Prévia do material em texto
1 ATIVIDADE INDIVIDUAL Matriz de atividade individual Disciplina: Direito Ambiental Módulo: 4 Aluno: Luis Fernando Macedo Iglesias Turma: PGO_DABPOSEAD-36_13092021_2 Tarefa: Peça de defesa Desenvolva até três argumentos que possam ser utilizados na defesa do shopping. Introdução O presente trabalho entrará em um cenário hipotético onde eu representarei a administradora de um Shopping Center que sofreu um Auto de Infração e uma multa de 10 milhões de reais por poluição sonora. Antes de mais nada, é importante repassar os fatos: na semana em que o gerador do Shopping Center apresentou defeito de fábrica e estava gerando barulho acima do esperado, uma denúncia de poluição sonora foi feita à Secretaria de Meio Ambiente do Estado B, que foi fazer a fiscalização. Os dois fiscais enviados alegaram que o Shopping Center estaria emitindo ruídos acima dos limites definidos na licença ambiental de operação, sem a utilização qualquer equipamento ou instrumento técnico. Eles apenas disseram estar ouvindo ruídos acima dos limites definidos na Licença de Operação. Como consequência, a Secretaria de Meio Ambiente do Estado B lavrou o Auto de Infração nº 456 e aplicou multa de 10 milhões de reais. O Auto de Infração não detalhou as circunstâncias consideradas para o cálculo da multa nem motivou o valor definido. Vale ressaltar que o Shopping Center já havia feito a solicitação à fabricante do equipamento para fazer a sua substituição e que os ruídos emitidos, apesar de acima dos limites definidos na licença ambiental de operação, ainda estavam no limite legal. Nesse sentido, a argumentação que segue tem por objetivo defender o Shopping Center dessa autuação, uma vez que existe base sólida e irrefutável de que há inconsistências com o Auto de Infração nº 456. Serão 4 principais pontos levantados: valor da multa; ausência de laudo técnico; incompetência do ente que autuou; e, por fim, há um componente de excludente de responsabilidade. Argumentação Em primeiro lugar, verifica-se um valor excessivo da multa, pois além de não existir dano concretizado, o Auto de Infração não detalhou as circunstâncias consideradas para o cálculo. No entanto, de acordo com o artigo 82 da Instrução Normativa Conjunta MMA/IBAMA/ICMBIO, parágrafo 1, “a indicação de multa aberta acima do valor mínimo será sempre motivada e aplicada quando presentes elementos que 2 justifiquem a sua majoração” (MINISTÉRIO do Meio Ambiente, 2021a). Ou seja, o Auto de Infração tem que obrigatoriamente observar aspectos como a gravidade dos fatos, antecedentes do infrator, situação econômica do infrator, extensão do dano, etc. Nesse sentido, podemos considerar o referido Auto de Infração como incompleto, omisso e subjetivo, sem especificar termos exigido em lei. A tabela abaixo, que se refere aos autos de infração de multa aberta aplicadas com pena máxima em abstrato entre dez milhões de reais e um centavo e cinquenta milhões de reais, traz esse detalhamento esquecido pelos fiscais e esclarece como o valor de dez milhões de reais é excessivo ao se tratar de poluição sonora. Fonte: MINISTÉRIO do Meio Ambiente, 2021a. Outro argumento que corrobora o enfraquecimento do auto é o fato de que o Decreto 6514/08, o mesmo usado para fundamentar o Auto de Infração nº 456 que a Sema-B lavrou, discorre em seu artigo 61, parágrafo único, que “as multas e demais penalidades serão aplicadas após laudo técnico elaborado pelo órgão ambiental competente, identificando a dimensão do dano decorrente da infração e em conformidade com a gradação do impacto” (BRASIL, 2008). Ou seja, a fiscalização deveria ser feita com os equipamentos adequados para apuração do som e pressupor um laudo técnico. No entanto, como relatado no caso, os dois fiscais não utilizaram qualquer equipamento ou instrumento técnico, apenas disseram estar ouvindo ruídos acima dos limites previstos em lei. Soma-se a isto, ainda, o fato de que o Shopping Center possui atividades cujos impactos se enquadram na competência municipal de licenciamento, de acordo com a legislação do Estado B (onde está localizado). Portanto, o ente estadual não tem competência para fazer a autuação – no máximo, constatada uma infração, ele poderia avisar o ente responsável, que neste caso é municipal. Essa prerrogativa fica clara na Lei Complementar nº 140, de 08 de dezembro de 2011, que segue: “Art. 17. Compete ao órgão responsável pelo licenciamento ou autorização, conforme o caso, de um empreendimento ou atividade, lavrar auto de infração ambiental e instaurar processo administrativo para a apuração de infrações à legislação ambiental cometidas pelo empreendimento ou atividade licenciada ou autorizada § 1o Qualquer pessoa legalmente identificada, ao constatar infração ambiental decorrente de empreendimento ou atividade utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores, pode dirigir representação ao órgão a que se refere o caput, para efeito do exercício de seu poder de polícia. § 2o Nos casos de iminência ou ocorrência de degradação da qualidade ambiental, o ente federativo que tiver conhecimento do fato deverá determinar medidas para evitá-la, fazer cessá-la ou mitigá-la, comunicando imediatamente ao órgão competente para as providências cabíveis. § 3o O disposto no caput deste artigo não impede o exercício pelos entes federativos da atribuição comum de fiscalização da conformidade de empreendimentos e atividades efetiva ou potencialmente poluidores ou utilizadores de recursos naturais com a legislação ambiental em vigor, prevalecendo o auto de infração ambiental lavrado por órgão que detenha a atribuição de licenciamento ou autorização a que se refere o caput.” (BRASIL, 2011). Por fim, mas não menos importante, há um componente de excludente de responsabilidade por falta dolo (não há intenção de emitir o som; se trata de um defeito de fábrica) e de culpa (não foi caso de negligência por parte do Shopping Center, uma vez que ele acionou a fabricante para a substituição do gerador), assim como definiu o Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 2019, bem como a Orientação Jurídica Normativa 53/2020, que orienta que a responsabilidade administrativa ambiental tem natureza subjetiva e, portanto, demanda existência de dolo e/ou culpa. Considerações finais Diante do exposto, portanto, pretendeu-se apontar as falhas que comprometem o Auto de Infração nº 456 e a multa de 10 milhões ao Shopping Center, que pretende recorrer da ação pelos diversos fatos apontados nesse documento. Referências bibliográficas 4 BRASIL. Decreto nº 6.514, de 22 de julho de 2008. Dispõe sobre as infrações e sanções administrativas ao meio ambiente, estabelece o processo administrativo federal para apuração destas infrações, e dá outras providências. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 23 de julho de 2008. BRASIL. Lei Complementar nº 140, de 08 de dezembro de 2011. Fixa normas, nos termos dos incisos III, VI e VII do caput e do parágrafo único do art. 23 da Constituição Federal, para a cooperação entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios nas ações administrativas decorrentes do exercício da competência comum relativas à proteção das paisagens naturais notáveis, à proteção do meio ambiente, ao combate à poluição em qualquer de suas formas e à preservação das florestas, da fauna e da flora; e altera a Lei no 6.938, de 31 de agosto de 1981. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 08 de dezembro de 2011. MINISTÉRIO do Meio Ambiente. Instrução Normativa Conjunta MMA/IBAMA/ICMBIO nº 1, de 12 de abril de 2021. Regulamenta o processo administrativo federal para apuração de infrações administrativas por condutas e atividades lesivasao meio ambiente. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 14 de abril de 2021a. MINISTÉRIO do Meio Ambiente. Instrução Normativa Conjunta MMA/IBAMA/ICMBIO nº 2, de 26 de abril de 2021. Altera a Instrução Normativa Conjunta MMA/IBAMA/ICMBIO nº 1, de 12 de abril de 2021. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 28 de abril de 2021b.