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1 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES CURSO DE PEDAGOGIA Disciplina: LITERATURA INFANTO-JUVENIL ROTEIRO JOGRAL/TEATRAL – (Mário Quintanta) Cenário: Uma mesa com 5 cadeira (estilo mesa de bar). Integrantes: 5 alunos vestidos de preto. - Os componentes, um ao lado do outro, lêem: Aluno 1 Mário Quintana nasceu em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Nasceu no rigor do inverno, temperatura de 01 grau e, ainda por cima, prematuramente. Filho de pai farmacêutico e mãe professora de francês. Na infância teve de tudo: escarlatina, crupe, varicela e dizia que só continuava vivendo por pura teimosia e que a teimosia dele começou ali, quando nasceu e agüentou aquele frio todo. Aluno 2 Não sei se tive infância. Fui um menino doente. Um menino por trás de uma janela (...) Como tive uma infância muita presa, quando pude, soltei-me no mundo. Aluno 1 Ainda sobre a infância: Aluno 3 Com o narizinho achatado contra a vidraça, a meninazinha olha a chuva que cai. Olha agora o vagabundo que vai passando sob a chuva. É como se olhasse um estranho peixe no aquário. E ele lhe sorri sem dente nenhum. Que bonito! Os sorrisos mais sinceros são os sorrisos desdentados. Aluno 1 Até 1917 ficou em Alegrete. Trabalhava na farmácia da família e completou os estudos primários. Com 13 anos foi para o Colégio Militar em regime de internato onde fez suas primeiras produções literárias: 2 Aluno 4 O poeta adolescente Varado de súbito amor Inventa um bandolim azul de cordas de vento E canta! O poeta adolescente traz no bolso O soneto que fez ontem à noite Só isso basta para justificar a vida O soneto não presta, a vida é boa. Os sinos chamam para o amor! Aluno 1 Em 1924 aos 18 anos ele abandona a escola para desgosto do pai farmacêutico que queria um filho doutor. Vai trabalhar na livraria Globo, para ficar mais perto dos livros que gostaria de ler. Aluno 5 A vida é tão bela que chega a dar medo. Não o medo que paralisa e gela, Estátua súbita, Mas esse medo fascinante e fremente de curiosidade Que faz o jovem felino seguir para frente Farejando o vento ao sair, a primeira vez da gruta. Medo que ofusca: luz! Cumplicimente! As folhas contam-te um segredo Velho como o mundo Adolescente, olha! A vida é nova ... A vida é nova e anda nua, vestida apenas com o teu desejo! Aluno 1 Um ano depois o pai o obriga a voltar para Alegrete e trabalhar na farmácia da família. Nessa época ele criava versos com regularidade e sua mãe registrava todos num caderninho. Um ano após a sua volta, sua mãe morre de câncer. 3 Jovem, sem profissão definida, sem tino para negócios, Quintana com 21 anos perde o pai e nada mais o prendia em Alegrete. Aluno 3 Adeus cidade maldita vou sepultar-me no céu! Aluno 1 E Quintana decide viver sob os céus de Porto Alegre. Aluno 2 Olho o mapa da cidade Como que examinasse a anatomia Do próprio corpo (é nem que fosse o meu corpo) Sinto uma dor infinita Das ruas de Porto Alegre Onde jamais passei... Há tanta esquina esquisita, Tanta nuança de paredes, Há tanta moça bonita Nas ruas que não andei (e há uma rua encantada que nem em sonho sonhei...) Aluno 5 quando eu for um dia desses, poeira ou folha levada no vento da madrugada serei um pouco do nada invisível delicioso que faz com que o teu ar pareça mais um olhar suave mistério amoroso, cidade do meu andar (deste já tão longo andar) 4 e talvez do meu repouso. Aluno 1 Quando perguntavam a Mário porque ele saíra de Alegrete ele respondia: Aluno 4 Lá que não é estancieiro é boi. Como eu não tenho vocação para nenhuma das duas coisas, vim para Porto Alegre. Aluno 1 Em 1929 foi trabalhar na redação do Estado do Rio Grande, mas aí, em 1930, milhares de voluntários começaram a se alistar para combater a favor de Vargas e contra o governo central e Quintana resumiu seu sentimento: Aluno 3 Me deu um ataque de patriotismo. Aluno 1 Mário veio com as forças revolucionárias para o Rio, na época Capital Federal. Ficou seis meses no Rio e dizem que entregou-se mais à boemia e à poesia do que à revolução: Aluno 5 Nos puseram para policiar o mangue, a zona de prostituição. Eu tinha ido lá para morrer pela pátria, ora bolas! Aluno 1 Volta para Porto Alegre, para a redação do Estado do Rio Grande. Mas, em 1935 retorna ao Rio e vai trabalhar na Gazeta de Notícias, onde conheceu Cecília Meirelles que se tornou sua grande amiga e, por quem na realidade, alimentou uma bela e platônica paixão: Aluno 2 Senhora eu vos amo tanto que até por vosso marido me dá um certo quebranto! - Os componentes vão se dirigindo para a mesa do bar – Aluno 1 Mário adorava uma bebida e seu inseparável cigarro ... Aluno 4 Quem bebe por desgosto é um cretino; só se deve beber por gosto. 5 Aluno 1 Nessa época ele dizia que na verdade não bebia, que havia tomado apenas um porre e que esse porre durara 25 anos! E numa manhã, durante esse famoso porre, um colega da redação o viu entornando um copo no bar e perguntou: Aluno 3 Mário, já bebendo? (e Quintana respondeu:) Aluno 4 Já não, ainda!. Aluno 1 Sobre o cigarro ele dizia: Aluno 2 Desconfia dos que não fumam esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar. Aluno 1 Um dia ele foi espontaneamente a Clinica Pinel, fez um tratamento contra o alcoolismo e nunca mais bebeu. O cigarro continuou seu companheiro inseparável, até a morte. Aluno 5 Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, Nem desconfia que se acha conosco desde o inicio das eras. Pensa que está somente afogando problemas dele, João da Silva ... Ele está bebendo à milenar inquietação do mundo. - O grupo se levanta da mesa do bar - Aluno 1 Começou a fazer traduções de clássicos franceses e ingleses para a Editora Globo. Autores como Proust, Balzac, Voltaire, Virginia Woolf tiveram suas primeiras versões no Brasil, pelas mãos de Mário Quintana. Ele traduzia o 6º volume de Em busca do tempo perdido de Proust, A Fugitiva. Numa noite ele saiu para beber e esqueceu a janela do quarto da pensão onde morava aberta. Um vendaval levou as folhas de A Fugitiva. Mais de 200 laudas espalharam-se nos quintais vizinhos. Na manhã 6 seguinte Mário chegou cabisbaixo no escritório da Editora Globo. Lá, encontrando o editor Henrique Bertoso, comunicou: Aluno 3 Seu Henrique, a fugitiva fugiu pela janela! Aluno 1 Mário viveu quase a vida toda em hotéis. Gostava de casas com o pé direito alto, de modo que só residia em casas antigas, hotéis antigos. Morou no hotel Magestic por 13 anos. Quando o hotel virou centro cultural, buscou outro hotel. Aluno 4 Eu moro em mim mesmo. Porque a arquitetura nova não faz casas velhas? Não riam, por favor, porque o poema é triste. Aluno 1 Ele nunca se casou. Permaneceu solteiro a vida inteira... Aluno 2 Prefiro a esperança de muitas, do que a desilusão de uma só! Aluno 1 Mas teve grandes paixões e várias musas: Aluno 3 O sumo bem só no ideal perdura. Ah! Quanta vez a vida nos revela Que a saudade da amada criatura É bem melhor do que a presença dela! Aluno 1 Ele tinha, na parede do quarto, uma foto de Greta Garbo. Aluno 5 O teu sorriso é imemorial como as pirâmides e puro como a flor que abriu na manhã de hoje. Aluno 1 Uma vez quebrou a cama do quarto enquanto dormia e sonhava com Sofia Loren. Isso sem falar na apaixonada admiração que tinha por Cecília Meirelles.7 Aluno 4 Nem tudo está perdido enquanto nossos lábios não esquecerem seu nome: Cecília ...! Aluno 1 E seu deslumbramento pela beleza de Bruna Lombardi: Aluno 3 Ela é bonita demais, aquilo é até covardia. E é portátil! Pois é ... Não sei o que ela quer comigo, mas eu estou cheio de más intenções. Aluno 2 Eu sempre me apaixonei, mas a paixão é incompatível com o amor. O apaixonado é ciumento, é insuportável. O amor é um sentimento diferente. Aluno 1 Discreto, suas verdadeiras amadas nunca foram nomeadas. Aluno 5 Quando faço um poema de amor e me perguntam quem ela é, que bobagem, ela muda, mas a poesia continua! Se tu me amas, amam-me baixinho. Não grites de cima dos telhados Deixe em paz os passarinhos Deixe em paz a mim! Se me queres, Enfim, Tem que ser bem devagarinho, amada. Que a vida é breve, e o amor mais breve ainda! Aluno 1 A partir da década de 60, Mário virou um sucesso. Ficou popular e viveu a gloria do reconhecimento. A publicação de Antologia Poética, em 66, foi seguida de prêmios, homenagens, entrevistas. Aluno 4 O que eu tenho mais medo é que me façam perguntas intimas, isso me deixa furioso por um simples motivo: é uma questão de pudor. Por respeito aos outros e por respeito próprio, a gente não desnuda o corpo, muito menos a alma, que é muito mais condolorosa. A minha vida particular já está implícita nos meus poemas. 8 Aluno 3 Vida é um incêndio, nela Dançamos salamandras mágicas Que importa restarem cinzas Se a chama foi alta e bela Aluno 1 Ele já tinha quase 70 anos, quando uma sobrinha-neta, Helena Quintana, passou a cuidar dele. Mário gostava de ficar deitado no escuro, quieto e pedia a Helena que ficasse com ele. Aluno 3 Mas tio, o que eu vou ficar fazendo aqui, nessa escuridão? Aluno 2 Senta aí e simplesmente me adora! Aluno 5 Este quarto de enfermo, tão deserto. De tudo, pois nem livros eu já leio. É a própria vida e eu a deixei no meio Como um romance que ficasse aberto ... Que me importa esse quarto, em que desperto. Como se despertasse em quarto alheio? Eu olho, é o céu! Imensamente perto O céu que me descansa como um seio Pois só o céu é que está perto, sim Tão perto e tão amigo que parece Um grande olhar azul pousado em mim A morte deveria ser assim: Um céu que pouco a pouco anoitece E a gente nem soubesse que era o fim! Aluno 1 Lendo a poesia dele, percebe-se que a infância é um tema que sempre reaparece, ela alimenta toda a sua obra. É como se ele a recriasse o tempo todo. Aliando a ela reflexões sobre o cotidiano, o tempo, a morte. Mário é, também, poeticamente irônico. 9 Aluno 3 É bom ser poeta, é bom ser criança (...) Se alguém consegue conservar por toda a vida a criança que tem em si, esse alguém será realizado e nunca envelhecerá. Por isso, costumo dizer que o poeta não tem idade. Aluno 2 Vovô ganhou mais um dia. Sentado na copa, de pijamas e chinelas, enrola o primeiro cigarro e espera o gostoso café com leite. Lili, matinal como um passarinho, também espera o café com leite tal qual vovô. Pois só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia a dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos ... Aluno 4 Recordo ainda ... e nada mais importa .. Aqueles dias de uma luz tão mansa Que me deixaram, sempre de lembrança. Algum brinquedo novo à minha porta ... Mas veio o vento de desesperança Soprando cinzas pela noite morta! E eu pendurei na galharia torta Todos os meus brinquedos de criança. Estrada afora após segui ... Mas aí, Embora idade e senso eu aparente, Não vos iluda o velho que aqui vai: Eu quero os meus brinquedos novamente! Sou um pobre menino ... acreditai Que envelheceu, um dia, de repente! Aluno 1 O velho no espelho Aluno 5 Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse que me olha e é tão mais velho do que eu? 10 Porém seu rosto ... é cada vez menos estranho ... Meu Deus, meu Deus ... parece meu velho pai que já morreu! Como pude ficarmos assim? Nosso olhar duro interroga: O que fizeste de mim! Eu, pai? Tu é que me invadistes Lentamente, ruga a ruga. Que importa?eu sou ainda Aquele mesmo menino teimoso de sempre E os teus planos, enfim lá se foram por terra. Mas sei que vi um dia, a longa, a inútil guerra Vi, sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste. Aluno 1 Mário morreu em cinco de maio de 1994 aos 88 anos. Pouca gente notou que o “poetinha”, apelido dado por Vinícius de Moraes, tinha ido. O país ainda chorava a morte de Ayrton Senna, que morrera quatro dias antes. Estava certo o povo por não chorar por ele, pois um poeta nunca morre. Três dias antes de morrer, Mário Quintana encontrou inspiração para escrever sua última frase e deu de presente as enfermeiras com uma letra miúda e muito nítida: Aluno 5 “ a maior dor do mundo é pente com dor de dente!” Aluno 1 Sobre a morte ele escreveu: Aluno 2 Quando eu morrer e no frescor da lua Da casa nova me quedar a sós, Deixai-me em paz na minha quieta rua Nada mais quero com nenhum de vós! Aluno 5 Quero é ficar com alguns poemas tortos Que andei tentando endireitar em vão ... Que lindo, a eternidade, de amigos mortos, 11 Para as torturas lentas da expressão! ... Aluno 4 Eu levarei comigo as madrugadas, Pôr de sóis, algum luar, asas em bando, Mais o rir das primeiras namoradas ... Aluno 3 E um dia a morte há de fitar com espanto Os fios de vida que eu urdi, cantando, Na orla negra, do seu negro manto ... Aluno 5 Um dia, pronto, me acabo Pois seja o que tem de ser Morrer que me importa? ... o diabo É deixar de viver! Todos - Estava certo o povo em não chorar por ele, pois um poeta nunca morre! --------------------------------------------------------- REFERÊNCIAS QUINTANA, Mário. Poesias. 4 ed. Porto Alegre: Editora Globo, 1977. QUINTANA, Mário. Da preguiça como método de trabalho. 2 ed. Rio e Janeiro: Editora Globo, 1987. QUINTANA, Mário. Os melhores poemas de Mário Quintana seleção e apresentação por Fausto Cunha. São Paulo: Editora Globo, 1983. UCAM - maio de 2006