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,
•
I. ~
Martins Fontes
HERv£\8EAUCHESNE
história da
psicopa ologia
,.1.
As Origens Sociais da Ditadura
e da Democracia
Barrington Moore Jr.
Os Problemas da Estética
Luigi Pareyson
Teoria Pura do Direito
Hans Kelsen
A Idéia de Lei
Dennis Lioyd
Ciência e Comportamento Humano
B. F. Skinner
Teoria da Literatura
Terry Eagleton
Manual de Psiquiatria
G. Campailla
Arte e Ilusão
E. H. Gombrich
Introdução à Economia Positiva
Richard G. Lipsey
Arqultelura Vlvenclada
Steen Eiler Rasmussen
Os Grandes Slslemas do' Direito
Conlemporâneo
René David
O Conto Popular
Michele Simonsen
Gramática Grega
Antônio Freire
O Tratamento do Alcoolismo
Griffith Edwards
A Linguagem da Propaganda
Torben. Vestergaard
e Kim Schrelder
O Processo de Aconselhamenlo
Lewis E. Patterson
e Sheldon Eisenberg
A Produção do Texto
Michael Riffaterre
História da Psicopatologla
Hervé Beauchesne
Saber Ver fi Arquitetura
Bruno Zevi
Usos da Linguagem: Problemas e
Técnicas na l)rodução Oral e Escritu
Francis Vanoye
Exercícios de Laboratório em Psicologia
Mario A. A. Guidi .
e Herma B. Bauermeister
O Processo da Comunicação
David K. Berlo
Os Pioneiros do Desenho Moderno
Nikolaus Pevsner
Os Gêneros do Disc.urso
Tzvetan Todorov
O Lado Humano da Empresa
Douglas McGregor
Origens da Arquitetura Moderna e do Dcsign
Nikolaus Pevsner
O Homem: Uma Introdução à Antropologia
Ralph Linton
A Cidade Antiga
Fustel de Coulanges
As Palavras e as Coisas
Michel Foucault
A Cida.:!.;o.na História
Lewis Murnford
Estilística da Língl;a Portuguesa
M. Rodrigues l.apa
As Etapas do Pensamento Sodológlco
Raymond Aron
Panorama da Arquitetura Ocidental
Nikolaus Pevsner
A Verdade na História
Oscar Handlin
A Linguagem Clássicã da Arquitetura
John Summerson
Homem, Cultura e Sociedade
Harry L. Shapiro .
História da Imprensa no Brasil
Nelson Werneck Sodré
,
B
-{ b) A psicopatologia infantil .
t c) A psicopatologia desenvolve-se .
Uma lendência para a unidade .
I. A unidade da psicologia, o lugar da psicopatologia .
2. J. Lacan, psicopatologia e psicanálise .
3. A busca de critérios comuns .
162
163
164
164
165
166
",
•
I
l
Conclusão ....•.. 169
Indicações bibliográficas sumárias 173
,..
Introdu~~ão
A psi!;opatologiautilizatodosos métodospsi:
col6gicospassiveis,e aplica..,. a homensvi-
vos, para os quais estão ~ jogo as lll!Üoris
realidades hwnanaS,- a vida- e a morte, a saú..
de e a doença.a liberdade• a prisão,O amor
e O trabalho. Por issoela é uma 6i:ola ine-
gável de psicologia concreta e viVt;~,
(O. lAGACHE, La méthodepalhalogique,
• OeuVIT!S completes, Paris,PUF, 1977.1984,
v. p. 267.)
A psicopatologia tem uma história curta, e sua própria existência como
subdisciplina.da psicologia é questionada. Formam-na correntes freqüen-
temente opostas que desejariam representar sua totalidade. No momento
atual, para alguns, ela já não tem razão de existir, quer por pressupor
um fato mental patológico, que é negado, quer por parecer apagar-se em
proveito da psicologia clínica ou da psiquiatria, que representam dois cam-
pos de prática distintos, pelo menos na França. As divergências, as inter-
ferências com a psiquiatria, a psicanálise e a psicologia cllnica, e as
oposições marcam um período de menos de um século - daí que todo
distanciamento, em busca de perspectiva, fica difícil e poderia fazer hesi-
tar em apresentar uma história da psicopatologia. Na verdade, é necessá-
rio compreender de onde podem ter nascido as posições atuais. Nosso
objetivo é permitir a estudantes, bem cc,mo a profissionais, situarem-se
em meio a posições teóricas apresentadas ora de maneira contraditória,
ora como inovações, para assim compre<mderem como uma reflexão psi-
copatológica pode esclarecer uma prática. Os riscos, entretanto, são inú-
meros, e esperamos poder evitar alguns deles.
O termo "RsicopatolollliL' foi empregado inicialmente em alemão em
1878 por EmminghajiS,Se8undo P. Pichot (e W. JanzarIk, citado por es-
se autor), mas equivalia então à psiquiatria clínica. A psicopatologia nas-
--
.":'i'
;.;
,Jiofl,
HISTÓRIA DA PSICOPA TOLOGIA tNTRODUÇÃO
3
ce mais tarde como método e disciplina com características próprias, Na
França, no início do sécul~l. Théodulc Ribot criou com a psicologia
científica o método palo/ógic.o, que permite compreender a psicologia nor-
mal através do estudo do fato patológico, Trata-se. então de umapsico/d-
gia pa!pJJigic.a, ramo da psicologia científica, oposta à psicologia
experíinentalou.à psicologia genética. Na Sorbonne, os professores eram
titulares de uma cátedra de psicologia patológica, c o laboratório conti-
nuou denominando-se Laboratório de Psicologia Patológica. Entretan-
tO, na França, a expressã6 psicologia patológica foi abandonada a favor
de psicopatologia, a fim de evitar, por um lado, as ambigüidades (psico-
logia do patológico ou patologia do psicológico, psicologia do normal e
do patológico) c, por outro, a ,referência a uma única perspectiva. a de
, Ribot.
Mais tarde, emJ2,L1. ria Alemanha, ao publicar seu livro AlIgemein
Psychopath%gie (Psicopatologia geral), ~rs deu origem à-llli.:
copatologia como tal. Ele representava uma corrente muito'diferente da,
de RibOt..Pode-se objetar que a co.mpreensão psicológica da. doença mental m~JY
seja bem anterior, de quando se passou a considerar a doença mental co- 01"".
mo uma entidade: tratava-se com freqüência 'de especulacões fllosóficas,-V
quando a psicologia ainda não estava indivLdJl-ªlizada"jl. patologia men-
tal;Inesmo guandon,ão era reconhecida, 3Y9u ouiló.S.ô1Qs a tomarem
posição e os médicos a ,tratarem de aClentes atingidos siquicamente. Nes-
sa me ida, a psicopato ogla faria parte da histórIa das idéias e da rrdici-
na. Só podem'os apresentar essa história muito rapidamente, na medida
em que precedeu a existência de uma psicologia vinculada aos fatos pato-
lógi
Antes de Jas ers ,â, Fmld também f;tlara de psicopatologia: basta
cita célebre Psicopato/agia dq yida coridim:lQ U2.Q.l.}. De fato, tratava~
se mais de uma "clínica" psicanalítica, a qual se criava num campo das
neuroses: o termo psicopatologia foi utilizado em conformidade com o
uso alemão desde Emminghaus, Segundo suas próprias palavras, na Con-
tribuição para a história do movimento psicana/ltico, Freud, "médico a
contragosto" e neurologista, desenvolveu, primeiro graças ao método ca-
tártico, depois às livres associações, sua concepção da etiologia sexual das.
~. Num "esplêndido isolamento", ele descobriu pouco a pouco
o alcance de suas idéias e utilizou teorias adotadas da neu'rologia. Em 1907.
uma "mudança brusca e completa" .resultou do encontro com a escola
de Zurique (Bleuler. Jung, Biswanger, Eitington ... ); o movimento psica'-
nalítico adquiriu um impulso quc ultrapassou os limites do circulo
psicanalítico de Viena, fundado em 1902; comcçou a ser publicada a re-
vista Jahrbuc.h für psychoana/ytisc.he und psyc.hopath%gische Forschung
(Anuário da investigação psicanalítica e psicopatológica); sobretudo a teo-
ria psicanalítica viu-se confrontada pclo conjunto do campo psiquiátrico "
e psicológico. Progressivamente, mediante remodelações de tópicos e pul-
sões, Freudelaborou lima concepção da vida psíquica, do homem nor-
mal a partir do patológico: "a psicologia da profundidade descoberta pela
psicanálise era, de fato, a psicologia da vida psíquica normal" (Um estu-'
do autob/ogrdfico)._A-ºlmen.s~opslçQl1atl)ló.g!ca"I}º senti~o em .qu~ a en;,
tendemos agora, consolic;lou-$,c;,.•Freud tentou uma Metapslc%gla na qual
"cada processo psíquico é considerado de acordo com as'três coordena-
das da dinãmica, da tópica e da economia". Suas espe.culações apoiaram-se
na clínica e nas idéias de Fechner, Schopenhaller e Nl.etzsche; a partir daí,
operou-se uma "penetração pacífica" da psiquiatria alemã. A teoria psi-
canalítica teve uma imPortância consideráyel para a psicQpatolQgia;"por
isso talvez surpreer.da o fato de não colocarmos Freud entre os fundado-
res dessa disciplina. Cronologicamente, os encontros de 1906-1907 com
a escola de Zurique tiveram uma importãncia que, comJung e Bleu1er,
permitiram uma orienta .!io verdadeiramente psicopatológlcá. Entr:~an-
to, o pr pno reud rejeitou a psicologi~ de seu temp?_ e ~e~;ou edificar
uma nova que conduzisse "para o outro lado da conSClenCla • propondo
que se falasse de "apresentação metapsiso1ógica" qu~ndo ~e conse~uisse
"descrever um processo psíquico em suas relações dmãmlcas, tÓPICas e
econõmicas". As hipóteses teóricas, metapsicológicas, que ele ,formulou ,
tinham por finalidade aprofundar o sisteina psicanaUtico. Em conseqüên-
cia, a psicanálise conheceu um grande desenvolvimento e estende~-se a
numerosos campos. Aproximações fecundas foram feitas com a pSicolo-
gia individual e de grupo, com as perspectivas genéticas e até mesmo bio-
lógicas. Entretanto, num "retorno a Freud", psicanalist.as de!,!unciaram
todo psicologismo (como o de uma corrente da ~slcanáltse n?rt~-
americana). Se era impossível deixar de reconhecer a Imensa contribUI-
ção da psicanálise para a psicopatologia, tampouco era llcito confund~r
a sico o . com a psicanálise~que é uma teoria formulada"'\ ,partir
a clínica psicanalítica. I "
Existem relações ambíguas e interferências com a psiquiatria. A gran-
de maioria dos sico atolo istas eram médicos si uiatras. Théodule.BJ.:
bot era um filó~oJ,Q..qlluci!ia- ~~e.tQ.à"'patologia
ríll:ntitl. Aconselhava seus alunos a fazerem estudos medlcos; e eles aca-
tavam. As escolas de psicanálise tambétj1 davam freqüentemente o mes-
mo conselho. Assim, até uma época rec:::nte, quase todos os professores
d~)atoiOg(iJem faculdades de Let.ras ..eram. médicos e mantinham
vín ..es.u:eitos com-~v.i.ços-ubiversitMÍQs de psiquiatria I; Com a
existência de um ensino específico de psicologia e o reconhecimento da
profissão de psicólogo em numerosos países, a situ.ação'nem por .iss0.n-
cou mais esclarecida, visto que problemas estatutáriOS ou econômicos In-
terferiram nos problemas teóricos. Na França, os psicólogos que possuíam
1, É, por exemplo, o caso do Laboratório de Psicologia Patol6gic,a da Sorbonne. ~m
a cátedra de doenças do encéfalo e do sistema nervoso no hospital Samte ..Anne em Parts.
--~
s
INTRODUÇÃO
clínico de maneira não exclusiva. Do mesmo modo. as referenclas do
são exclusivamente pslcanaUtlcas. tendo estas uma sltuaçllo cUnlca orlll.
nal e um campo que não é outro senão o da patologia.
Assim situada a pSicopatologia, sua história apresenta-se da seguin-
te maneira. Suas grigens, no princípio deste livro, mostram sobretudo o
modo como abor ou e depois reconheceu o fato patológico. procurando
inseri.lo em sistemas explicativos. É imposs(vel evocar todas as represen-
tações da doença mental. na literatura ou na arte. por exemplo. e ainda
menos determinar o lugar que o fato psicológico e patológico ocupa nos
diversos sistemas filomfkos. Os sistemas médico-filosóficos. depois mé-
dicos. são mencionados na medida em que puderam ser subseqüentemen-
te retomados ou conservam certa atualidade. Existiram. em cada época,
intuições cUnicas 'e uma compreensão psicológica dinâmica. mas elas fo-
ram rapidamente retomadas nas especulações e adquiriram a rigidez de
sistemas. O nascimenlo da psico atologia ocorre c.Q..mo nascimento de'
uma slcologia clen I I a o mesmo modo ue a doença mental foi iso-
lada das ou ras doenças com a me Icma cient Ica. ou seja, a partir_de
uma observação de fatos que permitiu a elaboração 1Ia te.oJ!l!.~ da
PilliTIsa nos fatos da cO.llflr.maç.ão_de.um.sjstema Rreestabelecido, como
faziam os mé9l-c~oS_q.uese insJ:Ú.!:!lvamem sistemaSJnédic9~ilosót:iços). A
esí5êcificação da filosofia. da medicina e da psicolegia não impede a
existência de correntes distintas. de modo que. com uma certa esque-
matização. individualizaram-se as correntes organicista, fenomenológica.
psicanalltica e psicossociológica. Existiram. porém. vínculos entre essas
correntes. seja pelo fato de umas decorrerem das outras, como a cultura-
lista americana derivoU da psicanÍ!lise. seja porque elas se enriqueceram
através de encontros ,ossíveis, de localizar. como na Suíça. no célebre hos-
pital de Burghõizli ou ainda em Berlim ou em Viena. Na época atual, o
desenvolvimento de diferentes correntes c conceituações. e a extensllo a
campos específicos (psicossomática. psicopatologia infantiL .. ) trazem a
possibilidade de uma ruptura entre as diferentes tendências. até mesmo
do completo desaparecimento de todas as referências psicopatolqgicas:
é o caso da psicossociologia, em que o fato patOlógico perde tode o va-
lor, ou. ainda. o de concepções puramerlte biológicas. EntretaniÕ: se a
psicopatologia é encarregada da elaboraç'ão da teoria e a psiquiatria, de
sua aplicação'. fic"a difícil na 'prática separar as duas. da mesma forma
que é arbitrário díssociar uma atitude compreensiva de seu efeito psícote-
rápico. A multiplicidade das referências teóricas não impede a unidade
de um encaminhamento psicopatológico.,tendo em vista a compreensão
de fatos patológicos. e,este. para chegar li um nível explicativo. necessita
com freqüência da integração de métodos distintos do clínico. Um exem-
plo é a utilização de testes. derivados da psicologia diferencial. /1
A apresentação de diversas correntes prevalece. por preocupações de 'f
clareza. sobre a apresentação cronológica mais útil, se se trata de uma
HISTÓRIA DA PSICOPATOLOGIA
lima reflexão e lima postura psicopatológica preferiam, com freqüência.
intitular-se psicólogos c1inicos, referindo.se desse modo preferencialmente "
ao método que utilizavam. Foi por isso.que. fora dO.s meios especializa. ~1~.'!).',
dos. chegou-se a pensar que a Rsic[!satplpg;a (quando men,os em razã(h 1J"I' ~.
da palavra "patologia") fosse exc usivamente da' a,lç.ada médip -=-:Y
Apresentar uma história da psicopatologia obrigãã,situar essa disci- ' I
plina no seio 'da 'psicologia e em relação a disciplinas afins com as ~
laços estreitos foram criados e continuam sendo mantidos. JE:Rsicopato-
logia pode ser d.efiDida simplesmente. nesse 'contexto. como o ramo da_
psicologia que consiste no estudo dos fenomenos patológicos. por o ..o.sv
ção aJ!rn iQ&i.a...I.Qcia~ a cnan a nor.llLa J amma ou geral; Entre.
tanto. essa definição supõe que o fato patológico merece. enquanto tal,
ser estudado e possui originalidade suficientê. Ora,' os estudos psicopato~
I..é.gicosel sobret"udo, a 'psicanálisê mostram que não exisJ.ecorre o" difc-
r'tnç~dical entre o normal e o patológico; mas isso não significa
imP11citamente que a patologia não exista, mesmo que St. recuse a designá- .~,.
la assim e se queira reduzi-la a um fenômeno social, como o fazem, numa
atitude extrema, certas teorias psicossociológicas. A psic'opatQlogia pode
englobar o estudo psicológico da doença mental e as disfu e de indiví-
duos consIderados normais. ma e lnlção amp a do campo patológico
permite. entre outras..colSãs, realizar a ambição de Ribot:' on ecer o un
~ionament.O...Pili:.ol.6gkoJl,o.rmj\1 gracas â sua pi!Q1o@ Co ocado '!ante
e um indivíduo doentc. o psicopatologista emprega com freqüência um
método clinico que pode ser oposto ao método experimental: quer com.
preender um indivíduo numa situação global em que ele próprio está im-
plicado e não num laboratório. Entretanto. o método clinico não é
exclusivo. teoricamente. tanto mais que o psicopatologista. indo além dà
compreensão •.tenta explicar o plurideterminismo da patologia: a experi.
'mentação e a estatística têm: então um lugar. Há psicólogos que se siJuam
nessa perspectiva.
A psicologia clinica2• nascida com o método clínico nos Estados Uni-
dos. onde Healy e W. James sofreram a influência da psicopatologia fran-
cesa; passou, ao desenvolver-se. a ser cada vez mais influenciada peÍa
psicanálise e a utilizar postulados de uma dinâmica pslquica individual
e inter individual muito próxima da psicanálise. Seu campo estendeu-se
à esfera da anormalidade. Essa evolução aumentou as interferências en- .,
tre a psicopatologia. a psicologia clínica e a psicanálise.
~sico .. efinid eu cam O de estudo ue é o
J"0 da p~uiatria, diferindo desta em meios e ins. Seu objetivo é...a..c.Q.l1k...prccnsao e o conhecimento. enquanto que o da psiquiatria é a terapêutica.
a profilaxia e a readaRlação..-cm..meiQSJlào_apenas psicológicos,_ma.s_tam-
5em médicos. biológicos, sociais etc. A psicopatologia utiliza o método
2 .. Ver também pp. 33-4.
J
HISTÓRIA D" PSICOPATOLOGIA
._,~
~ : 6
história das aplicações psiquiátricas. O lugar concedido a cada corrente
não dá, em absoluto, a medida de sua importãncia. A história da corren-
te p~icanalitica é relativamente conhecida e gerou numerosas publicações;
por ISSO, somente as referências mais importantes são assinaladas. Em con-
trapartida, na corrente organicista, é útil apresentar obras que pratica-
mente não consideram a dimensão psicopatológica, a fim de restabelecer
a situação das outras dimensões no contexto temporal. O aspecto neces-
sariamente.limitado do livro leva a isolar a psicopatologia do conjunto
da psicologia, e a não poder apresentá-la no conjunto da história das idéias
e dos contextos socioeconõmicos que deram origem a estas. A história
da psicopatologia francesa e alemã não pode, por exemplo, ser dissocia-
da da rivalidade franco-alemã, e o êxito das teorias organicistas baseadas
no modelo da paralisia geral está ligado também ao desenvolvimento da
sífilis nessa época, mas já estamos longe da psicopatologia.
"
Primeira PlIrte
-As origens da psitcopatologia
Desde os primórdios da história humana, nunca deixaram de ocorrer ten-
tativas de compreensão e explicação das doenças. As .difere:ltes concep-
ções no decorrer dos séculos conservam um interesse não só histórico como
também atual, correspondendo a distintos modos de pensamento que se
manifestaram e sucederam ao fongo do t"mpo, e que permanecem vivos.
As explicações mágicas não' são apanágio da Pré-história ou das socieda-
des primitivas: elas persistem no tocante à loucura, de maneira mais ou
menos oculta em termos sociais. Tampouco é rara a aplicação direta de
um sistema filosófico a um fenômeno que confirmaria a teoria sem a preo-
cupação com provas: certas explicações psicogenéticas são dessa ordem.
Terapias "novas" fundam-se em bases "qui valentes -às pteconizadaS na
Antigüidade. Enfim, li sucessão dessas concepções permite compreender'
melhor a maneira como a psicopatologi~ pôoe nas~
. ------
A. As concepções mágicas
Nós povos primitivos, como também em todos os homens. pelo menos
num certo período de sua vida, as doenças apresentap:1-se como fenô
nos inexplicáveis. A doença mental faz parte essas manifesta õe anor-
maIS, atribuídas a causas exteriores de um modo em írico uma comida
por exemplO) ou a influências malévolas de um ser quer humano uer ,º--
br.enatllral. A explicação é, neste u tI aso, de ordem sobrenatural: o \ \
espírito está possuído, enfeitiçado, contaminado, conspurcado. A ';Ítfluên- -
cia da divindade sobre o espírito 'ou o corpo pode operar-se deJl4lncita
m~Qu...menos direta, Ror m.e,Ç!iaçãod~_~emideuses, d~m.ô.nLQli~..gênioS,
duendes, ou de anifesta ôes naturais. Assim, a doença pode ser mani-
estação de espíritos hostis, que se apos&aram do corpQ do enfermo, ou-
dever-se à presença.de substâncias estranhas e nocivjls no corpo, introdu- 5
zidas pela malevolê!1cia de terceir.-QsQ11 dsum £CiMeiro Em úl~r' tância, ela rnanif~sta-se porque la a1f" perdida aband.ollQu ~
B. As concepções médico.filosóficas
No mundo' ocidental, de Hipócrates ao século XIX, a meC:icinaassenta
em sistema~ filosóficos. Ela representa um aspecto dos conhecimentos,
concebido numa visão de conjunto do mundo. O médico compreende os
fenômenos mórbidos que tenta localizar e observar de modo sistemático,
a partir de uma concepção filosófica do mundo. Os tratamentos conti-
nuam sendo, na maioria das vezes, muito empíricos, inclusive mágicQs.
As doenças mentais ou ingressam no quadro geral das doenças oú perma.
necem no ~mínio da.. . ia ou da . . .- ar exe.mplo,.as his~érlcas/J I
foram conSidera as feitIceIras por mUlto tempo). ASSim,sena nerossário .10
considerar toda a história da medicina, até mesmo a história das civiliza-
9AS ORIGENS DA PSICOPATOLOGIA
giesou objetos, quer, enfim, sobre o próprio feitíceiro, simulando a doença
e a cura, Elas têm lugar, na maioria das vezes, no 1mblto de cerlmOnlu
em que a dimensão coletiva não é desprezível, devendo o doente reinte-
grar a comunidade dos indivíduos saudáveis. A eficácia dessas prátlcas
é simbólica (Lévi-Strauss)7
As práticas destinadas a combater o mal pela magia e pela bruxaria'
persistem nos dias de hoje, assim como as explicações sobrenaturals:'bas:-
ta ler os anuncias classificados de certos jornais ou as pequenas noticias'
para nos convencermos disso. A impOrtância dos fatores psiCOlógicostanto
na explicação quanto no tratamento permite fazer uma aproximação com
cerras práticas médicas ou psicoterapêuticas modernas. Se o doente per-
deu sua alma, o curandeiro esforça-se por reencontrar essa alma perdida
exortando o doente - de certo modo, ele é outro, um ser alienado -
e o psicoterapeuta, apoiando-se na parte sã do Eu, procura restabelecer
a parte destruída. O doente tem dentro de si um objeto nocivo que é pre-
ciso extrair: ele deve, mediante catarse ou neurose de transferência,
desembara ar- e S problemas patogênicos. Deve confessar sua falo
ta' d uirir consc" '. O feiticeiro enviado de Deus, ou o exorcista, de-
vem submeter-se eles próprios a uma longa preparação para penetrar no
mundo demoníaco e experimentá-lo como um terapeuta que, numa lon.
ga iniciação, precisa realizar em si mesmo a experiência do tratamento
proposto e conhecer seus próprios problemas, seus próprios demônios ..•
Um bom número de práticas empíricas permanecem em uso desde
as sociedades primitivas: regras de higiene (a calma, o ar puro ... ), as dro-
gas, o tratamento pelo mal (os choques ... ) ou pelos contrários ou pelos
semelhantes (homeopatia ... ). Apesar das aproximações, existe uma dife-
rença fundamental com as práticas científicas: na concepção animista
da doença, a alma está ligada ao corpo e as forças espirituais aos obje-
tos. Essa concepção corresponde a uma certa realidade psíquica sempre
presente.
~
!
HISTÓRIA DA PSICOPATOLOGIA
..' roubada ou não por feiticeiros ou esp(ritos. De modo menos direto. é..ll.l!:
n~ por uma falta cometida contra divindades ou por violação de um
• i'ã6'U. ou. ainda, resurta da frustração de um desejo que se mani festou
em sonho ,(namedida em que o sonho permite a comunic'ação cal)! o mun-
do dos esp(ritos). Em todos os casos, a'doença é'explicada de forma irra- +
~nal ar crenças baseadas na . . que atribUI aos duerenID
fenômenos naturais mo Ivaç es umanas; no modo do pensamento má-
gico descrito não só nos primitivos como tambéin nas crianças. Parte dess,a
visão de mundo mágica permanece no adulto .quando defronta fenôme-
nos que não pode experimentar, um domínio de "ultracoisas", diria \Val-
lon, como a morte, e também as doenças. ~a atualidade, as crenças
referentes a doenças. como o cãncer ou a epilepsia, são dessa ordem. Nesse
quadro, as doencas somáticas e psicológicas não estãd dissodadas.
A atitude em relação ao doente é muito ambivalente: ele pode ser
respeitado como um enviado dos deuses ou temido como portador de es-
piritas malévolo' OI! talvez, como castigado [leia cólera dos deuses. O
, ,doente mental tanto pode ser consultado Cõmõ um oráculo quánto quei-
"'.mado como feiticeiro. O comportamento ligado ao doente modifica-se
em função s contextos sodoeconômicos e culturais. Nas tribos nôma-
es, aquele que representa um fardo é mais facilmente abandonado do'
que nas tribos sedentárias, onde a busca de cuidados mágicos é mais'aces-
sivel, mesmo havendo o isolamento a fim de proteger os outros membros
das influêndas maléficas. Muitos costumes podem ser ãs~imdescritos pe.
los etnólogos. Em nossa civilização cristã, em que amar o próximo como
a si mesmo é uma forma de agradar a Deus, a exemplo do bom samarüa-
no, a assistênda aos doentes pode desenvolver-se como uma manif.:'.ta-
ção de temor, mas também como uma expectativa de redproddade quando
se estiver doente: muitas organizaçõeshumanitárias foram assim criadas
desde o inído da nossa era. ~, " ô~
Para enfrentar as forças misteriosas desse mundo 'í?nimista, os ho-
mens tentam apaziguá-las ou controlá-las mediante práticas mágicas ou
religio.sas,_utiliz.ando.meios psicQ!.ógic~s,co,,:o a sugestã9,~~çonfissão,
a sUp'hcaçao!AI!!!'!J}lld!!Çj!.9",a_corr,ul1ç,aO_Q.u,rl!Uaise magiafEssas práti-
cas sao frequentemente confiadas a um homem a quem se aimJui o poder
de uma relação com os espíritos - o feiticeiro, o curandeiro ou o sacer-
dote. Os prindpios em que essas prátiCas se assentam decorrem direta-~ .mente. das crenças explicativas e podem ser reagrupadas em algumas
categorias: há sempre' qualquer coisa de ruim a extrair, matéria ou espíri-
to; agindo sobre um objeto, é possivel obter um efeito sobre uma parte
doente por intermédio de uma relação secreta de contigüidade; ao exer-
cer uma influênda sobre uma coisa é ,possivel ter uma ação sobre uma
outra por efeito da semelhança; o mal cura o mal ou seu contrário. Por
conseguinte, as práticas são exerddas quer sobre o próprio doente, quer
sobre partes separadas de seu corpo (unhas, cabelos ... ), quer sobre efí-
I. Os aforismos fundamentais de Hip6crates são: o /3to.• f3QOIXllS, 'Ij ÓE 7qVl1 P.OIXQT/,
'\\,' o ÓE XCUQOS ofvs, l'JÓE lI'HQO' u.pa)..tQ"ls, fi ÔE XQtOU XaÀElI'J] (viro brevis. ars longa. occasio
fugax, experimentum periculosam, judicium dijicile). A vida é curta, a arte é longa, a oca.
\. \ sião fugaz, a experiência engana, o julgamento é difícil.
ções. para se apreender o papel reservado à doença mental. De fato,
destacam-se alguns modelos de compreensão dos fenômenos psicopato-
lógicos.
A filosofia e a medicina da Antigüidade grega tiveram uma impor-
tãncia considerável e serviram de modelo, com variações, até a época mo-
derna. A doença era compreendida como ruptura de um equilíbrio interno.
concebido de acordo com uma visão cósmica: uma ordem racional das
doenças pode ser Introduzida em conseqüência de uma observação siste-
mática dos fenômenos mórbidos que constituem a tradução de uma per-
turbação global do organismo.
H1P-ócrates.nascido no ano 460 a.C., foi o representante da escola
de Cós que procurouin1J:Qduzir a o:azãp~em oposição com a escola de
Cnido, baseada numa abordagem empírica. Ele ensinava a medicina Rela
filosofia e afjI:)nQ.Y.:...'.:~_ãoexiste muita difer{jiÇaentre a hlosoOa.e.lune-
dlcma: tudO.04ue está na..JlC,iro.eicaen~ontr.a::S!;:.n.a.smn.~ (Da Decfn-
cia). Excluía toda explicação sobrenatural das doenças e toda medicina
baseada em forças divinas. Estabeleceu sua medicina embases adotadas
de filósofos, eles próprios mais ou menos médicos - Pitágoras, H<.rácli-
to, Empédocles, Diógenes de Apolônia, Anaxágoras. A explicação das
doenças baseava.se na obse v ão aliad aciocinio (7'QLÓ~ l"e7''' >'0"(0"):
"Consl erar o que é apreensível por intermédio da visão, do tato, do ou-
vido, do olfato, da língua e do pensamento, aquilo que se pode chegar
a discernir por todos os meios que estão à nossa disposição." Clínico,
ele criticava as obsêrvações nascidas de sua artel, antes de chegara uma
classificação, a uma nosografia das doenças ordenadas segundo suas con-
cepções filosóficas.
O homem era estudado como um microcosmo, regido por leis físi-
cas, semelhantes às do universo, do macrocosmo. Para Pitágoras e os fi.
lósofos crotoniatas, os números eram "o princípio, a fonte e a raiz de
tudo". Existiam quatro elementos fundamentais: fogo, vapor (ar), água
e cinzas (terra). Para Empédocles, aos quatro elementos correspondiam-lit,
quatro humores: o sangue, a fleuma ou a pituíta, a bílis amarela e a bílis
negra ou atrabílis, os quais se encontram no coração, nOcérebro, no fí-
gado e no baço. Hipócrates adotou essa teoria dos humores e de suas.9lli'-
tJ:9_qualidades (seco, g~nte, frW;-umJdoJ., O cOIPOseria formad.o....d.o
ag~g~do d.£.w~sóJi>taÜQ..lJ'.ciRi~..!l!£)e de lígyido.s.•..lllJ:ll.Un.Qr.~s...Co-con-
teúdo). Os fenômenos vitais nasceriam dos humores, mas o que daria mo-
vimento ao corpo como um todo seria uma energia ãenominada enormon.
. í
lI
AS ORIGENS DA PSICOPA TOLOGIA
Qualquer predominância de humores ou de sua qualidade romperia o equi-
líbrio (a crase) para gerar a doença (a discrasia). Existiria uma tend!ncla
natural para o restabelecimento do equilíbrio (a cocção seria o tràbalho
do organismo que transforma o elemento nocivo). Por consegui',te, era
importante observar minuciosamente a evolução e os períodos da doen-
ça, a fim de desvendar o momento de crise (XQ,a", julgamento, escolha)
em que a evolução se decidiria para uma saída favorável ou não. A atitu-
de médica preconizada era, pois, a de não prejudicar e a de conflar na
natureza enquanto se aguardavam os dias críticos.
A doença mental fazia parte dessas rupturas de equilíbrio do orga-
nismo em relação com o meio sem ser diferenciada. A epilepsia também
era resolutamente inserida no quadro da~ doenças. "Eis o que se me ofe-
rece dizer sobre'a chamada doença sagrada: ela não me parece ter nada
de mais ,divino'nem de mais sagrado do que as outras doenças; sua natu-
reza e sua origem são as mesmas que para as demais doenças .....A verda-
de é que o cérebro é a origem tanto déssa afecção quanto de todas as outras
enfermidades muito grandes. A epilepsia produz-se .quando um fluxo de.
pituíta invade a cabeça." Certas doenças', entretanto, exerceriam mais in-'.:
fluência sobre o.comportamento e o carater, estando essas perturbações ~
sob a égide do excesso, aquele excesso evocado nas tragédias que traçam \
o destino dos que se entregam aos exageros ou na literatura (a cólera de, }
Aquiles, por exemplo). Existiriam loucuras agudas; a frenesia (ou frene- :':~
si), inarcada pela excitação, afetaria a inteligência e seria devida a uma )':1
obstrução das.membranas do'cérebro, acarretando um afluxo de bOisama- ..••.;,.~.'..'.
rela; a letargia, pelo contrário, seria marcada pelo abatimento e obnubi-
lação dos sentidos. De maneira crônica, observou-se a mania marcada pela ",',1
agitaçâo, e o ,delírio oua melancolia caracterizada pela depressão, a tris- ".s'
teza e o temor. Seria possível prever os desarranjos, em certa medida, . i,
porque eles responderiam a temperamentos (uma natureza, 'I"uau) \:~
correspondentes a tipos morfológicos, funcionais e psicológicos..Bssá idéia ,~~
de temperamento teve um grande êxito de vulgarização até nossos dias 'j
(o atrabiliário, por exemplo). ~ .
As teorias hipocráticas e pós-hipocráticas introduziram uma ordem 1 "\
racional na patologia, que pode ser explicada de 'acordo com leis físicas, ~
baseando-se na observação sistemática, mas o raciocínio permaneceu, fre- ,1
qüentemente, muito analógico, prestando-se a interpretações sobrenatu- J J
rais das leis físiCas, como não deixaram de o fazer os sucessores de Oi'~
Hipócrates. Assim, Asclepiades (124-56 a.C.) personificava a natureza e .J~
as doenças, apresentando-as como dois atletas lutando um contra o ou- )!~
tro. Numerosas escolas, inspirando-se t<>dasem Hipócrates, enfatizaram:';:~
este ou aquele ponto desse sistema: a esc:oladogmática alexandrina insis- ').'\;:li
tia nas relações com a filosofia de Platão, em especial; a escola anatÔmi- 1 ,"'1;1
ca, no reinado dos ptolomeus, com Her6filo e Erasístrato, fez a descrição '.'t~
dos nervos e do cérebro; a escola empírica atribuía toda importância 'à::':;.
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HIST6RIA DA PSICOPA TOLOGIA
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12 HIST6RI.~ DA PSICOf'A TOLOGIA AS ORIGENS DA PSICOPATOLOGIA 13
I.
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observação; a escola metódica foi marcada pelo racionalismo; a escola
pneumática conferia força vital ao pneumal a escola eclética não sistema-
• -~p
tlzava ...
A medicina cnvolveu-se em múltiplas discussões que perderam mui-
tO do caráter científico que Hipócrates tentou estabelecer. Um dos suces-
sores teve importãncia considerável ao codificar parcialmente essa anarquia
médICa: até a época moderna os conhecimentos foram marcados pela pre-
sença de Galeno (131-211 d.C.), sem dúvida porque sua referência implí-
cita ao monóteísmo permitiu que suas concepções fossem aceitaspelas
sociedades judaicas, cristãs ou islãmicas. Ele utilizou a teoria humoral hi-
pocrática, enriquecida pelo pneumatismo, dos trabalhos anatõmicos c do
pensamento de Platão, Epicuro e Zenão. A tendência al}~f.ti~a e explica-
tiva prefigurava a divisão do corpo em órgãos, que era feita na perspecti-
, va anatomoclínica do séclllo XIX. Seu sistema finalista (cada órgão
explica-se porque a natureia assim o fez) distinguia partes sólidas, humo-
res, em número de quatro (a pitulta branca, fria e úmida, com predomí-
nio da água; a bílis amarela, quente e seca, com predomínio do fogo; a
atrabílis, um Ilquido negro, frio e seco, com predomínio da terra; enfim,
o sangue humano vermelho, quente e úmido, no qual os quatro elemen-
tos fun~am.entais ~e reencontr.ariam em partes iguais), os espíritos, o pneu-
ma, essenc,a da vIda comum à matéria (do mesmo modo que existiriam
três formas físicas de vida psíquica, animal e vegetativa, também haveria
três espécies de espíritos - o pneuma physicon, sooricon e psychicon -,
":strumentos de três faculdades: a natural, no fígado, presidindo à ~utri-
çao, ao crescimento e à procriação; a vital, no coração, comunicando o
calo~ e a vida; e a animal, no cérebro, abrigando a razão). O equilibrio
termmal entre forças e humores realizaria Os temperamentos. Os quatro
temperamentos distinguidos por Galeno conheceram grande êxito: o san-
güíneo .• o fleu~ático, o bilioso e o melancólico. Esses temperamentos,
que representartam uma predisposição para a doença, poderiam ser com-
postos segundo a combinação das qualidades elementares.
, A doença resultaria sempre de um desequilíbrio ligado a um sistema de
causas complexas (causas internas, antecedentes ou conjuntas, manifestas
ou encobertas; as causas externas não entrariam na composição do corpo).r"-: .No quadro de~cr!tivo das. doenças (epidêmicas, endêmicas, espo-
: radIcas, agudas, cromcas, bemgnas ou malignas), poderiam observar-i se sintomas referentes ao comportamento; a doença' mental não era
! individualizada como tal, pois tratar-se-ia de uma disfunção do todo. Fora
do quadro das doenças, os filósofos que inspiraram essa medicina consi-
deravam igualmente as manifestações psicológicas em função de um equi-
Ilbrio de organismo em relação a si mesmo e ao meio; os defeitos, por
exemplo, para Platã"" remetiam ao temperamento e às influências do meio.
Quaisquer que fossem os diferentes pontos de vista filosóficos, as distin-
tas qualidades eram sempre relacionadas com modificações corporais, ain-
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I
!
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da que certos elementos, como o pneuma, fossem de natureza divina,
Galeno esquematizaria essas posições, ao reduzir toda a vida mental a um
funcionamento orgânico (uma paixão seria uma perturbação no equill.
brio dos humores, a cólera, uma afecção mórbida ... ). A doutrina de Ga-
lena também p6de, ao mesmo tempo, seduzir os romanos por seu realismo
e integrar.se nas perspectivas religiosas por seu finalismo. Ao contrário
de Hipócrates, ele levou o médico a examinar a doença desde fora, como
uma lesão vinculada a determinadas causas.
O ensino greco-romano perdeu importância com o declínio' <ia 1107)
pério, para ceder de volta o lugar às concepções místicas e religiosas.)
A medicina is(âmica viria conservar ,e enriquecer a contribuição gre'-I
ga e romana, no momento em que a influência desta estava desaparecen.
do no Ocidente. Essa civilização muçulmana atingiu seu apogeu nos séculos)
IX e X, em Bagdá, no Cairo e em Córdova, antes de ser retransmitlda
ao Ocidente. Os árabes proporcionaram à medicina um quadro mais sis-
temático e científico. Houve poucas obras consagradas à patologia men.
tal. Entre as exceções importantes pode-se citar o tratado sobre a
melancolia2, de Ishaq ibn Amran, médicb em Bagdá no século IV da hé-
gira (século X), que foi traduzido para o latim por Constantino, o Afri-
cano, na segunda metade do século XI, no sul da Itália. No século IV,
a transferência do califado de Damasco para Bagdá correspondeu a uma
febre de tradução dos textos hipocráticos, galênicos e bizantinos, mas tam.
bém de indianos, egípcios e persas. Na mesma época, criou-se em Bagdá
um estabelecimento hospitalar que dispunha de farmácias e bibliotecas.
Ishaq ibn Amran, que viveu também em Kairouan (onde foi enforcado),
escreveu entre outras obras o mencionado tratado sobre a melancolia
(Kitab-i1 Malankhuliya), no qual citou todos os autores antigos (Hipó.
crates, Asclepíades, Areteu da Capadócia, Galeno ... ), mas fez também
uma descrição completa da melancolia, que permanece válida ainda hoje
(características de morosidade, mutismo, imobilidade, distúrbios do so-
no, anorexia, agitação silenciosa, sensação de desânimo, preocupação,
ansiedade, medo, tristeza, risco de suicídio ... ). A originalidade desse tex-
to, além de seu rigor clínico, está na importância conferida às etiologias
psíquicas, desenvolvidas num capítulo inleiro, e na necessidade de um en.
foque psicológico desses doentes, cujo i,nteresse é reconhecido em meio
a outras terapêuticas empíricas (o vinho ~omo euforizante, figos secos ... ).
Os outros médicos árabes (cujos nOples mais célebres foram simpli-
ficados para os ocidentais - Avicena, Rhazés, Averróis, Avenzoar) tive.
ram, sobretudo em nossa perspectiva, o interesse de ser os transmissores
do pensamento antigo no Ocidente, enriquecendo-o no plano da fisiologia.
2. Tradução para o francês de M. R. Boubnkeur. sob o título Mémoire de CES de
Psychialrie (Paris. VI, 1979).
conturbados,.teeFJl~~&o..aUimjJ~~ealli"l e, no final ~a 1~.déJ
Media, instaI ti-se um tDaniQt1s:fsmo em que o &0Era oJnatiaadpE,.IL\;.
tJõG,Q1!l&assois~, da lQIlCMtª.,p.e,r;nosses~ão, ~~ \J..~~,n,9~.d.l!,!!!nu?tgmo
a e idem'a s . ~. m&iGigk 9s fjSls cÜh£ªgp;.e~eç s prí-
em o la a,
A caça as ruxas começou no final,da Ida~e Média (marcado pela
queda de Bizâncio em 1453), num momento em que o novo espírito ~a
Renascença ameaçava o status quo socia.!; os temores das guerras e das
epidemias foram seguidos por uma angú.stia mais metafísica, em que o
louco assumiu o lug~r do leproso, ser perigoso, malditg,,€earsigS,Oe.o
llli';:l.Q.l:J".aJ.wIüentemen,leJ~~~9.!uel\Wl~ (o contágio pe a sífilis, o
mal venéreo levado da Am nca por Cristóvão Colombro em 149~ e/ou
1496) e ao temor à..m.ullil:r, "esse templo construído sobre uma C\, aca".
Em medicina, se persistia uma corrente em que a observação e a ex-
perimentação prosseguiam com médicos como Jean Fernel (1497.1558),
Lconhard Fuchs (1501-1566) ou os anatomistas Vesale, Servet e Jacque
Dubois, assistia-se também ao triunfo de uma corrente idealista. Come-
lius Agrippa VOI1 Nettsheim (1486-1535) tentou aliar a medicina à Cabala
com uma visão do mundo que compreendia um mundo dos espíritos, dos
demônios e das idéias, um mundo celeste e um mundo dos corpos terres-
tres, os três influenciando-se de maneira mágica. Philippe Bombast von
Hohenheim (1493-1541), mais conhecido sob o nome de Paracelso, tinha
uma visão da medicina em que alquimitl, a magia e a teosofia estavam
implícitas, Vangloriando-se de seu desprezo pela ciência, ele propunha
entregar-se a uma intuição teosófica que permitia entrar em contato com
Deus e as coisas criadas. O homem era sempre concebido como um mi-
crocosmo correspondente ao macrocosmo, mas cada órgão estava em co-
nexão com os plan'.las (a lua com o cérebro ... ). Numa doutrina bastante
confusa, os corpos oriundos de um grande mistério compunham-se de
substâncias materiais e imateriais, e as doenças tornavam-se algo de ex-
traordinário, causado por entidades astrais, venenos e entidades naturais,
sempre sob a influência dos astros ou do~;efeitos diretos de Deus, Assim,
os tratamentos baseavam-se nas virtudes ocultas dos elementos. No final
do século XVI, a fusão das teorias de Paracelso com as dos rosa-cruzes
culminou numa concepção demoníaca das doenças. Um modo de estar
possesso, isto é, de estar possuído pelo demônio, era a loucura: portanto,
o louco devia sofrer os tratamentos reser~ados aos sequazes d,e Satã.
código dessa caça às bruxas foi publicado na Alemanha porJa~R.!!~~p.r,en.
'gen.H.eJ.ndc~.$;~MJ, sob o título Mall~us maleficorum (O martelo dos
rriã1ignos), em 1'486, e teve edições em diversos países europeus até 1669.
Toda doença desconhecida era atrib.ui.d,a,.aq,di,ab.o, "T;j).tdíili.êiti~a:r:lb'pI'O.
vém..d.QS~OS, c!lJi!,)ais,.,q~SJw,i;lSLal"Gl9~.I'l.e~._,,~l!!ji a~-
dent"~,.R!!.ffi.Jo,grarª.satisr.~ç~Q, 1.~..se}:,sd.e,s~p}.lmnnGl(js." Esselivro foi,
ao mesmo tempo, um manual pSlcopatológlco,'e uma obra pornográfica,
~rl;.r:(;4:;:'lI"::j.-.-Í';'.~-';"C ,.-_0,' - ,-,-,,-:,{;,,;,~,;-'!. .•_,,-~.'-"~-."-
HISTÓRIA DA PSICOPATOLOGIA
Na Idade Média ocidental, a medicina derivada da medicina romana
conferiu cada vez mais importância aos espíritos (onturals, vitais, animais),
herdeiros do antigo pneuma, Além das crenças populares, herança dos
~ltas, a imagem da loucura inteiessõüc'"davéz mais aos teólogos: quan-
f ,:éió';;'s-afecçõeseram consideradas afecçõesdo'espídto', deixavam o domí-i .n,ó ..dünediCioad.o corpo, d,a medietna jaic.a,,,para,,entrar ,no domínio
, .!,~,l.igi!l~!l',A obra de Sâo Tomás de Aquino (1225-1274) pode representar
'-uma elaboração das concepções teológIcas segundo um pontO de vista mo-
r~,!)nsp'lrado nas idéias de A\istQiel~" O objetivo era alcançar a fiarmo-
~ tendo o nomem recebIdo o que lhe era necessário para o seu
, aperfeiçoainento, em especial a inteligência (o nous aristotélico), O h -
mem. ue rdia razão e a _ e si.t..desvairado e IOSU~
e Ir.ante, VIOento, inacessível a uma rela ão huma re UZI O a um
J!m~o animal nlttllis e u,; r a ' tu L a anima),
se a ual ermitir a es 'ren er-se o matena e c
,sar ao eon esrfuêhto e cus. O homem lam In po erIa ser.5U metldo
às suas paixões, aos seus apêthes inferiores (insania), No século X, o ju.
deu Shabbetaí trouxe para a Itália, de seu cativeiro entre os árabt.!;L, os
conhecimentos adquiridos com eles. Sobretudo por intermédio das esco.
las de Salerno (com Constantino, O Africano) e de Montpellier (com Ar-
naud de Villeneuve), disseminaram-se os conhecimentos antigos reintro.
duzidos através dos Islã, freqüentemente por judeus,
É difícil resumir a postura e as idéias num período tão complexo e
tão extenso quanto a Idade Média, O pensamento desenvolveu-se nas pro-
ximidades do ano 1000, favorecido pelos meios de comunicação; os nu-
merososintercâmbios, o progresso urbano, propiciaram também um novo
desequilibrio, com a fome, a guerra e a peste a partir de 1347..£..s~i1,
São limitada aos leprp%Qsesten&teuwse a,o,utr.as categorias. como a dos 104-
I~ • .l:!p_kce, dQ, medQ,.t>.s.exR1.i£êS:9~~_s£>b.r~U<!.l.wili_e,dem£nológ!£gs
:.estenderam;s#et~.f~",oss~culo~ V e~~~~q:M~})'9..qFop~~~eraru-~,IeJLª,P..Q8~~~
: Entretanto, o dever e candade lev.ou ã criacão de hospitãispara os in£j-,
'gentes entr I s os lo c s, nos seculos Xli e Al.tLli~~.c,\Üo.;; XIV e
; .. dados os rimeiros aSI ~1P.~r~m~\\\.e,,!lara lo\~: oi pnmelro talvez ten a SI o o de am urgo, em 1375, segulOdo-se-lhe I'es-
, pital delfolls, de Valência, em 1410, depois o Bedlam (SI. Mary of Beth-
~lehem), lunatic asylum estabelecido em Londres em 1547. Mas só os tolos
(benedictus, benit) eram plenamente assimilados a01-nob~uIS Deu,.!. Fo-
ram previstas peregrinações sem que se distinguissem ver a~eiramente as
categorias de loucos (os distúrbios dos epilépticos, o mal de São Leonar-
do ou de São Vito, ou o frenesi, que desvia os espíritos, o mal de São
Matelino ou Santo Acário): peregrinações ao deberdinoire de Saint-
M,~noux, na provincia de Bourbonnais; a Saint-Sever, perto de Caen; a
Saint-Hildebert, em Gournay-en-Braye; a Saint-Meen; a Sainte-Dymphne,
perto de Gheel, onde foi fundada uma colônia familiar ... Nos períodos
" ,
AS c.qtGENS DA PS1COPATOLOGtA
15
.'
satisfazendo seus leitores por descrições sugestivas. Durartte processos,
levou à exibição das mulheres acusadas, em virtude da recomendação de
que elas comparecessem nuas, com o púbis raspado, para que o diabo
não se escondesse! Nesse contexto, como medida' de proteção contra a
impureza, os loucos podiam ser expulsos das cidades, confiados a pere-
grinos ou a barqueiros (a célebre nau dos loucos de Bosch), Se para a cu-
r-ra se recorria à astrologia, à quiromancia, à imposição mágica das mãos
\. ou à sugestão, a inquisiçãO e a fogueira nunca andavam muito longe.
- Entretanto, era nesse contexto de demonologia e em reação a ele que
iria nascer a psiquiatria. O belga Jean Wier (ou Weier, ou Weyer, ou Wie-
rus, 1515-1588),imbuído de espírito humanista, defendeu os loucos acu-
sagos de feitiçaria. Tendo-se interessado pela magia durante suas viagens
à Africa e ao Oriente, afirmava crer nos demônios (declarou reconhecer
nada menos de 7.409,1271). Seria por tática? Contudo, foi o mesmo Wier
quem escreveu em Basiléia, em 1570,em plena guerra de religião, De I'im-
poslUre et tromperie des diables: ele solicitava que as "feiticeiras" fos-
sem entregues aos médicos e que, antes de qualquer processo, fosse pedido
um parecer médico. "Numerosas e infelizes jovens jamais prevaricaram
e devem ser consideradas criaturas melancólicas ou, ainda, epilépticas;
a maior parte das açôes dessas desafortunadas parecem ser imaginá,ias;
elas confessam diante da fogueira somente culpas que lhes são conheci-
das apenas através de sonhos ... " Tratava.se, pois, de distinguir claramente
. possessão e doença mental.
'-- Pouco tempo depois, Félix Pater (1536-1614), médico em Basiléia,
descreveu os sintomas da melancolia (1583) e tentou, em seguida, estabe-
lecer uma classificação das doenças mentais (menlis imbecilitas, mentis
alienato, menlis dejigatio e menlis consternatio), embora continuando a
afirmar a origem sobrenatural das mesmas. No mesmo movimento, o ita-
liano Gazoni reivindicou que os loucos fossem tratados em hospitais. Um
eclesiástico, Zacchas, em decorrência de sua experiência pessoal em tri-
bunais religiosos entre 1624e 1650, confirmou a opinião de Jean Wier,
segundo a qual os loucos deviam depender somente dos médicos, poden-
do a alienação demoniaca produzir-se em indivíduos expostos por uma
enfermidade do espírito. A doença mental entrava no domínío médico,
mas representava uma entidade particular.
Dessa época, é possível mencionar um outro precursor, Giambattis-
ta Della Porta, que prefigurava Mesmer, ao tentar explicar as coisas so-
brenaturais por símpatias ou antipatias do corpo. O iugar dos fenômenos
mentais et.a, porém, muito ambíguo nessa época da Renascença. Jérôme
Cardan (1501-1576), médico "célebre", como ele próprio se declarava,
nascido em Paris, e exercendo sua profissão em sua cidade natal, em Bo-
lonha e depois em Berna, foi um exemplo de contradiçôes: rejeitou Gale-
no e, ao mesmo tempo, quis considerar objetivamente os fenômenos
mentais, como as alucinaçôes, preconizou o êxtase místico para entrar em
!
i.
17.4S ORIGENS DA PSICOPATOLOGIA'
Nos séculos XVII e XVIII, Hipócrates e Galeno constituíram uma
referência menos fecunda. A metafísica começou a ser destronada pela
medicina experimental. Sob a influência filosófica de Descartese de LeiblÚZ,::Y
as escolas médicas iatroquímicas, iatromecânicas e vitalis<as somaram.
se às escolas hipocrático-galênicas e iatroteosóficas. Assim, Van Helmont
(1577-1644) refutou as teorias antigas; depois, François Sylvius (ou De
la Boe - 1614-1672)argumentou que todos os fenômenos vitais eram ex-
plicados pelos fermentos químicos contidos nos fluidos, numa derivação
científica dos sistemas de Paracelso e Van Helmonl. Ou, ainda, sob a in-
fluência de Galileu, Newton e Harvey (a respeito da circulação sangüí-
nea), pareceu possível aplicar os princípios da física à medicina: Alphonse
Borelli (1608-1679) foi também o fundador de uma medicina mecanicista
e matemática. A metafísica e as etiologias de Galeno foram substituídas
por teorias químicas ou mecânicas. Preponderou a afirmação carteSiana,]
segundo a qual só a matéria e o movimento existem na natureza. A ciên-
cia consistiria em descobrir nela as leis e as condições de produção dos
movimentos: as causas formais, naturais" eficientes e finais extraídas da
filosofia gregajá não eram discutidas, Sydenham (1624-1689),médico in.
glês, detinha-se numa observação rigorosa dos doentes, antes de procu-
rar uma explicação: a histeria foi assím descrita reconhecendo-se nela a
importãncia dos fatores psicológicos. Charles Lepois (1563-1633),que ob.
servou a histeria tanto no homem e na criança quanto na mulher, em 1618,
afirmava que a histeria não era devida a um dano ou crise localizada no 10
útero, mas sediava-se no cérebro ("Morbi capitis a colluvia serosa", o
capítulo consagrado à histeria). As descobertas médicas multiplicaram.
se, mas os médicos ~.::havamque a alma, princípio importante do ser, não
contato com todos os seres e todas as coisas, ou defendeu a magia, Hou-
ve um considerável hiato entre essas abordagens dl! doença mental e o
nascimento das Idéias novas que envolvillm, nessa.,época, muitos doml.
nios do conhecimento e da arte. Leonardc, da Vlnci (1432-1519)represen-
ta esse entusiasmo inovador. Como se sabe, interessou-se por pintura,
arquitetura, biologia, física e hidrologia, mas também por anatomia e até
mesmo por filosofia. Uma nova concepção do homem nasceu de um imen-
so desejo de conhecimento, rejeitando os dogmas e ressituando o homem
na realidade; se existia uma alma imaterial divina (problema 'teológico),
também existia uma alma sensível e material, um espírito, como preferiu
dizer Bacon; seria possível conhecer melhor o espírito com os progressos
da ciência. Mesmo os fenômenos qualificados de supranormais poderiam
se,robjeto de investigações científicas. Esse períOdO,' para o qual a deSig]
nação de Renascença pode ser discutida, não foi o de um novo nascimen-
to graças à descoberta dos autores antigos; foi, em todo caso, uma
designação correta no domínio patológico, em que os autores da Anti.
güidade voltaram a ser discutidos e supt:rados pouco a pouco ..
HISTÓRIA DA PSICOPA TOLOGIA16
."
No século XVIII, as doutrinas médicas tornam-se precisas com os pro-
gressos da fisiologia e da anatomia. Os organicistas, como Lancisi, Hec-
quet, Baglivi, depois Morgagni e Bordeu, retomaram uma idéia, afinal
bastante antiga (iniciada com o galenismo), de que as doenças provinham
de um funcionamento orgânico anormal, mas insistiam nos distúrbios fun-
cionais de diferentes órgãos.
As descobertas anatômicas até o final do século iriam poéler reforçar
essa corrente. Bichat (1771.1802) representou a transição com o século
seguinte. declarando ser preciso levar em conta a função de cada tecido,
e .que a vida era "a soma total das funções que resistem à morte", Os
sistemas médicos, entretanto, continuaram sendo complexos, na medida
em que misturavam as teorias antigas com as descobertas anátomo.
fisiológicas. Era possível descrever sistemas baseados na irritabilidade e
nO nervosismo (Von Haller, .cullen e Brown), O vitalismo (segundo Stahl,
Banhez, F. Hoffmann), a importância dos humores (escola humoral de
H. Boerhaave, 1668-1738). De fato, as idéias misturavam.se com freqüên-
cia. Um exemplo divertido foi o de Tissot (1728.1797), que, em seu livro
L 'onanisme, dissertalion sur les maladies produiles par la maslUrbalion,
justificou suas observações, reunindo fatos de maneira bastante arbitrá.
ria (epilepsia e masturbação, por exemplo), e seus. julgamentos morais,
recorrendo às teorias de Boerhaave e Hoffmann ou referindo.se aos anti.
gos (Aécio, Galeno, Plínio ... ). Esse livro conheceu, entretanto, um gran-
de êxito, com reedições "consideravelmente aumentadas"! Apesar do
ecletismo das teorias, as observações cedo foram retomadas de modo sis-
temático: sob a influência de naturalistas (Lineu, Tournefort), Boissier
de Sauvages (1706-1767) estabeleceu uma classificação das doenças (No.
sologie methodica, 1763); esse tipo de investigação naturalista conheceu
subseqüentemente um êxito tanto maior se considerarmos que as possibi-
lidades te,rapêuticas permaneceram limitadas por muito tempo na patolo-
gia mental, enquanto que esse autor tentou uma classificação baseada em
indicações curativas.
Os progressos médicos, assim como a filosofia racionalista, contri.
buíram para fazer a loucura perder um pouco mais de seu caráter mági-
.co. Entretanto, num periodo em que as guerras e as epidemias não haviam
cessado, os loucos conheceram um destino quase tão desfavorável quan.
\,~
recebia o devido valor. O médico alemão Georg Stahl (1660.1734), numa
teoria denominada animismo, defendeu a importância da alma, que pro-
duziria ou não o mCiYimento voluntário.
Os progressos da medicina e da fisiologia apoiaram-se cada vez mais,
quaisquer que fossem as divergências teóricas, numa verdadeira semiolo.
gia no domínio patológico. As observações que eram feitas permitiam de-
limitar certas. afecções mentais. (a histeria em relação à epilepsia, por
exemplo).
--,
1,
i
J. Foucnult. M. Folie el déraison: hisfoire de lo fOlie à I'âge clossique. Paris. PI~n.
1961. ITítulo t.ln ediçâo brasileira: História do loucura. São Paulo. Perspectiva, 1978.)
"I'\t.-(-!~. .
'. '-1'f.f'mi...~•..~
AS ORIGENS DA PSICOPATOLOGIA . I? ':.~{;~
to Ode outrora passando entllo a ser assimilados aos vagabundos. Aqui.-l";~
lo a que se cha:Oou de "a grande internação de loucos" fez parte de um : ~~;;~
fenômeno mais geraP. Os doentes mentais podiam, como 11aIdade Mt. : '!h;
dia ser guardados pela famllia (circular livremente ou ficar encerrados, .}", b d .,
numa parte da casa) ou fazer parte de rebanhos de vaga un os acossa- \ ';'.4
dos pela mistria. As fomes, as epidemias e as guerras prosseguiram num) >'1
mal-estar social crescente até a Revolução Francesa. Na Inglaterra, após "1
a criação das casas de correção (houses 0/ correction) em 1575, destina. . ',.
das à punição de vagabundos e ao al!vio dos pobre~, ~oram instituídos :.
os'hospícios (workhouses) em 1670. Na Alemanha eXistiam as Zuchlhliu- f
ser (casas de detenção). Na França, o hôpital général, criado em 165~,
era uma estrutura administrativa que acolhia até 10J0 .da populaçao
(6.000/600.000). Em 1682, São Vicente de Paulo fez abri~ o hospíci~ de
Saint-Lazare. Nesses estabelecimentos, em períodos,pe Crise econômica,
juntavam-se os ociosos, os vagabundos, os indigentes sem trabalho; ~ de-
semprego e a agitação, durante tais períodos, podiam ser reabsorvldos .
mediante a utilização de uma mão-de-obra barata. A~sa~pppulação
somavam-se os libertinos, os dissipadores, os debochados, mas ta~bém
os alien-aélõs e os 'dementes.-A -segregaçãO operoô:sê-no' seiQ'do hospital
gerãl, ond,,"estavampr~vi~tºs jocais.para.enc.errar ,os loucos,. deambps os
sexos,.<para.oshomens,.em,Bicêtr.e "e para. as ..mui here.s,. na. Sa1pé.tnere J..
Os dementes eram exibidos.atrás das grades; em .charenton eraminont!!-.
é1ãSêSpetáculos:dos quais Sade participou. Erà;précisó zoínbar~dª.lou-
.cúra. 'Se' os ioucOs' fossem ;'perikosos; .eram' acorrentadós:sobrlFa'15l!lha;
[Oimpõhaoiê érâmostràraarlimalic(a~.é-aeles. Na !,r.ovíncla, o ~enôm~no
foi menos nítido, quando menos em vIrtude das dIficuldades fmancelras
para organizar um hospital geral. A demanda crescente por parte das fa-
mílias e das instituições fez aparecer as cartas precatórias . .casas de cof:1
reção, em número de quinhentas a seiscentas no final do século XVIlI, .
e albergues de mendicidade, permitiam dar conta dos imperativos de po •.
licia, que substituíram os deveres de caridade. Entretanto: o número de
internados e, mais especialmente, de dementes, era menos Importante do
que se podia crer. Esse número era difícil de avaliar ein virtude da mistu-
ra de população nos estabelecimentos. ..-
O século XVIII'assistiu, ao mesmo tempo, ao nascimento do espíri.
to j!lantrópicQ: a sociedade devia reparar seus erros. Os planos de refor-
ma para melhorar os hospitais sucederam-se sem que pudessem ser
concretizados por falta de recursos; em 1785, propôs-se a adaptação dos
hospitais as diversas espécies de demência que fora possível identificar.
Qsdoentes. m.~tais':êiiviâêlOs a .Bicêtre '.Q;tgà'Salpétriére .eram:;osconside- ~
r~9os"ncm'lI"els.'- ~ '
HISTÓRIA DA PSICOPA TOLOGIA18
",;.~
Nos séculos XVII e XVIII, a doençamental passou a ser identifica-
da como uma enfermidade particular, marcada pela perda da razão num
período em que o racionalismo, favorecido pelos progressos científicos,
tentava deixar impressa a sua marca, Certos sistemas que buscavam ex-
plicar as. doenças só tinham de científico a aparência, o que, entretanto,
lhes deu grande popularidade: por exemplo, a frenologia dc F, Gall ou
o magnetismo animal de Mesmer.
Franz Joseph Ga" (1758-1828) afirmava que o cérebro era o órgão
do pensa"lento e que as faculdades ou qualidades mentais estavam loca-
lizadas em áreas específicas da superfície cerebral a que dava o nome de
órgãos ou centros. Nesse aspecto) ele retomou uma tradição antiga que
apontava os ventrículos como sed~ dos espíritos, e acompanhou os traba-
lhos mais recentes de Sylvius, que situava esses espíritos no córtex
(1614-1672), depois os de Willis que, em Cerebri ana/orne (1644), locali-
zava as sensações no corpo estriado, a imaginação no corpo caloso e a
memória no córtex que controlaria igualmente a motricidade vúluntária.
Gall pensava que um excesso ou um déficit desses "órgãos" podia serdetecta.do pelo exame exterior do crânio; assim, seria pc ;sível julgar o ca-ráter de acordo com o formato craniano. No início, ele identificou 26 ór-gãos, mas esse sistema tornou-se cada vez mais complexo com seus
sucessores (mais de cem divisões com Fowler em 1916). Gall baseou seu
estudo em observações discutíveis. Seu discípulo, Caspar Spurzheim
(1776-1832), contribuiu muito para a difusão da frenologia; foi também
o caso de Georges Comte (1788.1838), na Grã-Bretanha. A frenologia co-
nheceu enorme êxito popular que persistiu até o início do século XX, tan-
to mais 'que parecia ser reforçada pelas descobertas de localizações corticais
pelos neurologistas e neurofisiologistas do século XIX. Acabou sendo de-
sacreditada em virtude do zelo exagerado de discípulos que descreviam
um número cada vez maior de zonas correspondentes a faculdades como
o republicanismo ou o amor fiel! O mais completo sistema foi o de Red-
field, que associou frenologia e fisiognomonia. A utilização era freqüen-
temente vizinha do charlatanismo, mas sua própria difusão demonstra,
por outro lado, o interesse pelas teorias de aspecto científico. Apoiadas
no organicismo, as idéias de F. Gall prefiguraram as teorias de localiza.
ções cerebrais baseadas na experimentação que iriam desenvolver-se a par-
tir ~a segunda metade do século XIX.
Franz Mesmer (1734-1815), criador da teoria do magnetismo animal, .
conheceu enorme sucesso fora dos meios acadêmicos, retomando sob apa-
rência científlca certas práticas derivadas da magia. Não se deve esquecer
que as causas das doenças continuavam então quase desccmhecidas, a mor-
talidade era elevada e as superstições imperavam vivamente. Fenõmenos
coletivos, como os convulsionários do cemitério de Saint-Médard, em Pa-
ris, em 1727, não eram raros. De origem austríaca, Mesmer estudou mú-
sica (foi amigo de Mozan), teologia e filosofia antes da medicina, em
especial com discípulos de Boerhaave. A teoria na qual baseou suas expe-
riências deriva das doutrinas da cscola humoral de Boerhaave e de Para-
celso, rctomando as doutrinas da física de seu tempo, quando se
descóbriram os fenômenos elétricos (descobertas da garrafa de Leyden
em 1745, trabalhos de Coulomb, Franklin ... ). Ele pressupôs a existência
de um fluido nos corpos animais, cujas propriedades podiam ser compa-
radas às propriedades elétricas do ímã. Após ter utilizado a imposição
de um ímã sobre os doentes para curá-los, Mesmer pretendeu curar por
simples aposição das mãos, em virtude, acreditava ele, das propriedades
magnéticas de cada corpo. Mesmer rodeou-se de um cerimonial descrito
com freqüência, por causa da impressão que suscitava ou para depreciá-
lo. Assim, quando de umá viagem a Paris (1778 a 17~1), ~le fez entrar
os doentes, vários ao mesmo tempo, numa sala pouco 11ummada, forra-
da por espesso tapete, espelhos que refletiam as sombras, uma música sua.
ve e um aroma de flor de laranjeira. Os doentes deram-se as mãos em
torno de uma "tina de água magnetizada". Mesmer entrou, vestindo um
traje lilás, uma vara na mão, e provocou uma crise histeriforme. Esse ce-
rimonial contribuiu para atribuir-lhe, nos meios científicos, uma imagem
de charlatão. A pedido do rei Luís XVI, uma comissão científica presidi-
da por B. Franklin concluiu. em 1784 que tudo aquilo era uma questão
de imaginação. Entretanto, por trás das encenações e da importância dos
honorários pedidos, Mesmer antecipou certas verdades Uá utilizadas n~s
práticas mágicas). Ele conhecia o papel da sugestão, sendo por esse mOl!-
vo que os pacientes em grupo reproduziam crises daMquais alguns já ha.
viam sido testemunhas. Jogava com a devoção dos doentes ao médico (o
que recebeu o nome de transferência positiva) e tinha seus fiéis, como a
rainha Maria Antonieta ("Suprima.se a imaginação e a confiança, e na.
da se obterá. Que o objeto de vossa crença seja verdadeiro ou imaginá-
rio obtereis e mesmo resultado", dizia ele). O papel dos fatores sexuais,
no 'entanto, fei-lhe menos evidente: essa carência o vitimou em 1778, em
Viena. Uma de suas jovens pacientes, protegida da imperatriz, apaixonou-
se por ele, o que lhe valeu a obrigação de abandonar a Áustria. Mostrou
o papel curativo das crises que permitiam a descarga de tensões (a futura
catarse).
Os sucessores de Mesmer foram, com freqüência, autênticos charla-
tães. O mais célebre dentre eles, o aventureiro siciliano Giuseppe Balsa-
mo que se fazia chamar de conde Allessandro di Cagliostro, médico e
alq~imista (1743-1795), esteve comprometido no célebre caso do colar da
rainha. Mais seriamente, o marquês de Puysegur (l757~1825) retomou em
1784 as experiências de Mesmer com seu irmão, essencialmente sobre a /12
pessoa de seu jardineiro Victor. Puysegur observou minucio.samente. ~s '
experiências de magnetismo e descreveu estados de soaambuhsmo artJf,-
,.
"""- -o".,
~.
'-. 20 HISTÓRIA DA PSICOPA TOLOGIA
"
AS ORIGENS DA PSICOPA TOLOGIA 21
•
22 HISTÓRIA DA PSICOPA TOLOGIA AS ORIGENS DA PSICOPATOLOCIA
23
cial durante os quais Victor, habitualmente tímido e reservado, conversa-
va com mais desenvoltura e lucidez. Como lidava com "camponeses
ignorantes", Puysegur reduziu o cerimonial: adormecia seus pacientes,
junto de uma árvore magnetizada, falando-lhes. Assir" fazendo, na rea-
lidade, 'sugestão pela hipnose, mostrou a importância da comunicaçâo ver-
bal e dC';lspecto psicológico. Mesmer, que valorizava a "crise" e o aspecto
fisiológl~o, minimizou a descoberta de'Puysegur, quando este a comuni-
cou a ele em 1784. Os acadêmicos que condenavam Mesmer justificaram
Puysegur sem se aperceber disso ao afirmarem: "A imaginação sem mag-
netismo produz convulsões ... O magnetismo sem imaginação nada pro-
duz." Esse papel da imaginação foi retomado com humor pcr Deslon,
um discipulo de Mesmer: "Se a medicina da imaginação é a melhor, por
que não a faríamos?'" Os "animistas" partidários da explicação psico-
lógica opuseram-se por muito tempo aos" nuidistas", partidários da ex-
plicação fisiológica, até o início da hipnose por Braid em 1843. Mas todo
esse movimento em torno de Mesmer e, depois, de Puysegur, prenuncia-
va a existência de psicoterapias integradas a um pensamento científico.
Durante todo o século XIX, o mesmerismo desenvolveu-se nos países eu-
ropeus com um interesse pelos fenômenos do espiritismo, do sonambu-
lismo, das personalidades múltiplas, nos meios tanto médicos quanto
extramédicos. '
Esse longo período da História assistiu a numerosas discussões a res-
peito de doenças. As discussões médicas foram ridicularizadas por Mo-
Iiere. Apesar das vicissitudes ligadas às condições sociopolíticas, a principal
(
"l'!ferência continuou sendo a medicina greco-latina; esta foi lentamente
abandonada a partir da Renascença, em proveito de concepções mais ra-
cionais. A doença mental, se era reconhecida como c,oença, constituía ape-
I nas uma das manifestações da disfunção orgânica, Ijlesmo quando fatores
,j deordem psicológica (emoção, fadiga ... ) eram considerados na etiolo-
, ,gia. Com a preocupação de uma classificação e o reconhecimento pelos
!filósofos da subjetiyidade (Santo Agostinho, Spinoza ... ), a doença men-
i tal assumiu um lugar à parte na medicina desde Jean Wier, mas foi a par-
" tir do gesto simbólico de Pinel, libertando os alienados, que se pôde falar
; de psiquiatria. Durante esse período médico-filosófico houve uma gran.
,de defasagem entre as concepções e as práticas terap!uticas, que conti.
lnuaram, com freqü!ncia, Impregnadas de magIa. No decorrer de períodosdlflceis assistiu-se, aliás, a uma regressão importante no plano teórico.
As terapêuticas eram variadas, ,por vezes justificadas pela teoria (a san-
gria para favorecer o escoamento dos humores, por exemplo), mas com
grande freqüência empíricas, até mesmo extravagantes (chifre de unicór-
nio, cérebro de raposa, sangue de gladiador ... ). Os princípios de trata.
•..._-~---
4. Apud Cherlok. L'hypnose. Paris, Payol, p. 18.
mento, sobretudo quando se tratava de r:Est,\Írbiosmemds, estão próximos -')
dos utilizados pela magia: : ';
principio de consolidação: faltava a razão ao indivíduo e cumpria
reforçá-Ia;
principio de purificação: o indivíduo devia ser purificado, se necessá-
rio mergulhando-o na água;
principio de regulação: diante do desregramento, cumpria introduzir
regras, O apaziguamento pela música, por exemplo;
principio do despertar da consciência: a consciência estava obscureci-
da e precisava ser despertada por estimulações, se necessário com fer-
ro em brasa;
principio da exteriorização de emoções (por exemplo, o teatro);
sobretudo, devolver à vida natural seus direitos, graças a regras de vida.
Muitas "inovações" terapêuticas modernas são, de fato, um retor.
no a essas práticas; não poucos paralelismos poderiam ser traçados.
C. O nascimento da clínica psiquiátrica
O nascimento de uma concepção moderna da psiquiatria é determi-
nado, habitualmente, pelo gcsto de Pincl libertando de seus grilhões os
alienados do hospital de Bicêtre, em 1793, em plena Revolução Francesa.
A realidade histórica desse gesto é questionada e inspira-se, sem dúvida,
na hagiografia, embora Pinel estivesse profundamente convencido da ne-
cessidade de tratar os doentes mentais com humanidade. Simbolicamen-
te, esse gesto representou, de fato, o início da era moderna; os doentes
mentais deviam ser considerados doentes e não criminosos ou represen.
tantes da animalidade; o doente foi libertado, mas permaneceu no asilo
ou no manicômio; esse gesto foi feito a conselho do supervisor Pussln
(se é que foi o único), O que significa que o saber psiquiátrico também
assenta num saber adquirido no contato com os pacientes'.
I. Philippe Pinel (1745-1826) estava profundamente impregnado das
idéias de seu tempo. Em outros países, exigia-se a melhoria das condições
de vida dos alienados: J. Pestalozzi (1746.1827), J. C. Reil (1759-1813),
W. Tuke (1732-1822) etc. Pinel conhecia a fundo a obra de médicos mo.
demos, como Cullen, e de filósofos: Locke, Condillac, Maine de Biran,
Cabanis etc. Colocava a observação como base da c!Iínica: ela devia pre-
valecer sobreoesjiTritôde sistemri, 'o que nãO 'ha\iiáSÍdo O casó de seus
predecessores.
S. Ver PosteI, J. "Philippe Pine! et te mythe fondateur de la psychiatrie rrançaisetl •
Psyc~anoIY!ie à I'universiré. 4, n. 14, março 1979, pp. 197.244.
24 HISTÓRIA DA PSICOPA TOLOGIA AS ORIGENS DA PSICOPATOLOGIA 25
;.',
~.
Para Condillac, a vida psíquica formava-se a partir dos sentidos (sen-
sUaIiS:'10).Cabanis (1757-1808) desenvolveu suas idéias no livro Rapporrs
du physique ef du moral, de maneira dinâmica: existiriam influências re-
ciprocas entre o físico e O moral, sendo esse equilíbrio modificado pela
doença; o sistema central, como Órgão do pensamento e da vontade, se-
ria capaz de agir sobre os outros órgãos excitando, suspendendo ou alte-
rando suas funções; inversamente, as .sensações seriam llnccessárias para
adquirir idéias, experimentar sentimentos, possuir vontades, em resumo,
para ser"; o sexo, a idade, os temperamentos, o é'stado de doença, mar-
cariam o caráter, as idéias, as afecções morais.
Dentro desse espírito, Pinel expôs seu método de estudo das doenças
em seu livro Nosographie philosophique (1798). "Os principias que de-
vem orientar um médico na busca da verdade são os mesmos uas outras
ciências naturais; as mesmas regras para adquirir um gosto puro e conhe-
cimentos sólidos; a mesma atenção em tirar proveito dos preceitos gerais
fornecldos pelos filósofos, a fim de assegurar a 'marcha e (,: progressos
do espírito humano." "A dúvida filosófica de Descartes pode aplicar-se,
com freqüência, à patologia interna." O estudo das doenças internas está
intimamente vinculado ao dos princípios da química, da botânica, da mi-
neralogia e da zoologia. Para se lograrem sólidos progressos: "I) cum-
pre, em primeiro lugar, entregar-se a pesquisas nos hospitais e começar
pelos sintomas vistos de maneira isolada e independente de toda classifi-
cação; 2) quando se tiver também feito um estudo particular dos sinto-
mas durante algum tempo, passar-se-á áo seu conjunto, ou seja, ao
andamento das áoenças começando pelas agudas, por exemplo, tendo-se
o cuidado de estudar a influência particular que os lugares, um regime,
as afecções morais podem exercer sobre a doença; 3) somente depois de
se ter adquirido familiaridade com as doenças simples ou limitadas a uma
única ordem de sintomas, deve-se passar ao exame das que são complica-
das ... ; 4) a necessidade de estabelecer uma ligação estreita em seus co-
nhecimentos médicos e de formar uma experiência esclarecida exige,
imperiosamente, que se classifiquem as doenças estudadas e que se as en-
quadrem nos diversos gêneros de uma distribuição simples e metódica."
:A::ssim Pinel situou a abordagem clínica, partindo dos sintomas (o, que
; acontece com a doença au. 1f'1fTel') para chegar a quadros clínicos. O
, médico' isolatia os sinais patolókicos reportando-se a um estado normal
, (o doente com icter(cia, com a pele e as conjuntivas sem a habitual colo.
ração rosada, por exemplo); os sinais poderiam corresponder a mecanis-
mos e a causas diferentes. Se um sinal correspondesse raramente a uma
doenço em particular, em contrapartida seria possível reconhecer conjuntos
,de sinais comumente encontrados. Pinel'eitou os autores clássicos a par" '
'tir de Hlp~crates, mas de um modo crítico, porquanto enfatizava a atIvi.
dade cUnlca e as referências cientificas antes de toda e qualquer concepção
de conjunto. Tratava-se de uma abordagem muito medicalizada. No con-
junto das doenças, foi dado um lugar às neuroses (sendo as neuroses doen-
ças do sistema nervoso, no sentido dado por Cul1en, criador desse termo).
Elas compreenderiam: as neuroscs dos sentidos (do ouvido e suas res-
sonâncias', da visão ... ); as das funções cerebrais, as quais compreendem
as afecções comatosas (apoplexia, catalepsia e epilepsia) e as vesãnias; as
da locomoção e da voz; as das funções nutritivas e, enfim, as da geração
(neuroses genitais do homem e da mulher),
No quadro das neuroses, algumas fariam parte das vesânias: a hipo-
condria, a melancolia, a mania, a demência, o idiotismo, o sonambulis-
mo e a hidrofobia. ,- 1
A alienação mental, alteração dos sentidos ou loucura. definia-se pelos '
danos. pelos desvios ou pelas debilitações do entendimento'. Nela se ob-
servariam:
lesões da sensibilidade física: indiferença ao frio, por exemplo;,
lesões da percepção exterior; por exemplo, concentração permanente
do doente em si mesmo; lima criança que ouve sons, mas é insensível
aos sons articulados etc.;
lesões do pensamento; por exemplo, destruição integral da atenção,
assim como do sentimento interior da prÓpria existência;
lesôes da memória e perturbação das associações de idéias; por exem-
plo, associações de idéias singulares sem coerência;
lesões do julgamento; por exemplo, o alienado pensa que tem em suas
mãos o governo do mundo, que as estações lhe obedecem'etc.;
enfim, mudanças de caráter,emoções ou erros da imaginação.
Essa's alterações permitiram individualizar um certo número de es-
pécies de alienação mental, reagrupando-se os diversos sinais da maneira
habitual: a mania, a melancolia, a demência e o idiotismo.
A mania "distingue-se por uma excitação nervosa ou uma agitação
extrema, levada algumas váes ao furor, e por um delírio geral mais ou
menos marcado, às vezes, pelos julgamentos mais extravagantes ou mes-
mo por uma totai subversão das operações do entendimento~'. A evolu-
ção seria em geral aguda e acompanhada de sinais físicos (apetite voraz,
insônia, constipação etc.).
A melancolia seria um delírio exclusivo (o termo delírio correspon.
deri" a um desvio das funções psíquicas). O delírio seria dirigido para um
objeto ou uma série de objetos. Os melancólicos podiam manter-se "fe-
chados num silêncio obstinado de vários anos, sem deixar que se penetre
no segredo de seu pensamento". Outros não deixavam entrever em nada
seu delírio, o qual podia manifestar-se de súbito. Pinel 'citou o exemplo
de um doente que, quando da libertação dos alienados de Bicêtre, res- /4
6. Sons importunos e Imaginários, estouros redobrados, ruídos de uma roda que gira.
7, Pinel. P. Traité médJco-philosophique sur /'atiénation menta/e. 2~ ed., Paris, Bros.
50n, 1809,
26 HISTÓRIA DA PSICOPATOLOGIA AS ORIGENS DA PSICOPA TOLOGIA 27
pondeu perfeitamente a tudo, mas assinou o auto de soltura como Cris-
to. A melancolia poderia evoluir para a mania ou levar ao suicfdio.
A demência, ou abolição do pensamento. seria dominada, sobretu-
do, pela incoerência das idéias.
O idiotismo corresponderia à obliteração das faculdades intelectuais
e afetivas. A maioria dos idiotas não falava. O idiotismo era freqüente
nos hospícios, mas Pinel observou que "o estado deles está freqüente-
mente relacionado com as seqüelas de um tratamento demasiado ativo
a que foram submetidos em outro lugar". O idiotismo ~,:.deria ter sua
origem num vício de confo,rmação craniana, mas também em decorrên-
cia de emoções inesperadas: por exemplo, um artilheiro a quem Robes-
pierre felicitou por escrito por causa de uma invenção, ficou idiota após
a leitura da carta'. Algumas vezes, o idiotismo era curado por um acesso
de mania.
;" " t>ineÍ propõs assim uma classificação simples das neuroses e, entre'
;:êlas, das alienações, baseando-se na observação dos comportamentos e I
!' das funções psicológicas. Estllva aiento à existência de sinais físicos, mas
não limitava suas etiologias às doenças orgânicas, sensível à interação en-
tre o físico ri o moral proposta por Cabanis. A alienação pode ser deter-;: minada tanto por causas físicas quanto por hereditariedade, educação
"viciosa", irregularidades na maneira de viver, paixões diversas, consti-
tuição melancólica.
'--, Sob a influência dos enciclopedistas e de J .-J. Rousseau, Pinel de-
fendia a liberdade do homem; foi esse o sentido do gesto simbólico de
libertação dos alienadOS, mas também do tratamento moral que ele pre-
conizava. O tratamento comportava regras de vida, exercfcios físicos, a
supressão do hábito de agredir os alienados ou de os imergir bruscamente
na água fria para fazê-los reencontrar a razão, das medidas de vigilância,
das restrições às comunicações com pessoas de fora, mostrando a expe-
riência que "os alienados quase nunca se curam sem a direção imediata
,de seus amigos ou de seus parentes próximos". Entretanto, o objetivo
principal era submeter os doe~es a uma espécie de "instituição moral 1', ró-
pria para desenvolver e fortal cer as faculdades do entendimento". A fim
de sujeitá.los a uma ordem c. nstante e invariável, seria necessário exer.
cer uma autoridade natural, ue permitisse ganhar a confiança, sem ma.
nifestar uma repressão inútil nesses indivíduos mas, pelo contrário, pa-
ciência e assiduidade, oferecendo.lhes um meio e ocupações agradáveis.
Ele constatou que, agindo.se com humanidade, permitindo.se a prática
de exercfcios, em vez da reclusão, e sobretudo falando com doçura,
conseguia-se uma mudança de atitude. A atitude terapêutica preconizada
era, na verdade, bastante limitada e dificilmente permitia chegar ao obje.
tivo proposto. Por isso só seriam mantidos os aspectos de polícia dos es-
tabelecimentos, de trabalho, de respeito a impor aos doentes, de vigilância
(esquecendo-se o adjetivo paternal).
, - I
2, Depois de Pinel, a clínica desenvolveu-se nas mesmas bases: ob- '
'servação sistemática; concepção psicodinâmica das relações entre o físico'
'e o moral, não sendo a alienação mais do que um desvio do normal; des-
"crição de sindromes sem que fossem necessariamente determinadas por /
. 'uma etiologia orgãnica única.- Jean-Etienne Esquirol (1772-1840) foi um
'dos discípulos mais próximos de Pine!. Deu prosseguimento aos estudos
semiológicos e nosográficos. dos quais certos elementos continuam sen-
do utilizados em nossos dias, A mais importante obra de Esquirol intitula-
se Des maladies menlales considérés sous les rapporls médical, hygiéni-
que el médico-légal (1838). Com Ferrus e Parchappe. ele esteve na ori-
gem da lei de 1838 que ainda rege as modalidades de internação.
Num plano semiológico, ele dfstinguiu as alucinações das ilusões: as
, alucinações (nome criado pelo próprio Esquirol) foram definidas como
expressões sensoriais (da visão, do ouvido, do tato etc.) não existentes
e inteiramente produzidas pelo espírito; as ilusões, por seu lado, seriam
falsas impressões que assentariam numa impressão defeituosa de estímu-
los sensoriais reais. Sua classificação das 'doenças mentais em delirio ge-
ral, delirio parcial e enfraquecimento intelectual não é em nossos dIas mais
utilizada do que a estabelecida por seu mestre Pine!. Entretanto, conser-
varam sua importância inegável distinções e precisões baseadas na obser-
vação clínica sem especulação. O delírio geral continua se chamando
mania. Esquirol tentou classificar várias categorias de delírio parcial, as
mO'nomanias afetivas ligadas a um certo distúrbio de comportamento. Um
delírio parcial, triste, chama-se hipomania; existem ainda os pirômanos,
os c1eptômanos, para citar vocábulos ainda comumente empregados. Pa-
ra as debilitações intelectuais, Esquirol introduziu a distinção ainda hoje
vigente entre a debi!ltação intelectual congênita e a adquirida, sendo esta
última duradoura ou não, e a idiotia, uma alteraçãc-congênita: "Fez.se
confusão entre idiotia e demência. A idiotia é aquele estado em que as
faculdades'intelectuais nunca se manifestall) [... ]. Ela começa com a vi,
da; a demência só principia com a puberdade. Pode agravar;se, como a
demência senil, mas também curar-se [, .. l. O homem em demência é pri-
vado dos bens de que era possuidor; é um rico que se tornou pobre. O
idiota esteve sempre no infortúnio e na miséria," O termo idiota tem ho.
je uma conotação pejorativa, mas seu emprego remete a uma observação
clínica perfeitamente atual, se pensarmos na dimenção psicótica (elimo-
logicamente, o ,5'0' textual): "a palavra ,5'0' exprime muito bem o esta.
do de um homem que, incapaz de raciocinar, está de certo modo isolado,
desligado do resto da natureza". A idiotia manifesta-se em diversos graus,
sendo o mais moderado a imbecilidade (imbecil/us, carente de in, privali. S
vo, e bacll/um, vara que os !lctores portam, como símbolo da Lei: poder./
se-ia dizer aquele que não acede a uma dimensão simbólica). Na seq(1!n-
cia, os graus seriam a debilidade (de habilis: fraco, incompleto), a imbe-
cilidade e a idiotia, Este exemplo mostra a qualidade de observação dos
.'
8. Alius: outrO; alienare: tornar .)utro, transmitir uma sucessão, apagar a razào alie-
maio mentis (Celso).
autores da época, que captavam uma dimensão dinâmica sem ter, porém,
o suporte conceptual psicológico que lhes permitisse apoiar a clínica.
Toda uma série de clinicos da escola francesa deu sua contribuição
para a semiologia psiquiátrica. Suas observações limitaram-se ao hospi-
tal psiquiátrico, portanto, à patologia mental grave, dos alienados, como
lhes chama Falret,. retomando uma expressão antigas.J.-P. Falret (1'794-1.870) descreveu as alternâncias de mania e melan-
colia sob o nome de loucura circular, hoje adjetivada como maníaco-
depressiva; J. Baillarger (1809-1890) chamou-lhe loucura de forma dupla
e deu continuidade aos trabalhos de Esquirol sobre as alucinações. Ele
evocou o automatismo. Para além dessa psiquiatria descritiva, surgiu uma
perspectiva mais psicológica com François Leuret (1797-1851), que con-
siderou o delírio uma idéia fixa caracterizada por sua fixidez e coerência,
mas suas conclusões terapêuticas eram mais discutíveis: o trat~Mento moral
podia consistir numa intimidação; o doente devia renunciar a seu delirio,
caso contrário, recebia uma. ducha fria. Sobretudo J. Moreau de Tours
(1804-1884), antigo interno de [Esquirol, considerava os distúrbios men-
tais sinais de uma perturbação [global de toda a personalidade relaciona-
dos com forças irracionais escdndidas. Em seu tratado Du haschich et de
I'aliénation mentale (1845), insistiu sobre a influência do tóxico na disso-
lução do comportamento intelectual e na produção de sonho sem sono.
Um alienado seria aquele que "i;onha acordado": "Tenho de admitir, para
o delírio. em geral, uma naturet.a psicológica não só análoga como abso-
lutamente idêntica à do sonho'." O alienado viveria exclusivamente em
sua realidade interior, pois teria deixado de ter "comunicação com o mun-
do exterior", e daria livre curso às forças irracionais e não lógicas. Entre-
tanto, ao retomar as teorias irritativas dos fisiologistas, ele aproximou
gênio e loucura, caracterizado~ por uma excessiva atividade do espírito.
. : '
" .. 3. A escola alemã. A escola francesa situa-se na seqüência do movi-
(mento cultural denominado "Iluminismo", de grande importância na
; França, nos sécuios XVII e XVIII. Essemovimento pregava o racionalis-
. mo, a luta contra as superstições e a ignorância, a liberdade. Assim, em
I psiquiatria, a doença que se apresentasse como um transtorno da razão
I devia ser estudada de modo científico. Na primeira metade do século XIX,i entre 1800 e 1850, a psiquiatria alem~ iria desenvolver-se ~u':l co~t~xto
cultural muito diferente, o do romantismo, oposto ao espírtlo Iluminista.
O romantismo defendia, pelo contrário, o aspecto irr.acional, o sentimento
de contato com a natureza, os valores individuais. Mais do que a razão,
a empatia (Einfühlung) seria uma sensibilidade que permitiria descobrir
os fu' damentos do individuo, sua visão de mundo (Weltanschauung). A. . / .
9. Ern referência a Mesmer.
29AS ORIGENS DA PSICOPA TOLOGIA
filosofia romântica com Gotthilf Heinrich von Schubert (1780-1860), Carl
Gustav Carus (1789-1869) e Arthur Schopenhauer (1780-1860), enfatiza.
va a dimensão de simbolismo dos sonhos, da sexualidade e do incons-
ciente definido como tal por Von Hartmann em 1869 (filosofia do
inconsciente). Os "Psychiker" (psicologistas) iriam, assim, predominar
sobre os "Physiker" (fisiologistas), durante a primeira parte do século
XIX antes da reação dos "Somatiker" (somatistas), que marcariam a
psiq~iatria na Aiemanha mais do que na França. Johann Christian Reil
(1759-1813) foi um dos primeiros representantes desse movimento. Sem
deixar de se interessar pela anatomia cerebral (ele descreveu a "ilhota de
Reil"), descobriu a importância dos tratamentos psicológicos e publicou,
em 1803 um verdadeiro tratado de psicoterapia: Rap~'ódias sobre a apli-
cação d;s rnélOdos de terapêutica pst'quica aos transtornos mentais. A psi-
coterapia preconizada baseava-se no empirismo. Os meios psicológicos
utilizados eram variados, indo das estimulações à utilização do teatro ou
da música. Rei! teve sobretudo o mérito de insistir sobre a interação entre
o psíquico e o somático. É também a Reil que se deve o termo psiquia-
tria. Johann Christian Heinroth (1773-1843), apesar da utilização de uma
terminologia religiosa e da influência da Igreja luterana, introduziu a no-
ção de conflito interno nas doenças mentais. A consciência do pecado se.
ria uma das causas dos transtornos mentais; os pecados cometidos
chocariam o senso moral, o que geraria um conflito, diminuiria a liber-
dade e faria cair num nível inferior. Com efeito, os processos psicológi-
cos desenrolar-se-iam em três níveis: um nível inferior, o das forças
instintivas, do magnetism09; um nível de consciência (Bewusstsein), o do
[ch, do Eu, em que predominaria a inteligência e a autocons~iên~ia; e um
nível superior, o da consciência moral (Gewissen). A con~clêncla desen.
volvida a partir do Eu permitiria superar o nível ego~êntrtco, e essa for;
'ma superior elemento divino, podia ser chamada de Ober uns (supernós).
Conforme dbservou P. Guiraud, em 1950, essa representação do funcio-
namento psíquico (Seelenleben) prefigurava as noções de conflito interno
de Freud e de instâncias do aparelho psíquico (id, ego e superego). No
tocante à autoconsciência (Selbstbewusstseill), Heinroth insistia no fato
de que o corpo e a psique seriam dois aspectos de um ser; e cri~u O termo
psicossomática. Assim, se a doença estava ltgav~_ a um conflito ':':10r~I,
a saúde seria uma integração de dados da conSClenCla. A consequêncla
dessa atitude teórica foi, na prática, a necessidade de cempreender cada
caso para adaptar tratamentos que também tivessem em conta as p~ssoas
mais próximas do paciente. Karl Wi!helm .Ideler (l7?5-1860), ':lUlto in-
fluenciado pelo vitalismo de Stahl, confenu grande ImportânCia à vida
emocional e passional, aos impulsos sexuais insatisfeitos, na patogênese ; b
das doenças mentais, cuja origem só se poderia compreender num con-
?
HISTÓRIA DA PSICOPA TOLOGIA28
10. Ellenbcrgcr. H. A la découvette de I'inconscient. VilIeurbanne, SIMEP, 1974,
rr. 182.90.
junto de causas, remontando chm freqüência aos primórdios da infân-
cia. A doença estaria ligada a :um desequilíbrio no ser humano inces-
santemente submetido a um processo de' autodestruição ou de auto-
construção. A realidade exterior poderia fornecer elementos de substitui-
ção para saciar essas paixões, o que poderia ser utilizado em terapia. Na
prática, entretanto, Ideler foi levado.a utilizar coerções morais em seu
serviço de Berlim, que viria a ser liberado paradoxalmente conforme su-
blinha P. Pichot, pelo "somatista" Griesinger. Heinrich 'Wiihelm Neu-
mann (1814-1884) também via a doença mental Como parte de um proéesso
dinâmico de um ser humano que normalmente, no decorrer de seu desen-
volvimento, alcançaria a liberdade graças ao exercício de autodomínio.
Em pato~ogia, as perturbações das pulsões (Triebe), mormente sexuais,
bloqueariam ou entravariam essa harmonia; quando as pulsões não con-
seguissem satisfazer-se, surgiria a angústia, caso certas funções vitais fos-
sem ameaçadas, caso contrário as necessidades instintivas exprimir-se-iam
na consciência sob a forma de Aestheses, avisos advertindo o organismo
do perigo. Friedrich Eduard Ben,:ke (1798-1854) pensava que as idéias po-
diam ver-se simbolizadas em reações psicossomáticas. Certos autores in-
sistiram igualmente na unidade 'psicossomática e na noção de conflito:
E. von Feuchtersleben (1806-1849), A. Haindorf (1782-1862), F. Groos
(1768-1862) etc.
A psiquiatria romântica alemã foi um prenúncio das descobertas psi-
cána1íticas. O'punha-se à~ escolas ernpi"riéase racionalistas da França ou
'da Inglaterra, ao enfatizar as particularidades do indivíduo em conflito
'com suas foilles'''pulsionais irracionais, em busca de "m equilíbrio. Não
se tratava de classificar. À criação do termo psicose por Feuchterslebêri
é representativa desse estado de espírito. Ele significaria transtorno men-
tal em geral, ao passo que o termo neurose, criado por Cullen, remeteria
a um dano infligido nos nervos, no sistema nervoso. (O significado des-
ses dois termos evoluiu de modo distinto subseqUentemente.) Essa psi-
quiatria comprometida com O idealismo não chegou, apesar das intenções
terapêuticas, como as de Rei!, a nenhuma realização prática. A reação
somática, a partir de 1850, tornou-se muito mais incisiva e quase fez cair
no esquecimento todos esses autores, pelomenos na esfera da psiquiatria
oficial. Na esteira do romantismo alemão, dois autores viriam a ter uma
influên,'a decisiva sobre o pensamento científico, na origem do nascimento
da psicanálise 10: Gustav Theodor Fechner (1801-1887) e Johann Jakob
Bachofen (1815-1887). O primeiro, impregnado da filosofia da natureza,
tão cara aos românticos, desenvolveu a psicologia experimental e inspi-
rou, a partir de seus princípios (de prazer, de estabilidadee de repetição),
uma parte da metapsicologia de Freud. O segundo, por seus estudos da
D. Os primórdios da psiquiatria
31•AS ORIGENS DA PSICOPATOLOGIA
Na segunda metade do século XIX, a psiquiatria foi institucionalizada
como ramo da medicina. Criaram-se estabelecimentos psiquiátricos em
diferentes paises (na França, a partir da aplicação da lei de junho de 1838,
regulamentando as modalidades de internação). Isso contribuiu para dis-
tinguir as observações feitas nos asilos que recebiam doentes graves das
que poderiam ser feitas na cidade ou nos serviços de medicina que rece-
biarr: uma patologia mais moderada. A partir de síndromes psiquiátricas
já reconhecidas, outras foram individualizadas: tornou-se possível deter-
minar os doentes que dependiam de serviços especializados. A ambição
consistia em reconhecer doenças, como os outros ramoS da medicina, com
métodos equivalentes: desenvolveu-se uma corrente marcada pelo orga-
nicismo e apoiada na nosografia. Os pontos de vista psicodinâmicos, co-
mo os da escola romântica alemã, foram esquecidos ou desenvolveram-se
marginalmente em relação à psiquiatria, no campo de uma patologia que
não nccessitava de internação: desse modo persistiu uma corrente deriva-
da de Mesmer, com a hipnose, no campo que seria mais tarde o das
neuroses.
Enquanto que a psiquiatria delimitava seu campo graças ao estudo
clínico,"a medicina utilizou, desde o começo do século XIX, predominan-
temente as referências teóricas da fisiologia e da anatomofisiologia, acom-
panhando John Brown, John Hunter ou Xavier Bichat, que consideravam
ser as doenças essencialmente devidas a alterações orgânicas dos tecidos.
La;;nnec publicou, em 1819, seu. tratado de auscultação médica. A partir
de 1820, Broussais vinculou as doenças à inflamação (o que significou
não poucos tratamentos com sanguessugas!) e desenvolveu o método ana-
tômico. A pesquisa de lesões na origem de doenças evoluiu cada vez mais
para um nível microscópico: após as lesões em órgãos, investigadas por
Morgani, e as lesões em tecidos, por Bichat, passou-se às mudanças celu-
lares com Koelliker e Virchow em 1838. Em todos os casos, o clínico bus-
cava sinais correspondentes a doenças devidas a lesões que seriam
verificáveis pela anatomopatologia; segundo Broussais, a marcha das doen-
ças poderia ser explicada por modificações teci duais ("aumento, dimi.
nuição, perversão, suspensão, extinção parcial"). Assim, toda observação
médica deveria poder apoiar-se em "bases fixas". Para esses médicos que
apoiavam suas observações na fisiopatologia, a loucura só podia ser uma
doença entre outras, explicável pela fisiopatologia e não por uma psico- /-:J
patologia; Broussais pôde assim afirmar que "a loucura não existe sem I
um certo grau de irritação do cérebro", ou reduzir a hipocondria a uma
organização social e sua teoria do matriarcado, influenciou as teorias do
desenvolvimento de Freud, Jung e Adler.
HISTÓRIA DA PSICOPA TOLOGIA30
\ •.,
;,
•
32 HISTÓRIA DA PSICOPA TOLOGIA AS ORIGENS DA PSICOPATOLOGIA 33
gastrite. Essas concepções teóricas não puderam, entretanto, ser confir-
madas pelos psiquiatras da meSma época, que tiveram de se contentar em
descrever quadros nosográficos, não podendo as sínáromes ser ligadas
a danos orgânicos especlficos para constituir doenças como no resto da
patologia (sinais clínicos correspondentes a lesões = doença). Tudo isso
iria modificar-se na segunda parte do século XIX, graças aos progressos
da medicina e da neurofisiologia: o ponto de vista dos organicistas, dos
"Somatiker" na Alemanha, tornou.se preponderant,;, tanto mais que sa-
tisfazia ao positivismo corrente. A fé na ciência parecia ser muito neces-
sária nessa época de agitações de natureza demográfica, cultlll'al e econômi-
ca que redundariam em guerras (guerra da Criméia; guerra de 1870, entre
a França e a Alemanha: guerra da Secessão de 1861 a 1865, "[lOSEstados
Unidos) e expansões (impérios coIoniais; era Meiji no Japão, depois de 1817;
expansão russa na Sibéria; desenvolvimento dos Estados Unidos etc.).
I. Os analOmoc/fnicos. Em 1822, Antoine L. J. Bayle descobriu a
causa anatõmica de um estado de alienação: uma meningite crônica cau-
sava uma afecção que começava por uma mono mania com delírio dc gran-
deza e de riqueza, continuando como mania, para, finalmente, terminar
em demência, com evolução mortal em um período de um a cinco anos.
Essa doença era a paralisia geral, cuja natureza sifilítica, somente assina-
lada por Bayle, Fournier reconheceria em 1879 e Noguchi finalmente de-
monstraria, em 1913. Ao descobri.la, Bayle pôs em dúvida as classificações
de Pinel e,de Esquirol, porquanto associava na mesma doença monoma-
nia, mania e demência; abriu sobretudo caminho para uma pesquisa ana-
tomocllnica, como a inaugurada por Laennec no domínio da medicina
geraJll. Foi possível, então, a ilusão de encontrar doenças mentais de
acordo com o modelo, correspondendo os sinais a causas com lesões es-
pecíficas. Todo o encaminhamento clínico,do psiquiatra passou a ser um
esforço, para fazer corresponder um sinal a uma lesão. Para isso, a se-
mioloÉ,ia deveria ser precisada ele maneira minuciosa e artificial, tentan-
do encontrar, se posslvel, sinais patognomõnicos característicos de uma
doença dada; a nosografia esforçar-se-ia por descrever entidades que cor-
respondessem a lesões orgãnlcas específicas. O encaminhamento era
experimental, pois os sinais eram corroborados anatomicamente, e
positivista, baseado no modelo das ciências exatas. Mas, em definitivo,
a atividade psíquica corria o risco de ver-se reduzida a seu suporte orgâ.
nico, e a patologia a seus mecanismos, limitada li um ponto de vista me-
canicista e organicista. '
, As descobertas neurojisioldgicas e neuroanalêmicas vieram apoiar,
o ponto de vista organiclsta. Apoiando-se em dados mais precisos do que
11. O tio de Bayle, aliás. trabalhou com Laennec na investigação das afecções pul-
monares.
os de Franz GaIl, desenvolveu-se a idéia segundo a qual existiriam locali-
zações funcionais no cérebro. A p"icologia baseada no sensualismo de Con-
diLIac e no associacicnismo de Stuart Mill conduziu à idéia de uma
justaposição de funções. Para os fisiologistas, o cérebro apresentava-se
como'um mosaico de centros suscetíveis de ser excitados ou destruídos.
Portanto, era possível pensar que as afecções mentais estavam ligadas a
processos orgãnÍcos não somente dados como também topograficamente
determinados. Um dos primeiros a fazer experiment9s com o sistema ner-
voso do animal foi Pierre Flourens (1794-1867). Ele demonstrou a fun-
ção do cerebelo, mas opôs-se [I. F. GaIl, ao afirmar que não existia loca-
lização para as diversas faculdades e percepções. A anatomia, com Bur-
dach, Rolando, Leuret e Gratiollet, e a histologia central, com Gennari,
Vicq d' Azyr, Baillarger e K6lliker, permitiram saber que cada hemisJério
é dividido em lobos e em circunvoluções, e que existe uma arquitetura
variável segundo a topografia. Broca, em 1861, mostrou, pela primeira
vez, um dano de função ligado a uma lesão localizada do cérebro: a afa-
sia, distúrbio da função da linguagem correspondente a uma lesão do lo-
bo frontal do hemisfério esquerdo, hemisfério dominante num indivíduo
destro. A observação da primeira afemia fazia parte de um quadro com-
plexo associando transtornos motores e da inteligência, mas, em seguida,
Broca localizou de modo mais preciso o distúrbio de iinguagem, numa
lesão da terceira circunvolução frontal esquerda, e estabeleceu com exati-
dão a noção de hemisfério dominante. Os estudos experimentais de G.
Fritsch eE. Hitzig, em1870, permitiram, por estimulação do có~tex cere-
bral do cão, situar uma área motora. A partir dessas observações bási.
cas, os investigadores iriam demonstrar, nos planos clínico, anatômico,
fisiológico, histológico e neurocirúrgico, a existência de localizações ce-
rebrais (sensitivas, auditivas, visuais etc.). Foi possível. assim, estabele-
cer um mapa do córtex cerebral, compreendendo áreas de projeção e áreas
associativas (P. Flechsig, 1896). Foram assim determinados os danos mo-
torp.s ou sensoriais de interesse para o neurologista. A patologia da lin.
guagem, não mais discutida segundo especulações, mas de acordo com
as observações, foi diferenciada numa afasia motora, em que a lesão no
hemisfério dominante predominava sobre as zonas anteriores, e numa afa-
sia de compreensão, em que o dano era mais posterior, no nível da encru-
zilhada parieto-temporo-occipital (C. Wernicke, 1874). De modo mais
analítico, foram descritas alexias, agrafias etc. (C. Bastian, 1869).
I\. compreensão das doenças mentais, de acordo com o modelo neu-
ropatológico, ganhou notoriedade sobretudo na Alemanha pelos "So-
matiker" ou somatistas, em reação contra a escola romântica dos
"Psychiker". WIlhelm Griesinger (1817-1868) foi professor de doenças I~'
nervosas e mentais em Berlim; para ele, o suporte das doenças mentais 'U
devia ser procurado no nível do sistema nervOso (Oehirnpalhologie) num
transtorno orgânico, mesmo que nem sempre fosse possível provar-lhe
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HISTÓRIA DA PSICOPA TOLOGIA
a existência. Griesinger, que se situa no ponto de cruzamento de diferen-
tes escolas de sua época, retom;Jt!, entretanto, numerosas idéias dos
"Psychiker": afirmou que uma parte dos processos psicológicos depen-
dia do inconsciente e reconheceu o papel das frustrações nas idéias fixas
e no recalque. O psiquiatra não deveria permanecer num nível sintomáti-
co; ele levava em conta a personalidade anterior ao desenvolvimento da
doença. Karl Westphal (1833-1890), que sucedeu Griesinger errl Berlim,
acentuou a dimensão somática ao estudar a anatomopatologia, em espe-
cial os numerosos casos de parasiJia geral. Theodore Meynert (1833-1892),
em Viena, descreveu as diferentes camadas celulares corticais e as dife-
rentes variedades de córtex segundo a predominância dos tipos celulares,
apoiando-se em trabalhos de anatomia comparada. Estabeleceu correla-
ções entre a hislOlogia e as funções cerebrais, porém sem atribuir às gran-
des funções (consciência, inteligência, memória) localizações particulares,
dependendo estas de associações. A partir desses trabalhos, Meynert pro-
pôs uma classificação das doenças mentais passível de críticas, na medida
em que dependia de uma certa mitologia cerebral (oposta à mitologia que
ele próprio criticava nos "Psychiker"). Seu alunol2 Carl Wernicke
(1848-1905), retomando as teorias associacionistas, no plano histológico,
de Meynert e psicológicas, descreveu a afasia de compreensão. Com base
no modelo utilizado para a afasia, foi levado a distinguir diferentes psi-
coses. Conforme se referissem ao mundo exterior, ao corpo ou à persona-
lidade, as perturbações envolveriam diferentes vias de associaçâo cerebrais
e criariam um refluxo energético em relação à produção de fenômenos
tais como as alucinações ou as idéias de relação.
Os esquemas neurológicos redundaram em especulações em clínica,
em que ,cc procurava a existência de modelos patológicos teóricos. Entre-
tanto, existiram exceções, com a descoberta por S. Korsakov (1854-1900),
em Moscou, em 1887, da síndrome que leva seu nome: amnésia de fixa-
ção e desorientação culminando numa confabulação associada a uma po-
lineurite, síndrome geralmente encontrada no alcoplico. Pouco depois,
também A. Alzheimer (1804-1915) e A. Pick (1851-1924) isolaram as de-
mências pré-senis. Essas síndromes continuam sendo válidas hoje. As lo-
calizações cerebrais conservam uin valor neurológico; elas foram ainda
me:is refInadas com os progressos da neurocirurgia. Entretanto, a partir
do final do século XIX, o ponto de vista puramente localizado r e anatô-
mico pOde ser superado: os investigadores J; Huglings Jat:kson (1835-1911)
e I. Pavlov (1849-1936) obtiveram. uma visão mais global do funcioname,n-
to do sistema nervoso, Oque permitiu abandonar, no domínio das doenças
mentais, um ponto de vista puramente neurológico, mecanicista', para se,
adotar,um enfoque psicopatológico, sobre uma base orgânical).
12. Fre\.1d também foi, em dado momento, aluno de Meynert. Ver p. 81.
13. Ver p. 77-8.
.;"
I
,I.\' ORIGENS DA PSICOPA TOLOG~ ~ ~ 35
2. A teoria da degenerescência. Alguns clínicos, embora conservan-
do o ponto de vista científico e organicista da época. insis~iam no lado
afetivo e evolucionista da personalidade., Bénédict Augustin Morei
(1809-1873) foi o fundador dessa escola. Utilizou'as idéias ae Charles Dar-
win (1809-1882) sobre a evolução das espécies e as de J.-B. Lamarck
(1744-1829) sobre as modificações adaptativas de órgãos transmitidas he-
reditariamente. Para Morei, "a degenerescência é um desvio em relação
ao tipo humano normal, o qual é transmitido pela hereditariedade e se
agrava pouco a pouco, até a extinção da família". A degenerescência
dever-se-ia a causas variadas: tóxicas (ópio, haxixe, álcool etc.), climáti-
cas, ecológicas (cretinismo por falta de iodo etc.), morais, sociais (con~
duta de vida desfavorável, miséria etc.). A tara transmitida poderia
modificar-se e agravar-se. Por exemplo, a um indivíduo instável seguiria-
se outro muito instável, depois um psicótico e um alienado grave, para
culminar na extinção da família. Em clínica, os quadros atípicos seriam
testemunhos da transformação, portanto, da degenerescência. Morei
falava da degenerescência evocando as transformações doentias. A no-
ção de degenerescência era uma noção dinãmica, que levava em conside-
ração a evolução das doenças e a importância dos fatores do meio. Aliás,
seria possível, a partir dessa idéia, considerar a ação.favorável do meio
no sentido de uma regeneração e, portanto, empreender uma medida pre-
ventiva e promover uma higiene social. Com efeito, MoreI foi sensibiliza-
do por sua experiência pessoal e profissional para 05 fatores ambientais
descobertos na aglomeração de Rouen (transplantação, ausência de vida
familiar, intoxicações etc.), mas estava profundamente convencido da he-
reditariedade dos caracteres adquiridos. Em clínica, ele descreveu "s delí-
rios emotivos e, sobretudo, no tratado das doenças mentais (1860), a
demência precoce observada em indivíduos jovens cujas faculdades inte-
lectuais se alteravam, realizando um processo demencial evolutivo inter-
pretado como indicação de degenerescência. Essa entidade (especificada
mais tarde como esquizofrenia) conheceu enorme êxito.
Victor Magnan (1835-1912), aluno de Falret e de Baillarger, ao estu-
dar o alcoolismo e a paralisia geral, retomou ,as teorias de MoreI. Distin.
guiu as doenças devidas a causas nervosas nos indivíduos normais e as
que manifestavam uma degenerescência. O degenerado teria uma predís-
posição hereditária ou adquirida, seria marcado pelo desequilíbrio, pela
perda de sinergia entre os diferentes centros nervosos e por estigmas mo-
rais e físicos. Sobre esse fundo sobreviriam as síndromes episódicas,
como os acessos delirantes dos degenerados. Cumpria distinguir os dege-
nerados inferiores e médios dos degenerados superiores (cujas lesões eram
pouco apreciáveis, mas possuíam anomalias de caráter: instabilidade, irrita-
bilidade, ausência de vontade, impulsos, descompensações brutais etc.). Em Jq
resumo, o degenerado seria aquele que "se torna cada vez menos capaz de /
se adaptar, em virtude de seus defeitos físicos, intelectuais e morais".
l
I
1
14. Ver p. 72.
A noção de degenerescência prosperou. A opinião pública e escrito-
res c?mo E. Zola e os Goncourt retomaram as noções de atavismo, de
fataltdade hereditária, de herança psicológica, diriam os especialistas.
Georges Beard descreveu em 1869, nos Estados Unidos, uma entidade que
iria ter considerávelêxiio: a neuraste)lia, devida a um esgotamento fisico
e mental, neurose típica do homem americano submetido a um modo de
vida extenuante. A neurastenia tipicamente masculina seria o oposto da
histeria feminina. Criminologistas, entre os quais o mais célebre foi Ce.
sare Lombroso (1836-1909), fizeram da criminalidade um fenômeno de
degenerescência acompanhado de estigmas biológicos. Lombroso, que es.
tudou o homem de gênio e (I criminoso, apontou uma "~•.ie de graus
intermediários entre o criminoso nato e o ocasional, o "criminalóide",
em que os caracteres do nato estariam visíveis mas atenuados: sensibili-
dade menos obtusa, reflexos menos irregulares, anomalias menos freqüen-
tes no crânio, mas com características anormais como o cabelo mais escuro
dos ladrões de residências, o desajeitamento nos escroques; em todos eles
se encontraria uma grande impulsividade ... (L 'anthropologie criminel/e).
A ocasião não faria o ladrão, mas revelá-lo-ia: a ocasião só agiria quan-
do encontrasse uma disposição interna no indivíduo, produzida pela he-
'reditariedade, pela educação, ou por uma combinação de ambas, mas,
em todo caso, por uma ação direta ou indireta do meio social no qual
os an'cestrais do indivíduo estiveram imersos, assim como ele, durante a
vida "oda.
C. Féré (1852-1907), sem deixar de se interessar pela neuropatologia
e pelo ,Jllagnetismo animal, prosseguiu esse trabalho na França, investi-
gando:as anomalias fisiológicas dos criminosos, e as possibilidades de pro-
teção e de resistência à crlmlnalidade (regeneração), o que deveria levar
à assistência e não à repressão: "O único meio curativo em vias de estudo
e ao qual a experiência parece ser favorável é a assistência"; habituar o
criminoso a prescindir dos meios de excitação dos prazeres e aumentar
seus meios de produção, sendo a condição primordial do crime, em su-
ma, a falta de equilíbrio entre as necessidades e os meios de proteção do
Indivíduo (Dégénérescence et crlmlnal/lé, 1888).
Essa noção de ruptura do equilíbrio fisiológico encontrou ecO na
noção de d~sequl/fbrlo constitucional que se revestiu de tão grande
importãncia na clinica psiquiátrica francesa. O desequilíbrio das funções
neuropsíquicas ligado a anomalias congênitas ou precocemente adquiri-
das traduzlr.se.la por um deq~lilíbrio da sensibhidade, da motilidade, da
emotivldade e do humor. Clinicamente, essa entidade englobara parcial-
mente a insanidade moral de*crita em 1835 pelo inglês J. C. Prichard
(1786.1848) e, mais tarde, as constituições e personalidades psicopáticas.
E. Dupré14 (1862.1921) e depois A. Delmas, em 1932, descreveram tam.
bém constituições (hiperemotivos, ciclotímicos, perversos, mitornaníacos,
paranóicos). Nas constelações de constituições descritas, reencontraram-
se sinais de instabilidade, impulsividade, inadaptabilidade, afetividade
anormal, amoralidade e incorrigibilidade, o que não estava isento de jul-
gamento moral.
No conjunto, a teoria da degenerescência teve o mérito de introduzir
as noções de mudança, de evoluçâo, de influência do meio, e opôs-se as-
sim às posições dos anatomoclínicos que reduziam ao máximo a doença
mental a uma doença do cérebro. Essa reação aos excessos da perspectiva
somática também apresentava seus perigos: infiltrada de julgamentos mo-
rais, permitia colocar à distância os doentes considerados diferentes; do
evolucionismo chegou-se a um certo imobilismo - o das constituições
e da hereditariedade das doel1ças mentais. A abordagem constitucional
retomou a velha idéia de Hipócrates dos temperamentos. A tipologla das
doenças mentais, a fisiognomonia e as descrições caracterológlc&.s seriam,
entretanto, retomadas numa visâo mais psicológica (Kretschmer. Szondi
etc.). Também se reencontrou, nessa teoria, a idéia de que a doença men-
tal nada mais seria do que uma exageração de certos traços de caráter da
pessoa normal.
37AS ORIGENS DA PSICCPATO,-OGIA
3. Os c/inicos. Um certo número de clínicos prosseguiu em seus tra-
balhos de descrição de entidades clínicas sem ter referências teóricas pre-
cisas. Deve-se distinguir os alienistas, bastante aproximados das correntes
citadas anteriormente, dos médicos que permaneceriam mais ligados à cor.
rente dinâmica, na esteira de Mesmer, quando menos pelo fato de que
lidavam com neuroses e, entre estas, de histerias tão numerosas nesse pe.
ríodo de repressão sexual e de temor da sexualidade (com a freqüancia
da sífilis ou das mortes provocadas pelos partos e abortos) nos meios bur.
gueses.
Nos hospitais psiquiátricOS recém-criados e nos hospitais gerais, os
ciínicos multiplicaram as observações de doentes em,face dos quais esta.
vam desaparelhados no plano terapêutico, Entre essas obseryações, algu-
mas conheceram grande êxito ou foram retomadas ulteriormente, ao serem
integradas em sistemas teóricos. Na Alemanha, podê.se citar Karl Kahl.
baum (1828.1899), que, além da cic1otimia, descreveu a catatonia em 1874,
e seu aluno Ewald Hecker (1843-1909), que estudou a hebefrenia em 1871.
Eles referiam-se ao modelo da paralisia geral ao tentar descrever uma evo-
lução que corresponderia a um processo patológico, verificável pela ana.
tomia patológica, Essas síndromes foram retomadas mais tarde por
Kraepelin, Na França', Philippe Chaslin (1857-1923) isolou a confusão men.
tal primitiva em 1895; Ernest Lasegue (1816.1883) distinguiu o dellrlo de
perseguição (principalmente ajolie à deux) na enfermaria psiquiátrica da 1()
delegacia de polícia; Henri Legrand du Saulle (1830-1886) e Lasegue tra-
baiharam o delírio de perseguição e desenvolveram o aspecto médico-legal:
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HISTÓRIA DA PSICOPA TOLOGIA36
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Alexandre'Briere de Boismont (1797-1881) estudou as alucinações e o sui-
cídio; Jules Cotard (1840-1889), o dellrio de negações.
Paralelamente a esse movimento científico e racional, conferindo às
anomalias mentais um status Cledoença, continuava existindo a corrente
irracíonal, oriunda de Mesmer, mils os fenômenos manifestados através
do magnetismo animal também seriam estudados no quadro científico,
com o nascimento do hipnotismo. Em 1843, um cirurgião de Manches-
ter, James Braid (1795-1860), negou a existência de todo e qualquer flui-
do magnético. Para marcar sua oposição, ele chamou de hipnotismo aos
fenômenos atribuídos até então ao magnetismo animal, pois aproximou-
os do sono (u"vor, sono). Os estados de transe seriam devidos somente
a uma fadiga excessiva. A hipnose podia ser provocada por fixação vi-
sual de um objeto brilhante, palpação das protuberâncias cranianas cor-
respondentes às diversas faculdades, segundo as teorias de Gall, e sugestão
verbal. Braid devolveu um interesse ao magnetismo, que passou a ser con-
siderado de acordo com as teorias cientificas do momento. O termo hip-
nost. ,'oi introduzido na França em 1863. No dicionário Lillré dessa época,
lê-se"uma definição correspondente à de Braid: "Hipnotismo, termo da
. fisiologia. Uma espécie de estado magnético que se provoca fazendo uma
, pessoa olhar um corpo brilhante que se mantém muito perto dos olhos."
Em 1974, essa definição pouco havia mudado, acrescentando-se-Ihe: "Hip-
nose, termo da medicina, doença do sono, hipnótico que proporciona o
sono, '?
Depois de Braid, foi a A. Liebault (1823-1904) que coube o mérito
de ter visto a importância dos fatores psicológicos na hipnose: ele utili-
zou a sugestão verbal com um objetivo terapêutico. A hipnose só diferi-
ria do sono no modo de obtenção: sugestão, concentração na idéia de sono,
relação com o hipnotizador. Essencialmente prático, Liebault não se dis-
tanciou completamente em relação à ação fluídica, pensando que a hip-
nose podia ser igualmente devida à "ação nervosa direta de homem a
homem",
Liebault e Hlppolyte Marie Bernheim (1840-1919), com seus discí-
pulos Beaunis e Liégeois, formaram a chamada Escola de Nancy. Para
esses médicos, que não eram neurologistas nem psiquiatras, os indivíduos
normais, sobretudo aqueles habituados à obediência, podiam ser hipno-
tizados _ e não somente os histéricos, comoafirmàvam no mesmo mo-
mento os médicos da Salpêtriere reunidos em torno de Charcot. A sugestão
e a emoção desempenhariam l.>mpapel predominante na produção do fe-
nômeno hipnótico, o qual poi:te aproximar-se do sono. No decurso dessa
sugestividade imposta, o con'teúdo mental inconsciente poderia influen-
ciar o comportamento: um individuo executaria uma ordem dada pelo
hipnotizador, durante o estado hipnótico, sem se recordar depois de que
ela lhe fora dada. A Escola de Nancy influehciou médicos em numerosos
países (Krafft-Ebbing, na Áustria: Bechterev, na Rússia; Morton Prince,
••
38 HISTÓRIA DA PSICOPATOLOGIA
AS ORIGENS DA PS1COPA TOLOG!A
nos Estados Unidos; Auguste Forel, na Suíça, no Burghõlzli: Freud, que
viájou para Nancy em 1889 etc.). Opôs-se às teses dos médicos da Salpê-
triere, que eram neurologistas e explicavam a hipnose como uma fraque-
za do sistema nervoso.
Jean-Martin Charcot (1825-1893) dirigia, com efeito, na mesma épo-
ca •.\lma escola que conheceu imenso sucesso internacional, mas não lhe
sobreviveu, ao passo que as teses da Escola de Nancy predominaram. Neu-
rologista, ele herdou, a partir de 1870, um serviço no hospital da Salpê-
triere, em Paris, onde se agrupavam doentes crônicos, entre os quais um
numeroso grupo de epilépticos e neuróticos, correspondendo muito pou-
co às categorias nosográficas então utilizadas. Entre esses neuróticos ha-
via muitos histéricos, pelos quais Charcot se interessou especialmente. Ele
descreveu os sintomas histéricos (grande crise, paralisia, anestesia, espas-
mo, mutismo, astasia, abasía etc.), observados tanto em homens quanto
em mulheres, contrariando a idéia vulgarizada de que a histeria seria uma
afecção específica da mulher. Todos esses sintomas.reproduziam sinto-
mas neurológicos sem respeitar as leis da fisiologia (uma anestesia, por
exemplo, não correspondia ao território cutâneo inervado). Charcot es-
tudou o hipnotismo, o que, em virtude de seu renome, conferiu a essa
técnica um crédito científico. Durante o processo de hipnose, ele obser-
vou três fases - letargia, catalepsia e sonambulismo -, as quais, em sua
opinião, só podiam ser observadas na histeria. A hipnose permitia pro-
duzir os sintomas histéricos segundo a representação mental que o pa-
ciente tinha deles. Entretanto, essa capacidade da reprodução de sintomas
denunciava menos a ação de fatores psicológicos, como a sugestão, do
que a fragilidade do terreno, fragilidade essa revelada na existência de
estigmas (anestesias de diversos pontos do corpo, pontos dolorosos, es-
treitamento do campo visual). A sugestividade, como a simulação e a ne-
cessidade de homicídio, representava também outro sinal da fragilidade
do sistema nervoso. Charcot, "o Napoleão das neuroses", por seu pres-
tígio, contribuiu para desenvolver o interesse pelos fatores psicológicos,
sem deixar de manter uma concepção muito neurológica. Com sua mor-
te, em reação, insistiu-se no fato de que o quadro da histeria descrito es-
tava muito limitado ao contexto do serviço e das apresentações. Seu aluno,
Joseph Babinski, reduziu a histeria a transtornos produzidos pela suges-
tão e que podiam desaparecer pela persuasão: a histeria converteu-se em
pitiatismo, vizinho da simulação. Alguns, como Janet ou Freud, não se
esqueceram de que Charcot havia percebido a existência de fatores incons-
cientes nas neuroses.
Os clínicos interessaram-se pelos distúrbios mentais graves da crian-
ça, considerando por largo tempo a criança como um adulto em miniatlJ-
ra e procurando nela transtornos comparáveis aos ssfridos pelos adultos .. 1.,4
Paralelamente, trabalhos de pedagogos foram inspirados diretamente pelas'
concepções da psicologia filosófica. J. Itard (1775-1838), contemporâneo.
de Esquirol e Pinel que descrevera as idiotias, tornou-se conhecido por
sua tentativa de. reeducação do Selvagem do Aveyron (1801), inspirada
nos principios de Condillac. Essa tentativa deu origem aos trabalhos. de
Belhoinme, Ferrus, Falret e Voisin, que organizaram estabelecimentos para
retardàdos mentais. Edóuard Seguin(l812-1880), aluno de !tard, cola-
borou com Esquirot e aperfeiçoou os métodos de "educação fisiológica"
dos retardados ("tratamento moral dos idiotas e de outras crianças retar-
dadas", 1846),primeiro na França e depois nos Estados Unidos: essa edu-
cação baseava-se na educação dos sentidos, base das funções intelectuais
hierarquizadas (atividade, inteligência concreta, depois abstrata). Bour-
neville (1840-1909) aplicou esses métodos no hospital de Bicêtre.
Na Alemanha, Emminghaw:, predecessor de Kraepelin, estudou igual-
mente as crianças retardadas, e Heller descreveu, tomando por modelo
as psiceses adultas, uma forma especial de demência (1908). Também na
Itália SaneIe de Sanelis descreveu em 1905uma "demência precocissima".
40 HISTÓRIA DA PSICOPA TOLOqlA
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