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Introdução O principal desafio de um organismo, em qualquer ponto da escala filogenética, é adaptar-se continuamente ao ambiente em que vive. Em organismos mais complexos, essa tarefa exige desde a realização de reflexos motores isolados, ou ajustes vegetativos específicos, até a emissão de comportamentos elaborados, nos quais múltiplas ações são planejadas e executadas simultaneamente. A organização de tais respostas exige um fluxo de informações que se inicia tanto no interior do próprio organismo quanto no ambiente que o circunda. O conjunto constituído pelos sensores capazes de detectar esses diferentes tipos de informação, pelas vias por onde trafegarão essas informações e pelos circuitos neurais responsáveis por seu processamento, é, didaticamente, denominado sistema sensorial. O sistema sensorial representa a porção do sistema nervoso diretamente relacionada à recepção, transdução, transmissão e ao processamento inicial das informações, originada no próprio organismo ou no ambiente e que será utilizada na organização dos mais variados tipos de resposta. Neste contínuo desafio de nos adaptarmos ao ambiente em que vivemos, precisamos, quase ininterruptamente, agir sobre o mundo, tanto o mundo exterior, que nos circunda, quanto o nosso mundo interior, que abriga o conjunto de processos fisiológicos que nos mantêm vivos. Portanto, a razão de percebermos o mundo é a necessidade que temos de agir sobre ele: percebemos para agir. Dessa forma, uma compreensão adequada dos processos que levam o sistema sensorial de um organismo a funcionar da maneira como funciona só será alcançada se levarmos em consideração o processo de coevolução dos sistemas sensorial e motor. Sem levarmos em conta essa importante interação percepção-ação, ou seja, a função pragmática que nossas percepções desempenham no planejamento, elaboração e emissão de nossas ações, não poderemos compreender os mecanismos sensoriais que conduzem às percepções que construímos. Remonta a Aristóteles o reconhecimento de que utilizamos cinco sentidos para explorar o mundo que nos rodeia: visão, audição, tato, olfação e gustação. Em termos mais rigorosos, esses são exemplos de cinco modalidades sensoriais que, no entanto, não esgotam todas as modalidades que compõem nosso sistema sensorial (Fig. 2.1). Cada modalidade sensorial destina-se à detecção de um determinado tipo de estímulo, caracterizado por sua natureza física. Determinadas substâncias químicas são detectadas por um conjunto de receptores, enquanto ondas eletromagnéticas, em uma dada faixa de frequências, são detectadas por outro conjunto. Substâncias químicas ou ondas eletromagnéticas representam, portanto, diferentes classes de estímulos, a serem detectadas por diferentes tipos de receptores sensoriais, que são https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/978-85-412-0334-0/epub/OEBPS/Text/chapter2.htm#fig2.1 estruturas celulares ajustadas morfológica e funcionalmente para realizarem essa tarefa de detecção. Dependendo do critério adotado, podem ser concebidas diferentes classificações para o sistema sensorial. Aqui será adotada a seguinte classificação, que se baseia na modalidade sensorial: Embora os receptores de algumas modalidades sensoriais se distribuam por grande parte de nosso corpo, tais como os da sensibilidade somestésica e, em menor grau, os receptores das sensibilidades proprioceptiva e interoceptiva, outras modalidades foram pressionadas evolutivamente a se concentrarem no segmento cefálico, caso da visão, audição, olfação e gustação. Essas duas últimas, as sensibilidades gustativa e olfativa, estão intimamente relacionadas às funções desempenhadas pelo aparelho estomatognático e serão aqui tratadas com mais detalhes. No entanto, antes de passarmos ao estudo pormenorizado da gustação e olfação, as diversas modalidades serão brevemente apresentadas, sendo também introduzidos alguns princípios fisiológicos que fundamentam o funcionamento dos sistemas sensoriais e que são compatilhados, em maior ou menor grau, por todas as modalidades sensoriais. Visão e audição são modalidades sensoriais sensíveis a estímulos constituídos, respectivamente, por ondas eletromagnéticas e ondas mecânicas, cujas frequências, em ambos os casos, situam-se em uma faixa adequada, a qual permite a detecção pelos receptores sensoriais. Por exemplo, o simples reconhecimento de um carro em movimento, ou da face de um amigo, depende da operação de diversos circuitos neurais que vão da retina ao córtex cerebral e que fazem parte de vias paralelas cujo funcionamento é distribuído espacialmente por distintas áreas corticais. No entanto, a sincronização temporal dessas redes neurais distribuídas faz, de alguma forma ainda não compreendida, emergir o percepto associado ao estímulo em questão. Nesse processo tomam parte não só o fluxo de informação ascendente, que caminha dos receptores sensoriais aos centros superiores de integração, mas também um fluxo descendente, que se origina em circuitos hierarquicamente superiores e retroalimenta circuitos mais precoces da via, modulando, filtrando e refinando sua atividade. A somestesia refere-se a um conjunto de submodalidades (pressórica, tátil, térmica e dolorosa) presentes na pele, mucosas e tecidos profundos. Funcional e anatomicamente, a sensibilidade somestésica relaciona-se estreitamente com as submodalidades muscular e articular da sensibilidade proprioceptiva, responsável por prover o sistema nervoso com informações relativas à posição e aos movimentos do corpo no espaço. No entanto, de acordo com a classificação apresentada acima, somestesia e propriocepção constituem-se em modalidades tratadas de forma independente. A interocepção compreende um conjunto de submodalidades responsáveis por detectar um grande número de variáveis relacionadas aos processos que ocorrem em nosso meio interior (daí o nome dessa modalidade sensorial). Fazem parte desta modalidade, por exemplo, as operações de mecanorreceptores que detectam a pressão arterial, de quimiorreceptores que detectam a acidez e o conteúdo de oxigênio e gás carbônico do plasma, e de osmorreceptores e termorreceptores que detectam, respectivamente, a osmolaridade e a temperatura plasmáticas. A sensibilidade interoceptiva fornece informações relevantes para que o sistema nervoso organize respostas vegetativas adequadas, sendo majoritariamente processada fora da esfera consciente. No entanto, a estimulação interoceptiva pode, em um contexto adequado, levar à percepção consciente de sensações relacionadas a estados fisiológicos (ou fisiopatológicos) viscerais, tais como, por exemplo, os representados por “sede”, “fome” ou “falta de ar”. Dentre as várias modalidades que compõem nosso sistema sensorial, algumas permitem a percepção consciente de um estímulo, por exemplo, as sensibilidades visual e auditiva, ou as sensibilidades térmica e dolorosa. Em outras modalidades, a informação sensorial é recebida e processada sem que tenhamos qualquer sensação consciente, como, por exemplo, aquelas envolvidas na mensuração da pressão arterial, da osmolaridade do plasma ou da pressão parcial de oxigênio do sangue (sensibilidade interoceptiva). É importante ressaltar que, mesmo nas modalidades onde o estímulo pode tornar- se consciente, grande parte do processamento neural independe da percepção consciente das informações sensoriais, as quais são analisadas em paralelo por diversos circuitos simultaneamente. Podemos, assim, distinguir diferentes níveis de organização no processamento da informação sensorial: os receptores sensoriais representam a interface que vincula os estímulos sensoriais ao sistema nervoso; as vias e circuitos sensoriais transmitem e iniciam o processamento dessa informação; e centros superiores de integração, responsáveis pela construção perceptiva e pela organização de ações aserem emitidas em resposta aos estímulos sensoriais. Receptores sensoriais e o processo de transdução Para que um estímulo possa ser detectado e discriminado pelo organismo, precisa ser convertido em uma “linguagem” compreendida pelo sistema nervoso. Essa conversão é denominada transdução, e as estruturas responsáveis por ela são os receptores sensoriais. Diferentes tipos de células, em estruturas especializadas, desempenham o papel de receptores sensoriais. Características morfológicas e funcionais distintas conferem uma grande diversidade ao conjunto de receptores sensoriais conhecidos, o que obviamente se relaciona à especialização na detecção de estímulos de diferentes naturezas. A especificidade de um receptor para um determinado tipo de estímulo reside, basicamente, nos mecanismos moleculares envolvidos no processo de transdução (Figs. 2.2). Fig. 2.1 – As várias modalidades sensoriais e os respectivos receptores exibindo diferentes morfologias envolvidos no processo de transdução (modificado de Kandel et al., 2002). O processo de transdução começa pela detecção de um dado estímulo pelo receptor sensorial. O mecanismo comum a todo receptor é a geração de um potencial gerador (ou potencial receptor), caracterizado por uma alteração do potencial elétrico de membrana da célula receptora (Fig. 2.3). A alteração do potencial de membrana é, nesse caso, sempre uma consequência de modificações na condutância de canais iônicos, essas resultantes da presença https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/978-85-412-0334-0/epub/OEBPS/Text/chapter2.htm#fig2.2 https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/978-85-412-0334-0/epub/OEBPS/Text/chapter2.htm#fig2.3 do estímulo sensorial. O potencial gerador compartilha, portanto, mecanismos semelhantes àqueles envolvidos no potencial sináptico. O local de geração de um potencial gerador e o local de geração do respectivo potencial de ação são, geralmente, separados, podendo ser diferentes sítios em uma mesma célula, ou até mesmo diferentes células sensoriais. O sinal elétrico que caracteriza o potencial gerador (o qual se constitui em um potencial eletrotônico) alcança as regiões do receptor onde um impulso nervoso poderá ser iniciado, propagando- se então em direção ao sistema nervoso central. O potencial gerador é, portanto, um potencial local e graduado, ou seja, restrito à célula receptora, e possui uma amplitude variável que reflete a intensidade do estímulo sensorial aplicado. Em receptores destinados à sensibilidade dolorosa, por exemplo, o potencial gerador é produzido nas ramificações axonais, propagando-se eletrotonicamente à porção inicial do axônio e aí podendo dar origem a um potencial de ação. Nos botões gustativos, a estimulação química leva a flutuações do potencial de membrana das células receptoras, sendo que um contato sináptico entre essas células e terminações nervosas aferentes é necessário para que um potencial de ação possa ser produzido. Figs. 2.2 – Mecanismos envolvidos no processo de transdução sensorial no qual diferentes tipos de estímulo, por exemplo mecânicos (A), químicos (B) ou eletromagnéticos (C), são transformados em sinais elétricos na célula receptora. O estímulo pode causar um efeito direto sobre o canal (A) ou depender da ação de um segundo mensageiro (B e C). Qualquer que seja o mecanismo envolvido, o resultado final é a abertura ou o fechamento de canais iônicos presentes na membrana celular (modificado de Kandel et al., 2002). O passo final no processo de transdução é a geração de um impulso nervoso na fibra nervosa aferente, que irá conduzir a informação sensorial para o interior do sistema nervoso central. Enquanto o potencial gerador é local e graduado, o potencial de ação que se propaga na fibra aferente apresenta uma característica tudo-ou-nada, que se manifesta por uma amplitude aproximadamente constante. A recepção sensorial envolve a transformação de estímulos sensoriais, cuja amplitude varia continuamente, em um conjunto de impulsos tudo-ou-nada, semelhante à conversão analógico-digital, bem conhecida na engenharia. Uma consequência imediata e muito importante desse tipo de conversão relaciona-se à codificação da intensidade, pelo sistema nervoso, de um estímulo sensorial. Já que apenas uma sequência de potenciais de ação estará à disposição para ser processada pelos circuitos sensoriais, as características de um estímulo estarão codificadas no padrão temporal dos impulsos que chegam a esses circuitos. Mais especificamente, a frequência dos impulsos em um trem de potenciais de ação é que codifica a intensidade do estímulo sensorial associado àquela descarga. Intermediando esse processo temos, como vimos, a geração do potencial receptor, cuja amplitude é proporcional à intensidade do estímulo. Na fibra nervosa aferente, a descarga de potenciais de ação terá uma frequência que será, por sua vez, proporcional à amplitude do potencial gerador. A intensidade de um dado estímulo é também codificada pela quantidade de receptores sensoriais recrutados naquela estimulação. Por exemplo, a intensidade de uma pressão na pele é codificada não só pela frequência de potenciais de ação nas fibras aferentes que compõem as vias somestésicas, como também pela quantidade de receptores sensoriais ativados por aquela estimulação e, portanto, pela quantidade de fibras aferentes que vão conduzir simultaneamente aquela informação ao sistema nervoso central. Fig. 2.3 – Esquema ilustrando os processos que ocorrem, em função da aplicação de um estímulo sensorial genérico, nas diferentes estruturas envolvidas na recepção e condução daquela informação sensorial. Nas terminações axonais, o estímulo produz uma alteração graduada e local do potencial de membrana, denominada de potencial gerador ou potencial receptor. O potencial gerador é conduzido eletrotonicamente até o primeiro nodo de Ranvier, onde potenciais de ação podem ser gerados, produzindo, nesse local, uma superposição desses processos. Os potenciais de ação, uma vez deflagrados, propagam-se pela fibra aferente até o interior do sistema nervoso central (modificado de Kandel et al., 2002). Uma característica fundamental de todo o receptor sensorial é o perfil temporal do potencial gerador. Um receptor pode apresentar um potencial gerador cuja amplitude declina com o tempo, mesmo na presença de um estímulo sensorial contínuo e de intensidade constante. Esse declínio é denominado adaptação sensorial e está intimamente relacionado à função particular de cada receptor. Assim, receptores denominados tônicos, ou de adaptação lenta, sinalizam estímulos prolongados, enquanto os denominados fásicos, ou de adaptação rápida, servem à detecção de transientes ou à sinalização de estímulos que variam rapidamente no tempo. Deixar de sentir um odor, claramente perceptível alguns minutos antes, é um típico exemplo de adaptação dos receptores olfativos. Vias e Circuitos Sensoriais A informação que parte de um conjunto de receptores sensoriais, conduzida por potenciais de ação, será transmitida através de uma série de “estações sensoriais”, as quais terão o papel de processar esses sinais em estágios mais elaborados de integração. Uma via sensorial constitui-se, assim, em uma série de neurônios conectados sinapticamente e relacionados a uma mesma modalidade sensorial, ao longo da qual se preserva, ainda que parcialmente, sua organização topográfica. Por exemplo, ao longo de uma via somestésica, regiões vizinhas da pele serão inervadas por fibras que caminharão próximas umas das outras em suas projeções ascendentes, as quais terminarão em circuitos também vizinhos, dando origem a fibras de segunda ordem que também irão preservar essa organização topográfica ao longo das sucessivas estações sensoriais (por exemplo, medula espinal, tálamo e córtex cerebral). Define-se unidade sensorial oconjunto formado por uma única fibra aferente e todos os receptores sensoriais que ela inerva. A razão por trás dessa definição é que a estimulação de qualquer um dos receptores de uma mesma unidade sensorial ativará a mesma fibra aferente, de maneira indistinguível para o sistema nervoso. Pela mesma razão, o conjunto de receptores pertencentes à mesma unidade sensorial compõe o que se denomina campo receptivo daquela unidade (Figs. 2.4A,B). O conceito de campo receptivo pode ser aplicado a qualquer neurônio pertencente a um circuito sensorial. Por exemplo, um neurônio localizado no córtex visual primário será ativado pela estimulação de uma região circunscrita do campo visual. O campo receptivo desse neurônio corresponde, portanto, ao conjunto de fotorreceptores associados àquela porção do campo visual. Dependendo da modalidade sensorial em questão, um estímulo pode ser caracterizado por sua intensidade, localização, frequência, composição química, dentre muitas outras. Essas características podem ser quantificadas de maneira objetiva, e o estudo das relações entre as variáveis físicas que caracterizam um estímulo e a percepção gerada a partir dele compõe uma disciplina denominada psicofísica. A fisiologia sensorial busca ainda compreender os mecanismos neurais básicos que fundamentam essas relações, identificando os elementos neurofisiológicos que utilizamos para construir uma representação do mundo que nos cerca. As propriedades da percepção são estreitamente relacionadas aos mecanismos neurais envolvidos na codificação da informação sensorial, alguns já discutidos acima. O aspecto mais simples da percepção é a habilidade de detectar se um estímulo ocorreu ou não. A menor intensidade de um estímulo requerida para https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/978-85-412-0334-0/epub/OEBPS/Text/chapter2.htm#fig2.4 que seja detectado é denominado limiar absoluto. Esse limiar, que poderíamos chamar de perceptivo ou comportamental, difere daquele associado ao receptor sensorial e respectiva fibra aferente. Como regra geral, as respostas de vários receptores devem somar-se para que a detecção ocorra em uma dada via sensorial. Por exemplo, um único fóton é suficiente para ativar um fotorreceptor na retina humana, mas é necessária a ativação simultânea de alguns fotorreceptores para que aquela estimulação seja percebida. Nesse sentido, o limiar perceptivo é, em geral, mais elevado que aquele de receptores e fibras aferentes individuais (que podemos chamar de limiar biofísico). Figs. 2.4 – Organização genérica de um campo receptivo. Em A, os campos receptivos de neurônios primários se organizam na composição do campo receptivo de um neurônio de segunda ordem. Em muitas situações, um campo receptivo tem uma organização “centroperiférica” com efeitos antagônicos sobre o neurônio de segunda ordem (por exemplo, um centro excitatório cercado por uma periferia inibitória, como exemplificado em B, (modificado de Kandel et al., 2002). Outro aspecto relevante é que o limiar absoluto de um dado estímulo é dependente de um conjunto amplo de fatores, dentre os quais se incluem desde processos biofísicos (tais como flutuações aleatórias do potencial de membrana) até mecanismos cognitivos e motivacionais (tais como atenção e contexto afetivo). Por isso, a definição e a quantificação de um limiar baseiam- se em considerações probabilísticas expressas por medidas estatísticas. Por exemplo, suponha que um voluntário seja submetido a uma série de estímulos sonoros, em que todas as características do estímulo (tais como duração, frequência fundamental, timbre, localização etc.) sejam mantidas constantes, e só a intensidade seja variada, de muito baixa a alta intensidade. Sendo a tarefa do voluntário apenas reportar se ouviu ou não o som apresentado, pode-se definir o limiar absoluto, sob essas circunstâncias, como a intensidade do estímulo que o voluntário reportou ter ouvido em 50% das tentativas. Quando comparamos alguma característica de dois estímulos sensoriais diferentes, tal como a frequência de dois estímulos sonoros ou a localização espacial de dois estímulos visuais, empregamos o conceito de poder de resolução. Em vários sistemas sensoriais, as localizações de dois estímulos são características importantes a serem distinguidas, como, por exemplo, dois estímulos aplicados na pele, ou dois pontos próximos vistos de uma dada distância. Já no sistema auditivo, o conceito de poder de resolução pode ser aplicado à capacidade de se distinguirem dois sons com frequências próximas. Vários aspectos na organização morfológica e funcional de uma via sensorial contribuem para seu poder resolução. Os campos receptivos dos neurônios sensoriais primários responsáveis pela sensibilidade somestésica das mãos são menores que aqueles associados à sensibilidade somestésica de outras regiões do corpo. Na polpa de um dedo, mesmo estímulos separados por uma pequena distância ativarão, na maioria das vezes, diferentes campos receptivos e, portanto, diferentes fibras aferentes. A informação sensorial fluindo por fibras aferentes distintas é condição essencial para que o sistema nervoso possa identificá-los como estímulos separados espacialmente. Em uma região da pele com campos receptivos maiores, dois estímulos necessitam de maior separação espacial para que possam ativar campos receptivos diferentes, e assim serem percebidos como distintos. Centros Superiores de Integração Embora seja mais fácil estudar, compreender e explicar o funcionamento dos sistemas sensoriais em termos de estímulos elementares, como pontos de luz e tons puros, o sistema nervoso enfrenta a tarefa de processar um emaranhado de informações provenientes das diferentes vias sensoriais, refletindo a natureza complexa do mundo exterior (e interior!). Essas informações precisam ser integradas em um processo semelhante ao de uma criança brincando com um amontoado de diferentes peças de montar, como em grande “lego” perceptual. Diferentes aspectos do conjunto de possíveis estímulos que nos cercam são processados independentemente por subsistemas sensoriais separados, fornecendo as peças elementares que deverão ser escolhidas e reunidas no objeto perceptual a ser montado. De maneira análoga à criança, que pode escolher um conjunto arbitrário de peças e montar com elas o que quiser, o sistema nervoso poderia detectar um conjunto arbitrário de estímulos sensoriais, os quais poderiam ser reunidos de diversas formas na construção de diferentes perceptos. No entanto, existe uma diferença fundamental entre os dois lados dessa analogia: enquanto o objeto montado pela criança, qualquer que ele seja, servirá apenas para satisfazer suas necessidades lúdicas, o processamento sensorial realizado pelo sistema nervoso, culminando com a geração de um percepto, terá consequências decisivas para a sobrevivência do indivíduo. Assim, tanto a escolha de quais estímulos detectar, quanto a construção perceptual resultante de seu processamento, embora arbitrárias em princípio, são condicionadas por seu valor adaptativo, ou seja, pelas consequências que seu uso trará ao indivíduo. Em suma, ao longo do processo evolutivo, os mecanismos neurais responsáveis por nossa percepção do mundo (exterior e interior) foram determinados, fundamentalmente, pelo resultado das ações que essas percepções produziram. A conclusão é que, da mesma forma que nossas percepções são fundamentais no planejamento e elaboração de ações, é o valor adaptativo de nossas ações o critério mais importante que determinrá a contrução, a partir de um conjunto arbitrário, das percepções que terão o impacto mais benéfico ao organismo. Deve ficar claro que nossa percepção não realiza “a” construção, mas sim “uma” construção do mundo sensorial que nos cerca. É importante termos em mente que nossa percepção não é uma reproduçãofiel da realidade, mas um processo ativo de construção dessa realidade, gerado e continuamente modulado por fatores físicos, fisiológicos, afetivos e culturais determinados por nossas trajetórias filogenéticas e ontogenéticas. Esse processo de “construção” perceptiva depende da operação sequencial e paralela de diversos circuitos neurais ao longo do sistema sensorial. Depois dos processos de recepção e transdução, realizados pelas células receptoras, a informação sensorial propaga-se por uma fibra nervosa aferente primária para o interior do sistema nervoso central, no qual tem início uma primeira etapa de processamento neural. Desse circuito inicial, a informação é transferida para outros estágios de processamento, e assim sucessivamente, dando origem tanto à construção gradual de percepções, como já mencionamos, quanto podendo, já desde os estágios iniciais de processamento, dar origem a respostas de natureza motora ou vegetativa. Respostas motoras ou vegetativas deflagradas pelo processamento mais precoce de informações sensoriais são, em geral, mais simples e estereotipadas, muitas das quais podem justamente ser chamadas de simples “reflexos”. No entanto, à medida que o processamento sensorial vai envolvendo vias e circuitos hierarquicamente mais complexos, aumenta-se muito a diversidade e a complexidade do repertório de possíveis respostas do organismo, tornando quase indissociáveis os múltiplos componentes sensoriais, motores e vegetativos que compõem um conjunto de ações elaboradas emitidas pelo organismo e que caracterizam um dado comportamento. A geração de um percepto a partir do fluxo e refluxo da informação sensorial é também fortemente dependente de vários outros fatores, entre os quais podemos destacar: 1. O contexto sensorial em que ocorre (ou seja, da eventual interferência de outros estímulos presentes no ambiente); 2. As memórias disponíveis pelo indivíduo (o que, por sua vez, depende de um aprendizado prévio adquirido ao longo da vida); 3. A maior ou menor alocação atencional destinada à tarefa em execução; 4. E também os componentes motivacional e afetivo que caracterizam o momento em que ocorre aquela particular construção perceptiva. Todos esses fatores, entre outros, contribuem para que, a partir de um emaranhado de estímulos sensoriais que bombardeiam nosso sistema nervoso, possamos construir percepções relevantes para as nossas ações. Aliás, é graças à multiplicidade de aferências sensoriais simultâneas que podemos resolver as ambiguidades sempre presentes em um particular estímulo sensorial. Por exemplo, um rosto visto de um ângulo que gera percepção ambígua, não permitindo seu pleno reconhecimento, poderá ser identificado pelo processamento auditivo proporcionado pela voz da mesma pessoa. Esse processamento multimodal (que associa diferentes modalidades sensoriais) é iniciado por áreas associativas do córtex cerebral, culminando com a fusão de múltiplas informações sensoriais em um percepto unitário, para a construção do qual podem ter contribuído diferentes modalidades sensoriais. Essa construção é provavelmente dependente da atividade sincrônica de vários circuitos neurais, cada qual composto por conjuntos de neurônios que cooperam em redes neurais e codificam uma dada característica do estímulo por meio de um “código de população”. Ou seja, dada informação neural, qualquer que seja, jamais dependerá da atividade de um único neurônio específico, mas da atividade coletiva de toda uma população neuronal, a qual é, em geral, apenas parte de um circuito ainda mais amplo. As várias modalidades sensoriais, como vimos, são processadas em paralelo, frequentemente de forma simultânea, cooperando e competindo pela geração de um percepto. Devemos ter em mente que a construção de um percepto representa um fenômeno hierarquicamente complexo do processamento sensorial, e que várias respostas motoras e vegetativas podem ser geradas já a partir do processamento precoce de estímulos sensoriais, sem que tenham alcançado níveis de integração que permitam sua percepção consciente. Exemplo trivial é a resposta motora por meio da qual afastamos a mão de um estímulo doloroso, a qual não espera pela percepção de dor para ser deflagrada e é gerada por circuitos espinais; ou também o fenômeno vegetativo de constrição pupilar, em resposta à luz incidente nos olhos, e que independe da percepção visual consciente do respectivo estímulo luminoso, sendo organizado por circuitos mesencefálicos. No entanto, respostas adaptativas mais complexas, as quais constituem os comportamentos elaborados emitidos por um organismo (tais como os comportamentos alimentar, sexual ou de defesa, por exemplo), requerem a integração de informações sensoriais multimodais (por exemplo, estímulos visuais, olfativos e somestésicos). Esses elaborados comportamentos, por sua vez, dependem muito mais da plasticidade do sistema nervoso (ou seja, de sua capacidade de aprendizado e memória), em comparação a respostas mais simples e estereotipadas, muitas da quais já estão implementadas, de forma inata, na arquitetura anatomofuncional do sistema nervoso que um organismo desenvolve a partir de sua herança genética. Podemos, então, conceber a percepção como um dos estágios mais elaborados do processamento sensorial, cuja função adaptativa é, possivelmente, produzir elevado grau de integração sensorial que permita a emissão de comportamentos cada vez mais complexos. Ações antecipatórias, integradas e flexíveis podem colocar um organismo em grande vantagem em relação àqueles que precisam aguardar um evento desencadeante para então emitir respostas isoladas e estereotipadas. Provavelmente, a pressão adaptativa tem levado os animais (o que, obviamente, inclui nós mesmos) a emitirem comportamentos cada vez mais complexos, o que, por sua vez, tem exigido um grau cada vez maior de integração sensorial, e que é a origem fisiológica da percepção. A sensibilidade química corresponde, genericamente, à capacidade de uma célula responder a uma substância química específica ou a um conjunto de substâncias químicas estruturalmente relacionadas, e situa-se entre as modalidades sensoriais filogeneticamente mais antigas, remontando aos procariotas. A adaptação de um organismo primitivo ao seu meio ambiente certamente dependeu, inicialmente, da identificação de substâncias presentes nesse meio e da elaboração de algum tipo de resposta, mesmo que rudimentar. Na verdade, a resposta de uma célula à presença de um agente químico é um aspecto compartilhado por vários sistemas neurobiológicos, em particular, e fisiológicos, em geral. São exemplos notáveis a transmissão sináptica por meio de neurotransmissores e os complexos sistemas de comunicação hormonal. O próprio estabelecimento de conexões neurais durante a ontogênese depende criticamente de uma comunicação química. Neste capítulo tratatemos de um conjunto particular de quimiocepção envolvendo modalidades responsáveis pela identificação de substâncias presentes nos alimentos ingeridos e no ar inspirado, respectivamente denominadas gustação e olfação. Essas modalidades sensoriais são fundamentais na elaboração de vários comportamentos, destacando-se os comportamentos alimentar e sexual, que são, obviamente, imprescindíveis para a preservação do indivíduo e da espécie. A sensibilidade química não se restringe às duas modalidades mencionadas acima e inclui ainda a capacidade de certas células de responder, por exemplo, à concentração plasmática de glicose ou hidrogênio, ou ainda à pressão parcial de oxigênio e gás carbônico dissolvidos no sangue. Essas modalidades de sensibilidade química, que, como vimos anteriormente, fazem parte da interocepção, participam de alças fisiológicas de realimentação que organizam ajustes vegetativos, respiratórios e neuroendócrinos, visando manter a estabilidadedo meio interno. Ao contrário da gustação e olfação, essas modalidades não promovem, diretamente, a percepção consciente do estímulo sensorial. Essa diferença ressalta o papel relevante da estimulação gustativa e olfativa na elaboração de comportamentos mais integrados e plásticos. Sensibilidade Gustativa Nessa modalidade sensorial, os receptores são células sensíveis a íons e moléculas presentes principalmente, mas não exclusivamente, nos alimentos ingeridos. Em seres humanos, receptores gustativos são encontrados na língua, faringe, epiglote, porção superior do esôfago e palato e agrupados em botões gustativos, que, por sua vez, agrupam-se em papilas gustativas. Há diversos tipos de papilas, diferentemente distribuídas na superfície da língua (Figs. 2.5A- C). O botão gustativo também possui diferentes tipos celulares, os quais fornecem sustentação às células receptoras e promovem sua contínua renovação. Embora um determinado sabor seja uma complexa mistura de diferentes qualidades, a sensibilidade gustativa pode ser agrupada em cinco qualidades fundamentais: doce, salgado, azedo, amargo e umami. A razão para a existência desses gostos primários está relacionada aos seus significados adaptativos: enquanto muitos alimentos são doces (a maioria das frutas, por exemplo), a ingestão de sal é essencial para o balanço hidro-eletrolítico; já os gostos azedo e amargo estão associados a substâncias que podem ser nocivas quando ingeridas em excesso ou mesmo em pequenas quantidades, como venenos contidos em muitas plantas. A quinta qualidade gustativa, umami (que significa “delicioso” em japonês), está associada à detecção de certos aminoácidos, sobretudo o glutamato monossódico. Técnicas atuais de registro eletrofisiológico permitiram caracterizar, em termos celulares, os mecanismos de transdução envolvidos na sensibilidade desses quatro gostos básicos. A figura 2.6 esquematiza os mecanismos básicos que se acredita estarem envolvidos na transdução das submodalidades gustativas. https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/978-85-412-0334-0/epub/OEBPS/Text/chapter2.htm#fig2.5 https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/978-85-412-0334-0/epub/OEBPS/Text/chapter2.htm#fig2.5 Figs. 2.5 – Organização esquemática da língua humana. Em (A) observamos a distribuição dos botões gustativos. Os principais tipos de papilas gustativas são vistos em (B), enquanto em (C) temos, com mais detalhe, a estrutura de um botão gustativo (cortesia de Aires, 2012). Fig. 2.6 – Possíveis mecanismos de transdução gustativa. Substâncias agindo sobre a membrana da célula receptora podem alterar seu potencial transmembrana ou pela ação direta sobre canais iônicos, ou pela mediação de segundos mensageiros (modificado de Sugita, 2006). Azedo e salgado Prótons parecem ser o estímulo primário na sensação de gostos azedos, já que a concentração ácida de um estímulo gustativo e a intensidade do gosto azedo produzido são, aproximadamente, proporcionais entre si. O processo de transdução induzida pela ação de íons H+ extracelulares sobre os receptores gustativos parece envolver diferentes mecanismos biofísicos, tais como canais iônicos dedicados à condução de íons H+, canais iônicos modulados pela concentração extracelular de H+ ou mesmo de proteínas de membranas, transportadoras de íons, moduladas pelo pH extracelular. Por exemplo, íons H+ presentes em uma substância ácida podem, na membrana de um receptor gustativo, bloquear seletivamente canais de K+ ou, alternativamente, abrir canais de Na+, permitindo que a corrente elétrica resultante hipopolarize a célula, gerando o potencial receptor. A entrada direta de H+ na célula também pode contribuir para a uma hipopolarização que estará associada ao gosto azedo. No entanto, devemos lembrar que o pH intracelular é uma variável mantida entre estreitas faixas de controle homeostático, o que diminui a importância desse influxo de H+ como mecanismo de transdução. No caso da ingestão de uma substância salgada, íons Na+ entram na célula gustativa a favor de seu gradiente eletroquímico, através de canais iônicos específicos (um tipo de canal de sódio sensível à droga amilorida e que permanece sempre aberto). O influxo de sódio hipopolariza a célula receptora, originando o potencial receptor. Amilorida, um bloqueador desse tipo de canal de Na+, abole a resposta de fibras gustativas à estimulação por cloreto de sódio, bloqueando também, ao menos parcialmente, a sensação de salgado. A participação, neste processo de transdução, de um outro tipo de canal de sódio não sensível à amilorida também tem sido, recentemente, reportada. Canais de sódio não sensíveis à amilorida podem ser também ativados por outros sais, que não o cloreto de sódio, tais como o cloreto de potássio. No entanto, o significado funcional desses diferentes mecanismos para a sensibilidade ao salgado ainda permanece obscuro. Doce, amargo e umami Mecanismos celulares mais elaborados estão envolvidos na transdução de substâncias doces, amargas e também aminoácidos, já que suas estruturas moleculares são mais complexas do que as associadas a íons H+ e Na+. Duas famílias de receptores metabotrópicos, T1R e T2R, as quais pertencem à superfamília dos receptores acoplados à proteína G (GPCR, na sigla em inglês), estão envolvidas no processo de transdução do doce, do amargo e do umami. A ativação de um receptor metabotrópico pertencente às famílias T1R ou T2R leva à geração de uma cascata metabólica que envolve a ativação da fosfolipase C (PLC), a qual induz a produção intracelular de diacil-glicerol (DAG) e inositoltrifosfato (IP3). Esses segundos mensageiros são responsáveis pela liberação citoplasmática de íons Ca+, o qual deflagra a abertura de canais iônicos seletivos a Na+, conduzindo à hipopolarização da célula gustativa (potencial gerador). A transdução de substâncias doces, normalmente presentes em frutas e outros tipos de alimentos, e também de diversos edulcorantes depende de receptores heterodiméricos (formados por duas diferentes subunidades) pertencentes à família T1R (T1R2 e T1R3). Já compostos amargos ativam receptores homodiméricos da família T2R. O gosto amargo, em geral, associa-se a substâncias potencialmente danosas ao organismo. Como muitas substâncias diferentes podem produzir um gosto amargo, incluindo sais, ácidos e alguns açúcares, não surpreende o fato de que a família de proteínas T2R, responsáveis pela iniciação desse gosto, contenha cerca de 30 membros distintos. A maior parte dos alimentos contém, em sua composição, a presença de aminoácidos, cuja ingestão é essencial ao organismo. A detecção gustativa de aminoácidos depende da presença de receptores GPCR também formados por duas subunidades proteicas diferentes, T1R1 e T1R3. Enquanto em algumas espécies, como camundongos, por exemplo, os receptores T1R1/T1R3 são ativados por uma classe relativamente ampla de lamino-ácidos, em seres humanos sua resposta está mais sintonizada à ativação por glutamato. Um mesmo grupo de células gustativas pode coexpressar diversos receptores da família T2R, significando que essas células podem iniciar o processo de detecção de uma ampla classe de substâncias amargas sem, no entanto, poder discriminá-las finamente. Além disso, embora um mesmo botão gustativo possua células que expressam receptores de ambas as famílias T1R e T2R, uma mesma célula gustativa não produz, simultaneamente, proteínas pertencentes a essas duas diferentes famílias. Da mesma forma, ainda não foi observada a coexpressão, por uma mesma célula, dos genes que codificam a síntese dos receptores T1R1 e T1R2. Em conjunto, essas observações indicam que as modalidades gustativas associadas ao doce, amargo e umami são codificadas separadamente por meio da ativação de diferentes tipos celulares. Vias gustativas A célula receptora gustativa, desprovidade axônio, transmite a informação sinapticamente aos terminais de fibras aferentes que compõem os VII e IX pares de nervos cranianos, respectivamente, facial e glossofaríngeo. Um ramo do nervo vago (X par) também inerva botões gustativos presentes na epiglote e porção superior do esôfago. O principal neurotransmissor responsável pela comunicação entre a célula receptora e a fibra aferente primária é o ATP que, liberado na fenda sináptica, alcança receptores purinérgicos do tipo P2X2/P2X3 na membrana pós-sináptica do neurônio sensorial primário. Uma única fibra gustativa, embora possa responder preferencialmente a um dos cinco estímulos básicos, responde com diferentes graus de intensidade a outros estímulos gustativos. Uma fibra gustativa recebe, portanto, a influência de células receptoras com diferentes especificidades. A qualidade sensorial de um estímulo gustativo não deve depender apenas da ativação de um grupo isolado de fibras, mas de um elaborado padrão na atividade dos diferentes tipos de fibras sensoriais primárias e dos neurônios aos quais se projetam. Em outras palavras, acredita-se que a informação gustativa seja codificada por meio de interações das diferentes submodalidades gustativas, de forma análoga àquela observada em outras modalidades sensoriais. Esse tipo de codificação é uma “linguagem” comum utilizada pelo sistema nervoso em muitas outras instâncias da atividade neural, não restritas ao processamento sensorial. Dessa forma, o “código” (aqui o código refere-se à detecção e à identificação de um dado gosto) depende não da atividade de um neurônio específico ou de um pequeno e particular conjunto de neurônios, mas da atividade combinada de um grupo neuronal, o que se denomina de “código de população”. Essa “linguagem“ neural permite uma expansão combinatória da quantidade de padrões que podem ser identificados, quantidade essa que vai muito além do número de tipos de neurônios envolvidos. As informações gustativas, assim codificadas, projetam-se ao núcleo do trato solitário (NTS), localizado no bulbo (Figs. 2.7A,B), o qual preserva, similarmente ao que ocorre nas projeções talâmicas e corticais, uma segregação espacial das submodalidades gustativas observadas na língua. As projeções gustativas ao NTS terminam em sua porção rostrolateral, denominada núcleo gustatório. O NTS também está envolvido na recepção de outras aferências viscerais, incluindo informações cardiovasculares, respiratórias e digestivas. Em primatas, projeções da porção gustativa do NTS dirigem-se diretamente ao núcleo ventroposteromedial do tálamo, onde neurônios recebendo as aferências gustativas se encontram segregados em relação àqueles associados a outras modalidades sensoriais originadas da língua. Essas informações continuam por uma via gustativa específica que alcança o córtex gustativo primário, localizado no córtex insular anterior. Projeções do córtex gustativo primário partem para o núcleo central da amígdala e de lá para o hipotálamo e áreas dopaminérgicas do mesencéfalo. Também do córtex gustativo primário partem projeções diretas para uma área do córtex orbitofrontal, por isso denominada de córtex gustativo secundário. O córtex orbitofrontal recebe projeções de outras modalidades sensoriais, tais como olfação, visão, somestesia e interocepção, podendo contribuir para a integração multimodal que constitui o sabor de um alimento. Adicionalmente, o córtex gustativo também envia projeções descendentes para núcleos do tronco encefálico, tais como o NTS, oferecendo mais um importante exemplo de controle eferente da sensibilidade. Embora a percepção consciente de um estímulo gustativo seja um componente fundamental dessa modalidade sensorial, as vias gustativas são importantes na organização de muitos outros tipos de resposta. Há um conjunto de reflexos envolvidos no controle de ações motoras e vegetativas durante a ingestão de alimentos, incluido-se reflexos de proteção contra a ingestão de substâncias irritantes ou tóxicas e também reflexos salivatórios. Esses reflexos são também essenciais para a adaptação adequada de um organismo ao seu ambiente e são organizados por circuitos neurais localizados principalmente no tronco encefálico. Um exemplo que ilustra a complexidade e a sutileza desses reflexos é o aumento no fluxo de uma saliva mais fluida produzido por estímulos azedos, mediado por uma ação parassimpática, enquanto estímulos doces produzem menor aumento no fluxo salivar, mas incrementam o conteúdo salivar de amilase, o que reflete uma ação simpática. Esse exemplo ilustra a fina integração da sensibilidade gustativa com respostas autonômicas, envolvendo circuitos que se estendem do tronco encefálico à medula espinal, além de sua coordenação superior por circuitos hipotalâmicos e telencefálicos. https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/978-85-412-0334-0/epub/OEBPS/Text/chapter2.htm#fig2.7 Além da ação que a estimulação gustativa pode ter sobre a salivação, devemos manter em mente que a saliva é um componente fundamental da sensibilidade gustativa. Todos nós já experimentamos a dificuldade em saborear um alimento quando a cavidade oral está muito seca. A saliva não só age como um solvente, permitindo a dissolução das substâncias gustativas em um meio líquido, como também transporta essas substâncias permitindo seu contato intermitente com os receptores gustativos. Além disso, proteínas presentes na composição salivar podem ligar-se a substâncias gustativas, favorecendo seu contato com receptores ou removendo-as deles. Dessa forma, podemos considerar a saliva um importante elemento do processo de transdução gustativa. Figs. 2.7 – Vias gustativas. A) Observamos a inervação da língua e epiglote pelos pares de nervos cranianos. B) Podemos acompanhar as projeções gustativas ascendentes (cortesia de Aires, 2012). Sensibilidade Olfativa O sistema olfatório de vertebrados é especializado em discriminar uma enorme variedade de moléculas, com diferentes formas e tamanhos, presentes no ambiente mesmo em diminutas quantidades. A capacidade de discriminar essas várias substâncias depende de uma série de etapas de processamento que ocorrem em várias estruturas ao longo do sistema olfativo: epitélio olfativo no nariz, o bulbo olfatório, e estruturas hierarquicamente superiores, tais como o córtex piriforme, que recebe a informação proveniente do bulbo olfatório e a distribui para outras regiões do sistema nervoso. O primeiro passo envolvido na sensibilidade olfativa ocorre nos neurônios sensoriais que compõem o epitélio olfativo, presente, em mamíferos, na cavidade nasal posterior (Fig. 2.8). Os neurônios olfativos, que são células nervosas bipolares, têm uma vida média de 30 a 60 dias, sendo continuamente substituídos a partir de células-tronco localizadas no epitélio olfativo. De seu polo apical origina-se um dendrito único que se estende à superfície epitelial. Numerosos cílios projetam-se desse dendrito, compondo extensa superfície receptora. Do polo oposto da célula receptora, parte um axônio único em direção ao bulbo olfatório. Substâncias presentes na cavidade nasal ligam-se a receptores específicos nos cílios dos neurônios olfatórios e dão origem a uma cascata de eventos que culminam na geração de potenciais de ação nos axônios dessas células, transmitindo essa informação ao bulbo olfatório. Há muito tempo se reconhece a habilidade de mamíferos em reconhecer e distinguir uma imensa variedade de odores. Essa habilidade, no entanto, varia entre as diferentes ordens de mamíferos, sendo menor nos primatas, em comparação, por exemplo, aos roedores, considerados macrosmáticos por possuírem uma refinada sensibilidade olfativa. Há indícios filogenéticos de que a redução no poder de resolução olfativa, em nossos ancestrais primatas, tenha coincidido com o desenvolvimento da visão tricromática.Primatas, em geral, e seres humanos, em particular, são animais microsmáticos, para os quais a visão representa a principal fonte de informação sensorial sobre meio circundante. https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/978-85-412-0334-0/epub/OEBPS/Text/chapter2.htm#fig2.8 Fig. 2.8 – Corte sagital exibindo a cavidade nasal e detalhe do epitélio olfativo (modificado de Bear et al., 2008). Na década de 1960, Amoore propôs que deficiências seletivas no reconhecimento de certos odores pudessem ser causadas por defeitos genéticos associados a proteínas que funcionassem como receptores odoríferos (RO). Mais tarde foram obtidas evidências experimentais que suportavam a existência de tais proteínas. Mais recentemente, foi identificada, em ratos, uma grande família de genes que codificam centenas de diferentes RO expressos por neurônios olfatórios e que pertencem a uma superfamília de receptores que funcionam acoplados à proteína G, de forma semelhante à observada nos receptores gustativos e em outras vias de sinalização neurais e hormonais. Famílias homólogas dos genes de RO foram identificadas em várias outras espécies, incluindo a humana. As características desse grupo de receptores odoríferos são consistentes com a habilidade de interagir com uma grande variedade de ligantes estruturalmente diversos: a família de RO é extremamente grande, compreendendo, em humanos e roedores, de 500 a 1.000 genes, aproximadamente. No entanto, muitos dos genes que codificam essa família de receptores odoríferos são, na verdade, pseudogenes, ou seja, deixaram de ser funcionais durante o processo evolutivo. A fração de pseudogenes varia entre as espécies, chegando, em seres humanos, a cerca de 52% dos genes RO. Apesar de sua diversidade, os genes associados aos RO podem ser agrupados em subfamílias, com base na similaridade de sequências de nucleotídeos e a consequente habilidade desses subconjuntos de hibridizarem mutuamente. Membros da mesma subfamília codificam receptores que se assemelham quanto à sequência de aminoácidos e, portanto, capazes de reconhecer ligantes estruturalmente semelhantes. Como já mencionado, a ligação de uma substância a um RO induz uma cascata de transdução que culmina com a geração de um potencial de ação no axônio do neurônio olfatório. Essa cascata bioquímica não só promove o processo de transdução e amplificação do estímulo olfativo, como também é responsável pelo término desse processo de ativação. A figura 2.9 mostra um modelo dos eventos bioquímicos envolvidos no processo de transdução olfativa conhecido até o presente. A ligação de uma substância odorífera a um receptor acoplado a uma proteína G leva à liberação de subunidades dessa proteína. A subunidade α estimula uma adenilciclase, causando aumento na concentração de AMP cíclico (AMPc). O AMPc, além de poder induzir efeitos de longo prazo (tais como os que envolvem a modulação da expressão gênica), é responsável pela abertura de canais de cátions modulados por nucleotídeos cíclicos, sendo que íons Na+ e Ca2+ fluindo por esses canais hipopolarizam o neurônio olfativo, gerando um potencial de ação. É possível que outras vias de sinalização intracelular também contribuam para a transdução olfativa, tais como as que envolvem o inositol trifosfato (IP3) ou o GMP cíclico (GMPc), embora o exato significado fisiológico dessa contribuição ainda precise ser esclarecido. Deve ficar claro que esse modelo de interações bioquímicas envolvidas na transdução olfativa é ainda incompleto e, às vezes, especulativo. Novos resultados irão, futuramente, alterar e complementar o conhecimento a respeito desses processos sensoriais básicos. Fig. 2.9 – Possíveis mecanismos da transdução olfativa (modificado de Bear et al., 2008). Codificação da informação no epitélio olfativo A exposição de neurônios olfativos a substâncias odoríferas geralmente provoca uma resposta hipopolarizante, embora hiperpolarizações também possam ser observadas. A frequência de potenciais de ação gerados no neurônio aumenta em função da concentração da substância odorífera, fornecendo mais um exemplo do mecanismo utilizado pelo sistema nervoso na codificação da intensidade de um estímulo sensorial. Vários estudos eletrofisiológicos têm mostrado que um mesmo neurônio olfatório pode responder a uma variedade de substâncias, mas que vários conjuntos de neurônios respondem a conjuntos diferentes de substâncias. Portanto, diferentes substâncias são codificadas por populações neuronais funcionalmente superpostas, a exemplo da sensibilidade gustativa e ainda outras modalidades sensoriais. Especula-se, também, que o padrão temporal na descarga de um único neurônio em resposta a um conjunto de substâncias possa contribuir para a codificação desses estímulos. Estudos de hibridização in situ mostraram que cada gene responsável por um receptor odorífero (RO) é expresso em uma fração reduzida dos neurônios olfatórios. A partir daí, análises quantitativas mostraram que cada neurônio expressa apenas o gene responsável por um único RO e que, portanto, a informação transmitida ao bulbo olfatório por um neurônio reflita diretamente a especificidade de um único tipo de RO. Embora a resposta máxima a diferentes substâncias ocorra em várias regiões do epitélio olfatório, a resposta a uma determinada substância é obtida em muitas regiões do epitélio. Essa é uma evidência adicional de que o gene associado a um RO não se encontra localizado em pequenas áeras do epitélio, mas sim disperso sobre regiões maiores da superfície epitelial. Em camundongos e ratos, essas regiões formam, pelo menos, quatro zonas distintas nas quais diferentes conjuntos de genes RO são expressos. Neurônios que expressam o mesmo gene (e, portanto, são ativados pelas mesmas substâncias) ou genes membros da mesma subfamília (e, portanto, são ativados por substâncias semelhantes) estão confinados à mesma zona. Estudos neuroanatômicos mostram que essa organização topográfica encontrada no epitélio olfatório é preservada em suas projeções ao bulbo olfatório, à semelhança da organização topográfica (retinotópica, somatotópica, tonotópica) encontrada em outras modalidades sensoriais. Os axônios dos neurônios olfatórios, em cada cavidade nasal, projetam-se ao bulbo olfatório ipsilateral, que se localiza acima e posteriomente à cavidade (ver Fig. 2.8). No bulbo olfatório, os axônios das células receptoras fazem contato sináptico, em estruturas denominadas glomérulos, com dendritos de interneurônios e de neurônios secundários (células mitral e em tufo) que levam a informação ao córtex olfatório. Glomérulos individuais recebem projeções convergentes originadas em várias regiões do epitélio olfatório, e respondem a diferentes substâncias odoríferas (Figs. 2.10A,B). Estudos recentes também mostram que cada substância, individualmente, induz atividade em vários glomérulos. Acredita-se que cada glomérulo receba a projeção de neurônios que expressam um mesmo RO, e que vários glomérulos ativados por uma única substância receberam projeções de diferentes RO, em vez de um único RO que se projeta sobre vários glomérulos. Por sua vez, a habilidade de um único glomérulo em responder a diferentes substâncias deriva não da inervação daquele glomérulo por neurônios expressando diferentes RO, mas sim da capacidade de um único RO de reconhecer diferentes substâncias. Em suma, cada substância é reconhecida por diferentes RO, e cada RO reconhece diferentes substâncias. Este fato é consistente com a capacidade de células receptoras individuais, as quais expressam um único RO, de responder a diferentes substâncias. Diferentes RO que interagem com uma mesma substância odorífera devem reconhecer várias características estruturais dessa substância, sendo que muitas substâncias devem compartilhar algumas dessas características, mas diferir em outras.https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/978-85-412-0334-0/epub/OEBPS/Text/chapter2.htm#fig2.8 https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/978-85-412-0334-0/epub/OEBPS/Text/chapter2.htm#fig2.10 Figs. 2.10 – Codificação olfativa. A) Neste exemplo, neurônios expressando três tipos diferentes de receptores odoríferos (RO) são estimulados por quatro diferentes odores: cítrico, floral, hortelã e amêndoa. B) Observamos que neurônios expressando o mesmo RO se projetam para um mesmo glomérulo no bulbo olfatório (modificado de Bear et al., 2008). Como consequência das considerações acima, uma substância odorífera seria representada espacialmente no bulbo olfatório por meio de uma combinação única de glomérulos. Cada glomérulo, por sua vez, serviria como parte de um código para muitas substâncias. Algumas vantagens emergem desse mecanismo de codificação neural, como já vimos denominado de “código de população”: 1. A capacidade de discriminar muito mais substâncias do que o número de receptores odoríferos existentes, já que essa capacidade dependeria do número possível de combinações entre eles; 2. E também a capacidade de reconhecer padrões olfativos jamais encontrados anteriormente, ou não encontrados por longos períodos. A manutenção de uma sinapse funcionalmente íntegra muitas vezes exige a atividade, mesmo que ocasional, desse circuito neural. Se um RO (ou um glomérulo) fosse específico para uma dada substância, a ausência da estimulação olfativa por essa substância levaria à degradação na capacidade do sistema olfativo em reconhecer esse referido estímulo. Mas como os glomérulos são compartilhados em diferentes combinações, na identificação de muitos odores um odor específico pode manter-se efetivo por longo tempo, ainda que raramente encontrado pelo animal, já que os processos sinápticos que propiciam sua identificação continuam sendo constantemente utilizados por outros estímulos, mais frequentes, cuja codificação inclui muitas das mesmas sinapses. Vias olfativas Registros eletrofisiológicos de células mitrais e em tufo revelam que as células granulares e periglomerulares organizam circuitos locais inibitórios. O bulbo olfatório, por meio desses circuitos, processa e refina a informação sensorial antes de enviá-la ao córtex olfativo pelo trato olfatório lateral. O córtex olfativo é subdividido em cinco áreas principais (Fig. 2.11): o núcleo olfatório anterior, que parece mediar, por meio da comissura anterior, a comunicação entre regiões bilateralmente simétricas dos dois bulbos olfatórios; córtex piriforme, que se constitui na principal área envolvida na discriminação olfativa; tubérculo olfatório, que envia projeções ao núcleo mediodorsal do tálamo que, por sua vez, projeta-se ao córtex orbitofrontal, envolvido na percepção olfativa consciente; núcleo cortical da amígdala e córtex entorrinal, os quais se projetam para o hipotálamo e o hipocampo, parecem estar envolvidos nos atributos afetivos que acompanham um estímulo olfativo. Projeções convergentes ao bulbo olfatório partem de várias regiões do sistema nervoso, incluindo áreas corticais olfatórias, prosencéfalo basal, locus ceruleus e núcleos da rafe. Por meio desse controle eferente, o bulbo olfatório pode ser modulado por essas diversas áreas, permitindo a atribuição de diferentes significados a um mesmo odor, dependendo das circunstâncias fisiológicas e comportamentais do organismo. A importância https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/978-85-412-0334-0/epub/OEBPS/Text/chapter2.htm#fig2.11 dessa modulação da percepção olfativa torna-se evidente se considerarmos a relevância da olfação em comportamentos decisivos à adaptação do indivíduo, tais como a ingestão alimentar e o acasalamento. O conjunto de áreas corticais envolvidas no processamento olfativo é denominado, por vários autores, de rinencéfalo e não exibe as seis camadas celulares encontradas em áreas corticais filogeneticamente mais recentes (neocórtex). O rinencéfalo é, assim, composto pelo alocórtex, filogeneticamente mais antigo, e mais diretamente relacionado a circuitos corticais envolvidos em estados afetivos e respostas emocionais. Portanto, não é surpreendente que odores (e também estímulos gustativos) possam deflagrar intensas reações emocionais, tanto em humanos quanto em outros animais. Essa característica define a valência afetiva atribuída aos odores, ou seja, sua capacidade em despertar sensações agradáveis (valor hedônico positivo) ou desagradáveis (valor hedônico negativo). Estímulos visuais e auditivos, cujo processamento cortical inicial é realizado por circuitos neocorticais, são menos potentes do que os estímulos olfativos em sua capacidade de ativar os circuitos responsáveis por respostas emocionais. Fig. 2.11 – Projeções ascendentes da via olfativa. O córtex piriforme e o tubérculo olfatório (o qual envia projeções ao núcleo mediodorsal do tálamo e daí para o córtex orbitofrontal) parecem estar envolvidos na percepção olfativa consciente. O núcleo cortical da amígdala e o córtex entorrinal estão envolvidos nos componentes afetivos da sensibilidade olfativa (modificado de Bear et al., 2008). Integração olfação-gustação e o sabor dos alimentos Já no século XVIII, Haller definia sabor como a soma de gostos e odores. Na verdade, mais do que a soma das ativações gustativa e olfativa, o sabor de algo que ingerimos depende de uma complexa interação dessas e de outras modalidades sensoriais. Todos sabemos a diferença entre beber um copo de refrigerante, quando bem gelado, em relação a beber o mesmo refrigerante se estiver à temperatura ambiente. Da mesma forma, o pão fresquinho que acaba de chegar da padaria não terá o mesmo sabor no dia seguinte. Percebemos, portanto, que, ao lado das qualidades gustativas e olfativas que caracterizam um alimento, outras qualidades são igualmente importantes para construir a percepção de seu sabor, tais como sua temperatura, consistência e textura. Essas outras qualidades são percebidas por meio da estimulação de receptores que constituem a sensibilidade somestésica da cavidade oral (mecanorreceptores e termorreceptores). Mesmo nociceptores (que também fazem parte da sensibilidade somestésica) contribuem para o sabor de um alimento, já que são ativados por substâncias, como a capsaícina, encontrada em algumas pimentas, e que tanto contribuem para a riqueza do paladar. Um aspecto ainda controvertido é o mecanismo responsável pelo sabor produzido pelas gorduras presentes em um alimento. Alguns autores acreditam que a viscosidade e a textura dos alimentos gordurosos sejam os únicos atributos que compõem seu sabor, mediado, portanto, pela sensibilidade somestésica, tal como acontece com a sensação adstringente produzida por polifenóis presentes em algumas frutas, chás e vinhos (e que decorre da precipitação, na saliva, de aminoácidos ricos em prolina). No entanto, foram encontrados, recentemente, receptores/transportadores de ácidos graxos na membrana de células gustativas, os quais podem ligar-se a ácidos graxos de cadeia longa e facilitar seu transporte para o interior da célula. A inativação do gene que codifica a síntese desses receptores/transportadores diminui o apetite de camundongos por alimentos enriquecidos com ácidos graxos, o que dá força à proposta, defendida por alguns autores, de que um mecanismo gustativo primário deva ser associado a estímulos gordurosos. O que podemos afirmar, com certeza, é que estímulos gustativos, olfatórios, mecânicos, térmicos e mesmo nociceptivos contribuem para compor o sabor de um alimento. Podemos ir um pouco mais longe e incluir os proprioceptores dos músculos mastigatórios e da articulação temporomandibular, além de mecanorreceptores periodontais, como uma fonte de informações sensoriais que contribui para um dado sabor. Afinal, a maciez de um alimento é também percebidae avaliada a partir da contribuição de informações proprioceptivas. Dados obtidos por métodos de neuroimagem dão suporte a essa ideia de composição multissensorial do sabor dos alimentos. Imagens de ressonância magnética funcional mostraram que estímulos gustativos, olfativos e somestésicos, provenientes da cavidade oral, geram ativações neurais que se superpõem em várias áreas corticais, tais como ínsula, córtex orbitofrontal e giro do cíngulo (Fig. 2.12). Tais evidências sugerem que essas estruturas corticais possuem um papel central na integração de informações sensoriais distintas, mas que cooperam para a percepção de um sabor. O sabor de um alimento, portanto, é apenas mais um exemplo de integração sensorial multimodal, sujeito a modulações impostas pelo aprendizado, por processos de retroalimentação sensorial e também pela atenção que prestamos àquilo que ingerimos. https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/978-85-412-0334-0/epub/OEBPS/Text/chapter2.htm#fig2.12 Fig. 2.12 – Integração olfação-gustação. Por meio de métodos de neuroimagem é possível evidenciar que estímulos gustativos e olfativos produzem ativações neurais que se superpõem em várias áreas corticais, tais como ínsula, córtex orbitofrontal e giro do cíngulo (modificado de Small e Prescott, 2005). Bibliografia 1. Aires MM. Fisiologia. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 4a Ed., 2012. 2. Amoore JE. Stereochemical theory of olfaction. Nature 198 (4877): 271– 2(1963). 3. Axel R. Scents and Sensibility: A Molecular Logic of Olfactory Perception (Nobel Lecture). Angew. Chem. Int. Ed., 44:6110 – 6140, 2005. 4. Carleton A et al. Coding in the mammalian gustatory system. Trends in Neurosciences, 33: 326–334, 2010. 5. Bear MF, Connors BW, Paradiso MA. Neurociências – Desvendando o Sistema Nervoso. Artmed editora. 3ª Ed, 2008. 6. Kandel ER, Schwartz JH, Jessel JM. Princípios da Neurociência. Editora Manole, 4ª Ed., 2002. 7. Purves D et al. Neurociencias. Artmed Editora SA, Porto Alegre, 2005. 8. Small DM, Prescott J. 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