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Aula1
Direito Penal Aplicado I / Aula 1 - Introdução, conceito e princípios do Direito Penal
Introdução
Nesta aula, iniciaremos os estudos sobre a disciplina de Direito Penal, compreendendo a sua importância para a sociedade. O direito penal é uma valiosa ferramenta da qual o Estado se vale para coibir comportamentos inaceitáveis para a sociedade como, por exemplo, matar, roubar, estuprar, agredir a integridade física de outro etc. Nessa linha de raciocínio, apresentaremos o conceito de direito penal, bem como a definição de infração penal, crime e contravenção. Como se trata de um sistema, o Direito Penal, tal como outros ramos do Direito, possui princípios que servem para norteá-lo. Eles serão abordados de forma exauriente a fim de esclarecer quando e como devem ser aplicados.
Introdução e conceito de Direito Penal A vida em sociedade impõe ao ser humano uma série de relações com seus semelhantes. Nem sempre essas relações serão pacíficas. Os conflitos podem surgir e, dessa forma, a vida em sociedade depende de uma regulamentação. No que tange à disciplina em estudo, cumpre destacar que o Estado, criado para proteger os seres humanos e lhes garantir um bem-estar, protege os bens mais importantes da sociedade erigindo a condução de bens tutelados pelo direito penal. Assim, quando os bens do homem (vida, patrimônio liberdade, dignidade sexual etc.) recebem essa proteção de uma norma elaborada pelo Estado, criam-se os bens jurídicos.
A função do direto penal é proteger os bens jurídicos.
Os bens jurídicos são os bens da vida, tutelados por uma norma penal que incrimina quem os atinge ou coloca em risco. A partir da prática de uma dessa condutas incriminadas pelo direito penal, surge para o Estado o poder-dever de exercer seu ius puniendi (direito de punir). É importante ressaltar que o estado detém o monopólio desse direito de punir. Somente ele pode punir legitimamente uma pessoa que transgrediu uma normal penal.
Infrações Penais
Em decorrência dessa necessidade do Estado de proteger os bens jurídicos mais importantes do ser humano e da sociedade, surge a criação de infrações penais: regras de comportamento que impõem uma sansão penal a quem as transgredir. As normas penais, em sua maioria, estão compiladas em um código denominado Código Penal (Decreto-Lei 2848/40). O legislador criou as infrações penais, que é um gênero do qual o crime e a contravenção são espécies:
 Crime (espécie)
Infração penal (gênero): 
 Contravenção Penal (espécie)
Você sabe a diferença entre crime e contravenção?
A diferença está na espécie de pena aplicada ao crime:
Nas, contravenções penais, a pena é de prisão simples, o que impõe um regime semiaberto ou aberto, sem rigor penitenciário.
Quanto ao crime, a pena pode ocorrer em regime fechado.
A norma penal é composta de duas partes:
Comando Principal ou Preceito Primário (descrição da conduta);
Sanção ou Preceito Secundário (sanção).
Fontes do Direito Penal
Inicialmente, devemos destacar que, quando se fala em “fonte”, trata-se de um lugar de procedência, inspiração, base para formulação do sistema, norteamento das diretrizes, ou seja, refere-se à origem da norma penal.
A produção da norma sempre deve vir por meio de lei penal, pois compete privativamente à União legislar sobre Direito Penal (art. 22, I da Constituição Federal).
A visão interdisciplinar do Direito Penal
O Direito Penal faz parte de um sistema: o ordenamento jurídico. A base desse sistema, que norteia os demais ramos do Direito, é o Direito Constitucional. Veremos, adiante, que o direito penal guarda íntima relação com o direito constitucional, em especial na parte de direito e garantias fundamentais (previstos no Art. 5 da Constituição Federal).
A constituição é a lei maior que irá influenciar e nortear toda a criação dos demais ramos. Devemos, então, ver o direito penal à luz das normas constitucionais. Em decorrência dessa afirmativa, veremos que vários princípios aplicados ao direito penal encontram-se sediados na própria Constituição Federal de 1988.
Princípios constitucionais e infraconstitucionais
Princípio da dignidade humana
Leia o art. 1°, inciso III, da CRFB/1988:
Art. 1º. A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
III - a dignidade da pessoa humana;
A Constituição é a base de todo ordenamento jurídico, irradiando a sua força normativa para todos os setores do Direito, inclusive o Penal. A sua influência na seara penal é muito importante, tendo em vista que cabe ao Direito Penal a proteção de bens e valores essenciais à livre convivência e ao desenvolvimento do indivíduo e da sociedade previstos constitucionalmente.
O bem jurídico-penal tem na Constituição as suas raízes materiais, sendo fundamental para a salvaguarda dos direitos fundamentais que a interpretação e a aplicação da lei penal sejam feitas sempre conforme a Constituição e os ditames do Estado democrático de Direito.
Leitura
Para saber mais sobre esse tema importante, leia o artigo “O princípio da dignidade humana e sua relação com o Direito Penal”. Disponível em: //migre.me/u6j9J
Princípio da Legalidade
Atenção para o art. 5°, inciso XXXIX, da CRFB/1988 e o art. 1° do Código Penal:
Art. 5º, XXXIX Constituição Federal 1988 – Não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal.
Art. 1º do Código Penal - Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal.
Podemos perceber que o Código Penal apenas repetiu o que a Constituição estabeleceu. Agora, vamos entender o referido princípio.
O princípio da Legalidade (contendo os subprincípios reserva legal e anterioridade) trata da garantia constitucional fundamental, garantidora da liberdade. Assim, só é possível a existência de crime quando existir uma perfeita correspondência entre o ato praticado e a previsão legal, e que esta seja anterior àquela.
Esse princípio contém outros subprincípios:
Princípio da Reserva da Lei
Só a lei pode definir crimes e cominar penalidades. Nenhuma outra fonte inferior à lei pode gerar uma norma penal. Dessa forma, não há possibilidade de uma portaria, uma resolução ou medidas provisórias (que são outras espécies de normas) criarem um crime. Um bom exemplo dessa afirmação é que o presidente não pode criar crime por meio de um ato legislativo seu, a Medida Provisória (art. 62 da CF/88), que não passa pelo congresso. Assim, as demais normas, que não sejam leis, não podem definir crimes nem impor penas.
Princípio da anterioridade da lei penal
É um princípio relativo ao crime e à pena. Somente se aplicará pena que esteja prevista anteriormente na lei como aplicável ao autor do crime. A estipulação do crime e sua respectiva pena devem ser criadas anteriormente à conduta do autor, pois, do contrário, poder-se-ia criar ou até mesmo alterar a pena (assim como o crime) de acordo com determinados casos. O que, certamente, iria gerar quebra de igualdade e isonomia que todos devem ter perante a lei (a lei deve tratar todos de forma igual na exata medida de sua igualdade e os desiguais na mesma proporção de sua desigualdade – ação denominada Igualdade Material).
“Devemos tratar igualdade os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade.”
(Aristóteles)
Princípio da Taxatividade
O conjunto de normas incriminadoras é taxativo. O fato é típico ou atípico. O elenco não admite ampliações. Assim, fica impossibilitado o emprego da analogia. Para tanto, a lei deve especificar ao máximo o fato típico, evitando generalizações.
Princípio da Irretroatividade das Normas Incriminadoras
Este decorre do princípio da anterioridade. A lei incriminadora não pode retroagir para alcançar um fato cometido antes de sua vigência. Por óbvio, não podemos incriminar condutas que, quando praticadas, eram lícitas, permitidas. Quando o advento de uma lei proíbe certaconduta, aí sim podemos cobrar das pessoas que lhe respeitem.
Princípio da Irretroatividade da Lei Penal
Como explicado anteriormente, não podemos aplicar a lei penal a fatos passados, ou seja, quando o indivíduo praticou determinada conduta, esta era permitida. Mas uma nova lei pode afirmar que aquela conduta é crime agora. A lei não retroagirá, salvo para beneficiar o investigado.
Art. 5º, XL da Constituição Federal/88 – a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu.
Atividade
*A) Não há crime sem lei que o defina; não há pena sem cominação legal.
B) A pena só pode ser imposta a quem, agindo com dolo ou culpa, e merecendo juízo de reprovação, cometeu um fato típico e antijurídico.
C) A criminalização de uma conduta só se legitima se constituir meio necessário para a proteção de determinado bem jurídico.
D) Nenhuma pena passará da pessoa do condenado.
E) A pena deve estar proporcionada ou adequada à magnitude da lesão ao bem jurídico representada pelo delito e pela medida de segurança à periculosidade criminal do agente.
Princípio da Subsidiariedade
O Direito Penal é apenas um dos ramos do Direito. O Estado, para proteger determinados bens jurídicos, vale-se de outros menos gravosos ao indivíduo como, por exemplo, a estipulação de multa pecuniária para quem avançar o sinal de trânsito vermelho (direito administrativo). Com isso, garante a segurança viária.
Entretanto, quando esses outros ramos do Direito falham, o Estado se utiliza do Direito Penal, por ser mais forte sua incidência na vida das pessoas, justo pelo poder que ele tem de privá-las de um bem muito importante, que é a liberdade.
Princípio da Subsidiariedade
Utilizando o mesmo exemplo do veículo que avança o semáforo vermelho, agora, imaginemos que ele atropelou uma pessoa.
Seu condutor deverá, então, responder pelo crime de lesão (ou até mesmo homicídio, se houver morte) culposa na direção de veículo motor?
GABARITO Sim! Resta evidenciar que o Estado deve se valer de meios menos gravosos para coibir a conduta não admitida em sociedade e, somente em último caso, deve se utilizar do direito penal. Este, no que tange a sua utilização pelo Estado, é subsidiário em relação aos demais ramos do Direito.
Princípios da Fragmentariedade (Princípio da Intervenção Mínima)
As relações sociais entre indivíduos na sociedade são contínuas, ou seja, consubstanciam-se em verdadeiras relações permanentes. As relações de convívio, de urbanidade, de educação, de vizinhança, familiar etc.
Não são todas as condutas das relações humanas que serão merecedoras da atenção do direito penal. Com efeito, ele atua apenas em determinados fragmentos dessa relação. Este princípio decorre dos princípios da reserva legal e da intervenção necessária (mínima).
O direito penal não protege todos os bens jurídicos de violações: só os mais importantes.
Princípio da Lesividade (alteridade ou transcendentalidade)
O direito penal só deve ser aplicado às condutas que extrapolem a esfera do próprio autor e lesem bem jurídico de terceiros ou, ao menos, coloquem em risco o bem jurídico tutelado.
No Direito Penal, o princípio da lesividade proíbe a incriminação de atitude meramente interna, subjetiva do agente, pois se revela incapaz de lesionar o bem jurídico. Adota-se a ideia - até intuitiva - de que ninguém pode ser punido por fazer mal a si mesmo.
Por isso, aquele que tenta suicídio (e não consegue se matar) não responde por nenhum crime.
Princípio da Culpabilidade
A culpabilidade está relacionada com o juízo de reprovação que se faz acerca da conduta do autor, pois ele poderia, e era-lhe exigido que atuasse de outra forma que não com o cometimento do crime. A culpabilidade deve ser vista como fundamento e como limite da própria pena, em que a sanção imposta ao indivíduo deve guardar adequada proporção à gravidade de sua ação delituosa.
Princípio da Insignificância
O princípio da insignificância tem o sentido de excluir ou de afastar a própria tipicidade penal, ou seja, não considera o ato praticado como um crime, por isso, sua aplicação resulta na absolvição do réu e não apenas na diminuição e na substituição da pena ou na sua não aplicação. Para ser utilizado, faz-se necessária a presença de certos requisitos:
· A mínima ofensividade da conduta do agente;
· Nenhuma periculosidade social da ação;
· O reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento;
· A inexpressividade da lesão jurídica provocada (exemplo: o furto de algo de baixo valor).
· Sua aplicação decorre no sentido de que o direito penal não deve se ocupar de condutas que produzam resultado cujo desvalor - por não importar em lesão significativa a bens jurídicos relevantes - não represente, por isso mesmo, prejuízo importante, seja ao titular do bem jurídico tutelado, seja à integridade da própria ordem social.
· Para compreender melhor este princípio, assista ao documentário a seguir:
· Atividade
· 
2 - Analise as afirmações sobre o princípio da insignificância e marque a alternativa correta.
· I – O princípio da insignificância está ligado aos chamados “crimes de bagatela”.
· II – Nas hipóteses de lesões mínimas, será reconhecida a atipicidade dos fatos.
III – O princípio da insignificância recomenda que o direito penal apenas intervenha nos casos de lesão jurídica grave.
· 
· *A) Todas as afirmações estão corretas.
· 
· B) Apenas as afirmações I e II estão corretas.
· 
· C) Apenas as afirmações I e III estão corretas.
· 
· D) Apenas as afirmações II e III estão corretas.
· 
· E) Nenhuma das afirmações está correta.
Princípios do Ne bis in idem
Ninguém pode ser punido duas vezes pelo mesmo fato.
Possui duplo significado:
Penal material
Ninguém pode sofrer duas penas em face do mesmo crime;
Ninguém pode ser processado e julgado duas vezes pelo mesmo fato.
Atividade
3 - Com relação ao princípio do ne bis in idem, é correto afirmar que:
A) A criminalização de uma conduta só será legítima se constituir meio necessário para a proteção de determinado bem jurídico.
B) Nenhuma pena passará da pessoa do condenado.
C) Todos são iguais perante a lei penal.
*D) Ninguém pode ser punido duas vezes pelo mesmo fato.
E) Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.
Aula 2
Introdução Nesta aula, você irá dar continuidade aos aspectos principais para uma boa compreensão das regras gerais do Direito penal. Irá analisar qual é o exato conceito de tempo do crime, e estabelecer o seu raio de incidência analisando o Direito penal no espaço. É de suma importância saber exatamente até onde vai o alcance do Direito penal, em relação ao nosso conceito de território, bem como compreender os casos excepcionais em que, mesmo sendo praticado fora do nosso território, ainda assim o crime poderá estar sujeito a nossa lei. Por derradeiro, você irá estabelecer como acontece a contagem do prazo penal e processual penal, o que é muito importante para outros aspectos que você irá identificar mais à frente.
Analogia em Direito penal. Natureza Jurídica e incidência
Trata-se de complementar uma lacuna da lei, que não regula determinada situação jurídica, se utilizando de outra lei que compreenda a mesma razão, ou seja, o Direito penal não regula determinado fato, então o intérprete se utiliza de outra regra, ainda que de outro ramo do Direito, para solucionar o caso.
Consiste em aplicar-se uma hipótese não regulada em lei, disposição relativa a um caso semelhante. Na analogia, o fato não é regido por qualquer norma e, por essa razão, aplica-se uma de caso análogo. É uma forma de autointegração da lei.
Espécies de analogia:
In Bonan Partem: A analogia é empregada em benefício do agente (réu); é admitida no nosso ordenamento jurídico.
In Malan Partem: A analogia é empregada em prejuízo do agente (réu).
Analogia de norma penal incriminadora
Quando se trata de estabelecer crimes, adotamos o princípio da reserva legal, ou seja, a conduta que se deseja incriminar deve estar descrita na norma (lei) penal incriminadora de forma clara e taxativa.
Entretanto, discute-se a possibilidadede aplicar analogia para estabelecer um crime, e o entendimento que predomina largamente é no sentido de que fere o princípio da reserva legal, destacando um fato não definido como crime como tal.
Conflito aparente de normas
Ocorre quando duas ou mais normas aparentemente parecem aplicáveis ao mesmo fato.
Elementos configurativos do conflito:
· Uma só infração penal — unidade de fatos;
· Duas ou mais normas pretende regulá-lo — pluralidade de normas;
· Aparente aplicação de todas as normas à espécie;
· Efetiva aplicação de apenas uma delas.
A solução se dá pela aplicação de alguns princípios, que são:
Lex specialis derogat generalis
Especial é a norma que possui todos os elementos gerais e mais alguns denominados de especializantes que trazem um minus ou um plus de severidade.
A lei especial prevalece sobre a geral a qual deixa de incidir sobre aquela hipótese. Ex.: o art. 123, do CP, trata de infanticídio que prevalece sobre o artigo 121 homicídio, pois além de ter os elementos genéricos deste possui elementos especializantes (próprio filho, durante o parto ou logo após etc.).
Lex primaria derogat subsidiariae
Subsidiária é aquela norma que descreve, em grau menor de violação de um mesmo bem jurídico, isto é, um fato menos amplo e menos grave, o qual embora definido como delito autônomo, encontra-se também compreendido, em outro tipo, como fase normal de execução de crime mais grave.
A norma primária prevalece sobre a subsidiária. Exemplo: o agente efetua disparos com arma de fogo sem atingir a vítima , aparentemente, três normas são aplicáveis. O artigo 132, do CP, o artigo 10 § 1°, III, da Lei 9437/97, e o art. 121, c/c o art. 14, II do CP.
O tipo definidor da tentativa de homicídio descreve um fato mais amplo e mais grave do qual cabemos dois primeiros.
Lei penal no tempo Neste tópico, você irá reconhecer o aspecto da lei penal que muito se aproxima da manifestação da vida humana em geral, pois assim como os seres humanos a lei pode nascer, viver e morrer, com as devidas peculiaridades dos aspectos essenciais que uma norma pode possuir, é claro. A lei está submetida à corrosão do tempo, e encontra a limitação na sua criação ou na sua morte.
Princípio da Lei Penal no Tempo
A lei penal é regulada pelo princípio do tempus regit actum, ou seja, a lei do tempo irá reger o ato. Traduzindo, significa que a lei penal aplica-se aos fatos da sua época, ou seja, a lei aplicável à repressão da prática do crime é a lei vigente ao tempo de sua execução. Está norma está expressa no artigo 2º do Código Penal.
Conflito de Leis Penais no Tempo
Como as leis podem ser revogadas, então podem ocorrer problemas em decorrência dessa sucessão de leis, pois leis podem ser mais brandas ou mais rígidas e isso refletirá na análise do fato em relação a sua regulação pelo direito. A nova lei sempre traz conteúdo diverso da anterior, pois se assim não fosse não seria necessário criar uma nova lei.
As regras e os princípios que buscam solucionar o conflito de leis penais no tempo constituem o Direito penal intertemporal.
Os casos de conflito estão disciplinados no art. 5º, XL, da Constituição Federal, e nos art. 2º e 3º do código penal. Nestes dispositivos, estão estabelecidas as regras e as exceções. A regra é a aplicação da lei em vigor na época em que o fato (crime) foi praticado em decorrência da aplicação do princípio do tempus regit actum.
Entretanto, algumas exceções e situações podem surgir nessa relação entre a data do fato e a sucessão de leis, merecendo uma análise mais profunda do tema e das formas de solução, como:
A – novatio legis incriminadora
A lei cria uma nova figura penal, ou seja, incrimina uma conduta que até então era permitida (novatio legis incriminadora).
Trata-se da circunstância em que a nova lei cria o crime, ou seja, torna uma determinada conduta que, até então, era permitida (tolerada pela sociedade), em conduta criminosa. A nova lei só pode ser utilizada para fatos que forem praticados após a sua vigência, como preceitua o art. 1º do Código Penal.
B – lex gravior
A lei posterior é mais rígida do que a lei anterior (lex gravior)
Neste caso, já existe uma lei penal regulando a situação (diferente do caso anterior da novatio legis), entretanto surge uma nova lei que, de qualquer forma, torna mais rígida a reprimenda em face do réu. Essa lei mais grave jamais poderá retroagir para alcançar atos anteriores a sua vigência, conforme descreve o art. 5, XL, da FCRB/88 — princípio da irretroatividade da lei mais gravosa.
C – abolitio criminis
A lei posterior extingue o crime (abolitio criminis)
A lei nova deixa de considerar crime a conduta até então prevista como tal. A conduta que antes era crime, com a nova lei, passa a ser permitida. A nova lei pratica a abolição do crime do ordenamento jurídico-penal, transformando em uma conduta irrelevante para o Direito penal.
Lei penal no tempo
Art. 2º- Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória. (Código Penal)
Para ler mais sobre a Abolitio criminis, clique aqui.
D – lex mitior
A lei posterior extingue o crime (abolitio criminis)
Ocorre quando a nova lei trata de tema (crime), que já existe e está regulado pela lei, de forma mais branda, ou seja, mais benéfica ao réu. Esta situação se aproxima muito com a abolitio criminis, com a diferença que, naquele, o réu é beneficiado com a revogação total do crime, enquanto que, aqui, a lei não deixa de existir e sim, trás algum benefício ao réu.
Nesta hipótese, a lei mais benéfica, por uma questão de opção de política criminal que nosso país adota, retroagirá e alcançará até mesmo fatos anteriores a sua vigência.
Código penal
Art. 2º (…) - Parágrafo único - A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado.
Constituição Federal de 1988
Art. 5 (…) - XL - a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu.
E
A lei posterior possui parte mais benéfica ao réu e outra parte mais maléfica.
Algumas normas penais acabam por favorecer o réu, em determinados aspectos, e prejudicá-lo em outros. Neste caso, surge uma controvérsia sobre qual norma aplicar, a lei nova e seu caráter misto (benéfico e maléfico) ou a norma anterior. E ainda, seria possível aplicar apenas a parte que beneficia o réu da lei nova e ignorar a parte ruim (maléfica)?!
Neste caso, aplica-se a lei mais nova, na sua integralidade, ainda que ela não seja totalmente vantajosa ao réu. A doutrina (grandes autores renomados sobre o tema) e a jurisprudência (decisões dos juízes) seguem forte no sentido de que não pode o réu fazer combinações de lei, assim pegando parte da lei nova que lhe interessa e utilizando de parte da lei antiga.
O réu tem que suportar os aspectos ruins da nova lei para poder se beneficiar das vantagens que a nova lei pode lhe proporcionar.
Tempo do crime
Necessário se faz estabelecer o momento em que o crime é praticado, até mesmo para que possamos determinar quando incidirá a lei penal sobre o fato criminoso. Nesse contexto, devemos decidir quando o crime é praticado. Para solucionar esta questão surgem três teorias:
O tema de estudo de hoje será “tempus commissi delicti e locus commissi delicti”, ou seja, tempo e lugar do crime, respectivamente.
A análise do presente ponto é de suma importância, visto que, ao saber o tempo do crime, identificar-se-á a lei em vigor, bem como se o agente era imputável à época dos fatos. De outro lado, conhecido o lugar do crime, mencionada circunstância poderá ser utilizada para fins de fixação de competência penal internacional, posto que, a competência jurisdicional pátria é regida pelo artigo 70 do Código de Processo Penal.
1) Tempo do crime:
Há 03 (três) teorias principais sobre o tempo do crime:
1.1) Atividade: é a adotada pelo Código Penal Brasileiro.
Art. 4º – Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o momento do resultado.Assim, se ‘A’, com inequívoco animus necandi, atira contra ‘B’ em data de 10 de janeiro de 2015, vindo este a óbito em data de 27 de abril do citado ano. Ter-se-á praticado o crime de homicídio em 10/01/2015.
1.2) Resultado: ao contrário da teoria da atividade, aqui se considera praticado o crime no momento do resultado.
No Direito Penal, a título de exceção, aplica-se a teoria em questão para determinar o termo inicial da prescrição, nos moldes do artigo 111, inciso I.
Logo, na esteira do exemplo apresentado no tópico anterior, considerar-se-ia o crime como praticado em data de 27/04/2015.
1.3) Ubiquidade ou mista: segundo esta teoria, levar-se-á em conta tanto o momento da ação ou omissão, como do resultado.
2) Lugar do crime:
De igual forma, há 03 (três) teorias principais:
2.1) Atividade: o lugar do crime é o da ação ou omissão.
Exemplo: A, com ânimo inequívoco de matar, golpeou B com várias facadas, fato ocorrido na cidade de Osasco. Horas depois, em um hospital na cidade de São Paulo, B veio a falecer em razão dos ferimentos. Neste caso, o lugar do crime seria Osasco.
2.2) Resultado: o lugar do crime é o da consumação.
Exemplo: nos termos do exemplo de item 2.1, o lugar do crime seria São Paulo.
2.3) Ubiquidade ou mista: é a adotada pelo Código Penal Brasileiro.
Art. 6º – Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado.
Exemplo: considera-se como lugar do crime Osasco (ação) e São Paulo (resultado).
Lei penal no espaço
No que se refere ao Direito penal no espaço, devemos ter em mente que precisamos estabelecer qual o limite espacial (territorial) que será possível aplicar o Direito penal.
Não podemos deixar de assinalar que a possibilidade de aplicar o Direito, seja ele de qual ramo for, é um exercício de soberania do Estado, então só será possível aplicá-lo no local em que o Estado exerce essa soberania, ou seja, no seu território.
Territorialidade
O código penal limita a sua incidência ao território nacional, por conta disso afirma-se que aplicamos como regra o princípio da territorialidade na forma do art. 5º do CP.
Contudo, a lei também prevê exceções a esta regra, que são os casos de extraterritorialidade previstos no art. 7 do CP.
Inicialmente, se faz necessário estabelecer qual o conceito de território, que compreende:
Solo: Ocupado pela corporação política;
Rios, lagos, mares interiores, golfos, baías e portos;
Mar territorial (12 milhas marítimas)
Onde o Brasil exerce plena soberania. Navios mercantes e militares estrangeiros podem passar livremente (direito de passagem inocente), embora sujeitos ao poder de polícia do Estado costeiro;
Zona contígua (12 as 24 milhas marítimas)
Zona de fiscalização a fim de evitar ou reprimir infrações às leis e aos regulamentos aduaneiros, fiscais, de imigração ou sanitários, no território ou mar territorial;
Zona econômica exclusiva (12 as 200 milhas)
Contada a partir do mar territorial, onde o Brasil tem direitos de soberania para fins de exploração e aproveitamento, conservação e gestão dos recursos vivos ou não vivos, águas sobrejacentes ao leito do mar, deste e seu subsolo, além de outras atividades visando ao aproveitamento da zona para finalidade econômica. Para efeito da aplicação penal, não é considerado território nacional;
Espaço aéreo (dimensão estatal de altitude)
É a camada atmosférica referente ao espaço aéreo acima do território nacional e mar territorial (art. 11 – Lei 7.565/1986), onde o Brasil exerce completa e exclusiva soberania ditada por imperativos de segurança nacional;
Navios e aeronaves
Os navios e as aeronaves públicos são considerados extensão do território nacional, aonde quer que estejam. São classificados como território por extensão. Aplica-se aqui o princípio do Pavilhão ou da Bandeira estabelecendo que irá prevalecer a bandeira da embarcação e/ou da aeronave, independente do lugar que ela esteja, desde que a serviço do país. Quando a aeronave ou a embarcação for particular, desde que esteja em mar territorial ou em espaço aéreo correspondente brasileiro, aplica-se a nossa legislação.
Atenção
Espaço cósmico — pode ser explorado e utilizado por todos os Estados, em condição de igualdade e sem discriminação. Não é objeto de apropriação estatal.
A regra é a aplicação da lei penal no território nacional, ainda que seja um território por extensão (ou também chamado de território por equiparação), contudo é possível a aplicação da lei penal brasileira aos casos praticados fora do território nacional. São os ditos casos de extraterritorialidade.
Extraterritorialidade
O artigo 7º, do Código Penal, cuida do denominado princípio da extraterritorialidade da lei penal brasileira.
As hipóteses são expressamente previstas na lei penal, ante seu caráter excepcional, já que a regra é a territorialidade da lei, prevista no artigo 5º, do mesmo Código.
Entendemos que as espécies de extraterritorialidade são três:
Para melhor compreender o item anteriormente proposto e estabelecer que, para caso de extraterritorialidade, o ordenamento jurídico determina um princípio, vamos analisar os princípios aplicados.
Princípio da personalidade ou nacionalidade
Aplica-se a lei penal brasileira, independentemente onde o crime for praticado no estrangeiro ou independentemente do bem jurídico afetado, quando o autor for brasileiro (Art. 7º , I , alínea a) ou quando a vítima do crime for brasileira (Art. 7º, II alínea b).
Devem-se observar as condições impostas pelo § 2º e § 3º para a incidência dessas hipóteses.
Princípio do domicílio
Aplica-se a lei penal brasileira quando o agente for residente no país. Conforme art. 7º, I, alínea d do CP.
Princípio da defesa, real ou proteção
Qualquer uma das três denominações serve para estabelecer que a lei penal será aplicada nos casos previstos no art. 7º, I, alíneas a, b e c.
Princípio da justiça universal
Também conhecido como justiça cosmopolita. A aplicação da lei penal brasileira, neste caso, se fundamenta pelo dever solidário de repressão de certo delitos, cuja punição interessa a todos. Está prevista no art. 7º, II, alínea a do CP.
Princípio do pavilhão, bandeira, representação
Trata-se da hipótese do que nos referimos aos casos de território por extensão. Está previsto expressamente no art. 7º, II, alínea c do CP.
Lugar do crime
A aplicação da lei penal brasileira, para ser aplicada, precisa estabelecer o local do crime. Para tanto, surgem três teorias para estabelecer qual o local do crime.
Atenção
Lugar do crime (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 1984)
Art. 6º - Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado.
Observação: Não podemos confundir o tempo do crime (que possui também três teorias) em que o código penal adotou a Teoria da Atividade (art. 4 do CP), com o lugar do crime que possui estas mesmas três teorias, contudo, aqui, o código adotou a Teoria Mista ou da ubiquidade (art. 6 do CP).
Disposições final acerca da aplicação da lei penal
Contagem de prazo
Importante estabelecer qual forma irá se dar a contagem dos prazos no Direito penal. Esta circunstância afeta de diretamente vários outros institutos que iremos estudar mais à frente, como por exemplo, a prescrição.
Art. 10 - O dia do começo inclui-se no cômputo do prazo. Contam-se os dias, os meses e os anos pelo calendário comum.
O art. 10, do CP, nos trás a solução, pois estabelece que para calcular o prazo penal devemos incluir o dia do começo. A contagem do prazo penal inclui feriados e finais de semana sem qualquer interrupção. Desprezam-se as frações de dia. Vamos ver um exemplo para fixar o entendimento.
Observações:
· O calendário comum a que se refere o artigo é o calendário gregoriano, aquele em que se entende por dia o hiato de tempo entre a meia-noite de um dia até a meia-noite do outro dia.
· Diferente do prazo penal (que inclui o dia do começo e despreza o dia do final) o prazo do processo (prazo processualpenal) é o oposto, pois exclui o dia do começo e inclui o dia do final. Art. 798, § 1º, do Código de Processo Penal.
Frações não computáveis da pena
O art. 11, do CP, trás a determinação de que as frações de horas serão desprezadas, o que significa que, se uma pessoa, por exemplo, for condenada a 10 dias de prisão e tiver um acréscimo de 1/3 (por qualquer motivo de causa de aumento previsto na lei), e essa conta resultar em dias + algumas horas (10 dias + 1/3 = 13 dias e 6 horas, aproximadamente) as horas são desprezadas e o indivíduo só precisará cumprir os 13 dias.
O referido dispositivo ainda afirma que as frações de cruzeiro serão desprezadas, por motivos óbvios a expressão cruzeiro deve ser substituída por reais. Nesta regra, o que a lei penal despreza são os centavos, como, por exemplo, imaginemos um pessoa que foi condenada a pagar um multa de R$ 30,25 (trinta reais e vinte e cinco centavos). Nesse caso, desprezam-se os centavos e o condenado só precisará pagar os R$ 30 reais.
Legislação Especial
O código faz menção ao fato de que as regras gerais do CP (do art. 1º até 120º) se aplicam à parte especial do código que trata dos crimes (art. 121 até 359-h) bem como até mesmo às legislações especiais que não estão disciplinadas no código (Estatuto do Desarmamento, Estatuto da Criança e do Adolescente, Código de Trânsito etc.) desde que essas legislações especiais não dispunham de forma diversa do CP.
O ordenamento jurídico penal, apesar de estar, em boa parte, codificado, no que conhecemos como Código penal, também possui legislação que disciplina e trata da matéria penal como as já citadas leis.
Dessa forma, o art. 12, do CP, expressamente estabelece essa aplicação subsidiária às demais legislações.
Atividade
Com base nos ensinamentos, leia a seguinte reportagem e reflita se seria possível ou não aplicação da lei.
Dez anos do assassinato de Jean Charles de Menezes na Inglaterra
GABARITO Estamos diante de uma caso de extraterritorialidade, em que, via de regra, é possível a aplicação da lei brasileira ao crime cometido fora do Brasil contra brasileiro. Entretanto, mesmo sendo possível essa aplicação, devemos preencher determinados requisitos, pois estamos diante de um caso de extraterritorialidade condicionada. Nesse caso, aplica-se a regra contida no art. 7º, § 3, do CP. No episódio específico da vítima Jean Charles, não será possível a aplicação porque não preenche os requisitos exigidos pelo referido dispositivo legal. O crime foi cometido contra brasileiros, mas os autores não entraram no Brasil. Portanto, não podemos aplicar a lei penal na Inglaterra (Londres). Nesse caso específico, não caberá a aplicação da lei penal por falta do estabelecimento da condição exigida pela lei.
Aula 3
Introdução Nesta aula, analisaremos os preceitos inicias da teoria do crime e verificaremos as formas de conceituá-lo, em especial estudaremos o conceito analítico, que também será explorado nas próximas aulas. Além disso, vamos analisar os sujeitos da infração penal e enfrentar a controvérsia acerca da possibilidade da pessoa jurídica ser autora de crime. Ao final, ainda verificaremos a classificação que a doutrina faz dos crimes.
Consolidação da teoria do delito
O conceito de infração penal é o pressuposto do estudo de muitos outros institutos do Direito Penal. Contudo, por mais que pareça uma tarefa simples, conceituá-la é complexo. Muitos estudiosos se debruçaram e até dispensaram energia em estudar o exato conceito de infração penal e sua relação com outros institutos.
Logo, entender essa metodologia científica é crucial para quem pretende compreender o conceito de infração penal, que pode ser estudado sobre os aspectos:
· material ou substancial;
· formal ou legal e;
· analítico.
Conceitos de infração penal
Material ou substancial
A infração penal, neste aspecto, é toda ação ou omissão humana voluntária que lesa ou expõe a perigo de lesão bens penalmente relevantes.
Considerando o mal produzido em relação ao bem jurídico tutelado pela norma penal, o legislador deve incriminar apenas as condutas penalmente relevantes, desprezando condutas que não colocam em risco o bem que a norma visa proteger.
Leitura
Para ler sobre os conceitos de infração penal material ou substancial, clique aqui.
Formal ou legal
Neste aspecto, o conceito de infração penal é aquela conduta em que o legislador estabelece, por meio do devido processo legislativo, como crime. Assim, o conceito será estabelecido pela lei.
O código penal não traz a definição de infração penal, contudo podemos encontrá-la na lei de introdução ao código penal que, em seu art. 1º, estabelece:
Art. 1º Considera-se crime a infração penal que a lei comina pena de reclusão ou de detenção, quer isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa; contravenção, a infração penal a que a lei comina, isoladamente, pena de prisão simples ou de multa, ou ambas, alternativa ou cumulativamente. (Lei de Introdução ao Código Penal – Decreto – Lei nº 3914/41).
Desse comando normativo se extrair a conclusão de que, para ser crime, de acordo com este critério, basta haver a cominação de pena de reclusão ou detenção, isoladamente, alternativamente ou cumulativamente com pena pecuniária (multa).
Dessa forma, se o preceito secundário do crime contiver a expressão “reclusão” ou “detenção”, estaremos diante de um crime. Pouco importa se a norma penal está prevista no código penal ou em legislação especial, se tiver a culminação dessas duas espécies de pena será classificada como crime.
Preceitos de um crime
Preceito primário: Conduta incriminada (como, por exemplo, matar alguém).
Preceito secundário: Pena é a reclusão, de seis a vinte anos.
Exemplo
Homicídio simples
Art. 121. Matar alguém: preceito primário.
Pena: reclusão, de seis a vinte anos: preceito secundário.
No mesmo dispositivo, o art. 1º da LICP estabelece que será contravenção penal quando culminar pena de prisão simples, que, isoladamente, cumulativamente ou alternativamente, tem pena pecuniária (multa).
É importante ressaltar que as contravenções penais são espécies de infração penal de menor gravidade e, portanto, estipulam uma pena pequena.
As contravenções penais estão estabelecidas em uma lei própria (e não no código penal): Decreto-lei nº 3.688,  de 3 de outubro de 1941.
Prisão simples
O art. 6º da Lei de Contravenções Penais (LCP) define o que vem a ser “prisão simples”.
 Crime (espécie)
Infração penal (gênero): 
 Contravenção Penal (espécie)
Analítico
Neste conceito, o fundamento repousa nos elementos que formam a estrutura do crime. Portanto, precisamos antes entender um pouco mais sobre esses elementos.
Fato Típico
É a perfeita adequação da conduta humana voluntária à conduta incriminada pela norma penal, ou seja, conduta se enquadra perfeitamente ao modelo abstrato de lei penal (tipicidade). Nesse elemento se faz a subsunção da conduta à norma penal incriminadora.
Ilícito
É tudo que é contrário à lei, no nosso caso à lei penal. Então, o fato será ilícito quando houver uma norma penal proibindo a prática daquela conduta.
Culpabilidade
A culpabilidade é a reprovabilidade pessoal pela realização de uma ação ou omissão típica e ilícita.
Punibilidade
O poder/dever que tem o estado de aplicar a pena àquele que tenha praticado uma infração penal é denominado ius puniendi (direito de punir). A punibilidade, então, é consequência do crime. Diz-se punível a conduta que pode receber pena.
Correntes doutrinarias
Como não se trata de uma ciência exata, o direito compreende várias formas de se analisar e concluir sobre uma circunstância.
Aqui não poderia ser diferente, pois existem correntes doutrinarias que defendem ser o conceito de infração penal dividido de várias formas em diversas quantidades de elementos:
	1ª Corrente
Divide o conceito de crime em dois elementos, sendo crime o fato típico lícito e ilícito, sendo a culpabilidade apenas um pressuposto para aplicação da pena.2ª Corrente
Conceitua o crime como fato típico, ilícito e culpável, firmando posicionamento para a punibilidade que é pressuposto de aplicação da pena e não do componente do próprio conceito de crime.
Argumenta que, mesmo um fato que tenha sofrido da prescrição da punibilidade (perda do Estado do direito de punir uma pessoa por decurso de lapso temporal excessivo, conforme previsto na lei), essa é a teoria mais difundida e aceita pela doutrina e jurisprudência.
	
	3ª Corrente
Por derradeiro, existem quem defenda uma divisão quadripartida do conceito de crime. Para estes, o crime é composto em 4 elementos: fato típico, ilícito, culpável e punível.
Um dos grandes adeptos a essa corrente é o doutrinador Basileu Garcia, citado na obra de Nucci. Esse conceito quadripartido, foi superado e não é mais adotado, pois a punibilidade do autor é consequência do crime e não faz parte de seus elementos constitutivos.
Atenção
Essas teorias devem ser estudadas com conjunto com as teorias da ação, em especial as teorias da causalidade e do finalismo. Entretanto, esse tema será abordado profundamente em outra aula.
Sujeitos da infração penal
São pessoas ou entes que se relacionam com a prática delituosa. Dividem-se em sujeitos ativos e passivos.
Sujeito ativo
É aquela pessoa ou ente que pratica a infração penal. É a pessoa que realiza, direta ou indiretamente, a conduta criminosa, isoladamente ou em concurso com outra ou outras pessoas.
Os autores e coautores realizam de forma direta a conduta enquanto o partícipe (e o autor indireto ou mediato) realiza de forma indireta.
Os animais não podem ser sujeitos ativos de crime, nem mesmo quando são utilizados por humanos para as práticas delituosas, pois, nesse caso, servirão apenas como uma ferramenta para o crime do humano (por exemplo, ao utilizar um cachorro para lesionar alguém, o dono do cachorro que será responsabilizado pelas lesões causadas pelo animal).
Sujeito passivo
É o titular do bem jurídico protegido pela norma penal que é atingido pela ação criminosa. Pode ser denominado de vítima ou ofendido.
Atenção
Pessoa jurídica pode ser sujeito ativo de crime?
O entendimento que prevalece é no sentido de que pessoa jurídica pode sim ser sujeito ativo de crime, mas, por óbvio, não serão quaisquer crimes que a PJ poderá praticar.
Os crimes possíveis de serem praticados pela PJ são os crimes ambientais. Nesse sentido, o artigo 225, § 3º, da CF/1988, que prevê essa responsabilidade da PJ, encontra-se regulamentado no artigo 3° e parágrafo único da Lei nº 9.605/1998, que prevê expressamente a responsabilidade penal da pessoa jurídica, concomitantemente com os agentes físicos integrantes de sua estrutura orgânica.
Classificação das infrações penais
Os crimes são classificados pela doutrina de acordo com suas características, recebendo denominações próprias.
Entre a classificação de crimes, temos crime material, formal, de mera conduta, comissivo ou omissivo, entre outros.
Atividade
1 - Assinale a alternativa correta:
*A) São considerados crimes próprios os delitos que podem ser realizados por qualquer pessoa. Enquanto nos crimes comuns exige-se sujeito ativo especial ou qualificado.
B) São considerados crimes comuns os delitos que podem ser realizados por qualquer pessoa. Enquanto nos crimes próprios exige-se sujeito ativo especial ou qualificado.
C) São considerados crimes comuns aqueles que são habitualmente realizados. Enquanto os crimes próprios são os realizados com menor frequência.
D) São considerados crimes próprios aqueles que são habitualmente realizados. Enquanto os crimes comuns são os realizados com menor frequência.
2 - Quanto aos crimes instantâneos, considere as seguintes afirmações:
I - São aqueles cuja consumação se dá com uma única conduta;
II - Produzem efeitos prolongados no tempo;
III - Não produzem efeitos prolongados no tempo;
IV - São aqueles cuja consumação exige qualidade especial do agente.
*A) As assertivas I e III estão corretas.
B) As assertivas I, III e IV estão corretas.
C) As assertivas II e IV estão corretas.
D) As assertivas I, II e IV estão corretas.
Atividade
3 - Assinale a alternativa CORRETA, em relação aos crimes de dano:
A) São os que se consumam com a efetiva lesão a um bem jurídico tutelado.
B) Trata da ocorrência de um prejuízo perceptível pelos sentidos humanos.
C) Constituem um dano efetivo ao bem jurídico protegido pela norma penal.
*D) Todas as afirmações estão incorretas.
Atividade
4 - Assinale a alternativa CORRETA:
A) Crime de perigo são os crimes que não se consumam.
B) Crime de perigo está relacionado com a audácia dos bandidos.
*C) Crime de perigo são os que contenham, para a consumação, a mera probabilidade de haver um dano.
D) Crime de perigo são aqueles que definem os crimes contra a vida ou a integridade física.
Aula 4
Introdução Nesta aula analisaremos os preceitos principais do fato típico, levando em conta o conceito analítico de crime. Abordaremos os componentes do fato típico, em especial a conduta. Além disso, estudaremos a conduta e as teorias que explicam a sua existência e conheceremos as teorias de conduta de cunho naturalístico, finalístico e social, as causas de exclusão da conduta e as espécies de condutas.
Fato típico e seus elementos
Dentre os elementos que a compõe, vamos aprofundar nossos estudos no fato típico.
Inicialmente é importante conceituar o que venha a ser fato típico e a melhor definição é a que aponta se tratar de um comportamento humano que se amolda perfeitamente aos elementos constantes do modelo previsto na lei penal.
A primeira característica do crime é ser um fato típico, descrito, como tal, em uma lei penal. Um acontecimento da vida que corresponde exatamente a um modelo de fato contido em uma norma penal incriminadora, ou seja, a um tipo.
Entretanto, antes de afirmar que estamos diante de um fato típico, devemos analisá-lo e decompô-lo em suas faces mais simples, para verificar, com certeza, se entre o fato e o tipo existe relação de adequação exata, fiel, perfeita, completa, total e absoluta.
Essa relação é a tipicidade (subsunção do fato à norma penal incriminadora).
Os elementos do fato típico são:
Só haverá fato típico se existir todos os elementos que o compõe. Do contrário, estaremos diante de um fato atípico e, portanto, irrelevante ao direito penal.
Conduta
Considera-se conduta a ação ou omissão humana consciente e voluntária dirigida a uma finalidade.
Teoria causalista, clássica ou naturalística
A teoria causalista ou naturalista da ação, de Beling e Vonliszt, incorpora ao conceito de conduta as leis da natureza. Por isso, o seu nome.
Os adeptos da teoria causalista ou naturalista entendem que a conduta é um puro fator de causalidade.
Para o causalismo, a conduta é um comportamento humano voluntário que se exterioriza e consiste em um movimento ou na abstenção de um movimento corporal, simplesmente. A vontade é a causa da conduta e esta é a causa do resultado.
Essa teoria considera imprescindível que a conduta típica seja um comportamento voluntário, impulsionado pela vontade do homem, que se concretiza, torna-se real, material, por meio de uma ação positiva ou negativa.
Para saber mais sobre a Teoria causalista, clique aqui.
Teoria finalista
O causalismo sofreu fortes críticas, onde se apontava importantes erros, falhas cruciais, pois, como não diferencia o conteúdo da vontade (a intenção do agente), não tem como definir, por exemplo, com exatidão qual crime deveria ser atribuído a três pessoas que esfaqueassem outra no braço, sendo que nas três hipóteses (vamos considerar assim) só resultou em lesão corporal leve.
Nesse caso, como definir quem deveria responder por tentativa de homicídio, ou lesão corporal dolosa, ou até mesmo culposa, se o resultado (em que pese a intenção poder ser diferente) foi o mesmo de lesão leve?
Não teria como o causalismo responder a essa pergunta, pois, seguindo essa teoria, que se utiliza apenas da relação de ação e consequência, todos deveriam responder pelo resultado que causaram, ou seja,lesão leve.
Para saber mais sobre a Teoria finalista, clique aqui.
Qual a diferença entre essas duas teorias?
Não importa, nesse primeiro momento, qual seja a finalidade, mas que ela exista sempre.
Em algumas situações, essa finalidade é dirigida à produção de um dano a algum bem jurídico, em outras o fim pode ser a obtenção de um resultado permitido ou não proibido. Mas, sempre, haverá uma finalidade, sempre a vontade humana terá um conteúdo, não importa com qual natureza.
TEORIA SOCIAL DA AÇÃO
Alguns importantes estudiosos do Direito Penal, como Jeschek e Wessels, entenderam que o finalismo de Welzel seria insuficiente para conceituar a conduta, porque esquecia uma característica essencial de todo comportamento humano, que é seu lado social.
Nem o causalismo, nem o finalismo, segundo eles, conseguem explicar a ação, pelo que acresceram ao conceito de conduta a ideia de relevância social. Assim, ação é um comportamento humano socialmente relevante, questionado pelos requisitos do Direito e não pelas leis naturais.
Segundo essa teoria, para se verificar a tipicidade de uma conduta é indispensável conhecer não apenas seus aspectos causais e finalísticos, mas também sua vertente social.
Seria relevante do ponto de vista social a conduta que fosse capaz de afetar o relacionamento do indivíduo com o meio social. De acordo com essa teoria, para que o agente pratique uma infração penal, é necessário que, além de realizar todos os elementos previstos no tipo penal, tenha também a intenção de produzir um resultado socialmente relevante.
· TEORIA ADOTADA NO BRASIL
A teoria adotada pelo código penal é a finalista. Ela é que melhor atende aos interesses do Direito Penal, até porque é a teoria que consegue explicar a conduta com base no próprio direito positivo.
Em síntese, a conduta é o comportamento voluntário do homem dirigido a um fim, proibido ou não.
Só constituem condutas os comportamentos corporais voluntários externos dos humanos, consistentes em fazer alguma coisa ou em deixar de fazer alguma coisa.
Elementos da conduta
Vontade
A conduta, ademais, deve refletir um ato voluntário, isto é, algo que seja o produto de sua vontade consciente.
Nos chamados “atos reflexos” (como o reflexo rotuliano) e na coação física irresistível (“vis absoluta”), ocorrem atos involuntários e, por isso mesmo, penalmente irrelevantes.
Quando se trata de “atos instintivos”, o agente responde pelo crime, pois são atos conscientes e voluntários — neles há sempre um querer, ainda que primitivo e ímpeto.
Finalidade
Pressupõe um agir destinado a um fim, seja ele de ordem lícita ou ilícita.
Exteriorização
Só haverá conduta se ocorrer a exteriorização do pensamento, mediante um movimento corpóreo ou abstenção indevida de um movimento que era exigível.
Afinal, vale dizer, o Direito Penal não pune o pensamento, por mais imoral, pecaminoso ou “criminoso” que seja. O Direito Penal pune condutas.
Significa que, enquanto a ideia delituosa não ultrapassar a esfera do pensamento, por pior que seja, não se poderá censurar criminalmente o ato.
Se uma pessoa, em momento de ira, deseja conscientemente matar seu desafeto, mas nada faz nesse sentido, acalmando-se após, para o direito penal a idealização será considerada irrelevante.
Pode-se falar, obviamente, em reprovar o ato do ponto de vista moral ou religioso, nunca porém à luz do Direito Penal.
Consciência
Só entram no campo da ilicitude penal os atos conscientes. Se alguém pratica uma conduta sem ter consciência do que faz, o ato é penalmente irrelevante.
Exemplo: fato praticado em estado de sonambulismo ou sob efeito de hipnose.
Exclusão da conduta
Só existe conduta quando houver vontade do agente.
A experiência da vida mostra algumas situações em que o homem, sem vontade, movimenta-se ou abstém-se de movimento, dando causa, com uma dessas atitudes, a alguma lesão a um bem jurídico penalmente protegido.
São hipóteses em que se pode até ter movimento humano, mas não se tem fato típico.
São elas:
• Caso fortuito ou força maior
• Coação física irresistível
• Movimentos reflexos
• Estado de inconsciência
Caso fortuito ou força maior
São acontecimentos imprevisíveis e inevitáveis, que fogem da vontade do ser humano.
Se não há vontade, não há dolo nem culpa.
Pode ocorrer por fato de terceiros, como greve de ônibus, ou por fato da natureza, como inundação.
Exemplo:
Imaginemos que um pai visualize seu filho brincando próximo a um precipício. Entretanto, em decorrência de um terremoto, a ponte que permitiria que esse pai chegasse ao filho se rompeu.
Nesse caso, a criança se desequilibra, cai e morre. Jamais poderíamos atribuir responsabilidade penal ao pai, uma vez que sua abstenção no seu dever objetivo de cuidar do seu filho provém de força da natureza.
Coação física irresistível
Igualmente ocorre a ausência de vontade quando incide sobre alguém uma força física externa irresistível, a qual, atuando materialmente sobre a pessoa, não pode ser vencida, de modo a não lhe deixar qualquer opção de movimento corporal. Trata-se de uma força absoluta, a que não se pode resistir.
Essa tem que ser tão forte a ponto de eliminar totalmente a possibilidade de resistência da pessoa.
A força deve ser física e absoluta. Deve atuar materialmente, concretamente, sobre o corpo do homem e não apenas sobre sua mente, e deve ser de tal intensidade, que seja impossível a ele contrapor-se, de modo a, pelo menos, neutralizá-la ou diminuí-la, tornando-a resistível.
A doutrina chama essa circunstância de vis absoluta, pois não há vontade, não há conduta e, consequentemente, não há fato típico, e, por isso, o fato não é crime.
Exemplo: Imagine que um criminoso coloque o dedo de uma vítima no gatilho de uma arma de fogo e, usando força física (amarrando o dedo com um fio), faça com que a vítima aperte o gatilho, disparando contra outra pessoa, indo a matá-la. Nesse caso, a vítima que foi obrigada por meio de força física irresistível não responderá pelo crime de homicídio. Apenas o criminoso que se utilizou da coação física irresistível. A coação física irresistível ocorre, em síntese, quando o coagido não tem liberdade para agir.
Observação
Não podemos confundir isso com a coação moral irresistível (vis compulsiva), em que o coagido pode escolher o caminho a ser seguido: obedecer ou não a ordem do coautor.
Como a sua vontade existe, embora de forma viciada, podemos excluir a sua culpabilidade, em face da inexigibilidade de conduta diversa.
Movimentos reflexos
Movimento reflexo é uma reação motora em consequência da excitação dos sentidos.
O movimento corpóreo não se deve ao elemento volitivo, mas ao fisiológico.
Em movimentos do corpo ditados pelos reflexos naturais, também não se pode falar na existência de vontade.
Conforme já foi analisado ao abordarmos o conceito de “vontade”.
Estado de inconsciência
Dois exemplos de ausência de consciência são sonambulismo e a hipnose, onde também não há conduta, por falta de vontade nos comportamentos praticados em completo estado de inconsciência.
O agente encontra-se absolutamente privado da possibilidade de saber qualquer coisa. É como se ele estivesse cego, surdo, mudo e em sono profundo. Logo, não pode querer nada.
Durante o sono, no sonambulismo não se pode afirmar que o agente tenha agido, porque, em qualquer dessas hipóteses, não se pode concluir pela existência de mínima vontade.
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Ausente, pois, a consciência, ausente a vontade e, de consequência, a conduta, ainda que dessa situação decorra qualquer lesão a qualquer bem jurídico. Não havendo conduta, não há fato típico, e sem este não há o crime.
Espécies de condutas
Existem duas espécies de condutas: ação e omissão.
Ação
Ação é a conduta positiva, que se manifesta por um movimento corpóreo, ou seja, traduz uma norma de “não fazer”. A maioria dos tipos penais descreve condutas positivas (“matar”, “subtrair”, “constranger”, “falsificar”, “apropriar-se” etc.). Entretanto, nesses crimes, chamados comissivos, a norma é de cunho proibitiva.
Exemplo: “não matarás”, “não furtarás”etc.
Omissão
Omissão é a conduta negativa, que consiste na indevida abstenção de um movimento. Nos crimes omissivos, a norma penal é mandamental ou imperativa: em vez de proibir alguma conduta, ela determina uma ação, punindo aquele que se omite, ou seja, exige um “fazer”.
Omissão penalmente relevante
Teorias da omissão
Para explicar a relação da omissão com o resultado surgem duas teorias:
· NATURALÍSTICA OU CAUSAL
A teoria naturalística afirma que se deverá imputar um resultado a um omitente sempre que sua inação lhe der causa.
Aqui, a omissão é um fenômeno causal que pode ser constatado no mundo fático.
Esse nexo de causalidade entre a omissão e o resultado verificar-se-ia quando o sujeito pudesse agir para evitá-lo, deixando de fazê-lo.
· NORMATIVA OU JURÍDICA
A segunda teoria denominada normativa estabelece que a omissão é um nada e do nada, nada vem (exemplo, nihilo, nihil).
Contudo, essa teoria aceita a responsabilização pelo resultado do omitente em decorrência da existência de uma norma que lhe atribua o dever jurídico de agir.
Por isso, essa teoria recebe o nome de normativa, pois há a exigência de uma norma que obrigue o omitente a agir. Entretanto, ele voluntariamente opta por não fazer o que a lei determine que ele faça.
Dessa forma, a omissão é não fazer o que a lei determina que se fizesse, sendo essa a teoria adotada pelo Código Penal.
VOCÊ SABIA?
Uma questão interessante repousa no caso da omissão imprópria (ou comissivo por omissão), pois o tipo penal descreve uma ação, mas a omissão do agente acarreta a sua responsabilidade penal pela produção do resultado. Essa regra está contida no art. 13, § 2º, do CP.
Para que alguém responda por um crime comissivo por omissão, é necessário que, nos termos do art. 13, § 2º, do CP, tenha o dever jurídico de evitar o resultado.
As hipóteses em que há o citado dever jurídico são as seguintes:
Dever legal ou imposição legal
Quando o agente tiver, por lei, obrigação de proteção, cuidado e vigilância.
Exemplo: Pai com relação aos filhos; diretor do presídio no tocante aos presos etc.
Dever de garantidor ou “garante”
Quando o agente, de qualquer forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado (não apenas contratualmente).
É o caso do médico plantonista; do guia de alpinistas; do salva-vidas, com relação aos banhistas; da babá, para com a criança.
Ingerência na norma
Quando o agente criou, com seu comportamento anterior, o risco da ocorrência do resultado.
Exemplo: O nadador exímio que convida para a travessia de um rio uma pessoa que não sabe nadar torna-se obrigado a evitar seu afogamento. A pessoa que joga um cigarro aceso em matagal obriga-se a evitar eventual incêndio.
Aula 5
Introdução Nesta aula, analisaremos as espécies de condutas, aprofundando cada particularidade da conduta dolosa e culposa. Vamos verificar também quais as suas espécies e teorias existentes. Além disso, analisaremos o resultado do crime, bem como o nexo causal entre a conduta e o resultado.
Condutas dolosas e culposas
No plano dos estudos das condutas, devemos observar que ela pode ser praticada de fora dolosa ou culposa.
O código penal, em seu art. 18, estabeleceu que o crime pode ser doloso ou culposo.
A regra é que todos os crimes sejam dolosos (em sua maioria os crimes são de fato dolosos), salvo os que a lei expressamente afirmar serem culposos.
Dessa regra contida no art. 18 do CP se extrai a conclusão de que, se a lei for silente em relação à conduta do crime, aplica-se a regra e o crime será doloso, do contrário a responsabilidade por crime culposo apenas ocorrerá se estiver expressa na lei.
Para melhor compreensão do tema, vamos ver as diferenças entre essas duas condutas e analisar o conceito de dolo e culpa a partir de agora.
Conduta culposa
O conceito de culpa não é pacífico. Então, utilizaremos como parâmetro para formar um conceito aceitável o que está disposto no próprio artigo 18, II, do Código Penal: “diz-se crime culposo quando o agente deu causa ao resultado, por imprudência, negligência ou imperícia”.
Dessa forma, é culposa a conduta voluntária que produz resultado ilícito, não desejado, mas previsível, e excepcionalmente previsto (porque para haver responsabilidade por culpa tem que estar expresso), que podia, com a devida atenção, ser evitado (não foi evitado porque o agente agiu com imprudência, negligência ou imperícia).
Elementos da conduta culposa
A culpa é falta de cuidado do agente, em uma situação em que ele poderia prever um resultado danoso, que ele não deseja, nem aceita, e, às vezes, nem prevê, mas que, com seu comportamento, produz e que poderia ter sido evitado.
Da análise do art. 18 do CP podemos extrair os seguintes elementos da conduta culposa:
Conduta voluntária: A voluntariedade está relacionada à ação, e não ao resultado.
Inobservância do dever de cuidado objetivo: O agente atua em desacordo com o que é esperado pela lei e pela sociedade. São formas de violação do dever de cuidado, ou mais conhecidas como modalidades de culpa, a imprudência, a negligência e a imperícia.
Resultado lesivo indesejado: Não haverá crime culposo se, mesmo havendo falta de cuidado por parte do agente, não ocorrer o resultado lesivo a um bem jurídico tutelado. Assim, em regra, todo crime culposo é um crime material.
Previsibilidade objetiva: É a possibilidade de conhecer o perigo. Na culpa consciente (que estudaremos a seguir), mais do que a previsibilidade, o agente tem a previsão (efetivo conhecimento do perigo). É o chamado homem médio (homo medius).
Tipicidade: O Art. 18 do CP dispõe da seguinte forma:
Parágrafo único - Salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como crime, senão quando o pratica dolosamente.
Logo deve haver previsão em lei para a responsabilização de uma conduta culposa, do contrário será típica a conduta.
Podemos citar como exemplo a conduta de dano causado por meio de uma conduta culposa.
Imaginemos que uma pessoa durante a visita em uma loja de cristais esbarre em uma taça que venha a cair no solo e se quebrar. Trata-se de conduta totalmente atípica porque não há previsão legal para o dano causado de forma culposa, em que pese restar o ilícito civil e o dever de indenizar, mas certo que crime não tem.
Modalidades da culpa
Veja as formas de violação do dever de cuidado objetivo:
Imprudência
É a ação descuidada (afoiteza). Sempre por ação.
Se constitui em um “fazer” de forma exagerada ou equivocada.
Exemplo: Atravessar pela placa “Pare” sem parar e atropelar alguém; passar sinal vermelho etc.
Negligência
É a falta de precaução, falta de cautela. Sempre por omissão.
Exemplo: Omissão de cautela e deixar arma ao alcance de crianças.
Imperícia
É a falta de aptidão técnica para o exercício de profissão, arte ou ofício.
Tem diploma, mas o caso concreto demonstra que não possui perícia para tanto.
Exemplo: Atirador de elite que mata; médico que amputa a perna equivocadamente etc.
Observação
A diferença prática entre as modalidades é muito tênue. Na verdade, tudo parte de uma negligência inicial, de modo que quem é imprudente agiu sem precaução; e quem é imperito também agiu sem precaução.
Espécies de culpa
Baseia-se na previsão do agente acerca do resultado naturalístico, provocado por sua conduta.
Culpa inconsciente
Sem previsão.
É aquela em que o agente não prevê o resultado objetivamente previsível.
Culpa consciente
Com previsão.
É a que ocorre quando o agente, após prever o resultado, objetivamente previsível, realiza a conduta acreditando em sua habilidade, crendo que não ocorrerá.
Essa espécie de culpa representa o estágio mais avançado da culpa, aproximando-se do dolo eventual.
Na culpa consciente o sujeito não quer o resultado, nem assume o risco de produzi-lo. Ele espera, sinceramente, que não ocorra, apesar de saber que é possível.
Já no dolo eventual o agente não somente prevê o resultado, mas, apesar de não querer, o aceita como uma das alternativas possíveis. A diferença, portanto, reside no subjetivo do agente.
Conduta dolosa
Conceito de dolo
Toda ação consciente é conduzidapela decisão da ação, quer dizer, pela consciência de que se quer ― o momento intelectual ─ e pela decisão a respeito de querer realizá-lo — o momento volitivo. Ambos os momentos, conjuntamente como fatores configuradores de uma ação típica real, formam o dolo (=dolo do tipo).
Outro especialista afirma que o dolo é a vontade determinada que, como qualquer vontade, pressupõe um conhecimento determinado. Dito de outra forma, o dolo é a vontade e consciência dirigida a realizar a conduta prevista no tipo penal incriminador.
Outras teorias
Com intenção de explicar o dolo e seus elementos surgiram algumas teorias:
Teoria do dolo
	
Teoria da vontade
Dolo é tão somente a vontade livre e consciente de querer praticar a infração penal, isto é, de querer levar a efeito a conduta prevista no tipo penal incriminador.
	
	
Teoria do assentimento
Atua com dolo aquele que, antevendo como possível o resultado lesivo como a prática de sua conduta, mesmo não o querendo de forma direta, não se importa com a sua ocorrência, assumindo o risco de vir a produzi-lo.
	
	
Teoria da representação
Fala-se em dolo toda vez que o agente tiver tão somente a previsão do resultado como possível e, ainda assim, decidir pela continuidade de sua conduta.
Para essa teoria, não há distinção entre dolo eventual e culpa consciente, é tudo dolo.
Observação
Percebe-se que o código, pela simples leitura do art. 18 do CP, adotou duas teorias: a da vontade (dolo direto) e do assentimento (dolo indireto – dolo eventual).
Espécies de dolo
DOLO DIRETO
Ocorre quando o autor, efetivamente, cometer a conduta descrita no tipo querendo alcançar o resultado.
Essa espécie está descrita na 1ª parte do inciso I, art. 18 do CP.
O dolo direto ainda se divide em:
	
1. Dolo direto de primeiro grau
O agente direciona sua ação única e exclusivamente para alcançar o seu fim. Então, ele estabelece os meios para consumar o delito atingindo o bem jurídico que visava atingir.
Exemplo: Fulano desfere tiros e mata beltrano.
	
	 
	
	
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2. Dolo direto de segundo grau
Nessa espécie ocorrem efeitos colaterais, representados como necessários.
É a consequência necessária para se atingir um fim.
Exemplo: Homem-bomba que visando matar determinada pessoa não se importa em matar todos que estão ao seu redor. Sendo esses danos colaterais aceitáveis para ele.
DOLO INDIRETO 
O agente não quer diretamente o resultado, mas aceita os danos que pode advir de sua conduta. Logo, ele assume o risco de sua produção e, mesmo assim, (diante desse risco) é indiferente. Se subdivide em:
	1. Dolo indireto alternativo
Quando a vontade do agente se encontra direcionada de maneira alternativa, seja em relação ao resultado ou em relação à pessoa.
Exemplo 1: O autor joga um martelo na cabeça de sua vítima, tanto querendo matá-la quanto querendo lesioná-la (alternativo quando o resultado pode ser tanto a morte quanto uma lesão corporal) (em relação ao resultado).
Exemplo 2: Fulano dispara contra uma multidão, pouco importando que acerte um ou outro indivíduo, o que ele quer é acertar uma pessoa. Acontece também quando um motorista impaciente que pega manifestação de ciclistas e sai atropelando (em relação à pessoa).
	
	 
	
	
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2. Dolo eventual
Significa que o autor considera seriamente como possível a realização do tipo legal e se conforma com ela, ou seja, aceita a real possibilidade de produzir o resultado sendo indiferente a essa produção.
O autor sabe, mesmo não desejando diretamente, que o resultado poderá ocorrer. Contudo, ele não se importa, ou seja, ele é indiferente à produção do resultado.
DOLO GERAL (HIPÓTESE DE ERRO SUCESSIVO) 
Conhecido como dolus generalis: Ocorre quando o autor pratica uma ação dolosa visando alcançar determinado fim. Contudo, sem que saiba que o resultado não se concretizou (o crime não se consumou).
Entretanto, no mesmo contexto, o autor pratica uma segunda ação como complemento da primeira (como, por exemplo, encobrir provas) e apenas a segunda ação leva de fato à consumação.
Nessa circunstância, temos duas ações. Sendo que, como o resultado por ele inicialmente pretendido foi alcançado, as ações que antecedem são abrangidas pelo dolo inicial dele.
Exemplo:
O autor FULANO, com o objetivo de matar BELTRANO, desfere 5 facadas nas costas, vindo a vítima a cair no solo desmaiada.
O autor, acreditando que teria alcançado o seu resultado com essa primeira ação (morte de BELTRANO), pratica outra ação, jogando o corpo do alto de um precipício.
Apenas no segundo evento é que a vítima vem a falecer.
Nesse caso, o dolo do agente, como é geral, compreende todas as ações que ele praticou contra o bem jurídico, no caso aqui a vida.
Neste exemplo, o autor deve ser responsabilizado por um único fato, ou seja, um único dolo (ainda que geral), respondendo pelo delito de homicídio (se fosse dividir o dolo do agente, nesse caso, ele deveria responder por homicídio tentado e homicídio culposo consumado. Entretanto, esse não é o entendimento que prevalece.
OLO GENÉRICO E DOLO ESPECÍFICO 
Neste ponto, diferenciaremos duas espécies de dolo, sendo que esta classificação fazia mais sentido quando ainda se adotava a teoria causalista.
1. Dolo  genérico
Era aquele em que no tipo penal não havia indicativo algum do elemento subjetivo do agente ou, melhor dizendo, não havia indicação alguma da finalidade da conduta do agente.
Exemplo: matar alguém - artigo 121 do CP.
2. Dolo específico
Era aquele que, no tipo penal, podia ser identificado, o que denominamos de especial fim de agir.
Exemplo: extorsão mediante sequestro em que o agente priva a vítima de sua liberdade para obter a vantagem indevida. Artigo 159 do CP.
Observação: Com a adoção da teoria finalista, a distinção perdeu sua força. Toda conduta é finalisticamente dirigida à produção de um resultado qualquer, não importando se a intenção do agente é mais ou menos evidenciada no tipo penal.
AUSÊNCIA DE DOLO EM VIRTUDE DE ERRO DE TIPO 
Em algumas situações, uma pessoa pode ter uma percepção equivocada da realidade e isso pode lhe induzir ao erro, que, por sua vez, vai lhe retirar a consciência da ilicitude de sua conduta e, assim, o próprio dolo. O dolo, portanto, é a conjugação da vontade com a consciência do agente, isto é, vontade de querer praticar a conduta descrita no tipo penal com a consciência efetiva daquilo que realiza. Erro é a falsa percepção da realidade, ou seja, é quem incorre em erro imaginando uma situação diversa daquela realmente existente. Não há dolo, pois há falta de tipicidade objetiva. Dessa forma, a consequência é o afastamento do dolo ou desclassificação para um delito culposo.
Preterdolo
Trata-se na verdade de crime preterdolo ou preterintencional quando a conduta dolosa acarreta a produção de um resultado mais grave do que o pretendido, de forma culposa.
Nessa espécie de crime, o autor pratica dolo no antecedente e culpa no consequente.
Também é denominado de crime qualificado pelo resultado, porque esse resultado (ainda que a título de culpa) qualifica o crime e aumenta a sua pena.
Exemplo:
1. O autor, com dolo de lesionar a vítima, atira-lhe uma pedra (conduta livre e consciente voltada para a prática de lesão corporal). No entanto, ele atinge a vítima na cabeça, que se desequilibra e cai de cabeça no chão e morre.
2. O dolo do autor era causar lesão corporal. Contudo, por imprudência (jogou a pedra forte demais e perto da cabeça da vítima), veio a acertá-la e, por via de consequência, causou-lhe a morte a título de culpa.
Todo crime qualificado pelo resultado representa crime único e complexo, ou seja, reúne dois tipos penais que por si só já podem configurar crime autônomo.
Resultado
A expressão resultado significa a consequência provocada pela conduta do agente.
Possui dois significados distintos em matéria penal:
Resultado naturalístico ou material
Consiste na modificação no mundo exterior provocada pela conduta.
Trata-se de um evento que só acontece em crimes materiais, ou seja, naqueles cujo o tipo penal descreve a condutae a modificação no mundo externo, exigindo ambas para efeito de consumação. É perceptível pelos sentidos humanos.
Resultado jurídico ou normativo
Reside na lesão ou ameaça de lesão ao bem jurídico tutelado pela norma penal.
Todas as infrações devem conter, expressa ou implicitamente, algum resultado, pois não há delito sem que ocorra lesão ou perigo (concreto ou abstrato) a algum bem penalmente protegido.
Dessa forma, podemos afirmar que nem todos os crimes terão resultado naturalístico (apenas os crimes materiais). Entretanto, todos os crimes possuem um resultado jurídico. Tanto os crimes materiais, que além da modificação no mundo exterior apresentam a violação de bens jurídicos, quanto os crimes formais, que possuem resultado jurídico.
Classificação quanto ao resultado
Podemos estabelecer uma classificação dos crimes quanto a esse resultado:
Crime formal: Também chamando de crime de consumação antecipada. O resultado se dá no momento exato da conduta.
Exemplo: Ameaça, artigo 157. Causa resultado imaterial (= jurídico).
Crime material: Aquele em que se verifica a modificação no mundo exterior (resultado naturalístico, ou seja, mudança visível). Sinônimo de concreto.
Crime de mera conduta: Quando o crime exige produção de resultado, é material. Se não exige, mas tem consumação, é formal.
Contudo, se não exige nem resultado nem consumação imediata, é crime de mera conduta.
De dano ou de lesão: Quando a consumação exige efetiva lesão ao bem tutelado.
Exemplos: homicídio (CP, art. 121); lesão corporal (CP, art. 129); furto (CP, art. 155).
De perigo ou de ameaça: Caso a consumação se dê apenas com a exposição do bem jurídico a uma situação de risco.
Exemplos:
Perigo de contágio venéreo (CP, art. 130); perigo à vida ou saúde de outrem (CP, art. 132).
Se subdividem em:
• Crimes de perigo concreto ou real (o risco figura como elementar do tipo e, em face disso, exige efetiva demonstração);
• Crimes de perigo abstrato ou presumido (o perigo não está previsto como elementar, porque o legislador presume que a conduta descrita é, em si, perigosa, tornando desnecessária a demonstração concreta do risco).
Nexo Causal
O nexo causal, relação de causalidade ou nexo de causalidade, no art.13 do CP, é tratado como relação de causalidade e se consubstancia na relação entre a conduta e o resultado.
É por meio dessa relação que se conclui que o resultado foi praticado pela conduta e daí se pode estabelecer, presente os demais requisitos, que estamos diante de um crime.
Esse vínculo, porém, não se fará necessário em todos os crimes, mas somente naqueles em que a conduta se exigir à produção de um resultado, isto é, de uma modificação no mundo exterior. Ou seja, cuida-se de um exame que se fará necessário no âmbito dos crimes materiais ou de resultado.
Teoria da conditio sine qua non
Para a teoria da conditio sine qua non ou da equivalência dos antecedentes, todo o fator que exercer influência em determinado resultado, ainda que minimamente, será considerado sua causa. Dessa forma, causa é todo fato humano voluntário sem o qual o resultado não teria ocorrido quando ocorreu e como ocorreu.
Sob o enfoque da conditio sine qua non, que foi adotada expressamente pelo nosso Código Penal (art. 13, caput, parte final), haverá relação de causalidade entre todo e qualquer fator que anteceder o resultado e nele tiver alguma interferência.
O método utilizado para se aferir o nexo de causalidade é o juízo de eliminação hipotética. Quando se pretende examinar a relação causal entre uma conduta e um resultado, basta eliminá-la hipoteticamente e verificar, após, se o resultado teria ou não ocorrido exatamente como se dera.
Essa teoria já sofreu várias objeções, dentre as quais se podem apontar:
• A de confundir a parte com o todo;
• A de gerar soluções aberrantes, mediante um regresso ao infinito ou produzindo um ciclo causal interminável.
Teoria da causalidade adequada
Segundo a teoria da causalidade adequada, somente se reputa causa o antecedente adequado à produção do resultado.
Para que se possa considerar um resultado como causado por um homem, faz-se imprescindível que este, além de realizar um antecedente indispensável, desenvolva uma atividade adequada à concretização do evento.
Aula 6
Introdução Nesta aula, estudaremos a Relação de Causalidade, também denominada Nexo Causal, elemento integrante do fato típico, conforme o conceito analítico de crime e que pode ser compreendido como o vínculo entre a conduta praticada pelo agente e o resultado naturalístico produzido, aqui visto como fato.
Identificando conceitos utilizados pelo Código Penal
Inicialmente é necessário identificar alguns conceitos utilizados pelo Código Penal, tais como conceitos de causa e Teorias da Causalidade para que possamos analisar as consequências, para efeitos penais, da existência, ou não, do referido liame.
É comum ouvirmos, quando da instauração de um inquérito policial o questionamento sobre quais indivíduos serão indiciados pelo delito quando, na verdade, o que estamos questionando é:
Qual a relevância do Nexo Causal?
Quais condutas concorreram de alguma forma para a produção de um resultado lesivo?
Dessa forma, através da aplicação das teorias sobre Nexo Causal é possível, diante do caso concreto, identificar-se à qual conduta se imputa determinado resultado lesivo. Em outras palavras, se estivermos diante de um resultado lesivo, devem ser analisadas quais as possíveis condutas responsáveis pela sua produção, bem como de que forma serão imputadas as respectivas responsabilidades, no caso, sanções penais.
Conceitos de causa
Nosso Código Penal, no art. 13, caput, adotou a Teoria da Equivalência das Condições, segundo a qual toda conduta que tenha concorrido para a produção do resultado é considerada causa, sendo irrelevante se a causa teve origem na conduta do agente (causa) ou se teve origem distinta da conduta do agente (concausa).
Suponhamos para fins de exemplificação as seguintes situações hipotéticas:
· SITUAÇÃO HIPOTÉTICA 1
Indivíduo com dolo de matar outro durante uma discussão desfere uma facada na barriga da vítima que vem a falecer em decorrência de hemorragia interna provocada pela lesão sofrida. O resultado naturalístico morte está na normal linha de desdobramento da conduta do autor das facadas.
Podemos afirmar que a causa mortis, hemorragia interna, decorre da conduta do agente e encontra-se da normal linha de desdobramento da conduta do agente.
· SITUAÇÃO HIPOTÉTICA 2
Indivíduo com dolo de lesionar outro durante uma discussão desfere uma facada na perna. Não há dolo de matar, todavia, se a vítima da lesão dolosa for diabética e vier a falecer em decorrência de complicações na lesão corporal provocadas pela diabetes, ainda que esta seja uma concausa, pois tem origem distinta da conduta do agente, é correto afirmar que concorreu de alguma forma para a produção do resultado lesivo.
Agora que identificamos a relevância do estudo de Nexo Causal, identificaremos os principais conceitos sobre o tema.
Teorias sobre a Relação de Causalidade
Teoria da Equivalência das Condições – art.13, caput, CP
Relação de causalidade
Art. 13, CP - O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido.
Teorias sobre a Relação de Causalidade
Como dito anteriormente, para o nosso Código Penal, considera-se causa toda conduta sem a qual o resultado não teria ocorrido, ou seja, toda conduta comissiva ou omissiva que, de qualquer forma, concorra para a produção do resultado.
Nesse caso, adota-se a Teoria da Equivalência das Condições ou conditio sine qua non, desenvolvida por Stuart Mill, segundo a qual causa é a totalidade das condições sem as quais o resultado não teria ocorrido.
CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal. Parte Geral. v.1. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2010, cap.15. p.179.
Para que possamos compreender as teorias sobre a Relação de Causalidade é imprescindível que identifiquemos inicialmente o denominado procedimentohipotético de eliminação de Tyrén, segundo o qual toda conduta que, uma vez retirada da cadeia causal, for capaz de excluir o resultado será considerada causa.
O procedimento hipotético de eliminação terá como limite de regressão a existência de dolo ou culpa na prática da conduta em relação à produção do resultado lesivo, sob pena de exclusão da responsabilidade penal da conduta.
Continuemos com o exemplo anteriormente citado, no qual indivíduo com dolo de matar outro durante uma discussão desfere uma facada na barriga da vítima.
Para que o agente pudesse esfaquear a vítima, ele adquiriu a faca em uma loja de utilidades domésticas.
Nesse caso, surgem as seguintes indagações:
• Sem a venda da faca, poderia ocorrer a lesão?
• O vendedor da faca agiu com dolo ou culpa em relação à produção do resultado lesivo?
Isso significa dizer que, a partir do processo de regressão decorrente do procedimento hipotético de eliminação, podemos questionar até mesmo a responsabilização do fabricante e do vendedor da faca pela produção do resultado final lesivo.
Teoria da Causalidade Adequada. Art.13,§ 1º, CP
Superveniência de causa independente
Art. 13, §1º, CP - A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou.
Conforme essa teoria, um determinado resultado lesivo somente será produto da ação humana quando esta tiver sido apta e idônea a gerar o resultado.
VOCÊ SABIA?
Essa teoria é aplicada, em caráter excepcional, às causas relativamente independentes supervenientes para fins de rompimento do Nexo Causal e consequente exclusão da responsabilidade penal do agente pela produção do resultado.
Nesse caso, o agente será responsabilizado pelos atos anteriormente praticados, tais como os delitos-meio, delitos subsidiários ou, ainda, incidirá sobre sua conduta a causa de diminuição de pena prevista no art. 14, II, CP ― tentativa.
Também é denominada por alguns autores, como, por exemplo, Guilherme de Souza Nucci, de Teoria das Condições Qualificadas, caracterizando-se pelo fato de queDeterminado evento somente será produto da ação humana quando esta tiver sido apta e idônea a gerar o resultado.
NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Direito Penal. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2014. Cap.11, p – 158.
É uma exceção à teoria adotada pelo Código Penal, segundo a qual somente é considerada causa a conduta que efetivamente seja capaz de produzir o resultado lesivo.
Suponhamos para fins de exemplificação a seguinte situação:
Indivíduo é abordado por assaltante em ponto de ônibus e, aterrorizado pelo roubo, sai correndo, invade a avenida com sinal vermelho para pedestre e vem a ser atropelado por um ônibus, cujo condutor não teve tempo hábil para frear.
Pergunta-se: o resultado morte poderá ser imputado ao autor do roubo?
GABARITO Vejamos: O resultado morte adveio do atropelamento, todavia, se a vítima não estivesse fugindo do roubo, não teria invadido a avenida. Logo, devemos questionar se a morte por atropelamento teve origem na conduta do assaltante ou decorreu de outra conduta. A causa mortis não teve origem na conduta do agente. Assim, é independente à conduta do assaltante. Ainda, é superveniente, pois ocorreu após a conduta deste. Desta forma, em decorrência da Teoria da Causalidade Adequada, somente será possível imputar-se ao assaltante as condutas anteriormente praticadas, como, por exemplo, a tentativa de roubo.
A relevância causal da omissão
Na aula sobre as condutas omissivas, identificamos que, em regra, a responsabilidade penal pela omissão advém do princípio da solidariedade, denominada de omissão própria e, portanto, não gera obrigações ao agente, salvo em casos expressamente previstos em lei, como, por exemplo, a omissão de socorro, prevista no art.135, CP.
Omissão de socorro
Art. 135 - Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública:
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.
O que nos interessa para a Relação de Causalidade é a denominada omissão imprópria, na qual a lei penal estabelece a obrigatoriedade do agente em impedir a produção de um resultado lesivo e, dessa forma, a sua omissão torna-se penalmente relevante.
Nesse caso, se o agente garantidor se omitir, podendo agir para evitar a produção do resultado lesivo, será responsabilizado pelo próprio resultado, de acordo com a culpabilidade de sua conduta e não somente pela omissão.
Essa responsabilização jurídico-penal à conduta omissiva imprópria advém da denominada causalidade normativa ou jurídica, prevista no art.13, §2º, do Código Penal.
Relevância da omissão
§ 2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem:
a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância;
b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado;
c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado.
Dessa forma, da identificação da existência do Nexo Causal Normativo, surgem as seguintes indagações:
As condutas omissivas serão capazes de produzir resultados?
Caso os resultados lesivos ocorram, poderão ser imputados ao agente que se omitiu, sendo ele agente garantidor?
Citemos, por exemplo, a mãe que se omite diante do estupro de vulnerável de sua filha de 10 anos pelo padrasto, pois tem medo de perder o companheiro.
Se ela nada fizer para impedir o resultado, no caso a prática do estupro de vulnerável, sua omissão será penalmente relevante e, segundo o disposto no art.13, §2º, CP, restará caracterizado o denominado Nexo Causal Normativo para fins de imputação de responsabilização penal de sua conduta.
Espécies de causas e concorrência de causas
Vimos no início de nossa aula que a Teoria da Equivalência das Condições adotada pelo Código Penal não diferenciou causa e concausa. Todavia, é de suma importância que identifiquemos situações nas quais é possível que mais de uma causa tenha concorrido para a produção de um determinado resultado lesivo.
Nesses casos, surge a necessidade de se classificar as espécies de causa para que, então, se possa analisar a imputação ou exclusão de responsabilidade jurídico-penal à determinada conduta.
Nossa questão disparadora portanto, é:
O que acontece com o Nexo Causal quando da concorrência de causas para a produção de um mesmo resultado lesivo?
Para que possamos responder à indagação, é necessária a análise de cada umas das espécies de causas, sejam causas ou concausas.
Atividades
Leia a notícia transcrita abaixo e responda às questões formuladas:
Acidentes sucessivos atingem carro da PSP em Braga
Acidentes de viação sucessivos envolveram, esta tarde de sexta-feira, em Braga, quatro viaturas, entre as quais a carrinha da Esquadra de Trânsito da PSP, que regularizava o primeiro embate.
A circulação na variante à Estrada Nacional 14 (Braga - Porto) e que dá acesso à A3 e à A11 esteve interrompida durante cerca de uma hora, por questões de segurança.
Tudo sucedeu a meio da tarde, quando Armindo Castro, de 59 anos, residente em Guimarães, embateu com o seu Mercedes 250 D no separador central em betão daquela variante, ao seguir no sentido Norte - Sul.
O condutor fugiu do local para a berma, deixando de ser visto nas imediações, pelo que a primeira viatura da PSP de Braga a chegar ao local não só colocou um triângulo sinalizador, como colocou carrinha policial mais à frente, para reforçar a visibilidade do Mercedes despistado a ocupar a faixa esquerda logo a seguir à curva que dá acesso à A11.
Entretanto, a condutora de outro carro, da marca e modelo VW Golf, arrastou o triângulo da PSP e embateu nas traseiras da carrinha policial.
Dois agentes da PSP só tiveram tempo de saltar para a outra faixa para não serem atropelados pelo VW Golf que, entretanto, bateu no lado esquerdo de um caminhãoda transportadora Isaac Pedroso, de Amares, que seguia pela faixa direita.
Dada a sucessão de acidentes e os despojos que se encontravam espalhados pela estrada, a PSP teve que interromper a circulação enquanto os veículos eram sucessivamente retirados e os Bombeiros Sapadores de Braga limpavam a via. A circulação foi reposta cerca de uma hora depois do primeiro embate, regularizando uma fila de trânsito parado com centena de metros.
Fonte: //www.jn.pt/local/noticias/braga/braga/interior/acidentes-sucessivos-atingem-carro-da-psp-em-braga-5050020.html#ixzz4Go2b8OAt
Suponha que a condutora do carro VW Golf tenha perdido o controle sobre a direção quando avistou o triângulo sinalizador e, em decorrência, tenha arrastado o triângulo da PSP e colidido nas traseiras da carrinha policial vindo a atropelar e lesionar os agentes da PSP.
Nessa situação hipotética, poderia Armindo Castro, condutor do veículo Mercedes 250 D, ser responsabilizado pelas referidas lesões?
GABARITO A situação hipotética versa sobre a superveniência de causa relativamente independente e consequente interrupção do Nexo Causal, consoante a Teoria da Causalidade Adequada prevista no art.13, §1º, do Código Penal.
Exercício 1
(FCC: TCE-CE. Conselheiro Substituto.Auditor.2015) O Código Penal adota no seu art. 13 a Teoria Conditio Sine Qua Non (condição sem a qual não). Por ela:
Imputa-se o resultado a quem também não deu causa.
A causa dispensa a adequação para o resultado.
A ação e a omissão são desconsideradas para o resultado.
Tudo que contribui para o resultado é causa, não se distinguindo entre causa e condição ou concausa.
A omissão é penalmente irrelevante.
Exercício 2
(FMP: DPE-PA. Defensor Público Substituto. 2015) A é esfaqueada por B, sofrendo lesões corporais leves. Socorrida e medicada, A é orientada quanto aos cuidados a tomar, mas não obedece à prescrição médica e, em virtude dessa falta de cuidado, o ferimento infecciona, gangrena e ela morre. Assinale a alternativa CORRETA:
B responde pelo resultado morte, visto se tratar de causa superveniente absolutamente independente.
B responde pelo ato de lesão praticado, visto se tratar de causa concomitante relativamente independente.
B responde pelo resultado morte, visto se tratar de causa concomitante absolutamente independente.
B responde pelo resultado morte, visto se tratar de causa preexistente relativamente independente.
B responde pelo ato de lesão anteriormente praticado, visto se tratar de causa superveniente relativamente independente, que por si só produziu o resultado.
Exercício 3
(OAB Exame Unificado X. Adaptado.) João, com intenção de matar, efetua vários disparos de arma de fogo contra Antônio, seu desafeto. Ferido, Antônio é internado em um hospital, no qual vem a falecer, não em razão dos ferimentos, mas queimado em um incêndio que destrói a enfermaria em que se encontrava. Assinale a alternativa que indica o crime pelo qual João será responsabilizado.
Homicídio consumado
Homicídio tentado
Lesão corporal
Lesão corporal seguida de morte
Exposição a perigo à vida ou à saúde de outrem
Exercício 4
No que se refere à Teoria Conditio Sine Qua Non, julgue os itens subsequentes e assinale a opção que apresenta as assertivas corretas:
Causa é toda circunstância anterior sem a qual o resultado ilícito não teria ocorrido;
Amauri quis matar Beto e o esfaqueou; porém, Carlos já havia ministrado veneno a Beto, que morreu em virtude da ação de Carlos. Nessa situação, o envenenamento é causa preexistente absolutamente independente em relação à conduta de Amauri, que exclui o nexo de causalidade;
Ana atirou com um revólver contra Bia, atingindo-lhe o braço. A vítima, por ser hemofílica, sangrou até a morte. Nessa situação, a hemofilia é causa concomitante absolutamente independente em relação à conduta de Ana;
Um indivíduo mortalmente ferido por outro foi colocado em uma ambulância, que, no trajeto para o hospital, colidiu com um poste, oportunidade em que a vítima morreu em razão dos novos ferimentos. Nessa situação, por se tratar de hipótese de causa relativamente independente, o autor responde por tentativa de homicídio.
I, II e IV
II e IV
I e II
I e III
II e III
Aula 7
Introdução Nesta aula, reconheceremos, por meio da análise do iter criminis, a distinção entre atos preparatórios e executórios e o consequente momento a partir do qual à determinada conduta será imputada a responsabilização penal. Dessa forma, estabeleceremos a natureza jurídica dos institutos da tentativa, arrependimento eficaz, desistência voluntária, arrependimento posterior e crime impossível e seus consectários penais. Ainda, avaliaremos os conceitos e classificação de resultado para fins de identificação do momento consumativo das infrações penais e respectiva dosimetria de pena. Bons estudos!
Buscando respostas às indagações
Para a compreensão dos institutos que estudaremos nesta aula, inicialmente identificaremos alguns conceitos utilizados pelo Código Penal, tais como resultado e consumação. Tais conceitos possuem relevância na medida em que questionamos de que forma será aplicada a sanção penal às condutas. Dessa forma, ao longo da aula, buscaremos respostas às seguintes indagações:
Para a consumação do delito é necessária a produção de resultado naturalístico?
Em que momento o crime se consuma e o que se entende por iter criminis?
Quais situações fáticas impedem a consumação do delito?
Nos casos em que não houver consumação, haverá responsabilização penal à conduta?
São essas respostas que buscaremos a partir de agora.
Para a consumação do delito é necessária a produção de resultado naturalístico?
Para que possamos responder à questão, identificaremos três institutos: resultado, consumação e exaurimento.
Resultado
Duas teorias visam conceituar resultado: a teoria jurídica e a naturalística. O Código Penal 1940, em sua exposição de motivos, adotou a teoria jurídica, mas também a doutrina pátria, a teoria naturalística. Podemos perceber, portanto, que ambas serão utilizadas de acordo com a natureza do crime analisado.
Teoria jurídica
A teoria jurídica ou normativa estabelece que todo crime terá resultado, na medida em que todo crime lesiona ou ameaça de lesão bem jurídico protegido. Por exemplo: vida, patrimônio, paz pública etc.
Teoria naturalística
Por outro lado, para a teoria naturalística, resultado é a modificação no mundo exterior decorrente da conduta.
A partir da conjugação dessas duas teorias, podemos afirmar que não há crime sem resultado, pois, no mínimo, ocorrerá o resultado normativo.
É importante destacar a classificação doutrinária dos crimes decorrentes da teoria naturalística. Eles podem ser:
· CRIMES MATERIAIS
CRIMES MATERIAIS
CRIMES MATERIAIS 
Também denominados crimes de resultado, são aqueles que se consumam com a produção do resultado naturalístico, pois este encontra-se descrito no tipo penal. Exemplo: Podemos citar como exemplo o delito de homicídio, que se consuma com a eliminação da vida extrauterina (morte). A caracterização da eliminação da vida extrauterina (morte) tem por parâmetro a morte encefálica, conforme dispõe o art.3º, da Lei nº 9434/1997.
CRIMES FORMAIS 
São aqueles que, embora possam produzir um resultado naturalístico, se consumam independentemente de sua ocorrência. Também são denominados crimes de consumação antecipada. Ainda, caso o resultado naturalístico também ocorra, será considerado mero exaurimento e, portanto, somente terá relevância para fins de aplicação de pena. Exemplo: Podemos citar como exemplos os delitos de extorsão e extorsão mediante sequestro, previstos nos art.158 e 159, do Código Penal. No primeiro caso, o delito se consuma no momento em que a vítima se sente constrangida a praticar o comportamento exigido pelo agente, independentemente da obtenção da vantagem econômica indevida. Da mesma forma, o delito de extorsão mediante sequestro se consuma no momento em que a vítima é arrebatada, independentemente da obtenção da vantagem, como condição ou preço do resgate e, caso este ocorra, será meroexaurimento. Sobre a consumação nos delitos de extorsão, o Superior Tribunal de Justiça editou o Enunciado de Súmula nº 96.
CRIMES DE MERA CONDUTA 
Também denominados crimes de mera atividade, são aqueles nos quais inexiste resultado naturalístico, mas somente resultado jurídico ou normativo. Dessa forma, o delito se consuma com a realização da conduta descrita no tipo penal. Exemplo: Podemos citar como exemplo de crimes de mera conduta o delito de embriaguez ao volante, previsto no art. 306, da Lei nº 9503/1997 (CTB), no qual a mera conduta de conduzir veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência já consuma a infração penal.
Distinção entre Consumação, Resultado e Exaurimento
A consumação de um delito ocorre quando o tipo penal estiver integralizado. Dessa forma, cabe a seguinte pergunta:
O agente realizou todos os elementos previstos no tipo?
Caso a resposta seja positiva, o delito estará consumado.
Por outro lado, resultado naturalístico, como vimos, é a modificação no mundo exterior decorrente da conduta que pode ou não estar previsto no tipo penal.
Pode existir crime sem resultado?
Ao diferenciarmos resultado jurídico e naturalístico, chegamos à conclusão que todo crime possui resultado jurídico. Entretanto, nem todo crime terá resultado jurídico, como os delitos formais e de mera conduta.
Como estudado no tópico anterior, a consumação ocorre quando todos os elementos da definição legal estiverem presentes.
Por outro lado, no exaurimento, há a produção do resultado lesivo ao bem jurídico após o delito ter sido consumado, ou seja, no exaurimento há a intensificação da lesão ao bem jurídico após a consumação do delito.
Vejamos, como exemplo, os delitos formais, tais como o delito de extorsão mediante sequestro, previsto no art. 159, CP.
O delito se consumou no momento em que a vítima foi privada de sua liberdade e, caso o agente venha a obter qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate, esta configurará mero exaurimento de sua conduta.
Qual a relevância do reconhecimento do exaurimento?
Ainda que não integre o iter criminis, o exaurimento terá relevância para fins de dosimetria de pena (aplicação da pena).
Vamos fazer um exercício!
Bebeto e sua namorada Val foram a uma festa na casa de Bia. Durante a festa, sem que Val percebesse, Bebeto aproveita-se da distração de todos e subtrai um anel de ouro de Bia a fim de presenteá-lo à Val.
Alguns dias após a festa, Bebeto decide fazer uma surpresa à Val e lhe dá o referido anel. Entretanto, no momento em que Val coloca o anel no dedo, o reconhece e, sem comentar nada com Bebeto, decide devolvê-lo à amiga sem deixar indícios de que foi seu amado o responsável pelo furto.
Dessa forma, sob o pretexto de conversar sobre a festa, Val combina um almoço na casa de Bia e, ao chegar lá, deixa o anel na pia do banheiro da amiga.
Diante dos fatos narrados, assinale a opção correta:
Bebeto não será responsabilizado pelo delito de furto, pois não houve lesão ao patrimônio de Bia, já que o anel foi devolvido por sua namorada.
Bebeto será responsabilizado pelo delito de furto, entretanto, sua pena será diminuída, face ao arrependimento posterior de sua namorada
Bebeto será responsabilizado pelo delito de furto na forma tentada, pois não houve lesão ao patrimônio de Bia, já que o anel foi devolvido por sua namorada.
Bebeto será responsabilizado pelo delito de furto na forma consumada, pois a devolução do anel pela sua namorada não possui relevância jurídico-penal.
Conceito de iter criminis
Em que momento o crime se consuma e o que se entende por iter criminis?
Contempla o caminho do crime, ou seja, qual o caminho percorrido pelo agente até a consumação do delito.
Importante salientar que há entendimento no sentido de que o exaurimento também integra o iter criminis (neste sentido Rogério Greco, pp.308).
Em regra, as condutas são puníveis a partir dos atos de execução. Entretanto, excepcionalmente por questões de política criminal, o legislador optou por tipificar alguns atos preparatórios, ou seja, se antecipou à prática de crimes e tipificou atos preparatórios como delitos autônomos.
Vejamos como exemplo, o delito de associação criminosa, previsto no art. 288, do Código Penal, no qual, a conduta de no mínimo 3 agentes, que se reunirem de forma estável e com animus de permanência já consuma o delito, ainda que os agentes não cheguem a praticar condutas delitivas para as quais se reuniram.
Ainda, podemos citar como exemplo o delito de organização criminosa, previsto na Lei nº 12850/2013.
O estudo do iter criminis tem relevância, pois várias situações fáticas podem surgir entre o início da execução até o momento da consumação de modo a impedi-la, seja em decorrência de atos voluntários do agente, seja em decorrência de circunstâncias alheias à sua vontade.
Controvérsia. Atos Preparatórios e Executórios – critérios identificadores do início de execução.
A partir da premissa que, em regra, são puníveis os atos de execução, na prática surge a seguinte problemática:
A partir de que momento o agente ultrapassa os atos de preparação e dá início à execução do delito?
Há dois critérios que visam solucionar a controvérsia:
CRITÉRIO MATERIAL 
Ocorre quando há ataque ao bem jurídico. Na tipicidade material, além de descrita no tipo penal, a conduta deve ser socialmente lesiva, ou seja, a lesão ao bem jurídico deve ser socialmente relevante.
CRITÉRIO FORMAL 
Ocorre no início da realização do núcleo do tipo (verbo do tipo penal). Na tipicidade formal há uma relação de adequação entre a conduta praticada e a norma penal. Não há critério majoritário, sendo utilizado um outro conforme o caso concreto.
Vejamos, portanto, a seguinte situação hipotética. O agente é flagrado quebrando um vidro para ingressar em uma residência. Essa conduta, por si só, já pode ser considerada violação de domicílio ou crime de dano (art.150 e 163, do Código Penal). Porém, no nosso exemplo, será vista como crime meio para a prática de outro crime. Nessa situação, podemos questionar se ele furtará os bens que a guarnecem ou, se ele estará realizando atos preparatórios de qualquer outro delito, tal como homicídio. Podemos identificar o início dos atos executórios do furto, por exemplo, quando o agente selecionar alguns bens e os colocar em um local em separado na residência, pois o núcleo do tipo penal de furto é subtrair. Por outro lado, caso ele se dirija à cozinha e retire uma faca da gaveta, podemos indagar acerca dos crimes de roubo, lesão corporal, homicídio etc. Como bem assevera Rogério Greco, nas situações fáticas em que, apesar de toda a análise teórica, ainda houver dúvidas acerca da caracterização de ato preparatório ou executório, esta deverá ser dirimida em favor do agente de modo a afastar a responsabilização pela tentativa (GRECO, Rogério, p.312).
Momento consumativo dos crimes
Podem ser classificados em:
MATERIAIS Se consumam com a ocorrência do resultado naturalístico descrito no tipo penal.
CULPOSOS Se consumam com a ocorrência do resultado naturalístico.
MERA CONDUTA Com a realização da conduta descrita no tipo penal. Não existe resultado naturalístico nesses crimes.
FORMAIS Com a realização da conduta descrita no tipo penal, independentemente ocorrência do resultado naturalístico. Caso esse ocorra, será mero exaurimento.
PERMANENTES O momento consumativo se prolonga no tempo juntamente com a conduta e o bem jurídico é continuamente lesionado.
Tentativa ou conatus
Quais situações fáticas impedem a consumação do delito?
Para que possamos responder à essa indagação, teremos de identificar e analisar os institutos da tentativa, desistência voluntária e arrependimento eficaz, bem como crime impossível.
Prevista no art. 14, II, do Código Penal, caracteriza-se quando, após iniciada a execução, esta é interrompida (tentativa imperfeita) ou, ainda que integralizada (tentativa perfeita), a consumação não ocorre por circunstancias alheias à vontade do agente.
RequisitosOs seguintes requisitos devem ser atendidos:
Natureza jurídica
Configura-se como causa de diminuição de pena, consoante o disposto no art. 14, parágrafo único, do Código Penal.
Assim, temos que reconhecer que será imputada ao agente a responsabilidade penal pela prática da conduta descrita no tipo penal, todavia com a incidência da causa de diminuição de pena em decorrência da tentativa.
A redução de pena de um a dois terços terá por parâmetro a coordenação entre as espécies de tentativa relativas à execução do iter criminis e à agressão ao bem jurídico.
Quanto mais próxima a conduta chegar da consumação, menor será o índice de redução de pena.
Espécies de Tentativa
Em relação à execução, as espécies de tentativa podem ser:
Perfeita
Na tentativa perfeita, também conhecida como crime falho, o agente realiza todos os atos executórios. Todavia, o delito não se consuma por circunstâncias alheias à sua vontade.
Imperfeita
Na tentativa imperfeita, por sua vez, o processo executório é interrompido por circunstancias alheias à vontade do agente.
Quanto à lesão ao bem jurídico, as espécies de tentativa podem ser:
Dessa forma, a tentativa pode ser:
Infrações que não admitem tentativa
As infrações que não admitem tentativa podem ser:
CONTRAVENÇÃO Por questões de política criminal, expressamente o decreto-lei n.3688/41, em seu art.4º, estabelece que não se pune a tentativa nas contravenções penais.
CRIMES CULPOSOS A partir da premissa de que o iter criminis é inerente aos crimes dolosos, na medida em que nestes a conduta é praticada com a finalidade de produção de um resultado ilícito, podemos concluir que somente será admissível o instituto da tentativa aos crimes dolosos. Por outro lado, não há que se cogitar da ocorrência da tentativa nos crimes culposos, pois nestes o resultado lesivo ilícito, ainda que objetivamente previsível, não integra a vontade do agente, sendo imputado à sua conduta por força da quebra do dever objetivo de cuidado e da relação de causalidade.
CRIMES OMISSIVOS PRÓPRIOS Nesses delitos, a mera omissão de uma conduta exigida ao agente pela norma já perfaz sua consumação em decorrência do nexo causal e resultado jurídicos ou normativos não se admitindo a tentativa. Vide, por exemplo, o delito de omissão de socorro previsto no art. 135, do Código Penal.
CRIMES HABITUAIS Esses delitos exigem, para a sua consumação, a prática reiterada e habitual de determinada conduta. Logo, ou o agente consuma a infração com esta prática ou a conduta será atípica de modo a não contemplar a tentativa. Podemos citar como exemplo os delitos de favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual (art.228, CP) e casa de prostituição (art.229, CP). No caso do art. 228, CP, o delito se consuma com a habitualidade, ainda que a vítima não atenda a nenhum cliente. Já o delito de casa de prostituição, por exemplo, consuma-se com a efetiva manutenção do estabelecimento para fins de exploração sexual, independentemente da ocorrência efetiva de ato libidinoso, bem como do agente auferir lucro.
Vamos fazer um exercício!
Um agente alvejou vítima com disparo e, embora tenha iniciado a execução do ilícito, não exauriu toda a sua potencialidade lesiva ante a falha da arma de fogo empregada, fugindo do local do crime em seguida. Nessa situação hipotética, a atitude do agente configura: (Analista Judiciário. TRE-RS. CESPE. 2015)
Tentativa perfeita ou crime falho, pois a execução foi concluída, mas o crime não se consumou.
Arrependimento eficaz, uma vez que ele, após ter esgotado todos os meios de que dispunha, evitou que o resultado acontecesse.
Crime impossível por absoluta ineficácia do meio empregado para a realização do crime visado.
Tentativa imperfeita, pois ele não conseguiu praticar todos os atos executórios necessários à consumação, por interferência externa.
Desistência Voluntária e arrependimento eficaz
Os dois institutos estão previstos no art.15, do Código Penal, e se caracterizam pela não consumação do delito por vontade do agente.
Na desistência voluntária, também conhecida como tentativa abandonada, há a interrupção do processo executório, enquanto, no arrependimento eficaz, a desistência ocorre após a realização dos atos executórios, vindo o agente a praticar uma nova conduta capaz de impedir o resultado lesivo.
Para que o arrependimento seja eficaz, é imprescindível que a nova conduta praticada pelo agente seja capaz de impedir a consumação do resultado. Caso contrário, o delito restará consumado e o arrependimento “ineficaz” do agente poderá ser considerado somente para fins de atenuação de pena, conforme dispõe o art. 65, III, b, do Código Penal.
Requisitos
Os seguintes requisitos devem ser atendidos:
A voluntariedade da conduta
Importante salientar que a vontade do agente compreende a voluntariedade, não sendo necessário que a conduta seja espontânea. Sobre a distinção entre voluntariedade e espontaneidade, leciona Guilherme de Souza Nucci:
Tal distinção possui extrema relevância para fins de distinção entre tentativa e desistência voluntária e arrependimento eficaz, bem como para caracterização do arrependimento posterior, como veremos no tópico a seguir.
Suponhamos as seguintes situações hipotéticas:
Natureza jurídica
O entendimento majoritário é no sentido de que caracterizam a exclusão da tipicidade da conduta inicialmente almejada. Todavia, como expressamente estabelece o art.15, do Código Penal, o agente será responsabilizado pelas condutas anteriormente praticadas que, no caso concreto, podem corresponder aos crimes subsidiários ou crimes meio.
Vejamos, por exemplo, o agente que desfere duas facadas na sua mulher com animus necandi (dolo de matar) impelido por ciúmes e, ao vê-la desfalecer, se arrepende e a socorre em tempo hábil de evitar sua morte.
Nesse caso, a tentativa é afastada em decorrência do arrependimento eficaz, pois este excluiu a tipicidade do delito de homicídio qualificado, todavia ainda subsistirá a responsabilização pelas lesões corporais provocadas.
Vamos fazer um exercício!
Acerca dos institutos da desistência voluntária, do arrependimento eficaz e do arrependimento posterior, assinale a opção correta:
O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado se produza responderá pelo crime consumado com causa de redução de pena de um a dois terços.
A desistência voluntária e o arrependimento eficaz, espécies de tentativa abandonada ou qualificada, passam por três fases: o início da execução, a não consumação e a interferência da vontade do próprio agente.
Crimes de mera conduta e formais comportam arrependimento eficaz, uma vez que, encerrada a execução, o resultado naturalístico pode ser evitado.
A natureza jurídica do arrependimento posterior é a de causa geradora de atipicidade absoluta da conduta, que provoca a adequação típica indireta, de forma que o autor não responde pela tentativa, mas pelos atos até então praticados.
Crime impossível
Consoante estabelece o art. 17, do Código Penal, há situações nas quais, iniciada a execução do delito, torna-se impossível sua consumação, seja em decorrência de impropriedade absoluta do objeto ou de ineficácia absoluta do meio.
Requisitos
Os seguintes requisitos devem ser atendidos:
Vamos conhecer melhor os conceitos de ineficácia absoluta do meio e impropriedade absoluta do objeto.
INEFICÁCIA ABSOLUTA DO MEIO Compreende-se por ineficácia absoluta do meio a total incapacidade do meio executório produzir a consumação do delito. Podemos citar como meio a utilização de faca, arma de fogo, veneno, fogo etc. Saliente-se que, caso a ineficácia ou impropriedade sejam relativas, restará caracterizada a tentativa do delito. Exemplo Vejamos, por exemplo, a situação na qual o agente ministra veneno à vítima com dolo de matá-la. Todavia, a dose ministrada foi insuficiente para a consumação do delito. Nesse caso, a ineficácia do meio foi relativa, logo será imputada à sua conduta a responsabilização pelo homicídio qualificado na forma tentada.
IMPROPRIEDADE ABSOLUTA DO OBJETO Emrelação à impropriedade absoluta do objeto, configura-se como a pessoa ou coisa sobre a qual recai a conduta do agente. Exemplo: Vejamos, como exemplo, questão formulada para o concurso de Promotor de Justiça Substituto/MS, aplicada em 2009: Juliano mora embaixo de uma ponte no centro da cidade, espaço que divide com outro morador de rua, Floriano. Juliano, no escopo de passar a ocupar sozinho o local referido, intenta tirar a vida de Floriano. Para tanto, Juliano espera a chegada da noite, aguardando o momento em que a vítima venha a adormecer, a fim de facilitar seu desiderato. Numa noite fria, em torno das 23h30min, Juliano percebe que sua pretensa vítima teria adormecido, e, aproveitando-se de tal situação, desfere cinco golpes de punhal, sem encontrar qualquer resistência por parte da vítima. Porém, o laudo do médico perito dá conta de que a morte não foi causada pelos ferimentos decorrentes dos golpes de punhal, e sim por hipotermia agravada por complicações cardíacas preexistentes na vítima. Afirma o laudo que, no momento da agressão, a vítima já se encontrava morta. Em relação ao ocorrido, é correto afirmar que se trata de crime impossível por absoluta impropriedade do objeto (gabarito oficial fornecido pela Banca Examinadora).
Natureza jurídica
O instituto do crime impossível caracteriza-se como causa de exclusão da tipicidade da conduta inicialmente almejada.
Arrependimento posterior
O arrependimento posterior, previsto no art. 16, do Código Penal, também é relevante ao nosso estudo, ainda que ocorra após a consumação do delito, pois terá influência para fins de dosimetria de pena, bem como se faz necessária sua distinção do arrependimento eficaz.
O arrependimento posterior ocorre quando, após a consumação do delito, em regra de natureza patrimonial, o agente, por ato voluntário, integralmente, repara o dano ou restitui o bem antes do recebimento da denúncia ou queixa.
Denúncia
Peça inicial para a propositura da ação penal de iniciativa pública, proposta pelo Ministério Público, podendo ser condicionada à representação da vítima ou ofendido ou requisição do Ministro da Justiça em casos expressamente previstos em lei. Sobre o tema ver art.129, I, da CRFB/1988 e art.100, caput, e §1º, do Código Penal.
Queixa
Peça inicial para a propositura da ação penal de iniciativa privada, proposta pelo ofendido ou seu representante legal. Sobre o tema ver art. 100, §§2º e 3º, do Código Penal
Não se aplica aos delitos praticados com violência ou grave ameaça à pessoa, como por exemplo os delitos de roubo e extorsão (art.157 e 158, do Código Penal).
Requisitos
Os seguintes requisitos devem ser atendidos:
Natureza jurídica
Da mesma forma que a tentativa, caracteriza-se como causa de diminuição de pena, todavia é imprescindível que a restituição do bem ou ressarcimento do dano ocorra antes do recebimento da denúncia ou queixa. Caso contrário, restará caracterizada como circunstância atenuante genérica prevista no art.65, III, b, do Código Penal.
A redução de pena de um a dois terços terá por parâmetro a coordenação entre a reparação ou ressarcimento e o lapso temporal em que estes ocorram.
Quanto mais rápido ocorrer a restituição do bem ou ressarcimento do dano, maior será o índice de redução de pena.
Nos casos em que não houver consumação, haverá responsabilização penal à conduta?
Para concluirmos a nossa aula, vejamos, de forma sintética, a distinção entre os institutos previstos nos artigos 14, 15 e 17, do Código Penal, e as respectivas consequências para fins de responsabilização jurídico-penal.
Atividade
Vamos exercitar os conhecimentos construídos nesta aula. Leia a notícia transcrita abaixo e responda às questões formuladas:
VILHENA E CONE SUL
Homem é flagrado em loja com pé de cabra em tentativa de furto em RO
PM foi chamada, pois alguém teria quebrado vidro do estabelecimento. Suspeito tem condenação por furto e foi levado para Ressocialização.
Um homem de 25 anos foi preso em flagrante por tentativa de furto em uma loja de móveis e eletrodomésticos na madrugada deste domingo (3). A Polícia Militar (PM) foi chamada a comparecer no estabelecimento, no bairro Cristo Rei, em Vilhenax (RO), pois alguém teria quebrado o vidro do local. No endereço, os policiais flagraram o suspeito com um pé de cabra.
Conforme a PM, ao ver a viatura, o homem tentou se desfazer da ferramenta, jogando-a no lixo. Na loja foram encontrados uma bolsa, uma chave de roda de caminhão e outro objeto utilizado para estourar cadeados. Ele foi levado para o Centro de Ressocialização Cone Sul, pois já tem condenação por furto.
Disponível aqui.
Agora responda às seguintes perguntas:
a) A partir da análise do iter criminis, identifique em que fase o agente se encontrava.
b) Ainda, a partir da premissa de que o agente tentou se desfazer da ferramenta, jogando-a no lixo, sua conduta configuraria tentativa ou desistência voluntária? Quais seus consectários penais?
GABARITO Em relação à primeira questão, identificamos que os agentes já se encontravam na fase executória do delito de furto, pois, além de terem quebrado o vidro da loja, foram encontradas no interior do estabelecimento objetos que seriam utilizados para a execução do delito de furto, bem como em posse dos agentes, o que demonstra que eles já se encontravam em relação imediata com a ação típica de subtrair (o núcleo do tipo penal de furto – art.155, CP, nesse caso, qualificado - §4º). Sobre a segunda questão, os institutos da tentativa (art.14, II, CP) e desistência voluntária (art.15, CP) se diferenciam pela ocorrência de circunstancias alheias à vontade do agente no primeiro caso e, voluntariedade no impedimento da produção do resultado lesivo, no caso de desistência voluntária.
Aula 8
Introdução Nesta aula, estudaremos a Ilicitude como elemento do conceito analítico de crime e as situações nas quais a conduta praticada pelo agente não será considerada crime, ainda que lesione determinados bens jurídico-penais, pois estará acobertada pelas denominadas causas excludentes de Ilicitude.
Buscando respostas às indagações
Em continuidade ao estudo dos elementos do crime sob o prisma de seu conceito analítico, podemos afirmar que toda conduta típica é ilícita, salvo se acobertada por alguma causa excludente de Ilicitude.
Dessa forma, além de compreendermos os conceitos de Ilicitude, teremos de analisar as situações que a excluam.
Para que possamos identificar essas causas excludentes de responsabilidade penal buscaremos, ao longo da aula, responder às seguintes indagações:
Conceitos de Ilicitude
Inicialmente, podemos conceituar Ilicitude como a relação de contrariedade entre a conduta e o ordenamento jurídico.
O conceito material tem por premissas os princípios da fragmentariedade e adequação social (que estudamos em nossa primeira aula).
Cabe salientar que muitos autores utilizam a expressão “antijuridicidade”, que não foi adotada por nós nesta aula pois se restringe ao conceito formal de Ilicitude.
Exclusão da Ilicitude
Para que possamos identificar o instituto da Ilicitude e seus consectários penais, é necessário reconhecermos a existência de causas justificadoras das condutas típicas.
Em resposta às indagações feitas nesta aula, adotaremos a seguinte classificação das causas de justificação:
AS DESCRIMINANTES LEGAIS
O Código Penal apresenta, em seu art.23, quatro causas legais de exclusão de Ilicitude:
• Legítima defesa;
• Estado de necessidade;
• Exercício regular de direito;
• Estrito cumprimento do dever legal.
As causas enumeradas na Parte Geral do Código Penal também podem ser complementadas por causas previstas na Parte Especial do Código Penal, tais como as previstas nos art.128 e art. 146.
O art.128 relata situações nas quais o médico, ao praticar a conduta de aborto, faria isso acobertado pela excludente de estado de necessidade de terceiro.
AS DESCRIMINANTES PUTATIVAS
Ainda na esfera das descriminantes legais, podemos questionar acerca da existência de descriminantes putativas, ou seja, aquelas de que decorrem de erro, da falsa percepção da realidadedo agente.
Em relação a essas causas, conforme estabelece o art.20, §1º, do Código Penal, o erro do agente recai sobre os elementos que constituem o tipo penal e não sobre a Ilicitude de sua conduta.
Nesses casos, o agente acredita equivocadamente estar diante de situação fática ensejadora da causa excludente de Ilicitude.
Atenção:
É comum em obras acadêmicas que as descriminantes putativas sejam estudadas no capítulo inerente à Ilicitude, todavia, para que não haja o risco de confundirmos sua natureza jurídica (excludente de tipicidade), as estudaremos na aula 10, referente à teoria do erro.
· DESCRIMINANTES SUPRALEGAIS
Com relação ao questionamento acerca da possibilidade da existência de causas supralegais justificadoras, portanto não previstas em lei, em verdade estamos suscitando a possibilidade do emprego de analogia em favor da parte.
Dentre as causas supralegais, ganha relevância a discussão sobre o consentimento do ofendido para fins de exclusão da responsabilidade jurídico-penal.
Antes de analisarmos essa questão, é necessário identificarmos os requisitos de validade do referido consentimento.
Para melhor compreensão, seguem os requisitos apresentados por Luiz Regis Prado:
• A aquiescência do titular do bem jurídico, que dele pode dispor;
• Capacidade de consentir;
• Anterioridade do consentimento em relação ao dano;
• Atuação nos limites do consentido;
• Ciência do consenso e vontade de atuar.
Podemos acrescentar à capacidade de consentir que a concordância não seja viciada pela coação física ou moral irresistível, na medida em que exclui, respectivamente, a tipicidade e a culpabilidade do agente. Logo, não poderíamos falar em consentimento válido nessas situações.
Presentes esses requisitos, a próxima questão a ser analisada versa sobre a controvérsia acerca da natureza jurídica do consentimento do ofendido.
Podemos resumir da seguinte forma:
• Há figuras típicas que contêm o dissenso do ofendido como elementar do crime. Logo, nesse caso, o consentimento do ofendido caracterizará causa excludente de tipicidade. É o caso da figura típica do art.150, do Código Penal (violação de domicílio);
• Nos casos em que o dissenso não for elementar do tipo, o consentimento do ofendido caracterizará causa excludente de Ilicitude. É o caso da figura típica do art.163, do Código Penal (crime de dano).
Estado de Necessidade
Estabelece o art.24, caput, do Código Penal que:
A partir da leitura desse dispositivo, podemos concluir que o Código Penal adotou a teoria unitária acerca do estado de necessidade, segundo a qual a partir da ponderação de interesses o sacrifício torna-se razoável.
Requisitos
Requisito subjetivo
O conhecimento de que o agente esteja atuando acobertado pela excludente e de acordo com seus limites é essencial. Em outras palavras, podemos afirmar que o agente, ao atuar em estado de necessidade, ou qualquer outra causa excludente, estará praticando a conduta de forma dolosa.
Requisitos objetivos
Com relação aos requisitos objetivos podemos citar:
A existência de uma situação atual de perigo Nesse caso, é necessário que bens ou interesses estejam em perigo e conflito. Mas o que significa perigo para o Direito Penal? Risco provável de lesão a interesse ou bem jurídico-penal.
Que a situação de perigo não tenha sido causada voluntariamente pelo agente Aqui, cabe lembrar os elementos do conceito de dolo, quais sejam: vontade e consciência. Dessa forma, o excludente estado de necessidade não se aplica aos casos nos quais o agente tenha causado dolosamente a situação de perigo, todavia é plenamente possível sua aplicação nas situações em que o agente tenha causado culposamente a situação de perigo.
Que o agente não tenha o dever legal de enfrentar o perigo Esse requisito exclui a incidência da causa excludente de Ilicitude aos agentes garantidores por força de lei, conforme estabelece os artigos 13, §2º, alínea a e 24, §1º, ambos do Código Penal. Art. 24, §1º- Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo. Art.13, §2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem: a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância;
Que o perigo seja inevitável Esse requisito versa sobre a possibilidade do conflito de interesses ou bens ser solucionado de outra forma que não o sacrifício de um deles, tal como a possibilidade de efetiva prestação de socorro no caso de acidente automobilístico.
Que o interesse, bem ou direito em perigo seja próprio ou de terceiro Significa dizer que a conduta do agente pode ter por finalidade a proteção de interesses de outrem.
Que o sacrifício seja razoável Esse requisito, é baseado na ponderação de interesses e, portanto, na relevância do bem jurídico-penal. Nos casos em que o sacrifício não atenda à ponderação exigida, será afasta a exclusão de Ilicitude podendo ser aplicável, mediante a análise do caso concreto, a causa de diminuição de pena prevista no art. art.24, §2º, do Código Penal. Art.24, § 2º - Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços. Dessa forma, podemos, no caso concreto, ter o confronto entre o patrimônio e a vida, por exemplo nos casos de furto e homicídio, não sendo razoável o sacrifício da vida em prol da defesa do patrimônio. Tal situação não se confunde com a que tiver a de roubo, pois esse crime complexo comporta além do furto, crimes contra a integridade física, psíquica ou até mesmo a vida, de modo que o confronto não será patrimônio e vida, mas a violência ou grave ameaça contra a pessoa.
Espécies de Estado de Necessidade
De acordo com a sua classificação, a conduta pode gerar consequências distintas para fins penais.
Justificante e Exculpante
O estado de necessidade justificante é o expressamente previsto no art.23, I e cujos requisitos encontram-se previstos no art.24, ambos do Código Penal. Nesse caso, caracteriza-se a exclusão de Ilicitude.
Por outro lado, caso o agente tenha o dever legal de enfrentar o perigo, discute-se acerca da possibilidade do estado de necessidade excluir a culpabilidade da conduta do agente por força da inexigibilidade de conduta diversa.
Essa situação não é prevista pelo Código Penal, mas suscitada pela doutrina e jurisprudência.
Real e Putativo
O estado de necessidade real caracteriza-se pela presença de todos os requisitos (objetivos e subjetivos) ensejadores da incidência da excludente de Ilicitude (art. 24, caput, CP).
Já o estado de necessidade putativo ocorre quando o agente atua em erro e acredita, diante das circunstâncias fáticas, estar atuando acobertado pela excludente de Ilicitude (art.20, §1º, CP).
Próprio de Terceiro
Podemos diferenciá-los conforme o direito em conflito ou perigo, seja do agente ou de terceiro.
Excesso punível
Tema relevante para encerrarmos o estudo sobre estado de necessidade é a possibilidade do agente extrapolar os limites da causa justificante de modo a ser responsabilizado pelo denominado excesso punível, dolosa ou culposamente, segundo a natureza do excesso, de acordo com o disposto no art.23, parágrafo único, do Código Penal.
Legítima defesa
Da mesma forma que o estado de necessidade e as demais causas excludentes de Ilicitude, o instituto da legítima defesa, previsto expressamente no art.25, do Código Penal, possui como requisito subjetivo o conhecimento pelo agente de que está atuando acobertado pela causa justificadora e de acordo com seus limites.
Art. 25, CP – Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.
Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes.
Dessa forma, analisaremos a seguir seus requisitos objetivos e questões controvertidas.
Requisitos
Requisito subjetivo- o conhecimento de que o agente esteja atuando acobertado pela excludente e de acordo com seus limites;
Requisitos objetivos.
Repulsa à agressão Por agressão compreende-se a ação humana que lesione ou exponha a perigo de lesão bens jurídico-penais. De acordo com esse requisito, caso uma pessoa se defenda de um cão, estará atuando em estado de necessidade. Todavia, se o cão for o instrumento para a agressão de seu dono (obedecer ao comando do dono) será caracterizada a legítima defesa.
Injustiça da agressão A injusta agressão deve ser ilícita, mas não necessariamente configura crime. Rogério Greco cita como exemplo de agressão injusta, mas não configurada como crime, o instituto do furto de uso que somente é considerado pela doutrina e jurisprudência como ilícito civil.
Que a agressão seja atual ou iminente Aqui questionamos se a repulsa volta-se à agressão que esteja ocorrendo ou esteja prestes a ocorrer. Conforme leciona Guilherme de Souza Nucci, no caso da iminência, considera-se a situação de perigo provocada no espírito de quem se defende.
Que a conduta vise cessar injusta agressão a direito próprio ou alheio
Que sejam adotados os meios necessários e de forma moderada Esse requisito demanda uma análise essencialmente casuística, pois somente poderemos avaliar a proporcionalidade na reação após identificarmos a intensidade da agressão. Partimos da premissa de que o meio utilizado deva ser o menos lesivo/ofensivo dentre aqueles que o agente deva escolher e, também, que a sua reação seja proporcional à intensidade da injusta agressão de forma a ser capaz de cessá-la. Para fins de exemplificação, podemos citar a diferença de compleição física entre suposto agressor e suposta vítima que atua em legítima defesa, ou seja, a utilização de algum instrumento para a atuação em legítima defesa, tal como um pedaço de pau, quando o agressor, ainda que desprovido de qualquer instrumento, possua superior compleição física e força.
Espécies de Legítima defesa
Além da classificação estudada no instituto do estado de necessidade (justificante, exculpante, real, putativa, própria e de terceiro), destacamos algumas especificidades do instituto da legítima defesa:
Legítima Defesa Sucessiva - configura-se como a legítima defesa exercida pelo inicialmente agressor face ao excesso da legítima defesa praticada pela, inicialmente, vítima;
Legítima defesa de agressão de inimputáveis - essa situação não afasta a caracterização da causa justificante, desde que, no caso concreto, o inimputável tenha discernimento acerca da sua conduta, ainda que não seja culpável. Esse é o entendimento que tem prevalecido, como em Rogério Greco e Guilherme de Souza Nucci.
Podemos citar como exemplo a reação de um indivíduo, maior e capaz, para cessar a injusta agressão de um adolescente.
Excesso punível
Aqui, novamente, vislumbramos a ocorrência da desnecessária intensificação de uma conduta inicialmente legítima, que pode ocorrer de forma dolosa ou culposa, seja em relação ao meio empregado ou à falta de moderação no seu emprego.
Ofendículos
São instrumentos ou aparatos de proteção utilizados de forma visível com o fim de proteger o direito de propriedade.
Para que possam excluir a responsabilidade penal do titular do direito de propriedade pela eventual lesão a bens jurídicos de terceiros, é imprescindível a visibilidade desses aparatos, ainda que por placas ou outros meios de alerta.
A controvérsia surge em relação à sua natureza jurídica, dando ensejo a dois entendimentos:
Um pela categorização como legítima defesa preordenada, defendido, dentre outros, por Nelson Hungria;
O segundo entendimento pela categorização como exercício regular ao direito de defesa da propriedade. Nesse sentido, temos a interpretação de Guilherme de Souza Nucci e Rogério Greco. Sendo que este último sustenta que, além do direito de propriedade, estão incluídas a vida e a integridade física do titular do patrimônio (p.421).
Leia a notícia disponível aqui e responda às questões formuladas.
A notícia veicula a tese defensiva apresentada pelos policias militares de legítima defesa.
A partir dos estudos realizados sobre causas excludentes de Ilicitude, indaga-se:
a) Os policias militares somente poderiam alegar legítima defesa ou também seria possível a alegação de estado de necessidade? Responda de forma objetiva e fundamentada.
b) Caso, efetivamente, no curso da ação penal, fosse caracterizada a legítima defesa por parte dos policiais militares, mas através da tese apresentada pelo advogado do MST fosse comprovada a ocorrência de excesso por parte dos policiais militares, qual seria a correta fundamentação da defesa do MST?
GABARITO A primeira indagação tem por objeto o reconhecimento de que, por expressa previsão legal, não é possível ao agente garantidor por força de lei (art.13, §2º, a, e art.24, §1º, ambos do Código Penal) suscitar como tese defensiva o estado de necessidade de modo a restar a tese de legítima defesa a partir do fundamento de que a pessoa, não o agente público, defendeu-se de injusta agressão, atual ou iminente. Com relação à segunda questão, devemos destacar a denominada “legítima defesa sucessiva” caracterizada como a legítima defesa exercida pelo inicialmente agressor face ao excesso da legítima defesa praticada pela, inicialmente, vítima.
Múltipla escolha
1.
Jaime, objetivando proteger sua residência, instala uma cerca elétrica no muro. Certo dia, Cláudio, com o intuito de furtar a casa de Jaime, resolve pular o referido muro, acreditando que conseguiria escapar da cerca elétrica ali instalada e bem visível para qualquer pessoa. Cláudio, entretanto, não obtém sucesso e acaba levando um choque, inerente à atuação do mecanismo de proteção.
Ocorre que, por sofrer de doença cardiovascular, o referido ladrão falece quase instantaneamente. Após a análise pericial, ficou constatado que a descarga elétrica não era suficiente para matar uma pessoa em condições normais de saúde, mas suficiente para provocar o óbito de Cláudio, em virtude de sua cardiopatia.
Nessa hipótese é correto afirmar que:
Jaime deve responder por homicídio culposo, na modalidade culpa consciente.
Jaime deve responder por homicídio doloso, na modalidade dolo eventual.
Pode ser aplicado à hipótese o instituto do resultado diverso do pretendido.
Pode ser aplicado à hipótese o instituto da legítima defesa preordenada.
Múltipla escolha
1.
Jaime, objetivando proteger sua residência, instala uma cerca elétrica no muro. Certo dia, Cláudio, com o intuito de furtar a casa de Jaime, resolve pular o referido muro, acreditando que conseguiria escapar da cerca elétrica ali instalada e bem visível para qualquer pessoa. Cláudio, entretanto, não obtém sucesso e acaba levando um choque, inerente à atuação do mecanismo de proteção.
Ocorre que, por sofrer de doença cardiovascular, o referido ladrão falece quase instantaneamente. Após a análise pericial, ficou constatado que a descarga elétrica não era suficiente para matar uma pessoa em condições normais de saúde, mas suficiente para provocar o óbito de Cláudio, em virtude de sua cardiopatia.
Nessa hipótese é correto afirmar que:
Jaime deve responder por homicídio culposo, na modalidade culpa consciente.
Jaime deve responder por homicídio doloso, na modalidade dolo eventual.
Pode ser aplicado à hipótese o instituto do resultado diverso do pretendido.
Pode ser aplicado à hipótese o instituto da legítima defesa preordenada.
Múltipla escolha
3.
(Concursos) Mévio e Tício, ambos com 22 anos, estavam treinando para o campeonato brasileiro de Jiu-jitsu. Durante o treino, por orientação do treinador, Tício desferiu um golpe que causou ofensa à integridade física do Mévio.
Considerando que a conduta causadora do dano está regulamentada nas normas da modalidade esportiva referida, marque a resposta correta:
Tício deverá responder pelo delito de lesão corporal porque praticou fato típico, ilícito e culpável.
Tício deverá responder pela contravenção penal de vias de fato porque praticou fato típico, ilícito e culpável.
Tício não deveráser responsabilizado criminalmente porque agiu no exercício regular de direito.
Tício não deverá ser responsabilizado criminalmente porque agiu no estrito cumprimento do dever legal.
Tício não deverá ser responsabilizado criminalmente porque agiu sob obediência hierárquica.
Aula 9
Introdução Nesta aula, identificaremos a culpabilidade sob dois aspectos: como princípio norteador e limitador da aplicação de sanção penal e como elementar do crime consoante a concepção finalista de ação. Dessa forma, analisaremos os elementos da culpabilidade, suas causas excludentes e consectários em relação à punibilidade. Para que possamos compreender a relevância do tema, será necessário que identifiquemos algumas teorias utilizadas para a construção do conceito de culpabilidade, bem como a teoria atualmente predominante no nosso ordenamento jurídico. Como vimos nas aulas anteriores, a culpabilidade tanto pode ser identificada como princípio norteador de Direito Penal quanto elemento do conceito de crime. E, nesta aula, identificaremos as missões da culpabilidade na medida em que representa pressupostos e limites para a aplicação da pena criminal. Bons estudos!
Conceitos de Culpabilidade
Ao estudarmos os conceitos de culpabilidade como princípio norteador e limitador do poder punitivo estatal na aula 1, identificamos dois conceitos fundamentais:
A partir desses conceitos, podemos questionar sobre a consciência da ilicitude e a possibilidade de exigir-se do agente que pratique condutas em conformidade com a norma, ou seja, estamos atribuindo juízo de valor à conduta praticada pelo agente para consequente aferição do quantum de pena a ser aplicado ou, ao contrário, da exclusão de sua responsabilidade penal.
Com o advento da teoria finalista da ação, acrescenta-se ao caráter psicológico da culpabilidade a normatividade ou valoração da culpabilidade. Surge, assim, a teoria normativa pura da culpabilidade e o dolo e a culpa migram da culpabilidade para o fato típico (conduta).
Teoria adotada pelo Código Penal sobre a natureza jurídica da culpabilidade
Com a reforma de 1984, o Código Penal passou a adotar a teoria finalista da ação e a consequente teoria normativa da culpabilidade, segundo a qual ela comporta:
Imputabilidade;
Potencial consciência da ilicitude;
Exigibilidade de conduta diversa.
Todavia, o Código Penal Brasileiro adotou a teoria normativa de forma limitada na medida em que reconheceu as descriminantes putativas (erro de tipo) e o denominado erro de proibição.
Ainda em decorrência da migração do dolo e da culpa para a conduta e consequente transformação da culpabilidade em elemento normativo, baseado em juízo de valor, surgiu na doutrina a divergência acerca da caracterização da culpabilidade como elemento do crime ou como mero pressuposto para aplicação de pena.
A outra linha de pensamento, majoritária, reconhece a culpabilidade como elemento ou requisito do crime ao afirmar que “a estrutura analítica do crime não se liga necessariamente à adoção da concepção causalista, finalista ou social da ação delituosa” (NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Direito Penal. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2014.p, 121). Nesse sentido, ainda podemos citar Rogério Greco, Juarez Tavares, Cezar Roberto Bitencourt, Juarez Cirino dos Santos.
Imputabilidade
Podemos sintetizar o conceito de imputabilidade como a capacidade de compreensão e de atuação do indivíduo e que, portanto, torna possível a aplicação de pena às condutas por ele praticadas.
O nosso Código Penal, no art. 26, ao tratar da imputabilidade, optou por descrever as situações nas quais haverá a sua exclusão. Dessa forma, seguiremos os critérios adotados pelo Código Penal.
Sistemas de aferição da inimputabilidade pelo CP
Os sistemas de aferição da inimputabilidade pelo CP são:
BIOLÓGICO Tal critério é absoluto, na medida em que a lei estabelece que os menores de 18 anos são inimputáveis. Tal critério está expressamente previsto no art.27, do Código Penal. Salientamos que tal critério independe dos critérios adotados no âmbito civil, ou seja, ainda que seja possível a emancipação de um jovem de 17 anos, esta não se comunicará para fins de imputabilidade penal. O art.27, do Código Penal, estabelece que os menores de 18 anos ficam sujeitos às normas estabelecidas na legislação especial. Neste caso, à lei nº 8069/1990 (Estatuto da Criança e Adolescente). E é importante destacar que à criança e ao adolescente não se aplica sanção penal, mas medidas socioeducativas previstas na referida lei.
BIOPSICOLÓGICO Tal critério não é absoluto e necessita da comprovação no caso concreto da ocorrência de três requisitos: • Causal; • Temporal; • Consequencial. Em outras palavras, significa dizer que o agente, em decorrência da causa excludente da imputabilidade, torna-se, no momento da conduta, incapaz de compreendê-la e de autodeterminar-se de acordo com essa compreensão. Tal critério pode ser extraído dos seguintes trechos do art.26, do CP: • Causal - “por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado”; • Temporal ou cronológico - “era, ao tempo da ação ou da omissão”; • Consequencial - “inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento”.
Causas excludentes da imputabilidade
Estudaremos a seguir as controvérsias acerca das causas excludentes de imputabilidade.
Doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado
A doença mental e o desenvolvimento mental retardado não se vinculam à idade cronológica do agente, diferentemente do desenvolvimento mental incompleto que se refere à criança e ao adolescente por serem considerados pessoas em fase de desenvolvimento.
Para João Batista Costa Saraiva, em relação ao adolescente, excluindo-se o elemento da imputabilidade, os demais elementos da culpabilidade hão de ser considerados. Assim, há que se ter em vista, quando o Estado pretende sancionar o adolescente com alguma medida socioeducativa, sua potencial consciência da ilicitude e a exigibilidade de conduta diversa, circunstâncias que levam à reprovabilidade da conduta. (SARAIVA, João Batista Costa. Adolescente em Conflito com a Lei. Da indiferença à proteção integral. Uma abordagem sobre a responsabilidade penal juvenil. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2005).
Para Cezar Roberto Bitencourt, a caracterização da doença mental faz com que o agente, ainda que tenha claramente o senso valorativo de sua conduta, não consiga evitar sua prática, faltando-lhe a capacidade de autodeterminação (BITENCOURT, op. cit. pp. 416).
É interessante destacar, ainda, que caso estejamos falando de inimputabilidade e, portanto, incapacidade de culpabilidade, excetuando-se os adolescentes para os quais será aplicada uma medida socioeducativa, nos demais casos será aplicada ao agente uma sanção penal, qual seja:
Atenção
Citamos a expressão “impropriamente absolvido”, pois ainda que seja aplicada uma sanção penal (medida de segurança), ele não poderá ser considerado culpado por ser inimputável.
Em síntese:
Aplica-se pena a quem tiver culpabilidade e medida de segurança, periculosidade, aqui compreendida como a capacidade de perigo à sociedade e a si mesmo.
Emoção e paixão e suas consequências para a imputabilidade penal
Conforme assevera o art.28, inciso I, do Código Penal, a emoção e a paixão não isentam o réu de pena. Todavia, é importante salientar que a emoção, vista como a intensificação momentânea da paixão, poderá ter influência sobre a aplicação de pena.
Exemplo
O art.121, §1º, do Código Penal, prevê o denominado “homicídio privilegiado”, cuja natureza jurídica é de causa de diminuição de pena nos casos, por exemplo, em que o agente praticar a conduta sob o domínio da violenta emoção logo em seguida à injusta provocação da vítima. Nessa situação, a emoção de tal forma domina os pensamentos do agente que se torna o motivo determinante para a prática deste homicídio doloso.
Por outro lado, caso o agente não esteja “sob o domínio” da violenta emoção, mas tão somente influenciado por ela, serápossível a aplicação da atenuante genérica de pena prevista no art.65, inciso III, alínea c.
Ambas as situações atenuam a pena do réu. Todavia, no primeiro caso (privilégio), o magistrado pode atenuar a pena aquém do mínimo legal (pena prevista no tipo penal), enquanto no caso da atenuante genérica, o magistrado terá a atenuação de pena adstrita ao mínimo previsto na lei.
A embriaguez e suas consequências para a imputabilidade penal
A embriaguez, em regra, não exclui a imputabilidade penal do agente. Contudo, o art.28, II, parágrafos 1º e 2º, estabelece situações nas quais ela poderá, excepcionalmente, isentar o réu de pena ou diminuí-la.
É necessário indagarmos acerca do conceito de embriaguez e podemos sintetizá-lo como a intoxicação transitória decorrente da ingestão de álcool ou substância de efeitos psicotrópicos que pode variar de uma excitação de sentidos, depressão, sono até o coma.
As fases relevantes para fins penais são:
Ainda, podemos classificar a embriaguez em:
Atenção
Segundo dispõe o art.28, do Código Penal, somente a embriaguez acidental e completa isenta o réu de pena (art.28, §1º, do Código Penal). Entretanto, nos casos de embriaguez patológica ou dependência química, é possível a aplicação de medida de segurança por equiparação à doença mental (vide, por exemplo, o art.45, da lei de drogas – Lei nº 11343/2006).
Ainda, nos casos em que for comprovada a redução da capacidade de discernimento ou autodeterminação em decorrência da embriaguez acidental, a pena pode ser reduzida de um a dois terços (art.28, §2º, do Código Penal).
De forma oposta, a embriaguez também pode ser considerada circunstância agravante genérica, prevista no art. 61, inciso II, alínea l, do Código Penal, nos casos em que o agente se embriaga com a finalidade de praticar delito.
Saiba Mais
Um interessante é a denominada teoria da actio libera in causa (ações livres da causa), segundo a qual leva-se em consideração, para fins de responsabilização penal, o momento da ingestão da substância e não da prática da conduta.
A referida teoria não foi recepcionada pela Constituição da República de 1988 (Art. 5º, LVII, CRFB/1988). Porém, ainda é citada em muitos livros de Direito Penal.
Potencial consciência da ilicitude
A potencial consciência da ilicitude compreende a percepção do agente acerca da ilicitude do fato por ele praticado e não pode ser confundido com o conhecimento da lei pelo agente.
O desconhecimento da lei é inescusável, logo o que se questiona aqui não é a relação de contrariedade entre a conduta e o ordenamento jurídico, mas se o agente possui capacidade de discernimento e autodeterminação para compreender essa relação.
Exemplo
Vejamos, por exemplo, o agente que viaja à Bolívia e lá compra 20 caixas de chá de coca industrializado para trazer ao Brasil a fim de brincar com amigos. Ele sabe que existe a conduta criminosa de tráfico ilícito de drogas e o que se questiona, nesse caso, é se ele teve capacidade para compreender se sua conduta estaria caracterizada ou não como tráfico. Essa falsa percepção da realidade denomina-se erro de proibição e será por nós estudada na próxima aula.
Exigibilidade de conduta diversa
O último elemento que compõe a culpabilidade como requisito do conceito analítico de crime contempla a exigibilidade de conduta diversa, ou seja, a possibilidade de exigir-se do agente que, no caso concreto, atue em conformidade com o ordenamento jurídico.
Em outras palavras, esclarece Fernando Capez que a exigibilidade de conduta diversa consiste na “expectativa social de um comportamento diferente daquele que foi adotado pelo agente” (CAPEZ, Fernando, op.cit. p. 352).
Para que possamos identificá-lo se faz necessário analisar suas causas excludentes, ou seja, as situações que ensejam a inexigibilidade de uma conduta diversa por parte do agente diante do caso concreto, a saber: coação moral irresistível e obediência hierárquica (art.22, do Código Penal).
Coação Moral Irresistível
Quando estudamos o fato típico e, especificamente a conduta, vimos que a coação física absoluta excluiria a própria conduta do agente coagido, na medida em que este se transformara em mero instrumento de execução da conduta do coator.
Aqui, a nossa indagação recai sobre a irresistibilidade da coação moral para fins de exclusão da culpabilidade do agente, pois este pratica a conduta típica e ilícita, já que tem a percepção de que não possui outra opção em decorrência da coação psíquica sofrida decorrente de grave ameaça, entretanto ainda possui sua capacidade volitiva, ainda que ínfima.
Vejamos, por exemplo, a situação na qual um indivíduo tem seu filho sequestrado. Sob ameaça de não retornar a vê-lo, se sente obrigado a subtrair vultosa quantia da agência bancária na qual trabalha como gerente.
Nesse caso, ele tem a percepção de que pratica um crime, todavia não vislumbra outra opção para salvar seu filho que não a prática do delito, bem como não há que se cogitar da existência de uma expectativa social de que ele atue de forma diversa. Dessa forma, ainda que a conduta seja típica e ilícita, não será considerada culpável por inexigibilidade de conduta diversa.
Obediência Hierárquica
Essa causa de exclusão de culpabilidade funda-se na prática de uma conduta por um agente público em obediência à ordem de superior hierárquico que não seja manifestadamente ilegal (art.22, do Código Penal).
Desse conceito podemos extrair os seguintes requisitos:
Necessidade de relação de direito público na qual haja hierarquia funcional;
Que a ordem emanada pelo superior hierárquico não seja manifestadamente ilegal, ou seja, aquela situação na qual o subordinado acredite que a ordem seja legal.
Atenção
Em ambos os casos poderemos indagar acerca da responsabilidade penal do agente coator ou do superior hierárquico, ou seja, a responsabilização penal pela conduta praticada será do coator ou do superior hierárquico.
No caso do coator, também será aplicada a sanção pela coação (constrangimento ilegal) além da conduta praticada pelo coagido, acrescida da agravante genérica prevista no art.62, inciso II, do Código Penal.
Em relação ao superior hierárquico, este será responsabilizado pela conduta praticada pelo subordinado acrescida circunstância agravante genérica prevista no art.62, inciso III, do Código Penal.
Atividade
1 - Leia a notícia transcrita abaixo e responda às questões formuladas:
Homem é morto em briga por uma dose de pinga e suspeito é preso
Crime aconteceu na madrugada desta quarta-feira, em Aquidauana, MS.
Preso confessou o homicídio.
Um homem de 53 anos foi morto na madrugada desta quarta-feira (24), em Aquidauana, a 131 quilômetros de Campo Grande, durante briga por causa de uma dose de pinga. Segundo informações do boletim de ocorrência, o crime aconteceu no bairro Alto, perto da rodoviária do município. Testemunhas falaram sobre o suspeito e como ele é conhecido da Polícia Militar (PM), policiais foram até a casa dele. O suspeito, de 35 anos, foi encontrado na residência dele e confessou o crime. Ele disse aos policiais que brigou com a vítima por causa da dose de pinga e que deu três golpes com uma tampa de metal na cabeça dela. O caso foi registrado como homicídio.
Disponível aqui. Atualizado em: 24/08/2016 09h30
Indaga-se:
A partir dos estudos sobre culpabilidade, caso o agente estivesse embriagado, seria aplicável a tese defensiva de exclusão de punibilidade?
Responda de forma objetiva e fundamentada.
GABARITO O caso concreto narrado será utilizado como disparador da identificação das espécies de embriaguez e consequências penais. Caso ele tivesse se embriagado de forma voluntária no bar, não seria possível a exclusão de sua responsabilidade penal, na medida em que a lei expressamente prevê a exclusão da pena somente nos casos de embriaguez acidental (oriunda de caso fortuito ou força maior), desde que a embriaguez seja completa (art.28, §1º, do Código Penal). Ainda, cabe salientar, que a conduta de homicídio seria qualificada pelo motivo fútil, previsto no art.121, §2º, II, do Código Penal, pois o motivo determinantedo crime, a briga decorrente da dose de pinga, seria considerada frívola, bem como daria ensejo à aplicação dos institutos repressores da lei de crimes hediondos. Os crimes hediondos são tipificados no Código Penal e previstos no art.1º, da lei nº 8072/1990, e crimes equiparados a hediondos são aqueles previstos no art.2º, da lei nº 8072/1990 e estão tipificados na legislação penal especial. O referido rol é taxativo e prevalece o princípio da legalidade.
Atividade
2 - A coação física irresistível e a coação moral irresistível afastam respectivamente a:
Culpabilidade e tipicidade
Tipicidade e culpabilidade
Tipicidade e ilicitude
Ilicitude e tipicidade
GABARITO A questão versa sobre a distinção entre as causas excludentes de tipicidade e culpabilidade na medida em que é necessário reconhecer que na coação física irresistível não há conduta por parte do coagido, enquanto na coação moral irresistível o agente pratica a conduta por falta de opção em decorrência da coação.
Atividade
3 - (Concursos) Walter, ao chegar à casa de sua namorada Amélia, a encontra abraçada a outro homem. Ao ver a cena é dominado pelo ciúme e desfere um soco no irmão de Amélia. Surpreendido pelo pai de Amélia, é levado por este à Delegacia de Polícia. Lá chegando, Walter alega em sua defesa não ser responsável pelos seus atos, pois havia bebido um pouco antes de encontrar sua namorada e como não estava acostumado a beber perdeu o controle sobre seus atos. Diante do caso exposto assinale a alternativa correta. A defesa de Walter está:
Correta, pois a sua embriaguez foi culposa, logo sua imputabilidade será excluída.
Correta, pois a sua embriaguez foi acidental, logo sua imputabilidade será excluída.
Incorreta, pois ainda que a sua embriaguez tenha sido culposa, foi incompleta, logo não terá sua imputabilidade excluída.
Incorreta, pois ainda que a sua embriaguez tenha sido acidental, foi incompleta, logo não terá sua imputabilidade excluída.
GABARITO A questão trata dos requisitos para a exclusão de culpabilidade em decorrência da embriaguez, a saber: que ela seja acidental (oriunda de caso fortuito ou força maior) e também completa, ou seja, que o agente perca a capacidade de discernimento e autodeterminação.
Atividade
4 - (Concursos) Canguçu, com 40 anos de idade, ao chegar em casa solicita que sua mulher Lucinda pegue um remédio para sua indisposição estomacal e outro para sua pressão arterial, indo deitar-se no quarto do casal com as luzes apagadas. Lucinda, embora acostumada a preparar os dois remédios para Canguçu, por equívoco, acaba dando para este ingerir um remédio que é utilizado para depressão e outro para emagrecimento.
Cerca de 30 minutos depois de ingerir os remédios, Canguçu começa a ter alucinações e acaba agredindo sua sogra Armanda com um soco no rosto, provocando-lhe lesões corporais graves. É comprovado que Canguçu não possuía, ao tempo da agressão em sua sogra, a plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento, justamente em razão da embriaguez provocada pelos remédios. É correto afinar que Canguçu:
Terá excluída a culpabilidade em razão da embriaguez acidental e completa.
Poderá ter a sua pena reduzida em razão da embriaguez acidental e incompleta.
Terá excluída a culpabilidade em razão da embriaguez culposa e completa.
Poderá ter a sua pena reduzida em razão da embriaguez culposa e incompleta.
GABARITO Os requisitos para a exclusão de culpabilidade em decorrência da embriaguez são: que ela seja acidental (oriunda de caso fortuito ou força maior) e também completa, ou seja, que o agente perca a capacidade de discernimento e autodeterminação.
Aula 10
Introdução Nesta aula, reconheceremos as Teorias acerca do Erro, bem como estabeleceremos seus conceitos. Para tanto, analisaremos as espécies de Erro, conforme sejam essenciais ou acidentais, escusáveis ou inescusáveis. Ainda, distinguiremos Erro de Tipo e Erro de Proibição e seus efeitos jurídico-penais.
Conceitos
O erro ou falsa percepção da realidade acerca de uma conduta praticada poderá recair desde os elementos constitutivos do tipo penal ou sobre a ilicitude da conduta praticada pelo agente.
No primeiro caso, estamos diante do denominado Erro de Tipo. No segundo, Erro de Proibição.
Como fazer a distinção entre os Erros?
Para que possamos identificar a distinção entre eles, vamos considerar as seguintes narrativas:
Narrativa 1
Jonas, estudante de curso preparatório para concurso na área jurídica, ao sair da aula de revisão em um sábado, leva o Código Penal de um colega de sala acreditando ser o seu. Nesse caso, a conduta de Jonas se encontra descrita na figura típica do furto, pois subtraiu coisa alheia móvel. Todavia, ele somente o levou pois acreditava ser o seu Código. Aqui, a falsa percepção da realidade recaiu sobre elemento constitutivo do tipo penal, logo caracterizando o Erro de Tipo.
Sobre a narrativa, veja os art. 20, caput, e 155, do Código Penal.
Erro sobre elementos do tipo
CP. art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei.
CP. Furto
Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Narrativa 2
Cláudio contratou com Nunes o serviço de conserto de quatro aparelhos de computador, sendo um notebook. Um mês após concluído o trabalho, Nunes continua devendo a quantia de R$1.500,00 a Cláudio que decide ir à empresa de Nunes, sem o conhecimento deste, buscar o notebook como forma de pagamento. Dessa forma, a conduta de Cláudio encontra-se descrita no tipo penal de exercício arbitrário das próprias razões, tendo ele agido sob Erro de Proibição.
Sobre a narrativa, veja os art. 21 e 345, do Código Penal
Erro sobre a ilicitude do fato
CP, art. 21 - O desconhecimento da lei é inescusável. O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço.
Exercício arbitrário das próprias razões
CP, art. 345 - Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite:
Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência.
Atenção
ERRO DE TIPO: Art. 20, CP
ERRO DE PROIBIÇÃO: Art.21, CP
Após identificarmos as principais distinções entre Erro de Tipo e Erro de Proibição, identificaremos suas características e consequências jurídicas.
Erro de Tipo
Conceito
No Erro de Tipo, a falsa percepção da realidade recai sobre elementos constitutivos do tipo penal.
Espécies
De acordo com a classificação do erro, suas consequências penais irão desde a exclusão da figura dolosa até a possibilidade de exclusão de responsabilidade penal.
Erro de Proibição
Conceitos
Art.21, CP. O desconhecimento da lei é inescusável.
O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço.
Parágrafo único - Considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência. Para fins de exemplificação, vejamos a seguinte narrativa:
Atenção: Descriminantes Putativas
As descriminantes putativas encontram-se previstas no art.20, §1º, do Código Penal, e o referido erro ocorre quando o agente supõe, equivocadamente, estar agindo acobertado por uma causa excludente de ilicitude, ou seja, tem a falsa percepção da realidade de que seu comportamento seja lícito.
Para fins de exemplificação, vejamos trecho de questão formulada para o concurso de ingresso no Ministério Público do Estado da Bahia, realizado em 2010, cujo gabarito oficial versava sobre a caracterização das descriminantes putativas fáticas:
Um dos temas mais delicados da dogmática criminal é o Erro. Vejamos, a propósito, o seguinte exemplo da nossa jurisprudência:
“Inspetor de quarteirão que, supondo injusta agressão de multidão que fugindo da polícia corria em sua direção, sacarevólver e atira para o alto projetil que vem acertar menor que se encontrava postado na sacada de apartamento, provocando a sua morte.”
Atenção
Sobre o tema, vide o disposto no art.20, §1º, do Código Penal:
Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei.
Descriminantes putativas
§ 1º - É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é punível como crime culposo.
Importante destacar que, segundo a teoria limitada da culpabilidade, adotada pelo Código Penal, a natureza jurídica das descriminantes putativas será analisada através dos seguintes requisitos:
· Quando o erro recair sobre os pressupostos fáticos, será caracterizado como Erro de Tipo Permissivo;
· Quando o erro recair sobre os limites autorizadores, há Erro de Proibição Indireto.
Vejamos as espécies e suas consequências:
ERRO ESSENCIAL E ACIDENTAL O Erro Essencial recai sobre elementos do tipo penal, enquanto o Erro Acidental recai sobre dados acessórios do tipo penal (pessoa ou coisa) e, portanto, é irrelevante para fins penais. Suponhamos o indivíduo que furte uma bolsa de cosméticos por acreditar tratar-se de uma bolsa contendo joias. Para a caracterização do delito de furto é irrelevante se tratam-se de cosméticos ou joias. Logo, a responsabilização penal será inalterada
Atenção: Podemos concluir que o Erro de Tipo Essencial sempre exclui o dolo. Sobre o Erro Essencial, vejamos o disposto no art.20, caput, do Código Penal. Erro sobre elementos do tipo Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei.
ERRO ESCUSÁVEL E INESCUSÁVEL Essa classificação tem relevância para que a conduta do agente seja responsabilizada a título de culpa ou haja a exclusão da tipicidade penal. Vejamos a distinção entre Erro Vencível e Invencível. O erro será invencível ou escusável quando, apesar ter agido com os cuidados e atenção exigíveis ao caso concreto, o agente atuar em erro. Esse erro afasta o dolo e a culpa e, portanto, a conduta será considerada atípica. Por outro lado, quando o erro for vencível, evitável ou inescusável, apenas será afastado o dolo e a conduta será responsabilizada a título culposo se a figura típica previr a modalidade culposa. Suponhamos que Arnaldo, caminhoneiro, ao parar em um determinado posto de gasolina em uma de suas viagens a trabalho conheça Ludmila, jovem morena e extremamente atraente e contrate seus serviços de natureza sexual. Posteriormente, ele é surpreendido como indiciado em um inquérito policial pela suposta prática de favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança ou adolescente ou de vulnerável (art.218.B, §2º, I, do Código Penal), crime hediondo. Nesse caso, a possível tese defensiva de Arnaldo será a caracterização de Erro de Tipo, sob o argumento de que acreditava que Ludmila, em decorrência de seus atributos físicos fosse maior de 18 anos. Caso consideremos o Erro Vencível, ainda assim não subsistirá responsabilização penal, haja vista a figura típica não admitir a modalidade culposa. Art. 218-B. Submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém menor de 18 (dezoito) anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone. Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos. § 2o Incorre nas mesmas penas: I - quem pratica conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém menor de 18 (dezoito) e maior de 14 (catorze) anos na situação descrita no caput deste artigo; Ainda, como espécies de Erro de Tipo podemos citar o Erro determinado por terceiro (art. 20, §2º, Código Penal) e o Erro sobre a pessoa (art.20, §3º, Código Penal).
ERRO DETERMINADO POR TERCEIRO Essa forma de erro decorre da interferência de uma terceira pessoa capaz de fazer com que o agente atue em erro. Suponhamos que um oficial de justiça em cumprimento a um mandado de busca e apreensão, ao tentar realizar a apreensão de um veículo automotor, seja empurrado e xingado por alguém que acredite estar evitando um furto, pois seu vizinho, o “devedor”, pediu sua ajuda para impedir que um ladrão levasse seu carro. Nesse caso, o erro foi determinado por seu vizinho e, conforme dispõe o art. 20, §2º, do Código Penal, sendo o erro invencível, somente será responsabilizado pelo delito de resistência, o “devedor” que induziu o vizinho a erro. CP. art.20, § 2º, - Responde pelo crime o terceiro que determina o erro. CP. art. 329 - Opor-se à execução de ato legal, mediante violência ou ameaça a funcionário competente para executá-lo ou a quem lhe esteja prestando auxílio: Pena - detenção, de dois meses a dois anos. § 2º - As penas deste artigo são aplicáveis sem prejuízo das correspondentes à violência.
ERRO SOBRE A PESSOA No Erro sobre a pessoa, a falsa percepção da realidade recai sobre a pessoa contra a qual a conduta do agente deva ser praticada e, nesse caso, conforme preceitua o disposto no art.20, §3º, do Código Penal, deverão ser consideradas as características e condições da pessoa cuja conduta visava atingir e não as da que realmente teve o bem jurídico lesionado. Para fins de exemplificação, vejamos questão de concurso para Analista Judiciário, TRF - 4ª Região, aplicada em 2014, na qual o gabarito oficial versava sobre a caracterização do Erro sobre a pessoa: Com uma velha espingarda, o exímio atirador Caio matou seu próprio e amado pai Mélvio. Confundiu-o de longe ao vê-lo sair sozinho da casa de seu odiado desafeto Tício, a quem Caio realmente queria matar. Ao morrer, Mélvio vestia o peculiar blusão escarlate que, de inopino, tomara emprestado de Tício, naquela tão gélida quanto límpida manhã de inverno. O instituto normativo mais precisamente aplicável ao caso é, doutrinariamente, conhecido como: Atenção. Distinção entre Erro sobre a Pessoa e Erro de Execução Interessante salientar que, pode o agente atuar com Erro de Execução, ou seja, o agente não se equivoca em relação ao agente ao qual pretende lesionar algum bem jurídico. Todavia, ao realizar os atos executórios para tal fim, atinge pessoa diversa da pretendida. Nesse caso, por expressa determinação do art.73, do Código Penal aplicar-se-á o mesmo raciocínio aplicável ao Erro sobre a pessoa. Tal erro é denominado pela doutrina de aberratio ictus.
Ainda, caso em decorrência do Erro de Execução, também seja atingida a vítima visada, será responsabilizado pelos dois resultados (crimes) em decorrência da caracterização do concurso formal de crimes, previsto no art.70, do Código Penal. Art. 73, CP. Quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o agente, ao invés de atingir a pessoa que pretendia ofender, atinge pessoa diversa, responde como se tivesse praticado o crime contra aquela, atendendo-se ao disposto no §3º do art. 20 deste Código. No caso de ser também atingida a pessoa que o agente pretendia ofender, aplica-se a regra do art. 70 deste Código.
Concurso formal de crimes: Ocorre quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não; ou seja, há unidade de conduta e pluralidade de resultados.
Atividades
1 - Leia a notícia transcrita abaixo e responda às questões formuladas:
Pai confunde filho sonâmbulo com ladrão e mata garoto em Ferreiros, PE
Comerciante acreditava que assaltante tinha invadindo a casa da família
Menino de 11 anos foi atingido por um tiro e não resistiu ao ferimento. Um comerciante matou o filho de 11 anos, acidentalmente, na madrugada desta quarta-feira (4), depois de confundi-lo com um assaltante no quintal de casa, na cidade de Ferreiros, Mata Norte de Pernambuco. A família afirmou à Polícia Civil que o garoto era sonâmbulo e os parentes confirmaram que ele tinha o hábitode acordar durante a noite. O menino foi atingido por um tiro no abdômen disparado pelo pai, de 35 anos. Ele não resistiu ao ferimento e morreu. A família já havia sofrido outras tentativas de assalto à residência.
Ainda segundo a polícia, a mãe do garoto acordou por volta da 0h30 e ouviu barulhos vindos da cozinha de casa, que passa por reformas e está sem porta. O pai dele levantou-se e pediu em voz alta para que a pessoa se identificasse. Como não obteve resposta, voltou ao quarto e pegou a arma de fogo. Já no quintal, o homem não conseguiu identificar a criança e, acreditando se tratar de um ladrão, efetuou um disparo com um revólver calibre 38. A arma estava com a numeração correta, mas o comerciante não tinha o registro de posse.
De acordo com o delegado Pedro Santana, o comerciante deve ser indiciado por homicídio culposo (quando não há intenção de matar). “A família disse que a criança era sonâmbula, mas agora não será possível afirmar, com certeza, o sonambulismo. O principal é que ele não teve a intenção de matar o filho, foi uma coisa fatídica. Ele não sabia nem em quem estava atirando”, explicou, acrescentando que o crime pode ser enquadrado como legítima defesa putativa (onde o suspeito imagina estar reagindo contra uma agressão que não existe).
Conforme as investigações, após o pai efetuar o disparo, o garoto respondeu, se identificando. Ao perceber que se tratava do filho, o homem entrou em desespero e levou o garoto em um carro até uma unidade de saúde local, onde foram realizados os primeiros socorros. Por causa da gravidade do ferimento, o menino precisou ser transferido para o Hospital Municipal de Timbaúba, na mesma região, mas morreu no caminho.
O comerciante foi detido e levado para a Delegacia de Nazaré da Mata, onde prestou depoimento. A mãe do garoto e outros três vizinhos também foram ouvidos. A Delegacia de Ferreiros ficará responsável pelas investigações e o corpo da criança foi levado para o Instituto de Medicina Legal (IML), no Recife. Ainda não há informações sobre o enterro.
Disponível em: //g1.globo.com/pernambuco/noticia/2013/09/pai-confunde-filho-sonambulo-com-ladrao-e-mata-garoto-em-ferreiros-pe.html
a) Qual a espécie de erro aplicável?
GABARITO Nesse caso, o comerciante atuou em Erro de Tipo, pois acreditava tratar-se do assaltante e não de seu filho. Ainda, podemos identificar como erro sobre a pessoa, previsto no art.20, §3º, do Código Penal, segundo o qual, nesse caso, não se consideram as condições ou qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem o agente queria praticar o crime. Entretanto, por ser o erro inescusável ou vencível restará excluída a figura dolosa do homicídio, sendo possível a responsabilização penal a título de culpa, pois a figura típica prevê a modalidade culposa.
2 - Motorista que, em estacionamento, se apodera de veículo pertencente a terceiro supondo-o seu, em decorrência de absoluta semelhança entre os automóveis, incide em:
Erro na Execução
Erro de Proibição
Erro de Tipo
Crime Impossível
Erro determinado por terceiro
3 - (Concurso) Eslow, holandês e usuário de maconha, que nunca antes havia feito uma viagem internacional, veio ao Brasil para a Copa do Mundo. Assistindo ao jogo Holanda x Brasil decidiu, diante da tensão, fumar um cigarro de maconha nas arquibancadas do estádio. Imediatamente, os policiais militares de plantão o prenderam e o conduziram à Delegacia de Polícia. Diante do Delegado de Polícia, Eslow, completamente assustado, afirma que não sabia que no Brasil a utilização de pequena quantidade de maconha era proibida, pois, no seu país, é um habito assistir a jogos de futebol fumando maconha. Sobre a hipótese apresentada, assinale a opção que apresenta a principal tese defensiva.
Eslow está em Erro de Tipo Essencial Escusável, razão pela qual deve ser absolvido.
Eslow está em Erro de Proibição Direto Inevitável, razão pela qual deve ser isento de pena.
Eslow está em Erro de Tipo Permissivo Escusável, razão pela qual deve ser punido pelo crime culposo.
Eslow está em Erro de Proibição, que importa em crime impossível, razão pela qual deve ser absolvido.
Eslow não deverá ser responsabilizado criminalmente porque agiu sob obediência hierárquica.
4 - (Concursos) Jorge pretendia matar sua irmã, Ana, para passar a ser o único beneficiário de herança que ambos receberiam. No dia do crime, Jorge fica à espreita enquanto Ana sai da garagem em seu carro. Ocorre que, naquele dia não era Ana que estava ao volante, como ocorria diariamente, mas sim seu namorado. Ana se encontrava no banco do carona. Jorge sabia que sua irmã sempre dirigia seu próprio carro e, assim, tinha certeza de que estaria mirando a arma na direção de Ana, ainda que não conseguisse enxergar o interior do veículo devido aos vidros escuros. Jorge atira no veículo, mas o projétil atinge o namorado de Ana, que vem a falecer. É correto afirmar que Jorge praticou:
O crime de tentativa de homicídio doloso qualificado contra Ana e de homicídio culposo contra o namorado de Ana.
Apenas um crime de homicídio doloso qualificado, mas não incidirá na hipótese a circunstância agravante em razão de ser Ana sua irmã, uma vez que foi o namorado desta última quem veio a falecer.
O crime de tentativa de homicídio doloso qualificado contra Ana e de homicídio qualificado contra o namorado de Ana.
Apenas um crime de homicídio doloso qualificado, e a pena a ser aplicada ainda será agravada pelo fato de Ana ser sua irmã.
Apenas o crime de homicídio culposo contra o namorado de Ana.

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