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Leia as crônicas a seguir e faça a atividade proposta ao final. 
 
 A MOÇA E A CALÇA 
 (Stanislaw Ponte Preta) 
Foi no Cinema Pax, em Ipanema. O filme em exibição é ruim: “O menino mágico”. Se mágico 
adulto geralmente é chato, imaginem menino. Mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é 
a mocinha muito da redondinha, condição que seu traje apertadinho deixava sobejamente 
clara. A mocinha chegou, comprou a entrada, apanhou, foi até a porta, mas aí o porteiro olhou 
pra ela e disse que ela não podia entrar: 
_ Não posso por quê? 
_ A senhora está de “Saint-Tropez”. 
_ E daí? 
Daí o porteiro olhou pras exuberâncias físicas dela, sorriu e foi um bocado sincero: 
 _ Por mim a senhora entrava. (Provavelmente completou baixinho... e entrava bem.) Mas o 
gerente tinha dado ordem de que não podia com aquela calça bossa-nova e, sabe como é... ele 
tinha que obedecer, de maneira que sentia muito, mas com aquela calça não. 
_ O senhor não vai querer que eu tire a calça. 
Nós, que estávamos perto, quase respondemos por ele: 
 _ Como não, dona! _ Mas ela não queria resposta. Queria era discutir a legitimidade de suas 
apertadas calças “Saint-Tropez”. Disse então que suas calças eram tão compridas como outras 
quaisquer. O cinema Pax é dos padres e talvez por causa desse detalhe é que não pode “Saint-
Tropez”. A calça, de fato, era comprida como as outras, mas embaixo. Em cima era curta 
demais. O umbigo ficava ali, isolado, parecendo até o representante de Cuba em conferências 
panamericanas. 
_ Quer dizer que com minhas calças eu não entro? _ Quis ela saber ainda mais uma vez. E 
vendo o porteiro balançar a cabeça em sinal negativo, tornou a perguntar: 
 _ E de saia? 
 De saia podia. Ela então abriu a bolsa, tirou uma saia que estava dentro, toda embrulhadinha 
(devia ser pra presente). Desembrulhou e vestiu ali mesmo, por cima do pomo da discórdia. No 
caso, a calça “Saint- Tropez”. Depois, calmamente, afrouxou a calça e deixou que a dita 
escorresse saia abaixo. Apanhou, guardou na bolsa e entrou com uma altivez que só vendo. 
Enquanto rasgava o bilhete, o porteiro comentou: 
_ Faço votos que ela tenha outra por baixo. 
Outra calça, naturalmente. 
 
 
RECADO AO SENHOR 903 
(Rubem Braga) 
 
Vizinho… 
Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que me 
mostrou a carta em que o senhor reclama contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois 
a sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite – e a sua veemente reclamação verbal. Devo 
dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é 
explicito e, se não fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia 
inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos 
e músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como 
não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois 
números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito a leste pelo 1005, a oeste 
pelo 1001, ao sul pelo oceano Atlântico, ao norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 
903 – que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o oceano 
Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos 
agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, 
depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. 
Quem vier à minha casa (perdão: ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e 
explicarei: o 903 precisa repousar das 22 horas às 7 pois às 8:15 deve deixar o 783 para tomar o 
109 que o levará até o 527 de outra rua, onde trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está 
toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável quando o número não incomoda 
outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhes 
desculpas – e prometo silêncio. 
… Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse 
à porta do outro e dissesse: “Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui 
estou”. E o outro respondesse: “Entra vizinho, e come do meu pão e bebe do meu vinho. Aqui 
estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela”. 
E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho 
entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, 
e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A ARTE DE SER FELIZ 
 
(Cecília Meireles) 
Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um 
grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias 
límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. 
Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz. 
Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um 
barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em 
que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E 
que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma 
ficava completamente feliz. 
Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira 
alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada 
uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e 
mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as 
crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão 
compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me 
sentia completamente feliz. 
Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. 
Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, 
e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em 
silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma 
espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o 
homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava 
completamente feliz. 
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem 
que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, 
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A ATITUDE SUSPEITA 
(Luis Fernando Veríssimo) 
 
Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso “em atitude suspeita”. É uma frase cheia 
de significados. Existiriam atitudes inocentes e atitudes duvidosas diante da vida e das coisas e 
qualquer um de nós estaria sujeito a, distraidamente, assumir uma atitude que dá cadeia! 
- Delegado, prendemos este cidadão em atitude suspeita. 
- Ah, um daqueles, é? Como era a sua atitude? 
- Suspeita. 
- Compreendo. Bom trabalho, rapazes. E o que é que ele alega? 
- Diz que não estava fazendo nada e protestou contra a prisão. 
- Hmm. Suspeitíssimo. Se fosse inocente não teria medo de vir dar explicações. 
- Mas eu não tenho o que explicar! Sou inocente! 
- É o que todos dizem, meu caro. A sua situação é preta. Temos ordem de limpar a cidade de 
pessoas em atitudes suspeitas. 
- Mas eu estava só esperando o ônibus! 
- Ele fingia que estava esperando um ônibus, delegado. Foi o que despertou a nossa suspeita. 
- Ah! Aposto que não havia nem uma parada de ônibus por perto. Comoé que ele explicou isso? 
- Havia uma parada sim, delegado. O que confirmou a nossa suspeita. Ele obviamente escolheu 
uma parada de ônibus para fingir que esperava o ônibus sem despertar suspeita. 
- E o cara-de-pau ainda se declara inocente! Quer dizer que passava ônibus, passava ônibus e 
ele ali fingindo que o próximo é que era o dele? A gente vê cada uma... 
- Não senhor delegado. No primeiro ônibus que apareceu ele ia subir, mas nós agarramos ele 
primeiro. 
- Era o meu ônibus, o ônibus que eu pego todos os dias para ir para casa! Sou inocente! 
- É a segunda vez que o senhor se declara inocente, o que é muito suspeito. Se é mesmo 
inocente, por que insistir tanto que é? 
- E se eu me declarar culpado, o senhor vai me considerar inocente? 
- Claro que não. Nenhum inocente se declara culpado, mas todo culpado se declara inocente. Se 
o senhor é tão inocente assim, por que estava tentando fugir? 
- Fugir, como? 
- Fugir no ônibus. Quando foi preso. 
- Mas eu não estava tentando fugir. Era o meu ônibus, o que eu tomo sempre! 
- Ora, meu amigo. O senhor pensa que alguém aqui é criança? O senhor estava fingindo que 
esperava um ônibus, em atitude suspeita, quando suspeitou destes dois agentes da lei ao seu 
lado. Tentou fugir e... 
- Foi isso mesmo. Isso mesmo! Tentei fugir deles. 
- Ah, uma confissão! 
- Porque eles estavam em atitude suspeita, como o delegado acaba de dizer. 
- O quê? Pense bem no que o senhor está dizendo. O senhor acusa estes dois agentes da lei de 
estarem em atitude suspeita? 
- Acuso. Estavam fingindo que esperavam um ônibus e na verdade estavam me vigiando. 
Suspeitei da atitude deles e tentei fugir! 
- Delegado... 
- Calem-se! A conversa agora é outra. Como é que vocês querem que o público nos respeite se 
nós também andamos por aí em atitude suspeita? Temos que dar o exemplo. O cidadão pode ir 
embora. Está solto. Quanto a vocês... 
- Delegado, com todo o respeito, achamos que esta atitude, mandando soltar um suspeito que 
confessou estar em atitude suspeita é um pouco... 
- Um pouco? Um pouco? 
- Suspeita. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O LIXO 
(Luís Fernando Veríssimo) 
 
Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam. 
- Bom dia... 
- Bom dia. 
- A senhora é do 610. 
- E o senhor do 612. 
- É. 
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente... 
- Pois é... 
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo... 
- O meu quê? 
- O seu lixo. 
- Ah... 
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena... 
- Na verdade sou só eu. 
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata. 
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar... 
- Entendo. 
- A senhora também... 
- Me chame de você. 
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu 
lixo. Champignons, coisas assim... 
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes 
sobra... 
- A senhora... Você não tem família? 
- Tenho, mas não aqui. 
- No Espírito Santo. 
- Como é que você sabe? 
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo. 
- É. Mamãe escreve todas as semanas. 
- Ela é professora? 
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou? 
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora. 
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo. 
- Pois é... 
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado. 
- É. 
- Más notícias? 
- Meu pai. Morreu. 
- Sinto muito. 
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos. 
- Foi por isso que você recomeçou a fumar? 
- Como é que você sabe? 
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo. 
- É verdade. Mas consegui parar outra vez. 
- Eu, graças a Deus, nunca fumei. 
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo... 
- Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou. 
- Você brigou com o namorado, certo? 
- Isso você também descobriu no lixo? 
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel. 
- É, chorei bastante, mas já passou. 
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos... 
- É que eu estou com um pouco de coriza. 
- Ah. 
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo. 
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é. 
- Namorada? 
- Não. 
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha. 
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga. 
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte. 
- Você já está analisando o meu lixo! 
- Não posso negar que o seu lixo me interessou. 
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a 
poesia. 
- Não! Você viu meus poemas? 
- Vi e gostei muito. 
- Mas são muito ruins! 
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados. 
- Se eu soubesse que você ia ler... 
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa 
ainda é propriedade dela? 
- Acho que não. Lixo é domínio público. 
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada 
se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso? 
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que... 
- Ontem, no seu lixo... 
- O quê? 
- Me enganei, ou eram cascas de camarão? 
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei. 
- Eu adoro camarão. 
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode... 
- Jantar juntos? 
- É. 
- Não quero dar trabalho. 
- Trabalho nenhum. 
- Vai sujar a sua cozinha? 
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora. 
- No seu lixo ou no meu?» 
 
 
 
FUGA 
(Fernando Sabino) 
 Mal o pai colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela 
sala, fazendo um barulho infernal. 
 − Para com esse barulho, meu filho - falou, sem se voltar. 
 Com três anos já sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: 
não estava fazendo barulho, estava só empurrando uma cadeira. 
 − Pois então para de empurrar a cadeira. 
 −Eu vou embora - foi a resposta. 
 Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação às palavras, no ato de juntar do chão suas 
coisinhas, enrolando-as num pedaço de pano. Era a sua bagagem: um caminhão de plástico com 
apenas três rodas, um resto de biscoito, uma chave (onde diabo meteram a chave da despensa? 
- a mãe mais tarde irá dizer), metade de uma tesourinha enferrujada, sua única arma para a 
grande aventura, um botão amarrado num barbante. 
 A calma que baixou então na sala era vagamente inquietante. De repente, o pai olhou ao 
redor e não viu o menino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão: 
 − Viu um menino saindo desta casa? - gritou para o operário que descansava diante da obra 
do outro lado da rua, sentado no meio-fio. 
 − Saiu agora mesmo com uma trouxinha - informou ele. 
 Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe, caminhando cabisbaixo ao longo do 
muro. A trouxa, arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seus pertences: o botão, 
o pedaço de biscoito e - saíra de casa prevenido - uma moeda de 1 cruzeiro. 
 Chamou-o mas ele apertou o passinho, abriu a correr em direção à avenida, como disposto 
a atirar-se diante do ônibus que surgia à distância. 
 − Meu filho, cuidado! 
 O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para a esquerda, os pneus cantaram no 
asfalto. O menino, assustado, arrepiou carreira. O pai precipitou-se e o arrebanhou com o braço 
como a um animalzinho: 
 − Que susto que você me passou, meu filho! - e apertava-o contra o peito, comovido. 
 − Deixaeu descer, papai. Você está me machucando. Irresoluto, o pai pensava agora se não 
seria o caso de lhe dar umas palmadas: 
 −Machucando, é? Fazer uma coisa dessas com seu pai. 
 − Me larga. Eu quero ir embora. Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala - tendo 
antes o cuidado de fechar a porta da rua e retirar a chave, como ele fizera com a da despensa. 
 − Fique aí quie�nho, está ouvindo? Papai está trabalhando. 
 −Fico, mas vou empurrar esta cadeira. E o barulho recomeçou. 
DEBAIXO DA PONTE 
(Carlos Drummond de Andrade) 
 
Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. 
Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio: a ponte é de todos, na 
parte de cima; de ninguém, na parte de baixo. Não pagavam conta de luz e gás, porque luz e gás 
não consumiam. Não reclamavam contra falta d’água, raramente observada por baixo de 
pontes. Problema de lixo não tinham; podia ser atirado em qualquer parte, embora não 
conviesse atirá-lo em parte alguma, se dele vinham muitas vezes o vestuário, o alimento, objetos 
de casa. Viviam debaixo da ponte, podiam dar esse endereço a amigos, recebê-los, fazê-los 
desfrutar comodidades internas da ponte. 
À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente 
morava: nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho. Há bancos 
confortáveis nos jardins, muito disputados; a calçada, um pouco menos propícia; a cavidade na 
pedra, o mato. Até o ar é uma casa, se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua. O que 
morava não se sabe onde vinha visitar os de debaixo da ponte e trazer-lhes uma grande posta 
de carne. 
Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la; é preciso que ela exista, 
o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, 
debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo 
diante deles, a posta bem pegável, comível. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para 
quem sabe frequentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência. 
Comê-la crua ou sem tempero não teria o mesmo gosto. Um de debaixo da ponte saiu à caça de 
sal. E havia sal jogado a um canto de rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas 
regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo 
da ponte. 
Debaixo da ponte os três prepararam comida. Debaixo da ponte a comeram. Não sendo 
operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação de raridade da carne. E 
iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do 
que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores. 
Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do 
organismo de cada um, vendo-se alimentado sem que lhe houvesse chegado notícia prévia de 
alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da 
carne, dizem outros que do sal, pois era soda cáustica. 
Há duas vagas debaixo da ponte. 
 
 
 
 
 
Como você viu no material postado na semana passada, a crônica é um gênero que tem 
relação com a ideia de tempo e consiste no registro de fatos do cotidiano em linguagem 
simples e coloquial. 
 
A crônica pode receber diferentes classificações: 
 
- a lírica, em que o autor relata com nostalgia e sentimentalismo; 
 
- a humorística, em que o autor faz graça com o cotidiano; 
 
- a crônica-ensaio, em que o cronista, ironicamente, tece uma crítica ao que acontece 
nas relações sociais e de poder; 
 
- a filosófica, reflexão a partir de um fato ou evento; 
 
- a jornalística, que apresenta aspectos particulares de notícias ou fatos, pode ser 
policial, esportiva, política etc. 
 
- e a narrativa, que contém apenas elementos da narração em sua estrutura, ou seja, 
que apresenta personagens, tempo, espaço e enredo. 
 
 
ATIVIDADE: 
 
1. Você acabou de ler algumas crônicas. Classifique-as de acordo com os tipos 
acima (lírica, humorística, crônica-ensaio, filosófica, jornalística, narrativa). 
Algumas crônicas podem ter mais de uma classificação. 
2. Qual a reflexão que cada crônica traz? Explique. 
3. Faça uma pesquisa na internet sobre a biografia dos autores. Não precisa anotar 
no caderno nem postar na sala de aula.

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