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Cristianismo puro e simples

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é jovem, a pessoa se sente assim. Quando chega à minha idade, porém, você desiste de buscar o fim do arco-íris." Então, ele se acomoda, aprende a não esperar muito da vida e reprime a parte de si mesmo que, nas suas palavras, costumava "uivar para a lua". Suponha que realmente seja possível alcançar o fim do arco-íris —seria uma pena descobrir tarde demais que por causa do nosso suposto "bom senso", sufocamos em nós mesmos a faculdade de gozar dessa felicidade.
A vida Cristã - Dizem os cristãos: As criaturas não nascem com desejos que não podem ser satisfeitos. Um bebê sente fome: bem, existe o alimento. O homem sente o desejo sexual: existe o sexo. Se descubro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo. Se nenhum dos prazeres terrenos satisfaz esse desejo, isso não prova que o universo é uma tremenda enganação. Tenho de manter viva em mim a chama do desejo pela minha verdadeira terra natal, a qual só encontrarei depois da morte; e jamais permitir que ela seja arrasada ou caia no esquecimento. Tenho de fazer com que buscar essa terra e ajudar as outras pessoas a buscá-la também seja um objetivo em minha vida.
A fé 
"Se não colocar os humores em seu devido lugar, você não poderá jamais ser um cristão firme ou mesmo um ateu firme; será apenas uma criatura hesitante, cujas crenças dependem, na verdade, da qualidade do clima ou da sua digestão naquele dia."
A palavra "fé" é usada no cristianismo em dois sentidos, ou em dois níveis, e tratarei primeiro de um deles e depois do outro. No primeiro sentido, significa simplesmente a crença - aceitar ou considerar verdadeiras as doutrinas do cristianismo. 
A partir do momento em que a mente humana aceita algo como verdadeiro, vai automaticamente continuar considerando-o verdadeiro até encontrar um bom motivo para reconsiderar essa opinião? A mente é completamente regida pela razão? Isso não é verdade. Tomemos o exemplo do garoto que aprende a nadar. Ele sabe perfeitamente bem que o corpo não vai necessariamente afundar na água: já viu dezenas de pessoas boiando e nadando. Mas a questão principal é se ele continuará crendo nisso quando o instrutor tirar a mão, deixando-o sozinho na água -ou se vai repentinamente deixar de acreditar, entrar em pânico e afundar. Não é a razão que me faz perder a fé: pelo contrário, minha fé é baseada na razão.
A mesma coisa acontece no cristianismo. Não quero que ninguém o aceite se, na balança da sua razão, as provas pesarem contra ele. Não é aí que entra a fé. Vamos supor, entretanto, que a razão de um homem decida a favor do cristianismo. Ele vai ser bombardeado com momentos em que terá que escolher entre mentir, ou não, ganhar dinheiro ilícito ou se manter obedecendo a moral cristã. Não estou falando de momentos em que ele venha a descobrir novas razões contrárias ao cristianismo. Essas razões têm de ser enfrentadas, e isso, de qualquer modo, é um assunto completamente diferente. Estou falando é dos meros sentimentos que se insurgem contra ele.
A fé, no sentido em que estou usando a palavra, é a arte de se aferrar, apesar das mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou. Pois o humor sempre há de mudar, qualquer que seja o ponto de vista da razão. se não colocar os humores em seu devido lugar, você não poderá jamais ser um cristão firme ou mesmo um ateu firme; será apenas uma criatura hesitante, cujas crenças dependem, na verdade, da qualidade do clima ou da sua digestão naquele dia. Conseqüentemente, temos de formar o hábito da fé.
A fé 
"Ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus que efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar.”
Volto-me agora para a fé no seu segundo sentido, o mais elevado. Nenhum homem sabe realmente o quanto é mau até se esforçar muito para ser bom. Só os que tentam resistir às tentações sabem quão fortes elas são. Para conhecer a intensidade do vento, temos de andar contra ele, e não deitar no chão. Um homem que cede à tentação em cinco minutos não tem a menor idéia de como ela seria uma hora depois. Por esse motivo, as pessoas más, em certo sentido, sabem muito pouco a respeito da maldade. Porque sempre se rendem, levam uma vida protegida. É impossível conhecer a força do mal que se esconde em nós até o momento em que decidimos enfrentá-lo; e Cristo, por ter sido o único homem que nunca caiu em tentação, é também o único que conhece a tentação em sua plenitude.
A principal coisa que aprendemos quando tentamos praticar as virtudes cristãs é que fracassamos. Se tínhamos a idéia de que Deus nos impunha uma espécie de prova na qual poderíamos merecer passar por tirar boas notas, essa idéia tem de ser eliminada. Se tínhamos a idéia de uma espécie de barganha — a idéia de que poderíamos cumprir a parte que nos cabe no contrato e deixar Deus em dívida conosco, de tal modo que, por uma questão de justiça, ele ficasse obrigado a cumprir a parte dele —, ela deve ser eliminada também. Mesmo se tivéssemos conseguido, não estaria oferecendo a Deus nada que já não lhe pertencesse. Em outras palavras, descobrimos que estamos falidos.
Toda a força que fazemos nos conduz ao momento crucial em que nos voltamos para Deus e lhe dizemos: "O Senhor tem de fazer isso. Não consigo." Quando acontecem as coisas mais importantes da vida, nem sempre nos damos conta do que está ocorrendo. A pessoa não para de repente e diz para si mesma: "Opa, estou crescendo!" Em geral, é só quando olha para trás que percebe o que aconteceu e reconhece seu progresso gradual.
O que interessa é a natureza da mudança em si, e não como nos sentimos quando ela ocorre. É a mudança do sentimento de confiança em nossos próprios esforços para um estado em que nos desesperamos completamente e deixamos tudo nas mãos de Deus. O sentido em que um cristão deixa tudo nas mãos de Deus é que ele deposita toda a sua confiança em Cristo: confia em que, de alguma forma, Cristo vai dividir sua obediência humana perfeita com ele, obediência que Cristo carregou consigo do nascimento à crucificação. Num sentido, toda a vida cristã se baseia em aceitar essa oferta extraordinária.
É claro que deixar tudo nas mãos de Cristo não significa que devemos parar de nos esforçar. Confiar nele significa tentar fazer tudo o que ele disse. Não há sentido em dizer que confiamos em tal pessoa se não aceitamos seus conselhos. Logo, se você realmente se entregou nas mãos dele, conclui-se daí que está tentando obedecer-lhe. No entanto, está tentando de uma forma nova, menos preocupada. Não está fazendo essas coisas para ser salvo, mas porque ele já começou a salvá-lo. Não está esperando ganhar o Paraíso como recompensa das suas ações, mas quer inevitavelmente agir de uma determinada forma porque já tem dentro de si os primeiros e tênues vislumbres do Paraíso.
"Ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor" - o que dá a idéia de que tudo depende de nós e de nossas boas ações; mas a segunda metade complementa: "Pois é Deus que efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar" - o que dá a idéia de que Deus faz tudo e nós, nada. Esse é o tipo de coisa com a qual nos defrontamos no cristianismo.
Livro V
ALÉM DA PERSONALIDADE OU OS PRIMEIROS PASSOS NA DOUTRINA DA TRINDADE
Criar e gerar
Atenção, esse capítulo contém heresias.
Da mesma maneira que um homem que já viu o Atlântico da praia e depois olha um mapa do Atlântico também está trocando a coisa real pela menos real: troca as ondas de verdade por um pedaço de papel colorido, a experiência prática do cristianismo é escrita na Bíblia. O mapa se baseia nas experiências de centenas ou milhares de pessoas que navegaram pelas águas do verdadeiro oceano Atlântico. Se você quer ir para algum lugar, o mapa é absolutamente necessário. (O autor não deixa claro, mas a Bíblia é mais que um compilado de experiências dos autores, é a própria palavra de Deus escrita por homens inspirados pelo Espírito Santo).
Enquanto você se contentar com caminhadas à beira da praia você terá seus vislumbres, mas o mapa