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DESCRIÇÃO Conceitos gerais da parasitologia: relações parasita-hospedeiro, ciclos parasitários, habitats dos parasitos e políticas públicas de saúde contra as parasitoses. PROPÓSITO Compreender os conceitos da parasitologia para o entendimento de diferentes formas de relações parasito-hospedeiro e de doenças parasitárias, assim como de políticas públicas na área da saúde, a fim de criar melhores ações de prevenção e combate às parasitoses. OBJETIVOS MÓDULO 1 Descrever o parasitismo, os principais grupos de parasitas, seus vetores, as políticas públicas de Saúde e o papel do SUS no combate às parasitoses MÓDULO 2 Reconhecer os ciclos parasitários, os principais tipos de habitat dos parasitos e os processos patológicos relacionados ao parasitismo INTRODUÇÃO A grande diversidade de seres vivos e as relações que eles estabelecem sempre foram motivo de fascínio pela humanidade. Se pararmos para pensar, até alguns séculos atrás, os estudiosos ainda discutiam a origem de muitos organismos pela teoria da geração espontânea. Os defensores dessa teoria se baseavam na observação do surgimento de larvas na matéria orgânica em decomposição e acreditavam que os organismos eram gerados a partir de matéria orgânica, inorgânica ou da combinação de ambas. Atualmente, sabemos que as larvas são colocadas por moscas adultas que encontram na matéria orgânica uma boa fonte de nutrientes para a sua progênie. Essa teoria foi derrubada pelas incríveis descobertas de Louis Pasteur. Felizmente, as teorias e hipóteses avançaram e hoje podemos compreender melhor os mecanismos evolutivos dos microrganismos em seus diferentes hospedeiros e ambientes. Por exemplo, no início do século XX, mais precisamente em 1909, que o médico brasileiro Carlos Chagas identificou o parasito responsável pela tripanossomíase americana ou, como ficou conhecida depois, doença de Chagas. Atualmente, muito se conhece sobre a doença, a transmissão, o parasita, o diagnóstico, a prevenção e o tratamento. Entretanto, ainda sabemos muito pouco sobre outras doenças parasitárias, como a angiostrongilíase e a oncorcercose. Muito além da visão antropocêntrica ou voltada apenas para a doença, as relações parasito- hospedeiro definem aspectos das interações entre todos os seres vivos, do mais simples ao mais complexo. Dos milhares de seres unicelulares e multicelulares, alguns encontram no homem as condições ideais para sua sobrevivência e podem ser capazes de gerar ou não doença. Assim, vamos iniciar o nosso estudo sobre a parasitologia, uma ciência que estuda os parasitas e suas relações com o hospedeiro, vamos lá? MÓDULO 1 Descrever o parasitismo, os principais grupos de parasitas do homem, seus vetores, as políticas públicas de saúde e o papel do SUS no combate às parasitoses INTRODUÇÃO AO CONCEITO DE PARASITISMO Conceitualmente, podemos chamar de parasito todo aquele ser vivo que encontra no outro o seu nicho ecológico. Entretanto, para entendermos o conceito de parasitismo, precisamos compreender o complexo e equilibrado ambiente ecológico e evolutivo das relações parasito- hospedeiro e alguns conceitos ecológicos que serão importantes, são eles: Foto: Shutterstock.com. Habitat: área geográfica e ecológica em que determinada espécie é encontrada e pode exercer suas características comportamentais, se alimentar e reproduzir. Existem diferentes tipos de habitat, entre eles terrestre, marinho, urbano, extremos, artificiais etc., onde cada um abriga uma ou mais espécies vivendo em comunidade. Foto: Hanson59 / Wikimedia commons / CC BY SA 3.0 Unported. Ecossistema: meio em que os elementos físicos (água, luz solar, temperatura) interagem com os seres vivos, formando uma complexa rede de interações, associações e de sobrevivência. Existem desde microecossistemas, como o encontrado na água acumulada nas bromélias, até macroecossistemas, como florestas e ecossistemas marinhos. Foto: Shutterstock.com. Nicho ecológico: tem relação com o papel ou com o modo de vida daquele organismo na comunidade em que ele vive. ECOLOGIA Ciência que estuda as interações entre os seres vivos. Dentro de uma mesma comunidade, existem diferentes espécies que possuem características próprias e que, por habitarem o mesmo espaço, acabam estabelecendo interações ecológicas que são complexas e delicadas. Muitos fatores podem desequilibrar essa balança ecológica e afetar a harmonia entre as espécies, como o desmatamento, a introdução de espécies exóticas, as mudanças climáticas etc. Uma forte corrente de estudiosos da Ecologia defende que estudar um organismo sem considerar o meio em que ele vive e as interações que ele estabelece é falho e pode levar a interpretações ecológicas equivocadas. javascript:void(0) A questão do desequilíbrio ecológico se tornou fundamental para a saúde do planeta, principalmente desde o final do século XVIII, quando a Revolução Industrial provocou profundas mudanças no estilo de vida da humanidade. Mas qual a relação disso com o parasitismo? ANTRÓPICA É a ciência que estuda a ação ou resultado da ação do ser humano sobre o meio ambiente. Os animais interagem com outros animais e com o meio em que habitam, então qualquer interferência antrópica, ou seja, de ação humana, nesse harmônico ambiente pode ter consequências graves. Por exemplo, várias pragas agrícolas são também resultantes do desequilíbrio ambiental e climático. Foto: Shutterstock.com. Estudos indicam que o coronavírus, conhecido pela sigla SARS-CoV-2, tem sua origem muito provavelmente relacionada a morcegos e que o local dos primeiros relatos de casos, a província de Wuhan, na China, é um território com grande ação antrópica. Sérias alterações ambientais na região são provocadas pelo desmatamento, pela caça e pelo consumo de animais silvestres. javascript:void(0) Imagem: Shutterstock.com. ATENÇÃO Acredita-se que o coronavírus emergiu dos morcegos, passou por um hospedeiro intermediário e depois encontrou os humanos. Esse é um excelente exemplo para pensamos nas relações e intervenções entre o homem e o ambiente e seus reflexos para a saúde individual e coletiva. FORMAS DE ASSOCIAÇÃO ENTRE OS SERES VIVOS Na natureza, os organismos estabelecem relações entre si que podem ser intraespecíficas ou interespecíficas. No primeiro caso, indivíduos de uma mesma espécie interagem uns com os outros, para garantir a sua sobrevivência. São muitos os exemplos, porém é mais fácil de entendermos citando o caso das abelhas e formigas. Foto: Shutterstock.com. Esses seres vivos vivem em intensa intrarrelação com uma organização social bem definida. Já as relações interespecíficas são mais complexas, existindo muitas tentativas de classificar e estabelecer os limites entre os benefícios e malefícios das relações entre os seres vivos. Didaticamente, os estudiosos da Ecologia dividiram essas relações em vários tipos, a depender do grau de vínculo metabólico. Antes, é preciso esclarecer que toda forma de associação entre espécies é uma simbiose. Posto isso, classificou-se a simbiose em variadas formas que veremos a seguir: PARASITISMO O parasitismo é uma associação de unilateralidade, onde somente o parasito é beneficiado. O nível de dependência pode ser tanto que alguns parasitos só encontram as condições ideais de sobrevivência em uma única espécie de hospedeiro. A Entamoeba histolytica é um exemplo clássico, pois obtém seus nutrientes a partir da digestão enzimática das células epiteliais da mucosa intestinal do hospedeiro, o que pode provocar necrose, apoptose e inflamação local. MUTUALISMO No mutualismo, há o convívio mútuo e benéfico de duas espécies diferentes. Entretanto, apesar de vantajosa para os dois lados, essa relação não é de dependência, podendo o hospedeiro sobreviver sem o parasito. Podemos citar, como exemplo, a microbiota rica de bactéria e protozoários presentes no rúmen, um dos quatro compartimentos gástricos dos ruminantes, que auxiliam na digestão dacelulose. Do mesmo modo que o animal se beneficia da quebra da celulose, os microrganismos ganham alimento e um excelente habitat para a sua sobrevivência. COMENSALISMO O comensalismo é caracterizado pela associação entre duas espécies, onde apenas uma delas é beneficiada, entretanto, sem que a outra saia prejudicada desta relação. O parasitismo comensal da Entamoeba coli no intestino grosso é um exemplo. A seguir, vemos um resumo dessas interações: Imagem: Shutterstock.com, adaptado por Leandro Souteiro. Principais formas de associação entre parasitos e seus hospedeiros. Por meio do seu modo de vida, os parasitos influenciam no desenvolvimento, na produção de hormônios, na reprodução, no estado nutricional e até mesmo no comportamento de seus hospedeiros. Vejamos um exemplo: EXEMPLO Imagem: Shutterstock.com. Os parasitos que habitam cavidades ou tecidos internos necessitam exclusivamente dos nutrientes fornecidos pelo hospedeiro. CESTÓIDES Vermes em forma de fita que se caracterizam pela ausência do sistema digestivo e captam seus alimentos a partir da absorção direta do meio. São exemplos a Taenia solium e Taenia saginata causadoras da teníase. Muitos cestóides perderam, ao longo de sua evolução, a capacidade de sintetizar enzimas, fato que os mantém na dependência do suco gástrico e das enzimas digestivas dos animais que são parasitados. Vamos a um outro exemplo, dessa vez não relacionado à nutrição, mas ao metabolismo endócrino. javascript:void(0) EXEMPLO Foto: Shutterstock.com. O protozoário ciliado Opalina ranarum, parasito de anfíbios, consegue sincronizar o seu ciclo biológico com o ciclo sexual do hospedeiro. Desse modo, o protozoário produz os seus cistos no período reprodutivo dos anfíbios, quando esses procuram a água, assegurando aos ciliados uma grande chance infectar as gerações de girinos (filhotes de sapos). Em laboratório, pesquisadores descobriram que os elevados níveis de hormônios sexuais dos anfíbios induzem o processo de encistamento do parasito. O impacto do parasitismo pode ser positivo, negativo ou neutro, dependendo da relação que estabelecem. A capacidade de um parasito em proliferar é dependente de seu sucesso em também encontrar um equilíbrio vantajoso entre o custo energético e o nutricional, vinculado à sua presença no organismo do hospedeiro. Nos casos do parasitismo acidental, onde a virulência e a patogenicidade são elevadas, o hospedeiro geralmente morre antes do parasito completar o seu ciclo. A relação evolutiva ideal é aquela em que ambos são beneficiados, como é o caso das bactérias da nossa microbiota. FATORES LIMITANTES PARA O CRESCIMENTO DOS ORGANISMOS Para que uma espécie possa se manter e gerar descendentes, é preciso que condições ideais sejam encontradas para a sua sobrevivência. Existem elementos que são limitantes para o crescimento e a reprodução das espécies. Determinadas bactérias não crescem no meio de cultura se alguns nutrientes e as condições ambientais necessárias não forem encontrados, por exemplo. Imagem: Shutterstock.com. Já as bactérias anaeróbias estritas só conseguem sobreviver em ambientes com pouca ou nenhuma concentração de oxigênio, pois este é extremamente tóxico para elas. Além disso, um mesmo organismo pode precisar de uma alta temperatura para o crescimento, mas também baixa concentração de oxigênio. Pode-se dizer que um organismo tolera de modo qualitativo e quantitativo uma série de elementos necessários para seu desenvolvimento. Os organismos podem tolerar mais ou menos determinado elemento e, nas espécies que são mais tolerantes, as variações conseguem habitar espaços diferentes. Os principais elementos físicos limitantes são: temperatura, disponibilidade de água, umidade – relacionada com a água e a temperatura – e a biodisponibilidade de elementos químicos fundamentais, como o ferro e o zinco. Nas regiões tropicais do planeta, onde existe maior biodiversidade, a temperatura oscila dentro de uma faixa maior. Foto: Shutterstock.com. No bioma Pantanal, existem dois períodos bioclimáticos bem definidos: seca e chuva. Os animais são bem adaptados às enchentes e secas anuais e essa variação é importante para a manutenção daquele ecossistema. Se a temperatura e o nível de precipitação (de chuvas) ficassem constantes ao longo do tempo, certas espécies de plantas e animais teriam suas populações drasticamente diminuídas, o chamado efeito depressor. Muitas bactérias e muitos protozoários são sensíveis à variação de umidade e temperatura e podem dessecar no ambiente externo. EXEMPLO As bactérias anaeróbias e os fungos que podem passar por um processo de esporulação em condições ambientais adversas ao seu crescimento e, assim, resistir às dificuldades nutricionais e ambientais. Caso encontrem um estado de ótimas condições, podem retornar ao estado vegetativo. Alguns protozoários passam por um processo semelhante, denominado de encistamento. ESPORULAÇÃO É o processo pelo qual alguns microrganismos formam esporos – estruturas de resistência – frente a condições ambientais adversas à sua sobrevivência. javascript:void(0) PRINCIPAIS GRUPOS DE PROTOZOÁRIOS E METAZOÁRIOS PARASITOS DO HOMEM E SEUS VETORES Os principais parasitas estudados pela Parasitologia são os protozoários (organismos eucariotos, unicelulares e heterotróficos) do reino Protista e os metazoários (organismos eucariotos, multicelulares e heterotróficos) Nematoda e Platyhelminthes (platelmintos), além de Arthropoda (artrópodes), do reino Animalia, todos contidos no domínio Eukarya. A classificação taxonômica, uma importante ferramenta de identificação, dos parasitas é baseada em fatores morfológicos, genéticos, bioquímicos e fenotípicos, tendo sido alterada ao longo dos anos, principalmente, pelo avanço das técnicas moleculares e de sequenciamento genético. Nessa classificação, são adotadas algumas terminologias que têm importância na descrição e localização zoológica do parasito. Vamos adotar a classificação recomendada pelo Comitê de Sistemática e Evolução da Sociedade de Protozoologia, conforme o quadro a seguir. EXEMPLOS CATEGORIA SUFIXOS PROTOZOÁRIOS HELMINTOS Reino ... Protista Animalia Sub-reino -a Protozoa Metazoa Filo -a Sarcomastigophora - Subfilo -a Sarcodina Platoda Superclasse -a Rhizopoda Acercomermorpha Classe -ea Lobosea Digenea Subclasse -ia Gymnamoebia - Superordem -idea - Fasciolidea Ordem -ida Amoebida Schistosomatida Subordem -ina Tubulina Schistosomatina Superfamília -oidea - Schistosomatoidea Família -idae Entamoebidae Schistosomatidae Subfamília -inae - Schistosomatinae Gênero ... Entamoeba Schistosoma Espécie ... E. histolytica S. mansoni Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal Quadro: Categorias taxonômicas de protozoários e helmintos. Extraída de Rey, L., 2008. p. 133. Podemos encontrar algumas terminologias que não seguem o proposto no quadro acima, pois a classificação atual pode entrar em conflito com denominações utilizadas há muito tempo pelos estudiosos da área. SAIBA MAIS Na taxonomia, todas as categorias, como reino, filo, família, gênero e espécie, são escritas em latim. Para os protozoários, gênero e espécie são as únicas categorias que devem ser escritas em itálico ou em texto corrido sublinhado. As bactérias fogem à regra e as categorias acima de gênero (família, ordem etc.) também são escritas em itálico. O gênero deve ser sempre escrito com a primeira letra em maiúsculo e, para designar a espécie, basta escrever o epíteto específico em minúsculo (exemplo: Entamoeba histolytica). Se você quiser abreviar uma espécie, basta escrever a primeira letra do gênero e o ponto de abreviação, seguido do epíteto por extenso (exemplo: E. histolytica). Quando a espécie não for identificada, o nome do gênero será seguido de sp. (para uma espécie) ou de spp. (para mais de uma espécie). Tome cuidado, sp. e spp. não são grafados em itálico!SUBGRUPOS Pode ser utilizado também “clados” ou até mesmo “super-reinos”. O domínio Eukarya é dividido em seis subclassificações chamadas de supergrupos. Dentro desses subgrupos apenas Amoebozoa, Chromalveolata, Excavata e Opisthokonta possuem parasitas capazes de infectar os humanos. A seguir vamos conhecer cada um deles. javascript:void(0) Imagem: Shutterstock.com / Servier Medical Art / Wikimedia Commons / licença (CC-BY-2.0), adaptado por Leandro Souteiro. Relações filogenéticas gerais entre os grupos de parasitos de humanos. O supergrupo Excavata é dividido em quatro subgrupos: Fornicata (subdivisão Eopharyngia), Parabasalia (subdivisão Trichomonadida), Heterolobosea (subdivisão Vahlkampfiidae) e Euglenozoa (subdivisão Kinetoplastea). Imagem: Wikimedia Commons / Domínio público. Excavata: Giardia duodenalis. GIARDIA DUODENALIS Alguns autores chamam de G. lamblia ou Giardia intestinalis. CERATITE É a inflamação da córnea, a camada mais externa do olho, podendo ser desencadeada por uma infecção ou por qualquer agente irritante da mucosa ocular. EOPHARYNGIA A subdivisão Eopharyngia é caracterizada por apresentar indivíduos com um ou dois núcleos, cada um com seu sistema locomotor. A principal espécie de interesse médico dessa subdivisão é a Giardia duodenalis, que pode causar quadros de diarreia sanguinolenta (giardíase). A transmissão ocorre quando cistos são ingeridos a partir de água ou alimentos contaminados. Outros parasitos comensais esofaríngeos podem ser encontrados no intestino, como Chilomastix mesnili e Retortamonas intestinalis. TRICHOMONADIDA Os flagelados da subdivisão Trichomonadida (tricomonadídeos ou parabasilídeos), gêneros Dientamoeba, Pentatrichomonas e Trichomonas, parasitam a luz intestinal humana. Este último gênero tem importância médica, pois nele está presente a Trichomonas vaginalis. A infecção por T. vaginalis é assintomática em cerca de 20 a 50% das mulheres, mas pode evoluir para um quadro de corrimento e prurido vaginal (tricomoníase). A grande maioria dos casos tem prognóstico favorável, se seguidas as recomendações de higiene e tratamento, geralmente metronidazol ou secnidazol. Assim como qualquer outra infecção sexualmente transmissível, a melhor maneira de prevenir a tricomoníase é usando preservativos. VAHLKAMPFIIDAE A subdivisão Vahlkampfiidae reúne protozoários de núcleo único que podem ter flagelos ou forma ameboide, a maioria de vida livre. Dois gêneros são associados a doenças em humanos: Vahlkampfia e Naegleria. Até recentemente acreditava-se que o primeiro não era um patógeno humano, entretanto pesquisadores conseguiram identificar uma espécie (Allovahlkampfia spelaea) causando ceratite. Naegleria é o agente etiológico da meningoencefalite amebiana primária, doença do sistema nervoso central (SNC), de alta letalidade e incidente no hemisfério norte. EUGLENOZOA javascript:void(0) javascript:void(0) A última divisão do supergrupo Excavata é a Euglenozoa, que, por sua vez, é subdividida em Kinetoplastea. As espécies desse grupo são parasitos obrigatórios com um flagelo localizado anterior ou lateralmente. Trypanosoma e Leishmania são os gêneros de maior importância em saúde pública, responsáveis pela tripanossomíase americana (doença de Chagas) e africana (doença do sono), e pelas leishmaníases (tegumentar e visceral), respectivamente. Ambas são doenças incidentes no Brasil, ainda endêmicas em algumas regiões do país e transmitidas por vetores. A doença de Chagas é transmitida a partir da picada de triatomíneos, já a leishmaniose pela picada de flebotomíneos. Do supergrupo Amebozoa derivam quatro divisões sistemáticas: Foto: dr.Tsukii Yuuji / Protist.i.hosei.ac.jp / CC BY-SA 2.5. Amebozoa. TUBILINEA O gênero Hartmannella (divisão Tubilinea) tem como principal representante a Hartmannella veriformis, causadora de meningoencefalite e broncopneumonia de evolução rápida e alta letalidade. A transmissão está associada ao contato com água poluída. ACANTHAMOEBIDAE O gênero Acanthamoeba pertence à divisão Acanthamoebidae e reúne alguns protozoários associados à doença em humanos. A. polyphaga, A. castellanii, A. divionensis, A. lugdunensis são associados com lesões granulomatosas na pele, conjuntiva ocular (conjuntivite) e córnea (ceratoconjuntivite), podendo invadir o SNC. Indivíduos imunodeprimidos podem evoluir rapidamente para um quadro de meningite amebiana. A contaminação geralmente ocorre durante o contato com fonte de águas contaminadas com cistos ou trofozoítos. ENTAMOEBIDAE A divisão Entamoebidae possui como principal representante patogênico a Entamoeba histolytica. Estima-se que cerca de 40 mil a 100 mil óbitos anuais em todo o mundo sejam relacionados com a amebíase por E. histolytica, principalmente em crianças e indivíduos malnutridos ou imunodeprimidos. A contaminação ocorre pela ingestão de cistos a partir de alimentos e água impróprios para consumo. Apesar de morfologicamente semelhante à E. histolytica, E. dispar é um organismo não patogênico e comum na microbiota intestinal. MASTIGAMOEBIDAE A divisão Mastigamoebidae engloba muitas amebas de vida livre ou endobióticas, algumas comensais de humanos, outros mamíferos, além de aves e anfíbios. Endolimax nana é parasito comensal do cólon, mas pode ser encontrado em outras partes do intestino. E.nana se alimenta de bactérias da microbiota, sem agredir a mucosa intestinal. O supergrupo Chromalveolata é um dos maiores grupos de protozoários da natureza, tendo representante com ou sem flagelos e com ou sem cílio. Duas subdivisões são de interesse médico: Imagem: Shutterstock.com. Chromalveolata: Plasmodium spp. APICOMPLEXA O filo Apicomplexa recebe esse nome pela presença nos parasitos, em pelo menos um estágio de sua vida, de um complexo apical anterior composto por organelas especializadas. A malária é provocada pela infecção dos apicomplexos do gênero Plasmodium - P. falciparum, P. ovale, P. vivax e P. simium – a partir da picada de mosquitos do gênero Anopheles. A babesiose (Babesia spp.), sarcocistose (Sarcocystis hominis), isosporíase (Isospora belli) e toxoplasmose (Toxoplasma gondii) também são doenças provocas por apicomplexos. CILIOPHORA Os organismos ciliados têm como principal característica a presença de cílios que recobrem todo o corpo do protozoário e são utilizados principalmente para a locomoção. A única espécie de ciliado conhecida por causar doenças em humanos é Balantidium coli. A balantidiose, como é chamada a doença, é transmitida pela ingestão de cistos presentes em alimentos e água contaminada. O quadro clínico é marcado por uma diarreia intensa semelhante à amebíase por E. histolytica. O supergrupo Opisthokonta, que inclui os Reinos Animalia e Fungi, além de outros grupos de metazoários, é muito importante em Saúde Pública e engloba várias doenças humanas. Alguns metazoários podem ser parasitos comensais ou oportunistas, como o fungo Rhinosporidium seeberi. A rinosporidiose é incidente na América do Sul e em outras regiões do mundo e manifesta-se pelo aparecimento de pólipos na cavidade nasal e faringe ou na pele (forma cutânea). Foto: Shutterstock.com. Reinos Fungi. No reino Animalia, os parasitos do homem e seus vetores apresentam como principais filos de interesse médico os Platyhelminthes, Nemathelminthes, Arthropoda e Mollusca, que são divididos em várias Ordens e Famílias, conforme observamos no esquema a seguir: Imagem: Helver Gonçalves Dias, adaptado por Leandro Souteiro. Alguns parasitos do homem e seus vetores compreendidos no Reino Animalia. Filo Platyhelminthes Composto por organismos com corpo achatado dorso-ventralmente, habitando ambientes aquáticos, solo ou interior de outros animais, como o homem. Os trematódeos digenéticos (classe Trematoda) possuem estruturas de fixação chamadas ventosas e sistema digestório incompleto (não há ânus). O representante mais conhecido por causar doença em humanos é Schistosoma mansoni,agente etiológico da esquistossomose. O homem pode se infectar ao entrar em contato com a água contaminada pelas cercárias, que são a forma infectante que penetra na pele. Fasciola hepatica também ganha importância, principalmente pelo impacto econômico na ovinocultura, sendo o homem hospedeiro infectado quando ingere acidentalmente água e verduras contaminadas com as formas larvais do parasito, as metacercárias. ATENÇÃO Outros parasitos também encontram no homem ambiente propício, mesmo que eventualmente acidental, para o parasitismo, como Paragonimus westermani, Heterophyes heterophyes e Gastrodiscoides hominis. Os cestódeos (classe Cestoidea) não têm sistema digestório, possuem ventosas e corpo segmentado em três partes: escólex, colo e proglotes. Quatro famílias são importantes por causarem doenças distribuídas mundialmente: Diphyllobothriidae, Taeniidae, Hymenolepididae, Dilepididae. Imagem: Shutterstock.com. Taenia saginata aderida à mucosa intestinal. A escólex apresenta cinco ventosas. A difilobotríase ocorre após o consumo de peixe cru ou malcozido que esteja contaminado com a forma infectante do Diphyllobothrium latum. O homem é hospedeiro definitivo por propiciar a maturidade sexual do parasito no trato intestinal. Taenia solium e Taenia saginata infectam o homem (hospedeiro definitivo) após o consumo de carne suína ou bovina malpassada, respectivamente, contaminada com ovos do parasito. A teníase é uma doença bastante incidente e negligenciada que ainda apresenta quadros graves, principalmente em crianças malnutridas e imunodeprimidos. Hymenolepis nana é uma espécie cosmopolita, parasitando com maior prevalência crianças em áreas sem saneamento básico. As infecções são, em sua maioria, assintomáticas. A dipilidiose é uma doença majoritariamente de cães e gatos, entretanto o homem pode ser infectado pela ingestão acidental de pulgas contendo cisticercoides. Os casos humanos são raros, mas têm sido reportados em todos os continentes. Os nematelmintos (filo Nemathelminthes) São organismos de corpo cilíndrico e afilado nas duas pontas. São amplamente distribuídos e prevalentes na população em geral. Dentre as doenças causadas por nematódeos e transmitidas pela ingestão de ovos, podemos citar: ascaridíase (Ascaris lumbricoides), toxocaríase (Toxocara canis), oxiuríase (Enterobius vermicularis) e tricuríase (Trichuris trichiura). ATENÇÃO Outro grupo de doenças causadas por nematódeos são aquelas transmitidas pela larva infectante, como a estrongiloidíase (Strongyloides stercoralis), ancilostomíase ou amarelão (Ancylostoma duodenale) e a angiostrongilíase (Angiostrongylus costaricensis). Com exceção dessa última, todas as demais são doenças associadas à falta de hábitos de higiene e de saneamento básico. Apesar de rara, a angiostrongilíase tem sido relatada no Brasil, sendo transmitida pela ingestão de larvas infectantes que são liberadas por moluscos (hospedeiro intermediário). A filariose (Wuchereria bancrofti) e a oncorcercíase (Oncocerca vulvulus) são as únicas transmitidas por vetores, o Culex quinquefasciatus e Simulium sp., respectivamente. Imagem: Shutterstock.com. Perna de uma pessoa com filariose linfática, conhecida popularmente como elefantíase. Filo Arthropoda Reúne uma grande diversidade de organismos, que compartilham a característica principal de possuir o corpo protegido por um exoesqueleto de quitina. Seis famílias de insetos hematófagos são extremamente importantes para a transmissão de parasitos e vírus aos humanos. Os gêneros Triatoma, Rhodnius e Panstrongylus são compostos por triatomíneos conhecidos popularmente por barbeiros e estão envolvidos na transmissão do T. cruzi. Diferentemente dos mosquitos, os triatomíneos não inoculam o parasito através do aparelho sugador. O parasito é eliminado pelas fezes do vetor durante o repasto sanguíneo. Os flebotomíneos são os transmissores das leishmanioses tegumentar e visceral e apresentam ampla distribuição geografia. Aedes e Culex estão implicados na transmissão de diversas arboviroses endêmicas no Brasil e são mosquitos muito bem adaptados ao ambiente urbano. Como citado anteriormente, Culex também é o vetor do agente da filariose linfática. Os ceratopogonídeos (gênero Culicoides) são mosquitos bem pequenos transmissores de algumas filarias (Mansonella) e do vírus Oropouche. Algumas espécies do gênero Chrysops são transmissoras da filaria Loa loa na África. Imagem: mogrzewalska / Shutterstock.com. O carrapato Amblyomma cajennense é principal transmissor da febre maculosa no Brasil. A febre maculosa é uma importante zoonose transmitida pelo carrapato-estrela (Amblyomma) no Brasil. O último gênero de artrópodes associados a doença em humanos é composto por ácaros causadores da escabiose, conhecida como sarna. Filo Mollusca Reúne animais de corpo mole, em geral protegido por uma concha calcária rígida. Os gêneros Oncomelania, Biomphalaria, Lymnaea e Sarasinula possuem importância médica por serem hospedeiros de alguns parasitos de humanos. Espécies do gênero Biomphalaria são hospedeiras intermediárias do parasito causador da esquistossomose. Lymnaea columella e Sarasinula marginata são hospedeiros intermediários do trematódeo Fasciola hepatica e nematódeo Angiostrongylus costaricensis, respectivamente. O HOMEM E SEUS PARASITOS Assista ao vídeo em que o especialista irá Helver Dias falará sobre a relação entre o parasitismo e os principais grupos de protozoários do homem. INQUÉRITOS COPROPARASITOLÓGICOS Grandes estudos onde se verifica a prevalência de uma ou mais doença enteroparasitária por meio de exames de fezes ou coprológico. POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE E O PAPEL DO SUS NO COMBATE ÀS PARASITOSES Os parasitos intestinais estão entre os patógenos mais frequentes em humanos, constituindo importante agravo à saúde. O Brasil é endêmico para diversas doenças parasitárias e muitas delas são consideradas negligenciadas. São escassos os inquéritos coproparasitológicos que investigam a real amplitude e distribuição geográfica das infecções parasitárias no Brasil. Os grandes estudos realizados nas décadas passadas não refletem com fidelidade o cenário epidemiológico atual. A incidência (novos casos) de doenças parasitárias está relacionada à pobreza e às péssimas condições sanitárias, como ausência de esgotamento sanitário, condições de moradia, ausência de água encanada e potável, além de solos contaminados. Nesse contexto, as populações mais afetadas são as mais carentes, como indivíduos de quilombos, assentamentos, favelas, áreas rurais e indígenas. A desigualdade social no Brasil favorece a marginalização dessas pessoas e adia a consolidação de políticas públicas necessárias para o enfrentamento das parasitoses. javascript:void(0) Foto: arindambanerjee / Shutterstock.com. Atualmente, os parasitas, como Ascaris lumbricoides, Toxoplasma gondii, Entamoeba histolytica, Giardia duodenalis, Trypanosoma cruzi, Leishmania spp. e Schistosoma spp. contribuem enormemente para o quantitativo global de doenças. Entretanto, parasitos intestinais, como a enterobiose, são negligenciados, mesmo tendo contribuição para o déficit de crescimento e aprendizagem de crianças nos países mais pobres. Imagem: Shutterstock.com. ATENÇÃO É preciso destacar que o conceito de saúde não é aquele apenas relacionado à ausência de doença, mas também à manutenção e melhora do próprio estado de saúde física e psicossocial do indivíduo. Nesse sentido, faz-se necessária a implementação de políticas públicas que integrem universalização da saúde, habitação, saneamento básico, planejamento urbano e promoção da saúde. O enfrentamento parte de um olhar holístico da questão. E você, sabe o que são as Políticas Públicas de Saúde? Políticas públicas de saúde podem ser entendidas como um conjunto de disposições que fazem parte do campo de ação social do Estado, orientado para organizar e nortear a promoção, recuperação e proteçãoda saúde da população. Com a redemocratização do país no final da década de 1980, a promulgação da Constituição Federal trouxe um novo horizonte para as políticas públicas em Saúde no Brasil. A Constituição adota um modelo de seguridade social para a saúde norteada por três diretrizes: Descentralização Atendimento integral Participação da comunidade ATENÇÃO Todas as demais leis e políticas públicas têm ação infraconstitucional, ou seja, estão hierarquicamente abaixo do texto constitucional. As conquistas do povo em relação à saúde foram asseguradas na Constituição por meio de uma intensa luta e movimentação social ocorridas nos anos anteriores. O Movimento Sanitário e outros movimentos políticos e sociais debateram profundamente as temáticas da saúde a partir de um olhar amplo e voltado para a construção de uma política de saúde includente para toda a população brasileira. Foto: Nana Moraes / Fiocruz / CC BY-NC. No Artigo 196, a Constituição define “a saúde como um direito de todos e dever do Estado” e o Artigo 198 dispõe sobre a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS é a materialização da vontade e esforço nacional para assegurar o acesso universal de seus cidadãos aos cuidados em Saúde. Muitos autores definem o SUS como a própria política de saúde brasileira. Foto: Shutterstock.com. A seguir vamos entender um pouco do histórico das Políticas Públicas em Saúde no Brasil. POLÍTICAS PÚBLICAS EM SAÚDE Ainda que o SUS tenha sido criado em 1988, sua regulamentação e operacionalização efetiva- se apenas com a aprovação da Lei Orgânica (LO) nº 8.080, de 19 de setembro de 1990, e da LO nº 8.142, de 28 de dezembro de 1990. A primeira LO do SUS normatiza em seu texto: os objetivos e as atribuições; os princípios e diretrizes; a organização, direção, gestão, competências e atribuições de cada esfera de governo (federal, estadual e municipal); a participação complementar da iniciativa privada; o financiamento e a gestão financeira dos recursos. A LO nº 8.142/90 dispõe sobre a participação popular na própria gestão do SUS e sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros. O Artigo 1 democratiza e institucionaliza a participação popular na saúde, a partir da composição dos Conselhos de Saúde e das Conferências de Saúde. A instituição do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e o Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems) têm importante papel na formulação de estratégias e no controle de execução da política de saúde no país. A Constituição Federal em sua seção II, juntamente com as LO nº 8.080/90 e nº 8.142/90, compõe o arcabouço jurídico do SUS. Em 1993, foi publicada a Norma Operacional Básica do SUS (NOB-SUS 93), que definiu estratégias operacionais que assegurassem o compromisso de implementação do sistema único. De modo simultâneo, a NOB-SUS-93 aperfeiçoou a gestão do SUS e reafirmou a descentralização político-administrativa na saúde pública. A definição do papel dos estados e municípios, saindo da lógica de prestadores de serviços e passando a assumir o papel de gestores, é importante para o pleno exercício da gestão em Saúde. Os mecanismos criados pelas Leis Orgânicas e pelas NOB’s permitiram a sistematização da implementação do SUS em suas esferas administrativas e incorporaram a participação do usuário no processo decisório de formulação da política de saúde. Em 1994, é criado pelo Governo Federal o Programa Saúde da Família (PSF), hoje conhecido como Estratégia Saúde da Família (ESF), que consistia na proposta de implementação da Atenção Primária nos municípios. O programa tinha como estratégia central a substituição da visão assistencial vigente à época – ou seja, voltada para o doente e ao atendimento hospitalar de emergência –, a incorporação da lógica de promoção da saúde e a participação popular. A implementação do PSF é facilitada pela existência do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), oficializado em 1991, pelo Ministério da Saúde. Ao longo das últimas três décadas, o PACS se consolidou como o maior programa de Atenção Primária à Saúde do Brasil, englobando atualmente mais de 260 mil Agentes Comunitários de Saúde (ACS). Por ser membro da comunidade em que atua, o ACS é o vínculo indispensável entre o cidadão e a equipe da unidade de saúde. A Atenção Básica fortaleceu um aspecto fundamental da política de saúde brasileira, a descentralização. A capilaridade alcançada pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS), presentes no próprio território, permitiu a obtenção de dados sobre as condições de vida e saúde das populações. No Rio de Janeiro, por exemplo, as UBS alcançam territórios marginalizados dentro de favelas e em locais historicamente negligenciados pelo poder público. A adoção de um modelo de territorialidade permite melhorar o planejamento com base na identificação de vulnerabilidades e seleção de problemas prioritários para a população daquele determinado território. A ESF (Estratégia de Saúde da Família.) tem papel central no combate e na prevenção das doenças parasitárias, principalmente por proporcionar fácil acesso à saúde, pelos aspectos de promoção e educação em saúde e prevenção de agravos. Diferentes municípios têm adotado estratégias de enfrentamento das parasitoses com base no conhecimento da dinâmica territorial e sanitária aliada à educação em saúde. Campanhas de educação sanitária em escolas e conscientização realizada pelos ACS (Agentes comunitários de saúde.) , durante visitas domiciliares, resultam na incorporação de hábitos de higiene, tais como o simples hábito de lavar as mãos e higienização correta dos alimentos, e a consequente redução da incidência das parasitoses. A Secretaria de Vigilância em Saúde, órgão do Ministério da Saúde, lançou em 2005 o Plano Nacional de Vigilância e Controle das Enteroparasitoses, tendo como objetivo geral a definição de estratégias para a redução da prevalência, morbidade e mortalidade por enteroparasitoses no país. A partir da análise epidemiológica de cada localidade, pode-se criar estratégias de controle para serem adotadas nos diferentes níveis administrativos. O Plano integrava ações da vigilância epidemiológica, educação em saúde, diagnóstico e assistência e saneamento básico. Esse ponto é importante, pois no contexto brasileiro as políticas de saúde são indissociáveis das políticas ambientais e de saneamento. Foto: Brunocaput / Wikimedia Commons. 1988 Promulgação da Constituição. 1990 Lei Orgânica da Saúde 8.142/90. Imagem: Portal da Saúde - Ministério da Saúde / Saude.gov / Domínio público. Imagem: Shutterstock.com. 1990 Lei Orgânica da Saúde 8.080/90. 1991 Programa de Agentes Comunitários de Saúde. Imagem: Shutterstock.com, adaptada por Leandro Souteiro. Imagem: Shutterstock.com. 1994 Programa Saúde da Família. 2005 Plano Nacional de Vigilância e Controle das Enteroparasitoses. Imagem: Shutterstock.com. O Ministério da Saúde determina que algumas doenças ou agravos sejam notificados compulsoriamente, ou seja, quando feito o diagnóstico clínico e/ou laboratorial ou identificada a situação-problema, o profissional da unidade de saúde deve obrigatoriamente notificar o sistema de vigilância em saúde sobre a ocorrência. ATENÇÃO O sistema não é apenas para a notificação de doenças, mas também para agravos à saúde, como tentativas de suicídio, violência doméstica e acidente de trabalho. Dentre as doenças listadas, apenas a doença de Chagas, esquistossomose, toxoplasmose gestacional e congênita, malária e leishmaniose cutânea e visceral são causadas por parasitos. Todas as enteroparasitoses não são listadas, portanto não são de notificação compulsória. Assim, o SUS tem, por meio da ESF, o papel central no controle das parasitoses enquanto doenças negligenciadas. A rede de atenção primária ainda é muito deficiente em alguns estados, principalmente nas regiõesNordeste e Norte do país. A falta de infraestrutura, de profissionais qualificados e de recursos compromete a consolidação da ESF e põe em xeque políticas de controle de doenças endêmicas. MIF Mercurocromo ou mertiolate + iodo + formol. SAIBA MAIS O diagnóstico de parasitoses intestinais é feito pelo exame parasitológico de fezes (EPF), a partir da coleta de uma amostra de fezes frescas ou amostras consecutivas coletadas em frascos contendo soluções conservantes, como o MIF. Para as parasitoses sanguíneas, como a malária e doença de Chagas, o exame parasitológico de sangue é o recomendado. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. APRENDEMOS QUE EXISTEM DIFERENTES TIPOS DE INTERAÇÃO ENTRE OS SERES VIVOS, COMO O MUTUALISMO, O COMENSALISMO E O PARASITISMO. ABAIXO CITAMOS ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DESSAS INTERAÇÕES. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE APRESENTA UMA CARACTERÍSTICA CORRETA DESSA INTERAÇÃO. A) No comensalismo, há o convívio mútuo e benéfico do parasita e seu hospedeiro. B) O comensalismo é caracterizado pela não dependência metabólica do parasita. C) O mutualismo é uma associação de unilateralidade, onde somente o hospedeiro é beneficiado. D) No parasitismo, o parasito procura apenas abrigo, proteção e locomoção. E) No comensalismo, apenas uma delas é beneficiada, mas sem prejudicar a outra. 2. O SUS TENTA OLHAR O PACIENTE NÃO SOMENTE PELO LADO DA DOENÇA, MAS ENTENDER QUE AQUELE INDIVÍDUO É INSERIDO DENTRO DE UM CONTEXTO SOCIAL. NESSE SENTIDO, QUAL ALTERNATIVA CONTEMPLA UM FATOR ASSOCIADO À OCORRÊNCIA DE ENTEROPARASITOSES E QUAL DOENÇA É DE NOTIFICAÇÃO COMPULSÓRIA NO BRASIL? A) Diminuição da desigualdade social e giardíase B) Diminuição das condições de higiene da população e enterobiose C) Diminuição da desigualdade social e ascaridíase D) Baixo índice de esgotamento sanitário e toxoplasmose javascript:void(0) E) Diminuição das condições de higiene da população e ascaridíase GABARITO 1. Aprendemos que existem diferentes tipos de interação entre os seres vivos, como o mutualismo, o comensalismo e o parasitismo. Abaixo citamos algumas características dessas interações. Assinale a alternativa que apresenta uma característica correta dessa interação. A alternativa "E " está correta. A interação entre espécies em que apenas uma é beneficiada sem prejudicar a outra é conhecida como comensalismo. Podemos citar, como exemplo, a Entamoeba coli no intestino grosso, um parasita comensal que obtém seus nutrientes, sem causar doença no hospedeiro. 2. O SUS tenta olhar o paciente não somente pelo lado da doença, mas entender que aquele indivíduo é inserido dentro de um contexto social. Nesse sentido, qual alternativa contempla um fator associado à ocorrência de enteroparasitoses e qual doença é de notificação compulsória no Brasil? A alternativa "D " está correta. As parasitoses são doenças, na maioria das vezes, relacionadas a questões como falta de higiene no momento da manipulação dos alimentos, falta de um saneamento básico de qualidade, ausência de água potável e encanada, acometendo assim as áreas mais pobres do país. A toxoplasmose gestacional e congênita é uma doença de notificação compulsória. MÓDULO 2 Reconhecer os ciclos parasitários, os principais tipos de habitat dos parasitos e os processos patológicos relacionados ao parasitismo CICLOS PARASITÁRIOS O ciclo biológico de um parasito compreende os mecanismos, as etapas e os fenômenos aos quais ele é submetido ao longo de suas fases de vida, passando por um ou mais hospedeiros (nome dado ao organismo que habita o parasita em seu interior). A complexa série de acontecimentos físicos, químicos e bioquímicos é ordenada por fatores ambientais e genéticos, dependendo das características fisiológicas e biológicas de cada grupo de parasito. Imagem: Shutterstock.com. Grande parte do conhecimento adquirido sobre os ciclos parasitários vem de estudos com parasitos que causam doenças de importância em saúde pública e saúde animal. O caráter negativo ou patogênico do parasitismo é muito baseado na concepção de doença e pode levar a interpretações científicas prematuras. Isso também gera uma grande lacuna no conhecimento de aspectos do ciclo de inúmeros parasitos que não têm o homem como hospedeiro. A amebíase enquanto doença é causada pela Entamoeba histolytica ou por variedades semelhantes. Entretanto, existem outras espécies, como a E. coli, E. hartmani, Endolimax nana que não parecem causar nenhum processo patogênico. Conhecemos muito mais da E. histolytica do que das demais espécies simbiontes do nosso intestino. Como veremos a seguir, o intestino humano é um excelente habitat para diferentes grupos de parasitos, como os nematelmintos, platelmintos e as amebas. Foto: CDC – Centers for disease control and prevention. Parasito intestinal Entamoeba histolytica presente nas fezes humanas. DOENÇA PARASITÁRIA É uma doença infecciosa causada por um protozoário, helminto ou metazoário. ATENÇÃO É preciso destacar que infecção parasitária não é o mesmo que doença parasitária. São fenômenos diferentes. A infecção por um parasito não leva necessariamente ao aparecimento de sinais e sintomas que caracterizam o estado de doença. A interação entre o parasito, o hospedeiro e o ambiente definem condições evolutivas e biológicas dinâmicas que podem passar por momentos de equilíbrio e desequilíbrio. javascript:void(0) Ainda não são claros os mecanismos, mas em alguns casos o parasitismo intestinal por E. histolytica pode desencadear uma forte ação patogênica, levando ao quadro de amebíase - doença. Na fase aguda de algumas infecções parasitárias, o organismo do hospedeiro consegue tolerar e controlar a carga parasitária, principalmente a partir de mecanismos imunológicos e celulares. Deste modo, a infecção torna-se contida e assintomática. O retorno dos sintomas clínicos pode ocorrer em casos de estados transitórios ou crônicos de diminuição da imunidade no hospedeiro, como no caso da AIDS ou em pacientes que tomam altas doses de corticoides. Em seu ciclo de vida, os parasitos podem infectar mais de um hospedeiro, causando ou não dano ao mesmo. Em geral, quanto mais branda e harmônica é a relação de parasitismo, maior é o tempo decorrido de evolução biológica. Do ponto de vista evolutivo, não é interessante para o parasito levar o seu hospedeiro à morte. Relações de parasitismo que resultam em infecção grave são, em sua maioria, provocadas por relações evolutivas mais recentes. Os hospedeiros se dividem em 5 características. Veja a diferença entre eles. Hospedeiro natural O hospedeiro que não sofre com o parasitismo e garante a multiplicação e dispersão do parasito. Hospedeiro terminal Já os hospedeiros que adoecem com o parasitismo, podendo até mesmo evoluir para a morte, são denominados de hospedeiros anormais. Esses animais também são conhecidos como hospedeiros terminais, pois interrompem o ciclo de transmissão do parasito. Hospedeiro definitivo É aquele que habita o parasita na sua forma sexuada, como é o caso do S. mansoni com o homem. Hospedeiro intermediário É aquele que habita o hospedeiro em sua fase larvária ou assexuada, relação do S. mansoni com o caramujo. Hospedeiro de transporte É aquele que serve de ponte a um novo hospedeiro definitivo, mas o parasito não sofre desenvolvimento ou reprodução e permanece viável. Esses conceitos são importantes para o estudo das doenças transmitidas ao homem por animais. O termo zoonose refere-se exatamente a esse grupo de doenças, como a raiva, a febre maculosa e a toxoplasmose. Alguns animais são hospedeiros naturais, contudo, por também manterem uma alta carga parasitária, acabam atuando como fonte de infecção para outros animais, incluindo o homem. Os morcegos são reservatórios de diversos parasitos, como vírus, bactérias, fungos e protozoários (como novas espécies de Leishmania e Trypanosoma), daí o grande interesse em estudá-los para o entendimento da ecologia de algumas doençasinfecciosas. Foto: Shutterstock.com. CLASSIFICAÇÃO DOS PARASITAS Imagem: Shutterstok.com. Os parasitos podem ser classificados de acordo com diferentes características, entre elas a quantidade de hospedeiros que infectam (especificidade parasitária) e em relação ao tipo de ciclo biológico. Entenda a diferença dessas características. Eurixenos Há parasitos que apresentam uma especificidade parasitária ampla, podendo parasitar diferentes espécies de animais, como o Toxoplasma gondii e a Leishmania spp. Estenoxenos Por outro lado, também há um grupo de especificidade reduzida que admite apenas uma única espécie de hospedeiro ou espécies próximas. É o caso do Ascaris lumbricoides e do Enterobius vermicularis, os quais têm o homem como hospedeiro definitivo. Monoxenos Existem ainda os parasitos que necessitam de apenas um hospedeiro para completar o seu ciclo biológico. Heteroxenos Por fim, existem os parasitos heteroxenos que necessitam de mais de um hospedeiro para completar o seu ciclo, como a Taenia solium. ATENÇÃO Tome cuidado para não confundir os conceitos, alguns parasitos, apesar de exigirem ou necessitarem de apenas um único hospedeiro para completar o seu ciclo, podem também infectar outras espécies, mas não concluindo nelas seu ciclo. Veja a seguir a classificação de acordo com o grau de especificidade parasitária. Imagem: Helver Dias. Parasito que apresenta especificidade parasitária ampla, parasitando diferentes hospedeiros. Imagem: Helver Dias. Parasito que apresenta especificidade parasitária reduzida ou estrita, parasitando uma única espécie ou espécies próximas do hospedeiro. Imagem: Helver Dias. Parasito que necessita/exige apenas um hospedeiro para completar o seu ciclo biológico. Imagem: Helver Dias. Parasito que necessita/exige mais de um hospedeiro para completar o seu ciclo biológico. De acordo com as suas características biológicas alguns parasitos podem pertencer a mais de uma classificação. Eles admitem infectar várias espécies, mas necessitam de apenas um hospedeiro para completar o seu ciclo biológico. Toxoplasma gondii é eurixeno e monoxeno, pois pode parasitar diferentes grupos de animais, mas apenas nos felinos consegue completar o seu ciclo. Trypanosoma cruzi é um exemplo de grande adaptabilidade parasitária, dada a sua capacidade de infectar diferentes hospedeiros. O seu ciclo biológico é classificado como heteroxeno e eurixeno, tendo a participação de hospedeiros intermediários e definitivos. T. cruzi desenvolve-se no tubo digestivo de triatomíneos (pode ser em mais de uma espécie – ex.: gêneros Rhodnius e Triatoma) e no sangue e nos tecidos de várias espécies de mamíferos. Em cada um desses hospedeiros, completa uma etapa do seu ciclo biológico. Portanto, o parasitismo em mais de um hospedeiro é requerido para a sua sobrevivência. Imagem: Shutterstock.com, adaptado por Leandro Souteiro. Ciclo biológico do Trypanosoma cruzi. Caso parecido é o da Taenia solium que apresenta um ciclo heteroxeno e estenoxeno, isto é, necessita de somente um hospedeiro intermediário (porcos) e um outro definitivo (homem) para completar seu ciclo. Diferente do T. cruzi, neste exemplo só é requerida uma única espécie de hospedeiro para cada etapa do ciclo. Os parasitos intestinais Ascaris lumbricoides e Enterobius vermicularis são monoxenos, pois necessitam de somente um hospedeiro para completar seu ciclo (os humanos) e estenoxenos, pois só conseguem parasitar os próprios humanos ou espécies muito próximas. Imagem: Shutterstock.com, adaptado por Leandro Souteiro. Ciclo biológico do Enterobius vermicularis. MENINGOENCEFALITE É um processo inflamatório difuso ou localizado que envolve as meninges e o encéfalo (cérebro). SAPRÓFITA São organismos que se alimentam de matéria orgânica originária de processos de decomposição. MIÍASE É uma infecção de pele causada pela presença de larvas de moscas. A seguir entenda as classificações dos parasitos. PARASITISMO FACULTATIVO Os parasitos acidentais, também chamados de parasitos facultativos são aqueles microrganismos que podem eventualmente infectar hospedeiros que não pertencem ao seu ciclo biológico, podendo ou não causar doença, por exemplo, o adulto de Dipylidium caninum parasitando humanos. A partir de 2010, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos começou a identificar casos raros de meningoencefalite relacionados à infecção acidental por um parasito de vida livre, a ameba Naegleria fowleri. Esse microrganismo é facilmente encontrado habitando fontes termais e a infecção ocorre quando banhistas entram na água. A ameba consegue penetrar pela mucosa nasal e invadir o sistema nervoso central e, por isso, ficou conhecida como “ameba comedora de cérebros”. javascript:void(0) Imagem: Shutterstock.com. Meningoencefalite associada ao parasitismo acidental por Naegleria fowler. PARASITISMO OBRIGATÓRIO É aquele em que o parasito depende integralmente de sua relação com o hospedeiro, seja para nutrição, replicação ou reprodução. A maioria dos helmintos mantém seu ciclo de vida dividido em uma fase saprófita e outra de parasitismo obrigatório. Um exemplo é o Ancylostoma duodenal que causa a ancilostomose. Ao atingirem o solo, os ovos desse parasita eclodem, liberando pequenas larvas que depois vão adquirir a capacidade de penetrar ativamente a pele do pé de indivíduos que andam descalços. Após a penetração, as larvas se estabelecem definitivamente no intestino e atingem a maturidade sexual, concluindo o seu ciclo de vida. Nesse caso, as larvas adultas precisam obrigatoriamente do hospedeiro para completar o seu ciclo sexual e eliminar seus ovos nas fezes iniciando um novo ciclo. PARASITISMO PROTELIANO Por outro lado, existem espécies que são essencialmente parasitos na fase larvária inicial de suas vidas. Você já deve ter ouvido falar na mosca do berne ou nas larvas causadoras da miíase, esta última comum em animais com feridas abertas. A mosca deposita as larvas jovens javascript:void(0) javascript:void(0) na pele lesionada e estas últimas se alimentam do tecido necrosado. Esse tipo de parasitismo, obrigatoriamente da fase larvária, é conhecido como parasitismo proteliano. PARASITISMO ERRÁTICO Já o parasitismo errático é quando um parasita se encontra fora do habitat natural, como o isolamento de Enterobius vermicularis na cavidade vaginal. ENDOPARASITISMO Parasitam as cavidades naturais ou tecidos. ECTOPARASITISMO Quando se instalam fora do corpo do hospedeiro, como é o caso de piolhos, ácaro, pulgas etc. Imagem: Shuttertock.com. PRINCIPAIS TIPOS DE HABITAT DOS PARASITOS Os animais vertebrados superiores apresentam uma enorme diversidade estrutural, histológica, funcional e fisiológica. As propriedades funcionais do fígado são completamente diferentes do intestino, o que também confere aos parasitos que ali residem características distintas de adaptabilidade ao meio. O sistema digestivo abriga grande parte dos parasitos que costumamos estudar, mas outros órgãos podem ser parasitados transitoriamente ou definitivamente, como as glândulas anexas, o sistema vascular sanguíneo, o sistema linfático e outros tecidos. Vejamos agora as espécies de parasitos que habitam cada parte do sistema digestivo Ao longo da evolução da espécie humana, é possível que nossos ancestrais tenham entrado em contato com muitos parasitos por meio da alimentação. Essa talvez seja a provável rota de contaminação e de origem adaptativa da maioria dos parasitos intestinais. Aqueles que conseguiram resistir às adversidades do ambiente intestinal, foram se instalando, adaptando e reproduzindo. A relação parasito-hospedeiro provavelmente levou centenas de anos para encontrar o equilíbrio necessário para ambas as espécies coevoluírem harmonicamente. O grau de adaptação é tanto que para alguns parasitos a especificidade de habitat se dá por segmentos estritos do intestino, como o duodeno,o íleo ou o reto. Determinadas espécies podem viver nesses ambientes temporariamente ou indefinidamente, levando, inclusive, a quadros de gastroenterite no hospedeiro. Essa preferência por ambientes não é por acaso, cada parasito tem interesse por condições físico-químicas específicas. EXEMPLO A concentração de oxigênio é maior na porção mais superior do sistema digestivo e diminui conforme se aproxima do estômago, então as espécies que parasitam a cavidade oral são bem adaptadas à exposição ao oxigênio e demais gases presentes no ar. De forma diferente, o intestino delgado é altamente anaeróbio, abundante em gás carbônico e metano, estando presentes ali apenas as espécies capazes de sobreviver a essas condições. Além disso, as espécies têm que conseguir sobreviver e suportar o pH do trato gastrointestinal e obter seus nutrientes. No esquema a seguir, vemos a enorme diversidade de protozoários e helmintos que encontraram no trato digestivo um ambiente ótimo para a sua sobrevivência. 1 - Cavidade oral 2 - Fígado 3 - Duodeno 4 - Cólon ascendente 5 - Intestino delgado 6 - Cólon descendente 7 - Reto 1 - Cavidade oral Entamoeba gengivalis Trichomonas tenax 2 - Fígado Leishmania donovani E. histolytica (abcessos hepáticos) Schistossoma mansoni Fasciola hepatica Plasmódios (ciclo pré-eritrocítico) 3 - Duodeno Giardia lamblia Ancylostoma duodenale Necator americanus 4 - Cólon ascendente E. Histolytica E. hartmani E. coli Endolimax nana Trichomonas hominis Balantidium coli Enterobius vermicularis Trichuris trichiura 5 - Intestino delgado Trypanosoma cruzi (megacólon) Schistosoma mansoni E. histolytica 6 - Cólon descendente Giardia lamblia Taenia solium Taenia saginata Hymenolepis nana Ancylostoma duodenale Necator americanus Ascaris lumbricoides Strongyloides stercoralis Isospora belli 7 - Reto E. histolytica Via de eliminação dos ovos de protozoários e helmintos Os diferentes parasitas no sistema digestivo. Vejamos as espécies de parasitas que habita em cada parte do sistema digestivo. CAVIDADE BUCAL Encontramos duas espécies principais de protozoários: Entamoeba gengivalis e Trichomonas tenax. A primeira é uma ameba não patogênica de distribuição cosmopolita e que pode ser transmitida pelo beijo. Já T. tenax também apresenta ampla distribuição e está associada a infecções periodontais em indivíduos com precária higiene bucal. ESÔFAGO E ESTÔMAGO Nenhuma espécie de parasita permanentemente é encontrada, principalmente em virtude do baixo pH e das condições hostis a sua sobrevivência. No estômago, o pH pode chegar a 1,5, condição não tolerada pela maioria das larvas e vermes adultos. No entanto, devido à proteção conferida pela resistente casca ou cutícula, os ovos de parasitos conseguem resistir ao ambiente ácido. INTESTINO DELGADO - DUODENO Posterior ao estômago, é o primeiro segmento do intestino delgado e serve de importante sítio de desencistamento de protozoários e eclosão de ovos de helmintos. Dois importantes fluidos digestivos são lançados no duodeno, a bile e o suco pancreático o que torna o meio mais básico. Além disso, as enzimas presentes em ambos podem modificar a permeabilidade da membrana dos cistos e ovos e estimular a movimentação das larvas. Nesse ambiente é que são encontrados Ancilostoma duodenale, Giardia dudenalis e Necator americanus. Saiba mais: No intestino, o valor de pH varia em cada segmento. Por exemplo, o pH no duodeno está atrelado à abertura do piloro – esfíncter localizado na porção final do estômago – que permite a passagem do suco gástrico e deixa o meio mais ácido em relação a porções mais terminais do intestino. INTESTINO DELGADO – JEJUNO E ÍLEO Nos dois segmentos consecutivos do intestino delgado, o jejuno e o íleo, encontram-se Giardia duodenalis, Taenia solium, Taenia saginata, Necator americanus, Ascaris lumbricoides, Strongyloides stercoralis, entre outros. A intensa atividade mecânica provocada pelos movimentos peristálticos pode dificultar a fixação inicial de alguns helmintos. INTESTINO GROSSO Na porção descendente do intestino grosso, há intensa absorção de água e eletrólitos pela mucosa, o que diminui significativamente a concentração osmótica. Ademais, outras condições ambientais também são encontradas, o peristaltismo é reduzido e a mucosa apresenta pregas, muco e células especializadas na reabsorção. Ao longo dos segmentos, é possível encontrar helmintos e protozoários fixados na mucosa. Os ancilostomídeos sugam sangue dos pequenos vasos e as giárdias ficam aderidas à mucosa por meio do disco suctorial. As amebas e alguns protistas ciliados tendem a invadir a mucosa e submucosa, provocando sangramentos e inflamação local. Por fim, em sua porção mais terminal, o intestino grosso pode abrigar no sigmoide e no reto espécies como Entamoeba histolytica, Schistosoma mansoni, Schistosoma japonicum, além de ovos e cistos que serão eliminados nas fezes. Fígado e vias biliares O fígado é considerado a maior glândula do corpo humano e desempenha funções vitais para a homeostase. Pode-se destacar a secreção de bile – importante função digestiva, a degradação e excreção de hormônios, regulação do metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídios, e metabolização de drogas e bilirrubina. Por ser um ambiente altamente vascularizado e rico em nutrientes, o fígado é frequentemente parasitado por algumas espécies, como: As formas esporozoíticas do gênero Plasmodium spp. infectam as células do fígado (hepatócitos), dando início ao ciclo pré-eritrocítico. O P. ovale e o P. vivax podem apresentar formas dormentes, chamadas de hipnozoítos, que podem ficar latentes por meses ou até anos no órgão. Ao completar a fase tecidual, os esquizontes provocam intensa lise dos hepatócitos, liberando milhares de parasitos na corrente sanguínea que irão invadir as hemácias e iniciar o ciclo eritrocítico. Imagem: Shutterstock.com. BILIAR Interrupção ou diminuição do fluxo de bile da vesícula biliar para a luz intestinal. ICTERÍCIA Coloração amarelada da pele e/ou olhos causados por um aumento na concentração de bilirrubina na corrente sanguínea. Outro exemplo é a forma larval do cestoide Echinococcus granulosus responsável pela hidatidose cística. Imagem: Shutterstock.com. Cisto hidático de Echinococcus granulosus no fígado. O ciclo biológico é mantido entre cães (hospedeiro definitivo), suínos, ovinos, caprinos e bovinos (hospedeiros intermediários), mas o homem pode ser acidentalmente contaminado pela ingestão de ovos do parasito. A grande maioria dos casos é assintomático, mas alguns indivíduos podem apresentar sintomas e complicações decorrentes. Em humanos, as localizações mais frequentes dos cistos são fígado e pulmões, além de cérebro, músculos e rins. O acometimento hepático dependerá de alguns fatores, como tamanho e número de cistos, e da localização dentro do órgão. Cistos grandes e profundos podem levar à obstrução porta, estase biliar e icterícia. Ascaris Lumbricoides geralmente habita a luz intestinal, mas as larvas podem ser encontradas em locais atípicos, como as vias biliares e pancreáticas. A invasão desses locais pode provocar quadros graves e agudos de colangite, abcesso hepático, pancreatite e apendicite. SAIBA MAIS Dezenas de outros parasitos podem habitar o fígado, como Fasciola hepatica, Clonorchis sinensis, Opisthorchis viverrini, Schistossoma mansoni e Leishmanis donovani. javascript:void(0) javascript:void(0) Sistema fagocítico mononuclear As células do Sistema Fagocítico Mononuclear (SFM) têm origem nas células hematopoiéticas mieloides e apresentam características em comum, tais como presença de enzimas no citoplasma e forte capacidade de realizar fagocitose. São os componentes da imunidade inata responsáveis pela primeira linha de defesa do organismo. O SFM compreende promonócitos, monócitos, histiócitos e macrófagos residentes dos tecidos. SAIBA MAIS Fagocitose é o processo pelo qual uma célula usa sua membrana plasmáticapara englobar partículas grandes, dando origem a um compartimento interno chamado fagossoma. No sistema imunológico de organismos multicelulares, a fagocitose é um dos principais mecanismos usados para remover patógenos e restos celulares. Imagem: Shutterstock.com. Fagocitose. CÉLULAS FAGOCÍTICAS As células fagocíticas profissionais incluem os neutrófilos, monócitos, macrófagos e células dendríticas. A internalização de alguns parasitos ocorre através da fagocitose mediada por células do SFM. O habitat das formas amastigotas de Leishmania spp. no homem são as células do SFM, principalmente os macrófagos. Alguns parasitos conseguem modular e resistir às defesas do organismo, escapando eficientemente do sistema imune. Nesse caso, as células fagocíticas profissionais conseguem fagocitar os parasitos, mas não conseguem destruí-los nos fagolisossomos. Mecanismo similar de interação do parasito com as células fagocíticas ocorre na infecção por Trypanosoma cruzi e Toxoplasma gondii. Sangue e linfa Os protozoários parasitos podem viver livres no plasma, como o Trypanosoma cruzi ou instalados no interior das hemácias como o Plasmodium spp. Entre os helmintos de habitat sanguíneo estão o Schistosoma mansoni e as microfilárias de vários filarídeos. Foto: Shutterstock.com. Os parasitos da malária durante a fase em que evoluem no interior dos eritrócitos, digerem a hemoglobina, assimilando os aminoácidos da fração globina e deixando um resíduo insolúvel de hemossiderina, rico em ferro, que se conhece também como pigmento malárico. A linfa é o habitat de filarias, como a Wuchereria bancrofti. PARASITISMO E PROCESSOS PATOLÓGICOS javascript:void(0) As múltiplas interações entre parasitos e hospedeiros, baseadas nas relações ecológicas e metabólicas, podem resultar no desenvolvimento de mecanismos nocivos para um ou para ambos os organismos. Assim, para entender um pouco mais sobre os processos patológicos desenvolvidos pelos parasitas, estudaremos alguns mecanismos de agressão e lesão provocadas pelos parasitas. Normalmente, essas desordens são provocadas pela ação direta do parasito, como o processo de invasão tecidual, ou por ação protetiva do sistema imune do hospedeiro, como as respostas inflamatórias agudas e granulomatosa que podem ser desencadeadas durante às infecções parasitárias. Patogenicidade x virulência Denomina-se de patogênicos os parasitos capazes de estimular ou causar dano (doença) no hospedeiro. Esse prejuízo pode ser local ou sistêmico, levando a disfunções fisiológicas importantes para o hospedeiro. A patogenicidade não é sempre presente, sendo determinada por fatores como carga parasitária, estado imune do hospedeiro e sítio anatômico de parasitismo. Convencionalmente, chama-se de não patogênicos os parasitos que não causam doenças. O conceito de virulência relaciona-se com o grau de dano que o parasito pode provocar em determinado hospedeiro. Parasitos muito virulentos provocam doenças graves, geralmente com alta mortalidade. Acredita-se que a alta virulência seja um estágio primitivo do parasitismo, sem o tempo evolutivo decorrido para a adaptação de ambos. A virulência pode variar em função das condições ambientais do hospedeiro, como imunidade e estado nutricional, de características genéticas e fenotípicas do parasito, como tipo de linhagem e cepa, e da capacidade invasiva. FÔMITES Objeto inanimado capaz de absorver, reter e transportar um organismo contaminante de um indivíduo para o outro. MECANISMOS PARASITÁRIOS DE INVASÃO DO HOSPEDEIRO Cada parasito possui um mecanismo próprio de invasão ou penetração do hospedeiro, mas podemos dividi-los em ativos ou passivos. Os ovos e cistos, tais como de Ascaris lumbricoides, Taenia solium e Tania saginata, entram no organismo a partir da ingestão de água ou alimentos contaminados, portanto, passivamente. Também penetram de modo passivo os parasitos inoculados por intermédio de insetos vetores hematófagos, como Leishmania spp., Trypanosoma sp. e Plasmodium spp. A transmissão passiva também pode ocorrer de forma congênita (transplacentária) ou transmamária, ou ainda por transfusão de sangue. Além disso, um indivíduo parasitado pode aturar como o seu próprio veículo de contaminação, de forma direta, quando ele mesmo leva as mãos ao ânus e depois à boca (principalmente crianças e idosos), ou indireta, quando os ovos presentes na poeira, fômites ou alimentos atingem o mesmo hospedeiro que os eliminou. A penetração ativa é aquela observada na infecção por esquistossomos, estrongiloides e ancilostomídeos. As cercárias de Schistosoma mansoni lançam mão de mecanismos mecânicos e líticos (como secreção de enzimas proteolíticas), para penetrar na pele e ganhar a corrente sanguínea. No caso da esquistossomose, após concluídas as primeiras horas da penetração das cercárias, é possível observar a presença de forte infiltrado inflamatório, composto principalmente por células mononucleares e polimorfonucleares. A manifestação cutânea associada é chamada de dermatite cercariana e apresenta erupções pruriginosas: javascript:void(0) Foto: Cornellier / Wikimedia commons / CC BY SA 3.0 Unported. Dermatite provocada pela penetração de cercárias de Schistosoma mansoni na pele. ATENÇÃO É importante ressaltar que, para entrar no organismo, os parasitas têm que ser capazes de passar por todos os mecanismos de defesa inicial do organismo, como as barreias epiteliais (epiderme), presença da microbiota, de substâncias microbicidas etc. Os danos gerados podem ser diretos, ou seja, pela presença dos parasitas ou por substâncias secretadas por eles, ou indiretos, quando acarretados pela a reação no hospedeiro. Podem ainda causar uma série de prejuízos, tendo diferentes ações, como: Obstrutivas Compressivas Destrutivas Tóxicas Pungitiva (causa dor) Alergizante Espoliativas (ocorre perda de substâncias nutritivas pelo hospedeiro, caso que ocorre na teníase, por exemplo) Enzimáticas (liberação de secreções enzimáticas que geram uma destruição tecidual, caso comum nas infecções por e. Hystolitica) Todos esses mecanismos levam a uma inflamação, que constitui o principal mecanismo de lesão tecidual observado nas doenças parasitárias. Inicialmente, a inflamação tem papel importante para o controle da disseminação do parasito, mas seus efeitos adversos podem representar disfunções locais e sistêmicas para o organismo. Podemos definir inflamação como a reação fisiológica protetora do tecido conjuntivo vascularizado a partir de algum mecanismo de lesão ou agressão. ATENÇÃO Observa-se nos animais vertebrados, complexos mecanismos inflamatórios, com reações em cascata com a participação de diferentes moléculas e tipos celulares. Entretanto, a inflamação também ocorre em organismos invertebrados e avasculares, com mecanismos mais simples de migração de células e fagocitose. ARTERÍOLAS Pequenos vasos sanguíneos resultantes das ramificações das artérias. EXSUDATO INFLAMATÓRIO O aumento da permeabilidade endotelial permite a passagem de células, moléculas e líquido para os tecidos, resultando na formação do exsudato. QUIMIOTAXIA É o movimento de atração das células em resposta a sinais químicos no ambiente. EOSINOFILIA Aumento dos eosinófilos. HIPERSENSIBILIDADE São as reações excessivas, indesejáveis (danosas, desconfortáveis e às vezes fatais) produzidas pelo sistema imune normal. FIBRINOGÊNESE Produção e formação de fibrina que vai originar o tecido de cicatrização. Agora veremos resumidamente as etapas da resposta inflamatória contra parasitos e suas consequências locais e sistêmicas. Vamos lá? ETAPA 1 ETAPA 2 ETAPA 3 ETAPA 4 ETAPA 5 ETAPA 6 ETAPA 7 ETAPA 1 Após a entrada dos parasitas, como no caso das cercárias de S. mansoni através da pele, ocorre a liberação de histamina e moléculas vasodilatadoras, que levam ao aumento do calibre das arteríolas e do fluxo de sangue local. Consequentemente, há uma diminuição da pressão intravasculare o aumento da permeabilidade endotelial, resultando no extravasamento plasmático e no acúmulo de líquido no tecido (exsudato inflamatório). A partir desse momento, ocorre a liberação de mediadores que têm por função a atração e migração de células fagocíticas do sangue por quimiotaxia ao tecido. ETAPA 2 As células endoteliais começam a expressar receptores de membranas que servirão de âncora para os leucócitos durante o processo de migração dos vasos sanguíneos para o tecido parasitado. Os macrófagos residentes e células dendríticas atuam fagocitando e apresentando antígenos para os linfócitos, liberando citocinas que atrairão outros tipos celulares. Nas infecções por protozoários, os macrófagos assumem papel importante pela alta capacidade fagocítica, mesmo que alguns parasitos consigam fugir dos mecanismos de defesa. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) ETAPA 3 Após a fagocitose, os macrófagos liberam a interleucina 12 (IL-12) que permite a ativação e migração de células natural killer (NK) que possuem forte ação citotóxica, induzindo a apoptose das células infectadas. Na infecção por helmintos, a presença de eosinófilos é acentuada, sendo marca importante das lesões imunopatológicas. ETAPA 4 Os antígenos parasitários estimulam a produção de IL-4 e IL-5, que induzem à síntese de imunoglobulinas da classe IgE e forte ativação de eosinófilos. A eosinofilia é detectada em indivíduos com quadros de parasitoses agudos e crônicos, tendo por função o controle da infecção pela liberação de espécies reativas de oxigênio e liberação de seus grânulos citoplasmáticos – processo conhecido como degranulação. É frequente encontrarmos infiltrado eosinofílico ao redor de ovos e larvas nos tecidos e no plasma de indivíduos infectados. A secreção de IL-4 e IL-13 estimula a produção de muco na mucosa do intestino grosso e o aumento do peristaltismo na tentativa de expulsar os parasitos da luz intestinal. ETAPA 5 A inflamação aguda é limitada e deve resolver-se dentro de um curto período, porém, podem evoluir para um quadro crônico com eventos longos que podem persistir por toda a vida do hospedeiro. Na inflamação crônica, misturam-se mecanismos vasculares, de reparo (fibrose) e formação de exsudato. O exsudato da inflamação aguda é composto principalmente por fagócitos e líquido extravasado. Já na inflamação crônica, predomina o infiltrado mononuclear (linfócitos, plasmócitos e macrófagos). A inflamação crônica granulomatosa é um importante mecanismo imunopatogênico presente nas infecções por alguns protozoários e helmintos, com destaque para a esquistossomose. javascript:void(0) ETAPA 6 A deposição dos ovos maduros do S. mansoni no parênquima hepático desencadeia um processo inflamatório importante e organizado. A reação inflamatória granulomatosa é considerada uma reação de hipersensibilidade tardia mediada principalmente por linfócitos TCD4. As células TCD4 podem ser divididas em duas populações (Th1 e Th2), de acordo com o tipo de citocinas e respostas que desencadearam. ETAPA 7 Os linfócitos do subgrupo Th1 secretam as citocinas (IL-2 e fator de necrose tumoral e interferon) que induzem à ativação da resposta inflamatória e à formação e deposição de colágeno no local da lesão, contribuindo para a formação da fibrose, característica nos granulomas. Já os linfócitos do subgrupo Th2 secretam IL-4, IL-5, IL-10 e IL-13 que medeia a produção de anticorpos IgE e aumenta a proliferação dos eosinófilos. O equilíbrio entre a resposta do tipo Th1 e Th2 determina a evolução da lesão tecidual. Pesquisas já demonstraram que na esquistossomose, a IL-13 estimula os fibroblastos hepáticos a sintetizarem proteínas da matriz extracelular, aumentando a fibrinogênese e a disfunção hepática. A fibrose, também chamada de cicatrização patológica, é caracterizada pela abundante geração de tecido conjuntivo cicatricial, em detrimento da regeneração do tecido parenquimatoso – no caso da esquistossomose, o hepático. Em estado de homeostase, a destruição das células do parênquima é seguida da regeneração celular que resulta na volta integral das funções daquele órgão. Entretanto, dependendo da extensão da lesão e dos estímulos (antígenos e liberação de citocinas), a formação do tecido cicatricial pode ser muito intensa e difusa, resultando em alterações orgânicas do órgão. A biópsia de uma lesão granulomatosa na esquistossomose, observada no microscópio óptico, revela arcos concêntricos de tipos celulares diferentes ao redor do ovo do parasito. Confuso? Calma vamos entender melhor! javascript:void(0) javascript:void(0) Mais próximos aos ovos podem ser observados eosinófilos, seguidos de macrófagos e fibroblastos produtores de colágeno. Marginalmente estão localizados os linfócitos B – produtores de anticorpos – e os linfócitos TCD4. Imagem: feito no BioRender pelo Helver Dias. Esquema de inflamação crônica granulomatosa induzida por ovos de S. mansoni. A quantidade e intensidade dos granulomas no parênquima hepático determinam a gravidade e o comprometimento do fígado. Casos avançados podem resultar em graves disfunções hepáticas irreversíveis, como cirrose e consequente hipertensão portal. Vamos agora pensar em outra doença parasitária: a doença de Chagas. Foto: Shutterstock.com. Essa doença pode seguir dois cursos clínicos possíveis: aguda e crônica. A fase aguda geralmente é assintomática e pode durar de 4 a 8 semanas. Cerca de 60 a 70% dos indivíduos infectados evoluem para um quadro benigno, sem manifestações clínicas. No entanto, em alguns casos, eles podem evoluir para a forma crônica, com manifestações digestivas ou cardíacas que aparecem depois de alguns anos ou décadas. Para os indivíduos crônicos, a cardiomiopatia é a manifestação mais incidente, seguido do megaesôfago ou megacólon. O megacólon é caracterizado pela destruição dos plexos nervosos da musculatura entérica, aumento do tamanho e do número de células o que leva à perda ou diminuição do peristaltismo, desregulação dos esfíncteres e constipação. CARDIOMIÓCITOS Células da musculatura do coração, também são conhecidas como fibras musculares cardíacas. QUIMIOCINAS Moléculas parecidas com as citocinas que têm a função de controlar a migração e a permanência de células imunes em locais determinados. Os mecanismos imunopatogênicos da cardiomiopatia chagásica são complexos e têm relação com a resposta inflamatória. Ainda durante a fase aguda, os cardiomiócitos são infectados pela forma amastigota do parasito, o que induz à formação de forte infiltrado inflamatório. Além disso, a apoptose das células infectadas gera mais estímulos de migração celular para o tecido cardíaco. As citocinas e quimiocinas liberadas recrutam primeiramente macrófagos e neutrófilos e, em seguida, linfócitos T e B. O infiltrado inflamatório, dependendo de sua extensão, pode gerar disfunções como a hipertrofia dos cardiomiócitos (aumento do volume ou tamanho celular), que caracteriza o coração chagásico, também chamado de “coração grande”. Imagem: Patrick J. Lynch, 2006 / Wikimedia commons / CC BY 2.5. Corte transversal de um coração chagásico, evidenciando a hipertrofia do ventrículo esquerdo. Em estágios mais avançados, denominados clinicamente de cardiomiopatia chagásica crônica, além do infiltrado inflamatório, há aparente destruição de fibras miocárdicas com redução da javascript:void(0) javascript:void(0) quantidade de parasitos e deposição de colágeno. A formação da fibrose tecidual pode levar ao comprometimento contrátil do músculo e disfunções sistólicas e/ou ventriculares. DIARREIA E PARASITOS: QUAL A RELAÇÃO? Assista ao vídeo em que o especialista Helver Dias falará sobre os principais parasitos causadores de diarreia e as modificações fisiológicas que desencadeiam esse quadro. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. OS PARASITOS APRESENTAM DIFERENTES ESTRATÉGIAS PARA PENETRAR NO HOSPEDEIRO, ALGUNS POSSUEM MECANISMOS ATIVOS, OUTROSPASSIVOS. ACERCA DESSE ASSUNTO, ANALISE AS AFIRMATIVAS A SEGUIR: I. ASCARIS LUMBRICOIDES E TAENIA SAGINATA PENETRAM NO ORGANISMO ATIVAMENTE. II. PARASITOS DOS GÊNEROS LEISHMANIA, TRYPANOSOMA E PLASMODIUM PENETRAM NO ORGANISMO PASSIVAMENTE. III. AS CERCÁRIAS DE SCHISTOSOMA MANSONI PENETRAM NA PELE ATIVAMENTE. ESTÁ CORRETO O QUE SE AFIRMA EM: A) I B) II C) III D) I e II E) II e III 2. OS ANIMAIS PODEM ASSUMIR DIFERENTES PAPÉIS NO CICLO DE VIDA DOS PARASITOS. ALGUNS HOSPEDEIROS, APESAR DE PARASITADOS, NÃO SOFREM NENHUM DANO OU PREJUÍZO, OUTROS, ENTRETANTO, PODEM MANIFESTAR SINTOMAS LEVES E GRAVES. ACERCA DESSE ASSUNTO, ASSINALE A ALTERNATIVA QUE TRAZ A CORRETA RELAÇÃO DOS HOSPEDEIROS NOS CICLOS DOS PARASITAS. A) Hospedeiro natural não sofre com o parasitismo e garante a multiplicação e dispersão do parasito. B) Hospedeiro natural sofre profundamente com o parasitismo, resultando na morte dele antes do parasito completar o seu ciclo. C) Hospedeiro anormal é aquele que não sofre com o parasitismo e garante a multiplicação e dispersão do parasito. D) Hospedeiros naturais são aqueles em que a relação parasito-hospedeiro tem, do ponto de vista evolutivo, pouco tempo decorrido. E) Zoonoses são doenças que o homem transmite para os animais. GABARITO 1. Os parasitos apresentam diferentes estratégias para penetrar no hospedeiro, alguns possuem mecanismos ativos, outros passivos. Acerca desse assunto, analise as afirmativas a seguir: I. Ascaris lumbricoides e Taenia saginata penetram no organismo ativamente. II. Parasitos dos gêneros Leishmania, Trypanosoma e Plasmodium penetram no organismo passivamente. III. As cercárias de Schistosoma mansoni penetram na pele ativamente. Está correto o que se afirma em: A alternativa "E " está correta. Os parasitas que penetram passivamente são aqueles inoculados por um vetor, como ocorre com os gêneros Leishmania, Trypanosoma e Plasmodium, ou pela ingestão de água e alimentos contaminados, como ocorre com o Ascaris lumbricoides e Taenia saginata. A penetração ativa é quando o parasita penetra por mecanismos que rompem a barreira epitelial do organismo, como as cercárias do S. mansoni. 2. Os animais podem assumir diferentes papéis no ciclo de vida dos parasitos. Alguns hospedeiros, apesar de parasitados, não sofrem nenhum dano ou prejuízo, outros, entretanto, podem manifestar sintomas leves e graves. Acerca desse assunto, assinale a alternativa que traz a correta relação dos hospedeiros nos ciclos dos parasitas. A alternativa "A " está correta. Os hospedeiros naturais são aqueles que não sofrem com o parasitismo, mas são essenciais para a dispersão e multiplicação dos organismos. Os que sofrem com o parasitismo podendo levar a morte são chamados de hospedeiros anormais. Do ponto de vista ecológico, relações com menor tempo decorrido são fatais ao hospedeiro. Zoonose é o nome dado às doenças que são transmitidas pelos animais aos homens, como a raiva. CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo desse tema, aprendemos os conceitos gerais do parasitismo, visitando os principais parasitas, os tipos de habitat, os ciclos parasitários e os processos patológicos associados ao parasitismo em humanos, que levam ao desenvolvimento de doenças e ações preventivas adotadas pelo SUS. Com posse desses conceitos, conseguiremos avançar na Parasitologia, entendendo a partir daqui, de forma isolada, cada grupo de parasita, suas doenças, manifestações clínicas e, principalmente, que medidas tomar para evitar as parasitoses. Assim, como futuros profissionais da área de Saúde, ofereceremos à população uma assistência adequada, seja no tratamento e acompanhamento dos pacientes seja com orientações sobre as ações educativas e preventivas. Bem-vindo à Parasitologia! AVALIAÇÃO DO TEMA: REFERÊNCIAS ANTUNES, R.F et al. Parasitoses intestinais: prevalência e aspectos epidemiológicos em moradores de rua. In: RBAC, 2020. Consultado em meio eletrônico em: 19 fev. 2021. NEVES, D.P. Parasitologia Humana. 11. ed. São Paulo: Atheneu, 2005. REY, L. Bases da Parasitologia Médica. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. REY, L. Parasitologia. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. Ministério da Saúde. Brasil. Guia de Vigilância Epidemiológica. Brasília (DF), 2009. EXPLORE+ Para aprofundar os conhecimentos sobre o tema: LEIA O livro O tapete de Penélope, do escritor Walter Boeger, que mostra como as associações podem influenciar intensamente a evolução das espécies que habitam o planeta. Sobre os fundamentos do sistema imunológico, no artigo “Sistema Imunitário – Parte I Fundamentos da imunidade” inata com ênfase nos mecanismos moleculares e celulares da resposta inflamatória. ASSISTA Ao vídeo “O SUS do Brasil”, do canal Fiocruz, que levanta discussões sobre a conquista de direitos na saúde, no contexto de redemocratização do Brasil, além de ressaltar a atuação do sanitarista Sergio Arouca. Ao vídeo “Doenças negligenciadas”, do canal Fiocruz, revisita alguns conteúdos importantes sobre as doenças negligenciadas. Ao vídeo “Amebas de Vida Livre: Naegleria fowleri, Acanthamoeba e Balamuthia mandrillaris” e aprenda mais sobre as amebas de vida livre e sobre as doenças causadas por elas. PESQUISE Sobre a ecologia da doença de Chagas, no site da Fiocruz. Sobre os testes parasitológicos, visite Norma Brasileira: “laboratórios clínicos – Exame parasitológico de fezes” e “Técnicas básicas: Exame parasitológico de fezes”. CONTEUDISTA Helver Gonçalves Dias CURRÍCULO LATTES javascript:void(0); < DESCRIÇÃO Principais protozoários parasitas do homem: epidemiologia, formas de transmissão, sintomatologia e controle da doença. PROPÓSITO Conhecer os principais protozoários de importância médica inseridos na parasitologia, bem como a transmissão de doenças, a epidemiologia e a forma de controle para que o profissional da área da saúde tenha uma visão mais ampla sobre as principais parasitoses, auxiliando no diagnóstico e tratamento de tais doenças. OBJETIVOS MÓDULO 1 Identificar as formas de transmissão e prevenção das amebas e apicomplexos MÓDULO 2 Descrever as formas de transmissão e prevenção dos flagelados parasitas do sangue e tecidos INTRODUÇÃO Parasitas (principalmente parasitas intestinais) são antigos na evolução. Embora os parasitas tenham evoluído com o hospedeiro humano, existe um número relativamente pequeno ao qual somos expostos. As doenças parasitárias protozoárias são endêmicas em muitas áreas do mundo, especialmente nos países em desenvolvimento devido às precárias condições de saneamento básico. Vamos aprender ao longo deste tema alguns protozoários que parasitam o homem, sua epidemiologia, sintomatologia e forma de controle e prevenção. Vamos juntos? MÓDULO 1 Identificar as formas de transmissão e prevenção das amebas e apicomplexos INTRODUÇÃO AOS PROTOZOÁRIOS PARASITOS DO HOMEM Existem diversos protozoários que colonizam o trato gastrointestinal humano que podem ou não provocar doenças parasitárias. Os protozoários não formam um grupo homogêneo e sua fisiologia e bioquímica são amplamente voltados para o habitat em que ele se encontra. Além disso, existem diferentes mecanismos de entrada no hospedeiro, que varia se os parasitas são intracelulares ou extracelulares, podendo ser protozoários especializados no hospedeiro (por exemplo, Entamoeba histolytica ) ou adaptados a mais de um hospedeiro (como a Giardia duodenalis ). Antes de começarmos a falar especificamente de cada parasito, vamos relembrar uma parte da classificação taxonômica. Na classificação dos grupos de protozoários, são considerados aspectos morfológicos, métodos bioquímicos e métodos moleculares referentes ao material genético do parasito. Essas características são levadas em consideração quando são feitas as classificações taxonômicas. Você se lembra da sigla “ReFiCOFaGE”? Essa sigla se refere à hierarquia de classificação biológicados seres vivos, onde: Re = Reino Fi = Filo C = Classe O = Ordem Fa = Família G = Gênero E = Espécie Imagem: Shuttertock.com. Hierarquia de classificação biológica. Existem sete filos dentro do reino Protozoa, mas os filos com maior importância médica, que iremos estudar ao longo deste tema, são: Apicomplexa, Sarcomastigophora e Cilliophora, conforme demostrado a seguir. Taxonomia do reino Protozoa. Esses filos são responsáveis por uma série de doenças de importância médica, são elas: APICOMPLEXA CILIOPHORA SARCOMASTIGOPHORA APICOMPLEXA Compreende os agentes causadores da malária e da toxoplasmose. CILIOPHORA Tem como representante o agente causador da balantidíase. SARCOMASTIGOPHORA Filo grande e diverso, no qual encontramos muitos parasitos de importância médica. Apresenta dois grandes subfilos: Sarcodina e Mastigophora. Mas você sabe quem é o principal representante dos protozoários de importância médica do subfilo Sarcodina? Isso mesmo, o agente causador da amebíase. Vamos então iniciar nosso estudo pelo filo Sarcomastigophora subfilo Sarcodina, e, no módulo seguinte, conheceremos o subfilo Mastigophora. Além disso, visitaremos o filo Apicomplexo e Ciliophora. FILO SARCOMASTIGOPHORA: SUBFILO SARCODINA – AMEBAS QUE PARASITAM O HOMEM Os protozoários pertencentes ao subfilo Sarcodina apresentam cílios, flagelos (em determinadas fases do ciclo reprodutivo) ou pseudópodes e se movem por movimentos ameboides mediante fluxo de citoplasma ou por meio de pseudópodes evidentes. DIVISÃO OU FISSÃO BINÁRIA Divisão binária: Processo de reprodução assexuada dos organismos unicelulares que consiste na divisão de uma célula em duas, cada uma com o mesmo genoma da "célula- mãe" De modo geral, a reprodução se dá por divisão ou fissão binária, mas quando ocorre reprodução sexuada ela se dá por meio da produção de gametas flagelados ou ameboides. ENTAMOEBA HISTOLYSTICA Importante parasita entre os humanos, causador da amebíase. Esse parasita foi descoberto por Loesch (em 1875), pela visualização de trofozoítas nas fezes de pacientes com disenteria. Esse subfilo apresenta uma grande diversidade no quesito forma de vida. Eles podem ser de vida livre, ou seja, vivem na natureza geralmente em ambientes aquáticos e úmidos. Alguns protozoários de vida livre podem se tornar parasitos ocasionais, como a Naegleria fowleri , uma ameba encontrada em algumas coleções de águas naturais e que pode infectar banhistas penetrando a mucosa nasal, podendo chegar até o sistema nervoso central. Além disso, podem ser parasitos obrigatórios, como a Entamoeba histolytica presente na família Endamoebidae, na ordem Amoebida e ao gênero Endamoeba . O ciclo de vida desse parasita é monóxeno (inclui parasitas que realizam seu ciclo de vida em um único hospedeiro) e apresenta quatro estágios evolutivos: TROFOZOÍTOS Forma móvel que apresenta um único núcleo, com cariossoma central, membrana nuclear delgada e cromatina uniforme. Fazem rápida emissão de pseudópodes responsáveis pela sua locomoção. A multiplicação do parasito ocorre por meio de divisão binária. javascript:void(0) javascript:void(0) PRÉ-CISTO Forma de transição entre trofozoíto e cistos. Há redução da motilidade e emissão de pseudópodes, sua forma se torna esférica ou ovoide e se inicia a formação da parede cística. CISTOS Forma de resistência ao ambiente externo. São esféricos ou ovoides, com cerca de 12 μm de diâmetro. A parede do cisto é delgada com duplo contorno. Cistos jovens apresentam somente um núcleo e, com o tempo, amadurecem e passam a apresentar até 4 núcleos. METACISTO Forma intermediária multinucleada que, por ter sofrido várias divisões nucleares e citoplasmáticas, dá origem a oito trofozoítos. Imagem: Shuttertock.com. Ciclo biológico da Entamoeba histolytica . Agora, vamos entender como esse parasita se comporta no organismo humano, a partir da figura a seguir: A B C D E-F G A Após a ingestão dos cistos presentes na água e/ou em alimentos contaminados, eles chegam ao estômago e mesmo com a ação do suco gástrico não ocorre o desencistamento. B No entanto, ao chegarem ao intestino delgado, mais precisamente à porção terminal do íleo, passam pelo processo de desencistamento, o qual leva à liberação do metacisto, a partir de uma pequena fenda na parede cística. C Essa forma sofre várias divisões nucleares e citoplasmáticas que originam oito trofozoítos. Os trofozoítos liberados migrarão para o intestino grosso onde se aderem à parede da mucosa e se alimentam por pinocitose e fagocitose de bactérias e restos celulares. Os trofozoítos se multiplicam por fissão binária e podem se desprender do intestino e sofrer o processo de encistamento que leva à formação do pré-cisto e, posteriormente, do cisto. D Os cistos, por sua vez, são liberados nas fezes fechando assim o ciclo biológico. Devido às características morfológicas e metabólicas dos cistos, eles conseguem sobrevivência por várias semanas no ambiente externo. Naturalmente, você deve ter concluído que a infecção por E. histolytica no homem é sempre patogênica. Na verdade, nem sempre a infecção causa sintomas exacerbados. A forma mais usual é a ocorrência dos trofozoítos na luz intestinal, chamada de amebíase não invasiva, em que a pessoa elimina os cistos nas fezes e é assintomática. E-F Na invasão tecidual do intestino pelo parasito, ocorre a chamada amebíase invasiva. G Os trofozoítos, por meio da corrente sanguínea, conseguem atingir outros órgãos como fígado, cérebro e pulmões. Imagem: Bases da Parasitologia Médica, Luis Rey, 2010, pág. 99. Entamoeba histolytica no organismo do homem. A invasão da mucosa intestinal leva a uma inflamação local. A doença também é conhecida como colite amebiana aguda ou como disenteria amebiana. Os sintomas mais comuns são: dor abdominal, febre, diarreia com possível aparecimento de muco, pus ou sangue nas fezes, distensão abdominal e leucocitose. Trofozoítos no intestino delgado. Como você pode perceber, existem outras doenças intestinais, como infecções causadas por bactérias, que podem levar a sintomas muito parecidos com a da amebíase. ATENÇÃO Podem também ocorrer formas mais graves, em que o paciente apresenta anemia severa e necrose extensa da mucosa intestinal. No caso de o trofozoíto chegar a órgãos como o fígado, pode ocorrer até mesmo a formação de abcessos, desenvolvendo um quadro que pode ser fatal. A amebíase é uma doença de importante morbimortalidade que apresenta uma maior prevalência nos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos, devido às péssimas condições socioeconômicas e de saneamento básico. SEGUNDO A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS), CERCA DE 45 MILHÕES DE INDIVÍDUOS ESTÃO INFECTADOS DOS QUAIS 100 MIL VÃO A ÓBITO ANUALMENTE, O QUE A TORNA A SEGUNDA PRINCIPAL CAUSA DE MORTES POR INFECÇÃO PROVOCADA POR PROTOZOÁRIOS/PARASITAS”. (SOUZA et al ., 2019) No Brasil, não existem muitos dados em relação à epidemiologia desse protozoário, mas é observada uma diferença entre cada região no país, com predomínio na região norte e nordeste. Souza e colaboradores (2019) observaram que entre os anos de 2012-2016 ocorreram 14.268 internações por amebíase, com maior prevalência nas cidades do Pará e Roraima (Norte), seguida do Maranhão (Nordeste). Atualmente, a prevalência da E. histolytica é superestimada devido à sua semelhança com outras espécies do mesmo gênero que apresentam formas muito semelhantes e muitas vezes são confundidas nos exames diagnósticos (exame parasitológicos de fezes - EPF). Esse é o caso da Entamoeba dispar e da Entamoeba moshkovskii , formando o complexo E. histolytica/ E. díspar /E. moshkovskii . Para identificação correta dessa espécie, são necessários exames de biologia molecular que não são empregados nas rotinas dos laboratórios de análises clínicas. Imagem: Shuttertock.com. Cisto de Entamoeba histolytica. Mas qual é a diferença entre esses protozoários? Como abordado anteriormente,nem todo protozoário causa doença. Alguns vivem com a relação de comensalismo com o homem, não sendo assim patogênico, como é no caso da E. díspar, E. Hartmanni, Iodamoeba butschlii e Endolimax nana . Portanto, ao serem confundidos devido à semelhança morfológica nos exames empregados, pode ocorrer um diagnóstico falso indicando uma infecção por E. histolytica quando na verdade é uma relação de comensalismo com E. díspar. O aumento da notificação de alguma doença pode alarmar sobre uma possível epidemia em dado local enquanto na verdade não se trata disso. O COMENSALISMO DAS AMEBAS COM O HOMEM Neste vídeo, a especialista Raquel de Lima explica as relações ecológicas interespecíficas (harmônicas e desarmônicas) especificamente o comensalismo e o parasitismo e os principais protozoários ameboides que vivem em relação de comensalismo com o homem. Como podemos prevenir essa doença? A prevenção da amebíase se faz principalmente por meio da higiene pessoal e alimentar, já que sua transmissão ocorre por via fecal-oral. É de extrema importância que todos tenham acesso a boas condições sanitárias e à educação correta da higiene pessoal. O hábito e a forma de lavar as mãos é uma das medidas mais importantes para evitar a transmissão da doença, assim como a higienização correta dos alimentos e da água que será consumida. Vale lembrar que os cistos apresentam grande resistência e que, por muitas vezes, não são inativados com a adição de cloro na água, sendo necessário que a água seja fervida ou filtrada antes do consumo. Foto: Shuttertock.com. FILO APICOMPLEXA: OS ESPOROZOÁRIOS OU APICOMPLEXA O filo Apicomplexa é composto por diversos parasitas que se replicam exclusivamente em hospedeiros animais. Nesse filo, temos os agentes etiológicos de várias doenças humanas importantes, como a malária, causada por Plasmodium spp., e a toxoplasmose causada por Toxoplasma gondii. Os integrantes desse filo apresentam locomoção por deslizamento , ciclo intracelular, reprodução assexuada e sexuada e não possuem cílios. A sua característica principal é a presença do complexo apical, que não se encontra em todas as fases do ciclo evolutivo do parasita, estando restrito às fases de esporozoíto e de merozoíto. Ele apresenta organelas secretoras características (micronemas (Suas proteínas têm papel na adesão e invasão. ) e roptrias (Têm papel na invasão e formação do vacúolo parasitóforo. ) ) e estruturas citoesqueléticas (anel polar apical e cilindro de microtúbulos) que auxiliam na fixação e penetração do parasita na célula hospedeira. Imagem: Bases da Parasitologia Médica, Luis Rey, 2010, p. 109. O aparelho apical de um esporozoário. O ciclo biológico dos protozoários pertencentes a esse filo apresenta tanto uma fase de reprodução sexuada quanto uma fase de reprodução assexuada. Você deve estar se perguntando qual a ligação entre a forma evolutiva e a fase do ciclo biológico. Em cada fase do ciclo, encontramos diferentes formas dos parasitos desse filo. Essas formas podem variar de acordo com o gênero em questão, mas algumas delas se mantêm independentemente do gênero, e outras são exclusivas do gênero. MICROGAMETÓCITOS São os Gametas masculinos. Apresentam aparência delgada. São flagelados, portanto se movem. MACROGAMETÓCITOS São os gametas femininos. São maiores que os gametas masculinos e imóveis. Encontramos nas fases: ASSEXUADA TROFOZOÍTO Estágio intracelular no qual o parasita se alimenta de partículas presentes na célula hospedeiro, ele pode sofrer esquizogonia (reprodução assexuada) e gera o esquizonte. ESQUIZONTES Forma multinucleada do esporozoíto que multiplica seu núcleo de forma assexuada, processo chamado de esquizonia. MEROZOÍTAS Forma uninucleada resultante da divisão do citoplasma dos esquizontes gerados por esquizogonia. Os merozoítas também possuem um complexo apical que lhes permitirá invadir novas células do mesmo hospedeiro, mantendo o ciclo assexuado no hospedeiro. ESPOROZOÍTOS Apresenta forma alongada com complexo apical. É a fase móvel do parasito. Essa fase é formada no interior do esporocisto. TAQUIZÓITOS Forma infectante de proliferação rápida presente no ciclo de Toxoplasma gondii na fase aguda. BRADIZOÍTOS São encontrados dentro de cistos que vão se alojar nos tecidos do hospedeiro na fase crônica da doença, como a toxoplasmose. CISTO contêm em seu interior os bradizoítos e se alojam no tecido do hospedeiro na fase crônica. SEXUADA GAMETÓCITOS (CÉLULAS CAPAZES DE FORMAR GAMETAS) Microgametócitos e macrogametócitos OOCINETO Formado quando os gametas (feminino e masculino) se unem formando um zigoto. É capaz de se mover e de penetrar em células do intestino dos hospedeiros. OOCISTOS É formado quando os gametas (feminino e masculino) se unem formando um zigoto e depois se encista. A seguir, aprenderemos um pouco mais sobre duas ordens (Eucoccidiida e Hemosporidiida) desse filo que despertam bastante interesse na parasitologia médica. ORDEM EUCOCCIDIIDA – GÊNERO TOXOPLASMA O gênero Toxoplasma foi criado em 1909 ao observarem um novo protozoário que não havia sido descrito em gundi, roedores africanos. Nicolle e Manceaux propuseram o termo toxoplasma (toxon = arco e plasma = corpo em grego) devido à sua morfologia característica. javascript:void(0) javascript:void(0) Foto: Shuttertock.com. Roedores africanos gundi. HETERÓXENO É aquele parasito que precisa de mais de um hospedeiro para completar seu ciclo de vida. A toxoplasmose é uma zoonose que tem como agente etiológico o protozoário Toxoplasma gondii , um parasito intracelular obrigatório, que infecta principalmente células mononucleares do sistema fagocítico. Essa espécie apresenta um ciclo heteróxeno o qual é composto de hospedeiro definitivo (apenas felinos, como os gatos) e intermediários, espécies de mamíferos (carneiro, cabra, porco, homem, camundongo etc.) e aves. Nos hospedeiros intermediários, ocorre a esquizogonia; nos hospedeiros definitivos, pode ocorrer tanto a reprodução assexuada como a sexuada (gametogonia). javascript:void(0) Imagem: Shuttertock.com. Hospedeiros do T.gondii . Existem três formas do T. gondii que podem iniciar a infecção nos vertebrados: os oocistos, taquizoítos e bradizoítos. A transmissão pode ocorrer após a ingestão dos oocistos esporulados expelidos nas fezes de gatos suscetíveis, do bradizoíto presentes em cistos, em carne crua ou malcozida, especialmente de porco e carneiro, e a partir do taquizoíto presente nos fluídos corporais, como o leite. Além disso, pode ocorrer a transmissão pela via vertical, por transmissão transplacentária dos taquizoítas da mãe para o feto em desenvolvimento. VOCÊ SABIA O homem pode se infectar por causa do contato direto com as fezes dos gatos, limpando as caixinhas de areia, por exemplo. Gatos domésticos podem excretar milhões de oocistos imaturos após ingerirem apenas um bradizoíta ou um cisto tecidual. Mas fique calmo, menos 1% da população de gatos pode ser encontrada liberando oocistos. O ciclo pode ser dividido didaticamente em duas partes, conforme ilustra a figura a seguir: Imagem: LadyofHats / Wikimedia Commons / Livre de Direitos Autorais. Ciclo biológico do T. gondii. Vamos entender melhor cada uma dessas partes: O PRIMEIRO CICLO (ESQUERDA) Inicia quando os hospedeiros intermediários ingerem os oocistos esporulados, os cistos contendo os bradizoítos ou diretamente os taquizoítos. No estômago, o oocisto sofre ação do pH ácido e das enzimas digestivas, auxiliando a desmontagem da parede do oocisto e do cisto, liberando respectivamente os esporozoítos e os bradizoítos. As duas formas parasitárias invadem os enterócitos, multiplicam-se rapidamente (reprodução assexuada) e transformam-se em taquizoítos (fase aguda ou proliferativa doença). Os taquizoítos, quando ingeridos, invadem diretamente a mucosa intestinal. As células nucleadas, cheias de parasitos, rompem-se, e os taquizoítos, levados pela circulaçãosanguínea e linfática, penetram novas células dos tecidos musculares, nervoso etc. A formação de bradizoítos dentro dos cistos (fase crônica da doença, com a reprodução mais lenta) ocorre quando o hospedeiro intermediário começa a desenvolver uma resposta imunológica inflamatória na tentativa de eliminar os taquizoítos, pois os cistos não provocam reações inflamatórias no hospedeiro e, assim, podem persistir viáveis por longo tempo. Qualquer depressão no sistema imunológico pode liberar os bradizoítos do cisto que vão penetrar em outras células, dando origem a novos grupos de taquizoítas e eventualmente a novos cistos. O SEGUNDO CICLO (DIREITA) Os hospedeiros definitivos (ciclo da direita) são contaminados quando ingerem os cistos presentes no tecido de camundongo ou rato ou ainda quando ingerem oocistos esporulados de ambientes contaminados. No estômago, acontece o desencistamento, assim como ocorre nos hospedeiros intermediários, liberando as formas parasitárias que penetram as células intestinais dentro de um vacúolo citoplasmático, transformam-se em taquizoítos. Esses, por sua vez, podem multiplicar e formar mais taquizoítos ou se diferenciarem em bradizoítos, originando os cistos teciduais (reprodução assexuada), ou podem ainda se diferenciar em gametócitos (microgametócitos ou macrogametócitos – reprodução sexuada). Os gametócitos se unem e formam o zigoto, que posteriormente amadurece e gera o oocisto, o qual é liberado junto com as fezes do animal de forma imatura. No ambiente, com a presença de oxigênio e temperaturas entre 20°C e 30°C, os cistos amadurecem e esporulam, apresentando em seu interior 2 esporocistos com 4 esporozoítos cada. Os oocistos começam a ser eliminados com as fezes dos gatos 5 a 10 dias após a infecção. Agora você pode estar preocupado se seu gato tem T. gondii ou não e se vai o infectar. Fique tranquilo! Os oocistos são liberados por apenas um curto intervalo de tempo (de uma a duas semanas) na vida do felino e, geralmente, essa liberação ocorre em gatos jovens. Raramente, gatos domésticos que comem ração e que não têm acesso à rua estão infectados com T. gondii e seriam capazes de transmitir o parasito. Foto: Shutterstock.com. Oocisto de Toxoplasma gondii . A toxoplasmose causa uma infecção aguda em criança e adultos, mas na maior parte das vezes é assintomática. Quando sintomática, os indivíduos infectados podem apresentar um quadro febril, acompanhado de cansaço, mal-estar, dor de cabeça, garganta, mialgia e adenopatia (-1% dos casos). Algumas pessoas apresentam o quadro grave, principalmente pacientes imunocomprometidos, caracterizados por retinocoroidite (Inflamação da retina e da coroide.) , encefalite (Inflamação e infecção do cérebro desencadeada por algum patógeno.) , miocardite (Inflamação do músculo do coração, chamado de miocárdio.) e hepatite (Inflamação do fígado.) . O quadro assintomático e o sintomático podem evoluir para a forma crônica da doença, na qual o parasita pode permanecer inativo em diversos tecidos do corpo hospedeiro por toda a vida, sem que ocorra nenhuma reativação. SAIBA MAIS A transmissão vertical (congênita) da toxoplasmose é resultante da infecção primária materna durante a gravidez. Por isso, é incluído no pré-natal de toda mulher um exame sorológico para saber se a grávida já teve contato com Toxoplasma gondii . Quando ocorre a infecção, suas consequências podem variar de acordo com a idade gestacional no momento da infecção, podendo ir desde o aborto a lesões neurológicas ou oculares no nascimento. A toxoplasmose congênita e gestacional é uma doença de notificação compulsória ao Ministério da Saúde. Além disso, casos de suspeitas de surtos também devem ser notificados. Cerca de 30 a 50% da população mundial é cronicamente infectada por T. gondii fazendo assim da toxoplasmose uma das zoonoses mais prevalentes no mundo. No Brasil, a soroprevalência varia com a região. Na cidade de Belém, ela é alta e chega a 70%. A alta prevalência está diretamente relacionada aos hábitos alimentares e comportamentais da população. Além disso, nos últimos anos, surtos de toxoplasmose aguda têm sido relatados no Brasil. Esses casos são associados à transmissão pela contaminação do sistema hídrico e de alimentos, muitas vezes em restaurantes. (BRASIL, 2007; FLEGR et al ., 2014; CARMO, et al ., 2016; MORAIS, et al ., 2016.) Vejamos as formas mais eficientes de prevenção: Foto: Shutterstock.com. Uma das formas mais eficientes de prevenção é alimentar os gatos com ração ou outros produtos comerciais de qualidade. A carne oferecida ao animal deve sempre estar bem cozida. Foto: Shutterstock.com. As fezes dos animais devem ser coletadas diariamente e seu ambiente higienizado. É importante sempre ter cuidado ao manusear as fezes (usar luvas, pás e lavar as mãos após a manipulação) e dar-lhes o destino adequado. Foto: Shutterstock.com. Outra forma de prevenção é evitar carne malcozida ou crua. É muito importante não se esquecer de lavar as mãos com água e sabão depois de manusear carnes cruas. As gestantes devem evitar o contato com as fezes dos animais e evitar ingerir carne malcozida ou crua. DOENÇA NEGLIGENCIADA São doenças endêmicas em regiões de baixa renda que são causadas por agentes infecciosos e não apresentam investimento no atendimento das pessoas e em pesquisa para produção de medicamentos, controle da doença e sua prevenção. ORDEM HEMOSPORIDIIDA – GÊNERO PLASMODIUM Doenças causada pelas espécies do gênero Plasmodium apareciam em descrições encontradas em textos antigos da China, Índia, Oriente Médio, África e Europa, indicando que os humanos têm lutado contra infecções por esse parasita ao longo de grande parte de nossa história. Mais conhecida como malária, a infecção por Plasmodium spp. é um dos problemas de saúde pública mais sérios no mundo e, mesmo gerando grande números de mortes na África e de casos em diversos países devido à globalização, ainda é classificada como uma doença negligenciada. javascript:void(0) Depois de muitos anos, a malária ainda é umas das doenças parasitárias mais importantes, apesar do estabelecimento de medidas de controle e do surgimento de medicamentos para o tratamento, que reduziram sua extensão geográfica ou sua incidência em muitas áreas. Foto: Shutterstock.com. Dentro do gênero Plasmodium , são encontradas mais de 100 espécies e, dessas, pelo menos 5 são de importância médica, são elas: Plasmodium falciparum, Plasmodium vivax, Plasmodium malariae, Plasmodium ovale e Plasmodium knowllesi . A transmissão ocorre por meio da picada da fêmea infectada do mosquito Anopheles sp. No Brasil, o principal vetor é Anopheles darlingi e a doença é endêmica principalmente na região Amazônica (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins). No entanto, não pode ser afastada a possibilidade de ocorrência em outras áreas do país. COMENTÁRIO Outras formas de transmissão são a transfusão sanguínea, o uso de seringas e agulhas contaminadas e até mesmo a transmissão vertical, levando à malária congênita. REPASTO SANGUÍNEO Nome dado ao ato de se alimentar de sangue de outros animais, comum em insetos hematófogos. Vamos entender como acontece o ciclo desse parasita: 1 2 3 4 5 6 1 O ciclo do parasita se inicia quando as fêmeas do gênero Anopheles fazem o repasto sanguíneo e inoculam esporozoítos que estavam presentes na glândula salivar na corrente sanguínea do hospedeiro. 2 Esses esporozoítos migram até o hepatócito, e lá há formação do vacúolo parasitóforo, onde ocorre a transformação em esquizonte teciduais e depois em merozoítos. 3 javascript:void(0) Há o rompimento dos hepatócitos e libração dos merozoítos que atingem a corrente sanguínea e interagem com proteínas presentes na superfície dos eritrócitos e consegue assim invadir ativamente as hemácias. 4 Dentro das hemácias, ocorre o ciclo assexuado, em que os merozoítos geram novos trofozoítosque por sua vez dão origem a esquizontes e, posteriormente, a novos merozoítos, que são liberados após a ruptura das hemácias. Alguns trofozoítos darão origem aos gametócitos. 5 Quando um homem infectado é novamente picado pela fêmea do gênero Anopheles , esses gametócitos presentes na circulação sanguínea são ingeridos e chegam ao intestino do inseto. 6 No intestino, ocorre a diferenciação em microgametócito e macrogametócito e, após a fecundação, formam um zigoto diploide. O zigoto, por sua vez, se diferencia em oocineto, uma forma móvel do parasito que, ao migrar na parede do intestino do mosquito, leva à sua diferenciação em oocisto. O oocisto leva em torno de 15 dias para se tornar maduro. Quando esse momento chega, o oocisto libera esporozoítos na hemolinfa que seguem até a glândula salivar, onde eles permanecem e tornam esse mosquito apto a infectar ao realizar o repasto sanguíneo. Imagem: Shutterstock.com. Ciclo biológico do Plasmodium spp. Os ciclos em que ocorrem a replicação nas hemácias e que levam à sua ruptura, de acordo com a espécie do Plasmodium , são relacionados com o ritmo de crises febris que a pessoa apresenta. Por exemplo, o P. falciparum produz a febre terçã maligna com quadros clínicos em que os episódios de febre se repetem com intervalo de 36 a 48 horas. O P. malarie , responsável pela febre quartã, manifesta os ciclos a cada 72 horas. O P. vivax , que provoca a terçã benigna, apresenta ataques febris de 48 horas. Plasmodium ovale , com distribuição limitada ao continente africano e responsável por outra forma de febre terçã benigna, tem ciclo de 48 horas. Foto: Shutterstock.com. Esquizonte de Plasmodium vivax no sangue. Imagem: Shutterstock.com. Representação 3D do P. falciparum . Outros sintomas comuns na infecção por Plasmodium spp. são cefaleia, calafrios, mialgia, vômitos e náuseas. Após a fase sintomática inicial, podem aparecer outros sintomas mais graves como anemia severa, disfunção hepática, esplenomegalia, edema pulmonar agudo, hipoglicemia, disfunção cardíaca e insuficiência renal aguda chegando até a casos de malária cerebral. No Brasil, cerca de 90% dos casos ocorrem na região amazônica. No entanto, devido ao crescimento do número de casos diagnosticados em outros estados, foi criado o Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária (PNCM) para facilitar o sistema de vigilância sobre a área extra-amazônica, como Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Ceará, Piauí e Espírito Santo, Pernambuco, entre outros. É importante ressaltar que a malária é uma doença de notificação compulsória, sendo na área não endêmica de investigação obrigatória (BRASIL, 2020a). O gráfico a seguir mostra um panorama geral do número de casos notificados de malária ao ministério da saúde. Imagem: Boletim epidemiológico, Brasil, 2020a, p. 12. Casos de malária notificados no Brasil entre 1959 a 2019. A partir do gráfico, vemos que o P. vivax é a espécie predominante no Brasil, mas existem casos causados pela espécie P. falciparum. Além disso, notamos uma queda do número de casos a partir de 2009, que pode ser atribuído aos seguintes motivos: 1) Os programas de prevenção e controle da malária estão sendo seguidos e mostrando assim seu efeito no número de casos notificados. 2) Muitas regiões estão notificando devidamente o número de casos. Em 2018, foram notificados 187.736, em 2019 foram notificados 153.270 casos, e em 2020 (de janeiro a junho) tivemos 59.651 casos notificados. Apesar dessa queda gradual, é necessário que o número de casos seja reduzido ainda mais não só no Brasil, mas também nos outros países que sofrem com a negligência dessa doença. A malária é uma doença séria, que pode ser fatal e de difícil tratamento! No entanto, mesmo com tantos estudos mostrando a importância e as problemáticas do ciclo da malária, até hoje enfrentamos grandes dificuldades no controle dessa doença. Mas por que isso acontece? A malária é endêmica em regiões que sofrem com a falta de informação em relação ao parasito e à doença e com problemas de infraestrutura e socioeconômicos. Além disso, o complexo ciclo biológico do parasita implica no diagnóstico rápido e preciso, que demora o início do tratamento específico, e os parasitas apresentam resistência às drogas disponíveis para o tratamento. Qual a melhor forma de prevenir uma infecção por Plasmodium spp.? Segundo a Organização Mundial da Saúde, o melhor modo de prevenção é o controle vetorial. O uso de repelentes, de telas em portas e janelas e o uso de mosquiteiros impregnados com inseticidas de longa duração são boas formas de se prevenir. Com a malária, fechamos os parasitos que apresentam flagelos para locomoção. Foto: Shutterstock.com. O próximo filo que será abordado é composto de protozoários que apresentam cílios em suas formas evolutivas. FILO CILIOPHORA – ORDEM TRICHOSTOMATIDA O filo Ciliophora tem em sua maioria espécies de vida livre, porém podem ser parasitas ou simbiontes de diferentes tipos de hospedeiros. Os protozoários pertencentes a esse filo apresentam dois tipos de núcleo (micronúcleo e macronúcleo), são organismos com cílios simples ou compostos, presentes em pelo menos uma fase evolutiva. A reprodução se dá por divisão binária, divisão múltipla ou por brotamento, mas pode haver reprodução sexuada envolvendo conjugação. Somente a ordem Trichostomatida apresenta um protozoário, o Balantidium coli , que é capaz de infectar o homem e primatas não humanos. Esse parasita apresenta duas formas de vida: Trofozoítos e Cisto. Os trofozoítos apresentam forma ovoide, sendo a extremidade anterior a mais fina. Na extremidade anterior, encontramos o citóstoma, que é por onde o parasito se alimenta. Ele apresenta cílios em toda a sua superfície cujo batimento coordenado faz com que o protozoário se movimente e se alimente. Além disso, apresenta dois vacúolos pulsáteis, um na região anterior e outro na região posterior com função osmorreguladora, ou seja, regula a quantidade de água e de substâncias tóxicas dentro dos protozoários, fazendo a excreção quando necessário. E por último e não menos importante, temos o macronúcleo e o micronúcleo, responsáveis pela reprodução. Os cistos apresentam duas paredes (interior e exterior) que conferem resistência ao ambiente, micro e macronúcleo e vacúolo pulsátil. Imagem: Shutterstock.com. Balantidium coli: Cisto x trofozoíto. Qual é a via de transmissão desse parasito? A balantidíase é uma doença zoonótica causada por Balantidium coli , que causa infecção no intestino grosso dos hospedeiros habituais, os porcos. No entanto, os humanos podem ser contaminados, pela via fecal-oral, a partir da água ou alimentos contaminados com cistos provenientes das fezes de humanos ou dos animais contaminados. Após a ingestão dos cistos, ocorre o processo de desencistamento ao passar pelo estômago e chegar ao intestino, tornando-se trofozoíto. No intestino grosso, os trofozoítos se reproduzem por fissão binária, gerando mais trofozoítos; e podem ainda realizar reprodução sexuada por conjugação originando os cistos. Os cistos são liberados nas fezes e assim o ciclo se mantém. Imagem: Alexander J. da Silva, PhD; Melanie Moser / CDC / Domínio público Ciclo biológico do Balantidium coli. Grande parte das pessoas quando infectadas são assintomáticas. Entretanto, quando sintomáticas, apresentam diarreia persistente, disenteria, dor abdominal, náuseas e vômito. Casos mais graves geralmente estão ligados a pessoas com algum comprometimento imunológico. Imagem: Shutterstock.com. Balantidium coli infeta o intestino grosso do homem. B.coli tem uma distribuição mundial (cosmopolita), com maior número de casos nos trópicos, porém não há muita informação sobre sua epidemiologia. SAIBA MAIS Em regiões de criação de porcos, mesmo sendo detectada a infecção de B. coli nos animais, é raro observar a infecção emseus tratadores. Acredita-se que isso se deve aos cuidados de higiene. A taxa de parasitismo foi sempre muito baixa, menos de 1%. Mesmo a balantidíase não sendo uma doença muito comum, é importante saber as medidas de prevenção. Por ser transmitida pela via fecal-oral, devemos manter as boas práticas de higiene, lavando sempre as mãos com água e sabão após ir ao banheiro, trocar fraldas, chegar da rua e antes de manusear alimentos. Sempre lave todas as frutas e vegetais antes de prepará-los e/ou de comer. É também importante ensinar e tornar sempre um hábito as práticas de higiene para as crianças. Com esses cuidados você não vai prevenir somente a balantidíase, mas muitas e muitas outras doenças que apresentam a mesma via de transmissão. Foto: Shutterstock.com. Higiene pessoal é a melhor forma de prevenir inúmeras doenças. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. (ADAPTADO DE FIOCRUZ - CONCURSO PÚBLICO 2010) NAS ALTERNATIVAS ABAIXO, VOCÊ IRÁ ENCONTRAR MEDIDAS DE HIGIENE NORMALMENTE UTILIZADAS NA PREVENÇÃO DA DISSEMINAÇÃO DE DOENÇAS, ASSINALE A MEDIDA INEFICAZ PARA O CONTROLE DA AMEBÍASE. A) Lavar as mãos com água e sabão. B) Lavar alimentos que serão consumidos crus. C) Educação sobre higiene pessoal e da comunidade. D) Cloração da água potável. E) Saneamento básico adequado. 2. (ADAPTADO DE FURMAC-2015) EM INQUÉRITOS SOROLÓGICOS REALIZADOS NO PAÍS COM DIFERENTES ESPÉCIES ANIMAIS, OBSERVAMOS QUE 19% DE GATOS TINHAM ANTICORPOS PARA TOXOPLASMA GONDII , PRINCIPALMENTE OS JOVENS. EM BOVINOS, A PREVALÊNCIA VARIOU ENTRE 32%, EM CAPRINOS 56%, EM EQUINOS 20% E EM SUÍNOS 23%. NA POPULAÇÃO HUMANA, OS ÍNDICES VARIARAM EM ADULTOS ENTRE 50 A 70%. ESSES DADOS SÃO IMPORTANTES PARA O CONTROLE DA DOENÇA. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE CORRESPONDE À PRINCIPAL FORMA DE TRANSMISSÃO DESSA DOENÇA: A) Ingestão de carne suína e bovina contendo os oocistos. B) Picada de insetos do gênero Anopheles contendo bradizoítos. C) Inalação de taquizoítos presentes nas secreções e excreções de animais. D) Ingestão de oocistos eliminados nas fezes dos gatos. E) Picada de insetos do gênero Anopheles contendo trofozoítos GABARITO 1. (Adaptado de FIOCRUZ - Concurso Público 2010) Nas alternativas abaixo, você irá encontrar medidas de higiene normalmente utilizadas na prevenção da disseminação de doenças, assinale a medida ineficaz para o controle da amebíase. A alternativa "D " está correta. A principal forma de transmissão é a fecal-oral por ingestão de água e alimentos contaminados, portanto devemos sempre lavar as mãos e os alimentos que serão consumidos. Porém, os cistos da Entamoeba histolytica são resistentes à cloração, sendo o ideal que a água seja fervida e filtrada. 2. (Adaptado de Furmac-2015) Em inquéritos sorológicos realizados no país com diferentes espécies animais, observamos que 19% de gatos tinham anticorpos para Toxoplasma gondii , principalmente os jovens. Em bovinos, a prevalência variou entre 32%, em caprinos 56%, em equinos 20% e em suínos 23%. Na população humana, os índices variaram em adultos entre 50 a 70%. Esses dados são importantes para o controle da doença. Assinale a alternativa que corresponde à principal forma de transmissão dessa doença: A alternativa "D " está correta. A principal forma de transmissão da toxoplasmose é pela ingestão de água e alimentos contaminados com oocistos eliminados nas fezes dos gatos. Existem outras formas de infecção como a ingestão de cistos com bradizoítos presentes em carne ou malcozida, ou até mesmo a infecção fetal em razão da passagem de taquizoítas pela barreira placentária e a partir de fluidos corporais, como o leite. MÓDULO 2 Descrever as formas de transmissão e prevenção dos flagelados parasitas do sangue e tecidos INTRODUÇÃO AOS FLAGELADOS E PARASITOS DO SANGUE E TECIDOS Como mencionado anteriormente, o filo Sarcomastigophora, apresenta dois subfilos, o Sarcodina e o Mastigophora, o qual estudaremos ao longo deste módulo. Esse subfilo reúne os protozoários que chamamos de flagelados que se locomoverem por propulsão flagelar. Eles podem apresentar morfologia simples com o formato mais ovalado ou alongado, com um ou mais flagelos. Dentro do subfilo Mastigophora e da classe Zoomastigophora, existem três ordens, Kinetoplastida, Diplomonadida e Trichomonadida, com importantes parasitas capazes de infectar o homem. Vamos conhecê-los? FILO SARCOMASTIGOPHORA – ORDEM KINETOPLASTIDA Dentro dessa ordem, temos a família Trypanosomatidae que compreende dois gêneros: Trypanosoma e Leishmania . COMENTÁRIO Esses dois gêneros compreendem parasitos capazes de causar doenças em humanos e em animais, causando a doença de Chagas (Trypanosoma cruzi ), a doença do sono (T. brucei gambiense ou Trypanosoma brucei rhodesiense ), Leishmania tegumentar (Leishmania braziliensis, L. mexicana, L. peruviana, L. tropica ) e o calazar (L. donovani e L. infantum ). A principal característica morfológica encontrada nesse grupo é a presença do cinetoplasto. Essa organela típica encontrada na parte posterior do parasito contém DNA mitocondrial condensado e se localiza sempre próximo ao flagelo nos tripanosomatídeos. O corpo é geralmente alongado e pode apresentar dois flagelos que saem do fundo do bolso flagelar. Dependendo do parasito, o flagelo se adere a todo o corpo na membrana ondulante ficando livre na região anterior. Imagem: Bases da Parasitologia Médica, Luis Rey, 2010, p. 38. Representação esquemática de um tripanossoma. Nessa ordem, cada gênero pode apresentar morfologia diferente que varia não só pelo gênero em questão ou a espécie, mas também pelo ciclo biológico. Essas mudanças vão do tipo de hospedeiro que o parasito se encontra ao tecido que esteja parasitando. O gênero Trypanosoma pode apresentar as seguintes formas no ciclo biológico: Imagem: Bases da Parasitologia Médica, Luis Rey, 2010, p. 38. Principais formas evolutivas encontradas em Trypanosoma . AMASTIGOTA PROMASTIGOTA EPIMASTIGOTA TRIPOMASTIGOTA AMASTIGOTA Forma ovoide, de corpo achatado, com pouco citoplasma e núcleo grande. Apresenta cinetoplasmo. O flagelo é pequeno, e por isso apresenta pouca mobilidade. PROMASTIGOTA Forma alongada, com a inserção do flagelo na região anterior, sendo ele livre. O cinetoplasto também se encontra na região anterior, próximo ao bolso flagelar. Núcleo centralizado. EPIMASTIGOTA Forma alongada (fusiforme), com inserção do flagelo longe da extremidade já que a bolso flagelar abre-se lateralmente mais próximo ao centro do parasito. O flagelo está preso à membrana ondulante até chegar à extremidade anterior, onde se torna livre. TRIPOMASTIGOTA Forma longa e achatada, semelhante ao epimastigota, porém com o cinetoplasto e bolso flagelar presentes na região posterior. O flagelo sai dessa região posterior e segue preso pela membrana ondulatória por todo o corpo do parasito até se tornar livre na região anterior. Existem a forma metacíclica, que é infectante e não replicativa, e a forma procíclica, que também é não infectante, mas replica. GÊNERO TRYPANOSOMA As espécies presentes no gênero Trypanosoma apresentam ciclos heteróxenos em que infectam hospedeiros vertebrados e invertebrados hematófagos (Aqueles que se alimentam de sangue) . Uma das formas de classificar as diferentes espécies é levando em consideração um conjunto de informações como: hospedeiros (vertebrados ou invertebrado), origem, morfologia, ciclo de vida, patogenia entre outras características. Se considerarmos, por exemplo, seu desenvolvimento no hospedeiro invertebrado (seu vetor) podemos dividir em dois grupos: Stercoraria e Salivaria. Vamos conhecê-los mais detalhadamente. GRUPO STERCORARIA Nesse grupo, o desenvolvimento do parasita no vetor ocorre no intestino e as formas infectantes são eliminadas pelas fezes no momento do repasto sanguíneo. São constituintes desse grupo as espécies Trypanosoma cruzi , Trypanosoma lewis e Trypanosoma theileri . Dentre elas, destaca-seo T. cruzi , protozoário que causa a doença de Chagas. Esse parasito foi descrito por Carlos Chagas em Minas Gerais, em 1909. Sua transmissão ocorre pelos hemípteros dos gêneros Panstrongylus , Rhodnius e Triatoma . VOCÊ SABIA No Brasil, Triatoma infestans é o principal vetor da doença de chagas. Ele é conhecido popularmente por Barbeiro, que apresenta hábitos noturnos. Muitas vezes, as pessoas ao dormir se cobrem, deixando somente o rosto de fora, sendo esse o principal local onde o inseto pica, por isso o nome barbeiro. PAU A PIQUE A casa de pau a pique consiste em casa construídas com madeiras verticais fixadas no solo, com vigas horizontais, geralmente de bambu, amarradas entre si por cipós, e a parede feita de barro. Foto: Shutterstock.com. O barbeiro costuma ser encontrado em frestas e pequenos buracos dentro das residências, principalmente em construções conhecidas como pau a pique. Com a melhoria das construções e o uso de inseticidas específicos, hoje, a região peridomicílio se tornou a região de maior risco para o contato com o barbeiro. Outras formas de transmissão são a transfusão javascript:void(0) sanguínea, o transplante de órgãos, a ingestão acidental de alimentos contaminados com triatomíneos infectados ou suas excretas (transmissão contaminativa). Foto: Shutterstock.com. Triatoma Infestans. A figura a seguir ilustra o ciclo biológico do T. cruzi , vamos conhecer? Imagem: Débora Familiar Rodrigues Macedo. Ciclo biológico do Trypanosoma cruzi . Ao picar uma pessoa infectada, o barbeiro ingere, juntamente com o sangue, a forma tripomastigota. Essa por sua vez, migra até o intestino onde se transformará em epimastigotas. Ainda no intestino, os epimastigotas sofrem divisão binária, aumentando assim a quantidade de parasitos no vetor. A caminho da porção final do intestino, há uma nova transformação, gerando tripomastigotas metacíclicas que serão eliminadas nas fezes do barbeiro quando ele for novamente se alimentar. Ao realizar um novo repasto sanguíneo, o vetor defeca, e junto às fezes é liberada a forma infectante (tripomastigotas metacíclicas) na pele lesionada pela coceira, ocasionada pela picada ou pela mucosa. Essas formas conseguem atingir a corrente sanguínea e penetrar ativamente nas células do Sistema Fagocítico Mononuclear. Ao infectar essas células, é formado o vacúolo parasitóforo, onde ocorre a multiplicação do parasita até o rompimento do vacúolo e a liberação de inúmeros tripomastigotas metacíclicos no citoplasma celular. No citoplasma, elas se transformam em amastigotas, que também realizam replicação assexuada e se diferenciam em tripomastigotas. Como o ciclo replicativo leva ao excesso de parasito dentro das células do sistema fagocítico mononuclear, como os macrófagos, essas células então se rompem e liberam todas as formas parasitárias presentes dentro dela na corrente sanguínea, o que possibilita a contaminação de novas células. A parasitemia frequente começa a ser mais intensa em torno do dia 10 a 15 após a contaminação e corresponde à fase aguda da doença. O ciclo se completa quando o barbeiro realizar um novo repasto sanguíneo em uma pessoa infectada. COMENTÁRIO Na maior parte das vezes, a infecção por T. cruzi é assintomática, mas quando sintomático, os sinais clínicos começam de 6 a 10 dias após a infecção, apresentando quadro febril passageiro e inespecífico, linfadenopatia e esplenomegalia branda. Essa fase pode se resolver entre 4 e 8 semanas. Porém, alguns pacientes podem evoluir para formas crônicas ou graves, apresentando quadros de meningites graves e insuficiência cardíaca que podem levar ao óbito. O coração é o órgão normalmente mais afetado. Quando caem na corrente sanguínea, os parasitos podem formar "ninhos de amastigotas" no coração, desencadeando uma resposta inflamatória local, que pode levar à disfunção cardíaca, ao aumento dos cardiomiócitos (aumento do volume ou tamanho celular), causando a formação do coração chagásico, também chamado de “coração grande”. Imagem: Patrick J. Lynch, medical illustrator / Wikimedia Commons / CC BY 2.5 Corte transversal de um coração chagásico, evidenciando a hipertrofia do ventrículo esquerdo. A doença de Chagas está presente em 21 países da América Latina, tendo relatos de casos na Europa e na América do Norte. No Brasil, entre os anos de 2001-2018, ocorreram 5.184 casos com distribuição heterogênea pelo país. A maior parte dos casos notificados ocorreram em menores de 18 anos e em idosos na região Norte do país (SANTOS, 2020; BRASIL, 2020b). É importante destacar que a doença de chagas aguda é uma doença de notificação compulsória. Além disso, a partir da Portaria n° 264, de 17 de fevereiro de 2020, a doença de chagas crônica foi incluída na lista Nacional de Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos de saúde pública nos serviços de saúde públicos e privados em todo o território nacional. Muitas vezes, imaginamos que a maior parte das infecções ocorre por meio da transmissão vetorial. No entanto, a partir de 2005, foi verificado um aumento significativo da transmissão via oral, sendo o Pará responsável por 81% dos casos, ligado à safra de açaí e bacaba (A bacaba, bacaba-açu ou bacaba-verdadeira é uma palmeira nativa da Amazônia.) que estavam contaminadas com as fezes do inseto (BRASIL, 2015). Nos últimos anos, foi verificada uma redução no número dos casos da doença de Chagas no Brasil. No entanto, devemos manter e reforçar todas as medidas de prevenção para evitarmos que ocorra um novo aumento do número de casos. Mas quais medidas seriam necessárias para combater a doença de Chagas? Pensando na transmissão vetorial, deve-se evitar com o uso de inseticidas específicos e que o triatomíneo faça ninhos dentro da residência. ATENÇÃO Caso veja algum triatomíneo, não o mate esmagando, lembre-se de que as fezes deles contém o parasito na sua forma infectante. O ideal é que consiga capturar o inseto com um pote com tampa de rosca ou um saco plástico. Em casas próximas a regiões de risco, devem-se colocar telas nas portas e janelas, evitando a sua entrada voando. O uso de repelentes e roupas compridas é sempre indicado em locais endêmicos para a doença, principalmente à noite. Além disso, devem ser criados programas para melhorias de moradias rurais para que não existam mais construções em que o inseto possa colonizar. E em relação à transmissão oral e transfusão sanguínea? Devem ser intensificadas medidas sanitárias e de inspeção em todas as etapas da produção de alimentos susceptíveis a contaminação. O resfriamento ou congelamento de alimentos não previne a transmissão oral por T. cruzi , mas, sim, o cozimento acima de 45°C, a pasteurização e a liofilização. Portanto, sempre que possível, ferva o alimento. Para transfusão de sangue, durante a triagem clínica, os médicos pesquisam se o doador esteve em áreas endêmicas e todas as bolsas devem ser testadas antes de serem transfundidas em qualquer paciente. GRUPO SALIVARIA De forma diferente, no grupo Salivaria, o parasita se multiplica na probóscide da mosca e fica armazenado na glândula salivar, sendo inoculado quando o vetor pica o hospedeiro vertebrado. Fazem parte desse grupo as espécies: Trypanosoma brucei, Trypanosoma vivax, Trypanosoma congolese e Trypanosoma suis . Essas espécies são amplamente distribuídas na África. Dentre elas, destaca-se o Trypanosoma brucei , responsável pela doença do sono. Essa doença conhecida é popularmente como Tripanossomíase Africana Humana (TAH). A TAH pode ser crônica, causada pelo Trypanosoma brucei gambiense , ou aguda, causada pelo T. brucei rhodesiiense . Existe outra subespécie, T. brucei , que infecta apenas os animais domésticos e de reprodução, como equídeos, ovinos, bovinos, causando uma doença chamada Nagana. Essa infecção causa impacto econômico negativo na produção de leite e carne. A transmissão da TAH e Nagana é vetorial a partir da mosca Tsé-tsé, da famíliaMuscidea, do gênero Glossina spp. Os humanos são considerados os principais reservatórios do Trypanosoma brucei gambiense, mas essa espécie também pode ser encontrada em animais. Já para T. brucei rhodesiense , ao que tudo indica, o gado parece ser o reservatório animal de maior importância. Foto: Judy Gallagher / Wikimedia Commons / CC BY 2.0 Mosca Tsé-tsé. O ciclo biológico de T. brucei difere em alguns pontos do ciclo de T. cruzi. Na figura a seguir, temos um resumo do ciclo biológico. Imagem: Débora Familiar Rodrigues Macedo. Ciclo Biológico do Trypanosoma brucei gambiense e T. brucei rhodesiense. A mosca tsé-tsé, ao se alimentar em um indivíduo que esteja infectado, ingere juntamente com o sangue os parasitos na forma de tripomastigotas. Após a ingestão, no intestino, ela se transforma em tripomastigota procíclica e sofre divisão binária aumentando a quantidade de parasitos no inseto. As tripomastigotas procíclicas migram até a glândula salivar onde se transformam em epimastigotas e, em seguida, sofrem nova divisão binária. Posteriormente, transformam-se em tripomastigotas metacíclicas, a forma infectante. Ao realizar um novo repasto sanguíneo em um hospedeiro mamífero, como o homem, a mosca libera junto com a saliva as tripomastigotas metacíclicos. No sangue, elas se transformam em tripomastigotas que se multiplicam, aumentando a carga parasitária, e alcançam outros fluidos corporais (como a linfa e o fluido espinhal). Nesses locais, essa forma continua a sua replicação por divisões binária (fase hemolinfática). Todo o ciclo de vida dos tripanossomas africanos é representado por estágios extracelulares, diferentemente do que ocorre com o T.cruzi . A mosca tsé-tsé é infectada com tripomastigotas da corrente sanguínea ao fazer um novo repasto sanguíneo em um hospedeiro mamífero infectado. A sintomatologia da doença do sono pode ser dividida em dois estágios. O primeiro envolve sinais e sintomas inespecíficos relacionados com fase hemolinfática em que há o aparecimento de febre intermitente, prurido e linfadenopatia. O sinal de Winterbottom (Inchaço dos linfonodos cervicais posteriores.) costuma ser observado em T. b. gambiense e a linfadenopatia de linfonodos submandibulares, axilares e inguinais em T. b. rhodesiense . O segundo estágio ocorre após a invasão do sistema nervoso central que leva a manifestações neuropsiquiátricas, como distúrbio do sono. O envolvimento cardíaco grave também ocorre. As duas espécies de T. brucei (T. brucei gambiense e T. brucei rhodesiense ) são endêmicas na África, sendo a T. b. gambiense mais presente na África Ocidental e Central enquanto o T. b. rhodesiense está mais presente na África Oriental e Sudeste. Estima-se que 60 milhões de pessoas estão sob risco para a doença do sono, ocorrendo trinta mil novos casos a cada ano. DICA Assim como para Trypanosoma cruzi , algumas formas de prevenção estão relacionadas com os hábitos do vetor. Então, durante os períodos mais quentes do dia, quando a mosca é menos ativa, devemos evitar ficar próximo a arbustos, onde esse inseto pousa. Deve-se usar sempre calças e camisas de manga comprida nas regiões endêmicas do vetor, e o ideal é que sejam roupas que tenham tecido mais grosso para impedir que a mosca seja capaz de picar. Ainda, é sempre bom usar roupas de cores neutras e claras, pois esse inseto é atraído por cores brilhantes e muito escuras. O uso de repelente não tem se mostrado eficaz contra o vetor, mas é uma forma de prevenção para outras doenças. GÊNERO LEISHMANIA A leishmaniose é uma infecção crônica, não contagiosa, causada por diversas espécies de protozoários do gênero Leishmania e transmitida de animais para o homem por fêmeas de flebotomíneos infectadas. Esse gênero compreende os protozoários parasitas da ordem Kinetoplastida e a família Trypanosomatidae, capazes de infectar animais selvagens e domésticos, humanos e insetos. O ciclo da leishmaniose apresenta um hospedeiro vertebrado e um invertebrado. Você lembra o nome desse tipo de ciclo? Isso mesmo, é o ciclo heteroxêno. O hospedeiro invertebrado é um flebotomíneo do gênero Lutzomyia (Novo mundo (Termo utilizado para descrever as Américas, que foram descobertas no final do século XV. ) ) e Phlebotomus (Velho mundo (Termo utilizado para a definição de mundo conhecida pelos europeus do século XV. Compreende a Europa, África e Ásia.) ). Entre os nomes populares estão mosquito-palha e birigui. Foto: Luis Fernández García / Wikimedia Commons / CC BY-AS 3.0 Lutzomyia longipalpis . A Leishmania apresenta duas formas principais: Foto: Shutterstock.com. Leishmania spp. na forma amastigota – Microscopia. javascript:void(0) AMASTIGOTAS Forma intracelular, ovoide, imóvel e sem flagelo. Abanima / Wikimedia Commons / CC-BY-SA-3.0,2.5,2.0,1.0 Forma promastigota. PROMASTIGOTAS Forma alongada, flagelada e com grande mobilidade. Os flebotomíneos, ao fazer o repasto sanguíneo, são infectados pela ingestão de células fagocíticas infectadas, como macrófagos, com a forma amastigota. Ao chegar ao intestino, as formas amastigotas se transformam em promastigotas. Se o parasito em questão for do subgênero Vianna, essa transformação ocorre no intestino posterior; se for do subgênero Leishmania , transforma-se no intestino médio. Depois dessa transformação, as formas promastigotas migram para a probóscide do flebotomíneo. Caso o vetor, pique uma pessoa ou um animal, sendo ele doméstico (considerado hospedeiro acidental) ou não, ele transmitirá a Leishmania spp. No homem, por exemplo, a forma promastigota injetada junto com a saliva do vetor vai ser fagocitada por células fagocíticas, javascript:void(0) como os macrófagos, e dentro dele vai se transformar em amastigotas, que se multiplicam. Caso o homem infectado seja picado novamente por outro flebotomíneo, ele será capaz de dar continuidade ao ciclo, pela ingestão da forma amastigotas. As características intrínsecas do parasita, do hospedeiro e outros fatores afetam o tipo de doença no hospedeiro, que pode ser leishmaniose cutânea ou visceral. Vamos conhecer a seguir o ciclo de vida resumido? Imagem: Débora Familiar Rodrigues Macedo. Ciclo Biológico da Leishmania spp. Durante muito tempo, a taxonomia do gênero Leishmania era baseada em parâmetros extrínsecos como distribuição geográfica, vetores, trofismo, propriedades antigênicas, entre outros fatores. Mas muitas vezes os critérios pareciam inadequados. Com o avanço da tecnologia e o crescimento dos testes moleculares, foi possível cada vez mais fazer a classificação dos integrantes desse gênero da forma mais adequada. Recentemente, subdividiram o gênero Leishmania em dois subgrupos: Paraleishmania O grupo Paraleishmania , ainda pouco estudado, é composto por L. hertigi, L. deanei, L. herreri, L. equatorensis e L. colombiensis . Euleishmania Já o grupo Euleishmania engloba os subgêneros Leishmania, Viannia , Sauroleishmania. Para nosso estudo, são de grande importância o subgênero Leishmania e Viannia . Dentro de cada subgênero, encontramos espécies de importância médica e veterinária. A classificação desse grupo de parasitas sempre foi motivo de confusão. Com o intuito de melhorar a classificação de acordo com as espécies, foram criados o que chamamos de “complexos”, ou "complexos de espécies". COMENTÁRIO Cada complexo é nomeado de acordo com uma das espécies constituintes. A razão por trás disso é que as espécies pertencentes ao mesmo complexo muitas vezes estão intimamente relacionadas, o que não só complica sua identificação, mas também dificulta uma inequívoca definição de espécie. No subgênero Leishmania , temos quatro complexos: Leishmania major, Leishmania tropica, Leishmania donovani , Leishmania mexicana. Já no subgênero Viannia , temos dois complexos: Leishmania braziliensis e Leishmania guyanensis . Outra forma clássica de dividir a leishmaniose é de acordo com o tipo de doença que causa.Sendo então dividida em dois grupos: leishmaniose cutânea ou tegumentar (LC ou LT) e leishmaniose visceral (LV). A leishmaniose tegumentar (LT) é uma das principais manifestações clínicas da infecção humana. Em contraste com a leishmaniose visceral (LV), não é letal, mas frequentemente traumática e associada à estigmatização social. Todas as espécies de Leishmania que são patogênicas para humanos podem causar doenças cutâneas, embora com várias gravidades. Existem outras duas formas leishmaniose mucocutânea e a leishmaniose cutâneo-difusa, mas essas duas últimas formas não estudaremos aqui. A seguir vamos conhecer mais a LT e a LV. LEISHMANIOSE TEGUMENTAR A leishmaniose tegumentar, no Brasil conhecida como leishmaniose tegumentar americana (LTA), por muito tempo foi considerada uma zoonose de animais silvestres que acometia ocasionalmente humanos que tivessem contato com as regiões de matas. Depois de algum tempo, a doença começou a se expandir e ganhar regiões rurais e regiões periurbanas. Ainda hoje, observamos esses dois perfis de transmissão silvestre que ocorrem em áreas de vegetação primária (zoonose silvestre) e rural ou periurbano, que são locais de desmatamento ou em que houve adaptação do vetor ao peridomicílio (zona de mata residuais e/ou antropozoonose). Além disso, observamos um terceiro perfil de transmissão que seria o perfil ocupacional ou de lazer, em que a transmissão está associada à exploração da floresta, ao crescimento da urbanização e à invasão de habitat natural dos vetores e reservatórios da doença. Os roedores e marsupiais silvestres são descritos como reservatórios da doença. Ainda não foi comprovado cientificamente que os animais domésticos, como cães e gatos, sejam um reservatório da doença, sendo considerado por enquanto um hospedeiro acidental. Os parasitas causadores da leishmaniose tegumentar parasitam principalmente a pele. As lesões geralmente se desenvolvem algumas semanas ou meses após a picada do flebotomíneo, sendo elas simples ou múltiplas, regional ou com focos espalhados pelo corpo podendo atingir mucosa nasal ou orofaríngea. A aparência pode ser alterar com o tempo assim como seu tamanho. Muitas vezes as lesões começam como pápulas ou nódulos e podem terminar como úlceras. Foto: Shutterstock.com. Lesões na pele na LT. Para LT, foram descritas mais de 11 espécies, sendo 7 identificadas no Brasil. Dessas, seis espécies são do subgênero Viannia e uma do subgênero Leishmania . As três principais espécies circulantes no Brasil são: Leishmania (Viannia) braziliensis, Leishmania (Viannia) guyanensis e Leishmania (Leishmania) amazonensis . SAIBA MAIS A leishmaniose tegumentar é um problema de saúde pública em 85 países em diferentes continentes como nas Américas, Europa, África e Ásia. Mundialmente há o registro anual de 0,7 a 1,3 milhões de casos. A LT chega a ser considerada pela OMS, como uma das seis mais importantes doenças infecciosas, por causa dos elevados número de casos e pela capacidade de produzir deformidades (BRASIL, 2017). No Brasil, a LT apresenta ampla distribuição com registro de casos em todas as regiões brasileiras, com maior incidência na região Norte e Centro Oeste, mas com casos no Nordeste, Sudeste e Sul do país. Em 1985, foi observada uma tendência ao aumento do número de casos, e, assim, houve a implantação de ações de vigilância e controle da LTA no país colocando essa doença como uma doença de notificação obrigatória. LEISHMANIOSE VISCERAL (LV) A leishmaniose visceral é descrita desde a antiguidade. Foi na Índia que surgiu o nome Kala- azar (Calazar), que significa doença negra devido à aparência escurecida da pele nos acometidos. A doença geralmente se desenvolve dentro de meses (às vezes até anos) após a picada do flebotomíneo. A leishmaniose visceral afeta órgãos, por isso é considerada mais grave que a LT, necessitando de tratamento rápido. Normalmente, 90% das pessoas morrem por causa dessa doença e as crianças menores de 10 anos costumam ser as mais afetadas. Os parasitos desse grupo infectam também células fagocíticas do sistema imune como os macrófagos, mas, ao invés de ficar restrito a pele, esses parasitos apresentam tendência de invadir órgãos como baço, fígado, medula óssea e órgãos linfoides. As espécies que causam leishmaniose visceral pertencem ao complexo Leishmania donovani , que compreende Leishmania donovani , Leishmania infantum e Leishmania chagasi . No Brasil, é causado por Leishmania chagasi . Imagem: Shutterstock.com. Ilustração 3D de macrófagos infectados por Leishmania spp. Apesar de grave, algumas pessoas não apresentam sintomas quando infectadas. As pessoas que desenvolvem sinais e sintomas geralmente apresentam febre, perda de peso, inchaço do fígado e baço, anemia e leucopenia assim como trombocitopenia. SAIBA MAIS Em relação aos cães, quando adoecem, apresentam principalmente apatia, lesões de pele, queda de pelos, inicialmente ao redor dos olhos e nas orelhas e emagrecimento. Estima-se que cerca de 182 milhões de pessoas no mundo estão em risco de serem acometidas pela doença. A LV é endêmica em 47 países, sendo o Brasil o país com mais endemicidade da doença nas Américas. Você nunca ia imaginar que cerca 96% dos casos de leishmaniose visceral americana ocorrem no Brasil, com 90% das notificações vindas do Nordeste (CUNHA et al. , 2020; OPAS/OMS, 2019). A leishmaniose visceral apresenta o mesmo perfil de transmissão da leishmaniose tegumentar. Inicialmente o maior foco de transmissão era em regiões de matas, que foi se expandindo para regiões rurais desmatadas. Após os anos 1980, atingiu as regiões periurbanas de grandes cidades. PREVENÇÃO E CONTROLE DA LEISHMANIOSE Você vai notar que prevenção de doenças transmitidas por vetores é sempre muito parecida, principalmente daqueles que apresentam hábitos semelhantes. A melhor forma de evitar a infecção por Leishmania spp. é o uso de repelente, principalmente onde o vetor costuma ser encontrado, além de evitar exposição ao vetor no seu horário de maior atividade, sendo o entardecer e a noite no caso dos flebotomíneos. O uso de telas em portas e janelas e do uso de mosquiteiros também é recomendado. É preciso evitar possíveis criadouros para os flebotomíneos no quintal, mantendo-o sempre limpo e com as árvores podadas e evitando, assim, o aparecimento de outros animais que possam ser reservatórios do parasito. Se você mora em área com casos de leishmaniose, faça sempre exames periódicos em seu gato ou cachorro, pois muitas vezes os animais levam anos para desenvolver algum sintoma. Foto: Shutterstock.com. FILO SARCOMASTIGOPHORA – ORDEM DIPLOMONADIDA E ORDEM TRICHOMONADIDA São parasitas flagelados encontrados nas vias digestivas e geniturinárias e que causam doenças parasitárias importantes como a Giardíase e a tricomoníase. ORDEM DIPLOMONADIDA – FAMÍLIA HEXAMITIDAE Os parasitos dessa ordem apresentam um complexo flagelar junto ao núcleo chamado de cariomastigonte e dele partem de 1 a 4 flagelos. A família Hexamitidae apresenta membros importantes como Giardia lamblia também chamada de Giardia duodenalis ou Giardia intestinalis , um protozoário flagelado que parasita o intestino do homem e de vários animais. Imagem: Public Domain Images. Trofozoíto de G. Lamblia. TROFOZOÍTOS Além disso, apresentam um achatamento dorsoventral. Na superfície ventral, encontramos o disco adesivo ou disco suctorial que apresenta grande importância na adesão e alimentação do parasito. Essa forma vive no intestino, no duodeno e nas primeiras porções do jejuno, alimentando-se a partir da absorção de gorduras e vitaminas lipossolúveis por pinocitose tanto na parte ventral quanto na parte dorsal. A reprodução dos trofozoítos se dá por divisão binária longitudinal. CISTOS Têm uma membrana externa fina e bem destacada do citoplasma, 4 núcleos pequenos e com cariossomo central e representam as formas de resistência no ambiente, sobrevivendona água por aproximadamente 2 meses ou mais. O desencistamento ocorre na exposição a pH ácido e a temperatura de 37°C. Durante seu ciclo biológico apresenta duas formas evolutivas: Imagem: Shutterstock.com. TROFOZOÍTOS Apresentam de 10-20 μm de comprimento por 5 a 15 μm de largura, têm simetria bilateral e contorno piriforme. Trofozoítos javascript:void(0) Imagem: Shutterstock.com. CISTOS São geralmente ovoides medindo cerca de 12 μm de comprimento. Cistos A pessoa se infecta após a ingestão de água e alimentos contaminados com cistos. Após a ingestão, o cisto passa pelo processo de desencistamento no intestino se tornando trofozoíto. O trofozoíto, por sua vez, multiplica-se por divisão binária gerando novos trofozoítos. Parte deles darão origem a novos cistos. Tanto cistos como trofozoítos são liberados nas fezes, principalmente durante episódios de diarreia. javascript:void(0) Imagem: Shutterstock.com. Ciclo biológico da Giardia lamblia . Alguns indivíduos não desenvolvem sintomas, mas, na maior parte das pessoas, após o período de incubação (1-3 semanas), pode ocorrer um quadro de enterite benigna chamado de Giardíase. Os principais sintomas são: diarreia líquida ou pastosa, mal-estar, cólicas abdominais, fraqueza e perda de peso. A diarreia pode ocorrer em episódios agudos, ou intermitentes ou de forma crônica e persistente e apresentam mau odor, aspecto claro, às vezes com presença de muco ou sangue. Outros sintomas observados com menos frequência são: a diminuição do apetite, náuseas, vômito, flatulência, distensão abdominal, ligeira febre e cefaleia. GIARDÍASE: EPIDEMIOLOGIA E PREVENÇÃO Neste vídeo, veremos os cuidados necessários para não contrair a doença e vamos entender um pouco sobre a sua distribuição no Brasil ORDEM TRICHOMONADIDA – FAMÍLIA TRICHOMONADIDAE Essa ordem tem como integrantes protozoários anaeróbicos. Alguns dos organismos nessa ordem incluem: Trichomonas vaginalis , Dientamoeba fragilis , Histomonas meleagridis (parasito de aves) e Mixotricha paradoxa (simbionte com cupins). Aqui, vamos aprender sobre Trichomonas vaginalis , responsável pela tricomoníase, uma infecção sexualmente transmissível (IST) e pertencente à família Trichomonadidae. COSTA Faixa que percorre o citoplasma nas proximidades do flagelo que sai do mesmo blefaroplasto. HIDROGENOSSOMOS Organela que representaria a mitocôndria, porém sem DNA e citocromos. CORPO PARABASAL Conjunto de fibras, uma mais longa que a outra, juntamente com o aparelho de Golgi, com suas membranas paralelas e suas vesículas. Morfologicamente, o T. vaginalis apresenta de 3 a 6 flagelos que servem tanto para locomoção quanto para a nutrição. Um dos flagelos se dirige para trás, formando uma membrana ondulante quando se move. Outra estrutura característica é a estrutura em forma de bastonete que percorre o corpo do protozoário chamado de axóstilo. Além disso, apresenta um citóstoma que é uma abertura situada na origem do flagelo, um periplasto que é a membrana que recobre o parasito, e um blefaroplasto que está presente no citoplasma, de onde se origina o flagelo. Ainda temos a costa, os hidrogenossomos e o corpo parabasal. Imagem: Bases da Parasitologia Médica, Luis Rey, 2010, p. 86. Ultraestrutura de Trichomonas . PSEUDOCISTOS Forma arredondada, sem motilidade e que apresenta todos os flagelos internalizados. T. vaginalis é um parasito encontrado na mucosa vaginal da mulher, mas que pode ser observado até mesmo em outros lugares do aparelho urinário feminino. No homem, já foi isolado na uretra, próstata e no prepúcio. Para esse parasito, existe basicamente somente uma forma, trofozoítos, embora recentemente venha se discutindo a sua importância e o papel dos pseudocistos no ciclo. SAIBA MAIS javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) Algumas espécies de tricomonadídeos (Trichomitus batrachorum , Trichomitus sanguisuga e Ditrichomonas honigbergii ) possuem cistos verdadeiros. A reprodução de T. vaginalis é exclusivamente por divisão binária longitudinal, não havendo assim reprodução sexuada, bem como não há a formação de cistos para a propagação. Mesmo não havendo formas resistentes ao ambiente, os trofozoítas de T. vaginalis são capazes de sobreviver várias horas em uma gota de secreção vaginal e, na água, resiste 2 horas a 40°C. Imagem: Débora Familiar Rodrigues Macedo. Ciclo biológico do T. vaginalis . A forma de transmissão ocorre por meio do contato sexual ou por contato íntimo com secreções contaminadas. Pode haver transmissão de mulher para mulher, de mulher para homens e de homens para mulher. Além disso, pode ocorrer infecção do bebê durante o parto normal, caso a mãe esteja contaminada. Após o contato com o trofozoíto, a mulher passa por um período de incubação que dura entre 4 a 28 dias. Passado o período de incubação, aparecem os sintomas que normalmente são: um corrimento espumoso e de odor forte, prurido intenso, aumento do pH vaginal e o aparecimento de pontos hemorrágicos no colo uterino que apresentam a aparência chamada de “Cérvix em morango”. Imagem: Shutterstock.com. Quando não tratada, pode haver algumas complicações, como a ruptura prematura das membranas placentárias. Pode ainda facilitar a transmissão do vírus da imunodeficiência humana (HIV) por conta do processo inflamatório que leva ao rompimento da barreira mecânica e ao comprometimento da resposta imune. Além disso, pode favorecer o aparecimento do câncer de próstata ou câncer cervical. Nos homens normalmente, essa doença é assintomática. O diagnóstico nas mulheres é feito a partir da análise de secreções coletadas durante o exame papanicolau e nos homens pela cultura de urina ou cultura após a coleta do swab uretral. Além disso, pode ser feito a partir de testes moleculares. Foto: Shutterstock.com. Tricomonas no esfregaço de Papanicolau. Estima-se que a cada ano, no mundo, mais de 200 milhões de casos novos sejam reportados e, no Brasil, 4 milhões de novos casos. Por não ser uma doença de notificação obrigatória e/ou compulsória, os números de infectados são ainda maiores, sem que se consiga ter um panorama real da epidemiologia da doença. Outro fator que contribui para altos números de casos sem termos um real panorama é a ausência de exames preventivos que poderiam diagnosticar infecções assintomáticas ou casos brandos. A melhor forma de prevenção da tricomoníase é utilizando preservativo em todas as relações sexuais. Desse modo, além dessa IST, você se protegerá de tantas outras doenças sexualmente transmissíveis. Mesmo que as chances sejam pequenas de se infectar a partir de contato com superfícies contaminadas, como os assentos de vasos sanitários, é sempre bom ter cautela em ambientes públicos e nunca compartilhar objetos pessoais como calcinhas e toalhas de banho. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. (ADAPTADO DE FUNRIO - 2016 - IF-BA - TÉCNICO DE LABORATÓRIO – BIOLOGIA) A DOENÇA DE CHAGAS FOI DESCOBERTA POR CARLOS CHAGAS, EM 1909, E É CAUSADA PELA INFECÇÃO DO PROTOZOÁRIO TRYPANOSOMA CRUZI . SOBRE A DOENÇA DE CHAGAS, ANALISE AS CONSIDERAÇÕES ABAIXO: I – AGENTE ETIOLÓGICO É UM PROTOZOÁRIO PORTADOR DE CÍLIOS. II - CICLO DE VIDA DO AGENTE ETIOLÓGICO É HETEROXÊNO. III – HOSPEDEIRO INTERMEDIÁRIO É UM INSETO HEMÍPTERO, TRIATOMA INFESTANS . IV – ESSA DOENÇA PROVOCA ULCERAÇÕES GRAVES NA PELE EM HUMANOS (HOSPEDEIRO DEFINITIVO). V – IMPEDIR A PROLIFERAÇÃO DOS INSETOS É UMA MEDIDA PROFILÁTICA. E CORRETO O QUE SE AFIRMA EM: A) I, II e III B) I, III e IV C) II, III e V D) II, IV e V E) I, IV e V 2. (ADAPTADOS DE FIOCRUZ – CONCURSO PÚBLICO 2010) A ESPÉCIE GIARDIA LAMBLIA PODE SER RESPONSÁVEL POR UM QUADRO DE ENTERITE, GERALMENTE BENIGNO, QUE RECEBE MAIS COMUMENTE O NOME DE GIARDÍASE. SOBRE ESSE PARASITO INTESTINAL, PODE-SE DIZER QUE: A) É um protozoário ciliado, que durante o seu ciclo de vida apresenta duas formas: epimastigota e cisto.B) Quando infectam o ser humano, os trofozoítas vivem somente no sangue, infectando as células do sistema fagocítico mononuclear. C) G. lamblia é encontrada apenas na Europa, não estando difundido nos países subdesenvolvidos. D) A pessoa com giardíase apresenta tosse, dor de cabeça e exantema, diarreia sanguinolenta e dor abdominal. E) A reprodução é assexuada existindo somente a forma trofozoítas e cisto no ciclo biológico. GABARITO 1. (Adaptado de FUNRIO - 2016 - IF-BA - Técnico de Laboratório – Biologia) A doença de Chagas foi descoberta por Carlos Chagas, em 1909, e é causada pela infecção do protozoário Trypanosoma cruzi . Sobre a doença de Chagas, analise as considerações abaixo: I – Agente etiológico é um protozoário portador de cílios. II - Ciclo de vida do agente etiológico é heteroxêno. III – Hospedeiro intermediário é um inseto hemíptero, Triatoma infestans . IV – Essa doença provoca ulcerações graves na pele em humanos (hospedeiro definitivo). V – Impedir a proliferação dos insetos é uma medida profilática. E correto o que se afirma em: A alternativa "C " está correta. A doença de chagas apresenta dois hospedeiros, um vertebrado e um invertebrado, assim o ciclo é heteroxêno. Os vetores dessa doença são insetos hemípteros do gênero Panstrongylus , Rhodnius e Triatoma , sendo a principal espécie encontrada no Brasil o Triatoma infestans . A prevenção ocorre pelo controle dos vetores, os triatomíneos, pela melhoria na moradia, pelo uso de telas nas portas e janelas, de repelentes e de roupas compridas, entre outras medidas. 2. (Adaptados de FIOCRUZ – Concurso Público 2010) A espécie Giardia lamblia pode ser responsável por um quadro de enterite, geralmente benigno, que recebe mais comumente o nome de Giardíase. Sobre esse parasito intestinal, pode-se dizer que: A alternativa "E " está correta. No ciclo de vida da Giardia lamblia estão presentes apenas os trofozoítos e cistos. No hospedeiro definitivo, ocorre apenas a reprodução assexuada por divisão binária longitudinal, não existindo uma fase de reprodução sexuada. . CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo desse tema, visitamos as principais doenças parasitárias causadas por protozoários presentes no Brasil. Vimos as amebas e os apicomplexos sanguíneos, assim como os principais parasitas flagelados de sangue e tecido. Aprendemos sobre a amebíase, a toxoplasmose, malária, balantidíase, doença de chagas, doença do sono, leishmaniose, tricomoníase e giardíase. Vimos que essas doenças apresentam grande impacto na saúde pública, são responsáveis por grande morbimortalidade e de fácil combate, muitas vezes apenas por medidas socioeducativas. Você, como profissional da saúde, irá se tornar propagador de informações verdadeiras baseadas em fatos comprovados cientificamente, contribuindo para prevenção e o tratamento adequado dessas doenças. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de vigilância da leishmaniose tegumentar. 2017. In: Biblioteca virtual em saúde. Consultado em meio eletrônico em: 01 mar. 2021. BRASIL. Secretaria de Vigilância Sanitária. Boletim eletrônico Epidemiológico. Número 08. 2007. In: Biblioteca virtual em saúde. Consultado em meio eletrônico em: 01 mar. 2021. BRASIL. Secretaria de Vigilância Sanitária. Boletim Epidemiológico. Número 21. Volume 46. 2015. Doença de Chagas aguda no Brasil: série histórica de 2000 a 2013. In: Biblioteca virtual em saúde. Consultado em meio eletrônico em: 01 mar. 2021. BRASIL. Secretaria de Vigilância Sanitária. Boletim Epidemiológico. Número especial. Nov. 2020a. In: Biblioteca virtual em saúde. Consultado em meio eletrônico em: 01 mar. 2021. BRASIL. Ministério da Saúde. Doença de Chagas. 2020b. In: Biblioteca virtual em saúde. Consultado em meio eletrônico em: 01 mar. 2021. CARMO, E. L. et al . Soroepidemiologia da infecção pelo Toxoplasma gondii no Município de Novo Repartimento, Estado do Pará, Brasil. Rev Pan-Amaz Saude. v.7, n.4, p.;79-87, 2016. Consultado em meio eletrônico em: 10 mar. 2021. CUNHA, C. R, et al. 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Visite os sites da Organização mundial da saúde e do CDC e encontre informações confiáveis e sempre atualizadas sobre Trypanosoma . Leia o artigo Trypanosoma cruzi transmission in the wild and its most important reservoir hosts in Brazil , de Jansen, Xavier e Roque (2018), encontrado no site Bio Med Central, para ver mais informações sobre Trypanosoma no Brasil. Leia o artigo Current world status of Balantidium coli , de Schuster e Ramirez-Avila (2008), encontrado no site da PubMed, para saber mais informações sobre Balantidium coli . Leia o artigo Amebíase no contexto da emergência: análise do perfil de internações e morbimortalidade nos Estados brasileiros em 5 anos, de Camylla Santos de Souza e colaboradores (2019), encontrado no site da SBCM, para conhecer mais sobre amebíase no Brasil. CONTEUDISTA Débora Familiar Rodrigues Macedo CURRÍCULO LATTES javascript:void(0); < DESCRIÇÃO Estudo dos platelmintos parasitos do homem e causadores de esquistossomose, fasciolíase, teníase, cisticercose humana, hidatidose e himenolepíase. PROPÓSITO Compreender as diferentes classes do filo Platyhelminthes para o conhecimento da epidemiologia, das formas evolutivas dos parasitos, do ciclo de vida, da sintomatologia e do tratamento é importante, pois algumas classes incluem muitas espécies de interesse médico por infectar o homem e/ou os animais domésticos. OBJETIVOS MÓDULO 1 Descrever as características dos helmintos trematódeos dos gêneros Schistosoma e Fasciola e suas respectivas doenças associadas MÓDULO 2 Reconhecer os principais cestoides parasitos do homem e suas características INTRODUÇÃO Os platelmintos são helmintos popularmente conhecidos como “vermes chatos” por possuírem o corpo achatado dorsoventralmente. Além disso, apresentam simetria bilateral, são multicelulares, com diversos órgãos que formam diferentes sistemas. Podem medir de milímetros a metros de comprimento e na maioria dos casos são hermafroditas. Este filo é composto por quatro classes: Turbellaria, Monogenea, Trematoda e Cestoda. As duas últimastêm importância parasitológica, apresentando gêneros que parasitam o homem e/ou os animais domésticos, e serão o foco do nosso estudo. A análise da morfologia das formas evolutivas e do ciclo de vida destes parasitas é essencial para a compreensão das doenças associadas e da sintomatologia. Você já ouviu falar da doença barriga d’água? Você sabe por que algumas pessoas relatam ter “solitárias” no intestino? Já ouviu falar em fasciolíase, hidatidose ou himenolepíase? Vamos juntos aqui decifrar e explorar mais sobre platelmintos parasitos do homem. SIMETRIA BILATERAL javascript:void(0) Os platelmintos são animais bilateralmente simétricos, ou seja, a anatomia do lado esquerdo e direito se espelham como imagens invertidas um do outro. MÓDULO 1 Descrever as características dos helmintos trematódeos dos gêneros Schistosoma e Fasciola e suas respectivas doenças associadas CLASSE TREMATODA Os platelmintos da classe Trematoda recebem este nome por apresentarem no seu órgão de fixação cavidades semelhantes a ventosas, as quais permitem a fixação do parasito no seu hospedeiro. Vejamos suas subclasses: DIGENEA Apresenta um ciclo de vida complexo, parasitando quase sempre dois hospedeiros: Hospedeiro intermediário - moluscos, na maior parte dos casos. Hospedeiro definitivo – peixes, aves e mamíferos. Essa é a subclasse mais abundante, na qual algumas espécies parasitam o homem e possuem grande importância médica e social, como a esquistossomose. ASPIDOGASTREA Apresenta menor número de espécies, que variam em comprimento de um milímetro a vários centímetros. São parasitas de moluscos de água doce e marinhos e vertebrados (peixes cartilaginosos e ósseos e tartarugas). A maturação pode ocorrer no hospedeiro molusco ou vertebrado. Nenhuma das espécies tem importância econômica, mas desperta interesse de pesquisadores, uma vez que são parasitas de hospedeiros de mais de 450 mil anos. Como a subclasse Digenea acomete a população que habita regiões de clima temperado e tropical, principalmente áreas subdesenvolvidas ou em desenvolvimento, será o foco de nosso estudo. SCHISTOSOMA SP. E ESQUISTOSSOMOSE A esquistossomose (bilharzíase) é uma doença crônica causada por helmintos trematódeos do gênero Schistosoma e por diferentes espécies. Entre elas, Schistosoma haematobium (África), Schistosoma japonicum (África, sudeste da Ásia e Costa Oeste do Pacífico) e Schistosoma mansoni (África, sudeste da Ásia, América e Caribe) são as de maior importância e responsáveis pelas duas principais formas de esquistossomose, a intestinal e a urogenital. BILHARZÍASE Acredita-se que a doença tenha se originado há mais de 2000 anos. Estudos demonstram a presença de ovos do verme em vísceras de múmias egípcias e em cadáveres da cidade chinesa de Cehang-lha. Atualmente, a esquistossomose apresenta alta incidência e prevalência em países subdesenvolvidos. As zonas de clima tropical e temperado são as áreas endêmicas da parasitose. Estima-se que há mais de 240 milhões de pessoas infectadas em 78 países, das quais 280 mil chegam a óbito anualmente. Além disso, em 2018, foram tratadas mais de 97,2 milhões de pessoas. javascript:void(0) Imagem: BUTROUS G., 2019. Adaptado por Angelo Oliveira. Distribuição geográfica da Esquistossomose. Juntamente com a malária, a esquistossomose é uma das mais importantes de todas as doenças parasitárias humanas. Considerada uma das 17 doenças tropicais negligenciadas (DTNs) pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em razão do impacto médico e econômico nos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos. SAIBA MAIS As doenças tropicais negligenciadas (DTNs) — um grupo diversificado de doenças transmissíveis que prevalecem em condições tropicais e subtropicais em 149 países —afetam mais de 1 bilhão de pessoas e custam bilhões de dólares às economias em desenvolvimento todos os anos. As populações que vivem em situação de pobreza, sem saneamento adequado e em contato próximo com vetores infecciosos, animais domésticos e gado são as mais afetadas. Os países endêmicos nas Américas são: Brasil, Suriname, Venezuela e Ilhas do Caribe. Destes, o Brasil possui a maior área endêmica. Dados do Ministério da Saúde revelam que entre os anos de 2010 e 2012 ocorreram 1.464 óbitos e 941 internações por 100 mil habitantes em razão da esquistossomose. No entanto, essa é uma doença considerada de baixa letalidade. As principais causas de morte são relacionadas às formas clínicas graves. Em 2017, existia no país 1,5 milhão de pessoas infectadas, 80% delas na região Nordeste. INTRODUÇÃO DA DOENÇA NO BRASIL No Brasil, acredita-se que a introdução da doença aconteceu no período colonial, acompanhando o tráfico de escravos da África ocidental para o Nordeste, principalmente Recife e Salvador. Dessas regiões, a doença foi transmitida para todo o território brasileiro. Aqui, os parasitas encontraram condições favoráveis à transmissão, constituindo hoje um grande problema de saúde pública. Além disso, características como o tempo de vida dos vermes adultos, a grande quantidade de ovos que são depositados pelas fêmeas, a precariedade do saneamento básico, o caráter crônico da doença e a ampla distribuição dos hospedeiros intermediários suscetíveis são alguns dos fatores que contribuíram para a distribuição da doença no país. Atualmente, a esquistossomose mansônica está presente ao longo de quase toda região litorânea do Nordeste, a partir do Rio Grande do Norte em direção ao Sul, seguindo o trajeto de importantes bacias hidrográficas. As áreas endêmicas abrangem os estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte (faixa litorânea), Paraíba, Sergipe, Espírito Santo e Minas Gerais (predominantemente no norte e nordeste do estado). FORMAS EVOLUTIVAS E CICLO DE VIDA DO S. MANSONI O Schistosoma mansoni é um parasito do gênero Schistosoma, da família Schistosomatidae, classe Trematoda e subclasse Digenea, com acentuado dimorfismo sexual. Possui um ciclo biológico do tipo heteroxênico, diferentes estágios de desenvolvimento e duas formas aquáticas. DIMORFISMO Dimorfismo sexual: ocorrência de indivíduos do sexo masculino e feminino de uma espécie com caracteres físicos, não sexuais, marcadamente distintos. javascript:void(0) javascript:void(0) HETEROXÊNICO Ciclo de vida que se caracteriza pela apresentação de dois ou mais hospedeiros para que seja completo. O parasito apresenta um ciclo biológico complexo envolvendo uma passagem por um hospedeiro intermediário — representado por moluscos (caramujos) do gênero Biomphalaria — no qual ocorre a reprodução assexuada, e um habitat permanente no hospedeiro definitivo, representado pela espécie humana, na qual ocorre a reprodução sexuada. No Brasil, os hospedeiros intermediários de maior interesse são caramujos da espécie Biomphalaria glabrata e, em menor extensão, das espécies B. straminea e B. tenagophila. Imagem: Shutterstock.com. Caramujo do gênero Biomphalaria. Durante o ciclo de vida do S. mansoni ocorrem diversas mudanças em nível estrutural, fisiológico e bioquímico no parasita em razão das adaptações sofridas em diferentes meios (a água e o ambiente interno de seus hospedeiros). A ilustração a seguir mostra o ciclo, desde quando indivíduos infectados defecam em coleções de água doce (híbridas) e liberam, juntamente com as fezes, os ovos de S. mansoni. Imagem: Guido4/ Wikimedia commons/ licença (CC BY-SA 4.0). Vamos agora conhecer um pouco mais sobre o ciclo de vida do Schistosoma mansoni. Quando os ovos são liberados, eles contêm um embrião ainda em formação, que após uma semana torna-se maduro. Em contato com a água, os ovos eclodem estimulados pela temperatura, luz intensa e oxigenação, liberando a primeira forma larval denominada miracídio. 1 Imagem: Shutterstock.com. O miracídio tem o corpo ciliado e nada ativamente no meio aquático até encontrar o hospedeiro intermediário, o molusco (caramujo) do gênero Biomphalaria. Em seguida,adere-se e penetra no molusco Quarenta e oito horas após penetrar o molusco, o miracídio perde seus cílios e se transforma em esporocisto primário, cujas células germinativas se multiplicam rapidamente por reprodução assexuada formando numerosos esporocistos secundários. Fonte: CARVALHO; COELHO; LENZI (Orgs.), 2008. p. 51. Corte histológico de Biomphalaria sp. mostrando esporocisto primário (ES1) e secundário (ES2) de S. mansoni. 2 3 Imagem: Shutterstock.com. Cercárias. Os esporocistos secundários movem-se para as glândulas digestivas onde crescem em 2 ou 4 semanas, por reprodução assexuada, e originam de 300 a 400 cercárias (Última forma larval) que saem do molusco estimuladas pela luz solar e temperatura da água. Elas apresentam uma cauda de extremidade curta e bifurcada. Após deixarem o molusco (devido ao fototropismo), as cercárias nadam por movimentação da cauda e permanecem agrupadas em águas rasas. Estudos mostram que a liberação das cercárias ocorre preferencialmente nas horas mais claras do dia, após 4 a 7 semanas da infecção do caramujo por um ano (tempo médio de vida do caramujo). Na água, as cercárias sobrevivem até suas reservas de glicogênio acabarem (aproximadamente 72 horas após a liberação). Em contato com a pele do hospedeiro definitivo (homem) , as cercárias penetram por meio de ação combinada da secreção de várias enzimas, como as proteases, e dos movimentos vibratórios da cauda, podendo produzir uma irritação de intensidade variável de indivíduo para indivíduo. Durante a penetração, as cercarias perdem a cauda e transformam-se em esquistossômulos. Os esquistossômulos, por sua vez, migram na derme, caem na corrente sanguínea e/ou linfática, atingem a circulação venosa e são levados ao coração e aos pulmões. Em torno do 8º ao 15º dia de infecção, os esquistossômulos deixam os pulmões e se encaminham para a circulação porta hepática, onde ocorrerá o amadurecimento sexual e consequente transformação em vermes adultos nos vasos intra-hepáticos. Imagem: CARVALHO; COELHO; LENZI (Orgs.), 2008. p. 57. 4 Os vermes adultos são os agentes etiológicos da esquistossomose, os quais sobrevivem uma média de 3 a 10 anos em seus hospedeiros humanos. Eles apresentam sexos separados, forte dimorfismo sexual, tegumento complexo, trato digestivo incompleto e órgãos reprodutivos. Alimentam-se das células sanguíneas e globulinas, as quais são digeridas no trato intestinal. Os vermes adultos não possuem ânus e por isso não podem excretar resíduos, então regurgitam os resíduos na corrente sanguínea e urina. Vivem nos vasos sanguíneos da cavidade abdominal. Imagem: CARVALHO; COELHO; LENZI (Orgs.), 2008. p. 115. Corte longitudinal de S. mansoni adulto macho, em contato com endotélio (seta), portando uma fêmea no canal ginecóforo. VERME MACHO Apresentam o corpo esbranquiçado, duas ventosas (oral e ventral) na região anterior, um canal ginecóforo que alberga uma fêmea e a transporta para as pequenas vênulas e a ajuda na ingestão de sangue. Imagem: عالء / Wikimedia commons/ licença (CC BY-SA 4.0). Fêmea adulta no interior do canal ginecóforo do macho. VERME FÊMEA Mais fina e de cor mais escura que o macho, tem o corpo filiforme e apresenta duas pequenas ventosas. Após o acasalamento, formam-se casais de parasitos os quais migram unidos em sentido contrário ao fluxo sanguíneo para seu nicho final nas veias mesentéricas. SAIBA MAIS Veias mesentéricas: veias que drenam sangue dos intestinos. A veia mesentérica inferior drena para a veia esplênica, enquanto a veia mesentérica superior junta-se à veia esplênica para formar a veia porta. Após um mês de infecção, as fêmeas acasaladas iniciam a oviposição, com média de 300 ovos por dia. O homem infectado pode eliminar ovos viáveis por um período de 6 a 10 anos, chegando a mais de 20 anos. Imagem: CARVALHO; COELHO; LENZI (Orgs.), 2008. p. 66. Sistema reprodutor de vermes fêmeas de Schistosoma mansoni: contraste de interferência diferencial do ovo (O), do ovário (OV) e do vielotelo (VT). Os ovos que ficam retidos nos tecidos levam sete dias para tornarem-se maduros (com miracídio formado no seu interior). Da submucosa intestinal, parte dos numerosos ovos chega à luz e é excretada com as fezes, completando o ciclo do parasito. Entretanto, parte dos ovos fica retida principalmente no fígado e no intestino, conduzindo a uma resposta inflamatória característica do processo patológico da esquistossomose que veremos a seguir. O ciclo de vida do gênero Schistosoma é semelhante para as diferentes espécies, apresentando poucas diferenças. Enquanto nas espécies S. mansoni e S. japonicum, após o acasalamento, os parasitos adultos migram para as veias mesentéricas, na espécie S. haematobium as larvas migram para as veias do sistema urogenital de seus hospedeiros definitivos. SAIBA MAIS Os ovos de Schistosoma sp. têm formato oval e são reconhecidos por apresentarem um espinho lateral, chamado de espículo. Imagem: BUTROUS, G., 2019. Ovos dos três principais gêneros do Schistosoma, mostrando os espículos. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A evolução clínica da esquistossomose mansônica depende da resposta imunológica do hospedeiro à invasão, ao amadurecimento e à oviposição do verme. Clinicamente, a esquistossomose pode ser classificada em fase inicial (aguda) – intervalo entre a contaminação até a oviposição e a fase tardia (crônica) que inicia após meses da infecção. A forma crônica ocorre raramente e pode ser assintomática ou sintomática apresentando quadros de hepatoesplenomegalia e sinais de hipertensão porta. A fase inicial começa após a penetração da cercária na pele intacta, causando manifestações alérgicas e alterações dermatológicas. Após a penetração, uma parte das larvas morre na pele enquanto a outra atinge a circulação sanguínea e/ou linfática. Na pele, a resposta imune inata contra as larvas mortas dá origem a reações de hipersensibilidade, podendo causar uma reação pruriginosa maculopapular, chamada dermatite cercariana, em partes do corpo que foram expostas à água contendo cercarias. Imagem: Tomas Machacek/ Wikimedia commons/ licença (CC BY-SA 4.0). Dermatite cercariana. Além das manifestações dermatológicas, o paciente pode apresentar outros sintomas clínicos, como febre, indisposição, anorexia, dores abdominais, diarreia, emagrecimento, mialgias, cefaleia, vômitos, náuseas e prostração. Essa sintomatologia é conhecida como Febre de Katayama, e é causada por uma reação do sistema imune à migração e à produção de ovos do parasita no organismo. Essa fase também é caracterizada pela presença de granulomas periovulares, grandes, com muitos eosinófilos e necrose central em diversos órgãos, como fígado, intestino e pulmão. GRANULOMAS Granulomas esquistossomóticos são uma coleção de células inflamatórias, como eosinófilos, neutrófilos, linfócitos e macrófagos, que se acumulam em resposta e ao redor dos ovos de S. mansoni. javascript:void(0) Imagem: BUTROUS G., 2019. Imagem: BUTROUS G., 2019. Podemos perceber que a formação do granuloma começa com o recrutamento inicial de macrófagos, eosinófilos e neutrófilos que se depositam ao redor do ovo aprisionado. Imagem: BUTROUS G., 2019. Essas células causam uma reação inflamatória resultando no recrutamento de mais células e o início do desenvolvimento do granuloma. Imagem: BUTROUS G., 2019. No estágio final, com a tentativa de resolução do granuloma pelo organismo, temos a deposição de colágeno, com subsequente degradação e remodelação dessa proteína, o que contribui para a fibrose do tecido. As manifestações clínicas da fase aguda coincidem com o início da eliminação dos ovos nas fezes. É importante relatar que pessoas que vivem em área endêmicas podem apresentar esses sintomas de maneira discreta ou até mesmo ser assintomático. Após 6 meses da infecção, inicia-se a fase crônica, a qual pode durar anos. Nessa fase, surgem os sinais de progressãoda doença para diversos órgãos. A doença é dividida nas seguintes formas: FORMA CRÔNICA LEVE OU HEPATOINTESTINAL Consiste na maioria dos casos, em que os indivíduos infectados de áreas endêmicas eliminam os ovos nas fezes de forma constante e permanecem assintomáticos ou com queixas inespecíficas (diarreias e epigastralgia). No fígado, é possível observar a presença de granulomas isolados ao redor dos ovos em várias fases de evolução. Imagem: Shutterstock.com. Hepatomegalia: fígado saudável x fígado aumentado. FORMA CRÔNICA GRAVE OU HEPATOESPLÊNICA Com o efeito acumulativo das lesões granulomatosas em torno dos ovos, as alterações hepáticas tornam-se mais severas. O fígado, que inicialmente sofre um aumento de volume (hepatomegalia), em uma fase mais adiantada pode ficar menor e fibrosado. Essa fibrose periportal (evidenciada pelo ultrassom) provoca obstrução dos ramos intra-hepáticos da veia porta e, consequentemente, a hipertensão porta, que pode se intensificar com a evolução da doença, levando a complicações potencialmente graves, como ascite, esplenomegalia, surgimento de varizes de esôfago (vista em radiografia de esôfago) e até mesmo ao óbito. javascript:void(0) javascript:void(0) Imagem: Shutterstock.com. Baço normal X baço aumentado (esplenomegalia). Imagem: Shutterstock.com. Ascite, popularmente conhecida como “barriga d’água”. HIPERTENSÃO PORTA A hipertensão portal é definida como um aumento anormal da pressão sanguínea na veia porta, aquela de grande calibre que transporta o sangue do intestino ao fígado e às suas ramificações. ASCITE Ascite, ou barriga d’água, é o nome dado ao acúmulo anormal de líquidos dentro da cavidade peritoneal - um espaço entre os órgãos abdominais e os tecidos que revestem o abdômen. Além das manifestações apontadas anteriormente, os pacientes com esquistossomose podem apresentar outras complicações. São elas: 1 Imagem: Shutterstock.com. HIPERTENSÃO PULMONAR Ocorre por obstrução vascular, provocada por ovos, vermes mortos e/ou vasculite pulmonar por imunocomplexos. IMUNOCOMPLEXOS É um complexo formado por imunoglobulina ligada a antígenos solúveis. GLOMERULOPATIA Ocorre por síndrome nefrótica, provocada por imunocomplexos. Imagem: Shutterstock.com. javascript:void(0) 2 3 Imagem: Shutterstock.com. NEUROLÓGICA Ocorre por lesões no sistema nervoso central, provocadas pela presença de ovos e de granulomas esquistossomóticos. A mielite transversa é a mais frequente na esquistossomose mansônica. Neste vídeo, a especialista resume o ciclo de vida evidenciando as formas evolutivas do parasita. ATENÇÃO Segundo a Portaria do Ministério da saúde nº 264 e 17 de fevereiro de 2020, esquistossomose é uma doença de notificação compulsória. Nas áreas endêmicas, o registro dos dados operacionais e epidemiológicos de rotina deve ser realizado por meio do Sistema de Informações do Programa de Vigilância e Controle da Esquistossomose (SISPCE). Quanto às áreas não endêmicas e aos casos graves nas áreas endêmicas, as notificações devem ser feitas ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), por meio da ficha de investigação da esquistossomose. TRATAMENTO E PROFILAXIA DA ESQUISTOSSOMOSE A utilização dos fármacos praziquantel e oxaminiquina são formas de tratamento da esquistossomose. Ambos podem ser administrados tanto em adultos quanto em crianças. O controle da esquistossomose depende de algumas ações preventivas: Identificação de fontes de infecção por meio do diagnóstico precoce e tratamento oportuno com esquistossomicidas. Vigilância e controle dos hospedeiros intermediários (moluscos). Ações educativas em saúde para promover a mudança de hábitos e comportamentos que facilitam a transmissão. Ações de saneamento para evitar a contaminação dos ambientes aquáticos com fezes. Ações das equipes da saúde da família para o diagnóstico e acompanhamento do tratamento adequado. ATENÇÃO Em breve, teremos vacinação contra esquistossomose! O Brasil é o primeiro país a desenvolver uma vacina contra a esquistossomose SM-14, a qual se encontra na última etapa de teste em humanos. Para a produção da vacina, os pesquisadores utilizaram a proteína S. mansoni 14 (Sm-14) presente em todas as fases do ciclo evolutivo do parasita. Essa proteína pertence ao grupo de proteínas ligadoras de ácidos graxos responsáveis pelo transporte e pela absorção de lipídeos provenientes do hospedeiro definitivo e intermediário. A vacinação estimula a resposta imune adaptativa para a produção de memória imunológica celular e anticorpos anti-Sm-14. Esses anticorpos impedem o funcionamento normal da proteína. Uma vez que o parasita não consegue sintetizar por si só os lipídios, há o bloqueio do metabolismo energético do parasita e, assim, a eliminação do esquistossomo dentro do organismo antes da manifestação dos sintomas. FASCIOLA HEPATICA E FASCIOLOSE A fasciolose é uma zoonose causada por helmintos trematódeos do gênero Fasciola hepatica. Esse parasita tem ciclo heteroxênico, apresentando como hospedeiro intermediário moluscos (caramujos) do gênero Lymnaea e como hospedeiro definitivo vertebrados como ovFasciola hepaticaelhas, equinos, suínos, animais silvestres e gado. O homem é um hospedeiro acidental, decorrente da ingesta de agrião ou outras plantas aquáticas contaminados com fezes de animais (contendo ovos de F. hepatica). Imagem: Smithsonian Environmental Research Center/ Wikimedia commons/licença (CC BY 2.0). Lymnaea columela. SAIBA MAIS No Brasil, foram identificadas quatro espécies de caramujo: Lymnaea columela, Lymnaea viatrix, Lymnaea cubensis e Lymnaea rupestres. Esses moluscos são hermafroditas e vivem nas margens úmidas, sob a vegetação aquática ou submersos em lagos, lagoas, córregos de água límpida e correnteza fraca, brejos e pântanos e canais de irrigação com pouca água. A fasciolose causa grandes prejuízos econômicos ao setor produtivo de carne no Brasil e no mundo, em razão de perdas no rendimento das carcaças, diminuição na produção de leite, redução da fertilidade e condenação de fígados (principal órgão acometido) dos animais detectados na inspeção post mortem. Estima-se que mais de 300 bilhões de bovinos e 280 milhões de ovinos no mundo estejam em áreas endêmicas e que os danos econômicos estejam na casa de 3,2 bilhões de dólares/por ano. SAIBA MAIS As principais causas de condenação de cortes ou carcaças no mundo são as lesões causadas por parasitoses, como cisticercose, hidatidose e fasciolose. No próximo módulo, estudaremos a cisticercose e a hidatidose. A fasciolose humana acidental ocorre em alguns lugares do mundo, como Europa, África, China e América do Sul. É considerada uma das 17 doenças tropicais negligenciadas (DTNs). Em geral, a doença em humanos acompanha a distribuição da doença nos animais — as regiões de clima subtropical e tropical são as mais afetadas. Atualmente, estima-se que existe entre 2,4 milhões a 17 milhões de pessoas infectadas no mundo. A maior prevalência da doença conhecida em humanos foi relatada no norte da Bolívia. No Brasil, há casos confirmados nos estados do Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Bahia, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. No entanto, como a doença em humanos não é de notificação compulsória, o controle do número de casos é baseado em publicações científicas. É importante informar que casos de fasciolose em animais devem ser notificados mensalmente ao órgão competente. Imagem: Shutterstock.com. Adaptado por Angelo Souza. Estados brasileiros com casos de fasciolose. VOCÊ SABIA O primeiro caso de notificação de F. hepatica em bovinos no Brasil ocorreu em 1918, mas apenas em 1958 foi feito o primeiro relato da doença em humanos: uma criança de 3 anos na cidade de Campo Grande no Mato Grosso do Sul. FORMAS EVOLUTIVAS E CICLO DE VIDA DA FASCIOLA HEPATICA Os vermes adultos de Fasciola hepatica possuem as característicasa seguir. São hermafroditas (como a maioria dos helmintos trematódeos, com exceção dos esquistossomos). Medem em torno de 2 a 4 cm de comprimento. Possuem o corpo achatado dorsoventralmente (como a maioria dos platelmintos). Possuem duas ventosas, oral e ventral. São encontrados no interior da vesícula e nos canais biliares mais calibrosos (hospedeiros comuns); e nas vias biliares e nos alvéolos pulmonares (homem, hospedeiro acidental). O desenvolvimento da larva ocorre no ambiente aquático. Apresentam formato de uma folha de planta alongada e cor pardo-acinzentada. Imagem: Shutterstock.com. O ovo é grande, de cor amarelada, formato elíptico e apresenta um opérculo em uma das extremidades. No interior do ovo, estão as células vitelinogênicas que abrigam uma célula-ovo com o núcleo. Imagem: Shutterstock.com. CICLO DE VIDA DA FASCIOLA HEPATICA 1 Imagem: Servier Medical Art/ Wikimedia commons/ licença (CC BY 2.0). A fasciolose é adquirida pela ingestão de plantas, especialmente agrião, contendo metacercárias que, após a ingestão, desencistam-se no duodeno e migram da parede intestinal até o parênquima hepático e para os ductos biliares. Nos ductos biliares, as metacercárias se transformam em vermes adultos que passam a liberar os ovos. Imagem: Servier Medical Art/ Wikimedia commons/ licença (CC BY 2.0). 2 3 Imagem: Servier Medical Art/ Wikimedia commons/ licença (CC BY 2.0). Os ovos são arrastados pela bile, alcançam as fezes e chegam ao ambiente externo. O desenvolvimento embrionário e a formação do miracídio ocorrem quando os ovos entram em contato com a água em temperatura adequada. Imagem: Servier Medical Art/ Wikimedia commons/ licença (CC BY 2.0). 3 4 Imagem: Shutterstock.com. Após a eclosão dos ovos, os miracídios são liberados e nadam até encontrar e invadir o hospedeiro intermediário — moluscos do gênero Lymnaea. No interior do caramujo, o miracídio passa por vários estágios de desenvolvimento transformando-se em um esporocisto, que dá origem de 5 a 8 rédias. Imagem: Servier Medical Art/ Wikimedia commons/ licença (CC BY 2.0). 5 6 Imagem: Servier Medical Art/ Wikimedia commons/ licença (CC BY 2.0). As rédias podem dar origem a rédias de segunda geração (condições adversas) ou às cercarias (apresenta cauda única e não é bifurcada). A parte do ciclo que ocorre no interior do molusco dura por volta de 30-40 dias. As cercárias liberadas aderem com suas ventosas à vegetação aquática e se encistam como metacercárias na vegetação aquática ou em outras superfícies. O hospedeiro vertebrado (gado, ovelhas e acidentalmente o homem) se infecta ao ingerir água, alimentos (gravetos, capins etc.) ou verduras (principalmente o agrião) contaminados com metacercárias, completando o ciclo. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Nos humanos, as manifestações clínicas mais comuns são: Febre, que pode ser acompanhada de dores abdominais e diarreia. Eosinofilia, de 60 a 80% de eosinófilos no sangue. Ulcerações na parede dos canais biliares em semanas. Aumento do fígado e da vesícula biliar. Obstrução, fibrose e calcificação das vias biliares. Cirrose biliar. Insuficiência hepática em casos mais graves. SAIBA MAIS Nos animais, a patogenia varia de acordo com a carga parasitária e o estágio de desenvolvimento dos parasitas. Além disso, o grau de suscetibilidade da doença varia de acordo com a espécie. TRATAMENTO E PROFILAXIA DA FASCIOLOSE A droga de escolha para o tratamento da fasciolose é o triclabendazol, administrado por via oral, geralmente em duas doses. A maioria das pessoas responde bem ao tratamento. O controle da fasciolose depende de algumas ações preventivas relativamente simples, como: Manter as hortas cercadas e irrigadas, para evitar a contaminação das valas com fezes de gado/ovelhas. Não consumir agrião silvestre proveniente de zonas endêmicas. Não beber água de córregos ou alagadiços. Ferver ou filtrar a água em zonas endêmicas. Controlar os hospedeiros intermediários (moluscos). VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. (ADAPTADO DE ENEM, 2019) A ESQUISTOSSOMOSE (BARRIGA- D’ÁGUA) CARACTERIZA-SE PELA INFLAMAÇÃO DO FÍGADO E DO BAÇO CAUSADA PELO VERME SCHISTOSOMA MANSONI (ESQUISTOSSOMO). O CONTÁGIO OCORRE DEPOIS QUE LARVAS DO VERME SÃO LIBERADAS NA ÁGUA PELO CARAMUJO DO GÊNERO BIOMPHALARIA, SEU HOSPEDEIRO INTERMEDIÁRIO, E PENETRAM NA PELE HUMANA. APÓS O DIAGNÓSTICO, O TRATAMENTO TRADICIONAL UTILIZA MEDICAMENTOS POR VIA ORAL PARA MATAR O PARASITA. UMA NOVA ESTRATÉGIA TERAPÊUTICA BASEIA-SE NA UTILIZAÇÃO DE UMA VACINA, FEITA A PARTIR DE UMA PROTEÍNA EXTRAÍDA DO VERME, QUE INDUZ O ORGANISMO HUMANO A PRODUZIR ANTICORPOS PARA COMBATER E PREVENIR A DOENÇA. (FONTE: INSTITUTO OSWALDO CRUZ/FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (IOC/FIOCRUZ, 2019.) UMA VANTAGEM DA VACINA EM RELAÇÃO AO TRATAMENTO TRADICIONAL É QUE ELA PODERÁ: A) Impedir a penetração do parasita na pele. B) Eliminar o caramujo para que não haja contágio. C) Impedir o acesso do esquistossomo especificamente no fígado. D) Eliminar o esquistossomo antes que ocorra contato com o organismo. E) Eliminar o esquistossomo dentro do organismo antes da manifestação de sintomas. 2. (ADAPTADO DE FUNDATEC, 2019) A FASCIOLOSE É UMA DOENÇA PARASITÁRIA CAUSADA PELA FASCIOLA HEPATICA, CONHECIDA POPULARMENTE COMO “BARATINHA DO FÍGADO” OU “SAGUAIPÉ”. O PARASITA, PARA COMPLETAR SEU CICLO, PRECISA DE DOIS HOSPEDEIROS: UM INTERMEDIÁRIO E OUTRO DEFINITIVO. A FORMA LARVAL DO PARASITA SE DESENVOLVE: A) No interior de caramujos do gênero Lymnaea. B) No interior de caramujos do gênero Biomphalaria. C) No intestino de peixes contaminados com larvas de Diphyllobothrium. D) No respiráculo das larvas de mosquitos do gênero Culex. E) Junto aos flagelos dos miracídeos. GABARITO 1. (Adaptado de ENEM, 2019) A esquistossomose (barriga-d’água) caracteriza-se pela inflamação do fígado e do baço causada pelo verme Schistosoma mansoni (esquistossomo). O contágio ocorre depois que larvas do verme são liberadas na água pelo caramujo do gênero Biomphalaria, seu hospedeiro intermediário, e penetram na pele humana. Após o diagnóstico, o tratamento tradicional utiliza medicamentos por via oral para matar o parasita. Uma nova estratégia terapêutica baseia-se na utilização de uma vacina, feita a partir de uma proteína extraída do verme, que induz o organismo humano a produzir anticorpos para combater e prevenir a doença. (Fonte: Instituto Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz, 2019.) Uma vantagem da vacina em relação ao tratamento tradicional é que ela poderá: A alternativa "E " está correta. A vacina é uma medida profilática que visa induzir a formação de anticorpos e células de memória imunológica. Logo, sua vantagem em relação ao tratamento tradicional é eliminar o esquistossomo dentro do organismo antes da manifestação de sintomas pela ação dos anticorpos. 2. (Adaptado de Fundatec, 2019) A fasciolose é uma doença parasitária causada pela Fasciola hepatica, conhecida popularmente como “baratinha do fígado” ou “saguaipé”. O parasita, para completar seu ciclo, precisa de dois hospedeiros: um intermediário e outro definitivo. A forma larval do parasita se desenvolve: A alternativa "A " está correta. Fasciola hepatica apresenta um ciclo biológico do tipo heteroxênico: tem como hospedeiro intermediário caramujos do gênero Lymnaea e como hospedeiro definitivo vertebrados como ovelhas e gado — o homem é um hospedeiro acidental. MÓDULO 2 Reconhecer os principais cestoides parasitos do homem e suas características CLASSE CESTODA Os platelmintos cestodas são hermafroditas, apresentam tamanhos diversos e, na maioria dos casos, o corpo achatado dorsoventralmente. Possuem órgãos de adesão, mas não sistema digestório. Os principais cestodas que parasitam o homem pertencem à família Taenidae, gênero Taenia, destacando-se Taenia solium e Taenia saginata, responsáveis pelo complexo teníase/cisticercose, um grave problema de saúde pública de interesse médicoe veterinário. TAENIA SP. E TENÍASE/CISTICERCOSE A teníase humana e a cisticercose são doenças causadas pelos parasitas da classe Cestoda, mas apresentam diferentes formas de contágio e manifestações clínicas. A teníase humana é uma doença infecciosa causada pela ingestão do estágio larval (cisticerco) das espécies: Imagem: Shutterstock.com. Taenia saginata presente na carne bovina. Imagem: Shutterstock.com. Taenia solium presente na carne suína. A cisticercose é uma doença causada pela ingestão de ovos de Taenia solium e caracteriza- se pela presença do estado larval (cisticercos) nos tecidos do hospedeiro. Quando presente no sistema nervoso central, essa infecção recebe o nome de neurocisticercose. ATENÇÃO A neurocisticercose em humanos é uma das principais causas de morbidade neurológica no mundo, daí a importância dos estudos sobre a Taenia solium. O complexo teníase/cisticercose está incluído na lista de doenças zoonóticas negligenciadas pela OMS e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), principalmente em razão da ausência de dados sobre a sua distribuição geográfica e a falta de recursos para o seu controle. Segundo dados da OMS, a teníase tem distribuição mundial, principalmente em países onde inexiste ou é precária a inspeção sanitária das carnes bovinas e/ou suínas. Para a T. saginata, estima-se 40 milhões de portadores no mundo, enquanto para a T. solium estima-se mais de 2,5 milhões de pessoas acometidas. No Brasil, temos alguns estados considerados endêmicos como São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Goiás. Imagem: Shutterstock.com. Adaptado por Angelo Souza. Estados brasileiros considerados endêmicos. A espécie Taenia saginata raramente causa cisticercose em humanos, porém tem importância para a saúde pública devido à morbidade causada pela teníase, bem como aos grandes prejuízos financeiros por uma causa importante de abate bovino em frigoríficos inspecionados. FORMAS EVOLUTIVAS E CICLO BIOLÓGICO DA TENÍASE Solitária é o nome popular mais utilizado para tênia. Embora o termo indique que o hospedeiro definitivo abriga apenas um parasito, na verdade, o hospedeiro pode abrigar mais de uma tênia da mesma espécie. O verme adulto de Taenia saginata e Taenia solium apresenta cor branca e corpo achatado em forma de fita. Imagem: Shutterstock.com. Morfologia do verme adulto de Taenia solium. Basicamente, o corpo do verme adulto é dividido em três partes: escólex (cabeça), colo (pescoço) e estróbilo (corpo). Vamos agora conhecer melhor cada uma dessas estruturas: ESCÓLEX Situado na extremidade anterior, o escólex funciona como órgão de fixação do helminto à mucosa intestinal humana. Apresenta quatro ventosas arredondadas. A T. solium possui também outra estrutura de fixação, o rostro, contendo duas fileiras de acúleos (pequenas estruturas em forma de foice, constituídas por escleroproteínas – chamados de ganchos). Imagem: Shutterstock.com. Estrutura da T. solium. Imagem: Shutterstock.com. Estrutura da T. saginata. COLO Porção mais fina do corpo, local de intensa atividade de multiplicação das células parenquimatosas e de crescimento do parasito com a formação das proglotes. ESTRÓBILO É o restante do corpo do parasito, composto de proglotes. O estróbilo pode apresentar até 3 metros na T. solium e até 8 metros na T. saginata. Quantos mais afastadas, mais evoluídas são as proglotes, que se dividem em: jovens - mais curtas, sem maturação sexual e que estão mais perto do colo; maduras - possuem os sistemas genitais masculino e feminino completos e aptos para iniciar a fecundação; e grávidas - mais compridas, com ramificações uterinas repletas de ovos: até 80 mil (T. solium) e até 160 mil (T. saginata), entretanto apenas metade serão maduros e férteis. As proglotes grávidas de T. solium se soltam do estróbilo e são liberadas passivamente nas fezes, enquanto as proglotes grávidas de T. saginata podem se deslocar ativamente e serem encontradas na roupa íntima do hospedeiro. Imagem: Shutterstock.com. Esquema ilustrando uma proglote gravídica. É importante ressaltar que as proglotes gravídicas possuem características peculiares para cada espécie: na T. saginata, suas ramificações uterinas são numerosas e têm terminações dicotômicas; na T. solium, há poucas ramificações e seu aspecto é dendrítico. Imagem: CNX OpenStax/ Wikimedia commons/ licença (CC BY 4.0). Proglotes gravídicas da T. saginata (à esquerda) e T. solium (à direita). Imagem: Shutterstock.com. Ovos de Taenia sp. Os ovos são pequenos, esféricos, possuem uma casca interna e externa protetora e no interior um embrião hexacanto denominado oncosfera. Não há diferença morfológica entre as duas espécies. Os cisticercos consistem na forma larvar: a larva da T. saginata é o Cysticercus bovis e a larva da T. solium é o Cysticercus cellulosae. Os cisticercos são constituídos por uma vesícula membranosa contendo no seu interior um líquido e o escólex. VOCÊ SABIA Na cultura popular, o cisticerco é conhecido como canjiquinha ou pedra. TENÍASE HUMANA A infecção humana ocorre pela ingestão de carne crua ou mal cozida de boi contaminada com cisticercos de T. saginata ou carne crua ou mal cozida de porco contaminada com cisticercos de T. solium. No intestino delgado, o cisticerco se adere à mucosa intestinal (por meio do escólex) e transforma-se em tênia adulta. Esse verme adulto, após dois a três meses da ingesta da carne contaminada, começa a eliminar proglotes grávidas contendo e liberando no solo milhares de ovos (de 30 a 80 mil ovos por proglote). Um hospedeiro intermediário (suíno para T. solium e bovino para T. saginata) ingere tais ovos presentes no solo. No seu intestino delgado, ocorre a liberação da oncosfera que se transforma em cisticerco nos músculos cardíacos e esqueléticos, cérebro, língua e coração. O ciclo recomeça quando o homem (hospedeiro definitivo) ingere carnes suínas ou bovinas cruas ou mal passadas contaminadas. Imagem: EternamenteAprendiz/ Wikimedia commons/ licença (CC-BY-SA-3.0). Adaptado por Angelo Souza. Ciclo biológico de Taenia sp. Agora entendemos como acontece a teníase. Mas você sabe como o homem desenvolve a cisticercose? A cisticercose ocorre quando há ingestão acidental de ovos da T. solium eliminados nas fezes de pessoas com teníase. Isso pode acontecer de três maneiras: AUTOINFECÇÃO EXTERNA O indivíduo com teníase libera proglotes grávidas e ovos nas fezes e pode ingerir esses ovos através das mãos contaminadas. AUTOINFECÇÃO INTERNA Ao vomitar, as proglotes grávidas podem chegar ao estômago do indivíduo com teníase. Além disso, alguns autores acreditam que as proglotes podem migrar do intestino para o estômago. Uma vez no estômago, elas liberam ovos que, posteriormente, ativam o embrião (oncosfera) que volta ao intestino delgado e se desenvolve em cisticerco. HETEROINFECÇÃO Ocorre por ingesta de água ou alimentos contaminados com ovos de T. solium. A seguir, apresentamos o ciclo biológico do C. cellulosae, causador da cisticercose. Após 24 a 72 horas da ingestão acidental de ovos de T. solium, as oncosferas (que saem dos ovos no intestino delgado do ser humano a partir da ação das enzimas digestivas) fixam-se em diversos órgãos e se transformam nas larvas (cisticercos) ocasionando a cisticercose. Imagem: Maria Lima Ciclo biológico do Cysticercus cellulosae. Neste vídeo, a especialista resume o ciclo de vida evidenciando as formas evolutivas do parasita. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A teníase é frequentemente assintomática, mas em alguns casos os indivíduos infectados (com vermes adultos no intestino) relatam dor abdominal, náuseas, fraqueza e perda de peso . Com menor frequência, proglotes podem penetrar no apêndice causando apendicite e obstrução intestinal pela massa do estróbilo. A cisticercose humana consiste em um problema de maior gravidade para o paciente decorrente de lesões gravese uma grande variedade de manifestações clínicas, uma vez que os cisticercos podem se alojar em diversos locais do organismo, como tecidos musculares e subcutâneos, olhos e, principalmente, sistema nervoso central (SNC). A seguir são relatados alguns males que os cisticercos podem causar: Tecido muscular ou subcutâneo: pouca alteração, em geral em indivíduos assintomáticos. Coração: palpitações ou dispneia (cisticercos nas válvulas). Olhos: instalam-se na retina, provocando descolamento ou perfuração e, consequentemente, perda parcial ou total da visão. Sistema nervoso central: a maioria das pessoas com neurocisticercose permanece assintomática por toda a vida, mas, quando os sintomas clínicos estão presentes, eles podem se manifestar principalmente como ataques epilépticos, dores de cabeça com ou sem hipertensão intracraniana associada, sintomas neurológicos focais e deficiências cognitivas. O principal fardo da doença humana é conferido pela morte e incapacidade por neurocisticercose. Além dos sintomas neurológicos, a neurocisticercose pode contribuir para dificuldades de aprendizagem na infância, perda funcional por fraqueza javascript:void(0) motora resultante, déficits sensoriais ou dor crônica, demência de início precoce, manifestações neuropsiquiátricas e estigmatização social, levando à redução da produtividade e perdas econômicas. Vários casos de afogamento acidental e queimaduras já foram associados a ataques epilépticos. PERDA DE PESO Acelerado crescimento do verme e consequente competição nutricional com o hospedeiro. ATENÇÃO Tanto os casos de cisticercose como os de teníase devem ser informados aos serviços de saúde para o mapeamento das áreas, buscando adoções de medidas profiláticas e sanitárias adequadas. Entretanto, essas duas doenças não são de notificação compulsória. TRATAMENTO E PROFILAXIA DA TENÍASE E DA CISTICERCOSE Para o tratamento da teníase, existem algumas opções, como: mebendazol, praziquantel, albendazol, niclosamida ou nitazoxanida. É comum, após o tratamento, pedaços da tênia serem eliminados por vários dias. Quanto ao tratamento da cisticercose, os casos assintomáticos não precisam ser tratados, entretanto, nos casos sintomáticos de neurocisticercose, as opções de tratamento são: albendazol e praziquantel. Além dos antiparasitários, corticoides como a dexametasona ou a prednisona são comumente indicados para amenizar o edema cerebral causado pela morte do cisticerco. Entre as medidas de profilaxia, podemos destacar: Inspeção sanitária rigorosa das carnes bovinas e/ou suínas destinadas ao consumo humano e fiscalização dos abatedouros. Orientação da população para não comer carne crua ou mal cozida/mal passada. Tratamento em massa dos indivíduos infectados. Construção de redes e tratamento de esgoto, para que os dejetos sejam eliminados corretamente, impedindo a contaminação de suínos, bovinos, água e alimentos. Ações de conscientização da importância da higienização dos alimentos e da higiene pessoal: lavagem das mãos após ida ao banheiro, antes de manusear alimentos e objetos de cozinha, antes de se alimentar. ECHINOCOCCUS SP E HIDATIDOSE Entre os platelmintos cestodas pertencentes à família Taeniidae, encontramos o gênero Echinococcus que possui duas espécies importantes causadoras de hidatidose (parasitose intestinal): o Echinococcus granulosus e o Echinococcus vogelis. E. granulosus: Apresenta distribuição mundial, é encontrado na Europa, África, Oceania e América Latina. É o agente causador da hidatidose cística, cuja ocorrência se dá em locais de alta taxa de infecção de carneiros ou bois. Cães que se alimentam de vísceras de carneiros/bovinos facilitam a transmissão da doença. Essa espécie será o foco do nosso estudo. E. vogeli: Encontra-se distribuído em alguns países de clima tropical da América Latina e do Sul, como Peru, Venezuela, Colômbia e Equador. É o agente causador da hidatidose policística. Essa espécie foi descrita em 1972; no Brasil, os primeiros relatos dessa doença aconteceram no final da década de 1990, tendo uma alta prevalência nas áreas silvestres no país, como o Acre. javascript:void(0) HIDATIDOSE POLICÍSTICA A forma larval é responsável pela hidatidose policística, caracterizada por cistos múltiplos, que podem atingir vários tecidos. FORMAS EVOLUTIVAS E CICLO BIOLÓGICO DE E. GRANULOSUS Assim como ocorre na esquistossomose, fasciolose e teníase estudadas até aqui, o E. granulosus também possui um ciclo heteróxeno e, portanto, possui como hospedeiro definitivo os cães (intestino delgado) e como hospedeiro intermediário os ovinos, bovinos, suínos, caprinos e cervídeos (fígado e pulmões). O verme adulto apresenta um escólex com quatro ventosas e um rostro com acúleos; colo curto e estróbilo com três ou quatro proglotes — apenas a última grávida contendo os ovos. Imagem: Shutterstock.com. Verme adulto do E. granulosus. Imagem: Shutterstock.com. Cisto hidático. Os ovos, semelhantes aos de Taenia, possuem uma membrana externa e um embrião hexacanto também chamado de oncosfera. O cisto hidático é a forma larvar, comumente chamada de “bolha d’água” por ser arredondada e cheia de líquido transparente — é composta por três membranas e outras estruturas: Membrana adventícia: externa. Membrana anista: intermediária. Membrana prolígera: interna, que secreta o líquido hidático e de onde brotam as vesículas prolígeras com os escólex. Vesículas prolígeras. O ciclo biológico se inicia quando o hospedeiro definitivo (cães), uma vez contaminado com E. granulosus, defeca no meio ambiente, liberando nas fezes ovos ou proglotes grávidas. Os hospedeiros intermediários, ao ingerir alimentos presentes no pasto, como grama e gravetos contaminados pelas fezes do hospedeiro definitivo, terão, no intestino, a liberação das oncosferas que, por sua vez, através dos ganchos, penetram a mucosa intestinal e alcançam a corrente sanguínea, chegando ao fígado e pulmões. Em seis meses, ocorre a produção dos cistos hidáticos que permanecem viáveis (férteis) por muitos anos. Quando hospedeiros definitivos (cães) se alimentam das vísceras dos hospedeiros intermediários contendo cisto hidático fértil, este chega ao intestino dos cães e amadurece em 60 dias, tornando-se vermes adultos capazes de liberar proglotes grávidas e ovos nas fezes. Abaixo o ciclo biológico do E. granulosus: Imagem: Conceitos e Métodos para a formação de profissionais em laboratórios de saúde, Molinaro, Etelcia; Caputo, Luzia; Amendoeira, Regina, 2012, pág 235. Adaptado por Angelo Souza. Ciclo biológico do E. granulosus O homem é considerado um hospedeiro acidental da hidatidose. Neste caso, a transmissão se dá pela ingestão de ovos presentes no ambiente onde transitam cães infectados (ovos aderidos ao pelo da região perianal dos cães). No homem, o ciclo se inicia de forma semelhante ao que ocorre nos hospedeiros intermediários. Os órgãos afetados são principalmente fígado e pulmão e mais raramente cérebro e rins. Imagem: Shutterstock.com. Hidatidose. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Os cistos evoluem lentamente e, portanto, os sintomas podem demorar a surgir. Além disso, a patogenia depende da quantidade/tamanho dos cistos e de quais órgãos são afetados. Imagem: Shutterstock.com. Fígado com manifestações clínicas da hidatidose. Não havendo ruptura dos cistos, os indivíduos apresentam-se com frequência assintomáticos. Entre as manifestações clínicas, de acordo com o órgão afetado, podemos observar, no fígado, distúrbios gástricos, congestão porta e estase biliar, com icterícia e ascite nos casos mais graves. Já no pulmão, os sintomas são cansaço, dispneia e tosse com expectoração. TRATAMENTO E PROFILAXIA DA HIDATIDOSE O tratamento da hidatidose é feito com antiparasitários como mebendazol, albendazol e praziquantel. As principais medidas profiláticas são: Educação sanitária para evitar o contato muito próximo com cães que se alimentam de carnes cruas de boise/ou carneiros. Interdição de abates clandestinos. Rigoroso controle sanitário do gado abatido. Diagnóstico e tratamento de cães infectados. HYMENOLEPIS SP E HIMENOLEPÍASE A himenolepíase é uma doença que afeta homens e roedores, causada por Hymenolepis nana — helmintos cestodas da família Hymenolepididae. Esse parasita, que tem como habitat principal do verme adulto o intestino delgado, é cosmopolita, ou seja, pode ser encontrado no mundo todo, embora mais frequentemente em regiões mais frias e cuja população tenha hábito de viver em lugares fechados. Estima-se que 20 milhões de pessoas no mundo estejam infectadas, com maior prevalência entre as crianças menores de 10 anos de idade. No Brasil, ele apresenta alta prevalência na região Sul. VOCÊ SABIA Hymenolepis nana foi descoberto em 1851, após uma necropsia no intestino delgado de uma criança egípcia. É popularmente conhecido como “tênia anã”. FORMAS EVOLUTIVAS E CICLO BIOLÓGICO DE HYMENOLEPIS NANA O H. nana apresenta três formas evolutivas: Imagem: NEVES, 2005. Pg 253. O verme adulto tem escólex com quatro ventosas e um rostro, colo e estróbilo com 100-200 proglotes. Imagem: NEVES, 2005. Pg 253. O ovo é transparente, possui membrana externa e uma interna que envolve a oncosfera no seu interior. Imagem: EternamenteAprendiz/ Wikimedia commons/ licença (CC BY 3.0). A larva cisticercoide é uma pequena larva, formada por um escólex invaginado e envolvido por uma membrana, com cerca de 500 µm de diâmetro. O ciclo biológico dessa espécie de parasita pode ser tanto monoxênico quanto heteroxênico. Conheça abaixo: CICLO MONOXÊNICO É o mais frequente e não necessita de um hospedeiro intermediário. O verme adulto no intestino delgado do homem produz numerosos ovos que são eliminados junto com as fezes. Quando outro indivíduo ingere esses ovos (na água ou em alimentos contaminados), eles eclodem liberando a oncosfera que, no intestino delgado, transforma-se na forma larvar (cisticercoide). Em três semanas, tornam-se vermes adultos e, a partir das proglotes, liberam ovos que serão eliminados nas fezes, fechando o ciclo. CICLO HETEROXÊNICO Os hospedeiros intermediários são insetos (pulgas da espécie: Xenopsylla cheopis, Ctenocephalides canis, Pulex irritans e coleópteros da espécie Tenebrio molitor, T. obscurus e Tribolium confusum). Os ovos, quando ingeridos pelos hospedeiros intermediários, transformam-se nas larvas cisticercoides. Se um ser humano (hospedeiro definitivo) ingere acidentalmente tais insetos contaminados, as larvas dão origem aos vermes adultos que, a partir das proglotes, liberam os ovos que serão eliminados nas fezes, fechando o ciclo. Uma vez que o homem é hospedeiro acidental, o hospedeiro definitivo comum são os roedores. Abaixo vemos o resumo dos dois ciclos. Imagem: EternamenteAprendiz/ Wikimedia commons/ licença (CC BY 3.0). Adaptado por Angelo Souza Ciclos biológicos do Hymenolepis nana . MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A maioria dos indivíduos apresentam-se assintomáticos. Entre os sintomas mais relatados estão: dor abdominal, náuseas, falta de apetite, irritabilidade, dor de cabeça e perda de peso. TRATAMENTO E PROFILAXIA DA HIMENOLEPÍASE O tratamento normalmente é realizado com drogas, como praziquantel, mas pode ser usada a nitazoxanida como alternativa. As principais medidas profiláticas são: Diagnóstico e tratamento dos indivíduos infectados. Construção de redes e tratamento de esgoto, para que os dejetos sejam eliminados corretamente. Ações de conscientização sobre a importância da higiene pessoal: lavagem correta e constante das mãos e combate a insetos e pulgas no ambiente. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. (VUNESP, 2006) CONSIDERE AS AFIRMAÇÕES SOBRE A TAENIA SP. A TRANSMISSÃO DA TENÍASE PARA O HOMEM OCORRE POR MEIO DA INGESTÃO DE CARNE DE PORCO OU BOI CONTENDO A LARVA CISTICERCO. A TRANSMISSÃO DA CISTICERCOSE OCORRE POR MEIO DA INGESTÃO DA CARNE DE PORCO CONTENDO A LARVA CISTICERCO. A FORMA ADULTA DE TAENIA SOLIUM PODE MIGRAR PARA O CÉREBRO CAUSANDO A NEUROCISTICERCOSE. O PORCO E O BOI ADQUIREM A CISTICERCOSE AO INGERIR ÁGUA OU ALIMENTO CONTAMINADO POR OVOS DE TAENIA SP. É CORRETO O QUE SE AFIRMA EM: A) I e II B) I e IV C) I e II D) I, II e III E) I, III e IV 2. (VUNESP, 2019) A HIDATIDOSE, TAMBÉM CONHECIDA COMO EQUINOCOCOSE, É UMA DOENÇA PARASITÁRIA, EM QUE CÃES, RAPOSAS E OUTROS CARNÍVOROS ABRIGAM OS VERMES ADULTOS NO INTESTINO E EVACUAM OS OVOS DO PARASITA NAS FEZES. SE OS OVOS SÃO INGERIDOS POR HUMANOS, ELES SE DESENVOLVEM EM LARVAS EM VÁRIOS ÓRGÃOS, PRINCIPALMENTE NO FÍGADO E NOS PULMÕES. OCORREM EM DUAS FORMAS PRINCIPAIS: HIDATIDOSE CÍSTICA E HIDATIDOSE POLICÍSTICA, CAUSADAS, RESPECTIVAMENTE, POR: A) Echinococcus granulosus e Echinococcus vogeli. B) Echinococcus oligarthrus e Echinococcus granulosus. C) Echinococcus canadensis e Echinococcus felidis. D) Echinococcus multilocularis e Echinococcus oligarthrus. E) Echinococcus shiquicus e Echinococcus granulosus . GABARITO 1. (Vunesp, 2006) Considere as afirmações sobre a Taenia sp. A transmissão da teníase para o homem ocorre por meio da ingestão de carne de porco ou boi contendo a larva cisticerco. A transmissão da cisticercose ocorre por meio da ingestão da carne de porco contendo a larva cisticerco. A forma adulta de Taenia solium pode migrar para o cérebro causando a neurocisticercose. O porco e o boi adquirem a cisticercose ao ingerir água ou alimento contaminado por ovos de Taenia sp. É correto o que se afirma em: A alternativa "B " está correta. A teníase no homem ocorre após a ingestão do cisticerco presente na carne do boi ou porco. De forma diferente, o boi ou porco são contaminados após a ingestão dos ovos da Taenia sp. presente na água ou nos alimentos contaminados. 2. (Vunesp, 2019) A hidatidose, também conhecida como equinococose, é uma doença parasitária, em que cães, raposas e outros carnívoros abrigam os vermes adultos no intestino e evacuam os ovos do parasita nas fezes. Se os ovos são ingeridos por humanos, eles se desenvolvem em larvas em vários órgãos, principalmente no fígado e nos pulmões. Ocorrem em duas formas principais: hidatidose cística e hidatidose policística, causadas, respectivamente, por: A alternativa "A " está correta. Entre os platelmintos cestodas, pertencentes à família Taeniidae, encontramos o gênero Echinococcus, que possui duas espécies importantes causadoras de hidatidose policística e a hidatidose cística, causada pela espécie Echinococcus granulosus e Echinococcus vogeli, respectivamente. CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste tema, descrevemos as características morfológicas e o ciclo de vida de helmintos trematódeos dos gêneros Schistosoma e Fasciola, bem como suas respectivas doenças associadas. Os parasitas estudados ao longo dessa jornada são responsáveis por doenças importantes que acometem grande parte da população brasileira, principalmente as pessoas mais carentes, que vivem sem saneamento básico e ações efetivas de orientação e educação para o combate a esses vermes. Ainda hoje, no Brasil, existem muitos casos de parasitoses devido à ausência de condições mínimas de higiene, como tratamento de esgoto ou água encanada ou simplesmente por levar as mãos sujas a boca. Isso permite a disseminação desses vermes e sua manutenção em território nacional entre os hospedeiros importantes para a perpetuação dos ciclos biológicos. Dessa forma, saber a peculiaridade de cada parasito, o ciclo biológico, as manifestações clínicas e evolução da doença, as formas de transmissão, tratamento e medidas profiláticas, ajuda o profissional da saúde a garantir ao paciente uma melhor assistência, diagnóstico diferencial, tratamento correto e orientação da população sobre essas doenças muitas vezes negligenciadas e que são um grave problema de saúde pública nacional. REFERÊNCIAS ANDRADE, Z. de A. A patologia da esquistossomose humana. In: CARVALHO, O. S.; COELHO, P. M. Z.; LENZI, H. L.(Orgs.). Schistosoma mansoni e esquistossomose: uma visão multidisciplinar. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2008. p. 547-568. AUNG, A. K., SPELMAN, D. W. Taenia solium taeniasis and cysticercosis in Southeast Asia. American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, 2016, v. 94, nº 5, p. 947-954. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. DEPARTAMENTO DE VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA. Boletim eletrônico epidemiológico:: detecção de casos humanos de fasciola hepática no estado do Amazonas. 2005. Consultado eletronicamente em: fev. 2021. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. DEPARTAMENTO DE VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA. Guia de bolso: doenças infecciosas e parasitárias. 5. ed. Brasília, Ministério da Saúde, 2005. Consultado eletronicamente em: fev. 2021. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. DEPARTAMENTO DE VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA. Vigilância da esquistossomose mansoni: diretrizes técnicas. 4. ed. Brasília, Ministério da Saúde, 2014. Consultado eletronicamente em: fev. 2021. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. COORDENAÇÃO-GERAL DE DESENVOLVIMENTO DA EPIDEMIOLOGIA EM SAÚDE. Guia de vigilância em saúde. 3. ed. 2019. Brasília, Ministério da Saúde. Consultado eletronicamente em: fev. 2021 BUTROUS, G. Schistosome infection and its effect on pulmonary circulation. Global Cardiology Science and Practice, nº 1, 14 abr. 2019. CARVALHO, O. S.; COELHO, P. M. Z.; LENZI, H. L. (Orgs.). Schistosoma mansoni e esquistossomose: uma visão multidisciplinar. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2008. MOLINARO, E. M.; CAPUTO, L. F. G.; AMENDOEIRA, M. R. R. Conceitos e métodos para a formação de profissionais em laboratórios. Rio de Janeiro, EPSJV/IOC, 2012. v. 5. MAGALHÃES, F. C.; SANTOS, T. M.; ASSIS, D. C., et al. Diagnóstico e fatores de risco do complexo teníase-cisticercose bovina no município de Salinas, Minas Gerais. Pesquisa Veterinaria Brasileira, 2017, v. 37, nº 3, p. 205-209. MENEZES, S.A. et al. Epidemiologia do parasitismo provocada por Hymenolepis nana. Mostra Científica em Biomedicina, 2016, v. 1, nº 1. MCMANUS, D. P.; DUNNE, D. W.; SACKO, M., et al. Schistosomiasis. Nature Reviews Disease Primers, 2018, 1 dez., v. 4, nº 1. NEVES, D. P. Parasitologia humana. 11. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2005. OLIVEIRA, D. M.; RESENDE, P.O. Fasciola hepática: ecologia e trajetória histórico-geográfica pelo Brasil. Estação Científica (Unifap), maio/ago. 2017, v. 7, nº 2, p. 9-19. PASTORE, R. et al. Hidatidose policística: relato de dois casos procedentes de Sena Madureira, Acre, na Amazônia brasileira. Revista Brasileira de Medicina Tropical, 2016, v. 36, nº 1, p. 1-5. SILVA, J.R.M.; NEVES, R. H.; GOMES, D.C. Filogenia, coevolução, aspectos morfológicos e biológicos das diferentes fases de desenvolvimento do Schistosoma mansoni. In: CARVALHO, O. DOS S.; COELHO, P. M. Z.; LENZI, H. L. (Orgs.). Schistosoma mansoni e esquistossomose: uma visão multidisciplinar. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2008. p. 43-84. EXPLORE+ Para saber mais sobre os assuntos tratados neste tema: Assista ao vídeo do canal IOC sobre a vacina para esquistossomose: Vacina inédita para esquistossomose: nova fase de estudos clínicos. Assista ao vídeo em formato de música realizado pelo canal VideoSaúde —Distribuidora da Fiocruz intitulado: Esquistossomose: quebrando o ciclo. Assista ao vídeo em formato de música realizado pelo canal VideoSaúde — Distribuidora da Fiocruz intitulado: Esquistossomose. Leia o Manual MSD – Versão para profissionais da saúde que aponta os principais tópicos a respeito da Fasciola hepatica no texto: Fasciolíase. CONTEUDISTA Alice Maria de Magalhães Ornelas CURRÍCULO LATTES javascript:void(0); DESCRIÇÃO Os principais gêneros de nematelmintos que infectam o homem e as doenças associadas. PROPÓSITO Compreender a epidemiologia e a dinâmica de transmissão dos diferentes gêneros de nematelmintos de interesse médico/veterinário e os processos patológicos associados à infecção é importante para auxiliar o diagnóstico e tratamento de algumas doenças. OBJETIVOS MÓDULO 1 Descrever a epidemiologia, as principais características morfológicas e as parasitoses causadas pelos gêneros Trichiura, Ascaris e Enterobius MÓDULO 2 Reconhecer a epidemiologia, as principais características morfológicas e as parasitoses causadas pelos gêneros Ancylostoma/Necator , Strongyloides , Angiostrongilus , Larva migrans e Lagochilascaris minor MÓDULO 3 Descrever a epidemiologia, as principais características morfológicas e as parasitoses causadas pelos gêneros Wuchereria/Oncocerca e outros nematoides INTRODUÇÃO Muitas doenças humanas e veterinárias são provocadas por diferentes espécies de parasitos. Os nematelmintos são agentes de diversas parasitoses intestinais amplamente distribuídas e prevalentes em todo o mundo. O filo Nemathelmintes é composto por organismos com simetria bilateral, de corpo cilíndrico, alongado e de extremidades afiladas. Algumas classes desse filo são importantes endoparasitas do homem, por exemplo, o Ascaris lumbricoides , popularmente conhecido como lombriga. Apesar de importantes parasitos do homem, a maioria das espécies conhecidas habita o solo úmido e ambientes aquáticos. Geralmente, a doença apresenta curso benigno, assintomático, o que revela a grande adaptação evolutiva da vida parasitária. Existem mais de 50 espécies de nematelmintos capazes de parasitar o homem, mas destacaremos apenas as de maior relevância na saúde pública. Vamos lá? Imagem: Shutterstock.com Nemathelmintes. MÓDULO 1 Descrever a epidemiologia, as principais características morfológicas e as parasitoses causadas pelos gêneros Trichiura, Ascaris e Enterobius OS NEMATELMINTOS Os nematelmintos ou nematoides distinguem-se dos demais parasitos humanos por sua classificação evolutiva. São organismos de estrutura corporal mais complexa, possuem sistema digestivo completo, musculatura, pseudoceloma, cordões nervosos e dimorfismo sexual. Assim como os platelmintos, seus parentes evolutivos, apresentam respiração cutânea. Do ovo até a forma adulta, esses vermes passam por quatro estágios larvários e várias mudas ou ecdises. DIMORFISMO SEXUAL Ocorre quando temos ocorrência de indivíduos do sexo masculino e feminino, sem envolver diferenças entre os caracteres sexuais, ou seja, eles são diferentes externamente. Vamos verificar que os nematelmintos fêmeas são normalmente maiores que os machos. javascript:void(0) javascript:void(0) ECDISES Processo pelo qual o verme troca a membrana externa, chamada de cutícula. Anatomia de um nematelminto. Os nematelmintos são revestidos por uma estrutura externa resistente denominada cutícula, a qual tem função principal de proteção. A resposta imune do hospedeiro é ativada por antígenos altamente imunogênicos, como proteínas e lipídios, presentes na cutícula, que vão induzir uma intensa migração de eosinófilos para o local da lesão. LOCOMOÇÃO Sua locomoção, seja no solo, na água ou na luz intestinal, é realizada pelos movimentos ondulatórios, que são semelhantes aos de uma serpente. Ao contraírem os músculos longitudinais, cria-se uma região de pressão hidrostática na parte que manteve os músculos relaxados, resultando em movimentos craniocaudais. REPRODUÇÃO A reprodução é sexuada, tanto o macho quanto a fêmea apresentam órgãos sexuais desenvolvidos, entretanto algumas espécies de vida livre reproduzem-se por partenogênese ou hermafrodistismo. Os machos possuem, dependendo da espécie, um ou dois testículos em formato cilíndrico, um ducto espermático e um ducto ejaculador, e as fêmeas possuem vagina, ovidutos e ovários. PARTENOGÊNESE Partenogênese refere-se a um tipo de reprodução assexuada de animais em que o embrião se desenvolve de um óvulo sem ocorrência da fecundação. HERMAFRODISTISMO O hermafroditismo ocorre quando os animais apresentam ambos os órgãos sexuais. javascript:void(0) javascript:void(0) SAIBAMAIS O aparelho copulador dos nematelmintos machos é constituído por espículos e por uma glândula prostática que produz um material cuja função é a fixação. Algumas espécies possuem dois espículos que são projetados no momento da cópula e auxiliam na estabilidade, facilitando a eliminação dos espermatozoides, que têm morfologia ameboide, sem a presença de flagelos para locomoção. Do ponto de vista sanitário, as infecções por esses parasitos representam um importante problema de saúde pública, principalmente em populações vulneráveis e em países em desenvolvimento. No Brasil, as helmintíases ainda são uma realidade, e seu controle está condicionado às melhorias nas condições de higiene e saneamento básico. As estimativas da carga global de doenças provocadas por helmintos são baseadas em inquéritos coproparasitológicos que, apesar de raros, fornecem informações essenciais de prevalência e morbidade. Acredita-se que cerca de 1,5 bilhão de pessoas tenha alguma infecção por helmintos e sofra algum impacto decorrente desse parasitismo, como redução da produtividade e perda de qualidade de vida (SBP, 2020). ASCARIS LUMBRICOIDES E ASCARIDÍASE EPIDEMIOLOGIA DA ASCARIDÍASE O parasito intestinal Ascaris lumbricoides é considerado o mais prevalente na população humana dentre os helmintos causadores de doenças, sendo responsável pela infecção denominada de ascaridíase. Essa doença tem alcance mundial, mas com aumento expressivo da prevalência em áreas da América Latina, Caribe, África e Ásia. Estima-se que cerca de 820 milhões a 1,2 bilhão de pessoas no mundo estão infectadas com esse parasito. ATENÇÃO No Brasil, a alta incidência em municípios do interior ou em bolsões de pobreza nas grandes cidades está relacionada principalmente ao consumo de água não tratada. Apesar de ser endêmico, a prevalência no país é heterogênea, as regiões Norte e Nordeste ainda concentram as maiores taxas, enquanto o Sul apresenta progressiva tendência de queda nas infecções (BRASIL, 2018). As crianças são as mais afetadas pelo parasitismo, tendo perda de absorção nutricional, fadiga crônica, comprometimento cognitivo ou até obstrução intestinal. Estima-se que cerca de 70% a 90% das crianças serão infectadas pelo parasito, em especial aquelas em idade pré-escolar, evidenciando as parasitoses intestinais como fator de risco para o aprendizado e desenvolvimento escolar infantil (SEIXAS et al ., 2011). SAIBA MAIS Alguns autores defendem que a diminuição do rendimento escolar tem relação com três fatores: Subnutrição originária do parasitismo por Ascaris spp., que reduz a absorção intestinal. Atividade hematofágica (sucção do sangue) de alguns parasitos, como Ancylostoma spp. Ulceração da mucosa por ação proteolítica de Entamoeba spp. e outros parasitos que apresentem esse mecanismo. O resultado é o desenvolvimento de anemia associada às enteroparasitoses e o comprometimento progressivo da habilidade para o aprendizado. O gênero Ascaris apresenta duas espécies conhecidas: ASCARIS LUMBRICOIDES É o parasito do homem e de alguns primatas não humanos superiores. ASCARIS SUUM É o parasito de porcos. SAIBA MAIS Por serem muito semelhantes morfologicamente e antigenicamente, alguns especialistas na área defendem que a espécie do porco é, na verdade, uma subespécie ou variedade de A. lumbricoides . Estudos em laboratório demonstraram que o A. lumbricoides desenvolve-se sem dificuldades de adaptação no porco, e o A. suum já foi reportado no homem, apesar de os casos serem raros. É interessante destacar que a diferenciação é difícil, não sendo evidenciada pelo exame coproparasitológico, então é provável que a infecção humana por A. suum seja subnotificada. MORFOLOGIA DO A. LUMBRICOIDES Macho e fêmea de A. lumbricoides Em relação à macromorfologia do verme adulto, as fêmeas são maiores, mais grossas e apresentam a região caudal retilínea, em contraste com o formato espiralado da porção caudal dos machos. REGIÃO CRANIAL Localiza-se a boca, sendo constituída por três lábios que possuem papilas sensoriais. REGIÃO CAUDAL Oposta à região cranial. Nela encontram-se a abertura anal e os órgãos reprodutores. Esses vermes são monoxênicos, isto é, apresentam um único hospedeiro, o homem. A fêmea pode liberar ovos não fecundados ou fecundados, mas apenas estes últimos darão continuidade ao ciclo biológico do parasito. Visto ao microscópio de luz, os ovos férteis têm formato arredondado e superfície ligeiramente irregular, também chamada de mamilonada. A casca do ovo é impermeável e espessa, conferindo proteção às adversidades do ambiente, inclusive a algumas metodologias de descontaminação química e térmica. Ovo fértil de A. lumbricoides com a larva em seu interior. O solo úmido e de temperatura amena proporciona ambiente favorável ao embrionamento dos ovos. O A. lumbricoides , bem como alguns outros parasitos, é considerado um geo-helminto, pois a passagem pelo solo é etapa obrigatória no ciclo biológico. Nessa etapa, o parasito já esgotou as reservas nutricionais e precisa realizar o metabolismo aeróbico, necessitando do oxigênio. Ainda no interior do ovo, a larva formada (L1 rabditoide) realiza a primeira eclidise, crescendo de tamanho e trocando a cutícula. CICLO DE BIOLÓGICO DO A. LUMBRICOIDES 1 A transmissão ocorre por via oral-fecal, a partir da ingestão de ovos férteis eliminados nas fezes. Após a ingestão, a eclosão dos ovos ocorre no intestino delgado, estimulada principalmente pela concentração de CO2. Nesse ponto, a larva de segundo estágio é aeróbia e não consegue se manter na luz intestinal, o que inicia um intenso processo de invasão da mucosa intestinal em direção à corrente sanguínea ou linfática. 2 3 Cerca de 4 a 5 dias após a ingestão dos ovos, as larvas de segundo estágio chegam ao pulmão para continuar a sua maturação, onde evolui para larvas de terceiro estágio. Após romperem os capilares, as larvas alcançam os alvéolos pulmonares e realizam a última ecdise, transformando-se em larvas de quarto estágio. 4 5 Decorridos alguns dias, as larvas chegam aos bronquíolos e são vagarosamente expulsas por meio dos movimentos ciliados na mucosa até alcançarem a laringe, onde são finalmente deglutidas e voltam para o seu destino, o intestino. ESTÁGIO Intervalo entre duas mudas da larva de artrópode ou helminto Ciclo biológico do Ascaris lumbricoides . javascript:void(0) SAIBA MAIS O ciclo pulmonar ou ciclo de Loss ocorre na ascaridíase e em algumas outras poucas helmintíases. Nessa fase, o indivíduo pode apresentar tosse ou irritação na árvore brônquica. Nas crianças, pode ocorrer a síndrome de Loeffer, caracterizada por febre, dificuldade de respirar e eosinofilia pulmonar. A localização intestinal dos vermes adultos depende da carga parasitária do hospedeiro nos seguintes casos: Quando a infecção resulta em quantidade pequena de parasitos, localizam-se preferencialmente no jejuno e íleo. Havendo um intenso parasitismo, pode-se encontrar vermes em todo o intestino delgado. COMENTÁRIO Crianças tendem a desenvolver uma infecção com carga parasitária mais alta e, em alguns casos raros, chegando a eliminar vermes pelas narinas e boca. SINTOMAS DA ASCARIDÍASE Na maioria dos casos, a ascaridíase é assintomática, mas pode ser sintomática ocasionado quadros de desconforto e dor abdominal, perda de apetite e emagrecimento. Quadros graves são observados principalmente por ação obstrutiva provocada pelos vermes adultos. Quando obstruem as vias biliares e o apêndice, levam à colangite e apendicite, respectivamente, requerendo intervenção cirúrgica. COLANGITE Inflamação das vias biliares, secundária à obstrução. ENTEROBIUS VERMICULARIS E ENTEROBÍASE javascript:void(0) EPIDEMIOLOGIA DA ENTEROBÍASE O gênero Enterobius reúne atualmente 23 espécies de oxiurídeos que parasitam primatas de todo o mundo. Apenas uma espécie, E. vermicularis , é conhecida por infectar e causar doença, denominada enterobíase,em humanos. COMENTÁRIO Você também pode encontrar o termo oxiuríase referindo-se à doença, mas essa nomenclatura não é mais utilizada. A enterobíase é endêmica em diversas regiões do planeta, e sua incidência pode estar relacionada às más condições de higiene e deficiências no sistema sanitário. Um ponto interessante e ainda hoje muito controverso é como alguns países do Hemisfério Norte, mesmo com excelentes taxas do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), ainda apresentam incidência elevada. Acredita-se que os hábitos culturais das populações de países frios, como o uso da mesma roupa por tempo prolongado e a escassez de água, além da baixa temperatura, podem favorecer a disseminação da infecção, bem como a integridade e viabilidade dos ovos. A transmissão é facilitada em creches, orfanatos, lares de idosos e em instituições psiquiátricas, onde a manutenção da higiene é mais difícil. Inquéritos coproparasitológicos realizados em crianças em idade escolar na Índia, Rússia e Suécia revelaram taxas de prevalência de 61%, 42% e 37%, respectivamente (BURKHART; BURKHART, 2005). No Brasil, os dados são dispersos e revelam uma grande heterogeneidade em relação à prevalência geral. Segundo levantamentos realizados a partir de banco de dados científicos, estima-se que a prevalência no país seja de em torno de 2%, mas, em algumas regiões negligenciadas, pode chegar a quase 40% (BRASIL, 2005). Como a doença tem curso quase sempre benigno e não é de notificação compulsória, acredita-se que os números são subestimados. SAIBA MAIS De acordo com dados extraídos do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, no período de 2008 a 2017 foram registrados 32 óbitos por enterobíase no Brasil, sendo os estados do Nordeste os detentores do maior número de mortes (LIMA et al ., 2018). Outro dado a destacar refere- se à faixa etária mais acometida, os idosos acima de 80 anos foram as principais vítimas. MORFOLOGIA DO E. VERMICULARIS Em relação à morfologia, os vermes adultos apresentam formato alongado e com as extremidades mais estreitas (fusiforme), coloração branca, e a fêmea é maior que o macho. A porção caudal do macho é recurvada ventralmente, o que facilita a distinção do sexo. Na região cefálica é possível visualizar duas estruturas membranosas laterais que parecem asas, muito utilizadas na identificação macroscópica do gênero, denominadas de asas cefálicas. Asas cefálicas no verme adulto E. vermicularis . Ovos de E. vermicularis . Os ovos têm morfologia bem característica e são compostos por três camadas, uma interna composta de lipídios, uma intermediária formada de quitina e a mais externa de albumina. A larva é encontrada no interior do ovo, mas ainda precisará de algumas horas para amadurecer e chegar ao seu estágio infeccioso. CICLO BIOLÓGICO DO E. VERMICULARIS 1 O homem é o único hospedeiro, sendo, portanto, o ciclo do E. vermicularis monoxênico e estenoxênico. A transmissão ocorre pela ingestão dos ovos embrionários, que, ao atingir o intestino delgado, liberam as larvas que migram até o lúmen do ceco. No intestino, os vermes se alimentam de detritos celulares, bactérias da microbiota e dos nutrientes provenientes da dieta do hospedeiro. Na maioria do tempo, ficam livres na luz intestinal, principalmente na região do ceco, mas podem, mesmo que em menor frequência, ficar presos à mucosa. 2 3 A fêmea grávida acumula os ovos no útero, pois não há oviposição dentro do intestino. Nessa fase, a fêmea migra até o reto, esperando o período noturno para sair ativamente pelo ânus e chegar à região perianal, onde deposita os milhares de ovos. O período da oviposição é marcado por intenso prurido anal e irritação da mucosa perianal, sendo frequente a criança tentar se coçar e depois levar a mão à boca (autoinfecção). Após a oviposição as fêmeas não voltam para o reto e morrem ali mesmo. 4 Ciclo biológico do E. vermicularis. . Diferentemente dos geo-helmintos, o ovo de E. vermicularis não precisa do solo para completar o seu amadurecimento, a temperatura da própria região perianal é suficiente para esse processo. MECANISMO DE INFECÇÃO DO E. VERMICULARIS É importante destacar que o mesmo indivíduo pode se infectar de diferentes maneiras: AUTOINFECÇÃO DIRETA Quando ele mesmo leva as mãos ao ânus e depois à boca (principalmente crianças e idosos). AUTOINFECÇÃO INDIRETA Quando o próprio hospedeiro que eliminou ingere os ovos presentes na poeira, fômites ou alimentos. HETEROINFECÇÃO Consiste na ingestão dos ovos presentes no ambiente ou nos alimentos, provenientes de um outro hospedeiro. SINTOMAS DA ENTEROBÍASE O parasitismo por E. vermicularis não manifesta grandes complicações, evoluindo, na grande maioria dos casos, de forma assintomática. As crianças e os idosos podem apresentar sintomas leves, como irritação e ulceração da mucosa anal, infecções secundárias, inquietação e irritabilidade. Alguns relatos clínicos demonstram a ocorrência da formação de granulomas e vulvovaginites. TRICHURIS TRICHIURA E TRICURÍASE EPIDEMIOLOGIA DA TRICURÍASE Trichuris trichiura é um nematódeo intestinal, denominado por muitos anos como Trichocephalus trichiura . Esse parasito já foi encontrado nas fezes de múmias da era pré-colombiana, o que indica o estabelecimento de uma relação parasito-hospedeiro mais equilibrada do ponto de visto evolutivo. Estimativas feitas no final da década de 1940 trazem número da ordem de 350 milhões de indivíduos infectados, constituindo uma das parasitoses humanas mais prevalentes (STOLL, 1999). Com a melhoria das condições de vida e a ampliação do acesso ao esgotamento sanitário e água potável, é possível que as estimativas tenham reduzido. Como as infecções são quase sempre assintomáticas e a vigilância dessa enteroparasitose é negligenciada, as taxas de prevalência não são precisas. Segundo levantamento do Ministério da Saúde (2018) entre os anos de 2005 e 2016, a prevalência da tricuríase é elevada na região Norte e Nordeste do Brasil, onde habitações sem esgotamento sanitário e sem acesso à água potável ainda é uma realidade, principalmente devido à baixa taxa de saneamento básico e à deficiência em políticas de educação sanitárias nas cidades dessas regiões. MORFOLOGIA DO T. TRICHIURA Fêmea adulta de T. trichiura . A morfologia do verme adulto assemelha-se a um chicote, a parte anterior é mais alongada e delgada que a posterior. A fêmea, com 4 cm, é ligeiramente maior que o macho, que apresenta 3 cm de comprimento. O macho apresenta a extremidade posterior do corpo enrolada ventralmente, na qual se pode observar o espículo, utilizado para a fixação no momento da cópula, e somente um testículo. Diferentemente do que se acreditava, a boca fica localizada na região mais delgada, e o ânus e os órgãos reprodutores na porção mais volumosa. Os ovos têm aspecto de barril e apresentam três camadas: duas cascas internas de material claro que envolvem diretamente a célula-ovo e uma camada externa de cor castanha que não circunda totalmente a camada interior, pois é interrompida nas extremidades pela presença de um material hialino e refringente. Ovos de T. trichiura . CICLO BIOLÓGICO DO T. TRICHIURA 1 Ao serem eliminados nas fezes, os ovos amadurecem no ambiente externo, começando pela segmentação da célula-ovo que resultará, após algumas semanas, na formação de uma larva. A partir desse momento, o ovo passa a ser infectante para o homem (único hospedeiro) e pode permanecer viável no meio por meses. Depois de ingeridos, os ovos finalmente eclodem no intestino delgado, e as larvas rapidamente se prendem à mucosa até virarem vermes adultos. Normalmente, vivem no ceco, mas também podem ser encontrados no cólon e íleo, sempre fixados na mucosa pela porção anterior (boca). 2 3 Cada fêmea pode colocar mais de 5.000 ovos por dia. Ciclo biológico de Trichuris trichiura . SINAIS E SINTOMAS DA TRICURÍASE A infecção é predominantemente assintomática, sendo extremamenteraros os relatos de casos de complicação e manifestações clínicas graves; mas, quando há sintomas graves, estes estão associados à imunodepressão ou ao superparasitismo. Crianças e idosos podem apresentar irritabilidade, perda de apetite, dor abdominal, e o hemograma pode revelar eosinofilia. Casos atípicos de superinfestação em crianças podem resultar em constipação intestinal e prolapso retal. MEDIDAS PROFILÁTICAS E PROGRAMAS DE CONTROLE CONTRA OS HELMINTOS O especialista Helver Dias aborda as medidas profiláticas contra os helmintos. VERIFICANDO O APRENDIZADO MÓDULO 2 Reconhecer a epidemiologia, as principais características morfológicas e as parasitoses causadas pelos gêneros Ancylostoma/Necator , Strongyloides , Angiostrongilus , Larva migrans e Lagochilascaris minor ANCILOSTOMÍDEOS E ANCILOSTOMÍASE EPIDEMIOLOGIA DA ANCILOSTOMÍASE A família Ancylostomatidae é composta por nematelmintos de corpo alongado e coloração branca que parasitam várias espécies de vertebrados. A ancilostomíase também é conhecida como amarelão, devido à presença de intensa anemia que deixa a pele do indivíduo infectado com aspecto amarelado. Três espécies podem causar a doença em humanos: Ancylostoma duodenale Necator americanus Ancylostoma ceylanicum Curiosamente, a distribuição das espécies varia de acordo com a localização geográfica, talvez por fatores evolutivos de um parasito ancestral que coevoluiu com grupos de hominídeos para diferentes regiões. A. DUODENALE É encontrado na África, Américas e algumas ilhas do oceano Pacífico. N. AMERICANUS É mais prevalente no Hemisfério Norte. A.CEYLANICUM É encontrado no sudeste asiático e pode parasitar eventualmente o homem, além de cães e gatos. SAIBA MAIS Ancylostoma e Necator são uns dos mais antigos parasitos humanos, tendo evidências da infecção em múmias pré-colombianas de mais de 900 anos. Ovos de ancilostomídeos foram recuperados a partir de coprólitos humanos, em um corpo mumificado de 2.800 anos em Minas Gerais. A paleoparasitologia é a ciência que se dedica aos estudos da parasitologia em materiais arqueológicos. As maiores taxas de prevalência da ancilostomíase são encontradas nos países subsaarianos e em algumas regiões da Ásia e América do Sul. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que no final do século passado cerca de 1 bilhão de pessoas poderiam estar infectadas com ancilostomídeos, das quais mais de 150 milhões desenvolveriam a doença com alguma manifestação clínica (WHO, 2012). No Brasil, a infecção ocorre em todas em regiões, especialmente em alguns estados do Nordeste, Norte e Centro-oeste do país, como Pernambuco, Amazonas e Mato Grosso, respectivamente. COMENTÁRIO Acredita-se que a ancilostomíase era a segunda causa de mortes no Brasil até meados do século XIX, perdendo apenas para a malária, principalmente na população negra, que era proibida de usar calçados. Levantamentos realizados em São Paulo no início do século XX apontam para altas taxas de prevalência em algumas cidades. Contudo, a melhoria das condições sanitárias nas cidades e o início das campanhas de controle e tratamento gratuito contribuíram para a diminuição desse índice. A inexistência de levantamentos nacionais prejudica o conhecimento da real situação epidemiológica da ancilostomíase, bem como de outras enteroparasitoses. As investigações mais atuais feitas em diferentes populações revelam as seguintes prevalências: MORFOLOGIA DOS ANCILOSTOMÍDEOS Os vermes adultos são pequenos, cerca de 1 cm, sendo a fêmea maior que o macho, e ambos possuem a cápsula bucal bem desenvolvida, provida de dentes ou lâminas quitinosas cortantes, característica que permite a sua fixação na mucosa intestinal. Além disso, essa característica possibilita a fácil identificação do gênero, pois o A. duodenale possui dois pares de dentes, o A. ceylanicum possui três pares, e o N. americanus caracteriza-se pela presença de lâminas cortantes, em substituição aos dentes. Presença de estruturas quitinosas semelhantes a dentes na cápsula bucal. Os machos possuem uma estrutura bem característica do sexo localizada na extremidade posterior, chamada de bolsa copuladora, além de órgãos auxiliares da cópula denominados de espículas e um testículo. O aparelho reprodutor feminino é formado de estruturas emaranhadas que ocupam uma boa parte da cavidade interna do corpo do helminto, e por dois ovários. Ovos de A. duodenale . Os ovos são de fácil identificação. Seu conteúdo interno pode variar de acordo com o grau de segmentação da célula-ovo, mas sempre há um espaço hialino, que costuma ser refringente na microscopia de luz, entre a casca e a célula-ovo. CICLO BIOLÓGICO DOS ANCILOSTOMÍDEOS 1 Depois de eliminados pela fêmea, os ovos são carreados pelas fezes até o ambiente externo, onde encontram condições favoráveis ao embrionamento. As larvas que eclodem dos ovos (radbitoides) alimentam-se da matéria orgânica presente no solo e após aproximadamente 48 horas sofrem a primeira ecdise, em larvas de segundo estágio, ainda radbitoides. 2 3 Por sua vez, as larvas de segundo estágio se convertem em larvas de terceiro estágio, já filarioides, após sofrerem mais uma ecdise. Contudo, as larvas filarioides não se alimentam mais de nutrientes presentes no solo, dependendo totalmente das suas próprias reservas energéticas, o que não diminui a sua movimentação e atividade. As larvas filarioides presentes no solo penetram ativamente pela pele a partir da ação mecânica e proteolítica de enzimas liberadas pelo parasito. As larvas que tiverem êxito nessa etapa entrarão na corrente sanguínea até chegarem ao ventrículo direito, de onde seguirão o fluxo sanguíneo até ganharem o pulmão, onde rompem os capilares, penetrando nos alvéolos, e adquirem a cápsula bucal provisória. 4 5 A partir dos movimentos ciliares da mucosa, as larvas são expulsas da árvore brônquica, sendo finalmente deglutidas com o muco. Assim, percorrem o estômago, sem sofrerem ação do ácido gástrico, e chegam ao seu sítio final, o intestino delgado. Decorridos alguns dias, a larva sofre a última ecdise, ganhando a cápsula bucal definitiva e diferenciando-se sexualmente em machos e fêmeas. As formas adultas fixam-se na mucosa e iniciam intensa sucção de sangue, levando o hospedeiro ao quadro anêmico. Um novo ciclo se inicia quando os vermes adultos copulam e as fêmeas começam a oviposição, liberando milhares de ovos nas fezes. 6 Ciclo biológico dos ancilostomídeos. SAIBA MAIS Apesar de pouco relatada, a infecção por via oral também pode ocorrer a partir da ingestão de alimentos ou água contaminados. Nesse caso, as larvas vão direto para o intestino, sem a necessidade do ciclo pulmonar. SINAIS E SINTOMAS DA ANCILOSTOMÍASE Os sintomas da ancilostomíase podem distinguir-se em duas fases, clique para conhecer: FASE INICIAL A fase inicial de penetração na pele pode resultar em uma espécie de dermatite acompanhada de prurido, edema e erupções, conhecida em algumas regiões como “coceira da terra”. Em alguns casos, assemelha-se à dermatite cercariana de Schistosoma mansoni . Ao chegarem ao pulmão, as larvas podem desencadear um estado transitório de irritabilidade e eosinofilia sanguínea, seguido de tosse e febre. COMENTÁRIO Muitos fatores podem contribuir para o quadro e não devemos utilizar um olhar apenas voltado para a doença, é preciso atenção às condições sanitárias e ao contexto social da população. Indivíduos malnutridos com deficiência de ferro tendem a desenvolver anemias mais profundas e complicações decorrentes. FASE CRÔNICA A fase crônica da doença ficou eternizada no personagem de Monteiro Lobato, Jeca Tatu, que simbolizava o caipira, andando sempre descalço, cansado, abandonado pelo poder público. Trabalhadores do campo tendem a apresentar fadiga extrema, perda de apetite, dores musculares, além de outros sinais e sintomas. Já as crianças são prejudicadas pela redução no aprendizado escolar e comprometimentodo desenvolvimento corporal e intelectual. Além disso, casos crônicos graves podem apresentar sintomas da insuficiência cardíaca congestiva, com palpitações, arritmias cardíacas, perda súbita de força. MONTEIRO LOBATO Monteiro Lobato (1882-1948) foi um escritor e editor brasileiro. O Sítio do Pica-pau Amarelo é sua obra de maior destaque na literatura infantil. Criou a Editora Monteiro Lobato e mais tarde a Companhia Editora Nacional. Foi um dos primeiros autores de literatura infantil de nosso país e de toda América Latina. Fonte: Ebiografia.com STRONGILOIDES STERCORALIS E ESTRONGILOIDÍASE EPIDEMIOLOGIA DA ESTRONGILOIDÍASE O gênero Strongyloides pode gerar infecção assintomática por anos ou décadas, ou, ainda, provocar doença com manifestações clínicas variadas. Existem 52 espécies descritas, entre as quais somente duas podem parasitar o homem: S. STERCORALIS É a mais conhecida e de distribuição cosmopolita. javascript:void(0) S. FUELLEBORNI Ocorre na África central e tem o macaco como hospedeiro principal e o homem como hospedeiro acidental. De acordo com classificações internacionais, a prevalência da estrongiloidíase pode ser dividida da seguinte maneira: Esporádica (<1%) Endêmica (1-5%) Hiperendêmica (>5%) Os países em desenvolvimento na América Latina, África e Ásia apresentam em muitas regiões níveis endêmicos ou hiperendêmicos (PIRES; DREYER, 1993). A prevalência das parasitoses intestinais está fortemente relacionada a fatores sociais, como a pobreza. Algumas regiões nos Estados Unidos e na Europa apresentam taxas mais altas quando comparadas à média nacional, principalmente em zonas rurais afastadas e em aglomerações urbanas. No Brasil, os estudos são fragmentados, mas alguns levantamentos realizados retrospectivamente, ou seja, a partir de dados já publicados, constataram que a média brasileira gira em torno de 5,5%, ou seja, hiperendêmica (SANTANA; LOUREIRO, 2016). COMENTÁRIO É claro que há uma variação regional, sendo o Nordeste a região com a maior taxa (7,9%), seguido da região Centro-Oeste (6,6%). Alguns grupos populacionais específicos, como pacientes HIV/AIDS e pacientes neoplásicos, podem apresentar maior frequência de infecção (PAULA; COSTA-CRUZ, 2011). Os idosos também constituem um grupo com alta prevalência, independentemente se institucionalizados (lares de acolhimento, asilos) ou não. MORFOLOGIA E CICLO BIOLÓGICO DO S. STERCORALIS Ciclo biológico O S. stercoralis apresenta um ciclo biológico complexo, com a particularidade de realizar dois ciclos evolutivos: ciclo de vida livre e ciclo parasitário. Ciclo biológico do Strongyloides stercoralis . No ciclo de vida livre, os vermes alimentam-se de matéria orgânica, bactérias e nutrientes disponíveis no solo. São bastante sensíveis às variações de temperatura e aos ambientes secos. As fêmeas de vida livre fecundadas colocam ovos com casca bem fina. Em condições ambientais ideais, os ovos eclodem liberando larvas rabditoides. Depois de alguns dias, as larvas rabditoides sofrem uma ecdise e se transformam em larvas filarioides, infectantes para os humanos. Algumas larvas rabditoides podem transformar-se diretamente em larvas filarioides. Isso ocorre por mecanismos ainda não descritos. Apesar de pouco estudado, acredita-se que as larvas de vida livre que infectam humanos não conseguem se reproduzir e, assim, se mantêm no solo por tempo indefinido. Em condições ambientais ideais, as larvas filarioides permanecem por vários dias no solo. CICLO PARASITÁRIO DO S. STERCORALIS 1 Ao encontrarem um hospedeiro, geralmente indivíduos que andam descalços, as larvas penetram ativamente na pele de forma mecânica e bioquímica, como a secreção de enzimas que facilitam o processo de penetração na epiderme. Depois de penetrar na pele, as larvas ganham a corrente sanguínea e chegam aos pulmões, onde conseguem invadir os alvéolos e migrar pela árvore brônquica até o esôfago, onde são finalmente deglutidas e chegam ao intestino. 2 3 Uma vez no intestino, os vermes adultos ficam aderidos à mucosa, principalmente na região do duodeno. Para se alimentarem, as fêmeas perfuram a camada superficial da mucosa e sugam o sangue dos pequenos vasos, provocando, curiosamente, pouca ou nenhuma reação inflamatória local. Diferentemente da maioria dos parasitos intestinais, as fêmeas colocam os ovos, e esses eclodem no interior do intestino, liberando larvas rabditoides L1, que rapidamente sofrem ecdise e viram larvas rabditoides L2, sendo eliminadas no bolo fecal, juntamente com os ovos que não eclodiram. 4 Morfologia As larvas de vida livre são menores e mais espessas que a forma parasita, principalmente pela grande quantidade de ovos no útero. Já as fêmeas parasitas vivem na mucosa intestinal e são partenogenéticas, sendo capazes de produzir ovos que darão origem a machos e fêmeas. Ainda são desconhecidos os mecanismos que determinam a diferenciação sexual nos ovos das fêmeas parternogenéticas. Fêmeas de S. stercoralis de vida livre. Você deve estar se perguntando: SE AS FÊMEAS PODEM SE REPRODUZIR POR PARTENOGÊNESE, QUAL O PAPEL DOS MACHOS? RESPOSTA OÓCITOS Também conhecidos como ovócitos, são células germinativas femininas ou células sexuais produzidas nos ovários. Os vermes adultos têm corpo fusiforme, sendo os machos menores que as fêmeas e com a porção terminal curvada ventralmente. O macho apresenta ainda espículas na extremidade posterior que auxiliam na cópula. javascript:void(0) OS MECANISMOS DE INFECÇÃO DO S. STERCORALIS Como observamos anteriormente, o homem pode se infectar a partir das larvas filarioides oriundas do ciclo de vida livre e do ciclo parasitário, na heteroinfecção. Além disso, a contaminação pode ser a partir de dois tipos de autoinfecção, clique para conhecer cada um: AUTOINFECÇÃO EXTERNA Indivíduos já parasitados eliminam larvas rabditoides que se transformam em filarioides ainda na região anal ou perianal, e essas larvas conseguem penetrar na mucosa, ganhar a corrente sanguínea, iniciando o ciclo parasitário. AUTOINFECÇÃO INTERNA Algumas larvas rabditoides L2 podem se transformar em filarioides ainda na luz intestinal, invadindo a mucosa e ganhando a corrente sanguínea, iniciando, assim, o ciclo parasitário. ATENÇÃO Os mecanismos de autoinfecção parecem ser importantes em indivíduos crônicos e poliparasitados, pois assegura a população de fêmeas adultas no intestino. SINAIS E SINTOMAS DA ESTRONGILOIDÍASE Embora a maioria dos casos evolua sem sintomas e complicações, uma parcela dos indivíduos pode apresentar sintomas como irritação cutânea (pela penetração das larvas na pele), edema pulmonar localizado, pneumonia, desconforto intestinal, diarreia e dor abdominal. ATENÇÃO Algumas condições especiais, como imunossupressão (adquirida ou induzida), coinfecção com HTLV ou HIV, desnutrição e alcoolismo, podem gerar predisposição à infecção disseminada e piora do quadro. A maioria dos indivíduos que necessita de suporte médico ou hospitalar para tratamento da estrongiloidíase é poliparasitada, mostrando que o descontrole da quantidade de vermes no intestino é fator de risco. LARVA MIGRANS Várias espécies de nematoides que parasitam o homem podem não concluir seu ciclo no corpo humano, ficando localizadas em sítios anatômicos atípicos. Nesses casos, o parasitismo é acidental, mas o homem acaba sendo um hospedeiro terminal, uma vez que os parasitas não chegam à forma adulta. Pouco se sabe sobre os mecanismos relacionados a essa descontinuação do ciclo do parasito, talvez isso ocorra por influência do sistema imune, ou por alguma deficiência do próprio parasito. LARVA MIGRANS CUTÂNEA As espécies que penetram na pele e não conseguem evoluir ou migrar para o órgão final, geralmente o intestino, podem ficar presas na pele, causando o quadro conhecido por larva migrans cutânea ou dermatite serpiginosa. LARVA MIGRANS VISCERAL São aqueles que conseguem penetrar eficientemente a pele e ganham a correntesanguínea, mas ficam presos nos pulmões ou fígado, resultando na larva migrans visceral. Larva migrans cutânea É causada predominantemente pela espécie Ancylostoma braziliense , um parasita de felinos e caninos, mas também pelas espécies Gnathostoma spinigerum , Ancylostoma duodenale , Necator americanus e Strongyloides stercoralis . Lesão de larva migrans cutânea. Depois de penetrarem a pele, as larvas filarioides locomovem-se por túneis gerados pela destruição da derme e epiderme. A lesão é caracterizada pela presença de infiltrado inflamatório e eosinófilos, podendo ser acompanhada de infecção bacteriana secundária. O caminho percorrido pelas larvas é visível na superfície da pele, gerando lesões parecidas com cordões, causando coceira intensa (prurido) no local. A transmissão acontece em locais onde as pessoas andam descalças, têm contato íntimo com o solo e onde há cães e gatos parasitados com A. braziliense . Parques públicos com areia para as crianças brincarem também podem ser locais de contaminação, principalmente se houver gatos que frequentem o mesmo ambiente. Rocha et al . (2019), ao realizarem um estudo coletando amostras de solos de parques públicos da cidade de Belém, no Pará, constatou que 80% das amostras foram positivas para a presença de formas parasitárias, sendo as larvas filarioides de ancilostomídeos as mais predominantes. Areia de parque com presença de animais. A presença de gatos e cães em parques pode estar associada à contaminação do solo por parasitas que causam a larva migrans cutânea. A areia da praia também pode ser um local de contaminação, exceto pelas porções que são completamente banhadas pela água do mar, pois a salinidade é nociva para as larvas. Larva migrans visceral A espécie Toxocara canis é a mais comumente associada ao quadro visceral, mas Ancylostoma caninum e Toxocara catti também podem provocar a infecção, mesmo que em menor frequência. 1 Ovos embrionados de Toxocara canis . As fêmeas adultas de T. canis localizadas no intestino delgado dos cães liberam os ovos, que são eliminados nas fezes do animal. Os humanos são contaminados a partir da ingestão de alimentos e água contaminados com os ovos do parasito. Crianças podem se infectar após brincarem no solo contaminado e levarem a mão contaminada diretamente à boca. 2 3 Larva migrans visceral no olho esquerdo. Depois de eclodirem no intestino, as larvas penetram na mucosa intestinal e ganham a corrente sanguínea, migrando para vários locais, como fígado, pulmão, cérebro, músculos e olhos. É importante destacar que os parasitas tipicamente humanos, como Ascaris lumbricoides e Strongyloides stercoralis — mesmo nos casos em que estão localizados nos órgãos, como fígado e pulmão, ficando ali por longo período —, não desenvolvem o quadro de larva migrans visceral, já que conseguem atingir a forma adulta no organismo. 4 5 Os dados de prevalência da larva migrans visceral são muito fragmentados e subnotificados, principalmente pela dificuldade de diagnóstico preciso. É uma doença que ocorre em países da Europa e nos Estados Unidos, não estando necessariamente associada a baixos níveis socioeconômicos da população. ANGIOSTRONGYLUS COSTARICENSIS E ANGIOESTRONGILÍASE EPIDEMIOLOGIA DA ANGIOESTRONGILÍASE Talvez você nunca tenha ouvido falar na angioestrongilíase, principalmente pelo fato de ela ser uma doença negligenciada e de baixa incidência. Essa parasitose é causada pela espécie Angiostrongylys costaricensis , caracterizada pela formação de um granuloma abdominal com a presença de intenso um infiltrado eosinofílico. O primeiro caso dessa doença foi descrito em uma criança que apresentava uma massa palpável na região do abdômen, o que indicava um suposto tumor intestinal. Entretanto, os exames histológicos revelaram a existência de muitos eosinófilos e uma estrutura com morfologia semelhante à de um helminto. Desde então, a angiostrongilíase abdominal tem sido relatada em diversos países da América Latina, em especial na América Central, com casos fatais associados à perfuração da parede abdominal, que pode agravar o quadro pelo desenvolvimento de peritonite e sepse (EUA, 2018). No Brasil, foram notificados cerca de 90 casos até 2013, o que caracteriza a doença como emergente no país. PERITONITE E SEPSE Peritonite - Infecção do peritônio (membrana que reveste as paredes da cavidade abdominal e recobre órgãos abdominais e pélvicos). Sepse - O extravasamento do conteúdo intestinal pode levar a uma reação inflamatória generalizada, conhecida como sepse. CICLO BIOLÓGICO DO A. COSTARICENSIS Rato. A forma adulta de A. costaricensis tem como hospedeiros definitivos os roedores, como ratos e camundongos que vivem nas cidades. As fêmeas adultas habitam as veias mesentéricas (do intestino) desses animais e colocam os ovos nessa região. Os ovos eclodem dentro dos capilares mesentéricos, liberando larvas L1 que penetram rapidamente na parede vascular até chegarem à luz intestinal na altura do íleo. As larvas L1 que conseguem migrar até a luz intestinal são finalmente eliminadas nas fezes. javascript:void(0) No ambiente, as larvas sofrem duas ecdises e se transformam em larvas L3, que podem infectar um hospedeiro (desta vez intermediário), principalmente espécies de moluscos gastrópodes, como lesmas e caramujos. SAIBA MAIS No Brasil, o caramujo africano da espécie Achatina fulica , também conhecido como caramujo gigante africano, é um importante hospedeiro intermediário. Esse caramujo é uma espécie invasora que se adaptou muito bem ao ambiente brasileiro e hoje é encontrada em todas as regiões, servindo como vetores da doença. Achatina fulica . Quando roedores se alimentam de gastrópodes contaminados, as larvas L3 migram para os vasos linfáticos e, depois de 24 horas, migram para os vasos mesentéricos, onde se tornam sexualmente ativas. A infecção humana pode ocorrer pela ingestão acidental e direta de gastrópodes contaminados, visto que em algumas regiões esses moluscos são considerados iguarias gastronômicas, ou também pela ingestão de alimentos ou água contaminados com as larvas L1. No corpo humano, as larvas ingeridas migram para a parede do intestino, e a presença de ovos e larvas desencadeia forte reação inflamatória granulomatosa com intensa presença de eosinófilos. A resposta inflamatória exacerbada pode obstruir vasos, gerando necrose tecidual, além da eventual perfuração intestinal, agravando o quadro. Ciclo biológico do Angiostrongylus costaricensis . Não se sabe ao certo qual o percentual de indivíduos parasitados que permanecem assintomáticos, ou qual o período de incubação, mas acredita-se que fatores do próprio hospedeiro, como a condição imunológica, possam ser decisivos para o prognóstico favorável. Indivíduos que desenvolveram a estrongiloidíase abdominal podem apresentar episódios recorrentes, visto que o tratamento com anti- helmínticos pode agravar o quadro. Casos graves geralmente são tratados cirurgicamente com a retirada dos vermes da parede intestinal. As larvas e os ovos não são eliminados nas fezes, então o diagnóstico por meio do exame parasitológico de fezes é ineficaz. A angioestrongilíase é frequentemente confundida com apendicite e quadros obstrutivos inflamatórios agudos do intestino, resultando em prevalência subestimada da doença. A intervenção cirúrgica é o modo mais recomendado para se chegar ao diagnóstico final, pois é possível visualizar facilmente os vermes no local da lesão. SAIBA MAIS Outra espécie do gênero Angiostrongylus também pode provocar doença em humanos. A meningite eosinofílica é um tipo de doença emergente desencadeada pela infiltração massiva de eosinófilos nas meninges. O estímulo inicial é dado pela presença de larvas no sistema nervoso central, principalmente nas meninges, mas também está presente em outras regiões, podendo causar quadros de encefalite e meningoencefalite. Angiostrongylus cantonensis tem algumasespécies de gastrópodes como hospedeiros intermediários e roedores como hospedeiros definitivos. Assim como na infecção por A. costaricensis , o homem sempre é hospedeiro acidental e pode se infectar pela ingestão das larvas a partir de alimentos e água, ou mesmo pelo consumo dos gastrópodes. Existem três mudas de larvas (L1-L2 e L3). Na figura a seguir, vemos as larvas L2 e L3. Angiostrongylus cantonensis isolado de A. fulica . Em A e B larvas L2; C e D larvas L3; em E mostra a extremindade anterior, destacando o ânus e a cauda com ponta pontiaguda. MENINGITE EOSINOFÍLICA O especialista Helver Gonçalves Dias apresenta o relato de caso sobre meningite eosinofílica. LAGOCHILASCARIS MINOR E LAGOQUILASCARÍASE EPIDEMIOLOGIA DA LAGOQUILASCARÍASE A lagoquilascaríase é uma doença tropical negligenciada, pouco conhecida e de baixa incidência provocada pelo parasito Lagochilascaris minor . O primeiro caso foi relatado no início do século passado na América Central, e, desde então, outros casos têm sido notificados nos países da América Latina. No Brasil, os relatos são raros e pontuais, descrevendo casos em indivíduos que habitam zonas rurais ou áreas de mata e que têm o hábito de consumir carne de caça. Nas regiões Norte e Nordeste, concentram-se quase todos os casos registrados, e o estado do Pará lidera com o maior número de notificações. Acredita-se que felinos silvestres sejam os hospedeiros intermediários e a eliminação de larvas nas fezes contamine a água e os alimentos que são ingeridos pelos humanos, sendo essa uma das possíveis vias de transmissão. O consumo de carnes de caça cruas ou malcozidas contendo nódulos com larvas é também uma das rotas de transmissão. A LAGOQUILASCARÍASE Análises laboratoriais apontam que gatos alimentados com ratos infectados com L. minor apresentam, depois de cerca de duas semanas, nódulos em diferentes partes do corpo, como esôfago, estômago e musculatura esquelética. Em humanos, acredita-se que, após a ingestão, as larvas eclodam dos nódulos no estômago e migrem para o esôfago, onde iniciam um mecanismo de autoinfecção. Assim como nos gatos, as larvas também podem migrar para outros locais, principalmente a região cervical (perto do pescoço), ouvido e orofaringe, desencadeando uma forte reação inflamatória, muitas vezes com formação de um abscesso com secreção purulenta. Embora raros, casos atípicos e graves podem atingir o cérebro, os olhos e os pulmões. O diagnóstico é dificultado pela raridade dos casos e pelo pouco conhecimento da doença, chegando a alguns casos de nódulos cervicais serem confundidos com tumores de pescoço. No entanto, o profissional que trabalha em áreas de conhecida transmissão ativa, sobretudo no Norte e Nordeste, deve realizar o diagnóstico diferencial e perguntar na anamnese se o paciente faz consumo de carnes de caça. A partir da suspeita, o profissional pode solicitar o diagnóstico laboratorial para visualização dos ovos ou das larvas na secreção presente na lesão. ANAMNESE Entrevista realizada pelo profissional de saúde com o paciente, com a intenção de ser um ponto inicial no diagnóstico de uma doença. VERIFICANDO O APRENDIZADO MÓDULO 3 Descrever a epidemiologia, as principais características morfológicas e as parasitoses causadas pelos gêneros Wuchereria/Oncocerca e outros nematoides WUCHERERIA BANCROFTI E FILARIOSE LINFÁTICA javascript:void(0) EPIDEMIOLOGIA DA FILARIOSE LINFÁTICA Várias espécies de filárias podem provocar doenças em humanos com manifestações clínicas muito diferentes. A filariose linfática talvez seja a doença filarioide mais conhecida, principalmente por um quadro clínico específico e característico, a elefantíase, que é bem conhecida pela condição incapacitante que proporciona ao doente. A elefantíase é uma das formas de apresentação clínica da filariose linfática. A filária Wuchereria bancrofti é a principal causadora da filariose linfática na África e nas Américas, enquanto a Brugia malayi e a Brugia timori são encontradas na Ásia e podem provocar o mesmo quadro. Nas Américas, também é possível encontrar a filária Mansonella ozzardi , no entanto ainda não foi estabelecida relação causal com alguma doença. Muitos índios da região Amazônica são parasitados pela M. ozzardi , mas os poucos estudos desenvolvidos não foram suficientes para esclarecer o seu possível papel patogênico, o que denuncia certa negligência com relação a essas parasitoses. No século passado, as regiões Norte e Nordeste do Brasil eram áreas endêmicas de transmissão ativa e com número elevado de novos casos anualmente. ÁREAS ENDÊMICAS Área endêmica é região geográfica em que determinada doença ocorre por um período de tempo, curto ou longo. javascript:void(0) Como veremos a seguir, os mosquitos do gênero Culex são os principais vetores e infestam os centros urbanos e as áreas rurais, contribuindo enormemente para a transmissão da doença. Nas últimas décadas, projetos do Brasil em parceria a OMS visaram ao estabelecimento de programas de eliminação da filariose linfática baseados na interrupção da transmissão. O Brasil fez muito progresso no combate ao fator de transmissão da doença. Atualmente existe apenas um foco ativo de transmissão, localizado no estado de Pernambuco. No mundo todo, estima-se que 115 milhões de pessoas estejam infectadas, sendo 40 milhões incapacitadas ou desfiguradas pela doença (MICHAEL; BUNDY; GRENFELL, 1996). MORFOLOGIA DA W. BANCROFTI As filárias são vermes de corpo filiforme, ou seja, alongado e delgado, de tamanho bem maior que a maioria dos helmintos não intestinais. Além disso, elas habitam preferencialmente os vasos e gânglios linfáticos, resultando na obstrução e interrupção da circulação da linfa. Os machos são menores em relação às fêmeas, medindo em torno de 4 a 5 cm. Além disso, possuem a porção terminal bastante enrolada ventralmente. Já as fêmeas podem chegar a 10 cm de comprimento. Elas armazenam os ovos embrionados no útero e, aos poucos, vão liberando estes, até que cheguem à vagina, onde já serão larvas pequenas e alongadas denominadas de microfilárias. As microfilárias são envoltas em uma membrana fina que não se rompe, mas acaba distendendo-se e cobrindo todo o corpo da microfilária, criando uma espécie de bainha. As fêmeas podem liberar milhares de microfilárias por dia, que depois seguem para a circulação sanguínea e ficam alocadas nos vasos dos pulmões. SAIBA MAIS Quando observadas ao microscópio, as microfilárias são muito ativas e movimentam-se com intensidade. Por motivos ainda desconhecidos, as microfilárias não participam da circulação periférica durante o dia, acumulando-se somente nos pulmões. Ao anoitecer, elas saem pela corrente sanguínea e passam a circular pelos vasos periféricos, podendo ser detectadas a partir de uma simples gota de sangue vista ao microscópio. COMENTÁRIO Ainda não são conhecidos os mecanismos associados a essa periodicidade, mas acredita-se que os hormônios tenham papel importante na regulação. Em regiões endêmicas, os profissionais da saúde costumam ir às casas dos pacientes no período noturno para detectar a microfilaremia pelo exame de gota espessa. Amostra de sangue contaminado com microfilárias. MICROFILAREMIA Presença de microfilárias no sangue. CICLO BIOLÓGICO DA W. BANCROFTI javascript:void(0) 1 A transmissão do parasito ocorre quando um mosquito infectado vai fazer o repasto sanguíneo (se alimentar do sangue do hospedeiro) e acaba liberando larvas L3 nos vasos linfáticos do hospedeiro. Não se sabe, no entanto, quantas mudas ou quais os processos que as larvas L3 sofrem até chegar ao estágio de maturação sexual que possibilite a eliminação das microfilárias. Como vimos, em indivíduos parasitados, a microfilaremia ocorre durante à noite, e é exatamente nesse período que os vetores também podem se contaminar sugando o sangue repleto de microfilárias, iniciando o ciclo no mosquito. 2 3 Mosquito Culex quinquefasciatusdurante repasto sanguíneo na pele humana. No Brasil, Culex quinquefasciatus , conhecido popularmente como pernilongo, tem atividade noturna e é a espécie de vetor associada à transmissão. No corpo do mosquito, as larvas ingeridas junto com o sangue penetram a parede do estômago e nadam pela hemolinfa (o mosquito não possui vasos sanguíneos) até o tórax do inseto. Nos músculos torácicos, as microfilárias transformam-se em larvas L2 e, em cerca de duas semanas, chegam ao estágio L3, já na forma filarioide infectante. javascript:void(0) 4 5 Por fim, as larvas L3 migram para a região cefálica do mosquito até o momento adequado para o mosquito realizar o repasto sanguíneo em um hospedeiro. Acredita-se que as larvas sejam estimuladas pela temperatura corpórea do hospedeiro definitivo e comecem a migrar ativamente em direção ao aparelho bucal do mosquito. HEMOLINFA Fluido corporal circulante do corpo dos animais invertebrados. É importante destacar que as larvas não conseguem penetrar ativamente pela pele, então, o mecanismo proposto é de que elas entrem pela pequena abertura deixada pelo mosquito no momento do repasto. Ciclo biológico do Wuchereria bancrofti . SINAIS E SINTOMAS DA W. BANCROFTI Apesar de a filariose ser uma doença antiga e incapacitar certa parcela dos indivíduos infectados, pouco se sabe sobre os mecanismos patológicos envolvidos na resposta aos parasitos. Os estudos indicam que a regulação imune do hospedeiro tem papel central no desenvolvimento de formas graves da doença. Cerca de 1% dos indivíduos parasitados desenvolve uma forma grave de desregulação imune que afeta os pulmões denominada de pneumopatia eosinofilia tropical. Nessa condição, o estímulo provocado pelos antígenos das microfilárias nos vasos pulmonares resulta em forte produção de anticorpos, principalmente da classe IgE, e migração massiva de eosinófilos, que pode resultar ainda em fibrose nos casos crônicos. Por outro lado, em indivíduos parasitados assintomáticos, os anticorpos IgE parecem ter um papel importante no controle da microfilaremia. Esses dados indicam que a diferença entre o dano tecidual (doença em si) e o controle da parasitemia está relacionada diretamente à regulação imune. Como vimos, o acúmulo de larvas nos vasos linfáticos provoca intenso processo inflamatório, chamado de linfangite, com consequente obstrução dos vasos, o que impede a reabsorção de linfa, que se acumula nos espaços intercelulares, causando o edema. Além disso, no local da lesão, há acentuada migração de eosinófilos, macrófagos, linfócitos e mastócitos, que contribuem para o espessamento do endotélio linfático e a interrupção do fluxo. A resposta inflamatória consegue imobilizar e matar as larvas, mas a quantidade de antígenos é muito grande e acaba por desencadear a formação de granulomas necrosantes. A linfangite pode ocorrer em qualquer vaso linfático, mas é encontrada com maior frequência nos membros inferiores, na região pélvica e no abdômen. A obstrução do vaso é seguida de um acúmulo gradual de linfa que provoca o edema linfático. Em alguns casos, a linfa acumulada pode derramar-se para outros espaços, como a pleura e a região genital masculina. As infecções bacterianas secundárias também representam um grande problema para os pacientes, pois a perturbação ou total interrupção do fluxo linfático desencadeia o extravasamento de parte da linfa para os tecidos, propiciando um ambiente ideal para o crescimento bacteriano. Aos poucos, o tecido cronicamente inflamado torna-se enrijecido pela formação de fibrose, e o membro tem a sua função comprometida. A todo esse conjunto de manifestações, incluindo a obstrução linfática, o edema linfático, a inflamação crônica, a formação de tecido fibrótico, e infecção bacteriana secundária, dá-se o nome de elefantíase. ONCHOCERCA VOLVULUS E ONCOCERCÍASE EPIDEMIOLOGIA DA ONCOCERCÍASE A oncocercíase, também conhecida como oncocercose, é uma doença endêmica negligenciada em diversos países da África e América Latina. Um dos quadros clínicos mais característicos é a cegueira e, por esse motivo, também é denominada “cegueira dos rios” em algumas regiões. Atualmente, a África subsaariana constitui o principal foco de transmissão da doença no mundo. Na América do Sul, os dois últimos focos continuam sendo áreas indígenas na fronteira entre Venezuela e Brasil, principalmente na reserva Yanomami. Muitos esforços têm sido feitos nos últimos anos a fim de eliminar a doença na região, mas a crise econômica e migratória na Venezuela prejudicou as atividades do programa de eliminação (CRUMP; MOREL; OMURA, 2012). Os índios Yanomami e Makiritare habitam a região de fronteira há séculos e têm por costume migrar de tempos em tempos para áreas diferentes à procura de novos recursos, como os nômades. Esse costume é um aspecto cultural que deve ser respeitado, mas que dificulta o controle da doença, pois necessita da coordenação dos serviços de saúde brasileiro e venezuelano na vigilância e no tratamento de novos casos. Essa situação é interessante para pensarmos na dimensão social, cultural e política das doenças negligenciadas. Assim como a filariose linfática, a oncocercíase é transmitida pela picada de insetos, chamados de simulídeos (Família Simuliidae). Popularmente, o nome pode variar de acordo com a região, mas no Norte do Brasil as pessoas costumam chamá-lo de borrachudo. Existem várias espécies de simulídeos que podem servir de hospedeiro para o verme, mas somente aquelas espécies com certo grau de antropofilia é que efetivamente podem participar da transmissão. ANTROPOFILIA Característica de uma espécie com tendência a se alimentar de sangue humano. No Norte, quatro espécies estão envolvidas na transmissão: Simulium guianense S. incrustatum S. oyapockense S. roraimense Os simulídeos são insetos diferentes dos mosquitos, pois assemelham-se mais a pequenas moscas. javascript:void(0) Os simulídeos são insetos que se assemelham às moscas. O homem é o único hospedeiro vertebrado de Onchocerca volvulus , não se tem o conhecimento de animais que também sejam parasitados. Vários fatores estão associados ao risco de transmissão, como presença de criadouros dos simulídeos e presença de indivíduos parasitados. CICLO BIOLÓGICO DA O. VOLVULUS As fêmeas de O. volvulus podem medir de 30 a 80 cm de comprimento e a extremidade final é mais delgada. Os machos são bem menores, chegam a no máximo 5 cm, e têm a porção terminal enrolada, permitindo a fácil distinção dos sexos. Os vermes adultos podem viver por muitos anos, em alguns casos até 15 anos, reproduzindo e liberando microfilárias em processos cíclicos. As microfilárias, por outro lado, morrem depois de alguns meses, já que não se desenvolvem no corpo humano. 1 A fêmea fecundada pode liberar muitas microfilárias que migram pelo tecido subcutâneo até os vasos linfáticos, indo também para outros tecidos do corpo. Diferentemente das microfilárias de W. bancrofti , as microfilárias de O. volvulus não apresentam a bainha que recobre a larva e não fazem microfilaremia sanguínea, sendo possível durante todo o dia localizá-las nos vasos linfáticos e na pele. As microfilárias presentes no tecido subcutâneo são sugadas pelo inseto durante o repasto sanguíneo e iniciam o processo de desenvolvimento e ecdises dentro do vetor, até chegarem à forma infectante L3. A larva L3, por sua vez, em processo semelhante ao observado pela W. bancrofti , migra até o aparelho bucal do simulídeo e espera a hora em que o vetor vai fazer o repasto. 2 3 Nesse momento, ao sentir a temperatura corpórea do hospedeiro mais elevada, a larva atravessa a cutícula labial do vetor e migra para a pele do indivíduo, entrando no tecido subcutâneo sem dificuldades. No corpo humano, a larva L3 sofre uma ecdise e se transforma em larva L4, que, após algumas semanas, chega finalmente à forma adulta com maturidade sexual. Os vermes adultos localizam-se preferencialmente no tecido subcutâneo,formando estruturas enoveladas represadas por tecido fibroso produzido pelo organismo. A quantidade de larvas pode variar, mas geralmente uma fêmea é acompanhada de um ou mais machos. 4 Ciclo biológico de Onchocerca volvulus . SINAIS E SINTOMAS DA ONCOCERCÍASE Os novelos de vermes e a fibrose tecidual formam nódulos chamados de oncocercomas, que são palpáveis e visíveis a olho nu. Não se sabe ao certo o que determina a distribuição das larvas, visto que em alguns casos elas ficam no tecido subcutâneo sem formar os novelos, migrando para outras partes do corpo. Oncocercoma no tórax. A formação dos nódulos leva à suspeita clínica, pois são bem característicos. A presença de microfilárias no tecido subcutâneo também pode desencadear reação inflamatória local, seguida de intenso prurido, vermelhidão, edema e, em alguns casos, dor local. Em algumas regiões, são mais frequentes as alterações dermatológicas relacionadas à despigmentação da pele, provocando grandes lesões esbranquiçadas e espessamento da camada mais superficial da pele, resultando na hiperqueratose. Ambos os quadros provocam alterações estéticas e funcionais importantes e diminuem a qualidade de vida do doente. O acometimento ocular é visto em alguns casos no continente americano e em quase todos os casos nos países africanos. Como vimos no início, a oncocercíase também é chamada de “cegueira dos rios” exatamente pelo comprometimento ocular gerado tanto pela presença das microfilárias como pela ceratite puntiforme, um processo inflamatório na córnea que resulta em lesões no formato de pequenos pontos que podem ir se juntando ao longo dos anos, formando grandes placas esbranquiçadas. Dependendo do estágio da ceratite, o indivíduo pode perder completamente a visão. MANSONELÍASE E OUTRAS FILARÍASES EPIDEMIOLOGIA DA MANSONELÍASE Parasito Mansonella ozzardi corado com Giemsa e visto ao microscópio de luz. A mansonelíase é uma infecção pouco estudada que ocorre nos países da América do Sul e da América Central, e o agente etiológico é o nematelminto Mansonella ozzardi . Em regiões endêmicas de oncocercíase, o parasitismo por M. ozzardi pode gerar confusão no diagnóstico, pois as microfilárias são muito parecidas. Por outro lado, a diferenciação em relação à W. bancrofti é facilitada pelo fato de: M. ozzardi apresentar microfilaremia durante o dia e a noite. W. bancrofti apresentar microfilaremia noturna apenas. No Brasil, a transmissão ocorre pela picada de simulídeos, principalmente pela espécie Simulium amazonicum , parasitados com a larva infectante L3. Pouco se sabe sobre o desenvolvimento biológico do parasito no corpo do vetor ou do ser humano. A doença é limitada a áreas de mata e floresta e parece ser prevalente em comunidades indígenas e populações ribeirinhas. SINAIS E SINTOMAS DA MANSONELÍASE A real patogenicidade de M. ozzardi é motivo de controvérsia, visto que ainda não foi estabelecida uma relação causal entre o parasitismo e o surgimento de um quadro infeccioso específico. O achado hematológico mais evidente é a eosinofilia, seguido de algumas manifestações clínicas inespecíficas, como febre, cefaleia e placas avermelhadas na pele. Outras espécies do gênero Mansonella podem infectar humanos, como M. perstans e M. streptocerca , e são transmitidas por vetores. Apesar da aparente microfilaremia persistente que desenvolvem no hospedeiro, ainda há muita discussão sobre o real papel patogênico dessas filárias. É importante ressaltar que essas espécies estão muito presentes na África. OUTRAS FILARIOSES No Brasil, existe ainda o parasito Dirofilaria immitis , agente causador da dirofilariose. A doença é importante em cães, pois as larvas são encontradas nas artérias pulmonares e nos compartimentos do coração, sendo, por essa razão, também conhecida como “verme do coração”. Microfilária de Dirofilaria immitis no linfonodo de um cão. Ainda em cães, os sintomas incluem perda de peso, tosse crônica, síncope, endocardite e, em casos graves, insuficiência cardíaca, ascite e aumento do tamanho do fígado e baço. Apesar de pouco documentada, a infecção zoonótica em humanos também pode ocorrer, constituindo dois quadros clínicos: dirofilariose pulmonar e dirofilariose subcutânea. Ambos os quadros são benignos e usualmente apresentam-se como nódulos inflamatórios no pulmão ou no tecido subcutâneo, que são acompanhados da formação de tecido fibroso. Com certa frequência, o nódulo pulmonar é confundido com tumores e os pacientes chegam a ser submetidos à cirurgia para extração da massa benigna. Os vetores do gênero Culex têm sido implicados na transmissão, mas outros mosquitos hematófagos já foram encontrados naturalmente infectados, como Aedes , Mansonia e Anopheles . javascript:void(0) javascript:void(0) SÍNCOPE E ENDOCARDITE Síncope - Perda súbita e transitória da consciência, seguida de desmaio. Endocardite - Inflamação na membrana que reveste a parede interna do coração. ASCITE Acúmulo de líquido anormal no abdômen. TRICHINELLA SPIRALIS E TRIQUINELOSE EPIDEMIOLOGIA DA TRIQUINELOSE A triquenelose é uma zoonose emergente em muitas regiões da Europa e da América do Norte, mas também há registros esporádicos em alguns países da América Latina. No Brasil, a doença nunca foi identificada em humanos, mesmo com a confirmação da infecção em porcos selvagens e javalis, que são um dos hospedeiros definitivos, nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso. Nas Américas, a espécie Trichinella spiralis é a mais frequentemente encontrada infectando animais e o homem. Na Europa, na África e no Canadá circulam as espécies T. nelsoni e T. nativa , ambas com potencial zoonótico. MORFOLOGIA E MECANISMOS DE INFECÇÃO TRICHINELLA SPIRALIS Diferentemente das outras filárias que estudamos até agora, os vermes adultos de Thichinella são muito pequenos, medindo apenas poucos milímetros e de corpo delgado. A transmissão à humanos ocorre pela ingestão de carnes cruas ou malcozidas de animais de caça, como javalis, que contenham nódulos com larvas. Javali. CICLO BIOLÓGICO DA T. SPIRALIS 1 Os vermes adultos ficam aderidos à mucosa do intestino delgado, e as fêmeas podem eliminar milhares de larvas na luz intestinal. Uma parcela dessas larvas é eliminada nas fezes, mas o restante consegue penetrar através da mucosa, alcançando os capilares sanguíneos ou linfáticos, de onde migram para vários tecidos, em especial para os pulmões, o coração, o fígado e o tecido muscular esquelético. 2 3 Corte histológico de tecido muscular evidenciando os múltiplos nódulos com o parasito Thichinella spiralis . Somente as larvas que alcançam os músculos esqueléticos é que conseguem evoluir, transformando-se em larvas adultas que acabam sendo envolvidas por tecido fibroso produzido pelo hospedeiro, formando nódulos. As larvas podem permanecer latentes nesses nódulos por vários anos, sem necessariamente provocarem doença. 4 SINAIS E SINTOMAS DA TRIQUINELOSE A triquinelose pode manifestar-se por vários sintomas, geralmente inespecíficos, que podem gerar dificuldade e confusão no diagnóstico. Durante a fase de invasão da mucosa intestinal, os pacientes podem apresentar náuseas, vômitos, diarreia e inflamação da mucosa lesionada. Na fase de migração sanguínea e linfática em direção aos tecidos, as larvas que acabam morrendo podem desencadear processos inflamatórios que levam ao dano endotelial e distúrbios circulatórios localizados, além da acentuada eosinofilia. CORAÇÃO Em menor frequência, a migração das larvas pode terminar no coração, levando a processos inflamatórios cardíacos graves. SISTEMA NERVOSO CENTRAL Os casos de migração para o sistema nervoso central resultam em encefalites e meningites com prognóstico não favorável. MÚSCULOS E OUTROS TECIDOS Nos músculos e em alguns outros tecidos, os vermes adultos aprisionados em nódulos ou cistos param de reproduzir e a parasitemia não é mais observada. TRATAMENTOE DIAGNÓSTICOS DAS INFECÇÕES POR HELMINTOS O especialista Helver Gonçalves Dias explica o tratamento e o diagnóstico das parasitoses por helmintos. VERIFICANDO O APRENDIZADO CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo deste tema, aprendemos os aspectos epidemiológicos de distribuição e dinâmica de transmissão das doenças provocadas por diversos gêneros de nematelmintos, além dos variados tipos de ciclo biológico desses parasitos. Também vimos os principais processos patológicos e quadros clínicos apresentados pelos indivíduos parasitados. Assim, a partir dos assuntos abordados, conseguimos entender com maior clareza os processos biológicos e sociais envolvidos na transmissão dos helmintos e a ocorrência dessas doenças que ainda são muito prevalentes. Compreender esses aspectos auxilia na adoção de medidas de vigilância, laboratorial ou sindrômica, para nortear a criação de políticas públicas de saúde voltadas para o controle das enteroparasitoses no Brasil. PODCAST Agora, o especialista Helver Gonçalves Dias encerra o tema falando sobre o impacto das principais doenças parasitárias negligenciadas no Brasil e no mundo. AVALIAÇÃO DO TEMA: REFERÊNCIAS ALLEN, J. E. et al . Of Mice, Castle, and HUmans: The Immunology and Treatment of River Blindness. Plos Negleted tropical diseases. v.2., n.4, p. 1-9, 2008. BRASIL. Secretaria de Vigilância em Saúde. Ministério da Saúde. Brasil. Guia de Vigilância Epidemiológica. Brasília – DF. 2009. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Guia Prático para o Controle das Geo-helmintíases. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. BRASIL. Ministério da Saúde. Plano nacional de vigilância e controle das enteroparasitoses, 2005. BURKHART; BURKHART. Assessment of frequency, transmission, and genitourinary complications of enterobiasis (pinworms). Int J Dermatol, 2005. CRUMP, A.; MOREL, C. M.; OMURA, S. The onchocerciasis chronicle: from the beginning to the end? Trends Parasitol, 2012. EUA. Centers for disease control and prevention CDC. Epidemiology & Risk Factors: Angiostrongylus cantonensis, 2018. GUERINO, L. E. et al . Prevalence and distribution of Angiostrongylus cantonensis (Nematoda, Angiostrongylidae) in Achatina fulica (Mollusca, Gastropoda) in Baixada Santista, São Paulo, Brazil. Rev Soc Bras Med Trop. 50(1):92-98, 2017. LIMA, M. A. R. S. et al . Perfil epidemiológico de óbitos por enterobiose no Brasil. 2018. Consultado na internet em: abr. 2021. MICHAEL, E.; BUNDY, D. A.; GRENFELL, B. T. Re-assessing the global prevalence and distribution of lymphatic filariasis. 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O vídeo Filariose, do canal Fiocruz, levanta discussões sobre alguns aspectos da filariose no estado de Pernambuco, último foco da doença no Brasil. O vídeo Geo-helmintíase, do canal Fiocruz, aborda tópicos importantes sobre a transmissão das geo-helmintíases no Brasil. Para conhecer mais sobre os testes parasitológicos leia a Norma Brasileira: “Laboratórios clínicos – Exame parasitológico de fezes”. CONTEUDISTA Helver Gonçalves Dias CURRÍCULO LATTES javascript:void(0);