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Os sinais e sintomas respiratórios sempre refletem a presença de doença pulmonar? 1.1 TOSSE 1.1.1 Introdução A tosse representa o principal mecanismo de defesa das vias aéreas inferiores. Trata-se de um dos motivos mais comuns de consulta ao pneumologista e é o sintoma respiratório mais encontrado na prática pneumológica, atingindo cerca de 30 milhões de atendimentos ambulatoriais por ano na população norte americana. 1.1.1.1 Fisiopatologia A tosse é um mecanismo de defesa do organismo e tem função de eliminar materiais inalados em grande quantidade, retirar o excesso de muco seja por aumento da produção deste ou por deficiência de depuração mucociliar. O reflexo da tosse apresenta fase inspiratória – inalação do gás ou alérgeno –, fase compressiva com fechamento da glote logo após esta inalação e fase expiratória forçada contra a glote fechada, gerando som característico. O fechamento da glote promove contração isométrica dos músculos expiratórios, levando a aumento da pressão intratorácica e intra- abdominal. Quando a glote se abre na fase expiratória, mobiliza-se altos fluxos respiratórios. O reflexo da tosse envolve receptores de tosse, nervos aferentes, centro da tosse, nervos eferentes e músculos efetores. Os receptores de tosse são presentes em toda a via aérea, exceto nos alvéolos e no parênquima pulmonar. Este fato explica um dado clínico que muitas vezes nos parece estranho – a pneumonia sem tosse. 1.1.2 Classificação Ainda que possamos diferenciar a tosse produtiva ou seca, diária ou episódica, a principal característica clínica para correlação com hipótese diagnóstica é o seu tempo de duração:. 1. Aguda: até 3 semanas; 2. Subaguda: tosse persistente por um período entre 3 e 8 semanas; 3. Crônica: superior a 8 semanas. 1.1.2.1 Tosse aguda As principais causas de tosse aguda são as Infecções das Vias Aéreas Superiores (IVAS) e inferiores (traqueobronquites agudas), sendo os vírus respiratórios os agentes etiológicos mais frequentes. Outras causas comuns são sinusites bacterianas agudas, exposição a alérgenos e irritantes e exacerbações de doenças crônicas, como asma, Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC)e doenças intersticiais pulmonares (DPI). Nas IVAS, o diagnóstico é altamente sugestivo em pacientes com tosse, rinorreia – mucosa ou hialina –, espirros, obstrução nasal e drenagem pós-nasal de secreções, na presença ou não de odinofagia e febre; caracteristicamente, a ausculta pulmonar deverá ser normal. A principal etiologia é a viral, e o quadro resolve-se espontaneamente na maioria dos casos. As traqueobronquites agudas, em mais de 50% dos casos, são de etiologia viral, sem necessidade de tratamento específico para a tosse. Febre persistente por mais de 3 dias e purulência de escarro sugerem etiologia bacteriana, devendo o uso de antibióticos ser considerado. As exacerbações agudas de doenças pulmonares crônicas serão discutidas em outros capítulos. 1.1.2.2 Tosse subaguda As orientações para o manejo da tosse subaguda são controversas, até porque a classificação é recente. Antigamente, a tosse com mais de 3 semanas de evolução era categorizada como crônica. Na verdade, as etiologias são similares e a abordagem muito semelhante, com uma exceção relevante, que representa a principal causa de tosse subaguda: a tosse pós-infecciosa. O diagnóstico da tosse pós-infecciosa é de exclusão e baseia-se em 3 critérios: tosse com duração > 3 e < 8 semanas, avaliação clínica detalhada sem identificação de uma causa e história de infecção das vias aéreas nas últimas 3 semanas. Não há tratamento específico, mas devemos identificar se os sintomas decorrem de obstrução/gotejamento pós-nasal persistente, e os principais medicamentos auxiliares são os anti-histamínicos e fármacos inalatórios, sobretudo o brometo de ipratrópio; o uso de corticoide sistêmico deve ser desencorajado, visto que habitualmente não abrevia os sintomas. A abordagem da tosse subaguda exige história clínica cuidadosa que permite o diagnóstico, na maioria das vezes, sem a necessidade de investigação adicional ou de tentativas terapêuticas. 1.1.2.3 Tosse crônica A abordagem do paciente com tosse crônica não é simples. Entretanto, com uma anamnese detalhada, podemos direcionar corretamente a abordagem diagnóstica e terapêutica. Ainda que as possibilidades etiológicas sejam inúmeras, segundo o último consenso para o manejo da tosse do American College of Chest Phisicians de 2006, quando descartamos o tabagismo e o uso de Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECAs) como causas de tosse crônica em paciente com radiografia de tórax normal, cerca de 99% dos casos serão provocados por uma das 3 causas mais frequentes: gotejamento pós-nasal, asma/hiper- reatividade brônquica e refluxo gastroesofágico. Estas causas nem sempre ocorrem isoladamente; é comum a associação entre 2 ou mesmo 3 delas. São causas de tosse crônica: a) Gotejamento pós-nasal – rinossinusite crônica; b) Asma/hiper-reatividade brônquica; c) Refluxo gastroesofágico; d) Tosse pós-infecciosa; e) DPOC; f) Bronquiectasias; g) Uso de IECAs; h) Tuberculose; i) Neoplasias pulmonares; j) Doenças pulmonares fibrosantes; k) Insuficiência cardíaca; l) Doenças pleurais ou pericárdicas; m) Discinesia de pregas vocais; n) Síndromes aspirativas pulmonares; o) Pelos no ouvido, irritando a parede posterior; p) Psicogênica. A história de tosse na vigência de terapia com IECA ocorre em até 15% dos usuários dessa medicação, sendo mais comum em mulheres não tabagistas. A tosse não é dose dependente e pode ocorrer horas após a primeira dose ou apenas após meses de uso, não existindo, com isso, relação temporal. Resolve-se geralmente após 1 a 4 semanas após a retirada do fármaco. Isso se dá em razão da inibição da degradação da bradicinina, com acúmulo no epitélio brônquico que promove irritação local e tosse. A seguir, são apresentados diagnósticos, sinais e sintomas de tosse crônica: 1. Tosse reativa de vias aéreas superiores – síndrome do gotejamento pós-nasal: a) Obstrução ou congestão nasal; b) Espirros e pigarro frequentes; c) Rinorreia; d) Secreção em retrofaringe. 2. Asma: a) Dispneia; b) Opressão torácica; c) Sibilância ou chiado; d) Outras manifestações de atopia; >e) Sintomas episódicos. 3. Doença do refluxo gastroesofágico: a) Mecanismo: estimulação de receptores esofágicos, alterações da motilidade esofágica e micro/macroaspirações; b) Tríade clássica de sintomas (pirose, regurgitação e disfagia de condução); c) Pigarro; d) Disfonia/Rouquidão; e) Tosse – excluir outras causas relevantes. Na avaliação clínica do indivíduo com tosse aguda devemos valorizar história clínica e, quando pertinente, tratar empiricamente. Na maioria das etiologias os exames são normais. Em contexto de tosse crônica devemos avaliar uso de IECA. Se presente, retirar medicação. Todo tabagista deve ser orientado a parar de fumar. Porém, independentemente disto, todos os indivíduos devem realizar radiografia de tórax e espirometria com prova broncodilatadora. Caso espirometria e radiografia de tórax normais, devemos suspeitar de asma, DRGE e síndrome do gotejamento pós-nasal. Em todas estas três podemos realizar teste terapêutico caso pertinente. Radiografia de tórax alterada e/ou espirometria alterada devemos prosseguir investigação. Sempre na presença de radiografia de tórax alterada sem diagnóstico evidente devemos realizar tomografia computadorizada de tórax para melhor investigação. Lembrar sempre: preconiza-se busca ativa-passiva para tuberculose pulmonar para todo indivíduo sintomático respiratório, ou seja, com tosse por 2 semanas ou mais. Principais causas de tosse: 1. Aguda (até 3 semanas): infecção, alergia; 2. Subaguda (entre 3 e 8 semanas): tosse pós-infecciosa; 3. Crônica (além de 8 semanas): IECA, hiper-reatividade brônquica, tosse reativa das vias aéreas superiores, doença do refluxo gastroesofágico. Apesar das diversas causas de tosse, o diagnóstico em sua maioria é clínico, com base na duração da tosse e na avaliação minuciosa dahistória – fatores desencadeantes, de melhora ou piora, medicamentos em uso etc. 1.1.3 Tratamento O tratamento deve ser direcionado à sua etiologia. Como a tosse é um dos principais mecanismos de defesa das vias aéreas, sua supressão com fármacos antitussígenos é habitualmente pouco eficaz, devendo ser indicada apenas a situações em que o controle é extremamente necessário, como em crises de tosse que promovam desconforto respiratório importante, alguns casos de pós-operatório e de hemoptise. Tratamentos específicos para as principais etiologias de tosse crônica: 1. Tosse reativa de vias aéreas superiores: a) Educação ambiental – evitar alérgenos ou irritantes; b) Anti-histamínicos e corticoide nasal; c) Antibióticos em caso de sinusite crônica. 2. Hiper-reatividade brônquica: a) Educação ambiental – evitar alérgenos ou irritantes; b) Corticoide inalatório e broncodilatadores. 3. Refluxo gastroesofágico: a) Medidas comportamentais: perda ponderal, evitar alimentos que geram sintomas, evitar álcool e café, cessação de tabagismo, elevação de cabeceira; b) Inibidor da bomba de prótons, em caso de plenitude pós- prandial, associar procinéticos. 1.2 DISPNEIA A dispneia tem sido conceituada de inúmeras formas, mas provavelmente a definição mais completa é a de que dispneia é a percepção da respiração. De fato, a respiração deve ser um fenômeno automático, não notado, e sua simples percepção denota um fenômeno anormal. Sempre se deve diferenciar dispneia subjetiva – queixa do paciente – de dispneia objetiva – percebem-se os sinais. Vários mecanismos podem explicar o surgimento da dispneia. De forma geral, sua presença pode sinalizar alteração funcional respiratória. O estímulo para a ventilação é regulado por nervos periféricos – na face e nas vias aéreas –, mecanorreceptores – na parede torácica e no diafragma – e barorreceptores – para CO2 e O2 –; uma excitação excessiva desses sensores é o gatilho para a dispneia. A seguir, estão enumeradas situações que exemplificam os mecanismos de dispneia: 1. Interferência em barorreceptores: alterações nas trocas gasosas por doenças estimulam o centro respiratório excessivamente para aumentar a ventilação, promovendo a sensação de dispneia; 2. Mecanorreceptores: receptores na parede torácica, principalmente na musculatura respiratória acessória, podem estimular o centro respiratório por compressão na parede torácica ou pelo uso excessivo da musculatura intercostal, como ocorre nos transtornos de ansiedade. A musculatura acessória é bem mais fatigável do que o diafragma e, quando utilizada em excesso, gera sensação de falta de ar; 3. Nervos periféricos: a região anterior da face e a parede das vias aéreas apresentam sensores de fluxo de ar. Quando se detecta redução do fluxo habitual, o centro respiratório é estimulado para aumentar a ventilação, como em um mecanismo de defesa. Se esses nervos estão muito sensíveis ou há redução demasiada do fluxo de ar, o centro respiratório é estimulado e a dispneia pode ocorrer. Esse mecanismo pode ser entendido no dia a dia quando observamos a conduta habitual de um leigo ao deparar com um indivíduo com mal- estar repentino – geralmente, a postura é de abanar a face, o que promove uma sensação de bem-estar. Esse é o fenômeno do “ar fresco”, que exemplifica a importância dos nervos periféricos na gênese da dispneia. Um indivíduo com doenças das vias aéreas (mesmo um resfriado) apresenta desnudamento da mucosa e exposição de terminações nervosas, tendo a sua sensibilidade aumentada, podendo ocorrer a sensação de que o fluxo está inadequado, justificando a dispneia. A classificação britânica do Medical Research Council modificada (mMRC), atualmente, é mais utilizada para a avaliação da severidade da dispneia. Vale ressaltar que tais classificações serão importantes sobretudo no manejo de pacientes com diagnóstico de pneumopatias crônicas, diferentemente dos pacientes com outras patologias ou sintomas agudos. Quadro 1.1 - Classificação do Medical Research Council modificada da dispneia Fonte: elaborado pelo autor. #IMPORTANTE Lembrar que dispneia não ocorre unicamente por alteração pulmonar, podendo estar relacionada com distúrbios psiquiátricos, como crise de ansiedade ou pânico. 1.2.1 Tipos O tipo mais comum de dispneia é o que acompanha o esforço físico. O centro respiratório aumenta a frequência respiratória e/ou a profundidade da respiração (volume corrente) quando os níveis de oxigênio no sangue estão baixos ou os níveis de dióxido de carbono estão elevados. Por outro lado, se as funções cardíaca e pulmonar estiverem anormais, mesmo um pequeno esforço poderá acarretar aumento acentuado da frequência respiratória e causar a dispneia. Nas formas mais graves, pode acontecer mesmo em repouso. A dispneia de causa pulmonar pode ser consequência de distúrbios ventilatórios restritivos ou obstrutivos. Na dispneia decorrente de distúrbio ventilatório restritivo, o trabalho respiratório aumenta em virtude do comprometimento da expansão torácica devido à perda de distensibilidade dos pulmões, à deformidade da parede torácica ou ao espessamento pleural. O volume de ar que chega aos pulmões é inferior ao normal, como mostram as provas de função pulmonar. Na dispneia associada a distúrbio ventilatório obstrutivo, o paciente não é capaz de eliminar totalmente o ar previamente inalado, e a retenção intratorácica de ar – hiperinsuflação pulmonar – desloca o diafragma para baixo, diminuindo sua eficiência ventilatória, o que é interpretado como dispneia, como na DPOC. Algumas características da falta de ar referida pelo paciente podem ser úteis na determinação da etiologia, conforme sumariza o Quadro 1.2. Quadro 1.2 - Tipos específicos de dispneia Existem situações em que há mudança do padrão respiratório, como na respiração de Cheyne-Stokes, caracterizada por alternância entre períodos de respiração acelerada (hiperpneia) e períodos de respiração lenta (hipopneia) ou de ausência de respiração (apneia). As suas possíveis causas são a insuficiência cardíaca e a redução da eficácia do centro respiratório, bem como o uso de sedação. A acidemia, ou mesmo o coma diabético, pode produzir um padrão respiratório caracterizado por respirações lentas e profundas, denominado respiração de Kussmaul, mas o indivíduo não apresenta falta de ar. Por outro lado, aquele com insuficiência renal grave pode apresentar dispneia com respiração ofegante e rápida devido à combinação de acidose, insuficiência cardíaca e anemia. Lesão cerebral súbita, decorrente de hemorragia cerebral, de traumatismo ou de qualquer outro distúrbio, pode também alterar o padrão respiratório, acarretando respiração rápida e intensa (hiperventilação). Muitos indivíduos apresentam episódios de dispneia caracterizados por respirações rápidas e profundas. Esses episódios, denominados como síndromes de hiperventilação, são comumente causados por ansiedade, e não por um problema físico. Muitos que apresentam a síndrome se assustam, julgando sofrer um infarto do miocárdio. Os sintomas devem-se a alterações das concentrações dos gases sanguíneos, principalmente em função da diminuição do nível de dióxido de carbono, provocadas pela respiração acelerada, com possível alteração da consciência, comumente descrita como sensação de que tudo ao redor está muito distante. Também há sensação de formigamento nas mãos, nos pés e em torno da boca. 1.2.2 Abordagem diagnóstica O primeiro passo na investigação diagnóstica de pacientes com dispneia é a determinação do órgão primariamente envolvido; é uma tarefa que pode ser difícil se consideramos que, em até 1 terço dos pacientes, a causa da dispneia é multifatorial. No entanto, em cerca de 80%, a história e o exame físico são suficientes para realizar o diagnóstico. Em alguns pacientes, exames complementares e triagem podem contribuir. Principais etiologias envolvidas no quadro de dispneia: 1. Asma: o diagnóstico, realizado principalmente por meio de dados clínicos, pode ser confirmado por testes de função pulmonar,principalmente espirometria demonstrando distúrbio ventilatório obstrutivo geralmente com prova broncodilatadora positiva. Teste de broncoprovocação com metacolina pode auxiliar nos casos com espirometria normal; 2. Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC): o diagnóstico baseia- se na demonstração de obstrução ao fluxo aéreo e pode ser realizado de maneira confiável, com base em dados clínicos de exposição inalatória a inalantes que configurem fator de risco, como tabagismo e outras fumaças decorrentes de queima de biomassa, associado à espirometria, com distúrbio ventilatório obstrutivo geralmente sem resposta após o uso de broncodilatador; 3. Doenças intersticiais pulmonares: habitualmente se caracteriza por dispneia aos esforços incapacitantes, taquipneia em repouso, e espirometria com distúrbio ventilatório restritivo caracterizado por redução proporcional de todos os volumes pulmonares aferidos, além de caracteristicamente cursar com acentuada redução da capacidade difusiva do monóxido de carbono nos testes de função pulmonar completa. A tomografia computadorizada de tórax é o principal exame para diagnóstico e investigação etiológica inicial; 4. Doenças vasculares pulmonares: hipertensão arterial pulmonar e doença tromboembólica pulmonar crônica são causas de dispneia crônica. Ecocardiograma, ressonância magnética cardíaca, cintilografia de ventilação/perfusão e angiotomografia de artérias pulmonares podem ajudar no diagnóstico. Nos pacientes com doença vascular primária, a história familiar e o uso de fármacos anorexígenos podem ser pistas para o diagnóstico; 5. Insuficiência Cardíaca Congestiva (ICC): a presença de ortopneia e dispneia paroxística noturna aponta a possibilidade diagnóstica de ICC. O exame clínico pode indicar congestão pulmonar, ritmo de galope, sopro cardíaco ou sinais de hipervolemia. Eletrocardiograma, radiografia de tórax e ecocardiograma, frequentemente, ajudam na conclusão diagnóstica. Em pacientes com dispneia aguda no pronto-socorro, marcadores hormonais têm sido úteis para a sua avaliação. A concentração de peptídio natriurético atrial e de peptídio natriurético cerebral (BNP) aumenta nas formas mais avançadas ou crônicas de ICC, e o uso, em particular do BNP, foi estudado para diferenciar quadros cardíacos de pulmonares, em unidades de emergência. Valores de BNP > 100 pg/mL apresentam sensibilidade, especificidade e valor preditivo positivo de, respectivamente, 90, 76 e 83%. O BNP revelou-se a melhor variável isolada para o diagnóstico de ICC em dados de história, exame físico e exames complementares. Quanto maiores os valores de BNP, maior a probabilidade do diagnóstico final de ICC; quando maiores do que 400 pg/mL, têm grande valor preditivo positivo; se menores do que 100 pg/mL, têm bom valor preditivo negativo. Um estudo europeu demonstrou que valores menores do que 80 pg/mL têm valor preditivo negativo de 98%. 1.3 DOR TORÁCICA A dor torácica habitualmente é um tópico mais importante de discussão na área de Cardiologia. Isto se deve ao fato de que, apesar de não ser a etiologia mais frequente de dor torácica, as síndromes coronarianas agudas ainda representam uma das principais causas de morbimortalidade no Brasil e no mundo. Cabe aqui ressaltar especificamente a caracterização do paciente com suspeita de doenças pleuropulmonares associadas à dor torácica (Quadro 1.3), dentre as quais se destacam as síndromes pleurais, o tromboembolismo pulmonar e as neoplasias pulmonares. A caracterização da dor pleurítica é a principal pista para a correta avaliação do caso; trata-se de dor habitualmente posterolateral, que piora à movimentação do tórax ou decúbito, mas sobretudo relacionada à inspiração mais profunda do tórax. Uma vez identificada, os exames de imagem (radiografia de tórax, tomografia de tórax ou angiotomografia de artérias pulmonares) são os principais exames para condução clínica. Quadro 1.3 - Diagnóstico diferencial de dor torácica Todo paciente com dor torácica deve ser avaliado, e o diagnóstico de síndrome coronariana aguda deve ser descartado; no entanto, quando identificamos dor de característica pleurítica, as doenças pleuropulmonares devem ser investigadas adequadamente. 1.4 SIBILOS Sibilos são sons agudos, produzidos durante a respiração, cujos mecanismos ainda são muito bem definidos. O mais aceito é que ocorrem por vibração das paredes de pequenas vias aéreas, principalmente aquelas com alguma redução do fluxo de ar. Podem ser causados por estreitamento geral das vias respiratórias, como acontece na asma ou na DPOC, por estreitamento localizado, como o produzido por tumor ou por partícula estranha que se aloje nas vias aéreas. A causa mais comum de sibilos recorrentes é a asma e o sibilo é o sintoma mais específico de asma. Na suspeita de asma a avaliação clínica junto a espirometria é fundamental. Entretanto, esteja atento – nem tudo que sibila é asma! Em crianças menores de 3 anos de idade sibilância é comumente associada a bronquiolite viral e não prediz desenvolvimento de asma. Em adultos, qualquer condição que gere obstrução de via aérea pode levar a presença de sibilos. Obstrução de vias aéreas altas, lesão de nervo laríngeo recorrente e disfunção das cordas vocais muitas vezes surpreendem como causa de sibilo. Devemos também estar atentos a pacientes já com diagnóstico prévio de asma em uso de betabloqueadores mesmo sob forma de colírios. Estes podem piorar sibilância em decorrência do uso da medicação. Sibilos localizados ou unilaterais devem ser investigados exaustivamente com exames de imagem e, caso necessário, broncoscopia, já que podemos estar diante de obstrução por corpo estranho ou obstrução por lesão tumoral. Um subtipo de sibilo, chamado grasnado, é um som ultracurto, com a mesma tonalidade, que dura menos de 100 ms. Característico da pneumonia de hipersensibilidade, pode ocorrer em outras desordens bronquiolares. Sibilos traduzem obstruções de vias de pequeno calibre, presentes em ambas as fases da respiração; roncos traduzem obstruções de vias de grande calibre, também em ambas as fases, sendo alterados com a tosse. 1.5 ESTRIDOR O estridor é um sintoma e sinal – pode ser relatado pelo paciente e facilmente identificado ao exame físico – que, de modo geral, se correlaciona com obstrução ao fluxo aéreo em vias respiratórias de grande calibre, frequentemente, laringe, traqueia e brônquios principais. É um ruído adventício mais facilmente detectado na inspiração. Pode ocorrer nas síndromes infecciosas agudas, sobretudo em crianças (laringite aguda, crupe), porém, como sintoma isolado, com frequência, está relacionado a um dos seguintes diagnósticos: discinesia de pregas vocais (muitas vezes, de difícil diferenciação com crises de asma pela sua característica intermitente e súbita), estenose de traqueia (causa mais comum e pós-trauma de intubação prolongada), tumores endobrônquicos e obstrução por corpo estranho. O principal cuidado que se deve ter é com a sua evolução rápida para insuficiência respiratória aguda e necessidade de intubação orotraqueal na unidade de emergência. 1.6 HEMOPTISE A hemoptise consiste na expectoração de sangue originário do trato respiratório, na forma de sangue vivo, ou como estrias de sangue (hemoptoicos). Existem classificações na literatura para estimar a gravidade, geralmente com base no volume expectorado. Uma das mais aceitas considera sangramentos superiores a 600 mL em 24 horas ou 30 mL/hora como maciços e ameaçadores à vida. Com isso, a mortalidade aumenta quanto maior a intensidade do sangramento. A principal causa de morte é a asfixia produzida pelo próprio sangramento. A hemoptise deve ser diferenciada, na investigação inicial, dos sangramentos oriundos das vias aéreas superiores e do trato gastrintestinal alto. As causas da hemoptise, bem como suas características, são temas sempre vistos em questões de concursos médicos. Os diagnósticos mais frequentemente associados em questões de prova são as doenças necrotizantes do parênquima pulmonar: tuberculose,carcinoma brônquico, tromboembolismo com infarto pulmonar e vasculites pulmonares (síndrome pulmão-rim). 1.6.1 Principais causas No Brasil, a principal causa de hemoptise é a tuberculose pulmonar, seja ela na sua forma ativa ou devido a sequelas. Outras causas também se destacam: infecções do trato respiratório, bronquite, pneumonia, infecção por fungo Aspergillus, principalmente, colonizando cavitações pulmonares conhecida como bola fúngica ou micetoma, abscessos pulmonares, bronquiectasias, insuficiência cardíaca, estenose da válvula mitral e síndrome de Goodpasture. Outras: malformações arteriovenosas, corpo estranho nas vias aéreas, distúrbios hemorrágicos, trauma, lesão durante procedimento médico, embolia pulmonar e tumor, tosse paroxística – pelo esforço repetitivo. Os tumores são responsáveis por cerca de 20% dos casos, destacando-se o carcinoma pulmonar. Essa hipótese deve ser cuidadosamente investigada em indivíduos com mais de 40 anos e tabagistas. Deve-se lembrar que, na ICC com edema alveolar, pode haver tosse com secreção espumosa rosada; esta, por sua vez, pode ser confundida com hemoptise, portanto, deve-se caracterizar bem o quadro, a expectoração e possíveis comorbidades. 1.6.2 Diagnóstico A história clínica é um fator importante na investigação da etiologia da hemoptise. Tempo de duração, sintomas sistêmicos associados e história de tabagismo são dados que devem ser sempre verificados. Muitas vezes, o principal desafio diagnóstico é identificar adequadamente a origem do sangramento das vias aéreas inferiores, de acordo com os dados clínicos, ou seja, se este provém das vias aéreas superiores ou do trato digestivo. Os principais achados relacionados são: sensação de “calor” localizado no tórax antes do episódio, acesso de tosse precedendo o sangramento, eliminação de sangue vivo sozinho – não misturado com expectoração purulenta –, sensação de sufocamento e alterações localizadas na ausculta pulmonar – estertores, roncos ou sibilos. Dentre os exames complementares, a radiografia é sempre o exame inicial: recomenda-se que pacientes jovens, com hemoptise não maciça por menos de 7 dias e com radiografia normal, recebam tratamento antimicrobiano por provável traqueobronquite complicada, bronquiectasia infectada ou sinusopatia aguda com sangramento de vias aéreas superiores que se manifestem também com a tosse. Porém, trata-se de um sintoma que com grande frequência indica a necessidade de investigação complementar, pela possibilidade de etiologias graves. Hematócrito, coagulograma, testes de função renal, sedimento urinário e pesquisa de bacilo álcool-ácido-resistente no escarro devem ser solicitados. Além destes, tomografia de tórax de alta resolução e/ou broncoscopia estão indicadas. Atualmente, a maioria dos autores recomenda a priorização da tomografia como método diagnóstico em detrimento da broncoscopia, pois permite definir a causa do sangramento – avaliação de bronquiectasias, tumores, embolia pulmonar, entre outros –, conseguindo identificar a origem do sangramento no paciente com doença parenquimatosa difusa, mediante administração de contraste endovenoso; exceção vale aos casos com repercussão hemodinâmica, em que a broncoscopia apresenta papel terapêutico relevante na tentativa de controle do sangramento ativo. O diagnóstico geralmente é realizado com a história clínica, porém a radiografia e a tomografia de tórax apresentam papel importante. A broncoscopia deve ser priorizada em casos em que há repercussão hemodinâmica do paciente. 1.6.3 Tratamento São características do tratamento: a) Pode não exigir tratamento ou demandar tratamento específico de acordo com a causa; b) Geralmente, o sangramento de vasos pequenos cessa espontaneamente; c) O sangramento de um vaso importante normalmente requer tratamento, que pode ser feito por intermédio da embolização da artéria brônquica ou eventualmente ressecção cirúrgica da área afetada; d) Pacientes com sangramento em volume superior a 100 mL em 24 horas necessitam de internação hospitalar para investigação clínica e monitorização terapêutica; e) A tosse é um mecanismo eficaz para manter as vias aéreas livres e não deve ser suprimida por antitussígenos como regra para todos os pacientes; f) A broncoscopia é um exame importante na identificação da localização do sangramento, e nos sangramentos mais intensos pode tamponar e impedir a inundação do restante da árvore brônquica; quando a etiologia é de um tumor endobrônquico, permite a adequada hemostase; g) A arteriografia pulmonar é a principal intervenção para controle dos sangramentos persistentes; o tratamento cirúrgico restringe-se aos casos não controlados pela arteriografia; h) Vale ressaltar que a principal causa de óbito na hemoptise é asfixia por inundação da árvore brônquica e choque hemorrágico. 1.7 CIANOSE A cianose corresponde a uma coloração azulada da pele e decorre da concentração elevada de hemoglobina reduzida – não ligada a oxigênio – no sangue periférico. Concentrações > 5 g/dL de hemoglobina reduzida são capazes de gerar cianose. Esse detalhe é interessante e tem implicação clínica: para um mesmo grau da doença, é mais provável que um indivíduo com poliglobulia fique cianótico do que um paciente com anemia. Como denota uma coloração anormal do sangue, geralmente é mais bem avaliada nos segmentos periféricos e em mucosas. Dois fatores concorrem para o surgimento de cianose: deficiência em oxigenar o sangue no território capilar pulmonar, padrão conhecido como cianose central, e extração periférica excessiva de oxigênio, denominada cianose periférica. A cianose central pode ser consequência de vários tipos de doenças pulmonares graves e de determinadas malformações vasculares e cardíacas que desviam o sangue da direita para a esquerda, o que é denominado shunt direito-esquerdo. A cianose periférica pode decorrer de redução da velocidade do fluxo sanguíneo na periferia, com aumento da extração de oxigênio pelos tecidos, como visto nas tromboses arteriais ou venosas e nos estados de choque. Uma forma de diferenciar os 2 tipos é a extensão da cianose: enquanto a central costuma ser identificada tanto na pele quanto nas mucosas, a periférica geralmente poupa as mucosas oral e labial. A cianose central habitualmente melhora com a administração de oxigênio, ao contrário da periférica. Outra forma de classificar a cianose é o local de manifestação. Assim, podemos encontrar 2 padrões: cianose localizada – restrita a um segmento corpóreo – e cianose generalizada – acometimento difuso. É necessário cuidado para não confundir a classificação fisiopatológica com a distribuição da cianose: toda cianose central é generalizada, no entanto nem toda cianose generalizada é central, pois pode ser vista também na periférica. Quadro 1.4 - Tipos de cianose Na presença de cianose, é necessário estimar a saturação de hemoglobina com oxigênio por meio de oxímetro de pulso e gasometria arterial. Algumas vezes, podem ser necessários radiografias, estudos do fluxo sanguíneo e provas de função pulmonar e cardíaca para determinar a causa da cianose. O tratamento será, sempre, dirigido à causa-base. Uma situação interessante, que por vezes intriga o clínico, é a de um paciente com cianose, mas sem hipoxemia identificada na gasometria arterial: a meta-hemoglobinemia. O distúrbio acontece por um estado alterado da hemoglobina, com o íon ferroso tornando-se oxidado a íon férrico, que é incapaz de ligar-se ao oxigênio. Assim, a curva de dissociação da hemoglobina é desviada para a esquerda, para tentar aumentar a afinidade da hemoglobina pelo oxigênio, mas a liberação tecidual do gás é reduzida. Há redução do conteúdo de oxigênio no sangue. Níveis de até 3% de meta-hemoglobina são considerados normais; pacientes com a doença crônica, mesmo com níveis próximos de 50%, podem ser assintomáticos, sendo cianose a única queixa. Quando aguda, surgem dispneia, letargia, cefaleia e fadiga, ou quadros mais graves, com convulsões, choque e coma. O grande problema diagnóstico dameta-hemoglobinemia é que a oximetria de pulso é incapaz de detectá-la, e os aparelhos de gasometria convencionais calculam a SO2 por extrapolação, por meio das medidas diretas da paO2 e do pH, que não se modificam na meta- hemoglobinemia. Para o diagnóstico, deve-se usar a espectrofotometria, que determina as concentrações de hemoglobina, oxi-hemoglobina, meta-hemoglobina e carboxi-hemoglobina. Pode-se inferir o diagnóstico, também, ao avaliar o sangue coletado, geralmente de aspecto marrom-chocolate. A doença pode ser hereditária ou estar associada a exposição a medicamentos – antimaláricos, nitratos, paracetamol, lidocaína –, substâncias industriais – naftaleno, nitrotolueno etc. –, alimentos em conserva – por conter nitrato e nitrito de sódio – etc. O tratamento é feito com azul de metileno na dose de 0,1 a 0,2 mL/kg IV, por 5 minutos. Os sinais e sintomas respiratórios sempre refletem a presença de doença pulmonar? Convém identificar, por meio dos sinais e sintomas pulmonares, doenças não apenas do aparelho respiratório, mas também do aparelho cardiovascular – por exemplo, dispneia na insuficiência cardíaca –, gastroesofágico – por exemplo, tosse por refluxo gastroesofágico – e outros. Como diferenciar os distúrbios ventilatórios pela espirometria? 2.1 INTRODUÇÃO As principais indicações clínicas são: a) Auxiliar no diagnóstico diferencial; b) Avaliar o impacto da doença pulmonar; c) Determinar a progressão da doença pulmonar; d) Investigar o efeito do tratamento; e) Quantificar o grau de disfunção e incapacidade. 2.2 TESTES DE FUNÇÃO PULMONAR O principal teste de função pulmonar é a espirometria que pode ser complementada, quando necessário, por outros exames mais apurados, como a medida de volumes pulmonares e difusão com CO. Para o adequado entendimento dos testes de função pulmonar, é necessário uniformizar alguns termos. A nomenclatura usada de acordo com a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia está descrita a seguir: 1. Volume Residual (VR): volume de ar que permanece nos pulmões após uma expiração máxima; 2. Capacidade Pulmonar Total (CPT): volume de ar intratorácico ao final de uma inspiração máxima; 3. Capacidade Residual Funcional (CRF): volume de ar que permanece nos pulmões ao final de uma expiração usual, em volume corrente (volume de reserva expiratório + volume residual); 4. Capacidade Vital (CV): representa o maior volume de ar mobilizado, medido tanto na inspiração quanto na expiração; 5. Capacidade Vital Forçada (CVF): volume máximo de ar exalado com esforço máximo, iniciando-se ao final de uma inspiração forçada máxima; 6. Volume expiratório forçado de primeiro segundo (VEF1): volume de ar exalado no primeiro segundo durante a manobra de CVF; 7. VEF1-CVF: razão entre o volume expiratório forçado de primeiro segundo e a CVF; 8. Fluxo: expresso em L/min, representa a taxa de variação de um volume; 9. Pico de Fluxo Expiratório (PFE): representa o fluxo máximo de ar durante a manobra de CVF – também denominado fluxo expiratório forçado máximo (FEFmáx); 10. Fluxo expiratório forçado médio – 25 a 75% (FEF25-75%): fluxo expiratório forçado médio de determinado período, obtido durante a CVF; 11. Tempo Expiratório Forçado (TEF): mede, em segundos, o tempo do início ao fim da CVF. Figura 2.1 - Volumes e capacidades pulmonares 2.3 ESPIROMETRIA 2.3.1 Definições A primeira pergunta que sempre é feita é: espirometria é sinônimo de prova de função respiratória? Não! Na verdade a espirometria é um dos exames de prova de função respiratória. A espirometria é um exame simples, de baixo custo e que nos dá informações importantes sobre a função pulmonar dos pacientes. Pode ser utilizada tanto para avaliação clínica de paciente com sintoma respiratório, avaliação clínica de pacientes tabagistas, avaliação pré-operatória de indivíduos com doença respiratória, ou mesmo cirurgias pró e também em contexto de avaliação ocupacional de indivíduos que se expõe a poeira e/ou agentes pneumotóxicos. Infelizmente, ainda é um método subutilizado. A espirometria avalia volumes e capacidades pulmonares. Mas o que seria capacidade? Nada mais é do que a soma de 2 ou mais volumes. Antes de tudo temos que nos familiarizar com a Figura 2.1 acima que nos situa em relação aos volumes e capacidades. Esta Figura deve ser entendida para que possamos compreender alguns conceitos importantes. O primeiro deles é que a espirometria avalia desde a inspiração máxima até a expiração máxima. Com isso, consegue avaliar muito bem a Capacidade Vital Forçada (CVF), mas perceba por outro lado que não avalia o volume residual, sendo esta uma das suas principais limitações. Como não avalia volume residual, por conseguinte não avalia nem Capacidade Residual Funcional (CRF) e nem Capacidade Pulmonar Total (CPT). A única forma de avaliar o volume residual, é medindo os volumes pulmonares estáticos. Esta medida pode ser realizada por 3 principais métodos: pletismografia – método mais acurado –, diluição com hélio ou pelo wash out de nitrogênio. O segredo para a realização de um exame de espirometria de qualidade, é estarmos atentos à técnica, o indivíduo ter compreendido todos os passos do exame e também estarmos atentos às curvas do gráfico fornecido. São duas principais curvas: a volume versus tempo e a fluxo versus volume. No Quadro 2.1 existem vários aspectos fundamentais a serem observados. A avaliação da inspiração máxima e os critérios de início, duração e término refletem critérios de aceitabilidade. Temos que obter pelo menos 3 curvas aceitáveis. Um outro dado importante é avaliar a reprodutibilidade, ou seja, se as manobras repetidas são reprodutíveis gerando valores iguais ou próximos, garantindo que aqueles são os reais valores daquele indivíduo. É fundamental obtermos 2 curvas reprodutíveis. Após obtenção de 3 curvas aceitáveis e 2 reprodutíveis podemos selecionar a curva a ser interpretada, podendo esta ser uma curva envelope, ou seja, pegando os melhores valores de diferentes curvas. Todos os parâmetros avaliados levam em consideração o valor percentual do predito, ou seja, o percentual atingido em relação ao que se espera – média populacional que varia de acordo com cada etnia –, considerando as variáveis de sexo, altura e idade. Quadro 2.1 - Critérios para uma espirometria de boa qualidade Fonte: Standardisation of spirometry, 2005. 2.3.2 Princípios fisiológicos A principal manobra espirométrica é a expiração forçada, que desencadeia aumento pronunciado das pressões alveolares – que tendem a expulsar o ar – e da pressão pleural, que, envolvendo as vias aéreas, tende a fechá-las. Ambos os processos praticamente se cancelam em determinado segmento das vias aéreas – ponto de igual pressão –; assim, a pressão resultante para eliminar o ar é a de recuo elástico dos pulmões (Figura 2.2). A consequência lógica é que, nessa circunstância, tem-se o fluxo máximo possível para determinado volume pulmonar. Na verdade, ao tentar forçar mais ar para fora, aumentando a pressão pleural, o efeito pode ser contraproducente, isto é, haverá somente mais compressão das vias aéreas e menor fluxo. Obviamente, quanto mais compressíveis as vias aéreas – por exemplo, na Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) –, maior esse efeito. De fato, em tais pacientes, pode ocorrer substancial aprisionamento de ar nas pequenas vias aéreas, e nem todo o ar inspirado é expirado com sucesso. Logo, na expiração forçada, a taxa de fluxo aéreo é constante em um dado volume pulmonar, o que torna os parâmetros espirométricos reprodutíveis e analisáveis. Em contraste, na manobra expiratória lenta, não há compressão das vias aéreas, e os fluxos são altamente variáveis. Em compensação, todo o ar previamente inspirado é exalado com sucesso, fornecendo valores mais acurados de Capacidade Vital (CV) e suas subdivisões. De acordo com a Figura 2.2, no final da inspiração (A), a Pressão Alveolar (PA) está em equilíbrio com a pressão de abertura das vias aéreas (boca), portanto não há fluxo de ar. Em uma expiraçãotranquila (B), a Pressão dentro das Vias Aéreas (PVA) é sempre maior do que a pressão circunjacente (pressão pleural ou Ppl), e o fluxo de ar é contínuo. Na expiração forçada (Ppl elevada), como a realizada na espirometria, a pressão de expulsão do ar (PA) está aumentada, mas, em algum ponto das vias aéreas (Ponto de Igual Pressão, ou PIP), a pressão circunjacente (Ppl) será igual ou mesmo superior à PVA (PIP), limitando, assim, o fluxo para aquele volume pulmonar. Assim, a expiração forçada (C) permite a obtenção de valores reprodutíveis e confiáveis dos fluxos e volumes pulmonares. Figura 2.2 - Final da inspiração, expiração tranquila e expiração forçada 2.3.3 Dados A espirometria permite medir o volume de ar inspirado, o volume expirado e os fluxos respiratórios. É importante estar familiarizado com as curvas e com os 3 principais parâmetros a serem avaliados: CVF, VEF1 e a relação VEF1-CVF que é conhecido como índice de Ti�eanau. O VEF1 é uma das medidas mais úteis na prática clínica porque é razoavelmente esforço-independente e depende da permeabilidade das vias aéreas e de boa retração elástica pulmonar. Os resultados espirométricos devem ser expressos em gráficos de fluxo-volume (Figura 2.3) e volume-tempo (Figura 2.4). A curva fluxo-volume mostra que o fluxo é máximo logo ao início da expiração, próximo à CPT, havendo queda lenta posteriormente. É importante observar a curva fluxo-volume, pois um esforço respiratório submáximo pode ser evidente nessa curva, o que não acontece na curva volume-tempo. Nesse caso, o paciente deve ser treinado para poder realizar um esforço apropriado, de forma a obter uma curva fiel à sua função respiratória. Figura 2.3 - Curva fluxo-volume Fonte: Definições funcionais de asma e DPOC, 2013. Figura 2.4 - Curva volume-tempo Fonte: Definições funcionais de asma e DPOC, 2013. 2.3.4 Interpretação dos resultados 2.3.4.1 Distúrbio ventilatório restritivo A restrição pulmonar é definida por redução da CPT. Como a espirometria não a mede – por não estimar o volume residual, como relatado –, não é possível confirmar a presença desse distúrbio. Entretanto, com base em dados clínicos sugestivos e em alterações específicas no exame, é aceitável fornecer o diagnóstico de restrição de forma presuntiva. Logo, ao laudar, devemos sempre nos preocupar em deixar claro que se trata de provável distúrbio ventilatório restritivo. Quando CVF < 50% alguns autores sugerem que já é possível afirmar haver restrição, já que CVF < 50% garante CPT reduzido. Quando estamos diante de distúrbio ventilatório restritivo, estamos diante de situação que reduz de forma proporcional volumes e capacidades pulmonares. Neste caso, tanto volumes quanto capacidades são reduzidos. Com isso, CVF reduzido e VEF1 reduzido. Quando realizamos a razão de CVF-VEF1, como seguem reduzidos de forma proporcional, a razão continua a mesma sendo normal. Desta forma, os principais parâmetros se comportam geralmente da seguinte forma: a) CVF reduzido; b) VEF1 reduzido; c) VEF1-CVF normal. Os distúrbios ventilatórios restritivos podem ser intrapulmonares – alteração estrutural do parênquima ou deslocamento do parênquima pulmonar – ou extrapulmonar – doenças da caixa torácica, obesidade e outros –, por exemplo: 1. Alteração estrutural do parênquima (mais frequente): fibrose pulmonar ou infiltração parenquimatosa – silicose, asbestose, fibrose pulmonar idiopática, fibrose associada a doenças autoimunes etc.; 2. Deslocamento do parênquima pulmonar: tumores, derrame pleural, com alguns estudos demonstrando, também, o efeito de líquido ascítico na restrição pulmonar; 3. Parênquima removido: ressecção pulmonar; 4. Parede torácica ou músculos: miastenia gravis, cifoescoliose etc.; 5. Outras: obesidade. Apesar de a espirometria ter incapacidade teórica de definir um distúrbio restritivo, existe uma situação em que sua presença é irrefutável: quando a CVF é inferior a 50% do previsto. Entenda a razão: uma vez que CPT = CVF + VR e o VR representa habitualmente 20% da CPT, sempre que a CVF estiver inferior a 50% a CPT estará anormalmente reduzida, inferior a 70%, definindo restrição. Com o mesmo princípio, outra conclusão é possível: a restrição só poderá se manifestar na espirometria com CVF abaixo do limite inferior esperado para o indivíduo. Desta forma, alguns autores sugerem que quando CVF < 50% podemos afirmar restrição mesmo que apenas com a espirometria. Na fibrose idiopática, a tração dos tecidos aumenta a elastância dos pulmões, reduzindo a resistência do fluxo aéreo e implicando valores supranormais de VEF1 ou de FEF25-75%. Nessa situação, o valor da razão VEF1-CVF ou FEF25-75%-CVF pode ser maior do que 150% do previsto. Quando esta razão é maior que 150% ou TFEF < 0,3 segundos, identificamos a presença de fluxos supranormais. 2.3.4.2 Distúrbio ventilatório obstrutivo Indivíduos normais expiram cerca de 80% da CVF no primeiro segundo. Sabemos também que a quantidade de ar expirada no primeiro segundo representa o VEF1. Assim, caso expire menos que esse valor, ou seja, caso a relação do VEF1-CVF seja inferior a 0,8, ou 80% em valores percentuais, a conclusão é que há lentificação à saída do ar, o que indica distúrbio obstrutivo. No entanto, para fugir do rigor fisiológico, o limite da relação VEF1-CVF considerado clinicamente normal é de 0,7; ou seja, VEF1-CVF < 0,7 define a presença de obstrução de vias aéreas. Os principais exemplos de distúrbio ventilatório obstrutivo na prática clínica são: asma e DPOC. Os pacientes apresentam dificuldade de colocar o ar para fora, ou seja, de expirar. Com isso, demoram mais a expirar. O problema não é a quantidade de ar dentro do pulmão, ou seja, a CVF geralmente está normal. O grande problema é mobilizar todo o ar para fora. Isto implica em 2 questões na espirometria. Primeiro, se há dificuldade de colocar o ar pra fora, o ar documentado no primeiro segundo está reduzido, com isso, VEF1 reduzido. Segundo, o indivíduo demorará mais tempo e, com isso, a curva será aceitável neste indivíduo apenas com 10 segundos e idealmente 15 segundos de expiração forçada. Como VEF1 está reduzido e CVF normal, temos que a razão entre os dois estará também reduzida. Os parâmetros apresentam o seguinte comportamento nos distúrbios ventilatórios obstrutivos: a) CVF normal; b) VEF1 reduzido; c) CVF-VEF1 reduzido: < 0,7. Pacientes com maior gravidade de doença tendem a hiperinsuflação. Este processo gera aprisionamento aéreo e por conseguinte aumento de volume residual. Com o passar do tempo, o aumento de volume residual pode se dar de tal forma que reduza a CVF. Com isso, em casos mais graves, a CVF pode estar reduzida. Quando há obstrução, a CVF do paciente não se altera inicialmente, mas sim o VEF1, trazendo como resultado uma relação VEF1-CVF reduzida. Figura 2.5 - Comparação gráfica dos distúrbios restritivos e obstrutivos 2.3.4.3 Distúrbio ventilatório combinado ou misto Em geral, o diagnóstico de doença obstrutiva é facilmente realizado quando há redução do VEF1 e da VEF1-CVF, com CVF normal. Entretanto, podem-se ter dúvidas quando há redução associada da CVF antes e depois da broncodilatação. Nesse caso, a CVF pode estar reduzida por restrição associada – Distúrbio Ventilatório Combinado (DVC), com diminuição da CPT, ou, simplesmente, porque a obstrução é tão importante que aumenta o VR mais do que a CPT, reduzindo a CVF (Figuras 7 e 8). Obviamente, em qualquer momento – antes e depois do broncodilatador –, uma CVF normal afasta distúrbio restritivo. Figura 2.6 - Diferentes mecanismos de redução da capacidade vital O ideal é que pacientes com VEF1 e VEF1-CVF baixos, mas também com CVF reduzida após o broncodilatador, sejam submetidos à medida direta da CPT através da medida de volumes pulmonares. Diante de distúrbio obstrutivo com redução de CVF, na impossibilidade de realizar a medida da CPT, recomenda-se a seguinte medida: subtrair o valor da CVF do VEF1: CVF = 59% e VEF1 = 26%; diferença: 59 - 26 = 33; sendo assim, os valores representadosabaixo dimensionam o distúrbio: 1. Diferença > 25%: distúrbio obstrutivo; 2. Diferença de 12 a 25%: distúrbio obstrutivo com CVF reduzida; 3. Diferença < 12%: distúrbio restritivo e obstrutivo (misto ou combinado). A lógica desta subtração é fácil. Se estivermos diante de obstrução grave, o VEF1 está muito reduzido e o CVF somente começou a ficar reduzido agora que o indivíduo está grave e com hiperinsuflação. Com isso, neste momento a CVF estará reduzida, porém não tão reduzida, não havendo relação de queda proporcional entre CVF e VEF1. Logo, estão distantes, tendo uma diferença maior que 25. Por outro lado, na restrição, mesmo que associada, a queda é proporcional e seus valores se encontram próximos. Com isso, uma diferença menor que 12. 2.3.4.4 Distúrbio ventilatório inespecífico Tradicionalmente, os distúrbios ventilatórios têm sido classificados como obstrutivos, restritivos ou combinados (mistos). Denomina-se Distúrbio Ventilatório Inespecífico (DVI) quando é impossível a espirometria determinar o distúrbio ventilatório em questão. Ocorre quando há redução leve a moderada da CVF (> 50% do previsto), com relação VEF1/CVF normal. Tal fenômeno se dá porque diversos fatores podem reduzir a CVF, incluindo a obstrução. Obviamente, se for possível medir a CPT diretamente, o diagnóstico correto será definido. Abaixo, dados básicos para a interpretação da espirometria: a) Se houver redução da relação VEF1-CVF (< 0,7), haverá obstrução; b) A restrição caracteriza-se por redução proporcional da CVF e do VEF1, mantendo a relação VEF1-CVF normal; c) Na restrição, nunca ocorre a normalização dos parâmetros espirométricos; d) A resposta ao broncodilatador é caracterizada por variação do VEF1 superior a 200 mL e 12% em relação ao previsto para o paciente ou CVF superior a 350 mL. 2.3.5 Prova broncodilatadora A resposta aos broncodilatadores (BDs) é avaliada por meio da variação (pré e pós) do VEF1 e, secundariamente, dos volumes pulmonares como CVF, CV e capacidade inspiratória. É importante salientar que a ausência de resposta aos BDs não elimina a possibilidade de resposta terapêutica ao uso continuado da droga. Para o teste, geralmente, são fornecidos 400 µg de fenoterol ou de salbutamol com espaçador, e a espirometria é repetida após 15 a 20 minutos. Os critérios de resposta baseiam-se em 2 pontos: a) Indivíduos normais que podem ter algum grau de broncodilatação com o uso de BDs; b) Indivíduos normais que podem apresentar mudança do tônus broncomotor, mesmo na ausência de medicamentos. As principais diretrizes recomendam considerar como resposta significativa ao BD a melhora do VEF1 em 200 mL e de 12% em relação ao valor previsto ou CVF > 350 mL. A presença do critério relacionado ao VEF1 – prova broncodilatadora positiva em fluxo – ou do critério relacionado ao volume – prova broncodilatadora positiva em volume – já define prova broncodilatadora positiva. Por mais que didaticamente tente-se dicotomizar os distúrbios obstrutivos a partir da resposta broncodilatadora em sendo positiva como sinônimo de asma e negativa como sinônimo de DPOC, muitas vezes somos surpreendidos na prática clínica. Pacientes com asma controlada ou aqueles graves já com remodelamento brônquico podem apresentar prova broncodilatadora negativa, enquanto pacientes DPOC, principalmente aqueles com sobreposição com asma (ACO - Asthma COPD overlap), podem apresentar prova broncodilatadora positiva. 2.3.6 Classificação de gravidade pelas alterações espirométricas A classificação quanto à gravidade dos distúrbios, tendo em vista o parâmetro espirométrico, é evidenciada no Quadro 2.2. Quadro 2.2 - Quantificação dos distúrbios ventilatórios pela espirometria Nota: a graduação do Distúrbio Ventilatório Obstrutivo (DVO) deve ser feita pelo VEF1, e a do Distúrbio Ventilatório Restritivo (DVR), pela CVF. 1 Na presença de FEF25-75%-CV(F) isoladamente reduzida, o distúrbio é classificado como leve, na presença de sintomas e/ou de tabagismo. Vale lembrar que, assim como a espirometria não é o melhor exame para diagnosticar distúrbios restritivos, as mesmas diretrizes internacionais da ATS e ERS recomendam o uso somente da CPT pela pletismografia com parâmetro de avaliação de gravidade; a espirometria deverá sempre vir laudada como sugestiva de distúrbio restritivo e sem graduação de gravidade somente pelo valor percentual do predito da CVF. Além disso, deve-se ter muito cuidado com a interpretação da estimativa de gravidade pelo exame, pois não pode ser confundida com a avaliação de gravidade das doenças específicas. Por exemplo, em um indivíduo com DPOC, a avaliação de gravidade da doença é feita com níveis diferentes de VEF1 daqueles usados para caracterizar a gravidade do distúrbio obstrutivo. 2.3.7 Interpretação Figura 2.7 - Interpretação geral Fonte: elaborado pelos autores. 2.3.8 Pico de Fluxo Expiratório (PFE) O PFE é o maior fluxo obtido em uma manobra forçada. É um exame simples aferido por meio de um medidor portátil. Suas principais utilidades clínicas são: auxiliar no diagnóstico de asma, avaliando a grande variabilidade diurna do PFE em asmáticas – diferença acima de 20% entre a maior e a menor medida é significativo –; monitoramento e tratamento da asma a curto e longo prazo e caracterização de asma ocupacional. 2.3.9 Teste de broncoprovocação O teste de broncoprovocação envolve a repetição seriada das manobras espirométricas forçadas após a inalação de doses progressivamente mais concentradas de substâncias sabidamente broncoconstritoras – histamina, metacolina ou carbacol). A principal variável desse teste é a PD20, dada pela menor concentração da substância inalada, capaz de promover queda de 20% ou mais do VEF1 basal. É um exame de uso rotineiro incomum, por ser de realização demorada, pela dificuldade em conseguir a substância broncoconstritora e por não ser isento de reações adversas. O teste tem maior utilidade em casos suspeitos de asma, sem comprovação pela espirometria. Deve-se observar, entretanto, que diversas condições podem tornar positivos os testes de broncoprovocação, como rinite, chiado torácico ocasional, infecção das vias aéreas superiores recente, teste cutâneo alérgico recente, tabagismo e DPOC. É uma prova que não permite uma separação segura de DPOC e asma, notadamente naqueles com espirometria basal já indicando DVO. 2.4 MEDIDA DOS VOLUMES PULMONARES ESTÁTICOS Existem, basicamente, 3 tipos de exames: que exploram as relações inversas entre volume e pressão (pletismografia corpórea); diluição com hélio e wash out de nitrogênio. A maior vantagem da pletismografia corpórea é que todo o ar intratorácico é realmente medido, inclusive aqueles aprisionados nas bolhas presentes em pacientes enfisematosos graves. Uma técnica por vezes utilizada para avaliar o volume de ar dentro de uma bolha é realizar pletismografia, avaliando todo o ar pulmonar e o teste de diluição com hélio, que não acessa o ar dentro das bolhas. A partir da realização dos dois, a subtração do resultado obtido pela pletismografia pelo resultado obtido pela diluição com hélio indica a quantidade de volume de ar dentro das bolhas. A medida de volumes pulmonares também pode ser realizada através de técnicas radiográficas, utilizando softwares específicos. 2.4.1 Indicações a) Diagnóstico de certeza de distúrbio ventilatório restritivo; b) Melhor avaliação de distúrbios mistos e distúrbios inespecíficos; c) No diagnóstico de hiperinsuflação e aprisionamento aéreo; d) Avaliação inicial e seguimento longitudinal das doenças pulmonares parenquimatosas, especialmente as doenças fibrosantes; e) Como auxiliar na determinação da resposta a intervenções terapêuticas clínicas ou cirúrgicas (cirurgia redutora de volume pulmonar, bulectomia); f) Na avaliação da disfunção e incapacidade. 2.4.2 Interpretação 1. Hiperinsuflação: caracterizada por CPT > 120% do previsto, geralmente com aumento concomitante da CRF (> 130%), do VR (> 140%) e das relações CRF-CPT (> 0,55) e VR/CPT (> 0,4); 2. Alçaponamento aéreo: caracterizadopor VR > 140% do previsto e relação VR-CPT > 0,4, na presença de DVO; 3. Restrição: caracterizada por CPT < 80% do previsto, geralmente com CRF e VR menos reduzidos ou até próximos da normalidade (de 70 a 130% e de 60 a 140%, respectivamente), isto é, as relações CRF- CPT e VR-CPT podem até aumentar no DVR. 2.5 MEDIDA DA CAPACIDADE DE DIFUSÃO DE MONÓXIDO DE CARBONO O teste da capacidade de difusão pulmonar utiliza um gás que tem afinidade alta pela hemoglobina, o monóxido de carbono (CO). Esse gás, quando inalado, tem sua transferência para o capilar pulmonar dependente, basicamente, da difusão pela parede alveolar, interstício e endotélio vascular. O teste consiste na inalação de quantidade conhecida do gás e na estimativa do volume absorvido pelos pulmões. Alterações ventilatórias, hemodinâmicas, das relações ventilação- perfusão e hematológicas podem afetar as medidas de capacidade de difusão pulmonar (DCO). Como diversos fatores podem afetar a DCO, esta, embora seja bastante inespecífica, é particularmente sensível ao acometimento, mesmo inicial, da área funcional de troca gasosa pulmonar. A hipoventilação, em contrapartida, como não interfere na difusão dos gases diretamente, pois a membrana alveolocapilar está íntegra, habitualmente não interfere no resultado do teste. 2.5.1 Indicações a) A DCO tem papel importante no diagnóstico precoce e na avaliação da gravidade, no prognóstico e na resposta terapêutica das doenças intersticiais pulmonares, destacando-se fibrose pulmonar idiopática e esclerodermia com acometimento pulmonar; b) Na avaliação pré-operatória, a DCO, junto à espirometria, é o teste de repouso com maior poder preditivo para complicações; c) Em determinadas circunstâncias clínicas, a redução da DCO pode ser importante para a separação entre enfisema pulmonar e asma brônquica persistente com obstrução fixa; d) Avaliação da disfunção e incapacidade. 2.5.2 Interpretação 1. Redução da DCO: a reduzida (leve: de 61 a 75% do previsto; moderada: de 41 a 60%; acentuada: < 40%) deve ser analisada em conjunto com os dados clínicos e funcionais associados, especialmente espirométricos; doenças intersticiais e enfisema pulmonar são causas de redução de DCO; 2. Elevação da DCO: pode ocorrer em circunstâncias, como obesidade acentuada, asma, policitemia, hemorragia pulmonar recente, shunt esquerdo-direito, insuficiência cardíaca congestiva leve, exercício ou erro técnico. 2.6 MENSURAÇÃO DAS PRESSÕES RESPIRATÓRIAS ESTÁTICAS MÁXIMAS A redução da força muscular respiratória – pressão máxima gerada na inspiração, ou PImáx, e na expiração, PEmáx – pode ter importantes consequências clínicas, especialmente no desencadeamento da dispneia, e como fenômeno precoce na falência ventilatória hipercápnica. Na prática, determinam-se a PImáx ao nível do VR e a PEmáx ao nível da CPT. 2.6.1 Indicações a) Suspeita de fraqueza muscular ventilatória, especialmente para o diagnóstico diferencial da dispneia de origem incerta; b) Avaliação longitudinal ou pós-intervenções terapêuticas ou reabilitadoras em pacientes com doença toracopulmonar ou sistêmica que curse com fraqueza muscular respiratória; c) Avaliação pré-operatória de pacientes de risco para complicações pulmonares. 2.6.2 Interpretação A interpretação de valores muito baixos pode ser problemática, especialmente se não se sabem a CPT ou o VR. Em caso positivo, deve-se sempre tentar corrigir para o volume pulmonar. Há queda particularmente pronunciada da PImáx e da PEmáx quando a manobra se inicia em valores > 70% e < 40% da CPT, respectivamente. As manobras dependem crucialmente da cooperação: idosos, pacientes com fraqueza ou paralisia da face ou debilidade muscular dos membros superiores podem ter grande dificuldade em manobras reprodutíveis. 2.7 TESTE DE EXERCÍCIO CARDIOPULMONAR Também denominado ergoespirometria, adiciona, ao eletrocardiograma e ao registro da frequência cardíaca, a mensuração direta do volume de ar ventilado – habitualmente, o expirado – e as respectivas frações de oxigênio e dióxido de carbono (FEO2 e FECO2). Esses dados permitem o cálculo de variáveis metabólicas (consumo de O2, produção de CO2), ventilatórias e cardiovasculares. A aparelhagem necessária para o teste apresenta- se comercialmente disponível na forma de sistemas metabólicos integrados que medem e integram continuamente os diversos sinais por meio de tecnologia microprocessada. 2.7.1 Indicações a) É indicado como direcionador precoce da linha de investigação da dispneia de origem indeterminada. O teste deve ser a alternativa imediatamente posterior às avaliações clínica, radiográfica, espirométrica – incluindo broncoprovocação – e eletrocardiográfica de repouso. É útil para diferenciar a dispneia de origem cardiovascular da pulmonar, identificar componente circulatório insuspeito e apontar componente psicogênico ou comportamental; b) Em qualquer paciente com doença cardiopulmonar com queixas de intolerância ao exercício em que a avaliação de repouso é inconclusiva ou com discordância entre os sintomas e os testes de repouso, incluindo as alterações radiológicas; c) Para a determinação do fator preponderante de dispneia em um paciente com múltiplas causas possíveis; d) Na avaliação pré-operatória de pacientes com risco funcional moderado a elevado, por exemplo, VEF1 e/ou DCO < 60% do previsto; e) Na avaliação prognóstica da insuficiência cardíaca congestiva e na indicação de transplante cardíaco, pulmonar ou cardiopulmonar; f) Na prescrição de treinamento físico ou reabilitação; g) Na avaliação do grau de disfunção e incapacidade. 2.8 GASOMETRIA ARTERIAL A gasometria arterial é o principal teste utilizado na prática diária com o objetivo de avaliar as trocas gasosas. A rigor, estará indicado sempre que houver indícios de anormalidade expressiva nessa função pulmonar, como nos casos de insuficiência respiratória, cianose e anormalidade na oximetria de pulso. 2.8.1 Variáveis de interesse prático 1. Variáveis que refletem o nível de oxigenação arterial: a) paO2 (pressão parcial de O2 no sangue arterial); b) SatO2 (saturação arterial da oxi-hemoglobina); c) D(Aa)O2 (diferença alveoloarterial das pressões parciais de O2). 2. Variáveis que estão relacionadas primariamente ao CO2: a) paCO2 (pressão parcial de CO2 no sangue arterial); b) pH (potencial hidrogeniônico); c) HCO3- (íon bicarbonato). 2.8.1.1 paO2 É a pressão de oxigênio dissolvido no sangue. A hipoxemia é a redução do conteúdo de O2 no sangue, que depende, basicamente, da quantidade de O2 ligada à hemoglobina, podendo ocorrer mesmo com pO2 normal ou elevada, ou seja: Em um indivíduo jovem e sadio, a paO2 deve estar entre 80 e 100 mmHg, embora a hiperventilação aguda possa elevá-la a valores superiores a 100 mmHg. A paO2 declina com a idade e com o excesso de peso para a altura – Índice de Massa Corpórea (IMC). Sendo o limite inferior do intervalo de confiança, o valor calculado é subtraído de 12 mmHg – considerar 75 anos como limite, utilizando esse valor para indivíduos mais idosos. 2.8.1.2 paCO2 É a pressão de dióxido de carbono dissolvido no sangue (valores normais: de 35 a 45 mmHg). Como o CO2 é mais difusível do que o O2 e a sua curva de dissociação é quase uma linha reta, a sua pressão alveolar (pACO2 e, logo, a paCO2) é controlada facilmente pela ventilação alveolar, modificando a taxa de formação dos íons H+ (pH): 2.8.1.3 pH É o potencial hidrogeniônico, ou seja, quanto menor o pH de uma solução, mais íons H+ existirão e maior será o potencial dessa solução em fornecer H+ (normal: 7,35 a 7,45). 2.8.1.4 SatO2 Mais de 98,5% do O2 é carreado pela hemoglobina, logo a SatO2 é extremamente importante para a oferta periférica de O2. O aspecto sigmoide da curva de dissociação da oxi-hemoglobina determina que variações de paO2 > 60 mmHg levam a mudanças apenas discretas na SatO2 (SatO2 = 90%); em contrapartida, pequenas mudanças da paO2 < 60 mmHg determinam grandes variações na SatO2. Contudo, deslocamentos para a direita (menor afinidade da hemoglobina pelo O2, com aumentoda pressão necessária para saturar em 50% a hemoglobina – P50) ou para a esquerda (maior afinidade, ou seja, P50 < 27 mmHg) também influenciam o valor final da SatO2. Se forem citadas curvas desviadas para a esquerda e para a direita, cabe dar exemplos de situações fisiológicas e patológicas: a hemoglobina fetal tem maior afinidade pelo O2. Figura 2.8 - Curva de dissociação da hemoglobina Fonte: adaptado de Ratznium. A seguir, fatores que interferem na curva de dissociação da hemoglobina: 1. Desviam a curva de dissociação da hemoglobina para a direita (diminuem a afinidade – aumentam a liberação de O2): a) Hipertermia; b) Acidose; c) Hipercapnia; d) Aumento do 2,3 – difosfoglicerato; e) Policitemia. 2. Desviam a curva de dissociação da hemoglobina para a esquerda (aumentam a afinidade – diminuem a liberação de O2): a) Hipotermia; b) Alcalose; c) Hipocapnia; d) Redução do 2,3 – difosfoglicerato; e) Anemia. Questões sobre os fatores que alteram a curva de dissociação da hemoglobina são recorrentes em provas de concursos médicos. 2.8.2 Bases para a interpretação da gasometria 2.8.2.1 paO2 e D(Aa)O2 A redução da paO2 pode ocorrer por uma baixa FiO2 (respiração hipóxica) ou uma baixa pressão atmosférica e, consequentemente, PIO2 reduzida (altitude), hipoventilação, desequilíbrio difusivo, distúrbios V/Q e shunt. A exclusão de hipoventilação como causa de hipoxemia pode ser feita pelo cálculo da D(Aa)O2, e a respiração de O2 a 100% ajuda na identificação de shunt, contudo a separação entre fatores difusivos e distributivos V/Q requer testes mais complexos. 2.8.2.2 D(Aa)O2 O cálculo da diferença alveoloarterial de O2 fornece uma indicação mais precisa da homeostase da troca gasosa intrapulmonar do que a simples análise da paO2. Ou, de forma simplificada: Em que: pressão atmosférica (Patm); pressão de vapor de água – 47 mmHg (pH2O); R = VCO2/VO2 (0,8). Em condições ideais, essa diferença deveria ser de, no máximo, 5 mmHg, já que os valores capilares finais são bastante semelhantes aos alveolares médios. Entretanto, como habitualmente se estima o valor de pressão alveolar de oxigênio, toleram-se valores até 15 mmHg como normais – em indivíduos idosos, até 25 mmHg –, sempre em ar ambiente, com FiO2 de 0,21 – os valores normais para outras concentrações de oxigênio são desconhecidos. Na insuficiência respiratória, os distúrbios de difusão (edema pulmonar) e os de ventilação/perfusão (shunt, efeito shunt e efeito espaço morto) geralmente se apresentam com aumento da diferença alveolocapilar. Por outro lado, a hipoventilação per se não afeta a D(Aa)O2. 2.8.2.3 paCO2 O CO2 tem difusibilidade melhor do que o oxigênio. Disso resulta que sua eliminação é menos afetada nos distúrbios de unidade alveolocapilar. De fato, os níveis de CO2 dependem, fundamentalmente, da ventilação alveolar, de forma que quanto maior a ventilação, menores os níveis de CO2; caso contrário, se houver hipoventilação, os níveis de CO2 ficarão elevados. As anormalidades da unidade alveolocapilar só promovem elevação de pCO2 em fases avançadas da lesão. 2.8.2.4 pH A acidose caracteriza-se pelo excesso de H+ (pH < 7,36 ou [H+] > 44 mmol/L), e a alcalose, pela depleção dele (pH > 7,44 ou [H+] < 36 mmol/L). As 2 principais variáveis que afetam o pH são: Em que: K = constante de dissociação e o coeficiente de solubilidade do CO2. Logo, quanto mais CO2 (controle respiratório) e menos HCO3- (controle metabólico) houver em dada solução, mais acidótica ela será. 2.8.3 Testes relacionados A oximetria de pulso separa a oxi-hemoglobina da hemoglobina reduzida pelas suas diferenças de absorção dos raios vermelho e quase-infravermelho. Valores elevados de carboxi-hemoglobina (HbCO > 3%) e meta-hemoglobina (HbMet > 5%) podem invalidar as medidas de saturação pela oximetria (SpO2). A SatO2 na gasometria arterial é estimada a partir da paO2 e do pH, assumindo uma reação normal entre O2 e hemoglobina. Entretanto, se esta está ocupada pelo monóxido de carbono, por exemplo, a paO2 está pouco alterada e a SatO2 é grosseiramente superestimada pela gasometria convencional. Nesse caso, somente a medida direta da SatO2 por espectrofotometria (co-oxímetro) revelará o distúrbio, já que a oximetria de pulso não difere HbO2 de HbCO. Uma situação semelhante acontece na HbMet, em que o oxímetro tende a ler valores fixos de SpO2 de, aproximadamente, 85%. A estimativa do shunt pode ser realizada pela respiração de O2 a 100% por 10 a 15 minutos. Esse procedimento elimina todo o N2 alveolar, tornando sabida a pressão alveolar de O2: Deve-se lembrar, entretanto, que essa equação simplificada só é válida quando a hemoglobina está quase totalmente saturada (paO2 > 150 mmHg). Como áreas de shunt, por definição, não têm acesso a esse O2 alveolar aumentado (mas às áreas de baixo V/Q), o valor esperado de paO2, para dada paO2, diminui proporcionalmente à magnitude do shunt (5% de shunt para cada 100 mmHg de redução da paO2 < 700 mmHg). Logo, podemos diferenciar shunt de efeito shunt. Como diferenciar os distúrbios ventilatórios pela espirometria? O distúrbio ventilatório obstrutivo é definido pelo índice de Ti�eneau < 0,7. A prova broncodilatadora, apesar de não ser 100% fidedigna, ajuda na diferenciação entre asma e DPOC, que são as principais patologias associadas. Ao exame, a asma geralmente apresenta prova broncodilatadora positiva, e DPOC, geralmente prova broncodilatadora negativa. A radiografia de tórax necessita de contexto clínico para sua avaliação? 3.1 INTRODUÇÃO A radiografia de tórax é, ainda hoje, o principal método de imagem utilizado na Pneumologia, pelo baixo custo e pela grande disponibilidade. Tem limitações quando comparada a métodos como a tomografia computadorizada, mas, em número considerável de casos, pode-se prescindir de exames mais sofisticados com a interpretação adequada desse exame. Com isso, um dado muito importante de termos em mente é que, na grande maioria das situações clínicas em que devemos solicitar exame de imagem do tórax, o exame de primeira escolha é a radiografia de tórax. Entretanto, como um método simples e bastante disponível, por vezes é utilizado de forma inadequada. O American College of Radiology enumera indicações e situações em que a radiografia de tórax é desnecessária. Listadas a seguir, estão indicações para realização de radiografia de tórax: a) Sintomas ou sinais relativos ao sistema cardiopulmonar; b) Seguimento de doença torácica; c) Estadiamento de neoplasias intra ou extratorácicas; d) Avaliação pré-operatória de qualquer cirurgia torácica; e) Avaliação pré-operatória de pacientes com sintomas cardiopulmonares; f) Acompanhamento de dispositivos implantados – tubo orotraqueal, dreno de tórax, cateter venoso central etc. Listadas a seguir, estão situações em que a radiografia de tórax é desnecessária: a) Rastreamento populacional de doenças torácicas; b) Exame de rotina para a admissão hospitalar; c) Exame admissional – a depender da exposição ocupacional; d) Rotina pré-natal a pacientes sem estigmas de doença torácica; e) Repetição de exame durante internação prolongada, sem novos sinais ou sintomas. 3.2 AS IMAGENS E INCIDÊNCIAS RADIOGRÁFICAS As imagens radiográficas se apresentam conforme a atenuação do feixe de raio X em cada uma das estruturas. Com isso, temos: ar ou gás – imagem escura; gordura – imagem cinza-escura; partes moles – imagem acinzentada; osso ou cálcio – imagem branca. Esta correlação facilita e muita no momento da interpretação. As incidências radiográficas referem-se à postura do paciente com relação à ampola de raios X: na anteroposterior (AP), fica de frente para ela, com o dorso voltado ao filme; no perfil, um dos hemitórax – habitualmente o esquerdo – é voltado à fonte de raios X, e o lado oposto direcionado ao filme (Figura 3.1). As incidências radiográficas mais utilizadas no estudo das doenças torácicas são posteroanterior (PA) e perfil (Figuras 3.1, 3.2 e 3.3). A análise das 2 incidências em conjunto permite a visualização completa detodos os segmentos pulmonares, permitindo uma avaliação tridimensional. A incidência PA tem preferência em relação à AP, pelo fato de o coração e os vasos da base terem posição mais anterior: quanto mais próximos da fonte de raios X – como na projeção AP –, maior a sua sombra no filme, bem como a sua deformação, ocultando parte do parênquima pulmonar e gerando a falsa impressão de aumento do índice cardiotorácico, limitando a análise. Figura 3.1 - Incidências radiográficas Legenda: (A) posteroanterior; (B) perfil; (C) apicolordótica; (D) anteroposterior; (E) decúbito lateral com raios horizontais – Laurell. Convém lembrar que a incidência anteroposterior é aquela em que há maior magnificação da área cardíaca, pela incidência direta dos raios. Figura 3.2 - Radiografia em posteroanterior Legenda: (T) traqueia; (C) clavícula; (E) escápula; (Diaf) diafragma; (Est) estômago – bolha gástrica; (AD) átrio direito; (AE) átrio esquerdo; (VE) ventrículo esquerdo; (Hd) hilo direito; (He) hilo esquerdo; (Ao) aorta; (APu) artéria pulmonar; (Pf) pequena fissura. Figura 3.3 - Radiografia em perfil normal Legenda: (Ao) aorta; (Pf) pequena fissura; (Cor) coração; (Gf) grande fissura; (Dd) diafragma direito; (De) diafragma esquerdo – observar o sinal “do dégradé” da coluna torácica, opaca superiormente e transparente inferiormente. A projeção em perfil é interessante para verificar se uma imagem duvidosa observada na radiografia frontal está realmente presente e em qual localidade ela se encontra, anterior ou posterior. Regiões muitas vezes ocultas na radiografia em PA, como a retrocardíaca e regiões posteriores a cúpulas diafragmáticas são bem observadas por esta incidência. A projeção AP tem aplicação especial a pacientes restritos ao leito e é largamente utilizada em UTI. Sua maior utilidade está na localização de drenos, tubos e outros dispositivos (Figura 3.4). Figura 3.4 - Radiografia de tórax em anteroposterior de paciente em UTI Legenda: (T) tubo orotraqueal; (S) sonda enteral; (E) eletrodo de monitorização. Outras incidências não raramente utilizadas são decúbito lateral com raios horizontais (Laurell), quando o paciente se deita sobre o hemitórax que se deseja estudar, adotando posição paralela ao filme (Figura 3.5). Esta é interessante para o estudo de pacientes com derrame pleural. Apicolordótica – ampola de raios X é inclinada 15° em direção à cabeça do paciente, na intenção de retirar a clavícula do campo torácico, facilitando a visualização dos segmentos superiores dos lobos superiores. Esta é interessante para avaliação de suspeita de tumor de Pancoust – tumor localizado nos ápices. Existem outras incidências, como as oblíquas e a penetrada do mediastino, com utilização bem restrita na prática. Figura 3.5 - Radiografia em decúbito lateral esquerdo com raios horizontais, evidenciando pequeno derrame pleural à esquerda 3.3 INTERPRETAÇÃO A interpretação adequada da radiografia de tórax requer o conhecimento de um exame normal. Antes de qualquer análise detalhada, é fundamental avaliar a qualidade da imagem realizada. São características de uma radiografia bem realizada: 1. Inspiração adequada: a) O sexto ou o sétimo arcos costais anteriores têm contato com o hemidiafragma, ou o nono ou o décimo arcos posteriores; b) Idosos, pacientes em vigência de dor e inconscientes frequentemente não inspiram adequadamente. Esta pode gerar aumento falso do diâmetro cardíaco e também pode levar a aproximação dos vasos da base simulando atelectasia nas bases. 2. Boa penetração: a) Nas radiografias convencionais, o examinador deve identificar de 3 a 4 vértebras torácicas. Quanto menor o número de vértebras visualizadas, menor a penetração; quanto maior, maior a penetração do exame; b) Na radiografia digital, a penetração adequada permite identificar a trama vascular por meio da sombra cardíaca. 3. Simetria: a) A análise da radiografia é comparativa, assim é importante que os 2 hemitórax tenham posição simétrica: as extremidades mediais das clavículas devem estar equidistantes em relação à apófise espinhosa vertebral. Além disso, as partes moles extratorácicas devem ser visualizadas com o mesmo contraste bilateralmente; b) A presença de rotação gera projeção de várias estruturas para o lado onde está rodado. Com isso, pode levar a falsa imagem de massa mediastinal ou falso aumento do arco aórtico. 4. Análise de todos os campos: a) Todas as estruturas torácicas são visíveis ao filme, dos ápices aos seios costofrênicos. 5. Ausência de artefatos; a) Na radiografia em PA, as escápulas devem ser retiradas do campo, o que é obtido com o paciente colocando as mãos na cintura. Joias, fios de monitorização e eletrodos devem ser deslocados para fora do campo torácico. A seguir, estão detalhes anatômicos importantes para radiografia de tórax: a) O hilo esquerdo é mais alto do que o direito, já que a artéria pulmonar esquerda cavalga sobre o brônquio principal esquerdo; b) O hemidiafragma esquerdo é até 2,5 cm mais baixo que o direito, devido ao peso do coração; c) O arco da artéria pulmonar é habitualmente côncavo: retificação ou convexidade são sinais indiretos de hipertensão pulmonar – em indivíduos jovens, entretanto, pode não representar um achado patológico; d) O índice cardiotorácico é o quociente da maior largura da sombra do coração pela largura do hemitórax: quando > 1, representa aumento da área cardíaca, que pode ocorrer nas cardiomegalias e no derrame pericárdico, por exemplo; e) Na radiografia em perfil, o hemidiafragma esquerdo é interrompido pela sombra do coração; o direito percorre todo o comprimento lateral do tórax; f) Na radiografia em perfil, a coluna torácica é mais opaca superiormente, tornando-se mais transparente inferiormente – o sinal “do dégradé” da coluna torácica. A persistência de transparência opaca em regiões inferiores indica lesão no segmento posterior do lobo inferior de um dos pulmões. Não há regra na interpretação da radiografia de tórax. O ideal é que cada médico adote a própria rotina de visualização de forma sistematizada e organizada, avaliando todas as estruturas torácicas, incluindo o parênquima pulmonar, o mediastino, as partes moles torácicas e extratorácicas e o arcabouço ósseo. Toda radiografia de tórax deve ser avaliada dentro de um contexto clínico. 3.4 SINAIS RADIOGRÁFICOS 3.4.1 Hiperinsuflação Sua principal característica é a redução das impressões vasculares pelo parênquima pulmonar, principalmente quando se prolongam para as regiões mais periféricas. O enfisema pulmonar é a principal causa na prática médica. Outros parâmetros úteis na detecção da hiperinsuflação são aumento dos espaços intercostais com retificação das costelas, retificação das cúpulas diafragmáticas – cúpula onde o ponto mais alto seja inferior a 1,5 cm de uma linha ligando os ângulos costofrênicos e cardiofrênicos –, alteração na área cardíaca – coração em gota (pequeno, verticalizado e situado centralmente) –, aumento do diâmetro anteroposterior do tórax e aumento do espaço retroesternal (Figura 3.6). Figura 3.6 - Radiografias de tórax Legenda: (A) em posteroanterior e (B) em perfil, evidenciando sinais de hiperinsuflação. Outros achados comuns na radiografia de tórax no paciente com enfisema, são: presença de bolha que nada mais é que uma estrutura de paredes finas preenchida com ar que mede mais que 1 cm; vasos hilares proeminentes, principalmente por haver menos sombra cardíaca sobreposta. Pacientes DPOC com bronquite crônica apresentam, além da hiperinsuflação, paredes brônquicas espessadas. Um dado importante, é que em pacientes com DPOC leve podemos ter radiografia normal, não necessitando obrigatoriamente da presença dos achados de hiperinsuflação. Interessante ressaltar que nas exacerbações agudas da DPOC solicita-se radiografia de tórax apenas na presença de piora clínica inesperada ou na presença de achados clínicos não compatíveis que possam indicar outros diagnósticos diferenciais. 3.4.2 Sinal “da silhueta” Em uma radiografia normal, as bordasbem definidas do coração e as cúpulas do diafragma são visualizados porque a borda adjacente do pulmão promove interface perfeita. Quando ocorre a perda desta interface estaremos diante de borramento da imagem nestas estruturas. Com isso, o sinal da silhueta corresponde ao borramento da borda do coração, de vasos mediastinais ou do diafragma por uma opacidade adjacente (Quadro 3.1). Sua presença auxilia na localização da lesão, se anterior ou posterior (Figura 3.7). A principal causa associada ao sinal da silhueta é a presença de pneumonia, mas qualquer lesão com densidade de água em contato com o mediastino ou diafragma pode levar a presença desta, como atelectasia lobar, tumor pulmonar, massa mediastinal e outros. Quadro 3.1 - Sinal “da silhueta” Figura 3.7 - Sinal “da silhueta” em radiografia em posteroanterior Legenda: (A) opacidade heterogênea com apagamento da borda cardíaca direita e preservação da sombra do diafragma, compatível com lesão no lobo médio; (B) radiografia em perfil que confirma a localização da lesão. 3.4.3 Broncograma aéreo O sinal do broncograma aéreo ou aerobroncograma corresponde à imagem hipertransparente tubular localizada dentro da área de hipotransparência e representa a passagem de ar por um brônquio segmentar com edema ao seu redor (Figura 3.8). O significado desse sinal é que a lesão se localiza no parênquima pulmonar, não no espaço pleural ou no mediastino. Não é útil para diferenciar atelectasias não obstrutivas, neoplasias e infecções. A principal causa de broncograma aéreo é a presença de pneumonia. Uma regra importante quando avaliamos pneumonia, é depois de um tempo estar certo de que o processo se resolveu. Se o paciente após o evento estiver estável clinicamente, devemos solicitar nova radiografia em apenas 6 semanas, pois a melhora clínica ocorre muito antes que a melhora radiológica. Isto se deve para não perdermos nenhum diagnóstico, pois podemos estar diante de carcinoma oculto principalmente em pacientes tabagistas. Caso em 6 semanas a imagem não estiver se resolvido radiologicamente, devemos evoluir nos exames de imagem, solicitando tomografia computadorizada de tórax. Figura 3.8 - Radiografia de tórax em posteroanterior mostrando opacidade heterogênea no pulmão esquerdo com broncograma aéreo: observar o desenho da segmentação brônquica 3.4.4 Sinal “do crescente” Trata-se de um achado clássico do aspergiloma. O sinal refere-se a uma imagem habitualmente arredondada, obliterando quase completamente uma cavitação (Figura 3.9). A imagem pode modificar sua conformação, de acordo com o decúbito adotado pelo paciente. Figura 3.9 - Sinal “do crescente” em radiografia de tórax: cavitação com limites precisos preenchida por imagem opaca em seu interior 3.4.5 Sinal de Hampton A corcova de Hampton e o sinal de Westermark são achados clássicos da embolia pulmonar. Também conhecido como corcova de Hampton, o sinal de Hampton compreende uma imagem triangular periférica, com a base voltada para as costelas e o ápice para o hilo. É um achado clássico da embolia pulmonar, mas visto em menos de 15% dos casos – representa infarto pulmonar ou pequena área de hemorragia (Figura 3.10). Já que estamos falando sobre embolia pulmonar, é interessante ressaltar alguns pontos. Primeiro, os sinais descritos como clássicos – sinal de Hampton, sinal de Westermark, sinal de Pallas e outros – são supervalorizados, dado que são raramente vistos na prática. Depois, para análise radiográfica, o importante é dividirmos a embolia pulmonar naquelas com infarto pulmonar e naquelas sem infarto pulmonar. Nas com infarto pulmonar, esta é invariavelmente anormal, podendo demonstrar uma série de achados inespecíficos, como atelectasias laminares, derrames pleurais pequenos ou até volumosos e áreas de consolidação, devido a hemorragia e edema local, além do comentado acima sinal de Hampton. Nas embolias pulmonares sem infarto pulmonar, que representam em torno de 90% dos casos, a radiografia de tórax pode estar normal. Então, daí uma lição: radiografia normal não exclui embolia pulmonar e devemos, na suspeita clínica, seguir investigação independentemente da radiografia de tórax. Os achados da embolia pulmonar sem infarto pulmonar, quando presentes, são áreas de atelectasias laminares, ligeira elevação de hemicúpula diafragmática, abaulamento do tronco da artéria pulmonar demonstrado a seguir e hipertransparência unilateral (sinal de Westermark) que discutiremos a seguir. Figura 3.10 - Radiografia de tórax em posteroanterior mostrando imagem triangular periférica, com a base voltada para a parede torácica e o ápice para o hilo; sinal de Hampton: observar a proeminência dos hilos pulmonares 3.4.6 Sinal de Westermark O sinal de Westermark representa uma área de hipovascularização segmentar no parênquima pulmonar, também denominada oligoemia focal (Figura 3.11). É resultado de obstrução vascular em uma área específica do parênquima, sendo achado clássico da embolia pulmonar. Outro sinal que sugere embolia pulmonar sem infarto pulmonar é a dilatação dos ramos principais das artérias pulmonares, denotando algum grau de hipertensão pulmonar, conhecido por sinal de Fleischner ou de Palla. Figura 3.11 - Radiografia de tórax em posteroanterior evidenciando oligoemia focal: tênue redução de vascularização regional no terço inferior do pulmão esquerdo Figura 3.12 - Radiografia de tórax em posteroanterior evidenciando o sinal de Fleischner: dilatação do ramo da artéria pulmonar do pulmão direito 3.4.7 Centro da lesão A determinação virtual do centro da lesão é útil para estabelecer a localização de massas, como as parenquimatosas ou mediastinais. Diante de uma imagem com o centro projetado sobre o parênquima, a maior possibilidade é doença no pulmão. Sobre o mediastino, é mais provável lesão desse compartimento (Figura 3.13). Figura 3.13 - Opacidade em conformação de massa projetada sobre o terço superior do pulmão esquerdo, com o centro virtual (ponto) projetado no parênquima pulmonar, indicando ser a imagem localizada no pulmão, e não no mediastino, o que sugere neoplasia 3.5 PADRÕES DE IMAGEM 3.5.1 Hipertransparências 3.5.1.1 Pneumotórax Independentemente da etiologia, o pneumotórax apresenta-se à radiografia de tórax como uma hipertransparência associada a ausência de marcações vasculares e a uma linha da pleura visceral bem visível é observada paralelamente a parede torácica (Figura 3.14). Pequenos pneumotórax podem ser de difícil visualização à radiografia, podendo-se lançar mão da radiografia em expiração, que amplifica a hipertransparência da lesão, tornando-a mais visível. Nos grandes, o parênquima pulmonar aparece totalmente atelectasiado, retraído em volta do hilo. Quando estivermos diante de pneumotórax hipertensivo além dos achados já descritos, observamos cúpula diafragmática rebaixada ou invertida e deslocamento do mediastino para o lado oposto. Devemos ressaltar que, no pneumotórax hipertensivo, não devemos aguardar a radiografia para realizar conduta de colocação de dreno torácico, pois muitas vezes não temos tempo e nem condição hemodinâmica para esta espera. Na suspeita clínica, trate. Figura 3.14 - Pneumotórax à esquerda em paciente com infiltrado parenquimatoso micronodular: observar a ausência de impressão vascular ou mesmo do infiltrado nodular na periferia do pulmão esquerdo, com linha de pleura visceral visível 3.5.1.2 Bolhas, cistos e cavitação Áreas de hipertransparências parenquimatosas bem circunscritas são ocasionadas por bolhas, cistos ou cavitação. O que distingue as lesões é a sua parede: ausente nas bolhas, fina nos cistos (< 0,4 cm) e espessa nas cavitações (> 0,4 cm). A radiografia de tórax não é o melhor método para determinar essa diferenciação – e sim a tomografia –, mas, na maioria dos casos, revela indícios suficientes para o diagnóstico diferencial (Figura 3.15). A cavitação pulmonar muitas vezes chama atenção para tuberculose pulmonar, mas diversas outras etiologias podem se apresentar como cavitação, comotumores cavitados, granulomatose com poliangiite, abscessos pulmonares, pneumonias cavitadas e outras. Figura 3.15 - Cavitação em segmento superior do lobo inferior direito: observar as paredes espessas, que a distinguem de bolhas ou cistos No diagnóstico diferencial das bolhas, devem ser lembradas a hérnia de Bochdalek, a mais comum, posterior e habitualmente à esquerda; a de Morgagni, anterior e mais comumente à direita; e a hiatal, algumas vezes de fácil identificação pela presença de haustrações intestinais ou nível líquido, mas, em outras, necessitando de métodos adicionais, como exame baritado. 3.5.2 Hipotransparências 3.5.2.1 Atelectasia Atelectasia é sinônimo de colapso e deriva do grego – ateles, que significa incompleto e extasis, que significa expansão. Trata-se de uma imagem de opacidade de aspecto retrátil (Figura 3.16). O aspecto mais relevante na identificação de um segmento pulmonar atelectasiado é a retração que causa em estruturas adjacentes, pela redução volumétrica dos pulmões. São sinais úteis na identificação de atelectasias o deslocamento dos hilos, o deslocamento das fissuras, a elevação de hemicúpula, a tração do mediastino e a redução de espaços intercostais. Para determinarmos a presença de atelectasia lobares, temos que rever as fissuras normais. As atelectasias lobares são geralmente obstrutivas, seja por secreção ou tumor. Cada lobo tem características específicas. Vamos lá: 1. Lobo inferior direito: hilo direito desce, fissura oblíqua vista principalmente no perfil desloca-se posterior e medialmente, apagamento da porção medial da cúpula direita e apagamento das bordas laterais das vértebras; 2. Lobo inferior esquerdo: hilo esquerdo desce, fissura oblíqua vista principalmente no perfil desloca-se posterior e medialmente, apagamento da porção medial da cúpula direita e apagamento da linha paraespinal e para-aórtica; 3. Lobo médio: fissura horizontal move-se inferiormente, borramento da margem cardíaca direita e opacidade referente ao lobo atelectasiado; 4. Lobo superior direito: fissura horizontal desloca-se para cima, hilo direito se eleva e o pulmão atelectasiado fica denso; 5. Lobo superior esquerdo: opacidade em véu cobrindo hemitórax esquerdo, apagamento da silhueta cardíaca esquerda, hilo esquerdo elevado. A atelectasia total do hemitórax é constatada quando estivermos diante de hemitórax opaco (Figura 3.16). Os diagnósticos diferenciais são: extenso derrame pleural, pneumectomia prévia, pneumonia extensa, extensa infiltração tumoral e ausência congênita de um pulmão. Neste contexto, diferenciando derrame pleural extenso com atelectasia total temos: desvio contralateral das estruturas mediastinais fala a favor de derrame pleural, enquanto desvio ipsilateral das estruturas mediastinais fala a favor de atelectasia. Figura 3.16 - Atelectasia total do pulmão direito: observar a tração de estruturas mediastinais para o mesmo lado da opacidade 3.5.2.2 Derrame pleural A radiografia de tórax não é muito sensível na identificação de derrames pleurais: a radiografia em PA somente revela derrame quando em volume > 300 mL; o perfil, > 75 a 100 mL. Quando o derrame é livre, com o paciente em posição ortostática, o líquido acumula-se inferiormente, respeitando a gravidade e assumindo conformação “em parábola” – curva de Damoiseau. A radiografia em decúbito lateral com raios horizontais mobiliza o líquido livre e é capaz de demonstrar sua significância clínica, quando a espessura for maior do que 1 cm, medida da caixa torácica à linha de pleura visceral (Figura 3.17). Figura 3.17 - Radiografia de tórax em posteroanterior, mostrando opacidade homogênea periférica em conformação “em parábola”; à radiografia em decúbito lateral direito, observa- se mobilização de líquido pleural, separando a parede torácica da pleura visceral Derrames septados apresentam localização fixa e são vistos à radiografia como opacidade periférica, com ângulo obtuso com a superfície costal (Figura 3.18). Figura 3.18 - Opacidade homogênea periférica, com ângulo obtuso com caixa torácica, configurando imagem pleural; a ultrassonografia confirma a presença de derrame pleural loculado Pela radiografia em PA, podem-se classificar os derrames como: pequeno, obliteração de seio costofrênico; moderado, além do seio costofrênico e até o hilo; grande, além do hilo; e maciço, velamento do hemitórax (Figura 3.19). Figura 3.19 - Opacidade homogênea no hemitórax direito, desviando estruturas mediastinais para o lado contrário: derrame pleural maciço Por vezes, o derrame pode assumir conformação subpulmonar, localizando-se entre o lobo inferior e o hemidiafragma (Figura 3.20). A suspeita surge ao identificar aparente elevação da hemicúpula, com desvio da sua maior convexidade lateralmente – habitualmente, a maior convexidade de uma hemicúpula é mais medial. O diagnóstico pode ser confirmado com a solicitação do exame em decúbito lateral. Figura 3.20 - Aparente elevação da hemicúpula direita, com maior convexidade voltada para a periferia: estigma de derrame subpulmonar O derrame também pode ocorrer restrito às fissuras. O achado clássico é líquido na pequena cissura, que confere a aparência de massa na radiografia em PA, recebendo a denominação de tumor fantasma. No perfil, tem aspecto fusiforme, em continuidade com a linha da cissura (Figura 3.21). Exames adicionais, como tomografia, são úteis no diagnóstico diferencial, mas, por vezes, o simples controle da insuficiência cardíaca – etiologia principal – é suficiente para a resolução da lesão. Figura 3.21 - Derrame na pequena cissura: tumor fantasma A atelectasia pulmonar gera tração das estruturas em sentido ipsilateral à lesão, enquanto o derrame pleural “empurra” as estruturas no sentido contralateral à lesão. 3.5.2.3 Infiltrados São opacidades parenquimatosas de limites imprecisos, habitualmente heterogêneas, sem caráter retrátil ou expansivo, e que, na maioria das vezes, se relacionam a doenças inflamatórias ou infecciosas – pneumonia é a causa mais comum. Podem ser alveolares ou intersticiais. Os infiltrados alveolares podem ser heterogêneos – vistos na broncopneumonia, hemorragia alveolar etc. – ou homogêneos – observados na pneumonia lobar, por exemplo – e refletem preenchimento dos espaços alveolares com material anormal, como sangue, pus, água, proteína ou restos celulares. As opacidades habituais observadas são opacidades algodonosas, mal definidas, que podem coalescer e são geralmente segmentares ou lobares. Broncograma aéreo também pode estar presente. As principais etiologias associadas a este padrão são pneumonia lobar, hemorragia alveolar, linfoma, carcinoma bronquioloalveolar, pneumonia por aspiração, edema pulmonar, SARA e síndrome da membrana hialina em crianças. Os infiltrados intersticiais podem ser divididos em: reticulares – imagens lineares tênues e irregulares (Figuras 3.22 e 3.23) –; nodulares – pequenas lesões arredondadas, de 1 a 10 mm (Figura 3.24); e reticulonodulares. O aspecto radiográfico, no entanto, não permite determinar a etiologia (Quadro 3.2). As opacidades intersticiais observadas são pequenos nódulos com contornos lineares ou reticulares com linhas septais, que podem, como dissemos, ser reticulonodulares. Nas lesões difusas, volume pulmonar reduzido é observado, e em doenças em estágio terminal, principalmente fibrose pulmonar idiopática, são observados padrão “em favo de mel”. Figura 3.22 - Radiografia de tórax em posteroanterior, mostrando redução volumétrica de ambos os pulmões, com infiltrado intersticial reticular difuso e predomínio na periferia: diagnóstico de fibrose pulmonar idiopática Figura 3.23 - Infiltrado intersticial reticular peri-hilar em paciente com edema agudo pulmonar cardiogênico Figura 3.24 - Infiltrado intersticial micronodular difuso em paciente com diagnóstico de silicose Na presença de infiltrados reticulares, podem ser identificadas as linhas de Kerley, que traduzem o espessamento dos septos interlobulares, com edema perivascular e peribrônquicogeralmente associados. Sua causa principal é o edema pulmonar. Identificam-se 3 padrões clássicos: as linhas A, encontradas nos lobos superiores – menos características de edema cardiogênico e mais encontradas nas doenças pulmonares fibrosantes e na linfangite carcinomatosa; as linhas B, visíveis próximas ao seio costofrênico – por sua localização nas bases, são mais características de edema cardiogênico; as linhas C, dispersas nas bases, com trajeto oblíquo, menos encontradas (Figura 3.25). Figura 3.25 - Cortes de radiografia evidenciando linhas de Kerley em paciente com edema pulmonar cardiogênico Quadro 3.2 - Etiologias de infiltrados intersticiais 3.5.2.4 Massas e nódulos São opacidades homogêneas, únicas ou múltiplas, por vezes de conformação arredondada, que diferem pelo tamanho: lesões < 3 cm são nódulos; as maiores, massas. Estas têm como etiologia principal, as neoplasias. Os nódulos têm diagnóstico diferencial amplo, e o objetivo de sua análise é determinar a sua natureza: benigna ou maligna. Nódulo pulmonar solitário é definido como lesão < 3 cm, totalmente circundada por parênquima (Figura 3.26). A grande maioria dos nódulos pulmonares solitários são de natureza benigna e o mais comum é estarem associados a granulomas benignos, inclusive, são achados muito comuns na prática clínica. A história clínica é muito importante na análise de um nódulo pulmonar solitário, dado que pacientes tabagistas e com histórico prévio de neoplasia devem ser avaliados com cautela, enquanto pacientes jovens e sem comorbidades prévias apresentam grande probabilidade de benignidade. Uma causa de nódulo pulmonar solitário é o hamartoma, que se apresentam com calcificação “em pipoca”, apresentam margens nítidas, bem definidas e, em sua maioria, localizados em região periférica. Figura 3.26 - Radiografias de tórax de paciente com pneumonia bacteriana, sendo evidenciado nódulo pulmonar bem circunscrito no pulmão esquerdo; estudo tomográfico mostrou padrão de calcificação excêntrico, sendo indicada ressecção: provável adenocarcinoma O nódulo pulmonar solitário apresenta lesão < 3 cm, totalmente circundada por parênquima pulmonar. Além dos dados clínicos, extremamente relevantes, alguns aspectos radiológicos sugerem etiologia maligna: bordas espiculadas, tamanho > 2 cm, e presença de 2 ou mais nódulos. Além disso, o padrão de calcificação – mais bem identificado pela tomografia – pode auxiliar no diagnóstico diferencial. A tomografia de tórax é geralmente indicada para complementar a avaliação da radiografia de tórax quando a lesão aumenta de tamanho nos últimos dois anos ou apresenta características clássicas de malignidade ou características indeterminadas, como presença de cavitação. Deve-se pensar em etiologia maligna quando o nódulo tem bordas espiculadas, tamanho > 2 cm, presença de 2 ou mais nódulos e padrão de calcificação excêntricas, reticulares ou puntiformes. Toda massa pulmonar com lesão > 3 cm é altamente suspeita para etiologia neoplásica maligna. 3.5.3 Hilos pulmonares São estruturas opacas formadas por vasos sanguíneos, linfáticos, linfonodos e brônquios segmentares. A maior parte da imagem projetada pelos hilos deve-se às artérias pulmonares, assim, hilos exuberantes representam congestão vascular ou hipertensão pulmonar em boa parte dos casos. Os diagnósticos diferenciais principais são adenomegalia hilar (Figura 3.27) e massa tumoral. Figura 3.27 - Proeminência de hilos por adenomegalia em paciente com diagnóstico de sarcoidose 3.5.4 Mediastino Tem sua análise bem limitada pela radiografia de tórax. A radiografia em perfil é a que propicia melhor visualização das relações anatômicas das estruturas mediastinais, sendo importante o reconhecimento dos seus compartimentos e das possíveis lesões associadas (Quadro 3.3). Cerca de 60% das doenças mediastinais são relativas ao mediastino anterior, 25% ao posterior e 15% ao médio (Figura 3.28). Quadro 3.3 - Mediastino na radiografia de tórax Figura 3.28 - Compartimentos mediastinais Legenda: (A) mediastino anterior; (B) mediastino médio; (C) mediastino posterior. A radiografia de tórax necessita de contexto clínico para sua avaliação? Toda radiografia de tórax deve ser interpretada mediante contexto clínico. Isto facilitará o raciocínio em relação aos possíveis diagnósticos diferenciais e, ao final, levar à conclusão precisa do caso. Devemos manter o tratamento de paciente asmático em uso regular de salbutamol + prednisona? 4.1 INTRODUÇÃO E DEFINIÇÕES A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas com componentes genético e ambiental em sua patogênese. Existem alguns genes que predispõem à hiper-responsividade das vias aéreas, e outros que predispõem à atopia. Entre os fatores ambientais, estão alérgenos, infecções, exposição ocupacional, exposições intradomiciliares, tabagismo, poluição e dieta. Sua principal característica fisiológica baseia-se na demonstração de limitação variável ao fluxo de ar nos exames de função pulmonar, manifestando-se clinicamente por sintomas, como dispneia, tosse, sibilância e opressão torácica, que podem ser reversíveis espontaneamente ou com o uso de medicamentos. A asma é uma doença inflamatória de vias aéreas, com isso, a primeira opção terapêutica a ser instituída é o corticoide inalatório. Estima-se que cerca de 300 milhões de indivíduos sejam acometidos por asma em todo o mundo. No Brasil, esse número deve situar-se em torno de 20 milhões, o que torna a doença uma das principais causas de morbidade crônica e mortalidade. A doença, apesar de muito prevalente, tem sofrido decréscimo nos últimos anos. Segundo dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), em 2017, foram cerca de 90 mil internações por asma, sendo observada uma taxa de mortalidade de, aproximadamente, 0,52:100.000 habitantes no mesmo ano. A doença afeta pessoas de todas as raças e idades, com maior prevalência no sexo masculino antes da puberdade e no sexo feminino na idade adulta. Os corticoides inalatórios foram os responsáveis por inúmeros avanços no controle da asma. No entanto, observamos claramente que o impacto epidemiológico foi tardio: os corticoides já têm sido indicados há mais de 30 anos, contudo, o custo elevado e a necessidade de uso prolongado impediam o controle adequado da doença. De fato, somente nos últimos anos uma série de medidas facilitou o acesso a esses fármacos, resultando em melhora dos indicadores de saúde. Convém lembrar que a asma deve apresentar hiper-reatividade das vias aéreas e limitação variável ao fluxo de ar. 4.2 MECANISMOS DE DOENÇA 4.2.1 Fisiopatogenia O desenvolvimento da asma é complexo e relaciona diversos mecanismos. Entre estes, provavelmente o mais importante é o relacionado à inflamação crônica das vias aéreas, com espessamento da mucosa, hipersecreção de muco e exposição de terminações nervosas, o que promove sensibilidade anormal a diversos estímulos – hiper-responsividade brônquica. A resposta imune associada à asma é responsável por seu quadro clínico. Assim, aeroalérgenos são processados nas vias aéreas por células apresentadoras de antígenos. A forma como esses aeroalérgenos são apresentados à célula T influencia o tipo de inflamação do paciente. Existem 2 padrões de resposta imune associada aos linfócitos T: o Th1 e o Th2, este último associado à asma. Hoje, prefere-se nomear a resposta Th1 predominante como Th2 low e a resposta Th2 predominante como Th2 high, principalmente quando se trata de asma. Todas as duas respostas desencadeiam, ao final, hiper-responsividade brônquica, produção mucoide e vasoconstricção de via aérea e hipertrofia. Este processo, quando presente, desencadeia sintomas, como redução do calibre de via aérea e, quando muito intenso, exacerbação da doença. Esse processo, quando não tratado adequadamente, pode levar a proliferação de fibroblastos e deposição de colágeno, levando a um processo conhecido como remodelamento brônquico. Esse processo gera irreversibilidade da limitação do fluxoaéreo. As alterações são consequência do espessamento das paredes das vias aéreas, aumento da vascularização e hiperplasia das células glandulares locais. O grau de remodelamento costuma guardar relação inversa com o nível de controle clínico da doença, porém já foi demonstrado que mesmo asmáticos leves intermitentes podem ter algum grau de remodelamento de vias aéreas. A resposta Th2 high é desencadeada principalmente por antígenos. A presença desta ativa célula Th2 e células linfoides inatas do grupo 2, através da linfopoetina estromal tímica (TSLP). Esta cascata implica na produção de citocinas, como IL-4, IL-5 e IL-13. A IL-4 ativa células B para produzir IgE específica que, por sua vez, ativa mastócitos. Estas, entre outras, produzem prostaglandinas. A IL-5 está intimamente relacionada a ativação de eosinófilos, enquanto que a IL-13 atua principalmente na musculatura lisa, induzindo hiper-responsividade e remodelamento brônquico. Estas geram hiper-responsividade brônquica, secreção mucoide e constrição de musculatura lisa. A resposta Th2 low é principalmente desencadeada por irritantes, poluentes e micro-organismos. Esta desencadeia produção de IL-33, IL-25 e IL-6 que ativam células Th-17 e células Th1. Tanto um quanto o outro ativam neutrófilos, levando a hiper-responsividade brônquica, secreção mucoide e constrição de musculatura lisa. A IL-33 e a IL-25 produzidas por irritantes, poluentes e micro- organismos também desencadeiam resposta Th2 high, sendo um elo de ligação entre a resposta Th2 high e Th2 low. Desta forma, todos os agentes desencadeantes ativam a resposta Th2 high, justificando ser esta a resposta preponderante. 4.2.2 Fatores desencadeadores São fatores desencadeadores mais comuns: a) Exposição a alérgenos e irritantes inalatórios domiciliares e ocupacionais; b) Mudanças climáticas e exposição ao tabagismo; c) Infecções do sistema respiratório; d) Fármacos – betabloqueadores, AAS e anti-inflamatórios não hormonais; e) Estresse emocional; f) Exercício físico. 4.3 DIAGNÓSTICO O diagnóstico de asma pode ser simples e com sinais clínicos sugestivos, como dispneia e sibilância, em um paciente atópico e com alívio espontâneo ou após o uso de broncodilatadores; ou mais difícil, como em pacientes com tosse crônica isolada. Ademais, a lista de diagnósticos diferenciais é extensa, com o diagnóstico definitivo com base em aspectos clínicos, funcionais e presença de alergia. Os principais diagnósticos diferenciais são: a) Anel vascular; b) Fístula traqueoesofágica; c) Apneia obstrutiva do sono; d) Aspergilose broncopulmonar alérgica; e) Bronquiectasias; f) Insuficiência cardíaca; g) Bronquiolites; h) Neoplasias – vias aéreas e pulmonares; i) Disfunção de pregas vocais; j) DPOC; k) Refluxo gastroesofágico; l) Síndrome de Loeffler; m) Embolia pulmonar; n) Fibrose cística; o) Pneumonite de hipersensibilidade; p) Obstrução mecânica das vias aéreas; q) Síndrome aspirativa pulmonar; r) Doença pulmonar crônica da prematuridade. 4.3.1 Diagnóstico de asma O diagnóstico da asma, como já mencionado, é baseado em dados clínicos e funcionais. Em seguida, observaremos as características clínicas e funcionais utilizadas para definir diagnóstico de asma (Quadro 4.1). 4.3.2 Características clínicas O diagnóstico clínico exige sintomas compatíveis, caracteristicamente episódicos e com algum grau de resposta ao tratamento-padrão. Na exclusão de outras causas para os sintomas, o diagnóstico clínico deve ser sugerido. Os sintomas caracterizam-se por história de variabilidade da presença dos 4 principais sintomas respiratórios: dispneia, tosse, desconforto torácico e sibilância. Pacientes com asma apresentam um ou mais destes sintomas. Os sintomas variam ao longo do tempo e variam em relação a sua intensidade. Os sintomas geralmente aparecem ou pioram a noite e após acordar. Os sintomas aparecem ou pioram na presença de infecção respiratória. Os sintomas são desencadeados principalmente por exercício, risada, alérgenos e temperaturas baixas no ambiente. A dispneia relatada pelos pacientes durante as crises é a de sensação de incapacidade de fazer com que o ar entre nas vias aéreas. A tosse também é um sintoma comum que acompanha o quadro, ocorrendo, em particular, à noite ou nas primeiras horas da manhã, com expectoração esbranquiçada. Eventualmente, pode aparecer isoladamente e dominar o quadro clínico por meses, caracterizando um quadro sindrômico de tosse crônica que deve ser investigado; devem ser incluídos nesta pesquisa outros diagnósticos diferenciais, como rinossinusite e doença do refluxo gastroesofágico. A presença de sintomas episódicos, melhora espontânea ou com medicações específicas para asma (broncodilatadores e corticosteroides), 3 ou mais episódios de sibilância no último ano, variabilidade sazonal dos sintomas e história familiar positiva para asma ou atopia é sugestiva do diagnóstico. Alguns estudos mostraram que 50 a 80% das crianças asmáticas desenvolvem sintomas antes do quinto ano de vida, sendo importante verificar história de antecedente pessoal ou familiar de asma. Eventualmente, percebe-se o motivo dos sintomas, como exposição a alérgenos (poeira domiciliar e mofo) e irritantes (produtos de limpeza), sintomas dispépticos ou rinossinusais, estresse emocional, medicamentos (betabloqueadores), sendo um dado importante na confecção do diagnóstico. Na história clínica, é importante investigar achados que indicam maior risco de evolução desfavorável ou crise asmática potencialmente mais grave, como antecedente de crise quase fatal ou idas frequentes a serviços de emergência. Ao exame físico, um achado relevante é a presença de sibilos principalmente à expiração forçada. Entretanto, em pacientes com manifestação leve da doença, e fora de exacerbações, o exame pode ser normal. Deformidades torácicas ou estigmas de hiperinsuflação não são habituais. A identificação da exposição a alérgenos relacionados com a asma é um dado importante da história clínica que deve ser pesquisada. A sensibilização alérgica pode ser confirmada por meio de provas in vivo – testes cutâneos – ou in vitro – determinação de concentração sanguínea de IgE específica. As primeiras devem ser realizadas com o uso de extratos biologicamente padronizados, a técnica mais utilizada é a puntura. Em nosso meio, predomina a sensibilização a antígenos inaláveis, entre os mais frequentes, os ácaros (Dermatophagoides pteronyssinus, Dermatophagoides farinae e Blomia tropicalis). Outros alérgenos inaláveis, como pólen, baratas, epitélio de gatos e cães também são importantes, mas sensibilizam um número menor de pessoas, ao passo que os alimentos raramente são associados. Poluentes ambientais ou ocupacionais podem estar associados à piora do controle da doença, e a IgE sérica específica confirma e complementa os resultados dos testes cutâneos. 4.3.3 Características funcionais 4.3.3.1 Espirometria Com o entendimento da fisiopatologia da doença fica fácil imaginar a repercussão funcional que pode ocorrer na asma. A inflamação das vias aéreas promove limitação ao fluxo de ar – em outras palavras, o estreitamento das vias aéreas gera redução da velocidade de passagem do ar –, gerando o chamado distúrbio obstrutivo à espirometria. De fato, a espirometria é considerada o método de escolha na avaliação da asma, apesar de poder se apresentar dentro da normalidade, na determinação da limitação do fluxo de ar e no estabelecimento do diagnóstico. Assim, o que se espera é a presença de distúrbio ventilatório obstrutivo (relação volume expiratório forçado no primeiro segundo-Capacidade Vital Forçada – VEF1-CVF (índice de Ti�enau) – < 0,7). A prova broncodilatadora deve ser realizada com objetivo de documentar a variabilidade dos parâmetros funcionais antes e após a administração de broncodilatador. Esta é característica da asma dado que a obstrução ao fluxo aéreo, como vimos, é reversível. A prova broncodilatadora é dada como positiva quando há aumento do VEF1 de 12% em relação ao valor previsto e de 200 mL,em valor absoluto ou aumento de 350 mL no valor absoluto de CVF, após a inalação de 4 jatos de 100 mcg de beta-2-agonista de curta duração (salbutamol spray). Devemos ressaltar que a presença de um ou outro critério define prova broncodilatadora positiva. No entanto, devemos ter atenção a um aspecto fundamental: a ausência de obstrução ou de resposta ao broncodilatador em teste isolado não exclui o diagnóstico, já que pacientes com doença muito leve, doença controlada, presença de exacerbação no momento da realização do exame ou aqueles com remodelamento brônquico podem não apresentar esses achados. A espirometria também pode ser utilizada no seguimento do indivíduo como um parâmetro diagnóstico. Por exemplo, se, em espirometrias consecutivas, após tratamento com corticoide inalatório por 4 semanas sem infecção respiratória no período houver aumento no VEF1 > 12% e que ultrapassa 200 mL, teremos um forte indicativo da doença. De fato, das doenças obstrutivas, ela é que tem como característica uma grande variabilidade de sintomas. O pico de fluxo expiratório tem grande importância na asma, dado que a média de variabilidade diária deste > 10% em adultos e 13% em crianças é uma característica funcional importante. Outros testes de função pulmonar, como medida de volumes pulmonares estáticos – capacidade pulmonar total, volume residual e relação capacidade pulmonar total-volume residual – podem estar elevados pela hiperinsuflação pulmonar em casos mais graves. A difusão ao CO pode estar normal ou levemente aumentada. Na prática, pouco se utiliza esses testes na avaliação do paciente asmático, dado a dificuldade de realização do exame disponível em poucos centros e também pela praticidade clínica, dado que seus resultados pouco influenciam no manejo da asma. Em casos de pacientes sintomáticos com espirometria normal e ausência de reversibilidade demonstrável ao uso de broncodilatador, ou com sintomas atípicos e isolados, como na avaliação da tosse crônica, o diagnóstico pode ser confirmado pela demonstração de hiper-responsividade das vias aéreas através de testes de broncoprovocação e teste de exercício. As medidas de hiper- responsividade refletem a sensibilidade ou a facilidade com que as vias aéreas reagem a desencadeantes variados causando sintomas. Com relação ao teste de broncoprovocação, o resultado do teste é, usualmente, expresso pela concentração da substância que produz queda de 20% no VEF1 (PC20); os asmáticos respondem a concentrações menores do que os não asmáticos. O teste de broncoprovocação pode ser realizado por meio de estímulos diretos, por exemplo, com agentes broncoconstritores (metacolina, histamina, carbacol), apresentando alta sensibilidade e alto valor preditivo negativo. Por ser um teste demorado, não isento de riscos, e pela dificuldade em obter a substância broncoconstritora, tem sido pouco utilizado na prática diária, quase restrito a protocolos de pesquisa clínica. O teste de exercício tem menos sensibilidade do que o de broncoprovocação, mas é mais fácil de ser realizado, imitando as condições associadas à manifestação dos sintomas respiratórios em muitos pacientes. Para isso, são feitas medidas de VEF1 antes e depois de exercício, demonstrando-se, após o esforço, queda significativa da função pulmonar (> 10 a 15%). Quadro 4.1 - Características clínicas e funcionais utilizadas para definir diagnóstico de asma O diagnóstico é feito com base em características clínicas e funcionais. 4.4 MANEJO DO PACIENTE AMBULATORIAL As principais metas do tratamento da asma são o controle das manifestações clínicas e funcionais atuais e a prevenção de danos futuros. Para atingir e manter o controle da asma, a abordagem do tratamento farmacológico deve ser feita em etapas (degraus) e levar em conta o tratamento atual, as propriedades farmacológicas e a disponibilidade dos tratamentos específicos, bem como as condições econômicas. 4.4.1 Controle da asma: estimativas clínica e funcional atuais Houve uma modificação significativa na forma de classificar o paciente asmático nos últimos anos. Essa mudança já vinha sendo sugerida por diretrizes nacionais e internacionais há algum tempo, mas foi implementada definitiva e internacionalmente pelo Global Initiative for Asthma (GINA) e, no Brasil, pelas Diretrizes para o Manejo da Asma (2012). Entendendo o problema: imagine que você receba um paciente asmático e o classifique como portador de asma persistente grave; o tratamento é iniciado, e, após 2 meses, o paciente retorna assintomático. Nesse momento, você aplica novamente a classificação proposta e tem como resultado: “Seria ele agora um asmático leve intermitente?” A resposta é não, é um asmático grave com controle da doença. A grande vantagem também é que conseguimos identificar o estado atual da doença e manejar com maior facilidade as medicações fazendo step up – aumentando dose ou número de medicações –, fazendo step down – reduzindo dose ou número de medicações – ou mantendo o tratamento sem modificar dose ou número de medicações. Antes de entendermos como classificar o controle da doença, devemos ao longo do tratamento sempre verificar se o paciente está utilizando de forma correta as medicações inalatórias, se está utilizando realmente as medicações e se a higiene ambiental tanto domiciliar quanto ocupacional está sendo respeitada. Ou seja, ter a presença de um ambiente limpo e sem a presença de alérgenos. A classificação se baseia em 4 critérios de avaliação clínica, definindo 3 níveis de controle, como demonstra o Quadro 4.2. O paciente pode se apresentar controlado, parcialmente controlado ou não controlado. Esta é uma análise pontual que pode variar a cada consulta, balizando e facilitando o tratamento. Quadro 4.2 - Níveis de controle de asma (GINA, 2019) 4.4.2 Fatores de risco para pior prognóstico Hoje é sempre importante definirmos a presença de fatores de pior prognóstico para tentarmos manejá-los. A importância do pior prognóstico se dá pelo fato de predizer a possibilidade de exacerbação futura. Exacerbação nada mais é do que a piora aguda da doença, podendo levar o indivíduo a idas à emergência, internação e evento fatal. Em pacientes com exacerbações frequentes, estes fatores de risco devem ser avaliados pelo menos 1 vez a cada ano, como asma não controlada, principal fator de risco para prever exacerbação. Além desta, são grandes fatores de risco de forma independente: história prévia de intubação e internação em unidade intensiva por asma; além da própria presença de ao menos 1 exacerbação nos últimos 12 meses. Outros fatores de risco também importantes e que, quando presentes mesmo em pacientes com asma controlada, conferem risco de pior prognóstico são subdivididos em 6 grupos demonstrados a seguir: a) Medicação: não uso de corticoide inalatório, baixa adesão, uso inadequado da medicação inalatória e uso frequente de medicação de resgate; b) Comorbidades: obesidade, rinossinusite crônica, doença de refluxo gastroesofágico, alergia alimentar confirmada, ansiedade, depressão e gestante; c) Presença de exposições: ambientes sem controle ambiental, além de exposição ao tabagismo mesmo que passivo; d) Problemas socioeconômicos; e) VEF1 < 60% e alto grau de reversibilidade na prova broncodilatadora; f) Presença de eosinófilo aumentado no escarro e/ou no sangue, além do teste de medida da fração exalado de óxido nítrico (FeNO) aumentada em pacientes em uso de corticoide inalatório. 4.4.3 Tratamento com base no controle da doença O tratamento do indivíduo asmático se divide em não medicamentoso e medicamentoso. O não medicamentoso se baseia em ações educacionais, entre elas: controle ambiental, evitar exposição a fatores de risco, explicação exaustiva sobre a necessidade do uso da medicação mesmo em pacientes sem sintomas quando indicado, forma correta de uso de medicamentos, automanejo de exacerbações. O cuidado apropriado pode ajudar o paciente a prevenir a maior parte das crises, ficar livre de sintomas problemáticos diurnos e noturnos e manter-sefisicamente ativo. O tratamento medicamentoso irá se basear no diagnóstico e controle da doença, respeitando algumas etapas bem estabelecidas, conhecidas como steps. Durante o seguimento clínico, as medicações devem ser ajustadas de acordo com o controle da doença, com reavaliações a cada 2 a 3 meses. O Quadro 4.3 define como deve ser realizado o manejo durante seguimento clínico a partir do controle da doença. Quadro 4.3 - Estratégia a partir da definição de controle durante seguimento clínico. Fonte: adaptado de IV Diretrizes Brasileiras para o Manejo da Asma, 2012. A partir da definição do controle da asma devemos seguir a estratégia demonstrada na Figura 4.1, retirada do GINA 2019, que atualiza o manejo da asma realizando algumas mudanças de relevância. A primeira delas é que não mais se recomenda iniciar tratamento em adultos e adolescentes apenas com broncodilatadora de curta duração. Estes devem receber medicação contendo corticoide inalatório, objetivando controlar sintomas e reduzir exacerbação grave. Com isso, para asma leve podemos utilizar formoterol – broncodilatador de longa duração – com corticoide inalatório como resgate ou corticoide inalatório baixa dose em esquema de resgate, mesmo em uso de broncodilatador de curta duração. Outra opção, seria já iniciar tratamento regular tanto com corticoide inalatório apenas ou em combinação com formoterol e broncodilatador de curta duração como resgate. Uma terceira opção ainda mais inovadora, é a utilização de corticoide inalatório com formoterol tanto como manutenção quanto como medicação de resgate em um mesmo paciente, sendo a dose de resgate menor. Esta mudança se baseou no fato de que foi observado que o uso apenas do broncodilatador de curta duração, apesar de produzir alívio rápido está associado a aumento do risco de exacerbação e parâmetros funcionais reduzidos. Por outro lado, o uso de corticoide inalatório, mesmo em baixa dose, tem uma série de benefícios, como: redução de exacerbação, mesmo em asma leve; redução de hospitalização e evento fatal; redução de sintomas e melhora da função pulmonar; melhor resposta da função pulmonar após evento de exacerbação. Além desta modificação, foram inseridos alguns novos imunobiológicos como opção para pacientes com asma grave, conforme mostrado na etapa 5 da Figura 4.1. Lembrando que asma grave representa apenas 3 a 5% dos indivíduos com asma. A terapia imunobiológica deve ser prescrita por especialista e após criteriosa avaliação fenotípica. Os principais fenótipos a serem identificados são o alérgico e o eosinofílico, pois para estes já existem imunobiológicos específicos. Para análise fenotípica deve-se utilizar história clínica e biomarcadores inespecíficos, como IgE sérica, eosinófilo no sangue e no escarro, além de prick test e, se possível, FeNO. Este último é um teste simples, porém de alto custo, que avalia principalmente resposta a corticoterapia inalatória, mas que também demonstra caso elevado de presença de inflamação em via aérea. O fenótipo alérgico geralmente é o indivíduo com asma desde a infância, com IgE elevada e presença de prick test positivo. Para este fenótipo, o imunobiológico mais indicado é o omalizumabe. O fenótipo eosinofílico apresenta eosinófilo no escarro e/ou no sangue elevados. Apesar de marcadores inespecíficos, estes pacientes parecem responder melhor a tratamento com medicamentos que atuam na interleucina-5. Uma terceira classe de imunobiológico – antirreceptor de IL-4 (dupilumabe) foi inserida no GINA, porém seu uso no Brasil ainda não foi autorizado. A limitação ainda existente na terapia imunobiológica, é que ela consegue bons resultados em pacientes Th2 high, seja com IgE ou eosinófilo alto; porém, em indivíduos Th2 low, como fenótipos neutrofílicos, não se tem ainda opção imunobiológica. Para estes tem sido proposto uso de macrolídeo (azitromicina) regular 3 vezes por semana para fins de efeito anti-inflamatório. Outros dados relevantes foram a retirada das xantinas como opção terapêutica e a reafirmação da possibilidade do uso de tiotrópio – anticolinérgico de longa duração – em pacientes em etapa 4 (Figura 4.1). Segue a Figura 4.1, demonstrando as etapas e as possibilidades de tratamento de cada etapa conforme GINA 2019. Figura 4.1 - Estratégia do GINA 2019 para manejo do paciente com asma Fonte: Estratégia Global para Tratamento e Prevenção de Asma (GINA), 2019. 4.4.4 Fármacos utilizados A via inalatória é muito utilizada e é a via principal para o tratamento da asma. Existem vários dispositivos disponíveis no mercado para a oferta dos fármacos, tanto para corticoides quanto para broncodilatadores, e que apresentam peculiaridades em seu uso. Desta forma, ensinar a usar e ter certeza de que o paciente está em uso de forma correta a medicação é fundamental. Temos que ter em mente que existem medicações de alívio/resgate e medicações de uso contínuo. Na primeira, as opções são: beta-2-agonista de curta duração, combinação de corticoide inalatório com formoterol e de forma menos efetiva ao anticolinérgico de curta duração. Na segunda, de acordo com a etapa que cada indivíduo se encontra temos: corticoide inalatório, beta-2-agonista de longa duração, anticolinérgico de longa duração, antileucotrieno, imunobiológicos. Antes de lembrarmos detalhes específicos acerca de cada um dos dispositivos inalatórios, o Quadro 4.4 demonstra alguns dispositivos inalatórios disponíveis e suas formas de uso. Interessante ressaltar que em crianças e idosos podemos lançar mão do uso de espaçadores que facilitam o manejo e uma maior certeza da precisão da administração. Quadro 4.4 - Principais dispositivos inalatórios e suas formas de uso Fonte das imagens: Terapêutica inalatória, 2016. Algumas formulações em nebulímetro dosimetrado não necessitam ser administradas à distância de alguns centímetros da boca e devem ser ofertadas como os dispositivos em pó seco, como a ciclesonida – corticoide inalatório. 4.4.4.1 Corticoide inalatório O corticoide inalatório é o ator principal no tratamento medicamentoso da asma, pois reduz a resposta inflamatória. Reduz ainda sintomatologia, risco de exacerbação – mesmo em pacientes com asma leve e os sem uso de corticoide inalatório quando exacerbam e pioram função pulmonar –, risco de hospitalização e evento fatal. O corticoide inalatório é tão importante, que hoje todo paciente com asma deve utilizá-lo independentemente da etapa e a não utilização/prescrição de corticoide inalatório é um dos fatores de pior prognóstico. Os principais corticoides inalatórios utilizados são, em ordem crescente de potência, os relacionados no Quadro 4.5. Quadro 4.5 - Doses comparativas dos corticoides inalatórios em adultos São efeitos colaterais (via inalatória) rouquidão e candidíase de orofaringe (locais); adelgaçamento da pele, equimose e, raramente, supressão adrenal (altas doses diárias). 4.4.4.2 Beta-2-adrenérgicos a) Curta duração ou SABA (Short-Acting Beta-2-Agonist), que agem por 4 a 6 horas: fenoterol, salbutamol e terbutalina; b) Longa duração ou LABA (Long-Acting Beta-2-Agonist), que agem por 12 horas, como formoterol ou salmeterol (LABA de longa), ou por 24 horas, como o vilanterol, olodaterol, ou o indacaterol (LABA ultralonga); c) Modo de ação: ação agonista, ligando-se ao receptor beta-2- adrenérgico, com aumento da produção de adenilciclase e, consequentemente, de AMP cíclico, promovendo a broncodilatação; d) Efeitos colaterais: taquicardia, tremores, hipocalemia e midríase – pela especificidade não ser total aos receptores beta-2. Quadro 4.6 - Principais beta-2-agonistas e vias de administração Os LABAs podem ser utilizados na asma em associação ao corticoide inalatório, geralmente em formulações fixas, para uso 1 ou 2 vezes ao dia. Não devem ser usados isoladamente no tratamento de manutenção. Um detalhe adicional interessante é que o formoterol tem início de ação rápido, como o salbutamol e o fenoterol, agindo em 5 minutos, a despeito de também apresentar ação de longa duração. Com isso, podeser utilizado para alívio das crises como medicação de resgate, além de poder ser utilizado de forma regular na terapia de manutenção. 4.4.4.3 Anticolinérgicos a) Curta duração, que agem por 4 a 6 horas: brometo de ipratrópio; b) Longa duração, que agem por 24 horas: tiotrópio – antes restrito para pacientes com DPOC, agora pode ser utilizado em pacientes com asma de controle clínico mais difícil, em associação a outros fármacos; outros agentes ainda não liberados para o uso em pacientes asmáticos são o glicopirrônio e o umeclidínio; c) Modo de ação: atuam, preferencialmente, no antagonismo aos receptores M1 e M3, impedindo a broncoconstrição desencadeada pela acetilcolina ao ligar-se a esses receptores; d) Efeitos colaterais: a xerostomia é o efeito colateral mais significativo e mais frequente. 4.4.4.4 Antileucotrienos Os antileucotrienos bloqueiam a síntese ou as interações com os receptores dos leucotrienos. Os agentes em uso clínico no Brasil são montelucaste e zafirlucaste – antagonistas dos receptores. Apresentam efeito broncodilatador modesto, lento e inferior ao obtido com os beta-2-agonistas, embora possam ser aditivos a estes. Esses medicamentos são anti-inflamatórios administrados por via oral, o que facilita a adesão ao tratamento. São indicados na monoterapia para o tratamento de controle de pacientes com asma persistente leve a moderada. Àqueles com asma grave, que requerem doses altas de corticosteroides inalatório e oral, podem ser prescritos como terapia adicional a fim de reduzir a dose do corticosteroide. Embora alguns casos de vasculite de Churg-Strauss tenham sido descritos com o emprego de antileucotrienos a pacientes que interromperam o uso de corticosteroides orais, não há muitas referências de outros efeitos adversos importantes. As situações em que são observados os melhores resultados são em crianças, asma induzida por ácido acetilsalicílico e asma induzida por exercício. 4.4.4.5 Agentes Imunobiológicos Existem 3 opções de classes terapêuticas atualmente, sendo que a classe do antirreceptor de IL-4 ainda não é autorizada para uso em nosso país. Temos por aqui então 2 opções: os anticorpos anti-IgE e os anticorpos anti-IL-5. O Quadro 4.7 sumariza os agentes disponíveis no mercado, suas indicações e precauções principais. O omalizumabe é um anticorpo monoclonal recombinante humanizado específico anti-IgE. Sua principal característica é inibir a ligação da IgE com o seu receptor de alta afinidade (FceRI), além de ocasionar inibição da broncoconstrição induzida por alérgeno tanto na fase precoce quanto na fase tardia da inflamação, levando à diminuição da hiper-responsividade das vias aéreas. O tratamento com a anti-IgE é subcutâneo e está indicado a pacientes maiores de 6 anos, com asma de difícil controle, com componente alérgico comprovado e com níveis de IgE sérica total entre 30 e 700 UI/mL. A dose empregada (a cada 2 ou 4 semanas por via subcutânea) deve considerar o peso e o nível de IgE sérica total. Quanto aos IL-5, são 3 opções: 2 de administração subcutânea, mepolizumabe e benralizumabe, e 1 via venosa, o reslizumabe. Este último não liberado ainda em nosso país. Todos podem ser considerados somente em pacientes com asma de fenótipo eosinofílico que tenham difícil controle com tratamento já otimizado pela associação de corticosteroides inalatórios em altas doses + LABA + outra classe de medicação, independentemente do nível sérico de IgE, mas sim baseado na contagem de eosinófilos no sangue periférico. Quadro 4.7 - Agentes biológicos utilizados no manejo da asma de difícil controle Nota: todos os pacientes deverão ser adequadamente avaliados para tratamento anti- helmíntico prévio ao uso de qualquer uma das medicações. Os pacientes devem ser mantidos em ambiente com monitorização e capacidade de atendimento de reações anafiláticas graves por 2 horas após o término da administração do medicamento. Os pacientes que recebem omalizumabe devem ser advertidos do risco de anafilaxia até 24 horas após o término da medicação. 4.4.4.6 Corticoides sistêmicos Hoje defende-se o uso apenas em exacerbações ou naqueles indivíduos com asma grave em etapa 5. Devemos evitar ao máximo o seu uso de forma crônica devido aos seus efeitos colaterais. O advento dos imunobiológicos é de grande valia para tentarmos poupar corticoterapia oral ao máximo. Entretanto, pacientes com fenótipo neutrofílico e outros fenótipos sem indicação de imunobiológico podem lançar mão do uso do corticoide oral, porém deve-se tentar fazer pelo menor tempo possível. 4.4.4.7 Macrolídeo Pacientes com fenótipo neutrofílico com asma grave podem se beneficiar de macrolídeo (azitromicina) 3 vezes por semana para efeito anti-inflamatório. São efeitos colaterais da corticoterapia sistêmica em longo prazo: a) Osteoporose; b) Obesidade; c) Infecções; d) Hipertensão; e) Supressão adrenal; f) Supressão do crescimento – crianças; g) Diabetes; h) Friabilidade da pele; i) Glaucoma; j) Catarata; k) Fraqueza muscular; l) Monilíase oral; m) Rouquidão 4.4.4.8 Outras terapias: imunoterapia específica com alérgenos Consiste na administração de doses progressivamente maiores de alérgenos específicos em pacientes sensibilizados, objetivando a indução do estado de tolerância. Tal modalidade terapêutica não pode ser realizada em pacientes com exacerbação aguda e nem em pacientes com asma grave, sendo reservado principalmente com asma moderada. Deve ser administrada por profissional treinado no manejo de reações anafiláticas graves e indicada apenas a asmáticos com evidência importante de alergia, demonstrada pela presença de anticorpos IgE para alérgenos do ambiente, principalmente ácaros, polens, fungos e insetos. Para pacientes em terapia farmacológica, antes de administrar a injeção, é importante verificar VEF1 ou PFE > 70% do previsto. Asmáticos leves ou muito graves devem ser excluídos. Indivíduos com boa resposta à profilaxia ambiental e ao tratamento farmacológico não apresentam indicação desse tipo de tratamento, contraindicado àqueles com outras doenças imunológicas ou que utilizem drogas betabloqueadoras. Quadro 4.8 - Tratamento da asma na prática 4.4.5 Situações especiais 4.4.5.1 Asma induzida por ácido acetilsalicílico A asma induzida por esse ácido é uma entidade que surge, em geral, entre a terceira e a quinta décadas de vida, em sujeitos que não apresentavam sensibilidade a anti-inflamatórios nem a ácido acetilsalicílico. Em geral, concomitantemente à crise, surgem fenômenos comuns às crises anafilactoides – angioedema, urticária, flushing facial, rinorreia, congestão ocular, sintomas gastrintestinais. Não é incomum a associação entre intolerância a ácido acetilsalicílico, sintomas asmatiformes e polipose rinossinusal, conhecida como tríade de Samter. No tratamento ambulatorial, deve-se evitar o uso desse ácido, anti- inflamatórios não hormonais e dipirona, pela possibilidade de reação cruzada. Devem-se usar, como analgésico, paracetamol ou, quando necessário, anti-inflamatórios não hormonais inibidores da ciclo-oxigenase-2. O tratamento deve ser feito de acordo com a gravidade do caso. O uso de antileucotrienos costuma ser benéfico. 4.4.5.2 Broncoespasmo induzido por exercício O exercício é um fator desencadeador de crises bem determinado pela literatura, as quais tipicamente ocorrem após o exercício, não durante. Os fatores que determinam o aparecimento de obstrução crônica incluem níveis de ventilação atingida, temperatura e umidade do ar inspirado. A broncoconstrição induzida pelo exercício acontece, na maioria das vezes, em portadores de asma – mais de 80% dos casos. Durante o exercício, em geral, acontece broncodilatação; porém, nesses pacientes, provavelmente devido à hiper-responsividade das vias aéreas, ocorre broncoconstrição. O exercício é o único precipitante natural da asma que leva à taquifilaxia. Cerca de 45% dos indivíduos com a condição apresentam um período refratário característico, durante o qual a manutenção do exercício não causa broncoespasmo. Quandose repete o exercício após intervalos de 30 a 90 minutos, verifica-se que a broncoconstrição diminui ou não acontece. 1. Diagnóstico: queda de 10% ou mais do VEF1 cerca de 10 a 15 minutos após o final do exercício; para crianças, queda de 15%; 2. Tratamento: o objetivo é a profilaxia dos episódios, os quais podem ser atenuados com a elaboração de uma escala personalizada de aquecimento antes de um exercício físico vigoroso. O controle mais efetivo, contudo, é obtido com medicações. O primeiro passo deve ser o controle subjacente. A profilaxia pode ser realizada com beta- agonista 15 minutos antes do exercício, podendo-se ainda usar cromoglicato de sódio ou antileucotrienos com resultados satisfatórios. A melhora no condicionamento físico e a prática de exercícios em ambientes com ar úmido e aquecido são medidas adjuvantes que amenizam bastante esse tipo de manifestação. 4.4.5.3 Asma na gestante Na gestação, a asma pode ter um comportamento interessante: 1 terço melhora, 1 terço piora e 1 terço permanece com a doença inalterada. Este padrão é individual e irá sempre se repetir da mesma forma nas gestações subsequentes. Com isso, se a paciente piorou da asma na primeira gestação, caso ela venha a ter uma segunda já devemos estar atentos e esperar piora. Alguns fatores mecânicos e hormonais justificam essa interação, ainda não bem compreendida. Há segurança para o uso dos medicamentos habituais no tratamento de manutenção da asma, corticoides inalatórios, broncodilatadores, antileucotrienos, em qualquer fase da gestação e durante a amamentação. A asma deve ser sempre tratada, pois o não tratamento é fator de risco tanto para a mãe quanto para o bebê. Portanto, não tenha medo e trate a sua gestante com asma. 4.4.5.4 Asma no lactente O diagnóstico de asma no lactente é difícil de ser realizado. A sibilância é referida como síndrome “do bebê chiador”, e, em menores de 3 anos, deve-se evitar rotular como asmáticos, pois existem várias causas de sibilância, como bronquiolite e vias aéreas de pequeno calibre. Muitos desses quadros são transitórios, principalmente secundários à exposição a vírus, sobretudo ao sincicial respiratório. Em lactentes suscetíveis, a presença de atopia predispõe à sensibilização por alérgenos ambientais ou irritantes e, desse modo, a quadros com recorrência de sibilância. A exposição precoce aos ácaros domésticos, fungos e antígenos derivados de animais é relevante para a sensibilização. O desenvolvimento de atopia em fase precoce da vida parece relacionar-se à hiper-responsividade das vias aéreas nos próximos anos. Outros dados apontam para o fato de que a asma iniciada nos 2 primeiros anos de vida pode resultar em função pulmonar reduzida na idade adulta, indicando provável ação deletéria da asma no desenvolvimento da função pulmonar. O Consenso Brasileiro de Asma definiu critérios clínicos para estabelecer a asma no lactente, conforme descrito a seguir: 1. Critérios maiores: a) Um dos pais com asma; b) Presença de dermatite atópica. 2. Critérios menores: a) Diagnóstico de rinite alérgica; b) Sibilância não associada a quadro de infecção das vias aéreas superiores; c) Eosinofilia periférica > 4%. Em lactentes com ao menos 3 episódios de sibilância no último ano, a presença de 2 critérios maiores, ou 1 critério maior e 2 menores, deve ser considerada de alto risco para sibilância persistente e com provável diagnóstico de asma; o risco é relativo entre 2,6 e 5,5. 4.4.5.5 Asma de difícil controle A maioria dos asmáticos controla a doença com a adoção das medidas terapêuticas recomendadas pelas diretrizes nacionais ou internacionais; em cerca de 5%, entretanto, haverá dificuldades terapêuticas importantes, definindo a asma de difícil controle. Existem critérios sugeridos para a melhor caracterização dessa condição, descritos anteriormente. São necessários 1 critério maior e 2 menores, além de 6 meses de seguimento, exclusão de outros diagnósticos, avaliação de fatores agravantes e verificação de boa adesão ao tratamento. São critérios definidores de asma de difícil controle: 1. Critérios maiores: a) Altas doses de corticoide inalatório; b) Necessidade de corticoide oral em mais de 50% dos dias do ano; 2. Critérios menores: a) Necessidade de outro fármaco diário para controle além dos corticoides inalados; b) Necessidade diária ou quase diária de beta-agonistas de curta ação; c) Obstrução persistente ao fluxo aéreo – VEF1 < 80% do previsto, variação do PFE > 20%; d) 1 ou mais exacerbações com necessidade de ida à emergência por ano; e) 3 ou mais cursos de corticoide oral por ano; f) Piora rápida após redução de pelo menos 25% da dose de corticosteroides orais ou inalatórios; g) História anterior de exacerbação de asma quase fatal. Em seguida, vemos aspectos importantes nas situações especiais na asma: 1. Gestante: utilizar corticoide e broncodilatador habitualmente; 2. Idoso: atentar-se especialmente ao diagnóstico diferencial; 3. Asma de difícil controle: afastar fatores que possam prejudicar o controle da asma; 4. Broncoespasmo induzido por exercício: as opções terapêuticas são broncodilatadores antes da atividade, antileucotrieno ou cromonas. 4.5 MANEJO DAS EXACERBAÇÕES AGUDAS O diagnóstico de asma no pronto-socorro e, até mesmo, no ambiente ambulatorial é clínico. Todo paciente com diagnóstico prévio de asma que apresente piora dos sintomas deve ser avaliado quanto a presença de exacerbações. Após diagnóstico diferencial com outras possibilidades clínicas e estabelecido diagnóstico de exacerbação, devemos avaliar o paciente. Existem dois perfis de paciente neste contexto: o primeiro que piora a doença, mas não a ponto de procurar a emergência. Para este devemos aumentar a dose das medicações regulares, podendo até quadruplicar a dose de corticoide inalatório, iniciar corticoide sistêmico por 5 a 7 dias e avaliar, caso haja exacerbação infecciosa definida, iniciar antibioticoterapia. O segundo é aquele que piora ao ponto de procurar a emergência, e para este devemos avaliar se estamos diante de exacerbação leve, moderada ou grave (Quadro 4.9). Em contexto de emergência, os exames complementares podem ajudar a classificar a gravidade da doença, sugerir complicações e fatores precipitantes associados e definir casos duvidosos. Os exames são: 1. Radiografia de tórax: a) Não necessita ser realizada rotineiramente na emergência; b) Raramente modifica a terapêutica; c) Só deve ser solicitada em casos de suspeita de pneumonia, pneumotórax e derrame pleural. 2. Saturação arterial de oxigênio: a) Verificar em todos os pacientes; b) Prescrever oxigênio suplementar se < 90% – considerar gasometria arterial. 3. Gasometria arterial: a) Não é necessária a todos os pacientes; b) Deve ser colhida em indivíduos com hipoventilação, desconforto respiratório importante, VEF1 ou PFE < 30% do predito; c) PaCO2 > 42 mmHg tem potencial de gravidade importante; d) PaCO2 ≥ 45 mmHg representa indicação de internação em UTI. 4. Exame de sangue: a) O hemograma pode ser necessário a pacientes febris e com expectoração purulenta; b) Eletrólitos são indicados em caso de internação e podem ajudar a monitorizar complicações da terapêutica; c) O potássio deve ser dosado naqueles com necessidade de internação e que usem digitálico e naqueles em uso de diuréticos. 5. Eletrocardiograma: a) Não deve ser indicado de rotina; b) Pode ser útil a pacientes com doença cardíaca, DPOC concomitante e àqueles com idade superior a 50 anos. 6. Prova de função pulmonar ou aferição do pico de fluxo (peak flow): a) Notável benefício na crise aguda de asma monitorizada na emergência – recomendação grau A; b) Determinar o VEF1 ou o PFE no pronto-socorro, pois classifica melhor a gravidade da doença, modifica a terapêutica e representa um dos melhores parâmetros para decidir quanto à alta hospitalar. Ao receber um paciente em crise asmática, além do tratamento imediato, devem-se investigar as causas de exacerbação – infecções, alérgenos, medicações como anti-inflamatórios não hormonais, fatoresemocionais, mudança brusca de temperatura, exercício etc. Quadro 4.9 - Classificação da gravidade da crise aguda de asma 4.5.1 Tratamento na exacerbação da asma 4.5.1.1 Beta-2-agonistas O uso de beta-2-agonistas é a terapêutica imediata mais importante no manejo de broncoespasmo no pronto-socorro e deve ser prescrito assim que o paciente chega à emergência. O uso de beta-agonistas por via sistêmica não é superior à via inalatória e associa-se a mais efeitos adversos. Além disso, restringe-se aos pacientes com crises graves e refratárias a doses adequadas dos fármacos inalatórios. Podem ser administrados de forma intermitente ou em nebulização contínua, dando-se preferência àquela, pois a aplicação sequencial do fármaco parece fornecer broncodilatação adicional. Recomendam-se inalações a cada 15 ou 20 minutos, totalizando 3 inalações na primeira hora da chegada ao pronto-socorro. O beta-2- agonista mais disponível no Brasil é o fenoterol, em dose de 10 a 20 gotas diluídas em 3 a 5 mL de soro fisiológico, embora seja o que mais causa efeitos colaterais. A preferência, entretanto, é o salbutamol, de 2,5 a 5 mg – 10 a 20 gotas – em nebulização, com 3 a 5 mL de soro fisiológico. Após as 3 inalações na primeira hora, deve-se reavaliar e deixar a frequência de novas inalações de acordo com o paciente. Se ainda houver broncoespasmo, pode-se prescrever para cada hora e aumentar o espaçamento posteriormente. O nebulímetro, em geral, não está disponível na sala de emergência, mas seu uso é tão eficaz quanto o do nebulizador. 4.5.1.2 Anticolinérgicos As recomendações para o uso de anticolinérgicos em unidades de emergência para asma não são precisas. Sua combinação com os beta-2-agonistas apresentou resultados positivos e negativos em diferentes estudos clínicos. O mecanismo de ação dessas medicações baseia-se na diminuição da ação da acetilcolina nas fibras pós- gangliônicas que terminam no epitélio, glândulas submucosas e musculatura lisa das vias aéreas, diminuindo, assim, o tônus broncoconstritor. Ademais, como seu início de efeito é tardio, apenas 90 minutos após a inalação, recomenda-se utilizá-los nos casos de ausência de resposta à primeira oferta de beta-agonistas ou inicialmente nas crises muito graves. A dose ideal de brometo de ipratrópio no pronto-socorro é de 5 mg – 40 gotas – adicionada ao beta-2-agonista. 4.5.1.3 Corticosteroides Pedra angular no tratamento de manutenção da asma, os corticoides também têm papel relevante no controle das crises. Na exacerbação, entretanto, os corticoides inalatórios geralmente não são indicados, utilizando-se, preferencialmente, os sistêmicos. Apesar de apresentarem início de ação tardio, de 6 a 8 horas após o uso, e de não serem capazes de aliviar o broncoespasmo agudo, seu uso associa-se à resolução mais rápida da obstrução ao fluxo aéreo, dos sintomas e da redução da taxa de recidiva. Nem todos os pacientes com crise, entretanto, necessitam de corticoides. Estima-se que cerca de 70% dos pacientes que chegam ao hospital em crise de asma apresentam resolução clínica após a primeira oferta de broncodilatador. Nesses casos, o corticoide é prescindível; nos demais, deve ser ofertado por via oral ou intravenosa. Como a biodisponibilidade e o tempo de início de ação são similares às 2 modalidades, a via oral deve ser utilizada desde que o paciente tenha condições de deglutir o fármaco. A prednisona tem sido recomendada na dose de 1 a 2 mg/kg/d; no entanto, habitualmente, é utilizada em dose de 40 a 60 mg/d, por 5 a 14 dias. Os corticoides intravenosos devem ser utilizados respeitando-se a equivalência de dose com a prednisona. O corticoide tem pico de ação após 6 a 8 horas da administração, portanto novas doses antes desse período não são indicadas. O corticoide inalatório é frequentemente prescrito, após a alta do pronto-socorro, a pessoas com asma persistente, associado ao corticoide oral, por 7 a 10 dias. Seu uso no departamento de emergência é incomum, embora já haja evidências de sua eficácia nessa situação, sempre com doses extremamente elevadas, especulando-se um possível efeito imunomodulador direto na mucosa brônquica, não mediado por alteração em transcrição proteica. De forma direta, na crise aguda de asma, deve-se iniciar com beta- 2-agonista em inalação sequencial – salbutamol, de 2,5 a 5 mg, de 10 a 20 gotas, a cada 20 minutos, 3 inalações na primeira hora –, anticolinérgicos pela via inalatória associada ao beta-2, como brometo de ipratrópio, 30 a 40 gotas, e corticosteroides, como hidrocortisona ou metilprednisolona ou prednisona/prednisolona oral, conforme a disponibilidade. 4.5.1.4 Metilxantinas As metilxantinas não são recomendadas rotineiramente no tratamento da crise de asma. Sua prescrição deve restringir-se aos casos selecionados com ausência de resposta ao tratamento-padrão otimizado. Quando usá-las, deve-se ter muito cuidado com os efeitos colaterais, sobretudo com arritmias e convulsões, e devem- se monitorizar os níveis séricos. 4.5.1.5 Sulfato de magnésio O magnésio é cofator em várias reações enzimáticas, e estudos têm mostrado que células musculares lisas contraem em ambiente de hipomagnesemia e relaxam quando há hipermagnesemia. Há evidências de que magnésio infundido em asmáticos providencia uma adicional broncodilatação, assim como a hipermagnesemia diminui a ativação de polimorfonucleares. Seu efeito broncodilatador é discreto, bem inferior ao atingido com os beta- agonistas inalatórios. Assim, seu uso é restrito aos casos refratários ao tratamento inicial. 4.5.1.6 Oxigênio suplementar O uso suplementar de oxigênio em crises de asma é teoricamente benéfico, considerando o seu papel na fisiopatologia e a experiência médica universal. Deve ser ofertado sempre que a saturação de oxigênio estiver inferior a 92%. O uso da combinação dos gases hélio e oxigênio, o chamado heliox, foi estudado pela literatura. O hélio, devido à sua densidade diminuída em comparação com a do ar, poderia diminuir a resistência das vias aéreas. Outro benefício teórico é que esse elemento poderia promover uma retenção maior das partículas aerolisadas no pulmão, podendo, assim, aumentar o benefício dos beta-2-agonistas inalatórios. Sua disponibilidade prática é pequena, e seu uso é reservado aos casos graves e refratários. 4.5.1.7 Intubação e ventilação mecânica O paciente que chega em crise aguda de asma ao serviço de emergência apresentando alteração do nível de consciência, bradicardia e iminência de parada cardiorrespiratória deve ser submetido à intubação orotraqueal. Da mesma forma, durante a evolução no pronto-socorro, pode ser necessária a intubação, a qual deve basear-se em parâmetros clínicos e, especialmente, antes que o paciente esteja em situação crítica com risco de parada cardiorrespiratória. Caso se escolha a intubação, o procedimento deve ser realizado rapidamente, pois a condição clínica pode piorar em pouco tempo. Vários agentes podem ser utilizados, e a medicação de escolha é a cetamina, pelo seu efeito broncodilatador. A experiência demonstra que a ventilação mecânica é uma intervenção que salva vidas e não deve ser adiada quando indicada. Não se pode esquecer que o paciente com asma tem excelente prognóstico, e a intubação é temporária. Já uma parada cardiorrespiratória é muito mais grave e não se pode permitir que ela aconteça. A intubação deve ser realizada rápida e deliberadamente, de preferência utilizando o tubo endotraqueal mais largo possível, com 8 ou 9 mm, para diminuir a resistência das vias aéreas. Após a intubação, o paciente deve ser sedado adequadamente e os parâmetros devem ser bem ajustados, para que se consiga sincronia com o aparelho e conforto ventilatório, fundamentais para o adequado controle do broncoespasmo com broncodilatadores, que devem ser ofertados imediatamente e em doses máximas. Quanto aos parâmetros do respirador, pode-se utilizar modo de controle a volume ou a pressão, com o cuidado de monitorizar a mecânica respiratória, evitando picos de pressão ou volumes correntesmuitos baixos – a depender do modo escolhido –; o ideal é que a frequência respiratória seja baixa, para aumentar o tempo expiratório e impedir a hiperinsuflação dinâmica. A pressão positiva ao final da expiração (PEEP), inicialmente, deve ser a mais baixa possível, já que, diferentemente dos pacientes com DPOC, os asmáticos podem ter piora da mecânica com PEEP elevada, por causar hiperinsuflação dinâmica – auto-PEEP. Dependendo da evolução dos parâmetros de troca gasosa e da auto-PEEP, pode-se tentar elevar a PEEP, sempre observando, cautelosamente, se haverá ou não piora da auto-PEEP. A maioria dos asmáticos que necessitam de intubação e ventilação mecânica o faz por período curto, podendo ser avaliada a desintubação precocemente, eventualmente dentro de 24 horas. A ventilação não invasiva tem apresentado evidências crescentes de benefício na asma, sendo recomendada se a equipe estiver familiarizada com o método e, claro, na ausência de contraindicações. Alterações do nível de consciência – agitação ou sonolência –, bradipneia e ausência de sibilos – silêncio no tórax –, além de instabilidade hemodinâmica são sinais iminentes de parada respiratória na crise asmática. Com frequência, tais alterações chamam a atenção para a conduta de intubação imediata em questões de prova. Uso de ventilação não invasiva, nessas situações, não é indicado. Medicações com efeito sedativo, sobretudo benzodiazepínicos, nunca devem ser administradas, sob risco de precipitar parada respiratória. Quadro 4.10 - Resumo do tratamento da crise aguda de asma 4.5.1.8 Medidas de benefício duvidoso Não é recomendada antibioticoterapia para crise aguda de asma sem pneumonia. A maioria das exacerbações de causa infecciosa é de etiologia viral, e não existem evidências na literatura que indiquem benefício na evolução com antibioticoterapia. Está indicada apenas em caso de pneumonia, sinusite bacteriana aguda ou outra indicação específica. Da mesma forma, não há benefícios comprovados de que a fisioterapia respiratória de rotina, durante a crise aguda de asma, seja benéfica. Uma exceção é a presença de grande quantidade de secreção; a fisioterapia, nesse caso, pode contribuir para a sua eliminação. Mucolíticos podem piorar a tosse e o broncoespasmo, principalmente se inalatório, portanto não são recomendados. Exceto quando é necessária a intubação orotraqueal, benzodiazepínicos, sedativos e hipnóticos são potencialmente perigosos e podem levar à apneia. Caso sejam necessários – indivíduos muito ansiosos –, devem-se usá-los em doses bem baixas e com cuidado. Como prognóstico, em média, de 10 a 20% dos pacientes com crise aguda de asma que procuram o pronto-socorro necessitam de hospitalização. Destes, menos de 10% recebe ventilação mecânica. Uma necessidade prévia de ventilação mecânica em um asmático aumenta em 19 vezes a chance de ser necessária, novamente, intubação orotraqueal durante uma crise aguda. Quadro 4.11 - Avaliação do broncoespasmo e tratamento na primeira hora 1 Pacientes bradicárdicos, confusos, rebaixados e em iminência de parada cardiorrespiratória devem ser imediatamente intubados, colocados no respirador com O2 a 100% e medicados com inalação (beta-2-agonista e ipratrópio em doses dobradas), corticoide intravenoso e sulfato de magnésio. 2 A pacientes com broncoespasmo grave se pode prescrever corticoide intravenoso (hidrocortisona 200 a 300 mg ou metilprednisolona 40 a 60 mg). Quadro 4.12 - Avaliação após a primeira hora e conduta sugerida Quadro 4.13 - Padrão de resposta após o tratamento inicial e conduta sugerida 1 Nesse ponto, pode-se prescrever sulfato de magnésio e repetir inalações com beta-2- agonista e ipratrópio; reavaliar após 2 a 4 horas. Em caso de critérios de boa resposta, deve-se dar alta hospitalar. 2 Considerar o uso de ventilação não invasiva, mesmo sem estudos de adequado valor epidemiológico. 3 Corticoide inalatório deve ser prescrito para pacientes com asma persistente, associado ao corticoide oral. Devemos manter o tratamento de paciente asmático em uso regular de salbutamol + prednisona? Primeiramente devemos definir se o paciente necessita ou não de medicação de uso contínuo. Em caso negativo, utilizaremos apenas as medicações de resgate e, entre elas, uma das opções é o salbutamol. Entretanto, este não deve ser usado de forma contínua, e sim apenas como uma das opções para resgate. Por outro lado, se o paciente necessita de uso contínuo de medicação, com certeza o melhor esquema a ser seguido não é salbutamol + prednisona. A primeira medicação a ser utilizada é o corticoide inalatório e, caso precise, avançar com adição de outras medicações, como o beta-2-agonista de longa duração. O salbutamol deve ser reservado para resgate, e o corticoide oral (prednisona) deve ser opção apenas para aqueles já no step 5 que não responderam às outras medicações preconizadas. Qual importância do eosinófilo sérico na DPOC hoje? 5.1 INTRODUÇÃO A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) é uma condição clínica comum, prevenível e tratável, que se caracteriza, basicamente, pelo desenvolvimento progressivo de limitação ao fluxo aéreo, que não é totalmente reversível, associado à inflamação crônica das vias aéreas por inalação de partículas e gases nocivos. A síndrome classicamente é descrita como representada por 2 polos raramente observados isoladamente em um mesmo indivíduo. Detalhados abaixo, estão os polos: 1. Enfisema pulmonar: aumento permanente e anormal dos espaços aéreos distais aos bronquíolos terminais, acompanhado de destruição de suas paredes, sem fibrose óbvia; ainda que o termo seja muito utilizado no dia a dia, é considerado diagnóstico histopatológico; 2. Bronquite crônica: tosse produtiva por mais de 3 meses, durante 2 anos consecutivos. A tosse é ocasionada por hipersecreção de muco, não necessariamente com obstrução ao fluxo aéreo. Na realidade, o termo DPOC denota a presença de limitação ao fluxo aéreo com manifestações clínicas de enfisema e/ou bronquite crônica. Classicamente definia-se fenótipo enfisematoso (chamado “soprador rosado”) e fenótipo bronquítico crônico (chamado “azul pletórico”). A classificação nestes 2 polos tem caído em desuso, e hoje tem-se valorizado outros fenótipos que ajudam principalmente na determinação da terapia. Os principais são: overlap asma DPOC (conhecido como ACO), exacerbador e hiperinsuflador. Porém, diversos outros fenótipos têm sido descritos. Figura 5.1 - Pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica Legenda: (A) enfisema pulmonar (“pink puffer” ou “soprador rosado”) e (B) bronquite crônica (“blue bloater” ou “azul pletórico”). Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. Em uma perspectiva unificadora, a Organização Mundial da Saúde e o National Institutes of Health criaram um grupo multicêntrico para o estudo da DPOC, a Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD). A GOLD aglutina as principais recomendações relacionadas à DPOC, principalmente nos aspectos diagnósticos e terapêuticos, com atualizações anuais. 5.2 PREVALÊNCIA E FISIOPATOLOGIA A DPOC acomete mais de 50 milhões de pessoas no mundo, e, no Brasil, estimam-se mais de 7 milhões de acometidos, com cerca de 275 mil internações ao ano. DPOC é a quarta maior causa de mortalidade em todo mundo e deve-se tornar a terceira principal causa em 2020. A perda de volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1) é de 15 a 30 mL/ano em pessoas normais. No paciente com DPOC, essa perda anual é aumentada em 2 a 5 vezes. Curiosamente, tal perda excessiva de VEF1 só acontece em torno de 15% dos indivíduos que fumam, indicando componentes genéticos envolvidos (Figura 5.2). Entretanto, o único componente genético descrito como fator de risco para DPOC é a deficiência de alfa-1-antitripsina, que é decorrente de mutação do gene SERPINA1. Figura 5.2 - História natural da perda funcional em pacientes tabagistas, ex-tabagistas e não tabagistas A maioria dos pacientes com DPOC é identificada pela presença de obstrução em provade função pulmonar, usualmente na quinta década de vida. Geralmente, VEF1 < 40% do predito implica dispneia aos pequenos esforços, e < 25%, dispneia em repouso, retenção de CO2 e cor pulmonale. Além da diminuição do VEF1, há outras alterações presentes no paciente com doença pulmonar obstrutiva crônica, conforme mostrado abaixo: a) Aumento do volume residual e da capacidade residual funcional; b) Progressiva disfunção diafragmática devido à retificação da cúpula, o que pode levar a uma desvantagem mecânica na ventilação; c) Aumento da capacidade pulmonar total e, frequentemente, redução da capacidade vital; d) Vasoconstrição arterial pulmonar devido à hipoxemia, com aumento na pressão da artéria pulmonar. O endotélio de pacientes com DPOC apresenta síntese diminuída de óxido nítrico – deficiência da NO- sintase; e) A hipóxia, junto à hipercapnia, ocasiona o aumento dos níveis de catecolaminas, renina e aldosterona, o que pode levar à retenção de sal e água; f) Hipóxia, aumento do trabalho respiratório e níveis aumentados de citocinas e TNF-beta podem levar à significativa perda de peso (caquexia). 5.3 PROCESSO INFLAMATÓRIO CRÔNICO DAS VIAS AÉREAS O tabagismo (ativo e passivo) de longe é o principal fator de risco para DPOC. Estima-se que 90% dos casos o têm como fator etiológico. A mensuração da carga tabágica é simples. Utilizando a variável anos-maço, deve-se multiplicar o número de anos de tabagismo pela média de maços fumados ao dia, lembrando que 1 maço tem 20 cigarros. Considera-se carga significativa quando superior a 10 anos/maço. Quadro 5.1 - Fatores envolvidos Apesar de o tabagismo ser o principal fator envolvido na DPOC, deve-se ter atenção aos fatores ambientais – inalação de partículas de enxofre, cádmio – e para doenças genéticas – deficiência de alfa-1-antitripsina. Existe um processo inflamatório crônico nas vias aéreas do paciente com DPOC, mas essa inflamação difere, significativamente, da vista na asma brônquica. A via final da inflamação na DPOC é o desbalanço entre as proteases, lesivas ao epitélio respiratório, e as antiproteases. Quadro 5.2 - Principais efetores da inflamação. Quadro 5.3 - Características da deficiência de alfa-1-antitripsina 5.4 DIAGNÓSTICO E EXAMES COMPLEMENTARES O diagnóstico de DPOC exige dados clínicos – sintomas respiratórios crônicos e progressivos –, funcionais – obstrução ao fluxo aéreo – e epidemiológicos – fator de risco, como o tabagismo. A história e o exame físico, isoladamente, têm baixa sensibilidade. Em formas leves a moderadas de DPOC, o exame físico pode ser absolutamente normal. O principal sintoma associado é a dispneia, que é progressiva com a evolução da doença. Alguns índices de avaliação de dispneia, como a classificação do MRC (Medical Research Council) modificada, apresentam correlação com prognósticos dos pacientes com DPOC. Essa classificação é adotada pela American Thoracic Society para avaliação da dispneia, conforme o Quadro 5.4. Quadro 5.4 - Classificação do Medical Research Council modificada de dispneia (mMR) Outro sintoma frequente é a tosse, tanto seca quanto produtiva. O aparecimento da tosse no fumante é, entretanto, comum, e muitos pacientes não a julgam um sintoma de doença, considerando-a um sintoma esperado em um tabagista, o que retarda a procura por auxílio médico. São sintomas que podem ser encontrados em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica: a) Sibilos, expiração forçada, diminuição do murmúrio vesicular, aumento do diâmetro anteroposterior do tórax, taquipneia, taquicardia, roncos difusos, crepitações, bulhas cardíacas abafadas; b) Achados de cor pulmonale, como edema de membros inferiores, hepatomegalia dolorosa, bulha pulmonar (P2) hiperfonética e palpável, sopro de insuficiência tricúspide; c) Cianose e pletora podem surgir mais tardiamente. Um detalhe importante na propedêutica de pacientes com DPOC: baqueteamento digital não constitui sinal de DPOC; quando presente, pode indicar doenças associadas principalmente no contexto de tabagismo. Neoplasia deve ser obrigatoriamente excluída. A seguir, estão as principais causas de baqueteamento digital: a) Insuficiência hepática; b) Neoplasia de pulmão, principalmente, adenocarcinoma; c) Doenças pulmonares fibrosantes; d) Bronquiectasias; e) Fibrose cística; f) Abscesso pulmonar; g) Fístula arteriovenosa; h) Cardiopatia congênita cianótica; i) Endocardite bacteriana. A GOLD sugere alguns achados sugestivos do diagnóstico de DPOC, resumidos no Quadro 5.5. Quadro 5.5 - Indicadores para a consideração do diagnóstico de doença pulmonar obstrutiva crônica Tosse crônica intermitente, expectoração crônica, dispneia progressiva ou persistente e história positiva para fatores de risco, como tabagismo, poeiras e químicos, são dados clínicos comuns aos pacientes com DPOC. 5.4.1 Espirometria A espirometria tem papel diagnóstico central na DPOC. É por meio dela que o componente obstrutivo da doença pode ser caracterizado. De fato, a presença de relação VEF1/CVF < 0,7 pós-broncodilatador, associada aos dados clínicos e epidemiológicos, praticamente define o diagnóstico. Em fases precoces da doença, o VEF1 pode ser preservado, com seu valor reduzindo conforme a progressão clínica. Como, por definição, a limitação ao fluxo de ar na DPOC tende a ser progressiva e irreversível, na maioria das vezes, não é observada resposta broncodilatadora na espirometria. No entanto, em até 30% dos casos ela pode estar presente, não afastando o diagnóstico. Por sinal, recentemente se passou a denominar pacientes que apresentem, simultaneamente, características de DPOC e asma como portadores da síndrome ACOS (Asthma-COPD overlap Syndrome), caracterizando este como um dos fenótipos da DPOC. 5.4.2 Radiografia de tórax Pode ser normal em formas leves de DPOC, de maneira que não é útil para definir ou afastar o diagnóstico da doença, mas pode revelar diagnósticos associados ou diferenciais, como neoplasia, pneumonia, doenças fibrosantes etc. A radiografia de tórax é importante a pacientes com exacerbação, pois modifica a conduta em pouco mais de 20% dos casos, sendo, portanto, obrigatória nessa situação. Na deficiência de alfa-1-AT, essas zonas de enfisema predominam nos lobos inferiores. Retificação do diafragma, aumento do espaço retroesternal e retrocardíaco, aumento de espaço entre as costelas e sinais de hipertensão pulmonar também podem estabelecer o diagnóstico de DPOC. Quadro 5.6 - Principais achados diagnósticos de doença pulmonar obstrutiva crônica em radiografia de tórax Figura 5.3 - Radiografia de tórax de enfisema de predomínio nos lobos inferiores Figura 5.4 - Radiografias posteroanterior e em perfil de doença pulmonar obstrutiva crônica evidenciando sinais de hiperinsuflação 5.4.3 Eletrocardiograma Pode mostrar sinais de hipertensão pulmonar – onda P apiculada em DII, desvio do eixo para a direita –, que pode ser indício de DPOC muito grave. Durante a exacerbação, podem ser observadas arritmias atriais, sendo a taquicardia atrial multifocal a mais característica. A taquicardia atrial multifocal é muito encontrada em pacientes com DPOC. 5.4.4 Tomografia computadorizada de tórax Habitualmente, é desnecessária para o diagnóstico e não deve ser solicitada de rotina. O achado de enfisema não define o diagnóstico de DPOC, tampouco tem significado patológico. Pela tomografia, podem-se caracterizar 3 tipos de enfisema: enfisema parasseptal – observado na região subpleural, sem relação com tabagismo e sem significado patológico –; enfisema centrolobular – associado ao hábito de fumar; eventualmente, assume o aspecto “em roído de traça” –; enfisema panlobular – muito comum em deficiência de alfa-1-AT. É possível encontrar bolhas. Figura 5.5 - Enfisema parasseptal Fonte: Unsupervised Feature Selection Applied to Content-Based Retrieval of Lung Images, 2003. Figura 5.6 - Enfisema centrolobular Fonte: Unsupervised Feature Selection Applied to Content-Based Retrieval of Lung Images, 2003. Figura 5.7 - Enfisema panlobular Fonte:Padrões tomográficos das doenças intersticiais pulmonares difusas com correlação clínica e patológica, 2008. 5.4.5 Gasometria arterial As alterações relevantes de troca gasosa aparecem em fase avançada da DPOC, o que torna a gasometria um exame dispensável na maioria das vezes. É indicada para avaliar a gravidade da doença em pacientes que tenham a saturação de oxigênio inferior a 92%, a fim de avaliar indicação de oxigênio domiciliar. A hipercapnia habitualmente surge em fase bem mais avançada. Pacientes enfisematosos têm centro respiratório mais sensível ao CO2, e não permitem o aparecimento de hipoventilação com hipoxemia e retenção de CO2, mesmo com dispneia. Os bronquíticos têm centro respiratório pouco sensível ao CO2, permitindo hipoventilação, retenção de CO2, hipoxemia e elevação da pressão arterial pulmonar (cor pulmonale). 5.5 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico diferencial é amplo e pode incluir pneumonia, insuficiência cardíaca, arritmias, pneumotórax, derrame pleural, embolia pulmonar, câncer de pulmão, tuberculose, bronquiectasias, bronquiolite obliterante e panbronquiolite difusa. O diagnóstico diferencial com asma é o que gera mais dificuldade, tanto que hoje em dia se tem aceitado o diagnóstico de associação de DPOC e asma em alguns casos, principalmente naqueles que mesclam características relevantes das 2 doenças – corresponde a menos de 10% dos casos. A seguir, diagnósticos diferenciais e suas características sugestivas: 1. DPOC: a) Surgimento na meia-idade; b) Sintomas paulatinamente progressivos; c) Longa história de fumo; d) Dispneia durante o exercício; e) Limitação de fluxo aéreo amplamente irreversível. 2. Asma: a) Surgimento no início da vida, frequentemente na infância; b) Sintomas que variam de um dia para outro; c) Sintomas à noite e/ou de manhã cedo; d) Alergia, rinite e/ou eczema; e) História familiar de asma; f) Limitação do fluxo aéreo amplamente reversível. 3. Insuficiência cardíaca congestiva: a) Estertores crepitantes finos nas bases à ausculta; b) Radiografias de tórax que revelam cardiomegalia e edema pulmonar; c) Testes de função pulmonar que indicam restrição do volume, e não limitação do fluxo aéreo. 4. Bronquiectasia: a) Grande quantidade de expectoração purulenta; b) Comum associação à infecção bacteriana; c) Estertores crepitantes grosseiros à ausculta/baqueteamento digital; d) Radiografias de tórax/tomografia que revelam dilatação brônquica e espessamento da parede brônquica. 5. Tuberculose: a) Surgimento em qualquer idade; b) Radiografias de tórax que revelam infiltração pulmonar ou lesões cavitadas; c) Confirmação microbiológica; d) Alta prevalência local de tuberculose. 6. Bronquiolite obliterante: a) Surgimento em indivíduos mais jovens, não fumantes; b) Possível história de artrite reumatoide ou colagenose; c) Tomografia com achado de mosaico respiratório acentuado na fase expiratória. 7. Panbronquiolite difusa: a) Predomina em asiáticos. Homens não tabagistas com sinusite crônica; b) Imagem com pequenos nódulos pequenos centrolobulares difusos e hiperinsuflação. Essas características tendem a ser típicas das respectivas doenças, mas não ocorrem em todos os casos. Por exemplo, uma pessoa que nunca fumou pode desenvolver DPOC, especialmente, no mundo em desenvolvimento, onde outros fatores de risco podem ser mais relevantes do que o tabagismo. A asma pode desenvolver-se em qualquer faixa etária, incluindo adultos e, até mesmo, em pacientes de idade avançada. Os diagnósticos diferenciais principais são: asma – limitação de fluxo reversível; insuficiência cardíaca congestiva – restrição e não limitação de fluxo; tuberculose – há confirmação microbiológica; bronquiolite obliterante – indivíduos jovens, não fumantes; bronquiectasias – supuração crônica mais marcante. 5.6 PARTICULARIDADES NO MANEJO AMBULATORIAL 5.6.1 Classificação de risco A classificação de risco, antes denominada estadiamento, é fundamental para a abordagem terapêutica de pacientes com DPOC. Inicialmente, se baseava apenas na espirometria; nos últimos anos, no entanto, observou-se que fatores como intensidade dos sintomas (dispneia) e o número de exacerbações representavam fatores prognósticos ainda mais robustos, passando a compor o sistema de categorização. Hoje realiza-se esta classificação de risco a partir de 3 passos como demonstrado na Figura 5.8. A classificação de cada indivíduo será descrita da seguinte forma: GOLD gradação 1-4 + Grupo A-D (exemplo GOLD gradação 4 grupo D). Em 2017, a GOLD reconheceu que, de fato, a espirometria era inferior aos demais parâmetros na classificação de risco. Assim, a espirometria foi removida dos critérios principais, passando a ser utilizada como mera categorização adicional – indicada por números, conforme o grau de limitação ao fluxo de ar (Quadro 5.7). Quadro 5.7 - Classificação espirométrica da doença pulmonar obstrutiva crônica, conforme a GOLD Figura 5.8 - Figura CAT (COPD Assessment Test) Fonte: elaborado pelos autores. 5.6.2 Tratamento não farmacológico Pacientes com DPOC beneficiam-se de medidas não medicamentosas: a) O paciente deve abandonar o tabagismo: a persistência do hábito de fumar está associada a pior prognóstico, maior queda anual do VEF1, maior número de exacerbações e maior chance de internação e morte. Devem-se usar todas as medidas farmacológicas (bupropiona, terapia de reposição de nicotina e vareniclina ou combinação destas) e não farmacológicas (exercícios, psicoterapia etc.); b) Indicar vacinação anual para influenza e a cada 5 anos para pneumococo. Pneumo-23 tem demonstrado reduzir pneumonia adquirida na comunidade em pacientes DPOC com < 65 anos com VEF1 < 40% e naqueles com comorbidades. Pneumo-13 tem demonstrado reduzir bacteremia e doença pneumocócica invasiva grave em > 65 anos; c) Indicar reabilitação pulmonar para os pacientes com sintomas persistentes, de classificação B, C e D; d) Ensinar o paciente a utilizar e a se familiarizar com o dispositivo inalatório indicado. Sempre fará parte de cada consulta uma análise se o indivíduo está em uso da medicação e, se em uso, se está utilizando o dispositivo de forma correta. Caso entenda que o paciente não tenha se familiarizado com um dado dispositivo, troque por outro na tentativa de uma melhor adaptação; e) Suplementação nutricional deve ser oferecida para pacientes desnutridos; f) Atividade física regular. Devemos encorajar todo paciente DPOC a realizar atividade física. Apesar de simples, as medidas não farmacológicas para o tratamento da DPOC sempre caem em concursos médicos. A reabilitação pulmonar está sempre indicada no tratamento não farmacológico, com exceção dos casos mais leves – GOLD A. Todas as outras medidas não farmacológicas, como cessar tabagismo, realizar atividades físicas e serem vacinados contra influenza e pneumococo estão indicadas para todos os grupos – A, B, C e D. 5.6.3 Tratamento farmacológico As medicações disponíveis para o tratamento de DPOC têm como objetivo principal melhorar a qualidade de vida dos pacientes e compreendem broncodilatadores, glicocorticoides, metilxantinas e agentes anti-inflamatórios. A descrição das principais medicações utilizadas para tratamento da DPOC será discutida a seguir. Lembrando que broncodilatadores inalados, beta-2-agonista e anticolinérgicos são os personagens principais na DPOC. Estas são as drogas centrais no manejo dos sintomas do DPOC e são comumente prescritos de forma regular para prevenir ou reduzir sintomas. 5.6.3.1 Broncodilatadores de curta duração São recomendados como terapia de resgate, indicados a todos os pacientes com DPOC. O uso sob demanda, conforme a presença de sintomas, tem o mesmo impacto clínico que o uso regular por horário. Considerando menores custo e ocorrência de efeitos adversos do uso sob demanda, essa tem sido a recomendação mais aceita. Os beta-agonistas são os broncodilatadores mais efetivos no controle da hiperinsuflação dinâmica da DPOC. Levando em conta a pequena resposta aos broncodilatadores quando comparada aouso na asma, por exemplo, o uso concomitante de anticolinérgicos sempre é recomendado, na tentativa de otimizar o efeito desejado. São beta-agonistas: 1. Salbutamol: atua preferencialmente nos receptores beta-2, ativando a adenilciclase e aumentando o AMP cíclico. Esse aumento causa relaxamento da musculatura brônquica e inibição da liberação de mediadores inflamatórios nos mastócitos. a) Aerossol: dose usual de 200 a 400 µg, com intervalo de 4 a 6 horas. A forma inalatória também pode ser usada no pronto- socorro, na dose de 200 a 400 µg até a cada 20 minutos na primeira hora; b) Nebulização: de 10 a 20 gotas diluídas em 3 a 5 mL de soro fisiológico, com intervalo de 4 a 6 horas. No Brasil, é a apresentação mais usada; 2. Fenoterol: tem índice de efeitos adversos um pouco maior do que o salbutamol; a) Aerossol: dose usual de 200 a 400 µg, com intervalo de 4 a 6 horas. A forma inalatória também pode ser usada no pronto- socorro, na dose de 200 a 400 µg até a cada 20 minutos na primeira hora; b) Nebulização: de 10 a 20 gotas diluídas em 3 a 5 mL de soro fisiológico, com intervalo de 4 a 6 horas. É um anticolinérgico: 1. Brometo de ipratrópio: diminui a ação da acetilcolina nas fibras pós- gangliônicas muscarínicas (M1 e M3) que terminam no epitélio, glândulas submucosas e musculatura lisa das vias aéreas, reduzindo assim o tônus broncoconstritor. a) Aerossol: a dose usual é de 2 a 3 puffs, de 400 a 600 µg, com intervalo de 4 horas; b) Nebulização: a dose usual é de 20 a 40 gotas diluídas em 3 a 5 mL de soro fisiológico, com intervalo de 4 a 6 horas. 5.6.3.2 Broncodilatadores de longa duração 1. Beta-agonistas – Long-Acting Beta-Agonists (LABA): em linhas gerais, têm semelhanças com o salbutamol, o fenoterol ou a terbutalina inalatórios, exceto pela maior duração de ação, que é de 12 horas para o formoterol e o salmeterol, e de 24 horas para o indacaterol, vilanterol e olodaterol. Todos são utilizados por via inalatória, 2 vezes ao dia para formoterol e salmeterol, e 1 vez para os demais; 2. Anticolinérgicos – Long-Acting Muscarinic Antagonists (LAMA): são exemplos o tiotrópio, o glicopirrônio e o umeclidínio. Todos são utilizados por via inalatória e agem por cerca de 24 horas, necessitando apenas de uma tomada diária. Não têm utilidade no tratamento dos sintomas agudos, apenas como fármaco de manutenção. 5.6.3.3 Terapia broncodilatadora combinada – LABA + LAMA O uso combinado de broncodilatadores que atuam em mecanismos diferentes permite aumento do grau de broncodilatação e menor efeito colateral quando se compara a utilização de monoterapia em alta dose. A combinação LABA + LAMA aumenta VEF1, reduz exacerbações e reduz sintomas quando comparado a monoterapia. 5.6.3.4 Corticoides inalatórios São os mesmos fármacos do tratamento da asma, mas habitualmente têm uso mais restrito no manejo da DPOC, em que vinham sendo muito utilizados, especificamente quando o paciente apresentava exacerbações repetidas e VEF1 < 50% – questão corriqueira nas provas. No entanto, recentemente foi demonstrado risco aumentado de pneumonia nos pacientes com DPOC e uso prolongado de corticoide inalado, o que restringiu ainda mais sua recomendação. Assim, atualmente, devem ser considerados em pacientes com tratamento já otimizado – LAMA e LABA – e que mantenham instabilidade clínica. Nesse cenário, estão associados ao tratamento em vigor – terapia tripla. A terapia tripla deve ser prescrita em pacientes assintomáticos, VEF1 < 50% e história de exacerbação. Um outro dado que tem sido cada vez mais valorizado é a relação entre a contagem de eosinófilo sérico com a predição de resposta ao corticoide inalatório. Pacientes com < 100 eosinófilos/mcL parecem ter pouca resposta aos corticoides inalatórios, enquanto aqueles com > 300 eosinófilos/mcL parecem apresentar boa resposta. Com isso, devemos utilizar o eosinófilo como um biomarcador, que ajudará na decisão de iniciar ou não corticoide junto a terapia broncodilatadora. 5.6.3.5 Metilxantinas As xantinas são fármacos cada vez menos utilizados e ainda com muita controvérsia quando tange ao tratamento de doenças pulmonares. Existe evidência de efeito broncodilatador discreto quando comparado ao placebo. Não há evidência de redução do número de exacerbações. É uma classe com índice terapêutico muito baixo – a dose tóxica é próxima da terapêutica. Seu efeito direto ocorre por inibição da fosfodiesterase, causando o acúmulo de AMP cíclico intracelular e o consequente relaxamento do músculo liso das vias aéreas, embora se acredite que tenham um adicional, antagonizando os receptores da adenosina. O fármaco ainda utilizado eventualmente é a bamifilina, preparação oral com menos efeitos adversos. Ressalte-se que o temor de efeitos cardiovasculares dos broncodilatadores não deve servir de pretexto para o uso de xantinas; afinal, estas, sim, têm efeitos cardiovasculares bem indesejáveis. 5.6.3.6 Inibidor de fosfodiesterase-4 (roflumilaste) A fosfodiesterase (PDE) é uma enzima com propriedades inflamatórias e papel reconhecido na DPOC. As metilxantinas são os representantes clássicos desse grupo, mas não têm especificidade para a enzima. O roflumilaste, inibidor específico da PDE-4, tem sido incorporado ao tratamento de alguns pacientes com DPOC e demonstrado redução da frequência de exacerbações. Os benefícios foram bem documentados entre pacientes da classificação espirométrica 3 ou 4, com manifestações de bronquite crônica, e com 2 ou mais exacerbações ao ano. O fármaco é usado por via oral, em 1 tomada diária. 5.6.3.7 Mucolíticos O uso regular de mucolíticos como N-acetilcisteína reduz exacerbação em população selecionada. 5.6.3.8 Antibioticoterapia com proposta anti-inflamatória Azitromicina 3 vezes por semana ou eritromicina 2 vezes ao dia a longo prazo reduz exacerbação durante 1 ano. Entretanto, pode elevar resistência bacteriana. Azitromicina parece ter melhor evidência positiva quando utilizada em ex-tabagistas. 5.6.3.9 Outras terapias anti-inflamatórias Antileucotrieno não foi adequadamente testado em pacientes DPOC. Sinvastatina não está indicada nos pacientes DPOC, porém parece ter resultado positivo em alguns desfechos em pacientes DPOC utilizando estatina, devido a indicação cardiovascular e metabólica. 5.6.3.10 Reposição de alfa-1-antitripsina Terapia com reposição venosa mensal ou quinzenal da enzima alfa- 1-antitripsina parece reduzir progressão de doença quando DPOC está relacionada a esta deficiência enzimática. 5.6.4 Iniciando tratamento e realizando seu seguimento Para definirmos qual droga iremos iniciar para o nosso paciente devemos seguir análise paramétrica descrita pelo GOLD. O paciente é classificado em A, B, C ou D e a partir daí é definida terapia conforme Figura 5.9. Nesta tenta-se sistematizar a análise e balizar a terapia a ser prescrita. Para darmos seguimento a terapia e realizar follow-up, devemos utilizar o esquema da Figura 5.10. Figura 5.9 - Tratamentos Fonte: elaborado pelos autores. Figura 5.10 - Seguimento do tratamento farmacológico 1 Caso o paciente esteja classificado em dispneia e exacerbação, considerar como exacerbação. 5.6.5 Oxigênio domiciliar A oxigenoterapia domiciliar para hipoxêmicos é uma medida terapêutica que já demonstrou melhorar a sobrevida de pacientes com DPOC; quando indicada, deve ser utilizada por > 15 horas por dia. As indicações com maior nível de evidência são: a) PaO2 < 55 mmHg em repouso ou SatO2 < 88%, sem sinais de cor pulmonale; b) PaO2 entre 55 e 59 mmHg em repouso ou SatO2 entre 88 e 90%, com sinais de cor pulmonale. A titulação do oxigênio é feita ambulatorialmente, ofertando-se o menor fluxo que garanta uma SatO2 > 90% em repouso. Após essa verificação, o paciente será orientado a utilizar esse valor quando em repouso, 1 L a mais quando dormindo e 2 L a mais durante atividades físicas. O momento ideal de avaliar a indicação de oxigenoterapia é com a doença estável. Após exacerbações, o paciente pode apresentar piora das trocas gasosas que serão revertidasem um período variável, entre 60 e 90 dias. A oxigenoterapia é uma medida que melhora a sobrevida do paciente e deve ser sempre indicada, quando necessária. 5.6.6 Tratamento cirúrgico e por broncoscopia Entre as opções cirúrgicas para o tratamento da DPOC, tem-se, em especial, a cirurgia de redução pulmonar e bulectomia, para pacientes com grandes bolhas de enfisema, além do transplante pulmonar. Intervenção broncoscópica com colocação de válvula também é uma opção para pacientes selecionados com enfisema avançado. A cirurgia de redução do volume foi avaliada, principalmente, no estudo National Emphysema Treatment Trial (NETT), que identificou características que ajudam a determinar pacientes com maior probabilidade de benefício com o procedimento: aqueles com enfisema predominante nos lobos superiores e baixa capacidade de exercício – por meio da ergoespirometria. Vale ressaltar que os pacientes com VEF1 < 20%, medida de DCO < 20% e hipertensão pulmonar – fatores de maior mortalidade cirúrgica – não são considerados elegíveis para a cirurgia redutora de volumes pulmonares. Mais recentemente, surgiu outra modalidade de redução de volumes pulmonares: a colocação por válvulas endobrônquicas por auxílio de broncoscopia. Após a sua alocação, em um brônquio previamente selecionado por avaliação criteriosa de software de análise específico de tomografia computadorizada, essas válvulas têm capacidade de fluxo unidirecional do ar, permitindo somente a sua saída do brônquio, e não sua entrada. Por conseguinte, promovem também atelectasia daquele lobo pulmonar distal à sua localização. Trata-se de procedimento menos invasivo, com possibilidade de reversibilidade, caso o resultado clínico não seja favorável. A redução pulmonar, seja por cirurgia convencional ou por meio das válvulas endobrônquicas, deve sempre ser vista como um tratamento com eficácia temporária, não devendo-se postergar a referência do paciente a um centro de transplante, se houver critérios para realização da cirurgia. O transplante pulmonar pode ser considerado alternativa àqueles com doença pulmonar grave sem resposta aos tratamentos disponíveis, que não apresentem indicação para redução de volume e tenha BODE score entre 7 e 10. A indicação pode ser considerada a pacientes com VEF1 < 20%, sem alternativas terapêuticas, clínicas ou cirúrgicas, sem comorbidades, mas com menos de 65 anos e boas condições psicossocial e familiar. A principal indicação da bulectomia é a presença de dispneia em pacientes com bolhas de enfisema que ocupam, pelo menos, 30% do hemitórax. Outra indicação é a história de pneumotórax. Os resultados cirúrgicos tendem a ser melhores em indivíduos com bolhas que ocupam mais de 50% de 1 hemitórax. O risco cirúrgico aumenta muito naqueles com VEF1 < 40% do predito, na presença de dispneia severa, hipercapnia ou cor pulmonale: o risco cirúrgico torna proibitiva a cirurgia. 5.6.7 Prognóstico Por muito tempo, a variável prognóstica mais utilizada foi a espirometria. No entanto, hoje sabemos que inúmeros parâmetros são mais relevantes, como já discutido na classificação de risco: grau de limitação funcional – escalas de dispneia ou distância caminhada no teste de 6 minutos –, número de exacerbações, presença de hipoxemia/hipercapnia/cor pulmonale, baixo peso – sugere maior estresse oxidativo associado à doença etc. Um índice ainda amplamente utilizado na avaliação prognóstica de paciente com DPOC é o BODE. Ele leva em conta 4 variáveis clínicas: B – body index; IMC/O – obstruction; VEF1/D – dyspnea; graduação mMRC/E – exercise – distância percorrida no teste de caminhada de 6 minutos. Trata-se de um escore simples, com pontuação de 0 a 10, sendo pior o prognóstico de morbimortalidade pela doença quanto maior o valor encontrado. Valores ≥ 7 são considerados para inclusão em fila de espera para transplante de pulmão. 5.7 EXACERBAÇÃO Exacerbação é definida como piora aguda dos sintomas respiratórios que resulta em necessidade de terapia adicional. É uma causa comum de internação, e, aparentemente, as infecções têm papel central. Uma diferença importante durante a exacerbação é que aumentam os eosinófilos nas vias aéreas, o que talvez explique a melhora com corticoide nessa agudização. A GOLD utiliza 3 critérios cardinais para classificar a exacerbação de DPOC. São eles: a) Piora da dispneia; b) Aumento da produção de escarro; c) Escarro que se torna purulento. A exacerbação pode ser classificada em: 1. Leve: 1 dos critérios cardinais + 1 achado adicional, como infecção das vias aéreas superiores, febre sem causa aparente, sibilos, aumento da tosse, aumento na frequência respiratória ou frequência cardíaca em mais de 20% daquela de base; 2. Moderada: 2 dos 3 critérios cardinais; 3. Grave: presença dos 3 critérios cardinais. É essencial o reconhecimento das exacerbações, caracterizadas como piora da dispneia, aumento da produção ou alteração da característica do escarro. A avaliação da gravidade deve ser feita por meio dos sintomas e da avaliação dos gases arteriais. A espirometria não parece adequada para a avaliação da gravidade da crise. A gasometria apresenta uma nuance importante: a presença de hipercapnia não necessariamente indica gravidade maior. A razão é que alguns pacientes, no dia a dia, já apresentam pCO2 elevada pelo estadiamento avançado da doença – nesses casos, o bicarbonato é cronicamente elevado, para manter o pH em níveis normais. Na hipercapnia aguda, esse mecanismo de compensação inexiste e o pH cai, traduzindo acidemia; assim, em pacientes na sala de emergência que tenham pCO2 elevada e pH normal, a gasometria não acresce gravidade; entretanto, naqueles com pCO2 elevada e pH baixo, a exacerbação reveste-se de gravidade extrema, e medidas devem ser adotadas para a correção da pCO2, como a ventilação não invasiva. O papel das infecções bacterianas como o principal fator etiológico das exacerbações da DPOC ainda é controverso. Um estudo recente procurou avaliar se, antes da exacerbação, poderia haver uma mudança nas cepas bacterianas. Os autores estudaram, prospectivamente, 81 pacientes com DPOC, com coleta mensal de escarro e nova coleta durante uma exacerbação. Em todas as amostras foi realizada tipagem molecular para vários germes. Os principais resultados foram 374 episódios de exacerbação: em 33% das exacerbações, houve mudança na cepa bacteriana. Dos indivíduos que não tiveram nenhuma exacerbação, apenas 15,4% tiveram mudança na cepa, o que leva a um risco relativo = 2,15 (IC 95%: 1,83 a 2,53). Nesse estudo, concluiu-se que a aquisição de novas cepas de pneumococo, Haemophilus ou Moraxella pode estar associada a maior chance de exacerbação da DPOC. Entretanto, em grande parte não foi encontrada uma mudança nas cepas, o que implica a existência de outros fatores envolvidos. Acredita-se que parte das exacerbações se deve a infecções virais, até 1 terço, ou fatores ambientais, como poluição e alterações de temperatura. Ainda que a etiologia infecciosa seja a principal, é importante valorizar as etiologias não infecciosas, como pneumotórax, síndromes coronarianas agudas, insuficiência cardíaca congestiva, embolia pulmonar, trauma, arritmia etc. 5.8 TRATAMENTO DA EXACERBAÇÃO 5.8.1 Internação versus tratamento ambulatorial A decisão de internar ou não o paciente baseia-se em vários fatores, como gravidade da exacerbação, gravidade da DPOC de base, comorbidades e suporte adequados em casa. Não há regras firmes; deve-se usar o bom senso. Algumas vezes, o paciente apresenta descompensação grave e pode necessitar de tratamento em UTI. A seguir, estão indicações de internação do paciente com doença pulmonar obstrutiva crônica consideradas pelo consenso brasileiro: a) Insuficiência respiratória grave: aumento acentuado da dispneia, distúrbios de conduta ou hipersonolência, incapacidade para alimentar- se, dormir ou deambular; b) Hipoxemia refratária ou hipercapnia com acidose – comparar com gasometrias prévias do paciente; c) Complicações, como tromboembolismo pulmonar, pneumoniaou pneumotórax; d) Insuficiência cardíaca congestiva descompensada ou descompensação de outra condição clínica associada. Pode-se considerar, ainda, internação em pacientes estáveis, em caso de: a) Necessidade de procedimentos invasivos, como broncoscopia; b) Impossibilidade de acompanhamento no ambulatório no momento devido a problemas socioeconômicos; c) Procedimentos cirúrgicos que necessitem de drogas sedativas ou hipnóticas. 5.8.2 Objetivos Os objetivos do tratamento da exacerbação da DPOC são tratar a etiologia, manter nível adequado de oximetria, reduzir a resistência das vias aéreas e melhorar a performance muscular. Ferramentas terapêuticas incluem oxigênio, broncodilatadores, corticosteroides, antibióticos, fármacos específicos para comorbidades, ventilação não invasiva e, eventualmente, intubação orotraqueal e ventilação mecânica. Um outro grande objetivo do tratamento da exacerbação é a prevenção de eventos subsequentes. Para isso, um dos pilares fundamentais é iniciar terapia de manutenção o quanto antes pós episódio de exacerbação. 5.8.3 Broncodilatadores inalatórios Geralmente, há pouca melhora espirométrica, porém há melhora sintomática importante da dispneia. Estudos têm demonstrado a eficácia de anticolinérgicos e beta-2-adrenérgicos de curta duração. Ao menos 3 grandes estudos controlados e randomizados mostraram que a associação do beta-2-adrenérgico ao anticolinérgico foi melhor do que ambos isoladamente; houve melhora significativa no VEF1 de 25% com a terapia combinada. Os medicamentos e as doses recomendadas são: 1. Salbutamol ou fenoterol: de 10 a 20 gotas (de 2,5 a 5 mg) em 3 a 5 mL de soro fisiológico – 3 inalações a cada 20 minutos ou mesmo contínuas, se o paciente estiver muito grave. Depois, aumentar o intervalo entre as doses, a cada hora, a cada 2 horas, e assim por diante, de acordo com a melhora; 2. Brometo de ipratrópio: de 20 a 40 gotas na mesma solução da inalação citada. As diretrizes nacionais recomendam utilizar a combinação de beta- 2-adrenérgico e anticolinérgico inalados no alívio da dispneia. Não há vantagem adicional de uso de beta-agonista sistêmico. 5.8.4 Antibióticos Existe muita controvérsia com relação às indicações de antibióticos nas exacerbações de DPOC. A recomendação mais aceita é fornecer antibacterianos nas seguintes situações: a) Estigmas inequívocos de infecção bacteriana, por exemplo: foco pneumônico em radiografia; b) Exacerbação com secreção purulenta; Exacerbação grave da DPOC, definida como aquela que necessita de admissão em UTI. As bactérias mais associadas são Haemophilus influenzae, Streptococcus pneumoniae e Moraxella catarrhalis. A escolha do antibacteriano, entretanto, é outro ponto de polêmica, pois outros germes podem estar envolvidos, como Pseudomonas ou outros com padrão de resistência relevante. A presunção do germe responsável depende da gravidade da doença e dos fatores de risco para mau prognóstico. As recomendações da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) dos fatores de risco para evolução desfavorável de DPOC estão listadas a seguir. a) Idade > 65 anos; b) Dispneia grave; c) Comorbidade significativa – cardiopatia, diabetes mellitus com uso de insulina, insuficiência renal, insuficiência hepática); d) Mais de 4 exacerbações nos últimos 12 meses; e) Hospitalização por exacerbação no ano prévio; f) Uso de corticoide sistêmico nos últimos 3 meses; g) Uso de antibióticos nos últimos 15 dias; h) Desnutrição. Quadro 5.8 - Seleção de antibacterianos na exacerbação da doença pulmonar obstrutiva crônica Fonte: adaptado de Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, 2006. Quando bem indicada, a antibioticoterapia pode reduzir tempo de convalescência, de hospitalização, de nova exacerbação de forma precoce e falha do tratamento. A recomendação é prescrever, na maioria dos casos, 5 a 7 dias de antibiótico. 5.8.5 Oxigênio Pacientes com exacerbação da DPOC e SatO2 < 90% devem receber oxigênio em menor fluxo necessário para manter a oximetria superior a 90%. Especialmente em DPOC grave ou muito grave (GOLD 3 e 4), há risco de piora da acidose respiratória e da hipercapnia com o uso de oxigênio em altos fluxos. É importante lembrar que esses pacientes mais graves convivem adequadamente com a hipóxia. Por isso, não é necessário manter a sua saturação de oxigênio muito acima de 90%. De fato, é suficiente manter a oximetria nesses níveis, destacando-se que valores superiores não trazem benefícios adicionais. Ademais, fluxos excessivos podem ser deletérios para pacientes com DPOC grave, levando à redução do drive respiratório por acidose. Os mecanismos de acidose e hipercapnia induzidas pelo oxigênio são multifatoriais e incluem redução no drive respiratório, devido à correção da hipoxemia, aumento do desequilíbrio ventilação- perfusão e aumento do espaço morto. Durante a avaliação da alta hospitalar, quando ainda há hipoxemia, a recomendação é que o indivíduo receba alta sem orientação de oxigenoterapia domiciliar e seja novamente avaliado em 30 a 45 dias, período em que a grande maioria já apresenta correção do distúrbio de trocas gasosas. Caso a hipoxemia persista nesse tempo, indica-se oxigenoterapia. 5.8.6 Corticosteroides O corticosteroide sistêmico é indicado a qualquer exacerbação da DPOC, independentemente da etiologia. Seu uso é recomendado por 5 a 7 dias, geralmente em doses baixas, de 30 a 40 mg de prednisona ou equivalente, sem necessidade de redução gradual do fármaco. Corticoide sistêmico melhora VEF1, melhora oxigenação, reduz tempo de convalescência e tempo de hospitalização. Os corticoides inalados não têm utilidade na exacerbação da DPOC. 5.8.7 Mucolíticos O papel dos agentes mucolíticos na exacerbação da DPOC é limitado. Não há dados na literatura que permitam considerar seu uso rotineiro. 5.8.8 Metilxantinas Não é mais recomendada na exacerbação pelos seus efeitos deletérios. O manejo da exacerbação da doença pulmonar obstrutiva crônica consiste em: a) Broncodilatadores, corticoide sistêmico e oxigênio suplementar para manter a SatO2 acima de 90% estarão sempre indicados; b) Antibiótico na ausência de pneumonia estará indicado na exacerbação com secreção purulenta e se houver exacerbação grave; c) Metilxantinas, mucolíticos e antitussígenos não estão recomendados rotineiramente. As medidas de manejo da exacerbação da DPOC também estão sempre presentes em questões de concursos médicos. 5.8.9 Ventilação não invasiva A ventilação não invasiva na forma de BiPAP está indicada a todos com exacerbação da doença e insuficiência respiratória aguda, respeitadas as contraindicações (Quadro 5.9). Seu principal objetivo é reduzir o trabalho respiratório por meio da oferta de 2 níveis de pressão positiva, um na inspiração, que é maior e outro na expiração, que é menor – por exemplo, pressão inspiratória de 14 cmH2O e expiratória de 8 cmH2O. A CPAP, que fornece um nível único de pressão na inspiração e na expiração, pode ser problemática a pacientes com hipercapnia acentuada ou acidemia importante, pois a pressão fornecida, útil na inspiração, pode aumentar o trabalho respiratório na expiração, porque o indivíduo necessitará gerar mais força muscular para vencer a pressão fornecida pelo aparelho. Quadro 5.9 - Indicações e contraindicações de ventilação não invasiva durante a exacerbação da doença pulmonar obstrutiva crônica 5.8.10 Ventilação invasiva São considerações para intubação orotraqueal: a) Grave dispneia com o uso de musculatura acessória e movimento abdominal paradoxal; b) Frequência respiratória > 35 irpm; c) Hipoxemia que ameaça a vida: paO2 < 40 mmHg ou paO2/FiO2 < 200; d) Acidose grave (pH < 7,25) e hipercapnia (paCO2 > 60 mmHg); e) Parada respiratória ou complicações cardiovasculares – instabilidade hemodinâmica; f) Confusão, sonolência; g) Falência da ventilação não invasiva; h) Outras complicações, como sepse, embolia pulmonar, pneumonia etc. A presença de alteração do nível de consciência, bradicardia ou iminência de parada cardiorrespiratóriaindica necessidade de intubação orotraqueal imediata. Da mesma forma, durante a evolução no pronto-socorro, pode ser necessária a intubação, que deverá basear-se em parâmetros clínicos, antes que o indivíduo se encontre em situação crítica com risco de parada cardiorrespiratória. A ventilação mecânica é uma intervenção que salva vidas e não deve ser adiada quando indicada. Inicialmente, o paciente deve ser mantido com sedação profunda, evitando-se bloqueadores neuromusculares. A ventilação mecânica deve ser iniciada no modo assistido-controlado, respeitando-se a mecânica ventilatória do indivíduo: como há obstrução grave, deve- se manter o tempo expiratório o mais prolongado possível para evitar a permanência de volume excessivo ao final da expiração (auto-PEEP); a não observância desse detalhe culminará com risco elevado de barotrauma. Assim, deve-se manter a frequência respiratória baixa (6 a 12 irpm) e o tempo inspiratório curto ou fluxo elevado. A ventilação a pressão ou volume tem resultados idênticos, desde que o intensivista realize monitorização adequada da mecânica respiratória. Quando se ventila a pressão em um paciente com DPOC, o volume gerado pode ser demasiadamente pequeno e piorar a hipercapnia, pois há obstrução das vias aéreas, o que exige pressões mais elevadas para um volume satisfatório – assim, o volume precisa ser monitorizado. Na ventilação a volume de pacientes com DPOC, a pressão de pico gerada, aquela que se dirige às vias aéreas e não se relaciona tanto ao barotrauma, costuma ser bem elevada; se os alarmes do aparelho estiverem ajustados para pressões menores, o pico pressórico abortará o ciclo respiratório, e o volume oferecido também será muito baixo. Assim, nesses casos, deve-se ajustar o ventilador para permitir a ocorrência de picos de pressão inspiratória, de 45 a 50 cmH2O, mas sempre com atenção à pressão de platô, até 35 cmH2O. Os níveis de PEEP recomendados são de cerca de 80% da auto-PEEP, principalmente quando o indivíduo está em ventilação de suporte. Outro ponto importante é com relação à hipercapnia. Pacientes que apresentem hipercapnia sem acidemia – por compensação metabólica – não necessitam ter os níveis de pCO2 corrigidos. Entenda a razão: com a redução dos níveis de CO2 em pacientes com compensação, os níveis de bicarbonato voltam ao normal, já que o distúrbio ventilatório foi corrigido; retirado o paciente do suporte ventilatório, o comprometimento da mecânica elevará novamente os níveis de CO2, sem que exista a compensação metabólica: o resultado final é acidose respiratória grave com necessidade de reintubação. Assim, só há necessidade de reduzir a pCO2 na presença de acidemia instalada. 5.8.11 Algoritmo da exacerbação Figura 5.11 - Abordagem inicial da exacerbação da doença pulmonar obstrutiva crônica Fonte: elaborado pelos autores. Qual importância do eosinófilo sérico na DPOC hoje? O eosinófilo sérico sempre foi relacionado à asma. Porém, atualmente tem importância em pacientes com DPOC, principalmente no que tange à definição do uso de corticoide inalatório ou não no esquema terapêutico proposto. Parar de fumar reduz risco relativo de comorbidades associadas ao tabagismo? 6.1 POR QUE AS PESSOAS FUMAM? O tabagismo é um transtorno mental e comportamental secundário ao uso de substâncias psicoativas derivadas do tabaco. É considerado doença segundo a Revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10, F17), além de reconhecido como a maior causa isolada evitável de adoecimento e mortes precoces em todo o mundo. Aproximadamente 85% dos tabagistas iniciaram o hábito de fumar durante a adolescência. Os fatos que influenciam a iniciação na adolescência são: familiares tabagistas, promoção de atividades relacionadas ao tabagismo mesmo que de forma indireta, disponibilidade e aceitabilidade social do hábito de fumar. Muitas vezes a necessidade de autopromoção e a tentativa de imitar atitudes adultas são componentes fundamentais para seguir com o hábito de fumar. Uma informação importante é que, atualmente, o tabagismo é uma pandemia e um grave problema de saúde pública, em razão da alta prevalência de fumantes e da mortalidade decorrente das doenças relacionadas ao tabaco. Os produtos do tabaco – cigarro, cigarro eletrônico, narguilé, charutos, cigarrilhas, cachimbos, tabaco mascável, rapé – nas suas mais diferentes formas – fumado, aspirado ou mascado – promovem dependência física, psicológica e comportamental semelhante ao que ocorre com o uso de outras drogas, como álcool, cocaína e heroína. A dependência obriga os fumantes a inalar mais de 4.720 substâncias tóxicas, como monóxido de carbono, amônia, cetonas, formaldeído, acetaldeído e acroleína, além de 43 substâncias cancerígenas, sendo as principais arsênio, níquel, benzopireno, cádmio, chumbo, resíduos de agrotóxicos e substâncias radioativas. A nicotina, contida nos derivados do tabaco, representa a principal substância responsável pela dependência química, que, por sua vez, apresenta 3 mecanismos para manutenção: 1. Reforço positivo: a liberação de dopamina no sistema mesolímbico, área de recompensa cerebral, resulta em sensações prazerosas, bem como na ação nos receptores colinérgicos do tipo nicotínico, que proporcionam a redução do apetite, o aumento da disposição, do estado de alerta e da atenção, modificando o estado emocional e comportamental do tabagista; 2. Condicionamento: desencadeado por estímulos ambientais e emoções positivas e negativas associadas ao consumo do tabaco, como acender um cigarro após tomar café ou em momentos de tensão ou de alegria. Depois de algumas repetições, essas associações tornam-se constantes, de modo que, toda vez que o tabagista toma uma xícara de café ou está triste ou alegre ele tem o desejo de fumar. Outras associações comuns são fumar e ingerir bebidas alcoólicas, fumar e falar ao telefone, fumar e escrever um relatório, fumar e assistir à televisão ou fumar depois de comer; 3. Reforço negativo: manutenção do consumo do tabaco para evitar o desconforto proporcionado pelos sintomas da síndrome de abstinência – disforia, aumento do apetite, irritabilidade, dificuldade de concentração, ansiedade etc. O consumo contínuo da nicotina faz o cérebro adaptar-se e passar a precisar de doses cada vez maiores para manter o nível de satisfação anterior – “tolerância à droga”. Dessa forma, o tabagista sente necessidade de consumir cada vez mais tabaco, e, com a dependência, cresce o risco do desenvolvimento de determinadas doenças. Diversos genes se associam com adicção a nicotina, estando associados a maior probabilidade de dependência a nicotina. A susceptibilidade genética pode influenciar a probabilidade de pós- experimentação do tabaco quando adolescente e levar a adicção para a idade adulta. 6.2 POR QUE PARAR DE FUMAR? O consumo do tabaco é demonstrado em vários estudos como fator causal de quase 50 doenças diferentes, muitas delas incapacitantes e fatais, como neoplasias, doenças cardiovasculares e doenças respiratórias crônicas. Esses estudos mostram que esse consumo é responsável por 45% das mortes por doença coronariana, 85% das mortes por doença pulmonar obstrutiva crônica, 25% das mortes por doença cerebrovascular e 30% das mortes por neoplasias. É importante enfatizar que 90% dos casos de câncer de pulmão manifestam-se em fumantes, demonstrando a forte correlação dessa doença com o tabagismo. O tabagismo mata 5,4 milhões de pessoas anualmente no mundo; no Brasil, são 200 mil mortes anuais. É um número maior do que a soma das mortes por AIDS, acidentes de trânsito, homicídios, suicídios e alcoolismo juntos. Sabe-se que a expectativa de vida de um indivíduo que fuma é 25% menor do que a de um não fumante. Dessa maneira, o tabagismo ativo representa a principal causa de morte evitável no mundo e o tabagismo passivo ocupa a terceira colocação nesse ranking. Os tabagistas passivos apresentam o risco 30% maior de desenvolver câncer de pulmão e 25% maior de desenvolverdoença cardiovascular, além de outras doenças respiratórias. As crianças, principal exemplo de tabagistas passivos, apresentam o risco de aumento de infecções respiratórias, morte súbita infantil, asma e otite média. Não há, no entanto, dados que demonstrem aumento de risco de doença pulmonar obstrutiva crônica entre tabagistas passivos. É interessante observar um dado explorado com certa frequência em provas de concursos médicos. Alguns trabalhos descritivos sugeriram que o cigarro tivesse efeito “protetor” para algumas doenças, como sarcoidose, pneumonite de hipersensibilidade, pneumonite actínica e retocolite ulcerativa. No entanto, esses dados não permitiram estabelecer uma relação de causa e efeito concreta. O fato é que, ainda que possa ser um dado real, a evidência mais clara é a de que, se qualquer uma dessas doenças se manifestar em um tabagista, o prognóstico será pior. 6.3 O QUE DIZ A LEGISLAÇÃO? No mundo e no Brasil, o tabagismo vem concentrando-se cada vez mais em populações mais pobres e de menor escolaridade. Ser adicto de nicotina leva muitos chefes de família a gastar grande parte de sua renda familiar na compra de cigarros. A debilidade causada pelas doenças relacionadas ao tabaco gera perda de produtividade e retira do mercado de trabalho muitos desses chefes, o que forma um círculo vicioso difícil de conter, a menos que os tabagistas sejam encorajados e apoiados a abandonar o consumo. Para reverter essa situação, o Ministério da Saúde (MS), junto ao Instituto Nacional de Câncer (INCA), desde 1989 articula ações nacionais que visam controlar o tabagismo, reduzindo a prevalência de fumantes e, consequentemente, a morbimortalidade relacionada ao tabagismo no Brasil. Para isso, usa como estratégias: reduzir a aceitação social do ato de fumar; reduzir os estímulos sociais e econômicos para o consumo; prevenir a iniciação no tabagismo; proteger a população contra a exposição ambiental à fumaça de tabaco; promover e apoiar a cessação de fumar. Essas ações nacionais geraram modificações progressivas na Legislação Brasileira, como pode ser percebido na Lei 9.294, de 15 de julho de 1996, que dispõe sobre as restrições ao uso e à propaganda de produtos fumígenos e as advertências nas embalagens desses produtos. Na Lei 9.782, de 26 de janeiro de 1999, que define a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como o órgão responsável por registrar os produtos derivados do tabaco, por meio de normas internas, em geral resoluções, a Anvisa regulamenta, controla e fiscaliza a produção, comercialização e publicidade de produtos derivados do tabaco. Em maio de 1999, o reconhecimento de que a expansão do tabagismo representava um problema mundial levou 192 países membros da Assembleia Mundial de Saúde a criar o 1º Tratado Internacional de Saúde Pública sob coordenação da Organização Mundial de Saúde (OMS): a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, da qual o Brasil é signatário desde 2005. Essa convenção visa “proteger as gerações presentes e futuras das devastadoras consequências sanitárias, sociais, ambientais e econômicas geradas pelo consumo e pela exposição à fumaça do tabaco, proporcionando uma referência para as medidas de controle do tabaco, a fim de reduzir de maneira contínua e substancial a prevalência do consumo e a exposição à fumaça do tabaco”. As principais medidas são: a) Proteger a população contra a exposição à fumaça do tabaco em ambientes fechados; b) Regulamentar os conteúdos e as emissões dos produtos; c) Desenvolver programas de educação e conscientização sobre os malefícios do tabagismo; d) Proibir a publicidade, promoção e o patrocínio dos produtos de tabaco; e) Implementar programas de tratamento da dependência da nicotina; f) Promover medidas de preços e impostos eficientes para redução do consumo; g) Eliminar o contrabando; h) Restringir o acesso dos produtos para os jovens; i) Promover alternativas econômicas para a produção de tabaco e proteger o meio ambiente e a saúde do trabalhador dos riscos causados pelas atividades de produção de tabaco. A Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco visa conter a epidemia do tabagismo em todo o mundo. Sua ratificação pelo Brasil se deu em 2005 por meio do Decreto Legislativo 1.012/2005, sua implementação nacional ganhou o status de Política de Estado, e o cumprimento de suas medidas e diretrizes tornou-se uma obrigação legal do governo brasileiro com a promulgação da Convenção- Quadro pelo Presidente da República, por meio do Decreto 5.658, de 2 de janeiro de 2006. Posteriormente, ocorreram as modificações mais impactantes na legislação dos produtos fumígenos brasileiros, como o Decreto 8.262, de 31 de maio de 2014, que proibiu o fumo em quaisquer ambientes fechados, proibiu os fumódromos, restringiu ainda mais a propaganda de cigarros e aumentou nas embalagens os avisos sobre os riscos à saúde. Como resultado, pode-se perceber que, entre 1989 e 2005, houve uma redução do consumo per capita de cigarros em torno de 32%. Já a prevalência de fumantes na população acima de 18 anos caiu de 34% em 1989 para 22% em 2003, e para 16% em 2006. Nos EUA, a prevalência de tabagistas adultos reduziu em torno de 15%. 6.4 PARANDO DE FUMAR O tabagismo, por muitos anos, representou um comportamento social aceitável e amplamente difundido; só passou a ser reconhecido como doença no final do século passado. Em 1986, surgiu o primeiro relatório nos Estados Unidos citando a nicotina como droga psicoativa. A dependência a ela, conforme descrito, obriga o tabagista a se expor a inúmeras substâncias tóxicas, responsáveis por 50 doenças, sendo imprescindível que todos os consumidores dos derivados de tabaco sejam aconselhados a abandonar o hábito. Definir o grau de dependência à nicotina é um importante elemento da avaliação dos tabagistas que querem cessar esse hábito, e, para avaliar essa dependência, foi desenvolvido o teste de Fagerström (Tabela 6.1), constituído de 6 perguntas. Uma soma acima de 6 pontos indica que, provavelmente, o paciente sofre de síndrome de abstinência significativa. Tabela 6.1 - Teste de Fagerström Grau de dependência: 0 a 2: muito baixo; 3 a 4: baixo; 5: médio; 6 a 7: elevado; 8 a 10: muito elevado. Além da avaliação do grau de dependência à nicotina, a motivação é uma condição imprescindível para iniciar o tratamento. Prochaska e DiClemente desenvolveram um modelo transteórico que explica os estágios de mudança de comportamento pelos quais uma pessoa passa até se libertar definitivamente do vício. Esse modelo baseia-se na premissa de que toda mudança comportamental é um processo e que as pessoas têm diversos níveis de motivação, de prontidão para mudar. Os estágios de mudança, quando se inicia um tratamento com o objetivo de parar de fumar, são: 1. Pré-contemplação: não há intenção de parar, nem mesmo uma crítica a respeito do conflito sobre o ato de fumar; 2. Contemplação: existe a conscientização de que fumar é um problema, no entanto há uma ambivalência quanto à perspectiva de mudança; 3. Preparação: há o preparo para parar de fumar (quando o paciente aceita escolher uma estratégia para a mudança de comportamento); 4. Ação: o paciente para de fumar, ou seja, toma a atitude que o leva a concretizar a mudança de comportamento; 5. Manutenção: o paciente deve aprender estratégias para prevenir a recaída e consolidar os ganhos obtidos durante a fase de ação. Nesse estágio, pode ocorrer a finalização do processo de mudança ou a recaída. Sabe-se que cerca de 80% dos fumantes desejam parar de fumar, 50% dos tabagistas tentaram de alguma forma parar nos últimos 12 meses, 6% conseguiu permanecer sem fumar por 6 meses enquanto apenas 3% atingem 2 anos sem fumar. Cada indivíduo pode vir a necessitar de diversas tentativas para alcançar o objetivo de parar de fumar. Porém, muitos tabagistas encontram dificuldade em parar de fumar sem apoio sendo que apenas 3% conseguem sem ajuda. Destes, 85% deixam de fumar sem apoio formal, o que aponta para o grande potencial que a abordagem rotineira dofumante pelos profissionais de saúde pode oferecer para reduzir a prevalência de fumantes. Assim, quando comparadas com as situações em que nenhum aconselhamento é dado ao fumante, a abordagem mínima (< 3 minutos) aumenta a taxa de cessação de fumar em 30%, a abordagem de 3 a 10 minutos aumenta em 60%, e a abordagem de 10 minutos de duração aumenta em mais de 100%. São gatilhos importantes que influenciam de forma positiva para o indivíduo refletir em parar de fumar e colocar este tópico como objetivo de vida: a) Abordagem do tabagista principalmente durante evento agudo de doença; b) Aumento do preço do cigarro; c) Campanhas de mídia; d) Restrição do tabagismo em ambientes fechados principalmente nos locais de trabalho. Quando o paciente está na fase de pré-contemplação, a abordagem do profissional de saúde deve limitar-se à conscientização sobre a importância de cessar o hábito, convidando-o a pensar sobre o assunto. Qualquer abordagem mais agressiva, ou mesmo prescrição de fármaco, não será efetiva. Diante de um paciente tabagista, a abordagem mínima do profissional de saúde deve envolver as seguintes manifestações: a) “Já pensou em parar de fumar?”; b) “Conhece as doenças relacionadas ao cigarro? Eu posso ajudar.” Umas das estratégias mais utilizadas para promover planos de ação no auxílio à cessação do tabagismo é a abordagem dos 5 “A”s, que consiste em 5 etapas, conforme mostrado no Quadro 6.1. Quadro 6.1 - Abordagem dos 5 “A”s As ações para a cessação do tabagismo devem basear-se em uma abordagem cognitivo-comportamental, podendo ser utilizado apoio farmacológico em condições específicas. A terapia cognitivo- comportamental visa detectar situações de risco que levam o indivíduo a fumar e desenvolver meios de enfrentamento para essas situações. Estudos de meta-análise comprovam que, qualquer que seja a duração dessa abordagem, há aumento na taxa de abstinência. Quando se associa tratamento farmacológico a esse método, observa-se aumento ainda maior nas taxas de cessação. O uso de fármacos representa um recurso adicional no tratamento do tabagismo quando a abordagem comportamental é insuficiente pela presença de elevado grau de dependência à nicotina. A farmacoterapia está indicada, geralmente, quando: a) O paciente fuma 20 cigarros ou mais por dia; b) O paciente fuma o primeiro cigarro até 30 minutos após acordar e consome, no mínimo, 10 cigarros diários; c) O paciente apresenta teste de Fagerström ≥ 5; d) O paciente tentou parar com a abordagem cognitivo- comportamental e não conseguiu, devido a sintomas de abstinência insuportáveis; e) Não existem contraindicações clínicas aos fármacos propostos. Os fármacos com evidências de eficácia são classificados em nicotínicos e não nicotínicos. Na Terapia de Reposição de Nicotina (TRN), a bupropiona e a vareniclina são consideradas de primeiro linha, enquanto a nortriptilina e a clonidina são de segunda linha no tratamento. A TRN visa à substituição da nicotina do cigarro por doses menores e mais seguras, reduzindo a fissura e outros sintomas da abstinência. Todas as formas são eficazes na cessação do tabagismo, podendo-se dobrar a taxa de cessação em longo prazo. Como exemplo, temos o adesivo transdérmico, a goma de mascar, a pastilha, o inalador em aerossol, o spray nasal e o comprimido sublingual. Há 2 formas de apresentação da TRN: liberação lenta (adesivos), que apresenta maior adesão, e liberação rápida (goma, inalador, spray nasal e pastilha), mais efetiva no controle da fissura, porém com maior risco de dependência. O número de cigarros fumados por dia pode orientar a dose inicial da TRN. Quadro 6.2 - Características da terapia de reposição de nicotina O cloridrato de bupropiona é um antidepressivo de ação lenta com diversos estudos demonstrando de forma consistente a sua efetividade no tratamento a dependência à nicotina. As principais características da bupropiona são demonstradas no Quadro 6.3, a seguir: Quadro 6.3 - Características do cloridrato de bupropiona O tartarato de vareniclina foi desenvolvido para ocupar os receptores colinérgicos nicotínicos, produzindo efeitos semelhantes à nicotina. Tem sido considerado uma droga eficaz, segura e bem tolerada. O uso desse fármaco vem sendo associado, em vários ensaios, a taxas de abstinência significativamente maiores do que o placebo, a bupropiona e a TRN. As principais características da vareniclina são demonstradas no Quadro 6.4, a seguir: Quadro 6.4 - Características do tartarato de vareniclina A nortriptilina é um antidepressivo tricíclico considerado como droga de segunda linha no tratamento do tabagismo. Evidências sugerem que sua eficácia é similar à obtida com TRN ou bupropiona. Promove redução dos sintomas de abstinência, além de ação ansiolítica e efeitos colaterais anticolinérgicos. O uso não é recomendado a pacientes com infarto agudo do miocárdio. É contraindicado àqueles com insuficiência hepática, epilepsia, psicose e mulheres em amamentação. A clonidina é um agonista adrenérgico de ação central usado principalmente como anti-hipertensivo, agindo também no controle de sintomas de abstinência da dependência nicotínica. Algumas meta-análises demonstram que o seu uso pode aumentar a chance de cessação em até 2 vezes comparada ao placebo. No entanto, seu uso é limitado devido a seus importantes efeitos colaterais, entre eles boca seca, sedação, sonolência, hipotensão ortostática, depressão, constipação e distúrbios do sono. O cigarro eletrônico, também conhecidos como e-cigarettes, tem sido proposto como método alternativo para auxiliar na cessação do tabagismo. Ele está sendo proibido por uma série de agências regulatórias internacionais e também pela Anvisa, em razão da presença de nicotina e substâncias cancerígenas. A ideia de redução de dano é defendida por alguns autores, porém, também não é autorizada em nosso país. Os cigarros eletrônicos se apresentam como dispositivos eletrônicos que aquecem uma solução que pode ou não conter nicotina, produzindo vapor a ser inalado. Quando nicotina presente, os indivíduos tendem a utilizar o cigarro eletrônico até atingir a satisfação com os níveis de nicotina e alguns permanecem em uso crônico deste. Ainda não há consenso se a troca do cigarro pelo cigarro eletrônico de forma exclusiva ajuda ou não a manter-se sem o cigarro. Em relação aos tabagistas de cigarro comum, o universo de indivíduos em uso de cigarro eletrônico é pequeno, porém, no grupo de adolescentes e jovens a prevalência do uso de cigarro eletrônico é maior. Porém, apesar do aumento do uso de cigarro eletrônico nestes grupos, ainda sim temos a redução da prevalência de tabagismo. Instituído o tratamento, o paciente deve manter acompanhamento regular e multidisciplinar com equipe de saúde. O objetivo é mantê- lo motivado na cessação do tabagismo e orientá-lo quanto a estratégias para diminuir os sintomas desagradáveis da abstinência, prevenindo as recaídas. É de extrema importância que o profissional antecipe as situações de risco no processo de cessação de cada paciente, como as barreiras comportamentais e os sintomas da síndrome de abstinência à nicotina e fissura. Aqueles pacientes em que o principal complicador é a associação de hábitos (por exemplo, aqueles que fumam depois de refeições, ou quando ingerem bebidas alcoólicas, ou na folga do trabalho, ou ainda quando chegam em casa à noite para relaxar da rotina estressante do trabalho) podem ser os mais difíceis de se conseguir convencer. Muitos minimizam essas associações e não se mostram de fato empenhados em modificar hábitos da vida diária pelo benefício de parar de fumar. Nesses casos, a antecipação e o reforço positivo são fundamentais no sucesso da terapia. Metodologias de seguimento que não alterem muito as atividades da vida pessoal e do trabalho também podem se mostrar mais eficazes no aumento da aderência do paciente às consultas de seguimento. A telemedicina com apoio médico e psicológico tem se mostrado um método promissor no aumento das taxas de abstinência.Os sintomas de fissura surgem logo nas primeiras 24 a 48 horas e não se devem à abstinência química da nicotina. Os principais são irritabilidade e vontade enorme e inexplicável de fumar. Habitualmente, apresentam duração curta, e a melhor maneira de se evitar a recaída, nesses casos, é não ter cigarros próximos. A síndrome de abstinência manifesta-se a partir do quarto ou quinto dia após a cessação total do tabagismo e caracteriza-se por sintomas físicos de taquicardia, sudorese, dispneia, agitação psicomotora e insônia. O principal método para sua prevenção é a identificação adequada da necessidade de farmacoterapia para cada paciente, seja com agentes nicotínicos ou não nicotínicos. Sua duração costuma ser de 2 semanas, podendo, em alguns pacientes, estender-se até 4 semanas. Após esse período, não há nenhuma evidência de que a síndrome de abstinência à nicotina possa contribuir para o retorno do hábito de fumar. Por fim, existem algumas situações especiais nas quais os pacientes tabagistas devem receber atenção diferenciada no auxílio cognitivo- comportamental e medicamentoso, conforme descrito no Quadro 6.5, a seguir: Quadro 6.5 - Estratégia de cessação do tabagismo em situações especiais Vale a pena observar as situações de precaução clássica quanto aos fármacos utilizados na cessação do tabagismo, que são: reposição de nicotina (IAM recente e arritmias graves), bupropiona (antecedente de epilepsia) e vareniclina (depressão com ideação suicida e gestantes). 6.5 TABAGISMO E COMODIDADES ASSOCIADAS Mais de 480 mil indivíduos morrem precocemente a cada ano nos EUA decorrente do uso de cigarro, representando em torno de 20% das mortes no país. Aproximadamente 40% dos tabagistas irão morrer prematuramente devido ao hábito de fumar. Um dado interessante é que, com o avançar da idade, o risco relativo de doenças como neoplasia pulmonar e DPOC aumentam de forma progressiva quando comparamos tabagistas e não tabagistas. Entretanto, quando analisamos o comportamento do risco relativo tabagistas/não tabagistas em relação a doenças cardiovasculares, observamos um aumento progressivo do risco relativo até a faixa etária de 65 a 74 anos. Após os 75 anos o risco relativo ainda é alto, porém apresenta queda em relação a faixa etária anterior tanto em homens quanto em mulheres. Apesar desta queda, quando analisamos a diferença absoluta de taxa de mortalidade entre tabagistas e não tabagistas quanto a doença cardiovascular, esta segue aumentando de forma progressiva com o avançar da idade, evidenciado um processo de injúria cumulativa. 6.5.1 Doença cardiovascular Tanto a doença cardiovascular de grandes vasos quanto aquelas de pequenos vasos tem maior probabilidade de se desenvolver em pacientes tabagistas do que em não tabagistas. Em torno de 90% dos pacientes não diabéticos com doença vascular arterial periférica, o tabagismo está envolvido, enquanto este também tem relação com 50% dos casos de aneurisma na aorta. Em contraste, o tabagismo está associado a 24% dos casos de doença arterial coronariana e em torno de 11% dos casos de acidente vascular isquêmico ou hemorrágico. O cigarro junto a outros fatores de risco, como dislipidemia e hipertensão, gera interação multiplicativa. O tabagismo ainda participa da formação de placa aterosclerótica e oclusão vascular, aumentando o risco de IAM. Por um lado, pacientes que seguem com hábito de fumar tem risco substancialmente aumentado para oclusão de stent ou bypass coronariano. Entretanto, a cessação do tabagismo rapidamente reduz esse risco de coagulação e ativação plaquetária, o que explica parcialmente a redução de um novo evento de IAM em tabagistas que apresentaram um primeiro IAM não fatal. Esta redução já é evidente em 6 a 12 semanas, com redução do risco de morte por IAM em 2 a 4 anos naqueles sem história prévia de doença cardiovascular. Após 15 anos sem fumar, o risco de IAM e morte por doença cardiovascular passa a ser igual aos daqueles que nunca fumaram. 6.5.2 Neoplasia Tabagismo está relacionado a neoplasia de pulmão, lábio, cavidade oral, nasofaringe, hipofaringe, cavidade nasal, esôfago, estômago, pâncreas, fígado, cólon/reto, rim, ureter, bexiga, cérvice uterino e leucemia mieloide aguda. Evidências demonstram aumento do risco de neoplasia em mulheres na pré-menopausa. Não há evidência de correlação entre tabagismo e neoplasia de endométrio e o tabagismo é fator de risco menor para neoplasia uterina na pós-menopausa. Para todas as neoplasias associadas ao tabagismo, o risco é maior quanto maior a carga tabágica. Especialmente nas neoplasias de esôfago e cavidade oral existe um grande sinergismo tabagismo- álcool. Exposição ocupacional a asbesto e radônio também apresentam sinergismo com tabagismo. Após 4 anos sem fumar, parece haver uma redução do risco relativo para neoplasia em relação àqueles que seguiram com hábito de fumar. Entretanto, o risco relativo para neoplasia ainda é maior quando comparado a indivíduos que nunca fumaram, mesmo após 20 anos sem fumar. Pacientes que seguem fumando durante quimioterapia e radioterapia apresentam prognóstico mais reservado e redução da sobrevida. 6.5.3 Doença respiratória Um dado interessante é que apenas 15 a 25% dos tabagistas irão desenvolver DPOC, entretanto, 80% ou mais dos casos de DPOC são intimamente relacionados ao tabagismo. Após 2 anos de tabagismo, indivíduos já apresentam inflamação de pequenas vias aéreas. Com a passar do tempo os sintomas podem aparecer junto ao surgimento de distúrbio ventilatório obstrutivo à espirometria. Além das lesões em pequenas vias aéreas, o tabagismo leva a hiperplasia mucoide crônica em grandes vias aéreas, resultando em tosse produtiva crônica que se evidencia clinicamente em 80% dos indivíduos tabagistas com > 60 anos. Apesar da melhora da função pulmonar após cessação do tabagismo em indivíduos jovens, o que se espera em relação aos pacientes que param de fumar é a redução da taxa de declínio da função pulmonar, mais do que a normalização da função pulmonar. 6.5.4 Complicações gestacionais Tabagismo está relacionado a diversas complicações gestacionais, como ruptura prematura de membrana e placenta prévia. Ainda existe um pequeno aumento do risco de aborto espontâneo. Crianças filhos de gestantes tabagistas apresentam maior risco de parto prematuro, aumento da mortalidade perinatal, crescimento intrauterino reduzido, aumento do risco de síndrome do distress respiratório e da síndrome de morte súbita na infância. 6.5.5 Outras condições relacionadas ao tabagismo Existem diversas outras condições relacionadas ao tabagismo, destacando-se: redução da cicatrização de úlcera péptica, doença periodontal, aumento do risco de desenvolver diabetes, artrite reumatoide, tuberculose ativa, osteoporose, catarata, degeneração macular, menopausa prematura, litíase biliar-colecistite em mulheres e impotência sexual em homens. 6.5.6 Tabagismo passivo Tabagismo passivo pode estar associado ao aparecimento de doenças em não tabagistas, como neoplasia pulmonar, doença coronariana; em crianças, o aumento do risco de otite média, infecção respiratória e exacerbação da asma. Evidências sugerem relação entre tabagismo passivo e neoplasia de mama em mulheres na pré-menopausa. Parar de fumar reduz risco relativo de comorbidades associadas ao tabagismo? Sempre é hora para parar de fumar. O risco relativo das doenças relacionadas ao tabaco reduz após a cessação do tabagismo. Por exemplo, após 15 anos sem fumar, o risco de IAM e morte por doença cardiovascular passa a ser igual aos daqueles que nunca fumaram. Qual a diferença conceitual de tuberculose pulmonar ativa e tuberculose latente? Qual a diferença de tratamento entre as 2? 10.1 EPIDEMIOLOGIA Trata-se da doença infecciosa que mais mata no mundo, superando as mortes causadas pela AIDS, que apresenta coincidência de 10% dos casos de tuberculose (TB). Estimou-se a incidência de 10,6 milhões de casos em 2016, sendo que 87% se concentrariam em apenas 30 países. No Brasil, ao contrário de outrospaíses da África e Ásia, existe uma tendência de redução de incidência na última década, com cerca de 69 mil novos casos diagnosticados entre 2016 e 2017, totalizando 4.500 óbitos. O Brasil está entre os 30 países de alta carga para tuberculose, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). A coinfecção por TB-HIV e a doença multirresistente ainda não são consideradas alarmantes em relação ao total de casos diagnosticados. 10.2 FISIOPATOLOGIA A TB é uma doença infecciosa crônica causada por micobactérias de replicação lenta, do complexo Mycobacterium tuberculosis, integrante do grupo das micobactérias. O M. tuberculosis também é conhecido como bacilo de Koch, daí BK. Trata-se de pequenos bacilos, não esporulados, aeróbios, que contam com uma parede celular rica em lipídios. As características físico-químicas dessa parede fazem que a bactéria seja corada por fucsina na técnica de Ziehl-Neelsen, o que a define como Bacilo Álcool-Ácido-Resistente (BAAR). O crescimento é lento, com tempo de duplicação em torno de 18 horas, formando colônias em cultura ao redor de 30 dias. Locais com tensão elevada de O2, os alvéolos pulmonares, sobretudo aqueles presentes nos ápices dos pulmões, são mais propícios à proliferação do M. tuberculosis. Estima-se que cada paciente bacilífero infecte, em média, 10 a 15 pessoas por ano, sendo o responsável direto pela sustentação da cadeia de transmissão da doença. O risco de transmissão perdura enquanto o paciente eliminar o bacilo, e, com início do tratamento, a transmissão tende a diminuir gradativamente, encontrando-se bastante reduzida após 15 dias. A transmissão ocorre por via aérea pela inalação de aerossóis contendo o bacilo proveniente das secreções da via respiratória de indivíduos bacilíferos. O termo bacilífero se refere aos pacientes com tuberculose pulmonar ou laríngea que tenham baciloscopia positiva no escarro. As gotículas exaladas são conhecidas como gotículas de Pfluger e rapidamente tornam-se secas transformando-se em partículas menores, mantendo-se em suspensão e contendo 1-2 bacilos apenas em cada gotícula. É importante lembrar que os bacilos que se depositam em roupas, lençóis, copos e outros objetos dificilmente se dispersam em aerossóis e, por isso, não tem papel na transmissão da doença. As partículas dispersas no ar são inspiradas e atravessam as barreiras mecânicas existentes nas vias aéreas superiores e instalam-se nos alvéolos. A alteração do clearance mucociliar do receptor é fundamental na patogênese da doença. Existe um processo inflamatório local inespecífico do qual participam células polimorfonucleares e macrófagos não ativados. Os macrófagos fagocitam os bacilos, processam seus antígenos e apresentam epítopos para linfócitos T CD4+ específicos, os quais secretam citocinas quimiotáxicas e ativadoras de macrófagos. Estes se diferenciam em células epitelioides e organizam-se em uma estrutura característica da resposta granulomatosa. Se os granulomas estão bem formados, a infecção é contida. A capacidade de conter a multiplicação do bacilo e impedir que a infecção progrida para doença envolve a integridade do sistema imune celular. A célula responsável pela resposta imune efetiva é o macrófago, entretanto sua funcionalidade depende da interação com os linfócitos T CD4+. As citocinas produzidas e liberadas pelos linfócitos T CD4+ – sobretudo IFN-gama, IL-2 e TNF-alfa – promovem a ativação e a diferenciação dos macrófagos e a migração de células específicas, como monócitos e linfócitos. Além disso, garantem a formação e a manutenção da estrutura do granuloma, cujo microambiente é dinâmico, com constante renovação das células ali presentes. Deste modo, condições que interfiram quantitativa ou qualitativamente na imunidade celular configuram fatores de risco para o desenvolvimento de TB. Entre elas, destacam-se a infecção por HIV/AIDS e outras condições de imunossupressão, como transplante de órgão sólido, idade menores de 5 anos ou maiores de 60 anos, desnutrição, alcoolismo, diabetes mellitus e doenças autoimunes, especialmente aquelas em tratamento com corticosteroides. O contato com a TB não garante a evolução da doença. Há necessidade de alteração nos mecanismos de imunidade celular para ativação de focos, como nos casos de transplante de órgão sólido, idade menores de 5 anos ou maiores de 60 anos, desnutrição, alcoolismo, diabetes mellitus e doenças autoimunes, especialmente aquelas em tratamento com corticosteroides. O período de incubação da infecção, desde a inalação da bactéria até a formação do granuloma, é de 6 a 14 semanas. Nesse momento, já é possível observar positividade nas provas de hipersensibilidade tardia, como a reação intradérmica à tuberculina (PPD), que testa a imunidade celular. É interessante que, se a infecção for contida nos pulmões, uma lesão cicatricial poderá ser vista em exames de imagem, como nódulo densamente calcificado, denominado nódulo de Gohn. Em alguns casos, os bacilos podem ter escapado do parênquima pulmonar antes do surgimento da resposta celular específica; assim, atingem gânglios hilares e podem se disseminar sistemicamente, alojando-se em alguns órgãos. No entanto, a resposta granulomatosa surge na maioria dos casos, e a proliferação dos bacilos é contida. Caso não o seja, é possível haver formas miliares ou extrapulmonares da doença. E mais: mesmo com contenção inicial, no futuro, obviamente, se houver queda de imunidade celular, esses focos de bacilos poderão se reativar, gerando doença. Em alguns casos, assim como pode ser visualizado o nódulo de Gohn, é possível observar um gânglio hilar calcificado (exatamente no local em que houve a passagem do bacilo). Esse complexo, nódulo pulmonar e gânglio calcificado, recebe o nome de complexo de Ranke. Durante a fase do complexo primário, a maioria dos indivíduos infectados é assintomática, principalmente os adultos. As crianças podem apresentar tosse e febre. Os linfonodos hilares podem aumentar a ponto de provocar obstrução dos brônquios, causando atelectasia. Outros sintomas possíveis são eritema nodoso e ceratoconjuntivite flictenular, ambos fenômenos imunomediados, que ocorrem na época da viragem tuberculínica. Figura 10.1 - Ciclo resumido da tuberculose Fonte: adaptado de Ernst, 2012. A fisiopatogenia da doença pode ser resumida com o esquema da Figura 10.2. Figura 10.2 - Descrição resumida da fisiopatogenia da infecção inicial por tuberculose Fonte: adaptado de In search of a new paradigm for protective immunity to TB, 2014. Note-se que, na sequência, não há definições claras do que leva um paciente a ter o desenvolvimento para o controle do M. tuberculosis, para a formação de granulomas calcificados, ou para granuloma caseoso. Antes de entrarmos na apresentação clínica, devemos lembrar a definição de sintomático respiratória. Esta é muito importante para o entendimento do capítulo. Sintomático respiratório = Pessoa que, durante a estratégia programática de busca ativa, apresenta tosse mais de 3 semanas. Essa pessoa deve ser investigada para tuberculose através de exames bacteriológicos. 10.3 APRESENTAÇÃO CLÍNICA 10.3.1 Tuberculose pulmonar A tuberculose pulmonar é classicamente dividida em 3 formas principais de apresentação: primária; pós-primária, também conhecida como secundária, e a forma miliar. Os sintomas clássicos de tosse persistente seca ou produtiva, febre vespertina, sudorese noturna e emagrecimento podem ocorrer em qualquer das 3 apresentações. 10.3.1.1 Tuberculose primária A tuberculose primária ocorre após o primeiro contato com o bacilo e por isso é mais comum em crianças. O complexo primário de Gohn pode evoluir para cura espontânea, doença circunscrita ou doença disseminada. A cura ocorre na grande maioria dos casos, e o complexo primário calcifica-se e perde a capacidade de reativação. A doença localizada manifesta-se por TB pulmonar primária ou pleurite tuberculosa. A TB pulmonar progressiva primária, ou pneumonia tuberculosa primária, decorre da evolução do processo que teve iníciono complexo primário, ainda nos primeiros 2 anos que se seguem à aquisição da infecção. Localiza-se mais frequentemente na porção superior do lobo inferior ou na porção inferior do lobo médio à direita. O quadro clínico corresponde a uma pneumonia clássica, com febre e tosse produtiva, podendo raramente evoluir para insuficiência respiratória aguda. A pleurite tuberculosa ocorre quando o processo se desenvolve em uma região justapleural, com inflamação secundária da pleura e derrame pleural, que se resolve espontaneamente na maioria dos casos. O quadro clínico é de dor pleurítica aguda, com tosse e febre alta, e pode ser observada mais frequentemente em crianças e adultos jovens. A doença disseminada é representada pela TB miliar primária. É mais comum em recém-nascidos e crianças com imunodeficiências, nos quais não se consegue conter os focos à distância, formados durante a fase de disseminação hematogênica. Na TB miliar primária, é muito comum o comprometimento do sistema nervoso central (neurotuberculose e meningite tuberculosa). O paciente desenvolve insuficiência dos múltiplos órgãos afetados, febre, insuficiência respiratória aguda e pode ter evolução fatal. A maioria dos casos de TB primária evolui para cura espontânea e granuloma com calcificação, que perde a sua capacidade de reativação. Quando ocorre a doença disseminada, a frequência é maior em crianças e imunodeficientes. 10.3.1.2 Tuberculose secundária ou de reativação Anos depois da infecção inicial, os bacilos viáveis, presentes no complexo primário, podem voltar a se multiplicar e induzir a doença. Dessa forma, a tuberculose pós-primária é mais comum em adolescentes, adultos jovens e adultos. A reativação é mais comum em indivíduos com algum tipo de imunodepressão, desnutrição, alcoolismo, na gravidez e em doentes com outras afecções pulmonares subjacentes, como doença pulmonar obstrutiva crônica e câncer de pulmão. A ausculta pulmonar, no início, é de diminuição dos murmúrios vesiculares, principalmente nos ápices, que pode progredir para ausculta de sopro anfórico – nem sempre presente –, produzido pela presença de cavidade. Ausculta pulmonar normal em nada exclui tuberculose pulmonar. No exame físico é comum verificarmos fácies de doença crônica e indivíduo consumido. Entretanto, o indivíduo se apresentar em bom estado geral, ativo e sem sinais de emagrecimento não exclui a possibilidade de tuberculose. Admite-se que a maioria dos casos de TB secundária deve-se à reativação de bacilos latentes, resultante de uma falha localizada da resposta imune no microambiente dos granulomas do complexo primário. A resposta imune adaptativa específica ao M. tuberculosis desencadeia reação inflamatória à infecção, levando à formação de focos de necrose caseosa importante. Se esse sítio de inflamação e necrose se comunica com um brônquio, o material necrótico é drenado pelas vias aéreas, formando uma cavidade. A reativação leva a quadro clínico típico de tosse produtiva, com expectoração mucoide ou purulenta, com ou sem sangue. A febre é geralmente vespertina, sem calafrios, e não costuma ultrapassar os 38,5 °C. Sudorese, hemoptise, perda ponderal e anorexia são comuns. Paciente com presença de cavitação nos raios X é aquele com maior fonte de transmissão da TB, devido à grande presença de bacilos em tais locais. Podem ocorrer lesões das paredes de vasos sanguíneos próximos às cavidades, justificando a presença de hemoptise. A Figura 10.3 mostra um exemplo de TB pulmonar secundária. Figura 10.3 - Cavitação no ápice direito: lembrar que o hemitórax direito é mais frequentemente atingido pela facilidade de o bacilo alcançá-lo na primoinfecção; no entanto, pode haver qualquer imagem, inclusive sem cavitações Fonte: Osteoartropatia hipertrófica associada a tuberculose pulmonar, 2002. 10.3.1.3 Tuberculose miliar A tuberculose miliar refere-se a aspecto radiológico pulmonar típico que pode ocorrer tanto na forma primária quanto secundária. É uma forma grave sendo mais comum em indivíduos imunossuprimidos. A apresentação clínica pode ser aguda ou subaguda, sendo estas mais frequentes em crianças e adultos. De forma mais incomum esta pode se apresentar de forma arrastada e ser causa de febre de origem obscura principalmente em idosos. A evolução da tuberculose por reativação sem tratamento se dá da seguinte forma: a) TB avançada: os bacilos disseminam-se pela via broncogênica para outras áreas do pulmão afetado, para o pulmão contralateral, o que pode produzir cavidades bilaterais. Pode ocorrer espessamento da pleura, sem derrame pleural concomitante (pleurisia seca). Em imunodeprimidos com reativação de focos infecciosos pulmonares não é frequente a formação de cavernas, pois a disfunção da imunidade celular leva a resposta inflamatória ineficiente; b) TB miliar secundária: pode estar associada à disseminação hematogênica de TB pulmonar secundária ou ocorrer por reativação simultânea de vários focos latentes, formados na fase inicial de disseminação hematogênica. Os locais preferencialmente acometidos são o fígado, o baço e os ossos. Figura 10.4 - Tomografia de tórax demonstrando múltiplas imagens de disseminação difusa, com aspecto miliar. Esse perfil de imagem é sugestivo de imunodepressão com diminuição da resposta celular, o que impede a formação de cavidades Figura 10.5 - História natural Fonte: elaborado pelos autores. Um dado importante de abordarmos é o diagnóstico diferencial da tuberculose pulmonar. Os principais diagnósticos diferenciais são: neoplasias (destacando-se linfoma e neoplasia pulmonar especialmente carcinoma de células escamosas), infecções fúngicas como histoplasmose, paracoccidioidomicose e outras, além de outras doenças bacterianas como aquelas que levam a abscesso pulmonar e pneumonia necrotizante (S. pneumoniae, H. influenza, K. pneumoniae, S. aureus, actinomicose e nocardiose). Dentre todas estas devemos estar muito atentos no diagnóstico diferencial de linfoma e tuberculose, pois apresentam características clínicas muito semelhantes. Um outro diagnóstico diferencial que devemos destacar a parte é a micobacteriose não tuberculosa. O quadro clínico muitas vezes é indistinguível da tuberculose e devemos sempre considerar esta hipótese diagnóstica quando não houver resposta a tratamento inicial com RIPE. Outros de interesse são: silicose, onde a concomitância de tuberculose aparece com maior frequência. Sarcoidose, muitas vezes, difícil distinguir e, inclusive, como também é doença granulomatosa, a histopatologia também às vezes é desafiadora. Lembrar que o granuloma da sarcoidose é não caseoso. 10.3.2 Extrapulmonar O acometimento de outros órgãos, além dos pulmões, pode acontecer tanto na infecção primária quanto na reativação da TB. A principal forma de manifestação é a TB pleural (classificada como extrapulmonar), seguida pela TB ganglionar. 10.3.2.1 Neurotuberculose É responsável por 3% dos casos de tuberculose em pacientes não HIV positivos e por até 10% dos casos daqueles HIV positivos. É a forma mais grave de TB, mas representa somente uma pequena proporção dos casos de TB extrapulmonar, efeito principalmente da alta cobertura de vacinação com BCG em crianças com menos de 5 anos. Os pacientes apresentam quadro clínico de meningite ou meningoencefalite, caracterizado pela ocorrência de irritação meníngea e sintomas de hipertensão intracraniana com febre, rigidez de nuca, sinais de Kernig e Brudzinski presentes, náuseas, vômitos e cefaleia. A meningite tuberculosa evolui de maneira mais lenta em relação à bacteriana e cursa com envolvimento de pares cranianos, embora seja difícil a diferenciação entre os casos de meningite bacteriana e tuberculosa, pelos achados clínicos isoladamente. O diagnóstico pode ser realizado por punção liquórica, que evidencia liquor com pleocitose e predomínio de linfomononucleares – embora possa haver um número maior de neutrófilos na fase inicial da doença –, proteína muito elevada e glicose baixa (< 50% da sérica). A bacterioscopia por métodode Gram é negativa, a pesquisa de BAAR pode ser positiva, e a cultura, embora seja mais sensível que a baciloscopia, permite o isolamento do bacilo em apenas 15% dos casos. Testes indiretos, assim como a dosagem de adenosina deaminase (ADA) no liquor, apresentam sensibilidade entre 60 e 100% e especificidade de 84 a 99%, nem sempre auxiliando no diagnóstico. A pesquisa por reação de cadeia de polimerase (PCR) apresenta bons resultados. A tomografia de crânio pode conter achados como hidrocefalia, edema cerebral, espessamento da meninge basal e indícios de pequenos infartos parenquimatosos. Estes dados de imagem são muitas vezes importantes para o diagnóstico diferencial. Outra forma de manifestação da neurotuberculose é o tuberculoma intracraniano, isto é, uma meningoencefalite com formação de lesão expansiva encefálica. Esse diagnóstico requer exame de imagem, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética. A neurotuberculose raramente causa lesão focal (tuberculoma), apresentando predomínio de meningoencefalite (com alteração comportamental, nunca focal), e frequentemente se associa ao HIV. 10.3.2.2 Pleural É a forma mais comum de tuberculose extrapulmonar em pessoas não infectadas pelo HIV. É mais comum em jovens e cursa com dor torácica do tipo pleurítica. Em 70% dos casos, observa-se astenia e emagrecimento e em 60% dos casos tosse seca com febre associada. Na maioria das vezes, o derrame pleural tuberculoso decorre de uma reação de hipersensibilidade da pleura ao bacilo. De fato, tem-se uma baixíssima positividade da pesquisa de BAARs (< 5%) e da cultura do líquido pleural (< 15%). É apenas em casos raros que pode haver ruptura de cavitação subpleural, provocando o que se chama empiema tuberculoso, com pesquisa de BAAR e cultura habitualmente positivas. Os pacientes costumam buscar auxílio médico com tosse seca (eventualmente com secreção), febre e dispneia. Na maioria das vezes, o quadro é subagudo, simulando infecção pulmonar bacteriana. A suspeita de pleurite tuberculosa ocorrerá pela presença de síndrome de derrame pleural ao exame físico e ausência de dados que sugiram consolidação do parênquima pulmonar. O derrame pleural é exsudativo, geralmente unilateral, de tamanho pequeno a moderado. O aspecto é de líquido amarelo-citrino, sendo incomum a apresentação hemática. Na celularidade, há predomínio de linfócitos (embora nos primeiros dias possa haver maior número de neutrófilos). A porcentagem de células mesoteliais é geralmente inferior a 5% (pela inflamação difusa da pleura), e pacientes com mais de 5% dessas células no derrame pleural tuberculoso sugerem diagnóstico alternativo. O diagnóstico definitivo pode ser feito por meio da dosagem da ADA, que se maior que 40 UI/L sugere fortemente TB, desde que afastadas clinicamente causas menos comuns, como linfoma, artrite reumatoide, mesotelioma e empiema. Quando a ADA for negativa, a biópsia de pleura geralmente estará indicada, tendo um bom rendimento – a presença de granuloma acaba definindo o diagnóstico. A adenosina deaminase aumentada não é específica de TB pleural – pode ocorrer também nos linfomas, artrite reumatoide, mesotelioma e empiema pleural. Figura 10.6 - Derrame pleural: lembrar que, no Brasil, um dos principais diagnósticos diferenciais para causas de derrame pleural é a tuberculose pleural, principalmente se à direita (tuberculose mais frequente à direita) 10.3.2.3 Ganglionar É a forma mais frequente de tuberculose extrapulmonar em pacientes HIV positivos. Ao exame físico, nota-se aumento indolor e assimétrico das cadeias ganglionares cervicais anteriores e posteriores. Os linfonodos podem ser volumosos, endurecidos ou amolecidos, aderentes entre si e aos planos profundos, podendo evoluir com flutuação e/ou fistulização espontânea com presença de inflamação da pele subjacente. Os gânglios mais acometidos são aqueles das cadeias cervical e mediastinal. O diagnóstico diferencial é feito com síndromes mono-like, TORSCH, HIV agudo e neoplasias. O diagnóstico-padrão é com biópsia de gânglio. No entanto, se houver sinais de coalescência com supuração líquida, será possível o achado de BAAR na punção do líquido. A realização de punção aspirativa por agulha fina com pesquisa do DNA do M. tuberculosis por método de PCR apresenta boa sensibilidade (entre 60 a 70%) para o diagnóstico. 10.3.2.4 Pericárdica Trata-se de uma causadora frequente de quadros de síndrome consumptiva associada a sinais de insuficiência cardíaca como hepatomegalia, edema de MMII e ascite. Normalmente (entre 1 terço e metade dos casos), apresenta-se com TB pleural associada. Geralmente não se associa a tuberculose pulmonar. O quadro clínico apresenta dor torácica, porém muitas vezes sem dor pericárdica clássica. O diagnóstico é difícil, já que a análise do derrame pericárdico é pouco definitiva, com linfocitose apenas. A ADA pode estar aumentada e apenas fortalece uma suspeita. A cultura para micobactérias pode ser positiva, mas demora em média 60 dias para ficar pronta. A biópsia de pericárdio é o exame padrão-ouro para diagnóstico, com o achado de granuloma e, às vezes, a presença de BAAR na fixação ao microscópio. O fato de o derrame se formar novamente pode causar tamponamentos cardíacos, mesmo após punções de Marfan sucessivas (nome da punção específica para derrame pericárdico). O tratamento, muitas vezes, envolve a retirada definitiva de parte do pericárdio (pericardiectomia anterior) em conjunto com os medicamentos para TB. Assim, evitam-se tamponamentos futuros. 10.3.2.5 Do trato urinário O M. tuberculosis pode ocasionar lesões renais com perda da função deste ou em qualquer órgão que inclua o sistema urinário, como bexiga, ureteres, uretra e próstata (no sexo masculino). Deve ser lembrado sempre que há infecções de urina de repetição, com leucocitúria e uroculturas negativas sucessivas – o que é denominado “piúria estéril”. Também pode ter razoável melhora com o uso de quinolonas, que são frequentemente utilizadas nas infecções do trato urinário e têm alguma ação contra o M. tuberculosis, apresentando melhora temporária. Deve-se ter cuidado ao diagnóstico. É que a pesquisa de BAAR na urina tem baixíssima especificidade para M. tuberculosis, pois existem micobactérias saprófitas no trato urinário; assim, o método de escolha é a cultura de urina, geralmente feita com várias amostras sucessivas de material. Em alguns casos, poderá ser indicada a biópsia de lesões vistas em tomografia ou cistoscopia de vias urinárias. 10.3.2.6 Osteoarticular A TB osteoarticular causa o mal de Pott, que, por sua vez, causa a destruição de vértebras (em geral lombares), podendo formar abscessos paravertebrais e, consequentemente, paraplegia. É mais comum em crianças, sendo responsável por 10 a 20% dos casos de tuberculose extrapulmonar neste grupo etário. Apesar de não ser tão frequente, a TB osteoarticular ganha importância pela sua apresentação mais temida, o mal de Pott, que nada mais é que a TB de coluna. Essa forma de TB óssea, responsável por até 50% dos casos de TB óssea, causa destruição total da vértebra, com reativação de focos hematogênicos nas porções central e anterior do osso esponjoso do corpo vertebral. Pode haver a formação de abscessos paravertebrais pela caseificação natural do bacilo ao redor da lesão inicial óssea. Além disso, pode evoluir com febre e alterações associadas à localização da lesão; portanto, paraplegia pode existir. Os corpos vertebrais mais acometidos são os das colunas torácica baixa e lombar alta. Figura 10.7 - Observa-se lesão com destruição total da vértebra e área de abscesso anterior associado: lembrar-se do mal de Pott sempre que se observem lesões destrutivas de vértebras – diagnóstico diferencial principal com neoplasias (metástases) 10.3.2.7 Outras formas Qualquer região do corpo pode ser foco da doença – exceção de unhas e cabelos. No entanto, este capítulo prioriza as mais comuns, com as demais abordadas oportunamente como diagnósticos diferenciais de outras doenças, em seçõesespecíficas: peritoneal (diagnóstico semelhante ao das demais TBs que causam serosites), cutânea, ocular, genital (relacionada a más condições de higiene e promiscuidade), de tubo digestivo (principalmente íleo) e de glândulas endócrinas (a suprarrenal é a mais comum) etc. É importante lembrar que, mesmo em pacientes assintomáticos respiratórios, na suspeita clínica de TB extrapulmonar, deverá sempre ser realizado exame radiológico do tórax (de preferência tomografia computadorizada pela sua maior sensibilidade), visto que até 50% destes pacientes apresentam alterações compatíveis com a doença, mesmo que sem doença bacilífera em atividade. 10.4 PROCURA DE CASOS – “BUSCA ATIVA” A procura de casos é um conceito programático que compreende tanto os métodos diagnósticos quanto as ações de saúde pública para operacionalizá-los, envolvendo os serviços e a comunidade. Essas ações estão voltadas para os grupos com maior probabilidade de apresentar a doença. São os grupos populacionais com maior probabilidade de apresentar a TB: sintomáticos respiratórios (pessoas com tosse e expectoração por 3 semanas ou mais); contactantes de casos de TB; suspeitos radiológicos; pessoas com doença ou condição social que predisponham à doença (indivíduos em situação de rua, imigrantes, imunodeficientes). Os contatos, definidos como toda pessoa, parente ou não, que coabita com um doente de TB, constituem um grupo para o qual se recomenda uma atitude de “busca ativa”. Os locais ideais para organizar a procura de casos são os serviços de saúde, públicos ou privados, com “busca ativa” de sintomáticos respiratórios. Nas áreas onde as ações já estão organizadas, a visita domiciliar periódica do agente de saúde deve incluir a detecção de casos entre sintomáticos respiratórios e contatos, principalmente de casos bacilíferos e crianças. Deve-se ter atenção especial com populações de maior risco de adoecer, representadas, sobretudo, por residentes em comunidades fechadas, como presídios, instituições psiquiátricas, abrigos e asilos. Nesses ambientes, justifica-se a busca ativa periódica de casos. Alcoolistas, usuários de drogas, moradores de rua, trabalhadores de saúde, imunodeprimidos por uso de medicamentos ou por doenças imunossupressoras também são prioridade. Os serviços de saúde, em especial as Unidades Básicas de Saúde, devem fazer a “busca ativa” de sintomáticos respiratórios. Em infectados por HIV, principalmente na fase avançada de imunodepressão (contagem de linfócitos T CD4 < 200 células/mm3 ou linfócitos < 1.000 células/mm3), deve-se suspeitar de TB na presença de qualquer sintoma respiratório e quadros de febre de origem indeterminada. As justificativas para essa conduta são a alta frequência de manifestações atípicas de TB e a ocorrência de outras doenças respiratórias causadas por agentes oportunistas. 10.4.1 Definições importantes Quadro 10.1 - Definições importantes relacionadas à abordagem clínica de tuberculose 10.4.2 Diagnóstico O diagnóstico de TB é feito principalmente com base na baciloscopia, com pelo menos 2 amostras de escarro, e na cultura desse escarro. O diagnóstico da TB, além da avaliação clínica, deve fundamentar-se nos métodos a seguir. 10.4.2.1 Baciloscopia A baciloscopia de escarro deve ser realizada em duas amostras: uma no primeiro momento e, independente do resultado desta primeira, deve ser coletada a segunda amostra no dia seguinte preferencialmente ao despertar. Em casos suspeitos onde as 2 amostras tenham sido negativas, amostras adicionais podem ser solicitadas. Método fundamental tanto para o diagnóstico quanto para o controle do tratamento. Não é aceitável, exceto para crianças, o diagnóstico de TB pulmonar sem a investigação pela baciloscopia de escarro. O método de coloração específico adotado no Brasil e de custo mais baixo é o de Ziehl-Neelsen, mas também podem ser utilizados o meio de Kinyoun (uma variante do Ziehl-Neelsen, com a exclusão da etapa de aquecimento) e a coloração fluorescente com auramina; contudo, eles pouco contribuem em termos de sensibilidade. A sensibilidade da baciloscopia é de mais de 80% na primeira amostra, com aumento de 12% com a segunda amostra. A baciloscopia direta permite descobrir as fontes mais importantes de infecção, os casos bacilíferos. Recomenda-se a colheita de, ao menos, 2 amostras de escarro. A baciloscopia do escarro é indicada nas seguintes condições: a) Sintomático respiratório durante estratégia de busca ativa; b) Em caso de suspeita clínica e/ou radiológica de TB pulmonar independente do tempo de tosse; c) Acompanhamento e controle de cura em casos pulmonares com confirmação laboratorial. Figura 10.8 - Bacilos álcool-ácido-resistentes em método de Ziehl-Neelsen Fonte: George P. Kubica, 1979. A sensibilidade do teste tem certa limitação, e sua especificidade também não é de 100%. Falsos positivos podem ocorrer, quer por outras micobactérias, quer por bactérias como Nocardia sp. e Rhodococcus equi. O resultado é fornecido baseando-se na quantidade de bacilos encontrados por campo observado: a) Negativo: nenhum bacilo em 100 campos observados; b) Positivo +: 10 a 99 BAAR em 100 campos observados; c) Positivo ++: 1 a 10 BAAR por campo em 50 campos observados; d) Positivo +++: em média mais de 10 BAAR por campo em 20 campos observados. Baciloscopia no escarro ainda é o exame de maior custo-benefício no diagnóstico da TB, pois tem baixo custo e boa sensibilidade, caso o examinador seja treinado. 10.4.2.2 Teste molecular rápido para tuberculose Em 2014, o Ministério da Saúde implantou um teste rápido para TB em diversas cidades, chamado GeneXpert®. Esse teste consiste na utilização de escarro do paciente com identificação da micobactéria com sensibilidade de 90% sendo superior à do escarro. É, na verdade, um teste de amplificação de ácidos nucleicos utilizado para detecção de DNA do complexo M. tuberculosis. O teste fornece, ainda, através da técnica de PCR, se o bacilo é resistente a rifampicina com sensibilidade de 90%. O principal objetivo é facilitar o diagnóstico, principalmente em áreas onde há dificuldade técnica para realizar a baciloscopia tradicional. Este teste está indicado prioritariamente para o diagnóstico de tuberculose laríngea e pulmonar em adultos e adolescentes. A utilização desta técnica em crianças apresenta sensibilidade de 66% e ainda e o seu uso ainda é limitado para esta faixa etária. Uma limitação deste método é que como detecta bacilos mortos ou inviáveis não deve ser utilizado para casos de retratamento (reingresso pós abandono e recidiva). A técnica pode ser utilizada em diferentes amostras, além do escarro como lavado broncoalveolar, liquor etc. O teste molecular para o diagnóstico de TB já é utilizado em todo o Brasil como instrumento auxiliador no diagnóstico da forma pulmonar, principalmente em locais em que há baixa quantidade de técnicos treinados para leitura de bacilo álcool-ácido-resistente no escarro. 10.4.2.3 Cultura para micobactéria Há vários meios de cultura disponíveis para as micobactérias. O mais utilizado no Brasil, aprovado pela OMS, é o de Löwenstein-Jensen. As principais indicações de cultura para micobactérias são: a) Casos suspeitos de TB pulmonar, com exame direto persistentemente negativo; b) Diagnóstico de formas extrapulmonares (meningoencefálica, renal, pleural, óssea ou ganglionar); c) Casos de suspeita de resistência micobacteriana às drogas, seguida do Teste de Sensibilidade (TS); d) Tecidos e cavidades em que a baciloscopia é rara ou ausente; assim, solicitam-se cultura sempre em urina, líquidos cavitários (pleural, pericárdico, peritoneal e liquor) e secreções não pulmonares. Os meios líquidos de cultura têm-se tornado cada vez mais frequentes. Apesar do alto custo comparado ao Löwenstein, esses métodos são mais rápidos, com crescimento em 15 dias, em média, em comparação ao anterior, que leva até 60 dias para crescer. Provavelmente, substituirão o Löwenstein em médio prazo. No caso de suspeita de TB de vias urinárias, lembrar-sede solicitar em pelo menos 5 amostras de urina em dias alternados, utilizando toda a urina da manhã (após centrifugação, pode ser feita baciloscopia e cultura). Os meios líquidos de cultura são mais rápidos, mas podem resultar falsos positivos para outras micobactérias não tuberculosas simbióticas apenas no ser humano. 10.4.2.4 Radiografia de tórax a) Suspeitas radiológicas de TB pulmonar com baciloscopia direta negativa: afastar a possibilidade de outras doenças, recomendando-se, ainda, a cultura para micobactéria; b) Diferenciação de formas de TB de apresentação atípica; c) Diagnóstico de outras pneumopatias no paciente portador de HIV/AIDS ou de outras situações de imunossupressão; d) Em pacientes com baciloscopia positiva, sua função principal é excluir doença pulmonar associada, que necessite de tratamento concomitante, além de possibilitar a avaliação da evolução radiológica dos pacientes, sobretudo aqueles que não respondem à quimioterapia. As manifestações radiológicas da TB variam conforme a apresentação: a) Primária: é mais comum em crianças. A radiografia pode ser normal, embora possa haver pequenos nódulos periféricos, mas não visualizados. Comumente se apresenta como consolidação parenquimatosa com opacidade homogênea do pulmão, algumas vezes com broncograma aéreo, simulando uma pneumonia bacteriana. O aumento de linfonodos é uma das manifestações radiológicas mais frequentes na TB primária. Acomete entre 83 e 96% das crianças, e sua frequência diminui entre os adultos, variando entre 10 e 43%. É, tipicamente, hilar, localizada no paratraqueal direito e, mais raramente, subcarinal, ou na região aortopulmonar. Usualmente, associa-se à consolidação parenquimatosa ou atelectasia. Esta ocorre entre 9 e 30%. O padrão é miliar ou micronodular e consiste em pequenas opacidades isoladas, com diâmetro de 2 a 10 mm, geralmente uniforme em tamanho e com distribuição homogeneamente disseminada. O padrão clássico de 2 a 3 mm torna-se visível somente após 2 a 6 semanas; b) Pós-primária: forma mais comum entre adultos e adolescentes; 85% dos casos têm apresentação pulmonar. Os achados mais frequentes são opacidades heterogêneas e cavidades. As cavidades mais frequentemente se localizam em segmentos superiores. O padrão reticulonodular representa a disseminação broncogênica da TB a partir de uma cavidade ou de um linfonodo fistulizado, que determina a implantação de bacilos em outras localizações dos pulmões. Sequela: Imagens sugestivas de lesões cicatriciais como bandas parenquimatosas e calcificações de nódulos e linfonodos. Figura 10.9 - Radiografia de tórax posteroanterior: consolidação no campo superior do pulmão direito Fonte: Imagem em tuberculose pulmonar, 2001. Figura 10.10 - Radiografia de tórax em posteroanterior: opacidades reticulomicronodulares difusas em ambos os pulmões (tuberculose miliar) Fonte: Imagem em tuberculose pulmonar, 2001. O diagnóstico diferencial das cavitações deverá ser considerado, sobretudo, se a pesquisa de BAAR no escarro for negativa e envolve: a) Abscesso pulmonar: geralmente há fator de risco para aspiração (como epilepsia mal controlada), cavidade em segmento posterior e nível líquido; b) Neoplasias: valorizar em indivíduos idosos, tabagistas, com cavidade localizada no segmento anterior do lobo superior; c) Aspergiloma (bola fúngica): há opacidade dentro de uma lesão cavitária antiga – em geral, há história de TB. 10.4.2.5 Tomografia de tórax Trata-se de um método de imagem de alto custo e indicado somente a situações em que a radiografia de tórax não contribui para o diagnóstico de doença, por alterações parenquimatosas mínimas ou por não permitir distinguir lesões antigas fibróticas das lesões características de disseminação broncogênica. Os pacientes com TB miliar apresentam micronódulos, habitualmente menores que 6mm, distribuídos difusa e aleatoriamente. Também podem existir nódulos maiores que 6 mm e pequenas cavidades. São sinais sugestivos de tuberculose ativa: cavidade de paredes espessas, nódulos, nódulos centrolobulares com distribuição randômica, consolidações, espessamento de paredes brônquicas, aspecto de “árvore em brotamento”, massas e bronquiectasias. Lembrando que apesar de típico o aspecto de “árvore em brotamento” não é patognomônico de tuberculose. São sinais sugestivos de sequela: bandas parenquimatosas, nódulos calcificados, cavidades de paredes finas, bronquiectasias de tração e espessamento pleural. Figura 10.11 - Tomografia de tórax: nódulos centrolobulares de distribuição segmentar (setas) – notar, também, nódulo na região posterior do pulmão esquerdo Fonte: Imagem em tuberculose pulmonar, 2001. 10.4.2.6 Prova tuberculínica – PPD Na prova tuberculínica (PPD), o valor de corte é de 5 mm, sendo os indivíduos classificados da seguinte forma: PPD < 5 mm é não reator, e PPD ≥ 5 mm é considerado reator. No entanto, no adulto, não tem nenhum impacto para o diagnóstico da doença, servindo especificamente para avaliação de TB latente. Trata-se de um método auxiliar que, quando positivo, isoladamente, é insuficiente para o diagnóstico da doença. Na realidade, consiste em teste de hipersensibilidade tardia à inoculação intradérmica de antígeno de M. tuberculosis. A leitura da PPD é realizada de 72 a 96 horas após a aplicação, medindo-se o maior diâmetro da área de endurecimento palpável. Atualmente, segundo o Manual de Recomendações para Tratamento de Tuberculose – 2011, publicado pelo Ministério da Saúde, considera-se apenas o valor de 5 mm como corte. Assim, para adultos, a classificação é a seguinte: PPD menor que 5 mm é não reator, e PPD a partir de 5 mm é considerado como reator. Algumas circunstâncias podem interferir no resultado das provas tuberculínicas, como: a) Portadores de doenças imunodepressoras: sarcoidose, AIDS, neoplasias de cabeça e pescoço, doenças linfoproliferativas, outras neoplasias; b) Situações com imunodepressão transitória: vacinação com vírus vivos, gravidez, tratamentos com corticosteroides e drogas imunodepressoras, crianças com menos de 2 meses, pessoas com mais de 65 anos. Considerando a alta prevalência de TB no Brasil, o teste de PPD não deve ser utilizado para indicar tratamento, como ocorre em países onde a prevalência é baixa. De fato, não pode ser utilizado para o diagnóstico de TB no adulto. A exceção é a criança, em que pode compor um escore para previsão diagnóstica. Todos os indivíduos infectados por HIV devem ser submetidos a PPD, e, de acordo com o resultado, deve ser adotada uma das seguintes condutas: se PPD ≥ 5 mm, deve-se fazer tratamento de TB latente (após afastamento da forma ativa); se PPD entre 0 e 4 mm, não há indicação de tratamento nem de repetição de exame; se PPD igual a zero, deve-se repetir o teste anualmente. 10.4.2.7 IGRA O IGRA corresponde a um ensaio de detecção de gamainterferona (Interferon Gamma Release Assay), que pode ser utilizado em substituição ao PPD na avaliação de TB latente. A rigor, o teste avalia os níveis de interferona produzidos por linfócitos T estimulados por antígenos da micobactéria. A interpretação é qualitativa: positivo ou negativo. O teste é mais prático, requer coleta sanguínea pontual e tem leitura automatizada, não sofrendo efeitos de erros de leitura. Ademais, não há impacto da vacinação prévia em sua interpretação. 10.4.2.8 Histopatológico É útil na investigação das formas extrapulmonares e nas formas pulmonares que se apresentem radiologicamente como doença difusa. A lesão apresenta-se como um granuloma, geralmente com necrose de caseificação e infiltrado histiocitário de células multinucleadas. Como essa apresentação ocorre em outras doenças, o achado de BAAR na lesão é fundamental para o diagnóstico de TB. Lembrando que a baciloscopia é usualmente negativa nos pacientes não imunossuprimidos, porém com frequência esta é positiva em pacientes com imunossupressão avançada onde inclusive a identificação de granuloma é incomum. 10.4.2.9 Outros métodos de diagnóstico São complementares aos métodos convencionais:a) Hemocultura: em pacientes HIV positivo ou com AIDS, em que haja suspeita de doença disseminada; b) Cultura com detecção da produção de CO2: utiliza a produção de gás carbônico pelo bacilo em crescimento para a detecção de sua presença nos meios de cultura. Permite, também, a realização de TS a drogas em um tempo mais curto que o habitual; c) Lavado broncoalveolar (LBA): em pacientes com suspeita de TB com escarro negativo, as opções são o LBA e o escarro induzido (usando salina a 3%). O escarro induzido apresenta melhor relação custo-benefício, e a pesquisa de PCR em escarro induzido em pacientes com baciloscopia negativa confirma o diagnóstico em vários casos. Alguns estudos demonstraram a utilidade da broncoscopia no diagnóstico da TB, nas formas negativas na baciloscopia, com rendimento que varia de 11 a 96%. Dentre os procedimentos associados à broncoscopia, lavado brônquico, LBA, escovado brônquico, biópsia brônquica, biópsia transbrônquica e punção aspirativa com agulha, o de melhor relação custo-benefício é o LBA. Este pode aumentar, ainda, a possibilidade de diagnóstico de TB miliar, com confirmação diagnóstica em 83% dos casos. Utilizando-se o lavado brônquico e a biópsia transbrônquica também em pacientes com broncoscopia com envolvimento ganglionar hilar e mediastinal, faz-se o diagnóstico em até 87% dos casos; também é útil para o diagnóstico da TB endobrônquica. As principais indicações da broncoscopia com LBA são: Baciloscopia com escarro induzido negativa; Suspeita de outra doença pulmonar que não TB; Doença com acometimento difuso do parênquima pulmonar; Suspeita de TB endobrônquica; Pacientes imunodeprimidos, principalmente HIV. d) Métodos moleculares: o PCR é um método muito difundido no diagnóstico de várias doenças infecciosas. Na TB, tem seu uso cada vez mais crescente. Entretanto, como a padronização do método ainda não foi completamente estabelecida, valores diferentes podem ser encontrados dependendo do laboratório analisado (métodos in house). Isso dificulta a sua utilização em larga escala, além do alto custo do exame; e) ADA: esta é enzima intracelular presente particularmente em linfócitos ativados. O teste é calorimétrico e é método acessório de grande importância, pois fortalece o diagnóstico de TB, é coletado nos líquidos cavitários (pleural, peritoneal, pericárdico, liquor). No entanto, não realiza tal diagnóstico isoladamente, pois pode aumentar em outras situações, como neoplasias, empiemas e infecções bacterianas; f) Anti-HIV: todo paciente com diagnóstico de tuberculose deve ser testado para HIV. O teste deve ser oferecido, o mais cedo possível e deve-se realizar preferencialmente teste rápido. O diagnóstico precoce de infecção pelo HIV em pessoas com tuberculose tem importante impacto no curso clínico das duas doenças. Aproveitando que estamos falando de pacientes HIV positivos, vamos ver a diferença de comportamento clínico e laboratorial dos pacientes com imunodeficiência não grave daqueles com imunodeficiência grave. 10.4.3 Classificação dos pacientes 10.4.3.1 Tuberculose pulmonar positiva a) 2 baciloscopias diretas positivas; b) 1 baciloscopia direta positiva e cultura positiva; c) 1 baciloscopia direta positiva e imagem radiológica sugestiva de TB. Em doentes adultos, com sintomatologia crônica e baciloscopias negativas, deve-se afastar a possibilidade de doença pulmonar obstrutiva crônica, câncer de pulmão, micoses pulmonares, outras pneumopatias crônicas e infecção por HIV ou AIDS. 10.4.3.2 Extrapulmonar A TB pode, ainda, expressar-se por formas disseminadas como a miliar ou extrapulmonar (classificada segundo as localizações: pleural, ganglionar periférica, osteoarticular, geniturinária, meningoencefálica e assim por diante). A TB pleural e a ganglionar são as mais comuns. 10.5 TRATAMENTO A TB é uma doença grave, porém curável em praticamente 100% dos casos novos. A associação medicamentosa adequada, com doses corretas, e o uso por tempo suficiente com supervisão da tomada dos medicamentos são os meios para evitar a persistência bacteriana e o desenvolvimento de resistência às drogas, assegurando, assim, a cura do paciente. O tratamento dos bacilíferos é a atividade prioritária de controle da TB, uma vez que permite anular, rapidamente, as maiores fontes de infecção. O tratamento para caso suspeito de TB sem comprovação bacteriológica deve ser iniciado após tentativa de tratamento específico para pneumonia, com antibiótico de largo espectro, sem melhora dos sintomas. Uma vez iniciado, o tratamento não deve ser interrompido, salvo após uma rigorosa revisão clínica e laboratorial que determine mudanças de diagnóstico. Apesar de o tratamento medicamentoso ser essencial, as políticas de saúde englobam medidas para diminuir a disseminação que surtem resultado, como “busca ativa” de contactantes, medidas sanitárias e culturais envolvendo comunidades pobres e aglomeração em favelas. Dessa maneira, o envolvimento de agentes comunitários, os programas de Medicina de Família e o tratamento supervisionado melhoram a transmissibilidade da infecção. A seguir, o esquema com as principais drogas utilizadas no tratamento da tuberculose e seus locais de ação: Figura 10.12 - Mecanismo de ação dos medicamentos O esquema básico de tratamento da TB para adultos e adolescentes é feito da seguinte forma: fase de ataque por 2 meses, com 4 drogas (rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol), e, posteriormente, fase de manutenção por 4 meses, com 2 drogas (rifampicina e isoniazida). O acompanhamento é mensal, com baciloscopia. 10.5.1 Regimes O tratamento é desenvolvido sob regime ambulatorial, preferencialmente supervisionado, com pelo menos 3 observações semanais da tomada dos medicamentos nos primeiros 2 meses e 1 observação semanal até o seu final. As principais indicações para realização de internação para tratamento são: a) Meningoencefalite; b) Indicações cirúrgicas em decorrência da TB; c) Complicações graves da TB; d) Intolerância medicamentosa incontrolável em tratamento ambulatorial; e) Intercorrências clínicas e/ou cirúrgicas graves; f) Estado geral que não permita tratamento em ambulatório; g) Em casos sociais, como ausência de residência fixa ou grupos com maior possibilidade de abandono, especialmente se for um caso de retratamento ou falência. 10.5.2 Esquemas Desde 2009, os esquemas de tratamento de TB para pacientes com mais de 10 anos necessariamente apresentam 4 drogas (em associação a etambutol). O motivo principal desse acréscimo foi o aumento na resistência ao tratamento com apenas 3 drogas avaliado anteriormente. A seguir, são reproduzidas as recomendações atuais do Ministério da Saúde para o tratamento de TB. 10.5.2.1 Esquema básico para adultos e adolescentes (2RHZE/4RH) R (rifampicina) – H (isoniazida) – Z (pirazinamida) – E (etambutol). Indicações: casos novos de todas as formas de TB pulmonar e extrapulmonar (exceto meningoencefalite e forma osteoarticular) infectados ou não pelo HIV. Retratamento: recidiva (independentemente do tempo decorrido do primeiro episódio) ou retorno após abandono com doença ativa. Preconiza-se a solicitação de cultura, identificação e TS em todos os casos de retratamento. O tratamento em crianças abaixo de 10 anos não utiliza etambutol, sendo, desta forma, 2RHZ + 4RH. Quadro 10.2 - Tratamento básico Fonte: Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2010. Recomenda-se a solicitação de cultura, identificação e TS para todos os casos com baciloscopia positiva ao final do segundo mês de tratamento. De acordo com o resultado do TS, será identificada a possível resistência aos fármacos, e a mudança do esquema será avaliada na unidade de referência. Até o retorno e a avaliação do TS, deverá ser mantido o esquema inicial. 10.5.2.2 Esquema para meningoencefalite e tuberculose osteoarticular para adultos e adolescentes (2RHZE/ 10 RH) Na meningoencefalite tuberculosa, o tratamento é semelhante ao da forma pulmonar, porém feita por mais tempo: 2 meses comesquema de 4 drogas (rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol) e 10 meses com esquema de 2 drogas (rifampicina e isoniazida). Nesses casos, deve ser associado também um corticoide (prednisona oral 1 a 2 mg/kg/d, por 4 semanas, ou dexametasona intravenosa nos casos graves de 0,3 a 0,4 mg/kg/d, por 4 a 8 semanas). Quadro 10.3 - Tratamento para adultos e adolescentes com meningoencefalite Fonte: Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2010. Na meningoencefalite tuberculosa, deve ser associado corticosteroide ao esquema anti-TB: prednisona oral (1 a 2 mg/kg/d), por 4 semanas, ou dexametasona intravenosa nos casos graves (0,3 a 0,4 mg/kg/d), por 4 a 8 semanas, com redução gradual da dose nas 4 semanas subsequentes. A forma osteoarticular segue o mesmo esquema daquele adotado para meningoencefalite tuberculosa. Quando a tuberculose osteoarticular for leve poderemos tratar por 6 meses à critério clínico. O esquema proposto acima para meningoencefalite tuberculose e tuberculose para crianças menores de 10 anos será 2 RHZ + 10 RH. 10.6 SITUAÇÕES ESPECIAIS 10.6.1 Doença hepática prévia Quadro 10.4 - Diagnóstico de doença hepática prévia Legenda: Transaminase glutâmico-oxalacética (TGO); Transaminase glutâmico-pirúvica (TGP); Limite superior da normalidade (LSN); Rifampicina (R); Etambutol (E); Levofloxacino (Lfx); Capreomicina (Cm); Isoniazida (H); Pirazinamina (Z). 1 O primeiro número indica o tempo de tratamento (em meses), o segundo número indica a quantidade de dias durante a semana. Quando não há descrição, consideram-se 7 dias na semana. * Limite superior da normalidade. 10.6.2 Gravidez Deve ser tratada com o esquema básico, com associação de piridoxina (50 mg/dia), em virtude do risco aumentado de neuropatia periférica. Caso a mãe, no período do parto, seja bacilífera, deve ser adotado o isolamento respiratório, e o recém- nascido não deve ficar em contato com ela, até que a baciloscopia se torne negativa. Não há contraindicação ao uso do leite materno. O esquema básico não induz maior número de partos prematuros, abortamentos, teratogenicidade ou natimortalidade. Após o nascimento, caso a mãe esteja em tratamento por menos de 3 meses, ou seja, bacilífera, a criança deve receber a quimioprofilaxia com isoniazida por 3 meses. Após esse período, deve-se realizar PPD na criança, e, se positivo (maior ou igual a 5 mm), deve-se prolongar a quimioprofilaxia por mais 3 meses, não vacinar com BCG neste momento e investigar a possibilidade de doença ativa. Se negativo, deve-se interromper a isoniazida e aplicar a BCG. 10.6.3 Doença renal crônica Os pacientes com função renal alterada devem ser tratados com o esquema básico com ajuste das doses baseado no valor do clearance de creatinina. Já aqueles em regime crônico de hemodiálise devem receber as doses dos medicamentos logo após a diálise. A recente nota técnica não traz informações específicas quanto aos esquemas preconizados para pacientes renais crônicos. 10.6.4 Outras situações Os portadores de diabetes mellitus, idosos e aqueles com forma disseminada da doença não relacionada à imunodeficiência devem receber o esquema básico. Deve-se ressaltar que os efeitos colaterais podem ser mais frequentes nesses grupos de doentes, e a monitorização de tais efeitos deve ser mais constante do que nos outros pacientes. Pacientes com DM quando há dificuldade de controle glicêmico possivelmente relacionado a interação medicamentosa com as drogas antituberculose deve-se iniciar insulinoterapia. Pacientes com DM com demora na negativação da baciloscopia deve-se considerar o prolongamento da fase de manutenção por mais 3 meses. Devido ao risco de neuropatia diabética esses pacientes também devem receber piridoxina 50 mg/dia. 10.6.5 Imunodeficiências não associadas ao HIV Os pacientes em uso prolongado de corticosteroides e outros imunossupressores devem ser tratados com o esquema básico, podendo-se optar por um prolongamento (de até 9 meses) deste. 10.6.6 Coinfecção TB-HIV Os pacientes coinfectados por M. tuberculosis e HIV têm risco aumentado de desenvolver TB. Deve-se sempre ser avaliado para tuberculose latente e estarmos sempre atentos a possibilidade de tuberculose ativa. Apesar de ser considerada uma doença oportunista, frequentemente resultando de reativação endógena, a ocorrência de TB com padrão clínico-radiológico típico (acometimento apical) não caracteriza, necessariamente, comprometimento significativo da imunidade ou falha da terapia antirretroviral (TARV). Já quadros incomuns e graves de TB (meningoencefalite, TB miliar) associam-se, habitualmente, a quadros de baixa contagem de linfócitos T CD4+. Deve-se ressaltar que, independentemente da situação imunológica inicial, o adoecimento por TB com frequência promove elevação da carga viral e redução concomitante da contagem de células T CD4 em pacientes HIV positivo. Atenção especial deve ser dada ao tratamento da TB em HIV positivos que fazem uso de esquema antirretroviral, incluindo um inibidor de protease e/ou nevirapina e aqueles que já fazem uso do dolutegravir. Essas drogas têm interação com a rifampicina, gerando grande risco de toxicidade e diminuição da efetividade (diminuição do nível sérico) do antirretroviral. A rifampicina pode ser utilizada, concomitantemente, com esquemas que contenham inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRN) associados ao efavirenz. A rifabutina está recomendada em substituição a rifampicina nos esquemas terapêuticos de TB quando for necessário associar ou manter o inibidor de protease ou o dolutegravir no esquema antirretroviral. Todos os pacientes devem receber piridoxina 50 mg/dia. O uso de esquemas antirretrovirais com apenas 2 drogas está proscrito, em razão da sua inferioridade na redução da carga viral do HIV, além da possibilidade de induzir rápida resistência viral. É importante considerar que a adesão adequada aos esquemas tuberculostáticos e antirretrovirais concomitantemente é um grande desafio para o paciente, devido à elevada quantidade de comprimidos a serem tomados por dia e à ocorrência de efeitos colaterais. Portanto, deve-se considerar, sempre que possível, a possibilidade de postergar o início do tratamento antirretroviral em pacientes com coinfecção TB-HIV, particularmente naqueles com quadros de imunodeficiência menos graves do ponto de vista clínico-laboratorial. Deve-se ofertar teste para HIV a todo paciente com TB ativa. Em caso positivo, o tratamento do HIV não deve ser imediato; recomenda-se aguardar cerca de 4 semanas para iniciar, reduzindo o risco de síndrome de reconstituição imune. Pacientes com TB ativa, infectados pelo HIV, devem seguir estas recomendações: a) Os pacientes virgens de tratamento antirretroviral com contagem de CD4 < 50 células/mm3 ou com sinais de imunodeficiência avançada é recomendado no início do TARV em até 2 semanas após o início do tratamento para TB. Nos pacientes com CD4 ≥ 50 células/mm3 e sem sinais de imunodeficiência avançada o início do TAREV deve ocorrer no início da fase de manutenção, ou seja, a partir da oitava semana de tratamento para TB. Pacientes que apresentam a forma meningoencefálica devem receber TARV apenas após oitava semana independente do CD4 ou de sinais de gravidade. A quantidade elevada de reações adversas e hipertensão intracraniana levam a não haver benefício do início precoce do TARV. Desta forma, não há indicação de início concomitante do tratamento TB e HIV dado que pode haver aumento do risco de intolerância e reações adversas piorando a adesão; b) Paciente virgem de tratamento para HIV deve iniciar RIPE e iniciar preferencialmente TARV contendo tenofovir + 3TC + efavirenz; c) Pacientes já em uso de TARV na ocasião do diagnóstico de TB devem receber esquemas habituais de TB conforme indicação e ter TARV modificada para esquema compatível com uso de rifampicina. Em caso de contraindicações ao esquema antirretroviral compatível, deve ser mantido o esquema antirretroviral em uso e introduzidoesquema para TB com rifabutina em substituição à rifampicina. 10.7 EFEITOS COLATERAIS 10.7.1 Isoniazida – Hidrazida A isoniazida pode causar toxicidade neurológica, especialmente neuropatia periférica, tratada com piridoxina (vitamina B6). Trata-se de uma droga geralmente bem tolerada, cujos efeitos adversos podem ocorrer em até 5,4% das pessoas. Os efeitos adversos mais importantes são a toxicidade hepática e a hepatite potencialmente fatal. A frequência de hepatite associada à isoniazida é, primariamente, em função da idade, diretamente associada à idade avançada. Outros fatores que predispõem ao dano hepático associado à isoniazida incluem abuso de álcool, uso de drogas ilícitas e história de doença hepática prévia. A elevação assintomática das transaminases é possível em até mais de 20% dos pacientes durante os primeiros 2 meses de tratamento, com o retorno aos valores normais com o prosseguimento da terapêutica. Entre outras reações adversas atribuídas à isoniazida, inclui-se a toxicidade ao sistema nervoso: a neuropatia periférica é a mais comum, relacionada à dose e, provavelmente, causada pelo aumento da excreção da piridoxina (vitamina B6). Encefalopatia tóxica, neurite óptica, ataxia cerebelar e psicoses são sintomas neurológicos menos frequentes. Reações de hipersensibilidade são encontradas casualmente e manifestam-se por febre, prurido e erupção cutânea, podendo, ainda, ser acusada como causa de uma reação semelhante ao lúpus. Artralgia e distúrbios hematológicos (anemia e agranulocitose) também são descritos. Além disso, monitoriza-se a hepatotoxicidade e procede-se conforme já descrito nos esquemas especiais para essa situação. 10.7.2 Rifampicina É administrada em dose única, de preferência 1 hora antes ou 2 horas após a alimentação, para evitar interferência na absorção da droga. Sua excreção é predominantemente hepática. A rifampicina causa, como principais efeitos colaterais, alterações gastrintestinais como anorexia, náuseas, vômitos, dor abdominal e diarreia. Pode causar, também, aumento de enzimas hepáticas. As categorias de eventos adversos relacionados à rifampicina são: 1. Interações medicamentosas: a rifampicina é um dos maiores indutores das enzimas hepáticas responsáveis pelo metabolismo e eventual depuração de muitos compostos biologicamente ativos (endógenos e exógenos). A implicação disso é que uma série de drogas deve ser monitorizada para prevenir complicações quando associadas à rifampicina: anticoagulantes orais (dicumarínicos), agentes cardiovasculares (quinidina, propafenona, betabloqueadores, bloqueadores dos canais de cálcio e digoxina), contraceptivos orais e glicocorticoides, anticonvulsivantes (fenitoína, haloperidol, benzodiazepínicos), hipoglicemiantes orais (sulfonilureia), ciclosporina, antifúngicos (cetoconazol e fluconazol), cloranfenicol, teofilina e dapsona; 2. Toxidade direta: relaciona-se ao trato gastrintestinal e ao fígado. Distúrbios gastrintestinais incluem anorexia, náuseas, vômitos, dor abdominal e diarreia. Em geral, essa toxicidade é controlada se a medicação é tomada com as refeições ou logo depois. A rifampicina pode determinar aumentos transitórios das transaminases hepáticas e bilirrubinas séricas. O aumento das bilirrubinas acima de 3 a 5 vezes o valor normal implica a suspensão da droga, podendo-se retomar após a normalização do exame. A reintrodução pode ocorrer com monitorização frequente, e, em caso de retorno da hiperbilirrubinemia, a rifampicina deve ser suspensa. Monitorizar a hepatotoxicidade e proceder conforme já descrito nos esquemas especiais para essa situação. A combinação da rifampicina com a isoniazida não leva a aumento importante da toxicidade hepática; 3. Toxidade imunomediada: pode envolver órgãos-alvo limitados e variar de manifestações cutâneas leves, como eritema, urticária e conjuntivite, a uma forma potencialmente fatal de púrpura trombocitopênica, hemólise autoimune e nefrite intersticial. As reações imunomediadas são mais frequentes com o uso intermitente da rifampicina, como é feito no tratamento da hanseníase, ou quando ela é interrompida e novamente reintroduzida. Em qualquer caso de toxicidade imunomediada, é mais prudente a suspensão da rifampicina, o que é obrigatório aos casos mais graves. 10.7.3 Pirazinamida Utilizada na quimioterapia antituberculosa de curta duração, geralmente não representa toxicidade hepática adicional. Inibe a secreção tubular de ácido úrico e pode causar hiperuricemia sérica. Embora a ocorrência de gota clássica não seja frequente, poliartralgia é um efeito colateral comum, em cerca de 40% dos pacientes que estão recebendo a droga. A poliartralgia, usualmente, responde bem a anti-inflamatórios ou alopurinol e não requer a suspensão da droga. Outros efeitos colaterais incluem intolerância gastrintestinal e quadros alérgicos cutâneos. 10.7.4 Etambutol O etambutol pode causar manifestações oculares como neurite óptica. Nas doses habituais, os eventos adversos são incomuns. Em doses aumentadas, a reação adversa mais frequente é uma neuropatia retrobulbar, manifestada por diminuição da acuidade visual. A neurite óptica é reversível após semanas a meses da suspensão da droga; no entanto, em crianças, pela dificuldade de diagnóstico e monitorização da lesão ocular, geralmente é contraindicada. Quadro 10.5 - Principais drogas de tratamento para tuberculose e seus efeitos colaterais mais comuns 1 Efeitos adversos mais explorados em questões de provas. 10.7.5 Diagnóstico na criança e no adolescente As manifestações clínicas podem ser diversas. O dado que chama atenção, na maioria dos casos, é febre, habitualmente moderada, persistente por mais de 15 dias e frequentemente vespertina. São comuns irritabilidade, tosse, perda de peso, sudorese noturna, às vezes profusa; hemoptise é rara. Frequentemente, há suspeita de TB em casos de pneumonia que não apresentam melhora com antimicrobianos para germes comuns. Predomina a localização pulmonar sobre as demais formas de TB. Os achados radiográficos mais sugestivos da TB pulmonar são adenomegalias hilares e/ou paratraqueais, mediastino aumentado de volume, pneumonias com qualquer aspecto radiológico, de evolução lenta, associadas a adenomegalias mediastinais, ou que cavitam durante a evolução; infiltrado nodular difuso (padrão major). Sempre deve ser estabelecido o diagnóstico diferencial com TB em crianças que vêm sendo tratadas com antibióticos para germes comuns sem apresentar melhora após 2 semanas. A história de contágio com adulto tuberculoso, bacilífero ou não, deve ser valorizada, principalmente entre crianças até a idade escolar. O PPD é sugestivo de TB na criança quando maiores de 5mm após 2 anos de BCG e maiores de 10 mm quando menos de 2 anos de BCG. Em crianças de até 5 anos, internadas para investigação de TB, pode-se tentar a cultura para M. tuberculosis em amostra de lavado gástrico, que, em serviços ambulatoriais, não é recomendado. Exame de escarro (baciloscopia e cultura), em geral, só é possível a partir dos 5 ou 6 anos. Portanto, raramente o diagnóstico de TB na criança é feito pelo exame de escarro. Dependendo do quadro clínico radiológico apresentado pela criança, podem ser necessários outros métodos diagnósticos, como broncoscopia, punções e, até mesmo, biópsia pulmonar por toracotomia, para exame bacteriológico e histopatológico. Algumas localizações extrapulmonares da TB são mais frequentes na infância, como gânglios periféricos, pleura, ossos e meninges. As TBs do aparelho digestivo (peritoneal e intestinal), pericárdio, geniturinária e cutânea são mais raras. A TB ganglionar periférica acomete, com frequência, as cadeias cervicais e é, em geral, unilateral, com adenomegalias de evolução lenta, superior a 3 semanas. Os gânglios têm consistência endurecida e podem fistulizar (escrofuloderma). É comum a suspeita de TB em casos de adenomegalia que não respondem ao uso de antibióticos. A meningoencefalite tuberculosa costuma cursar com fase prodrômica de 1 a 8 semanas, quase semprecom febre, irritabilidade, paralisia de pares cranianos, e pode evoluir com sinais clínicos de hipertensão intracraniana, como vômitos, letargia e rigidez de nuca. O liquor é claro, com glicose baixa e predomínio de mononucleares. O PPD pode ser não reator, pois a forma é anérgica. A forma osteoarticular mais encontrada ocorre na coluna vertebral, constituindo o mal de Pott. Cursa com dor no segmento atingido e posição antálgica nas lesões cervicais e torácicas, paraplegias e gibosidade. Apesar de tudo apresentado até o momento, deve-se dizer que o diagnóstico de TB na criança é realizado na maioria das vezes por meio de um conjunto de sinais e sintomas. Por esse motivo, foi proposto e criado um algoritmo de tratamento de acordo com pontos que são avaliados pelos sinais, o PPD e os sintomas. As recomendações, de acordo com a Fundação Nacional de Saúde, são apresentadas a seguir. O escore para definição diagnóstica é: a) 40 pontos: define tratamento de TB; b) 30 pontos: possível TB; o tratamento fica a critério clínico; c) Abaixo de 30 pontos: manter investigação. Quadro 10.6 - Critérios para pontuação diagnóstica Crianças menores de 10 anos devem receber tratamento com RIP 2 meses seguidos de RI 4 meses nos casos novos e de retratamento. A forma meningoencefálica deve ser tratada com 2 meses RIP seguido de 10 meses de RI. 10.7.6 Tuberculose drogarresistente Esta inclui pacientes com monorresistência e outros com resistências a mais de um fármaco. Os pacientes que não se curam após tratamento com os esquemas padronizados, em geral, portadores de bacilos resistentes a mais de 2 drogas, incluindo rifampicina e isoniazida, constituem um grupo de doentes classificados como portadores de TB multirresistente. Deve-se dar atenção especial àqueles com risco de desenvolvimento desse tipo de TB, particularmente os coinfectados pelo HIV, com tratamento prévio, regular ou irregular e os pacientes com risco de abandono. As drogas disponíveis para tal situação (segunda linha) são mais caras, com maior toxicidade e menor efetividade. Dessa forma, esses pacientes devem ser tratados por uma equipe multiprofissional treinada para esse fim, sob controle estrito e com incentivos frequentes para adesão ao tratamento. O tratamento destas formas droga resistentes são bastante complexos e deve ser prescrito por especialista com experiência nesta forma de tuberculose. Os princípios no tratamento da tuberculose multirresistente são: a) Colher história prévia de tratamento e drogas empregadas, bem como o tempo e as doses, e investigar se realmente o paciente tomou as drogas prescritas. Se houve abandono ou irregularidade no tratamento, as razões devem ser conhecidas para que seja considerada a possibilidade de resistência; b) Realizar testes de sensibilidade; c) Avaliar a possibilidade de conduta cirúrgica para a retirada de lesões pulmonares ativas; d) Utilizar o esquema para multirresistência nas situações descritas, enquanto se aguarda o TS. 10.8 SEGUIMENTO Realização mensal de consulta avaliando controle da adesão e de realização de baciloscopia de controle, sendo indispensáveis aquelas do segundo, quarto e sexto meses; Acompanhamentos clínico e radiológico periódicos, visando à identificação de reações adversas às medicações e ao acompanhamento da evolução das lesões pulmonares da doença. Radiografia de tórax deve ser solicitado no segundo e sexto mês de tratamento. Controle pós-cura: a maioria dos casos curados não necessita de controle após o término do tratamento. Alguns casos especiais justificam 1 ou mais controles após o final do tratamento: portadores de HIV/AIDS e outras condições de imunodeficiências; os que permaneceram com graves sequelas anatômicas ou funcionais; os que tiveram graves efeitos adversos durante toda a evolução da terapia, sem comprovação bacteriológica da cura. 10.9 PREVENÇÃO 10.9.1 Controle dos contatos Todos os comunicantes dos pacientes de TB, prioritariamente dos pacientes bacilíferos, devem comparecer à unidade de saúde para exame. Quando sintomático respiratório, aplica-se a rotina prevista para o diagnóstico de TB. Quanto àqueles sem sintomatologia respiratória, devem ser feitos os raios X de tórax. Uma vez examinados e não sendo constatada TB-doença, deve-se orientá-los a procurar a unidade de saúde, em caso de aparecimento de sintomatologia respiratória. 10.9.2 Vacinação BCG A BCG exerce proteção notável contra as manifestações graves da primoinfecção, como as disseminações hematogênicas e a meningoencefalite, mas não evita a infecção tuberculosa. A imunidade se mantém por 10 a 15 anos. Além disso, a vacina não protege os indivíduos já infectados pelo M. tuberculosis, motivo pelo qual, nos países com elevada prevalência de infecção tuberculosa, como o Brasil, as crianças devem ser vacinadas, o quanto antes, após o nascimento. No país, a BCG é indicada, principalmente, para as crianças de 1 a 4 anos, além de ser obrigatória para menores de 1 ano. A aplicação é rigorosamente intradérmica, no braço direito, na altura da inserção inferior do músculo deltoide, em caso de primovacinação, e 1 a 2 cm acima, na revacinação. Pode ser simultaneamente aplicada com outras vacinas, mesmo com as de vírus vivos. 10.9.2.1 Recomendações para a vacinação Os recém-nascidos contactantes de tuberculosos bacilíferos devem fazer quimioprofilaxia antes de serem vacinados com a BCG. a) Recém-nascidos, sempre que possível, na maternidade, desde que tenham peso maior que 2 kg e sem intercorrências clínicas; b) Recém-nascidos filhos de mães com AIDS; c) Crianças soropositivas para HIV, desde que sejam tuberculinonegativas e não apresentem os sintomas dessa síndrome; d) Profissionais de serviços de saúde: são revacinados desde que sejam PPD negativos; e) Conscritos do serviço militar: recomenda-se que se vacinem os não reatores à tuberculina; f) População indígena: vacinar com BCG toda a população que não apresenta cicatriz vacinal. Recomenda-se a segunda dose a todas as crianças em idade escolar (de 6 a 14 anos), de preferência aos 10 anos (independentemente de haver ou não cicatriz vacinal). No entanto, a revacinação tem sido cada vez mais discutida como um método a ser abandonado na população brasileira. O Programa Nacional de Imunizações não recomenda revacinar a população indígena. 10.9.2.2 Contraindicações 1. Relativas (nesses casos, a vacinação é adiada até a resolução das situações apontadas): a) Recém-nascidos com peso < 2 kg; b) Afecções dermatológicas no local da vacinação ou generalizadas; c) Uso de imunodepressores. 2. Absolutas: a) HIV positivo em adultos (independentemente dos sintomas) e crianças sintomáticas; b) Imunodeficiência congênita. 10.9.2.3 Evolução da lesão vacinal, eventos adversos e conduta A vacina BCG não provoca reações gerais, como febre ou mal-estar. Normalmente, nos menores de 1 ano (grupo prioritário), a reação local da vacina é de evolução lenta e benigna e varia de pessoa para pessoa. Não se deve usar qualquer medicamento nem cobrir a úlcera resultante da lesão de evolução normal, apenas mantê-la limpa, com água e sabão. O infarto ganglionar axilar, não supurado, pode ocorrer durante a evolução normal da lesão vacinal, desaparecendo espontaneamente, sem necessidade de tratamento medicamentoso ou drenagem. As complicações dessa vacina, aplicada por via intradérmica, são pouco frequentes. A maior parte resulta de técnica imperfeita, como aplicação profunda (subcutânea), inoculação de dose excessiva ou contaminação. As complicações mais comuns são abscessos no local da aplicação, úlcera de tamanho excessivo e gânglios flutuantes e fistulizados. O tratamento dessas complicações é feito com isoniazida, 10 mg/kg (até, no máximo, 400 mg), diariamente, até a regressão da lesão, o que acontece, em geral, em torno de 45 dias. Outras complicações, como lúpus vulgar (forma de TB cutânea) e osteomielite, são raras, não havendo registro de ocorrência no Brasil. Lesões generalizadas, ainda mais raras, são, em geral, associadas à deficiência imunológica.10.9.3 Avaliação de comunicantes e tratamento da tuberculose latente (quimioprofilaxia) A avaliação de comunicantes de pacientes com TB bacilífera é outro ponto central das políticas públicas de controle da doença. Todos aqueles que têm contato íntimo e prolongado devem ser avaliados, o que inclui residentes em mesmo domicílio, e às vezes, colegas de estudo ou de trabalho. O objetivo principal dessa medida é identificar outros casos de TB doença; se não houver, passa-se à avaliação de TB latente. Mas o que é tuberculose latente? Figura 10.13 - Avaliação de comunicantes de pacientes com tuberculose bacilífera 1 Quando há um incremento de pelo menos 10 mm em relação a PT anterior. Vale lembrar que a PT estimula a resposta imune à BCG realizada ao nascimento, por isso a necessidade desse incremento na PT após uma avaliação inicial. Antes chamada quimioprofilaxia, a TB latente representa um cenário em que houve contato significativo com o bacilo, resultando em um risco maior de adoecimento futuro. O conceito de tuberculose latente é muito importante. Quando uma pessoa é exposta ao bacilo da TB esta tem 30% de chance de infectar-se dependendo de várias variáveis como grau de exposição, fatores imunológicos e infectividade do caso índice. As pessoas infectadas, em geral, permanecem saudáveis por muitos anos com imunidade parcial ao bacilo. Essa condição é a conhecida infecção latente por M. tuberculosis. Estima-se que 1 quarto da população tenha esta condição. Estas pessoas não apresentam nenhum sintoma e não transmitem a doença. Muito importante: antes de se afirmar que o indivíduo tem tuberculose latente é fundamental excluir TB ativa por meio de anamnese, exame clínico e radiografia de tórax. Apesar de um número grande de caso de tuberculose latente não há indicação de investigação indiscriminada na população em geral. Essa investigação é indicada somente em populações que potencialmente se beneficiarão do tratamento preconizado. Segue abaixo as populações com indicação de tuberculose latente: a) Contatos adultos e crianças de TB pulmonar e laríngea; b) HIV com CD4 maior ou igual a 350 células/mm3; c) Pacientes em uso inibidores de TNF alfa ou corticosteroides (> 15 mg/dia de prednisona por mais de um mês); d) Pessoas com alterações fibróticas sugestivas de sequela de TB pulmonar na radiografia de tórax; e) Pré-transplante com indicação de imunossupressão pós procedimento; f) Silicose; g) IRC em diálise; h) Diabetes mellitus; i) Baixo peso (menor que 85% do peso ideal); j) Tabagistas que consomem mais de um maço por dia; k) Calcificação isolada (sem fibrose) na radiografia de tórax; l) Profissionais de saúde, pessoas que vivem ou trabalham no sistema prisional ou em instituições de longa permanência; m) Neoplasias em terapia imunossupressora; n) Neoplasias de cabeça e pescoço, linfomas e outras neoplasias hematológicas. O diagnóstico pode ser feito através de técnicas que avaliam a presença de infecção, mas que não definem a presença de doença ativa. São eles: PPD e IGRA. As vantagens do PPD são que não necessita de laboratório de análise sérica e não existe resultado indeterminado. O efeito booster, a necessidade de retorno para leitura e treinamento de equipe para leitura são fatores negativos. O IGRA não provoca efeito booster, não necessita de retorno e é avaliado por simples coleta sérica. Porém, necessita de laboratório de análise sérica e pode gerar resultados indeterminados. Um aspecto interessante é a conduta nos casos de PPD não reator. Como sabemos que pode haver demora para a conversão do teste, quando um comunicante tem resultado negativo, temos de repetir após 6 a 8 semanas; ora, é possível que o contato tenha sido recente e não tenha havido tempo suficiente para o teste se tornar positivo. Nesse cenário, o novo valor será considerado anormal se houver incremento maior ou igual a 10 mm no PPD. 10.9.4 Tratamento de tuberculose latente A indicação de tratamento de infecção latente depende do resultado do PPD ou do IGRA, da idade, da probabilidade de tuberculose latente do indivíduo e do risco de adoecimento. Os grupos com indicação de tratamento são: a) Crianças (menores de 10 anos de idade) com PPD maior ou igual a 5 mm ou IGRA positivo independentemente do tempo decorrido da vacinação por BCG. Crianças com menos de 5 anos devem ter avaliação clínica e laboratorial priorizada. IGRA não é recomendado para crianças abaixo de 2 anos; b) Adultos e adolescentes (maiores de 10 anos) a indicação dependerá do IGRA ou do valor do PPD: PPD maior ou igual a 5 mm ou IGRA positivo – Indicado tratamento para pacientes HIV positivo, contactantes, alteração radiológica fibrótica sugestiva de sequela de TB , uso de TNF alfa , uso de prednisona > 15 mg/dia por mais de 1 mês e pré- transplante com programação de terapia imunossupressora pós procedimento; PPD maior ou igual a 10 ou IGRA positivo – Indicado tratamento para pacientes com silicose, neoplasia de cabeça e pescoço, linfomas e outras neoplasias hematológicas, IRC em diálise, neoplasias com quimioterapia imunossupressora, diabetes mellitus, baixo peso (< 85% do peso ideal) , tabagistas com mais de 1 maço por dia e pacientes com calcificação isolada (sem fibrose ) na radiografia. c) Conversão (segundo PPD com incremento de 10 mm em relação ao primeiro) – Indicado tratamento em contactante de TB confirmada por critério laboratorial, profissionais de saúde, profissional de laboratório de micobactéria e trabalhador do sistema prisional e instituições de longa permanência; d) Gestante – Postergar o tratamento da tuberculose latente para após o parto. Se HIV positiva tratar apenas após o terceiro mês de gestação; e) Pacientes HIV positivo com radiografia normal – Indicado tratamento para aqueles com CD4 < ou igual a 350 células/mm3 independentemente do PPD ou IGRA ; CD4 > 350 células/mm3 com PPD > ou igual a 5 ou IGRA positivo; contato intradomiciliar ou institucional de pacientes com TB pulmonar ou laríngea independente do PPD e do IGRA; registro documental de ter tido PPD > ou igual a 5 mm ou IGRA positivo e não submetido ao tratamento de tuberculose latente; f) Pacientes HIV positivo com radiografia de tórax com cicatriz radiológica de TB – Caso não tenha tido tratamento anterior para TB independentemente do resultado do IGRA ou PPD é indicado tratamento de tuberculose ativa sempre lembrando que deve ser afastada a possibilidade de tuberculose doença. Esquemas de tratamento para tuberculose latente: Classicamente a droga indicada é a isoniazida, mas em alguns casos hoje recomenda-se preferir rifampicina. 1. Isoniazida: segue como esquema preferencial para tratamento de tuberculose latente. Dose: 5-10 mg/kg /dia de peso até dose máxima de 300 mg/dia; crianças até 10 anos – 10 mg/kg/dia até dose máxima de 300 mg/dia Tratamento deve ser realizado por 6 ou 9 meses. Entretanto, o mais importante é o número de doses e não somente o tempo de tratamento. Recomenda-se a utilização de 270 doses que poderão ser tomadas de 9 a 12 meses. Considerar a utilização de 180 doses entre 6-9 meses após avaliação da adesão. Há evidência que o uso de 270 doses protege mais que 180 doses. 2. Rifampicina: regime preferencial para indivíduos com mais de 50 anos de idade, crianças com menos de 10 anos, hepatopatas, contatos de monorresistentes a isoniazida ou intolerância a isoniazida. Rifampicina é contraindicada nos pacientes HIV em uso de inibidores de protease ou de Dolutegravir. Para todas as faixas etárias a dose é de 10 mg/kg/dia até a dose máxima de 600 mg/dia. A duração do tratamento deve ser de 4 meses. Recomenda-se a utilização de 120 doses que deverão ser tomadas idealmente em 4 meses podendo-se prolongar por 6 meses e da mesma forma da isoniazida o mais importante é o número de doses e não somente o tempo de tratamento. Importante destacar que não existem evidências de surgimento de resistência as drogas a partir do uso para tratar tuberculose latente quando o tratamento é bem indicado. O tratamento da tuberculose latente não é denotificação compulsória. Recomenda-se suspender imediatamente a quimioprofilaxia diante do surgimento de qualquer sinal de TB ativa, monitorizá-la nos casos de hepatotoxicidade e administrá-la com cuidado nos alcoólicos. Qual a diferença conceitual de tuberculose pulmonar ativa e tuberculose latente? Qual a diferença de tratamento entre as 2? Tuberculose pulmonar ativa é a presença de tuberculose com sintomatologia, achados radiográficos e material de escarro, escarro induzido ou lavado broncoalveolar demonstrando a existência da micobactéria. O tratamento preconizado é RIPE por 6 meses. Já a tuberculose latente trata-se do contato com o bacilo da tuberculose, mas sem a presença de doença ativa. O tratamento preconizado é isoniazida por 6 meses, exceto em situações específicas em que o tratamento deverá ser realizado com a prescrição de rifampicina. Qual tipo de evolução clínica e qual característica viral faz com que haja vacinação todo ano para influenza? 11.1 INTRODUÇÃO O termo influenza representa tanto a síndrome respiratória causada pelo vírus quanto o próprio o nome do ortomixovírus causador da síndrome. A infecção pelo vírus influenza pandêmico pode ser por H1N1, H3N2, ou outra mutação decorrente de um drift que pode ocorrer nos próximos anos. Por esse motivo, não é correto mencionar infecção pelo H1N1. Para se ter uma ideia, nos últimos anos, a infecção mais prevalente foi a do H3N2. O vírus influenza A (H1N1), que circulou até o início de 2017, é dotado de propriedades moleculares dos vírus influenza humano, suíno e aviário, resultante de alterações antigênicas frequentes (drift antigênico) e do rearranjo de segmentos gênicos provenientes de cepas dos 3 tipos de hospedeiros (shift antigênico), que são a base virológica da epidemia sazonal. Está relacionado a uma pandemia atual por não ser detectada imunidade prévia a esse vírus no homem, por ser capaz de causar doença no homem e por demonstrar transmissão eficiente entre humanos. A partir de 2013, outra variação, a H3N2, passou a ser crescente em muitos países, inclusive no Brasil. Na verdade, sempre que ocorrer troca de hemaglutinina e/ou neuraminidase com a introdução de um novo sorotipo de influenza A há chance de nova epidemia. A emergência de uma séria epidemia global de origem animal aponta para a necessidade crítica do conhecimento mais aprofundado das viroses zoonóticas, incluindo estudos in vivo de patogênese em animais, além de estudos epidemiológicos, genéticos e imunológicos. Anualmente, apesar dos esforços na realização de vacinas que protejam contra os principais vírus que causaram infecções no inverno do hemisfério contrário, os casos novos se sucedem. Assim, apesar de a vacina de gripe pré-inverno no Hemisfério Norte no final de 2012 ter contemplado os vírus H1N1, H3N2 e influenza B, não foi suficiente para evitar novos casos, principalmente por conta de H3N2. A preocupação relacionada à infecção é a possibilidade de evolução desfavorável, principalmente por ser um quadro considerado benigno tanto por pacientes quanto por profissionais de saúde, o que inibe as medidas de precaução de contato. De fato, parecemos muitas vezes não nos importar por estarmos “gripados”. Ainda que houvesse dados mais alarmantes nas epidemias, a taxa de mortalidade registrada no Brasil, no primeiro semestre de 2018, foi de 0,40/100 mil habitantes, segundo os dados do Ministério da Saúde. #IMPORTANTE Houve pandemia de H1N1 em 2009, com um novo vírus, derivado de vírus de porcos (gripe suína). A partir de 2013, o H3N2 passou a ser o causador mais frequente de infecção pelo vírus influenza. 11.2 HISTÓRICO As primeiras suspeitas de infecção pelo vírus influenza ocorreram por volta do século V a.C. por Hipócrates, que relatou casos de uma doença respiratória que, em algumas semanas, matou muitas pessoas e depois desapareceu. Antes de 1918, a influenza em humanos já era bem conhecida, mas nunca havia sido descrita nos suínos. Nesse ano, houve uma pandemia de H1N1 – chamada de “gripe espanhola” –, responsável por 50 milhões de mortes. Simultaneamente, foi identificada nos porcos uma forma clínica semelhante à humana. A adaptação viral a uma nova espécie de hospedeiro é um processo complexo, que envolve a adaptação a novos receptores de superfície celular, alterações nos tropismos celulares na imunidade inata e nos mecanismos de transmissão. O vírus H1N1 ultrapassou essas barreiras e emergiu, em 1918, de uma fonte aviária simultaneamente no homem e nos suínos. O vírus H1N1, assim denominado pelos antígenos hemaglutinina e neuraminidase, desapareceu abruptamente dos humanos em 1957 e foi substituído por um novo vírus influenza A (H2N2). Seu desaparecimento naquele ano foi decorrente, provavelmente, de 2 razões: níveis elevados de imunidade homóloga e heteróloga da nova cepa H2N2, o que foi suficiente para eliminar o vírus. Outras 2 epidemias antes da de 2009 ocorreram em 1968 (H3N2) e 1977 (H1N1). Em algumas epidemias indivíduos mais jovens são mais suscetíveis, pois não haviam sido expostos ainda às cepas e não estariam protegidos. Como percebemos, após 1957 tivemos apenas epidemias com H1N1 e H3N2, entretanto, existem vírus potencialmente pandêmicos derivados principalmente de reservatórios aviários da Ásia com 16 subtipos de H e 9 subtipos de N. Casos isolados com baixa transmissibilidade entre humanos têm sido descritos na Ásia como o caso de Hong Kong, quando, em 1996, circulou o vírus H5N1 com mortalidade de 50% dos casos confirmados. Em abril de 2009, nos Estados Unidos, no final da estação comumente afetada pela influenza usual, foram identificados os primeiros casos de gripe suína. O Centers for Disease Control and Prevention confirmou que esses casos foram causados por um vírus suíno geneticamente modificado, capaz de infectar o homem. Embora não se saiba se esse fato confere imunidade cruzada, o novo vírus tem 3 segmentos de genes em comum com a influenza humana. A sazonal (H1N1) e 3 segmentos em comum com a influenza A (H3N2). Figura 11.1 - Distribuição dos vírus respiratórios identificados em amostras de pacientes com síndrome gripal, no Brasil, em 2018 (dados até julho) 11.3 PATOGÊNESE E TRANSMISSÃO Os vírus influenza são compostos de RNA de hélice única, da família dos ortomixovírus, e subdividem-se em 3 tipos: A, B e C, de acordo com a sua diversidade antigênica. Os vírus podem sofrer mutações (transformações em sua estrutura), e os tipos A e B causam maiores morbidade e mortalidade que o tipo C. Geralmente, as epidemias e pandemias (epidemia em vários países) estão associadas ao vírus influenza A. Vale lembrar que as epidemias ocorrem principalmente no inverno, iniciando-se tipicamente no início deste e durando em torno de 4 a 5 semanas em uma dada comunidade, espalhando-se rapidamente para outras regiões. A identificação do sorotipo no inverno do Hemisfério Norte ajuda a prevenção no inverno subsequente no Hemisfério Sul e vice-versa. Anualmente, pelo menos uma das cepas contidas na vacina é modificada. Os diferentes tipos do vírus são: 1. Hemaglutinina: esta molécula é uma proteína que está no envelope viral (camada mais externa do vírus) e é responsável pela ligação do vírus ao sistema respiratório humano, por meio do ácido siálico, açúcar presente na membrana das nossas células. Essa molécula recebe numeração de acordo com a variação dos aminoácidos. As hemaglutininas mais frequentes no ser humano são os tipos H1, H2 e H3; 2. Neuraminidase: também chamadas de sialidases, são enzimas que catalisam os resíduos terminais de ácido siálico dos vírions recém- formados e dos receptores da célula hospedeira. São conhecidas 9 neuraminidases, mas os tipos 1 e 2 são os mais frequentes em humanos (daí o N1 e N2). Do ponto de vista de tratamento, são importantes, pois são o alvo das principais drogas no tratamento (oseltamivir e zanamivir são inibidores de neuraminidases). Figura 11.2 - Vírus influenza: as 2 imagens mostram ângulos diferentes do vírus. Notar a presença das neuraminidases (NAs) e hemaglutininas(HAs). A variedade dessas estruturas faz os diferentes tipos de vírus São características principais da influenza: alta transmissibilidade, principalmente quando considerado o influenza A; maior gravidade entre idosos, crianças, gestantes, imunodeprimidos, cardiopatas e pneumopatas; rápida variação antigênica do vírus, o que favorece a rápida reposição do estoque de suscetíveis na população e apresentação como zoonose entre aves selvagens e domésticas, suínos, focas e equinos que, desse modo, também se constituem em reservatórios dos vírus. A patogênese da infecção humana pelo novo vírus H1N1 compreende 2 eventos: a) O dano celular primário ou citotóxico direto pela ação viral, por exemplo, causando injúria direta no epitélio respiratório; b) A liberação de citocinas e mediadores inflamatórios secundários à infecção viral. A individualidade do hospedeiro quanto à magnitude da resposta inflamatória e dos mecanismos de defesa citotóxicos resulta em quadro clínico e gravidade variáveis. Em alguns subgrupos com formas mais graves da doença, detectam-se coinfecção com outros vírus e infecção bacteriana secundária, o que resulta em altas taxas de morbimortalidade. O quadro clínico espectral depende da interação entre fatores do agente infectante (vírus) e a resposta do hospedeiro (homem). A detecção precoce do caso e o tratamento específico de subgrupos de maior risco podem resultar na redução da gravidade dos sintomas e na parada da progressão da doença, que podem culminar em resposta inflamatória sistêmica e disfunção orgânica. A transmissão de pessoa para pessoa pode ocorrer facilmente pela inalação de gotículas eliminadas pela tosse ou pelos espirros das pessoas infectadas, ou pelo contato com superfícies contaminadas com os vírus da influenza e, em seguida, toque nos olhos, nariz ou boca. O potencial para a transmissão via trato gastrintestinal e mucosa conjuntival não é conhecido. O período de incubação varia de 1 a 7 dias e, em média, de 1 a 4 dias. O período de transmissão começa 24 horas antes do início dos sintomas e estende-se até 7 dias após. Em crianças, a transmissão pode durar até 14 dias após o início dos sintomas. Em imunodeprimidos, pode haver a eliminação mais prolongada do vírus por meses. #IMPORTANTE A transmissão do vírus influenza ocorre de pessoa para pessoa, por meio da inalação de gotículas eliminadas na tosse ou pelo espirro dos indivíduos doentes. O período de transmissão estende-se de 24 horas antes de começarem os sintomas até 7 dias depois. Figura 11.3 - Ciclo do vírus influenza Fonte: adaptado de Ácidos siálicos – da compreensão do seu envolvimento em processos biológicos ao desenvolvimento de fármacos contra o agente etiológico da gripe, 2005. As neuraminidases e hemaglutininas fazem diferença na capacidade do vírus em causar infecção. Por esse motivo, ficamos infectados por diferentes tipos de influenza, de acordo com os diferentes tipos de hemaglutininas e neuraminidases. 11.4 QUADRO CLÍNICO As manifestações clínicas da infecção pelo vírus influenza envolvem o surgimento de febre alta, mialgia, dor de garganta, artralgias, prostração e fadiga, cefaleia e tosse seca. Podem estar presentes, também, diarreia e vômitos. Influenza é doença primariamente respiratória que causa rinorreia, dor de garganta, conjuntivite e tosse. O que distingue influenza das outras doenças respiratórias é o grau de fadiga, febre, mialgia e cansaço associados. Geralmente, consegue-se detectar relação epidemiológica com identificação de contato com pessoas com sintomas similares ou inserção em comunidade com grande quantidade de casos documentados. Na maioria dos casos, caracteriza-se pela instalação abrupta de febre alta, geralmente acima de 38 °C, seguida de mialgia, dor de garganta, artralgias, prostração, dor de cabeça e tosse seca. Podem estar presentes diarreia, vômitos e fadiga. Observe como é variada a sintomatologia; de forma a simplificar a definição de casos, o Ministério da Saúde define, como critérios: a) Obrigatório: febre súbita (até 38 °C); b) Associada a 1 dos seguintes: dor em orofaringe ou tosse seca; c) E 1 dos seguintes: mialgias, artralgia e/ou cefaleia. A febre é o sintoma mais frequente e dura em torno de 3 dias. Com a sua progressão, os sintomas respiratórios tornam-se mais evidentes e mantêm-se, em geral, por 3 a 4 dias após o desaparecimento da febre. Ao exame físico podemos identificar prostração importante, conjuntivite não purulenta e eritema difuso em orofaringe. Ao exame do aparelho respiratório, podemos auscultar roncos, sibilos e estertores difusos. Na presença de estertor localizado, devemos aventar possibilidade de complicação com pneumonia bacteriana. Dor muscular presente principalmente ao toque. Sintomas gastrintestinais são raros e não há rash associado a influenza. Alguns pacientes evoluem com complicações clínicas principalmente idosos com mais de 65 anos, mulheres em segundo ou terceiro trimestre de gestação, imunossuprimidos, cardiopatas, pneumopatas, além de outros que descreveremos adiante. A mortalidade atribuída ao influenza no grupo de crianças menores de 5 anos é de 100 mortes/ano nos EUA. A principal complicação associada a influenza é a pneumonia. Esta pode ser pelo próprio influenza, pode ser bacteriana ou mista (viral e bacteriana). A presença do vírus leva a desepitelização da via aérea e destruição da função ciliar, abrindo espaço para a contaminação bacteriana. Idosos e pacientes com diagnóstico de DPOC apresentam maior risco para pneumonia bacteriana em contexto de infecção por influenza. Essa forma grave da doença é denominada síndrome respiratória aguda grave e caracteriza-se pela presença de dispneia ou 1 dos seguintes: SaO2 < 95%, taquipneia, piora de doença prévia ou hipotensão, Este quadro grave deve ser reconhecido prontamente dado risco de morte. As complicações e quadro clínico mais esperados na infecção por influenza são: a) Exacerbação de condição crônica de base; b) Sinusite, otite, bronquiolite, asma; c) Pneumonia, injúria pulmonar aguda, insuficiência respiratória; d) Miocardite, pericardite; e) Miosite, rabdomiólise com insuficiência renal – mais comum no influenza B; f) Encefalite, convulsões, mal epiléptico; g) Encefalomielite desmielinizante aguda pós-infecciosa; h) Mielite transversa; i) Guillain-Barré; j) Resposta inflamatória sistêmica; k) Insuficiência renal; l) Sepse; m) Disfunção multiorgânica. Os grupos de risco para complicações são os seguintes: a) Crianças menores de 2 anos; b) Adultos maiores de 60 anos; c) Doenças pulmonares crônicas (incluindo asma); d) Doenças cardiovasculares (excluindo hipertensão arterial sistêmica); e) Doenças renais; f) Doenças hepáticas; g) Doenças hematológicas; h) Doenças neurológicas; i) Distúrbios metabólicos (diabetes mellitus); j) Obesidade (IMC acima de 40 em adultos); k) Imunocomprometidos (em uso de drogas imunossupressoras e HIV); l) Grávidas em qualquer idade gestacional e puérperas (2 semanas após o parto, aborto ou perda fetal); m) Indivíduos menores de 19 anos em uso prolongado de ácido acetilsalicílico; n) População indígena. 11.5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL O diagnóstico do vírus influenza é feito por meio da RT-PCR de swabs de nasofaringe e orofaringe coletados de pacientes com quadro clínico sugestivo da infecção. O swab deve ser coletado da narina esquerda, narina direita e orofaringe – total de 3 swabs. Diagnosticar a presença de influenza é importante tanto para o indivíduo quanto para o estabelecimento de políticas públicas. Essa informação é muito importante, principalmente, no início do inverno, quando ainda não se sabe qual será a cepa circulante naquele ano. De forma geral, é possível encontrar graus variados de anemia, leucopenia ou leucocitose, plaquetopenia ou trombocitose e elevação de transaminases. No entanto, de relevância clínica são os testes específicos para o diagnóstico. O teste laboratorial recomendado pela Organização Mundial da Saúde para a detecção qualitativa do novo vírus H1N1, também conhecido comovírus da gripe suína, é a reação em cadeia da polimerase em tempo real (RT-PCR). As amostras clínicas que devem ser coletadas para o teste são swabs combinados de nasofaringe e orofaringe. Os pacientes intubados devem ser submetidos à coleta de aspirado nasotraqueal. O princípio do teste inclui o emprego de um painel de oligonucleotídeos (primers) e sondas marcadas (probes) para a detecção e a caracterização do vírus da gripe suína, por meio da amplificação dos fragmentos de genes específicos pela técnica da RT-PCR. Esse painel influenza foi desenhado para a detecção concomitante de: a) Vírus influenza A universal humano; b) Vírus Influenza A de suínos; c) Vírus específico H1N1 suíno da influenza A. Resumidamente, após o processo de extração do RNA da amostra clínica, os fragmentos específicos do RNA do vírus da influenza A (proteína da matriz – universal) e de regiões dos genes da influenza A suína (b-nucleocapsídeo e c-hemaglutinina H1) são amplificados por meio da técnica de RT-PCR, no equipamento termociclador ABI Prism® 7500. Os resultados são interpretados por meio dos dados de fluorescência emitidos pela sonda TaqMan® (marcada com o fluoróforo FAM) e são coletados ao longo dos 45 ciclos da reação, indicando a detecção dos genes em questão. Concomitantemente, é amplificado um controle interno da reação (RNA da RNAse-P) para avaliar a qualidade da amostra empregada e, assim, validar o teste. Os resultados do teste são interpretados da seguinte forma: a) Se somente o alvo do gene da proteína da matriz universal do vírus influenza A (a) for detectado, indicará a presença do vírus da influenza A sazonal (gripe comum); b) Se ambos os alvos (1) e (2) forem detectados, isso indicará a presença de um vírus, de origem suína, da influenza A, porém não pertencente ao tipo H1N1; c) Se os 3 alvos (1), (2) e (3) forem detectados, isso indicará a presença do vírus da influenza A suína H1N1 pandêmico. Atualmente, dados demonstram sensibilidade de 99,3% e especificidade de 92,3% da RT-PCR para detecção de infecção pelo novo vírus H1N1 comparada com a cultura. São recomendações para a realização do exame diagnóstico: a) Pacientes que requerem hospitalização; b) Pacientes de alto risco para doença grave (já citados); c) Pacientes em protocolos individualizados de cuidado – de acordo com o julgamento clínico. Atualmente, PCR também detecta os vírus mais prevalentes do ano no inverno. Isso implica dizer que o teste também foi feito para influenza B e H3N2, em 2013. 11.6 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O principal diagnóstico diferencial é a doença respiratória causada por outros vírus que, muitas vezes, levam a doenças leves como simples resfriado (Quadro 11.1). O vírus sincicial respiratório pode levar a quadro grave, cursando com bronquiolite principalmente em crianças faz diagnóstico diferencial importante com casos graves de influenza. Quadro 11.1 - Diferenças entre gripe e resfriado 11.7 TRATAMENTO E QUIMIOPROFILAXIA ANTIVIRAL O tratamento é feito com oseltamivir ou zanamivir e é indicado a todos os hospitalizados com infecção suspeita, provável ou confirmada pelo novo vírus H1N1 e, também, para aqueles com alto risco de complicações pela infecção. A classe de medicação disponível para tratamento de influenza são os inibidores de neuraminidase (oseltamivir e zanamivir) que limita o egresso do vírus influenza de célula infectada. São mais efetivos quando a doença é reconhecida de forma precoce e quanto mais precoce for administrado. Quando administrado de forma precoce pode acelerar em 1 a 2 dias a resolução do quadro. O novo vírus H1N1 é suscetível tanto ao oseltamivir quanto ao zanamivir, mas o primeiro é a medicação de escolha para tratamento e profilaxia. O julgamento clínico é um fator importante na decisão do tratamento. Após a pandemia de 2009, casos de resistência ao oseltamivir foram descritos em todo o mundo, com aumento em regiões específicas, por exemplo, na Argentina. O principal efeito colateral associado ao oseltamivir é a presença de sintomas gastrintestinais. O zanamivir está disponível para uso inalatório no Brasil, sendo outra droga disponibilizada pelo Ministério da Saúde, além de ser contraindicada a menores de 5 anos e a qualquer paciente com quadro respiratório crônico, principalmente asma e DPOC, pois pode causar broncoespasmo. Para fins de curiosidade, ainda existe peramivir não disponível no Brasil. Os pacientes com suspeita de infecção pelo novo vírus H1N1 que se apresentam com quadro febril não complicado não requerem tratamento, a menos que façam parte dos grupos de alto risco para complicações. O tratamento é recomendado para: a) Todos os hospitalizados com infecção suspeita, provável ou confirmada pelo novo vírus H1N1; b) Pacientes de alto risco para complicações da influenza – citados anteriormente. Se o paciente não faz parte do grupo de alto risco ou não está hospitalizado, os profissionais de saúde devem usar o julgamento clínico para guiar as decisões de tratamento. Muitos pacientes infectados com o novo vírus H1N1 apresentam uma forma autolimitada da doença, sem benefício significativo do tratamento específico antiviral. Assim, esforços a fim de realizar o exame diagnóstico e estabelecer quimioprofilaxia e tratamento devem ser direcionados, primariamente, para hospitalizados ou de alto risco para complicações. Se a decisão for o tratamento específico, este deverá ser iniciado o mais rapidamente possível, pois está demonstrado maior benefício do tratamento quando instituído dentro de 48 horas do início dos sintomas. Entretanto, alguns estudos demonstram que, entre hospitalizados, o oseltamivir reduz a mortalidade mesmo se iniciado após 48 horas da apresentação dos sintomas. O tratamento antiviral deve ser mantido por 5 dias. Em áreas que continuam a apresentar atividade da influenza sazonal, especialmente aquelas nas quais há circulação de vírus resistentes ao oseltamivir, recomenda-se o zanamivir, combinação entre oseltamivir e rimantadina, e amantadina para tratamento ou quimioprofilaxia de pacientes com provável influenza sazonal. Quadro 11.2 - Medicação antiviral recomendada no tratamento da infecção pelo novo influenza A (H1N1) Em 2012, foi recomendado pelo Ministério da Saúde o uso de dose dobrada de oseltamivir para tratamentos de pacientes graves. Pode ser estendido o tratamento por mais de 5 dias (geralmente até 10 dias) em imunodeprimidos e graves, pelo maior tempo de disseminação do vírus. Quadro 11.3 - Recomendações de quimioprofilaxia Em pacientes com clearance de creatinina entre 10 e 30 mL/min, é recomendado que a dose seja reduzida para uma cápsula de 75 mg, 1 x/d, durante 5 dias. Não existem recomendações disponíveis para submetidos à hemodiálise de rotina e diálise peritoneal contínua. Sugere-se dose extra de 75 mg após cada sessão de diálise. Os pacientes com insuficiência hepática não necessitam de correção de dose. A duração da quimioprofilaxia é de 10 dias após a última exposição conhecida ao vírus. A indicação da quimioprofilaxia pós-exposição baseia-se na ocorrência de contato próximo com pessoa que é caso confirmado, provável ou suspeito. O período de transmissão pode ocorrer de 24 horas antes a 7 dias após o início dos sintomas. Crianças e imunossuprimidos têm o potencial de transmissão por um período mais longo, embora haja poucos dados definitivos quanto a essa questão. A quimioprofilaxia deve ser considerada nos seguintes casos: a) Pacientes dos grupos de alto risco que apresentarem contato próximo com casos confirmados, suspeitos ou prováveis; b) Profissionais de saúde ou cuidadores que apresentarem contato próximo sem proteção adequada com casos confirmados, suspeitos ou prováveis. Outras situações devem ser analisadas individualmente. O oseltamivir é uma medicação segura, dotada de poucos efeitos adversos. Os pacientes em seu uso apresentam maior incidência de náuseas e vômitos, além de serem descritos casos de delírio e eventos neuropsiquiátricos. Produtos e apresentações: a) Tamiflu®, Roche: cápsulasde 75 mg (caixa com 10) e pó para suspensão oral (frasco com 30 g) que, após reconstituição com 52 mL de água, deve ter 12mg/mL – validade após reconstituição em temperatura ambiente: 10 dias; sob refrigeração: 17 dias; b) Oseltamivir, Farmanguinhos: cápsulas de 75 mg. 11.8 INDICAÇÕES DE INTERNAÇÃO HOSPITALAR Deve ser considerada internação quando o paciente apresenta quadro clínico caracterizado por disfunção orgânica aguda relacionada ao quadro gripal e alto risco para complicações com infecção suspeita, provável ou confirmada. Está indicada internação em terapia intensiva àqueles que apresentem as seguintes complicações: a) Instabilidade hemodinâmica; b) Sinais e sintomas de insuficiência respiratória; c) Extenso comprometimento pulmonar ao exame radiológico; d) Hipoxemia, com necessidade de suplementação de oxigênio acima de 3 L/min para manter saturação arterial de oxigênio acima de 90%; e) Relação pO2/FiO2 < 300, caracterizando a lesão pulmonar aguda; f) Necessidade de atendimento fisioterápico contínuo; g) Alterações laboratoriais como elevação significativa de desidrogenase láctica (DHL) e creatinofosfoquinase (CPK), alteração da função renal e alteração do nível de consciência. O paciente grave com suspeita de pneumonia intersticial por influenza A (H1N1) deve ter tratamento ventilatório agressivo. Dessa forma, a ventilação mecânica necessita de altos valores de pressão limite e de PEEP elevada para controle e expansão pulmonar. Deve ser encarado como um pulmão de SARA (Síndrome da Angústia Respiratória Aguda) grave. Portanto, em diversas situações, medidas consideradas extremas são frequentemente utilizadas, como a ventilação com o paciente em pronação. Cientificamente comprovada após a epidemia de 2009, a ventilação agressiva é fator preponderante na diminuição da mortalidade pela doença. Os principais grupos de risco para maior gravidade são portadores de doenças crônico-degenerativas, como diabetes, insuficiência renal crônica, pneumopatias crônicas prévias, doença cardiovascular e doença hepática crônica; imunodeprimidos, como neoplasias ou quimioterapia nos últimos 3 meses, transplante de órgãos sólidos ou de medula óssea e infecção pelo HIV/AIDS; crianças e idosos; gestantes e obesos. 11.8.1 Antibioticoterapia Em caso de extenso comprometimento pulmonar, principalmente na presença de áreas de condensação, deve-se suspeitar de infecção bacteriana sobreposta. Os agentes bacterianos de pneumonia mais prevalentes são o Streptococcus pneumoniae, o Staphylococcus aureus e o Haemophilus influenzae, sendo considerada a ceftriaxona (na dose de 1 g IV, a cada 12 horas) o antimicrobiano de escolha nos casos comunitários. Deve-se considerar a hipótese de outros agentes que podem causar quadro respiratório agudo grave, como a Legionella pneumophila e o Mycoplasma pneumoniae, assim a associação de um macrolídeo deve ser avaliada. Em subgrupos especiais, como internados por mais de 72 horas, portadores de imunossupressão e colonizados, como aqueles com bronquiectasias e portadores de fibrose cística, deve-se seguir um protocolo individualizado. 11.8.2 Prevenção A principal medida para prevenir a gripe é a higiene das mãos. Se uma pessoa tiver tocado uma superfície que contenha saliva de pessoa infectada e levar as mãos à boca ou aos olhos, poderá se infectar. A higiene das mãos pode ser realizada com água e sabonete ou com álcool gel a 70%. O paciente deve cobrir sempre o nariz e a boca quando espirrar ou tossir, para evitar a transmissão a outras pessoas. E, sempre que possível, devem-se evitar aglomerações ou locais pouco arejados. Além de tudo isso, manter uma boa alimentação e hábitos saudáveis. As orientações de prevenção são as mesmas para todos os tipos de gripe, não apenas para o H1N1, e servem para orientar aqueles que estão com quadro gripal e que necessitam de isolamento domiciliar. A partir do final de 2009, uma vacina de uso nasal foi desenvolvida para o controle dessa gripe pandêmica, realizada inicialmente nos Estados Unidos. Essa vacina foi motivo de muita controvérsia, já que a incidência de efeitos colaterais foi bastante disseminada, com associação principalmente de quadros neurológicos, como síndrome de Guillain-Barré. No Brasil, a vacina contra H1N1 foi realizada no primeiro semestre de 2010, com apresentação diferente da norte-americana. Sua apresentação foi intramuscular, produzida pelo Instituto Butantan e, em parte, importada da França. Poucos casos de quadros neurológicos foram descritos, ao contrário dos Estados Unidos. No ano de 2019, o Ministério da Saúde disponibilizou a vacina para os seguintes grupos populacionais, considerados de maior risco para desenvolver a síndrome respiratória aguda grave relacionada à influenza: a) Pessoas com 60 anos ou mais; b) Trabalhadores de saúde das unidades que fazem atendimento para influenza; c) Povos indígenas; d) Professores de escolas públicas e privadas; e) Gestantes e puérperas até 45 dias pós-parto; f) Crianças de 6 meses a menores de 6 anos; g) Portadores de doenças crônicas não transmissíveis; h) Adolescentes entre 12 e 21 anos de idade sob medidas socioeducativas; i) População privada de liberdade; j) Funcionários do sistema prisional; Devem ser vacinados pelo menos 90% dos indivíduosque fazem parte dos grupos elegíveis para que a campanha de vacinação seja considerada exitosa. Devemos ressaltar que vacinar a gestante é fundamental e também protege o feto e o recém-nascido pela passagem transplacentária de anticorpos. Todas as crianças de 6 meses a 6 anos que receberam uma ou duas doses no ano anterior recebem 1 dose apenas. O esquema de 2 deve ser considerado para crianças de 6 meses a 9 anos de idade que recebem a vacinação pela primeira vez. A segunda dose deve ser agendada para 30 dias após a primeira. 11.8.3 Cuidados com pacientes suspeitos ou confirmados Os profissionais de saúde devem utilizar os seguintes equipamentos de proteção individual: a) Máscara cirúrgica quando o profissional da área da saúde atua a uma distância inferior a 1 metro do paciente suspeito ou confirmado de infecção pelo vírus da influenza, em procedimentos que não há geração de aerossóis; b) Avental de manga longa e luvas de procedimento em que há risco de respingos de sangue, fluidos corpóreos, secreções e excreções; c) Máscara N95, óculos de proteção e gorro descartável em procedimentos com risco de geração de aerossóis, como a intubação traqueal, a aspiração nasofaríngea e nasotraqueal, a broncoscopia e autópsias ou a coleta de amostras respiratórias; d) Para todos os casos suspeitos e confirmados, deve-se fornecer a máscara cirúrgica e orientar o seu uso. Qual tipo de evolução clínica e qual característica viral faz com que haja vacinação todo ano para influenza? A infecção por influenza pode apresentar evolução grave, com insuficiência respiratória e risco de morte. A vacinação é importante porque, a cada ano, pelo menos 1 das cepas da vacina é modificada. Diante de doença pulmonar parenquimatosa difusa, como proceder à investigação? Quais exames e qual a importância da anamnese nestes casos? 12.1 INTRODUÇÃO Figura 12.1 - Doença intersticial fibrosante – faveolamento (honey-combing) Legenda: (A) radiografia e (B) tomografia. As Doenças Pulmonares Intersticiais (DPIs) também são conhecidas como doenças pulmonares parenquimatosas difusas, pois, além do envolvimento intersticial, há o preenchimento alveolar e o envolvimento das vias aéreas distais e do compartimento vascular pulmonar. Representam um grande número de patologias que envolvem o parênquima pulmonar, ou seja, o alvéolo, a membrana alveolocapilar, o endotélio, estruturas perivasculares e linfáticos. Apesar da diversidade de etiologias, essas doenças são colocadas no mesmo grupo devido a manifestações fisiopatológicas, clínicas e radiológicas semelhantes. São doenças que acarretam considerável morbimortalidade e em cujo manejo ideal há pouco consenso, mesmo entre especialistas. Doenças infecciosas, causadas por bactérias (como Legionella,Mycoplasma, Chlamydia), vírus (influenza, citomegalovírus, vírus do sarampo etc.), fungos (P. jirovecii, Histoplasma) ou micobactérias, apesar de cursarem com manifestações clínicas e radiológicas bastante similares, não devem ser classificadas como DPIs. Isso também acontece com a linfangite carcinomatosa, porque, apesar de essas doenças terem quadro clínico semelhante, apresentam evolução diversa e tratamento particular quando comparadas às DPIs. Portanto, fazem parte do diagnóstico diferencial. Convém lembrar que as pneumopatias infecciosas e neoplásicas (linfoma MALT e linfangite carcinomatosa) apresentam acometimento parenquimatoso similar, mas não são DPIs, estando sempre como diagnóstico diferencial. 12.2 ETIOLOGIAS Apesar de, muitas vezes, tratar-se de um desafio ao pneumologista, o diagnóstico preciso é fundamental no manejo das doenças intersticiais pulmonares, visto que mesmo com apresentações clínicas que cursam com fibrose extensa do parênquima pulmonar podem ser de distinta evolução com o tratamento correto empregado. As DPIs estão associadas, mais comumente, a exposições ambientais domiciliares e ocupacionais, especialmente a poeiras orgânicas e inorgânicas. Podem estar relacionadas, também, a doenças reumatológicas ou, ainda, de etiologia idiopática. A proposta de categorização das doenças pulmonares intersticiais, segundo as Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia (2012) é a seguinte: 1. Causas ou associações conhecidas: a) Pneumoconioses; b) Infecções; c) Drogas; d) Colagenoses; e) Aspiração gástrica; f) Imunodeficiências; g) Proteinopatias; h) Metal duro; i) Tabaco-relacionadas. 2. Pneumonias intersticiais idiopáticas: a) Fibrose pulmonar idiopática; b) Pneumonia intersticial não específica; c) Pneumonia organizante; d) Pneumonia intersticial aguda; e) Pneumonia intersticial bronquiolocêntrica. 3. Linfoides: a) Bronquiolite linfocítica; b) Hiperplasia linfoide reativa; c) Pneumonia intersticial linfoide; d) Granulomatose linfomatoide; e) Linfoma. 4. Granulomatosas: a) Sarcoidose; b) Pneumonia de hipersensibilidade; c) Infecções. 5. Miscelânea: a) Linfangioleiomiomatose; b) Proteinose alveolar; c) Pneumonia eosinofílica; d) Bronquiolite constritiva; e) Doenças de depósito. As principais DPIs são fibrose pulmonar idiopática, colagenoses e pneumoconioses. 12.3 PATOGÊNESE É difícil descrever a patogênese das DPIs de maneira simplista. Em linhas gerais, devemos entender que, em resposta a gatilhos dos mais diferenciados, determinados indivíduos geneticamente predispostos (mesmo que ainda não conheçamos especificamente essa predisposição para cada tipo de DPI) desenvolvem um dano inflamatório estereotipado e anormal em nível pulmonar, levando ao desenvolvimento de formas clínico-radiológico-patológicas semelhantes de lesão tecidual. O dano comum mais associado a esse grupo de doenças é a substituição do parênquima pulmonar por tecido reparativo fibrótico, levando à perda progressiva da função do órgão. De maneira geral, após a agressão pulmonar (única ou de repetição), a resposta biológica pode ocorrer de 2 formas, descritas a seguir. 12.3.1 Processo granulomatoso Ocorre o acúmulo de linfócitos T, macrófagos e células epitelioides organizados em estruturas discretas, embora estejam difusamente presentes, denominadas granulomas. Tais lesões granulomatosas podem agravar-se, evoluindo para fibrose pulmonar. Contudo, quando diagnosticadas a tempo e tratadas adequadamente, apresentam excelente prognóstico. A maioria permanece pouco sintomática até fases avançadas. Dentre os diagnósticos diferenciais, estão as vasculites sistêmicas, a sarcoidose e a pneumonite de hipersensibilidade. Quando a fisiopatologia é de processo granulomatoso, devem ser lembradas sarcoidose, pneumonite de hipersensibilidade e vasculites sistêmicas. 12.3.2 Alveolite, inflamação e fibrose A lesão tem início no epitélio, causando inflamação dos espaços aéreos e alvéolos. Uma vez continuado o processo, a inflamação pode estender-se para as estruturas adjacentes (interstício, linfáticos e vasos), culminando em fibrose intersticial. O desenvolvimento da fibrose avançada é uma condição complexa e temida, que pode levar à grave limitação da função respiratória. Quando a fisiopatologia é de processo alveolar associado à fibrose intersticial, devem ser lembradas pneumonia organizante (antiga BOOP), pneumoconioses, fibrose intersticial idiopática, infiltração linfocítica etc. A classificação histopatológica de processos alveolares associados a fibrose intersticial é: a) Pneumonia intersticial usual (cujo protótipo é a FPI – Fibrose Pulmonar Idiopática); b) Pneumonia intersticial inespecífica; c) Predomínio de bronquiolite respiratória; d) Pneumonia organizante (denominação atual para bronquiolite obliterante com pneumonia organizada – BOOP); e) Pneumonia intersticial descamativa; f) Lesão alveolar difusa; g) Infiltração linfocítica. 12.4 ANAMNESE 12.4.1 Sintomas respiratórios A dispneia costuma ser a principal queixa referida, a qual ocorre de maneira progressiva, iniciando-se aos grandes esforços e chegando aos pequenos (como tomar banho), devido à barreira imposta pela doença intersticial que dificulta a difusão de oxigênio. Outro sintoma frequente e que causa incômodo intenso é a tosse, em geral, não produtiva. Com menor frequência, observam-se fadiga, perda de peso e anorexia. O súbito aparecimento de dor tipo pleurítica deve sugerir pneumotórax, pois a dor torácica não é um sintoma comum nessas doenças. Escarros hemoptoicos e hemoptise podem ocorrer. Os sintomas dispépticos devem ser valorizados, pois o refluxo gastroesofágico tem sido implicado na fisiopatologia das doenças pulmonares parenquimatosas difusas, principalmente fibrose intersticial idiopática. Quando a doença fibrosante ocorre associada a outra morbidade, os sintomas da doença de base podem dominar o quadro. 12.4.2 Duração da doença As manifestações clínicas dependem do período de surgimento dos sintomas. Sua duração pode ser classificada em aguda, subaguda, crônica e recorrente dependendo da etiologia que estivermos diante. 12.4.2.1 Aguda Os sintomas surgem de dias a poucas semanas. Em geral, devem-se à pneumonite de hipersensibilidade, pneumonia eosinofílica, hemorragia alveolar, pneumonia intersticial idiopática aguda e reações imunológicas (medicamentos, helmintos, fungos). O diagnóstico diferencial mais importante é a pneumonia bacteriana. 12.4.2.2 Subaguda Os sintomas surgem durante várias semanas a meses. Essa forma de apresentação pode ocorrer com todas as DPIs, embora seja mais comum na sarcoidose, na pneumonia intersticial induzida por medicamentos, pneumonia organizante e formas intersticiais associadas a doenças do tecido conectivo (especialmente, lúpus e polimiosite). 12.4.2.3 Crônica É a forma mais comum de apresentação das doenças fibrosantes. Os sintomas surgem em vários meses a anos, sendo tosse seca e dispneia as principais queixas. 12.4.2.4 Recorrente No caso de uma pneumonia em organização criptogênica ou na pneumonia de hipersensibilidade aguda. 12.4.3 Idade e sexo Algumas etiologias são mais comuns em indivíduos com menos de 40 anos (principalmente entre 20 a 40 anos), como a histiocitose, a sarcoidose e a linfangioleiomiomatose, esta última praticamente restrita a mulheres em idade fértil. Outras, como a FPI, são mais comuns em pacientes com mais de 65 anos e rara em indivíduos com menos de 50 anos. Doenças do tecido conectivo também são mais comuns no sexo feminino, exceto vasculite reumatoide (mais comum no sexo masculino). A maioria das outras doenças, inclusive aquelas ocupacionais, é mais frequente no sexo masculino dado que a maioria das pneumoconioses ocorre por causa de atividades ocupacionais historicamente praticadas por indivíduos do sexo masculino. Deve ser dada atenção especial ao componente familiar, pois é frequente o acometimento de familiares pela mesma doença. Na sarcoidose, por exemplo, já foi demonstrado que a razão de chances (odds ratio) para quea doença ocorra em algum irmão é de 5,8. Também existem formas de DPI semelhantes à fibrose pulmonar idiopática com acometimento familiar. 12.4.4 História ambiental e ocupacional Tal pesquisa deve ser exaustiva e detalhada, tanto no ambiente de trabalho quanto no domicílio, buscando, sobretudo, exposição a poeiras orgânicas (correlação com pneumonia de hipersensibilidade) e inorgânicas (pneumoconioses com silicose e asbestose). Várias formas de exposição crônica podem levar às DPIs (asbesto, sílica, gases, berílio etc.). Não basta apenas sabermos qual atividade laborativa o indivíduo exerce hoje. Temos que descrever na anamnese todo o histórico ocupacional do indivíduo. Além disso, na suspeita de pneumonia de hipersensibilidade, pesquisar presença de animais domésticos em casa, como pássaros, em qual travesseiro o indivíduo costuma dormir, quais são as atividades de lazer do indivíduo; esses dados são fundamentais para definir possíveis exposições associadas a esta doença. Todas estas informações serão relevantes para definição diagnóstica. 12.4.5 Tabagismo A relação das DPIs com o tabagismo é bastante heterogênea. Há um grupo de etiologias que parecem precipitadas pelo cigarro (síndrome de Good pasture), outras que habitualmente ocorrem em fumantes (pneumonite descamativa, bronquiolite respiratória, histiocitose de células de Langerhans). Na FPI, 3 quartos dos pacientes têm histórico de tabagismo. Todavia, há relatos na literatura de um possível fator protetor do tabagismo para algumas doenças. Todos foram estudos de prevalência, que não tinham como objetivo principal identificar a existência dessa associação, tampouco sua natureza; assim, os resultados são bastante questionados. É fato, no entanto, que os tabagistas, quando apresentam alguma dessas doenças, têm curso mais grave e pior prognóstico do que os não tabagistas. As doenças pouco observadas em tabagistas são: a) Sarcoidose; b) Pneumonia de hipersensibilidade; c) Pneumonite actínica; d) Retocolite ulcerativa. 12.4.6 Fármacos Vários medicamentos podem causar infiltrado intersticial. Em caso de suspeita, devem-se suspendê-los imediatamente. Quadro 12.1 - Medicações associadas ao infiltrado 12.4.7 Outros A pneumonia eosinofílica pode ser consequência de infecções parasitárias. Pacientes com o vírus HIV podem evoluir com DPIs, como pneumonia intersticial linfoide, BOOP, pneumonia intersticial difusa idiopática etc. O paciente com DPI pode apresentar queixas de comprometimento sistêmico antes dos sintomas respiratórios (doenças do colágeno, sarcoidose); outras vezes, queixas pulmonares precedem o aparecimento da doença reumática. 12.5 DIAGNÓSTICO 12.5.1 Exame físico Anormalidades na propedêutica pulmonar são possíveis em todas as DPIs. Porém, não é incomum o paciente se apresentar sem qualquer alteração no exame físico, exceto por taquipneia (costuma haver pequeno volume corrente compensado pelo aumento da frequência respiratória, levando a respirações rápidas e superficiais). Os achados mais característicos na ausculta pulmonar são crepitações em ambas as bases, eventualmente difusas, teleinspiratórias, descritas como “em velcro”. Sibilos são raros, mas podem ocorrer na granulomatose com poliangiite e eosinofilia (Churg-Strauss), pneumonite de hipersensibilidade, pneumonias eosinofílicas, bronquiolite respiratória e sarcoidose. O grasnado, um sibilo ultracurto (de duração inferior a 100 ms), pode ser identificado em indivíduos com doenças bronquiolares, como na pneumonite de hipersensibilidade aguda/subaguda. O baqueteamento digital é comum dentre as DPIs; a cianose surge conforme o grau de anormalidade em trocas gasosas. Sinais de hipertensão pulmonar podem surgir em fases mais avançadas (segunda bulha hiperfonética, sopro de insuficiência tricúspide etc.). Dados da doença de base também podem estar presentes principalmente quando a pneumopatia está associada a doenças reumatológicas. Poderemos, nesses casos, observar artrite, rash malar, vasculite de pele, linfonodomegalias, eritema nodoso etc. Estertores crepitantes “em velcro”, via de regra, correlacionam-se a acometimento crônico das DPIs e fibrose pulmonar, enquanto outros achados, como sibilos e grasnido, em manifestações mais agudas, como na pneumonia por hipersensibilidade. 12.5.2 Testes de função pulmonar O distúrbio funcional característico das doenças intersticiais é o restritivo: Capacidade Vital Forçada (CVF) diminuída, Volume Expiratório Forçado no primeiro segundo (VEF1) com redução proporcional e relação VEF1/CVF normal. A presença de distúrbio obstrutivo, ou a coexistência de ambos, pode ser evidenciada em alguns casos, como em pacientes com bronquiolites, sarcoidose e silicose. Lembramos que a espirometria apenas sugere distúrbio restritiva e não define a presença deste. Necessitamos da medida de volumes pulmonares estáticos. A medida deste é de medidas diretas de volumes pulmonares por meio de pletismografia confirmam o distúrbio restritivo, mostrando redução importante da capacidade pulmonar total. Não é incomum, todavia, que o exame funcional seja normal, principalmente na fase precoce das doenças. Seu principal papel, na verdade, é acompanhar a evolução com o tratamento. A medida da capacidade de difusão é o mais importante dos testes funcionais nas doenças intersticiais, o que se altera mais precocemente e o que mais se correlaciona com a gravidade da doença. A redução na capacidade de difusão do monóxido de carbono (DCO) é bastante comum, apesar de não ser específica de DPI. Embora pareça mais lógico pensar que a redução da difusão seja consequência do “espessamento” do espaço entre o alvéolo e o capilar, o determinante mais importante da redução do DCO é o desequilíbrio ventilação-perfusão (distúrbio V/Q). Isso acontece porque as regiões infiltradas e fibróticas apresentam redução da ventilação. 12.5.3 Exames de imagem 12.5.3.1 Radiografia de tórax Sem dúvida, os exames radiológicos são a peça fundamental na abordagem diagnóstica da DPI. A radiografia de tórax exerceu um papel fundamental na análise diagnóstica das pneumoconioses, as quais são as DPIs mais estudadas e entendidas por meio desse método. Porém, após o desenvolvimento dos aparelhos de tomografia computadorizada com tecnologia multicanal, que permitiu a realização da tomografia de cortes finos de 0,5 a 1 mm de espessura, a radiografia de tórax passou a ter papel periférico para os pacientes. Muitas vezes, os achados radiológicos são inespecíficos e duvidosos e necessitam de confirmação com outros métodos. A radiografia nos permite identificar dados que direcionam o diagnóstico (mas que não são definidores), tais como: a) Localização: lobos superiores (sarcoidose, silicose, histiocitose de células de Langerhans e pneumonia de hipersensibilidade); lobos inferiores (FPI, asbestose, pneumonia intersticial não específica, colagenoses); b) Predomínio nos campos periféricos: pneumonia organizante e pneumonia eosinofílica crônica; c) Padrão de infiltrado: micronodular (silicose, sarcoidose, tuberculose miliar); reticular (FPI, pneumonia intersticial não específica e asbestose); reticulonodular (pneumonia de hipersensibilidade e linfangite carcinomatosa). Figura 12.2 - Radiografia de tórax, com redução volumétrica dos pulmões e opacidades intersticiais com predomínio em bases e periferia 12.5.3.2 Tomografia de tórax de alta resolução A tomografia de tórax computadorizada de alta resolução ou de cortes finos é o principal exame na avaliação das DPIs e permite um diagnóstico definitivo, quando associado a uma anamnese detalhada, em cerca de 60% dos casos. Além de definir a extensão da doença, pode mostrar alterações torácicas adicionais (gânglios hilares, mediastinais, massas, derrame pleural etc.). A categorização, de acordo com padrões tomográficos, é o principal ponto de partida. Os achados mais comuns em doenças fibrosantes são nódulos (centrolobulares, perilinfáticos ou aleatórios), espessamento septal, consolidações, padrão de “vidro fosco” (qualquer opacidadeem que seja possível visualizar vasos ao fundo), cistos e faveolamento (Figura 12.3). Figura 12.3 - Tomografia de tórax mostrando áreas de faveolamento “em vidro fosco” associado, de predomínio em bases, achado clássico da fibrose pulmonar idiopática Algumas doenças intersticiais têm padrão característico, podendo- se abrir mão de exame adicional, sendo elas: FPI, sarcoidose, asbestose, pneumonite de hipersensibilidade, histiocitose das células de Langerhans e linfangioleiomiomatose. Pode, também, ser útil no seguimento (resposta à terapia) e delinear o melhor local para biópsia pulmonar. A seguir, enumeramos alguns achados tomográficos adicionais que podem sugerir diagnósticos específicos. A tomografia de tórax computadorizada de alta resolução ou cortes finos é o principal exame na abordagem diagnóstica de pacientes com DPI. Os padrões com doenças pulmonares intersticiais classificados com tomografia de tórax são: a) Septal: congestão pulmonar, linfangite carcinomatosa ou linfomatosa, sarcoidose (menos comum); b) Reticular: FPI, doenças reumatológicas, sarcoidose, asbestose, pneumonia de hipersensibilidade; c) Cístico: histiocitose, linfangioleiomiomatose, pneumonia intersticial linfoide (LIP) e infecção por P. Jirovecii; d) Nodular: sarcoidose, pneumoconioses (silicose), pneumonia de hipersensibilidade, panbronquiolite respiratória, tuberculose miliar, histoplasmose, vasculites pulmonares e metástases pulmonares; e) Vidro fosco: pneumonia de hipersensibilidade, pneumonia intersticial não específica e drogas; f) Consolidações: pneumonia organizante, pneumonia eosinofílica, pneumonia lipoídica, carcinoma bronquioloalveolar e linfoma. 12.5.4 Exames laboratoriais A solicitação de exames complementares geralmente será guiada pela suspeita diagnóstica inicial, ou seja, devemos avaliar as hipóteses diagnósticas e não há necessidade da solicitação de todos os exames a seguir para todos os pacientes. O bom senso clínico guiará os exames a serem solicitados. No entanto, se a etiologia não está clara, a investigação laboratorial deve ser ampla, incluindo BNP (avaliação de eventual componente cardiogênico), anti-HIV (pela possibilidade de doença oportunista, como pneumocistose), cálcio sérico/urinário (podem estar aumentados na sarcoidose), FAN (doenças reumáticas autoimunes), fator reumatoide (artrite reumatoide, síndrome de Sjögren), anti-CCP (artrite reumatoide) ANCA (vasculites pauci-imunes) e enzimas musculares (dermatopolimiosite). 12.5.5 Broncoscopia e lavado broncoalveolar Em casos selecionados, a análise da celularidade do lavado broncoalveolar pode auxiliar no diagnóstico das DPIs. Os exemplos mais clássicos são sarcoidose, pneumonite de hipersensibilidade, proteinose alveolar e síndromes de hemorragia alveolar. O lavado broncoalveolar não deve ser utilizado rotineiramente na abordagem diagnóstica das DPIs, visto que, em diversas situações, não acrescenta dados relevantes, exceções feitas aos casos citados no parágrafo anterior. Destaque especial para o seu uso na proteinose alveolar, na qual tem valor diagnóstico e terapêutico. No entanto, pode ser útil na elaboração de diagnósticos diferenciais em associação a dados clínicos e por imagem, sobretudo em paciente com dúvida diagnóstica entre sarcoidose e pneumonia por hipersensibilidade crônica. Outras situações em que o lavado broncoalveolar pode ser útil no diagnóstico: na pneumonia lipoídica (presença de macrófagos xantomizados), nas síndromes eosinofílicas, como a pneumonia eosinofílica idiopática, vasculite de Churg-Strauss, síndrome de Loe�er e aspergilose broncopulmonar alérgica (citológico com mais de 25% de eosinófilos), bronquiolite respiratória (macrófagos com inclusões tabágicas). 12.5.6 Anatomopatológico Muitas vezes, a biópsia pulmonar é o principal exame adicional à tomografia para elucidação diagnóstica nas DPIs, tendo particularidades que podem ser mais bem descritas nas avaliações de cada doença específica. Vale ressaltar que a escolha do melhor método disponível deve basear-se na probabilidade clínica pré-teste de diagnóstico mais provável. Por exemplo, se a minha suspeita clínica-tomográfica for sarcoidose, uma biópsia transbrônquica estará bem indicada, pois o rendimento diagnóstico é alto pela presença de reação granulomatosa que predomina na região próxima ao eixo peribrônquico pulmonar; mas, por outro lado, se a minha hipótese for a diferenciação entre FPI e pneumonia de hipersensibilidade, o melhor método, sem dúvida, será a biópsia cirúrgica clássica, pois permite analisar melhor a região subpleural onde se concentram os achados de faveolamento e núcleos fibroblásticos característicos da DPI. Vale lembrar que a biópsia cirúrgica sempre proporcionará um material de análise mais vasto ao patologista. Portanto, são 2 métodos principais para a realização da biópsia pulmonar. 12.5.6.1 Biópsia transbrônquica É a mais indicada inicialmente. Durante a broncoscopia, de 4 a 8 fragmentos devem ser obtidos para análise. A maior vantagem da biópsia transbrônquica é o menor risco para o paciente; e a maior desvantagem, a incapacidade de fornecer um diagnóstico definitivo na maioria das vezes. As situações em que pode ser mais útil são sarcoidose, pneumonite de hipersensibilidade, pneumonia eosinofílica, proteinose alveolar, síndromes de hemorragia alveolar e infecções. 12.5.6.2 Biópsia “a céu aberto” Pode ser feita por videotoracoscopia (mais indicada) ou toracotomia, em geral, após o resultado inespecífico de uma biópsia transbrônquica. Obviamente, acarreta riscos (inerentes à anestesia, fístula pleural, infecção, sangramento, óbito). Vale ressaltar que em algumas suspeitas clínicas, como na FPI, a biópsia, quando indicada, deverá ser sempre a céu aberto, uma vez que a transbrônquica não é capaz de atingir a região de interesse para análise e seu rendimento diagnóstico é praticamente zero. As vantagens da investigação mais invasiva versus tratamento empírico são: 1. Vantagens: a) Permite diagnosticar doenças de melhor prognóstico: sarcoidose, pneumonite de hipersensibilidade crônica, BOOP, DPI associada à bronquiolite etc.; b) Evita confusão e ansiedade, especialmente quando não há resposta terapêutica; c) Evita terapêuticas potencialmente tóxicas em situações em que não são indicadas. 2. Principais contraindicações: a) Grave doença cardiovascular; b) Grave disfunção pulmonar; c) Doença pulmonar de estádio final. 12.5.7 Aspectos gerais do tratamento O curso clínico das DPIs é altamente variável e, em parte, depende da causa-base. Todas aquelas potencialmente tratáveis devem ser diagnosticadas precocemente, a fim de evitar fibrose sequelar. O tratamento é variável e depende, obviamente, da etiologia, ainda que, muitas vezes, a imunossupressão seja a regra. Frequentemente, os pacientes evoluem com cor pulmonale e hipoxemia, necessitando de oxigênio domiciliar. Os casos refratários ao tratamento recomendado são candidatos ao transplante de pulmão. As principais doenças que podem beneficiar-se de corticosteroides são: a) Pneumonias intersticiais idiopáticas; b) Pneumonias eosinofílicas; c) Pneumonia organizante; d) Sarcoidose; e) Doenças do tecido conectivo; f) Pneumonites de hipersensibilidade; g) Pneumonite aguda associada à radiação; h) Síndromes de hemorragia alveolar; i) Pneumonites associadas a medicamentos. Quadro 12.2 - Características de algumas doenças pulmonares intersticiais 12.6 FIBROSE PULMONAR IDIOPÁTICA A FPI é o protótipo das doenças pulmonares fibrosantes e é a forma mais comum de DPI de etiologia desconhecida, correspondendo ao padrão histológico de pneumonia intersticial usual. Há até pouco tempo, muitas das doenças fibrosantes eram classificadas erroneamente como FPI, e a definição atual isolou pacientes com características mais homogêneas, chamando atenção à sobrevida extremamente limitada, de 3 a 5 anos. A doença é mais comum na sexta década de vida, raramente em pessoas mais jovens e é mais prevalente em homens. Existe uma associação de frequência aumentada emtabagistas mais leves (até 20 anos/maço), tanto é que 3 quartos dos pacientes apresentam histórico de tabagismo. A FPI apresenta prognóstico ruim estimado em 3 a 5 anos de sobrevida. Dispneia progressiva aos esforços e tosse seca são os sintomas mais comuns, com baqueteamento digital e estertores “em velcro”, habitualmente encontrados ao exame físico. Grande parte é tabagista, hábito que tem sido relacionado à doença, embora não se saiba ainda o grau dessa relação. O padrão tomográfico é extremamente importante nos pacientes com suspeita de FPI. Infiltrado reticular com faveolamento em bases é característica da doença e se relaciona ao padrão histológico de UIP. Entretanto, os testes funcionais não são alterados precocemente. Baixa capacidade de difusão de monóxido de carbono e hipoxemia ao esforço (teste de degrau) são possíveis ainda com volumes pulmonares preservados. Existem critérios diagnósticos para a doença: idade acima de 50 anos, exclusão de outra etiologia, estertores “em velcro”, distúrbio funcional restritivo com difusão baixa, tomografia com infiltrado reticular, faveolamento nas bases, e sem fibrose peribrônquica, nódulos centrolobulares ou “vidro fosco” fora das áreas de fibrose. A broncoscopia com lavado broncoalveolar ou biópsia transbrônquica habitualmente não é diagnóstica e pode ser útil para excluir outros diagnósticos. A biópsia, quando indicada, tem melhor rendimento, se realizada cirurgicamente; entretanto, tem sido pouco utilizada, já que o achado de padrão tomográfico característico normalmente permite a definição diagnóstica. Apenas em casos duvidosos o estudo histopatológico pode ser interessante. Historicamente, não havia opção terapêutica para estes pacientes, sendo o transplante é a única opção possível. Desde 2014 esta perspectiva tem mudado, devido ao lançamento de 2 fármacos antifibróticos. São eles: pirfenidona e nintedanibe. Estes parecem reduzir a progressão da perda funcional e, também, aumentam a sobrevida. Tratamentos imunossupressores, como azatioprina, que eram prescritos, hoje não devem ser mais recomendados e, inclusive, parecem aumentar a morbimortalidade. Fisioterapia respiratória e oxigenioterapia quando indicadas podem aumentar a tolerância ao exercício e reduzir progressão para hipertensão arterial pulmonar. Pacientes com doença avançada que preencham critérios de transplante pulmonar podem se beneficiar deste. São critérios diagnósticos para fibrose pulmonar idiopática: idade acima de 50 anos, estertores “em velcro”, distúrbio funcional restritivo com difusão baixa, tomografia com infiltrado reticular, faveolamento nas bases e sem fibrose peribrônquica, ausência de nódulos centrolobulares ou “vidro fosco” fora das áreas de fibrose, além de exclusão de outra etiologia. O baqueteamento digital não é exclusivo da FPI, mas, quando presente em um paciente com DPI, sugere muito este diagnóstico. 12.7 PNEUMONITE DE HIPERSENSIBILIDADE 12.7.1 Introdução A pneumonite, ou pneumonia de hipersensibilidade, engloba um grupo de doenças pulmonares causadas pela inalação de poeiras orgânicas, muitas vezes relacionadas ao ambiente ocupacional do paciente, portanto é frequentemente discutida em capítulos de doenças ocupacionais. Outro termo utilizado é alveolite alérgica extrínseca, que não é adequado, porque o envolvimento bronquiolar é regra nessa doença. A doença não se associa à atopia nem a elevações da IgE ou eosinofilia sanguínea. Centenas de etiologias surgem a cada ano, podendo ser causadas por agentes microbianos, poeiras ou substâncias químicas. Exposições a pombos, periquitos, canários, travesseiros de pena de ganso e outros pássaros podem levar à pneumonia de hipersensibilidade por inalação de antígenos, presentes em suas penas e fezes; o tabagismo costuma apresentar relação de proteção para o desenvolvimento da síndrome. Outros agentes comuns são exposições de lazer como sauna a vapor, exposições a mofo e a medicações, como a nitrofurantoína. Bactérias do grupo termofílico e não termofílico, contaminantes de substratos, como feno, cogumelos, reservatórios de água, bagaço de cana-de-açúcar, umidificadores e sistemas de ar-condicionado, podem causar pneumonia de hipersensibilidade, com denominações específicas. O tabagismo reduz a chance de o paciente desenvolver pneumonite por hipersensibilidade (reduz resposta imunológica alveolar). 12.7.2 Patogênese A doença desenvolve-se pela combinação de mecanismos imunológicos humorais com mecanismo mediado por células, atuando sequencialmente. O mecanismo humoral parece ser importante na fase precoce da alveolite após a exposição antigênica, induzindo, nos predispostos, a uma resposta aguda inflamatória mediada por imunocomplexos. Quando a exposição antigênica se prolonga, segue-se uma resposta típica granulomatosa mediada por células. Os macrófagos alveolares encontram-se aumentados, como pode ser observado no lavado broncoalveolar, assim como os linfócitos CD8, com alteração da relação CD4/CD8. 12.7.3 Manifestações clínicas e diagnóstico A apresentação clínica pode ser classificada como aguda, subaguda ou crônica. A pneumonite de hipersensibilidade aguda segue a exposição a um agente e é a forma mais fácil de ser identificada, embora possa ser confundida com quadro de infecções de vias aéreas. Os sintomas iniciam-se de 4 a 8 horas após a exposição em indivíduos sensibilizados e incluem febre, mialgias, cefaleia, mal-estar, tosse e dispneia. É possível a recuperação espontânea, mas os episódios podem ser recorrentes sempre que o antígeno é inalado. Nesse caso, pode ser confundida com pneumonias de repetição. Ao exame físico, podem ser detectados estertores bilaterais. O grasnido, indicador de bronquiolite, pode estar presente. A prova de função pulmonar, usualmente, revela distúrbio restritivo e a gasometria, hipoxemia arterial. Os achados laboratoriais pouco ajudam, mas a velocidade de hemossedimentação pode estar elevada, assim como PCR e o fator reumatoide positivo. E os achados radiológicos podem ser pobres, em comparação com as alterações funcionais. O achado tomográfico mais comum é o de alterações “em vidro fosco”, que aparecem em cerca de 70%. Nódulos centrolobulares mal definidos, refletindo bronquiolite, são característicos e devem sugerir o diagnóstico, especialmente se combinados com áreas lobulares de aprisionamento de ar e áreas de “vidro despolido”. A forma subaguda desenvolve-se mais insidiosamente, com exposição menos intensa, mas contínua, com tosse produtiva, dispneia, fadiga, anorexia e perda de peso. A tomografia computadorizada de alta resolução mostra nódulos, opacidades “em vidro fosco”, aprisionamento de ar lobular e alterações fibróticas leves. Essas opacidades “em vidro fosco” e nódulos usualmente indicam lesões reversíveis. Os pacientes com a forma crônica apresentam dispneia aos esforços e podem não apresentar história de episódios agudos. Podem ocorrer tosse, fadiga e perda de peso. Um sinal do estágio avançado da doença, que acontece com certa frequência, é o baqueteamento digital. Os achados radiológicos podem ser difíceis de diferenciar a doença da FPI. A história clínica é composta de exposição a antígeno, como feno, excretas de pássaros, saunas etc. Na tomografia computadorizada de alta resolução, há infiltrado nodular broncocêntrico, com opacidades “em vidro fosco”; nos pacientes com acometimento crônico, esses achados juntam-se ao faveolamento e à fibrose do parênquima pulmonar. Trata-se de uma DPI com vários padrões radiológicos possíveis, portanto o dado que, individualmente, mais chama atenção para o diagnóstico é a caracterização da exposição inalatória que deve ser exaustivamente pesquisada, sendo que, em alguns casos, até mesmo, é necessária a visita domiciliar para tanto. A seguir, enumera-se a associação de diversos achados para o diagnóstico de pneumonia de hipersensibilidade: a) Exposição: identificada pela história, principalmente se o afastamento resulta em melhora clínica, e o contato, em piora ou aparecimento de achadosclínicos, radiológicos e funcionais compatíveis; b) A tomografia computadorizada de alta resolução é de grande utilidade se revela opacidades “em vidro fosco”, nódulos centrolobulares ou perfusão “em mosaico” (fibrose pode ser, no entanto, a imagem predominante); c) O lavado broncoalveolar pode apresentar linfocitose, usualmente com relação CD4/CD8 baixa e presença de mastócitos e plasmócitos; antígenos IgG precipitantes também podem ser identificados; d) A histopatologia pode ser compatível ou conclusiva, com granulomas malformados, não caseosos, pneumonia intersticial com predomínio peribronquiolar, bronquiolite ou fibrose; e) A biópsia com achados característicos pode ser conclusiva isoladamente. O afastamento do agente, usualmente, resulta na regressão da doença, especialmente nas formas agudas. Em casos com insuficiência respiratória aguda, o uso de corticosteroides por 2 ou 3 semanas pode acelerar a recuperação. Nas formas crônicas, o curso prolongado de corticoterapia pode ser necessário, devendo ser bem ponderado, a fim de diminuir, ao máximo, os efeitos adversos desse tipo de tratamento. 12.8 SARCOIDOSE 12.8.1 Etiologia e sintomas A sarcoidose, doença sistêmica granulomatosa de origem desconhecida, foi descrita pela primeira vez no século 19. Há acometimento pulmonar em 90% dos casos. A maior incidência está entre a segunda e a quarta décadas de vida, com leve preponderância no sexo feminino. O marco da doença é a presença de granulomas não caseosos. A presença de granulomas não é diagnóstica. Esta doença pode acometer qualquer órgão, sendo o mais comumente envolvido o pulmão. Em torno de 5% dos casos apresentam histórico familiar. A apresentação clínica da sarcoidose é muito heterogênea, podendo variar de indivíduos assintomáticos até aqueles com doença muito grave e sintomática. A doença apresenta sintomas sistêmicos, como fraqueza, astenia e febre baixa. Entretanto, em alguns casos, a temperatura pode superar 39 °C, a fadiga e a astenia podem ser extremamente importantes, e pode haver perda de peso de 2 a 6 kg algumas semanas antes da apresentação característica inicial. Dispneia, tosse seca e dor torácica ocorrem em cerca de 35 a 50% dos casos, estertores em 20%, e hemoptise e baqueteamento digital são raros. O envolvimento pulmonar em 75% é inicialmente próximo a bronquíolos e subpleural; em seu curso, as alterações podem resolver-se ou deixar alterações fibróticas. É possível que ocorram acometimentos cutâneo, articular, renal, ocular, cardíaco e ganglionar. Porém, o mais comum é o pulmonar, sendo a doença estadiada, de acordo com os achados na radiografia de tórax (Figuras 12.4 e 12.5). Temos que ter em mente que este estadiamento não é progressivo, ou seja, não evolui de um para o outro. Cada indivíduo terá seu próprio padrão ao longo da doença. Os estadiamentos de acordo com os achados na radiografia de tórax são: a) Estádio 0: ausência de alterações na radiografia de tórax; b) Estádio I (50% dos casos): adenopatia hilar e mediastinal sem anormalidades no parênquima pulmonar; c) Estádio II (30% dos casos): adenopatia hilar e mediastinal com anormalidades no parênquima pulmonar, geralmente com padrão intersticial difuso; d) Estádio III (10% dos casos): doença difusa do parênquima pulmonar sem adenopatia; e) Estádio IV (10% dos casos): fibrose pulmonar com evidência de faveolamento. Figura 12.4 - Estádio I da sarcoidose: adenomegalia hilar, sem doença parenquimatosa Figura 12.5 - Estádio II da sarcoidose: concomitância de doença parenquimatosa e adenomegalia Figura 12.6 - Sarcoidose pulmonar em estádio III Figura 12.7 - Sarcoidose pulmonar em estádio IV Os pacientes podem, ainda, apresentar doenças de vias aéreas com envolvimento de laringe, traqueia e brônquios, com hiper- reatividade em 20% dos casos, dado que em alguns casos pode haver a presença de granulomas na via aérea. O envolvimento pleural, embora seja incomum, pode ocorrer com efusão pleural, quilotórax ou pneumotórax. O envolvimento sistêmico é relevante na sarcoidose. A presença de linfonodos calcificados é comum, com aparência semelhante à observada na silicose (calcificação “em casca de ovo”), podendo ocorrer a formação de cavidades. O sistema linfoide é envolvido em cerca de 15% daqueles com envolvimento de linfonodos periféricos, que podem ser palpáveis; os locais mais acometidos são as cadeias cervicais, axilares, epitroclear e inguinal, e é rara a ulceração desses gânglios. A esplenomegalia é mínima e silenciosa, apesar da possibilidade de casos de sintomas compressivos e de hiperesplenismo. Em menos de 5%, pode ocorrer o envolvimento miocárdico, com manifestações como arritmias com bloqueio atrioventricular avançado, mas a manifestação mais comum é a disfunção diastólica. O fígado está atingido com granulomas diagnosticados em biópsia hepática em 50 a 80% dos pacientes, palpável em cerca de 10% dos casos, e pode, inclusive, ocorrer alteração de função hepática. O envolvimento cutâneo é possível com eritema nodoso e lúpus pérnio (infiltração da área central da face de cor vermelho-violácea – “asas de borboleta”) na sarcoidose crônica, mas outras lesões, como placas e nódulos subcutâneos, podem aparecer. Lesões oculares aparecem em 11 a 83% dos pacientes, conforme a série de casos; qualquer parte do olho e da órbita pode ser afetada, e a uveíte é a manifestação mais comum. A neurossarcoidose acontece em menos de 5%, com predileção pela base do crânio, com paralisias de nervos cranianos (principalmente nervo facial) e lesões hipotalâmicas e hipofisárias; lesões ocupadoras de espaço também podem aparecer. A dor articular aparece em 25 a 40% dos indivíduos, mas a artrite deformante é rara; as articulações mais envolvidas são joelhos, tornozelos, cotovelos, punhos e pequenas articulações de mãos e pés, e a miopatia pela sarcoidose também é rara, mais comum em mulheres. O trato gastrintestinal é acometido em menos de 1%; o órgão mais envolvido é o estômago, mas também podem ser atingidos esôfago, apêndice, reto e pâncreas, podendo simular a doença de Crohn. A hipercalcemia é possível de 3 a 10% dos casos, mas a hipercalciúria está descrita em cerca de 15 a 40% dos casos. O envolvimento hipofisário pode causar hipotireoidismo e insuficiência adrenal, além de hipogonadismo; podem ocorrer, ainda, lesões granulomatosas em qualquer parte do sistema reprodutor feminino. Nefrite intersticial é descrita além de nefrocalcinose, e a sarcoidose renal pode mimetizar tumores. Em torno de 10% dos pacientes apresentam hipercalcemia e/ou hipercalciúria. A alteração do metabolismo do cálcio ocorre pelo aumento da produção da vitamina D pelo próprio granuloma. O aumento da vitamina D leva a aumento da absorção do cálcio pelo intestino levando a hipercalcemia e supressão de PTH. O envolvimento sistêmico na sarcoidose se dá da seguinte forma: a) Pulmão: 95%; b) Pele: 15,9%; c) Linfonodos: 15,2%; d) Olho: 11,8%; e) Fígado: 11,5%; f) Eritema nodoso: 8,3%; g) Baço: 6,7%; h) Sistema nervoso: 4,6%; i) Parótida, glândulas salivares: 3,9%; j) Medula óssea: 3,9%; k) Hipercalcemia: 3,7%; l) Nariz, ouvido, garganta: 3%; m) Cardíaco: 2,3%; n) Renal: 0,7%; o) Ossos e articulações: 0,5%; p) Músculo: 0,4%. 12.8.2 Diagnóstico O diagnóstico necessita de apresentação clínica compatível e evidência de inflamação de característica granulomatosa em órgão afetado pela doença. Como a maioria dos indivíduos com sarcoidose apresenta quadro pulmonar, o órgão é o foco. O principal exame inicial é a radiografia de tórax. Por exemplo, um paciente assintomático com adenopatia hilar bilateral pode ter o diagnóstico presuntivo de sarcoidose, porém se torna obrigatório o diagnóstico anatomopatológico para excluir o diferencial de linfoma. Atualmente, o método mais empregado é a biópsia transbrônquica. A presença de granuloma na biópsia sempre fará diagnóstico diferencial com doenças fúngicas e micobacterioses principalmente tuberculose. Na dúvida entre sarcoidose e pneumonia de hipersensibilidade o lavado broncoalveolar podeajudar. Uma relação de linfócitos CD4/CD8 maior que 3,5 sugere muito o diagnóstico de sarcoidose. Hipercalcemia e hipercalciúria são comuns e a avaliação desta deve ser sempre realizada nos pacientes com hipercalcemia. O teste de Kveim Siltzbach, historicamente utilizado para auxiliar no diagnóstico de sarcoidose, hoje não é mais utilizado. Outros testes, como a dosagem da enzima conversora de angiotensina, podem ser empregados, contudo esse exame não se mostrou útil no diagnóstico, pois, apesar de estar elevado em até 80% dos pacientes, o teste não é específico nem sensível. Estabelece-se o diagnóstico de sarcoidose por meio de dispneia, tosse seca e dor torácica, associadas à fraqueza, astenia e febre baixa, perda de peso de 2 a 6 kg, além de acometimentos cutâneo, articular, renal, ocular, cardíaco e ganglionar (cadeia cervical, axilar, epitroclear e inguinal). Sempre em associação à biópsia de órgão- alvo, com inflamação granulomatosa característica. 12.8.3 Tratamento Em geral, a doença tem curso de exacerbações-remissões, com melhora espontânea e bom prognóstico. Assim, nem todos os pacientes necessitam de tratamento, realizado, preferencialmente, com corticosteroides. A possibilidade de resolução sem tratamento varia conforme o estádio da doença: estádio I, 55 a 90%; estádio II, 40 a 70%; estádio III, 10 a 30%; estádio IV, 0 a 5%. As indicações são bastante controversas, mas diretrizes internacionais sugerem tratar aqueles com envolvimento ocular, cardíaco, hepático ou do sistema nervoso central, com hipercalcemia/hipercalciúria acentuada e persistente (acima de 3 meses), com sintomas respiratórios, lesões de pele desfigurantes, doença medular com pancitopenia ou artrite. Aqueles com envolvimento sistêmico avançado, como fibrose pulmonar instalada, raramente se beneficiam do tratamento. Recomenda-se iniciar o tratamento com prednisona (ou correlato) a 0,5 a 1 mg/kg/d, com reavaliação após 1 a 3 meses.Havendo resposta adequada, a dose deve ser reduzida gradualmente a cada 2 meses, até doses inferiores a 0,25 mg/kg, quando passa a ser considerada a suspensão. Entre os pacientes com necessidade de tratamento prolongado, por resposta insatisfatória, podem ser utilizados agentes poupadores de corticosteroides, como metotrexato, cloroquina, azatioprina ou infliximabe. 12.9 GRANULOMATOSE COM POLIANGIITE (WEGENER) 12.9.1 Introdução A granulomatose com poliangiite é uma doença sistêmica, caracterizada por vasculite necrosante granulomatosa com acometimento preferencial das vias aéreas superiores e inferiores, pulmões, além de glomerulonefrite e vasculite sistêmica (que acomete pequenas e médias artérias, além de vênulas). 12.9.2 Manifestações clínicas e diagnóstico Os sintomas constitucionais, como febre e perda de peso, estão presentes em cerca de 40 a 70% dos casos, respectivamente. O envolvimento pulmonar ocorre em cerca de 45% no início da doença e em mais de 90% em algum momento da evolução. Os sintomas mais comuns são tosse e hemoptise, seguidos de dispneia. As alterações nas vias aéreas inferiores são comuns, como achados incidentais, e é frequente a estenose subglótica. São relatados dispneia aos esforços, tosse e estridor nas formas mais graves. O acometimento das vias aéreas superiores é a manifestação clínica mais frequente, presente em cerca de 80% na apresentação e mais de 90% dos casos na evolução. Podem ocorrer sinusite, rinorreia purulenta, úlceras mucosas, crostas nasais, epistaxe e obstrução nasal; em alguns casos, há destruição da estrutura nasal, com desabamento do nariz – “nariz em sela”. Existe, ainda, predisposição à infecção crônica por Staphylococcus aureus e Pseudomonas aeruginosa. Otite média e otalgia também são comuns, assim como a perda da audição. Os achados radiológicos mais comuns são infiltrados pulmonares (67%) e nódulos (58%); estes são geralmente múltiplos, bilaterais, com cavitação em cerca de 50% dos casos (lesões cavitadas podem apresentar resolução relativamente rápida). A tomografia computadorizada de tórax pode revelar infiltrado intersticial e nódulos pulmonares. Derrame pleural é possível em 5 a 20% dos casos e, também, podem aparecer massas mediastinais e linfonodomegalia. O envolvimento renal ocorre em 70% dos pacientes na apresentação e em cerca de 80% dos pacientes durante a evolução. As manifestações variam desde formas leves, como a glomerulonefrite segmentar e focal, a glomerulonefrite rapidamente progressiva, que habitualmente cursa com insuficiência renal dialítica. As manifestações oculares incluem episclerite e uveíte com manifestações cutâneas. Ocorrem em mais da metade dos casos com úlceras, púrpura palpável e nódulos subcutâneos. Também são relatados pioderma gangrenoso e fenômeno de Raynaud. O envolvimento neurológico é raro na apresentação, mas possível em 1 terço dos casos. A manifestação mais comum é a neuropatia periférica, com mais frequência a mononeurite múltipla e a polineuropatia distal simétrica sensitivo-motora. O acometimento do sistema nervoso central é menos comum e pode manifestar-se como infarto cerebral, hematoma subdural e hemorragia subaracnóidea. Os pares cranianos podem ser acometidos, especialmente II (óptico), VI (abducente) e VII (facial). Oftalmoplegia é possível de forma independente ou associada ao pseudotumor retro-orbitário. O anticorpo anticitoplasma de neutrófilo (ANCA) é de extrema importância no diagnóstico da granulomatose com poliangiite. Quando direcionado à proteinase-3, o que configura o padrão c- ANCA, tem especificidade de mais de 90%, o suficiente para definir o diagnóstico quando presente e associado a quadro clínico compatível. Contudo, se positivo em mais de 97% durante a atividade da doença, costuma ser negativo nos períodos de remissão. Deve-se pensar em granulomatose com poliangiite quando o acometimento pulmonar é acompanhado de febre, perda de peso, úlceras mucosas, crostas nasais, otite média e otalgia, assim como perda da audição, alterações de raios X e sedimento urinário anormal. O achado radiológico que mais chama a atenção para o diagnóstico são nódulos ou massas pulmonares com cavitação, devido ao caráter necrosante da doença. A seguir, mostra-se os critérios diagnósticos de granulomatose com poliangiite (Wegener), sendo necessários 2 deles: a) Inflamação nasal ou oral (úlceras orais ou corrimento nasal sanguinolento); b) Anormalidade na radiografia de tórax (nódulos, infiltrados fixos ou cavidades); c) Sedimento urinário anormal (hematúria ou cilindros hemáticos); d) Inflamação granulomatosa em biópsia que mostra parede arterial, região perivascular ou extravascular de artérias e arteríolas. 12.9.3 Tratamento O tratamento é realizado com corticosteroides, como prednisona, na dose de 1 mg/kg/d, por 4 a 6 semanas, com retirada progressiva em período de 6 meses. Deve-se associar ciclofosfamida na dose de 2 a 3 mg/kg/d, que deve ser ajustada de acordo com o número de linfócitos, buscando mantê-los acima de 1.000 mm3. Opções incluem metotrexato, gamaglobulina e infliximabe, ainda considerados terapia experimental. O sulfametoxazol-trimetoprima é associado ao tratamento, uma vez que diminui recidivas e realiza profilaxia contra pneumocistose. 12.10 GRANULOMATOSE COM POLIANGIITE E EOSINOFILIA (CHURG- STRAUSS) 12.10.1 Introdução A granulomatose com poliangiite e eosinofilia é uma doença autoimune e de etiologia indeterminada. Descrita inicialmente em 1951 por Churg-Strauss, foi definida como angiite granulomatosa, determinada por 3 critérios maiores: presença de vasculite necrosante, infiltração tecidual eosinofílica e granulomas extravasculares. A etiologia da doença ainda não está esclarecida, mas parece haver um importante componente alérgico e imunomediado, já que há forte relação de pacientes com eosinofilia persistente, sintomas asmatiformes e elevação de IgE. A doença é considerada sistêmica, mas acomete, principalmente, pulmões, sistema nervoso e pele. Mialgias e artralgias ocorrem entre 35 e 40%. O coração também pode ser atingido e, após opulmão, é a segunda causa de morte nesses indivíduos, manifestando-se como infarto agudo do miocárdio ou pericardite (podendo ser constritiva). 12.10.2 Manifestações clínicas e diagnóstico O sintoma usual de apresentação é dispneia devido a broncoespasmo, com infiltrados pulmonares aparecendo na abertura do quadro em cerca da metade dos pacientes. Parece existir uma relação da vasculite de Churg-Strauss com o uso de medicações antileucotrienos, o que pode ser um fenômeno associado à diminuição do uso de corticosteroides entre aqueles que apresentavam Churg-Strauss, e não asma. Outra teoria é que o bloqueio dos receptores de leucotrienos pode aumentar células B circulantes e aumentar a chance do desenvolvimento de vasculite. As manifestações radiológicas são muito variáveis, de 27 a 93%. Infiltrados pulmonares antecedem vasculite sistêmica em 40% dos casos; infiltrados típicos de consolidação ocorrem em cerca de 65%; outros achados incluem infiltrados intersticiais, cavitações e adenopatia hilar, mas há derrame pleural em menos de 10%. Nesses, o líquido é eosinofílico. Granulomatose com poliangiite e eosinofilia deve ser cogitada quando ocorrem sintomas asmatiformes, eosinofilia acima de 10%, neuropatia e infiltrados pulmonares migratórios. Os critérios diagnósticos de granulomatose com poliangiite e eosinofilia (Churg-Strauss) são: a) Sintomas asmatiformes; b) Eosinofilia em sangue periférico acima de 10%; c) Mono ou polineuropatia; d) Infiltrados pulmonares migratórios; e) Alteração dos seios paranasais; f) Biópsia com infiltrado eosinofílico extravascular. A presença de 4 ou mais critérios fecha o diagnóstico com sensibilidade de 85% e especificidade que tende a 100%. A doença ainda apresenta um marcador sorológico positivo em 40 a 60%, que é o ANCA. O p-ANCA está presente em 75% desses casos, e o c- ANCA, nos restantes. 12.10.3 Tratamento O tratamento baseia-se na gravidade dos sintomas. Uma abordagem sugerida é atribuir pontos para as principais manifestações; 1 ponto para cada uma destas: a) Sintomas no trato gastrintestinal; b) Proteinúria acima de 1 g/dL; c) Insuficiência renal com creatinina 1,5 mg/dL; d) Alterações no sistema nervoso central; e) Cardiopatia. Nesses casos, após o início de corticoterapia com metilprednisolona (1 mg/kg/d), a ciclofosfamida (4 a 5 mg/kg/d) é introduzida na presença de mais de 1 ponto na escala. A taxa de remissão para esses pacientes é de 80%, com reatividade em torno de 25%, e sobrevida em 10 anos de 79,4%. Obtida a remissão inicial, mantêm-se prednisona (1 mg/kg) por 1 mês, com redução paulatina, e ciclofosfamida (2 mg/kg) por 1 ano. Mepolizumabe (anti- interleucina 5) pode ser utilizada em casos selecionados. Diante de doença pulmonar parenquimatosa difusa, como proceder à investigação? Quais exames e qual a importância da anamnese nestes casos? As doenças parenquimatosas difusas são um conjunto de doenças que acometem o interstício pulmonar das mais variadas formas. A investigação deve conter uma anamnese muito detalhada, explorando dados do dia a dia e da vida laboral do paciente. Com relação à solicitação de exames, é imperiosa realização de radiografia de tórax e, em seguida, tomografia computadorizada de tórax, além de exames séricos para pesquisar a relação dos achados de imagem com doenças do colágeno, vasculites e outras. A avaliação da radiografia de tórax e o conhecimento do local de acometimento pulmonar ajudam no diagnóstico diferencial das pneumoconioses? 13.1 INTRODUÇÃO E DEFINIÇÕES O termo pneumoconiose foi criado por Zenker, em 1866 para designar um grupo de doenças que se originam da exposição a várias substâncias presentes no ar, por reação tissular à inalação. Definiu- se poeira como um aerossol composto de partículas sólidas inanimadas. As pneumoconioses são doenças crônicas do pulmão, ocasionadas por exposição a agentes pneumotóxicos no ambiente laborativo. Em geral, ocorrem após exposição longa e continuada ao agente. De acordo com portaria do Ministério da Saúde, as pneumoconioses são doenças de notificação compulsória. Mas porque caracterizar uma doença como ocupacional tem importância? Estabelecer e definir esta relação tem implicações legais e financeiras na relação entre patrões e empregados. Além disso, tem um impacto individual muito importante, pois a partir do momento que se define que a doença está relacionada àquela atividade, o paciente não deve mais exercê-la, o que muitas vezes leva à saída do mercado de trabalho, depressão e impacto financeiro para toda a família. Para diagnosticar pneumoconiose deve-se realizar anamnese detalhada, já que devemos saber não só o trabalho atual do paciente, mas sim todos os trabalhos exercidos por ele desde o início da sua vida de trabalho. Os pacientes com suspeita de pneumoconiose devem realizar espirometria e exame de imagem. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) elaborou a classificação da radiografia de tórax a partir do tamanho e da natureza da imagem. Com isso, a radiografia de tórax deve ser avaliada por radiologista com experiência na classificação da OIT para definir com maior precisão as alterações radiográficas associadas às pneumoconioses. A seguir, relacionamos alguns indivíduos com risco de doenças pulmonares ocupacionais: 1. Silicose: mineiros de chumbo, cobre, prata e ouro; determinados mineiros de carvão – peneiradores que trabalham imediatamente sobre os veios de carvão, por exemplo; operários de fundição; ceramistas, oleiros; cortadores de arenito ou de granito; operários que trabalham na construção de túneis; trabalhadores da indústria de sabões abrasivos; trabalhadores que utilizam jato de areia; 2. Pneumoconiose do trabalhador de carvão: mineiros de carvão; 3. Asbestose: operários que mineram, moem ou manufaturam amianto; operários da construção civil que instalam ou removem materiais que contêm asbesto; 4. Beriliose: trabalhadores da indústria aeroespacial; 5. Pneumoconiose benigna: soldadores; mineiros de ferro; operários que trabalham com bário; operários que trabalham com estanho; 6. Asma ocupacional: indivíduos que trabalham com cereais, madeira de cedro vermelho ocidental, sementes de rícino, corantes, antibióticos, resinas de epóxi, chá e enzimas utilizadas na manufatura de detergentes, malte e objetos de couro; 7. Bissinose (síndrome asma-like): operários que trabalham com algodão, cânhamo, juta e linho; 8. Doença do enchedor de silo: fazendeiros. Quadro 13.1 - Pneumoconioses, agentes etiológicos e processos anatomopatológicos subjacentes Convém lembrar que as pneumoconioses são doenças de notificação compulsória, além de ser obrigatória a notificação por meio de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT). 13.2 FISIOPATOLOGIA As partículas suspensas no ar (sílica, carvão, asbesto, outras) menores de 3 µm (especialmente, menores de 0,1 µm) chegam aos alvéolos, sendo, inicialmente, fagocitadas pelo macrófagos ali presentes, porém, como são partículas inorgânicas, não conseguem ser adequadamente eliminadas pelos mecanismos de imunidade celular e, como consequência, o processo inflamatório se torna crônico. Inflamação, formação de tecido reparativo granulomatoso e fibrótico formam o componente anatomopatológico das pneumoconioses. O preciso mecanismo que faz um indivíduo evoluir com uma doença ocupacional não é conhecido. Sabe-se que os macrófagos alveolares têm função central no processo, sobretudo ao interagir com neutrófilos, linfócitos, fibroblastos, além da rede de interação das várias citocinas. Existe um forte componente genético, embora mecanismos precisos também não sejam conhecidos. 13.3 DOENÇAS OCUPACIONAIS ASSOCIADAS AO ASBESTO O asbesto (amianto) é um termo genérico que representa um grupo de silicatos minerais – crisotila, amosite, antrofilite e crocidolite – com estrutura cristalina, abundantes na natureza, com grande resistência ao fogo e à abrasão mecânica ou química; ademais, é um material isolante acústico e térmico. A exposição costuma ocorrer em trabalhadores de mineradoras ou minas explosivas,