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Gilberto Cotrim 2 História GlobalGlobal MANUAL DO PROFESSOR COMPONENTE CURRICULAR HISTîRIA 2º ANO ENSINO MÉDIO HISTORIA GLOBAL 2 - capa professor.indd 3 09/05/16 11:21 MARCOS Nota parei na página 47 2 Gilberto Cotrim Bacharel em História pela Universidade de São Paulo (USP) Licenciado em História pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie Professor de História na rede particular de ensino Advogado História Global 3ª- edição São Paulo, 2016 Componente CurriCular HISTÓRIA 2º ano EnSIno mÉdIo Manual do Professor 001a007_INICIAIS_HISTGLOBAL2_PNLD1.indd 1 5/17/16 10:47 AM Diretora editorial Lidiane Vivaldini Olo Gerente editorial Luiz Tonolli Editor responsável Kelen L. Giordano Amaro Editores Luciana Martinez, Ana Pelegrini, Carlos Eduardo de Almeida Ogawa Editor assistente Adele Motta Assessoria técnico-pedagógica Gabriel Farias Rodrigues, Giordana Cotrim Gerente de produção editorial Ricardo de Gan Braga Gerente de revisão Hélia de Jesus Gonsaga Coordenador de revisão Camila Christi Gazzani Revisores Carlos Eduardo Sigrist, Cesar G. Sacramento, Luciana Azevedo, Sueli Bossi Produtor editorial Roseli Said Supervisor de iconografia Sílvio Kligin Coordenador de iconografia Cristina Akisino Pesquisa iconográfica Daniela Ribeiro, Angelita Cardoso Licenciamento de textos Erica Brambila, Paula Claro Coordenador de artes José Maria de Oliveira Capa Carlos Magno Design Luis Vassalo Edição de arte Carlos Magno Diagramação Estúdio Anexo Assistente Bárbara de Souza Cartografia Sidnei Moura, Studio Caparroz Tratamento de imagens Emerson de Lima Protótipos Magali Prado 077642.003.001 Impressão e acabamento O material de publicidade e propaganda reproduzido nesta obra está sendo utilizado apenas para fins didáticos, não representando qualquer tipo de recomendação de produtos ou empresas por parte do(s) autor(es) e da editora. História Global, 2o ano (Ensino Médio) © Gilberto Cotrim Direitos desta edição: Saraiva Educação Ltda., São Paulo, 2016 Todos os direitos reservados Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Cotrim, Gilberto História global 2 / Gilberto Cotrim. -- 3. ed. -- São Paulo : Saraiva, 2016. Obra em 3 v. Suplementado pelo manual do professor. Bibliografia. ISBN 978-85-472-0567-6 (aluno) ISBN 978-85-472-0568-3 (professor) 1. História (Ensino médio) I. Título. 16-03506 CDD-907 Índices para catálogo sistemático: 1. História : Ensino médio 907 Avenida das Nações Unidas, 7221 – 1º andar – Setor C – Pinheiros – CEP 05425-902 Pedestres caminham na região do Pelourinho, em Salvador, Bahia. Fotografia de 2013 de Sérgio Pedreira (Pulsar Imagens). 2 001a007_INICIAIS_HISTGLOBAL2_PNLD1.indd 2 5/17/16 10:48 AM Esta obra apresenta uma visão geral de alguns con- teúdos históricos sobre diversas sociedades e culturas, com destaque para aqueles sobre o Brasil. A proposta é convidá-lo a refletir sobre o fazer histórico e dele parti- cipar ativamente. Nos vários percursos desta obra, foi realizada uma seleção de temas e interpretações históricas. No entan- to, outros caminhos podem ser trilhados. Por isso, este livro deve ser debatido, questionado e aprimorado por suas pesquisas. Espero que, ao estudar História, você possa am- pliar a consciência do que fomos para transformar o que somos. O autor Caro estudante 3 001a007_INICIAIS_HISTGLOBAL2_PNLD1.indd 3 5/17/16 10:48 AM Abertura de unidade Apresenta texto e imagem, sempre acompanhada de legenda, que conversam com temas abordados nos capítulos da unidade, por vezes estabelecendo relações entre o passado e o presente. As atividades da seção Conversando dialogam com o tema da abertura, muitas vezes trabalhando os conhecimentos prévios e as vivências dos estudantes. Abertura de capítulo Procura atrair a atenção dos estudantes para o tema histórico que será estudado. Apresenta um breve texto que sintetiza o conteúdo do capítulo, uma imagem acompanhada de legenda e a seção Treinando o olhar, que propõe atividades de leitura da imagem, muitas vezes estabelecendo relações com História da Arte. Conheça o livro Vendedores de capim e de leite, obra de Jean-Baptiste Debret, produzida entre 1834 e 1839. Na imagem, um escravo, à esquerda, carrega um pesado feixe de capim-de- -angola, que era muito utilizado para alimentar os cavalos no Brasil Colonial. À direita, três escravos vendem leite, bebida amplamente consumida com café e chá. UNIDADE 1 O trabalho é uma atividade típica do ser hu- mano e está profundamente ligado à história de cada sociedade. Por meio dele, construímos culturas, produzindo bens materiais e não ma- teriais. No entanto, o trabalho também pode ser fonte de castigo e sofrimento. No Brasil Colônia, milhões de africanos, afro- descendentes e indígenas foram submetidos à escravidão, que é uma das formas mais extremas de exploração humana. Mas eles resistiram a esta dominação e se rebelaram de vários modos. A presença dos africanos e indígenas foi de- cisiva na construção do Brasil. Eles produziram saberes, artes e ofícios que estão presentes na cultura brasileira. A escravidão foi abolida, mas a cidadania precisa ser ampliada. 1. “O trabalho está associado a ter, ser e valer.” Reflita sobre essa frase e procure explicar por que, no Brasil atual, existem alguns trabalhos que têm mais prestígio social do que outros. 2. Qual profissão você quer ter no futuro? Procure explicar os motivos de sua escolha. Trabalho e sociedade JE A N -B A PT IS TE D EB RE T. VE N D ED O RE S D E C A PI M E D E LE IT E. 1 83 4- 18 39 /C O LE Ç Ã O P A RT IC U LA R 8 9 Revolução Francesa e Era Napoleônica Liberdade, igualdade e fraternidade foram princípios da Revolução Francesa, que se difundiram pelo mundo como bandeira de vários movimentos sociais. Será que esses princípios tornaram-se direitos conquistados ou permanecem como objetivos a serem atingidos? • Observando essa obra, é possível notar a presença dos vários grupos sociais que atuaram na Revolução Francesa? Justifique. A guarda nacional de Paris em armas em setembro de 1792. Óleo sobre tela, de Léon Cogniet, 1834. Pertence ao acervo do Museu Nacional do Palácio de Versalhes, na França. C O G N IE T LÉ O N . L A G A RD E N A TI O N A LE D E PA RI S, R A SS EM BL ÉE S U R LE P O N T N EU F, PA RT P O U R L’ A RM ÉE E N S EP TE M BR E 17 92 . 1 83 3- 18 36 . 133CAPÍTULO 11 Revolução Francesa e Era Napoleônica CAPÍTULO 11 sabotavam a produção, quebrando ferramentas ou incendiando plantações. Na produção do açúcar, por exemplo, a sabotagem dos escravos era uma ameaça constante. Pedaços de madeira em brasa lançados nos canaviais provocavam incêndios; pedaços de ossos, ferro ou pedra jogados na moenda do engenho por vezes inutilizavam o maquinário, comprometendo a produção e até mesmo arruinando a safra. • Negociações – as “negociações” entre senhores e escravos também faziam parte do cotidiano escravis- ta. Segundo os historiadores João José Reis e Eduardo Silva, muitos escravos faziam acordos de cumprir as exigências de obediência e trabalho em troca de um melhor padrão de sobrevivência (alimentos, vestuá- rios, saúde) e da conquista de espaço para a expressão de sua cultura, organização de festas etc.5 Luta dos africanos As diversas formas de resistência à escravidão Os africanos trazidos para o Brasil e seus des- cendentes não ficaram passivos à condição escrava. Analisando as formas de resistência empregadas pe- los cativos, autores de obras mais recentes mostramque os africanos reagiram à escravidão na medida de suas possibilidades, ora promovendo uma luta aberta contra o sistema, ora até mesmo se “adaptando” a certas condições, mas propondo formas de minimizar seus aspectos mais perversos mediante negociações com os senhores. Vejamos algumas das formas de resistência viven- ciadas por eles: • Violência contra si mesmos – algumas mulheres, por exemplo, provocavam abortos para evitar que seus filhos também fossem escravos; outros cativos chegavam a praticar o suicídio, enforcando-se ou envenenando-se. • Fugas individuais e coletivas – as fugas eram constantes. Alguns escravos fugidos buscavam a pro- teção de negros livres que viviam nas cidades; outros, para dificultar a captura e garantir a subsistência, formavam comuni- dades, chamadas quilombos, com organização social própria e uma rede de alianças com di- versos grupos da sociedade. • Confrontação, boicote e sabota- gem – alguns se rebelavam e agiam com violência contra senhores e fei- tores; boicotavam os trabalhos, redu- zindo ou paralisando as atividades; 5 Cf. REIS, João José; SILVA, Eduardo. Negociação e conflito. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. Quilombo: palavra de origem africana que significa população, união. Comunidade remanescente de quilombo Kalunga Vão do Moleque durante um festejo. A comunidade está localizada no município de Cavalcante (GO). Fotografia de 2015. R IC A R D O T E L E S /P U L S A R I M A G E N S Investigando � No mundo atual, existem casos de trabalhadores submetidos a condições análogas à de escravidão. Que mecanismos podem ser acionados para acabar com essa situação de violência? Há organizações e projetos que combatem o trabalho escravo em nosso país? Pesquise. 50 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade • Observe o mapa e identifique em quais dos atuais estados se concentrou a criação de gado, contribuindo para o seu povoa- mento durante o século XVIII. Observar o mapa Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: MEC/Fename, 1986. p. 32. S ID N E I M O U R A Expansão territorial provocada pela pecuária (século XVIII) Investigando • Você consome leite e seus derivados? Observe a embalagem desses alimentos e responda: em que cidade são produzidos? Quais são os principais nutrientes encontrados no leite? A propósito da importância da produção de couro no período da expansão da pecuária, o historiador Capistrano de Abreu (1853-1927) fala da existência de uma “época do couro”: De couro era a porta das cabanas, o rude leito aplicado ao chão duro, e mais tarde a cama para os partos; de couro todas as cordas, a borracha para carregar água, o mocó ou alforje para levar comida, a maca para guardar roupa, a mochila para milhar cavalo, a peia para prendê-lo em viagem, as bainhas de faca, [...] surr›es, a roupa de entrar no mato [...]. ABREU, Capistrano de. Capítulos de história colonial. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1988. p. 170. Posteriormente, por volta de 1780, surgiu a indústria do charque, que abriu no- vas possibilidades ao comércio da carne. Essa indústria desenvolveu-se rapidamente, impulsionada pelo crescente consumo. Suas instalações constituíam-se basicamente de um galpão, onde se preparava e salgava a carne, e de secadores ao ar livre. A produção de leite era pouco desenvolvida e estava longe de rivalizar com a existente em Minas Gerais. Em compensação, o sul, favorecido pelas baixas tem- peraturas, era a única região produtora e consumidora de manteiga. Além do gado bovino, foi significativa no Rio Grande do Sul a criação de cavalos e, principalmente, de mulas (muares). Muito exportadas para a região de Minas Gerais, as mulas tornaram-se importante meio de transporte nos terrenos acidentados e montanhosos das áreas mineradoras. Rio Amazo nas R io X in g u R io A ra g u ai a R io To ca n ti n s R io P ar naí ba Rio Ja gu ar ib e R io S ão Fra ncis co R io Je quitin hon ha R io Pa ranaíb a R io Pa ra ná Rio Iguaçu R io P ar ag u ai R io Para íba d o S ul R io U ru gu ai Rio Tietê Rio Grande Rio Negro Rio M ad ei ra Ri o Ta pa jó s Rio Japurá Rio Pu ru s R io Jacuí Rio Solimões 60º O 10º S Área de pecuária Limite atual do território brasileiro M er id ia n o d e To rd es ilh as 0 239 km OCEANO ATLÂNTICO OCEANO PACÍFICO Mocó: bolsa de tiracolo para guardar pequenas provisões. Alforje: saco duplo para transportar objetos. Peia: corda para prender o cavalo. Surrão: bolsa ou saco de couro usado para guar- dar alimentos. Charque: nome sulino da carne bovina cortada em mantas, salgada e seca ao sol (o mesmo que jabá ou carne-seca). 78 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade Glossário Pequenas notas explicam os significados de termos em destaque no texto. Textos e imagens Procuram organizar e promover alguns conhecimentos históricos. Os temas abordados devem ser investigados, debatidos e ampliados. As imagens complementam o texto principal e explicitam aspectos dele. Investigando As atividades deste boxe aproximam os temas históricos das vivências dos estudantes, promovendo a cidadania e o convívio solidário. Observar o mapa Esta seção apresenta atividades que trabalham a leitura dos mapas apresentados no capítulo. 4 001a007_INICIAIS_HISTGLOBAL2_PNLD1.indd 4 5/17/16 10:48 AM Interpretar fonte Esta seção propõe a análise de fonte histórica escrita ou não escrita, estimulando a interpretação e a reflexão. Procura aproximar os estudantes do ofício do historiador. Em destaque Esta seção apresenta textos que ampliam os assuntos estudados e/ou que apresentam diferentes versões históricas. Em muitos casos, os textos são acompanhados por imagens contextualizadas. Oficina de História Localizada ao final de cada capítulo, reúne diferentes tipos de atividades que visam promover a autonomia e o pensamento crítico dos estudantes. As atividades estão agrupadas em: Vivenciar e refletir – propõe atividades de pesquisa, experimentação e debate. Diálogo interdisciplinar – propõe atividades que realizam diálogos entre a História e outros componentes curriculares. De olho na universidade – apresenta questões de vestibulares de diferentes regiões do país e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). No último capítulo de cada unidade, o Para saber mais indica livros, sites e filmes relacionados a conteúdos trabalhados na unidade. As indicações são acompanhadas de atividades. Projeto temático Encontra-se ao final do volume e propõe atividades experimentais e/ou interdisciplinares, que trabalham com procedimentos de pesquisa. Pode ser desenvolvido no decorrer do ano e está relacionado a assuntos abordados ao longo do livro. este livro não é consumível. Faça todas as atividades em seu caderno. NÃO ESCREVA NO LIVRO FA‚A NO Oficina de História Vivenciar e refletir 1. Leia um trecho do documento chamado “Carta de Jamaica”, escrito por Simón Bolívar em 1815. Os acontecimentos de Terra Firme nos provaram que as instituições verdadeira- mente representativas não são adequadas ao nosso caráter, costumes e conhecimen- tos atuais. Em Caracas, o espírito de parti- do teve sua origem nas sociedades, assem- bleias e eleições populares, e estes partidos nos levaram à escravidão. Assim como a Venezuela tem sido a república america- na que mais tem aperfeiçoado suas insti- tuições políticas, também tem sido o mais claro exemplo da ineficácia da forma de- mocrática e federal para nossos nascentes Estados. [...] Enquanto nossos compatrio- tas não adquirirem os talentos e as vir- tudes políticas que distinguem os nossos irmãos do norte, temo que os sistemas inteiramente populares, longe de nos se- rem favoráveis, venham a ser nossa ruína. Infelizmente estasqualidades, na medida requerida, parecem estar muito distantes de nós; pelo contrário, estamos dominados pelos vícios que se contraem sob a direção de uma nação como a espanhola, que ape- nas se tem sobressaído em crueldade, am- bição, vingança e cobiça. BOLÍVAR, Simón. “Carta de Jamaica”. In: Simón Bolívar: política. São Paulo: Ática, 1983. p. 84. a) Pela leitura do texto, Bolívar era favorável à im- plantação de sistemas inteiramente populares na América Espanhola? Como Bolívar justifica sua posição? b) A quem Bolívar se refere com a expressão “ir- mãos do norte”? 2. No texto seguinte, a historiadora Maria Ligia Prado analisa as diferentes concepções de liberdade dos di- versos agentes que participaram das independências: Liberdade [...] não é um conceito en- tendido de forma única; tem significados diversos, apropriados também de formas particulares pelos diversos segmentos da Diálogo interdisciplinar 4. Observe acima a escultura Mão, do arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) e responda: a) Descreva a escultura, atentando-se para todos os detalhes. Procure responder: O que seria essa forma em vermelho que se encontra no meio da obra e vai até o chão? b) Segundo Niemeyer, “suor, sangue e pobreza marcaram a história desta América Latina tão desarticulada e oprimida. Agora urge reajustá-la num monobloco intocável, capaz de fazê-la inde- pendente e feliz”. (Disponível em: <http://www. memorial.sp.gov.br/memorial/AgendaDetalhe. do?agendaId=1897>. Acesso em: 10 dez. 2015.) Que relações podemos estabelecer entre essa frase e a escultura? Comente. c) Inspirado nas imagens do capítulo, crie uma re- presentação artística (desenho, música, escultu- ra, montagem com fotografias etc.) sobre a in- dependência das colônias espanholas e do Haiti. De olho na universidade 5. (UFJF) A respeito do processo de independência na América espanhola, é incorreto afirmar que: a) a invasão da Espanha pelas tropas napoleônicas levou à reorganização do comércio das colônias, favorecendo a desarticulação do pacto colonial e a implantação de práticas comerciais mais livres. b) a Inglaterra ofereceu apoio à independência das colônias espanholas, pois via na região uma pos- sibilidade de ampliação dos mercados para seus produtos industrializados. c) os índios lutaram contra a independência e para a manutenção do trabalho forçado, pois viam no sistema colonial a única maneira de preser- vação de suas atividades econômicas. d) os criollos pretendiam romper o exclusivo colo- nial, mas não pretendiam encaminhar uma alte- ração na estrutura social das colônias. e) a emergência de uma revolução liberal na Espa- nha dificultou o envio de tropas para as colô- nias, favorecendo o processo de independência. sociedade. Para um representante da classe dominante venezuelana, Simón Bolívar, li- berdade era sinônimo de rompimento com a Espanha, para a criação de fulgurantes nações livres que seriam exemplos para o resto do universo. Mas, principalmente, nações livres para comerciar com todos os países, livres para produzir, única pos- sibilidade, segundo essa visão, do desabro- char do Novo Mundo. Já para Dessalines, o líder da revolução escrava do Haiti [...], a liberdade, antes de tudo, queria dizer o fim da escravidão, mas também carregava um conteúdo radical de ódio aos opressores franceses. [...] Para outros dominados e oprimidos, como os índios mexicanos, a liberdade pas- sava distante da Espanha e muito próxima da questão da terra. Na década de 1810, os líderes da rebelião camponesa mexicana [...] clamavam por terra para os deserda- dos. Seus exércitos [...] lutaram para que a terra, inclusive a da Igreja, fosse dividida entre os pobres. PRADO, Maria Ligia. A formação das nações latino-americanas. São Paulo: Atual, 1997. p. 13-14. De acordo com a interpretação de Maria Ligia Pra- do, qual era o significado de “liberdade” para Simón Bolívar? E para Dessalines? E para os indígenas mexi- canos? Compare as diversas concepções e indique as semelhanças e as diferenças entre elas. 3. Pesquise em diferentes meios de comunicação imagens de um mesmo movimento popular. Apre- sente e debata com seus colegas a maneira como o movimento popular que você escolheu foi re- presentado em cada órgão de imprensa. Em segui- da, com base no que estudamos neste capítulo e nos anteriores, reflita sobre o seguinte tema: “Os papéis das elites dominantes (políticas e econô- micas) e dos movimentos populares nos processos históricos. Qual é a diferença?”. Depois, participe de um debate sobre o assunto, ou- vindo a opinião dos colegas e expressando a sua visão. Escultura Mão, de Oscar Niemeyer, localizada no Memorial da América Latina, em São Paulo (SP). Fotografia de 2009. G . E VA N G EL IS TA /O PÇ Ã O B RA SI L IM A G EN S Para saber mais Na internet • A história da energia: https://www.youtube.com/ watch?v=U3-OsY4C39o Vídeo-documentário da série Ordem e desordem, produzida pela BBC. Narra as descobertas e invenções relacionadas ao conceito de energia. Em grupos, elaborem um relatório sobre o vídeo destacando os usos e aplicações da energia a partir da Revolução Industrial. (Acesso em: 10 dez. 2015.) Nos livros • FORTES, Luiz R. Salinas. O Iluminismo e os reis filó- sofos. São Paulo: Brasiliense, 1993. Escrito por um filósofo brasileiro especialista no pensamento de Jean-Jacques Rousseau, o livro analisa os significados e o alcance do Iluminismo, bem como sua influência na política no século XVIII. Em grupos, elaborem um breve texto dissertativo relacionan- do as ideias de um pensador iluminista a um dos temas abor- dados nesta unidade. Nos filmes • Libertador. Direção de Alberto Arvelo. Venezuela/ Espanha, 2014, 123 min. Filme sobre a vida do líder militar e político Simón Bolívar. Assista ao filme procurando analisar algumas características atribuídas ao protagonista. Em seguida, debata com seus colegas: Simón Bolívar foi representado como um “herói nacional”? 158 159UNIDADE 2 Súdito e cidadão CAPÍTULO 12 Independências na América Latina O mural A Guerra da Independência do México foi criado pelo artista Diego Rivera em 1910. Em suas obras, Rivera procurava representar os indígenas e as pessoas mais pobres como protagonistas e não apenas como espectadores de sua história. Na parte superior do mural, há uma faixa com o lema “Tierra y Libertad” (Terra e Liberdade), que foi usado por camponeses e indígenas tanto nas lutas pela independência como na Revolução Mexica- na de 1910. Com isso, o artista estabeleceu relações entre as lutas do passado e as lutas de sua época. Na parte inferior do mural, há uma grande águia, que simboliza a fundação de Tenochtitlán. Essa cidade era sede do império asteca e sobre ela foi construída a atual Cidade do México. Interpretar fonte A Guerra da Independência do México Detalhe do afresco A Guerra da Independência do México, que se encontra no Palácio Nacional, na Cidade do México. T H E B R ID G E M A N A R T L IB R A R Y /K E Y S T O N E B R A S IL � Com suas palavras, explique a frase: “Rivera procurava representar os indígenas e as pessoas mais pobres como protagonistas e não apenas como espectadores de sua história”. 154 UNIDADE 2 Súdito e cidadão OCEANO ATLÂNTICO 50º O 10º S Em 1500 Em 2008 Atual divisão política do Brasil Limites atuais do Brasil 0 328 km Em destaque Devastação ambiental A devastação do meio ambiente começou cedo no território do país onde vivemos. Teve início com a extração de pau-brasil, logo nos primeiros anos de colonização. Como resultado da intensa extração, em poucas décadas o pau-brasil começou a escassear. O mesmo destino tiveram muitas árvores frutíferas, derrubadas sem preocupação com o replantio. Para a historiadora Laima Mesgravis, [...] o maravilhoso patrimônio da natureza, onde os índios viviam em harmonia com seu espaço e que tanto deslumbrou osprimeiros observadores, incentivou, até certo ponto, a crença da abundância fácil, sem trabalho, infindável. MESGRAVIS, Laima. O Brasil nos primeiros séculos. São Paulo: Contexto, 1989. p. 62. Atualmente, temos consciência de que, apesar de imensos, os recur- sos florestais brasileiros não são ines- gotáveis. Calcula-se que, em 1500, a mata Atlântica ocupava uma faixa de 1 milhão de quilômetros quadrados. Atualmente, restam apenas 8% dessa área, espalhados em matas que, em boa parte, se localizam em proprieda- des particulares. Estima-se que somente no século XVI tenham sido derrubados aproxi- madamente 2 milhões de árvores, de- vastando cerca de 6 mil quilômetros quadrados da mata Atlântica. Depois [da extração do pau- -brasil] vieram cinco séculos de queimada. A cana, o pasto, o café, tudo foi plantado nas cin- zas da Mata Atlântica. Dela saiu a lenha para os fornos dos en- genhos de açúcar, locomotivas, termelétricas e siderúrgicas. CORREIA, Marcos Sá. In: Veja. São Paulo: Abril, n. 51, 24 dez. 1997. p. 81. Suplemento Especial. Fonte: Mapas SOS Mata Atlântica. Disponível em: <http://mapas.sosma.org.br>. Acesso em: 27 out. 2015. Distribuição da mata Atlântica (1500-2008) S ID N E I M O U R A 1. De acordo com o texto, quais foram as principais consequências da exploração econômica indiscrimina- da realizada pelos europeus nas áreas litorâneas do Brasil? 2. Identifique, no mapa, as regiões que apresentavam áreas cobertas pela mata Atlântica em 1500 e as que não possuem mais essa cobertura. 14 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade Projeto temático Dimensões do trabalho 280 281 Nos projetos temáticos, vocês irão realizar atividades experimentais que problema- tizam a realidade e ajudam a pensar historicamente. O tema deste projeto é o trabalho e suas dimensões. Para desenvolvê-lo, propõe-se a elaboração de uma revista sobre as dimensões do trabalho no Brasil. Reúnam-se em grupos e leiam as orientações a seguir. 1. A revista deve contar com seis seções: capa, matéria, entrevista, charge, resenha de filme e editorial. 2. Utilizando as sugestões de pesquisa encontradas nas próximas páginas, redijam uma matéria (texto jornalístico) sobre um dos temas listados a seguir: • alguns marcos dos direitos trabalhistas no Brasil, como o surgimento da Consoli- dação das Leis Trabalhistas (CLT); • o ingresso dos jovens no mercado de trabalho – possibilidades e dificuldades; • as mulheres no mercado de trabalho; • formas de trabalho escravo no mundo contemporâneo; • a escolha da profissão e a construção da identidade. 4. Criem uma charge inspirando-se em uma cena de trabalho da sua cidade. 5. Escrevam uma resenha sobre um filme que aborde o tema do trabalho. Há diversas sugestões de vídeos e filmes nas páginas 282 e 283. Para elaborar a resenha: • apresentem uma ficha técnica do filme contendo título, local e ano de produção, diretor, atores principais, livro em que o roteiro se baseou (se for o caso), entre outras informações; • analisem como o mundo do trabalho foi representado no filme. Procurem obser- var elementos como personagens, cenários e trilha sonora, caso se trate de ficção, ou entrevistas e imagens de arquivo, se for um documentário. 6. Elaborem um editorial inspirando-se nas seguintes questões: • qual é a visão de vocês a respeito do mundo do trabalho?; • por que é importante refletir sobre o mundo do trabalho? 7. Criem uma capa com os seguintes elementos: nome da revista, manchete e imagem que atraia a atenção do leitor para um de seus conteúdos. 8. Montem a revista reunindo capa, editorial e miolo (matéria, entrevista, charge e resenha do filme). 9. Apresentem a revista aos colegas e expliquem o que vocês aprenderam com esse projeto. Feirante trabalhando na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 2006. IS A BE L SÓ /O PÇ Ã O B RA SI L IM A G EN S Três advogados se reúnem para examinar documentos. C A IA IM A G E/ G ET TY IM A G ES 3. Entrevistem uma pessoa adulta que já tenha alguma experiência no mercado de trabalho e explorem a compreensão da relação das pessoas com o mundo do trabalho. As perguntas abaixo podem ser utiliza- das como roteiro para a entrevista: • qual é seu nome, sua idade, sua nacionalidade e sua escolaridade?; • você trabalha ou já trabalhou? Com o quê? Você sempre quis trabalhar com isso?; • quando você começou a trabalhar? Por quê?; • você já ficou desempregado? Por quanto tempo? Como se sentiu nessa época?; • como costuma passar seu tempo livre? Gostaria de ter mais tempo livre? Por quê?; • você se sente feliz com seu trabalho? Você se sente va- lorizado em seu ambiente de trabalho? Exemplifique.; • além do seu sustento, o que esse trabalho pode proporcionar para você?; • que conselho você daria para um jovem que vai co- meçar a trabalhar?; • você já pensou na aposentadoria? O que pretende fazer quando se aposentar?; • que história relacionada ao seu trabalho você con- sidera marcante? 280 281 5 001a007_INICIAIS_HISTGLOBAL2_PNLD1.indd 5 5/17/16 10:49 AM Sumário Unidade 1 Trabalho e sociedade Capítulo 1 - Mercantilismo e colonização 10 Mercantilismo: Política econômica do Estado moderno 11 Colonialismo: A dominação das metrópoles sobre as colônias 11 Primeiras expedições: Reconhecimento das terras e das gentes 12 Colonização: A decisão de ocupar a terra 15 Oficina de História 18 Capítulo 2 - Estado e religião 20 Capitanias hereditárias: Início da administração colonial 21 Governo-geral: A busca da centralização administrativa 23 Alternâncias na administração: Centralizações e descentralizações do governo 25 Padroado: Vínculos entre governo e Igreja Católica 27 Oficina de História 30 Capítulo 3 - Sociedade açucareira 32 Açúcar: A implantação de um negócio lucrativo 33 Engenho: Núcleo econômico e social 33 Mercado interno na colônia: A pecuária e produções agrícolas variadas 35 Mão de obra: A escravização de milhões de africanos 36 Oficina de História 38 Capítulo 4 - Escravidão e resistência 40 Tráfico negreiro: O comércio de vidas humanas 41 Diversidade: Povos africanos e suas condições de vida 47 Luta dos africanos: As diversas formas de resistência à escravidão 50 Oficina de História 54 Capítulo 5 - Holandeses no Brasil 56 União Ibérica: Portugal e Espanha sob a mesma Coroa 57 Invasões holandesas: Lutas pelo controle do negócio açucareiro 59 Portugal após a União Ibérica: Problemas econômicos e sociais 64 Oficina de História 66 Capítulo 6 - Expansão territorial 68 Povoamento: A marcha da colonização 69 Expedições militares: Expansão patrocinada pelo governo 70 Bandeirismo: Expansão patrocinada por particulares 71 Jesuítas: A fundação de aldeamentos no interior 74 Pecuária: O povoamento do sertão nordestino e do sul 77 Tratados e fronteiras: Os acordos internacionais sobre o território colonial 79 Oficina de História 80 Capítulo 7 - Sociedade mineradora 82 Enfim, muito ouro: A realização do velho sonho português 83 Controle: A administração das minas pelo governo 86 Sociedade do ouro: Desenvolvimento da vida urbana em Minas Gerais 88 Crise da mineração: O declínio da produção aurífera 89 Oficina de História 92 Unidade 2 Súdito e cidadão Capítulo 8 - Antigo Regime e Iluminismo 96 O Antigo Regime: Vida social e política na Europa moderna 97 Iluminismo: A razão em busca de liberdade 100 Pensadores iluministas: Diversidade de ideias e objetivos 102 Despotismo esclarecido: Absolutismo e algumas reformas sociais 106 Oficina de História 108 Capítulo 9 - Inglaterra e Revolução Industrial 110 Revolução Inglesa: Do absolutismo à monarquia parlamentar 111 Revolução Industrial: Da produção artesanal à produção nas fábricas 113 Impactos: As sociedades urbanas e industriais 116 Oficinade História 120 Capítulo 10 - Formação dos Estados Unidos 122 As 13 colônias: Ocupação inglesa na América do Norte 123 Emancipação: O nascimento dos Estados Unidos 126 Oficina de História 131 Capítulo 11 - Revolução Francesa e Era Napoleônica 133 Crise do Antigo Regime: A França às vésperas da Revolução 134 Revolução: A longa trama revolucionária 136 Era Napoleônica: Conquistas e tragédias 142 Congresso de Viena: A reação conservadora de governos europeus 146 Oficina de História 148 Capítulo 12 - Independências na América Latina 150 Crise colonial: Raízes do processo emancipatório 151 Rompimento: Lutas pela independência 152 Oficina de História 158 6 F r e d e r ic S o lt a n /c o r b iS /F o t o a r e n a 001a007_INICIAIS_HISTGLOBAL2_PNLD1.indd 6 5/17/16 10:49 AM in St it U to H iS tÓ ri c o e G eo G rÁ Fi c o br a Si le ir o , r io d e Ja n ei ro , b ra Si l Capítulo 13 - Independência do Brasil 162 Crise colonial: Contradições e declínio de um sistema de exploração 163 Rebeliões coloniais: Conflitos entre colonos e colonizadores 165 A corte no Brasil: Caminhos da emancipação brasileira 168 Ruptura: O resultado das pressões portuguesas 171 Oficina de História 174 Capítulo 14 - Primeiro Reinado 176 O novo país: Lutas internas e negociações internacionais 177 Primeira Constituição: As lutas políticas pelo controle do poder 179 Confederação do Equador: O projeto de uma república no nordeste 182 Abdicação do trono: A conjuntura do Final do Primeiro Reinado 184 Oficina de História 188 Capítulo 15 - Período regencial 190 Cenário político: Os grupos partidários do período regencial 191 Período regencial: As regências que governaram o império 192 Revoltas provinciais: Contestações ao governo central e às condições de vida 196 Oficina de História 204 Capítulo 16 - Segundo Reinado 205 Política interna: O jogo político entre liberais e conservadores 206 Praieira: A revolta liberal pernambucana 208 Modernização: O impacto das transformações econômicas 209 Oficina de História 216 Capítulo 17 - Crise do império 218 Política externa: Conflitos internacionais no Segundo Reinado 219 Abolicionismo: A luta pelo fim da escravidão no Brasil 226 Queda da monarquia: Condições que levaram à instituição da República 231 Oficina de História 234 Capítulo 18 - Europa no século XIX 240 Onda de revoltas: Nacionalismo, liberalismo, socialismo e anarquismo 241 França: Revoltas liberais repercutem na Europa 244 Unificação da Itália: A formação do Estado italiano 249 Unificação da Alemanha: A formação de uma nova potência econômica 251 Oficina de História 253 Capítulo 19 - Imperialismo na África e na Ásia 255 Avanço capitalista: O surgimento de grandes potências 256 Neocolonialismo: Um mundo partilhado entre as grandes potências 258 África e Ásia: A dominação neocolonial em dois continentes 259 Oficina de História 264 Capítulo 20 - América no século XIX 266 América Anglo-saxônica: O desenvolvimento dos Estados Unidos 267 América Latina: Diferenças e elementos históricos comuns 273 Imperialismo: A dominação da América Latina pelos Estados Unidos 275 Oficina de História 277 Unidade 3 Liberdade e independência Unidade 4 Tecnologia e dominação Cronologia 284 Bibliografia 287 Manual do Professor – Orientações didáticas 289 Projeto Temático: Dimensões do trabalho 280 Jo H n c H a rl eS r ea d Y c o lo M b. 1 88 6. 7 001a007_INICIAIS_HISTGLOBAL2_PNLD1.indd 7 5/17/16 10:49 AM unidade 1 O trabalho é uma atividade típica do ser hu- mano e está profundamente ligado à história de cada sociedade. Por meio dele, construímos culturas, produzindo bens materiais e não ma- teriais. No entanto, o trabalho também pode ser fonte de castigo e sofrimento. No Brasil Colônia, milhões de africanos, afro- descendentes e indígenas foram submetidos à escravidão, que é uma das formas mais extremas de exploração humana. Mas eles resistiram a esta dominação e se rebelaram de vários modos. A presença dos africanos e indígenas foi de- cisiva na construção do Brasil. Eles produziram saberes, artes e ofícios que estão presentes na cultura brasileira. A escravidão foi abolida, mas a cidadania precisa ser ampliada. 1. “O trabalho está associado a ter, ser e valer.” Reflita sobre essa frase e procure explicar por que, no Brasil atual, existem alguns trabalhos que têm mais prestígio social do que outros. 2. Qual profissão você quer ter no futuro? Procure explicar os motivos de sua escolha. Trabalho e sociedade 8 008a019_U1_C1_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 8 5/17/16 10:50 AM Vendedores de capim e de leite, obra de Jean-Baptiste Debret, produzida entre 1834 e 1839. Na imagem, um escravo, à esquerda, carrega um pesado feixe de capim-de- -angola, que era muito utilizado para alimentar os cavalos no Brasil Colonial. À direita, três escravos vendem leite, bebida amplamente consumida com café e chá. Je a n -B a pt is te D eB re t. Ve n D eD o re s D e c a pi m e D e le it e. 1 83 4- 18 39 /c o le ç ã o p a rt ic u la r 9 008a019_U1_C1_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 9 5/17/16 10:50 AM Mercantilismo e colonização O Brasil possui uma das maiores áreas florestais do planeta, com destaque para a flo- resta Amazônica. Todavia, o país ainda apresenta níveis significativos de desmatamen- to e práticas inadequadas de exploração que são responsáveis por danos ambientais. Quais são as raízes desse processo? 1. Que personagens aparecem no mapa? Como eles foram representados? 2. Que instrumento é utilizado por um dos personagens? De que material ele é feito? Levante hipóteses. 3. Esse instrumento pode simbolizar o contato entre indígenas e portugueses? Explique. Detalhe de mapa publicado no Atlas de Sebastião Lopes em cerca de 1565. Nesse mapa, foi representada a exploração de pau-brasil. se B a st iã o l o pe s. c a rt a D o B r a si l c . 1 56 5/ B iB li o te c a n ew B er ry , c h ic a g o , e u a . 10 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade capítulo 1 008a019_U1_C1_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 10 5/17/16 10:50 AM Investigando 1. Qual o sentido da expressão “concorrência econômica”? Você sabe como essa concorrência pode afetar os valores dos produtos que você consome? Pesquise. 2. Na sua opinião, a economia de um Estado só pode se desenvolver à custa de outras economias? Debata esse assunto com seus colegas. Mercantilismo Política econômica do Estado moderno Colonialismo A dominação das metrópoles sobre as colônias O termo mercantilismo é utilizado por alguns eco- nomistas e historiadores para designar um conjunto de práticas econômicas que vigoraram em países da Europa ocidental entre os séculos XV e XVIII. Essas práticas varia- vam de país para país, mas tinham o objetivo comum de fortalecer o Estado, em aliança com setores comerciais. Segundo historiadores, o termo mercantilismo te- ria sido empregado pela primeira vez pelo economista escocês Adam Smith (1723-1790) para se referir, de maneira depreciativa, às políticas econômicas interven- cionistas dos governos de sua época e propor, em seu lugar, políticas liberais. Práticas mercantilistas No início da Idade Moderna, a riqueza de um Estado também foi medida pela quantidade de me- tais preciosos (ouro e prata) que ele possuía dentro de suas fronteiras. Assim, aumentar a quantidade de metais preciosos tornou-se um dos objetivos funda- mentais dos governos mercantilistas. Esse pensamen- to econômico foi chamado de metalismo. A fim de acumular riquezas, o Estado procurava, entre outras coisas, manter uma balança comercial favorável, isto é, o valor das exportações do país devia superar as importações (gerando superávit).Para isso, o Estado adotava uma série de medidas protecionistas, como incentivar a produção interna de artigos manufaturados que pudessem concorrer vantajosamente nos mercados internacionais. Além disso, o Estado dificultava a entrada de al- guns produtos estrangeiros, para resguardar seu mer- cado interno e o de suas colônias. O protecionismo se fazia por meio da política alfandegária (aumento ou redução dos tributos sobre importação e exportação). Investigando 1. Em sua opinião, quais são os bens econômicos mais valorizados na sociedade brasileira atual? Justifique. 2. Pesquise notícias atuais que apresentem as expressões: “balança comercial favorável”, “protecionismo” ou “in- tervencionismo estatal”. Depois, analise com seus colegas em que contexto essas expressões foram utilizadas. A adoção das práticas mercantilistas por diversos Estados europeus gerou choque de interesses entre eles. A concorrência econômica se acirrou com dispu- tas de mercados. Nesse cenário, Estados como Portugal e Espanha (chamados metrópoles) passaram a exercer um domí- nio peculiar sobre suas colônias de modo que pudes- sem obter vantagens comerciais, se possível exclusivas. Segundo a interpretação do historiador Fernando Novais, foi no contexto do colonialismo mercantilista que se desenvolveu, como peça fundamental, um sis- tema de exploração colonial.1 1 Cf. NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808). São Paulo: Hucitec, 1983. p. 57-92; VAINFAS, Ronaldo. Mercantilismo. In: Dicionário do Brasil colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. p. 392-393. 11CAPÍTULO 1 Mercantilismo e colonização 008a019_U1_C1_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 11 5/17/16 10:50 AM AMÉRICA DO NORTE BAHAMAS PORTO RICO HAITI GUIANAS AMÉRICA DO SUL Açores Ilha da Madeira Ilhas Canárias I. Cabo Verde INGLATERRA FRANÇA HOLANDA EUROPA ESPANHA ÍNDIA MOÇAMBIQUE ANGOLA MADAGÁSCAR Diu Bombaim Goa Calicute CEILÃO MÁLACA ÁSIA São Jorge da Mina ÁFRICA Forte James St. Louis Agadir PORTUGAL Tânger FILIPINAS São Tomé JAPÃO 20º N 40º L OCEANO ATLÂNTICO OCEANO ÍNDICO OCEANO PACÍFICO OCEANO PACÍFICO Império espanhol Império francês Império holandês Império inglês Império português 0 2 210 km 1. Identifique quais metrópoles tinham colônias na América, na África e na Ásia. 2. Pelo que você pode observar nesse mapa, os governos de França, Inglaterra e Holanda respeitaram a determi- nação do Tratado de Tordesilhas? Explique. Observar o mapa Impérios coloniais europeus (século XVII) Fonte: McEVEDY, Colin. Atlas da história moderna. São Paulo: Verbo/Edusp, 1979. p. 53. Características gerais No colonialismo mercantilista, o relacionamento entre metrópole e colônia obedecia a certas linhas gerais. A economia da colônia era organizada em fun- ção da metrópole, de tal maneira que a colônia deveria atender ou complementar a produção da metrópole. Primeiras expedições Reconhecimento das terras e das gentes Com a descoberta do novo caminho para as Ín- dias, o comércio de especiarias passou a ser uma das fontes de riqueza de Portugal. A cidade de Lisboa, capital desse lucrativo comércio, destacava-se pela agitada vida econômica. Nessa época em que as atenções de setores da sociedade portuguesa estavam voltadas para o co- mércio oriental, ocorreu a chegada às terras que mais tarde formariam o Brasil. Nas primeiras expedições às novas terras, os enviados da Coroa encontraram grande quanti- dade de pau-brasil no litoral. Mas não descobriram Além disso, a metrópole impunha o “direito ex- clusivo” de fazer comércio com a região colonizada, comprando os produtos dela pelo preço mais baixo e vendendo-lhe mercadorias pelo valor mais alto. Nesse contexto histórico, diversas nações euro- peias formaram verdadeiros impérios coloniais, entre os quais se destacaram Portugal e Espanha. as desejadas jazidas de ouro. Com isso, o governo português percebeu que não seria possível obter lucros fáceis e imediatos na região, pois o lucro ge- rado pela exploração da madeira seria menor do que o então vantajoso comércio de produtos afri- canos e asiáticos. Por esse motivo, durante 30 anos (1500-1530), o governo português limitou-se a enviar para o Brasil algumas expedições marítimas destinadas principal- mente ao reconhecimento da terra e à preservação de sua posse. O efetivo processo de colonização só ocorreu posteriormente. s e l m a c a p a r r o Z 12 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 008a019_U1_C1_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 12 5/17/16 10:50 AM As principais expedições marítimas portuguesas enviadas nesse período, chamado por historiadores de “pré-colonizador”, foram: • Expedição comandada por Gaspar de Lemos (1501) – explorou grande parte do litoral brasilei- ro e deu nome aos principais acidentes geográficos então encontrados (ilhas, cabos, rios, baías). • Expedição comandada por Gonçalo Coelho (1503) – organizada por conta de um contrato assi- nado entre o rei de Portugal e um grupo de comer- ciantes interessados na exploração do pau-brasil, dentre os quais se destacava Fernão de Noronha. • Expedições comandadas por Cristóvão Jacques (1516 e 1520) – foram organizadas para deter o contrabando de pau-brasil feito por outros comer- ciantes europeus. Não foram bem-sucedidas pela extensão do litoral. Extração do pau-brasil A primeira riqueza explorada pelos europeus em terras brasileiras foi o pau-brasil (Caesalpinia echinata) — árvore assim denominada devido à cor de brasa do interior de seu tronco. Os indígenas a chamavam ibirapitanga ou arabutã, que significa “madeira ou pau vermelho”. Ao ser informado sobre a existência de pau-brasil nestas terras, o rei de Portugal declarou que a explo- ração dessa árvore era monopólio da Coroa, ou seja, ninguém poderia retirá-la das matas brasileiras sem permissão do governo português e sem pagamento do tributo correspondente. Essa declaração, no en- tanto, não foi respeitada por ingleses, espanhóis e, principalmente, franceses. A primeira concessão da Coroa para a exploração do pau-brasil foi dada ao comerciante português Fernão de Noronha, em 1503. Seus navios foram os primeiros a chegar à ilha que mais tarde recebeu seu nome. As pessoas que tinham como ocupação o comér- cio do pau-brasil eram chamadas brasileiros — ter- mo que, com o tempo, perdeu o sentido original e passou a ser utilizado para designar os colonos nas- cidos no Brasil. Observe que o sufixo -eiro é utilizado para designar ofício ou ocupação, como ocorre em engenheiro, marceneiro, livreiro. Trabalho indígena A extração de pau-brasil nesse período dependia da mão de obra dos indígenas — eles derrubavam as árvores, cortavam-nas em toras e carregavam-nas até os locais de armazenamento (feitorias), de onde eram levadas para os navios. Esse trabalho era conseguido de forma amigável, por meio do escambo. Em troca de uma série de objetos (como pedaços de tecido, anzóis, espelhos e, às vezes, facas e canivetes), os in- dígenas eram aliciados a derrubar as árvores com os machados fornecidos pelos europeus. Por seu caráter predatório, a extração de pau- -brasil demandava que os exploradores se deslocas- sem pelas matas litorâneas à medida que a madeira ia se esgotando. Por isso, essa atividade não deu origem a núcleos significativos de povoamento. Foram cons- truídas feitorias apenas em pontos da costa onde a madeira era mais abundante. Escambo: câmbio de bens ou serviços sem in- termediação de dinheiro. Aliciado: seduzido, envolvido, incitado. Pau-brasil no parque do Ibirapuera, na cidade de São Paulo. Essa árvore, que tem madeira resistente e costuma medir entre 8 e 12 metros de altura, encontra-se ameaçada de extinção. Fotografia de 2015. F a B io c o l o m B in i 13CAPÍTULO 1 Mercantilismo e colonização 008a019_U1_C1_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 13 5/17/16 10:50 AM MARCOSRealce MARCOS Realce MARCOS Nota OCEANO ATLÂNTICO 50º O 10º S Em 1500 Em 2008 Atual divisão política do Brasil Limites atuais do Brasil 0 328 km Em destaque Devastação ambiental A devastação do meio ambiente começou cedo no território do país onde vivemos. Teve início com a extração de pau-brasil, logo nos primeiros anos de colonização. Como resultado da intensa extração, em poucas décadas o pau-brasil começou a escassear. O mesmo destino tiveram muitas árvores frutíferas, derrubadas sem preocupação com o replantio. Para a historiadora Laima Mesgravis, [...] o maravilhoso patrimônio da natureza, onde os índios viviam em harmonia com seu espaço e que tanto deslumbrou os primeiros observadores, incentivou, até certo ponto, a crença da abundância fácil, sem trabalho, infindável. MESGRAVIS, Laima. O Brasil nos primeiros séculos. São Paulo: Contexto, 1989. p. 62. Atualmente, temos consciência de que, apesar de imensos, os recur- sos florestais brasileiros não são ines- gotáveis. Calcula-se que, em 1500, a mata Atlântica ocupava uma faixa de 1 milhão de quilômetros quadrados. Atualmente, restam apenas 8% dessa área, espalhados em matas que, em boa parte, se localizam em proprieda- des particulares. Estima-se que somente no século XVI tenham sido derrubados aproxi- madamente 2 milhões de árvores, de- vastando cerca de 6 mil quilômetros quadrados da mata Atlântica. Depois [da extração do pau- -brasil] vieram cinco séculos de queimada. A cana, o pasto, o café, tudo foi plantado nas cin- zas da Mata Atlântica. Dela saiu a lenha para os fornos dos en- genhos de açúcar, locomotivas, termelétricas e siderúrgicas. CORREIA, Marcos Sá. In: Veja. São Paulo: Abril, n. 51, 24 dez. 1997. p. 81. Suplemento Especial. Distribuição da mata Atlântica (1500-2008) 1. De acordo com o texto, quais foram as principais consequências da exploração econômica indiscrimina- da realizada pelos europeus nas áreas litorâneas do Brasil? 2. Identifique, no mapa, as regiões que apresentavam áreas cobertas pela mata Atlântica em 1500 e as que não possuem mais essa cobertura. Fonte: Mapas SOS Mata Atlântica. Disponível em: <http://mapas.sosma.org.br>. Acesso em: 27 out. 2015. s iD n e i m o u r a 14 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 008a019_U1_C1_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 14 5/17/16 10:50 AM OCEANO ATLÂNTICO 50º O 10º S Chegada em janeiro de 1531 Partida em dezembro de 1530 BRASIL Fundação da Vila de São Vicente (1532) Piratininga Feitoria de Cabo Frio Baía de Todos os Santos Ilha de Cananeia Ilha de Itamaracá Ilha de Santa Catarina Cabo de Santa Maria M e ri d ia n o d e T o rd e s il h a s Limites atuais do Brasil 0 390 km Expedição de Martim Afonso de Souza (século XVI) Colonização A decisão de ocupar a terra De acordo com o Tratado de Tordesilhas, Portugal e Espanha eram os únicos donos das terras da Améri- ca. Mas franceses, holandeses e ingleses não respeita- vam esse tratado e disputavam a posse de territórios americanos com portugueses e espanhóis. Essa disputa intensificou-se principalmente a par- tir da notícia de que os espanhóis haviam descoberto ouro e prata em áreas que hoje correspondem ao Mé- xico e ao Peru. Nesse contexto, o governo português receava per- der as terras americanas. As expedições que tinha envia- do até então não conseguiam deter a atuação clandes- tina de outros europeus, especialmente dos franceses, que haviam estabelecido alianças com os indígenas tupinambás para a extração do pau-brasil. Para acabar com esse contrabando e evitar as invasões, a Coroa por- tuguesa decidiu colonizar efetivamente o Brasil. Além disso, a colonização da América começou a ser vista pelos portugueses como uma alternativa para buscar novos lucros comerciais, uma vez que o comércio de Portugal com o Oriente havia entrado em declínio. A expedição de Martim Afonso de Souza Cinco navios e uma tripulação de cerca de 400 pessoas. Assim era composta a expedição comandada por Martim Afonso de Souza, que partiu de Lisboa em dezembro de 1530. Segundo alguns estudiosos, essa expedição tinha, entre seus objetivos: • iniciar a ocupação da terra e sua exploração econô- mica por colonos portugueses; • combater corsários estrangeiros; • procurar metais preciosos; • fazer melhor reconhecimento geográfico do litoral. Em 22 de janeiro de 1532, buscando estabelecer núcleos de povoamento, Martim Afonso fundou a pri- meira vila do Brasil: São Vicente. Fundou também alguns povoados, como Santo André da Borda do Campo. Cultivo da cana-de-açúcar Para colonizar o Brasil, os portugueses decidiram implantar a produção açucareira em certos trechos do litoral, uma vez que o açúcar era um produto que ti- nha grande procura na Europa. Por meio da cultura da cana, seria possível promover a ocupação sistemá- tica da colônia. Ao implantar a empresa açucareira na colônia, Portugal deixava a atividade meramente extrativista e predatória (a exploração de pau-brasil) e iniciava a montagem de uma organização produtiva dentro das diretrizes do sistema colonial. A produção de açúcar para o mercado europeu marcaria a história colonial do Brasil. No Brasil, o primeiro estabelecimento de produ- ção de açúcar (engenho) foi instalado na região de São Vicente. Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: MEC/Fename, 1986. p. 14. s iD n e i m o u r a 15CAPÍTULO 1 Mercantilismo e colonização 008a019_U1_C1_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 15 5/17/16 10:50 AM Monopólio comercial português No início do século XVI, época da instalação dos primeiros engenhos e núcleos de povoamento, o comércio do açúcar era relativamente livre. A Coroa concedia terras a portugueses que tivessem recursos para a instalação de engenhos. Entre 1560 e 1570, a economia açucareira apresentou crescimento expressivo. Percebendo a expansão do negócio do açúcar, o governo de Portugal decidiu esta- belecer normas mais rígidas para a concessão de terras. Em 1571, decretou que o comércio colonial com o Brasil deveria ser feito exclusivamente por navios portugue- ses. O governo pretendia implantar o monopólio comercial (que era chamado, na época, de exclusivo metropolitano) nas transações do açúcar. Com o monopólio, os produtos coloniais eram comprados pelos preços mais baixos do mercado, enquanto os artigos metropolitanos eram vendidos para os colonos do Brasil pelos preços mais altos. Escravização dos indígenas O relacionamento entre os colonos portugueses e os vários povos indígenas foi se tornando conflituoso à medida que os nativos resistiam ao processo de coloni- zação. Os colonos, no entanto, para satisfazer suas necessidades, usaram violência contra os indígenas e passaram a escravizá-los. A escravização indígena estabeleceu-se a partir da década de 1530, principal- mente quando os colonos portugueses necessitaram de mão de obra para a produ- ção açucareira. Os portugueses e alguns aliados nativos guerreavam contra os “in- dígenas inimigos”, e os prisioneiros eram distribuídos ou vendidos como escravos. No século XVII, a escravização indígena continuou ligada à expansão açuca- reira pelo litoral, mas se estendeu também para as áreas dos atuais estados de São Paulo, Maranhão, Pará, entre outros. Nessas regiões, os nativos trabalhavam em atividades como o cultivo de milho, feijão, arroz e mandioca e a extração das chamadas “drogas do sertão” (guaraná, cravo, castanha, baunilha, plantas aro- máticas e medicinais). Além disso, o escravo indígena foi utilizado para o transporte de mercadorias. De São Paulo a Santos, por exemplo, o carregador nativo descia a Serra do Mar transportando nos ombros cargas de aproximadamente 30 quilos. Cacho de guaraná na cidade de Camamu, Bahia. Foram os indígenas Sateré-Mawé que, há mais de 500 anos, domesticaram a planta do guaraná, cujo nome científicoé Paullinia cupana. Esse povo, que vive no atual Amazonas, possibilitou que o guaraná fosse conhecido e consumido no mundo inteiro. Fotografia de 2015. in a c io t e ix e ir a /p u l s a r i m a g e n s 16 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 008a019_U1_C1_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 16 5/17/16 10:50 AM MARCOS Realce MARCOS Nota Investigando • Em sua opinião, alguma guerra pode ser considerada justa? Reflita. “Guerras justas” Apesar de o governo português ter defendido, em princípio, a liberdade in- dígena, os colonos recorreram por diversas vezes à “guerra justa” para conseguir escravos entre os povos nativos. Assim se chamava a guerra contra os indígenas autorizada pelo governo português ou seus representantes. As “guerras justas” podiam ocorrer quando os indígenas não se conver- tiam à fé cristã – imposta pelos colonizadores – ou impediam a divulgação dessa religião; quebravam acordos ou agiam com hostilidade em relação aos portugueses. No entanto, os colonos burlavam as normas oficiais sobre a “guerra justa”, alegando, por exemplo, que eram atacados ou ameaçados pelos indígenas. Sucessivas guerras contra povos indígenas marcaram a conquista das regiões litorâneas pelos europeus no século XVI. Foi o caso, por exemplo, das guerras contra os indígenas caetés, tupinambás, carijós, tupiniquins, guaranis, tabajaras e potiguares. Gravura de Thomas Marie Hippolyte Taunay e Ferdinand-Jean Denis, datada de 1822, representando ritual dos tupinambás com feiticeiros soprando o espírito de força do povo. th o m a s m a ri e h ip po ly te t au n ay e F er D in a n D -J ea n D en is . 1 82 2. c o le ç ã o it aú D e ic o n o g ra Fi a B ra si le ir a . 17CAPÍTULO 1 Mercantilismo e colonização 008a019_U1_C1_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 17 5/17/16 10:50 AM MARCOS Realce Oficina de História Vivenciar e refletir 1. Alguns indígenas queriam saber por que portugueses e franceses, desde a chegada às suas terras, precisavam tirar tanta madeira das florestas. Leia um trecho do texto do francês Jean de Léry, que esteve no Brasil em 1558, narrando o diálogo que teve com um velho tupinambá. Por que vindes vós outros, maírs e pêros (franceses e portugueses), buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos mui- ta, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas. Retrucou o velho tupinambá imedia- tamente: e porventura precisais de muito? — Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios vol- tam carregados. — Ah! Retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreeender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre? — Sim, disse eu, morre como os outros. Mas os selvagens são grandes discursa- dores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: e quando morrem para quem fica o que dei- xam? — Para seus filhos se os têm, respondi! — Na verdade, continuou o velho, […] agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes in- cômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas es- tamos certos de que, depois de nossa morte, a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados. LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1980. p. 170. a) Por que o indígena tupinambá não entendia a ne- cessidade de extrair tanta madeira das florestas? b) Que diferença cultural é possível perceber entre o modo de vida europeu e o modo de vida indígena? Diálogo interdisciplinar 2. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, 472 espé- cies de árvores estão ameaçadas de extinção no Brasil contemporâneo. É o caso do pau-brasil, da cerejeira, da castanheira, do jacarandá, do mogno, da imbuia e da araucária. Crie um cartaz sobre uma dessas espé- cies. Para isso, em grupos, façam o que se pede. a) Escolham uma árvore e pesquisem: nome cien- tífico, outros nomes pelos quais é conhecida, al- tura máxima que atinge, biomas em que ocorre, motivos pelos quais corre risco de extinção e o que tem sido feito para preservá-la. b) Elaborem uma ficha sobre a árvore resumindo as informações pesquisadas. c) Com base na pesquisa, criem um título chamati- vo para seu cartaz. d) Selecionem fotografias da árvore e escrevam le- gendas para as imagens. e) Organizem a ficha, o título e as fotografias em um cartaz. Depois, apresentem o cartaz para seus co- legas e debatam com eles as medidas de preser- vação das espécies ameaçadas de extinção. 3. O historiador Warren Dean comenta que as facas e os machados de aço que os europeus davam aos indígenas […] encurtavam em cerca de oito vezes o tempo gasto para derrubar árvores e escul- pir canoas. Além disso, anzóis de ferro inau- guravam uma nova maneira de explorar os recursos alimentícios dos estuários. É difícil imaginar […] o quanto isso foi transforma- dor de sua cultura [dos indígenas] e o quanto foi destrutivo para a floresta. DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 65. Diálogo interdisciplinar com Biologia. Diálogo interdisciplinar com Biologia e Sociologia. Estuário: desembocadura de um rio, formando um “bra- ço de mar”. a) De acordo com Warren Dean, os instrumentos europeus causaram grande impacto em duas esferas. Quais são elas? Por quê? b) Em sua opinião, que objetos causaram maior impacto social e ambiental no mundo contem- porâneo? Reflita sobre o assunto e dê exemplos. 18 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 008a019_U1_C1_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 18 5/17/16 10:50 AM 4. Examine a cena da tirinha de Calvin e Haroldo. Qual é a crítica da tirinha? Com os colegas, relacione a tirinha ao conteúdo do capítulo. Diálogo interdisciplinar com Arte e Geografia. De olho na universidade 5. (Fuvest-SP) O ouro e a prata que os reis incas tiveram em grande quantidade não eram avaliados [por eles] como tesouro porque, como se sabe, não vendiam nem compravam coisa alguma por prata nem por ouro, nem por eles pagavam os soldados, nem os gastavam com alguma necessidade que lhes aparecesse; tinham-nos como supérfluos, por- que não eram de comer. Somente os estimavam por sua formosura e esplendor e para ornamento [das casas reais e ofícios religiosos]. Garcilaso de la Vega. Comentários reais, 1609. Com base no texto, aponte: a) As principais diferenças entre o conjunto das ideias expostas no texto e a vi- são dos conquistadores espanhóis sobre a importância dos metais preciosos na colonização. b) Os princípios básicos do mercantilismo. 6. (UFRJ) A primeira coisa que os moradores desta costa do Brasil preten- dem são índios escravizados para trabalharem nas suas fazendas, pois sem eles não se podem sustentar na terra. GANDAVO, Pero Magalhães. Tratado descritivo da terra do Brasil. São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1982. p. 42 [1576] (adaptado pela instituição). Nesse trecho percebe-se a adesão do cronista ao ideário dos colonos lusos no Brasil de fins do século XVI. Com base no texto, e considerando que em Portugal prevalecia uma hierarquia so- cial aristocrática e católica, explique por que, ao desembarcarem na América portugue- sa da época, os colonos imediatamente procuravam lançar mão do trabalho escravo. Tirinha dos personagens Calvin e Haroldo, criados pelo artista Bill Watterson. c a lV in &h o B B e s, B il l w a t t e r s o n © 1 9 8 9 w a t t e r s o n /D is t. B y u n iV e r s a l u c li c k 19CAPÍTULO 1 Mercantilismo e colonização 008a019_U1_C1_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 19 5/17/16 10:50 AM Estado e religião Liberdade de crença e livre exercício de culto religioso são direitos fundamentais garantidos na Constituição Federal. Essa liberdade religiosa decorre da separa- ção entre Estado e Igreja, que vigora no Brasil desde o início da República (1889). Mas nem sempre foi assim. Como era a relação entre o Estado e a Igreja Católica no período colonial? • Observe o painel de Candido Portinari, intitulado A primeira missa no Brasil. Depois, leia o trecho da carta de Pero Vaz de Caminha, relatando episódios da chegada dos portugueses ao Brasil: E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles [os indígenas] se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós [...] e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção. CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a El Rei D. Manuel. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/ DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2003>. Acesso em: 28 out. 2015. Na sua compreensão, há algum ponto em comum entre o relato de Pero Vaz de Caminha e a pintura de Portinari? Comente. A primeira missa no Brasil. Painel de Candido Portinari, de 1948. A obra faz parte do acervo do Instituto Brasileiro de Museus. Candido Portinari. a Primeira missa no Brasil. 1948/museu naCional de Belas artes/rj 20 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade capítulo 2 020a031_U1_C2_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 20 5/17/16 10:52 AM • Observe o mapa e compare-o com um mapa da atual divisão política do Brasil. Depois, identifique: a) a capitania mais setentrional (ao norte) e o(s) estado(s) do(s) qual(is) faz parte atualmente; b) a capitania mais meridional (ao sul) e o(s) estado(s) do(s) qual(is) faz parte atualmente; c) caso seja possível, a capitania em cujo territó- rio está situada a cidade onde você vive. Observar o mapa Capitanias hereditárias Início da administração colonial O governo português não dispunha de recursos suficientes para investir na colonização do Brasil. A solução encontrada no começo desse processo foi transferir a tarefa para particulares, geralmente pes- soas da pequena nobreza lusitana. Assim, em 1534, o rei D. João III ordenou a divisão do território da colônia em grandes porções de ter- ra — 15 capitanias ou donatárias — e as entregou a pessoas que se habilitaram ao empreendimento, cha- madas capitães ou donatários. Nomeado pelo rei, o donatário era a autorida- de máxima dentro da capitania. Com sua morte, em princípio, a administração passava para seus descen- dentes. Por esse motivo, as terras eram chamadas de capitanias hereditárias. Direitos e deveres dos donatários O vínculo jurídico entre o rei de Portugal e os do- natários era estabelecido em dois documentos básicos: • Carta de Doação – conferia ao donatário a posse hereditária da capitania. Os donatários não eram proprietários das capitanias, apenas de uma parce- la das terras. A eles era transferido, entretanto, o direito de administrar toda a capitania e explorá-la economicamente. • Carta Foral – estabelecia os direitos e os deveres dos donatários, relativos à exploração da terra. Vejamos alguns deles no quadro a seguir: Alguns direitos Alguns deveres • Criar vilas e distribuir terras (sesmarias) a quem desejasse e pudesse cultivá-las. • Exercer plena autoridade judicial e administrativa. • Por meio da chamada “guerra justa”, escravizar os indígenas considerados inimigos, obrigando-os a trabalhar na lavoura. • Receber 5% dos lucros sobre o comércio do pau-brasil. Assegurar ao rei de Portugal: • 10% dos lucros sobre todos os produtos da terra; • 25% dos lucros sobre os metais e as pedras preciosas que fos- sem encontrados; • o monopólio da exploração do pau-brasil. OCEANO ATLÂNTICO 10º S 40º O MARANHÃO (2o lote) MARANHÃO (1o lote) CEARÁ RIO GRANDE ITAMARACÁ BAHIA PERNAMBUCO ILHÉUS PORTO SEGURO ESPÍRITO SANTO SÃO TOMÉ SANTANA SANTO AMARO M e ri d ia n o d e T o rd e s il h a s SÃO VICENTE SÃO VICENTE 0 390 km Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: MEC/Fename, 1986. p. 14. Capitanias hereditárias (1534) s id n e i m o u r a 21CAPÍTULO 2 Estado e religião 020a031_U1_C2_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 21 5/17/16 10:52 AM MARCOS Nota MARCOS Nota MARCOS Nota O que era a Carta de doação O que era a Carta foral MARCOS Nota Dificuldades com as capitanias Do ponto de vista econômico, o sistema de capita- nias não alcançou os resultados esperados pelo governo português. Entre as poucas capitanias que progrediram e obtiveram lucros, principalmente com a produção de açúcar, estavam a de Pernambuco e a de São Vicente. Como veremos a seguir, as demais capitanias não pros- peraram em decorrência de várias condições. As capitanias eram muito extensas, e os donatários geralmente não tinham recursos suficientes para explo- rá-las. Muitos perderam o interesse pelas capitanias, acreditando que o retorno financeiro não compensaria o trabalho empenhado e o capital investido na produção. Alguns nem chegaram a tomar posse de suas terras. Os colonos também tinham de enfrentar a hostilida- de dos grupos indígenas que resistiam à dominação por- tuguesa. Para muitos nativos, a luta era a única forma de se defender da invasão de suas terras e da escravidão que o conquistador queria impor. Havia também problemas de comunicação entre as capitanias: separadas por grandes distâncias e sob as Mulheres na administração Algumas mulheres de origem portuguesa chega- ram a participar da administração de capitanias he- reditárias. Brites de Carvalho, por exemplo, assumiu o controle de uma sesmaria no norte da Bahia em 1583, depois da morte de seu marido. A esposa de Duarte Coelho, donatário da capitania de Pernambuco, também se destacou. Brites Mendes de Albuquerque assumiu o governo da capitania após a morte do marido. De acordo com pesquisadores: precárias condições dos meios de transporte da época, elas ficavam isoladas umas das outras e em relação a Portugal. Por exemplo, uma viagem de navio da Bahia a Lisboa levava em média dois meses. Além disso, nem todas as capitanias tinham solo propício ao cultivo de cana-de-açúcar, produção que mais interessava aos objetivos da Coroa e dos comer- ciantes envolvidos no comércio colonial. Restava aos donatários a exploração do pau-brasil, atividade que gerava pouco lucro para os donatários. Apesar dessas dificuldades, historiadores apontam que o sistema de capitanias lançou as bases da colo- nização da América portuguesa, estimulando a for- mação e o desenvolvimento dos primeiros núcleos de povoamento, como São Vicente (1532), Porto Seguro (1535), Ilhéus (1536), Olinda (1537) e Santos (1545). Contribuiu, também, em relação aos colonizadores lusos, para preservar a posse das terras e revelar as possibilidades de exploração econômica da colônia. Durante o governo de Brites, Pernambuco era a mais desenvolvida capitania do Brasil. Tinha mais de mil colonos e mais de mil es- cravos. [...] nos anos 1570 havia na capitania cerca de 66 engenhos, que produziam 200 mil arrobas de açúcar anuais. [...] BRAZIL, Érico Vital; SCHUMAHER, Schuma (Orgs.). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. p. 122. Fundação de São Vicente, óleo sobre tela de Benedito Calixto, de 1900. Historiador e artista, Calixto destacou-se na pintura religiosa e paisagística. A obra pertence ao acervo do Museu Paulista da USP, em São Paulo. Be n ed it o C a li xt o . F u n d a ç ã o d e sã oV C ie n te . 1 90 0. 22 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 020a031_U1_C2_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 22 5/17/16 10:52 AM MARCOS Realce MARCOS Realce Governo-geral A busca da centralização administrativa Os problemas das capitanias hereditárias levaram a Coroa portuguesa a procurar soluções diferentes para administrar sua colônia na América. Foi assim que, ainda no reinado de D. João III, instituiu o gover- no-geral, conduzido por um funcionário do governo português, denominado governador-geral. Este daria ajuda aos donatários e interferiria mais diretamente no processo de colonização do Brasil. Portanto, o governo-geral coexistiu com o siste- ma das capitanias hereditárias. Essa coexistência per- durou até 1759, quando as últimas capitanias here- ditárias foram extintas e o território brasileiro passou Já Ana Pimentel participou da administração da capitania de São Vicente. Ela era esposa do donatário Martim Afonso de Souza. Após um breve período em terras brasileiras, Mar- tim Afonso retornou a Portugal para ocupar o cargo de capitão-mor da armada da Índia. Ana Pimentel tornou-se, então, a responsável pelo governo da ca- pitania. Em sua administração, ela organizou o cultivo de laranja, de arroz e de trigo, além de introduzir a criação de gado naquelas terras. a ser efetivamente administrado pelos representantes da Coroa portuguesa, não mais por particulares. O governo português escolheu a capitania da Bahia como sede do governo-geral, que, então, foi retomada pela Coroa. A escolha foi motivada por inte- resses administrativos, pois essa capitania localizava-se em um ponto central da costa, o que facilitava a co- municação com as demais capitanias. Ali foi erguida a primeira capital do Brasil — Salvador —, cujas obras de construção tiveram início no dia 1o de maio de 1549, em um terreno elevado e de frente para o mar. Essa localização facilitava a defesa militar da cidade. Investigando 1. Qual é a capital do estado onde você mora? Que serviços públi- cos são encontrados na capital do seu estado? 2. Você já ouviu expressões como “capital do samba”, “capital do acarajé”, “capital da moda”? O que a palavra “capital” pode sig- nificar nessas expressões? Investigando • No Brasil Colonial algumas mulheres chegaram a assumir cargos importantes no governo das capitanias he- reditárias. No entanto, essa prática não era tão comum na época. Foi só a partir do século XX que aumentou a participação das mulheres no mercado de trabalho e o acesso delas a cargos de prestígio. Em sua opinião, quais são os principais desafios enfrentados atualmente pelas mulheres no mercado de trabalho? Pesquise. Vista da cidade de Salvador do século XVI. Litografia do cartógrafo escocês John Ogilby. Na imagem, pode-se observar a muralha que cercava a parte alta da capital colonial. C o le ç ã o l u iz V ia n a F il h o /s a lV a d o r. 23CAPÍTULO 2 Estado e religião 020a031_U1_C2_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 23 5/17/16 10:52 AM Regimento do governo-geral Embora tenham existido diferentes regimentos para estabelecer o papel dos governadores-gerais, quase todos possuíam itens relativos à defesa da terra contra ataques estrangeiros, ao incentivo à busca de metais preciosos, ao apoio à religião católica e à luta contra a resistência indígena. Ainda conforme esses regimentos, o governador tinha funções: • militares – comando e defesa militar da colônia; • administrativas – relacionamento com os gover- nadores das capitanias e controle dos assuntos liga- dos às finanças; • judiciárias – direito de nomear funcionários da Jus- tiça e alterar penas; • eclesiásticas – indicação de sacerdotes para as paróquias. Para o desempenho de suas funções, o governa- dor-geral contava com três auxiliares principais: • o ouvidor-mor, encarregado dos negócios da Jus- tiça; • o provedor-mor, encarregado dos assuntos da Fazenda; • o capitão-mor, encarregado da defesa do litoral. Os governadores-gerais tiveram, no entanto, pro- blemas no cumprimento de suas funções. Além da dificuldade de comunicação entre as capitanias, o governo-geral muitas vezes enfrentava a oposição de poderes locais, especificamente dos “homens-bons”. Essa expressão era aplicada aos homens de posses, proprietários de terra, de gado e de escravos. Nas vilas e cidades em que residiam, eram eles que formavam as câmaras municipais. As câmaras municipais, encarregadas da admi- nistração local, foram sendo estruturadas paralela- mente à formação das primeiras vilas. Sua atuação abrangia setores como o abastecimento, a tributa- ção e a execução das leis. Além disso, organizavam expedições contra os indígenas, determinavam a construção de povoados e estabeleciam os preços das mercadorias. Os três primeiros governadores-gerais do Bra- sil foram Tomé de Sousa, Duarte da Costa e Mem de Sá. Primeiro governo-geral Tomé de Sousa foi o primeiro governador-geral do Brasil. Em seu governo (1549-1553) ocorreram a fundação de Salvador (1549), primeira cidade e ca- pital do Brasil; a criação do primeiro bispado brasi- leiro (1551); a implantação da pecuária; o incentivo ao cultivo da cana-de-açúcar; e a organização de expedições para explorar o território à procura de metais preciosos. Aculturação dos indígenas Com Tomé de Sousa vieram seis jesuítas, chefiados pelo padre português Manuel da Nóbrega, com a mis- são de catequizar os indígenas. Os jesuítas faziam parte de um mundo regula- do pelas normas e pelos costumes das sociedades católicas europeias e não aceitavam ou compre- endiam diversos aspectos das culturas indígenas como a nudez, a poligamia, a antropofagia e as crenças próprias. Iniciou-se, assim, um processo de modificação da cultura dos indígenas (aculturação). Para transmitir- -lhes os valores europeus e do cristianismo, os jesuí- tas reuniram as populações indígenas em aldeias ou aldeamentos. Investigando 1. Compare o papel das câmaras municipais na época do Brasil Colônia com o das câmaras municipais na atualidade. Qual é a função típica das câmaras municipais atuais? Pesquise. 2. Em sua interpretação, em que medida o poder econômico e o poder político estão associados no Brasil atual? Reflita e dê exemplos. 3. O que você sabe sobre a história de sua cidade? Pesquise elementos como a data de fundação, a po- pulação atual, características da arquitetura local, opções públicas de lazer e cultura, características da economia etc. 24 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 020a031_U1_C2_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 24 5/17/16 10:52 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Segundo governo-geral Duarte da Costa foi o segundo governador-geral do Brasil. Em seu governo (1553-1558), vieram mais jesuítas para a colônia, entre os quais se destacou José de Anchieta. Em janeiro de 1554, Anchieta e Manuel da Nó- brega fundaram o Colégio de São Paulo, junto ao qual surgiu a vila que deu origem à cidade de São Paulo, no planalto de Piratininga. Foi também no governo de Duarte da Costa que os franceses, contando com o apoio de grupos indí- genas (como os tupinam- bás), invadiram a baía de Guanabara, no atual Rio de Janeiro, e fundaram um povoamento que re- cebeu o nome de França Antártica (1555-1567). Alternâncias na administração Centralizações e descentralizações do governo Historiadores consideram que a administração colonial da América portuguesa apresentava duas tendências que se revezaram: a centralização (uni- ficação) e a descentralização (divisão) do governo. A centralização era praticada quando a metrópo- le queria controlar e fiscalizar melhor a colônia. Já a descentralização era preferida quando a metrópole pretendia ocupar regiões despovoadas, impulsionar o desenvolvimento local e adaptar o governo às neces- sidades dos colonos. Com os governos-gerais, a administração do Brasil Colôniafoi centralizada. Porém, no final do governo de Mem de Sá, o rei de Portugal resolveu dividir a administração da colônia entre os governos do Norte e do Sul. O governo do Norte, com sede na cidade de Sal- vador, era chefiado pelo conselheiro Luís de Brito de Almeida (1573-1578). O do Sul, com sede na cidade do Rio de Janeiro, era chefiado pelo desembargador Antônio Salema (1574-1578). Entretanto, em 1578, insatisfeito com os resulta- dos práticos da experiência, o rei de Portugal decidiu voltar atrás e estabeleceu novamente um único cen- tro administrativo no Brasil, com sede em Salvador. Terceiro governo-geral Mem de Sá foi o terceiro governador-geral do Brasil. Em seu governo (1558-1572), os franceses foram expulsos do Rio de Janeiro, com a ajuda do chefe militar Estácio de Sá (seu sobrinho). Além de expulsar os franceses (1567), o tercei- ro governo-geral reuniu forças para lutar contra os indígenas que resistiam à conquista colonial por- tuguesa. As ações do governo levaram à destrui- ção de centenas de aldeias do litoral brasileiro no século XVI. Vista do Pátio do Colégio, ao lado do Museu Padre Anchieta. Esse local é considerado o marco da fundação da cidade de São Paulo. d a n ie l C y m B a l is t a /P u l s a r i m a g e n s 25CAPÍTULO 2 Estado e religião 020a031_U1_C2_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 25 5/17/16 10:52 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Em destaque Confederação dos Tamoios Vejamos um texto do filósofo Benedito Prezia e do historiador Eduardo Hoornaert, em que apresen- tam suas interpretações do que foi a chamada Confederação dos Tamoios. Para combater a escravização dos indígenas, feita em grande escala pela família de João Ramalho que vivia no planalto de Piratininga, e como protesto contra as aldeias dos padres jesuítas, várias nações indígenas resolveram se unir. Assim, os tupinambás, parte dos tupiniquins, os carijós e os guayanás das regiões de São Paulo e Rio de Janeiro, com o apoio dos franceses, fizeram uma grande aliança de guerra, que recebeu o nome de Confederação dos Tamoios. Tamoio ou tamuya, na língua tupi, significa nativo, velho, do lugar. Era portanto uma guerra dos antigos do lugar, isto é, dos donos da terra, contra os portugueses, os invasores e inimigos dos indígenas. Esta guerra durou cinco anos, de 1562 a 1567. Vários líderes tupinambás se destacaram, principalmente Cunhambebe e Aimberê. Os ataques tiveram altos e baixos e o grande aliado dos portugueses foi certamente a varíola. Por volta de 1564 uma forte epidemia atacou todo o litoral, de norte a sul. Centenas de indígenas morreram, inclusive o grande Cunhambebe. Com a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro, a Confederação dos Tamuya foi enfra- quecendo, pois já não tinha de quem receber armas de fogo. Os portugueses jogaram pe- sado, não só enviando de Portugal um grande reforço militar como também envolvendo os jesuítas nessa guerra violenta. A participação do padre Manuel da Nóbrega e do padre José de Anchieta foi decisiva para a vitória lusitana. Através deles aconteceu o Tratado de Paz de Iperoig, que na realidade tornou-se um tratado de morte para os tupinambás. O final da guerra foi desigual e violento. Três mil sobreviventes desta campanha militar foram levados para algumas aldeias dirigidas pelos jesuítas, no Rio de Janeiro e na Bahia. PREZIA, Benedito; HOORNAERT, Eduardo. Esta terra tinha dono. 4. ed. São Paulo: FTD, 1995. p. 81-82. • De acordo com os autores, em que contexto histórico ocorreu a união de várias nações indígenas nas regiões de São Paulo e Rio de Janeiro? O último tamoio, pintura criada por Rodolfo Amoedo em 1883. Nessa obra, o indígena Aimberê, líder dos tamoios, aparece morto em uma praia enquanto é amparado pelo padre Anchieta. Embora os dois personagens tenham participado da Confederação dos Tamoios, essa cena nunca aconteceu. A obra faz parte do acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. r o d o lF o a m o e d o . o ú lt im o t a m o io . 1 8 8 3 . 26 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 020a031_U1_C2_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 26 5/17/16 10:52 AM Padroado Vínculos entre governo e Igreja Católica Na época da colonização, o catolicismo era a religião oficial de Portugal. Assim, os súditos portu- gueses deveriam ser católicos obrigatoriamente, caso contrário estariam sujeitos a perseguição. Além disso, diversos religiosos católicos participa- ram do processo de colonização, em um esforço con- junto com representantes da Coroa portuguesa. Essa participação ocorreu porque o governo de Portugal e a Igreja estavam ligados pelo regime do padroado, um acordo entre o papa e o rei que estabelecia uma série de deveres e direitos da Coroa portuguesa em relação à Igreja. Entre os principais deveres, estavam: garantir a expansão do catolicismo em todas as terras conquistadas pelos portugueses; construir igrejas e cuidar de sua conservação; e remunerar os sacerdotes por seu trabalho religioso. Já entre os principais direi- tos, podem ser citados: nomear bispos e criar dioceses (regiões eclesiásticas administradas pelos bispos); e recolher o dízimo (a décima parte dos ganhos) ofertado pelos fiéis à Igreja. A Igreja e o Estado português atuavam em re- lativa harmonia. As autoridades políticas deveriam administrar a colônia, decidindo, por exemplo, sobre as formas de ocupação do território, povoamento e produção econômica. Os religiosos eram responsáveis pela tarefa de ensinar a obediência a Deus e ao rei, defendendo o trono por meio do altar. Houve, no entanto, vários momentos de conflito entre sacerdotes católicos e autoridades da Coroa. Nesse sentido, podemos dizer que se tornou fre- quente, por exemplo, a participação de padres em rebeliões coloniais. Investigando • No período colonial, a Igreja Católica foi uma instituição que, além do campo especificamente religioso, exercia influência ampla na sociedade, na política e na cultura em geral. Pesquise sobre a influência da Igreja Católica e de outras instituições religiosas na atualidade. Em destaque Vivência religiosa No texto, o historiador Luiz Mott descreve alguns aspectos religiosos observados entre a popula- ção brasileira da época colonial. No Brasil colonial, seguindo o costume português, desde o despertar, o cristão se via ro- deado de lembranças do Reino dos Céus. Na parede contígua à cama, havia sempre algum símbolo visível da fé cristã: um quadrinho ou caixilho com gravura do anjo da guarda ou do santo; uma pequena concha com água-benta; o rosário dependurado na cabeceira da cama. Antes de levantar-se da cama, da esteira ou da rede, todo cristão devia fazer imediata- mente o sinal da cruz completo, recitando a jaculatória [oração curta]: pelo sinal da santa cruz, livrai-nos, Deus Nosso Senhor, dos nossos inimigos. Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, amém. Os mais devotos, ajoelhados no chão, quando menos recitavam o bê-á-bá do devocionário popular: a ave-maria, o pai-nosso, o credo e a salve-rainha. Orações que via de regra todos sabiam de cor. [...] Na parede da sala de muitas casas coloniais, saindo do quarto, lá estavam para ser vene- rados e saudados os quadros dos santos. [...] MOTT, Luiz. Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu. In: SOUZA, Laura de Mello e (Org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. v. 1. p. 164-166. 1. Com base no texto, como você definiria a vivência religiosa dos colonos? Justifique com exemplos. 2. Na sua opinião, qual é a intensidade das vivências religiosas na sociedade atual? Comente o tema. 27CAPÍTULO 2 Estado e religião 020a031_U1_C2_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 27 5/17/16 10:52 AM Cristão-novo: judeu obrigado a se converter ao catolicismo em Portu- gal, em 1497. Na Espanha aconteceu um processo semelhante; ali os judeus convertidosà força ao catolicismo eram conhe- cidos como marranos. Blasfêmia: palavra que ofende a divindade ou a religião cristã. Inquisição no Brasil Nem tudo estava sob o domínio do catolicismo oficial na América portugue- sa. No cotidiano, parte da população colonial resistia ou escapava à obrigação de seguir a religião católica, praticando outras formas de religiosidade, nascidas do sincretismo de crenças e ritos provenientes de tradições culturais indígenas, africanas e europeias. Catimbós, calundus, candomblé, benzimentos e simpatias são exemplos dessas manifestações religiosas que, mesmo condenadas pela Igreja, eram praticadas na vida privada por diversos grupos sociais. Para combater essas práticas — os chamados “crimes contra as verdades da fé cristã” —, as autoridades da Igreja Católica e da Coroa portuguesa enviaram para o Brasil representantes do Tribunal da Inquisição (reativado na Europa em meados do século XVI). Eram as chamadas visitações, em que o sacerdote representante da Inquisição (visitador) abria processo punitivo contra as pessoas acusadas de crime contra a fé católica. Muitos acusados foram levados para Portugal para julgamento. Nas visitações realizadas em Pernambuco e na Bahia (1591, 1618 e 1627), no sul da colônia (1605 e 1627) e no Pará (1763 a 1769), a Inquisição perseguiu gran- de número de cristãos-novos que tinham vindo de Portugal para a colônia. Eles eram acusados de praticar, em segredo, a religião judaica. A Inquisição também perseguiu muitas outras pessoas, acusadas, por exemplo, de feitiçaria, blasfêmia e práticas sexuais então proibidas (prostituição, homossexualidade). Culto de candomblé da nação Ketu, na cidade de Lauro de Freitas, Bahia. Fotografia de 2014. s e r g io P e d r e ir a /P u l s a r i m a g e n s 28 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 020a031_U1_C2_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 28 5/17/16 10:52 AM Em destaque Círio de Nazaré O Círio de Nazaré é uma celebração religiosa realizada há mais de dois séculos no Brasil. Trata-se de uma celebração católica criada em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré. Em função de sua importância cultural, o Círio foi declarado Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco. Ao longo do tempo, o Círio tornou-se uma tradição cultural ampla, mesclando aspectos religio- sos, artísticos e alimentares. Assim, festas, feiras, apresentações artísticas e rituais alimentares foram sendo incorporados ao Círio. Dentre as apresentações destaca-se o arrastão do boi da pavulagem, cortejo que reúne pessoas em torno da brincandeira do bumba meu boi. Além disso, dois pratos de origem indígena (a maniçoba e o pato ao tucupi) são as comidas mais tradicionais do almoço do Círio. Em Belém do Pará, a procissão do Círio já chegou a reunir mais de 2 milhões de pessoas. • Por que é importante preservar o patrimônio histórico brasileiro? Comente. Além da procissão principal do Círio de Nazaré, são realizadas outras procissões, feitas a pé, de carro, de bicicleta, de barco e de moto. Nessa imagem, embarcações acompanham o navio que conduzia a imagem da Nossa Senhora de Nazaré nas águas da baía do Guajará. Fotografia de 2015. Procissão do Círio de Nazaré nas ruas de Belém, Pará, em 2014. Na fotografia, milhares de pessoas festejam a passagem da berlinda que protege a imagem da Nossa Senhora de Nazaré, que no catolicismo é um dos nomes dados à mãe de Jesus Cristo. a n t o n io C iC e r o /F o t o a r e n a a n t o n io C iC e r o /F o t o a r e n a 29CAPÍTULO 2 Estado e religião 020a031_U1_C2_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 29 5/17/16 10:52 AM MARCOS Realce MARCOS Realce Oficina de História Vivenciar e refletir 1. Formem grupos e leiam o texto da historiadora Mary Del Priore. Depois, façam o que se pede: Uma das atividades de maior importância desenvolvidas pela Igre- ja Católica na colônia foi a educação escolar. Nessa atividade, a Com- panhia de Jesus desempenhou o papel principal, entre todas as con- gregações e ordens religiosas. [...] Na Bahia, a escola onde se davam o ensino e a catequese era, se- gundo as cartas escritas pelos próprios jesuítas, uma pequena cons- trução térrea, com um dormitório, uma área de estudo, um corredor e uma sacristia. Dormiam aí padres e irmãos “assaz apertados”. A cozinha, o refeitório e a despensa serviam aos jesuítas e às crianças. Em salas separadas, lia-se gramática e ensinava-se a ler e escrever. DEL PRIORE, Mary. Religião e religiosidade no Brasil colonial. São Paulo: Ática, 1997. p. 59-60. a) Descrevam a organização espacial da sua escola e comparem-na com a da escola jesuíta descrita no texto. b) Você modificaria a organização espacial de sua escola? Pense nas áreas ocupa- das pela biblioteca, salas de aula, pátios, quadras etc. Explique sua resposta. 2. A conquista do território indígena se fez à custa de guerras e destruições. a) Essa situação de hostilidade aos indígenas tornou-se diferente no Brasil dos últimos tempos? Pesquise a extensão atual de terras indígenas em seu estado. b) Com base em sua pesquisa e no conteúdo do capítulo, escreva um texto sobre a relação entre os indígenas e o poder público na atualidade. Diálogo interdisciplinar 3. Os jesuítas também aprenderam algumas línguas dos nativos e as utilizaram em sua tarefa evangelizadora. Foi o caso do padre jesuíta José de Anchieta, que pro- duziu uma obra poética e dramática em língua tupi. Eram textos simples, de gos- to popular, que se distribuíam aos indígenas para serem cantados ou encenados, de preferência com música e dança. Seu objetivo era conquistá-los para a fé cristã, mesclando elementos das culturas indígenas e espirituais do catolicismo. Leia e interprete o seguinte trecho de um dos poemas de José de Anchieta: Vinde, crianças, receber o bondoso Jesus. Meninos, rapazes, guardai-o em vossos corações. Alegre-me eu ao vos alimentardes dele. In: MARTINS, M. L. P. Poesia: José de Anchieta S. J. São Paulo: Comissão IV Centenário de São Paulo/Museu Paulista, 1954. p. 570 e 646. Depois, em resposta a esses versos, crie um poema que promova uma reflexão sobre o projeto de aculturação dos indígenas. Diálogo interdisciplinar com Língua Portuguesa e Arte. 30 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 020a031_U1_C2_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 30 5/17/16 10:52 AM 4. Analise a imagem e faça as atividades a seguir: Diálogo interdisciplinar com Arte. a) Na obra de Victor Meirelles, a figura do frade Henrique de Coimbra, vestido de branco, com uma enorme cruz, marca o centro da pintura. Como os indí- genas foram representados nessa obra? E de que forma o artista representou o ambiente em que se passa a primeira missa? b) Retome o painel intitulado A primeira missa no Brasil, de Candido Portinari (página 20). Depois, compare as obras de Victor Meirelles e Portinari. Que elementos da pintura de Candido Portinari não se encaixam na representação presente na obra de Victor Meirelles? De olho na universidade 5. (Mackenzie-SP) Entre as funções desempenhadas pela Igreja Católica no Período Colonial, destaca-se: a) o incentivo à escravização dos nativos, pelos colonos, por meio da qualifica- ção de todos os índios como criaturas sem alma; b) a tentativa de restringir a utilização de mão de obra escrava indígena apenas aos serviços agrícolas nas áreas de extração do ouro e da prata; c) a orientação da educação indígena, no sentido de estimular a formação, na colônia, de uma elite intelectual católica; d) a imposição dos princípios cristãos por meio da catequese, favorecendo o avanço do processo colonizador. A primeira missa no Brasil, obra de Victor Meirelles, produzida em 1860. A obra pertence ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. V iC t o r m e ir e l l e s . a P r im e ir a m is s a n o B r a s il . 1 8 6 0 . 31CAPÍTULO 2 Estado e religião 020a031_U1_C2_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd31 5/17/16 10:52 AM Sociedade açucareira No Brasil contemporâneo, uma minoria de 1% de proprietários rurais é dona de, aproximadamente, 45% das terras cultiváveis.1 A concentração de terras ocorre desde o período colonial, quando o governo português favorecia pou- cas pessoas, concedendo-lhes grandes áreas rurais destinadas à construção de engenhos e outros estabelecimentos. Quais foram os interesses envolvidos na implantação dessas grandes proprie- dades rurais? • Descreva a imagem. Quais instrumentos são utilizados na produção da cana- -de-açúcar? 1 Cf. Atlas do espaço rural brasileiro. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. A cana-de-açúcar é cultivada no Brasil há mais de 400 anos. Desse modo, é possível dizer que a história do país está intimamente ligada à agricultura dessa planta. Atualmente, o Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar. Na imagem, colheita mecanizada de cana-de-açúcar no interior do estado de São Paulo. Fotografia de 2014. E r n E s t o r E g h r a n /P u l s a r I m a g E n s 32 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade capítulo 3 032a039_U1_C3_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 32 5/17/16 10:54 AM dições de riqueza, poder, prestígio e nobreza do Brasil colonial”.2 Os seus proprietários ficaram conhecidos como senhores de engenho. Eram geralmente pesso- as cuja autoridade ultrapassava os limites de suas ter- ras, estendendo-se às vilas e aos povoados vizinhos. No começo do século XVIII, o padre jesuíta Anto- nil traçou o seguinte perfil dos senhores de engenho da Bahia: Engenho Núcleo econômico e social No Brasil Colonial, a maioria da população vivia no campo, trabalhando em propriedades rurais ligadas à produção agrícola e à pecuária. Essas propriedades rurais tornaram-se também núcleos sociais, adminis- trativos e culturais, como foi o caso de muitos enge- nhos (estabelecimentos onde se produzia o açúcar). Para alguns historiadores, “o engenho de açúcar é a unidade produtiva que melhor caracteriza as con- Açúcar A implantação de um negócio lucrativo Os colonos que vieram com Martim Afonso de Souza plantaram as primeiras mudas de cana-de- -açúcar e instalaram o primeiro engenho da colônia em São Vicente, no ano de 1533, na região do atual estado de São Paulo. A partir dessa época, os engenhos multiplicaram- -se pela costa brasileira. A maior concentração deles ocorreu no Nordeste, principalmente nas regiões dos atuais estados de Pernambuco e da Bahia. Em pouco tempo, a produção açucareira superou em importância a atividade extrativa do pau-brasil, embora a exploração intensa dessa madeira tenha continuado até o início do século XVII. Por que produzir açúcar Diversos motivos levaram a Coroa portuguesa a im- plantar a produção açucareira em sua colônia americana. Havia, em certas regiões do Brasil, condições na- turais favoráveis ao desenvolvimento da lavoura ca- Investigando 1. Você sabe qual é a principal atividade econômica do seu estado? Ela gera algum impacto ambiental? Qual? Pesquise. 2. Atualmente, o Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo. Que produtos são fabricados a partir da cana? Pesquise. 2 FARIA, Sheila de Castro. Engenho. In: VAINFAS, Ronaldo (Org.). Dicionário do Brasil colonial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. p. 190. navieira, como o clima quente e úmido e o solo de massapê do litoral do nordeste. Além disso, os portugueses dominavam o cultivo da cana e a produção do açúcar, implantados com sucesso em suas colônias na ilha da Madeira e no ar- quipélago dos Açores. Assim, a metrópole sabia que poderia obter lucros com a produção do açúcar, con- siderado então um produto de luxo, uma especiaria, que alcançava altos preços no mercado europeu. O negócio açucareiro contou também com a participação dos holandeses. Enquanto os portugue- ses dominaram a etapa de produção do açúcar, os holandeses controlaram sua distribuição comercial (transporte, refino e venda no mercado europeu). Al- guns historiadores afirmam que o trabalho de produ- zir açúcar trazia menos lucros do que comercializar o produto. Considerando isso, o negócio do açúcar acabou sendo mais lucrativo para os holandeses do que para os portugueses. Antonil: pseudônimo do padre italiano Giovanni Antonio Andreoni (1649-1716), que dirigiu o Colégio de Salvador. 33CAPÍTULO 3 Sociedade açucareira 032a039_U1_C3_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 33 5/17/16 10:54 AM Casa-grande e senzala Casa-grande e senzala é o título de um livro rele- vante e polêmico da historiografia brasileira, escrito pelo sociólogo e antropólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987). Foi publicado pela primeira vez em 1933. O título é uma referência às duas construções mais características dos engenhos. A casa-grande era o casarão onde moravam o senhor de engenho e sua família. Constituía também o centro administrativo do engenho. A senzala era a construção onde viviam os escravos africanos e seus descendentes, alojados de maneira precária. Além dessas moradias, o enge- nho tinha outras construções, entre elas: • casa do engenho – com instalações como a moen- da e as fornalhas; • casa de purgar – onde o açúcar, depois de resfria- do e condensado, era branqueado; • galpões – onde os blocos de açúcar eram quebrados em várias partes e reduzidos a pó; • capela – onde a comunidade local reunia-se aos domingos e em dias festivos. Investigando • Em sua opinião, quais construções arquitetônicas são representativas da cidade onde você vive? Justifique. O senhor de engenho é título a que mui- tos aspiram, porque traz consigo o ser ser- vido, obedecido e respeitado de muitos. [...] Servem ao senhor do engenho, em vários ofícios, além de escravos [...] nas fazendas e na moenda [...], barqueiros, canoeiros [...], carreiros, oleiros, vaqueiros, pastores e pes- cadores. [...] cada senhor destes, necessaria- mente, [tem] um mestre de açúcar [...], um purgador, um caixeiro no engenho e outro na cidade, feitores, e para o espiritual um sacerdote. ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1997. p. 75. A sociedade colonial não era formada apenas por senhores de engenho e pessoas escravizadas. Além deles, havia pessoas de diversas ocupações, como: comerciantes, pescadores, ferreiros, carpinteiros, fei- tores, mestres de açúcar, purgadores, agregados, padres, alguns funcionários do rei (governadores, ju- ízes, militares) e profissionais liberais (médicos, advo- gados, engenheiros). Mestre de açúcar: aquele que, no engenho, dá o ponto ao açúcar. Purgador: o encarregado de purgar (purificar) o açúcar. Agregado: morador do engenho que prestava serviços ao senhor em troca de favores. Engenho, pintura criada pelo artista holandês Frans Post (1612-1680), que representou diversas paisagens brasileiras. Fr a n s Po st . E n g En h o . s éc u lo X VI I/P a lá c Io d o It a m a ra ty – m In Is té rI o d a s rE la ç õ Es E Xt Er Io rE s, B ra sí lI a 34 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 032a039_U1_C3_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 34 5/17/16 10:54 AM MARCOS Realce Interpretar fonte Trapiche Observe a obra Moagem de cana no engenho (sem data), de Benedito Calixto, elaborada com base no desenho original de Hercules Florence (1880). Nela, está retrata- do um trapiche, que é um engenho movido a força animal, em geral de bovinos. Mercado interno na colônia A pecuária e produções agrícolas variadas Apesar da importância do latifúndio exportador, as atividades econômicas dirigidas ao mercado externo não foram as únicas praticadas no Brasil Colonial. As novas correntes historiográficas ressaltam que se estabeleceu no Brasil considerável número de pecuaristas e pequenos proprietários rurais que produziam gêneros alimentícios para o consumo interno, tais como mandio- ca, milho, feijão e arroz. Essa produção de alimentos era essencial para a população da colônia.A criação de gado para o mercado local, por exemplo, tornou-se uma das principais atividades eco- nômicas na época. Além de servir de alimento e fornecer couro, os bois também eram utilizados como força motriz e meio de transporte. Assim, diversas regiões especializaram-se na pecuária, como áreas dos atuais estados do Piauí, Mara- nhão, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. É certo, portanto, que a econo- mia do Brasil Colonial não se reduziu à plantation, aos escravos, ao açúcar, ao tabaco, ao ouro e aos diamantes. A palavra inglesa plantation é utiliza- da para denominar as grandes pro- priedades de terras que reuniam três características da produção agrícola colonial: monocultura, escravidão e produção para exportação. 1. Como é movida a moenda? 2. Quem são os trabalhadores representados e qual atividade cada um deles exerce? 3. O que se pode concluir a respeito da pre- sença de animais na imagem? Aquarela de Debret intitulada Carro de boi transportando carne, feita em 1822. JE a n -B a P t Is t E d E B r E t. c a r r o d E B o I t r a n s P o r ta n d o c a r n E . 1 8 2 2 /m u s E u s c a s t r o m a y a , r Io d E J a n E Ir o B E n E d It o c a lI X to . m o a g E m d E c a n a n o E n g E n h o /m u s E u P a u lI s ta d a u s P 35CAPÍTULO 3 Sociedade açucareira 032a039_U1_C3_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 35 5/17/16 10:54 AM Mão de obra A escravização de milhões de africanos Além de experiência produtiva e recursos finan- ceiros, a economia açucareira necessitou de recur- sos humanos, isto é, de mão de obra para executar as tarefas nos engenhos. No início, o colonizador utilizou-se do trabalho do indígena escravizado, que foi uma solução rela- tivamente barata e em quantidade suficiente para atender à demanda de mão de obra na colônia. En- tretanto, principalmente a partir do começo do sé- culo XVII, houve predomínio da escravidão africana em relação à indígena em áreas agroexportadoras. A mão de obra africana acabou constituindo a base das principais atividades desenvolvidas em todo o período colonial. Foi utilizada na produção de açúcar, na mineração, em outros cultivos agríco- las (arroz, tabaco e algodão), bem como na criação de animais, no transporte, no comércio e no serviço doméstico. Predomínio da escravidão africana Diversos motivos costumam ser apontados pelos historiadores para explicar o predomínio da escravi- zação africana em relação à indígena. Vejamos al- guns dos aspectos apontados nessas interpretações históricas: • Barreira cultural – os indígenas do sexo masculi- no não estavam adaptados ao trabalho na lavou- ra, que era incumbência das mulheres indígenas. Havia, portanto, uma barreira cultural difícil de ser rompida pelo colonizador. • Epidemias – milhares de indígenas contraíram doenças ao entrarem em contato com os coloni- zadores europeus. Doenças como varíola e gripe provocaram muitas mortes e se transformaram em epidemias. Essa situação fez com que senho- res de engenho considerassem arriscado investir tempo e capital na mão de obra indígena. • Domínio de certas técnicas pelos africanos – muitos negros provinham de culturas familia- rizadas com a metalurgia e a criação de gado – atividades úteis na empresa açucareira. Como escreveu o historiador Stuart Schwartz, “os afri- canos sem dúvida não eram mais ‘predispostos’ ao cativeiro do que índios, portugueses, ingleses ou qualquer outro povo arrancado de sua terra natal e submetido à vontade alheia, mas as se- melhanças de sua herança cultural com as tra- dições europeias valorizavam-nos aos olhos dos europeus.”3 • Oposição à escravidão indígena – vários setores da Igreja e da Coroa opuseram-se à escravização dos indígenas, o que não aconteceu em relação à escravização dos africanos. Além desses apontamentos, destacamos, tam- bém, a interpretação do historiador Fernando No- vais, segundo a qual a preferência pela escravização dos africanos foi principalmente motivada pelos lu- cros gerados com o tráfico negreiro, que se inseria na “engrenagem do sistema colonial” montado no Brasil.4 A escravidão de africanos originou, portanto, “um lucrativo tráfico de escravos entre as costas da África, a Bahia, Pernambuco e o Rio de Janeiro”.5 O mesmo não ocorria com o comércio dos indí- genas capturados, pois seus ganhos ficavam dentro da colônia, com aqueles que se dedicavam a esse tipo de atividade. Já os lucros com o tráfico negreiro iam para a metrópole, ou seja, para os negociantes envolvidos nesse comércio e para a Coroa, que recebia os im- postos. Por isso, a escravização dos africanos foi incen- tivada, enquanto a dos indígenas foi desestimulada e até mesmo proibida em certos lugares e períodos. 3 SCHWARTZ, Stuart. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 70. 4 Cf. NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808). São Paulo: Hucitec, 1983. p. 98-102. 5 LINHARES, Maria Yedda; SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Terra prometida: uma história da questão agrária no Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1999. p. 58. 36 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 032a039_U1_C3_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 36 5/17/16 10:54 AM Em destaque Cotidiano dos escravos nos engenhos O texto a seguir trata de alguns aspectos do cotidiano dos escravos nos engenhos. Foi extraído do livro Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, do historiador Stuart Schwartz. Os escravos foram o elemento crucial na manufatura do açúcar. Suas condições de vida e trabalho são fundamentais para explicar a natureza da sociedade que se originou da economia açucareira. No século XVII, muitos senhores de engenho aparentemente aceitavam a teoria da admi- nistração da escravaria mencionada por Antonil, segundo a qual os cativos necessitavam de três P, a saber: pau, pano e pão. Castigos Observadores estrangeiros, como John Nieuhoff, que visitou o Brasil no século XVII, fa- lavam invariavelmente da brutalidade do regime escravista e informavam que os escravos brasileiros eram mal-alimentados, mal-abrigados e malvestidos. Ocasionalmente, senhores eram presos quando seus crimes contra os cativos tornavam- -se públicos. Francisco Jorge foi detido por açoitar até a morte um escravo, mas seu apelo em 1678, dizendo que era um homem pobre com mulher e filhos e que a história era invenção de seus inimigos, conseguiu-lhe o perdão da Relação [Tribunal de Justiça da Bahia]. Caso semelhante ocorreu em 1737, quando Pedro Pais Machado, proprietário do engenho Capanema, foi preso por matar dois escravos e um homem livre, um deles pendurado pelos testículos na moenda até a morte. Pais Machado foi libertado após uma investigação judicial que atestou, entre outras coi- sas, que o réu era uma pessoa nobre, com obrigações de família. Nesse caso, os escravos eram de outro proprietário, mas Pais Machado aparentemente não relutara em puni-los com a morte pelo crime de haverem ferido um boi. Vestuário A vestimenta fornecida aos cativos era exígua. Observadores do século XVII muitas vezes descreveram os escravos como andando “nus” e constantemente expostos às oscilações do clima. Os homens normalmente usavam ceroulas que lhes cobriam até abaixo do joelho, andavam sem camisa e envolviam a testa com um lenço ou uma faixa. As mulheres tinham trajes mais completos, com saia, anágua, blusa e corpete, mas tal vestuário pode ter sido usado apenas na hora da venda das cativas e não no trabalho do campo. Em geral dava-se aos escravos o “pano da terra”, um tecido grosseiro de fio cru. Por volta do século XIX, os comentários e gravuras feitos por viajantes no Brasil deixavam claro que o vestuário dos escravos refletia as diferenças de ocupações e a hierarquia interna da senzala. Os que trabalhavamno campo eram em geral mais malvestidos que os servido- res domésticos e os artesãos. Alimentação Os escravos comiam tudo o que lhes caísse nas mãos. Além de sua cota de comida, os escravos adulavam, mendigavam e roubavam por mais alimento. [...] O Manual do fazendeiro, publicado por João Imbert em 1832, dá-nos uma ideia da ração de um escravo trabalhador dos campos. Esse autor demonstrava especial orgulho pela ali- mentação que fornecia a seus cativos e, portanto, podemos supor que ela fosse melhor que a da maioria. Os escravos de Imbert recebiam pão e um copo de cachaça ao saírem para o campo. Às nove da manhã, paravam para uma refeição composta de arroz, toucinho e café. O jantar era comido no campo, e consistia de carne-seca e legumes, embora ocasional- mente houvesse carne fresca. Ao anoitecer, comia-se uma ceia de legumes cozidos, farinha de mandioca e frutas. [...] SCHWARTZ, Stuart. op. cit., p. 122-127. • A partir do texto, explique como os escravos eram geralmente tratados nos engenhos. 37CAPÍTULO 3 Sociedade açucareira 032a039_U1_C3_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 37 5/17/16 10:54 AM MARCOS Nota ler depois Oficina de História Vivenciar e refletir 1. Interprete a frase a seguir e responda às questões: “Com a implantação da empresa açucareira no Brasil, a atividade extrativa (do pau-brasil) foi perdendo sua impor- tância para aquela organização produtiva”. a) Por que atualmente se diz que a extração do pau-brasil era uma atividade predatória? b) Por que se afirma que a empresa açucareira era uma organização produtiva? c) Com a aprovação da Lei de Crimes Ambientais (ou Lei da Natureza, n. 9605 de 13 de fevereiro de 1998), a sociedade brasileira e os órgãos ambientais pas- saram a contar com um mecanismo para punição aos infratores do meio am- biente. Pesquise quais são os principais tipos de crimes ambientais previstos nessa lei. 2. Observe os três personagens representados neste painel e responda: Painel, sem data, que representa indígena, branco e negro. • pecuária • mercado interno • plantation rô m u lo F Ia ld In I/t Em Po c o m Po st o /m u sE u d o h o m Em d o n o rd Es tE , r Ec IF E, P Er n a m Bu c o . a) Que características nos ajudam a identificar quem é quem? b) O que esses personagens e seus aparatos simbolizam? 3. Escreva um texto sobre o Brasil Colonial relacionando as seguintes expressões: Diálogo interdisciplinar 4. Sob a orientação do professor, organizem-se em grupos. Pesquisem em livros, revis- tas e na internet a produção atual de cana-de-açúcar no Brasil, seguindo o roteiro: Diálogo interdisciplinar com Geografia. 38 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 032a039_U1_C3_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 38 5/17/16 10:54 AM a) Onde ela é plantada, seus subprodutos e seu impacto no meio ambiente e na vida das popu- lações de seu entorno. b) Se possível, acessem os sites indicados: • <www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/cana- de-acucar/Abertura.html>; • <http://www.agricultura.gov.br/vegetal/culturas/ cana-de-acucar>; • <http://infoener.iee.usp.br/scripts/biomassa/br_ cana.asp>. c) Produzam um relatório final com todas as infor- mações obtidas. 5. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agro- pecuária (Embrapa), cada brasileiro consome em média 55 quilogramas de açúcar por ano, en- quanto a média mundial é de 21 quilogramas por ano. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que cada pessoa consuma de 25 a 50 gramas de açúcar por dia. Essa recomen- dação abrange todos os tipos de açúcar (sacarose, glicose e frutose), que provêm de alimentos como o açúcar de mesa, mel, sucos e polpa de frutas ou produtos industrializados. a) Com base nos dados da Embrapa, calcule quanto açúcar um brasileiro consome, em média, por dia. b) Observe as embalagens dos alimentos que você consome e verifique quais deles possuem açúcar entre seus ingredientes. Você saberia di- zer se sua dieta está dentro da recomendação da OMS? c) Pesquise doenças que podem ser provocadas pelo consumo exagerado de açúcar. d) Em grupo, elaborem um cardápio de café da manhã, almoço, lanche e jantar que contenha a quantidade de açúcar recomendada pela OMS. 6. O Proálcool — Programa Brasileiro de Álcool — foi criado em 1975 a fim de substituir os combustíveis automotivos derivados do petróleo pelo álcool. Isso diminuiria a importação do petróleo pelo Brasil e estimularia a produção interna de álcool. Diálogo interdisciplinar com Matemática e Biologia. Diálogo interdisciplinar com Química, Biologia e Geografia. a) Faça uma pesquisa em livros, revistas e na inter- net a respeito desse programa nacional e discu- ta o assunto com seus colegas. Para entender o funcionamento do Proálcool e do uso do álcool enquanto combustível, consulte os professores de Química, Biologia e Geografia. b) Após a pesquisa e a discussão em classe, escreva um texto refletindo a respeito das possíveis rela- ções entre o atual programa do ProÁlcool e os conteúdos do capítulo estudado. De olho na universidade 7. (Enem-2011) O açúcar e suas técnicas de produção fo- ram levados à Europa pelos árabes no sécu- lo VIII, durante a Idade Média, mas foi prin- cipalmente a partir das Cruzadas (séculos XI e XIII) que a sua procura foi aumentan- do. Nessa época passou a ser importado do Oriente Médio e produzido em pequena escala no sul da Itália, mas continuou a ser um produto de luxo, extremamente caro, chegando a figurar nos dotes de princesas casadoiras. CAMPOS, R. Grandeza do Brasil no tempo de Antonil (1681-1716). São Paulo: Atual, 1996. Considerando o conceito do Antigo Sistema Co- lonial, o açúcar foi o produto escolhido por Por- tugal para dar início à colonização brasileira, em virtude de: a) o lucro obtido com o seu comércio ser muito vantajoso. b) os árabes serem aliados históricos dos portugueses. c) a mão de obra necessária para o cultivo ser insu- ficiente. d) as feitorias africanas facilitarem a comercializa- ção desse produto. e) os nativos da América dominarem uma técnica de cultivo semelhante. 39CAPÍTULO 3 Sociedade açucareira 032a039_U1_C3_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 39 5/17/16 10:54 AM Escravidão e resistência Os responsáveis pelo tráfico negreiro trouxeram para o Brasil cerca de 4 milhões de africanos durante mais de três séculos de escravidão. Devido, em grande parte, a essa migração compulsória, o Brasil tem atualmente uma das maiores populações de afrodescendentes do mundo. Como se desenvolveu esse “infame comércio”1 de escravos? Quem eram esses africanos arrancados de suas sociedades? Quais foram suas estratégias de resis- tência à escravidão? 1. Em sua interpretação, quem são os personagens representados? 2. Há mulheres representadas na obra? O que elas estão fazendo? 3. Que instrumento musical aparece na obra? Qual é sua função na capoeira? 1 Cf. RODRIGUES, Jaime. O infame comércio. Campinas: Ed. Unicamp, 2005. Obra Jogar capoeira, pintura criada por Johann Moritz Rugendas em 1835. A capoeira é uma manifestação cultural afro-brasileira que envolve dança e luta. Para muitos escravos e libertos, a capoeira era uma forma de expressar sua cultura e de enfrentar os agentes do regime escravocrata. No Brasil, a capoeira é praticada há mais de 200 anos e, devido à sua história, tornou-se um dos símbolos da identidade nacional. Jo h a n n M o ri tz r u g en d a s. Jo g a r Ca po ei ra , o u d a n ça d a g u er ra . C o le ç ã o B ra si li a n a it aú , s ã o p au lo 40 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade capítulo 4 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 40 5/17/16 10:56 AM Os africanos trazidos ao Brasil como escravos eram, em sua maioria, originários da África central, geralmente de Angola e do Congo, e também das regiões africanas de Daomé (Benin), Nigéria e Guiné, na África ocidental. 2 Cf. SILVA, Albertoda Costa e. A enxada e a lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 671. Tráfico negreiro O comércio de vidas humanas A escravidão foi uma prática tão antiga quanto perversa. Foi aplicada de ma- neira diversificada entre os povos que a adotaram. Mesopotâmicos, gregos, romanos, astecas e incas — entre muitos outros po- vos — costumavam transformar em escravos os adversários e prisioneiros derrota- dos em conflitos armados. Os árabes já adquiriam africanos no centro-sul da África para negociá-los na região do Mediterrâneo oriental, muito antes dos europeus. Entre os fatores que favoreciam esse comércio, podemos destacar os conflitos entre povos dessa região — certos grupos africanos costumavam prender seus rivais para depois vendê-los como escravos aos comerciantes estrangeiros. Há estimativas de que, no período de 650 a 1600, tenham sido levados para o mundo islâmico do norte da África cerca de 4 820 000 escravos.2 Os cálculos são imprecisos e permanecem no campo das conjecturas históricas. Na Europa, os portugueses foram os primeiros a realizar o comércio de escra- vos africanos através do Atlântico — seguidos por holandeses, ingleses e france- ses. Isso foi possível depois de os portugueses terem dominado muitas regiões no litoral da África (onde fundaram feitorias ao longo dos séculos XV e XVI) e estabe- lecido alianças com comerciantes e soberanos locais. O tráfico negreiro realizado pelos europeus a partir do século XVI uniu interes- ses dos grupos escravistas em três continentes: África, Europa e América. Forman- do um comércio triangular, os navios europeus levavam mercadorias da colônia e da metrópole para a costa africana (como tecidos, aguardente, tabaco e armas), que eram trocadas por escravos. Em seguida, esses escravos eram vendidos para os colonos americanos, que necessitavam de mão de obra para suas lavouras, minas ou outra atividade econômica. Veja, no mapa, al- gumas sociedades no continente africano em 1500. Conjectura: hipótese, suposição provável, baseada em presunções, evidências incompletas. MADAGASCAR CONGO MONOMOTAPA AKAN BENIN ESTADOS IORUBAS ESTADOS MOSSI ESTADOS HAUÇÁS KWARARAFA CANURE NUPE AIR WADAI DARFUR KANEM– –BORNU DESERTO DO SAARA MALI SONGAI IMPÉRIO FUNJ ADAL E T IÓ P IA DESERTO DE KALAHARI OVIMBUNDU LUNDA LUBA KUBA MBUNDU MONGO MANGBETU NGBANDIDUALA PIGMEU VILI MASAI SIDAMA AGAU OR OM O (G AL LA ) S O M A LI DANAKIL LOZI TONGA SHONA C H O KW E- -LU ENA Ri o Co ng o L. VITÓRIA OCEANO ATLÂNTICO OCEANO ÍNDICO MAR MEDITERRÂNEO M A R VERM ELH O 20º L 10º N R io N ig er Ri o N ilo Rio Zambeze R. Limpopo R. Orange Império/Reino/Estado Etnia Áreas convertidas ao islamismo LUBA 0 1015 km Rio S eneg a l África Subsaariana em 1500 s id n e i M o u r a Fonte: Atlas da história do mundo. São Paulo: Folha de S.Paulo, 1995. p. 134-135. 41CAPÍTULO 4 Escravidão e resistência 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 41 5/17/16 10:56 AM Impactos do comércio de escravos Devido ao tráfico negreiro, milhões de africanos acabaram desterrados, ar- rancados da África e escravizados. Segundo o historiador Patrick Manning, além do tráfico, outras condições (epidemias, secas, fome) dificultaram o crescimento da população africana até o século XX, pois o número dos que nasciam era prati- camente igual à soma dos que morriam e dos que eram vendidos como escravos para fora do continente.3 As estimativas sobre o total de escravos trazidos para a América, especial- mente para o Brasil, variam muito. O número exato provavelmente jamais será conhecido. Para todo o continente americano, as estimativas dos diversos ana- listas variam entre 10 e 20 milhões de escravos, entre os séculos XVI e XIX. O impacto do tráfico negreiro tem uma dimensão muito ampla nas sociedades africanas. Veja o que diz a respeito o historiador Alberto da Costa e Silva: Os estragos do tráfico foram, porém, incomensuravelmente mais dramáticos do que essas estimativas. Basta lembrar que o preço de cada escravo vendido em terra do Islame ou desembarcado nas Améri- cas era o de vários seres humanos, que morriam nos ataques armados, nas caminhadas do interior para o Sael e para a costa, na espera junto aos caravançarás e aos portos e na viagem através do Saara, do mar Vermelho, do Índico e do Atlântico. O comércio negreiro desorganizou muitas sociedades africanas, afetou- -lhes a produção, corrompeu lealdades, tradições e princípios, partiu li- nhagens e famílias, disseminou continente afora a insegurança e o medo. SILVA, Alberto da Costa e. op. cit., p. 55. 3 Cf. MANNING, Patrick. Escravidão e mudança social na África. In: Novos Estudos Cebrap. São Paulo: n. 21, jul. 1988. p. 8-29. Caravançará: local de abrigo dos caravaneiros. Antes de serem embarcados nos navios negreiros, os africanos escravizados eram mantidos em barracões, como se vê nessa gravura anônima do século XIX. M a r y e v a n s /d io M e d ia 42 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 42 5/17/16 10:56 AM Em destaque Comércio hediondo O texto a seguir, escrito pelo historiador africano Joseph Ki-Zerbo, trata do impacto do tráfico negreiro na África. No século XVI, começou a invasão vinda do exterior: uma grande intromissão, com as “grandes descobertas” da África ao sul do Saara e da América Latina. Essas descobertas implicaram [...] o tráfico dos negros. Depois do genocídio dos índios da América, o tráfico custou a vida de dezenas de milhões de africanos, que foram arrancados a este continente e expedidos, em condições atrozes, para além do oceano Atlânti- co. Nenhuma coletividade humana foi mais inferiorizada do que os negros depois do século XV. Foram encomendados escravos negros aos milhões; utilizaram-se os negros como reprodutores de outros negros, em “coudelarias” constituídas para produzir novos negrinhos para o trabalho nas plantações. Quantas crianças africanas foram jogadas dos navios, ou abandonadas nos mercados de escravos, longe das mães que eram levadas, porque era preciso muito tempo para alimentá-las até que fossem exploráveis. Os escravos eram comprados às toneladas. [...] Durante esse tempo, na Europa, os teólogos debatiam doutamente a questão de saber se os negros tinham alma. Foi uma pergunta que não se fez a propósito de outros grupos humanos. Tudo isso é conhecido, ninguém pode negá-lo. Mas como se pode conseguir não reconhecer que toda a espécie humana foi inferiorizada, humilhada, crucificada por esse tratamento? O tráfico foi o ponto de partida de uma desa- celeração, um arrastamento, uma paragem da história africana. [...] Se ignorarmos o que se passou com o tráfico negreiro, não compreenderemos nada sobre a África. KI-ZERBO, Joseph. Para quando a África? Entrevista com René Holensteis. Rio de Janeiro: Pallas, 2006. p. 24-25. Coudelaria: estabeleci- mento destinado à cria- ção e seleção de animais. • Debata com seus colegas possíveis argumentos para demonstrar a afirmação da última frase do texto. O mercado de escravos. Água-tinta sobre papel, do século XIX, feita por Henry Chamberlain, um oficial da Artilharia Real Britânica e pintor que representou aspectos da cidade do Rio de Janeiro como o cotidiano e a arquitetura. h en ry C h a M Be rl a in . o M er C a d o d e es C ra vo s. s éC u lo X iX / M u se u s C a st ro M ay a , n o r io d e Ja n ei ro 43CAPÍTULO 4 Escravidão e resistência 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 43 5/17/16 10:56 AM O tráfico negreiro no Brasil No século XVI, o primeiro da colonização, o número de africanos trazidos para o Brasil foi menor que nos séculos subsequentes, pois as atividades eco- nômicas ainda eram relativamente reduzidas e grande parte da mão de obra nelas utilizada era indígena. As primeiras capitanias do Brasil que receberam escravos africanos foram Bahia e Pernambuco,locais onde a produção de açú- car mais prosperou. No século XVII, a retomada pelos portugueses do controle da comercialização de açúcar e dos territórios que estavam sob domínio dos holandeses levou ao aumento da importação de escravos africanos. Ao longo desse século, é provável que o tráfico de escravos tenha sido mais lucrativo para a metrópole portuguesa do que o negócio do açúcar. No século XVIII, a economia passou por um processo de diversificação, e foram descobertas jazidas de ouro no interior, o que fez crescer a necessidade de mão de obra. No século XIX, a importação de escravos africanos foi ainda mais intensa do que nos séculos anteriores e destinava-se a abastecer principalmente a lavoura de café, que se expandia pelo sudeste do país. O tráfico negreiro foi legalmente extin- to no Brasil em 1850, mas continuou como contrabando até 1855. O historiador Herbert Klein estima que cerca de 4 milhões de africanos desem- barcaram no Brasil para serem escravizados, entre 1531 e 1855. Investigando • Com base na tabela e nas informações sobre o comércio de escravos no Brasil, responda: a) Em que período houve o maior crescimento do tráfico negreiro, em nú- meros absolutos? b) Por que isso aconteceu? Formule hipóteses e escreva um comentário a respeito. Fonte: Organizada a partir de tabelas elaboradas por KLEIN, Herbert. Tráfico de escravos. In: Estatísticas históricas do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1987. Estimativas de desembarque de africanos no Brasil (1531-1855) Período Número de escravos 1531-1600 50 000 1601-1700 560 000 1701-1800 1 680 100 1801-1855 1 719 300 Total 4 009 400 44 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 44 5/17/16 10:56 AM Observar o mapa • Com base no mapa, res- ponda: a) Em que regiões do Brasil Colonial mais se concen- trava a população escrava? b) De que regiões da África saíam e para onde iam os escravos africanos? 40º S 20º O Belém São Luís Fortaleza Natal Ajudá Lagos Costa do Marfim Costa do Ouro Costa dos Escravos SUDÃO ANGOLA ÁFRICA BRASIL CONGO Cabinda Loango Luanda São Paulo de Luanda Benguela Mossamedes Moçambique Mombaça Recife Salvador Rio de Janeiro Santos São Vicente OCEANO PACÍFICO OCEANO ATLÂNTICO OCEANO ÍNDICO Sudaneses Bantos Principais portos de saída de cativos Focos disseminadores Limite atual do território brasileiro Irradiação 0 644 km A viagem nos navios negreiros Depois de aprisionados em seu continente, os africanos eram acorrentados e marcados com ferro em brasa para identificação. Eram, então, vendidos aos comerciantes de escravos que se estabeleciam no litoral da África e os mandavam para a América nos navios negreiros. Segundo o historiador britânico Charles R. Boxer, os navios negreiros saíam da África, em média, com 600 escravos, embora esse número variasse de acordo com o tipo e o tamanho das embarcações. Receando possíveis revoltas durante a travessia, os traficantes acorrentavam os africanos nos porões dos navios. A viagem era muito longa e extenuante: de Luanda (África) até o Recife (Brasil) levava por volta de 35 dias; até a Bahia, 40 dias; até o Rio de Janeiro, cerca de dois meses.4 Nos porões escuros dos navios, o espaço era reduzido e o calor quase insupor- tável. A água era suja e o alimento insuficiente para todos. Formava-se, assim, um quadro propício para o desenvolvimento de doenças e epidemias, que vitimavam os africanos debilitados. Devido a esses fatores, às péssimas condições do transporte e aos maus-tratos a que eram submetidos, calcula-se que entre 5 e 25% dos africanos morriam du- rante a viagem. Por isso, os navios negreiros foram chamados de tumbeiros (em referência a tumba) ou túmulos flutuantes. Aos sobreviventes, ficava a difícil tarefa de reconstruir suas vidas em um novo continente. Muitos africanos trazidos para a América entravam em um estado de tristeza profunda associada à violência da escravidão e à saudade de sua terra natal. Esse estado psicológico de depressão ficou conhecido como banzo e podia provocar a apatia, a inanição e, até mesmo, a morte. 4 Cf. BOXER, C. R. Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola (1602-1686). São Paulo: Nacional, 1973. p. 244. O tráfico negreiro (séculos XVI-XIX) s id n e i M o u r a Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: MEC/Fename, 1986. p. 36. 45CAPÍTULO 4 Escravidão e resistência 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 45 5/17/16 10:56 AM O poeta brasileiro Castro Alves (1847-1871) foi um importante abolicionista. Aos 21 anos, escreveu um de seus poemas mais conhecidos: “O navio negreiro”, que denuncia a crueldade da escravidão. Para criar esse poema, Castro Alves baseou-se em relatos de escravos que conheceu quando criança. Interpretar fonte O navio negreiro O navio negreiro Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar, por que não apagas Co’a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão? [...] Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? [...] São os filhos do deserto, Onde a terra esposa a luz. [...] Ontem simples, fortes, bravos. Hoje míseros escravos, Sem luz, sem ar, sem razão... [...] Ontem plena liberdade, A vontade por poder... Hoje... cúm’lo de maldade, Nem são livres p’ra morrer... ALVES, Castro. Navio negreiro. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/ DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1786>. Acesso em: 17 nov. 2015. Johann Moritz Rugendas (1802-1858) foi um pintor alemão que visitou o Brasil em duas ocasiões, entre 1822 e 1825 e, depois, entre 1845 e 1846. Inspirando-se no que vivenciou durante sua primeira visita, Rugendas publicou, em 1835, a obra Viagem pitoresca através do Brasil. Observe sua obra Navio Negreiro, criada entre 1821 e 1825. 1. As obras de Castro Alves e Johann Moritz Rugendas podem ser utilizadas como fontes históricas? Explique e, depois, relacione algumas diferenças e semelhanças entre elas. 2. Explique a que se referem as palavras “desgraçados” e “horror” nos primeiros versos do poema. 3. De acordo com a pintura, que condições os africanos enfrentavam na viagem para a América? Descreva alguns elementos da obra e compare com o texto deste capítulo. Jo h a n n M o ri tz r u g en d a s. n av io n eg re ir o . F u n d a ç ã o B iB li o te C a n a C io n a l, r J 46 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 46 5/17/16 10:56 AM IMAGEM EM BAIXA Investigando • Existem vendedores de rua na cidade onde você mora? Eles comercializam comidas? Quais? Diversidade Povos africanos e suas condições de vida Por meio do tráfico negreiro, chegaram ao Bra- sil homens e mulheres de diversas regiões da África. Entre os principais grupos africanos trazidos para o Brasil, destacaram-se: • os bantos – originários da África central, geral- mente de Angola e do Congo; foram levados prin- cipalmente para Pernambuco, Rio de Janeiro e Mi- nas Gerais; • os sudaneses – provinham das regiões africanas de Daomé (Benin), Nigéria e Guiné, na África ociden- tal; foram levados principalmente para a Bahia. Nos séculos XVII e XVIII, os africanos de origem sudanesa eram comprados por um preço maior, pois muitos senhores no Brasil os consideravam mais for- tes e inteligentes que os demais. Entretanto, esses es- cravos também foram os líderes de muitas revoltas, especialmente nos séculos XVIII e XIX. Devido a isso e a limitações impostas aos trafican- tes no século XIX, os africanos bantos passaram a ser mais procurados. Os senhores os consideravam “mais pacíficos e adaptados ao trabalho”. Distinções entre africanos escravizados Chegando ao Brasil, os africanos que sobreviviam à viagem nos navios negreiros eram vendidos,geral- mente no próprio porto, em leilões. Depois, passaram a trabalhar nos engenhos de açúcar, nas plantações de algodão, na mineração, nos serviços domésticos, no artesanato ou ainda nas cidades. Submetidos à escravidão, os africanos costuma- vam ser diferenciados pelos colonos de acordo com o trabalho que desempenhavam e o tempo de vida na colônia, além de critérios principalmente relacionados à origem cultural e linguística. Os compradores de es- cravos evitavam adquirir indivíduos do mesmo grupo linguístico, para que, assim, fossem obrigados a se co- municar em português. Vejamos algumas distinções. Escravo de ganho Os escravos de ganho eram aqueles que viviam nas cidades e realizavam trabalhos temporários em troca de pagamento, que era revertido, parcial ou totalmente, para seus proprietários. Entre os escravos de ganho pre- dominava o comércio ambulante. No período colonial brasileiro, escravas de ganho preparavam e vendiam nas ruas comidas, como mingaus, peixes fritos, acarajé e bolos, sobretudo em cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Segundo pesquisadores, esse comér- cio originou o ofício das baianas do acarajé que, no Brasil Contemporâneo, foi declarado Patrimônio Imate- rial do país pelo Iphan. Devido às maiores possibilidades de circulação e de ganho, os escravos preferiam a vida nas cidades; ali, podiam juntar algum dinheiro com suas tarefas e, eventualmente, conseguir comprar sua liberdade. A venda de um escravo urbano para uma fazenda era, muitas vezes, uma forma de castigo usada pelos senhores. O acarajé é um bolinho de feijão-fradinho frito no azeite de dendê e, muitas vezes, recheado com vatapá, caruru e camarão seco. Essa receita foi trazida para o Brasil por africanos escravizados e está ligada ao candomblé, uma religião afro-brasileira. Fotografia de 2015. r u B e n s C h a v e s /p u l s a r i M a g e n s 47CAPÍTULO 4 Escravidão e resistência 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 47 5/17/16 10:56 AM MARCOS Realce Escravos do eito Os escravos que trabalhavam nas lavouras eram chamados de negros do eito. Assim como os que lidavam com a mineração, viviam sob a fiscalização do feitor e trabalhavam até 15 horas por dia. Quando desobedeciam às ordens, podiam sofrer vários tipos de castigo, geralmente aplicados em público, para que os outros escravos também se intimidassem — era o chamado “castigo exemplar”. O excesso de trabalho, a má alimentação, as péssimas condições de higiene e os castigos que sofriam deterioravam rapidamente sua saúde. Muitos escravos morriam depois de cinco a dez anos de trabalho. Escravos domésticos Os escravos domésticos eram escolhidos entre aqueles que os senhores consi- deravam mais bonitos, dóceis e confiáveis. Muitas vezes recebiam roupas melho- res, alimentação mais adequada etc. Boçal e ladino Outro fator que distinguia os escravos era o processo de “adaptação” cultural. Tinha menor valor o boçal, designação dada ao escravo recém-chegado da África, que desconhecia a língua portuguesa e o trabalho na colônia. Em contrapartida, o ladino era mais valorizado: o escravo que entendia a língua portuguesa e já havia aprendido a rotina do trabalho. Sobre a distinção entre os escravos, o jesuíta Antonil, que viveu no Brasil no início do século XVIII, apresentou a seguinte visão: Uns chegam ao Brasil muito rudes e muito fechados e assim conti- nuam por toda a vida. Outros, em poucos anos, saem ladinos e espertos, assim para aprenderem a doutrina cristã, como para buscarem modo de passar a vida. [...] Os que nasceram no Brasil, ou se criaram desde peque- nos em casa dos brancos, afeiçoando-se a seus senhores, dão boa conta de si, e levando bom cativeiro, qualquer deles vale por quatro boçais. ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1997. p. 89. Eito: roça ou plantação onde trabalhavam os escravos. Obra do pintor alemão Emil Bauch, de 1858, que retrata escravos de ganho no Rio de Janeiro. eM il B au C h . r ep re se n ta ç ã o d e es C ra vo s d e g a n h o n o r io d e Ja n ei ro . 1 85 8. C o le ç ã o p a rt iC u la r 48 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 48 5/17/16 10:56 AM Em destaque Culturas africanas RECORTARRECORTAR • Segundo Pierre Verger, o que teria favorecido a manutenção das identidades culturais africanas em certas regiões brasileiras e em outras não? r Ô M u lo F ia ld in i/ te M p o C o M p o st o São Mateus, obra em madeira produzida por Mestre Valentim (1745-1813), escultor e urbanista descendente de africanos, que trabalhou no Rio de Janeiro. Pertence hoje ao Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Apesar de terem chegado ao Brasil sob as mais penosas condições, os africanos participaram intensamente das vivências culturais brasileiras. Essa participação deu-se por meio de um processo contínuo, rico e diversificado, sendo marcante, por exemplo, na literatura, na língua falada, no vocabulá- rio, na música, na alimentação, na religião, no vestuário, nas técnicas e na ciência. Vejamos o que diz sobre o assunto o etnólogo francês Pierre Verger: [...] Na Bahia [...] os africanos provenientes da região do gol- fo de Benin puderam dar continuidade aos cultos dos antigos voduns e orixás, semelhantes aos dos atuais habitantes do sul do Daomé e sudoeste da Nigéria. As especialidades culinárias da Bahia levam, ainda, nomes pertencentes aos vocabulários iorubá e daomeano. No resto do Brasil, por outro lado, são mais aparentes as influências banto do Congo e de Angola. A permanência visível de costumes africanos na cultura baiana pode ser explicada, em parte, pela concentração, no último século da escravidão, de africanos de uma mesma procedência da África nessa região do Brasil. Enquanto, no Rio de Janei- ro, desembarcavam africanos de todas as nações, muitas vezes inimigos uns dos outros, na Bahia che- gavam escravos jejes (daomeanos), ussás e nagôs provenientes da Costa da Mina, que mantinham identidades culturais e eram unidos entre si. VERGER, Pierre. Fluxo e refluxo: do tráfico de escravos entre o golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos, dos séculos XVII a XIX. São Paulo: Corrupio, 1987. Espalhadas por todas as regiões do país, as culturas africanas integram o modo de ser, pensar e viver da po- pulação brasileira. Do mesmo modo, o trabalho do afri- cano e de seus descendentes marca a economia brasileira no passado e no presente. 49CAPÍTULO 4 Escravidão e resistência 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 49 5/17/16 10:56 AM sabotavam a produção, quebrando ferramentas ou incendiando plantações. Na produção do açúcar, por exemplo, a sabotagem dos escravos era uma ameaça constante. Pedaços de madeira em brasa lançados nos canaviais provocavam incêndios; pedaços de ossos, ferro ou pedra jogados na moenda do engenho por vezes inutilizavam o maquinário, comprometendo a produção e até mesmo arruinando a safra. • Negociações – as “negociações” entre senhores e escravos também faziam parte do cotidiano escravis- ta. Segundo os historiadores João José Reis e Eduardo Silva, muitos escravos faziam acordos de cumprir as exigências de obediência e trabalho em troca de um melhor padrão de sobrevivência (alimentos, vestuá- rios, saúde) e da conquista de espaço para a expressão de sua cultura, organização de festas etc.5 Luta dos africanos As diversas formas de resistência à escravidão Os africanos trazidos para o Brasil e seus des- cendentes não ficaram passivos à condição escrava. Analisando as formas de resistência empregadas pe- los cativos, autores de obras mais recentes mostram que os africanos reagiram à escravidão na medida de suas possibilidades, ora promovendo uma luta aberta contra o sistema, ora até mesmo se “adaptando” a certas condições, mas propondo formas de minimizarseus aspectos mais perversos mediante negociações com os senhores. Vejamos algumas das formas de resistência viven- ciadas por eles: • Violência contra si mesmos – algumas mulheres, por exemplo, provocavam abortos para evitar que seus filhos também fossem escravos; outros cativos chegavam a praticar o suicídio, enforcando-se ou envenenando-se. • Fugas individuais e coletivas – as fugas eram constantes. Alguns escravos fugidos buscavam a pro- teção de negros livres que viviam nas cidades; outros, para dificultar a captura e garantir a subsistência, formavam comuni- dades, chamadas quilombos, com organização social própria e uma rede de alianças com di- versos grupos da sociedade. • Confrontação, boicote e sabota- gem – alguns se rebelavam e agiam com violência contra senhores e fei- tores; boicotavam os trabalhos, redu- zindo ou paralisando as atividades; 5 Cf. REIS, João José; SILVA, Eduardo. Negociação e conflito. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. Quilombo: palavra de origem africana que significa população, união. Investigando • No mundo atual, existem casos de trabalhadores submetidos a condições análogas à de escravidão. Que mecanismos podem ser acionados para acabar com essa situação de violência? Há organizações e projetos que combatem o trabalho escravo em nosso país? Pesquise. Comunidade remanescente de quilombo Kalunga Vão do Moleque durante um festejo. A comunidade está localizada no município de Cavalcante (GO). Fotografia de 2015. r iC a r d o t e l e s /p u l s a r i M a g e n s 50 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 50 5/17/16 10:56 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Interpretar fonte Negociação e conflito Tarrafa: espécie de rede de pesca circular, com pequenos pesos distribuídos em torno da circunferência. Resistência quilombola Foi frequente, no continente americano, a forma- ção de grupos de escravos fugidos como forma de re- sistência à escravidão. No Brasil, esses grupos recebiam o nome de quilombos ou mocambos, e seus membros eram chamados de quilombolas ou mocambeiros. A resistência quilombola foi uma forma de luta escrava frequente e importante em vários períodos e regiões da América portuguesa. Do século XVII até os anos finais da escravidão, muitos africanos e seus descendentes fugiram e se reuniram nessas comuni- dades, construindo histórias de luta pela liberdade. Vários estudos históricos sobre quilombos de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco mostram que, embora a população dos quilombos fosse composta principalmente de africanos e seus descendentes, havia também entre eles indígenas ameaçados pelo avanço europeu, soldados desertores, pessoas perseguidas pela justiça ou simples aventureiros e comerciantes. A vida nos quilombos estava ligada a atividades como: agricultura, caça, criação de animais, mineração e comércio. Seus integrantes sustentavam-se por meio de alianças “clandestinas” com escravos de ganho ou libertos e homens livres, principalmente comerciantes. Quilombo dos Palmares Palmares, considerado o quilombo mais importante de nossa história, recebeu esse nome porque ocupava uma extensa região de palmeiras. Situava-se no atual estado de Alagoas, que, na época, fazia parte da capitania de Pernambuco. Em Palmares, os quilombolas criavam gado e cul- tivavam milho, feijão, cana-de-açúcar e mandioca, além de realizar um razoável comércio com os povo- ados próximos. Apesar das várias expedições militares organiza- das para destruí-lo, o quilombo resistiu por 65 anos (1629-1694), chegando a ter, segundo um governador da capitania de Pernambuco do período, aproximada- mente 20 mil habitantes. Esse número provavelmente era menor; acredita-se que tenha sido aumentado pelo governador para justificar o fracasso das primeiras ex- pedições militares enviadas contra o quilombo. Leia, a seguir, trechos do tratado proposto por um grupo de escravos rebeldes a um senhor de engenho de Santana de Ilhéus, Bahia, em aproximadamente 1789. Tratado proposto a Manuel da Silva Ferreira pelos seus escravos durante o tempo em que se conservaram levantados (cerca de 1789). Meu senhor, nós queremos paz e não queremos guerra; se meu senhor também quiser nossa paz há de ser nessa conformidade, se quiser estar pelo que nós quisermos, a saber: Em cada semana nos há de dar os dias de sexta-feira e de sábado para trabalharmos para nós não tirando um destes dias por causa de dia santo. Para podermos viver nos há de dar rede, tarrafas e canoas. [...] Os atuais feitores não os queremos, faça eleição de outros com a nossa aprovação. [...] Poderemos plantar nosso arroz onde quisermos, e em qualquer brejo, sem que para isso peça- mos licença, e poderemos cada um tirar jacarandás ou qualquer pau sem darmos parte para isso. A estar por todos os artigos acima, e conceder-nos estar sempre de posse da ferramenta, estamos prontos para o servirmos como dantes, porque não queremos seguir os maus costumes dos mais engenhos. Poderemos brincar, folgar e cantar em todos os tempos que qui- sermos sem que nos impeça e nem seja preciso licença. In: REIS, João José; SILVA, Eduardo. Negociação e conflito. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 123-124. • Com relação ao documento, identifique: quem o elaborou; quando foi elaborado; a quem se destinava; quais são as principais reivindicações dos escravos rebelados; o que se oferece em contrapartida. 51CAPÍTULO 4 Escravidão e resistência 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 51 5/17/16 10:56 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Lideranças de Ganga Zumba e Zumbi O primeiro líder a se destacar em Palmares foi Ganga Zumba (que quer dizer “gran- de senhor”), que governou o quilombo de 1656 a 1678. Pressionado, porém, pelos ataques frequentes dos colonos, Zumba firmou com o governador de Pernambuco um acordo de paz que previa liberdade para os negros nascidos em Palmares, com a condi- ção de serem devolvidos aos colonos os escravos recém-chegados ao quilombo. Zumbi, sobrinho de Ganga Zumba, não concordou com essa condição e liderou um grupo que se opôs ao acordo. Zumba acabou destituído e assassinado, e Zumbi passou a liderar Palmares, comandando a luta contra vários ataques dos brancos. Destruição de Palmares Em 1687, o governo e os senhores de engenho contrataram o bandeirante Domingos Jorge Velho e seus comandados para destruir Palmares. Em 1692, cer- caram e atacaram o quilombo com o objetivo de prender os seus membros. Lide- rados por Zumbi, os quilombolas defenderam seu modo de vida, e os bandeirantes foram derrotados. Milhares de pessoas morreram nesses confrontos. Em 1694, o governo enviou cerca de 6 mil homens para ajudar os bandeiran- tes comandados por Jorge Velho em novo ataque ao quilombo. Os quilombolas não tinham armas nem munição suficiente, mas ainda assim resistiram durante um mês. Ao final do combate, o quilombo foi destruído e sua população, massacrada. Zumbi conseguiu escapar ao cerco, mas foi preso e morto em 1695, após muitas perseguições. Cortaram-lhe a cabeça, que foi exposta em praça pública em Recife. Consciência negra A memória de Zumbi permaneceu viva como símbolo da resistência negra à violência da escravidão. O dia de sua morte (20 de novembro) é lembrado atual- mente como o Dia da Consciência Negra. Do passado ao presente, a luta contínua dos movimentos negros tem propi- ciado algumas conquistas sociais. Entre elas, está o reconhecimento pela Consti- tuição brasileira atual do direito dos descendentes de quilombolas às terras dos quilombos. Essas terras têm sido objeto de ações judiciais para que sejam demar- cadas e entregues legalmente aos membros dessas comunidades, espalhadas por todo o país. IMAGEM EM BAIXA cadas e entregues legalmenteaos membros dessas comunidades, espalhadas por Pessoas comemoram o Dia da Consciência Negra em frente ao Monumento Nacional Zumbi dos Palmares, no Rio de Janeiro (RJ). zé M a rt in u ss o /o pç ã o B ra si l iM a g en s 52 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 52 5/17/16 10:56 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Investigando 1. A Constituição brasileira define o racismo como crime inafiançável e imprescritível. O que isso significa? 2. O que podemos fazer, no nosso dia a dia, para combater o racismo? Reflita. 3. Em sua opinião, como a escola pode contribuir para a superação de preconceitos e construção de uma so- ciedade mais democrática? Debata. Outra conquista é a definição na atual Constituição Federal de racismo como crime inafiançável e imprescritível. Nesse sentido, o artigo 5o da Constituição es- tabelece que: A prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, su- jeito à pena de reclusão, nos termos da lei; [...] Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ constituicao.htm>. Acesso em: 26 fev. 2015. Além disso, foi aprovada em 2003 a Lei no 10.639, que torna obrigatório o ensino de história da África e de cultura afro-brasileira nas escolas do país. O ob- jetivo dessa lei é fortalecer o papel da escola como um espaço privilegiado para a superação de preconceitos e a construção de uma sociedade mais democrática. Diversas pessoas participam da lavagem da Estátua de Zumbi dos Palmares, em Salvador (BA), em comemoração ao Dia da Consciência Negra. Fotografia de 2015. Mulheres visitam o Museu Afro Brasil, no Parque Ibirapuera em São Paulo. Esse espaço apresenta diversas produções culturais afro-brasileiras. Além disso, valoriza o protagonismo africano na formação do patrimônio, da identidade e da cultura brasileira. ra u l sp in a ss é/ a t a rd e/ Fu tu ra p re ss C a rl o s g o ld g ru B/ o pç ã o B ra si l iM a g en s 53CAPÍTULO 4 Escravidão e resistência 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 53 5/17/16 10:56 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Oficina de História Vivenciar e refletir 1. Reflita sobre semelhanças e diferenças entre as con- dições de vida dos escravos na América portuguesa e na Antiguidade romana. Escreva um texto relacio- nando questões como trabalho, formas de escravi- zação e resistência à submissão nos dois períodos. 2. Interprete o texto e comente as múltiplas formas de resistência à escravidão. Escreva um comentário so- bre o assunto e troque-o com os colegas. Durante as caminhadas nos sertões afri- canos, nos barracões das feitorias, a bordo dos navios tumbeiros ou nas cidades e plan- tações, o cativo lutou, como pôde, contra a escravidão. Trabalhava mal, fugia, aquilom- bava-se, roubava, assassinava senhores e feitores, organizava revoltas e insurreições. MAESTRI FILHO, Mário. O escravismo no Brasil. São Paulo: Atual, 1994. p. 6. Diálogo interdisciplinar 3. Apesar da destruição de Palmares e de outros qui- lombos, ainda há uma grande quantidade de co- munidades remanescentes dos quilombos. Segun- do a Fundação Cultural Palmares, no Brasil há mais de mil comunidades quilombolas. Os descenden- tes dos quilombolas estão tendo suas terras regu- larizadas, de acordo com direito reconhecido pela Constituição Federal. Leia o texto e responda às questões propostas: Quase 800 hectares por dia, em média, vi- raram terras de comunidades quilombolas pelo país desde 2005. São 144 áreas identificadas pelo Incra como de descendentes de escravos e que já receberam um “relatório técnico de demar- cação” do órgão ou foram tituladas. As perícias levam em conta dados, como mapas e testamentos, que podem datar até do século 17. Uma área já demarcada no Amazonas soma 7.100 km2, o equivalente a 4,7 cidades de São Paulo. O caminho para que os quilombolas as- sumam a posse é cheio de disputas com produtores rurais, que dizem ter documen- tos das terras. [...] Diálogo interdisciplinar com Geografia. Um caso típico é a terra Morro Alto, em Maquiné (RS), que recebeu relatório de de- marcação em março. De um lado, 400 fa- mílias que afirmam ser descendentes de escravos. De outro, outras 400 que insistem que possuem escrituras das terras. A comunidade negra do local diz que uma área de 40 mil hectares havia sido doada no século 19 por uma fazendeira a escravos libertados. A tese foi aceita no laudo feito por antropólogos para o Incra, mas a área demarcada foi limitada a 4.500 hectares. [...] O direito dos quilombolas à terra foi fi- xado na Constituição de 1988. Em 2003, de- creto de Lula regulamentou sua demarca- ção e titulação. Pela norma, os não quilombolas devem receber indenização e sair da área. Segundo o Incra, já há mais de mil pro- cessos, mas o total poderá chegar a 3.000. BÄCHTOLD, Felipe. Terras de quilombos aumentam 800 hectares por dia desde 2005. Folha de S.Paulo, 4 set. 2011. Disponível em: <http://www1. folha.uol.com.br/poder/969963-terras-de-quilombos-aumentam-800- hectares-por-dia-desde-2005.shtml>. Acesso em: 26 out. 2012. a) De acordo com o texto, quais são as dificuldades enfrentadas pelos quilombolas para consegui- rem a posse legal de suas terras? b) Sob a orientação do professor, organizem-se em grupos. Pesquisem uma comunidade remanes- cente de quilombo em seu estado ou região. No site da Comissão Pró-Índio de São Paulo, por exemplo, há informações sobre comunidades quilombolas em diversos estados brasileiros: <www.cpisp.org.br>. c) Elaborem um texto sobre a história, a popula- ção e o modo de ser e de viver da comunidade quilombola pesquisada. Depois, apresentem-no a seus colegas. 4. Compare as obras de Jean-Baptiste Debret e Johann Moritz Rugendas, com base nos seguintes aspec- tos: época de produção; tema; cenário; número de personagens; atitudes dos personagens; condições físicas e roupas dos escravos. Escreva um texto apresentando as semelhanças e diferenças entre as duas obras. Diálogo interdisciplinar com Arte. 54 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 54 5/17/16 10:56 AM De olho na universidade 5. (Unicamp) O escravo no Brasil é geralmente representado como dócil, dominado pela força e submisso ao senhor. Porém, muitos historiadores mostram a impor- tância da resistência dos escravos aos senhores e o medo que os senhores sentiram diante dos quilombos, insurreições, revoltas, atentados e fugas de escravos. a) Descreva o que eram os quilombos. b) Por que a metrópole portuguesa e os senhores combateram os quilombos, as revoltas, os atentados e as fugas de escravos no período colonial brasileiro? Mercado de escravos da Rua do Valongo, de Jean-Baptiste Debret, produzida entre 1816 e 1828. M u se u s C a st ro M ay a , r J C o le ç ã o p a rt iC u la r Mercado de escravos, de Johann Moritz Rugendas, produzida entre 1827 e 1835. 55CAPÍTULO 4 Escravidão e resistência 040a055_U1_C4_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 55 5/17/16 10:56 AM Holandeses no Brasil No século XVII, os holandeses ocuparam parte do nordeste brasileiro. Atualmen- te, nas cidades pernambucanas de Recife e Olinda, encontramos heranças dessa permanência holandesa em casas e sobrados, ruas e pontes. O que teria levado os holandeses a ocupar essa região do Brasil? Representação da chegada dos holandeses à costa brasileira, criada por Bonaventura Peeters em 1663. Pertence ao acervo do Museu de História Cultural, em Osnabruque, Alemanha. A l b u m /A k g -i m A g e s /F o t o A r e n A • Descreva o que você observou na imagem: cenário, personagens, objetos, embar- cações etc. 56 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade capítulo 5 056a067_U1_C5_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 56 5/17/16 10:57 AM MARCOS RealceMARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Nota lido completo no dia 28/04 Em 1580, o rei de Portugal, D. Henrique, morreu sem deixar herdeiros diretos, encerrando a dinastia de Avis. Nas disputas pelo trono português, saiu-se vencedor Filipe II, rei da Espanha, cujos exércitos invadiram e conquistaram Portugal. Com isso, teve início o domínio espanhol, que se estendeu por 60 anos, até 1640. Esse período foi chamado de União Ibérica ou União Peninsular, já que Espanha e Por- tugal localizam-se na península Ibérica. Ao dominar Portugal, o governo espanhol passou a controlar também todas as colônias portuguesas (na América, na costa da África, nas Índias e na China), ampliando ainda mais seu vasto império. União Ibérica Portugal e Espanha sob a mesma Coroa Consequências da União Ibérica para o Brasil No início da União Ibérica, a Coroa portuguesa manteve certa autonomia na gestão direta de seu povo e de suas colônias. Assim, a administração colonial do Brasil praticamente não sofreu alterações: os funcionários do governo lusitano foram mantidos e o idioma oficial continuou sendo o português. Porém, ocorreram mudanças como a flexibilização das fronteiras estabelecidas pelo Tratado de Tordesilhas e o envio ao Brasil de visitadores do Tribunal do Santo Ofício, cuja missão era zelar pela “pureza” da fé dos colonos e condenar o que essas autoridades consideravam “desvios”. Entre esses “desvios” estavam as cha- madas práticas judaizantes, isto é, relacionadas aos costumes da religião judaica. Além disso, em função da União Ibérica, alguns acontecimentos ligados à polí- tica externa espanhola repercutiram diretamente no Brasil. Tais eventos trouxeram sérias consequências territoriais e econômicas, tanto para os portugueses como para os colonos no Brasil. Fonte: KINDER, Hermann; HILGEMAN, Werner. Atlas histórico mundial: de los orígenes a la Revolución Francesa. 11. ed. Madri: Ediciones Istmo, 1982. p. 258. s iD n e i m o u r A OCEANO ATLÂNTICO OCEANO PACÍFICO OCEANO PACÍFICO OCEANO ÍNDICO 20º N 40º L ÁSIA ÁFRICA AMÉRICA OCEANIA EUROPA S. Jorge da Mina Açores Madeira Canárias Cabo Verde Ascensão Santa Helena 0 3 782 km Territórios sob domínio de Filipe II Domínios ibéricos no final do século XVI 57CAPÍTULO 5 Holandeses no Brasil 056a067_U1_C5_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 57 5/17/16 10:57 AM MARCOS Realce Embargo Espanhol e comércio do açúcar No século XVI, a Holanda e outros territórios do norte da Europa eram domínios do rei espanhol. Em 1581, porém, depois de muitas lutas, alguns desses territórios conquistaram a independência, com a proclamação da República das Províncias Unidas, cuja capital passou a ser a cidade de Amsterdã, na época um dos mais importantes centros comerciais da Europa. Como represália à independência das Províncias Unidas, Filipe II proibiu os produtores e comerciantes de suas colônias de negociar com os holandeses, preten- dendo, assim, impor-lhes um bloqueio econômico. Tal proibição ficou conhecida como Embargo Espanhol. Esse bloqueio afetou as relações comerciais entre os governos de Portugal e Holanda, causando grandes prejuízos aos holandeses. No Brasil, especificamente, eles participavam do negócio açucareiro, controlando a lucrativa operação de transporte, refino e distribui- ção comercial do açúcar no mercado europeu. Partici- pavam também do comércio de outros produtos co- loniais brasileiros, como pau-brasil, algodão e couro. Ocupação do nordeste brasileiro Como primeira reação ao embargo espanhol, os holandeses decidiram atacar algumas regiões per- tencentes à União Ibérica. Assim, pilharam a costa africana dominada pelos portugueses, em 1595, e a cidade de Salvador, no Brasil, em 1604. Também criaram a Companhia das Índias Orientais, em 1602, empresa privada encarregada de controlar o comér- cio com o Oriente. Algum tempo depois, em 1621, os holandeses fundaram outra empresa, a Companhia das Índias Ocidentais, que recebeu do governo holandês o mo- nopólio do comércio com regiões da África atlântica e da América, incluindo o Brasil. Para cumprir sua missão, os dirigentes dessa com- panhia planejaram a ocupação do nordeste brasileiro, rompendo o embargo espanhol e reativando as rotas comerciais entre a Europa e algumas possessões da África e da América. Apoderar-se do nordeste bra- sileiro significava, principalmente, a possibilidade de manter o controle sobre os lucrativos negócios do açúcar e dos escravos africanos. A rendição de Breda, obra do pintor espanhol Diego Velázquez, produzida entre 1634 e 1635. Ela representa a derrota da cidade holandesa de Breda em 1625 frente aos espanhóis. A obra pertence ao acervo do Museu do Prado, em Madri, Espanha. D ie g o r o D rÍ g u ez D e si lv A y v el Á zq u ez . A r en D iç ão D e br eD A . 58 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 056a067_U1_C5_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 58 5/17/16 10:58 AM MARCOS Realce MARCOS Nota o que foi o embargo espanhol ? MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Invasões holandesas Lutas pelo controle do negócio açucareiro Além de exercer a atividade comercial, a Compa- nhia das Índias Ocidentais tinha autorização do go- verno holandês para organizar tropas e estabelecer colônias. Um dos principais objetivos dessa Compa- nhia holandesa era promover a conquista do Brasil. Vejamos como isso aconteceu. Bahia A primeira investida holandesa ocorreu em 8 de maio de 1624, na Bahia. Embora tenham ocupado Salvador, os holandeses não conseguiram permanecer na cidade por muito tempo. As forças luso-brasileiras impediram a ocupação do território utilizando táticas de guerrilha e contando com o reforço de tropas es- panholas e guerreiros indígenas. Depois de um ano de lutas, os holandeses foram expulsos da Bahia e a Companhia das Índias Ociden- tais teve grande prejuízo financeiro. Essas perdas foram compensadas, porém, em 1628, quando uma esqua- dra holandesa assaltou uma frota de navios espanhóis carregados de metais preciosos (prata e ouro) e artigos obtidos na América. Com o lucro do assalto, os diri- gentes da Companhia das Índias Ocidentais refizeram seus ânimos e arquitetaram novo ataque ao Brasil. Pernambuco Na segunda investida holandesa, uma poderosa esquadra foi aparelhada para conquistar Pernam- buco, a capitania mais atraente da época devido à produção açucareira. A frota, que contava com 56 No relatório Jean de Walbeeck aos dirigentes do governo holandês, datado de 1633, fica evidente o interesse econômico pelo Brasil. O Brasil oferece grandes lucros aos portugueses. Em relação ao nosso país, verificar-se-á que esses lucros e vantagens são maiores para nós. Os açúcares do Brasil, enviados direta- mente a nosso país, custarão bem menos do que custam agora, pois que serão libertados dos impostos que sobre eles se cobram em Portugal, e desta forma destruiremos seu comércio de açúcar. Os artigos europeus, tais como tecidos, pano etc., poderão, pela mesma razão, ser fornecidos por nós ao Brasil muito mais barato; o mesmo se dá com a madeira e o fumo. WALBEECK, Jean de. Documentos holandeses. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1945. v. 1. p. 123-126. Interpretar fonte Os interesses pelos produtos brasileiros • Que argumento o autor do documento usa para mostrar a vantagem econômica trazida pela ocupação do nordeste brasileiro pelos holandeses? Como você entende esse argumento? navios, chegou ao litoral pernambucano em 14 de fevereiro de 1630. Sem forças suficientes para enfrentar os holande- ses, as tropas lideradas por Matias de Albuquerque, governador da capitania, refugiaram-se no interior do território, onde fundaram o Arraial do Bom Jesus. O arraial tornou-se o principal foco de resistência contra os holandeses, e a tática empregada por Albuquerque foi a guerrilha. Durante cinco anos de luta, a resistêncialuso-bra- sileira obteve alguns bons resultados, e os holandeses não conseguiram dominar totalmente a região dos engenhos de açúcar. Mas esse quadro modificou-se a partir do momento em que Domingos Fernandes Calabar, grande conhecedor da região, passou a cola- borar com os holandeses. As tropas de Matias de Albuquerque sofreram, en- tão, uma série de derrotas, o que levou Albuquerque a desistir do comando da resistência. Antes, porém, em 1635, conquistou Porto Calvo (no atual estado de Alagoas), cidade natal de Calabar, que também estava sob o domínio dos holandeses. Nessa cidade, Calabar acabou preso e enforcado, acusado de traição. Dentro de certa tradição historiográfica, Calabar foi considerado um “traidor” do Brasil, mas esse jul- gamento tem sido questionado. Afinal, que Brasil Ca- labar traiu? O Brasil que, na época, estava dominado pela Espanha? Além disso, muitos outros luso-brasi- leiros (lavradores, senhores de engenho etc.) auxilia- ram os holandeses e não foram considerados traido- res, nem foram condenados à morte. 59CAPÍTULO 5 Holandeses no Brasil 056a067_U1_C5_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 59 5/17/16 10:58 AM MARCOS Nota MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Governo de Nassau (1637-1644) Com o fim da luta armada em Pernambuco, a Companhia das Índias Ociden- tais concentrou-se na tarefa de reorganizar a administração da região conquistada. Os anos de guerra tinham causado grande desordem na produção do açúcar e um relaxamento no controle sobre os escravos. Estes aproveitaram a situação e aca- baram organizando diversas fugas dos engenhos. O quilombo dos Palmares, por exemplo, cresceu muito nesse período, reunindo milhares de habitantes. Por tudo isso, tanto os senhores de engenho luso-brasileiros quanto os ho- landeses desejavam ordem e paz para se dedicar à atividade açucareira. Com esse propósito, a Companhia das Índias Ocidentais enviou para o Brasil o conde João Maurício de Nassau-Siegen, nomeando-o governador-geral desse “Brasil holandês”. Nassau chegou a Pernambuco em 1637, pretendendo pacificar a região e governar com a colaboração dos luso-brasileiros. Na avaliação de his- toriadores, a administração de Nassau apresentou as seguintes características: • reativação econômica – por meio da Companhia das Índias Ocidentais, o go- verno de Nassau concedeu créditos aos senhores de engenho para o reaparelha- mento das propriedades, a recuperação dos canaviais e a compra de escravos. O objetivo era reativar a produção açucareira; • tolerância religiosa – diversas religiões (catolicismo, judaísmo, protestantismo etc.) foram, em certa medida, toleradas pelo governo de Nassau. Nesse período, por exemplo, famílias judaicas europeias foram autorizadas a imigrar para a re- gião, onde fundaram uma sinagoga, considerada a primeira das Américas. Os holandeses não tinham como objetivo principal expandir sua fé religiosa, o calvi- nismo, embora ele tenha se tornado a religião oficial do Brasil holandês; • reforma urbanística – Nassau investiu na urbanização de Recife, com a cons- trução de casas, pontes, obras sanitárias, calçamento das ruas, jardins e praças. Criou também a cidade Maurícia, na ilha de Antonio Vaz, hoje um bairro da capital pernambucana. A ilha ligava-se ao continente por intermédio de uma ponte erguida sobre o rio Capibaribe; • estímulo à vida cultural – nesse período, sob o patrocínio do governo de Nas- sau, Pernambuco recebeu artistas, médicos, astrônomos e naturalistas holande- ses.1 Nas ciências, destacaram-se Georg Marcgraf, que realizou estudos da flora e da fauna do território brasileiro, e Willen Piso, médico de Maurício de Nassau, que pesquisou as doenças mais frequentes na região e as plantas medicinais já utili- zadas pelos habitantes locais. Nas artes, destacaram-se pintores como Frans Post e Albert Eckhout, que retrataram personagens e paisagens brasileiras. As obras desses artistas podem ser consideradas fontes históricas da época da ocupação holandesa no Brasil. 1 Cf. FREEDBERG, David. Ciência, comércio e arte. In: HERKENHOFF, Paulo (Org.). O Brasil e os holandeses. Rio de Janeiro: GMT Editores, 1999. Investigando 1. O calçamento das ruas, os jardins e as praças da sua cidade são bem conserva- dos? Como as autoridades políticas e os cidadãos podem ajudar a conservá-los? 2. Em relação à infraestrutura, a prefeitura de sua cidade realiza tratamento de es- goto e coleta seletiva de lixo? Por que esses serviços públicos são importantes? Sinagoga: local de cul- to, “casa de oração” da religião judaica. 60 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 056a067_U1_C5_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 60 5/17/16 10:58 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Investigando 1. No século XVII, artistas holandeses utilizaram pinturas para representar paisagens do Brasil. Atualmente, como as pessoas costumam registrar suas experiências? 2. É importante preservar registros que ajudem a contar nossa história de vida? Debata. Interpretar fonte História natural do Brasil Historia naturalis brasiliae (História natural do Brasil) é o título de um livro publicado pelos holandeses duran- te a ocupação do nordeste brasileiro. Essa obra apresen- ta registros sobre a flora, a fauna e outros aspectos da natureza do Brasil, especialmente da faixa ocupada pela Companhia das Índias Ocidentais. Foi escrito por Willen Piso, com observações de Georg Marcgraf e H. Gralitzio. 1. Analise a capa do livro Historia naturalis brasiliae. Que imagens foram utilizadas para representar a natureza brasileira? 2. Leia um trecho do livro em questão. Em seguida, respon- da: em que a imagem e o trecho retirado do livro se com- plementam? Formule uma hipótese. [...] os habitantes atingem cedo a puberdade e envelhecem tarde, por isso ultrapassam os cem anos, gozando de verde e longeva velhice, não só os brasis como também os próprios eu- ropeus [...]. PISO, Willen (com observações de Georg Marcgraf e H. Gralitzio). História natural do Brasil (Historia naturalis brasiliae), 1648. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1948. Frans Post viveu no nordeste brasileiro entre 1637 e 1644. Em sua pintura Forte Ceulen, ele representa o primeiro contato entre holandeses e indígenas tapuias. Ao fundo da imagem, pode-se observar o Forte Reis Magos, em Natal (RN). Esse forte é, atualmente, Patrimônio Histórico Nacional registrado pelo Iphan. Fr A n s Po st . F o rt e C eu le n n o r io g rA n D e. s éC u lo X vi i. m u se u D o l o u vr e, P A ri s, F rA n ç A Frontispício do livro Historia naturalis brasiliae. Gravura de Georg Marcgraf, de 1648. g eo rg m A rC g rA F. Fr o n ti sP ÍC io D o l iv ro “ H is to ri A n At u rA li s br A si li A e” . 1 64 8/ C o le ç ã o J o sé m in D li n , s ã o P Au lo 61CAPÍTULO 5 Holandeses no Brasil 056a067_U1_C5_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 61 5/17/16 10:58 AM Saída de Nassau Maurício de Nassau ganhou prestígio como administrador, mas surgiram de- sentendimentos entre ele e a Companhia das Índias Ocidentais. Depois de certo tempo, os líderes da Companhia chegaram a acusá-lo de usar dinheiro para satis- fazer suas vaidades e quiseram limitar seus poderes. Nassau, por sua vez, acusava a direção da Companhia de não entender os problemas locais e de agir com excessi- va ganância. Esses desentendimentos levaram à sua saída do cargo de governador- -geral, em 1644. Com a saída de Nassau, a administração holandesa intensificou a busca de lu- cros. Os dirigentes da Companhia das Índias Ocidentais passaram a pressionar os senhores de engenho para que aumentassem a produção de açúcar, pagassem mais impostos e liquidassem as dívidas atrasadas. Ameaçavam confiscar os engenhos de seus proprietários, caso as exigências não fossem cumpridas. Além disso, limitaram a tolerânciareligiosa, proibindo os católicos de praticar livremente sua religião. Expulsão dos holandeses A União Ibérica terminou em 1640, quando um duque português, com o apoio da alta nobreza e da burguesia, pôs fim ao domínio espanhol. Ao assumir o trono de Portugal, ele recebeu o título de D. João IV, iniciando a dinastia de Bragança (veja o quadro). Esse episódio da história portuguesa é conhecido como Restauração. Com a Restauração, Portugal procurou realizar acordos com os ho- landeses a fim de recuperar o controle dos territórios brasileiros que haviam sido conquistados. Os entendimentos, em princípio, foram difíceis e não tiveram êxito. Insurreição Pernambucana (1645-1654) Em 1645, grupos de luso-brasileiros estavam descontentes com a severa ad- ministração adotada pelos holandeses após a saída de Nassau. Assim, iniciaram uma luta pela expulsão dos holandeses de Pernambuco, em um movimento co- nhecido como Insurreição Pernambucana. Diversos setores sociais da colônia – entre eles, senhores de engenho, grupos de indígenas e africanos –, uniram-se momentaneamente para o combate. Governo da Dinastia de Bragança sobre o Brasil Soberano Período D. João IV 1640-1656 D. Afonso VI 1656-1683 D. Pedro II 1683-1706 D. João V 1706-1750 D. José I 1750-1777 D. Maria I 1777-1816 D. João VI 1816-1826* D. Pedro I 1822-1831 D. Pedro II 1840-1889 * Após a independência F r A n s P o s t. o l in D A . C .1 6 3 7 -1 6 4 5 . Olinda, gravura de Frans Post que retrata a capital de Pernambuco no século XVII. Essa ilustração foi publicada, em 1647, no livro escrito pelo intelectual holandês Gaspar Barléu, encomendado por Maurício de Nassau para enaltecer seu governo no Brasil. Pertence hoje ao acervo da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. 62 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 056a067_U1_C5_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 62 5/17/16 10:58 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Riscado Investigando • Na sua interpretação, por que a união entre senhores de engenho, grupos de indígenas e africanos foi consi- derada momentânea? Como era a relação entre esses grupos sociais antes da ocupação holandesa? Em destaque Holandeses ou portugueses: o que seria melhor? Vejamos as reflexões do historiador Boris Fausto a respeito da presença holandesa no Brasil. Uma pergunta que sempre surge quando se estuda a presença holandesa no Brasil é a seguin- te: o destino do país seria diferente se tivesse ficado nas mãos da Holanda e não de Portugal? Não há uma resposta segura para essa questão, pois ela envolve uma conjectura, uma possibilidade que não se tornou real. Quando se compara o governo de Nassau com a ru- deza lusa e a natureza muitas vezes predatória de sua colonização, a resposta parece ser positiva. Mas convém lembrar que Nassau representava apenas uma tendência e a Compa- nhia das Índias Ocidentais outra, mais próxima do estilo do empreendimento colonial por- tuguês. Vista a questão sob esse ângulo, e quando se constata o que aconteceu nas colônias holandesas da Ásia e das Antilhas, as dúvidas crescem. A colonização dependeu menos da nacionalidade do colonizador e mais do tipo de colonização implantado. Os ingleses, por exemplo, estabeleceram colônias bem diversas nos Estados Unidos e na Jamaica. Nas mãos de portugueses ou holandeses, com matizes certamente diversos, o Bra- sil teria mantido a mesma condição de colônia de exploração integrada no sistema colonial. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1995. p. 89-90. Depois de vários conflitos, como as Batalhas dos Guararapes (1648 e 1649), os holandeses renderam-se em 1654. Entretanto, a rendição holandesa foi con- solidada somente com acordos posteriores entre os governos de Portugal e da Holanda. Pelo último acordo, de 1669, Portugal, em troca do nordeste brasileiro (e de possessões na África), comprometeu-se a pagar aos holandeses uma elevada indenização em dinheiro, equivalente ao preço de 63 toneladas de ouro. • O que o historiador brasileiro Boris Fausto quer dizer quando afirma que “A colonização dependeu menos da nacionalidade do colonizador e mais do tipo de colonização implantado”? Escreva um comentário a respeito. Batalha dos Guararapes (1879), do artista brasileiro Victor Meirelles, que visitou o local das batalhas e pesquisou armas e roupas do século XVII. Essa obra foi encomendada pelo governo do Brasil para exaltar a vitória dos luso-brasileiros sobre os holandeses. Pertence ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. v iC t o r m e ir e l e s . b A t A l H A D e g u A r A r A P e s . 1 8 7 9 . 63CAPÍTULO 5 Holandeses no Brasil 056a067_U1_C5_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 63 5/17/16 10:58 AM Portugal após a União Ibérica Problemas econômicos e sociais O governo português dependia em grande medida do comércio colonial. Porém, durante o período em que esteve submetido à dominação espanhola, Portugal perdeu parte de suas colônias para holandeses, franceses e ingleses. Essa perda de colônias, somada às guerras contra espanhóis e holandeses e à queda dos preços do açúcar no mercado internacional, conduziu o país a uma grave crise econômica. Procurando solucionar essa crise, o governo português recorreu à Inglaterra e assinou diversos tratados, a fim de dinamizar de imediato a economia do país, principalmente por meio de empréstimos. Além disso, adotou uma política colo- nial rigorosa em relação ao Brasil, uma das poucas colônias lucrativas que ainda lhe restavam. Tratados econômicos entre Portugal e Inglaterra Pelos tratados assinados com o governo da Inglaterra, os soberanos de Portu- gal receberiam proteção político-militar. Além disso, os comerciantes portugueses poderiam comprar produtos manufaturados da Inglaterra em troca de vantagens comerciais concedidas aos ingleses. Entre esses tratados, destaca-se o de Methuen, de 1703 (também conhecido como Tratado dos Panos e Vinhos), pelo qual o governo de Portugal se comprome- tia a admitir em seu reino os tecidos de lã fabricados na Inglaterra, que, em troca, compraria os vinhos portugueses. Na época, a assinatura desse tratado satisfez aos interesses de grupos econômicos de ambos os lados. Porém, muitos historiadores consideram que suas consequências foram desastrosas para Portugal, uma vez que o tratado contribuiu para a estagnação da produção manufatureira portuguesa e levou à canalização de parte do ouro do Brasil para a Inglaterra. Gravura representando tecelagem inglesa criada em 1747 pelo artista William Hogarth. O tear representado na imagem é manual. A indústria de tecidos da Inglaterra cresceu muito a partir da segunda metade do século XVIII, quando passou a utilizar teares mecânicos. n o rt H W in D P iC tu re A rC H iv es /A kg -im A g es /F o to A re n A . C o le ç ã o P A rt iC u lA r 64 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 056a067_U1_C5_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 64 5/17/16 10:58 AM MARCOS Realce MARCOS Realce Concorrência do açúcar antilhano Mergulhado na crise econômica, o governo português procurou explorar ao máximo as riquezas do Brasil, com destaque para o açúcar. Mas um fato novo atrapalhou os planos portugueses. Expulsos do Brasil, os holandeses levaram mudas de cana-de-açúcar para as Antilhas e passaram a produzir, eles próprios, o açúcar, acabando com o mono- pólio brasileiro de sua produção. A concorrência antilhana provocou queda de 50% nos preços do açúcar brasi- leiro, nos mercados internacionais, entre 1650 e 1700. A empresa açucareira nor- destina entrou, então, em declínio, passando por um período de readaptação, em busca de aprimoramentos técnicos tanto no sistema de produção quanto na mão de obra. Apesar dos esforços, foi somente no final do século XVIII que o açúcar brasileiro recuperou parte da importância que tivera entre os séculos XVI e XVII. Guerra dosMascates (1710) Devido à queda do preço do açúcar no mercado europeu, os senhores de engenho de Olinda, principal cidade de Pernambuco na época, viram-se em difi- culdades financeiras. Começaram, então, a pedir empréstimos aos comerciantes do povoado do Recife, que cobravam juros bastante elevados. Essa dinâmica fez com que os senhores de engenho (em geral, luso-brasileiros) ficassem cada vez mais endividados e os comerciantes do Recife (em geral, portu- gueses) enriquecessem. Surgiram, então, hostilidades entre eles. Os comerciantes portugueses, inclusive os mais importantes atacadistas, eram conhecidos como mas- cates, expressão de cunho pejorativo usada pela aris- tocracia olindense. Convencido de sua relevância social, esse grupo pediu ao rei de Portugal, D. João V, que seu povoado fosse elevado à categoria de vila. Queriam, dessa for- ma, ver Recife independente de Olinda e, assim, não ter de pagar-lhe impostos ou submeter-se às suas or- dens. D. João V atendeu ao pedido dos comerciantes. Contrários à decisão do rei, os senhores de en- genho organizaram uma rebelião. Liderados pelo proprietário de engenho Bernardo Vieira de Melo, invadiram Recife. Sem condições de resistir, os co- merciantes mais ricos fugiram para não serem captu- rados. Esse confronto ficou conhecido como Guerra dos Mascates. Em 1711, o governo português interveio na região, reprimindo duramente os revoltosos. Ber- nardo Vieira de Melo e outros líderes foram presos e condenados ao exílio. Os mascates reassumiram suas posições. Antilhas: conjunto de ilhas caribenhas situadas ao norte da América do Sul, que foram conquis- tadas pelos holandeses no século XVII. Vista da cidade histórica de Olinda. Observe, ao fundo, a cidade de Recife. Fotografia de 2013. r u b e n s C H A v e s /P u l s A r i m A g e n s 65CAPÍTULO 5 Holandeses no Brasil 056a067_U1_C5_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 65 5/17/16 10:58 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Riscado MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Oficina de História Vivenciar e refletir 1. Que formas de exploração eram utilizadas no nor- deste da colônia durante os domínios português e holandês? A mudança de colonizador trouxe altera- ções na economia ou manteve-se a mesma estrutu- ra produtiva? Explique. Diálogo interdisciplinar 2. A ocupação holandesa deixou muitos descenden- tes no Brasil, contribuindo para a diversidade ét- nica e cultural da sociedade brasileira. Um desses descendentes, segundo o genealogista Bartolomeu Buarque de Holanda, é o cantor, compositor e escri- tor Chico Buarque de Hollanda, como já denuncia seu nome. Analise o trecho da canção Paratodos, escrita por Chico Buarque, e debata com seus colegas a sua men- sagem. Em seguida, escrevam um comentário relacio- nando a letra da canção ao conteúdo do capítulo. O meu pai era paulista Meu avô, pernambucano O meu bisavô, mineiro Meu tataravô, baiano Vou na estrada há muitos anos Sou um artista brasileiro. HOLLANDA, Chico Buarque de. Paratodos. In: Paratodos © Marola Edi- ções Musicais Ltda., 1993. Direitos de execução pública controlados pelo ECAD (AMAR). 3. Leia a notícia e responda às questões: O Instituto Arqueológico, Histórico e Geo- gráfico Pernambucano quer transformar em livro um de seus acervos mais raros: o conjunto de mapas feitos pelo holandês Johan Vingboons. Os mapas foram produzidos por volta de 1660 e, no final do ano passado, receberam o título de Memória do Mundo da Unesco. São 33 pranchas aquareladas, algumas com mais de um metro de largura. Elas mostram o litoral brasileiro, o interior do continente em capitanias como a da Bahia e de Pernambuco, além dos arredores do Re- cife, do Rio de Janeiro e de São Vicente. Diálogo interdisciplinar com Arte e Língua Portuguesa. Diálogo interdisciplinar com Geografia. Os mapas chamam a atenção pela pre- cisão e pelos detalhes do território, como a malha hidrográfica, as estradas que leva- vam aos engenhos e até os currais de gado. Vingboons trabalhava numa das princi- pais empresas cartográficas da Holanda, o ateliê de Johan Blaeu, responsável pela produção dos mapas da Companhia das Ín- dias Ocidentais, empresa que coordenava as atividades holandesas na América. O ateliê era um centro privilegiado de in- formação. Regularmente, cartógrafos ou co- mandantes de navios voltavam com novos detalhes. “Com esses relatórios, eles iam produzindo mapas de três continentes, com ênfase em onde havia interesse comercial da Companhia das Índias”, diz o historiador Marcos Galindo. A capitania de Pernambuco, ocupada pela companhia, era um de seus principais produtores de açúcar. Por ser uma empresa de capital aberto, havia interesse em divul- gar suas possessões aos acionistas, o que fomentou a criação das cartas. Vingboons era responsável pela produção de edições de luxo. Ele compilava as infor- mações que vinham de diversas fontes e produzia grandes mapas feitos à mão, com acabamento artístico. BORTOLOTI, Marcelo. Instituto procura patrocínio para acervo raro do Brasil holandês. In: Folha de S.Paulo, 14 mar. 2011. Disponível em: <http:// www1.folha.uol.com.br/ciencia/888290-instituto-procura-patrocinio-para- acervo-raro-do-brasil-holandes.shtml>. Acesso em: 25 nov. 2015. a) Qual é a relação feita pelo texto entre os mapas de Johan Vingboons e a Companhia das Índias Ocidentais? b) Reflita a respeito dos motivos pelos quais a Companhia das Índias Ocidentais precisava de mapas de regiões brasileiras. Escreva um comen- tário a respeito. c) Discuta com seus colegas: qual é a importância desses mapas atualmente? A que se deve a aten- ção dada a eles? 66 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 056a067_U1_C5_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 66 5/17/16 10:58 AM 4. Após a Restauração, o rei português D. João IV afir- mou que o Brasil era sua “vaca de leite”. Analise essa afirmação e crie uma charge crítica inspirando-se nela. 5. As representações de um indígena tupiniquim e de um indígena tapuia, pintadas pelo holandês Albert Eckhout — que veio ao Brasil com Maurício de Nassau — constituem alegorias de guerra, da an- tropofagia e da aculturação conforme a análise do historiador Ronald Raminelli, em seu livro Imagens da colonização. Observe as imagens e responda às questões: a) Na primeira imagem (abaixo), o indígena tupi- niquim carrega uma faca em sua cintura. O que simbolizaria a posse dessa faca? b) Na segunda imagem (ao lado), como o pintor retratou o indígena tapuia? Indique os elemen- tos que simbolizam a diferença do indígena tapuia em relação à cultura que a colonização procura implantar. Diálogo interdisciplinar com Arte. De olho na universidade 6. (UFMG) O interesse dos holandeses em ocupar áreas no Brasil está relacionado com: a) a conquista territorial de pontos estratégicos vi- sando quebrar o monopólio da rota da prata. b) as barreiras impostas pela Espanha à participa- ção flamenga no comércio açucareiro. c) os contratos comerciais preferenciais firmados entre Portugal e Inglaterra. d) as solicitações dos senhores de engenho, insatis- feitos com o supermonopólio metropolitano. e) a instalação de técnicas mais avançadas, visando à elevação da produtividade. Obra Índio tapuia, datada de 1643. Pertence hoje ao acervo do Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhague. A l b e r t e C k H o u t. H o m e m t A P u iA . 1 6 4 3 . Obra Índio tupiniquim, datada de 1643. Pertence hoje ao acervo do Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhague. A l b e r t e C k H o u t. 1 6 4 3 . 67CAPÍTULO 5 Holandeses no Brasil 056a067_U1_C5_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 67 5/17/16 10:58 AM Expansão territorial O Brasil é o quinto maior país do mundo em extensão territorial. A formação desse imenso território resultou de um processo complexo. Envolveu diversos agentessociais e foi marcada por muitos conflitos com os povos indígenas. Quais foram os principais interesses e motivos envolvidos nessa expansão territorial? 1. Observe a imagem e descreva os elementos que compõem a obra. Procure observar as pessoas e suas feições, itens de vestuário, objetos que carregam etc. 2. O que está sendo puxado pelos personagens da escultura? Quais poderiam ser as funções desse objeto na expedição? Monumento às bandeiras. Essa obra de Victor Brecheret está localizada em uma das entradas do Parque Ibirapuera, em São Paulo. A escultura foi encomendada pelo governo de São Paulo em 1921 para representar as expedições que participaram do processo de expansão territorial do Brasil Colônia. Foi inaugurada em 1953. Fotografia de 2006. G. EvanGElista/OpçãO Brasil imaGEns 68 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade capítulo 6 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 68 5/17/16 11:03 AM Observar o mapa • Observe o mapa, que representa o povoa- mento da colônia no século XVI, e identifique: a) as cidades e as vilas situadas na costa nordeste; b) as cidades e as vilas situadas na costa sudeste; c) as cidades e as vilas não situadas na costa. OCEANO ATLÂNTICO 10º S 50º O Natal (1599) Filipeia (1585) Igaraçu (1536) Olinda (1537) São Cristóvão (1590) Salvador (1549) Ilhéus (1536) Santa Cruz (1536) Porto Seguro (1535) Vitória (1551) Espírito Santo (1551) São Paulo (1558) Rio de Janeiro (1565) Santos (1545) São Vicente (1532) Itanhaém (1561) Cananeia (1600) 0 573 km Áreas provavelmente sob a influência das cidades e vilas Áreas conhecidas e povoadas de maneira mais ou menos estável, mas sem nenhuma vila ou cidade Cidades ou vilas Limite atual do território brasileiro A marcha do povoamento e a urbanização (século XVI ) s iD n E i m O U r a Povoamento A marcha da colonização As estimativas sobre a população do Brasil Colonial do século XVI variam entre 70 mil e 100 mil habitantes — incluindo os indígenas que estavam em contato com os colonos. Na época, a maior parte desses habitantes concentrava-se no litoral. No entanto, a partir do século XVII, o povoamento do interior do Brasil ganhou força. Povoamento litorâneo No fim do século XVI, a população colonial da América portuguesa espalhava-se de forma descon- tínua pela extensa costa, desde Natal até Cananeia. Ao escrever, em 1627, o livro História do Brasil, frei Vicente do Salvador lamentou que a colonização portuguesa não avançasse em direção ao interior do território. Queixava-se de que os portugueses, viven- do próximos aos portos de embarque dos navios, ex- ploravam a terra com os olhos voltados para Portugal: “por mais arraigados que na terra estejam e mais ri- cos que sejam, tudo pretendem levar a Portugal”.1 Nessa época, a vila de São Paulo de Piratininga (futura cidade de São Paulo) era uma exceção, pois situava-se no interior do território. Interiorização do povoamento A partir de meados do século XVII, a ocupação territorial ganhou força em direção ao interior e ao litoral norte (do atual estado do Rio Grande do Norte até o atual estado do Amapá). Essa ocupação resultou de ações realizadas por diferentes grupos, entre os quais podemos destacar: • exploradores em expedições militares – foram patrocinados pelo governo para expulsar estrangei- ros que ocupavam partes do território; • bandeirantes – percorreram o sertão aprisionando indígenas e escravos africanos fugidos ou procuran- do metais preciosos; • jesuítas missionários – fundaram aldeamentos para catequizar os indígenas e explorar economica- mente as riquezas naturais do sertão; • criadores de gado – tiveram seus rebanhos e fa- zendas “empurrados” para o interior do território em função de interesses socioeconômicos. 1 SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil (1500-1627). São Paulo: Edusp; Belo Horizonte: Itatiaia, 1982. p. 57-58. A seguir, analise mapas que representam diferen- tes momentos da interiorização da ocupação do ter- ritório brasileiro. Fonte: HOLANDA, Sérgio Buarque de (Org.) História geral da civilização brasileira. 4. ed. São Paulo: Difel, tomo I, v. I. p. 196. 69CAPÍTULO 6 Expansão territorial 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 69 5/17/16 11:03 AM • Identifique nos mapas as cidades fundadas no século XVII e as que se desenvolveram no século XVIII. Observar os mapas OCEANO ATLÂNTICO 60º O 10º S Olinda Paraíba São Luís (1612) Belém (1616) Salvador Rio de Janeiro Cabo Frio (1616) Áreas provavelmente sob a influência das cidades e vilas Áreas conhecidas e povoadas de maneira mais relativamente estável, mas sem nenhuma vila ou cidade Cidades Vilas Limite atual do território brasileiro 0 565 km OCEANO ATLÂNTICO 60º O 10º S Olinda Paraíba Oeiras (1761) São Luís Belém Salvador Rio de Janeiro São Paulo Cabo Frio Mariana (1745) Áreas provavelmente sob a influência das cidades e vilas Áreas conhecidas e povoadas de maneira mais relativamente estável, mas sem nenhuma vila ou cidade Cidades Vilas Limite atual do território brasileiro 0 565 km A marcha do povoamento e a urbanização (século XVII) A marcha do povoamento e a urbanização (século XVIII) Fonte: HOLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História geral da civilização brasileira. 4. ed. São Paulo: Difel, tomo I, v. I. p. 293. Fonte: HOLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História geral da civilização brasileira. 4. ed. São Paulo: Difel, tomo I, v. I. p. 371. s iD n E i m O U r a s iD n E i m O U r a Expedições militares Expansão patrocinada pelo governo Desde o início da colonização, o governo português organizou expedi- ções militares para ocupar as terras brasileiras ameaçadas pela presença de estrangeiros, principalmente franceses e espanhóis. Essa ocupação costuma ser denominada expansão oficial. Avanço para o norte-nordeste No final do século XVI, forças expedicionárias ergueram fortificações no litoral norte e nordeste, lutando contra estrangeiros e grupos indígenas que resistiam à ocupação colonial. Essa expansão deu origem a importantes cidades, inclusive algumas que se tornaram capitais, tais como Filipeia de Nossa Senhora das Neves (1584 – atual cidade de João Pessoa), Forte dos Reis Magos (1597 – atual cidade de Natal), Fortaleza de São Pedro (1613 – atual cidade de Fortaleza) e Forte do Presépio (1616 – atual cidade de Belém). 70 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 70 5/17/16 11:03 AM • Observando o mapa, procure localizar onde se concentraram e para a ocupação de quais regiões contribuíram: a) as principais bandeiras de apresamento; b) as principais bandeiras de prospecção; c) as principais bandeiras de contrato. Observar o mapa Domingos J. Velho Domingos J. Velho Moraes Navarro e Bernardo V. de Mello e M. C. Almeida Belém Gurupá A nt ôn io R ap os o T av ar es S il v a B ra g a São Luís Fortaleza Cuiabá Santiago de Xerez Vila Bela Vila Boa Natal Paraíba Recife Olinda Salvador Porto Seguro Rio de Janeiro São Paulo Taubaté Santos M e ri d ia n o d e T o rd e s il h a s . OCEANO ATLÂNTICOOCEANO PACÍFICO 60º O 10º S Man oel Pre to e Calheiros Domingos B. E st ev ão B . P a re n te F e rn ã o D ia s P a is e A . M . B o rb a G a toB artolom eu B. da S ilva Pascoal Moreira Cabral Antônio Raposo Cabral A. R . Tavar es A . R . T a v a re s A . F er na nd es e Fe rn ã o D ia s Pa is Dom ingos A . M a fre u se Apresamento Prospecção Sertanismo de contrato Silva Braga Armador responsável Limite atual do território brasileiro 0 617 km A partir do século XVII, foram organizadas expedições patrocinadas apenas por particulares, chamadas bandei- ras. A maioria das bandeiras partiu da vila de São Paulo em direção ao interior do território. As bandeiras eram compostas, em geral, de indivíduos brancos, mestiçose indígenas. O responsável por sua orga- nização e por seu comando era chamado de armador. Veja- mos o que o historiador Davidoff diz sobre o assunto: Do ponto de vista de sua organização, a expe- dição bandeirante era comandada por um chefe, branco ou mameluco, que encerrava em suas mãos poderes absolutos sobre os subordinados. Sob seu comando estavam os escravos indígenas que, con- forme a descrição de C. R. Boxer, eram usados como batedores de caminhos, coletores de alimentos, guias e carregadores. [...] O número de componen- tes de uma bandeira era variável; podia ser uma ex- pedição de quinze a vinte homens e também podia chegar a reunir centenas de participantes [...]. DAVIDOFF, Carlos. Bandeirantismo: verso e reverso. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 27-28. Os historiadores costumam distinguir três tipos de ban- deirismo: • de apresamento – dedicava-se à captura de indígenas para vendê-los como escravos; • sertanismo de contrato – dedicava-se ao combate de rebeliões indígenas e à captura de escravos negros fugitivos, prestando serviços à classe dominante da colônias; • de prospecç‹o – dedicava-se à procura de metais preciosos. Avanço para o oeste-sudoeste Na segunda metade do século XVIII, a administração colonial direcionou as expedições militares mais para o interior, ou “sertão adentro”, como se dizia na época. Seu objetivo era “fazer do [rio] Tietê uma linha estratégica que possibilitas- se a ocupação mais efetiva do oeste e do sudoeste e, ao mesmo tempo, contivesse os eventuais avanços espanhóis”.2 De modo geral, essas expedições não respeitaram o Tratado de Tordesilhas, que estabelecia os limites das possessões portuguesas e espanholas. Vimos, in- clusive, que, no período da União Ibérica, as fronteiras traçadas em Tordesilhas se afrouxaram, pois Portugal estava integrado ao reino espanhol. Bandeirismo Expansão patrocinada por particulares 2 SOUZA, Laura de Mello e. Formas provisórias de existência: a vida cotidiana nos caminhos, nas fronteiras e nas fortificações. In: História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. v. 1. p. 71. Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: MEC/Fename, 1986. p. 22. s iD n E i m O U r a Principais bandeiras (séculos XVII-XVIII) 71CAPÍTULO 6 Expansão territorial 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 71 5/17/16 11:03 AM Bandeiras de apresamento As bandeiras de apresamento tornaram-se um importante negócio durante o período do domínio holandês no Brasil (1637-1654). Nessa época, os holan- deses conquistaram algumas colônias portuguesas fornecedoras de escravos negros na África. Com isso, desmontaram o tráfico negreiro organizado pelos portugueses e só permitiram a vinda de escravos para as áreas sob domínio holandês. Como consequência, a mão de obra escrava tornou-se escassa nas regiões da América portuguesa. Expedições de bandeirantes passaram, então, a capturar indígenas para su- prir a carência de mão de obra nessas regiões. Muitas bandeiras de apresamento partiam da vila de São Paulo, assim como as bandeiras de prospecção. Por isso, São Paulo ficou conhecida como a “terra dos bandeirantes”. De modo geral, a concentração do bandeirismo nessa região está vinculada ao declínio do negócio açucareiro, quando a população pobre da vila de São Vi- cente dirigiu-se para São Paulo. Fugindo da miséria e buscando alternativas para sobreviver, parte dessa população se dedicou ao apresamento de indígenas e à sua venda como escravos. Os “negros da terra” — antiga expressão que os portugueses davam aos indígenas — eram forçados a trabalhar nas lavouras que abasteciam as vilas e povoações do litoral e também no transporte de mercadorias que circulavam entre o planalto e o litoral. A princípio, os bandeirantes capturavam indígenas em regiões próximas de São Paulo. Depois, foram avançando para regiões mais distantes. Até meados do século XVII, os bandeirantes paulistas atacavam, inclusive, os aldeamentos fundados pelos jesuítas espanhóis, espalhados ao longo dos rios Paraguai e Paraná, nos atuais estados do Paraná e Mato Grosso do Sul, e tam- bém alguns situados nos atuais Paraguai e Argentina. Entre essas expedições, ficaram mais conhecidas as comandadas por Raposo Tavares e Manoel Preto. Em reação aos constantes ataques dos bandeirantes, os padres jesuítas ob- tiveram autorização do rei da Espanha para munir os indígenas com armas de fogo e fazê-los defender as missões. Desse modo, as missões conseguiram con- ter os bandeirantes por algum tempo. Sertanismo de contrato As bandeiras que se dedicavam ao chamado sertanismo de contrato partiam, em geral, de Salvador, Recife e Olinda. Elas foram empreendidas principalmente após a expulsão dos holandeses do Brasil, quando o tráfico negreiro foi reorga- nizado e a escravização indígena perdeu intensidade. A partir desse momento, autoridades governamentais, senhores de engenho e grandes pecuaristas passaram a contratar os serviços dos bandeirantes como seu “braço armado” em situações específicas, fosse para reprimir rebeliões in- dígenas, fosse para capturar escravos fugitivos, especialmente aqueles reunidos em quilombos. Desse modo, os bandeirantes acabaram sendo responsáveis pelo massacre de milhares de indígenas, despovoando amplas áreas do interior do território, muitas das quais foram posteriormente ocupadas por fazendas de gado. 72 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 72 5/17/16 11:03 AM Bandeiras de prospecção Na segunda metade do século XVII, o governo por- tuguês enfrentou uma crise financeira, em decorrência de fatores como as invasões holandesas. Assim, passou a estimular o bandeirismo de prospecção por meio de recompensas materiais, promessas de títulos e honra- rias e até perdão de eventuais crimes cometidos. Animados com as pequenas quantidades de ouro encontradas no início do século XVII em regiões das atuais cidades de São Paulo, Curitiba e Paranaguá, os bandeirantes decidiram entrar pelo sertão em bus- ca de jazidas mais abundantes. Com esse propósito específico, a bandeira liderada por Fernão Dias Pais — que partiu de São Paulo em 1674 em direção ao interior do atual estado de Minas Gerais — passou Entre os séculos XVII e XVIII, os bandeirantes encontraram jazidas de ouro em lugares isolados e dis- tantes do litoral. Diante disso, milhares de pessoas migraram para essas regiões motivadas pela possibili- dade de enriquecimento com a mineração. Nesse contexto, foram organizadas “bandeiras de comércio” denominadas monções, que tinham o ob- jetivo de fornecer alimentos, roupas e outros produtos àquelas regiões. Navegando pelos rios de São Paulo, Mato Grosso e Goiás, as monções também serviam como meio de comunicação e transporte. Inspirando-se na história da expansão territorial da colônia, o artista Almeida Júnior (1850-1899) criou a obra A partida da monção. Essa pintura pode ser utilizada como fonte histórica. Observe-a a seguir. Interpretar fonte Monções: expedições de comércio 1. Descreva o que você observou na imagem: cenário, personagens, objetos, embarcações etc. 2. Segundo intelectuais como Mário de Andrade e Monteiro Lobato, as obras de Almeida Júnior estão entre as primeiras expressões do caráter nacional na pintura brasileira. Em sua opinião, como poderíamos relacionar esse ponto de vista com a pintura A partida da monção? sete anos explorando o sertão mineiro, encontrando apenas pedras de turmalina. O caminho percorrido pela bandeira de Fernão Dias foi seguido depois por outros bandeirantes, que acabaram encontrando ouro em Minas Gerais, no fi- nal do século XVII. Dentre as bandeiras que descobriram jazidas de ouro no Brasil, destacam-se as expedições comanda- das por: • Antônio Rodrigo Arzão – descobriu ouro em Mi- nas Gerais, por volta de 1693; • Pascoal MoreiraCabral – descobriu ouro em Mato Grosso, por volta de 1719; • Bartolomeu Bueno da Silva – descobriu ouro em Goiás, por volta de 1725. A partida da monção. Óleo sobre tela de Almeida Júnior feito com base em desenhos originais de Hercules Florence, de 1897. A obra pertence hoje ao acervo do Museu Paulista da USP. a lm Ei D a J ú n iO r. a p a rt iD a D a m O n ç ã O . 1 89 7. 73CAPÍTULO 6 Expansão territorial 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 73 5/17/16 11:03 AM Missões jesuíticas Desde que chegaram ao Brasil Colônia, em 1549, os jesuítas dedicaram-se à catequização dos indígenas. Para realizar essa tarefa, eles fundaram aldeamentos (ou missões) em terras concedidas pelo governo. Nos aldeamentos, os jesuítas ensinavam a dou- trina católica, a língua portuguesa e outros aspec- tos da cultura europeia. Nesse processo, comba- tiam costumes e tradições indígenas que entrassem em choque com o cristianismo — isso incluía, por exemplo, a poligamia, a nudez e a crença nos rituais dos pajés. Em geral, a rotina diária dos aldeamentos começava bem cedo, com a cerimônia da missa. Depois, alguns in- dígenas iam trabalhar nas plantações coletivas, e outros nas atividades artesanais. Enquanto os adultos trabalhavam para suprir as ne- cessidades materiais da aldeia, as crianças aprendiam a ler, escrever e contar, e também tinham aulas de moral e religião. Os jesuítas pensavam que as crianças assimi- lariam os novos hábitos culturais com mais facilidade do que os adultos. Além disso, nas missões do norte da colônia, os jesuítas faziam com que os indígenas trabalhassem na extração de riquezas naturais, conhecidas como drogas do sertão (guaraná, pimenta, castanha, baunilha, plan- tas aromáticas e medicinais), cuja venda proporcionava bons lucros aos padres da Companhia de Jesus. Por tudo isso, as missões jesuíticas tornaram-se o alvo predileto das bandeiras de apresamento, pois lá os bandeirantes encontravam o chamado índio ladino, isto é, aculturado e conhecedor de ofícios que interes- savam ao comprador de escravos. Jesuítas A fundação de aldeamentos no interior Os jesuítas são sacerdotes pertencentes à Com- panhia de Jesus ou Ordem Jesuítica, fundada na Eu- ropa por Inácio de Loyola, em 1534. Entre os ob- jetivos dos jesuítas estava a divulgação da religião católica pelo mundo. No século XVI, a ordem procu- rava fazer de seus sacerdotes uma espécie de “sol- dados do catolicismo”. Foi com essa intenção que, em 29 de março de 1549, desembarcou na Baía de Todos-os-Santos o primeiro grupo de jesuítas, che- fiados por Manuel da Nóbrega. Limite atual do território brasileiro Missões portuguesas Atual divisão política do Brasil Belém São Luís Olinda Salvador Rio de Janeiro M e ri d ia n o d e T o rd e s il h a s OCEANO ATLÂNTICO OCEANO PACÍFICO 10º S 60º O Missões espanholas 0 609 km s iD n E i m O U r a Fontes: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: MEC/Fename, 1986. p. 20 e 26. ARUDA, J. J. de. Atlas histórico básico. São Paulo: Ática, 2001. p. 37. Missões jesuíticas (séculos XVI e XVII) Observar o mapa • Compare o mapa sobre as missões jesuíticas aci- ma com um mapa atual da divisão política do Brasil e responda ao que se pede. a) Identifique os estados atuais onde se con- centraram as missões jesuíticas no período colonial. b) As missões jesuíticas portuguesas “invadi- ram” o território espanhol vizinho, estabele- cido pelo Tratado de Tordesilhas? Justifique com exemplos. 74 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 74 5/17/16 11:03 AM Revolta de Beckman Durante o período colonial, houve divergências en- tre colonos e jesuítas. Vários colonos, por exemplo, que- riam capturar e escravizar os indígenas para utilizá-los como mão de obra, contrariando os jesuítas, que de- fendiam a proposta de aculturá-los e controlá-los dentro das missões. Essas divergências geraram uma série de conflitos, como a chamada Revolta de Beckman. Na época da União Ibérica (1580-1640), os je- suítas conseguiram com a metrópole a edição de normas que proibiam o ataque e a escravização dos indígenas. Assim, “protegiam” os nativos dos colo- nos, embora se possa dizer que eles os exploravam à sua maneira. A partir de 1650, porém, a capitania do Maranhão começou a passar por grave crise econômica, provo- cada pela redução dos preços do açúcar no mercado internacional. Sem condições de pagar os altos preços cobrados pelo escravo africano, os senhores de en- genho da região organizaram tropas para invadir os aldeamentos dos jesuítas e capturar indígenas para o trabalho escravo em suas propriedades. Essa atitude provocou o protesto dos jesuítas junto ao governo por- tuguês, que acabou reafirmando a proibição de escra- vizar indígenas aldeados. Nesse contexto, o governo português criou a Companhia Geral de Comércio do Estado do Ma- ranhão (1682), com o objetivo de fornecer mão de obra para a capitania. A ideia era introduzir na região 500 escravos negros por ano, durante 20 anos. Essa companhia não conseguiu, no entanto, cumprir seus compromissos, agravando a crise de mão de obra e aumentando o descontentamento dos colonos. Além disso, a Companhia também devia abaste- cer a região com produtos como tecidos, bacalhau e trigo e comprar o açúcar ali produzido para revendê- -lo à metrópole. Mas a Companhia cobrava um alto valor pelos produtos fornecidos aos colonos e paga- va-lhes pouco pelo açúcar adquirido. Mais motivos para descontentamento. Um grupo de senhores de engenho maranhenses, liderado por Manuel Beckman, organizou um movimen- to para acabar com a Companhia de Comércio e com a influência dos jesuítas. Esse grupo queria, também, obter de Portugal autorização para escravizar os indí- genas. A rebelião eclodiu na noite de 24 de fevereiro de 1684. Os armazéns da Companhia foram destruídos, a escola dos jesuítas foi invadida e estes foram expulsos do Maranhão. Os rebeldes constituíram um governo provisório, e o irmão de Manuel Beckman, Tomás, foi encarregado de ir a Lisboa expor a situação ao rei de Portugal. Ao saber dos acontecimentos, o rei não aceitou a atitude dos re- voltosos: ordenou a prisão de Tomás Beckman e enviou ao Maranhão um novo governador, Gomes Freire de Andrade, que ali chegando, em 1685, mandou enforcar Manuel Beckman e outros dois líderes do movimento. Apesar da reação severa, a metrópole mudou sua política na região. Os jesuítas puderam retornar ao Ma- ranhão, a Companhia de Comércio foi extinta e a escra- vização dos indígenas foi autorizada em alguns casos. Investigando • No mundo atual, os jovens apren- dem novos hábitos culturais com mais facilidade do que os adultos? Debata o assunto com os colegas. Cena do filme A Missão, drama histórico que conta a história de um violento mercador de escravos de meados do século XVIII que se converte em missionário jesuíta e passa a viver em Sete Povos das Missões. (Direção de Roland Joffé, Inglaterra, 1986). W a r n E r B r O s /t h E K O B a l C O l l E C t iO n /t h E p iC t U r E D E s K /a F p 75CAPÍTULO 6 Expansão territorial 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 75 5/17/16 11:03 AM Em destaque Povos indígenas na atualidade De acordo com o Censo 2010, 896 917 pessoas se declararam indígenas, ou seja, cerca de 0,4% da população total do Brasil. No país, vivem 305 povos diferentes e são faladas cerca de 274 línguas indígenas. De acordo com o Instituto Socioambiental, o território brasileiro conta com 680 Terras Indí- genas reconhecidas: A demarcação de uma Terra Indígena tem por objetivo garantir o direito indígena à terra. Ela deve estabelecer a real extensão da posse indígena, assegurando a proteção dos limites demarcados e impedindo a ocupação por terceiros. InstitutoSocioambiental. Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/pt/c/terras-indigenas/demarcacoes/introducao>. Acesso em: 30 nov. 2015. População indígena no Brasil, 2010 – Distribuição por unidades da Federação* UF População UF População Acre (AC) 17 578 Paraíba (PB) 25 043 Alagoas (AL) 16 921 Paraná (PR) 26 559 Amapá (AP) 7 411 Pernambuco (PE) 60 995 Amazonas (AM) 183 514 Piauí (PI) 2 944 Bahia (BA) 60 120 Rio de Janeiro (RJ) 15 894 Ceará (CE) 20 697 Rio Grande do Norte (RN) 2 597 Distrito Federal 6 128 Rio Grande do Sul (RS) 34 001 Espírito Santo (ES) 9 585 Rondônia (RO) 13 076 Goiás (GO) 8 583 Roraima (RR) 55 922 Maranhão (MA) 38 831 Santa Catarina (SC) 18 213 Mato Grosso (MT) 51 696 São Paulo (SP) 41 981 Mato Grosso do Sul (MS) 77 025 Sergipe (SE) 5 221 Minas Gerais (MG) 31 677 Tocantins (TO) 14 118 Pará (PA) 51 217 Total 896 917 * Fonte da tabela: IBGE, Censo Demográfico 2010. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/95/ cd_2010_indigenas_universo.pdf>. Acesso em: 27 nov. 2015. 1. De acordo com o Censo 2010, qual é a população indígena do estado onde você mora? 2. Que povos indígenas vivem em seu es- tado? Pesquise. Jovem indígena da etnia kayapó na Aldeia Multiétnica de Alto Paraíso, em Goiás. Fotografia de 2014. l U is s a lv a t O r E /p U l s a r i m a G E n s 76 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 76 5/17/16 11:03 AM A pecuária desempenhou importante papel na economia colonial. Além de abastecer a população de carne e couro, os animais serviam como força motriz e meio de transporte. Ao contrário da produção de açúcar, voltada para o mercado externo, a pecuária atendia basicamente ao mercado interno. Assim, a pecuária escapava aos padrões predominantes que caracterizavam o sistema colonial mercantilista. Na prática, ela era pouco incen- tivada pela metrópole porque destinava à exportação apenas uma parte do couro produzido desde o Mara- nhão até a Bahia. Pretendendo incentivar a lucrativa produção açu- careira — cujos engenhos estendiam-se pelas áreas litorâneas —, a administração portuguesa chegou a proibir, em 1701, a criação de gado em uma faixa de 80 quilômetros a partir da costa. Os pecuaristas foram, então, obrigados a instalar suas fazendas de gado no interior, em áreas que não eram apropriadas à agricultura exportadora. Dessa forma, no período colonial, a pecuária desenvolveu-se principalmente em duas grandes zonas criatórias: a caatinga no nor- deste e as campinas do sul. Pecuária nordestina Segundo historiadores, as primei- ras criações de gado desenvolvidas no Brasil ocorreram no nordeste. Além de couro e carne fresca, os pecuaris- tas nordestinos forneciam carne-seca (salgada e seca ao sol), que, devido ao sal, se conservava por mais tempo, o que possibilitava sua comercializa- ção em locais distantes. Durante a expansão das fazen- das de gado pelo interior nordesti- no, ocorreram muitos conflitos entre colonos e indígenas, que resistiram à invasão de suas terras. Ao final des- sas lutas, muitos povos indígenas fo- ram dizimados. A partir do século XVIII, a ativi- dade pecuária no nordeste entrou em declínio, devido à concorrência da criação de gado bovino em Minas Pecuária O povoamento do sertão nordestino e do sul Gerais, que passou a abastecer as zonas mineradoras. As secas de 1791 e 1793 desferiram o golpe final na já decadente pecuária nordestina. Pecuária sulina Nas vastas campinas do atual estado do Rio Gran- de do Sul, a pecuária encontrou condições favoráveis ao seu desenvolvimento. Em todo o período colonial, essa foi a atividade mais importante da região, fazen- do nascer ali uma sociedade tipicamente pastoril. Nas estâncias, o traba- lho era realizado pelo capa- taz e pelos peões (na maioria das vezes, brancos, indígenas e mestiços assalariados). Em geral, o dono da estância e sua família administravam diretamente o trabalho pe- cuário, gerenciando as tarefas do dia a dia. Até fins do século XVIII, a principal finalidade da criação de gado bovino nessa região foi a pro- dução de couro. A princípio, a maior parte da carne do gado abatido era desperdiçada, pois não havia quem a consumisse. Estância: no Rio Grande do Sul, gran- de propriedade rural, geralmente dedicada à criação de gado. Gravura, feita em 1823 por Jean Baptiste Debret, com representação de embarcação feita de couro de boi. Esse tipo de embarcação, também chamada de pelota, era rebocada por um nadador. Foi empregada na travessia dos rios da província do Rio Grande. A gravura pertence ao acervo dos Museus Castro Maya, no Rio de Janeiro. JE a n -B a pt is tE D EB rE t. pE lO ta , E m Ba rC a ç ã O B ra si lE ir a . 1 82 3. 77CAPÍTULO 6 Expansão territorial 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 77 5/17/16 11:03 AM • Observe o mapa e identifique em quais dos atuais estados se concentrou a criação de gado, contribuindo para o seu povoa- mento durante o século XVIII. Observar o mapa Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: MEC/Fename, 1986. p. 32. s iD n E i m O U r a Expansão territorial provocada pela pecuária (século XVIII) Investigando • Você consome leite e seus derivados? Observe a embalagem desses alimentos e responda: em que cidade são produzidos? Quais são os principais nutrientes encontrados no leite? A propósito da importância da produção de couro no período da expansão da pecuária, o historiador Capistrano de Abreu (1853-1927) fala da existência de uma “época do couro”: De couro era a porta das cabanas, o rude leito aplicado ao chão duro, e mais tarde a cama para os partos; de couro todas as cordas, a borracha para carregar água, o mocó ou alforje para levar comida, a maca para guardar roupa, a mochila para milhar cavalo, a peia para prendê-lo em viagem, as bainhas de faca, [...] surrões, a roupa de entrar no mato [...]. ABREU, Capistrano de. Capítulos de história colonial. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1988. p. 170. Posteriormente, por volta de 1780, surgiu a indústria do charque, que abriu no- vas possibilidades ao comércio da carne. Essa indústria desenvolveu-se rapidamente, impulsionada pelo crescente consumo. Suas instalações constituíam-se basicamente de um galpão, onde se preparava e salgava a carne, e de secadores ao ar livre. A produção de leite era pouco desenvolvida e estava longe de rivalizar com a existente em Minas Gerais. Em compensação, o sul, favorecido pelas baixas tem- peraturas, era a única região produtora e consumidora de manteiga. Além do gado bovino, foi significativa no Rio Grande do Sul a criação de cavalos e, principalmente, de mulas (muares). Muito exportadas para a região de Minas Gerais, as mulas tornaram-se importante meio de transporte nos terrenos acidentados e montanhosos das áreas mineradoras. Rio Amazo nas R io X in g u R io A ra g u ai a R io To ca n ti n s R io P ar naí ba Rio Ja gu ar ib e R io S ão Fra ncis co R io Je quitin hon ha R io Pa ranaíb a R io Pa ra ná Rio Iguaçu R io P ar ag u ai R io Para íba d o S ul R io U ru gu ai Rio Tietê Rio Grande Rio Negro Rio M ad ei ra Ri o Ta pa jó s Rio Japurá Rio Pu ru s R io Jacuí Rio Solimões 60º O 10º S Área de pecuária Limite atual do território brasileiro M er id ia n o d e To rd es ilh as 0 239 km OCEANO ATLÂNTICO OCEANO PACÍFICO Mocó: bolsa de tiracolo para guardar pequenas provisões. Alforje: saco duplo para transportar objetos. Peia: corda para prender o cavalo. Surrão: bolsa ou saco de couro usado para guar- dar alimentos. Charque: nome sulino da carne bovina cortada em mantas, salgada e seca ao sol (o mesmo que jabá ou carne-seca). 78 UNIDADE 1 Trabalhoe sociedade 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 78 5/17/16 11:03 AM • Observando o mapa, identifique as áreas do atual território brasileiro que não ha- viam sido ainda incorporadas pelos trata- dos de limites dos séculos XVIII e XIX. Observar o mapa Tratados e fronteiras Os acordos internacionais sobre o território colonial Vimos, até aqui, que a colonização portuguesa não respeitou o Tratado de Tordesilhas. Os espanhóis, por sua vez, também descumpriram esse tratado, já que ocuparam colônias portuguesas situadas no Oriente, como as ilhas Filipinas. Era necessário, portanto, renegociar e fixar as no- vas fronteiras coloniais na América. Foi assim que, a partir do século XVIII, os dois países ibéricos, além da França, assinaram tratados fronteiriços: • Tratados de Utrecht (1713 e 1715) – o primeiro tratado, assinado entre representantes de Portugal e da França, estabelecia que o rio Oiapoque, no extremo norte da colônia, seria o limite de fron- teira entre o Brasil (no atual Amapá) e a Guiana Francesa. O segundo procurava resolver as diver- gências entre portugueses e espanhóis quanto aos limites de seus domínios no sul do Brasil. Estabe- lecia que a Colônia do Sacramento, fundada por Portugal (hoje cidade uruguaia), pertenceria aos portugueses. Houve, porém, resistência dos espa- nhóis que lá moravam. • Tratado de Madri (1750) – estabelecido entre representantes dos reis da Espanha e de Portugal, determinava que a cada um desses países caberia a posse das terras que ocupavam. Porém, a Colônia do Sacramento pertenceria aos espanhóis, e a re- gião dos Sete Povos das Missões (que ocupava parte do atual estado do Rio Grande do Sul) pertenceria aos portugueses. O tratado não pôde ser cumprido, pois jesuítas e indígenas guaranis dos aldeamentos dos Sete Povos das Missões não aceitaram o contro- le português. Houve violenta luta (Guerra Guaraní- tica) contra a ocupação portuguesa, e, diante dessa situação, o governo de Portugal não entregou aos espanhóis a Colônia do Sacramento. • Tratado de Santo Ildefonso (1777) – assinado por representantes de Portugal e Espanha, estabe- lecia que os espanhóis ficariam com a Colônia do Sacramento e a região dos Sete Povos das Missões, mas devolveriam aos portugueses terras que, nesse período, haviam ocupado no atual estado do Rio Grande do Sul. O tratado foi considerado desvanta- joso pelos portugueses, pois perdiam a Colônia do Sacramento e recebiam quase nada em troca. • Tratado de Badaj—s (1801) – estabeleceu, final- mente, que a região dos Sete Povos das Missões ficaria com os portugueses e a Colônia do Sacra- mento, com os espanhóis. Depois de muitas lutas, confirmavam-se as fronteiras que, basicamente, ti- nham sido definidas pelo Tratado de Madri. OCEANO ATLÂNTICO OCEANO PACÍFICO 60º O 10º S Barra do Rio Negro Belém São Luís Fortaleza Natal Paraíba (atual João Pessoa) Olinda Salvador Rio de JaneiroSão Paulo Santos LagunaRio Grande de São Pedro Colônia do Sacramento SETE POVOS DAS MISSÕES Assunção Lima Buenos Aires Mariana M e ri d ia n o d e T o rd e s il h a s Área incorporada ao Brasil pelo Tratado de Badajós Tratado de Utrecht Tratado de Madri Tratado de Santo Ildefonso Limite atual do território brasileiro Território atual do Brasil 0 304 km s iD n E i m O U r a Tratados de limites (séculos XVIII e XIX) Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: MEC/Fename, 1986. p. 26. 79CAPÍTULO 6 Expansão territorial 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 79 5/17/16 11:03 AM Oficina de História Vivenciar e refletir 1. A ação jesuítica contra a escravização dos indíge- nas não teve o mesmo caráter no que se referia aos africanos. Como essa diferença pode ser explicada? Pesquise. 2. O Brasil é, atualmente, o quinto maior país do mun- do em extensão territorial. Sobre isso, o historiador Evaldo Cabral de Mello opinou: Seria ótimo se tivéssemos respeitado a linha de Tordesilhas. O país hoje seria bem menor e os problemas, talvez, mais adminis- tráveis. Folha de S.Paulo, 14 jul. 1999, Brasil 1. p. 7. a) A fala de Evaldo Cabral tem conteúdo polêmico. Qual é sua opinião sobre essa afirmação? Debata o assunto com os colegas. b) Pesquise quais são os quatro países maiores que o Brasil em extensão territorial. Em seguida, construa uma tabela apresentando a extensão territorial, o número de habitantes, a densidade demográfica, o percentual de população urbana e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de cada um. Diálogo interdisciplinar 3. Pesquise em atlas ou em livros de Geografia um mapa atualizado com a distribuição da população no Brasil (densidade demográfica). Verifique a dis- tribuição dos habitantes por km2. A população está mais concentrada no litoral ou no interior? Como isso se explica historicamente? 4. Leia os trechos extraídos de obra do historiador Sér- gio Buarque de Holanda, analise a obra de Benedito Calixto e faça o que se pede. Trecho 1 Muito embora a documentação existen- te a respeito seja bastante falha, há mais de um motivo para supor-se que, nas suas longas jornadas, os bandeirantes e cabos de tropa andassem frequentemente descalços. Trecho 2 Mais transigentes do que o gentio da ter- ra mostraram-se muitos colonos brancos, Diálogo interdisciplinar com Geografia. Diálogo interdisciplinar com Arte. adotando em larga escala os recursos e táticas indígenas de aproveitamento do mundo animal e vegetal para a aquisi- ção de meios de sub- sistência. Um passo importante nesse sentido, a acomodação à dieta familiar dos primitivos moradores do país, que constitui certamente resultado de um longo esforço de adaptação ao seu clima e às suas condições materiais, terá favorecido qualidades de ener- gia e resistência, as mesmas qualidades que assinalaram os antigos paulistas, por exemplo, em todos os recantos do Brasil. Muito alimento que pareceria repug- nante a paladares europeus teve de ser acolhido desde cedo por aquela gente, principalmente durante as correrias no sertão, pois a fome é companheira cons- tante da aventura. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 26 e 56. Transigente: aquele que aceita ideias, com- portamentos e opi- niões alheias, mesmo que não sejam condi- zentes com seu modo próprio de pensar. O bandeirante Domingos Jorge Velho, em suposto retrato. Detalhe da obra de Benedito Calixto, de 1903, pertencente ao acervo do Museu Paulista. Na obra, o bandeirante, descendente de indígenas, tem traços europeus e usa roupas de gala. BE n ED it O C a li x tO . D O m in G O s JO rG E v El h O , O B a n D Ei ra n tE (D Et a lh E) . s éC U lO x x . 80 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 80 5/17/16 11:03 AM Fonte da tabela: Censo 2010, IBGE. Dados disponìveis em: <http://www.ibge.gov.br/indigenas/indigena_censo2010.pdf>. Acesso em: 28 nov. 2015. a) Compare o conteúdo dos textos com o quadro de Domingos Jorge Velho, feito pelo artista Be- nedito Calixto. b) Em seguida, discuta com seus colegas: qual é a imagem que o autor da pintura, Benedito Calix- to, desejava passar a respeito dos bandeirantes? E que imagem o historiador Sérgio Buarque de Holanda passa a respeito dos bandeirantes, em seu texto? Em sua opinião, as obras analisadas emitem visões diferentes a respeito dos bandei- rantes? Por quê? c) Inspirando-se na descrição de Sérgio Buarque de Holanda, crie uma expressão artística sobre os bandeirantes. d) Escreva um pequeno texto com suas conclusões. 5. A maioria dos povos indígenas do Brasil vive, atual- mente, nas chamadas Terras Indígenas. Mas boa parte vive também em zonas urbanas. De acordo com da- dos do Censo 2010 e do Instituto Socioambiental, Com relação à presença indígenanos municípios brasileiros, dos 5 565 municí- pios, 1 085 não têm nenhuma população autodeclarada indígena, 4 382 têm menos do que 10% de sua população declarada indígena e 12 municípios possuem mais de 50% da população contabilizada como indígena, sendo eles majoritariamente da região norte e nordeste. Instituto Socioambiental. Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/ pt/c/no-brasil-atual/quantos-sao/ocenso-2010-e-os-povos-indigenas>. Acesso em: 30 out. 2012. Observe a tabela ao lado, que mostra os dez municí- pios que apresentam mais de 50% de população indígena. a) Sob a orientação do professor, reúnam-se em grupos. Calculem, com base nos dados da tabe- la, a proporção de população indígena em rela- ção à população total de cada município. Exem- plo: o município de Amajari (RR) apresenta uma população de 9 327 habitantes, e, desse total, a população indígena é de 5 014. Portanto, 53,76% dos habitantes de Amajari são indígenas. b) Em seguida, respondam: qual é o município brasileiro que apresenta maior proporção de população indígena? Montem uma nova tabela, colocando, em ordem crescente, as cidades com maior proporção de população indígena. Di‡logo interdisciplinar com Matem‡tica. Pode-se afirmar que a construção dos fortes pelos portugueses visava, principalmente, dominar: a) militarmente a bacia hidrográfica do Amazonas. b) economicamente as grandes rotas comerciais. c) as fronteiras entre nações indígenas. d) o escoamento da produção agrícola. e) o potencial de pesca da região. Municípios brasileiros com mais de 50% de população indígena, em 2010 População total População indígena Amajari (RR) 9 327 5 014 Baía da Traição (PB) 8 012 5 687 Marcação (PB) 7 609 5 895 Normandia (RR) 8 940 5 091 Pacaraima (RR) 10 433 5 785 Santa Isabel do Rio Negro (AM) 18 146 10 749 Santa Rosa do Purus (AC) 4 691 2 526 São Gabriel da Cachoeira (AM) 37 896 29 017 São João das Missões (MG) 11 715 7 936 Uiramutã (RR) 8 375 7 382 M e ri d ia n o d e T o rd e s il h a s OCEANO ATLÂNTICO OCEANO PACÍFICO 0 583 km Meridiano de Tordesilhas si D n Ei m O U ra . a D a pt a D O D a in st it U iç ã O De olho na universidade 6. (Enem-2003) O mapa abaixo apresenta parte do con- torno da América do Sul, destacando a bacia amazô- nica. Os pontos assinalados representam fortificações militares instaladas no século XVIII pelos portugueses. A linha indica o [meridiano do] Tratado de Tordesilhas, revogado pelo Tratado de Madri apenas em 1750. 81CAPÍTULO 6 Expansão territorial 068a081_U1_C6_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 81 5/17/16 11:03 AM Sociedade mineradora 1. Observando a obra de Clóvis Graciano, pode-se deduzir quem eram as pessoas que trabalhavam na mineração e onde ela ocorria? 2. Que características aproximam a obra de Candido Portinari, reproduzida na página de abertura do capítulo 2, e esta obra de Clóvis Graciano? Comente. No século XVIII, com a exploração do ouro, a região das minas teve grande crescimento econômico. A colonização avançou para o interior e novas cidades surgiram. Muitas delas, ainda hoje, exibem o legado artístico e arquitetônico daquela época. A história dessas cidades, com seu esplendor e seus problemas, esteve em boa parte ligada à minera- ção. Como foi esse processo histórico? Clóvis GraCiano. Mineração. 1954. pinaCoteCa MuniCipal de são paulo Mineração, óleo sobre aglomerado de madeira pintado por Clóvis Graciano, em 1954. Hoje a obra se encontra na Coleção de Arte da Cidade, São Paulo (SP). 82 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade capítulo 7 082a093_U1_C7_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 82 5/17/16 11:04 AM Enfim, muito ouro A realização do velho sonho português Ao final do domínio espanhol (1640), Portugal estava mergulhado em grave crise econômica. Os preços do açúcar haviam caído, devido, sobretudo, à con- corrência da produção antilhana, que fez com que a oferta do produto aumen- tasse no mercado internacional. Em busca de novas fontes de riqueza, o governo português revigorou o antigo sonho de encontrar ouro na América portuguesa. A data e o local dos primeiros achados não são conhecidos exatamente. Sabe-se apenas que as descobertas iniciais do ouro de aluvião nos vales dos rios das Mortes e Doce, na região de Minas Gerais, ocorreram entre os anos de 1693 e 1695. Em destaque Extração do ouro de aluvião ouro de aluvião: aquele encontrado nos depó- sitos de areia, argila e cascalho que se formam nas margens dos rios ou em seu leito, acumulado pela erosão. O historiador Warren Dean descreveu como era o trabalho de exploração do ouro de aluvião: A princípio, a extração de ouro era feita por lavagem na bateia. As turmas de escravos trabalhavam com água pelos joelhos nos leitos dos riachos e recolhiam cascalho e água em bacias chatas e cônicas de madeira, que eram agitadas e novamente cheias até restar ape- nas os flocos de ouro mais pesados. Foram africanos da Costa do Ouro que ensinaram seus proprietários a batear e se mostraram peritos em localizar minas. [...] Nos anos de 1730, a trabalhosa e insa- lubre atividade de batear [...] não era mais lucrativa em diversas minas. Os arrendatá- rios agora dragavam os riachos maiores com caçambas primitivas e desviavam riachos menores para pesquisar meticulosamente seus leitos. Feito isso, empreendia-se a la- vagem dos aluviões — os riachos eram im- pelidos contra suas margens. A degradação provocada pela mineração foi mais intensa nas planícies aluviais cheias de cascalho e nos fundos dos rios. Registrou-se que os rios Sabará e das Velhas começavam a tornar-se lamacentos devido à lavagem de aluviões. DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 113. 1. Podemos afirmar que os escravos africanos, com suas próprias culturas, influenciaram a maneira de explorar os minérios na colônia portuguesa? Justifique. 2. Pesquise o que é assoreamento e, depois, pro- cure relacionar esse processo à atividade mi- neradora praticada no Brasil no século XVII. Gravura representando a extração do ouro de aluvião em Itacolomi (MG). Litografia a partir de um desenho original de Johann Moritz Rugendas, século XIX. Jo h a n n M o ri tz r u G en d a s. e xt ra ç ã o d e o u ro d e a lu vi ã o e M it a C o lo M i ( M G ). sé C u lo x ix . C o le ç ã o p a rt iC u la r 83CAPÍTULO 7 Sociedade mineradora 082a093_U1_C7_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 83 5/17/16 11:04 AM observar o mapa ocupação do sertão A notícia da descoberta de ouro espalhou-se rapi- damente, e um grande número de pessoas dirigiu-se à região das minas. Além da população colonial, calcula-se que uma quantidade considerável de portugueses te- nha emigrado do reino para a colônia em busca de ouro. Por contar com uma população relativamente pequena, o governo de Portugal lançou um decre- to, em março de 1720, restringindo a emigração para o Brasil. Investigando 1. Considerando que a população da região das minas correspondia a 15% do total de habitantes da colônia em 1786, qual era a população do Brasil nessa época? 2. Vimos, no capítulo anterior, que, no final do século XVI, a colônia portuguesa contava com cerca de 70 a 100 mil habitantes. Quantas vezes a população do Brasil aumentou entre o final do século XVI e o final do século XVIII? Recife Salvador Jacobina Sabará Vila Rica (Ouro Preto) São João del Rei Ribeirão do Carmo (Mariana) Rio de Janeiro São Paulo Vila Boa CuiabáVila Bela M e ri d ia n o d e T o rd e s il h a s 60º O 10º S Limite atual do território brasileiro Atual divisão política do Brasil Áreas de exploração de minérios OCEANO ATLÂNTICO OCEANO PACÍFICO 0 235 km s id n e i M o u r a Mineração (século XVIII) Com tanta gente chegando, a região passou por transformações.A corrida do ouro impulsionou o surgimento, em poucos anos, de vilas e cidades, como Vila Rica (atual Ouro Preto), Ribeirão do Car- mo (atual Mariana), São João del Rei e Sabará. A população de Minas Gerais continuou crescen- do durante todo o “século do ouro” (1701-1800). Em 1786, calcula-se que havia na região aproximada- mente 394 mil habitantes, que correspondiam a cerca de 15% da população total da colônia na época. • Observe este mapa e identifique: a) os estados atuais em cujo território se desenvolveu a mineração; b) quais desses estados se encontram a oeste do Meridiano de Tordesilhas. Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: MEC/ Fename, 1986. p. 32. 84 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 082a093_U1_C7_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 84 5/17/16 11:04 AM Na obra Cultura e opulência do Brasil, o jesuíta italiano André João Antonil, que viveu no Brasil no século XVIII, apresenta uma breve análise sobre a busca pelo ouro naquele período. A sede insaciável do ouro estimulou tantos a deixarem suas terras e a meterem-se por caminhos tão ásperos como são os das minas, que dificultosamente se poderá dar conta do número de pessoas que lá estão. [...] Cada ano vêm nas frotas quantidades de portugueses e de estrangeiros, para passarem às minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertão do Brasil vão brancos, pardos, pretos e muitos índios, de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus [...]. ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1997. p. 167. Interpretar fonte Em busca do ouro Guerra dos Emboabas O rápido e caótico afluxo de milhares de pessoas para a região das minas logo gerou problemas. Os paulistas, descobridores do ouro de Minas Gerais, sentiam-se no direito de explorá-lo com exclusivi- dade. Entretanto, os não paulistas vindos de outras partes da colônia e os portugueses emigrados da metrópole também queriam apoderar-se das jazidas descobertas. A tensão cresceu quando portugueses passaram a controlar o abastecimento de mercado- rias para a região. Ocorreram, então, entre paulistas e portugue- ses, conflitos violentos que ficaram conhecidos como Guerra dos Emboabas. Muitos paulistas chamavam os portugueses de em- boabas, palavra de origem tupi, que, segundo fontes, significa “aves de pernas emplumadas”. Era uma refe- rência às botas que os portugueses usavam, em con- traste com os paulistas, que andavam descalços pelo matagal.1 Mais tarde, o termo passou a ser usado para de- signar de forma injuriosa os oponentes dos paulistas, com o sentido de “forasteiro”, “pessoa que vem de outra região”. Por sua vez, os “forasteiros” chama- vam os paulistas de “bandoleiros sem lei”. Um dos principais líderes dos emboabas foi Ma- nuel Nunes Viana, pecuarista e comerciante que lide- rou tropas contra os paulistas, vencendo-os em Saba- rá e Cachoeira do Campo. O conflito teve fim em 1709, em um local que fi- cou conhecido como Capão da Traição, onde muitos paulistas foram mortos por tropas emboabas. Poste- riormente, os paulistas organizaram uma vingança. Segundo a historiadora Laura de Mello e Souza, depois de “dois anos e cinco meses de confronto, che- gava ao fim aquela guerra, que não teve ganhadores”.2 Entre as consequências da Guerra dos Emboabas, podemos destacar: • controle da metrópole – procurando evitar novos conflitos, o governo português interveio na região e passou a exercer firme controle administrativo e fiscal das minas; • elevação de São Paulo à categoria de cidade – por determinação do rei de Portugal, D. João V, a vila de São Paulo foi elevada à categoria de cidade; • criação da capitania de São Paulo e Minas do Ouro – desmembrada do Rio de Janeiro, a nova capitania, criada em 1709, seria dividida novamen- te, em 1720, nas capitanias de São Paulo e de Mi- nas Gerais; • descoberta de ouro em Mato Grosso e Goiás – com o fim da Guerra dos Emboabas, os paulistas passaram a procurar novas jazidas de ouro em ou- tros lugares do Brasil. O resultado foi a descoberta do metal nas regiões dos atuais estados de Mato Grosso (1718) e Goiás (1726), territórios pertencen- tes na época à capitania de São Paulo. 1 Cf. BOXER, Charles. A Idade de Ouro do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. p. 105. 2 Cf. SOUZA, Laura de Mello e et al. 1680-1720: o império deste mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 69. • Como Antonil caracterizou a multidão que ia para as minas em busca do ouro? 85CAPÍTULO 7 Sociedade mineradora 082a093_U1_C7_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 85 5/17/16 11:04 AM controle A administração das minas pelo governo A riqueza das minas pertencia à Coroa portuguesa, que concedia datas (lotes) aos mineradores para a exploração do ouro. O trabalho nesses lotes era realizado por escravos, em locais denominados lavras. Percebendo no ouro a possibilidade de revigorar sua economia, o governo portu- guês organizou um rígido esquema administrativo para controlar a região mineradora. Intendência das Minas O principal órgão dessa estrutura administrativa portuguesa era a Intendência das Minas. Criado em 1702, esse órgão era responsável por tarefas como: • distribuição de datas (lotes) para a exploração do ouro; • fiscalização da atividade mineradora; • julgamento de questões referentes ao desenvolvimento dessa atividade; • cobrança de impostos pela exploração das jazidas, principalmente. Os mineradores deviam pagar ao governo português um tributo correspon- dente a um quinto (20%) de qualquer quantidade de metal extraído. Com o tem- po, a expressão quinto passou a designar popularmente o próprio imposto. casas de Fundição No início da exploração mineira, o ouro em pó ou em pepitas circulava livre- mente pela região das minas. Isso dificultava a cobrança de impostos sobre o ouro extraído e favorecia o contrabando. Para resolver esse problema, o governo português proibiu a circu- lação do ouro em pó e em pepi- tas e criou, por volta de 1720, as Casas de Fundição. Nesses locais, todo o ouro deveria ser fundi- do e transformado em barras. Ao recebê-lo, as Casas de Fundição retirariam a parte correspondente ao imposto cobrado pela Fazenda Real (Coroa). O restante receberia um selo oficial que comprovaria o pagamento do quinto, podendo ser legalmente negociado. Era o ouro quintado, isto é, do qual já se havia extraído a quinta parte. Quem fosse encontrado por- tando ouro em pó ou barras não quintadas poderia sofrer penas se- veras, que iam desde a perda de todos os bens até o exílio perpétuo em colônias portuguesas na África. Fachada de casa de fundição construída em 1770 na cidade de Mariana, Minas Gerais. Atualmente, é a Casa de Cultura e Academia Marianense de Letras. Fotografia de 2011. r u b e n s C h a v e s /p u l s a r i M a G e n s 86 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 082a093_U1_C7_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 86 5/17/16 11:04 AM Revolta de Vila Rica O anúncio da criação das Casas de Fundição causou insatisfação entre os mineradores. Eles consideravam que a medida dificultava a circulação e o co- mércio do ouro dentro da capitania, facilitando apenas a cobrança de impos- tos. Tal descontentamento acabou provocando a Revolta de Vila Rica, em 28 de junho de 1720. Cerca de 2 mil revoltosos, comandados pelo tropeiro português Felipe dos Santos, conquistaram a cidade de Vila Rica. O grupo, que era composto de donos de grandes lavras e de parte da população, incluindo centenas de escravos ar- mados por seus senhores, exigia do governador da capitania de Minas Gerais, Pedro de Almeida Portu- gal, o conde de Assumar, a extinção das Casas de Fundição. Apanhado de surpre- sa, o governador fingiu aceitar as exigências e prometeu acabar com as Casas de Fundição,ga- nhando tempo para or- ganizar tropas e reagir se- veramente. Pouco depois, os líderes do movimento foram presos, e Felipe dos Santos foi condenado, enforcado e esquartejado em praça pública, em 16 de julho de 1720. Intendência dos Diamantes A partir de 1729, foram encontradas jazidas de diamantes no Arraial do Tijuco, atual cidade de Diamantina. O governo português também teve dificuldade para controlar a cobrança de impostos sobre essas pedras preciosas. Grande quantida- de delas era escondida da fiscalização pelos mineradores, que, assim, deixavam de pagar o quinto cobrado pela Fazenda Real. Por esse motivo, em 1739, o governo português decidiu entregar a extração das pedras preciosas a particulares. A extração era permitida mediante um contra- to de exploração, que estabelecia a figura de um contratador, responsável tanto pela exploração dos diamantes como pela entrega de parte da produção à Coroa. O sistema durou até 1771, quando a Coroa portuguesa assumiu diretamente a extração diamantina e criou a Intendência dos Diamantes. Esse órgão passou a ter amplos poderes sobre a população do Distrito Diamantino. Seus fiscais podiam, por exemplo, confiscar bens e controlar a entrada e a saída de pessoas do distrito. Mas nem assim o contrabando de diamantes terminou. Calcula-se que, apenas da capitania de Minas Gerais, foram extraídos aproxi- madamente 160 quilos de diamantes entre 1730 e 1830. tropeiro: condutor de tropas de animais, espe- cialmente de carga. Tropeiros ou Arrieiros. Gravura em água-tinta de Henry Chamberlain, de 1822. Os muares eram utilizados no transporte de cargas a longa distância devido à sua resistência. h en ry C h a M be rl a in . t ro pe ir o s o u a rr ie ir o s. 1 82 2. C o le ç ã o p a rt iC u la r 87CAPÍTULO 7 Sociedade mineradora 082a093_U1_C7_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 87 5/17/16 11:04 AM Sociedade do ouro Desenvolvimento da vida urbana em Minas Gerais 3 Cf. Estatísticas históricas do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1986. p. 28-29. 4 Cf. SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII. 4. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2004. Os habitantes de Minas Gerais organizaram suas atividades principalmente em torno do ouro, fazendo surgir uma série de núcleos urbanos, como Vila Rica, Congonhas do Campo, Ribeirão do Carmo, Sabará e São João del Rei. A região mineira se tornou um excelente mercado comprador de alimentos, roupas, ferramentas e ou- tros produtos, fornecidos por inúmeros comerciantes de Portugal e da própria colônia. No Nordeste, a produção açucareira havia dado origem a uma sociedade rural, com o domínio dos senhores de engenho. Já em Minas Gerais a explo- ração do ouro propiciou a formação de uma socie- dade urbana, com pessoas de diferentes situações socioeconômicas, da qual faziam parte, por exemplo, mineradores, comerciantes, quituteiras, carpinteiros, ferreiros, pedreiros, padres, militares, funcionários da Coroa e advogados. Havia ainda, como base dessa sociedade, um grande número de escravos africanos. Segundo estimativas, em 1786, esses africanos repre- sentavam quase metade da população total da capi- tania de Minas Gerais.3 ascensão social e pobreza Na sociedade que se desenvolveu na região das minas, a ascensão social era possível, pois uma pessoa poderia enriquecer com a extração do ouro e de dia- mantes ou com o comércio e o artesanato. Comparada com a empresa açucareira, a ativida- de mineradora exigia menor quantidade de equipa- mentos, instalações e mão de obra. Assim, os inves- timentos necessários para entrar nesse negócio eram menores que os exigidos para o funcionamento de um engenho. Isso permitia que um número maior de pessoas “tentasse a sorte” com a mineração. No entanto, a concentração de riqueza foi uma das marcas da sociedade mineradora, já que a maior parte das lavras importantes pertencia aos ricos se- nhores. Conforme analisou a historiadora Laura de Mello e Souza, o que predominou no conjunto dessa sociedade não foi a riqueza, mas a pobreza.4 Mesmo no auge da economia do ouro, de 1733 a 1748, grande parte da população livre de Minas Ge- rais era constituída de gente pobre, que desempenha- va funções de comerciantes, artesãos etc. xi C a d a s il va . d ir eç ã o : C a rl o s d ie G u es . b ra si l: e M br a fi lM e, 1 97 6. Cena do filme Xica da Silva, inspirado na vida de Francisca da Silva. Filha de uma escrava com um homem branco, ela foi vendida para um dos maiores contratadores de diamantes de Minas Gerais, João Fernandes de Oliveira. Manteve um relacionamento com ele, na condição de liberta, durante 17 anos. (Direção de Cacá Diegues, Brasil, 1976). 88 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 082a093_U1_C7_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 88 5/17/16 11:04 AM Ao longo do século XVIII, com a intensa explora- ção aurífera, até mesmo as maiores jazidas da colônia foram se esgotando. Consequentemente, na segunda metade desse século, a produção de ouro diminuiu brutalmente. O governo português, acreditando que a escassez do metal ocorria devido ao contrabando e à negligên- cia com o trabalho, continuou aumentando as formas de controle sobre os mineradores. As duas situações listadas a seguir ilustram como se dava essa pressão: • cota mínima anual – em 1750, o soberano portu- guês determinou que a soma final do quinto deveria atingir pelo menos 100 arrobas de ouro por ano. Com o progressi- vo esgotamento das ja- zidas, os mineradores tiveram muita dificuldade em extrair ouro suficiente para cobrir essa cota mínima anual. A maioria não conseguiu pagar o tributo, o que contribuiu para o acúmulo de dívidas; • derrama – em consequência, em 1765, o gover- no português decretou a derrama, isto é, a co- brança de todos os impostos atrasados. Na exe- cução da derrama, as autoridades não pouparam nem mesmo os mineradores empobrecidos, que acabaram perdendo os poucos bens que lhes res- tavam. A insatisfação contra o peso dos tributos despertaria um clima de revolta em diferentes se- tores da sociedade colonial mineira. Foi o caso, por exemplo, do movimento conhecido como Conjuração Mineira, que veremos ao longo do nosso estudo. consequências da exploração do ouro Entre as principais consequências da exploração do ouro no Brasil do século XVIII, podem ser des- tacados: • desenvolvimento das artes – diversas pessoas empregaram suas riquezas para incentivar as ar- tes durante o ciclo do ouro. Não é de admirar que o primeiro movimento literário brasileiro sig- nificativo, o Arcadismo, tenha surgido em Minas Gerais (expresso na obra de Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, entre outros). Do mesmo modo, nessa capitania surgiram, no campo das artes plásticas, as primeiras grandes figuras do Barroco (como Antônio Francisco Lis- boa, o Aleijadinho, e Manuel da Costa Ataíde, o Mestre Ataíde), além dos principais represen- tantes da música colonial (como Emérico Lobo de Mesquita, Francisco Gomes da Rocha e Inácio Parreiras Neves); • expansão territorial e populacional – como vimos, o ouro atraiu muitas pessoas para o inte- rior do território brasileiro, favorecendo o desbra- vamento e o povoamento do sertão, uma maior integração entre as capitanias, antes isoladas en- tre si, além do aumento da população. Durante o século do ouro, o número de colonos cresceu quase 11 vezes, passando, segundo algumas es- timativas, de 300 mil habitantes (em 1700) para 3,25 milhões de habitantes (em 1800); • mudança da capital – em 1763, a capital da colônia foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro, mudança que reflete o deslocamento do centro econômico do Nordeste açucareiro para a região mineradora do Sudeste. O Rio de Janeiro, com seu porto marítimo mais próximo às áreas mineradoras, favorecia o transportedo ouro. A mudança também facilitou a comunicação com a metrópole; • revoltas coloniais – as questões em torno da ex- ploração do ouro contribuíram para aguçar a opo- sição de interesses entre os colonos brasileiros e o governo português. Nesse período, a intensifica- ção do controle por parte da metrópole contribuiu para que setores da classe dominante colonial se rebelassem contra Portugal e também para que diversas revoltas fossem organizadas na região das minas. crise da mineração O declínio da produção aurífera arroba: unidade de me- dida de peso equivalente a cerca de 15 quilos. 89CAPÍTULO 7 Sociedade mineradora 082a093_U1_C7_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 89 5/17/16 11:04 AM Queijo artesanal de MinasEm destaque O queijo artesanal de Minas é produzido desde o século XVIII e se tornou um símbolo da identidade cultural mineira. Em 2008, o modo de fazê-lo artesanalmente foi considerado Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan. As técnicas de produção do queijo artesanal de Minas vie- ram de Portugal, mas foram adaptadas às condições naturais e sociais das serras mineiras. Para as famílias que o produzem, trata-se de uma importante tradição e fonte de renda. Além disso, o queijo faz parte do cotidiano dos mineiros. Está em expressões populares como “pão, pão; queijo, quei- jo” e faz parte da receita de comidas como o pão de queijo, o queijo com goiabada, as broas, as farofas, entre outros sal- gados e doces. a n d re d ib /p u ls a r iM a G en s • Na região onde você mora, existe alguma comida tradicio- nal? Qual? Sua receita pode ser considerada um patrimônio da região? Fachada da Igreja de São Francisco, em Ouro Preto (MG). Construída no século XVIII, com projeto arquitetônico e diversos elementos ornamentais criados por Aleijadinho. Fotografia de 2015. Em seu interior, encontram-se pinturas impressionantes do Mestre Ataíde, como a Assunção da Virgem, no teto da nave. Fotografia de 2015. ru be n s C h av es /p u ls a r iM a G en s Etapa do processo de fabricação de queijo artesanal de Minas, na cidade de São Roque de Minas (MG). Fotografia de 2015. M a rC o s a n d ré /o pç ã o b ra si l iM a G en s 90 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 082a093_U1_C7_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 90 5/17/16 11:04 AM com quem ficou o ouro brasileiro? A produção aurífera brasileira foi bas- tante significativa nos primeiros 60 anos do século XVIII. Nesse período, calcula-se que a quantidade de ouro explorada no Brasil tenha sido maior do que em toda a América espanhola em quase quatro sécu- los. A quantidade do metal extraída na co- lônia portuguesa correspondeu a cerca de 50% de toda a produção mundial entre os séculos XV e XVIII. Veja o gráfico ao lado. Diante desses números, é possível perguntar: com quem ficou o ouro brasi- leiro? Para toda grande questão histórica, as respostas são complexas. No entanto, podemos começar a refletir sobre o assun- to a partir de algumas considerações. Sa- bemos, em primeiro lugar, que toda essa riqueza não ficou na colônia nem foi utili- zada para seu desenvolvimento. É inegável que a região das minas apresentou vigor econômico e cultural, como mostram as ruas, as igrejas e as construções edificadas na época. Mas isso representa uma parte pequena da produção mineira. Sabemos também que Portugal não foi o único beneficiário do ouro extra- ído de sua colônia, já que não superou totalmente a crise econômica em que havia mergulhado após o domínio espanhol (1580-1640). Com os lucros do ouro brasileiro, a economia portuguesa equilibrou-se momentaneamente, mas não o suficiente para se livrar da estagnação e da dependência em relação aos ingleses. Alguns historiadores consideram que a maior parte do ouro brasileiro escoou para a Europa, servindo ao enriquecimento de outras nações. Acredita-se também que a grande beneficiária do ouro brasileiro foi a Inglaterra, que passou a domi- nar a economia portuguesa por meio de diversos acordos, como o Tratado de Methuen, de 1703. Exportando produtos agrícolas para o mercado inglês e importando dos fabri- cantes britânicos manufaturas por preços elevados, os governantes de Portugal estavam sempre em dívida com seus parceiros. Para pagar essa dívida, recorriam constantemente ao ouro do Brasil. Desse modo, o ouro brasileiro transferiu-se, em grande parte, para os capitalistas ingleses, contribuindo para o desenvolvimento do processo de industrialização da Inglaterra. Com relação à não industrialização de Portugal, podemos dizer que as con- dições expressas no Tratado de Methuen não foram os únicos fatores responsá- veis pelas dificuldades do reino nesse setor. As causas da não industrialização de Portugal são amplas, antigas e continuam sendo estudadas por diversos historiadores. 1700 1710 1720 1730 1740 1750 1760 1770 1780 1790 1800 sonA 15 10 5 0 T o n e la d a s produção de ouro no Brasil (século XVII ) Fonte: PINTO, Virgílio Noya. In: SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVI . 4. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2004. p. 75. 91CAPÍTULO 7 Sociedade mineradora 082a093_U1_C7_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 91 5/17/16 11:04 AM Oficina de História Vivenciar e refletir 1. Leia o texto: Os prestidigi- tadores da Europa não teriam a des- treza e a sutileza dos negros para esconderem, diante dos olhos do feitor, as pedras que descobrem. Um inten- dente quis, certo dia, verificar pessoalmente até onde chegava aquela prática. Chamou um negro que gozava, entre os companheiros, da fama de ser habilidoso, colocou, ele próprio, um pequeno diamante num monte de cascalho e areia e prometeu ao escravo a liberdade se, diante de seus olhos, conseguisse tirar o dia- mante sem ser percebido. O escravo começou a trabalhar, e o intendente não o perdia de vista. — Então? Onde está a pedra? — pergun- tou o intendente no fim de alguns minutos. — Se os brancos costumam cumprir suas promessas, estou livre — respondeu o es- cravo, tirando da boca a pedra e mostrando- -a ao intendente. D’ORBIGNY, Alcide. Viagem pitoresca através do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1976. p. 138-139. O texto do naturalista francês D’Orbigny (1802- -1857) deixa clara a habilidade dos escravos em furtar as pedras preciosas, apesar da vigilância dos feitores. Você descreveria essa prática como uma forma de resis- tência? Justifique sua resposta. Compare-a com a sabo- tagem realizada nos engenhos pelos escravos africanos. Diálogo interdisciplinar 2. Pesquise e construa uma tabela procurando infor- mações atuais sobre os seguintes metais: ouro, pra- ta, cobre, alumínio e estanho. Sugerimos que sua tabela apresente, em relação a cada metal, o símbo- lo químico, os cinco maiores países produtores e os principais usos. 3. Leia o trecho de reportagem e responda às questões: Feitas para facilitar trabalhos de restaura- ção e preservação, começam a sair da fôrma as réplicas dos Doze Profetas, conjunto de esculturas de Aleijadinho na cidade mineira de Congonhas (a 90 km de Belo Horizonte). Diálogo interdisciplinar com Geografia e Química. Diálogo interdisciplinar com Arte, Química e Biologia. prestidigitador: mági- co muito hábil e rápido com as mãos. Confeccionados em silicone, os moldes serão utilizados para desvendar formas, técnicas e materiais empregados por Antô- nio Francisco Lisboa (1730-1814). Patrimônio da humanidade, as esculturas de pedra-sabão estão expostas ao ar livre no santuário de Bom Jesus de Matosinhos desde 1800, quando começaram os trabalhos que terminariam cinco anos mais tarde. No local, as peças estão sujeitas à ação de fungos e bactérias, além do vandalismo. Por essa razão, de tempos em tempos surgem propostas para substituir as obras originais por réplicas. Por ora, o Iphan (Instituto do Patrimônio Históricoe Artístico Nacional) afasta essa possibilidade. No entanto, o de- bate deve continuar. [...] A criação das réplicas é essencial, de acor- do com o Iphan, para a restauração das escul- turas que forem eventualmente danificadas. Duas delas já foram moldadas. As cópias fí- sicas terão todos os detalhes das peças ori- ginais, até mesmo as inscrições feitas por vândalos. [...] PEIXOTO, Paulo. Em Minas, obras de Aleijadinho ganham réplicas; veja. Folha de S.Paulo, 20 nov. 2011. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ cotidian/11451-em-minas-obras-de-aleijadinho- ganham-replicas.shtml>. Acesso em: 19 out. 2015. a) Faça uma breve pesquisa em li- vros, revistas e sites da internet a fim de saber quem foi Aleija- dinho e como são as escul- turas dos 12 profetas, obra de sua autoria. a l e x s a l iM Escultura do profeta Amós. Obra em pedra-sabão de Aleijadinho, localizada no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG). Integra o conjunto de esculturas dos doze profetas feitas pelo artista entre 1800 e 1805. Fotografia de 2006. 92 UNIDADE 1 Trabalho e sociedade 082a093_U1_C7_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 92 5/17/16 11:04 AM b) O texto indica que, no local onde se encontram as escul- turas feitas por Aleijadinho, as peças estão sujeitas à ação de fungos e bactérias. Que problemas a ação desses agentes biológicos pode trazer às esculturas? c) Releia o trecho de reportagem tendo em vista a preserva- ção do patrimônio histórico. O que relata o texto a respeito do assunto? Em seguida, reflita com seus colegas: qual é a importância histórica de um monumento como esse? Quais são os motivos pelos quais é pensada a retirada dos profetas da praça pública? Que procedimentos deveriam ser adota- dos pela população e pelos turistas a fim de preservá-los? De olho na universidade 4. (Enem-2010) Os tropeiros foram figuras decisivas na formação de vilarejos e cidades do Brasil colonial. A palavra tropeiro vem de “tropa” que, no passado, se referia ao conjunto de homens que transportava gado e mercadoria. Por volta do século XVIII, muita coisa era levada de um lugar a outro no lombo de mulas. O tropeirismo acabou associado à atividade mineradora, cujo auge foi a exploração de ouro em Minas Gerais e, mais tarde, em Goiás. A extração de pedras preciosas também atraiu grandes contingentes populacionais para as novas áreas e, por isso, era cada vez mais necessário dispor de alimentos e produtos básicos. A alimentação dos tropeiros era constituída por toucinho, feijão-preto, farinha, pimenta-do-reino, café, fubá e coité (um molho de vinagre com fruto cáustico espremido). Nos pousos, os tropeiros comiam feijão quase sem molho com pedaços de carne de sol e toucinho, que era servido com farofa e couve picada. O feijão-tropei- ro é um dos pratos típicos da cozinha mineira e recebe esse nome porque era preparado pelos cozinheiros das tropas que conduziam o gado. Disponível em: <http://www.tribunadoplanalto.com.br>. Acesso em: 27 nov. 2008. A criação do feijão-tropeiro na culinária brasileira está relacionada à: a) atividade comercial exercida pelos homens que trabalhavam nas minas. b) atividade culinária exercida pelos moradores cozinheiros que viviam nas regiões das minas. c) atividade mercantil exercida pelos homens que transporta- vam gado e mercadoria. d) atividade agropecuária exercida pelos tropeiros que necessi- tavam dispor de alimentos. e) atividade mineradora exercida pelos tropeiros no auge da ex- ploração do ouro. para saber mais Na internet • Museu Virtual de Ouro Pre- to: http://www.museuvirtual deouropreto.com.br/tour- virtual.html Página com passeio virtual e infor- mações sobre as principais igrejas coloniais de Ouro Preto. Clique em uma das igrejas e veja sua parte interna em 360°. Alguns objetos abrem uma tela com informações. Role a página do passeio e leia um texto sobre a igreja. Em grupo, elaborem um relatório sobre sua visita, identificando a época da construção, os materiais utilizados e os artistas envolvidos. (Acesso em: 27 nov. 2015.) Nos livros • DAVIDOFF, Carlos. Bandei- rantismo: verso e reverso. São Paulo: Brasiliense, 1994. Apresenta as principais característi- cas das bandeiras e analisa a cons- trução do mito bandeirante. Depois de ler o livro, organizem um seminário, em grupo, sobre um de seus capítulos. Apresentem o semi- nário utilizando ilustrações, fotogra- fias, vídeos e textos. Nos filmes • Abril despedaçado. Direção de Walter Salles. Brasil/Fran- ça/Suíça, 2001. 105 min. No sertão brasileiro, uma rivalidade entre famílias pela posse da terra se desenvolve em uma lógica de vin- gança e violência. Debata com seus colegas como o trabalho no canavial e o patriarcalis- mo são representados no filme. Em seguida, identifique semelhanças e diferenças entre a abordagem des- ses temas no filme e nos capítulos da unidade sobre Brasil Colonial. 93CAPÍTULO 7 Sociedade mineradora 082a093_U1_C7_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 93 5/17/16 11:04 AM UNIDADE 2 Nos séculos XVII e XVIII, Europa e América foram marcadas por grandes transformações. A industrialização inaugurou formas de produ- ção econômica mecanizada. Filósofos iluminis- tas defenderam sociedades mais livres. Revo- luções abalaram o absolutismo monárquico. Colônias da América romperam laços de opres- são com suas metrópoles. Essas mudanças promoveram a passagem do súdito ao cidadão. Porém, há outras faces desses processos históricos. Revoluções e independências não garanti- ram cidadania para todos. As novidades tec- nológicas muitas vezes degradaram o meio ambiente e pouco contribuíram para diminuir a exploração dos trabalhadores. Ao mesclar conquistas e decepções, toda história permanece aberta a novas perguntas, pesquisas e interpretações. • Na sua interpretação, a reflexão apresentada no último parágrafo do texto também pode se referir a outros períodos históricos? Comente. Súdito e cidadãoSúdito e cidadão 94 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 94 5/17/16 11:05 AM Jovens passam em frente ao Big Ben, relógio localizado em uma torre do Palácio de Westminster, que, no passado, serviu de residência aos reis ingleses e, hoje, abriga as duas casas do Parlamento Britânico. Construído no século XI, o Palácio é registrado como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco desde 1987. r a F a e L b e N -a r i/ a L a m y /F o t o a r e N a 95 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 95 5/17/16 11:05 AM Antigo Regime e Iluminismo “O Estado sou eu”, teria dito o rei francês Luís XIV. A frase tornou-se emblemática nas referências ao absolutismo monárquico, que marcou as sociedades europeias do chamado Antigo Regime. Como se desenvolveu a crítica iluminista ao Antigo Regime? • Na sua interpretação, quais seriam as possíveis atividades desenvolvidas pelas pessoas representadas na pintura? A que grupo social elas pertenceriam? A charrete. Óleo sobre tela de Louis Le Nain, datado de 1641. A obra encontra-se hoje no Museu do Louvre, em Paris, França. L o u is L e N a iN . a c h a r r e t e . 1 6 4 1 . 96 UNIDADE 2 Súdito e cidadão capítulo 8 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 96 5/17/16 11:05 AM O grupo familiar dos proprietários de terras e dos arrendatários também não trabalhava na lavoura. Em geral, viviam do trabalho dos camponeses, que estavam submetidos a variadas formas de servidão. Nas cidades, havia centros de comércio permanen- tes ou feiras temporárias. Por essa razão, considerável parcela dos habitantes das cidades pertencia à burgue- sia comercial, incluindo desde o pequeno mercador das feiras até o grande negociante que promovia comércio com diferentes regiões do mundo. Várias cidades situavam-se em zonas litorâneas e possuíam portos, como Veneza, Gênova, Sevilha, Marselha, Lisboa, Lon- dres, Brugese Amsterdã. Um porto é também uma porta (do latim porta, cuja origem é a mesma de portus) por onde entram e saem mercadorias.1 Investigando 1. Existem feiras na região onde você mora? Que produtos são vendidos? Onde são realizadas? 2. Quais são os portos mais importantes do Brasil atual? Que mercadorias são mais movimentadas nesses por- tos? Pesquise. A expressão Antigo Regime foi utilizada por re- volucionários franceses do século XVIII para se referir às sociedades contra as quais eles lutavam. Posterior- mente, a expressão passou a ser utilizada por historia- dores para se referir a diversas sociedades europeias da Idade Moderna, cujas principais características va- mos apontar a seguir. Sociedades rurais Entre os séculos XVI e XVIII, a distribuição da po- pulação europeia era bem diferente da atual. Havia um predomínio da população rural sobre a urbana — cerca de 80% das pessoas viviam no campo. A maior parte da população rural trabalhava na agricultura ou na pecuária. Havia também comercian- tes e artífices que exerciam ofícios variados, como os de ferreiro, metalúrgico, moleiro, carpinteiro, cera- mista, seleiro, trabalhador das pedreiras da constru- ção civil, construtor de carroças e carruagens etc. O Antigo Regime Vida social e política na Europa moderna Moleiro: que mói ce- reais no moinho. Seleiro: que faz selas e arreios. Arrendatário: pessoa que contrata com o dono da terra o uso da propriedade por preço e tempo determinados. 1 Cf. SALLES, Manoel Whitaker. Dentro do dentro: os nomes das coisas. São Paulo: Mercuryo, 2002. Estradas como a representada nesta imagem serviam de ligação entre as áreas rurais e as cidades. Construção de uma estrada em 1774, óleo sobre tela de Joseph Vernet (século XVIII). Pertence ao acervo do Museu do Louvre, em Paris, na França. a L b u m /a k g -i m a g e s /F o t o a r e N a 97CAPÍTULO 8 Antigo Regime e Iluminismo 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 97 5/17/16 11:05 AM MARCOS Realce MARCOS Realce Desigualdade jurídica Uma característica marcante do Antigo Regime era a existência de uma estratificação social rígida. As socie- dades estavam organizadas em três grandes estamentos: clero, nobreza e terceiro estado. O terceiro estado era formado pela maior parte da população e incluía comer- ciantes, artesãos, agricultores, profissionais urbanos etc. Os estamentos eram definidos desde o nasci- mento, isto é, as pessoas pertenciam ao estamento de seus pais ou ascendentes. Cada estamento tinha um estatuto jurídico próprio. De maneira geral, esses estatutos asseguravam muitos privilégios para poucos súditos e pesadas obrigações para o terceiro estado. A nobreza e o clero não tinham de pagar tributos, só eram julgados por tribunais especiais e ocupavam os cargos mais elevados na administração do Estado. Os membros do terceiro estado não desfrutavam de tais privilégios e eram excluídos das decisões políticas, cabendo-lhes apenas cumpri-las. Em relação às obrigações, cabia ao clero praticar o ofício religioso, dedicando-se à missão de conduzir os fiéis à salvação eterna. Para a nobreza, a principal obrigação era garantir a defesa militar da sociedade. Já para o ter- ceiro estado, a obrigação era trabalhar para o sustento de todos, cumprir deveres gerais de súdito e pagar tributos. Nas sociedades estamentais, a lei não era igual para todos porque as pessoas eram consideradas de- siguais desde o nascimento. A mudança dessa estru- tura estamental implicou transformações históricas, associadas ao pensamento liberal, que promoveram a passagem do súdito ao cidadão. Investigando • Debata com os colegas: atualmente, as pessoas têm outros privilégios decorrentes do nascimento? Por quê? Em destaque Etiqueta e dominação Entre os séculos XV e XVIII, a nobreza da França criou e difundiu regras de etiqueta com o objetivo de construir laços de respeito e hierar- quia entre os nobres distinguindo-os dos demais grupos sociais. As regras de etiqueta estabe- leciam formas adequadas de falar, comer, cumprimentar e se vestir. Na corte de Luís XIV, por exemplo, cada nobre era cumprimentado de acordo com sua posição social. Para saudar um príncipe, o rei retirava completamente seu chapéu; para saudar um marquês, ele levantava parcialmente o chapéu. • A etiqueta diz respeito às normas de conduta que são consideradas “boas maneiras”. Cite exemplos de “boas maneiras” praticadas no seu convívio social. Pense nas diferentes formas de falar, comer, cumpri- mentar e se vestir. Primeira promoção da Ordem de São Luís, óleo sobre tela pintado em 1693 por François Marot. Pertence hoje ao acervo do Museu Nacional do Palácio de Versalhes, na França. t h e b r id g e m a N a r t L ib r a r y /k e y s t o N e b r a s iL 98 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 98 5/17/16 11:05 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce 2 Cf. BOBBIO, Norberto et al. Dicionário de política. Brasília: UnB, 1986. p. 1. 3 Cf. BURKE, Peter. A fabricação do rei. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. p. 22-23; 101-102. 4 Cf. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulinas. p. 939. Thomas Hobbes O filósofo inglês Tho- mas Hobbes (1588-1679) defendia o poder absolu- to como condição neces- sária para a paz e o pro- gresso. Escreveu o livro Leviatã (1651), em que compara o Estado a um monstro poderoso, criado para acabar com a desordem e a insegurança da sociedade. Segundo Hobbes, nas sociedades primitivas, “o homem era o lobo do próprio homem”. Isso quer di- zer que as pessoas viviam em constantes guerras e matanças entre si, cada qual lutando por sua sobre- vivência e olhando para seus interesses individuais. Só havia uma solução duradoura para esses conflitos: estabelecer um “contrato social”, no qual cada um deveria renunciar à sua liberdade em favor de um go- verno absoluto, capaz de garantir a ordem, a direção e a segurança no convívio social. Assim, Hobbes justificava o poder absoluto do governante como condição necessária à paz e ao pro- gresso da sociedade. O poder do Estado nasceria desse “contrato social”, acordo no qual a vontade de quem governasse (uma pessoa ou uma assembleia) passaria a valer como vontade de todos. Buscar o bem-estar do povo seria o dever básico do titular do poder político. Jacques Bossuet O bispo francês Jacques Bossuet (1627-1704) de- fendia o poder absoluto do rei como direito divino. Bossuet dizia que o rei era predestinado por Deus para governar. Assim, seu poder, sendo de origem divina, só podia ser absoluto. Por isso, o rei estava acima de todos os súditos e não precisava justificar a ninguém suas atitudes e ordens — somente Deus po- deria julgá-las. Mas era natural ao “bom” rei usar seu poder para a felicidade geral do povo. É de Bossuet a frase “Um rei, uma fé, uma lei”, que se tornou uma espécie de lema das monarquias cristãs absolutistas. Absolutismo monárquico Durante a Idade Moderna ocorreu o fortalecimen- to gradual dos governos das monarquias nacionais em grande parte da Europa. Desse processo, resultou ou- tra característica do Antigo Regime, que foi o absolu- tismo monárquico. A expressão absolutismo monárquico surgiu prova- velmente entre as correntes liberais do século XVIII, com um sentido de crítica ao poder ilimitado e pleno assumido por considerável parcela dos monarcas desse período.2 Nas monarquias absolutistas, a autoridade do rei constituía a fonte suprema dos poderes do Estado. Em nome do soberano, o poder era exercido pelos diversos setores do governo: nas finanças, na elabo- ração das leis, nos tribunais de justiça, no exército, nas relações exteriores etc. O regime absolutista, sob diferentes formas, ocorreu em países como Portugal, Espanha, Inglaterra e França. O rei Luís XIV da França, que assumiu o trono em 1651 e governou até 1715, é um dos exemplos mais representativos de monarca absolutista.Era considerado o centro do qual irradiava a “luz da França” e, por isso, adotou o Sol como símbolo de seu poder. Atribui-se a ele a famosa frase: L’État c’est moi (“O Estado sou eu”) para indicar que ele era o representante máximo do Esta- do. Sua figura era também considerada sagrada, muitas pessoas acreditavam que o toque da mão do rei tinha o poder de curar certas doenças. Os objetos ligados à sua pesssoa despertavam o respeito que se confere às coisas sagradas. Isso valia para o trono, o manto real, o cetro, seu quarto de dormir, a sala de sua refeição, o retrato real.3 A defesa do absolutismo Por que as pessoas de uma sociedade deveriam permitir que os poderes do Estado se concentrassem nas mãos do rei? Vários teóricos daquele período tentaram responder a essa pergunta, elaborando ar- gumentos que justificassem o absolutismo. Dentre eles, destacamos Thomas Hobbes e Jacques Bossuet. Leviatã: monstro mari- nho (às vezes, identifica- do como um dragão ou uma serpente gigante) mencionado na Bíblia, no livro de Jó (40:25-32).4 Investigando • Como vimos, o poder do governante absolutista foi justificado, por alguns pensadores, por sua origem divina ou pelo “contrato social”. Nos dias atuais, como se justifica o poder dos governantes em nosso país? 99CAPÍTULO 8 Antigo Regime e Iluminismo 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 99 5/17/16 11:05 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce O Iluminismo (também conhecido como Ilustração ou Esclarecimento) foi um movimento social, intelec- tual e filosófico que se desenvolveu, principalmente, na Inglaterra e na França entre os séculos XVII e XVIII. As ideias defendidas pelos pensadores iluminis- tas espalharam-se para outros centros culturais da Europa e acabaram inspirando transformações polí- ticas em várias sociedades da época, tanto na Euro- pa quanto na América, como a Revolução Francesa e revoltas das colônias contra as metrópoles europeias. Embora não tenha sido um movimento coeso e uniforme, teve como uma de suas características a crí- tica social ao Antigo Regime. A crítica iluminista ao Antigo Regime Ao expressar anseios de mudanças sociais, os ilu- ministas criticaram as estruturas do Antigo Regime, entre elas o absolutismo monárquico. Essas críticas incorporavam, em grande medida, um ideário que agradava aos burgueses. Para o historiador Eric Hobsbawm, libertar o ser humano de certas “algemas” que o prendiam parecia Iluminismo A razão em busca de liberdade ser o objetivo de muitos iluministas. Entre essas “alge- mas”, estavam o tradicionalismo religioso, as práticas consideradas supersticiosas e o poder da magia, além da divisão social baseada em uma hierarquia de estra- tos determinada pelo nascimento.5 Foi nesse contexto que diferentes pensadores ilu- ministas formularam teorias em defesa: • do liberalismo político e econômico (contra o abso- lutismo e o mercantilismo), com base, sobretudo, na não intervenção do Estado na economia, na divi- são de poderes dentro do Estado e na formação de governos representativos; • da igualdade jurídica entre as pessoas (contra a de- sigualdade existente na sociedade estamental); • da tolerância religiosa (contra o poder e o tradi- cionalismo da Igreja), pela qual as pessoas teriam liberdade para escolher e seguir a religião que qui- sessem, sem a imposição do Estado; • da liberdade de expressão, da educação do povo etc. Os iluministas acreditavam que tais elementos eram essenciais para a edificação de uma sociedade mais justa e mais livre. 5 Cf. HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. p. 37. Em suas Memórias, o rei francês Luís XIV escreveu: Todo poder, toda autoridade estão nas mãos do rei e não pode haver outra no reino que aquela por ele estabelecida [...]. A vontade de Deus é que todo aquele que nasceu súdito obedeça cegamente. [...] É somente à cabeça que compete deliberar e resolver, e todas as funções dos outros membros consistem apenas na execução das ordens que lhes são dadas. Luís XIV. Memórias. In: ISAAC, Jules; ALBA, André. Tempos modernos. São Paulo: Mestre Jou, 1968. p. 165. Interpretar fonte O rei define seu poder 1. Segundo o texto de Luís XIV, qual era a “fonte” da autoridade do rei? 2. Luís XIV também compara a sociedade ao organismo humano. Nessa comparação, qual era o papel do rei e o dos demais membros da sociedade? 100 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 100 5/17/16 11:05 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce 6 KANT, I. O que é ilustração. In: WEFFORT, Francisco (Org.). Os clássicos da política. São Paulo: Ática, 1990. v. 2. p. 83-84. Investigando • Em nossos dias, as pessoas têm “a coragem de servir-se de sua própria razão”? Debata o assunto com seus colegas. Em destaque O Grande Relojoeiro Entre as derivações do racionalismo, difundiu-se nesse período o mecanicismo, fundamentado no pensamento filosófico de René Descartes (1596-1650) e nas teorias físico-matemáticas de Galileu Galilei (1564-1642) e de Isaac Newton (1642-1727). Assim, algumas concepções iluministas também se expressaram em termos de um racionalismo mecanicista. Vejamos um exemplo: para alguns pensadores franceses dessa época, o universo assemelhava-se a uma imensa engrenagem forma- da de inúmeras peças. Nesse caso, a figura de Deus foi concebida como o construtor dessa engrenagem universal — “o Grande Relo- joeiro”, nas palavras de Voltaire —, responsável pela criação e pelo funcionamento da máquina do mundo. Se Deus era a expressão máxima da razão ou lei universal, os seres humanos, como criaturas de Deus, eram racionais e, consequentemen- te, livres-pensadores. Nessa linha de raciocínio, a melhor homenagem que se poderia prestar a Deus seria, de um lado, desenvolver o conheci- mento racional e a ciência e, de outro, combater a fé cega, as crendices e as superstições. Tudo deveria ser submetido à autoridade da razão. O jurista Montesquieu, nessa época, definiu as leis como “relações necessárias que decorrem da natureza das coisas”. Quem celebrasse o “Deus iluminista”, construtor e legislador do Universo, saberia que ele, logicamente, respeitava os direitos universais do ser humano, entre eles o direito ao exercício da razão, da liberdade de pensar e de se exprimir. Mecanicismo: doutrina filosófica que concebe a na- tureza como uma máquina, em que todos os fenômenos naturais podem ser expli- cados por um sistema de determinações mecânicas de causa e efeito. Livre-pensador: aquele que pensa livremente em maté- ria religiosa. O livre-pensa- mento foi uma corrente do Iluminismo francês e inglês que negava a imposição de veracidade da revelação bíblica, combatia a intole- rância religiosa e contestava os dogmas, os mistérios e os milagres da Igreja Católica. A razão iluminista Desde o Renascimento, podemos dizer que o ra- cionalismo firmava-se como o modo de pensar do- minante entre os intelectuais europeus. Valorizava-se cada vez mais o papel da razão, do pensamento lógi- co, na tarefa de explicar o mundo, as sociedades e os seres humanos. Essa atitude contribuiu para o desen- volvimento das ciências e das tecnologias. No plano filosófico, o Iluminismo foi a expressão mais concreta da tendência racionalista. Daí vem a designação atribuída a esse movimento, pois esses filósofos pretendiam que a “luz da razão” iluminasse a mente das pessoas. Por isso, o século XVIII costu- ma ser denominado “Século das Luzes”. O filósofo Immanuel Kant, em 1784, escreveu que o lema do Iluminismo era: “Ousai Saber! Tenha a coragem de servir-se de sua própria razão”6. E comparava o “es- clarecimento” ao processo pelo qual o ser humano abandonaria sua “menoridade”, tornando-se cons-ciente da força e independência de sua razão. Ao as- sumir a liberdade da própria razão, a pessoa deixaria de ser tutelada e guiada por outros. Para os iluministas, a razão era o instrumento le- gítimo para conhecer, compreender e julgar. Desse modo, usando a razão, seríamos capazes de construir uma vida melhor. • Com base no texto, relacione as seguintes expressões: racionalismo, mecanicismo e Deus. 101CAPÍTULO 8 Antigo Regime e Iluminismo 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 101 5/17/16 11:05 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Pensadores iluministas Diversidade de ideias e objetivos Vejamos como alguns dos conceitos que acabamos de estudar estão presentes na filosofia dos principais teóricos iluministas. Locke: empirismo e liberalismo político John Locke (1632-1704), filósofo inglês, é considerado o “pai do Ilumi- nismo”. Em sua principal obra, Ensaio sobre o entendimento humano, afirma que, quando nascemos, nossa mente é como uma tábula rasa, ou seja, sem conhecimento algum. Como, então, passamos a conhecer? Esse conhecimento é adquirido primeiro por meio dos sentidos (daí, o nome empirismo, que vem do grego empeiría, “experiência sensorial”) e, depois, desenvolvido pelo esfor- ço da razão. No plano político, Locke condenou o absolutismo monárquico e o poder inato (divino) dos reis. Por outro lado, defendeu o respeito à liberdade dos cidadãos, a tolerância religiosa, os direitos de propriedade privada e de livre- -iniciativa econômica. Interpretar fonte O liberalismo político de Locke Leia o texto extraído do livro Segundo tratado sobre o governo (1690), no qual Locke expõe suas ideias liberais no campo político. A liberdade natural do homem consiste em estar livre de qualquer poder superior na Terra [...], tendo somente a lei da natureza como regra. [...] Sendo os homens, [...] por natureza, todos livres, iguais e independentes, ninguém pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político de outrem sem dar consen- timento. [...] Se o homem no estado de natureza é tão livre, conforme dissemos, se é senhor absoluto de sua própria pessoa e posses, [...] por que abrirá ele mão dessa liberdade [...] e sujeitar-se-á ao domínio e controle de qualquer outro poder? Ao que é óbvio responder que, embora no estado de natureza tenha tal direito, a fruição do mesmo é muito incerta e está constan- temente exposta à invasão de terceiros [...]; e não é sem razão que procura de boa vontade juntar-se em sociedade com outros [...] para mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens a que chamo de “propriedades”. LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo. In: Locke. São Paulo: Abril, 1978. p. 43, 71, 82. • Segundo o texto de John Locke: a) Como seria o ser humano em estado de natureza? b) A que problemas o ser humano estaria exposto em estado de natureza? c) Como se justificam a origem e a instituição das sociedades? 102 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 102 5/17/16 11:05 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Nota Voltaire: liberdade de pensamento e crítica à Igreja Católica O filósofo e dramaturgo francês François-Marie Arouet, que usava o pseu- dônimo Voltaire (1694-1778), foi um dos mais conhecidos pensadores do Ilu- minismo. Destacou-se pelas críticas que fez ao clero católico, à intolerância religiosa e à prepotência dos poderosos. Foi autor de obras como Cândido ou o otimismo, Cartas inglesas e Ensaio sobre os costumes. Não era propriamente um democrata, ou seja, não defendia a participação da maioria do povo no poder, mas considerava que a monarquia deveria respeitar as liberdades individuais. Segundo ele, o soberano tinha de ser “esclarecido” — isto é, seguir as ideias defendidas pelo Iluminismo — e atuar com a assessoria de pen- sadores iluministas. Entre os grandes pilares da construção social imaginada por Voltaire estavam as liberdades individuais e as garantias para a propriedade privada. Montesquieu: a separação dos poderes O jurista francês Charles-Louis de Secondat, o barão de Montesquieu (1689-1755), é autor de O espírito das leis. Nessa obra defendeu a separação dos poderes do Estado em: Legislativo, Executivo e Judiciário. Dessa forma, a liberdade individual estaria mais protegida dos abusos dos governantes. Vale lembrar que, no Antigo Regime, os poderes do Estado estavam concentrados na figura do rei. Montesquieu, entretanto, não defendia um governo burguês. Suas simpatias políticas inclinavam-se para um liberalismo aristocrático, uma monarquia modera- da, inspirada na Inglaterra de seu tempo.7 Interpretar fonte A divisão dos poderes 7 Cf. FORTES, Luiz R. Salinas. O Iluminismo e os reis filósofos. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 39. Leia um trecho adaptado do livro O espírito das leis (1748), sobre a questão dos poderes. Quando os poderes Legislativo e Executivo ficam reunidos numa mesma pessoa ou insti- tuição do Estado, a liberdade desaparece [...]. Não haverá também liberdade se o poder Judiciário não estiver separado do Legislativo e do Executivo. Se o Judiciário se unisse ao Executivo, o juiz poderia ter a força de um opressor. E tudo estaria perdido se uma mesma pessoa — ou uma mesma instituição do Estado — exercesse os três poderes: o de fazer as leis, o de ordenar a sua execução e o de julgar os conflitos entre os cidadãos. MONTESQUIEU. O espírito das leis. São Paulo: Martins Fontes, 1996. p. 168. • Segundo o texto de Montesquieu: a) Quais são os três poderes do Estado e qual é a função de cada um deles? b) Em que situações não há liberdade? 103CAPÍTULO 8 Antigo Regime e Iluminismo 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 103 5/17/16 11:05 AM MARCOS Realce MARCOS Riscado Diderot e D’Alembert: a Enciclopédia Os franceses Denis Diderot (1713-1784) e Jean Le Rond D’Alembert (1717-1783) foram os principais organizadores de uma enciclopé- dia de vários volumes, elaborada com o objetivo de reunir os principais conhecimentos da épo- ca nos campos artístico, científico e filosófico. A Enciclopédia contou com a colaboração de numerosos autores, entre os quais se destaca- ram Buffon, Montesquieu, Turgot, Condorcet, Voltaire, Holbach, Quesnay e Rousseau. Essa obra exerceu grande influência sobre o pensamento político burguês. Em linhas gerais, defendia o racionalismo (em oposição à fé reli- giosa), a independência do Estado em relação à Igreja e a confiança no progresso humano por meio das realizações científicas. Investigando 1. Você costuma consultar enciclopédias? Que assuntos você pesquisa com mais frequência? 2. Para você, as informações disponíveis nas enciclopédias atuais são confiáveis? Por quê? Diderot é considerado, por muitos estudiosos, a principal figura da Enciclopédia. Diderot declarava- -se ateu e materialista, rompendo com a teologia e com a filosofia tradicionais. No texto seguinte, ele expressa esse materialismo. Se é que podemos acreditar que veremos quando não tivermos olhos; que ouviremos quando não tivermos mais ouvidos; que pensaremos quando não tivermos mais cabeça; que sentiremos quando não tivermos mais coração; que existiremos quando não estivermos em parte alguma; que seremos algo sem extensão e sem lugar [...]. Ou seja, se é possível acreditar em tamanhos absurdos, então consinto em que há algo além da matéria. Tudo é matéria, [...] e a matéria é a essência do real. DIDEROT, Denis. In: FORTES, Luiz R. Salinas. op. cit., p. 56. Interpretar fonte Materialismo em Diderot • Uma das características da reflexão iluminista foi sua independência em relação à tradição religiosa. Como isso se expressa no texto de Diderot? A leitora. Óleo sobre tela de Jean-Honore Fragonard de aproximadamente 1776. O artista francês notabilizou-se por suas pinturas de gênero, que reproduzem o cotidiano e cenasda intimidade. Pertence ao acervo da Galeria Nacional de Arte, em Washington D.C., nos EUA. Je a N -h o N o r e F r a g o N a r d . a L e it o r a . 1 7 7 6 . 104 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 104 5/17/16 11:05 AM Rousseau: o bom selvagem e o contrato social Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) nasceu em Genebra, na Suíça, e, em 1742, mudou-se para a França. É autor de O contrato social, obra na qual afirma que o soberano deveria conduzir o Estado de acordo com a vontade de seu povo. Segundo ele, somente um Estado com bases democráticas teria condições de oferecer igualdade jurídica a to- dos os cidadãos. Leia um trecho da obra Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os ho- mens, em que Rousseau exalta as virtudes da vida natural e ataca a corrupção, a avareza e os vícios da sociedade “civilizada”. O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, disse isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para respeitá-lo. Quantos crimes, guerras, assassinatos, misérias e horrores teria evitado à humanidade aquele que, arrancando as estacas desta cerca [...], tivesse gritado: Não escutem esse impostor pois os frutos são de todos e a terra é de ninguém. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. In: Rousseau. São Paulo: Abril, 1978. p. 259. Interpretar fonte Origem da desigualdade Adam Smith: o liberalismo econômico Em outra de suas obras, Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, Rousseau enaltece os valores da vida na natureza, elo- giando a liberdade e a pureza do selvagem em seu estado natural, em contraste com a falsidade e o ar- tificialismo do mundo civilizado. Assim surgiu o mito do bom selvagem. Rousseau destacou-se como defensor da pequena burguesia — pequenos comerciantes, artesãos etc. — e inspirador dos ideais que estariam presentes na Revo- lução Francesa. jogo da oferta e da procura de mercado. Segundo Smith, o trabalho era a verdadeira fonte de riqueza para as nações e deveria ser conduzido pela livre-ini- ciativa particular. Os representantes da burguesia criticavam a no- breza e o alto clero que, na sua maneira de ver, nada produziam e viviam à custa do Estado absolutista. Criticavam, também, a política econômica do Estado mercantilista. Podemos dizer que as ideias burguesas tinham as seguintes premissas: • o Estado é verdadeiramente poderoso se for rico; • para enriquecer, o Estado precisa expandir as ativi- dades econômicas capitalistas; • para expandir as atividades capitalistas, o Estado precisa dar liberdade econômica e política para os grupos particulares. O conjunto dessas ideias ficou conhecido como liberalismo econ™mico. Seu principal representante foi o economista escocês Adam Smith (1723-1790), autor da obra A riqueza das nações. Nela, Smith criticou a política mercantilista, por meio da qual o Estado interferia na vida econômica. Para ele, a economia deveria ser dirigida pelo livre 1. Como Rousseau explica a fundação da sociedade civil? 2. Que instituição social acompanha essa fundação e recebe as críticas do autor? Pessoas caminham em frente à Bolsa de Valores de Nova York. Em uma bolsa de valores, são negociados ações e títulos financeiros, cujos preços podem variar de acordo com o jogo da oferta e da procura de mercado. Fotografia de 2015. k e N a b e t a N c u r /a F P 105CAPÍTULO 8 Antigo Regime e Iluminismo 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 105 5/17/16 11:05 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Leia um trecho do livro A riqueza das nações, de Adam Smith. Todo homem, desde que não viole a justiça, deve ser livre para que seus produtos possam competir com quaisquer outros. Nesse sistema de liberdade econômica, o Estado só tem três obrigações: proteger a sociedade contra a violência ou invasão de outros países; proteger a sociedade da injustiça e da opressão internas; manter e construir obras que sejam do inte- resse geral, mas que não interessem aos particulares. SMITH, Adam. A riqueza das nações. In: LOZÓN, Ignacio et al. História. Madri: Esla, 1992. p. 182. Interpretar fonte Funções do Estado Despotismo esclarecido Absolutismo e algumas reformas sociais Na Europa, durante a segunda metade do século XVIII, houve diversos Estados absolutistas nos quais os respectivos monarcas e seus ministros tentaram de al- guma forma pôr em prática certos princípios da Ilustra- ção, sem abrir mão, é claro, do próprio absolutismo.8 Essa experiência política foi posteriormente cha- mada pelos historiadores de despotismo esclareci- do – ou absolutismo ilustrado. Associando absolutis- mo e ilustração, o despotismo esclarecido modificou a concepção de poder monárquico do absolutismo. No despotismo esclarecido, o governante apresen- ta-se como “o primeiro servidor do Estado”, em con- traste com a ideia expressa na frase “O Estado sou eu”, atribuída a Luís XIV. Segundo essa nova concepção, o Estado existe para atender aos interesses dos súditos, promover a felicidade pública e o bem-estar geral.9 Os chamados déspotas esclarecidos promoveram uma série de reformas públicas, como o incentivo à educação pública – por meio da construção de esco- las, do apoio a academias literárias e científicas e da divulgação de textos eruditos – e o aperfeiçoamento do sistema de arrecadação tributária, procurando tor- nar menos opressiva a carga de tributos cobrados das classes populares. 8 FALCON, Francisco J. C. Despotismo esclarecido. São Paulo: Ática, 1986. p. 13. 9 Cf. FALCON, Francisco J. C. op. cit., p. 14. Investigando • Atualmente, além da escola, que espaços e situações contribuem para a construção do conhecimento? Principais déspotas esclarecidos Entre os déspotas esclarecidos europeus, pode- mos destacar: • Frederico II, da Prússia (1712-1786) – aboliu a tortura aos suspeitos de ações criminosas, construiu diversas escolas de ensino elementar e estimulou o desenvolvimento da indústria e da agricultura. Manteve amizade com influentes pensadores ilumi- nistas, como Voltaire. • Catarina II, da Rússia (1729-1796) – mantendo intensa correspondência com Diderot, Voltaire e D’Alembert, mandou construir escolas e hospitais, modernizou a cidade de São Petersburgo, e também a administração pública, e tomou bens e terras da Igreja Ortodoxa Russa (embora as tenha distribuído a seus protegidos). 1. Segundo o texto de Adam Smith, a que deveria se reduzir o papel do Estado? 2. De acordo com Adam Smith, qual é a relação entre as obrigações do Estado e a ideia de liberdade econômica? 106 UNIDADE 2 Súdito e cidad‹o 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 106 5/17/16 11:05 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Nota O despotismo esclarecido foi uma forma de governo inspirada em alguns princípios do Iluminismo europeu. DESPOTISMO ESCLARECIDO O fenômeno ocorreu em certas monarquias da Europa continental, sobretudo a partir da segunda metade do XVIII. Origem A expressão “despotismo esclarecido” foi cunhada pelo historiador alemão Wilhelm Roscher, em 1847, portanto, não foi contemporânea a tal política. O historiador, com este termo, queria explicar uma série de governos que adotaram vários princípios iluministas como o racionalismo, os ideais filantrópicos e o progresso. No entanto, estes mesmos governos não fizeram nenhuma concessão à limitação do poder real ou expandiram os direitos políticos para as demais camadas da população. Por isso, ele é também conhecido por "despotismo benévolo" ou "absolutismo esclarecido". De forma geral, podemos considerá-lo como um regime onde se aprofunda a ruptura com a tradição típica do Antigo Regime, para uma forma de governar mais eficiente. Contudo, sem abandonar os fatores absolutistas dasmonarquias. De fato, as regiões mais afetadas por essa política foram a Rússia, França, Áustria, Prússia e a Península Ibérica. MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce • José I, de Portugal (1714-1777) – seu principal ministro, Marquês de Pombal (1699-1782), exerceu a administração do reino como se fosse o monarca, reformando o ensino, modernizando o funciona- mento das receitas do Estado, estimulando o co- mércio e favorecendo a formação de uma burgue- sia comercial e manufatureira. Apesar das reformas que realizaram, os déspotas esclarecidos não abandonaram suas posições conser- vadoras, mantendo como estava a ordem social e po- lítica. As reformas inspiradas no Iluminismo tiveram o propósito de fortalecer o tipo de Estado que go- vernavam. Ainda assim, mexeram de algum modo no velho edifício do Antigo Regime, liberando forças que se revelariam incontroláveis.10 Marquês de Pombal: as bases do mercantilismo ilustrado O ano de 1750 assinala o fim, em Portugal, do reinado absolutista de D. João V. Assinala, também, o momento de transição modernizadora do Estado português. Portugal era um país enfraquecido devido a vários fatores, como a enorme dependência política e econômica em relação à Inglaterra, os entraves da burocracia administrativa e o domínio da mentalidade católica conservadora, entre outros. O novo rei, D. José I (que reinou de 1750 a 1777), convidou Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, para promover reformas no Esta- do. Durante 27 anos, Pombal foi o principal ministro e homem forte do governo português. Em sua obra reformista, combinou mercantilismo e Iluminismo, atuando às vezes como déspota esclarecido e outras apenas como déspota. Por isso, costuma ser lembra- do em Portugal como o homem que levou para o país os “ares da ilustração europeia”, enquanto no Brasil a imagem que ficou dele é a de um governante despó- tico que acirrou a opressão colonial, na forma de um mercantilismo ilustrado. Entre as principais medidas tomadas pelo Mar- quês de Pombal, podemos citar: • estímulo às exportações portuguesas (vinho) e à produção manufatureira (tecidos), visando diminuir a influência inglesa; • reforço do monopólio comercial em relação ao Bra- sil, visando explorar ao máximo as riquezas colo- niais, como ouro, açúcar, fumo, entre outros; • ampliação dos tributos da mineração (para 100 ar- robas anuais) e combate ao contrabando, além da transferência da capital do Brasil para o Rio de Ja- neiro, em 1763, para melhor controlar a saída de ouro e diamantes; • expulsão dos jesuítas de Portugal e do Brasil, visan- do acabar com a influência que exerciam no setor educacional e nas diversas comunidades indígenas. Com a expulsão deles, em 1759, o Estado portu- guês apropriou-se da imensa riqueza acumulada pelos jesuítas (fazendas, imóveis urbanos, armazéns de especiarias etc.). Grande parte desses bens foi transferida para os amigos da Coroa: funcionários leais ao governo e alguns fazendeiros e comercian- tes bem relacionados. 10 Cf. FALCON, Francisco J. C. op. cit., p. 88. Retrato de Sebastião José de Carvalho e Melo, obra feita pelo pintor belga Louis-Michel van Loo, em 1766. O Marquês de Pombal, então Conde de Oeiras, foi representado indicando o embarque dos jesuítas no porto de Lisboa. Nos papéis, desenhos referentes à reconstrução da capital portuguesa, destruída por um terremoto em 1755. A obra hoje faz parte do acervo do Museu da Cidade, em Lisboa, Portugal. Lo u is -m ic h eL v a N L o o . r et ra to d e se ba st iã o J o sé d e c a rv a Lh o e m eL o , P ri m ei ro m a rq u ês d e Po m ba L, P ri m ei ro c o N d e d e o ei ra s. 1 76 6. 107CAPÍTULO 8 Antigo Regime e Iluminismo 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 107 5/17/16 11:05 AM MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce MARCOS Realce Oficina de História Vivenciar e refletir 1. Há uma frase atribuída a Voltaire que se tornou sím- bolo da liberdade de expressão: “Posso não concor- dar com nenhuma das palavras que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las.”. a) Relacione essa afirmação à postura da Igreja Ca- tólica até a Idade Moderna. b) Relacione essa frase à postura dos meios de co- municação de massa ou das religiões nos dias atuais. Em seguida, elabore um texto criativo so- bre o tema liberdade de expressão. 2. Analise a representação do rei Luís XIV e leia um texto sobre a construção de sua imagem oficial: Por exemplo, Luís não era um homem alto. Media apenas cerca de 1,60 metro. Esta dis- crepância entre sua altura real e o que pode- ríamos chamar de sua “altura social” tinha de ser camuflada de vários modos. […] A peruca e os saltos altos […] ajudavam a tornar Luís mais imponente. A peruca disfarçava tam- bém o fato de que o rei perdera boa parte do cabelo durante uma doença em 1659. Seus retratos tendiam a melhorar sua aparência, embora o próprio Luís tenha permitido que o retratassem envelhecendo, e até sem dentes. BURKE, Peter. A fabricação do rei. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. p. 137. a) Que objetos representados na pintura simboli- zam o poder real? b) Relacione os elementos apontados no texto com a representação de Luís XIV. c) Em sua opinião, as autoridades políticas de hoje se preocupam com a construção de sua ima- gem? Debata. Diálogo interdisciplinar 3. Crie uma charge, inspirado em uma das seguintes frases: • “O Estado sou eu.” • “Um rei, uma fé, uma lei.” • “o homem era o lobo do próprio homem”. 4. Leia o trecho do artigo 5 do capítulo IV da atual Constituição Federal do Brasil: Todos são iguais perante a lei, sem dis- tinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à li- berdade, à segurança, à propriedade [...]. Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: <http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>. Acesso em: 7 dez. 2015. Comente a diferença entre as concepções jurídicas das sociedades estamentais do Antigo Regime e esse trecho da Constituição Federal. 5. Na época do Iluminismo, eram realizados com fre- quência os salões literários. Neles, pessoas eruditas se encontravam a convite de um anfitrião. Deba- tiam questões filosóficas e morais, liam textos va- riados e se divertiam. Analise uma representação de um desses salões e faça o que se pede: Diálogo interdisciplinar com Língua Portuguesa e Arte. Diálogo interdisciplinar com Sociologia e Filosofia. Diálogo interdisciplinar com Arte. Luís XIV, óleo sobre tela do pintor Hyacinthe Rigaud (1701). Esta pintura pertence ao acervo do Museu do Louvre, em Paris, na França. Havia incômodas discrepâncias entre a imagem oficial do rei e a realidade cotidiana tal como percebida por seus contemporâ- neos […]. Essas discrepâncias […] complica- vam a tarefa de artistas, escritores e outros envolvidos com o que se poderia chamar de a “administração” da imagem real. h y a c iN t h e r ig a u d . L o u is X iv . 1 7 0 1 . 108 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 108 5/17/16 11:05 AM a) Descreva detalhes dessa obra. Procure identificar os personagens, suas atitudes, vestimentas e alguns objetos que compõem o cenário representado. b) Quais eram as figuras em maior número nessas reuniões: homens ou mulheres? Em sua opinião, por que isso aconteceria? De olho na universidade 6. (UFG) Leia e compare os documentos. O trono real não é o trono de um homem, mas o trono do próprio Deus. Três razões fazem ver que a monarquia hereditária é o melhorgoverno. A primeira é que é o mais natural e se perpetua por si próprio. A se- gunda razão é que esse governo é o que interessa mais na conservação do Estado e dos poderes que o constituem: o prínci- pe, que trabalha para o seu Estado, trabalha para seus filhos. A terceira razão retira-se da dignidade das casas reais. BOSSUET, Jacques-Bénigne. A política inspirada na Sagrada Escritura. In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de História. Lisboa: Plátano, 1977 (adaptado pela instituição). Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os outros. A liberdade é um presente do céu, e cada indivíduo da mesma espécie tem o direito de gozar dela logo que goze da razão. Toda autoridade (que não a paterna) vem duma outra ori- gem, que não é a da natureza. Examinan- do-a bem, sempre se fará remontar a uma dessas duas fontes: ou a força e violência daquele que dela se apoderou; ou o consen- timento daqueles que lhe são submetidos, por um contrato celebrado ou suposto entre eles e a quem deferiram a autoridade. DIDEROT, Denis. Autoridade política. In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de História. Lisboa: Plátano, 1977. O primeiro documento data de 1708, ao passo que o segundo faz parte da Enciclopédia, cujos vo- lumes foram publicados entre 1751 e 1780. Ambos os escritos tratam do poder político e da relação entre governantes e governados, expressando pers- pectivas distintas. Nesse sentido, identifique e expli- que os princípios presentes em cada um dos docu- mentos, que definiram a relação entre governantes e governados. Leitura da tragédia “O órfão chinês” no salão de madame Geoffrin ou Uma tarde na casa de madame Geoffrin. Óleo sobre tela de Anicet- -Charles Lemonnier (1755). Esta pintura pertence ao acervo do Museu Nacional do Palácio de Malmaison, em Rueil-Malmaison, na França. t h e b r id g e m a N a r t L ib r a r y /k e y s t o N e b r a s iL 109CAPÍTULO 8 Antigo Regime e Iluminismo 094a109_U2_C8_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 109 5/17/16 11:05 AM Inglaterra e Revolução Industrial Na Inglaterra, após o fim do absolutismo, ocorreram transformações que ficaram co- nhecidas como Revolução Industrial. A partir desse processo, foram desenvolvidas máquinas e tecnologias que marcariam o mundo contemporâneo. Quais foram os impactos dessa revolução? Você imagina como seria o nosso cotidiano sem automóveis, eletrodomésticos, telefones, computadores? 1. Nesta obra, vemos o contraste marcante de duas cenas. Em sua opinião, o que representa esse contraste? 2. Compare-a com a imagem de abertura do capítulo 8 e responda: quais elemen- tos, na imagem desta página, pode representar as sociedades do Antigo Regime? Coalbrookdale à noite. Óleo sobre tela de Philip Jacques de Loutherbourg produzido em 1801, representando uma das primeiras cidades inglesas a participar da Revolução Industrial. Pertence ao acervo do Museu de Ciências, em Londres, Inglaterra. The Bridgeman arT LiBrary/KeysTone BrasiL 110 UNIDADE 2 Súdito e cidadão capítulo 9 110a121_U2_C9_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 110 5/17/16 11:19 AM Durante o século XVII, a Inglaterra foi palco de mu- danças políticas que levaram ao fim do absolutismo mo- nárquico. Essas mudanças fazem parte do longo processo chamado de Revolução Inglesa (1642-1689). O absolutismo inglês teve início com o rei Hen- rique VII (1457-1509), fundador da dinastia dos Tu- dor. Os sucessores deste rei consolidaram os poderes da monarquia. O auge do absolutismo inglês ocorreu no reinado de Elizabeth I (1533-1603). Nesse período, teve início a expansão colonial inglesa e a colonização da Amé- rica do Norte. Foi uma época de crescimento econô- mico do país. Depois do reinado de Elizabeth I, já na dinastia dos Stuart, vários setores da sociedade inglesa (gru- pos de comerciantes, donos de manufaturas e parte dos proprietários rurais) se uniram em torno do Parla- mento tendo por objetivo controlar ou frear os avan- ços do absolutismo monárquico. Seguiram-se longos conflitos entre os aliados do rei e as forças do Parla- mento. De um lado, o rei lutava pelo reconhecimento de seu poder absoluto. De outro lado, o Parlamento lutava pela limitação jurídica do poder real. Revolução Inglesa Do absolutismo à monarquia parlamentar OCEANO ATLÂNTICO MAR DO NORTE 0º 50º N LondresBristol Cardiff Manchester Liverpool Belfast Glasgow Edimburgo Dublin IRLANDA IRLANDA DO NORTE ESCÓCIA PAÍS DE GALES INGLATERRA 0 116 km Reino Unido atualmente Fonte: CALDINI, Vera; ÍSOLA, Leda. Atlas geográfico Saraiva. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 116. O Reino Unido tem suas raízes em meados do século XVII, durante o processo da Revolução Inglesa. Essa união política formou-se com Inglaterra, Escócia e País de Gales. Posteriormente, a Irlanda do Norte passou a integrar o Reino Unido. Os conflitos terminaram quando o rei Guilherme III assumiu o trono britânico e teve de assinar a Declara- ção de Direitos (Bill of Rights), em 1689. Esse episódio é conhecido como Revolução Gloriosa. A Declaração de Direitos limitava os poderes monárquicos. A partir de então, o rei não poderia, por exemplo, suspender lei alguma nem aumentar tributos sem a aprovação dos parlamentares. Estabelecia-se, assim, a superioridade da lei sobre a vontade do rei. Esse passo decisivo signi- ficou o fim do absolutismo na Inglaterra. A monarquia tradicional continuou a existir, mas com poderes limita- dos pelo respeito às leis. s id n e i m o U r a Rainha Elizabeth I. Painel a óleo de Nicholas Hilliard (cerca de 1574). Filha de Henrique VIII, ela consolidou o absolutismo e o anglicanismo na Inglaterra. A obra está hoje na galeria de arte Walker, em Liverpool, Inglaterra. n ic h o La s h iL La r d . r a in h a e Li z a B e T h i . 1 5 7 4 . m U s e U s n a c io n a is d e L iv e r p o o L, i n g La T e r r a . 111CAPÍTULO 9 Inglaterra e Revolução Industrial 110a121_U2_C9_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 111 5/17/16 11:19 AM Desdobramentos na vida social Após a Revolução Gloriosa, instalou-se a monarquia parlamentar no Reino Unido, que vigora até a atualidade. Para caracterizar a nova condição do monarca inglês, tornou-se costume dizer, jocosamente, que “o rei reina, mas não governa”. De modo geral, o governo é exercido por um primeiro-ministro, normalmente o líder do partido que possui o maior número de parlamentares na Câmara dos Comuns. Porém, o monarca inglês continua exercendo funções importantes, como: • a chefia do Estado, representando-o perante outros países; • a chefia das Forças Armadas; • a chefia da Igreja Anglicana, que congrega cerca de 43% da população do Reino Unido. A Revolução Gloriosa foi acompanhada de transformações na vida econômica. O sistema feudal foi extinto no Reino Unido, abrindo espaço para a moderniza- ção da propriedade agrária, das relações de trabalho no campo e das técnicas de produção. A burguesia das cidades e a nobreza rural melhoraram sua convivência políti- ca e econômica. O país tornou-se a maior potência comercial da época e lançou as bases para o desenvolvimento do capitalismo industrial. Além disso, historiadores costumam destacar outras consequências da Revo- lução Gloriosa, como: • Tolerância religiosa – os ingleses passaram a desfrutar mais liberdade religiosa que outros europeus. O anglicanismo predominava no país, mas era permiti- do aos católicos e protestantes celebrar publicamente seus cultos religiosos. Na mesma época, em boa parte dos reinos e principados europeus, era permitida a prática de uma única religião, de acordo com o princípio expresso pelo bispo Bossuet: “Um rei, uma fé, uma lei”. • Liberdade de expressão política e filosófica – a monarquia parlamentar proporcionou maior liberdade de expressão política e filosófica, fazendo com que o regime inglês fosse admirado, no século XVIII, por intelectuaisliberais de várias regiões da Europa, a exemplo do filósofo francês Voltaire. Rainha Elisabeth II em cerimônia na Câmara dos Lordes. Seu reinado foi iniciado em 1952 e dura até hoje. É o mais longo da história do Reino Unido, que permanece na atualidade como monarquia parlamentar. Fotografia de 2015. a r T h U r e d w a r d s - w p a p o o L /g e T T y i m a g e s 112 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 110a121_U2_C9_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 112 5/17/16 11:19 AM Revolução Industrial Da produção artesanal à produção nas fábricas Na Europa, entre os séculos XVIII e XIX, desenvolveu-se uma nova forma de produção de bens, realizada por trabalhadores assalariados e com o uso predomi- nante de máquinas. Esse processo foi chamado de Revolução Industrial. Segundo historiadores, a Revolução Industrial começou na Inglaterra por volta do século XVIII e se espalhou por outros países a partir do século seguinte. No en- tanto, tais transformações não ocorreram ao mesmo tempo em todos os lugares, tampouco obedeceram aos mesmos padrões. Antes da Revolução Industrial, as formas predominantes de produção de mercadorias eram o artesanato e a manufatura. Vejamos algumas de suas ca- racterísticas. • Artesanato – produção realizada de forma manual, com o auxílio de ferramen- tas e em pequena escala. O produtor (artesão) trabalhava em sua casa ou oficina e controlava as diversas fases da produção artesanal. O economista Adam Smith ilustrou essa produção da seguinte maneira: um artesão que fizesse alfinetes precisaria conhecer e executar várias tarefas. Ele devia endireitar um arame, cor- tá-lo, afiar uma ponta, colocar a cabeça na outra extremidade e dar o polimento final. Além de dominar as fases do processo produtivo, o artesão também era geralmente o dono das matérias-primas e dos instrumentos de produção (a ofi- cina, as ferramentas etc.). Trabalhando em sua própria casa ou oficina, o artesão produzia na medida de sua necessidade, disposição e ritmo de trabalho. Esta gravura publicada no livro O vestuário em Yorkshire (1814) representa mulheres realizando algumas etapas do trabalho de fiação. g eo rg e w a LK er , r o Be rT h av eL L (L iT o g r. ). m U Lh er f ia n d o . s éc U Lo X iX . c o Le ç ã o p a rT ic U La r. 113CAPÍTULO 9 Inglaterra e Revolução Industrial 110a121_U2_C9_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 113 5/17/16 11:19 AM A forma de produção característica da Revolução Industrial foi a maquinofatura. Trata-se da produção mecanizada que se desenvolveu quando os avanços técnicos, aliados ao aperfeiçoamento dos métodos produtivos, propiciaram a criação das máquinas in- dustriais e a geração de produtos em série nas fábri- cas. As novas máquinas foram substituindo várias fer- ramentas e, muitas vezes, o próprio trabalhador. Nas fábricas, o trabalhador era um operário que recebia salários para executar tarefas sob as ordens de um gerente de produção. A maquinofatura e a sociedade industrial trouxe- ram mudanças significativas na relação do trabalha- dor com o produto do seu trabalho. Como o trabalho do operário foi subdividido em múltiplas tarefas específicas, essa especialização do trabalhador conduziu à perda da noção de conjunto do processo produtivo. A fragmentação do trabalho representava uma fragmentação do saber e do fazer. Além disso, a produção em série e em larga escala colaborou para massificar o gosto das pessoas que com- pravam produtos do mesmo tipo industrial. • Manufatura – em alguns países, como Inglaterra e França, a transformação de matérias-primas em mercadorias também se organizou em manufatu- ras, que eram grandes oficinas onde vários artesãos executavam as tarefas manuais usando ferramen- tas, sob o controle do dono da manufatura. Nessas oficinas, começaram a ser implantados a produção em série e um sistema de divisão do trabalho, pelo qual cada artesão passou a cumprir uma tarefa es- pecífica dentro da fabricação de uma mesma mer- cadoria. Esse processo daria origem às linhas de produção e montagem que se tornaram típicas da era industrial. Assim, voltando ao exemplo de Adam Smith, a produção de alfinetes em uma manufatura contava com artesãos que executavam apenas uma parte do trabalho. Um artesão puxava o arame, ou- tro o endireitava, um terceiro o cortava, um quarto afiava uma extremidade, um quinto esmerilhava a outra ponta para a colocação da cabeça, um sexto colocava a cabeça e um sétimo dava o polimento final. Com isso, aumentava-se a velocidade de pro- dução, pois cada trabalhador passava o dia todo fazendo a mesma tarefa, tornando-se ágil em sua realização, além de ter um compromisso em dar sequência ao trabalho de seus companheiros. Investigando 1. No Brasil atual, há uma massificação no gosto das pessoas? Explique e dê exemplos. 2. Por que é importante respeitar diferentes gostos? Reflita. Tipo industrial: padrão ou modelo utilizado para pro- duzir objetos iguais ou semelhantes. Operárias e operários trabalham na separação de carvão, em Blanzy, na França. Obra de 1836.f ra n ço is B o n h o m m é. c o a L ri d d Li n g w o rK sh o p, aT T h e m in es o f BL a n zy . 1 83 6. m U se U d e a rT es e o fí ci o s, p a ri s, f ra n ça . 114 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 110a121_U2_C9_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 114 5/17/16 11:19 AM Ao considerar os países envolvidos e as inovações técnicas, os historiadores costumam identificar gran- des momentos da industrialização: • Primeiro momento (entre os séculos XVIII e XIX) – o processo de industrialização ficou mais concentrado no Reino Unido. O maior destaque foi o desenvolvimento da indústria de tecidos de algo- dão, com a utilização do tear mecânico. Além disso, o aperfeiçoamento e a utilização de máquinas a va- por teve importância notável para o desenvolvimen- to das fábricas. Essa fase costuma ser chamada de Primeira Revolução Industrial. • Segundo momento (entre os séculos XIX e XX) – a industrialização espalhou-se por algumas áreas da Europa, atingindo países como Bélgica, França, Ale- manha, Itália e Rússia. Alcançou também outros con- tinentes, ganhando espaço nos Estados Unidos e no Japão. Nesse período, o progresso tecnológico foi de tal modo significativo que costuma ser caracterizado como Segunda Revolução Industrial. As principais Investigando 1. Em sua opinião, no futuro, todo trabalho será realizado por máquinas ou existem atividades que uma má- quina nunca será capaz de executar? Reflita. 2. Na atualidade, quais são as fontes de energia consideradas alternativas aos combustíveis fósseis? Em destaque O desenvolvimento da aviação A aviação começou a se desenvolver a partir do século XX. Até essa época, a maioria das viagens de longa distância eram feitas pela terra e pelo mar. Os primeiros modelos de avião fo- ram projetados pelo brasileiro Alberto Santos Dumont e pelos irmãos estadu- nidenses Wright. Entre 1902 e 1903, Orville e Wilbur Wright voaram a bordo do Flyer, nos EUA. Em 1906, Dumont voou a bordo do 14-bis na França. En- quanto o invento dos irmãos Wright precisava ser impulsionado por outro veículo para alçar voo, o 14-bis era ca- paz de realizar uma decolagem autô- noma. Depois disso, foram construídos inúmeros modelos precursores da avia- ção moderna. Avião 14-bis, concebido pelo brasileiro Santos Dumont, pioneiro da aviação. Em 23 de outubro de 1906, Dumont percorreu 60 metros em 7 segundos na cidade de Paris. Fotografia de 1906. p o p p e r f o T o /g e T T y i m a g e s inovações técnicas foram a utilização do aço, o apro- veitamento da energia elétrica e dos combustíveis pe- trolíferos, a invenção do motor a explosão e o desen- volvimento de produtos químicos. Além disso, foram inventados meios de transporte e comunicação, como o automóvel, o avião, o telefone, o rádio e o cinema.• Terceiro momento (desde meados do século XX) – os grandes avanços tecnológicos do mun- do contemporâneo levaram alguns historiadores a considerar a existência de uma Terceira Revolução Industrial. Nesse período, foram desenvolvidas novas tecnologias como o microcomputador, a mi- croeletrônica, a robótica, a engenharia genética, a telemática (uso combinado do computador e das telecomunicações, como fax, celular, internet, tele- visão) etc. Tal como ocorreu no primeiro momento da Revolução Industrial, entre as principais conse- quências dessa “Terceira Revolução Industrial” está o aumento da produtividade, com a utilização de um número cada vez menor de trabalhadores. • Você conhece outras invenções desenvolvidas por brasileiros? Quais? Pesquise. 115CAPÍTULO 9 Inglaterra e Revolução Industrial 110a121_U2_C9_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 115 5/17/16 11:19 AM Em destaque O mundo ficou menor Ao longo do século XIX, foram desenvolvidos diversos modelos de locomotivas que se tornaram um símbolo da Revolução Industrial. Esses novos veículos provocaram grandes mudanças na econo- mia e no cotidiano das sociedades industrializadas, pois diminuíram o tempo gasto nos deslocamen- tos e aceleraram o ritmo da vida. Dos trens movidos a vapor aos elétricos, a velocidade e o número de pessoas e cargas transporta- das aumentou muito. Por exemplo, a locomotiva Rocket, fabricada em 1829, atingia uma velocidade média de 22 km/h. Atualmente, existem trens capazes de atingir 300 km/h. Impactos As sociedades urbanas e industriais A difusão da Revolução Industrial provocou di- versas transformações nas condições de vida das pessoas, nas relações de trabalho, no crescimento das populações e das cidades. Condições de trabalho Para aumentar os lucros e expandir suas empresas, os industriais empenharam-se em obter liberdade eco- nômica, mercados consumidores e mão de obra barata. Assim, a maioria dos operários recebia salários baixos. Os salários eram tão reduzidos que, com fre- quência, toda a família era obrigada a trabalhar nas fábricas para sobreviver, inclusive mulheres e crianças. Era comum, em diversas indústrias, que os ope- rários trabalhassem mais de 15 horas por dia. Para se ter uma ideia do que isso significa, por volta de 1780, um operário na Inglaterra vivia, em média, 55 anos e trabalhava 125 mil horas ao longo da vida. Atualmen- te, nos países desenvolvidos, um operário vive cerca de 78 anos e trabalha 69 mil horas ao longo da vida. Além disso, as precárias instalações das fábricas prejudicavam a saúde dos trabalhadores. Em muitas fábricas, o ambiente era sujo, poeirento e mal venti- lado. Apesar dos avanços da medicina, propagavam- -se várias doenças ligadas às péssimas condições de trabalho e de moradia dos operários desse período. • Escreva um texto relacionando as seguintes frases: “as locomotivas tornaram-se um símbolo da Revo- lução Industrial” e “o mundo ficou menor”. Réplica da locomotiva Rocket, palavra que significa “foguete” em inglês. Fotografia de 2010. g r a h a m o L iv e r /a L a m y /f o T o a r e n a 116 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 110a121_U2_C9_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 116 5/17/16 11:19 AM Investigando • Na sua casa, as tarefas domésticas são distribuídas igualmente entre homens e mulheres? O trabalho feminino e infantil A Revolução Industrial não inventou o trabalho feminino e infantil. Em outros tempos e sociedades, mulheres e crianças trabalhavam na agricultura, na criação de animais e no artesanato. A diferença é que, a partir do século XVIII, a mão de obra feminina e infantil passou a ser utilizada em lugares distantes das casas, cum- prindo a disciplina das fábricas, com horários controlados de forma rígida, como acontecia com os demais operários. Em contraste com a maioria dos homens, as mulheres que trabalhavam nas fábricas também costumavam trabalhar em casa, cuidando das tarefas domésticas e dos filhos. Resistências operárias As más condições de trabalho provocaram conflitos entre operários e empre- sários, não só na Inglaterra como em outras sociedades onde se desenvolveu o sistema fabril. Nesses conflitos, houve casos de grupos de operários que invadiram fábricas e destruíram máquinas. Para eles, as máquinas representavam o desemprego, a mi- séria, os salários baixos e a opressão. Porém, boa parte dos trabalhadores percebeu que a luta do movimento operário não deveria ser dirigida propriamente contra as máquinas, mas sim contra o sistema de injustiças do capitalismo industrial. Surgiram, então, na Inglaterra, no final do século XVIII, organizações operárias que iniciaram a luta por melhores salários e condições de vida para o trabalhador, dando origem aos primeiros sindicatos. Mulheres e crianças operárias recebiam salários inferiores àqueles pagos aos homens adultos. Nesta fotografia, vemos crianças trabalhando em uma fábrica de ferramentas na França, por volta de 1880. Fotografia que pertence ao acervo dos Arquivos Departamentais de Ardennes, em Charleville-Mezieres, na França. a U T o r ia d e s c o n h e c id a . c .1 8 8 0 . 117CAPÍTULO 9 Inglaterra e Revolução Industrial 110a121_U2_C9_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 117 5/17/16 11:19 AM População e cidades No contexto das revoluções industriais e dos avanços científicos, houve o de- senvolvimento da teoria atômica, da teoria da divisão celular, das primeiras leis da genética, da anestesia com éter, bem como a descoberta do bacilo da tuberculose e da necessidade de assepsia nos procedimentos médicos etc. Tudo isso contribuiu para melhorar os padrões de saúde pública e reduzir as taxas de mortalidade pro- vocadas por doenças como varíola, cólera, tifo, difteria e tuberculose. Pesquisadores apontam que, a partir de meados do século XVIII, ocorreu pro- funda mudança no ritmo de crescimento da população mundial. De acordo com os cálculos demográficos de J. Durand, a população mundial no ano 1 do calendá- rio cristão era de 500 milhões de pessoas. Em 1750, essa população foi estimada em quase 800 milhões de pessoas. A partir desse período, houve um crescimento impressionante da taxa populacional. De 1750 a 1800, a população mundial atingiu cerca de 1 bilhão de pessoas. Em 1927, saltou para 2 bilhões. Em 1960, atingiu 3 bilhões de pessoas. Em 2015, estima-se que a população mundial tenha alcançado cerca de 7,35 bilhões de pes- soas. Veja na tabela este crescimento. O aumento demográfico fez-se sentir no crescimento das cidades. Um rápi- do balanço do que aconteceu na Europa mostra que, em 1801, existiam apenas 23 cidades europeias com mais de 100 mil habitantes. Já em 1900 esse número ampliou-se para 135 cidades.1 Como fenômeno mundial, o crescimento das cidades desdobrou-se em várias dimensões da vida social: ritmos de trabalho, formas de lazer, moradias, alimen- tação, transporte, comunicação, educação etc. Para o historiador René Rémond, poucos fenômenos do mundo contemporâneo tiveram um caráter tão global e abrangente quanto a urbanização. 1 Cf. RÉMOND, René. Introdução à história do nosso tempo: do Antigo Regime aos nossos dias. Lisboa: Gradiva, 1994. p. 226. Procedimento cirúrgico realizado na Tunísia em 2015. As cirurgias estão entre os procedimentos médicos que ajudam a aumentar a média da expectativa de vida da população. Estimativas de crescimento da população mundial População Ano 0,5 bilhão 1 0,8 bilhão 1750 1 bilhão 1801 2 bilhões 1927 3 bilhões 1960 4 bilhões 1974 5 bilhões 1987 6 bilhões 2000 7 bilhões 2011 8 bilhões 2026 9 bilhões 2050 11 bilhões 2100 Fontes: DURAND, J. D. Historical Estimates of World Population: an Evaluation. Universidade da Pensilvânia: Filadélfia, 1974; NAÇÕES UNIDAS. The Determinants and Consequences of Population Trends. v. 1; ONU: Nova York, 1973; idem. World Population Prospects as Assessed in 1963. ONU: Nova York, 1966; idem. World PopulationProspects: The 1998 Revision. ONU: Nova York, 1998; idem. World Population Prospects: The 2015 Revision, Key Findings and Advance Tables. ONU: Nova York, 2015. B U r g e s /p h a n ie /a f p 118 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 110a121_U2_C9_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 118 5/17/16 11:20 AM Em destaque Urbanização e aglomerações humanas A urbanização é um fenômeno social que alcançou sociedades de vários continentes. Atualmente, cerca de 54% da população mundial vive em cidades. Há mais de 200 cidades no mundo com popula- ção superior a 1 milhão de habitantes. E há várias cidades cuja população ultrapassa 10 milhões. Novos termos foram criados para denominar essas gigantescas aglomerações humanas, como metrópoles, megalópoles e megacidades. Fonte: United Nations, Department of Economic and Social Affairs, Population Division (2015). Disponível em: <http://esa. un.org/unpd/wpp/>. Acesso em: 16 out. 2015. Principais aglomerações urbanas no mundo (estimativas para 2030) (em milhões de habitantes) Cidade País População 1 Tóquio Japão 37,1 2 Nova Délhi Índia 36,0 3 Shangai China 30,7 4 Mumbai Índia 27,8 5 Beijing China 27,7 6 Dacca Bangladesh 27,3 7 Karachi Paquistão 24,8 8 Cairo Egito 24,5 9 Lagos Nigéria 24,2 10 Cidade do México México 23,8 Principais aglomerações urbanas no mundo (2014) (em milhões de habitantes) Cidade País População 1 Tóquio Japão 37,8 2 Nova Délhi Índia 24,9 3 Shangai China 23,0 4 Cidade do México México 20,8 5 Grande São Paulo Brasil 20,8 6 Mumbai Índia 20,7 7 Osaka China 20,1 8 Beijing China 19,5 9 Nova York- -Newark Estados Unidos 18,5 10 Cairo Egito 18,4 1. Em que continente estão as maiores aglomerações urbanas? 2. Quais são as cidades mais populosas do Brasil atual? Para responder, consulte um atlas geográfico. 3. Com base nas suas experiências pessoais, reflita: quais seriam as vantagens e as desvantagens de se viver em cidades? Responda em grupo. m o h a m e d e L -s h a h e d /a f p Vista da cidade do Cairo, capital do Egito, em 2015. Trata-se de uma das 10 maiores cidades do mundo. 119CAPÍTULO 9 Inglaterra e Revolução Industrial 110a121_U2_C9_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 119 5/17/16 11:20 AM Oficina de História Vivenciar e refletir 1. Leia um trecho adaptado da Declaração de Direitos, de 1689. Art. 1o. O pretenso poder de suspender as leis pela autoridade real, sem consentimen- to do Parlamento, é ilegal. Art. 4o. O direito de cobrar impostos para uso da Coroa, sem autorização do Parla- mento, é ilegal. Art. 5o. É direito dos súditos apresentar pedidos judiciais (petições) ao rei. Art. 8o. As eleições dos deputados ao Par- lamento serão livres. Art. 9o. A liberdade de expressão nos de- bates parlamentares não será questionada em nenhuma outra Corte a não ser no pró- prio Parlamento. Art. 12o. Para corrigir, fortalecer e preser- var as leis é necessário que o Parlamento se reúna com frequência. Cf. Declaração de Direitos, de 1689. In: Coletânea de documentos históricos para o primeiro grau. São Paulo: Cenp, 1978. p. 84. a) O texto apresenta limitações ao poder do rei? Justifique com exemplos. b) Quais são os trechos em que o Parlamento ga- rante para si o exercício de seus poderes? 2. Observe a imagem e escreva um texto dissertativo sobre as transformações que a Revolução Industrial trouxe à vida das pessoas da época. 3. A expansão da produção industrial acabou com o artesanato nos dias atuais? Em sua casa existem mais objetos produzidos industrial ou artesa- nalmente? Selecione e apresente para seus colegas um obje- to produzido artesanalmente. Se possível, explique onde o objeto foi produzido, de que material é feito, para que serve etc. Diálogo interdisciplinar 4. Em grupos, assistam ao filme Tempos Modernos (Estados Unidos, 1936), de Charlie Chaplin. Em se- guida, respondam às questões: a) Como podemos relacionar a narrativa do filme ao que foi estudado no capítulo? b) Podemos afirmar que Chaplin tece críticas à vida moderna por meio do humor? Responda com base na leitura do capítulo e nas cenas do filme. c) Compare a história vivida pelo operário (Char- lie Chaplin) com a da jovem órfã (Paulette Goddard). Quais são as semelhanças e as dife- renças entre essas histórias? d) Como são representados os movimentos ope- rários no filme? As cenas fazem alguma crítica com relação a esse assunto? e) Em sua opinião, o final do filme é otimista? Argu- mente. 5. Leia o texto sobre a vida nas comunidades rurais an- tes da industrialização: [...] eram comuns as festas religiosas e as festas do trabalho que aconteciam ao final da colheita da safra agrícola. Nesse período ainda não existia uma separação rígida en- tre tempo de trabalho e tempo de lazer ou descanso. Muitas atividades do trabalho ru- ral eram exercidas ao som de canções, que também serviam para dar ritmo à execução das tarefas. [...] Antes do sistema fabril, as pessoas tra- balhavam artesanalmente e em pequenos grupos, geralmente uma família e seus Diálogo interdisciplinar com Arte e Sociologia. Diálogo interdisciplinar com Sociologia e Geografia. Prensa a vapor, telégrafo elétrico, locomotiva e barco a vapor: todos inventados no século XIX. Na parte inferior da imagem, de 1876, lê-se: “O progresso do século”. Th e Br id g em a n a rT L iB ra ry /K ey sT o n e Br a si L. c o Le ç ã o p a rT ic U La r. 120 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 110a121_U2_C9_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 120 5/17/16 11:20 AM dependentes, que se especializavam na confecção de determinado produto. O ar- tesão era independente, dono da oficina e das ferramentas nela utilizadas, e auxilia- do por aprendizes aos quais ensinava aos poucos as etapas do serviço, até que se tor- nassem oficiais; esses grupos de trabalho se reuniam em associações, corporações de ofício (pois todos aprendiam o mesmo ofício) ou ainda guildas, que tinham uma produção predeterminada. DECCA, Edgar de; MENEGUELLO, Cristina. Fábricas e homens: a Revolução Industrial e o cotidiano dos trabalhadores. São Paulo: Atual, 1999. p. 29-30. Que relações você pode estabelecer entre o modo de trabalho descrito e o que se verifica na atualidade? Aponte transformações e continuidades. 6. Leia o texto sobre alguns dos problemas referentes às condições de vida nas grandes cidades: Antes de 1850, nenhum país tinha uma população predominantemente urbana. Foi então que a Inglaterra, pioneiramente, passou a ter uma composição demográfica na qual deixava de prevalecer a população rural. [...] Com a predominância da popula- ção urbana [...], alguns dos problemas do tipo de vida existente nas grandes cidades passaram a exercer uma influência mais acentuada sobre o conjunto da população. [...] Georg Simmel, na passagem do século XIX para o século XX, observou que os mo- radores das grandes cidades esbarram fisi- camente uns nos outros e no entanto é raro que eles cheguem a se conhecer humana- mente. [...] No começo do século XX, Louis Wirth notou que o morador da grande cidade se relaciona com grande número de pessoas, porém não pode aprofundar essas relações, o que lhe acarreta frustrações [...] Di‡logo interdisciplinar com Geografia e Sociologia. No espaço da cidade passam a ser rude- mente contrapostos [...] os polos da riqueza e da pobreza. [...] De um lado, ficam os excluídos: despre- parados para a rude competição do merca- do, angustiados pela premência das neces- sidades básicas insatisfeitas [...]. Do outro, os privilegiados, [...] empenhados em prote- ger suas vidas e seu patrimônio de perigos crescentes, encastelados atrás de grades e muralhas. [...] KONDER, Leandro. Os sofrimentos do homem burguês. São Paulo: Senac, 2000. p. 63-66. a) Quais aspectos apresentados no texto fazem parte do seu cotidiano? Reflita. b) Na sua interpretação, as grandes cidades estão divididas por abismossociais que separam os “incluídos” dos “excluídos”? Explique. De olho na universidade 7. (Unicamp) Na Europa, até o século XVIII, o passa- do era o modelo para o presente e para o futuro. O velho representava a sabedoria, não apenas em termos de uma longa expe- riência, mas também da memória de como eram as coisas, como eram feitas e, por- tanto, de como deveriam ser feitas. Atual- mente, a experiência acumulada não é mais considerada tão relevante. Desde o início da Revolução Industrial, a novidade trazida por cada geração é muito mais marcante do que sua semelhança com o que havia antes. HOBSBAWM, Eric. O que a história tem a dizer-nos sobre a sociedade contemporânea? In: Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 37-38 (adaptado pela instituição). a) Segundo o texto, como a Revolução Industrial transformou nossa atitude em relação ao pas- sado? b) De que maneiras a Revolução Industrial dos sé- culos XVIII e XIX alterou o sistema de produção? 121CAPÍTULO 9 Inglaterra e Revolução Industrial 110a121_U2_C9_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 121 5/17/16 11:20 AM Formação dos Estados Unidos Nos dias atuais, os Estados Unidos são considerados um dos países mais poderosos do planeta. Detêm o maior PIB entre todas as nações, controlam o maior arsenal bélico mundial e difundem seu estilo de vida através da presença internacional do idioma inglês e de expressões culturais, como o cinema e a música. Que histórias marcaram a formação dos Estados Unidos? 1. Quais elementos da imagem sugerem que a cena representa o momento da chegada dessas pessoas a algum lugar? 2. Após a leitura do capítulo, volte à imagem e responda: das causas apontadas como motivadoras da colonização inglesa na América do Norte, qual está evidenciada na imagem? A chegada dos pais peregrinos. Óleo sobre tela de Antonio Gisbert. Obra produzida em cerca de 1864. Pertence a uma coleção particular. T h e B r id g e m a n a r T L iB r a r y /K e y s T o n e B r a s iL 122 UNIDADE 2 Súdito e cidadão capítulo 10 122a132_U2_C10_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 122 5/17/16 11:21 AM Durante o século XVI, os ingleses realizaram algumas tentativas de colonização da América do Norte. No entanto, a região só foi efetivamente colonizada no século XVII. Em 1607, formou-se uma primeira colônia, chamada Virgínia. Na época, o governo inglês havia concedido o monopólio sobre a exploração dessa colônia a uma empresa privada. Pouco tempo depois, comunidades inteiras de protestantes e alguns grupos de católicos co- meçaram a emigrar da Europa para a América do Norte, fugindo de perseguições religiosas e de dificuldades econômicas. O primeiro desembar- que dos colonos protestantes ocorreu em 1620, em Massachusetts, vindos no navio Mayflower. Esses primeiros colonos, que ficaram conhecidos como “pais peregrinos”, “são, de certa forma, os fundadores do que, mais tarde, seriam os EUA. Não são os pais de toda a nação, são os pais da parte WASP (em inglês, white anglo-saxon pro- testant, ou seja, branco, anglo-saxão, protestan- te) dos EUA”.1 Esses grupos se estabeleceram em diferentes áreas da costa leste, onde foram construindo no- vas colônias. Até o século XVIII, foram fundadas 13 colônias independentes entre si, mas subordi- nadas à metrópole inglesa. Uma das intenções de boa parte desses pri- meiros colonos da América do Norte era construir sociedades autônomas, em que pudessem erguer um “novo lar” para começar uma nova vida. Com o decorrer da colonização, esse projeto foi crescendo, principalmente nas colônias da re- gião centro-norte, onde foram criados sistemas de autogoverno dos colonos (assembleias locais com poderes para elaborar leis e fixar tributos). 1 KARNAL, Leandro. Estados Unidos: da colônia à independência. São Paulo: Contexto, 1999. p. 30. As 13 colônias Ocupação inglesa na América do Norte Emigrar: deixar um país, comu- mente o país de origem, com o intuito de estabelecer-se em outro. Investigando 1. Levante hipóteses sobre o que motiva pessoas a migrarem para regiões distantes. 2. Você deseja em algum momento viver em outra cidade ou país? Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: MEC/Fename, 1986. p. 70. OCEANO ATLÂNTICO R io S ão L o u re nç o 30º N 70º O MASSACHUSETTS (MAINE) MASSACHUSETTS RHODE ISLAND CONNECTICUT PENSILVÂNIA VIRGÍNIA CAROLINA DO NORTE CAROLINA DO SUL GEÓRGIA NOVA JERSEY DELAWARE MARYLAND M o n te s A p a la ch e s NOVA YORK NOVA HAMPSHIRE 0 393 km As 13 colônias inglesas na América (1775) s id n e i m o U r a 123CAPÍTULO 10 Formação dos Estados Unidos 122a132_U2_C10_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 123 5/17/16 11:21 AM Colonos e indígenas No projeto de povoamento dos grupos recém-chegados à América do Norte, não havia um projeto de “integração” dos povos indígenas. Assim, ao erguer a sociedade autônoma que desejavam, os colonos europeus e seus descendentes acabaram empreendendo uma luta sistemática contra centenas de grupos indíge- nas que habitavam, há milhares de anos, o território norte-americano. Entre guerras abertas, alianças rompidas e breves períodos de paz, os indíge- nas foram dizimados ou obrigados a migrar para o interior do território. Em destaque Dia de Ação de Graças Atualmente, o dia de Ação de Graças é um feriado nacional nos Estados Unidos, comemorado todos os anos na última quinta-feira do mês de novembro. A celebração está relacionada às trocas culturais entre colonos e indígenas americanos. Os colonos que chegaram à América em 1620 enfrentaram dificuldades para sobreviver e muitos de- les morreram. Nesse contexto, os indígenas wampanoags ensinaram os colonos a caçar, a pescar e a cul- tivar plantas nativas como o milho e a abóbora. Assim, as colheitas do ano seguinte foram abundantes. Em agradecimento, conta-se que os colo- nos convidaram os wampanoags para uma far- ta refeição em 1621. A celebração teria sido o primeiro dia de Ação de Graças. Leia o texto a seguir sobre o evento: A amigável celebração da colheita de 1621 foi seguida por uma relação longa e dolorosa entre nativos americanos e colo- nos europeus. Muitos nativos americanos nos Estados Unidos veem o dia de Ação de Graças como um “dia de luto nacional”. No entanto, outros desfrutam de uma refeição tradicional de Ação de Graças em casa ou em grandes reuniões comunitá- rias com a família e amigos. A história e a cultura dos nativos americanos são fre- quentemente discutidas em escolas [...] durante o mês de novembro, designado como Mês Nacional da Herança dos Ín- dios Americanos e dos Nativos do Alasca. Departamento de Estado dos EUA/Embaixada dos Estados Unidos. “Dia de Ação de Graças”. Publicado em novembro de 2011. Disponível em: <http://photos.state.gov/libraries/amgov/133183/ portuguese/P_US_Holidays_Thanksgiving_Day_Portuguese.pdf>. Acesso em: 8 dez. 2015. 1. Segundo o texto, como foram os primeiros contatos entre os peregrinos e os wampanoags? 2. Por que, atualmente, o dia de Ação de Graças passou a ser visto por muitos nativos americanos como o “dia de luto nacional”? 3. Toda data comemorativa tem uma história. Pesquise a história de um feriado nacional brasileiro e compar- tilhe com seus colegas. n o r m a n r o c K w e L L . F r e e d o m F r o m w a n T. 1 9 4 3 . Liberdade da pobreza, obra também conhecida como Retrato do Dia de Ação de Graças, criado em 1943 pelo artista estadunidense Norman Rockwell. Pertence ao acervo do Museu Norman Rockwell, Stockbridge, EUA. 124 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 122a132_U2_C10_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 124 5/17/16 11:21 AM OCEANO ATLÂNTICO Golfo do México OCEANO PACÍFICO 110° O 36° 30´ N CROW CHINDOK TILLAMOOK PAITUE POMO UTE NAVAJO HOPI ZUNI ANASAZI ARAPAHO CHEYENNE OSAGE ILLINOIS SHAWNEE DELAWARE NARRAGANSET IROQUOISWANPANOAG PEMAQUID NATCHEZ CHICKASAW TIMUCUAN POWHATAN CHEROKEE CREEK COMANCHE DAKOTA BLACKFOOT NEZ PERCE Áreas culturais Limite atual dos Estados Unidos Costa Oriental, Sudeste e Grandes Lagos Planícies Califórnia e Grande Bacia Sudoeste Costa Noroeste 0 314 km Alguns povos indígenas no território que hoje compreende os Estados Unidos (século XVI) s id n e i m o U r a Modelos de colonização Alguns historiadores costumam distinguir dois mo- delos de colonização adotados na América do Norte. Colônias do centro-norte Nas colônias inglesas do centro-norte, implemen- tou-se uma produção agrícola diversificada (policul- tura) para o mercado interno, baseada na pequena e média propriedade rural. Nelas, predominavam o trabalho livre e assalaria- do e a servidão temporária (no caso do imigrante, até que ele pagasse, por exemplo, suas despesas da via- gem para a América). No norte, destacaram-se também a extração de madeira e peles, a atividade pesqueira e um dinâmico comércio marítimo com as Antilhas e regiões da Áfri- ca. Ao contrário do que ocorria no Brasil Colonial, os colonos dessa região não eram proibidos de realizar comércio com estrangeiros. No centro, sobressaíram as culturas de trigo, ce- vada e centeio, além da criação de bois, cabras e por- cos. O comércio tornou-se expressivo com a exporta- ção de madeira, peles e peixe seco, e a importação de açúcar e vinho, entre outros produtos. Nessas duas regiões, desenvolveram-se colônias relativamente autônomas, que escaparam da intensa exploração colonial — que ocorreu, por exemplo, na América portuguesa e na espanhola. Colônias do sul Já nas colônias inglesas do sul, desenvolveu-se uma produção agrícola mais voltada para o merca- do externo (tabaco e algodão), baseada em grandes propriedades rurais (plantations) e na utilização do trabalho escravo africano. A partir do século XVIII, os escravos compunham quase 40% da população das colônias sulistas. Fonte: MELATTI, Júlio Cesar. Índios da América do Norte. Disponível em: <http://www.juliomelatti.pro.br/>. Acesso em: 8 dez. 2015. 125CAPÍTULO 10 Formação dos Estados Unidos 122a132_U2_C10_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 125 5/17/16 11:21 AM Emancipação O nascimento dos Estados Unidos Apesar do controle colonial, o governo inglês costumava não interferir nos assuntos internos das Treze Colônias, respeitando suas tradições de auto- governo (self-government). Esse cenário mudou no século XVIII, quando a In- glaterra começou a fazer imposições às colônias, proi- bindo, por exemplo, a implantação de fábricas que concorressem com a indústria inglesa. Os conflitos entre colonos americanos e auto- ridades britânicas acirraram-se após a Guerra dos Sete Anos, entre Inglaterra e França (1756-1763). Entre outras disputas, esses dois países lutavam pela posse de áreas na América do Norte. Intensificação do domínio inglês Embora os ingleses tenham saído vitoriosos da Guerra dos Sete Anos, suas finanças públicas ficaram abaladas pelas grandes despesas militares. Para recupe- rá-las, o governo inglês adotou medidas que aumenta- vam a arrecadação fiscal e restringiam a autonomia das 13 colônias norte-americanas. Entre as leis decretadas, historiadores costumam destacar as seguintes: • Lei do Açúcar (1764) – cobrava taxas sobre a im- portação de açúcar (melaço) que não viesse das Antilhas britânicas e proibia a importação de rum, Companhia Inglesa das Índias Orientais: empresa controlada por comerciantes de Londres, criada em 1600 para efetuar a comercialização dos produtos coloniais, em consequência da expansão ultramarina. Os colonos do sul eram mais de- pendentes dos laços com a metró- pole inglesa. Havia entre eles certo receio de que um rompimento com a Inglaterra implicasse o desmorona- mento da produção econômica co- lonial, da qual eles se beneficiavam. Contudo, quando o processo de independência teve início, muitos desses colonos acabaram mudando de posição e participando do movi- mento, na perspectiva de continuar exportando seus produtos (princi- palmente o algodão), com a vanta- gem de não terem de pagar as taxas impostas pelo governo inglês. bebida obtida a partir da fermentação e destilação do melaço, pelos colonos; • Lei do Selo (1765) – cobrava uma taxa sobre diferentes documentos comerciais, jornais, livros, anúncios etc.; • Lei dos Alojamentos (1765) – obrigava os colonos a fornecer alojamento e alimentação às tropas in- glesas que estivessem em território americano; • Lei do Chá (1773) – concedia o monopólio de ven- da de chá nas colônias à Companhia Inglesa das Índias Orientais. O objetivo do governo inglês era combater o contrabando do produto realizado pe- los comerciantes das colônias; • Leis Intoleráveis (1774) – foram decretadas para conter o clima de revolta que se espalhou pelas co- lônias. Era um conjunto de duras medidas — chama- das, por isso, de “intoleráveis” — que determinavam, por exemplo, o fecha- mento do porto de Bos- ton e autorizavam o go- verno colonial a julgar e punir severamente os colonos envolvidos em distúrbios políticos contrários às autorida- des inglesas. Plantação de algodão na Louisiana, sul dos Estados Unidos. Em 2013, os EUA eram o terceiro maior produtor de algodão do mundo, seguidos pelo Paquistão e pelo Brasil. Fotografia de 2014. T im g r a h a m /g e T T y i m a g e s 126 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 122a132_U2_C10_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 126 5/17/16 11:21 AM O protesto das 13 colônias Essas leis provocaram a reação das elites coloniais americanas, que temiam perder sua relativa autono- mia local. Assim, os comerciantes, proprietários de terras e membros da classe média urbana — princi- palmente das colônias do norte — não aceitaram a intensificação da exploração colonial. Por esse motivo, desencadearam-se várias re- voltas. Para protestar contra a Lei do Chá, no dia 16 de dezembro de 1773, comerciantes americanos trajaram-se de indígenas e destruíram carregamen- tos de chá que estavam nos navios da Companhia Inglesa das Índias Orientais, atracados no porto de Boston. O evento ficou conhecido como Festa do Chá de Boston. Contra as Leis Intoleráveis, representantes das 13 colônias realizaram, em setembro de 1774, o Primeiro Congresso de Filadélfia. Nesse encontro, elaboraram um documento de protesto enviado ao governo in- glês. Este, porém, não estava disposto a fazer con- cessões, o que motivou o confronto armado entre colonos e tropas inglesas. Observe, a seguir, uma representação do episódio da Festa do Chá de Boston. A obra nomeada Destrui- ção de chá no porto de Boston é uma litografia de Nathaniel Currier e foi produzida em 1846. Interpretar fonte Festa do Chá de Boston 1. Elabore um texto descrevendo aspectos que você considera mais importantes nesta imagem. 2. Em sua interpretação, as pessoas representadas no cais estavam apoiando ou criticando a revolta? Justifique. A obra pertence hoje à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, que fica em Washington D.C. n aT h a n ie L c U rr ie r. d es Tr U iç ã o d e c h á n o p o rT o d e Bo sT o n . 1 84 6. 127CAPÍTULO 10 Formação dos Estados Unidos 122a132_U2_C10_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 127 5/17/16 11:21 AM Guerra pela independência A guerra pela independência das 13 colônias teve iní- cio com a Batalha de Lexington, em 19 de abril de 1775. Nessa data, tropas inglesas tentaram destruir um depó- sito de armas controlado pelos colonos e enfrentaram grande resistência. Quase um mês depois, em maio de 1775, os colonos que desejavam a independência realiza- ram o Segundo Congresso de Filadélfia, que conclamou os cidadãos às armas e nomeou George Washington (1732-1799) comandante das tropas coloniais. No dia 4 de julho de 1776, tornou-se pública a declaração de inde- pendência das 13 colônias (definidascomo “Treze Esta- dos Unidos da América”). A partir de então, a nova nação passou a ser designada Estados Unidos da América. A Declaração de Independência dos Estados Uni- dos foi influenciada por ideais iluministas. Entre outras coisas, ela defendia a liberdade individual do cidadão e criticava a tirania dos governantes. Seu principal re- dator, o político Thomas Jefferson (1743-1826), era um admirador de John Locke. Leia, a seguir, um trecho desse documento. Todos os homens são criados iguais e são dotados por Deus de certos direitos funda- mentais, como o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Para garantir esses direitos são instituí- dos governos entre os homens. O justo poder desses governos provém do consentimento dos governados. Todas as vezes que qualquer forma de governo destruir esses objetivos, o povo tem o direito de alterá-la ou aboli-la e estabelecer um novo governo em nome de sua própria segurança e felicidade. Declaração de Independência dos Estados Unidos, 1776 (fragmentos). In: TUSELL, Javier et al. Historia del mundo contemporáneo. Madri: Ediciones SM, 1997. p. 31. (Tradução do Autor) A Inglaterra não aceitou a declaração de inde- pendência de suas colônias, e a guerra prolongou-se até 1781, levando à morte cerca de 70 mil comba- tentes. Nesses conflitos, é possível identificar dois momentos principais: • Primeiro momento (1775-1778) – as tropas dos EUA lutaram praticamente sozinhas contra as for- ças inglesas. • Segundo momento (1778-1781) – as tropas dos EUA contaram com a ajuda financeira e militar dos governos da França, da Espanha e das Províncias Unidas (atual Holanda). A participação das tropas francesas, sobretudo, foi decisiva para garantir a vi- tória das tropas coloniais. No dia 19 de outubro de 1781, o último exército inglês foi derrotado em Yorktown. A guerra termina- ra, mas o governo inglês reconheceria oficialmente a independência de suas 13 colônias americanas so- mente em 1783. Representação do dia da desocupação das 13 colônias e da entrada triunfal de George Washington e seus oficiais em Nova York, em 25 de novembro de 1783. Litografia de Edmund P. Restein e Ludwig Restein, de 1879. Pertence ao acervo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, em Washington D.C. e d m U n d p . r e sT e in e L U d w ig r e sT e in . “ e v a c U a Ti o n d a y ” a n d w a sh in g To n ’s T r iU m p h a L e n Tr y i n n e w y o r K c iT y, n o v. 2 5 Th , 1 7 8 3 . c .1 8 7 9 . 128 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 122a132_U2_C10_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 128 5/17/16 11:21 AM Constituição dos Estados Unidos A Constituição dos Estados Unidos foi promulgada em 17 de setembro de 1787. Essa constituição regula até hoje as instituições fundamentais dos EUA. En- tre os pontos fundamentais desse documento, podemos citar: • tipo de Estado – estabelece que os Estados Unidos são uma República Federa- tiva presidencialista, ou seja, formada por estados-membros associados em uma União política (Federação) chefiada por um presidente; • cidadania – assegura o exercício de direitos políticos e civis, como a liberdade de expressão, de imprensa, de crença religiosa e de reunião, a inviolabilidade do domicílio e o direito a julgamento (ou seja, ninguém pode ser preso e condenado sem o devido processo judicial), entre outros; • tripartição dos poderes – determina que os poderes do Estado sejam repar- tidos em Executivo (administração), Legislativo (elaboração das leis) e Judiciário (aplicação da justiça). De forma mais específica, o texto constitucional estadunidense define que o Poder Executivo é encabeçado pelo presidente da República, com mandato de quatro anos. Ele também é o comandante das Forças Armadas e responsável pelo equilíbrio entre os estados-membros da Federação e pela política exterior. O pri- meiro presidente dos Estados Unidos foi George Washington. Já o Poder Legislativo é exercido pelo Congresso, que se divide em Câmara dos Representantes e Senado (ambos compostos de parlamentares eleitos pelo voto popular, com mandatos de, respectivamente, dois e seis anos). Por último, o Poder Judiciário tem como principal órgão a Suprema Corte, cuja função essencial é garantir o cumprimento da Constituição. Em destaque Estátua da Liberdade A Estátua da Liberdade foi criada em estilo neoclássico pelos franceses Fréderic- -Auguste Bartholdi e Gustave Eiffel, proje- tista da famosa torre de Paris. A estátua foi presente do governo da França em home- nagem ao centenário de independência dos Estados Unidos. Foi inaugurada em 1886 na cidade de Nova York e logo tornou-se sím- bolo do país. Em uma das mãos, a estátua carrega uma tábua com a inscrição: 4 de julho de 1776 (data da Declaração de Independên- cia). Na outra mão, porta uma tocha folhea- da a ouro que representaria o princípio: “ilu- minar o mundo”. • Como a Liberdade foi representada pe- los artistas franceses? Como você repre- sentaria a Liberdade? Estátua da Liberdade, em Nova York. Fotografia de 2015. p r o c h a s s o n F r e d e r ic /a L a m y /F o T o a r e n a 129CAPÍTULO 10 Formação dos Estados Unidos 122a132_U2_C10_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 129 5/17/16 11:21 AM A luta pelos direitos nos EUA Embora a Declaração de Independência dos Estados Unidos afirme, em seu início, que “todos os homens são criados iguais e são dotados por Deus de certos direitos fundamentais”, tal proclamação não se aplicou a todos de imediato. Vá- rios grupos sociais tiveram de lutar durante mais de dois séculos — alguns ainda lutam — por essa igualdade e pela garantia de seus direitos. A escravidão africana, por exemplo, foi mantida nos Estados Unidos até a Guerra de Secessão (1861-1865). Assim, os líderes da independência dos Estados Unidos não trataram uma questão que afetava mais de meio milhão de negros que viviam em regime de trabalho escravo. O próprio Thomas Jefferson, por exemplo, era um grande proprietário de escravos, embora fosse, em teoria, antiescravista e abolicionista. Os indígenas da América do Norte também não tiveram os mesmos direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade, garantidos aos brancos. Depois da inde- pendência, muitos povos continuaram sendo massacrados, expulsos de suas terras ou tiveram sua cultura destruída. Outro exemplo é o das mulheres estadunidenses, que não tinham os mesmos direitos civis que os homens, como o direito de voto, só reconhecido quase 140 anos depois. Naquela época, a mulher era considerada um “ser frágil”, devendo por isso subordinar-se, de modo geral, ao poder masculino. Quem, então, exercia plenamente os direitos de cidadão, assegurados na Constituição dos Estados Unidos de 1787? Basicamente, a cidadania na sua forma plena foi exercida pelos homens adultos e brancos pertencentes à elite econômica, composta, principalmente, da burguesia industrial e comercial e pelos proprietá- rios de fazendas e escravos. Investigando • Atualmente em nossa sociedade as mulheres ainda são consideradas “seres frágeis”? Debata. Protestantes marcham pacificamente contra a violência policial que atingiu, em 2014, a população afro- -americana em Ferguson, EUA. Naquele ano, o jovem negro Michael Brown, que estava desarmado, foi baleado por um policial. O episódio gerou uma série de protestos. Je w e L s a m a d /a F p 130 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 122a132_U2_C10_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 130 5/17/16 11:21 AM Oficina de História Vivenciar e refletir 1. Que diferenças e semelhanças você pode estabele- cer entre a colonização inglesa na América do Norte e a colonização portuguesa na América do Sul? 2. Com relação à Declaração de Independência dos Estados Unidos e à Constituição estadunidense, que contradições se revelaram entre os ideais defendidos e os direitosestabelecidos por esses documentos e sua prática? Faça uma pesquisa em jornais e na inter- net e justifique sua resposta com exemplos. Diálogo interdisciplinar 3. No fim do século XIX, estados do sul dos EUA anun- ciaram as leis Jim Crow, cujo conteúdo legalizava a segregação negra e dificultava o direito de voto dos negros. Em todo o país, legislações semelhantes passaram a “pipocar”, possibilitando, entre outros aspectos, uma divisão entre o espaço dos negros e o dos brancos em lugares públicos. Em dezembro de 1955, uma mulher negra — Rosa Parks — recusou-se a ceder seu lugar num ônibus mu- nicipal de Montgomery para um homem branco, o que a levou a ser presa, julgada e condenada. Diante disso, foi criada a Montgomery Improvement Associa- tion (MIA) a fim de lutar contra injustiças que pre- judicavam os negros. O líder do movimento passou a ser o pastor Martin Luther King (1929-1968), que se tornou conhecido por sua luta a favor dos direitos civis dos negros nos EUA. Leia um trecho de um dos discursos mais conheci- dos de Martin Luther King, proferido em Washington, capital dos EUA, no ano de 1963: [...] Digo hoje a vocês, meus amigos, que apesar das dificuldades e frustrações do mo- mento, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho ame- ricano. Eu tenho um sonho de que um dia esta nação vai se levantar e viver o verdadei- ro significado de sua crença: “Consideramos essas verdades autoevidentes: que todos os homens são criados iguais”. Eu tenho um so- nho de que um dia, nas montanhas da Geór- gia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos serão capazes de sentarem-se juntos à mesa da fraternida- Diálogo interdisciplinar com Sociologia. de. Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos um dia viverão numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter [...]. Quando permitirmos que a liberdade ecoe, quan- do permitirmos que ela ecoe em cada vila e cada aldeia, em cada estado e cada cidade, seremos capazes de avançar rumo ao dia em que todos os filhos de Deus, negros e bran- cos, judeus e gentios, protestantes e católi- cos, poderão dar as mãos e cantar as pala- vras da velha cantiga negra, “Enfim livres! Enfim livres! Graças a Deus Todo-Poderoso, enfim estamos livres!”. Discurso de Martin Luther King. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/ historia/morte-martin-luther-king/discursos-eu-tenho-um-sonho-retorica- voz-alma.shtml>. Acesso em: 8 nov. 2012. Após ler o trecho do discurso de Martin Luther King, reflita com os colegas a respeito de suas ideias principais e escreva um texto relacionando esse docu- mento ao conteúdo deste capítulo. 4. Assista ao filme O patriota (Estados Unidos, 2000, 164 min), dirigido por Roland Emmerich. Essa obra ficcional foi ambientada na Carolina do Sul no ano de 1776, no contexto da luta pela independência dos Estados Unidos. Em seguida, formem grupos e façam o que se pede: Diálogo interdisciplinar com Arte. a) Como as batalhas foram representadas no filme? Procure analisar cenários, uniformes, atitudes das personagens etc. Cena do filme O patriota, protagonizado pelo ator Mel Gibson, que aparece no centro. c o L U m B ia p ic T U r e s /c o U r T e s y e v e r e T T 131CAPÍTULO 10 Formação dos Estados Unidos 122a132_U2_C10_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 131 5/17/16 11:21 AM b) Quais personagens foram representados como he- róis? E como vilões? Que valores eles expressam? c) Relacione aspectos mostrados no filme com os temas abordados neste capítulo. d) Vocês contariam essa história de outra maneira? De olho na universidade 5. (Enem-2007) Em 4 de julho de 1776, as treze colônias que vieram inicialmente a constituir os Es- tados Unidos da América (EUA) declaravam sua independência e justificavam a ruptura do Pacto Colonial. Em palavras profunda- mente subversivas para a época, afirmavam a igualdade dos homens e apregoavam como seus direitos inalienáveis: o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Afirmavam que o poder dos governantes, aos quais ca- bia a defesa daqueles direitos, derivava dos governados. Esses conceitos revolucionários que ecoavam o Iluminismo foram retoma- dos com maior vigor e amplitude treze anos mais tarde, em 1789, na França. COSTA, Emília Viotti da. In: POMAR, Wladimir. Revolução Chinesa. São Paulo: Unesp, 2003 (com adaptações feitas pelo Enem). Considerando o texto acerca da independência dos EUA e da Revolução Francesa, é correto afirmar: a) A independência dos EUA e a Revolução Fran- cesa integravam o mesmo contexto histórico, mas se baseavam em princípios e ideais opostos. b) O processo revolucionário francês identificou-se com o movimento de independência norte-ame- ricana no apoio ao absolutismo esclarecido. c) Tanto nos EUA quanto na França, as teses ilu- ministas sustentavam a luta pelo reconheci- mento dos direitos considerados essenciais à dignidade humana. d) Por ter sido pioneira, a Revolução Francesa exer- ceu forte influência no desencadeamento da in- dependência norte-americana. e) Ao romper o Pacto Colonial, a Revolução Fran- cesa abriu o caminho para as independências das colônias ibéricas situadas na América. 6. (Uerj) Que os tiranos de todos os países, que to- dos os opressores políticos ou sagrados sai- bam que existe um lugar no mundo onde se pode escapar aos seus grilhões, onde a humanidade desonrada reergueu a cabeça; [...]; onde as leis não fazem mais que garan- tir a felicidade; onde [...] a consciência dei- xou de ser escrava [...]. RAYNAL. A Revolução da América. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1993. A posição apresentada pelo abade Raynal sintetiza alguns aspectos da ilustração política. a) A partir do texto, indique, com suas próprias pa- lavras, dois princípios do pensamento iluminista. b) Para o autor do texto, a independência das treze colônias inglesas foi um processo revolucioná- rio, razão pela qual denomina-a de Revolução Americana. Cite e explique um fator que contri- buiu para essa Revolução. 7. (UFMA) Sobre a colonização inglesa, é correto afir- mar que: a) os colonos ingleses que vieram para a América pretendiam criar uma sociedade socialista de base religiosa. b) a Inglaterra implantou um rígido sistema de controle econômico sobre suas colônias, basea- do no monopólio comercial. c) as colônias do Norte desenvolveram-se com base na grande propriedade, no trabalho escra- vo e na agricultura de exportação. d) as treze colônias na América do Norte podem ser divididas em dois grupos: colônias de explo- ração e colônias de povoamento. e) nas treze colônias foi usado o trabalho escravo de ingleses expulsos do campo pelo cercamento das terras. 132 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 122a132_U2_C10_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 132 5/17/16 11:21 AM Revolução Francesa e Era Napoleônica Liberdade, igualdade e fraternidade foram princípios da Revolução Francesa, que se difundiram pelo mundo como bandeira de vários movimentos sociais. Será que esses princípios tornaram-se direitos conquistados ou permanecem como objetivos a serem atingidos? • Observando essa obra, é possível notar a presença dos vários grupos sociais que atuaram na Revolução Francesa? Justifique. A guarda nacional de Paris em armas em setembro de 1792. Óleo sobre tela, de Léon Cogniet, 1834. Pertence ao acervo do Museu Nacional do Palácio de Versalhes, na França. C o g n ie t Lé o n . L a g a rd e n a ti o n a Le d e Pa ri s, r a ss em bL ée s u r Le P o n t n eu f, Pa rt P o u r L’ a rm ée e n s eP te m br e 17 92 . 1 83 3- 18 36 . 133CAPÍTULO 11 Revolução Francesa e Era Napoleônica capítulo 11 133a149_U2_C11_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 133 5/17/16 11:21 AM crise do antigo Regime A França às vésperas da Revolução 1 Cf. SOBOUL, Albert.História da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. p. 22-30. Revolução Francesa foi o movimento que se de- senvolveu na França entre 1789 e 1799 e provocou grandes transformações políticas e sociais. Contou com a participação de vários grupos da burguesia, das populações pobres das cidades e dos camponeses explorados pela servidão. Ao final de um longo processo, a Revolução des- truiu as estruturas do Antigo Regime e extinguiu os pri- vilégios da nobreza. Em vez do status garantido pelo nascimento, a bur- guesia valorizava o mérito da conquista de riquezas. Por sua repercussão no Ocidente, a Revolução Francesa foi considerada por alguns historiadores um marco da Idade Contemporânea. Para entender esse processo revolucionário, é pre- ciso conhecer as características da França no final do século XVIII. Grandes desigualdades sociais Por volta de 1789, a França era o país mais po- puloso da Europa ocidental, com aproximadamente 25 milhões de habitantes. Era governada por um rei absolutista, Luís XVI, que detinha controle sobre os poderes do Estado. Marcada por desigualdades profundas, a socieda- de francesa dividia-se em três “estados” ou ordens: o clero, a nobreza e o restante da população, incluindo a burguesia. Cada um desses “estados” dividia-se interna- mente em grupos, muitas vezes rivais. Vejamos como eram essas divisões, com base nas considerações do historiador francês Albert Soboul.1 primeiro estado Constituído pelo clero, era composto de aproxi- madamente 120 mil pessoas. Dividia-se em: • Alto clero – reunia bispos, abades e cônegos, oriun- dos de famílias da nobreza. Sua fortuna era prove- niente de dízimos (contribuições dos fiéis) e dos imó- veis urbanos e rurais de propriedade da Igreja. • Baixo clero – compunha-se de sacerdotes pobres, muitos dos quais simpatizantes dos ideais revolucio- nários. Esses sacerdotes eram geralmente responsá- veis pelas paróquias mais carentes. Segundo estado Constituído pela nobreza, era composto de apro- ximadamente 350 mil pessoas. Dividia-se em três gru- pos principais: • Nobreza cortesã – formada por cerca de 4 mil pes- soas que viviam no palácio de Versalhes, em torno do rei, recebendo pensões do Estado. • Nobreza provincial – formada por nobres, muitas vezes empobrecidos, que viviam nas províncias (in- terior) e sobreviviam à custa de taxas cobradas dos camponeses, a título de direitos feudais. • Nobreza de toga – formada por burgueses ricos que compravam títulos de nobreza e cargos políti- cos e administrativos. terceiro estado Constituído pela grande maioria da população, reunia mais de 24 milhões de pessoas em diversos grupos sociais, entre os quais podemos distinguir: • Camponeses – trabalhadores rurais submetidos a diferentes formas de trabalho (livres, semilivres e servos presos às obrigações feudais). • Sans-culottes – camada social urbana, de aproxi- madamente 200 mil pessoas, concentrada em Paris e composta de aprendizes de ofícios, assalariados e desempregados marginalizados. A expressão sans-culotte (sem culote) refere-se às calças largas usadas pela população francesa mais pobre. Essa vestimenta contrastava com um tipo de calça justa (culotes) usada pela nobreza. • Pequena burguesia – pequenos comerciantes e artesãos. • Média burguesia – profissionais liberais, como médicos, advogados, professores e comerciantes. • Alta burguesia – banqueiros, grandes empresários e comerciantes (incluindo os que compravam e ven- diam mercadorias coloniais). Status: termo latino que se refere à condição ou posição de alguém den- tro da sociedade. 134 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 133a149_U2_C11_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 134 5/17/16 11:21 AM Num conhecido panfleto político de 1789, o aba- de Emmanuel Joseph Sieyès (1748-1836) resumiu a situação do terceiro estado: 1o O que é o terceiro estado? Tudo. 2o O que tem ele sido em nosso sistema po- lítico? Nada. 3o O que ele pretende? Ser alguma coisa. SIEYÈS, E. J. Qu’est-ce que c´est le Tiers état? Tradução do autor. Paris: Boucher, 2002. p. 1. crise econômica Desde meados do século XVIII, a França apresen- tava sinais de uma crise econômica crescente. Nessa época, a economia francesa era predomi- nantemente agrária. Cerca de 80% da população tra- balhava no campo, mas a produção de alimentos não atendia satisfatoriamente à demanda da sociedade. Problemas climáticos, como secas e inundações, agra- vavam essa situação desde 1784. Com a baixa produ- ção, o preço dos alimentos elevou-se e boa parte do povo enfrentou situação de miséria e fome. Além disto, a indústria têxtil do país passava por di- ficuldades devido à concorrência dos tecidos ingleses, que invadiram o mercado interno da França. Isso pro- vocou desemprego de operários do setor têxtil, aumen- tando o número de famintos e marginalizados urbanos. Paralelamente, a burguesia francesa ligada à manufatu- ra e ao comércio foi ficando cada vez mais descontente. Por fim, o governo francês atravessava uma crise financeira, desde o reinado de Luís XIV. As despesas do Estado eram muito superiores às receitas do tesou- ro público. Essa situação foi agravada pelas guerras em que o país se envolveu na Europa (Guerra dos Sete Anos) e na América (Guerra de Independência dos Es- tados Unidos). Para sanar o déficit crônico, o ministro das Finanças pretendia promover uma reforma tribu- tária que eliminasse a isenção de impostos concedida ao clero e à nobreza. Mas esses estamentos não es- tavam dispostos a perder seus tradicionais privilégios. Observe a gravura a seguir, de 1789, representando os três estados do Antigo Regime (clero, nobreza e trabalhadores): Interpretar fonte Os três estados • Descreva as três personagens representadas na gravura. Qual delas representa o clero, a nobreza e os traba- lhadores? Isso não vai durar para sempre, gravura popular francesa, de 1789, ilustrando as três ordens ou estados. Pertence ao acervo da Biblioteca Nacional da França, em Paris. a u to r ia d es C o n h eC id a . Ç a n ’d u r r a P a s to u jo u r . C .1 7 8 9 . 135CAPÍTULO 11 Revolução Francesa e Era Napoleônica 133a149_U2_C11_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 135 5/17/16 11:21 AM Revolução A longa trama revolucionária O processo revolucionário francês durou cerca de dez anos. Analisando sua com- plexa trama, os historiadores costumam identificar alguns momentos marcantes: • Revolta aristocrática; • Assembleia Nacional Constituinte; • Monarquia constitucional; • República e Convenção Nacional; • Governo do Diretório. Revolta aristocrática Para contornar a crise financeira, alguns membros do governo pensaram em aumentar a cobrança de impostos. Se não fosse possível aumentar a carga tributária do terceiro estado, então seria necessário cobrar impostos da nobreza e do clero. Para discutir as questões da crise, a nobreza, o clero e ministros da corte pressionaram o rei a convocar a Assembleia dos Estados Gerais, uma instituição parlamentar antiga que não se reunia há 175 anos. Participavam dela represen- tantes dos três estados. No seu sistema de votação tradicional, cada estado tinha direito a um voto. Desse modo, clero e nobreza, unidos, teriam sempre dois votos contra um do terceiro. A convocação ocorreu e os Estados Gerais se reuniram em maio de 1789. As consequências da convocação dos Estados Gerais revelaram-se devastadoras tanto para a nobreza e o clero como para o regime absolutista representado pelo rei. Isso ocorreu por duas razões básicas: • as forças conservadoras (do clero e da nobreza) subestimaram a capacidade polí- tica do terceiro estado; • a convocação coincidiu com um momento de grave crise econômica, fome e desemprego. A multidão de pobres do campo e das cidades estava desesperada. Assim, as eleições para a escolha dos deputados à Assembleia dos Esta- dos Gerais transcorreramem meio a grande agitação popular, que favoreceu os objetivos políticos do terceiro estado. Os representantes das diferentes ordens manifestavam suas reivindicações por meio dos Cadernos de Queixas (Cahiers de D—leances). Nesse momento, a burguesia aproveitou para divulgar seu pro- grama de reformas por meio de intensa propaganda. E as massas camponesas e urbanas também tiveram, pela primeira vez, espaço para demonstrar, em termos políticos, todo o seu descontentamento.2 assembleia Nacional constituinte Quando a Assembleia dos Estados Gerais se reuniu no palácio de Versalhes, logo na abertura dos trabalhos iniciou-se o conflito entre as ordens privilegiadas (nobreza e clero) e o terceiro estado. A nobreza e o clero queriam continuar a votar os projetos pelo sistema tradicional, isto é, um voto para cada ordem, inde- pendentemente do número de representantes. Mas o terceiro estado, que tinha 2 Cf. FLORENZANO, Modesto. As revoluções burguesas. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 35-36. 136 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 133a149_U2_C11_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 136 5/17/16 11:21 AM 1. De acordo com o artigo 14 da Constituição federal brasileira, o voto de cada ci- dadão é universal, direto, secreto e tem igual valor entre todos os eleitores. Você já tem título de eleitor? E as pessoas com quem você convive? 2. Como você escolhe seus candidatos? Após as eleições, você costuma acompa- nhar as atitudes dos eleitos? Investigando mais deputados que a nobreza e o clero, exigiu que a votação fosse realizada de forma individual, isto é, um voto para cada representante, o que tornaria possível a este grupo vencer e fazer valer suas decisões. Apoiados pelo rei, os deputados da nobreza e do clero recusaram a proposta do terceiro estado, e o impasse paralisou os trabalhos. Revoltados, os represen- tantes do terceiro estado se autoproclamaram Assembleia Nacional, em 17 de junho de 1789. Assim, afirmaram o princípio da soberania nacional contra a monarquia absoluta de direito divino. O rei Luís XVI reagiu ordenando o encerramento dos trabalhos. Porém, os representantes do terceiro estado se transferiram para um salão de jogos do palácio (que era utilizado pela nobreza). Nesse local improvisado, no dia 9 de julho, proclamaram-se Assembleia Nacional Constituinte. O objetivo era ela- borar uma Constituição para a França limitando o poder absoluto do rei. Esse episódio ficou conhecido como o Juramento do Jogo da Pela. pela: bola usada em antigo jogo que utilizava uma espécie de raquete para golpeá-la; provável ancestral do jogo de tênis e esportes afins. Juramento do Jogo da Pela. Obra de Jacques-Louis David de 1791, representando o dia em que os deputados do terceiro estado se reuniram no salão do Jogo da Pela, em Paris, em 20 de junho de 1789. Pertence ao acervo do Museu Nacional do Palácio de Versalhes, na França. ja C q u e s -L o u is d a v id . ju r a m e n to d o j o g o d a P e La . 1 7 9 1 . 137CAPÍTULO 11 Revolução Francesa e Era Napoleônica 133a149_U2_C11_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 137 5/17/16 11:21 AM tomada da Bastilha A situação política fugia do controle do governo. O rei Luís XVI tentou dominar a revolta organizando tropas para combater os motins realizados pelos membros do terceiro estado. No entanto, a rebelião popular já havia tomado conta das ruas de Paris. Um dos principais lemas repetidos pelos revolucionários era “Liberdade, igualdade e fraternidade”. No dia 14 de julho de 1789, uma multidão invadiu a antiga prisão da Bastilha, símbolo do poder absoluto do rei, onde ficavam presos os inimigos políticos da monarquia francesa. Libertaram os presos e apoderaram-se das armas ali estoca- das. De Paris, a revolta popular espalhou-se pela França. Sem força para dominar a rebelião, o rei Luís XVI foi obrigado a reconhecer a legitimidade da Assembleia Nacional Constituinte. Investigando • Que significados o lema “liberdade, igualdade e fraternidade” tem para você? Re- flita a partir de suas vivências. Fim dos privilégios feudais A Assembleia Constituinte se viu forçada a tomar atitudes imediatas para acalmar os ânimos dos grupos revolucionários que agiam por toda a França. Em várias regiões do país, alguns castelos foram incendiados e houve casos em que membros da nobreza foram punidos com tortura, enforcamento, esquarteja- mento etc. Esses episódios, que tiveram início no mês de julho, ficaram conheci- dos como Grande Medo. Na noite de 4 de agosto de 1789, a Assembleia Constituinte decretou o fim do regime feudal, abolindo os direitos senhoriais sobre os camponeses. Aboliu também os privilégios tributários do clero e da nobreza. Todos deveriam pagar impostos. No dia 26 de agosto, a Assembleia proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, cujos principais pontos eram: • o respeito pela dignidade das pessoas; • a liberdade de pensamento e opinião; • a igualdade dos cidadãos perante a lei; • o direito à propriedade individual; • o direito de resistência à opressão política. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão proclamava vários prin- cípios dos filósofos iluministas. Em termos políticos, sinalizava a transição dos sú- ditos do Antigo Regime para os cidadãos do Estado contemporâneo. Durante o Antigo Regime, os súditos eram educados para obedecer de forma incondicional ao soberano absolutista. Agora, os líderes da Revolução Francesa enfatizavam a formação de cidadãos que lutavam pelo direito de participar da vida pública in- fluenciando as decisões do governo. Redução do poder do clero Em 1790, a Assembleia Constituinte confiscou diversas terras da Igreja e subordinou o clero à autoridade do Estado. Essa medida foi tomada por meio de um documento chamado Constituição Civil do Clero. 138 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 133a149_U2_C11_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 138 5/17/16 11:21 AM O papa não aceitou as determinações da Assem- bleia Constituinte, e, com isso, os sacerdotes católicos tiveram duas opções: sair da França ou lutar contra os revolucionários. No entanto, muitos deles acataram as novas leis francesas e permaneceram no país. Os religiosos descontentes e vários membros da nobreza refugiaram-se no exterior e decidiram organizar um exército para reagir à revolução. Monarquia constitucional Em setembro de 1791, a Assembleia promulgou a Constituição da França. Com ela, a nação francesa tornava-se uma monarquia constitucional, na qual o rei perdia os “poderes absolutos”. Vejamos os princi- pais pontos da Constituição. • Organização social – estabelecimento da igualda- de jurídica entre todos os indivíduos, extinguindo- -se os privilégios do clero e da nobreza, mas com a manutenção da escravidão nas colônias. • Economia – instauração da liberdade de produção e de comércio, afastando-se a interferência do Esta- do e proibindo-se as greves dos trabalhadores. • Religião – garantia de liberdade de crença, separa- ção entre Estado e Igreja e nacionalização dos bens do clero. • Organização política – criação de três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) e estabelecimen- to da representatividade popular pelo voto. Os cida- dãos estavam divididos em “ativos” e “passivos”, sendo que apenas os ativos — por possuírem de- terminada renda — tinham o direito de votar. O rei seria o chefe do poder Executivo, mas não poderia contrariar as normas constitucionais. As mudanças trazidas pela Constituição não beneficia- ram as pessoas pobres e as mulheres, que foram excluídas dos direitos políticos (não podiam votar, nem ser votadas), embora representassem mais de 80% da população. Forças contrarrevolucionárias O rei Luís XVI, inconformado com a perda de poder, conspirava contra a revolução. Para isso, fa- zia contatos com nobres franceses que estavam no exterior e com os monarcas da Áustria e da Prússia. O objetivo era organizar um exército que invadisse a França e restabelecesse a monarquiaabsolutista. Pouco antes da promulgação da nova Constitui- ção, em julho de 1791, Luís XVI tentou fugir do país para se unir às forças contrárias à Revolução. Mas, durante a fuga, foi reconhecido e preso, sendo re- conduzido à capital francesa e mantido sob vigilância. O exército austro-prussiano invadiu a França, con- tando com o apoio secreto da família real, que transmitia segredos militares às tropas estrangeiras. Para defender o país, líderes revolucionários, como Danton e Marat, apelavam aos cidadãos para que lutassem em defesa da pátria. Em 20 de setembro de 1792, o exército invasor foi derrotado pelas tropas francesas na Batalha de Valmy. República e convenção Nacional A vitória contra os exércitos estrangeiros deu nova força aos revolucionários franceses. Os principais líde- res da revolução decidiram, então, proclamar a Repú- blica, o que ocorreu em 1792. Luís XVI foi mantido preso sob a acusação de traição à pátria. Com o novo sistema de governo, a Assembleia Legislativa foi dissolvida e criou-se a Convenção Na- cional. Sua principal missão era elaborar uma nova Constituição para a França, agora, de caráter republi- cano. Nessa época, surgiram os termos direita, cen- tro e esquerda que ainda hoje são utilizados para se referir a grupos políticos. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Carta iluminista que toma emprestada a imagem dos Dez Mandamentos. au to ri a d es C o n h eC id a . d eC La ra Çã o d o s d ir ei to s d o h o m em e d o C id a d ão . s éC u Lo X vi ii. m u se u d a C id a d e d e Pa ri s, m u se u C a rn av a Le t, Pa ri s, f ra n Ç a . 139CAPÍTULO 11 Revolução Francesa e Era Napoleônica 133a149_U2_C11_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 139 5/17/16 11:21 AM A morte de Marat é uma obra do artista neoclássico Jacques-Louis David. Na pintura, Marat foi repre- sentado como um mártir, que morreu em nome de um ideal. Esse líder jacobino foi assassina- do em 1793, durante o banho, por uma jovem girondina. David desenhou os mús- culos e tendões de Marat com base em estudos de esculturas greco-romanas, incutindo bele- za em um corpo sem vida. • Como o personagem foi repre- sentado? Descreva a obra. Interpretar fonte A morte de Marat Na Convenção, as forças políticas mais importan- tes eram: • os girondinos – representantes da alta burgue- sia (comerciantes, armadores, banqueiros etc.), defendiam posições moderadas, temendo que as camadas populares assumissem o controle da re- volução. Na sala de reunião, sentavam à direita da Presidência. • os jacobinos – representantes da pequena e mé- dia burguesia (profissionais liberais, lojistas, fun- cionários) e do proletariado de Paris, defendiam posições mais radicais e de interesse popular. Sentavam-se à esquerda da mesa da Presidência. • a planície – representantes de uma burguesia con- siderada oportunista, isto é, mudavam de posição conforme suas conveniências imediatas, embora, Guilhotina: instrumento de decapitação utilizado na Europa desde a Idade Média. Foi aperfeiçoado pelo Dr. Guillotin (1738-1814), que sugeriu sua utilização com os condenados à morte durante a Revolução Francesa. frequentemente, apoiassem os girondinos. Senta- vam-se ao centro da sala de reunião. Quando Luís XVI foi levado a julgamento, os girondinos procuraram defendê-lo, enquanto os ja- cobinos, liderados por Robespierre e Saint-Just, pre- gavam sua condenação à morte. Venceu a corrente jacobina, e o rei foi sentenciado à pena de morte, por conspirar contra a liberdade e a segurança da nação. Foi decapitado na guilhotina em janeiro de 1793. Alguns meses depois, a rainha Maria Antonie- ta foi também sentenciada à morte. A obra pertence ao acervo dos Museus Reais de Belas- -Artes da Bélgica. ja C q u e s -L o u is d a v id . a m o r t e d e m a r a t. 1 7 9 3 . 140 UNIDADE 2 Súdito e cidadão 133a149_U2_C11_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 140 5/17/16 11:21 AM Ditadura jacobina A execução do rei provocou, internamente, a re- volta dos girondinos — que defendiam o monarca — e, no exterior, a reorganização das forças estrangeiras partidárias do absolutismo. Para enfrentar essa reação, os jacobinos — que assumiram o poder, fortalecidos pelo apoio popular — criaram uma série de órgãos encarregados da de- fesa da revolução, entre eles o Comitê de Salvação Pública, responsável pelo controle do exército e da administração do país, e o Tribunal Revolucionário, encarregado de vigiar, prender e punir os traidores da causa revolucionária. O Tribunal foi responsável pela morte de milhares de pessoas consideradas inimigas da revolução ou suspeitas de conspirar contra ela. Alguns historiadores calculam que tenham sido executadas entre 40 e 50 mil pessoas. Nessa fase, também conhecida como Terror, insta- lou-se uma ditadura dos jacobinos, sob a liderança de Robespierre. Esse período foi considerado o mais radical da Revolução e também aquele que implementou al- gumas das propostas mais ousadas dos revolucionários. O governo tabelou preços de alimentos, criou impostos sobre os mais ricos, abriu escolas públicas, instituiu o di- vórcio, aboliu a escravidão nas colônias francesas etc. Durante o governo de Robespierre, entrou em vi- gor a nova Constituição da República (1793), que assegurava o voto universal masculino, o direito de rebelião, de trabalho e de subsistência. Continha tam- bém a declaração oficial de que o bem comum — a felicidade de todos — era a finalidade do governo. Aliviadas as tensões decorrentes da ameaça es- trangeira, os girondinos e o grupo da planície uniram- -se contra o governo de Robespierre. Sem o necessá- rio apoio político, Robespierre não teve condições de reagir a seus opositores, sendo preso em 1794. Logo depois, foi guilhotinado, sem julgamento. Governo do Diretório Depois que Robespierre foi tirado do poder, a Convenção Nacional passou a ser controlada pelos gi- rondinos. Com nova orientação política, essa conven- ção decidiu elaborar outra Constituição para a França. Concluída em 1795, a nova Constituição esta- beleceu a continuidade do regime republicano, que seria controlado pelo Diretório, composto de cinco membros eleitos pelo Poder Legislativo. O Diretório vigorou de 1795 a 1799, período em que tentou conter o descontentamento popular e re- forçar o controle político da burguesia sobre o país. Paralelamente, o território francês voltou a ser ame- açado pelas forças abso- lutistas vizinhas. Nesse período, o jovem general Napoleão Bonaparte ga- nhava prestígio por seu desempenho militar nas lutas em defesa do go- verno francês. Em 10 de novem- bro de 1799 (18 Brumá- rio, pelo calendário da Revolução), Napoleão Bonaparte, com apoio do Exército e da burgue- sia, dissolveu o Diretório e estabeleceu um novo governo, denominado Consulado. Esse episódio ficou conhecido como Golpe de 18 Brumário. O novo governo encerrou o ciclo revolucionário. calendário da Revolu- ção: instituído em 1793 pelos revolucionários franceses. O ano I come- çou com o término da monarquia na França (22 de setembro de 1792). Os meses foram dividi- dos a partir dessa data e nomeados de acordo com as características das estações do ano no hemisfério Norte. Por exemplo: brumaire (brumoso), segundo mês do calendário, de 23 de outubro a 21 de novem- bro; nivôse (nevoso), quarto mês, de 22 de de- zembro a 21 de janeiro; ventôse (ventoso), sexto mês, de 19 de fevereiro a 20 de março. fr a n Ço is b o u Ch ot . “ Le d iX h u if b ru m a ir e” , 1 0 n o ve m br e 17 99 . b o n a Pa rt e au C o n se it d es C in q -C en ts à s a in t- CL o u d. s éC u Lo X iX . Bonaparte no Conselho dos 500, em 10 de novembro de 1799. Óleo sobre tela de François Bouchot representando o golpe de Estado do 18 Brumário que colocou