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Oganizadores 
Rosio Fernández Baca Salcedo 
João Roberto Gomes de Faria 
Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo: 
do contexto urbano ao edifício 
1ª Edição 
ANAP 
Tupã/SP 
2020 
2 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 2020, ANAP – Associação Amigos da Natureza da Alta Paulista 
Pessoa de Direito Privado Sem Fins Lucrativos, fundada em 14 de setembro de 2003 
Rua Bolívia, nº 88, Jardim América, Cidade de Tupã, São Paulo. CEP 17.605-310 
Contato: (14) 99808-5947 e 99102-2522 
www.editoraanap.org.br 
www.amigosdanatureza.org.br 
editora@amigosdanatureza.org.br 
Editoração e diagramação da obra – Rosio Fernández Baca Salcedo e João Roberto Gomes de Faria 
Créditos das imagens: 
Capa (imagem superior) e contracapa – Rosio Fernández Baca Salcedo 
Capa (imagem inferior) – Maria Solange Gurgel de Castro Fontes 
 
 
 
 
 
 
Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo: do contexto 
 urbano ao edifício / Rosio Fernández Baca Salcedo, 
 João Roberto Gomes de Faria (Orgs.). – Tupã : ANAP, 
 2020 
 230 p.; il. 
 
 ISBN 978-65-86753-19-6 
 
 Inclui bibliografia 
 
 1. Paisagem. 2. Ambiente urbano. 3. Edificações. I. 
Salcedo, Rosio Fernández Baca. II. Faria, João Roberto 
Gomes de. 
 CDD:710 
 720 
 
 3 
 
 
Comissão Científica Internacional da ANAP – 2017 a 2020 
Prof. Dr. Carlos Andrés Hernández Arriagada 
Prof. Dr. Eduardo Salinas Chávez –Universidade de La Habana, PPGG, UFGD-MS 
Prof. Dr. Eros Salinas Chàvez – UFMS/Aquidauana Post doctorado 
Prof. Dr. Josep Muntañola Thornberg – UPC – Barcelona, Espanha 
Prof. Dr. José Seguinot – Universidad de Puerto Rico 
Prof. Dr. Miguel Ernesto González Castañeda – Universidad de Guadalajara – México 
Prof. Dr. Oscar Buitrago Bermúdez, Universidad Del Valle – Cali, Colombia 
Prof. Dr. Paulo Nuno Maia de Sousa Nossa – Universidade de Coimbra 
Comissão Científica Nacional da ANAP – 2017 a 2020 
Prof. Dr. Adeir Archanjo da Mota – UFGD 
Prof. Dr. Adriano Amaro de Sousa – Fatec de Itaquaquecetuba – SP 
Profa. Dra. Alba Regina Azevedo Arana – UNOESTE 
Prof. Dr. Alessandro dos Santos Pin –Centro Universitário de Goiatuba 
Prof. Dr. Alexandre Carneiro da Silva 
Prof. Dr. Alexandre França Tetto – UFPR 
Prof. Dr. Alexandre Gonçalves – Faculdade IMEPAC Itumbiara 
Prof. Dr. Alexandre Sylvio Vieira da Costa – UFVJM 
Prof. Dr. Alfredo Zenen Dominguez González – UNEMAT 
Profa. Dra. Alina Gonçalves Santiago – UFSC 
Profa. Dra. Aline Werneck Barbosa de Carvalho – UFV 
Prof. Dr. Alyson Bueno Francisco – CEETEPS 
Profa. Dra. Ana Klaudia de Almeida Viana Perdigão – UFPA 
Profa. Dra. Ana Lúcia de Jesus Almeida – UNESP 
Profa. Dra. Ana Lúcia Reis Melo Fernandes da Costa – IFAC 
Profa. Dra. Ana Paula Branco do Nascimento – UNINOVE 
Profa. Dra. Ana Paula Fracalanza – USP 
Profa. Dra. Ana Paula Novais Pires 
Profa. Dra. Ana Paula Santos de Melo Fiori – IFAL 
Prof. Dr. André de Souza Silva – UNISINOS 
Profa. Dra. Andrea Aparecida Zacharias – UNESP 
Profa. Dra. Andrea Holz Pfutzenreuter – UFSC 
Prof. Dr. Antonio Carlos Pries Devide – Polo Regional Vale do Paraíba – APTA/SAA 
Prof. Dr. Antonio Cezar Leal – FCT/UNESP 
Prof. Dr. Antonio Fábio Sabbá Guimarães Vieira – UFAM 
Prof. Dr. Antonio Marcos dos Santos – UPE 
Prof. Dr. Antônio Pasqualetto –PUC Goiás e IFG 
Prof. Dr. Antonio Soukef Júnior – UNIVAG 
Profa. Dra. Arlete Maria Francisco – FCT/UNP 
Profa. Dra. Beatriz Ribeiro Soares – UFU 
Profa. Dra. Carla Rodrigues Santos – Faculdade FASIPE 
Prof. Dr. Carlos Eduardo Fortes Gonzalez – UTFPR – Curitiba 
Profa. Dra. Carmem Silvia Maluf – Uniube 
Profa. Dra. Cássia Maria Bonifácio – UFSCar 
Profa. Dra. Célia Regina Moretti Meirelles – UPM 
4 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Prof. Dr. Cesar Fabiano Fioriti – FCT/UNESP 
Prof. Dr. Cledimar Rogério Lourenzi – UFSC 
Profa. Dra. Cristiane Miranda Martins – IFTO 
Prof. Dr. Christiano Peres Coelho – UFJ 
Profa. Dra. Dayana Aparecida Marques de Oliveira Cruz – IFSP 
Prof. Dr. Daniel Sant'Ana – UnB 
Profa. Dra. Daniela de Souza Onça – FAED/UESP 
Prof. Dr. Darllan Collins da Cunha e Silva – UNESP 
Profa. Dra. Denise Antonucci – UPM 
Profa. Dra. Diana da Cruz Fagundes Bueno – UNITAU 
Prof. Dr. Edson Leite Ribeiro – Unieuro – Brasília / Ministério das Cidades 
Profa. Dra. Edilene Mayumi Murashita Takenaka – FATEC de Presidente Prudente 
Prof. Dr. Edvaldo Cesar Moretti – UFGD 
Profa. Dra. Eliana Corrêa Aguirre de Mattos – UNICAMP 
Profa. Dra. Eloisa Carvalho de Araujo – UFF 
Profa. Dra. Eneida de Almeida – USJT 
Prof. Dr. Erich Kellner – UFSCar 
Profa. Dra. Eva Faustino da Fonseca de Moura Barbosa – UEMS 
Profa. Dra. Fátima Aparecida da SIlva Iocca – UNEMAT 
Prof. Dr. Felippe Pessoa de Melo – Centro Universitário AGES 
Prof. Dr. Fernanda Silva Graciani – UFGD 
Prof. Dr. Fernando Sérgio Okimoto – UNESP 
Profa. Dra. Flávia Akemi Ikuta – UFMS 
Profa. Dra. Flávia Maria de Moura Santos – UFMT 
Profa. Dra. Flávia Rebelo Mochel – UFMA 
Prof. Dr. Flavio Rodrigues do Nascimento – UFC 
Prof. Dr. Francisco Marques Cardozo Júnior – UESPI 
Prof. Dr. Frederico Braida Rodrigues de Paula – UFJF 
Prof. Dr. Frederico Canuto – UFMG 
Prof. Dr. Frederico Yuri Hanai – UFSCar 
Profa. Dra. Geise Brizotti Pasquotto – UNESP 
Prof. Dr. Gabriel Luis Bonora Vidrih Ferreira – UEMS 
Profa. Dra. Gelze Serrat de Souza Campos Rodrigues – UFU 
Prof. Dr. Generoso De Angelis Neto – UEM 
Prof. Dr. Geraldino Carneiro de Araújo – UFMS 
Profa. Dra. Gianna Melo Barbirato – UFAL 
Prof. Dr. Gilivã Antonio Fridrich – Faculdade DAMA 
Prof. Dr. Glauco de Paula Cocozza – UFU 
Profa. Dra. Iracimara de Anchieta Messias – FCT/UNESP 
Profa. Dra. Irani Lauer Lellis – UFOPA 
Profa. Dra. Isabel Crisitna Moroz Caccia Gouveia – FCT/UNESP 
Profa. Dra. Jakeline Aparecida Semechechem – UENP 
Profa. Dra. Jakeline Santos Cochev da Cruz 
Prof. Dr. João Adalberto Campato Jr. – Universidade BRASIL 
Prof. Dr. João Cândido André da Silva Neto – UEA 
Prof. Dr. João Carlos Nucci – UFPR 
Prof. Dr. João Paulo Peres Bezerra – UFFS 
Prof. Dr. João Roberto Gomes de Faria – FAAC/UNESP 
Prof. Dr. José Aparecido dos Santos – FAI 
Prof. Dr. José Mariano Caccia Gouveia – FCT/UNESP 
Prof. Dr. José Queiroz de Miranda Neto – UFPA 
Prof. Dr. Josinês Barbosa Rabelo – Centro Universitário Tabosa de Almeida 
 5 
 
 
Profa. Dra. Jovanka Baracuhy Cavalcanti Scocuglia – UFPB 
Profa. Dra. Juliana de Oliveira Vicentini 
Profa. Dra. Juliana Heloisa Pinê Américo-Pinheiro –Universidade BRASIL 
Prof. Dr. Junior Ruiz Garcia – UFPR 
Profa. Dra. Karin Schwabe Meneguetti – UEM 
Profa. Dra. Katia Sakihama Ventura – UFSCar 
Prof. Dr. Leandro Gaffo – UFSB 
Prof. Dr. Leandro Teixeira Paranhos Lopes –Universidade BRASIL 
Profa. Dra. Leda Correia Pedro Miyazaki – UFU 
Profa. Dra. Leonice Domingos dos Santos Cintra Lima – Universidade BRASIL 
Profa. Dra. Leonice Seolin Dias – ANAP 
Profa. Dra. Lidia Maria de Almeida Plicas – IBILCE/UNESP 
Profa. Dra. Lilian Keila Barazetti – UNOESTE 
Profa. Dra. Liriane Gonçalves Barbosa 
Profa. Dra. Lisiane Ilha Librelotto – UFS 
Profa. Dra. Lucy Ribeiro Ayach – UFMS 
Profa. Dra. Luciana Ferreira Leal – FACCAT 
Profa. Dra. Luciane Lobato Sobral – UEPA 
Profa. Dra. Luciana Márcia Gonçalves – UFSCar 
Prof. Dr. Luiz Fernando Gouvêa e Silva – UFG 
Prof. Dr. Marcelo Campos – FCE/UNESP 
Prof. Dr. Marcelo Real Prado – UTFPR 
Profa. Dra. Marcia Eliane Silva Carvalho – UFS 
Prof. Dr. Márcio Rogério Pontes – EQUOIA Engenharia Ambiental LTDA 
Profa. Dra. Margareth de Castro Afeche Pimenta – UFSC 
Profa. Dra. Maria Ângela Dias – UFRJ 
Profa. Dra. Maria Ângela Pereira de Castro e Silva Bortolucci – IAU 
Profa. Dra. Maria Augusta Justi Pisani – UPM 
Profa. Dra. María Gloria Fabregat Rodríguez – UNESP 
Profa. Dra. Maria Helena Pereira Mirante – UNOESTE 
Profa. Dra. Maria José Neto – UFMS 
Profa. Dra. Maristela Gonçalves Giassi – UNESC 
Profa. Dra. Marta Cristina de JesusAlbuquerque Nogueira – UFMT 
Profa. Dra. Martha Priscila Bezerra Pereira – UFCG 
Prof. Dr. Maurício Lamano Ferreira – UNINOVE 
Profa. Dra. Nádia Vicência do Nascimento Martins – UEPA 
Profa. Dra. Natacha Cíntia Regina Aleixo – UEA 
Profa. Dra. Natália Cristina Alves 
Prof. Dr. Natalino Perovano Filho – UESB 
Prof. Dr. Nilton Ricoy Torres – FAU/USP 
Profa. Dra. Olivia de Campos Maia Pereira – EESC – USP 
Profa. Dra. Onilda Gomes Bezerra – UFPE 
Prof. Dr. Paulo Alves de Melo – UFPA 
Prof. Dr. Paulo Cesar Rocha – FCT/UNESP 
Prof. Dr. Paulo Cesar Vieira Archanjo 
Profa. Dra. Priscila Varges da Silva – UFMS 
Profa. Dra. Regina Célia de Castro Fereira – UEMA 
Prof. Dr. Raul Reis Amorim – UNICAMP 
Prof. Dr. Renan Antônio da Silva – UNESP – IBRC 
Profa. Dra. Renata Morandi Lóra – IFES 
Profa. Dra. Renata Ribeiro de Araújo – FCT/UNESP 
Prof. Dr. Ricardo de Sampaio Dagnino – UFRGS 
6 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Prof. Dr. Ricardo Toshio Fujihara – UFSCar 
Profa. Dra. Risete Maria Queiroz Leão Braga – UFPA 
Profa. Dra. Rita Denize de Oliveira – UFPA 
Prof. Dr. Rodrigo Barchi – UNISO 
Prof. Dr. Rodrigo Cezar Criado – TOLEDO / Prudente Centro Universitário 
Prof. Dr. Rodrigo Gonçalves dos Santos – UFSC 
Prof. Dr. Rodrigo José Pisani – UNIFAL–MG 
Prof. Dr. Rodrigo Santiago Barbosa Rocha – UEPA 
Prof. Dr. Rodrigo Simão Camacho – UFGD 
Prof. Dr. Ronaldo Rodrigues Araujo – UFMA 
Profa. Dra. Roselene Maria Schneider – UFMT 
Prof. Dr. Salvador Carpi Junior – UNICAMP 
Profa. Dra. Sandra Mara Alves da Silva Neves – UNEMAT 
Prof. Dr. Sérgio Augusto Mello da Silva – FEIS/UNESP 
Prof. Dr. Sergio Luis de Carvalho – FEIS/UNES 
Profa. Dra. Sílvia Carla da Silva André – UFSCar 
Profa. Dra. Silvia Mikami G. Pina – Unicamp 
Profa. Dra. Simone Valaski – UFPR 
Profa. Dra. Sueli Angelo Furlan – USP 
Profa. Dra. Tânia Fernandes Veri Araujo – IF Goiano 
Profa. Dra. Tânia Paula da Silva – UNEMAT 
Profa. Dra. Tatiane Bonametti Veiga – UNICENTRO 
Prof. Dr. Thiago Ferreira Dias Kanthack 
Profa. Dra. Vera Lucia Freitas Marinho – UEMS 
Prof. Dr. Vilmar Alves Pereira – FURG 
Prof. Dr. Vitor Corrêa de Mattos Barretto – FCAE/UNESP 
Prof. Dr. Xisto Serafim de Santana de Souza Júnior – UFCG 
Prof. Dr. Wagner de Souza Rezende – UFG 
Profa. Dra. Yanayne Benetti Barbosa 
 7 
 
 
Serie PPGARQ 
Publicação em série do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo (PPGARQ), da 
Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC), da Universidade Estadual Paulista “Júlio 
de Mesquita Filho” (UNESP), campus de Bauru. 
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” 
Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação 
Diretora: Profa. Dra. Fernanda Henriques 
Vice-diretor: Juarez Tadeu de Paula Xavier 
Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo 
Coordenadora: Profa. Dra. Renata Cardoso Magagnin 
Vice-coordenadora: Profa. Dra. Maria Solange Gurgel de Castro Fontes 
Organização 
Rosio Fernández Baca Salcedo 
João Roberto Gomes de Faria 
Comissão Científica 
 Fabiana Lopes Cunha Universidade Estadual Paulista, UNESP 
 Geise Brizotti Pasquotto Universidade Estadual Paulista, UNESP (substituto) 
 Luciana Bongiovanni Martins Schenk Instituto de Arquitetura e Urbanismo, IAU-USP 
 Maria Cristina da Silva Schicchi Pontifícia Universidade Católica de Campinas, PUC-Campinas 
 Obede Borges Faria Universidade Estadual Paulista, UNESP (aposentado) 
 Roberta Krahe Edelweiss Conselho Diretor do Instituto de Arquitetos do Brasil 
 Sandra Medina Benini Faculdade de Ensino Superior do Interior Paulista, FAIP 
8 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
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 9 
 
 
 
Sumário 
 
Apresentação 11 
Prefácio 13 
 
DESENVOLVIMENTO URBANO 
Interiorização do desenvolvimento e seus efeitos 
urbanísticos em cidades médias paulistas 17 
Jefferson O. Goulart 
Bárbara C. Damasceno 
 
 
PAISAGEM E MEIO AMBIENTE 
Do campo para a cidade: espécies nativas trazidas por 
Frederico Carlos Hoehne de suas viagens pelo Brasil 43 
Gardênia Baffi de Carvalho 
Marta Enokibara 
 
 
Rio Tietê e sua relação com a cidade de Pederneiras: 
uma história em cinco fases 61 
Gabriela Rosa 
Norma Regina Truppel Constantino 
 
 
PATRIMÔNIO E REABILITAÇÃO 
Patrimônio ferroviário e industrial 
e a paisagem urbana de Araraquara-SP 85 
Laís da Silva Rodrigues 
Evandro Fiorin 
 
 
Programa Locação Social: análise da qualidade da 
habitação para idosos no centro histórico de São Paulo 105 
Victor Rüegger Lucredi 
Rosio Fernández Baca Salcedo 
Josep Muntañola I Thornberg 
 
 
HISTÓRIA DA CIDADE 
“Sertão Desconhecido”: os Campos do Avanhandava 
no processo de ocupação territorial paulista 135 
Nilson Ghirardello 
Daniel Candeloro Ferrari 
 
 
Três Lagoas (MS): da origem dos “chãos” 
ao princípio de formação urbana 153 
Ananda Soares Rosa 
Nilson Ghirardello 
 
 
10 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
QUALIDADE DO ESPAÇO PÚBLICO URBANO 
Qualidade espacial da infraestrutura para 
pedestres no entorno de espaços públicos 173 
Renata Braga Aguilar da Silva 
Eduarda de Mattos Previero 
Renata Cardoso Magagnin 
 
 
Requalificação de espaços públicos segundo Método do 
Urbanismo Ambiental Hermenêutico: estudo de caso da 
Praça da Praça Rui Barbosa – SP, Brasil 
191 
Mariana Maia da Cruz Fernandes 
Rosio Fernández Baca Salcedo 
Marcelo Zárate 
 
 
Parâmetros de avaliação da qualidade de 
espaços públicos de permanência 215 
Eduarda de Mattos Previero 
Maria Solange Gurgel de Castro Fontes 
 
 
Índice remissivo 227 
 
Obs.: a autoria das ilustrações sem crédito é dos autores 
dos respectivos textos nas quais elas estão inseridas 
 11 
 
 
Apresentação 
O Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo (PPGARQ), credenciado pela CAPES 
em 2013, e avaliado em 2017 com conceito quatro, é o primeiro mestrado acadêmico na área de 
Arquitetura e Urbanismo da UNESP e o terceiro das universidades públicas do Estado de São 
Paulo. 
O Mestrado Acadêmico tem por objetivo capacitar recursos humanos para a pesquisa científica e 
docência, fornecendo formação em nível de pós-graduação stricto sensu. Objetiva, ainda, suprir a 
demanda de docentes e pesquisadores em instituições de ensino e pesquisa e de profissionais nos 
setores público e privado, desenvolvendo e difundindo novos conhecimentos e tecnologias na 
área de Arquitetura e Urbanismo. 
O PPGARQ é composto por uma única área de concentração, Arquitetura e Urbanismo, que abriga 
duas linhas de pesquisa - Planejamento e Avaliação do Espaço Construído e Teoria, História e 
Projeto, sustentadas pelos estudos realizados pelos grupos de pesquisa vinculados ao programa. 
A Linha de Pesquisa Planejamento e Avaliação do Ambiente Construído envolve uma ampla 
gama de atividades, anteriores ao projeto e posteriores à ocupação e uso do ambiente 
construído. As pesquisas desenvolvidas pelos docentes envolvidos estão relacionadas com os 
estudos de desempenho e conforto ambiental, mobilidade, acessibilidade e tecnologia de 
materiais de construção. A abordagem dessas temáticas está intimamente ligada a questões de 
sustentabilidade, via compreensão dos fenômenos ligados à climatologia urbana, o uso de 
materiais com baixo insumo energético e de soluções que facilitem a mobilidade e a 
acessibilidade urbana. 
A Linha de Pesquisa Teoria, História e Projeto objetiva estabelecer as bases teóricas e conceituais 
para a leitura e análise crítica da história e dos projetos de arquitetura, da cidade e do território. 
Busca, ainda, uma reflexão contemporânea das necessidades sociais, culturais, estéticas e 
tecnológicas da sociedade e dos diferentes processos de estruturação e transformação, ao 
relacionar a história, a teoria e a prática do projeto em arquitetura e urbanismo, que se 
encontram na base de toda metodologia projetual. As pesquisas desenvolvidas pelos docentesestão relacionadas com os temas: inventário, documentação e salvaguarda do patrimônio 
cultural, história da arquitetura, da cidade e do território, e projeto de arquitetura (teoria, 
método e ensino do projeto). 
O volume 5 da série PPGARQ intitula-se Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo: do contexto 
urbano ao edifício e contém dez capítulos, produto das pesquisas de docentes e discentes do 
PPGARQ e de pesquisadores convidados, de universidades nacionais e internacionais, distribuídos 
em cinco temas: Desenvolvimento Urbano, Paisagem e Meio Ambiente, Patrimônio e 
Reabilitação, História da Cidade e Qualidade do Espaço Público Urbano. 
Com a publicação deste quinto volume da série pretende-se que os temas abordados possam 
contribuir com futuras pesquisas em Arquitetura e Urbanismos e outras áreas afins. 
Profª Assoc. Rosio Fernández Baca Salcedo 
Prof. Assoc. João Roberto Gomes de Faria 
(organizadres) 
12 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Página propositalmente em branco 
 13 
 
 
Prefácio 
O livro Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo: do contexto urbano ao edifício é o quinto volume 
da série produzida pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (PPGARQ) da 
Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da UNESP, campus de Bauru. O objetivo 
dessas publicações tem sido a divulgação das pesquisas desenvolvidas por docentes e discentes 
do programa, bem como de pesquisadores docentes de outras Universidades do país e do 
exterior. 
O presente livro está estruturado em cinco temas: Desenvolvimento Urbano, Paisagem e Meio 
Ambiente, Patrimônio e Reabilitação, História da Cidade e Qualidade do Espaço Público Urbano. 
O tema Desenvolvimento Urbano contém úm único capítulo, Interiorização do desenvolvimento 
e seus efeitos urbanísticos em cidades médias paulistas, de Jefferson O. Goulart e Bárbara C. 
Damasceno. Nele é abordado o processo de desenvolvimento urbano de cidades de médio porte 
do interior paulista no século XX, principalmente a partir de 1964, como resultado da 
desconcentração industrial e da interiorização do desenvolvimento que caracterizaram o regime 
autoritário (1964-1985), que levou a elas questões antes restritas aos grandes centros urbanos, 
como favelização, periferização, segregação socioespacial e escassez de infraestrutura urbana. 
Paisagem e Meio Ambiente é composto por dois capítulos. O primeiro, Do campo para a cidade: 
espécies nativas trazidas por Frederico Carlos Hoehne de suas viagens pelo Brasil, das autoras 
Gardênia Baffi de Carvalho e Marta Enokibara, traz a contribuição Frederico Carlos Hoehne para o 
campo da botânica e do paisagismo no Brasil: as autoras mostram que várias indicações de 
espécies para arborização urbana de dois dos livros mais famosos do biólogo, Arborização Urbana 
e Manual Técnico de Arborização Urbana de São Paulo, referem-se a árvores do bioma da Mata 
Atlântica, o mais devastado do país na atualidade. Nesse contexto, as obras contribuem para a 
preservação das árvores nativas, bem como sua difusão no meio urbano. 
O segundo capítulo do tema, Rio Tietê e sua relação com a cidade de Pederneiras: uma história 
em cinco fases, de Gabriela Rosa e Norma Regina Truppel Constantino, descreve o papel do Rio 
Tietê na história de Pederneiras, influenciando o desenvolvimento da cidade em diferentes 
períodos e de diferentes formas: durante o desbravamento do Oeste Paulista no século XIX, como 
fonte de energia, relacionado à produção de cerâmica, a partir da inauguração do Porto 
Intermodal de Pederneiras, e quanto ao uso do Rio com finalidades turísticas. 
Os dois capítulos de Patrimônio e Reabilitação analisam relações entre patrimônio histórico 
edificado e a paisagem urbana do entorno. Em Patrimônio ferroviário e industrial e a paisagem 
urbana de Araraquara-SP, Laís da Silva Rodrigues e Evandro Fiorin apontam a influência da 
ferrovia na paisagem urbana da cidade de Araraquara, no interior do estado de São Paulo, e 
analisa questões relativas ao patrimônio ferroviário e a obsolescência do antigo leito férreo e dos 
edifícios emblemáticos de suas margens. 
No capítulo Programa Locação Social: análise da qualidade da habitação para idosos no centro 
histórico de São Paulo, os autores Victor Rüegger Lucredi, Rosio Fernández Baca Salcedo e Josep 
Muntañola I Thornberg realizam uma análise pós-ocupação da implantação do Programa Locação 
14 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Social no edifício Palacete dos Artistas, na cidade de São Paulo, através do método da arquitetura 
dialógica, mostrando a relação entre a qualidade do espaço habitável e o entorno. 
Aspectos relacionados à formação de cidades interioranas compõem o tema História da Cidade, 
com dois capítulos. Em “Sertão Desconhecido”: os Campos do Avanhandava no processo de 
ocupação territorial paulista, Nilson Ghirardello e Daniel Candeloro Ferrari descrevem o papel 
das colônias militares (e, em particular, a dos “Campos de Avanhandava”, no interior paulista), 
criadas pelo Império em meados do século XIX, na ocupação e garantia de que as terras nas quais 
estavam inseridas compusessem, irreversivelmente, o território nacional. 
No capítulo Três Lagoas (MS): da origem dos “chãos” ao princípio de formação urbana, Ananda 
Soares Rosa e Nilson Ghirardello mostram a importância da doação de terras para a constituição 
de um patrimônio religioso e da construção da Companhia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil 
(CEFNOB), com o consequente deslocamento do contingente de mão de obra para a região na 
consolidação da cidade de Três Lagoas (MS). 
No tema Qualidade do espaço público urbano são apresentados estudos de caso que 
representam a aplicação de distintas abordagens metodológicas de avaliação da qualidade 
espacial. Em Qualidade espacial da infraestrutura para pedestres no entorno de espaços 
públicos, de Renata Braga Aguilar da Silva, Eduarda de Mattos Previero e Renata Cardoso 
Magagnin, as autoras usam o Índice de Qualidade Espacial do Ambiente de Pedestres (IQAP) para 
analisar como indicadores relacionados aos planos de fachada, da calçada, do leito da rua e da 
cobertura podem interferir na qualidade espacial do entorno de espaços públicos. 
Mariana Maia da Cruz Fernandes, Rosio Fernández Baca Salcedo e Marcelo Zárate, no capítulo 
com título autoexplicativo Requalificação de Espaços Públicos Segundo Método do Urbanismo 
Ambiental Hermenêutico: estudo de caso da Praça da Praça Rui Barbosa - SP, Brasil, fazem um 
avaliam a condição atual da praça e elaboram uma proposta de requalificação visando à melhoria 
da sua qualidade espacial. 
Eduarda de Mattos Previero e Maria Solange Gurgel de Castro Fontes analisam os Parâmetros de 
avaliação da qualidade de espaços públicos de permanência a partir de uma revisão bibliográfica 
envolvendo autores nacionais e internacionais referenciados com frequência em pesquisas na 
área. 
Com esse amplo leque de temas, esperamos que os artigos lhes proporcionem uma boa leitura. 
 
 
Profª Assoc. Rosio Fernández Baca Salcedo 
Prof. Assoc. João Roberto Gomes de Faria 
(organizadres) 
 
 
Desenvolvimento urbano 
16 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Página propositalmente em branco 
 
 
Interiorização do desenvolvimento e seus efeitos 
urbanísticos em cidades médias paulistas1 
Jefferson O. Goulart 
Bárbara C. Damasceno 
RESUMO: Os processos de urbanização e de 
industrialização marcaram intensamente o 
desenvolvimento brasileiro no séc. XX, superando 
o perfil de nação agrário-exportadora para um país 
urbano-industrial. Essa trajetória não foi linear ou 
homogênea, se revelou complexa territorialmente 
e teve impulso decisivo na segunda metade do 
último século com a afirmação do modelo de 
Estado desenvolvimentista. Tais transformações 
ganharam maior visibilidade nos grandes centrosurbanos, mas as cidades médias do interior do 
estado de São Paulo também passaram a sentir 
esses processos face à expansão da economia 
nacional através da desconcentração industrial e 
da interiorização do desenvolvimento que 
caracterizaram o regime autoritário (1964-1985). 
Os efeitos socioterritoriais se acirraram nessas 
cidades e passaram a refletir na escala intraurbana, 
mesmo em menores proporções ou com 
características particulares, problemas antes 
restritos aos grandes centros urbanos, tais como 
favelização, periferização, segregação 
socioespacial, escassez de infraestrutura urbana. 
Este capítulo investiga o processo de interiorização 
do desenvolvimento e os efeitos urbanísticos por 
ele produzidos em cidades médias do interior 
paulista, tomando como objeto empírico de análise 
os municípios de Piracicaba e Limeira. 
The interiorization of development and its urban 
effects in the medium cities of São Paulo state 
ABSTRACT: The urbanization and industrialization 
processes marked intensely the Brazilian 
development in the century XX, surpassing the 
profile of an agrarian-exporting nation to an 
urban-industrial country. This trajectory was not 
linear or homogeneous, it proved to be complex 
territorially and had a decisive impulse in the 
second half of the last century with the affirmation 
of the developmentalist model of state. Such 
transformations gained greater visibility in the 
large urban centers, but the medium cities of the 
São Paulo state also began to feel these processes 
in the face of the expansion of the national 
economy through the industrial deconcentration 
and the interiorization of the development that 
characterized the authoritarian regime (1964-
1985). The socio-territorial effects intensified in 
the cities benefited by the development and began 
to reflect on the intra-urban scale, albeit in smaller 
proportions or with particular characteristics, 
problems previously restricted to large Brazilian 
urban centers, such as slums, peripheral 
occupation, socio-spatial segregation, scarcity 
urban infrastructure This chapter investigates the 
process of interiorization of development and the 
urban effects produced in medium-sized cities of 
São Paulo state, using Piracicaba and Limeira as an 
empirical object of analysis. 
Palavras-chave: cidades médias, interiorização, 
desenvolvimento urbano. 
Keywords: medium-sized cities, interiorization, 
urban development. 
 
 
1
 Este capítulo apresenta resultados parciais da pesquisa “Políticas públicas de habitação social em cidades médias do 
interior paulista – 2000-2020”, ora em desenvolvimento em nível de mestrado no PPGARQ/UNESP. Trabalho realizado 
com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) – Código de Financiamento 001. 
18 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
1 RAÍZES DO DESENVOLVIMENTISMO E BASES DO DESENVOLVIMENTO 
O Brasil da virada do séc. XIX para o séc. XX era uma nação agrário-exportadora cujo contingente 
urbano representava aproximadamente 15% da população. O Brasil da transição do séc. XX para o 
séc. XXI ostentava fisionomia distinta: além de ter forjado um expressivo parque industrial que 
alavancou o país à condição de oitava economia mundial, a distribuição demográfica se inverteu, 
com 85% da população vivendo nas cidades. As transformações socioeconômicas desse período 
foram profundas, tiveram caráter processual e não se limitaram a épocas específicas. 
A depressão dos anos 1920-1930 foi basicamente uma crise decorrente da superprodução, de 
excedentes de capitais e de acirrada especulação financeira, ganhando visibilidade com o crash da 
Bolsa de Nova Iorque em 1929. Em razão de suas proporções mundiais, essa crise repercutiu 
negativa e decisivamente em países da periferia do sistema capitalista – exportadores de 
commodities e dependentes de inversões internacionais –, como o Brasil, cuja geração de riqueza 
era subordinada à produção e exportação de produtos agrícolas e particularmente à cafeicultura. 
Esse desarranjo impactou a economia local e repercutiu no plano político doméstico, com um 
movimento que a historiografia nomeou como “Revolução de 1930”. Não obstante, o caráter 
revolucionário dessa ruptura reside na fecundidade das transformações que promoveu no 
decorrer da história: a rigor, a “Revolução de 1930” foi um golpe articulado entre altas patentes 
militares e parcelas das elites civis não vinculadas diretamente à cafeicultura. A propósito, a 
arquitetura institucional da intervenção pelo alto nada teve de original, bastando lembrar a 
trajetória política do país e particularmente as circunstâncias que levaram à “República que não 
foi” (Carvalho, 1987). 
O programa da Aliança Liberal encabeçada por Getúlio Vargas não tinha divergências substantivas 
em relação à plataforma do candidato oficial (Júlio Prestes) para as eleições de março de 19302: 
não só não propunha mudanças radicais, como convergia na manutenção do padrão agrário-
exportador e, a despeito de tensões entre os setores agrário e rural, “nos manifestos da Aliança 
Liberal não se encontram quaisquer traços de um programa industrialista” (Fausto, 1970, p. 44). 
Aparentemente seria uma dissidência episódica do pacto oligárquico da I República, mas a vitória 
eleitoral de Prestes não apaziguou o regime, pelo contrário, intensificou a instabilidade política. 
Na verdade, a “Revolução de 1930” e a ascensão de Vargas ao poder pouco depois de sua derrota 
eleitoral revelam um esgotamento de dupla dimensão: do regime político e do modelo 
econômico. De um lado, o pacto político que garantia a reprodução do poder das oligarquias 
regionais em escala nacional havia sido categoricamente fraturado – o fim da “hegemonia da 
burguesia do café” (Fausto, 1970, p. 112); de outro, o colapso do modelo econômico se inscreve 
no contexto da crise da divisão internacional do trabalho e evidencia que o cenário externo e a 
crise interna obstruíam sua manutenção. 
Embora a nova coalizão de poder não tivesse formulado ou sistematizado as bases de um novo 
programa para o país, a história se encarregou de demonstrar que naquele momento nasciam o 
Brasil moderno e o Estado Desenvolvimentista (Sallum Jr., 1996). 
 
2
 Mesmo líder de uma dissidência, Vargas era originário da oligarquia regional gaúcha e havia sido Ministro da Fazenda 
no governo de Washington Luís. 
INTERIORIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO E SEUS EFEITOS 
URBANISTICOS EM CIDADES MÉDIAS PAULISTAS 19 
 
 
Para evitar qualquer mal-entendido, “Brasil moderno” significou uma economia autenticamente 
capitalista, organizada nos termos da II Revolução Industrial, associada à divisão internacional do 
trabalho e, ademais, assentada em progressiva concentração urbana. 
Esse tipo de Estado e o modelo de desenvolvimento são inseparáveis. O desenvolvimento 
dependeu decisivamente do papel do Estado e este foi forjado precisamente para servir ao 
desenvolvimentismo: “a nova forma de Estado – mais centralizado, intervencionista – é condição 
básica para a expansão das atividades industriais” (Fausto, 1970, p. 111). Essa equação ganhou 
visibilidade no padrão de substituição de importações e na criação de um sistema de indústrias de 
base para sustentar o processo industrializante, escorado pela ideologia desenvolvimentista: a 
“Era Vargas”, foi caracterizada por “desenvolvimento econômico, controle sobre os trabalhadores 
e sindicatos, planejamento estatal, legislação social, investimentos públicos e, principalmente, 
pelo papel atribuído ao Estado como agente econômico” (D’Araujo, 1997, p. 9). 
Empreendimento de tal complexidade exigiu um Estado forte que serviu aos propósitos de liderar 
e organizar o desenvolvimento. Enfim, um padrão dependente-associado (Cardoso, 1988), pelo 
qual o capital nacional se associou aocapital estrangeiro e deste dependeu para atender suas 
necessidades de expansão. Em que pesem especificidades e variações temporais, esse padrão não 
foi exclusivo do Brasil, tornando-se o caminho comum de vários países periféricos em busca do 
desenvolvimento, notadamente na América Latina. 
A propósito, é imperativo fazer uma digressão conceitual: tema controverso inclusive em seu 
domínio original – o pensamento econômico –, o desenvolvimento não se limita nem se confunde 
com crescimento econômico, em que pese este ter sido o entendimento de boa parte dos 
protagonistas e intérpretes da experiência brasileira.3 A raiz da divergência reside na teoria 
econômica canônica, para a qual “o crescimento gera efeitos benéficos para todas as camadas da 
população, no mínimo, através do que se denomina de efeito ‘vazamento’ do crescimento 
(trickle-down effect of growth)” (Maluf, 2000, p. 55-56). Ou seja, todos os grupos sociais teriam a 
ganhar por sua presumida capacidade de transbordar benefícios. Ocorre, porém, que não só o 
crescimento econômico é insuficiente para superar a desigualdade ou erradicar a pobreza como 
“há uma ligação inversa entre a distribuição inicial de ativos e de renda e a natureza e a amplitude 
do crescimento subsequente, isto é, quanto maior a desigualdade inicial, menores os ganhos para 
os pobres com o crescimento econômico” (Idem). Nesses termos, o desenvolvimento só se 
justificia como ideal ético normativo se incorporar a equidade social. 
O caráter estrutural das desigualdades socioeconômicas no Brasil confirma o postulado 
conceitual: ao longo de séc. XX, o país cresceu no plano econômico, mas permaneceu desigual: 
“De 1901 a 2000, o PIB mais do que centuplicou, subindo de R$ 9,1 bilhões para R$ 1 trilhão”, 
contudo, “encerrou o século 20 com a sexta pior distribuição de renda do mundo”4; ou seja, o país 
chegou ao fim do séc. XX com a maior concentração de renda da América Latina: o 1% mais rico 
da população concentrava riqueza equivalente à renda dos 50% mais pobres. 
 
3
 Para uma apreciação mais fecunda sobre as teorias do desenvolvimento, abordagem que foge ao escopo deste artigo, 
seria inevitável recorrer às obras de pensadores como A. Hirschman, A. Sen, G. Arrighi, J. Schumpeter, dentre outros, 
além de C. Furtado referência obrigatória do caso brasileiro. Sobre o debate entre desenvolvimento e dependência, ver 
a seminal contribuição cepalina (R. Prebisch, O. Sunkele, E. Faletto e novamente C. Furtado). 
4
 Ver matéria jornalística “País fica mais rico e mais desigual”, edição online da Folha de São Paulo. Disponível em: 
<https://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj3009200301.htm>. Acesso em 17 jul. 2020. 
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj3009200301.htm
20 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
A trajetória das desigualdades se relaciona a diversos fatores (regime político, modelo de 
desenvolvimento, políticas públicas), não foi linear e, sobretudo no período recente, também 
registra avanços importantes territorialmente diferenciados (Arretche, 2015). Não obstante, o 
debate central permanece: qual o lugar da equidade social no desenvolvimento? Nesses termos, 
“o procedimento de desvincular — por vezes, contrapor — o princípio da eficiência econômica 
das questões de equidade social faz com que a dimensão social deixe de figurar entre os critérios 
de avaliação das escolhas econômicas” (Maluf, 2015, p. 46). A trajetória do desenvolvimento deve 
incorporar sua capacidade de promover inclusão e coesão sociais, do contrário, seus fatores de 
êxito ficarão limitados a critérios econômicos excludentes. 
Controvérsias conceituais à parte, firmou-se consenso de que o Estado desenvolvimentista 
brasileiro apresentou características distintivas (Sallum Jr., 1995): i) promoveu uma coalizão de 
interesses que incluiu a burguesia nacional e o capital multinacional; ii) assumiu posição de núcleo 
organizador da economia e da sociedade; iii) combinou políticas de subsídios e de proteção a 
empresas próprias (estatais) em áreas estratégicas; iv) acomodou os interesses de setores 
modernizantes da economia com outros mais atrasados vinculados às oligarquias rurais; v) 
concertou e incorporou interesses corporativos, empresariais e de trabalhadores, tanto por meio 
de órgãos setoriais de regulação econômica quanto de organizações representativas e sindicais. 
Evidente que a configuração desse tipo de Estado não foi temporalmente homogênea, pois 
múltiplas variáveis – tanto econômicas, endógenas e internacionais, quanto políticas e dos 
correspondentes regimes – interferiram nos resultados e em sua distribuição territorial. 
Cronologicamente, a evolução econômica do país no séc. XX pode ser agrupada em quatro ciclos 
(Negri, 1996). O primeiro período, limitado à passagem do séc. XIX ao séc. XX, é marcado pela 
incipiente base industrial vinculada à cafeicultura. O segundo período, basicamente na primeira 
metade do séc. XX e já sob o impacto da “Revolução de 1930”, marca a industrialização 
restringida e tem símbolos marcantes como a campanha de nacionalização do petróleo e a 
subsequente instituição da PETROBRAS, além da criação da Companhia Siderúrgica Nacional 
(CSN). O terceiro período, caracterizado pela indústria de bens de capital e consolidação do 
padrão dependente-associado no governo JK (1956 a 1961), se destaca pela instalação do polo 
automobilístico na região do ABC paulista, cujo impacto foi gigantesco na predileção do modal de 
transporte e na economia nacional. No quarto ciclo, nas décadas de 1960-1970, ganha evidência o 
movimento de descentralização espacial do desenvolvimento sob a moldura político-institucional 
do regime autoritário (1964-1985). 
O território originalmente mais propício ao processo de industrialização foi a região sudeste, 
notadamente o estado de São Paulo, por razões complementares: acumulação e disponibilidade 
de capitais; pioneira adoção de mão de obra livre, incentivos à imigração, adensamento 
populacional e disponibilidade de contingente de trabalhadores familiarizados com padrões 
mercantis de relações de trabalho; sintonia das elites locais com os arquétipos aristocráticos 
europeus; núcleo político dirigente consolidado remanescente da I República; vantagens logísticas 
como a proximidade do porto de Santos e uma rede ferroviária consolidada; infraestrutura de 
negócios (Bolsa de Valores, sistema bancário); lócus dos pioneiros empreendimentos industriais 
do país. Em suma, os processos de expansão econômica e de modernização do interior paulista 
estão associados à dinâmica da acumulação operada durante a expansão cafeeira (Cano, 1990). 
INTERIORIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO E SEUS EFEITOS 
URBANISTICOS EM CIDADES MÉDIAS PAULISTAS 21 
 
 
Na sequência, a desconcentração do desenvolvimento e sua inserção no interior paulista serão 
analisadas mais detalhadamente. 
2 O INTERIOR PAULISTA COMO FOCO DA INTERIORIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO 
Se no princípio do século passado a industrialização ainda era incipiente e constrangida pelo 
modelo agrário-exportador, a expansão econômico-industrial se intensificou nas décadas de 
1950-1970 com o apogeu do modelo desenvolvimentista. Esse novo paradigma, alicerçado no 
tripé Estado-capital nacional-capital multinacional, é identificado em pelo menos três referências: 
no Plano de Metas do governo JK (1956-1960), no “milagre econômico” (1968-1973) e no II Plano 
Nacional de Desenvolvimento (1975-1979). Com variações que refletiram as condições 
econômicas de cada momento, as características comuns foram: acelerada industrialização; 
estratégia agressiva de substituição de importações; investimento em setores estratégicos 
(siderurgia, energia, comunicações etc.) e em infraestrutura (estradas, logística etc.). 
Essas ações foram acompanhadas de iniciativas governamentais orientadas para a integraçãonacional, vale dizer, redução e mitigação das desigualdades regionais com consequentes 
incentivos à interiorização do desenvolvimento, uma vez que seus efeitos se concentravam na 
região sudeste do país.5 
Tais políticas refletiram um movimento de indução da interiorização do desenvolvimento. No caso 
paulista, alguns fatores foram determinantes: i) expansão de indústrias originariamente instaladas 
na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), como as do setor automobilístico, que se 
ampliaram principalmente rumo às regiões de Campinas e do Vale do Paraíba; ii) instalação de 2 
refinarias de petróleo nas mesmas regiões, sendo a de Paulínia a maior do país; iii) incentivos ao 
Programa Nacional do Álcool (Proálcool), tanto na produção agrícola como no processamento 
industrial e nas indústrias de bens de capital, o que incidiu nas regiões de Ribeirão Preto e 
Piracicaba; iv) benefícios diretos e indiretos de políticas de incentivo às exportações de produtos 
industriais e agroindustriais (café, soja, suco de laranja, carnes etc.); v) instalação de centros 
tecnológicos e de pesquisa que estimularam a fixação de empresas dos setores eletroeletrônico e 
de informática (principalmente em Campinas) e aeronáutico (em São José dos Campos, incluindo 
a criação da Embraer); vi) consolidação de polos industriais e clusters, caso emblemático dos 
segmentos siderúrgico e petroquímico em Cubatão em torno da Companhia Siderúrgica Paulista 
(Cosipa); vii) investimento em infraestrutura logística, sobretudo viária, principalmente por meio 
da ampliação e modernização de rodovias; viii) restrições de ordem legal-ambiental ao 
adensamento na RMSP; ix) pressões crescentes do movimento social e, em particular, do 
movimento operário de vanguarda liderado pelo “novo sindicalismo” a partir do ABC paulista. 
Outro registro importante: o que se convencionou chamar de “desconcentração” industrial nas 
décadas de 1960-1970, incluindo o caso paulista, não equivale automática e obrigatoriamente à 
transferência física de instalações industriais ou econômicas em geral. Na verdade, de 
desconcentração (no sentido literal) houve pouco, e o que tivemos foram basicamente novos 
investimentos mais descentralizados no período que coincide com o regime autoritário. 
 
5
 A construção de Brasília como capital federal situada no centro geográfico do país, no planalto central, é o exemplo 
mais eloquente e simbólico da política de desconcentração do desenvolvimento. 
22 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
As políticas de interiorização do desenvolvimento envolveram ações e programas do Estado em 
seus três níveis de governo. Em nível federal, a desconcentração do desenvolvimento econômico 
materializou-se em ações emblemáticas: expansão agroindustrial rumo ao centro-oeste; criação 
da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e instalação do Polo 
Petroquímico de Camaçari (BA) no Nordeste; criação da Superintendência do Desenvolvimento da 
Amazônia (Sudam) voltada para a região Norte e implantação da Zona Franca de Manaus (AM) e 
do complexo de mineração de Carajás (PA). Para o regime autoritário (1964-1985), a 
desconcentração desenvolvimentista obedecia a propósitos complementares: de um lado, por 
motivações geopolíticas, preservar a integridade do território nacional assegurando a exploração 
e o controle de reservas naturais em polos estratégicos, além de garantir a soberania do país em 
cadeias produtivas chaves (destaque para o setor energético); de outro, por razões econômicas, 
elevar a autonomia nacional por meio da produção e consequente redução de importações. 
Esse movimento não transcorreu sem contradições e jamais foi harmônico ou equitativo – as 
renitentes clivagens regionais são evidências categóricas da permanência da assimetria6 –, pois a 
orientação geral de desconcentração esbarrava nas bases de um modelo contraditoriamente 
concentrador do desenvolvimento. O paradoxo teve um momento especial de exposição na 
formulação do II PND, isto é, no “antagonismo entre as diretrizes da política urbana de caráter 
eminentemente descentralizador (da sociedade e do espaço) e as diretrizes do plano de caráter 
centralizador” (Souza, 2004, p. 141). Enquanto a Política Nacional de Desenvolvimento Urbano 
postulava reverter a concentração socioeconômica por suas mazelas urbanísticas, o eixo principal 
do II PND insistia em concentrar investimentos na região sudeste, posição que prevaleceu. 
No plano estadual, algumas iniciativas de desconcentração merecem registro por seu largo 
alcance e impacto: unificação das usinas hidrelétricas por meio da Companhia Energética de São 
Paulo (CESP); agrupamento da dispersa malha ferroviária paulista em torno da Ferrovia Paulista 
S/A (FEPASA); implantação do Plano Rodoviário de Interiorização do Desenvolvimento (PROINDE), 
que culminou com a modernização e ampliação de eixos estratégicos e construção de novas 
rodovias (Imigrantes, Bandeirantes, D. Pedro I); criação da Companhia de Saneamento Básico do 
Estado de São Paulo (Sabesp); implantação do programa “Ação Regional”, em 1971, pelo qual 
“consolidou-se a descentralização administrativa e reforçou-se a escala regional de atuação 
política, com efeitos irreversíveis sobre a urbanização dispersa” (Tavares, 2018, p. 355). 
No plano local, as prefeituras passaram a adotar estratégicas comuns para atrair empresas e 
indústrias, com destaque para alterações nas legislações urbanísticas, multiplicação de distritos 
industriais, disponibilização fundiária e de infraestrutura e oferta de isenções fiscais 
(principalmente de IPTU e eventualmente de ISS). 
Esse processo incidiu mais fortemente nas regiões de Campinas, São José dos Campos, Ribeirão 
Preto e Santos. A mudança não é apenas quantitativa, no sentido do aumento do número de 
plantas industriais, mas principalmente de natureza qualitativa, no sentido da modernização do 
setor agroindustrial e dos investimentos em segmentos de ponta, como o metal-mecânico, o 
 
6
 A evolução da Participação Regional no Produto Interno Bruto (PIB) do país confirma a permanência das disparidades 
regionais no período de 1939 a 2003 (Cano, 2011, p. 278): enquanto o desempenho do Nordeste cai de 16.7% para 13% 
e o da região Norte vai de 2.6% para 4.9%, o Sudeste regride de 63.3% para 55.4%, suficiente para lhe assegurar a 
responsabilidade por mais da metade do PIB nacional. Enquanto isso, o estado de São Paulo, sozinho, se manteve 
estável de 31.2% para 32.1%. Ou seja, o sistema de clivagens regionais e as correspondentes desigualdades se 
mantiveram ao longo da segunda metade do séc. XX, justamente o ciclo de maior desenvolvimento do país. 
INTERIORIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO E SEUS EFEITOS 
URBANISTICOS EM CIDADES MÉDIAS PAULISTAS 23 
 
 
petroquímico e o eletroeletrônico. Nas décadas de 1960-1970 evidenciam-se “as diretrizes de 
descentralização administrativa e a divisão regional unificada a fim de territorializar as ações do 
Estado e prover recursos para o equilíbrio do desenvolvimento territorial” (Tavares, 2018, p. 354). 
Assim ocorre a desconcentração industrial da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), cuja 
participação no VTI (Valor de Transformação Industrial) da indústria de base passa de 43,4% em 
1970 para 29,4% em 1985 (Negri, 1996). A RMSP perde posição em relação ao restante do país, 
inclusive o interior paulista, cuja evolução do VTI salta de 14,7% em 1970 para 23% em 1990 
(equivalente a 46,7% do VTI paulista). Em curto espaço de tempo, o interior paulista se torna o 
segundo aglomerado industrial do país. 
A interiorização industrial se vincula ao contexto nacional, à redefinição da matriz energética 
(reflexo das crises do petróleo dos anos 1970), à modernização agroindustrial e às pressões para o 
aumento da competitividadee ao desenvolvimento da indústria de ponta. Nesses termos, a 
“extraordinária expansão industrial dos anos 70 modifica a estrutura industrial do interior, que 
passou a contar com a presença marcante de grande número de indústrias de porte médio e 
grande... dos segmentos metal-mecânico, petroquímico e eletrônico” (Negri, 1988, p. 30). 
A crise econômica da “década perdida” desacelerou a tendência à desconcentração da indústria 
paulista e colocou em questão a capacidade de afirmar-se um processo sustentado de 
crescimento. O esgotamento do modelo desenvolvimentista deu seus primeiros sinais na década 
de 1980, e na década seguinte predominam políticas liberistas e a consequente abertura 
comercial do país, cuja vulnerabilidade foi exposta em alguns casos emblemáticos que resultaram 
na quebra de várias cadeias produtivas com grande impacto socioeconômico nas respectivas 
cidades e regiões. Estes foram os casos do setor têxtil (Americana e Santa Bárbara d’Oeste); 
coureiro-calçadista (Franca); siderurgia/bens de capital (Campinas, São José dos Campos e 
Taubaté); citricultura (Bebedouro, Ribeirão Preto). A década de 1990 expos o colapso do modelo 
desenvolvimentista, expresso na crise fiscal do Estado, na interrupção dos fluxos de investimentos 
e nas políticas de orientação neoliberal, com largo impacto nas economias urbanas. 
Essas transformações impactaram as cidades médias porque estas detinham melhores condições 
para receber investimentos e plantas industriais (disponibilidade fundiária, vantagens logísticas, 
flexibilidade da normativa urbanística, atratividade de mão de obra, interação com o espaço 
regional, capacidade de absorver fluxos migratórios), com a consequente dinamização do setor 
terciário. Em suma, o impulso às cidades médias está associado a políticas e objetivos como: 
“maior equilíbrio interurbano e urbano-regional, interromper o fluxo migratório na direção das 
grandes cidades e metrópoles, a busca de eficiência para alguns ramos produtivos e a necessidade 
de multiplicação de postos avançados de expansão do sistema socioeconômico nacional” 
(Amorim Filho; Serra, 2001, p. 9). 
As ações desenvolvimentistas e de interiorização se somaram à manutenção da estrutura 
fundiária do país – a democratização da terra e a reforma agrária permaneceram como quimera –, 
estimulando os fluxos migratórios em direção às regiões mais atrativas. Ou seja, a urbanização foi 
alimentada pelo êxodo rural e pela modernização conservadora da agricultura. 
Como o país urbanizou-se fortemente, cidades médias do interior paulista passaram a conviver 
com desafios similares aos das grandes regiões metropolitanas, pois a expansão desordenada 
estimulou a concentração fundiária, promoveu segregação socioespacial e agravou os problemas 
de infraestrutura urbana. E com a intensificação da crise urbana (Maricato, 2013) cresceu a 
24 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
demanda por serviços dirigida ao poder local (transporte, habitação, saneamento, segurança). 
Assim, a agenda da reforma urbana (função social da propriedade, assentamento digno das 
populações marginalizadas e democratização da política urbana), antes privativa das grandes 
cidades, também passou a fazer pleno sentido para as cidades médias do interior paulista. 
A modernização industrial e o desenvolvimento do interior paulista transcorreram a partir de uma 
estratégia global de Estado com forte centralismo político. Esse caráter autoritário pode ser 
comprovado pela coincidência temporal com a ditadura, pelo fato de presidente e governadores 
estaduais não serem eleitos democraticamente pelo sufrágio (o mesmo acontecendo com 
prefeitos de cidades consideradas áreas de segurança nacional) e pela centralização nas relações 
federativas. Ademais, ressalte-se o caráter tecnocrático da política urbana, que jamais foi objeto 
de consultas públicas ou processos participativos (Caldeira; Holston, 2004). 
Em resumo, “a urbanização e a industrialização permitiram importante dose de ascensão social e 
constituição de uma classe média que não tínhamos. Contudo isso se fez com uma piora 
acumulada nos segmentos mais pobres, na distribuição de renda” (Cano, 2011, p. 283), 
diagnóstico suficiente para caracterizar a crise urbana contemporânea. Os impactos dessa 
trajetória errática serão detalhados nas seções seguintes, a partir do exame empírico de duas 
importantes cidades médias do interior paulista. 
3 URBANIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO URBANO EM CIDADES MÉDIAS 
A análise que se segue compreende abordagem socioeconômica dos processos de urbanização e 
produção do espaço urbano em Piracicaba e Limeira, cidades paradigmáticas da conversão para 
um perfil industrial no processo de interiorização do desenvolvimento a partir da década de 1970. 
Esses municípios se situam em uma das principais regiões do Estado de São Paulo beneficiadas 
pela interiorização do desenvolvimento, integrando uma das áreas mais industrializadas e 
produtivas do território paulista no circuito capital-interior (Emplasa, 2020). Ambas as cidades se 
inserem na Aglomeração Urbana de Piracicaba (AUP)7, conjunto de municípios de médio e 
pequeno porte que congregava população estimada em 1,5 milhão de habitantes até 2018, de 
acordo com estimativa do IBGE, com participação de 3% do PIB estadual em 2016. 
A localização privilegiada da AUP na malha rodoviária estadual propicia vantagens no fluxo de 
pessoas e no escoamento de mercadorias devido à proximidade com Campinas e São Paulo, pois 
conta com diversificado parque industrial de empresas nacionais e multinacionais. A região se 
destaca como importante polo industrial e agrícola, com destaque para alguns segmentos: 
sucroalcooleiro, metal-mecânico, indústrias de alimentos e agroindústria (Emplasa, 2020). 
3.1 O caso de Piracicaba 
Piracicaba, sede e maior cidade da AUP, segundo dados do último Censo Demográfico do IBGE de 
2010, possuía população total de 364.571 habitantes, sendo que 356.743 residiam na área urbana 
e 7.828 na rural, com urbanização de 97,85%. A economia é fortemente marcada pelo setor 
industrial – conquanto este venha paulatinamente perdendo espaço para o setor de serviços nas 
 
7
 Institucionalizada pela Lei Complementar nº 1.178/2012, a AUP é integrada por 23 municípios: Águas de São Pedro, 
Analândia, Araras, Capivari, Charqueada, Conchal, Cordeirópolis, Corumbataí, Elias Fausto, Ipeúna, Iracemápolis, 
Laranjal Paulista, Leme, Limeira, Mombuca, Piracicaba, Rafard, Rio Claro, Rio das Pedras, Saltinho, Santa Gertrudes, 
Santa Maria da Serra e São Pedro (Emplasa). 
INTERIORIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO E SEUS EFEITOS 
URBANISTICOS EM CIDADES MÉDIAS PAULISTAS 25 
 
 
duas últimas décadas –, e em 2017 sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) estadual foi de 
1,03% (SEADE). 
A vocação canavieira de Piracicaba colocou o município em lugar privilegiado nas políticas de 
desenvolvimento do período varguista no Brasil, com intuito de ampliar a produção para os 
mercados interno e externo. Com suas bases econômicas fincadas na cana-de-açúcar e na 
produção industrial, houve grande impacto no êxodo rural para a cidade (Maia, 2019). Como 
reflexo, seu câmbio para o status de município predominantemente urbano se deu com a virada 
da década de 1950, quando mais da metade da população já residia na área urbana. 
Entre 1950 e 1970, o modelo desenvolvimentista se fez sentir localmente em função da aspiração 
do poder local em modernizar a cidade. Essa visão levou a ações de remodelação urbana como 
construção de jardins, escolas, obras de pavimentação, ampliação da rede de iluminação elétrica, 
instalação de redes telefônicas, mas, principalmente, com obras viárias de canalização de 
córregos, construção de pontes e de vias arteriais (Maia, 2019). A cidade ganhou maior vigor ao 
apresentar-se como local da produção e também por simbolizaro ideal moderno. 
A diferença entre população rural e urbana se acentuou na década de 1960, coincidindo com a 
ampliação da participação do setor industrial na economia local, chegando a quase 50% em 1959, 
segundo a evolução do Valor Adicionado (VA) do IPEA-Data. As taxas geométricas de crescimento 
anual da população indicam que nessa época a cidade teve uma trajetória ascendente de 
crescimento demográfico que se estendeu até década de 1980, quando diminuirá (Tabela 1). 
Até 1970 a ocupação inicial do núcleo de Piracicaba e seu perímetro urbano ainda mantinham 
uma lógica concentrada, conquanto experimentasse acelerado crescimento populacional e 
atingisse neste mesmo ano uma população urbana de 127.776 habitantes, de acordo com o Censo 
Demográfico de 1970 do IBGE, com relevante peso migratório (Goulart; Terci; Otero, 2017). A 
tendência de aceleração do ritmo de crescimento demográfico percebida nos próximos anos 
implicou em diversas mudanças no território em um curto espaço de tempo. 
Tabela 1. Taxa Geométrica de Crescimento Anual da População de Piracicaba (1940-2010) 
1940 - 1950 1950 - 1960 1960 - 1970 1970 - 1980 1980 - 1991 1991 - 2000 2000 - 2010 
1.40% 2,84% 2,76% 3,46% 2,59% 1,66% 1,03% 
Fonte: Elaboração própria com dados do IBGE, Censos Demográficos, 1940-2010. 
Favorecido pelas políticas de descentralização dos investimentos, o município passou a oferecer 
condições desejáveis para a instalação das plantas industriais. Dentre elas destacam-se: 
localização estratégica para implantação dessas indústrias com acesso facilitado à Rodovia Luiz de 
Queiroz (SP-304), que se conecta à Rod. Anhanguera (Terci, 2009); disponibilidade de mão de 
obra não qualificada; proximidade de matérias-primas; facilidades de fontes de energia. Assim, 
em 1973 é instalado o primeiro distrito industrial, a leste da mancha urbana (Maia, 2019). Tais 
esforços fizeram com que a participação deste setor no VA passasse de 47,15%, em 1970, para 
60,90% em 1980 – salto de 13,75%. Nesse mesmo período Piracicaba atingiu sua maior taxa de 
crescimento anual populacional, com um grau de urbanização de 92,34% (IPEA-Data; IBGE). 
Tais mudanças se fizeram sentir de diferentes formas, com destaque para o crescimento 
demográfico pela atração de mão de obra com reflexos na demanda por espaço urbano, serviços 
e infraestrutura. Nestes termos, houve o transbordamento da urbanização para além das áreas já 
consolidadas a partir da produção dispersa da mancha urbana (padrão comum nas cidades 
26 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
brasileiras) em direção às regiões Sudeste e Noroeste. Inserida nessa dinâmica, a ampliação do 
perímetro urbano seguiu o mesmo rumo (Figura 1). 
De 1980 a 1991 o crescimento populacional já apresentava tendência de queda. O país atravessou 
severa crise econômica na década de 1980 que se refletiu no adensamento de áreas consolidadas, 
com aumento de ocupações irregulares (Otero, 2016). Conquanto o crescimento da população 
venha diminuindo a partir de 1990, a mancha de ocupação urbana se expande cada vez mais de 
forma fragmentada para diferentes regiões, em conformidade com a ampliação do perímetro 
urbano. Nesse cenário, o setor industrial sofre queda de 16,48% em 1996 e é ultrapassado pelo 
setor de serviços, que atinge 54,02% do VA (IPEA-Data). A participação do setor industrial na 
economia local continuou diminuindo, caindo ao patamar de 30,44% (metade do que era em 
1980), enquanto o setor de serviços chegou ao seu maior índice com 54,53%. 
 
Figura 1. Evolução da ocupação urbana de Piracicaba (Elaboração própria com dados de PIRACICABA, 2019) 
A escala físico-territorial também permite ilustrar os caminhos percorridos pela urbanização ao 
longo das duas últimas décadas. Em movimento diferente de outras cidades brasileiras, embora 
Piracicaba tenha reproduzido o padrão de desenvolvimento centro-periférico, até o início do 
século XXI os estratos de mais alta renda se mantiveram residindo na região central, refletindo o 
atraso da oferta de loteamentos fechados (Otero, 2016). 
Todavia, gradualmente este produto imobiliário se difundiu entre os segmentos de média e alta 
renda, sobretudo a partir de 2000. Isso implicou na movimentação interna desta população em 
INTERIORIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO E SEUS EFEITOS 
URBANISTICOS EM CIDADES MÉDIAS PAULISTAS 27 
 
 
direção às áreas mais remotas em relação ao centro da cidade (Otero, 2016). Ademais, é possível 
observar que “as estratégias de expansão urbana de Piracicaba prosseguem com a ampliação do 
perímetro urbano formando novas periferias que são ocupadas por núcleos urbanos isolados, 
muitos implantados pelo poder público como resposta à demanda de HIS” (Maia, 2019, p. 131). 
3.2 O caso de Limeira 
Limeira é a segunda maior cidade da AUP e um importante polo regional, estrategicamente 
localizada no complexo rodoviário do interior, margeada pelas Rodovias Anhanguera (SP-330) e 
Bandeirantes (SP-348). Essa localização facilita sua ligação com as demais cidades interioranas e 
com a RMSP. Em 2010 possuía 276.022 habitantes, 267.785 na zona urbana e 8.237 na zona rural. 
Com economia marcada até final da década de 1990 pelo setor industrial, em 2017 a participação 
do seu PIB para o estado de São Paulo foi estimada 0,57% (SEADE). 
Três aspectos foram fundamentais para o desenvolvimento do município: i) enriquecimento 
associado à cafeicultura; ii) movimento imigratório europeu dirigido às lavouras de café; e iii) 
infraestrutura viária, rodoviária e ferroviária. Originalmente vinculada à cana-de-açúcar e depois à 
cafeicultura (Mineo, 2016) a citricultura também foi marcante na agricultura limeirense. Ademais, 
soma-se sua estratégica disposição regional, a qual permitiu o avanço da urbanização e incipiente 
industrialização relacionada à evolução econômica estadual (Taufic, 2014). A industrialização 
esteve associada à agroindústria pela produção de máquinas e equipamentos para a cafeicultura 
e cana-de-açúcar, e também aos cítricos (Mineo, 2016). 
Desde 1930, Limeira já se dedicava à atividade fabril, têxtil e de papelão (Busch, 1967 apud Maia, 
2019), e na década de 1950 – com urbanização de 64,5% – este setor se consolidou, prevalecendo 
até meados da década de 1990 (Maia, 2019; IPEA-Data). Até 1949, mais de 80% do Valor 
Adicionado era representado pela agropecuária (41,69%) e indústria (39,46%) (IPEA-Data; IBGE). 
Até 1950, a taxa de crescimento anual da população ainda era baixa, mas doravante, com a 
transição rural-urbana e os processos migratórios, o ritmo de crescimento foi acelerado (Tabela 
2). A ocupação urbana inicial, que se dera às margens do Ribeirão Tatu e junto da ferrovia, 
começou despontar: concentrada até então, a partir de 1960 há abertura de novos loteamentos e 
se notam os primeiros sinais de dispersão da ocupação urbana (Maia, 2019). 
Tabela 2. Taxa Geométrica de Crescimento Anual da População de Limeira (1940-2010) 
1940 - 1950 1950 - 1960 1960 - 1970 1970 – 1980 1980 - 1991 1991 - 2000 2000 – 2010 
0,32% 2,75% 4,12% 5,17% 2,97% 2,03% 1,03% 
Fonte: Elaboração própria com dados do IBGE, Censos Demográficos, 1940-2010. 
O acesso à Rodovia Anhanguera desde 1948 facilitou a atração de novas indústrias para a cidade, 
e as manufaturas mais antigas localizadas originalmente próximas à ferrovia também foram 
realocadas contíguas à rodovia. Fato é que a Rod. Anhanguera passou a exercer forte atração na 
direção do desenvolvimento urbano. Desde 1960 tornava-se clara a expansão do setor industrial, 
tanto no tocante às plantas fabris já existentes quanto às novas de ramos já consolidados 
(Queiroz, 2007). Até o início da década de 1960, este setor representava quase 47% do Valor 
Adicionado e continuou a crescer nos anos seguintes (IDEA-Data). 
Assim, “Limeira foi uma das expoentes da modernização agrícola que caracterizou a política 
econômica do regime militar” (Taufic, 2014, p. 53-54):grandes complexos agroindustriais foram 
28 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
implantados nesse período, com produção de insumos e maquinários e alimentos processados, 
com destaque para o suco de laranja, alinhado desde o plantio até comercialização das frutas. 
A urbanização refletiu a busca pelos benefícios da expansão econômica e as variações 
demográficas estão relacionadas ao crescimento vegetativo, mas também ao êxodo rural e à 
migração originária de outros estados e de cidades do interior, conquanto se tenha relato 
também de movimento migratório capital-interior entre 1970-1980 (Queiroz, 2007). 
Até a década de 1970, Limeira possuía perfil econômico predominantemente industrial (57,73% 
do VA, segundo maior valor já registrado), e populacional majoritariamente urbano. Com uma 
população total de 90.963 habitantes em 1970, o grau de urbanização no período alcançou 
84,84%, enquanto a taxa de crescimento populacional já era de quase 4,12% entre 1960-1970 
(IPEA-Data; IBGE). 
Em relação à produção do espaço urbano, a ocupação inicial que antes havia se dado em torno do 
Ribeirão Tatu e da ferrovia, há tempos demonstrava indícios de uma ocupação dispersa para 
diferentes regiões, porém, ainda contida em grande medida pelo perímetro urbano (Figura 2). 
A partir da década de 1970, a modernização agrícola movimentou outros setores interligados: 
comercialização, logística, venda e aluguel de equipamentos, setor financeiro, indústria de 
maquinários e construção civil. Ademais, empresas multinacionais, investimentos no setor metal-
mecânico, indústrias de produção de papel e bens de consumo também compuseram a 
diversificada estrutura econômica que evoluiu no início da década de 1980. E mesmo com a crise 
desse período – marcada pela crise fiscal do Estado, elevação do desemprego e alta na inflação –, 
a economia local se manteve relativamente preservada devido aos crescentes investimentos que 
se traduziriam no aumento das exportações industriais (Taufic, 2014). 
Esses fatores foram determinantes para a urbanização. Entre 1970-1980, a ocupação urbana já 
não poderia mais ser contida no perímetro antes estabelecida até 1970. À vista disso, uma nova 
ampliação é feita pelo acréscimo de mais de 7 km² de área urbana que, ao atingir a barreira física 
imposta pela Rodovia Anhanguera a Leste da cidade, ampliou e direcionou o desenvolvimento 
urbano para as regiões opostas: Oeste, Norte e Sul. 
De 1980 a 1991 a taxa de crescimento apresentava indícios de refreamento. Na década de 1990, a 
cidade possuía 207.770 habitantes, segundo o Censo Demográfico do IBGE, sendo 177.934 deles 
urbanos e 29.836 rurais. O peso da indústria representava na época 66,43% do Valor Adicionado, 
seguida de 29,9% do setor de serviços. Na esfera territorial este “não foi um período de grandes 
expansões, limitando-se aos loteamentos construídos em algumas áreas, gerando o aparecimento 
de vazios urbanos próximos à malha urbana e outros mais distantes” (Queiroz, 2007, p. 132). 
Embora de forma mais branda, a população continuou a crescer ao longo da década de 1990, com 
ritmo de crescimento de 2,79% entre os anos de 1991 e 2000. Até o começo do século XXI a 
urbanização já havia atingido seu limite máximo de crescimento na direção Leste, em direção à 
Rodovia Anhanguera. Assim, outras duas novas frentes de expansão foram estabelecidas, nas 
regiões Oeste e Sul. Semelhante ao que ocorreu em Piracicaba, a ocupação urbana se prolongou. 
INTERIORIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO E SEUS EFEITOS 
URBANISTICOS EM CIDADES MÉDIAS PAULISTAS 29 
 
 
Figura 2. Evolução da ocupação urbana de Limeira (Elaboração própria com dados de LIMEIRA, 2019) 
Ao final da década de 1990 a área do perímetro urbano é ampliada de forma exponencial. De 
1997 a 1999 houve um incremento no perímetro urbano de quase 80 km², agregando grande área 
aos limites urbanos. Parcela significativa dessa ampliação diz respeito ao corredor industrial 
criado em torno da Rodovia Anhanguera e que se estende até o limite municipal de Americana, 
onde hoje estão instaladas várias plantas industriais. 
A partir de 1996 se observa uma inversão no protagonismo da atividade econômica do município, 
caracterizado pela ascensão do setor de serviços, que representou quase 50% do Valor 
Adicionado nos anos de 1996, 2000 e 2010. Em contraste, a indústria assume posição secundária, 
não deixando, contudo, de ser uma atividade econômica proeminente apesar da diminuição de 
sua participação, chegando a 35,68% no último período. Nas duas últimas décadas ambas as 
participações se estabilizaram (IPEAD-Data). Como resultado, Limeira se consolidou como um 
relevante polo regional industrial e de serviços. 
Em 2001 a cidade passa a ser acessada pela Rodovia dos Bandeirantes. Desde então, se a 
urbanização já se encaminhava nessa direção, de agora em diante esse movimento é acentuado. 
As regiões Oeste e Sul, portanto, ganham maior vigor nas últimas duas décadas por serem 
territórios nos quais se observa a implantação de novos empreendimentos habitacionais públicos, 
além dos novos loteamentos privados de caráter popular. 
30 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Em relação ao perímetro urbano, de 2001 a 2019 houve alterações que resultaram no incremento 
de aproximadamente 6 km² de área urbana, com destaque para a região Norte, onde alguns dos 
mais recentes loteamentos fechados vêm sendo implantados. Entre 2000 e 2010 se registrou a 
menor taxa de crescimento da população desde a década de 1950, de 1,03% ao ano. Além disso, 
as barreiras físicas antes impostas pelas duas rodovias logo foram transpostas pela abertura de 
loteamentos privados abertos e fechados. Ambas as rodovias contribuíram para o direcionamento 
sentido Norte e Sul da ocupação da mancha urbana. 
3.3 Síntese comparativa 
Piracicaba e Limeira se beneficiaram da expansão da economia nacional a partir da década de 
1970 através da desconcentração industrial e da interiorização do desenvolvimento. Em 
consequência, sobressaiu a forte participação industrial, embora mais recentemente este setor 
venha progressivamente perdendo espaço para o de serviços, tendência observada nos dois 
municípios já ao final da década de 1990. 
A trajetória ascendente do PIB (Figura 3) e o crescimento econômico verificado de 1970 a 1980 
foram os maiores registrados nesses municípios. Em Piracicaba, o PIB mais que triplicou (3,4%), 
enquanto em Limeira quase triplicou (2,7%). Ao longo dos anos, principalmente em função da 
crise econômica internacional, houve retração do PIB, enquanto Limeira continuou a crescer 
ainda que com índices menores. 
 
Figura 3: Evolução do PIB de Piracicaba e Limeira – 1970-2010 [em R$ de 2000] 
(Elaboração própria com dados do IPEA-Data). 
Com índices semelhantes de crescimento do PIB entre 1996-2000, Piracicaba cresceu 1,26% e 
Limeira, 1,36%, demonstrando que a recuperação econômica ocorria a partir dos anos 2000, 
juntamente com a inversão do perfil econômico predominante. Em 2010, o PIB de Piracicaba volta 
a dar indícios de crescimento com taxa de 1,46%, enquanto o de Limeira retrai para 1,25%. 
Apesar das particularidades, as trajetórias desses municípios têm aspectos semelhantes. Em 2018, 
Piracicaba e Limeira foram classificadas como Capitais Regionais C, isto é, “centros urbanos com 
INTERIORIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO E SEUS EFEITOS 
URBANISTICOS EM CIDADES MÉDIAS PAULISTAS 31 
 
 
alta concentração de atividade de gestão com alcance menor em termos de região de influência 
em comparação com as Metrópoles” (IBGE, 2020, p. 11); ou seja, são centros intermediários 
demandados regionalmente por cidades menores para atividades econômicas, de serviços, 
educacionais, culturais, de lazer, dentre outros. 
A análise dos efeitos desse processo exclusivamente por indicadores econômicos certamente 
ocultaria as contradições sociaise urbanas que emergiram, bem como o acirramento da relação 
entre “crescimento econômico e pauperização de vastas parcelas das classes trabalhadoras” 
(Kowarick, 1979, p. 29), reproduzindo fenômeno originalmente associado às grandes metrópoles. 
Isto ocorre pelo fato de que o crescimento econômico não foi absorvido homogeneamente no 
espaço urbano, muito menos pelos seus habitantes. Nesses termos, o paradoxo central reside no 
caráter assumido pelo processo de urbanização, que materializa no espaço urbano a lógica da 
acumulação capitalista (Carlos, 2018). São estes os aspectos analisados a seguir. 
4 A PROBLEMÁTICA URBANA E O MODELO DE DESENVOLVIMENTO ADOTADO 
A interiorização do desenvolvimento contribuiu para que cidades médias se afirmassem como 
economias urbanas marcadas pelo setor industrial até os dias de hoje. Não obstante, esse 
processo foi marcado por importantes distorções na conformação do espaço urbano porque a 
relação entre expansão econômica e produção do espaço foi acompanhada do surgimento e 
acirramento de diversos conflitos e problemas urbanos. 
Dessa forma, problemas antes restritos às metrópoles também migraram para as cidades médias 
do interior paulista (Negri, 1996). Em consequência, cidades beneficiadas pelo impulso econômico 
passaram a conviver com problemas relacionados à pauperização do ambiente urbano a partir da 
precarização das condições urbanísticas e habitacionais, carência de serviços e infraestrutura, 
concentração de renda e fundiária, periferização, piora nas condições de vida da população de 
menor renda (Cano, 2011). 
No caso de Piracicaba, a ocupação urbana inicial se manteve concentrada na margem esquerda 
do Rio Piracicaba. No entanto, a partir dos anos de 1960, a cidade começou a se expandir 
rapidamente de forma cada vez mais fragmentada. Essa inflexão se caracterizou pela abertura de 
novos loteamentos públicos e privados – viabilizados pela progressiva expansão do perímetro 
urbano –, assegurando a continuidade do espraiamento da ocupação urbana (Pólis, 2003). 
Devido à modernização da agricultura, o êxodo rural foi intensificado e a cidade passou a exercer 
forte atração de mão de obra. E justamente no final da década de 1960 e em meados do decênio 
seguinte se observa o empobrecimento e o fenômeno da favelização dos trabalhadores não 
qualificados recém-chegados à cidade, expressão da concentração fundiária com reflexos no 
assentamento da população de baixa renda em áreas periféricas. 
A partir da década de 1970 a situação se torna mais crítica: migrantes chegavam atraídos pelas 
oportunidades de empregos das novas indústrias, principalmente aquelas ligadas à construção 
civil, à agroindústria canavieira e ao segmento metal-mecânico. Contudo, face à incapacidade 
desses segmentos absorverem a mão de obra disponível (e excedente), muitos se viam 
desempregados ou trabalhavam no corte da cana-de-açúcar e em outras atividades de menor 
qualificação. Em consequência, a demanda por moradia dessa parcela da população não será 
atendida. Portanto, poucas foram as alternativas para que essas pessoas pudessem resolver por 
conta própria esta e outras carências que passaram a ter no ambiente urbano (Terci, 2009). 
32 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Assim, “o crescimento econômico do município, um dos grandes beneficiados pelo processo de 
desconcentração industrial no período pós-1970, teve resultados muito desiguais na sociedade 
local, sendo apropriado de maneira desequilibrada entre os distintos segmentos sociais” (Otero, 
2016, p. 126). Nesse mesmo período inicia-se a produção pública de habitação como medida para 
ampliar a oferta habitacional. Na ocasião, os primeiros conjuntos financiados pelo Banco Nacional 
de Habitação (BNH) e realizados pela COHAB-Bandeirante já sinalizavam as áreas nas quais a 
população de menor rendimento seria alocada: regiões Sudeste e Noroeste. 
Isto não ocorreu somente pela implantação de conjuntos habitacionais de iniciativa pública, mas 
também privada, assim como pela favelização crescente. A classe trabalhadora recém-chegada foi 
submetida à segregação tanto em conjuntos habitacionais quanto ao recorrer às favelas que se 
formavam – neste caso, com maior vulnerabilidade. 
Face à crise econômica da década de 1980, esse quadro se intensificou pelo adensamento e 
ampliação das favelas (Otero, 2016). E apesar das tentativas de remoção dessas favelas por meio 
do Programa de Financiamento de Lotes Urbanizados (PROFILURB), no bojo do BNH, houve forte 
resistência desses moradores, pois a solução proposta consistia em realocá-los em áreas ainda 
mais afastadas (Goulart; Terci; Otero, 2017). 
Os espaços conformados por essas ocupações – que disputam áreas periféricas com os conjuntos 
habitacionais em sua maioria nas regiões Oeste e Noroeste – congregam simultaneamente três 
elementos: i) espaços de moradia da força de trabalho; ii) ausência estatal e; iii) precariedade 
habitacional e urbana (Marques, 2005). 
Reproduziu-se assim a clivagem centro-periferia na produção do espaço urbano. Esse padrão foi 
dominante entre as décadas de 1940 e 1980 nas cidades brasileiras, configurando-as de forma 
que os diferentes grupos socioeconômicos estão nitidamente separados no território: residem 
nas áreas centrais consolidadas e são mais bem atendidas pelos serviços e infraestrutura urbana 
as populações de média e alta renda, na mesma medida em que se reservam as áreas periféricas 
para os estratos sociais mais baixos (Caldeira, 2003). 
Esse cenário sofrerá mudanças na transição do séc. XX para o séc. XXI, quando se disseminam os 
enclaves fortificados (espaços privados para moradia, lazer, consumo, cuja expressão mais 
saliente é a do condomínio fechado horizontal), e os segmentos de maior renda também passam 
a eleger as áreas periféricas para moradia. No caso de Piracicaba, com destaque para as regiões 
Oeste, Norte e Sul, reforçando o quadro de dispersão e fragmentação do espaço urbano. 
Embora o crescimento demográfico tenha diminuído, “a redução do ritmo de crescimento 
populacional não se fez acompanhar de um desaquecimento da expansão urbana” (Goulart; Terci; 
Otero, 2017, p. 74). Desse momento em diante o ritmo de produção de novos loteamentos 
abertos e fechados se acelerou, impactando a contínua expansão horizontal da mancha urbana 
mais do que em períodos anteriores. Entre 2000 e 2010, Piracicaba chega quase a triplicar a 
ocupação de sua área urbanizada, período no qual ocorreram nove aumentos da área do 
perímetro urbano, sem que para tanto fosse pensada a ocupação de vazios urbanos, os quais, já 
em 2003, correspondiam a quase 50% da área urbana (Pólis, 2003; Maia, 2019). 
Na última década, principalmente a partir do lançamento do Programa Minha Casa Minha Vida, 
(PMCMV), a expansão urbana foi caracterizada por uma produção pública do espaço urbano a 
partir de dois aspectos: pela implantação de novos conjuntos habitacionais nas franjas urbanas e 
INTERIORIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO E SEUS EFEITOS 
URBANISTICOS EM CIDADES MÉDIAS PAULISTAS 33 
 
 
também pela demarcação das Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), que reproduziram a 
mesma lógica dispersa, implantadas especialmente no extremo Noroeste da mancha urbana. 
Em 2016, a ocupação urbana nessa região já havia atingido os limites do perímetro urbano. Ao 
que tudo indica, em resposta a essa barreira ao crescimento futuro da mancha urbana, o novo 
Plano Diretor de Desenvolvimento de Piracicaba (Lei Complementar n. 405, de 2019) previu nessa 
mesma área a ampliação do perímetro urbano, mediante conversão de uma antiga Zona Industrial 
(ZI) em Zona Urbana de Contenção (ZUCO). Tal medida acrescentaria uma ZEIS-1 voltada para a 
promoção pública habitacional de interesse social. Tal escolha indica continuidade na tendência 
de avanço da urbanização sobre essa região, na mesma medida em que deixa para trás uma 
quantidadeexpressiva de vazios urbanos. 
Em Limeira ocorreu processo semelhante de espraiamento da ocupação urbana. Até a década de 
1950 a área ocupada pela mancha urbana permaneceu concentrada, embora já houvesse sinais 
de dispersão. Essa concentração inicial se deu estrategicamente às margens do Ribeirão Tatu e 
junto ao leito ferroviário, servindo de base para as primeiras indústrias do município, assim como 
de comércio e serviços. A disseminação do rodoviarismo no país, a partir do governo de Juscelino 
Kubitschek, se fez sentir no município através da chegada da Rod. Anhanguera: esta rodovia 
passou a exercer forte influência nos rumos da urbanização local, principalmente pela atração de 
plantas industriais, além da abertura de novos loteamentos residenciais que se seguiram. 
A década de 1960 foi marcada pela abertura de novos loteamentos de pequeno porte que 
passaram a ocorrer próximos às áreas de maior crescimento industrial e comercial, contíguos à 
ferrovia e à Rod. Anhanguera, nas regiões Noroeste e Sudeste. O desenvolvimento urbano 
progressivamente abandona o modelo concentrado, uma vez que, para além dos dois eixos 
mencionados, os setores Oeste e Sul também foram sendo ocupados a partir de um padrão 
disperso de produção do espaço urbano. Essas áreas, contudo, ficaram reservadas aos estratos de 
menor renda, enquanto a população de média e alta renda se manteve na área central. Entre 
1950-1960 a área urbana quase dobrou (Queiroz, 2007). 
Doravante, os efeitos socioespaciais se fizeram sentir pela ocupação dos antigos vazios urbanos a 
Leste da cidade, que continuavam sendo atrativos pela proximidade com as indústrias (Queiroz, 
2007). A aceleração do crescimento demográfico passou a demandar mais espaço para a fixação 
do novo contingente populacional, o que resultou na aceleração da produção do espaço urbano e 
em alterações na legislação urbanística que permitiram, por exemplo, a ampliação do perímetro 
urbano e ampliação da infraestrutura viária (Maia, 2019). 
A década de 1970 registra extensão e ampliação da malha urbana em todos os sentidos, mediante 
a abertura de novos loteamentos privados, implantação de conjuntos habitacionais pelo poder 
público, e também pela ocupação de alguns dos antigos vazios urbanos existentes, enquanto se 
criavam outros, em nítido movimento de distanciamento da área central; assim “o mercado 
imobiliário em ação conjunta com o Estado promoveu a grande segregação social, induzindo a 
classe pobre a ocupar áreas periféricas” (Queiroz, 2007, p. 24). 
Direcionados ao atendimento da massa trabalhadora recém-chegada, diversos conjuntos 
habitacionais de interesse social foram implantados pelo poder público entre as décadas década 
de 1960 e 1980 – a maioria com recursos do BNH por meio de conjuntos residenciais de médio 
porte –, todos localizados em áreas periféricas. Entre 1970 e 1980 se registrou a maior taxa de 
34 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
crescimento anual da população e, por conseguinte, maior ocupação da malha urbana verificada 
no intervalo de 1960-2000. 
A implantação desses conjuntos habitacionais, com destaque para as regiões Leste, Sul e 
Noroeste, impulsionaram a expansão urbana, pois a partir deles se seguiram outros loteamentos 
privados populares. Tal movimento estimulou novos vetores de expansão, que eram apoiados por 
obras públicas de infraestrutura urbana, com ênfase na mobilidade (Manfredini, 2005). 
Em comparação com Piracicaba, o quadro de precariedade urbana e habitacional em Limeira foi 
relativamente menor. O cenário do começo dos anos de 1990 é de uma cidade que continuava a 
crescer, embora em ritmo mais moderado, e que aflorava ocupações de terras em bairros mais 
distantes e relativamente próximos a conjuntos habitacionais, bem como abertura de 
loteamentos irregulares, todos protagonizados pela população de menor renda. Embora não 
houvesse favelas, a Prefeitura enfrentou a questão através da criação de uma comissão de 
desfavelamento cujo objetivo era desmontar barracos e direcionar essas famílias, em alguns 
casos, para outros programas habitacionais (Queiroz, 2007). 
A partir da década de 1990, a urbanização é direcionada às regiões Sul e Sudoeste, 
caracterizando-se por um crescimento contínuo da malha existente. Constrangido pela antiga 
legislação, o perímetro urbano logo teve houve expressiva ampliação, especialmente a Sudoeste. 
O mesmo aconteceu com a região da Rod. Anhanguera, que, ao ser atingida pela urbanização, se 
tornou uma barreira física à expansão territorial. Com isso, novos eixos são escolhidos para 
adensamento da população de baixa renda: Noroeste, Sul e Sudoeste. Assim, ao longo das 
próximas décadas, principalmente a partir da inauguração da Rodovia dos Bandeirantes, estes se 
tornariam importantes eixos de implantação de loteamentos e conjuntos habitacionais públicos e 
privados destinados aos segmentos populares (Maia, 2019). 
Para reforçar a fragmentação urbana e a segregação socioespacial, nesse momento se 
popularizam os loteamentos fechados, que passam a atrair os estratos de maior renda para as 
regiões Norte e Oeste (Maia, 2019), ocupação com o suporte de obras de infraestrutura viária. 
Com a quadruplicação da população do município e o padrão descontínuo de ocupação, não 
tardou para que problemas relacionados à mobilidade urbana aflorassem devido ao não 
dimensionamento do fluxo de veículos, o que resultou em uma série de dificuldades relacionadas 
ao tempo de deslocamento e desvios de percursos (Manfredini, 2005). 
No limiar do séc. XXI, a taxa de crescimento da população e a aprovação de novos loteamentos 
residenciais diminuíram. Além disso, as novas áreas acrescidas à malha urbana conseguiram 
manter relativa continuidade pela ocupação dos vazios urbanos criados nas décadas anteriores. 
Isto não implicou, entretanto, no congelamento do perímetro urbano, que ainda passou por 
outras ampliações, embora menores (Maia, 2019). Exemplo disso foi a mais recente ampliação, 
em 2019, em território no qual foram implantados loteamentos fechados. Isto pode indicar para 
onde serão direcionados os estratos de mais alta renda nos próximos anos. 
A configuração socioterritorial de Limeira reproduz a segregação socioespacial típica das cidades 
brasileiras. Embora não haja favelização, a população de baixa renda é direcionada para áreas 
periféricas através das políticas públicas de habitação social ou pela abertura de loteamentos 
privados para locais altamente adensados em relação ao centro. 
INTERIORIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO E SEUS EFEITOS 
URBANISTICOS EM CIDADES MÉDIAS PAULISTAS 35 
 
 
Na mesma medida, as áreas centrais vêm perdendo população pelo abandono dos estratos de 
mais alta renda, que optam, agora, pelo produto imobiliário dos loteamentos fechados também 
em áreas periféricas, com a ressalva de que essa população dispõe de meios e recursos para sanar 
por conta própria suas necessidades. Com isso, áreas mais afastadas da cidade também passam a 
ser ocupadas pelos enclaves fortificados, que vêm se sobrepondo ao padrão histórico centro-
periferia. Entretanto, apesar da relativa proximidade, os diferentes grupos sociais continuam 
separados por muros e pelas tecnologias de segurança, da mesma forma que pelo padrão da 
moradia ou ainda pelo acesso desigual à infraestrutura (Caldeira, 2003). 
A considerar os elementos marcantes da urbanização brasileira no século XX, nota-se seu caráter 
espoliativo tanto na exploração do trabalho quanto no ambiente urbano, sobretudo, a partir da 
década de 1970. A conformação de nossas cidades foi acentuadamente caracterizada pela 
precariedade urbanística (Kowarick, 1979; Goulart; Terci; Otero, 2017) e consequente segregação 
socioespacial8, realidade que se reproduziu nas cidades aqui analisadas. 
Apesar da precariedade urbanística, Piracicaba e Limeira registram melhora nos indicadores de 
desenvolvimentohumano, principalmente no acesso a serviços de abastecimento de água, 
energia elétrica e coleta de lixo. A partir de 1991 até 2010, ambas as cidades progrediram no 
patamar de atendimento nos três itens de quase 100% da população, com a ressalva de que 
Piracicaba, no quesito água encanada, se situava em 98,17 em 2010, enquanto os demais se 
encontravam todos acima de 99% no mesmo ano (PNUD; IPEA; FJP, 2013). Isto sinaliza o avanço e 
a tendência de universalização do acesso à infraestrutura.9 
Mudanças semelhantes podem ser observadas nos dados socioeconômicos (Tabela 3). Como 
reflexo do aumento do PIB ao longo das últimas décadas, também há elevação da renda per 
capita nas duas cidades. A porcentagem da população pobre e extremamente pobre em 
Piracicaba e Limeira vem experimentando queda. Em 2000 o número de pessoas vivendo em 
situação de extrema pobreza aumentou, conquanto voltasse a cair na última década. 
Tabela 3. Renda, Pobreza e Desigualdade em Piracicaba e Limeira (1991-2010) 
 
Piracicaba Limeira 
 1991 2000 2010 1991 2000 2010 
Renda per 
capita (R$) 
716,25 899,91 1.143,20 565,26 732,60 910,85 
Extremamente 
pobres (%) 
1,19 1,58 0,94 1,56 2,16 0,85 
Pobres (%) 7,39 6,85 3,11 8,56 8,47 3,25 
Índice de Gini 0,50 0,53 0,52 0,47 0,52 0,48 
Fonte: Elaboração própria com dados do PNUD; IPEA; FJP, 2013. 
 
8
 “Por segregação se nomeavam os heterogêneos processos que produziam separação e concentração de grupos 
sociais, assim como produziam e reproduziam desigualdades sociais no espaço” (MARQUES, 2005, p.31). 
9
 Para uma análise da expansão da oferta de serviços e de infraestrutura urbana no Brasil nas últimas cinco décadas, 
suas tendências e distribuição territorial, ver Arretche (2015). 
36 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Outro importante instrumento de aferição de distribuição da riqueza é o Índice de Gini10, que 
mede o grau de concentração de renda. Em Piracicaba, mesmo tendo aumentado em 2010, 
mostra uma tendência estável. Já em Limeira, apesar do aumento em 2000, se observa uma 
queda em 2010, voltando a atingir patamar semelhante ao de 1991. 
Mudanças dessa natureza não ocorrem sem que aconteçam melhorias nos Índices de 
Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). No mesmo recorte temporal, Piracicaba tinha um 
desempenho de 0,580 em 1991, mas salta para 0,785 em 2010. Na mesma direção, Limeira tinha 
baixa performance de 0,561 em 1991, atingindo 0,775 em 2010. Em ambos os casos, a 
longevidade foi a variável que mais contribuiu para a elevação do IDHM (PNUD; IPEA; FJP, 2013). 
No caso de Piracicaba, “apesar das melhorias é possível identificar a permanência de bolsões de 
miséria e precariedade representados pela persistente favelização” (Goulart; Terci; Otero, 2017, 
p. 67). Embora o cenário atual desses espaços precarizados seja distinto daquele da segunda 
metade do séc. XX – face à melhoria do acesso à infraestrutura –, permanece a insegurança 
jurídica na posse e na propriedade do imóvel, bem como a inadequação físico-construtiva. Já em 
Limeira, que não registra favelização, ainda se convive com a clara segregação de grupos 
socioeconômicos e com a precariedade habitacional dos núcleos residenciais originários de 
ocupação irregular e posteriormente regularizados. 
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
A interiorização do desenvolvimento no Brasil transcorreu com o concurso decisivo do Estado, 
promoveu crescimento econômico sem correspondência na democratização da riqueza, teve 
ênfase industrializante e incidiu na reconfiguração urbana de cidades médias como Piracicaba e 
Limeira, as quais passaram a reproduzir em menor escala os problemas típicos das grandes urbes. 
O modelo de desenvolvimento adotado – se é verdade que promoveu modernização em alguma 
medida, expansão industrial e mesmo elevação das receitas dos municípios – desconcentrou 
problemas estruturais recorrentes antes privativos das grandes cidades, a saber: desigualdades 
sociais extremas, aumento da violência, especulação imobiliária, apartação socioterritorial, 
favelização, periferização, degradação ambiental e intensificação do déficit habitacional. 
O componente industrial polarizou as economias locais e impactou decisivamente a produção do 
espaço urbano, cuja expansão ilimitada acarretou diversos gargalos de infraestrutura e reproduziu 
o padrão de segregação socioespacial característico da urbanização brasileira da segunda metade 
do séc. XX. As periferias foram os territórios destinados à população de baixa renda por meio da 
oferta de empreendimentos habitacionais públicos e privados, nos quais sobressaem 
precariedade urbanística e renitente déficit habitacional. 
Merece ênfase a constatação de que esse cenário foi possível graças à política de progressiva 
ampliação do perímetro urbano patrocinada pelos governos locais das duas cidades: o formato 
dispersivo da ocupação urbana foi determinante para pomover a estratificação territorial dos 
diferentes grupos sociais, mantendo intocada a estrutura fundiária. 
 
10
 “Numericamente, [o Índice de Gini] varia de 0 a 1, sendo que 0 representa a situação de total igualdade, ou seja, 
todos têm a mesma renda, e o valor 1 significa completa desigualdade de renda, ou seja, se uma só pessoa detém toda 
a renda do lugar” (PNUD; IPEA; FJP, 2013). 
INTERIORIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO E SEUS EFEITOS 
URBANISTICOS EM CIDADES MÉDIAS PAULISTAS 37 
 
 
Todos esses componentes foram comuns em Piracicaba e Limeira, no entanto, há uma diferença 
importante entre elas. O fenômeno da favelização em Piracicaba, não registrado em Limeira, 
suscita hipóteses explicativas exploratórias e complementares. Em primeiro lugar, pela escala 
demográfica e pelo perfil socioeconômico da população migrante: Piracicaba não só tem 
população comparativamente maior como grande parte dos migrantes que chegou à cidade tinha 
baixa qualificação profissional. Em segundo lugar, considerável parcela da oferta de emprego 
estava associada à agroindústria canavieira, que comporta a constituição de um mercado de 
trabalho intermitente com relativa autonomia de setores mais modernos, como, por exemplo, na 
atividade não mecanizada de corte e colheita da cana-de-açúcar.11 
Em que pese o papel central do segmento industrial a partir da década de 1970 e seus efeitos 
urbanísticos, no período contemporâneo as economias locais registram proeminência do setor 
terciário e disseminação de enclaves fortificados, característica original que se sobrepõe ao 
padrão centro-periferia predominante. Mas a paisagem urbana dessas cidades médias ainda 
guarda as marcas de um modelo de desenvolvimento de fortes contrastes, cuja característica 
distintiva é a segregação socioespacial. 
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11
 Sobre a formação e dinâmica do mercado de trabalho local, ver Maluf (1984) e Terci (2009). 
https://emplasa.sp.gov.br/AUP
38 
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2009. Disponível em: <https://www.hehe.org.br/index.php/rabphe/article/view/11>. 
AGRADECIMENTOS 
Os autores registram sua gratidão à CAPES pela concessão de bolsa de Mestrado da pesquisa que originou o 
presente artigo e à profª. Eliana T. Terci (ESALQ/USP) pelos valiosos comentários preliminares ao texto. 
AUTORES 
Jefferson O. Goulart: Doutor em Ciência Política pela USP com pós-doutorado em Sociologia Urbana pela 
Universidad Complutense de Madrid; professor do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e 
Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da UNESP-Bauru; pesquisador do 
Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec) e líder do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento 
Urbano Contemporâneo (CNPq). Currículo completo em: http://lattes.cnpq.br/9836721472635346. 
Bárbara C. Damasceno: Arquiteta e urbanista formada pela Faculdade de Engenharia, Arquitetura e 
Urbanismo (FEAU) da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) e mestranda do Programa de Pós-
Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da 
UNESP-Bauru. Currículo completo em: http://lattes.cnpq.br/5118665293810977. 
http://atlasbrasil.org.br/2013/
https://www.scielo.br/pdf/rbeur/v20n2/2317-1529-rbeur-20-02-344.pdf
https://www.hehe.org.br/index.php/rabphe/article/view/11
http://lattes.cnpq.br/9836721472635346
http://lattes.cnpq.br/5118665293810977
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SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
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Paisagem e ambiente 
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SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
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Do campo para a cidade: espécies nativas trazidas por 
Frederico Carlos Hoehne de suas viagens pelo Brasil 
Gardênia Baffi de Carvalho 
Marta Enokibara 
RESUMO: Frederico Carlos Hoehne foi um dos 
principais botânicos do início do século XX e trouxe 
grandes contribuições para o campo da botânica, e 
também do paisagismo no Brasil. Com o intuito de 
colaborar para a difusão de espécies nativas que 
poderiam ser utilizadas para arborizar as cidades 
brasileiras, o botânico publica o livro Arborização 
Urbana (Hoehne, 1944), um dos primeiros a tratar 
sobre este tema, se aproximando dos manuais de 
arborização atuais. Em uma comparação feita 
entre o livro e o Manual Técnico de ArborizaçãoUrbana de São Paulo (São Paulo, 2015) foram 
encontradas 91 espécies comuns indicadas 
(Carvalho, 2019). Com o objetivo de verificar a 
procedência das indicações de Hoehne, levanta-se 
a hipótese de que as espécies comuns tenham 
estado presentes ao longo da trajetória 
profissional do botânico, assim sustentando suas 
indicações. Para a comprovação desta hipótese foi 
analisada a documentação relativa às 16 viagens 
realizadas por Hoehne, anteriores à publicação do 
livro Arborização Urbana (Hoehne, 1944), onde foi 
constatada a presença de algumas destas espécies. 
Ao sobrepô-las ao mapa dos biomas do Brasil, de 
acordo com suas localiações mencionadas nos 
documentos, detectou-se a maior concentração no 
bioma da Mata Atlântica, o bioma mais devastado 
do país na atualidade. Neste contexto, o livro 
Arborização Urbana demonstra a atualidade e a 
contribuição do botânico para a preservação das 
árvores nativas, bem como sua difusão no meio 
urbano. 
 
From the countryside to the city: native species 
brought by Frederico Carlos Hoehne from his 
travels in Brazil 
ABSTRACT: Frederico Carlos Hoehne was one of 
the main botanists of the early twentieth century 
and made great contributions to the field of 
botany, as well as landscaping in Brazil. With the 
intention of collaborating for the diffusion of 
native species that could be used to plant trees in 
Brazilian cities, the botanist publishes the book 
Arborização Urbana (Hoehne, 1944), one of the 
first to deal with this theme, approaching the 
current manuals on tree planting . In a comparison 
made between the book and the Technical Manual 
for Urban Arborization of São Paulo (São Paulo, 
2015), 91 common species indicated (Carvalho, 
2019) were found. In order to verify the origin of 
Hoehne's indications, the hypothesis is raised that 
the common species have been present 
throughout the professional career of the botanist, 
thus supporting their indications. To prove this 
hypothesis, the documentation related to the 16 
trips made by Hoehne, prior to the publication of 
the book Arborização Urbana (Hoehne, 1944), was 
analyzed, where the presence of some of these 
species was verified. By superimposing them on 
the map of Brazil's biomes, according to their 
locations mentioned in the documents, the highest 
concentration was detected in the Atlantic Forest 
biome, the most devastated biome in the country 
today. In this context, the book Arborização 
Urbana demonstrates the timeliness and 
contribution of the botanist to the preservation of 
native trees, as well as their diffusion in the urban 
environment. 
Palavras-chave: espécies nativas, Frederico Carlos 
Hoehne, arborização urbana 
Keywords: native species, Frederico Carlos 
Hoehne, urban afforestation 
 
44 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
1 INTRODUÇÃO 
Frederico Carlos Hoehne (1882-1959) foi um dos principais botânicos do início do século XX e 
trouxe grandes contribuições para o campo da botânica e também do paisagismo no Brasil. Além 
das publicações científicas, objetivando que o conhecimento sobre as espécies vegetais brasileiras 
chegasse a todos, Hoehne publicou em jornais, revistas e também livros infantis, com o intuito de 
despertar o interesse e a admiração de todos pela flora nativa. O botânico foi o autor de inúmeras 
publicações, sendo hoje alguns exemplares de difícil acesso, e outros podem ser encontrados no 
Institudo de Botânica de São Paulo. 
Em suas próprias publicações o botânico relata sua trajetoria profissional, os cargos que ocupou, 
as viagens científicas que realizou e obras de sua autoria. Trata-se de uma vida dedicada à 
preservação e à valorização da flora nativa, principalmente da flora paulista, que será aqui 
exposta resumidamente. 
Aos 25 anos, Hoehne iniciou sua carreira no Rio de Janeiro, quando foi convidado para assumir a 
vaga de “Jardineiro-Chefe” do Museu Nacional, no ano de 1907 (Hoehne, 1951). Poucos meses 
depois de iniciar seu trabalho como jardineiro, ele e alguns pesquisadores do Museu foram 
indicados a participar da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas do Mato Grosso ao 
Amazonas, também conhecida como “Comissão Rondon”. Ao ser indicado pelo Secretário do 
Museu Nacional, Hoehne saiu em sua primeira expedição junto à Comissão, no ano de 1908. 
Segundo Sá et al. (2008, p. 790), este foi “um empreendimento marcante que o projetaria como 
botânico profissional perante a sociedade científica brasileira e internacional”. Esta seria a 
primeira de inúmeras viagens realizadas pelo botânico autodidata no território brasileiro. 
Hoehne permaneceu no Museu Nacional por uma década, até que em 1917 foi contratado para 
“criar nos terrenos de Butantã o Horto Oswaldo Cruz” (Hoehne, 1951, p. 73). O Horto foi 
inaugurado oficialmente em 1918 como Horto Oswaldo Cruz, homenagem feita ao sanitarista de 
mesmo nome (Oliveira; Mendonça; Puorto, 2005). O botânico permaneceu no Instituto Butantã 
até 1923, quando a Seção Botânica foi transferida para o Museu Paulista, instituição a qual ficou 
subordinado até o ano de 1928, quando passou a chefiar a “Seção Botânica e Agronomia” do 
Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal (Hoehne, 1951). 
Em 1938 Frederico Carlos Hoehne fundou o Jardim Botânico de São Paulo (Hoehne et al, 1941) e, 
no mesmo ano, a repartição de Botânica, por ele chefiada, conquista autonomia com a criação do 
Departamento de Botânica do Estado, da qual é nomeado Diretor-Superintendente. Em 1942 o 
Departamento se tornou o Instituto de Botânica (Hoehne apud Rocha; Cavalheiro, 2001), 
permanecendo sob a chefia de Hoehne até o ano de 1952, “quando, ao atingir a idade de 70 anos, 
recebeu aposentadoria compulsoriamente” (Silva, 2010, p. 2). 
Tendo em vista sua trajetória profissional, muito conhecimento foi produzido por Hoehne ao 
longo dos anos, e uma vasta produção científica tomou forma, de modo que, de acordo com 
Molina (2016, p. 82), “o grande número de publicações de Hoehne, sobre diferentes assuntos [...] 
torna difícil uma exposição de tudo que foi escrito por esse autor”. Dentre diversas outras 
publicações está o livro Arborização Urbana (Hoehne, 1944) que Hoehne dedica “aos senhores 
Prefeitos”. A intenção do autor era colaborar para a difusão de espécies nativas que poderiam ser 
utilizadas para arborizar as cidades brasileiras. 
DO CAMPO PARA A CIDADE: ESPÉCIES NATIVAS TRADIDAS POR 
FREDERICO CARLOS HOEHNE DE SUAS VIAGENS PELO BRASIL 45 
 
 
Trata-se de um dos primeiros livros a abortar este tema, se aproximando dos manuais de 
arborização atuais. Apresenta relevância por sua atualidade e pela contribuição do botânico para 
a preservação das árvores nativas, e sua difusão no meio urbano. Essa relevância se comprova 
uma vez que ao comparar as espécies arbóreas, indicadas por Hoehne no livro, com as indicadas 
pelo mais recente Manual Técnico de Arborização Urbana da cidade de São Paulo (2015) chegou-
se ao resultado de 91 espécies comuns. Ou seja, das 254 espécies do Manual (2015), 35,8% delas 
já havia sido indicadas por Hoehne em 1944 (Carvalho, 2019). Dentre elas, 85 nativas e 6 exóticas 
(Carvalho, 2019). 
2 OBJETIVO 
Tendo como objetivo verificar a procedência das indicações de Hoehne, levanta-se a hipótese de 
que as 91 espécies comuns entre o livro Arborização Urbana (1944) e o Manual (2015) tenham 
estado presentes ao longo da trajetória profissional do botânico. 
3 ESTRATÉGIA METODOLÓGICA 
Para aferir essa hipótese, a pesquisa analisou os relatórios das viagens que Hoehne realizou pelo 
Brasil, anteriormente à publicação do livro, aferindo quais das 91 espécies estariam presentes 
nestas viagens. As espécies encontradas foram sobrepostas ao mapa dos biomas do Brasil, de 
acordo com suas localizações mencionadas nos documentos, procurando constatar o bioma 
predominante. 
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES 
4.1 As viagens e as espécies 
Ao longo de sua trajetória profissional Hoehnerealizou excursões botânicas, chamadas por ele de 
“viagens” em sua autobiografia (Hoehne, 1951). Nesta mesma publicação o autor lista 15 
“Viagens feitas pelo interior e litoral do Brasil e regiões confinantes de 1908 até 1948” (Hoehne, 
1951, p. 74) e, para cada uma delas, apresenta informações como: o destino, a data e o itinerário 
da viagem. Depois da 15ª viagem Hoehne afirma ter realizado outras, porém “sendo a demora das 
mesmas, em regra, de menos de três dias consecutivos, sua menção discriminada não precisara 
ser feita” (Hoehne, 1951, p. 77). Os relatos destas podem ser encontrados nos Relatórios Anuais 
publicados depois de 1939 pelo instituto de Botânica (Hoehne, 1951, p. 77). 
De posse dessas informações, e com o intuito de investigar as espécies por ele observadas até o 
ano de 1943 (ano em que o livro Arborização Urbana foi redigido), os documentos nos quais 
constam os relatos das viagens foram analisados1 e informações sobre 19 espécies foram 
encontradas. 
 
1
 Um total de 11 publicações, listadas e organizadas em uma tabela presente na Dissertação de Mestrado. Disponível 
em: 
<https://repositorio.unesp.br/handle/11449/183400#:~:text=Hoehne%20%C3%A9%20reconhecido%20como%20um,na
tivas%20para%20a%20arboriza%C3%A7%C3%A3o%20urbana.>. 
46 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Durante o período de 1907 a 1917 Hoehne trabalhou no Museu Nacional, na cidade do Rio de 
Janeiro, e vinculado à esta instituição participou de 4 viagens2. Em sua autobiografia o botânico 
menciona que os resultados destas viagens foram organizados e publicados no Índice bibliográfico 
e numérico das plantas colhidas pela Comissão Rondon nos anos de 1908 até 1923 (Hoehne; 
KUHLMANN, 1951). Neste documento foram encontradas 7 das 91 espécies indicadas por Hoehne 
em seu livro Arborização Urbana (1944) comuns com o Manual (2015), sendo elas: Bowdichia 
virgilioides Kunth., Copaifera langsdorffii Desf., Physocalymma scaberrimum Pohl., Protium 
heptaphyllum (Aubl.) Marchand., Sapindus saponaria L., Tapirira guianensis Aubl., Vochysia 
tucanorum Mart.3 (Carvalho, 2019). 
Nem todo o material colhido em suas viagens chegou até o Rio de Janeiro para ser estudado. 
Hoehne narra duas situações em que muito material que havia sido colhido durante a sua 
segunda viagem tenha se perdido (Hoehne, 1951). 
Em uma publicação de Sampaio (1916), intitulada A flora do Mato Grosso. Memória em 
homenagem aos trabalhos botânicos da Comissão Rondon, o autor divulga 10 mapas, sendo um 
deles referente à trajetória percorrida pelo botânico Frederico Carlos Hoehne. Este mapa, apesar 
de não possuir uma legenda, apresenta as datas e itinerários de três viagens que Hoehne realizou 
junto à Comissão Rondon (Figura 1), de um total de 4 viagens realizadas durante o período que o 
botânico esteve vinculado ao Museu Nacional. Conforme é possível observar na figura a seguir, a 
primeira viagem foi realizada de 1908 a 1909, a segunda de 1910 a 1912 e a terceira de 1913 a 
1914, todas tendo o estado do Mato Grosso como destino. O percurso das mesmas vem descrito 
na Figura 2. 
 
2
 Apesar de serem apresentadas como as primeiras viagens realizadas por Hoehne, segundo sua Autobiografia (1951) o 
autor expõe que “[...] muito antes de iniciar sua carreira de funcionário público, o biografado levou a efeito pequenas 
excursões botânicas para coletar Orchidaceas e outras plantas que cultivava [...]. Assim, levou a efeito excursões de Juiz 
de Fora ao interior do Estado de Minas Gerais, ao Estado do Rio de Janeiro, tendo oportunidade para estudar as Serras 
de Tiradentes e de S. João d’Elrei, Piedade e Curral d’Elrei. Depois que ingressou na Comissão Rondon, teve, entretanto, 
oportunidades muitas para conhecer o interior do país e também da Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia” (HOEHNE, 
1951, p. 74). 
3
 A nomenclatura das espécies apresentadas foram atualizadas por meio do banco de dados The plant list. Disponível 
em: < http://www.theplantlist.org/>. Acesso em: jun. 2018. 
http://www.theplantlist.org/
DO CAMPO PARA A CIDADE: ESPÉCIES NATIVAS TRADIDAS POR 
FREDERICO CARLOS HOEHNE DE SUAS VIAGENS PELO BRASIL 47 
 
 
 
Figura 1. Trajeto realizado por Hoehne em suas três viagens ao Mato Grosso (Sampaio, 1916) 
48 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Figura 2. Um recorte da publicação de Sampaio (1916, p. 19) com a 
discrição do itinerário das três viagens realizadas por Hoehne junto a 
Comissão Rondon (Sampaio, 1916) 
 
Figura 3. Frederico Carlos Hoehne, à 
direita da imagem, durante uma de 
suas viagens junto a Comissão 
Rondon (Kury; Sá, 2017) 
Em 1917, “a convite do Diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, Arthur Neiva” 
(Instituto Butantan, 2019) Frederico Carlos Hoehne se muda para a cidade de São Paulo com o 
objetivo de “criar nos terrenos no Butantã o Horto Oswaldo Cruz, destinado ao cultivo e estudo 
de plantas medicinais e tóxicas” (Hoehne, 1951, p. 73). 
Para o botânico, o herbário lá criado era a base para suas ações, uma vez que “nele eram 
arquivadas amostras vegetais que chegavam para identificação coletadas em expedições e nos 
arredores do Butantan” (Instituto Butantan, 2019). Da 5ª até a 9ª viagem realizada por Hoehne, 
dos anos 1917 a 1923, o botânico se encontrava vinculado à supracitada instituição. 
No ano seguinte de sua contratação, Hoehne fez uma viagem, com destino ao Vale do Ribeira de 
Iguape e Juquiá. Esta merece destaque, uma vez que o botânico esteve acompanhado pelo doutor 
Arthur Neiva, Salles Gomes e Monteiro Lobato. Hoehne não menciona onde foi publicado o 
relatório dessa viagem, o que também acontece com suas viagens seguintes, realizadas nos 
estados do Rio de Janeiro e no interior de São Paulo. Foge à regra, porém, uma viagem por ele 
realizada no ano de 1920, com destino a Minas Gerais. O botânico escreve ter publicado os 
“resultados dessa viagem e as observações feitas, no jornal O Estado de São Paulo, nos dias 29 de 
fevereiro a 2 de março de 1924” (Hoehne, 1951, p. 76), os quais foram encontrados nos arquivos 
online do citado jornal. 
Nos registros contidos no Jornal não são apresentados os nomes das espécies coletadas, mas 
apenas a quantidade por família, por isso não foi possível listar as espécies com as quais o 
botânico teve contato durante essa viagem. 
No período seguinte, do ano de 1923 a 1927, Hoehne esteve vinculado ao Museu Paulista, onde 
realizou quatro viagens. A primeira (10ª viagem, de acordo com sua Autobiografia, publicada em 
1951), ocorreu logo no ano de 1923, para Campos do Jordão, no interior de São Paulo. A viagem 
deu origem à publicação Campos do Jordão – seu clima e fitofisionomia (Hoehne, 1924), na qual 
Hoehne descreve as paisagens por onde passou e algumas espécies que observou pelo caminho. 
DO CAMPO PARA A CIDADE: ESPÉCIES NATIVAS TRADIDAS POR 
FREDERICO CARLOS HOEHNE DE SUAS VIAGENS PELO BRASIL 49 
 
 
Contudo, não foi encontrado o relato de nenhuma das 91 espécies indicadas em seu livro 
Arborização Urbana (Hoehne, 1944) comuns com o Manual (2015). 
As outras três viagens (11ª, 12ª e 13ª, de acordo com sua autobiografia) foram publicadas em 
diferentes fascículos de Observações gerais e contribuições ao estudo da flora e fitofisionomia do 
Brasil (Hoehne, 1942). A 11ª está contida no fascículo I da publicação, intitulado Uma excursão 
botânica ao norte do Estado de São Paulo e regiões limítrofes dos Estados de Minas e Rio de 
Janeiro, realizada de 12 de abril a 5 de maio de 1926 (Hoehne, 1942a), onde foram encontradas 4 
das 91 espécies: Ceiba speciosa (A.St.-Hil.) Ravenna., Copaifera langsdorffii Desf., Euterpe edulis 
Mart., Tipuana tipu (Benth.) Kuntze. A 12ª está presente no fascículo III, intitulado Excursão 
botânica feita pelo Sul do Estado de Minas Geraise as regiões limítrofes do Estado de São Paulo, 
de 12 de Abril a 9 de Junho de 1927, precedida de referências a outras anteriores, nas serras do 
Interior (Hoehne, 1942c), onde foram encontradas 11 espécies: Ceiba speciosa (A.St.-Hil.) 
Ravenna., Copaifera langsdorffii Desf., Cordia trichotoma (Vell.) Arráb. ex Steud., Erythrina crista-
galli L., Guarea guidonia (L.) Sleumer., Handroanthus albus (Cham.) Mattos., Handroanthus 
umbellatus (Sond.) Mattos., Ocotea odorifera (Vell.) Rohwer., Syagrus romanzoffiana (Cham.) 
Glassman., Tibouchina mutabilis (Vell.) Cogn., Vochysia tucanorum Mart.. A 13ª viagem está 
presente no fascículo II da publicação intitulada Araucarilândia (Hoehne, 1942b), onde foram 
encontradas 5 espécies: Copaifera langsdorffii Desf., Erythrina crista-galli L., Euterpe edulis Mart., 
Ilex paraguariensis A.St.-Hil., Mimosa scabrella Benth.. 
Hoehne realizou sua 14ª viagem quando o Departamento de Botânica do Estado passou a 
pertencer ao Instituto Biológico, instituição a qual esteve vinculado de 1928 a 1938. A viagem ao 
O Litoral do Brasil Meridional – Excursão Botânica realizada de 16-9 a 26-10-1929, pela Zona 
Litorânea, desde Santos até Laguna foi publicada em Observações gerais e contribuições ao 
estudo da flora e fitofisionomia do Brasil (Hoehne, 1942d), como sendo o quarto fascículo desta. 
Nesta viagem, na qual Hoehne retorna à região Sul do Brasil, ele menciona o contato com mais 6 
espécies, dentre as 91 comuns ao livro Arborização Urbana (Hoehne, 1944) e ao Manual (2015), 
são elas: Erythrina crista-galli L., Erythrina falcata Benth., Euterpe edulis Mart., Mimosa scabrella 
Benth., Syagrus romanzoffiana (Cham.) Glassman., Tibouchina mutabilis (Vell.) Cogn. 
No ano de 1936 Hoehne realizou a 15ª viagem, a última registrada por ele na lista de viagens de 
sua Autobiografia (Hoehne, 1951). O botânico segue com destino ao Oeste de São Paulo até 
Campo Grande de Mato Grosso, de 25 de Julho até 10 de agosto de 1936 (Hoehne, 1951, p. 77) 
com o objetivo de “estudar casos de intoxicação de gado bovino na Fazenda da Guanabara, [...] e 
coletar material do gênero Arachis em Mato Grosso” (Hoehne, 1951, p. 77). O botânico escreve o 
itinerário da viagem e o seguinte comentário: “Veja-se ‘Flora Brasílica’, fasc. 2 (vol. XXV, II; 122), 
publicado pelo Departamento de Botânica do Estado, em 1940” (Hoehne, 1951, p. 77). Porém, 
nenhum relato sobre a viagem foi encontrado na publicação, assim como nenhuma espécie das 
comuns entre o livro Arborização Urbana (Hoehne, 1944) e o Manual (2015) atual. 
No ano de 1938 a Seção Botânica, chefiada por Hoehne, foi transferida para o então recém-
inaugurado Jardim Botânico de São Paulo. De 1938 até 1943 (ano em que o botânico escreveu o 
Arborização Urbana, publicado em 1944) mais 4 viagens foram realizadas, de acordo com os 
Relatórios Anuais, porém, Hoehne participa de apenas uma, a 16ª. 
A partir da 16ª viagem, a última realizada por Hoehne antes da publicação do livro, não há mais 
descrições em sua Autobiografia (1951), como fez com as anteriores, o botânico escreve apenas 
50 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
que tratou sobre elas nos “Relatórios Anuais publicados depois de 1939 pelo Instituto de 
Botânica“ (Hoehne, 1951, p. 77). Esta viagem ocorreu no ano de 1940 e foi publicada no Relatório 
Anual do Departamento de Botânica no Estado de 1941, no qual constam as seguintes “Excursões 
Científicas” (Hoehne, 1941, p. 41) realizadas naquele ano: dia 27 de maio – Excursão a Ubatuba; 
dia 11 de junho – excursão a Bertioga; dia 19 de setembro – excursão a Paiol do Meio; e dias 24 a 
26 de setembro – excursão a Itirapina (Hoehne, 1941). O botânico participou apenas das duas 
primeiras (Ubatuba e Bertioga) e narra o itinerário das mesmas e suas impressões sobre a região, 
além de mencionar algumas espécies que observa no caminho. 
Dentre as espécies que Hoehne menciona nas viagens de 1940, quatro estão presentes entre as 
91 espécies comuns entre o livro Arborização Urbana (Hoehne, 1944) e o Manual (2015): Euterpe 
edulis Mart., Genipa americana L., Handroanthus albus (Cham.) Mattos., Syagrus romanzoffiana 
(Cham.) Glassman (Figura 2). 
4.2 As viagens nos mapas 
Como já mencionado, Hoehne participou de 16 viagens até a data da publicação do livro 
Arborização Urbana (Hoehne, 1944). Descrições sobre a 1ª até a 15ª viagem são feitas por 
Hoehne em sua Autobiografia (Hoehne, 1951), incluindo os itinerários das mesmas, mencionando 
alguns dos municípios e locais por onde passou. Nem todos os locais mencionados por Hoehne 
foram encontrados na malha municipal disponibilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e 
Estatística (IBGE)4, uma vez que o botânico apresenta locais com nomes popularmente 
conhecidos, sem uma precisão de localização, por exemplo: “Maloca do Chiquinho” (Hoehne, 
1951, p. 75), ou “Encosta da Serra da Bocaina e do Viveiro” (Hoehne, 1951, p. 76). Deste modo, 
dos itinerários das 16 viagens foi possível localizar, conforme mostra o mapa a seguir (Figura 5), 
63 municípios em 8 diferentes estados brasileiros (de acordo com os limites estaduais do Brasil de 
1940) percorridos pelo botânico, de 1908 a 1940. 
 
4
 https://portaldemapas.ibge.gov.br 
DO CAMPO PARA A CIDADE: ESPÉCIES NATIVAS TRADIDAS POR 
FREDERICO CARLOS HOEHNE DE SUAS VIAGENS PELO BRASIL 51 
 
 
 
Figura 4. Mapa dos 63 municípios percorridos por Hoehne em 16 viagens realizadas de 1908 a 1940. 
Das 91 espécies de árvores comuns ao livro Arborização Urbana (Hoehne, 1944) e ao Manual 
(2015) atual, 19 foram encontradas e 17 identificadas entre os municípios percorridos pelo 
botânico. São espécies mencionadas em diferentes localizações, no limite de 19 municípios. Na 
Tabela 1 são apresentadas as espécies, em ordem alfabética dos nomes científicos atualizados 
(2018), seguidos das viagens nas quais foram observadas por Hoehne, o ano em que a viagem foi 
realizada e os municípios onde foram registradas. 
Além das espécies contidas na Tabela 1, outras duas foram mencionadas como tendo sido 
observadas por Hoehne em sua 12ª viagem, na região do Sul de Minas Gerais. No entanto, como 
não é citada a localização exata na região, tais espécies não foram pontuadas no mapa anterior. 
São elas: Cordia trichotoma (Vell) Arrab. e Ocotea pretiosa (Neers) Mez. 
 
52 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Tabela 1 - Espécies indicadas no livro Arborização Urbana (1944) comuns ao Manual (2015) observadas por 
Hoehne de sua 1ª à 16ª viagem, com informações sobre o município e ano que constam nos documentos 
 
Nome aceito (2018) Viagens Ano Municípios 
1 Bowdichia virgilioides Kunth. 1ª e 2 ª 
1908 a 1909 e 
1910 a 1912 
São Luiz de Cáceres - MT 
2 
Ceiba speciosa (A.St.-Hil.) 
Ravenna 
12ª 1927 Lindoia - Serra Negra - SP 
3 Copaifera langsdorffii Desf. 
3ª, 11ª, 
12ª e 13ª 
1913 a 1914, 
1926, 1927 e 
1928 
São Luiz de Cáceres - MT, Turvo 
- MG, Pouso Alegre - MG, Vila 
Velha - Ponta Grossa - PR 
4 Erythrina crista-galli L. 
12ª, 13ª e 
14ª 
1927, 1928 e 
1929 
São Bento do Sapucaí - SP, 
Porto Amazonas - Palmeira - 
PR, Iguape - SP 
5 Erythrina falcata Benth. 14ª 1929 Juquiá - Iguape - SP, Xiririca - SP 
6 Euterpe edulis Mart. 
11ª, 13ª, 
14ª e 16ª 
1926, 1928, 
1929 e 1940 
Turvo - MG, Paratí - SC, Iguape 
- SP e Xiririca - SP, Bertioga - 
Santos - SP 
7 Genipa americana L. 16ª 1940 Ubatuba - SP 
8 Guarea guidonia (L.) Sleumer 12ª 1927 Itapira - SP 
9 
Handroanthus albus (Cham.) 
Mattos 
16ª 1940 Ubatuba - SP 
10 Ilex paraguariensis A.St.-Hil. 13ª 1928 Mafra - Rio Negro - PR 
11 Mimosa scabrella Benth. 13ª e 14ª 1928 e 1929 
Mafra - Rio Negro – PR, Porto 
Amazonas - Palmeira – PR e 
Curitiba, PR 
12 
Protium heptaphyllum 
(Aubl.) Marchand 
1ª 1908 a 1909 São Luiz de Cáceres - MT 
13 Sapindus saponaria L. 2ª 1910 a 1912 Corumbá- MT 
14 
Syagrus romanzoffiana 
(Cham.) Glassman. 
14ª e 16ª 1929 e 1940 
Juquiá - Iguape - SP, Bertioga - 
Santos - SP 
15 Tapirira guianensis Aubl. 3ª 1913 a 1914 
Porto do Campo - São Luiz de 
Cáceres - MT 
16 Tipuana tipu (Benth.) Kuntze 11ª 1926 Barra do Piraí - RJ 
17 Vochysia tucanorum Mart. 4 ª e 12ª 
1915 a 1916 e 
1927 
Lagoa Santa - Sabará - MG, 
Pouso Alegre - MG 
 
O mapa com a localização das espécies (Figura 6) foi sobreposto ao mapa dos biomas do Brasil, 
sendo possível analisar a abrangência do trabalho de Hoehne, quando visualizamos o bioma no 
qual cada uma das espécies foi encontrada (Tabela 2). Com exceção da Tipuana tipu (Benth.) 
Kuntze., que é um espécie exótica (apesar de ser nativa da América do Sul), as demais são nativas 
dos respectivos biomas. 
DO CAMPO PARA A CIDADE: ESPÉCIES NATIVAS TRADIDAS POR 
FREDERICO CARLOS HOEHNE DE SUAS VIAGENS PELO BRASIL 53 
 
 
 
Figura 5. Mapa das 17 espécies indicadas no livro Arborização Urbana (1944) comuns com o Manual (2015) 
encontradas por Hoehne em suas viagens, localizadas por município, sobre os limites estaduais do Brasil de 
1940 
 
54 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Figura 6. Mapa das 17 espécies indicadas no livro Arborização Urbana (1944) comuns ao Manual (2015) e 
observadas por Hoehne em suas viagens e os biomas do Brasil 
DO CAMPO PARA A CIDADE: ESPÉCIES NATIVAS TRADIDAS POR 
FREDERICO CARLOS HOEHNE DE SUAS VIAGENS PELO BRASIL 55 
 
 
Tabela 2 - Espécies indicadas no livro Arborização Urbana (1944) comuns com o Manual (2015) observadas 
por Hoehne de sua 1ª à 16ª viagem, com informações sobre os biomas a que pertencem 
 
Nº 
Nome científico 
(1944) 
Nome aceito 
(2018) 
Nome popular 
(1944) 
Nome 
popular 
(2015) 
Origem 
(2015) 
Biomas 
1 320 
Arecastrum 
romanzoffianum 
(Cham.) Becc. 
Syagrus 
romanzoffiana 
(Cham.) 
Glassman. 
Gerivá ou Baba 
de Boi 
Jerivá Nativa 
Mata 
Atlântica 
2 223 
Bowdichia 
virgilioides H. B. K. 
Bowdichia 
virgilioides Kunth. 
Sucupira do 
Cerrado 
Sucupira 
preta 
Nativa 
Pantanal/
Amazônia 
3 50 
Chorisia speciosa 
St. Hil 
Ceiba speciosa 
(A.St.-Hil.) 
Ravenna 
Paineira Branca Paineira Nativa 
Mata 
Atlântica 
4 164 
Copaifera 
langsdorffii Desf. 
Copaifera 
langsdorffii Desf. 
Copaibeira 
Óleo de 
Copaíba 
Nativa 
Amazônia/
Mata 
Atlântica 
5 326 
Erythrina crista-
galli L. 
Erythrina crista-
galli L. 
Pinheiro 
Crista de 
galo 
Nativa 
Mata 
Atlântica 
6 234 
Erythrina falcata 
Benth. 
Erythrina falcata 
Benth. 
Sapatinho de 
Judeu ou Suinã 
Eritrina 
falcata 
Nativa 
Mata 
Atlântica 
7 321 
Euterpe edulis 
Mart. 
Euterpe edulis 
Mart. 
Jussara Juçara Nativa 
Mata 
Atlântica/ 
Cerrado 
8 296 
Guarea 
trichiloides L. 
Guarea guidonia 
(L.) Sleumer 
Marinheiro Marinheiro Nativa 
Mata 
Atlântica/ 
Cerrado 
9 26 
Ilex 
paraguariensis St. 
Hil. 
Ilex 
paraguariensis 
A.St.-Hil. 
Herva Mate 
Erva 
mate 
Nativa 
Mata 
Atlântica 
10 207 
Mimosa 
bracaatinga 
Hoehne 
Mimosa scabrella 
Benth. 
Bracaatinga Bracatinga Nativa 
Mata 
Atlântica 
11 58 
Protium 
heptaphyllum 
(Aubl.) March 
Protium 
heptaphyllum 
(Aubl.) Marchand 
Almecegueira 
Almece- 
gueira 
Nativa Amazônia 
12 370 
Sapindus 
saponaria L. 
Sapindus 
saponaria L. 
Saboneteira ou 
Sabão de 
Soldado 
Sabão-
de-
soldado 
Nativa Pantanal 
13 5 
Tapirira 
guianensis Aubl. 
Tapirira 
guianensis Aubl. 
Peito de Pomba 
ou Pau-Pombo 
Peito de 
pombo 
Nativa 
Pantanal/ 
Amazônia 
14 260 
Tipuana tipu 
(Benth.) O. Kuntze 
Tipuana tipu 
(Benth.) Kuntze 
Tipú ou Tipuana Tipuana Exótica 
Mata 
Atlântica 
(cultivada) 
15 425 
Vochysia 
tucanorum Mart. 
Vochysia 
tucanorum Mart. 
Pau de Tucano, 
Vinheiro ou 
Caixeta do 
Interior 
Pau-de-
tucano 
Nativa 
Cerrado/ 
Mata 
Atlântica 
16 347 
Genipa americana 
L. 
Genipa americana 
L. 
Genipapo Jenipapo Nativa 
Mata 
Atlântica 
56 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Nº 
Nome científico 
(1944) 
Nome aceito 
(2018) 
Nome popular 
(1944) 
Nome 
popular 
(2015) 
Origem 
(2015) 
Biomas 
17 36 
Tecoma alba 
Cham. 
Handroanthus albus 
(Cham.) Mattos 
Ipê Tabaco 
Ipê 
amarelo 
Nativa 
Mata 
Atlântica 
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Das 91 espécies comuns entre o livro Arborização Urbana de Hoehne (1944) e o Manual Técnico 
de Arborização Urbana de São Paulo (2015), constatou-se que um total de 19 espécies (apenas 17 
possíveis de serem pontuadas nos mapas) já haviam sido observadas pelo botânico. Estas foram 
observadas ao longo das 16 viagens que ele realizou para “coleta de plantas”, durante os anos 
que antecederam a publicação de seu livro. Nessas viagens Hoehne passou por áreas rurais e 
também urbanas, segundo informações obtidas por meio de seus relatos, publicados em artigos 
de jornais e em outros documentos de instituições públicas, onde o botânico trabalhou, 
publicados por meio da Secretaria da Agricultura do Estado. 
Ao ir para campo, Hoehne observou espécies na mata (Figuras 8 e 9), levando algumas para os 
herbários, hortos (Figuras 10 e 11) e também indicando para arborizar as ruas das cidades. Com o 
mapeamento dos municípios percorridos por ele, dando origem aos produtos cartográficos 
apresentados no presente trabalho, foi possível visualizar a abrangência geográfica do trabalho do 
botânico, no que diz respeito aos municípios brasileiros e também aos biomas percorridos em 
suas viagens e coletas. Foram 63 municípios localizados, em 8 estados brasileiros e quatro 
diferentes biomas percorridos ao longo de seus quase 40 anos de carreira. 
A análise dos mapas elaborados permitiu verificar que a atuação de Hoehne foi predominante no 
bioma da Mata Atlântica. Este é hoje o bioma mais degradado de todo o Brasil, restando apenas 
12,4% de sua área original (SOS Mata Atlântica, 2019). Das 91 espécies indicadas por Hoehne e 
presentes no Manual, 53 são nativas do bioma em questão e 12 haviam sido observadas ao longo 
de suas viagens. 
Os resultados da pesquisa nos mostram, portanto, que suas viagens podem ter sido um 
importante instrumento de sustentação, às suas indicações de espécies nativas para arborizar as 
cidades brasileiras, feitas no livro Arborização Urbana (Hoehne, 1944). Estas que continuam 
sendo indicadas, até os dias atuais, conforme observado no Manual Técnico de Arborização 
Urbana de São Paulo (2015). 
DO CAMPO PARA A CIDADE: ESPÉCIES NATIVAS TRADIDAS POR 
FREDERICO CARLOS HOEHNE DE SUAS VIAGENS PELO BRASIL 57 
 
 
 
Figura 7. Conjunto de Syagrus romanzoffiana (Cham.) Glassman observadas por Hoehne em sua 16ª viagem 
à Bertioga (Hoehne, 1941) 
 
Figura 8. Syagrus romanzoffiana (Cham.) Glassman presente no Jardim da Luz (Disponível em: 
<http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.html>. Acesso em: 13 set. 2020) 
58 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Figura 9. Conjunto de árvores da espécie Erythrina crista-galli L. observadas por Hoehne em sua 13ª viagem 
à Araucarilândia (Hoehne, 1942b) 
 
Figura 10. Erythrina crista-galli L. localizada próxima ao Museu Botânico do Jardim Botânico de São Paulo 
(Disponível em: <http://arquivos.ambiente.sp.gov.br/jardimbotanico/2017/04/arvores-floridas-na-
primavera.pdf>. Acesso em: 06 jun. 2019) 
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DO CAMPO PARA A CIDADE: ESPÉCIES NATIVAS TRADIDAS PORFREDERICO CARLOS HOEHNE DE SUAS VIAGENS PELO BRASIL 59 
 
 
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60 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
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AGRADECIMENTOS 
Os autores agradecem ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de 
Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da UNESP-Bauru, e ao Instituto de Botânica de São Paulo por 
garantir o acesso aos documentos fundamentais para esta pesquisa. 
AUTORES 
Gardênia Baffi de Carvalho: Mestre em Arquitetura e Urbanismo pelo Programa de Pós-Graduação em 
Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da UNESP-Bauru; 
geógrafa; professora de Geografia da rede privada de Bauru/SP. 
Marta Enokibara: Doutora em Estruturas Ambientais Urbanas pelo Programa de Pós-graduação em 
Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP); arquiteta e urbanista pela Pontifícia 
Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP); professora do Programa de Pós-graduação e Graduação em 
Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da UNESP-Bauru. 
 
 
Rio Tietê e sua relação com a cidade de Pederneiras: uma 
história em cinco fases 
Gabriela Rosa 
Norma Regina Truppel Constantino 
RESUMO: O Rio Tietê sempre teve papel de 
destaque na história de Pederneiras, influenciando 
o desenvolvimento da cidade de diferentes modos. 
Assim, esse capítulo tem como objetivo fazer um 
levantamento histórico da relação rio-cidade e da 
urbanização no município de Pederneiras, que foi 
dividido em cinco momentos principais. O primeiro 
está relacionado ao desbravamento do Oeste 
Paulista no século XIX; o segundo se refere seu uso 
como fonte de energia; o terceiro está ligado à 
produção de cerâmica; o quarto ocorreu a partir da 
inauguração do Porto Intermodal de Pederneiras e 
a quinta fase está relacionada ao uso do Rio com 
finalidades turísticas. Embora assim foi dividido, 
muitas dessas fases se sobrepõem umas às outras 
e muitos usos acontecem simultaneamente. Os 
procedimentos metodológicos compreenderam o 
levantamento da bibliografia pertinente ao tema e 
à história da formação da cidade de Pederneiras: 
levantamento fotográfico e percursos de 
observação ao longo do Rio Tietê e entorno 
próximo; e pesquisa documental nos arquivos 
municipais. Estes procedimentos possibilitaram 
descrever a relação de interferência entre as duas 
variáveis - rio e cidade – ao longo da história de 
Pederneiras. 
Tietê River and Pederneiras city: a history in five 
phases 
ABSTRACT: The Tietê River has always been 
important for Pederneiras History, once it provided 
resources that have promoted the city's 
development. Thus, this chapter aims to make a 
historical survey of the river-city relationship in 
Pederneiras, São Paulo Satet, Brasil. The history of 
the relation between river and citywas divided 
into five main moments: the first related to the 
exploration of Western São Paulo in the 19th 
century; the second refers to its use as an energy 
source; the third is linked to the production of 
ceramics; the fourth occurred after the 
inauguration of the Pederneiras Intermodal Port 
and the fifth is related to the use of Tietê for 
tourist purposes. Many of these phases overlap 
each other and many uses have happen 
simultaneously. The methodological procedures 
comprised the survey of the bibliography pertinent 
to the history of the formation of the city of 
Pederneiras and documentary research in 
municipal archives. These procedures made it 
possible to describe the interference relationship 
between river and city throughout Pederneiras' 
history. 
Palavras-chave: rios urbanos, paisagem, formação 
urbana 
Keywords: urban river, landscape, urban 
formation 
 
62 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
1 INTRODUÇÃO 
A história da interação rio-cidade sempre mostrou que as cidades eram frequentemente 
construídas em torno das águas fluviais. Os rios atuavam como elemento de fixação, uma vez que 
forneciam água potável, fertilidade para agricultura, alimentos e argila para produção de 
utensílios e ferramenta (Lerner; Holt, 2012). No mundo, a maioria das civilizações antigas se 
estabeleceu em torno de rios (Faber, 2011) e tinha uma relação de muito respeito e zelo com 
essas águas. O mesmo ocorreu no Brasil: muitas das principais cidades brasileiras foram fundadas 
próximas a corpos d’água, principalmente devido às necessidades materiais vitais: a água para 
beber e a coleta de alimentos ofertados pelas zonas ripárias (Mello, 2008). 
No Estado de São Paulo, não foi diferente: o Rio Tietê teve papel central na história da ocupação e 
colonização do interior paulista, uma vez que seu curso atravessa o Estado de leste a oeste 
(Correa, 2008). O seu olho d’água está localizado em Salesópolis, na Serra do Mar, no Estado de 
São Paulo a 1120 metros de altitude e a 22 km do Oceano Atlântico e diferentemente dos demais 
rios paulistas, corre no sentido inverso ao mar, percorrendo boa parte do interior, onde deságua 
no rio Paraná, no município de Três Lagoas, Mato Grosso do Sul (Santiago, 2017). 
As águas do Tietê não foram apenas palco para as grandes expedições que adentraram o sertão 
paulista, mas foram também cenário de muitos acontecimentos históricos e guerras entre 
indígenas e colonizadores (Nóbrega, 1978). O Tietê escondeu e alimentou vários homens em fuga, 
foi enredo de poesias, histórias e fábulas. Também foi fonte de matéria-prima: dele se extraíram 
recursos para produção de cerâmicas, vidros, telhas e outros tipos de material utilizados na 
construção civil de muitas cidades do estado (Sant’Anna, 2007). A partir do século XX, o rio 
ganhou um papel diferente: passou a ser fonte energética a ser explorada por meio de da 
construção de hidrelétricas, o que propiciou a construção da Hidrovia Tietê-Paraná, responsável 
por escoar a produção de muitos estados e por atrair muitas empresas para o interior paulista. 
A fim de complementar a história da relação entre o rio Tietê e as cidades do Oeste Paulista, esse 
capítulo tem como objetivo trazer um levantamento histórico da relação rio-cidade e da 
urbanização no município de Pederneiras. Para atender esses objetivos, serão brevemente 
definidos os principais conceitos que fundamentaram esse trabalho: história, memória e 
paisagem. A história designa tanto o conjunto de todos os acontecimentos, quanto a narrativa, 
uma vez que a história é inseparável da atividade narrativa e das várias formas de narrar 
(Benjamin, 2012). A história tem relação com a memória, sob uma dimensão ética muito 
importante, pois consiste em preservá-la, em salvar o desaparecido, o passado, em resgatar 
tradições, vidas, falas e imagens (Rosa, 2016). 
Sob essa perspectiva histórica e de memória, é possível compreender e resgatar a relação que as 
cidades e seus habitantes estabeleceram e vêm estabelecendo com os rios na paisagem urbana, 
ao longo do tempo. A paisagem é uma palavra que tem múltiplos significados. Besse (2014) 
sintetiza essas categorias em cinco formas principais de se conceber a paisagem: 1) representação 
cultural e social; 2) território produzido pelas sociedades ao longo da história; 3) complexo 
sistêmico; 4) projeto; e 5) espaço de uma experiência fenomenológica. Assim sendo, a interação 
rio-cidade é uma interessante relação a ser analisada do ponto de vista de paisagem, pois agrega 
meios naturais, culturais e históricos. Compreender esta relação, porém, não é apenas observar 
seus aspectos físicos, mas sim compreender o significado do rio ao longo da história. 
RIO TIETÊ E SUA RELAÇÃO COM A CIDADE DE 
PEDERNEIRAS: UMA HISTÓRIA EM CINCO FASES 63 
 
 
2 MATERIAL E MÉTODOS 
No presente estudo, o método de abordagem utilizado foi o dialético. Nele, “as coisas não são 
analisadas na qualidade de objetos fixos, mas em movimento: nenhuma coisa está ‘acabada’, 
encontrando-se sempre em vias de se transformar, desenvolver; o fim de um processo é sempre o 
começo de outro” (Marconi; Lakatos, 2003, p.101). Quanto ao procedimento foi utilizado o 
método histórico, que investiga acontecimentos e processos do passado para verificar a sua 
influência na sociedade de hoje. 
Em relação ao material para a pesquisa, foram utilizadas fontes textuais, iconográficas e 
cartográficas, de caráter primário (documentos, plantas, mapas, projetos, cartas, fotos originais) e 
secundário (livros, teses, dissertações). O recorte temporal nesse caso começou em 1848, quando 
os primeiros posseiros do território onde hoje se localiza Pederneiras se estabeleceram no local, 
criando a “Fazenda Pederneiras”. A partir daí, foi levantado o histórico da relação rio-cidade até a 
atualidade. Para isso, foi usado o conceito amplo de documentos, considerado aqui, como “um 
produto da sociedade que o fabricou” (Le Goff, 1990, p. 545). Portanto, foram utilizados 
fotografias, desenhos, mapas, reportagens, documentos de cartório, teses, artigos e livros que 
abordam a história da relação do rio com a cidade. Cada um desses documentos e livros foram 
consultados em museus, acervos municipais, bibliotecas ou através do meio eletrônico em sites 
oficiais de prefeituras e utilizando sistemas de busca como Scopus, CAPES e acervos de 
universidades. Também foi realizado um levantamento mais recente do Instituto Brasileiro de 
Geografia e Estatística (IBGE) e do município e foram consultadas as leis relacionadas à APP 
urbana e mata ciliar, às águas (Código das Águas) no âmbito federal, estadual e municipal. Os 
dados econômicos foram consultados no site do Sistema Estadual de Análise de Dados Estatísticos 
(SEADE) e IBGE. 
Foram usados vários de documentos, icnográficos ou textuais. Também foram consultadas fontes 
primárias como cartas que descrevem o motivo da fundação da cidade naquele local, registros, 
relatórios e documentos que tratem sobre a fundação da cidade, bem como sobre a implantação 
da hidrelétrica no caso de Barra Bonita e implantação do Porto Intermodal, no caso de 
Pederneiras. Foram analisadas as notícias de jornais e revistas relacionadas ao rio, disponíveis no 
acervo público da biblioteca e museu municipais de ambas as cidades, conferidos em visita 
presencial ao local. Foram procurados também mapas, desenhos e fotografias que serviram para 
complementar as informações colhidas nas fontes textuais. Como explicado por Carvalho e Wolff 
(2008), as fotografias são documentos úteis para comprovação de relatórios, revelação do uso de 
determinado local, registros de eventos, entre outros. 
A análise foi feita de forma descritiva e por meio da narrativa. Como resultado, obteve-se a 
compreensão e o resgate, sob a perspectiva histórica e de memória, da relação que as cidades e 
seus habitantes estabeleceram e vêm estabelecendocom os rios na paisagem urbana, ao longo 
do tempo. No caso, as múltiplas fontes escolhidas contribuíram para atingir o objetivo: há livros e 
teses que abordam a história geral das cidades e do Tietê, bem como livros que tratam 
exclusivamente de algo em específico, como a construção da Hidrovia Tietê-Paraná, mas não há 
nenhum material que trate exclusivamente do histórico da relação rio-cidade de Pederneiras. 
Logo a consulta a essas diversas fontes foi útil para compreender o histórico dessa interação. 
Durante a pesquisa, alguns moradores de Pederneiras se dispuseram a contar a história do 
município e a entregar fotos e documentos pessoais relacionados ao tema. Logo, a partir desse 
64 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
momento, foi incluído no método a transcrição da história oral, com o intuito de entender alguns 
processos históricos que ocorreram em Pederneiras, não apenas por meio da análise de 
documentos, mas também por intermédio da transcrição de entrevistas. “A história oral 
possibilita também ampliar o conhecimento sobre acontecimentos e conjunturas por meio do 
estudo de experiência e versões particulares” (Rosa, 2016, p.62). No presente caso, a escuta de 
relatos orais de antigos moradores permitiu ampliar nosso olhar e a construir a tessitura histórica 
por meios dos fios condutores da memória dos sujeitos, ultrapassando os limites do 
conhecimento coletado em documentos e livros. Todas entrevistas orais foram feitas com 
autorização assinada, conforme o formulário Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. 
A pergunta base realizada era “Qual é a relação do Rio Tietê com Pederneiras? De que forma o Rio 
Tietê contribui para o percurso da história da cidade?”. Tendo sido realizadas as entrevistas, foi 
feita a seleção das passagens mais relevantes que contribuíam para o aprofundamento da 
compreensão histórica do desenvolvimento do município, a partir da perspectiva do rio. 
3 MUNICÍPIO DE PEDERNEIRAS 
Localizado a 259 km da capital do estado de São Paulo entre 22o 21’ 06’’ Sul e 48o 46’ 30’’ Oeste, 
Pederneiras abrange uma área de 727,482 km2 e tem uma população de 46.687 habitantes (IBGE, 
2019). O clima é tropical quente e o solo é formado por arenito Bauru com vários tipos de 
latossolos e podzólicos (Farrenberg, 1998); a cobertura do solo é composta majoritariamente por 
agropecuária, mas há alguns fragmentos florestais e rios que compõem o território (Figura 1). A 
vegetação é caracterizada como transição entre Cerrado e Floresta Estacional Semidecidual (Mata 
Atlêntica) (IF, 2018). Quanto a hidrologia, além do Rio Tietê, o município é banhado por 5 sub-
bacias: o rio Bauru e os ribeirões Pederneiras, Patos, Grande e dos Veados (Penteado, 1988). 
Economicamente, Pederneiras é muito conhecida por suas indústrias que foram atraídas para o 
município, desde a instalação do Porto Intermodal de Cargas. Em 1998, Pederneiras era o 
município da Região Administrativa de Bauru que concentrava o maior número de 
estabelecimentos industriais com destaque no setor metal-mecânica com a Fábrica de 
Equipamentos da Construção Volvo Ltda (Farrenberg, 1998). O setor que mais emprega é a 
indústria (36,2%), seguido dos serviços (31%) (SEADE, 2018). Já em relação à contribuição ao PIB 
municipal o maior destaque está no setor de serviços (53,2%) seguido pela indústria (43%) e 
depois agropecuária (3,8%); o setor industrial caracteriza-se principalmente pela fabricação e 
recondicionamento de peças elétricas automotivas, enquanto na agricultura, destacam-se o 
cultivo de cana-de-açúcar e citros como laranja e abacaxi (IF, 2018). 
RIO TIETÊ E SUA RELAÇÃO COM A CIDADE DE 
PEDERNEIRAS: UMA HISTÓRIA EM CINCO FASES 65 
 
 
 
Figura 1. Mapa de Cobertura do solo em Pederneiras, São Paulo, Brasil (autoria própria) 
O município é sede do Terminal Intermodal de Cargas, um dos maiores responsáveis pelo 
transbordo intermodal de cargas no Brasil unindo os modais hidroviário, ferroviário e rodoviário. 
Através do Porto, são escoados milho, trigo, mandioca, carvão, cana-de-açúcar, adubo, areia e 
cascalho, além de peças fabricadas peça empresa Volvo (motoniveladoras, caminhões articulados 
e escavadeiras) (Luccas, 2008). Além disso faz transporte de soja e de seu farelo, produção 
oriunda dos estados de Mato Grosso e Goiás. Ambos os produtos são transportados até o 
município de São Simão (GO) via rodovia, de onde partem pela Hidrovia Tietê-Paraná até o 
município de Pederneiras, onde são novamente descarregados e então, escoados até o Porto de 
Santos através da ferrovia (Portogente, 2016). 
4 HISTÓRIA DA RELAÇÃO RIO-CIDADE NO MUNICÍPIO DE PEDERNEIRAS 
O Rio Tietê sempre teve papel de destaque na história de Pederneiras, influenciando o seu 
desenvolvimento de diferentes modos. Ele foi palco de muitos acontecimentos na cidade por 
meio da recreação, do lazer e da pescaria. Muitas pessoas costumavam a frequentar as margens 
do Rio Tietê para realizar piqueniques em família e levar as crianças para brincar. Por conta disso, 
muitos ranchos foram criados na beira do rio. Além do lazer, o Rio propiciou o desenvolvimento 
66 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
da economia em vários setores: forneceu matéria-prima para indústrias, foi fonte de energia para 
hidrelétricas e propiciou a criação do transporte intermodal na região. 
No presente trabalho, dividimos essa relação rio-cidade em cinco momentos principais: o 
primeiro está relacionado ao desbravamento do Oeste Paulista no século XIX; o segundo como 
fonte de energia; o terceiro está ligado à produção de cerâmica; o quarto momento ocorreu a 
partir da inauguração do Porto Intermodal de Pederneiras e o quinto está relacionado ao uso do 
Rio com finalidades turísticas. No entanto, muitas dessas fases se sobrepõem e muitos usos 
acontecem simultaneamente. O objetivo dessa divisão foi apenas facilitar o entendimento das 
diferentes relações rio-cidade. 
4.1 1ª Fase: a fundação e os primórdios do município 
Foi através das águas do Tietê, que muitos colonizadores, aventureiros e fugitivos da Revolta 
Liberal adentraram o Oeste Paulista (Penteado, 1988). Entre eles estava Pinheiro Machado, quem 
fundou a fazenda Monte Alegre, formando o pequeno povoado Nossa Senhora das Dores do Cimo 
da Serra (atual Botucatu). A partir do núcleo de Botucatu, surgiram os bairros rurais Espírito Santo 
da Fortaleza e Lençois, os quais se tornariam municípios e, ao longo de décadas, deram origem a 
outras vilas que se transformaram em cidades, entre elas, Pederneiras (antiga São Sebastião da 
Alegria) (Fernandes; Domingues, 2018), 
Os primeiros posseiros do território onde hoje se localiza Pederneiras foram os sertanistas 
Manoel dos Santos Simões e seus filhos Manoel Leonel dos Santos e João Leonel dos Santos, que 
em 1848, se estabeleceram no local, criando a Fazenda Pederneiras (Penteado, 1988). A 
denominação Pederneiras significa “pedra dura que produz lume” e assim foi dada devido à 
grande quantidade de “pedra de fogo” no local (Farrenberg, 1998). A Fazenda pertencia ao 
município de Botucatu, que em 1855, era o maior núcleo de povoamento do sertão oeste paulista 
(Fernandes; Domingues, 2018). Com o tempo o Bairro Rural de Lençóis se desenvolveu: em 1858, 
foi elevado à condição de Freguesia Distrito, e em 1865, tornou-se um município independente 
(IBGE, 1965). Nesse mesmo ano, pela Lei n. 90, a Fazenda Pederneiras passou a pertencer ao 
Município de Lençóis (Penteado, 1988) 
Em 14 de junho de 1877, Aureliano Gonçalves da Cunha e a esposa doaram um alqueire de terra 
para a construção da Igreja Matriz de Pederneiras, erigida ao São Sebastião da Alegria (Penteado, 
1988). Em 1889 foi inaugurada a Igreja e nesse mesmo ano, a vila do povoamento da Fazenda 
Pederneiras foi elevada à categoria de Freguesia de São Sebastião da Alegria, pertencente à 
Lençóis, levando consigo boa partedo território de Espírito Santo de Fortaleza; em 7 de julho de 
1891, foi feita a instalação do Município (Fernandes; Domingues, 2018). 
Em 1892, iniciou-se a campanha para a criação da Comarca de Pederneiras e em 2 de setembro 
do mesmo ano, foi criada a Paróquia de Pederneiras sendo gerenciada pelo Vigário Padre Nicolau 
Scoraquio (Penteado, 1988). A capela se tornou referência para muitos da região que incluía 
distritos e bairros como Bauru, Espírito Santo da Fortaleza, Agudos, entre outros. Entre 1889 e 
1893, cerca de 1/3 dos batizados da região foram realizados na capela de Pederneiras (31,3% - 
534 cerimônias); no mesmo período Bauru realizou apenas 134 (7,9%): “grande número de 
cerimônias lá realizadas se relaciona, seguramente, à considerável população que habitava o 
entorno daquele incipiente núcleo urbano que se tornara freguesia em 1889 e município em 
1891” (Fernandes; Domingues, 2018, p.85). 
RIO TIETÊ E SUA RELAÇÃO COM A CIDADE DE 
PEDERNEIRAS: UMA HISTÓRIA EM CINCO FASES 67 
 
 
Nessa época 8% da população da região do Oeste Paulista vivia no município (Fernandes; 
Domingues, 2018) e a partir da década de 1880 e 1890 muitos imigrantes de várias nacionalidades 
começam a se instalar na região: povos árabes, espanhóis, italianos, japoneses, letos e 
portugueses (RAZUK, 2009). Entre 1889 a 1893 já havia registros de imigrantes, na maioria 
italianos e espanhóis, as nacionalidades mais numerosas que se estabeleceram em Pederneiras 
(Fernandes; Domingues, 2018). O pioneiro italiano foi Guilherme Fornazari que chegou na cidade 
em 1878; entre os portugueses, o terceiro grupo mais numeroso de imigrantes na cidade, 
destacam-se a presença das famílias Arantes, Marques, Freitas, Pereira, Santos, Felício e 
Figueiredo (Razuk, 2009). 
Os árabes (sírios e libaneses) se estabeleceram em Pederneiras a partir de 1887 e eram, em sua 
maioria, libaneses naturais de Jdeidet Marjayou (Razuk, 2009). A imigração leta (originários da 
Letônia) no Brasil teve início em 1890, quando as primeiras 25 famílias partiram de Riga (capital 
da Letônia) e chegaram a Laguna – Santa Catarina; em Pederneiras, os imigrantes letos a se 
instalarem foram principalmente as famílias Zahser, Bember, Gruntman, Pelusch (Razuk, 2009). Já 
em relação aos japoneses, foram as famílias Assano, Nozuma, Komatsu, Higashi e Yokoto que se 
instalaram (Razuk, 2009). 
Em 23 de maio de 1894, o município passou a adotar o nome de Pederneiras por decisão unânime 
na Câmara. Em 1896, Pederneiras possuía 89 casas, todas na atual rua 9 de julho. A Vila ficava à 
esquerda do Ribeirão Pederneiras, enquanto na margem direita se encontrava uma floresta 
densa, com duas exceções: a olaria de Alberto Borsetto (que depois passou a pertencer aos 
irmãos José e Camilo Razuk) e uma casa de Eliazar Braga, no caminho para o Porto de Lençoes 
(Penteado, 1988). 
O povoamento da cidade está vinculado à implantação de ferrovias no oeste do Estado, 
principalmente Bauru, que era um nó ferroviário: “A Companhia Paulista de Estrada de Ferro, que 
desde 1887 chegava à Jaú, atinge Pederneiras em 1904” (Farrenberg, 1998, p.41). Inicialmente, o 
primeiro loteamento de núcleo urbano ocupava a área entre a ferrovia da Companhia Paulista e o 
ribeirão Pederneiras. A expansão do núcleo urbano manteve pouca relação com o Rio Tietê, pois 
ocorreu no sentido inverso (Farrenberg, 1998). Em dezembro de 1906, a sede municipal foi 
elevada à categoria de cidade. Entre 1909 e 1919, sob a gestão de Cândido de Camargo Serra, 
foram inaugurados a luz elétrica da cidade, a rede de água e esgoto e o Matadouro Municipal 
(Penteado, 1988). A cidade seguia desenvolvendo, porém ainda não era considerada uma 
Comarca, desejo que existia desde a sua inauguração. Havia, no entanto, muita competição entre 
as vizinhas: Bauru, Jaú e Lençóis (Penteado, 1988). 
A princípio, pretendia-se fazer uma troca: Pederneiras, pertencente à Comarca de Lençóis 
passaria ao município de Jaú, enquanto Barra Bonita (que era de Jaú) passaria a Lençóis (Darlo, 
1991c). Porém, antes que isso acontecesse, em 12 de dezembro de 1927, sob o decreto n 2.222, 
foi criada a Comarca de Pederneiras, sendo instalada apenas em 26 de abril de 1928, sob a gestão 
do prefeito Fausto Furlani. A criação da Comarca foi realizada em sessão festiva que ocorreu no 
Grupo Escolar Eliazar Braga, com a presença de autoridades estaduais e municipais, juízes e 
coronéis (Figura 73), conforme Figura 2. Na festa, autoridades foram recebidas por escoteiros, 
parte da corporação militar e a banda de música da Força Pública do Estado de São Paulo 
(Penteado, 1988). Após o ato oficial, houve comemoração no Castelo Furlani, casa do prefeito; o 
castelo costumava ser o palco para muitas comemorações oficiais do Município, porém a partir da 
68 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
década de 60, a vida política no castelo foi perdendo força e passou a ganhar importância 
histórica e turística (Darlo, 1991c). 
 
Figura 2. Fotografia retratando a festa de instalação da a Comarca de Pederneiras, em 1928. Na foto, há a 
presença de autoridades, políticos municipais e estaduais, que são recebidos por parte da corporação 
militar, escoteiros e a banda de música da Força Pública do Estado de São Paulo (foto cedida por Maria 
Teresa Garcez) 
Com a instalação da Comarca, Pederneiras tornou-se independente da tutela jurídica da Comarca 
de Jaú e teve como primeiro Juiz, o Dr. José Augusto de Lima; em 1953, a Comarca constituía-se 
dos municípios de Pederneiras, Arealva (ex distrito de Soturna), Iacanga e Macatuba e dos 
distritos Santelmo, Guaianás e Vanglória (Penteado, 1988). 
Durante as décadas de 30 e 40, Pederneiras também foi afetada pelas consequências econômicas 
da crise de 1929, que levou à crise do café no Brasil. O café foi substituído pela lavoura de 
algodão, a pecuária e a cana. Socialmente, a crise do café provocou o fenômeno do êxodo rural, o 
que proporcionou o abandono dos imóveis rurais e o consequente desenvolvimento da cidade, 
que passou a receber esses trabalhadores (Farrenberg, 1998). Para a construção dessas casas, 
surgiram algumas construtoras, entre elas a Isidoro Martini (Figuras 3, 4 e 5), fundada por uma 
família de imigrantes italianos, cujos diversos membros exerciam múltiplas funções: pedreiros, 
engenheiros e arquitetos (Garcez, 2019). 
RIO TIETÊ E SUA RELAÇÃO COM A CIDADE DE 
PEDERNEIRAS: UMA HISTÓRIA EM CINCO FASES 69 
 
 
 
Figura 3. Documento oficial de uma solicitação de serviço à construtora Isidoro Martini, com o logo da 
empresa em 1930 (fotografia tirada pela autora de um documento oficial guardado cedido por Maria 
Teresa Garcez) 
 
Figura 4. Casa construída em 1934 pela Construtora 
Isidoro Martini, localizada na esquina da Rua Santos 
Dumont com a Rua Rodrigues Alves, em Pederneiras, 
São Paulo, Brasil (foto cedida por Maria Teresa 
Garcez) 
Figura 5. Atual estado da casa construída pela 
Construtora Isidoro Martini, Pederneiras, São Paulo, 
Brasil, no ano de 2020 (autoria própria) 
4.2 2ª Fase: Tietê como fonte de energia 
O Rio Tietê também foi usado como recurso para geração de energia elétrica. Até a primeira 
década do século XX, a iluminação da cidade era feita a gás (de carbureto) ou querosene e cada 
casa tinha sua própria iluminação, tanto dentro como fora e na rua; por volta de 1910, na gestão 
do prefeito Cândido de Camargo Serra, a energia elétrica chegou à Pederneiras cedida por A. Pena 
& Cia. de Agudos, que produzia energia no Ribeirão dos Patos, onde havia uma pequena queda 
d’água que movimentava uma usina hidrelétrica (Razuk, 2009). Durante as décadas de 20 e 30, a 
Companhia Paulista de Força e Luz era responsável pelo fornecimento de energia elétrica, porém 
tal fornecimento era muito precário e constantemente faltava luz. Visando solucionar o problema, 
um grupo de fazendeiros e industriais, liderado por Antônio Florêncio Pereira,fundou, entre 1927 
e 1928, a Empresa Força e Luz Pederneiras Ltda, que a princípio passou a explorar a queda d’água 
do Ribeirão Bauru, localizado na Fazenda Lageado, propriedade de Pereira (Penteado, 1988). 
Com o advento de secas prolongadas na região, o engenheiro hidráulico e sócio da empresa 
Walter Ashauer iniciou uma série de pesquisas no Rio Tietê com o objetivo de encontrar um 
desnível favorável ao aproveitamento. Ao encontrarem, enviaram uma solicitação de exploração 
do rio ao Governo Federal e buscaram financiamento com grupos industriais e capitalistas da 
época. Assim, Otávio Ferraz Sampaio, assessor do governador do Estado Lucas Nogueira Garcez, 
soube da notícia e convidou o grupo para participar da construção da Usina Hidrelétrica de Barra 
70 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Bonita, que por sua vez, em troca de capital, construiria uma linha de transmissão direta para 
abastecer Pederneiras; a proposta foi aceita, porém, o governo não cumpriu o acordo (Penteado, 
1988). Ao contrário, iniciou um processo de desativação da empresa pelo governo estadual, 
autorizado pelo governo federal, de acordo com o decreto nº. 60.054, de 12/01/1967, além 
desapropriação de bens da mesma, sob o decreto nº. 47 de 25/04/1967, declarando encampados 
os bens e instalações, autorizando a desapropriação pelo Departamento de Águas e Energia 
Elétrica, que os entregou à administração das Centrais Elétricas de São Paulo – CESP (FES, 2020). 
Assim, a Empresa Força e Luz Pederneiras, após 40 anos de trabalho, encerrou suas 
atividades e a Usina Lageado foi desativada, visto ter sido inundada pelo represamento 
das águas da barragem da Usina de Bariri. Pederneiras recebe energia elétrica 
produzida pela Usina de Barra Bonita que está construída no Rio Tietê, no trecho 
localizado no município de Barra Bonita, e é distribuída pela Companhia Paulista de 
Força e Luz – CPFL (FES, 2020) 
4.3 3ª Fase: Tietê como matéria-prima para o setor oleiro-ceramista 
O município passou a se desenvolver por meio do setor oleiro-ceramista, sendo a cerâmica a 
maior riqueza do município depois do café, na primeira metade do século XX. Razuk (2019) conta 
que, nas margens do rio havia muito barro e argila, o que propiciou a instalação de muitas olarias 
e cerâmicas, dentre as quais podemos citar principalmente: Cerâmica Borsetto, Cerâmica Razuk, 
Cerâmica Sapucaí, Cerâmica Massad e Cerâmica Pederneiras. Eram dezenas os estabelecimentos 
que forneciam tijolos, manilhas e telhas para a Companhia Paulista e também para todo o Estado 
de São Paulo, empregando centenas de trabalhadores (Penteado, 1988). Por conta disso, 
urbanisticamente, a cidade passou a se expandir na direção noroeste, onde se instalaram as 
cerâmicas Romero e São João e, na outra margem da ferrovia, no sentido sudeste, foram 
implantadas as cerâmicas Massad, Fornazari, entre outras (Farrenberg, 1998). 
A Cerâmica Borsetto foi a primeira a ser construída na margem esquerda do Rio Tietê, comandada 
pelo proprietário Alberto Borsetto (Darlo, 1991a). A empresa, com mais de 80 operários, fornecia 
telhas e tijolos para a Companhia Paulista de Estradas de Ferro para a construção de suas 
estações. Anexa à Estação de Pederneiras, Alberto também construiu outra cerâmica para facilitar 
o embarque dos produtos nos trens; em 1927 foi adquirida por José Razuk e seu irmão, e passou a 
exportar seus produtos para todo o Estado de São Paulo e até para a Bolívia. A Cerâmica Sapucaí 
tinha como proprietários Carlos Mendes e Sebastião Mendes Neto. E a Cerâmica Massad, de 
propriedade de João Massad, possuía 23 fornos na fabricação de telhas, tijolos e lajotas, 
chegando a produzir um milhão de peças/mês. Além da cerâmica, João Massad instalou a firma 
Rumatra que tratava de reformas e manutenção de tratores de esteira (Razuk, 2019). 
Por último, existia a Cerâmica Pederneiras, de propriedade da família Ruiz que também era 
proprietária de uma casa bancária - o Banco Nacional Paulista - que na época tinha agências em 
diversas cidades do Estado. Eles faziam tijolos, telhas, manilhas de diversos tamanhos e chegaram 
a produzir manilhas vitrificadas que eram muito valorizadas. A Cerâmica Ruiz fornecia material até 
para Bolívia. Em entrevista realizada em 5 de novembro de 2019, o memorialista Rinaldo Toufik 
Razuk narrou sobre a relação da cidade com o rio: 
A ligação da cidade com o Rio foi os imigrantes, principalmente, imigrantes espanhóis 
e italianos que abriram Olarias devido à argila, devido ao barro que tinha no Tietê na 
época... tinha muito barro. Então começou a parte industrial da cidade... iniciou com a 
lavoura, além de subsistência, em que eles plantavam para comer, a sobra que traziam 
RIO TIETÊ E SUA RELAÇÃO COM A CIDADE DE 
PEDERNEIRAS: UMA HISTÓRIA EM CINCO FASES 71 
 
 
para a cidade trocavam com outras coisas ou vendiam. Aí começou a abrir armazém, 
um espanhol abriu um armazém, outro aqui, outro lá. Mas todos eles, a maioria, foram 
ganhando dinheiro com isso comprando um sitinho, uma terra e montando Olaria por 
causa do Rio. (...) Inclusive uma das maiores cerâmicas daqui, dizem da América do Sul, 
era a Cerâmica Pederneiras (...) a Cerâmica Ruiz chamava-se Cerâmica Pederneiras mas 
a turma chamava de Cerâmica Ruiz porque era da família Ruiz (...) Eles abriram uma 
casa bancária que se tornou Banco Nacional Paulista com agências em diversas cidades 
do estado. Então eles eram uma potência aqui que depois foi vendido, passando para 
outras pessoas. Foi vendido o banco e o banco acabou. Então a Cerâmica Ruiz foi uma 
potência, ela que fornecia até para Bolívia! Ia de trem pela Paulista, passava por Bauru 
pros vagões da Noroeste para ir até a Bolívia, que eles vendiam. Eles faziam tijolos, 
telhas, manilhas de diversos tamanhos. Inclusive as manilhas deles eram vitrificadas, 
naquela época, tinham máquinas modernas. Então é uma ligação grande que acabou 
em nada por após o Rio Tietê ser represado. Ficou muito difícil buscar o barro muito 
longe. (Depoimento em 5 de novembro de 2019) 
Essa prosperidade e sucesso no setor, no entanto, foram impedidos de prosseguir devido à 
implantação da Usina Hidrelétrica Álvaro Souza Lima-Bariri. Durante a década de 60, com a 
construção da Usina Bariri, várias jazidas de argila que alimentavam as unidades oleiro-ceramistas 
foram inundadas: em 1966, 2,8% das terras do município foram soterradas (Farrenberg, 1998). 
Por conta disso, as margens do rio que forneciam a matéria-prima para essas indústrias ficaram 
sob as águas, inviabilizando a continuidade de muitas indústrias nesse setor (Penteado, 1988). 
Isso porque a retirada da matéria prima tornou-se muito mais difícil e custosa. Ao todo, cerca de 
30 olarias cerâmicas foram extintas, acabando com o emprego de 4.500 pessoas que trabalhavam 
nesse setor, numa época em que a cidade tinha cerca de 18 mil habitantes (Darlo, 1991b). Como 
descreve Rinaldo T. Razuk, em depoimento em 5 de novembro de 2019: “então quase todas as 
olarias e cerâmicas foram abandonadas quando o rio começou a ser represado pelas usinas de 
Bariri e as outras usinas foram represando o rio e o barro acabou, porque o barro ficou lá embaixo 
e a água subiu“. 
Apesar das trágicas consequências no setor industrial oleiro-ceramista, a década de 70 foi 
marcada por um grande crescimento na cidade devido à instalação, em 1975, da multinacional 
Equipamentos Clark Ltda. (atualmente Volvo), que provocou a expansão do núcleo urbano em 
direção a esse novo eixo (Farrenberg, 1998). Instalada durante a gestão do prefeito Michel Neme, 
essa indústria era fabricante de pás-carregadeiras e outras máquinas e chegou a empregar mais 
de mil pessoas (Penteado, 1988). Sua vinda gerou o crescimento urbano e a necessidade de 
construção de vários núcleos residenciais, por meio de uma parceria entre a Prefeitura Municipal 
de Pederneiras e a Companhia de Habitação Popular de Bauru (COHAB), conformeFigura 6. 
A partir dos anos 80, a lavoura canavieira passou a ser a principal atividade agrícola (Farrenberg, 
1998), cujo produto era transformado em açúcar e álcool pela indústria do Grupo Zilo-Lorenzeti, 
do município de Macatuba, que empregava seis mil trabalhadores, com oscilação na entressafra 
(Penteado, 1988). A partir dos anos 90, iniciou a ampliação do parque industrial que se 
desenvolveu principalmente com a inauguração do Porto Fluvial da Hidrovia Tietê-Paraná 
(Farrenberg, 1998). 
72 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Figura 6. Mapa da cidade de Pederneiras-SP durante a década de 1970. Em azul estão assinalados os quatro 
núcleos habitacionais criados no Município até a década de 1980. (Mapa editado pela autora com base no 
mapa oficial de crescimento da cidade de Pederneiras, disponibilizado pela Prefeitura Municipal de 
Pederneiras). 
4.4 4ª Fase: o Porto Intermodal 
A ideia de instalação do Porto Fluvial em Pederneiras surgiu oficialmente na década de 80, e se 
concretizou em forma de plano em 19 de novembro de 1983, quando dirigentes municipais e 
representantes dos diversos Estados envolvidos na construção da Hidrovia, se reuniram com o 
então prefeito de Pederneiras Giácomo M. Bertolini para traçar metas e enviar a solicitação de 
implantação ao Governo Federal (Penteado, 1988). Inicialmente foi realizado o Estudo Viabilidade 
da Hidrovia Tietê-Paraná, em 1984, passando pelo Plano Diretor de Desenvolvimento dos 
Transportes (PDDT), integrando-se ao Sistema Integrado de Terminais Intermodais de Carga 
(SITIC) e consolidando-se no Plano de Ação Comercial (PAC) da Hidrovia Tietê-Paraná, com o 
apoio do contrato entre Companhia Energética de São Paulo (CESP) e Banco Nacional de 
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) (AGN, 1989). 
Segundo os resultados dos estudos realizados pela CESP, o local mais indicado para a integração 
hidroferroviária (ou terminal de fim de linha do Tietê) encontrava-se na região da fronteira entre 
os municípios Jaú e Pederneiras, onde a ferrovia cruzava a hidrovia no reservatório de Bariri 
(Eureka, 1984). Isso gerou uma disputa entre os prefeitos de Jaú e Pederneiras, pois ambos 
queriam sediar o Porto Intermodal. A disputa terminou quando o Instituto de Pesquisas 
Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT/SP), a CESP e o Departamento Hidroviário apresentaram 
uma análise técnica regional mostrando que as áreas na margem esquerda (Pederneiras) eram 
mais favoráveis a implantação do Terminal (Mattos, 1984). 
RIO TIETÊ E SUA RELAÇÃO COM A CIDADE DE 
PEDERNEIRAS: UMA HISTÓRIA EM CINCO FASES 73 
 
 
O relatório de Projeto de Concepção Intermodal do Médio Tietê de 1985, elaborado pelo IPT, 
apresenta a relação das três áreas possíveis para a instalação. A primeira área, à margem direita 
do Rio Tietê no município de Jaú, apresentava uma geometria bastante irregular e topografia com 
declividade não acentuada, porém com alta necessidade de terras implicando em custos 
adicionais. As outras duas áreas localizavam-se à margem esquerda, em Pederneiras e 
apresentavam geometria regular e retilínea por quase 4 km de extensão; além disso o terreno 
apresentava baixa declividade e uma topografia que favorecia a derivação de um ramal 
ferroviário. Após essas análises, chegou-se à conclusão que Pederneiras seria o município a sediar 
o Porto Intermodal. Em 1985, o Jornal Tribuna dos Municípios de 15 de janeiro comentou sobre a 
escolha do local: 
O ponto ideal para a implantação do porto, que estabelecerá a integração hidrovia-
rodovia-ferrovia, localiza-se na região de Pederneiras, próximo a Jaú e Bauru, onde a 
linha da Fepasa, cruza o rio Tietê. Uma vez conectado por ferrovia com a refinaria de 
Paulínea, o porto intermodal da região de Pederneiras dará escoamento do petróleo 
para o interior paulista, Mato Grosso do Sul e Goiás. E desses três pontos convergirão 
os carregamentos de grãos, madeira, gado e outros produtos para São Paulo e porto 
de Santos, para exportação (Tribuna dos Municípios, 1985, p.5) 
A escolha e aquisição de terras para a construção do Porto Intermodal ocorreu no hotel mais 
antigo da cidade: o Hotel Monte Líbano, do ano de 1982. Na Revista Bom dia Pederneiras, a 
repórter Luana Almeida entrevistou Nabih Massud, proprietário do Hotel que comentou o fato: 
“Quando fizeram o Porto Intermodal, a aquisição de terras saiu do hotel. Eu falei para o 
Waldemar Neme que tinha uma pessoa hospedada aqui há um mês que estava procurando 
terreno para construir o Porto” (Almeida, 2008, p. 20). Definidas as terras, deram início ao 
planejamento do projeto para a construção e instalação das obras. 
No projeto do Sistema Integrado de Terminais Intermodais de Carga (SITIC) do Estado de São 
Paulo, elaborado em 1988, previa-se um plano funcional divido em duas etapas: 1) a primeira se 
tratava da implantação do Terminal numa área inicial de 30 hectares, pavimentação da Rodovia 
PDN_020 e a construção de um cais marginal com 120 m de extensão e estrutura lateral de 
acostagem com 50 m cada. 2) A segunda etapa pretendia ampliar a área ocupada, implantando 
dois lotes de desvio ferroviário, ampliando as instalações e a ponte de atracação portuária; além 
disso, haveria a implantação do Distrito Industrial com um pátio ferroviário interno com área de 
manutenção dos vagões. 
O projeto também definia que as instalações ferroviárias seriam de responsabilidade da Ferrovia 
Paulista Sociedade Anônima (FEPASA) compreendendo uma área de 63,5 hectares. A previsão era 
de que suas operações aconteceriam em 150 dias úteis por ano com uma capacidade de 5 trens 
de carga partindo. Em relação às instalações portuárias, previa-se 3 a 4 sugadores portáteis e 
movimentação de 350 toneladas por hora. Na década de 1980, o movimento de carga que podia 
ser transferido para a ferrovia no terminal de Pederneiras era de aproximadamente 2,7 bilhões de 
t/km (Eureka, 1984). Isso gerava uma grande economia, pois o custo operacional hidroviário 
correspondia a 14% do rodoviário e 21% do ferroviário, sem computar despesas de manutenção 
das rodovias ou das vias férreas (Tribuna dos Municípios, 1985). 
Previa-se também a instalação de 3 quilômetros de frente de acostagem com capacidade para 
instalação de 9 pontos para 2 comboios padrão Tietê (Figura 7), com uma área de 120 hectares 
para a instalação do sistema hidrorrodoviário (Figura 8). O custo estimado de instalação era 13 
74 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
milhões de dólares. A margem do rio teria uma faixa de acesso rodoviário, na qual as empresas 
poderiam instalar estruturas portuárias dentro das condições pré-estabelecidas (Agostinho, 
1988). 
 
Figura 7. Esquema de um comboio padrão Tietê 
(CESP, 1987) 
Figura 8. Projeto do Terminal de Pederneiras com 
custo estipulado em 13 milhões de dólares 
(Agostinho, 1988) 
Durante os meses de novembro de 1989 a março de 1990, ocorreram muitas reuniões para 
estabelecer as etapas para a criação do Terminal Intermodal de Pederneiras. Conforme as atas 
dessas reuniões, foram realizados estudos sobre o sistema integrado de terminais intermodais de 
carga do Estado de São Paulo e o levantamento topográfico; foram definidos o layout, os traços 
ferroviários, as áreas de interesse para cada empresa e o plano de implementação do Terminal; 
além disso, foram estabelecidos as diretrizes e os critérios para a elaboração do Projeto Executivo 
do ramal ferroviário. Dentre os participantes dessas reuniões estavam os representantes das 
seguintes entidades e empresas: Bupec Consultores, CESP, Desenvolvimento Rodoviário 
Sociedade Anônimo (DERSA), FEPASA, Substituição Tributária (ST), Planave S/AS, Cutrale, Nova 
Roseira Armazéns, Superpesa, Estrela Armazéns Gerais, Indústria Santo Antônio, além dos 
vereadores José Maturana Corral e Carlos Ribeiro C. Franscareli e o prefeito Fernando A. Minguili 
(Rosa,2020). 
O Terminal foi concebido por meio de acordos entre a iniciativa pública e privada. Seria de 
responsabilidade da iniciativa privada providenciar a construção de suas respectivas empresas na 
vila industrial. Ao setor público caberia gerenciar o porto, desapropriar as terras necessárias, 
fornecer energia, fazer as obras de terraplenagem e melhorar as rodovias no entorno. Ao todo, 
quatro órgãos ficaram responsáveis por instalar e fazer a operação no Terminal: DERSA, FEPASA, 
CESP e a prefeitura (Rosa, 2020). 
Em 31 de janeiro de 1990, o prefeito Fernando A. Minguili, utilizando-se das atribuições legais da 
lei no 4.132 de 10 de setembro 1962, estabeleceu a desapropriação de 9 imóveis, por via 
amigável ou judicial, por serem declarados de interesse social para a instalação do Terminal 
Intermodal de Cargas, sob o decreto 1.335. Em 8 de abril de 1992, a partir da lei 1.796, foram 
autorizados a concessão de direito real do uso de áreas para implantação do Terminal, bem como 
o início das obras. Em 4 de junho de 1993, aconteceu a inauguração do Porto Intermodal de 
Pederneiras, com a presença do governador do estado Luiz Antônio Fleury Filho, com as 
expectativas de desenvolver a região e de abrir mais uma porta para o Mercosul, a partir de 
inserção da região centro oeste do Estado (Rosa, 2020). 
Na ocasião de inauguração havia a expectativa de receber o Terminal Intermodal de Cargas 
Alfandegadas de Pederneiras (TICAP), projeto coordenado pelo Dr. Paulo Bastos, com o objetivo 
RIO TIETÊ E SUA RELAÇÃO COM A CIDADE DE 
PEDERNEIRAS: UMA HISTÓRIA EM CINCO FASES 75 
 
 
de baratear o custo dos produtos a serem exportados e fazer a ligação direta com o porto de 
Santos (Rosa, 2020). Em relação à iniciativa privada, o grupo Comercial Quintella foi a empresa 
pioneira a implantar, em 1993, seu terminal de cargas, logo após a conclusão das obras do trecho 
hidroviário de Conchas a São Simão-GO (CESP, 1997). Previa-se que terminal da Quintella 
promoveria o transbordo de aproximadamente 1,5 milhões de toneladas no primeiro ano de 
funcionamento podendo chegar até 5 ou 6 milhões de toneladas/ano, recebendo grãos de Goiás, 
Mato Groso do Sul, Paraná e Paraguai (Barros, 1993). 
Em seguida, Pederneiras recebeu investimentos da indústria de fermentos Mauri e dos estaleiros 
Torque. Depois vieram outros investidores como a Santista Ceval, Fertilizantes Serrana e 
Companhia de Navegação da Amazônia (CESP, 1997). O Terminal continuou recebendo muitos 
investimentos e entre 1995 a 2008, recebeu o equivalente a 562 milhões de reais pelos 
governadores estaduais e federais na Hidrovia Tietê-Paraná (Luccas, 2008). Entre 2001 e 2004, 
durante a gestão do Prefeito Rubens Cury, foi viabilizado o transporte de 500 mil toneladas de 
grãos por ano, além do encaminhamento na produção de farelo, grãos, fertilizantes e soja aos 
principais portos do Mercosul (Ancona, 2004). Em suma, a abertura do Terminal foi um marco 
histórico que trouxe grandes mudanças ao município. A chegada do Porto alavancou o processo 
de urbanização, atraindo muitas indústrias e gerando muitos empregos no município. Em 1998, 
Pederneiras era o município da Região Administrativa de Bauru que concentrava o maior número 
de estabelecimentos industriais com destaque no setor metal-mecânica (Farrenberg, 1998). Em 
2002, 30,6% do Valor Adicionado ao PIB advinham do setor industrial, e em 2014, a 
representatividade das indústrias subiu para 43% (IF, 2018). 
4.5 5ª Fase: o turismo e a Praia Municipal de Pederneiras 
A origem exata da Praia Municipal de Pederneiras é incerta, mas antes da construção da 
hidroelétrica de Bariri, a área onde hoje se localiza a prainha teve como primeiro uso o Porto 
Carapina, onde se atracavam o transporte de balsas para quem queria atravessar o rio e ir a Jaú 
(Oliveira, 2020). Posteriormente, a área se transformou num parque aquático da cidade: situado 
às margens do rio Tietê, no quilômetro 200 da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, foi 
inaugurado em 28 de janeiro de 1973, o antigo Parque Turístico Municipal, durante a gestão do 
prefeito Wilibaldo Fernandes Gil (período de 1969-1972), por meio de um projeto de incentivo ao 
turismo com o aproveitamento das belezas naturais do Rio Tietê (PMP, 2020). O Parque continha 
uma praia artificial, serviço de bar e restaurante e vários conjuntos esportivos, abrangendo uma 
área de 96 mil m2 (PMP, 2019). Porém, com o passar dos anos, o parque faliu e o espaço foi 
sendo abandonado. 
A ideia de revitalização da prainha começou na gestão da primeira prefeita de Pederneiras, Ivana 
Maria Bertolini Camarinha (mandato de 2005 a 2012), que foi responsável pela revitalização do 
Parque Ecológico e a Lagoa e do Parque Municipal, que posteriormente ficou conhecido como 
prainha (Vilhalva, 2011). Para isso, foi elaborado o Projeto Revitalização da Prainha, cujo objetivo 
era proporcionar uma nova opção de lazer para a população de Pederneiras e região, em uma 
área com grande potencial turístico. 
No projeto, pretendia-se fazer uma recuperação hidráulica, elétrica e das instalações prediais, 
totalizando 363,42 m2 de estrutura física a ser recuperada (Figura 9). Como resultado, esperava-
se melhorar a qualidade de vida da população e aumentar o número de turistas em torno de 40%, 
esperando-se uma média anual de 40 mil turistas e o crescimento do comércio local. A 
76 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
manutenção da área ficaria a cargo da Prefeitura Municipal de Pederneiras. O orçamento e a 
elaboração do projeto foram realizados pela Campos Prado Construtora, atuante na construção 
civil de Jaú. O Projeto foi inscrito no programa Turismo no Brasil, criado pelo Ministério do 
Turismo na época. Desde 2003, o Gabinete do Turismo, liberou verba, financiada pela Caixa 
Econômica Federal para o incentivo ao Turismo no país. 
Em 2006, foi criado o projeto "Pederneiras: Conheça, Ame, Aprecie", com base na Lei 2.527, com 
o objetivo de conscientizar os alunos do Ensino Fundamental sobre os potenciais turísticos e 
culturais do município, através de sensibilização por meio de visitas temáticas aos principais 
recursos e atrativos turísticos e culturais (Cornélio, 2011). Durante o ano de 2007, mais ajustes 
foram feitos no orçamento e no projeto e, em 2008, as obras foram iniciadas: reforma das 
instalações existentes e construção de dez quiosques com pias e churrasqueiras oito banheiros 
masculinos, oito femininos, um palco ao ar livre e um galpão para festas de uso coletivo, 
conforme previsto no projeto (Cornélio, 2009, 2011). 
Erro! 
 Figura 9. Fotografia do primeiro projeto de revitalização da Praia do Rio Tietê em Pederneiras (São Paulo, 
Brasil), elaborado em julho de 2007, sob responsabilidade do arquiteto Luis Otávio Maciel Chacon 
(fotografia pela autora do original disponível no Acervo do Museu Ferroviário Municipal de Pederneiras - 
Centro Cultural “Izavam Ribeiro Macario”) 
Ainda no ano de 2008, Pederneiras passou a integrar a rota do Circuito Turístico: Caminhos do 
Centro Oeste Paulista, projeto criado com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento sócio 
econômico e cultural da região de forma sustentável (SEBRAE, 2008). Dentre os pontos turísticos 
RIO TIETÊ E SUA RELAÇÃO COM A CIDADE DE 
PEDERNEIRAS: UMA HISTÓRIA EM CINCO FASES 77 
 
 
oferecidos pelo município, destacavam-se a estação ferroviária de 1913, reinaugurada em 2008 
após restauração, a Prainha, a Casa do Artesão Uniarte, o Parque Ecológico Vale do Sol, a Igreja 
Matriz e o Engenho Bessi (Cornélio, 2009). Na Cartilha do Circuito Turístico de 2008 já constava a 
indicação da Prainha como um ponto turístico a ser explorado no município. 
Em 2009, um levantamento preliminar municipal mostrou que cerca de duas mil pessoas 
visitavam a prainha durante o verão, sendo que 80% a 90% dos usuários eram provenientes de 
Bauru (Cornélio, 2011). No entanto, com opassar dos anos o espaço ficou abandonado e 
novamente degradado. Assim, durante a gestão do prefeito Vicente Minguili (mandato 2017-
2020) uma nova proposta de restruturação da área foi iniciada. O novo projeto (Figura 10) propôs 
uma reforma paisagística, com quadra e banco de areia nos 400 metros de margens no Tietê, 
nova iluminação e asfalto no trecho que dá acesso à SP-225, além de reforma dos banheiros, 
quiosques e adaptações de acessibilidade e segurança. 
 
Figura 10. Novo projeto de reformulação da Praia Municipal de Pederneiras, São Paulo, Brasil, de 
responsabilidade do arquiteto Fábio Chaves Sgavioli e desenhado por Randal Bergamasco em abril de 2017 
(disponibilizado pela Prefeitura Municipal de Pederneiras) 
Em 28 de setembro de 2019 aconteceu a inauguração da revitalização da Prainha Municipal de 
Pederneiras com objetivo de ser uma opção de lazer e atrativo turístico na região. Após o ato 
oficial de inauguração, diversos atrações foram oferecidas à população: apresentações de dança e 
música, aula de zumba, vôlei de areia, estandes com informações a respeito do cuidado com o 
meio ambiente e a saúde, além de testes de glicemia e aferição de pressão arterial e atividades 
para as crianças. Além disso, cerca de 300 mudas de árvores nativas da região foram plantadas 
pelas cidadãos, mídia, funcionários públicos e funcionários que estavam presentes no local. 
78 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Com a criação da prainha, o perímetro urbano passou a se expandir para sudoeste e 
especialmente para sudeste, indo em direção ao Rio Tietê, e no sentido de integração com a área 
do complexo de terminais multimodais (Farrenberg, 1998). Mesmo após os períodos de 
abandono, a área que margeia o rio continua a receber grandes investimentos do governo com o 
objetivo de se tornar um atrativo turístico. Entre 2020 e 2021, está prevista a entrega do barco 
Homero Krähenbuhl, com 50 metros de comprimento e capacidade para 500 passageiros, de 
propriedade da empresa Transtietê Navegação e Transporte. Trata-se uma nova opção turística 
de navegação, com previsão de píer de atracação na recém-inaugurada Prainha Municipal (Jornal 
da Cidade, 2020). 
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
O presente capítulo buscou compreender a relação entre a cidade de Pederneiras e o rio Tietê 
segundo a ótica de duas portas para a leitura da paisagem propostas por Besse: a paisagem vista 
como uma representação cultural e a paisagem como um território produzido pelas sociedades ao 
longo da história. Do ponto de vista de representação cultural e social (primeira porta) e de 
território produzido pelas sociedades ao longo da história (segunda porta), constamos que seu 
uso foi frequentemente transformado ao longo da história, de acordo com os interesses sociais e 
culturais de cada época. Como parte desse processo, temos a primeira fase relacionada ao 
desbravamento do Oeste Paulista no século XIX, a segunda relativa à produção de e energia, a 
terceira marcada pelas cerâmicas e olarias, a quarta atrelada à inauguração do Porto Intermodal 
de Pederneiras e a quinta associada ao Turismo, principalmente com a reinauguração da Prainha 
Municipal. 
Em relação à primeira fase, constatou-se que o rio representou um importante elemento na 
paisagem do ponto de vista estético e estratégico, uma vez que facilitou a chegada dos 
aventureiros que fundaram a Fazenda Pederneiras. Também foi fundamental para fornecer 
matéria-prima para o desenvolvimento da economia oleiro-ceramista no município. Em relação a 
implantação da Hidrovia Tietê-Paraná e a criação da hidrelétrica, ambas permitiram que o rio 
tivesse a função de transporte e geração de energia, porém transformou drasticamente o modo 
como o rio estava inserido na paisagem, causando impactos ao meio ambiente, à produção de 
cerâmica e à vida da população. Por outro lado, permitiu que se concretizasse a navegação no 
Tietê, influenciando na implantação do Porto Intermodal de Pederneiras e na chegada do 
Turismo. Em suma, o Tietê foi palco de importantes acontecimentos históricos. Atualmente sua 
história continua sendo construída pelo homem: o rio é fonte de energia, meio de transporte e o 
responsável por atrair empresas que desenvolvem a economia e geram empregos às cidades. 
Enfim, o Tietê é um lugar com memória, identidade e história. 
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RIO TIETÊ E SUA RELAÇÃO COM A CIDADE DE 
PEDERNEIRAS: UMA HISTÓRIA EM CINCO FASES 81 
 
 
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<https://perfil.seade.gov.br/> Acesso em: 10 out. 2017 
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A Força do Interior, ano 1, C51 Editora Ltda, p. 48–49, 2011. 
AUTORES 
Gabriela Rosa: Mestranda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-Bauru); 
ecóloga graduada pela UNESP-Rio Claro; membro do Grupo de Estudos de Paisagem. Currículo completo em 
http://lattes.cnpq.br/3745243722478086 
Norma Regina Truppel Constantino: Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela USP – Universidade de São 
Paulo (2005); mestre em Planejamento Urbano e Regional Assentamentos Humanos pela UNESP (1994); 
arquiteta graduada pela Universidade Federal do Paraná (1979); professora aposentada (2019) da UNESP 
no Curso de Arquitetura e Urbanismo e no Mestrado Acadêmico em Arquitetura e Urbanismo. Aposentada 
(2019); mantém atuação como professora voluntária na mesma instituição. Atua principalmente nos 
seguintes temas: paisagem urbana, paisagismo, espaços livres urbanos e história da cidade e do território e 
é coordenadora do Grupo de Estudos de Paisagem. Currículo completo em: 
http://lattes.cnpq.br/5801303308289921 
82 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Página propositalmente em branco 
 
 
 
Patrimônio e reabilitação 
84 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Página propositalmente em branco 
 
 
Patrimônio ferroviário e industrial e a paisagem urbana de 
Araraquara-SP 
Laís da Silva Rodrigues 
Evandro Fiorin 
RESUMO: No processo de crescimento das cidades, 
a malha urbana atravessa diversos períodos de 
expansão que podem ser lidos de forma distinta. 
No caso de muitas cidades do interior paulista há 
uma característica marcante: a doação do 
patrimônio religioso para a formação do núcleo 
primário ou os agrupamentos populacionais que 
surgiriam em decorrência da instalação e 
desenvolvimento das estradas de ferro. O presente 
trabalho tem como objetivo apontar a influência 
da ferrovia na paisagem urbana de Araraquara, no 
interior do estado de São Paulo, assim como, 
entender seu desenvolvimento urbano inicial, além 
do seu decorrente processo de industrialização 
identificando, então, três caracterizações para sua 
formação e evolução urbana a partir da reflexão 
sobre permanências e transformações na sua 
paisagem. A busca por evidenciar essas mudanças 
é conseguida a partir da revisão histórica e 
documetal da cidade, por meio de bibliografia, 
mapas e imagens do passado e atuais. Além disso, 
há também uma preocupação em registrar a 
debacle do patrimônio ferroviário e a consequente 
obsolescência do antigo leito férreo e dos edifícios 
emblemáticos de suas margens. 
Railway and industrial heritage and the urban 
landscape of Araraquara-SP 
ABSTRACT: In the process of growth of cities, the 
urban network goes through several periods of 
expansion that can be read differently. In the case 
of many cities in the interior of São Paulo there is a 
striking feature: the donation of religious heritage 
for the formation of the primary nucleus or the 
population groupings that would arise as a result 
of the installation and development of railways. 
This work aims to point out the influence of the 
railroad in the urban landscape of Araraquara, 
interior of the state of São Paulo, well as to 
understand its initial urban development, in 
addition to its resulting process of 
industrialization, identifying, then, three 
characterizations for its formation and urban 
evolution from the reflection on permanence and 
transformation in its landscape. The search for 
evidence of these changes is achieved through the 
historical and documentary review of the city, 
through bibliography, maps and images from the 
past and present. In addition, there is a concern to 
register the collapse of the railwayheritage and 
the consequent obsolescence of the old railway 
bed and the emblematic buildings from its 
margins. 
Palavras-chave: Ferrovia, Patrimônio, Araraquara-
SP. 
Keywords: Railway, Heritage, Araraquara – SP. 
86 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
1 INTRODUÇÃO 
Criada em 22 de agosto de 1817, a freguesia de São Bento de Araraquara surge, como todas as 
freguesias no período colonial e imperial, através do patrimônio religioso. Em 1832 foi 
desmembrada em definitivo da cidade de Piracicaba, por alvará real de D. João VI, e elevada à 
cidade de Araraquara em 6 de fevereiro de 1889, quatro anos após a Companhia Rio-Clarense 
chegar a suas terras, alterando a dinâmica social e econômica da cidade. Após esse primeiro 
período, houve a instalação da Companhia Rio-Clarense, quando o trecho foi incorporado à 
Companhia Paulista de Ferro e, em 1896, surgiu a Companhia Estrada de Ferro Araraquara (EFA), 
inicialmente de capital privado, tornando-se o KM 0 da linha tronco. Com o inicio da construção 
da EFA, a malha urbana de Araraquara sofreu modificações decorrentes do desenvolvimento 
proporcionado pela companhia sendo, um deles, a trasnposição do córrego da Servidão e a 
ocupação territorial da sua outra margem, formando a Vila Xavier. 
É importante salientar que, em Araraquara, os usos ferroviários ainda estão presentes, mesmo 
que em menor escala em algumas de suas instalações, a não ser na Estação Ferroviária; esta que, 
hoje em dia, abriga o Museu Ferroviário Francisco Aurélio de Araújo. Mesmo assim, o processo de 
deterioração acontece nas áreas marginais ao longo do leito férreo, solapando também as antigas 
indústrias desocupadas inseridas em um contexto residencial, por decorrência da expansão da 
cidade. 
Desta forma, este trabalho vai apresentar três fases distintas para compreensão dessa cidade do 
interior paulista que foi sede da Estrada de Ferro Araraquarense. No primeiro período, em 
meados de 1817, a cidade de Araraquara encontra-se em processo de formação do seu núcleo 
embrionário, composto por sesmeiros e posterior doação ao patrimônio religioso para a 
construção da Matriz de São Bento, padroeiro do município, e se estende até a instalação da 
ferrovia. O segundo período tem início com a fixação da linha férrea, bem como, suas 
consequências como uma barreira física-social e suas medidas mitigatórias. Já o terceiro período é 
marcado pelas transformações da paisagem proporcionadas justamente pela consolidação da 
ferrovia até a debacle do sistema ferroviário como principal modal para o desenvolvimento da 
cidade. É nesse último período da análise que a dicotomia se intensifica e que podemos inferir 
algumas discussões a partir dos levantamentos e análises dos dados obtidos, pois se criam duas 
atmosferas: a região de serviços altamente valorizada, versus as áreas de esmaecimento e ou de 
evasão industrial, com predominância residencial, delimitadas por uma condicionante: a linha 
férrea. 
Essa perspectiva de análise é baseada na pesquisa bibliográfica, que tem como base de dados 
históricos os trabalhos de Corrêa (2008), Mano (2006), Souza (2003) e França (1915), dentre 
outros citados no decorrer do texto, os quais relatam o desenvolvimento de Araraquara, bem 
como uma metodologia historiográfica, tratada por Leite (2016), que elucida o método de Walter 
Benjamin. 
2 OBJETIVO 
Apontar e identificar aspectos da formação da área urbana de Araraquara e as modificações que a 
implantação da EFA provocou na paisagem urbana, com o intuito de evidenciar alguns períodos 
PATRIMÔNIO FERROVIÁRIO E INDUSTRIAL E A 
PAISAGEM URBANA DE ARARAQUARA-SP 87 
 
 
de seu florescimento citadino ao lado do leito férreo, bem como, seu desenvolvimento, além de 
alguns reflexos da obsolescência do modal ferroviário para a cidade. 
3 METODOLOGIA ADOTADA 
A historiografia do patrimônio ferroviário e industrial da cidade de Araraquara, tratada nesse 
trabalho, possui como base metodológica a revisão bibliográfica. Assim, foram realizados, além da 
revisão bibliográfica sobre o patrimônio de Araraquara, levantamentos de plantas e imagens 
antigas da cidade no acervo digital da Prefeitura Municipal, bem como relatos de memorialistas e 
historiadores através de sites. As idas a campo também propiciaram um olhar contraditório aos 
fatos estudados. Nesses casos, foi possível analisar e interpretar os documentos fichados para a 
construção da narrativa aqui apresentada, com base na teoria utilizada por Walter Benjamin, a 
qual discorre sobre a compreensão singular, mas, também, plural dos fatos em contraposição ao 
saber interno (Leite, 2016), ou seja, um processo comparativo de leitura da paisagem e de suas 
permanências e transformações. Benjamin propõe um fragmentarismo construtivo e sistemático 
através da captura de imagens do passado para elucidar o confronto entre a história individual e a 
plural, na busca pela verdade do movimento histórico. A verdade torna-se objeto concreto 
quando passa do romantismo crônico e começa a ser tratada pelo método da apresentação, 
expressando através das imagens capturadas, especialmente nas saídas a campo no momento 
presente, o modo comportamental dos resíduos temporais na paisagem urbana. 
4 ARARAQUARA: DOS SERTÕES À CIDADE FERROVIÁRIA, 1º PERÍODO 
Localizada na região central do Estado de São Paulo, a 270 km da capital, a cidade de Araraquara 
iniciou sua formação urbana em 1817. Entretanto, segundo Souza (2003), apesar da origem da 
cidade, inicialmente denominada Aracoara1, remontar há três séculos após o ano de 1500, época 
em que foi habitada pelos índios guayaná2, sua ocupação se deu no século XVIII, com a tomada de 
posse das terras pelos brancos em 1790. Mais tarde, no século XIX, a região dos Sertões de 
Araraquara configura a rota estratégica entre o litoral, São Paulo (centro administrativo) e o Mato 
Grosso, especialmente, após a descoberta do ouro em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, dando 
início ao processo da formação populacional (Corrêa, 2008). 
A expressão Sertões ou Campos de Araraquara indica a localidade que hoje é ocupada pelos 
municípios de Rio Claro, Descalvado, São Carlos, Brotas e Araraquara, conforme figura 1. A 
delimitação dessa região, até então considerada “campos devolutos”, era compreendida como: 
[...] uma extensa área que se principiava na margem direita do rio Piracicaba, nas 
proximidades da sua confluência com o Rio Tietê, e se estendia ao longo da grande 
faixa compreendida entre os rios Tietê e Mogi-Guaçu até atingir o Rio Grande no 
sentido norte (divisa com o atual estado de Minas Gerais) e o rio Paraná no sentido 
nordeste (divisa com o atual estado do Mato Grosso do Sul). (FOLLIS, 2016, p. 155) 
 
1
 Aracoara, mais tarde denominada Araraquara, possuí origem etimológica no tupi. De acordo com o livro “A Origem 
dos Nomes dos Municípios Paulistas”, organizado por Enio Squeff e Helder Perri Ferreira em 2003 pela editora Cepam, 
alguns historiadores interpretam como “refúgio/paradeiro das araras”, já outros entendem como “morada do dia”, 
sendo ara (dia) e quara (morada). 
2 
Grupo indígena que habitava os Sertões de Araraquara nos primórdios do século XV. A origem do nome vem do tupi 
para classificar um povo que não falava esta língua indígena. Segundo algumas hipóteses levantadas por John Monteiro 
(1994), os guayaná eram possivelmente um grupo Kayapó do Sul, considerados ferozes por seguidos ataques às 
expedições rumo a Goiás, Goiânia. (Monteiro, 1994 in Mori, 2015). 
88 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Figura 1. Mapa da delimitação dos Sertões de Araraquara (fonte: imagem aérea do Google Earth em 
composição, editada e elaborada pelos autores, 2020) 
Souza (2003) aponta que o processo de ocupação da região por posseiros ocorreu de modo 
paralelo à concessão das sesmarias,em meados de 1811, e estas funcionariam como postos 
avançados de abastecimento dos viajantes que iam rumo às minas. Com o declínio da mineração 
e grande expansão da pecuária pelo interior paulista, os Sertões de Araraquara tornaram-se 
destino de posseiros paulistas e mineiros em busca de terras para criação de gado e para o plantio 
de lavouras de subsistência, formando o primeiro grupamento populacional, branco, dominante 
da região (Corrêa, 2008). 
Araraquara teve seus primórdios nesse contexto de apropriação ilegal das terras do reino pelos 
posseiros, em paralelo com a distribuição de sesmarias e posterior formação por doação de 
“quatrocentas braças em quadra” para o patrimônio religioso da Freguesia de São Bento de 
Araraquara, doado pelo Padre Joaquim Duarte Novaes em 17 de fevereiro de 1819. Porém, antes 
da doação do patrimônio religioso, Pedro José Neto (considerado fundador de Araraquara) foi um 
dos posseiros da região. Ele ganhou notoriedade ao solicitar a concessão de uma carta de 
sesmaria para uma de suas terras, denominada Brejo Grande. Em 7 de junho de 1811 a carta foi 
concedida para uma sesmaria (Mano, 2006, p. 89), com a seguinte descrição: 
Tres leguas de terras de testada e uma de sertão nos Campos de Araraquara, termo da 
Villa de Itú, principiando a testada no morro do Espigão que verte para o córrego do 
Brejo Grande buscando o Ribeirão do Bairro até se inteirarem as ditas três léguas da 
testada” (São Paulo, 1944, p. 449). 
A partir da sesmaria do Brejo Grande, Pedro José Neto fundou a Fazenda Araraquara e, em 1814, 
construiu uma capela em louvor a São Bento, formando o bairro de São Bento na freguesia de 
Piracicaba. A evolução do bairro para freguesia de São Bento de Araraquara não tardou e foi 
realizada por decreto real em 22 de agosto de 1817. De acordo com Souza (2003) em 1897, um 
ano após a instalação da Estrada de Ferro em Araraquara, algumas melhorias urbanas começaram 
a despontar no desenho da vida urbana. As modificações foram realizadas com o intuito de 
embelezar a cidade, tendência do processo de desenvolvimento urbano, tanto brasileiro, quanto 
estrangeiro. Tendência esta que se tornou mais presente no início da década de 20, quando um 
processo de europeização da paisagem urbana foi difundido em muitas cidades do interior 
paulista. Essa concepção introduziu em Araraquara, após o embelezamento inicial de 1897, a 
renovação das luminárias, agora a gás, o calçamento em paralelepípedos, a arborização e 
PATRIMÔNIO FERROVIÁRIO E INDUSTRIAL E A 
PAISAGEM URBANA DE ARARAQUARA-SP 89 
 
 
construções de praças mais elaboradas com inspiração no estilo francês, tomando como exemplo 
a Praça da Matriz de São Bento, figura 2. Podemos observar na figura 3 a mudança de feição do 
antigo casario e seu processo de desenvolvimento, com a adição de pavimentos e eletrificação em 
épocas mais recentes. 
 
Figura 2. Fotomontagem da Praça da Matriz de São Bento, modelo inspirado nos jardins franceses (fonte: 
Google Imagens, modificada pelos autores, 2020) 
 
A princípio, o desenvolvimento do vilarejo se deu na forquilha dos Córregos D’água e da Servidão, 
mas o traçado de expansão, no decorrer dos anos, suprimiu o Córrego D’água (figura 4) e foi 
delimitado pelas barreiras físicas do Córrego da Servidão, fazendo com que a formação urbana 
crescesse na margem esquerda do mesmo. Com a instalação da EFA, à margem direita do Córrego 
da Servidão, este foi parcialmente canalizado, rompendo a barreira física e, assim, a evolução da 
malha ganhou novo traçado, expandindo-se para além das bordas d’água. Apesar de romper a 
barreira natural existente, a construção da ferrovia também gerou um novo entrave, inicialmente 
invisível, que mais tarde segregou a porção territorial de trás da estação. Tal fato ocorreu pela 
configuração em forma de cinturão da linha férrea (figura 5), limitando a troca de sinergia entre a 
formação urbana consolidada e a nova área em expansão, proporcionando um desenvolvimento 
mais tardio dessa região mais afastada. 
 
Figura 3. Fotomontagem das Ruas: São Bento, esquina com a Av. Brasil, em 1870; Largo da Matriz de São 
Bento em 1891 e Avenida Brasil em 1978, respectivamente (fonte: Google Imagens, modificado pelos 
autores, 2020) 
90 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Figura 4. Traçado urbano da Villa de São Bento de Araraquara em 1840 (a); Córrego D’água em frente à 
Matriz de São Bento, 1875 (b); 4º Matriz de São Bento, 1891 (c); Matriz de São Bento em 1931 (d), 
respectivamente (fonte: Google Earth em composição com mapa da Prefeitura Municipal de Araraquara de 
1840 e Google Imagens) 
 
Figura 5. Fotomontagem: Linha férrea em forma de cinturão e expansão urbana (fonte: composição de 
imagens do Google Earth e Google Imagens com mapa da Prefeitura, modifica dos pelos autores, 2020) 
5 A LINHA COMO BARREIRA URBANA, 2º PERÍODO 
De acordo com Francisco (2019), as barreiras ou fronteiras sociais e/ou físicas podem delimitar 
espaços e reafirmar a identidade bairrista construída, ao mesmo tempo em que fragmentam a 
cidade e prejudicam a continuidade urbana de uma determinada região. 
[...] um limite pode tornar-se algo mais do que um simples obstáculo dominante se 
permitirmos que dele façam parte algumas qualidades motoras e visuais [...]. Torna-se 
então, mais uma “costura” do que uma barreira, uma linha de intercâmbio ao longo da 
qual foram “alinhavadas” duas áreas.” (Lynch in Francisco, 2019, p.13). 
A configuração da linha férrea de Araraquara constitui uma barreira, uma cicatriz na malha 
urbana; a marca de um passado não muito distante da época próspera do desenvolvimento e do 
potencial econômico que o modal proporcionou à cidade. O que pudemos diagnosticar pelas 
imagens do passado e pelas saídas a campo é o fato de que transposição da linha por vias oficiais 
PATRIMÔNIO FERROVIÁRIO E INDUSTRIAL E A 
PAISAGEM URBANA DE ARARAQUARA-SP 91 
 
 
é limitada, e a passagem de transeuntes também, isto desde os primórdios da chegada da linha 
férrea. Surgem assim, os cortados de caminho, lugares do entre. Na parte mais central a 
configuração urbana está em constante agitação e do lado da Vila Xavier há a calmaria 
característica das zonas de predomínio residencial, agora abandonadas pela diminuição das 
atividades da ferrovia. 
Desde muito tempo, a construção de pontos que buscam conectar um lado ao outro da cidade foi 
realizada como medida mitigadora para amenizar a ruptura da malha urbana em Araraquara. A 
construção da passagem subterrânea (figura 6) em meados de 1908, ligou a Vila Xavier ao centro 
da cidade. A primeira necessidade apresentada para urbanização da área foi o prolongamento da 
Rua Luís Pinto, atual Avenida São Paulo, para transposição do Córrego da Servidão, através da 
construção de uma ponte. Com a nova dinâmica e crescente fluxo para região da estação de 
trens, constatou-se que um único acesso direto à estação não suportava mais as necessidades de 
mobilidade urbana. 
Logo dois novos acessos foram construídos. A segunda ligação dada pelo prolongamento da Rua 
Santo Antônio, atual Avenida Brasil; e a terceira rua a ser interligada por meio de uma ponte foi a 
Rua da Boa Morte, atual Avenida Dom Pedro II, conforme figura 7. Porém, essas medidas aqui 
citadas não foram formas definitivas de conexão, mas, somente resolveram uma ligação pontual. 
Para além disso, deveriam ser pensadas outras formas de interconexão entre as áreas. A costura 
definitiva entre as diferentes regiões da cidade envolvia, assim, a criação de projetos de outra 
envergadura, além das pontes e da ligação subterrânea. 
 
Figura 6. Fotomontagem: Passagem subterrânea em 1980 (a) e trecho da passagem em 2020 (b) (fonte: 
Google Imagens e Google Street View, editada pelos autores, 2020) 
 
Figura 7. Mapa das travessias do Córrego da Servidão e transposição da linha férrea (fonte: Google Earth e 
Mapa Prefeitura Municipalde Araraquara, editada pelos autores, 2020) 
6 ESTRADA DE FERRO E AS TRANSFORMAÇÕES DA PAISAGEM URBANA, 3º PERÍODO 
Em 18 de janeiro de 1885, a Companhia Rio-Clarense de Estradas de Ferro, mais tarde 
incorporada pela Companhia Paulista de Estrada de Ferro, chega a Araraquara. Tempos depois, o 
92 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
Conde do Pinhal incentivou3 um grupo de fazendeiros a constituir uma companhia de estrada de 
ferro genuinamente araraquarense e assim, em 1896, a EFA foi inaugurada com sua primeira 
locomotiva circulando em 1898 (Bergamim, 2015). 
De acordo com Ribeiro (2019), em 16 de dezembro de 1896, a companhia adquire do senhor 
Alberto Kuhlman e de sua esposa Mariana, uma casa e um lote adjacentes à ferrovia com o 
objetivo de transformá-los em parte do apoio técnico da estrada de ferro (escritório e depósito), 
deste modo, temos os dois primeiros imóveis pertencentes à EFA4. Com relação a outros edifícios 
construídos pela EFA, podemos citar um barracão e a plataforma de passageiros em Araraquara, 
ambos datados de 1898. Segundo Ribeiro (2019), o barracão, com cobertura de zinco, pilares de 
madeira sobre base de tijolos, erguido no quilômetro 1 da estrada de ferro foi uma das primeiras 
construções ligadas a EFA, fato que podemos concluir com base nas datas apresentadas nas 
plantas e nas características construtivas (materiais e medidas), figura 8. Já a plataforma de 
passageiros, apesar de simples, demonstra um cuidado maior em relação à construção do 
barracão, detalhes como o lambrequim, por exemplo, foram utilizados, figura 9 (RIBEIRO, 2019). 
 
Figura 8. Fotomontagem dos desenhos técnicos do barracão construído pela EFA (fonte: 
RIBEIRO, 2019 - editada pelos autores, 2020) 
 
 
Figura 9. Fotomontagem: Gravura da plataforma de passageiros da EFA em 1910 (a); desenhos técnicos da 
plataforma, sem data (b-c) (fonte: RIBEIRO, 2019 - editada pelos autores, 2020) 
Com a instalação da ferrovia e a chegada dos imigrantes europeus, o trabalho escravo foi 
substituído, alterando a dinâmica social e cultural da Vila. Durante a primeira metade do século 
XIX, antes da ferrovia, a economia se baseava na cana-de-açúcar, milho, fumo e algodão, já os 
rebanhos eram, em sua maioria, de suínos e bovinos. Após a vinda da ferrovia e o investimento na 
cafeicultura a região passou a integrar a rota comercial do café, alterando definitivamente a 
dinâmica econômica e paisagística da cidade, conforme Caloni (1997) afirma: 
Ocorre que a presença da ferrovia, na cidade, sempre foi além dos trilhos que ocupam 
uma grande área central. A EFA gerou prédios imponentes, bairros (como a Vila 
Ferroviária, em 1948), o clube esportivo, o time de futebol, gerou empregos para 
 
3
 De acordo com o jornalista Pedro Henrique de Oliveira, entrevista para o documentário “Morada da memória” de 
2013, o incentivo veio acompanhado do interesse econômico sobre a vantagem que a ferrovia poderia proporcionar ao 
plantio de café em época que a produção cafeeira ganhava força e a necessidade de escoamento de grandes volumes 
surgia. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=mNQgyUITPQU>. Acesso em: 29 de abr. 2020. 
4
 Em consulta à bibliografia, os documentos encontrados não possuem referência geográfica desses imóveis, início das 
transformações decorrentes da EFA. 
PATRIMÔNIO FERROVIÁRIO E INDUSTRIAL E A 
PAISAGEM URBANA DE ARARAQUARA-SP 93 
 
 
várias gerações de araraquarenses e emprestou nosso gentílico para denominar a 
força produtiva do alto planalto. Por tudo isso, os trilhos estão impregnados na pele da 
cidade, como uma cicatriz que não nos deixa esquecer o tempo em que todos os 
caminhos levavam a Araraquara. (CALONI, 1997, p. C-5 – artigo in DEMARZO, 2014, p. 
80). 
Analisando a evolução da malha urbana de Araraquara, foi possível identificar a influência da EFA 
no desenvolvimento da cidade. Para tal compreensão, utilizamos como base o recorte temporal 
das décadas de 1870, 1880, 1890, 1900 e 1929. 
Na primeira década, 1870-1880, os trilhos ainda não alcançavam as terras dos Sertões de 
Araraquara, como resultado a malha urbana apresenta um crescimento diminuto do seu traçado 
(figura 10), resumido em aproximadamente5 6 quadras à margem esquerda do Córrego da 
Servidão. Entre 1880 e 1890, período de construção da ferrovia, ocorre a maior expansão do 
perímetro urbano6 através do acréscimo de aproximadamente 25 quadras, além do 
desmembramento de uma gleba em 3 lotes e a transposição da barreira física criada pelos trilhos. 
Nesse momento a urbanização começa a despontar na margem direita do córrego e o 
desenvolvimento é acelerado pelo processo de expansão e aumento do poder econômico 
exercido pela ferrovia (instalação de novos comércios e serviços). 
 
Figura 10. Fotomontagem comparativa da evolução da malha urbana de Araraquara, 1870 – 1880 
(fonte: Google Earth e Mapa Prefeitura Municipal de Araraquara, editada pelos autores, 2020) 
Na terceira década, 1890-1900, com trilhos da EFA inaugurados, o processo de expansão se retrai 
na margem esquerda do córrego, com acréscimo de aproximadamente 15 quadras no núcleo 
urbano original. Nesse mesmo período, são prolongadas 2 vias principais na margem direita do 
córrego, a saber, a Rua Luís Pinto e Rua Barroso (figura 11). 
 
5
 A quantificação das quadras através das cartografias disponibilizadas pela Prefeitura Municipal de Araraquara pode 
ser imprecisa pela forma simplificada dos desenhos digitalizados. 
6
 Nas análises realizadas por décadas, recorte temporal, o período da construção da estrada de ferro foi o de maior 
expansão do perímetro urbano. 
94 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Figura 11. Fotomontagem comparativa da evolução da malha urbana de Araraquara, 1890 – 1900 (fonte: 
Google Earth e Mapa Prefeitura Municipal de Araraquara, editada pelos autores, 2020) 
Entre os anos de 1900 e 1929, a expansão da malha na margem direita do córrego é mais 
acentuada, indústrias são instaladas ao longo dos trilhos e o processo de urbanização é 
estabelecido nesta porção lateral do córrego. No comparativo documental, entre cartografia e 
iconografia, são apresentadas algumas imprecisões no traçado urbano (figura 12), nota-se que a 
área urbanizada, registrada na iconografia de 1920, é maior que a da cartografia disponibilizada 
nos arquivos da Prefeitura Municipal. Nessa localidade estão inseridos a Vila Ferroviária da 
Companhia Paulista (CP) e o antigo galpão do Instituto Brasileiro do Café (IBC), ambos construídos 
na década de 20 e integrantes da Vila Xavier. 
 
Figura 12. Fotomontagem comparativa: cartografia de 1929 e iconografia de 1920 da cidade de Araraquara 
1900 (fonte: Mapa Prefeitura Municipal de Araraquara e Google Earth; Google Imagens, editada pelos 
autores, 2020) 
Segundo França (1915) e de acordo com a análise das décadas, o processo de urbanização 
acelerado, promovido pela industrialização, faz a população de Araraquara triplicar nos anos 
iniciais da ferrovia, fato ocasionado pela massiva imigração e migração de pessoas em busca de 
novas oportunidades que a linha férrea oferecia. Assim, os problemas relacionados à moradia da 
classe trabalhadora e a saúde pública começam a dar os primeiros sinais, forçando o poder 
público a implantar um padrão de moradia operária em 1920, figura 13. 
PATRIMÔNIO FERROVIÁRIO E INDUSTRIAL E A 
PAISAGEM URBANA DE ARARAQUARA-SP 95 
 
 
 
Figura 13. Casas operárias em Araraquara, 1920 (fonte: Morais, 2003) 
A implantação das vilas ferroviárias, Companhia Paulista na década de 20 e EFA7 na década de 40, 
em locais próximos às atividades da ferrovia contribuíram para o desenvolvimento comercial 
bairrista na área de expansão. A disposição da Vila Ferroviária da Companhia Paulista, naterritorialidade da Vila Xavier formou, em conjunto com as indústrias, um novo núcleo 
habitacional. A imagem aérea da década de 20 relata os vazios urbanos presentes na malha da 
cidade (figura 14), que eram paulatinamente ocupados pela demanda habitacional orquestrada 
pela Companhia Paulista (Morais, 2003). As estradas de ferro eram agentes transformadoras da 
paisagem, por onde passavam tinham o poder de desenvolver e criar cidades ou congelá-las, 
quando um de seus trechos era desativado. No caso de Araraquara a ferrovia foi posterior à 
criação da cidade e influenciou o seu traçado e sua paisagem, assim como a maioria das cidades 
ferroviárias do interior paulista. 
 
Figura 14. Crescimento da Vila Xavier, novo núcleo, década de 1920 (fonte: Google Imagens, modificada e 
editada pelos autores, 2020) 
Com o objetivo de escoar a produção cafeeira da região, a ferrovia também trouxe consigo um 
crescimento financeiro significativo. Nesse momento, surgem diversos edifícios que irão atender 
as novas demandas econômicas e sociais impostas pela ferrovia, figura 15, como bancos e hotéis, 
além da instalação de diversas indústrias relacionadas ao beneficiamento de matérias primas, 
como o Engenho Victória, na Vila Xavier e a Companhia Paulista de Laticínios, figura 16. Nesse 
momento a paisagem ganha novos ares, pontuada por chaminés, galpões, casarios fabris e alguns 
edifícios com mais de um pavimento. 
 
7
 A EFA foi uma das companhias que mais construiu moradias para seus funcionários e a maior concentração desse 
empreendimento fica em Araraquara, com mais de cem habitações localizadas perto de suas oficinas, margem 
esquerda do córrego no bairro Vila Ferroviária. 
96 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Figura 15. Mapa de localização das principais construções à margem esquerda da ferrovia (fonte: imagem 
aérea do Google Earth, editada pelos autores, 2020) 
 
Figura 16. Fotomontagem: Engenho Vitória, benefício de café (a); Hotel São Bento – lado esquerdo, e 
Companhia Paulista de Laticínio – lado direito (b); Hotel Foretti (c) (fonte Google Imagens, editada pelos 
autores, 2020). 
No início do século XX, com o aquecimento econômico em pleno curso, a industrialização 
motivada pelo beneficiamento agrícola sofre uma transição decorrente do enfraquecimento do 
café. Nesse período, pequenas fábricas familiares, na grande maioria formada por imigrantes 
italianos e espanhóis, ganham força e praticamente dominam esse nicho da economia 
araraquarense ao longo do antigo leito férreo (PIACENTINI, 2014). A instalação das fábricas na Vila 
Xavier enfatiza a construção de uma paisagem mais fabril, bem como a dinâmica social do bairro, 
criado e desenvolvido a partir da instalação da estrada de ferro, estabelecendo um contraste com 
a arquitetura da primeira formação urbana de Araraquara, figura 17. 
 
Figura 17. Fotomontagem: Fábrica da Nestlé fundada em 1946 (a); Casas funcionários da ferrovia na Vila 
Xavier (b) em contraposição a paisagem da Rua São Bento (c), à margem de frente à ferrovia (fonte: Google 
Imagens, editada pelos autores, 2020) 
A arquitetura do núcleo urbano de Araraquara sofreu grandes transformações ao longo dos anos, 
poucos são os remanescentes da era neoclássica preservados. Entre eles figura a antiga residência 
de José Pinto Ferraz, tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, 
Artístico e Turístico do Estado de São Paulo – CONDEPHAAT. A construção projetada por 
Belarmino Grossi em alvenaria é datada de 1880, anos antes de Araraquara ser elevada à 
categoria de cidade (1889). Analisando outras construções do mesmo período, podemos observar 
PATRIMÔNIO FERROVIÁRIO E INDUSTRIAL E A 
PAISAGEM URBANA DE ARARAQUARA-SP 97 
 
 
a evolução construtiva que ocorreu em 11 anos, época em que a transição entre estilos 
arquitetônicos começa a ser sentida. É nessa transição que o edifício da Diretoria de Ensino se 
enquadra, construída em 1895-97, pelo arquiteto Ramos de Azevedo, com uma mistura entre o 
neoclássico e neogótico, tombada pelo CONDEPHAAT em 2010 (figura 18). 
 
Figura 18. Fotomontagem da Antiga Residência José Pinto de Ferraz (a), Antigo Araraquara College, atual 
Diretoria de Ensino (b) e Câmara Municipal e Casa da Cultura (c) (fonte: Google Imagens, editada pelos 
autores, 2020) 
Entre os anos de 1914 a 1925, as construções passaram por um processo de transformação até 
chegar ao estilo eclético, nesse período temos o antigo Araraquara College, colégio primário e 
secundário, que hoje abriga a Casa da Cultura e ao lado está a Câmara Municipal, antes Prefeitura 
Municipal, ambas tombadas pelo CONDEPHAAT em 1982. Em 1919 são construídos o Hotel 
Municipal (próximo à estação) e a Escola Estadual Antônio Joaquim de Carvalho (distante 800 
metros da estação), o último retoma as características de uma arquitetura mais simples, 
enquanto o primeiro segue a vertente eclética, ambas são tombadas pelo CONDEPHAAT. No 
último ano desse período fora construída a Esplanada das Rosas e a Matriz de São Bento, figura 
19. 
 
Figura 19. Fotomontagem do Hotel Municipal (a); Escola Estadual Antônio Joaquim de Carvalho (b) e 
Esplanada das Rosas (c) (fonte: Google Imagens, editada pelos autores, 2020) 
Após anos de progresso e desenvolvimento, onde a estrada de ferro foi protagonista da criação e 
transformação da paisagem urbana, não somente ao longo do leito férreo, mas da cidade como 
um todo, o sistema ferroviário entra em crise a partir da década de 1950. A opção pelo sistema 
modal rodoviário enfraquece as operações férreas em todo o estado paulista e em Araraquara 
não foi diferente, apesar de a cidade manter as operações ferroviárias com menor intensidade, 
uma grande parte do transporte de mercadorias do país, ainda passam pelos seus trilhos. Mesmo 
assim, os patrimônios edificados, fábricas e indústrias, criados ao longo da linha férrea sofrem 
com esse enfraquecimento e, paulatinamente, muitas das antigas atividades são transferidas para 
áreas às margens da rodovia, configurando hiatos em meio à paisagem urbana. O Leito férreo em 
si, já pode ser lido como um grande vazio na paisagem de uma cidade. Um lugar mecânico, quase 
impossível de ser acessado por um transeunte. Cruzar uma antiga área ferroviária em uma cidade 
do interior paulista pode ser um risco, se desativado, justamente por abrigar o inesperado. E em 
Araraquara não é diferente. Quando fomos a campo descobrimos uma paisagem em ruínas de um 
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SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
passado não muito distante. Traços emblemáticos que não devem ser lidos de maneira romântica, 
mas como imagens contraditórias do tempo presente, em uma leitura benjaminiana. 
Figura 20. Fotomontagem: o abandono da linha e de suas margens (fonte: Google Imagens, editada pelos 
autores, 2020) 
As edificações ao longo do leito férreo (figura 21), em maioria pertencente à Rede Ferroviária 
Federal S/A – RFFSA, depois de algum tempo abandonadas, foram adquiridas por outras empresas 
ou doadas ao poder público e hoje abrigam novos usos, como o caso do antigo galpão da RFFSA, 
localizado paralelo a Estação, que abriga a Escola Municipal de Dança “Iracema Nogueira”, criada 
em 2002. Nas proximidades da escola, distante 270 metros - percurso em linha reta, está 
localizado o antigo galpão do Instituto Brasileiro do Café (IBC). Este, construído na década de 20, 
armazenava as sacas de café antes de seguirem para o porto de Santos, atualmente desocupado. 
Ao seu lado formou-se um cemitério de vagões e a sua frente encontramos a Vila Ferroviária da 
Companhia Paulista, década de 20 e do outro lado da linha férrea está o bairro Alvorada e a antiga 
Fábrica Cargill, em ruina (figura 22). 
 
Figura 21. Mapa de localização das construções na margem do leito férreo (fonte: imagem aérea do GoogleEarth, editada pelos autores, 2020) 
 
Figura 22. Fotomontagem: Antiga Fábrica Cargill (fonte: Google Imagens, editada pelos autores, 2020) 
Da antiga Fábrica Cargill, que nas imagens do passado demonstravam galpões com uma dinâmica 
pujante de produção, atualmente, as fotos que colhemos em levantamentos recentes, podem ser 
lidas como cenários de um filme de ficção. Poderiam estar em qualquer lugar do globo, porém 
estão em Araraquara e, portanto, também é desta paisagem intrigante, fruto da obsolescência de 
um tempo que queremos tratar aqui. 
PATRIMÔNIO FERROVIÁRIO E INDUSTRIAL E A 
PAISAGEM URBANA DE ARARAQUARA-SP 99 
 
 
Embora o prédio da antiga Estação Ferroviária tenha passado por intervenções em 2011 para 
abrigar o Museu Francisco Aureliano de Araújo, figura 24, e permanece conservado em conjunto 
com a plataforma de embarque de passageiros, figura 25, outros tantos não tiveram o mesmo 
destino. Não que estejamos defendendo aqui um processo de preservação que embalsama os 
lugares para construir cidades animadas (Arantes; Vainer; Maricato, 2002). 
Isto porque é preciso revelar exemplos como o galpão da Dianda Lopes, fábrica produtora de 
óleo8, que posteriormente passou a ser da Minasa TVP, indústria alimentícia, que hoje está 
desocupado, sendo alvo de vandalismo e marginalização do entorno. Essa paisagem não faz parte 
de nenhum cartão postal, mas constrói uma leitura dicotômica do processo de desenvolvimento 
urbano de Araraquara, revelando a dialética da sua debacle, especialmente com a mudança do 
perfil da cidade e o esmaecimento das atividades férreas. 
Outra fábrica localizada às margens da ferrovia é a da Nestlé, que permanece em funcionamento 
e foi atualizada para abrigar os avanços tecnológicos da indústria alimentícia. A área que 
compreende a rotunda e as oficinas seguem em funcionamento (figura 26). As Vilas Ferroviárias 
seguiram as transformações temporais e se adequaram ao modo de viver contemporâneo. 
Porém, em alguns trechos, onde a movimentação da ferrovia exercia maior influência sobre as 
atividades bairristas, não seguiram o desenvolvimento urbano, configurando uma paisagem 
congelada no tempo, tais adequações não contemplaram as vias públicas e os equipamentos 
urbanos ali instalados, figura 23. 
 
Figura 23. Fotomontagem dos equipamentos públicos da área ferroviária (ponto de ônibus e calçadas) e 
ruinas do entorno (fonte: Google Imagens, editada pelos autores, 2020) 
O abando dos equipamentos públicos, assim como as ruínas, caracterizam imagens de “cidades 
fantasmas” instaladas nas áreas adjacentes do leito férreo, um lugar desconhecido que precisa ser 
re-conhecido. Esse reconhecimento é parte de um debruçamento que fazemos aqui a partir dos 
apontamentos sobre as transformações permanências na paisagem urbana de Araraquara tendo 
a linha férrea como nosso fio condutor. Entretanto, ainda continua como um processo inconcluso, 
porque parte de uma pesquisa maior em andamento. 
De todas as construções mencionadas somente a antiga Estação Ferroviária possui algum tipo de 
tombamento e é preservada por lei complementar do plano diretor municipal. Para uma 
compreensão dialética de algumas das construções do passado, que ainda permanecem no 
presente, construímos fotogramas para compreender suas paisagens urbanas. Uma historiografia 
a partir de ícones visuais. 
 
8
 Fonte: PIACENTINI, Patrícia. A história do desenvolvimento industrial de Araraquara: de 1920 a 2014. Kappa Magazine, 
Araraquara, v. 91, ano 5. n 1, p. 18-35, 19 de ago. 2014. Disponível em: 
<http://www.revistakappa.com.br/edicoes/araraquara/edicao_91/> Acesso em 01 de maio de 2020. 
100 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Figura 24. Fotomontagem: Plataforma de embarque nos anos de 1914 (a), 1920 (b), 2002 (c) e 2016 (d), 
respectivamente (fonte: Google Imagens, editada pelos autores, 2020) 
 
Figura 25. Fotomontagem: Plataforma de embarque nos anos de 1914 (a), 1920 (b), 2002 (c) e 2016 (d), 
respectivamente (fonte: Google Imagens, editada pelos autores, 2020) 
 
Figura 26. Fotomontagem: Oficinas EFA em 1960 (a); Rotunda EFA em 2015 (b); Escola Municipal de dança 
em 2020 (c); antiga Minasa em 2020 (d) (fonte: Google Imagens, editada pelos autores, 2020) 
7 RESULTADOS E DISCUSSÕES 
Quando nos referimos ao patrimônio ferroviário e industrial, mais especificamente às estradas de 
ferro, nos deparamos com questionamentos sobre como tratar esses bens na atualidade e como 
promover sua reinserção na cidade contemporânea e, em qual medida, tem em sua dinâmica 
olhares mais atentos às questões econômicas de produção do espaço urbano, sobretudo, perante 
a influência da especulação imobiliária, que modifica diretamente a forma de ordenação das 
cidades e seus espaços. A resposta nem sempre é clara e de fácil compreensão ou aceitação e 
será um ponto contraditório entre valor patrimonial versus especulação imobiliária, valor de uso e 
valor de troca. O fato que podemos identificar em muitas cidades do interior paulista é a 
obsolescência ou entrega total do patrimônio edificado à marginalidade da vida urbana das 
cidades contemporâneas. Mas esse panorama não pode ser totalmente aplicado à situação de 
Araraquara, visto que o complexo ferroviário é ativo, a exemplo da rotunda que abastece até 
hoje, as locomotivas. Porém, a marginalidade ao longo dos trilhos é uma verdade irrefutável, já 
que a subsistência de todo um sistema econômico, que dependia das indústrias ali implantadas, 
como no caso da Vila Xavier, foi fragmentado com o esmaecimento do sistema ferroviário. 
A existência do transporte ferroviário em Araraquara veio acompanhada de grandes volumes de 
cargas e passageiros, pois, sem isso não haveria justificativa para a implantação de uma Estação 
Ferroviária, KM 0, levando em consideração seu alto valor de investimento construtivo e da 
manutenção dos prolongamentos, que inviabilizaria o seu funcionamento. É importante ressaltar 
que, por mais que o patrimônio industrial, a Estação Ferroviária e seus conjuntos operacionais, 
continuem em funcionamento, muitos edifícios estão em ruínas e podem ser simplesmente 
PATRIMÔNIO FERROVIÁRIO E INDUSTRIAL E A 
PAISAGEM URBANA DE ARARAQUARA-SP 101 
 
 
apagados da memória dessa paisagem se projetos de renovação urbana que estão sendo 
cogitados saiam do papel. 
Com o passar dos anos a linha férrea que corta a cidade está sendo suprimida, mediante um 
plano de ação, que teve início em 1979, em conjunto com o pelo Plano Diretor e com a Política de 
Desenvolvimento Ambiental de Araraquara (PDPDA) de 2014, que preveem o um novo desenho 
de toda a área denominado “Parque dos Trilhos”, figura 27, como uma medida protetiva as 
preexistências de valor patrimonial. 
 
Figura 27. Fotomontagem: Parque dos Trilhos (fonte: Google Imagens, editada pelos autores, 2020) 
O projeto, ao longo do leito férreo possuí como objetivo realizar a comunicação entre o centro e a 
Vila Xavier por meio de uma área verde, parque linear, além de propor a construção de uma via 
expressa e desviar o fluxo do sistema ferroviário para fora do centro da cidade (figura 28). A outra 
proposta inclusa no projeto é a transferência da Câmara Municipal e da Prefeitura para o novo 
parque, além de preservar alguns prédios históricos existentes, no leito, irá colocar em risco a 
preservação das edificações detentoras do uso atual. No entanto, o projeto de interligação não 
prevê a utilização dos galpões e edifícios fabris desocupados, que ladeiam a ferrovia e possuem 
um caráter intrigante, como já apontamos anteriormente, especialmente, como sentidos outros 
para uma compreensão dialética do esmaecimento do modal ferroviário na paisagem urbana de 
Araraquara. 
A retirada dos trilhos em Araraquara é uma discussão que está em pauta há anos, pois a nova rota 
está em funcionamento desde 2008.Porém, pela falta dos equipamentos necessários que 
viabilizem seu total funcionamento, como as oficinas mecânicas e a rotunda, o traçado original 
ainda é utilizado por locomotivas que necessitam de reparos e abastecimento. O projeto de 
revitalização “Parque dos Trilhos” configura uma iniciativa que deve ser melhor avaliada para a 
recuperação de uma área tão importante para a história da cidade. Todavia, sua implantação 
depende da retirada das funções ferroviárias ainda existentes e na desativação de edificações. Tal 
processo pode culminar em muitas perguntas ainda sem resposta. 
O que leva a indagações sobre o real motivo dessa nova configuração da malha férrea e 
transferências de usos: é uma forma de eliminar a segregação visual e social originada há anos 
entre o centro e a Vila Xavier? É uma especulação imobiliária da área que seria desocupada pelo 
seu alto valor? Ou é uma questão de conforto ambiental pelo ruído gerado com as operações da 
ferrovia em uma área de tipologia fortemente residencial? Independente da motivação para tal 
processo, a retirada dos trilhos e das operações realizadas, deve levar em conta a extensão da 
área, aproximadamente 203.878,49 m² e a futura utilização do local como um todo, buscando 
ações que possam ser mais inclusivas e que façam a ligação efetiva das duas margens da linha. 
Inclusive, possibilitando outra legibilidade da história da cidade em suas transformações e 
permanências, sempre revelada pelo contraste entre o centro e a Vila Xavier. 
102 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Figura 28. Mapa do novo traçado, desvio do centro da cidade (fonte: imagem aérea do Google Earth, 
editada pelos autores, 2020) 
8 CONCLUSÕES 
Observou-se aqui as marcas que o processo de desenvolvimento urbano com a chegada da linha 
férrea traz consigo na paisagem urbana de uma cidade do interior paulista. Apesar do abandono 
de alguns galpões industriais, culminando na falta de segurança do entorno, temos um cenário 
resiliente e instigante para qualquer novo projeto a ser realizado. O patrimônio edificado de 
Araraquara, mais especificamente ao longo do leito férreo, ainda possui construções com ligação 
direta com as práticas operacionais da ferrovia (estação, oficinas e rotunda) já que estão em 
funcionamento e preservam algo da forma de organização social e econômica de épocas 
passadas. Porém, o abandono de outras construções deflagra a carência de um novo olhar sobre 
a qualidade dos espaços construídos. O redesenho de uma área pode ser um grande trunfo para 
repensar os seus espaços, mas deve levar em conta as memórias e pré-existências que contam 
outra história, ou seja, aquela que não está na bibliografia, nos mapas, nem nas imagens no 
passado estudadas aqui, mas àquela que reside no momento presente e traz à luz os dissensos. 
Assim, acreditamos que, um resgate inovador das construções abandonadas ou subutilizadas 
deve ser lançado como desafio para dar novo fôlego à vida e cultura dos espaços nos hiatos de 
Araraquara e nas cidades cortadas pela ferrovia no interior de São Paulo. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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consensos. 3. Ed. Petrópolis: Vozes, 2002. 
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PATRIMÔNIO FERROVIÁRIO E INDUSTRIAL E A 
PAISAGEM URBANA DE ARARAQUARA-SP 103 
 
 
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104 
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São Paulo (Estado). Secretaria da Cultura. Departamento de Museus e Arquivos do Estado. Divisão de 
Arquivo do Estado. Repertório das Sesmarias: concedidas pelos Capitães Generais das Capitanias de São 
Paulo desde 1721 até 1821. Secretaria da Educação e Saúde Pública; Secção História do Departamento do 
Arquivo do Estado (org.). São Paulo: Tip. Do Globo, 1944. v.6. Disponível em: < 
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SOUZA, José Maria Vianna de. Araraquara 212 anos de história. São Carlos, SP: Editora compacta. 2003. In: 
PIERINI, Cláudio Roberto; FALCOSKI, Luiz Antônio Nigro. A EVOLUÇÃO URBANA DO MUNICÍPIO DE 
ARARAQUARA (SP): Uma crítica ao espraiamento. Vol. 9, n.26, 2019, p. 174-196. Disponível em: < 
http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/revistahumus/article/view/12009>. Acesso em: 05 
abr. 2020. 
AUTORES 
Evandro Fiorin: Doutor em arquitetura e urbanismo – área de projeto espaço e cultura FAU_USP; pós-
doutorado pela Universidade do Porto (Porto, Portugal); professor adjunto no Departamento de 
Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); professor credenciado no 
programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e 
Comunicação (FAAC) da UNESP-Bauru. Currículo completo em: http://lattes.cnpq.br/5599203800231511. 
Laís da Silva Rodrigues: Aluna regular do Mestrado Acadêmico em Arquitetura e Urbanismo do Programa 
de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo (PPGARQ) da Universidade Estadual Paulista "Júlio de 
Mesquita Filho" (UNESP) do Campus de Bauru, na linha de pesquisa Teoria, História e Projeto, com 
orientação do Prof. Dr. Evandro Fiorin. Currículo completo em: http://lattes.cnpq.br/5021449091062609. 
 
https://books.google.com.br/books?id=g5ZEAAAAYAAJ&pg=PA2&hl=pt-BR&source=gbs_toc_r&cad=3#v=onepage&q&f=false
https://books.google.com.br/books?id=g5ZEAAAAYAAJ&pg=PA2&hl=pt-BR&source=gbs_toc_r&cad=3#v=onepage&q&f=false
 
 
Programa Locação Social: análise da qualidade da 
habitação para idosos no centro histórico de São Paulo1 
Victor Rüegger Lucredi 
Rosio Fernández Baca Salcedo 
Josep Muntañola I Thornberg 
RESUMO: Diversos estudos apontam que a 
qualidade da habitação afeta diretamente o modo 
como os moradores interagem com o espaço, 
tanto residencial quanto urbano. Diante da 
demanda por habitação social para idosos, a 
Prefeitura Municipal de São Paulo através do 
Programa Locação Social, no centro histórico, 
reabilitou o edifício Palacete dos Artistas para 
habitação de idosos. Neste contexto, o artigo tem 
como objetivo analisar a qualidade de habitação 
para idosos do Programas Locação Social no centro 
histórico de São Paulo e propor diretrizes 
projetuais para melhorar sua qualidade, realizado 
através do estudo de caso Palacete dos Artistas. 
Método de análise é feito através da arquitetura 
dialógica com fundamentação teórica proposta por 
Muntañola, Bakhtin e Ricœur, realizada em quatro 
etapas: o contexto (centro histórico de São Paulo e 
Programa Locação Social), o texto (Edifício Palacete 
dos Artistas: projeto de reabilitação, construção da 
reabilitação e percepção dos usuários); as relações 
dialógicas estabelecidas entre o Texto e o 
Contexto, que demostram o grau da qualidade de 
habitação para os idosos, e por fim a proposta de 
diretrizes projetuais para melhorar a qualidade do 
Programa. Os resultados evidenciaram que o 
Edifício Palacete dos Artistas atendeu a alguns 
parâmetros de qualidade de habitação. Ao fim, 
este artigo pretende elencar diretrizes projetuais e 
recomendações construtivas para subsidiar estes 
programas futuramente. 
Social Leasing Programs in São Paulo: Analysis of 
housing quality for the eldery 
ABSTRACT: Several studies indicate that the 
quality of housing directly affects the way 
residents interact with space, both residential and 
urban. In view of the demand for social housing for 
the elderly, the Municipality of São Paulo through 
the Social Leasing Program, in the historic center, 
rehabilitated the Palacete dos Artistas building for 
housing the elderly. In this context, the article aims 
to analyze the quality of housing for the elderly in 
the Social Leasing Programs in the historic center 
of São Paulo and propose design guidelines to 
improve their quality, carried out through the case 
study Palacete dos Artistas. Analysis method is 
done through the dialogical architecture with 
theoretical foundation proposed by Muntañola, 
Bakhtin and Ricœur, carried out in four stages: the 
context (historic center of São Paulo and the Social 
Rental Program), the text (Palacete dos Artistas 
Building: rehabilitation project, construction of 
rehabilitation and user perception); the dialogical 
relationships established between the Text and the 
Context, which demonstrate the degree of quality 
of housing for the elderly, and finally, the proposal 
of design guidelines to improve the quality of the 
Program. The results showed that the Palacete dos 
Artistas building met some parameters of housing 
quality. In the end, this article intends to list design 
guidelines and constructive recommendations to 
subsidize these programs in the future 
Palavras-chave: habitação social, idosos, 
arquitetura dialógica, centro histórico 
Keywords: social housing, dialogic architecture, 
historic center 
 
 
1
 O artigo é resultado da Dissertação de Mestrado de Victor Rüegger Lucredi, realizada sobre a orientação da Profª. 
Associada Rosio Fernández Baca Salcedo em coorientação com o Prof. Dr. Josep Muntañola I Thornberg, junto ao Anexo 
de Cooperação celebrado entre a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Brasil e a 
Universitat Politècnica de Catalunya (UPC), Barcelona, Espanha, Processo 001270/45/01/2013. 
106 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
1 INTRODUÇÃO 
Metrópoles, como São Paulo no Brasil, vem mostrando uma demanda crescente de habitação 
social voltada especialmente para idosos. No Brasil, idosos representam 8,6% da população, 
estimando-se que chegue a 13% em 20 anos (IBGE, 2015). Segundo dados da Organização das 
Nações Unidas (ONU) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) (2014) é estimado que em 2050 
a população brasileira com mais de 65 anos seja de 50 milhões, representando assim 20% da 
população total; o que deixa o país frente a uma difícil situação uma vez que ocorre um grande 
aumento do envelhecimento da sociedade em um curto espaço de tempo, de forma não 
gradativa, agravando o défcit de habitação para idosos. 
A pessoa idosa, além de estar inserida em uma posição de vulnerabilidade econômica e social, 
também é acometida pela degeneração das suas condições psicomotoras, um agravante que 
coloca em perspectiva a necessidade de estudos voltados para o bem-estar e qualidade de vida 
deste grupo etário. Bestetti (2006) ressalta que a terceira idade está caracterizada pela perda da 
força das mãos, força dos braços e das pernas, redução da capacidade pulmonar, enrijecimento 
das articulações e dificuldade em distinguir as cores verde, azul e violeta como complicações 
específicas dos idosos. A omissão dos direitos básicos de saúde, alimentação e moradia digna 
afeta diretamente na perda das capacidades físicas características dessa etapa da vida. Logo, se 
faz necessário uma habitação que contemple essas necessidades, juntamente com as demandas 
afetivas, sócio físicas, de saúde e demais serviços necessários para atender a esta faixa etária 
(Salcedo et al., 2016). 
O centro histórico é principalmente associado à origem do núcleo urbano representando o 
“traçado inicial da cidade, são estruturas urbanas e arquitetônicas que expressam as 
manifestações políticas, econômicas, sociais e tecnológicas, das formações sociais dos diferentes 
períodos históricos” (Salcedo, 2007)). Social e politicamente, entende-se que: “a salvação dos 
centros históricos é um compromisso social, além de cultural e deve fazer parte da política de 
residência, para que nela se levam em conta os recursos potenciais que tais centros possam 
oferecer” (Salcedo et al., 2015, p. 24). O contexto da localização da habitação do idoso é um dos 
fatores da qualidade de habitação, pela oferta de equipamentos e serviços coletivos, a memória e 
identidade. Segundo Lucredi (2019), na categoriaurbana os equipamentos de saúde, cultura e 
lazer, transporte coletivo, serviços e comércios devem estar dispostos em um raio de 250 metros 
de distância da edificação residencial, de forma que se estabeleça um alcance para caminhada 
confortável de uma pessoa idosa. 
Dentre os métodos de intervenção em centros históricos estão a reabilitação, a restauração, 
projeto novo. Reabilitação é “uma ação que preserva, o mais possível o ambiente construído 
existente (...) e dessa forma também respeita os usos e a população moradora” (Maricato, 2001, 
p. 126); já a restauração “tem por objetivo conservar e revelar os valores estéticos e históricos do 
monumento e fundamenta-se no respeito ao material original e aos documentos autênticos” 
(Icomos, 1964 apud Cury, 2004) 
A qualidade habitacional comprende a unidade habitacional, os espaços coletivos do conjunto 
habitacional, os espaços de transição entre o conjunto habitacional e o contexto, além da oferta 
dos equipamentos e serviços coletivos. 
PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL: ANÁLISE DA QUALIDADE DA 
HABITAÇÃO PARA IDOSOS NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO 107 
 
 
Um projeto de moradia para idosos deve levar em consideração aspectos espaciais como: o 
acesso (visibilidade e distância); a circulação (tipo e tamanho); as dimensões (salas e 
equipamentos); as barreiras arquitetônicas (escadas, lacunas, sistema de segurança); as condições 
ambientais (iluminação, ventilação e aquecimento, acústica); o acabamento (textura, temperatura 
e padronização); as condições de manutenção (fácil de limpar, adequação e acessibilidade); os 
aspectos psicodinâmicos (cor, linha e tamanho); e os aspectos tecnológicos (sistema de 
comunicação, segurança contra incêndio e controle de insolação) e outros aspectos (sinais de 
aviso visual, adequação de instalações para computadores e lâmpada de emergência) (Salcedo et 
al. 2016; Romero e Ornstein, 2003; Kose, 2001). Entanto que a acessibilidade e habitabilidade são 
regulamentadas pelas normas e legislação brasileira NBR 9050 (ABNT, 2015) e NBR 15.575 (ABNT, 
2013), respectivamente. 
O desempenho térmico dos cômodos da habitação é outro fator importante, os idosos possuem 
poucas defesas do organismo e são sensíveis as temperaturas altas e frias, podem ser propícios a 
doenças respiratórias (gripes), artrites etc. Portanto, a atenção ao conforto ambiental dos 
ambientes tanto no verão, quanto durante o inverno. A orientação desses cômodos segundo as 
condições físico geográficas do lugar deve seguir a Norma ABNT NBR 15.575 de 2013, a zona 
bioclimática definida pela ABNT NBR 15.220-3 e os critérios para vedação e coberturas conforme 
ABNT NBR 15.575-4 e ABNT NBR 15.575-5 (ABNT, 2013). 
A demanda por habitação social voltada para essa faixa etária é crescente. Essa necessidade 
ganhou força através de programas de habitação do governo federal promulgados pela Lei 
Federal 12.418 de 2011 – Estatuto do Idoso – que afirma em seu artigo 37 que “os idosos têm 
direito a uma habitação decente dentro da família natural ou substituo, ou acompanhado por 
suas famílias, quando assim o desejarem, ou mesmo em instituições públicas ou privadas” 
(BRASIL, 2011); em seu artigo 38, a mesma lei aponta a destinação de 3% das unidades voltadas a 
esta classe, além de prover segurança e bem estar social aos moradores. 
Nas últimas décadas do século XX, as regiões centrais das cidades brasileiras sofreram evasão de 
habitantes e passaram por processos de degradação espacial e depreciação imobiliária devido a 
transferência em suma de atividades comerciais e de serviços para regiões mais novas destas 
mesmas cidades fomentados pelos novos polos atrativos das classes média e alta; nota-se no 
entanto que devido a grande concentração de empregos e comércio nesta região, há um processo 
paulatino de retomada dos centros, principalmente pautado nas lutas por moradia digna dos 
“Sem Teto”, porém, por não terem apoio governamental, estes movimentos terminam por 
corroborar com o aumento das moradias em condições precárias em edifícios abandonados nos 
centros históricos (MARICATO, 2001). 
Diante da demanda por habitação social para idosos em centros históricos, a Prefeitura de São 
Paulo, durante as gestões de 2013 a 2016, reabilitou edifícios para habitação social de idosos por 
meio do Programa Locação Social, como o Palacete dos Artistas. 
Para analisar a qualidade de habitação social para idosos no centro histórico, as relações entre o 
objeto de estudo e seu contexto, recorremos a dialogia na arquitetura. Muntañola (1996, 2000, 
2006), Zarate (2010), Zúquete (2000), Salcedo (2011) tem demonstrado a importância do estudo 
das relações dialógicas da arquitetura com seu contexto – numa análise cronotrópica, socio física 
nas dimensões do projeto, construção e uso social – com base na fundamentação teórica e 
filosófica de Bakhtin ([1975] 1988, 2000), Ricœur (2003). 
108 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Bakhtin trata as relações dialógicas como sendo de “índole específica: não podem ser reduzidas a 
relações meramente lógicas (ainda que dialéticas) nem meramente linguísticas (sintático-
composicionais)” (Bakhtin, 2000, p. 323), ou seja, segundo o autor “o eu só existe na medida em 
que está relacionado com um tu” (idem, 2000), logo, o projeto só ‘existe’ se de fato for utilizado2. 
Cabe ressaltar que na dialogia, tanto a obra quanto o contexto em que ela é inserida são passíveis 
de constantes mudanças, não permanecendo engessadas no tempo, sofrendo alterações da 
natureza e de ações humanas, dando lugar a novos cronotopos3. Assim, dentro de um ciclo 
hermenêutico podem ser comportadas várias camadas estratificadas de cronotopos. 
“Os cronotopos podem se incorporar um ao outro, coexistir, se entrelaçar, permutar, confrontar-
se, se opor, ou se encontrar nas inter-relações mais complexas” (Bakhtin, [1975] 1988), assim 
como nos mostra Ricœur (2003) (Figura 1). 
 
Figura 1. Ciclo hermenêutico de Paul Ricœur (Desenvolvido pelo autor, 2018) 
Essas três relações das dimensões hermenêuticas: prefiguração, configuração e refiguração, 
delimitadas por Ricœur também são passíveis de análise pela obra de Bakhtin, que define a sua 
tríplice-ótica: o eu-para-mim; o eu-para-outro; o outro-para-mim (Quadro 1). Cruzando-se essas 
informações dos três teóricos: Bakhtin, Paul Ricœur e Muntañola, é possível traçar uma 
organização entre a relação dessas três vertentes (Quadro 1). 
Quadro 1. Relação entre Bakhtin, Ricoeur e Muntañola 
Bakhtin ([1975] 1988) Ricœur (2003) Muntañola (2002) 
Tríplice-ótica Ciclo hermenêutico Tripla Natureza 
Eu-para-mim Prefiguração Projeto 
Eu-para-outro Configuração Construção 
Outro-para-mim Refiguração Uso social 
Desenvolvido pelo autor, 2018. 
A obra então é, por sua vez, analisada por meio de sua construção original, desocupação, 
tombamento, projeto de reabilitação, contrução da reabilitação e percepção dos usuários. 
 
2
 Dialogia descrita por Bakhtin e teorizada por Paul Ricoeur referente à tripla natureza das relações entre corpo e 
arquitetura articula: o projeto, a construção e o uso social, numa estrutura cronotópica entre realidade e representação 
do espaço sociofísico (Muntañola, 2006, p. 65). 
3
 Cronotopos: pela etimologia da palavra: chrono + topo. Crono: do grego ‘chronos’ significa tempo; ‘tópos’, lugar. 
PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL: ANÁLISE DA QUALIDADE DA 
HABITAÇÃO PARA IDOSOS NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO 109 
 
 
2 OBJETIVO 
O artigo tem por objetivo analisar a qualidade de habitação para idosos do Programas Locação 
Social no centro histórico de São Paulo e propor diretrizes projetuais para melhorar sua 
qualidade, realizado através do estudo de caso Palacete dos Artistas. 
3 MÉTODO ARQUITETURA DIALÓGICA 
A análise da qualidade de habitação será realizada com base no método da arquitetura dialógica, 
que temcomo fundamentação teórica e filosófica de Bakhtin ([1975] 1988), Ricœur (2003) e 
Muntañola (2002). Pela ótica de Bakhtin, analisa-se o texto (obra arquitetônica) em relação a seu 
contexto (espaço, local ou ambiente em que a obra arquitetônica está inserida). Pela ótica de 
Ricœur, fundamenta-se pelos três pilares da hermenêutica, a saber: prefiguração – o projeto 
arquitetônico; configuração – a construção, reforma ou adequação do projeto, transformando-o 
de projeto em algo físico; refiguração – o uso social da obra e a percepção dos usuários ao 
ambiente construído. Pelo prisma de Muntañola tomam-se as três dimensões da topogênese4: 
estética, ética e ciência. 
Portanto, a análise da qualidade de habitação para idosos do Programa Locação Social, 
implementado no edifício Palacete dos Artistas, será realizada em quatro etapas: o contexto 
(centro histórico de São Paulo e Programa Locação Social), o texto (Edifício Palacete dos Artistas: 
segundo parâmetros para o projeto de reabilitação, construção da reabilitação e percepção dos 
usuários); as relações dialógicas estabelecidas entre o Texto e o Contexto, que demostram o grau 
da qualidade de habitação para os idosos, e por fim a proposta de diretrizes projetuais para 
melhorar a qualidade do Programa. 
3.1 Contexto 
O contexto compreende o centro histórico de São Paulo e o Programa Locação Social. O centro 
histórico de São Paulo será abordado segundo as categorias mostradas no quadro 2 e o Programa 
Locação Social segundo os beneficiários, tipos de habitação e financiamento. 
Quadro 2. Categorias de análise do contexto 
Categorias Descrição 
Histórico Fatos históricos mais relevantes da região do contexto em questão 
Urbano 
Serão elencados num raio de 250 metros (raio especifico de alcance para a caminhada 
confortável de um idoso) equipamentos de saúde (postos de saúde, hospitais), cultura e 
lazer (teatro, museu, centros culturais, atividades físicas), transporte coletivo (pontos de 
ônibus e metrô), serviços (farmácias, bancos, etc.) e comercio (mercados, padarias, 
quitandas) com base nas respostas dos usuários por meio de questionários, bem como 
caminhadas in loco e utilização de softwares de geolocalização 
Social Características psciomotoras dos idosos, família, expectativas com habitação 
Econômica Renda mensal familiar dos idosos. 
Ambiental 
Espaços públicos livres (praças, parques, jardins, alamedas) num raio de 250 metros desde 
a moradia. 
Gestão Programas e projetos de habitação social para idosos, plano diretor e legislações, 
 
4
 Topogênese: pela etimologia da palavra: topo + gênesis. Topo: do grego ‘tópos’ significa lugar, espaço; gênese: do 
grego ‘génesis’ significa origem. 
110 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Categorias Descrição 
tombamentos. 
Arquitetura 
Características das edificações da ambiência: composições, fachadas, gabarito, 
acabamentos, implantação no lote. 
Fonte: Lucredi, 2018. 
3.2 Texto 
O texto, a habitação para idosos no Edifício Palacete dos Artistas será analisada segundo 
parâmetros para o projeto de reabilitação, construção da reabilitação e percepção dos usuários. 
1.1.1 Projeto de Reabilitação 
Para o projeto de reabilitação, antes de ser executado, as ideias do arquiteto são expressas no 
projeto dotada de todas as características políticas, econômicas, sociais, culturais, legislativas etc. 
O projeto de reabilitação será analisado segundo as categorias elencadas no Quadro 3. 
Quadro 3. Categorias de análise do contexto 
Parâmetros Descrição 
Contemporaneidade 
Buscar o contraste ou relação com a arquitetura tradicionalista e 
seus valores atualizados (tradição x atualização). 
Hibridação 
Buscar novos usos, valorizando o antigo através do novo (novo x 
velho). 
Restauração 
Conservar e revelar os valores estéticos e históricos do monumento e fundamenta-se 
no respeito ao material original e aos documentos autênticos 
Reabilitação Ação que preserva, o mais possível o ambiente construído existente 
Inteligibilidade 
Demonstrar a interpretação dos contextos, materializando a 
identidade do lugar e as forças motoras do projeto. 
Intertextualidade 
Demonstrar a intencionalidade projetual, com a tomada de decisões que 
estabelecem as relações dialógicas entre a linguagem arquitetônica contemporânea 
e o contexto, considerando a tríplice natureza dialógica (ciência + estética + ética). 
Síntese do 
heterogêneo 
Propor um espaço que demonstre convergências e divergências presentes no 
programa de necessidades, ou seja, as contradições que geram a dialogia do projeto. 
Sustentabilidade 
Propor um espaço sustentável em relação às proximidades de serviços, capaz de 
promover o aproveitamento dos materiais durante sua construção (materiais de 
baixo impacto) e após seu uso. 
Chamma (2016). Organizado por Lucredi (2018). 
1.1.2 Construção da Reabilitação 
Para a construção da reabilitação, os parâmetros de análise seguiram os descritos no Quadro 4. 
Quadro 4. Parâmetros para análise dialógica da construção de reabilitação 
Parâmetros Descrição 
Intertextualidade A relação do edifício com o contexto urbano que se encontra 
Contemporaneidade Analisa as diferenças entre o original e o projeto executado 
Tipos de habitação Área por tipo de habitação e áreas por cômodos (Tabelas 1 e 2). 
Acesso Como os acessos ao edifício se dão, visibilidade e distâncias 
Circulação e mobilidade Tamanho dos corredores, fluxos etc. 
PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL: ANÁLISE DA QUALIDADE DA 
HABITAÇÃO PARA IDOSOS NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO 111 
 
 
Parâmetros Descrição 
Barreiras arquitetônicas Escadas, lacunas, sistemas de segurança 
Condições ambientais Iluminação, ventilação e aquecimento, acústica 
Condições de 
manutenção 
Facilidade de limpeza, adequação e acessibilidade 
Aspectos psicodinâmicos Cores, linhas e tamanhos 
Segurança Segurança contra incêndio 
Fonte: Lucredi, 2018. 
Considerando a ausência de estudos sobre casos de habitação social voltada exclusivamente para 
idosos, desenvolveu-se tabelas de apoio e plantas modelo para que as avaliações fossem 
realizadas de acordo com a legislação. Para tal, tomou-se como guia as análises de Romero e 
Ornstein (2003) e a NBR 9050/20155. As três plantas modelo possuem metragens mínimas para 
atender as necessidades dos idosos e, respectivamente referem-se a: 1) um apartamento de um 
quarto com cozinha separada; 2) um apartamento de um quarto com cozinha americana (sala e 
cozinha unidos); e 3) um apartamento conjugado (modalidades presentes no Palacete dos Artistas 
e na Vivienda Santa Caterina) (Figura 2). 
 
Figura 2. As três plantas modelo. Na ordem: 1) apartamento de um quarto com cozinha separada; 2) 
apartamento com cozinha americana; 3) conjugado (Desenvolvido pelo autor, 2018) 
Com base nestas propostas de plantas modelo foram elaboradas tabelas de metragens mínimas 
para cada tipologia habitacional em relação à sua modalidade – cozinha separada, cozinha 
americana, apartamento conjugado – assim é possivel aferir qual metragem é confortável ao uso 
(Tabela 1). 
 
5
 ABNT NBR 9050/2015 é uma norma brasileira que trata sobre entre outras questões da mobilidade espacial para 
pessoas com capacidade reduzida inclusos cadeirantes, pessoas com uso contínuo de muletas, bengalas ou andadores, 
gestantes, pessoas com crianças de colo, pessoas com capacidade auditiva reduzida, com surdez, com capacidade visual 
reduzida, pessoas cegas, obesos e idosos. Aborda a acessibilidade desses grupos na questão da mobilidade física e 
acessibilidade de mobiliários, bem como acessos a equipamentos eletrônicos, rotas de fuga, elevadores, entre outros. 
112 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Tabela 1. Proposta de áreas por tipo de habitação para a terceira idade 
Tipologia1º dormitório Sala Cozinha Banheiro A.S. TOTAL 
1 dorm. 12,20 m² 18,00 m² 6,30 m² 4,40 m² Conjugado 40,90 m² 
1 dorm. c/ 
coz. 
americana 
12,20 m² 20,50 m² Conjugado 4,40 m² Conjugado 37,10 m² 
conjugado 23,85 m² 4,40 m² Conjugado 28,25 m² 
Desenvolvido pelo autor, 2018. 
Desta maneira foi possível analisar os dois estudos de caso, suas tipologias e cômodos de uma 
maneira quantitativa para que posteriormente fosse defrontado com as análises qualitativas do 
espaço construído. 
A partir da tabela 1 de metragens mínimas das tipologias de habitação e áreas dos cômodos é 
possível aferir valores qualitativos sobre os quantitativos, sendo estes divididos em: ÓTIMO, 
metragem 25% acima da área ideal; BOM, metragem igual ou até 25% acima da ideal; REGULAR, 
até 25% da metragem abaixo da ideal; PÉSSIMA, mais de 25% abaixo da metragem mínima ideal 
(Tabelas 2 e 3). 
Tabela 2. Escala de valores por tipode habitação para idosos 
Tipologia 
Área mínima 
proposta (m²) 
Escala de valores (m²) 
Ótimo Bom Regular Péssimo 
1 Dormitório 40,90 m² ≥ 51,13 40,90 a 51,12 30,68 a 40,89 ≤ 30,67 
1 Dorm. c/ coz. 
americana 
37,10 m² ≥ 46,39 37,10 a 46,38 27,83 a 37,09 ≤ 27,82 
Conjugado 28,25 m² ≥ 35,32 28,25 a 35,31 21,19 a 28,24 ≤ 21,18 
Desenvolvido pelo autor, 2018. 
Tabela 3. Escala de valores por cômodos dos tipos de habitação para idosos 
Tipologia de 
cômodo 
Área mínima 
proposta (m²) 
Escala de valores (m²) 
Ótimo Bom Regular Péssimo 
Dormitório 12,20 m² ≥ 15,26 12,20 a 15,25 9,15 a 12,19 ≤ 9,14 
Sala 18,00 m² ≥ 22,51 18,00 a 22,50 13,50 a 17,99 ≤ 13,49 
Copa-cozinha 6,30 m² ≥ 7,88 6,30 a 7,87 4,73 a 6,29 ≤ 4,72 
Banheiro 4,40 m² ≥ 5,51 4,40 a 5,50 3,30 a 4,39 ≤ 3,29 
Sala c/ cozinha 
americana 
20,50 m² ≥ 25,63 20,50 a 25,62 15,37 a 20,49 15,36 
Dormitório sala 
copa cozinha 
23,85 m² ≥ 29,81 23,85 a 29,80 17,88 a 23,84 ≤ 17,87 
Banheiro 
Conjugado 
4,40 m² ≥ 5,51 4,40 a 5,50 3,30 a 4,39 ≤ 3,29 
Desenvolvido pelo autor, 2018. 
1.1.3 Percepção dos usuários 
Compreende a percepção dos moradores sobre a unidade de habitação, o conjunto de habitação 
e contexto urbano. A análise da percepção dos usuários valida a qualidade do projeto, da 
construção e do Programa Locação Social. Os parâmetros de análise são descritos no Quadro 5. 
PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL: ANÁLISE DA QUALIDADE DA 
HABITAÇÃO PARA IDOSOS NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO 113 
 
 
Quadro 5. Parâmetros para análise dialógica da percepção dos usuários 
Parâmetros Descrição 
Viabilidade social 
Relação das necessidades e expectativas dos usuários com a habitação, os tipos 
de habitação, conforto ambiental, acessibilidade e mobilidade, e conjunto 
habitacional. 
Viabilidade econômica 
Relação da renda familiar mensal com o valor da prestação da unidade de 
habitação 
Viabilidade urbana 
Acesso dos usuários aos equipamentos e serviços coletivos, além do comércio e 
serviços, num raio de 250ms. 
Viabilidade ambiental 
Acesso dos usuários aos equipamentos de lazer (parques, praças) num raio de 
250ms. 
Organizado pelo autor, 2018. 
Para conhecer as caracteristicas e percepção dos moradores com relação a unidade de habitação, 
conjunto e o contexto urbano, foram aplicados questionários, com 15 questões abertas, 21 
questões fechadas e sete questões mistas. Dentro desta pesquisa foram avaliadas variáveis 
referentes às unidades quanto ao tamanho dos cômodos, das unidades em si, da mobilidade, e 
inserção da edificação no meio urbano. 
3.3 Relações entre o Texto e o Contexto: Qualidade da habitação 
A partir das relações existentes entre cada um dos parâmetros das dimensões do Texto (Projeto 
de reabilitação, Construção da reabilitação e Percepção dos usuários) com seu Contexto (Centro 
histórico e Programa Locação Social), apresenta-se uma matriz como síntese gráfica que permite 
identificar os parâmetros que atendem ou não à qualidade da habitação. 
Quando todas as correspondências entre os parâmetros do Contexto e do Texto são atendidas, 
haverá qualidade da habitação. Para os parâmetros que não apresentam relações ou 
correspondências, propõem-se diretrizes projetuais para melhorar o Programa Locação Social 
(Quadro 6). 
114 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Quadro 6. Modelo exemplar para Qualidade de habitação: Sinergias e suas relações entre Texto e Contexto 
 
Fonte: Autores (2020) 
As relações entre Texto e Contexto são realizadas em quatro etapas. Primeira, verifica-se a 
relação dos parâmetros do Programa Locação Social com os parâmetros do Centro histórico. 
Segunda, verifica-se a relação dos parâmetros do Projeto de reabilitação com os parâmetros do 
Contexto (Programa Locação Social e Centro histórico). Terceira, verifica-se a relação dos 
parâmetros da Construção da reabilitação com os parâmetros do Projeto de reabilitação e do 
Contexto. Quarta, verifica-se a relação dos parâmetros da Percepção dos usuários com os 
parâmetros da Construção da reabilitação, Projeto de reabilitação e do Contexto (Programa 
Locação Social e Centro histórico). Assim, a partir desta última relação é possível identificar os 
parâmetros que atendam ou não a qualidade da habitação para idosos do Programa Locação 
Social. 
PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL: ANÁLISE DA QUALIDADE DA 
HABITAÇÃO PARA IDOSOS NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO 115 
 
 
3.4 Proposta de diretrizes projetuais para melhorar a qualidade do Programa Locação 
Social 
Em função dos parâmetros não atendidos da relação do Texto (Projeto de reabilitação, 
Construção da reabilitação e Percepção dos usuários) com seu Contexto (Centro histórico e 
Programa Locação Social) são propostas as diretrizes projetuais para melhorar a qualidade do 
Programa Locação Social. 
4 ANÁLISE DOS RESULTADOS 
A análise da qualidade de habitação para idosos do Programa Locação Social, implementado no 
edifício Palacete dos Artistas, foi realizada em três etapas: o centro histórico de São Paulo e o 
Programa Locação Social, o Edifício Palacete dos Artistas e a sinergia ou sinteses das relações 
dialógicas do Texto com o Contexto que definem a qualidade de habitação. 
4.1 Centro histórico de São Paulo 
A cidade de São Paulo foi fundada em 25 de janeiro de 1554 a partir do colégio Jesuíta, tendo o 
início de seu povoamento em 1560 ao redor da região hoje conhecida como “Páteo do Colégio”. 
Esta região, hoje conhecida como “Triângulo Histórico”, delimitado pela Rua Direita, XV de 
Novembro e São Bento, é o marco inicial da cidade, compondo a região atual do centro da capital. 
O centro histórico de São Paulo compreende os distritos da Sé e República. Entre as décadas de 
1950 e 1970, com a consolidação do novo centro comercial da cidade na Avenida Paulista e a 
intensa verticalização das zonas de interesse comercial da época, delimitou-se o “centro 
expandido” da cidade. Nesta mesma época, devido ao Theatro Municipal, o Distrito da República 
se tona o grande epicentro cultural da cidade, marcado pelos teatros, cinemas, casas de baile, 
bingos e jogos. 
Ao passo que novas zonas de interesse comercial se consolidam, como a Avenida Paulista e 
posteriormente a região da Berrini e Faria Lima, ocorre uma intensa evasão de moradores da 
região central da cidade, que aos poucos vai perdendo população residente, se tornando uma 
região predominantemente comercial e de serviços. 
Segundo o IBGE (2015), 19.4% dos idosos em São Paulo optam por morar sozinhos, enquanto 
outros, passam a morar com os filhos e que nesses casos a renda da aposentadoria é a única fonte 
de renda da família “obrigando tanto o idoso quanto os familiares a uma convivência que nem 
sempre representa o que desejariam. A presença dos idosos nesses casos é responsável por 
reduzir o grau de pobreza” (SCHUSSEL, p. 61). Com relação a renda mensal dos idosos, 
aproximadamente 75% da população brasileira com 60 anos ou mais tem uma renda média entre 
0 e 2 salários mínimos e mais de 40% dosidosos vivem com até 1 salário mínimo com uma média 
salarial de R$ 657,00 (IBGE, 2015). Isto demonstra, há necessidade de subsídios dos governos 
públicos para a criação de programas e projetos de habitação social para idosos, a fim de suprir 
suas necessidades básicas de moradia. 
Considerando que o idoso caminha com conforto até 250 ms, o contexto imediato a localização 
do edifício deveria abrigar os equipamentos mínimos, necessários, para a alimentação, saúde, 
lazer. O centro histórico de São Paulo, num raio de 250 ms desde a localização do Palacete dos 
Artistas, abriga equipamentos e serviços como postos de saúde, praças, farmácias e pontos de 
ônibus e metrô. Entretanto, na abrangência do raio de 250 m não há um supermercado, quitanda 
116 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
ou mercado, necessários para a compra de alimentos e produtos de primeira necessidade (Figura 
3). 
 
Figura 3. Localização de equipamentos e serviços coletivos, comércio, num raio de 250 metros a partir do 
edifício Palacete dos Artistas. Fonte: Autor, 2018 
Devido à grande degradação sofrida ao longo do tempo na região central e consequentemente à 
evasão de moradores, a prefeitura de São Paulo em parceria com a Secretaria de Habitação 
(SEHAB) criou o programa “Renova Centro” com o intuito de revalorizar e reabilitar a região e 
reverter a perda da população nessa área. 
4.2 Programa Locação Social 
Diante da demanda por habitação para idosos no centro, a prefeitura municipal de São Paulo 
implementou o Programa de Locação Social, que visa oferecer unidades de habitação a valores de 
aluguel acessíveis a população de baixa renda que recebem entre um e três salários mínimos por 
mês, além de prestar atendimento à idosos com mais de 60 anos. O programa é promovido pela 
Prefeitura de São Paulo, gerido pela Secretaria da Habitação (SEHAB) e operado pela Companhia 
Metropolitana de Habitação (COHAB). 
Segundo a Resulução CFMH n°23; Instrução Normativa de SEHAB – G n°001/03; Resolução CMH 
n° 12/2004; Decreto n° 45.987/2005 e Resolução CMH n°33/2011, o Programa de Lcação Social 
tem como propósito: 
ampliar as formas de acesso à moradia para a população de baixa renda, que não 
tenha possibilidade de participar dos programas de financiamento para aquisição de 
imóveis ou que por suas características não tenha interesse na aquisição, através da 
oferta em locação social de unidades de habitação já construídas [...]. Dirigido a 
pessoas sós e a famílias, cuja renda familiar seja de até 3 (três) salários mínimos e, 
prioritariamente a pessoas que pertençam aos seguintes seguimentos: pessoas acima 
de 60 anos, pessoas em situação de rua, pessoas portadoras de direitos especiais e 
moradores em áreas de risco e insalubridade (RESOLUÇÃO CFMH Nº 23, de 12 de 
junho de 2002). 
O valor pago pela locação da habitação corresponde a 10% da renda mensal do usuário. 
PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL: ANÁLISE DA QUALIDADE DA 
HABITAÇÃO PARA IDOSOS NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO 117 
 
 
4.3 Edifício Palacete dos Artistas: habitação para idosos 
O Palacete dos Artistas, antigo Edifício Cineasta, está localizado na avenida São João, 613, no 
distrito da República, no centro histórico de São Paulo, região próxima ao Pateo do Colégio, 
marco zero de São Paulo (Figura 4). O edifício cineasta foi construído em 1910 para servir 
originalmente como um hotel e manteve essa função até 2001 quando encerrou suas atividades; 
ficou abandonado por dez anos, e foi ocupado em 2011 pelo movimento nacional de luta pela 
moradia. Após diversas reinvindicações de propriedade, em 2012, a edificação ficou a encargo da 
Prefeitura de São Paulo, sendo reabilitada em 2014 para abrigar 50 unidades de habitação social 
para terceira idade, voltada à classe artística aposentada, com renda familiar de um a três salários 
mínimos, sendo batizado assim de Palacete dos Artistas. 
Pelos valores históricos e arquitetônicos, o Edifício Cineasta foi tombado pelo CONPRESP 
(Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio de São Paulo) como Patrimônio Histórico da 
cidade entre os anos de 1991 e 1992, pertencente ao núcleo do entorno do Vale do Anhangabaú 
e região do Teatro Municipal de São Paulo com base na Lei Municipal nº 10.236/86 (TEO RES. 
05/91) e por intermédio da Resolução COMPRESP nº 37/92. 
 
Figura 4. Localização do Palacete dos Artistas – Antigo Edifício Cineasta em 2018 (Acervo do autor, 2018) 
1.1.4 Projeto de reabilitação 
A análise do projeto de reabilitação do edifício Palacete dos Artistas, localizado no centro 
histórico de São Paulo, tombado pelo CONPRESP, visa ver suas relações ou correspondências com 
as categorias históricas, arquitetônicas, sociais do centro histórico e com os tipos de habitação do 
Programa Locação Social, para tal, a análise foi realizada segundo as seguintes categorias: 
contemporaneidade, hibridação, restauração, reabilitação, inteligibilidade, intertextualidade, 
síntese do heterogêneo e sustentabilidade. 
Contemporaneidade, conforme o restauro da edificação, foram adotadas uma série de 
intervenções que trouxeram a contemporaneidade da edificação como caixilhos, portas, elevador, 
equipamentos hidrossanitários para banheiros e cozinha. 
Hibridação, a adequação do edifício para habitação social de idosos, restauro as fachadas e os 
elementos que estavam em bom estado de conservação, preservo a volumetria, valorizo o 
edifício. 
118 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Restauração: foi respeitado o tombamento do edifício, seus valores artísticos e históricos. O 
projeto de intervenção seguiu as segui as seguintes diretrizes: conservação da tipologia 
arquitetônica do edifício, respeito aos estilos do passado, através de desenho sem intenção de 
cópia ou imitação estilística, respeito às técnicas construtivas do passado e às atuais, através da 
aplicação de uma ou outra, analisando caso a caso, leitura clara da diferença entre as estruturas já 
existentes e aquelas que serão introduzidas com a reforma; preservação através de sua 
conservação e restaurados quando necessário, de todos os elementos estilísticos à ornamentação 
arquitetônica, cobertura, esquadrias e os materiais de acabamento do edifício respeitando a 
tipologia arquitetônica; substituição da cobertura existente em fibrocimento, por outra nova de 
desenho e material semelhante ao encontrado em trecho remanescente; remoção das coberturas 
e anexos espúrios construídos no recuo dos fundos do lote; demolição da marquise existente no 
pavimento térreo; remoção do revestimento em granito do pavimento térreo; substituição das 
portas de enrolar do pavimento térreo por novas de desenho e material indicados no Projeto, 
substituição e reforma da cimalha entre o pavimento térreo e o 1º pavimento; substituição dos 
caixilhos de alumínio, por novos de mesmo material e desenho dos vãos remanescentes do 1º 
pavimento. 
Reabilitação, conforme os tipos de habitação e áreas estipuladas pelo Programa Locação Social, os 
cômodos do antigo hotel foram adequados para abrigar 50 unidades de habitação social para 
idoso, sendo 30 apartamentos com um dormitório com 4 tipos de área construída e 20 
apartamentos conjugados com 3 tipos de área construída (Figura 5). 
Inteligibilidade, conforme apontam os relatórios das empresas supracitadas, “A integridade 
arquitetônica do monumento norteou o partido de restauro, que se orienta pelos princípios 
básicos da documentação internacional usada na preservação do patrimônio histórico” (Pauliceia, 
2011). 
Intertextualidade, o restauro e reabilitação do edifício Palacete configuram as relações 
harmoniosas com a arquitetura do centro histórico de São Paulo. 
Síntese do heterogêneo, os elementos acrescentados possuem uma diferenciação dos elementos 
pré-existentes no edifício, principalmente na porção interna da edificação, onde foram prezados 
acabamentosmodernos. Na porção externa da edificação foram refeitos os ornamentos de 
acordo com os que existiam previamente. 
Sustentabilidade, não houve. 
PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL: ANÁLISE DA QUALIDADE DA 
HABITAÇÃO PARA IDOSOS NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO 119 
 
 
 
Figura 5. Tipos de habitação e área construída do pavimento tipo. Desenvolvido pelo autor, 2018. 
1.1.5 Construção da reabilitação 
A construção da reabilitação é a materialidade do projeto de reabilitação, da configuração dos 
tipos de habitação estabelecidos no Programa Locação Social, do atendimento ao conforto 
ambiental em função do clima do lugar e da aplicação das Normas para acessibilidade da ABNT 
NBR 9050/2015. 
Os parâmetros analisados na construção da reabilitação do edifício Palacete foram: área por tipo 
de habitação e por cômodos, acesso, circulação e mobilidade, barreiras arquitetônicas, condições 
ambientais, condições de manutenção, aspectos psicodinâmicos, sistema de comunicação e 
segurança. 
Com relação as áreas por tipo de habitação, o edifício Palacete dos Artistas abriga 50 unidades de 
habitação social, sendo 30 apartamentos com um dormitório e 20 apartamentos conjugados. Dos 
apartamentos com um dormitório, a maioria (66,6%) tem áreas ótimas (mais de 51,13m²) e boas 
120 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
(40,90 a 51,12m²) e apenas 33,4% tem área regular (30,68 a 40,89m²), portanto, a maioria dos 
apartamentos com um dormitório possui suficiente área para a realização das atividades 
domésticas dos idosos. Por outro lado, 50% dos apartamentos conjugados têm área boa (28,25 a 
35,31m²) e os outros 50% tem área regular (21,19 a 28,24m²), portanto, tem área suficiente para 
a realização das atividades domésticas (Tabela 4). 
Tabela 4. Área por tipo de habitação do Palacete dos Artistas 
Tipo de habitação Área real Área proposta Intervalo de metragem Valor 
T1 (10 unid.) 1 Dormitório 39,59 m² 40,90 m² Entre 30,68m² e 40,89 m² REGULAR 
T2 (10 unid.) Conjugado 29,99 m² 28,25 m² Entre 28,25 m² e 35,31m² BOM 
T3 (5 unid.) Conjugado 26,30 m² 28,25 m² Entre 21,19 m² e 28,24m² REGULAR 
T4 (5 unid.) Conjugado 26,74 m² 28,25 m² Entre 19 m² e 28,24m² REGULAR 
T5 (5 unid.) 1 Dormitório 47,55 m² 40,90 m² Entre 40,90 m² e 51,12m² BOM 
T6 (10 unid.) 1 Dormitório 56,79 m² 40,90 m² ≥ 51,13 m² ÓTIMO 
T7 (5 unid.) 1 Dormitório 47,74 m² 40,90 m² Entre 40,90 m² e 51,12m² BOM 
Desenvolvido pelo autor, 2018. 
Com relação as áreas por tipo de cômodo nos apartamentos com um dormitório, 66,7% dos 
dormitórios tem área regular e 33,3% tem área péssima; 33,3% das salas tem área ótima, outras 
33,3% tem área regular e 33,4% tem área péssima; 33,3% das áreas da copa-cozinha tem área 
ótima, outras 33,3,% tem área boa e 33,3% tem área regular; 66,7% dos banheiros tem área boa e 
33,3% tem área regular. Portanto, a maioria das áreas da copa-cozinha e dos banheiros tem área 
suficiente para a realização das atividades como preparação de alimentos, refeição e higiene 
pessoal, possibilita a manobra de cadeira de rodas. A maioria dos dormitórios e das salas tem 
áreas suficientes para a realização de funções como dormir, descansar; no entanto, 33,4% dos 
dormitórios e das salas não têm área suficiente para a manobra de uma cadeira de rodas, 
prejudicando o deslocamento do idoso dentro do ambiente e podendo ocasionar acidentes como 
a queda do idoso, seu mal-estar (Tabela 5). 
Já, as áreas por cômodos nos apartamentos conjugados demonstram que todos os cômodos 
multifuncionais (dormitório-sala-copa-cozinha) e todos os banheiros têm área regular, portanto, 
áreas mínimas para a realização de atividades como preparar alimentos, refeição, dormir 
descansar e higiene pessoal, e a manobra de cadeira de rodas fica um pouco prejudicada pelas 
áreas reduzidas, principalmente no banheiro (Tabela 5). 
Tabela 5. Área por cômodo dos tipos de habitação do Palacete dos Artistas 
Tipo/cômodo Área real Área proposta Intervalo de metragem Valor 
T1 (10 unid.) 
Dormitório 8,85 m² 12,20 m² ≤ 9,14 m² PÉSSIMO 
Sala 13,41 m² 18,00 m² ≤ 13,49 m² PÉSSIMO 
Copa-cozinha 5,57 m² 6,30 m² Entre 4,73 m² e 6,29 m² REGULAR 
Banheiro 3,83 m² 4,40 m² Entre 3,30 m² e 4,39 m² REGULAR 
T2 (10 unid.) 
Conjugado 21,28 m² 23,85 m² Entre 17,88 m² e 23,84 m² REGULAR 
Banheiro 4,19 m² 4,40 m² Entre 3,30 m² e 4,39 m² REGULAR 
T3 (5 unid.) 
Conjugado 18,61 m² 23,85 m² Entre 17,88 m² e 23,84 m² REGULAR 
Banheiro 3,51 m² 4,40 m² Entre 3,30 m² e 4,39 m² REGULAR 
T4 (5 unid.) Conjugado 18,86 m² 23,85 m² Entre 17,88 m² e 23,84 m² REGULAR 
PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL: ANÁLISE DA QUALIDADE DA 
HABITAÇÃO PARA IDOSOS NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO 121 
 
 
Tipo/cômodo Área real Área proposta Intervalo de metragem Valor 
Banheiro 3,56 m² 4,40 m² Entre 3,30 m² e 4,39 m² REGULAR 
T5 (5 unid.) 
Dormitório 10,15 m² 12,20 m² Entre 9,15 m² e 12,19 m² REGULAR 
Sala 15,75 m² 18,00 m² Entre 13,50 m² e 17,99 m² REGULAR 
Copa-cozinha 6,30 m² 6,30 m² Entre 6,30 m² e 7,87 m² BOM 
Banheiro 5,40 m² 4,40 m² Entre 4,40 m² e 5,50 m² BOM 
T6 (10 unid.) 
Dormitório 9,34 m² 12,20 m² Entre 9,15 m² e 12,19 m² REGULAR 
Sala 24,03 m² 18,00 m² ≥ 22,51 m² ÓTIMO 
Copa-cozinha 8,32 m² 6,30 m² ≥ 7,88 m² ÓTIMO 
Banheiro 5,44 m² 4,40 m² Entre 5,50 m² e 4,40 m² BOM 
T7 (5 unid.) 
Dormitório 9,88 m² 12,20 m² Entre 12,19 m² e 9,15 m² REGULAR 
Sala 15,93 m² 18,00 m² Entre 17,99 m² e 13,50 m² REGULAR 
Copa-cozinha 6,49 m² 6,30 m² Entre 7,87 m² e 6,30 m² BOM 
Banheiro 5,17 m² 4,40 m² Entre 5,50 m² e 4,40 m² BOM 
Desenvolvido pelo autor, 2018. 
O acesso ao edifício se faz pelo portão principal com alinhamento à calçada. A acessibilidade dos 
usuários é feita através de rampas com barras de acesso para entrada de idosos. A circulação e a 
mobilidade de pessoas portadoras de necessidades especiais foram respeitadas, e os corredores 
são amplos suficientes para que essa mobilidade e circulação ocorram. 
Não há incidência de barreiras arquitetônicas internas à edificação. O edifício possui elevador 
para acesso aos andares, a escada é pouco utilizada, possuindo 1,20 metro de largura, e corrimão 
à 1,00 metro de altura. Os corredores da edificação possuem 1,41 metro de largura, o que facilita 
a movimentação interna no edifício, atendendo as normas da ABNT NBR 9050. Condições 
ambientais 
A maior iluminação e insolação ocorre nas unidades de habitação que tem a frente voltada para a 
fachada da edificação, localizada na orientação sudeste do lote. Entanto, as unidades que se 
encontram na fachada sul do edifício possuem menor insolação e ventilação em comparação às 
outras. Ao mesmo tempo, os moradores que vivem nas unidades voltadas para o poço de luz, 
também se queixaram sobre a iluminação e insolação, principalmente nos andares mais baixos. 
Com relação a acústica, as unidades de habitação viradas para a fachada principal do edifício 
(Avenida São João) são as mais prejudicadas pelo ruído ocasionado pela grande movimentação de 
carros e transportes públicos. 
O projeto de reabilitação visou fazer com que a manutenção fosse facilitada com a instalação de 
pisos de cerâmica em todas as unidades e em todos os cômodos. Os caixilhos foram alterados (os 
de madeira na fachada externa por outros de madeira no mesmo modelo para não comprometer 
a integridade da mesma, os da fachada interna foram alterados para caixilhos metálicos), para 
facilitar a limpeza e a abertura dos mesmos, bem como as cerâmicas usadas nas paredes da 
cozinha e dos banheiros para que fosse de fácil manutenção. Foi feita a adequação em todos os 
banheiros das unidades para que fossem acessíveis aos portadores de necessidades especiais. 
Com relação aos aspectos psicodinâmicos, o edifício foi configurado de uma maneira comum. Não 
havendo um projeto de retail design para as unidades nem para os andares. Isso dificulta a 
mobilidade dos idosos no Palacete dos Artistas, uma vez que, como já mostrado, a depreciaçãoda 
122 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
visão ao longo dos anos é uma realidade experimentada por pessoas idosas, sendo assim, o uso 
de cores ou linhas guias em pisos seria uma alternativa viável para que os mesmos se locomovam 
dentro da edificação de uma maneira mais fácil, ou seja, não há a necessidade de se visualizar os 
números dos andares, e sim as cores. 
O sistema de comunicação no Palacete dos Artistas é dotado de uma portaria, um porteiro, e 
porteiros eletrônicos em cada unidade. Também possui um ramal interno de comunicação 
telefônica entre os serviços internos do edifício, ou seja, entre a portaria e assistência social, entre 
guarita e almoxarifado. 
Com relação a segurança, o edifício apresenta extintores de incêndio em todos os andares, porém 
os moradores se queixaram de não fazerem cursos de evacuação do ambiente ou como utilizar 
esses extintores, como foi informado pela assistente social do edifício e pelos próprios 
moradores. 
4.4 Percepção dos usuários 
Em função de suas necessidades e expectativas de moradia, os usuários validam a qualidade de 
habitação, a partir das relações dos parâmetros das viabilidades social, econômica, urbana e 
ambiental com os parâmetros da: construção da reabilitação, do projeto de reabilitação e do 
Contexto (Centros histórico de São Paulo e Programa Locação Social). 
Para conhecer a percepção dos usuários foram propostas entrevistas e foi elaborado um 
questionário de avaliação pós-ocupação para ser aplicado, que compreendeu 43 questões: 15 
questões abertas, 21 questões fechadas e sete questões mistas. Os questionários foram aplicados 
a nove moradores entre abril e maio de 2018. 
Quando perguntados sobre a idade, nível de instrução e gênero, a maior parte dos moradores 
(66,7%) tem entre 66 e 75 anos – compreendendo a faixa etária proposta pelo programa –, possui 
apenas o ensino médio (55,6%) e é predominantemente feminino (55,6%); a última ocupação é 
em suma de artistas (77,8%), também contemplando o projeto idealizado. Dos moradores, 88,9% 
moram na edificação desde a conclusão das obras e a entrega dos apartamentos. 55,6% já 
moravam na região central, próximas ao empreendimento, e 88,9% vivem sozinhos. 
1.1.6 Viabilidade Social 
Das interações sociais dos idosos, 33,3% afirmam que não possuem vínculos com os seus 
familiares; 66,7% preferem receber visitas em casa a se deslocar; 44,5% contam que não visitam 
seus parentes; para os que visitam, 66,6% se deslocam de diferentes maneiras. 
Uma parcela considerável (44,5%) considerou o tamanho dos quartos como satisfatório ou 
razoável, o que corrobora com as investigações apresentadas anteriormente sobre a análise 
quando se sobrepõe as normas da NBR 9050 (ABNT, 2015). 
A acessibilidade foi classificada como boa ou ótima por 88,9% dos moradores. 
Quanto à ventilação, de uma maneira geral, foi positiva (88,9% consideraram boa ou ótima), 
porém nota-se que os moradores das unidades voltadas para o poço de luz dos andares mais 
baixos também se queixaram dessa interferência negativa; o mesmo é válido para a questão da 
insolação nesses mesmos apartamentos, uma vez que a fachada principal do edifico é voltada 
PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL: ANÁLISE DA QUALIDADE DA 
HABITAÇÃO PARA IDOSOS NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO 123 
 
 
para Nordeste. A iluminação, temperatura no verão e no inverno novamente a grande maioria 
(77,8%) classificaram esses quesitos como bons ou ótimos. 
Quando questionados sobre os ruídos internos a resposta também seguiu positiva (100%) – 
nenhum morador se queixou de ruídos internos no edifício; porém quando questionados sobre a 
influência de ruídos externos, notou-se que os moradores das unidades com a fachada voltada 
para a rua (22,2%) se queixaram dos barulhos atribuídos ao grande fluxo de veículos tanto 
particulares quanto públicos. 
Sobre a questão da disposição e quantidade de cômodos, bem como o tamanho dos corredores 
das unidades, 88,9% consideram bom ou ótimo e o restante considera satisfatório para atender 
suas necessidades. O mesmo deu-se aos sanitários, onde 77,8% se mostram contemplados; 44,5% 
consideram os quartos como satisfatório ou razoável; quanto à iluminação, 88,9% estão 
satisfeitos. 
Sobre a segurança da edificação, 55,6% classificaram como boa, embora muitos relatem que não 
houve cursos de primeiros socorros. Quanto à acessibilidade e adaptação para portadores de 
necessidades, 77,8% classificam como ótimo e outros 22,2% como bom. 
Por último, sobre a aparência externa do edifício, 66,7% relatam como ótimo e 33,3% como boa. 
Da aparência interna, 55,5% como ótima, 22,2% como bom, 11,1% como satisfatória e outros 
11,1% como razoável. 
Dentro das questões de escolhas fechadas de opção “SIM” e “NÃO”, aos moradores foi indagado 
se acreditavam que o espaço físico do Palacete dos Artistas atenderia todas as necessidades dos 
moradores, 88,9% declaram que estas necessidades são atendidas. Quanto aos móveis da 
edificação, unanimemente (100%) os moradores concordaram que são suficientes. Sobre a área 
externa, 66,7% declararam que são suficientes, embora os outros 33,3% declararem que não são 
bem aproveitadas internamente. 
Quanto a oferta de espaço para os funcionários, 88,9% apontaram como positiva, embora 11,1% 
ressalvarem que faltaria uma portaria fechada na entrada da edificação. Quanto ao espaço 
interno e alterações nas unidades habitacionais, 77,8% considera suficiente, e apenas um 
morador apontou a falta de um segundo sanitário nas unidades. 
100% dos moradores consideram a edificação segura; sobre alguns problemas do Palacete, 44,4% 
deles apontam algumas mazelas na administração, e outros 44,4% afirmam que a própria 
COHAB/SP deveria alterar o método de administração do prédio. 
1.1.7 Viabilidade econômica 
Quanto a renda familiar, o programa visa especificamente pessoas que recebem de 1 a 3 salários 
mínimos, e as mesmas devem contribuir com 10% dessa remuneração para pagamento das taxas 
condominiais. Neste quesito, a viabilidade econômica é cumprida inteiramente, uma vez que eles 
pagam de R$ 90,00 a R$ 200,00 de aluguel por apartamento, dependendo da renda do idoso 
contemplado. À época, o salário mínimo para o ano de 2018 era de R$ 954,00. 
1.1.8 Viabilidade urbana 
Nas questões referentes à saúde: 77,8% dizem que não adoecem com frequência; quando são 
acometidos por alguma doença, se tratam na Assistência Médica Ambulatorial (AMA) perto do 
124 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Palacete, localizada na Praça da República, quando precisam se deslocar para algum tratamento 
mais distante, 66,7% preferem o uso de transporte público. Para acesso a medicamentos, devido 
à grande oferta de farmácias na região, unanimemente (100%) apontam que preferem caminhar 
até os estabelecimentos. 
A preferência pela independência que o trajeto a pé proporciona é uma constante nas respostas – 
100% afirmaram que preferem fazer suas atividades caminhando –, sendo que destes, 89,9% 
preferem também fazer suas compras de mercado caminhando até algum estabelecimento 
próximo, e destes, 77,8% também desenvolvem suas atividades de lazer em regiões próximas, e 
88,9% se deslocando a pé até o referido espaço. 
Uma constante queixa, no entanto, é a falta de variedade de mercados e mercearias próximas à 
edificação. 66,7% afirmaram que as atividades seriam facilitadas se houvesse uma quitanda 
próxima ao Palacete. Dentre os entrevistados, 55,5% define como até quatro quadras o máximo 
de deslocamento que alcançam, corroborando assim com as pesquisas a respeito do raio de 
locomoção – 250 metros a partir do pronto inicial de uma caminhada de 6 minutos. 
1.1.9 Viabilidade ambiental 
Com relação aos espaços públicos abertos para lazer, respeitando-se o raio de 250 metros, existe 
a Praça da República e o Largo do Paiçandu; duas importantes praçasda capital paulistana. 
4.5 Relações entre o Texto e o Contexto: Análise da qualidade de habitação do Edifício 
Palacete dos Artistas, Programa Locação Social 
A partir das relações existentes entre cada um dos parâmetros das dimensões do Texto (Projeto 
de reabilitação, Construção da reabilitação e Percepção dos usuários) com seu Contexto (Centro 
histórico e Programa Locação Social), foi possível identificar os parâmetros que atenderam ou não 
à qualidade da habitação do edifício Palacete dos Artistas do Programa Locação Social para Idosos 
(Quadro 7). 
O Programa Locação Social e o Centro histórico de São Paulo tiveram correspondências nos 
parâmetros: beneficiários, renda familiar, tipos de habitação e localização. Beneficiários porque 
atende a população idosa com mais de 60 anos, com renda mensal de até três salários mínimos 
que correspondem as características econômicas dos idosos do centro histórico (renda mensal de 
até 2 salários mínimos), os tipos de habitação (apartamentos com um dormitório e conjugado) 
atendem as necessidades dos idosos que moram sozinhos ou são um casal. 
O Projeto de reabilitação e o Contexto (Programa Locação Social e Centro histórico) tiveram 
correspondências nos seguintes parâmetros: contemporaneidade, hibridação, restauração, 
reabilitação, inteligibilidade, intertextualidade, síntese do heterogêneo. O projeto de reabilitação 
correspondeu aos parâmetros históricos e arquitetura do Centro histórico, uma vez que respeitou 
o tombamento do edifício, conservou a tipologia arquitetônica, respeitou aos estilos do passado, 
os acréscimos realizados como a substituição da cobertura existente em fibrocimento, por outra 
nova de desenho e material semelhante e de outros elementos foram realizados deixando em 
evidência a leitura entre o novo e o velho, valorizou o edifício tombado em harmonia com sua 
ambiência. Também, o projeto de reabilitação atendeu as tipologias estabelecidas pelo Programa 
Locação Social. No entanto, o projeto de reabilitação não previu a sustentabilidade, ou seja, 
redução do consumo de energia e água, coleta seletiva do lixo, entre outros. 
PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL: ANÁLISE DA QUALIDADE DA 
HABITAÇÃO PARA IDOSOS NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO 125 
 
 
A construção da reabilitação, o Projeto de reabilitação e o Contexto (Programa Locação Social e 
Centro histórico) tiveram correspondências nos seguintes parâmetros: Tipos de habitação apenas 
para os apartamentos com um dormitório, condições ambientais apenas para as unidades 
voltadas para a fachada da rua, acesso, circulação e mobilidade, barreiras arquitetônicas, 
condições de manutenção e segurança. Os apartamentos com um dormitório têm áreas ótimas, 
boas e regulares; todos os banheiros e as copas cozinhas têm áreas ótimas, boas e regulares; e a 
maioria dos dormitórios e salas tem áreas ótimas, boas e regulares e apenas um 33,3% são 
péssimas. O acesso aos apartamentos é realizado pela recepção com portaria (segurança) e deste 
pelos elevadores que conduzem a amplos corredores, que atendem as Normas da ABNT NBR 
9050/2015. Não há barreiras arquitetônicas. Os pisos dos cômodos e as paredes das cozinhas e 
banheiros dos apartamentos são de fácil manutenção e limpeza. O conforto ambiental (insolação, 
ventilação e iluminação) é bom para os apartamentos voltados à rua, entanto que os 
apartamentos voltados para o poço de luz são prejudicados, principalmente de aqueles que estão 
nos primeiros pavimentos. Por outro lado, todos os cômodos (multifuncional e banheiro) dos 
apartamentos conjugados têm área regular, muito apertado para a realização das atividades, o 
que impossibilita a manobra de uma cadeira de rodas. Estas áreas mínimas, tanto dos 
apartamentos com um dormitório como os apartamentos conjugados, são estabelecidas pelo 
Programa Locação Social. 
Verificou-se a relação dos parâmetros da Percepção dos usuários com os parâmetros da 
Construção da reabilitação, Projeto de reabilitação e do Contexto (Programa Locação Social e 
Centro histórico). Assim, a partir desta última relação é possível identificar os parâmetros que 
atendam ou não a qualidade da habitação para idosos do Programa Locação Social. 
A percepção dos usuários, a construção da reabilitação, o projeto de reabilitação e o Contexto 
(Programa Locação Social e Centro histórico) tiveram correspondências nos seguintes parâmetros: 
viabilidade social em parte, viabilidade econômica e viabilidade urbana em parte. 
A viabilidade social, metade dos entrevistados estão satisfeitos com as áreas dos apartamentos, 
isto é, os moradores dos apartamentos com um dormitório estão satisfeitos com as áreas dos 
cômodos (valorizados como áreas ótimas, boas e regulares pela Construção da reabilitação). Os 
entrevistados gostam da aparência interna e externa do edifício, ou seja, da restauração e 
reabilitação do edifício (Projeto de reabilitação), consideram o edifício seguro (segurança 
Construção da reabilitação), ótimo com relação a acessibilidade e adaptação para portadores de 
necessidades (corredores amplos com barras, elevador, escada, Construção da reabilitação, 
Projeto de reabilitação). Com relação ao conforto ambiental a maioria considera entre ótimo e 
bom. Entanto que os moradores dos apartamentos dos primeiros pavimentos voltados para o 
poço de luz consideram ruim. Também, os moradores dos apartamentos conjugados consideram 
a área dos cômodos como precária, demostrado pelas áreas mínimas constantes nas escalas de 
valores da Construção da reabilitação. 
A viabilidade econômica teve correspondência da renda mensal com o valor pago pela locação do 
apartamento, 10% da renda mensal econômica dos usuários é destinada ao pagamento do 
aluguel da unidade de habitação e condomínio, a porcentagem paga pela locação da unidade de 
habitação estabelecida no Programa Locação Social (financiamento). Esta porcentagem é boa, 
permite que o restante da renda mensal seja destinado com a alimentação, e outros gastos 
pessoais. 
126 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
A viabilidade urbana da percepção dos usuários teve correspondência com os parâmetros de 
localização do Projeto de reabilitação, Localização do Programa Locação Social e Urbano do 
centro histórico de São Paulo. Os usuários quando adoecem se tratam na Assistência Médica 
Ambulatorial (AMA) perto do Edifício Palacete, as farmácias ficam próximas, as compras de 
alimentos realizam em mercados próximos, preferem se descolar a pé, caminham até 4 quadras 
(250ms). O edifício Palacete dos Artistas está localizada no distrito da República, do centro 
histórico de São Paulo, onde num raio de 250 metros há vários equipamentos e serviços coletivos 
para a saúde, cultura e lazer, além dos pontos de ônibus e metrô. Alguns usuários reclamaram da 
falta de variedade de mercados e mercearias próximas ao edifício. 
A viabilidade ambiental da percepção dos usuários não teve correspondência com os parâmetros 
de localização do Projeto de reabilitação, Programa Locação Social (localização centro histórico) e 
Urbano do centro histórico de São Paulo. Num raio de 250 metros desde o edifício Palacete dos 
Artistas não há praças de boa qualidade, com segurança, entre outros. 
PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL: ANÁLISE DA QUALIDADE DA 
HABITAÇÃO PARA IDOSOS NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO 127 
 
 
Quadro 7. Qualidade de habitação para idosos do Programa Locação Social: Sinergias e suas relações entre 
o Texto e o Contexto 
 
Fonte: Autores (2020) 
5 PROPOSTA DE DIRETRIZES PARA MELHORAR A QUALIDADE DA HABITAÇÃO PARA 
IDOSOS DO PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL EM CENTROS HISTÓRICOS 
Em função dos parâmetros que não foram atendidos nas relações do Texto (Projeto de 
reabilitação, Construção da reabilitação e Percepção dos usuários) com seu Contexto (Centro 
histórico e Programa Locação Social), propomos diretrizes projetuais para melhorar a qualidade 
de habitação para idososdo Programa Locação Social, que são a seguir: 
128 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Localização dos conjuntos de habitação em áreas com oferta de equipamentos e serviços 
coletivos, além do comércio e serviço local, num raio máximo de 250 metros; 
Apartamentos conjugados com áreas mínimas de 28,25 m², necessárias para garantir a manobra 
de uma cadeira de rodas; 
Conforto ambiental, insolação, iluminação natural e ventilação em todos os cômodos dos 
apartamentos adequados às condições climáticas do lugar, divisórias com isolamento acústico; 
Comunicação psicodinâmica, facilitando a comunicação visual dos idosos, principalmente nos 
espaços coletivos. 
Placas solares, coletores de águas pluviais, iluminação elétrica com sensores nos espaços 
coletivos, entre outros, para diminuir o consumo de energia elétrica e água. 
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
O edifício Palacete dos Artistas, localizado na avenida São João, 613, no Distrito da República do 
centro histórico de São Paulo, foi reabilitado para abrigar 30 unidades de habitação para idosos 
através do Programa Locação Social implementado pela Prefeitura de São Paulo. Os beneficiados 
são artistas com mais de 60 anos, não sejam proprietários de habitação e tenham renda mensal 
de até três salários mínimos. 
O método dialógico, pela teoria de Bakhtin, hermenêutica de Paul Ricœur, e explanada por 
Muntañola foi fundamental para responder aos objetivos delineados. A análise da qualidade de 
habitação para idosos do Programa Locação Social, implementado no edifício Palacete dos 
Artistas, foi realizada em quatro etapas: o contexto (centro histórico de São Paulo e Programa 
Locação Social), o texto (Edifício Palacete dos Artistas: projeto de reabilitação, construção da 
reabilitação e percepção dos usuários); as relações dialógicas estabelecidas entre o Texto e o 
Contexto, que demostram o grau da qualidade de habitação para os idosos, e por fim a proposta 
de diretrizes projetuais para melhorar a qualidade do Programa. 
O Programa Locação Social reabilita edifícios no centro histórico ou constrói novos edifícios com 
apartamentos de um dormitório ou conjugados destinados a terceira idade, desta forma atende 
as necessidades desta faixa etária, tanto pelos tipos de habitação como pela localização, próximo 
dos equipamentos e serviços coletivos. 
O projeto de reabilitação do edifício Palacete dos Artistas atendeu as normas estabelecidas pelo 
Programa Locação Social, adequo os cômodos do antigo hotel Cineasta para abrigar 30 unidades, 
sendo 20 apartamentos com um dormitório e 10 unidades conjugadas. Respeitou o tombamento 
do edifício realizado pelo CONPRESP, restaurou as fachadas e os elementos que estavam em bom 
e regular estado de conservação e os elementos acrescentados como esquadrias, elevador, entre 
outros foram com materiais que evidenciaram sua leitura entre o novo e o velho, além de 
valorizar o patrimônio arquitetônico, harmonizar com a arquitetura de sua ambiência. Na 
reabilitação do edifício foram entendidas as normas para acessibilidade, mobilidade e segurança. 
No entanto, não contempla a sustentabilidade. 
A construção da reabilitação mostrou a acessibilidade, mobilidade, segurança, não tem barriras 
arquitetônicas, os materiais utilizados nos pisos e paredes dos cômodos são de fácil manutenção, 
os apartamentos com um dormitório têm áreas entre ótimas, boas e regulares; no entanto os 
PROGRAMA LOCAÇÃO SOCIAL: ANÁLISE DA QUALIDADE DA 
HABITAÇÃO PARA IDOSOS NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO 129 
 
 
apartamentos conjugados tem cômodos com áreas regulares e péssimas que dificultam a 
manobra de uma cadeira de rodas. O conforto ambiental está garantido nos cômodos dos 
apartamentos voltado às à rua e dos últimos pavimentos dos apartamentos voltados ao poço de 
luz; no entanto os cômodos dos apartamentos que se encontram nos primeiros pavimentos 
voltados ao poço de luz têm péssima iluminação e insolação, assim como os banheiros que não 
tem janelas. Também, não há comunicação psicodinâmica, necessária para a comunicação visual 
dos idosos. 
A percepção dos usuários mostrou que a maioria está satisfeito com as unidades de habitação, 
principalmente os que moram nos apartamentos com um dormitório, a maioria disse ser boa as 
condições de conforto ambiental dos cômodos, gostam da aparência interna e externa do edifício, 
consideram o edifício seguro, ser ótimo com relação a acessibilidade e adaptação para portadores 
de necessidades. No entanto, uma minoria não está satisfeita com os apartamentos conjugados, 
se queixa do conforto ambiental dos apartamentos que estão voltados ao poço de luz. Os 
moradores quando adoecem se tratam na Assistência Médica Ambulatorial (AMA), as farmácias 
ficam próximas, as compras de alimentos realizam em mercados próximos, preferem se descolar a 
pé, caminham até 4 quadras (250 metros), portanto, a localização do edifício Palacete dos Artistas 
está próximo dos equipamentos e serviços coletivos. Muitos usuários se queixam sobre o 
deslocamento para maior acesso a meios de cultura, parques, praças, mercados, quitandas, entre 
outros. 
As diretrizes projetuais para melhorar a qualidade de habitação para idosos do Programa Locação 
Social foram propostos em função dos parâmetros que não foram atendidos nas relações do 
Texto (Projeto de reabilitação, Construção da reabilitação e Percepção dos usuários) com seu 
Contexto (Centro histórico e Programa Locação Social), que são a seguir: localização dos conjuntos 
de habitação em áreas com oferta de equipamentos e serviços coletivos, além do comércio, 
serviço local, praças, parques, num raio máximo de 250 metros; apartamentos conjugados com 
áreas mínimas de 28,25m², necessárias para garantir a manobra de uma cadeira de rodas; 
conforto ambiental, insolação, iluminação natural e ventilação em todos os cômodos dos 
apartamentos adequados as condições climáticas do lugar; divisórias com isolamento acústico, 
comunicação psicodinâmicas e sustentabilidade para reduzir o consumo de energia elétrica e 
água. 
Para mais, espera-se que este artigo contribua para novas pesquisas no ramo da habitação social 
para idosos e futuros trabalhos dentro da dialogia e habitações em patrimônios históricos. 
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SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
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Coberturas - Referências - Elaboração. Rio de Janeiro, 2013. 
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(doutorado) – UPC e Escola Superior Técnica d´Arquitectura de Barcelona, Barcelona, 2000. 
AGRADECIMENTOS 
Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pelo 
financiamento da pesquisa. Ao GIRAS – Grup Internacional de Recerca en Arquitectura i Societat da 
Universitat Politècnica de Catalunya (UPC) pelo apoio à pesquisa em Barcelona, à Paulicéia Arquitetura 
pelos projetos do Palacete dos Artistas, à COHAB/SP pelos documentos. Aos funcionários da UNESP-Bauru 
por toda ajuda. 
AUTORES 
Victor Rüegger Lucredi Doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela IAU/USP (bolsista CAPES). Mestre em 
Arquitetura e Urbanismo pela UNESP (FAAC-PPGARQ) com passagem pela Universitat Politècnica de 
Catalunya (UPC) Barcelona (bolsista CAPES). Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela UNESP (2012). 
Currículo completo em: http://lattes.cnpq.br/3636279450208537 
Rosio Fernández Baca Salcedo Livre-Docente em Patrimônio Arquitetônico e Urbano pela UNESP. Docente 
nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UNESP-Bauru. Coordenadora do 
Grupo de Pesquisa Arquitetura: Teoria e Projetos (GA). Membro do Grupo Internacional GIRAS, Barcelona, 
Espanha. Coordenadora, representante da UNESP, do anexo ao Acordo de Cooperação entre a UNESP e a 
Universidade Politécnica de Catalunya, Barcelona, Espanha. Currículo completo em 
http://lattes.cnpq.br/9657359692240283. 
Josep Muntañola i Thornberg Professor Sênior pela Universitat Politècnica de Catalunya. Diretor da Escuela 
de Arquitectura de Barcelona, 1980-1984. Diretor do Departamento de Proyectos Arquitectónicos, entre 
1986-1992, e 1999-2010. Doutor Honoris Causa pela Universidade Lusíada, Lisboa, junho 2005. Membro 
Titular da Real Academia de Bellas Artes de Sant Jordi. Currículo completo em: www.arquitectonics.com 
 
http://lattes.cnpq.br/9657359692240283
 
 
História da cidade 
134 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Página propositalmente em branco 
 
 
 
“SertãoDesconhecido”: os Campos do Avanhandava no 
processo de ocupação territorial paulista 
Nilson Ghirardello 
Daniel Candeloro Ferrari 
RESUMO: O império brasileiro planejou em 
meados do século XIX a criação de colônias 
militares, que tinham como finalidade ocupar e 
garantir que as terras nas quais estavam inseridas 
compusessem, irreversivelmente, o território 
nacional. Desejo arrojado para a época, foi desta 
forma que com grande confiança o governo 
instalou, no mínimo, um estabelecimento militar 
em quase todas as províncias. Alguns deles foram 
utilizados como baluartes estratégicos para que 
nações vizinhas não reclamassem posse das terras, 
desestimulando assim possíveis invasões. O 
presente trabalho tem como objetivo debruçar-se 
sobre o início da ocupação territorial branca nos 
chamados “Campos do Avanhandava” – local em 
que fora implantada, próxima ao salto de mesmo 
nome, no rio Tietê, uma colônia militar. Pretende-
se analisar e discutir curiosas expressões presentes 
em mapas da província de São Paulo, 
estigmatizando imensa região como “Sertão 
Desconhecido”. Demonstrando assim que, a partir 
da década de 1860, constata-se a ação do Estado 
no sentido de incentivar a “colonização deste 
sertão”, utilizando-se da política de aldeamentos e 
abertura de estradas de rodagem e de ferro. É 
fundamental reconhecer que antes do processo de 
povoamento branco do “oeste” paulista, tratando 
em específico os Campos do Avanhandava, havia 
um contexto histórico primitivo vinculado aos 
povos nativos daquela área. 
“Unknown Hinterland”: the Avanhandava fields in 
the process of paulista territorial occupation 
ABSTRACT: During the mid-19th century, the 
brazilian empire planned the creation of military 
colonies whose purpose was to occupy and ensure 
the lands on which were inserted integrate, 
irreversibly, the national territory. An audacious 
desire for the time, with great confidence the 
government installed at least one military 
establishment in almost all provinces. It can also 
be said that some of these points were used as 
strategic strongholds, so the neighboring nations 
would not claim ownership of the land, thus 
discouraging possible invasions. The present paper 
aims to examine the beginning of the white 
territorial occupation in the so-called “Campos do 
Avanhandava” (Avanhandava fields) – a place 
where a military colony was implanted, close to 
the waterfall with the same name, on the Tietê 
River. The purpose is analyzing curious expressions 
present on maps of the province of São Paulo, 
stigmatizing a huge region such as “Unknown 
Hinterland” and similar terms. From the 1860’s 
onwards, there is evidence of Station action to 
encourage the “hinterland colonization”, using the 
policy of settlements, bandeiras (frontiersmen) 
and the opening of roads. It is essential to 
recognize that, before paulista western 
colonization process, and specifically considering 
the fields of Avanhandava, there was a primitive 
historical context associated with the native 
peoples of that area. 
Palavras-chave: Campos do Avanhandava, “sertão 
desconhecido”, ocupação territorial paulista. 
Keywords: Avanhandava’s fields, “unknown 
hinterland”, paulista territorial occupation. 
 
136 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
1 INTRODUÇÃO 
Foi na antiga vila de Tordesilhas onde, em 1494, assinaram juntos, Espanha e Portugal, o tratado 
que dividia o “novo mundo” em dois hemisférios, estabelecendo a partilha das futuras terras 
“descobertas”. Porém, ao longo dos séculos XVII e XVIII, devido às ações dos bandeirantes, às 
extrações de drogas dos sertões, às monções, à mineração e à procura de pedras preciosas, às 
ordens religiosas, entre outros diversos motivos; os portugueses ocuparam área que, em tese, 
pertencia à coroa espanhola. Contudo, naquela época, era complexo dizer ao certo se um 
território estava a leste ou a oeste desta linha imaginária. Para que os conflitos não se 
transformassem numa verdadeira guerra, a diplomacia entra em questão, e é assinado o Tratado 
de Madrid (1750). O princípio defendido pelos portugueses para o novo tratado era o uti 
possidetis, que provinha do direito romano. Tal princípio, em resumo, estabelecia que quem de 
fato deveria ficar com o território, é quem o ocupou, quem povoou e dera início a alguma 
atividade econômica naquele local. E isto fora respeitado, de certa maneira. Alguns autores como 
Barros (1992), afirmam que os “Campos do Avanhandava” só passarão a ser de direito dos 
portugueses a partir deste último tratado. Entretanto, é difícil precisar tal informação. 
De fato, sabe-se que o primeiro mapa onde se demonstrou o Salto do Avanhandava fora datado 
em 1628. Produzido a partir da viagem de D. Luis de Céspedes Xeria,1 militar e administrador 
colonial espanhol, na época governador do Paraguai. Por isso, pode-se supor que, provavelmente, 
os portugueses percorriam tal zona no mesmo período. Consideramos a região chamada “Campos 
do Avanhandava” a área geográfica que abrange o vale ao redor do Salto do Avanhandava, 
situado no baixo-Tietê, até os espigões dos rios S. José dos Dourados, ao norte; e o rio Aguapeí 
(Feio) ao sul. Esta aproximação foi convencionada estritamente para este estudo, pois não se 
encontra bibliografia que precise os limites exatos da área, mas é comumente referenciada como 
os terrenos que pertencem às margens direita e esquerda do Salto do Avanhandava. Com a figura 
a seguir procura-se, de forma aproximada, demonstrar o local para aqueles que não são 
habituados ao termo. As cidades destacadas abaixo não representam a realidade da época 
estudada, estão ali para balizar o discernimento das zonas no atual Estado de São Paulo. 
 
1
 Para saber mais sobre tal mapa ver: CINTRA, Jorge Pimentel; BEIER, José Rogério; RABELO, Lucas Montalvão. Affonso 
de Taunay e as duas versões do mapa de D. Luis de Céspedes Xeria (1628). Anais do Museu Paulista: História E Cultura 
Material, São Paulo, vol. 26, e33, p. 1-53, 2018; e também: CAVENAGHI, Airton José. A construção da memória 
historiográfica paulista. Dom Luiz de Céspedes Xeria e o mapa de sua expedição de 1628. Anais do Museu Paulista. São 
Paulo. N. Sér. v 19, n. 1, p. 81-109, jan-jun. 2011. 
TÍTULO DO ARTIGO 
137 
 
 
 
Figura 1: Representação esquemática e aproximada dos “Campos do Avanhandava” no atual Estado de São 
Paulo (elaboração do autor, 2019). 
Ao se debruçar sobre a história da ocupação territorial paulista, a partir da perspectiva neo-
europeia,2 comumente nos deparamos com curiosa expressão: “o sertão”. E cabem aqui algumas 
considerações sobre o assunto. É fundamental reconhecer que, antes do processo de colonização 
do “oeste paulista” tratado em específico no que se refere aos Campos do Avanhandava e à 
colônia militar de mesmo nome, havia um contexto histórico primitivo vinculado aos povos 
nativos daquela área. Estes foram os “verdadeiros pioneiros, se nos ativermos ao sentido mais 
restrito da palavra” (Monbeig, 1984, p. 129), os primeiros habitantes, antes das ações organizadas 
pelo governo e pelo exército para “povoar e desenvolver” aquela superfície em meados do século 
XIX. 
1.1 “O sertão é do tamanho do mundo.” - Guimarães Rosa3 
A região de nosso estudo juntamente com toda a zona até a margem esquerda do rio Paraná era 
apontada como “Sertão desconhecido”. A paisagem natural circundante ao Salto do Avanhandava 
era de cerrado, no planalto ocidental paulista, presumia-se, por informações não muito precisas, 
que seria uma fértil planície composta por extensas faixas de boas terras para lavoura e a cultura 
do pastoreio, recobertas de matas nos altos dos espigões e tendo à meia encosta os campos 
nativos, orlados pela vegetação ciliar mais densa acompanhando os cursos d’água. Nos campos, 
segundo Morais Filho (1951), ainda vagavam alguns cervos e veados, além de bandos de perdizes,codornizes e seriemas. Nas lagoas abundavam os patos, marrecos e também as anhumas. As aves 
 
2
 Termo muito utilizado por DEAN, Warren. A ferro e fogo. A história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São 
Paulo: Companhia das Letras, 2018. 
3
 ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. [S. l.], Biblioteca Luso-Brasileira, Editora Nova Aguilar, 1994, p. 96. 
Disponível em: https://bit.ly/2PxaEiJ Acesso em: 26 jul. 2020. 
138 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
eram das mais variadas espécies. O Salto exigia o transbordo das embarcações e das cargas para 
transpassarem por terra, geralmente pela margem direita do rio; e para tal serviço, seria mais fácil 
realizá-lo com a presença de moradores próximos, as suas pequenas roças ajudariam quem 
passava por ali. 
 
Figura 2: Atlas do Imperio do Brazil, Provincia de São Paulo, Folha XVII, 1868, Candido Mendes de Oliveira, 
Rio de Janeiro: Litographia do Instituto Philomatico (David Rumsey Map Collection, Stanford Libraries
4
). 
 
Figura 2a: Detalhe figura anterior, notar destaque “Terrenos occupados pelos indigenas feroses” e 
“Avanhandava” (editado pelos autores, 2020). 
 
4
 Disponível em: https://bit.ly/2FWGyDb Acesso em: 25 jul. 2020. 
TÍTULO DO ARTIGO 
139 
 
 
A Carta representada acima, de acordo com Beier e Marhtin (2018), foi fruto de empreendimento 
particular, e constitui parte do atlas estruturado por Cândido Mendes, que pretendia destiná-lo “à 
instrucção publica do Imperio, com especialidade á dos alumnos do Imperial Collegio de Pedro II, 
Rio de Janeiro.” Um dos destaques desta carta é a apresentação da São Paulo Railway, conhecida 
por ser a primeira linha férrea da então província, cujo traçado inicial fora inaugurado três anos 
antes da publicação do conjunto. A ferrovia venceu seu maior desafio ao superar a Serra do Mar 
em 1865, ligando o porto de Santos a São Paulo e, posteriormente, em 1867, conclui seu segundo 
e último trecho, ampliando o traçado até Jundiaí – cidade, na época, considerada porta de 
entrada para a área cafeeira em expansão. 
Quanto ao detalhe destacado na Figura 2a, recortado da grande região “oeste” da província, 
Cândido Mendes de Almeida elegeu grafar o termo “Terrenos occupados pelos indigenas 
feroses”, movido talvez por uma perspectiva (demonstrada a seguir, a partir dos estudos de 
Arruda, 2000), que considerava o avanço sobre as terras ocupadas pelas populações indígenas 
como uma luta da “civilização” contra a “barbárie”: 
Em tempos nos quais o desenvolvimento da Província era associado ao avanço das 
estradas de ferro e da lavoura de café para o Oeste, o uso de tal expressão é bastante 
significativo, ainda mais em uma obra dedicada à educação da juventude. A menção 
sintetiza claramente a visão e os desígnios daquela sociedade, não só em relação às 
terras habitadas pelas populações indígenas, mas também, aos próprios índios. A 
estes, entendidos como obstáculos à civilização, restavam as opções de se integrarem 
àquela sociedade ou simplesmente serem eliminados (Beier; Marhtin, 2018, p.9). 
O fato é que “caso saíssemos à procura da localização geográfica do dito “sertão” chegaríamos à 
conclusão de Guimarães Rosa: o ‘sertão’ ou ‘os sertões’, ou não existem ou estão em todas as 
partes.” (Arruda, 2000, p. 13). Para Roncari (2019), sertão talvez nem seja lugar definido, o não-
lugar, que estava sempre fora, e vinha depois da fronteira do habitável, onde não se chegava o 
comércio regular, as leis do governo, talvez poucos preceitos da Igreja e nenhum poder das 
autoridades. Era, de certa maneira, o desconhecido, e de onde vinham as ameaças: 
Um espaço movediço, sempre em fuga das expansões colonizadoras, refúgio dos que 
não se submetiam à dominação, à servidão, e ao baixo assalariamento; alternativa 
para aqueles que preferiam se colocar à margem, mas em liberdade. [...] 
Região do homem-livre: nem escravo nem senhor. Ir para o sertão era se perder, estar 
perdido para a boa sociedade. O lugar das feras, dos bugres selvagens, dos bandos de 
escravos fugidos, das maltas de traficantes e contrabandistas. O sertão era perigoso, 
metia medo. O cidadão olhou o sertão com atração e pavor, e quando lá entrou, foi 
fortemente armado para conquistar, e se tornou herói: os bandeirantes, mineradores 
e traficantes de escravos, os desbravadores, as expedições militares, Rondon [...]. 
Refúgio das raças, índios, negros, mestiços, brancos, livres [...] (Roncari, 2019, p. 1-2). 
A palavra sertão e seus arcaísmos, como “certão”, “certam”, “sertam”, seus posteriores 
derivantes “sertão desconhecido”, “sertão desabitado”, “sertão pouco conhecido e ocupado por 
indígenas ferozes” e termos como “terrenos desabitados”, “terras devolutas não exploradas”; 
foram usualmente utilizados na grafia de mapas paulistas desde, no mínimo, o século XVIII. 
Também os verbos utilizados como “conquistar” e “humanizar” correspondem à perspectiva da 
época, num sentido ocidental colonizador, visão colonialista social em que as povoações 
indígenas não eram consideradas humanas, e o “grande trabalho” do homem branco, neo-
europeu, português, era catequizar e submeter tais nações ao “progresso colonizador”. A noção 
140 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
de vazio, de “tabula rasa”, e os mais diversos termos mencionados, ignorava totalmente a 
presença das povoações indígenas. 
Conforme Arruda (2000, p. 28) “Por trás de toda concepção espacial, arranjo e utilização da terra, 
mapeamentos e descrições da paisagem, valorização ou não de lugares, estão os valores culturais, 
o universo da cultura, da política, e das ideologias”. Ainda segundo o autor, os termos “cidades” e 
“sertões” são representações culturais, ou seja, são leituras elaboradas da realidade, constituídas 
com algumas características dos lugares físicos, mas principalmente, da memória do processo de 
transformação da paisagem – com os diversos conflitos que ocorreram na reocupação territorial 
de regiões antes chamadas de “sertões”. 
Isso porque as terras já estavam ocupadas pelos pioneiros indígenas, desde há milhares de anos, 
que utilizavam esse território como espaço de suas sociedades. Reocupação tal que se 
desenvolveu em meados do século XIX, essencialmente, e a partir da preocupação em absorver 
tais terras consideradas “vazias” pelo neo-europeu, e introduzi-las ao processo de 
desenvolvimento do capitalismo brasileiro. Nesse sentido, os povos indígenas eram considerados 
verdadeiros obstáculos. 
É igualmente em tal período que, de acordo com Di Creddo (2003), o governo provincial concebeu 
e pôs em prática a política de povoamento expressa na implantação de aldeamentos, no apoio à 
formação de bandeiras e na abertura de picadões. Com tais ações, pretendia garantir a existência 
das grandes propriedades rurais e promover a estruturação de núcleos de povoamento. O 
interesse em “incorporar os índios à civilização” são relacionados aos da economia mercantil. A 
intenção principal, em meados do XIX, era a primitiva terra dos índios; mas também a instrução 
nas artes mecânicas e o aproveitamento de sua mão de obra nas culturas e lavouras. 
Tais objetivos ficavam claros no relatório do presidente da província de São Paulo, em 1858: 
Desde que conseguíssemos convencê-las [as tribos] de que mais comodidades 
encontrariam na regeneração de seus costumes nômades, vê-las-íamos empregar-se 
na lavoura, na exploração e navegação de nossos rios, na tripulação de nossos barcos 
mercantis e de guerra; e bem sabeis senhores, quanto obteríamos desses homens que 
ainda conservam toda a força e vigor do estado primitivo (Lima, 1978, p. 91). 
O Documento da Repartição Geral das Terras Públicas, de 1862, evidenciava seu viés utilitarista ao 
demonstrar que: 
[...] continuando a pediraos países mais antigos e adiantados os braços e os capitais 
que lá não deparam emprego satisfatório, não devemos nos esquecer que no recesso 
das matas erram muitas centenas de milhares de aborígenes que vegetam na barbária, 
inúteis para si próprio, desconversáveis à civilização de que podem ser ativos operários 
(Lima, 1978, p. 92). 
Ainda, em 1863, outro relatório reafirmava a preocupação ao lastimar a presença de “milhares de 
entes que vivem despojados e internados nas matas, faltando ao mesmo tempo à lavoura e à 
outras indústrias do país um tão avultado contingente de população” (Lima, 1978, p. 92). Para o 
autor, o depoimento de 1871 representa, de forma decisiva, o significado da organização dos 
aldeamentos para a presidência da província: 
Está no pensamento do Exmo. Ministro da Agricultura promover a catequese e 
civilização dos indígenas, e é este pensamento tanto mais digno de execução, quanto 
na situação atual do país tudo se deve tentar, para que seja aumentado o numero de 
TÍTULO DO ARTIGO 
141 
 
 
braços que sustentem e desenvolvam a sua lavoura, o que o mesmo é dizer que 
promovam o aumento da sua riqueza pública e privada (LIMA, 1978, p. 92). 
Dessa maneira, através dos discursos acima, vê-se que o intuito era claro: afastar os indígenas do 
território em processo de povoamento branco e, caso não fosse possível, dever-se-ia adotar a 
prática de aldeamento, para “domesticá-los”, “civilizá-los”, e enfim tentar utilizá-los como mão de 
obra. Para Di Creddo (2003), a manutenção dos índios em aldeamentos, isto é, a sobrevivência 
física dos mesmos, representava a transformação em mão de obra barata e submissa – os 
aldeamentos eram idealizados como reservatórios de mão de obra disponível. Porém, a política 
de aldeamento do Estado não correspondia de imediato às expectativas dos grandes 
proprietários. Estes almejavam expulsar os povos aborígenes a fim de valorizar as suas 
propriedades e atrair mão de obra, bem como povoadores interessados em fixar-se na região. 
As críticas à politica de aldeamento eram variadas por não resolver a questão dos ataques 
indígenas e prejudicar a expansão “pioneira”. Assim, foi somente a partir de 1862 que o governo 
imperial decidiu empregar nova prática (talvez nem tão nova assim) em relação à presença dos 
índios: as conhecidas bandeiras. Tal proposta de formação de bandeiras fora apresentada pelo 
Diretor Geral de Índios ao Presidente da Província, que determinou critérios para formá-las: 
A política do Estado, em relação aos indígenas, se consubstanciava em retirá-los de 
áreas povoadas e de suas imediações, com o objetivo de concentrá-los em locais 
apropriados para que os mesmos não oferecessem riscos ao povoamento. Uma vez 
aldeados, a grande propriedade estaria em segurança, juntamente com a população 
dos povoados (Di Creddo, 2003, p. 114). 
Acreditava-se que seria esta uma nova forma de política, mais eficiente, que consistia em atingir 
os locais onde as tribos se encontravam fixadas. Assim, as bandeiras contornariam as imediações 
destes lugares e pressionariam para que os índios debandassem. Caso não conseguissem tal 
intento, os alojamentos deveriam ser destruídos para que os indígenas, agora ameaçados, fossem 
obrigados a se dirigir para fora da província paulista (Di Creddo, 2003). 
 
Figura 3: “Carta da Provincia de São Paulo, organisada por C. D. Rath, 1877.” Notar círculos 1 e 2 em 
destaque (Biblioteca Mário de Andrade, editado pelos autores, 2020). 
142 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
 
 
Figura 3a: Círculo 1 – “Sertão pouco conhecido e occupado pelos indigenas”. 
 
Figura 3b: Círculo 2 – Destaque Salto do Avanhandava e colônia militar (editado pelos autores, 2020). 
A carta acima foi organizada pelo então desenhista da Inspetoria Geral das Obras Públicas de São 
Paulo, Carlos Daniel Rath (1828-1898); e elaborada com base em levantamentos geográficos e 
geodésicos realizados em 1850 por seu pai, o engenheiro-geógrafo germânico Carl Friedrich 
Joseph Rath. Publicada originalmente em 1877, atualizada e reeditada em 1886, esta última foi 
precursora dos levantamentos realizados pela Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo 
(CGGSP), criada neste mesmo ano. Ao descrever o “oeste” da província como “Sertão pouco 
conhecido e occupado pelos indigneas” (ver Figura 3a), Rath volta à tônica das representações 
desta região desde o período colonial (Beier; Marhtin, 2018). O destaque da Figura 3b demonstra 
a localização do Salto e da Colônia Militar do Avanhandava. 
Assim, ao se estudar esta região é necessário destacar a existência de uma perspectiva neo-
europeia que consagrava termos como “civilização” e “barbárie”, análogos aos anteriormente 
mencionados em relação à “cidade” e “sertão”. Tais expressões reconheciam na ação no homem 
branco o caráter de heroísmo e via na obstinação, na resistência dos aborígenes, o chamado 
“obstáculo ao progresso civilizador” (Di Creddo, 2003, p. 130). Dessa maneira, as populações 
primitivas, com os diferentes grupos étnicos existentes, não mais eram vistos como “reservatório 
de mão de obra”, mas “detentores de um meio de produção vital à economia baseada na 
propriedade da terra” (Di Creddo, 2003, p. 130). O braço indígena já não interessava mais. A 
construção da nova ordem social provocava a destruição dos verdadeiros pioneiros daquelas 
terras. E estas, agora, eram o foco das atenções. Neste ponto da implantação da nova burguesia 
cafeeira, a força de trabalho seria outra, e nesse sentido, “os bugreiros são armados para tomar a 
terra ao índio, e caso fosse necessário, e não pensando duas vezes, em matá-lo, como, aliás, 
ocorreu, tendo em vista os objetivos visados” (Lima, 1978, p. 198). 
TÍTULO DO ARTIGO 
143 
 
 
É nesse momento, portanto, em que a fronteira de povoamento branco expande-se mais 
depressa que antes, e os invasores almejavam a simples e rápida eliminação dos indígenas. Estes 
eram vistos e tachados como “preguiçosos, indolentes e desocupados”, entregues à “embriaguez 
e rapinagem” e “habituados apenas ao emprego da ameaça para satisfazerem suas exigências”. 
Como os índios não se incorporavam às fazendas como assalariados, os proprietários começaram 
a rejeitar os prisioneiros nativos como “desordeiros”, “improdutivos”, “vagabundos” e 
“desocupados” (Dean, 2018). Assim, se por um lado, a introdução econômica nas novas terras 
correspondia à produção de mercadorias, aumento de lucros, entrada de capitais estrangeiros, 
etc; em contrapartida, para o índio, representava a destruição de seu modo de vida, de sua 
estruturação social, de sua cultura (Di Creddo, 2003). Conclui-se então que, num primeiro 
momento, os indígenas perderam suas primitivas terras, declaradas devolutas pela lei de 1850; e, 
em segundo, removidos para os aldeamentos, não tendo a posse garantida e, ao mesmo tempo, 
não desenvolvendo a produção para o mercado atual, que estava em plena expansão – são ali 
acometidos, perdendo progressivamente a extensão de suas áreas originais (Lima, 1978). 
A prática usual que se constituiu foi remover os primitivos ocupantes através da utilização da 
violência. Desse modo, conforme a perspectiva colonizadora, não se podia esperar pacientemente 
que os índios modificassem sua estrutura social e se integrassem ao organismo da nova sociedade 
em formação: era necessário afastá-los, deslocá-los para longe, e não importava os meios. 
Aldeamentos, bandeiras, ordens “pacificadoras”, abertura de picadas, tudo isso acabou por anular 
os traços originais da cultura de populações indígenas (Di Creddo, 2003). Com o passar das 
décadas e a aproximação do final do século XIX, as terras do oeste paulista foram sendo 
incorporadas ao capitalismo em expansão. Lembremos que São Paulo, no final do século XIX e 
início do XX, já se encontrava em meio ao avanço do capitalismo industrial e, a partir da elite 
cafeeira, buscava o chamado “progresso”:com o advento das ferrovias, telégrafos, companhias 
de hipotecas, novas ideias, novos sujeitos sociais, novos artefatos técnicos, novas comunicações e 
transporte, novas companhias comerciais. Para Arruda: 
O processo que levou ao fim do Império e à proclamação da República, desencadeou o 
desejo ou o esforço de “atualizar” o Brasil com o ritmo das nações europeias ou com 
os Estados Unidos. Esta “atualização” corresponde às transformações ocorridas nos 
significados atribuídos ao “sertão”. Uma das questões que passou a ser objeto de 
preocupação dos novos detentores do poder foi o problema da integridade do 
território nacional. Abriu-se novamente o debate sobre a necessidade de ocupar o 
espaço territorial da nação e sobre o que fazer com seus moradores, os povos 
indígenas e os chamados sertanejos (Arruda, 2000, p. 19-20). 
Conforme o autor, no período citado, talvez a principal questão a ser confrontada por aqueles que 
queriam “atualizar” o Brasil, era o declamado desconhecimento dos “sertões”. Uma vez que 
grande área do território nacional, e inclusive parte do Estado de São Paulo, era tida como 
“sertão”; ou seja, retratando assim uma incógnita para o poder governante, e para os habitantes 
das cidades. No Estado de São Paulo, a representação de parte do seu território grafado como 
“terrenos pouco explorados” ou “terrenos ocupados por índios”, foi considerada verdadeira 
“mancha” que obstruía o “progresso do Estado” (Arruda, 2000, p. 20). O autor explicita que tal 
mancha desencadeia o movimento político cujo objetivo maior era “conhecer”, explorar e ocupar 
o espaço representado: 
Os discursos assentavam-se basicamente em ideias-força, como civilização e barbárie, 
progresso e atraso, identificando nos grupos indígenas e moradores daquelas regiões, 
os inimigos do “avanço da moderna civilização”. [...] Os movimentos desencadeados 
144 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
para transformar – no caso, eliminar – a representação de parte do território como 
uma “mancha de desconhecimento”, justificavam a necessidade do reconhecimento, 
isto é, o seu mapeamento como forma de “atualizá-la”, prepará-la para o 
desenvolvimento e reocupação por novas formas de produção. Tratava-se de atualizar 
a informação que existia sobre um determinado espaço considerado como 
“desconhecido”, “pouco explorado” ou como “extremo sertão do Estado” (Arruda, 
2000, p. 21). 
1.2 Os mineiros na região dos Campos do Avanhandava 
Tomamos, portanto, os Campos do Avanhandava como espaço natural, que historicamente foi-se 
constituindo como espaço econômico, a partir de sua inserção na pauta de interesse capitalista 
brasileira após a metade do século XIX. Principalmente, em razão da decadência econômica que 
sofria Minas Gerais, resultado da declinante produção aurífera. Segundo Monbeig (1984), os 
“pioneiros” mineiros começam a migrar para a província de São Paulo. Também é possível afirmar 
que essa migração se inicia poucos anos antes, devido à tentativa revolucionária liberal de 1842, 
que veio a reforçar a partida de tais pessoas para as terras paulistas. O autor também aponta 
como motivo da “fuga” o alistamento para a Guerra do Paraguai (1864-1870); muitos (paulistas e 
mineiros) preferiam correr os riscos da vida no “sertão” a sujeitarem-se às batalhas: 
Fixara-se a maioria desses imigrantes nos municípios onde o café já estava 
solidamente implantado; outros, porém, tinham procurado regiões mais longínquas, 
onde poderiam mais facilmente continuar a viver, conforme seus hábitos de criadores, 
acostumados aos grandes espaços, suficientemente à distância dos poderes 
constituídos. [...] Foi igualmente obra da gente de Minas, a tentativa de penetração 
nos campos do Avanhandava (Monbeig, 1984, p. 133, grifo nosso). 
Além disso, grande quantidade de migrantes mineiros foi em direção às regiões paulistas mais 
próximas à divisa norte, como Franca, Ribeirão Preto, Batatais, Pinhal, São João da Boa Vista. 
Podemos utilizar a passagem abaixo, de Theodoro Sampaio, como exemplo de descrição destes 
migrantes, entretanto, destaca-se aqui que o período e a localização referenciada por Sampaio 
são diferentes: a região que o engenheiro bahiano faz alusão é o Vale do Paranapanema e o ano 
de publicação de seu trabalho junto a Comissão Geográfica e Geológica é em 1890: 
A população, que hoje afflue a estes sertões, é quasi toda oriunda do sul de Minas, 
donde vem em bando considerável, ao menos até 1886; composta toda ella de 
criadores e de agricultores, representando-se por familias interiras, transportando-se 
para estas longinquas paragens com todos os seus haveres, abundancia de gado e de 
capitaes. É, como se vê, uma immigração das melhores e que, além da força que 
representa como numero e importancia de suas posses, é uma população corajosa, 
tenaz, activa e que já vem disposta a luctar, dia por dia, com um inimigo invisivel e 
perigoso como é o indio bravo (Sampaio, 1890, p. 22). 
De acordo com Barros (1992), os primeiros ocupantes brancos nos Campos do Avanhandava 
vieram de Minas Gerais, a partir de 1842, por estradas rústicas (exemplo “picadão Cuiabá-
Piracicaba”), passando por algumas freguesias antes de se fixarem na dita região. As famílias 
Castilho e Goulart, vindos de Piumhy (atual Piumhi-MG) foram as que inicialmente se radicaram 
nos campos com o objetivo de criação de gado bovino. O intuito era ocupar a gleba, garantir a 
posse, criar gado com a possibilidade de “negócio” e cultivar o solo apenas por subsistência. A 
posse na época, ainda não era propriedade. E foi dessa maneira que os mineiros, com certos 
hábitos e tradições econômicas, “despontaram para o sertão paulista, e as posses foram-lhes 
estimulantes atrativo” (Barros, 1992, p. 5-6). 
TÍTULO DO ARTIGO 
145 
 
 
Nesta região se instalaria a Colônia Militar do Avanhandava, em meados do século (1858), 
facilitando assim, a ocupação e a segurança daqueles moradores. Deffontaines em seu conhecido 
artigo “Como se constituiu no Brasil a rêde de cidades”, publicado em 1944, descreve como se 
orientaram as primeiras formas de povoamento – entre reduções jesuíticas, zonas auríferas 
mineiras, povoações estabelecidas nos pousos das antigas estradas, patrimônios religiosos e 
leigos, cidades de navegação fluvial, cidades que nasceram com a chegada das estações e suas 
ferrovias, e as conhecidas como “bocas de sertão”. Além disso, comenta rapidamente sobre as 
aglomerações de origem militar: “Às vezes, também se fundaram postos militares e regiões 
assoladas pelos assaltos para fazer respeito aos bandidos. Assim foram estabelecidas em 1850, 
Itapura sobre o Paraná na fronteira de Mato Grosso, e Avanhandava sobre o Rio Tietê, perto de 
Bauru.” (Deffontaines, 1944, p. 143). 
Entretanto, não é possível afirmar com precisão, se foi antes ou depois da efetivação da colônia, 
talvez concomitantemente, que outros mineiros começaram a se destinar para os Campos do 
Avanhandava, ocupando fazendas denominadas Degredo, Brejo Alegre, Cachimba, Água Limpa, 
Lageado, Moreira Farelo, Patos e Banhado (Barros, 1992, p. 8) – muitas com nomenclatura de 
córregos e ribeirões próximos. 
É dessa forma que os Castilhos, cujos descendentes posteriormente tiveram a possibilidade de 
assistir a “chegada” da Companhia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil aos antigos domínios 
paternos, vieram pouco depois da revolução de 1842, atravessando o rio Tietê no Avanhandava e 
penetrando terras adentro até alcançarem o divisor de águas do Aguapeí. Essa família 
estabeleceu sua moradia em terras altas, porém vertentes ainda para o Tietê e distantes quatro 
léguas do Avanhandava (Barros, 1992). Segundo Morais Filho (1951), essa gente que vinha de 
Minas era ativa e laboriosa, sobretudo pacífica, conseguiam até, estes moradores próximos do 
Avanhandava, relações de boa vizinhança com os índios, podendo assim cultivar a terra, trabalhar, 
e de forma modesta, prosperar.Desde 1822 o sistema de concessão de sesmarias havia sido suspenso, e, a partir de então, o 
desimpedido apossamento de terras representou um quadro em que o recente Estado Imperial 
praticamente “saiu de cena”, com relação ao ordenamento legal da apropriação de terras: 
Apoderar-se de terras devolutas e cultivá-las tornou-se coisa corrente entre os nossos 
colonizadores, e tais proporções essa prática atingiu o que pode, com o correr dos 
anos, vir ser considerada como legítimo modo de aquisição e domínio, paralelamente, 
a princípio, e após, em substituição ao nosso tão desvirtuado regime de sesmarias. [...] 
Depois da abolição das sesmarias – então a posse passou a campear livremente, 
ampliando-se de zona a zona à proporção que a civilização dilatava a sua expansão 
geográfica (Lima, R., 1954 citado por Di Creddo, 2003, p. 19). 
A Lei de Terras (1850) viria justamente para inibir tais ações de apossamento5, tornando a 
compra, o único meio possível de aquisição de terras devolutas. Assim, além de colocar a terra 
como mercadoria, reflete vários problemas interligados, tentando ser o remédio jurídico para 
 
5
 A Lei de Terras, entretanto, estabelecia a legitimação das posses em seu artigo 5º onde: 
“Serão legitimadas as posses mansas e pacificas, adquiridas por occupação primaria, 
ou havidas do primeiro occupante, que se acharem cultivadas, ou com principio de 
cultura, e morada habitual do respectivo posseiro, ou de quem o represente [...].” In: 
BRASIL, Collecção das Leis do Imperio do Brasil de 1850. Tomo XI, Parte I. Rio de 
Janeiro: Typographia Nacional, p. 308. 
146 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
posicionar ordem na instituição da caótica propriedade agrária que existia em meio às arcaicas 
sesmarias e posses por legitimar. Porém, sabe-se que não foi bem isso o que ocorreu: ao 
contrário, a lei aumentou a busca desenfreada por terras devolutas, e amplificou, posteriormente, 
serviços e agentes criminosos que burlavam a legislação vigente. Como exemplo, tinham-se os 
grileiros, que elaboravam processos fraudulentos para adquirir propriedade, expurgadores de 
pequenos posseiros, além das conhecidas “dadas” ou “batidas” – expedições punitivas de 
completo extermínio de povos indígenas. 
É dessa maneira, conforme explicita Morais Filho (1951), que tais sujeitos, se apresentavam em 
juízo com falsos títulos de propriedade, filiados geralmente a velhos registros de posse, estes 
referentes a outros sítios vagamente determinados; ou mesmo com documentos completamente 
forjados, com emprego de selos antigos, tinta enferrujada, velhos pergaminhos, mediante os 
quais requeriam a divisão judicial das terras em grandes glebas. 
Para Ghirardello (2002, p.90): 
O que facilitava todo o procedimento era que a maioria das terras não tinha tido 
nenhuma ocupação pelo homem branco, tratava-se de áreas devolutas, embora tenha 
havido casos de disputa entre grileiros, e mesmo entre estes e descendentes dos 
primeiros ocupantes do século XIX. A imprecisão das divisas dessas ocupações, pelo 
desconhecimento geográfico das glebas estabelecidas em meio à floresta, a ausência 
de demarcações físicas, a nomenclatura incerta e por vezes repetida de córregos e 
ribeirões em muito contribuíam para a indeterminação de propriedade. 
Continua o autor explicando que “a falta de registro de muitas áreas pelos seus antigos 
ocupantes, gente simples e desinformada, além do fato de muitos serem analfabetos, tornando 
desnecessária a falsificação de assinaturas, cuidava do restante.” (Ghirardello, 2002, p.91). A 
terra, portanto, tratava-se do mais importante problema com que se defrontavam índios e 
homens brancos. Seja, contudo, através das mãos dos primitivos ocupantes, novos posseiros, ou 
mesmo grileiros, o fato é que as terras devolutas, pertencentes ao Estado ou ao gentio, tinham se 
convertido em mercadoria; e a posse dependia ainda mais da violência do que as antigas 
sesmarias. De acordo com Tidei Lima (1978, p. 116) “A conquista da maioria das terras do oeste 
paulista não se fará pela via da compra junto ao Estado [...]. A fraude e a violência darão o tom 
dominante do processo”. 
Dessa maneira, segundo Dean, o presidente da província do Rio de Janeiro, já em 1840, 
confessara em assembleia que “é sabido que para estabelecer uma posse e mantê-la [...] é 
indispensável a força. Aquele que carece dela é obrigado a ceder a terra a outro que é mais forte 
ou a vendê-la a alguém que seja capaz de retê-la mediante a mesma força” (Dean, 2018, p. 166). 
As posses anteriores à lei de terras, por maiores que fossem, eram reconhecidas, na condição de 
não serem contestadas, e seguramente registradas em cartório de terras. Dean ainda afirma que: 
A aplicação desta lei [de terras, de 1850] foi quase tão caricata quanto o período 
anterior de ausência de lei. Essas concessões, como as sesmarias, eram registradas 
sem demarcações nos cartórios. Os ocupantes que detinham lotes de subsistência 
eram normalmente pobres demais para pagar a taxa de registro e ficavam em situação 
tão precária quanto antes. A usurpação prosseguiu como até então, sujeita a 
numerosas fraudes para fazer parecer que a ocupação era anterior a 1850 (Dean, 
2018, p. 166). 
Esta lei sobre as terras públicas, adiada por tanto tempo e aprovada em 1850, consagrou o 
princípio legal da época colonial de que todo território nacional pertencia à Coroa, por direito de 
TÍTULO DO ARTIGO 
147 
 
 
conquista, postulado 350 anos antes, “quando a tripulação de Cabral lavrou uma cruz de madeira 
na areia da praia em Porto Seguro, extinguindo todos os direitos indígenas anteriores.” (Dean, 
2018, p. 172). É a partir de então, de 1850 adiante, que se expandem as ocupações e posse de 
terras no ocidente paulista, com o fluxo e a penetração dos migrantes sertanejos (mineiros 
principalmente). Onde, na ausência de estradas de ferro, a comunicação era feita essencialmente 
por meio dos cursos d’água e pelas picadas ou picadões. A ocupação era esparsa, as propriedades 
imensas, com limites geralmente definidos pelos espigões e rios. Apenas um ou outro raro 
posseiro se sujeitava a isolar-se, defrontando a distância e os povos indígenas. 
Esse período, conforme nos explica Schwarcz (1998), significa de fato um marco decisivo na 
história do Segundo Reinado. Estava no poder, desde 1848, um ministério conservador que terá 
de legislar sobre assuntos triviais: o problema da estrutura agrária, o estímulo à imigração e a 
difícil questão do tráfico de escravos. De acordo com a autora, o “comércio infame” era 
pressionado pela Inglaterra que, pela conjuntura diplomática, achava-se afetada no que se referia 
ao tráfico. Dessa maneira, embora ainda compactuando com este negócio, o Estado imperial 
tinha na proibição uma condição fundamental para legitimar sua autonomia política. No entanto, 
a manutenção do contrabando posicionava o Brasil dentro do conjunto de “nações bárbaras”, 
imagem esta contrária à fisionomia civilizada que o império brasileiro sempre procurou 
demonstrar. A definição também não era de fácil assimilação no interior do país, local 
profundamente dependente da mão de obra escravizada: 
Mas foi o final do tráfico que trouxe maiores consequências. Como se tratava de uma 
atividade generalizada, quando foi encerrada, uma massa de recursos apareceu da 
noite para o dia. Investiu-se muito na infra-estrutura do país e acima de tudo nos 
transportes ferroviários. De 1854 a 1858 foram construídas as primeiras estradas de 
ferro, as primeiras linhas telegráficas e as primeiras linhas de navegação; a iluminação 
a gás chegou às cidades, e começou a crescer o número de estabelecimentos de 
instrução. [...]. 
A extinção do tráfico também coincidiu com a alta do café nos mercados estrangeiros. 
Deficitário durante o período de 1840 a 1844, o comércio de café torna-se 
extremamente lucrativo apartir de 1845. As vendas subiram 23% entre 1850 e 1851, e 
o otimismo passou a ser a nova palavra de ordem do império (Schwarcz, 1998, p. 141). 
1.3 Picadão Botucatu-Avanhandava 
Um problema de grande importância que se colocava para os núcleos de povoamento no interior 
da Província de São Paulo era o das comunicações. A falta de estradas isolava as incipientes 
povoações quanto à obtenção de gêneros alimentícios, mas também ao escoamento de sua 
produção. Um plano foi enviado para a Assembleia Provincial que consistia na elaboração de 
caminho que partiria de Botucatu (na época considerada cidade “boca de sertão”), um picadão 
através das matas, e se estenderia até a Serra dos Agudos, à margem esquerda do rio Tietê. Essa 
estrada devia colocar em comunicação os lugares povoados a oeste da Vila de Botucatu com a 
povoação do Salto do Avanhandava. O presidente da província designou Felicíssimo Antônio 
Pereira para a abertura do traçado, o mesmo que tinha sido indicado para comandar a expedição 
que, em 1858, se organizou contra os indígenas (Di Creddo, 2003). 
Assim, este cidadão, representante dos grandes proprietários da região denominada “Matas do 
Bauru” e “Sertão de Botucatu”, apresentava forte convicção de que era necessária a estrada que 
passasse por Campos Novos do Paranapanema e atingisse os Campos do Avanhandava. Pode-se 
afirmar que a construção deste tipo de empreendimento – a estrada – permitiria pressionar os 
148 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
indígenas para que estes fugissem da região; incrementando o escoamento de gêneros entre as 
povoações; e acarretaria também a valorização e expansão das propriedades rurais. Porém, 
como valorizar aquelas imensas áreas, terras de grande fertilidade, com o entrave da 
presença nativa, que amarrava e desestimulava a entrada do “branco” e sua fixação 
pelo temor de ataques indígenas? Tal deveria ser o raciocínio do Governo Provincial, 
que, na época, estava elaborando uma política fundiária para a região (Di Creddo, 
2003, p. 137). 
Anteriormente, Felicíssimo já tinha se dirigido ao presidente da província em nome de 350 
moradores do “bairro do Bauru, costa da Serra do Turvo, distrito da Villa de Botucatu” 
reclamando dos ataques dos “índios bravios” na região (Ghirardello, 1992, p. 45). É assim que, a 
partir da década de 1860, constata-se a ação do Estado no sentido de incentivar a colonização do 
“sertão”, utilizando-se da política de aldeamentos, bandeiras e, neste caso aqui tratado, a 
abertura de estradas. Para Di Creddo (2003), na época acreditava-se, tanto por parte do governo 
provincial, quanto dos grandes proprietários, que eram estas as medidas mais eficazes no sentido 
de expulsar os indígenas, e fazer-se avançar para o oeste a frente de populações “brancas”. 
Em 21 de janeiro de 1859, conforme Ghirardello (1992), a Câmara de Botucatu pede a abertura da 
comunicação com o Avanhandava, sugerindo que por ali poderia passar o escoamento da 
produção e também comunicação mais eficiente com a Província de Mato Grosso. Assim, o 
picadão tinha claramente posição econômica e estratégica, tanto no sentido bélico, a serviço da 
Guerra do Paraguai, como em relação à comunicação, retirando o excessivo isolamento daquela 
região da província (Ghirardello, 1992). Ainda segundo o autor, em 12 de julho do mesmo ano 
Felicíssimo é encarregado de abrir o picadão e inicia os trabalhos nos “Campos novos de Baurú”, 
tendo o mesmo a dimensão “de oito a dez palmos”. Porém pouco tempo depois os trabalhos são 
prejudicados por falta de pagamentos. 
Nos anos seguintes, os pedidos foram reiterados em relação à construção da estrada. Em 1861, 
no capítulo sobre “Cathequese, e civilisação dos Indios”, presente no Discurso do Presidente da 
Província à Assembleia Legislativa, lê-se: 
Appareceu então a idéa de abrir-se uma estrada, que, partindo do Bahurú, se 
aproximasse á Serra dos Agudos, e proseguisse até os campos do Avanhandava, já 
povoados, e cujos moradores na defficiencia de uma via de communicação, que os 
ligue a Botucatú, que lhes fica mais proximo, entretem relações commerciaes com 
Araraquara em maior distancia. E’ de presumir, que essa estrada, pondo os Indigenas 
em contacto com a gente civilisada, concorra para modificar-lhes as tendencias 
feroses, de que tem dado repetidas provas (SÃO PAULO, Discurso [...], 1861, p.31). 
Em 1863 novamente a Câmara Municipal da Vila de Botucatu dirige ofício ao presidente da 
província, Vicente Pires da Mota, solicitando a abertura da estrada que, partindo do sítio de José 
Theodoro de Souza, no rio Turvo, distrito de São Domingos, alcançasse o Salto do Avanhandava. 
Em 1871, o Diretor Geral de Índios enviava ofício endereçado ao presidente da província, 
descrevendo a situação: 
Há na margem esquerda do Tietê e na Serra dos Agudos, índios selvagens que atuam 
nas fazendas do sertão de Botucatu. Seria conveniente a estrada entre Bauru e os 
campos do Avanhandava, na extensão de 17 léguas aproximando-se da Serra dos 
Agudos, pois seria o meio de afugentar os selvagens e de atrair a civilização para 
aproveitar as tão férteis terras que existem. A estrada de Botucatu ao Avanhandava 
seria de grandes resultados políticos e comerciais. A Freguesia dos Lençóis precisa de 
fácil comunicação com o Avanhandava. Os índios de Botucatu e Avanhandava são os 
TÍTULO DO ARTIGO 
149 
 
 
mais selvagens da Província. Não havendo catequese, nem início de civilização hoje 
possíveis, o meio mais eficaz para corrigir as correrias dos índios e dar esperanças às 
populações adjacentes é sem dúvida a abertura de estradas que vão ter ao Tietê, no 
sertão do Avanhandava e outras ao Paranapanema, procurando os convenientes 
pontos das margens desses rios. O Diretor da Colônia Militar de Avanhandava diz que 
nas proximidades há guaranis, xavantes, e que os ataques são constantes e a 
população é muito pobre. Necessário recursos para não se despovoar esta rica parte 
da província (Di Creddo, 2003, p. 141, nota de rodapé). 
Ora, o discurso do Diretor Geral de Índios confirma muito do que foi explanado até então. O 
interesse era dos grandes proprietários, mas, sobretudo, do Governo Provincial: a abertura de 
estradas era recurso para o povoamento e consequente valorização das terras – afugentava os 
grupos indígenas das regiões férteis, pressionando-os para as matas virgens, e zonas cada vez 
mais afastadas “a oeste”; liberando as frentes de expansão onde a população branca poderia 
estabelecer-se. Além disso, ainda podemos ponderar sobre como a colonização militar, 
considerada braço do governo, buscava “auxiliar” nestas questões. Segundo Oliveira: 
A fundação de colônias militares por todo o Brasil a partir de 1850 vincula-se ao 
equacionamento de problemas de controle social e de domínio do território. A ideia 
era arrefecer os conflitos indígenas, melhorar as condições de transporte de 
mercadorias por estradas inseguras, não apenas pela presença de índios “bravos”, mas 
também de quilombos, de “vadios” e “facinorosos”. Procurava-se a viabilização da 
circulação de mercadorias, o comércio, e também o povoamento dos “interiores” pela 
agricultura, atacando o hábito nômade de muitos do que ali viviam. O projeto parecia 
ainda mais oportuno pois facilitava o uso de índios como mão de obra na construção 
de estradas, vedetes do projeto colonizador moderno (Oliveira, 2017, p.200). 
Novamente em 1871, no relatório à Assembleia Legislativa Provincial, há trecho escrito pelo juiz 
de direito de Botucatu recolocando a questão da abertura de entrada entre a Vila de Lençóis e o 
povoamento de Avanhandava: 
Tratando de colligir informações sobre as vantagens da estrada projectada entre a villa 
de Lençoes e a colonia de Avanhandava, como a V. Exc. havia promettido, vim 
ultimamente no conhecimento de que já existe alguma cousa n’esse sentido. Consta-
me de pessoas de conceito que muitos habitantes da freguezia de São Domingos,por 
iniciativa e sob a direção de Antonio Alves Nantes, estão abrindo uma picada entre 
essa freguezia e aquella colonia, que os trabalhos estão muito adiantados e 
promettem bom resultado (SÃO PAULO, Relatório [...], 1871, p. 245). 
Em 1876 retomava-se a questão da necessidade de abertura da estrada para o Avanhandava. 
Conforme descreve Di Creddo (2003, p. 141), propunha-se um sistema de comunicação através do 
trajeto que passaria por três pontos considerados básicos, não só para comunicar regiões 
distantes e férteis, mas também para afastar o indígena. Estes pontos seriam: Bauru-
Avanhandava, aproximando-se da Serra dos Agudos, onde havia concentração de nativos; 
Botucatu-Avanhandava, ligando a Freguesia de Lençóis com Avanhandava; e o último ponto era 
ainda mais ambicioso, próximo ao Paranapanema. 
Assim, para Dornelles (2017), com a ocupação destas regiões por imigrantes mineiros, desde 
aproximadamente a década de 1830/1840, os conflitos entre diferentes grupos indígenas e os 
novos habitantes tornaram-se mais frequentes. As transformações das leis, tanto referentes à 
política de aldeamentos para a “civilização” dos índios, quanto o novo formato de acesso às terras 
(lembremo-nos da Lei de Terras de 1850), provocaram alterações nos padrões de ação destes 
agentes envolvidos. Já naquela época se percebia que os nativos “não cederiam passivamente às 
disposições legais colocadas à revelia de suas próprias pretensões.” (Dornelles, 2017, p. 79). 
150 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
Di Creddo (2003) constatou ainda, ao analisar os anais da Assembleia Legislativa Provincial, que os 
moradores do Salto do Avanhandava, considerados como os habitantes mais interiorizados, 
“sertanejos práticos”, afirmavam que as correrias dos índios eram cada vez mais comuns e 
ousadas – destruindo plantações, cometendo assassinatos, praticando outras atrocidades. 
Segundo tais sertanejos, parecia que, após a promulgação da Lei de Terras, as correrias haviam 
intensificado devido aos indígenas se reconhecerem como proprietários. É assim que a política de 
abertura de estradas ligando os povoados, juntamente com a de aldeamentos e mesmo a 
organização das chamadas bandeiras – passam a ter como objetivo extinguir ou forçar o indígena 
a abandonar as áreas ocupadas. Contraditório, na medida em que o próprio Governo Provincial 
organizava a constituição e ação dessas bandeiras. 
Dessa forma, em meados do século XIX, todas as tentativas de abertura de caminhos que seguiam 
ao Avanhandava indicam que aquele lugar tinha certamente alguma importância para a região. O 
Picadão Botucatu-Avanhandava parece ter sido feito em partes, porém nunca chegou a ser 
totalmente concluído, talvez pelas dificuldades inerentes a abertura de estrada em meio às terras 
“selvagens”, talvez pela falta de recursos humanos e financeiros (capital) para se terminar a 
empreitada, ou talvez “devido a um novo meio de transporte que vinha chegando: o trem” 
(Ghirardello, 1992, p. 46). 
2 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Este artigo introduz a discussão de temas referentes à região dos Campos do Avanhandava, onde 
figurava o majestoso salto e fora implantada uma colônia militar com o mesmo nome, atualmente 
submersa pelas águas do rio Tietê. Parece-nos que o tema – colonização militar – é ainda pouco 
mencionado em trabalhos que tratam sobre a ocupação territorial da antiga província. As duas 
colônias militares (Avanhandava e Itapura) ganham somente rápidas alusões, raros comentários, 
prontamente depreciadas junto à importância dos trilhos de ferro e da riqueza vinda dos 
inúmeros pés de café, já no último quartel do século XIX e começo do XX. Dessa maneira, 
buscamos compreender rapidamente as questões que se relacionam com o local estudado: as 
terras devolutas, a migração mineira, a representação e grafia de termos nos mapas da época, e a 
ocupação territorial feita pelo povoamento branco, destruindo e expulsando os nativos até a 
“pacificação” no início do século XX. 
Por fim, quem observa hoje São Paulo com mais de quarenta milhões de habitantes, tendo o 
maior PIB entre os estados brasileiros, talvez não consiga imaginar que, ainda no final do século 
XIX e começo do XX, grande parte de seu território era denominado como “Sertão Desconhecido”. 
Para compreender tais termos é necessário levar em consideração a expansão econômica e 
demográfica paulista – processo impulsionado durante os oitocentos, especialmente a partir de 
sua segunda metade devido à construção das estradas de ferro. Possibilitando, em primeiro lugar, 
o escoamento da produção e estimulando, posteriormente, o avanço gradual da lavoura cafeeira 
em direção às “terras férteis localizadas a oeste”, em áreas que ainda eram ocupadas 
exclusivamente por populações indígenas. 
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TÍTULO DO ARTIGO 
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Presidente da Provincia de S. Paulo, abrio a Assemblea Legislativa Provincial no anno de 1861. São Paulo: 
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152 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIOSÃO PAULO. Relatorio apresentado á Assemblea Legislativa Provincial de S. Paulo pelo Presidente da 
Provincia o Exmo. Sr. Dr. Antonio da Costa Pinto Silva no dia 5 de Fevereiro de 1871. Typographia 
Americana, São Paulo, 1871. 
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: 
Companhia das Letras, 1998. 
AGRADECIMENTOS 
Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo 
financiamento parcial da pesquisa. 
AUTORES 
Nilson Ghirardello: Doutor em arquitetura e urbanismo pela FAU-USP; professor do Departamento de 
Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo da Universidade Estadual Paulista (UNESP); professor do Programa de 
Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da 
UNESP-Bauru. Currículo completo em http://lattes.cnpq.br/6130234058310220. 
Daniel Candeloro Ferrari: Mestre em arquitetura e urbanismo pela Faculdade de Arquitetura, Artes e 
Comunicação da Universidade Estadual Paulista (FAAC/UNESP), campus Bauru; arquiteto e urbanista pela 
Universidade Estadual de Londrina (UEL). Currículo completo em http://lattes.cnpq.br/8209508315185702. 
 
 
 
Três Lagoas (MS): da origem dos “chãos” ao princípio de 
formação urbana 
Ananda Soares Rosa 
Nilson Ghirardello 
RESUMO: Durante o século XIX, com o fim quase 
exclusivo de apossamento de terras devolutas, 
mineiros e paulistas adentraram o território sul-
mato-grossense motivados pelo interesse na 
criação de gado, atividade que contribuiu 
grandemente para o processo de ocupação da 
região de Três Lagoas (MS). Tal localidade “vingou” 
a partir da passagem da Companhia Estrada de 
Ferro Noroeste do Brasil (CEFNOB) e em virtude 
dos trabalhadores deslocados para sua construção 
ali terem firmado acampamento. A importância 
que teve a ferrovia para o estabelecimento e 
desenvolvimento do núcleo urbano três lagoense 
foi evidente ao promover o chão de passagem e 
proporcionar a diversidade de pessoas ao espaço. 
Não foram somente os melhoramentos que vieram 
com a chegada da ferrovia os únicos responsáveis 
pelo aumento de relevo deste núcleo: ademais, 
houve a doação de terras para a constituição de 
um patrimônio religioso. Assim, o trabalho busca 
compreender em que bases foram assentadas as 
primeiras ocupações de caráter eminentemente 
urbano de Três Lagoas. A investigação deste texto 
se pautou na revisão de literatura pertinente e 
alicerçou-se no confrontamento dessa bibliografia 
com documentos primários cuja finalidade era 
preencher lacunas sobre a gênese urbana três 
lagoense. 
Três Lagoas (MS): from the origin of the “ground” 
to the urban formation beginning 
ABSTRACT: During the nineteenth century, with 
the almost exclusive purpose of seizing vacant 
lands, mineiros and paulistas entered Mato Grosso 
territory motivated by interest in cattle breeding, 
an activity that largely contributed to Três Lagoas 
(MS) region occupation. Such location had firmed 
after Companhia Estrada de Ferro Noroeste do 
Brasil (CEFNOB) landed and due to the fact that 
the workers displaced to its construction there had 
established a camp. The railroad importance to the 
establishment and development of Três Lagoas 
urban center was evident in promoting the 
crossing ground and providing people diversity to 
the space. It was not only the improvements that 
came with the arrival of the railroad that were 
solely responsible for the increase in this nucleus 
relief: in addition, land was donated for a 
constitution of a religious heritage. Thus, the work 
seeks to understand on which basis the first 
eminently urban occupations of Três Lagoas were 
based. This text investigation was based on the 
review of pertinent literature and was based on 
the confrontation of this literature with primary 
documents whose purpose was to fill in the gaps in 
Três Lagoas urban genesis. 
Palavras-chave: Três Lagoas (MS), formação 
urbana, origem dos chãos 
Keywords: Três Lagoas (MS), origin of the ground, 
urban formation 
 
154 
SÉRIE: PESQUISA EM ARQUITETURA E URBANISMO 
DO CONTEXTO URBANO AO EDIFÍCIO 
 
 
1 INTRODUÇÃO1 
Assim como na Província de São Paulo, principalmente após os meados do século XIX, estendeu-
se uma ocupação rural incipiente no Mato Grosso, em particular na região da então Vila de 
Santana do Paranaíba2 e, posteriormente, no espaço identificado pela existência de três lagoas. 
Com o fim quase exclusivo de apossamento de terras devolutas, mineiros e paulistas adentraram 
o território do sul mato-grossense motivados pelo interesse na criação de gado, atividade que 
atraiu inúmeros posseiros que contribuíram grandemente para o processo de ocupação dessa 
porção do Estado e para o desenvolvimento do povoado de Três Lagoas. 
Tal localidade “vingou” a partir do estratégico assentamento dos trilhos da Companhia Estrada de 
Ferro Noroeste do Brasil (CEFNOB) pela zona anunciadora por onde os migrantes luso-brasileiros 
haviam de antemão se instalado. No momento que a proposta pela passagem do rio Paraná pelo 
rebojo do Jupiá foi firmada, a posição da futura localidade começava a se delinear, visto que a 
CEFNOB, genitora de toda transformação rumo ao Oeste, surgiu simbólica e identitariamente para 
consolidar os quase quatrocentos anos de necessidade do Brasil de integrar as fronteiras 
ocidentais ao resto do país (Rosa; Ghirardello, 2018). De acordo com Ghirardello (2002, p. 19), 
“No Brasil, poucas serão as ferrovias de cunho estratégico com fins de povoamento ou para 
garantia de ocupação territorial”, como foi o caso da CEFNOB. 
Nesse aspecto, a Companhia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil foi a precursora: tendo sido 
criada em 1904 com fundo estratégico de penetração, deveria avançar por “terras desconhecidas 
habitadas por índios” (Matos, 1990, p. 50) para unir Estados do país e garantir fronteiras remotas 
ameaçadas de perda para os países vizinhos durante a Guerra do Paraguai (1864-1870). A partir 
dessa estrada surgiram vilas e povoados em função da mobilidade humana e também da 
hegemonização de uma parte da terra onde antes muito pouco era conhecido3. 
Correa Filho (1969, p. 600-602) escreve que precedentemente à chegada da CEFNOB ao território 
de Mato Grosso, os “sertões desmedidos” contavam “raros moradores”; os “campos 
despovoados” não aparentavam “nenhum indício de prosperidade”. Assim, “como tocado por 
varinha de fada, o sertão começou a vibrar e florescer, articulado com os núcleos civilizados, cujos 
anseios de progresso acompanhou”. A “corrente povoadora” fomentada pela ferrovia constituiu o 
“agente poderoso da transformação da vida regional, a que imprimiu novas feições”. 
Queiroz (2004, p. 328) em Uma ferrovia entre dois mundos trata do mesmo assunto: “quando os 
trilhos da ferrovia atingiram a barranca do rio Paraná (...), Mato Grosso do Sul estava 
praticamente desabitado”. E adversa: “com o avanço da ferrovia, repetiu-se, ainda que mais 
lentamente, o mesmo milagre verificado entre Bauru e o rio Paraná”, referindo-se ao incremento 
 
1
 Este trabalho é parte da dissertação de mestrado intitulada “A formação urbana de Três Lagoas (MS): o ideário de uma 
“cidade portal” e os conflitos da terra”, apresentada em março de 2020 pela autora deste trabalho, Ananda Soares 
Rosa, à Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, 
campus de Bauru, sob a orientação do Prof. Dr. Nilson Ghirardello. 
2
 A hoje denominada cidade de Paranaíba (MS) já teve outras denominações. Durante as pesquisas deparou-se com os 
termos: “Sant’Anna do Paranahyba”, “Sant’ana do Paranaíba”, “Santana do Paranaíba”, ou apenas “Paranaíba”, todas 
se referindo à mesma localidade. 
3
 Lembrar que a famosa Madeira Mamoré Railway foi outra ferrovia estratégica construída nesse mesmo período, em 
1903, a partir de uma cláusula do Tratado de Petrópolis.