Logo Passei Direto
Material
Study with thousands of resources!

Text Material Preview

2 
 
 
CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
FILOSOFIA DA LINGUAGEM 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
GUARULHOS - SP
2 
 
 
SUMÁRIO 
1 A CONDIÇÃO DA FILOSOFIA E A PRIMARIEDADE DA LINGUAGEM ........... 4 
 Filosofia da Linguagem e sua História ............................................................ 4 
 Sinonímia e Antonímia .................................................................................... 8 
 Paronímia e Homonímia ................................................................................. 9 
 Polissemia ..................................................................................................... 10 
 Conotação e Denotação ............................................................................... 10 
 Relações Lógico-semânticas ........................................................................ 11 
2 RELAÇÕES DISCURSIVAS OU ARGUMENTATIVAS ................................... 14 
3 ANÁLISE INTENCIONAL E PRAGMÁTICA .................................................... 18 
 A Pragmática em geral .................................................................................. 18 
4 ANÁLISE HERMENÊUTICA DA LINGUAGEM ............................................... 25 
 Historicidade e Linguagem ............................................................................ 25 
 O círculo hermenêutico ................................................................................. 27 
 Hermenêutica e Linguagem .......................................................................... 39 
5 ESTRUTURALISMO LINGUÍSTICO E SEMIÓTICA ....................................... 41 
 Fundamentação Teórica do Estruturalismo Linguístico ................................ 41 
 O curso de Sausure ...................................................................................... 44 
 Origens e Concepções do Estruturalismo Linguístico ................................... 44 
 As Dicotomias enunciadas por Saussure ...................................................... 46 
 Sincronia x Diacronia .................................................................................... 46 
2 
 
 
6 LINGUAGEM E PENSAMENTO ..................................................................... 47 
 Origens do pensamento e da língua de acordo com Vygotsky ..................... 47 
 Pensamento, Linguagem e desenvolvimento intelectual .............................. 47 
 A teoria de Piaget sobre a Linguagem e o Pensamento das crianças .......... 48 
 A teoria de Stern sobre o desenvolvimento da Linguagem ........................... 49 
 As raízes genéticas do pensamento e da linguagem .................................... 50 
7 LINGUAGEM E MUNDO ................................................................................. 51 
 A palavra conduz a uma ideia ....................................................................... 51 
 As palavras não conduzem aos objetos do mundo externo .......................... 52 
 Há um mundo externo para além de nossas percepções? ........................... 53 
8 LINGUAGEM E INTERSUBJETIVIDADE ....................................................... 55 
 Intersubjetividade e Interação social: contribuições de algumas perspectivas 
contemporâneas ........................................................................................... 55 
 Cognição Social e os Vários Níveis de Intersubjetividade ............................ 60 
9 LINGUAGEM E FICÇÃO ................................................................................. 64 
10 A QUESTÃO LINGUÍSTICA COMO MEIO DA CONSCIÊNCIA E DA AUTO 
COMPREENSÃO ............................................................................................ 70 
 Desenvolvimento da autoconfiança linguística dos alunos ........................... 70 
 Desenvolvimento da tolerância cultural e linguística ..................................... 70 
11 BIBLIOGRAFIA BÁSICA ................................................................................. 71 
 
 
4 
 
1 A CONDIÇÃO DA FILOSOFIA E A PRIMARIEDADE DA LINGUAGEM 
Filosofia da linguagem é o ramo da filosofia que estuda a essência e natureza 
dos fenômenos linguísticos. Ela trata, de um ponto de vista filosófico, da natureza do 
significado linguístico, da referência, do uso da linguagem, do aprendizado da 
linguagem, da criatividade dos falantes, da compreensão da linguagem, da 
interpretação, da tradução, de aspectos linguísticos do pensamento e da experiência. 
Trata também do estudo da sintaxe, da semântica, da pragmática e da referência. As 
principais questões investigadas pela disciplina são: 
 Como as frases compõem um todo significativo? 
 O que é o significado das “partes” (palavras) das frases? 
 Qual a natureza do significado? 
 O que é o significado? 
 O que fazemos com a linguagem? 
 Como a usamos socialmente? 
 Qual sua finalidade? 
 Como a linguagem se relaciona com a mente do falante e do intérprete? 
 Como a linguagem se relaciona com o mundo? 
 
Os filósofos da linguagem não se ocupam muito do que significam palavras 
ou frases individuais. Qualquer dicionário ou enciclopédia pode resolver o 
problema do significado das palavras. O mais interessante é: 
 O que significa para uma palavra ou frase significar alguma coisa por 
que as expressões têm os significados que têm? 
 Como uma expressão pode ter o mesmo significado de outra? 
 E, principalmente: qual o significado de “significado”?1 
 Filosofia da Linguagem e sua História 
O surgimento da linguagem é um fato fundamental na história humana. Não 
seria possível a organização dos seres humanos em sociedade sem a linguagem e 
vice-versa. Isso indica que a linguagem e a vida em sociedade devem ter surgido 
praticamente ao mesmo tempo. É difícil determinar qual a origem da linguagem, pois 
 
5 
 
não há muitas pistas a seguir. As primeiras explicações sobre a origem da linguagem 
têm seus fundamentos na religião. Deus teria dado a Adão uma língua e a capacidade 
de nomear tudo o que existe. Haveria apenas uma língua, em que cada palavra teria 
apenas um significado. Mas como explicar a diversidade das línguas? 
 
Torre de Babel 
Na Bíblia, o Gênesis conta que "o mundo inteiro falava a mesma língua, com 
as mesmas palavras" (Gn 11,1). Os homens resolveram, porém, criar uma cidade com 
uma torre tão alta que chegaria a tocar o céu e os tornaria famosos e poderosos. Então 
Deus, para castigá-los, fez com que ninguém mais se entendesse e os homens 
passaram a falar línguas diferentes. Assim, os construtores da torre se dispersaram e 
a obra permaneceu inacabada. A diversidade das línguas surge como forma de evitar 
a centralização do poder. A cidade dessa história bíblica ficou conhecida como Babel, 
que significa "confusão". 
 
Rousseau e o “Grito da Natureza” 
 
O filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) supôs que a linguagem 
humana teria evoluído gradualmente, a partir da necessidade de exprimir os 
sentimentos, até formas mais complexas e abstratas. Para Rousseau, a primeira 
linguagem do homem foi o "grito da natureza", que era usado pelos primeiros homens 
para implorar socorro no perigo ou como alívio de dores violentas, mas não era de 
uso comum. A linguagem propriamente dita só teria começado "quando as ideias dos 
homens começaram a estender-se e a multiplicar-se, e se estabeleceu entre eles uma 
comunicação mais íntima, procuraram sinais mais numerosos e uma língua mais 
extensa; multiplicaram as inflexões de voz e juntaram-lhes gesto. 
 
1 Texto extraído de: www.estudantedefilosofia.com.br 
 
http://www.estudantedefilosofia.com.br/
 
6 
 
 
Fonte de: ontop.news 
Mead e a experiência comum 
 
Nesse processo, a comunicação se torna possível pelo fato dos indivíduos 
adotarem o mesmo significado para um gesto evocando uma vivência anterior do 
próprio indivíduo. Segundo Mead, quando o gesto chega a essa situação, converte-se no que chamamos de "linguagem", ou seja, um símbolo significante que representa 
certo significado. 
Com o passar do tempo, esse conjunto de gestos significantes dá lugar a 
formas mais elaboradas de linguagem, compondo um universo de discurso. Nesse 
estágio, o sentido já não é articulado apenas tendo por base a interiorização das 
expectativas de ação do outro. 
Há uma sofisticação da comunicação, que se torna possível pelo fato dos 
indivíduos adotarem o mesmo significado para o objeto dentro deste universo de 
discurso. 
 
“Esse universo de discurso é constituído por um grupo de indivíduos que 
conduz e participa de um processo social comum de experiência e 
comportamento, e no qual esses gestos ou símbolos significantes têm a 
mesma significação, ou uma significação comum para todos os membros do 
grupo... Um universo de discurso é simplesmente um sistema de significados 
comuns ou sociais”. (Mead, G., “Mind, Self and Society”). 
http://www.ontop.news/
 
7 
 
Portanto, a forma como o indivíduo organiza sua experiência é determinada em 
grande parte pelo universo de discurso ao qual ele pertence e conforma seu imaginário 
social e as formas de simbolização de sua experiência. Mas será que os limites da 
minha linguagem e da minha cultura são também os limites para pensar e significar a 
realidade? Será que existem línguas mais apropriadas ao filosofar como o grego ou o 
alemão, por exemplo? Ou existiriam estruturas de pensamento universais 
independentes da cultura e da linguagem? 
 
Noam Chomsky 
Uma sugestiva contribuição sobre esse tema foi elaborada pelo linguista e 
ativista político americano Noam Chomsky (nascido em 1928), que revolucionou a 
linguística ao introduzir a relação entre o pensamento e a linguagem. 
Para Chomsky, a criança disporia de pouca informação da língua para aprender 
como a linguagem funciona. Ainda mais, se considerarmos que além de contarem 
com poucos estímulos, os adultos, muitas vezes, não ajudam a criança em seu 
aprendizado dizendo-lhes coisas sem muito sentido. 
Mesmo assim, a maioria das crianças tem um domínio razoável da língua por 
volta dos dois anos de idade. Se considerarmos que a linguagem é um sistema 
bastante complexo com regras semânticas e sintáticas sutis e que o ambiente para o 
aprendizado da língua não é suficiente, então o que torna possível o seu aprendizado? 
A explicação estaria na estrutura mental geneticamente determinada, na qual 
estaria fixado um conjunto de regras gerais para a utilização da linguagem, que são 
universais por necessidade biológica e não por simples acidente histórico, e que 
decorrem de características mentais da espécie. 
 
Gramática Universal 
Chomsky define o conjunto de princípios e regras que determinam o uso da 
linguagem como "gramática universal". Trata-se de um sistema de princípios, 
condições e regras que são elementos ou propriedades de todas as línguas humanas. 
Esse sistema seria o resultado de um longo processo de evolução biológica, que 
constituiria a essência da linguagem humana. 
Esta gramática universal seria, portanto, uma estrutura anterior ao aprendizado 
de qualquer gramática específica, pertencendo a um estágio inicial do cérebro. Ela 
 
8 
 
não se identifica a nenhuma linguagem particular, mas é subjacente a todas as línguas 
possíveis. 
Se a linguagem é aprendida a partir da interação social e por ela condicionada 
ou é produto da relação entre o ambiente e as estruturas mentais geneticamente 
herdadas é algo que ainda não podemos afirmar com certeza. Tal questão permanece 
guardada como um fascinante segredo sobre sua origem2. 
 Diacrônica, se encarrega de estudar o significado das palavras em 
determinado espaço de tempo. 
A fim de conhecer as palavras apropriadas para empregá-las em determinados 
discursos, recorremos à semântica, ou seja, a significação dos termos. 
Para isso, alguns conceitos são basilares para o estudo das significações, 
como por exemplo: Sinonímia e Antonímia; Polissemia; Conotação e Denotação. 
 
 
 
Fonte: bibliotecamadre.com 
 Sinonímia e Antonímia 
Os sinônimos designam as palavras que possuem significados semelhantes, 
por exemplo: 
 Andar e caminhar
 Usar e utilizar
 Fraco e frágil
http://www.bibliotecamadre.com/
 
9 
 
Do grego, a palavra sinônimo significa “semelhante nome” sendo classificados 
de acordo com a semelhança que compartilham com o outro termo. 
Os sinônimos perfeitos possuem significados idênticos (após e depois; léxico e 
vocabulário). Já os sinônimos imperfeitos possuem significados parecidos (gordo e 
obeso; córrego e riacho). 
Os antônimos designam as palavras que possuem significados contrários, por 
exemplo: 
 Claro e escuro
 Triste e feliz
 Bom e mau
 
Do grego, a palavra “antônimo” significa “nome oposto, contrário”. 
 Paronímia e Homonímia 
Homônimos são palavras que ora possuem a mesma pronúncia, (palavras 
homófonas), ora possuem a mesma grafia (palavras homógrafas), entretanto, 
possuem significados diferentes. 
São chamados de "homônimos perfeitos", as palavras que possuem a mesma 
grafia e a mesma sonoridade na pronúncia, por exemplo: 
 O pelo do cachorro é curto.
 Pelo caminho da vida.
 Tenho que chegar cedo.
 Cedo meu lugar aos idosos.

Parônimos são aquelas palavras que possuem significados diferentes, porém 
se assemelham na pronúncia e na escrita, por exemplo: 
 Soar (produzir som) e suar (transpirar);
 Acento (sinal gráfico) e assento (local para sentar);
 Acender (dar luz) e ascender (subir).
 
 
 
10 
 
 Polissemia 
A polissemia representa a multiplicidade de significados de uma palavra. 
Com o decorrer do tempo, determinado termo adquiriu um novo significado, 
entretanto, ainda se relaciona com o original, por exemplo: 
 
 A menina quebrou a perna no acidente.
 A perna da cadeira é marrom.
 Que letra ilegível!
 A letra dessa canção é muito bonita.
 Conotação e Denotação 
A conotação designa o sentido virtual, figurado e subjetivo da palavra, 
alargando o seu campo semântico. Assim, depende do contexto. 
Na maioria das vezes, a conotação é utilizada nos textos poéticos com o intuito 
de produzir sensações no leitor. 
A denotação designa o sentido real, literal e objetivo da palavra. Ela explora 
uma linguagem mais informativa, em detrimento de uma linguagem mais poética 
(conotativa). 
É muito utilizada nos trabalhos acadêmicos, jornais, manuais de instruções, 
dentre outros. 
 
Exemplos: 
 
 Ele foi um cara de pau! (Sentido conotativo)
 Não foi aquele cara que te pediu informação ontem? (Sentido denotativo)
 
 
https://www.todamateria.com.br/polissemia/
 
11 
 
 
Fonte: clubedoportugues.com.br 
 Agiu como um porco. (Sentido conotativo)
 No sítio do meu avô há um porco. (Sentido denotativo)3
 Relações Lógico-semânticas 
Relação de condicionalidade (se p então q) – Expressa-se pela conexão de 
duas orações, uma introduzida pelo conector se ou similar (oração antecedente) e 
outra por então, que geralmente vem implícita (oração consequente). O que se afirma 
nesse tipo de relação é que, sendo o antecedente verdadeiro, o consequente também 
o será. Exemplos: 
Se aquecermos o ferro, (então) ele se derreterá. Caso faça sol, (então) iremos 
à praia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 Texto extraído de: www.todamateria.com.br 
http://www.clubedoportugues.com.br/
http://www.todamateria.com.br/
 
12 
 
Relação de causalidade (p porque q) – Expressa-se pela conexão de duas 
orações, uma das quais encerra a causa que acarreta a consequência contida na 
outra. Tal relação pode ser veiculada sob diversas formas estruturais, como: 
 
O torcedor ficou rouco porque gritou demais. 
Consequência causa 
 
O torcedor gritou tanto que ficou rouco. 
 
Causa Consequência 
O torcedor gritou demais; então (por isso) ficou rouco. 
Como tivesse gritado demais, o torcedor ficou rouco. Por ter gritado demais 
Causa 
 
Relação de mediação– que se exprime por intermédio de duas orações, numa 
das quais se explicitam o (s) meio (s) para atingir um fim expresso em outra: 
Meio Fim 
 
O jovem envidou todos os esforços para conquistar/o amor da garota dos seus 
sonhos. 
Embora, do ponto de vista lógico, a relação de condicionalidade (implicação) 
englobe as de causalidade e de mediação, são apresentadas separadamente por 
razões didáticas. 
Relação de disjunção – se expressa através do conectivo ou. Esse conector, 
porém, é ambíguo, correspondendo ora à forma latina aut, com valor exclusivo (isto é, 
um ou outro, mas não ambos), ora à forma vel com valor inclusivo (ou seja, um ou 
outro, possivelmente ambos). Exemplos: 
Você vai passar o fim de semana em São Paulo ou vai descer para o litoral? 
(Exclusivo) 
 
Todos os congressistas deveriam usar crachás ou trajar camisas vermelhas. 
 
 
13 
 
(Inclusivo: e/ou). 
 
Relação de temporalidade – por meio da qual, através da conexão de duas 
orações, localizam-se no tempo, relacionando-os uns aos outros, ações, eventos, 
estados de coisas do “mundo real” ou a ordem em que se teve percepção ou 
conhecimento deles. O relacionamento temporal pode ser de vários tipos: 
 Tempo simultâneo (exato, pontual): Quando / Mal / Nem bem / Assim 
que / Logo que / No momento em que... o filme começou, ouviu-se um 
grito na plateia.
 Tempo anterior/posterior: Antes que o inimigo conseguisse puxar a 
arma, o soldado deferiu-lhe uma saraivada de tiros.

Depois que Maria enviuvou, ele preferiu viver na fazenda de seus pais. 
 Tempo contínuo ou progressivo: Enquanto os alunos faziam os 
exercícios, o professor corrigia as provas da outra turma.
À medida que os recursos iam minguando, aumentava o desespero da 
população do vilarejo isolado pelas inundações. 
 Relação de conformidade: Expressa-se pela conexão de duas orações em 
que se mostra a conformidade do conteúdo de uma com algo asseverado na 
outra: 
O réu agiu conforme o advogado lhe havia determinado. 
 
Relação de modo: Por meio da qual se expressa, numa das orações, o modo 
como se realizou a ação ou evento contido na outra. Exemplo: 
Sem levantar a cabeça, a criança ouvia as reprimendas da mãe 
Como se fosse um raio, o cavaleiro disparou pela campina afora. 
 
 
 
14 
 
 
Fonte: institutonetclaroembratel.org.br 
2 RELAÇÕES DISCURSIVAS OU ARGUMENTATIVAS 
Conjunção – efetuada por meio de operadores como é, também, não só..., 
mas também, tanto... como, além de, além disso, ainda, nem (=e não), quando ligam 
enunciados que constituem argumentos para uma mesma conclusão. 
Exemplos: 
 
João é, sem dúvida, o melhor candidato. Tem boa formação e apresenta um 
consistente programa administrativo. 
Além disso, revela pleno conhecimento dos problemas da população. Ressalte- 
se, ainda, que não faz promessas demagógicas. 
A reunião foi um fracasso. Não se chegou a nenhuma conclusão importante, 
nem (=e não) se discutiu o problema central. 

Disjunção argumentativa – Trata-se aqui da disjunção de enunciados que 
possuem orientações discursivas diferentes e resultam de dois atos de fala distintos, 
em que o segundo procura provocar o leitor/ouvinte para leva-lo a modificar sua 
opinião ou, simplesmente, aceitar a opinião expressa pelo primeiro:
Todo voto é útil. Ou não foi útil o voto dado ao rinoceronte “Cacareco” nas 
eleições municipais, há alguns anos atrás? 
http://www.institutonetclaroembratel.org.br/
 
15 
 
Contrajunção – Através da qual se contrapõem enunciados de orientações 
argumentativas diferentes, devendo prevalecer a do enunciado introduzido pelo 
operador: mas (porém, contudo, todavia, etc.). Exemplo: Tinha todos os requisitos 
para ser um homem feliz. Mas vivia só e deprimido.
Quando se utiliza o operador embora (ainda que, apesar de (que) etc.), 
prevalece a orientação argumentativa do enunciado não introduzido pelo operador. 
 
Exemplos: 
Embora desconfiasse do amigo, nada deixava transparecer. 
O calor continuava insuportável, apesar da chuva que caiu o dia todo. 
 Explicação ou justificativa – quando se encadeia sobre um primeiro 
ato de fala, outro ato que justifica ou explica o anterior:
 
Não vá ainda, que tenho uma coisa importante para lhe dizer. (Justificativa) 
Deve ter faltado energia por muito tempo, pois a geladeira está totalmente 
descongelada. (Explicação) 
 
 Comprovação – em que, através de um novo ato de fala, acrescenta-se 
uma possível comprovação da asserção apresentada no primeiro:
Encontrei seu namorado na festa, tanto que ele estava de tênis Adidas. 
 
 Conclusão – em que, por meio de operadores como: portanto, logo, por 
conseguinte, pois etc., introduz-se um enunciado de valor conclusivo em 
relação a dois (ou mais) atos de fala anteriores que contêm as premissas, 
uma das quais, geralmente, permanece implícita, por tratar-se de algo que 
é voz geral, de consenso em dada cultura, ou, então, verdade 
universalmente aceita.
Toda a equipe jogou desentrosada. Portanto (logo) o novo atacante não 
poderia mesmo ter mostrado o seu bom futebol. 
João é um indivíduo perigoso. Portanto, fique longe dele. 
 
 Comparação – expressa-se por meio dos operadores (tanto, tal)... como 
(quanto), mais... (do) que, menos... (do) que, estabelecendo entre um 
 
16 
 
termo comparante e um termo comparado, uma relação de inferioridade, 
superioridade ou igualdade. A relação comparativa possui um caráter 
eminentemente argumentativo: a comparação se faz tendo em vista dada 
conclusão a favor ou contra a qual se pretende argumentar. Assim, se a 
uma pergunta como: “Devemos chamar Pedro para tirar a mala de cima do 
armário?”, se obtivesse como resposta:
 
“João é tão alto quanto Pedro” 
A resposta seria desfavorável a Pedro (embora não negando a sua altura) e 
favorável a João. Se, por outro lado, a resposta fosse: 
 
“Pedro é tão alto como João” 
Haveria inversão da orientação argumentativa, agora favorável a Pedro. 
 
 
Fonte: infoenem.com.br 
 Generalização/extensão – em que o segundo enunciado exprime uma 
generalização do fato contido no primeiro, ou uma amplificação da ideia 
nele expressa:

http://www.infoenem.com.br/
 
17 
 
Maria está atrasada. Aliás / Também / É verdade que..., ela nunca chega na 
hora. 
Tive prazer em conhece-la. De fato / Realmente..., estou encantado. 
Pedro está de novo sem dinheiro. Bem / Aliás / Mas..., é o que acontece com 
todo estudante que vive de mesada. 
 Especificação/exemplificação – em que o segundo enunciado 
particulariza e/ou exemplifica uma declaração de ordem mais geral 
apresenta no primeiro:
Muitos de nossos colegas estão no exterior. Pierre, por exemplo, está na 
França. 
Nos países do Terceiro Mundo, como a Bolívia e o Brasil, falta saneamento 
básico em muitas regiões. 
 
 Contraste – na qual o segundo enunciado apresenta uma declaração 
que contrasta com a do primeiro, produzindo um efeito retórico:
 
Gosto muito de esporte. Mas luta-livre, faça-me o favor! 
 
Os ricos ficam cada vez mais ricos, ao passo que os pobres se tornam cada 
vez mais pobres. 
 
 Correção/Redefinição – Quando, através de um segundo enunciado, 
se corrige, suspende ou redefine o conteúdo do primeiro, se atenua ou 
reforça o comprometimento com a verdade do que nele foi veiculado 
ou, ainda, se questiona a própria legitimidade de sua enunciação:
 
 Irei à sua festa. Isto é, se você me convidar. 
 
 Eu não agiria deste modo. Se você quer saber a minha opinião. Meus 
parabéns! Ou não devo cumprimenta-la por isso? 
 Pedro chega hoje. Ou melhor, acredito que chegue, não tenho certeza. 
 Ele não é muito esperto. De fato (Pelo contrário), parece-me bastante 
estúpido. Prometo ir ao encontro. Isto é (Ou melhor), vou tentar. 
 
18 
 
3 ANÁLISE INTENCIONAL E PRAGMÁTICA 
 A Pragmática em geral 
A pragmática, como se conhece hoje, começou com a ‘Teoria dos Atos de Fala’ 
desenvolvida por John Langshaw Austin. Diferente doque pode se pensar, Austin 
construiu sua teoria a partir de ferrenha crítica a Wittgenstein que, através de seus 
adeptos, anunciava que “o significado é o seu uso” (Austin, 1990, p.89). Para Austin, 
filósofo de Oxford, era inaceitável a tese de Wittgenstein, oriundo de Cambridge, da 
impossibilidade de classificar e sistematizar o uso da linguagem. Para Austin, era 
necessária e possível uma definição sistemática dos usos linguísticos que, 
certamente, não se restringem às descrições ou às declarações de um fato. 
 
Por mais tempo que o necessário, os filósofos acreditaram que o papel de 
uma declaração era tão-somente o de descrever um estado de coisas, ou 
declarar um fato, o que deveria fazer de modo verdadeiro ou falso. Os 
gramáticos, na realidade, indicaram com frequência que nem todas as 
sentenças são (usadas para fazer) declarações, há tradicionalmente, além 
das declarações (dos gramáticos), perguntas e exclamações, e sentenças 
que expressam ordens, desejo ou concessões (Austin, 1990, p.21) 
Para Austin (1990) usar a linguagem é realizar uma ação. A partir da análise 
da teoria dos jogos de linguagem, que salienta a importância das condições de uso 
da linguagem, exposta por Wittgenstein (2008), que também, sob este aspecto, pode 
ser considerado um dos iniciadores da pragmática (Dascal, 2006, p. 51), Austin (1990) 
conclui que determinadas sentenças são, na verdade, ações. Toda ação que é 
realizada através do dizer é chamada de ato de fala. 
Criticando a posição de vários linguistas e filósofos que davam grande 
importância à função descritiva da linguagem, sendo, portanto, sujeita às condições 
de verdade e verificabilidade, Austin distingue os usos das sentenças em 
“constatativos” e “performativos”, conforme descrevam fatos ou realizem (to 
perform) algo. São exemplos de “constatativos” os usos da linguagem que tenham 
como objetivo descrever ou relatar estados de coisas como: “João está brincando no 
quintal” (Marcondes, 2005, p.17). Já os “performativos” devem atender a 
determinadas condições, como: não descrever, relatar ou constatar; não ser 
“verdadeiro” ou “falso”; ser, no todo ou em parte, a realização de uma ação (Austin, 
 
19 
 
1990, p. 24). Austin, ao exemplificar os performativos, demonstra que ao 
proferir as sentenças não se está descrevendo o ato e sim o realizando. 
Exemplos: “Aceito, esta mulher como minha legítima esposa” – do modo 
que é proferido no decurso de uma cerimônia de casamento. 
“Batizo este navio com o nome de Rainha Elizabeth” – quando proferido ao 
quebrar-se a garrafa contra o casco do navio. 
“Lego a meu irmão este relógio” – tal como ocorre em um testamento. “Aposto 
cem cruzados como vai chover amanhã”. (Austin, 1990, p. 24) 
Como dito, os performativos por expressarem ações não se sujeitam aos 
critérios de “verdade” e “falsidade”, contudo, como toda ação, podem ser bem ou mal 
- sucedidas, ao que Austin chamará de “condições de felicidade” em sua II 
Conferência (Austin, 1990, p.29). 
 
Além do proferimento das palavras chamadas performativas, muitas outras 
coisas em geral têm que ocorrer de modo adequado para podermos dizer que 
realizamos, com êxito, a nossa ação. Quais são essas coisas esperamos 
descobrir pela observação e classificação dos tipos de caso em que algo “sai 
errado” e nos quais o ato – isto é, casar, apostar, fazer um legado, batizar, 
etc. – redunda, pelo o menos em parte, em fracassar. Em tais casos não 
devemos dizer de modo geral que o proferimento seja falso, mas malogrado. 
Por esta razão chamamos a doutrina das “coisas que podem ser ou resultar 
malogradas”, por ocasião de tal proferimento, de doutrina das “infelicidades” 
(Austin, 1990, p. 30). 
 
 
Fonte: portugues.com.br 
http://www.portugues.com.br/
 
20 
 
Assim, para que um ato de fala performativo possa se constituir em uma ação 
“feliz” ele deve satisfazer a algumas condições, que podem ser agrupadas em dois 
tipos, às que se referem às convenções (as enunciações devem responder a 
determinadas convenções ou serão nulas. Exemplo: um casamento realizado perante 
o capitão do navio e não perante a um padre não é válido) e às que dizem respeito à 
intenção (as enunciações devem ser sinceras e exprimir a reta intenção ou 
configurarão um “abuso”) (Penco, 2006, p. 156). Como se pode inferir, não respeitar 
as convenções é mais grave do que ser “insincero”, ou seja, praticar um ato de fala 
contrário à intenção. Embora os dois determinem que o performativo seja malogrado, 
no caso de desrespeitar-se uma convenção, como se casando perante o capitão do 
navio, o ato de “casar” é nulo ou sem efeito. Já o casamento realizado em atenção às 
convenções, mas sem a intenção de realizar o ato, como no caso de coação de um 
dos nubentes, o ato de “casar” será concretizado, não será nulo, ainda que possa ser 
desfeito em momento posterior em razão da coação. Como só se desfaz o que foi 
consumado, conclui-se que o desrespeito a uma convenção determina a não 
produção de efeitos do ato, sendo mais grave, enquanto o desrespeito à intenção, não 
impede a efetivação do ato, mesmo que depois este possa ser desfeito (Austin, 1990, 
p. 32). 
Após distinguir os proferimentos performativos dos constatativos e concluir que 
os atos performativos possuem uma dimensão constatativa e vice e versa, pode-se 
falar então que usar a linguagem é uma ação que contém elementos constatativos e 
performativos, devendo a teoria do ato de fala performativo ser estendida para toda a 
linguagem, como uma teoria geral da ação (Austin, 1990, p.122), em que o “ato de 
fala” é a unidade básica de significação (Marcondes, 2005, p. 18). 
Os atos de fala têm diferentes dimensões, podendo os atos serem 
locucionários (ato “de” dizer algo), ilocucionários, que são o núcleo dos atos de fala 
e tem como aspecto a força ilocucionária, consistente no uso performativo 
propriamente dito (que realiza uma ação ao ser dito) e perlocucionário (em que há 
intenção de provocar nos ouvintes certos efeitos). Nem todos os atos de fala possuem 
as três dimensões, isso porque depende da força ilocucionária que está ligada às 
interações sociais que se estabelecem entre os sujeitos falantes, que podem ser de 
cooperação, de determinação, de autoridade e etc. 
 
21 
 
Em geral, o ato locucionário como o ato ilocucionário é apenas uma 
abstração: todo ato linguístico genuíno é ambas as coisas de uma só vez 
(Austin, 1990, p.121). O efeito equivale a tornar compreensível o significado 
e a força da locução. Assim, a realização de um ato ilocucionário envolve 
assegurar sua apreensão. O ato ilocucionário “tem efeito” de certas maneiras, 
o que se distingue de produzir consequências no sentido de provocar estado 
de coisas de maneira “normal”, isto é, mudanças de no curso normal dos 
acontecimentos (Austin, 1990). 
O ato locucionário ou locutório para Austin é definido fundamentalmente pelos 
aspectos fonéticos, sintáticos e semânticos. Já os atos ilocucionários, tidos como 
centrais na teoria dos atos de fala, serão caracterizados pelas forças ilocucionárias 
que consistem no performativo propriamente dito. Quando digo “Aposto cem cruzados 
que vai chover amanhã”, não estou descrevendo algo, nem declarando uma intenção 
e sim realizando uma ação: a aposta. Portanto, “apostar” é um performativo e, quando 
profiro a sentença, a força do meu ato é a da aposta. O estudo das classes de “força 
ilocucionária” é o tema da última Conferência de Quando dizer é fazer. 
Deixando de lado a ideia de elaborar uma lista de verbos performativos 
explícitos, Austin reconhece que sua teoria precisa é de uma lista das forças 
ilocucionárias de um proferimento (Austin, 1990, p.123), o que ele faz determinando 
cinco classes de proferimentos em função de sua força ilocucionária. 
 
Os primeiros, veriditivos, caracterizam-se por dar um veredicto, como o nome 
sugere, por um corpo de jurados, por um árbitro, ou por um desempatador. 
(...) constituem essencialmenteo estabelecimento de algo – fato ou valor – a 
respeito do qual, por diferentes razões, é difícil estar seguro. Os segundos, 
os exercitivos, consistem no exercício de poderes, direitos ou influências. Por 
exemplo: designar, votar, ordenar, instar, aconselhar, avisar e etc. Os 
terceiros, os comissivos, caracterizam-se por prometer ou de alguma forma 
assumir algo, comprometem a pessoa a fazer algo, incluem também 
declarações ou anúncios de intenção, que não constituem promessa (...) os 
quartos, comportamentais, constituem um grupo muito heterogêneo, e têm a 
ver com atitudes e comportamento social. Exemplos são: pedir desculpas, 
felicitar, elogiar, dar os pesamos, maldizer e desafiar. Os quintos, os 
expositivos, são difíceis de definir. Eles esclarecem o modo como nossos 
proferimentos se encaixam no curso de uma argumentação ou conversa (...). 
Exemplos são: “contesto”, “argumento”, “concedo”, “exemplifico”, “suponho”, 
“postulo” (Austin, 1990. p. 123-124) 
No fim de suas conferências, Austin esclarece que apresentou um programa, 
em que disse o que deve ser feito ao invés de fazê-lo (Austin, 1990, p.132). Tal 
programa serviu de ponto de partida para outros filósofos, dentre eles John R. Searle, 
que além de ter desenvolvido uma classificação alternativa de atos ilocucionários, 
 
22 
 
reelaborou o conjunto de componentes da força ilocucionária. Searle ainda definiu os 
“atos de fala indiretos”, como sendo os que sem pedir diretamente que se realize a 
ação, os atos linguísticos indiretos sugerem isto implícita e indiretamente. São 
exemplos de atos de fala indiretos as perguntas: “Sabe que horas são?”, “Pode 
passar-me o sal?”. São perguntas que, embora tenham força de uma pergunta, 
desempenham a função de ordens ou pedidos, não sendo satisfatórias as respostas 
diretas como “sim” ou “não” (Penco, 2006, p. 160). 
Austin (1990, p. 69) esclarece que a linguagem não é clara, o que reforça a 
necessidade de instrumentos extralinguísticos para conferir sentido ao enunciado: 
As formas primitivas ou primárias dos proferimentos conservam, neste 
sentido, a “ambiguidade”, ou “equivoco”, ou o “caráter vago” da linguagem 
primitiva. Tais formas não tornam explícita a força exata do proferimento. (...) 
A linguagem em si, e nos seus estágios, não é precisa, nem explícita, no 
sentido que demos a esta palavra (Austin, 1990, p. 69). 
 
Fonte: letrasnaoencontradas.com 
A contribuição de Austin e de seus sucessores, como Searle, para os estudos 
da pragmática é inquestionável, vez que o filósofo desenvolveu a partir da teoria do 
“segundo” Wittgenstein sobre “jogos de linguagem” o importante conceito de “atos de 
fala” e a classificação da força ilocucionária dos atos performativos, superando então 
a ideia da linguagem como descrição e afirmando que a linguagem é um meio de agir 
sobre o ouvinte e sobre o mundo. Desta maneira, enquanto a Linguística se preocupa 
http://www.letrasnaoencontradas.com/
 
23 
 
em explicar o sistema ou o conhecimento, a Pragmática busca compreender a 
produção e a interpretação completa dos enunciados, analisando o uso da linguagem 
em geral (Forin, 2002, p. 185). Forin diz que “o estudo do uso é absolutamente 
necessário, pois há palavras e frases cuja interpretação só pode ocorrer na situação 
concreta da fala”. Este estudo do uso da linguagem e sua estrutura são conhecidos 
como pragmática (Forin, 2002, p. 167). 
Muitas vezes o texto ou o enunciado verbal não é diretamente compreensível 
através dos métodos clássicos de interpretação, como a busca do significado de cada 
uma das palavras ou mesmo da relação entre elas, sendo necessária a verificação do 
contexto e do uso das palavras, como propagava Wittgenstein ao falar dos “jogos de 
linguagem”. Com Austin, verificou-se ainda que os enunciados têm natureza 
performativa e que ao falar, o sujeito realiza uma ação. De tudo isso, percebeu-se a 
importância do desenvolvimento de um método, de uma teoria ou de uma forma de 
compreensão que não se restringisse ao que é literalmente dito e ao exclusivamente 
linguístico. Tornou-se decisiva a inclusão da análise de fatores extralinguísticos que 
configuram o ato comunicativo (Vidal, 1999, p. 22). Com esta inclusão passou-se a 
falar de uma perspectiva pragmática, cujo objeto de estudo ainda é controverso na 
doutrina. 
Koch (2008, p.30) para explicar que o sentido de um texto não está no 
texto, mas se constrói a partir dele, no curso de uma interação recorre à 
“metáfora do iceberg”: 
Como este, todo texto possui apenas uma pequena superfície exposta e 
uma imensa área imersa subjacente. Para se chegar às profundezas do 
implícito e dele extrair um sentido, faz-se necessário o recurso aos vários 
sistemas de conhecimento e a ativação de processos e estratégias 
cognitivas e interacionais (Koch, 2008, p.30). 
Dascal (2006) busca uma definição para a pragmática, bem como as diferenças 
desta para a semântica. Todavia, embora com o reconhecimento das distinções, 
reconhece e afirma a existência de uma relação de interdependência entre a 
pragmática e a semântica7. Para o Autor, a pragmática possui um “domínio, específico 
e bem definido, de objetos a serem investigados: as intenções comunicativas” (2006, 
p. 44). 
Criticando a inclusão de fenômenos diversos e variados no campo da 
pragmática, Dascal (2006, p.8) busca estabelecer um critério distintivo. Nesse 
 
24 
 
desiderato Carnap apud Dascal (2006, p.29) estabelece um modelo residual, nome 
dado por Dascal, para a definição do domínio da pragmática, dizendo que enquanto a 
semântica e a sintaxe são disciplinas teóricas, a pragmática é “tão somente uma 
disciplina empírica”, que não possui método próprio e faz uso, em vez disso, “dos 
resultados de diferentes ramos da ciência (principalmente da ciência social, mas 
também da física, da biologia e da psicologia) ”. Para ele a pragmática é uma disciplina 
que lida com os fenômenos linguísticos com que as outras disciplinas linguísticas 
(principalmente a semântica) não têm obrigação de lidar. 
Uma vez encontradas as características sintáticas de uma linguagem através 
da pragmática, podemos desviar nossa atenção dos usuários da língua e voltarmos 
os nossos olhos para as características semânticas e sintáticas. (Canarp apud Dascal, 
2006, p. 29) 
Dascal (2006, p. 30) rejeitando este modelo, por ele mesmo nomeado como 
residual, vez que a pragmática é definida como tudo o que não é tratado pela 
semântica e pela sintaxe, busca o desenvolvimento de uma teoria mais sólida do 
objeto e dos métodos da pragmática, que não se confunda com objetos de outras 
disciplinas, especialmente, a semântica e a sintaxe. Nesta busca, utiliza como ponto 
de partida, “os resíduos de outras teorias” (Dascal, 2006, p. 31). 
Segundo Dascal (2006, p.31), toda teoria pragmática do século XX é uma 
tentativa de reciclar o “rico material que Frege descartou em sua cesta de lixo”. 
Frege apud Dascal (2006, p. 31) diz que a semântica está interessada 
exclusivamente nos aspectos do significado relativos à verdade das sentenças. 
Assim, um enunciado tem sentido porque expressa uma proposição que pode ser 
avaliada como sendo verdadeira ou falsa. Para ele existem aspectos do 
“significado” que, não sendo relevantes para a verdade de um enunciado, não são 
de interesse da teoria semântica. São três tipos de sentença que contêm 
fenômenos do significado que Frege considera irrelevantes para a preocupação 
semântica com a verdade: 
Sentenças que não levantam a questão da verdade (ordens, pedidos, 
promessas e etc.); (b) sentenças que exprimem mais que “pensamentos” 
(sentenças cuja finalidade é excitar os sentimentos ou a imaginação do 
ouvinte, assim como insinuações e expectativas); (c) sentenças que não são 
suficientes por si só, para expressar um “pensamento” (demonstrativos, 
pronomes, advérbios de tempo e etc.). 
 
25 
 
Com o tempo, cada um destes aspectos do significado foi objeto paradigmático 
da pragmática,sendo que cada uma destas escolhas pressupõe um modelo residual 
de definição, pois caracteriza a pragmática como a que estuda aspectos do significado 
que estão fora do domínio da semântica. E, em cada uma destas escolhas, utiliza-se 
de seu próprio critério “positivo”, segundo o qual se define um fenômeno como 
pragmático (Dascal, 2006, p.31). 
Todavia, todos os critérios cogitados, são dados como insuficientes para 
estabelecer-se um conjunto coerente de aspectos que possam ser distintos de uma 
teoria semântica, isso porque mesmo a teoria semântica necessita de aspectos 
contextuais sem que isso a torne pragmática.4 
4 ANÁLISE HERMENÊUTICA DA LINGUAGEM 
 Historicidade e Linguagem 
Contrapondo-se à negação da história representada pelo cientificismo 
positivista e neopositivista, existe uma linha de filósofos que parte de Nietzsche e 
passa por Heidegger e pelos existencialistas, afirmando a historicidade do homem e 
do seu conhecimento. 
 
Fonte: novaresistencia.org 
 
4 Texto extraído de: www.maxwell.vrac.puc-rio.br 
http://www.novaresistencia.org/
http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/
 
26 
 
Essa postura anticientífica e historicista é tipicamente qualificada como a 
filosofia continental, em oposição à filosofia analítica de matriz tipicamente anglo-
saxã. Porém, por mais que essa divisão persista até os dias de hoje, sendo 
caracterizáveis diferenças fundamentais na formação típica dos filósofos e dos estilos 
de discurso envolvidos no labor filosófico, as linhas de força que inspiram esses 
grandes modelos passaram a se encontrar com bastante frequência, especialmente 
no período que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial. 
Um dos maiores responsáveis por essa convergência foi Wittgenstein, que é 
um dos filósofos da linguagem mais lidos pela tradição continental, especialmente 
porque ele propôs em suas obras póstumas conceitos linguísticos que se 
contrapunham à filosofia analítica tradicional e que abriram espaço para uma espécie 
de historicização da linguagem. Em vez de se preocupar apenas com a formalização 
da linguagem e da garantia de rigor e precisão necessários para uma linguagem 
científica, Wittgenstein foi o grande responsável pelo nascimento de uma filosofia da 
linguagem ordinária, em que a busca não era a de estabelecer uma linguagem 
purificada, mas de compreender o modo como as linguagens naturais efetivamente 
funcionam. 
O principal conceito que ele desenvolveu foi o de jogo de linguagem, 
rompendo com a noção cientificista de que a perfeição linguística estava no rigor e na 
precisão, e afirmando existência de uma pluralidade de jogos linguísticos, cada qual 
com suas regras e elementos. Segundo Warat, contrapondo-se à ideia de que a 
linguagem natural era inadequada ao conhecimento, Wittgenstein passou a defender 
que faltava ao neopositivismo lógico uma compreensão filosófica adequada dos 
mecanismos que regem as linguagens ordinárias: enquanto estes estudos se 
limitavam aos planos sintáticos e semânticos, uma compreensão das linguagens 
ordinárias dependia de uma análise pragmática. 
Essa virada pragmática gera uma abertura para além do cientificismo e da 
lógica, mas ainda não é uma abertura historicista, pois “a análise pragmática da 
filosofia da linguagem ordinária não se estendeu aos fatores sócio-políticos”, 
ignorando a necessária inserção histórica da linguagem. Porém, a generalização do 
conceito de jogo construiu uma ponte entre a filosofia da linguagem e a o historicismo 
continental, na medida em que ela possibilita a percepção das relações sociais como 
interações linguísticas, mas sem recair no cientificismo logicista do neopositivismo. 
 
27 
 
A partir desse giro pragmático, a filosofia da linguagem passou a desenvolver 
instrumentos para uma compreensão linguística de problemas históricos, que 
gradualmente passaram a integrar o instrumental teórico dos filósofos continentais. 
Por exemplo, a reflexão sobre o nível pragmático da linguagem permitiu uma conexão 
das preocupações linguísticas com a crítica da ideologia da Escola de Frankfurt, cujos 
desenvolvimentos de matriz linguístico estão na base da influente teoria da ação 
comunicativa de Habermas. Habermas, por sua vez, deve bastante às investigações 
de Apel, cuja obra tenta articular uma combinação entre a filosofia analítica e a 
hermenêutica. 
Inspiração pragmática também tem a arqueologia proposta por Foucault, indo 
além do estruturalismo (que tinha influências da teoria da linguagem, mas mantinha- 
se em um nível predominantemente semântico) para investigar na origem dos 
discursos as relações entre o saber e o poder. O desconstrutivismo de Derrida 
também ressalta o papel da linguagem, pois somente pode ser desconstruído aquilo 
que foi construído histórica e linguisticamente. Mesmo a teoria dos sistemas de 
Luhmann, na qual ainda há uma presença maior de um cientificismo, define as 
relações sociais como interações linguísticas. 
Assim, nas décadas de 50 e 60, ocorre no campo de domínio da filosofia 
continental uma espécie de universalização do fenômeno linguístico, com um uso 
cada vez mais ampliado de conceitos ligados à filosofia da linguagem. Essa mesma 
tendência se opera também no campo do direito, em que a teoria da argumentação 
de Perelman tenta restaurar a dignidade da retórica, que havia sido posta de lado no 
ambiente cientificista da modernidade. Na mesma época, Viehweg chamava atenção 
para o caráter tópico do pensamento jurídico, que não se deixa descrever nos quadros 
de um sistema de conceitos semanticamente definidos. Posteriormente, outras 
vertentes linguísticas ganharam força, como a teoria da argumentação de Alexy e as 
teorias hermenêuticas de Dworkin. 
 O círculo hermenêutico 
No campo da hermenêutica, o maior protagonista nessa aproximação entre 
historicidade e linguagem foi Hans-Georg Gadamer, que operou uma espécie de 
releitura linguística dos conceitos hermenêuticos propostos por Heidegger no campo 
 
28 
 
da ontologia. Assim, mesmo que se tenha inspirado explicitamente na hermenêutica 
da facticidade heideggeriana, foi de Gadamer o grande esforço no sentido de levar 
essa renovada preocupação hermenêutica ao campo da interpretação dos objetos 
culturais, dedicando-se ele especialmente a investigar o modo como interpretamos as 
obras de arte. 
Mas por que a arte, e não os textos jurídicos ou bíblicos, que também fazem 
parte da preocupação de Gadamer? Em primeiro lugar, porque tanto faz, na medida 
em que Gadamer propôs uma universalização do fenômeno hermenêutico que 
permitiria estudar a sua ocorrência em qualquer dos seus âmbitos, pois “a 
compreensão deve ser entendida como parte da ocorrência de sentido, em que se 
formula e se realiza o sentido de todo enunciado, tanto dos da arte como dos de 
qualquer outro gênero de tradição”. Então, tratava-se de uma nova universalidade: 
depois da universalidade da razão, a universalidade da interpretação, inspirada tanto 
por Heidegger quanto pelo giro linguístico. 
 
 
Fonte: queconceito.com.br 
Em segundo lugar, por um motivo estratégico: parece mais aceitável 
reconhecer o relativismo na interpretação das obras de arte que em outras áreas 
hermenêuticas, pois estamos já condicionados a não exigir da estética a definição 
dos cânones objetivos que normalmente se exige das disciplinas dogmáticas 
como o direito e a teologia. Então, se a interpretação das obras de arte não pode 
http://www.queconceito.com.br/
 
29 
 
ser submetida a uma metodologia predeterminada (como Gadamer intui e tenta 
mostrar), por que esse método seria possível em outras áreas? Afinal, de contas, 
como pode uma pessoa defender consistentemente a subjetividade da 
interpretação artística e a objetividade da interpretação jurídica? 
Assim, explorar o sentido da interpretação dentro de uma área em que o 
relativismo já era consolidado possibilitava a construção de um discurso que não 
precisaria bater-secontra as sólidas paredes dos nossos preconceitos 
dogmáticos. E depois de elaborada uma concepção hermenêutica nesse âmbito 
em que o pensamento é mais livre, parece mais fácil extrapolar o campo artístico 
mediante a aplicação a outros espaços dos conceitos ali construídos. Assim, 
Gadamer inicia sua obra principal analisando a compreensão da verdade na obra 
de arte, passa pela avaliação das peculiaridades da literatura (o que o traz para 
mais próximo dos textos verbais), para somente depois estender essa análise à 
compreensão nas ciências do espírito. 
E como Gadamer descreve a compreensão de uma obra de arte? Em 
primeiro lugar, ele retoma a ideia de que, quando recebemos uma informação 
nova, avaliamos esse dado com base nas nossas pré-compreensões. Segundo 
Gadamer, toda atribuição de sentido tem como base as percepções valorativas 
dos indivíduos, e essas percepções são uma mistura de algumas crenças 
individuais com muitas crenças socialmente compartilhadas, que formam o pano 
de fundo de toda interpretação. Com base nessas compreensões, projetamos um 
sentido para todo o texto ou situação analisada, projeção esta que pode ser 
confirmada ou não pelo aprofundamento do processo de compreensão. Segundo 
Gadamer: 
 
“Quem quiser compreender um texto realiza sempre um projetar. 
Tão logo apareça um primeiro sentido no texto, o intérprete projeta um 
sentido para o texto como um todo. O sentido inicial só se manifesta 
porque ele está lendo o texto com certas expectativas em relação ao 
seu sentido. A compreensão do que está posto no texto consiste 
precisamente no desenvolvimento dessa projeção, a qual tem que ir 
sendo constantemente revisada, com base nos sentidos que emergem à 
medida que se vai penetrando no significado do texto”. 
 
 
30 
 
Dessa forma, o entendimento do texto envolve um constante projetar de 
sentidos, com base nas pré-compreensões do intérprete. Entretanto, ao mesmo tempo 
em que uma ideia somente pode ser compreendida por meio das pré-compreensões 
que uma pessoa já possui, toda informação recebida contribui para a mudança do 
conjunto das pré-compreensões. Assim, embora sirvam como base necessária para 
o entendimento, as pré-compreensões vão-se transformando a cada passo. 
Para entender essa teoria, é útil apelarmos para o exemplo de um filme que 
tenha um bom roteiro. Ficam excluídos, desde logo, os filmes em que já se sabe o 
final antes de começar a sessão, mas não porque este projetar do final do filme nos 
leve para longe da hermenêutica (pelo contrário, trata-se de um exercício 
hermenêutico baseado nas nossas pré-compreensões sobre o cinema comercial e 
seus produtos), e sim porque o exemplo se torna mais esclarecedor ao lidar com 
exercícios hermenêuticos mais complexos. 
Quantas vezes entendemos o significado de uma cena que acontece no início 
do filme apenas quando chegamos ao final da história? Quantas vezes saímos do 
cinema relembrando os episódios iniciais e revendo o modo como eles deveriam ser 
interpretados? Isso acontece porque cada cena particular somente pode ser entendida 
dentro do contexto da obra completa. Todavia, a obra completa é formada pela 
sequência dos episódios particulares. 
Logo que começamos a assistir um filme, formamos uma série de expectativas 
com relação ao significado de cada cena que nos é apresentada. Essas projeções de 
sentido, esses projetos de interpretação, resultam da avaliação do roteiro a partir de 
nossas pré-compreensões. Todavia, a cada nova informação recebida, essas 
projeções de sentido vão sendo alteradas, o que implica uma modificação gradual no 
sentido que atribuímos ao filme. Além disso, cada vez que se modifica a nossa 
projeção de sentido sobre o filme, mudam também os significados que atribuímos às 
cenas anteriores. 
Como observou Gadamer, “esse constante processo de reprojetar constitui o 
movimento do compreender e do interpretar”. Nesse processo de vai-e-vem, a nossa 
compreensão sobre a obra vai sendo alterada, pois temos necessidade de integrar as 
novas cenas em um contexto coerente; além disso, a nossa compreensão de cada 
cena particular vai sendo modificada à medida que muda nossa compreensão sobre 
o filme como um todo. Dessa forma, tal como cada cena não pode ser compreendida 
 
31 
 
fora do conjunto da obra, o filme não pode ser entendido senão a partir da 
compreensão de cada cena particular e das relações entre elas. 
Essa conexão circular entre o entendimento do todo e o das partes é tão 
aplicável ao cinema quanto ao direito ou a qualquer outro objeto de conhecimento. Na 
medida em que tentamos harmonizar as informações que recebemos com as que já 
tínhamos, as nossas visões sobre o mundo são enriquecidas e as nossas pré- 
compreensões tornadas mais complexas e refinadas. Entretanto, como o conjunto das 
nossas pré-compreensões forma a base na qual podemos ancorar os novos 
conhecimentos, a nossa capacidade de compreender é limitada pela extensão e 
profundidade das nossas pré-compreensões. Em outras palavras, nós temos um 
horizonte de compreensão, que envolve todos os nossos conhecimentos e funciona 
como um limite para a nossa capacidade de compreender coisas novas. À medida 
que nossas pré-compreensões são enriquecidas, esse horizonte é ampliado e nos 
tornamos capazes de compreender novos tipos de informações. 
 
 
Fonte: info.plataformadoletramento.org.br 
 
No momento em que recebemos uma informação nova (Exemplo: a cena inicial 
de um filme) não somos capazes de perceber todas as suas implicações. Um 
estudante que descobre a existência na Constituição de uma norma jurídica que exige 
o tratamento igualitário das pessoas que se encontrem em situações idênticas entra 
http://www.info.plataformadoletramento.org.br/
 
32 
 
em contato com uma informação nova, que aumenta o seu conjunto de 
conhecimentos. Entretanto, o significado dessa informação se amplia na medida em 
que o estudante percebe as implicações morais dessa norma, as dificuldades para a 
sua aplicação na prática, a sua presença no direito internacional e a sua especial 
constância em decisões judiciais. 
‘Percebe’, na verdade, é uma palavra ruim, pois indica uma espécie de 
passividade cognitiva, como se as relações entre a norma e os seus variados 
contextos fossem simplesmente apreendidas por meio de uma observação inerte. 
Porém, tais relações precisam ser ativamente traçadas, para que a pessoa se torne 
consciente das variadas implicações de uma informação dentro do seu horizonte de 
conhecimentos. E, na medida em que relacionamos essas informações com aquelas 
que já tínhamos, passamos a conhecer melhor todas elas. 
O resultado desse processo, contudo, é sempre provisório, pois os significados 
do todo e das partes são continuamente modificados sempre que lidamos com uma 
nova informação. Dessa forma, passamos do particular para o contexto e do contexto 
para o particular de uma forma cíclica e contínua, motivo pelo qual o processo merece 
o nome círculo hermenêutico. Assim, uma metáfora mais adequada para descrever a 
compreensão seria a imagem da espiral, pois, a cada volta, em vez de retornarmos 
ao mesmo lugar, avançamos para níveis maiores de complexidade. Trata-se, pois, de 
um processo infinito, sendo impossível afirmar que, em um dado momento, teremos 
chegado à conclusão definitiva. 
Porém, a figura da espiral também é enganadora, pois ela sugere que a 
interpretação evolui na medida em que ela se torna mais profunda (se a espiral 
desce) ou melhor (se a espiral sobe), o que sugere um movimento rumo a um sentido 
determinado de perfeição. Porém, isso nos afastaria das críticas com que Nietzsche 
atacou a ideia de que o conhecimento é melhor tanto quanto mais profundo, crença 
essa que é arraigada na modernidade. Por isso mesmo, a metáfora usada por 
Gadamer é a dos círculos, afirmando ele que “a tarefa é ampliar, em círculos 
concêntricos, a unidade do sentido compreendido”.Então, o processo não é infinito 
porque ele se movimenta rumo a uma verdade inalcançável em sua perfeição, mas 
porque as conexões de sentido se tornam mais amplas e densas, e não mais 
profundas. Para usar uma metáfora botânica de Deleuze e Guattari, esse processo 
dá-se de uma forma rizomática (que apela para metáforas de ampliação, 
 
33 
 
interconexão e redes), e não axial (que utiliza metáforas de profundidade e 
proximidade maior com o verdadeiro). 
Assim, é quase certo que a interpretação que fazemos das partes iniciais de 
um livro será modificada várias vezes até que cheguemos ao final da história. Não 
porque nos acercamos de uma verdade imanente ao texto, mas porque elaboramos 
uma densa concordância das partes singulares com o todo, que é o único critério 
hermeneuticamente válido para constatar a justeza da compreensão. Além disso, a 
cada vez que relemos um livro, novos aspectos abrem-se à nossa compreensão e a 
ideia que formamos na segunda leitura será sempre diversa da primeira interpretação. 
Dessa forma, as nossas interpretações sobre as partes vão sendo modificadas à 
medida que muda a nossa compreensão do todo, num processo infinito e reflexivo. 
Colocada a questão nesses termos, Gadamer permite uma radicalização do 
projeto de uma hermenêutica unitária. Schleiermacher tentou unificar as 
hermenêuticas teológica e literária, mas excluiu de suas preocupações a jurídica, por 
esta ser fundamentalmente determinada pelo problema dogmático da aplicação. 
Essa aplicação, que não exigia uma reprodução do pensamento do autor, mas uma 
espécie de extrapolação desse sentido, não encontrava lugar na busca de uma 
hermenêutica científica. Seguindo uma inspiração semelhante, Emilio Betti buscou 
diferenciar a interpretação em três tipos (cognitiva, reprodutiva e normativa), mas 
com o objetivo de estabelecer os métodos adequados para a interpretação normativa, 
típica de disciplinas dogmáticas como o direito e a teologia. 
Assim, enquanto Shleiermacher tentou aproximar a hermenêutica bíblica da 
literária para garantir o seu caráter cognitivo, Betti tentou definir critérios para uma 
aplicação adequada das normas, que não poderia ser identificada com uma 
interpretação voltada apenas à cognição do sentido do texto. Gadamer, por sua vez, 
opõe-se a ambas essas perspectivas, pois ele tenta mostrar que o processo de 
compreensão não admite uma tal diferenciação entre interpretação e aplicação, 
pois essas são faces de um mesmo processo unitário, na medida em que o processo 
circular da compreensão dá-se de forma que elementos ligados à aplicação concreta 
e à definição abstrata do sentido influenciam-se reciprocamente. 
E uma das riquezas da teoria de Gadamer é justamente a de integrar num 
mesmo processo todos os elementos relevantes para a produção do sentido, o 
que ressalta a impossibilidade de cindir preocupações cognitivas (ligadas ao 
 
34 
 
sentido verdadeiro) de preocupações dogmáticas (ligadas à aplicação correta). 
Assim, a inspiração gadameriana nos leva a evitar tanto a negação do aspecto 
cognitivo da hermenêutica jurídica quanto as tentativas de mantê-la isolada das 
outras disciplinas interpretativas. Com isso, abre-se um novo espaço para 
a articulação entre interpretação jurídica e verdade. 
 
Hermenêutica e Verdade 
Verdade e método é o nome do principal livro de Gadamer, no qual ele lançou 
as bases da sua teoria hermenêutica. Para um leitor desavisado, o título pode sugerir 
que a obra esclarecerá os métodos capazes de conduzir ao conhecimento verdadeiro. 
Porém, o objetivo de Gadamer é justamente o oposto, mostrar como o processo de 
compreensão não pode ser reduzido à aplicação de métodos predeterminados. Para 
ele, a hermenêutica não é nem envolve um método dogmático de interpretação, mas 
um estilo que organiza o modo humano de atribuir sentidos para o mundo. 
 
 
Fonte: conceitos.com 
 
Com isso, Gadamer segue na trilha de Heidegger, reafirmando a ruptura 
com a tradição hermenêutica que liga verdade e método, cuja expressão maior foi 
o historicismo de Dilthey, que apresentou a hermenêutica como um método que 
possibilitaria a superação da distância histórica e temporal, para a leitura da 
história como um texto. Nesse tipo de historicismo, Gadamer identifica uma 
http://www.conceitos.com/
 
35 
 
ingenuidade que consiste em que, evitando esse refletir sobre seus próprios 
pressupostos e confiando em sua metodologia, o pensador “acaba por esquecer 
sua própria historicidade”. Assim, a base da teoria gadameriana é a tese de que 
“um pensar verdadeiramente histórico deve pensar também sua própria 
historicidade”. 
Portanto, o objetivo de Gadamer não era o de oferecer um método 
interpretativo capaz de revelar o significado do objeto, mas esclarecer o modo 
como os homens conferem sentidos a sua própria atividade. Por isso mesmo é 
que ele afirma que o sentido da obra de arte é produzido em uma espécie de jogo 
que coloca em relação o intérprete e a obra. E apenas nesse jogo é que os textos 
ganham sentido, pois “somente na sua compreensão se produz a transformação 
do rastro de sentido morto em sentido vivo”. Então, não há um 
significado escondido a ser descoberto, mas um sentido a ser produzido em 
um jogo hermenêutico que coloca o intérprete frente à obra interpretada. Nem 
mesmo o sentido originalmente intencionado pelo autor deve ser entendido como 
o sentido verdadeiro a ser buscado, pois a interpretação não deve ser entendida, 
como propunha Schleiermacher, apenas como uma reprodução da produção 
original de sentido pelo artista. 
Então, se o milagre da compreensão é possível, não é porque existe um 
sentido imanente à obra, mas pelo fato de que a produção de sentidos pelo 
intérprete não é uma atividade arbitrária, pois não se pode atribuir aos textos um 
sentido qualquer. Por isso mesmo é que a ideia de jogo ganha espaço, na medida 
em que ela indica uma certa ordem (porque todo jogo tem as suas regras), mas 
uma ordem que não é método unificado, porque todo jogo é uma abertura para as 
diversas formas de jogar. 
Assim, por mais que seja necessário haver critérios de produção de 
sentido, eles não podem ser reduzidos a um método interpretativo, como deixa 
clara a radical experiência da interpretação das obras de arte: o sentido de uma 
escultura não é unívoco nem imutável, o que não quer dizer que seja inexistente. 
Porém, ele somente existe como resultado da interação entre o intérprete e uma 
obra que não fala por si mesma. Portanto, o significado de uma obra de arte não 
é simplesmente atribuído (como se ele derivasse apenas da subjetividade do 
 
36 
 
intérprete) nem descoberto (como se ele derivasse apenas da objetividade da 
obra), mas produzido pelo contato do homem com a obra. 
E o contato com essa obra nos coloca frente à radical distância ontológica que 
temos frente ao Outro. Assim, em vez de acentuar o papel hermenêutico de reduzir 
as distâncias históricas, Gadamer acentuou o fato de que a distância está em toda 
comunicação, pois ela também se mostra na simultaneidade, pois está ligada ao 
momento hermenêutico em que nos encontramos com o Outro. O problema da 
hermenêutica é justamente a compreensão desse Outro, que “rompe a centralidade 
do meu eu, à medida que me dá a entender algo”. E é justamente nessa abertura 
para o outro que ele identifica o problema fundamental da hermenêutica. 
E como é possível compreender o Outro contido na obra de arte? É na 
resposta a essa pergunta que a hermenêutica gadameriana se define, pois ele 
afirma que “a tarefa da hermenêutica é esclarecer o milagre da compreensão, que 
não é uma comunicação misteriosa entre as almas, mas participação num sentido 
comum”. Se é possível falar que as obras têm um significado, isso não pode ser feito 
senão em um sentido figurado, pois o sentido não está nas próprias obras, mas é 
produzido no processo desua interpretação, inclusive pelo seu próprio autor. 
Esse deslocamento do lugar do sentido fez com que a teoria de Gadamer 
fosse percebida por alguns autores como a defesa de uma espécie de niilismo, que 
negava a possibilidade da relação entre interpretação e verdade. Porém, essa é uma 
percepção equivocada, pois o que Gadamer faz não é anular a pretensão de 
veracidade das interpretações, mas torná-la relativa a uma determinada tradição. 
Gadamer acentua que o iluminismo pretendeu ancorar a objetividade do 
conhecimento em uma racionalidade universal, capaz de esclarecer a verdade. A 
aplicação dessa mentalidade à hermenêutica conduziu à tendência cientificizante, 
que via no método a garantia da correspondência objetiva entre o sentido imanente 
ao texto e o resultado da interpretação. Porém, Gadamer rejeita essa universalidade 
na medida em que ela é baseada em um esquecimento da própria historicidade. 
E, por meio da afirmação radical de uma autocompreensão histórica, 
Gadamer redescreve a trajetória do Iluminismo, conferindo-lhe um novo significado. 
A mentalidade moderna articulou um ataque à tradição medieval, afirmando uma 
racionalidade individual cujo caráter universal lhe confere uma validade para além de 
todas as tradições. O que marca a reforma protestante é que ela não propôs uma 
 
37 
 
tradição alternativa de interpretação da Bíblia, mas a negação da própria necessidade 
de uma tradição hermenêutica. Radicalizando essa posição, os pensadores 
Iluministas, como Kant, Rousseau ou Hobbes, não se viam como portadores dos 
valores de sua cultura, mas como esclarecedores dos valores universalmente válidos 
porque racionais. Nesse contexto, a primazia do método era a garantia de uma 
verdade fundada na racionalidade e não em uma tradição. 
Após séculos de tentativas de criar um lugar para além da tradição, percebe-se 
que o que se criou foi justamente uma nova tradição: uma nova autocompreensão, 
uma nova forma hegemônica de conferir significado à própria existência e ação 
humanas. É claro que toda tradição se coloca como detentora da verdade universal, 
e não se espera que uma religião deixe de afirmar que os seus dogmas, e somente 
eles, são objetiva e universalmente válidos. A tradição, seja ela religiosa, cultural ou 
epistemológica, nunca se posta como tal, pois ela não tem um caráter reflexivo com 
relação à própria historicidade. E, nesse ponto, a tradição iluminista não se diferencia 
da católica nem da islâmica nem da medieval. 
 
 
Fonte: projectmentoring.com 
Essa autoconsciência de que a modernidade é uma nova tradição, conduz a 
um pensamento renovado sobre o sentido da hermenêutica e sobre o papel da 
tradição na produção de conhecimento. Se mesmo nós, que vivemos dentro da 
tradição moderna, não podemos sair de dentro da nossa própria cultura, então as 
http://www.projectmentoring.com/
 
38 
 
pretensões de veracidade não podem ser planteadas em nível universal, mas apenas 
em nível cultural. Por isso mesmo, o pertencimento a uma tradição é a condição 
necessária para uma compreensão que nunca pode se pretender universal sem 
passar os seus próprios limites. 
Toda verdade é contextual, toda interpretação é contextual, toda compreensão 
é contextual. Todo discurso é interno e, nessa medida, ele pode ter uma validade 
objetiva na medida em que ele se coaduna com os critérios de veracidade da tradição 
que define o jogo interpretativo que o intérprete joga. E joga sem decidir jogar, pois 
ninguém escolhe pertencer à tradição em que está inserido, na medida em que nossa 
subjetividade é constituída especialmente dentro da sociedade em que somos 
educados — e ninguém escolhe ser educado em uma determinada tradição. 
Então, Gadamer não se contrapõe à objetividade da interpretação, mas apenas 
a sua universalidade. A verdade universal e imutável não encontra espaço no 
pensamento hermenêutico, embora a verdade seja um conceito operativo dentro de 
toda tradição interpretativa, pois é com base nela que avaliamos a validade objetiva 
de uma determinada interpretação. E daí vem a ênfase de Gadamer na afirmação de 
que “a compreensão é menos um método através do qual a consciência histórica se 
aproximaria do objeto eleito para alcançar seu conhecimento objetivo do que um 
processo que tem como pressuposição estar dentro de um acontecer tradicional”. 
Portanto, é possível falar em uma interpretação verdadeira, mas apenas no sentido 
de que ela é adequada aos cânones de uma determinada tradição cultural. 
E uma parte relevante dessas tradições hermenêuticas é justamente o conjunto 
das regras de interpretação vigentes, estejam elas reunidas ou não de modo 
sistemático. Com isso, torna-se claro que o que Gadamer nega não é a necessidade 
do método, pois “nenhum pesquisador produtivo pode duvidar de que a pureza 
metodológica é indispensável à ciência”. O discurso metodológico linear pode até ser 
o modo específico de a ciência falar sobre o mundo, mas esse discurso é mudo sobre 
o processo de invenção dos novos métodos. Assim, o cientista não reflete sobre a 
legitimidade dos métodos que ele próprio usa nem os modos de sua constituição, e é 
nesse ponto que a hermenêutica tem o que dizer, pois ela coloca a autocompreensão 
(inclusive do cientista) no centro das atenções. Portanto, a questão da hermenêutica 
não é negar a validade dos métodos interpretativos, mas compreendê-los 
historicamente como expressões de uma tradição. Não se trata, pois, de oferecer 
 
39 
 
uma metodologia interpretativa que supere as existentes, mas de compreender 
adequadamente como essas metodologias operam no processo de compreensão, 
contribuindo para que o intérprete não se aliene de sua própria subjetividade e 
historicidade. 
 Hermenêutica e Linguagem 
A filosofia tradicional sempre foi consciente de que a linguagem nos prega 
peças e buscou a verdade fora da linguagem. Gadamer, porém, sob clara influência 
da Filosofia da Linguagem, tenta definir a compreensão como um processo linguístico, 
pois “a linguagem é o meio em que se realiza o acordo dos interlocutores e o 
entendimento sobre a coisa”. Não existe, portanto, a possibilidade de uma 
compreensão imediata das coisas, pois toda compreensão é mediada pela linguagem. 
Nesse ponto, o pensamento gadameriano se aproxima da ontologia de Heidegger, 
que determina que o homem é sempre um ser-no-mundo. Não existe o homem em 
si, a essência humana atemporal, mas apenas uma humanidade que se dá dentro 
do mundo. Mas esse mundo em que o homem vive, justamente por sua compreensão 
auto reflexiva, não é composto apenas por um conjunto de objetos empíricos, mas por 
uma rede de significados: e os significados somente têm lugar dentro da linguagem. 
Então, “não somente o mundo é mundo apenas na medida em que vem à linguagem, 
mas a linguagem só tem sua verdadeira existência no fato de que nela se representa 
o mundo”. 
Assim, não é certo que a linguagem represente a realidade (no sentido de ela 
oferecer uma descrição linguística de fatos extralinguísticos), mas nós representamos 
o real em linguagem (ou seja, moldamos um mundo para nós, que não é composto de 
fatos, mas de interpretações). Portanto, a realidade humana e uma realidade 
fundamentalmente linguística, pois nós habitamos a interpretação de mundo que 
chamamos de Realidade. Assim, a linguagem “é a interpretação prévia pluri 
abrangente do mundo, e por isso insubstituível. Antes de todo pensar crítico, 
filosófico-interventivo, o mundo já sempre se nos apresenta numa interpretação feita 
pela linguagem”. 
Nessa medida, a hermenêutica é incompatível com a crença científica 
fundamental de que a verdade se dá por uma espécie de correspondência entre uma 
 
40 
 
frase e o próprio ser do mundo, correspondência essa que pode ser medida 
objetivamente na medida em que estabelecemos um espaço de observação neutra 
da realidade. Então, a verdade de um enunciado não se mede por uma espéciede 
adequação entre o dito e o fato (cuja correspondência o método tenta garantir), mas 
pela conexão de sentido entre os nossos enunciados e a tradição cultural de onde 
falamos. 
 
 
Fonte: papodeprimata.com.br 
Não há, portanto, um lugar neutro da fala. Nesse sentido, Gadamer afirma que, 
mesmo quando conseguimos superar os preconceitos e barreiras de nossa 
experiência e nos introduzimos em mundos linguísticos diferentes, nunca 
abandonamos nosso próprio mundo. “Como viajantes, sempre voltamos para casa 
com novas experiências. Como perambulantes, que jamais irão voltar para casa, 
também não podemos esquecer totalmente”. Então, somos como o Marco Polo de 
Calvino, que diz algo de Veneza sempre que descreve alguma cidade a Kublai Khan. 
Saber desse condicionamento, porém, não nos livra dele. Um certo marxismo propôs 
a ideia de que o homem, consciente de que seu pensamento é ideologicamente 
condicionado pela história, poderia livrar-se dessa ideologia e conquistar uma verdade 
objetiva. Porém, nunca podemos deixar o mundo que habitamos, pois, a nossa 
condição é justamente a de habitar o mundo simbólico em que vivemos. 
http://www.papodeprimata.com.br/
 
41 
 
Porém, se a consciência do condicionamento não a cancela, ela pode ter uma 
função terapêutica. Ao menos parece ser essa a intuição de Freud, que inaugura a 
psicanálise como um discurso auto compreensivo e circular, que nos ajuda a 
compreender nossos próprios condicionamentos e a conviver com eles. Nesse ponto, 
psicanálise e hermenêutica se encontram: a produção de sentidos, derivada de uma 
autocompreensão, não nos liberta do círculo de condicionamentos que molda nossa 
subjetividade, mas possibilita uma relação mais transparente com eles.5 
 
5 ESTRUTURALISMO LINGUÍSTICO E SEMIÓTICA 
 Fundamentação Teórica do Estruturalismo Linguístico 
Os intelectuais da época não ficaram indiferentes ao mundo que os circundava. 
Na França, poderiam ser encontrados os mais brilhantes pensadores do século XX. 
Paris mais parecia à capital intelectual da Europa. Estavam em pleno ativismo político 
figuras como Sartre, Althusser, Foucault, Deleuze, Pêcheux, Lacan, Lévi-Strauss, 
Barthes, Derrida, Bourdieu, Todorov, Benveniste e Castoriadis, para não citar outros. 
Debatiam sobre todos os assuntos, principalmente os que gravitavam em torno do 
estruturalismo e do marxismo. “Duas grades de leitura sem as quais é impossível 
entender os caminhos percorridos pela análise do discurso francesa”. 
De todos os países europeus, a França foi aquela em que o estruturalismo teve 
maior ressonância, um fenômeno que culminou no final dos anos 1960, num momento 
em que vários movimentos de contestação política chegaram a colocar em crise uma 
série de valores estabelecidos, naquele país. As duas guerras mundiais fizeram ruir 
os valores e tradições que apoiavam o mundo moderno. As teses iluministas, aos 
poucos, foram deixadas de lado. A razão humana havia produzido uma era de 
catástrofes. 
O progresso tecnológico serviu para o extermínio de milhares de pessoas e 
devastar a natureza. O otimismo das Luzes foi substituído pelo medo e pela 
insegurança do pós-guerra. Como Hobsbawm explica, “não era a crise de uma forma 
de organizar sociedades, mas de todas as formas tudo que era sólido parecia “se 
desmanchava no ar”“. Foi uma crise das crenças e supostos sobre os quais se apoiava 
a sociedade moderna desde que os Modernos ganharam sua famosa batalha contra 
 
42 
 
os Antigos, no início do século XVIII, uma crise das teorias racionalistas e humanistas 
abraçadas tanto pelo capitalismo liberal como pelo comunismo. 
Naqueles anos, ficou evidente a necessidade de se fazer rupturas com dezenas 
de conceitos, até então, inquestionáveis. “O movimento de maio de 68 e as novas 
interrogações que surgiram de súbito no âmbito das ciências humanas foram 
decisivos para subverter o paradigma então reinante”. No final dos anos 1960, 
começam a aparecer às primeiras fissuras na hegemonia do estruturalismo. O ideal 
de cientificidade requeria de qualquer disciplina uma primorosa delimitação do objeto, 
a ponto de evidenciar suas leis de invariância. Saussure precisou encontrar na 
heteroclicidade da linguagem, algo sistêmico e homogêneo. O famoso “corte 
saussuriano” veio solucionar esse impasse. 
A oposição langue e parole constituiu a primeira “bifurcação” de seu construto 
teórico. Essa é a primeira bifurcação que se encontra quando se procura estabelecer 
a teoria da linguagem. Cumpre escolher entre dois caminhos impossíveis de trilhar ao 
mesmo tempo; devem ser seguidos separadamente. Pode-se, a rigor, conservar o 
nome de Linguística para cada uma dessas duas disciplinas e falar de uma Linguística 
da fala. Será, porém, necessário, não confundi-la com a linguística propriamente dita, 
aquela cujo objeto é a língua. Segundo Saussure: O estudo da linguagem comporta, 
portanto, duas partes: um, essencial, tem por objeto a língua, que é social em sua 
essência e independente do indivíduo; esse estudo é unicamente psíquico; outra, 
secundária, tem por objeto a parte individual da linguagem, vale dizer, a fala, inclusive 
à fonação e a psicofísica. Os estruturalistas consideram a língua como um sistema de 
relações ou mais precisamente como um conjunto de sistemas ligado uns aos outros, 
cujos elementos (fonemas, morfemas, palavras, etc.). 
(...) primeiro por conceber a linguagem como um instrumento de interação 
social, e segundo por buscar no contexto discursivo a motivação para os fatos 
da língua. Para esses estudiosos a estrutura gramatical depende do uso que 
se faz da língua, ou seja, a estrutura é motivada pela situação comunicativa. 
Nesse sentido, a estrutura é uma variável dependente, pois os usos da língua, 
ao longo do tempo, é que dão forma ao sistema. (OLIVEIRA, 2006, p. 98). 
Com o corte da língua e fala e os conceitos de sistema e sincronia, Saussure 
elimina da linguística científica a fonologia, o enunciado, o referente, o sujeito, a 
cultura e a história. Essas “exclusões” vão ser incluídas no debate linguístico por volta 
dos anos 1950, por vários estudiosos, que vão ficar conhecidos como estruturalistas. 
 
43 
 
“Embora reconhecendo o valor da revolução linguística provocada por Saussure, logo 
se descobriram os limites dessa dicotomia pelas consequências advindas da exclusão 
da fala do campo dos estudos linguísticos”. O conceito clássico de estrutura é o 
seguinte: “um conjunto de elementos entre os quais existem relações, de forma que 
toda modificação de um elemento ou de uma relação acarreta a modificação dos 
outros elementos e relações”. Como se percebe, é um conceito muito próximo ao de 
sistema. Há certa vulgata no uso frequentemente indiferenciado dos termos sistema 
e estrutura. 
 
 
 
 
Fonte: encrypted-tbn0.gstatic.com 
 
Entretanto, eles não recobrem necessariamente os mesmos dados, mesmo se 
eles são indissociavelmente ligados do ponto de vista teórico. É fato que a afirmação 
do conceito de sistema remete frequentemente àquele de estrutura, tanto que existe 
de um a outro uma dinâmica de mútua remissão. É preciso lembrar aqui que na teoria 
linguística, a circulação do conceito de sistema precede o emprego do conceito de 
estrutura. O método saussuriano encontrou no antropólogo francês Lévi-Strauss o seu 
mais contundente divulgador. Foi a partir de então que o método originalmente 
linguístico se estendeu para outras disciplinas, de modo que hoje, não dá mais para 
se falar de um único estruturalista. 
http://www.encrypted-tbn0.gstatic.com/
 
44 
 
(“...) Chamamos estruturalismos os esforços de aplicação (ou de elaboração) 
de métodos originalmente concebidos em linguística, e que atingem hoje qualquer um 
dos campos das ciências humanas” (LEPARGNEUR, 1973, p. 4). 
Assim, o estruturalismo é a modalidade de pensar e um método de análise 
praticado nas ciências do século XX, especialmente nas áreas das humanidades.O curso de Sausure 
Ferdinand de Saussure é geralmente visto como o iniciador do estruturalismo, 
especificamente em seu livro de1916 'Curso de Linguística Geral'. Ainda que 
Saussure fosse, assim como seus contemporâneos, interessado em linguísticas 
históricas, desenvolveu no Curso uma teoria mais geral de (estudo dos signos). 
Essa abordagem se concentrava em examinar como os elementos da 
semiologia linguagem se relacionavam no presente ('sincronicamente' ao invés de 
'diacronicamente'). Assim ele focou não no uso da linguagem (o falar, ou a parole), 
mas no sistema subjacente de linguagem (idioma, ou a langue) do qual qualquer 
expressão particular era manifestação. Enfim, ele argumentou que sinais linguísticos 
eram compostos por duas partes, um 'significante' (o padrão sonoro da palavra, seja 
sua projeção mental - como quando silenciosamente recitamos linhas de um poema 
para nós mesmos - ou sua realização física como parte do ato de falar) e um 
'significado' (o conceito ou o que aquela palavra quer dizer). Era totalmente diferente 
das abordagens anteriores à linguagem, que se focavam no relacionamento entre 
palavras e as coisas que elas denominavam no mundo. 
Concentrando-se na constituição interna dos sinais ao invés da sua relação 
com os objetos no mundo, Saussure fez da anatomia, estrutura da linguagem, algo 
que pode ser analisado e estudado. 
 Origens e Concepções do Estruturalismo Linguístico 
O estruturalismo linguístico nasceu quando Ferdinand de Saussure pretendeu 
atingir leis gerais do funcionamento de uma língua. O estruturalismo etnológico 
nasceu quando Claude Lévi-Strauss pretendeu atingir as leis gerais do funcionamento 
de certas estruturas culturais, especificamente aquelas que regem os sistemas de 
parentesco ou as que regem a produção dos mitos em culturas arcaicas. Para Barthes, 
 
45 
 
o objetivo da atividade estruturalista: “é reconstituir um objeto, de modo a manifestar 
nessa reconstituição as regras de funcionamento (as funções) desse objeto”. O 
estruturalista toma a estrutura pelo real. Recompondo o objeto para fazer aparecer 
suas funções, pensa, na verdade, estar encontrando as funções do real a que a 
estrutura pertence. Já para Lepargneur, o trabalho do estruturalista consiste em 
“descobrir, por trás das aparências, além da organização aparente do objeto, 
estruturas inteligíveis que expliquem certo funcionamento, e isso num campo que se 
relaciona com a atividade humana”. 
De acordo com Gregolin(2004, p.21) o estruturalismo chega à França em 
consequência do encontro de Roman Jakobson com Lévi-Strauss nos EUA. “A partir 
deles, deu-se a chegada das ideias estruturalistas na França, no início dos anos 
1950”. 
O estruturalismo é uma abordagem que veio tornar um dos métodos mais 
extensamente utilizados para analisar a língua, e a sociedade na segunda metade 
deum dos pioneiros do pensamento estruturalista foi Saussure, ao formular uma 
abordagem da Linguística onde a língua se apresenta como um sistema estruturado. 
Esta linha a ser chamada de Semiótica, através de autores como Roland Barthes. 
Também se apoiando no caminho aberto por Saussure e aplicando-o ao estudo dos 
mitos, Lévi-Strauss apresenta-se como o grande nome associado à antropologia 
estrutural. 
Entretanto, "estruturalismo" não se refere a uma "escola" claramente definida 
de autores, embora o trabalho de Ferdinand de Saussure seja geralmente 
considerado um ponto de partida. 
O estruturalismo é mais bem visto como uma abordagem geral com muitas 
variações diferentes. Como em qualquer movimento cultural, as influências e os 
desenvolvimentos são complexos. (...) a língua não é um conglomerado de elementos 
heterogêneos; é um sistema articulado, onde tudo está ligado, onde tudo é solidário e 
onde cada elemento tira seu valor de sua posição estrutural (SAUSSURE apud 
LEROY, 1971, p. 91). 
Quando se refere à posição estrutural, fala-se da língua culta, que precisa ser 
bem administrada, no qual Saussure organiza a linguística verificando a importância 
da língua e da fala. 
 
46 
 
 As Dicotomias enunciadas por Saussure 
Língua x Fala 
 
Saussure também efetua, em sua teorização, uma separação entre língua e 
fala. Para ele, a língua é um sistema de valores que se opõem uns aos outros e que 
está depositado como produto social na mente de cada falante de uma comunidade, 
possui homogeneidade e por isto é o objeto da linguística propriamente dita. Diferente 
da fala que é um ato individual e estão sujeitos a fatores externos, muitos desses não 
linguísticos e, portanto, não passíveis de análise. 
 
 
Fonte: rioeduca.net 
 
 Sincronia x Diacronia 
Ferdinand de Saussure enfatizou uma visão sincrônica, um estudo 
descritivo da linguística em contraste à visão diacrônica do estudo da linguística 
histórica, estudo da mudança dos signos no eixo das sucessões históricas, a 
forma como o estudo das línguas era tradicionalmente realizada no século XIX. 
Com tal visão sincrônica, Saussure procurou entender a estrutura da linguagem 
como um sistema em funcionamento em um dado ponto do tempo (recorte 
sincrônico). 
 
http://www.rioeduca.net/
 
47 
 
Sintagma x Paradigma 
O sintagma, definido por Saussure como “a combinação de formas mínimas 
numa unidade linguística superior”, e surge a partir da linearidade do signo, ou seja, 
ele exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo, pois um 
termo só passa a ter valor a partir do momento em que ele se contrasta com outro 
elemento. Já o paradigma é, como o próprio autor define, um "banco de reservas" da 
língua fazendo com que suas unidades se oponham, pois, uma exclui a outra. Pois, o 
signo linguístico constitui-se numa combinação de significante e significado, como se 
fossem dois lados de uma moeda.1 
6 LINGUAGEM E PENSAMENTO 
 Origens do pensamento e da língua de acordo com Vygotsky 
Assim como no reino animal, para o ser humano pensamento e linguagem têm 
origens diferentes. Inicialmente o pensamento não é verbal e a linguagem não é 
intelectual. Suas trajetórias de desenvolvimento, entretanto, não são paralelas – elas 
cruzam-se. Em dado momento, a cerca de dois anos de idade, as curvas de 
desenvolvimento do pensamento e da linguagem, até então separadas, encontram-se 
para, a partir de aí dar início a uma nova forma de comportamento. É a partir deste 
ponto que o pensamento começa a se tornar verbal e a linguagem racional. 
Inicialmente a criança aparenta usar linguagem apenas para interação superficial em 
seu convívio, mas, a partir de certo ponto, está linguagem penetra no subconsciente 
para se constituir na estrutura do pensamento da criança. 
 
 Pensamento, Linguagem e desenvolvimento intelectual 
De acordo com Vygotsky, todas as atividades cognitivas básicas do indivíduo 
ocorrem de acordo com sua história social e acabam se constituindo no produto do 
desenvolvimento histórico-social de sua comunidade. Portanto, as habilidades 
cognitivas e as formas de estruturar o pensamento do indivíduo não são determinadas 
por fatores congênitos. São, isto sim, resultado das atividades praticadas de acordo 
com os hábitos sociais da cultura em que o indivíduo se desenvolve. 
 
1 Texto extraído de: www.recantodasletras.com.br 
 
48 
 
Consequentemente, a história da sociedade na qual a criança se desenvolve e a 
história pessoal desta criança são fatores cruciais que vão determinar sua forma de 
pensar. Neste processo de desenvolvimento cognitivo, a linguagem tem papel crucial 
na determinação de como a criança vai aprender a pensar, uma vez que formas 
avançadas de pensamento são transmitidas à criança através de palavras. 
Para Vygotsky, um claro entendimento das relações entre pensamento e língua 
é necessário para que se entenda o processo de desenvolvimento intelectual. 
Linguagem não é apenas uma expressão do conhecimento adquirido pela criança.Existe uma inter-relação fundamental entre pensamento e linguagem, um 
proporcionando recursos ao outro. Desta forma a linguagem tem um papel essencial 
na formação do pensamento e do caráter do indivíduo. 
 A teoria de Piaget sobre a Linguagem e o Pensamento das crianças 
A psicologia deve muito a Jean Piaget. Não é exagero dizer-se que ele 
revolucionou o estudo da linguagem e do pensamento infantis, pois desenvolveu o 
método clínico de investigação das ideias das crianças que posteriormente tem sido 
generalizadamente utilizado. Foi o primeiro a estudar sistematicamente a percepção 
e a lógica infantis; além disso, trouxe ao seu objeto de estudo uma nova abordagem 
de amplitude e arrojo invulgares. Em lugar de enumerar as deficiências do raciocínio 
infantil quando comparado com o dos adultos, Piaget centrou a atenção nas 
características distintivas do pensamento das crianças, quer dizer, centrou o estudo 
mais sobre o que as crianças têm do que sobre o que lhes falta. Por esta abordagem 
positiva demonstrou que a diferença entre o pensamento das crianças e dos adultos 
era mais qualitativa do que quantitativa. 
Segundo Piaget, o elo que liga todas as características específicas da lógica 
infantil é o egocentrismo do pensamento das crianças. Ele reporta todas as outras 
características que descobriu, quais sejam, o realismo intelectual, o sincretismo e a 
dificuldade de compreender as relações, a este traço nuclear e descreve o 
egocentrismo como ocupando uma posição intermédia, genética, estrutural e 
funcionalmente, entre o pensamento autístico e o pensamento orientado. 
A ideia de polaridade do pensamento orientado e não orientado tomada de 
empréstimo à psicanálise. Diz Piaget: 
 
49 
 
O pensamento orientado é consciente, isto é, prossegue objetivos presentes 
no espírito de quem pensa. É inteligente, isto é, encontra-se adaptado a 
realidade e esforça-se por influenciá-la. É suscetível de verdade e erro... e 
pode ser comunicado através da linguagem. O pensamento autístico é 
subconsciente, isto é, os objetivos que prossegue e os problemas que põe a 
si próprio não se encontram presentes na consciência. Não se encontra 
adaptado à realidade externa, antes cria para si próprio uma realidade de 
imaginação ou sonhos. Tende, não a estabelecer verdades, mas a 
recompensar desejos e permanece estritamente individual e incomunicável 
enquanto tal, por meio da linguagem, visto que opera primordialmente por 
meio de imagens e, para ser comunicado, tem que recorrer a métodos 
indiretos, evocando, por meio de símbolos e mitos, os sentimentos que o 
guiam. 
 
Fonte: senhoradesirius.files.wordpress.com 
 
 
 A teoria de Stern sobre o desenvolvimento da Linguagem 
A parte do sistema de Wilhelm Stern que é mais conhecida e que tem vindo a 
ganhar terreno com o passar dos anos, é a sua concepção intelectualista sobre o 
desenvolvimento da linguagem na criança. Contudo, é esta mesma concepção que 
mais claramente revela as limitações e as incoerências do personalismo filosófico e 
psicológico de Stern, os seus fundamentos idealistas e a sua ausência de validade 
científica. 
É o próprio Stern quem descreve o seu ponto de vista como “personalista- 
genético”. Ele estabelece uma distinção entre três raízes da linguagem: a tendência 
http://www.senhoradesirius.files.wordpress.com/
 
50 
 
expressiva, a tendência social e a tendência “intencional”. Enquanto as duas primeiras 
estão também subjacentes aos rudimentos de linguagem observados nos animais, a 
terceira é especificamente humana. Stern define intencionalidade neste sentido como 
uma orientação para um certo conteúdo, ou significado. “Em determinado estádio do 
seu desenvolvimento psíquico”, afirma ele, “o homem adquire a capacidade de 
significar algo proferindo palavras, de se referir a algo objetivo”. Em substância, tais 
atos intencionais são já atos de pensamento; o seu surgimento denota uma 
intelectualização e uma objetificação do discurso. 
 As raízes genéticas do pensamento e da linguagem 
O fato mais importante posto a nu pelo estudo genético do pensamento e a 
linguagem é o fato de a relação entre ambas passar por muitas alterações; os 
progressos no pensamento e na linguagem não seguem trajetórias paralelas: as suas 
curvas de desenvolvimento cruzam-se repetidas vezes, podem aproximar-se e correr 
lado a lado, podem até fundir-se por momentos, mas acabam por se afastar de novo. 
Isto aplica-se tanto ao desenvolvimento filogenético como ao ontogenético. 
Ontogeneticamente, a relação entre a gênese o pensamento e a da linguagem 
é muito mais intrincada e obscura; mas também aqui poderemos distinguir duas linhas 
de evolução distintas, resultantes de duas raízes genéticas diferentes. 
A existência de uma fase pré-linguística do desenvolvimento do pensamento 
na infância só recentemente foi corroborada por provas objetivas. 
Costumava-se dizer que a linguagem era o início da hominização 
(Menschwerden); talvez sim, mas antes da linguagem, há o pensamento implicado 
na utilização de utensílios, isto é, a compreensão das conexões mecânicas e a 
idealização de meios mecânicos com fins mecânicos, ou, para ser ainda mais 
breve, antes de surgir a linguagem, a ação torna-se subjetivamente significativa – 
por outras palavras, torna-se conscientemente finalista. 
A raiz pré-intelectual da linguagem no desenvolvimento da criança há muito que 
são conhecidas. O papaguear das crianças, o seu choro e inclusivamente as suas 
primeiras palavras são muito claramente estádios do desenvolvimento da linguagem 
que nada têm a ver com o desenvolvimento do pensamento. 
 
51 
 
O problema do pensamento e linguagem estende-se, portanto, para além dos 
limites da ciência natural e torna-se no problema focal da psicologia humana histórica, 
ou seja, da psicologia social.2 
 
7 LINGUAGEM E MUNDO 
 A palavra conduz a uma ideia 
Hume vê na linguagem e no uso dos termos, assim como o viram John Locke 
e George Berkeley, a fonte dos problemas que tanto afligem o acalorado debate 
filosófico. Na introdução de sua obra capital, o Tratado da natureza humana, o filósofo 
aponta para as necessidades da ciência de seu tempo, ciência esta que parece não 
ser capaz de produzir conclusões certas, dado que, em seu interior, nada há que não 
seja passível de discussão. As implicações desta miserável posição em que se 
encontra é o surgimento de um “preconceito comum contra todo tipo de raciocínio 
metafísico” (HUME, 2001, p. 20). Uma possível solução deste problema estaria, de 
fato, ligada à análise da linguagem utilizada nos raciocínios metafísicos. 
É preciso inicialmente que se saiba distinguir palavra e significado. Palavra não 
é senão um veículo, que pode ou não trazer em si um significado. Disto já podemos 
concluir que uma palavra pode ser usada sem um significado preciso. Mas, qual seria 
sua significação? Tal como em Locke, uma palavra indica uma ideia (LOCKE, 1999). 
Um termo, para Hume, cujo significado é válido, está imediatamente vinculado a uma 
ideia. Mas não a uma ideia geral, como pretendeu Locke (ideia geral esta que seria 
separada, pela faculdade de abstração da mente, das circunstâncias que a 
particularizariam como ideia singular), e sim a uma ideia particular. Como visto 
algumas linhas acima, uma ideia corresponde imediatamente a uma impressão. As 
palavras, assim sendo, estão indiretamente (por meio das ideias) ligadas à 
experiência, visto que correspondem, em última instância, a uma impressão que 
suscetível de verificação segundo os preceitos do método experimental de raciocínio 
seguido por Hume. 
Se acaso um termo filosófico, como o termo substância, por exemplo, não está 
imediatamente ligado a uma ideia, como de fato não está, ele deve ser eliminado do 
 
2 Texto extraído de: www.academia.edu 
 
52 
 
discurso filosófico, e isso, em vista do próprio progresso das ciências. É deste modoque Hume pretende trazer mais inteligibilidade à discussão: 
“Portanto, quando suspeitamos que um termo filosófico está sendo 
empregado sem nenhum significado ou ideia – o que é muito frequente – 
devemos apenas perguntar: de que impressão é derivada aquela suposta 
ideia”? (HUME, 1992, p. 71). Em suma: para que o uso de uma palavra seja 
legítimo, é necessário que haja uma ideia vinculada a esta palavra, ideia esta 
que corresponderia em último caso a uma impressão. 
 
Fonte: cobizz.com.br 
 As palavras não conduzem aos objetos do mundo externo 
Hume parece ser suficientemente claro quando diz que uma palavra 
corresponde a uma ideia, que por sua vez remeteria a uma impressão. Pode-se 
concluir daí que as palavras, de acordo com essa perspectiva de pensamento, 
não podem alcançar o mundo externo, não podem designar as coisas elas 
mesmas. Se as palavras nomeiam as coisas reais, fazem-no somente enquanto 
estas são objetos das percepções da mente humana. 
Em Locke, diferentemente, há uma espécie de remissão indireta da 
linguagem às coisas do mundo externo. Tadié discorre sobre o tema: “o elo entre 
a linguagem e as ideias não é totalmente independente do mundo: embora as 
palavras estejam ligadas às ideias, elas não estão separadas das coisas” (TADIÉ, 
2005, p. 183). Locke fundamenta a linguagem apoiando-a sobre duas realidades 
distintas: a realidade subjetiva das ideias de nossa mente, e a realidade objetiva 
http://www.cobizz.com.br/
 
53 
 
das ideias enquanto imagens das coisas externas. É isso que Tadié chama de 
dualidade da linguagem: as palavras de faço uso são signos de minhas ideias, 
mas estas não estão separadas do mundo objetivo que elas representam. As 
palavras, assim sendo, falariam do mundo físico, mesmo que por uma via 
indireta, as ideias. 
Por que a linguagem, segundo Hume, logra chegar até as impressões, 
mas para por aí, não podendo alcançar nada para além do conjunto das 
percepções da mente, não sendo capaz de designar nada que não seja 
impressões? Porventura, não seria o caso de perguntarmos, primeiro, se esse 
mundo físico realmente existe? Eis que o problema da realidade do mundo 
externo adentra a discussão. 
 Há um mundo externo para além de nossas percepções? 
A problemática do mundo externo pode ser resumida, grosso modo, pela 
seguinte questão: existe de fato um mundo de objetos físicos duradouros para 
além da mente humana, mundo este que seria captado pelos sentidos e se nos 
apresentaria como percepções? 
O problema remonta ao século XVII, e surge como uma exigência da 
dúvida metódica cartesiana, como aponta Martinez (MARTÌNEZ, 1992). Com 
efeito, Descartes vê-se obrigado a negar temporariamente a existência do mundo 
físico, uma vez constatada a possibilidade da existência de um gênio maligno que 
poderia estar a enganá-lo (DESCARTES, 2004). John Locke construiu seu sistema 
empirista a partir do pressuposto de que tal mundo não só existiria como também 
seria a causa imediata das ideias da mente humana (LOCKE, 1999). Berkeley, 
outro filósofo da corrente empirista de pensamento, ao contrário, não aceitou 
esse ponto, pois acreditava que não havia evidências suficientes para sustentar 
que este mundo realmente existia (BERKELEY, 1992). 
Hume assume uma posição distinta a de ambos os filósofos. É um tanto 
quanto sem propósito, diz, termos a ambição de responder sobre a existência do 
mundo objetivo. Esse problema parece não suscetível de solução, uma vez que 
sua resposta dependeria da possibilidade de verificação dessas existências 
externas, o que a partir dos princípios do método experimental a observação e a 
experimentação, não seriam possíveis. Visto que as percepções do entendimento 
 
54 
 
são as únicas realidades passíveis de observação e experimentação (lembrando 
que se chegar à certeza unicamente naquelas matérias suscetíveis de serem 
experimentadas e observadas), os hipotéticos objetos físicos do mundo externo 
não podem, de modo algum, ser verificados. 
Em virtude desta mesma restrição que o filósofo não pode sustentar, assim 
como o fez Locke, que as impressões remontariam imediatamente aos objetos do 
mundo externo. Hume chegará mesmo a criticar os sistemas de filosofia tais como 
o de Locke, que pressupõem a dupla-existência. Não há razão, dirá, para acreditar 
que nossos sentidos produziriam está noção, de que há um objeto exterior e uma 
percepção da mente causada por ele. Hume, com efeito, vê-se impossibilitado de 
transpor o conjunto das percepções da mente, e, por isso, não pode verificar se há 
uma existência para além destas. Se a experiência é único ponto sobre o qual a 
discussão de qualquer matéria deve se apoiar, não é legítimo que nos conduzamos 
para além de nossa percepção para averiguar se realmente existem tais objetos, 
pois o mundo não nos está dado. Hume defronta-se como uma limitação do próprio 
método que propôs seguir. As coisas somente existem para o intelecto como 
percepções, não como coisas elas mesmas. 
Somente está limitação de caráter metodológico já bastaria para tornar a 
busca pelos objetos do mundo externo ilegitimável. O filósofo indica ainda uma 
limitação da própria natureza humana: não podemos responder positiva ou 
negativamente acerca da existência desse mundo, pois “a natureza não deixou isso 
à sua [do filósofo] escolha; sem dúvida, avaliou que se tratava de uma questão 
demasiadamente importante para ser confiada a nossos raciocínios e especulações 
incertos”. (HUME, 2001, p. 220). Por conseguinte, não é legítimo que sobre este 
ponto sejam levantadas questões. Estando esses objetos presentes ou não os 
sentidos, não deixamos de supô-los como existentes um instante sequer. Mais 
profícuo seria se buscássemos em nossa própria natureza as causas que nos 
impelem a crer nestes objetos, pois, do mesmo modo que não nos é dado conhecê-
los, não somos capazes de evitar tal crença.3 
 
3 Texto extraído de: www.websiteseguro.com 
 
55 
 
8 LINGUAGEM E INTERSUBJETIVIDADE 
Intersubjetividade é a relação entre sujeito e sujeito e/ou sujeito e objeto. O 
relacionamento entre indivíduos no ambiente localiza-se no campo da ação, ou na 
liberdade de ação, o que implica a negociação com o outro. 
Segundo Martin Buber (1878 - 1965), é a capacidade do ser humano de se 
relacionar com o seu semelhante. 
 
Fonte: i.ytimg.com 
O ser humano possui a capacidade de inter-relacionamento com seu 
semelhante, ou seja, a intersubjetividade. O relacionamento acontece entre o Eu e 
o Tu, e denomina-se relacionamento Eu-Tu. 
A inter-relação envolve o diálogo, o encontro e a responsabilidade, entre 
dois sujeitos e/ou a relação que existe entre o sujeito e o objeto. Intersubjetividade, 
é umas das áreas que envolve a vida do ser humano, e por isso precisa ser 
refletida e analisada pela filosofia, em especial pela Antropologia Filosófica. 
 Intersubjetividade e Interação social: contribuições de algumas 
perspectivas contemporâneas 
Os Diferentes Sensos de eu e de outro 
 
Stern dedicou-se a investigar a existência de uma vida subjetiva em bebês, 
buscando compreender como estes vivenciam a si mesmos e aos outros, criando 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sujeito
https://pt.wikipedia.org/wiki/Objeto
https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Buber
http://www.i.ytimg.com/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Di%C3%A1logo
 
56 
 
desde cedo um mundo interpessoal. Neste contexto, o autor formulou sua hipótese de 
uma experiência subjetiva de bebês, tentando articular as contribuições de dois 
campos distintos e por muito tempo separados: o das pesquisas experimentais sobre 
bebês e suas potencialidades, e o das inferências clínicas acerca da experiência 
subjetiva infantil. 
Ao longo do desenvolvimento, o bebê pode experimentar mudanças 
significativas com relação às suas experiências subjetivas de eu e de outro. Segundo 
o autor12, tais experiências subjetivas consistem em diferentes"sensos de eu". Ele 
propõe que a ideia de senso de eu pode ser compreendida como uma forma de 
organização que pode inicialmente existir em formas pré-verbais, sem o envolvimento 
de consciência, mas que mais tarde será verbalmente identificada por "eu". 
Gradativamente, conforme novos comportamentos e capacidades vão sendo 
conquistados pelo bebê, seu repertório vai sendo reorganizado no sentido de formar 
outras experiências subjetivas organizadoras em relação ao eu e ao outro. É neste 
contexto que o autor argumenta que se dá o surgimento e desenvolvimento de novos 
sensos de eu. 
Stern alerta para o fato de que os diferentes sensos de eu ao longo do 
desenvolvimento infantil não correspondem a fases que se superam ou que são 
mutuamente excludentes e sim, que coexistem como ativas por toda a vida humana. 
Neste sentido, descreve os seguintes sensos de eu: senso de eu emergente, senso 
de eu nuclear, senso de eu subjetivo e senso de eu verbal. 
O senso de eu emergente é descrito como presente inicialmente no período 
que vai do nascimento até os dois meses de idade do bebê, em que não há uma 
confusão eu-outro ou um estado de indiferenciação. Para o autor, o bebê parece estar 
ativamente formando um senso de eu, vivenciando diferentes oportunidades de 
experiência, que ainda são sentidas como separadas e não relacionadas, havendo 
necessidade da realização de uma integração. Quando ocorre um encadeamento 
lógico entre suas experiências, ou ainda, quando elas passam a ser assimiladas ou 
conectadas de alguma forma, o bebê começa a ter a emergência de uma organização, 
que nada mais é, segundo Stern, do que uma forma de aprendizagem. Neste sentido, 
no período de zero a dois meses, os bebês não são passivos, mas estão intensamente 
engajados em experiências sensoriais que constituem oportunidades de 
aprendizagem importantes. Com isso, ocorre uma busca ativa e gradual de ordenação 
dos elementos de suas experiências relacionadas tanto ao eu quanto ao outro. Estas 
 
57 
 
últimas, quando integradas, irão conduzir a uma organização subjetiva nova, 
denominada senso de eu nuclear. 
O senso de eu nuclear é descrito por Stern como estando presente inicialmente 
no período de dois a seis meses de vida do bebê. Para ele, em contraste com algumas 
perspectivas que consideram o bebê em um estado de indiferenciação eu-outro, neste 
período o bebê experimenta o seu corpo como uma entidade física, separada, 
intencional e dotada de vida afetiva e história própria. Além disso, os bebês estão 
ativamente envolvidos com a criação de um mundo interpessoal ao se mostrarem 
interessados e engajados em interações sociais. 
Neste sentido, os bebês possuem a experiência subjetiva de se sentirem 
separados fisicamente de suas mães, ambos como agentes diferentes e com 
experiências afetivas distintas. As experiências subjetivas organizadoras de um senso 
de eu nuclear referem-se à auto agência (sentir-se como autor de suas ações e não- 
autor das ações alheias, controle de suas ações e expectativa de consequências 
acerca das mesmas); auto coerência (senso de ser um todo físico, não fragmentado 
e como ponto de ação integrada, movendo-se ou imóvel); auto afetividade (vivenciar 
qualidades internas afetivas com base em suas experiências) e auto história (senso 
de continuidade de si, apesar das mudanças que possam ocorrer, além de 
identificação de regularidades no curso de eventos). 
Tais experiências subjetivas organizadoras são resultantes do contato do bebê 
com o outro. Neste período, diante da presença deste último é comum o bebê se 
engajar em algumas atividades, como o brincar de "esconde-esconde" ou "eu vou te 
pegar". Durante estas atividades, são vários os estados experimentados pelo bebê: 
excitação, suspense, alegria, prazer, medo, dentre outros. Em ciclos repetitivos, as 
características e modulações destas brincadeiras dirigidas pelo outro ao bebê 
oferecem a este último, experiências particulares de intensidade de afeto que podem 
ser reguladas pelo parceiro. Assim, a partir da mediação interativa com o outro, o bebê 
pode ter a sua atenção, curiosidade e engajamento cognitivo regulados, o que 
significa considerar que suas auto experiências são dependentes deste contato 
social. 
 
 
 
58 
 
 
Fonte: jardimdadescoberta.com 
Entre os sete e nove meses de idade, Stern aponta que algo novo parece 
acontecer. Os bebês parecem "descobrir" que suas experiências subjetivas 
particulares podem ser compartilhadas com o outro, seja em termos de 
intencionalidade (querer algo) ou afetividade (sentir algo), embora ainda sem um 
envolvimento de consciência. Para que isso seja possível, o autor ressalta que os 
bebês precisam realizar uma conquista cognitiva importante: a ideia de que, assim 
como eles, outras pessoas possuem mentes distintas e separadas. O eu e o outro 
deixam de ser puramente sentidos como entidades físicas distintas (nucleares) para 
incluir estados mentais subjetivos. Assim, ambos podem ser compreendidos como 
tendo afetos e intenções que orientam seus comportamentos. 
Surge, portanto, uma nova forma de organização denominada senso de eu 
subjetivo, com base na qual o bebê encontra oportunidade de relacionar-se 
intersubjetivamente, ou seja, apresentar intersubjetividade. Stern pontua que somente 
neste período a intersubjetividade faz-se possível, entendendo-a como uma 
capacidade para interpretar, combinar, comparar e sintonizar com os estados mentais 
de outra pessoa. Ao perceber que os outros podem ter uma mente distinta da sua, 
mas com estados mentais potencialmente semelhantes aos seus, o bebê pode atingir 
a possibilidade de comunicar isto sem palavras, compartilhando suas experiências 
subjetivas por meio de gestos, postura ou expressões faciais. 
A ideia de um relacionar-se intersubjetivo de Stern aproxima-se da ideia de 
intersubjetividade secundária proposta por Trevarthen e Hubley na medida em que as 
http://www.jardimdadescoberta.com/
 
59 
 
experiências subjetivas a serem compartilhadas envolvem um contexto triádico 
relacionado a um evento, pessoa ou objeto. Ao não implicar necessariamente a 
participação da linguagem, este novo senso de eu apoia-se em algumas 
competências específicas como compartilhar o foco de atenção, compartilhar 
intenções e estados afetivos, dentre outras. 
Mais tarde, em torno dos quinze a dezoito meses de idade, o bebê começa a 
experimentar uma nova forma de organização subjetiva. Trata-se do senso de eu 
verbal. Este último é caracterizado por uma mudança importante: o bebê passa a 
comunicar toda a sua bagagem de experiências e conhecimentos acumulados ao 
longo de seu desenvolvimento de uma maneira mais objetivada, ou seja, através do 
uso da linguagem. Deste modo, a partir do desenvolvimento da capacidade de 
representação por símbolos, significados agora podem ser comunicados, negociados 
e compartilhados de outra maneira. Neste cenário, o brinquedo simbólico, a 
capacidade de tomar o eu como objeto de reflexão e a possibilidade de realizar 
narrativas pessoais tornam-se possíveis, marcando uma forma de relacionar-se com 
o outro e com a cultura a partir de uma natureza verbal. 
É interessante notar que Stern apresenta em suas formulações teóricas a 
ideia de que, desde períodos precoces do desenvolvimento infantil, o bebê está 
longe de se ver envolvido em um processo de indiscriminação e indissociação 
eu-outro. Para ilustrar seus argumentos, o autor se utiliza inclusive das 
contribuições da literatura acerca das competências iniciais de recém-nascidos. 
Com base neste repertório de potencialidades precoces, o autor destaca a 
importância da sensibilidade e engajamento humanos em trocas sociais, por meio 
das quais o bebê gradativamente vai realizando conquistas cognitivas e afetivas, 
capazes de conduzi-lo a novas e mais complexas formas de organização subjetiva 
eu-mundo. Apesar destas considerações, Stern distancia-se emparte dos 
argumentos de Trevarthen não somente ao considerar que os bebês não 
apresentam consciência e intencionalidade inatas, como também que os mesmos 
só são capazes de apresentar intersubjetividade bem mais tardiamente (por volta 
dos nove meses), cujas características corresponderiam à intersubjetividade 
secundária. 
 
60 
 
 Cognição Social e os Vários Níveis de Intersubjetividade 
Rochat e Striano buscaram considerar as contribuições de vários estudos 
acerca das competências iniciais infantis, argumentando que os bebês humanos são 
criaturas sociais desde seu nascimento. Ao pensarem no processo de 
desenvolvimento das habilidades sociais infantis, os autores partem da pressuposição 
básica de que a criança precisa apresentar comportamentos que minimamente 
esbocem a emergência e o desenvolvimento da compreensão de pessoas, e não 
somente o desenvolvimento de seu conhecimento sobre o mundo físico. Quando esta 
pressuposição é assumida, tem-se como consequência a ideia de que pessoas são 
mais complexas do que objetos, e que o desenvolvimento de um conhecimento social 
deverá estar baseado em processos específicos que refletem tal complexidade. 
Estes autores argumentam que a noção de alguns princípios físicos (por 
exemplo: o fato de um objeto ter massa, ocupar lugar no espaço e não poder estar em 
dois lugares ao mesmo tempo) já parece estar presente nos primórdios do 
desenvolvimento infantil, apesar de bebês com idades variando entre dois a quatro 
meses de vida apresentarem limitações sobre suas possibilidades de atuação e 
exploração de objetos por conta de uma gama ainda muito restrita de capacidades 
como olhar, sugar, chorar, tocar e ouvir. 
Para Rochat e Striano este conhecimento de natureza física envolve uma 
obediência a leis, organização e regularidades, não encontrando 
necessariamente correspondência com um conhecimento de natureza social. 
Assim, a compreensão de pessoas (conhecimento do mundo social) envolve um 
processo mais sofisticado se comparado ao conhecimento sobre o mundo físico. 
Os modos desenvolvidos pelo bebê para adquirir um conhecimento sobre 
pessoas não se reduzem aos mesmos utilizados para alcançar um conhecimento 
sobre o mundo físico. Este processo especial que envolve a busca pelo 
conhecimento ou entendimento acerca do mundo social recebe o nome de 
cognição social. 
A cognição social envolve a compreensão de um universo privado acerca do 
outro; uma sensibilidade em perceber, identificar e até responder a emoções, afetos, 
intenções e comportamentos. Estes autores ressaltam que a forma como as crianças 
desenvolvem uma compreensão social não se restringe apenas à observação isolada 
do comportamento de outras pessoas ou mantendo-se à parte das trocas sociais 
estabelecidas por elas. Essa cognição social desenvolve-se através do engajamento 
 
61 
 
em trocas sociais, onde experiências podem ser compartilhadas através de 
reciprocidade. 
 
 
Fonte: ver.pt.com 
 
Deste modo, a cognição social está relacionada a um processo mais amplo 
através do qual indivíduos, a partir de interações sociais e reciprocidade, desenvolvem 
habilidades de monitorar, controlar e predizer o comportamento de seus parceiros 
sociais. Com base nestes argumentos, tais autores consideram que é justamente a 
intersubjetividade que capta o sentido de experiência compartilhada que emerge da 
reciprocidade, concebendo-a como uma capacidade a partir da qual experiências 
internas ou mentais podem ser percebidas como passíveis de serem 
compartilhadas. A noção de intersubjetividade parece pressupor ainda a ideia de 
uma diferenciação entre o self e o outro, onde atividades de comparar ou projetar 
experiências privadas sobre as experimentadas por terceiros tornam-se possíveis. 
Pode-se, a partir desta pressuposição, realizar a seguinte indagação: De que 
maneira os bebês começam a relacionar sua experiência privada à experiência 
privada de outras pessoas? 
De acordo com os argumentos de Rochat e Striano, este início da cognição 
social seria possível a partir da intersubjetividade. Ao considerarem a possibilidade de 
uma vida subjetiva presente em bebês desde a mais tenra idade, os autores apontam 
que a intersubjetividade é justamente aquilo que emerge e se desenvolve a partir das 
http://www.ver.pt.com/
 
62 
 
primeiras trocas sociais, onde sentimentos, afetos e emoções podem ser 
compartilhados. 
Seguindo este raciocínio, as interações com pessoas passam a ser vistas como 
o modo pelo qual a intersubjetividade se desenvolve, já que é através destas trocas 
sociais que estados internos ou mentais de um parceiro podem ser comunicados, 
compartilhados e "ecoados" nos dos outros, especialmente quando há um 
engajamento conjunto do foco de atenção sobre uma pessoa, objeto ou evento 
específico no ambiente. São justamente as repercussões ("ecos") destes estados 
comunicados pelo parceiro que tornam possível ao bebê confrontar e relacionar as 
experiências que possui de seu mundo privado com as do mundo alheio. 
O bebê parece, então, desde muito cedo, ser um participante ativo de um 
processo de comunicação inicialmente facilitado por jogos de interação face-a-face 
com sua mãe. Durante as suas primeiras semanas de vida, o bebê já pode apresentar 
uma forma primitiva de intersubjetividade, apoiada inicialmente em um repertório 
ainda limitado e restrito de atividades, como o olhar e o tocar. É ao longo do processo 
de desenvolvimento da criança que a intersubjetividade vai assumindo formas cada 
vez mais complexas em interações, uma vez que a bagagem de competências do 
bebê vai se ampliando, passando a incluir a capacidade de focalizar a atenção ao 
outro, aos objetos e eventos presentes no meio. 
Com esses pressupostos, Rochat e Striano apresentam vários níveis de 
intersubjetividade e condutas associadas, os quais denominam respectivamente 
como período atencional, período contemplativo e período intencional. 
O período atencional corresponde às seis primeiras semanas vividas pelo bebê 
após seu nascimento, havendo a manifestação de uma sensibilidade inata para 
estímulos sociais e certa sintonia social, mas sem características explícitas de 
intersubjetividade. Embora possam apresentar indícios de uma diferenciação ainda 
rudimentar e limitada entre o self e o ambiente, bebês neste período não apresentam 
evidências explícitas de consciência de si e de outros. 
O período contemplativo está presente a partir do segundo mês de vida, 
momento em que os primeiros sinais de experiência compartilhada começam a ser 
esboçados. Neste período pode ser caracterizada uma intersubjetividade primária, tal 
como Trevarthen e Hubley9 definiram, onde o bebê, ao interagir com a mãe, começa 
a apresentar indícios de uma capacidade de orientar sua atenção para o rosto dela e 
atender às suas solicitações. Tais atividades observadas inicialmente em um contexto 
 
63 
 
didático de interações precoces ilustram a chamada "revolução do segundo mês" na 
qual se dá a emergência de um senso de experiência compartilhada (identificada aqui 
como sendo o próprio conceito de intersubjetividade) e o início de uma reciprocidade 
mais explícita com outros, configurando uma transição importante no desenvolvimento 
cognitivo social. Este momento caracteriza ainda o surgimento de um tipo de sorriso 
diferente daquele com qualidades reflexas exibido por recém-nascidos. Trata-se do 
sorriso social, cuja fonte de desencadeamento ou motivação é externa ao bebê e 
passa a ser dirigido por ele a pessoas ou eventos específicos no ambiente. 
A intersubjetividade primária, que se apresenta inicialmente em um contexto 
didático, sofre mudanças gradativas no decorrer do desenvolvimento do bebê, de 
modo que em torno dos quatro meses de vida começam a surgir as primeiras condutas 
que irão contribuir para a futura emergência de uma intersubjetividade secundária, 
havendo maior participação em jogos etrocas mediadas por objetos. 
Com relação ao início do período intencional, este transcorre a partir dos nove 
meses de idade e pode ser caracterizado por uma maior sofisticação da capacidade 
do bebê em interagir de maneira recíproca com seus parceiros e compartilhar com 
eles suas experiências. As interações triádicas (pessoa-pessoa-objeto) ganham 
destaque, uma vez que o bebê apresenta capacidade de dirigir seu foco de atenção 
para pessoas e objetos, podendo coordenar ou monitorar o foco de atenção de seus 
parceiros em relação a estes últimos. 
O desenvolvimento da intersubjetividade parece ser importante para o 
surgimento gradativo de uma compreensão acerca das intenções e crenças que 
orientam comportamentos de outras pessoas, permitindo que estes últimos possam 
ser monitorados ou preditos em algum nível. Neste sentido, a capacidade da criança 
em se colocar na perspectiva do outro e predizer qual seria sua ação, sentimento ou 
reação possivelmente experimentados em determinada situação constitui uma tarefa 
necessária para a aquisição de uma teoria da mente, a qual se torna mais explícita a 
partir dos três anos de idade.4 
 
 
4 9 Texto extraído de: www.pepsic.bvsalud.org 
 
http://www.pepsic.bvsalud.org/
 
64 
 
 
Fonte: files.wordpress.com 
 
9 LINGUAGEM E FICÇÃO 
Evidentemente, a ficção não é um conceito da exclusiva propriedade da 
filosofia. Pelo contrário, é na literatura quiçá onde encontramos as suas 
problematizações mais interessantes – não só no exercício, sempre singular, do qual 
as obras literárias dão conta, mas também na reflexão crítica que muitas vezes 
acompanha essas obras na escrita dos mesmos autores. Não deve nos estranhar, 
portanto, que encontremos em diversos escritores ideias que parecem dialogar com a 
história da filosofia. 
É o caso, por exemplo, de Juan José Saer, quem, como se a literatura estivesse 
profundamente ligada ao pensamento puro, postula que a tarefa do escritor é assumir 
a experiência do mundo em toda a sua complexidade, com suas indeterminações e 
suas obscuridades, e tratar de forjar, a partir dessa complexidade, formas que a 
atestem e a representem. Nessa medida, a poética de Saer é uma poética 
fenomenológica: a literatura depende para ele de uma espécie de epojé intuitiva por 
parte do escritor; o sujeito da sua escrita é o sujeito da percepção; o seu objeto, a 
descrição da experiência; a sua finalidade, a denúncia de um longo erro (o erro da 
verdade, tal como tende a instituir-se sob as suas figuras históricas). 
http://www.files.wordpress.com/
 
65 
 
O próprio da ficção não é para Saer a exposição de fantasias, crenças, 
ilusões ou ideologias, mas um tratamento específico do mundo; não um 
tratamento oposto ao trato do verdadeiro, mas um tratamento diferencial. 
Logo, a ficção não é um domínio de sombras, como temia Platão e ainda 
hoje continuam a temer muitos filósofos. Pelo contrário, no seu espaço, tem 
lugar, de uma forma incomensurável com as formas em que isso acontece 
nos discursos que se regem pela lógica do verdadeiro, o necessariamente 
incessante desvelamento da realidade. Saer é preciso nisto; escreve: 
“Não se escrevem ficções para esquivar, por imaturidade ou 
irresponsabilidade, os rigores que exige o tratamento da ‘verdade’, mas 
justamente para pôr em evidência o carácter complexo da situação, carácter 
complexo que, quando aparece limitado ao verificável, implica uma redução 
abusiva e um empobrecimento da realidade. Ao dar um salto até ao 
inverificável, a ficção multiplica ao infinito as possibilidades de tratamento. 
Não volta as costas a uma suposta realidade objetiva: muito pelo contrário, 
submerge-se na sua turbulência, desdenhando a atitude ingénua que 
consiste em pretender saber de antemão como está constituída essa 
realidade. Não é uma claudicação perante esta ou aquela ética da verdade, 
senão a procura de uma menos rudimentar” (SAER, 2004, p. 11). 
 
Noutras palavras: a ficção pressupõe uma atitude diferencial face aos saberes 
vigentes, perante as verdades instituídas, em relação às formas dominantes de 
racionalidade. A ficção tende a “desmantelar as concepções do real e do verosímil 
que imperam no seu tempo, e a substituí-las por outras novas” (SAER, 2004, p. 163), 
fazendo proliferar uma série de mundos possíveis, isto é, colocando em variação as 
representações do que tendemos a denominar o mundo real, pondo à prova a cultura, 
abrindo-nos à multiplicidade incandescente da existência, sem imagens 
preconcebidas de um saber, uma verdade ou uma razão a conquistar. 
O que acreditamos saber não é, acaso, uma ficção privilegiada e consolidada 
pelas instituições (não apenas científicas), válido apenas enquanto não seja falseado 
pela nossa experiência? Com isto não quero dizer que o domínio da ficção seja o do 
individual, do subjetivo ou relativo, nem o do a-histórico, do transcendente ou absoluto. 
Pelo contrário, ao negar pelo seu exercício o arbitrário erigido como lei, afundando a 
experiência do mundo e enriquecendo o seu conhecimento, a ficção contribui para a 
atualização da mudança na história (e é quiçá a chave de qualquer progresso 
possível). Como dizia Saer (2004, p. 151): “É abrindo gretas na totalidade – totalidade 
que não pode ser mais que imaginária –, que a ficção destrói esse verniz convencional 
que se pretende fazer passar por uma realidade unívoca”. 
Essa inclusão súbita do concreto num universo encerrado na complacência do 
genérico, essa irrupção da imaginação no interior do fantasiar de uma comunidade, é 
o fundamento primeiro e o fim último da ficção. O domínio da ficção não é a realidade, 
mas o imaginário, ou, melhor, a realidade do imaginário, pelo que talvez a ficção não 
 
66 
 
possa ser considerada senão como uma evasão. Porém, essa evasão pode chegar a 
ser um procedimento eficaz para a confrontação dos valores instituídos que tendem a 
dominar a nossa vida imaginária e, a partir desta, a nossa vida real. Em razão deste 
aspecto principalíssimo da ficção, e em razão também das suas intenções, da sua 
irresolução prática, da posição singular do seu autor entre os imperativos de um saber 
objetivo e as turbulências da subjetividade, Saer propõe definir genericamente a ficção 
como uma antropologia especulativa (2004, p. 16). 
De maneira geral, poderíamos dizer que os jogos do saber e do poder ordenam, 
repartem, coordenam, enquanto os jogos da ficção desequilibram, dispersam, põem 
em variação. Esta peculiaridade chamou poderosamente a atenção de Foucault 
durante os anos sessenta. Foucault introduz uma distinção singular entre fabulação e 
ficção. 
A fábula constitui o conteúdo ou matéria da literatura: o dito ou por dizer, o 
enunciado, as histórias, os episódios, os acontecimentos relatados – elementos que 
a literatura partilha com as formas discursivas do saber e do poder nas suas mais 
diversas figuras. A ficção, pela sua parte, constitui a forma ou o regime desses relatos, 
e está marcada por uma linguagem ambígua, elusiva, que abre as fábulas a variações 
inusitadas, não autorizadas ou não previstas pela ordem do discurso; variações que 
têm por objeto, não apenas os enunciados propriamente ditos, mas também os 
agenciamentos de enunciação. 
Noutras palavras, a ficção é a trama das relações estabelecidas, através do 
próprio discurso, entre quem fala e aquilo do que fala – ou, melhor, é o seu campo de 
variação. É sempre possível dizer coisas fabulosas, mas quando falamos realmente, 
quero dizer, quando falamos no contexto da realidade cotidiana, familiar, institucional 
ou social, as relações discursivas entre o sujeito da enunciação, a forma do seu 
discurso e o conteúdo do que diz, se encontram em maior ou menor medida 
determinadas de antemão (por procedimentos de exclusão, de controlo interno, de 
rarefação). Por exemplo, é possível dizer qualquer coisa (quase qualquer coisa) num 
processo judicial, mas énecessário dizê-lo segundo determinadas formas (de acordo 
com um código de procedimentos, por exemplo), que fazem disso que dissemos uma 
palavra pertinente para o dispositivo judicial (para além do qual estamos fora de 
ordem, e já não somos ouvidos, ou somos ouvidos, mas desconsiderados, ou, pior 
ainda, penalizados pelo desacato das formas). O mesmo poderia dizer-se, feitas as 
 
67 
 
devidas considerações, em relação ao discurso científico, religioso, acadêmico, entre 
outros. 
 
 
Fonte: s1.static.brasilescola.uol.com.br 
 
 No análogo do discurso que é a obra literária, pelo contrário, essa relação 
pode estabelecer-se através do próprio (e singularíssimo) ato de fala que constitui a 
ficção: aí não só se diz o que se diz, como se diz também donde se o diz, a que 
distância se o diz e segundo que perspectiva. “A ficção não faz ver o invisível, mas 
faz ver como é invisível a invisibilidade do visível”, dirá Foucault (1994a, p. 524) 
falando de Blanchot; isto é, a ficção torna patente o que nos passa despercebido ao 
tomar a palavra, saca à luz as condições de enunciação – e as coloca em variação. 
Isso quer dizer que a ficção não se distingue pelas histórias que conta, mas 
pela torsão que impõe à linguagem e pelo espaço de variação que abre ao nível da 
enunciação. Daí que, desde o momento em que tem lugar, com cada palavra escrita 
ou pronunciada, possa 1) comprometer a linguagem e 2) transgredir a ordem do 
discurso. Em relação ao primeiro, e referindo-se especificamente à literatura, Foucault 
escrevia: 
“A literatura é o risco continuamente retomado e assumido para cada palavra 
de uma frase literária, o risco de que essa palavra, essa frase, e todo o resto, 
não obedeçam ao código. (...). No limite, é possível que nenhuma palavra 
da literatura tenha exatamente o sentido que damos às mesmas palavras 
que pronunciamos cotidianamente, é possível que a palavra suspenda o 
código do qual foi tomada. (...) Em todo o caso, a palavra literária tem 
sempre o direito soberano de suspender o código, e é a presença dessa 
soberania, mesmo se não é exercida, que constitui o perigo e a grandeza de 
qualquer obra literária” (Foucault, 2000, p. 159). 
http://www.s1.static.brasilescola.uol.com.br/
 
68 
 
Em relação ao segundo, falando da obra de Jules Verne, Foucault 
afirmaria o seguinte: 
“Contra as verdades científicas e rompendo com a sua voz gelada, os 
discursos da ficção remontam sem descanso até à mais alta improbabilidade. 
Por cima desse murmúrio monótono no qual se enunciava o fim do mundo, 
fazem brotar o ardor assimétrico da sorte, o acaso inverossímil da sem-razão 
impaciente. A ficção é a negentropia do saber. Não é a ciência tornada 
recreativa, mas a recriação do saber a partir do discurso uniforme da ciência” 
(FOUCAULT, 1994a, p. 506). 
Num mesmo movimento, portanto, a ficção se subtrai ao verdadeiro e dispersa 
a linguagem. Logo, não diz simplesmente o falso, o meramente errado, o fantástico 
ou o irreal. Diz mais que o verdadeiro (diz a coisa e diz a distância que separa e 
aproxima a linguagem da coisa), e diz menos que a verdade (diz a coisa sem 
pressupor a possibilidade de uma adequação entre as palavras e as coisas). 
Nesse sentido, o exercício da ficção implica um deslocamento fundamental em 
relação aos discursos que reclamam de direito à propriedade da verdade e do 
verdadeiro, porque assumindo a sua diferença não denuncia apenas a injustiça 
desses discursos, mas assume ao mesmo tempo o sistema da sua própria injustiça. 
“Os jogos ardentes da ficção” fazem com “que o mundo não pare”, entregando-o a 
“uma nova juventude”, “restituindo ao rumor da linguagem o desequilíbrio dos seus 
poderes soberanos” (FOUCAULT, 1994a, p. 506). Distancia cavada no interior da 
própria linguagem e nos interstícios da ordem do discurso, a palavra exposta às 
variações da ficção é aquela que oscila sobre si mesma: espécie de vibração no lugar 
que, no seu simulacro, é capaz de comover as estruturas e os dispositivos de que se 
serve para fazer sentido (ou para fazer outras coisas que não têm uma relação direta 
com o sentido). 
Independentemente das fábulas que conta, independentemente dos estratos 
de signos que retoma numa sociedade qualquer, pressupõe sempre esse 
estranhamento em relação à ordem do discurso, esse distanciamento em relação à 
linguagem. Tem lugar neles, mas ao mesmo tempo os expõe, os dispersa, os trabalha. 
Foucault (1994a, p. 281) dizia: 
“Não há ficção porque a linguagem se coloca à distância das coisas; a 
linguagem é essa distância, a luz onde as coisas estão e a sua 
inacessibilidade, o simulacro onde se dá a sua presença; e qualquer 
linguagem que, em lugar de esquecer essa distância, se mantenha nela e a 
mantenha nele, qualquer linguagem que fale dessa distância avançando nela, 
é uma linguagem de ficção. Pode, então, atravessar qualquer prosa e 
qualquer poesia, qualquer romance e qualquer reflexão, indiferentemente”. 
 
69 
 
Por tudo isso, o conceito de ficção se torna incontornável para a definição do 
trabalho inclassificável desenvolvido por Foucault, quem assumia voluntariamente 
que na sua vida não escrevera outra coisa que ficções. Com isso não pretendia dizer 
que sempre se mantivera fora da verdade, mas que fizera trabalhar de certo modo a 
ficção na ordem do verdadeiro, tratando de induzir efeitos de verdade com um discurso 
que não se adequava aos critérios do verdadeiro que imperavam no seu tempo. 
Podemos constatar, de fato, que a ficção opera em alguma das obras de 
Foucault como nos romances de Verne: “vozes sem corpo combatem para contar a 
fábula” (FOUCAULT, 1994a, p. 507), isto é, os sujeitos da enunciação se multiplicam, 
deslocando constantemente as relações entre o narrador, o discurso e a fábula. 
Assim, por exemplo, na História da loucura, cada fábula tem a sua voz, cada voz dá 
lugar a uma fábula nova, segundo um movimento que faz com que as personagens 
saiam da fábula à que pertencem para converter-se nos relatores da fábula seguinte, 
como numa espécie excêntrica desses jogos de bonecas russas (falam os médicos, 
os loucos, os regulamentos, as ordens de detenção, os filósofos, os poetas, etc.). 
 
 
 
Fonte: letronomia.blogspot.com 
Por outro lado, assim como Verne ficcionava “a probabilidade neutra do 
discurso científico (...) que impõe a certeza da sua verdade” (FOUCAULT, 1994a, p. 
506), Foucault ficciona a história contra os dispositivos de saber que caucionam certas 
formas de poder inscrevendo-as na ordem do verdadeiro. Escreve, por exemplo, uma 
história do nascimento da psiquiatria que, de um ponto de vista histórico, a partir dos 
http://www.letronomia.blogspot.com/
 
70 
 
critérios que regiam o saber histórico na época, pode ser considerada parcial, 
exagerada, etc. – não diz toda a verdade e diz mais que a verdade; mas eis que o livro 
tem um efeito sobre o modo como as pessoas percebem a loucura e o seu tratamento. 
Foucault dizia que a sua esperança era que os seus livros ganhassem a sua 
verdade depois de escritos, e não antes, que a sua verdade estivesse no por vir 
(FOUCAULT, 1994b, p. 804). No fundo, a ficção revela os limites do nosso 
pensamento, fazendo jogar a distância e a disjunção entre o real e a linguagem.5 
10 A QUESTÃO LINGUÍSTICA COMO MEIO DA CONSCIÊNCIA E DA AUTO 
COMPREENSÃO 
 Desenvolvimento da autoconfiança linguística dos alunos 
O desenvolvimento da consciência linguística constitui um meio de aumentar a 
autoconfiança linguística das crianças, por tornar consciente que a sua variedade 
linguística de origem é tão complexa e estruturada e, portanto, tão digna como a 
variedade padrão usada na escola. 
Paralelamente, o domínio progressivo do português padrão que as aulas de 
língua materna devem proporcionar, associado ao conhecimento das situações 
sociais em que está variedade deve ser usada, tornarão o aluno mais confiante no 
seu conhecimento da língua e na sua capacidade deselecionar adequadamente a 
variedade que deve mobilizar em cada situação concreta. 
 Desenvolvimento da tolerância cultural e linguística 
O desenvolvimento da consciência linguística dos alunos orientado para uma 
melhor compreensão das suas variedades linguísticas de origem e para um 
progressivo domínio, por todos, da variedade padrão estimulará um olhar objetivo de 
cada aluno sobre a sua variedade de origem e sobre aquelas com que se confronta 
dentro e fora da escola. 
Esse tipo de atividade contribuirá para o desenvolvimento da tolerância cultural 
e linguística das crianças e jovens, despertando eventualmente a sua curiosidade para 
manifestações culturais distintas das do seu grupo de origem. 
 
5 Texto extraído de: www.periodicos.ufes.br 
 
71 
 
11 BIBLIOGRAFIA BÁSICA 
ALSTON, W. Filosofia da linguagem. Rio de Janeiro: Zahar, 1977. BAKHTIN, M. 
Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1986. 
BENJAMIN, W. Obras escolhidas II - Rua de mão única. São Paulo: Brasiliense, 
1995. 
 
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR 
 
DASCAL, M. (org.). Fundamentos metodológicos da linguística. Campinas: Ed. 
Da Unicamp, vol. 4, 1975. 
ECO, Umberto. Semiótica e filosofia da linguagem. São Paulo: Ática, 1991. 
ROSSI-LANDI, F. A linguagem como trabalho e como mercado. São Paulo: Difer, 
1985. 
SAUSSURE, F. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 1995. 
WITTGENSTEIN, L. "Investigações Filosóficas". In: Os Pensadores, vol. XLVI, 
São Paulo: Editora Abril, 1975. 
 . Tratado Lógico Filosófico. São Paulo: Edusp, 1993.