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HELENA

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ou diminuiu muito.
— Diminuiu, talvez.
— E com razão. Pensa que também eu não tive repugnân-
cias, depois que ela aqui entrou? Tive; mas se não houvessem 
desaparecido, — desapareceriam hoje de manhã.
— Como?
Estácio referiu à tia a cena do capítulo anterior e as pala-
vras que lhe dissera Helena.
D. Úrsula sorriu ironicamente.
— Não a impressiona isto? perguntou Estácio.
— Não, respondeu D. Úrsula com decisão; a frase de Helena 
é achada em algum dos muitos livros que ela lê. Helena não é 
tola; quer prender-nos por todos os lados, até pela compaixão. 
Não te nego que começo a gostar dela; é dedicada, afetuosa, 
diligente; tem maneiras finas e algumas prendas de sociedade. 
Além disso, é naturalmente simpática. Já vou gostando dela; 
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mas é um gostar sem fogo nem paixão, em que entra boa dose 
de costume e necessidade. A presença de outra mulher nesta 
casa é conveniente, porque eu estou cansada. Helena preenche 
essa lacuna. Se alguma coisa, entretanto, a podia prejudicar nas 
nossas relações é esse dito.
Estácio tomou calorosamente a defesa da irmã.
— O que eu lhe contei, disse ele, foram apenas as palavras. Não 
pude nem poderei reproduzir a expressão sincera com que ela as 
disse, e a profunda tristeza que havia em seus olhos. Não lhe nego 
que, ao vê-la mudar tão depressa e entrar alegre na sala, senti tal ou 
qual abalo de dúvida, mas passou logo. Ela tem o poder de concen-
trar a amargura no coração; também a dor tem suas hipocrisias. .
— Mas que dor? Que amargura? Interrompeu D. Úrsula. A 
dor de ser legitimada? A amargura de uma herança?
Estácio protestou calorosamente contra aquele caminho 
que a tia dava às suas ideias; enfim pediu-lhe que interrogasse 
com cautela a irmã.
— Um homem, concluiu ele, é menos apto para obter tais 
confissões; uma senhora, respeitável e parenta, está mais no caso 
de lhe captar a confiança e obter tudo. Quer esse delicado papel?
— O que você pede é muito, respondeu D. Úrsula. Verei se 
posso dar metade disso. Era só o que tinha para dizer?
— Só.
— Uma criancice! Eu tenho coisa mais séria. O Dr. Camargo 
escreveu-me; trata-se...
— Não precisa dizer mais nada, interrompeu Estácio; lá 
vem ele.
Camargo apareceu efetivamente a vinte passos de distância.
— Doutor, disse D. Úrsula, logo que este se aproximou 
deles, chega um pouco fora de propósito. Eu mal tive tempo de 
assustar meu sobrinho, que ainda não sabe o que o senhor quer.
— Saberá agora; é só bastante que a senhora lhe diga que 
me aprova.
— Completamente.
— Trata-se... disse Estácio.
— De uma conspiração; todos conspiramos em seu 
benefício.
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D. Úrsula retirou-se para casa; os dois ficaram sós. Uma 
vez sós, Camargo pousou a mão no ombro de Estácio, olhou-o 
paternalmente, enfim perguntou-lhe se queria ser deputado. 
Estácio não pôde reprimir um gesto de surpresa.
— Era isso? Disse ele.
— Creio que não se trata de um sacrifício. Uma cadeira na 
Câmara! Não é a mesma coisa que um quarto no Aljube...
— Mas a que propósito?
— Esta ideia estava em minha mente há algumas semanas. 
Doía vê-lo vegetar os seus mais belos anos numa obscuridade 
relativa. A política é a melhor carreira para um homem em suas 
condições; tem instrução, caráter, riqueza; pode subir a posições 
invejáveis. Vendo isso, determinei metê-lo na Cadeia... Velha. 
Fala-se em dissolução. Para facilitar-lhe o sucesso, entendi-me 
com duas influências dominantes. O negócio parece ser uma 
boa ideia.
Estácio ouviu com desagrado as notícias que lhe dava o 
médico.
— Mas, doutor, disse ele depois de curto silêncio, houve de 
sua parte alguma precipitação. Pelo menos, devia consultar-me. 
Do modo por que arranjou as coisas, quase me acho desobri-
gado de lhe agradecer a intenção. Quanto a aceitar, não aceito.
Camargo não perdeu o equilíbrio; deixou passar por cima 
da cabeça a primeira onda de desagrado, surgiu fora e insistiu 
tranquilamente:
— Vejamos as coisas com os óculos do senso comum. Em 
primeiro lugar, não creio que tenha outros projetos na cabeça...
— Talvez.
— Duvido que sejam mais vantajosos do que este. A ciência 
é árdua e seus resultados fazem menos confusão. Não tem vo-
cação comercial nem industrial. É duvidoso. Seu futuro tem por 
ora dois limites únicos, alguns estudos de ciência e os aluguéis 
das casas que possui. Ora, a eleição nem lhe tira os aluguéis nem 
evita que continue os estudos; a eleição completa-o, dando-lhe 
a vida pública, que lhe falta. A única objeção seria a falta de 
opinião política; mas esta objeção não o pode ser. Há de ter, 
sem dúvida, meditado alguma vez nas necessidades públicas, e...
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— Suponha, — é mera hipótese, — que tenho alguns com-
promissos com a oposição.
— Nesse caso, direi que ainda assim deve entrar na 
Câmara — embora pela porta dos fundos. Se tem ideias es-
peciais e partidárias, a primeira necessidade é obter o meio 
de as expor e defender. O partido que lhe der a mão, — se 
não for o seu, — ficará consolado com a ideia de ter ajuda-
do um adversário talentoso e honesto. Mas a verdade é que 
não escolheu ainda entre os dois partidos; não tem opiniões 
feitas. Que importa? Grande número de jovens políticos se-
guem, não uma opinião examinada, ponderada e escolhida, 
mas a do círculo de suas afeições, a que os pais ou amigos 
imediatos honraram e defenderam, a que as circunstâncias lhe 
impõem. Daí vêm algumas legítimas conversões posteriores. 
Tarde ou cedo o temperamento domina as circunstâncias da 
origem, e do botão de flor nasce um magnífico lírio. Além do 
mais, a política é ciência prática; e eu desconfio de teorias 
que só são teorias. Entre primeiro na Câmara; a experiência e 
o estudo dos homens e das coisas lhe designarão a que lado 
se deve inclinar.
Estácio ouviu atento estas vozes com que a serpente lhe 
apontava para a árvore da ciência do bem e do mal. Menos 
curioso que Eva, entrou a discutir filosoficamente com o réptil.
— Entra-se na política, disse ele, por vocação legítima, 
ambição nobre, interesse, vaidade, e até por simples distra-
ção. Nenhum desses motivos me impele a dobrar o Cabo das 
Tormentas...
— Da Boa Esperança, emendou Camargo rindo; não supri-
ma três séculos de navegação.
Estácio riu também. Depois falou ao médico da sua ín-
dole e ambições. Não negava que tivesse ambições; mas não 
eram só políticas, nem todas eram da mesma estatura. Os 
espíritos, disse ele, nascem condores ou andorinhas, ou ainda 
outras espécies intermédias. A uns é necessário o horizonte 
vasto, a elevada montanha, de cujo cume batem as asas e 
sobem a encarar o sol; outros contentam-se com algumas 
longas braças de espaço e um telhado em que vão esconder 
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o ninho. Estes eram os obscuros, e, na opinião dele, os mais 
felizes. Não seduzem as vistas, não subjugam os homens, não 
os menciona a História em suas páginas luminosas ou som-
brias; o vão do telhado em que abrigaram a prole, a árvore 
em que pousaram, são as testemunhas únicas e passageiras 
da felicidade de alguns dias. Quando a morte os colhe, vão 
eles pousar no braço comum da eternidade, onde dormem 
o mesmo perpétuo sono, tanto o capitão que subiu ao sumo 
estado por uma escada de mortos, como o cabreiro que o viu 
passar uma vez e o esqueceu duas horas depois. Suas ambi-
ções não eram tão desprezíveis como seriam as do cabreiro; 
eram as do proprietário do campo que o capitão atravessasse. 
Um bom dinheiro, a família, alguns livros e amigos, — não 
iam além seus mais arrojados sonhos.
Um sorriso de lástima foi a primeira resposta do médico.
— Meu caro Estácio, disse ele depois, esse trocadilho de 
andorinhas e cabreiros é a coisa mais extraordinária que eu es-
perava ouvir de um matemático. Saiba que detesto igualmente 
a filosofia