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Cronologia dos estudos do comportamento

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Reportagem
	
	Cronologia dos estudos do comportamento
	
	Por Patricia Mariuzzo e Mariana Perozzi
	
	
	
	Algumas aranhas desenvolvem mecanismos para localizar suas presas. Formigas deixam rastros químicos por onde passam. As colméias têm uma única fêmea alimentada por milhares de abelhas operárias. O homem age racionalmente. Essas frases indicam alguns tipos de comportamento que, por definição, é o conjunto de ações que o animal realiza ou deixa de realizar. Ao longo da história, o homem tem tentado compreender o comportamento dos animais com o objetivo de entender seu próprio modo de agir.
Uma das primeiras linhas de estudo sobre o comportamento animal foi o behaviorismo, que se originou com Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936), na Rússia, e com John Broadus Watson (1878-1958), nos Estados Unidos. Watson é considerado o "pai" do behaviorismo, tendo publicado em 1913 um artigo ("Psychology as the behaviorist views it") que é tido como o “manifesto behaviorista”. Nesse texto, Watson enfatizava que o objeto de estudo da psicologia seria o "comportamento" e não mais a "mente", e propunha que esta fosse uma ciência empírica, capaz de formular generalizações amplas sobre o comportamento humano, com experimentos passíveis de réplica em qualquer laboratório. Inicialmente bem recebido pela comunidade acadêmica, Watson foi aos poucos perdendo credibilidade, pois deixava de lado o estudo da subjetividade.
Outro importante nome dentro dessa corrente de estudo do comportamento é o de Burrhus Frederic Skinner (1904-1990). Foi ele quem sugeriu a divisão entre "behaviorismo metodológico" (nas bases de Watson, ignorando fenômenos como a consciência, os sentimentos e os estados mentais) e o "behaviorismo radical", proposto pelo próprio Skinner e caracterizado pela ênfase no comportamento como interação entre o sujeito e o ambiente. Na opinião de Sergio Dias Cirino, professor de psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de seu aluno Rodrigo Miranda, há muita confusão entre essas duas vertentes, sendo que grande parte das críticas feitas ao behaviorismo radical se refere, na verdade, ao aspecto metodológico. “Atualmente o behaviorismo radical é bastante respeitado, principalmente, pela eficácia dos tratamentos terapêuticos baseados nele”, afirmam.
Cirino explica que, nos dias de hoje, o behaviorismo está passando por uma mudança de ênfase em seus estudos. “Até as últimas décadas do século XX, enfatizava a pesquisa experimental em laboratórios. Mais recentemente, estudos interpretativos sobre o comportamento verbal têm sido levados a cabo e mudado o cenário da produção científica behaviorista. Estudos comparativos entre as propostas de Skinner e de outros teóricos para o estudo da linguagem têm se apresentado como promissores”, diz. Para os pesquisadores da UFMG, um dos maiores conflitos do behaviorismo foi com o lingüistaNoam Chomsky e suas concepções acerca da aquisição e produção da linguagem. “Chomsky fez duras críticas ao livro Comportamento verbal, de Skinner (1957). Para Chomsky, a linguagem é considerada inata no sujeito e para Skinner é um comportamento aprendido nas múltiplas interações do sujeito com a comunidade dos falantes”.
Os temas behavioristas continuam sendo ensinados como parte da psicologia experimental na maioria dos cursos de graduação em psicologia no Brasil, e também vêm sendo incorporados como ferramenta de análise complementar nas áreas de administração de empresas, letras, economia, meio ambiente, sociologia, educação, entre outros. O debate com a linguagem permanece como o mais relevante dentro dessa linha.
Embora o behaviorismo tenha nascido e se desenvolvido na área de estudos psicológicos com animais, os últimos artigos de Skinner mostram que ele levava em consideração uma seleção evolutiva do comportamento. Isso enfraquece uma dicotomia simplista geralmente observada quando se contrapõe o behaviorismo à etologia, disciplina que estuda o comportamento animal numa perspectiva biológica.
Pode-se considerar que a etologia tenha surgido com Charles Darwin (1809-1882), especialmente com o capítulo ‘Instinto’ de A origem das espécies (1859), no qual Darwin já indicava as principais estratégias de observação e interpretação do comportamento animal, sob a ótica evolucionista. Oficialmente, contudo, a etologia foi fundada pelo alemão Karl von Frisch (1886-1982), o austríaco Konrad Lorenz (1903-1989) e o holandês Nikolaas Tinbergen (1907-1988) que, em 1973, ganharam o Prêmio Nobel de Medicina, por suas descobertas sobre a organização de padrões de comportamento individuais e sociais.
“A contribuição de Lorenz foi mais teórica, pois ele forneceu um esquema de conceitos básicos para explicar o comportamento instintivo e aprendido dos animais. Já Tinbergen mostrou que era possível fazer trabalhos de campo, na natureza, sobre o comportamento animal”, afirma o psicólogo César Ades, professor da Universidade de São Paulo (USP) e membro Comitê Internacional de etólogos. Ele explica que a etologia foi, de um lado, bem acolhida por ressaltar a importância dos comportamentos instintivos, a determinação genética do comportamento e sua adaptação ecológica. De outro, recebeu críticas fortes, sobretudo as de Daniel Sanford Lehrman (1919-1972), por exagerar na ênfase sobre o instintivo, não levando suficientemente em conta os determinantes aprendidos do comportamento.
“O debate instintivo/aprendido permanece até hoje, mas acredito que houve um progresso enorme: hoje em dia, nenhum psicólogo negaria o papel das tendências herdadas e da origem evolutiva do comportamento e nenhum biólogo negaria que o comportamento decorre em parte da influência de fatores ambientais e da aprendizagem”, analisa Ades.
Para ele, os principais conflitos com a etologia se dão nas interfaces com as ciências sociais (com linhas da antropologia que rejeitam a comparação com animais e o pensamento biológico no caso humano) e também com certas tendências da psicologia. No interior da área, as divergências são poucas: “não surgem polêmicas sobre a importância de estudos de campo, de laboratório, estudos aplicados ou teóricos”, afirma Ades. Hoje, a etologia está inserida nos cursos de biologia, medicina veterinária, zootecnia e psicologia, indicando sua natureza multidisciplinar.
O pensamento etológico inspirou o surgimento de outras vertentes de estudo hoje independentes, como a sociobiologia. Seu principal representante, o biólogo norte-americano Edward O. Wilson (1929- ), propunha uma síntese entre biologia e sociologia, antes estudadas separadamente. A publicação de seu livro sociobiologia: a nova síntese, em 1975, suscitou grande controvérsia porque o autor assume que tanto homens quanto animais, vivendo em grupo, apresentam comportamentos comuns. Segundo a bióloga e antropóloga Gláucia Oliveira da Silva (ver artigo nesta edição), os sociobiólogos partem do princípio de que o modo de vida gregário é vantajoso para a adaptação dos seres ao meio ambiente. “Eles acreditam que cada indivíduo aja dentro de sua sociedade de forma a aumentar suas chances de sobrevivência e reprodução, bem como a de seus parentes mais próximos”, diz ela no livro O que é sociobiologia, de 1993.
Elementos da sociobiologia
Instituições como casamento, guerra e religião são vistos pela sociobiologia como produto de um condicionamento genético ou como parte de um processo adaptativo de certa população. Silva cita o exemplo usado pelos sociobiólogos que compara costumes da Índia pré-colonial e algumas espécies de aves e mamíferos: a prática feminina do casamento com homens das camadas mais ricas (hipergamia); infanticídio feminino nas castas mais altas; o fato dos machos grandes e maiores acasalarem com mais freqüência do que os menores e mais fracos. Para Eduardo Ottoni, do Departamento de Psicologia Experimental da USP, a sociobiologia é uma decorrência da aplicação do pensamento neodarwinista ao estudo do comportamento social. “O principal problema está na ênfase total nos genes como unidades de seleção, e não nos indivíduos, o que pode sugerir