 limites,	 eu
ficava	inteiramente	feliz	remando	meu	esquife	sem	instruções	específicas.
Mas	 em	outras	 seções	 da	Delegação	 esta	 falta	 de	 coordenação	 entre	 os
plenipotenciários	 e	 os	 especialistas	 foi	 bastante	 nociva.	 Gerava	 os
compartimentos	 estanques,	 impedia	 a	 definição	 de	 responsabilidade,
permitia	 a	 superposição	 e,	 em	 casos	 extremos,	 provocava	 uma	 completa
divergência	 de	 intenção.	 A	 seção	 econômica,	 por	 exemplo,	 trabalhava
intensamente	 para	 mostrar	 que	 era	 impossível	 à	 Alemanha	 pagar	 as
enormes	 somas	 que	 a	 seção	 de	 reparações,	 com	 igual	 empenho,	 se
preparava	para	extrair.	Em	consequência,	só	no	derradeiro	instante	nossos
Plenipotenciários	 puderam	 ter	 uma	 visão	 conjunta	 do	 tratado.	 Só	 então
puderam	 perceber	 que,	 no	 seu	 todo,	 os	 termos	 estavam	 muito	 mais
cartagineses	do	que	desejavam	ou	supunham.
Nas	 fases	 posteriores	 da	 Conferência,	 Mr	 Balfour	 passou	 a	 fazer	 uma
reunião	 matinal	 em	 que	 os	 chefes	 das	 diferentes	 seções	 apresentavam
relatórios	 e	 obtinham	 orientação	 para	 o	 trabalho	 diário.	 A	 experiência
colhida	do	valor	dessas	breves	reuniões	aumenta	meu	pesar	por	tal	sistema
não	ter	sido	adotado	nas	etapas	iniciais.	Como	exemplo,	o	fato	de	o	tratado
com	a	Bulgária	ser	mais	objetivo	do	que	o	referente	à	Alemanha	se	deve	em
grande	parte	à	contínua	discussão	de	suas	linhas	principais,	sob	a	direção
de	 Mr	 Balfour,	 pelos	 responsáveis	 por	 sua	 redação	 nas	 diversas	 seções.
Nenhuma	 coordenação	 ou	 discussão	 técnica	 dessa	 natureza	 precedeu	 a
elaboração	do	Tratado	de	Versalhes.
Era	 igualmente	 fortuita	 e	 aleatória	 a	 distribuição	 aos	 diversos
especialistas	 dos	 diferentes	 assuntos	 que	 lhes	 cabiam.	 Eu	 próprio,	 por
exemplo,	 me	 especializara	 por	 dez	 anos	 em	 questões	 dos	 Bálcãs	 e	 do
sudeste	 da	 Europa	 e,	 mesmo	 assim,	 fui	 designado	 para	 o	 Comitê	 de
Fronteiras	 da	 Tchecoslováquia,	 assunto	 para	 o	 qual	 estava	 totalmente
despreparado.	 Em	 fase	 posterior,	 tive	 de	 me	 ocupar	 com	 os	 destinos	 da
Turquia	 europeia	 e	 da	 asiática,	 matéria	 que	 certamente	 deveria	 ter	 sido
atribuída	às	mãos	mais	competentes	de	Mr	Arnold	Toynbee.	Também	não
sei	 dizer	 bem	 até	 hoje	 como	 foi	 que	me	 vi	 envolvido	 tão	 profundamente
com	 as	 reivindicações	 da	 Itália	 no	Adriático	 ou	 com	 as	 compensações	 na
Ásia	 Menor	 com	 as	 quais	 pensávamos	 subornar	 esse	 sôfrego	 país	 a
moderar	 suas	 ambições.	 Essas	 coisas	 simplesmente	 “aconteceram.”
Subitamente,	 um	 servidor	 podia	 se	 tornar	 necessário,	 conveniente	 e
disponível.	 Mr	 Lloyd	 George	 não	 gostava	 muito	 de	 “caras	 novas.”	 Mr
Balfour	gostava	de	gente	que	sabia	redigir	rapidamente	as	resoluções.	Foi
devido	a	tais	causas	aleatórias	que	me	foi	atribuído	um	trabalho	acima	de
minha	capacidade	e	um	grau	de	responsabilidade	totalmente	incompatível
com	 minha	 experiência	 e	 minha	 idade.	 Coisas	 dessas	 não	 podiam	 ter
acontecido.
Mais	 importante	 e	 mais	 destrutivo	 do	 que	 quaisquer	 defeitos	 na
organização	 ou	 nos	 procedimentos	 internos	 da	 Delegação	 Britânica	 foi	 a
inadequação	 estrutural	 da	 Conferência	 propriamente	 dita.	 Já	 chamei	 a
atenção	para	a	lamentável	consequência	da	rejeição	pelo	Presidente	Wilson
das	propostas	 francesas	de	29	de	novembro.	M	Clemenceau	parece	 ter-se
desencorajado	 em	 demasia	 por	 essa	 rejeição	 e	 não	 fez	 nenhuma	 nova
tentativa	para	trocar	o	programa	que	propôs	por	outro	de	palavras	menos
cruamente	 realistas.	 Será	 difícil	 para	 um	historiador	 explicar	 no	 futuro	 a
natureza	 tentativa	da	Conferência	nas	 fases	 iniciais,	e	ele	 inevitavelmente
será	tentado	a	atribuir	importância	exagerada	à	ideia	(que	existia,	mas	não
era	 predominante)	 de	 que	 as	 Potências	 Europeias	 “manobravam	 por
posição”	contra	os	Estados	Unidos.	É	inegável,	e	não	considero	vergonhoso,
que	 os	 líderes	 da	 Conferência	 desejassem	 evitar	 se	 comprometer	 com
qualquer	matéria	vital	antes	de	testarem	o	Presidente	Wilson	em	assuntos
de	 menor	 importância	 e	 se	 certificarem	 de	 que	 a	 interpretação	 dos
Quatorze	Pontos	por	House	realmente	correspondia	à	do	Presidente.	Mas	a
verdadeira	essência	da	desorganização	da	Conferência	deve	ser	procurada
em	outras	direções.
Para	 começar,	 o	Conselho	Supremo	da	Conferência	herdara	ostatus	do
Conselho	Supremo	de	Guerra	e	com	ele	o	método	de	pensamento.	Como	já
salientei,	 seus	 membros	 haviam	 adquirido	 o	 hábito	 de	 supor	 que	 sua
agenda	seria	imposta	pelos	acontecimentos,	e	não	gerada	por	processos	de
sua	 própria	 antevisão	 e	 escolha.	 Um	 bom	 exemplo	 desse	 método	 de
abordagem	está	nas	relações	com	as	Potências	Menores.	Concluíram,	com
toda	 propriedade,	 que	 discussões	 entre	 todos	 os	 vinte	 e	 sete	 estados
representados	em	Paris	degeneraria	em	uma	farsa.	Viram,	desde	o	começo,
que	 as	 Cinco	 Grandes	 Potências	 teriam	 que	 constituir	 seu	 “Conselho	 dos
Dez,”	 representando	 o	 poder	 de	 doze	milhões	 de	 soldados	 e	marinheiros
bem	 armados.	 Constataram	que	 as	 Potências	Menores	 teriam	de	 ser,	 por
esta	 razão,	 excluídas	 da	 direção	 da	 Conferência.	 Reconheceram	 o	 fato	 de
que	 essas	 Potências	 Menores	 se	 melindrariam	 com	 tal	 exclusão.	 Em
consequência,	 decidiram	 que	 algo	 teria	 de	 ser	 feito	 para	 satisfazer	 não
apenas	o	sentimento	pessoal	dos	Representantes	menores	na	Conferência,
mas	 também	 as	 expectativas	 nacionalistas	 dos	 respectivos	 legislativos	 e
eleitorados.	Assim,	desde	o	início,	foi	necessário	imaginar	um	método	que
permitisse	 aos	 delegados	 das	 Potências	 Menores	 aparentarem	 estar
realmente	tendo	alguma	influência	nas	deliberações	do	Conselho	Supremo.
Esse	 mecanismo	 funcionou	 de	 duas	 maneiras.	 Em	 primeiro	 lugar,	 foi
pedido	 aos	 delegados	 desses	 estados	 menores	 e	 estados	 sucessores	 que
declarassem	 por	 escrito	 o	 que	 desejavam	 obter	 do	 Tratado	 de	 Paz.	 Em
segundo	 lugar,	 cada	 um	 desses	 delegados	 foi	 convidado	 para	 expor
oralmente	ante	o	Conselho	Supremo	os	argumentos	em	que	 se	baseavam
suas	 reivindicações.	 Isso	 ocasionou	 perda	 de	 tempo	 e	 falsificação	 de
proporções.	 De	 fato,	 houve	 quatorze	 dessas	 “audiências”	 somente	 em
fevereiro,	cada	uma	durando	muitas	horas.
Inevitavelmente,	 também,	 as	 Potências	 Menores	 apresentaram
memorandos	 de	 reivindicações	 que	 excediam	 de	 muito	 suas	 reais
expectativas.	Ao	exporem	suas	pretensões	oralmente	diante	do	Conselho,
apenas	repetiram	o	que	já	estava	em	suas	Declarações	escritas	e	minaram	o
poder	 de	 resistência	 que	 os	 idosos	 senhores	 do	 Conselho	 podiam
apresentar	no	salão	quente	e	abafado.	Essa	perda	inicial	de	tempo	e	energia
é	 um	 ponto	 para	 o	 qual	 o	 historiador	 deve	 dirigir	 sua	 atenção.	 Deu	 os
membros	 do	 Conselho	 Supremo	 a	 sensação	 de	 realizarem	 um	 trabalho
valioso	 e	 produtivo,	 mas,	 na	 verdade,	 estavam	 apenas	 submetidos,	 com
variados	graus	de	cortesia,	a	um	exaustivo	e	desnecessário	embuste.
Esse	método	 particular,	 essa	 fase	 de	 improvisação,	 teve	 consequências
além	da	simples	perda	de	tempo.	Tomando	como	seu	ponto	de	partida	as
“reivindicações”	 dos	 estados	 menores	 e	 de	 estados	 sucessores,	 desde	 o
começo	o	Conselho	dos	Dez	falseou	o	foco	de	sua	atenção.	Permitindo	que	a
Grécia,	 a	 Iugoslávia,	 a	 Tchecoslováquia	 e	 os	 outros	 estados	 menores
abrissem	a	Conferência	com	uma	declaração	de	suas	pretensões,	introduziu
nas	 etapas	 iniciais	 da	 Conferência	 o	 problema	da	Áustria,	 da	Hungria,	 da
Bulgária	 e	 da	 Turquia.	 O	 programa	 óbvio	 seria	 abordar	 sucessivamente
cada	 tratado	de	 paz,	 tratando	 os	 ex-inimigos	 pela	 ordem	de	 importância.
Assim,	 devíamos	 concentrar-nos	 (1)	 no	 Tratado	 com	 a	 Alemanha,	 (2)	 no
Tratado	com	a	Áustria,	(3)	no	Tratado	com	a	Hungria,	(4)	no	Tratado	com	a
Turquia	e	(5)	no	Tratado	com	a	Bulgária.	Mas	em	consequência	da	confusão
inicial	 de	 representações,	 os	 cinco	 tratados	 desde	 o	 princípio	 se
misturaram.	As	pretensões	de	 cada	uma	das	Potências	Menores	 incidiam,
em	variados	graus,	no	território	de	nossos	ex-inimigos.	Assim	resultou	que,
desde	 as	 primeiras	 semanas,	 a	 Conferência	 se	 viu	 absorvida	 por
intermináveis	debates	em	busca	de	soluções	que	só	puderam	ser	postas	em
prática	nos	tratados	finais.	E	assim	resultou	que,	em	vez	de	concentrar	suas
energias	e	seu	trabalho	no	problema	principal	que	era	concluir	a	paz	com	a
Alemanha,	 o	 Conselho	 Supremo	 dissipou	 seus	 esforços	 tentando,
simultaneamente,	 chegar	 a	 artigos	 de	 acerto	 com	 nossos	 adversários
menos	 importantes.	 Esse	 erro	 foi	 uma	 das	 maiores	 causas	 de	 atrasos,
confusões,	superposições	e	eventuais	improvisos.	Essa	falha	fundamental,	é
bom	 repetir,	 resultou	 da	 falta	 de	 uma	 programação	 pactuada.	 Desde	 o
começo,	as	proporções	da	conferência	ficaram	viciadas.
Também	 não	 foi	 só	 isso.	 A	 circunstância	 acidental	 que	 levou	 a
Conferência	a	abordar	suas	questões	em	termos	não	de	Potências	inimigas,
mas	 das	 respectivas	 “reivindicações”	 de	 estados	 sucessores	 e	 de	 estados
menores,	 responde	 por	 grande	 parcela	 das	 superposições	 e	 falhas	 de
coordenação	a	que	aludi	anteriormente.	Com	um	comitê	central	“alemão,”
um	 comitê	 central	 “húngaro”	 e	 um	 comitê	 central	 “turco,”	 é	 possível	 que
esses	 comitês	 tivessem	 sido	 capazes	de	 tratar	 a	 questão	 com	noção	mais
exata	 do	 que,	 no	 agregado,	 estava	 sendo	 tirado	 de	 nossos	 ex-inimigos	 e
menos	 ênfase	 no	 que,	 em	 cada	 caso,	 estava	 sendo	 dado	 aos	 estados
sucessores.
Haverá	mais	a	comentar	sobre	Comitês	Territoriais	na	seção	 final	deste
capítulo.	 No	 próximo	 segmento,	 vou	 abordar	 outros	 aspectos	 da
organização	da	Conferência	de	Paz	no	seu	todo.
Como	 já	 disse,	 não	 foi	 possível	 evitar	 que,	 desde	 o	 início,	 a	 Conferência
fosse	dirigida	por	um	Comitê	ou	Conselho	das	Cinco	Grandes	Potências.	É
de	lamentar	apenas	que	essa	necessidade	essencial	não	fosse	considerada	e
aceita	 antes	 que	 a	 Conferência	 se	 reunisse.	 Também	 foi	 inevitável	 que,
naquele	momento,	a	Conferência	se	ocupasse	tanto	com	o	que	se	poderiam
chamar	 assuntos	 puramente	 executivos.	 Essa	 foi	 uma	 causa	 adicional	 de
sério	atraso,	mas	não	consigo	ver	como	poderia	ter	sido	evitada.
Havia,	em	primeiro	lugar,	o	problema	russo.	Extrapola	a	finalidade	deste
livro	analisar	se	o	Conselho	Supremo	agiu	 inteligentemente	com	a	Rússia
durante	aqueles	meses	ou	se	propostas	como	a	da	Conferência	de	Prinkipo
eram	 equivocadas	 e	 impulsivas.	 Permanece	 o	 fato	 de	 que	 a	 Rússia
constituía	 grave	 problema	 a	 levar	 em	 conta	 desde	 o	 começo,	 e	 que	 a
questão	 só	 poderia	 ter	 sido	 discutida	 pelos	 líderes	mundiais	 em	 reunião
conjunta.
No	entanto,	houve	outros	assuntos	de	ordem	executiva	que	a	Conferência
podia	 perfeitamente	 ter	 delegado	 a	 algum	 órgão	 vinculado,	 como	 o
Conselho	Interaliado	de	Versalhes.	Tais	assuntos	envolviam	as	hostilidades
que	ainda	prosseguiam	ou	ameaçavam	na	Galícia,	em	Teschen,	na	Carinthia,
na	Polônia	e	nos	Estados	Bálticos;	a	observância	de	inúmeros	armistícios	e
a	 renovação	 do	 armistício	 com	 a	Alemanha;	 a	 repatriação	 do	 exército	 do
general	Haller;	a	continuação	do	bloqueio	e	o	fornecimento	de	suprimentos
e	 ajuda	 aos	 exércitos	 das	 nações	 ex-inimigas	 que	 agora	 eram	 nossas
aliadas.	O	tempo	do	Conselho	Supremo	foi	indevidamente	desperdiçado	em
discussões	sobre	essas	matérias,	que	eram	secundárias	a	fazer	a	paz	com	a
Alemanha.	Somente	em	26	de	março	M	Clemenceau	e	o	Presidente	Wilson
se	deram	conta	deste	fato	tão	óbvio.	Como	registrou	o	coronel	House:	“Em
vez	de	fazer	apenas	um	esboço	do	quadro	em	suas	linhas	gerais,	o	estavam
desenhando	 como	 se	 fosse	 uma	 gravura	 a	 água	 forte.”	 Esse	 método	 de
detalhar	o	quadro	durou	várias	semanas.
O	 fato	 de	 a	 Conferência	 ser	 em	 Paris	 tornou	 necessário	 que	 M
Clemenceau	 fosse	 seu	 chairman	 e	 que	 o	 Secrétariat	 Général	 e	 o	 bureau
central	 também	 ficassem	 sob	 direção	 francesa.	 Muitas	 vezes	 se	 tem	 dito
que	M	Clemenceau	esteve,	como	presidente,	 incontrolável	e	sem	controle;
que	 só	despertava	de	 longos	períodos	de	 sonolência	 quando	 estavam	em
jogo	os	interesses	da	França	ou	quando	surgia	oportunidade	para	intimidar
o	Representante	de	alguma	Potência	menor.	A	acusação	é	injusta.	Verdade,
sim,	é	que	oPresidente	da	Conferência,	por	 longos	períodos	de	 cada	vez,
cerrava	suas	pálpebras	cor	de	marfim	sob	aquelas	sobrancelhas	surpresas,
procuradoras,	interrogatórias	e	céticas.	Mas	não	dormia.	É	verdade	que	em
certas	 ocasiões	 insultou	 os	 primeiros-ministros	 das	 Potências	 menos
importantes,	 atacando-os	 com	 uma	 virulência	 que	 fazia	 corar	 a	 face	 de
todos	os	presentes.	Porém	é	igualmente	verdade	que	esse	rude	mas	sensato
octogenário	 demonstrou	 um	 alerta	mental	 e	 uma	 capacidade	 de	 controle
que	 homens	 menores,	 diante	 de	 personalidades	 tão	 preponderantes,
teriam	 hesitado	 em	 exercer.	 Entretanto,	 não	 há	 como	 negar	 que	 M
Clemenceau	 estava	mais	 preocupado	 em	 controlar	 os	 acontecimentos	 do
que	em	planejar	como	os	assuntos	em	discussão	deveriam	ser	ordenados
de	forma	mais	objetiva.	O	controle	que	exerceu	foi	mais	do	que	apropriado,
fez	mais	do	que	simplesmente	supervisionar.	O	defeito	foi	no	planejamento
e	na	aplicação.
Essa	deficiência	por	parte	do	Presidente	da	Conferência	estava	refletida
na	personalidade	do	Secretário-Geral.	Por	 fatalidade,	M	Dutasta	–	homem
fraco,	 confuso,	 afobado	mas	não	 inamistoso	–	 foi	 escolhido	para	essa	alta
posição.	Comentou-se	que	sua	 indicação	se	deveu	às	 íntimas	relações	que
tinha	com	M	Clemenceau.	Realmente,	tudo	indica	que	M	Dutasta	aguentava
deste	último	desconsideração	e	 insulto	em	grau	muito	superior	ao	que	se
poderia	esperar	de	pessoa	com	menor	intimidade.	Foi	uma	pena	que	uma
cabeça	 privilegiada	 como	 a	 de	 M	 Philippe	 Berthelot	 não	 estivesse	 à
disposição	 da	 Conferência	 desde	 seu	 começo.	M	Berthelot,	 nessa	 ocasião,
estava	obscurecido	pela	nuvem	que	de	vez	 em	quando	pairava	 sobre	 sua
Olímpica	 e	 luminosa	 carreira.	 Estava	 autorizado	 a	 sugerir.	 Não	 estava
autorizado	a	organizar.	A	superior	capacidade	em	matéria	organizacional,
que	 vem	 a	 ser	 um	 subproduto	 do	 gênio	 francês,	 não	 se	 manifestou	 na
Conferência	 de	 Paris.	 A	 convincente	 precisão	 de	 um	 Berthelot	 ou	 um
Massigli	ficou	reservada	para	reuniões	posteriores.	Em	Paris,	sofremos	com
a	timidez	aflita	de	M	Dutasta	e	a	desastrada	teimosia	de	coruja	de	M	Pichon.
Os	defeitos	do	Secrétariat	Général	 aos	poucos	 foram	sendo	remediados
pela	 dedicação	 e	 eficiência	 inglesa	 de	 Mr	 Maurice	 Hankey,	 porém,	 pelas
consequências	 que	 apontei,	 causaram	grave	prejuízo	nos	 estágios	 iniciais
dos	trabalhos.	Um	Secretário	realmente	brilhante,	como	Gentz	ou	Massigli,
poderia	 ter	 corrigido	 a	 falta	de	um	programa	pactuado	por	meio	de	uma
sólida	 preparação	 de	 documentos	 objetivos	 para	 compor	 a	 agenda.	 M
Dutasta	 era	 muito	 confuso	 para	 adotar	 iniciativas	 de	 tal	 visão	 e
responsabilidade.	Abordava	os	assuntos	em	função	de	sua	necessidade	no
tempo	e	não	por	sua	real	importância.	Em	consequência,	as	seis	primeiras
semanas	da	Conferência	foram	desperdiçadas	na	discussão	de	“actualités,”
em	vez	de	se	voltarem	para	as	finalidades	vitais	que	lhe	tinham	provocado
a	convocação.
Na	 “tática,”	 nos	 detalhes,	 o	 trabalho	 do	 Secretariado-Geral	 foi	 do
admirável	no	mais	alto	grau.	A	 falta	de	uma	“estratégia	secretarial”	é	que
contribuiu	para	que	a	Conferência	não	dispusesse	de	uma	alternativa	para
o	programa	que	fora	rejeitado.
Presentemente,	 a	 Conferência	 de	 Paris	 é	 acusada	 de	 ignorância	 e
ineficiência.	A	questão	é	saber	se	essa	será	realmente	a	principal	crítica	da
posteridade.	 À	 medida	 que	 os	 primeiros	 contrafortes	 das	 dificuldades
imediatas	 forem	 transpostos	 e	 ficarem	 para	 trás	 na	 poeira	 do	 tempo,
surgirão	com	mais	clareza	os	picos	dos	verdadeiros	erros	cometidos.	Tenho
a	 sensação	 de	 que	 o	 julgamento	 da	 posteridade	 se	 concentrará	 não	 nas
falhas	da	Conferência	(que	foram	relativamente	pequenas	e	já	estão	sendo
corrigidas),	mas	em	sua	espantosa	hipocrisia.	As	causas	dessa	monumental
falta	 de	 sinceridade	 foram	 comentadas	 em	 capítulos	 anteriores.	 Suas
consequências	 serão	 abordadas	 no	 próximo.	 Porém,	 ainda	 sob	 o	 título
organização,	 é	 necessária	 uma	 referência	 aos	 métodos	 extremamente
ingênuos,	 para	 não	 dizer	 hipócritas,	 utilizados	 para	 fugir	 dos	 problemas
das	Potências	Menores	e	da	Imprensa.
Já	 ressaltei	 como	 o	 desejo	 de	 aliviar	 o	 ressentimento	 até	 certo	 ponto
artificial	 das	Potências	Menores	por	 serem	excluídas	da	direção	 suprema
da	Conferência	gerou	uma	deturpação	na	abordagem	das	questões	e	uma
consequente	confusão	entre	o	principal	e	o	secundário.	Passo	a	comentar,
agora,	a	farsa	das	Sessões	Plenárias.
Deram	 a	 entender	 às	 Potências	 Menores	 que	 as	 recomendações	 do
Comitê	Territorial	e	de	outros	comitês	da	Conferência	seriam	submetidas	a
uma	Sessão	Plenária	na	qual	teriam	a	oportunidade	de	expor	suas	opiniões.
Na	 prática,	 os	 representantes	 daquelas	 Potências	 foram	 inteligentes	 o
bastante	para	não	levar	a	sério	tal	promessa.	Mas	nós,	que	integrávamos	os
Comitês,	 fomos	menos	céticos.	Acreditávamos	que	nossas	recomendações,
em	instância	final,	seriam	submetidas	a	algum	tipo	de	discussão	derradeira,
na	qual	as	partes	interessadas	teriam	oportunidade	de	se	pronunciar.	Nem
por	 um	 instante	 chegamos	 a	 supor	 que	 nossas	 recomendações	 eram
absolutamente	 finais.	 Assim,	 nos	 dispusemos	 a	 aceitar	 meios-termos	 e
mesmo	apoiar	decisões	que	esperávamos	ardentemente	que,	nessa	última
instância,	 não	 fossem	 aprovadas.	 Não	 creio	 que	 fosse	 possível	 rever	 as
recomendações	 dos	 Comitês	 no	 Conselho	 dos	 Dez,	 nem	 no	 dos	 Quatro	 e
muito	menos	no	Plenário	da	Conferência.	A	revisão	de	Mr	Lloyd	George	das
recomendações	do	Comitê	Polonês,	embora	totalmente	 justificada,	causou
uma	 explosão.	 Mas	 permanece	 o	 fato	 de	 que	 deveríamos	 ter	 sido
informados	 de	 que	 nossas	 recomendações	 provavelmente	 seriam
aprovadas	sem	uma	nova	discussão,	e	as	Potências	Menores	deveriam	ter
sido	igualmente	esclarecidas	que,	na	prática,	os	Comitês	representariam	a
instância	final	de	recurso.	Mais	uma	vez	uma	imprecisão	no	mecanismo	de
funcionamento	produziu	efeitos	 infelizes.	Voltarei	 a	me	 referir	 a	 ela	mais
tarde.
As	 relações	 com	 a	 imprensa	 também	 foram	 vítimas	 de	 uma	 tímida
acomodação	 de	 natureza	 semelhante.	 Cerca	 de	 500	 correspondentes
especiais	 foram	 destacadoss	 para	 Paris	 com	 grandes	 despesas.	 Desde	 o
começo,	 protestaram	 contra	 o	 tratamento	 secreto	 dispensado	 aos
Covenants	 negociados.	O	Conselho	 Supremo	 ficou	 seriamente	perturbado
com	 tais	 protestos.	 Decidiu	 que	 a	 Imprensa	 seria	 admitida	 em	 todas	 as
Reuniões	 Plenárias.	 Resultou	 que	 só	 foram	 realizadas	 seis	 reuniões
plenárias,	 das	 quais	 apenas	 a	 que	 tratou	 da	 Convenção	 da	 Liga	 teve	 um
pouco	 mais	 que	 um	 caráter	 puramente	 fictício.	 A	 fim	 de	 amenizar	 a
indignação	 dos	 correspondentes	 de	 jornais	 de	 seus	 próprios	 países,	 os
Plenipotenciários	se	viram	obrigados	a	fornecer	“bombons”	de	informação
por	 sua	 conta,	 levando	 a	 acusações	 mútuas	 de	 “vazamento”	 e	 a
recriminações	 muito	 ásperas.	 Vemos,	 mais	 uma	 vez,	 o	 exemplo	 de	 um
modo	 covarde	 de	 encarar	 os	 fatos.	 A	 Imprensa	 deveria	 ter	 sido	 alertada
antes	 da	 abertura	 da	 Conferência	 de	 que	 não	 valeria	 a	 pena	 enviar
correspondentes	 especiais	 a	 Paris.	 Deveria	 ter	 sido	 informada	 de	 que	 as
discussões	teriam	de	ser	conduzidas	em	sigilo,	e	que	apenas	communiqués
feitos	 por	 acordo	 seriam	 emitidos	 para	 publicação.	 Há	 somente	 duas
maneiras	 de	 lidar	 com	 uma	 Imprensa	 democrática.	 A	melhor	 é	 lhe	 dizer
tudo,	 o	 que	 a	 desconcerta	 ao	 ponto	 de	 fastio.	 A	 segunda	melhor	 forma	 é
nada	dizer,	o	que	pelo	menos	 lhe	confere	a	glória	de	realizar	a	proeza	de
descobrir	o	que	é	“secreto”	e	vem	a	ser	um	modo	extremamente	gostoso	de
valorizar	a	notícia.	O	pior	método	é	dizer	meias-verdades	sob	a	 forma	de
vazamentos	 destinados	 a	 manter	 o	 bom	 relacionamento.	 Este	 método
ambíguo	foi	o	adotado	pela	Conferência	de	Paris.
Entre	outras,	estas	foram	as	falhas	de	organização	que	poderiamter	sido
evitadas	com	um	pouco	de	previsão.	Chamo	a	atenção	para	elas	por	terem
relação	 com	 as	 dificuldades	 que	 poderão	 surgir	 em	 congressos	 futuros	 e
para	que	uma	secretaria	que	venha	a	ser	constituída	possa	ter	a	presciência
e	 a	 determinação	 necessárias	 para	 extrair	 dos	 Plenipotenciários	 uma
posição	definida	sobre	os	problemas	antes	que	o	Congresso	realmente	se
reúna.	 Passo,	 agora,	 à	 organização	 dos	 comitês,	 que	 constituem	 o
embasamento	 do	 trabalho	 de	 qualquer	 conferência.	 Vou	 abordar	 os
Comitês	Territoriais,	uma	vez	que	 foi	 integrando	um	deles	que	colhi	mais
experiência.
O	Congresso	de	Viena,	depois	de	um	atraso	de	dois	meses	e	meio,	criou	oito
comitês.	A	Conferência	de	Paris,	com	igual	retardo,	organizou	cinquenta	e
oito.	 Funcionaram	 por	 seis	 meses	 e	 realizaram	 1.646	 reuniões.	 Suas
conclusões	foram	verificadas	por	26	investigações	locais	e	discutidas	em	72
reuniões	do	Conselho	dos	Dez,	em	39	do	Conselho	dos	Cinco	e	em	145	do
Conselho	dos	Quatro.	Extraí	 estes	dados	do	 trabalho	de	M	Tardieu,	Truth
about	 the	Peace	Treaty.	São	 impressionantes.	Não	questiono	sua	exatidão.
Na	prática,	porém,	os	Comitês	da	 conferência	não	 foram	 tão	organizados,
tão	supervisionados,	tão	verificados	e	tão	excelentes	quanto	possa	parecer.
Em	primeiro	lugar,	ocorreu	um	atraso	desnecessário	em	sua	constituição.
É	 bem	 verdade	 que	 em	 25	 de	 janeiro	 foram	 criados	 cinco	 Comitês	 para
tratar	 de	 Culpa	 pela	 Guerra	 e	 Criminosos	 de	 Guerra,	 de	 Reparações,	 de
Portos,	Vias	Navegáveis	e	Ferrovias,	de	Mão-de-obra	e	da	Liga	das	Nações.
Mas	 os	 Comitês	 Territoriais	 só	 foram	 plenamente	 constituídos	 em
fevereiro,	e	mesmo	então	sua	eficiência	 foi	reduzida	pela	natureza	de	sua
composição,	 assim	 como	 pelas	 imprecisões	 e	 limitações	 dos	 termos	 de
referência	recebidos.
Esses	 comitês	 consistiam	 de	 dez	 delegados,	 e	 cada	 uma	 das	 Cinco
Grandes	Potências	 tinha	 dois	 representantes.	 Pelo	menos	 um	deles	 era	 o
chamado	 “expert	 técnico,”	 em	 outras	 palavras,	 o	 indivíduo	 que,
supostamente,	 tinha	 se	 especializado	 na	 área	 particular	 que	 constituía	 o
objeto	do	 trabalho	do	Comitê.	O	 termo	“expert”	 tem	sido	atacado	porque,
em	 muitos	 casos,	 esses	 infelizes	 especialistas	 tinham	 pouco	 ou	 nenhum
conhecimento	 em	 primeira	 mão	 sobre	 os	 países	 cujo	 destino	 lhes	 cabia
definir.	Não	acho	que	essa	linha	de	crítica	seja	plenamente	justificável.	Por
um	 lado,	 tivemos	 a	 oportunidade	 de	 consultar	 gente	 que	 passara	 a	 vida
inteira	nos	países	que	estávamos	reagrupando,	ou	tinham	dedicado	anos	de
estudo	aos	problemas	que	éramos	chamados	a	resolver.	Allen	Leeper	e	eu,
por	exemplo,	nunca	movemos	uma	palha	sem	prévia	consulta	a	peritos	com
a	competência	do	Dr	Seton	Watson,	que	naquela	ocasião	se	encontrava	em
Paris.
Por	outro	lado,	fico	em	dúvida	se	uma	longa	familiaridade	com	um	país	é
sempre	uma	vantagem	quando	se	trata	de	formular	decisões	que	devem	ser
de	ampla	visão,	 imparciais,	despidas	de	preconceitos	e	compatível	com	as
necessidades	 e	 repercussões	 fora	 da	 área	 especificamente	 em	 discussão.
“Uma	 decisão,”	 assinala	 o	 Dr	 Day,	 “sobre	 o	 valor	 de	 cada	 alternativa	 de
fronteira	 envolve	 não	 somente	 um	 conhecimento	 dos	 detalhes,	 mas
também	 da	 avaliação	 da	 importância	 relativa	 dos	 diferentes	 interesses
humanos	 e	 de	 uma	 avaliação	 prospectiva	 da	 evolução	 do	 homem	 no
futuro.”	Nem	sempre	encontramos	essa	visão	ampla	em	pessoas	que	desde
a	 infância	 viveram	em	Tirana,	 ou	 cuja	 carreira	 foi	 devotada	 à	questão	de
Koutzo-Vlachs.	 De	 fato,	 considero	 que	 a	 acusação	 de	 “desconhecimento”
não	 passa	 de	 uma	 tentativa	 de	 distrair	 a	 atenção	 das	 falhas	 e	 erros
essenciais	nesses	Comitês	Territoriais.	Não	era	conhecimento	o	que	faltava,
mas	guia,	precisão,	coordenação,	critério	e	visão.
“Criar	novas	fronteiras,”	escreve	o	coronel	House,	“é	sempre	criar	novas
encrencas.”	Obviamente,	 as	 novas	 fronteiras	na	Europa	 causaram	 intensa
indignação	 local	 e	 inconveniência	 generalizada.	Mas	 a	 questão	 é	 que	 elas
tinham	de	ser	desenhadas.	Não	creio	que	um	crítico	esclarecido	e	objetivo,
ciente	 das	 dificuldades	 então	 vividas,	 chegasse	 à	 conclusão	 que,	 em	 seu
conjunto,	as	novas	fronteiras	foram	pouco	científicas.	Convém	lembrar	que
fomos	forçados	a	operar	em	carne	viva	do	que	era	ainda	um	organismo:	era
inevitável	 e	 previsível	 que	 as	 feridas	que	 criamos	 levassem	algum	 tempo
para	cicatrizar.	Por	exemplo,	 toda	a	estrutura	econômica	e	de	transportes
do	 Império	 Austro-Húngaro	 visava	 cortar	 as	 linhas	 entre	 as	 diferentes
nacionalidades:	 a	 finalidade	 toda	 da	 Conferência	 foi	 restabelecer	 aquelas
nacionalidades.	 Muitos	 nervos	 econômicos	 e	 mesmo	 algumas	 artérias
foram,	 desta	 forma,	 cortados.	 Mas	 não	 havia	 como	 evitar,	 conforme	 se
constatou	claramente	na	época.
É	por	outras	razões,	totalmente	diversas,	que	devo	criticar	a	composição
e	 o	 funcionamento	 dos	 Comitês	 Territoriais.	 Em	 primeiro	 lugar,	 como	 já
expliquei,	foram	constituídos	ad	hoc,	isto	é,	foram	criados	caso	a	caso,	não
em	observância	a	um	critério	geral,	mas	para	tratar	de	pretensões	fortuitas
que	algum	Aliado	ou	Novo	Estado	apresentara	à	Conferência	por	meio	de
um	documento	exigindo	determinado	 território.	Sua	principal	missão	não
era,	portanto,	propor	um	acerto	 territorial	geral,	mas	se	manifestar	sobre
as	reivindicações	particulares	de	certos	Estados.
Esse	método	empírico	e	de	todo	adventício	de	organização	dos	Comitês
gerou	infelizes	resultados.	O	Comitê	das	Exigências	Romenas,	por	exemplo,
só	pensou	em	termos	de	Transilvânia,	o	Comitê	das	Reivindicações	Tchecas
concentrou-se	 na	 fronteira	 sul	 da	 Eslováquia.	 Só	mais	 tarde	 percebeu-se
que	 esses	 dois	 comitês	 inteiramente	 estanques	 tinham,	 em	 conjunto,
imposto	 à	 Hungria	 uma	 perda	 de	 território	 e	 população	 de	 fato	 muito
grande.	 Se	 o	 trabalho	 tivesse	 sido	 concentrado	 nas	 mãos	 de	 um	 Comitê
“Húngaro,”	não	apenas	se	disporia	de	maior	parcela	de	fronteira	para	o	dá-
e-toma	das	discussões,	mas	ver-se-ia	que	o	total	da	cessão	imposta	deixaria
mais	magiares	sob	o	governo	estrangeiro	do	que	o	estabelecido	na	doutrina
da	 Autodeterminação.	 É	 verdade	 que,	 nas	 etapas	 finais,	 foi	 criado	 um
“Comitê	 de	 Coordenação”	 para	 atenuar	 superposições	 dessa	 natureza.
Porém,	 nessa	 ocasião,	 já	 era	 difícil	 rever	 decisões	 resultantes	 de	 longas
semanas	 de	 debates	 exaustivos.	 Ademais,	 os	 membros	 deste	 comitê,
embora	 tenham	realizado	muita	 coisa,	de	 fato	não	estavam	em	condições
de	conduzir	alguma	revisão	profunda	nos	termos	já	acordados.
Um	segundo	erro	na	sistemática	de	organização	dos	Comitês	Territoriais
foi	 o	 fato	 de,	 desde	 o	 começo,	 seus	membros	 não	 terem	 recebido,	 como
orientação,	nenhuma	indicação	de	que	suas	propostas	na	realidade	seriam
finais	e	decisivas.	Já	me	referi	a	esse	ponto,	mas	é	tão	importante	que	exige
melhor	exame.	Permito-me	reproduzir	os	termos	da	orientação	transmitida
ao	Comitê	Romeno.	São	os	seguintes:
	
“Houve	concordância	de	que	as	questões	levantadas	na	declaração	de	M
Bratianu	(...)	devem	ser	encaminhadas	para	exame,	em	primeira	instância,
a	 um	Expert	Committee	 (...)	 Será	 encargo	 do	 Comitê	 reduzir	 as	 questões
para	 decisão	 aos	 limites	 mais	 estreitos	 possíveis	 e	 fazer	 recomendações
para	 um	 acordo	 justo	 (...)	 O	 Comitê	 está	 autorizado	 a	 consultar	 os
Representantes	do	povo	concernente.”
	
Como	tantas	decisões	do	Conselho	Supremo,	essa	orientação	era	vaga	e
hermética,	 a	 ponto	 de	 parecer	 evasiva.	 Além	 disso,	 todas	 as	 questões
políticas	que	afetassem	algum	dos	Aliados	(questões	como	Klagenfurt	e	o
Trentino)	foram	retiradas	da	agenda	dos	Comitês,	que	eram	naturalmente
levados	a	admitir	que	suas	funções	eram	de	simples	assessoramento	e,	em
nenhuma	hipótese,	de	caráter	executivo.	De	que	essa	foi	a	 intenção	inicial
do	 Conselho	 Supremo,	 não	 tenho	 qualquer	 dúvida.	 Todavia,	 com	 a	 únicaexceção	 do	 Relatório	 Polonês,	 todos	 os	 relatórios	 unânimes	 dos	 Comitês
foram	adotados	sem	discussão	adicional,	e,	nos	casos	em	que	os	pareceres
não	eram	unânimes,	os	Comitês	eram	solicitados	a	discutirem	novamente	a
matéria,	na	esperança	de	que	a	unanimidade	 fosse	alcançada.	Não	afirmo
que	 a	 importância	 decisória	 assim	 adquirida	 pelos	 Comitês	 tenha	 sido
infeliz	ou	errada.	Digo	apenas	que,	desde	os	primeiros	dias,	deveria	ter	sido
previsto	 que	 seus	 membros	 seriam	 escolhidos	 mediante	 prévio
reconhecimento	 da	 grande	 responsabilidade	 que	 inevitavelmente	 lhes
caberia.	Não	foram	selecionados	segundo	este	critério.
Um	 terceiro	 equívoco	 foi	 os	 Comitês	 terem	 sido,	 desde	 o	 início,
desestimulados	a	expressar	qualquer	opinião	que	envolvesse	“princípios”	e
“política.”	 O	 Comitê	 Grego,	 por	 exemplo,	 segundo	 a	 orientação	 recebida,
ficou	 encarregado	 de	 examinar	 as	 reivindicações	 de	 M	 Venizelos.	 E	 foi
solicitado	a	decidir	se	a	área	reclamada	pela	Grécia	na	região	de	Smyrna	se
enquadrava	 como	 área	 de	 população	 grega.	 Não	 lhe	 foi	 pedido	 que
informasse	se	era	ou	não	sensato	permitir	a	presença	dos	gregos	na	Ásia
Menor.
Acresce	 que	 não	 nos	 foi	 dada	 qualquer	 orientação	 relacionada	 com	 o
inevitável	 conflito	 entre	 “autodeterminação”	 e	 “economia.”	 Os	 franceses
sempre	 insistiram	que	nossa	tarefa	principal	era	deixar	os	Novos	Estados
“viables,”	 como	chamavam,	ou,	em	outras	palavras,	provê-los	do	essencial
em	 segurança,	 transporte	 e	 recursos	 econômicos,	 sem	 o	 que	 eles	 seriam
incapazes	 de	 criar	 sua	 independência.	 Nunca	 nos	 disseram	 até	 onde
podíamos	ir	observando	este	argumento.	Tampouco	havia	uma	orientação
geral	 aceita	 para	 a	 questão	 de	 reivindicações	 “históricas,”	 se	 deviam	 ser
reconhecidas	 (os	 italianos,	 por	 exemplo,	 tinham	 nítida	 predileção	 pelo
Império	de	Adriano),	ou	se	devia	realmente	ser	preservado	o	princípio	da
“Santidade	dos	Tratados”	(geralmente	dos	Tratados	Secretos).	Então,	todos
esses	 princípios	 eram	 invocados	 ao	 mesmo	 tempo	 para	 justificar	 nossas
recomendações.
Em	suas	contrapropostas	de	29	de	maio,	os	alemães	tinham	toda	razão	ao
alegar	 que	 o	 acerto	 territorial	 se	 baseava	 ora	 no	 princípio	 da
autodeterminação,	ora	no	da	necessidade	econômica,	ora	no	dos	“direitos
históricos	 imemoriais”	 e	 que	 “em	 todos	 os	 casos,	 a	 decisão	 é	 contra	 a
Alemanha.”	Foi	desta	maneira,	por	uma	sucessão	de	compromissos	frágeis
e	por	um	acúmulo	de	argumentações	casuais	baseadas	em	falsos	critérios,
que	a	estrutura	do	wilsonismo	foi	demolida,	tijolo	por	tijolo.	Mais	uma	vez,
o	 curso	 dos	 acontecimentos	 foi	 consequência	 não	 de	 uma	 intenção
malévola,	mas	de	uma	persistente	indefinição	de	propósitos.
O	quarto	erro,	o	que	está	na	raiz	de	todo	o	fracasso	da	Conferência,	foi	o
fato	 de	 não	 estarmos	 obrigados	 a	 ter	 cada	 uma	 de	 nossas	 propostas
examinada	 pelos	 economistas.	 É	 verdade	 que,	 em	 momentos	 de	 muita
dificuldade,	 consultávamos	 particularmente	 especialistas	 em	 assuntos
como	 transporte	 ferroviário	 e	 aquático.	 Posso	 recordar	 como	 o	 general
Mance	 conseguiu,	 certa	 ocasião,	me	 convencer	 como,	 com	 custo	mínimo,
uma	 ferrovia	 alternativa	 podia	 ser	 construída	 na	 Eslováquia,	 permitindo
que	 muitos	 milhares	 de	 magiares	 se	 livrassem	 da	 incorporação	 a	 outra
comunidade.	 Mas	 em	 geral	 não	 levávamos	 suficientemente	 em	 conta
considerações	 de	 ordem	 econômica.	 E	 nossa	 omissão	 causou	 grande
sofrimento	a	muitos	milhões.
Não	digo	que	o	Conselho	Supremo	deva	ser	totalmente	responsabilizado
por	essas	nossas	faltas.	A	falha	repousa	mais	na	inadequação	de	nossa	visão
e	 nosso	 equipamento	 mental.	 Apenas	 defendo	 que	 também	 houve	 um
momento	em	que	a	“falta	de	um	foco	central”	deixou	nosso	trabalho	fora	de
perspectiva	e	comprometeu	a	inteireza	do	planejamento.	Em	toda	obra	de
fazer	a	paz	é	absolutamente	 imprescindível	um	“foco	central.”	Esperemos
que	um	erro	similar	não	se	cometa	de	novo.
Hoje	 em	 dia,	 olho	 horrorizado	 para	 o	 passado,	 lembrando	 aqueles
intermináveis	 Comitês	 nos	 salões	 abrasadores	 do	 Quai	 d’Orsay.	 Vejo	 um
grupo	 de	 homens	 pequeninos	 na	 extremidade	 de	 uma	 mesa	 enorme:
mapas,	 intérpretes,	 secretárias	 e	 filas	 atrás	 de	 filas	 de	 cadeiras	 douradas
vazias.	As	 grandes	 cortinas	vermelhas	 estão	 cerradas,	 escarlates	 contra	o
sol	 poente	 que	 se	 esconde	 suavemente	 por	 trás	 do	 Sena.	 Os	 candelabros
brilham	 com	 todo	 o	 poder	 do	 gênio	 latino.	 Passamos	 para	 o	 salão	 de
banquetes	 adjacente	 por	 alguns	 minutos	 para	 um	 chá	 com	 brioches	 e
biscoitos	de	 amêndoa.	 É	um	aposento	 grande	 e	 elegante,	 os	bules	de	 chá
gotejam	na	bandeja.	De	volta	à	nossa	longa	mesa:
	
“Messieurs,	nous	avons	donc	examiné	la	frontière	entre	Csepany	et	Saros	Patâg.	Il	résult	que	la
junction	du	chemin	de	fer	Miskovec-Kaschau	avec	la	ligne	St.	Peter-Losoncz	doit	être	attribuée...”
	
Regressando	 ao	Majestic,	 o	 som	da	música	do	 salão	de	baile	 chegava	 aos
nossos	ouvidos.
6	
Desavença
OS	 TRATADOS	 SECRETOS	 CELEBRADOS	 DURANTE	 A	 GUERRA	 com	 nossos	 aliados	 reais	 ou
potenciais	 estavam,	 como	 comentei	 anteriormente,	 entre	 os	 maiores
obstáculos	 à	 nossa	 liberdade	 de	 ação	 na	 Conferência	 de	 Paz.	 O	 mais
embaraçoso	 desses	 tratados	 foi	 aquele	 com	 que,	 em	 abril	 de	 1915,
seduzimos	 a	 Itália	 a	 abandonar	 a	 Tríplice	 Aliança	 e	 aderir	 à	 causa	 das
Potências	Ocidentais.	Esse	acordo,	conhecido	como	o	Tratado	de	Londres,
será	 discutido	 no	 próximo	 capítulo,	 quando	 entrarei	 em	 considerações	 a
respeito	 dos	 efeitos	 do	 “sacro	 egoísmo”	 de	 Orlando	 e	 Sonnino	 sobre	 os
princípios	 de	 Mr	 Wilson.	 No	 presente	 capítulo,	 desejo	 examinar	 as
dificuldades	 e	 os	 atrasos	 causados	 por	 outras	 divergências,	 talvez	menos
relevantes,	 surgidas	 entre	 as	Potências	Aliadas	 e	Associadas	 reunidas	 em
Conferência.	Para	que	essas	divergências	possam	ser	apreciadas	na	devida
proporção,	 será	 necessário	 fazer	 uma	 referência	 aos	 Tratados	 Secretos
secundários	nos	quais	também	estávamos	enrolados.
Abordarei	 esses	 tratados	 e	 as	 complicações	 resultantes	 em	 ordem
crescente	 de	 importância,	 começando	 com	 o	 mais	 insignificante	 e
finalizando	 com	 os	 que,	 com	 exceção	 dos	 Tratados	 Italianos,	 causaram
maior	grau	de	problemas.	Começo	então	examinando	o	Tratado	Romeno	de
17	de	agosto	de	1916,	cuja	história	é	a	seguinte:
Em	 30	 de	 outubro	 de	 1883,	 um	 tratado	 fora	 resolvido	 entre	 o	 Conde
Andrassy	e	M	Bratianu	–	o	velho	–	pelo	qual	 a	Romênia	aderia	à	Tríplice
Aliança	 constituída	 de	 Alemanha,	 Áustria-Hungria	 e	 Itália.	 Embora	 esse
Tratado	nunca	fosse	ratificado	pelo	parlamento	romeno,	o	Rei	Karl	(Carol)
da	Romênia,	sendo	um	Hohenzollern	e	homem	honrado,	com	a	eclosão	da
Guerra	Europeia	ficou	ansioso	por	cumprir	o	compromisso	assumido	pelo
Tratado	e	juntar	forças	com	a	Alemanha.	Com	esse	propósito,	convocou	um
Conselho	da	Coroa	na	 isolada	floresta	de	pinheiros	da	região	de	Sinaia.	M
Carp,	líder	dos	conservadores,	estava	de	acordo	com	o	Rei	Karl.	O	Bratianu
mais	jovem,	líder	dos	liberais,	contrariando	a	posição	do	pai,	defendeu	que
o	tratado	com	a	Alemanha	fosse	ignorado.	M	Také	Ionescu,	líder	do	Partido
Conservador	 Democrático,	 pressionou	 por	 uma	 imediata	 intervenção	 do
lado	 da	 Entente.	 Ficou	 decidido,	 diante	 da	 divergência	 entre	 os	 líderes
políticos,	 que	 seria	 adotada	 uma	 postura	 de	 “neutralidade	 vigilante.”	 M
Bratianu	 manteve	 essa	 atitude	 de	 expectativa	 por	 dois	 anos.	 A	 vitoriosa
ofensiva	 do	 general	 Brusiloff	 em	 junho	 de	 1916	 o	 convenceu	 de	 que
finalmente	chegara	o	momento	de	intervir.	Abriram-se	negociações	com	os
países	 da	 Entente,	 e	 o	 preço	 da	 Romênia	 foi	 posto	 em	 termos	 nada
modestos.	Devia	receber	a	posse	de	toda	a	Transilvânia	e	de	toda	a	região
da	Bukovina	ao	sul	do	Dniester.	Também	ficaria	com	toda	a	área	do	Banat
de	Temesvar	até	o	Theiss.Pelo	artigo	do	Tratado	Secreto,	devia	gozar	dos
“mesmos	 direitos	 de	 seus	 aliados”	 no	 que	 se	 refere	 a	 negociação	 e
discussão	 em	 uma	 eventual	 conferência	 de	 paz.	 Segundo	 o	 artigo	 V,	 os
signatários	do	tratado	se	comprometiam	a	não	fazer	uma	paz	em	separado.
Em	27	de	agosto,	a	Romênia	entrou	na	guerra	e,	tomada	de	uma	loucura
triunfante,	 invadiu	 fundamente	 a	Transilvânia.	A	 retaliação	das	Potências
Centrais	foi	imediata	e	fulminante.	Os	alemães	entraram	em	Bucarest	em	6
de	dezembro.	O	exército	romeno	recuou	para	a	Moldávia	e,	sob	o	comando
do	general	Berthelot,	executou	uma	defensiva	muito	corajosa	ao	 longo	de
doze	meses.	A	eclosão	da	Revolução	Russa	acabou	com	qualquer	esperança
de	resistência.	M	Bratianu,	depois	de	se	esforçar	em	vão	para	induzir	seus
aliados	a	liberá-lo	das	disposições	do	artigo	V,	viu-se	forçado	a	concluir	um
armistício	em	9	de	dezembro	de	1917	e	assinar	em	separado	a	capitulação
pela	Paz	de	Bucareste,	em	7	de	maio	seguinte.	Por	esse	Tratado,	a	Romênia
foi	obrigada	a	ceder	praticamente	toda	a	região	de	Dobrudja	e	a	se	colocar
sob	o	protetorado	econômico	das	Potências	Centrais.	Esse	tratado	nunca	foi
ratificado	pelo	parlamento	romeno.
Em	 9	 de	 novembro	 de	 1918,	 dois	 dias	 antes	 do	 armistício	 final,	 a
Romênia	repudiou	o	tratado	de	7	de	maio	e	novamente	declarou	guerra	à
Alemanha.	 O	 motivo	 para	 esta	 renovada	 declaração	 foi	 uma	 alegada
violação	do	Tratado	de	Bucarest	por	parte	da	Alemanha.	Com	tal	alegação,
o	governo	 romeno	reconheceu	que	o	Tratado,	 embora	ainda	pendente	de
ratificação,	era	um	instrumento	válido.	Para	os	romenos,	 foi	uma	péssima
admissão.	A	situação	resultante	caracterizou	bem	o	tipo	de	problema	com	o
qual	a	Conferência	de	Paz	teve	de	se	defrontar.	M	Bratianu	defendia	que	o
Tratado	 Secreto	 de	 agosto	 de	 1916,	 entre	 a	 Romênia	 e	 os	 Aliados
vitoriosos,	permanecia	plenamente	em	vigor.	Por	conseguinte,	reivindicava
não	 somente	 a	 Transilvânia,	 mas	 toda	 a	 região	 do	 Banat.	 Também
reclamava,	com	amparo	no	artigo	VI	do	Tratado	Secreto,	status	idêntico	ao
dos	representantes	das	Grandes	Potências,	que	não	atenderam	nenhuma	de
suas	pretensões.	Não	se	importavam	tanto	com	a	Transilvânia	e	a	Bukovina
(que	 pertencia	 ao	 inimigo),	mas	 se	 preocupavam	muito	 com	 a	 região	 do
Banat,	 que	 era	 reclamada,	 com	 grande	 dose	 de	 justiça,	 pelos	 iugoslavos.
Mas	 sobretudo	 a	 ideia	 de	 a	 Romênia	 –	 e	 especialmente	 de	M	 Bratianu	 –
desfrutar	o	mesmo	status	de	uma	Grande	Potência	foi	um	martírio	para	a
alma.	Assim,	deixaram	bem	claro	para	M	Bratianu	que,	ao	celebrar	uma	paz
em	separado	com	a	Alemanha,	em	maio	de	1918,	a	Romênia	violara	o	artigo
V	do	tratado	original	de	agosto	de	1916	e,	em	consequência,	o	tornara	nulo
e	inócuo.
M	Také	Ionescu,	é	bom	reconhecer,	sendo	um	homem	com	discernimento
da	Europa,	previra	que	desde	o	início	essa	seria	a	posição	da	Conferência	e
que,	 de	 acordo	 com	 a	 lei,	 tentar	 contestá-la	 seria	 inútil.	 Em	 novembro,
apressou-se	 em	 ir	 a	 Londres	 e	 Paris	 e,	 com	 a	 ajuda	 de	M	Venizelos,	 teve
êxito	negociando	com	M	Pasic	uma	proposta	mais	sensata,	segundo	a	qual	o
Banat	 seria	 dividido	 entre	 a	 Iugoslávia	 e	 a	 Romênia,	 observando-se	 o
critério	da	nacionalidade.	Foi	além.	Esboçara	o	texto	de	um	acordo	para	os
Bálcãs,	 estabelecendo	 que	 os	 quatro	 estados	 balcânicos	 acertariam	 suas
diferenças	e	constituiriam	uma	frente	única,	comprometendo-se	a	se	apoiar
mutuamente	contra	o	previsto	ditado	das	Grandes	Potências.
Esse	 bloco	 balcânico	 na	 verdade	 atrairia	 a	 Tchecoslováquia	 e	 talvez	 a
Polônia	para	sua	órbita	e	representaria	um	elemento	bastante	poderoso	na
Conferência	de	Paz.	M	Bratianu,	contudo,	recusou-se	a	acatar	a	opinião	de
M	 Také	 Ionescu,	 que	 não	 foi	 incluído	 na	 delegação	 romena	 em	 Paris.
Permaneceu	 no	 Hotel	 Meurice,	 balançando	 sua	 lúcida	 cabeça	 diante	 das
loucuras,	as	vaidades	e	a	obstinada	cegueira	de	M	Bratianu.	Este	conduziu
de	 forma	 tão	 desastrada	 as	 questões	 de	 interesse	 da	 Romênia	 na
Conferência	que	se	indispôs	com	seus	mais	ardorosos	amigos	em	seu	país	e,
afinal,	teve	de	ser	dispensado	do	cargo	por	um	verdadeiro	ultimato	emitido
pelo	Conselho	Supremo.
A	pequena	história	que	relatei	é,	pelo	ângulo	do	presente	trabalho,	mais
importante	 do	 que	 possa	 parecer.	 Tem-se	 dito	 que	 os	 membros	 do
Conselho	 Supremo	 eram	 exageradamente	 sensíveis	 a	 considerações	 de
ordem	pessoal,	e	que	a	simpatia	e	habilidade	de	M	Venizelos	(para	citar	um
exemplo	óbvio)	 conseguiu	 concessões	para	 a	Grécia	 que	um	homem	com
menor	 pendor	 diplomático	 dificilmente	 teria	 obtido.	 Longe	 de	 mim
qualquer	 intenção	 de	 depreciar	 a	 fama	 de	 M	 Venizelos	 como	 mestre
consumado	 da	 técnica	 diplomática,	 ou	 de	 subestimar	 o	 êxito	 que	 o
magnetismo	pessoal	daquele	estadista	permitiu	alcançar.	Todavia,	convém
assinalar,	 fazendo	 justiça	 ao	 Conselho	 Supremo,	 que	 suas	 decisões	 na
verdade	 não	 eram	 totalmente	 governadas	 por	 emoções	 subjetivas.	 O
incidente	 Bratianu	 é	 uma	 valiosa	 evidência	 da	 objetividade	 com	 que	 o
Conselho	 atuava.	 Ninguém	 poderia	 ter	 sido	 mais	 leviano,	 irracional,
irritante	e	provocador	do	que	Ion	Bratianu.	Apesar	disso,	a	antipatia	quase
generalizada	 que	 despertava	 não	 prejudicou	 realmente	 as	 pretensões	 de
seu	país	na	Conferência	de	Paz.	A	Romênia	obteve	“tudo	e	mais	um	pouco.”
E	o	conseguiu	por	razões	absolutamente	impessoais.
Parto	do	princípio	–	e	espero	que	assim	aconteça	–	que	quem	futuramente
analisar	 a	 Conferência	 de	 Paz	 previamente	 afastará	 todos	 os	 reflexos
emocionais	e	éticos	que	a	expressão	“Tratados	Secretos”	possa	despertar.
Creio	 que	 terão	 a	 necessária	 sensibilidade	para	 concluir	 que,	 no	 calor	 da
beligerância,	os	estadistas	tendem	a	se	apegar	a	qualquer	barganha	capaz
de	assegurar	o	prosseguimento	vitorioso	de	uma	guerra.	Assim	fizeram	no
passado	e	assim	continuarão	a	fazer	no	futuro.	Não	é	sensato	supor	que	um
estadista	 comprometa	 seu	 país	 em	 uma	 guerra	 integrando	 uma	 coalizão
previamente	 existente	 sem	 obter	 antecipadamente	 uma	 garantia	 formal
por	 parte	 dessa	 coalizão	 de	 que,	 uma	 vez	 conquistada	 a	 vitória,	 poderá
conseguir	 uma	 parcela	 do	 espólio.	 É	mais	 ilógico	 ainda	 exigir	 que	 desde
logo	os	termos	desse	acordo	sejam	anunciados.	Na	verdade,	a	objeção	aos
Tratados	feitos	com	nossos	Aliados	durante	a	guerra	não	é	tanto	pelo	fato
de	 serem	 secretos,	 mas	 por	 serem	 pouco	 científicos	 e,	 em	muitos	 casos,
mutuamente	conflitantes.
As	pessoas	que	estudam	o	passado	com	a	convicção	de	que	certamente
agiriam	 melhor	 no	 presente	 adotam	 um	 hábito	 mental	 perigoso.	 Estão
introduzindo	parâmetros	éticos	de	tranquilidade	em	um	cenário	emocional
dominado	 pelo	 perigo.	 Seria	 melhor	 que	 os	 estudiosos	 de	 assuntos
internacionais	se	concentrassem	menos	em	comparações	éticas	e	mais	na
questão	 do	 comportamento	 humano	 em	 tempos	 de	 tensão	 para	 a
humanidade.	 A	 generosidade,	 quando	 se	 envolve	 com	 as	 máquinas	 de
necessidade	 humana,	 não	 é	 suficientemente	 forte.	 Tratando-se	 de
negociações	de	paz,	tornam-se	indispensáveis	reforços	de	outra	natureza.	O
estadista	 de	 status	 mais	 idoso	 necessitará	 de	 capacidade	 de	 previsão	 e
planejamento,	 de	 programas	 rígidos,	 tempo,	 obstinação,	 independência,
método	e	a	faculdade	de	insistir	nas	exigências	mais	inconvenientes.
Também	necessitará	de	uma	equipe	de	assessores	técnicos	numerosos	e
bem	 preparados.	 Que	 qualidades	 esses	 experts	 devem	 ter?	 As	 seguintes:
boa	 saúde,	 rapidez	 de	 compreensão,	 paciência,	 sanidade	 comparativa,
grande	 resistência	 à	 fadiga	 física,	 encanto,	 ausência	 de	 preconceito	 de
classe	 para	 cima	 e	 para	 baixo,	 imensa	 curiosidade,	 desembaraço	 com
mapas	e	papéis,	operosidade,	precisão,	o	poder	de	fazer	as	perguntas	mais
inconvenientes	 em	 momento	 errado,	 não	 apresentar	 limitações	 físicas
muito	visíveis,	intimidade	com	os	Secretários	Particulares	de	seus	própriosPlenipotenciários,	 bom	 senso	 para	 não	 deixar	 transparecer	 essa
intimidade,	 algum	 conhecimento	 com	 os	 correspondentes	 de	 imprensa
mais	obscuros	(N.B.:	os	correspondentes	menos	obscuros	tendem	a	rejeitar
essa	aproximação),	hábito	de	olhar	para	cima	e	não	para	baixo	quando	não
sabem	a	resposta,	cortesia,	capacidade	de	datilografar	com	cópia	a	carbono,
leve	mas	não	obstrutiva	familiaridade	com	economia,	 limpeza,	sobriedade
compatível	com	as	devidas	ocasiões,	animação,	estatísticas	de	fontes	ainda
mais	 recônditas	 e	 anônimas	 do	 que	 as	 invocadas	 por	 seus	 colegas
estrangeiros,	 alguma	 proficiência	 na	 literatura	 ou	 na	 arquitetura	 de	 pelo
menos	uma	nacionalidade	muito	oprimida,	capacidade	de	suportar	longos
banquetes,	 honestidade,	 capacidade	 de	 falar	 correta	 e	 fluentemente
idiomas	que	 seus	 colegas	 estrangeiros	não	 são	 capazes	de	 falar	 correta	 e
fluentemente,	 nenhuma	 crença	 consumada	 na	 sabedoria	 do	 Povo	 e	 da
Imprensa,	 boa	 memória,	 falar	 a	 verdade	 e,	 acima	 de	 tudo,	 absoluta
imunidade	contra	qualquer	manifestação	de	vaidade	humana.	Só	possuindo
todas	essas	qualidades	pode	um	rapaz	aspirar	vir	a	ser	de	real	valia	para
seus	superiores	na	negociação	de	uma	paz	de	justiça,	equidade	e	duração.
Afasto-me	desta	digressão	e	 retorno	à	questão	dos	Tratados	Secretos	 e
das	resultantes	desavenças	entre	os	próprios	Aliados.	É	impossível,	dentro
dos	 limites	 deste	 trabalho,	 definir	 a	 proporção	 exata	 de	 tempo	 e	 energia
absorvidos	por	essas	disputas	desagregadoras.	Posso	afirmar	que	cerca	de
30%	 de	 toda	 a	 energia	 do	 Conselho	 Supremo	 foi	 absorvida	 por	 funções
executivas,	que	uns	10%	foram	desperdiçados	em	detalhes	desnecessários
e	 40%	 dedicados	 a	 impedir	 um	 rompimento	 entre	 os	 Aliados.	 Os	 20%
restantes	foram	devotados	à	missão	de	promover	a	paz.
Dos	demais	Tratados	 Secretos,	 aquele	pelo	qual	 nos	 comprometemos	 a
ceder	Constantinopla	à	Rússia	 fora	denunciado	pelo	Governo	Soviético.	O
Tratado	 Franco-Russo	 de	 11	 de	 março	 de	 1917	 (pelo	 qual,	 em	 troca	 de
liberdade	 para	 agir	 na	 Polônia,	 a	 Rússia	 garantia	 à	 França	 a	 posse	 não
apenas	 da	 Alsácia-Lorena	 e	 do	 vale	 do	 Sarre,	mas	 também	 uma	 Renânia
independente	com	uma	guarnição	do	exército	 francês)	também	perdera	a
validade.	Com	exceção	dos	dois	tratados	italianos,	o	de	Londres	e	o	St.	Jean
de	Maurienne	 (que	 serão	 abordados	 no	 próximo	 capítulo),	 restam	 nosso
acordo	 com	 os	 árabes,	 o	 acordo	 Sykes-Picot	 com	 os	 franceses,	 e	 nosso
compromisso	com	o	Japão	no	sentido	de	apoiar	sua	reivindicação	de	herdar
todos	os	direitos	da	Alemanha	na	província	de	Shantung.
Não	 é	 minha	 intenção	 entrar	 em	 detalhes	 sobre	 estes	 tratados	 e	 as
complicações	que	geraram,	já	que,	pessoalmente,	estive	totalmente	alheio	a
tais	 evoluções.	 Contudo,	 é	 necessário	 que	 sejam	 mencionados,	 pois	 em
grande	parte	foi	através	deles	que	prosperou	na	Conferência	um	ambiente
de	discórdia	e	desordem,	considerando	ainda	que	nesse	ambiente	tenso	e
febril	foram	conduzidas	todas	as	negociações	posteriores.
As	 promessas	 que	 fizéramos	 aos	 árabes,	 conflitando	 com	 as	 feitas	 à
França	 no	 posterior	 acordo	 Sykes-Picot,	 provocaram	 uma	 situação	muito
constrangedora	 envolvendo	 os	 vértices	 de	 um	 triângulo:	 os	 franceses,	 o
Presidente	 Wilson	 e	 nós	 mesmos.	 Os	 principais	 fatores	 desta	 situação
foram	 os	 seguintes.	 Entre	 outubro	 de	 1914	 e	 novembro	 de	 1915,
mensagens	haviam	sido	trocadas	entre	o	Alto-Comissariado	inglês	no	Cairo
e	o	Sherif	de	Meca,	mais	tarde	rei	Hussein	do	Hedjaz.	Essas	comunicações
foram	 revestidas	 da	 ambiguidade	 inseparável	 de	 toda	 correspondência
oriental,	 mas	 deixaram	 na	 mente	 do	 rei	 Hussein	 a	 impressão	 de	 que	 a
Inglaterra	lhe	garantira	apoio	na	fundação	de	um	império	árabe	unido	com
capital	 em	 Damasco.	 É	 verdade	 que,	 no	 curso	 da	 correspondência,	 o
governo	 inglês	 (que	 estava	 comprometido	 por	 um	 entendimento	 com	 a
França	datando	de	1912,	de	“desinteresse	pela	Síria”)	deixara	transparecer
uma	 certa	 ressalva	 sobre	 Damasco.	 Essa	 ressalva,	 contudo,	 fora
estudadamente	 imprecisa,	 e	 convém	 notar	 que	 não	 comunicamos	 o
posterior	acordo	Sykes-Picot	aos	árabes,	assim	como	nossas	promessas	ao
rei	Hussein	não	foram,	até	março	de	1919,	reveladas	aos	franceses.
Com	a	eclosão	da	revolução	árabe,	em	maio	de	1916,	o	governo	francês,
em	 vista	 do	 que	 considerava	 serem	 seus	 direitos	 consagrados	 à	 Síria	 e	 à
Cilícia,	ficou	temeroso	que	pudessem	ser	ameaçados.	A	fim	de	tranquilizá-
los,	foi	assinado	um	acordo	entre	M	Georges	Picot	e	Sir	Mark	Sykes,	em	16
de	maio	de	1916.	Esse	acordo	estabeleceu	a	divisão	da	Ásia	Menor,	assim
como	das	partes	árabes	do	Império	Otomano,	entre	a	Rússia,	a	França	e	nós
ingleses.	 Ficaríamos	 com	 a	 Mesopotâmia,	 os	 franceses	 com	 a	 Síria,	 e	 os
russos	com	a	Armênia	e	o	Curdistão.	O	território	entre	as	fatias	francesa	e
inglesa	 seria	 deixado	 para	 o	 Império	 Árabe,	 mas	 seria	 subdividido	 em
zonas	 de	 influência	 inglesa	 e	 francesa.	 Os	 italianos	 foram	 excluídos	 de
qualquer	parcela	nesta	divisão.
Em	3	de	outubro	de	1918,	o	Emir	Feisal,	acompanhado	pelo	coronel	T.E.
Lawrence,	 galopou	 rumo	a	Damasco	à	 testa	de	1500	cavalarianos	árabes,
deixando	 bem	 clara	 sua	 disposição.	 Foi	 um	 acontecimento	 totalmente
inesperado,	 de	 imediato	 soaram	 os	 alarmes	 em	 Londres	 e	 Paris,	 sendo
expedida	 uma	 série	 de	 communiqués	 conjuntos.	 O	 assunto	 também	 foi
levantado	durante	 a	 visita	de	M	Clemenceau	a	Londres.	Porém,	quando	a
Conferência	se	reuniu,	a	opinião	pública	francesa	já	estava	partant	pour	la
Syrie,	 e	 o	 governo	 inglês	 se	 viu	 diante	 do	 dilema	 de	 quebrar	 as	 vagas
promessas	 feitas	 aos	 árabes	 ou	 o	 compromisso	 mais	 explícito	 com	 os
franceses.
Na	realidade,	a	questão	se	resumiu	à	linha	Homs-Harna-Aleppo;	a	quem
seria	atribuída	Mosul;	e	ao	destino	eventual	da	Palestina.	Nesses	detalhes
não	 precisamos	 nos	 interessar.	 Dentro	 da	 abordagem	 deste	 trabalho,	 o
interessante	 é	 notar	 que	 a	 questão	 árabe	 envolvia	 Mr	 Lloyd	 George,	 M
Clemenceau	 e	 o	 Presidente	 Wilson	 em	 três	 distintas	 mas	 extremamente
desagradáveis	 situações.	Mr	 Lloyd	George	 não	 via	 por	 que,	 depois	 de	 ter
conquistado	a	Síria,	devia	passá-la	adiante,	com	as	 fronteiras	ampliadas	e
violando	nossas	promessas	implícitas	aos	árabes.	M	Clemenceau	não	sabia
como	poderia	conter	o	clamor	do	Partido	Colonial	Francês	sem	abrir	uma
brecha	com	a	Inglaterra.	E	o	Presidente	Wilson,	informado	pelo	Dr	Howard
Bliss	 e	 outros	 que	 os	 sírios	 de	 forma	 alguma	desejavam	nem	mesmo	um
“mandato”	francês,	se	esforçava	por	conciliar	essa	posição	desfavorável	dos
sírios	com,	por	um	lado,	a	doutrina	da	autodeterminação	e,	por	outro,	com
o	 fato	 inegável	 de	 a	 França	 e	 a	 Inglaterra	 terem	 se	 comprometido	 por
tratado	com	uma	solução	que	violaria	flagrantemente	a	doutrina.
Esta	controvérsia	se	intensificou	durante	os	meses	de	janeiro	e	fevereiro.
Foi	 concedida	 ao	 Emir	 Feisal	 a	 oportunidade	 de	 uma	 “exposição”	 para	 o
Conselho	dos	Dez.	“Sua	voz,”	lembra	Mr	Lansing,	“parecia	exalar	o	perfume
do	 incenso.”	 Enquanto	 isso,	 o	 coronel	T.E.	 Lawrence	 caminhava	para	 lá	 e
para	 cá	 pelos	 corredores	 do	 Majestic,	 as	 marcas	 do	 ressentimento
acentuadas	em	torno	de	seus	lábios	de	menino:	um	universitário	de	queixo
erguido.
A	controvérsia	culminou	com	uma	reunião	na	Rue	Nitot	em	20	de	março
de	1919.	Mr	Lloyd	George	afirmou	que,	se	Damasco,	Homs,	Harna	e	Aleppo
fossem	 incluídas	 na	 esfera	 de	 jurisdição	 direta	 da	 França,	 os	 ingleses
estariam	traindo	a	confiança	dos	árabes.	Lord	Allenby,	que	também	estava
presente,	 foi	 mais	 além.	 Expôs	 a	 opinião	 de	 que	 se	 os	 franceses	 fossem
impostos	 à	 Síria	 contra	 a	 vontade	 desta,	 “haveria	 problemas	 e
possivelmente	 guerra.”	M	 Pichon	 disse	 que	 a	 França	 não	 podia	 liberar	 a
Inglaterra	 das	 disposições	 de	 um	 tratado	 celebrado	 solenementeapenas
porque	 seus	 termos	 conflitavam	 com	 obrigações	 prévias	 assumidas	 com
terceiros,	 que	 não	 tinham	 sido	 informadas	 oportunamente	 à	 França.	 O
Presidente	Wilson	(foi	praticamente	a	última	ocasião	em	que	manteve	seus
princípios)	 disse	 que	 para	 ele	 pouco	 interessava	 o	 que	 a	 Inglaterra	 e	 a
França	tivessem	decidido	num	Tratado	Secreto;	que	os	dois	países	tinham
aceito	 os	 Quatorze	 Pontos;	 que,	 em	 consequência,	 estavam	 obrigados	 a
obedecer	somente	aos	anseios	das	populações	envolvidas,	não	importando
o	que	tivessem	combinado	previamente.
Havia	 alguma	 incerteza	 sobre	 tais	 anseios.	 De	 acordo	 com	 M	 Chukri
Ganem	(poeta	siríaco	de	Paris	que,	embora	nunca	tivesse	posto	os	pés	na
Síria	nos	últimos	vinte	anos,	fora	transformado	por	M	Pichon	em	porta-voz
dos	árabes	sírios),	o	coração	da	Síria	pulsava	com	uma	única	esperança,	a
de	 um	mandato	 francês.	 Segundo	 o	 Emir	 Feisal,	 os	 sírios	 não	 aspiravam
nada	 que	 não	 fosse	 sua	 própria	 independência	 e	 que	 as	 divergências	 só
poderiam	 ser	 solucionadas	 por	 meio	 de	 um	 “Inquérito.”	 Com	 uma	 certa
relutância,	os	representantes	reunidos	concordaram	com	a	criação	de	uma
Comissão	de	Inquérito.	De	fato,	Mr	King	e	Mr	Crane	foram	enviados	para	o
Oriente	Médio	no	mês	de	julho.	Seu	relatório,	quando	por	fim	recebido,	foi
altamente	 inconveniente,	 mas	 por	 então	 o	 Presidente	 Wilson	 já	 deixara
Paris	 a	 caminho	 de	 seu	 colapso	 final.	 O	 relatório	 King-Crane	 ficou
enterrado	sob	a	poeira	dos	procedimentos	diplomáticos	que	se	seguiram.
Embora	dessa	forma	o	Presidente	Wilson	tenha	sido	capaz	de	arquivar	o
problema	 sírio	 sem	 nenhuma	 dissensão	 entre	 França	 e	 Inglaterra	 e	 sem
violar	 ostensivamente	 os	 Quatorze	 Pontos,	 não	 dispunha	 de	 tal	 via	 de
escape	 na	 questão	 de	 Shantung.	 É	 um	 incidente	 que	 também	 deve	 ser
explicado.
Nos	primeiros	meses	de	1917,	o	Almirantado	inglês	encontrava	crescente
dificuldade	 em	 fornecer	 navios	 de	 superfície	 para	 os	 comboios	 de
transporte	 de	 tropas	 e	 gêneros	 alimentícios	 através	 do	 Mediterrâneo.
Apelou	 aos	 japoneses	 no	 sentido	 de	 conseguir	 uma	 flotilha	 de	 barcos
torpedeiros	 para	 auxiliar	 os	 ingleses	 no	 cumprimento	 daquela	missão.	 O
governo	 japonês	 respondeu	 que	 só	 forneceria	 essa	 ajuda	 a	 seus	 aliados
desde	que	lhe	prometessem	não	apenas	as	ilhas	alemãs	no	Pacífico	ao	norte
do	equador,	mas	também	todos	os	direitos	detidos	pela	Alemanha	em	Kiao
Chau	e	na	província	 chinesa	de	Shantung.	Um	 tratado	assegurando	nosso
apoio	 a	 essa	 recompensa	 foi	 assinado	 em	 16	 de	 fevereiro	 de	 1917.	Mais
tarde,	os	franceses	aderiram	a	esse	Tratado	em	troca	de	uma	retirada,	por
parte	 dos	 japoneses,	 do	 veto	 até	 então	 mantido	 à	 entrada	 da	 China	 na
guerra	ao	lado	dos	Aliados.	A	situação	ficou	mais	complicada	pelas	“vinte	e
uma	exigências”	que	o	Japão	impusera	à	China	em	janeiro	de	1915,	assim
como	 pelos	 acordos	 sino-japoneses	 de	 25	 de	 maio	 de	 1915	 e	 24	 de
setembro	 de	 1918.	 Todavia,	 estou	 menos	 interessado	 nos	 pormenores
desta	disputa	do	que	 com	suas	 consequências	para	 a	Conferência	de	Paz.
Estas	consequências	foram	extremamente	danosas.
Vamos	 pôr	 a	 questão	 nos	 termos	 mais	 simples.	 Os	 japoneses	 queriam
obter	 de	 um	 aliado,	 a	 China,	 certos	 privilégios	 que	 esse	 aliado	 estava
decidido	 a	 recusar.	O	 Japão,	 insistindo	 em	 suas	 exigências,	 apelou	para	 o
apoio	da	França	e	da	Inglaterra	se	baseando	no	Tratado	Secreto.	A	China,
mantendo	 sua	 recusa,	 argumentou	 com	 o	 inquestionável	 fato	 de	 que	 as
demandas	 japonesas	 constituíam	 flagrante	 violação	 dos	 princípios	 do
Presidente	Wilson.	O	Japão	ameaçou	se	retirar	da	Conferência,	a	menos	que
suas	exigências	fossem	aceitas.	Que	devia	fazer	o	Presidente?
A	 posição	 de	 Mr	 Wilson	 foi	 complicada	 por	 duas	 considerações.	 Em
primeiro	 lugar,	 nas	 fases	 iniciais	 do	 Comitê	 da	 Liga	 das	 Nações,	 ele	 se
confrontara	um	dilema	incômodo.	Em	13	de	fevereiro,	os	japoneses	tinham
proposto	 que,	 na	 cláusula	 que	 garantia	 a	 igualdade	 religiosa,	 as	 palavras
“racial	 e”	 deveriam	 ser	 introduzidas	 entre	 as	 palavras	 “igualdade”	 e
“religiosa.”	 Foram	 persuadidos	 a	 deixar	 de	 lado	 por	 algum	 tempo	 essa
trabalhosa	 emenda,	mas	 voltaram	a	 ela	 em	11	de	 abril.	Mr	Wilson	 viu-se
então	em	séria	dificuldade.	Por	um	lado,	a	 igualdade	entre	os	homens,	 tal
como	 acolhida	 no	 Covenant,	 implicava	 a	 igualdade	 do	 amarelo	 com	 o
branco	 e	 poderia	 até	 mesmo	 chegar	 à	 terrível	 ideia	 de	 igualadade	 do
branco	 com	 o	 negro.	 Por	 outro	 lado,	 Senado	 americano	 nenhum	 jamais
sonharia	 em	 ratificar	 qualquer	 Covenant	 que	 erigisse	 princípio	 tão
perigoso.
Nessa	ocasião,	o	Presidente	escapara	por	um	triz,	salvo	por	Mr	Hughes,
da	Austrália,	que	insistiu	em	que	tal	teoria	sem	sentido	como	igualdade	de
raças	 não	 deveria	 figurar	 na	 Convenção.	 Lord	 Cecil	 foi	 instruído	 pela
Delegação	do	Império	Britânico	a	apoiar	a	argumentação	de	Mr	Hughes	no
Comitê	da	Liga.	Os	japoneses,	contudo,	não	estavam	dispostos	a	permitir	a
Mr	 Wilson	 esse	 álibi	 providencial.	 Submeteram	 o	 assunto	 a	 votação.
Venceram	por	onze	votos	contra	seis.	Mr	Wilson,	como	chairman,	viu-se	na
desagradável	necessidade	de	ter	de	expedir	um	decreto	de	que	a	emenda
japonesa	“não	fora	adotada”	por	não	ter	alcançado	“aprovação	unânime.”	O
incidente	o	deixara	desconfortável	consigo	mesmo.
Em	segundo	 lugar,	os	 japoneses	haviam	planejado	a	oportunidade	para
apresentar	 sua	 pretensão	 a	 Shantung	 com	 extraordinária	 astúcia.
Escolheram	o	momento	exato	em	que	a	Itália	abandonou	a	Conferência	de
Paz	 alegando	 intransigência	 do	 Presidente	 Wilson.	 Poderia	 o	 presidente
permitir-se	 (pois	 os	 ventos	 da	 crítica	 já	 começavam	 a	 assobiar
sinistramente	 em	 seus	 ouvidos)	 mais	 uma	 defecção	 da	 Conferência
justamente	 quando	 os	 alemães	 já	 esperavam	por	 trás	 das	 estacas	 de	 sua
paliçada	 em	 Versalhes?	 Estava	 numa	 minoria	 de	 um	 voto.	 Capitulou.
Ajeitou-se	 um	meio-termo	 pelo	 qual,	 na	 verdade,	 deu	 ao	 Japão	 tudo	 que
queria.	 De	 todas	 as	 derrotas	 do	 Presidente	 Wilson,	 o	 acordo	 sobre
Shantung	 foi	 o	 mais	 flagrante.	 Como	 deve	 ter	 sido	 amargo	 para	 ele	 se
arrepender	 por	 não	 ter	 aceito,	 talvez	 nem	 mesmo	 lido,	 a	 proposta	 de
normas	de	procedimento	que	lhe	fora	apresentada	por	M	Jusserand	em	29
de	novembro.	Por	mais	que	esse	programa	pudesse	ter	chocado	sua	mente
hesitante	mas	competente,	continha	pelo	menos	uma	cláusula	que,	adotada,
teria	 sido	 uma	 bênção	 de	 inestimável	 valia.	 Dispunha	 que	 todos	 os
Tratados	concluídos	antes	do	Armistício	seriam	considerados	nulos	e	sem
força	 legal.	 Mas,	 sobre	 o	 memorando	 de	 M	 Jusserand,	 o	 Presidente	 se
omitira	até	de	dar	uma	resposta.
É	 quase	 patético	 ler	 nas	 páginas	 escritas	 por	 Mr	 Stannard	 Baker	 os
termos	em	que	o	próprio	Mr	Wilson	explicou	sua	palpável	rendição	sobre
Shantung.	 Em	 sua	mente,	 evolveu	 a	 ideia	 de	 que	 se	 o	 Japão	 tivesse	 sido
forçado	a	se	afastar	da	Conferência,	faria	uma	aliança	militar	com	a	Rússia	e
a	Alemanha.	“Sei,”	disse	então,	“que	serei	acusado	de	violar	meus	próprios
princípios,	 mas,	 apesar	 disso,	 devo	 trabalhar	 em	 prol	 da	 ordem	 e	 da
organização	mundial	contra	a	anarquia	e	o	retorno	ao	velho	militarismo.”
Ao	comentar	o	acordo	de	Shantung,	antecipei	a	apreciação	de	tragédias	que
deviam	mais	adequadamente	figurar	no	último	capítulo	deste	livro,	quando
devo	abordar	o	colapso	americano.	O	incidente	de	Shantung,	porém,	é	tão
ilustrativo	da	repercussão	dessas	constantes	e	complexas	desavenças	sobre
a	doutrina	wilsoniana	que	julguei	convir	incluí-lo	no	presente	capítulo,	que
trata	da	enorme	dificuldade,	não	 tanto	de	promover	a	paz	com	o	 inimigo,
mas	de	manter	a	paz	entre	os	Aliados.
Com	exceção	da	divergência	de	opiniões	sobre	problemas	centrais	como
a	Segurança	Francesa,	a	Renânia,	Reparações,	o	Vale	do	Sarre,	o	destino	da
Esquadra	 Alemã,	 o	 Bloqueio,a	 Conscrição	 e	 a	 Fronteira	 Polonesa,	 os
esforços	 do	 Conselho	 Supremo	 foram	 constantemente	 gastos	 e
desperdiçados	 em	 problemas	 de	 menor	 expressão	 decorrentes	 de
divergências	 entre	 as	 Potências	 Menores.	 Essas	 dificuldades	 menos
importantes	 não	 tiveram	 origens	 nos	 Tratados	 Secretos.	 Algumas	 delas
representavam	 disputas	 antigas;	 outras	 foram	 criadas	 pela	 súbita
emergência	 de	 Estados	 Novos	 ou	 pela	 repentina	 expansão	 de	 Estados
Velhos,	 cada	 um	 reclamando	 para	 si	 a	 ocupação	 exclusiva	 de	 áreas	 do
território	 de	 ex-inimigo	 nas	 quais	 viviam	 populações	 de	 nacionalidade
mesclada.
Assim	foi	a	disputa	entre	a	Romênia	e	a	Iugoslávia	em	relação	ao	Banat.	A
disputa	 entre	 os	 poloneses	 e	 os	 tchecos	 pelo	 ducado	 de	 Teschen.	 A
diferença	 de	 opinião	 entre	 os	 romenos	 e	 os	 tchecos	 com	 relação	 aos
cárpato-russos	e	aos	rutênios.	O	germe	de	uma	séria	divergência	entre	os
poloneses	e	a	Lituânia.	A	cautelosa	hesitação	com	que	as	Grandes	Potências
conduziram	 a	 questão	 do	 futuro	 de	 Constantinopla	 e	 dos	 Estreitos.	 A
questão	 da	 Armênia.	 O	 problema	 de	 atribuir	 Mandatos	 entre	 diferentes
Potências	e	Domínios.	A	dificuldade	entre	a	Grécia	e	a	Iugoslávia	na	questão
da	 Albânia	 e	 de	 Salônica.	 E,	 para	 culminar,	 as	 intermináveis	 dificuldades
interaliadas	no	problema	 italiano	que,	por	essa	razão,	será	comentado	no
próximo	capítulo.
Como	ilustração,	ou	tipo,	desses	problemas	secundários,	apresentarei	um
que	é	por	si	mesmo	interessante	e	que	já	caiu	no	esquecimento.	Trata-se	do
caso	 de	 Montenegro.	 Poucos	 desses	 problemas	 de	 menor	 expressão	 nos
deixaram	 com	 o	 coração	 tão	 vazio	 e	 com	 um	 senso	 tão	 duradouro	 de
insatisfação.
Antes	da	guerra,	Montenegro	fora	um	principado	pequeno,	independente
e	empobrecido	sob	o	governo	patriarcal	do	rei	Nikita,	da	dinastia	Petrovic.
Seu	único	objetivo	nacional	fora	assegurar	a	união	com	seus	irmãos	sérvios,
dos	quais	fora	separado	pela	Áustria	e	pelo	Sandjak	de	Novi	Bazar.	Quando
da	 invasão	 da	 Sérvia	 e	Montenegro	 pelos	 exércitos	 austro-alemães,	 o	 rei
Nikita	 se	 transferiu	para	Neuilly,	onde	vivia	em	condições	modestas,	mas
sem	deixar	de	reclamar,	de	subsídios	concedidos	pelos	governos	da	França,
da	Rússia	e	da	Inglaterra.	Ao	mesmo	tempo	enviou	seu	segundo	filho	para
Viena	com	a	intenção,	assim	foi	dito,	de	assegurar	sua	própria	posição	e	o
futuro	 da	 dinastia,	 no	 caso	 de	 uma	 vitória	 das	 Potências	 Centrais.	 O	 rei
Nikita,	embora	sogro	do	Rei	da	Itália,	não	era	um	soberano	que	inspirasse
respeito	 geral.	 Dizia-se	 que,	 por	 ocasião	 da	 primeira	 guerra	 dos	 Bálcãs,
pusera	em	risco	todo	o	esquema	da	aliança	balcânica	antecipando	em	vinte
e	quatro	horas	sua	declaração	de	guerra	à	Turquia.	Também	se	disse	que	a
razão	desse	gesto	impulsivo	fora	uma	operação	de	viés	“bear”	sobre	a	bolsa
de	Viena.	Insinuou-se	que	durante	a	Grande	Guerra	ele	não	concedera	aos
irmãos	sérvios	o	apoio	entusiasmado	que	estes	tinham	o	direito	de	esperar.
A	 pronta	 capitulação	 da	 fortaleza	 de	 Monte	 Lovcen	 foi	 atribuída	 pelos
sérvios	mais	às	habilidades	financeiras	do	que	às	capacidades	militares	do
“Peasant	King”(o	Rei	Campônio).	Mas	o	fato	é	que,	com	a	retirada	das	forças
austríacas	de	Sérvia	e	Montenegro,	foi	organizado	um	governo	neste	último
estado	 que	 convocou	 uma	 “assembleia	 nacional”	 em	 Podgoritza,	 no	 qual
uma	votação	deliberou	pela	imediata	união	com	a	Sérvia	e	a	deposição	do
rei	Nikita	e	toda	a	dinastia	Petrovic.
Quando	 a	 Conferência	 de	 Paris	 se	 reuniu,	 havia	 duas	 delegações	 de
Montenegro,	 cada	 uma	 reclamando	 o	 direito	 de	 representar	 o	 país.	 Uma,
chefiada	por	M	Radovic,	proclamava	ter	sido	constituída,	de	pleno	direito,
pela	assembleia	de	Podgoritza.	A	outra,	designada	pelo	Rei	Nikita	(que	na
ocasião	se	transferira	em	meio	a	agitada	indignação	de	Neuilly	para	o	Hotel
Meurice),	 alegava	 o	 mesmo	 direito	 e	 argumentava	 que	 a	 assembleia	 de
Podgoritza	 era	 um	 bando	 de	 velhacos	 que	 votara	 sob	 a	 ameaça	 das
baionetas	 sérvias.	M	Radovic	 anunciou	 em	 alto	 e	 bom	 som	que	 tudo	 que
Montenegro	desejava	era	a	 total	 incorporação	à	 Iugoslávia	sob	o	governo
do	Príncipe	Regente	Alexander.	O	Rei	Nikita,	por	outro	lado,	sustentou	que
os	montenegrinos	 não	 desejavam	 ser	 absorvidos	 no	 seio	 de	 seus	 irmãos
sérvios,	 croatas	 e	 eslovenos,	 mas	 queriam	 simplesmente	 alguma	 forma
bem	liberal	de	federação	que	lhes	permitisse	preservar	a	independência	e,
o	que	era	mais	importante,	a	dinastia	Petrovic,	na	pessoa	dele	próprio.
Embora	 nós	 da	 delegação	 inglesa	 tivéssemos	 pouca	 simpatia	 pelo	 rei
Nikita	 e	 apesar	 de	 sentirmos	 que	 para	 Montenegro	 era	 uma	 exigência
econômica	integrar	a	União	Iugoslava,	também	suspeitávamos	que	de	fato	a
assembleia	 de	 Podgoritza	 fora	 convocada	 pelos	 gendarmes	 sérvios	 e	 não
representava	 a	 verdadeira	 vontade	 do	 povo	montenegrino.	 Preocupados,
chegamos	 a	 enviar	 o	 Conde	 de	 Salis	 a	 Cettinje	 para	 apurar	 os	 fatos.	 Seu
relato	 foi	que	a	assembleia	de	Podgoritza	era	 realmente	uma	 farsa	e	que,
embora	 os	 montenegrinos	 desejassem	 integrar	 a	 União	 Iugoslava,
preferiam	fazê-lo	não	sob	a	persuasão	das	baionetas	sérvias,	mas	em	suas
próprias	condições	e	como	povo	livre.
Diante	dessa	perplexidade,	a	Conferência	resguardou-se	da	maneira	que
lhe	era	peculiar.	Montenegro	não	estava,	é	bem	verdade,	representada	nas
sessões	plenárias	da	Conferência	e	era	identificada	apenas	por	uma	cadeira
dourada	 vazia	 e	 um	 cartão	 branco	 sobre	 a	 pasta	 mata-borrão.
“Montenegro,”	dizia	o	communiqué	do	Conselho	Supremo	de	15	de	janeiro,
“será	 representado	 por	 um	 delegado,	 mas	 as	 normas	 referentes	 à
designação	 desse	 representante	 não	 serão	 definidas	 até	 que	 a	 situação
política	do	país	esteja	esclarecida.”
No	que	interessava	à	Conferência,	a	situação	permaneceu	assim.	Contudo,
a	 causa	 de	 Montenegro,	 personificada	 pelo	 rei	 Nikita,	 foi	 esposada	 na
Inglaterra	 por	Mr	 Ronald	McNeill.	 A	 discussão	 continuou	 por	 anos	 a	 fio.
Mandamos	o	professor	Temperley	para	 investigar.	Também	enviamos	Mr
Roland	 Bryce.	 Afinal,	 não	 sem	 alguma	 persistente	 dor	 na	 consciência,
aceitamos	a	“união”	de	Montenegro	com	a	Iugoslávia	com	base	nas	eleições
montenegrinas	para	a	Assembleia	constituinte.	Em	1º	de	março	de	1921,	o
rei	Nikita	morreu.
A	história	da	submersão,	ou	como	diria	Lord	Cushendun,	da	supressão	de
Montenegro,	não	é	muito	agradável.	Registro-a	não	só	por	oferecer	um	bom
exemplo	 do	 tipo	 de	 problema	 secundário	 que	 enfrentávamos
constantemente,	mas	porque	despertou	em	minha	mente	um	sério	conflito
de	motivações.	Não	 gostava	do	 rei	Nikita	 e	 nele	 não	 confiava,	mas	 sentia
que	ele	estava	quase	no	direito.	Eu	tive	paixão	pelo	estado	iugoslavo,	mas
achei	 que	 procederam	 mal	 com	 todas	 aquelas	 baionetas	 e	 aquela
assembleia	de	Podgoritza.	Considerei	que,	a	longo	prazo,	seria	melhor,	por
razões	econômicas	e	políticas,	que	Montenegro	fosse	realmente	absorvido
pela	Sérvia	ou,	 como	então	preferíamos	dizer,	 “admitido	em	 íntima	união
pelo	Estado	Sérvio,	Croata	e	Esloveno.”	Mas	alimentava	séria	dúvida	se	essa
solução	de	fato	era	desejada	pelo	próprio	povo	montenegrino.	Eis	um	caso
em	que	interesses	dinásticos	de	um	lado	eram	medidos	contra	a	união	de
um	povo	admirável	e	liberto.	Foi	constrangedor	constatar	que	a	balança	do
certo	se	inclinou	para	a	dinastia,	e	a	balança	do	errado	para	os	libertadores
sérvios.	Foi	devido	a	essa	questão	de	Montenegro	que	minha	crença	inicial
na	Autodeterminação	como	solução	para	todos	os	males	humanos	turvou-
se	de	dúvidas	e	restrições.
Não	 é	 fácil,	 utilizando	 o	 instrumento	 silencioso	 das	 palavras	 escritas,
reproduzir	a	dupla	tensão	provocada	pelo	tumulto	e	pela	pressão	do	tempo
que,	em	Paris,	representaram	o	principal	obstáculo	a	uma	reflexão	serena	e
a	 procedimentos	 planejados.	 A	 gente	 escreve:	 “Foi	 um	período	de	 tensão
ininterrupta”	–	e	o	tom	tranquilizante	dessa	frase,	aplicadoà	desarmonia	e
à	 correria	 que	 foi	 a	 Conferência	 de	 Paz,	 nos	 faz	 sorrir.	 Só	 o	meio	 de	 um
filme	sonoro	seria	capaz	de	reproduzir	alguma	impressão	daquela	sensação
de	desordem	em	casa	de	papagaios.
	
Se	 tentasse	 esboçar	 um	 cenário	 com	 as	 minhas	 próprias	 impressões
resultaria	 o	 seguinte.	 Ecoaria	 por	 toda	 parte	 o	 ruído	 surdo	 da	 célere
carruagem	 do	 tempo.	 As	 pressões	 que	 exercia	 se	 repetiam	 e	 atuavam
incessantemente:	jornais	protestando	nas	manchetes	contra	os	“ociosos	de
Paris”;	 o	 clamor	 pela	 desmobilização:	 “Tragam	 os	 rapazes	 de	 volta”;	 os
milhões	 de	 famintos	 na	 Europa	 central;	 as	 colunas	 de	 prisioneiros
cabisbaixos	 ainda	 atrás	 do	 arame	 farpado;	 as	 chamas	 do	 comunismo	 em
expansão	agora	em	Munique	e	em	Budapest.	Em	meio	ao	estrondo	de	raios
e	trovoadas	que	se	repetiam	ao	sabor	do	tempo,	se	escutavam	os	sons	de
agudas	 dissonâncias:	 o	 matraquear	 de	 metralhadoras	 de	 milhões	 de
máquinas	de	escrever;	o	tilintar	incessante	e	penetrante	das	campainhas	de
telefones;	 a	descarga	das	motocicletas;	 o	 ronco	dos	 aviões;	 a	 voz	 fria	dos
intérpretes;	“le	délegué	des	Etats-Unis	 constate	qu’il	ne	peut	 se	 ranger...”(o
representante	dos	Estados	Unidos	declara	que	não	pode	se	alinhar	com...);
o	 toque	 dos	 clarins;	 o	 ribombar	 das	 salvas	 dos	 canhões	 nos	 Invalides;	 o
farfalhar	 das	 folhas	 dos	 fichários;	 uma	mulher	 envolta	 em	 um	 xale	 de	 lã
cantando	 “Madelon”	 em	 frente	 a	 um	 café;	 o	 ruído	 das	 rodas	 dos	 Rolls
Royces	 sobre	 o	 cascalho	 dos	 pátios	 suntuosos;	 e	 o	 som	 de	 passos
apressados,	ora	sobre	o	piso	de	alguma	galeria,	ora	nas	escadarias	de	pedra
de	algum	ministério,	ora	abafado	por	um	pesado	Aubusson	de	algum	salão
superaquecido.
Esses	sound-motifs	 acompanhados	por	uma	rápida	projeção	de	 imagens
desconexas:	 as	 pálpebras	 cansadas	 e	 desdenhosas	 de	 Clemenceau;	 os
borzeguins	pretos	de	abotoar	de	Woodrow	Wilson;	os	gestos	pomposos	e
joviais	 das	 mãos	 de	 Mr	 Lloyd	 George;	 a	 melancolia	 de	 Mr	 Balfour	 ao
descruzar	 lentamente	 as	 pernas;	 a	 sucessão	 de	 secretários	 e	 experts
debruçados	 sobre	 mapas;	 Foch	 caminhando	 a	 passos	 largos	 e	 resolutos
com	Weygand	correndo	atrás;	as	correntes	de	prata	dos	hussardos	no	Quai
d’Orsay.	 Essas	 imagens	 se	 misturam	 com	 arquivos,	 documentos	 de
trabalho,	 resoluções,	 procès	 verbaux	 e	 communiqués.	 Sucedem-se	 com
extrema	 rapidez	 e	 de	 vez	 em	 quando	 têm	 que	 ser	 sincronizadas	 e
superpostas.	 “Os	 Plenipotenciários	 dos	 Estados	 Unidos	 da	 América,	 da
Inglaterra,	da	França,	da	Itália	e	do	Japão,	de	um	lado	(...)	Fica	decidido	que,
sujeito	 à	 aprovação	 pelas	 Casas	 do	 Congresso,	 o	 Presidente	 dos	 Estados
Unidos	 da	 América,	 em	 nome	 dos	 Estados	 Unidos,	 aceita	 (...)	 Si	 cette
frontière	 était	 prise	 en	 considération,	 il	 serait	 nécessaire	 de	 faire	 la
correction	indiquée	en	bleu.	Autrement	le	chemin	de	fer	vers	Kaschau	serait
coupé...	 (Se	 esta	 fronteira	 fosse	 levada	 em	 consideração,	 seria	 necessário
fazer	 a	 correção	 assinalada	 em	 azul.	 De	 outro	 modo,	 a	 ferrovia	 para
Kaschau	seria	cortada)	(...)	Estes	cupons	serão	aceitos	em	pagamento	das
refeições	feitas	no	hotel	e	o	tíquete	inteiro	deve	ser	entregue	no	jantar	(...)
M	Venizelos	me	disse	na	noite	passada	que	concluiu	um	acordo	com	a	Itália
nos	seguintes	termos:	(1)	A	Itália	apoiará	as	reivindicações	gregas	no	Épiro
setentrional	(...)	Do	ponto	em	que	o	 limite	oeste	da	área	deixa	o	Drave	na
direção	norte,	até	o	ponto	cerca	de	um	quilômetro	a	leste	de	Rosegg	(Saint
Michel).	O	 curso	do	Drave	para	 jusante.	 Em	 seguida,	 na	direção	nordeste
até	 o	 extremo	 ocidental	 do	 Wörthersee,	 ao	 sul	 de	 Vlelden.	 Linha	 a	 ser
demarcada	no	terreno.	A	linha	mediana	daquele	lago.	Em	seguida	para	leste
até	a	confluência	com	o	rio	Glan.	O	curso	do	Glanfurt	para	 jusante	(...)	(1)
Exposição	 de	 M	 Dmosky.	 (2)	 Rapport	 de	 la	 Commission	 Interalliée	 de
Teschen.	(3)	Le	repatriement	des	troupes	du	Général	Hallerr.	(4)	Rapport	de
M	Hoover.	(5)	Prisonniers	de	guerre.	(6)	Répartition	de	la	marine	marchande
allemande	 (...)	 A	 partir	 da	 vigência	 do	 presente	 Tratado,	 as	 Altas	 Partes
Contratantes	 devem	 rever,	 no	 que	 lhes	 for	 pertinente	 e	 com	as	 ressalvas
definidas	no	parágrafo	segundo	do	presente	artigo,	os	convênios	e	acordos
assinados	 em	 Berna,	 em	 14	 de	 outubro	 de	 1890,	 em	 20	 de	 setembro	 de
1893,	 em	 16	 de	 julho	 de	 1895,	 em	 16	 de	 junho	 de	 1898	 e	 em	 19	 de
setembro	de	1906,	que	dispõem	sobre	transporte	de	bens	por	ferrovia.	Se
dentro	 de	 cinco	 anos	 de	 vigência	 do	 presente	 Tratado	 (...)	 Le	 traité
concernant	 l’entrée	 de	 la	 Bavière	 dans	 la	 Confédération	 de	 l’Allemagne	 du
Nord,	conclu	à	Versailles	le	23	novembre	1870,	contient,	dans	les	articles	7	et
8	du	protocole	 final,	 des	dispositions	 toujours	 en	 vigueur,	 reconaissant...	 (O
tratado	concernente	ao	ingresso	da	Baviera	na	Confederação	da	Alemanha
do	Norte,	 concluído	 em	Versalhes	 em	 23	 de	 novembro	 de	 1870,	 contém,
nos	artigos	7	e	8	do	protocolo	final,	disposições	já	em	vigor,	reconhecendo)
(...)	Haverá	uma	reunião	da	Delegação	do	Império	Britânico	na	terça-feira,
dia	14	do	corrente	mês,	na	Villa	Majestic,	às	onze	e	trinta	da	manhã	(...)	O
Dr	Nansen	 veio	me	 ver	 esta	manhã.	 Ele	 revela	 a	 urgente	 necessidade	 de
induzir	 o	 Conselho	 Supremo	 (...)	 Será	 realizada	 uma	 festa	 no	 próximo
sábado,	 às	 nove	 e	meia	 da	 noite,	 no	 salão	 de	 baile	 do	Hotel	Majestic,	 em
apoio	 à	 caridade	 do	 Dockland	 Settlement.	 Miss	 Ruth	 Draper	 foi	 muito
atenciosa	 dispondo-se	 a	 nos	 apresentar	 dois	 dos	 mais	 conhecidos
personagens	de	suas	comédias.	Os	ingressos	podem	ser	obtidos	na	portaria
(...)	Le	Baron	Sonnino	estimait	qu’il	y	avait	lieu	d’établir	une	distinction	entre
les	 représentants	 des	 soviets	 et	 ceux	 des	 autres	 gouvernements.	 Les	 alliés
combattaient	les	bolcheviques	et	les	considérant	comme	des	ennemis.	Il	n’en
était	pas	de	même	en	ce	qui	concernait	 les	Finlandais,	 les	Lettons	 (O	Barão
Sonnino	achava	que	devia	haver	uma	distinção	entre	os	representantes	dos
soviéticos	 e	 os	 de	 outros	 governos.	 Os	 aliados	 se	 opunham	 aos
bolcheviques	e	os	consideravam	inimigos.	O	mesmo	não	sucedia	no	que	se
referia	aos	finlandeses	e	letões)	(...)	Telegrama	de	Viena.	O	Conde	Karolyi	se
demitiu	 e,	 segundo	 mensagem	 telefônica	 recebida	 por	 Mr	 Coolidge	 esta
manhã	 de	 seu	 representante	 em	 Budapeste,	 o	 governo	 comunista	 foi
organizado	sob	a	chefia	de	Bela	Kun.	Incerto	o	destino	das	missões	aliadas
(...)	Wir	 wissen	 das	 die	 Gewalt	 der	 deutschen	 Waffen	 gebrochen	 ist.	Wir
kennen	die	Macht	des	Hasses,	die	uns	hier	entgegentritt,	und	wir	haben	die
leidenschaftliche	 Förderung	 gehört,	 dass	 die	 Siege	 runs	 Zugleich	 als
Ueberwundene	zahlen	lessen	und	als	Schuldige	bestraffen	sollen...	(Sabemos
que	o	poder	bélico	alemão	foi	destroçado.	Estamos	conscientes	do	vigor	do
ódio	que	aqui	nos	dirigem	e	ouvimos	a	infeliz	exigência	dos	vitoriosos	que,
ao	mesmo	 tempo,	 nos	obriga	 a	pagar	 como	 subjugados	 e	nos	pune	 como
culpados).”
Uma	rápida	sucessão	destas	imagens,	acompanhada	por	todo	o	espectro
de	sons	que	descrevi,	forneceriam	um	retrato	bem	mais	nítido	do	ambiente
da	Conferência	de	Paz	do	que	qualquer	registro	cronológico	por	escrito.	Se
pudéssemos	 acrescentar	 as	 cores,	 os	 odores	 e	 as	 sensações	 do	 tato,	 o
quadro	 ficaria	quase	completo.	A	 tonalidade	dominante	é	preto	e	branco,
pesados	ternos	pretos,	papéis	e	punhos	brancos,	atenuados	por	azul	e	bege.
As	únicas	outras	cores	seriam	o	escarlate	adamascado	das	cortinas	do	Quai
d’Orsay,	 o	 verde	 dos	 panos	 de	mesa,	 o	 rosa	 das	 pastas	mata-borrão	 e	 os
inúmeros	 tons	 de	 dourado	 das	 pequenas	 cadeiras.	 Quanto	 aos	 odores,
teríamos	 o	 da	 gasolina,	 das	 fitas	 das	 máquinas	 de	 escrever,	 da	 cera
francesa,	 do	 aquecimento	 central	 e	 um	 pouco	 do	 xampu	 de	 violetas.	 Os
motifs	tácteis	viriam	do	toque	empapéis,	na	seda,	na	alça	de	couro	de	uma
pesada	pasta	de	documentos,	dos	passos	ora	sobre	os	tapetes	espessos	ora
sobre	 os	 pisos	 de	 parquet,	 da	 distensão	 dos	 músculos	 pela	 posição
inclinada	 sobre	 mapas	 enormes,	 da	 sensação	 de	 insegurança	 em	 uma
cadeira	de	vime	ocupada	horas	a	fio.
Por	trás	de	tudo,	a	dor	da	exaustão	e	do	desespero.
7	
Meio-Termo
OS	ESCRITORES	QUE	SE	AVENTURARAM	A	RELATOS	COMPLETOS	da	Conferência	de	Paz	de	Paris	se
inclinaram	 para	 adoção	 de	 uma	 de	 três	 formas	 de	 abordagem,	 tentando
deste	modo	descobrir,	em	meio	a	toda	aquela	rudimentar	confusão,	alguma
indicação	 de	 continuidade,	 algum	 fio	 lógico	 de	 narrativa.	 Poucos	 deles
escolheram	 o	 método	 cronológico	 e	 procuraram	 contar	 a	 história	 em
termos	 de	 tempo.	 Outros	 dividiram	 sua	 narrativa	 segundo	 chaves	 de
assuntos,	discutindo	cada	tema	em	separado	como	um	problema	isolado.	E
os	demais	deram	um	toque	dramático	a	 toda	negociação	na	 forma	de	um
choque	de	vontades	e,	desta	 forma,	 conseguiram	um	relato	atraente,	mas
essencialmente	 impreciso.	 Cada	 um	 desses	 três	 métodos	 de	 abordagem
encerra	uma	certa	 falsificação	de	valores.	O	cronológico	pode	causar	uma
impressão	 errônea	 de	 continuidade	 e	 omitir	 o	 componente	 da
sincronização,	 tanto	 quanto	 o	 das	 paradas	 e	 retomadas.	 A	 abordagem
fragmentada,	 embora	valiosa	para	 fins	de	 lucidez,	 ignora	o	 efeito	de	uma
obstrução	 em	 uma	 área	 sobre	 uma	 concessão	 em	 outra.	 O	 método	 do
“choque	 de	 vontades”	 erra	 pela	 supersimplificação,	 muitas	 vezes
exagerando	 ao	 atribuir	 a	 Wilson,	 Lloyd	 George	 e	 Clemenceau	 posições
antagonísticas	bem	como	protagonísticas.
Existe,	contudo,	um	problema	bastante	central	na	Conferência	de	Paz	que
se	manifesta	com	bastante	clareza	em	todos	os	 três	métodos.	Trata-se	da
questão	 do	 Adriático	 ou,	 em	 sentido	 mais	 amplo,	 a	 posição	 da	 Itália	 na
Conferência	 de	 Paz.	 É	 um	 assunto	 que	 se	 fez	 praticamente	 contínuo	 no
tempo,	 de	 certo	modo	 se	 conteve	 dentro	 de	 seus	 próprios	 limites	 e	 que,
sem	 dúvida,	 apresentou,	 em	 sua	 forma	 mais	 crua,	 o	 conflito	 entre	 as
esperanças	 do	 Novo	 Mundo	 e	 os	 desejos	 do	 Velho.	 Proponho,	 neste
capítulo,	 abordar	 a	 questão	 italiana	 como	um	 todo	 isolado,	 assinalando	 a
influência	 corrosiva	 que	 teve	 sobre	 a	 base	 moral	 e	 diplomática	 da
Conferência	 de	 Paris.	 Oferece	 um	 exemplo	 apropriado	 e	 relativamente
simples	 do	 tipo	 de	 complexidade	 em	 que	 se	 envolveu	 a	 Conferência.	 O
mesmo	 tipo	 de	 dificuldade	 (o	 conflito	 entre	 o	 egoísmo	 intensivo	 de	 um
membro	de	uma	coalizão	e	o	egoísmo	extensivo	de	outros	membros)	sem
dúvida	pode	ocorrer	em	futuros	congressos.
Os	 fatores	 essenciais	 que	 precedem	 a	 controvérsia	 italiana	 em	 Paris
podem	ser	apresentados	de	forma	sumária.
	
A	 Itália,	 no	 início	 da	 Guerra	 Europeia,	 era	 aliada	 da	 Alemanha	 e	 da
Áustria.	 Recusou-se,	 desde	 o	 primeiro	 momento,	 a	 cumprir	 seus
compromissos	na	Tríplice	Aliança,	alegando,	com	toda	razão,	que,	com	seu
extenso	 litoral,	 ficaria	 à	 mercê	 da	 Esquadra	 Inglesa.	 Foi	 mais	 além.	 No
começo	de	janeiro	de	1915,	fez	sondagens	em	Viena	para	verificar	o	quanto
a	Áustria	estava	disposta	a	lhe	pagar	para	manter	sua	“neutralidade.”	Pediu
Trieste	e	o	Trentino.	O	governo	austríaco	recusou	essa	concessão.	O	Barão
Sonnino,	ministro	do	Exterior	 italiano,	 então	 inquiriu	em	Londres	e	Paris
que	preço	os	inimigos	da	Áustria	pagariam	para	induzir	a	Itália	a	desertar
de	seus	aliados.	Simultaneamente,	 continuou	os	entendimentos	em	Viena,
obtendo	 a	 oferta,	 feita	 de	 má	 vontade,	 de	 algum	 território	 na	 região	 de
Trento.	Em	3	de	maio	de	1915,	informou	o	Governo	Austríaco	que	“a	Itália
deve	 renunciar	 à	 esperança	 de	 chegar	 a	 um	 acordo	 e	 proclama,	 a	 partir
deste	 momento,	 sua	 completa	 liberdade	 de	 ação.”	 A	 expressão	 “a	 partir
deste	 momento”	 foi	 um	 eufemismo,	 pois	 ao	 longo	 das	 cinco	 semanas
anteriores	 a	 Itália	 já	 estava	engajada	em	negociações	 com	os	 inimigos	da
Áustria:	 o	 Tratado	 de	 Londres,	 que	 foi	 o	 preço	 a	 ser	 pago	 por	 França,
Inglaterra	 e	Rússia	 à	 Itália,	 já	 fora	 assinado	 em	26	 de	 abril,	 uma	 semana
antes	de	o	Barão	Sonnino	descontinuar	suas	gestões	em	Viena.
Os	 sentimentalistas	 do	 Foreign	 Office	 inglês	 não	 entraram	 nessa
negociação	 com	 exuberância	 de	 coração.	 Em	 primeiro	 lugar,	 tinham	 a
sensação	de	que	a	Itália,	como	aliada,	podia	ser	até	mais	um	problema	que
uma	vantagem.	Em	segundo	lugar,	não	lhes	encantava	prometer	um	preço
tão	alto	pelo	ato	de	 traição	da	 Itália,	 e	 às	 custas	do	próprio	povo	que	ela
estava	 na	 iminência	 de	 trair.	 Porém,	 essas	 emoções	 de	 velho-mundo
deviam	ser	suprimidas	em	favor	da	“necessidade	da	guerra.”	Mas	o	 fato	é
que	 o	 Foreign	 Office	 assumiu	 o	 encargo	 a	 contragosto.	 Sir	 Edward	 Grey
ficou	tão	desconcertado	com	a	conduta	e	as	exigências	da	Itália	que	foi	para
o	 interior	 alegando	 doença.	 O	 Subsecretário	 Permanente,	 na	 primeira
conversa	mantida	com	o	Embaixador	 Italiano,	se	permitiu	uma	expressão
que	 traduz	 um	 realismo	de	 desprezo.	 “Vocês	 falam,”	 disse	 o	 Embaixador,
“como	 se	 estivessem	 comprando	 nosso	 apoio.”	 “Bem,”	 respondeu	 o
Subsecretário,	 “realmente	 estamos.”	 O	 Marquês	 Imperiali	 ficou	 muito
ofendido	por	esta	observação	e	foi	buscar	simpatia	alhures.	Os	detalhes	do
Tratado	 foram	negociados	por	 funcionários	 subalternos	 sob	 a	 supervisão
meio	penitente	de	Mr	Asquith.
As	 principais	 disposições	 do	 Tratado	 Secreto	 de	 Londres	 podem	 ser
tabuladas	da	seguinte	forma:
	
1.	 A	Itália	teve	a	promessa	da	posse	não	somente	do	Trentino,	mas
de	 todo	 o	 sul	 do	 Tirol	 até	 o	 Passo	 de	 Brenner.	 Significava	 pôr
229.261	austríacos	legítimos	sob	jurisdição	italiana.
2.	 A	 Itália	 teve	 a	 promessa	 de	 outros	 territórios	 e	 ilhas,	 tais	 como
Trieste,	 Gorícia,	 Gradisca,	 Lussin,	 Istria,	 Cherso	 e	 porções	 da
Carniola	 e	 da	 Carinthia,	 que	 poriam	 sob	 sua	 jurisdição	 477.387
iugoslavos.
3.	 A	 Itália	 teve	a	promessa	da	Dalmácia	do	Norte	e	da	maior	parte
das	 ilhas	 dálmatas,	 o	 que	 significava	 a	 jurisdição	 sobre	 mais
751.571	iugoslavos.
4.	 Também	 lhe	 foi	 prometida	 a	 plena	 soberania	 sobre	 a	 cidade	 e
base	 naval	 albanesa	 de	 Valona,	 mais	 um	 protetorado	 sobre	 o
futuro	 estado	 da	 Albânia.	 As	 partes	 norte	 e	 sul	 daquele	 estado
seriam	anexadas	à	Sérvia	e	à	Grécia,	respectivamente.
5.	 Também	 lhe	 foi	prometida	a	plena	soberania	sobre	Rhodes	e	as
outras	 onze	 ilhas	 do	 Dodecaneso,	 com	 uma	 população
exclusivamente	 grega	 e	 que	 ela	 ocupara	 “temporariamente”	 por
ocasião	da	guerra	de	Trípoli.
6.	 No	caso	de	uma	divisão	da	Turquia,	 a	 Itália	 teve	a	promessa	de
“uma	justa	parcela”	na	região	de	Adalia.
7.	 No	 caso	 de	 a	 Inglaterra	 e	 a	 França	 ampliarem	 suas	 possessões
coloniais	na	África	às	custas	da	Alemanha,	ela	recebeu	a	promessa
de	uma	“compensação	proporcional.”
	
Em	outras	palavras,	o	Tratado	de	Londres	prometia	à	Itália	territórios	que
deixariam	 sob	 seu	 domínio	 cerca	 de	 1.300.000	 iugoslavos,	 230.000
alemães,	 toda	 a	 população	 grega	 do	 Dodecaneso,	 os	 turcos	 e	 gregos	 da
Adalia,	tudo	que	restara	de	albaneses	e	algumas	áreas	indefinidas	na	África.
Foi,	 portanto,	 um	 tratado	 absolutamente	 conflitante	 com	 o	 princípio	 da
autodeterminação	e	a	doutrina	dos	Quatorze	Pontos.
Em	troca	destas	imensas	e	totalmente	indefensáveis	concessões,	a	Itália
assumiu	apenas	duas	obrigações.	A	primeira	era	conceder	o	porto	de	Fiume
aos	 iugoslavos.	 A	 segunda,	 declarar	 guerra	 a	 todos	 os	 nossos	 inimigos.
Fugiu	 de	 ambas	 as	 obrigações.	 A	 primeira	 será	 apreciada	mais	 tarde	 e	 a
última	 também	 não	 foi	 obedecida.	 É	 bem	 verdade	 que	 a	 Itália	 declarou
guerra	à	Áustria	em	maio	de	1915,	à	Turquia	em	agosto	do	mesmo	ano	e	à
Bulgária	 poucas	 semanas	 depois.	 Contudo,	 só	 veio	 a	 declarar	 guerra	 à
Alemanha	 em	 27	 de	 agostode	 1916.	 O	 Signor	 Salandra	 na	 verdade	 se
vangloriou	 afirmando	 que	 esta	 atitude	 evasiva	 “foi	 um	 grande	 serviço
prestado	a	meu	país.”	Foi	feita	uma	tentativa	em	Paris	para	conseguir	que
Mr	 Balfour,	 argumentando	 que	 este	 ato	 de	 consagrado	 egoísmo	 se
constituía	 em	 omissão	 suficientemente	 grave,	 procurasse	 invalidar	 o
Tratado	 de	 Londres	 em	 sua	 totalidade.	 Ele	 respondeu	 à	 vontade,
aristocrático	 e	 contrário	 dizendo:	 “Isso	 é	 argumento	 de	 advogado.”	 Mr
Lloyd	 George	 foi	 parcialmente	 sincero	 ao	 levantar	 esse	 ponto	 em	 fase
posterior	 das	 negociações.	 Os	 italianos,	 com	 sua	 habitual	 irreverência	 e
infalível	impropriedade,	resmungaram	algo	sobre	“um	pedaço	de	papel.”
Basta	sobre	o	Tratado	de	Londres	em	sua	fase	pré-armistício.	Entre	sua
conclusão	e	o	colapso	da	Áustria-Hungria	aconteceram	determinados	fatos
que	 devem	 ser	 mencionados	 sucintamente.	 Os	 bolcheviques	 foram	 os
primeiros	a	publicar	os	termos	do	Tratado,	que	foi	imediatamente	atacado
não	 apenas	 na	 Inglaterra,	 nos	 Estados	 Unidos	 e	 França,	mas	 também	 na
Câmara	 dos	 Deputados	 da	 Itália.	 Foi	 chamado	 de	 documento
desavergonhadamente	 imperialista.	 Teve	 o	poder	de	 galvanizar	 a	 parcela
iugoslava	do	exército	austríaco,	que	passou,	mais	do	que	nunca,	a	hostilizar
a	 Itália.	 Caporetto	mostrou	 aos	 italianos	 que	 algo	 tinha	 de	 ser	 feito	 para
acalmar	estes	iugoslavos	hostis.
O	 Signor	 Orlando,	 que	 então	 era	 primeiro-ministro,	 estimulou	 alguns
deputados	a	formarem	um	comitê	de	conciliação.	Sob	a	serena	orientação,
bem	ao	estilo	escocês,	do	Dr	Seton	Watson	e	o	perseverante	europeísmo	de
Mr	 Wickham	 Steed,	 foi	 estabelecido	 contato	 em	 Londres	 entre	 o	 Signor
Torre,	da	Câmara	dos	Deputados	italiana	e	M	Trumbic,	porta-voz	do	Comitê
Iugoslavo.	Em	10	de	abril	de	1918,	o	“Pacto	de	Roma”	foi	celebrado	entre
aqueles	 dois	 competentes	 representantes	 não	 oficiais.	 Por	 esse	 pacto,	 as
desavenças	 ítalo-iugoslavas	deveriam	ser	 solucionadas	segundo	o	critério
da	 nacionalidade.	 O	 Governo	 Italiano,	 em	 8	 de	 setembro	 de	 1918,	 deu
declaração	afirmando	sua	profunda	simpatia	pelo	anseio	dos	iugoslavos	no
sentido	de	criar	um	reino	unido	e	 independente.	Foi,	 como	demonstrou	a
batalha	 de	 Vittorio	 Veneto,	 um	 pronunciamento	 que	 rendeu	 frutos.	 Na
época,	 foi	 compreendido	 por	 todos	 que	 o	 Tratado	 de	 Londres	 estava
ultrapassado,	 diante	 de	 acordos	 e	 pronunciamentos	 aprovados,	 embora
não	 oficiais.	 Essa	 sentimento	 cresceu	 quando	 a	 Itália	 aceitou
entusiasticamente	os	Quatorze	Pontos	do	Presidente	Wilson.	O	ponto	nove
estabelecia	 que	 as	 fronteiras	 italianas	 seriam	 definidas	 sobre	 “linhas	 de
nacionalidade	 claramente	 reconhecíveis.”	 É	 verdade	 que,	 em	 1o	 de
novembro,	 o	 Signor	 Orlando	 murmurou	 algo	 que	 pareceu	 uma	 ressalva.
Quando	 solicitado	 a	 repeti-la,	 simplesmente	 murmurou	 de	 novo.	 Nessa
ocasião,	 lhe	 foi	 indicado	 que	 o	 nono	 dos	 Quatorze	 Pontos	 não	 tinha
nenhuma	 relação	 com	o	 armistício	 com	a	Alemanha,	 então	 em	discussão.
Ele	 acatou	 alegremente	 a	 insinuação.	 Não	 publicou	 o	 fato	 de	 ter	 feito
qualquer	ressalva	até	1o	de	maio	de	1919.	Trata-se	de	um	exemplo	clássico
dos	 riscos	 de	 imprecisão	 afável	 em	 negociação	 internacional.	 O	 Signor
Orlando	ficou	com	a	impressão	de	que	aceitara	os	Quatorze	Pontos	com	a
ressalva	referente	ao	ponto	nove.	O	Presidente	Wilson	e	o	resto	do	mundo
entenderam	que	 ele	 aceitara	 os	Quatorze	Pontos	 sem	 restrições.	 Foi	 esse
mal-entendido	 que	 juntou	 mais	 um	 complicador	 à	 controvérsia	 que	 se
seguiu.
Deve-se	admitir	que	os	Representantes	Italianos	estavam	em	posição	muito
delicada	quando	chegaram	a	Paris.	Na	guerra,	a	Itália	se	voltara	contra	seus
aliados,	colocando-se	ao	lado	de	seus	inimigos,	pelo	princípio	do	“egoísmo
sagrado.”	 Esse	 princípio	 se	 traduzia	 na	 troca	 de	 compensações	materiais
em	 vez	 de	 morais.	 A	 Inglaterra	 e	 a	 França	 tinham	 se	 comprometido	 a
proporcionar	 essa	 satisfação	 material	 na	 moeda	 do	 velho	 imperialismo,
qual	 seja,	 sob	 a	 forma	 de	 anexações	 e	 protetorados.	 Nenhuma
engenhosidade	 humana,	 nenhuma	 manobra	 estatística	 ou	 de	 outra
natureza	seria	capaz	de	fazer	com	que	essa	dívida	pudesse	ser	saldada	na
nova	 moeda	 criada	 pelos	 Quatorze	 Pontos.	 Nada	 podia	 ocultar	 o	 fato
primordial	 de	 que	 o	 cumprimento	 das	 disposições	 do	 Tratado	 Secreto
violaria	o	princípio	da	Autodeterminação,	uma	vez	que	punha	sob	domínio
italiano,	 e	 a	 contra-vontade,	 uma	 população	 de	 dois	milhões	 desejosa	 de
escolher	o	próprio	destino.
A	batalha	era,	pois,	inescapável	entre	um	Tratado	Secreto	e	os	Quatorze
Pontos,	 entre	 imperialismo	 e	 autodeterminação,	 entre	 a	 velha	 ordem	 e	 a
nova,	entre	a	convenção	diplomática	e	o	Sermão	da	Montanha.	A	França	e	a
Inglaterra	 estavam	 presas	 pelos	 termos	 de	 sua	 hipoteca.	 As	 mãos	 do
Presidente	Wilson	estavam	atadas	apenas	por	seus	próprios	princípios.	Ali
estava,	se	alguma	houvesse,	a	melhor	oportunidade	para	o	Profeta	do	Novo
Mundo	impor	sua	mensagem	ao	Velho.	A	questão	italiana	tornou-se,	assim,
para	 os	 que	 a	 conheciam,	 um	 teste	 para	 toda	 a	 Conferência.	 Foi	 no
tratamento	dispensado	por	Woodrow	Wilson	 ao	Tratado	de	Londres	que
decidimos	julgar	seu	verdadeiro	valor.	O	Presidente	foi	testado	e	fraquejou.
Talvez	 tivéssemos	 escolhido	 um	 assunto	 injusto	 para	 testá-lo,	 mas	 foi	 o
tema	que	selecionamos.	Ele	falhou	perante	nós.	Ficamos	abalados	com	seu
fracasso.	 Desde	 aquele	 instante	 deixamos	 de	 acreditar	 que	 o	 Presidente
Wilson	 era	 o	 Profeta	 que	 tínhamos	 seguido.	 A	 partir	 daquele	 momento
passamos	a	ver	nele	não	mais	do	que	um	clérigo	presbiteriano.
Narro	estas	emoções	tal	como	afloraram	na	época.	Vejo	claramente	que
foi	 fácil	 para	 nós	 escolher	 uma	 cirurgia	 de	 oportunidade	 para	 testar	 a
habilidade	de	Mr	Wilson	 como	cirurgião.	Não	digo	que	estávamos	 certos,
que	 fomos	 altruístas,	 perspicazes	 ou	 mesmo	 honestos	 ao	 fazê-lo.	 Digo
apenas	que	assim	fizemos.
As	 exigências	 italianas	 foram	 enfraquecidas	 por	 outras	 circunstâncias.
Signor	 Orlando	 e	 Signor	 Sonnino	 tinham	 presumido	 que	 o	 princípio	 da
Autodeterminação	 não	 seria	 aplicado	 com	 um	 rigor	 acadêmico	 que
favorecesse	 a	 Alemanha	 ou	 mesmo	 a	 Hungria.	 Para	 os	 italianos,	 foi
embaraçoso	 constatar	que	 suas	 reivindicações	 incidiam	 justamente	 sobre
aquelas	porções	de	 território	 inimigo	que	despertavam	sentimentos	mais
calorosos	 no	 coração	 tanto	 de	 associados	 quanto	 de	 aliados.	 Todos
simpatizavam	 com	os	 tiroleses.	 Foi	 dito	 que	Mr	 Lloyd	George	 alimentava
profunda	 admiração,	 um	 sentimento	 de	 camaradagem,	 pela	 memória	 de
Andreas	 Hofer.	 E	 também	 havia	 os	 iugoslavos.	 Aos	 olhos	 dos	 italianos,
croatas	 e	 eslovenos	 eram	 os	 mais	 perniciosos	 de	 todos	 os	 nossos	 ex-
inimigos.	 Ao	 chegar	 a	 Paris,	 foi	 desagradável	 para	 o	 Barão	 Sonnino
descobrir	 que	 os	 americanos,	 assim	 como	 os	 ingleses	 e	 franceses,
encaravam	os	 sérvios	 libertados	 como	as	ovelhas	perdidas	pelas	quais	 se
regozijavam.	Os	gregos	podiam,	igualmente	e	com	toda	justiça,	reclamar	a
posse	do	Dodecaneso,	 onde	população	e	 anseios	 eram	 totalmente	gregos.
Ademais,	 a	 opinião	 pública	 na	 Itália	 não	 era	 das	 mais	 favoráveis.	 Havia
murmúrios	 de	 socialismo;	 pior,	 tais	 murmúrios	 só	 podiam	 ser
neutralizados	por	generosas	fatias	de	imperialismo	vitorioso.	Mas	como	era
possível	 conseguir	 essas	 fatias,	 com	 o	 Presidente	 Wilson	 exibindo	 seu
evangélico	sorriso	de	Princeton?
É	 forçoso	 reconhecer	 que,	 em	 geral,	 a	 natureza	 humana	 leva	 a	 ver	 os
italianos	 com	 uma	 certa	 simpatia.	 Por	 trás	 de	 toda	 aquela	 perplexidade,
havia	preocupação	com	um	aspecto	mais	constrangedor.	O	colapso	total	da
Áustria	 surpreendera	 a	 Itália.	 Eles	 prefeririam	 algum	 tipo	 de
“combinazione”	 que	 deixasse	 um	 cordão	 de	 estados	 fracos	 e	 isolados	 ao
longode	 suas	 fronteiras	 setentrional	 e	 oriental.	 Ao	 invés	 disto,	 viram-se
diante	dos	alemães	como	seus	vizinhos	no	norte	e,	no	 leste,	diante	de	um
novo	e	poderoso	estado	com	mais	de	 treze	milhões	de	 iugoslavos.	Mais	à
frente	 voltarei	 a	 comentar	 este	 importante	 aspecto.	 Por	 enquanto,	 basta
salientar	 como	 foi	 inevitável	 que	 passassem	 a	 concentrar	 seus
pensamentos	em	Brenner	e	no	Monte	Nevoso.
Distraio-me	 descobrindo	 em	 meu	 diário	 tanta	 ingenuidade	 e	 convicta
indignação	com	as	manobras	diplomáticas	dos	Signori	Orlando	e	Sonnino.
Agora	 que	 constato	 as	 imensas	 dificuldades	 que	 enfrentavam	 e	 a
inacreditável	futilidade	daqueles	aos	quais	se	opunham,	fico	em	dúvida	se
eles	eram	totalmente	 incompetentes.	Externa	e	 internamente	estavam	em
posição	muito	 fraca.	 Sabiam	 que	 seu	 poder	 político	 e	militar,	 terrestre	 e
naval,	 ganhava-lhes	 pouca	 estima	 dos	 Aliados.	 Sabiam	 que	 tudo	 que
postulavam	 se	 opunha	 aos	 princípios	 do	 Presidente	Wilson.	 Sabiam	 que
tais	princípios	seriam	intensamente	exigidos	em	outras	áreas,	sob	pressão
da	França,	da	Bélgica,	dos	Novos	Estados	e	outros	atores	mais	fortes	do	que
eles.
Sabiam	 que	 até	 a	 opinião	 pública	 italiana,	 ainda	 estimulada	 pela
propaganda	 de	 guerra,	 esperava	 triunfos	 que	 provavelmente	 não
alcançariam.	 Assim	 sendo,	 resolveram	 manobrar	 para	 ganhar	 tempo	 e
posição	com	uma	sutileza	e	persistência	que	hoje	em	dia	desperta	minha
indignação	e	um	relutante	respeito	pela	manobra.	Gostaria	de	pensar	que	a
Itália	 teria	 se	 saído	 melhor	 se	 lançando,	 casta	 e	 chorosa,	 nos	 braços	 do
Presidente	Wilson	para,	em	gesto	arrebatador,	se	aliar	ao	bom,	ao	belo	e	ao
verdadeiro.	Todavia,	me	pergunto	se	tal	gesto	teria	originado	o	Tratado	de
Rapallo,	 de	 12	 de	 novembro	 de	 1920.	 Teria	 produzido	 o	 comunismo	 na
Itália,	quando	Mussolini	ainda	não	passava	de	simples	jornalista	em	Milão.
De	certo	modo,	a	Itália	era	um	anacronismo	em	nossos	Conselhos,	e	ainda
um	 anacronismo	 desprezado	 e	maltratado.	 Presentemente,	 não	 acho	 que
Sonnino	 e	 Orlando	 estivessem	 inteiramente	 sem	 razão	 em	 seus
procedimentos.	 Só	 lamento	 que	 esta	 inevitável	 combinação	 de	 fatores
negativos	 tivesse	 destruído	 o	 wilsonismo	 na	 Conferência	 de	 Paris.	 A
tentativa	de	combinar	o	século	quinze	com	o	século	trinta,	na	melhor	das
hipóteses,	 poderia	 levar	 a	 um	 juízo	 falso	 sobre	 seus	motivos.	 E	 Paris	 em
1919	não	foi	a	melhor	das	circunstâncias.
Os	 estágios	 da	 rendição	 do	 Presidente	 Wilson	 à	 Itália	 e	 as	 atitudes
erráticas	 que	 adotou	 para	 recuperar	 sua	 posição	 original	 não	 têm	 sido
divulgadas	com	clareza.	É	evidente,	creio,	que	Orlando	e	Sonnino,	que	não
concordavam	 em	 tudo,	 repartiam	 as	 atribuições.	 Orlando,	 que	 era	 um
liberal	 de	 coração,	 concentrava-se	 em	 conquistar	 a	 aprovação	do	 coronel
House,	 no	 que	 quase	 sempre	 obteve	 êxito.	 Sabia	 que	 havia	 dois	 pontos
fracos	na	armadura	dos	americanos,	resultante	de	dois	ardentes	anseios.	O
primeiro	era	alcançar	uma	vitória	moral	sobre	a	Europa,	capaz,	de	uma	vez
por	 todas,	 de	 satisfazer	 sua	 volúpia	 pelo	 trabalho	 de	 amenizar	 e	 superar
seu	complexo	de	inferioridade	cultural	e	histórica.	O	segundo	era	chegar	à
vitória	 sem	o	menor	 esforço	de	 abnegação	pessoal.	 Estes	dois	 propósitos
estavam	 admiravelmente	 combinados	 em	 uma	 Convenção	 da	 Liga	 das
Nações	que	absorveria	a	doutrina	de	Monroe.	O	Signor	Orlando,	sendo	um
homem	 inteligente,	 embora	 ligeiramente	 incrédulo,	 foi	 o	 primeiro	 a
perceber	 que	 o	 Presidente	 Wilson	 fecharia	 os	 olhos	 a	 inúmeras
incongruências	 se	 ao	 menos	 o	 Covenant	 da	 Liga,	 ainda	 que	 castrada,
pudesse	ficar	inserida	de	forma	inexorável	no	tecido	dos	tratados.	Quando
o	Presidente	regressou	de	sua	breve	estada	em	Washington,	logo	percebeu
que	 a	 oposição	 do	 Senado	 americano	 deixara	 a	 delegação	 dos	 Estados
Unidos	em	Paris	em	situação	altamente	ilógica.
Prontamente	ofereceu	ao	 coronel	House	o	apoio	da	 Itália	no	Comitê	da
Liga.	Com	a	mesma	presteza	assegurou	ao	Presidente	que	não	haveria	nada
mais	 fácil	 ou	mais	 justo	do	que	 excluir	 o	 continente	 americano	 tanto	das
sanções	quanto	das	responsabilidades	no	mecanismo	de	funcionamento	da
Liga,	 concedendo-lhe	as	benesses	do	 soerguimento	moral,	 sem	o	ônus	de
ter	 que	 agir	 e	 interferir.	 O	 Signor	 Orlando,	 com	 a	 maior	 afabilidade,
defendeu	a	cláusula	pela	qual	a	doutrina	Monroe	deveria	ser	absorvida	em
sua	 plenitude	 pela	 Liga	 das	 Nações.	 Mas	 cometeu	 um	 erro.	 Deixou	 de
reparar	 que	 desde	 o	 Presidente	 retornar	 de	Washington	 –	 desde	 aquele
sombrio	 banquete	 em	 que	 o	 Senador	 Lodge	 permaneceu	 tão	 calado	 –	 o
coronel	 House	 já	 não	 estava	 prestigiado.	 Tinha	 aderido	 às	 ideias	 de
Clemenceau.	Em	consequência,	a	partir	de	então	duas	 facções	passaram	a
conviver	no	Hotel	Crillon.	A	primeira,	que	podia	ser	 chamada	a	 facção	da
conciliação,	 era	 representada	 pelo	 coronel	 House	 e	 Mr	 Henry	 White.	 A
segunda	era	a	do	wilsonismo,	representada	pelos	especialistas	americanos.
Ninguém,	 e	menos	 ainda	o	próprio	Mr	Wilson,	 tinha	uma	noção	 exata	da
facção	 à	 qual	 o	 Presidente	 pertencia.	 O	 Signor	 Orlando	 supunha	 que	 o
presidente	e	o	coronel	House	ainda	estavam	do	mesmo	lado,	o	que	o	levou
a	 adotar	 uma	 postura	 que,	 sem	 o	 apoio	 americano,	 se	 mostrou	 muito
ingênua.
O	 ministro	 do	 Exterior	 da	 Itália,	 o	 Barão	 Sonnino,	 defendia	 outros
propósitos	e	neles	se	concentrava.	Representava	a	“rigorosa	honestidade,”
fama	que	adquirira	em	virtude	de	uma	(deliberada)	casualidade.	Sua	mãe
tinha	a	nacionalidade	escocesa,	o	que	nos	fez	acreditar	em	sua	sinceridade.
Colocara	sobre	a	lareira	em	sua	casa	o	lema	“aliis	licet,	tibi	non	licet”	(outros
podem	 fazer,	mas	 você	 não	 pode).	 Ao	 sabermos	 dessa	 inscrição,	 ficamos
convictos	 de	 que	 o	 Barão	 Sonnino	 era	 um	 homem	 independente,
magnânimo,	 humano	 e	 de	 inteligência	 ágil.	 São	 atributos	 imortais.
Permitiram	que	o	Barão	Sonnino	continuasse	gozando	de	nossa	confiança
até	que	o	conhecêssemos	bem.
Entretanto,	 apesar	 das	 vantagens	 iniciais	 da	 adoção	 de	 dupla
personalidade	e	abordagem,	continua	sendo	um	completo	mistério	como	a
delegação	italiana	conseguiu	convencer	o	Presidente	Wilson	a	permitir	que
a	Itália	ficasse	com	a	fronteira	no	Brenner	e	com	o	sul	do	Tirol.	Parece	que
ele	já	concordara	com	esta	concessão	extremamente	nociva	em	janeiro	de
1919.	Comentou-se	que	o	Presidente	ainda	estava	 sob	a	exaltada	emoção
de	seu	triunfo	romano.	Comentou-se	que	os	italianos	ameaçaram	se	opor	à
inclusão	da	Convenção	da	Liga	no	Tratado	de	Paz,	a	menos	que	ele	acatasse
suas	 postulações.	 Também	 se	 comentou	 que	 prometeram	 que,	 se	 a
concessão	 fosse	 autorizada,	 apoiariam	 as	 ideias	 wilsonianas	 e	 seriam
cordatos	 em	 todas	 as	 outras	 matérias,	 como	 as	 que	 diziam	 respeito	 a
iugoslavos,	 albaneses,	 gregos	 e	 turcos.	 Nenhum	 desses	 comentários	 se
baseia	 em	 fontes	 totalmente	 convincentes.	 Nada	 há	 que	 explique	 como	 o
Presidente,	 logo	 no	 início	 da	 Conferência,	 pôde	 concordar	 com	 a
transferência	 de	 230	 mil	 tiroleses	 para	 o	 domínio	 italiano,	 em	 flagrante
violação	 do	 mais	 central	 de	 seus	 princípios.	 Prefiro	 aceitar	 a	 simples
explicação	 de	 que	 Woodrow	 Wilson	 naquele	 momento	 praticamente
desconhecia	as	reais	implicações	da	concessão.	Mais	tarde,	confessou	ao	Dr
Charles	Seymour	que	capitulara	neste	assunto	em	consequência	de	“estudo
insuficiente.”	 O	 professor	 Coolidge	 fez	 o	 seguinte	 registro:	 “Entre	 nossa
gente,	 existe	 uma	 crença	 bem	 fundamentada	 de	 que	 ele	 deu	 seu
consentimento	 sem	 a	 devida	 apreciação	 do	 assunto	 e	 arrependeu-se
francamente	mais	tarde,	mas	estava	tolhido	pela	palavra	dada.”
Quaisquer	 que	 tenham	 sido	 os	 motivos	 que	 levaram	 o	 Presidente	 a
entregar	 o	 Tirol	 aos	 italianos,	 as	 consequências	 deste	 ato	 foram
desastrosas.	 Fizeram-se	 sentir	 da	 seguinte	 maneira.Desde	 os	 primeiros
dias	 da	 conferência	 havia	 um	 entendimento	 generalizado	 de	 que	 o
Presidente	já	sacrificara	o	princípio	da	nacionalidade	em	uma	questão	que
não	 admitia	 justificação	 para	 tal	 abandono,	 a	 não	 ser	 a	 necessidade
estratégica.	 Aparentemente,	 fizera	 esta	 concessão	 gratuitamente	 e	 sem
exigir	 nada	 em	 troca.	 Assim	 procedendo,	 paralelamente	 aprovava	 o
Tratado	 de	 Londres.	 Dessa	 forma,	 desde	 logo	 comprometeu	 sua	 própria
posição	moral	e	a	autoridade	de	sua	Delegação.	Se	Wilson	podia	engolir	o
Brenner,	podia	engolir	qualquer	coisa.	O	efeito	moral	desta	constatação	não
pode	 ser	 exagerado.	 Mesmo	 por	 razões	 práticas,	 distintas	 das	 de	 ordem
moral,	sua	concessão	foi	uma	tremenda	asneira.	Quando,	em	seguida,	teve
que	 enfrentar	 a	 questão	do	Adriático,	 viu	que	 já	 tinha	desperdiçado	 seus
trunfos.	Em	seu	desejo	de	retificar	aquele	gesto	impensado,	ficou	teimoso	e
professoral	 em	 assuntos	 de	 muito	 menor	 importância.	 Fez	 suas	 jogadas
com	atitude	pedante	e	provocativa.	Devido	a	isso,	o	problema	do	Adriático
passou	do	nível	de	mera	diferença	de	opinião	para	o	dos	picos	nervosos	de
uma	crise	mundial.
Observe-se	 que	 nesse	 assunto	 de	 vital	 importância	 Mr	 Wilson	 também
arcou	 com	 as	 consequências	 de	 ter	 recusado	 de	 forma	 arrogante	 e
irrefletida	 a	 proposta	 de	 programa	 apresentada	 por	 Jusserand	 em	 29	 de
novembro.	Se	esse	programa	fosse	aceito	e	implantado,	não	só	o	Tratado	de
Londres	 teria	 sido	 automaticamente	 invalidado,	 mas	 também	 teria	 sido
possível	 evitar	 desperdício	 de	 tempo	 e	 trabalho	 no	 trato	 de	 todas	 as
imposições	 italianas.	 A	 Conferência	 poderia	 até	mesmo,	 desde	 as	 sessões
iniciais,	 ter	 estabelecido	 que	 o	 primeiro	 objetivo	 era	 a	 conclusão	 da	 paz
com	 o	 principal	 inimigo,	 e,	 assim,	 as	 divergências	 adriáticas	 só	 viriam	 à
tona	com	inevitável	insistência	nas	fases	finais	e	menos	críticas.	Mais	uma
vez,	foi	a	falta	de	um	planejamento	científico	que,	desde	o	começo,	lançou
sobre	o	Conselho	Supremo	todas	estas	complexas	questões.
Na	 ânsia	 de	 aplacar	 as	 Potências	 menores,	 os	 membros	 do	 Conselho
gratuitamente	os	convidaram	a	declarar	suas	reivindicações.	Foram	essas
declarações	 de	 demandas	 que,	 no	 caso	 de	 Iugoslávia,	 Grécia	 e	 Albânia,
impuseram	ao	Conselho	Supremo	a	necessidade	de	avaliar	já	em	fevereiro
até	que	ponto	essas	reivindicações	conflitavam	com	as	da	Itália.	É	verdade,
claro,	 que	 os	 italianos,	 de	 qualquer	 forma,	 teriam	 pressionado	 para
postergar	a	assinatura	da	Convenção	e	do	tratado	com	a	Alemanha	até	que
suas	reivindicações	que	afetavam	a	Áustria,	a	Iugoslávia,	a	Grécia	e	mesmo
a	 Turquia,	 fossem	 aceitas,	 pelo	 menos	 em	 princípio.	 Mas	 a	 falta	 de	 um
programa	inflexível	lhes	permitiu	chegar	a	seu	objetivo	sem	um	mínimo	de
esforço.	O	que	deveria	ser	uma	manobra	espinhosa	e	desgastante,	graças	ao
amadorismo	do	Conselho	Supremo,	se	transformou	num	passeio.
O	ponto	principal	da	questão	italiana,	já	que	o	Brenner	fora	concedido,	foi
o	que	 ficou	conhecido	por	 todos	como	o	 “Problema	Adriático.”	Em	outras
palavras,	centrou-se	na	disputa	entre	a	Itália	e	a	Iugoslávia	em	torno	de	sua
fronteira,	mais	 particularmente	 quanto	 à	 posse	 de	 Fiume,	 da	 Dalmácia	 e
das	 Ilhas.	 O	 Problema	 Adriático	 abrange	 complexos	 pormenores	 que
dificultam	uma	apreciação	 imediata	 e	objetiva.	Cuidarei	disso	mais	 tarde,
considerando	 os	 princípios	 e	 métodos	 envolvidos.	 Mas	 é	 impossível
transmitir	com	precisão	o	efeito	que	a	incessante	controvérsia	com	a	Itália
gerou	 sobre	 a	 Conferência	 de	 Paz,	 a	 menos	 que	 se	 tente	 descrever	 o
constante	fluxo	e	refluxo	entre	fato	e	princípio,	princípio	e	fato.	Eis	por	que
devo	 escolher	 como	 meus	 exhibits	 (ou	 inhibits)	 dessas	 dificuldades	 de
detalhe	 não	 o	 problema	 central	 de	 Fiume	 e	 o	 Adriático,	mas	 dois	 efeitos
secundários	e	muito	mais	manejáveis	do	Tratado	Secreto	de	Londres.	Vou
optar	pelos	problemas	da	Albânia	e	do	Dodecaneso.
Até	 as	 guerras	dos	Bálcãs	 em	1912-1913,	 a	Albânia,	 embora	possuindo
uma	 nacionalidade	 ilíria	 própria,	 fora	 uma	 província	 do	 Império	 Turco.
Com	o	colapso	do	domínio	turco	na	Macedônia	e	na	Trácia,	a	Albânia	viu-se
independente,	 mas,	 de	 certa	 forma,	 no	 ar.	 Seu	 futuro	 status	 e	 suas
fronteiras	foram	objeto	de	apreciação	na	Conferência	de	Embaixadores	que
então	se	realizava	em	Londres	sob	a	presidência	se	Sir	Edward	Grey.	Em	29
de	 julho	 de	 1913,	 os	 embaixadores,	 depois	 de	 intenso	 debate,
generosamente	entraram	em	acordo	a	propósito	da	 fronteira	setentrional
do	futuro	Principado	Albanês.	Essa	fronteira	colocou	Scutari	em	território
albanês,	 mas	 transferiu	 as	 cidades	 albanesas	 de	 Ipek	 e	 Djakova	 para
Montenegro.	A	delimitação	da	 fronteira	meridional	entre	Albânia	e	Grécia
seria	 decidida	 depois	 de	 examinada	 por	 uma	 comissão	 no	 local.	 As
recomendações	dessa	comissão	ainda	não	estavam	inteiramente	aprovadas
quando	 eclodiu	 a	 Guerra	 Europeia.	 Entrementes,	 a	 coroa	 da	Albânia	 fora
oferecida	ao	Príncipe	Wilhelm	de	Wied,	que	desembarcou	em	Durazzo	em	7
de	 maio	 de	 1914	 e	 deixou	 o	 país	 em	 4	 de	 setembro,	 forçado	 por	 Essad
Pasha,	seu	próprio	ministro	da	Guerra,	que	o	substituiu.
Em	25	de	novembro,	a	Itália,	embora	na	época	fosse	neutra,	se	apossou
da	base	naval	de	Valona,	enquanto	as	tropas	austríacas	ocuparam	o	norte	e
o	centro.	Em	abril	seguinte,	o	Tratado	de	Londres	concedeu	à	Itália	Valona
e	o	protetorado	de	um	pequeno	estado	central	albanês,	enquanto	o	restante
da	Albânia	devia	ser	dividido	entre	a	Sérvia	e	a	Grécia.	Em	3	de	 junho	de
1917,	a	 Itália,	 sem	consultar	 seus	Aliados,	proclamou	a	 independência	da
Albânia	sob	proteção	italiana.	Os	franceses	reagiram	criando	uma	república
independente	 em	 Koritza,	 no	 sul	 da	 Albânia,	 dominando	 a	 importante	 e
estratégica	estrada	de	Santi	Quaranta	para	a	Grécia.	Obstinadamente	e,	em
meu	modo	de	ver,	com	justa	razão,	mantiveram	suas	forças	naquele	remoto
distrito	 até	maio	 de	 1920.	 De	 sua	 parte,	 os	 sérvios	 cruzaram	 a	 fronteira
norte	e	ocuparam	Scutari	e	a	linha	do	Drin.	Mais	adiante	foram	obrigados	a
entregar	 Scutari	 a	uma	 força	 interaliada,	mas	permaneceram	ocupando	o
restante	da	Albânia	setentrional.	Na	abertura	da	Conferência	de	Paris	essa
situação	da	Albânia	era,	portanto,	anômala	e	confusa.
A	 situação	 deteriorou-se	 ainda	 mais	 porque	 cada	 um	 dos	 vizinhos	 e
protetores	 da	 Albânia	 alimentava	 projetos	 próprios	 sobre	 a	 definição
territorial	 e	 as	 fronteiras	 do	 país,	 e	 pelo	 fato	 de,	 pelo	 menos	 no	 sul,	 as
populações	 serem	 cerradamente	 misturadas,	 e	 os	 dados	 estatísticos	 não
confiáveis.	Os	gregos	reclamavam	todo	o	sul	da	Albânia,	 inclusive	Koritsa,
alegando	 que	 constituía	 o	 “Épiro	 Setentrional”	 e	 era	 habitado
predominantemente	 por	 gregos.	 Os	 sérvios	 queriam	 todo	 o	 norte	 da
Albânia,	em	parte	por	razões	estratégicas	e	em	parte	por	motivos	étnicos.
Contudo,	 seu	 principal	 argumento	 era	 a	 ferrovia	 Grand	 Trunk,	 que	 devia
ligar	a	Iugoslávia	ao	sul	do	Adriático,	e	só	teria	saída	em	Scutari	e	ao	longo
do	vale	do	Drin.
A	 atitude	 das	 Grandes	 Potências	 diante	 desse	 intricado	 problema	 foi
ilustrativa	 e	 diversa.	 Os	 americanos	 e	 ingleses	 eram	 pró-Albânia	 em
simpatia,	 embora	 no	 sul	 nosso	 entusiasmo	 ficasse	 ofuscado	 por	 uma
dúvida:	se	seria	prudente,	uma	vez	que	a	Itália	fincasse	pé	na	Albânia,	dar-
lhe	a	vantagem	estratégica	de	Koritsa	e	da	estrada	de	Santi	Quaranta,	que,
na	 verdade,	 era	 a	 única	 via	 de	 comunicação	 entre	 Janina	 e	 Salônica.	 Os
franceses	 tendiam	 para	 nossa	 posição,	 e	 foram	 eles	 que	 finalmente	 nos
convenceram	que	Koritsa	devia	 ser	 atribuída	 à	Grécia.	A	 atitude	da	 Itália
nesse	problema	era	ilógica,	irritante	e	estranha.
Desde	abril	de	1915	a	seção	do	Tratado	de	Londres	pertinente	à	Albânia
desagradava	 aos	 italianos.	 Eles	 ainda	 queriam	 a	 plena	 soberania	 sobre	 a
base	 naval	 de	 Valona.Ainda	 queriam	 um	 protetorado	 no	 futuro	 estado
albanês.	Ainda	queriam,	como	sempre,	o	Tratado	de	Londres.	Porém,	não
mais	estavam	dispostos	a	observar	as	disposições	restantes	daquela	seção
do	Tratado	e	entregar	à	Sérvia	e	à	Grécia	as	porções	norte	e	sul	da	Albânia.
A	primeira	cessão	representaria	um	acesso	ao	território	da	Iugoslávia,	e	a
segunda	concederia	à	Grécia	o	domínio	estratégico	do	canal	de	Corfu.	Em
qualquer	caso,	se	a	Itália	recebesse	o	protetorado	da	Albânia,	convinha-lhe
que	o	território	deste	estado	se	estendesse	o	máximo	possível,	para	o	norte
e	para	o	sul.
O	resultado	foi	que	–	embora	em	todos	os	outros	pontos	(exceto	Fiume)
os	 italianos	clamassem	pela	obediência	plena	do	Tratado	de	Londres	com
base	na	“Santidade	dos	Tratados”	–	em	relação	à	Albânia,	eles	alegavam	que
o	 Tratado	 não	 estava	 em	 completo	 acordo	 com	 o	 princípio	 da
autodeterminação.	 Quando	 lhes	 foi	 salientado	 que	 a	 retenção	 de	 Valona
também	 podia	 ser	 considerada	 uma	 violação	 desse	 princípio,	 contra-
argumentaram	 afirmando	 que	 a	 posse	 de	 Valona	 envolvia	 “a	 honra	 da
Itália.”
Dia	 após	 dia	 fomos	 obrigados	 a	 ouvir	 pacientemente	 essa	 exegese	 da
doutrina	 de	 Wilson	 por	 nossos	 colegas	 italianos	 sem	 poder	 expressar	 o
desagrado	 e,	 na	 verdade,	 a	 fúria	 cega	 que	 tais	 sofismas	 despertavam.	 A
tolerância	 demonstrada	 pelos	 americanos	 e	 pela	 Conferência	 em	 geral
diante	 de	 tal	 distorção	 de	 doutrina	 me	 causava	 um	 efeito	 terrivelmente
desmoralizante.	 A	 cortesia	 própria	 da	 conduta	 internacional	 nos	 impedia
de	manifestar	a	 justa	 indignação,	a	não	ser	por	um	dorido	silêncio.	Mas	a
qualquer	momento	 poderia	 haver	 uma	 explosão	 dos	 Representantes	 dos
Estados	Unidos,	como	a	seguinte:	“Nesta	questão,	vocês	acabaram	de	apelar
para	a	doutrina	da	autodeterminação,	alegando	que	se	sobrepõe	ao	Tratado
de	 Londres.	 Posso	 informar	 meu	 Presidente	 que	 a	 Itália	 aplicará	 esse
princípio	 a	 todas	 as	 questões	 em	 que	 os	 interesses	 italianos	 estão
envolvidos?”	 Essa	 pergunta	 não	 teria	 resposta.	 Mas	 nunca	 foi	 feita.
Aguentamos	 em	 silêncio.	 E	 assim,	 dia	 após	 dia,	 nossa	 confiança	 no
wilsonismo,	como	doutrina	altiva	e	passível	de	aplicação,	foi	destruída.
É	 necessário	 acrescentar	 que	 a	 questão	 albanesa	 nunca	 chegou	 a	 ser
resolvida	 pela	 Conferência	 de	 Paris.	 Os	 italianos	 continuaram	 ocupando
militarmente	 aquele	 país	 até	 agosto	 de	 1920,	 quando	 os	 albaneses
levantaram-se	 contra	 eles	 e	 os	 jogaram	 no	 mar.	 Foi	 apressadamente
negociado	 um	 armistício,	 e	 os	 italianos,	 mal	 conseguindo	 preservar	 sua
dignidade,	 se	 retiraram.	 A	 partir	 de	 então	 foi	 adotada	 uma	 política	 de
penetração	 pela	 via	 financeira.	 Foi	 extremamente	 bem-sucedida.	 Bem
depois	da	Conferência	de	Paris,	as	fronteiras	da	Albânia	e	a	posição	da	Itália
em	relação	a	esse	país	foram	regularizadas	por	acordo	diplomático.
A	 questão	 de	 Rhodes	 e	 das	 onze	 outras	 Ilhas	 Gregas	 do	 Dodecaneso
podem	 ser	 abordadas	 mais	 resumidamente.	 Os	 italianos	 não	 possuíam
direito	 moral	 e	 apenas	 parcial	 direito	 jurídico	 àquelas	 ilhas.	 O	 Barão
Sonnino	 continuou	 tentando	negociar	 com	M	Venizelos	um	acordo	direto
para	a	resolução	das	dificuldades	greco-italianas.	Os	americanos	e	ingleses
eram	seguidamente	iludidos	com	garantias	de	que	um	acerto	conveniente
para	ambos	os	 lados	estava	a	ponto	de	ser	 feito.	Tal	acerto	 foi	 realmente
alcançado	entre	M	Venizelos	e	o	Signor	Tittoni,	sucessor	do	Barão	Sonnino.
Mas	 quando	 dias	 de	 desgraça	 cairam	 sobre	 os	 gregos,	 o	 acordo	 foi
repudiado	por	um	governo	seguinte	e	até	hoje	a	bandeira	italiana	drapeja
indevidamente	(mas	reconheço	que	saudável)	sobre	o	Dodecaneso.
Mencionei	esses	dois	problemas	não	apenas	como	exemplo	das	guinadas,
hipocrisias	 e	 fingimentos	 que	 éramos	 obrigados	 a	 suportar	 em	 educado
silêncio,	 mas	 para	 demonstrar	 até	 onde	 infelizmente	 se	 estendeu	 a
hesitação	do	Presidente	Wilson	e	seus	assessores,	oscilando	entre	princípio
e	detalhe.	Neste	aspecto,	 tenho	de	admitir,	sua	preparação	profissional	se
revelou	desastrosa.	Nossas	próprias	mãos	ficaram	atadas	pelo	Tratado	de
Londres,	 e	 não	 podíamos	 dizer	 nada.	 Esperávamos	 que	 os	 americanos
fizessem	chover	 fogo	do	céu	e	sustentassem	a	validade	de	seus	princípios
contra	 qualquer	 ajuste	 de	 pormenores.	 Foram	 hesitantes,	 em	 parte	 por
temerem	exageradamente	provocar	uma	“ruptura	da	Conferência	de	Paz”	e,
por	outro	lado,	por	um	acanhamento	excessivamente	escrupuloso.	Porém,
uma	 vez	 que	 abandonaram	 a	 fortaleza	 inexpugnável	 de	 seus	 próprios
princípios	 e	 saíram	 para	 o	 pantanal	 de	 detalhes	 que	 os	 cercava,
imediatamente	 capitularam,	 superados	 em	 número	 e	 desarmados.	 A
tragédia	da	Conferência	de	Paz	foi	o	fato	de	o	Novo	Mundo	ter	consentido
em	se	encontrar	com	o	Velho	Mundo	no	campo	escolhido	por	este.
É	fácil,	e	não	muito	histórico,	apontar	os	italianos	como	vilões	de	todo	esse
drama.	 Objetivamente,	 hoje	 constato	 que	 havia	 e	 ainda	 há	 muito	 que	 se
possa	dizer	em	sua	defesa.	Reconheço	(já	o	fiz	antes)	suas	dificuldades.	As
emoções	da	Câmara	dos	Deputados	italiana	eram	ainda	mais	desordenadas
do	que	as	da	Câmara	dos	Comuns.	Deixava-os	loucos	sentir	que	os	Quatorze
Pontos	 eram	 flexíveis	 em	 favor	 da	 França	 e	 da	 Inglaterra	 e	 rigidamente
aplicados	contra	a	Itália.	A	têmpera	do	país	era	ainda	mais	histérico	do	que
a	 provocada	 pelo	 Daily	 Mail.	 A	 situação	 trabalhista	 era	 ainda	 mais
ameaçadora	 do	 que	 a	 de	 Glasgow.	 O	 apetite	 da	 Itália	 era	 maior	 e	 sua
capacidade	de	 digestão	muito	menor	 do	 que	 em	qualquer	 outro	 país.	 Ela
estava	decidida	a	se	tornar	uma	Grande	Potência,	sem	a	força	interna	que
justificasse	tal	ambição.	Em	janeiro	de	1919,	a	Itália	estava	obviamente	em
seu	pior	momento.
Há	 outras	 considerações	 que	 tornam	 os	 assuntos	 enfrentados	 por
Orlando	e	Sonnino	particularmente	desconcertantes.	 Já	deixei	 claro	que	a
desmontagem	 completa	 da	 Áustria-Hungria	 surpreendeu	 os	 italianos.	 É
conveniente	examinar	essa	afirmação	do	ângulo	da	necessidade	italiana.	O
Tratado	 de	 Londres	 fora	 elaborado	 com	 base	 na	 premissa	 de	 que	 pelo
menos	alguma	coisa	restaria	do	velho	Império	Austro-Húngaro	e	que	algum
tipo	de	equilíbrio	de	poder	persistiria	 junto	às	 fronteiras	norte	e	 leste	da
Itália,	 como	 aquele	 entre	 os	 teutônicos	 e	 o	 eslavos.	 Esta	 suposição	 fora
contrariada	 pelos	 acontecimentos.	 Contra	 a	 ameaça	 alemã,	 de	 fato	 eles
eram	protegidos	pela	linha	do	Brenner.	Mas	no	leste	ficaram	expostos,	não
(como	 tinham	 previsto)	 a	 um	 perigo	 puramente	 naval	 ou	 de	 uma
“polinésia”	 de	 pequenas	 ilhas,	 mas	 à	 ameaça	 militar	 de	 uma	 fronteira
terrestre	 a	 ser	 defendida	 contra	 treze	 milhões	 de	 iugoslavos.	 Em	 outras
palavras,	o	Tratado	de	Londres	fora	pensado	em	termos	do	Império	Austro-
Húngaro.	Os	termos	já	não	se	aplicavam.	Para	um	país	fraco	como	a	Itália,
eram	 essenciais	 garantias	 estratégicas	 e	 econômicas	 contra	 essa	 nova
ameaça.	Essas	garantias	se	expressavam	em	termos	de	dois	objetivos.	(1)	O
Monte	 Nevoso	 como	 defesa	 estratégica	 contra	 o	 exército	 iugoslavo.	 (2)
Fiume,	 como	 garantia	 –	 e	 e	 também	 uma	 vítima	 –	 da	 prosperidade
econômica	de	Trieste.	Nenhum	destes	dois	objetivos	fora	prometido	à	Itália
pelo	 Tratado	 de	 Londres.	 Ambos	 violavam	 o	 princípio	 do	 Presidente
Wilson.
Somente	 pensando	 em	 termos	 de	 necessidade	 essencial	 da	 Itália
podemos	tentar	compreender	o	aparente	engano	do	Signor	Orlando	(uma
vez	 obtido	 o	 que	 queria	 no	 Brenner)	 ao	 eleger	 como	 seus	 principais
objetivos	 os	 únicos	 dois	 pontos	 (Fiume	 e	 Monte	 Nevoso)	 em	 que	 os
signatários	 do	 Tratado	 de	 Londres	 tinham	 liberdade	 para	 se	 aliar	 ao
Presidente	Wilson.	 Frequentemente	 se	 afirma	 (Mr	 Lansing,	 entre	 outros)
que	o	Signor	Orlando	soltou	sobre	a	questão	de	Fiume	uma	opinião	pública
que	 não	 foi	 mais	 capaz	 de	 controlar.Há	 certa	 dose	 de	 verdade	 nesta
afirmação.	 Contudo,	 questiono	 se	 a	 Delegação	 italiana	 foi	 até	 um	 ponto
sério	vítima	de	sua	própria	propaganda.	Obviamente	seus	membros	sabiam
que	 o	 Tratado	 de	 Londres	 prometeu-lhes	 a	 Dalmácia,	 mas	 negou-lhes
Fiume.	 Também	 sabiam	 que,	 pelos	 Quatorze	 Pontos,	 a	 Dalmácia	 era
inobtível,	 e	 que,	 com	 alguns	 artifícios	 estatísticos,	 poderiam	 vencer	 em
Fiume.	 Podem	 ter	 sentido	 que	 se	 a	 “Grande	 Voz”	 do	 povo	 italiano	 fosse
incitada	 a	 um	 alarido	 por	 Fiume,	 o	 grande	 coração	 desse	 mesmo	 povo
acabaria	aceitando	a	consequente	perda	da	Dalmácia.	Até	certo	ponto	esta
pode	ter	sido	sua	intenção	e	infelicidade.	Porém,	sem	dúvida,	sentiram	que
as	 circunstâncias	 tinham	 mudado	 e	 que	 a	 posse	 de	 Fiume	 e	 do	 Monte
Nevoso	 era,	 para	 a	 Itália,	 uma	necessidade,	muito	mais	 premente	 do	 que
qualquer	floreio	de	brilho	na	Dalmácia	ou	nas	Ilhas.
Abordo	desta	 forma	sumária	o	ponto	central	do	problema	do	Adriático.
Não	faço	menção	ao	armistício	da	Villa	Giusti	de	3	de	novembro	de	1918,	à
recusa	italiana	em	Paris	em	sentar	à	mesma	mesa	dos	croatas	e	eslovenos,
à	tentativa	iugoslava	de	assegurar	a	decisão	arbitral	do	Presidente	Wilson,
a	 todas	 as	 notas	 e	 negociações	 acontecidas	 entre	 13	 e	 23	 de	 abril,	 às
dissensões	 entre	 o	 grupo	House	 e	 o	Grupo	Bowman	dentro	da	delegação
americana	 e	 à	 consequente	 “linha	 Wilson,”	 à	 nossa	 própria	 atitude	 de,
embora	 tendo	 o	 direito	 de	 impor	 exigências	 ao	 amparo	 do	 Tratado	 de
Londres,	 não	 nos	 dispormos	 a	 fazê-lo,	 ou	 às	 idas	 e	 vindas	 de	 todo
indiferentes	de	Mr	Lloyd	George	entre	o	Hotel	Crillon	e	o	Hotel	Edouard	VII.
A	questão	principal	pode	ser	fervida	até	a	seguinte	forma:
	
1.	 O	 Tratado	 de	 Londres	 prometeu	 à	 Itália	 a	 Dalmácia	 e	 algumas
Ilhas	 Adriáticas.	 Não	 lhe	 destinou	 nem	 Fiume,	 nem	 o	 Monte
Nevoso.
2.	 A	França	e	a	Inglaterra	estavam	comprometidas	com	o	Tratado	de
Londres.	 O	 Presidente	 Wilson	 se	 recusou	 sequer	 a	 levá-lo	 em
consideração.
3.	 O	sumiço	do	Império	Austro-Húngaro	e	o	inesperado	surgimento
de	um	compacto	e	poderoso	Estado	Iugoslavo	tornaram	essencial
para	a	Itália	conseguir	a	posse	de	Fiume	por	razões	econômicas	e
do	Monte	Nevoso	por	necessidade	estratégica.
4.	 Se	os	italianos	abandonassem	o	Tratado	de	Londres,	liberariam	a
Inglaterra	 e	 a	 França	 de	 qualquer	 obrigação	 por	 ele.	 Se
insistissem	 em	 sua	 aplicação,	 seriam	 frustrados	 pelo	 veto	 do
Presidente	Wilson.
5.	 Portanto,	 sua	política	 foi	 com	uma	mão	 segurar	 a	 Inglaterra	 e	 a
França	 no	 Tratado	 de	 Londres,	 com	 a	 outra	 negociar	 com	 o
Presidente	Wilson	sobre	Fiume	e	o	Monte	Nevoso.	Uma	vez	estes
obtidos,	um	novo	Tratado	podia	ser	negociado	com	a	França	e	a
Inglaterra	 a	 fim	 de,	 liberando-os	 das	 cláusulas	 europeias	 do
Tratado	de	Londres,	comprometê-las	nas	disposições	relativas	à
Ásia	e	à	África.
	
Não	 é	 de	 surpreender	 que	 a	 Delegação	 Italiana	 tenha	 se	 esforçado	 tanto
para	pôr	um	pé	em	cada	canoa.	Realmente	desalentador	é	que	o	Presidente
Wilson	 (que	 tinha	 todos	 os	 trunfos	 na	 mão,	 com	 exceção	 do	 caso	 de
Brenner)	tivesse	adotado	um	método	precisamente	similar	de	afugentar	e
atrair.	Inicialmente,	em	14	de	abril,	deu	a	entender	ao	Signor	Orlando	que
se	 dispunha	 a	 ceder	 na	 questão	 de	 Fiume.	 Em	 seguida,	 em	 23	 de	 abril,
expediu	para	a	imprensa	um	comunicado	em	que	apelava	ao	povo	italiano,
passando	por	 cima	de	 seu	 representante	eleito.	Dessa	 forma,	 combinou	o
sigilo	da	velha	diplomacia	com	as	mais	flagrantes	indiscrições	da	nova.
Pode-se	conjeturar	que	essa	dualidade	de	ações	do	presidente	se	deveu
às	 influências	 conflitantes	 do	 coronel	 House	 e	 do	 grupo	 de	 especialistas
americanos	 que	 se	 alinhavam	 com	Mr	 Isaiah	 Bowman.	 O	 coronel	 estava
tomado,	com	toda	razão,	pelo	 temor	do	atraso,	e	acreditava	que	qualquer
Tratado	rapidamente	concluído	seria	melhor	do	que	qualquer	Tratado	que
demorasse.	 Convém	 lembrar	 que	 o	 coronel	 House	 era	 um	 homem	muito
inteligente,	mas,	 até	 certo	 ponto,	 desarticulado.	Os	 especialistas	 achavam
que	o	Presidente	devia	fazer	dessa	última	trincheira	o	baluarte	para	defesa
de	 seus	 princípios.	 Dirigiram-lhe,	 então,	 um	 apelo	 do	 tipo	 capaz	 de
despertar	seus	sentimentos	teocráticos.	“Nunca,”	escreveram,	“o	Presidente
teve	uma	oportunidade	como	esta	para	desfechar	um	golpe	de	morte	nos
métodos	 desacreditados	 da	 velha	 diplomacia	 (...)	 O	 Presidente	 dispõe	 do
raro	 privilégio	 de	 entrar	 para	 a	 história	 como	 o	 estadista	 que	 destruiu,
através	de	uma	decisão	clara	contra	um	vil	arranjo,	o	derradeiro	vestígio	da
velha	ordem.”
Na	 verdade,	 não	 foi	 o	 derradeiro	 vestígio.	 Shantung	 permaneceu	 como
humilhação	final.	Certamente	não	foi	uma	decisão	clara.	Mas	o	Presidente
tomou	força	com	essas	palavras	revivalistas.	Em	23	de	abril	expediu	para	a
imprensa	 uma	 declaração	 com	 seus	 pontos	 de	 vista	 sobre	 a	 questão	 de
Fiume,	na	qual	apelava,	não	sem	sua	velha	eloquência,	ao	coração	da	Itália
contra	o	cérebro	da	Delegação	Italiana	em	Paris.	No	dia	seguinte,	o	Signor
Orlando	 deixou	 Paris	 com	 dramática,	 embora	 até	 certo	 ponto	 ensaiada,
indignação.	 O	 sentimento	 do	 povo	 italiano	 explodiu	 apaixonadamente
contra	 o	 Presidente	Wilson,	 bradando	 “Fiume	 ou	 a	Morte.”	 O	 Presidente
apelara	a	ambos,	a	seus	princípios	e	ao	Povo.	E	O	Povo	rangeu	furiosamente
os	 dentes	 contra	 ele	 de	 ódio.	 Ele	 ficou	 muito	 abatido.	 A	 partir	 daquele
momento	 parece	 ter	 abandonado	 qualquer	 esperança	 de	 impor	 suas
doutrinas	às	falsas	democracias	da	Europa.
Os	detalhes	do	 imbróglio	que	 se	 seguiu	 são	menos	 importantes	do	que
esta	derrota	do	Princípio.	Em	5	de	maio,	os	italianos	retornaram	a	Paris.	Mr
Lloyd	 George,	 a	 partir	 daquele	 momento,	 se	 empenhou	 (em	 meu
entendimento	 corretamente)	 para	 efetuar	 um	 acerto	 baseado	 em	 amplas
compensações	na	Ásia	Menor.	Em	30	de	maio,	M	Tardieu	apresentou	sua
própria	 proposta	 de	 acordo.	 Em	 junho	 e	 julho	 ocorreram	 distúrbios	 em
Fiume	 e	 alguns	 soldados	 franceses	 foram	 mortos.	 Em	 12	 de	 setembro
D’Annunzio	ocupou	a	cidade.	Em	dezembro,	o	Signor	Nitti	fez	uma	tentativa
de	meio-termo.	 Em	 janeiro	 de	 1920,	 esse	meio-termo	 foi	 substituído	 por
outro.	Tanto	Trumbic	quanto	o	Presidente	Wilson	(já	então	adoentado	na
distante	 Washington)	 rejeitaram	 tal	 acerto.	 O	 Presidente	 aventou
negociações	diretas	 entre	 os	dois	 disputantes.	Mais	 tarde,	 o	 problema	 foi
discutido	 em	 San	 Remo,	 em	maio	 de	 1920,	 entre	 Trumbic	 e	 Nitti.	 Quase
chegaram	 a	 um	 acordo,	 mas	 Nitti	 caiu.	 Em	 novembro	 de	 1920,	 os
iugoslavos	estavam	desanimados.	O	Presidente	Wilson	naquela	ocasião	era
um	 homem	 batido	 pela	 doença	 e	 não	 havia	 esperança	 de	 ajuda.	 As
Potências	 Aliadas	 estavam	 cansadas	 dessa	 controvérsia.	 Os	 iugoslavos
tinham	sido	obrigados	a	se	render	ao	Conde	Sforza	em	Rapallo	e	a	conceder
à	 Itália	o	que	na	realidade	significava	Fiume	e	o	Monte	Nevoso.	Foi	dessa
maneira,	 dezoito	 meses	 depois	 da	 Conferência	 de	 Paris,	 que,	 enquanto
Wilson	morria	em	Washington,	a	Itália	conseguiu	o	que	desajava.
Não	estou	preocupado	com	a	solução	final	do	Problema	Adriático.	Só	me
preocupa	o	que	aconteceu	em	Paris	entre	18	de	 janeiro	e	28	de	 junho	de
1919.	Depois	de	ceder	na	questão	de	Brenner,	por	que	o	Presidente	Wilson
não	 foi	capaz	de	 impingir	à	 Itália	uma	solução	equitativa	nas	questões	do
Adriático	e	do	Dodecaneso?	Pode-se	argumentar	que	o	Presidente,	até	o	dia
de	 sua	 morte,	 de	 fato	 nunca	 concordou	 com	 qualquer	 concessão	 nesses
pontos	 e	 que	 sua	 atitude	 foi,	 pelo	 menos	 no	 pertinente	 à	 controvérsia,
menos	 ilógica	 do	 que	 a	 posição	 que	 adotou	 em	 relação	 a	 Shantung,	 à
Polônia,	aos	mandatos	e	à	inclusão	de	pensões	de	guerra	nas	reparações.
À	 luz	 fria	 da	 história,	 pode	 até	 parecer	 que,	 no	 trato	 com	 os	 italianos,
Woodrow	Wilson,	a	não	ser	no	erro	envolvendo	o	suldo	Tirol,	 realmente
manteve	 seus	 princípios	 incólumes.	 Todavia,	 essa	 não	 foi	 a	 impressão
disseminada	 nos	 abafados	 salões	 de	 Paris.	 Reconhecemos,	 mais	 nos
métodos	 do	 que	 nos	 objetivos	 da	 Delegação	 Italiana,	 tudo	 que	 havia	 de
mais	 detestável	 na	 diplomacia	 antiga.	 Confiávamos	 que	 o	 Presidente
também	 reconhecesse	 este	 perigo	 e	 enfrentasse	 os	 italianos	 com	 as
poderosas	 armas	 de	 que	 dispunha.	 O	 espetáculo	 de	 Woodrow	 Wilson
arrulhando	 de	 namoro	 com	 Orlando	 nos	 deixava	 absolutamente
desesperados.	 Não	 é	 que	 negociasse	 inabilmente.	 O	 problema	 era	 ele
concordar	em	negociar.	Se	desde	o	começo	ele	tivesse	adotado	uma	posição
firme	 contra	 as	 pretensões	 italianas,	 poderia	 mais	 adiante	 ter	 alcançado
êxito	contra	a	Inglaterra,	a	França	e	o	Japão.	Foi	sua	prematura	hesitação	na
questão	 italiana	que	nos	 convenceu	de	que	Woodrow	Wilson	não	era	um
grande	homem	enérgico.	Essa	convicção	foi	um	profundo	desapontamento.
Em	 suas	 pegadas,	 a	 desmoralização	 se	 espalhou	 por	 Paris	 como	 uma
doença.
8	
Fracasso
A	FINALIDADE	DESTE	LIVRO,	DEVO	REPETIR,	NÃO	É	tanto	descrever	uma	sequência	de	eventos,
mas	 focalizar,	 antes	 que	 se	 evapore,	 a	 infeliz	 e	 doentia	 atmosfera	 da
Conferência	de	Paz;	transmitir	alguma	percepção	da	derivação	gradual	que
a	 afastou	 de	 nossos	 altos	 anseios	 iniciais	 em	 favor	 dos	 países	 menores,
onde	 se	 trabalhou	 num	 conjunto	 apressado	 em	meio	 à	 neblina	 cada	 vez
mais	 espessa.	 Receio	 que	 se	 a	 pressão	 (realmente	 inevitável)	 dessa
atmosfera	não	for	entendida	como	fator	determinante,	o	historiador	possa
ver	a	Conferência	com	uma	sabedoria	que	só	aflora	depois	de	realizado	o
evento	e	se	concentre	em	plácidas	críticas,	distribuindo	elogios	e	censuras.
Mas	 não	 acho	 que	 um	 relato	 útil	 da	 Conferência	 de	 Paris	 possa	 ser
transmitido	em	termos	de	valores	éticos,	ao	contrário	de	técnicos.
A	 Conferência	 pode	 ter	 sido,	 como	 disse	 Mr	 Winston	 Churchill,	 “uma
colisão	 ruidosa	 de	 demagogos	 atrapalhados.”	 Já	 indiquei	 algumas	 das
causas	 que	 produziram	 esse	 ruído,	 a	 colisão	 e	 os	 métodos	 demagógicos.
Porém,	 a	 despeito	 disso,	 muita	 coisa	 útil	 e	 duradoura	 se	 realizou.	 Muita
coisa	ruim	foi	evitada.	No	entanto,	poucos	de	nós	não	nos	decepcionamos	e,
em	alguns	de	nós,	a	Conferência	inculcou	por	longo	tempo	um	sentimento
de	descrença,	uma	convicção	de	que	a	natureza	humana	pode,	como	uma
geleira,	se	mover	apenas	uma	ou	duas	polegadas	a	cada	mil	anos.
Neste	capítulo	 final	desejo	resumir	pelo	menos	alguns	do	que	podemos
chamar	fatores	psicológicos	(ou	seriam	sintomas?)	do	fracasso;	comentar	a
progressiva	 deterioração	 de	 nosso	 estado	 de	 espírito;	 assinalar	 nossa
“mudança	de	ânimo”;	e,	se	possível,	atribuir	esse	declínio	mental	e	afetivo	a
causas	 concretas.	 O	 historiador,	 com	 toda	 razão,	 chegará	 à	 conclusão	 de
que	 fomos	 uns	 idiotas.	 Acho	 que	 fomos.	 Mas	 também	 acho	 que	 o	 fator
burrice	 é	 inseparável	 de	 todas	 as	 atividades	 humanas.	 Muitas	 vezes	 é
deixado	de	fora	como	componente	inevitável	do	comportamento	humano;
e	também	é	muito	usado	apenas	como	termo	de	afronta	pessoal.
Em	 primeiro	 lugar,	 qual	 foi	 a	 natureza	 dessa	 deterioração	 moral	 e
intelectual?	 Posso	 falar	 com	 segurança	 apenas	 sobre	 minha	 própria
mudança	 de	 ânimo,	 no	 entanto	 acredito	 que	 as	mutações	 por	 que	 passei
foram	compartilhadas	por	muitos	outros,	e	que	minha	perda	de	idealismo
coincidiu	 com	uma	perda	 similar	 da	 parte	 daqueles	 (e	 eram	muitos)	 que
chegaram	 para	 a	 Conferência	 inflamados	 pelas	 mesmas	 certezas	 que	 eu.
Nossa	mudança	de	ânimo	pode	ser	descrita	assim.
Chegamos	a	Paris	acreditando	que	a	nova	ordem	estava	na	iminência	de
se	estabelecer;	deixamos	a	cidade	convencidos	de	que	a	nova	ordem	apenas
elameara	 a	 velha.	 Chegamos	 como	 ferventes	 aprendizes	 na	 escola	 do
Presidente	 Wilson;	 partimos	 como	 renegados.	 Quero	 alvitrar,	 neste
capítulo	 (e	 sem	 amargura),	 que	 a	 infeliz	 deterioração	 de	 padrões	 foi	 em
grande	 parte	 o	 defeito	 (ou	 se	 poderia	 dizer	 com	 mais	 compreensão	 “a
infelicidade”)	da	diplomacia	democrática.
Chegamos	 convictos	 de	 que	 seria	 negociada	 uma	 paz	 de	 justiça	 e
sabedoria.	 Partimos	 convictos	 de	 que	 os	 tratados	 impostos	 a	 nossos
inimigos	 não	 foram	 justos	 e	 nem	 sábios.	 Àqueles	 que	 desejarem	medir	 a
extensão	 do	 abismo	 que	 se	 abriu	 entre	 intenção	 e	 realidade,	 recomendo
uma	leitura	atenta	das	diversas	notas	dirigidas	ao	Conselho	Supremo	pela
Delegação	Alemã	em	Versalhes.	O	professor	Hazeltine,	no	volume	II	do	livro
History	of	the	Peace	Conference,	de	Temperley,	apresenta	excelente	sumário
e	 apreciação	 comparativa	 dessas	 notas.	 É	 impossível	 ler	 os	 comentários
alemães	sem	ficar	com	a	impressão	de	que	a	Conferência	de	Paz	de	Paris	foi
responsável	 por	 disfarçar	 uma	 paz	 imperial	 com	 a	 sobrepeliz	 do
wilsonismo,	 e	 de	 que	 raramente	 na	 história	 da	 humanidade	 tal
revanchismo	 se	 escondeu	 sob	 tão	 untuoso	 sofisma.	 Hipocrisia	 foi	 o
predominante	e	inescapável	resultado.
Mas	foi	essa	hipocrisia	totalmente	consciente,	deliberada?	Creio	que	não.
Sem	 dúvida,	 concordo	 em	 que	 a	 santimônia	 farisaica	 dos	 tratados	 é	 sua
falha	 mais	 grave.	 Mas	 houve	 uma	 dissimulação	 consciente?	 Em	 alguns
casos	(como	o	do	artigo	que	proibia	a	Áustria	de	se	juntar	à	Alemanha)	foi
consciente	 uma	 forma	 deliberadamente	 evasiva	 de	 linguagem.	 Mas,	 na
maioria	dos	casos,	a	hipocrisia	simplesmente	aconteceu.	Como	aconteceu?	O
fato	de,	à	medida	que	a	conferência	avançava,	mal	percebermos	o	quanto
estávamos	 afastados	 da	 realidade,	 pode	 indicar	 que	 estava	 ocorrendo
alguma	deterioração	de	consciência	moral.	Não	nos	dávamos	conta	do	que
fazíamos.	 Não	 notamos	 o	 quanto	 nos	 afastávamos	 da	 base	 original.
Estávamos	exaustos	e	sobrecarregados	de	trabalho.	Ficávamos	balbuciando
velhas	 fórmulas	 na	 esperança	 de	 que	 conservassem	 alguma	 pertinência
com	 nossos	 atos.	 Foram	 poucas	 as	 ocasiões	 em	 que	 dissemos	 a	 nós
mesmos:	 “Isto	 é	 injusto.”	Mais	 das	 vezes	 nos	 dissemos:	 “Melhor	 um	mau
Tratado	hoje	do	que	um	bom	Tratado	daqui	a	quatro	meses.”	Na	poeira	da
controvérsia,	 no	 crepitar	 da	 pressão	 do	 tempo,	 perdemos	 contato	 com
nossas	 estrelas-guias.	 Em	 certos	 momentos	 a	 poeira	 baixava,	 a	 máquina
parava	 e	 podíamos	 constatar,	 com	 cansado	 pesar,	 que	 a	 estrelas
empalideciam	contra	o	céu.	“Il	faut	aboutir!”	É	preciso	terminar,	gritavam,	e
lá	 voltávamos	 nós	 para	 o	 tumulto	 e	 a	 obscuridade	 de	 nossas	 obrigações.
Ainda	desejávamos	ardentemente	manter	nossos	princípios	incólumes;	só
mais	 tarde,	 depois	 do	 intervalo,	 percebemos	 que	 eles	 permaneciam
conosco	apenas	como	palavras	vazias.	Foi	quando,	e	só	então,	encaramos	o
fato	de	que	a	falsidade	de	nossa	posição	nos	levara	a	ser	falsos.	Já	era	então
muito	tarde.
O	que	acima	escrevi	não	traduz	nenhum	desejo	de	defender	nosso	estado
de	espírito.	Estou	só	examinando,	não	defendendo.	Minha	tese	é	que	esse
declínio	de	nossa	consciência	moral	constituiu	o	mais	 lamentável	e	 talvez
único	elemento	interessante	em	nossa	deterioração.	Quero	explicar	como,
em	 meio	 a	 incessantes	 discussões	 e	 embrenhados	 nos	 becos	 de
intermináveis	 detalhes,	 nos	 afastamos	 das	 avenidas	 principais	 de	 nossas
intenções,	 e	 como	 foi	 de	 forma	 inconsciente,	 e	 não	 deliberada,	 que,	 ao
chegar,	nos	orgulhávamos	de	ter	feito	o	caminho	que	pretendíamos.
Creio	 que	 este	 ponto	 tem	 certa	 importância.	 Se	 as	 futuras	 gerações
vierem	 a	 acreditar	 que	 a	 Conferência	 de	 Paris	 foi,	 sob	 todos	 os	 ângulos,
deliberada	 e	 extraordinariamente,	 hipócrita	 estarão	 (quando	 também	 se
fizerem	 presentes	 em	 Congressos)	 desprotegidas	 contra	 a	 desgastante
falsidade	 inseparável	 de	 qualquer	 tentativa	 para	 acomodar	 elevados
princípios	gerais	com	detalhes	práticos	de	menor	importância.
Em	todas	as	discussões	entre	estadossoberanos	que	afirmam	igualdade
entre	si,	decisões	só	podem	ser	tomadas	por	unanimidade,	e	não	por	voto
de	maioria.	 Essa	maldição	 inevitável	 da	 unanimidade	 leva	 ao	 não	menos
inevitável	 rumo	do	compromisso,	do	meio-termo.	Todos	os	meios-termos
têm	um	componente	de	 falsidade,	mas	quando	 têm	de	 se	 referir	de	volta
aos	princípios	ou	generalizações	orientadores	 surge	uma	dupla	 falsidade.
Não	nego	a	pavorosa	hipocrisia	dos	Tratados	de	Paris.	Apenas	defendo	que
tal	 hipocrisia	 não	 foi	 sempre	 consciente	 ou	 deliberada;	 que	 não	 era
humanamente	 evitável;	 e	 que	 hipocrisia	 similar	 também	 pode	 não	 ser
evitável	em	todos	os	casos	futuros.
Qualquer	 leitor	 inteligente	 poderá	 argumentar	 que	 essa	 análise	 da
natureza	 de	 nossa	 hipocrisia	 afinal	 não	 é	 uma	 explicação,	 mas
simplesmente	uma	desculpa	esfarrapada	e	vazia.	No	entanto,	a	explicação
está	implícita	em	meu	argumento	e	é	a	seguinte.
Os	negociadores	em	Paris	estiveram	desde	o	começo	numa	posição	falsa.
Essa	 falsidade	 cresceu	durante	 todo	o	 tempo	em	que	Tratado	Alemão	 foi
discutido.	O	Tratado	da	Alemanha	é	 a	 raiz	 e	 causa	de	 todo	o	 fracasso,	da
rápida	 deterioração	 do	 alerta	 moral.	 Requer,	 pois,	 uma	 análise	 de	 suas
partes	componentes.
Já	 indiquei	 em	 capítulos	 precedentes	 muitos	 dos	 elementos	 de	 falsidade
que	 afligiram	 a	 Conferência	 de	 Paris	 desde	 os	 primeiros	 dias.	 Chamei	 a
atenção	para	a	incoerência	entre	o	quadro	existente	nos	momentos	em	que
a	vitória	ainda	era	incerta	e	a	interpretação	desse	quadro	quando	o	triunfo,
esmagador	e	insaciável,	estava	em	nossas	mãos.	Lembrei	que	um	idealismo
surgido	para	mitigar	a	angústia	de	possível	derrota	pode	se	transformar	na
prática,	 quando	 aplicado	 ao	 apetite	 despertado	 pela	 vitória	 consumada.
Também	 salientei	 a	 aguda	 dificuldade	 enfrentada	 pelos	 negociadores	 em
Paris	 de	 conciliar	 as	 exaltadas	 expectativas	 de	 suas	 democracias	 com	 as
considerações	 mais	 serenas	 indispensáveis	 à	 edificação	 de	 uma	 paz
duradoura.	Tais	contrastes	podem	ser	listados	sob	a	chave	do	que	sempre
será	 o	 principal	 problema	 da	 diplomacia	 democrática:	 o	 ajustamento	 da
emoção	das	massas	ao	pensamento	dos	governantes.
A	nova	diplomacia	pode	ser	imune	a	alguns	dos	vírus	de	fingimento	que
afetavam	 a	 velha:	mas	 é	 agudamente	 sensível	 ao	 seu	 vírus	 peculiar	 –	 ao
vírus	da	 imprecisão.	O	que	os	estadistas	pensam	hoje,	as	massas	poderão
vir	a	sentir	amanhã.	Mas	nas	condições	em	que	se	realizou	a	Conferência	de
Paz,	requerendo	extrema	rapidez	de	decisão,	o	intervalo	de	tempo	entre	as
emoções	 das	 massas	 e	 os	 pensamentos	 dos	 estadistas	 é	 um	 fator	 muito
desvantajoso.	A	tentativa	de	preencher	rapidamente	a	lacuna	entre	emoção
de	 massa	 e	 raciocínio	 de	 especialistas	 leva,	 na	 pior	 hipótese,	 a	 aberta
falsidade	e,	na	melhor,	a	grave	 imprecisão.	A	Conferência	de	Paz	de	Paris
não	 foi	 um	 exemplo	 de	 diplomacia	 democrática	 na	 sua	 melhor	 forma.
Então,	a	lacuna	foi	preenchida	por	falsidade	aberta.
Esse	 tipo	 geral	 de	 falsidade,	 inseparável	 de	 todas	 as	 tentativas	 de
diplomacia	 democrática,	 em	 Paris	 foi	 complicada	 e	 fortalecida	 por
circunstâncias	 especiais	 que,	 por	 sua	 vez,	 requerem	 ser	 declaradas	 e
analisadas.	O	contraste	entre	emoção	de	massa	e	raciocínio	de	especialistas
apresentou-se	 a	 nós	 em	 termos	 agudos	 e	 difíceis.	 Tomou	 a	 forma	 –	 a
desnecessária	e	desconcertante	forma	–	de	um	contraste	não	apenas	entre
a	 nova	 diplomacia	 e	 a	 velha,	mas	 entre	 o	 novo	mundo	 e	 o	 velho,	 entre	 a
Europa	e	os	Estados	Unidos.	Não	digo	que	esse	contraste,	em	todas	as	suas
implicações,	 fosse	 inteiramente	percebido	na	 época.	 Sustento	 apenas	que
foi	determinante	ao	longo	de	toda	a	Conferência;	que	era,	na	verdade,	irreal
e	 não	 um	 contraste	 real;	 e	 que	 a	 tentativa	 de	 conciliar	 essas	 duas
irrealidades	foi	o	principal	erro	de	conceito	da	Conferência	e	a	raiz	de	toda
a	 falsidade	 resultante.	 Permitam-me	 pôr	 esse	 contraste	 em	 termos	 bem
simples.
De	um	 lado,	 tinha-se	o	wilsonismo	–	doutrina	muito	 fácil	 de	declarar	 e
muito	 difícil	 de	 aplicar.	Mr	Wilson	 não	 inventara	 nenhuma	nova	 filosofia
política,	 ou	 descobrira	 qualquer	 doutrina	 nunca	 sonhada	 e	 apreciada	 em
muitas	 centenas	 de	 anos.	 A	 única	 coisa	 que	 tornou	 o	 wilsonismo	 tão
apaixonadamente	interessante	na	época	foi	o	fato	de	esse	sonho	centenário
se	 ver	 subitamente	 respaldado	 pelos	 recursos	 esmagadores	 do	 mais
poderoso	 país	 do	mundo.	 Lá	 estava	 o	 homem	 que	 representava	 a	maior
força	 física	 que	 jamais	 existira,	 comprometido	 claramente	 com	 a	 mais
ambiciosa	 teoria	 moral	 que	 qualquer	 estadista	 já	 enunciara.	 Não	 que	 as
ideias	de	Woodrow	Wilson	 fossem	 tão	 apocalípticas;	 é	 que	pela	primeira
vez	na	história	havia	um	homem	que	dispunha	não	apenas	da	vontade,	não
só	do	poder,	mas	da	inquestionánel	oportunidade	de	impor	essas	ideias	ao
mundo	 inteiro.	 Seríamos	 realmente	 muito	 insensíveis	 se	 não	 fôssemos
inspirados	pela	magnitude	de	tal	ocasião.
Do	 outro	 lado	 estava	 a	 Europa,	 produto	 de	 uma	 civilização	 totalmente
diferente,	 herdeira	 de	 circunstâncias	 inalteráveis,	 possuidora	 de
experiência	mais	longa	e	prática.	Através	séculos	de	conflitos,	os	europeus
vieram	 a	 aprender	 que	 guerras	 são	 tramadas	 quase	 sempre	 com	 a
expectativa	 de	 vitória,	 e	 que	 tal	 expectativa	 diminui	 num	 sistema	 de
equilíbrio	 de	 forças	 que	 torna	 a	 vitória	 difícil,	 se	 não	 incerta.	 O	 valor
defensivo	de	armamentos,	fronteiras	estratégicas,	alianças	e	neutralidades
pode	 ser	 computado	 com	 precisão	 aproximada;	 já	 o	 valor	 defensivo	 do
“comportamento	virtuoso	de	todos”	não	pode.	Se	realmente	o	wilsonismo
pudesse	aplicar-se	integral	e	universalmente,	e	se	de	fato	a	Europa	pudesse
confiar	na	América	para	sua	 implantação	e	 imposição,	então	seria	mesmo
uma	 alternativa	 infinitamente	 preferível	 aos	 perigosos	 e	 provocativo
equilíbrios	de	poder	do	sistema	europeu.
Respaldados	pela	garantia	de	apoio	imediato	e	incondicional	da	América,
os	 estadistas	 da	 Europa	 possivelmente	 poderiam	 jogar	 fora	 seu	 velho
modelo	 de	 segurança	 e	 adotar	 a	 segurança	 mais	 ampla	 oferecida	 pelas
teorias	 de	Woodrow	Wilson.	 Mas	 estavam	 eles	 certos	 de	 que	 a	 América
seria	tão	altruísta,	quase	tão	quixotesca,	a	ponto	de	garantir	o	wilsonismo
para	 a	 Europa?	 Estariam	 convencidos	 até	 mesmo	 de	 que	 os	 países
europeus,	quando	chegasse	a	hora,	aplicariam	o	wilsonismo	a	si	próprios?
Os	Quatorze	Pontos	 foram	exaltados	como	um	admirável	método	de	 tirar
cisco	 dos	 olhos	 dos	 outros.	 Mas	 estaria	 qualquer	 grande	 e	 vitoriosa
Potência	 disposta	 a	 retirar	 vigas	 de	 seu	 próprio	 corpo	 político?	 Os	mais
ardentes	 defensores	 ingleses	 do	princípio	 da	 autodeterminação	 viram-se,
mais	cedo	ou	mais	tarde,	numa	posição	falsa.	Por	mais	que	fervesse	nossa
indignação	 diante	 das	 exigências	 italianas	 com	 relação	 à	 Dalmácia	 e	 ao
Dodecaneso,	poderia	ser	esfriada	por	uma	referência,	não	só	a	Chipre,	mas
à	Irlanda,	ao	Egito	e	à	Índia.	Tínhamos	aceitado	para	os	outros	um	sistema
que,	na	prática,	recusaríamos	a	aceitar	para	nós.
Esse	 não	 foi	 o	 único	 elemento	 de	 falsidade	 que	 desde	 o	 começo
desacreditou	o	evangelho	de	Woodrow	Wilson.	O	anglo-saxão	é	dotado	de
uma	ilimitada	capacidade	de	excluir	suas	próprias	necessidades	práticas	da
aplicação	 das	 teorias	 idealistas	 que	 procura	 impor	 aos	 outros.	 Os	 latinos
são	 diferentes.	 A	 precisão	 lógica	 do	 gênio	 francês	 e,	 em	menor	 dose,	 do
italiano	 não	 permite	 tal	 obscuridade.	 O	 anglo-saxão	 é	 capaz	 de	 acusar	 o
latino	 de	 “cinismo”	 porque	 hesita	 em	 aderir	 a	 uma	 religião	 que	 não	 está
preparado	para	aplicar	à	sua	própria	conduta,	tão	distinta	da	dos	outros.	O
latino	acusa	o	anglo-saxão	de	“hipocrisia”	porque	deseja	impor	aos	outros
uma	 norma	 de	 comportamento	 que	 se	 recusa,	 ele	 próprio,	 a	 adotar.	 Na
verdade,	 o	 contrasteentre	 os	 dois	 não	 é	 entre	 cinismo	 e	 hipocrisia,	mas
entre	 dois	 hábitos	 mentais	 divergentes.	 O	 anglo-saxão	 é	 capaz	 de	 sentir
antes	 de	 pensar,	 e	 o	 latino	 é	 capaz	 de	 pensar	 antes	 de	 sentir.	 Foi	 esta
divergência	 de	 hábito,	 este	 hiato	 entre	 razão	 e	 emoção,	 que	 induziu	 os
latinos	 a	 examinar	 a	 Revelação	 de	 Woodrow	 Wilson	 de	 forma	 mais
científica	e,	portanto,	mais	crítica	do	que	nós.	Por	essa	análise	chegaram	a
certas	conclusões	que	destruíram	sua	crença.
Observaram,	 por	 exemplo,	 que	 os	 Estados	 Unidos,	 ao	 longo	 de	 sua
história	curta	mas	marcadamente	 imperialista,	 tinham	constantemente	se
proclamado	 virtuosos,	 enquanto,	 com	 a	mesma	 constância,	 violavam	 sua
profissão	 e	 recorriam	 ao	 materialismo	 mais	 flagrante.	 Observaram	 que
todos	os	americanos	gostavam	de	sentir	como	Thomas	Jefferson	e	de	agir
como	Alexander	Hamilton.	Observaram	que	princípios	como	o	da	igualdade
do	homem	não	se	aplicava	aos	amarelos	ou	aos	negros.	Observaram	que	a
doutrina	 da	 autodeterminação	 não	 fora	 aplicada	 aos	 peles-vermelhas	 e
nem	mesmo	aos	estados	sulistas.	Foram	capazes	de	examinar	“os	princípios
e	 as	 tendências	 americanas”	 não	 em	 termos	 da	 declaração	 de	 Filadelfia,
mas	em	termos	da	guerra	com	o	México,	da	Louisiana,	daqueles	inúmeros
tratados	 com	 os	 índios	 que	 foram	 violados	 impudentemente	 antes	 que	 a
tinta	secasse.	Também	observaram,	quase	com	memória	viva,	que	o	grande
Império	 Americano	 fora	 conquistado	 pelo	 emprego	 da	 força	 implacável.
Podemos	 culpá-los	 se	 duvidaram,	 não	 tanto	 da	 sinceridade,	 mas	 da	 real
aplicabilidade	do	evangelho	de	Woodrow	Wilson?	Podemos	culpá-los	por
temerem	que	 o	 realismo	 americano,	 quando	 chegasse	 a	 hora,	 rejeitaria	 a
responsabilidade	 de	 fazer	 o	 idealismo	 americano	 funcionar	 na	 Europa?
Podemos	 surpreender-nos	 que	 preferissem	 as	 precisões	 de	 seu	 velho
sistema	 ao	 vago	 idealismo	 de	 um	 novo	 sistema	 que	 a	 América	 podia	 se
recusar	a	aplicar	até	mesmo	em	seu	próprio	continente?
Apenas	para	 fazer	 justiça,	 convém	mencionar	que	no	seio	da	Delegação
americana	 essa	 infeliz	 dissonância	 gerou	 um	 sentido	 de	 impotência.	 O
próprio	 Presidente	 conseguiu	 dispensar	 de	 sua	 consciência	 todas	 as
considerações	que	pudessem	incomodar	as	fundações	de	sua	fé	mística.	O
coronel	 House,	 homem	 de	 inteligência	 robusta,	 se	 possuísse	 o	 controle
supremo	teria	sido	capaz	de	transpor	o	abismo	de	forma	científica	e	de	ter
um	 triunfo	 honesto	 de	 engenharia	 diplomática.	 Mas	 sobre	 os	 outros
membros	da	delegação,	 ardentes	 e	 sinceros,	 a	 suspeita	de	que	 a	América
pedia	da	Europa	em	nome	da	justiça	sacrifícios	que	a	América	jamais	fez	e
jamais	 faria,	 produziu	 um	 sentimento	 de	 acanhamento,	 incerteza	 e
crescente	desespero.	Fosse	o	Presidente	Wilson	um	homem	de	amplitude
de	visão	excepcional,	de	determinação	sobre-humana,	poderia	ter	superado
todas	 essas	 dificuldades.	 Infelizmente	 nem	 a	 força	 de	 vontade	 do
Presidente	Wilson	e	nem	sua	força	mental	eram,	de	forma	alguma,	sobre-
humanas.
O	colapso	do	Presidente	Wilson	na	Conferência	de	Paz	de	Paris	é	uma	das
maiores	tragédias	da	história	moderna.	Em	grande	parte,	esse	colapso	pode
ser	atribuído	aos	defeitos	de	sua	inteligência	e	caráter.	É	preciso	examinar
esses	 defeitos	 e	 relacioná-los	 com	 os	 erros	 estratégicos	 e	 táticos	 que
cometeu.
“Ele	 possuía,”	 escreve	 o	 coronel	 House,	 “uma	 das	 personalidades	mais
complexas	 e	 difíceis	 que	 já	 conheci.”	 A	 desorientação	 com	que,	 em	Paris,
sua	cegueira	e	indecisão	encheram	os	que	lhe	eram	próximos	está	refletida
nas	explicações	extravagantes	que	procuram	inventar.	Mr	Stannard	Baker,
por	exemplo,	fez	o	que	pôde	para	provar	que	Woodrow	Wilson	foi	a	vítima
de	uma	conspiração	da	velha	diplomacia.	Mr	Lansing,	mais	equilibrado	em
seu	 julgamento,	diz	que	a	recepção	apoteótica	ao	desembarcar	na	Europa
perturbou	seu	equilíbrio	mental.	Outros	chegaram	a	dar	a	entender	que	a
constante	 contração	 do	 lado	 esquerdo	 de	 seu	 rosto	 e	 a	 doença	 que,
disfarçada	 em	 gripe,	 o	 atacou	 em	 abril,	 eram	 os	 primeiros	 sintomas	 da
paralisia	que	o	abateria	em	outubro.	Mesmo	que	assim	fosse,	permanece	o
fato	 de	 as	 falhas	 de	 caráter	 do	 Presidente	 Wilson,	 sua	 inflexibilidade	 e
arrogância	 espiritual	 terem	 se	 acentuado	 patologicamente	 após	 sua
chegada	 à	 Europa.	 E	 pairaram,	 como	 um	 fenômeno	 quase	 físico	 sobre	 a
Conferência	de	Paris.
Não	 se	 pode	 dizer	 que	Woodrow	Wilson	 subestimou	 a	 importância	 de
sua	 missão	 na	 Europa	 ou	 o	 papel	 decisivo	 que	 se	 esperava	 ele
desempenhasse	 pessoalmente.	 Pode	 ser,	 como	 insinua	 o	 coronel	 House,
que	 tenha	 encarado	 a	 Conferência	 como	 “um	 delicioso	 acontecimento
intelectual.”	 Mas	 estava	 bem	 consciente	 da	 imensa	 responsabilidade
recaída	nele	e	convicto	das	terríveis	dificuldades	que	teria	de	enfrentar.	Viu
a	 si	 mesmo	 (e	 nisso,	 na	 época,	 não	 houve	 ilusão)	 como	 o	 profeta	 da
humanidade,	 como	 um	 embaixador	 acreditado	 junto	 à	 justiça	 por	 todo	 o
mundo.	 Ao	 desembarcar,	 proclamou:	 “Se	 não	 tivermos	 cuidado	 com	 os
mandatos	 da	 humanidade,	 seremos,	 merecidamente,	 o	 mais	 estrondoso
fracasso	da	história	mundial.”
Apesar	 de	 tal	 componente	 emocional,	 não	 seria	 exato	 ver	 Woodrow
Wilson	 somente	 como	 um	 demagogo	 místico,	 crente	 que	 umas	 poucas
palavras	na	prosa	inglesa	demoliriam	de	um	sopro	os	velhos	parapeitos	da
Europa.	 Já	 acentuei	 seu	 lado	místico,	 supersticioso.	 Sua	 crença	 pueril	 na
relação	 pessoal	 dele	 com	 o	 número	 13,	 tão	 vulgar	 quanto	 sua	 ideia	 de	 a
“voz	 da	 gente	 comum”	 equivaler	 ao	 juízo	 de	 Deus,	 é	 uma	 importante
manifestação	 deste	 misticismo.	 Mas	 há	 facetas	 objetivas.	 Alertou	 os
membros	 da	 delegação,	 quando	 discursou	 para	 eles	 a	 bordo	 do	 George
Washington,	 que	 a	 batalha	 que	 enfrentariam	 não	 seria	 fácil.	 Advertiu-os,
com	palavras	 de	 Josiah	Quincy,	 que	deveriam	 lutar	 por	 uma	nova	 ordem
“de	maneira	 agradável	 se	 for	possível,	 desagradável,	 se	 for	necessário.”	É
verdade	 que	 Mr	 Lansing	 condena	 o	 presidente	 por	 seus	 métodos	 nada
business,	 por	 sua	 falta	 de	 um	 projeto	 ou	 de	 coordenação.	 “Em	momento
algum,”	 escreveu,	 “houve	 trabalho	 em	 equipe,	 opinião	 comum	 e	 ação
coordenada.”
Essa	crítica,	se	me	aventuro	a	reparar,	poderia	ser	dirigida	a	outros	entre
os	plenipotenciários.	Comparado	a	seus	colegas	na	mesa	do	Conselho,	Mr
Wilson	 era	 objetivo,	 muito	 bem	 informado	 e	 perfeitamente	 preciso.	 Mr
Balfour	 sempre	 nos	 assegurava	 não	 ver	 falhas	 na	 técnica	 do	 Presidente.
Durante	as	reuniões,	era	 invariavelmente	paciente,	 conciliatório	e	sereno.
Em	alguns	momentos	 raciocinava	 com	certa	 lentidão,	mas	estava	 lidando
com	as	flechas	velozes	do	intelecto	latino	de	Clemenceau	ou	com	as	rápidas
viradas	de	peixe	da	 intuição	de	Mr	Lloyd	George.	O	 colapso	de	Woodrow
Wilson	deve	ser	atribuído	a	 razões	muito	mais	profundas	do	que	simples
insuficiência	diplomática	ou	de	equipamento	de	conferência.
O	presidente,	 convém	 lembrar,	 descendia	 de	Covenanters,	 participantes
da	reforma	protestante	na	Escócia,	herdeiro	de	uma	tradição	presbiteriana
mais	 direta.	 Aquela	 arrogância	 espiritual	 que	 parece	 inseparável	 das
formas	 mais	 duras	 de	 religião	 mordera	 profundamente	 sua	 alma	 e	 se
consolidara	no	curso	de	muitas	lutas	com	o	Professorado	de	Princeton.	Sua
visão	 se	 estreitara	 em	 virtude	 da	 sólida	 formação	 ética	 que	 recebera.
Possuía	–	ele	mesmo	admitia	–	“uma	mente	de	mão	única.”
Essa	 redução,	 esse	 defeito	 intelectual	 o	 fez	 cegamente	 hermético,	 não
apenas	no	referente	às	características	das	pessoas,	mas	também	a	matizes
de	opinião.	Não	 tinha	o	dom	estabelecer	distinções,	nenhuma	capacidade
para	 se	 ajustar	 às	 circunstâncias.	 Foi	 sua	 rigidez	 espiritual	 e	mental	 que
provocou	 sua	 destruição.	 Tornou-o	 incapaz	 de	 suportar	 críticas	 e	 de
absorver	 conselhos.Cegou-o	 a	 todas	 as	 ações	 práticas	 que	 não	 se
ajustassem	às	suas	 ideias	preconcebidas,	e	até	para	as	realidades	de	suas
próprias	decisões.
Ele	e	 sua	consciência	gozavam	de	 tal	 intimidade	que	qualquer	pequena
divergência	 podia	 ser	 facilmente	 superada.	 A	 profunda,	 inflexível	 e	 mui
justificada	 convicção	 de	 sua	 própria	 retitude	 espiritual,	 aliada	 à	 sólida
crença	de	que	Deus,	Wilson	e	o	Povo	no	fim	seriam	vitoriosos,	o	levaram	a
encarar	 suas	próprias	deficiências	 como	meros	e	passageiros	detalhes	na
grande	empreitada	rumo	ao	direito	e	à	 justiça.	 Identificava	o	Covenant	da
Liga	 das	Nações	 com	 esse	 impulso	 central	 e,	 diante	 da	 “Arca	 da	 Aliança”
sacrificou,	um	a	um,	seus	Quatorze	Pontos.	Tomara	que	a	turvação	final	de
seu	 cérebro	 o	 tenha	 poupado	 do	 horror	 de	 compreender	 o	 que	 fizera	 à
Europa	e	o	que	os	políticos	americanos	fizeram	com	ele.
Sua	arrogância	espiritual	e	a	natureza	dura	mas	mesquinha	de	sua	mente
ficam	 bem	 evidentes	 na	 alienação	 à	 realidade	 política,	 ao	 lado	 de	 sua
perturbadora	 percepção	 da	 realidade	 partidária.	 De	 um	 lado,	 por	motivo
partidário,	recusava-se	a	se	aliar	a	qualquer	figura	de	destaque	entre	seus
opositores	políticos.	Mr	Henry	White,	diplomata	convidado	por	ele	para	a
Delegação,	 embora	 republicano,	 não	 era	 o	 representante	que	os	próprios
republicanos	 teriam	 indicado.	 A	 extrema	 severidade	 com	 que	 Woodrow
Wilson	encarava	todos	os	políticos	contrários	é	um	dos	menos	agradáveis	e
sensatos	traços	de	seu	caráter.
De	 outro	 lado,	 embora	 sendo	 um	 membro	 entusiasta	 do	 partido,
estranhamente	 parece	 ter	 ignorado	 sua	 própria	 posição	 na	 política.	 Em
solene	 pronunciamento	 feito	 a	 bordo	 do	 George	 Washington	 para	 os
membros	 de	 sua	 delegação,	 informou-os	 não	 só	 que	 os	 Estados	 Unidos
seriam	a	única	nação	sem	interesses	na	Conferência,	mas	também	que	ele
próprio	 era	 o	 único	 plenipotenciário	 que	 possuía	 um	 total	 mandato	 do
povo.	Na	ocasião,	disse:	“Os	homens	com	que	vamos	lidar	não	representam
seu	próprio	povo.”
Acontece	que	naquele	mesmo	instante	estavam	em	curso	na	Inglaterra	as
eleições	 que	 levariam	 Lloyd	 George	 a	 Paris	 com	 o	 mandato	 popular
conquistado	com	a	mais	esmagadora	vitória	que	já	se	vira.	M	Clemenceau,
poucos	dias	mais	tarde,	obteve	na	Câmara	da	França	um	voto	de	confiança
com	maioria	de	quatro	para	um.	Ao	passo	que	Mr	Wilson,	em	consequência
do	resultado	das	eleições	de	um	mês	antes,	estava	diante	de	uma	maioria
contra	 ele	 nas	 duas	 Casas	 do	 Congresso.	 Sua	 recusa	 em	 enfrentar	 a
realidade	dos	 fatos	evidencia	a	estreiteza	de	uma	mente	que	apagou	toda
luz	que	viesse	do	exterior.	Indica	(e	não	pode	haver	exemplo	melhor)	que
sua	 mente	 estava	 iluminada	 exclusivamente	 pelo	 incenso	 da	 própria
autoadoração;	da	adoração	a	Deus;	da	adoração	ao	Povo.
Como	 acontece	 com	 a	maior	 parte	 dos	 teocratas,	Woodrow	Wilson	 era
um	 homem	 solitário	 e	 inacessível.	 Como	 no	 caso	 de	 muita	 gente	 de
consciência	 presbiteriana	 atuante,	 era	 reservado	 até	 consigo	 mesmo.
“Nunca,”	 assim	 recorda	 seu	mais	 ardoroso	 defensor,	 “pareceu	 apreciar	 o
valor	do	contato	comum	com	as	pessoas.”	 “Parecia,”	diz	Mr	Lansing,	 “que
encarava	 uma	oposição	 como	 afronta	 pessoal.”	 Estava	 sempre	 disposto	 a
procurar	 seus	 notáveis	 especialistas	 para	 obter	 informações,	 mas
raramente	 se	 propunha	 a	 ouvi-los	 quando	 se	 aventuravam	 a	 dar	 um
conselho.	Nesta	predileção	pelas	informações	em	detrimento	das	ideias	de
seus	 especialistas,	 o	 Presidente	 Wilson	 não	 estava	 sozinho	 entre	 os
plenipotenciários	 da	 Conferência.	 E	 não	 podemos	 culpá-los;	 eram	 tantas
ideias;	 eram	 tantas	 informações!	 Inevitavelmente,	 os	 plenipotenciários,
soterrados	como	estavam,	preferiam	selecionar,	dentre	as	Informações,	os
elementos	que	mais	se	ajustava	a	seu	próprio	conceito	sobre	as	Ideias.
Essa	 tendência	 comum	 entre	 os	 plenipotenciários	 responde	 pela
divergência	de	opinião	manifestada	pelos	especialistas	americanos	quando
inquiridos	por	 seu	próprio	Senado	 sobre	este	ponto.	Mr	William	Lamont,
uma	 das	 figuras	 mais	 inatacáveis	 da	 Conferência	 de	 Paz,	 afirmou	 que	 o
Presidente	 fazia	 consultas	 frequentes.	 Mas	 Mr	 Lamont	 era	 um	 assessor
econômico	 e	 financeiro	 e,	 nessa	 área,	 o	 Presidente	 não	 possuía
conhecimento	pessoal.	Já	Mr	Lansing,	cujo	pensamento	era	voltado	para	as
áreas	jurídica	e	política,	afirma	nunca	ter	sido	consultado	pelo	Presidente:
“Para	 ele,	 era	 um	 assunto	 absolutamente	 pessoal.”	 Nesse	 aspecto,	 pelo
menos,	o	Presidente	Wilson	estava	na	mesma	situação	de	seus	colegas.	A
insistência	de	seus	críticos	com	relação	à	sua	inabilidade	em	consultar	seus
assessores	 não	 é,	 a	 meu	 ver,	 realmente	 válida.	 O	 que	 interessa	 não	 é	 a
atitude	 mental	 em	 que	 o	 Presidente	 Wilson	 se	 igualava	 aos	 colegas	 do
Conselho,	mas	aquela	em	que	ele	diferia.	Esta	é	a	que	desejo	explorar.
Um	luz	lateral	do	caráter	do	Presidente,	para	a	qual	já	chamei	a	atenção,
era	 sua	 sensibilidade	 às	 críticas	 da	 imprensa,	 particularmente	 às
zombarias.	Esse	ponto,	embora	 já	mencionado	anteriormente,	merece	ser
examinado.	 Mr	 Lloyd	 George	 e	 M	 Clemenceau	 eram,	 a	 este	 respeito,
maravilhosamente	 paquidérmicos.	Mr	Wilson	mantinha	 a	 sensibilidade	 à
flor	da	pele.	Em	10	de	fevereiro,	M	Capus	escreveu	um	artigo	no	Figaro	que
dizia	 o	 seguinte:	 “O	 Presidente	 Wilson	 assumiu	 airosamente	 uma
responsabilidade	que	poucos	 jamais	suportaram.	O	êxito	de	seus	esforços
idealistas	o	deixará	sem	dúvida	entre	os	maiores	vultos	da	história.	Mais	il
faut	dire	hardiment,	 que	 s’il	 échouait	 il	 plongerait	 le	monde	dans	un	 chaos
dont	 le	 bolschévisme	 russe	 ne	 nous	 offre	 qu’une	 faible	 image	 et	 sa
responsabilité	 devant	 la	 conscience	 humaine	 dépasserait	 ce	 que	 peut
supporter	 un	 simple	mortel.”	 (Mas	 é	 preciso	 dizer	 corajosamente	 que,	 se
fracassar,	mergulhará	o	mundo	num	caos	do	qual	o	bolchevismo	russo	não
passa	de	pálido	exemplo	e	 sua	responsabilidade	perante	a	consciência	da
humanidade	excederá	o	que	um	simples	mortal	é	capaz	de	suportar.)
O	 Presidente	 Wilson	 reagiu	 a	 essa	 tremenda	 lucidez	 de	 M	 Capus
ameaçando	 transferir	a	Conferência	para	Genebra.	Mas	 sofreu	muito.	Nos
dias	 da	 crise	 de	 abril,	 sua	 posição	 enfraqueceu	 por	 causa	 dessa	 estranha
forma	de	se	atormentar.	A	imprensa	francesa,	àquela	altura,	descobrira	que
o	 Presidente	 Wilson	 era	 não	 apenas	 teológico	 e	 inconveniente,	 mas
realmente	engraçado.	Divertia-se	às	suas	custas	com	posturas	 levianas.	M
Clemenceau	 conseguiu	 muitas	 concessões	 do	 Presidente	 em	 troca	 da
promessa	 de	 dar	 um	 fim	 naquelas	 gracinhas.	 Senso	 de	 humor,	 portanto,
nem	 sempre	 leva	 à	 fraqueza,	 mas	 sua	 imunidade	 a	 isso	 foi	 uma
desvantagem	 para	 Woodrow	 Wilson	 em	 Paris.	 Mr	 Lansing	 comenta	 o
risinho	 discreto	 sob	 o	 qual	 o	 Presidente	 ocultava	 sua	 lentidão	 mental.
“Parecia,”	 afirmou,	 “quase	 um	 pedido	 de	 desculpa.”	 Mr	 Lansing	 passava
hora	após	hora	sentado	ao	lado	do	Presidente	naquele	salão	extravagante
que	era	o	centro	do	Conselho	Supremo,	ouvindo	calado	o	riso	inapropriado
com	que	seu	Presidente	procurava	esquivar-se	da	tragédia	de	sua	própria
incompreensão.	 Mr	 Lansing	 passava	 seu	 subserviente	 tempo	 rabiscando
desenhos	de	duendes	em	seu	bloco	de	notas.	Há	muito	a	ser	perdoado	em
Mr	 Lansing	 por	 aguentar	 em	 silêncio	 ao	 longo	 daquelas	 horas
intermináveis,	ver	a	areia	do	poder	de	resolução	escorrer	monotonamente
entre	os	dedos	do	presidente.
“O	mundo,”	assim	se	expressara	o	Presidente	na	sala	para	fumantes	cheia
de	 expectativa	 do	 George	 Washington,	 dirigindo-se	 a	 seus	 futuros
assistentes,	 “o	mundo	 não	 tolerará	 que	 haja	 apenas	 arranjos.	 Esta	 é	 uma
Conferência	 de	 Paz	 em	 que	 não	 se	 podem	 fazer	 combinações	 à	 moda
antiga.”	Depois	de	dizer	 isso,	Woodrow	Wilson	meteu-se	em	combinações
tal	qual	um	agente	de	viagens	monta	conexões.	Em	poucosdias,	aceitou	um
esquema	sobre	a	fronteira	no	Brenner.	Deixou-se	persuadir	que	as	pensões
de	 guerra	 podiam	 ser	 classificadas	 como	 “danos	 às	 populações	 civis.”
Permitiu-se	acreditar	que	o	sistema	de	mandatos	era	mesmo	algo	diferente
de	 anexação.	 Engoliu	 a	 cláusula	 da	 Culpa	 pela	 Guerra	 e	 as	 grotescas
cláusulas	 que	 injustamente	 puseram	 inocentes	 entre	 os	 criminosos	 de
guerra.	Permitiu	que	toda	a	questão	do	desarmamento	fosse	desviada	para
a	esfera	do	desarmamento	unilateral	da	Alemanha.	Capitulou	em	Shantung
como	capitulara	na	Polônia.	Cedeu	sobre	a	Renânia,	da	mesma	forma	como
cedeu	sobre	o	Sarre.	Nas	cláusulas	de	reparações	financeiras	e	econômicas
não	teve	nenhuma	boa	 influência,	uma	vez	que,	como	reconhecia,	 “não	se
interessava	 muito	 por	 assuntos	 econômicos.”	 Permitiu	 a	 proibição	 da
autodeterminação	 da	 Áustria	 com	 base	 em	 uma	 das	 expressões	 mais
especiosas	 jamais	 redigida	 por	 juristas.	 Permitiu	 que	 as	 fronteiras	 da
Alemanha,	 da	 Áustria	 e	 da	 Hungria	 fossem	 fixadas	 de	 uma	 forma	 em
flagrante	violação	de	sua	própria	doutrina.
Disse	a	seus	opositores:	“Devo	me	ater	a	meus	princípios,	e	apenas	peço
que	 me	 mostrem	 como	 vossos	 desejos	 podem	 se	 harmonizar	 com	 as
profissões	que	 fiz.”	Ao	 fim	de	 tergiversações	desta	natureza,	continuava	a
sustentar	 que,	 na	 verdade,	 suas	 intenções	 originais	 não	 tinham	 sido
contrariadas	 e	 que	 na	 Convenção	 da	 Liga	 poderiam	 identificar	 toda	 a
pletora	de	bênçãos	que	se	empenhara	em	proporcionar	ao	mundo.
Nunca	lhe	passou	pela	cabeça	que	ao	assinar	o	Tratado	de	Garantias	com
a	 França	 desfechara	 no	 prestígio	 de	 sua	 própria	 Convenção	 da	 Liga	 um
golpe	 do	 qual	 a	 messiânica	 doutrina	 jamais	 se	 recuperaria.	 Buscava
deploráveis	 desculpas	 para	 sua	 fraqueza.	 O	 acordo	 sobre	 Shantung	 fora
aceito	para	salvar	o	mundo	de	uma	nova	forma	de	militarismo.	O	acordo	da
Renânia	 fora	 celebrado	 para	 salvar	 o	 mundo	 de	 um	 deslocamento	 de
população.	 “O	 problema	 principal,”	 disse	 ele	 na	 ocasião,	 “é	 o	 de	 sempre
haver	acordo,	porque	a	pior	coisa	que	pode	acontecer,	eu	diria,	é	configura-
ser	 uma	 divisão	 nítida	 entre	 as	 Potências	 Aliadas	 e	 Associadas.”
“Pessoalmente,”	 acrescentou,	 “creio	 que	 a	 questão	 se	 resolverá	 sozinha
pela	admissão	da	Alemanha	na	Liga	das	Nações.”
A	Convenção	realmente	 foi	para	ele	o	depósito	em	que	guardava	toda	a
mobília	 inconveniente.	 “Há	 em	 sua	 cabeça,”	 disse	 Mr	 Lansing,	 “uma
estranha	 mistura	 de	 afirmação	 e	 indecisão	 (...)	 O	 inopinado,	 e	 não	 a
presteza,	sempre	marcou	suas	decisões.”	Sem	dúvida,	são	as	manifestações
de	 um	 caráter	 essencialmente	 fraco.	 A	 transferência	 de	 sua	 crença	 dos
Quatorze	 Pontos	 para	 o	 Covenant,	 a	 Convenção	 da	 Liga,	 é	 outro	 sintoma
dessa	 insegurança	 interior.	A	Liga,	por	mais	valiosa	que	 tenha	 sido	e	que
venha	 a	 ser	 como	 balcão	 de	 agência	 onde	 solucionar	 divergências
internacionais,	 jamais	 poderia	 se	 transformar,	 mesmo	 que	 os	 EUA
aderissem	a	ela,	num	superestado	a	dirigir	toda	a	atividade	internacional.
Mr	Wilson,	tendo	cedido	tanto	no	domínio	dos	fatos,	tentou	se	recuperar
dessas	derrotas	no	domínio	da	teoria.	Uma	vez	mais,	faltou-lhe	o	senso	de
realidade.	Como	escreveu	o	Dr	Dillon:	“Ele	deu	à	Liga	crédito	por	virtudes
que	tornariam	a	própria	Liga	desnecessária,	e	foi	indulgente	com	emoções
que	 tornaram	 sua	 imediata	 concretização	 impossível.”	 Deve	 ter	 havido
momentos,	lá	pelo	fim	de	abril,	em	que	o	Presidente	Wilson,	apesar	de	sua
obscuridade,	 constatou	 angustiado	 que	 transformara	 sua	 doutrina	 numa
trapalhada.	Mas	com	que	dor	na	alma	deve	ter	refletido	sobre	a	crescente
probabilidade	de	o	Povo	Americano,	aquela	divindade	em	que	ele	confiava
tão	cegamente,	ser	o	primeiro	a	repudiar	o	único	trabalho	de	respeito	que
realizara?
Frequentemente	 se	 afirma	 que	 o	 menos	 perdoável	 entre	 os	 erros	 do
Presidente	Wilson	 foi	 a	 falha	 em	 avisar	 seus	 Associados	 que	 os	 Estados
Unidos	 talvez	 não	 se	 dispusessem	 a	 assumir	 a	 obrigação	 de	 apoiar	 um
sistema	para	 cujo	 sucesso	a	esses	mesmos	associados	 se	pediam	pesados
sacrifícios	em	segurança	e	vantagens	particulares.	Tal	alegação	não	é	bem
precisa	nem	inteiramente	justa.
Por	 um	 lado,	 as	 Potências	 Europeias	 estavam	perfeitamente	 cientes	 de
que	o	Presidente	Wilson	naquele	momento	não	representava	realmente	a
opinião	 pública	 americana.	 No	 início	 de	 janeiro,	 Mr	 Lloyd	 George,	 em
reunião	secreta	da	Delegação	do	 Império	Britânico,	explicou	a	dificuldade
em	 que	 o	 Presidente	 se	 encontrava.	 As	 eleições	 de	 novembro	 para	 o
Congresso,	os	pronunciamentos	do	ex-presidente	 [Theodore]	Roosevelt,	a
atitude	do	 Senado	de	 então,	 tudo	 indicava	que	 a	América	 não	honraria	 o
cheque	em	branco	que	Mr	Wilson	queria	que	a	Europa	aceitasse	em	lugar
da	velha	moeda.	Que	fazer?	Constitucionalmente,	o	Presidente	ainda	era	o
executivo	e	falava	em	nome	de	seu	país.	Era	possível	dizer-	-lhe	cruamente
que	não	confiávamos	em	suas	credenciais?	Obviamente	essa	linha	de	ação
era	impossível.	A	única	coisa	que	a	Europa	poderia	fazer	era	salvar	a	face
do	Presidente;	e	a	única	coisa	que	o	próprio	Wilson	podia	fazer	era	salvar	a
face	 da	 Europa.	Mais	 uma	 vez	 constata-se	 uma	 falsidade	 de	 posição	 que,
embora	 crucial,	 nunca	 foi	 suficientemente	 exposta.	 Como	 a	 maioria	 das
posições	 falsas,	 pareceu	 delicada	 demais	 para	 ser	 imediata	 e
sistematicamente	confrontada.	Nunca	lancetaram	esse	abscesso.
Por	outro	lado,	o	Presidente	Wilson	não	fazia	uma	ideia	exata	de	até	que
ponto	 seu	 próprio	 povo	 iria	 repudiá-lo.	 M	 Clemenceau	 recordou	 que,
questionado	sobre	uma	possível	mudança	na	opinião	pública	americana,	o
presidente	 “invariavelmente	 respondia	 com	 imperturbável	 confiança.”	 “A
América,”	dizia,	 “já	aguentou	muito	de	mim.	Aguentará	 isso	 também.”	Em
20	de	março,	 informou	ao	Conselho	Supremo:	“Reconheço	que	os	Estados
Unidos	devem	assumir	as	responsabilidades,	tanto	quanto	os	benefícios,	da
Liga	 das	 Nações.	 No	 entanto,	 há	 grande	 antipatia	 nos	 Estados	 Unidos	 a
assumi-las.”	Seu	otimismo	em	afirmar	com	toda	seriedade	que	os	Estados
Unidos	aceitariam	um	mandato	sobre	a	Armênia	e	até	sobre	Constantinopla
nos	deixou	muito	apreensivos.	Mas	isso	não	era	apenas	uma	autoconfiança
pessoal.	 Convém	 lembrar	 que,	 em	março	de	 1919,	 34	das	 36	 legislaturas
estaduais	 e	 33	 governadores	 tinham	 endossado	 a	 Liga.	 Mesmo	 críticos
veementes	como	Mr	Lansing	admitem	que	já	em	junho	de	1919	“era	crença
geral	que	o	Presidente	acertaria	suas	diferenças	com	um	número	suficiente
de	senadores	republicanos.”	Não	se	podia	prever	que	Mr	Lodge	fosse	capaz
de	 transformar	 uma	 responsabilidade	 mundial	 em	 assunto	 partidário.
Entretanto,	permanece	o	fato	de,	após	sua	ida	a	Washington	em	fevereiro,
Mr	Wilson	tinha	de	saber	que,	mesmo	a	doutrina	de	Monroe	sendo	incluída
na	 Convenção	 e,	 por	 conseguinte,	 livrando	 os	 EUA	 de	 qualquer
responsabilidade	para	com	a	Europa,	era	discutível	que	o	senado	ratificasse
o	 que	 ele	 fizera.	 Pode-se	 até	 alegar	 que	 foi	 a	 constatação	 desse	 fato
espantoso	 que	 o	 convenceu	 a	 abrir	mão	 de	 seus	 princípios	 em	 favor	 das
vontades	 da	 Europa.	 Pode	 ser,	 mas	 não	 há	 provas	 que	 confirmem	 essa
ideia.	Tampouco	os	métodos	e	procedimentos	do	Presidente	Wilson,	antes
e	depois	de	sua	visita	de	fevereiro,	diferem	entre	si	a	ponto	de	justificar	a
suposição.	O	fato	parecia	terrível	demais	para	se	enfrentar.	Todo	o	Tratado
se	erigira	sobre	a	premissa	de	que	os	Estados	Unidos	não	seriam	um	mero
signatário,	 mas	 sim	 um	 executante	 ativo.	 A	 França	 fora	 persuadida	 a
abandonar	sua	reivindicação	de	um	estado-tampão	entre	ela	e	a	Alemanha
em	troca	da	garantia	de	apoio	militar	dos	Estados	Unidos.	Todo	o	acordo
sobre	 reparações	 dependia,	 para	 se	 implementar,	 da	 presença	 de	 um
representante	do	principal	credor	da	Europa	na	respectiva	comissão.	Todo
o	Tratado	fora	deliberada	e	engenhosamenteestruturado	pelo	próprio	Mr
Wilson	 para	 tornar	 essencial	 a	 cooperação	 americana.	 Claramente,	 como
assinalara	 M	 Capus	 em	 janeiro,	 a	 aceitação	 e	 o	 subsequente	 abandono
traidor	das	responsabilidades	assumidas	foram	uma	carga	à	qual	nenhum
ser	humano	poderia	sobreviver.	E	Mr	Wilson	não	sobreviveu.
Alguma	 experiência	 e	 muito	 estudo	 de	 negociações	 internacionais	 me
deixaram	com	uma	sólida	convicção.	Participei	de	muitas	conferências	e	de
cada	uma	extraí	um	resíduo	dessa	convicção,	que	é	a	seguinte:	o	essencial
da	boa	diplomacia	é	a	precisão,	e	seu	maior	inimigo	a	imprecisão.
Por	 essa	 razão	 empenhei-me,	 neste	 livro,	 em	 transmitir	 uma	 certeza
sobre	 os	 horrores	 da	 imprecisão.	 A	 velha	 diplomacia	 podia	 ter	 graves
defeitos,	mas	eram	veniais	comparados	às	ameaças	enfrentadas	pela	nova
diplomacia.	Essas	ameaças	podem	se	classificar	sob	dois	títulos	distintos.	O
primeiro	 é	 diplomacia	 ostensiva	 versus	 diplomacia	 secreta.	 Em	 outras
palavras,	 uma	 conduta	 democrática	 dos	 negócios	 internacionais	 em
contraposição	 a	 uma	 conduta	 por	 especialistas.	 Amadorismo	 em	 todos
esses	 assuntos	 leva	 à	 improvisação.	 Franqueza,	 em	 todos	 os	 mesmos
assuntos,	leva	à	imprecisão.	Nenhum	estadista	quer	vincular-se	antecipada
e	abertamente	a	uma	política	precisa.	Uma	política	imprecisa	significa	não
haver	 política.	 Traduz	 unicamente	 aspiração.	 Todos	 temos	 nossas
expectativas.
A	 segunda	 ameaça	 está	 implícita	 na	 expressão	 “Diplomacia	 de
Conferência.”	 Nada	 pode	 ser	 mais	 fatal	 que	 o	 hábito	 (hoje	 persistente	 e
pernicioso)	de	contato	pessoal	entre	os	Estadistas	do	Mundo.	Alega-se	em
defesa	 desse	 passatempo	 que	 os	 Ministros	 do	 Exterior	 das	 Nações
“precisam	se	conhecer	bem.”	É	um	conhecimento	extremamente	perigoso.
Contato	 pessoal	 gera	 inevitavelmente	 familiaridade	 pessoal	 que,	 por	 seu
turno,	leva	em	muitos	casos	à	amizade:	não	há	nada	mais	danoso	à	precisão
em	relações	internacionais	do	que	a	amizade	entre	as	Partes	Contratantes.
Locarno,	 para	 não	 falar	 em	 Thoiry,	 devia	 ter	 nos	 convencido	 da
conveniência	 de	 manter	 nossos	 estadistas	 segregados,	 imunes	 e
mutuamente	afastados.	 Isso	não	é	mero	paradoxo.	Diplomacia	é	a	arte	de
negociar	documentos	 numa	 forma	 ratificável	 e,	 portanto,	 confiável.	 Não	 é
absolutamente	 a	 arte	 da	 conversação.	 A	 afabilidade	 inseparável	 de
qualquer	 conversação	 entre	 ministros	 do	 Exterior	 produz	 alusões,
compromissos	e	altas	 intenções.	Diplomacia,	para	 ser	eficaz,	deve	 ser	um
atividade	desagradável.	E	escrita	em	linguagem	dura.
Na	 minha	 própria	 evolução	 posso	 identificar	 os	 estágios	 pelos	 quais
cheguei	a	essa	 tese	seguramente	 inquestionável.	Posso	ver	minha	estrada
para	Damasco	na	minha	“estrada”	para	a	Conferência	de	Paz	de	Paris.	Viajei
inspirado	 apenas	 pelas	 ideias	 de	Woodrow	Wilson.	 No	meu	 coração	 não
havia	nenhum	triunfo	vitorioso,	nenhum	desejo	de	punição	ou	de	vingança.
Pensava	 apenas	 em	 termos	de	Nova	Europa,	 e	 interpretava	 esses	 termos
por	meio	da	revelação	do	profeta	da	Casa	Branca.	Descobri	que	esse	profeta
era	 um	 homem	 seco	 e	 inseguro.	 Fiquei	 desconcertado	 com	 a	 descoberta.
Mais	 tarde	 cheguei	 à	penosa	 constatação	de	que	meu	profeta	não	 tinha	a
menor	 condição	de	 fazer	valer	 sua	própria	profecia.	Desertei	para	outros
mestres.	Estavam	disponíveis	a	meu	 lado.	Mr	Balfour,	Mr	Lloyd	George,	o
general	 Smuts,	Robert	Cecil,	Venizelos,	Benes	 e	Eyre	Crowe.	Foi	 com	eles
que	aprendi	minha	lição.
Mr	 Balfour	 ensinou-me	 que	 emocionalismo	 em	 política	 é	 sempre	 um
erro;	que	existe	um	termo	médio	entre	emocionalismo	e	cinismo	difícil	de
definir,	mas	 que,	 com	 inteligência	 é	 possível	 alcançá-lo,	 embora	 parcial	 e
temporariamente.	Mr	Lloyd	George	ensinou-me	que	oportunismo	evidente
nem	sempre	é	irreconciliável	com	visão,	que	inconstância	de	método	nem
sempre	indica	volatilidade	de	intenção.	Em	seu	memorando	de	25	de	março
e	 em	 sua	 grande	 batalha	 de	 4	 de	 maio,	 mostrou	 que,	 no	 que	 tange	 à
razoabilidade,	 um	 político	 é	 melhor	 que	 um	 teocrata.	 O	 fim	 de	 minha
adoração	 por	 Wilson	 ocorreu	 quando	 um	 membro	 de	 sua	 delegação
contou-me	 como	 o	 Presidente	 reagira	 ao	 empenho	 de	 Lloyd	George	 para
tornar	o	Tratado	mais	justo	e	razoável.	Mr	Wilson	disse	a	seus	assessores
que	 esse	 esforços	 o	 “tinham	deixado	 exausto.”	 Fiquei	 abismado	 com	essa
revelação.
O	 general	 Smuts	 ensinou-me	 que,	 quaisquer	 que	 fossem	 os	 erros	 que
tivermos	cometido	em	Paris,	a	única	derrota	que	realmente	importou	foi	o
reconhecimento	 de	 que	 era	 uma	 derrota	 duradoura.	 Foi	 Smuts	 –	 bem
preparado,	cortês	e	enxergando	horizontes	presentes	e	futuros	além	do	que
eu	podia	distinguir	 –	quem	me	ensinou	a	discordar,	 a	nunca	esquecer	de
discordar,	mas	a	não	deixar	a	discordância	impregnar	minha	alma.
Robert	Cecil	–	com	quem	tive	pouco	contato	–	ensinou-me	uma	coisa.	Fez
um	 discurso	 no	 banquete	 da	 estreia	 de	 uma	 instituição	 de	 inestimável
valor–	 o	 Royal	 Institute	 of	 International	 Affairs.	 Disse	 que	 nosso	 valor	 é
avaliado	na	medida	de	nossa	insatisfação.	Essa	observação	foi	uma	grande
descoberta	e	um	incentivo	para	mim.
Ao	lado	desses	idealistas	práticos	vieram	os	idealistas	profissionais.	Sem
dúvida	 Venizelos	 era	 um	 imperialista,	 e	 suponho	 que,	 na	 fé	 em	 seu	 país,
estava	 errado.	 Mas	 era	 homem	 mais	 humano	 que	 todos	 os	 outros,	 uma
inteligência	sempre	pronta	para	o	ataque,	uma	brandura	quase	mortal	em
sua	 aplicabilidade.	 Benes	 ensinou-me	 que	 o	 Equilíbrio	 de	 Poder	 não	 era
necessariamente	coisa	para	causar	vergonha,	mas	possivelmente	científica.
Mostrou-me	que	somente	sobre	a	base	firme	desse	equilíbrio	os	fluidos	da
amizade	poderiam	circular	na	Europa	sem	interrupção.
E	houve	também	Eyre	Crowe.	Meu	chefe	imediato,	e	sempre	no	controle,
esse	homem	de	extrema	violência	e	extrema	gentileza	tornou-se	quase	uma
obsessão.	 Era	 tão	 humano.	 Super-humano.	 Em	 determinado	 instante
olhávamos	com	apreensão	sua	abusiva	insolência	diante	de	M	Clemenceau
ou	 de	 algum	 outro	 homem	 forte.	 “Crowe,”	 dizia	 Clemenceau	 (que	 sabia
reconhecer	 valor),	 “c’est	 un	 homme	 à	 part.”	 No	 momento	 seguinte
podíamos	 ver	 sua	 extrema	 solicitude	 com	 uma	 datilógrafa	 adoentada.	 É
difícil	falar	de	Crowe	sem	cair	no	terreno	delicado	do	sentimentalismo.	Mas
ali	 estava,	 se	 já	 houve,	 um	 homem	 de	 verdade	 e	 de	 vigor.	 Gostaria	 de
pensar	 que	 Eyre	 Crowe	 exercera	 influência	 decisiva	 sobre	minha	 pessoa.
Todavia,	 sinto	 que	 sou	 copo	 pequeno	 demais	 para	 toda	 a	 fartura	 de	 tal
safra.	Mas	ao	menos	uma	coisa	aprendi	com	ele:	a	desonestidade	emocional
pode	 ser	 perdoada,	 pois	 não	 sabe	 o	 que	 faz.	 Desonestidade	 intelectual
jamais	pode	ser	perdoada.
Por	 esse	motivo,	 por	 causa	 dessa	 lição,	 dedico	 este	 livro	 à	memória	 de
Eyre	Crowe.
Conferência	de	Paris,	1919.
Sessão	plenária	na	“Salle	de	l’Horloge”	do	Quai	d’Orsay.
(The	Bridgeman	Art	Library/Keystone	Brasil)
Georges	Clemenceau.
(©Bettmann/Corbis)
O	Conselho	dos	Quatro:
Orlando,	Lloyd	George,	Clemenceau,	Wilson.
(Latinstock/©Bettmann/CORBIS/Corbis(DC))
Os	alemães	assinam	o	Tratado	de	Versalhes,	28	de	junho	de	1919.
Dr	Johannes	Bell	assina,	com	Herr	Hermann	Müller	ao	lado.
Sentados	à	mesa:	Gen	Tasker	H.	Bliss,	Cel	E.M.	House,	Mr	Henry	White,	Mr	Robert	Lansing,
Presidente	Woodrow	Wilson	(EUA);	M	Georges	Clemenceau	(França);	Mr	Lloyd	George,	Mr	Bonar
Law,	Mr	Arthur	J.	Balfour,	Visconde	Milner,	Mr	G.N.	Barnes	(Inglaterra);	Marquês	Saionji	(Japão).
Em	pé:	M	Eleutherios	Venizelos	(Grécia);	Dr	Afonso	Costa	(Portugal);	Lord	Riddell	(Imprensa
inglesa);	Sir	George	E.	Foster	(Canadá);	M	Nikola	Pachitch	(Sérvia);	M	Stephen	Pichon	(França);
Cel	Sir	Maurice	Hankey,	Mr	Edwin	S.	Montagu	(Inglaterra);	Marajá	de	Bikaner	(Índia);	Signor
Vittorio	Emanuele	Orlando	(Itália);	M	Paul	Hymans	(Bélgica);	Gen	Louis	Botha	(África	do	Sul);	Mr
W.M.	Hughes	(Austrália).
(Da	pintura	de	Sir	WilliamOrpen/Hulton	Archive/Getty	Images)
LIVRO	II	DIÁRIO	DA	CONFERÊNCIA	DE	PARIS
	
JANEIRO	A	JUNHO	DE	1919
como	parecia	então
Nota	sobre	o	Diário
Os	 trechos	 de	 meu	 diário	 de	 1919	 aqui	 reproduzidos	 exigem	 alguma
explicação.	Vou	dá-la	da	forma	mais	sucinta	possível.
Quero	 deixar	 bem	 entendido	 que	 as	 entradas	 não	 são	 uma	 transcrição
exata	 do	 diário.	 Em	 primeiro	 lugar,	 achei	 conveniente	 deixar	 de	 lado
passagens	que	pudessem	magoar	ou	 constranger	pessoas	 ainda	ativas	na
vida	 pública.	 Em	 segundo	 lugar,	 considerei	 importante	 inserir	 palavras	 e
episódios	 em	 todos	 os	 pontos	 em	 que	 o	 texto	 original	 era	 defeituoso	 ou
telegráfico.	As	omissões	não	aborrecerão	ninguém.	As	inserções	temo	que
possam	prejudicar	a	credibilidade.	Devo,	então,	justificá-las	e	esclarecê-las.
O	diário	não	foi	escrito	para	publicação.	Foi	simplesmente	para	reforçar
minha	memória.	 Escrevi	 sob	 grande	 pressão	 e,	 em	 certos	momentos,	 em
notas	 taquigráficas.	Por	conseguinte,	preenchi	as	 lacunas	de	conjunções	e
artigos.	 Fui	 além.	 Em	 alguns	 pontos,	 reconstruí	 passagens	 inteiras.	 Temo
que,	 ao	 admiti-lo,	 possa	 desacreditar	 o	 diário	 em	 seu	 conjunto,	 mas	 não
quero	 que	meus	 leitores	 imaginem	 de	 forma	 nenhuma	 que	 o	 diário	 seja
fabricado.
Deixem-me	dar	um	exemplo	do	 tipo	de	 “edição”	a	que	me	permiti.	Vou
selecionar	 uma	 passagem	 relativamente	 curta.	 No	 sábado,	 10	 de	 maio,
jantei	 com	 o	 Conde	 Potocki.	 Esse	 evento	 está	 assim	 registrado	 em	 meu
diário:	 “Jantar	 Joseph	P.	no	Ritz;	anacronismo,	 falar	 com	ele	 sobre	P.;	 sua
resposta	absurda;	Chepetowka:	 ‘como	um	igual.’”	Esta	anotação,	por	mais
fiel	que	 fosse,	nada	significaria	para	o	 leitor	comum.	Mas	minha	memória
auditiva,	 diferente	 da	 visual,	 é	 boa.	 Esta	 mesma	 passagem	 na	 versão
impressa	neste	livro,	é	a	seguinte:	“Jantar	com	Joseph	Potocki	no	Ritz.	Um
grande	 anacronismo.	 Disse-lhe	 como	 ficara	 impressionado	 ouvindo
Paderewski	em	seu	discurso	no	Conselho	Supremo.	Resposta	dele:	‘Sim,	um
homem	notável,	realmente	notável.	Sabe	que	ele	nasceu	em	uma	de	minhas
aldeias?	Na	verdade,	em	Chepetowka.	Mesmo	assim,	quando	falo	com	ele,
tenho	a	nítida	impressão	de	que	estou	conversando	com	um	igual.’”
É	uma	versão	absolutamente	precisa	das	notas	abreviadas	que	aparecem
no	diário.	Tenho	a	convicção	de	que	todas	as	outras	 inserções	que	 fiz	são
igualmente	 justificadas	 e	 legítimas.	 Em	 certos	 momentos	 –	 como	 nas
anotações	 sobre	 as	 conversas	 políticas	 ou	 entrevistas	 com	 estadistas	 de
destaque	 –	 registrei	 no	 diário	 o	 diálogo	 exato	 que	 ocorreu.	 Somente	 em
passagens	acidentais,	como	as	acima	mencionadas,	muitas	vezes	surge	um
hiato	entre	o	escrito	no	diário	e	neste	livro.	O	relato	que	faço	da	assinatura
do	 Tratado	 de	 Versalhes,	 por	 exemplo,	 exigiu	 pouquíssima	 edição,	 assim
como	minhas	 referências	 aos	 Conselhos	 dos	 Dez	 e	 dos	 Quatro,	 ou	 meus
diálogos	com	Mr	Lloyd	George	e	Mr	Balfour.
Em	nenhum	ponto	 tampouco	atribui	 a	mim	mesmo	 ideias	ou	previsões
não	 existentes	 no	 texto	 original.	 Àqueles	 com	 tendência	 a	 adquir	 novos
vícios,	 recomendo	 a	 terrível	 tentação	 de	 publicar	 um	 diário	 escrito
quatorze	anos	antes.	O	desejo	de	suprimir	uma	palavra	aqui	e	ali,	de	alterar
uma	 outra	 lá	 e	 cá,	 de	 acrescentar	 uma	 expressão	 é	 mais	 poderoso	 e
insidioso	que	qualquer	das	estranhas	tentações	que	enfrentei	e	às	quais	em
geral	sucumbi	generosamente.	Mas	nesse	aspecto	afirmo	minha	virgindade.
O	leitor	não	precisa	acreditar	em	mim,	mas	creio	que	o	fará.	Acho	que,	ao
ler	este	diário,	verá	o	quanto	devo	ter	sido	tentado,	terrivelmente	tentado,
a	suprimir	certas	expressões	e	opiniões	que	na	fria	impressão	de	1933	são,
até	certo	ponto,	motivo	de	vergonha.	Creio	que	o	leitor	inteligente	em	geral
aceitará	 o	 diário	 de	 boa-fé.	 Ao	menos	 de	 uma	 coisa	 estou	 absolutamente
convencido.	 Tenho	 a	 certeza	 de	 que	 o	 diário	 apresentado	 neste	 livro
realmente	 reproduz	 o	 desconhecimento,	 a	 vaidade,	 a	 depressão,	 a
esperança,	 as	 intenções	 essencialmente	 boas	 que	 impulsionavam	muitos
daqueles	que	lutaram	às	cegas	em	meio	ao	tumulto	da	Conferência	de	Paris.
A	 redação	 do	 diário	 pode	 ter	 sido	 um	 pouco	 “arrumada,”	 mas,	 se	 isso
aconteceu,	 foi	 em	muito	menor	dose	do	que	 se	pode	 supor.	O	espírito	do
trabalho	 foi	 chegar	 ao	 máximo	 de	 precisão	 na	 essência.	 Todos	 os	 que
estiveram	 comigo	 em	 Paris	 poderão	 confirmar	 que	 a	 exatidão	 do	 que	 é
apresentado	é	a	maior	possível.
Existe	 uma	 segunda	 explicação	 que	 desejo	 dar.	 O	 diário	 de	 forma
nenhuma	 é	 um	 documento	 histórico.	 Tampouco	 uma	 narrativa
sistematizada	 do	 que	 aconteceu	 em	 Paris	 em	 1919.	 Prefiro	 que	 o	 leiam
como	se	 lessem	reminiscências	de	um	subalterno	nas	 trincheiras.	Surge	a
mesma	desconfiança	no	quartel-general;	a	mesma	irritação	com	o	oficial	de
estado-maior	que	interrompe;	a	mesma	crença	de	que	seu	próprio	setor	é	o
centro	 do	 front	 inteiro;	 a	 mesma	 convicção	 de	 que,	 com	 toda	 grandeza
d’alma,	se	está	vencendo	a	guerra	praticamente	sozinho.	É	fácil	sorrir	desse
tipo	de	coisas.	Eu	era	moço	e,	como	tal,	presunçoso.	Mas,	se,	ao	partir	para	a
Conferência	 de	 Paris,	 tivesse	 sido	 capaz	 de	 ler	 um	 diário	 como	 este,
abordando	 experiências	 semelhantes	 no	 Congresso	 de	 Viena,	 poderia	 ter
sido	mais	modesto	 em	Paris,	 com	definições	mais	 claras	 sobre	 o	 que	 era
essencial,	mais	equilibrado	e	menos	disposto	a	pôr	a	culpa	nos	dirigentes.
Repito	 que	 este	 diário	 só	 é	 publicado	 para	 uso	 de	 jovens	 integrantes	 do
Foreign	 Office	 que	 venham	 a	 ser	 designados	 para	 integrar	 o	 grupo	 de
assessores	no	próximo	Congresso	Mundial.	Tenho	certeza	de	que	o	 rapaz
lerá	 atentamente	 o	 diário	 e	 de	 que	 não	 aceitará	 logo	 a	 ideia	 de	 que,	 à
medida	que	 se	 intensificar	o	 atropelo	 e	 a	 agitação	dos	 trabalhos,	 ele	 será
capaz	de	evitar	as	vaidades,	os	preconceitos,	o	cansaço	extremo	e	o	declínio
do	 vigor	moral	 que	 eu	 próprio	 experimentei.	 Pode	 concluir	 que	 fico	mal
neste	diário.	E	está	absolutamente	certo.	Mas	que	ele	ao	menos	se	prepare
para	 enfrentar	 similares	 tentações	 complexas	 e	 subconscientes,	 pois
certamente	haverá	recorrência.
Devo	pedir	ao	leitor	comum	e	menos	afeito	ao	assunto	que	não	leve	este
diário	muito	a	sério.	É	tão	somente	uma	tentativa	de	transmitir	o	ambiente,
e	 não	 o	 de	 fornecer	 informações,	menos	 ainda	 um	 esforço	 para	 registrar
história.	 Justamente	 por	 não	 querer	 exagerar	 a	 verdadeira	 importância
deste	 registro,	 evitei	 deliberadamente	 todo	 tipo	 de	 nota	 de	 rodapé	 e	 de
anexos.	 Os	 assuntos	 que	 me	 deixaram	 perplexo	 muitas	 vezes	 eram
inteiramente	sem	importância.	Portanto,	é	absolutamente	secundário	que	o
leitor	 seja	 capaz	 de	 compreender	 os	 assuntos	 de	 que	 então	 tratei.	 O	 que
interessa	 saber	 quem	 era	 Bratianu,	 ou	 que	 era	 o	 Banat,	 ou	 onde	 era
Miskolcz?	A	 importância	é	mínima.	O	que	desejo	 transmitir	é	a	mistura,	a
interligação,	a	constante	variação	de	princípio	para	detalhe,	de	detalhe	para
princípio.	Gostaria	que	o	leitor	comum	passasse	rapidamente	os	olhos	por
este	diário,	sem	tentar	entender	o	que	acontecia.	Gostaria	que	o	lesse	com	a
disposição	de	quem	assiste	um	filme	moderno,	pensando	apenas	no	efeito
agregado,	 cumulativo,	 não	 nos	 pormenores.	 Ao	 close-up	 do	 apito	 de	 uma
fábrica	segue	a	cena	de	uma	rua	deserta	com	uma	folha	de	jornal	a	voar	ao
vento	da	madrugada.	Um	rosto	 crispado	 falando	 freneticamente	 surge	na
tela	e,	em	seguida,	uma	grande	extensão	de	terras	pontilhada	por	moinhos
de	vento	em	giro	simétrico.	Não	é	a	continuidade	deste	trabalho	que	possui
algum	 valor	 representativo,	 mas	 sua	 descontinuidade.	 Não	 são	 minhas
opiniões	 ou	 meu	 conhecimento	 o	 que	 tem	 algum	 interesse,	 mas	 minha
insensatez	e	 ignorância.	Desse	ponto	de	vista,	 afirmo	com	 toda	convicção
que	o	retrato	que	apresento	é	exato.
Observação	final.	Em	geral	substituí	as	iniciaisna	minha	narrativa	pelos
nomes	completos.	Conservei	apenas	três	iniciais.	“Ll.G.”	é	Mr	Lloyd	George
–	 cuja	 grande	 obra	 na	 Conferência	 de	 Paz	 não	 cheguei	 a	 apreciar
plenamente	 na	 ocasião.	 “P.W.”	 quer	 dizer	 Presidente	 Wilson.	 Uma	 das
coisas	 mais	 curiosas	 em	 meu	 diário	 é	 que	 muito	 pouco	 registrei	 sobre
minha	 permanente	 suspeita	 de	 que	 os	 americanos	 não	 conseguiriam
cumprir	 suas	 promessas.	 Porém,	 se	 bem	 me	 recordo,	 essa	 foi	 a	 mais
constante	de	nossas	muitas	preocupações:	e	foi	a	mais	presente	das	muitas
tentações	que	tive,	a	de	incluí-la	no	diário.
“A.J.B.”	 corresponde	 a	 Mr	 Balfour,	 na	 época	 ministro	 do	 Exterior.	 Sou
grato	a	meu	diário	pelas	passagens	sobre	Mr	Balfour.	Creio	que,	pelo	menos
nesse	aspecto,	na	época	eu	estava	certo.	“Crowe”	quer	dizer	Sir	Eyre	Crowe,
meu	querido	chefe.	Creio	que	não	aparecem	outras	abreviaturas	dignas	de
nota.
1º	de	Janeiro	–	12	de	Janeiro	de	1919
Contatos
1º	de	janeiro	de	1919,	quarta-feira
Ocupado	o	dia	inteiro	no	Foreign	Office	pondo	meus	papéis	e	mapas	nas
caixas	metálicas.	À	noite,	jantar	com	Gerald	Tyrwhitt	e	depois	um	teatro.	De
lá,	para	os	aposentos	de	Henry	Churchill.	Holmesdale,	Pratt	Barlow,	Ronnie
Griffin	 e	 Gorsky,	 um	 oficial	 polonês	 em	 uniforme	 azul-	 -celeste.	 Também
um	americano	desconhecido	e	desarticulado.
	
2	de	janeiro,	quinta-feira
Arrumação	 final	 no	 Foreign	 Office	 e	 partida,	 após	 trabalhosos	 quatro
anos	e	meio	no	Ministério	da	Guerra.	Alguma	Abschiedsstimmung.	Almoço
no	 Marlborough.	 Jantar	 cuidadoso	 em	 guarda	 no	 St.	 James’	 com	 Sam	 St.
Aubyn.
	
3	de	janeiro,	sexta-feira
Partida	 de	 Londres	 rumo	 a	 Paris	 às	 onze	 da	 manhã	 na	 Charing	 Cross.
Encontro	Eustace	Percy	e	sua	noiva	na	estação.	No	navio	encontro	Taliani,
um	 italiano	 pequenino,	 amigo	 dos	 tempos	 de	 Constantinopla.	 O	 trem	 se
atrasa	 a	 partir	 de	 Boulogne	 por	 algum	 acidente	 na	 linha.	 Ainda	 muita
devastação	em	torno	de	Amiens.	Jantar	no	trem	com	Taliani,	Casati	(marido
da	marquesa	Casati)	e	De	Martino,	chefe	do	Ministério	do	Exterior	da	Itália,
um	baixinho	ranzinza,	sempre	se	lamentando.	Integrará	a	delegação	de	seu
país	 na	 Conferência.	 Insiste	 em	 pagar	 meu	 jantar,	 dizendo	 que	 minha
primeira	 refeição	 na	 França	 após	 a	 guerra	 deve	 ficar	 por	 conta	 da	 Itália.
Comenta	 o	 Tratado	 de	 Londres	 de	 1915,	 afirmando	 que	 assegura	 o
“equilíbrio	 do	 Mediterrâneo.”	 Digo	 que	 concordo	 inteiramente.	 Disse-me
que	provavelmente	os	plenipotenciários	 italianos	serão	Orlando,	Sonnino,
Diaz	e	talvez	Bosdari.	Chegada	na	Gare	du	Nord	por	volta	das	onze	da	noite,
indo	 direto	 para	 o	 Majestic.	 Ao	 chegar,	 encontro	 Rex	 e	 Allen	 Leeper	 no
saguão.	 Subo	 com	 eles	 para	meu	 apartamento	 –	 no	 89.	 Paris	muito	 bem
iluminada.
	
4	de	janeiro,	sábado
Providências	para	 liberar	minha	bagagem	e	as	caixas	metálicas	na	Gare
du	Nord.	Até	o	momento,	não	há	membros	oficiais	da	delegação,	a	não	ser
Eustace	Percy,	os	dois	Leepers	e	eu.	Eustace,	recém-casado,	instalou-se	em
um	 apartamento	 na	 Avenue	 d’Iena,	 no	 72,	 térreo,	 à	 esquerda.	 Vou	 até	 o
apartamento	 de	 Eddie	 Knoblock	 no	 Palais	 Royal.	 Ele	 desfaz	 as	 malas,
arrumando	 suas	 coisas.	 Almoço	 com	 ele	 e	 depois	 vou	 ver	Walter	 Berry.
Uma	bomba	 lançada	por	um	Gotha	 (avião	bombardeiro	alemão)	 caíra	em
seu	quintal	e	destruíra	a	casa	aos	fundos.	Todas	as	janelas	quebradas,	mas
nenhum	 dano	 mais	 grave.	 Jantar	 com	 os	 dois	 Leepers,	 que	 trazem	 um
amigo	americano,	Rhys	Carpenter,	 que	estudara	 com	eles	no	Balliol.	Tem
alguma	 função	 na	 delegação	 dos	 Estados	 Unidos.	 É	 bem	 preparado	 e
tímido.
	
5	de	janeiro,	domingo
Passo	o	dia	com	Eddie	Knoblock	e	a	noite	conferindo	meus	documentos	e
mapas.	Tudo	em	ordem.
	
6	de	janeiro,	segunda-feira
Chegam	Crowe	e	Vansittart.	Longa	reunião	de	trabalho	com	Allen	Leeper.
Almoço	no	Majestic	e	vou	com	ele	visitar	a	delegação	americana	na	Place	de
la	 Concorde,	 4.	 Está	 instalada	 precariamente,	 espalhada	 pelo	 Maxim’s.	 O
lugar	está	cheio	de	fuzileiros	navais	americanos	desfazendo	caixas.	Na	sala
mais	distante,	que	com	certeza	foi	uma	sala	privada	do	Maxim’s,	encontrei
os	 três	membros	da	delegação	americana,	os	quais,	segundo	nos	diz	Rhys
Carpenter,	 serão	 nossos	 correspondentes.	 Todos	 integram	 o	 grupo	 de
trabalho	“Inquiry”	do	Coronel	House	e	são	do	meio	universitário.	Um	deles
é	o	professor	Clive	Day,	de	Yale,	de	meia-idade,	pálido,	esguio,	seco	e	de	boa
aparência.	Outro	é	o	professor	Charles	Seymour,	também	de	Yale,	jovem	e
moreno,	 podia	 ser	 um	 major	 dos	 sapadores.	 O	 terceiro	 é	 o	 professor
Lybyer,	 calado,	meio	distante.	Mostram	seus	mapas.	Há	um	 imenso	mapa
topográfico	 com	 várias	 seções,	 realçando	 a	 região	 do	 Adriático,	 muito
bonito.	 Evidentemente	 conhecem	 a	 fundo	 os	 assuntos	 de	 sua
responsabilidade.	 Gente	 agradável,	 mas	 não	 entramos	 em	 detalhes.
Todavia,	fica	a	impressão	de	que	nossas	opiniões	coincidem.
De	lá,	fomos	ver	Také	Ionescu	no	Meurice.	Um	quarto	quente	e	abafado,	e
no	 corredor	 as	 fustanellas	 dos	 seguranças	montenegrinos	mal-encarados
do	Rei	Nikita.	Exoticamente	instalados	sobre	o	tapete	turco	do	corredor.
Také	é	corado,	vivo,	europeu	continental	típico.	Tenta	falar	inglês	e	acaba
no	 francês.	Refere-se	de	 forma	extremamente	áspera	a	Bratianu.	Este	 lhe
oferecera	 cinco	 cargos	 no	 gabinete	 de	 coalizão,	 a	 saber,	 finanças	 (já
comprometido	por	promessas	feitas	aos	franceses),	comércio,	agricultura	e
duas	 outras	 pastas.	 Nestas	 condições,	 ele	 poderia	 ser	 um	 dos
plenipotenciários	 romenos.	 Recusou	 com	 indignação	 e	 disse	 que
tencionava	 ir	 a	Cannes.	Por	que	Cannes?	Portanto,	os	delegados	 romenos
serão	Misu,	 Antonescu	 (seu	 representante	 em	 Paris,	 que	 Také	 detesta)	 e
possivelmente	o	próprio	Bratianu.	Také	diz	que	o	 gabinete	de	Bratianu	é
muito	 impopular	 no	 país,	 que	 a	 inclusão	 de	 Constantinescu	 (“Porco”)
afastou	 as	 classes	 dominantes,	 que	 as	 classes	 menos	 favorecidas	 estão
afetadas	pelo	bolchevismo	e	pelas	condições	econômicas	em	geral.	Porém,
os	habitantes	da	Transilvânia	contrários	a	Bratianu	se	aliaram	a	ele	em	face
de	sua	promessa	de	que	conseguirá	todo	o	Banat,	com	amparo	no	tratado
de	1916.	Také	tinha	chegado	a	algum	tipo	de	acordo	com	Trumbic	pelo	qual
o	Banat	seria	dividido	amigavelmente	entre	a	Romênia	e	os	S.C.S.[2]–	e	os
Estados	Sucessores	se	apresentariam	em	Paris	como	um	bloco	unido	diante
das	 Grandes	 Potências.	 Bratianu	 fizera	 uso	 do	 conhecimento	 que	 tinha
desse	 acordo	para	desacreditar	Také	perante	 os	 círculos	de	patriotas	 em
Bucarest.
Falou	 demoradamente	 sobre	 a	 posição	 do	 Rei,	 sua	 impulsividade,	 sua
subordinação	 à	 Rainha,	 e	 o	 tratamento	 que	 ele	 e	 ela	 dispensavam	 a
Averescu,	o	 líder	dos	agricultores.	Falou-nos	que	a	 rainha	 tinha	 insultado
publicamente	 Averescu,	 reconhecendo	 mais	 tarde	 para	 Také	 que
errara.“J’ai	eu	tort”	(Fui	injusta).	Také	também	criticou	o	cancelamento	das
bodas	 do	 Príncipe	 Carol	 e	 assinalou	 que	 isso	 prejudicara	 o	 Príncipe
seriamente.
Také	evidentemente	amargurado	e	vingativo.	Afeta	muito	sua	moderação
e	 seu	 julgamento.	 Em	 último	 recurso,	 encara	 a	 situação	 por	 um	 ângulo
parlamentar.	É	uma	pena,	pois	é	o	único	que	percebe	(1)	que	é	um	erro	os
romenos	 insistirem	 no	 tratado	 de	 1916,	 (2)	 que	 os	 transilvanos	 só	 se
aliarão	 com	 base	 em	 uma	 “união	 com	 autonomia,”	 e	 não	 em	 termos	 de
anexação,	 (3)	 que	 a	 disputa	 com	 os	 S.C.S.	 sobre	 o	 Banat	 enfraqueceria	 a
posição,	o	bloco	todo	dos	Estados	Sucessores	diante	das	Grandes	Potências.
Seu	 afastamento	 da	 cena	 prejudicará	 seriamente	 o	 bloco,	 e	 a	 Itália	 é	 que
será	beneficiada.	 Jantar	no	Majestic.	Eric	Maclagan	 lá.	Está	 fazendo	algum
tipo	de	trabalho	para	a	imprensa	e	tem	um	escritório	perto	da	embaixada.
Em	seguida,	para	o	apartamento	de	Eustace	Percy.	Ele	me	fala	sobre	a	Liga
das	Nações	e	os	vários	planos	que	no	momento	estão	sobre	o	tapete.
	
7de	janeiro,	terça-feira
Ao	escritório	de	Eric	Maclagan	e	obter	pormenores	 sobre	o	 tratamento
dispensado	 a	 escolas,	 língua,	 etc.	 de	 canadenses	 de	 origem	 francesa	 no
Canadá.	Pode	vir	a	ser	útil	com	vistas	à	autonomia	cultural	de	minorias	nos
Novos	Estados.
Almoço	 com	 a	 delegação	 americana	 no	 Crillon.	 O	 lugar	 parece	 um
encouraçado	americano	e	tem	um	cheiro	estranho.	Day,	Seymour	e	Lybyer
no	almoço.	Também	Beer,	o	secretário	encarregado	da	organização.	Colhi	o
seguinte:	 (1)	 Albânia.	 Não	 tão	 a	 favor	 da	 Albânia	 como	 eu	 esperava.	 Um
tanto	 contrários	a	um	mandato	 italiano,	mas	no	 fim	aceitarão.	A	 favor	de
Itek	e	Djakova	irem	para	a	Albânia	ao	norte	e	uma	concessão	limitada	aos
gregos	no	Épiro	setentrional.	Koritsa,	não.	Sem	dúvida,	é	o	mesmo	ponto	de
vista	nosso.	(2)	Grécia.	Cessão	de	Doiran	e	Ghevgueli.	Algumas	ideias	sobre
ceder	 Kavalla	 aos	 búlgaros.	 Jogaram	 o	 anzol	 para	 saber	 nossa	 posição	 a
respeito	de	Chipre.	O	peixe	não	mordeu.	(3)	Sérvia.	Claro	que	são	pró-iugo-
slavos,	 mas	 não	 loucamente.	 Não	 se	 sensibilizaram	 com	 as	 pretensões
sérvias	por	Pirot	e	Widin.	(4)	Bulgária.	Parecem	ter	as	mesmas	ideias	que
nós	quanto	à	cessão	de	Ishtib	e	Kochana,	mas	confiam	mais	em	fronteiras
com	base	em	divisores	de	 água	do	que	em	rios,	 pela	 simples	 razão	de	os
primeiros	 serem	 menos	 habitados	 do	 que	 os	 últimos.	 Francamente
contrários	à	cessão	da	Trácia	ocidental	à	Grécia,	no	que	concordo	com	eles.
Preferível	 ceder	 a	 linha	 Enos-Midia	 na	 Trácia	 oriental	 à	 Bulgária,	 mas
empurrando	Enos	para	o	 sul	 (pântanos	de	Maritza)	 e	Midia	para	o	norte
(suprimento	 de	 água	 de	 Dercos).	 (5)	 Turquia.	 Querem	 os	 turcos	 fora	 de
Constantinopla.	 Obviamente	 pensam	 em	 confiar	 a	 resultante	 zona	 dos
Estreitos	 a	 países	 menores,	 Dinamarca	 e	 Bélgica.	 Mas	 para	 nós	 não	 fica
claro	qual	seria	essa	zona	(Gallipoli?).	Estariam	perfeitamente	dispostos	a
nos	aceitar	como	detentores	de	um	mandato	em	Constantinopla,	mas	não
tanto	de	 terem	eles	mesmos	essa	delegação.	A	opinião	pública	americana
não	se	dispõe	a	aceitar	essa	responsabilidade,	mas	“poderia”	estar	disposta
a	aceitá-la	na	Armênia.	São	bem	simpáticos	à	ideia	de	uma	zona	grega	em
Smyrna.	Devo	saber	mais	na	quinta-feira.
Jantar	com	Eddie	Knoblock	novamente	no	Prunier.	Voltei	a	pé.	Tive	uma
longa	 conversa	 com	 Crowe.	 É	 realista.	 Quer	 fatos,	 não	 ideias,	 mesmo
atraentes.	 Fala	 sobre	 desarmamento,	 sobre	 Liga.	 Deverá	 dispor	 de	 uma
força	armada?	Em	caso	positivo,	qual?	E	quem	comandará?	E	seu	estado-
maior	permanente?	E	as	Pequenas	Potências?	Integrarão	a	Liga	em	base	de
igualdade?	Isso	seria	“muito	irreal.”	Mas	sem	igualdade,	como	defendê-los?
Arbitragem	compulsória?	E	a	“honra	e	interesses	nacionais”?
Disse-me	 que	 Lloyd	 George	 não	 quer	 os	 Estados	 Unidos	 em
Constantinopla.	O	Presidente	Wilson	voltou	de	Roma.
	
8	de	janeiro,	quarta-feira
Uma	volta	até	o	Astoria,	onde	está	instalado	nosso	outro	escritório,	bem
no	 alto,	 quinto	 andar.	 Vista	 do	 Arco	 do	 Triunfo,	 cheiro	 de	 desinfetante	 e
iodofórmio,	mesas	vazias.	Acaba	de	ser	desocupado	pelos	japoneses,	que	o
usavam	 como	 hospital.	 Falo	 com	 Mance,	 especialista	 do	 Ministério	 da
Guerra	 em	 ferrovias,	 a	 respeito	 de	 tráfego	 e	 comunicações	 no	 que	 nos
interessa	 no	 novo	 mapa	 da	 Europa.	 É	 muito	 inteligente	 e	 prestativo.	 Os
mapas	 mostram	 claramente	 que	 as	 fronteiras	 étnicas	 e	 o	 princípio	 que
norteia	as	 ligações	 ferroviárias	nunca	entram	em	acordo,	deixam	imensas
lacunas.	 Na	 Transilvânia	 em	 especial,	 as	 veias	 e	 artérias	 correm	 todas
articuladas	 com	 as	 linhas-tronco	 austríacas	 e	 não	 se	 articulam	 com	 as
romenas.	Isso	será	problema	muito	difícil	de	resolver.
Depois	 do	 almoço	 vou	 com	 Allen	 ver	 Goga,	 um	 poeta	 e	 político	 da
Transilvânia.	 Um	 jovem	 transilvânio,	 Virgil	 Tiles,	 está	 presente.	 Dizem
sentir-se	“muito	envergonhados	para	falar	sobre	questões	internas.”	Sobre
as	externas,	porém,	não	sentem	nenhuma	vergonha	e	exigem	a	maior	parte
da	 Hungria.	 Vão	 nos	 enviar	 documento	 sobre	 Bukowina.	 Enquanto	 isso,
tropas	romenas	ocuparam	Arad	e	Nagyvarad,	mas	não	foram	além.
Enquanto	estamos	lá,	chega	um	rapaz	da	Bukowina	que	esteve	servindo
na	Legião	Estrangeira	francesa.	Pouco	esclarecedor	e	mal	informado.
Jantar	 no	 hotel.	 Chegam	 Hardinge,	 Mallet,	 Hurst,	 Ronnie	 Campbell	 e
Armitage	Smith.
	
9	de	janeiro,	quinta-feira
Lybyer	 e	Day	 vieram	nos	 visitar	 no	Astoria.	 Entramos	 em	detalhes.	 (1)
Bulgária.	 Justiça	 inflexível.	 Macedônia,	 Ishtib	 e	 Kochana,	 com	 ferrovia
alternativa.	 Dificuldade	 com	 a	 linha	 Gostivar-Monastir.	 Fronteira	 sérvio-
húngara,	 pouca	 mudança.	 Não	 acreditam	 naquela	 ideia	 sem	 sentido	 de
Pirot	 e	 Widin.	 Franca	 oposição	 à	 cessão	 da	 Trácia	 Ocidental	 à	 Grécia	 e
chegam	a	preferir	conceder	a	fronteira	de	Struma	à	Bulgária,	compensando
(sic)	a	Grécia	na	Ásia	Menor.	Dobrudja	–	a	 linha	de	1913	sem	a	Silistria	e
com	 algumas	 pequenas	 retificações.	 (2)	 Albânia.	 Obviamente	 sem	 muita
certeza.	 A	 ferrovia	 do	 norte	 deve	 ser	 da	 Sérvia?	 E	 Ipek	 e	 Djakova?
Tendência	 a	 incluí-las	 na	 Albânia.	 Fronteira	 oriental,	 a	 mesma	 coisa.
Fronteira	sul,	neste	ponto	estão	divididos.	Alguns	querem	ceder	Koritsa	à
Grécia,	outros	ceder	a	linha	Voiussa.	Alegam	que	a	estrada	de	Koritsa	não	é
essencial	à	Grécia,	 já	que	pode	ser	construída	uma	alternativa.	Seria	dado
um	 mandato	 à	 Itália	 se	 desistir	 de	 sua	 pretensão	 à	 posse	 de	 Valona.
Governo	interno	na	base	de	cantões.	(3)	Grécia.	Não	abrir	mão	da	renúncia
da	 Itália	 ao	Dodecaneso.	 Posição	 firme	 em	 relação	 a	 Smyrna.	Anti-Trácia.
(4)	 Turquia.	 Evidentemente,	 firmes	 na	 decisão	 de	 afastar	 os	 turcos	 da
Europa,	mas	vagos	a	respeito	de	seu	sucessor	na	região	de	Constantinopla.
Quanto	aos	limites	dessa	região,	sugerem	duas	alternativas.
(a)	Zona	restrita,	ou	seja,	as	linhas	Chataldja-Gallipoli-Ilhas	do	Mármara	–
e,	na	Ásia,	de	Shile	a	Gebze.
(b)	Zona	ampliada:	 leste	de	Enos	ao	norte	da	Midia;	na	Ásia,	 a	 linha	de
Edremid	 a	 Sakharia.	 A	 primeira	 zona	 teria	 três	 soberanias	 distintas	 ao
longo	do	 litoral	 de	Mármara	 e,	 portanto,	 é	 preferível	 a	 segunda.	 Entendo
que	o	Presidente	Wilson	quer	uma	Pequena	Potência	ou	grupo	de	Potências
Menores	para	governar	essa	Zona	de	Constantinopla	ou	dos	Estreitos.	Seus
especialistas	 são	 contrários	 à	 ideia	 (riscos	 de	 um	governo	 compartilhado
etc.)	 e	 preferem	 que	 os	 Estados	 Unidos	 ou	 a	 Inglaterra	 assumam	 esse
mandato.	Contudo,	têm	dúvida	se	a	opinião	pública	americana	aceitaria	tal
responsabilidade.
Com	 relação	 à	 Turquia	 na	 Ásia,	 fica	 evidente	 que	 esperam	 ter	 de	 se
apossar	da	Armênia,	mas	são	reticentes	sobre	o	restante.	De	maneira	geral,
uma	conversa	bastante	satisfatória.	São	preparados	e	não	tão	desconfiados
ou	cautelosos.
À	 noite,	 conversa	 com	 Crowe	 e	 Valentine	 Chirol	 sobre	 o	 seguinte
problema:	 “Se,	 segundo	 o	 princípio	 da	 autodeterminação,	 uma
nacionalidade	opta	pelos	Estados	Unidos	para	receber	um	mandato	e	estes
se	 recusam	 a	 aceitar	 a	 responsabilidade,	 constitui	 violação	 da
autodeterminação	 delegar	 o	 mandato	 a	 outro	 país,	 como	 a	 Itália	 por
exemplo?”	Não	há	resposta	para	esta	questão.	Qualquer	solução	pareceria
conduzir	a	uma	partilha	disfarçada	e	um	embuste.
Ouvimos	 dizer	 que	 os	 russos	 estão	 organizando	 um	 comitê	 ou
“conferência”	 de	 embaixadores	 contando	 com	 o	 Príncipe	 Lvoff,	 Sazonof,
Giers,	 Maklakoff,	 Bakhmetieff	 e,	 creio,	 Nabokoff.	 Será	 algo	 bastante
incômodo	 para	 os	 que	 pretendem	 ignorar	 a	 Rússia.	 Fico	muito	 contente.
Afinal,	 estamos	 lidando	 com	 interesses	 russos	 pelas	 costas	 deles,	 e	 o
mencionado	comitê	 só	 terá	de	apresentar	um	protesto	 formal	para	que	a
conferência	 fique	 marcada	 na	 história	 por	 ter	 abandonado	 aquele	 país
quando	estava	em	dificuldades.	Espero	que	o	comitê	receba	algum	tipo	de
atenção.	 Mas	 nossos	 governantes	 parecemver	 na	 Rússia	 unicamente	 o
embrulho	do	bolchevismo.
	
10	de	janeiro,	sexta-feira
Longa	 discussão	 com	 Crowe	 sobre	 política	 geral.	 É	 uma	 alegria	 estar
trabalhando	 sob	 a	 direção	 de	 alguém	 tão	 arguto	 e	 preciso.	 Junto	 a	 ele,
sempre	me	sinto	à	vontade.	Crowe	ficou	impressionado,	assim	espero,	com
os	argumentos	de	Allen	Leeper,	que,	como	sempre,	foram	admiráveis.
Mais	tarde	almoçamos,	ele	e	eu,	com	Tiles	no	Griffon.	 Insisti	no	assunto
de	 autonomia	 cultural	 para	 as	minorias	que	deverão	 ser	 englobadas	pela
nova	fronteira	romena.	Ele	pensa	em	certo	plano	pelo	qual	as	comunidades
de	vilarejos	elegeriam	três	representantes	(magiares)	que,	em	acordo	com
três	 representantes	do	 governo	 central,	 poderiam	nomear	 os	 professores
das	 escolas	 e	 acertar	 questões	 como	 idioma	 e	 currículos.	 Tudo	 muito
simples	–	se	funcionar.
Foi	organizado	um	“Conselho	de	Ajuda.”	Sob	a	chefia	de	Hoover.
Jantar	 com	 Lord	 Hardinge	 sozinho.	 Ele	 fala	 de	 reforma	 na	 diplomacia.
Como	foi	ele	quem	reformou	o	Foreign	Office,	nada	mais	justo	que	também
reformasse	o	 serviço	 irmão.	Assinalo	que,	 depois	de	dez	 anos	de	 serviço,
meu	 salário	 real,	 descontado	 o	 imposto	 de	 renda,	 é	 de	 86	 libras	 anuais.
Como	recrutar	os	mais	capazes	em	tal	sistema?	Ele	parece	concordar.	Ele
nunca	 é	 antiprogressista	 quando	 abordado	 de	 forma	 adequada.	 Mas	 não
gosta	de	gente	queixosa.	E	diz,	“eu	criei	as	minhas	oportunidades,	por	que
esses	moços	 agora	 vêm	pedir	 que	 lhes	 sejam	 oferecidas	 oportunidades?”
Ignora	completamente	o	 fato	de	que,	 com	a	minha	 idade,	havia	muito	ele
era	 segundo	 secretário	 e	 não	 enfrentava	 as	 filas	 mortais	 que
presentemente	atrasam	as	promoções.	Mas	de	 certa	 forma	concordo	com
ele.	 Podemos	 não	 subir	 muito	 rapidamente	 em	 posto	 e	 salário,	 mas
qualquer	pessoa	dinâmica	desde	o	início	recebe	missões	importantes.
	
11	de	janeiro,	sábado
Ontem	 tentaram	 assassinar	 Kramarsh,	 primeiro-ministro	 tcheco.	 Seton
Watson	vem	nos	ver	pela	manhã.	Fala	sobre	Fiume,	dizendo
(1)	que	não	pode	 ficar	 separado	do	 subúrbio	de	Susak	e	que	 juntos,	os
dois	asseguram	uma	maioria	eslava,
(2)	que	é	dominado	pelas	montanhas	ao	 fundo	e	quem	tiver	de	manter
Fiume	 terá	 que	 contar	 com	 áreas	 interiores.	 Esse	 interior	 é	 totalmente
eslavo.
Enquanto	ele	ainda	está	conosco,	chega	Pangal,	editor	do	Rumanie.	Uma
longa	 discussão	 sobre	 Szeklers,	 Banat,	 os	 rutênios	 etc.	 Nenhum	 estadista
romeno,	com	exceção	de	Také,	ousaria	propor	uma	solução	razoável	para
todos	estes	problemas.	Teremos	de	impor	uma	solução.
Os	 americanos	 vêm	 almoçar.	 Discutimos	 a	 dificuldade	 em	 definir	 uma
fronteira	 territorial	 que,	 proporcionando	 uma	 sensação	 definitiva	 (e,
portanto,	de	segurança	da	posse),	também	deixe	a	porta	aberta	para	futura
revisão.	 Concordam	 comigo	 que,	 com	 relação	 aos	 Bálcãs,	 o	 que	 se	 deve
fazer	é	enfiar	em	suas	cabeças	duras	que	acordo	era	definitivo	no	que	diz
respeito	 à	propaganda	 interna:	 sem	mais	massacres,	 sem	mais	comitadjis
[organização	 revolucionária	 clandestina	 macedônia	 que	 se	 opunha	 às
forças	 búlgaras	 de	 ocupação].	 Mas	 algum	 poder	 para	 revisão	 posterior
permaneceria	com	a	Liga	das	Nações.
Após	 o	 almoço	 Crowe	 me	 fala	 sobre	 as	 objeções	 levantadas	 pelo
Departamento	 das	 Colônias	 e	 outros	 a	 propósito	 de	 cedermos	 Chipre	 à
Grécia.	Essas	objeções	me	parecem	ao	mesmo	tempo	materiais	e	imateriais.
Ele	mesmo	está	impressionado.
Chegam	Lloyd	George	e	os	primeiros-ministros	das	colônias.
	
12	de	janeiro,	domingo
Trabalhando	 a	manhã	 inteira	nas	 ferrovias	 albanesas.	 É	 evidente	que	 a
linha	 Nish	 –	 Prishtina	 –	 Prisrend	 –	 Scutari	 –	 San	 Giovanni	 é	 a	 única	 que
oferece	qualquer	vantagem	real	sobre	a	solução	Salonika	(400	versus	450
quilômetros).
Há	 uma	 reunião	 preliminar,	 embora	 não	 oficial,	 dos	 plenipotenciários
para	discutir	normas	de	procedimento.	É	a	primeira	vez	que	se	reúnem.
Almoço	 com	 Rhys	 Carpenter,	 da	 delegação	 americana.	 Homem
espirituoso,	 filólogo	 e	 arqueólogo,	 inteligência	 refinada.	 Conversa	 com
Edwin	 Montagu.	 Vou	 visitar	 Pierre	 de	 Lacretelle.	 Saiu.	 Depois,	 ao
apartamento	de	Eustace	Percy.
13	de	Janeiro	–	20	de	Janeiro	de	1919
Primeiras	Reuniões
13	de	janeiro,	segunda-feira
Primeira	 reunião	 oficial	 da	 conferência,	 embora	 não	 a	 denominassem
desta	 forma;	 reúnem-se	 como	 Supremo	 Conselho	 de	 Guerra.	 A	 primeira
verdadeira	reunião	só	ocorrerá	no	próximo	sábado.
Trabalho	a	manhã	 inteira	 em	assuntos	de	nosso	 interesse.	Almoço	 com
Seton	 Watson	 no	 Castiglione;	 Marianu,	 Pangal	 e	 Walter	 Lippmann
presentes.	Pouco	interesse.
A	delegação	do	Império	Britânico	faz	uma	reunião	conjunta.
Conversa	com	Edwin	Montagu	sobre	o	futuro	de	Constantinopla.	Concluo
que	se	os	americanos	assumirem,	ele	não	se	oporá	à	expulsão	dos	turcos.
Conseguimos	 o	 programa	 francês	 de	 procedimentos,	 elaborado	 por
Berthelot:	não	muito	esclarecedor.
Jantar	com	Eddie	Knoblock	no	Griffon.	Sir	William	Wiseman	presente.	Ele
é	“o	amigo	de	House”,	tanto	quanto	House	é	“o	amigo	de	Wilson.”	Arcades
ambo.	 Bebemos	 um	 Pouilly	 1906,	 excelente.	Wiseman	 diz	 que	 após	 uma
longa	 conversa	 do	 Presidente	 Wilson	 e	 House	 com	 Sonnino	 sobre	 as
reivindicações	 italianas	 no	 Adriático,	 House	 disse:	 “Esse	 homem	 está
convicto.	Pode	 ter	 suas	 razões.”	 Ao	 que	 o	 P.W.	 respondeu:	 “Então	 vamos
deixá-lo	apresentar	suas	pretensões	publicamente.	Se	existem	tais	razões,
se	transformará	em	uma	grande	causa.	Se	não	existirem,	vai	definhar.”	Não
consigo	imaginar	Sonnino	fazendo	algo	assim.
	
14	de	janeiro,	terça-feira
Crowe	me	 diz	 que	 ficou	 decidido	 cada	 Potência	 apresentar	 por	 escrito
seus	 pontos	 de	 vista	 sobre	 todas	 as	 questões.	 Tanto	 para	 Crowe	 quanto
para	 mim	 parece	 uma	 resolução	 impraticável,	 uma	 vez	 que	 não	 deixa
margem	 para	 negociação	 e	 desde	 o	 começo	 compromete	 todos	 com	 o
máximo	de	reivindicações.	De	qualquer	modo,	ainda	temos	que	saber	o	que
efetivamente	implica	tal	decisão.
Lybyer	 aparece	 e	 o	 apresentamos	 a	 Arnold	 Toynbee.	 Discutimos	 os
limites	 da	 zona	 de	 Constantinopla	 e	 ele	 nos	 mostra	 no	 mapa	 a	 linha
prevista	pelos	americanos.	É	muito	melhor	do	que	a	nossa.
Almoço	com	Eustace	Percy	e	sua	esposa.	De	lá	para	o	Crillon	com	Esme
Howard	e	E.H.	Carr.	Levo	comigo	documentos	sobre	o	Tratado	Italiano	(o
Tratado	Secreto	de	abril	de	1915),	pois	nos	informaram	que	Lloyd	George	e
Balfour	 iam	 discuti-lo	 com	 os	 americanos.	 Temos	 alguma	 dificuldade	 ao
chegar	 ao	 Crillon,	 ninguém	 sabia	 de	 tal	 reunião,	 ninguém	 sabia	 ao	 certo
para	 onde	 devíamos	 ir	 ou	 onde	 devíamos	 ficar	 esperando.	 Incerteza
também	dos	fuzileiros	navais	da	delegação	dos	Estados	Unidos,	sem	saber
nem	mesmo	se	deviam	permitir	que	ficássemos	esperando.	Em	meio	a	esta
situação	 embaraçosa,	 chegam	 Balfour	 e	 Eric	 Drummond.	 Subimos	 no
elevador	para	os	aposentos	do	Coronel	House	no	4o	andar.	Ficamos	então
sabendo	que	a	reunião	será	na	casa	do	Presidente	Wilson,	perto	do	Parque
Monceau.	 Rapidamente	 voltamos	 para	 nosso	 carro	 e	 seguimos	 Balfour
pelas	 ruas.	 Ao	 chegarmos,	 fileiras	 de	 policiais,	 de	 militares,	 muitas
continências.	 Wilson	 está	 bem	 protegido.	 Somos	 conduzidos	 para	 uma
galeria	no	piso	superior,	com	teto	de	vidro	e	uma	estátua	de	Napoleão	no
Egito.	A	casa	é	a	Villa	Murat	e	seu	estilo	é	napoleônico.	Balfour	é	conduzido
para	 um	 aposento	 à	 direita.	 Nós	 ficamos	 esperando	 no	 lado	 de	 fora	 por
duas	 horas	 e	meia,	 enquanto	 nos	 chega	 o	 som	das	 vozes	 na	 sala	 vizinha.
Mrs.	Wilson	 passa	 por	 nós,	 os	 saltos	 altos	 fazendo	 ruído	 no	 parquet,	 um
buquê	de	mimosas	nos	braços.	O	velho	mordomo	entra	e	acende	as	luzes,
uma	a	uma.	Leio	o	Irish	Times.
Subitamente,	 por	 volta	 de	 4h45,	 abre-se	 a	 porta,	 e	 sai	 Lloyd	 George,
seguido	por	Bonar	Law,	Balfour	e	o	P.W.
“Oh,	meu	 caro!”	 exclama	A.J.B.	 “Você	 ficou	 esperando	 todo	 este	 tempo?
Nuncaimaginei!	 Há	 várias	 coisas	 que	 queríamos	 lhe	 perguntar.	 Por
exemplo...”
Voltando-se	para	o	presidente:	“Este	é	um	jovem	amigo	que	poderia	nos
ter	dito	tudo	que	queríamos.	Agora,	deixe-me	ver,	o	que	queríamos	saber?
Ah,	sim,	Fiume...”
P.W.	–	 “Não,	Fiume	não.	 Já	 sabemos	 tudo	a	 respeito.	O	que	queremos	é
saber	o	número	exato	de	alemães	que	seriam	absorvidos	pela	Itália	se	esta
conseguir	a	fronteira	no	Brenner.	Então,	o	que	pode	nos	dizer	sobre	isso?”
H.N.	–	“Bem,	não	precisamente,	sr.	Presidente.	Não	tenho	o	número	exato.
Seriam	uns	240.000...”
P.W.	–	“Ou	seriam	250.000?”
H.N.	–	“Bem,	sr.	Presidente,	eu	ia	dizer	245.000.”
P.W.	–	“Bem,	de	qualquer	modo,	é	questão	de	milhares.”
H.N.	–	“Sem	dúvida,	e	milhares	de	contrários	aos	italianos.”
P.W.	–	“Você	quer	dizer	que	são	pró-alemães,	pró-austríacos?”
H.N.	–	“Bem,	pró-Tirol,	sobretudo	em	Bozen.”
P.W.	 –	 “Bem,	 existe	 outra	 questão.	 Ah,	 sim,	 sobre	 Fiume.	 Pode	 me
fornecer	os	dados?”
H.N.	confiante	–	“Ah,	sim,	o	senhor	quer	dizer,	com	ou	sem	os	subúrbios?”
P.W.	–	“Sim,	há	um	subúrbio	chamado	Ashak,	ou	coisa	parecida.”
H.N.	 –	 “Susak.	 Bem,	 os	 dados	 são,	 os	 dados	 são...”	 pausa...	 “eu	 os	 tenho
aqui”	 (remexo	 o	 bolso,	 rápida	 coleta	 de	 dados	 e	 os	 apresento	 com
segurança).
P.W.	 –	 “É	 o	 que	 eu	 achava	 –	 e	 a	 linha	 entre	 Fiume	 e	 Ashak	 é
insignificante.”
H.N.	 –	 “Um	 simples	 arroio,	 senhor	 presidente,	 praticamente	 não	 se
podem	separar	os	dois.”
P.W.	 –	 “É	 o	 que	 estou	 vendo.	 Mas	 os	 italianos	 dizem	 que	 quem	 tenta
passar	de	Fiume	para	Ashak	é	morto	na	certa.”
H.N.	–	“Mas	sr.	Presidente...”
P.W.	 –	 “Waal!	 Achei	 que	 ele	 estava	 exagerando.	 Bem,	 cavalheiros,	 boa-
noite.	Boa-noite,	Mr	Balfour.”
Nos	retiramos.	Isso	se	chama	“dar	opinião	de	especialista.”
P.W.	é	mais	jovem	do	que	aparenta	nas	fotografias;	glabre;	não	se	vêem
seus	 dentes,	 a	 não	 ser	 quando	 esboça	 um	 sorriso,	 que	 assusta;	 ombros
largos	 e	 cintura	 fina;	 seus	 ombros	 são	 desproporcionais	 à	 altura;	 assim
também	seu	rosto	(não	a	cabeça	propriamente	dita,	mas	a	porção	entre	as
orelhas	 e	 o	 queixo).	 Sua	 roupa	 é	 confeccionada	 em	 alfaiate,	 preta,	 bem
cortada,	 bem	 passada;	 calça	 listrada,	 colarinho	 alto,	 alfinete	 rosa.	 Fala
pausada	do	sul.
Descendo	 as	 escadas,	 A.J.B.	 atencioso	 como	 sempre.	 “Não	 sei	 como	me
desculpar	 por	 tê-lo	 feito	 esperar	 tanto	 tempo.	 Para	 falar	 a	 verdade,	 na
última	 meia	 hora	 ficamos	 apenas	 discutindo	 se	 Napoleão	 e	 Frederick,	 o
Grande,	 podiam	 ser	 considerados	 patriotas	 indiferentes.”	 “E	 qual	 foi	 a
conclusão?”	“Ah,	esqueci	a	conclusão.”
E	assim,	de	volta	ao	Majestic.
Jantar	 com	 Armitage	 Smith	 e	 Louis	Mallet.	 Este	me	 diz	 que	 o	 P.W.	 leu
para	 Balfour	 uma	 carta	 dirigida	 a	 Sonnino	 recusando,	 de	 sua	 parte,
vincular-se	ao	Tratado	de	Londres.	Tudo	bem.	Também	recebera	a	visita	de
Weizmann,	 o	 sionista.	 Weizmann	 tinha	 preparado	 uma	 longa	 série	 de
argumentos	defendendo	que	o	mandato	da	Palestina	deveria	ser	concedido
à	Inglaterra.	O	Presidente	o	interrompeu	dizendo:	“Sim,	já	sei	tudo	isso.	Só
quero	 que	 os	 ingleses	 estejam	dispostos	 a	 assumir	 tudo	 o	 que	 queremos
que	assumam.”	Weizmann	então	explicou	como	era	difícil	entrar	em	acordo
com	 os	 franceses.	 P.W.:	 “Nisso	 concordo	 com	 o	 senhor.	 Nós	 não	 temos
comunhão	de	ideias.”
	
15	de	janeiro,	quarta-feira
O	Dr	Madge,	médico	 inglês	 junto	à	Corte	Romena,	homem	pequenino	e
inteligente,	vem	nos	visitar.	É	interessado	em	política.	Diz	que	Také	Ionescu
está	 realmente	 contente	 por	 não	 ser	membro	 da	 delegação,	 pois	 vê	 para
onde	 se	dirige	o	 chauvinismo	 romeno	e	 está	 satisfeito	por	 ficar	de	 fora	 e
poder	criticar	os	erros	de	outros.	Chega	um	inglês	que	acaba	de	regressar
de	 Kolosvar,	 na	 Transilvânia.	 Diz	 que	 Budapest	 está	 caminhando
celeremente	 para	 o	 bolchevismo,	 com	 Karolyi	 à	 testa.	 Acha	 que,	 quando
chegar,	 o	 bolchevismo	 terá	 vida	 curta	 e	 que	 logo	 haverá	 uma	 revolta
branca.	 A	 Hungria	 está	 francamente	 a	 favor	 dos	 ingleses	 e	 quer	 ver	 o
Príncipe	Henry	como	rei.	Os	lavradores	nada	semearam	neste	outono.
Almoço	no	Griffon	com	Tilea	e	Pangal.	Outra	vez	o	Banat.	Uma	referência
à	restituição	de	Dobrudja	à	Bulgária	provoca	estridentes	reclamações	dos
transilvanos.
De	volta	ao	escritório.	Redijo	memorando	para	Mr	Balfour	explicando	por
que	a	Itália	não	deve	receber	Fiume,	mesmo	declarado	porto	livre.
Às	cinco,	uma	volta	até	o	Mercedes	para	ver	os	gregos.	T...	fala-me	sobre
Koritsa	como	centro	de	cultura	grega,	acrescentando	que	a	primeira	obra
grega	 impressa	 foi	 em	Moschopolis.	 Segundo	 ele,	 os	 italianos	 não	podem
receber	um	mandato	sobre	a	Albânia;	jamais	teriam	êxito;	os	albaneses	se
rebelariam;	 seria	 muito	 dispendioso.	 Também	 explica	 o	 acordo	 com	 a
Sérvia	relativo	ao	acesso	ao	Egeu	em	Salônica.	Os	sérvios	têm	seus	próprios
cais,	funcionários,	material	rodante,	polícia	e	mão-de-obra.	Está	convencido
de	 que	 um	 acordo	 semelhante	 daria	 certo	 com	 os	 búlgaros	 em	Kavalla	 e
com	os	turcos	em	Smyrna.
Em	seguida,	vou	ver	Venizelos.	Apesar	do	calor	na	sala,	ele	usa	seu	gorro
preto	de	seda.	Dois	evzones	de	unidades	de	elite	ficam	no	corredor,	do	lado
de	fora.	Venizelos	me	mostra	dados	estatísticos	sobre	etnias.	“Je	me	suis	fait
un	point	d’honneur	de	préparer	une	estatistique	exacte”.	Cita	Dietrich	como
tendo	confirmado	seus	dados	e	afirmado	que	toda	a	costa	da	Ásia	Menor	a
oeste	do	meridiano	de	Constantinopla	é	grega	em	seus	elementos	 físico	e
climático.
Com	relação	à	Trácia	ocidental	e	oriental,	faço	ver	que	se	a	Grécia	obtiver
tudo	que	reivindica,	 ficará	com	uma	fronteira	 impossível	de	defender.	Ele
replica:	 “Mais	 de	 nos	 jours	 on	 ne	 fait	 pas	 de	 guerres	 géographiques.	 L’
Allemagne	en	a	 fait,	 et	vous	en	voyez	bien	 le	 resultat.”	Argumentei	sobre	o
risco	 do	 irredentismo	 e	 de	 agitação	 entre	 gregos	 de	 Constantinopla	 e	 da
Trácia	oriental.	Ele	 replica:	 “E	daí?	Acha	você	que	atacaríamos	a	Liga	das
Nações?	Não	é	melhor	ter	em	Constantinopla	um	vizinho	amigo	em	vez	de
um	hostil?”
Pondero	 a	 ele	 que	 a	Bulgária	 deve	dispor	 de	 saídas	 econômicas	 para	 o
Egeu.	Ele	diz:	 “Que	 tal	Varna	 e	Bourgas,	 que	 com	a	permanente	 abertura
dos	 Estreitos,	 ganharão	 considerável	 valor?	 Se	 a	 Romênia	 só	 dispõe	 da
saída	 para	 o	Mar	 Negro,	 por	 que	 a	 Bulgária	 deveria	 ter	mais?	 Considere
também	o	perigo	de	submarinos	em	Porto	Lagos.”	Eu	tenho	em	mente	este
perigo,	mas	não	dou	maior	importância.
Evidentemente	 ele	 tem	 promessas	 do	 P.W.	 sobre	 o	 Dodecaneso;	 nesse
assunto,	estamos	de	mãos	amarradas	pelo	tratado	de	1915.	Ele	sabe	disso.
Nenhuma	palavra	sobre	Chipre.
Jantar	no	hotel.	Lloyd	George	presente.	Muito	trabalho	depois	do	jantar.
	
16	de	janeiro,	quinta-feira
Trabalho	a	manhã	toda.	No	almoço,	Benes,	ministro	do	Exterior	tcheco	e
membro	da	delegação.	 Seus	pontos	 são:	 (1)	A	Boêmia	quer	 reconstituir	 a
Mittel	 Europa	 em	 uma	 nova	 base,	 nem	 germânica,	 nem	 russa.	 Portanto,
fundamenta	suas	demandas	“não	tanto	em	justificativas	de	ordem	nacional,
mas	de	ordem	 internacional.”	Para	ela,	 embora	a	unidade	nacional	venha
em	 primeiro	 lugar	 e	 a	 prosperidade	 nacional	 em	 segundo,	 o	 objetivo
supremo	 é	 a	 estabilidade	 da	 Europa	 Central.	 Para	 isso,	 deve	 haver	 uma
conexão	 territorial	 tanto	 com	 a	 Iugoslávia	 quanto	 com	 a	 Romênia.	 Esta
última	 a	 ser	 estabelecida	 na	 Rutênia;	 os	 rutênios	 da	 Galícia,
preponderantemente	 judeus,	 não	 querem	 pertencer	 à	 Rússia	 e	 muito
menos	 à	 Romênia.	 (2)	 Relações	 amistosas	 com	 a	 Hungria	 acabarão
impostas	pela	necessidade	econômica.	A	Hungria	sempre	 foi	pró-alemães,
mesmo	sendo	contrária	aos	austríacos.	Nós	ocidentais	temos	nos	enganado
ao	pensar	que	sua	posição	anti-Viena	também	traduz	posição	anti-Berlim.
(3)	 Acha	 que	 existe	 uma	 grande	 diferença	 entre	 ele	 e	 seus	 colegas	 que,
como	Kramarsh,	 permaneceram	em	Praga	 durante	 toda	 a	 guerra.	 Eles	 só
pensam

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