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O curso de introdução à economia

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Flávio R. Versiani
Com a colaboração de Bruno P. Rezende e Patrícia C. Rodrigues
			
	Você está iniciando agora o curso de Introdução à Economia. O objetivo da disciplina é apresentar alguns conceitos e instrumentos de análise que facilitem o entendimento de fenômenos econômicos, na realidade que nos cerca. 
	Entendendo a economia. Questões econômicas têm importância evidente na vida de todos nós. Por exemplo: a probabilidade de que boa parte de uma turma de formandos na Universidade obtenha um bom emprego depende, essencialmente, do ritmo de expansão da atividade produtiva no País — ou seja, da taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (o PIB, cuja definição e forma de medida vamos estudar). Quando a produção aumenta, as empresas necessitam de mais operários, mais técnicos, mais funcionários administrativos, etc., o que incrementa a criação de novos postos de trabalho. O crescimento do PIB em geral aumenta também a demanda por serviços do governo, assim como a receita de impostos, o que facilitará a abertura de concursos para o preenchimento de posições no serviço público. 
	Num mundo crescentemente globalizado, o crescimento econômico de outros países também nos afeta. Por exemplo: o extraordinário desenvolvimento da economia chinesa, no período recente, tem produzido vários efeitos sobre a economia brasileira, uns favoráveis, outros não. No lado positivo, a demanda chinesa por vários de nossos produtos induziu aumentos de produção, de emprego e de lucros em setores como o de minério de ferro: a Vale do Rio Doce, maior exportadora mundial desse produto, cresceu muito nos últimos anos — gerando empregos e divisas —, em boa parte devido à expansão do mercado chinês, e vai-se tornando uma das maiores empresas mundiais no setor mineral. No lado negativo, indústrias como a de calçados têm sido prejudicadas pela concorrência da produção chinesa, especialmente no caso de artigos mais baratos; em regiões como Franca, no estado de São Paulo, onde se localizam muitas fábricas de calçados, isso se reflete em redução do emprego. 
	Variações de preços podem também, claramente, influenciar o bem-estar de cada um, de formas diferentes: aumentos de preço em geral são ruins para quem compra, mas bons para quem vende. A alta do petróleo, até recentemente (o preço internacional do produto mais do que quadruplicou, entre o início de 2004 e meados de 2008), penalizou consideravelmente os consumidores, ao mesmo tempo em que trouxe grandes ganhos para os países exportadores e as empresas exploradoras. Outra alteração importante de preços, nos últimos anos, resultou da queda no valor do dólar em reais (a taxa de câmbio). Isso tem dificultado a vida dos exportadores brasileiros (já que suas vendas externas valem menos, em reais), mas favorecido os consumidores de produtos importados, como computadores ou equipamento industrial (o que tem, aliás, facilitado a modernização de empresas nacionais), assim como o turismo no exterior. 
	Entender melhor o que se passa na economia é, assim, um objetivo importante. É bom sabermos o que está por trás de uma conjuntura benéfica — empregos abundantes, ausência de inflação, redução na desigualdade e na pobreza, etc. — ou de uma situação desfavorável. Não só por uma curiosidade natural — a curiosidade intelectual é um poderoso incentivo à busca do conhecimento, como sabemos — mas principalmente por que, como cidadãos, temos a possibilidade de influir na determinação de políticas governamentais relacionadas ao campo econômico. O Estado tem uma influência decisiva sobre muitos aspectos da economia de um país. Se entendermos um pouco melhor os fenômenos econômicos, estaremos mais bem armados para exercer nossas escolhas quanto às formas de ação do Estado sobre o sistema econômico (por exemplo: o processo de privatização deve continuar? o que fazer com o déficit da previdência social? como distribuir os gastos do governo?). E procurar fazer valer tais escolhas pelo voto, nas eleições. 
	
	O Estado e a economia. O Estado intervém de várias formas na economia. Por exemplo: as três esferas de governo (federal, estadual e municipal) captam, atualmente, quase 40% do total de rendimentos recebidos pelos brasileiros, sob a forma de impostos. O modo como o governo gasta essa parcela tão substancial dos recursos disponíveis tem efeito direto sobre o crescimento da economia: se uma parte importante é aplicada em investimentos (ou seja, no aumento da capacidade de produção: expansão ou melhoria da infraestrutura de transportes, da geração e distribuição de energia, da oferta de serviços básicos de educação e saúde, etc.), isso criará condições favoráveis ao crescimento; ao contrário, se houver má alocação dos recursos governamentais, assim como ineficiência e desperdício nos gastos públicos, o efeito será desfavorável. O tamanho da fatia apropriada pelo governo é também uma questão relevante; uma redução na carga de impostos (pelo aumento de eficiência no dispêndio governamental, por exemplo) poderá estimular a demanda dos consumidores e o investimento privado. 
	Outras políticas governamentais também afetam diretamente a economia, como a política monetária — fixação da taxa básica de juros, regulação do sistema financeiro, etc. —, a política de relações com o resto do mundo — envolvendo a forma de determinação da taxa de câmbio, o lançamento de impostos sobre o comércio exterior, etc. —, e assim por diante. 
	Ademais, instituições do Estado têm grande influência sobre os agentes econômicos. O Judiciário, por exemplo, intervém de várias formas nas relações econômicas — quando, por exemplo, arbitra conflitos entre credores e devedores, empregados e patrões, contribuintes e o fisco —, e a eficiência ou não da prestação de justiça pode ter efeito favorável ou desfavorável para o funcionamento do sistema econômico. Analogamente, instituições relativas à regulação de certas atividades produtivas, ao aparelho tributário, a normas administrativas variadas — sobre a abertura e fechamento de empresas, por exemplo —, tudo isso pode ou favorecer ou interpor obstáculos a iniciativas dos agentes econômicos privados. Nas últimas décadas, a importância econômica do bom funcionamento de instituições, como as mencionadas acima, tem sido destacada por vários economistas influentes: para alguns autores, por exemplo, esse é um elemento central na explicação do crescimento econômico diferenciado dos países da América do Norte e Europa Ocidental, ao longo dos últimos séculos. 
	Não menos importantes são as ações governamentais visando reduzir a desigualdade na distribuição de renda e prestar assistência à parcela mais desfavorecida da população, especialmente num país tão desigual como o nosso. 
	Assim sendo, é importante procurar entender essas influências de medidas do Estado sobre a economia, para que possamos nos posicionar sobre elas. 
	Pode-se aprender algo relevante em um semestre? Alguns de vocês, em particular os futuros economistas, vão cursar depois outras disciplinas de Economia, e terão acesso a instrumentos de análise mais elaborados do que os vistos nesta disciplina. Mas são uma minoria: para os demais, Introdução à Economia será a única exposição sistemática à teoria econômica, em seu curso de graduação. Pode-se esperar que, para essa maioria de alunos, o nível de entendimento das questões postas acima (ou de outras igualmente relevantes) tenha um acréscimo significativo, com uma disciplina apenas? É uma dúvida razoável.
	Pode-se dizer que a resposta à questão acima é positiva — num certo sentido. Não que o curso de Introdução à Economia possa fornecer uma explicação bem definida sobre, por exemplo, por que a economia brasileira tem crescido pouco, nos últimos vinte anos, depois de ter tido uma das taxas de crescimento mais altas do mundo, na maior parte do século XX; ou por que o preço do petróleo cresceu tanto, até 2008. De fato, nem em cursos mais avançados seria possível obter respostas nítidas a essas perguntas. Em Economia, como em geral nas ciências sociais,