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COMO DESTRUIR UM CEO BILIONÁRIO Yule Travalon SUMÁRIO Sinopse Prólogo Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Capítulo 29 Capítulo 30 Capítulo 31 Capítulo 32 Capítulo 33 Capítulo 34 Capítulo 35 Capítulo 36 Capítulo 37 Capítulo 38 Capítulo 39 Capítulo 40 Capítulo 41 Capítulo 42 Capítulo 43 Epílogo Ficha Técnica Yule Travalon Outras Obras Agradecimentos Para ficar por dentro das novidades, Receber marcadores & participar de sorteios de livros, me siga: Instagram: https://www.instagram.com/yuletravalon/ https://www.instagram.com/yuletravalon/ Sinopse Isabella Miller Hathaway é uma brilhante jornalista que não consegue emprego em lugar algum. Desde que terminou com Chad Dawnson, sua vida virou de cabeça para baixo: ele retirou a guarda de seu filho, constantemente a persegue e usa da influência do pai, um poderoso juiz, para intimidar qualquer um que pense em dar uma oportunidade de emprego para a nova- iorquina. Decidida a fugir com o filho e recomeçar a vida, Bella vê a luz no fim do túnel quando é contratada para investigar e destruir a carreira de um poderoso homem. Tudo o que ela precisa é se infiltrar na vida de Blake Gallagher, alguém que fez parte de seu passado, descobrir suas vulnerabilidades e expor para o mundo inteiro. Blake Gallagher é um bilionário arrogante, rude e sem coração. Para substituir o pai na presidência do Banco CS Gallagher ele é capaz de tudo e por isso arranjou inúmeros inimigos. Controlador, frio e calculista, abriu mão do amor para ser um dos homens mais poderosos do mercado financeiro americano – a única pessoa capaz de conhecer seu lado humano é Rowan, sua filha com Síndrome de Down. Quando seu irmão Franklin Gallagher tenta enfrentá-lo na disputa pelo cargo de CEO, Blake sabe que os fantasmas de seu passado podem vir à tona, principalmente pelo retorno da “senhorita Miller” à sua vida, a mulher que ele comprou a virgindade no passado. Bella fará tudo o que for necessário para proteger a si e ao filho das garras de Chad, mesmo que isso signifique destruir o homem que a ajudou no passado – por isso usará um disfarce inusitado para ser a secretária gostosona do CEO. Blake lutará pelos seus segredos e objetivos, mesmo diante da sua única fraqueza. Nessa briga de egos pelo controle um do outro eles descobrirão que juntos podem ser mais fortes para recomeçar? Bella e Blake estão prestes a descobrir. Prólogo Alguns anos atrás. Blake Gallagher — Isso é algum tipo de piada? — Quebro o silêncio. De todas as coisas que me foram propostas durante a vida, essa me pegou de surpresa. É óbvio que um lado meu quer fechar acordo, afinal de contas, não é todo dia que uma jovem mulher entra em seu escritório e tenta te vender algo assim. Por outro lado, preciso garantir se isso é sério mesmo ou apenas um capricho. E se for um capricho... ah... talvez seja ainda melhor... A senhorita Miller tem as medidas perfeitas para prender a minha atenção: cabelos negros que descem até suas costas, leves ondas até as pontas. Olhos castanhos que brilham de encontro aos meus, transmitem alguma doçura, mas são firmes e violentos também. Não tenho como não reparar em seus seios não tão grandes e seu corpo desenhado. Ela usa um vestido preto de material leve que deixa suas pernas e parte da coxa à mostra. Não tenho dúvidas de que ela veio aqui fechar negócio, tem jeito de mulher decidida e prática. E por me oferecer algo assim, imagino que muito segura de si também. A senhorita Miller não se abala pelo meu tom ou questionamento. Pelo contrário, levanta bem a perna direita e a cruza sem pressa em cima da esquerda. Desliza a ponta dos dedos pelo braço da cadeira em que está sentada e seu olhar sobe de encontro ao meu. Ela não desvia, não pisca, sequer se encolhe. Não nos conhecemos, sequer sei se sua história é real, mas a forma como ela se porta começa a me aquecer. Um segundo depois a gravata já está mais folgada e estou tentado a abrir o terno azul marinho para respirar. — É a minha proposta — ela diz tão segura que sou eu quem pisca os olhos. — Acho que a senhorita interpretou errado — umedeço os lábios e me levanto, pronto para indicar-lhe a porta. — Eu sou um investidor. Não é assim que as coisas funcionam, senhorita Miller. — Um investidor precisa correr riscos, imagino — ela comenta. — Riscos que estejam dentro de uma boa zona de lucro, sim — acabo, por fim, desabotoando o terno e encosto na mesa, onde me sento. Agora a tenho mais próximo de mim e ainda não consigo entender como ela consegue se portar de forma tão profissional e segura. Eu devo ser um dos caras mais frios e calculistas de Nova York, e preciso admitir que essa foi a vez em que cheguei mais perto de suar frio. — Bom... — ela levanta e abaixa os ombros. — Eu posso procurar outro investidor... — e se levanta. — Você não precisa de um investidor — assim que digo isso ela para, mas se mantém de costas para mim. — Na verdade você precisa de alguém maluco o suficiente e que tenha dinheiro sobrando para comprar a sua virgindade. A senhorita Miller ri, consigo ver seus lábios vermelhos crescerem. E ela se vira devagar, de um jeito gatuno, e quando menos espero, aqui está ela, entre minhas pernas, nossos rostos a poucos centímetros um do outro. — É por uma boa causa — murmura, não sem antes passar as unhas pelo dorso da minha mão e então, se afastar. — Espera — eu a impeço. Droga. Por que estou fazendo isso? — Eu te dou o dinheiro, contanto que me prove que realmente precisa dele — sou firme nas palavras. Mas quer saber? Ela não se importa com a firmeza das minhas palavras, mas com outra firmeza... — Não quero ter que provar nada. Não quero ter vínculos, não quero um segundo encontro, sequer quero saber seu nome real. Nem que você saiba o meu. Se acreditar em minha história e estiver disposto a comprar a minha virgindade, podemos fechar negócio e isso é tudo. Eu não prestei atenção em nada do que ela disse. Apenas no movimento de seus lábios se abrindo e fechando, seus olhos castanhos tão serenos e felinos, sua expressão de que era melhor negociadora do que eu nesse assunto. — Esse dinheiro pode salvar a vida da minha mãe, por isso tenho pressa e cada segundo é importante — suas pupilas se expandem. A minha mão sobe por seu braço até que meu polegar possa massagear o ombro, depois o pescoço. Trago-a para perto de mim, os poucos centímetros que faltam para que eu sinta vontade de tirar cada botão da minha camisa. Não sei se o detalhe que fecha o acordo é a mão delicada por cima da minha, acariciando-a. Ou seu cheiro doce e misterioso invadindo as minhas narinas. Mas agora eu quero essa mulher olhando em meus olhos enquanto eu dou o que ela quer. — Fique de joelhos, senhorita Miller. Capítulo 1 Atualmente. Bella Hathaway — Sai da minha frente ou eu vou passar por cima! — é o aviso carinhoso que dou para o folgado que está me atrapalhando no trânsito. Não contente em gritar, bato com o punho fechado na buzina, freneticamente. E pelo menos mais uma centena de carros fazem o mesmo, mas esse cara aqui na minha frente está me tirando do sério! Só porque ele tem o carro do ano ele acha que pode brincar com minha paciência? Não pode não! — Bota essa carroça para andar! — volto a buzinar. — Você está causando poluição sonora? Sim. Pelo menos uma centena de carros está fazendo o mesmo? Também. O trânsito vai melhorar por causa desse alvoroço? É claro. Que não. — Genevieve, minha melhor amiga, solta um suspiro alto. Ela tem razão, mesmo assim o nervosismo toma conta de mim e acabo reclamando mais uma vez. — Eu vou perder a minha habilitação, mas vou chegar nessa entrevista de emprego custe o que custar! — Garanto. — Isso é algum tipo de ameaça demorte? — Genevieve estica a mão para o banco de trás e puxa um capacete, sem titubear o coloca na cabeça. — Vai fundo, amiga, rasga o asfalto! — Odeio quando você é irônica... — Não, vai fundo, sinal abriu, rasga! — Genevieve tira o crucifixo que fica pendurado no espelho retrovisor e se agarra a ele como se agora estivesse mais protegida do que nunca. — Relaxa, eu vou dirigir com cuidado — afundo o pé no acelerador e Frida Kahlo, essa maravilhosa Dodge Caravan 2000, vermelha, balança umas três vezes até seguir com força total. — Isabella, dirigir e cuidado na mesma frase? Huuummm — Genevieve acena de modo negativo. — Garota, você veio me apoiar ou o quê? — Rosno. — O quê, docinho — Genevieve aponta para a direita, para pegarmos um atalho. — Mas é sério, eu não estou acreditando, quantas entrevistas você fez essa semana? — Oito — respondo quando fico menos tensa, porque pelo visto, todo mundo decidiu pegar o atalho. — E todas as respostas foram negativas? — Sua voz é de total incredulidade. Abro a janela do carro para deixar o ar frio de Nova York entrar e fazer minha cabeça parar de cozinhar. Tudo o que eu quero é surtar, gritar bem alto, tirar a roupa e sair pelada na rua dizendo: eu cansei! Eu cansei! Mas a única coisa que eu sei agora é que chegarei a tempo dessa entrevista. Não sei se inteira, mas chegarei. — Muito obrigada por vir me dar apoio moral, isso significa muito para mim... te devo uma — aperto meus dedos e continuo a acompanhar o trânsito. — Garota, escuta aqui — Genevieve balança o pescoço e olha para mim, de soslaio. — Você não me deve nada. Quantas vezes você salvou a minha vida? Mais do que me orgulho! — ela diz e começamos a rir juntas. Olho pelo retrovisor, um tanto preocupada. E isso não passa despercebido. — Nada de paranoia hoje! O seu ex-babaca e psicopata não vai arruinar tudo dessa vez. Fomos bem sorrateiras e estamos virando em tantos atalhos que parece até que estamos fugindo da polícia! — Será? — queria ter o mesmo ânimo que ela. Eu fui, segundo a minha melhor amiga, a melhor aluna da escola de jornalismo da Columbia. E foi assim que chamei a atenção de Chad Dawnson, o cara por quem me apaixonei e me entreguei. Tudo ia bem, até que o meu holofote começou a incomodá-lo. Ele começou a ficar possessivo, ciumento e violento..., mas já era tarde demais... fui descuidada e engravidei. Até o meu filho aquele babaca me tirou. Quem em pleno século XXI tira o filho da própria mãe? Motivos? Minha família não é estável o suficiente e eu não tenho trabalho algum. Isso porque esse imbecil junto com o pai dele são pessoas bem influentes por aqui. O fato de eu ter sido brilhante na Columbia, ter tido as melhores notas e ter sido cotada até para grandes emissoras antes de pegar meu diploma, não significam mais nada agora. O playboy e seu pai destruíram a minha imagem. Não me contratam nem para faxineira de uma espelunca caindo aos pedaços. Eles usam o poder e seus contatos para me manter nessa poça de merda, para que eu não tenha dinheiro e não consiga ter meu filho de volta. E pelo meu filho eu farei tudo. Absolutamente tudo. — Sinal vermelho! — Genevieve avisa. Mas não é um aviso do tipo: ok, vamos parar o carro. É tipo: ela se agarra ao volante e tenta pisar com seu pé no freio. — Era vermelho? — Balanço os ombros. — Desculpa, eu sou daltônica, não vi — assovio e continuo a dirigir como se o mundo estivesse desmoronando atrás de nós. — Mas a polícia não é daltônica e as multas vão chegar, viu, gatinha... — ela me espeta com o dedo. — Prioridades, meu amor. As multas eu pago, mas essa entrevista, eu não perco! Esse emprego é meu. Meu! Nós duas cruzamos os dedos. Não estou esperançosa, já ouvi tantos nãos desde que me formei e me separei de Chad, que mais uma humilhação no currículo ou uma porta batida na minha cara não farão diferença alguma. Mas algo me diz que é dessa vez que vou conseguir! Enfim, vou conseguir a minha liberdade! — Olha só, parabéns, hein! Respeitando as leis de trânsito! — Genevieve me aplaude quando eu paro em um sinal vermelho. — Mas que merda... — a ignoro completamente e abaixo o vidro do carro. — O que foi? — ela estica a cabeça até mim com capacete e o crucifixo todo enrolado ao redor dele. — Esse cara não vai me dar sossego hoje — resmungo. Todo mundo tirou o dia hoje para me deixar louca, mas esse cara que insiste em me impedir de avançar merece um prêmio. A Ferrari vermelha dele? Linda. O cabelo estilo James Dean e olhar sacana? Ovulada. Mas meu amor, não se meta entre uma mulher nova- iorquina e sua entrevista de emprego. Se você não sair da frente, bebê, eu vou passar por cima de você. — Minha nossa senhora da calcinha molhada... esse é gato — ela admite e eu concordo. O pior é que a postura dele me lembra o Chad e só isso já cria uma antipatia irreversível. Ele encara o relógio dourado no pulso e balança a cabeça em negativo, como se praguejasse o sinal verde. E num desses movimentos que faz, ele vira o rosto em minha direção. Parece até que me reconhece. Faço sinal para que ele abaixe o vidro. — Amiga... o que você vai fazer? Ele abaixa. — Eu estou muito ocupada hoje, de verdade, tenho um compromisso muito importante. Então será que dava para você, tipo assim, dirigir direito? — Como é? — Leio seus lábios. — Ah, come poeira, seu babaca — solto a embreagem devagar e piso no acelerador quando o sinal abre. E lá vem ele, quase colado do meu lado, faz até menção de abaixar os óculos escuros, mas desiste quando vê que não estou para brincadeira. — Isabella, ele está dirigindo uma Ferrari, meu amor! — Genevieve diz, incrédula. — Ele poderia estar dirigindo a nave que levou o homem à lua, meu amor. Eu não me importo. Ele não vai arruinar meu dia! Ligo a rádio e está tocando Missy Elliot – Get Ur Freak On; uma excelente trilha sonora para apostar corrida com o carro do ano, enquanto você dirige uma lata velha. — Meu Deus, como eu vim parar em Velozes e Furiosos? Daqui a pouco vai se chamar Presas e Arruinadas — agora Genevieve não para de fazer o sinal da cruz. Redobro minha atenção ao sinal e na primeira oportunidade fico na frente daquela máquina turbinada, impedindo-o de avançar. Só tenho tomado decisões erradas na vida. Mais uma não vai arruinar meu dia. — Quem é que não para de buzinar agora? — Viro-me para Genevieve. — Você é louca. — Não gostou? — Coloco a cabeça para fora da janela e grito. — Passa por cima, seu otário! — Você é louca e eu te amo. Era tudo o que eu precisava ouvir para ter um bom dia. Depois de tantos problemas, tantas pedradas, tantas negações, pelo menos ainda tenho pessoas que estão aqui e me apoiam. Talvez eu perca a minha habilitação no final do dia? Sim. Mas de uma coisa eu tenho certeza... Coloco a mão para fora da janela e aponto o dedo do meio para o imbecil que infernizou meu dia. ... Esse emprego é meu. Como prometido, cheguei a tempo. Deixei o carro com Genevieve e saí com bolsa, sapatos e currículo em mãos, esbaforida, e entrei na sede da American Daily Post. Após me apresentar à recepcionista ela me indica o andar do RH e eu me jogo no elevador, calço os saltos e termino de me ajeitar. — Você é linda, você é inteligente, você é talentosa! — repito feito mantra enquanto observo meu visual no espelho. Seco todo vestígio de suor com lenços umedecidos e ainda retoco o batom. Quando a porta do elevador se abre, dou de cara com um senhorzinho baixo, bigodudo, de óculos redondos e que some naquele paletó gigante. — Isabella Hathaway? — Ele mexe nos óculos ao me encarar. — Em carne, osso e inteirinha! — Warren Kirk — ele estende a mão. — CEO da American Daily Post. CEO? Pensei Que seria entrevistada pelo RH, mas poxa, me mandaram direto para o presidente da empresa. Parece que alguém vai ter que dar para ficar com o trabalho. E esse alguém não serei eu, boa sorte aí, senhor Warren. — Queira me acompanhar, senhorita Hathaway — ele estende a mão, muito gentil e me deixa ir na frente. Que cavalheiro, esse homem. E com certeza quer ver minhabunda. Passamos por uma parede feita de espelhos e confiro isso. Homens... todos iguais... — Mas senhor Kirk, eu pensei que... — Está tudo bem — ele me acalma. — A senhorita está aqui para uma entrevista, mas não será para trabalhar na ADP. — Não? — Mostro minha surpresa. Estou aqui para trabalhar com o quê, então? Book rosa? Tráfico de órgãos? Secretária gostosa de CEO que acaba tendo caso com ele? Espero que seja tráfico de órgãos, pelo menos tenho dois rins em ótimo estado. Sento-me com boa postura na cadeira diante da mesa do senhor Kirk, toda abarrotada de papeis. Alguém deveria organizar tanta papelada, meu Deus... Vejo pela parede vários quadros com chamadas de reportagens, todas premiadas, ao que parece. É claro que sempre quis trabalhar em uma ABC ou CNN da vida, mas não tenho medo de começar por baixo, preciso trabalhar e estou aqui para isso. Como o senhor Kirk não me dá mais informações e só pede para que eu aguarde, deixo o celular estrategicamente dentro da bolsa, mas no meu campo de visão, e começo a pesquisar sobre essa empresa. Ela é muito ativa na internet e consegue furos de reportagens muito bons. — Estou atrasado, eu sei — ouço uma voz masculina invadir a sala, após bater a porta. — Tinha uma maluca no trânsito, uma mulher sem cabeça e sem noção... — ele começa a resmungar. — Senhor Gallagher, nossa convidada chegou — o senhor Kirk se levanta. E eu o imito, faço o mesmo. — Mas era gostosa. Puta merda, por que as gostosas sempre são burras e atrapalham o trânsito? — ele termina de dizer. E cá estou eu, a gostosa burra que atrapalha o trânsito. E ali está ele, o mauricinho que se acha dono do mundo e queria me impedir de chegar aqui. Agora entendi, de verdade. Pensei que ele estava me perseguindo, mas na verdade só estávamos indo para o mesmo lugar... quem diria... — Você! — Ele vocifera e aponta o dedo indicador para mim. Primeiro eu aponto para mim mesma, como se me perguntasse: “eu”? Depois aponto para ele, imitando sua expressão. — O que você está fazendo aqui? — ele quase arranca os pisos do chão quando vem em minha direção. — Eu vim trabalhar. E você? — Me faço de doida e desentendida. Na dúvida, melhor fingir que nem sei quem é esse maluco. — Kirk, quem é essa? — Essa é a senhorita Isabella Hathaway — o presidente da American Daily Post me indica. — Ela foi recomendada por Mônica Strauss. Uau! Ele conhece a Mônica, a minha orientadora da Columbia? — Senhorita Hathaway, esse é Franklin Gallagher. O seu possível futuro chefe. — Futuro chefe? — O homem se faz de desentendido. — Eu não vou trabalhar com essa aí não. — Shiu! — Coloco o dedo indicador no nariz do engomadinho dono do mundo, para silenciá-lo. Quem ele pensa que é para dizer que não vou trabalhar com ele? Eu vou sim! — Deixa o senhor Kirk terminar, eu fui indicada pela Mônica — balanço os ombros. É claro que me mostro 100% segura por fora, mas por dentro eu estou: moço, por favor, me dá esse emprego! — Ela é atrevida, é disso que você precisa — o senhor Kirk se senta em sua cadeira presidencial e indica que nos sentemos. Franklin Gallagher puxa a cadeira para longe de mim e se senta. Eu sou a última, cruzo as pernas e finjo que tudo está sob controle. — Atrevida até demais! — O senhor Franklin reclama. — O que parece excelente para o que o senhor precisa. E pelo visto, vocês têm alguma sinergia. — Sinergia? — Ele chia. Que homem chato, só sabe reclamar! Aceita ou surta, meu amor, sua Ferrari comeu poeira! — E para quê o senhor Gallagher precisa de mim? — Tento logo dar direção a essa conversa, senão o ranço dele vai virar ódio e o ódio vai se tornar um não a respeito da proposta que eu nem sei que ele fará. — Eu preciso de alguém hábil, inteligente e astuta para se infiltrar em uma empresa. Manda uma mais difícil, meu amor, eu faço isso comendo o meu cereal radical no café da manhã. — Queremos um furo de reportagem. O maior da década, talvez do século, senhorita Hathaway. Até agora o senhor Gallagher utilizou garotas de programa, mas não teve sucesso... então pesquisamos e decidimos que seria melhor colocar alguém que entende como arrancar segredos e construir uma matéria bombástica. — Para quê? — Para destruir a carreira de um CEO bilionário — o playboy diz. Capítulo 2 Bella Hathaway O escritório do senhor Warren Kirk lembra muito bem o quartel general de jornalistas nos filmes: bilhetes presos na parede, linhas que os conectam a fotos, notícias, muitas interrogações. — Estamos de olho nesse suspeito já há algum tempo e precisamos de ajuda para conectar informações, encontrar evidências e fazer a carreira de um homem muito poderoso implodir — o jornalista explica. Ótimo, já entendi o que preciso fazer; mas não entendi como fazer. O que eles querem? Que eu banque a garota de programa e vasculhe numa noite o cofre, a carteira, o celular deste homem? Não sei se conseguiria. Mas na dúvida e dada a minha situação topo colocar uma lingerie bem bonita e partir para o ataque. — Posso interrompê-lo só por um instante, senhor Kirk? — Ergo a mão. — Viu? Essa mulher não sabe se portar. Acha mesmo que ela pode nos ajudar? — O outro reclama. — Pois não, senhorita Hathaway? Limpo bem a garganta e olho do homem mais velho e que quase some nas vestes largas e dou uma rápida conferida no outro de porte atlético, os braços demarcados no terno, rosto de coach de sucesso. Vontade de dar um soco na cara dele. — Por quê? — É a minha pergunta. — Como assim? — O homem dedilha sua mesa abarrotada de papeis, confuso. — Por quê? Por que destruir a carreira de um homem? Quero dizer... o quão mau ele pode ser e fazer a ponto disso? Ele está metido com o quê? Tráfico? Fake News? A nova moda de shakes para emagrecer? O senhor Gallagher claramente não tem paciência para mim, o que é ótimo, eu também não tenho para ele. Já o senhor Kirk me lança um olhar sagaz, como se meu bom humor e jeito mais despojado com as palavras o fizesse ver um pouco mais adiante. Parece que nessa primeira etapa me saí melhor do que as anteriores. — O nosso querido e estimado alvo ocupa um lugar importante na sociedade. Mas existem outras forças... outras pessoas que querem seu lugar. Então precisamos transformar a vida desse homem em um grande furacão, para que ele saia de cena e alguém mais adequado possa entrar. Que legal, falou, falou, falou e não me disse nada. — É muito simples, senhorita Hathaway — o Gallagher é ríspido. — Todos nós temos segredos. Que maravilha, hein! Nunca pensei que concordaria com esse imbecil, e cá estou eu acenando positivamente. — Quero que descubra os segredos deste homem, traga-os à tona e destrua sua imagem. É bem simples. Mas não deve afetar a empresa, porque ela precisa permanecer incólume, para que um novo CEO suba ao poder e comande as coisas do jeito que se deve. Que bacana, esse agora falou, falou, falou e me disse tudo – com o que não saiu de sua boca. Você quer ser o CEO, não é, senhor Gallagher? — E por que só não inventam uma mentira para constrangê-lo e fim? — Dou uma solução mais óbvia. Sou bem maluca, estou dando solução para os homens que vão me dar um emprego. Louca de pedra... — Conhece a Amazon, senhorita Hathaway? — Quem não conhece a Amazon? — Respondo por reflexo. — Espera. Vai ter outra polêmica? O cara vai se separar de novo e vai perder metade da fortuna? — Me curvo, coloco os cotovelos nos joelhos. — Vocês querem falir a Amazon? — Algo maior que ela. — Maior? — Abro bem os olhos. — Então imagino que o meu salário vai ser de pelo menos cinco dígitos... — Ainda não foi contratada — o bilionário observa. E ninguém liga para as observações dele, esse emprego vai ser meu sim! Ou melhor, se eles não me empregarem, eu vou fazer o trabalho sozinha, a partir de tudo que descobri aqui e vou vender para um jornal maior. Puts, eu sou muito empreendedora, deveria ser coach. — Seis dígitos — o senhor Kirk diz friamente. — Seis? — Até me levanto. Me sobe um fogo, uma agitação, uma euforia que não sei explicar. Seis dígitos, bebê? Ótimo.Vou pegar meu filho, vamos no primeiro avião para o mais longe daqui e vou recomeçar a minha vida numa ilha tropical, cercada por caras musculosos seminus besuntados no óleo e me abanando enquanto me dão água de coco na boca. — Senhorita Hathaway? — O senhor Kirk pigarreia. — Sim? — Pisco os olhos. — Poderia... Sair... de cima de mim...? — o senhor Gallagher quase treme ao dizer isso. Paro de me abanar com sua gravata, que tirei de dentro do seu terno e me afasto de cima de sua coxa grossa. Bela coxa, hein, seu imbecil. — Desculpem-me — me ajeito e sento. — Tive uma epifania... — O que precisamos, basicamente, é de algo como naquele caso. Um grande escândalo capaz de dividir a fortuna desse CEO, colocar sua credibilidade em xeque. Sabemos que a empresa pode ser atingida, mas trabalharemos com contenção de riscos... Blá, blá, blá... Assina meu cheque logo e pronto. — Certo. Quem é o CEO? Ambos riem da minha cara. Qual é a graça? — Achou mesmo que daríamos essa informação importante aqui? Agora? Quais garantias temos de que você fará realmente o trabalho? — Amor, você está duvidando da minha capacidade de conseguir um cheque com seis dígitos? Eu vou descobrir os segredos mais profanos deste homem, nem que eu precise arrancar na sentada! — Gosto dos métodos dela — Kirk passa o indicador e polegar no queixo, me avaliando. — Quero dizer... Olá? Eu fui uma das melhores alunas de jornalismo na Columbia. Investigar? Descobrir podres? Escrever uma matéria para fazer esse homem se arrepender de ter nascido? E ser paga por isso? — A melhor aluna da Columbia de seu ano, segundo a Mônica — Kirk aponta. Eu gostei desse cara. Vontade de dar um beijão na boca dele e apertar o peitinho. Mas antes vou pagar uma bebida, porque só vou encarar esse homem com umas três doses de gim e duas de tequila. — A melhor aluna da Columbia que não consegue emprego? — o Gallagher provoca. Qual o problema desse cara? Eu não gostei dele. Uma pena que será ele quem vai assinar meu cheque, então irei tolerá-lo. — Tenho meus motivos — semicerro os olhos e o fito de soslaio. — Estou pronto para ouvi-los — o desgraçado não desiste. — Se você pesquisou tanto a ponto de saber que não consigo emprego, mexe mais uns pauzinhos e vai descobrir o porquê — sorrio com doçura. Essa sou eu, doce igual um carro passando por cima de uma Ferrari e seu playboy idiota que quer provocar. — Viu? Ela é petulante! — O Gallagher se levanta, irritado. — E vocês já contrataram uma petulante antes? — Estou quase lixando a minha unha aqui. Manicure e pedicure enquanto converso com esses dois marmanjos não seria má ideia. — É óbvio que não — ele retruca, já resoluto. — E tiveram algum sucesso até agora? — pergunto. E o deixo mudo. Menina e essa cutícula, hein? Vai ficar maravilhosa, vou pagar tudo com esse cheque de 6 dígitos que vou receber em algumas semanas. E quero o troco em notas não marcadas, por favor. Franklin Gallagher e Warren Kirk trocam olhares que posso traduzir como: quem deixou essa maluca entrar aqui? E eu os observo com toda candura do mundo, como se dissesse: eu nasci para esse serviço, já pode preparar meu pagamento. — Ela é totalmente desequilibrada — Gallagher sussurra ferozmente e avança até o Kirk. Ninguém me avisou que ia ter ação e suspense... devia ter feito pipoca. — Mas ela é instrumentada. Ela sabe o que fazer, li alguns artigos dela da faculdade e ela tem um olhar apurado sobre onde encontrar segredos — O Kirk sussurra de um jeito mais brando. Não... ao que tudo indica vai ser autobiografia mesmo, que pena... sendo assim, será um misto de comédia com surreal e um pouco de American Pie. Adorei. — Não podemos mais nos colocar em risco, Kirk. Ela te parece alguém confiável? — Senhores? — Levanto a mão. — Eu ainda estou aqui e vocês não são bons em ficar sussurrando — analiso. — Então deixem-me fazer uma proposta. — Agora você é quem faz as propostas? — o senhor Gallagher está quase vermelho. — Proativa que chama — pisco para ele. — Eu assino um acordo confidencial de que não posso revelar que fui contratada por vocês. Eu saio daqui ciente do que preciso fazer, recebo um prazo e entrego o trabalho. É tão difícil? Novamente uma troca de olhares. — Ele vai te comer viva no primeiro encontro — Gallagher esbarra em mim e sai com tanta ferocidade que quase derruba porta, parede, armários... Pisco os olhos enquanto encaro o rastro deixado por ele e me volto para Warren Kirk. — Você perceberá que os Gallagher têm um temperamento exaltado — ele se senta, como se nada tivesse acontecido e estende a mão para que eu faça o mesmo. — Exaltado? Isso aí é um dia bom no Brooklin. Coitado, para me assustar ele precisa ser muito pior do que isso... — Que bom que não se assusta fácil, senhorita Hathaway. — Não mesmo — gesticulo a cabeça negativamente. — Eu espero que a senhorita não me decepcione. Foi tão bem recomendada que... não consigo imaginar outra pessoa para essa missão, principalmente agora que a vi ao vivo e a cores. — Obrigada — asseio o cabelo para o lado esquerdo e sorrio. — A senhorita terá, obviamente, liberdade para decidir o método que utilizará para se aproximar e obter de nosso alvo o que precisamos. Concordo. — Entretanto... eu sugiro que comecemos com algo clássico e infalível. Proximidade nada suspeita e, se me permite dizer, uma boa distração para os olhos. Secretária gostosona de CEO, quer ver? — Secretária do CEO — ele diz. Gostosona! Faltou o “gostosona”! Eu sou gostosona, vai. Olha só esse corpinho, nem parece que eu tive o Miguel há alguns anos. — Acho ótimo — pisco os olhos. — Temos gente infiltrada que pode colocá-la nesse trabalho e assim, ter acesso a agenda, telefonemas, arquivos deste homem. Não deixe absolutamente nada passar. Principalmente coisas informais, já reviramos todas as formalidades possíveis e não encontramos nada. Tá, o cara é inteligente e precavido. Mas eu não tenho medo de um desafio. — E caso queira desistir, me avise com alguma antecedência para que eu possa arranjar uma substituta. — E por que eu desistiria? Não vejo porquê. Tudo o que eu sempre quis na vida: ser a secretária gostosona do CEO de uma empresa megapoderosa e no fim acabar com a carreira dele. Já estou batendo palmas só de imaginar. E não é com as mãos. — Porque todas as suas antecessoras desistiram — ele pontua. — Nenhuma suportou mais do que uma semana. Esse homem não é apenas rico e poderoso, ele é uma verdadeira pedra no sapato. — Como assim? — Arrogante, dissimulado, grosso, maquiavélico... é o tipo de homem intragável que deixou cada mulher que passou por aqui de cabelo em pé. — Todo cavalo sonha em ser selado, senhor Kirk — digo de modo tão inspirador e filosófico que o vejo entreabrir a boca. — Quem disse isso? — Nietzsche — respondo sem pestanejar. — Sério? — Brincadeira, acabei de inventar. Tadinhos dos cavalos, né? — Acabo rindo. O senhor Kirk franze o cenho e empurra em minha direção uma pilha de papeis. — Fique com isso. Foi tudo o que descobrimos até agora, talvez ajude... — Mas sabe o que o Nietsche disse, senhor Kirk? — Hum? — “Quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você” — Agora parafraseio de verdade algo do filósofo alemão. — Esperamos que você seja o abismo desse homem então — ele assente. Em cima da mesa do senhor Kirk há alguns envelopes. Abro um deles e tiro todos os papeis de dentro, coloco esses que ele me entregou e fecho-o para garantir que eles não vão a lugar algum. — Posso pegar isso? Ai, obrigada, que gentil — agradeço e pego minha bolsa. Ele me encara, espantado. — Sim, e qual o nome desse homem? Qual é essa grande empresa? Quando começo a trabalhar para ele? — Usarei o seu número para contato, senhorita Hathaway. As próximas informações serão passadas por telefonemas anônimos. A senhorita irá descobrir o que fazer e quando fazer na hora certa. Que ótimo, o dia mal começou e esse cara está me jogando charadas. Ele deve ter se esquecido que sou uma jornalista e não a Dafne do Scooby- Doo.— Ok — balanço os ombros e me preparo para sair. — E, senhorita Hathaway? — Sim? — Tome cuidado quando o abismo dele olhar de volta para você. Ok, recapitulando: vai ser uma comédia com um pouco de suspense e uma pitada de American Pie. Mas também vai ter terror e um pouco de ficção policial. Eu adorei esse cara e o bigode dele. Sobre o bilionário metido a besta: o que tenho a ver com isso? Capítulo 3 Bella Hathaway Estou empolgada para contar a novidade para o meu irmão e mãe! Alisson e eu fomos deixados em uma cesta exatamente aqui, na porta do Trailer Hathaway, hoje um badalado trailer de churrasco e cachorro quente. A nossa mãe, Verana, nos encontrou pela manhã, assim que chegou para trabalhar e cuidou da gente. Foi aqui que fomos acolhidos, crescemos e agora a ajudamos – bom, eu meio que escondido, porque o Chad não me deixa em paz. E toda vez que me vê por aqui faz questão de causar problemas. — Oi, docinho! — Alisson me cumprimenta. Não se assuste, as aparências enganam. Quem vai dizer que esse cara de 1,75 se veste de Drag Queen para animar, chamar novos clientes e entretê- los? E ninguém acredita que ele é hétero e tem namorada. O cara simplesmente sabe andar de salto, coloca enchimentos nos quadris e peitos, sai por aí desfilando, cantando clientes e transformando esse ambiente rústico em um verdadeiro espetáculo! — Oi, meu amor — seguro nas mãos dele. — Tenho novidades. — Estou ansiosa para ouvir — ele sacode os peitos e gargalha. — Ei, você! — Ele aponta para um homem de terno. — Leva um pouco para o jantar! Não foi delicioso? Se dê esse mimo, de chegar hoje em casa e ter esse churrasquinho te esperando! — Ele provoca e volta a sacudir os peitos. O cliente assente sem pestanejar e volta para o caixa. — Como estão as coisas por aqui? — Vendendo muito, é claro — ele diz orgulhoso. Alisson é ator, também formado pela Columbia. Quando não está nos palcos de teatro ou estrelando comerciais – acredite, por debaixo dessa Drag espalhafatosa existe um verdadeiro galã de filmes Hollywoodianos –, ele está aqui. Fica em pé o dia inteiro, corre quarteirões panfletando o Trailer Hathaway e trazendo turistas e nova-iorquinos para conhecer o melhor churrasco e cachorro quente dessa cidade! Eu trabalho no caixa ajudando a mamãe. Quero dizer, trabalhava. Percebi que a minha presença aqui se tornou um problema, pois Chad quer nos minar e destruir. Ele quer me vencer pelo cansaço, quer que não apenas eu, mas a minha família fique sem dinheiro algum para que eu me arraste aos seus pés. Coisa que claramente não irei fazer. — E a entrevista, como foi? — Alisson fala até mais grosso, do jeito normal. Levo um pequeno susto com sua voz e seguro o riso. — Eu fui contratada — murmuro. — Eles disseram sim? — Nem ele mesmo acredita. — Bom... “Sim” não disseram... eu meio que decidi que estava contratada. Fiz o que você me indicou: banquei a maluca, como sempre faço, e mostrei que o trabalho já era meu! — É isso aí! — ele me pega pelas pernas e me levanta, começa a me balançar. — Alisson! — reclamo e me apoio em seus ombros. — Calma, preciso contar para a mamãe! — Vai lá! Ela vai ficar tão feliz! — Alisson beija a minha testa. — Ei, docinho, vem aqui me dizer o que pedir no cardápio — um cliente chama o Alisson e ele prontamente vai, todo sinuoso. Meu coração bate até mais forte agora. Vou poder contar para a minha mãe que consegui essa chance e farei de tudo para orgulhá-la e ter o máximo de dinheiro possível para provar para a justiça que tenho condições de cuidar do meu filho e ter sua guarda de volta. Cada passo até o trailer faz meu coração ricochetear com mais força. — Olha quem chegou! — A minha tia Nayla abre bem os braços e vem até mim. — É tão bom te ver, tia! — A abraço sem demora. A sensação de estar acolhida entre seus braços é uma das melhores coisas do mundo. — Verana, olha só quem veio nos visitar! — A minha tia abre espaço e lá está ela. A mulher da minha vida. A pessoa que fez tudo por mim, trabalhou incansavelmente para criar meu irmão e eu, e mesmo quando deveria ter descansado, trabalhou dia e noite para pagar a minha faculdade. Verana, a minha mãe, é uma mulher linda, mas mais do que isso, ela é extraordinária. Seus olhos são grandes e expressivos, seu cabelo sempre está detrás de uma faixa e seu sorriso é o que me dá paz e alegria. É através dele que sinto que tudo vai ficar bem. E da mesma forma que ela fez tudo por mim nessa vida, eu também fiz tudo por ela. — Vem cá me dar um abraço, meu neném! — Vejo-a limpar as mãos no avental e me chamar. Não precisa de mais do que isso. Fecho os olhos e a aperto entre meus braços, em um desespero e carinho que vão além do que consigo entender. Ela é a melhor pessoa do mundo, me ensinou a ser essa mulher que sou hoje e eu me orgulho muito de tê-la como mãe. — Precisa de ajuda? — Nada de ajuda! Só se sente e coma alguma coisa! Você chegou tão cedo... — ela limpa a testa com o suor e desfila pelo espaço pequeno para abaixar o fogo. — Está fazendo seu molho especial? — Fico na ponta dos pés para conferir. — Sim, senhorita, agora vá se sentar que irei servir sua comida! — Não precisa, mãe, eu mesma faço. — Nada disso, nós duas não queremos problemas com aquele garoto surtado, não é mesmo? Ele não pode te ver aqui dentro que manda a vigilância sanitária, o corpo de bombeiros e o reverendo da nossa igreja! — novamente ela limpa a testa e começa a gargalhar. Como pode ver, a loucura é de família. E eu adoro. — Bom... eu cheguei cedo porque... — tento fazer algum suspense. Ela me olha, de onde está, apreensiva. A minha mãe e eu sabemos que eu preciso trabalhar. Não apenas pelo meu filho, mas por mim. Preciso encerrar esse ciclo, dar o próximo passo, seguir adiante. Sei que posso contar com sua ajuda e sustento, sei que posso adiantar todos os serviços do trailer em casa e inclusive fazer as compras do que falta no estoque, mas não posso mais estar aqui ativamente. E depender inteiramente da minha mãe está me corroendo. — Não importa — ela decide, joga a flanela no ombro e volta para o fogão. — Vamos fechar mais tarde, abrir mais cedo, o Alisson está trazendo cada vez mais clientes... — Mãe, me escuta. Ela não para. Como toda boa mãe, ela quer o melhor para mim. E ela vai cuidar de mim, custe o que custar. E isso é recíproco. Eu sinto e eu sei que chegou a hora. — Eles disseram sim, mãe, eu fui contratada. Ela mexe o molho especial que faz com uma colher de pau, coloca um pouco mais de açúcar mascavo e para abruptamente. — Eles o quê? — Disseram sim! — Sim?! — Ela está horrorizada. E feliz. — Sim, mamãe! — Vou até ela e a abraço novamente. — Eu sabia! Eu sabia que a sua hora iria chegar! Você vai trabalhar com o que sempre quis! E vai voltar a ser feliz! — Ela comemora de um jeito que faz meu coração pegar fogo. Sim, vou trabalhar com o que sempre quis. Sendo a secretária gostosona de um CEO poderoso e irei seduzi-lo para arrancar-lhe todos os segredos e destruir sua carreira. Ou seja, vou ser o combo: Cinquenta Tons, As Panteras e se Deus quiser, algum filme que tenha a Júlia Roberts ou a Meryl Streep. — Quando você começa? — minha mãe pergunta. Dá para ver estampada em sua cara que ela quer pegar um megafone e anunciar para Deus e o mundo que a filha dela, enfim, foi contratada! — Amanhã, eu acho. — Faça cada segundo valer a pena e se divirta muito! — Ela me enche de beijos. — Pode deixar, mamãe. * Na manhã seguinte eu acordo bem cedo com o telefonema do senhor Warren Kirk. Confiro no relógio que ainda faltam alguns minutos para o despertador tocar e já começo a praguejar: aqueles dezessete minutos de sono eram cruciais para um bom dia. Céus... — Você está pronta? — Senhor Kirk... — Coço os olhos. — Bom dia para o senhor também. — Bom dia, senhorita Hathaway. Já está pronta? — Ele insiste. — Só preciso tomar um banho e estarei. O senhor vai me dizer para quem e onde irei trabalhar? — Ainda não. Meu Deus, que homem misterioso! Daqui a pouco eu vou darde cara é com o Batman ou o Super-homem, pelo andar dessa carruagem! Quem sabe até um Christian Grey... Inclusive eu adoraria. — Um carro passará aí em meia hora para pegá-la e levá-la para o seu local de trabalho, senhorita Hathaway. Esteja pronta. — Certo. Como devo estar vestida? — Mais deslumbrante do que ontem. — Certo — suspiro e antes que faça mais alguma pergunta, ele desliga. Dou um salto da cama, ainda praguejando os meus dezessete minutos de sono que perdi e vou para um banho quente, depois seco os cabelos longos e castanhos, tento deixar as pontas onduladas, mas não tenho todo esse tempo do mundo. Fico diante do espelho e passo um creme hidratante por toda a minha pele clara, depois visto uma meia-calça e coloco um vestido preto que valoriza minhas curvas e uma camisa branca social que deixa a comissão de frente pronta para o ataque. Os índios pintam o rosto quando vão para a guerra, bebê. Eu pinto as unhas, passo meu melhor perfume, coloco aquela calcinha boca de confusão e um sutiã eu caio, mas caio atirando. Coloco o meu melhor salto alto, pego a minha bolsa menos desgastada e roubo os óculos escuros estilo aviador do Alisson quando passo pela sala e eles estão jogados ali no sofá. — Esse é o meu dia e ninguém vai destruí-lo — digo para mim mesma, encarando-me no espelho ao lado da porta. — Você é boa, você consegue, você já fez coisas piores — levanto a sobrancelha. — Sua safadinha. Vai lá e acaba com a vida desse bilionário! Jogo a bolsa no ombro e saio de casa. Um carro preto bem chique está à minha espera. Até abaixo os óculos para conferir o motorista que não é de se jogar fora e me sento no banco de trás. — Para onde estamos indo? — é o que pergunto assim que entro. — A senhorita vai descobrir quando chegarmos lá — o homem de quepe responde friamente e começa a manobrar para seguirmos adiante. Do Brooklin vamos para a parte mais opulenta da cidade Nova York: Manhattan. Não poderia ser outro lugar, é claro. Aqui fica o centro comercial, e os prédios de todos os caras ricos dessa cidade. Será que serei a secretária de um cara da área da tecnologia? Ou da comunicação? Será que trabalharei para algum arquiteto, advogado ou médico? Estou ansiosa para descobrir! O motorista fechado e silencioso não me dá brecha, nem me responde nada. Só me leva para a construção mais glamorosa que já vi: como pude ser tão tola? Estava na minha cara esse tempo todo! CS Gallagher & Co é onde estou. Um dos bancos mais poderosos, não apenas de Nova York, mas dos Estados Unidos. Arrisco dizer que talvez um dos mais poderosos de toda a América. Não imaginei que Franklin Gallagher era de fato membro dessa família. Afinal, várias pessoas têm esse sobrenome e nem por isso tem ligação com esse banco. Então estou aqui para destituir alguém do cargo para que Franklin assuma, é isso? Aquele playboy idiota? — Prontinho, senhorita Hathaway. Na entrada a senhorita encontrará uma mulher chamada Alexa, que a encaminhará para o seu novo chefe. — Obrigada. — Saio do carro. Não vou dar gorjeta porque esse cara só me deu essa mínima informação agora no final. Não merece nem um dólar! O banco CS Gallagher & Co ocupa todo um quarteirão de tão grande que é! E é tão alto e imponente que lembra um monumento histórico! Sua faixada é praticamente a réplica de uma catedral, com uma abóbada chamativa e paredes com cor de chumbo. Passo por uma fonte dourada com a estátua da deusa Fortuna, uma deusa romana e as pessoas que passam por ali jogam suas moedas. Será que alguém acharia ruim se eu pegasse umas moedas? Ninguém deve estar precisando delas, pelo visto... Assim que entro no Hall daquele lugar, me sinto numa catedral em algum lugar da Europa. É luxuoso, ostenta um bom gosto que me faz saltar os olhos, as paredes parecem ser cobertas por pedras de ônix, negras e brilhantes, vejo meu reflexo nelas e já me sinto até mais rica. E olha que se tenho dez dólares em minha conta bancária, é muita coisa! — Hathaway? — Uma mulher vem em minha direção. Devemos ter a mesma idade, mas ela é loira, peituda, cintura fina e está em um vestido que me faz pensar que está sendo asfixiada. — Alexa Bradshaw — ela me cumprimenta, mas não aperta a minha mão. Inclusive, não passa despercebido que ela olha fixamente para os meus sapatos e depois sobe, cuidadosamente, até nos encararmos. — Isabella Hathaway — aceno, depois do vácuo que levei dessa linda e maravilhosa, que deixou minha mão suspensa no ar. — Está atrasada — ela me avisa, dá-me as costas e sai andando. — Espera, mas não são nem sete horas ainda! E o banco deve abrir, sei lá, às nove? — Balanço os ombros. — Se o seu trabalho começa às sete, você deve estar aqui às seis — ela diz com tanta simplicidade que minha boca só não vai ao chão porque está grudada. — Como é que é? — Escuta — ela entra no elevador e me chama. — O senhor Gallagher é rigoroso, pontual e não aceita desculpas ou justificativas. Só faça o seu trabalho, não olhe muito para ele e esteja disponível toda vez que ele a solicitar. — Tá, mas... Agora estou confusa. Senhor Gallagher? Então temos aqui uma briga de família? Meu Deus, isso vai ser melhor do que eu imaginava, alguém por favor avisa a Oprah! Vamos para o sétimo andar do prédio. Assim que saio do elevador eu preciso tapar a minha boca para esconder a surpresa, porque ela pode cair a qualquer momento. As paredes parecem ter sido feitas de ouro envelhecido. O chão é escuro feito pedra ônix e embora o lugar seja amplo e com decoração minimalista, cada coisa ali parece valer um milhão de dólares. Por que será, hein? Será que é porque estamos na sala do presidente do Banco? — Quem é o senhor Gallagher? — pergunto para Alexa. Ela revira os olhos e me puxa pelo braço. — Como é que é? — Quem é esse... tal... senhor Gallagher? — Eu não acredito que está me perguntando isso... — Ela volta a me examinar dos pés à cabeça. — E disseram que você era a melhor dentre todas que foram entrevistadas... e olha que eu insisti para que não contratassem uma mulher... todas incompetentes... Calma aí, amigona. Já ouviu falar de sororidade? Por que precisamos lutar uma com a outra? Podemos nos ajudar. — O senhor Gallagher é apenas o maior e melhor investidor desse país. Ele triplicou os lucros do banco e é o próximo presidente da CS Gallagher & Co. Isso te diz alguma coisa? — Sim — aceno positivamente. Na verdade, já me disse tudo o que eu precisava saber, obrigada. — Não fique aí parada! — resmunga. — Essa é a sua mesa. — Ela aponta. — Onde está o senhor Gallagher? — Espio para ver se consigo ter visão da sua sala com paredes de vidro, mas coberta por cortinas pretas. — Deve estar procurando a sua cabeça lá embaixo — ela sorri. Certo. Depois de tanto suspense e mistério deixado pelo Kirk, é hora de descobrir quem é esse tal senhor Gallagher... Entro no Google e coloco o nome do banco e procuro por esse tal investidor. Que merda. Eu devia ter me sentado primeiro. As minhas mãos começam a tremer e eu imediatamente deixo o celular cair em cima da mesa. Isso não pode ser verdade! Era bom demais! Eu sabia que tinha alguma pegadinha... — Algum problema, senhorita Hathaway? — Alexa me lança um olhar predatório. Sim, querida, todos os problemas. Absolutamente todos. E eles começaram quando eu nasci, eu acho. Aí eu entrei para a faculdade de jornalismo, paga pela minha mãe. E ela descobriu um câncer. E sem dinheiro e desesperada sabe o que eu fiz? ... meu Deus... como pode ser...? Olho mais uma vez. É ele. Esses olhos azuis e esse queixo eu reconheceria em qualquer lugar. E mesmo mais velho do que me lembro ele está no ponto. É perfeito, vestido de um jeito clássico com seu smoking preto, seu olhar frio e calculista e uma pose que valoriza bem esses braços grandes e essa mão... O senhor Gallagher tem um rosto muito sério, minha memória fica fresca imediatamente. Parece que ele sempre está de mau humor. Suas sobrancelhas escuras e grossas junto ao rosto todo demarcado dão a ele um ar masculino que até mesmo em foto me tirao fôlego. Agora ele tem mais cabelos brancos do que antes, mas seu rosto permanece com um ar jovem. Mesmo assim consigo captar na foto seu ar de homem autoritário e controlador. Essa mão grande e forte com que ele segura o terno... E essa boca carnuda e bem desenhada de uma tonalidade rubra que está começando a me deixar quente ao lembrar onde esteve... Eu... — Senhorita Hathaway? — Alexa me chama. Eu estou ficando sem ar! Preciso sair daqui o mais rápido possível! — Senhorita Hathaway?! — Agora ela usa um tom mais imperativo. Eu não posso fazer nada disso. Pego a minha bolsa, jogo o celular dentro dela e corro de volta para o elevador. Eu preciso sair daqui. Não sou eu quem vai arruinar esse homem... Ele é quem vai me arruinar. Capítulo 4 Blake Gallagher Ao soar da campainha, a porta do elevador se abre. Confiro as horas no relógio dourado em meu pulso, ajeito o terno ante o corpo e me preparo para sair. Acabo esbarrando em alguém que oculta o rosto com uma bolsa, me empurra de lado e aperta freneticamente o botão do térreo. Mas que diabos?! Assisto, atônito, a porta se fechar e viro sutilmente o rosto, deixando bem à mostra os músculos rígidos da minha face quase se contorcendo, quando encaro Alexa. — Eu posso explicar! — Ela corre em desespero na minha direção. — Tenho certeza que pode. — Jogo a minha maleta social em suas mãos enquanto vou em direção à minha sala, mas paro diante de sua mesa. — Era a sua nova secretária — ela aponta para o elevador. — Mas... bem... acho que ela não aguentou a pressão. Que pressão? Eu sequer havia chegado! — Temos um tempo recorde então. O anterior era de dois minutos e meio. — Quase me divirto. — Acharemos a pessoa adequada, senhor Gallagher, ou eu farei o meu trabalho em dobro. Alexa é o tipo de secretária que eu gosto muito: eficiente, ágil e principalmente: submissa. Não reclama do trabalho, faz tudo o que mando e ainda mantém esse olhar de cachorrinho sem dono quando eu me aproximo e a encaro bem de perto. Nesse momento ela sabe que me pertence. E é tudo o que preciso para começar bem esse dia estressante. — Eu tenho certeza que sim — sibilo e agora rumo em direção à minha sala. A porta se abre automaticamente quando me aproximo. Toda a parede diante de mim é feita de vidro e traz a bela vista dos prédios mais altos de Nova York: uma lembrança singela sobre tudo o que meu poder atinge. Um sofá de couro vermelho dá destaque à sala com tons que vão do branco ao cinza, a parede atrás dele é ocupada por estantes com livros, troféus e meus cadernos de anotação sobre trâmites financeiros desde quando comecei essa vida de investidor. Kaleb Petterson, que foi o meu primeiro aprendiz, afasta o rosto do caderno de couro preto e o ergue em minha direção. Me cumprimenta em silêncio e volta à sua leitura concentrada. Jacob Parker, o meu segundo aprendiz, muito menos disciplinado e nem mesmo com metade da postura de Kaleb, está girando em minha cadeira, como se fosse uma criança se divertindo. — Por que é tão difícil achar alguém competente neste lugar? — Vou até a parte de vidro para ver a cidade lá embaixo. Especialmente a moça que esbarrou em mim. — Eles são competentes — Jacob garante. — E ainda assim você exige cada vez mais deles, pressionando-os até o ponto de surtarem. — Os diamantes são valiosos por um motivo. — Coço a testa com o dedo indicador. — Mas a maioria das pessoas não quer ser um diamante, só quer trabalhar, pegar o salário e tomar um chopp no final de semana — Jacob diz. — Estou atrás dos diamantes — é tudo o que tenho a dizer. E é nesse momento que a vejo andar vacilante pela longa calçada em frente a esse prédio monumental, meio perdida e sem rumo. — Você está atrás do impossível. Nada nem ninguém nunca estão à altura de você, Blake. Ao menos, é como você faz as pessoas se sentirem — Jacob diz e eu me viro em sua direção. Quase ninguém tem coragem de ser transparente e verdadeiro comigo. E há um motivo para isso: eles não sobrevivem após esses momentos. Mas Jacob e Kaleb são como meus filhos. Eu os treinei, eu os ensinei tudo o que sei, eles foram os diamantes que ajudei a forjar e purificar. E eles são extremamente diferentes de mim, o que é ótimo, assim consigo ter uma visão mais apurada do mundo, sem o vício do meu olhar. — Obrigado pelo apoio — é tudo o que consigo dizer. Kaleb novamente para a leitura e me fita com ainda mais demora, surpreso. Abre um longo sorriso que é capaz de desmontar qualquer pessoa, menos eu. Que permaneço impávido e devolvo o olhar com indiferença. — Estou surpreso que o seu pai não tenha seguido a tradição — Kaleb fecha o livro, pega mais dois da estante e vem até mim. — Vou levar isso, se não se importa. — Eu me importo. — Certo, vou levar mesmo assim. — Ele segura com a mão direita em meu ombro. — Acho que o pai dele seguiu a tradição sim, Blake que não se importou. Ele está acima de tudo isso, você sabe. — Jacob balança os ombros. — De que merda de tradição vocês estão falando, afinal de contas? — Ninguém assume o cargo de CEO, principalmente se o seu pai é dono da empresa, sem se casar com quem ele quer — Kaleb esclarece. — Eu já me casei com quem ele quis, há muito tempo — esclareço. — E se separou. Ela fugiu? Morreu? Você a assustou com esse seu jeito azedo? — Jacob, como sempre, intrometido ao querer saber mais do que deve. — Não te interessa. — Por que você sabe tudo sobre a gente e nós não sabemos quase nada sobre você? — Jacob bufa, está próximo de desistir de me importunar, eu sempre o venço pelo cansaço. — Como estão os preparativos para o casamento, Kaleb? — Esse cara... não muda de assunto, Blake! — Não quero falar do meu casamento, estou aqui para te ajudar, vamos nos concentrar em você. — Kaleb ficou indisciplinado de novo. Por que eu os chamei aqui mesmo? Já estou me arrependendo. — Você ajudou a reconstruir a minha vida, me apresentou à todas as pessoas importantes que me reergueram, me ensinou tudo sobre investimentos. Não podemos te ajudar uma vez na vida? — Estão aqui exatamente para isso. Como posso ajudar em seu casamento? — Esse cara... — Jacob estala a língua mais uma vez. — Como nós podemos te ajudar, Blake? — Me distraindo é uma ótima opção. Para que eu não passe mais tempo pensando sobre substituir o meu pai... — Mas você vai substituí-lo. Você tem alguma dúvida disso? — Quem vai competir contigo? Você se tornou o rosto, o corpo, as mãos desse banco. Todos já te enxergam como CEO há anos — Kaleb assegura. — Eu vou te dizer como pode me ajudar. — Lá vem o Jacob mais uma vez. — O que você quer? De verdade, não esconda o jogo, nós fomos criados por você. Eu só preciso ouvir o que você quer e te garanto que você terá. — Será? — Sento-me e ligo o laptop. — O que você pode querer que não esteja ao nosso alcance? — Só quero assegurar que o banco esteja em mãos confiáveis. Isso é tudo. — Nas suas mãos. — Não vai ser tão simples assim... — Preciso admitir. Bella Hathaway Que burra! Burra! Burra! Mil vezes burra. O que eu achava? Que seria fácil? Chegar lá, revirar a vida de um homem de cabeça para baixo e receber o dinheiro que precisava? Não... eu me enganei. Agora estou aqui andando sem saber para onde ir, esse reencontro não pode, não deve acontecer e pela primeira vez em muito tempo eu me sinto verdadeiramente aflita. Como vou voltar para casa agora? Não tenho dinheiro para um táxi! E ligar para o senhor Kirk e dizer que desisti não é uma opção. Eu preciso encontrar um jeito de contornar essa situação, só não sei ainda como. Caminho em direção ao metrô mais próximo, o que significa que precisarei andar diversos quarteirões até chegar lá. O que eu vou dizer para o senhor Kirk? O que eu vou dizer para a minha mãe? — Oi! Me conte tudo sobre o seu primeiro dia incrível de trabalho! — Genevieve, a minha melhor amiga, atende o telefone. Graças a Deus, agora vou conseguir pensar. Os pensamentos se organizam melhor em minha cabeça quando estou conversando em voz alta ou com alguém. — Deu merda.— Mas nem deu tempo de você entrar no lugar! Olha a hora, menina! — Pois é. Mas já deu merda! — Como assim? Me conta! — Gene... — Hum? — Você se lembra...? Ai meu Deus, como vou falar isso? — Isabella, você está me deixando aflita. Você quer que eu vá aí? Olha, estou um pouco atolada aqui, tenho uns processos para levar ao fórum, mas posso te encontrar depois disso. — Não, vou para casa de metrô, não se preocupe. — Certo. Então o que aconteceu? Respiro fundo. Não acredito que depois de tantos anos essa história vai vir à tona... — Você se lembra que... eu pedi, no passado, para que você redigisse um contrato? — Quando isso? — Bem no passado, acho que no seu segundo ano na Columbia. — O contrato de venda da sua virgindade? — Ela grita tão alto que acho que todo mundo na rua escutou. Meu pai amado... — Genevieve! — a repreendo. Mas fazer o quê? Agora ela vai saber e boa parte dos transeuntes que ouviram também. — Tá, mas o que tem? Você disse que era para me ajudar a treinar a como redigir contratos, ainda mais um tão delicado que envolve algo sério. Envolve sigilo, envolve tantas restrições... aquilo me ajudou pra caramba a entender como funcionam acordos... o que tem a ver? — Não era para te ajudar a treinar. — Como assim não era para me ajudar a treinar? Depois de fazer aquilo eu senti que podia fazer qualquer coisa! — Pois é... eu também... — Do que você está... espera. Você vendeu a sua virgindade, é isso? E foi para o Chad? Ah! Eu vou matar aquele desgraçado! — Não... foi bem pior... — Como assim bem pior? — Sabe aquele CEO poderoso que te contei ontem à noite antes de dormir, que eu preciso investigar a vida dele para destruí-la? — Sim? — É ele. — Quê? — Sim. — Oi? — Alô. — Não, eu estou te ouvindo. Mas eu estou tipo: como assim, Isabella Miller Hathaway? Que droga de história é essa? Você escondeu isso de mim? — Eu não... eu não escondi... — Eu vou aí agora, foda-se o fórum. — Eu estou bem, eu juro! Fique tranquila, pode ir lá, eu já saí do banco e estou indo para casa, estou pensando no que fazer. — Banco? — O Banco Gallagher. — O quê? — ela grita a plenos pulmões. — Você vendeu a sua virgindade para o CEO do Banco Gallagher? Aquele homem deve ter quase 70 anos?! — Não, não foi para esse, sua doida! Eu não sabia o nome dele antes, mas ele deve ter.... no máximo... uns 35 ou 40. Blake Gallagher. — Uau. Deixa eu pesquisar aqui. — Tá. Continuo caminhando enquanto ela faz sua pesquisa. — Uau... — O que foi? — Volta lá e vende a virgindade para ele de novo. Agora. — Primeiro que eu não sou mais virgem, não é, meu amor? Segundo que... quem me dera... Terceiro que... eu preciso destruir a vida desse homem. — Destrói enquanto quica bem forte nele! Olha esse maxilar! E esses olhos azuis profundos com essa cara de lobo mau?! Meu Deus, eu preciso muito de uma foto dele sem camisa, só tem esse homem de terno! — Acredite, é muito melhor sem roupa. — Isabela???! Volta lá e diz: eu vim destruir a sua vida! E já abaixando para cair de boca no... — Gene, eu preciso desligar. — Isso, corre, volta lá e monta nele. Já chega dizendo: Feliz dia de ação de Graças! Só vim para enfiar o Peru na boca até engasgar! — Tchau, Gene. Desligo o celular e o guardo em minha bolsa. Ajeito-a em meu ombro e cruzo os braços ao ver um carro preto luxuoso parando diante de mim. Olho para os bancos de trás para conferir se tem mais alguém, mas pelo visto não. — Oi, Chad. — Entra. — Ele estica o braço e empurra a porta. — Não, obrigada. Eu já estava indo para casa e... — Não foi uma pergunta ou um pedido. — Chad asseia os cabelos escuros para trás e abre um sorriso de escárnio. — Entra. Agora. — ele reforça, de um jeito mais feroz. Olho ao redor, seria muito bom ter alguém aqui agora que eu conhecesse para poder grudar na pessoa e fugir bem rápido. Mas Chad me conhece e ele é ainda mais rápido que eu. Ele sai de dentro do Porsche preto, ajeita bem a jaqueta de couro e levanta levemente a camisa branca, onde consigo ver sua arma. As pernas querem correr, eu quero gritar, tudo o que eu mais quero é sair daqui. Por que eu não fiquei no banco? Por que eu não andei mais depressa? Por que eu não entrei em algum lugar para comer antes? Agora estou coberta de arrependimentos. Chad asseia os cabelos novamente e seus olhos verdes me encaram por detrás de seu nariz pontudo. Seus lábios finos se abrem, mostrando seus dentes que parecem presas. — Você está linda — beija a minha testa. — Parece que sabia que íamos nos encontrar... — Chad, eu só preciso... — Entrar no meu carro — diz de um jeito simples e doce, mas não se engane. Há um tom bem autoritário em sua voz. E se isso não é o suficiente para me convencer, ele me abraça, me deixando ainda mais trêmula e fricciona bem devagar o cano da sua arma em minha barriga. — Entra, eu te levo para casa. — Tá. — A voz quase não sai. Ele abre a porta para mim, o que parece extremamente cavalheiresco, mas não é. E até põe o cinto ao redor do meu corpo, como se estivesse garantindo que não vou fugir. Chad desfila de volta até o banco do motorista, prepara o carro e saímos dali como se tudo estivesse normal. Mas não está. — O que você veio fazer por aqui? — Estou procurando emprego... Ele ri e limpa os lábios com a mão esquerda, manobra o carro com a outra para que saiamos dessa parte movimentada de Manhattan. Não estamos, nem de perto, indo em direção ao Brooklyn. — Você não precisa de emprego. — Eu preciso, sim. — Por quê? — Eu quero... ser independente. Comprar minhas próprias roupas... minhas joias... Poder viajar... E tirar o meu filho de você, seu imbecil desgraçado! — Então por que você devolve os presentes que te dou? Eu te dou roupas, joias... quer viajar? Para onde você quer ir, bonequinha? Eu te levo. Ele tenta beliscar meu queixo, mas eu me afasto. — Arisca... do jeito que eu gosto... — Chad, você poderia... — Eu posso tudo. O que você quer? Eu faço tudo. — Quero ver o Miguel — engulo em seco. — É dessa Isabella que eu sinto falta — ele suspira. — Que pensa na família... que pensa no filho... que pensa em mim... Em você? Eu penso em você, sim. Eu mesma cavando sua cova, eu mesma jogando seu corpo, eu mesma tapando o buraco, e sambando em cima da terra, como se estivesse no carnaval do Rio de Janeiro, seu cretino desgraçado! Me deixa sair daqui! — Eu não consigo resistir a você e te ver assim... nossa... você está incrível. — Obrigada. Será que...? Agora é tarde demais. Não são nem oito horas da manhã e cá estamos nós, distantes da civilização. Estava tão nervosa que nem vi o caminho ficar para trás e só agora percebi que estou longe da cidade. — Eu quero ir para casa. — Não contenho a voz de choro. — Eu vou te levar para casa. Eu prometo. — A casa da minha mãe, por favor. — Lá não é a sua casa — ele acaricia meu rosto, seus olhos verdes vão se aproximando a ponto de me fazer morder o lábio e deixar a lágrima escorrer pelo rosto. — Chad... — Isso... eu quero que você implore. Principalmente agora... — Não faz isso de novo... — Mas eu quero. E você sabe que quer. — Eu não quero. Ele sorri. O mesmo sorriso que me conquistou, há anos. Mas que agora faz meu estômago embrulhar e querer colocar para fora tudo o que comi. Chad tira a arma da cintura e aperta o cano gelado contra o meu pescoço. — Eu vou te fazer querer. Então tira a porra da roupa agora, bonequinha. Capítulo 5 Bella Hathaway Deixo o celular tocar. Essa já é a vigésima vez que o senhor Kirk me liga, mas eu não estou pronta. Não estou pronta para retornar ao escritório do senhor Gallagher, não estou pronta para negar esse emprego e ver todo o dinheiro ir embora e definitivamente não estou pronta para sair do meu quarto. — Espero que esteja vestida! Porque se não estiver, eu vou entrar mesmo assim... — Genevieve anuncia e invade meu quarto. Eu não dou a mínima, continuo a assistir o meu filme favorito na televisão suspensa na parede. — Meu Deus do céu! Um furacão passou por aqui? — Ela começa a chutar ascoisas pelo caminho: bolsas, roupas, meu diploma da faculdade... — Um furacão chamado Bella Hathaway — murmuro e aumento o volume. — Amiga, o que houve? Não respondo. Cruzo os braços e tento dar algumas risadas ao ver os irmãos Wayans encenando. Sei cada frase desse filme de cor e salteado, sinto como se estivesse dentro dele. — Amiga? — Oi. — O que houve? — Ela insiste. — Eu sou um fracasso. — Ah, Isabella, me poupe! — Ela toma o controle remoto das minhas mãos, após uma leve briga pela posse dele, e desliga. — Ei! Eu estava assistindo! — E eu estou falando com você, mocinha! — Genevieve coloca a mão na cintura. — Estou te ligando há três dias e você não me responde! Da última vez que nos falamos você jogou uma bomba em meu colo e... Viro o rosto com sutileza em sua direção e ela para de falar. Pela expressão dela, fica bem claro que o hematoma que se prolonga por toda a minha face rouba sua atenção. — Quem fez isso com seu rosto? — Posso voltar a assistir agora? — Quem... — ela toca em meu queixo e me examina bem de perto. — Você...? Quem...? Isabella? — Eu vou ficar bem. Só preciso de mais uns dias aqui dentro do quarto. — Dentro do quarto? — Eu sei que as coisas vão se resolver. Eu só preciso colocar a cabeça no lugar e tudo vai ficar bem! — digo com firmeza. Genevieve fica em silêncio. Senta-se na cama, com as costas na cabeceira e me coloca em seu colo. Liga a televisão e assim eu me distraio um pouco. —... Saía leite em pó das testas dela. Você mamava assim: puff! Nós duas começamos a rir igual duas imbecis. E no segundo seguinte estou agarrada à sua perna, chorando sem parar. A minha melhor amiga permanece em silêncio e afaga meus cabelos. Ela sabe o que aconteceu. Não foi a primeira vez e não será a última. Não adianta. Polícia, corpo de delito, nada... não quando o pai de Chad é um dos juízes mais respeitados de Nova York e tem tudo e todos em suas mãos. — E agora? — É uma excelente pergunta, amiga. — Você vai desistir? — Eu vou arranjar um jeito, só estou tentando descobrir como... Somos interrompidas por Alisson, meu irmão, entrando no quarto e passando por cima da bagunça. Ele pega um sutiã por cima de uma pilha de roupas. — Todos os meus sutiãs estão molhados, vou precisar pegar um seu — ele diz. — Por que você não pega um sutiã da sua namorada? — Pego meu travesseiro e jogo com toda força que tenho nele. — Será que é porque é muito estranho? E os seus servem bem em mim, os dela não, ela tem uns peitões. — Ele começa a balançar o busto. — Seu irmão é a melhor pessoa do mundo! Depois de você, é claro. — Genevieve beija a minha testa. Alisson para diante da porta e se vira, bem devagar. — Você não disse que estava trabalhando em um caso importante? E que não era para ninguém te interromper? — Ai, Alisson, sai daqui logo! — Então por que estão as duas assistindo filme, no meio desse lixão? Que tipo de trabalho é esse? Reciclagem? — Não interessa. Vaza! Mas ele não sai. Passa pelo caminho que Genevieve fez até a cama e se senta, me fita por um segundo e como num passe de mágica ele entende o que aconteceu. — Eu vou matar aquele desgraçado! — Ele arranca a peruca da cabeça. E eu o impeço de se levantar. — Por favor, não faça isso... — Foda-se, essa situação já ficou insustentável! — Alisson! — chamo sua atenção. — Você não pode ser preso, a mamãe precisa de você. — Isso não pode continuar a acontecer, Isabella. — Eu sei. Mais do que todos vocês, eu sei disso. E agora, a oportunidade que eu tinha de conseguir algum dinheiro e fugir com o meu filho foi por água abaixo... Falando em desgraças... Kirk volta a me ligar. Eu devo ter passado uma excelente impressão para esse homem, porque parece que ele não vai desistir de mim tão fácil. Uma pena, porque eu estou quase desistindo de mim mesma. Não estou mais naquele momento em que estou a um passo do abismo. Eu já me joguei nele e continuo caindo... é como me sinto. — Então vai lá, trabalha, consegue o dinheiro e foge — Alisson é simples. Homens... por que tudo sempre precisa ser mais fácil para eles? — Não dá. — Não dá? Isabella, há quatro dias você apareceu no trailer toda radiante... e agora... está um caco... — Maquiagem conserta a minha cara. — Mas o que vai consertar sua alma? Puts. Dessa vez eu realmente senti o impacto. — Você é a melhor pessoa do mundo, depois dela — Genevieve sussurra. — Mana, eu te amo. E quero te ver livre. Não acho que fugir seja a melhor opção, mas... momentos desesperados pedem medidas desesperadas. Vá trabalhar, junte quanto dinheiro puder e fuja. — Eu não posso trabalhar para esse homem. — Por quê? — Porque ele e eu nos conhecemos. — Tá, eu conheço muita gente também, e daí? — Alisson... — suspiro profundamente. Eu não acredito que direi isso, mas acho que está na hora de pôr tudo em pratos limpos. — O que foi? — Sabe quando descobrimos que mamãe tinha câncer e estávamos praticamente falidos? Você e eu com dívidas universitárias e tudo um caos? — Tá, mas essa época já passou, você resolveu, e... — Eu vendi a minha virgindade. Genevieve ainda está um pouco surpresa, mas Alisson está paralisado. Seus olhos, nos cílios gigantescos, crescem ainda mais. Sua boca com batom rosa em várias camadas se abre e ele a mantém aberta. — Você... o quê? — Não preciso dos seus julgamentos agora. — Amor, eu sou um cara hétero que se veste de mulher para fazer graça e ganhar dinheiro. Eu vou te julgar do quê? — Obrigada. — Mas... Bella...?! — E vendi para esse cara. O bilionário que preciso investigar e destruir. — Tá, vai lá, investiga e destrói. Prioridades. — Não é tão simples, Alisson... não é tão fácil... — Quê? Voltar para vida desse cara do nada, virar tudo de cabeça para baixo e deixar ele maluco? E ganhar dinheiro com isso? Eu pagaria do meu bolso para fazer isso com algumas ex... — Tá, talvez você não seja uma das melhores pessoas do mundo. — Genevieve semicerra os olhos e o encara com certo desgosto. — Ninguém é santo, ok? Estamos falando de prioridades! E seu filho é sua prioridade. Então... — Eu não posso ir lá... temos um contrato milionário assinado de que seria apenas sexo, sem compromisso, sem qualquer tipo de envolvimento. Sequer podemos nos encontrar novamente! E a multa... eu não poderia pagá- la, nem mesmo nos meus sonhos. Ademais, Alisson, eu não quero mais ir para a rua. Me sinto vulnerável, Chad me persegue... — Então Isabella não pode sair. Olha que gênio, esse desgraçado! Ele chegou na mesma conclusão que eu! — Será que não é por isso que estou trancada no quarto há três dias, Einstein? — Eu não disse para ficar trancada no quarto. Eu disse: Isabella não pode sair. — E eu sou a Isabella, seu animal. — Mas e se... — Ele vira o rosto para a televisão. — E se o quê? — E se você sair daqui usando minhas roupas? Assume minha identidade, sai daqui e vai lá fazer o serviço. — Alisson, eu gosto de ser mulher. E não vou cortar o cabelo. Ele joga esse pedaço de fuinha que ele chama de peruca, em cima de mim. — Vamos esconder esse cabelo e colocar algo mais curto por cima. — Mas eu não tenho roupas masculinas... — Eu tenho — rebate. — E... que tipo de homem tem tipo 1,68? — Vários. Que droga! Ele está acabando com meu estoque de desculpas. — Essa não é a minha irmã — aponta para mim. — Você não fica caçando desculpinha, você dá um jeito. Achou minha ideia ruim? Me dê outra melhor, mas não fique colocando porém. Eu te desafio, Isabella Miller Hathaway. Me deixe te transformar em Alisson e você vai ver... — Mas zero possibilidades de eu ficar parecida com você... — Ninguém nunca me vê vestido de homem mesmo... só a minha namorada. Então, quem vai te dizer que você não é o Alisson? — Amiga, tenho que concordar que não é a melhor ideia. A melhor ideia seria você reconstituir sua virgindade, vender de novo, e aí reconstituir e vender de novo e reconstituir e vender de novo. E viver disso, para sempre. Eu venderia um rim para aquele homem! Imagina a virgindade... eu dava de graça, todo dia, toda hora. — Eo Chad não mexe comigo. Esse tipo de cara imbecil só é valente com mulher, com outro homem ele passa reto... — Eu... sou mais baixinha que você. — Ainda bem que vivemos no século XXI e a tecnologia ajuda, não é mesmo? Vamos comprar palmilhas maiores para colocar dentro dos sapatos e você vai ganhar uns centímetros. — E meus peitos? — seguro neles. — O mesmo que homens trans fazem, vamos enrolar com uma faixa adequada, docinho. E por baixo do terno... ninguém vai notar. — Meu Deus... que loucura... — Não vai ser apenas um jornalismo investigativo sobre a vida desse bilionário, mas sobre a vida secreta dos homens poderosos. Imagina só... você vai poder entrar nas saunas... nos clubes... nos banheiros... escutar conversas... — Sem falar que vai ser levada a sério sem nenhum esforço. Enquanto você, Isabella, precisa fazer das tripas coração para ter uma oportunidade, enquanto Alisson elas vão chover para você. — Vou precisar dos seus ternos — pisco os olhos e penso alto, olhando para o meu irmão. — Eles são todos seus, você usa meus ternos, eu uso seus sutiãs e a vida fica perfeita! — Ele comemora. Pego o travesseiro e bato na cara dele. — Para de usar a porra dos meus sutiãs! — Espera! — Genevieve faz uma pausa dramática. — O que foi, mulher? — Levo a mão ao peito. — Você vai precisar de um pinto! — Tá, sem problema, eu tenho um armário cheio deles. — Balanço os ombros. — Os caras vão me invejar, vou colocar um pinto de 40cm que vai quase dar uma volta na minha cintura. Genevieve cai na cama de tanto rir e Alisson só arregala os olhos e prende o riso. — O que foi? Se for para me vestir de homem, que pelo menos eu tenha um pintão, né? Sabe a regra do “L”? Pois é, eu posso ser a baixinha com um pintão. — O meu choque não é esse.... — É a vez de Alisson piscar os olhos. — O meu choque é: você tem um pênis de 40cm dentro do seu armário? Genevieve e eu trocamos olhares rápidos. — Meu Deus! O Warren Kirk! — O nome do seu pintão de 40cm é Warren Kirk? — Alisson ainda está bestificado. Genevieve tapa a boca dele e eu pego o número no histórico de chamadas. — Senhor Kirk? — Senhorita Hathaway?! O que houve com você? Onde está? Por que não compareceu ao trabalho? — O homem está cheio de perguntas. E agora ele vai ficar com ainda mais. — Senhor Kirk, decidi que seria melhor eu me afastar desse caso, para enxergar de longe toda a situação. Enquanto isso irei enviar um substituto para vigiar o senhor Gallagher de perto. — Isso é realmente necessário? — O meu irmão, Alisson. Será que o senhor poderia mexer uns pauzinhos... — De quarenta centímetros.... — Genevieve sussurra ao fundo e eu prendo o riso. —... e colocar o Alisson para trabalhar para o senhor Gallagher? O homem fica mudo. E se eu lhe disser a verdade ele cairá para trás. — Farei algumas ligações. — Na segunda-feira ele estará no escritório do senhor Gallagher. — Mas senhorita Hathaway... — Eu tenho um plano. Confie em mim — e desligo. Respiro bem fundo, os olhos arregalados, olhando de Alisson para Genevieve. — Eu não acredito no que acabei de fazer... — Sabe, amiga... agora... olhando de perto, eu consigo entender porque você intimida os homens. — Por quê? — Porque você é muito imperativa, decidida, resolve as coisas e só “avisa”. Homens poderosos têm medo de mulheres que os intimidem assim. — Então eles vão ficar ainda mais intimados... — Ergo a sobrancelha. Genevieve e Alisson estão chocados que eu acabei de ir da água para o vinho. Mas depois de morrer tantas vezes por dentro, eu aprendi a renascer depressa. — Porque na segunda-feira eu vou chegar naquele escritório com um pau de 40cm. Capítulo 6 Bella Hathaway Chegou a hora. Passei pelo menos cinco dias tentando aprender a como ser homem. O que não foi muito difícil: só preciso coçar o saco que não tenho, manter meu olhar de superioridade e fingir que sou o máximo. Alisson me ajudou a esconder meu cabelo, barganhou uma peruca por dez pares de sutiãs e me emprestou sua identidade. Liguei para o Kirk no domingo para avisar-lhe que o plano estava de pé. E cá estou eu agora: Genevieve me trouxe de carro para o monumental CS Gallagher & Co. Está na hora de repetir todos os meus passos, mas dessa vez, sendo Alisson Hathaway. — Me deseje sorte! — peço. Mas ela fica muda, me encarando. Estalo os dedos bem diante do seu rosto. — Ei! O que foi?! — Só estou impactada. Você realmente parece um homem, mas aqueles que ainda estão na puberdade e entrando no High School. — Não me amola. Você disse que se eu colocasse barba e bigode ia ficar estranho! — Mas está ótima. Quero dizer, ótimo, agora vai lá e faça o seu trabalho. Por você e pelo Miguel! — Pelo Miguel — dou o dedinho mindinho para ela apertar e saio do carro. Ajeito a gravata dentro do terno que está levemente grande em meu corpo, afinal de contas, o verdadeiro Alisson tem ombros maiores e eu não. A calça devia ter sido melhor ajustada na bainha? Sim, eu sei. E quase estou sambando nesses sapatos. Me sinto um palhaço de circo. Antes de entrar no prédio vejo minha imagem refletida no vidro: os olhos castanhos ainda estão aqui, mas as sobrancelhas estão levemente mais grossas e o cabelo curto, a franja cobre a testa. Preciso admitir: eu sou um menino bonito, eu daria muito para mim – depois de checar a identidade, é claro. Pareço realmente um garotinho prodígio que acabou de entrar na faculdade e logo mais estará trabalhando para um bilionário poderoso, pronto para ser o Brutus e dar-lhe uma punhalada. Ou seja, vai ser uma ótima semana. Ajeito as costeletas bem finas e dou uma última checada nos traços masculinos do meu rosto que fiz com ajuda de maquiagem. Caminho pelo átrio – na verdade saio desfilando, igual esses caras que moram nos subúrbios do Brooklyn –, mexendo os ombros e balançando a cabeça enquanto chuto o ar com esse sapato de Ronald Mcdonalds. Em alguns metros consigo ver Alexa, espiando por cima das cabeças, como se procurasse alguém. Paro diante dela e vejo um sorriso simpático, diferente da cara desaforada que vi anteriormente – quando eu estava de mulher. — Como posso ajudá-lo? — Ela sorri e sai da posição tensa. — É... bem... — começo a calibrar a voz para ficar mais encorpada. — Eu preciso chegar em um escritório, mas estou perdido... — Oh, sim, diga-me qual o escritório. — O escritório do senhor... — Abro a maleta que trago em mãos e remexo nela: pego no vestido que trago como troca de roupa, no pênis de borracha e acabo tirando minha carta de recomendação. — Senhor Blake Gallagher... Ela para, pisca os olhos com aqueles cílios gigantescos e me olha novamente. — Deixe-me ver — ela pede o papel e o confere. — Alisson Hathaway? — Sou eu. — Nossa... eu imaginava que fosse uma mulher... — Todo mundo diz isso. — Jogo a franja para o lado, estilo Justin Bieber no passado. Ai, sempre quis fazer isso! — Mas eu peguei muita mulher na faculdade. — Balanço a cabeça. E coço o saco que não tenho. E faço uma pose de macho de subúrbio. Se auto afirmar sem ninguém pedir: check. Eu sou o homem perfeito, Broadway aí vou eu! — Você é uma gracinha. Quantos anos tem? — Ela dá a volta em mim. — Você é um daqueles... como se diz...? — Prodígio? Sim, sou. Um gênio incompreendido, quase. Ela ri como se eu tivesse dito a coisa mais engraçada do mundo. — Por aqui, senhor Hathaway... — Me leva até o elevador. — O seu sobrenome não me é estranho... — Ela volta a encarar o papel. Tomo-o da mão dela. — É, hoje em dia todo mundo tem esse sobrenome... — comento por alto. Quando o elevador chega, dou um passo para trás. Aquele lugar está muito mais cheio do que me lembrava. Parece que há uma força tarefa ali, então me apresso em seguir Alexa. — Você passará por um período de experiência que dura uma semana. — Só isso? — Acredite, se você sobreviver, vai trabalhar aqui para sempre — se diverte, parece leve e descontraída e não a megera que quase arrancou meu fígado outro dia. — E toda essa gente? — Bem... o senhor Blake tem uma entrevista agora cedo com algunsjornais, então enquanto ele se ocupa com isso, você e eu vamos repassar a agenda dele para hoje. — Certo e onde ele está? Quase saio correndo e me jogo em qualquer canto quando vejo Jacob Parker. Se ele me reconhecer, acabou para mim. — O cara está uma fera — ele murmura para Alexa e vira o rosto para mim. Me olha por uma dúzia de segundos. — Quem é esse gnomo de jardim? Ufa, não reconheceu. Espera. Gnomo de jardim? Eu vou dar um chute na perna dele! Alguém me segura! Jacob foi um cara que conheci na faculdade e que flertou muito comigo, mas no fim, me apresentou o bilionário – Blake – que compraria a minha virgindade. Depois nos tornamos bons amigos, até o Chad surgir e afastar tudo e todos da minha vida. — Alisson Hathaway. — Estendo a mão para ele. — Esse sobrenome não me é estranho. — Parker sorri, seus olhos puxados praticamente se fecham. — Jacob Parker. — Todo mundo diz isso... prazer, senhor Parker. — Tento deixar a voz mais encorpada. Mas assim vou acabar parecendo que fumei a vida toda e já estou com as cordas vocais nas últimas. — Estou em período de experiência para secretário do senhor Gallagher. — Boa sorte. Vai precisar. — Bate com a mão em meu ombro, o que já me faz curvar para um lado e implorar para Deus me ajudar. Por que a mão desses homens precisa ser tão forte? Aliás, por que todo mundo aqui tem mais de 1,90 de altura? Assim, não que eu me importe, inclusive Genevieve e eu temos uma longa dissertação sobre porque homens com menos de 1,75 não podem ser nada mais do que amigos... mas nossa... tanto homem alto junto? Eu só queria que eles fizessem a fila, porque eu ia me jogar e deslizar em todos esses... — Ele vai matar alguém hoje, é sério — Jacob reforça para Alexa. — Fique longe dele, ou ele vai te comer vivo — Jacob pisca para mim. Tomara. Quero dizer... ele que tente! — Fique aqui. — Alexa me leva até a minha mesa. — Finja que não está aqui e quando tudo estiver resolvido vamos repassar a agenda do senhor Gallagher. Aceno e guardo minha carta de apresentação na maleta, coloco-a em cima da mesa. Dois minutos se passam depois de muito burburinho e tensão e a campainha do elevador toca. Ele chegou. Toda a multidão se afasta e abre passagem para o gostosão desfilar. Após cumprimentar a todos com um olhar de que poderia comer cada um ali no café da manhã e ainda continuar com fome, Blake começa a dar ordens à Alexa. — Quero o meu carro pronto em quarenta e cinco minutos para estar na Bolsa de Valores — sua voz me arrepia. Passa uma seriedade e firmeza que nunca vi em outro lugar. — Às 10 em ponto estarei de volta, tenho um encontro com o ex-presidente, senhor Zimmerberg, mas antes que eu esteja aqui, entregue a ele o meu livro de anotações de 2022. — Livro de anotações de 2022 — ela repete e escreve sem parar. Coloco a mão acima dos olhos para me proteger de tantos flashs que as câmeras dos jornalistas tiram. — E quando o CEO da Mitchell&Smith ligar, diga que... — ele interrompe o raciocínio quando está diante da minha mesa e concentra seus olhos azuis em mim. Parece até um mar agitado, pronto para devorar qualquer marinheiro despreparado. Felizmente, se ele é o maremoto eu sou o oceano. — O que é isso? — Isso... Esse... é o senhor Alisson Ha... — Alexa tenta explicar. Blake aponta o seu indicador para mim. É tão intimidador quanto o tio Sam convocando os soldados para a guerra. — Na minha sala, agora. Levanto de imediato e pego a minha maleta. — E diga aos jornalistas que eles têm vinte e cinco minutos para perguntas claras e objetivas — são as últimas coisas que Blake diz para Alexa e entra em sua sala, eu vou atrás e a porta se fecha. Fico ali, parada, até tiro a carta de recomendação para ter mais segurança sobre o que dizer e... vejo o homem se despir. Ele arranca o terno preto e joga do outro lado da sala; agora consigo ver uma mancha escura em sua camisa azul, ele também a arranca como se fosse de papel. — E você tem cinco minutos — ele rosna. Sinto um calor irresistível em mim, começa pelas orelhas e desce ao pescoço em seguida. Tento não reparar na pele dele, mas é quase impossível. E esse desgraçado ainda desce um pouco a calça social, consigo ver os poucos pelos que descem após seu umbigo até um pacote generoso que se forma em sua virilha. — Você ainda está aqui? — Ele estala os dedos, trazendo-me de volta para a realidade. — Bom... eu sou Alisson Hathaway, período de teste estou eu para secretário seu ser... — Começo a me embolar enquanto vejo aqueles músculos, aquele peitoral todo desenhado e o abdômen que parece um ímã para minhas mãos. Só sei que quero pegar. Se possível lamber. De preferência sentar em cima do... — Quatro minutos e meio. — Ele avança em minha direção e eu me encolho. Seu cheiro invade minhas narinas e arrepiam cada canto do meu corpo. Eu me lembro desse cheiro. Eu o senti agora há pouco, no meio de tantos. Mas agora que estamos aqui sozinhos ele me faz pensar no passado... e me deixa nostálgica, apavorada e... desconcertada. — Eu trouxe uma carta de recomendação e já passei pelo RH — digo exatamente o que Warren Kirk me instruiu a dizer. Blake toma o papel de minhas mãos, move os lábios grossos enquanto seu olhar se movimenta pelas linhas e eu fico aqui, espiando seu corpo de perto. Seu peito está vermelho, parece que foi queimado. Ver o movimento dos músculos dele enquanto respira prende minha atenção. Sua pele bronzeada parece tentadora demais, e estou quase colocando a boca em seu mamilo para dizer em seguida: “ops, esbarrei, foi sem querer”. — Tudo bem com o senhor? — Um idiota derramou café em mim — ele diz como se fosse algo comum. — Estava movido por uma euforia muito grande. — Nossa... — Guarde sua euforia e sentimentos para você — ele me alerta. — Seja sóbrio, se comporte e não se dirija a mim se eu não me dirigir a você — ele volta a rosnar. Nossa... não sabia que ele fazia parte da família real... — O que houve com o seu terno? Ou foi você que encolheu enquanto tomava banho? — Blake me devolve a carta e se aproxima ainda mais. E dentro da minha cabeça uma buzina apita desvairadamente: zona de perigo! Não se aproxime! Mulher (vestida de homem) altamente perigosa! Ela vai chupar o seu mamilo... — O senhor... poderia... se afastar um pouco? Blake está tipo a um palmo do meu rosto. E das duas uma: ou ele vai descobrir o meu disfarce ou eu não vou me conter. Não me lembrava que esse rosto de cara bruto e selvagem poderia ser tão excitante, nem que sua barba e cabelo com tons grisalhos poderiam me deixar sem ar. E o que o desgraçado faz? Se aproxima ainda mais, com cara de desconfiado. — Eu não me importo com o que você quer — ele alerta. — Dois minutos! — Bem... como o senhor pode ver, fui muito bem indicado e darei o meu melhor para passar na experiência e ser efetivado. — Às vezes o melhor não é o bastante — ele cobre o corpo bronzeado com uma camisa branca de mangas longas nova em folha que tira do armário e puxa um paletó, novamente avança até mim. Só entendo que é para abotoar sua camisa quando seus olhos azuis ficam mais ferozes e ele volta a ficar a ponto da buzina dentro da minha cabeça explodir numa sirene que alerta: Perigo! Com isso aproveito para esbarrar minhas mãos pelo seu peito, depois seu tanquinho. Estou pulando por dentro e ficando mais quente que o inferno. Por fora só estou suando e mantendo uma postura séria. — Faça rápido, você tem menos de um minuto para dar um nó na gravata. — Dar um nó? — Na gravata. — Eu não sei dar um nó — rebato. — De onde diabos você saiu, garoto? — Do Brooklyn, senhor. Então ele simplesmente me puxa pela minha gravata e tira ela do meu pescoço, e eu fico paralisada vendo-o tão de perto, seu cheiro me deixando quase alucinada e perdida. Eu vim aqui para destruir esse homem? Pode ser na cama? Eu vou destruir ele na sentada! — Quarenta segundos. Mais alguma coisa que preciso saber? Esse homem já está com a camisa para dentro, de gravata e o paletó vestidos, parece novo em folha, seu cabelo continua impecávelnum corte social charmoso e ainda tem tempo de conferir as horas no relógio com a maior tranquilidade do mundo. — Eu pensei que estava aqui para ser seu secretário e não o cara que te veste... — penso alto. — Você está aqui para fazer o que eu quiser, mandar e desejar — diz como se avisasse: a partir de agora eu sou o seu dono. Quem ele pensa que é? Acha que pode vir aqui, espalhar o cheiro de macho pela sala, mostrar o mamilo e não me deixar chupar e ainda por cima ficar a poucos centímetros do meu rosto para me tentar? E acha que vai sair assim, ileso? E com a gravata do meu irmão? Ah... pode apostar que não! — Sim, senhor. Blake dá uns tapinhas com a palma da mão em meu rosto, enquanto sorri de um jeito meio sádico. — Bom garoto. Capítulo 7 Bella Hathaway Passei as últimas cinco horas seguindo esse homem, logo eu que prometi a mim mesma que nunca mais iria correr atrás dos machos da espécie. Devo ter perdido uns três quilos, pelo menos, já sinto o terno maior e meu corpo encolhendo. Blake não me dirigiu a palavra em nenhum momento após a entrevista rápida e dinâmica que fez no escritório – e nem devolveu a gravata também. Mas os nossos olhares se encontraram umas dezenas de vezes. No momento em que ele respondia às perguntas dos jornalistas, ou consultando um dos chefões na Bolsa de Valores sobre empresas financiadas pela CS Gallagher & Co, e também dentro do carro. Sempre olhares rápidos, furtivos, que me deixavam insegura e me questionando se a peruca estava saindo ou se meu disfarce estava acabado. O senhor Blake, por fim, se encontrou com ninguém mais, ninguém menos, que Matthew Zimmerberg, ex-presidente dos Estados Unidos e me deixou no escritório com Alexa. — Como foi o dia? — Eu descobri porque não participo de maratonas e corridas, não tenho pique. — Tento usar de bom humor para disfarçar meu estresse. — Como ele pode andar tão rápido, meu Deus? — Ele não anda rápido, só tem pernas longas, então um passo dele é tipo... dois ou três do seu — Alexa me alfineta, de bom humor. É. E que pernas ele tem, vamos admitir aqui... — Acha que ele gostou de mim? — A pergunta correta é: o quanto ele não te odiou? Porque ele pode sair daquela sala e te demitir, ao fim do dia. Acredite, isso acontece com frequência. Torço, por Deus, que isso não aconteça! Tenho uma matéria bombástica para escrever sobre esse homem. Como a farei se não estiver aqui em sua cola? Aliás, mais do que isso... eu preciso realmente estar colada nele, então vou aproveitar para segui-lo no fim do expediente. Mas com disfarce ou sem disfarce? — Que horas nós saímos? Alexa gargalha. — Você está bem feliz hoje, hein? — Estou. — Ela limpa a testa. — Com você aqui eu não preciso trabalhar por seis. Você tirou quase metade do sufoco das minhas costas. — Nossa... mas que horas nós saímos? — Reforço a pergunta. Ela volta a rir e cantarola baixinho. Qual é o problema dessa mulher? — Nós saímos quando ele decide que saímos. Você pode não voltar para casa hoje, pode ter que virar a madrugada aqui catalogando coisas... ou até mesmo o acompanhando em um jantar, anotando cada informação que ele achar pertinente. — Esse homem não precisa de um secretário, precisa de um escravo — me desespero. E a matéria já vem à cabeça: Como Destruir um CEO Bilionário: Escravidão nos tempos modernos. Hum... acho que não. — Guarde suas opiniões para você, é o meu conselho. O senhor Gallagher vai te pagar tão bem que você vai implorar para fazer hora extra. E a minha saúde mental? Quanto dinheiro ela vale? Porque esse é o meu primeiro dia e eu estou surtando! Mas o ponto positivo é: não estou de salto. Estou com um sapato social de palhaço de circo bem confortável, então ir no rastro desse homem o dia inteiro foi menos cansativo do que seria... — Você sempre usa salto, Alexa? — Nós precisamos sempre estar impecáveis e apresentáveis. Trabalhamos para um dos homens mais poderosos desse banco, o futuro presidente dessa empresa. Ele não reclamou do seu terno? — O dia inteiro. — E... por Deus... onde está a sua gravata, Hathaway? — É uma boa pergunta. Mal terminamos essa conversa, a porta se abre e os dois homens saem. Zimmeberg segue reto, sem olhar para os lados, fingindo como se não estivéssemos ali. E o senhor Gallagher fixa seus olhos em mim como se só eu estivesse ali. Não sei o que é pior. — Consiga todas as tabelas de 2015 a 2019 das entradas e saídas dos investimentos da CS, quero isso em meu e-mail até as 5 da manhã. Depois passe na Trojan Horse Security e pegue você mesmo das mãos de Ethan Evans o meu caderno de anotações do ano de 2018, ele te entregará um chip e um pen drive, guarde-os com a sua própria vida. Ótimo, mais trabalho para o mês todo... — E só para reforçar, porque seu olhar sonhador me diz que está nas nuvens: tudo isso é para amanhã — ele rosna, chega bem perto do meu rosto e faz cara feia. Como se eu tivesse medo de um homem me encarando como se fosse me comer. Quer me comer? Então paga meu jantar primeiro. Ou tira a Alexa daqui! Eu hein... — Mas as tabelas de 2015 a 2019 devem levar uma vida inteira para conseguir... — falo em minha defesa. Acho que não deveria ter dito nada. — Não precisa estar aqui amanhã se não conseguir. — Ele me dá as costas e sai. Antes da porta de sua sala fechar ele vira e diz: — E gosto do meu café bem quente, sem açúcar e com canela e especiarias. Será que é pedir demais? — E bate a porta com tanta força que parece que o prédio treme. — É por isso que estou feliz — Alexa continua a cantarolar, como se risse da minha desgraça e se senta confortavelmente diante de seu computador. — Ai meu Deus... por onde eu começo? Pego o celular e mando uma mensagem para Kirk, dizendo que o Blake tem interesse nessas tabelas e peço que ele me ajude. Se tem mais alguém infiltrado aqui, está na hora de me ajudar. Ou se for aquele outro Gallagher metido a besta, também serve. Blake sai de sua sala mais uma vez, aparentemente de saída. — Senhor Gallagher, o senhor Petterson ligou e... — Me mande por e-mail. Tenho um compromisso urgente agora — é o que ele diz enquanto vai até o elevador, aperta o botão e desaparece. — Bem... eu vou dar conta dessas tabelas... — Pego minha maleta e vou sorrateiramente até o elevador, esperando-o voltar. — Por qual departamento você acha que devo começar, Alexa? — Por qualquer um. Mas eles estão fechando em dez minutos... e só abrem amanhã às nove. Que maravilha! Tenho dez minutos para pegar tabelas de 2015 a 2019 de sei lá quantos departamentos! Ótimo! E ainda preciso seguir o Blake e descobrir que compromisso é esse... — Kirk, você acha que alguém do teu pessoal consegue isso que pedi? — digo assim que a porta do elevador se fecha. — Só faça o seu trabalho, senhorita Hathaway, eu cuido do resto — ele garante. Um peso a menos em minhas costas! Ao chegar no térreo ainda vejo, lá fora, o senhor Gallagher entrando em seu carro. Aproveito para correr o máximo que posso, chego na calçada feito uma louca estabanada e começo a acenar para todo e qualquer táxi que possa me pegar. O primeiro que para diante de mim, eu arreganho a porta, me jogo dentro e digo esbaforida: — Siga aquele carro. — Mostro com o dedo indicador. — Está tudo bem com o senhor? — ele me pergunta, ao perceber que estou me contorcendo no banco detrás. No segundo seguinte quando ergo a cabeça e balanço freneticamente a minha juba para recuperar o volume que a touca amassou, vejo o motorista surpreso. — Senhor não... senhorita, desculpe-me — ele diz, constrangido. — Não se preocupe, só siga aquele carro. Começo a me trocar dentro do táxi como posso, e a cada curva que ele faz eu sinto que vou perder um olho por causa do delineador. A maleta que só guardava a carta de recomendação, uma troca de roupa e esse caralho que nem sei porque eu trouxe agora recebe a peruca masculina, cubro o meu corpo com o sobretudo preto e o abotoo por inteiro para esconder minhas vestes e continuo a chacoalhar o cabelo. — Meu Deus essa sensação é tão boa... Aproveitopara mandar uma mensagem para o meu irmão, dizendo: “preciso que vá na Trojan Horse Security pegar o caderno de anotações do Blake, um chip e um pen drive. Faça isso tipo agora”. O táxi vai a uma boa distância do carro do senhor Gallagher. E ao vê- lo parar e descer, temos tempo para diminuir a velocidade e parar também e observar o que ele está fazendo. Ele entra em algum lugar, parece um prédio antigo, não consigo ver a placa daqui. Pago o taxista, pego a maleta e saio. Aguardo alguns minutos só para ter certeza de que Blake e eu não vamos nos esbarrar e depois vou conferir o lugar: o prédio antigo têm diversas atividades... estranho... dança contemporânea, uma piscina climatizada, aulas de lutas, ballet... O que esse homem veio fazer aqui? Pelo visto não vai me dar o material que preciso para a matéria bombástica que preciso fazer... Decido ir para o outro lado da rua, onde há um mercado ajeitadinho e passo um tempo ali. Aproveito para tomar um chá na lanchonete dentro dele e comer alguma coisa, mas sempre de olho no prédio. O carro do Blake saiu assim que o deixou, então permaneço na expectativa de que ele reapareça para buscá-lo... mas isso não acontece. — Merda... eu devia ter trazido óculos escuros! — praguejo até a minha sétima geração quando o vejo sair. — Tá, estou aqui, ele nem vai me ver... Mas lá vem ele... em minha direção... E segura na mão de uma garotinha, anda bem devagar. — Meu Deus... onde fui me meter? Toda essa montação para não ser reconhecida pelo Chad ou pelo Blake e agora estou aqui, dando sopa? Quais as chances desse homem entrar no mercado, meu pai? — E como você se sente agora? — A voz dele toma o local assim que entra. E seu cheiro parece que me cobre, é tão forte e delicioso que me sinto tentada a virar e vê-lo, mas não posso. — Tum tum tum tum — ouço a voz da garotinha, a criança que vi com ele. Tento olhar de lado e tudo o que vejo é uma menina da cor dele, cabelo amarrado no topo da cabeça e roupa de bailarina. — Mas agora você sente dor? — Agora normal. Mas antes doía muito — a menina tem uma voz bem característica, arrasta as palavras quando as diz e tenho impressão de que come algumas delas. — Certo. Amanhã temos os seus exames de rotina só para garantir que tudo está bem — diz com calma, tem um tom carinhoso, nem parece o homem que esteve comigo o dia todo. — E em breve tudo vai ficar bem. — Dificuldade respirar. — E você descansou? — Descansou. Mas queria que você orgulho de mim quando eu dançar. — Eu tenho muito orgulho de você. — Ele se agacha, praticamente cobre metade do rosto da menininha. E ele sorri. Por que esse homem não sorriu o dia todo? Tenho certeza de que o dia seria menos tenso se ele tivesse feito isso! — Eu assisto os seus vídeos dançando todos os dias, antes de dormir. Eu acompanho a sua evolução. E fico orgulhoso de ver que você está dando o seu melhor, Rowan. — Blake toca com o dedo indicador no nariz da criança. — Água. — Ela aponta em minha direção. Mas que merda... por que eu fui ficar logo de frente para essa geladeira?! Por favor, pegue a água natural em qualquer outro lugar, menos aqui... Blake vem em minha direção e eu fico paralisada. Totalmente sem reação. Ele estica o braço para abrir a geladeira, mas eu estou bem de frente para ela, impedindo que ele faça isso. — Você poderia... — diz de um jeito ativo, praticamente me tirando do lugar e indo pegar o que quer. Mas ele para e semicerra os olhos. E eu tenho vontade de esconder meu rosto. Acabou. Eu estou perdida... — A sua água. — Ele entrega para a criança. — Obrigada, papai. — A menininha se afasta e começa a passear pela loja. — Oi — ele diz, para mim. Só com esse oi cada pedaço de mim chacoalhou. Parece que houve um choque entre minhas placas tectônicas e estou triplamente nervosa agora. — Oi... — Acho que é assim que as conversas começam. Viro-me bem devagar e continuo com o rosto abaixado. — Como está a sua mãe? Não me contenho e levanto o rosto para vê-lo. Estou surpresa com a pergunta. Um filme se passou em minha cabeça, onde eu seria completamente desmascarada e esculhambada no meio do mercado. Mas ao que parece, Blake não me reconheceu... Quero dizer, não reconheceu o Alisson. Mas se lembro de mim... — Ela... ela... está bem — tento disfarçar o nervosismo. E é ainda pior quando tento, agora parece que estou realmente nervosa. — E como você está? Tremendo. — Eu estou... maravilhosa. — Dá para ver. Não sei porque, mas eu ri. Comecei a rir, tipo a Alexa. Como se um peso gigantesco tivesse sido tirado das minhas costas e eu pudesse aproveitar aquele momento com o ilustre desconhecido para quem vendi minha virgindade, anos atrás. — Não sabia que tinha uma filha. — Não vai perguntar como estou? — Ele levanta a sobrancelha. Blake é o tipo de homem que não precisa ser convidado para a festa. Ele é a festa. A presença dele, o cheiro, o olhar penetrante e o jeito como seus lábios se movem enquanto seus olhos me comem... parece que estou numa balada eletrônica, na selva perigosa, e tenho a sensação, dentro de mim, que não preciso usar máscaras agora. Ele já me viu completamente nua uma vez. E pagou por isso. — Como você está? — Ótimo. — Eu sei, consigo te ver — tapo a boca com as mãos e volto a rir. — É a sua filha? — Não podemos trocar intimidades — ele me lembra. Coitado... mal sabe ele que em breve eu saberei da sua vida, mais do que ele mesmo acha que sabe... — Fico feliz que tudo tenha dado certo com a sua mãe. E agora? O que eu falo? O que eu faço? — Isabella — estendo a mão para cumprimentá-lo. Blake sorri de um jeito cafajeste, reascende uma memória em mim que faz meu pescoço e orelhas esquentarem e minhas pernas começarem a tremer. — Que curioso que tenhamos nos encontrado... da próxima vez, podemos sair. — Não vai me dizer o seu nome? — pergunto entre o riso e a indignação. — Não. Quando vejo a pequena voltar até o pai, tenho uma surpresa: ela tem olhos levemente puxados e parece espalhar uma energia que irradia. Nunca imaginei que esse homem frio, sem coração e completamente calculista poderia ter uma filha tão linda assim. A síndrome de Down é apenas um detalhe, é claro. — Desculpa por derramar café sua roupa? — Ela abraça a perna do pai e fica olhando para cima, igual um cachorrinho perdido. E Blake abaixa os olhos, há uma ternura, uma energia que eu sequer poderia imaginar que esse homem tinha e ao mesmo tempo um olhar protetor. — Está tudo bem, eu dei um jeito. — Você sempe dá jeito, papai — ela ri. Ele a tira do chão e traz para seu colo, confere todos os docinhos que ela pegou e volta a me encarar, num silêncio que diz muitas coisas. Eu não sei o que exatamente, mas os nossos olhares conversam. E estou ansiosa para descobrir que língua é essa. — A sua filha é linda. — É óbvio que é — ele diz orgulhoso. — Quem ela, papai? — Isabella Miller — ele responde. — Rowan Gallagher. — Ela estende a mão para mim. — Prazer, Rowan. Você é linda! — Você é linda! — Ela abre um sorrisão e se estica toda para frente para abraçar meu pescoço. — Acho que ela gostou de mim — sussurro para o Blake. — Sorte a sua. — Não vai mesmo me dizer seu nome? — Insisto. — Não. — E como espera que... se por acaso nos reencontremos e você me chame para sair... por que eu aceitaria, se não posso saber seu nome e nem conversar? — E quem disse que precisamos conversar? Caso encerrado. Vamos sair sim e fim de papo, está decidido. E é assim que Blake me deixa ali, parada diante da geladeira. Ele e Rowan vão para o caixa pagar e saem do mercado logo em seguida. Rowan me dá tchau e me lança um monte de beijos com a mão. E Blake ainda me lança um olhar como se estivesse me perguntando: será que o destino pode arranjar esse reencontro? E como eu faço o meu próprio destino só posso dizer: Pode apostar que sim. Capítulo 8 Blake Gallagher Rever a senhorita Miller me causou algo inesperado. Foi a primeira vez, em meses, talvez anos, que a minha cabeça simplesmente parou de pensar sobre substituiro meu pai e se desligou. Enquanto isso, outras partes do meu corpo começaram a reagir. Não consegui revisar uma papelada importante, porque o nosso repentino encontro não saía da minha mente. E durante a caminhada matinal com Rowan, fiquei mais disperso do que jamais estive. Como outra pessoa pode surtir esse efeito em outra? Acho que já passou da hora de ir ao médico, ando tão preocupado com o problema cardíaco da minha filha e essa promoção idiota, que deixei minha saúde para segundo plano. Sentir essas pontadas no coração pode ser tudo, menos saudável. Chego o mais cedo que posso no escritório, tão cedo que nem mesmo Alexa está ali. E como a minha diversão particular é ver meus empregados arrancando os cabelos e desesperados, vou lembrar-lhes disso a semana inteira. Mas como a senhorita Miller conseguiu...? Ergo uma sobrancelha ao entrar em minha sala. O senhor Hathaway parecia estar me aguardando, solta a montanha de papeis na mesa, o que faz o barulho ecoar pela sala inteira. — Bom dia, senhor Gallagher! Mais essa agora... esse aí não dorme? Não tem casa? Precisa chegar tão cedo no trabalho? Confiro as horas no relógio de pulso e lanço um olhar de suspeita sobre ele. — Espero que o senhor tenha dormido bem! Como alguém consegue estar tão radiante antes das sete da manhã e trabalhando em um banco para um carrasco como eu? Esse garoto é estranho. — O seu chip e pen drive estão nessa caixinha preta. — Ele retira o objeto do bolso e me entrega. — Não vejo o meu café — olho de um lado para o outro e mostro meu descontentamento. — O senhor disse que queria ele bem quente, então eu tomei a liberdade de colocá-lo numa garrafa térmica. — Ele me mostra, com muito orgulho, a garrafa. — E você espera que... eu beba em um copo de plástico? — Pisco os olhos bem devagar, após contornar a mesa, me sentar e encará-lo com frieza. — Não senhor — ele volta a sorrir, todo animado. — Por isso eu encomendei essa caneca super hiper mega blaster fenomenal! Pego a caneca preta que tem escrito de um lado “o melhor chefe do ano” e do outro lado uma foto minha, tirada de algum editorial da Forbes, mas bem photoshopada com um sorriso de orelha a orelha – literalmente –, com as mãos fechadas e polegares levantados, dando “joinha”. — Eu sou uma piada para você? — Coloco a caneca na mesa e assisto Hathaway colocar o meu café. — Não, senhor. Na verdade, eu... — Por que você ainda está falando comigo? — Coço o queixo. — Termine de colocar o meu café e desapareça da minha frente, antes que eu o faça desaparecer, Hathaway. O café é servido e ele permanece diante de mim. Meu Deus... quantas ordens preciso dar para essa pessoa? Será que uma só não basta? — O senhor está diferente. — É mesmo? — Ironizo e começo a beber o café forte, deliciosamente quente e amargo. Nada melhor do que isso para iluminar meu dia. — Parece tão... mais leve que ontem. — Um acerto seu não te dá o mérito de ficar aqui tagarelando comigo. Vaza! — Quem é o chefão mais incrível desse banco, hein? — Hathaway, não me obrigue a te pegar pelo colarinho e te jogar para fora da sala. Ele coloca a mão na cintura. — O senhor não faria isso, chefinho. Nossos olhares se cruzam por um segundo. O que é suficiente. — Faria? Cinco segundos depois a porta se abre e eu jogo Hathaway para fora da sala e o assisto se levantar do chão, rindo e apontando o indicador para mim. — Você é o cara! Meu Deus... esse garoto me dá arrepios. Bella Hathaway Eu já disse que vou infernizar a vida desse homem antes de destruí- la? Então que fique registrado: eu vou bagunçar a cabeça dele todinha antes do golpe de misericórdia. Finjo que estou trabalhando em algo muito importante e toda vez que o senhor Gallagher sai da sala, eu aceno para ele. É divertido ver em seus olhos que ele prefere fazer piquenique com o diabo do que ver a minha presença por ali. Acho que em menos de uma semana os cabelos pretos dele vão sumir e vão ficar todos brancos, o que vai ser bem mais charmoso. — Nossa... você chegou cedo! — Alexa confere o horário. — Bom, vamos aproveitar e vou te repassar a agenda do senhor Gallagher então. — Já repassei. — Que eficiente! — Melhor que eu, só dois de mim, docinho! Alexa franze a testa, mas acaba se divertindo. — Você é o tipo de pessoa atípica para esse tipo de trabalho. Nunca vi alguém tão divertido desde... Jacob Parker, e olha que Blake transformou o Jacob em um cara fechado. — Talvez fosse isso que vocês precisavam o tempo todo. — Vejo todas as anotações que fiz sobre os horários do senhor Gallagher. Estou tentando encontrar brechas nos “espaços vazios” de sua agenda, imaginando para onde ele vai, além de ir buscar a filha no ballet. — O senhor Gallagher é casado? — Não falamos da vida pessoal do nosso chefe, Hathaway. Todas as informações que você precisa são de domínio público. Aí é que está: eu pesquisei esse cara todinho de ontem para hoje. E nada de mulher, nada de polêmicas, fofocas... e nada de filha! Ele é basicamente um cara fechado, não deixa sua vida particular escapar e é misterioso. Ou seja, tudo o que eu preciso para bagunçar a vida desse homem eu terei de arrancar ou das pessoas ao redor dele ou dele mesmo. — Queria saber mais sobre ele... para ver se consigo entender porque ele é tão azedo. — Eu trabalho para o senhor Gallagher desde que ele saiu da Bolsa de Valores e veio para cá. E acredite, ele sempre foi desse jeito. Aqui, lá e por onde quer que tenha passado. — Tá, mas qual é o passado do nosso chefe? — Por que você não pergunta a ele? — Ótima ideia, Alexa, vou lá no almoço perguntar! — Sorrio por fora, mas a vontade é de soltar vários gritos e correr em círculos. Gostoso. Bilionário. Poderoso. Dono dos meus sonhos eróticos e comprador da minha virgindade. Para além disso: quem é Blake Gallagher? Nesse momento o elevador dá espaço para alguém que eu nunca vi antes. Um rapaz alto, branco, porte atlético: as roupas sociais parecem emoldurar aquele corpo tão bem desenhado. Por que todos esses homens de terno precisam ser tão gostosos? E mais: por que todos os homens nessa empresa precisam ter mais de 1,90 de altura? Assim meu coração não aguenta! — Senhor Mitchell — Alexa o cumprimenta. Mitchell? Parece um sobrenome importante, já ouvi em algum lugar. — Vim entregar isso. — Deixa um caderno de couro preto em cima da mesa da secretária. — E vim buscar uma caixa preta que o Blake quer que eu entregue para o Jacob. — Ok... só um instante — Alexa sai da mesa para a sala particular do nosso querido chefe. O Mitchell e eu ficamos nos olhando por alguns segundos até que ele quebra o silêncio, parece bem extrovertido e tem um sorriso tão bonito que sou incapaz de não prestar atenção nele. — E você é...? — Alisson Hathaway, o novo assistente do senhor Gallagher — me apresento. Mas ficaria melhor se eu dissesse: sou a destruidora de lares e carreiras. Estou aqui para investigar e colocar fogo nessa empresa. — Allen Mitchell. — Vem em minha direção e estende a mão. Meu Deus, todo mundo tem mão grande nesse lugar. Adoro. — Eu trabalho com o Jacob Parker, sou meio que o aprendiz dele. — Legal. E você conhece o senhor Gallagher? — Quem não conhece o senhor Gallagher? — retruca. É verdade... — O Jacob Parker e o Kaleb Petterson foram aprendizes do senhor Gallagher. Ele é o cara das finanças, era idolatrado na bolsa de valores, um investidor fenomenal e... — ele chega perto para sussurrar: — O futuro CEO da CS Gallagher. É o que veremos. Digo... — Espero ser promovido junto. — Se durar mais que uma semana ele deve dobrar seu salário, relaxa. — Senhor Mitchell — Alexa retorna da sala do Blake e entrega o que o rapaz veio buscar. — Está aqui. — Muitíssimo obrigado. E o Jacob pediu para lembrar que o Blake precisa provar... — Provar alguns ternos na quinta-feira às 14h, eu sei — Alexa responde sem pestanejar. — Você é incrível! — Ele aponta para Alexa. — Foi um prazer, Alisson. — Allen acena e vai embora. — O que estavam conversando? — Alexa se mostra interessada enquantovolta para sua mesa, abre a agenda do chefe e faz pelo menos cinco coisas ao mesmo tempo. — Nada... só nos apresentamos. Por que ele te pediu para lembrar o senhor Gallagher dessa prova de ternos? — Para o casamento do Kaleb Petterson — responde no automático. — Tá, mas por que o Jacob pediu para ele te lembrar isso? — Não é bem lembrar, Hathaway... foi mais para reforçar. O senhor Gallagher nunca vai a casamentos e ao que parece, abriu uma exceção para o do Kaleb. — Por quê? — Porque o Kaleb é como alguém da família, para ele. — Não isso. Por que ele nunca vai a casamentos? — Porque ele acha isso uma idiotice. Eu não sei de onde esse homem surgiu... só sei que estou novamente paralisada e sem reação. Assisto Blake ficar diante da minha mesa, ele não tira os olhos do tablet que carrega nas mãos. Ele escora a bunda bem desenhada na minha mesa e fica de perfil para mim. Daqui, mesmo de perfil, consigo ver os músculos de sua face se contraindo. Esse homem tem uma mandíbula e tanto! — Está com muito tempo livre hoje, Hathaway? — Bem... na verdade eu... — Está sim. Se tem tempo para confabular sobre minha vida, acredito que tem tempo o suficiente. Certo, não tenho argumentos para rebater. — Pegue papel e caneta para me acompanhar em uma reunião, quero que anote absolutamente tudo o que for dito nela. — Certo. Percebo que não deveria responder quando nossos olhares se cruzam e Blake mostra que só não me joga pela janela porque o vidro é muito caro e o meu sangue não vai combinar com a calçada lá embaixo. — Após isso você pode catalogar toda a sessão de arquivos da Bolsa de Valores da minha biblioteca. — E onde é isso? O nariz pontudo dele indica atrás de mim. Ao me virar, tudo o que vejo é uma parede de vidro fosca, mas que vai se abrindo silenciosamente até... me mostrar um lugar gigantesco e com montanhas de papeis para todo lado. — O meu almoço deve estar aqui antes do meio dia. Aproveite que tem tempo livre, senhor Hathaway e compre o presente de casamento do Kaleb e Anne, e tenho certeza que não vai ignorar o pequeno Nicolas. Quem são essas pessoas, meu Deus? — Por fim, como está tão interessado em minha vida, vá em minha loja favorita e compre uma gravata da minha cor favorita. Quê? — Meu Deus, o dia vai ser atarefado... — Você tem até às 11:30. — Agora de manhã? — Dou um pulo da cadeira. — E o meu almoço antes do meio dia. — Ele tira o traseiro da mesa, tenho uma vontade gigantesca de dar um tapa, um chute, morder, sei lá, quebrar esse homem em mil pedaços. Ele sabe que sou apenas uma pessoa? Como vou me virar para fazer tudo isso? Principalmente a parte da biblioteca, porque fica aqui e tenho certeza de que ou ele ou Alexa vão me vigiar fazendo isso. Mas Blake se importa? É claro que não. Ele sorri maliciosamente encarando o relógio no pulso e me lança um olhar de desafio. Não preciso de muito mais do que isso para pegar meu celular e sair correndo dali. Pelo visto esse homem quer acabar comigo... Tanto quanto eu quero acabar com ele. Capítulo 9 Bella Hathaway — Psiu. Sou ignorada mais uma vez. Reviro os olhos e cutuco o playboy idiota Franklin Gallagher, para que ele me note. — Mas que droga?! — Ele se afasta subitamente e me encara, horrorizado. — Qual o seu problema, cara? Blake me fez surtar, é isso. E não foi nem por me sobrecarregar com tanta coisa... é a forma como ele me olha, se aproxima, me provoca. Sinto-me completamente sufocada dentro desse terno. E qual o melhor lugar para o meu surto? No banheiro, é claro. Mas no meio do caminho lembrei-me que não posso usar o banheiro feminino, então cá estou, no banheiro masculino, cutucando o cara que me contratou, enquanto ele mija no mictório. Inclusive, pau bonito. E só para não esquecer: passar álcool em gel nas mãos, na cara e se possível nos olhos. — Sou eu — levanto as sobrancelhas. Ele levanta também, um tanto constrangido. — Quem é você? — Eu, seu imbecil narcisista — digo alto. Ops. Não deveria ter dito. Pelo menos não falei que o pintinho dele fica bonito mole. Mas só para sacanear, tapo a boca e começo a rir forçadamente enquanto olho para baixo. Rapidamente Franklin devolve o negocinho para dentro da calça, fecha o zíper e vai lavar as mãos. — Você está me seguindo ou o quê? — Sou eu — murmuro. — A Bella. — Não estou entendendo, não conheço nenhuma Bella. Seria pedir demais mesmo que esse animal entendesse alguma coisa. — Que Bella? — Aquela que te fez comer poeira recentemente. Franklin franze o cenho e continua a me encarar, como se procurasse alguma familiaridade em meu rosto. Pode esquecer, meu bem, eu disfarcei cada traço feminino que tenho. Você acha que sou o quê? Uma amadora? — A pessoa que você contratou para acabar com seu irmão. Imediatamente parece que ele recobra o juízo. E antes que ele tape a minha boca para me silenciar, eu coloco a mão na frente. — Lembrou agora? — O que diabos houve com você? — Estou disfarçada, dã. — Estou vendo. Você está me assustando ainda mais, agora. — Pois é — balanço os ombros. — Seu irmão é um cara impossível de lidar, preciso de uma força. — Ele não é meu irmão. Não? Ué gente, os dois são Gallaghers e têm o mesmo pai e mãe... como que não são irmãos? — Não tenho tempo para os seus problemas de família, o cara me passou uma lista gigantesca de coisas para fazer. — Boa sorte. — E você vai me ajudar, eu vou distrair ele e enquanto isso você coloca um pessoal para fazer umas tarefas. — Acho que você não entendeu, Bella. Eu mando em você, não é você que manda em mim. — Acho que foi você que não entendeu — bato com o dedo indicador no peito dele. — Preciso da sua ajuda rápido ou ele vai me demitir. — Eu disse que te ajudava a entrar, não a ficar. Olha que babaca esse cara! — Certo. Então vou lá tirar a peruca na frente dele e dizer que você me contratou para espioná-lo e destruir a carreira dele e ainda vou espalhar para empresa toda que você pegou no meu pinto. — Mas você nem tem um pinto... Enfio a mão dentro da calça e tiro o pênis de borracha que uso para dar volume, bato na mão dele e depois na cara. Franklin fica atônito e se afasta imediatamente. — E eu bati com meu pinto na sua cara — dou-lhe as costas. — Você tem problemas, garota! Precisa de um psiquiatra! — Ou você me ajuda ou eu volto aqui e bato esse pinto não vou nem te contar onde! — Saio marchando do banheiro. Ufa. Estou bem melhor do surto. Agora sinto que posso voltar para o Blake me infernizar. Reponho o pênis de borracha – que não é o de 40 cm, já que meu irmão e minha melhor amiga disseram que eu acabaria chamando muita atenção –, e o ajeito dentro da calça. — Até que ter um pinto não é tão ruim assim — comento e vou em direção ao elevador. Certo, vamos repassar a lista de tarefas: comprar uma gravata para o chefe mais irritante do mundo, comprar um presente de casamento para Kaleb e Anne; descobrir quem é esse tal de Nicolas para comprar um presente para ele também, e... vejamos... será que esqueci de algo? Saio da empresa com o cartão corporativo para comprar absolutamente qualquer coisa, de qualquer valor e continuo a martelar em minha mente o que falta. — Por que tenho a impressão que esqueci de algo?... hum... ah! O almoço! Mas isso eu me viro sozinha — falo alto, distraída e continuo. Acho que seria bom comprar a gravata primeiro, deve ter uma dessas lojas metidas a chique logo por aqui, não preciso pegar táxi nem nada... — Ah... e tem a biblioteca, mas isso o Franklin Gallagher vai resolver... ou eu mesma vou dar o meu jeito — gargalho alto. Até que por enquanto tudo está indo bem e sob controle... estou até chocada que nenhuma desgraça tenha acontecido ainda. Ao atravessar a rua e olhar para os dois lados, tenho uma leve impressão de que estou sendo seguida. Após atravessar a faixa de pedestres eu dou uma olhada panorâmica por todos os cantos, mas não vejo nada suspeito... deve ser coisa da minha cabeça. Pego o celular e ligo para Genevieve. — Espero que seu dia esteja incrível! — Ela praticamente cintilado outro lado. — Que animação é essa? — Coço a peruca e dou uma ajeitada na franja. — Estou feliz por você, só isso... me conta, como estão as coisas? — Estou trabalhando igual a um burro de carga no século 16. E tenho até o meio dia para fazer o trabalho de uma semana inteira! — Esse cara pega no pé mesmo, hein... — Onde eu quero que ele pegue, ele não pega — reviro os olhos. — Onde você acha que posso encontrar a melhor gravata possível para esse homem não colocar defeito? — Hum... você quer algo mais Calvin Klein ou Giorgio Armani? — Amor, se eu soubesse a diferença eu não te ligaria. O que esses juízes usam no tribunal? — Giorgio Armani. — E a Calvin Klein? — Elas têm um toque mais descolado e jovial... — Nada a ver com o Blake, vou dar uma gravata de vovô para ele e tá tudo certo. Genevieve se diverte do outro lado. — Você está a um passo da demissão, gatinha... — E eu não sei? — Antes de atravessar a rua, olho para os lados de novo. E agora eu sei porque tive a impressão de estar sendo seguida. — Eu vou parar de te ligar, porque isso dá azar, tchau — desligo e continuo a caminhar como se nada estivesse acontecendo. — Você aí! — Chad vem no meu rastro. Como esse idiota me achou aqui? Eu estou no meu disfarce perfeito, nem de longe eu pareço comigo mesma, mas será que... — Mas que merda! — Praguejo baixinho. Por que eu fui inventar de ligar para Genevieve e ficar usando a minha voz normal? Deveria ter continuado a usar a voz mais imposta. — Estou falando com você! Dou sorte de que o sinal fecha e a corrida contra o tempo dos carros nova-iorquinos começa. Tiro essa vantagem para andar mais rápido e entrar em um beco, depois outro, para tentar despistá-lo. Que ideia genial, hein... fugir do cara que quer acabar com a minha vida entrando em lugares vazios e sem testemunhas... parabéns, Isabella, parabéns! — Você, parado aí! Eu não te conheço? Como esse cara me alcançou? Seleção natural eu te abomino por dar pernas mais longas para os homens! Que droga! Balanço a cabeça que não. — Qual o seu nome? Me finjo de doida e continuo andando o mais rápido que posso, sem olhar para trás. — Volte aqui ou vai se arrepender! Querido, eu vou me arrepender se eu voltar. Se eu fugir tenho pelo menos uma chance e é só disso que preciso para me livrar de você... Quando chego de volta na rua movimentada, me sinto mais segura. Mas infelizmente sou alcançada e sinto meu braço ser puxado com agressividade. É como se meu corpo parasse de funcionar, porque ele sabe o que vem a seguir. Fecho os olhos com força e respiro fundo. Será que eu nunca vou conseguir me livrar desse cara? Antes de abrir os olhos, sinto meu outro braço ser puxado. Ótimo, esse vai ser o meu momento Salomão, em que vão me partir ao meio... Mas esse puxão não é tão agressivo. A mão me segura até que... com carinho, mas firmeza. Abro os olhos e dou um salto. — Quem é você? — Blake pergunta para Chad. — Não estou aqui para caçar problemas, eu só... acho que conheço essa pessoa... — Chad até gagueja ao se dirigir a Blake. Para peitar uma mulher ele é valente demais, não é? Mas diante do Blake não só recuou, como me soltou. Mas Blake não me soltou. Lentamente me puxou em sua direção até ficar ao seu lado. — Qual o seu nome? — Chad me pergunta. — Eu vou perguntar só mais uma vez: quem é você? — Blake rosna. Nunca o vi olhar para alguém assim. Se eu achava que Chad era ameaçador, é porque eu nunca tinha visto esse homem olhar como o predador que é. — Chad Dawnson. E você? Blake dá um passo para frente, sua mão direita ainda me segura, e mesmo com toda a violência que tem nos olhos, não me sinto ameaçada, mas protegida. — Blake Gallagher. — Ah... eu sei quem você é... — Chad engole em seco. — E esse é o meu novo aprendiz. E se eu sonhar que você o está perseguindo, ouvir ou ver que se aproximou novamente dele, farei toda Nova York saber o seu nome. — Acho que eles já conhecem... — Nas páginas policiais — Blake reforça. — Certo, cara, eu não sabia que ele era aprendiz de alguém tão importante. Mas eu o conheço! Blake dá as costas para Chad e cobre a visão que tenho do meu agressor. Nossos olhos se encontram e ele permanece sério. — Ele te machucou? Faço que não com a cabeça. — Mas ele estava te perseguindo? Faço que sim com a cabeça. — Por que que agora ele ficou mudo? — Chad tenta se aproximar, mas Blake coloca a mão na frente e o afasta, para que fique longe da minha visão. — Você conhece esse homem? Balanço a cabeça da esquerda para a direita, indicando que não. — Ele não te conhece — Blake se vira para Chad. Dessa vez não vejo o seu olhar, mas sequer preciso. Vejo o pai do meu filho dar alguns passos para trás. Em todos esses anos, nunca o vi recuar, nem mesmo diante do pai. — Será que posso... — ele tenta espiar por cima do ombro do meu chefe e salvador, mas o cara é realmente grande, bem mais alto que Chad e com os ombros mais largos também. — Ouvir a voz dele? — Some da minha frente. Blake é tão assertivo que até eu quero sumir. Alguns segundos depois, quando o meu irritante chefe sai do caminho, vejo que Chad está bem distante, indo embora. — Obrigado. — Quem é esse cara? — Blake cruza os braços e me olha atentamente. Balanço os ombros. O que vou responder? “Ah, esse é o meu ex babaca que me agride e acaba comigo sempre quando quer. E que tirou o meu filho de mim”. Não... isso não seria apenas estranho, mas revelaria a minha verdadeira identidade. E não posso abrir mão dela. Pelo menos, depois desse momento, acho que vou me sentir ainda mais segura quando estiver disfarçada de Alisson. — Por que ele está te incomodando? — Ele deve ter alguns problemas emocionais... Vejo os olhos de Blake se aproximarem até que minha respiração fique entrecortada e eu precise esconder as mãos nos bolsos da calça. Meu coração bate tão forte, o cérebro mal consegue raciocinar coisas simples e não consigo tirar os olhos da boca dele agora. — Se essa pessoa se aproximar de você novamente, ligue para mim — ele estende a mão. — O que? — Me dê o seu celular. Que merda... é agora que ele vai descobrir... — Eu... eu esqueci? Blake tira o celular dele do bolso e me entrega. — Coloca o seu número aqui. — Eu... não sei de cabeça... desculpa, é um número novo... — Como eu vou te proteger se você dificulta as coisas? Essa frase mexeu comigo de formas diferentes. Primeiro, é claro, o fato dele dizer que quer me proteger... acabo sorrindo sem perceber e me sinto uma boba idiota por isso. Segundo que... Blake acabou de resumir quem eu sou... eu dificulto as coisas. Tudo em minha vida poderia ser mais simples, mas eu sempre pego o caminho mais difícil. Não é que eu tenha medo de me machucar... tenho verdadeiro desespero. Eu sei o que é ser agredida pela pessoa que dizia que te amaria acima de tudo e que cuidaria de você... e que um tempo depois destruiu sua vida, te impediu de seguir e para terminar de quebrar as minhas pernas, tomou o meu bem mais valioso: meu filho. Eu dificulto as coisas porque tenho medo de sofrer, me decepcionar e me machucar... Mas agora eu fico pensando: por que Blake é assim? Fechado, frio, arrogante, mandão, parece simplesmente não se importar... E logo em seguida aparece do nada para me proteger? Só faltou o cavalo branco, porque de resto, ele realmente surgiu como um príncipe para me livrar de mais um dia nas garras de Chad. E sou grata por isso. E ainda assim vou fuçar a vida desse homem até entender quem ele é, porque ele se tornou essa pessoa e quais irregularidades cometeu para que eu o destrua. — Toma. — O que é isso? — Papel e caneta. — Eu já disse... não lembro o meu número... — A sua primeira tarefa da lista de hoje era me acompanhar em uma reunião e anotar absolutamente tudo. — Ah... — acabo de entender o que ele está fazendo aqui. Ele veio me infernizar! — E já estamos atrasados vinte minutos — ele confere no relógio. Capítulo 10 Bella Hathaway O dia não foi um pesadelo como eu imaginava. Não sei se é porque eu estavainfluenciada pelo ato heroico do senhor Gallagher ou se foi porque ele agiu de um jeito mais leve comigo após tudo o que ocorreu. Anotei absolutamente tudo sobre a reunião, quando chegamos estavam abordando um tal evento de BDSM para o conselho, que com certeza deve ser “Banco do senhor milionário” ou algo do tipo. Depois fui comprar as gravatas, comprei o presente de casamento – e não esqueci do Nicolas, pedi algumas dicas ao Jacob quando pegamos o mesmo elevador – e trouxe o almoço do meu chefe na hora exata. Ele foi tão gentil que me permitiu ter até o fim de semana para arrumar sua biblioteca, contanto que trabalhasse sem parar! Olha que bacana que ele foi! A cada novo dia que eu chegava para trabalhar era como uma nova luta: não demorei para perceber que Blake levantou muralhas ao seu redor – e eu ainda precisava entender porque ele havia feito aquilo. Mas para o azar dele, sou uma pessoa expansiva. Por onde chego eu alegro o ambiente, faço a festa, mexo com todo mundo. No sexto dia de trabalho eu tomei coragem para tentar colocar um chapeuzinho de aniversário na cabeça dele. — Mas que droga é essa? — É o meu diaversário. — E o que diabos isso significa? — Que vou completar uma semana aqui! É praticamente um ano de vida! — assopro a língua de sogra e solto confetes pela sala dele. — Não tem bolo, mas tem cupcake, você gosta? Blake me olha com a cara amarrada, fecho os olhos na espera dele me puxar pelo colarinho – inclusive adoro – e me jogar para fora da sala dele – não gosto, poderia ser na cama. — Vou ficar com o cupcake — ele diz desconfiado. — É de chocolate amargo com toques de café, você vai adorar! — Você sabe que vai limpar toda essa bagunça, não sabe? — Eu chamo a galera da limpeza — digo descontraída. — Não. Você fez isso, você vai limpar — ele reforça. E se lambuza todo com o cupcake. E eu o assisto devorá-lo. Essa boca carnuda e gostosa se perdendo todo no chanti... — O que você está olhando? — Nada, chefinho, vou já para a biblioteca! — Não antes de limpar a minha sala — o homem rosna. Eu aprendi a lidar com o humor do Blake. Tudo bem que em quase 80% do tempo ele parece um Pitbull pronto para atacar, o mínimo levantar de sobrancelha já é prenúncio de que o homem vai fazer trovejar e cair um temporal. Mas também me surpreendi com os outros 20% que eram os momentos em que dava para perceber: Blake estava desconfortável, mas estava tentando se aproximar. Todas as pessoas que vieram trabalhar aqui tinham medo dele e isso se refletia em como ele as via. Já eu, não tenho medo dele. Um lado meu o deseja, outro lado o admira, e o meu maior lado sabe que preciso encontrar um podre na vida dele para tirar-lhe a chance de se tornar CEO da CS Gallagher. Mas está ficando impossível... — Certo, cheguei em documentos que mostram os investimentos do senhor Gallagher. Vamos ver... — Comento alto para Allen, que foi muito prestativo em me ajudar em alguns horários. — Melhor deixar separado, ele não disse que só queria Bolsa de Valores? — Mas está tudo misturado... — coço o queixo enquanto confiro a papelada. Pelo visto, o senhor Gallagher pagou a dívida estudantil de algumas pessoas... será que foi em troca da virgindade delas? Também vejo um papel bem desgastado que mostra uma doação para o Orfanato Santa Bárbara. — Meu Deus, ele come até as freiras? — Oi? — Nada, estou pensando alto. — Você falou “freiras”? — Allen estica o pescoço para ver e eu escondo o papel. — Você disse para separar e não para ficar bisbilhotando! — Devolvo o documento de registro financeiro à pilha dos que não pertencem à Bolsa de Valores. — Acho que acabamos por aqui. Isso estava uma verdadeira bagunça, trabalhamos bem! — Você passou pelo menos duas noites em claro aqui, o mérito é todo seu. Ai que garoto gentil! Vontade de apertar as bochechas dele! — Mas sem sua logística nada disso teria funcionado. Eu sou um péssimo secretário, pode falar. — Você está aprendendo, cara. Mas e aí, quer sair para beber? — Ah... não... talvez outro dia, vou entregar esses papeis para o senhor Gallagher e depois vou para casa, dormir. Eu preciso. — Dá para ver pelas suas olheiras. Certo, mas da próxima você não escapa! Jacob disse que não se conhece completamente alguém até que esteja bêbada. — Eu tenho um medo desse Jacob... — me despeço de Allen, que foi supergentil comigo desde o primeiro momento e coloco a pilha de meu interesse em cima da mesa. Será que eu deveria ligar para essas pessoas? E por que Blake doou um valor tão significativo para esse orfanato? Pego o celular e começo a fazer as minhas pesquisas. Busco por fotos que mostrem ele ou com os formandos ou no orfanato... como não tenho sucesso, busco o nome dos estudantes que ele pagou a dívida estudantil para ver onde trabalham e que conexão isso tem com a CS Gallagher ou com o Blake. E para a minha surpresa, todos eles estão empregados em grandes empresas. E se um somado a um é dois, eu tenho quase certeza de que eles podem ser espiões do Blake! Bingo! Temos aqui algo palpável: Como Destruir a Carreira de um CEO: Espionagem industrial. Será que é isso? Esse é o calcanhar de Aquiles dele? Mas e a filha? Como ninguém sabe sobre ela, não há nada na internet, nem em nenhum documento que tive acesso? — Parece outro lugar — ouço a voz do meu chefe atrás de mim. — Ah... senhor Gallagher... pensei que já tinha saído... — Passo tanto tempo aqui que se tornou minha casa — ele continua olhando ao redor. — O que é isso? — Ele vem até mim e observa os papeis. — Acho que recibos ou registros do senhor pagando dívidas estudantis e doando dinheiro para instituições filantrópicas... Ele meneia a cabeça positivamente. Tento estudar sua feição, não parece que haja coisa ilícita aqui ou que ele precise esconder. — O senhor pagou a faculdade de muita gente... — Esses devem ser do ano de... — ele abaixa para conferir. — 2021. — Se o senhor me permite... — Não permito. Ah, mas eu vou perguntar mesmo assim... — O que o senhor ganha pagando dívidas de estudantes? E desde tão cedo... o senhor tem contato com eles? — Na verdade, não. Não tenho contato. Estranho. — E por que faz isso? Pensei que o senhor fosse um investidor renomado e não um bilionário caridoso. — Você sempre pensa o pior de mim, Hathaway? — Bem... às vezes sim e às vezes sempre... — O que você pensa sobre mim, não me interessa — Blake me dá as costas. Que grosso... até quando esse cara acerta ele precisa ser um ignorante. — Mas se posso te dar uma informação valiosa — ele continua de costas e eu me viro para assisti-lo falar. — A vida não é tão linear quanto você pode imaginar. — O que isso quer dizer? — Hoje é você quem ajuda a velhinha a atravessar a rua... amanhã é ela quem te ajuda porque é mãe de um empresário que quer te vender um pedaço da empresa dele. E ela pode facilitar os acordos. Tá, ele ajuda pessoas para ter vantagens em troca, mas com o risco delas nunca acontecerem... — Sei que parece mais coerente investir em grandes empresas. Mas todos começam por baixo. Sem dinheiro para o aluguel, precisando alimentar os filhos, vendendo o carro para começar o próprio negócio... são as pessoas que constroem o mundo e ajudá-las a dar o próximo passo na vida, não é questão de investimento. Mas de consciência de que ela, no lugar dela, vai deixar o mundo melhor. — E o senhor fez sua parte. — Se todo mundo fizesse sua parte... — Blake ri com desdém. — Fez um bom trabalho, Hathaway. Não irei demiti-lo, por enquanto. — Nossa, muito obrigado, senhor. E ao invés de ir embora, ele dá meia volta e examina meu rosto a ponto de me deixar incomodada. Será que tem algo errado com a minha cara? De tanto coçar essa peruca ela ficou torta? — Aquela pessoa voltou a te incomodar? — Não senhor. — Já pensou em fazer algum tipo de denúncia formal? — Como se isso funcionasse... Blake anui devagar enquanto umedece os lábios e continua a me fitar daquele jeito analítico que me faz pensar que ele vai arrancar a minha peruca e gritar: Eu sabia! — Você tem o meunúmero — é tudo o que ele diz, me dá as costas e vai embora. Eu continuo a vasculhar nos documentos e na internet para pensar em algo incriminador, mas não há. Tudo foi legitimamente registrado. Só se ele tem algo no celular ou naqueles cadernos de couro preto que nunca me deixa chegar perto... Se eu encontrar algo lá que tenha a ver com essas bondosas doações, talvez me dê indício de algo. Por via das dúvidas tiro foto da maioria dos documentos, só para apresentar algo ao Kirk e vou embora. — Cacete! Nem notei que estava tão tarde! Pego um táxi até o trailer, me troco dentro do carro e isso já se tornou uma verdadeira rotina. Encontro Alisson e a minha tia. — Oi, pessoas bonitas! Onde está a mamãe? — Ela já foi para casa, agora somos só nós. — Precisam de ajuda? — Que ajuda, garota! Você deve ter trabalhado o dia inteiro! — Mas ainda tenho um pouco de energia e posso gastar aqui! — Isabella, sai da minha frente antes que eu passe barbecue na sua cara! Vai andar! Passear! Você só tem trabalhado, menina! E após o puxão de orelha, a minha tia volta a atender os clientes. E Alisson sai distribuindo o cardápio e chamando mais pessoas para comerem o melhor churrasco de Nova York. Quer saber? A minha tia está certa. Foi uma semana bem produtiva e eu mereço um passeio! Vou para casa e tomo um banho bem caprichado para tirar do meu corpo todo o cansaço e raiva do Blake, penso em cada momento que queria esganá-lo e ser eu a pessoa a puxá-lo pelo colarinho e jogá-lo... em cima de mim. Visto uma camisa branca e uma calça rasgada, coloco meus all stars surrados e uma jaqueta preta por cima. Deixo o cabelo solto e uso o secador e um reparador de pontas antes de sair de casa. Sei que a semana foi estressante e eu precisei me virar e aprender a ser essa nova pessoa... mas eu me sinto feliz e segura agora, por estar empregada, ter uma fonte de dinheiro e outra maior que está por vir. Como minha mãe não quis sair comigo, decidi que não ia mais ao cinema. Preferi caminhar, praticamente indo em direção à casa de Genevieve para surpreendê-la e chamá-la para sair. Mas como a minha vida é uma caixa de surpresas, nem me espanto tanto quando um carro preto para diante de mim. Será que vai perguntar onde é a Times Square? Um uber achando que sou sua passageira? Ou o psicopata do meu ex em meu rastro? Eu juro por Deus, não respondo por mim se for esse cara! O vidro desce devagar e consigo ouvir Bruno Mars, abro um sorriso a partir daí. Abaixo um pouco para conferir quem está dentro do carro e tiro o cabelo da frente para visualizar melhor. — Acho que me enganei — é o que o homem dentro do carro diz. Escoro na janela e olho dentro do automóvel: que carrão! Não sei nem o nome desse, mas olha, me sinto tentada a entrar só para sentir esses bancos acolchoados de couro me abraçando. — Se o senhor está perdido, indico o uso do gps. — Na verdade acabei de encontrar o que queria. Como esse maldito pode ficar tão bonito só com a camisa branca social? Parece ter sido cuidadosamente dobrada até o braço, o que realça seus músculos. E mordo o lábio ao vê-lo de óculos. Nunca o vi assim no escritório... — Que seria...? — Você — Blake faz um sinal para que eu me afaste e abre a porta. — Que cavalheiro — seguro na porta aberta e continuo de pé, fora do veículo. — Posso levá-la ao seu destino, senhorita Miller — ele olha para frente, a linguagem corporal praticamente diz que está pronto para partir, eu só preciso entrar. Quem disse que eu vou entrar? — Eu não tenho destino. Sou eu quem estou perdida, vagando por aí — enrolo o cabelo com a ponta dos dedos e os asseio para o lado direito. — Eu sou o seu destino, Isabella — ele sutilmente se vira para mim e estende a mão. — Entra. — Ah, você se lembra do meu nome... Eu juro, que conste nos autos, eu tentei ser mais forte que a tentação. Mas a forma como esse homem me encara, parece que vai acabar comigo. E é o que preciso para terminar o dia. — Lembro de coisas que a surpreenderiam. — Tipo a Primeira Guerra Mundial? Você lutou nela, não foi? Blake abaixa o rosto e ri. Pressiona o polegar e indicador nas pálpebras fechadas e depois, quando levanta o queixo para mim, encara-me num misto de seriedade e diversão. — Lembro de dizer que da próxima vez que nos encontrássemos, poderíamos sair. — Você também disse que não íamos conversar. E cá estamos nós, conversando. É exatamente como pensei. Sentar nesse banco é como ser abraçada pelos anjos, me sinto naquelas cadeiras de massagem chiquérrimas do shopping. — Ah... você se lembra. — Lembro de coisas que o surpreenderiam. — Ótimo. Vou te dar motivos para se lembrar dessa noite. Capítulo 11 Blake Gallagher — Eu reconheço esse lugar — Isabella quebra o silêncio. Não conversou comigo enquanto estávamos na garagem, tampouco no elevador. Mas agora que entramos em um dos meus muitos apartamentos, ela se sente mais confortável em conversar. — Você tem essa vista para a Times Square? — Ela corre até a varanda e fica boquiaberta. — Eu tenho as melhores vistas, para os melhores lugares. Dessa e de todas as grandes cidades do mundo, posso garantir — não penso muito e pego o melhor Bourbon, coloco no copo e me preparo para sorver a bebida. — Obrigada — antes que eu faça, Isabella vem bem sorrateira, arranca-a das minhas mãos e bebe. Faz uma careta, põe a língua para fora e me devolve o copo. — Quero mais disso — sua boca diz, mas sua cabeça faz que não. — Você é sempre assim? Espontânea? — Superexpansiva — ela observa a sala, principalmente a minha poltrona de couro, parece reconhecê-la, mesmo depois de tantos anos. — É que você nunca me viu deitada em uma cama, eu me esparramo toda... — Eu já te vi deitada em minha cama — retruco. A senhorita Miller faz uma pausa dramática, tira a garrafa da minha mão e dá uma golada generosa. — Então você sabe que me esparramo toda. — Devo ter alguma lembrança disso, acho — coço o queixo e a fito. Para quebrar o clima de tensão entre nós, ela coloca uma dose generosa no copo que me entregou. Ela tenta tirá-lo da minha mão, mas eu a puxo contra mim e a paraliso antes que faça. — Como anda o ramo de compras de virgindade? — Ela provoca. — Mal. Não existem tantas virgens hoje em dia... Ela aponta o dedo indicador para mim, coisa que raramente alguém tem coragem de fazer. — Por isso eu quero reconstituir a minha. E vender de novo. Posso ficar rica com isso... — Ah, faça e me informe. Posso dar um lance generoso... Sua respiração é mais ofegante agora, vem quente em meu rosto. Seus olhos são exatamente como ela: expansivos, cheios de vida e energia. E eu me sinto incomodado por estarmos tão próximos assim, esse é o meu limite. — Está tentado a me beijar? — Ela provoca. — Nem um pouco — mantenho-me sério. — Eu lembro das suas regras... não me toque... não se aproxime muito... não me beije... deixe-me guiá-la e ter o controle... nada mudou? — Sou um homem muito antiquado, senhorita Miller. Permaneço como era, mesmo depois de tanto tempo. Isso a incomoda? — Nem um pouco — ela sorri maliciosamente. — Tire suas roupas. — Com todo prazer. Bella Hathaway Com exceção dos móveis e cortinas, esse lugar não mudou nada. Posso conferir isso enquanto ando nua pelo corredor e assisto Blake vir em meu rastro, desabotoando lentamente a camisa branca de mangas longas, depois o cinto para folgar a calça. Quando chego ao quarto deparo-me com a maior cama que já vi na vida, bem maior que a anterior. Uma das paredes é coberta por um espelho impecavelmente limpo, assim como o teto, mas não tem ar de motel barato. Isso aqui é um palácio cinco estrelas, feito para ser o parque de diversões desse homem. E eu gosto disso. Sento-me na cama e o vejo vir de cueca boxer preta, um volume grande já demarcado. Ele abre o closet na parede contrária ao espelho, pega algumas coisas e vem em minha direção. Seu olhar predatório faz meu coração palpitar cada vez mais rápido. As minhas mãos suam e sinto meus pés baterem freneticamente contra o chão, como num tiquenervoso. — Você precisa mudar esse maldito hábito de entrar no carro de estranhos. Eu também não mudei, Blake. Só adquiri novas cicatrizes e problemas, mas permaneço a mesma, assim como você... — Algumas coisas não mudam. Ele fica diante de mim e empurra meus ombros para trás, fazendo-me esparramar na cama. De onde estou consigo vê-lo tirar a cueca e... não me lembrava de que era tão grande. O que é ótimo, eu estou faminta. E vou precisar de tudo o que ele tem. Blake passa um óleo com cheiro oriental na palma das mãos. Toca minhas pernas, depois sobe para as coxas, e assim fica de joelhos na cama. Sinto um calor me atingir, não apenas nos seios e pescoço, mas em minhas partes íntimas. Os dedos de Blake passeiam suavemente pelos meus lábios e apenas isso já é capaz de me arrancar alguns suspiros. O perfume que o óleo exala é inebriante e o calor dele quando sinto o meu chefe afundar um dedo em minha vagina deixa todo o meu corpo aceso, elétrico, pronto para ele. — Esse é muito melhor do que o primeiro — deixo o comentário escapar, lembrando-me do passado. — Tudo é muito melhor agora — ele responde friamente. Sobe até que nossos rostos se encontrem mais uma vez e estica o braço para alcançar a pequena cômoda ao lado da cama e tira de lá uma gravata azul marinho. Blake segura em minhas mãos com gentileza, passa a gravata por elas até firmar um nó e alcança a cabeceira da cama onde há um arco e faz dois nós ali. — Você leva a sério a questão de nunca te tocar. — Eu levo tudo a sério. Blake derrama algumas gotas do óleo em minha virilha e assiste ele deslizar e descer até entrar em mim. Enquanto isso vejo-me no espelho do teto, diferente da primeira vez, sinto-me mais confiante e confortável com minha nudez e corpo. E preciso ressaltar que Blake melhorou muito mais, coisa que eu pensei que seria impossível. O amadurecimento em seu rosto denota o homem poderoso que ele se tornou. E os braços torneados, o peitoral largo e o abdômen bem desenhado parecem ainda melhores agora. E no olhar de Blake está estampado o mais importante, a forma como ele me enxerga: como uma mulher. Não como uma garota que ele pode pegar e abusar. Não como alguém frágil que ele pode fazer o que quiser ignorando a minha própria vontade... nesse momento Blake e eu conversamos no silêncio coroado pelo batimento dos nossos corações e do pulsar de sangue em nossas veias. Nesse momento ele sabe, está em seu olhar: ele quer que eu seja dele. E eu quero que ele seja meu. Tento não fechar os olhos ao sentir dois dedos penetrarem em mim. — Relaxe — ele diz calmamente, tira-os de mim e os põe na boca, chupa lentamente e se curva diante do meu corpo. Volta a colocá-los, devagar, deliciosamente úmidos e quentes. — Eu estou relaxada e pronta — rebato. — Sei que está — ele se curva um pouco mais. — Mesmo assim quero te deixar ainda mais preparada. A língua dele passa por cima da minha vagina até chegar à virilha. O óleo parece aquecer, ou melhor, pegar fogo em mim. Sinto por reflexo uma vontade de fechar as pernas e apertá-las bem, e Blake se diverte com isso. Abre minha boceta e continua a me encarar, desliza a língua no sentido oposto que fez, mas dessa vez, dentro de mim. Seguro com firmeza na gravata e puxo a cabeceira da cama. — Você quer me fazer perder o juízo? — Posso apostar que você não tem juízo algum. Acertou. Não tenho mesmo. — Quando essa sensação vai amenizar? Sinto um formigamento nas pernas, meu corpo todo parece queimar. — Quando meu pau estiver em você — ele lambe mais profundamente, de baixo para cima, e suga meu clitóris com uma habilidade que nenhum outro homem já fez comigo. É oficial, tragam meu atestado de louca e coloquem a camisa de força. Meu corpo parece dormente e ao mesmo tempo não responde aos meus comandos... é como se eu estivesse quase anestesiada. Mas sinto as unhas dele subindo e descendo pela minha coxa... seus lábios grossos lambendo em movimentos circulares e depois chupando meus lábios com carinho... — Então o que você está esperando? Blake ri maliciosamente. Mesmo vendo-o entre minhas pernas, pela primeira vez na vida sinto vontade de puxá-lo em minha direção e beijá-lo. Ele tem cara de canalha, age como um cafajeste sem coração e tenta manter uma distância emocional entre nós. Mas ao mesmo tempo sinto que ele está se entregando como pode e ele sabe ser gentil e me deixar molhada, encharcada, o próprio dilúvio querendo inundar o mundo. — Estou esperando você implorar — ele se diverte. Meu anjo? Por favor, mete, soca o mais fundo que conseguir, me tira daqui em cadeira de rodas. Carinho eu quero da minha mãe, de você eu quero um atestado médico para faltar 15 dias ao trabalho por não poder caminhar. — Acaba comigo — aceno com a cabeça. — Você consegue melhor do que isso, senhorita Miller. — Eu quero você dentro de mim. A visão do pau dele me faz deitar as costas na cama e tentar relaxar um pouco. Isso não vai caber... Ou melhor, vai caber sim, temos a noite toda para colocar cada pedacinho disso dentro de mim. E sentir a glande contornando meus lábios e depois friccionando em meu clitóris obriga-me a contorcer-me na cama. Minhas sensações estão bem mais afloradas, cada pequeno movimento é sentido intensamente... o que tinha nesse óleo? — Por favor — eu peço. — Não sei se consigo te ouvir — ele provoca, posiciona as mãos ao lado dos meus ombros e em cima de mim, me olha com atenção. Que droga de homem! Eu poderia beijá-lo agora mesmo! Mas posso aceitar sentir seu pau dentro de mim, no lugar. — Eu quero você, por favor. Agora sou obrigada a fechar os olhos. A glande dele se afunda em mim e só isso já me deixa elétrica na cama. Seguro-me conforme posso na gravata e rezo para não arrancar a cabeceira com meus puxões, porque eu sei que vou puxar com muita força. — Era isso o que você queria? — Ele continua a me encarar, sério, como se nem estivesse sustentando o corpo com as duas mãos, ou enfiando esse pau grande e grosso em mim. — Ainda não é o que eu quero — desdenho de volta. — Não? — Ele ergue uma sobrancelha só. Como pode se manter tão pleno? E ao mesmo tempo colocar ainda mais dentro de mim, como se nada estivesse acontecendo? — O que você quer? — Eu quero você. Todo. Dentro de mim. — Só estou tentando ser gentil... Blake? Gentil? — Eu dispenso sua gentileza. Aceito ser fodida até esquecer o meu nome. Ele para. Parece que o peguei de surpresa ou o desarmei. Mas no segundo seguinte ele abaixa a sobrancelha e se recompõe na cama até ficar de joelhos, diante de mim. Sinto seu pau sair e fico quieta, observando-o, atenta. Eu disse algo errado? Levo o susto quando vejo-o vir para cima de mim, segurando minhas duas pernas e me empurrando contra a cabeceira da cama. Arfo com força e meu coração dispara, meu corpo todo se acende conforme sinto ele me penetrando com intensidade. Blake segura em minha cintura e me levanta até que eu sinta apenas a cabeça de novo e me deixa descer no meu próprio ritmo. Sinto seu nariz em meu rosto, sua respiração continua inalterada. Já eu, perdi o ar, perdi a consciência, perdi até a virgindade que eu queria repor. — Assim? — Ele me segura com firmeza. Suas mãos são fortes e sei que estou bem cuidada por elas. — Exatamente assim — forço-me a encará-lo no fundo dos olhos. — Não brinque comigo, senhorita Miller. Não brinque você comigo, Blake. Quando uma mulher começa a pegar fogo, até o diabo para pra assistir o que ela é capaz de fazer. E agora eu não estou apenas pegando fogo, eu sou o próprio inferno. — Eu pareço estar brincando com você? — Murmuro e o pressiono entre minhas coxas conforme desço e sinto seu pau vir bem fundo dentro de mim. Mantenho todas as forças que tenho para continuar a encará-lo com a mesma seriedade que ele faz, mas na verdade eu queria estar rolando na cama, me esparramando, delirando de prazer. Estou. Mas de um jeito diferente. A resposta do Blake é me penetrar com intensidade, sinto a pressão invadir meu corpo e até os pelos que não tenho se arrepiarem. Aforma séria com que vigia meu rosto me deixa ainda mais excitada, querendo mais dele. — Me solte. — Não vou fazer isso — ele garante. — Tem medo de que eu não siga suas regras? — Você parece um animal indomado. Acertou. É exatamente isso o que eu sou. — Confie em mim — peço. Blake rapidamente desamarra a gravata da cabeceira da cama e me tira daquela posição, deixando-me de quatro; ele mantém a firmeza com que segura o meu cabresto. Sinto-o vir por trás, seu pênis volta a roçar com intensidade entre meus lábios até encontrar minha passagem. Curvo-me para a frente e acabo deitando-me de bruços na cama enquanto sinto suas estocadas fortes quase me obrigarem a gritar. Mordo o travesseiro, afogo meu rosto nele, fico desesperada até quase perder o ar e depois respiro profundamente, sedada pelo prazer, olhando-me no espelho da parede: de quatro com a bunda empinada enquanto esse monumento de homem me fode. E ainda não o senti todo. Nunca o senti todo. Eu o quero por completo. Blake passa o braço esquerdo por debaixo dos meus peitos e obriga- me a subir. Repouso as costas contra seu peito e consigo sentir seu coração pulsando, como se estivesse dentro de mim. Seu suor acentua o cheiro do seu perfume, que com a mistura do meu, se torna imediatamente meu cheiro favorito. Ele também pode sentir o fervor com que meu coração dispara. É como se vibrasse por todo meu corpo e eu pudesse sentir os meus batimentos em meus dedos, em minhas pernas, em minha cabeça. Sensação essa que só é suprimida pela força do meu desejo e a sensação do tesão dele invadindo meu corpo, tomando-me e consumindo minha sanidade. Pensei por anos nessa sensação... é assim que ela é. E ela parece muito melhor agora do que nos meus sonhos. — Eu quero você — murmuro. A outra opção era gritar seu nome. E esse simples gesto já é o suficiente para sentir um pouco mais da força dele e de seu pau grande entrando em mim, ainda não todo. As estocadas aumentam em velocidade; sinto-o praticamente pulsar dentro de mim. Enquanto tento respirar e sinto-o massagear minhas costas com seu queixo e rosto e assisto o corpo musculoso me envolvendo e me fodendo no espelho, gozo. Uma sensação bem estranha que já não me lembrava há muito tempo. Até paro de respirar, olho para o vazio e me pergunto mentalmente o que acabou de acontecer? De onde saiu isso? Eu nunca senti... não assim... — Eu... tive um orgasmo... — comento alto. — Eu não vou parar — ele garante. Não é para parar mesmo, meu filho. Soca o mais forte e fundo que conseguir e tá tudo ótimo. — Quero te ver gozar. — Mas eu já gozei. — Fez sem minha permissão, por isso fará de novo. Meu Deus, dá para gozar duas vezes seguidas? Blake me gira na cama com uma habilidade que me impressiona, até parece que sou tão leve quanto uma pena. Com as costas nessa cama deliciosa e com ele em cima de mim novamente, sinto sua boca me sugar, chupar, seus dedos massagearem no lugar certo para que eu comece a me contorcer. — Acho que ainda vai demorar um pouco... — Relaxa, bebê, nós temos a noite toda. Capítulo 12 Bella Hathaway Como destruir uma pobre moça inocente: seja bruto, faça gostoso e não pare até ela gozar de novo. Mais de 23cm é um bônus importante a ser considerado... — Mas como ele te encontrou? — Genevieve está toda elétrica, quer que eu conte cada detalhe. — E eu sei lá?! Vai ver ele anda me espionando... — Amiga, acho que esse homem só quer te comer — analisa. — Tomara? Seria o meu maior sonho de princesa da Disney Barbie mil e uma noites de fodas? — E ele te levou ao mesmo lugar que comprou sua virgindade? — E me fez cumprir as mesmas regras... “não me beije, não me toque, você não vai sair daqui até estar toda babada, as pernas frouxas e pedindo para nunca mais voltar”. — Nossa, então não vai ter uma terceira vez? — Eu espero que sim — cruzo os dedos para dar sorte. — E ele te trouxe direto para cá? Cá estamos nós, Genevieve e eu, duas mulheres adultas confabulando na cozinha, enquanto beliscamos uns petiscos e bebemos um bom vinho de cinco dólares. — Você é doida? Nunca que eu ia dar o endereço da minha casa! — Ah, então o da minha é tranquilo? — Ele me fez uma proposta, Gê... Ela imediatamente se esquece das reclamações, deita os braços no balcão e repousa a cabeça em cima, tenho toda a sua atenção. — Ele vai pagar para reconstituir sua virgindade e comprar ela de novo? — Isso até que não é má ideia... — O quê? Me fala! Ele te contratou para destruir a vida de algum bilionário? Preciso rir com tamanha ironia do destino... se fosse isso eu realmente iria ficar chocada. — Para ser CEO do banco ele precisa se casar e escolheu você? Ergo a sobrancelha. — Amiga??? — As voltas que a vida dá, não é, menina? — Isabella? — Não é isso não, sua maluca! Pelo menos, não por agora... — “Não por agora” — ela respira fundo e se mostra mais apreensiva. — O que é então? Bem... por onde devo começar? Blake Gallagher — Que sorrisinho é esse, Blake? Jacob fita meu rosto por um ângulo, dá meia volta e vigia o outro lado. Permaneço sentado, indiferente e tomando meu café da manhã. — Não estou sorrindo — falo secamente. — Não? Pois eu acho que está. O que houve? Está animado com o quê? — É da sua conta, Jacob? — Ah, então tem algo aí... — Você está tão desocupado assim? Precisa de algumas tarefas para ocupar a sua mente? Jacob puxa a cadeira e a coloca ao meu lado, vira-a ao contrário e se senta, apoia os cotovelos nas costas da cadeira e me olha mais de perto. — Que merda é essa? — Conte-me o motivo da sua felicidade. O seu pai já fez o anúncio oficial? Você é, enfim, o todo poderoso da CS Gallagher? — O que te faz pensar que estou feliz? — Há um... brilho... nos seus olhos. Parece diferente do cara moribundo, sem coração e destruidor de vidas, que você é no cotidiano. Agora parece um cara moribundo, sem coração e destruidor de vidas, mas com uma luz no fim do túnel. — Deve ser a morte, então — bebo o café amargo. — Seu irmão desistiu de competir contigo pela presidência do banco? Encaro-o com profundo respeito, mas tentado a dar-lhe um tapa na nuca para que pare de me importunar. — É mulher. Esse olhar é olhar que envolve pernas, peitos, bunda e uma safada ordinária, que deve ser pior que você. Levanto a sobrancelha sutilmente. — É mulher — ele decide e fica ainda mais animado com essa possibilidade. Que droga. — Qual o nome dela, Blake? — Podemos falar sobre o banco? — Ah, para o inferno com o banco! Você deve ter uma vida sexual bem agitada, mas nunca te vi com esse olhar... não que me lembre. — Eu o chamei aqui para falar sobre o banco. — O que quer discutir? O que preciso fazer? — Preciso que sonde o Thompson e o Hart. O voto deles é muito importante. — Vamos esclarecer algumas coisas — Jacob engole em seco e une as mãos em cima do encosto da cadeira. — Quem escolherá o futuro CEO do banco é o seu pai, o conselho vai apenas florear, fazer parecer que tem voz, e ainda assim, eles vão votar em você. — Você acha mesmo, Jacob? — Se eu acho? Você é o cara mais promissor lá dentro, e olha que tem gente que trabalha na CS há... décadas. Você fechou os maiores contratos, você fez os melhores investimentos e embora seja essa figura enigmática que ninguém conhece bem, você tem o carisma capaz de deixar todos aqueles homens em suas mãos. — Na semana que vem o Franklin... — Para o inferno com o Franklin e a semana dele de BDSM! Todo ano ele faz essa merda. E todo ano todos nós vamos para foder umas vadias e fazer o que quisermos com elas. E aí? E daí? Franklin faz isso há... anos. E nunca foi o primeiro, nem segundo, nem terceiro na linha sucessória. — Mas agora... — volto a levantar a sobrancelha. — Tá, o Jackson conseguiu uma oportunidade boa na Bolsa de Valores. E o Knight foi trabalhar em um banco europeu num cargo ótimo. Essas coisas acontecem... Acontecem? Jacob não conhece o meu irmão. Não como eu. Franklin é capaz de tudo. E olha que ele nunca se interessou em ser CEO da CS Gallagher. Ele estáfazendo tudo isso por puro capricho, para competir comigo, para mostrar que pode ser maior do que eu. Essa tem sido a minha vida desde sempre: competir com ele. Ele quer, de todo jeito, provar algo. E por isso eu preciso levantar todos os muros para me proteger e proteger a minha filha. — Acha que ele tramou tudo isso? — Jacob parece ler meus pensamentos pelos meus olhos. Gesticulo que sim com a cabeça e volto a tomar meu café. — Quer que eu coloque alguém na cola dele, para vigiá-lo? — Não precisa. — O que acha que ele está armando contra você? — Franklin quer descobrir as minhas vulnerabilidades — levanto-me e assisto os criados limparem a mesa de imediato. — Ele está mais confiante do que nunca. — Acha que ele vai te vencer não por ser bom o bastante, mas manchando a sua imagem? Te tornando a pior opção? Como? Todos te idolatram! — Eu tenho metade da idade dos membros do conselho. E sou mais promissor do que todos eles juntos. — Porra! Exatamente! — Jacob concorda. — Exatamente — balanço a cabeça como se fosse o óbvio. — É isso o que eles querem? Serem passados para trás por... mim? — Me aproximo a ponto de só Jacob me ouvir. — O filho adotivo dos Gallagher? — O melhor filho dos Gallagher. — O que não tem o sangue deles. — Blake, o seu pai te adora. A sua mãe mataria e morreria por você! — Mas o Franklin quer me destruir. Ele não consegue aceitar que eu possa ser melhor do que ele a ponto de me tornar seu chefe. E, acredite, ele vai fazer a cabeça do conselho. E vai jogar contra mim. Por isso preciso que fique com seus olhos bem abertos e atento a qualquer sinal. — E eu já não estou? Ninguém é melhor em guardar segredos do que você e ninguém é melhor em descobrir do que eu. — Não faz mais do que o seu trabalho. — Qual é... eu limpo todas as suas barras desde que passei a ser seu aprendiz. Ninguém sonha ou sequer cogita que você tem uma filha... — E eu prefiro manter isso em segredo. — Eu sei. É o trabalho da minha vida, cara. — Não importa o que aconteça, Jacob, não quero a minha filha envolvida em nada disso. Ela já tem problemas demais, encarar um tio psicopata e uma sociedade que vive pelas aparências não precisam ser problemas para ela agora. — E a mãe dela, hein? — O que tem? — Não acha que vai ressurgir das cinzas? Ainda mais nesse momento em que você vai ser o cara do ano? — Só para me extorquir, pegar meu dinheiro e desaparecer — constato. — Ela nunca se interessou em vir atrás da filha depois daquele ocorrido? O mal de dar intimidade para as pessoas é essa: Jacob é obcecado em tentar entender o meu passado, como se assim pudesse me entender. Mas o passado ficou para trás por um motivo. Ele está enterrado e não serei eu a dar vazão para que ele venha à tona. E farei o possível e impossível para que esse momento da minha vida fique esquecido. Sou salvo pelo gongo. Ficamos em silêncio quando ouvimos passos pelo corredor. Jacob se agacha e abre bem os braços para receber a minha filha, que vem toda animada. — Tio Jacob! — Que saudade da minha princesa! — ele a aperta em seus braços. — Olha só para você! Como está linda nesse vestido azul! — Eu sei — ela se afasta para exibir o vestido. Depois vem para os meus braços e eu a pego no colo. — Está pronta para ir para a festa da sua amiguinha hoje? — Sim, papai! — E você vai se comportar, não vai? — Vou sim, papai! — Ela está crescendo e ficando independente. Agora vai até para festas sozinha... em breve vai sair de casa para ficar longe do velho pai. — Papai, nunca te abandonar, eu ficar aqui para sempre! — Para sempre? — Mostro como estou impressionado. — Eu ficar aqui você cansar de mim! — ela me afoga em seu abraço. — Meu amor, eu nunca vou me cansar de você. Eu sempre vou te amar e estar aqui para te apoiar e ser seu suporte — afago seus cabelos com cuidado para não os desarrumar. — Conheço umas centenas de pessoas que ficariam escandalizadas com essa cena... — Jacob debocha baixinho. — Você? Expressando carinho? Merece até capa no jornal. Empurro o rosto dele para longe, mesmo assim Jacob vem e beija a testa da minha filha, a pega em seu colo e a senta na cadeira. — Tome seu café da manhã, o tio vai te levar para a escola e depois para a festa de aniversário da Alice Evans! — Eba! — Rowan bate palmas e se senta para comer. E agora que a pequena vai comer, confiro se seus seguranças estão prontos e faço um aceno para que preparem o carro. Jacob me acompanha até a sala. — Como ela está? — Sentindo dores frequentes no coração. Falta de ar e está mais inquieta também... — Pensei que fosse demorar até esses sintomas se apresentarem. — Em boa parte dos casos, os problemas de coração em pessoas com Síndrome de Down só vêm após a adolescência... mas não é incomum que aconteça com crianças e até bebês. E no caso da minha filha, prefiro prevenir agora. — Então você já está certo da cirurgia? É por isso que anda mais tenso do que o normal? — É óbvio. O que mais seria? — Bom... — Jacob suspira, como se pudesse citar uma dezena de coisas. — Pensei que pudesse ser essa corrida presidencial, o seu novo secretário... ou essa mulher misteriosa. — Não existe nenhuma mulher misteriosa. — Ah, não? Então quem ela é? Qual o nome? Onde a conheceu? Vocês têm se encontrado muito? — Chega de perguntas. Só faça o seu trabalho e me informe se descobrir tudo. — Eu pronta — Rowan aparece na sala, um dos criados carrega sua mochila e ela traz nas mãos um prato com o café da manhã. — Mas você não terminou de comer — Jacob diz de bom humor. — Eu como carro. Vamos! — Ela aponta para Jacob sair. — Mandona igual ao pai... essa quando crescer vai ser um problema... — Jacob ri. — Eu disse: vamos! — Ela aponta para que ele saia. Ele ergue as mãos como se fosse pego fazendo algo indevido, me lança um último olhar e sai. — Já falei para não comer fora da mesa, Rowan. — Eu vim salvar, papai — ela sorri e aperta bem os olhos. — Tio Jake irrita, eu sei. Paro um instante para me abaixar e fitá-la de perto, conter o sorriso não é opção. — Eu cuido de você, você cuida de mim! — Ela fecha o punho e o lança em minha direção. E eu fecho o meu e bato de leve no dela. — Sempre, minha princesa. — Juntos somos mais! Matematicamente impecável. Seguro nas laterais do rosto de Rowan e beijo sua testa. — Não se esqueça: divirta-se muito! Sempre fale com seus tios e tias se acontecer alguma coisa, se você quiser ir ao banheiro ou ficar com dor de cabeça ou ficar sem ar... — Sim — ela balança a cabeça e continua comendo. — O papai vai te buscar mais tarde e vamos terminar de ler Peter Pan. — Isso! — Ela volta a acenar, fala de boca cheia. — O que o papai sempre diz? — Faça dia melhor dia sua vida! — diz animada e fecha o punho de novo. — Eu cuido de você, você cuida de mim! — Bato de leve na mãozinha dela com o meu punho fechado e beijo sua testa. — Manda um beijo para a Alice Evans, já mandei entregar o presente dela. — Sim, papai — Rowan diz e sai. — Ei? Não está esquecendo nada? Ela volta correndo e deixa o prato em minhas mãos, mas tira toda a comida e ou coloca na boca ou equilibra no braço que ela aperta contra o corpo. — Te amo, papai. — Eu te amo, pequena. Divirta-se! Capítulo 13 Bella Hathaway O carro para diante do banco e vejo uma ligação de Kirk. Me apresso porque não quero chegar atrasado – ou seja, cinquenta minutos antes do meu turno. Tenho chegado antes do Blake todos os dias e isso parece ter causado uma boa impressão. Não posso diminuir o ritmo agora, estou me esquivando dos motivos para que ele não me demita. — Olá, senhorita Hathaway. — Bom dia, senhor Kirk, como está? Saio toda destrambelhada do carro com duas sacolas nas mãos e três cafés superquentes em um suporte. — Você deu... — Dei — digo por reflexo. — Deu o quê? — Kirk pergunta interessado do outro lado da linha. — O que o senhor está perguntando? — Tento voltar para o início da conversa. — Você disse que deu, mas nem me ouviu terminar a pergunta. O que você deu, senhorita Hathaway? Meu filho eu sónão dei o buraco do umbigo porque né... — Exatamente o que o senhor vai perguntar. — Certo. Então você deu um jeito no Blake e nas tentativas dele de te tirar daí. — Exatamente. O que mais eu teria dado? — Paro para equilibrar tudo o que tenho em mãos. — Alguma novidade? Um furo de reportagem? Algum segredo exposto? — Ainda não, senhor Kirk. Esse homem parece uma muralha, não há nada sobre a vida íntima dele por aqui, mas continuo vasculhando. — Certo, me avise se... — Preciso desligar — encerro a ligação e coloco o celular no bolso do terno e corro pela minha vida. Acabei avistando o Blake no hall de entrada, ele estava rodeado por três homens que vi na reunião do conselho. E agora ele se dirige ao elevador. Assim que o meu chefe entra, todas as pessoas que estavam no elevador antes dele, saem e vão esperar o outro elevador. Tento correr o máximo que posso, mas permaneço ofegante, quando estou chegando perto, a porta está na contagem regressiva para fechar. — Segura! — grito desesperada, mas assisto a porta ir se fechando e fechando até que Blake some da minha vista. — Que desgraçado! — rosno. E todo mundo lá fora, esperando o elevador, me encara como se eu estivesse no meio do Vaticano gritando heresias. — O que foi? Esse cara é um sem alma e sem coração! — Não tenho nem o que pensar. Corro para as escadas e saio subindo degrau por degrau o mais rápido que posso, na torcida de que alguém pare o elevador no meio do caminho ou aconteça alguma coisa... No segundo andar eu percebo que cometi um erro com essa péssima ideia e pego um elevador lotado onde eu me sinto presa numa lata de sardinhas, equilibrando o suporte de café e me contorcendo para que ninguém amasse as coisas que eu trouxe. Ao chegar no andar do Blake, corro desvairada até a porta da sala dele e respiro só por um segundo ao notar que ele não está lá. No segundo seguinte ele abre a porta e aqui estou eu: suada, com um monte de coisas nas mãos e com um sorriso que diz: eu te mataria se pudesse. — Bom dia, chefinho! Que chefinho mais lindo! O melhor chefinho do mundo! — Dispenso as bajulações — ele passa por mim, deixando evidente que está desviando, como se eu fosse um acidente no meio do seu trajeto. — O seu café superquente e amargo como o senhor gosta — coloco o copo na mesa. — Já tomei o meu café. Pois vai tomar essa merda aqui nem que eu tenha que abrir essa sua boca e fazer você engolir tudo, seu cretino! Vou até a mesa dele e coloco todas as coisas que trouxe. Blake pisca os olhos bem devagar e afasta as mãos da mesa, absorto. — Olha só! Eu trouxe donnuts, sanduíche natural e até um suco detox — digo no melhor tom de animação que consigo. O detox, é claro, é para ver se dá uma limpada na alma desse homem para que ele fique mais gentil. — Por que você está todo suado, Hathaway? — Blake desvia o olhar das comidas que eu trouxe, como se estivesse contando mentalmente o tempo para que eu tirasse tudo dali. — Não consegui chegar a tempo no elevador e precisei subir as escadas. — E por que você está todo suado? Será que ele não me ouviu ou está fazendo graça? — Porque eu não consegui... — me disponho a repetir. — Condicionamento físico, já ouviu falar? — Ele só empurra com a mão tudo o que eu trouxe, abre sua pasta preta e pega um contrato que só de ver o valor minhas pernas tremem. — É que eu tenho pernas curtas, senhor. — Já vi gente com pernas menores correrem o dobro — ele levanta os olhos em minha direção como se estivesse fazendo uma gentileza por ainda estar conversando comigo. — Não faço ideia da última vez que você fez um exercício físico, mas é bom que comece a fazer de imediato, ou não vai conseguir me acompanhar. Olha, eu poderia dizer vários exercícios que andei fazendo... eu fiz recentemente agachamento na vara, quicada rápida e o meu preferido: deitada no travesseiro enquanto fico assada. — Coloca o taco de baseball para fora para ver se eu não te mostro como faz um touchdown. Céus! Eu não sei nem se uma coisa tem ligação com a outra. E Blake parece mais confuso do que nunca. — O quê? — Ele ergue a sobrancelha. — Oi. — Oi? — Tudo bom contigo? — Me aproximo dele e dou um beijo em cada lado do rosto, é claro, com uma distância segura para que ele não me pegue pelo colarinho e me jogue na parede, me chame de senhorita Miller e compre todas as virgindades que eu vou reconstituir. Inclusive quero. — E qual o problema com o seu terno? — O que tem o meu terno? — Você só tem esse terno? — Qual o problema de ter só um terno? — Agora sou eu que estou indignada. — Você trabalha para mim. Quando está a meu serviço, representa a minha imagem — Blake me olha dos pés à cabeça. E quando nossos olhos se encontram ele não precisa fazer gesto nenhum com a cabeça, é nítida sua desaprovação. — Senhor, eu não tenho dinheiro para... Blake abre a mão em minha direção para que eu fique quieta imediatamente. Tira o próprio cartão preto do bolso e coloca na mesa. — Suma daqui e me apareça com pelo menos um terno para cada dia da semana. — Uau... Mas e se... o senhor sabe... repentinamente o senhor surtar e me demitir? — Eu não surto. — Surta sim. — Hathaway, pegue o cartão e vá comprar um terno adequado. — Isso é atitude de gente surtada — era para eu murmurar, mas acabo falando por cima da voz dele. Estou pronta para fazer o “tudo bom contigo?” de novo e dar dois beijos distantes, mas dessa vez eu sei que Blake vai me jogar, e não é para fora de sua sala, é para fora do prédio. — A propósito, Hathaway, no caminho passe numa loja para comprar um vestido preto de látex. Deve encontrar uma máscara e palmatória no mesmo lugar. É a minha vez de levantar a sobrancelha, surpreso. — Tenho um evento importante na próxima semana — é tudo o que ele diz devido ao meu olhar de: o que está acontecendo? — O negócio do BDSM — penso alto. — Ela tem 1,65, um M deve servir para que ela não se sinta tão desconfortável... ela deve pesar uns 70kg. Setenta? Da próxima vez eu vou sentar nesse cara tão forte que é ele que vai ficar sem conseguir andar. — Na verdade, acho que você deveria comprar uma bota preta também — ele passa o dedo indicador no queixo e volta para os seus papeis. — Mas quanto ela calça? — 36 — o desgraçado diz com tanta certeza que nem pisca, o que me deixa chocada. E ele acertou. — Mais alguma coisa, senhor? — Cordas bem resistentes — ele continua a coçar o queixo, com a outra mão passa a caneta pelo documento. — Uma mordaça. Eu já falei palmatória? — Já. — Um chicote, então. — Tudo preto, imagino. — Você me sugere uma cor melhor, Hathaway? — Blake continua em seu tom indiferente, que na verdade parece bem divertido agora, mas ainda estou chocada. — Só isso? — E com certeza um daqueles plugs vibratórios com controle. Compre dois. Ou quatro — agora ele olha para a parede. Quatro? Quantos buracos ele acha que eu tenho? — É só isso — ele vira a cabeça mecanicamente para mim e me enxota com as mãos. Eu ando em sua direção, roubando sua atenção e paro diante da sua mesa. Chocada e sem ar só de imaginar o que esse homem vai fazer comigo. Onde eu estava com a cabeça quando aceitei sua proposta na noite passada? — Sim? — Ele pergunta suavemente. — Eu vou comer uma rosquinha, porque me deu fome — abro a caixinha com as mãos trêmulas e pego uma. Quer saber? Pego duas. Ou melhor, pego logo a caixa inteira e deixo uma rosquinha em cima da caixa de donuts para ele. — E isso é meu — pego o chocolate quente com chantilly que está ao lado do café amargo dele. — E, Hathaway? — Blake me chama assim que estou prestes a sair de sua sala. Toda vez que esse homem diz meu sobrenome eu já espero a bronca ou o pior, o momento do: eu descobri sua farsa, pode tirar a peruca. — Sim, senhor? — Me ligue se tiver aquele problema. Acabo sorrindo por dentro. Por fora continuo o assistente abismado e atônito que vai entrar em um sex shop ou sei lá Deus onde posso encontrar esse aparato religioso... para comprar essas coisas pesadas. — Sim, senhor. Blake Gallagher Após revisaralguns contratos importantes que precisam ser despachados com urgência, pego o celular e ligo para Isabella. — Alô? — Pelo tom, ela parece um tanto que confusa. — Olá, senhorita Miller. — Oh... se não é o misterioso investidor. — Ocupada? — Bem... eu estou na rua agora, precisei vir resolver umas coisas. — Quer que eu vá ajudá-la? — NÃO! — Ela diz de forma tão sonora que preciso afastar o celular do rosto enquanto me recupero do zunido agudo que fica em meu ouvido. — É que... bem... não quero incomodá-lo. — Não será incômodo. Diga-me onde está. — Tenho certeza de que o senhor tem um milhão de coisas mais importantes para fazer... — E dentre elas, selecionei ir te encontrar como prioridade — encaro o relógio. — Vou ficar devendo esse encontro, me desculpe. — Você parece nervosa, senhorita Miller. Tudo bem por aí? — Sim... quero dizer, tudo. Não estou nervosa... só estou... meu Deus, estou perdida... — consigo perceber que ela está ofegante. — Envio o vestido para a casa em que te deixei ontem? — Sim, claro, sem problemas! Mas... você não me perguntou o tamanho do vestido. — Está insinuando que eu não conheço o seu corpo? Ela fica muda por tempo o suficiente para me divertir e fazer girar na cadeira. — É que... não sei... talvez você compre um tamanho errado... — É látex, senhorita Miller. Não se preocupe eu vou fazer caber, nem que eu mesmo precise te lambuzar de óleo e te enfiar dentro do maldito vestido, só para te foder e depois arrancar ele de você e te foder de novo — rosno, já sem paciência. — Ah, então está ótimo. Ainda bem que ela sabe que se não for do meu jeito, não vai ter outro jeito. Ficamos os dois em silêncio, eu consigo ouvir sua respiração falhando, parece que ela realmente está ocupada ou perdida em algum lugar. — Tem certeza que não quer que eu... — Não, eu estou bem — ela garante. — Eu não terminei de fazer a pergunta. — Sou muito ansiosa. Pode fazer a sua pergunta. — Tem certeza de que não quer que eu escolha outra pessoa? Se você não se sentir tão à vontade... — Não, tudo bem, eu faço esse sacrifício por você. O tom de ironia dela me diverte. Já devo ter girado umas cinco vezes nessa cadeira enquanto seguro a risada, e sequer lembro qual foi a última vez – se houve alguma vez – que fiz isso. — Tem algo importante para fazer na sexta à noite, senhorita Miller? — Não, por quê? — Ela continua ofegante. — Magnum Imperium, às 20h. Posso mandar um carro te buscar. — Isso é um convite para um jantar? — Isabella ri. — Como vou jantar com um homem que sequer sei o nome? — Eu te conto o meu nome lá. — Promete? Essa eu quero pagar para ver. Eu só vou para descobrir seu nome! — A sua curiosidade é a sua pior inimiga e minha maior aliada, senhorita Miller. Isabella continua rindo e depois volto a ouvir só a sua respiração. Não sei... gosto disso. De ouvi-la respirar. É tão bom quanto vê-la sem ar, ofegante e quase implorando por mais. — Você pode me chamar de Isabella. — Eu prefiro senhorita Miller. — Isso te dá a sensação de distância emocional? — Você tem o péssimo hábito de me responder, senhorita Miller. A última palavra sempre é a minha. — Então temos um impasse. Porque a última palavra sempre é a minha — ela garante. — Ou você não se lembra que fui eu que fui até você e disse: vim vender a minha virgindade. E não foi uma pergunta, foi uma afirmação. Eu sou esse tipo de mulher. — Eu me lembro muito bem. — Isso te assusta? — Pelo contrário, senhorita Miller. Isso me deixa instigado a ser um pouco mais duro e incisivo, para que você se lembre que a última palavra é a minha. Ela ri bem alto. — Magnum Imperium, 20h, pode deixar que eu dou o meu jeito de chegar lá. — Vai ser a sua única oportunidade de ter algumas respostas sobre mim. E desligo o celular. Capítulo 14 Bella Hathaway Pensei que ia gastar muito tempo com esse negócio de ver os ternos, mas na verdade o Blake já havia pré-selecionado os modelos e cores que eu deveria comprar, só descobri isso quando cheguei na loja. Na loja de produtos eróticos foi praticamente a mesma coisa. Mas como dessa vez eu estava acompanhada da Gê, que tirou um tempinho do trabalho para me acompanhar, agora eu tinha tempo para confabular. — Era ele no telefone? — Ela pergunta. Aceno positivamente e fico mais impressionada com a arquitetura da loja do que com os produtos em si. — Não dá para chamar isso de sex shop... — Porque não é um sex shop — Genevieve se diverte. — É o “palácio do prazer” — diz o nome da loja com toda pompa e elegância que uma piroca de quase um metro de altura merece — Gente o que é isso? — Genevieve para diante do caralhão. — Um aparelho moderno para fazer colonoscopia, eu acho — meço o negócio com meus dois braços. — Nossa, eu adoraria dormir abraçada com isso... — Vamos logo, sua maluca! — Genevieve me afasta do consolo gigantesco que ainda não descobri se é de verdade ou só enfeite. O Palácio do Prazer tem uma arquitetura interessante. Por fora lembra bem o estilo clássico dos prédios antigos de Nova York em sua fachada, mas por dentro não poderia ser mais contemporâneo: vidro e concreto, estantes minimalistas com os produtos bem destacados. Passamos pela sessão de pênis de borracha, cintos de castidade, juro que vi até uma gaiola por ali... — Posso ajudar? — Uma moça de óculos, bem cara de nerd, aparece em nossa frente. — Só estamos dando uma olhada — digo no modo automático. Genevieve rapidamente tira a lista da minha mão. — Viemos às compras, bebê. Vamos ver: palmatória, chicote, cordas, vestido de látex, plugs com vibração e me vê o preço daquele caralhão ali na frente — ela passa a mão pela nuca. — É de presente para uma amiga nossa. — Posso ver a lista? — Lisa, vejo o nome dela no crachá, pede gentilmente e Genevieve lhe entrega. — Hum, certo, fui avisada que vocês viriam e já estou com a encomenda pronta. Só um instante. Ela nos dá as costas e entra na área restrita da loja. — Esse cara tem fixação por controle mesmo, hein. Tudo está no comando dele. — E você ainda tinha dúvidas? — Mostro meu semblante de “isso já não estava óbvio, meu anjo?” — Tá, me conta o que você descobriu do cara e por quantas anda essa sua matéria bombástica para acabar com a carreira do CEO bilionário. — O que eu sei: o irmão dele, o cara que me contratou, quer ser o CEO do banco, mas não tem prestígio, talento ou um bom currículo para isso. Ele quer vencer puxando o tapete. — Que americano... — Genevieve balança os ombros e fica encarando as correntes que saem do teto e suspendem uma boneca. — O Blake é bem fechado. Durão, ignorante, de pouca conversa. Mas quer saber? Ele até que é gente boa... quero dizer... altruísta. Além de investidor o cara faz bastante caridade. Encontrei uma lista de dívidas estudantis que o cara pagou e era quase cem, em um ano! — Quase um santo... — Ou ele está escondendo algo podre ou o irmão dele quer jogar sujo. Mas é aquilo: eu fui contratada pelo irmão dele, então vou fazer o serviço. — Mesmo ele sendo altruísta? — Genevieve me provoca. — “Ele até é gente boa” — ela me parafraseia, quase no meu tom. — Santa Mãe de Deus, o que é isso? — Ela pega um pequeno aparelho com um bico, parece algo elétrico. — Acho que é... pra dar choque na vagina — é o que consigo concluir do que leio no rótulo. Gê imediatamente joga o aparelho de volta. — Minha vagina já é louca o suficiente, se ela leva um choque, coitada, aí que ela fica maluca de vez — ela imediatamente sai dali e vai pra sessões de óleos, perfumes e bebidas. — E como chefe? Como ele é? — Um grosso. Mandão. Exigente. Estou chegando uma hora antes do trabalho só para não ser demitida. — Isso bem que pode dar uma chamada sobre processo trabalhista... mas ao que entendi, o Kirk quer algo de nível pessoal. — Pois é. — E qual o seu plano? Não acha que se ficar muito tempo fingindo ser o assistente dele, ele não vai perceber? — Já pensei nisso... preciso agir rápido mesmo... — E mais nada? Aliás, para quê esse homem quer chicote e mordaça? Cordas? — O Franklin sempreoferece uma noite sem regras e sem limites que ele chama de Bacanalia. Ele oferece essa festa para os chefões de Nova York, principalmente os da CS Gallagher. — Então você vai dar pro Franklin? — Não — me arrepio só de pensar. Um Chad já é o suficiente na minha vida, não preciso de um Franklin. — Blake me convidou para que eu lhe faça companhia. — Companhia?! — Companhia em uma festa chamada Bacanalia que reúne os poderosos de Nova York e que tem como plano de fundo BDSM? — Bora Dar & Sentar nos Milionários — pisco os olhos com doçura enquanto encaro Genevieve. — Falando em dar e sentar nos milionários... — Genevieve pega dois frascos de um óleo estimulante. — Quais você acha que são as intenções do Blake para com você? — Bora Dominar & Saciar essa Mulher — continuo a piscar meus olhos. — Ai amiga, sei lá quais as intenções dele. Só sei que se ele só quiser me comer, está ótimo. — Aham. — Ele é habilidoso. Me deixa excitada. E com calafrios... um pouco apavorada, devo admitir. Mas eu sou americana e por isso, corajosa. Uma rola de 25cm? Vou encarar. — O que é a Guerra de Secessão e Guerra da Independência comparado a uma rola de 25? — Nada. Se sobrevivemos ao atentado terrorista em 2001... — Inclusive, é um ótimo número da sorte, 25. — Cabe direitinho, menina, meu tamanho — preciso até folgar a gravata porque já me sobe um fogo só de comentar. — E pelo que você disse... é grosso... o que conta pontos. — Só não vibra, infelizmente. — O quê que não vibra? — Genevieve pergunta chocada. — O pau. Imagina aquele negócio vibrando dentro de mim... — Ai amiga, mas aí você quer demais, não é, gatinha? É grande. É grosso. “Pena que não vibra”. Minha filha, com um brinquedo desse a minha vagina finge que tem Parkinson e começa a tremer sozinha e já fica tudo ótimo. Mesmo com o retorno de Lisa, eu não consigo parar de rir. Me apoio no ombro de Genevieve e me divirto tanto que no fim preciso ajeitar a peruca na cabeça; minha amiga me abana e limpa a minha testa com um lenço. — A sua encomenda, senhor — Lisa nos convida para ir até o balcão. Lá conferimos cada coisa. — Uau, olha essa palmatória — Genevieve vai logo nela e de imediato bate em meu braço. — Au! — Digo mais pelo susto do que pela dor. — Me dá isso! Esse homem vai comer o meu cu se imaginar que foi usado antes dele — tomo o instrumento da mão dela. — Que delícia — Genevieve murmura enquanto mexe as sobrancelhas. — Mordaça... Nem imagino para que alguém precisaria disso... — Ficar com a cara espremida no travesseiro enquanto grita não é divertido — rebato. Lisa nos encara, não tão chocada, mas ainda assim fico um pouco constrangida. — Eu não sou gay — tento explicar. — O meu chefe não me come. — Come sim — Genevieve pega no braço dela e diz em tom de fofoca. — Mais essa agora... o que ela vai achar? Quer acabar com a reputação do meu chefe? — Eu acho que é justamente o que você deveria fazer — Ela me traz de volta à realidade, sem me dar um tapa na cara, o que já acho promissor. — Tá, eu sou gay — explico pra Lisa. — O chefe dele como ele. Bastante. — Tipo, gayzaço, nossa, eu sou muito gay. E sou eu que como o meu chefe — olho pra Genevieve. — Por isso estamos interessados naquele caralhão lá na frente, parece do tamanho adequado do que o chefe dele gosta. Lisa continua menos chocada do que esperamos, só ergue uma sobrancelha e continua a acompanhar nossa conversa. — E ele gosta de se vestir de mulher. — Com vestido de látex — Genevieve joga no ar. Lisa pisca os cílios grandes devagar e conserta o óculos quadrado no rosto. — Ok — ela diz. — São sete mil dólares, e o plug com vibração foi enviado para a joalheria. — Joalheria? — Encaro ela e depois Genevieve. — Isso. Tem um endereço também para a entrega. E... é só — Lisa diz satisfeita e eu lhe entrego o cartão black. Ela vai buscar a maquininha. — Acho que essa é uma forma eficiente para destruir seu chefe: fazendo fofoca e deixando espalhar. — Mas aí é calúnia e difamação, não é, meu anjo? E não jornalismo. E eu sou jornalista. Fui contratada para fazer o meu papel. — Só estou te dando uma saída, Isabella. Se você não encontrar a manchete que vai destruir esse homem, invente. — Não é assim que funciona, advogada do diabo — a repreendo. — Desculpa, esse é o meu trabalho — ela balança os ombros. — Só é mentira até uma pessoa acreditar, depois passa a ser verdade. Discordo plenamente, mas não discutirei sobre. — E nada? Você não descobriu mais nada desse homem? Bem... sim... há uma coisa. A menina com vestido de bailarina que encontrei recentemente. Não posso estar enganada, tenho quase certeza que a ouvi chamar Blake de “papai”. Mas quer saber? Não. Eu não vou envolver uma criança nisso. Eu sei o que é expor e colocar uma criança em situação de risco e não farei isso, nem mesmo para destruir o Blake. Eu tenho princípios e continuarei com eles. Tudo bem bagunçar a vida do cara... mas bagunçar a vida de uma criança? Ainda mais aquela que parecia ser tão incrível? — Mais nada. — Só não se esqueça de que você está nessa por você e por seu filho, Isabella. — E você acha que eu me esqueci? — O que eu quero dizer é: eu concordo e apoio que você se divirta com esse homem e com quantos mais você quiser. Mas não se esqueça do seu objetivo, do porque se meteu nessa enrascada. — Acredite, Gê, eu mais do que ninguém sei muito bem porque me meti nessa encruzilhada. Ela acena de modo positivo. — E não se preocupe, Blake precisa de muito mais do que um pau bonito, grande e grosso para me fazer perder o foco. Vou cavar até descobrir o pior dele e quando a bomba explodir ele sequer vai saber de onde veio e quem o atingiu. — Era exatamente isso o que eu queria ouvir. — E quando ele descobrir... eu já estarei longe daqui, com o meu filho, são e salvo. — Essa é a minha garota! Blake Gallagher Vanessa Bynes abre um sorriso fino de canto quando me vê chegar. Seus óculos de sol praticamente cobrem seu rosto, de tão grandes. Não fosse isso, seu chapéu branco já faz o trabalho de cobrir o topo da cabeça e testa. Dessa vez ela usa um terno branco e um vestido da mesma cor, bem justos em seu corpo. Ostenta as pulseiras e colar dourado, puxa a bolsa preta de mão cravejada em joias e segura em minha mão quando eu coloco o dinheiro na mesa e me preparo para sair. — Por que a pressa? — Ela ainda usa essa voz. Um quê de sedução e mistério. Foi assim que me conquistou, muitos anos atrás. Mas agora não há mais nenhum encanto. — Sou um homem ocupado. — Sente-se, Blake — ela me convida. — Não tenho tempo para você — torno a mostrar que vou me afastar, mas ela segura firme em meu pulso e nesse movimento acaba se levantando. Chama a atenção de todos no fino restaurante do hotel 5 estrelas em que está. — Você não tem outra viagem para fazer? Ou coisas para comprar? — A provoco. Vanessa ri e conforme se senta, me puxa consigo. Para não chamar mais atenção do que já fizemos, acabo me aproximando da mesa novamente e apenas isso. Me nego a sentar. — Como está a nossa filha? — A minha filha, você quis dizer — rosno. — Ela saiu de mim, Blake — Vanessa ri e pega sua taça de champanhe para beber. — Você não pode ter o controle disso. Ela é minha filha também e nada do que você diga pode negar. — Você deixou de ser a mãe dela há muito tempo, Vanessa. — Oh, Blake... — Por que você só não pega a porra do dinheiro e desaparece? É o que tem feito muito bem todos esses anos. — Eu não quero, Blake. — Não quer? — Eu sou outra mulher agora. Não vou mais aceitar seu dinheiro e suas ameaças. Sou outra pessoa agora. E quero muito mais do que seu dinheiro. Essa situação é completamente nova para mim. Mostro minha surpresa e finjo só por um segundo que estou interessado em ouvir o que ela tem a me dizer. — Eu quero você. E a minha filha. Eu quero a minha família de volta. Encaro o relógio no pulso. — É muito cedo para estar bêbada, Vanessa. Mas como eu não tenho nada a ver com a sua vida, desejo que aproveite. — Não estou pedindo a sua permissão,Blake — Vanessa torna a dar um gole no champanhe. — Você sabe que tenho tudo o que quero. Já não te provei isso? Vanessa pega os cem mil dólares em dinheiro vivo e balança, como se isso fosse prova de alguma coisa. Coloca tudo na bolsa e sorri como se tivesse vencido a batalha. — Você não quer uma pedra em seu sapato. Não agora, no momento mais importante de toda a sua carreira... o momento de substituir o papai... Só não reviro os olhos porque até isso é expressão de sentimento. E essa mulher não merece mais nada, além da minha indiferença. — Estar casado, estável, com uma família feliz, ajuda bastante, sabia? E como você tem sido generoso comigo, eu decidi que quero ser generosa com você. Chegou a hora, Blake. Deixe-me devolver tudo o que você fez por mim e... Me abaixo lentamente, seguro com as duas mãos na mesa. Encaro-a no fundo dos olhos, mesmo com seus óculos gigantes tentando escondê-los. — Fique longe da minha filha. — Não torne esse momento difícil, Blake... — Não foi uma pergunta, por isso não precisa de uma resposta. Vanessa engole em seco. — Você foi avisada — é tudo o que digo e me retiro. Capítulo 15 Bella Hathaway Passei o dia inteiro correndo para lá e para cá feito uma barata tonta, obedecendo as ordens do Blake: faça isso, vá em tal lugar, entregue isso a tal pessoa... Parece que ele gosta mesmo de me ocupar, deve ser para me manter o mais longe possível dele. É aquilo: pode me chamar de irritante, mas não de incompetente. E se ele está buscando um deslize meu, só tenho uma coisa a dizer: ele que espere sentado! Blake já deve ter tido mil assistentes, nenhuma como eu. Quando me proponho a fazer algo, eu faço de verdade. E ainda tenho tempo para pesquisar sobre a vida dele para encontrar o material que tanto preciso para bagunçar sua vida. Mas até que tem sido bom trabalhar aqui... estou ganhando dinheiro de duas fontes diferentes: Kirk e o Blake. Posso continuar assim tranquilamente, só tenho olhos para o prêmio, que em breve vai chegar. Paro subitamente de andar quando percebo algo curioso no hall do banco: uma menina de vestido azul, andando distraidamente e sempre olhando para cima, como se estivesse procurando alguém. Me aproximo de mansinho e paro para observá-la. Tenho quase certeza que é a filha do Blake. Ela segura nas laterais do vestido azul, mostrando os sapatinhos pretos tão fofos e a meia calça branca. Ninguém parece se importar com ela, nem lhe dão atenção. Também... nesse lugar ninguém presta atenção em nada. No geral eu sempre soube que a vida dos adultos era isso: uma corrida contra o tempo. Mas aqui na CS Gallagher todos levam a sério o jargão “tempo é dinheiro”. Então a menos que você tenha dinheiro a oferecer, ninguém tem tempo para você. — Oi — aceno para ela quando me agacho. Vejo-a dar alguns passos para trás. Em seguida ela solta o vestido e coloca o dedinho na boca, semicerra os olhos e dá uns passos para frente. — Você precisa de ajuda, bebê? — digo num tom carinhoso e a chamo com as mãos. Ela faz um aceno negativo com a cabeça. — Onde estão os seus pais? — Continuo parada para não a assustar. Rowan – acho que esse é o nome dela – levanta os ombros e abaixa. Se aproxima devagarinho, sempre encarando meus olhos. Quando menos percebo, cá está ela, diante de mim. — Eu te conheço? — Ela continua com o dedinho na boca. — Não..., mas você precisa de ajuda? — Não, vou virar sozinha. — Que menina autônoma! — Sorrio, apoio o cotovelo no joelho e o queixo no punho fechado enquanto a encaro. — Automóvel. — Autônoma. — Autônoma, tio? — Independente. Que sabe se virar sozinha — explico. — Sou eu — ela aponta para si. — Com quem você veio, meu amor? Ela se balança de um jeito dengoso para lá e para cá. Me surpreendo ao perceber que Rowan é comunicativa, algumas palavras saem com dificuldade, até mesmo por causa da idade, mas é notório também que ela tem um quê do gênio forte do pai. — Você é muito bonita! — Obrigada — ela sorri. — Bonito você tio, sou maravilhosa — ela continua se balançando. — E cheia de autoestima! Quem te ensinou a falar assim? — Meu papai. — E onde está o seu papai? Ela volta a se balançar em silêncio, já entendi que não vai me contar nada sobre isso e vou respeitar. — Você está com fome? — Tio, fazer xixi. — Ah... — olho de um lado para o outro. Não sei se devo procurar o Blake ou eu mesma devo levá-la. Nunca vi essa garotinha aqui, aliás, a própria Alexa que sabe tudo sobre a vida do Blake me disse que não sabia – e não era da minha conta – se Blake tinha filhos. Então o que ela está fazendo aqui? — Tio, me conhece? — Vem comigo que eu te levo ao banheiro — estendo a mão. — Você cabelo engraçado — ela segura minha mão. Pronto, só faltava essa, além do Blake zoando comigo, agora a filha dele vai fazer isso também... Levo Rowan ao banheiro feminino e explico direitinho a ela como deve fazer, do mesmo jeito que ensinei meu filho. Só que no caso dela, ela precisa tomar cuidado com o vestido e precisa ter certeza que o vaso está limpo, por isso eu o cubro de papel higiênico. E como estou vestida de homem, prefiro deixar que ela se vire sozinha, Rowan parece muito inteligente. — Acabei, tio! — Pronto, você já se limpou? — Limpou. — Vem lavar as mãozinhas — chamo ela. Suspendo Rowan diante da pia para que ela lave as mãos e depois as seque no aparelho automático de ar e saímos do banheiro. — Você está tão bonita... — Maravilhosa — ela me corrige. — Maravilhosa mesmo. Para onde que você foi assim, toda maravilhosa? — Na festa minha amiga. Rowan segura em minha mão e fica o tempo todo olhando para mim, lá de baixo. Às vezes até tropeça ou se desequilibra, porque ela não olha pra frente e pros lados, só pra mim. — Eu lembrava você diferente. — Como assim lembrava de mim de um jeito diferente? Nós nunca nos vimos... — Vimos. — Será? Você deve estar me confundindo com outra pessoa... — Hum — só por ter falado isso já deu pra perceber que não consegui enganar essa criança. Entramos no elevador e quando ele para no quinto andar, três homens entram. Entre eles, Blake. Que se tivesse uma metralhadora em mãos, não sobraria vestígio do meu corpo. Mas ele não diz nada, porque está acompanhado dos outros homens. — Não me recordava que permitiam crianças aqui — o mais velho chia. — Não permitem — Blake deixa claro e está estampado em seus olhos que é hoje que ele arranca a pele do meu corpo. — Sim, Thompson, eu já tenho toda a documentação pronta. — Se estiver antes da sexta em minha mesa, eu assino — o velho senhor garante. Eles continuam o papo importante sobre as questões da empresa, nada relevante. Rowan e eu ficamos atrás, quase grudadas no espelho e Blake e os dois senhores ficam na frente. Meu coração quase explode quando vejo ele mover a mão para trás e Rowan segurar. Dá para ver o brilho nos olhos dela, a felicidade de estar ali com o pai, mesmo que não diga nada. Ela não me disse nada sobre ele quando nos encontramos e também não gritou “papai” quando o viu entrar. Permaneceu quietinha, segurando minha mão com firmeza, e agora está segurando a minha e a dele. E sorrindo para mim, toda feliz. — O seu pai concorda com isso? — O Thompson questiona Blake. — Não concorda. Mas ele aceita a minha decisão e isso é tudo — meu chefe é firme. Quando o elevador para no térreo e todos nós saímos, Rowan e eu de forma mais tímida, os senhores que acompanham Blake fazem uma pausa dramática. — Você não vem? — Preciso buscar uma coisa em meu escritório. Na verdade, temo em ter de recusar o jantar, vamos remarcar essa conversa. — Mas Blake...? — É realmente importante — ele reforça num tom que o faz parecer menos autoritário. E que está pronto para cometer uma chacina. E eu aqui só engulo em seco e já estou agarrada na menina e no meu anjo da guarda, porque se eu não rodar dessa vez, é o mundo que vai rodar e eu vou ficar parada. Após expressões de que não estão entendendo nada, os dois homens saem andando lentamente e discutindo algum assunto, ainda são paradospor outros dois mais à frente e depois seguem seu caminho. — Você tem dez segundos para se explicar — Blake rosna e me encara como se eu fosse o centro das atenções. — É... eu... que... o... a... não... bem... não... é... nada... disso... eu... posso... explicar. Na verdade, não posso. — Xixi, papai — Rowan balança a mão dele. — Onde está o seu abençoado tio Jacob? — Blake vasculha o lugar inteiro com o olhar de águia. — Não sei — Rowan abre as duas mãos para mostrar que não sabe mesmo. — Você precisa fazer xixi agora? — Ela já fez. Eu acabei de levá-la, é isso. — E onde você a encontrou? — Bem aqui, estava perdida, andando ali — mostro com o indicador. — Eu vou matar aquele desmiolado... — Blake rosna. — Quem é ela, chefe? — pergunto para testar a minha intimidade com Blake. Será que ele vai me contar a verdade? — É da sua conta, Hathaway? — Bom... — umedeço os lábios — A criança acabou de te chamar de “papai” — murmuro. O olhar de Blake parece que me atravessa. Me olha com tanto ódio que vai se dissolvendo até se transformar numa profunda indiferença que eu fico até sem respirar. — Pegue as suas coisas. E saia da minha empresa. — Mas, senhor, eu... — Hathaway — Blake se aproxima de um jeito bem feroz. A porta do elevador se abre atrás de nós e lá vem Alexa, toda pomposa e rebolativa, agora que viu o chefe está até sorridente. — Pensei que já tivesse ido, senhor. Algum problema? — Não. — Eu estou liberada? Posso ir? O senhor ainda precisa de mim? É impressão minha ou ela está meio que se insinuando para ele? Balançar os seios: check. Fazer aquele olhar sedutor: check. Se aproximar bem devagar e usar uma voz mais doce: check. Eu vou dar uma cotovelada nessa mulher. — Oh... — parece que Alexa notou a minha presença e a da pequena. — Você voltou, Hathaway. E... quem é... essa... aí? Alexa claramente se sente desconfortável ao olhar para a menina. Parece que está vendo um ser de outro mundo, ela até se afasta um pouco. Blake se prepara para responder, mas eu sou mais rápida. — Minha filha — falo. Alexa ergue bem a sobrancelha. — Você não é jovem demais para ter filhos? — Ela me avalia dos pés à cabeça. — Agora tem idade para engravidar os outros? — Me mostro ofendida, ao mesmo tempo estendo a mão para Rowan, que a segura e fica perto de mim. — É... desculpe, Hathaway, não quis ofendê-lo. Mas por que ela não está com a mãe dela? — Porque ela sentiu saudade do papai e veio vê-lo — digo de modo simples. — E ela não podia esperar mais algumas horas? — Alexa tenta olhar para Rowan, mas imediatamente desvia o olhar para Blake. — Você aceita esse tipo de coisa agora? — ela murmura. — Ei, eu estou bem aqui — cutuco o ombro dela. — Bem... Hathaway... você não deveria ter trazido essa criança para cá. Não condiz com o perfil do banco. O que vão pensar se virem essa criança com você, que é a imagem do homem que vai dirigir tudo isso? — Ela enche o peito para enaltecer a figura do Blake. Que não parece nada contente com a situação. — Estou te dando uma advertência, cabe ao Blake decidir se isso pode levar a uma justa causa — Alexa diz de modo pomposo e encara o chefe. — A CS Gallagher te parece um banco de doações para a assistência social? Blake fica em silêncio, encarando-a. — E por que pareceria um banco de doações para a assistência social? — Eu a confronto. — Bem... — Alexa olha de mim para a criança. — Autoexplicável — e ela sorri como se tivesse vencido o debate. Na verdade, eu não quero dar uma cotovelada nela, eu vou dar uma cabeçada nela! — Pois a minha filha vive muito bem e não precisa de assistência social nenhuma — me afasto, ainda segurando a mãozinha dela e a giro. Rowan gira devagar, olhando para o chão. — Está vendo esse vestido? Deve custar o seu salário todinho! — Provoco. — Me poupe, Hathaway. — Nossa... eu já conseguia imaginar que todos por aqui eram superficiais, mas esse nível de preconceito... — Que preconceito? — Agora Alexa usa todo o tom de ofendida que possui no repertório. — Preconceito algum. Crianças são proibidas por aqui. Elas sujam, elas correm, elas gritam, não é o lugar para elas. Muito menos para uma criança assim... que mal sabe se comunicar e pode acabar... defecando por aí. Tapo os ouvidos de Rowan, porque ela não precisa ouvir nada disso. Os olhos de Blake estão tão vermelhos que eu vou tomar a liberdade de dar um soco na cara dela, só para ele não ser preso. — Eu estou chocado — é tudo o que tenho a dizer. Porque debater com gente como Alexa parece a mesma coisa que discutir com uma porta. — Não permitimos crianças normais no banco, imagine crianças assim — ela ajeita a bolsa no ombro e empina o nariz. — Agora preciso ir. Blake, a decisão é sua. E ela sai. Ainda bem que ela foi. Porque dá para ver pelos olhos do Blake que ele mesmo vai destruir sua própria carreira, usando o réu primário – que imagino eu que ele ainda tenha. Paro de pressionar os ouvidos de Rowan e a solto devagarinho. E fico em silêncio olhando para um Blake que não está apenas sem palavras... dá para notar, lá no fundo, que ele está destruído. Ainda assim ele engole tudo, mantém seu olhar firme e sua expressão impassível. Ele se ajoelha diante da filha. — Você está bem? — Maravilhosa — a menina diz. — Pessoas ruins iam falar coisas feias, lembra que o papai te disse isso? — Você gosta de mim, papai? — Eu te amo, minha pequena. — Eu amo você. Isso importa. Agora dá para ver nos olhos dele que ele se segura, com todas as forças, para não abraçar a filha. — Ela é uma menina bem inteligente — me manifesto. Porque até parece que eu não estou mais ali. Blake se levanta furioso e eu só quero me encolher, mas permaneço do jeito que estou. Ele me encara com dureza e eu o encaro sem medo. Quer me demitir e ficar com o sacão de lixo, meu amor? Fica, problema seu. — É claro que é. — Não... eu não quis ofender... é que... nunca conheci uma criança como a Rowan. Ela é comunicativa... expressiva... adora falar e sabe se expressar tão bem... mesmo quando engole as palavras ou faz pausas entre elas... Blake se aproxima ainda mais. — Crianças são reflexo de seus pais, independente de qualquer coisa. Concordo. Aí ele ganhou toda a razão. Você quer um troféu escrito “dono da razão”, Blake? Eu te dou. Mas pera aí... comunicativo... expressivo... adora falar e se expressar tão bem... não tem nada a ver contigo, meu anjo. — Ela é incrível — continuo balançando a cabeça sem parar. E ele continua a se aproximar e me encarar no fundo dos olhos, de um jeito intimidador. — Bem... se o senhor não se importa, eu posso levá-la pro escritório enquanto pego todas as minhas coisas, para não ter que voltar aqui depois para incomodá-lo. E depois a levo para o carro de vocês. Tudo bem se for assim? — Suspiro. — Não. — Não? — Você não vai a lugar algum. — Mas eu prefiro, sabe? Inclusive, depois é só depositar o dinheiro na minha conta, eu não quero ter que... — Hathaway — Blake respira bem quente contra o meu rosto. — Sim? — Você foi demitido e recontratado. Pisco os olhos devagar. E ou ele se afasta ou eu vou dar um beijão na boca dele, o que vai ser estranho de todas as formas possíveis. — Meu pai sempre coisa certa — Rowan diz orgulhosa. E olha para cima com os olhos bem grandes, brilhantes, dá para perceber pelo olhar que o papai dela deve ser a melhor pessoa do mundo – para ela. Porque para mim... Bem... tá. Ele está sendo uma pessoa incrível agora. — Obrigado, senhor Gallagher. — Não me agradeça. Agora leve-a para o carro preto lá fora. — Eu mostro — Rowan segura firme em minha mão, toda proativa essa menina, e vai me puxando. Eu a sigo, mas continuo olhando para Blake, que fica para trás. Capítulo 16 Bella Hathaway Levanto dando um salto da cama e fico perdida, sem saber o que fazer. A exaustão enfim pesou. Meu trabalho começa às 8, eu sempre chego antes das 7 e agora são quase 9. Eu estou fodida e não é no bom sentido! Me viro como posso, tomo um banho correndo, aperto bem a touca para segurar meu cabeloreal e colo a peruca em algumas partes da minha testa e laterais, porque estabanada como sou, vou acabar é perdendo o cabelo! Visto o terno caríssimo que Blake comprou para mim, desligo o alarme do celular que já deve ter tocado pelo menos umas cinquenta vezes e saio desesperada de casa, sem comer, nem nada. — Isabella? Preciso de novidades suas — Kirk diz do outro lado da linha. — Bom dia, senhor Kirk. Tudo bem com o senhor? Porque comigo tudo ótimo! — Digo de ótimo humor matinal, o que significa que estou soltando fogo pelas ventas. — Você tem novidades... não é?! O tempo está passando... Que coisa, não é? “O tempo está passando”, não me diga... — Posso entregar ao senhor tudo o que tenho no final de semana? — Hoje. — No sábado? — Hoje — ele reforça. — Pode ser na sexta, senhor Kirk? — Insisto. — Hoje — ele só falta soletrar. — Você tem alguma coisa, não tem, Isabella? — É claro que tenho! Não tenho nada. — Ótimo! — Ele diz orgulhoso. Péssimo! — Então nos vemos após às 18. — Pode ser às 18 de amanhã? — Fecho os olhos, implorando para Deus, que ele aceite. — Hoje — ele diz, nenhuma surpresa nisso, e desliga. Ótimo... agora vou ter que revirar mais algumas coisas, completamente desesperada, para encontrar mais podres de Blake. Esse cara, o que quer que ele tenha feito, ele encobriu bem. Não achei nenhum registro que apontasse de forma contundente que ele é culpado em algo. Mas quer saber? E se ele tem um laranja? Alguém que fez coisas por ele? E um não... dois! Kaleb e Jacob! É claro! Imediatamente pego o celular e começo a vasculhar a vida pública dos dois aprendizes de Blake, ainda tenho alguns minutos até chegar no banco e ser esculachada pelo meu chefe. Kaleb tem um currículo impecável, mora em Miami, um cara exemplar. Tem uma carteira de negócios bem grande, mas tudo o que encontro está relacionado à Sweet Show, parece que ele quer mesmo o nome dele relacionado com essa empresa... que cresceu meteoricamente nos últimos anos. E a Sweet Show pertence a três mulheres, uma delas é a futura esposa dele, então... só um cara legal tentando ajudar sua garota. Jacob... bem... Jacob tem uma lista de coisas aqui. Playboy, metido em brigas de boate, sempre é flagrado com uma mulher diferente e na maioria dos casos são prostitutas... Está aqui um dos calcanhares de Aquiles do Blake. Não é para bater de frente com ele, mas com os aprendizes dele. Se ele não foi capaz de segurar as rédeas desse cara, como vai segurar as rédeas da empresa? Xeque, Blake. Espere meu xeque-mate. Saio correndo do Uber, em um desespero que não cabe dentro de mim. Quando entro no banco e passo pelo hall movimentado, todo mundo olha esse belo homem com 1,70 de altura, que não some mais dentro do paletó – obrigada, Blake – e que ao se jogar dentro do elevador, respira com todas as forças. Meu Deus, eu nunca poderia correr em uma maratona... — Eu posso explicar! — Levanto os braços e fico apreensiva, assim que a porta se abre. Alexa parece estar de cabelos em pé, parece alguém que injetou cafeína na veia e não consegue nem ficar sentada. — Ele ainda não chegou — ela diz para o meu alívio. Mas a cara dela não é das melhores... — Alexa, tudo bem? — Deixo minhas coisas em minha mesa. Bom, tirando que ela é uma idiota e preconceituosa, espero que tudo esteja bem. — Não — não sei se ela está de olhos arregalados por opção ou se não consegue diminuir a intensidade com que me olha. — O que houve? — Eu não sei... eu não sei o que eu fiz de errado... Ih, minha filha, o que você fez de errado: nasceu, cresceu, foi uma babaca e uma hora dessas vai morrer. Esse é meio que o ciclo da vida de muita gente. — Olha isso — ela abre a passagem para a biblioteca e o que eu vejo é o caos. Caos. Da sua forma mais intocada e intensa. Não foi um furacão que passou por aqui. No mínimo foi o assassino da serra elétrica. Está bem pior do que eu deixei. — Jesus, Maria e José — coloco a mão no peito. — Passei a madrugada arrumando o que eu pude... ele me deu até às 19h de hoje para arrumar tudo, senão estou demitida. Vish. Não vou nem perguntar se ela precisa de ajuda... vai que precisa... — Você consegue — tento animá-la. — Até conseguiria, mas ele me proibiu de ter ajuda, me pediu para fazer duas cópias de cada arquivo, mandar uma para os arquivos pessoais dele, outra para o Kaleb e ainda disse que as atas em ímpar precisam ser digitalizadas! Tá... se ela beber um pouquinho mais de café ela consegue. — Além de que preciso catalogar os e-mails dele, acompanhar algumas empresas na Bolsa de Valores, mensurar as tabelas de 7 empresas que o Blake financia e... levar o cachorro dele para passear às 17 — ela suspira, sem esperança. — Blake tem um cachorro? — Estou muito surpresa. — Ele comprou ontem — essa mulher é a epítome do desespero. Tá, ela não vai conseguir. E falando no diabo... Alexa precisa encostar na mesa quando o elevador se abre e Blake sai dele, andando como se fosse passar por cima de alguém – ela. Ele arranca o sobretudo dos ombros e joga de qualquer jeito na mesa dela, assim como sua maleta, tira os óculos escuros e encara a porta da sua sala. — É impressão minha ou essa porta está suja? — Seu rosto se inclina devagar para o lado. — Está — ele decide. — A equipe de limpeza virá imediatamente, senhor — Alexa diz, sem ar. — Você é a equipe de limpeza — ele diz com indiferença. — Eu vou entrar por aquela porta e quando eu sair, se ainda estiver sujo, você não precisa estar aqui. Ele nem me encara, anda até sua sala e quando atravessa a porta, grita: — Onde está o meu café? Corro ao seu encalço. — Vou buscar imediatamente, senhor, me perdoe. Blake me ignora, seus olhos furiosos encaram Alexa. — Por que o meu café não está na minha mesa? — Ele rosna. Ela sequer o responde. Sai desesperada em direção ao elevador e aperta o botão freneticamente até que ele feche. — O senhor está bem? Blake me olha com demora, como se não pudesse acreditar que estou me dirigindo a ele. Coitado, ele já sabe que eu faço pior que isso quando quero. Ao vê-lo vir em minha direção, até fecho os olhos. Mas tudo o que sinto é sua respiração pesada e quente contra meu rosto. Atrevo-me a abrir só um olho e assisto-o ajeitando meu terno com cuidado e depois apertando a minha gravata até eu sentir falta de ar. A sensação que tenho em seguida é como se Blake estivesse usando meus olhos como espelho para se arrumar. Ele asseia os cabelos perfeitamente penteados, seus olhos azuis me encaram tão profundamente que até eu vejo meu reflexo nos olhos dele. — Não consigo falar, nem respirar — digo, de tão sufocada. — Bem melhor agora — ele bate as mãos fortes em meus ombros, o que quase me obriga a cair de joelhos, dá-me as costas e a porta da sala se fecha. — Eu abaixei isso justamente para conseguir respirar! — Reclamo sozinha e folgo um pouco mais a gravata e vou me sentar em meu lugar. Pelo menos ele não está zangado comigo, o que já é algo positivo. — Alisson! — Ouço sua voz me chamar. Meu Deus, ninguém pode mais respirar em paz ou se sentar nesse lugar. Corro para a sala dele e fico diante da sua mesa. Blake me ignora por alguns segundos, dispõe alguns papeis diante de si e tento, com meu olho biônico, enxergar o que ele está assinando. Nada parece comprometedor. — Sim, senhor? — digo após pigarrear, para mostrar que estou aqui. — Você sabe como funciona o trabalho. — Que trabalho, senhor? — Coloco as mãos atrás das costas. — O seu trabalho — ele revira os olhos. — Não me incomode com suas perguntas estúpidas. — Sim, senhor. — Faça uma lista de critérios para contratar um novo assistente júnior, de acordo com o que você aprendeu até agora. — Demitido. Recontratado. E demitido de novo? — Você vai se sentar naquela mesa agora — ele aponta na direção da mesa da Alexa. — Mas senhor... — E quando tiver os melhores candidatos, envie-os para que eu os entreviste — Blake cruza as pernas e continua atento aos seus documentos. — Ah! A Rowan adora a Beyoncé, então preciso que a contrate paraque ela vá na escola de Ballet da minha filha para ministrar alguma oficina de dança. Diga para Alexa fazer isso, não fale sobre a minha filha. E se ela não tiver uma resposta definitiva sobre isso até as 17h — Blake confere o relógio. — Pode anunciar a demissão dela. — Eu? Blake ergue o rosto e me encara com aquele tom de “o que você ainda está fazendo em minha sala”? — Sim, senhor — digo e saio correndo dali. * Kirk, surpreso, abre a porta de sua sala quando me vê. Estou bem acabada, até o cabelo falso, coitado, está todo desajustado. Pior que esse foi o dia mais tranquilo da minha vida, não precisei fazer praticamente nada. Mas no fim dele eu vi alguém desesperada, a ponto de ter um ataque cardíaco, fazendo de tudo para manter o emprego – que pelo visto era o emprego dos sonhos, porque para lutar tanto por esse cargo, poxa... Tive de demitir Alexa e não irei julgar o Blake. Percebi que ele estava mais tenso, parecia mais do que ofendido, estava ferido. Mexer com a filha dele, ainda mais com ela ali, tão perto, destruiu o homem. Como mãe, eu não sei o que faria se maltratassem meu filho... talvez eu agiria até pior. — Pois não? — Kirk me cumprimenta, conserta os óculos no rosto e me observa. Arranco a peruca com alguma dificuldade, sentindo a cola puxar a minha pele, solto meus cabelos e cruzo as pernas. — Senho... Senhorita Hathaway? — Ele ajeita os óculos novamente. — Não a reconheci... sem maquiagem e tão diferente... Ok, eu não preciso ouvir desse homem que sem maquiagem eu pareço outra pessoa, não preciso de nenhum outro peso em mim nesse momento. — O senhor pediu para que eu fizesse o meu trabalho. E eu fiz o meu trabalho. Kirk até lambe os beiços e se aproxima de sua mesa, atento a mim. — Blake é quase impenetrável, sim — abro minha pasta e retiro alguns papeis que imprimi. — Mas como todo muro, ele possui brechas. Buracos. E se alvejado no lugar certo, vai desmoronar. — Eu disse que você era a pessoa certa para esse trabalho! Kirk está tão feliz que me sinto mal por não acompanhar seu humor. Eu só estou triste, pesada, um tanto confusa... O que sinto por Blake é um misto de admiração e ódio. Eu o desejo ardentemente e ao mesmo tempo eu quero acabar com ele. — Primeiro, acho que você deve investigar Jacob Parker, sondar suas fraquezas, descobrir seus podres e tirá-lo do sério. Ele é tipo o cachorro adestrado do Blake, pronto para atacar qualquer um. Se explorar as fraquezas dele, irá atingir o Blake, com certeza. Até porque, ele confia no Jacob a ponto de entregar-lhe seu bem mais precioso. — ... Que seria? Não. Eu não vou falar da criança. Que tipo de pessoa eu seria se fizesse isso? — Documentos, segredos, onde ele vai, com quem vai, o que faz. Jacob sabe tudo. O Kaleb Petterson é mais improvável, mora em Miami, vem pouco aqui. Kirk pega os documentos que eu trouxe e faz anotações sobre Jacob em uma das folhas. — Se me der mais algum tempo eu sondo as fraquezas do Jacob para você. — É claro — Kirk passa as folhas. — E o que mais? — Blake me convidou para uma tal Bacanália. É uma festa que o Franklin Gallagher está à frente, uma noite de muita bebida, diversão e sexo animal. Talvez eu possa arrancar algo dele quando o fizer beber. — Você o fará beber? — Kirk se diverte. — Senhor Kirk, quando uma mulher quer uma coisa, nada fica em seu caminho. Ele concorda sem ressalvas. — Eu a chamei aqui porque só queria ter certeza... — Certeza? — De que está fazendo o seu trabalho, Isabella. De que tem consciência de sua missão: enfraquecer e destruir Blake Gallagher. — E o senhor têm dúvidas sobre isso? Ele faz que não. — Muitas mulheres entraram na vida desse homem para espioná-lo, Isabella. Todas se apaixonaram por ele e desistiram no meio do caminho. Nenhuma delas foi forte para levar a cabo a missão de acabar com esse homem. — Eu não sou nenhuma dessas mulheres. — Posso ver que não é. Warren Kirk continua a vasculhar os documentos que lhe entreguei e após chegar nas doações e dívidas estudantis que Blake pagou, ele para. — O que é isso? — Como o senhor pode ver, ele não é apenas um CEO bilionário — faço uma pausa para dizer mentalmente: “gostosão” —... esse homem é filantropo. — Certo — Kirk tenta acompanhar o raciocínio. — Ele pagou a faculdade dessas moças. — Ah... reparei que não há nenhum homem aqui... — Ele pagou a faculdade de homens e mulheres, mas eu selecionei essas. — Por quê? O que há de tão relevante nelas? — Essas pessoas desapareceram. Kirk levanta bem a sobrancelha. — Como assim... desapareceram? — Em meus momentos de folga eu pesquisei sobre os caminhos que muitos dos beneficiados pelo Blake tomaram... a maioria deles em cargos importantes, trabalhando para homens poderosos... — Sim... — Mas essas cinco garotas... sumiram. Desapareceram. É como se não existissem mais. Eu liguei para seus chefes e eles não sabiam informar o paradeiro delas... consultei duas famílias e o que ouvi foi “não queremos falar sobre isso”. — Foi na polícia? — Pareço amadora, senhor Kirk? — Sorrio com gentileza. — Não há nada na polícia. Não estão sendo procuradas, seguem como se... tivessem apenas tirando férias em alguma ilha paradisíaca. — Cinco garotas? De famílias, profissões e status social diferentes? — Kirk aperta os dedos nos óculos grossos e coloca os cinco documentos diante de si, deitados na mesa. — Acho que essa é a pista para destruir esse homem. Por isso pedi mais tempo. Estou em claro há dias, dormindo praticamente 3 horas por dia, para tentar entender esse mistério. — Preciso fazer alguns telefonemas — Kirk pega um charuto e o coloca na boca. Eu o reprovo veementemente com a minha cabeça. — Mais alguma coisa, senhor Kirk? Eu já não consigo esconder que estou exausta. — Continue com o bom trabalho. Com você chegamos mais longe do que com todas as outras juntas! — Ele diz animado e disca um número. Levanto-me, tiro o terno e abro os primeiros botões da minha camisa social branca. Pego a maleta e caminho até a porta. — O carro da empresa pode me levar para casa? — É claro, Isabella. — Obrigada. Capítulo 17 Bella Hathaway Posso dizer com muito orgulho que sobrevivi a mais uma semana com o meu chefe irritante, mandão e controlador. Estou quase dando uma festança para comemorar esse fato! Na sexta, como combinado, me preparei para encontrá-lo em um restaurante prendado, me vesti adequadamente para a ocasião: um macacão preto de linho bem soltinho e confortável e uma jaqueta vermelha para dar cor e impacto em minha presença, além do salto da mesma cor. Prendi o cabelo em um coque, passei uma maquiagem leve e por incrível que pareça, cheguei no horário certo. Esse terror que Blake fez comigo por duas semanas sobre ser pontual acabou surtindo efeito. Um metre muito educado me aborda na entrada do restaurante e me leva de encontro a um Blake vestido de maneira casual. A camisa em listras verticais é branca e azul real, o terno de tom mais escuro que o azul real parece despojado em comparação aos ternos que ele usa no dia a dia. Assisto-o se levantar e vir até mim para puxar a cadeira. — Obrigada, eu tenho mãos — eu mesma puxo. Mas antes de me sentar ele envolve sua mão pesada em minha cintura e me puxa de encontro ao seu corpo. Seu perfume me deixa muda e atiçada, mesmo quando ele me solta devagar eu permaneço com o rosto próximo ao seu peito. — Você está excepcionalmente linda hoje, senhorita Miller. Olha só... Blake sendo gentil... parece que o mundo ficou de cabeça para baixo. — Obrigada — permaneço de pé, encarando-o. A aparência dele é sempre impecável: a barba sempre está do mesmo tamanho, assim como o corte de cabelo, nunca há um defeito na forma como se veste e a forma com que me olha parece mais intensa agora. — Posso me sentar? — Fique à vontade — ele estende a mão e espera que eu me sente e só assim ele também o faz. — “Excepcionalmente linda”? — Eu não esperava tanto — ele diz secamente. Agora estou confusa. Ele até que começou bem, vamos mesmo do vinho para a água? —Como assim? Não sei se entendo... — Pontual. Formidavelmente bem vestida. E com essa expressão angelical que encobre a verdadeira diaba que você é. Gosto assim. Levanto a sobrancelha, espantada, pego a taça diante de mim e imediatamente Blake me serve champanhe. Gentileza da parte dele, eu mesma ia pegar e me servir. — Eu vim porque quero saber seu nome e seus segredos — cruzo as pernas e sorrio de canto. — Você seria capaz de suportá-los, senhorita Miller? — Isabella — o corrijo. — Por que precisamos ser tão formais? Você sabe o meu nome. — Já disse que gosto de chamá-la assim. Nada contra o meu sobrenome, inclusive me orgulho muito dele... mas esse distanciamento que o Blake cria entre nós, desde a forma como se senta, até a forma como me chama, me mostra que não somos e talvez nunca seremos íntimos. E acho que já ultrapassamos essa linha. Afinal de contas, eu vendi a virgindade para esse cara, tivemos um bis muito satisfatório e eu estou infiltrada em seu escritório. Bom... pelo menos ele não me trata com a arrogância com que me trata diariamente enquanto estou de Alisson. — Está pronto para se abrir, senhor...? — Gallagher — ele nem pisca ao dizer o sobrenome. Caramba... então ele vai me contar algumas verdades mesmo? — Gallagher? Não é um sobrenome incomum... — me faço de desentendida. — Blake Gallagher — ele se apresenta formalmente. Anotação mental: agora eu posso gritar o nome dele enquanto ele estiver me fodendo. — Blake... Gallagher — digo o nome devagar, como se o estivesse saboreando. E ao mesmo tempo mantenho a minha cara de desconfiada, para mostrar que não tenho absoluta certeza que esse é o nome dele. — Isabella Miller — estendo a mão. Blake segura nela com firmeza e ainda assim com gentileza. Seu polegar massageia o dorso da minha mão devagar e depois aperta os meus dedos, tudo isso sem tirar os olhos azuis de mim. — Eu já te conheço, senhorita Miller. É você que não me conhece. — Então me conte tudo sobre você, Blake Gallagher. Blake umedece os lábios com a língua e me encara com demora, o que me deixa levemente incomodada e sem ar. — Sou um dos melhores investidores desse país. — Isso eu já sei, Jacob me contou isso anos atrás, quando me disse que você poderia comprar a minha virgindade. Blake concorda. — Mas estou curiosa sobre um fato. — Pergunte. — Por que eu, senhor Gallagher? Tenho certeza de que o senhor poderia escolher qualquer mulher para acompanhá-lo nessa noite importante que não me deu detalhes, além do “BDSM”. — Que imagino que você saiba o que é — ele levanta o copo com líquido em tom dourado envelhecido e o gira devagar enquanto sente o cheiro. — Imagino sim. Fiz a minha pesquisa. — Parece que a jornalista sabe fazer o dever de casa. Blake bebe e o meu coração para. Então é isso? Ele descobriu? Começo a me sentir sufocada instantaneamente e bebo um gole generoso do champanhe. — Como você sabe? — Eu sei tudo sobre você, senhorita Miller — ele diz com calma. Tudo? Então eu estou mais perdida do que pensei... — Jacob me contou, na época — ele deixa o suspense de lado, porque está nítido que quase tive uma síncope. — Ah — respiro aliviada e passo a mão no peito. Acho que não foi dessa vez... — Então você teve curiosidade em saber mais sobre mim depois que comprou a minha virgindade? Somos interrompidos pelo garçom que vem e coloca as entradas e pergunta o que queremos comer. Deixo que Blake decida, ele parece ótimo em tomar a frente em qualquer situação. — Estou em um impasse perigoso. Oh... ele mudou de assunto... legal... — Diga-me seus problemas, Blake. Ao chamá-lo pelo nome, Blake abre um sorriso de canto que me lembra a forma como me olhava enquanto acabava comigo numa noite dessas. Acho que poucas mulheres têm a coragem de chamá-lo pelo nome. E ele escolheu a pior delas para sair, porque se eu beber demais eu irei chamá-lo pelo apelido carinhoso de “1/4 de um metro”. — O meu pai me pediu para que eu trabalhasse na empresa da família. O banco CS Gallagher & Co. Eu ainda estou estupefata, ele vai abrir o jogo mesmo! — E ele se aposenta esse ano. É do desejo do meu pai que eu assuma o controle do Banco, mas eu não tenho os predicados necessários para tal. Sou apenas eficiente com números e pessoas. Mas não sou casado, então não passo a imagem séria e sóbria que uma instituição como a CS Gallagher precisa. Ele vai me pedir em casamento de contrato? É isso? — E claramente existem outros interessados em substituir o meu pai. O seu irmão Franklin, por exemplo. Gente, alguém precisa mandar essa história para a Oprah, vai ser incrível! — Casados, passam por fora a imagem séria e sóbria para a instituição. Mas não são eficientes com números e com pessoas. E é por isso que fui contratada para descobrir seus podres e te tirar da jogada. Já entendi, me conta a novidade, senhor gostosão Gallagher. — Todos os anos um membro do Alto Escalão da CS Gallagher faz esse evento que ele chama de Bacanália. — Foi para esse que você me convidou, suponho. — Sim. — E qual desses homens poderosos eu devo vigiar e descobrir algo para você, senhor Gallagher? Blake ri da minha inocência. Claramente eu não sei toda a história. — Você não conhece o meu mundo, senhorita Miller... — Mas imagino o pior dele — rebato. — Estou adorando esse momento, Blake. De você se abrir para mim. — É muito melhor quando você se abre para mim. Que inferno de homem! Em tudo que é coisa ele precisa colocar conotações sexuais? Ele acha que gosto disso? Que vou ficar aqui me submetendo a ouvir putaria? Tiro o salto e subo o meu pé lentamente na perna dele até alcançar a altura da coxa e seguir para sua virilha. Blake levanta uma sobrancelha, eu levanto a outra. — A verdade é que tenho pensado em deixar o banco já há algum tempo. Você o quê? Blake faz até uma careta quando eu empurro – quase chuto – sem querer o volume que o pau dele faz e eu sinto perfeitamente com meu pé. Queria sentir de outro jeito, até me engasgar, mas... — Não é o certo a se fazer — ele conclui. — Não no momento. Agora sou eu quem está perdida: até eu que entrei nessa história recentemente já percebi que Blake é a melhor opção para ocupar o cargo de chefia da empresa. Por que diabos ele quer deixar o banco que é da família dele? — E qual será o momento, Blake? Blake franze a testa e me encara no fundo dos olhos. Deve estar se perguntando se deveria confiar em uma maluca que está massageando seu pênis com o pé no meio de um restaurante 5 estrelas enquanto fala coisas sérias. Não, ele não deveria confiar em mim. E é isso que torna tudo mais excitante. Blake claramente não tem medo do perigo e de mim. E eu não tenho medo do perigo ou dele. E acho que por isso o destino nos colocou aqui. — Eu fui o responsável por afastar sete pessoas dessa empresa, nos últimos anos em que estive nela. Descobri que navios da CS Gallagher transportavam cocaína para a África e Ásia. Arregalo os olhos e pego a taça vazia. Blake faz o favor de enchê-la para mim. — Existem coisas que acontecem nos bastidores do poder que a deixariam de cabelo em pé, senhorita Miller. Querido, eu já estou com tudo em pé. Tráfico? Navios do seu banco sendo usados para tráfico? — Eu preciso lidar com profissionais em lavagem de dinheiro 24h por dia, senhorita Miller. Quem é esse cara? O super-homem? O capitão américa? Um agente do FBI disfarçado? — Homens treinados em tornar dinheiro ilícito em dinheiro lícito e encher os cofres, não apenas deles, mas dos políticos a quem servem, os empresários a quem servem e ao banco, é claro. — Eu... eu ainda não entendo o que isso tem a ver com a Bacanália — pisco os olhos, devagar. — Ah, isso... — Blake suspira. — Não tem nada a ver — ele garante. Ué? Agora eu estou bem confusa! — Só quero ter o pretexto para poder amordaçá-la e algemá-la — ele diz com tanta calma que até me arrepia. — Fodê-la enquanto está suspensa no ar e te mostrar que vale a pena ser dominada por um homem de verdade. Agora não estou nada confusa, por favor, vamos fazer a Bacanáliaacontecer sim e se alguém tentar interromper, nós vamos destruir essa pessoa, senhor Gallagher. Pisco os olhos. — Você mexe comigo, Isabella. Me arrepio todinha ao ouvir meu nome sair da boca do Blake. Abro os meus olhos o máximo que posso e respiro fundo. Ele também mexe comigo. E não preciso dizer isso, está na cara. — Sei que você tem um contrato assinado por mim e você que diz que nunca mais deveríamos ter contato algum. Mas eu não consigo resistir. Você pode me comer aqui e agora se quiser. Inclusive: por favor. Pisco os olhos e ajeito o coque. — Eu pensei que conseguiria saciar essa vontade animal dentro de mim, naquele dia, mas agora eu quero mais. Eu quero você. E estou prestes a fazer uma loucura. Eu estou toda arrepiada, molhada e aquecida. Mas continuo a analisá- lo friamente como se não estivesse escutando nada disso. Só faça, Blake. Tudo o que quiser. — Certo... você descobriu tráfico de drogas transportados pela empresa e afastou essas pessoas. E aí? — Tento mudar de assunto. Não digo absolutamente nada sobre o que ele comentou. Não é ele quem gosta de fazer isso? Experimente um pouco do seu próprio veneno, seu cretino. E quando eu me levantar para ir ao banheiro, me acompanhe. E acabe comigo. — Querem a minha cabeça. E eu fui a escolhida para dar o golpe de misericórdia... Meu Deus... — Em contrapartida, ao perceberem que não conseguiriam mais utilizar os navios para esse tipo de tráfico — ele volta a beber —, eles ficaram mais espertos. Não mexem mais com droga. — Ainda bem... — Mas com tráfico de mulheres. Arregalo os olhos novamente. Destruir um bilionário? Por que só UM se eu posso destruir VÁRIOS? — E o que te fez chegar a essa conclusão, senhor Gallagher? Blake semicerra os olhos e me encara em silêncio por alguns segundos. — Você é a jornalista aqui. Por que não tira as suas próprias conclusões? Isso é um desafio? Aceito. — Isabella, tem muito mais do que o Alto Escalão do meu banco metido nisso. — Imagino que sim... — Por isso quero que quando estiver no Bacanália, devidamente bem vestida e com uma máscara cobrindo a sua identidade, procure por essa pista — Blake tira do bolso do terno um papel dobrado e coloca em cima da mesa. Eu o pego em seguida e o guardo em minha bolsa. — Quando tudo isso estiver resolvido, estarei pronto para sair do banco. Vejo Blake se levantar e fico cheia de interrogações na cabeça. — O quê? — Preciso ir ao banheiro — ele esclarece. — Ah! Eu também — me levanto junto e me desequilibro, calço o salto e fico ereta de supetão. — Ótimo. Estou pronto para dar o seu presente dessa noite — ele sorri maliciosamente. Capítulo 18 Bella Hathaway Apreensiva. É como estou. Encosto as costas na parede do banheiro espaçoso e iluminado e encaro o meu reflexo no espelho grande, trepadeiras caem do teto e o emolduram. O que está acontecendo? Tenho vontade de lavar o rosto um milhão de vezes até despertar desse sonho maldito. A minha cabeça dá várias voltas, agora eu estou realmente confusa e perdida, não sei mais o que fazer. Há alguns dias estava cogitando sobre Blake ter dado um fim nas garotas que ele pagou a faculdade... agora ele me vem com essa história de tráfico de mulheres? Isso é muito maior do que pensei! Não sei se estou preparada para isso... E no meio dessa angústia e pequeno ataque de ansiedade, ouço-o bater na porta do banheiro. — Sim? — Você está bem? — Por que não estaria? — Devolvo com um sorriso irônico, como se pudesse vê-lo diante de mim. — Abra — ele manda. Meu coração bate acelerado, quase me maltratando. Não vou passar nesse maldito teste para cardíaco... — Eu mandei abrir — ele repete de um jeito mais incisivo. Aperto os olhos e destranco a porta. Como aparentemente nada acontece, abro os olhos e confiro Blake diante de mim, do mesmo jeito que estava lá na mesa. Mas seus olhos estão apreensivos também. — Algum problema? — Não, é que... eu só estou... — Respira — ele me mostra como fazer. Puxa o ar pelo nariz e solta com a boca. — Eu sei que é demais. — Sabe? — Não precisamos tratar disso agora. — Então quando vamos tratar? Blake sequer olha para os lados, ele não se importa de invadir o banheiro em que estou e fechar a porta atrás de si e trancá-la. Meu Deus, o que ele vai fazer? — Por que está tão tensa? — Estranho seria se eu não ficasse tensa — ironizo. — Você acabou de falar de tráfico de mulheres. Você tem noção do que isso significa? Blake respira fundo. E conforme respira, vem lentamente em minha direção até fazer-me ficar espremida contra a parede e sentir sua respiração, acompanhada do dorso da sua mão descendo da lateral da minha testa até o queixo. — Você tem medo de mim, Isabella? Abro um sorriso de escárnio. — Claro que não. Tenho sim. Blake ri baixinho e é esse tipo de coisa que me obriga a encará-lo, porque ele raramente ri. E quando ri é um acontecimento divino: ele fica mais charmoso, parece mais jovem e seu sorriso me encanta. — Ei — sua mão direita segura entre meu rosto e minha nuca. — Eu estou aqui. — Estou vendo. — E vou cuidar de você. Agora sou eu que respiro devagar. — Eu não vou deixar nada acontecer a você. Ninguém colocará as mãos em você, a não ser eu mesmo. Estou toda arrepiada. — Você pode garantir isso? — Ergo a sobrancelha. — Desde que voltamos a nos ver, algum mal te aconteceu? Bem... Sim... o Chad, quando eu fugi do escritório dele. E como se lesse os meus pensamentos através dos meus olhos, Blake segura com mais intensidade onde sua mão pega e se aproxima ainda mais. — Não fuja de mim e nada vai te acontecer. — E se eu fugir, Blake? O que vai me acontecer? — Não vou poder te proteger. Uma resposta simples e bastante eficaz, que fique de registro. Tão eficaz que não encontro uma resposta por um segundo inteiro. — E quem te disse que eu quero ser protegida? Você deveria proteger as pessoas de mim! — Isabella, me escute — sua outra mão agora assume o outro lado do meu rosto e a nuca. — Enquanto eu estiver aqui, vou cuidar de você. Então não fique tensa, você está em minhas mãos. — E quem vai me proteger de você? — Ninguém pode te proteger de mim. Um longo silêncio paira entre nós. E um efeito magnético estranho faz com que nossos rostos se aproximem para além do limite permitido que Blake se dizia confortável. Mas seus olhos ainda me encaram com intensidade e ele não desvia o olhar nem por um segundo. — Muito animador — Ergo a sobrancelha. — Você é minha, agora — ele diz com a suavidade de quem fala: comprei essa Ferrari. E vamos ressaltar que se eu for um carro, eu sou uma Ferrari. Na verdade, se for para comparar, eu não sou um carro, na verdade eu sou a porra de um Boeing! Ou um foguete da NASA! — E quem te disse que eu sou sua? — Eu estou dizendo isso agora. — E quando você decidiu isso? — No momento em que você começou a mexer com a minha cabeça. Eu mexo com a cabeça dele? Bom saber. Não sabia que meu nome era tequila, mas tudo bem... — E quem te disse que eu quero ser sua? — Será que Blake vai sobreviver a essa levantada de sobrancelha aqui? Ele sorri sarcasticamente em resposta. Um sorriso que vai ganhando um tom felino, até alcançar o ponto de ficar malicioso. Sua mão direita desliza pela minha pele até alcançar a minha perna. Sem cerimônias ele a levanta e se põe entre minhas pernas, sinto seu corpo colado no meu, e é uma sensação prazerosa, que me deixa excitada. — Então diga para mim que você não quer ser minha. — Não quero. Quero. Blake segura minha coxa de modo que seus dedos massageiam a minha pele por cima desse fino macacão. Tão fino que qualquer toque dele é sentido com a intensidade que se deve. — Não quer? Ele me lança aquele olhar de “é pegar ou largar”. As minhas pernas tremem. Ouvir a voz dele bem próximo ao meu ouvido faz com que um calor estranho suba do meu baixo ventre até os seios, se espalhem pelos ombros e no fim sinto minhas mãos suadas. A cabeça esquenta... — Não quero? — Aceno com a cabeça. Nem eu sei o que eu estou acenando. — Não quer? — Eleinsiste, com a outra mão retira a minha jaqueta. Não quero? Eu sou louca. Não demente. É claro que eu quero! Ainda tenho uns parafusos bem encaixados aqui na cabeça. — Você está segura em minhas mãos, Isabella. Se me disser que não me quer, eu irei respeitar — ele diz de um jeito tão cavalheiro que me deixa emocionada. Mas aí ele me espreme ainda mais contra a parede e me faz sentir o volume em sua calça. — Mas se você disser que quer... não há volta. — Não há volta? — Depois que eu te fizer minha, você não será de mais ninguém. Quero. — Eu não vou aceitar que ninguém mais te toque. E que ninguém mais te maltrate. QUERO. — E eu te farei sentir que eu também sou todo seu. Homem, pelo amor de Deus, você pode tirar a sua roupa agora? Porque estou praticamente nua. Tão hipnotizada em suas palavras e presa no encanto de seus olhos, nem percebi que Blake deixou minha jaqueta escorregar para o chão, tirou cada alça do macacão e o desceu suavemente, até que eu estivesse completamente nua. Com ele eu me sinto diferente, a minha nudez não me incomoda e não me dá medo, como acontece com o Chad. Com Blake é como voltar para a minha eu mais jovem, tão obstinada, tão cega e sonhadora, presa em seus próprios objetivos, que é capaz de vender a virgindade para um estranho. Blake me faz sentir que sou capaz de coisas maiores. — O seu presente... — ele põe a mão no bolso interno do terno e retira um plug furta-cor, ele é oval de um lado e vai ficando fino até a outra ponta, como um piercing, e exatamente nesse fim há uma pedra de diamante que reluz. Mas isso é maior do que um piercing. Bem maior. E ao que tudo indica, vai caber em mim. Blake Gallagher Ela é a minha maior fraqueza. Posso dizer isso com propriedade, nessa vida eu já vi, vivi e encarei tudo. Não uma mulher como essa. Isabella é o tipo de mulher que depois que você prova pela primeira vez, pode dar adeus à sua cabeça, sua sanidade, seus pensamentos. Ela toma tudo. Ela consome. Ela rouba. E quanto mais eu tento fingir indiferença, por dentro tudo o que eu quero é rasgar a roupa dela, tomá-la para mim e fazê-la minha mulher. Porque ela soube me fazer seu homem. Passei muito tempo renegando isso e dizendo para mim mesmo que esse sentimento era uma bobagem. Bobagem é o que eu disse a mim mesmo sobre esse sentimento. Sentimentos são reais e eles transcendem a racionalização. Eu, que sou um mero animal racional, vou do céu ao inferno quando estou perto dessa mulher. Eu a odeio, eu a quero, eu a quero longe de mim, e quero que ela implore para que eu vá cada vez mais fundo. — O que é isso? — Sua voz me traz de volta para o agora. — O seu presente. — É um presente... peculiar. Enquanto ela avalia o vibrador, eu me ajoelho lentamente, assistindo a sua surpresa. A mão que outrora levantava a coxa, agora está entre as suas pernas. Ela está molhada, do jeito que eu gosto. Passo o polegar por sua abertura e sinto seu gosto; admito que não precisaria prepará-la para colocar o vibrador, mas eu sinto vontade de bebê- la. E por isso a minha boca não resiste em contornar os lábios da sua boceta bem devagar, é ainda mais prazeroso assisti-la se abrir para mim, escancarar as pernas e deixar que eu abra sua vagina e passe minha língua mais adentro, até que eu consiga ir o mais fundo que eu alcanço. — Blake... Isso, chame pelo meu nome. Se você me quer louco, não precisa de muito mais do que isso. Massageio seu clitóris devagar e volto a contornar seus lábios delicadamente. Quero deixá-la encharcada, como se a estivesse preparando para mim. E estou, de certa forma. — Quero que aproveite o seu presente — a encaro, aqui de baixo e a penetro bem devagar com o vibrador. Pela expressão, Isabella já deve ter percebido que esse não é um vibrador comum. Ele vai levá-la ao delírio quando eu não estiver por perto. E quando eu estiver, ela vai entender porque é minha. Não me contenho em subir chupando seu clitóris bem devagar, depois lamber sua virilha e subir até os seios, onde dou um chupão em cada um e os massageio com minhas mãos. Por fim eu cubro a sua nudez, passo cada alça do macacão e depois pego a jaqueta para vesti-la adequadamente. — Esse é o meu presente — ela diz, atônita. — Esse é o seu presente — coloco as duas mãos nos bolsos e a encaro com firmeza. — Você vai me obrigar a usar isso o tempo todo? Não vou poder tirar? Preciso rir um pouco. Ela é divertida e sabe, como ninguém, levantar o meu humor. Toco meu dedo polegar em seu queixo e começo a acariciar seu pescoço. — Você não é obrigada a nada, Isabella. Ela assente, mais confortável. No segundo que se segue ela quase dá um salto, suas mãos instantaneamente voam em meus braços e ela se curva diante de mim, joga seu rosto em meu peito e se contorce de prazer. Geme bem baixinho, sinto suas unhas me pressionando por cima do paletó. — Mas eu garanto que não vai querer tirar. Deslizo o dedo com cuidado para que ela sinta um pouco mais da pressão dentro de si e Isabella praticamente se lança em meus braços, encara- me feito uma louca e abre um sorriso maldoso. — Você não presta! — Ela me arranha. — Eu te disse que prestava alguma vez? — Blake! — Sua mão contorna a minha. Seus lindos olhos crescem. — Blake?! — Sim, Isabella? — O que você está fazendo comigo? — Nada que você não queira. Ela concorda de imediato. — Eu quero que se lembre como é estar comigo. De cada instante que você me implorou para te foder com mais força e acabar com você — agora eu seguro em seu queixo com intensidade. — Melhor. Eu quero que você saiba, o tempo todo, como é estar comigo. E esteja preparada. Sedenta. Esperando por mim. — Blake... — ela geme baixinho, fica com os lábios entreabertos. É uma maldade não poder dar-lhe um beijo. Ou dar-lhe meu pau para chupar. — Quando eu estiver por perto, você sempre vai saber. Vejo seus olhos crescendo ainda mais. — Você vai entender que não paro de pensar em você. E o que eu penso em fazer com você. Ela permanece em silêncio. — Mas se quiser me devolver o presente... — De forma alguma! — Ela diz com firmeza. É o tipo de mulher que eu gosto. Não importa o que faz ou decide, o faz com firmeza. — É só um aperitivo, Isabella. Para você saber que o jantar vem em seguida. E é por isso que tem o meu número. Se você aceitar ser minha, posso aceitar ser seu, quando, onde e como você quiser. Novamente ela se joga em meus braços e geme, dessa vez mais alto, suas unhas pressionam contra meus ombros. — Acha que consegue voltar para o salão? — Sim. Só preciso de uns minutos... — ela respira fundo e se recompõe. Tiro o pequeno controle do bolso e mostro a ela. — Só não demore muito. Esse brinquedo tem 10 velocidades e intensidades. E eu só te fiz sentir a primeira. — O que você quer dizer? — Você sabe que me irrito com atrasos — contorno seu rosto com meus dedos. — Aham. Aproveito para chupar os da outra mão que estão melados da boceta dela. — Você não quer me sentir irritado — passo o dedo indicador por cima de seu lábio. E deixo que ela se recomponha para jantar comigo. Capítulo 19 Bella Hathaway — Eu sobrevivi! — Saio dando pulinhos pela casa. Alisson está jogado no sofá, me assistindo festejar de um canto da casa ao outro, toda feliz. — Esse cara deve ser osso duro de roer, hein! — O que te faz pensar isso, irmãozinho? — O fato de você estar saltitando de felicidade por não ter sido demitida? — Ele deixa claro a provocação agora. — O quão duro ele é para você comemorar ter sobrevivido a ele? — Muito duro — digo no tom adequado para que ele entenda. — Bem duro então — ele volta a assistir o jogo na TV. — Mais duro do que você pode imaginar... — Isabella, não quero passar meu final de semana pensando no quão duro seu chefe é. — Tudo bem — roubo umas batatinhas da vasilha gigantesca ao lado dele. — E o meu sobrinho? Já não devia ter chegado? — Alisson vê as horas no celular. — O idiota do pai dele sempre faz isso — reclamo. — Só posso ficar com o meu filho no final de semana a cada 15 diase ele sempre demora em trazê-lo. E se eu for buscá-lo, ele não me deixa sair de lá... — Quer que eu vá ver o que aconteceu? — Não, pode ficar aí assistindo ao seu jogo. A qualquer momento o Miguel chega... Alisson balança os ombros e fica tenso por alguns segundos, assistindo seu time pronto para marcar no placar, mas no fim não dá em nada. — E o disfarce? Alguém suspeitou? — Por que suspeitariam? — Volto a roubar as batatinhas dele, aproveito para jogar umas em seu cabelo. — Acho que demos um jeito para tudo..., mas não para a voz... — Ah, você está me subestimando, Alisson! E, cai na real, nós moramos em Nova York, não é difícil encontrar pessoas alternativas, de gênero neutro, meninos que se vestem de meninas e meninos que se vestem de meninas... — Ah, as roupas vêm com genitais, agora? — Ele se diverte. — Você me entendeu — rosno. — E o Blake é sempre muito ocupado para ficar reparando nos detalhes... eu acho... Não tenho muito tempo para pensar nisso. A campainha toca e lá vou eu, correndo, para ver quem é. — Ele chegou! — Abro bem a porta quando vejo Miguel. Ele me abraça, com menos demora do que de costume e já vai entrando, balançando a mochila em suas costas. Chad está parado, com uma mala pequena que contém tudo o que é necessário para a estadia de Miguel aqui para hoje e amanhã. Estendo a mão para pegar a mala, mas ele a afasta de mim e continua me encarando. — Não tenho o dia todo. — Eu tenho — ele retruca. Cruzo os braços e respiro bem fundo, para ter de aguentar esse pé no saco que eu nem tenho. — O que você quer? — Como você está? — Eu estou maravilhosa, Chad, não consegue ver? — Dou até uma giradinha. — Consigo ver. — Ótimo. Agora se me dá licença, eu vou aproveitar as horas que me restam com o meu filho — novamente tento pegar a mala, mas ele a afasta. — Não tão rápido. Caralho, o que esse babaca quer? — Por que eu não tenho te visto? — Como assim? — Você sabe. Eu sempre te via por aí e agora... parece que nunca te encontro, em canto algum... — Deve ser porque você me proibiu de trabalhar para a minha mãe? — Arqueio a sobrancelha. — E graças a você, eu também não consigo trabalho em canto nenhum dessa cidade. Então acho melhor ficar trancada dentro de casa, assim sou mais útil. — Eu estou te fazendo um favor. Reviro os olhos. — Você não precisa trabalhar, quando tem a mim. Eu só queria que Chad retornasse para o século 16, de onde veio, e parasse de perturbar a minha vida. Ele ficaria feliz, eu ficaria feliz, a peste bubônica ficaria feliz. Mas que merda! — É só isso? Nem vou fazer menção de pegar essa mala, porque se eu conseguir, eu vou bater com ela na cabeça dele! — Tem certeza de que esteve todo esse tempo dentro de casa, Bella? Não me chame assim, seu imbecil, não temos nenhuma intimidade. — Onde mais estaria? — Não sei... por isso estou perguntando. — Se você tem algo de concreto para me contar, pode dizer, Chad. Onde você tem me visto? — Eu não tenho te visto — ele reforça. Acostume-se, cara. Eu prefiro ficar trancada em um porão do que ter que te ver! Será que você não entendeu? — Então é isso — aceno com a cabeça. Chad inclina o rosto para baixo enquanto ri, dedilha o nariz com a ponta do dedo. — Eu não acho esse joguinho divertido, Bella. — Que joguinho? — Esse. De gato e rato. Eu te caço e você se esconde... — Eu não estou me escondendo. Eu estou bem aqui, dentro dessa casa, na maior parte do tempo. E é isso. — Eu vi um rapaz estranho sair daí, recentemente. Engulo em seco. — Quem era esse cara? — Nosso primo — Alisson aparece na porta. Só isso já faz Chad deixar a mala diante do seu corpo e se afastar. Alisson se alonga, a camisa de manga curta do time de basquete deixa seus braços fortes bem à mostra. — Algum problema, Dawnson? — Nenhum problema. — Então por que você não entra na porra do seu carro de riquinho de merda e some da minha casa? Chad ri, mas fica atento. Se você acha que eu sou louca, você não conhece o Alisson. E Chad o conhece muito bem. — Só queria saber como a sua irmã está. — Como você está? — Alisson me encara. — Maravilhosa — respondo com simplicidade. Alisson passa na minha frente e cobre meu corpo, já não consigo ver o babaca do meu ex. — Agora vaza — Alisson manda. Alisson pega a mala e continua naquela posição até que escuto a porta do carro batendo e Chad saindo dali. Meu irmão entra em seguida e pede que eu venha logo. — Obrigada — digo quando passo por ele. — Mas que merda! Não acredito que perdi umas cestas! — Ele reclama, já entretido com o jogo. Pego a mala ao lado do sofá e vou até a cozinha, onde Miguel está. — Oi, filho! Me conte tudo! Quais são as novidades, hein? Ela fica quieto, olhando distraído para os cantos. Fito seus olhos castanhos de um tom bem claro e seu narizinho pontudo que dá vontade de apertar. De uns tempos para cá percebi que Miguel perdeu as bochechas, está com o rosto mais delineado. Já havia notado quando ele chegou que estava com a cabeça raspada, mas agora, prestando atenção, me sinto bem incomodada com isso. Ele está com aspecto de doente. — O que houve com o seu cabelo? — O papai mandou cortar. Vou até uma das cadeiras em frente à bancada da cozinha e me sento. — E você gostou? Ele faz que não. — E por que você não disse ao seu pai que você prefere seu cabelo maior? Miguel levanta os ombros e tenta sair. — Estou falando com você, mocinho! — Ele diz que... cabelo grande não é coisa de homem. — Oh... — é tudo o que consegue sair da minha boca. Talvez seja o século 6 e não o 16. Chad está adiantado 15 séculos! Olha só que tristeza... Pego o meu celular e pesquiso Kurt Cobain no Google. Assim que aparecem as imagens, mostro para Miguel. — Esse moço aqui não te parece homem? — pergunto. Miguel pega o celular e vai descendo para ver mais imagens. O que dizer para ele? Não vou ficar falando mal do pai em sua frente, isso não é saudável e eu me sentiria muito mal em ter de fazer. O mínimo que eu esperava era que Chad fosse um idiota comigo, porque sou adulta e sei me virar. Mas ele sabe que ao mexer com o meu filho, ele mexe comigo. E mais do que nunca, tudo o que eu quero é pegar a minha cria e fugir. — Um dia você vai ter o cabelo do tamanho que você quiser — digo a ele e estendo minha mão. — Vem, vamos trocar de roupa, daqui a pouco nós vamos passear. Miguel vem e conforme vou tirando suas roupas da mala – todas sujas –, também percebo que ele não tomou banho. Então lá vamos nós, colocar o filhote para se banhar e lavar todas as roupas que vieram. Graças a Deus uma mulher prevenida vale por cinco babacas e o que eu mais tenho aqui é roupa para vestir o Miguel. — O cara não tem empregada na casa dele? — Alisson resmunga. — Muitas — dou uma chicotada nele com a camisa que estou segurando. — E nada de falar mal do pai dele perto dele! — Eu não falo mal, só falo as verdades — Alisson contrapõe. — Guarde-as para você então. Só tenho dois dias com o meu filho, não quero que passemos nem mais um segundo pensando no desgraçado do Chad... Alisson concorda de imediato. Mas quanto mais eu rezo, mais assombração aparece... e quando eu menos espero, enquanto confiro se Miguel está tomando banho direito, ele me pergunta: — Mamãe, você me ama? Agora sim eu fico paralisada e sem saber o que dizer, além de responder de imediato. — Eu te amo muito, meu filho. Por que a pergunta? Ele reluta, como sempre, a me contar as coisas. Mas eu insisto e ele desabafa. — Você não tem ido me ver... Como explicar para uma criança que quando vou vê-lo o pai dele se aproveita de mim? Sempre que eu tirava o dia para ir ver o Miguel, o pai dele monopolizava pelo menos 85% do tempo, seja se aproveitando de mim, me levando para algum lugar que eu não queria ir... e quando eu já estava exausta, louca, praticamente surtando, ele me deixava passar alguns minutos com o meu filho, para depois dizer que eu precisava ir embora. — É complicado, filho. — Você não quer me ver? Ajudo-o a terminar de tomar banho, o cubro com a toalha e o acompanhoaté o quarto. — Você é tudo para mim, meu bebê. E eu sei que a mamãe não tem sido muito presente... não é porque a mamãe não quer te ver... Eu quero. Eu sempre quero. — E por que não tem ido me ver? — A mamãe estava e está resolvendo assuntos muito importantes. Mas em breve, você me verá todos os dias. — Promete? — Eu prometo, meu amor, você vai me ver tanto que vai enjoar da mamãe! — Nunca — ele me abraça. E eu o cubro com meus braços, como se assim pudesse protegê-lo de todo o mal. Sei que tenho falhado com isso, mas eu já estava ficando sem forças... e tenho consciência de que sem forças eu não conseguiria ajudá-lo. — Eu quero te ver para sempre! — Para sempre? É muito tempo — preciso limpar a lágrima que desce do meu olho. — Todo dia, mamãe. — Vai chegar um tempo que você me verá todos os dias. Eu prometo, meu amor — beijo sua testa e seco sua cabeça. — Vão ser os melhores dias da minha vida! — Da minha também — pego as roupas limpas e passadas e entrego a ele. — Agora vista-se, daqui a pouco vamos ver a vovó. — Mamãe — ele me chama. — Sim? — E se meus amigos rirem de mim? — Por que seus amigos ririam de você, Miguel? Eu sei. Eu sei. Tudo o que eu queria era que pudéssemos esquecer de Chad e ter um excelente final de semana. Empecilhos: Chad. Não adianta ter dois dias para consertar a cabeça da minha criança, quando ele passa duas semanas criando mil teorias malucas e dizendo coisas absurdas. — O meu vovô é juiz. Ótimo, eu já sei onde essa conversa vai levar. O pai de Chad é um juiz poderoso da cidade de Nova York. A minha mãe é a mulher que serve churrasquinho em uma esquina. — Depois vamos convidar seus amigos para comer os cachorros quentes que a vovó faz. Tenho certeza de que eles vão amar! Miguel não parece muito convencido, mas acaba aceitando no fim, só para me agradar. — O que vamos fazer agora, mamãe? — Agora, você e eu vamos ficar aqui na cama. Jogando, assistindo vídeos, conversando. Eu quero saber tudo sobre como tem sido na escola, com seus amigos, se você está gostando de alguma menina... — Não vou contar isso! — Tudo bem. Então vamos jogar — pego o tablet e deixo que ele escolha um jogo. Deito na cama, ao lado dele e vou dando dicas do que ele deve fazer, até que acabo gritando feito uma maluca todas as vezes em que ele vai perder. E quando eu jogo, eu sou uma completa negação. E eu faço um verdadeiro show toda vez que perco, só para o Miguel rir. Eu queria poder absorver as dores dele. Impedir que sofresse, que ouvisse alguns absurdos e que fosse poupado de viver com um pai que claramente não é estável emocionalmente e quer descontar em tudo e em todos sua infelicidade. Mas eu não posso. Tudo o que eu posso é aproveitar cada segundo que tenho com a minha criança e mostrar a ele que há uma alternativa. Ainda há felicidade, ainda há esperança, aqui também é a sua casa e ele deve se sentir confortável. Sei que é uma casa bem mais humilde do que a mansão em que ele mora. Aqui somos nós que cozinhamos, não as dezenas de criados da família Dawnson. E estamos longe de ter as regalias, luxos e vantagens que uma família milionária pode ter. E ainda assim, no passado, quando consultado pelo juiz com quem queria ficar, Miguel disse que queria ficar comigo. Mas a sua opinião não foi escutada, porque eu não teria as mesmas condições de oferecer-lhe o que a família Dawnson tinha em mãos. Mas uma coisa eles não tinham e esse era o meu diferencial. E Miguel sabe bem que aqui, mais do que em qualquer outro lugar, ele pode encontrar o que nenhum dinheiro pode comprar: Amor. Capítulo 20 Blake Gallagher — Filha, vá devagar! Não importa o quanto eu insista ou o tom que eu use: Rowan não se importa. Parece até que puxou o humor e gênio de Isabella, que sempre me surpreende com seu jeito livre e espontâneo, e que dificilmente acata as minhas ordens. Por que é tão difícil acatar as minhas ordens? — Filha! — Torno a adverti-la. E lá segue ela, correndo com seu novo cachorrinho, um labrador. Ela até faz parecer que é ele quem a está puxando, mas o pobre do cachorro é um filhote, não tem tanta força e energia assim, ainda. Ajeito o cachecol preto para cobrir parte do meu queixo e pescoço, asseio os óculos escuros e continuo a vigiá-la de longe, enquanto ela brinca. Eu devia ter feito isso mais vezes. Na minha preocupação em proteger Rowan do mundo, eu cometi a maldade de não permitir-lhe conhecer o mundo. Ela é minha filha, mas não precisa seguir os meus passos, compartilhar as minhas preocupações ou até mesmo aceitar que viver numa bolha, como eu, pode fazer bem. Não faz. Rowan é apenas uma criança e como tal, precisa ser livre para conhecer o mundo e se divertir. Sempre tive medo do que poderia lhe acontecer..., mas enfim percebi que não importa o que aconteça. Se eu estiver ao seu lado, vamos encarar juntos. — Para onde você pensa que está indo? — Ele beber água! — Ela retruca. — Cuidado para não tropeçar! — Continuo com as mãos nos bolsos do sobretudo bege, seguindo-a a uma boa distância. Como sempre, meus seguranças estão espalhados por aí, vestidos como pessoas normais, e sob qualquer suspeita eles agirão. Mas acho difícil que alguém me reconheça. Não estou usando as vestes que tradicionalmente visto. Estou de jeans preto, camisa branca de linho e esse sobretudo para me proteger do frio – qualquer pessoa do trabalho ou que me conhecesse e esbarrasse em mim, não acreditaria. Ou pior, estaria pensando que está vendo coisas... Nesse momento eu sou apenas um pai, fazendo o seu trabalho: deixando a filha se divertir. — Não brinca — ouço uma voz familiar e viro o rosto. — Você está me perseguindo ou o quê? — Rosno, abaixo o cachecol e encaro Isabella. — De todos os lugares que imaginei que pudesse encontrá-lo, esse é o mais improvável. Quer dizer... o Central Park é gigantesco. Concordo em silêncio e vigio se está tudo bem com a minha filha. — Eu gosto de correr aqui, esporadicamente. E vim apresentar o lugar para a Rowan. — A propósito, esse é o meu filho, Miguel. Isabella coloca as mãos nos ombros de um garoto com uma jaqueta volumosa, tem indiscutivelmente os olhos dela e o nariz também. E a cara de desconfiado, é claro. Seguro em sua mão para cumprimentá-lo assim que ele o faz. — Olá, Miguel. Eu sou Blake. — O que você é da minha mãe? — Amigo — Isabella e eu respondemos juntos. — Adultos não sabem mentir muito bem — ele coça a ponta do nariz e franze o cenho. Quando percebo que algumas crianças e adolescentes estão se aproximando de Rowan, provavelmente por causa do filhotinho, indico com a cabeça para Isabella que preciso ir. E ela gentilmente me acompanha. — Que cachorrinho legal! — Miguel sai correndo na frente para brincar também. E ficamos Isabella e eu parados, observando os pequenos. — É sério, você está me seguindo? — Teria problema se tivesse, senhor Gallagher? — Nenhum — digo de pronto. — Mas você saberia que eu estava aqui se estivesse... — viro-me para encará-la. — Você sabe... — Ah... prometo usá-lo, da próxima vez — ela se diverte. — O que houve com o cabelo dele? — Cruzo os braços. — O idiota do pai raspou. O Miguel está bem triste. — Deu para perceber pelo olhar. Você e ele tem os mesmos olhos indomáveis, de que não podem ser parados. E não conseguem esconder quando estão descontentes... — Você é muito observador, senhor Gallagher. — Você não se torna uma pessoa como eu se não for — contraponho de imediato. — Planos para mais tarde? — Vou levar Rowan para conhecer um dos meus lugares favoritos a respeito da gastronomia nova-iorquina. Isabella faz um bico e já começa o deboche: — Uh, você vai acostumar a menina com os restaurantes cinco estrelas desde tão cedo? — Que mal há nisso? — Bom, para você, nenhum. Você deve ter todo o dinheiro do mundo... Concordo com ela. — Não, um dos meus lugares favoritos não tem estrela alguma. É um lugar bem simples, mas com uma comida gostosa e cheia de alma e sabor. Tem o espírito nova-iorquino. — “Espírito nova-iorquino” — ela repete emtom de desdém. — Conte-me o que é o espírito nova-iorquino para um garoto de Manhattan. — Nem sempre morei em Manhattan — parece que a surpreendi agora. — Não? Bom... eu fiz as minhas pesquisas, sabe? — Você é jornalista. — Pois é. E seus pais sempre moraram em Manhattan. — Acontece, senhorita Miller, que eu nem sempre morei em Manhattan. — Como isso é possível? — Porque, na verdade, eu sou adotado. Isabella faz uma pausa dramática enquanto me encara. — Está brincando? — Estou? — Levanto a sobrancelha. — Eu... não fazia ideia disso. — Da próxima vez, pesquise direito — conserto alguns fios de cabelo dela que estão sendo bagunçados pelo vento e coloco atrás da sua orelha. E saio caminhando em direção a Rowan e Miguel. — Como assim? Você me joga essa bomba e sai andando? — O que eu deveria fazer? — Não sei... me conte mais sobre isso. É sério, eu estou muito surpresa! — Não fique. Guardo segredos piores que a deixariam, para além de surpresa, muito deprimida. — Então me conte os seus segredos, senhor Gallagher. — Faça as suas pesquisas direito — sorrio de canto. — Olha só... distribuindo sorrisos... você é mesmo o Blake Gallagher ou o gêmeo dele menos mau? — O que quer dizer? — Nunca imaginei te ver sorrindo tanto assim. Me conte o milagre. Suspiro devagar enquanto examino com cuidado o rosto de Isabella. — Você não entenderia. Isabella e eu trocamos provocações por uns bons minutos; eu sempre tenho uma resposta pronta para ela e ela sempre tem uma nova coisa para perguntar ou retrucar. E ficamos assim até que Rowan e Miguel vêm até nós. — Papai, o cachô quem. — Você já quer ir? — Pergunto. E Rowan faz que sim. — O que ela disse? — Miguel olha para todos nós, confuso. — Cachô quem assim ó — Rowan faz sinal de segurar algo e depois se lambuzar toda. E o menino fica ainda mais apreensivo, ainda mais confuso. — Está com fome, Miguel? — Pergunto. — Eu estou sempre com fome — ele ri. — Ótimo, Rowan e eu queremos te levar a um lugar, para comer. Por nossa conta. — Aproveite! — Isabella cutuca o filho. — O Blake é um dos, senão o homem mais rico que eu conheço. E só vai a lugares luxuosos e importantes! — Ela diz com muita pompa, mas ainda assim, debochada. Gosto disso nela. Essa garota é a própria Nova York. E é por isso que quando estou perto dela, sinto que estou em casa. — Cachô quem é o nome do lugar? — Miguel pergunta, confuso. Rowan ainda tenta explicar mais algumas vezes, até que desiste e muda de assunto. Miguel e ela estão aficionados no cãozinho. Ele o pega no colo para levá-lo até o carro e minha filha o segue. — Não vá acostumar o meu filho com seus lugares chiques, não vou ter como pagar depois... — Então é só me chamar e eu pago. — Você está tentando conquistar o meu filho para me conquistar, senhor Gallagher? — Ela me provoca. Novidade seria se não provocasse. — Você quer mesmo me dizer que eu já não te conquistei? — Devolvo, encarando-a bem perto. Deixo-a sem resposta e parada enquanto continuo a caminhar para alcançar as crianças. Após entrarmos no carro e seguirmos para comer, Isabella continua quieta, sempre me observando. Duas ou três vezes a vi fazer o gesto que sempre faz quando está prestes a desatar a falar, mas ela fica em silêncio e deixa os olhos vasculharem o carro. — Que carro legal, né mamãe? Nem o papai tem um desses — Miguel parece animado com o espaço dentro do automóvel. E quando descobre então o botão que faz o teto abrir, ele fica em frenesi. — Mamãe, me levanta! Me levanta! — Filho, o que eu te ensinei sobre mexer em coisas que são dos outros? — Ela reclama. — Você falou para vasculhar e mexer em tudo — ele contrapõe. Isabella se faz de desentendida e eu me divirto. — Levanta o menino, deixe ele se divertir! — Rosno. — Eu posso também, papai? O “não” já vem pronto na ponta da língua. Mas quer saber? Por que não? — Você quer? Ela faz que sim. — Então vem com o papai! — Pego-a no colo e a levanto. Rowan coloca as mãozinhas nas laterais da abertura enquanto vê os prédios luminosos, os letreiros, o movimento de tanta gente. Ela acena, como se fosse uma estrela de cinema. Em seguida Miguel e sua mãe também sobem e o garoto não para de dizer o quão legal é a vista e também acena para as pessoas. Até parece que esqueceram que estavam com fome. Acabam se distraindo tanto com a vista que já ouço até alguns protestos para que continuemos assim e deixemos a comida para lá. Mas eu também quero comer. — Mamãe, essa não é a rua que a vovó trabalha? — Miguel pergunta. Alguns segundos depois paramos diante do Trailer Hathaway e Isabella me encara horrorizada, espantada e sem palavras. — Chegamos — aviso. — Um dos meus lugares favoritos de toda a Nova York. Rowan aponta freneticamente para o letreiro que diz: O melhor churrasco e cachorro quente de Nova York. — Eba! Cachô quem! — Ela vibra. — Não brinca — Isabella faz um sinal negativo com a cabeça. — Quando você vai perceber que eu não sou homem de brincadeiras? — Respondo. As crianças saem, eufóricas, nunca vi Rowan tão feliz em toda vida, ela está tão frenética que até esqueceu o cachorrinho dentro do carro e saiu desesperada. Pego o filhote pela coleira e saio do carro depois de Isabella, que ainda não sabe o que me dizer. — Um dos seus lugares favoritos? De toda Nova York? — Sim. — Pelo amor de Deus, você só pode estar me zoando! — Não. — Nova York é bem grande! — E esse é um dos melhores lugares daqui. Autêntico, verdadeiro e — aponto para a placa. — O melhor churrasco e cachô quem — imito Rowan — dessa cidade luminosa. Isabella conta os passos até ir em direção ao trailer, parece desconfiada de alguma coisa. E eu não vejo porque deveria estar. Miguel entra no trailer e abraça a dona do estabelecimento, Rowan fica na porta repetindo o que quer. Eu me sento em uma mesinha, atento ao cachorrinho que parece assustado e ao mesmo tempo animado com tanto movimento. E Isabella fica em pé, diante de mim. — O que você quer? — Eu quero você. — Não. Para comer. — Resta alguma dúvida? — Do trailer! — Ela insiste. — Ah, eu fico com o churrasco. — Okay, vou fazer o pedido — ela acena e vai até o caixa. Eu tiro o celular do bolso. Acompanho as subidas e descidas da bolsa de Nova York, em seguida da Inglaterra e vou passando por outros países onde tenho interesse. Sou interrompido pela minha filha que vem com um lanche bem grande em mãos, a ajudo a se sentar e desisto de limpar seu rosto, vou deixar para o fim, porque ela vai se lambuzar. Ela gosta disso. Miguel se senta na cadeira do meu outro lado e fica me olhando. — O senhor é mesmo bem rico? — Por quê? — O senhor é ou não é? — Sou. — E esse é um dos melhores lugares que o senhor já esteve? De toda a cidade? — Talvez de todo o país. — Por quê? Ou esse garoto não acredita em mim ou está me testando, não consigo imaginar uma terceira opção. — Miguel, essa cidade tem de tudo. Os restaurantes, lojas e supermercados servem de modelo para o mundo todo, que copia, abrindo franquias ou imitando o modelo de negócios. Ele me acompanha, com alguma dificuldade. E eu me divirto ao perceber que preciso treinar mais o ato de conversar com crianças. — Os restaurantes de fast-food são iguais no mundo todo. Seguem um padrão. Isso ele parece entender. — Sim. — Esse lugar — aponto para o trailer. — É único. Só existe um dele no mundo todo. Ele é autêntico, é a cara dessa cidade, por mais elitista e rica que ela queira parecer. — O senhor não tem vergonha de comer aqui? — Por que teria? — Porque é simples — agora acho que consigo entender onde Miguel quer chegar com essa conversa. Eu poderia dar uma aula sobre investimento para ele, mas seria completamente desperdiçada, ele não tem idade para entender que algo único como o Trailer Hathaway pode ser mais valioso do que uma rede de fast- food. Todas as redes de fast-food começaram com uma loja simples. E por serem tão incríveis, trazerem um diferencial e mostrarem a identidade do lugar que vem, se tornaram verdadeiros tesouros. E é issoo que o Trailer Hathaway é: um tesouro. Não mais escondido, é um lugar supermovimentado. — Eu também sou um homem simples. — Mesmo com muito dinheiro? — Um dia você vai ter muito dinheiro, Miguel. — Espero que sim... — E vai perceber que as coisas mais valiosas na vida, não se compram com ele. Capítulo 21 Bella Hathaway Nunca estive tão perto de ver toda a minha farsa ruir. Não sei com que cara retorno para a mesa em que Blake está, junto com as crianças que estão terminando seus lanches. Não sei nem o que dizer. Estou pronta a entrar em pânico. — Como está o seu churrasco? — É o que encontro para quebrar o silêncio. Mas pelo amor de Deus, que cara rico deixaria de comer em um Paris 6 para vir aqui no Trailer Hathaway? É muito surreal, para mim. Não consigo acreditar. — Está excelente, como de costume. — Como de costume — repito em forma de sussurro, não consigo nem mais manter minha mente trancada dentro da cabeça, agora ela está escapando pela boca. — Você vem muito aqui? — Algumas vezes. — Todas as vezes que nos encontrarmos você vai me dar um motivo para ficar chocada? — Bebo meu suco de laranja. — Não entendo porque está chocada. — Ah, não? Blake... olha só para você! Ele sobe o celular e encara seu reflexo no aparelho. — Idiota... — Agora vai partir para as ofensas? Na frente das crianças? Chamo-o por diversos nomes, só com o olhar. E Blake se diverte, não desvia os olhos de mim, o que me deixa desconcertada. Eu? Desconcertada? A pessoa que desconcerta tudo e todos? Como é possível? — Só penso que é incomum conceber que você coma aqui. — Se parar para pensar por um segundo, vai perceber que todos os nossos encontros, até hoje, foram bem incomuns — ele avalia. É verdade. Eu vestida de Alisson, então? Com os seios espremidos, peruca bagunçada e chutando o ar com um sapato de palhaço nos pés? Não quero nem ver a reação dele quando descobrir! — Temnei — Rowan anuncia e fica eufórica, encarando o pai. Está sentada, mas se remexe toda na cadeira. — Você pode brincar com o seu cachorrinho, mas não pode se afastar. — Sim — ela balança a cabeça. — Só pode ficar nesse perímetro aqui — ele indica com os dedos até onde a menina pode ir. — Sim! — Então vá brincar! A menina sai toda animada com o cachorrinho para brincar e Miguel a segue, mesmo sem terminar de comer. Uma bronca não resolveria, e também, vê-lo feliz me deixa feliz. Ele estava bem tristinho desde que chegou e agora parece que já se livrou da pressão. — Eu não consigo tirar as suas palavras da minha cabeça. — Quais? Comprimo os lábios antes de falar. E olho para tudo: os postes, os letreiros iluminados não tão distantes, as nuvens que se dissolvem até desaparecerem no céu escuro... — O que é tão difícil de tirar da sua cabeça? Que eu mexo com você, Blake. Como assim eu mexo com você? Isso foi algum tipo de piada? De truque? Você quis desviar minha atenção e me deixar mais sentimental para acreditar no que viria a seguir? — Eu não estou acostumada com isso. — Isso o quê? Por que tenho a impressão de que estamos conversando em algum tipo de códigos? — Eu estou acostumada com joguinhos, Blake, é isso. Nunca alguém chegou e... disse o que você me disse. Ele não parece muito impressionado, de toda forma, comprime os lábios também e acena com a cabeça. — Você foi bem assertivo com as palavras. — Eu sou direto em tudo — ele diz sério. — No meu mundo não há curvas, tudo é linha reta. E tenho tudo o que quero. — Sério? — Diga-me você, Isabella. Se eu realmente posso ter tudo o que quero. — E o que você quer de mim, Blake? — Eu não quero nada de você. Agora estou ainda mais confusa e a minha sobrancelha indica isso com incisão. — Eu quero você. — Mas por que eu? — Essa é a pergunta que não sai da minha cabeça. Não vou bancar a doida e dizer que não o quero: é lógico que o quero. Mas por que ele me quer? — Não tenho uma resposta para isso. — Você não era o cara que tinha resposta para tudo? — Provoco. — Eu sou um investidor. O melhor dessa cidade. Que arrogante e exibido. E isso porque nem tirou a roupa... — A vida toda fiz investimentos cujo lucro era garantido. Exato! É isso! Meu bem, olha direito para a minha cara. Isso aqui é o mais perto que você vai ver de uma maluca. Foge! Também é o mais perto que você vai ver de uma mulher decidida, que não se importa em fazer de tudo para conseguir o que quer e que é intensa de verdade. Você não entendeu? Foge! — Eu digo isso porque... — engulo em seco. — Eu tenho uma personalidade diferente. Eu assusto os homens, eles se sentem intimidados com a minha forma de pensar, agir e não dar a mínima para o que eles acham de mim. — Posso terminar meu raciocínio? — E também interrompo o raciocínio das pessoas — o alerto. — A vida toda eu fiz investimentos cujo risco é zero. — Blake, eu sou o investimento mais arriscado que você poderia ter. — Exato — ele diz. Pronto, ele enlouqueceu de vez! — Quero correr riscos. Você me faz sentir isso. — Te faço sentir o quê? — Acho que o lugar é inapropriado para o que eu posso dizer — ele olha ao redor e sorri. — Ah, aqui é só mais uma rua de Nova York, diz. — Você saberia, se estivesse com o meu presente. — O que você quer me dizer teria que tipo de intensidade? — Me refiro ao brinquedo. — Essa intensidade não vem com o brinquedo. — Não? — Ela vem comigo. Preciso ser sincero com você, Isabella. — Pensei que já estivesse sendo, Blake. E ele ri. Eu sou esse tipo de mulher: que provoca. E ele é esse tipo de homem: que não está nem aí e vai provocar de volta. — Acho o amor superestimado. Apenas um conto de fadas que faz o capital girar no dia dos namorados e em datas especiais. O amor é uma ilusão. — Credo, que visão horrorosa. — Mas dessa vez, vou me permitir ser iludido. — O que você quer dizer com isso? — Esquece. — Fala, Blake! Mas ele é assim, depois que decide algo, é firme e não volta atrás. Respiro fundo. — Posso ser sincera com você, Blake? — Pensei que já estivesse sendo, Isabella. — Eu acho o amor superestimado também. Não sei porque ele está surpreso, temos muitas coisas em comum, pelo visto. — Jura? — Ele desdenha. Que diabo de homem! — Todas as pessoas que disseram me amar, me machucaram de alguma forma. Menos a minha mãe, é claro. E o meu irmão e a minha melhor amiga. — Sinto muito. Mostro que está tudo bem. — Eu conheci um homem que dizia me amar. E ele me convenceu disso, até ter certeza de que eu era dele, sabe? Foi aí que o conheci de verdade. A posse. Os ciúmes. Os abusos verbais que com o tempo se tornaram físicos... Blake estica sua mão até alcançar a minha em cima da mesa. É um ato que me faz sorrir. — Pode fazer a pergunta. — Que pergunta? — O que todo mundo sempre quer perguntar, mas não tem coragem o suficiente. — Não sei se estou entendendo, Isabella... — “O que você quer esconder com toda essa felicidade? Essa loucura? Esse seu jeito maluco”? É isso o que todos os homens que passaram pela minha vida, professores, chefes e até clientes me perguntaram. Mas eu nunca respondi — faço uma longa pausa. — Mas eu direi a você. — Se quer manter o seu segredo, Bella, por mim, tudo bem. — A forma que eu encontrei de suportar a dor e vencê-la, foi dessa forma. Não quero que ache que sou uma coitadinha, Blake, mas eu sofri demais. Nas mãos de uma pessoa que eu acreditei que me amava. E para conseguir seguir, e eu nem sei como consigo seguir, eu só acentuei a minha personalidade. — Não parece uma personalidade forçada, para mim. — Porque eu me tornei boa em mascarar a dor com o passar do tempo, Blake. Assim como você. Porque é exatamente esse mesmo motivo que te tornou duro, frio, arrogante e mandão. Desde o primeiro instante eu sei que você está escondendo algo. Eu só não consegui descobrir ainda o que é. E o pior: quando descobrir, terei de tomar a dura decisão se usarei isso contra você, para te destruir. — Gosto da sua personalidade. — Gosta? — Não consigo pensar em algo que não goste em você. Mas esse desgraçado sabe jogaro jogo. Ele sabe me iludir, mexer com os meus sentimentos, tentar encobrir o possível monstro que é, enquanto joga com minha mente. Conheci muitos homens como Blake. Fui e sou abusada por um. Eles sempre começam assim, de mansinho. Até conseguir arrancar o melhor que temos. — Depois que você me contou que era adotado, eu imediatamente te entendi. — Me entendeu? — Ele se mostra surpreso. — Você está sempre lutando consigo mesmo. Tentando dar o seu melhor para orgulhar a sua família, porque sente, lá no fundo, que nada do que fizer, vai ser o suficiente para eles. Blake levemente solta a minha mão e a recolhe. Eu sei. Eu toquei na ferida. — E você ama, você é devoto, você tem seus pais como seus heróis. E quer fazer algo por eles, desesperadamente, mas isso gerará um conflito grande, interno e externo. E tudo o que você menos quer, é causar o caos... — Isabella... — Ele claramente está desconfortável. — Mas você sabe que precisa fazer isso. Por eles. Abrir mão de você. Fazer o que é certo, não o que é fácil. E isso vai te mudar para sempre. — Não quero ter essa conversa — ele diz seco. — Foi exatamente esse o meu conflito, Blake, quando eu te vendi minha virgindade — eu explico, não o deixo menos tenso, mas ele volta a me encarar no fundo dos olhos. Deixo que ele saboreie o silêncio entre nós. — A minha mãe foi a melhor coisa que aconteceu a mim e ao meu irmão. Ela deu tudo, ela fez tudo por nós. E... eu não sei se você consegue entender, mas... acordar um dia e saber que ela tinha câncer e precisava urgentemente tomar providências a respeito disso, quebrou a todos nós. Ele concorda de imediato. — E naquele momento, eu sabia que eu tinha de salvá-la, não importava o preço. Ela me salvou e eu faria tudo por ela. Eu não seria essa mulher que sou hoje, eu não estaria aqui na sua frente, se não fosse ela. Novamente ele concorda. — Você foi o meu primeiro homem, Blake. E não foi por escolha, foi a necessidade do momento. — Fico feliz em ter aberto uma exceção para você — ele diz de modo cordial. — Mas eu te escolheria de novo. E é por isso que ainda estou aqui. Não menti. Só tenho intenções dúbias, é claro. — Pode ser estranho, eu sei, mas quando você me contou que era adotado... um filme se passou em minha cabeça. E eu pensei: será que ele sente isso também pelos pais? Será que ele já passou ou está passando por algo assim? — Não vamos ter essa conversa — ele repete. É a minha vez de estender a mão e segurar na dele. — Se eu puder ajudá-lo de alguma forma, assim como você me ajudou, eu farei. Não duvide disso. Aqui estou eu. A própria Eva. Que come do fruto proibido e depois dá para o Adão. Após longos minutos me olhando no fundo dos olhos, Blake pisca e se levanta. — Está realmente tarde. Eu preciso ir, Rowan tem muitas atividades amanhã. Me levanto também. — É por minha conta — ele deixa uma nota de cem dólares. — Você é muito exagerado! Tudo não deve dar vinte dólares... E, é claro que, é por conta da casa. — Eu insisto — Blake contorna a mesa e vem até mim. Fica parado, diante de mim, tão próximo que posso sentir um impulso eletromagnético me puxar em direção ao seu corpo. Vejo seu rosto se aproximar do meu e seu nariz sentir o meu perfume. Seus lábios ficam entreabertos, mas ele claramente reluta em se aproximar ainda mais. Toca meu rosto com suavidade. Sua mão é macia e me faz sentir muito bem. Consigo sentir o carinho e cuidado que ele tem por mim, na mesma intensidade que gostaria de me castigar por fazê-lo passar por um momento assim. Blake ajeita uma mexa do meu cabelo atrás da minha orelha. — Vou mandar um carro ficar aqui à espera de você e seu filho, para irem seguros para casa — ele diz. — Não precisa... — Mas eu quero — ele é firme. — Fique bem. E se precisar de absolutamente qualquer coisa, você tem o meu número. — Tudo bem... — murmuro. — Rowan, precisamos ir! — Ele vai buscar a filha, se despede de Miguel e conversa alguma coisa com ele. Rowan se despede e manda muitos beijos e Blake leva o cachorrinho de volta para o carro. Eu pego todas as coisas na mesa e levo para o Trailer, depois volto para limpá-la. A minha mãe vem em seguida, com a mão na cintura, procurando o homem que estava comigo. — Ué... ele já foi? — Já, mamãe. Ele é um homem bem ocupado — tento explicar. — E deixou isso — entrego a ela a nota de cem dólares. — Esse menino... — ela balança a cabeça negativamente. — Sempre que vem aqui ele deixa uma nota dessas! Fico até desconcertada... — Sempre que ele vem aqui? Quando que ele vem aqui? — Sempre — ela repete. — E como eu nunca o vi por aqui? — Deveria prestar mais atenção, então. Principalmente em um homem como esse — ela empina o nariz, pega a nota de cem e volta para o Trailer. Quanto mais eu conheço o Blake, menos eu o conheço. Capítulo 22 Bella Hathaway Passei o domingo com Miguel aproveitando ao máximo sua companhia. Alisson e eu o levamos para jogar basquete numa quadra próxima de nossa casa. E no final do dia eu me despedi dele, segurando o choro para não aumentar seu sofrimento. — Mamãe, eu não quero ir embora — ele me agarra nos últimos segundos e me olha com os olhos marejados de lágrimas. — Eu também não queria que você fosse. Mas se lembre, a mamãe te prometeu, um dia você não precisará ir embora, tá? — Você promete? — Prometo, meu amor. Continuo agarrada a ele até que seu pai chegue. Chad é assim: para entregar o meu filho ele demora um século, mas para vir buscar ele é o próprio relógio da pontualidade. Peço para que Alisson acompanhe meu filho até a porta e me tranco no quarto enquanto reflito sobre tudo o que aconteceu. Não sei em quem confiar. O meu trabalho – e quem me contratou – tem uma versão sobre o Blake. E o Blake tem outra versão que confronta o que me disseram. O que fazer? Só sei que preciso tirar meu filho do desgraçado do Chad e por isso vou seguir investigando tudo na surdina, junto com Genevieve. A segunda começou da forma normal que tem sido a minha rotina nos últimos tempos: todo o preparo com a fita para cobrir meus seios, tento usar um pouco de maquiagem para dar alguns traços mais masculinos em meu rosto, visto o uniforme ultrachique de trabalho, coloco a peruca charmosa com franja e passo o perfume de Alisson. Ao chegar na CS Gallagher, dou de cara com Alexa, que está reunindo suas coisas no escritório e colocando em uma caixa. Eu prefiro evitá-la. O que não posso evitar são essas outras trinta mulheres, de pé, me encarando. — Quem são vocês? — Pisco os olhos, surpresa. Será que elas erraram o filme? Aqui não é Legalmente Loira ou Miss Simpatia. — Viemos para a vaga de secretária — uma das que está em primeiro na fila, fala. Nossa. Não estou impactada porque esqueci que precisaria entrevistá- las. Estou impactada porque parece que todas elas saíram de uma máquina de xerox 3d: loiras, peitudas, boca grande, altas, algumas de calça, outras com uma microssaia. Jesus. Elas vieram preparadas mesmo. — Oh, sim, irei chamá-las por ordem de chegada — vou até a minha mesa e arrumo minhas coisas. E levo de uma a uma para a biblioteca para serem entrevistas. É sempre a mesma coisa: vejo seus currículos, faço algumas perguntas e suponho situações que já aconteceram com o Blake e o que elas fariam. Todas meio que vão dando uma reposta parecida, então eu anoto o que acho relevante e vou chamando a próxima. Até que a fila interminável acaba. A última que sai me abraça com demora e desliza o dedo pela minha gravata. Posso jurar que ela apalpou o pênis de borracha que fica na minha cueca, e saiu com um sorrisinho malicioso. Saio chocada da biblioteca e dou de cara com Allen Mitchell. — Meu Deus, eu tinha esquecido que você era tão alto... — preciso ficar com o rosto estendido para encará-lo. — Dois metros — ele fala. — Preciso subir em uma escada para apertar sua mão? — Estendo a minha. E ele, todo educado e simpático, vem com o melhor sorriso e aperta a minha mão. Allen é um fofo. Tem rosto de neném, todo limpinho, lisinho, as sobrancelhas são grossase os olhos são de um azul bem profundo. Seu cabelo é raspado nas laterais e a parte de cima forma um topete. Já o corpo, é de homem, sem sombra de dúvidas: ombros largos, braços fortes e aquele jeito imponente que os homens têm de terno. — Você não cresce mais? — Allen me provoca e olha para os meus pés. — Não. Eu sou de uma edição limitada e gosto disso — pisco para ele. — O que você veio fazer aqui, Allen? — Vim te ajudar. — Você sempre vem para salvar o dia? Fez isso no dia da biblioteca. — O Blake pediu ao Jacob, que mandou que eu viesse aqui te dar suporte enquanto você não encontra a secretária perfeita. — Ah, certo. — Nossa, elas têm uns peitões, né? — Nem me fale, saíram todas da mesma fábrica da Barbie, sem dúvida — crítico e cruzo os braços. — Ah, eu gostei — ele lambe os beiços. — Não pareciam ter muita personalidade... — Mas você viu o tamanho da bunda? Cara, eu estou duro só de olhar, imagina se ficasse trancado na biblioteca com elas. Eu não iria resistir... — Mas tudo com as respostas ensaiadas — balanço a cabeça negativamente. — Alguma delas quis te chupar? Arregalo os olhos. Na verdade, umas três. — É... eu... bem... — E aí, o que você fez? — Eu... você sabe, é apenas uma entrevista. O Blake me mataria se me pegasse fazendo uma coisa dessas — cruzo os braços de novo, com mais efervescência. — Mas o perigo não te deixa mais excitado? Vamos trocar de turno amanhã, eu entrevisto e você fica aqui. Cada entrevista vai demorar mais ou menos uma hora. — Allen! — O que foi? Eu estou definitivamente chocada com esse papo de homem. Não estava pronta. Ainda o Allen que parece um neném com esse rostinho fofo, falando putaria. — Você tem princípios mesmo, nem se aproveitou. Cara... eu não sei... eu não resistiria... É claro que não. Parece que é da natureza de vocês. Deus disse: não come essa merda! E Adão: pode deixar, não vou comer nunquinha. Aí vem Eva: amor, come isso aqui. E cara, ela estava nua. Nua! Adão comeu e ainda lambeu os beiços. — Allen, o Blake é um dos caras mais poderosos da CS, certo? — Se não for o mais — ele levanta a sobrancelha grossa, claramente estranhando a mudança de assunto. Mas eu prefiro isso do que ficar falando de peito e bunda por mais um minuto. — Por que ele tem esse escritório? Tão parado, aqui quase nunca vem ninguém... imaginei que para um homem do porte dele, no mínimo ele deveria ter umas... 7 secretárias. — Uma para foder cada dia da semana — ele concorda. — Allen! — Estalo os dedos na frente dele. — Oi. Sim. Pois é. O Blake gosta de ser o solitário. Ele detesta gente, companhia, conversas... no passado, nesse escritório, eram apenas ele, o Jacob e o Kaleb. E a Alexa, é claro... quanto menos gente, melhor, segundo ele. — Imagino que no escritório do Franklin deve ter umas 7 secretárias. — Umas 14, se não me engano — ele diz sem titubear. — Você já foi lá? Ali sim é cheio de gente. O cara gosta de ostentar. — O Franklin é o herdeiro do banco, não é? Allen franze a testa. — Dizem que sim. Mas ele sempre está meio bêbado ou atrasado. Isso quando não está fodendo com alguma secretária. Na real, não sei nem sobre o que é o departamento dele. — Certo. Obrigada, Allen. Agora que nos concentramos, vamos trabalhar! — Mas e as loiras peitudas? Elas te mostraram alguma foto delas peladas? Deixa eu ver — ele vem para cima, vasculhar em minha pasta com os currículos delas. — Allen! — Tento escapar das mãos dele. — Amanhã sou eu quem vai entrevistá-las e você fica aqui quietinho — ele coloca o indicador na frente do nariz. — Você precisa tomar jeito, Allen Mitchell! — Aponto o dedo para ele em tom de advertência. — Credo, cara... você pareceu a minha mãe falando. Engulo em seco. E fico paralisada o encarando. Encontro como saída a mudança de assunto: — Onde está o Blake? Que estranho ele não estar aqui. — Ele precisou resolver umas coisas com o Jacob. Mas você o verá no fim do dia. — Ah, ele volta antes das 17? — Não. Na academia. — Academia? — Quase dou um salto. — Sim, ele disse para te levar para treinar. O quê? Você não trouxe roupa? Querido?! — Não faz mal, eu sempre trago comigo algumas mudas de roupa dentro do carro, te empresto. — Você é bem estranho, Allen. — Eu sou preparado, é diferente. * Queria ter o Allen como colega de trabalho vitalício. Ele é eficiente, educado, o tipo de garoto que eu gostaria que o Miguel fosse um dia. Em compensação, só fala de mulher. Ele me conta várias de suas aventuras sexuais, do ménage que fez com um casal e como estava investindo em uma garota da academia. Sobre o amor, ele dá aquela resposta esfarrapada que todo cara rico e metido a besta dá: — Não tenho tempo para isso... Fechamos o escritório, ele me leva até seu carro e primeiro vamos comer alguma coisa, depois seguimos para a academia. Eu nem acredito que isso está acontecendo, sério. Eu pensei que seria alguma piada do Blake, mas pelo visto, ele estava falando sério... — Ai, por que eu preciso treinar? — Resmungo alto, quando chegamos no lugar. Só a entrada já é uma coisa monumental. Não é tão movimentado, consigo ver assim que entro. Tem muitos aparelhos e de longe já consigo ver o Blake com o Jacob levantando alguns pesos. O que eu fiz para merecer isso, meu Deus? Após cadastrar a minha biometria – porque o meu cadastro já havia sido feito pelo controlador do Blake –, sigo para o vestiário para trocar de roupa. Já dou um pulo logo de cara quando entro no lugar e a maioria dos homens estão pelados, balançando o sino de Belém de um lado para o outro. Dou meia volta e esbarro no Allen. — O que foi? — Ah, eu me assustei, só isso. — Com o quê? Com tanto pau, menino! Nunca vi tanto pau assim! Parece até que é dia de promoção no supermercado: Olha o pau, olha o pau! Tem de todo tamanho! Tem ele 7cm duro e 15cm mole! Tem de toda cor, tem circuncidado, tem os com as bolas caídas! É isso mesmo, minha senhora! Compre o seu pau! Leve! — Vem, vamos trocar de roupa. — Allen! Mas ele me arrasta. Eu saio correndo e entro em uma cabine com chuveiro. Respiro freneticamente enquanto tento colocar a cabeça no lugar: meu Deus, onde eu vim parar? Tiro a roupa bem rápido e coloco a camisa e o short que o Allen me emprestou, ficam bem folgados em mim, parece até que sou um desses adolescentes que gosta de hip hop. E os tênis... meu Deus, eu vou ficar dançando a coreografia de Bad Romance em cima disso! — Alisson? — Oi. — Vamos, cara! Cadê você? — Eu já estou indo! Termino de me arrumar, quando saio da cabine coloco tudo em um armário aleatório, porque não faço ideia de onde meu colega de trabalho deixou suas coisas e saio correndo. O treinador me coloca para correr na esteira por alguns minutos e aqui vou eu, parecendo que estou tentando me equilibrar em uma prancha de surf, porque esses tênis não ajudam. Sinto que a qualquer momento eu vou chutá-los no ar e vou atingir a cabeça de alguém! — Olha que gostosa! Lá vem esse menino falar de mulher, meu pai. Mas é gostosa mesmo, que bundão! Queria eu ter um bundão desses, mas a disposição é zero. Quando retorno a minha atenção para Allen, após pedir para Deus que na próxima vida ele me mande com o corpo daquela mulher, dou um tropeção e quase caio na esteira. Sou salva pelo gongo, digo, pelo braço. Blake me puxa para cima dele, me impedindo de quebrar uns dentes na esteira. E eu que não sou boba nem nada me jogo em cima dele. O fato dele estar todo suado não muda nada. Ele fica exatamente assim quando está dentro de mim. — Hathaway? — Ele rosna e tenta me afastar. Mas cá estou eu, grudada nele igual um bicho preguiça. — Alisson? — Ele é mais incisivo e me sacode. — Oi — digo sem ar. Blake me põe no chão e cruza os braços inchados, suados e limpa a testa com os dedos. — Cuidado. — Eu vou prestar mais atenção, pode deixar. Blake para a minha esteira e depois que eu volto para ela, ele deixa numa velocidade bastante adequada, para uma senhora de 70 anos andar. Vou andando cada passo, bem devagar. — Me conte. — Sobre o quê?— Sobre a minha futura secretária. — Ah... bem... tenho algumas anotações sobre as que entrevistei, te passo assim que acabarmos. Isso se eu não sair daqui direto para o hospital. — Tá — ele aumenta a velocidade em sua esteira e começa a correr. — Por que você não foi hoje ao escritório? Blake me encara como se eu fosse o ser mais estranho do mundo. — Isso é da sua conta, Hathaway? Engulo em seco. É. Não é da minha conta. Mas eu sou curiosa. E já estou acostumada a levar as patadas dele. Blake aperta um botão na minha esteira que tem o sinal de “+” e a velocidade aumenta um pouco, e eu tento acompanhar o ritmo. — Onde você costuma treinar, Hathaway? — Blake pergunta. — Não treino — digo e imediatamente ele aperta o “+” na minha esteira. Qual o segredo do Blake para correr nesse negócio e não cair e ao mesmo tempo manter essa pose de Clark Kent, Thor e Aquaman? O cara está correndo uma maratona, mas nenhum fio de cabelo se desalinha. — Não? É por isso que você é tão pequeninho! — Ele me provoca. — Algum problema com o meu tamanho? Blake até diminui a velocidade para me encarar do seu jeito efusivo e eu o encaro de volta, porque diferente dos outros empregados dele, e dos membros do seu banco, eu não tenho medo de olhá-lo com firmeza. — É que... você sabe, para impressionar as garotas nós precisamos de um shape legal — Allen explica. — Elas gostam de ombros largos... peito duro... O idiota do Blake aproveita que diminuiu o ritmo da esteira e agora está desfilando, levanta a camisa preta e mostra o tanquinho. — É... isso também... elas gostam. É, para falar a verdade, eu realmente gosto de tudo isso. Mas sabe do que eu mais gosto? — Eu gosto de pau. Blake que estava desfilando todo confiante, até perde o equilíbrio e se segura no apoio da esteira. — E quanto maior, melhor. Allen arregala os olhos e pega a sua garrafa d’água para beber; Blake volta a correr, nem olhou mais para o lado. — Dá para fazer crescer o pau aqui na academia? — É a minha vez de provocar. Allen cospe a água e Blake para a esteira quase que de imediato, apertando o botão vermelho. — Ou é por isso que vocês vêm para a academia? Para tentar compensar o pau pequeno? Agora foi o Allen que parou a esteira e o Blake está bestificado, me encarando. Os dois sem palavras. Olha como é gostoso esse som que os dois fazem: O som do silêncio. Capítulo 23 Bella Hathaway Allen fica tão atônito que para a esteira de uma vez e fica me olhando, não sei se perdido ou admirado. Blake finge que nem ouviu nada e continua a andar bem rápido. — Ah, me desculpe então, Alisson, devo ter te enchido muito hoje mais cedo — Allen diz. Blake dá aquela virada sutil com o rosto em nossa direção. — Tudo bem, Allen. — Agora entendi. Bom, vendo por esse lado, acho que você não precisa treinar então, se não quiser. — Sério? — Sério. Você tem uma beleza... delicada. Tem esse rostinho fofo e esses olhos tão boni... Ele nem termina de falar, porque Blake passa na frente e empurra ele. — Vocês vieram treinar ou vão ficar de conversinha? — Ah, eu gosto de conversar — Allen tenta se reaproximar, mas Blake o segura pela camisa para que ele fique onde está. — Eu acho o Allen engraçado. — Você acha? — Blake rosna. Huuum, que cheirinho é esse? Cheirinho de ciúmes, Blake? — Engraçado. Espero que não me leve a mal, Alisson, eu não sinto atração por caras. Mas... perto de você eu me sinto meio estranho. — Estranho como, Allen? — Estranho tipo... sei lá, não sei explicar. — Ok, vocês dois, chega — Blake volta a puxar Allen pela camisa. — Você vai procurar o Jacob e encher o saco dele. — Mas eu quero levar o Alisson ao banheiro. — Para quê? — pergunto, surpresa. — Quero te mostrar uma coisa — ele ri. — Vá mostrar pro Jacob — Blake acompanha Allen até a saída da parte onde tem as esteiras, bicicletas e elípticos. E eu vou atrás, bem devagar, gargalhando por dentro ao vê-lo ter esse momento de ciúmes. Quando retorna e fica diante de mim, esse cara parece uma fera. Não que ele já não seja, mas dessa vez é diferente. — O que foi isso? — Blake inquire. — O que foi isso pergunto eu — devolvo. Esse homem fica confuso quando conversa comigo. Porque eu não abaixo a cabeça, não peço desculpas e nem faço tudo o que ele manda. Eu faço o que acho que tenho que fazer, e se isso já não fosse o bastante para deixar Blake de cabelo em pé, agora tem essa novidade. — Você tem algo contra eu gostar de homens, chefe? Blake se faz de desentendido. — O que eu teria contra? Você faz o que você quiser. — Ok, vou ali ver o que o Allen quer me mostrar no banheiro. Mas Blake me impede. Segura o meu braço e fica me encarando no fundo dos olhos por alguns segundos. — Não me teste. — Longe de mim fazer isso... — banco eu a desentendida. — E se apresse que a sua treinadora está te esperando. — Treinadora? Saio em busca dessa treinadora, Blake me segue. Quer dizer, ele vem atrás e fica por perto, não mostra logo de cara que está me seguindo. Na recepção sou informada que a treinadora está com o Allen e Jacob, mas se eu quiser tem um treinador à disposição. Ótimo, quero. E aí aparece um desses deuses saídos do Olimpo, a roupa de academia parece ter sido feita para modelar seu corpo e seu sorriso é o pecado. — Apolo — ele aperta firme em minha mão. — Lagartixa — respondo. — Oi. — Me chama de lagartixa, me joga na parede — jogo o cabelo para o lado. Apolo prende o riso. — Alisson, certo? Gente! Eu já tinha esquecido que estava vestida de menino! Como assim? Sou muito desantenada! — Isso! Alisson! — Deixar eu ver seus braços. Apolo me apalpa, eu acho divertido. Mas Blake não parece nada feliz e fica esticando o pescoço para conferir o que está acontecendo. — Você acha que consegue levantar quanto peso? — Ele faz uma pausa ao me encarar. — Vamos começar com os mais leves. — Eu posso treinar a minha bunda? Se bem que, ela já é toda treinada, né menina? Ela dá uma quicada que daria inveja a muita gente. — As partes inferiores? — Apolo avalia. — Pode ser, se você prefere. — A bunda não vai crescer sozinha, né, então vamos para o projeto blogueirinha fitness. — O que você quiser. Apolo e eu saímos em direção à parte dos aparelhos de treino de coxa, pernas e bumbum. Blake me interpela no meio do caminho. — Para onde vai? — Apolo vai ali fazer meu bumbum crescer. — Hein? Não preciso nem descrever a cara do Blake. Mas para fins que constem nos autos: é a cara que eu gosto de ver, de um homem ciumento, carrancudo e que não aceita perder o controle das coisas, mas vai perder mesmo assim. E assim vamos, Apolo e eu, nessa luta de ir treinar os inferiores, como ele diz. E já no primeiro exercício preciso dizer que eu preferiria a morte. Gente, essa máquina que você coloca as pernas em suporte e precisa fechá-las, não é de Deus! Mas pelo menos eu vou treinar a minha chave de boceta na hora que eu sentar na cara do Blake na próxima vez! E falando em Blake... ele está bem por perto, observando tudo, cada braço segurando um peso e levantando com calma. — Leva muito tempo para ficar com o braço desse tamanho? — Aponto para o braço de Apolo. Ele deixa que eu apalpe o músculo dele. Que gostoso. — Alguns anos, sim. Mas a alimentação é o segredo... — o treinador começa o papo chato. Mas vale a pena, cada segundo, só de ver a cara azeda do meu chefe no espelho. Eu quero assim, ver ele pegando fogo de raiva mesmo! — E nas pernas também? — Ah, mas você parece ter pernas bem fortes. — Obrigado. — Está usando mais peso do que qualquer iniciante, acho que seu treino de pernas vai render! — Ele toca minha coxa. Agora o Blake largou o peso e está vindo. Vai render mesmo! — Eu já estou indo — ele avisa. — Já, chefe? Poxa... — Faço um biquinho. Blake abre seu sorriso de canto, que acaba aumentando naturalmente e se torna uma risada inaudível. — Acho que você não entendeu. Se eu estou indo, você está indo — ele me avisa. — Ah... — Tenho assuntos importantes para tratar com você. — Oh... tudo bem, pode ir na frente.Se Blake pudesse dizer alguma coisa, e ele me diz com seu olhar, é: eu vou te matar. E se eu posso dizer alguma coisa, e o meu olhar diz com clareza, é: eu estou ansiosa para ver. Blake me dá as costas e sai marchando. E eu ainda faço algumas gracinhas com o Apolo, só para ele olhar de longe e querer me matar ainda mais. Aí, numa dessas fechadas de perna, simplesmente eu me lembro de algo mais importante do que “me esqueci que estava de menino”. E esse algo é: “eu estou com um vibrador dentro da minha Bella”. E o choque vem tão intenso que eu dou um salto da máquina e me seguro nela para não cair das pernas. Vejo Blake passando de relance, indo em direção ao vestiário. — Que diabos?! — Reclamo. — O que houve? — Apolo tenta encontrar qual foi o problema. Ele só vai descobrir se eu tirar a roupa. — Preciso ir ao banheiro — saio saltitando dali, e nem chego na metade do caminho para virar o corredor dos vestiários, sinto como se uma corrente elétrica fizesse todo o meu corpo vibrar e ficar aceso. Por que que eu fui inventar de infernizar esse homem, meu Deus? Ou pior: por que me esqueci de tirar isso? Saio correndo atrás do rastro do Blake, invado o vestiário e dou um salto para trás ao ver aqueles homens nus, alguns com a toalha enrolada na cintura, outros com a toalha no ombro. Mas imediatamente me lembro que sou um menino e posso entrar no banheiro deles. — Blake? — murmuro e saio em seu rastro. Vou de um canto a outro em tempo recorde, mas não o acho. Invado as cabines? Aí vejo um homem entrar por uma porta e o vejo de relance. Saio correndo em sua direção, pronta para impedir que ele aperte o botão novamente, porque acabo soltando uns gritinhos toda vez que ele faz isso. — Ei! — Um homem gigantesco me segura quando abro a porta. — Não pode entrar na sauna de roupa. — Sauna? — digo desesperada. E olho os diversos tipos de homem dentro dela: os gordos, magros, velhos, jovens, os com cara de que não estão ali só pra suar bastante e o desgraçado do Blake, que ri da minha tragédia grega. — Tira a camisa e o short. E o tênis também. Amor, eu tiraria absolutamente toda a roupa. Mas não posso tirar a camisa, porque senão as pessoas vão ver a faixa que aperta meus seios. E aí eu vou sair daqui sendo chutada por todas essas pessoas. — Posso ficar de camisa? O homem rosna e aperta a mão em minha camisa, me puxando ainda mais para cima. — Solte ele — Blake diz. Nem sei quando ele se levantou ou quando veio, mas ele já está ao meu lado. — Conhece esse fedelho, senhor Gallagher? Fedelho? Encaro esse lutador de sumô dos pés à cabeça e até movo o pescoço para o lado, encarando-o com desprezo. — Infelizmente — Blake diz. — Vai ter que tirar o tênis e as roupas — ele avisa. — Vou ficar de camisa — abraço meus ombros, cobrindo meu peitoral. Começo a tirar o tênis e o chuto para o lado de fora, também o short. Graças ao bom Deus que eu estou de cueca, porque senão... — Por favor. Por favor, Blake, por favorzinho! — Imploro. — Do que você me chamou? Pronto, agora ele vai ficar irritado porque o chamei pelo nome. — Só vou deixar porque implorou. E foi bonitinho — Blake assanha meus cabelos e vai se sentar. E eu vou em seu rastro, com vontade de dar uma mordida bem forte no seu... — O que você queria conversar comigo? — Sentiu minha falta, hoje? Que droga de pergunta estranha! — O escritório fica uma paz sem você — é tudo o que tenho a dizer. Ele assente e abre a mão para mostrar o controle. Eu nunca quis tanto um aparelho desses, em toda a minha vida. No caso, tirar de suas mãos. — O que é isso? — Tento tomar das mãos dele, mas não consigo, ele é mais rápido. — Meu medidor de humor. Que desgraçado! Vontade de partir a cara dele ao meio! Mas não vou me perdoar de não ter tirado essa droga de vibrador! — Quero que venha à academia por um motivo — Blake sussurra. Estamos relativamente distantes do grupo de homens que está por ali, existem outros espalhados, a sauna é bem grande, mas Blake está aqui, recluso em um canto comigo. Sem falar que a fumaça não permite ver a cara de ninguém e é tanta conversinha paralela e eu estou aqui tensa prestando atenção no Blake que não consigo pensar em mais nada. — Eu ficar forte para ficar atraente — reviro os olhos. — Você é atraente do jeito que é — Blake diz com simplicidade. — Obrigado. Blake volta a fazer um cafuné em minha cabeça. — Por que eu comprei ternos para você? — Porque eu sou a sua sombra — reviro os olhos. — Eu represento você, para as pessoas que te conhecem. — Você é muito esperto, Alisson. Tá, isso nós já constatamos há muito tempo, Blake. — Você é os meus olhos e ouvidos também. — Não estou entendendo — é a minha vez de murmurar. — Você vai entender — Blake dá uns tapinhas em meu ombro e joga o controle em minhas mãos. — Fique com isso e me devolva amanhã. — Amanhã? — Sem falta — é tudo o que ele diz, se levanta e sai. Agora pronto, era só o que me faltava, Blake parece que vai começar a me evitar. Por que eu fui irritá-lo? E por que cargas d’água ele me entregou o controle? Será que ele...? O controle é tão sensível que passo o dedo indicador por cima dele e sinto o vibrador pulsar dentro de mim. A sensação é boa, aliás, maravilhosa, mas não em público assim. Solto um gemido que praticamente faz reinar um silêncio na sauna. — Precisa de ajuda aí, garoto? — Ouço. Me encolho e decido que chegou a hora de sair. Mas assim que faço isso, reconheço a silhueta de um homem ao entrar na sauna. É o Franklin Gallagher, o cara que me contratou para destruir o Blake. Ótimo, agora até esse cara vai me perseguir aqui... Mas ele nem liga para a minha presença, cumprimenta alguns homens mais velhos que estão relativamente próximos de mim e vai para o alto da escadaria de madeira, onde há um homem solitário, que parece estar dormindo. Franklin toca no ombro dele. E eu, que não sou boba nem nada, saí escorregando minha bunda pela madeira onde estou sentada, no degrau de baixo. Depois subo mais um, sentada. Depois outro, até que eu esteja perto o suficiente para ouvir. — ... nos portos? — Ouço a voz do homem desconhecido. — Em 15 dias a carga chega do Brasil e da Colômbia. O horário de sempre, depois das 23 — Franklin diz. — Quero mais por esse serviço — o outro diz. — Pensei que nosso acordo estava de pé. — Está. Mas da última vez havia muito mais na carga do que você havia dito. Você está lucrando e eu não. Franklin chia e resmunga baixinho, tenta dar uma lição de moral no desconhecido, mas ele não se deixa abalar por nada. — O quanto mais você quer? — Meio milhão. — Meio milhão? A mais? — Meio milhão é o valor de uma delas. Sabe quantas havia na última carga? Merda! Merda! Três vezes merda! Eu estou ouvindo isso mesmo ou é fruto da minha imaginação? — A escolha é sua. Pode tentar outro interceptor..., mas a carga chega em 15 dias — o estranho se diverte. Franklin aponta o dedo na cara do homem, mas não consegue mantê- lo assim nem por um segundo. — Se algo acontecer com a carga você não vai receber nada — ele rosna e se levanta. — Alguma vez te decepcionei? — O homem ri. Franklin Gallagher passa por mim, depois desce as escadas e sai da sauna. O estranho, que tem cabelos raspados e um corpo invejável, mas consigo ver algumas cicatrizes, desce e sai dois minutos depois. A sauna é movimentada, pessoas entram e saem a todo instante, mas eu prefiro ficar aqui mais alguns minutos. Sei lá, tenho medo real de sair por aquela porta e dar de cara com o Franklin, pronto para me matar ou coisa pior. — E aí, garotinho. Precisa de uma ajuda? Um homem calvo, cabelos brancos desgrenhados ao lado da cabeça e com o corpo tão branco, tão branco, mas tão branco que chega a ficar rosado feito um porco, vem me bolinar. E eu me levanto de imediato. — Eu já estava de saída. — Fica aqui com o papai, você vai se divertir. Eu saio é correndo desse maluco. Prefiro a morte, porque coisa pior é isso aí. Capítulo 24 Blake Gallagher — Fique de joelhos, senhorita Miller. A expressão que elafaz é impagável: mostra-se surpresa e imediatamente inquire com o olhar se deve mesmo fazer isso. — Você está mesmo vendendo a sua virgindade? — provoco. — Sim — vejo seu lábio tremer, mas ela não se afasta. — Eu não dou ordens duas vezes — deixo bem claro enquanto me aproximo e a vejo ficar plantada no lugar. A senhorita Miller começa a descer devagar até ficar de joelhos. Toco o topo da sua cabeça, depois deslizo os dedos até suas bochechas. Ergo seu queixo para que fique olhando para mim. — Isso é sério? — Seu lábio treme novamente. — Você não está pronta? — Rubrico no contrato e entrego a ela. Vejo seus olhos ficarem mais expressivos, quase brilhando. Ela tenta conter a felicidade, mas é claro que está em êxtase. — Eu só saio de casa para fechar contrato — ela retruca. — Seu contrato está assinado — avalio. — E agora? Quase consigo ouvir o som de sua mente movimentar mil pensamentos e isso me diverte. Seguro com mais firmeza em seu queixo a levantando. — Algumas regrinhas: não vamos nos beijar. Você não vai me tocar. E nunca mais vamos nos ver. — Se tem que ser assim, por mim tudo bem — ela estende a mão em minha direção. — O que é isso? — Para fechar esse acordo. Não é assim que homens de negócio como você fazem? Sim. É exatamente assim. — Mas você é uma mulher de negócios, senhorita Miller? — a seguro pelos ombros e a ergo do chão. Limpo a mesa do escritório com a mão livre, jogando tudo no chão e a sento diante de mim. Sua boca entreaberta respira com dificuldade. — Sou. — Abra suas pernas. — O quê? Não tenho todo o tempo do mundo, paciência muito menos. Seguro sua saia pelo cós e a arranco, vendo-a de calcinha. A senhorita Miller cruza as pernas e segura com as duas mãos na mesa de madeira escura. — Está com medo de mim? — Sim. Quero dizer, não. Eu não estou. — Eu não vou te morder. Nem que você peça — sorrio. Embora confiante em um primeiro momento, é divertido vê-la retraída agora. Pouso as mãos nas laterais do pescoço e massageio a região com os dedos, bem devagar, até que estejamos olhando um para o outro. — Relaxa. — Eu sei — ela suspira. — Se não estiver pronta hoje... — Eu... me sinto pronta. Só estou tensa. — Olhe para mim. Ela olha, no início desvia os olhos, mas acaba cedendo ao me ver seguir seu olhar, por onde vai. — Enquanto estiver comigo, vou cuidar de você. Vejo-a respirar fundo. Ajudo-a a tirar a calcinha e volto a subir as mãos até seus ombros, massageando cada parte deles. Depois toco seus seios por cima da roupa, suavemente. — Quer tirar isso? — Acho que sim — ela se despe por completo. — Você não vai... ficar nu? — Por que você não tira a roupa, para mim? Imediatamente ela toca em minha gravata e desfaz o nó, depois solta o sobretudo e o terno. Enquanto está tão próxima de mim e sinto sua respiração vindo em direção à minha pele, sinto o meu peito um pouco mais quente e respiro devagar. Seus dedos passeiam por toda roupa até que eu esteja nu. — É muito grande — ela constata. — Por isso — asseio seus cabelos até poder segurar neles com firmeza. — Você vai precisar chupar bem. — Por que...? — Por que se ele é grande assim, imagina dentro de você? A senhorita Miller não discute. Fica de joelhos em um segundo e passa a língua pela cabeça do meu pau, timidamente. — Olhe para mim enquanto faz isso. Ela pisca diversas vezes, mas acaba cedendo. Deixa o rosto levantado, abre bem a boca e engole meu cacete enquanto me encara. Não é só o meu corpo que aquece. Sinto o meu cérebro ferver na cabeça; a mão automaticamente cerra com mais força segurando seus cabelos e a vejo engolir tudo o que pode, não é nem a metade, mas ela merece uma medalha pelo esforço. — Você tem um cheiro bom — ela murmura. — Eu quero sentir o seu cheiro também. Ela levanta as sobrancelhas, com o pau em sua boca, murmura alguma coisa, mas não faço ideia do que é. E cada vez que nossos olhares se cruzam, eu fico mais duro, mais sedento, segurando-me para pegar leve com ela. Mas não sei se sou capaz. O animal em mim talvez não resista. — Eu me cuidei muito para estar aqui essa noite — ela diz. — Imagino que sim — não me contenho e a tiro do chão. Jogo-a de volta na mesa e ela segura nas laterais, como se estivesse com medo de cair. Enfio meu rosto entre suas pernas, beijando suas coxas e apertando as laterais do seu corpo com intensidade. — Seu cheiro é realmente muito bom. Ela geme baixinho, mas isso não é o suficiente. Não para mim. Aprofundo-me mais, até que meus lábios toquem sua vagina. Abro suas pernas com lentidão, assim como minha boca abre sua boceta num chupão, de baixo para cima. A senhorita Miller se levanta a ponto de ficar sentada e solta um gritinho. Eu a empurro para baixo, para que se deite e volto a chupá-la bem devagar; deixo a língua passar pelos seus contornos, delicio-me com seu cheiro e seu sabor. A vontade que tenho é de fincar as unhas em sua pele, arranhá-la até vê-la toda marcada e tirá-la dali para o sofá ou para a cama e fodê-la sem parar. Mas isso a assustaria, e não quero que essa seja a primeira lembrança dela com um homem. — Isso! — ela diz. Com o dedo indicador e do meio eu desço, tocando bem devagar, seus grandes lábios, a língua vai em sentido contrário até chegar em seu clitóris e friccioná-lo com a ponta da língua, até que a boca toda esteja babando em sua boceta. — Isso! — ela diz incisivamente. Faço isso até que não haja mais vestígio de nervosismo ou medo. Ela não precisa disso, está em boas mãos. — Eu quero sentar em você. — Não é a melhor posição para uma... virgem — levanto o meu rosto, mas continuo a masturbá-la com o dedo polegar. — Eu estou molhada o suficiente, e quero sentar em você — ela rosna. — Você tem um terrível gênio forte — avalio. Gostei disso nela no primeiro momento em que a vi. — Eu vou sentar em você — ela diz decidida. — Ei — a impeço. — Eu disse para não me tocar — desvio das suas mãos. Mas ela se levanta, bem decidida, e vai até o sofá e se senta. Bate com a mão no lugar vago ao lado, como se estivesse me chamando. Cruzo os braços e ergo bem a sobrancelha, balanço a cintura de um lado para o outro e com isso faço o pau fazer não. Primeiro ela ri, depois ela se deita no sofá, cruza as pernas e as levanta bem devagar, até que seus pés estejam apoiados no encosto do móvel. E assim ela me provoca, enquanto rebola. Que mulher dos infernos! Ando até o sofá e do jeito em que a senhorita Miller está eu passo a língua por sua bunda, deixando alguns chupões e marcas, até que eu esteja de volta em sua vagina toda molhada, pronta para mim. — Se no início você puder ir com cuidado... depois você pode fazer o que quiser comigo — ela me diz, com seus olhos assustados. — Acho que você não entendeu, senhorita Miller — acaricio seu rosto. — Eu vou fazer o que quiser com você. Ela respira fundo e separa os pés, antes cruzados, não tira os olhos de mim. Eu seguro em suas pernas e a desço levemente. Coloco uma almofada debaixo dela e deixo que sinta o meu pau esfregando contra a sua entrada. Ela me olha sedenta e desesperada, ao mesmo tempo com medo e cheia de incertezas. — Você quer desistir? — eu pergunto. — Você quer desistir? — Ela me devolve. Bella Hathaway Blake me provoca de um jeito que não sei como reagir. Ao sentir a glande friccionar em minha vagina eu fico louca. É uma sensação que nunca experimentei antes, então não sei como me comportar. Minhas pernas formigam, parte de mim queima e eu estou mais louca do que nunca. Como se não estivesse no controle do meu próprio corpo. Quando ele me penetra é tão bom que eu só fecho os olhos para curtir. Dói, é claro. Dói para um cacete, a vontade que eu tenho é de dar uma mordida bem forte no peito dele, só para ele ter noção do quanto aquela cabeça, entrando dentro de mim, faz parecer que o mundo vai acabar. Mas eu respiro e relaxo. E só de pensar em tudo o que a boca dele fez em mim, eu só sinto vontade de mais. O pau dele desliza para dentro, com alguma dificuldade por causa da grossura, mas não vou mentir quetento aproveitar. E quando ele tira, sinto vontade de que ele esteja em mim de novo. Antes dividida entre emoções e medo, agora eu o quero. É mais forte do que qualquer coisa que consigo sentir. Não é só o meu corpo, a minha cabeça agora só consegue pensar nele e o quão gostoso ele sabe fazer. Seu peitoral grande e suado, seu abdômen tão lindo, suas mãos segurando no braço do sofá ao lado da minha cabeça e esses braços bem malhados... — Continue olhando para mim — ele pede. E eu estremeço de um jeito manhoso, porque olhar para ele faz o meu coração palpitar de um jeito que não estou acostumada. Não bastasse me lamber, chupar, devorar e testar os meus limites de dor, ele quer roubar minha atenção? Me deixar aprisionada em seus olhos? Porque sinto que poderia ficar aqui, assim, com ele, para sempre. E se não fosse eu mesma, a maluca que sou, eu o empurro, fazendo-o se desequilibrar e se apoiar no sofá. — O que você está fazendo? Subo felinamente em cima dele, seguro em seu pau até encontrar a minha entrada e sinto a pressão que faz ao me penetrar me invadir de um jeito bem incômodo no início. Mas eu desço e subo com lentidão e sinto que posso me acostumar com isso. — Eu disse que ia sentar em você — murmuro. — Você não está seguindo as minhas regras. — E daí? — retruco. Esse homem está tão escandalizado e sem resposta que tudo o que sabe fazer é ficar parado, me olhando no fundo dos olhos, absorto. Quem, em sã consciência, enfrentaria as ordens desse deus grego? Eu. — Você chegou onde chegou seguindo as regras dos outros? Agora ele está me fuzilando com o olhar. E eu estou quicando, rangendo os dentes, é claro, mas testando os meus limites de até onde eu consigo aguentar esse homem. — Eu não ligo para as merdas das suas regras — desdenho. — Não? — Eu faço as minhas próprias... Sou calada por um beijo. É inesperado e vem de um jeito tão intenso que não tem como negar. A boca de Blake era tentadora, mas agora percebi que é uma perdição. Eu me agarro em seu pescoço, eu esfrego os nossos corpos com vontade, eu o sinto chegar até o meu limite, dentro de mim, a ponto de quase me fazer chorar. Mas sou incapaz de deixar de beijá-lo. Ele tem um gosto bom, um cheiro bom, a sua barba em atrito com a minha pele me gera arrepios que eu nunca senti em toda a minha vida. Sua língua quente invade a minha boca, seu pau me esquenta por dentro, eu rebolo bem devagar até chegar em meu limite e ainda assim sinto que não entrou tudo. Eu fiquei louca? Eu achei que era louca, mas dessa vez, eu fui longe demais. Eu perdi o juízo? Eu que nunca achei que precisava dele, agora penso que deveria encontrar por aí. Mas eu o quero. Desesperadamente. E os nossos corpos agem numa sintonia tão perfeita que Mozart viveria mil anos até conseguir compor algo tão sutil, violento e transcendental assim. Capaz de me fazer sentir volúpia, tesão, loucura e ao mesmo tempo medo, coragem e me impulsionar com intensidade para cima desse homem. — Eu não me importo com as suas regras — eu murmuro, entre nosso beijo. Preciso tocá-lo. Sentir seu corpo, seu peito, tão quente e tão suado, seus batimentos que parecem chegar na ponta de seus dedos! E eu me sinto elétrica, cavalgando em cima dele, abraçada contra o seu peito, inebriada pelo seu cheiro enquanto ele devolve cada ato. Sinto minhas pernas formigarem com mais intensidade e a minha respiração ficar descompassada. É como se uma explosão acontecesse dentro de mim e ainda assim ele não para, expandindo essa sensação até o limite. É como se o mundo todo diminuísse, assim como quando Alice come um pedaço e se torna minúscula. Para depois crescer, crescer, crescer e tomar todo o espaço. Finco minhas unhas em seus ombros e respiro com dificuldade enquanto tento entender que tipo de loucura, ou droga que ele colocou em minha água, é essa. Desço devagar do seu colo e me sento no sofá, perguntando-me que tipo de bicho eu me tornei. Milhares de anos de evolução e eu me comportando como uma incivilizada? Adoro. Era tudo o que eu precisava sentir, mas não sabia onde encontrar. — Isso foi o suficiente para você? — Pisco os olhos, respirando ofegante. — Isso foi o suficiente para você — Vejo o peito dele subindo e descendo e seu olhar, desconcertado, me encarando. A resposta é: não foi o suficiente. Para nenhum de nós dois. E no silêncio em que fazemos... eu toco a mão dele e ele não se afasta. Mas continua a me olhar... não do jeito em que o investidor bilionário todo poderoso me olhou. Mas como um menino olha... para uma menina. E parece que eles descobrem algo novo juntos. — Preciso ir — digo. — Você pode tomar banho antes. — Com você? — É o que você quer? — Eu quero. Se você quiser. Blake Gallagher Ela não sai da minha cabeça. Nem nos meus sonhos. Nem quando estou acordado. Esfrego os olhos e me sento na cama, por impulso pego o celular. Queria poder ligar, mas às três da manhã? E que tipo de desculpa eu posso usar dessa vez? Já não me lembro como era a vida antes. Tenho tentado aprender a conviver com essa sensação que me persegue. E quanto mais luto para poder esquecê-la, mais eu lembro do quanto ela mexeu comigo, em um momento sombrio. Vou até o quarto de Rowan para ver como ela está, e ela dorme tão serenamente que seria um pecado dar um passo em falso e acordá-la. Mas não resisto a ficar perto da minha filha e vê-la dormir, por alguns minutos. Ajeito seu cobertor, arrumo seus livros coloridos que estavam no chão e quando passo pelo espelho, eu me lembro das palavras de Miguel, quando estávamos no Trailer Hathaway. — O senhor é tão poderoso assim? — É o que dizem. — Eu posso te pedir uma coisa? Faço que sim. — Eu quero morar com a minha mãe. Me surpreendo com o pedido inusitado. — A mamãe me deixa sair de casa, nunca me deixa trancado no quarto — ele segura na manga do terno, para que eu me incline para baixo. — Ela me faz bem e quando estou com ela, eu sou feliz. — Com quem você mora, Miguel? — Com o meu pai. Concordo com demora enquanto avalio a situação. — Mamãe cuida de mim de um jeito que ninguém cuida. Por favor, faz isso por mim? Me agacho e afago seus cabelos. — Eu farei o possível e o impossível para resolver isso. Ele balança a cabeça em sinal positivo. — Eu te dou a minha palavra — estendo a mão. E ele segura. Capítulo 25 Blake Gallagher A rotina tem sido a mesma desde que fui convidado pelo meu pai para presidir a CS Gallagher – em segredo. Quando passo pela majestosa porta de ferro com pintura de ouro envelhecido, todos os olhares se voltam para mim. Eu sigo até o meu elevador, qualquer ser vivo que esteja nele imediatamente sai e pede desculpas. Tiro o sobretudo para ganhar tempo e assisto os números crescerem até chegar no meu andar, onde uma das únicas exigências que fiz foi: equipe pequena, discreta e muito silêncio. — Bom dia, chefinho — Alisson acena. — Bom dia, senhor Gallagher — Allen, que está sentado do lado oposto de Alisson, diz de modo formal. Jogo o sobretudo em cima dele, assim como minha pasta, fazendo-o de cabide. — Me devolva o que te dei ontem — vou até Alisson. Ele me entrega após alguma demora, vasculhando sua pasta bagunçada. — Arrume isso — rosno. — Alguma coisa para me contar? — Nada. — Nada? — Arqueio a sobrancelha. Queria que tivesse mais aulas de como mentir, porque as que teve não foram suficientes. — Nadinha — Alisson sorri forçado. Reviro os olhos e sigo para a minha sala. — Ah, eu trouxe seu café e... — Deixo ele falando sozinho e entro em meu Quartel General. Onde vejo Jacob e Kaleb assaltando os donuts e rosquinhas. — Isso é um lixo, mas é muito bom — Kaleb traz a caixa. — Onde ele compra? — Sei lá — desvio e vou até a minha mesa. — Poderia me dar uma força e começar a comprar na Sweet Show que a Anne abriu aqui em Nova York. Faça isso pela nossa amizade. — Kaleb tenta jogar seu charme para cima de mim. O detesto mil vezes por isso. — Jacob, encomende o que quer que seja da Sweet Show, e sirva para os funcionários. Uma vez porsemana — digo sem muito interesse. — Três — Kaleb rosna. — Duas e não se fala mais nisso — o encaro. E parece que não escapa o meu sorriso de canto. — Hey, hey, hey! O que temos aqui? O velho lobo do Blake está sorrindo? — Kaleb, não tenho tempo para as suas gracinhas, homem! — Você está sorrindo, sim. E não vejo esse brilho no seu olhar desde... uns... sete ou oito anos? — Kaleb, só vamos atualizar algumas tabelas com o Jacob, quero que ele esteja preparado quando assumir a presidência — o encaro com frieza. — Você não vai mesmo ser o presidente oficial disso tudo? Depois de tudo o que fez? — Kaleb parece mais indignado do que a minha mãe. E novamente eu reviro os olhos, não tenho tempo para tanto sentimento. — E vamos fazer isso rápido, porque em uma hora — confiro o relógio — vamos provar os ternos para o seu casamento. — Tenho uma atualização do idiota do seu irmão — Jacob vem com o tablet em minha direção. Ele me mostra um vídeo onde Franklin conversa com os mesmos três membros do conselho do banco que estive negociando há um tempo. — Ele tem uma carga para esses homens, vai entregar em quinze dias. E vai garantir o voto deles, com certeza, olha só a cara que fazem ao ouvir a proposta — ele aponta no vídeo. — Você sabe o que fazer com isso — afasto a mão dele de perto de mim e vejo Kaleb se aproximar. Será que vou conseguir trabalhar em paz? — Qual é a do sorriso de canto? — Qual o problema com um sorriso de canto? — Você nunca sorri, porra. A não ser que esteja fodendo, sei lá, com a mulher dos seus sonhos — Kaleb exagera, como sempre. — Não tenho tempo para isso. — Blake, Blake... — Kaleb começa com os estalos de língua. — Eu preciso de um bom advogado para guarda de criança — digo para Jacob. — Um não, dez. Os dez melhores da droga desse país e quero rápido, na minha mesa. — Problemas com a Rowan de novo? — Kaleb se senta diante de mim. — A mãe dela voltou a te dar dor de cabeça? — Dessa vez não é a Vanessa. É outra situação de emergência. — E você está prestando caridade para quem, Blake? Kaleb é interrompido por Allen entrando na sala, ele entrega uns relatórios para Jacob. — Quando eu for presidente disso aqui, eu vou transformar esse banco em um puteiro — Jacob sorri. Era só o que me faltava... — Mais do que ele já é? — Ainda tento trabalhar, os movimentos mecânicos são os mesmos de sempre, mas não consigo me concentrar. — Se você escolher algum andar aleatoriamente e entrar em uma sala aleatória, você já vai ver o puteiro que esse lugar é. — Blake, você está de acordo em eu não ser pudico, como você, não é? O olho de esguelha. — Sem ofensas, se eu fosse você, foderia umas três bocetas no café da manhã, em cima dessa mesa — Jacob tamborila os dedos em cima dos meus papeis. É sério, como eu os aguentei por tanto tempo? — Idiota é o Kaleb. Que a essa altura do campeonato te substituiria e teria a chance de foder quantas mulheres quisesse — Jacob ri. — A essa altura do campeonato — Kaleb ri. — Eu sou o cara mais sortudo e feliz desse lugar e eu fodo com quem me dá tesão, todo dia. E é muito bom. Jacob faz uma cara de nojo homérica. — Só de imaginar ter que foder com a mesma pessoa para o resto da vida... — ele faz uma careta que quase me faz rir. — Sabe quantas mulheres tem nessa cidade? É exatamente esse número de mulheres que vai frequentar essa sala, até o dia da minha gorda aposentadoria — ele volta a tamborilar os dedos na mesa. — Você tem quinze anos ou o quê? — É a minha contribuição, nessa conversa adulta. — Mas é sério, Kaleb, cai na real, eu até consigo aceitar que você vá foder com a mesma mulher para sempre — ele dá um tom dramático nas últimas palavras. — Mas precisa se casar? Quero dizer, quem foi o maluco que inventou o “eu te amo tanto que vou unir religião e o estado para ficar ainda mais gostoso”? Kaleb bufa e sacode a cabeça negativamente. — Você, sua mulher, o padre e o governo. Não é o tipo de suruba que é legal, cara... — Jacob está sofrendo de síndrome do Peter Pan. Está vendo seus amigos se ajeitarem, amadurecerem e quer permanecer na Terra do Nunca — Allen o provoca. Gosto desse menino. — Você conhece homens casados, garoto? — Jacob rosna. — Sim — Allen responde prontamente. — Bem-sucedidos? Homens casados bem-sucedidos? O casamento arruína qualquer homem! — É o ponto que Jacob tenta trazer à discussão. — Ele não desistiu da ideia de te convencer a não se casar? — murmuro para Kaleb. — Conheço. O meu pai — Allen cruza os braços. — O seu pai não vale. — O meu tio Ethan? — O seu tio Ethan não vale. — O meu tio Shawn. — Garoto, vá para o inferno com os seus tios! Homens que se casam... fracassam na vida — Jacob desdenha. — Dizem que as mulheres são o sexo frágil, mas se atreva a discordar de um homem convencido por uma imbecilidade para ver o que é frágil — me levanto e me preparo para sair da sala. — Aonde você vai? — Kaleb vem atrás. — Vamos logo experimentar esses ternos — rosno. — Se tiver que continuar escutando o Jacob, precisarei repensar sobre o futuro dele — lanço para Jacob um olhar de descontentamento. — Eu passei pelo inferno sendo seu aprendiz, não vejo a hora de me livrar de você — Jacob se diverte. — Onde estão os dez advogados que te pedi, Jacob? — Aqui, chefe — ele me entrega o tablet com o nome e telefone dos escritórios dos profissionais. Seguro o aparelho eletrônico com firmeza enquanto lanço um novo olhar de desaprovação para Jacob, dou-lhe as costas e confiro rapidamente seus nomes. Saio da sala e encaro uma fila de mulheres lá fora e Alisson pronto para entrar na biblioteca. — Você — olho para ele. — O que vai fazer? Alisson vem até mim e sussurra: — Entrevistá-las. O senhor pediu, se lembra? — Oh, sim — dou uma nova olhada na fila e me preparo para quando... Jacob sai pela porta e segura em meu braço. — Meu Deus, eu morri e as setenta virgens prometidas vieram? — Eu mereço — suspiro. — Aqui é o céu? Oi, gracinha — ele acena. — Algum problema com o senhor Parker? — Alisson me encara. — O problema é o senhor Parker — umedeço os lábios. — Alisson, deixe que o Allen entreviste essas mulheres, quero que você ligue para esses escritórios e marque uma reunião para o mais urgente possível. Após conferir na minha agenda uma boa data, compre as passagens de avião e procure estadia em um bom hotel para esses profissionais. — Qual o assunto, senhor? — Guarda de criança, preciso resolver isso com urgência. — Urgência — ele repete. — Essa é a palavra — dou ênfase. — Quero todos eles aqui o quanto antes, está me ouvindo? — Sim. — Não saia da minha sala até resolver isso. — Eu posso entrevistá-las, Blake. Eu fico aqui — Jacob murmura em meu ouvido. — Kaleb, por favor? — Peço auxílio. E assisto Kaleb segurar na gravata de Jacob e arrastá-lo até o elevador. Ele sai meio hipnotizado, meio cambaleante e eu continuo a fitar meu assistente. — Tem certeza de que não quer me dizer nada? — Não, senhor. — Certo. Estarei de volta antes do almoço — abotoo o primeiro botão do terno e vou em direção ao elevador. Preciso empurrar Jacob para que ele entre e fique parado, parece ainda uma criança! Quando estamos no carro indo em direção ao melhor alfaiate dessa cidade, Kaleb quebra o silêncio. — Eu te conheço há muito tempo. Continuo olhando para frente, sério, sem dar-lhe ousadia. Jacob está entretido em seu celular, certamente vendo paqueras e encontros em algum aplicativo de sugar baby, ou algo do gênero. — Eu percebo que você está diferente. Devido à pausa muito longa que dá, sinto que preciso dizer algo, para não ficar tão constrangedor. — Obrigado, Kaleb. Por fazer observações que ninguém se importa. — Eu me importo. De verdade. É quase impossível não manter o contato visual quando ele vira o corpo e o rosto em minha direção. — Até recentemente você estava obstinado em ser o CEO do banco do seu pai. Depois você revelou, depois de todo esse tempo, que você tem sido o CEO desde que eu era seu assistente, e seu pai era apenas a figura decorativa. — As pessoasque realmente têm o poder sempre estão na sombra — preciso lembrar-lhe dessa aula. — Mas não é isso, Blake. Você fez considerações muito duras, no passado, sobre o quão estúpido eu era por abandonar o poder para viver o que eu sentia que era certo: cuidar do meu filho, consertar a minha vida, até que eu conheci alguém... — Sim. — E então você decide que chegou a sua hora de abandonar tudo também? — Eu também aprendi muito com você, Kaleb. — Sério? O professor aprendendo? — Não importa o quanto se sabe, sempre aprendemos algo novo. E aprendi algo muito valioso com você. — Esse é o motivo do seu sorrisinho? Você até me assusta com isso. O que houve? Bom, muitas coisas aconteceram, de fato. E a maior delas, foi dentro de mim. Quando eu menos esperei, onde menos esperei. Nesse momento lembrei claramente de uma ocasião em que Kaleb me explicou sobre porque não poderia mais me suceder e a partir dali se dedicaria à Anne e seus investimentos com ela. — Você é estúpido — eu disse na ocasião. — Eu não preciso ter as mesmas fraquezas que você, Blake — Kaleb me enfrentou. Ele foi uma das poucas pessoas que fez isso e manteve sua posição. E isso me fez ver o valor que ele tinha, que mesmo com o ego ferido, não se apagou em nada. — Quando você me apresentou ao Ethan Evans, ele disse algo muito importante sobre você. — Estou ansioso para ouvir — sibilei. — Ele disse que você foi ferido a tal ponto que construiu uma muralha ao redor de si. Para não deixar ninguém entrar. Justo. Era verdade. Ethan, como sempre, límpido e objetivo. — Mas ele também disse que a sua muralha era tão grande, tão forte e tão impenetrável, que não eram apenas as pessoas que não conseguiam entrar... você não conseguia sair. Sempre admirei o fato de eu conseguir ter respostas para tudo. Mas ouvir isso me desarmou por três segundos. Três segundos onde eu vi, em flashback, toda a minha vida, do início até aquele momento. E como eu cavei bem o buraco, coloquei cada pedra, a argamassa, o cimento, o concreto, as vigas, tudo, até que o meu castelo estivesse pronto. Mas eu esqueci da maldita porta. — “E se a natureza seguir seu rumo, um dia alguém vai quebrar algumas pedras, até que apareça uma passagem. E talvez o Blake consiga sair de sua própria prisão” ele disse. O meu silêncio foi a resposta, na época. Meu ego era grande o suficiente para desconsiderar esse tipo de coisa, principalmente vinda de alguém que eu ensinei os truques da vida. Mas exatamente por vir de Kaleb, alguém que reconstruiu a vida do zero, essas palavras ecoaram em mim até que eu percebi que estava, realmente, em uma prisão. Tentei me proteger até o ponto de me sentir sufocado e solitário. — Blake? — Estou feliz pelo seu casamento — é o que respondo. — Ainda sou uma decepção para você? — Kaleb ri. — Kaleb, você é a maior das minhas decepções. Ele arregala os olhos e concorda, em silêncio. — A maior decepção de um Blake amargo, sem vida e que não achava que era capaz de ser feliz novamente. Seguro em seu ombro. — Agora vamos experimentar uns ternos. Capítulo 26 Blake Gallagher Alguns anos atrás. — Você ficou maluco? — Dane-se — é a minha resposta. Jacob tenta me segurar, mas falha miseravelmente nisso. Após adentrar pela porta principal da Universidade de Columbia, sigo meus instintos virando corredor após corredor, até chegar à área livre. — Eu não estou te reconhecendo! — ele diz desesperado. — Nem eu me reconheço mais. Ignoro completamente todas as vezes em que sua mão segura em meu terno. Se necessário vou arrastá-lo comigo. — Você assinou a merda de um contrato! — Dane-se. — Vocês não podem se reencontrar! Que merda! Por que eu fui te dizer que ela estuda aqui? — Jacob está quase tendo uma síncope. E fico feliz que essa universidade tem um departamento médico... em algum lugar. — Jacob... — Jacob não! — Ele bate com a palma da mão aberta em meu peito. — Escuta, Blake. Me escuta! — Ele toma coragem de usar um tom que nunca ousou comigo. — Se for você a quebrar a merda desse contrato, sabe o que vai acontecer? — O quê? — pergunto, mesmo sem dar a mínima. — Você vai perder tanto dinheiro... TANTO DINHEIRO — ele dá ênfase e quase gritando, enquanto murmura. — Todo o meu dinheiro? — Avalio. Jacob respira aliviado. — Exatamente. Ufa! Ainda bem que você recobrou a consciência... E ele me solta. Erro de principiante. — Eu não ligo — rosno e volto a caminhar, atravessando alguns grupos de estudantes até chegar nela. Ela deve estar aqui em algum lugar. — Mas que merda! Você me paga para não te fazer perder a cabeça e agora você perdeu a cabeça e não está me deixando fazer o meu trabalho! — Jacob pragueja, em minhas costas. Não precisei seguir muito adiante para vê-la. Com outro homem. E mesmo sem saber seu nome, mesmo quebrando todas as cláusulas de um contrato que eu assinei, paro para apreciar o que perdi, de verdade. Eu não deveria ter assinado nada daquilo. Foi um erro estúpido. E também não deveria procurá-la... Mas foi muito mais forte do que pude suportar. — É. Ela está saindo com o Chad Dawnson — Jacob fica na minha frente e cobre meu campo visual. — Mas se quer saber, o Dawnson é só aquele tipo de cara que tem o pau pequeno, é frustrado e procura alguma vítima para despejar o ódio que sente por si mesmo. Avanço. Jacob me segura. — Ela não vale à pena, Blake. — Por quê? — Porque ela está fora do seu alcance agora! A merda do contrato não dizia explicitamente que não haveria um segundo encontro? Por que você a quer tanto? Fico em silêncio. Nem eu mesmo sei. Só sei que meus instintos e cada parte de mim, me fizeram pensar nela enquanto vestia a roupa de manhã. E me fizeram sentir o cheiro dela enquanto caminhava até a Bolsa de Valores para entregar minha demissão. E só consegui reconstituir os olhos dela, olhando para mim, durante aquela noite em que eu senti algo diferente. — Só... me deixe fazer o meu trabalho — ele pede. — Fique de olho nela. — Reluto até dar as costas e decidir ir embora. E para um homem que nunca relutou na vida, isso demora tanto tempo que até me sinto preso ao chão. — Para quê? Só vira a página. — Eu te pago para me obedecer, não para me questionar. Atualmente Bella Hathaway — Você acha que o Blake está armando alguma coisa? — Jogo algumas pipocas em Genevieve. Primeiro ela cata toda a pipoca e joga tudo de uma vez em mim. Depois deixa o celular de lado, deita a cabeça em cima do meu abdômen e fica encarando o teto. — Acho que você está arranjando desculpas para fingir que nada está acontecendo. — Tem algo acontecendo, com moças desaparecidas e uma tal carga que vai chegar em 12 dias. Sem falar que agora, do nada, o Blake inventou de contratar advogados para tratar sobre a guarda de uma criança... — Não com isso, Bella. Algo acontecendo dentro de você. — O que está acontecendo dentro de mim? Além do meu impecável sistema digestivo trabalhando? — Com seu coração. — Que está bombeando sangue para o corpo todo? — respondo prontamente. — A quem que você quer enganar? — Ela se levanta e cruza os braços. Eu me levanto e cruzo também. — Não sei — percebo que cruzei errado, descruzo e cruzo certo. — Toda vez que vamos falar do Blake você muda de assunto. Em seguida menciona o nome dele e começa a falar mal. E depois fica me instigando a falar dele. Tem certeza de que não está sentindo nada? — Agora que você mencionou, estou sentindo o meu braço dormente. Não deite em cima dele de novo — balanço o coitado. — Isabella! — Ela me dá um beliscão. — O que foi? — pergunto indignada e me fingindo de sonsa. — Por que na época você não me disse que era verdade? Pra valer? O contrato que você levou para esse homem... que loucura, meu Deus, imagina se algo ruim tivesse acontecido? — Tipo? Gê fica uns minutos tentando pensar. Toda vez que encontra a resposta, move os lábios, mas para instantaneamente. — O Chad foi o algo ruim que me aconteceu — digo. E ela não pode fazer nada além de concordar. — Você o procurou depois daquela noite? — Não.— Por que não? — Porque senão eu teria de devolver o dinheiro dele, além de todos os bens da minha família que seriam confiscados, sei lá — balanço os ombros. — E por que eu iria atrás dele? — Não importa o quanto você diga que ele é arrogante, mandão, debochado e frio. Dá para perceber que algo nele mexe com você. Abro a mão no que imagino ser 25 centímetros em uma régua. — Não isso. — Isso ajuda. — É claro que ajuda! Dã! — Genevieve revira os olhos. — Vocês têm uma sintonia. Nunca os vi juntos, mas tenho certeza de que ele mudou um pouco depois que você o reencontrou. — Você acha? — Você mudou. E foi para melhor. Parece até que... depois que esse homem surgiu na sua vida, as coisas entraram nos trilhos. — Bem... — tento vasculhar a memória, mas não encontro nada relevante, além de: — depois que me reaproximei do Blake, o idiota do Chad não tem me incomodado mais. Até porque ele me viu vestida de homem e foi ameaçado pelo Blake, que se chegasse perto de mim de novo ele iria se arrepender. A minha melhor amiga aponta o dedo indicador, mostrando que há algo aí. — Foi a primeira vez em muito tempo que alguém cuidou de mim. Sem ser a minha mãe e o meu irmão. E você — digo essa última parte devido à ameaça que ela me faz com o olhar. — Mesmo sendo arrogante e... — Mesmo sendo o próprio diabo! — Me divirto. — Foi a primeira vez também que fiz amor, e não abusada. A primeira vez foi ele... e a última vez também... — Para uma garota de Nova York, você tem uma vida sexual pouco movimentada, menina! — O que eu posso fazer, Gê? Eu sou mãe, tenho prioridades. Preciso dar um jeito de tirar o meu filho daquele psicopata! E, você sabe como é difícil para uma mãe solteira encontrar um cara que saia com ela e a trate bem? Até para uma simples foda, às vezes... parece que ter um filho é um problema até para isso. — Não para o Blake... — É... E ele gosta do Miguel. E ele tem uma filha linda, também. — Acha que esse cara está armando algo contra você? Foi ele que te alertou do suposto tráfico de mulheres! Concordo em silêncio. Genevieve pega o celular que outrora deixou de lado e liga a tela. — Como essas moças desapareceram assim? De uma hora para outra? E nem família, trabalho, absolutamente ninguém tem notícias ou notificou a polícia? — Pois é. Isso tudo é tão estranho... — E o Kirk? O seu chefe jornalístico deu algum retorno sobre suas pistas para bagunçar a vida do Blake? — Ele descartou tudo. Disse que nada era tão forte assim para gerar o caos que ele queria. — Ele nem vai investigar nada das garotas desaparecidas? — Gê está tão indignada quanto eu. — Disse que é mais provável que sejamos feitos de palhaços e depois essas mulheres apareçam por aí, dizendo que foram tirar férias no Caribe... — Reviro os olhos, com ódio só de lembrar. — O Blake é a sua melhor chance, amiga. Talvez ele esteja armando a nosso favor... — Não sei... eu não confio nele. — É claro que não, Isabella! Se fosse eu a ficar refém de um psicopata, ter um filho com ele e ele ainda tirar meu filho, eu também não confiaria em nenhum outro homem a partir daí! É triste, mas não há como discordar. — E o Bacanália? — O que tem? — Me arrepio toda só de ouvir. — É tipo nesse final de semana? Como assim o que tem? Balanço os ombros. — Amiga, o Blake vai te amordaçar, te suspender na parede e te foder. No mínimo. — Nada que ele já não tenha feito — comento. Genevieve abre a boca, puxa a almofada e bate em mim. — Você não está... com medo? — Medo de quê? — Sei lá... ser dominada. — Eu gosto de dominar as situações no dia a dia, Gê, não na cama. — É, mas... vai ser... intenso. — Gê, você sabe o que são 25 centímetros? — Mostro o tamanho mais ou menos com a mão. — Isso já não é intenso o suficiente? — É... você parece não estar com medo. Suspiro. — A quem eu quero enganar? Eu estou apavorada! — Eu sei! — ela segura em minha mão. — E excitada. Ela dá um tapa na minha mão. — Sua danada! — Talvez essa seja a minha grande chance de ouvir alguma coisa, descobrir algo... ainda mais porque, para o Blake, eu estarei lhe ajudando... e para o Franklin, também. Sou uma agente dupla, que no fim vai decidir quem quer destruir. De repente os dois. — Sei... eu sei quem você quer destruir — Genevieve ri e segura em meu queixo enquanto o balança para lá e para cá. — Vai sair de lá toda chicoteada, marcada e sem conseguir andar! Ergo as mãos para o céu em uma prece. — Se Deus quiser e ele há de querer! — peço. — E depois? — Como assim “e depois”, Gê? — Pisco os olhos. — Depois do Bacanália, o que você vai fazer? — Oras... esperar a tal carga chegar, averiguar do que se trata e, tirando minhas próprias conclusões — respiro fundo. — Eu mesma vou escrever uma matéria e vender para a ABC, ou CNN ou a que pagar mais! — Essa é a minha garota... lucrando com o caos. — E ajudando a salvar vidas. A minha, a do meu filho e dessas pobres moças... — sinto um calafrio só de pensar em estar no lugar delas. Ser raptada? Usarem e abusarem de mim, sem minha permissão? Ficar sob o controle de algum homem maluco? Ah, é, eu já passei por isso com o Chad. — E você pretende contar ao Blake sobre essa tal carga? Faço que não com a cabeça. — Não?! — Ela parece indignada. — O cara me inferniza o dia inteiro! E agora me faz ir treinar de noite, na academia que ele e todos os ricos dessa cidade vão! — E você está odiando ficar perto dele tanto tempo, né? — Pelo menos estou com o bumbum durinho — fico de lado na cama e dou uma apertada na nádega. — Mas não... Acho que o correto é só nós duas sabermos e no dia eu vou investigar sozinha. — Não vai contar nem à polícia? — Você está doida, Genevieve? Não lembra do caso Cavalieri? A chefe da polícia estava envolvida para encobrir o tráfico de pessoas! Eu que não vou dar pistas para ninguém, só vou fazer o velho e bom jornalismo investigativo e depois solto a bomba em algum lugar. — E aí foge com seu filho, porque o tráfico vai atrás de você. — O tráfico, o Chad, o Blake... Muita gente vai querer a minha cabeça. — Chama ele para fugir também! — Ela ri. — O tráfico? — pergunto indignada. — Não, né? O Blake! Você não disse que ele vai deixar a presidência em seguida? Mordo o lábio inferior. — Você deveria me incentivar a colocar o pé no chão! Ser racional! Mas está fazendo o quê? Incentivando os meus sonhos... — Seus sonhos? Ah! Então eu estou certa e você está meio apaixonada pelo Blake? — Apaixonada é uma palavra muito forte. — É o que então? — Eu quero sentar naquele desgraçado. E quem conseguir me tirar dele vai ser nomeado o novo Rei Artur! Genevieve cai na risada e eu fico séria, encarando-a. — Vamos continuar nossa pesquisa! Precisamos descobrir mais coisas sobre essas mulheres, deve ter alguma pista, alguma coisa que explique o sumiço delas... — O Blake já disse: tráfico de mulheres — Genevieve revira os olhos. — Você confia demais no que esse homem diz. Homens mentem, Gê. Precisamos tirar nossas próprias conclusões! — Estou quase chegando à conclusão de que o Chad Dawnson está envolvido com isso — ela solta assim, sem nem avisar, esse tiro em meu colo. E eu fico de cabelo em pé. — Isso seria um absurdo...! — Suspiro devagar. ... E bem provável. Capítulo 27 Bella Hathaway O dia do Bacanália chegou e o nervosismo tomou conta de mim. Depois de tudo que Genevieve e eu pesquisamos, das evasivas de Kirk a respeito das coisas que enviei e essa maldita calcinha fio dental atochada em minha bunda, eu estava no limite do estresse. Blake foi bem atencioso nos últimos dias, devo ressaltar. Ele me perguntou inúmeras vezes se eu não queria desistir e se eu me sentia mesmo confortável em ir para este lugar. Bom... já que estamos no inferno, vamos abraçar o capeta! Não há mais como fugir. No escritório do Blake na CS Gallagher as coisas também melhoraram desde a saída de Alexa. Ele parou de pegar no meu pé. Continuou ríspido, é claro, faz parte da personalidade dele, mas também me permitiu sair cedo quando eu precisava ou tirar uns dias defolga quando precisei mergulhar em minha investigação. — Uau! — Minha mãe para tudo o que está fazendo para me ver. — Aonde a mulher gato pensa que vai? — Na igreja — abro os braços e dou uma desfilada. — Na igreja? Vai levar o pecado para a casa de Deus? — Na verdade eu vou para suruba, mãe. Beijo, te amo! Minha mãe fica escandalizada! — Minha filha, como é que é? Para onde você vai? — Para a igreja. — Fazer? — Sacanagem. — Minha filha? — Ela põe a mão no peito. — Ah, a gente já vai estar lá, aproveita e pede perdão e fica tudo certo — digo com meu humor debochado. E mesmo escandalizada ela vem, me dá um beijo na testa e aponta o dedo para mim. — Juízo, dona Isabella! — Relaxa, mamãe, eu sei me cuidar — dou um beijo nela. — Vou precisar te buscar? Ou quer que eu siga o carro? — Alisson tira os brincos de argola da orelha e a peruca também. — Ah, não, relaxa, eu vou com o Blake. Se acontecer algo comigo, você sabe de quem precisa tirar satisfações. — Certo. — Não vou levar celular, não é permitido a entrada de aparelhos eletrônicos no lugar. Eu digo isso enquanto remexo as pernas para essa merda de vibrador e essa calcinha do demônio se ajustarem em mim. — Isabella, isso pode ser muito perigoso. — Meu nome é Isabella e o meu sobrenome é perigo — mal termino de dizer isso e um carro buzina lá fora. — É a minha deixa. Não me esperem acordados! — Isabella? — Sim, mamãe? — Toma cuidado, minha filha! — Pode deixar. Antes de sair ainda consigo escutar: — Suruba na igreja. Essa menina perdeu o juízo mesmo... Blake Gallagher Fico inquieto, a assisto sair de sua casa, praticamente todas as pessoas que ainda estão na rua param para vê-la vir até o carro. E o jeito imponente que ela anda, mostra que não se importa com nenhum dos olhares. — Pensei que só o encontraria lá — ela se surpreende ao me ver no carro. — O que te faz pensar que eu ficaria longe de você por um segundo nessa noite, senhorita Miller? Ela fecha a porta, bem delicada como é, fazendo um barulho colossal. — Por que você está usando uma máscara? — Quando já está sentada e me fita direito, ela percebe que meu rosto está coberto. — Todos nós não estamos sempre usando máscaras? Isabella faz uma careta. — E onde está a minha? Entrego-lhe uma caixa. Ela comprime os lábios vermelhos e a abre com cuidado. — Isso é um chicote. — Não, essa caixa — tomo das mãos dela e entrego a outra. Ela tira de lá uma máscara felina e um par de brincos de diamante. — Ela é tão delicada e bonita — ela segura a máscara com suas mãos e vira de costas para mim, para que eu a ajude a colocar. — Ela é como você — a ajudo. — E os brincos? — São para você também. — Você vai me acostumar muito mal, Blake. Abro um sorriso de canto quando ela diz o meu nome. — Eu vou te tratar do jeito que você merece. Isabella joga todo o cabelo para um lado até conseguir por um dos brincos, depois faz o movimento contrário. E no fim me olha, mascarada e sedutora. — Me conte sobre a programação da noite, Blake. Umedeço os lábios e percebo que não parei de fitá-la desde que entrou. Acho que foi o período mais longo que passei olhando alguém, sem piscar. — Faça o seu trabalho. Descubra o que tiver de descobrir. Eu estarei no bar à sua espera. — Eles não levam as esposas para esse tipo de evento, não é? Preciso segurar o riso. — Muito provável que não. — E algum deles sabe que você estará lá? — Eu não disse a ninguém que iria. Chegarei de surpresa. E tentarei ficar o mais distante possível das pessoas. — Você não é o tipo de pessoa que passa despercebida, mesmo de máscara, Blake — ela se diverte e volta a assear os cabelos para deixá-los como antes. — Por isso você está aqui, Isabella. — E se você sair do bar, como saberei onde você está? — Ela desvia o olhar para encarar a estrada à nossa frente. Isabella dá um leve pulo de onde está sentada, sua mão esquerda segura firme na minha. — Blake! — Ela rosna de um jeito manhoso. — É bom dar o seu jeito para descobrir. Ou eu vou te mostrar até onde essa belezinha é capaz de vibrar. Isabella tenta se sentar, desconfiada de que irei fazer seu brinquedinho vibrar novamente, mas a tranquilizo de que não farei por enquanto. — Quando for a hora de voltar para mim, você saberá — balanço o controle na mão. Bella Hathaway Quando Blake me disse que iríamos para uma igreja, eu juro que pensei que era uma piada. E por isso passei para frente, como se fosse mesmo uma brincadeira ou zoação. Não é. Ao sair do carro e ver a construção majestosa, longe da cidade, eu fiquei me perguntando que tipo de lugar era aquele. Somos recebidos por seguranças bem mal-encarados que nos revistam e nos deixam passar. Não preciso ficar próxima para ver que um deles olha para trás, pega o rádio e parece se comunicar com alguém. — O relógio não está a nosso favor — é o que Blake diz e segue por outro corredor. Eu fico parada por um instante, depois sigo pelo corredor contrário. Ando alguns metros até que esteja em um salão cheio de pessoas mascaradas. Como sou uma boa observadora, consigo reconhecer a maioria dos homens que vejo, pelo menos os membros do conselho. As mulheres... bem... eu pesquisei, o quanto pude, fotos das digníssimas esposas desses homens e posso afirmar categoricamente que não há nenhuma aqui. — Reunião de trabalho, é como chamamos — o senhor Hankins diz, muito animado para um grupo de mulheres que devem ter três vezes menos a idade dele. Continuo a seguir, bem devagar, para escutar cada conversa. — Quando estiver bêbada o suficiente e quiser chegar ao limite, querida, me procure — outro diz de um modo bem tentador. Será que só eu não consigo achar isso normal? Quero dizer, tudo bem que estamos em um país livre e que cada um pode fazer o que quiser, mas esse lugar tem uma aura macabra. Não lembra em nada uma igreja. — Ei! — Chio baixinho quando sou agarrada pelo braço e puxada como se fosse um objeto perdido por aí. — Oi, gracinha. Ai, meu Deus, o Franklin. — Gostei de você — ele diz. — Eu vou enfiar meu pau em você. Ele arregala os olhos. — Hein? — Ele me puxa no canto, indignado. — Que modos são esses? Eu paguei por você, princesa, me trate bem! Levanto a minha máscara e imediatamente ele me solta. — Você! — Ele aponta para mim como se eu fosse o anticristo. — O que você está fazendo aqui? Não vá arruinar minha noite! — O Blake está aqui — cruzo os braços. Ele parece intrigado. — Eu sei, acabei de ser informado. — Pois é, ele me trouxe. Franklin fica cheio de interrogações visíveis. — Mas você não era a mulher que estava fingindo ser homem que agora está fingindo ser mulher? Meu Deus, até eu não entendi o que ele falou. — Digamos que tenho feito um trabalho duplo. Vigiando ele como mulher e como homem. — Você é eficiente mesmo! Kirk disse que você tinha descoberto coisas interessantes, mas como eu estava ocupado demais com essa festinha, não pude dar atenção. O que você está planejando? — Você vai se surpreender, senhor Gallagher — pisco para ele. O ego e o pênis do homem são praticamente a mesma coisa. Quando você alisa um, é como se alisasse o outro. E Franklin parece nitidamente excitado. — Deveria me tratar assim mais vezes — ele acaricia o meu rosto. E eu bato na mão dele e coloco minha máscara de volta. — Vou ficar de olho no Blake, sei que posso preparar uma boa armadilha para ele. — Nada de estragar a minha festa. Estou contando com ela para receber os votos que faltam. É sério mesmo que ele acredita que vai virar presidente de uma instituição tão importante como o CS Gallagher na base da suruba e do BDSM? Tá, pessoas já conseguiram presidências com coisas mais escabrosas... — E se quiser se divertir — ele me segura com força de novo. Qual o problema desse idiota? — Me procure. Eu me desvencilho do aperto dele e me aproximo de seu ouvido. — Tudo o que você vai ter mim, senhor Gallagher, é um fio terra. Ele se afasta de imediato. — Se nos encontrarmos de novo, eu garanto que você só vai perceber a minha presença quando meudedo estiver bem fundo em você. Ele se afasta um pouco mais até sumir. Se eu soubesse que era tão simples, teria dito desde o primeiro instante que ia enfiar o braço dentro dele. Agora preciso descobrir os podres desse lugar... Blake Gallagher O Bacanália é uma tradição que atravessou gerações. Eventualmente os homens poderosos se reúnem para se esbanjar e fazer o que quiserem, desde que o mundo é mundo, para provar que seu poder não tem limites. E sexo é poder. Dominar, subjugar, mandar e fazer o que quiser com outros corpos – principalmente os femininos – sempre foi a maneira mais divertida de mostrar quem é que manda. Não é diferente com a CS Gallagher. Por isso estão aqui chefes de Estados, políticos influentes, bilionários de tantas áreas e o conselho do banco, reunidos para uma noite de perdição. Para reforçar quem realmente tem o poder. — Eu estava ansioso por esse dia — ouço a voz de Franklin. Viro devagar, com o copo de bebida levantado e ele brinda comigo. — Você que sempre foi contra essa celebração, aqui? Acho que os tempos mudaram... — Eles mudaram, sim. — Já tem com quem se divertir essa noite, irmãozinho? — Sem sombra de dúvidas. — E onde ela está? — Ela tem um gênio forte... — comento e Franklin aproveita para beber do seu copo. — Vai onde quer, volta quando quer... — Você sabe que essa noite se trata de dominar, não é? Dê um jeito de dominar essa vadia e a controle — ele bate o copo no meu. — Espero que se divirta, irmãozinho. O Bacanália foi feito para irmos ao limite. E você, melhor do que ninguém, deve aproveitar essa noite. Novamente Franklin brande o copo e se afasta, tão sorrateiramente como chegou. Bella Hathaway Decepcionada, é como estou nesse momento. Andei pelas áreas livres e busquei qualquer vestígio de porta secreta, uma passagem, um mínimo sinal de coisa estranha acontecendo. O máximo que consegui foi entrar por uma porta e dar de cara com uma mulher coberta de látex da cabeça aos pés, só com a boca e vagina para o lado de fora, sendo jogada no chão com brutalidade por um homem bem alto. — Ops, foi engano — fechei a porta e saí correndo. O mais sinistro de tudo foi que eu tive a sensação de que havia alguns fotógrafos na cena, mas deve ter sido coisa da minha cabeça. Mas que havia pessoas assistindo, isso tinha com certeza. As esperanças foram levadas a zero depois de dar duas voltas inteiras pelo lugar. Tudo parecia dentro da normalidade. Quero dizer, dentro da normalidade possível para um evento como esse. Talvez o Blake só tenha me trazido aqui para se divertir comigo e pronto. E voltamos à estaca zero. O que eu deixei passar? A minha mente recobra cada momento significativo que me trouxe aqui: os documentos na biblioteca particular do Blake, as minhas pesquisas com a Gê, as ligações que fizemos... Suspiro, aceitando a derrota. Teria sido tudo fruto da minha cabeça? Estou tão distante da ala principal que resolvo entrar no banheiro feminino ali mesmo para fazer xixi. Não é um lugar macabro, nem escuro como pensei que seria. É bem arejado, luminárias em cada canto e uma meia luz que me faz pensar que alguém deve ter aproveitado a noite por aqui. Lavo as mãos enquanto meus olhos vigiam o local e depois entro na terceira cabine, encho a minha mão de papel higiênico e cubro o assento do vaso. E nesse silêncio que necessito, para responder ao chamado da mãe natureza, ouço um choro bem baixinho. Acompanhado de uma respiração forte, descompassada e um barulho bem característico de salto batendo no chão. Curvo o corpo todo e abaixo a cabeça para olhar por debaixo das cabines. Preciso me esforçar ao máximo até ver saltos na cabine mais próxima da porta. — Está tudo bem aí? — pergunto baixinho, mas o suficiente para que ela ouça. O choro e a respiração param por três segundos. — Você ainda está aí? Vejo seus saltos... — murmuro. — Você precisa de ajuda? — Eu preciso sair daqui — sua voz está embargada. — Noite chata, né? — Olho para o teto e resmungo em silêncio por não conseguir fazer o meu xixi. — Ele só me disse que eu ia receber muito dinheiro... que eles só queriam que eu ficasse nua... mas eles me machucaram... — Eles quem? Meu Deus, eu estou parecendo a Samara tentando voltar para o poço, sentada no vaso sanitário e com a cabeça para baixo, segurando meus cabelos para não tocarem o chão, enquanto tento ver quem é a moça. Talvez isso me responda alguma coisa. — Isso não vale o dinheiro que me prometeram... — Calma, moça, respira! Mas quando eu digo isso, parece que piora. Ela desata em desespero, em um lamento de partir o coração. — Eu quero a minha mãe! — Quem foi...? Fico calada quando ouço a porta se abrir. Mas a moça não tem tanta sorte e seus pés tremerem em desespero. Eu tiro meus saltos imediatamente e subo no vaso, segurando-os. — Não, por favor! — Ela implora. E a porta da sua cabine é arrombada ao que parece com um chute. — Aí está você. — Eu não quero mais... por favor... — Não quer mais? Mas não fizeram nada com você... ainda. — Não! — ela pede. Ouço um barulho que lembra uma descarga elétrica e o corpo da mulher despenca ao chão. O som que se segue é de seu corpo sendo arrastado. E eu estou completamente paralisada, segurando na parede e olhando para o nada. Essa era a voz do Chad? Capítulo 28 Bella Hathaway Alguém tem alguma dúvida se eu perdi o juízo? Porque se tem, basta notar que eu estou com meus saltos em mãos, andando na pontinha dos pés e sempre que posso estou tirando a calcinha do meu terceiro olho. Para onde ele a está levando? Chad me dá arrepios, de verdade. Que eu sabia que ele era um cara doente e sociopata? É claro que sim. Mas ao ponto de estar envolvido com esse tipo de coisa? Se alguém me contasse eu não acreditaria. Fico a uma distância segura enquanto vejo a garota ser arrastada. Mal posso ver o seu rosto e esse é um detalhe importante: preciso descobrir sua identidade, saber se é uma das garotas desaparecidas... e se não for, o que ela estava fazendo ali, quem a chamou e o que fizeram com ela... Se bem que essas respostas eu acho que já tenho. — Me... me deixe ir... — ela murmura, está acordando aos poucos. Chad é ainda mais bruto e dá um sacolejo nela, a mulher quase bate com a cabeça na parede. — Me... — a voz dela fica fraca. — Cala a boca, vadia, e volte para a masmorra para fazer o seu trabalho. — Me ajude — ela estica a mão em minha direção e murmura. Isso não passa despercebido nem para mim, muito menos para o Chad. Dou meia volta antes que ele se vire também e começo a seguir em linha reta, como se tivesse esbarrado em algo que não deveria. — Merda! — Movimento a boca sem som, porque consigo ouvir os passos dele vindo em minha direção. — Você. Parada! — Ele manda. — Merda! — Murmuro, raivosa e ando mais depressa. — Você me ouviu? Quem é você? Está acompanhada? Duas vezes merda! Se esse lunático me pegar, eu não serei apenas estuprada. Eu serei esquartejada e jogada aos cães! Eu não preciso de mais nenhuma prova, sei muito bem somar um mais um e o resultado é esse: Blake está certo. Armaram para ele. Blake impediu que drogas nos navios da CS Gallagher chegassem ao seu destino e a partir disso ele passou a ser perseguido. Não sei se o tráfico de mulheres substituiu o de drogas, ou se aconteciam simultaneamente e o Blake não sabia..., mas chegou um momento que ele deduziu muito bem o que estava acontecendo... — Você! — Chad rosna tão alto que percebo que ele está a poucos metros de mim. Então começo a correr pela minha vida. Eles querem destruir a imagem do Blake porque ele é a única pessoa que teria poder para uma queda de braços. Além de impedir que a CS Gallagher fosse o meio ilegal para trazer para a América mulheres do mundo tudo. O que será que eles diziam para essas mulheres? Bem... com o dinheiro, renome do banco e comprovando as credenciais de que realmente eram pessoas do alto cargo da CS, esses homens devem ter traficado mulheres pelo mundo inteiro. Mas a troco de quê? Em pleno século 21?— Eu não quero atirar — ouço ele preparar a arma, atrás de mim. E eu não paro. Prefiro perder a vida do que ser torturada nas mãos dele novamente. Sei que faz pouco tempo que deixei de ser sua presa, mas não quero abandonar essa sensação de paz, de ter controle do meu corpo e de me sentir limpa. Meu coração quase salta pela boca quando eu viro um corredor e passo por belas cortinas cor de vinho e bordas douradas, sou puxada para uma passagem dentro delas. E antes que eu grite a minha boca é tampada. Me debato nos braços do meu captor e até mordo sua mão, porque preciso pedir ajuda. Vejo a sombra de Chad passar correndo diante de mim, mas os passos param. Meu coração bate mais forte do que nunca. — Por que está se escondendo? Eu não vou te machucar... não agora... — ele ri. Sua sombra fica diante da cortina e o homem me puxa para trás, me solta e passa na frente. Chad arranca as cortinas do lugar, consigo ver seu rosto enquanto me encolho na escuridão. Também consigo ver o perfil de Blake, mesmo com a máscara. — Você — Chad não contém o desprezo. — Por que você sempre precisa estar no lugar errado e na hora errada? A resposta do Blake é o silêncio. E mesmo vendo a arma nas mãos de Chad ele não retrocede, ele dá um passo para frente e cruza os braços, olhando-o como se fosse uma criança brincando com algo perigoso e nada mais. — Vai bancar o herói? Esse é o seu esporte favorito? — Se precisa tanto conversar eu indico um bom terapeuta — Blake descruza os braços e põe as mãos nos bolsos. — Onde ela está? — Onde quem está? — A mulher que estava correndo, não se faça de idiota! Chad usa sempre um tom de superioridade, mas assim que o faz dá um passo para trás. Só o olhar de Blake já o deixa amedrontado. — Uma terapeuta não resolve. Talvez um bom psicanalista — Blake desdenha. — Preciso checar essa ala — Chad avança, mas bate direto no peito dele e retrocede. — Eu cuido dos bastidores! — Você vai retornar à sua insignificância, é o que vai fazer — Blake dá meia volta e o encara de lado. — O Franklin sabe que você está aqui? — Foi ele quem me convidou. — Em breve vamos ver se você vai continuar com tanta coragem assim, Gallagher — Chad diz e dá meia volta. Blake permanece parado por um tempo, pelo menos até Chad sumir pelo corredor, é o que entendo. Depois ele vem até mim e coloca as duas mãos nas laterais do meu rosto, enquanto me examina. — Você está bem? Estou tão paralisada que nenhuma palavra ou voz consegue sair dos meus lábios. — Ele te fez mal? Eu aceno que não, de um jeito bem nervoso. — Você viu alguma coisa? Faço que sim. Sinto a mão de Blake em minha nuca, sua outra mão em minha cintura. Seus olhos se aproximam dos meus com ternura. — Você quer ir embora? Eu sinceramente não sei responder isso. Não vou mentir que conhecer esse mundo novo, ver essas pessoas e estar nesse lugar me parece bem intrigante a ponto de não querer sair, até descobrir o que mais há por ali. Ao mesmo tempo me sinto intimidada e nervosa. — Ei — a mão que estava em minha cintura sobe para o meu rosto. Com o polegar, Blake acaricia a maçã do meu rosto e depois o queixo. — Eu já te disse um milhão de vezes: nada vai acontecer a você enquanto eu estiver aqui. Eu vou cuidar de você. E vou proteger você. Não sei o que responder, então o abraço. Com muita força. São palavras que eu necessitava naquele instante, ainda mais após ver uma mulher sendo arrastada, desacordada, para sei lá onde. Blake devolve o abraço com mais força e calor, encosta o queixo no topo da minha cabeça e afaga meus cabelos com demora. — Eu te prometo que vai ficar tudo bem. Nós vamos resolver isso. Esse é um Blake bem diferente do que eu conheci no decorrer dos dias. É como se ele sentisse algo nesse coração gelado. — Eu acredito em você — eu digo. Não queria dar o braço a torcer, mas... ele estava certo. Sobre tudo. Ao menos, espero que sobre tudo. Principalmente sobre o fato de eu mexer com ele. Porque ele também mexe comigo de formas diferentes... não é apenas uma atração avassaladora. Todas as vezes em que Blake e eu pudemos nos encontrar, ele mostrou seu melhor lado – também conheci o seu pior, como um chefe irredutível e ranzinza. E aprendi a me divertir com ambas as faces, principalmente a parte ruim. — Eu preciso te contar uma coisa, Blake... — Não precisa me dizer nada — ele me aperta com mais força em seu corpo. — Eu acredito em você também. E sei que fará a coisa certa. Queria poder odiá-lo agora, mas é quase impossível. Respiro com mais calma depois que o susto passa e conto ao Blake tudo o que vi e ouvi. Sobre a identidade da mulher, não sei dizer quem é, não me parece ninguém que eu tenha visto na papelada que ele mantinha em sua biblioteca. — O que você pensa em fazer agora? — pergunto. — É uma decisão muito difícil — ele suspira. — Imagino que entregar seu irmão para seus pais ou para a polícia deve trazer uma sensação amarga. Ainda mais porque... bem... conhecendo os ricos como acho que conheço, através de séries e livros, as possibilidades deles passarem a mão na cabeça do Franklin e jogar a sujeira para debaixo do tapete é grande. O silêncio do Blake me preocupa. — E tenho certeza de que se eles fossem de famílias pobres ou de classe média, morando no Queens ou Brooklyn, não só estariam presos, como levariam uma boa surra. — Não tenho como discordar — Blake me solta bem devagar e escora as costas na parede diante de mim. — O pior de tudo é imaginar que pessoas lá fora concordam com isso — cruzo os braços. — Concordam... investem... lucram... Blake não parece nada feliz com a situação e eu fico bem aliviada de existir alguém com o mínimo de bom senso no meio dessa loucura. — Mas que merda! — Chio e enfio a mão debaixo do vestido. — O que foi? — Essa droga de calcinha que fica enfiando bem lá no fundo! Que ódio! — Rosno. Ele só assiste e abre um sorriso de canto, cruza os braços e faz um sinal negativo com a cabeça. — Seu brinquedinho não te incomoda? — Sabe que não? Nos primeiros dias foi estranho. Mas agora eu devo conseguir até andar de bicicleta com ele. Blake entreabre os lábios, mostrando-se impressionado. Juro que nunca o vi fazer isso. — Não fique tão chocado, eu sei fazer coisas piores com isso aqui. Mal termino de dizer isso e o filho de uma santa liga o negócio dentro de mim. Dou um saltinho e me seguro na parede, os olhos arregalados e um tanto desconcertada no primeiro instante. Depois eu relaxo e seguro o riso. — Será que tem um desses para colocar no pau? Vou colocar no seu — rosno. Blake levanta o indicador e me chama com ele. Me aproximo devagar, atenta a qualquer movimento em falso. — Garanto que o meu pau não precisa disso — ele guia a minha mão até a altura da sua virilha. E eu não tenho nada a dizer além de: — Acho que você dentro de mim com esse brinquedo vibrando em meu clitóris pode ser uma boa combinação — levanto a sobrancelha. — Você descobriu isso agora? — Você já tinha pensado nisso? — Fico indignada. — É estranho porque... muitos homens se sentiriam intimidados com uma ideia dessas. — Que ideia, Isabella? — De ter uma ajudinha extra com um vibrador para satisfazer a sua parceira... não que você precise disso... — Não? — o desgraçado ri. — Não fique muito convencido. Mas você sabe como... fazer a mágica acontecer. Sinto o brinquedo vibrar dentro de mim com mais intensidade, e é delicioso. É como sentir a língua dele em minha pele, tocando a parte interna da minha vagina, para depois deixá-la molhada com sua boca num beijo demorado. — Está menos tensa? — Eu estou começando a ficar acesa, para dizer a verdade... — Bom... eu disse que a traria aqui por um motivo. — Me foder — não poupo tempo nem faço rodeios. — Eu sei. Pensei que estava brincando ou fazendo um jogo comigo, mas já entendi que era esse o seu objetivo. — Agora você vai acreditar em tudo o que eu disser? — Blake me provoca, aproximando seus lábios tentadores. — Só quando você não mentir — coloco o indicador no nariz dele e o empurro para trás.— Posso esperar até que se sinta pronta e passe todo o choque e o momento ruim dessa noite. Blake é gentil. Tão gentil que me faz pensar o que fiz por ele para ser assim comigo. A verdade é que passar esse tempo aqui com ele, respirar um pouco e colocar a cabeça no lugar já me trouxeram de volta. O choque passou e o medo também. E sei que estou segura em seus braços. — Você tem um jeito muito galante de me respeitar — toco a gravata dele com os dedos. — Mas fica ainda melhor quando me desrespeita do jeito certo. — Não brinque com fogo, Isabella... ainda mais nesse lugar... as coisas aqui acontecem de uma forma mais intensa. — E quando algo não foi intenso entre nós dois? Ele fica mudo. Sua boca entreaberta não me diz nada. Mas o contorno de seus lábios que sobem em um sorriso sacana e seu olhar que brilha, mesmo no escuro, me dizem tudo. Eu sou o tipo de mulher errada. Blake é o tipo de cara errado. E juntos até parece que damos muito certo. E isso me intriga. — Esse corredor dá em algum lugar? — pergunto. — Na verdade, sim. — Posso descobrir onde? Capítulo 29 Bella Hathaway A luminosidade do corredor vai diminuindo conforme avançamos, até que chegamos ao fim da linha – uma porta de madeira com ferros na vertical. De certa forma combina com a arquitetura do lugar, mas também parece que foi colocado recentemente. — Você tem certeza de que quer entrar? — Blake pergunta. — Por que não entraria? Ele destranca a porta e entramos no cômodo escuro. A meia-luz vermelha só acende quando a porta é fechada e trancada. Consigo ver ao centro do quarto uma cama sem cabeceira, muito espaçosa, lençóis brancos e limpos. Duas correntes com algemas descem do teto até uma certa altura. O cômodo parece uma sala de colecionador ou um sex shop bem moderninho. Embora tenha ficado assustada no primeiro instante, devo admitir que tudo aqui é de muito bom gosto. Em sua maioria preto ou cinza, desde coleiras, luvas, máscaras, cintos, e toda sorte de coisa que possa remeter ao tipo de sexo que acontece no Bacanália. — Todos os quartos daqui são assim? — Dou o primeiro passo e confiro o quanto o quarto é espaçoso. — Os melhores, sim — Blake responde com sobriedade. — O que é esse lugar? Um motel? Uma igreja abandonada? Por que fica tão longe da cidade? — É como um refúgio para aqueles que são bem abastados e querem viver experiências diferentes. É longe da cidade para manter esse mundo em segredo. Essa construção fica em uma propriedade privada, assim não pode ser invadida por repórteres ou toda sorte de gente que não for convidada... cria a ilusão de que as pessoas podem viver e experimentar seus fetiches de um mundo seguro e anônimo. — Acho que vi pessoas filmando e tirando fotos — imediatamente diminuo o tom da voz e fico corada. — Quando acidentalmente entrei em um quarto... — Ah, sim. Para se recordarem da noite, imagino... — Então é permitido gravar? — Isabella... Não sei se é esse quarto em tonalidade tão quente, o fato de vê-lo me fitar como um predador ou ouvir meu nome sair de um jeito sexy de sua boca que me deixa sem ar. Mas acho que gosto dessa sensação. — Sim? — Tudo é permitido se for consentido. Assistir... participar... ir ao limite... — Eu vi uma mulher que não parecia estar consentindo... — Eu te disse que havia um problema, não disse? Blake se reaproxima e vou ficando cada vez mais tensa, sentindo meu coração bater acelerado e minhas mãos suarem. Quando estamos diante um do outro e suas mãos descem pelos meus braços, é como se eu ficasse anestesiada. Não é uma tensão de medo, como a que sinto por Chad. É uma tensão de fascínio. — Me conte um pouco sobre o que se pratica nesse lugar, Blake. — BDSM. — E o que é isso? — Você não disse que sabia? — Ele me provoca com as palavras e o olhar. Sinto seus polegares massagearam o dorso de minhas mãos. — Quero saber o que é para você. O que você gosta nisso... Blake respira fundo e me direciona até a cama, onde me sento. Ele tira o terno bem devagar e o coloca no cabide. — Posso segurá-lo? Ele arqueia a sobrancelha e entrega a peça de roupa em minhas mãos. Enquanto ele anda de um jeito bem sexy eu sinto seu cheiro na indumentária. Blake tem um cheiro muito quente e ao mesmo tempo refrescante, que me envolve e me aquece. E esse perfume está marcado em seu terno. — Te parece estranho que os homens que dominam o mundo queiram dominar as suas mulheres? — ele pergunta. — Não me parece nada estranho. Contanto que elas concordem com isso. Blake acena positivamente, parece que concordamos muito nesse ponto. — Você é o tipo de mulher atípica para esse tipo de lugar, Isabella. — Por quê? — Porque você não se deixa dominar. Você quer sempre estar no controle. — Você sempre quer estar no controle, Blake — devolvo no mesmo tom e sorrio no fim. — E ainda assim sinto algo indomável por você. Algo que estou tentando conter... — E por que precisa se conter? — Cruzo as pernas. E aproveito para tirar essa maldita calcinha. Chega! Ela não vai mais me incomodar nessa noite. — Não quero te afastar. Acho que essa foi a coisa mais humana e real que ouvi de Blake em todo esse tempo. — Eu estou no fim do mundo, dentro de uma igreja de estilo gótico, em um quarto vermelho, com um vibrador dentro de mim – que você tem o controle – e rodeada de um monte de coisas... estranhas. Acho que já teria me afastado, se quisesse. Blake ri de um jeito malandro e começa a tirar a gravata cinza escuro. — Não sei se vou me permitir ser dominada por você. Analiso a expressão que ele faz. E não há nenhuma explosão, ira ou descontrole. Ele só continua a me analisar enquanto desabotoa a camisa social branca. — Mas eu me sinto muito à vontade em pedir. — Certo, Isabella. Então me peça o que quiser — a cada palavra que diz, Blake se aproxima, até que esteja com as mãos em minhas coxas e o rosto bem próximo do meu. — Posso ser algemada, Blake? Por favor? — Peço de um jeito manhoso. Consigo ver um brilho de luxúria em seus olhos. E sua boca carnuda forma um sorriso que me deixa hipnotizada. — Posso fazer esse sacrifício por você. Mas tire esse vestido — ele manda de um jeito bem sério. Se entrar nessa merda foi difícil, imagine tirar... preciso da ajuda de Blake para me livrar desse vestido de látex que me apertou e me deixou bem marcada. E obviamente que a mão do meu chefe não poderia perder a oportunidade de tocar o meu corpo. Sinto um arrepio desde a minha panturrilha quando ele me toca, uma efervescência em meu baixo ventre quando ele me prende em seus braços, em um abraço apertado e gostoso, seu peitoral forte roçando em minhas costas e o volume do seu pênis em minha bunda. — Pensando bem... — O quê? — Você pode me dar umas palmadas, Blake? Onde está o seu chicote? Queria poder estar de frente para ele para conferir seu sorriso de cafajeste. Mas me contento em sentir seus lábios descendo devagar em minhas costas e suas mãos habilidosas descendo pelo meu abdômen. — Peça direito. — Por favor, Blake — fecho os olhos, a voz sai com dificuldade. É difícil dizer qualquer coisa sendo domada por esse homem. Blake me empurra contra a cama, que é ainda mais macia do que pensei que fosse. E não tarda a voltar. Sinto sua boca dando um leve chupão na minha nádega e em seguida o estalo do chicote em cima da marca. Primeiro arde e por isso eu comprimo meus dedos dos pés e as mãos se agarram ao forro da cama. Mas depois eu relaxo e percebo que poderia continuar a levar mais dessas chicotadas a noite toda. — Mais forte. — Não vou atender se não pedir direito — sua voz firme me deixa excitada. Viro-me na cama para vê-lo e não há como não ficar sem ar: ele já está completamente nu e excitado, encarando-me sedento. — Eu permiti que você virasse? — Suas mãos seguram nas laterais do meu corpo e me viram de volta. Sinto um pouco do peso do seu corpo quando ele se deita por cima de mim. E sua boca vai direto ao meu ouvido em um sussurro: — Você sabe como pedir, Bella. — Por favor — eu peço baixinho. — Por favor o quê? — Por favor,faça mais forte — eu peço. Sei que é uma loucura e nunca na vida em plena sanidade imaginei que faria uma coisa dessas... Sinto um chupão bem mais caprichado dessa vez. E para a minha surpresa o meu brinquedinho começa a vibrar de um jeito gostoso. Blake segura com firmeza em minhas coxas e me deixa toda empinada, recebo seus lábios em minha vagina, de início é delicado até se tornar um chupão que rapidamente encontra seu fim. E sinto uma chicotada caprichada em minha bunda. Capaz de me fazer contorcer na cama e suspirar em um sopro de ar quente. Devo ter perdido toda a minha sanidade. E até aqui tem sido uma experiência deliciosa. — Eu gosto dessa sensação — eu murmuro. Novamente sinto o peso dele em mim e é muito gostoso. Seus músculos me apertando, seus braços contornando as laterais do meu corpo com um cuidado que me arrepiam, seu pau friccionando na minha entrada. — Ainda quer ser acorrentada? — Por favor, Blake — peço do jeito que ele gosta. Blake nos vira na cama, me pega no colo e me deixa sentada no centro, exatamente onde as correntes estão. Ele guia os meus pulsos até que eles estejam devidamente presos. Blake está sentado em cima de suas pernas abertas, seu pau bem duro aponta para cima, suas mãos estão relaxadas ao lado do corpo. Ele me olha como se observasse uma obra de arte sendo inaugurada no museu; e ele tem uma vista privilegiada: eu sentada em cima de minhas próprias pernas, um pouco mais esticada que ele e presa na corrente. — Devo continuar a pedir, Blake? — É difícil falar com esse vibrador dentro de mim. Eu só queria poder gemer, mas ele parece ficar atiçado cada vez que ouve a minha voz assim, então vale a pena continuar a falar. — Como é a sensação? Um lado meu do passado teria verdadeiro horror. Tenho verdadeiro medo de perder o controle das situações e embora eu esteja pedindo aqui, nada impede de que ele não acate minhas instruções. E isso em dá um frio na barriga gostoso, que misturado com a vista desse homem completamente nu e a vibração que acabou de aumentar, só me deixam mais louca. — Eu quero... Nem consigo terminar. Blake puxa as minhas pernas para seu colo, nosso encaixe é perfeito. Primeiro ele tira o vibrador de dentro de mim e eu mordisco os lábios, ansiosa para que ele coloque de volta. Sinto ele guiar o pequeno consolo para o meu clitóris e dessa vez a vibração toma outras proporções. Eu me contorço de prazer ao sentir isso e a sua língua bem aberta lambendo a minha vagina devagar. — Sei que existe a regra de não beijar. Mas eu não resisto — ele murmura e seus lábios tomam a minha buceta com mais intensidade, sua língua vai bem fundo em mim enquanto sinto meu clitóris estimulado. Não sei nem o que dizer. O único fôlego que tenho é para gemer e respirar para me manter bem acordada para aproveitar cada instante. Agora consigo ver que em uma das mãos, além do controle, Blake carrega um frasco. Ele derrama o líquido oleoso em meu pescoço e ele desce, deixando o meu corpo numa mistura do perfume dele com sândalo e canela. E agora, mais do que nunca, sinto um calor incontrolável. Blake deixa o óleo descer naturalmente pelos meus seios, mas abocanha o meu mamilo e o chupa com tesão. Sentir sua mão firme e habilidosa segurar em meu seio e brincar com ele me excita demais e eu não contenho os gemidos ao sentir sua língua me deixando toda molhada. — Eu gosto quando você me pega com força — digo alto, quase em um delírio. Deveria guardar isso para mim mesma. E ele imediatamente agarra a minha bunda e me posiciona bem em cima do pau dele. Sinto cada um de seus dedos apertando-me e puxando-me para cima de si. O corpo dele também acaba recebendo um pouco do óleo e quando Blake se esfrega em mim eu fico ainda mais sedenta. — O que mais você quer, Isabella? — Eu quero que você me beije — digo de um jeito manhoso. Sinto sua língua subir pelo meu ventre até os seios. No pescoço sinto com mais intensidade e seus dentes arranham bem de leve o meu queixo, depositando uma mordida lá. — Você sabe que não posso, Bella. — Não pode? — Mas se você pedir direito... — Por favor, Blake, eu quero que me beije. E me faça completamente sua essa noite. Não sei em qual das sensações prestar mais atenção. Meu corpo é bombardeado de estímulos: estou quase montando em cima dele de tanto tesão por sentir essa prolongada vibração em minha região mais sensível; sinto suas mãos trapaceiras me puxando cada vez mais para cima dele e sua boca que sobe bem devagar, deixando um rastro de calor e tesão por onde passa. — Eu quero sentir o seu beijo — quase imploro. Blake me olha firmemente, com seu jeito bruto e mandão. Meu coração para e tudo parece ir em câmera lenta até que sua boca se conecta com a minha. Eu o abraçaria desesperadamente, mas estou presa, a mercê de seu controle e seu desejo. Então aceito que ele me abrace de um jeito caloroso e intenso. Sinto nossos corpos lubrificados pelo óleo se apertarem e esfregarem de um jeito que é quase impossível manter a postura. Eu preciso muito sentir ele dentro de mim, é tudo o que consigo raciocinar. Estou tão molhada e excitada que o pau de Blake entra com facilidade, fazendo-me contorcer em seus braços ao senti-lo duro em mim. O beijo lento e demorado começa a ter os meus leves gemidos e sorrisos enquanto minha vagina se dilata pela grossura do seu pau. Meu baixo ventre se aquece e na região das minhas orelhas e pescoço sinto um calorzão como nunca senti. Até os meus mamilos estão eriçados. É como se eu pudesse sentir cada pequena partícula do meu corpo e cada estímulo me deixasse mais viva e acesa. Seguro com firmeza nas correntes frias enquanto meu corpo é incendiado pelo calor, desejo e tesão. O beijo de Blake muda tudo. Meu corpo corresponde se entregando, rebolando em cima dele, e os espasmos são incontroláveis quando ele decide aumentar a intensidade com que meu clitóris é massageado por seu brinquedinho. — Solte-me — peço desesperada. — Você está bem? — ele tira uma mecha de cabelo de frente do meu rosto. — Maravilhosa — é o que eu digo. Blake não sai de mim enquanto se estica todo e acaba me penetrando mais fundo. Ergo o rosto e respiro o quanto posso. Ele me sustenta na mesma posição, mesmo depois de solta, para que não despenquemos de uma vez. — E como você se sente, Blake? — Eu me sinto maravilhoso também. Ótimo. Porque agora quem vai perder o controle é ele. Seguro com toda a força que tenho em suas mãos e o jogo para trás, para que se deite. E mantenho suas mãos presas acima da cabeça enquanto eu rebolo e arfo de tesão enquanto seu pau duro me penetra até onde consegue. Eu o beijo como se nossos corpos tivessem que permanecer assim para sempre: conectados. E ele geme baixinho quando eu decido soltá-lo e começar a explorar seu corpo. Passo a mão pelo peitoral musculoso e chupo seus mamilos com tesão. A mistura do óleo com o sabor de sua pele me deixa acesa, sedenta por cada pedaço que eu puder lamber. Subo para o seu pescoço e deixo minhas lambidas, da mesma forma como alcanço seu braço forte e beijo seus músculos, sinto-os em meus braços, enquanto me derreto toda e fico quase anestesiada com as estocadas que ele dá em mim. — Você não devia fazer essas coisas, Isabella... Blake nos levanta e me olha uma última vez, com cara de mau a ponto de fazer meus pelos se eriçarem. Vira-me de costas e me deixa de quatro. Seu pau sai todo molhado de dentro de mim e agora me penetra pelo ânus, bem devagar. Solto um grito quase contido e me agarro à cama como se fosse tirá-la do lugar. Esse homem vai me destruir. E estou ansiosa para isso. Blake abraça o meu tronco com a mão direita e vai me erguendo devagar, conforme se afunda em mim. Mordo meu lábio inferior com tanta intensidade que sinto que sangue vai brotar dele. E ele começa a estocar dentro de mim com vontade, até me fazer sentir metade de seu pau entrar e isso é praticamente o meu limite. Blake segura em meu pescoço de um jeito que não me impede de respirar e me ergue um pouco mais, até que eu esteja ereta, com ascostas coladas em seu peito, sentindo seu coração ricochetar. — Você quer parar? — Ele morde o lóbulo da minha orelha. — Por favor, continue — eu quase imploro, levo as mãos para trás e acaricio seu rosto. Sua boca beija meus ombros e ele vai além do meu limite. Sinto seu pau entrar quase todo em mim e só não dou um pulo para frente porque estou completamente em seus braços. Viro o rosto para poder beijá-lo e impedir o grito guardado na garganta e tenho uma das melhores sensações da vida: sou comida por ele, enquanto o beijo e sinto meu clitóris ser estimulado em uma intensidade que não imaginei que aquele brinquedinho seria capaz. — Você me tira do sério — Blake murmura entre o beijo e me mostra porque eu o pertenço. O meu corpo se atiça e se excita em cada um de seus toques, mesmo quando me falta ar eu anseio por mais dele. Começo a chorar de tanto tesão ao sentir ele me penetrar com o vibrador naquela intensidade. Eu sei que não vou conseguir suportar... vou acabar gozando. — Quero que se lembre que é minha — ele me olha no fundo dos olhos, interrompe o beijo para dizer isso. — E que nada pode mudar isso, Isabella. Eu não tenho palavras a dizer, além dos gemidos que solto. — Eu vou ir além de todos os seus limites, a partir de agora — ele segura firme em minha cabeça e no punhado de cabelos que pode. — Sem um contrato. Sem joguinhos. Só você e eu, do jeito que realmente somos. Suspiro bem fundo, meu coração nunca chegou a esse estado. Acho que preciso sair daqui direto para o teste cardíaco. — E você só precisa me dizer uma coisa — ele murmura em meu ouvido e volta a me olhar com a cara de cafajeste que tem. Eu estremeço em seus braços e só não pendo para frente porque ele me segura com firmeza. Minhas pernas perdem o controle, ficam bambas. E suada, anestesiada, sendo devorada por esse homem, só consigo pensar em uma única coisa para dizer: — Sim. Capítulo 30 Blake Gallagher Após a incrível noite que tivemos, tomei a liberdade de trazer Isabella para o meu apartamento na Hudson Yards, com uma vista privilegiada para um dos pontos turísticos da cidade: o The Vessel. Isabella abraça o travesseiro, ainda está dormindo. A forma serena que seu semblante apresenta aquece o meu coração, ela parece tranquila e segura. Quando menos percebo estou com um sorriso bobo na cara. Ajeito a minha postura na poltrona ao lado da cama e volto a ler o The New York Times, acompanho algumas transações feitas pela CS Gallagher e a bolsa de valores, esse é o meu ritual matinal. Quando do nada vejo-a dar um salto da cama. — Estou atrasada! — Ela diz desesperada e se levanta cambaleando. — Onde estão as minhas roupas? — Isabella coça os olhos e sai procurando pelo chão as suas peças. Passado o susto ela para subitamente e vira o rosto devagar. — Onde eu estou? — Em casa — respondo, chamando sua atenção. Ela se vira de supetão e abraça o próprio corpo. Pega uma camisa branca social limpa e passada que deixei em cima da cama e cobre o tronco. — Pensei que você me levaria para a minha casa! — Ela começa a abotoar a camisa. — Eu levei. Mas você dormiu e parecia um pecado te acordar. E como não quis importunar a sua mãe, a trouxe para cá. Isabella corre para o espelho para assear os cabelos, depois vai até o banheiro. — Esse quarto é gigante! Caberiam quatro do meu aqui! — ela grita de lá de dentro antes de fechar a porta. Só sai quando está com o rosto lavado, o cabelo mais arrumado e uma expressão de alguém que está se recuperando de um choque. — Onde estamos? — Manhattan. — É claro... onde mais você moraria?! — ela comenta em voz alta e abre as cortinas. Dá um passo para trás ao ver as escadarias sustentadas por plataformas ovais, o The Vessel, que do ângulo que ela está vendo lembra claramente uma colméia. — Você mora aqui? — Ela termina de abrir as cortinas, deixando a luz do sol invadir o quarto. — Nossa, é um lugar bem arrumado — ela olha com curiosidade para cada canto. — Não. É apenas um dos meus apartamentos. Mas a Rowan gosta de vir aqui, porque assim fica próxima das amigas. E ela curte a vista. — Onde a sua filha está? — Lá fora. Tomando café da manhã. Isabella arregala os olhos e novamente abraça o corpo como se precisasse se cobrir imediatamente. — Meu Deus, você não tem uma parte de baixo para me emprestar? — Ela sai correndo pelo quarto e abrindo as gavetas. — Acho que não. A menos que queira usar uma calça. — Onde está o meu vestido? — Ela volta a vasculhar o chão. — Boa sorte para entrar naquele vestido de látex. Te dou um presente se conseguir. Mas acho que não é a roupa adequada para um café da manhã — sorrio. — Bom, se fosse algo particular nosso, talvez... — Então o que eu visto? — Você está formidável assim, se quer saber. — Blake! — Ela arranca o travesseiro de cima da cama e joga em mim. — O que foi? — Eu não vou sair do quarto assim! E... ah... hoje é domingo — ela respira aliviada, como se tivesse perdido um compromisso. Um segundo depois fica agitada. Ela vai de extremos num piscar de olhos. — Eu preciso ficar com o meu filho hoje! — Ela fica ainda mais agitada. — Pode trazê-lo para cá. — Não quero incomodar, Blake. — Tem uma piscina lá fora, uma hidromassagem também. Como estamos no complexo da Hudson Yards você tem tudo por perto, até área para as crianças. E a Rowan gosta do seu filho. — O Miguel gostou dela também... — Isabella murmura, morde o lábio inferior. — Ok, vou sair assim para tomar o café, mas você precisa arranjar alguma roupa para que eu possa, sei lá, comprar algo pra mim ou ir pegar o Miguel lá embaixo, ok? Vou até ela e seguro em sua mão. — Você está linda. Vou pedir aos empregados que arranjem algo para você. Ela acena com a cabeça. — Agora vem se alimentar — vamos juntos para fora do quarto. A sala possui duas esculturas modernas e uma TV gigantesca na parede, um sofá azul marinho e duas poltronas da mesma cor estão dispostas na frente dela. Isabella fica acanhada ao ver duas empregadas passando e eu seguro o riso. — Gostaria que arranjassem uma vestimenta adequada para a senhorita Miller, por favor — eu digo e elas concordam. — A varanda é logo ali — indico para ela e sigo. Bella Hathaway Que noite! Meu Deus! Eu pensei que não iria sobreviver, por diversos motivos. Mas cá estou eu numa cobertura luxuosa, apenas coberta por uma camisa branca do Blake e ainda por cima descalça! As empregadas pedem o meu número de roupa e sapato e dizem que vão providenciar uma vestimenta. Eu sigo para a varanda, ainda chocada com o tamanho dessa televisão, o Alisson surtaria se pudesse assistir aos seus jogos em algo assim. Ao chegar na varanda vejo o Blake com suas roupas casuais – que aqui significam uma camisa social azul, as mangas dobradas, a calça de alfaiataria com a barra bem feita e um sapato confortável. E Rowan de óculos de sol, bóias de patinho ao redor dos braços e um vestidinho leve, o cabelo dividido ao meio. — Frutinha — Rowan levanta o prato para me oferecer. — Vejo que já está toda lambuzada! — Sorrio e me agacho para cumprimentá-la. — Você se lembra de mim? — É claro — ela diz quase ofendida, no mesmo tom que o pai usa. — Buberry, Moraaaango, banana! — Ela me mostra todas as opções. A mesa é um verdadeiro espetáculo. Só vi coisa assim em comercial de gente rica, deve ter toda a variedade de um grande supermercado aqui e nos três carrinhos ao redor da mesa. — Isso é um hotel? — pergunto para Blake quando me sento. Não deixo de dar uma última olhada na colmeia que o The Vessel forma desse ângulo. Já estive nele há um tempo, por fora é apenas uma construção de escadarias, mas daqui realmente parece outra coisa. — Minha casa — Blake diz com simplicidade. — Nossa, e para que isso tudo? Está esperando alguém? — Você! — Rowan ri e se lambuza comendo manga. — Você quer, papai? — Ela oferece o prato para ele. — Quero sim, meu amor — Blake pega um dos pedaços de morango e coloca na boca. — Huuum... — É azetinho — Rowan fecha os olhos e franze a testa, como se estivesse sentindo