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Ana Júlia Soares Silva1 Bohemian Rhapsody sob a perspectiva da Psicologia Humanista BOHEMIAN rhapsody. Direção: Bryan Singer. Produção: Graham King e Jim Beach. 20th Century Fox, 2018. O filme conta a vida de Farrokh Bulsara, mais conhecido pelo seu nome artístico Freddie Mercury. Na obra ele é representado como um jovem-adulto de origem persa que além de negar sua descendência vive alguns conflitos dentro de casa, especialmente com seu pai, que exige que ele siga uma profissão formal para ter o futuro “garantido”, enquanto Freddie sonha com a carreira de artista. Considerando a perspectiva humanista e tendo em mente a teoria de Rogers que diz que o ser humano tem uma tendência natural ao crescimento (tendência atualizante) desde que lhe sejam fornecidas as condições facilitadoras para tal, que seriam a congruência, compreensão empática e aceitação positiva incondicional, percebe-se que o ambiente familiar, para Mercury, não era favorável ao seu desenvolvimento. Entretanto, ele conseguia um ambiente com essas condições facilitadoras, quando estava com sua namorada, Mary, que teve sensibilidade e percebeu algo incongruente, ou seja, uma não correspondência do que ele mostrava ser com o que ele realmente era, logo que Freddie começou a descobrir sua sexualidade. Além disso, Mary permitiu e serviu de suporte, através da aceitação positiva incondicional e da compreensão empática, para que Mercury se aceitasse e assumisse para si quem ele descobriu ser, um homem homossexual. Ao decorrer da obra, Freddie ascende em sua carreira como artista participando como cantor de uma banda nomeada Queen. Em suas interações envolvendo o grupo musical, tanto com os outros integrantes quanto com produtores, Mercury expressa uma personalidade ambiciosa, sempre propondo a quebra de padrões com seu jeito extravagante, incisivo e inovador, tanto no seu jeito de ser quanto na sua forma de fazer música. Vemos, assim, em ação sua tendência atualizante, característica de toda vida orgânica que se refere a existência de recursos dentro do ser que possam gerar um melhoramento e crescimento do mesmo se for criado um clima facilitador para tal (através 1 Discente de Psicologia da Universidade Federal do Maranhão Email: ajuliasoares13@gmail.com das condições facilitadoras citadas anteriormente), e a prova disso é o crescimento imensurável de Freddie como artista e da banda Queen, que logo alcançou sucesso mundial. Por outro lado, a história do cantor não segue uma linearidade de crescimento. Logo, o uso de drogas e excesso de álcool, relação com pessoas egoístas e pressão da mídia leva Freddie a um colapso, se afastando da família, amigos e até mesmo da banda, que ele resolve deixar para seguir carreira solo. Com isso, a vida do artista parece em completa desordem, sozinho ele não consegue sucesso com as músicas e comportamentos imprudentes com a saúde o leva a contrair Aids. A partir disso e considerando principalmente a doença contraída, que não tem cura e na época não havia tratamento eficaz, o que lhe fez encarar de frente a possibilidade de morte, Freddie passa a se mover para mudar sua situação caótica. É quando ele tenta retornar o contato com os integrantes da banda, com sua ex-namorada e agora melhor amiga Mary e com sua família. Esses momentos que mostram uma dinâmica conflitiva de altos e baixos, mudanças boas e ruins, clarificam o conceito de processo direcional de Rogers, que se refere a tendência universal ao movimento, ou seja, sempre dirigir-se a algo, seja a um processo que favoreça o crescimento e bem-visto socialmente ou não. Ademais, percebe- se com isso que essa dualidade de fluxos trata-se de uma briga constante entre a entropia (tendência universal a se degenerar em direção a um estado cada vez mais desordenado e caótico) e sintropia (tendência sempre atuante, do nível inorgânico ao orgânico, de dirigir- se em direção a uma ordem e complexidade crescente), responsáveis pelo dinamismo na vida dos seres. Por fim, Freddie aparece num show com o maior público que eles poderiam conseguir, numa ação de arrecadação de fundos para pessoas da África, no estado de Wembley. Nesse ponto, o cantor já havia conseguido reestabelecer um bom relacionamento com os integrantes da banda, Mary e sua família, incluindo o seu pai, com quem teve conflitos no passado. Tendo sua vida reorganizada e realizando um sonho profissional, Mercury aparece claramente experiencia um sentimento de autorrealização, que é um estágio em que a pessoa que o alcança plena satisfação e realização em seus desempenhos na vida, seja no âmbito pessoal, profissional ou social. Assim, a partir do filme, temos em mente que os conceitos estudados por Carl Rogers são muito mais que teoria, são práticas do dia a dia que interagem entre si e explicam o dinamismo da vida humana, clarificando características e processos que se bem conhecidos e utilizados podem levar a um crescimento e melhor relação com si e com os outros e, até mesmo, ao sentimento de plenitude que tanto se busca.