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O FILME E OS CONTEÚDOS DA PROTAGONISTA
Estella é o nome de batismo da personagem principal. Ela cresceu junto com a mãe que era muito dócil e afetuosa. Durante a infância a protagonista demonstra agressividade e é avessa às regras e padrões sociais, mas, sua mãe a todo o momento a alerta sobre esse lado agressivo, a incentivando sobre a importância de seguir as regras sociais. 
Nesse sentido Whitmont (1990) afirma que no início da vida a criança se comporta de acordo com os modelos aceitáveis com quem tem contato, que nesta época correspondem aos pais e vão se ampliando para a sociedade e a cultura. Por causa do afeto que Estella tinha pela sua mãe ela ainda se esforçava pra seguir o padrão de comportamento em alguns momentos.
Ao longo do tempo sua mãe acabou nomeando o lado mais indomável e ardiloso da protagonista de Cruella. Lado este que é reprimido a todo o momento por sua mãe, que a instrui a não deixar que Cruella venha à tona, pois ela preferia que a Estella carinhosa e afetiva estivesse sob o controle. 
As relações primárias com o núcleo são tão importantes na formação do ego. O ego é a nossa noção de identidade, sendo o responsável pela comunicação do exterior com o nosso interior, e o ego da protagonista vai sendo formado ao longo do seu desenvolvimento, basicamente em função do processo de socialização, que se inicia primeiramente com a sua mãe. 
A garota também mostrava sinais de genialidade e criatividade, mas, por conta de seu mau comportamento constante na escola sua mãe decide se mudar para Londres e buscar amparo da mãe biológica de Estella, a Baronesa. 
De acordo Stein (2006) uma armadilha no desenvolvimento da persona é não prestar atenção suficiente no mundo externo, tendo pouca afinidade com as pessoas, por uma incapacidade ou recusa de aceitar as exigências externas, o que era o caso da protagonista.
Durante uma conversa com a Baronesa a mãe de criação de Estella acaba caindo de um penhasco e durante muitos anos Estella se culpa pela a sua morte. Acreditando que o seu mau comportamento resultou na trágica morte de sua mãe. 
Órfã, Estella encontra dois amigos ladrões de rua e acaba se juntando a eles, sobrevivendo através dos furtos que realizavam na cidade. Estella pinta o cabelo de vermelho, cor que remete ao colar que sua que sua mãe havia lhe dado. 
Podemos interpretar o vermelho como uma cor que a conecta simbolicamente com a sua mãe e durante este período Estella passa a ser doce, amável e companheira, pois compreende que este era o caminho para ser aceita. Alguns anos se passam e durante esse tempo Estella não deixava que a Cruella viesse à tona, mas, com o passar do tempo começou a sentir-se indignada por estar muito distante do que realmente queria ser.
Paralelamente a formação da persona os conteúdos que não são incorporados a ela e ao ego passam a constituir o que Jung chamou de sombra.
 Ela é composta pelo o que é rejeitado pela consciência, pela repressão do que é considerado errado e mal, representando o inconsciente pessoal (Whitmont, 1990). Em oposição à persona, à sombra é escondida e rejeitada pelo mundo social (Stein, 2006).
No caso de Estella, Cruella era o resultado de todos os seus conteúdos rejeitados, pois eram vistos como ruins, mas, mesmo rejeitada pelo mundo social a Cruella permanecia como a sombra de Estella.
Quando Estella finalmente consegue um emprego em uma conceituada loja de Londres é frequentemente rejeitada com estilista, passando a trabalhar no serviço de limpeza. E é nesse momento que ao consumir bebida alcoólica surge a Cruella, que faz uma mudança drástica na vitrine da loja.
Olhamos a bebida alcóolica como algo que afeta o limiar da consciência, onde podemos perdemos o controle sobre nós mesmos deixando escapar alguns conteúdos da sombra, era quando a Cruella vinha à tona.
Então a Cruella que era reprimida não está mais presa nesse momento, e é comum que os nossos aspectos inconscientes surjam de maneira exagerada, pois nós não sabemos lidar com eles. 
Quando Estella começa a trabalhar com a Baronesa manifesta uma admiração muito grande por ela, porque ela representa todo conteúdo que ela reprimiu em si mesma. Então esse conteúdo reprimido encontra uma outra forma de manifestação através da admiração por algo externo por exemplo.
Nesse sentido (Whitmont, 1990) afirma que quanto mais afastada a sombra estiver da consciência, quanto mais tentarmos combatê-la, mais facilmente seus conteúdos serão projetados, interferindo na nossa capacidade de ver objetivamente, nos tornando incapazes de diferenciar a realidade de nossos próprios complexos.
Cruella assume o controle sobre Estella após a suspeita de que a Baronesa matou sua mãe, alterando então a sua forma de vestir e de agir. Podemos considerar a roupa como um símbolo, que expressa conteúdos do inconsciente, é quando a sua sombra se manifesta, e suas atitudes também tomam outro viés, ela se torna mais autoconfiante, insensível, cruel e vingativa.
A Baronesa tenta matar Cruella, mas quem acaba morrendo de forma simbólica é Estella, e para reatar a relação abalada com seus dois amigos uma Cruella desregrada não servirá, e é nesse momento que Cruella manifesta conteúdos de Estella, com uma forma de se adaptar a situação.
E para Stein (2006), quando os conteúdos da sombra são integrados a consciência, ambas se transformam, e consequentemente a persona também, pois diferentes conteúdos estarão na sombra, sendo valorizados novos papéis sociais; isso faz com que este processo de ampliação de consciência esteja sempre reformulando o modo como o indivíduo se apresenta através da persona.
Durante o funeral Cruella enterra junto com o caixão o colar que a mãe havia lhe dado, representando o seu lado doce e amável. No desfecho do filme ela continua usando preto e branco e vermelho apenas nos lábios, o que sugere que apesar dos conteúdos manifestos apontarem de forma mais marcante para Cruella, ela não deixou totalmente de lado os conteúdos presentes na persona de Estella.
O CARÁTER DA PROTAGONISTA
Dentre as principais características e traços relativos ao modo de agir de Cruella podemos destacar a autoconfiança, genialidade, criatividade, rebeldia, vaidade, egocentrismo, extravagancia, crueldade e vingança. Essas características estão ligadas a sombra de Estella, Cruella.
AUTOCONCEITO
Durante a infância Cruella era o lado que mais estava presente na vida da protagonista. Após a morte de sua mãe o lado Estella passou a ser o lado principal, pois era o mais aceitável pela sociedade, sendo doce, amável, passiva e submissa. Porém conforme o seu ego foi se desenvolvendo ela começa a perceber quem é.
É nesse momento que ela se reconhece como Cruella, e essa face abrange também conteúdos de Estella, por conta de suas vivencias passadas. Mas, o reconhecimento de quem se é foi libertador para ela, que durante toda vida reprimiu seu lado Cruella, e percebeu-se livre do desejo de se encaixar nos padrões para ser aceita, podendo finalmente ser Cruella. 
Trecho da fala da protagonista:
“Com a Cruella as coisas acontecem”
MECANISMOS DE DEFESA DA PROTAGONISTA
	Vários são os recursos que o ego utiliza para não se confrontar com a Sombra. São os mecanismos de defesa inconscientes. Os mecanismos de defesa que a protagonista utiliza no filme são:
· Identificação: A Baronesa se torna em um modelo de indivíduo para Estella. A sombra Cruella se identifica com todas as características da Baronesa, e essa assimilação ocorre porque no fundo Estella não queria ser Estella, mas, sim Cruella.
· Repressão: Durante muitos anos Estella reprimiu a existência de Cruella, pois era um lado que não seria aceito pela sociedade, pois desde pequena a protagonista aprendeu que Estella era o padrão social e dessa forma ela seria mais aceita pelo meio.
· Regressão: Que ocorre quando o indivíduo retorna a atitudes da infância que provam ser mais seguras e gratificantes, e às quais a pessoa busca voltar para fugir de um presente angustiante. Quando Estella pinta o cabelo de vermelho, cor que simboliza a sua mãe, escondendo a cor naturalcomo sua mãe fazia para protegê-la de olhares repressivos, e acaba se tornando doce e amável assim como sua mãe desejava que fosse quando era pequena.
NECESSIDADES SUPRIDAS E NÃO SUPRIDAS
Estella teve uma mãe amável, pela qual tinha muito afeto mas, após a morte da sua mãe passou a compartilhar a vida com dois amigos construindo uma família para si. 
Também sofreu rejeição e bulliyng na escola, e podemos sugerir que seu comportamento agressivo é resposta diante da rejeição constante que sofria na infância pelas outras crianças. 
Sofreu rejeição da mãe biológica duas vezes; ao nascer e ao ser vitima de tentativa de homicídio durante um incêndio causado pela Baronesa, essa rejeição aumenta ainda mais o seu desejo de vingança e de deixar Cruella no controle da situação.
Estella sempre tentou uma oportunidade na produção de moda onde trabalhava, mas não obteve a chance desejada. Ela começa a entender que com Estella seu objetivo não era alcançado e passa a dar lugar pra Cruella redigir a sua vida. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
JUNG, C. G. Psicologia e alquimia. Tradução de Dora Mariana Ribeiro Ferreira da Silva; revisão técnica, Jette Bonventure. (Obra completa de C. G. Jung, volume XII). Petrópolis: Vozes, 1991b.
SAMUELS, A. SHORTER, B. PLAUT, F. Dicionário Crítico de Análise Junguiana. Tradução de Pedro Ratis e Silva. Rio de Janeiro: Imago, 1988.
STEIN, M. Jung: o mapa da alma. São Paulo, Cultrix, 2006.
WHITMONT,E.C.A busca do símbolo. São Paulo: Cultrix, 1990.

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