uando se trata da neurociência, líquidos e ventrículos é incorreta: a) foi no Império Romano que o médico Galeno (130-200), depois de ganhar experiência com cirurgias em gladiadores, interessou-se pelo papel mental do cérebro. Para ele, o cérebro era o responsável pelas sensações e o cerebelo pelo controle dos músculos. Seguindo a teoria humoral de Hipócrates, ele dedicou-se a estudar os temperamentos. O fleumático, sob o domínio da bile negra, era triste, suscetível e ligado à arte; o colérico, relacionado à bile amarela, era o apaixonado, tendente à raiva; o sanguíneo tinha a ver com segurança própria, alegria, otimismo e sociabilidade e o melancólico caracterizava o fleuma, ou seja reflexão, tranquilidade e ausência de compromisso. b) Cavada (2017) explica que Galeno relacionava os ventrículos cerebrais com cavidades no coração e acreditava que sensações e movimentos estavam relacionados aos humores de ou para os ventrículos cerebrais pelos nervos. Pela teoria galênica, os nervos equivalem-se a condutos de transporte de fluidos do cérebro e medula espinhal em direção à periferia do corpo. Conforme Cosenza (2002), Nemesio (320), bispo de Emesia (a Síria de hoje) baseado em Galeno, ligou os ventrículos às faculdades intelectuais e colocou-os como responsáveis pelas operações mentais, desde a sensação até a memorização. Segundo o autor, o primeiro par de ventrículos seria sede do "senso comum". Aguiar (2001), destaca que o sistema de Galeno (que integrava a teoria humoral de Hipócrates com a lógica aristotélica) foi incorporado por médicos árabes após a queda do império e reintroduzido na Europa após 1250. c) as ideias de Galeno influíram no futuro e garantiram ao cérebro a responsabilidade de ser a sede de todas as faculdades mentais. René Descartes (1596-1650) concordou em parte com o médico romano, ao argumentar que todo ser humano tinha um corpo físico e um corpo não-físico. Gazzaniga e Heatherton (2005) acentuam que o "físico" e o "não-físico", na visão cartesiana, eram interligados (dualismo) e o corpo era considerado uma espécie de máquina comandada por reflexos definidos como unidades de ação mecânica. As funções mentais, que incluíam a imaginação e as lembranças, eram resultado de funções corporais. d) entre os séculos XVII e XVIII, os estudiosos do cérebro passaram a dar importância ao encéfalo em relação à sua "substância cinzenta", que através de nervos e fibras, levava informações para outra substância, a branca. Rodrigues e Ciasca (2010) reportam que estudos como o de Benjamin Franklin (Experimentos e observações sobre a eletricidade) em 1751, que tratou dos fenômenos elétricos, estimularam investigações sobre o encéfalo. Na virada do século, Luigi Galvani e Bois-Reymond trouxeram evidências de que músculos entravam em movimento diante de estímulos elétricos e neste alinhamento, o encéfalo podia gerar eletricidade. Já não era apenas a diversificação das estruturas que chamava a atenção, mas também a quais funções que corresponderiam cada uma das áreas específicas do cérebro.