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Medicina Felina - Apostila

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convencional, avaliando a 
saúde geral por meio dada inspeção, aus-
cultação, palpação e olfação. Contudo, a 
palpação do pulso e a inspeção da língua 
são fundamentais para o diagnóstico 
pela MVTC, pois indicam a disponibi-
lidade das substâncias vitais para o ade-
quado funcionamento do organismo: 
energia, sangue e líquidos corporais, Qi, 
Xue e Jin Ye, respectivamente10. 
A inspeção da língua avalia bri-
lho, cobertura de saliva e coloração. 
Recomenda-se que a exposição do ór-
gão seja atraumática, evitando exacer-
bação de estresse e consequente alte-
ração de sua coloração11. Contudo, no 
ambiente ambulatorial, em geral, felinos 
manifestam comportamento defensivo 
mantendo a mandíbula cerrada; o vete-
111. Acupuntura na Medicina Felina
rinário acupunturista deve valer-se de 
estratégias para contornar tal desafio, 
visando, sobretudo, preservaro bem es-
tar dos pacientes9,12. Dentre as possíveis 
estratégias para proceder a inspeção da 
língua, considere: solicitar que o res-
ponsável pelo paciente proceda a aber-
tura da boca, ou ainda, oferecer peque-
nas porções de líquidos palatáveis que 
estimulem a lambedura e, consequente, 
exposição do órgão.
Sob o mesmo intuito de uma abor-
dagem pouco invasiva, a palpação do 
pulso femoral deve ser procedida sob 
técnica acurada para pronta percepção 
de aspectos de velocidade, ritmo, volu-
me e pressão do fluxo sanguíneo, evi-
tando provocar situação de ansiedade e 
estresse do paciente7,10,13.
A criteriosa avaliação dos dados co-
letados no exame físico e 
na anamnese embasam 
a diferenciação da sín-
drome chinesa (SChin), 
que identifica a raiz dos 
desequilíbrios homeos-
táticos responsáveis por 
desencadeara condição 
de doença, bem como 
os órgãos, canais e co-
laterais (meridianos) 
e substâncias funda-
mentais afetados14. A 
subjetividade e essência holística que 
permeiam todo processo médico da 
MVTC são intrínsecas na caracteriza-
ção de tais SChin. Os achados clínicos 
são categorizados nos tradicionais Cinco 
Movimentos da Natureza ou os Oito 
Princípios de Diagnóstico. Segundo esse 
último, os sinais devem ser interpreta-
dos e classificados quanto à intensidade, 
doença interna ou externa, natureza de 
frio ou calor e, por fim, quanto ao per-
fil geral Yin ou Yang. A identificação das 
SChin que compõem cada caso é etapa 
fundamental para a elaboração da estra-
tégia terapêutica adequada a condição 
clínica de cada paciente15. 
2.2. Abordagemdo felino pela 
AP
A acupuntura (AP) é uma terapia da 
MVTC com boa aceitação pela veteri-
nária ocidental por ser essencialmente 
não farmacológica, o que viabiliza sua 
associação à protocolos alopáticos. Os 
fundamentos da AP remetem a aspec-
tos da cultura tradicio-
nal chinesa, sobretudo a 
doutrinas confucionistas 
e taoístas, cujas influên-
cias promoveram a for-
mação de uma lingua-
gem médica própria que 
permeia todo processo 
clínico. Tal terminolo-
gia é caracterizada por 
elementos simbólicos 
relacionados a integra-
ção dos pacientes com 
os meios nos quais vivem, abrangendo 
diversos aspectos que são capazes de 
influenciar os indivíduos: estações do 
A acupuntura é 
uma terapia da 
medicina veterinária 
tradicional chineasa 
com boa aceitação 
pela veterinária 
ocidental por não 
ser farmacológica, o 
que possibilita sua 
associação à protocolos 
alopáticos
12 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 82 - dezembro de 2016
ano, os ciclos orgânicos, metabolismo, o 
clima e os alimentos4,16. 
A AP oferece diferentes possibili-
dades de recursos terapêuticos e téc-
nicas de estimulação de pontos. No 
tratamento de felinos, essa diversidade 
possibilita abordagem eficiente para 
correção dos desequilíbrios fisiopatoló-
gicos, mas preservaos limites individu-
ais quanto à sensibilidade e aceitação de 
manipulação16,17.
De modo geral, todos os pacientes 
são capazes de suportar os estímulos 
sobre os pontos de acu-
puntura, contudo rela-
tos informais sugerem 
que felinos são mais 
sensíveis à palpação e 
manipulação da super-
fície corporal. Pelo sim-
bolismo da MVTC, a 
sensibilidade observada 
na espécie estaria rela-
cionada à superficialidade na qual o Qi, 
energia vital,circula através dos canais e 
colaterais. Especificamente com relação 
as regiões onde se localizam os pontos 
de acupuntura, a sensibilidade tátil local 
é grande devido à suas características 
histológicas e neurofisiológicas: proxi-
midade a terminações nervosas noci-
ceptoras, abundante afluxo capilar, além 
de periósteo e tendões8,18.
Para a abordagem durante as sessões 
de AP, a escolha de técnica de estímulo 
ou das associações entre as técnicas deve 
considerar a aceitação do felino, varian-
do das menos invasivas até a acupuntura 
propriamente dita, além dos estímulos 
com fármacos e impulsos elétricos. A 
inserção de agulhas de acupuntura so-
bre os acupontos tem grande potencial 
para mobilizar a energia Qi ao longo dos 
canais e modular ações neuroendócri-
nas e imunológicas no tecido adjacente 
aos acupontos8. Acupressão é estímulo 
gerado pela força dos dedos sobre acu-
pontos ou em padrão de massagem ge-
neralizada. A manipulação suave pode 
favorecer o relaxamento e aceitação do 
paciente, de modo que 
essa técnica pode ser em-
pregada isoladamente ou 
associada como etapa 
inicial da sessão de acu-
puntura. Amoxabustão 
indiretacorresponde a 
um método de terapia 
térmica por meio do 
aquecimento dos pon-
tos com uso da erva medicinal chinesa 
Artemisia vulgaris. A resposta dos felinos 
a tal estímulo é variável e o veterinário 
responsável deve manter-se atento a 
possíveis intolerâncias cutâneas do ca-
lor e da ação irritante dos gases gerados 
pela combustão da erva sobre olhos e 
mucosas. A aplicação de radiação ultra-
violeta ou infravermelho, bem como a 
laserpuntura, ativam mecanismos celu-
lares e teciduais, mais intensos nas re-
giões de acupontos17,18.
Portanto,a prescrição de pontos e 
métodos de estímulo devem considerar 
A inserção de agulhas 
de acupuntura sobre 
os acupontos mobiliza 
a energia Qi ao longo 
dos canais e modula 
ações neuroendócrinas e 
imunológicas nos tecidos 
adjacentes
131. Acupuntura na Medicina Felina
tais particularidades dos pacientes feli-
nos de modo que o processo de trata-
mento com AP seja realizado com omí-
nimo estresse, máximo de colaboração 
do paciente, aumentan-
do as chances de manu-
tenção e assiduidade ao 
tratamento durante todo 
o período que se faça 
necessário19.
Inv a r i av e l m e n te , 
a cada sessão de AP, 
múltiplas agulhas podem 
ser aplicadas pela super-
fície corporal do pacien-
te. Considerando que 
de modo geral os proto-
colos elegem sessões se-
manais, é extremamente 
importante que sejam adotadas medi-
das de manejo do felino e de controle do 
ambiente ambulatorial onde as sessões 
serão realizadas. A promoçãodobem es-
taré diretamente relacionada à sensação 
de segurança e confiança do paciente e 
de seu responsável na equipe envolvida 
na terapia com AP12.
2.3. Cuidados durante a AP 
felina
O estímulo de pontos nos membros 
e em outras regiões nas quais sabida-
mente felinos demonstram maior sensi-
bilidade tátil, devem ser evitadas sobre-
tudo em sessões iniciais, quando não se 
conhece o padrão de reação imediata do 
paciente. De acordo com experienciais 
clínicas de profissionais experientes na 
área, o agulhamento na AP de felinos 
deve ser iniciado por pontos dorsais, 
que proporcionam relaxamento mais 
eficaz, havendo inclusi-
ve indicações de iniciar 
pelo ponto VG14, Da 
zhui- localizado entre os 
processos espinhos da 
7a vértebra cervical e a 
1a torácica - e após cons-
tatar a maior aceitação, 
deve-se estimular outros 
pontos cuja sensibilida-
de nociceptiva pode ser 
mais intensa7,20.