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Cristianismo puro e simples

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É perfeitamente correto que um juiz sentencie um homem à morte ou que um soldado mate o inimigo em combate. Existem no grego duas palavras: uma geral para matar, e outra específica para assassinar. Quando Cristo pronunciou esse mandamento, ele usou a palavra equivalente a assassinar nos três relatos: em Mateus, Marcos e Lucas. Nem todo ato de matar é assassinato, da mesma forma que nem todo ato sexual é adultério.
"Bem, se podemos condenar os atos do inimigo, puni-lo e mesmo matá-lo, qual é então a diferença entre a moral cristã e a moral comum?" Toda a diferença do mundo. Lembre-se de que nós, cristãos, acreditamos que o homem pode viver eternamente. Logo, o que realmente importa são as pequenas marcas deixadas e as pequenas mudanças feitas na parte central e interior da alma, as quais vão nos tornar, a longo prazo, numa criatura celestial ou infernal. Talvez sejamos obrigados a matar, mas não devemos alimentar o ódio nem gostar de odiar. Podemos punir, se isso for necessário, mas não devemos gostar de punir.
O grande pecado 
"Praticamente todos os males no mundo que as pessoas julgam ser causados pela cobiça ou pelo egoísmo são bem mais o resultado do orgulho. "
O vício fundamental, o mal supremo, é o orgulho. E por causa dele que o diabo se tornou o que é. O orgulho leva a outros vícios; é o estado mental mais oposto a Deus que existe. Quanto mais orgulho uma pessoa tem, menos gosta de vê-lo nos outros. Se quer descobrir quão orgulhoso você é, a maneira mais fácil é perguntar-se: "Quanto me desagrada que os outros me tratem como inferior, ou não notem minha presença, ou interfiram nos meus negócios, ou me tratem com condescendência, ou se exibam na minha frente?" Se me sinto incomodado porque outra pessoa fez mais sucesso na festa, é porque eu mesmo queria ser o grande sucesso. O prazer não está em se ter algo, mas somente em se ter mais que a pessoa ao lado.
Praticamente todos os males no mundo que as pessoas julgam ser causados pela cobiça ou pelo egoísmo são bem mais o resultado do orgulho. Veja a questão do dinheiro. A cobiça pode fazer com que o homem deseje ganhar dinheiro para comprar uma casa melhor, poder viajar nas férias e ter coisas mais apetitosas para comer e beber. O que faz com que um homem que ganha 100 mil por mês queira ganhar 200 mil? o desejo de ser mais rico que os outros ricos e, mais do que isso, o desejo de poder. Pois, evidentemente, é do poder que o orgulho realmente gosta.
O orgulho sempre significa a inimizade - é a inimizade. E não só inimizade entre os homens, mas também entre o homem e Deus. Então como podem existir pessoas evidentemente cheias de orgulho que declaram acreditar em Deus e se consideram muitíssimo religiosas? Infelizmente, elas adoram um Deus imaginário. Na teoria, admitem que não são nada comparadas a esse Deus fantasma, mas na prática passam o tempo todo a imaginar o quanto ele as aprova e as tem em melhor conta que ao resto dos comuns mortais.
Com frequência, orgulho é usado para vencer os vícios mais simples. Os professores, que sabem disso, apelam costumeiramente para o orgulho dos meninos, a fim de fazê-los comportar-se direito. Mais de um homem conseguiu superar a covardia, a luxúria ou o mau humor pela crença inculcada de que tudo isso estava abaixo da sua dignidade. Ou seja, venceram pelo orgulho.
O prazer do elogio não é orgulho. O problema começa quando você deixa de pensar "Eu o agradei: tudo está bem", e substitui esse pensamento por outro: "Eu sou mesmo uma pessoa magnífica por ter feito isso."
Dizemos que um homem tem "orgulho" de seu filho, de seu pai, de sua escola, de seu regimento. Podemos nos perguntar se, nesse caso, o "orgulho" é um pecado. Isso depende do que queremos dizer com "ter orgulho de algo". Com muita freqüência, essa expressão significa "ter uma calorosa admiração por algo ou alguém". Tal admiração, evidentemente, está bem distante do pecado. Mas talvez signifique que a pessoa "empine o nariz" por ter um pai ilustre ou pertencer a um regimento famoso.
No momento em que efetivamente entramos em contato com Deus, nos sentimos de fato humildes: deliciosamente humildes, aliviados de uma vez por todas do fardo das falsas crenças sobre nossa dignidade, que só serviam para nos deixar desassossegados e infelizes. Deus tenta nos tornar humildes para que esse momento seja possível: o momento de lançarmos fora a tola e horrenda fantasia com que nos adornamos e que nos entravava os movimentos, enquanto a exibíamos por aí feito idiotas.
Se você conhecer alguém humilde, provavelmente, o que você vai pensar dele é que se trata de um camarada animado e inteligente, que realmente se interessou pelo que você tinha a lhe dizer. Se você não simpatizar com ele, será porque sente um pouco de inveja de alguém que parece contentar-se tão facilmente com a vida. Se alguém quer adquirir a humildade, o primeiro passo: é reconhecer o próprio orgulho. Aliás, é um grande passo. O mínimo que se pode dizer é que, se ele não for dado, nada mais poderá ser feito. 
A caridade 
"A caridade significa amor no sentido cristão.”
As virtudes teológicas são a fé, a esperança e a caridade. A caridade significa "amor no sentido cristão". Mas o amor no sentido cristão não é uma emoção. Não é um estado do sentimento, mas da vontade: aquele estado da vontade que temos naturalmente com a nossa pessoa, mas devemos aprender a ter com as outras pessoas. A afeição natural pelas pessoas torna mais fácil a "caridade" com elas. Por isso, temos o dever de estimular nossas afeições.
Não perca tempo perguntando-se se você "ama" o próximo ou não; aja como se amasse. Assim que colocamos isso em prática, descobrimos um dos maiores segredos. Quando você se comporta como se gostasse de alguém, logo começa a gostar dessa pessoa. Quando faz mal a alguém de quem não gosta, passa a desgostar ainda mais dessa pessoa. Já se, por outro lado, lhe fizer um bem, verá que a aversão diminui. Existe, porém, uma exceção a essa regra. Se você lhe fizer um bem, não para agradar a Deus e obedecer à lei da caridade, mas para lhe mostrar como você é uma pessoa capaz de perdoar, para lhe deixar em dívida e para sentar-se à espera de manifestações de "gratidão", provavelmente vai decepcionar-se.
Temos amar a Deus, mas talvez não encontremos esse amor dentro de nós. O que devemos fazer? A resposta é a mesma de antes. Ame. Não fique sentado tentando fabricar um sentimento, até porque o amor não é. Se nos esforçamos para obedecer à sua vontade, estamos cumprindo o mandamento "Amarás o Senhor teu Deus". Porém, a grande coisa a se lembrar é que, apesar de nossos sentimentos irem e virem, o amor de Deus por nós não se altera. Não se desgasta por causa dos nossos pecados nem por nossa indiferença. Logo, é inflexível em sua determinação de que seremos curados desses pecados custe o que custar.
A esperança 
"Se descubro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo."
A esperança é uma das virtudes teológicas. Isso quer dizer que (ao contrário do que o homem moderno pensa) o anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou de auto-ilusão, mas uma das coisas que se espera do cristão. Não significa que se deve deixar o mundo presente tal como está. Se você estudar a história, verá que os cristãos que mais trabalharam por este mundo eram exatamente os que mais pensavam no outro mundo.
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A vida do "Homem Sensato" Desiludido - Logo ele conclui que tudo não passava de conversa fiada. "E bem verdade", diz ele, "que, quando