A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
60 pág.
Aspectos sociolinguísticos da Libras 3

Pré-visualização | Página 1 de 8

/
DESCRIÇÃO
Apresentação dos modelos teóricos da Sociolinguística no contexto da Libras: a Sociolinguística
Variacionista e a Sociolinguística Interacional.
PROPÓSITO
Discutir os principais conceitos da Sociolinguística Variacionista e da Sociolinguística Interacional
articulados com a realidade das comunidades usuárias de Libras a fim de ampliar a visão sobre
língua e sociedade.
PREPARAÇÃO
/
Tenha à mão um dicionário de Linguística para consultar os termos específicos da área. Na
internet, você pode acessar o Dicionário de Termos Linguísticos, hospedado no Portal da Língua
Portuguesa.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Identificar os tipos de variação linguística e a mudança na língua
MÓDULO 2
Relacionar a Sociolinguística com o contexto educacional da Libras
INTRODUÇÃO
Como explicar o fato de que falantes de uma mesma língua a usem de modo tão diferente?
Você já reparou como uma pessoa modifica seu modo de falar, quando se encontra em uma festa
com amigos ou quando está em uma reunião de trabalho?
Notou como pessoas de diferentes grupos sociais escolhem palavras e expressões específicas?
E o que dizer da dificuldade que pessoas mais idosas às vezes apresentam para entender a fala
de adolescentes e vice-versa?
Essas questões nos apontam para alguns fenômenos ou processos que verificamos no uso de
determinada língua e que nos interessam aqui.
/
Estudaremos os diferentes tipos de variações pelas quais as línguas passam, como isso se
relaciona com a mudança em determinada língua e como os aspectos sociais e linguísticos
interferem no diálogo com textos distintos, sem deixar de considerar em todas essas questões o
contexto da Libras, a Língua Brasileira de Sinais.
MÓDULO 1
 Identificar os tipos de variação linguística e a mudança na língua
OS ESTUDOS LINGUÍSTICOS E A
SOCIOLINGUÍSTICA
Uma das maiores contribuições da Linguística sobre o funcionamento e a natureza da linguagem
advém da corrente Sociolinguística, que tem por princípio básico o estudo da linguagem em
diferentes recortes e realidades sociais.
Será por meio da Sociolinguística que trataremos do uso da língua e das situações de variação e
mudança, pois essa corrente se localiza no campo dos estudos da linguagem como uma área de
teorização e investigação que observa aspectos relacionados à variação e à mudança linguística.
A Sociolinguística também trata de tendências relacionadas aos usos que diferentes grupos
sociais fazem da língua, e das ideologias e relações de poder envolvidas no processo de
percepção, legitimação e estigmatização dessas formas de uso da língua.
LINGUÍSTICA
Disciplina acadêmica voltada para o estudo científico da linguagem.
javascript:void(0)
/
 Fonte: Rawpixel.com/Shutterstock
A Sociolinguística se impõe como um campo de ação diverso, na medida em que se desdobra em
áreas da interface linguagem/sociedade, trazendo contribuições para o entendimento das relações
interacionais, para a descrição linguística em diferentes momentos do curso de formação da língua
e para o enriquecimento de outras áreas, como a educação e a política.
Ao focalizar o uso real e efetivo da língua por indivíduos socialmente localizados, a
Sociolinguística se coloca no campo das ciências humanas e sociais, subsidiando discussões
voltadas para o valor ou reconhecimento das formas de expressão de grupos majoritários e
minoritários.
 ATENÇÃO
No contexto da discussão sobre as línguas de sinais, em geral línguas de minorias linguísticas
compostas por indivíduos surdos, por exemplo, a Sociolinguística traz informações importantes
para o combate ao preconceito linguístico.
Aqui vamos tomar dois direcionamentos a fim de entender um pouco sobre alguns princípios da
Sociolinguística e como essa corrente dialoga com as discussões sobre a Libras e sua
comunidade linguística. Trataremos, portanto, das duas grandes áreas, tradicionalmente falando,
da Sociolinguística:
A VARIACIONISTA
Módulo 1
/

A INTERACIONAL
Módulo 2
A SOCIOLINGUÍSTICA
No início da década de 1960, William Labov, que posteriormente se tornaria um dos maiores
linguistas da história, desenvolveu dois grandes estudos:
 
Fonte:
 Legenda: William Labov, autor desconhecido, século XXI. | Fonte: Alchetron.
Uma grande investigação sobre o inglês falado na ilha Martha's Vineyard, em
Massachusetts, Estados Unidos.
Um estudo de mesma natureza, com o dialeto falado na cidade de Nova York.
/
Em ambos os estudos, o pesquisador possuía um único e importante objetivo:
Mostrar o papel crucial dos fatores sociais na explicação da variação linguística.
O autor identificou que a variação de usos linguísticos de funções e significados semelhantes era
altamente controlada e organizada por fatores ligados aos perfis sociais de seus falantes, além
de fatores internos de seus dialetos.
A partir dos estudos de Labov, foi superada a ideia de que a variação linguística seria aleatória e
não sistêmica. A ideia de que a variação seria ordenada tornou-se um contraponto ao pensamento
de que a língua se organizaria estruturalmente a despeito de seus falantes e seus usos diversos.
 RESUMINDO
A variação linguística passou a ser entendida como objeto não aleatório, baseando-se na
correlação existente entre fatores linguísticos e sociais.
Vários pontos são identificados a partir dessa discussão, dos quais destacamos:
O fato da heterogeneidade sistematizada
O aparato metodológico variacionista
A relação entre variação e mudança linguísticas
O FATO DA HETEROGENEIDADE
SISTEMATIZADA
A despeito da irregularidade observada no uso da língua, existe um conceito de homogeneidade
advindo de certa concepção linguística que consiste em entender a língua como um sistema
fechado de regras e possibilidades, como um objeto homogêneo, estruturalmente consistente e
previsível, a partir de suas próprias possibilidades internas de arranjo. Essa é a concepção
estruturalista da língua.
/
Nesse sentido, o uso individual da língua é visto como o lugar do caos, da não regularidade, o
lugar onde múltiplas formas surgem, como as formas menos legitimadas de um grupo social. Por
outro lado, a dimensão coletiva ou social da língua representa o regular, o sistêmico, o
homogêneo.
USO INDIVIDUAL DA LÍNGUA
Caos

USO COLETIVO OU SOCIAL DA LÍNGUA
Regularidade
As pesquisas de Labov e toda a prática sociolinguística variacionista mostraram, entretanto, que a
suposta homogeneidade linguística, prevista pela perspectiva estruturalista, poderia ser
questionada pela ideia de heterogeneidade sistematizada.
O QUE VEM A SER ESSA HETEROGENEIDADE
SISTEMATIZADA?
Trata-se de um fato verificável em qualquer língua natural ao notarmos que a variação linguística é
controlada e fortemente condicionada por fatores inerentes à língua e por outros a ela externos:
os fatores sociais.
Há, portanto, uma dimensão probabilística nesse contexto: a tendência de que determinados usos
ocorram em dado contexto, graças à ação desse conjunto de fatores.
É um grande erro acharmos que o modo diferenciado como as pessoas se expressam para dizer a
mesma coisa possa ser classificado simplesmente como resultado de escolhas aleatórias,
ignorância, deficit cognitivo e tantos outros argumentos que costumamos testemunhar quando o
assunto é a maneira diferenciada como todos nós nos expressamos.
/
Qualquer fenômeno de variação linguística é explicável, portanto, por um conjunto de fatores
relacionados que pode apontar o modo como as possibilidades de usos para um mesmo sentido
se distribuem na língua.
É nessa combinação de fatores que identificaremos o que há de sistemático na heterogeneidade
linguística. A visão de homogeneidade linguística estruturalista é posta em xeque pela proposta da
heterogeneidade sistematizada da Sociolinguística, que mostra que nada na língua é, por assim
dizer, caótico.
EXEMPLOS DO FUNCIONAMENTO DA VARIAÇÃO
 
Fonte:
Para falar dos fatores que explicam o funcionamento sistêmico da variação, vejamos o caso dos
gerúndios no português do Brasil