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Universidade Federal de Viçosa
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Universitárias de América Latina y el Caribe
ALUÍZIO BORÉM
Engenheiro Agrónomo, M. Sc. Ph. D.
GLAUCO V I E I R A M IRANDA
Engenheiro Agrónomo, M. S c , D. Sc.
Melhoramento
de
Plantas
6- edição, revista e ampliad
V
EdiTORA
UFV
Universidade Federal de Viçosa
2013
Dani
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© 1997 by Aluízio Borém
1» edição: 1997; 2 a edição: 1998; 3 a edição; 2001
4 a edição: 2005 — com a inclusão do segundo autor
l f l reimpressão: 2007
5 a edição: 2009; 6 a edição: 2013
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reproduzida, apropriada e estocada, por qualquer forma ou meio, sem autorização
do detentor dos seus direitos de edição.
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Classificação da Bibl ioteca Cent ra l da U F V
Borém, Aluízio, 1959-
B731m Melhoramento de plantas / Aluízio Borém, Glauco V i e i r a
2013 Mi randa . 6. ed. rev. e ampl. - Viçosa, M G : E d . U FV , 2013.
523 p. : i l . ; 22 cm.
I S B N 978-85-7269-466-7
Inc lu i bibliografia.
1. P l an tas - Melhoramento genético. 2. Interação genótipo-
ambiente. 3. Biotecnologia vegetal. I . M i randa , Glauco V i e i r a , 1967-.
I I . Título.
CDD 22. ed. 631.53
Capa : Miro Sa ra i v a
Revisão linguística
Angelo José de Carva lho
Editoração eletrônica
José Roberto da S i l v a L a n a
Impressão e acabamento
Divisão Gráfica da Ed i to ra U F V
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Este livro foi impresso em papel offset 90 g/m2 (miolo) e couchê 150 g/m z (capa).
"O melhoramento de plantas exige que os procedimentos
sejam cada vez mais rápidos, com menores custos e cada vez
mais eficientes, Atualmente, o melhoramento é arte, ciência
e negócio."
AGRADECIMENTOS
Ao Professor Tuneo Sediyama, da Universidade
Federal de Viçosa, por ter-me iniciado no estudo e na prática
de melhoramento de plantas (Borém).
Ao Professor Walter R. Fehr, da Universidade
Es tadua l de Iowa-EUA, pelos ensinamentos e pela visão
dinâmica do melhoramento de plantas moderno e ousado
(Borém).
Ao Professor Donald C. Rasmusson, da Universidade
de Minnesota-EUA, pela visão prática, contextualizada e
racional do desenvolvimento de cultivares (Borém).
Ao Professor Clibas V ie i ra , da U FV (in memoriam),
eterno Mestre, pelos ensinamentos (Borém e Glauco).
Ao Dr . Plínio I tamar de Mello do Souza e à equipe de
Me-lhoramento de Soja da EMBRAPA/CPAC - 1989/1990
(Glauco).
Aos meus estudantes de graduação e pós-graduação,
em especial ao Leandro Vagno de Souza (Glauco).
Aos membros do Programa Milho U FV , em especial
aos Professores João Carlos Cardoso Galvão e José Roberto
Assis De Bem (Glauco).
SUMÁRIO
Prefácio à 6 a Edição 15
Prefácio à I a Edição 17
Introdução 19
1 Desafios da Produção Agrícola 21
Referências 24
2 Importância do Melhoramento de Plantai* 27
Produtividade 30
Resistência às doenças 32
Resistência a insetos 33
Qualidade nutricional 33
Tolerância às condições adversas de clima e HOID 34
Introdução de caracteres exóticos 34
Plantas ornamentais 35
Biocombustíveis 35
Melhoramento em algumas espóciíw agronómicas 36
Milho 36
Soja 37
Feijão 37
Arroz • 38
Ave ia 39
Algodão 40
Girassol 40
Maçã 40
Referências 41
3 Planejamento do Programa de Melhoramento 43
A oportunidade de negócios com a pequena empresa de
melhoramento de plantas 47
Referências 49
4 Processos do Programa de Melhoramento 51
Referências 54
5 Sistemas Reprodutivos das Espécies Cu l t ivadas 56
Reprodução sexual 57
Reprodução assexuai 61
Referências 63
6 Recursos Genéticos 65
Centros de diversidade das plantas cultivadas 66
Uso e manutenção de germoplasma 72
Referências 84
7 Var iab i l idade Genética de novo 86
Mutações 86
Agentes mutagênicos 88
Indução de mutações no melhoramento de plantas 91
Transformação gênica 92
Variação somaclonal 94
Referências 95
8 Herdabi l idade 98
Componentes da herdabilidade 98
Fatores que afetam a herdabilidade 101
Métodos para estimação da herdabilidade 105
Considerações finais 123
Referências 128
9 Interação Genótipo x Ambiente 131
Principais causas da interação genótipo x ambiente 134
Uso das informações sobre a interação genótipo x ambiente.... 135
\
Algumas sugestões práticas para a interação genótipo x
ambiente 141
Referências 141
10 Adaptabilidade e Estabilidade de Comportamento 145
Homeostase 146
Tipos de estabilidade 148
Métodos de análise da estabilidade 149
Estimando a adaptabilidade e estabilidade 159
Melhoramento visando à estabilidade 160
Referências 161
11 Seleção de Genitores 165
Tipos de cruzamento • 166
Importância da seleção de genitores 168
Genitores potenciais 169
Filosofias de seleção de genitores 171
Métodos de seleção de genitores 173
Referências 182
12 Cu l t ivares 187
Tipos de cultivares 188
Referências 194
13 Introdução de Germoplasma 196
Uso da introdução de germoplnsma 197
Referências 199
14 Seleção no Melhoramento do P lantas 200
Teoria das l inhas puras 201
Seleção genealógica 203
Seleção massal 205
Referências ^08
15 Hibridação no Melhoramento de P lantas 211
Tipos de população 214
Número de cruzamentos 217
Referências 220
16 Método da População 223
Descrição do método 224
Princípio do método da população 227
Modificações no método da população 229
Referências 234
17 Método Genealógico 237
Descrição do método 238
Princípio do método genealógico 240
Seleção durante as gerações segregantes 241
Modificações no método genealógico 246
Considerações f inais 255
Referências 255
18 Método Descendente de Uma Única Semente 257
Descrição do método -. 260
Princípios do método SSD 261
Seleção durante as gerações segregantes 262
Modificações no método SSD 263
Considerações f inais 265
Referências 266
19 Teste de Geração Precoce 268
Descrição do teste 269
Referências 272
20 Método dos Retrocruzamentos 274
Teoria dos retrocruzamentos 276
Estratégias para transferência de várias características 285
Potencial de sucesso do método 287
Retrocruzamentos para introgressão de germoplasma 288
Procedimentos 288
Retrocruzamentos em espécies alógamas 293
Considerações f inais 293
Referências 294
21 Populações Alógamas 298
Definição de populações alógamas 298
Equilíbrio de Hardy-Weinberg 301
Est ru turas de populações alógamas 308
Comparação de estrutura genética 309
Seleção 310
Referências 316
22 Seleção Recorrente 317
Métodos de seleção recorrente 320
Métodos
intrapopulacionais 324
Referências 341
23 Endogamia e Heterose 344
Endogamia 344
Heterose 350
Referências 363
24 Cul t ivares Híbridos 3 6 7
Híbridos comerciais 370
Capacidade de combinação 372
Topcross 373
Escolha dos testadores 373
Predição de comportamento de h íh r i r ioH duplos 376
Produção comercial de híbridoH 378
Tecnologia S P T (Seed Production Tecnology) 380
Referências 381
25 Melhoramento Visando à Reaistência a Doenças 383
Fontes de resistência 385
Interação patógeno x hospedeiro 388
Base molecular da interação patógeno x hospedeiro 390
Raças fisiológicas 396
Tipos de resistência 398
Estratégias de melhoramento 403
Referências 405
26 Melhoramento por Meio de Ideótipos 413
Fundamentos para o melhoramento por meio de ideótipos ...414
Procedimento 415
Fatores que l imi tam o progresso genético 417
Ideótipo de trigo 419
Ideótipo de milho 421
Ideótipo de feijoeiro 423
Ideótipo de cevada 423
Referências 426
27 Melhoramento de Espécies Assexuadamente
Propagadas 430
Referências 435
28 Produção de Di-Haploides 437
Di-haploides no melhoramento de plantas 440
Cul tura de anteras 442
Cruzamentos interespecíficos 444
Referências 446
29 Perspect ivas do Melhoramento de P lantas 449
In ic iat iva privada x setor público 452
Empresas da inic iat iva privada 453
Referências 457
30 Registro e Proteção de Cul t ivares 459
Proteção de cult ivares 465
Referências 470
Glossário 473
Referências 523
PREFÁCIO À 69 EDIÇÃO
O melhoramento de plantas vem adicionando novas
técnicas e conceitos da agricultura sustentável aos
tradicionais métodos de seleção praticados nos últimos 100
anos e que foram responsáveis para quo as previsões
catastróficas de Malthus não se realizassem.
As novas técnicas de melhoramento gonótico estão
relacionadas ao uso da biotecnologia, como OH marcadores
moleculares, o sequenciamento de DNA, a engenharia
genética, os transgênicos, o fluxo gênico, a bioHHugurança,
entre outros. Esses assuntos são tratadon no livro do forma
simples e objetiva para os diversos leitores.
A agricultura sustentável, bummdn nos aspectos
económicos, sociais e agroecológicoH, oxucuta o prioriza os
diversos aspectos da seleção de plnntUH associados com a
preservação do ambiente, da variabilidade genética e da
interação com o homem e suas condições sociais, culturais e
económicas, tudo isso para nu montar a distribuição de
riqueza e conhecimento, do forma ecologicamente
responsável.
Durante o preparo deste livro, tivemos cuidado especial
com a apresentação dos fundamentos teóricos do melhoramento
de plantas e sua aplicação. A integração da teoria com os
aspectos práticos é essencial para o melhorista de sucesso.
Assim, esta obra foi escrita com o objetivo de tornar acessíveis
os conhecimentos atualizados do melhoramento de plantas aos
estudantes de graduação em Agronomia e pós-graduação cm
Genética e Melhoramento, Fitotecnia e Fitopatologia, bem como
aos profissionais das áreas de Melhoramento de Plantas e
Produção de Sementes. Além disso, extensa e atualizada
bibliografia foi incluída no final de cada capítulo, visando
estimular os leitores que desejarem aprofundar-se em qualquer
tópico abordado.
Escrevemos este livro como parte de nossa modesta
contribuição à formação intelectual daqueles que se dedicam
ao desenvolvimento de novos cultivares. Mesmo tendo sido
tarefa dura e desgastante, esta obra foi realizada com o
entusiasmo de um melhorista, que, ao registrar um cultivar,
pretende encontrar nele o produto do seu trabalho e sua
contribuição para a melhoria do bem-estar da população.
Es ta sexta edição foi acrescida de novos capítulos, vários
outros receberam acréscimos e muitos foram atualizados, à luz
de novos paradigmas dos cenários científico e económico. Além
disso, seis capítulos foram eliminados em razão de outras obras
dos autores já abordarem, com mais detalhes, os seus
conteúdos.
Esperamos que esta obra estimule os jovens
melhoristas e s i rva de referência aos mais experientes na tão
nobre e empolgante atividade de melhoramento de plantas.
Viçosa, janeiro de 2013.
Borém e Glauco
PREFÁCIO À 1* EDIÇÃO
(FOREWORD)
I take pleasure in writing the foreword for this plant
breeding book because plant breeding offers outstanding
opportunities to contributo to the well being of mankind. The
contribution to mankind comes about when new varieties of
food, feed, and fiber crops are developed that increase
productivity and reliability. Such varieties have become
available and are being grown by large as well as small
farmers. Ultimately the improved performance benefits society
as a whole. Furthermoro, good opportunities exist to increase
contributions in the futuro through plant breeding. I n the
major crops many traits such as resistaneo to disease and
insects deserve moro attention, and in small acreage crops
plant breeding programs aro dosorving a groater offort.
Dr. Borém*H first oxpoHuro to plant breeding was at
Universidade Federal do Viçosa whoru ho was inspired by
gifted teachers Huch as Drs. Tunuo Hodiyama and Clibas
V ie i ra (in memoriam), Ho subsoquontly studied at two of the
largest and most prostigious plant breeding graduate
centers in North America, i.e., at lowa State Univers i ty and
the University of Minnesota. These programs are noted for
providing excellont in-depth coursos in applied and basic
subjects and for a rich resoarch experience. A t these
institutions, Dr. Borém had the benefit of associating wi th
and taking coursos from such prominent plant
breeder/geneticists as Walter Fehr, Arne l l Hallauer, and
Ronald Phil ips. It was my ploasure to serve as his advisor
for his doctorate program at the University of Minnesota,
Th is book was wri t ten to provide a broad integrated
treatment of the subject of plant breeding and relies heavily
on information gleaned by Dr . Borém during his study of
plant breeding at Iowa State Univers i ty and the Univers i ty
of Minnesota. Fundamental principies about plant breeding
and genetics, background information needed i n making
plant breeding decisions and methods of breeding are
emphasized. Information from related fields of knowledge
such as plant pathology, plant physiology, agronomy,
experimental design, cytogenetics, quantitative and
molecular genetics is incorporated i n selected chapters. The
first several chapters provide introductory and background
information. Chapters 13 - 20 focus on selection and
breeding methods. The later chapters, 21 - 27, concentrate
on special techniques and newer technologies.
The book is intended to be used by beginning and
advanced students, as well as to serve as a reference for those
interested in independent study of plant breeding. Instructors
using this book are encouraged to select specific chapters to
meet classroom needs depending on the desired levei of
instruction and the time available. Some readers wi l l benefit
from the list of references that accompany each chapter.
F inal ly , I would l ike to thank Dr. Borém for accepting
the challenge of wr i t ing this book. I t is not a surprise that he
would undertake such a task as Dr . Borém was an
unusual ly attentive and hard working student.
Donald C. Rasmusson
Un i v e r s i t y of M inneso ta
INTRODUÇÃO
O melhoramento de plantas é a mais valiosa
estratégia para o aumento da produtividade de forma
sustentável e ecologicamente equilibrada. Inicialmente era
uma arte, pois desde a época dos primeiros agricultores as
sementes dos tipos mais desejáveis e r am separadas para a
propagação da espécie. Atualmente, os vastos conhecimentos
científicos têm conduzido o melhorista a resultados
previsíveis, acompanhando a evolução tecnológica e
contribuindo para o bem-estar da humanidade.
Estima-se que metade do incremento da produtividade
das principais espécies agronómicas nos últimos 50 anos seja
atribuída ao melhoramento genético. Km face da crescente
preocupação com a ética ecológica e valorização da agricultura
sustentável, o melhorista assume ainda maior responsabilidade
na elevação da produção mundial de alimentos, buscando
reduzir a quantidade dos insumoM utilizados.
O melhoramento do plantas é uma ciência biológica, o
que significa quo não oxuttom métodos únicos para se
atingirem objotivos específicos, ou seja, não há receita que
possa sor generalizadamente prescrita para o desenvolvi-
mento do novos cultivares. O melhorista deve, de forma
crítica, avaliar cada situação e otimizar os recursos
disponíveis para alcançar os objetivos dentro da melhor
relação eusto-benofíeio.
O mercado atua] exige melhoristas ecléticos e dinâmicos
e com afinidade para o trabalho em equipe; por isso, o
melhorista moderno necessita de sólida formação em vasto e
inesgotável campo científico. Além disso, com as novas
tecnologias nas áreas de genética molecular, cultura de tecidos
e bioquímica, dentre outras, o melhorista do terceiro milénio
precisa estar apto para avaliar os novos recursos e adotar
aqueles que contribuirão para o aumento do ganho genético a
um custo aceitável.
Aluízio Borém
Glauco V. Miranda
Desafios da
Produção
Agrícola
r
]E perturbador saber que cerca de 840 milhões de
pessoas se encontram famintas ou subnutridas. São também
impressionantes os fatos do que a população mundial de 7,3
bilhões alcançará 9 bilhões no ano de 2050 e que a produção
agrícola precisa aumentar em 60% para atender a essa
demanda de alimentos em apenas ÍÍH anos. Isso significa a
quantidade adicional por ano de um bilhão de tonelada de
cereais e 200 milhões de toneladas de carne.
Muitos desafios tom que sor superados por todos os
atores do setor agrícola. Kntro esses desafios pode-se
destacar que o crescimento populacional tem ocorrido de
forma mais acelerada nos países em desenvolvimento que
não possuem ciência, tecnologia e recursos adequados para
atender a essas necessidades de mais alimentos; a área de
expansão agrícola é l imitada, podendo ser aumentada em
apenas 5% (69 milhões de hectares); o aumento da
produtividade agrícola precisa ser pelo menos o mesmo dos
últimos 50 anos, inclusive para conter o preço dos alimentos,
22 Borém e Miranda
restringindo ainda mais o acesso para os países em
desenvolvimento; a necessidade de produção de não
alimentos concorre por área com alimentos; há a necessidade
de aumentar a sustentabilidade da produção agrícola com
melhor aproveitamento do uso da água, florestas e
biodiversidade; por volta de 25% da área agricultável está
degradada; em muitos países há falta de água; e estão
ocorrendo mudanças climáticas e eventos climáticos
extremos.
A fome não é fato novo na história mundial. O risco de
o crescimento populacional não ser acompanhado pelo
aumento da produção de alimentos foi estudado pelo
economista inglês Thomas Robert Malthus (1768-1834) há
aproximadamente 200 anos. As ousadas previsões de
Malthus não se concretizaram até o presente, em virtude do
surgimento de novas fronteiras agrícolas e da inclusão de
novas técnicas e insumos no sistema produtivo. A agricultura
mecanizada, com uso de insumos e de novos cultivares,
resultou em produtividade que Malthus não pôde prever.
Embora atualmente exista produção de alimentos em excesso
em vários países, diversas regiões do mundo ainda se
encontram subjugadas à fome e à desnutrição.
Devido aos efeitos potenciais na saúde humana,
economia e ambiente, outro fenómeno que está ocorrendo e
pode levar a população humana a questionar diversas
atitudes em relação ao ambiente é o aquecimento global. A
temperatura média da superfície da Terra vem aumentando
nos últimos 150 anos, e as prováveis causas para isso são as
naturais e as provocadas pelo homem devido ao aumento de
gases de efeito estufa e outras alterações, como os maiores
usos de águas subterrâneas e de solo na agricultura
intensiva com maior consumo energético e a poluição. No
Brasil, as principais causas da agricultura na emissão de
gases de efeito estufa são as queimadas.
Desafios da produção agrícola 23
Importantes mudanças ambientais têm sido
observadas, como a diminuição da cobertura de gelo, o
aumento do nível do mar e as alterações dos padrões
climáticos. Essas mudanças podem influenciar não só as
atividades humanas relacionadas à agricultura e
povoamento de regiões, mas também aos ecossistemas
fazendo com que algumas espécies podem ser forçadas a sair
dos seus habitats com possibilidade de extinção enquanto
outras podem espalhar-se, invadindo outros ecossistemas.
Os desafios da agricultura têm proporcionado
oportunidades para um conjunto de ações públicas e técnicas
de diferentes áreas para mitigar os efeitos, entre as quais:
melhores práticas agronómicas; inovações na pesquisa,
ensino, extensão e infraestrutura; e medidas de redução de
perda de alimentos e lixo. Como se poderá constatar, o
melhoramento de plantas é uma das ciências que têm
mostrado resultados para aumentar a produção e a
produtividade agrícola com a obtenção de novos cultivares
adaptados às diferentes necessidades locais, de ambiente e
mercado, aumentando a segurança alimentar local.
Podem-se formular algumas questões motivadoras
para serem respondidas pelos atuais e futuros melhoristas:
Como a produção de alimentos poderá ser aumentada em
quantidade suficiente para atender à demanda mundial?
Como aumentar a segurança alimentar local em regiões com
baixo índice de desenvolvimento humano? Como obter
plantas com ótimo desempenho produtivo diante das
mudanças climáticas que estão ocorrendo e as que ocorrerão?
Como associar a viabilidade económica das culturas com o
respeito ao ambiente e à justiça social? Como equilibrar as
relações entre agricultura, ambiente e homem? Como
desenvolver cultivares para criar novas demandas pelo
consumidor ou para atender as existentes?
24 Borérn e Miranda
A partir dos próximos capítulos será apresentada a
ciência do melhoramento de plantas e os seus métodos que
estão contribuindo para mitigar a fome e a pobreza causada
pela falta de alimentos e para disponibilizar mais alimentos,
fibras, biocombustíveis, biofármacos, ornamentação e
despoluição ambiental para as próximas décadas.
Referências
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Importância do
Melhoramento
de Plantas
uitas definições de melhoramento de plantas têm
sido apresentadas por diferentes autores, como: i)
melhoramento é a evolução conduzida pelo homem
(VAVTLOV, 1935); ii) a adaptação genética das plantas a
serviço do homem (FRANKEL , 1958); iii) um exercício de
exploração de sistemas genéticos das plantas (WILLIAMS,
1964); iv) a ciência e arte da manipulação genética das
plantas para torná-las mais úteis ao homem (ALLARD,
1977); v) a aplicação de técnicas para se explorar o potencial
genético das plantas (STOSKOPF et aL, 1993); vi) a arte,
ciência e negócio de alteração genética das plantas para
benefício do homem (BERNARDO, 2002).
A seleção de plantas, ou melhoramento, como arte,
vem sendo realizada desde os primórdios da agricultura,
quando os agricultores iniciaram a adaptação das plantas,
selecionundo as espécies e variedades mais desejáveis. Esse
melhoramento realizado de forma empírica resultou nas
primeiras mudanças alélicas dirigidas. Os resultados desses
esforços contribuíram de forma decisiva para o processo
Importância do melhoramento de plantas 27
evolucionário das espécies cultivadas. Com a descoberta da
reprodução sexual no reino vegetal, a hibridação entre
acessos contrastantes foi incorporada às técnicas de
melhoramento. Todavia, foram os clássicos experimentos de
Mendel que forneceram as bases para o entendimento e a
manipulação da hereditariedade, do melhoramento e do
desenvolvimento de cultivares. Muitos dos primeiros
melhoristas eram agricultores com aguçado instinto de
observação, que, ao detectarem plantas atípicas no campo,
colhiam-nas para a obtenção de sementes realizando o
melhoramento como arte. Atualmente, o melhoramento de
plantas é uma ciência que estabelece hipóteses e as avalia
pelo método científico com base no conhecimento em:
Genética: os conhecimentos dos princípios das
segregações gênicas e cromossômicas, do grau de parentesco
entre indivíduos e da identificação e expressão dos genes
permitem a escolha dos mais eficientes métodos de
melhoramento, bem como do tipo de cultivar a ser
comercializado.
Biologia molecular: o conhecimento do DNA, RNA e
proteínas permitem identificar, construir e transferir o gene
para diferentes organismos.
Bioquímica: o conhecimento das relações entre
enzimas, proteínas e outras moléculas permite a seleção de
plantas com melhor qualidade nutricional ou sabor.
Fisiologia: a compreensão do processo de
crescimento e desenvolvimento das plantas facilita a seleção
de tipos mais adaptáveis a diferentes latitudes, tipos de solos
e clima.
Estatística: a avaliação do desempenho relativo de
centenas ou milhares de plantas geneticamente distintas só
se tornou possível com o desenvolvimento de técnicas
experimentais e de análises genético-estatísticas, que
permitem afirmar, com dada probabilidade de certeza, que
28 Borém e Miranda
determinados indivíduos são superiores geneticamente aos
demais.
Botânica: o conhecimento de botânica permite
entender a anatomia, a taxonomia e o sistema reprodutivos
das espécies e assim permitir que somente os indivíduos
superiores agronomicamente deixem descendentes.
Fitopatologia: o conhecimento da etiologia dos
patógenos é fundamental para identificar possíveis
resistências das plantas.
Entomologia: o conhecimento das relações praga-
hospedeiro-ambiente é fundamental para identificar a
resistência aos insetos.
Agronomia: o conhecimento da planta e de seu
sistema produtivo e das demandas dos produtores,
consumidores e indústria é fundamental para o
desenvolvimento de cultivares com alta aceitação.
Dependendo do objetivo do melhoramento de plantas,
outras ciências são fundamentais como citogenética, nutrição
humana ou animal, ciência do solo, sem necessidade de o
melhorista ser especialista em todas elas, obviamente. A
maneira adotada, então, em vários programas de
melhoramento, para o domínio de diversas áreas, é o
trabalho em equipes multidisciplinares.
Se tivesse sido realizado o melhoramento de plantas
no último século, os cultivares disponíveis somente
suportariam a população de alguns milhões de pessoas e a
população mundial jamais teria atingido os 7,3 bilhões.
O melhoramento de plantas integra os avanços na
ciência com as questões ambientais e sociais para obter
produtos que trazem benefícios ambientais, como despoluição
de solo e melhoraria da qualidade da água e do ar e justiça
social com a produção de alimentos onde ocorre fome e
permite que se reduza a pressão em recursos naturais. O
Importância do melhoramento de plantas 29
melhoramento de plantas é a forma mais ecologicamente
responsável de se aumentar a produção de alimentos com a
adaptação da planta ao ambiente e não do ambiente à
planta. Com o aumento do potencial produtivo das espécies
cultivadas, diminui-se a pressão por inclusão de novas áreas
cultivadas no sistema produtivo.
O melhoramento de plantas é uma atividade contínua
porque a população global continua a crescer; as
circunstâncias naturais e económicas mudam constante-
mente; e as necessidades e as preferências do consumidor se
alteram. A continuidade dos programas de melhoramento de
plantas é a única forma de assegurar que os cultivares
estejam prontamente disponíveis quando necessitados e de
acordo com as mudanças climáticas ou comportamentais que
vêm ocorrem sutilmente através dos anos.
O melhoramento de plantas é o principal sustentáculo
para que a agricultura possa disponibilizar alimentos, fibras,
energia e lazer para a sociedade. O melhoramento de plantas
é a base para a alimentação humana, fornecendo frutas,
verduras, cereais e oleaginosas. Na alimentação animal,
melhora as forrageiras que mantêm a produção de carnes,
leite e ovos. Na energia, o melhoramento
de plantas trabalha
com muitas espécies fornecedoras de etanol e biodiesel. No
futuro breve, com os avanços científicos, o melhoramento de
plantas produzirá alimentos funcionais (nutracêuticos) para
a manutenção da saúde humana e animal e espécies vegetais
para produção de fármacos e biopolímeros.
O melhoramento de plantas permite o desenvolvimento
de cultivares resistentes ou tolerantes a pragas, doenças e a
estresses climáticos. Além disso, o desenvolvimento de
cultivares adaptados a regiões específicas aumenta a segurança
alimentar local, tornando aquela localidade menos dependente
de importação de alimentos principalmente em épocas de crises
mundiais.
30 Borém e Miranda
O melhoramento de plantas permite que regiões
desenvolvam sistemas produtivos eficientes para competir na
economia global, bem como para atender a nichos específicos de
mercado, proporcionando diferencial competitivo para países,
regiões ou empresas. Com o melhoramento de plantas pode-se
criar novos produtos com valor agregado. O melhoramento de
plantas é a forma mais eficiente de levar diretamente as
descobertas dos laboratórios de pesquisa para o agricultor,
consumidor e demais integrantes dos arranjos produtivos por
meio da comercialização de mudas e sementes melhorados.
Esta ciência também viabiliza a produção de energia renovável,
de alimentos seguros e de biofábricas com o surgimento de
novos negócios.
De maneira geral, o melhoramento contribui para a
segurança alimentar, para a saúde e a nutrição da
população, bem como cria oportunidades de agregação de
renda para as populações rurais, harmonizando a relação
agricultura/ambiente/homem.
O melhoramento de plantas tem sido conduzido com
alguns objetivos específicos, como: aumentar ou estabilizar a
produtividade; aumentar a qualidade ou a quantidade de
proteínas, óleos, vitaminas, minerais, conservação pós-
colheita; obter cultivares resistentes às doenças e às pragas;
aumentar a tolerância às condições adversas de clima ou
solo; e introduzir caracteres exóticos, ou seja, características
inexistentes nas espécies, como a produção de biofármacos,
resistência a herbicidas etc.
Produtividade
A produtividade agrícola, de maneira geral, está em
função dn genética, do ambiente e da interação genética x
ambiente. O melhoramento de plantas trata de duas das
CIUIHUH da produtividade, a genética e a interação genética x
Importância do melhoramento de plantas 31
ambiente. Nota-se, portanto, a importância do melhoramento
de plantas para aumentar a produção global de alimentos.
As estratégias para aumentar a produção de
alimentos são o aumento da produtividade ou da área
cultivada.
O aumento da produtividade, considerado de máxima
importância, tem sido alcançado por meio de melhoria do
manejo cultural, ou seja, com o uso de insumos e práticas
agronómicas adequadas e, pelo uso de cultivares melhorados.
Em diversas culturas, como soja, milho, arroz, trigo, algodão,
entre outras, têm-se conseguido aumentos de produtividade
anuais por volta de 2% nos últimos anos. No entanto, os
recordes de produtividades em pequena escala ainda estão
muito distantes de serem atingidos em lavouras comerciais,
devido às dificuldades de manejos agronómicos em grandes
áreas em relação às condições experimentais.
Talvez a contribuição mais reconhecida do
melhoramento de plantas para aumentar a produtividade
tenha sido realizada pelo melhorista americano Norman
Ernest Borlaug, Prémio Nobel da Paz em 1970. Durante a
metade do século XX, Borlaug desenvolveu cultivares de
trigos semianãos com alta capacidade produtiva no México,
Paquistão e índia. Como resultado, o México se tornou o
maior exportador de trigo em 1963 e de 1965 a 1970; a
produção desta espécie dobrou no Paquistão e na índia,
garantindo a segurança alimentar local. Duas razões foram
apontadas para as produtividades recordes dos cultivares
semianãos de trigos: a maior eficiência fisiológica para
absorver nitrogénio e a não apresentação do acamamento
típico das plantas sob elevadas doses de nitrogénio, que
inviabiliza a colheita. Esses cultivares associados ao
aumento de produção foram os primeiros passos da
"Revolução Verde" nos anos 1950. "Revolução Verde" é a
terminologia usada para descrever a transformação
32 Borém e Miranda
tecnológica da agricultura em muitos países em
desenvolvimento e que permitiu significativos aumentos na
produção de alimentos. A expressão foi primeiramente usada
em 1968 pelo Diretor da United States Agency for
International Development (USAID) Willian Gaud. Com isso,
o melhoramento de plantas anulou uma das mais temidas
ameaças que pairavam sobre a humanidade no século XX: a
fome em massa devido à escassez de alimentos.
Resistência às doenças
Uma das mais significativas contribuições dos
melhoristas de cevada foi à introdução do gene T, que confere
resistência vertical à ferrugem-do-colmo nos cultivares
desenvolvidos nos últimos 50 anos. Novas raças virulentas do
patógeno Puccnia graminis Pers. f. sp. Tritici têm-se
desenvolvido esporadicamente, porém a cultura da cevada
tem sido preservada de perdas económicas causadas por esse
patógeno nas últimas décadas, em virtude da resistência
conferida pelo gene T.
Outro exemplo é o caso da papaicultura no Havaí,
EUA, devido à virose mancha anelar (YEH et al., 1992). Com
a introdução dessa doença no Havaí, as plantações de mamão
papaia foram comprometidas devido à natureza epidêmica
que a virose assumiu, comprometendo a qualidade dos frutos
e inviabilizando a papaicultura local. Não existem acessos
resistentes a esta virose na própria espécie ou em espécies
relacionadas. A solução a este desafio foi à introdução de um
gene exótico à espécie, via biotecnologia, fazendo com que o
mamão papaia se tornasse resistente. Fritsche-Neto e Borém
(2012) relatam muitos outros exemplos da contribuição do
melhoramento no desenvolvimento de cultivares resistentes
cm divormiH espécies.
Importância do melhoramento de plantas 33
Resistência a insetos
Um exemplo de sucesso no melhoramento de plantas
para a resistência aos insetos são os cultivares transgênicos
com o gene Bt (Bacillus thuringiensis). O primeiro cultivar
transgênico Bt foi lançado em 1995 nos EUA, uma batata
expressando a proteína cry3A para controle da broca
(DATTA, 2007). Com isso, houve a redução de 40% do uso de
inseticidas químicos nessa cultura. Posteriormente, o gene
foi introduzido em algodão e milho. Em 2011, 160 milhões de
hectares foram ocupados com cultivares geneticamente
modificados (GM) em diferentes países.
Qualidade nutricional
Aproximadamente três bilhões de pessoas sofrem com
os efeitos da deficiência de micronutrientes porque não têm
condições financeiras para adquirir carne vermelha, frango,
peixe, frutas, legumes e hortaliças em quantidades
suficientes. As principais deficiências na população humana
são de ferro, vitamina A, iodo e zinco.
O melhoramento de plantas contribui para reduzir
essa situação constrangedora, desenvolvendo cultivares que
apresentem maior conteúdo de minerais e vitaminas de
maneira sustentável e de baixo custo, alcançando as
populações com limitado acesso aos alimentos enriquecidos
com vitaminas e outros nutrientes.
Atualmente existe uma iniciativa internacional para
se desenvolverem cultivares biofortificados que produzam
alimentos enriquecidos com vitaminas e micronutrientes,
denominado Harvest Plus. Essa iniciativa tem desenvolvido
cultivares biofortificados para atender às regiões mais
afetadas pela deficiência nutricionais. As espécies
priorizadas por esse projeto são feijão, mandioca, milho,
arroz, batata-doce e trigo.
34 Borém e Miranda
Diversos outros projetos
foram executados para a
melhoria da qualidade nutricional. Por exemplo, o milho com
alta qualidade proteica (QPM) que apresenta teores de
triptofano e lisina 33% acima do normalmente encontrado
nos cultivares de milho.
Outro exemplo de cultivar com alta qualidade
nutricional é o arroz Golden Rice, desenvolvido via
biotecnologia e com elevado conteúdo de (3-caroteno, um
precursor da vitamina A.
Tolerância às condições adversas de clima e
solo
O melhor exemplo da contribuição do melhoramento
de plantas na adaptação de uma espécie às condições
adversas de clima ocorreu com a soja no Brasil. Na década de
1970, cultivares dessa espécie floresciam muito
precocemente quando plantada na região central do Brasil e
consequentemente a produtividade de grãos era muito baixa
e economicamente inviável. Com esforços de diversas
instituições brasileiras de pesquisa, conseguiu-se
desenvolver variedades de soja com período juvenil longo, a
partir de uma variedade exótica que não florescia
precocemente. Essas variedades permitiram que a
sojicultura pudesse expandir para as regiões de baixa
latitude no Brasil, sendo plantada hoje até nos estados no
extremo norte. Fritsche-Neto e Borém (2011) descrevem
inúmeros exemplos do melhoramento para estresses
abióticos.
Introdução de caracteres exóticos
O melhoramento convencional de plantas é
frequentemente limitado às barreiras reprodutivas entre as
(«HpécioM. O desenvolvimento da transformação genética de
Importância do melhoramento de plantas 35
plantas abriu novas perspectivas para o melhoramento das
plantas, tornando possível transferir genes entre espécies ou
géneros, disponibilizando novas características relacionadas
aos estresses bióticos ou abióticos (clima e solo). Os sistemas
de transformação para as principais espécies de interesse
agrícola estão se tornando rotineiros em diversos
laboratórios. Desde 1994, os Estados Unidos vêm plantando
cultivares transgênicos de diferentes espécies e com
diferentes características. Em 2011, 29 países utilizavam
esses cultivares, inclusive o Brasil, que já possui a segunda
maior área cultivada com OGMs.
Plantas ornamentais
O melhoramento de plantas tem atuado também na
obtenção de plantas ornamentais e flores com resultados
muito expressivos. Diversas espécies apresentam híbridos
com beleza e aroma exuberantes que cativam o consumidor.
Merecem destaques as flores de corte: rosas, crisântemos,
lírios, gipsófilas, gladíolos, antúrios, estrelítzias, gérberas,
heliconias e cravos; flores de vaso: violetas, prímulas,
gloxínias, orquídeas, bromélias, azáleas, begónias; arbustos
de vaso: fícus, difenbachias, asplênios, cipestres, dracenas,
fitonias, espatifilos, peperônias, filodendros, samambaias e
singonium; e plantas para paisagismo: palmeiras,
primaveras, hibiscus, cicas, tuias, sálvias, tagetis, impatiens,
gerânios, petúnias e cravinas.
Biocombustíveis
O melhoramento de plantas tem obtido diversos
cultivares para a produção de combustível a partir da cana-
de-açúcar, sorgo, beterraba açucareira, milho, sorgo sacarino,
soja e mamona. Novas espécies começaram a ser exploradas,
como as palmáceas de um modo geral (dendê, macaúba) e o
pinhão-manso, todos no Brasil, além do miscantus nos EUA.
36 Borém e Miranda
No Brasil, diversos programas para bioenergia e para
biocombustíveis estão sendo estabelecidos, principalmente
pela iniciativa privada. Com as espécies florestais, alguns
programas de melhoramento vêm enfatizando alterações na
qualidade da madeira para torná-las mais eficientes para a
produção bioenergia: carvão, álcool etc.
Melhoramento em algumas espécies
agronómicas
No Brasil, diversas instituições têm-se dedicado ao
melhoramento genético das plantas, como as universidades, as
empresas estaduais de pesquisa, a Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e várias empresas privadas.
Milho
O progresso genético obtido com a cultura do milho
nos EUA, de 1930 a 2000, foi avaliado por Duvick (2005). Os
cultivares de polinização aberta foram os primeiros a serem
utilizados e foram predominantes até 1930. A partir daí os
híbridos se tornaram mais utilizados pelos agricultores,
ressaltando-se que até 1960 prevaleciam os híbridos duplos.
Na década de 1960, os híbridos simples modificados e os
triplos cresceram em popularidade. De 1970 até 1995, os
híbridos simples se tornaram quase totalidade dos cultivares
plantados. A partir de 1995, os híbridos simples transgênicos
se estabeleceram, com predomínio de híbridos Bt para a
resistência à broca europeia do milho (Ostrinia nubilalis
Hubner). Associado à mudança dos tipos de híbridos, o
manejo cultural também foi bastante alterado, com destaque
para a redução do espaçamento entre linhas de plantio, o
aumento do número de plantas por hectare com
predominância de densidade populacional de cerca de 80 mil
e aumento na utilização de adubos. Em média, 50% do
aumento da produção de milho deveu-se ao melhoramento de
Importância do melhoramento de plantas 37
plantas e à melhoria no manejo cultural. Esse aumento
somente ocorreu graças à interação do melhoramento com o
manejo cultural, já que, individualmente, nenhuma das duas
ciências poderia obter tal sucesso. As características que
proporcionaram tal incremento foram a tolerância aos
estresses abióticos (seca) e a resistência aos bióticos (doenças
e pragas); além disso, mudanças morfológicas e fisiológicas
aumentaram a eficiência no crescimento, desenvolvimento e
partição dos fotoassimilados. Algumas características não
foram alteradas em razão do interesse dos melhoristas em
mantê-las, a exemplo do ciclo dos cultivares. Embora os
melhoristas sempre tenham objetivado o aumento da
produtividade de grãos, a necessidade de selecionar também
para adaptação geral, os híbridos passaram a apresentar
aumento de tolerância aos estresses abióticos. Duvick (2005)
relatou progresso genético de 78 kg/ha/ano nos EUA.
Soja
No final dos anos 1970, a cultura da soja possuía
apenas 5 milhões de hectares cultivados no Brasil;
atualmente, devido ao melhoramento de plantas com a
seleção de cultivares com período juvenil longo para
florescimento, o cultivo da soja ocupa cerca de 27 milhões de
hectares no País.
O progresso genético médio anual com a cultura da
soja foi de 0,89% nos cultivares de ciclo precoce, de 0,38%) nos
de ciclo semiprecoce e de -0,28% nos de ciclo, médio no
período de 1985/86 a 1989/90, no Estado do Paraná. Tais
valores foram menores que os obtidos nos cultivares precoce
e semiprecoce nos cinco anos anteriores.
Feijão
O progresso genético para produtividade de grãos
para o melhoramento do feijoeiro foi estimado com quatro
38 Borém e Miranda
ensaios de Valor de Cultivo e Uso (VCU), na região da
depressão central do Rio Grande do Sul, durante os anos de
1998 a 2002 (RIBEIRO et ai., 2003). O progresso genético
para produtividade de grãos foi estimado em 0,88%, o que
corresponde a 18,07 kg h a 1 ano 1. Outras estimativas dos
progressos genéticos para a produtividade de grãos do
feijoeiro estão registradas na literatura: 1,90% em Minas
Gerais (ABREU et aL, 1994), 1,21% em Santa Catarina
(EL IAS et al., 1999), 0,74% no Rio Grande do Sul
(ANTUNES et al., 2000), 1,99% para o grupo preto e 1,02%
para o grupo de cores no Paraná (FONSECA JÚNIOR et al.,
1996a, b).
Esses progressos genéticos representam um
incremento significativo no valor económico da cultura.
Considerando o progresso genético médio estimado por
Abreu et al. (1994), de 17,46 kg h a 1 ano 1, tem-se o
crescimento de 58,3 milhões de kg de grãos por ano, tendo
em vista a área plantada de 3,4 milhões de hectares. O preço
médio recebido pelos agricultores, no
período de 1990 a 1997,
foi de R$ 0,79 k g 1 (AGRIANUAL, 1998). Com isso, tem-se o
incremento na renda anual dos agricultores superior a R$ 43
milhões (VENCOVSKY; RAMALHO, 2000), só com a adoção
dos novos cultivares.
Arroz
O progresso genético obtido pelo melhoramento
genético na cultura do arroz de terras altas no período de 1950
a 2001 foi avaliado em experimentos com 25 cultivares,
desenvolvidos no período do estudo. Os progressos genéticos
para a produtividade de grãos foram de 0,3 e 2,09% ao ano,
nos cultivares de ciclo precoce e tardio, respectivamente. A
altura média das plantas dos cultivares foi reduzida em 21 cm
no grupo precoce e em 38 cm no tardio, no período avaliado.
Importância do melhoramento de plantas 39
Houve acréscimo médio de dez dias no ciclo, no grupo de
cultivares precoce, e decréscimo de 13 dias no grupo tardio.
Em Minas Gerais, o progresso genético do arroz de
sequeiro (Oryza sativa L . ) foi avaliado no período de 1974/75
a 1994/95, utilizando-se os dados dos ensaios comparativos
de cultivares e linhagens de arroz de sequeiro conduzidos no
referido período. Os resultados mostraram que ocorreu o
progresso genético médio anual de 1,26% para os cultivares
de ciclo precoce e de 3,37% para os de ciclo médio.
Os cultivares híbridos de arroz se mostraram
importantes para os Estados Unidos da América e China na
última década, superando as variedades. Esses tipos de
cultivares aumentaram a produtividade das lavouras em
pelo menos 20% e forneceram alimentos para mais de 70
milhões de chineses anualmente. Atualmente, mais de 50%
da área orizícola dos EUA e da China é plantada com
híbridos. No Brasil, os híbridos de arroz começaram a ser
comercializados a partir de 2003, porém ainda não possuem
grande área de cultivo.
Aveia
Os cultivares de aveia-branca {Avena sativa L . )
cultivados no, sul do Brasil até princípios da década de 1980
eram provenientes do Uruguai e da Argentina, apresentando
problemas de adaptação ao ambiente de cultivo. A partir dos
anos 1970, programas de melhoramento começaram a
desenvolver suas próprias populações segregantes,
possibilitando o lançamento em escala comercial de dezenas
de cultivares. O progresso genético nos programas de
melhoramento de aveia-branca do Brasil foi avaliado com
experimentos envolvendo 15 cultivares lançados em
diferentes épocas. Os resultados obtidos indicaram progresso
genético de 44 kg h a 1 ano 1 para produtividade de grãos,
correspondendo a 22% em 40 anos.
40 Borém e Miranda
Algodão
O progresso genético do programa de melhoramento
de algodoeiro (Gossypium hirsutum L . ) da Embrapa, no Mato
Grosso, foi avaliado com os dados de 12 anos de pesquisa.
Para produtividade (kg/ha), o progresso genético médio anual
obtido foi de 3,93%. Para o caráter rendimento de fibra (%), o
progresso genético médio anual foi de 0,96%.
Girassol
O progresso genético do melhoramento do girassol
(Helianthus annuus L . ) em 15 anos na região central da
Argentina foi avaliado para produtividade de óleo e para
determinar as contribuições das mudanças na resistência aos
estresses bióticos e produtividade em condições ótimas. O
progresso genético dos híbridos comerciais entre 1983 e 2005
para produtividade de óleo foi 11,9 kg ha - 1 ano-1. Os híbridos
com resistência a Verticillium dahliae Klebahn apresenta-
ram progresso genético de 14,4 kg ha 1 ano 1.
Maçã
A maçã é mais um dos exemplos da contribuição do
melhoramento de plantas. Até a década de 1980, no mercado
brasileiro havia somente maçãs importadas de alto custo. O
primeiro trabalho de melhoramento de maçãs no Brasil foi
feito em 1940 pelo agricultor paulista A. Bruckner, que
recebeu 1.000 sementes vindas da Europa, dentre as quais
selecionou um cultivar, que ele chamou de Bruckner do
Brasil . Desde então, inúmeros outros cultivares foram
desenvolvidos, o que vem garantindo o abastecimento do
mercado brasileiro com maçãs de excelente qualidade, com
frutos vermelhos, suculentos, firmes e de preço acessível
(BRUCKNER, 2001).
Importância do melhoramento de plantas 41
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Planejamento do
Programa de
Melhoramento
i ^ n t e s de iniciar o programa de melhoramento
de
plantas, deve-se fazer seu planejamento. Uma das primeiras
etapas é a definição específica dos objetivos nos curto, médio
e longo prazos, o que facilitará o planejamento das etapas
subsequentes e a sincronia com outras atividades associadas
e tão importantes, como a produção de sementes dos
genitores ou dos híbridos; os ensaios de valor de cultivo e
uso; as unidades de demonstração para os agricultores; e o
registro e proteção dos cultivares e lançamento comercial.
Entre os objetivos mais comuns nos programas de
melhoramento estão o desenvolvimento de cultivares
adaptados a determinada região geográfica, desenvolvimento
de cultivares para determinado nicho de mercado, maior
tolerância às principais doenças da espécie, tolerância ao
alumínio, melhor qualidade nutricional, precocidade de
plantas etc.
44 Borém e Miranda
Para o estabelecimento dos objetivos do
melhoramento de plantas, é necessário considerar todos os
possíveis clientes, isto é, o produtor, a indústria e o
consumidor. Por exemplo, a receptividade do novo cultivar de
feijão pelo consumidor é mais importante do que a de um
cultivar de milho com finalidade de produzir grãos, porque
neste não há rejeição do consumidor quanto à cor do grão ou
à qualidade de cozimento.
O programa de melhoramento deve apresentar
processos flexíveis para permitir ajustes para novos objetivos
de acordo com novas oportunidades de mercado e para a
utilização de novas ferramentas tecnológicas que aumentam
a eficiência de seleção de plantas superiores. Neste
particular, é preciso ter senso crítico e antever as tendências
de demanda para o futuro, uma vez que o tempo médio para
o desenvolvimento de um novo cultivar frequentemente é
superior a cinco anos. Assim, por ocasião do planejamento do
desenvolvimento do novo cultivar, precisa-se considerar que
o produto deverá atender à demanda do mercado e que esta
pode ser diferente daquela do início do desenvolvimento do
cultivar. Se diversos objetivos forem estabelecidos, é
prudente classificá-los em níveis de prioridade.
Antes de iniciar um programa de melhoramento, o
melhorista deve observar outros programas e visitar
produtores de sementes e instituições de pesquisa, com o
objetivo de conhecer o germoplasma disponível. Também
uma revisão bibliográfica incluindo o levantamento de
projetos correlatos, consulta de cultivares disponíveis no
mercado e entrevistas com possíveis clientes pode resultar
em significativa economia de tempo e de esforços para quem
planeja o programa de melhoramento de plantas.
Quando as informações sobre o modo de reprodução e
a taxa de fecundação cruzada não estiverem disponíveis,
como nos casos de espécies exóticas ou silvestres, deve-se
Planejamento do programa de melhoramento 45
conduzir um estudo preliminar para identificá-los. Deve-se,
ainda, conhecer a herança das características em seleção e a
influência do ambiente na expressão do genótipo.
Alguns dos obstáculos que o melhorista enfrenta na
condução do programa de melhoramento incluem: recursos
económicos limitados, falta de área ou campos experimentais,
mudança nas normas e nos requerimentos para lançamento de
novos cultivares e vantagem ou diferença de mercado dos
cultivares em relação às outras empresas e que sejam
amplamente plantadas.
Com base nos objetivos e nos recursos disponíveis, o
melhorista deve selecionar o germoplasma-elite para o
desenvolvimento do cultivar e, provavelmente, um
germoplasma suplementar para ser utilizado como fonte de
variabilidade genética adicional. Neste germoplasma, devem-se
observar as características resistência às doenças, variabilidade
genética para ciclo, altura de planta, composição química dos
grãos, entre outras. Um germoplasma suplementar com essas
características em níveis compensadores em geral possui
limitações quanto a uma ou mais características e, por isso,
deve ser manipulado separadamente do germoplasma
principal.
No planejamento do programa, é necessário escolher
os locais para avaliação dos genótipos desenvolvidos. A
região de avaliação desses cultivares experimentais deve
representar a área à qual o novo cultivar se destina. Para
que seja avaliada a interação genótipo x ambiente, as
linhagens ou os híbridos experimentais devem ser avaliados
por mais de um ano e em diversas localidades.
Nas avaliações preliminares de produtividade e
características agronómicas, quando o número das linhagens
ou híbridos experimentais é grande, a escolha de uma ou
duas localidades pode ser suficiente. Depois de a maioria das
linhagens inferiores ser eliminada, o melhorista deve elevar
46 Borém e Miranda
o número de localidades para teste. Para avaliação de
produtividade das linhagens ou híbridos experimentais no
segundo ano, três ou quatro localidades podem ser
suficientes; nas avaliações finais, recomendam-se de cinco a
sete, ou mais.
Embora o custo no aumento do número de localidades
para teste seja significativamente maior que o do aumento do
número de repetições, só assim serão obtidas informações
sobre a adaptabilidade das linhagens e híbridos
experimentais, a magnitude da interação genótipo x
ambiente e as exigências da lei que trata sobre o valor de
cultivo e uso de cada espécie.
Os métodos de melhoramento têm sido exaustiva-
mente comparados quanto ao progresso genético. Hallauer
e Miranda (1988) relataram que os efeitos gênicos aditivos
predominam sobre os efeitos epistáticos e de dominância
na maioria das espécies agronómicas e que todos os
métodos de melhoramento capitalizam tais efeitos. Esses
autores demonstraram que, frequentemente, a escolha do
método de melhoramento tem menor efeito no progresso
genético do que se estima. Por exemplo, as falhas
atribuídas ao método "espiga por fileira" em milho são, em
geral, o resultado do uso inadequado dos delineamentos
experimentais. Uma abordagem mais completa dos
principais métodos de melhoramento será apresentada nos
capítulos posteriores.
Na maioria das vezes, a decisão de lançar o cultivar
não é fácil. A situação mais comum é aquela em que o
melhorista tem confiança na superioridade da linhagem ou
híbrido experimental em diversos aspectos, mas tem dúvidas
em relação a outros. Por exemplo, a linhagem de soja UFV
72-4 superou as testemunhas UFV-1 e Santa Rosa em
produtividade e qualidade de sementes nos ensaios
experimentais conduzidos no norte de Minas Gerais, nos
Planejamento do programa de melhoramento 47
anos agrícolas 1975/76 e 1976/77. Todavia, nos anos agrícolas
1973/74 a 1976/77, essa linhagem foi superada pela UFV-1
em produção de grãos. Em 1979, ela foi lançada como UFV-3.
As responsabilidades do melhorista não se encerram
com o lançamento do cultivar, pois ele ainda deve se envolver
na produção e manutenção da semente genética para sua
contínua distribuição.
Antes do lançamento é obrigatório cadastrar o futuro
cultivar no Registro de Cultivares do Ministério da
Agricultura, pois diversas exigências devem ser atendidas
como obter o Valor de Cultivo e Uso (VCU). Caso haja o
interesse na proteção de cultivares, os testes de
Distinguibilidade, Homogeneidade e Estabilidade (testes de
DHE) devem ser realizados para a identificação dos
descritores do cultivar e o registro do mesmo no Serviço de
Proteção de Cultivares do Ministério da Agricultura.
A oportunidade de negócios com a pequena
empresa de melhoramento de plantas
Nos últimos anos, a quase totalidade dos programas
de melhoramento de plantas em empresas ou instituições
públicas que comercializam cultivares de espécies de alto
valor económico foi interrompida ou tem tido pequena
participação no mercado pela incapacidade do setor público
de competir comercialmente com empresas
de melhoramento
de plantas da iniciativa privada.
Os cultivares são comercializados por meio de suas
sementes e mudas, e, partir daí, uma série de atividades é
desencadeada e relacionada com atividades paralelas ao
melhoramento que não necessariamente estão sob
responsabilidade do melhorista. No entanto, as atividades do
melhoramento de plantas devem estar conectadas com todas as
atividades relacionadas com a empresa de sementes ou mudas.
48 Borém e Miranda
O melhorista deve estar consciente de que está
desenvolvendo cultivares ou planejando um programa de
melhoramento, ou seja, uma parte das atividades da
empresa de sementes ou melhoramento.
Para programas de melhoramento que visam ao
competitivo mercado de sementes e mudas, deve-se entender
que o desenvolvimento de cultivares não é o suficiente para
estabelecer uma empresa no mercado, pois existem muitas
informações que necessitam ser identificadas e ser
conhecidas ou estabelecidas, a saber:
• Produção e registros legais de sementes de genitores em
suas diferentes categorias e suas purezas genéticas.
• Pesquisa de produção do híbrido ou da variedade.
• Produção comercial das sementes.
• Parceria com empresas que detenham patentes de
transgenes etc.
• Desenvolvimento do produto e de mercado para identificar
vantagens e desvantagens da interação do cultivar com o
ambiente.
• Estratégias de comercialização, de marketing, de preços e
de distribuição de sementes.
• Assistência pós-venda.
• Identificação dos concorrentes e suas vantagens e
desvantagens.
• Identificação de fornecedores.
• Todas as questões de gestão empresarial associadas ao
negócio.
Além disso, o empresário ou o melhorista proprietário do
negócio precisa ter sólida formação técnico-científica e ser bom
gestor, tomar decisões, ter capacidade de planejar, controlar,
orientar e executar planos.
Planejamento do programa de melhoramento 49
Para atingir o sucesso, comportamentos e ações
empreendedoras são imprescindíveis, como planejar, ter metas,
compromisso, persistência, buscar informações, ter exigência de
qualidade e eficiência, ter iniciativa, ser autoconfiante u
independente, ter rede de relações e correr riscos calculados.
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Processos do
Programa de
Melhoramento
JD^eterminados os objetivos do programa de
melhoramento de plantas, é fundamental que os principais
processos de melhoramento estejam estabelecidos e
coordenados com as outras atividades associadas com a
produção de sementes das diferentes classes e com as leis de
comercialização de cultivares para que não seja atrasada a
comercialização de sementes.
É fundamental que o lançamento do novo cultivar seja
feito o mais rápido possível, porém não se devem dispensar
os anos necessários de ensaios de produtividade para
identificar a interação genótipo x ambiente.
Na Tabela 4.1 estão apresentados de maneira
simplificada os processos associados ao programa de
obtenção de milho híbrido para exemplificar a definição dos
processos. Para outras culturas, é necessária a adaptação de
algumas atividades. Esses processos são iniciados
anualmente.
52 Borém e Miranda
Tabela 4.1 - Processos para obtenção de híbridos de milho
Estações Atividades de melhoramento
Ano 1 - Inverno Autofecundação de plantas F i .
Ano 1 - Verão
Autofecundação de 1.000 plantas F 2 (So) com
eliminação de plantas não sadias.
Ano 2 - Inverno
Autofecundação de 500 plantas F 3 (Si) com
eliminação de plantas não sadias.
Ano 2 - Verão
Cruzamento de 250 plantas F 4 (S2) com testador.
Autofecundação de plantas F 4 .
Ano 3 - Inverno Autofecundação de 250 plantas Fs (Sa).
Ano 3 - Verão
Avaliação dos 250 test crosses de F4.
Autofecundação de plantas Fe (S4).
Ano 4 - Inverno
Cruzamentos entre as 10 linhagens F6
selecionadas no test cross.
Ano 4 — Verão
Avaliação dos 45 híbridos obtidos com as linhagens
associadas em diversas localidades para 0 ano I do
ensaio de Valor de Cultivo e Uso (VCU).
Informação dos ensaios de VCU ao Ministério da
Agricultura.
Ano 5 - Verão
Avaliação dos 20 híbridos superiores do ano I de
VCU. Ano 2 do VCU. Informação dos ensaios do
VCU ao Ministério da Agricultura.
Ano 6 - Verão
Definição do pacote tecnológico para os híbridos
superiores, como população e espaçamento de
plantas, adtibação de plantio e cobertura,
fitotoxicidade de herbicidas e outros produtos.
Adaptabilidade e estabilidade comparativa com
híbridos do mercado.
Ano 7 - Verão
Repetição dos processos anteriores e realização de
ensaios em fazendas na futura região de cultivo.
Processos do programa de melhoramento de plantas 53
Algumas importantes atividades relacionadas com a
produção de sementes e o programa de melhoramento que
precisam ser realizadas simultaneamente são descritas na
Tabela 4.2.
Tabela 4.2 - Atividades da produção de sementes de híbridos
Estação Atividades de produção de sementes
Ano 4 - Inverno
Multiplicação de sementes das linhagens pela
autofecundação de plantas S 5 selecionadas e
avaliação de pureza genética.
Ano 4 - Verão
Nova multiplicação de sementes das plantas SB
selecionadas e avaliação de pureza genética e
potencialidade como genitora de híbridos e dias de
florescimento para sincronia entre linhagens
machas e fêmeas.
Ano 5 - Verão
Multiplicação de sementes genéticas obtidas da
mistura de plantas homozigotas. Testes de DHE
para proteção legal das linhagens, ano 1.
Ano 6 - Verão
Multiplicação de sementes básicas. Obtenção
experimental de sementes do híbrido.
Determinação de rendimento de sementes para os
diferentes tipos de peneira. Testes de DHE para
proteção legal das linhagens, ano 1.
Ano 7 - Verão Multiplicação de sementes certificadas.
Ano 8 - Verão Obtenção de sementes de híbridos comerciais.
Ano 9 - Verão
Lançamento comercial dos híbridos. Informe ao
Zoneamento Agrícola da recomendação de plantio
do novo híbrido.
Nota-se que os processos são complexos e possuem
enorme quantidade de detalhes que precisam ser definidos
antes de realizados e podem demorar vários anos.
54 Borém e Miranda
Referências
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stages. Crop Sei., v. 10, p. 555-557, 1970.
5
Sistemas
Reprodutivos das
Espécies
Cultivadas
o modo de reprodução da espécie pode definir os
métodos de melhoramento que serão usados no
desenvolvimento dos cultivares e o tipo de cultivar.
Para algumas espécies, os cultivares podem ser
propagados sem alteração de sua constituição genética, como
a soja e a cana-de-açúcar. Nesses casos, os direitos de
melhorista, protegidos pela Lei 9.456, de 25 de abril de 1997,
podem não ser respeitados e ocorrer prejuízos para todos na
cadeia produtiva com a produção de sementes não
certificadas ou não fiscalizadas.
Em espécies em que híbridos são comercializados,
como milho, girassol, sorgo, arroz, tomate, entre outros, a
produção dos híbridos somente pode ser realizada pelos
cruzamentos dos genitores que dão origem ao híbrido; dessa
forma, não é possível a multiplicação de sementes por
terceiros. Assim, o direito de melhorista e todos da cadeia
Sistemas reprodutivos das espécies cultivadas 57
produtiva se beneficiam com sementes de qualidade genética
e fisiológica necessária para o sucesso de uma lavoura
comercial de grãos.
Os exemplos anteriores ilustram a importância do
sistema reprodutivo das espécies na definição do tipo do
cultivar mais apropriado para cada caso ou situação: para a
soja, são as linhas puras ou linhagens homozigotas; para o
milho, os híbridos; e para a cana-de-açúcar, os cultivares
clonais.
O conhecimento das particularidades da polinização
da espécie que está sendo melhorada facilitará a produção de
sementes híbridas para gerar variabilidade genética para a
seleção, a produção comercial de sementes, a escolha de
métodos de melhoramento aplicáveis à espécie e o tipo de
cultivar a ser comercializado ou disponibilizado aos
agricultores.
Reprodução sexual
E baseada no processo meiótico de divisão celular, em
que o número de cromossomos das células reprodutivas é
reduzido à metade para formar os gâmetas: oosfera e grãos
de pólen. O processo meiótico encontra-se detalhadamente
descrito na literatura de biologia geral e citologia.
A divisão meiótica é de fundamental importância para
a geração de variabilidade genética por meio da divisão
reducional e independente dos cromossomos e dos crossing
over. O número de gâmetas possíveis com n pares de
cromossomos é dado por 2". Durante a fase do paquíteno, na
divisão meiótica, os cromossomos homólogos pareados trocam
partes entre si, aumentando consideravelmente a
variabilidade genética. Diversos autores classificam as
espécies cultivadas que se reproduzem por via sexual em três
grupos: autógamas, alógamas e autógamas com frequente
58 Barém e Miranda
alogamia. Essa classificação não é perfeita, uma vez que as
espécies cultivadas apresentam grande variação na taxa de
autofecundação.
Espécies autógamas
A autopolinização, que é a transferência do pólen de
uma antera para o estigma da mesma flor ou de outra flor da
mesma planta, resulta na ausência de incompatibilidade em
autofecundação.
Diversos fenómenos podem favorecer a autopoli-
nização, e o mais clássico é a cleistogamia, na qual a
polinização se dá antes da antese. Um exemplo típico de
cleistogamia ocorre na soja, quando os grãos de pólen
atingem a maturidade e polinizam o estigma antes da
abertura do botão floral. A autogamia é também favorecida
por outros fenómenos, como estigma e estames envoltos por
estruturas florais.
Uma pequena taxa de alogamia pode ocorrer nas
espécies autógamas em razão da atividade de insetos
visitando flores de diferentes plantas. Essa taxa de
fecundação cruzada é, geralmente, inferior a 1% no caso da
soja. Variações nas condições ambientais também podem
afetar a taxa de alogamia de forma expressiva.
As espécies autógamas são constituídas por uma
mistura de linhas homozigotas. Mesmo quando a fecundação
cruzada ocorre na população, a heterozigose desaparece com
as sucessivas autofecundações. Há evidências evolucionárias
de que as espécies autógamas se originaram de ancestrais
alógamos
(JAIN, 1976). Uma lista de algumas espécies
autógamas é apresentada na Tabela 5 . 1 .
Os mais comuns cultivares de espécies autógamas são
as linhagens puras ou homozigotas. Deve-se considerar que,
apesar de a espécie ser autógama, em algumas delas pode-se
Sistemas reprodutivos das espécies cultivadas 59
viabilizar a produção de híbridos por meio da esterilidade
masculina, como ocorre no arroz e tomate. Na grande maioria
das espécies autógamas, não é possível ter cultivares híbridos
pela inviabilidade económica de obter sementes com baixo custo
e em quantidade suficiente para o plantio de grandes áreas.
Tabela 5.1 - Algumas e s p é c i e s a u t ó g am a s de im p o r t â n c i a
e c onóm i c a
Alface Berinjela Guar Pêssego
Amendoim Cevada Len t i lha Soja
Arroz Crotalar ia Linho Tomate
Ave ia E r v i l h a Mucuna Trigo
Ba ta ta Feijão Nectarina
Espécies alógamas
O número de espécies alógamas é superior ao de espécies
autógamas. Isso pode ser entendido sob a perspectiva da
evolução e da domesticação das espécies pelo homem.
Diversos mecanismos podem prevenir a autogamia ou
favorecer a alogamia. O caso mais clássico é o da dioicia, em
que alguns indivíduos produzem apenas flores masculinas e
outros, somente flores femininas, como a palma, o mamão, o
espinafre e a tâmara. Estas espécies se reproduzem
exclusivamente por alogamia, à semelhança dos animais.
Outros mecanismos, como a monoicia, autoincompatibilidade,
protandria, protoginia e obstrução mecânica da autopoli-
nização, favorecem a fecundação cruzada.
Quando o vento é o agente de polinização, como ocorre
no milho, os grãos de pólen são em geral abundantes. Por
exemplo, um pendão de milho produz cerca de 25 milhões de
grãos de pólen, que podem percorrer distâncias superiores n
60 Borém e Miranda
100 m em condições normais de vento. Entretanto, mais de
90% do pólen de milho é depositado a uma distância de até
5 m da sua origem. Essa espécie apresenta uma taxa de
alogamia de aproximadamente 95%.
Ao contrário das espécies autógamas, as populações
de espécies alógamas são caracterizadas pela grande
heterogeneidade. Cada indivíduo na população é altamente
heterozigótico e distinto dos demais. As populações
naturais alógamas são consideradas mais flexíveis, por
gradativamente otimizarem sua frequência gênica para o
ambiente onde são cultivadas. Outro aspecto distinto das
alógamas é a significativa perda de vigor com a
endogamia. Uma lista de algumas espécies alógamas é
apresentada na Tabela 5.2.
Em espécies alógamas, o tipo de cultivar mais
comum é o híbrido; no entanto, outros tipos também são
viáveis, como os cultivares de polinização aberta.
Tabela 5.2 - Algumas espécies alógamas de importância
económica
Abacate Cana -de -açúca r Mamão
Abóbora Cebola Mamona
Alfafa Cenoura Mandioca
Batata-doce Centeio Manga
Beterraba Eucalipto Milho
Brócolis Goiaba P ê r a
Cacau Maçã U v a
Espécies autógamas com frequente alogamia
Algumas espécies apresentam a taxa natural de
fecundação cruzada intermediária em relação às das espécies
Sistemas reprodutivos das espécies cultivadas 61
autógamas e das alógamas, estabelecendo-se como um grupo
à parte. Essas espécies em geral não apresentam perda de
vigor com a endogamia.
Uma lista parcial das espécies autógamas com
frequente alogamia é apresentada na Tabela 5.3.
Tabela 5.3 - Algumas espécies autógamas com frequente
alogamia
Espécie T a x a de Alogamia
(%)
Algodão 5 a 50
Berinjela 0 a 4 8
Canola 0 a 3 0
F a v a >25
Quiabo 4 a 19
Sorgo 6
Os métodos de melhoramento utilizados em espécies
autógamas com frequente alogamia não podem ser
classificados facilmente, pois variam de acordo com a espécie.
Os cultivares mais comuns para espécies autógamas
com frequente alogamia são híbridos ou populações de
polinização aberta.
Reprodução assexuai
Algumas espécies cultivadas são perpetuadas por
propagação vegetativa, por causa da baixa produção de
sementes ou da manifestação de variabilidade genética
indesejável quando multiplicadas por sementes. Em outras
62 Borém e Miranda
espécies, as sementes são formadas sem a sequência normal
da gametogênese e fecundação. Nesse caso, as sementes
resultam de reprodução assexuai, denominada apomixia,
como ocorre com os citros.
A reprodução assexuai pode ocorrer por intermédio
de bulbos, ramas, tubérculos, rizomas, folhas e caules,
além da cultura de tecidos. Um grupo de plantas
originárias de uma única planta, por reprodução
assexuada, constitui um clone. Plantas do mesmo clone
são idênticas entre si e à planta que lhes deu origem. A
reprodução assexuada pode facilitar o trabalho do
melhorista, pois, identificado um tipo superior, este pode
ser perpetuado, mantendo a sua identidade genética.
Algumas espécies de reprodução assexuai são
apresentadas na Tabela 5.4.
Tabela 5.4 - Algumas espécies de reprodução assexuai de
importância económica
Alfafa Cana -de -açúca r Mandioca
Batata-doce Capim-na pier Morango
Ba ta ta Laran ja
A frequência de utilização de alguns métodos de
melhoramento no desenvolvimento de cultivares de espécies
autógamas, alógamas e de reprodução assexuada está listada
na Tabela 5.5. Conforme essa tabela, embora a maioria dos
métodos possa ser utilizada nos três grupos de plantas,
alguns deles são mais frequentemente usados em um grupo
específico.
Sistemas reprodutivos das espécies cultivadas 63
Tabela 5.5 - Frequência de utilização de alguns métodos de
melhoramento de espécies autógamas, alógamas e
de reprodução assexuai
Método Espécie
A u toga ma
Espécie
Alógama
Reprodução
Assexuada
In t rodução de plantas Ra r a R a r a Frequente
Seleção m assai R a r a Frequente Ra r a
Genealógico Frequente Frequente R a r a
SSD Frequente Ocasional R a r a
Retrocruzamentos Frequente Ocasional R a r a
Seleção recorrente Ocasional Frequente R a r a
Popu lação Ocasional R a r a R a r a
Mutações Ocasional R a r a Ocasional
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Recursos
Genéticos
descoberta do Novo Mundo e a consequente
migração das espécies cultivadas pelos cinco continentes
foram importantes fatores para o desenvolvimento da
agricultura mundial. O in te rcâmbio de espécies ainda é uma
atividade essencial nos tempos atuais. As mais impoi*tantes
culturas de determinado pa í s não são, em geral, nativas. Por
exemplo: as culturas de milho, soja, feijão, café e arroz não
são nativas do Bra s i l . A batata, be t e r r aba - açuca r e i r a e
cevada destacam-se na Alemanha e em outros pa í ses
europeus e, no entanto, são or ig inár ias de outras nações .
Além da diversidade de espécies que o homem cultiva,
h á variabilidade dentro de cada uma, de natureza genét ica
ou ambiental. A genét ica é de especial interesse para o
melhorista; sem ela, não seria possível o melhoramento de
plantas. Cabe ao melhorista determinar a proporção da ação
gênica e do ambiente na expressão das ca rac te r í s t i cas de
interesse, para, en tão , fazer predição do progresso ou ganho
genético esperado.
A d iscussão dos métodos de melhoramento nos
capí tu los seguintes ev idenciará o profundo efeito da seleção
sobre a variabilidade genét ica das espécies.
66 Borém e Miranda
Centros de diversidade das plantas cultivadas
Cabem ao geneticista russo Nicolai Ivanovich Vavi lov
os crédi tos do primeiro e mais importante trabalho sobre
quant i f icação e dis t r ibuição da diversidade das espécies no
mundo. Realizando expedições de levantamento e coleta, esse
pesquisador amostrou diversas regiões do mundo, o que
resultou na obra inti tulada "Teoreticheski osnovi sellekcii
rastenii" (A origem, var iação, imunidade e melhoramento
das plantas cultivadas) (VAV ILOV , 1926), na qual ele
descreve diversas espécies cultivadas e seus parentes
silvestres. Vavi lov identificou algumas regiões do mundo
isoladas por montanhas, planícies ou desertos, nas quais
observou grande diversidade de determinadas espécies,
denominando-as centros de origem de plantas cultivadas.
Após o trabalho de Vavilov, i n úme r a s expedições
foram organizadas, cobrindo os cinco continentes. Ent re 1928
e 1980, mais de 20 expedições foram realizadas, com o
objetivo de estudar a variabilidade do género Solanum. Esses
pesquisadores provaram que estava correta a h ipó tese de
Vavi lov de que "o interior do centro de origem de uma espécie
é caracterizado pelo acúmulo de alelos dominantes, enquanto
o acúmulo de alelos recessivos ocorre preferencialmente na
periferia dos centros". Outros autores evidenciaram que o
centro de diversidade de algumas espécies não coincide com o
centro de origem. Por exemplo, sabe-se que os centros de
diversidade da cevada silvestre são a Ásia e a Amér i ca do Su l
e não a Europa, inicialmente considerada seu centro de
origem.
Vavi lov identificou oito centros de origem de espécies,
alguns dos quais foram assim divididos: 1- Chinês ; 2-
Indiano; 2a- Indo-Malaio; 3- Asiát ico Central; 4- Oriente
Próximo; 5- Med i t e r r âneo ; 6- Abissínio ou Etíope; 7-
Mexicano do Su l e Centro-Americano; 8- Sul-Americano; 8a-
Chiloé; e 8b- B r a s i l e Paraguai (Figura 6.1). Esses centros
Recursos genéticos 67
es tão separados por desertos, montanhas ou mares, e sua
á r e a total equivale a um quad ragés imo da Ter ra . Algumas
espécies originaram-se fora desses centros, como o girassol,
que é oriundo da Amér ica do Norte, e a macadâmia , da
Aus t r á l i a . Das espécies que Vavi lov classificou, aproxima-
damente 640 são o r ig iná r ias do Velho Mundo e outras 100,
do Novo Mundo.
Frequentemente, uma espécie identificada em um
centro é encontrada t amb ém em outro. Quando isso ocorre,
os tipos em cada um são distintos. Vavi lov reconheceu
centros p r imá r io s onde se encontrava a maior diversidade de
espécies. Os centros secundár ios surgiram de tipos que
migraram do centro p r imár io . Um exemplo é o milho, cujo
centro p r imá r io é o México e o secundár io , a China.
F igura 6.1 - Localização dos centros de origem das espécies
cultivadas.
Outros evolucionistas t êm indicado que é mais
apropriado o termo "centro de diversidade" do que "centro de
68 Borém e Miranda
origem" ( HARLAN , 1951; H A R LAN ; ZOHARY , 1966;
B O RO J EV I C , 1990). Ha r l an (1971) relatou que as espécies
atuais sofreram profundas modificações durante o período de
pós-domest icaçao, aumentando a d i s tânc ia genét ica entre si
e seus parentes si lvestres. Por exemplo, o trigo hexaploide
foi desenvolvido a partir da h ibr idação de Aegilops squarrosa
e o trigo tetraploide. Dessa forma, é mais correto dizer que a
origem das plantas cultivadas ocorreu de maneira difusa e
gradativa no tempo e espaço.
De acordo com estudo conduzido pela Academia
Americana de Ciências, de aproximadamente 3.000 espécies
ut i l izáveis , somente 20-30 constituem a base agrícola da
humanidade. Espécies como amaranto e jojoba apresentam
carac te r í s t i cas de alto valor económico e, por isso, t êm sido
citadas como espécies que merecem maior a t enção dos
melhoristas de plantas, para que sejam eliminadas
carac te r í s t i cas indesejáveis que inviabil izem a sua
exploração em escala maior.
Na Tabela 6.1 são apresentadas algumas espécies
agronómicas com os respectivos centros de origem.
Tabela 6.1 - Centro de origem de algumas espécies de
impor t ânc i a agronómica
Espécie Centro Principal Espécie Centro Principal
Agronómica Fruteiras e outras
Alfafa Ásia Menor Banana Etiópia
Amendoim Brasil/P ar aguai
Cisvada Ásia Menor Sudeste Asiático
Etiópia Castanha-do-pará Amazónia
Cereja Ásia Menor
Tri^o-mourisco China China/Japão
Milho América Central Coco Sudeste Asiático
Andes Tâmara Ásia Menor
Continua...
Recursos genéticos 69
Tabela 6.1 Cont.
Espécie Centro Principal Espécie Centro Principal
Linho Etiópia Figo Asia Menor
Asia Menor Uva Ásia Central
Mandioca Brasil/Paraguai
Cidra Sudeste Asiático
Aveia Asia Menor Limão Índia/Birmânia
Mediterrâneo Melão Ásia Central
Arroz Africa Ocidental Índia/Birmânia
Índia/Miam ar Manga Índia/Birmânia
Sudeste Asiático Azeitona Mediterrâneo
Centeio Ásia Menor Ásia Menor
Trigo Etiópia Laranja China
Ásia Menor índia
Birmânia
Olerícolas Mamão Sudeste Asiático
Aspargo Mediterrâneo América Central
Beterraba Ásia Menor Pêssego China
Fava Ásia Central Pêra Ásia Menor
Couve Ásia Menor Romã Ásia Menor
Mediterrâneo
Cabaça América Central
Cenoura Ásia Central America do Sul
Ásia Menor Abacaxi América Central
Couve-flor Mediterrâneo Br a s il/Par aguai
Feijão-comum América Central
Pepino India/Miamar
China/África Gergelim Etiópia
Alho Ásia Central Ásia Central
Ásia Menor Morango Sul do Chile
Alface Mediterrâneo Argentina
Feijão-de-lima América Central
Cebola Etiópia
Ásia Central
Grão-de-bico Ásia Menor Melancia Ásia Central
Ásia Central
Batata Andes Cacau América Central
Rabanete China Café Etiópia
Tomate América Central
Andes
Nabo Mediterrâneo
70 Borém e Miranda
Erosão genética
Até a década de 1940, os centros de origem eram
considerados fontes i l imitadas de variabilidade genét ica ,
mas, após a Segunda Guerra Mundial , a agricultura de
pa í ses em desenvolvimento sofreu profundas mudan ç a s .
O desenvolvimento de cultivares com elevado potencial
genético tem resultado na gradativa substi tuição dos antigos
cultivares. O fato de novos cultivares apresentarem, em geral,
base genética muito estreita, isto é, serem muito aparentados
entre si , e a predominância de um restrito número destes
ocupando grandes á reas de plantio têm sido considerados riscos
para a agricultura, o que é denominado vulnerabilidade
genética. Não há, na literatura, exemplos de epidemia
comprovadamente causada por essa vulnerabilidade. Alguns
autores argumentam que a escolha de genitores produtivos
para os blocos de cruzamentos resulta na seleção inconsciente
de caracter ís t icas como resistência a doenças. Dessa forma,
acumulam-se genes de resistência a doenças nos novos
cultivares, e estes, mesmo sendo -mais uniformes, tornam-se
mais resistentes a uma gama de patógenos do que as não
melhoradas ou mais antigas. A expansão das fronteiras
agrícolas t ambém contribuiu para o desaparecimento dos
parentes silvestres das espécies cultivadas.
Vulnerabilidade genética
Os centros de diversidade e os bancos de
germoplasma possibilitam ao melhorista introduzir
ca rac te r í s t i cas no germoplasma ativo. A impor t ânc i a dos
centros de diversidade torna-se mais evidente com a
subs t i tu ição das variedades nativas pelos cultivares. Os
ú l t imos , geneticamente mais uniformes que as nativas, são
desenvolvidos visando à ap t idão para mecan ização e
monocultivo. O desenvolvimento dos cultivares semianaos de
trigo pelo CIMMYT, um dos r e sponsáve i s pela Revolução
Recursos genéticos 71
Verde, restaurou o equil íbr io entre a oferta e a demanda
dessa espécie no mundo, mas significou a perda de
germoplasma local em diversas regiões do planeta. A r áp ida
d i s seminação desses cultivares na índ i a e no Paqu i s t ão
promoveu a subs t i tu ição de um grande grupo de cultivares
por outro relativamente pequeno em uma á r e a superior a 10
milhões de hectares. E s s a subs t i tu ição resultou no imediato
aumento da produtividade, mas a t ra iu a a t enção de alguns
geneticistas e ecologistas que se mostraram preocupados com
a al ta uniformidade genét ica e a consequente vulnerabili-
dade a epidemias de doenças e insetos.
Alguns autores afirmaram que h á razões para se
preocupar com a redução na variabilidade genét ica, citando
fatos his tór icos:
Batata: a fome na Ir landa, em 1840, em razão da epidemia
da requeima (Phytophthora infestans) nos batatais.
Trigo: a epidemia da ferrugem-do-colmo-do-trigo (Puccinia
graminis) nos Estados Unidos, em 1947.
Milho: a d iz imação dos campos de milho híbr ido, em alguns
pa í ses , portador do citoplasma T de macho-esterilidade, em
1970/71, em virtude da helmintosporiose (Exserohilum
turcicum).
Embora, seja justificável enfatizar os riscos da redução
da variabilidade genética, em virtude do desenvolvimento de
cultivares altamente produtivos e uniformes, não há evidências
de que a agricultura atual seja mais vulnerável do que a
praticada no início do século XX . Os novos cultivares são
responsáveis, em parte, pelo aumento da oferta de alimentos.
Deve t ambém ser mencionado que, em relação à resistência às
doenças, as variedades crioulas não oferecem qualquer
vantagem sobre os cultivares. A expectativa é de que os novos
cultivares possuam maior resistência horizontal aos patógenos
do que as nativas, em virtude de, durante a seleção de genitores
para seu desenvolvimento, o melhorista, muitas V C / C H
72 Borém e Miranda
inconscientemente, selecionar germoplasma resistente aos
principais patógenos, ao incluir os cultivares superiores em seu
bloco de cruzamentos ( H E I S ER , 1988).
O risco de epidemias não se deve intrinsecamente
apenas à falta de diversidade entre os cultivares no mercado,
mas t amb ém à decisão do produtor de plantar um núme r o
restrito de cultivares em uma região. Embora deva ser
objetivo dos programas de melhoramento desenvolver
diversificado e grande núme r o de cultivares produtivos, à
medida que se aumentam as exigências para o l ançamen to
de novos cultivares com res i s tênc ia a doenças , esse núme ro é
reduzido, contribuindo para o incremento da vulnerabilidade
genét ica .
Uso e manutenção de germoplasma
A primeira tentativa de definir o termo germoplasma
ocorreu na Conferência sobre Exploração, Ut i l ização e
Conservação de Recursos Genét icos Vegetais, patrocinada
pela FAO, em 1967, em Roma. F r anke l e Bennett (1970)
relataram:
"Para o pesquisador de um amplo campo de estudos,
da evolução à genética e da fisiologia à bioquímica,
uma completa representação da variação genética
das espécies domesticadas e seus tipos silvestres é
uma necessidade. Como Harlan sugere, a evolução de
uma única espécie ainda não é completamente
conhecida. O que já se conhece não somente explica
os caminhos da origem das civilizações, mas também
enriquece o entendimento do processo de
domesticação e estende a capacidade de
desenvolver novos cultivares."
O termo "germoplasma" é considerado vago e impreciso,
mas abrange algumas das questões da hereditariedade,
Recursos genéticos 73
deixando espaço para o que es tá por ser entendido. Conforme
relatou Witt (1985), embora de forma imprecisa, germoplasma
tem sido definido como todo o material heredi tár io de uma
espécie ou, ainda, todo o patr imônio genético de uma espécie.
O espectro dos recursos genéticos pode ser
estabelecido em seis categorias para cada espécie, indicando
a l igação evolucionár ia e ecológica dos tipos domést icos
atuais com tipos silvestres, como mostrado a seguir
(CHANG , 1985):
a. Espécies silvestres do mesmo género da cultivada; géneros
encontrados em regiões dos centros de origem pr imár ios
ou secundár ios .
b. Variedades nativas ou crioulas e tipos especiais ou
estoques genét icos.
c. L inhas puras e cultivares de polinização aberta oriundos
de á r e a s onde o nível tecnológico se manteve
relativamente constante nos ú l t imos 50 anos.
d. Cult ivares obsoletos, encontrados apenas em bancos de
germoplasma.
e. Cult ivares em uso desenvolvidos por melhoramento
genético e utilizadas em á rea de agricultura intensiva.
f. Outros produtos dos programas de melhoramento ou
estudos genét icos .
Bancos de germoplasma
Banco de germoplasma é uma coleção v iva de todo o
pa t r imôn io genét ico de uma espécie, incluindo acessos dos
itens a a /, anteriormente listados.
Há dois métodos básicos para a conservação de
germoplasma: conservação ex situ e in situ. Os bancos de
germoplasma funcionam como conservação ex situ, em que um»
amostra da variabilidade genética de determinada espécie é
74 Borém e Miranda
conservada em condições artificiais, fora do habitat da espécie.
Em geral, o armazenamento de sementes se faz em
temperatura e umidade baixas. Nessas condições, a viabilidade
das sementes
pode ser preservada por décadas. Todas as
sementes do tipo ortodoxo adaptam-se bem ao armazenamento,
e a longevidade do material armazenado aumenta, de forma
logarítmica, com a redução da temperatura e umidade. As
sementes recalcitrantes não são conservadas por este método,
uma vez que a redução da umidade para abaixo de
determinados valores lhes causa danos fisiológicos, a exemplo
de sementes de cacau e café. Dados adicionais sobre aspectos
fisiológicos e tecnológicos de sementes e o gerenciamento dos
bancos de germoplasma são discutidos por Hanson (1985).
São atividades dos bancos de germoplasma:
levantamento, aquisição, exploração e coleção; manu t enção ,
mul t ip l icação e rejuvenescimento; e carac ter ização,
aval iação, documentação , d is t r ibuição e in te rcâmbio do
maior n úme r o possível de amostras do germoplasma dentro
das l imitações físico-econômicas. O curador do banco de
germoplasma deve estabelecer prioridades de coleta, em
função do grau de impor tânc ia , da diversidade e do risco de
ext inção de acessos. A F igura 6.2 i lus t ra uma e s t r a t ég i a de
gerenciamento de banco de germoplasma para espécies
a u t ógamas .
Os bancos de germoplasma devem possuir duas
coleções: coleção-base, preservada no longo prazo, e coleção
at iva, preservada no médio prazo.
A coleção at iva, t ambém denominada coleção-núcleo
(core collectiori), deve possuir reduzido núme r o de acessos,
em geral inferior a 2.000, bem caracterizados agronomica-
mente. E s t a coleção deve ser representativa da coleção-base,
incluindo ampla variabilidade genética; sua função p r imá r i a
é constituir-se na primeira fonte de variabilidade para os
programas de melhoramento, de onde s a i r á a maioria dos
Recursos genéticos 75
acessos d is t r ibuídos pelo banco de germoplasma. A coleção-
base, contendo o maior núme ro possível de acessos, deve ser
uti l izada quando a coleção at iva não apresentar acessos com
as ca rac te r í s t i cas desejadas.
As sementes armazenadas em c âma r a s frias, nos
bancos de germoplasma, são mantidas em condições e s t á t i cas
quanto ao aspecto evolucionário, conforme interesse do
melhorista. Todavia, a i n t e r rupção do processo evolucionário
dos acessos em bancos de germoplasma deve ser vista com
cri tér io, posto que a d i s tânc ia genét ica entre esses acessos e
os cultivares em uso tendem a aumentar nessa s i tuação .
Nas coleções in situ, o germoplasma é pi'eservado no
seu habitat natural , em reservas cujo ambiente é s imilar ao
da espécie. Muitos desses bancos de germoplasma in situ não
são reconhecidos como tal , principalmente pela terminologia
que recebem (exemplo: reserva biológica, parque natural
e tc ) . Obviamente, nem todos os parques naturais são bancos
de germoplasma, uma vez que a p rese rvação de seus
recursos não é monitorada. Um exemplo t ípico de banco de
germoplasma in situ localiza-se no oeste mexicano, onde
aproximadamente 140.000 ha da Se r r a de Manan t l an foram
designados como reserva biológica de Zea diploperennis
(teosinto diploide perene), um parente si lvestre do milho,
cuja popu l ação é periodicamente monitorada com a
finalidade de verif icar o risco de ex t inção de acessos.
A p r e s e r v a ç ão de germoplasma in vitro é
especialmente apropriada para as espéc ies propagadas
vegetativamente e para aquelas de sementes
recalci trantes. Com o avanço das t écn i ca s de biologia
molecular, a p r e s e r v a ç ão de genes ou do genoma completo
de uma espéc ie em bancos gênicos de DNA pode r á ser uma
a l ternat iva .
76 Borém e Miranda
l t \ JNCO U E G ERMOP I
AQUISIÇÃO
EXPEDIÇÃO
COLEÇÃO
NAC IONAL
L INHAGENS
MELHORADAS
MULTIPLICAÇÃO
QUARENTENA
CASA D E VEGETAÇÃO
CAMPO
•
CARACTERIZAÇÃO CARACTERIZAÇÃO
MULTIPLICAÇÃO
CAMPO
CONSERVAÇÃO
COL E
ATI
ÇÃO
VA -*
RE J UVENE SC IMENTO
T E S T E S D E
V I AB I L I DADE
COLEÇÃO-BASE
PRESERVAÇÃO
BANCO DE DADOS
DISTRIBUIÇÃO
SEMENTES/CATÁLOGO
PROGRAMA D E OUTROS
MELHORAMEIVTO BANCOS
Figura 6.2 - E s t r a t ég i a de gerenciamento de banco de
germoplasma para espécies a u t ógamas .
A seguir, e s t ão listados alguns dos mais importantes
bancos de germoplasma em diferentes pa íses :
Recursos genéticos 77
• Associação da África Ocidental para Desenvolvimento do
Arroz (WARDA) - Bouake, Costa do Marfim.
• Banco de Germoplasma da Batata - Braunschweig,
Alemanha.
• Banco de Germoplasma Nórdico - Lund, Suécia.
• Centro Internacional de Agricultura para Áreas Semiár idas
( ICARDA) - Aleppo, Síria.
• Centro Internacional de Agricultura Tropical (C IAT) - Cali ,
Colômbia.
• Centro Internacional de l a Papa (CIP) - L ima , Peru.
• Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo
(C IMMYT) - E l Batan, México.
• Centro Internacional para Melhoramento da Banana e
Plantano ( IN IBAP) - Montferrier-sur-lez, França .
• Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia
( CENARGEN ) - Brasíl ia, Bras i l .
• Instituto de Melhoramento de Plantas - Cambridge,
Inglaterra.
• Instituto de Produção de Plantas Vavilov - St. Petersburgo,
Rússia.
" Instituto Internacional de Agricultura Tropical ( I ITA) -
Ibadan, Nigéria.
• Instituto Internacional de Pesquisa dos Trópicos Semiáridos
( ICR ISAT ) - Hyderabad, índia .
• Instituto Internacional de Pesquisa em Arroz ( I RR I ) -
Mani la , Fi l ip inas .
• Instituto Internacional de Recursos Genéticos Vegetais
( I PGR I ) - Roma, I tá l ia .
• J a rd im Botânico Rea l — Kew, Inglaterra.
78 Borém e Miranda
• Labora tó r io Nacional de Sementes - U SDA - Fort Collins,
Colorado, E UA .
• Serviço de Pesquisa Agropecuár ia - U S DA — Beltsvil le,
Maryland, E UA .
Essas e muitas outras inst i tuições não mencionadas
acumulam mais de 1.000.000 de acessos das mais importantes
espécies.
Banco mundial de germoplasma Svalbard
Situado na i lha Spitsbergen, próximo à cidade de
Longyearbyen, no remoto a rqu ipé lago Artico Svalbard, na
Noruega, este banco de germoplasma é um reposi tório com a
maior s egu r ança já cons t ru ído para armazenar
germoplasma. A i lha Spitsbergen e s t á a cerca de 1.120 km do
polo Norte. Criado para preservar ampla amostra do
germoplasma em uma caverna cons t ru ída no subsolo, e s t á
constantemente sob uma espessa camada de gelo. Esse banco
possui duplicatas de acessos de outros bancos de
germoplasma, com o objetivo de garantir disponibilidade de
recursos genéticos mesmo na ocorrência de perdas em outros
bancos, ou mesmo em casos de uma catás t rofe global.
O banco de germoplasma Svalbard (Figuras 6.3 e 6.4)
e s t á funcionando sob a responsabilidade do governo
no rueguês , do Fundo Global para Diversidade das Espécies
Cult ivadas (Global Crop Diversi ty Trus t ) e do Centro de
Recursos Genét icos da Noruega. A cons t rução desse banco de
germoplasma custou US$ 45 mi lhões e foi patrocinado pelo
governo no rueguês ; no entanto, para sua manu t enção ,
recursos de vár ios pa í ses são alocados, inclusive do Bra s i l .
Recursos genéticos 79
Figura 6.4. - Foto da entrada do banco de germoplasma de
Svalbard.
Na Tabela 6,2 apresenta-se uma amostra dos acessos
preservados em bancos de germoplasma de diversas espécies.
Convencionalmente, o germoplasma é mantido na
forma de sementes, em r azão da facilidade de manuseio, do
pequeno espaço requerido e da longevidade quando em
condições ideais de armazenamento. O custo de manu t e n ç ão
80 Borém e Miranda
de viveiros de germoplasma de espécies que se propagam
vegetativamente é mui t í s s imo elevado.
Tabela 6.2 - Núme ro estimado de acessos de algumas
espécies em bancos de germoplasma
Número
Percentagem Total
Espécies de Acessos Cultivares Espécies Silvestres
Algodão 30.000 75 20
Arroz 215.000 75 10
Batata 42.000 95 40
Cacau 5.000 * *
Ca na-de-açúcar 23.000 70 5
Cevada 280.000 85 20
Feijão 105.000 50 10
Mandioca 14.000 35 5
Milho 100.000 95 15
Soja 100.000 60 30
Tomate 32.000 90 70
Trigo 410.000 95 60
* Dados não disponíveis.
A possibilidade de r e g ene r a ç ão de plantas a par t i r
de cé lu l a s s omá t i c a s , ou gamé t i c a s , e meristemas é uma
a l te rna t iva a t ra t iva na p r e s e rvação de germoplasma. A s
vantagens associadas à p r e s e r v a ç ão in vitro incluem: i)
pequeno espaço para m a n u t e n ç ã o de grande n úme r o de
acessos; ii) m a n u t e n ç ã o de acessos l ivres de pragas e
doenças ; iii) n ã o requerimento de podas; iv) potencial para
r á p i d a p rodução de grande n úme r o de plantas; e v)
Recursos genéticos 81
desnecessidade de quarentena por ocas ião do i n t e r c âmb io
internacional de germoplasma. Uma das poss íveis
l imi t ações dessa p r e s e r vação , no entanto, é a v a r i a ç ão
somaclonal, que ocorre entre indivíduos regenerados de
cul tura de tecidos, podendo ser fisiológica, ep igenét ica ou
genét ica , como resultado do processo de cultivo in vitro. E m
geral, os tipos decorrentes da v a r i a ç ão somaclonal, com os
cultivos in vitro, são inferiores ao mate r ia l que lhe deu
origem, à s eme l h a n ç a do que ocorre com as mu t a çõe s .
Há duas opções para a p re se rvação de germoplasmas
in vitro: congelamento e c âma r a s frias. Na p rese rvação por
congelamento, o material é mantido na temperatura do
ni t rogénio l íquido, aproximadamente -196 °C. Nesta
temperatura, as células permanecem completamente
inativas. Esse método já é utilizado, h á vá r i a s décadas , para
p rese rvação de s émen animal para i n seminação artificial .
O germoplasma t amb ém pode ser preservado em
baixas temperaturas (de 1 a 9 °C). Nestas, o envelhecimento
do material é reduzido, mas não completamente bloqueado,
como no congelamento. Consequentemente, a repicagem de
meios de cultura só é necessá r i a esporadicamente.
Utilização da diversidade genética dos bancos de
germoplasma
Pa r a que a diversidade genét ica disponível nos bancos
de germoplasma seja uti l izada, é necessár io que os acessos
sejam caracterizados e documentados de forma que o
melhorista possa identificar os potencialmente ú te i s para seu
programa de melhoramento. Alguns bancos de germoplasma
dispõem dessa informação em catálogos, enquanto outros
apresentam-na em bancos de dados informatizados, que
permitem a identif icação de acesso com carac te r í s t i cas
específicas, como reação a doenças, teor de óleo e p ro te ínas ,
82 Borém e Miranda
atributos morfológicos e fisiológicos, grupos de ma t u r a ç ão e
ciclo.
O Departamento de Agricul tura Americano (USDA)
criou o Germplasm Resources Information Network (GRIN)>
uma rede de ins t i tu ições com melhoristas dedicados à
p rese rvação da variabilidade genét ica . O G R I N possui um
banco de dados informatizado com documentação disponível
sobre o germoplasma de diversas espécies. Nesse banco de
dados, o melhorista pode localizar acessos com
carac te r í s t i cas específicas e solicitá-los ao Labora tó r io
Nacional de Sementes - USDA , em Fort Collins, Colorado,
E UA . O banco de dados do G R I N e s t á disponível na ve r são
para microcomputadores (pcGRIN) , que pode ser obtida por
melhoristas, cientistas ou organizações de pesquisa,
gratuitamente, no seguinte endereço:
The Database Manager
G R I N Database Management Un i t
10300 Baltimore Blvd .
Room 330, Bldg. 003, BARC-Wes t
Beltsvil le , MD 20705
http ://w ww. ar s - grin. go v/ aboutgrin. h tml
H a r l a n (1975) p r opô s a d iv i s ão do germoplasma
de uma e spéc i e em t r ê s grupos gên icos :
a. G rupo g ê n i c o p r imá r i o : i n c lu i as e spéc ie s cul t ivadas
e as s i lvest res que apresentam c a r a c t e r í s t i c a s
potencialmente ú t e i s e podem ser t ransfer idas
imediatamente pa ra um programa de desenvolvimento
de cul t ivares . E s s a s e spéc ie s devem-se in te rc ruzar
facilmente, produzindo p r og én i e s v i áve i s .
b. Grupo g ên i c o s e cundár i o : inclui as espécies silvestres que
podem doar genes para as espécies cultivadas, dentro de
certas restrições. Os cruzamentos interespecíficos em geral
resultam em híbridos raquíticos, em que o emparelhamento
Recursos genéticos 83
cromossômico durante a meiose é anormal e os híbridos
tendem a ser estéreis.
c. Grupo g ê n i c o t e r c i á r i o : abrange os acessos
geneticamente mais distantes da espécie de interesse. A
t rans fe rênc ia de carac te r í s t i cas de espécies deste grupo
para as espécies cultivadas requer técnicas especiais, como
o resgate de embr iões em meio de cultura. Se for possível
obter o híbr ido, provavelmente este se rá es tér i l e t écn icas
de enxertia ou cul tura de tecidos se rão neces sá r i a s para a
obtenção de plantas desejáveis .
P a r a o desenvolvimento de cul t ivares , o melhorista
ut i l iza como genitores, em primeira ins tânc ia , cu l t ivares e
linhagens adaptadas à região a que se destinam. Muitos
melhoristas preferem os cruzamentos dos tipos cu l t iva r
adaptado x cu l t iva r adaptado ou cu l t iva r superior x
cu l t iva r superior, para garantir que as progénies
apresentem maior probabilidade de adap t ação e maior
n úme r o de ca rac te r í s t i cas agronómicas em níveis
sat isfatór ios . Quando a variabilidade genét ica desse material
não é sa t is fa tór ia , o melhorista lança mão de genótipos
exóticos ou acessos provenientes dos bancos de germoplasma,
dando preferência aos do grupo gênico p r imár io . A s espécies
silvestres frequentemente apresentam carac te r í s t i cas que
cul t ivares não devem possuir, como deiscência de vagem,
acamamento, dormência de sementes e sementes de tamanho
pequeno. O desenvolvimento de um cu l t iva r a partir de tipos
silvestres envolve vár ios ciclos de seleção ou a ut i l ização de
retrocruzamentos.
O grupo gênico secundár io e, com maiores razões , o
gênico terc iár io n ão são, em geral, considerados fonte de
genes para o desenvolvimento direto de novos cul t ivares , a
não ser que as ca rac te r í s t i cas desejáveis não estejam
presentes no grupo gênico pr imár io . O melhorista que deseja
84 Borém e Miranda
util izar genes presentes nos grupos gênicos secundár io e
te rc iá r io deve estudar a viabilidade da aplicação de recursos
e tempo na t r ans fe rênc ia gênica e da e l iminação das
carac te r í s t i cas indesejáveis .
A insuficiente diversidade genét ica entre os genitores
utilizados em cruzamentos reduz a variabilidade genét ica
dos caracteres quantitativos. E m razão disso, o progresso
genético do melhoramento com as carac te r í s t i cas
selecionadas pode ser limitado.
É difícil avaliar se o p la tô para produtividade foi
atingido em uma espécie ou mesmo em um germoplasma,
porque os incrementos de produtividade não ocorrem cm
taxa constante. Os programas de melhoramento que
enfatizam vá r i a s carac te r í s t icas , a l ém da produção de grãos ,
podem criar um pla tô v i r tua l , em razão das res t r ições
impostas a outros grupos de ca rac te r í s t i cas . Todavia, não
existem evidências de que um pla tô de produtividade tenha
sido atingido ou que isso esteja prestes a acontecer nas
principais espécies cultivadas ( DUV ICK , 1990).
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Variabilidade
Genética de novo
A variabilidade genética é um dos princípios da
vida, e o reino vegetal, com sua vasta complexidade, não
teria se desenvolvido na sua ausência. Pode-se adicionar
uma nova variabilidade genética de novo ao germoplasma
por meio de mutações crossing over desigual, transformação
via técnicas do DNA recombinante e mutações somaclonais.
Novos genes mutantes podem ser então incorporados ao
genoma dos cultivares melhorados. Um bom exemplo para
isso é o gene mutante de tolerância à imidazolinona, uma
molécula herbicida, utilizada na cultura do arroz. Cultivares
de arroz que possuem esse gene são tolerantes a esse
herbicida, e o arroz-vermelho, importante invasora e da
mesma espécie do arroz, pode ser controlado. Esse gene é da
espécie e pode ser patenteado, não sendo considerado um
transgênico.
Mutações
O termo mutação foi cunhado pelo botânico holandês
Hugo de Vires. Entre 1901 e 1903, ele publicou duas
monografias sobre a teoria da mutação. Vires iniciou seu
Variabilidade genética de novo 87
trabalho vários anos antes que as leis de Mendel fossem
redescobertas. Trabalhando com minuana (Oenothera
lamarkiana), uma planta campestre de pétalas amarelas, da
família das Enoteráceas, ele demonstrou que essa espécie
produzia mudanças hereditárias que refletiam em profundas
alterações morfológicas, as quais denominou de mutações. A
partir do seu trabalho, diversos outros surgiram.
O material genético dos organismos superiores é o
ácido desoxirribonucleico (DNA), que é altamente diverso e
contém milhões de diferentes combinações de bases púrieas e
pirimídicas. Mutações podem ocorrer espontânea e
aleatoriamente na natureza ou em razão de fatores
ambientais. Mudanças nos nucleotídeos do DNA causam
variações no código que sinaliza para o mRNA.
Consequentemente, durante a síntese proteica, um
aminoácido diferente pode ser ligado à cadeia proteica que se
forma. Essas mudanças podem também ser causadas por
aberrações cromossômicas (deleçâo, duplicação, inversão ou
translocação).
A frequência com que as mutações ocorrem
espontaneamente em nível gênico é de aproximadamente IO" 6
por geração, a qual pode ser elevada para IO" 3 quando o
material genético é submetido a agentes químicos, a
tratamentos físicos etc. Há ainda a tendência de alguns
genes mutarem mais frequentemente que outros.
De acordo com sua utilidade, as mutações podem ser
úteis, detrimentais ou neutras. Como o seu processo é
aleatório, a maioria delas é neutra. Quando o alelo mutante
se encontra em homozigose, as mutações podem ocorrer e
resultar em uma característica favorável. Muitas das
mutações detrimentais são eliminadas por seleção natural ou
artificial.
Em 1927, Muller demonstrou que raios X induzem
mutações em Drosophila sp. No ano seguinte, Stadler
88 Borém e Miranda
verificou que raios X e também raios gama induziam
mutações em cevada. Desde então, grande número de
estudos tem sido realizado envolvendo os efeitos das
radiações, tanto do ponto de vista básico como do aplicado.
Agentes mutagênicos
Os mutagênicos físicos são basicamente os raios
ultravioleta e as radiações ionizantes, principalmente raios X
e raios gama, partículas alfa e beta, prótons e nêutrons.
Cada um desses mutagênicos tem características próprias,
que devem ser consideradas quando eles são utilizados.
Evidências experimentais indicam que os mutagênicos físicos
são mais eficientes na obtenção de mutantes.
Raios gama são radiações eletromagnéticas
ionizantes, que podem penetrar muitos centímetros nos
tecidos. Podem ser obtidos por radioisótopos (núcleos
instáveis que emitem radiações) ou de reatores em reacões
nucleares. Seu uso é semelhante ao dos raios X, tendo a
vantagem de serem utilizados para tratamentos prolongados
e em casa de vegetação ou em campo (as plantas ficam
expostas aos raios gama durante o seu desenvolvimento). O
cobalto 60 e o césio 137 são as principais fontes de raios
gama utilizadas em trabalhos de radiobiologia. O césio 137 é
usado em muitas instituições de pesquisa, pois tem meia-
vida maior (30 anos) que a do cobalto 60 (5,3 anos). A
maioria das fontes de raios gama utilizada para estudos
genéticos e botânicos encontra-se em casas de vegetação,
câmaras controladas de crescimento ou em câmaras de
irradiação com proteção adequada.
Todas as partes das plantas podem ser irradiadas,
mas algumas são mais fáceis do que as outras. Por exemplo,
sementes e pólen são de fácil manipulação. As sementes são
preferidas em muitos trabalhos de indução de mutações por
Variabilidade genética, de novo 89
radiação, porque podem ser irradiadas em muitos ambientes,
onde, talvez, não sobrevivessem outras partes de plantas;
podem ser secas, umedecidas, aquecidas ou congeladas; e ser
mantidas por extensos períodos em vácuo quase livre de
oxigénio ou outros gases, além de serem fáceis de manusear
e transportar.
A frequência de mutações é proporcional à dose de
raios gama, isto é, com o aumento da irradiação ocorre
elevação do número de mutações gênicas e de aberrações
cromossômicas, além de efeitos fisiológicos mais severos, que
podem levar à morte dos órgãos irradiados. Assim, com
dosagens elevadas, o número de mutações observado é
reduzido consideravelmente e a frequência deixa de
aumentar linearmente.
Entre os vários fatores que influenciam a radiossensi-
bilidade das sementes, destacam-se: conteúdo hídrico das
sementes, oxigénio e temperatura.
Auerbach e Robson, em 1942, foram os primeiros a
demonstrar que drogas químicas poderiam ser utilizadas
para induzir mutações. Tratando machos de Drosophila sp.
com gás mostarda, esses autores observaram mutações letais
e viáveis nos descendentes, idênticas às induzidas por raios
X. A partir daí, intensificaram-se as pesquisas nesse campo,
e hoje há uma série de produtos capazes de induzir mutações
em plantas. Desses, somente alguns são realmente úteis aos
programas de indução de mutações. Os agentes alquilantes
são os mais importantes mutagênicos químicos para indução
de mutações em plantas cultivadas, pois têm um ou mais
grupos alquilas reativos que podem ser transferidos para
outras moléculas em posições com densidade de elétrons
suficientemente alta. Todas essas substâncias reagem com o
DNA por meio da alquilação de grupos fosfatados, bem como
de purinas e pirimidinas. A Figura 7.1 ilustra o esquema do
mecanismo de ação dos agentes alquilantes.
Entre ossos
90 Borém e Miranda
agentes, podem ser citados o gás mostarda, a etilenimina, o
dimetilsulfato, o dietilsulfato, o etilmetanos sulfonato (EMS)
e o "myleran".
Alquilante
G <=> G' A
I I I I I I I
C T - =>T
Figura 7.1 - Adição de etil ou metil à guanina, por ação de
alquilantes, durante a replicação do DNA.
A adição do radical etil ou metil à guanina (G), por ação
de agentes alquilantes, durante a replicação do DNA, resulta
em pareamento da guanina alquilada (G') com timina (T). A
base guanina alquilada pode-se desprender do DNA, deixando
espaço que pode ser preenchido por outra base, a exemplo da
adenina (A).
Em trabalhos com mutagênicos químicos, há que se
levar em consideração alguns parâmetros, sendo os principais a
concentração, a duração do tratamento e a temperatura. Além
desses, vários fatores podem ocorrer antes, durante ou após o
tratamento, alterando a ação dos mutagênicos, a exemplo do
teor de umidade das sementes.
Quanto à escolha do mutagênico a ser utilizado, embora
alguns possam ser considerados mais eficientes do que outros,
muitas vezes o pesquisador é limitado pela disponibilidade e
facilidade no local do trabalho. Na maioria dos melhoramentos
usa-se a radiação gama ou EMS.
Realizado o tratamento mutagênico, a etapa seguinte
é a obtenção do material no qual será feita a triagem à
procura dos mutantes. As plantas de propagação sexuada,
Variabilidade genética de novo 91
diretamente originárias do tratamento de sementes M i , são
consideradas da geração M i e produzem sementes M 2 . As
plantas provenientes de sementes M 2 são da geração M 2 e
produzem sementes M 3 , e assim por diante.
O tratamento com mutagênicos físicos ou químicos, de
especial interesse no melhoramento de plantas, resulta em
alterações fisiológicas, mutações gênicas e aberrações
cromossômicas. Os danos fisiológicos são restritos à geração M i ,
enquanto as mutações gênicas e aberrações cromossômicas
podem ser transferidas da geração M i para as seguintes. Para
fins práticos, os danos fisiológicos mais importantes são a
retardação do crescimento e a morte. A triagem deve ser
iniciada a partir da geração M2 , em razão dos efeitos fisiológicos
produzidos na geração M i , da natureza quimérica das plantas
M i e de as mutações induzidas, em sua maior parte, serem
recessivas.
Indução de mutações no melhoramento
de plantas
As mutações têm sido utilizadas no desenvolvimento
de cultivares de soja, feijão, arroz, trigo, cevada, alface,
tomate e citros, além de outras espécies. Embora a aplicação
prática de agentes mutagênicos no desenvolvimento de
cultivares esteja bem demonstrada, o número de cultivares
desenvolvidos por meio de indução da mutação é muito
pequeno quando comparado ao obtido por hibridação e
seleção. A mutagênese recebeu muita atenção durante as
décadas de 1950 e 1960, quando alguns pesquisadores
defendiam que o uso de agentes mutagênicos revolucionaria
o melhoramento de plantas. Nessas décadas de intensa
atividade nessa área, demonstrou-se o valor limitado da
mutagênese no melhoramento de plantas, especialmente
para os caracteres quantitativos.
92 Borém e Miranda
Atualmente, as mutações têm sido mais indicadas
para os casos em que a característica procurada não existe
no germoplasma da espécie e não se deseja utilizar eventos
transgênicos no cultivar. Têm-se utilizado mutagênicos para
obter genes mutantes e não mais para produzir um cultivar.
Depois de obtido o mutante em uma planta não comercial,
transfere-se esse gene por retrocruzamento para o cultivar
ou para um dos genitores no caso de híbridos.
Transformação gênica
A partir da década de 1970, a biologia molecular
desenvolveu-se a ponto de se poder isolar genes de um
organismo, cloná-los e introduzi-los em outros organismos. A
técnica do DNA recombinante, em princípio, preconiza o
isolamento de um gene de um organismo, sua clonagem e,
posteriormente, sua transferência para o organismo receptor
por intermédio de um vetor, conforme ilustrado na Figura 7.2.
A transferência de genes por meio de transformação
gênica tem sido facilitada por um sistema natural presente
em Agrobacterium tumefaciens, uma bactéria que possui o
plasmídio T i e que infecta muitas espécies de interesse
agronómico, induzindo-as à formação de tumor na região
hipocotiledonar, onde se processa a transformação.
O processo de transformação envolve a introdução
do gene a ser transferido no genoma circular do plasmídio
T i . Durante a infecção promovida por Agrobacterium na
espécie a ser transformada, um segmento do plasmídio T i ,
denominado T-DNA, é incorporado ao genoma nuclear da
espécie receptora.
A eficiência da transformação depende da habilidade
de Agrobacterium em transformar células do tecido do
receptor, da disponibilidade de um sistema de seleção de
células transformadas e de um sistema de regeneração a
Variabilidade genética de novo 93
partir dessas células, bem como da estabilidade do DNA
incorporado no genoma da planta receptora.
Cromossomo
Agrobacterium
Plasmídio Ti
Figura 7.2 - Princípio da transformação gênica mediada por
Agrobacterium tumefaciens.
Sistemas alternativos utilizados para transformação
gênica incluem biobalística, eletroporação e microinjeção.
O sistema de biobalística envolve a aceleração de
micropartículas impregnadas de DNA, que penetram nas
células de tecidos intactos. Os microprojéteis podem ser
acelerados uma descarga de gás hélio comprimido ou
descarga elétrica. O DNA aderido às micropartículas é
solubilizado no interior das células e incorporado ao DNA da
planta receptora.
A eletroporação abrange a formação de poros
temporários nas membranas celulares através de descargas
94 Borém e Miranda
elétricas. Moléculas de DNA podem-se difundir pelos poros
criados. Tipicamente, protoplastos são usados neste sistema.
A técnica do DNA recombinante abre ao melhorista o
acesso a um novo e variado conjunto de genes, inacessível
com as técnicas convencionais. A transformação gênica é
rotineira em tabaco, milho, alfafa, algodão, tomate, mamão,
trigo, sorgo, soja e outras espécies.
Variação somaclonal
Em princípio, plantas regeneradas de culturas in vitro
são fenotípica e geneticamente idênticas à que lhes deu origem.
Entretanto, dependendo do meio de cultura, da idade das
células, do genótipo, do efeito de luz e da temperatura, um
surpreendente número de tipos diferentes pode ser observado.
Larkin e Scowcraft (1981) cunharam o termo "variação
somaclonal" para descrever este tipo de variabilidade
proveniente do cultivo in vitro.
A variabilidade apresentada em plantas regeneradas
de cultura de tecidos pode ser de natureza fisiológica,
epigenética ou genética. As variações fisiológicas são as que
ocorrem em resposta a dado estímulo, mas que desaparecem
quando este é removido. As variações epigenéticas estão
relacionadas com a regulação gênica e persistem mesmo após
a remoção do estímulo, mas não são herdadas pela progénie
de origem sexual. As variações genéticas são herdáveis e
constituem material de interesse para o melhorista.
Entre as possíveis causas das variações somaclonais,
destacam-se crossing over somático entre cromátides-irmãs,
ativação de transposons, amplificação gênica, aberrações
cromossômicas e alteração do cariótipo da espécie. Embora a
origem da maioria das variações somaclonais seja
desconhecida, elas podem constituir importante fonte de
variabilidade em casos específicos.
Variabilidade genética de novo 95
O mais frequente tipo de variante somaclonal são as
deficiências de clorofila. Para a maioria das espécies
agronómicas, as variações somaclonais não têm valor,
entretanto para algumas espécies ornamentais
podem ser
interessantes. O segundo tipo de variante mais frequente
relaciona-se com a alteração do número de cromossomos e
sua estrutura. Esses tipos podem ter valor principalmente
para as espécies propagadas vegetativamente.
Se alguma variação somaclonal desejável for
detectada, ela poderá ser utilizada, desde que seja estável.
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1993.
Herdabilidade
A proporção genética da variabilidade total é deno-
minada herdabil idade. No sentido restr i to , herdabi l idade
é a proporção da var iab i l idade observada em razão dos
efeitos aditivos dos genes.
O conhecimento da var iabi l idade fenotípica,
resultado da ação conjunta dos efeitos genéticos e de
ambiente, é de grande importância para o melhor is ta na
escolha dos métodos de melhoramento, dos locais para
condução dos testes de avaliação da produtividade e do
número de repetições, bem como na predição dos ganhos
de seleção. Obviamente, as variações de ambiente
ofuscam as de na tureza genética. Quanto maior for à
proporção da var iabi l idade decorrente do ambiente em
relação à var iabi l idade total , mais difícil será selecionar
genótipos de forma efet iva.
Componentes da herdabilidade
O fenótipo é o resultado da expressão gênica modificada
pelo ambiente. Algebricamente, o fenótipo pode ser expresso
por:
Herdabilidade 99
Pj= M +gi+ei + (ge)i
em que: Pi: fenótipo observado;
//: média geral;
g{. efeito do genótipo;
e{. efeito do ambiente; e
(gé)f. efeito da interação genótipo x ambiente.
O conhecimento da magnitude do efeito do ambiente é
importante, uma vez que o melhorista nem sempre pode prever
suas variações.
A s diferenças nos valores fenotípicos são
condicionadas por fatores genéticos e ambienta is e pela
interação entre genótipos e ambiente. A s s im , o valor
fenotípico é variável e seus componentes podem ser
determinados por análise de variância, fazendo-se:
_ 2 _ _ 2 , „2 , „2
ap-ae + aê + <rge
O componente de variância u\ uma medida das fontes
de variação não controláveis. Esse componente é geralmente
denominado erro experimental ou variância de ambiente. O
componente de variância <7ge representa as diferenças entre
fenótipos causadas pela interação genótipo x ambiente. O
componente de variância a2g é causado pelas diferenças
genéticas entre os indivíduos. Se os genes expressam efeitos
aditivos, o valor genotípico da característica em questão pode
ser aumentado ou reduzido pela substituição de um alelo. Por
exemplo, se A 1 A 1 apresenta altura de 60 cm, A 2 A 2 de 80 cm e
A 1 A 2 de 70 cm, isso significa que a presença de A 2 resulta em
uma alteração de 10 cm. Alguns genes expressam o efeito
100 Borém e Miranda
dominante de forma que a presença de um alelo resulta no
aumento do valor genotípico. Nesse caso, A 1 A 2 terá o valor de
80 cm em vez de 70 cm. Ainda pode ocorrer interação entre
diferentes genes, o que se denomina epistasia. Por exemplo,
A1A2 expressa efeito aditivo na presença de B i B i , ou seja, 70,
mas expressa efeito dominante diante de B 2 B 2 , ou seja, 80.
Assim, a variância genotípica (cr2,)
pode ser subdividida em
variâncias aditiva (cr^), de dominância (cr2D) e epistática (cr2).
Os valores de cada componente de variância podem ser
estimados experimentalmente:
Op = cr\ CT-D + a] + c] + a2
e (H ou h 2 ) pode
2
No sentido amplo, a herdabil idac
ser definida como a razão da variância genotípica (aAg)
pela fenotípica (cr2), isto é:
No sentido restr i to , a herdabi l idade pode ser
definida como a razão da variância ad i t iva pela
fenotípica:
A herdabil idade no sentido restr i to é mais útil ,
uma vez que quant i f ica a importância r e l a t i va da
Herdabilidade
proporção adi t iva da variância genética, que pode ser
t r ansmi t ida para a próxima geração.
A herdabilidade var ia de acordo com as diversas
características agronómicas. Uma das teorias é que as
características que se desenvolvem em um curto período
estariam menos sujeitas ao ambiente e, dessa forma,
apresentariam maior herdabilidade do que as sujeitas a maior
período. Considere-se, por exemplo, a fenologia da aveia
apresentada na F igura 8.1.
Enquanto a produção de grãos é afetada pelo
ambiente durante todo o ciclo da cu l tura , seu diâmetro é
determinado durante 25 a 30 dias e o comprimento, em
apenas oito dias. E s s a teoria advoga que, quanto menor o
período fenológico de desenvolvimento de uma
característica, maior é a herdabilidade. Dessa forma, o
comprimento do grão apresentar ia maior valor de
herdabil idade do que o diâmetro, e este, maior do que a
produção de grãos.
| Produção de grãos I
95 dias
[Perfilhamentoi 1 Florescimento | |Peso de sementes;
14 dias 21 a 40 dias 30 dias
l A l tu ra das plantas 1
20 dias
I Comprimento do grão 1
8 dias
I Diâmetro do grão 1
25 a 30 dias
F i gu r a 8.1 - D i ag rama do ciclo fenológico da ave ia .
Fatores que afetam a herdabilidade
As estimativas de herdabilidade var iam com: i) a
característica; i i ) o método de estimação; i i i ) a diversidade na
população; iv) o nível de endogamia da população; v) o
102 Borém e Miranda
tamanho da amostra avaliada; vi) o número e tipo de
ambiente considerados; vi i ) a unidade experimental
considerada; e v i i i ) a precisão na condução do experimento e
da coleta de dados. En t re os métodos de cálculo da
herdabilidade, alguns calculam-na no sentido restrito e
outros, no sentido amplo. Entretanto, alguns geram
estimativas intermediárias entre as duas. Populações
formadas a partir de cruzamento de genitores divergentes
apresentam maior variabilidade e, consequentemente, maior
variância genotípica, tendendo a mostrar maiores valores de
herdabilidade do que aquelas com menor variabilidade
(F igura 8.2).
i — i i r i i— i r
1 2 3 4 5 6 7 8 9
F i gu r a 8.2 - Relação entre herdabil idade, expressa em
desvio-padrão, e variância genética para
dias de florescimento de l inhagens de ave ia
de 22 cruzamentos.
As estimativas de herdabilidade são feitas em
amostras da população, portanto seu tamanho e representa-
tividade afetam os valores obtidos.
Herdabilidade 103
O número de ambientes afeta a estimação da
herdabilidade, em razão da interação genótipo x ambiente.
Além disso, a intensidade do estresse dos ambientes é
importante. Es t imat ivas obtidas em ambientes com
condições adversas são diferentes daquelas calculadas em
condições ideais. Alguns melhoristas af irmam que avaliações
conduzidas em ambiente com o mínimo de estresse permitem
a máxima manifestação da variabilidade genética e,
consequentemente, a obtenção de maiores estimativas de
herdabilidade. Esse grupo af irma que os melhores genótipos
em condições ideais também seriam superiores em ambiente
com estresse. Outros acreditam que os melhores genótipos
para um ambiente com estresse não são os mesmos para um
ambiente de condições ideais, pois o controle genético é
diferenciado nas duas situações. Há evidências que suportam
ambas as teorias, embora sejam contrastantes. Rasmusson e
Glass (1967) i lus t raram o efeito do número de repetições, ano
e localidade nas estimativas de herdabilidade de duas
características de cevada (Tabela 8.1).
Na Tabela 8 .1 , observa-se que há baixa variabilidade
do conteúdo de nitrogénio na população 2 e que o teste com
três repetições em dois locais permite ganho genético
satisfatório para produtividade, enquanto três repetições em
um local e um ano são suficientes para o conteúdo de
nitrogénio. Esses dados demonstram que a herdabilidade não
é uma característica estática, porém var i a conforme uma
série de fatores, entre eles a população, a geração
considerada, o ambiente, a unidade experimental na qual os
dados para se estimar a herdabilidade são coletados etc.
A herdabilidade pode ser estimada com base em dados
de uma única planta, em uma parcela, ou com base na média
da parcela. Por exemplo, a herdabilidade para acamamento
em soja é extremamente baixa quando estimada em dados de
uma planta e alta com base na média das parcelas.
104 Borém e Miranda
Tabela 8.1 - Es t imat ivas de herdabilidade para a produtivi-
dade de grãos e conteúdo de nitrogénio em duas
populações de cevada, testadas em seis diferen-
tes situações
Tipo de Teste População
Produtividade de
Grãos (bushel/acre)
Nitrogénio
(%)
1 repetição e 1 local 1 17,2 47,9
2 17,6 4,7
2 repetições e 1 local 1 26,7 57,9
2 26,1 7,6
3 repetições e 1 local 1 32,8 62,3
2 31,1 9,5
3 repetições e 2 locais 1 47,7 75,4
2 42,7 13,7
3 repetições e 2 anos 1 49,4 75,3
2 44,4 16,3
3 repetições, 2 anos e 1 64,6 84,9
2 locais 2 57,3 22.5
Fonte: R A SMUS SON : G LA S S , 1967.
A condução criteriosa da avaliação da população resulta
em menor erro experimental e, por conseguinte, em maior
herdabilidade. De igual forma, a precisão na coleta dos dados
refletirá na magnitude das estimativas de herdabilidade.
A herdabil idade ca lculada com base na média das
parcelas pode ser obtida pela fórmula:
em que:
r: representa o número de repetições; e
1: o número de ambientes.
Herdabilidade 105
Analisando o numerador e o denominador da fórmula,
verifica-se que o elevado número de ambientes e repetições
contribui para o aumento dos valores estimados da
herdabilidade.
Métodos para estimação da herdabilidade
A escolha do método de cálculo da herdabilidade
depende dos recursos genéticos disponíveis e da finalidade da
estimativa. Entre os principais, podem-se citar: método da
herdabilidade realizada, método da regressão pai-filho,
método dos componentes de variância, método de estimação
indireta da variação de ambiente e método de est imativa por
retrocruzamento. Embora outros métodos estejam descritos
na l i teratura, seu emprego dá-se em situações específicas.
Método da herdabilidade realizada
Frequentemente, o melhorista t raba lha com
populações selecionadas para diversos caracteres.
Exper imentos com seleção, conduzidos em uma amostra
representat iva de ambientes, podem fornecer informações
para estimação da herdabilidade.
A herdabil idade de uma característ ica pode ser
est imada com base na proporção do ganho genético em
relação ao diferencial de seleção:
em que:
R: resposta à seleção ou ao ganho genético; e
D: d i ferencia l de seleção.
O diferencial de seleção (D) é a diferença entre a
média dos indivíduos selecionados e a média da população.
106 Borém e Miranda
A Tabe la 8.2 i l u s t r a o uso do método da
herdabil idade com a seleção rea l i zada em soja pa ra a l tu r a
da p r ime i ra vagem na geração F3 e a resposta à seleção
na geração F4.
Tabe la 8.2 - Médias de a l t u r a da p r ime i r a vagem (cm) em
duas populações de soja, nas gerações F.i e
F4, obtidas nos anos agrícolas 1992/93 e
1993/94
F* F 4
População
N n População Seleção População Seleção
Cristalina x Doko 90 15 10 15 11 13
Uberaba x Paraná 90 15 9 13 10 12
Veri f ica-se na Tabe la 8.2 que o di ferencial de
seleção na geração F .T é:
D = Fss-Fn
em que:
Fs : média de a l tu r a da p r ime i ra vagem de todas as
plantas na geração F,i ; e
F3S: média de a l tu r a da p r ime i r a vagem dos 15
indivíduos selecionados.
O ganho genético, ou resposta à seleção R , é
estimado por:
R = F4S-F4
Herdabilidade 107
em que:
F4: média de a l tu r a da p r ime i r a vagem de todas
as p lantas na geração F4; e
F4s: média de a l tu r a da p r ime i r a vagem das
plantas or iundas do grupo selecionado em Fa.
A herdabil idade rea l i zada pode ser est imada como
se segue:
R_
D
Subst i tuindo R e S, tem-se:
h 2 = F 4 S " F 4
F 3 S " F 3
P a r a a população do cruzamento C r i s t a l i n a x Doko,
tem-se:
h 2 = ^ 0 , 4 0
15-10
P a r a a população do cruzamento Uberaba x
Paraná , tem-se:
12- 10
13- 9
0,50
A herdabilidade pode também ser calculada em
experimentos de seleção divergente, em que se selecionam
os dois extremos da distribuição da população. A
herdabilidade rea l izada é calculada pela diferença de
médias entre os grupos selecionados em uma geração,
108 Borém e Miranda
dividida pela diferença de médias entre os grupos
selecionados da geração anterior.
Considere-se a seleção para a l tura da primeira vagem
em soja, cujos dados experimentais estão apresentados na
Tabela 8.3. E m cada população, foram formados dois grupos:
grupo alto, de plantas com maior al tura da primeira vagem;
e grupo baixo, de plantas com menor a l tura da primeira
vagem.
Tabela 8.3 - Médias da a l tura da primeira vagem (cm) de
duas populações de soja, nas gerações F3 e F4,
obtidas nos anos agrícolas 1992/93 c 1993/94,
no município de Viçosa, MG
F 3 F 4
Diferencial de Seleção Ganho Genético
População N n Grupo Grupo Grupo Grupo
Baixo Alto Baixo Alto
Cristalina x Doko 90 35 2,5 8,0 1,4 1,3
Uberaba x Paraná 90 35 2,3 7,0 1,2 1,0
n: número de plantas nos subgrupos alto e baixo, nas gerações F 3 e F 4 .
Pelos dados da tabela anterior , pode-se ca lcu lar a
herdabil idade da seguinte forma:
u2 _ F4ALTO F4 B A I X O
1 1
^ 3 A L T O " A B A I X O
em que:
F4AI,TO : média da a l tu r a da p r ime i r a vagem na
geração F4 das progénies do subgrupo alto
na geração F3;
Herdabilidade 109
r 4BAIXO : média de a l tura da pr imei ra vagem na
geração F4 das progénies do subgrupo baixo
na geração F3;
F3ALTO : média de a l tu r a da p r ime i ra vagem na
geração F3 das plantas com maiores valores; e
F3BAIXO : média de a l tu ra da p r ime i ra vagem na
geração F3 das p lantas com menores
valores .
Uma das limitações para a obtenção da herdabilidade
é a necessidade de avaliação dos genótipos em dois anos
agrícolas, além de, na maioria dos casos, os dados disponíveis
se referirem a uma única localidade, não permitindo o
expurgo da interação genótipo x ambiente.
Método da regressão pai-filho
A est imação da herdabil idade pela regressão dos
dados dos f i lhos sobre os dados dos genitores é
re la t ivamente s imples: consiste em ava l i a r as caracterís-
t icas em um grupo de plantas de uma geração e depois
avaliá-las na geração seguinte. Calcula-se , então, o grau
de associação entre as caracter íst icas ava l iadas nos
genitores e nas progénies correspondentes, u t i l izando
análise estat ís t ica do tipo regressão ( F i gu ra 8.3).
125
100 -
'5 75 -
'ao
£ 50 -0,
EH
25 « ^ " ^
0
1 2 3
Xi (Genitor)
4
F i gu r a 8.3 - Regressão dos descendentes, em relação aos
genitores, quanto à a l tu r a de planta .
110 Borém e Miranda
O modelo l inear que representa a associação entre
as caracter ís t icas nas duas gerações é dado por:
Y i = a + bXi + e i ~
em que:
Y Í : valor da característica na progénie do pai i
(variável dependente);
a: valor médio de todos os pais para a característica;
b: coeficiente da regressão;
X Í : valor da característica no pai i (variável
independente); e
ei: erro experimental associado ao Y i .
S X Y _ £ ( X i - X ) ( Y i - Y ) _ ô
I X 2 I ( X i - X ) 2 ò
b _ COV(X ,Y )
V(X)
Os genitores avaliados devem consti tuir uma
amostra representat iva da população total , para que as
est imat ivas tenham significado como um todo.
Para a maioria das espécies autógamas, os procedi-
mentos mais frequentes são a avaliação de uma amostra de
linhagens de determinada geração, a obtenção de sementes
resultantes da autofecundaçao e o plantio destas para obtenção
e avaliação das progénies. Pelo valor do coeficiente de regressão
(b), estima-se a herdabilidade (h 2) , isto é: b = h 2 . Est imativas
obtidas dessa forma, especialmente nas gerações F 2 e F 3 , são
consideradas de sentido amplo, em virtude de a covariância pai-
filho incluir componentes de variância aditivos, de dominância
e epistáticos.
As estimativas obtidas com genitores endogâmicos
superestimam a herdabilidade, como demonstraram Smith e
Herdabilidade 111
Kinman (1965). Na Tabela 8.4 se apresentam, de forma
resumida, os fatores de correção do coeficiente de regressão
para algumas gerações de autofecundaçao.
Tabela 8.4 - Fatores de correção do coeficiente de regressão
(b) para gerações de autofecundaçao
Geração Pai-Filho Fator de Correção 2 h Corrigida
F i - F 2 1 lb
F2-F3 2/3 (2/3)b
F3 -F4 4/7 (4/7)b
F 4 - F 5 8/15 (8/15)b
F s - F s 16/31 (16/31)b
Em uma população de plantas alógamas, acasaladas ao
acaso, o genitor masculino é a própria população e, portanto,
não pode ser avaliado. A regressão, nesse caso, é realizada
com as características das progénies meias-irmãs com os
valores das características do genitor feminino. Ass im, pelo
coeficiente de regressão, estima-se a metade da herdabilidade,
ou seja, b = ¥2 h 2 . Pa ra se estimar a herdabilidade, ou seja,
b = h 2 , os dados são coletados de ambos os genitores, por meio
da regressão da progénie sobre o pai médio. A s progénies
avaliadas nesse caso são irmãs completas, uma vez que os
genitores são acasalados aleatoriamente na população.
Apenas as variâncias genética aditiva e epistática aditiva são
incluídas na covariância pai-filho; dessa forma, a estimativa
obtida representará a herdabilidade no sentido restrito se a
variância epistática for desprezível.
As estimativas obtidas com esse método consideram: i)
herança diploide mendeliana; ii) população em equilíbrio de
ligação; i i i) genitores não endogâmicos; iv) ausência de
correlação de ambiente entre genitores e progénies; e v)
acasalamento ao acaso.
112 Borém e Miranda
Rasmusson et a l . (1964), que estudaram o acúmulo de
estrôncio (Sr) em cevada nas gerações F2 e F 3 , apresentaram
um exemplo do cálculo da herdabilidade com base na
regressão pai-filho.
Cento e dezenove plantas F 2 resultantes do
cruzamento entre os cul t ivares de cevada Kenya 117A e
Cadet foram analisadas quanto ao conteúdo de estrôncio (Sr) .
Apenas uma amostra dos dados é apresentada na Tabela 8.5.
Tabela 8.5 - Conteúdo de estrôncio em grãos de cevada da
população K eny a 117A x Cadet
F 2 Fa 1 F 2 F 3
110 117 134 122
112 109 124 92
148 128 116 93
99 107 137 121
127 97 133 112
87 78 95 104
106 93 102 87
95 87 69 92
1 Média de quatro plantas.
Observando os dados da tabela anterior , tem-se:
COV (F 2 , F 3 )
V ( F 2 )
b = 0,30 «=> h 2 =30%
Quando os genitores são aval iados em uma geração
e a sua progénie em outra , as diferenças de ambiente
entre as duas épocas de plantio podem a l terar a
ampli tude de variação da progénie em relação à
apresentada pelos genitores.
Quando isso acontece,
valores de b maiores do que a unidade podem ocorrer, o
que não tem sentido biológico. F r ey e Horner (1957)
Herdabilidade 113
recomendaram a estandardização dos dados para a
eliminação do problema de escala e propuseram que os
dados fossem expressos em unidades de desvio-padrão.
Método dos componentes de variância
A estimação da herdabilidade com base nos
componentes de variância é um método que permite ao
melhorista a utilização de dados normalmente disponíveis
em um programa de melhoramento, como os dados das
linhagens de um cruzamento que se encontram em avanços
de geração. Esse método permite também que o melhorista
estime os componentes de variância por intermédio de um
dos delineamentos de acasalamento. Cada delineamento
difere quanto ao material genético avaliado, o que determina
os tipos de variância que podem ser estimados.
Três exemplos serão utilizados para i lustrar a
obtenção de estimativas de herdabilidade com espécies
autógamas em diferentes situações:
E x emp l o 1 - Experimento em blocos ao acaso envolvendo
genótipos avaliados em uma localidade, com repetições
(Tabela 8.6).
Tabela 8.6 - Análise de variância de experimento
envolvendo l inhagens ava l iadas em uma
localidade, com repetições
Fontes de Variação GL QM E (QM)
Blocos (B) b-1 - -
Genótipos (G) (g-D QM3 2 2
Repetição (R) (r-1) 2 2
Resíduo (G x R) (g-l)(r-l) QMi
Anal i sando os componentes de variância
pertinentes, chega-se às expressões seguintes:
114 Borém e Miranda
à\ QMi
a
* r
Então, pode-se obter a e s t imat iva da herdabil idade:
a) com base nas parcelas
i.2
b) com base na média dos genótipos
Exemplo 2 - Exper imento em blocos ao acaso envolvendo
genótipos, ambientes e repetições (Tabe la 8.7).
Tabela 8.7 - Análise de variância de experimento envolvendo
linhagens, localidades e repetições
Fontes de Variação G L QM E (QM)
Ambientes (A) (a-1) QM 5
Blocos/A a(r-l) QM 4
Genótipos (G) (g-D QMs c^+rc£+ara*
G x A (g-D(a-l) QM 2
Resíduo (g-D(r-l)a QMi
Anal i sando os componentes de variância pert inen-
tes, chega-se a:
Herdabilidade 115
a ; = QM t Ô
i 2 _ Q M 3 - Q M 2
ar
_2 QM 2 - QM :
Pode-se es t imar a herdabil idade da seguinte forma:
a) com base nas parcelas
h 2 =
b) com base na média de genótipos
Exemp lo 3 - Avaliação de 95 l inhagens de feijão
(genótipos) na geração F4, provenientes do cruzamento de
duas variedades homozigóticas ava l iadas em duas
localidades, durante dois anos, em delineamento ao acaso,
com duas repetições (Tabela 8.8).
Anal i sando os componentes de variância pert i -
nentes, chega-se a:
. 2 _ Q M 4 - Q M 5
A G L A " 7,05
QM 3 - QM, *2 _ V ^ 3
< * G L
ra
2,32
' G A
Q M 2 - Q M ,
ri
1,65
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nálise de variância de dialelo com
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Fontes de V
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(r-l)(n
2-l)
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acid
ad
e geral de com
binação e C
E
C
: cap
acid
ad
e específica de com
binação.
122 Barém e Miranda
Método de estimação indireta da variação de
ambiente
A herdabil idade pode ser es t imada quando se
quant i f i cam a variação de ambiente e a variação genética.
E m 1975, Ke l l y e B l i s s descreveram um método pa ra
es t imat iva da variação de ambiente por meio da avaliação
dos genitores e da geração F i . Os dados ut i l izados por
esses autores são apresentados na Tabela 8.12. E s t e
método es t ima a herdabil idade no sentido amplo. E m
geral , esta e s t imat iva é superest imada, em v i r tude da
ausência de diferentes ambientes durante as avaliações.
Tabela 8.12 - Conteúdo proteico do feijão
Genótipos
Número de
Plantas
% de Proteína A-2
BBL 240 48 28,1 2,86
P I 207 227 23 21,5 0,91
F i 23 24,7 1,63
F 2 146 25,8 5,82
Fonte: KELLY ; BLISS, 1975.
Observando o quadro anter ior , ver i f ica-se que:
£ 2 _ Õ"BBL240 + frpi207227 + QPL _ 5^ 4
3 3
àl = 1,8
i .2 _ A 2 , - 2
o>2 - cre + a g
P a r a es t imar a herdabil idade, faz-se então:
oí-ot 4,02
2 . — ° > 6 9
Op s 5 > 8 2
h a = 69%
Herdabilidade 123
Mahmud e K r ame r (1951) também descreveram
um método s imi l a r de estimação da variância de
ambiente, sugerindo a utilização da média geométrica das
variâncias dos genitores e indivíduos F i .
Método de estimativa por retrocruzamentos
Este método, proposto por Warner (1952), estima a
herda-bilidade no sentido restrito, conforme o esquema a
seguir:
P i x P 2
i
P i x F i x P 2
1 l* i
RC i F 2 R C i
- 2 a F i - a R C l - a R C 2
em que:
ôp,: variâncias entre indivíduos F 2 ; e
ô R C i e ôp C ] : variâncias entre indivíduos R C i , dos
retrocruzamentos do híbrido F i com os
genitores P i e P2.
A l i t e r a tu r a científica reporta vários outros
métodos pa ra est imação da herdabil idade, que
apresentam caracter ís t icas que os tornam indicados pa ra
situações específicas, os quais, portanto, não serão
discutidos neste capítulo.
Considerações finais
As est imat ivas de herdabilidade e de componentes
de variância podem orientar o melhorista durante as três
fases principais de um programa de melhoramento: i)
124 Borém e Miranda
criação da var iabi l idade genética; i i ) seleção de indivíduos
superiores na população segregante; e i i i ) utilização dos
indivíduos selecionados no programa.
E m geral, uma das pr imeiras preocupações do
melhorista é a existência de var iabi l idade genética no
germoplasma. Posteriormente, ele precisa identif icar o
germoplasma com maior potencial para o desenvolvimento
de novos cul t ivares , o tipo de cu l t ivar (híbrido, l i nha pura ,
sintético, mul t i l inha) e o método de melhoramento mais
indicado de acordo com o objetivo do trabalho. A escolha do
germoplasma para início do programa de melhoramento
em geral é baseada em testes regionais de competição de
cu l t ivares . Obviamente, o melhorista estará interessado
em t raba lhar com mater ia l genético que apresenta
var iabi l idade e alto desempenho.
A escolha do método de melhoramento mais
apropriado e do tipo de cu l t ivar a ser lançado depende do
modo de reprodução da espécie e da magnitude re la t iva
das variâncias genéticas adi t iva e não adi t iva .
P a r a separação das variâncias adi t iva , dominante e
epistática, é necessária a utilização de delineamentos de
acasalamento apropriados. Os delineamentos I , I I e I I I de
Comstock e Robinson (1952) e o dialelo podem ser
uti l izados para partição das variâncias adi t iva e não
adi t iva .
Frequentemente, o melhorista encontra valores nega-
tivos, sem significado estatístico ou biológico, quando estima
os componentes de variância. Esses valores geralmente
ocorrem quando se estima um componente de variância de
pequena magnitude associado a grande erro experimental. O
valor mais aproximado de um componente de variância é
conseguido por meio da média de diversas estimativas para a
característica em estudo, obtidas em repetidos experimentos.
Embora uma estimativa negativa não tenha significado, ela
deve ser reportada para que o acúmulo de informações
Herdabilidade 125
contribua para a obtenção de estimativas que se aproximem
do valor real .
E igualmente importante ressal tar que os compo-
nentes de variância e herdabilidade estimados somente se
apl icam à população que lhes deu origem e às condições de
ambiente estudadas. Qualquer generalização além desses
l imites pode resul tar em erro. As s im , experimentos com a
f inalidade de obter est imat ivas de herdabilidade devem
ser conduzidos em uma amostra de ambiente, no qual as
est imat ivas serão aplicadas. Neste caso, as est imat ivas da
variância genética não serão inflacionadas pelos
componentes da variância em vir tude da interação G x A ,
componentes que estarão incluídos na variância fenotípica.
Es se problema é facilmente visual izado nas Tabelas 8.13 e
8.14. Se um único ano e local fossem uti l izados, na
estimação da variância genética ser iam inclusos
O " G L A ' CT|l e cr|A, além de a2G .
Pode-se calcular a es t imat iva de herdabil idade,
ut i l izando vários anos e locais, pela equação a seguir:
A estimativa da herdabilidade para predição de ganho
genético, utilizando-se um único ano e local, com base em
duas repetições, pode ser computada como se segue:
h 2 =
i .2 • * 2 ,*2 , * 2
a G + ° ( ; L A + ° G L + ° G A
A 2 , * 2 . * 2
° G + < * G L Â + O G L +à2GA+ò2J2
126 Borém e Miranda
Tabela 8.13 - Análise de variância parc ia l para experimen-
to conduzido em vários anos e locais
Fontes de Variação GL E (QM)
C e n Ó t Í p ° (g'1} vl + rok* + r l ° G A + raaGL + r a l a c
Genótipo x Local (g-l)(M) 0 * + ^ + T S L a ^
Genótipo x Ano (g-D(a-l) Q2 + R < J 2 ^ + D ( J 2 ^
Ano
Resíduo (r-l)(n-l)Za A 2
r: número de repetições; g: número de genótipos; l; número de localidades; e a:
número de anos.
Tabela 8.14 - Análise de variância parc ia l para experi-
mento conduzido em um único ano e local
Fontes de G L E (QM)
Variação
Genótipo fe-l)
Resíduo (r-D(g-l)
r: número de repetições e g: número de genótipos.
O numerador da equação anterior encontra-se
superestimado pelos fatores ^G LA + ^ G L + ^GA> que não podem
ser separados
de ÔQ quando o experimento é conduzido em um
único ano e local.
Embora o melhorista em geral faça a seleção com base
em dados de um ano e um local, é necessário que utilize mais
do que um ano e um local para estimar a herdabilidade, se a
interação G x A for significativa. Conclui-se, portanto, que as
estimativas de herdabilidade devem ser, tanto quanto
possível, expurgadas da interação G x A e que a
herdabilidade deve ser computada para a unidade de seleção
(planta, parcela ou média de parcelas).
Herdabilidade 127
A magnitude dos componentes de variância também
pode servir de orientação quanto ao tipo de cu l t ivar a ser
lançado. Quando a razão da variância de dominância em
relação à variância adit iva for superior à unidade ou quando
altos valores dos componentes de variância epistática
envolvendo dominância forem obtidos, os cul t ivares híbridos
devem ser os preferidos. Todavia, a decisão f inal quanto ao
uso de cul t ivares híbridos baseia-se no grau de heterose
presente na espécie e no custo de produção da semente
híbrida.
A escolha do método de melhoramento deve ser
fundamentada no ganho genético, por unidade de tempo e
recursos.
A fórmula geral para predição de ganho genético é
apresentada como se segue:
G = i a ph 2
em que:
G : ganho esperado;
i : intensidade de seleção em desvio-padrão;
a P : desvio-padrão fenotípico; e
h 2 := herdabi l idade.
F inalmente , deve-se considerar a seguinte questão: a
herdabilidade deve ser estimada? A resposta mais segura
para esta questão é "depende", pois há inúmeras situações
em que a herdabilidade precisa ser estimada, como no caso
de uma nova característica sobre a qual não se dispõe de
informações. Quando as características agronómicas já são
conhecidas pelos melhoristas e as est imativas j á estão na
l i teratura , em geral não se est imam tais parâmetros.
Nos casos de se reportarem estimativas de
herdabilidade, os valores devem ser acompanhados da
descrição da população, dos ambientes e da unidade de seleção
(planta, parcela ou média das parcelas) a que as estimativas se
aplicam. Herdabilidades baseadas em grande númeríi de
128 Borém e Miranda
ambientes e repetições têm pouca utilidade, uma vez que
estimativas próximas da unidade são obtidas, para a maioria
das características agronómicas, por meio de extensivo uso de
ambientes, anos e repetições.
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Interação
Genótipo x Ambiente
A s condições edafoclimáticas, associadas a práticas
culturais, à ocorrência de patógenos e outras variáveis que
afetam o desenvolvimento das plantas, são coletivamente
denominadas ambiente. Em outras palavras, o ambiente é
constituído de todos os fatores que afetam o desenvolvimento
das plantas que não são de origem genética.
Historicamente, a
agricultura tem evoluído para uma
situação de maior controle das condições de ambiente. A
agricultura moderna apoia-se no uso de fertilizantes, no
controle de plantas daninhas e de insetos, na suplementação
de irrigação e, em alguns casos, no uso de casa de vegetação
climatizada. Embora alguns dos fatores climáticos variem
inconsistentemente, como temperatura, chuva, umidade
relativa e nebulosidade, há possibilidade de se preverem
essas variáveis no curto e médio prazos.
É óbvio que um cultivar de soja com alto potencial de
produção de grãos na região central do Brasi l não seria tão
produtivo em condições de clima temperado, como na região
central da Argentina. Cultivares recomendados em
diferentes ambientes podem ter desempenhos relativos
distintos, isto é, um cultivar pode ser extremamente
132 Borém e Miranda
produtivo em um ambiente, enquanto um segundo cultivar
mais adaptado a outro ambiente não sobressai neste. Por
exemplo, o crescimento de uma espécie em solos de alta
fertilidade pode ser limitado pela capacidade de absorção do
sistema radicular, ao passo que em condições de baixa
fertilidade o crescimento pode ser atribuído à eficiência na
utilização dos nutrientes, o que resulta no desempenho
diferenciado dos genótipos.
A alteração no desempenho relativo dos genótipos, em
virtude de diferenças de ambiente, denomina-se interação
genótipo x ambiente (G x E ) . A Figura 9.1 apresenta três
situações que permitem ilustrar a ocorrência da interação G
x E . Na situação 1, não ocorre interação G x E , uma vez que o
ambiente promove a mesma alteração nos cultivares A e B.
Nas situações 2 e 3, a variação no comportamento dos
cultivares A e B foi diferente com a alteração de ambientes,
caracterizando a ocorrência da interação G x E .
situação 1 situação 2 situação 3
I I I I I I I I I
Figura 9.1 - Comportamento hipotético dos cultivares A e B,
nos ambientes I e I I , em três situações distintas.
A resposta fenotípica de cada genótipo às variações de
ambiente é, em geral, diferente e reduz a correlação entre o
fenótipo e o genótipo. A primeira preocupação que se deve ter
uo iniciar um programa de melhoramento é definir se o
objetivo é o desenvolvimento de cultivares produtivos em um
amplo espectro de ambientes ou de um cultivar altamente
adaptado H ambientes específicos. No primeiro caso, devem-
Interação genótipo x ambiente 133
se preferir situações de pequena interação G x E e, no
segundo, de grande interação G x E . Se um cultivar é
superior em ambientes muito específicos, mas apresenta
comportamento medíocre em outros, ele será de pequeno
valor se as condições especiais por ele requeridos não forem
prevalecentes.
Duas plantas na mesma parcela experimental, nas
mais uniformes condições, estão sujeitas a diferentes
ambientes, denominados microambientes. O termo
macroambiente é utilizado para distinguir ambientes de
duas regiões ou de dois anos agrícolas. O macroambiente é,
na verdade, constituído por uma população de
microambientes. A complexidade do ambiente é ainda mais
evidente quando se considera que apenas uma parte da
interação G x E pode ser atribuída a fatores de ambientes
conhecidos.
A interação G x E é um importante e desafiante
fenómeno para melhoristas e agrónomos que atuam nos
testes comparativos e na recomendação de cultivares.
Quanto maior a diversidade genética entre os genótipos e
entre os ambientes, de maior importância será essa
interação.
Bradshaw (1965) descreveu as respostas diferenciais
de genótipos a diferentes ambientes por meio da plasticidade
fenotípica. As plantas podem-se ajustar à variação no seu
ambiente pela' plasticidade fenotípica, que é inversamente
proporcional a sua heterozigose. De acordo com essa
afirmação, elas podem apresentar o efeito "tamponante" em
duas situações: i) quando o cultivar é composto por um
número de genótipos e cada um deles é adaptado a um
microambiente em particular; e ii) quando os indivíduos são
"tamponados" de forma que cada membro da população se
adapte bem a vários ambientes.
A avaliação de genótipos em diferentes anos e
localidades, com relação à maioria das características
agronómicas, frequentemente evidencia interações genótipo
134 Borém e Miranda
x localidade (G x L ) , genótipo x ano (G x A) e genótipo x
localidade x ano (G x L x A). Para certas características,
como dias para o florescimento, a importância das interações
G x A em relação ao efeito genotípico é em geral menor. Com
frequência, G x A é maior que G x L , embora a diferença em
magnitude entre as duas dependa dos efeitos que contribuem
para G x L . Parece lógico que a interação G x L , se as
localidades estão restritas a uma região menor, seja menos
importante que a interação G x A. Em diversas situações, a
interação G x A é maior que G x L e G x L x A .
Se a interação G x E for significativa, o melhorista
precisa adotar critérios para a interpretação dos dados, pois
é especialmente importante saber se a interação resultou da
alteração na ordem de mérito dos genótipos de um ambiente
para outro ou de uma simples alteração na magnitude das
diferenças entre os genótipos.
Principais causas da interação
genótipo x ambiente
Conforme mencionado, a lista de fatores de ambiente
que podem afetar o desenvolvimento fenológico das plantas é
extremamente vasta. Dentre esses fatores, os mais comuns
causadores da interação G x E são os seguintes:
Fatores previsíveis
• Fotoperíodo
• Tipo de solo
• Fertilidade do solo
• Toxicidade por alumínio
• Época de semeadura
• Práticas agrícolas
Interação genótipo x ambiente 135
Fatores imprevisíveis
• Distribuição pluviométrica
• Umidade relativa do ar
• Temperatura atmosférica e do solo
• Patógenos
• Insetos
Uso das informações sobre a interação
genótipo x ambiente
Alocação de recursos nos ensaios comparativos
Os testes de avaliação de produtividade constituem
uma das fases mais onerosa dos programas de
melhoramento. O alto custo desses testes tem levado os
melhoristas a buscar maneiras de maximizar a eficiência de
avaliação, e uma delas é a otimização da alocação dos
recursos.
Para essa otimização, devem-se estimar os valores de
2 2 2 2
< T e ' c r G L A > C T G L e a G A » P o r me io da avaliação de um grupo de
genótipos representativos do seu germoplasma em quatro ou
mais localidades, por dois ou mais anos, utilizando o
delineamento estatístico normalmente usado em avaliações,
com três ou mais repetições.
A otimização da alocação do número de repetições, de
localidades e de anos de avaliação é baseada na importância
relativa das interações genótipo x localidade, genótipo x ano
e genótipo x localidade x ano.
O poder de detecção de diferenças significativas entre
genótipos aumenta com a redução da variância da média dos
genótipos e, consequentemente, da diferença mínima
significativa (DMS).
136 Borém e Miranda
A variância da média dos genótipos é dada por:
V(x) = /ria + Ò2GLAir + a^/ar + ò2GAJÚ
DMS = tV2V(x)
Com base em dados coletados, o melhorista deve
procurar a melhor combinação de repetições (r), localidades
(1) e anos (a) para a obtenção do mínimo valor de DMS para
certo nível de probabilidade.
Se a interação de primeira ordem G x L for de
pequena importância, talvez seja mais prudente utilizar
apenas uma ou duas localidades. Porém, se a interação de
primeira ordem G x A for de pequena importância, o
melhorista pode se sentir menos obrigado a testar os
genótipos por mais de um ano.
Caso o erro experimental seja relativamente mais
importante do que as interações G x E . a melhor opção pode
ser o aumento do número de repetições, pois variações desse
número não causam impacto
nos componentes da interação
G x E , conforme se observa na equação V(x).
Durante a otimização dos recursos, os custos
operacionais devem ser considerados. Por exemplo, o
aumento do número de repetições (r) é menos oneroso do que
o do número de localidades (L) e este, menos do que o do
número de anos de avaliação (A). Algumas vezes, localidades
podem ser usadas, em parte, para substituir anos de
avaliação. Por exemplo, os efeitos de localidade ocorrem
principalmente em razão das diferenças de solo e da
distribuição pluviométrica, enquanto os efeitos de ano são
principalmente de natureza climática. Se for possível
escolher as localidades em regiões climaticamente distintas,
os efeitos climáticos poderão ser maiores. Sempre que
possível, deve-se substituir ano por localidade, em benefício
Interação genótipo x ambiente 137
da redução do tempo gasto no desenvolvimento de novos
cultivares.
Embora cada programa deva utilizar a melhor
combinação de R, L e A, muitos programas de melhoramento
de plantas autógamas usam R = 3, L = 4-5 e A = 2-3. Em
programas de melhoramento de milho utiliza-se R = 2, L = 3
(mínimo) e A = 2. Empresas privadas tendem a utilizar
menor número de repetições (r = 2) e maior de localidades,
não só pelas vantagens do aumento do poder de detecção de
diferenças significativas, mas também pelas vantagens de
maior número de ensaios constituir fator de marketing.
Determinação de microrregiões para teste e
recomendação de cultivares
Estatisticamente, a interação G x L é, com frequência,
significante em avaliações de um grupo de cultivares em
várias localidades. A importância relativa dessa interação
varia de acordo com a espécie e as características
agronómicas avaliadas e a extensão da região. Em geral, a
interação é menos importante para características mono e
oligogênicas, regiões mais homogéneas e espécies perenes do
que para características poligênicas, regiões heterogéneas e
espécies anuais.
Em quase todas as circunstâncias, a probabilidade
de desenvolvimento de um cultivar superior em uma
região muito extensa é muito pequena. As variações de
ambiente tendem a se acentuar nessas regiões. Visando à
recomendação de cultivares em regiões mais uniformes,
onde a interação G x E é de menor importância, tem sido
sugerida a subdivisão das regiões extensas em
microrregiões mais homogéneas.
Horner e Frey (1957) examinaram a possibilidade
de se subdividir o Estado de Iowa, EUA, para
recomendação de cultivares de aveia. Dados relativos n
138 Borém e Miranda
produção de grãos de 18 cultivares avaliados em nove
localidades, durante cinco anos, em Iowa, foram
considerados neste estudo. A interação G x L foi estimada
para cada ano e subdividida em dois componentes, entre
microrregiões e dentro delas, para as diferentes
combinações de localidades. As diversas combinações de
localidades resultaram em duas, três, quatro e cinco
microrregiões. A interação G x L foi então determinada
dentro de cada microrregião para cada uma das
subdivisões. A Tabela 9.1 apresenta parte dos resultados
obtidos por aqueles autores, os quais evidenciaram que há
redução da interação G x L com o aumento do número de
microrregiões.
Tabela 9.1 - Avaliação da interação genótipo x localidade nas
sub-regiões do estado de Iowa, para recomen-
dação de cultivares de aveia
Número de Microrregiões Redução na Interação G x L (%)
2 11
3 21
4 30
5 40
Os referidos autores concluíram que o estado deveria
ser subdividido em quatro microrregiões (Figura 9.2).
Outro exemplo clássico de subdivisão de uma
região é apresentado por Liang et al . (1966), em que
sugerem a subdivisão do estado de Kansas, Estados
Unidos da América, em quatro microrregiões para
recomendação de cultivares de trigo. Es ta estratégia vem
sendo adotada com sucesso nas recomendações de
cultivares em diversos países. Entretanto, deve-se
reconhecer que a medida que o número de cultivares
recomendados aumenta os custos de produção das
sementes torna-se maior.
Interação genótipo x ambiente 139
Temperatura
•
Precipitação Pluviométrica
Figura 9.2 - Subdivisão do estado de Iowa em quatro
microrregiões, com a localização das nove
estações experimentais e os gradientes de
temperatura e precipitação pluviométrica
Fonte: HO RN ER; FREY, 1957.
Escolha de campos experimentais
Em condições ideais, deve-se utilizar um campo
experimental para cada nicho, dentro da região para a qual
se desenvolvem cultivares.
A localidade de condução dos ensaios comparativos de
produtividade deve favorecer a expressão máxima do potencial
relativo dos genótipos. Todavia, a escolha é, muitas vezes,
arbitrária, em razão de áreas previamente alocadas para
instituições de pesquisa. Tem sido relatado que ambientes com
condições para máxima produtividade são os melhores para a
seleção de genótipos altamente produtivos ( FREY , 1964;
WHITEHEAD; ALLEN , 1990). Esses ambientes são
comumente descritos como favoráveis, de baixo estresse ou
ideais.
140 Borém e Miranda
Outros autores argumentam que os ambientes
favoráveis, em geral, são pouco representativos das condições
comerciais e que a seleção deveria ser conduzida em localidades
semelhantes àquelas onde o futuro cultivar será plantado
(HANSON, 1970; ATLIN ; FREY , 1990). Outros autores
afirmam que as proposições anteriores estão incorretas e que a
melhor opção é definir os atributos de uma localidade ideal e,
então, tentar encontrá-la (HAMBLIN et ai., 1980). O ambiente
ideal para avaliação de genótipos, segundo Hamblin, deve:
a) favorecer a expressão do potencial dos genótipos;
b) maximizar a variância genética;
c) minimizar a variância de ambiente e da interação G x E ;
d) ter características consistentes de ano para ano;
e) proporcionar aos genótipos selecionados condição para que
se desenvolvam bem e para que seu comportamento seja o
mesmo quando cultivados nos ambientes a que se
destinam; e
f) ser acessível.
Allen, Comstock e Rasmusson (1978) fizeram uma
abordagem acerca da escolha da região para teste de
genótipos, utilizando dados de testes regionais de competição
de cultivares de cinco espécies. Para cada espécie, os dados
de produtividade média foram computados e os ambientes
que apresentaram média superior à geral, acrescida de um
desvio-padrão, foram considerados favoráveis, enquanto os
que apresentaram média inferior, decrescida de um desvio-
padrão, foram denominados desfavoráveis. Com base em
considerações teóricas e em resultados experimentais, esses
autores concluíram que r V / / é a melhor medida do valor do
ambiente, em que r é o coeficiente de correlação entre as
médias dos genótipos no ambiente de avaliação e nos
ambientes para os quais o cultivar se destina, e H é a
hordabilidade no ambiente de avaliação.
Embora a literatura esteja repleta de resultados que
suportam a teoria de que os ambientes favoráveis são mais
Interação genótipo x ambiente 141
apropriados para a avaliação de genótipos, resultados obtidos
por Whitehead e Allen (1990) e Ceccarelli e Grando (1991)
indicam o contrário.
Algumas sugestões práticas para a interação
genótipo x ambiente
a) Obter estimativas da magnitude da interação G x E ,
principalmente se a região de plantio dos cultivares for
muito extensa e se os genótipos testados apresentarem
ampla variabilidade genética.
b) Usar informações sobre a interação G x E antes de se
definir a região para recomendação de cultivares.
c) Usar informações sobre a interação G x E para otimizar a
alocação de recursos.
d) Determinar as principais causas da interação G x E .
e) Considerar a possibilidade de se introduzirem no germo-
plasma características que resultem na redução da
interação G x E .
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Adaptabilidade e
Estabilidade de
Comportamento
adaptabilidade de um cultivar refere-se à sua
capacidade de aproveitar vantajosamente as var iações do
ambiente. A estabilidade de comportamento refere-se à sua
capacidade de apresentar-se altamente previsível mesmo
com as var iações ambientais.
A adaptabilidade e a estabilidade de um cu l t iva r
dependem da sua cons t i tu ição genét ica , isto é, do n úme r o de
genótipos que a constitui e da heterozigose dos genót ipos.
São ca rac te r í s t i cas do cu l t iva r e lhe permitem responder aos
fatores limitantes do ambiente e usufruir dos fatores
favoráveis .
Um cu l t iva r deve apresentar, em diferentes condições
de ambiente, al ta produtividade, e sua superioridade deve
ser es tável . Os melhoristas es tão de acordo sobre a
impor t ânc i a da estabilidade da alta produtividade, mas
divergem quanto à mais apropriada definição de estabilidade
e aos métodos para quantif icá-la .
Diversas revisões sobre os temas adaptabilidade e
estabilidade j á foram publicadas. Comstock e Moll (196.1)
146 Borétn e Miranda
apresentam uma abordagem es ta t í s t i ca das in te rações G x E ,
que fornece os fundamentos para o melhor entendimento
do
fenómeno da estabilidade.
Freeman (1973), revisando trabalhos sobre in te ração ,
t amb ém discutiu a estabilidade. E m sua pesquisa, ele faz
referência a quase 100 artigos sobre esse assunto. Talvez a
mais substancial revisão publicada sobre as aplicações das
aná l i se s de estabilidade no melhoramento de plantas seja a
de Becker e Leon (1988). Revendo 110 artigos sobre o
assunto, verificou-se que o trabalho desses autores aborda,
de uma forma clara, objetiva e interessante, os mais
importantes aspectos da adaptabilidade e estabilidade.
No seminário realizado em 1990, em Banton Rouge,
Louisiana, EUA , sob a presidência do Dr. Kang, as maiores
autoridades mundiais na área de adaptabilidade e estabilidade
discutiram exaustivamente o assunto, publicando ao final da
reunião o resumo: Genoiype by environment interaction and
plant breeding.
Homeostase
Por meio de estudos da in t e ração G x E , foi
introduzido um novo conceito de estabilidade relat iva de
diferentes genót ipos.
Como a contr ibuição de cada cult ivar para a in t e ração
G x E não era conhecida, Canonon (1932), em suas
pesquisas, evidenciou o fenómeno da homeostase quando
afirmou que "um organismo homeos tá t ico é aquele que
m a n t ém certos aspectos de sua fisiologia constantes,
independentemente das forças de ambiente que tendem a
alterar sua constância" . O conceito atual de homeostase
refere-se à propriedade de os organismos se adaptarem à s
var iações de ambiente, isto é, mecanismos autor-reguladores
dos organismos que permitem a sua es tabi l ização em
ambientes flutuantes. Há dois tipos de homeostase: a
genét ica e a de desenvolvimento. A homeostase genética é a
Adaptabilidade e estabilidade de comportamento 147
propriedade de a população equilibrar sua composição
genét ica e resist ir a mudan ç a s bruscas no ambiente; é
t amb ém descrita como poder tamponante da população . A
maioria das populações não melhoradas é he t e rogénea e
consiste em uma série de genótipos otimamente adaptados a
diferentes aspectos do ambiente. Talvez a melhor
terminologia para este tipo seja a homeostase populacional.
J á a hom.eostase de desenvolvimento é baseada na habilidade
do indivíduo para responder a var iações de ambiente por
meio de mudan ç a s fisiológicas ou estruturais. Tendo em vis ta
que os indivíduos apresentam flexibilidade durante o seu
desenvolvimento, eles podem desenvolver fenótipos
diferentes em ambientes diferentes, todos bem adaptados ao
ambiente a que foram condicionados. Este fenómeno t amb ém
é descrito como homeostase individual.
Os genótipos que interagem com o ambiente, de forma
que uma relat iva uniformidade ou estabilidade seja mantida,
são considerados tamponados.
A heterozigose por s i pode não ser essencial para a
homeostase, mas suspeita-se de que combinações
heterozigót icas favoráveis existam como resultado da
coevolução dos cromossomos homólogos nas espécies
a lógamas .
A l l a rd e Bradshaw (1964), que tratam a homeostase
como poder tamponante da população e do indivíduo,
afirmam que populações heterozigót icas e he t e rogéneas
parecem oferecer maior oportunidade para a p rodução de
cultivares que mostram pequena in te ração G x E .
Embora a homeostase seja uma carac te r í s t i ca
desejável , ela não tem valor se n ão estiver associada à al ta
produtividade. Um cultivar pouco produtivo não é acei tável ,
independentemente da sua estabilidade de comportamento.
Algumas caracter ís t icas agronómicas podem contribuir
para a homeostase individual. Por exemplo, a prolificidade
pode conferir ao milho maior flexibilidade a mudança s de
148 Borém e Miranda
ambiente, como no caso de desuniformidade na distr ibuição de
plantas. Prior e Russel l (1975), estudando quatro grupos de
híbridos de milho em diferentes densidades de plantio,
concluíram que os híbr idos prolíficos apresentam capacidade
de se ajustarem ao ambiente, porque podem produzir mais de
uma espiga por planta em si tuações de baixa competição.
Alguns cultivares de soja são reconhecidamente portadores de
alta capacidade de compensação, enquanto outros apresentam
habilidade para emissão de novas flores quando a primeira
florada foi estressada.
Cult ivares de soja de háb i to de crescimento indetermi-
nado, semideterminado e determinado diferem-se primaria-
mente na época de pa ra l i sação de crescimento da haste
principal. E s s a diferença afeta a a l tura da planta, a
res i s tênc ia ao acamamento e o comprimento das fases
vegetativas e reprodutivas da espécie. Beaver e Johnson
(1981) relataram que os genót ipos de háb i to de crescimento
semideterminado podem apresentar menor estabilidade de
comportamento do que os de crescimento indeterminado.
Recentes resultados indicam que genótipos dos t r ê s tipos de
háb i to de crescimento apresentam valores comparáve i s da
in t e ração genót ipo x ambiente. Porém, pela aná l i se de
estabilidade, observou-se que h á maior núme ro de genótipos
semideterminados com menor estabilidade do que de háb i to
de crescimento indeterminado ( A B L E T T et al . , 1994).
Tipos de estabilidade
A estabilidade tem sido definida de diferentes
maneiras, dependendo da forma que os melhoristas desejam
enfocar este fenómeno. Conforme mencionado, a maioria dos
melhoristas compartilha a opinião de que a estabilidade é
desejável , mas discorda da forma de es t imá- la .
Há dois tipos de estabilidade: e s t á t i ca e d inâmica .
Estabi l idade e s t á t i c a : um cultivar com esta estabilidade
apresenta comportamento constante, independentemente
Adaptabilidade e estabilidade de comportamento 149
das variações do ambiente, e não apresenta qualquer desvio em
relação a seu desempenho. Estatisticamente, sua var iância em
diferentes ambientes é zero. A estabilidade estática, t ambém
denominada estabilidade biológica, foi inicialmente
quantificada por Roemer (1917) pela variância ambiental dos
genótipos. Essa var iância mede todos os desvios cm relação à
média geral de cada genótipo. Este tipo de estabilidade é mais
desejável para característ icas como resistência a doenças,
indeiscência de vagens e resistência ao acamamento.
Estabi l idade d i n âm i c a : um cultivar com esta estabilidade
responde à var iação de ambiente de forma previsível , ou seja,
somente os desvios relacionados com a reação geral do
genótipo contribuem para a instabilidade. Pa r a a maioria
das ca rac te r í s t i cas quantitativas, os genótipos respondem à s
var iações de ambiente com var iações no fenótipo.
Os métodos não pa r amé t r i co s de aná l i se de
estabilidade e os baseados na in t e ração G x E quantificam a
estabilidade d inâmica , t amb ém denominada estabilidade
agronómica , em contraste com a estabilidade biológica.
Métodos de análise da estabilidade
A aná l i se de va r i ânc ia de um grupo de cultivares
avaliado em uma sér ie de ensaios, envolvendo localidades e
anos, fornece informação sobre a in t e ração G x E . Por
exemplo, se a in t e ração G x E é significativa, o melhorista
precisa saber se os genótipos contribuem com a mesma
intensidade para essa in teração. T a l informação não é obtida
pela aná l i se de va r i ânc ia rotineira.
Diversos tipos de aná l i se s e s t a t í s t i cas foram desenvol-
vidos para caracterizar a estabilidade de diferentes
genót ipos. Alguns são relativamente simples, enquanto
outros são mais sofisticados e complexos. É óbvio que o
método adotado pelo melhorista deve ser simples e fornecer
dados de fácil i n t e rp re t ação .
150 Borém e Miranda
Aná l i s e de var iânc ia : para cada par de genótipos, em todas
as localidades, em dado ano, esta análise fornece informação de
estabilidade relativa para os
genótipos individualmente. A
média õjl L derivada a e t o d a s a s combinações que envolvem
determinado genótipo estima a sua estabilidade (WESTCOTT ,
1986).
Mé t o d o da e c o v a l ê n c i a : proposto por Wricke (1965), este
método é relativamente simples e bastante difundido entre
os melhoristas europeus. Por ele, a estabilidade é estimada
pelo quadrado da soma da in t e r ação G x E para cada
genótipo em todos os ambientes.
Wi - £ ( Y i j - Y i . - Y . j + Y . . ] f
em que:
W i : ecovalência de Wricke para o genótipo i em
re lação à in t e ração G x E total;
Y i j : valor da carac te r í s t i ca no genót ipo i e ambiente j ;
Y i . : méd ia geral do genótipo i;
Y . j : méd ia geral do ambiente j ; e
Y . . : méd ia geral de todos os genót ipos e ambientes.
A ecovalência de Wricke mede a contr ibuição de cada
genótipo para a in t e ração G x E total. Um cultivar e s táve l
seria aquele com W i = 0, que seria descrito como possuidor
de al ta ecovalência.
Mé t o d o da a n á l i s e de r e g r e s s ã o : a aná l i se de regressão
das carac te r í s t i cas de um cult ivar em re lação a um índice de
ambiente tem sido usada para caracterizar a estabilidade de
genót ipos ( S T R I N G F I E L D ; S A L T E R , 1934; Y A T E S ;
COCHRAN , 1938; F I N L AY ; W I L K I N SON , 1963;
E B E R H A R T ; R U S S E L L , 1966).
Os trabalhos de F in lay e Wilkinson (1963) e de
Eberhart e Russel l (1966) forneceram os princípios básicos
que norteiam a maioria dos estudos que se sucederam.
Adaptabilidade e estabilidade de comportamento 151
Mé t o d o de F i n l a y e Wi lk inson: estes melhoristas
austral ianos u t i l i za ram 277 genó t ipos de cevada de
diversas origens, avaliados em t r ê s localidades, durante
t r ê s anos. No procedimento proposto, esses autores
ca lcularam a resposta para cada cul t ivar em re l ação a um
índ ice de ambiente obtido pela méd i a de todos os genó t ipos
em dado ambiente. O coeficiente de r eg r e s s ão b é uma
es t imat iva da estabilidade do genót ipo . Segundo esses
autores, b = 1 representa estabilidade méd ia ; b > 1,
estabilidade menor que a méd i a ; e b = 0 é completamente
e s t áve l . Cult ivares que apresentam b = 0 t êm o mesmo
desempenho, independentemente das va r i ações de
ambiente, possuindo, portanto, estabilidade e s t á t i c a ou
biológica (F igu ra 10.1).
Produtividade
Provost(b = 2,10)
b= 1,00
Atlas (b = 0,90)
Bankuti (b = 0,14)
^Ambiente (log x)
F igura 10.1 - Rep re sen t ação e squemá t i c a do cult ivar
Bankut i , completamente es tável ; do At las , com
estabilidade média ; e do Provost, com estabi-
lidade abaixo da média .
Dani
Typewriter
152 Borém e Miranda
Embora F i n l ay e Wi lk inson tenham con t r i bu ído de
forma significativa, pesquisando a estabilidade geno t íp ica
nas ú l t ima s década s , o trabalho original deles e s t á sujeito
a diversas c r í t i cas . Provavelmente, a mais s é r i a seja a que
diz respeito ao germoplasma utilizado. Esses autores
u t i l i za ram uma amostra extensa e diversa, que inc lu ía
genó t ipos completamente inadaptados à r eg ião de
ava l i ação . Por exemplo, o cult ivar Banku t i , que foi
considerado es t áve l , n ão se adaptou à s condições
eda foc l imá t i cas aus t ra l ianas e apresentou produtividade
de g rãos muito abaixo daquele obtido com os genó t ipos
locais.
Out ra cr í t ica , n ão só pertinente a este mé todo , é que
o índ ice de ambiente n ã o é independente dos dados
analisados, uma vez que são ex t r a í dos do conjunto total de
dados, violando uma das cons ide rações para validade da
aná l i s e de r eg r e s s ão .
Mé t o d o de E b e r h a r t e Russe l l : Eberhar t desenvolveu o
método descrito no artigo " P a r âme t r o s de estabilidade
para compa r a ção de cultivares" ( E B E R H A R T ; R U S S E L L ,
1966), com os dados obtidos por-Russell . Esses autores n ã o
hav iam tomado conhecimento do trabalho de F i n l a y e
Wi lk inson quando publ icaram seus resultados ( R U S S E L L ,
Comun i cação Pessoal) .
Esse método fornece informações sobre o desempenho
relativo de cada genótipo em re lação às méd i a s dos
ambientes, bem como em relação a sua resposta linear. Cada
ambiente é indexado pela méd ia dos seus genótipos, o que
viola uma das exigências para que a aná l i se de r eg re s são
seja vál ida.
Alguns índices alternativos para quant i f icação do
ambiente t êm sido propostos:
i) Um grupo de genótipos adaptados como indexadores dos
ambientes deve ser incluído para que os efeitos das var iações
peculiares de cada indiv íduo sejam minimizados no índice.
Adaptabilidade e estabilidade de comportamento 153
i i ) Fatores edafoclimáticos para indexação de ambientes,
como precipi tação pluviométr ica , fotoperíodo, temperatura,
umidade relativa, fertilidade do solo e, provavelmente,
muitos outros poderiam constituir um índice. Es te seria um
p a r âme t r o independente e, portanto, satisfaria às exigências
para a aná l i se de regressão , mas a dificuldade para es t imá-lo
tem restringido seu uso.
Na maioria dos estudos de estabilidade, o índice de
ambiente, plotado no eixo das abscissas (X), é obtido pela média
dos genótipos avaliados no ambiente. O desempenho de cada
genótipo é plotado similarmente no eixo das ordenadas ( Y ) . A
linha de regressão linear para todos os cultivares utilizados na
indexação dos ambientes t e r á o coeficiente de regressão p = 1.
Para cada genótipo, calculam-se os valores de regressão em
relação aos índices de ambiente. Dessa forma, obtêm-se
pa râme t ros para cada genótipo:
a) Desempenho médio, considerando todos os ambientes.
b) Coeficiente de r eg re s são ( P i ) . O desvio deste coeficiente em
re lação a p i = 1, bem como a diferença entre os valores de
b para cada genótipo, pode ser estatisticamente testado.
c) Desvio da regressão (Õ»).
O modelo estatístico para uma regressão linear inclui:
em que:
Y Í J : méd ia do genót ipo i no ambiente j \
poi: méd ia do genótipo i, considerando todos os
ambientes;
pn: coeficiente de regressão para o genótipo i;
ly. índice do ambiente j , obtido pela méd ia de todos os
genót ipos no ambiente j s ub t r a í d a da méd ia geral;
ôij: desvio da regressão para o genótipo i no ambiente j ; e
Ê-: erro experimental médio.
154 Borêm e Miranda
Os desvios da regressão â S = £ 8 ? / ( a - 2 ) nao ex-
plicados pelo modelo l inear medem a estabilidade do
genótipo, em re lação a sua resposta linear (Figura 10.2).
P < 1 P > 1
Alta
aá - o
Adaptados a ambientes
desfavoráveis
Estabilidade
Pequeno cm
Adaptados a ambientes
favoráveis
^ 2
<J > 0
Baixa
Grande OD
Estabilidade
Figura 10.2 - I n t e rp r e t ação dos p a r âme t r o s de estabilidade
pelo método de Eberhart e Russel l (1966).
Classificação dos genótipos quanto à adaptabilidade
a) Genót ipo de ampla adaptabilidade: = 1. Se o genót ipo
apresenta desempenho acima da média , é o tipo desejável
nos ambientes com muitas var iações imprevis íveis
(adaptado a ambientes médios).
b) Genótipo de adaptabilidade restrita a ambientes favoráveis:
P , M . Se as condições de ambiente pudessem ser
"controladas" para alta performance, este seria o tipo
desejável.
c) Genótipo de adaptabilidade restrita a ambientes desfavo-
r á v e l : (3, • 0. Dentre os genótipos adaptados a uma região,
muito dificilmente encontram-se tipos que apresentam um
Adaptabilidade e estabilidade de comportamento 155
coeficiente de regressão igual a zero ou próximo dele. Dessa
forma, genótipos com P1 < 1 t ambém têm sido incluídos nessa
categoria.
Classificação dos genótipos quanto à estabilidade
a)
Genót ipos de al ta estabilidade: = 0
b) Genót ipos de baixa estabilidade: * 0
Um cult ivar ideal, na concepção de Eberhart e
Russel l , apresenta alto comportamento médio, = 1, pois,
dessa forma, seu desempenho melhora em resposta a
condições de ambiente favoráveis , e = 0, ou seja, possui
um comportamento altamente previsível .
No trabalho desenvolvido por Eberhart e Russell foram
utilizados 55 híbridos simples, provenientes de um dialelo que
envolveu 11 linhagens de milho adaptadas à região de
avaliação. Os valores de b obtidos por esses autores variaram
de 0,88 a 1,15, e os correspondentes, obtidos por Finlay e
Wilkinson (1963), oscilaram entre 0,14 e 2,10. Esses resultados
confirmam que coeficientes de regressão próximos de zero
podem ser obtidos quando se inclui germoplasma exótico
(inadaptado) na região.
Alguns autores t êm criticado dois aspectos do método
de Eberhart e Russel l :
1. A maneira como os graus de liberdade para ambiente e a
in t e ração genót ipo x ambiente são subdivididos em
ambiente (linear), genót ipo x ambiente e desvios da
regressão . Alguns autores argumentam que a soma de
quadrados de ambiente (linear) não é igual à soma total
de quadrados de ambientes e sim à parte dela.
Provavelmente, a maneira mais correta seja agrupar os
graus de liberdade dos desvios em (g- l ) (n - l ) em vez de
g(n-2).
156 Borêm e. Miranda
2. Uso da média dos genót ipos como índice de ambiente,
violando uma das pressuposições da aná l i se de regressão .
Embora essa seja uma objeção vál ida , h á autores que
acreditam que essa violação não acarreta sérios problemas
nessa aná l i se , se não forem incluídos genót ipos
inadaptados entre os estudados.
Diversos estudos posteriores ao de Eberhar t e Russe l l
(1966) introduziram modificações no procedimento
originalmente proposto.
Embora Eberhar t e Russel l não tenham distinguido
estabilidade de adaptabilidade, atualmente a maioria dos
melhoristas considera p 0 um indicador da adap t a ção do
genótipo. O desvio da regressão (o2^) é um p a r âme t r o mais
lógico de estabilidade, uma vez que se relaciona com
predibilidade e repetibilidade de desempenho.
O uso do coeficiente de determinação em subst i tuição ao
desvio da regressão tem sido sugerido por alguns autores. O
coeficiente de determinação ( r 2 ) , facilmente calculado e
interpretado, é independente das unidades, e as diferenças
entre r 2 podem ser estatisticamente testadas. Valores de r 2 = 1
indicam que o genót ipo apresentou pequeno desvio em
re lação à resposta linear. Langer et a i . (1979) estudaram a
associação de diferentes índices de estabilidade em aveia e
conc lu í ram que r 2 é positivo e altamente correlacionado com
(<J^), indicando que esses dois p a r âme t r o s medem
essencialmente a mesma coisa.
Mé t o d o de Cruz : adotado por vá r i a s ins t i tu ições de
melhoramento no B r a s i l e no exterior, aval ia separadamente
o comportamento dos genótipos em ambientes desfavoráveis
e favoráveis . A aná l i se de reg ressão bissegmentada uti l izada
neste método permite a ca rac te r i zação dos genót ipos em
ambientes favoráveis e desfavoráveis . Conforme descrito por
Cruz et a i . (1989), o genót ipo ideal apresenta alta
produtividade, coeficiente de reg ressão nos ambientes
Adaptabilidade e estabilidade de comportamento 157
desfavoráveis menor do que a unidade e maior nos
favoráveis , a l ém de desvio de reg ressão igual a zero.
Método de Cruz, Torres e Vencovsky (1989)
Y i ] = Po+p 1 1 I ]+ f3 2 i T(I ,)+ òv + tv
em que:
Y ^ : méd i a do genót ipo i no ambiente j ;
po: méd i a geral do genót ipo i;
p t i : coeficiente l inear de r e g r e s s ão para o genó t ipo i
nos ambientes des favoráve i s ;
L : índ ice ambiental ;
p 9 i : coeficiente l inear de r e g r e s s ão para o genót ipo i
nos ambientes favoráve is ;
T ( L ) : v a r i áve l independente, definida como
T(I j ) = 0 se Ij < 0
T( I j ) - I , - I se Ij > 0;
cV: desvio da r eg r e s s ão ; e
: erro experimental médio .
Mé t o d o das d i f e r e n ç a s do rank: mé todo não p a r am é -
trico, proposto por H ú h n (1979). U t i l i z a as a l t e r ações de
ordem (rank) de um genó t ipo para quantificar a sua
estabilidade de desempenho.
A ordem dos genó t ipos inc lu ídos no estudo é
estabelecida para cada ambiente separadamente. A s va r i a -
ções de ordem de um genót ipo é que estabelecem a sua
estabilidade. Por exemplo, vê-se na F igu ra 10.3 que o
cult ivar A apresentou maior produtividade nos t r ê s
ambientes considerados e, portanto, ficou em primoiro
158 Borem e Miranda
lugar nos ranks dos t r ê s ambientes. O cultivar B foi o
segundo no rank nos ambientes E i e E 3 e o terceiro em E2 .
De maneira s imi lar , o cult ivar C foi o terceiro no rank nos
ambientes E i e E a e o segundo em E 2 (F igu r a 10.3). Por
este mé todo , o cultivar A apresentou maior estabilidade de
desempenho, uma vez que sua colocação no rank n ão
mudou com a v a r i a ç ão de ambientes.
Se o método de Eberhart e Russel l fosse utilizado, os
cultivares B e Ç seriam mais es táveis do que o cult ivar A .
Algumas modificações no procedimento original
proposto por H ú h n (1979) foram apresentadas, como a
correção dos valores das ca rac te r í s t i cas dos genótipos pela
méd ia de ambiente proposta por Leon (1985).
F igu ra 10.3 - Esquema da va r i ação de rank de t r ê s cultivares
em t r ê s ambientes.
Mé t o d o das v a r i â n c i a s de Rank: mé todo n ão
p a r amé t r i c o , s imi l a r ao das d i f e r ença s de rank. Neste
procedimento, u t i l izam-se as v a r i â n c i a s de rank de um
genó t i po pa ra quantif icar a sua estabilidade de
desempenho. Detalhes adicionais a respeito deste mé t odo
são discutidos por Nassa r e H ú h n (1987) e H ú h n (1990).
Mé t o d o da aná l i s e de agrupamento: método de aná l i s e
mult ivariada que v i sa agrupar genótipos em subgrupos, com
Adaptabilidade e estabilidade de comportamento 159
base na homogeneidade de estabilidade. Dentro de cada
subgrupo, os genót ipos não apresentam in te ração genót ipo x
ambiente, enquanto as diferenças entre subgrupos ocorrem
em virtude das in terações G x E .
Basford et a l . (1990) u t i l i z a r am a a n á l i s e de
agrupamento pa ra e s t ima ç ão da estabilidade de 25
l inhagens de a l godão ava l iadas em oito localidades e
c onc l u í r am ser essa a n á l i s e eficiente.
A l i t e r a tu ra c ient í f ica reporta outros mé t odo s para
a n á l i s e de estabilidade, como a a n á l i s e do componente
p r inc ipa l e a a n á l i s e g eomé t r i c a ( KANG , 1990). E n t r e os
vá r i o s mé t odo s de a n á l i s e da estabilidade, aqueles que
fazem uso da r e g r e s s ã o , como proposto por Ebe rha r t e
Rus s e l l (1966), são os mais a c e i t áve i s .
A in te rp re tação da aná l i se de estabilidade precisa ser
criteriosa. Nos casos em que um cult ivar de soja precoce é
avaliado com outros cultivares tardios, o precoce pode
apresentar grande desvio de regressão, o que não significa
necessariamente "instabilidade" e sim que aquele cult ivar
responde de maneira marcante a determinado ambiente
quando comparado com os demais cultivares tardios.
Uma das principais l imitações das anál i ses de
estabilidade é o seu ca r á t e r relativo. As estimativas de
estabilidade obtidas só possuem significado para os genótipos
testados.
Estimando a adaptabilidade e estabilidade
Diversos pacotes es ta t í s t icos permitem aná l i se s de
estabilidade e adaptabilidade, como o SAS e o S A E G . Outro
software interessante, que atende ao profissional da á r e a de
genét ica e melhoramento, é o Programa G E N E S , que conta
com uma sér ie de procedimentos para aná l i se da estabilidade
e adaptabilidade. Nesse Programa es tão disponíveis diversas
metodologias classificadas quanto aos princípios es ta t í s t icos
160 Borêm e Miranda
envolvidos, quais sejam: métodos baseados na aná l i s e de
var iânc ia ; em regressão linear; em reg res são linear
bissegmentada; e em aná l i se não pa r amé t r i c a . Nessas
metodologias utilizam-se diferentes conceitos biológicos da
estabilidade e, ou, adaptabilidade, bem como são empregados
diferentes procedimentos es ta t í s t icos para obtenção das
estimativas dos p a r âme t r o s . Algumas metodologias
proporcionam informações complementares, permitindo
melhor conhecimento tanto dos cultivares avaliados quanto
dos ambientes estudados. O Programa G E N E S , desenvolvido
pelo Professor Cosme Damião Cruz, do Departamento de
Biologia Geral da Universidade Federal Viçosa, é d is t r ibuído
gratuitamente e encontra-se disponível no seguinte site:
http://www.ufv.br/dbg/aplicativos.htm.
Melhoramento visando à estabilidade
A estabilidade de desempenho, embora de baixa
herdabilidade, pode ser considerada uma carac te r í s t i ca como
outras que os melhoristas selecionam. Obviamente, a sua
natureza relat iva e complexa é fator complicador para sua
inc lusão entre as ca rac te r í s t i cas que devem ser selecionadas.
Conforme discutido no item Homeostase, genótipos
heterozigóticos são menos sujeitos às influências de ambiente
do que os homozigóticos e populações heterogéneas possuem
maior poder tamponante do que as homogéneas . Embora a
teoria e os resultados experimentais favoreçam tipos de
cultivares mais heterozigóticos e heterogéneos, o melhorista
deve considerar t ambém o compor-tamento "per se" dos
cultivares. A possibilidade de encontrar um cultivar
homogéneo altamente produtivo é maior do que a de encontrar
uma mistura (cultivar heterogéneo) altamente produtiva. E m
razão da pouca repetibilidade dos dados de estabilidade, a
solução para essa característ ica é de baixa eficiência.
Adaptabilidade e estabilidade de comportamento 161
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Seleção de
Genitores
escolha dos genitores e o planejamento dos
cruzamentos são importantes etapas para o sucesso de um
programa de melhoramento. O planejamento cuidadoso dos
cruzamentos aumenta as chances de desenvolvimento de
cultivares superiores, pois maximiza a ut i l ização de alelos
desejáveis .
Os programas de melhoramento envolvem recursos
humanos e financeiros, infraestrutura para testes e
aval iações, métodos de melhoramento e germoplasma. A
escolha inadequada de qualquer um desses componentes
l imi ta o progresso do programa, mas a escolha inapropriada
do germoplasma talvez seja o fator mais crítico e limitante.
Mesmo que o germoplasma possa ser subs t i tu ído em um
programa, esse procedimento, em geral, resulta em
substancial perda de tempo e recursos.
Talvez um dos maiores dilemas dos melhoristas seja
como escolher corretamente os genitores para um programa de
desenvolvimento de cultivares, pois, embora de importância
indis-cutível, muito pouco foi elucidado sobre as bases
científicas da seleção do germoplasma. A literatura científica
166 Borém e Miranda
es tá repleta de estudos sobre métodos de melhoramento e
seleção, mas sobre a escolha de genitores pouco se encontra
publicado.
A escolha de genitores deve obedecer a dois cr i tér ios:
ser feita com base em informações e procedimentos
científicos, visando maximizar a chance de obtenção de
cultivares superiores; e considerar aspectos legais ao ut i l izar
o germoplasma desenvolvido por outras ins t i tu ições . O livre
in te rcâmbio de germoplasma para as espécies au t ógamas
tornou-se limitado no Bra s i l , com a homologação da L e i de
Pro teção de Cult ivares, apesar de o uso de germoplasma
para pesquisa ter ficado isento da prévia au tor ização da
ins t i tu ição de origem.
Tipos de cruzamento
Usualmente, os melhoristas real izam cruzamentos
com diferentes objetivos. Os cri tér ios de escolha de genitores,
bem como a metodologia de condução das populações
segregantes, va r i am com os diversos objetivos dos
cruzamentos.
E m um programa de melhoramento, recomenda-se
que os cruzamentos sejam agrupados conforme a finalidade,
como se segue:
Desenvolvimento de cult ivares: neste grupo devem estal-
os cruzamentos cujo objetivo é o desenvolvimento de novos
cultivares. Os genitores escolhidos para estes cruzamentos
devem ser agronomicamente superiores e adaptados à região
de cultivo, pois cruzamentos envolvendo germoplasma
exótico ou inadaptado em geral dificultam ou atrasam a
obtenção de cultivares superiores.
Desenvolvimento de germoplasma ( p r é -me lho ra -
mento): neste grupo devem ser incluídos os genitores
portadoren de carac te r í s t i cas que se deseja introduzir no
programa de desenvolvimento de cultivares, mas que
Seleção de genitores 167
apresentam sé r ias l imitações quanto às ca rac te r í s t i cas
"essenciais" dos novos cultivares. Os objetivos destes
cruzamentos incluem a adap t ação de germoplasma exótico e
a in t rodução de caracteres dos acessos dos bancos de
germoplasma ou de outras espécies. Os objetivos deste grupo
em geral são a lcançados a longo prazo e envolvem vários
ciclos de melhoramento.
Estudos g e n é t i c o s : o melhorista deve agrupar os cruza-
mentos realizados para o estudo dos aspectos genét icos da
espécie com que trabalha (por exemplo, estudar a h e r anç a do
tipo semianao ou estimar o n úme r o de genes envolvidos na
res i s tênc ia de uma doença). Os genitores deverão ser
bastante divergentes quanto às ca rac te r í s t i cas em estudo.
A classificação dos cruzamentos quanto à diversidade
genét ica dos genitores é frequentemente adotada pelos
melhoristas e bastante ú t i l para a definição dos cruzamentos
mais promissores para o desenvolvimento de cultivares.
Nessa classificação, incluem-se duas categorias:
Cruzamentos convergentes (narrow cross): referem-se aos
cruzamentos em que a dis tância genética entre os genitores é
pequena, ou seja, os genitores são aparentados. As populações
segregantes or ig inár ias deste cruzamento apresentam de
moderada a baixa var iânc ia genética, em geral associada à
alta produtividade média . Geralmente envolvem cultivares
superiores, dò mesmo grupo de ma tu r ação e hábi to de
crescimento. Espera-se que, nestes cruzamentos, as
combinações alélicas favoráveis sejam preservadas e que os
pequenos ganhos genéticos, obtidos na população com alto
desempenho médio, representem um incremento real em
relação ao do melhor genitor. Este cruzamento inclui, por
exemplo:
a) cult ivar adaptado x cult ivar adaptado;
b) cult ivar adaptado x linhagem-elite; e
c) linhagem-elite x linhagem-elite.
168 Borém e Miranda
Cruzamentos divergentes (wide cross): referem-se aos
cruzamentos em que
h á grande d is tânc ia genét ica entre os
genitores. A s populações segregantes o r ig inár ias destes
cruzamentos apresentam grande variabilidade genét ica e
baixo ou moderado desempenho. Neste tipo de cruzamento,
genitores não adaptados à reg ião do cultivo podem ser
incluídos por apresentarem carac te r í s t i cas inexistentes no
germoplasma local. Deve-se, entretanto, reduzir a contri-
buição genét ica dos tipos inadaptados por meio de um ou
mais retrocruzamentos com os tipos adaptados.
Importância da seleção de genitores
A probabilidade de obtenção de genótipos contendo as
caracter ís t icas-objeto de um programa pode ser calculada
pela mul t ip l icação das probabilidades de obtenção de cada
carac te r í s t i ca na população segregante. Muitas das
ca rac te r í s t i cas consideradas es t ão ligadas, e a probabilidade
rea l difere da calculada. Quando carac te r í s t i cas indesejáveis
se encontram ligadas a ca rac te r í s t i cas desejáveis, a
probabilidade de obtenção de indivíduos superiores depende
de crossing overs específicos. Considere-se a soja com as
seguintes ca rac te r í s t i cas e probabilidades:
a) indeiscência de vagem: 1/4;
b) res i s tênc ia ao cancro-da-haste: 1/16;
c) semente de tegumento claro: 1/20;
d) háb i to de crescimento determinado: 1/4; e
e) ciclo precoce: 1/8.
A probabilidade de obtenção de um genótipo reunindo
as cinco ca rac te r í s t i cas é de 1/40.960.
Para que os novos cultivares apresentem uma série de
cnrncterÍHticas essenciais, é preciso optar pela condução de
gnindeH populações segregantes e, nestas, selecionar os tipos
desejáveis ou escolher criteriosamente genitores que
Seleção de genitores 169
aumentem a probabilidade de obtenção de cada carac te r í s -
t ica na população segregante. Alternativamente, a escolha de
ambos os genitores com res i s tênc ia ao cancro-da-haste pode
resultar em uma população n ão segregante para esta
carac ter í s t ica , aumentando a probabilidade de obtenção do
futuro cultivar de 1/40.960 para 1/2.560.
Pa ra a de t e rminação das ca rac te r í s t i cas essenciais
dos futuros cultivares, devem-se conhecer as prioridades
estabelecidas pelos agricultores. Embora a produção de grãos
seja de al ta prioridade para os produtores de cevada,
cultivares de pubescência longa são considerados inacei tá-
veis, em virtude do desconforto alérgico que essa
carac te r í s t ica produz durante a colheita.
Durante a fase de escolha de genitores, o molhorista
deve considerar tanto a atual demanda dos eoriHumidores
quanto a t endênc ia do mercado para o futuro próximo. Isso
representa grande desafio, uma vez que o l ançamen to de um
cultivar pode ocorrer em cerca de 5 a 10 anos apÓH a escolha
e o cruzamento dos genitores.
A soja no Bras i l i lustra muito bem a importância de se
planejarem os cruzamentos. Com a expanHão da fronteira
agrícola nas regiões de baixa latitude, a demanda por cultivares
de período juvenil longo aumentou de forma expressiva.
Visando atender a essa demanda, o Programa de
Melhoramento de Soja da U F V iniciou cruzamentos com os
cultivares Doko, IAC-8 e Savana, de período juvenil longo. As
linhagens desenvolvidas a partir desses genitores
apresentaram boa adaptação e potencial para serem utilizadas
na expansão da sojicultura no norte do Bras i l .
Genitores potenciais
Cul t ivares em uso: os cultivares em desenvolvimento
v i s am substi tuir aqueles em uso. Em consequênc ia , os
cultivares em uso devem constituir a pr imeira opção como
170 Borém e Miranda
fonte de genitores. Os cultivares em uso agregam a maioria
das c a r a c t e r í s t i c a s exigidas pelo mercado e apresentam
boa produtividade, associada a outras c a r a c t e r í s t i c a s de
impo r t â n c i a ag ronómica . A probabilidade de se obterem
linhagens superiores em cruzamentos entre cultivares é
relat ivamente al ta . Um a r á p i d a consulta à seção de
registro de cul t ivares em per iódicos especializados
r e v e l a r á que a maior ia dos genitores dos novos cultivares é
con s t i t u í d a pelos cul t ivares em uso.
Linhagens-el i te: podem-se agregar vantagens compara-
tivas ao programa de melhoramento ao incluir, nos
cruzamentos, as principais linhagens em fase final de
aval iação, visando ao desenvolvimento de cultivares. A
inclusão de linhagens nos blocos de cruzamentos antes de se
completar a sua aval iação final pode resultar na e l iminação
de populações segregantes, caso algum aspecto limitante seja
detectado na linhagem envolvida. Todavia, é p rá t i ca comum
entre os melhoristas o uso de linhagens como genitores, com
posterior e l iminação dos cruzamentos cuja superioridade é
ques t ionável .
Linhagens com carac t e r í s t i c a s e spec í f i cas : muitas vezes,
registra-se uma linhagem que não possui bom desempenho
geral, mas é portadora de uma ou mais característ icas de
interesse específico. Por exemplo, a Universidade Estadual de
Kentucky, EUA , lançou a linhagem de fumo K Y 171 para fins
experimentais ou para uso nos programas de melhoramento.
Essa linhagem apresenta baixos teores de nicotina e folhas
verde-escuras, característ icas de interesse para a indús t r ia
tabagista, porém não foi lançado como novo cultivar, em razão
da baixa estabilidade de produção. Os periódicos Crop Science e
Crop Breeding and Apllied Biotechnology listam, no últ imo
número de cada ano, os registros de linhagens e cultivares de
vár ias espécies, com as principais caracter ís t icas de cada
genótipo vi os métodos de melhoramento utilizados no seu
Seleção de genitores 171
desenvolvimento. No site do Ministério da Agricultura t ambém
estão disponíveis os cultivares registrados para comercialização
no Bras i l .
Acessos de bancos de germoplasma: os bancos de
germoplasma são excelentes fontes de variabi l idade. Os
acessos desses bancos em geral são catalogados e podem
ser requisitados para pesquisa ou melhoramento. O
melhorista deve ter cautela adicional ao usar acessos de
bancos de germoplasma no programa de desenvolvimento
de cultivar, uma vez que a maioria dos acessos apresenta
uma ou mais c a r a c t e r í s t i c a s i ndese j áve i s aos cultivares. Os
acessos P I 408251, P I 86023 e Ichigowase foram utilizados
na U F V no programa de desenvolvimento de cult ivares de
soja com melhor sabor para a a l imen t a ç ão humana. Esses
acessos apresentam diversas l imi t ações ag ronómica s que
impedem seu uso como novos cultivares.
Filosofias de seleção de genitores
Muitos programas de desenvolvimento de cultivares
conduzem grande núme ro de cruzamentos na expectativa de
que um deles resulte em uma combinação gênica superior,
que possa ser selecionada e l ançada como novo cultivar. No
programa de melhoramento de trigo do Centro Internacional
de Melhoramento de Milho e Trigo ( C IMMYT ) , no México,
são realizados cerca de 2.000 cruzamentos por ano para
atender ao seu programa internacional. Com um método
eficaz para a escolha de genitores, o núme ro de cruzamentos
poderia ser reduzido consideravelmente. Diversos métodos
de seleção de genitores foram desenvolvidos com base em
duas filosofias an tagón icas : i) max imização do ganho
genético e i i ) max imização do desempenho da população.
Pa ra abordagem das duas filosofias, considere um
programa de melhoramento em que o objetivo principal é o
desenvolvimento de um cult ivar altamente produtivo. A
primeira filosofia enfatiza a maximização do ganho genético
172 Borém e Miranda
como a alternativa para obtenção do novo cultivar. O ganho
genético pode ser estimado pela seguinte equação:
G = h 2 D
em que:
G : representa o ganho genético;
h 2 , : herdabilidade; e
D: diferencial de seleção.
P a r
a maximizar o ganho genético, devem-se
maximizar o diferencial de seleção (D) e a herdabilidade para
a caracter ís t ica-objet ivo da seleção (h 2 ) . Pa ra aumentar o
valor de D, deve-se selecionar um menor n úme r o de
indivíduos superiores na população. Ex i s t em duas formas de
se elevar a herdabilidade: a primeira é a r edução da
va r i ânc i a de ambiente por meio da ut i l ização de ambientes
mais uniformes, e a segunda é o aumento da va r i ânc ia
genét ica, por meio de genitores não aparentados. Os
melhoristas que seguem a filosofia da maximização dos
ganhos genéticos, quando seleciònam genitores, enfatizam os
cruzamentos divergentes. A segunda filosofia considera a
maximização do desempenho per se como a alternativa para
o desenvolvimento do novo cultivar. O desempenho dos
indivíduos selecionados na população pode ser estimado pela
seguinte equação:
X N + 1 = X + G
em que:
X N + 1 : média da progénie dos indivíduos selecionados,
na geração seguinte;
X : méd ia da população; e
G: ganho genético.
Seleção de genitores 173
Com base na equação anterior, o ganho genético é
apenas um dos componentes que influenciam a méd ia dos
indivíduos selecionados. Os melhoristas que seguem a
filosofia da maximização do desempenho da população
enfatizam cruzamentos convergentes envolvendo genitores
altamente produtivos. Nessa s i tuação , o ganho genét ico se rá
limitado, po rém a média da população se rá alta, resultando
em elevada méd ia dos indivíduos selecionados.
Métodos de seleção de genitores
Comportamento por si dos genitores: de acordo com
este cr i tér io , o melhor cruzamento é aquele que envolve os
dois melhores cultivares e que a méd i a dos genitores
e s t abe leça o desempenho da p rogén ie . Es te é o caso quando
a maior parte da va r i ânc i a gené t i ca é aditiva, n ão sendo
aplicado na maioria das espécies a l ógamas , principalmente
o milho. Matzinger et a l . (1976) indicaram a p r edominânc i a
da v a r i ânc i a gené t ica adi t iva entre a maioria dos caracteres
agronómicos em diversas a u t ó g ama s . Muitos outros autores
concordam com esta teoria e recomendam o uso dos
melhores genót ipos como genitores. A escolha de genitores
baseada no comportamento por s i é suportada pela
expe r i ênc ia dos melhoristas, isto é, genót ipos com alto
desempenho tendem a gerar p rogén ies com alto
desempenho. Bake r (1981) reportou ev idênc ias de que
cruzamentos entre genitores com alto desempenho e
reduzida d i s t ânc i a gené t i ca apresentam maior
probabilidade de originar cultivares agronomicamente
superiores no curto prazo. O que tem sido mais utilizado?
E m geral, os melhoristas cruzam os melhores genót ipos
entre s i . Um r áp ido levantamento de genitores na seção de
registro de cult ivares do Crop Science e outros periódicos
revela que este cr i tér io é o mais utilizado. Nem sempre bons
cultivares apresentam bom comportamento como genitores.
O cult ivar de trigo Gaines, primeiro cult ivar s em i anão n
174 Borém e Miranda
contribuir para a Revolução Verde de Norman Borlaug, foi
obtido a part i r de um genitor medíocre , Norim 10.
F en ó t i p o para c a r a c t e r í s t i c a s importantes: este método
enfatiza a complementaridade entre os genitores para
ca rac te r í s t i cas correlacionadas com a carac te r í s t i ca principal
do programa. Nesse caso, procura-se otimizar as
carac te r í s t i cas correlacionadas à caracter ís t ica-objeto do
programa.
Quando a seleção para a carac te r í s t i ca de interesse é
relativamente difícil, pode-se fazer a seleção indireta, isto é,
por meio de outras ca rac te r í s t i cas correlacionadas com a
primeira. Es te cr i tér io t ambém tem sido adotado para a
escolha de genitores. P a r a a seleção de genitores com o
objetivo de desenvolver um cult ivar altamente produtivo,
podem-se considerar outras ca rac te r í s t i cas agronómicas
correlacionadas com a produtividade. Grande núme ro de
carac te r í s t i cas tem sido correlacionado com produtividade de
grãos: índice de á r e a foliar, ângu lo de inserção foliar, índice
de colheita, n úme ro de sementes, tamanho de sementes,
capacidade de perfilhamento ou ramif icação, eficiência no
uso da água e taxa fotossintét ica ( GRAF IU S , 1988). Com
base neste método, o melhorista deve escolher genitores que se
complementam. A presença de caracter ís t icas desejáveis em
ambos os genitores pode resultar na reunião destas em um
único indivíduo, portanto superior aos seus genitores.
Evidências experimentais mostram que, em muitos
casos, o aumento de produtividade foi a lcançado com o uso de
genitores com outras ca rac te r í s t i cas importantes,
provavelmente porque a maioria destas não estava no seu
nível ót imo, mesmo nos melhores cultivares. A escolha de
genitores visando otimizar as ca rac te r í s t i cas correlacionadas
com a produtividade pode resultar em aumentos substanciais
na produtividade, como aconteceu com o cult ivar de trigo
Gaines. Norin 10, um dos genitores de Gaines, apresentou
produtividade medíocre no estado de Washington e, mesmo
assim, foi usado no cruzamento que deu origem a esse
Seleção de genitores 175
cultivar. Caso o comportamento por s i fosse utilizado na
seleção de genitores, Norin 10 não seria escolhido. Esse
cult ivar foi incluído em vár ios cruzamentos, por apresentar
pequena al tura de planta.
Hi s t ó r i c o do genitor: este talvez seja o mais importante
cr i tér io para a escolha de genitores para o melhoramento
animal . O velocista da r aça quarto-de-milha, Signed to Fly,
pai de outros reconhecidos equinos campeões , teve em 1996
suas coberturas avaliadas em cerca de U$ 8.000,00, em razão
da sua comprovada habilidade de transferir aos
descendentes ó t imas carac te r í s t i cas . Esse cr i tér io enfatiza a
impor t ânc i a da capacidade de combinação. Neste método, a
escolha de genitores baseia-se em informações sobre o
his tór ico dos genótipos como genitores. Caso este método seja
adotado, os cultivares mais novos não se rão incluídos nos
blocos de cruzamentos, pois o his tór ico do seu
comportamento como genitores só se rá conhecido alguns
anos após seu l ançamen to . Alguns cultivares tornaram-se
conhecidos como bons genitores. O cultivar de soja U F V 1,
por exemplo, foi utilizado em diversos cruzamentos durante
muitos anos e, por seu potencial, tornou-se genitor de vár ios
outros cultivares.
Pedigree do genitor: este cri tér io, t amb ém muito utilizado
no melhoramento animal, enfatiza a impor t ânc i a da
diversidade genét ica . Tanto no melhoramento animal quanto
no de espécies a lógamas , a diversidade genét ica encontra-se
correlacionada com a heterose, o que justifica a cons ideração
deste cr i tér io na seleção de genitores. Cox et a l . (1985)
sugeriram que a eficiência dos programas de melhoramento
poderia ser elevada se utilizasse maior diversidade genét ica .
A d i s tânc ia genét ica entre os potenciais genitores
pode ser avaliada com base nas ca rac te r í s t i cas agronómicas ,
no grau de parentesco entre os genótipos ou mesmo no nível
de polimorfismo molecular.
A seleção de genitores com base na d i s tânc ia genética
deve ser sempre ponderada pela aval iação do comportamento
176 Borém e Miranda
por s i dos genótipos envolvidos, uma vez que existe t endênc ia
de os genótipos muito divergentes apresentarem l imitações
agronómicas em re lação a uma ou mais ca rac te r í s t i cas .
Teste de g e r a ç ã o precoce: Cregan e Busch (1977)
aval iaram o uso deste teste para identificação de
cruzamentos promissores em trigo. Utilizando oito genitores,
esses autores estudaram 28 cruzamentos. A part ir da
geração F2, cada população segregante
foi conduzida pelos
métodos bulk e SSD . En t re os vár ios cr i tér ios para
identificação de cruzamentos superiores, esses autores
conclu í ram que o desempenho da geração F2, o melhor dos
cri tér ios, apresenta apenas moderado valor preditivo e o da
geração F i , baixo valor preditivo. Embora Cregan e Busch
tenham encontrado mér i to no teste de bulk em gerações
precoces, outros autores relataram resultados contradi-
tórios no uso deste método ( FOWLER ; H E Y N E , 1955;
A TK I N S ; MURPHY , 1949). O pequeno núme r o de evidências
como suporte a este método, associado ao custo adicional na
condução dos testes de geração precoce, reduziu o interesse
de seu uso para a predição de cruzamentos promissores.
Método da capacidade combina tór ia : Evidências experi-
mentais t êm indicado que mesmo cruzamentos envolvendo
genitores com comportamento mediano podem resultar em
progénies com elevado potencial. O cultivar de cevada Morex,
lançado em 1987 em Minnesota, EUA , foi desenvolvido a partir
do cruzamento Cree x Bonanza. Esses genitores apresentavam
produtividade de grãos e teor de extrato de malte abaixo da
média. Entretanto, Morex, após o seu lançamento, tornou-se o
cult ivar de maior sucesso no meio-oeste americano, em razão
da sua elevada produtividade e do seu mais alto teor de extrato
de malte entre os cultivares disponíveis na época. Esse
exemplo e muitos outros indicam que a capacidade de
combinação entre os genitores pode ser determinante na
escolha de genitores. Alguns cruzamentos tendem a causar
desorganização na estrutura gênica do germoplasma, com
significativa redução no comportamento geral da população
Seleção de genitores 111
originada, enquanto em outros os genomas envolvidos parecem
complementar-se perfeitamente.
Em espécies alógamas, principalmente o milho, esse é o
principal critério de escolha de genitores para obtenção de
híbridos comerciais.
Dois tipos de capacidade de combinação podem ser
distinguidos: a Capacidade Geral de Combinação (CGC) , que
se refere à habilidade de um genitor produzir progénies com
dado comportamento quando cruzado com uma série de
outros genitores; e a Capacidade Específica de Combinação
( CEC ) , que se refere ao comportamento de uma combinação
específica. A impor t ânc i a da capacidade de combinação na
escolha de genitores é maior quando h á efeitos genét icos não
aditivos.
Pa ra aval iar as capacidades de combinação de uma
sér ie de genitores potenciais, podem-se ut i l izar os
cruzamentos dialélicos. O comportamento dos híbr idos F i
estima a capacidade dos genótipos envolvidos.
Mé t o d o de Dudley: John Dudley, geneticista aposentado da
Universidade de Illinois, EUA , desenvolveu teorias e
métodos para identif icação de germoplasma portador de
alelos favoráveis ( D UDL EY , 1984; 1987). Trabalhando com
milho, esse autor procurou responder às seguintes ques tões :
1) Quais h íbr idos podem ser obtidos? 2) Quais linhagens
devem ser utilizadas como doadoras de alelos favoráveis? e 3)
Quais linhagens devem ser melhoradas?
Considerando o genótipo P w , portador de alelos
favoráveis e ausentes nos genót ipos P i e P2, montou-se o
esquema da Tabela 11.1.
178 Borém e Miranda
Tabela 11.1 - Possíveis classes de loci para t r ê s genótipos
homozigóticos
Classe P I * P2 Pw
A + + +
B + + -
C + - +
D + - -
E - + +
F - + -
G - - +
H - - -
* + homozigoto para alelo favorável; - homozigoto para alelo desfavoráve l .
O núme ro relativo de loci em Pw com alelos favoráveis
ausentes em P i e P2 é dado por:
[(PixPw) + (P 2xP w ) + P 1 - P 2 - P w - ( P 1 xP 2 ) ]
A identif icação da linhagem doadora (Pw) é baseada
no núme ro relativo de loci do doador com alelos favoráveis
ausentes em P i e P2 ( | i c ) . Linhagens com maiores valores de
[XG apresentam maior potencial de contr ibuição para
obtenção do híbr ido em ques tão .
A lgumas c r í t i c a s t ê m sido feitas ao mé t odo , dentre
elas: i ) o modelo gené t i co é muito simplif icado; i i ) o
mé t odo considera d om i n â n c i a completa pa ra a
c a r a c t e r í s t i c a , o que n ã o deve ser r e a l í s t i c o ; e i i i ) o
mé t odo deve ser testado mais vezes na p r á t i c a .
Metz (1994) fez uma aval iação do método proposto por
Dudley e apresentou algumas modificações. Bernardo (1994)
apresentou um procedimento alternativo ao de Dudley, mais
simplificado.
Seleção de genitores 179
Mé t o d o dos marcadores moleculares: nos casos em que a
diversidade genét ica é importante, como nos cultivares
híbr idos , os marcadores moleculares podem ser utilizados
para es t imação da d i s tânc ia genét ica entre genótipos e para
or ien tação do melhorista na escolha de genitores.
A identif icação de linhagens endogâmicas de milho
com alto desempenho em combinações h íb r ida s é uma etapa
onerosa dos programas de melhoramento. Por causa dos
efeitos de dominânc ia na produtividade do milho, o
comportamento do híbr ido não pode ser predito a part ir do
comportamento das linhagens endogâmicas por si ( SM ITH ;
SM I TH , 1986). Dessa forma, é necessár io obter os h íbr idos e
avaliá-los em testes comparativos de produção. Híbr idos
comerciais de milho são geralmente obtidos do cruzamento
de linhagens de grupos heterót icos diferentes. O uso de
marcadores moleculares tem sido recomendado para: i)
determinar grupos heterót icos ; e i i ) fazer a pred ição do
comportamento dos h íbr idos com base na d i s tânc ia genét ica
entre os genitores.
Diversos autores comprovaram a utilidade dos
marcadores moleculares na determinação de grupos heteróticos
( SM I TH et a i , 1990; M E L C H I N G E R et a i , 1990; D U D L E Y et
al., 1992). Todavia, a utilidade desses marcadores para
predição do comportamento de híbridos tem sido questionada
em virtude das baixas correlações encontradas. Bernardo
(1994) demonstrou a viabilidade da utilização dos marcadores
moleculares para predição de híbridos quando dados de
produtividade de um subgrupo de híbridos relacionados se
encontram disponíveis. Nesse caso, a predição é baseada no
procedimento B L U P (Best Linear Unbiased Prediction), que
adota um modelo genético aditivo e intrapopulacional.
E m programas de retrocruzamentos, marcadores
moleculares podem facilitar a escolha de genitores doadores
com a pequena distância genética do genitor recorrente.
180 Borém e Miranda
Método da estimativa m + a
A estimativa de m + a avalia o potencial da população
segregante em relação aos locos fixados. Dessa forma, uma
população com maior estimativa d e m + a possui, em re lação
à outra, maior ocorrência de locos com alelos favoráveis em
homozigose. Esse método somente deve ser aplicado em
espécies au t ógamas .
Pa ra o emprego desta metodologia, devem-se aval iar
as populações segregantes em duas gerações consecutivas, F i
e F2 ou F2 e Fa, por exemplo.
O pr incípio deste método e s t á no fato de que a méd ia
da geração F i , proveniente de um cruzamento simples, é
m + a + i a d a F 2 é m + a + l/2d; e a da Fa, m+ a + l/4d,
em que a representa a soma algébr ica dos locos fixados com
alelos favoráveis ou desfavoráveis nos dois genitores e d, a
soma algébr ica dos efeitos dos locos em heterozigose. Dessa
forma, m + a pode ser estimado pela expressão 2F2-F1 ou 2F3-
F2. Na geração Foo, quando a homozigose completa for
atingida, a méd ia das linhagens se rá m +a; os efeitos dos
homozigotos se anulam, pois, nos locos que es tão segregando.
Ass im, a méd ia das n linhagens possíveis i rá depender
apenas dos locos que estão fixados nos genitores.
Método de Jinks e Pooni (1976)
Este método permite estimar o potencial de um
cruzamento nas gerações iniciais utilizando-se méd ia s e
va r i ânc i a s . Desse modo, possibilita o descarte de populações
inferiores ou de menor potencial.
O pr incípio desse método é que, para ca rac te r í s t i cas
quantitativas com seis ou mais genes, a d is t r ibuição
fenotípica das linhagens em Foo, desenvolvidas sem seleção
em um cruzamento entre genitores homozigóticos, segue a
d is t r ibuição normal. Utilizando-se das propriedades de uma
dis t r ibuição normal, é possível estimar a probabilidade de
Seleção de genitores 181
ocorrência de linhagens superiores. P a r a seu emprego,
considera-se que a méd ia das linhagens em F2 é igual à das
linhagens na geração Foo e que a va r iânc ia genét ica dessa
geração contém 2o^ = o2GL, em que o2GL é a va r i ânc i a entre
genótipos e locais.
Donald Rasmusson, da Universidade de Minnesota,
apresentou as seguintes suges tões para a seleção de
genitores em espécies au tógamas :
I . E s t r a t ég i a s para o planejamento dos cruzamentos, com o
objetivo de desenvolver cultivares altamente produtivos:
• Identificar o ge rmoplasma-núc leo que, consistentemente,
apresenta bom desempenho e gera boas progénies .
• Enfat izar o uso desse germoplasma-núc leo .
• Manter e melhorar o germoplasma-núc leo , usando-se
cruzamentos convergentes.
• Conduzir um subprograma dentro do programa principal
para cada carac te r í s t i ca importante.
I I . Procedimentos inadequados no planejamento de
cruzamentos com o objetivo de desenvolver cultivares
altamente produtivos:
• Fazer seleção com base em núme ro excessivo de objetivos
múl t ip los , isto é, qualidade nutricional, res i s tênc ia a
doenças , acamamento, produtividade, a l tura de planta
etc.
• Usa r grande núme r o de cruzamentos com genitores
escolhidos aleatoriamente.
• Dar ênfase a cruzamentos divergentes.
• Usa r genitores cujo desempenho não é conhecido.
• Considerar em demasia ou desconsiderar o germoplasma
de outros programas de melhoramento.
O uso de germoplasma de outros programas de
melhoramento deve ser criterioso. Alguns melhoristas são
182 Barém e Miranda
muito independentes e raramente usam germoplasma de
outros. Porém, outros es t ão constantemente substituindo o
seu germoplasma por outro que julga superior
(RASMUSSON , 1994, Comunicação Pessoal).
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Cultivares
Cult ivar é um grupo de indivíduos de qualquer género
ou espécie vegetal superior que seja claramente distinguível de
outros por uma margem mín ima de descritores e que possua
denominação própria, homogeneidade e estabilidade quanto aos
descritores em sucessivas gerações. Os descritores e
característ icas agronómicas que conferem identidade aos
cultivares podem ser: ciclo, cor das sementes, caracteres
morfológicos, reação a doenças, produção de grãos e padrões
isoenzimáticos ou de ácidos nucleicos. A estabilidade do
cult ivar é importante para sua identificação, geração após
geração.
O termo cultivar foi cunhado a partir da cont ração das
palavras inglesas cultivated variety (variedade cultivada).
H á d iscussão sobre o género do termo cultivar. Alguns
periódicos científicos nacionais consideram-no feminino,
como a Revista da Pesquisa Agropecuár ia Bras i le i ra , P AB ,
enquanto a Revis ta Ceres considera-o masculino.
Na maioria das vezes, quando o melhorista inicia um
programa de melhoramento, o tipo de cult ivar a ser
desenvolvido já es tá definido. E m alguns casos, como na cultura
188 Borém e Miranda
do milho, a substi tuição dos cultivares de polinização aberta
pelos híbridos ocorreu em razão da descoberta do vigor híbrido
ou da heterose. Mais recentemente, os produtores de tomate
t ambém vêm substituindo os cultivares de l inha pura pelos
híbridos F i .
Compete aos melhoristas anal isar as vantagens de
cada tipo de cult ivar e suas implicações gené t icas antes de
recomendar a mud an ç a do tipo de cult ivar em um sistema de
produção já estabelecido. Isso raramente acontece. E m se
tratando de novas culturas, compete ao melhorista
apresentar suges tões dos tipos de cultivares a serem
comercializados.
Os métodos de melhoramento a serem utilizados em
uma espécie vão depender, em parte, do tipo de cult ivar a ser
desenvolvido. Por exemplo, os métodos que envolvem
autofecundação são indicados para a obtenção de cultivares
de espécies au t ógamas e de linhagens endogâmicas em
espécies a lógamas , mas não t êm valor para a seleção de
clones.
Tipos de cultivares
Linhas puras
As l inhas puras são cons t i tu ídas por um grupo de
indivíduos descendentes de uma ún ica planta em homozigose
e, portanto, apresentam basicamente a mesma const i tu ição
genét ica , o que as torna homozigót icas e homogéneas .
Estatisticamente, Kempthorne (1957) definiu uma l inha
pura como um grupo de indivíduos homozigóticos com um
coeficiente de parentesco superior ou igual a 0,87.
As linhas puras são especialmente importantes
quando a uniformidade do cult ivar é essencial. F r ey e
Chandhanamutta (1975) demonstraram que a taxa de
mu tação em aveia hexaploide é de 0,32%, o que significa que
Cultivares 189
uma linhagem geneticamente pura de aveia não permanece
nessa s i tuação com a reprodução sexual, em virtude das
mutações , misturas mecân icas , polinizações cruzadas e
segregações tardias; as l inhas puras, na prá t ica , apresentam
heterogenia.
A estabilidade de comportamento das l inhas puras
depende quase exclusivamente da sua plasticidade
fenotípica. As l inhas puras de soja, com grande capacidade
de ramificação, apresentam maior plasticidade e tendem a
compensar a desuniformidade de d is t r ibuição de plantas no
campo.
Multilinhas
As multi l inhas são cons t i tu ídas pela mistura de
l inhas isogênicas ou quase isogênicas, que diferem entre s i
quanto a alelos de res i s tênc ia a determinado patógeno. E l a s
são homozigót icas , porém he te rogéneas . São usadas
primariamente em espécies a u t ó g ama s como e s t r a t ég i a de
res i s tênc ia a doenças . Alguns melhoristas t amb ém relatam o
seu uso em condições de estresse cl imático imprevis ível .
A operacional ização da produção de sementes das
mult i l inhas é relativamente onerosa quando comparada com
a das l inhas puras. As mult i l inhas são formadas pela
produção, separada de cada um dos seus constituintes, que
são misturados nas proporções desejadas. E s t a composição
pode mudar de ano para ano, conforme as var iações das
r a ç a s fisiológicas dos pa tógenos prevalecentes no campo. O
uso das mult i l inhas prevê o beneficiamento e a
armazenagem de cada componente de forma isolada.
Teoricamente, deveriam produzir diversas linhas isogênicas
e misturar apenas aquelas apropriadas, conforme indicado
pelo levantamento de r a ç a s fisiológicas prevalecentes na
região, mas isso é inviável economicamente.
190 Borém e Miranda
Uma vez que as multilinhas favorecem a estabilização
das raças fisiológicas do patógeno, os genes de resistência das
plantas tendem a reter com elas a sua habilidade de proteção e
muitas raças fisiológicas do patógeno têm a oportunidade de
sobreviver, diminuindo a probabilidade de desenvolvimento de
novas raças .
Atualmente, pela natureza d inâmica do mercado de
sementes e em r azão da pequena vida ú t i l dos cultivares, as
mult i l inhas t êm sido consideradas uma al ternativa
conservadora e de mercado restrito.
Híbridos
Os híbr idos são resultantes do cruzamento entre
indivíduos geneticamente distintos, visando à ut i l ização
p rá t i ca da heterose. São heterozigóticos e homogéneos e
primariamente utilizados em espécies a lógamas . Híbr idos de
algumas espécies au t ógamas , como tomate, arroz e berinjela
e, de forma menos representativa, trigo e cevada, es tão
disponíveis em diferentes pa íses ( CARLSSON ; L E I J O N ,
1986; L E HMANN , 1986).
Os h íbr idos podem ser obtidos do cruzamento de duas
linhagens endogâmicas ( P i x P2), h íbr ido simples; de t r ê s
linhagens endogâmicas [ (Pi x P2) x P 3 ] , h íbr ido triplo; ou de
quatro linhagens endogâmicas [ (Pi x Pz) x (Pa x P 4 ) ] , h íbr ido
duplo. Além das linhagens endogâmicas , podem-se ut i l izar
cultivares de polinização aberta ou clones na obtenção dos
h íbr idos .
O híbr ido simples é, em geral, mais produtivo do que o
h íbr ido duplo ou triplo. Weatherspoon (1970) avaliou 36
híbr idos simples, 36 triplos e 36 duplos obtidos de nove
linhagens endogâmicas de milho. As produtividades méd ia s
de híbr idos simples, triplos e duplos, respectivamente, foram
de 6.500, 6.200 e 6.000 kg/ha. Atualmente nos U SA somente
são plantados híbr idos simples de milho. No Bra s i l , os
Cultivares 191
híbr idos simples de milho j á ocupam 45% do mercado de
sementes comercializadas dessa espécie.
Uma possível vantagem dos h íbr idos duplos é a sua
maior heterogeneidade, associada à maior estabilidade de
comportamento. Eberhart e Russel l (1969), investigando a
estabilidade dos diferentes tipos de híbr ido, observaram que
diversos híbr idos simples apresentaram maior produtividade
do que o melhor h íbr ido duplo e que alguns são t ão es táve is
quanto os h íbr idos duplos mais es táve is .
Sintéticos
Os híbridos sintéticos são obtidos do intercruzamento de
um grupo de linhagens ou clones selecionados com base na
capacidade de combinação; são heterozigóticos e heterogéneos.
Esses cultivares são primariamente utilizados em espécies
a lógamas ou espécies de reprodução assexuada. Nas espécies
au tógamas que apresentam mecanismos que maximizam a
fecundação cruzada, como a macho-esterilidade ou
autoincompatibilidade, t ambém é possível a obtenção de
cultivares sintéticos.
Cul t ivares s in té t icos de muitas espécies forrageiras
são utilizados em diversas regiões . Dentre as vantagens
desses cultivares, incluem-se: i) a r edução da perda do vigor
nas gerações a v an ç ad a s do s in té t ico é menor do que a
manifestada em h íbr idos ; ii) a p ropagação do s in té t ico
durante sucessivas gerações na r eg ião de cultivo resul ta em
melhor a d ap t a ç ão ao ambiente; e iii) o s in té t ico tem al ta
plasticidade, em virtude da heterogeneidade.
Os cultivares s inté t icos , no sentido restrito, t êm sido
utilizados de forma bastante l imitada. Entretanto, as
gerações avançada s t êm sido empregadas mais comumente.
192 Borém e Miranda
Geração avançada de sintéticos
A pr imei ra ge ração do intcrcruzamento dos clones
selecionados é denominada s in t é t i co ou S I N - 1 . Al te rna t iva -
mente, as ge rações posteriores ao S IN - 1 podem ser
ut i l izadas comercialmente. A ge ração S IN-2 é obtida pela
po l in ização aberta das plantas obtidas com as sementes
S I N - 1 , enquanto a ge r ação S IN -3 é produzida pela
po l in ização aberta das plantas obtidas com as sementes
S IN - 2 , e ass im sucessivamente.
Obviamente, a cada geração ocorre uma redução no
potencial de produção, que pode ser estimada pela seguinte
fórmula:
XSIN-2 = XsiN-i - [(XsiN-i - X)/n]
em que:
X g I N 2 : méd ia do s intét ico SIN-2;
X g I N ^ méd ia do s intét ico S IN - 1 ;
X : méd ia dos genitores de S IN - 1 ; e
N : n úme ro de genitores do S IN - 1 .
Clone
O clone é cons t i tu ído por um grupo de indivíduos que
descendem, por p ropagação assexuada, de um único genitor.
Os clones são heterozigóticos em geral e homogéneos . Os
indivíduos de um mesmo clone são geneticamente idênticos.
Nas espécies de propagação assexuada, h á uma
correlação positiva entre grau de heterozigose e vigor. Por
isso, os cultivares clonais são em geral altamente
heterozigóticos.
Cultivares 193
Cultivares de polinização aberta
Os cultivares de polinização aberta ou l ivre são
obtidos pela l ivre pol inização ou acasalamento ao acaso de
um grupo de indivíduos selecionados. São conhecidos
t amb ém como variedades. Estes cultivares, heterozigóticos e
he te
rogéneos , são uma alternativa ao uso dos híbr idos . A
Embrapa, a Universidade Federal de Viçosa e a
Coordenadoria de Ass is tênc ia Técnica Integral ( CAT I ) vêm
desenvolvendo cultivares de pol inização aberta de milho para
produtores que preferem adquirir sementes de custo mais
baixo e ut i l izam o sistema produtivo com poucos insumos.
Composto
Populações ou cultivares compostos são obtidos do
cruzamento de diversos genitores. Estes cultivares são
he te rogéneos ; porém, se a macho-esterilidade for introduzida
na população, os cultivares são mantidos em heterozigose.
Os cruzamentos compostos foram inicialmente
propostos por H a r l a n et a l . (1940), com o objetivo de reunir
c a r a c t e r í s t i c a s de diversos genitores em uma só popu lação ,
sendo esta submetida à se leção na tu ra l na r eg ião de
a d a p t a ç ã o durante v á r i a s gerações . Teoricamente, os
cultivares compostos tenderiam a apresentar m á x im a
adaptabilidade a essa reg ião . Atualmente, os compostos
são util izados no p r é -me l h o r amen t o .
Cultivar transgênico
T amb ém conhecido como cultivar geneticamente
modificado, é aquele que recebeu gene exógeno v i a
t r a n s f o rmaç ão gên ica , isto é por meio da engenharia
gené t i ca .
194 Borém e Miranda
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- j Q Introdução de
J_ O Germoplasma
Embo r a a in t rodução de germoplasma seja mais
conhecida como in t rodução de plantas, esta terminologia não
é t ão abrangente quanto a primeira, que inclui a in t rodução
de sementes, partes vegetativas, grãos de pólen, células e
DNA.
A migração das espécies cultivadas tem sido um dos
mais importantes fatores de desenvolvimento da agricultura
mundial. A in t rodução de cultivares de outras regiões pode
resultar na disponibilidade imediata de tipos superiores, à
s eme lhança daqueles desenvolvidos em programas de
melhoramento.
A curiosidade e o interesse do homem pelas espécies
resultaram no in te rcâmbio de germoplasma entre as regiões.
Com as grandes expedições comerciais estabelecidas
inicialmente entre Europa Ocidental, África e Ás ia e, numa
segunda fase, entre estas e as Amér icas , durante o século
X V I , houve substancial aumento no in te rcâmbio de espécies
cultivadas. A in t rodução de espécies das Amér icas na Europa
e Ásia, e vice-versa, provocou profundas mudanç a s na
agricultura e nos háb i tos alimentares dos povos desses
continentes. Na viagem de Cris tóvão Colombo às í nd i a s , em
Introdução de germoplasma 197
1493, sementes das mais importantes espécies agronómicas
nativas das Amér icas foram levadas para a Espanha.
Os colonizadores do Bras i l trouxeram cana-de-açúcar ,
trigo, arroz, cevada, pimenta, citros e diversas outras fruteiras
e espécies olerícolas. Das Américas , os colonizadores levaram
milho, mandioca, batata, tomate, feijão, amendoim e outras
espécies.
A soja é um ót imo exemplo da impor t ânc ia da
in t rodução de germoplasma na agricultura brasileira.
Introduzida em 1882, na Bahia , a soja não teve o seu valor
reconhecido a t é que, em 1914, F . C. Craig a introduziu no
Rio Grande do Su l . Desde então , essa leguminosa passou a
participar, mesmo de forma modesta, da agricultura sul-rio-
-grandense e, a partir de 1947, tornou-se economicamente
importante no sul do Bras i l . Após 1954, a soja iniciou um
processo migra tór io rumo ao norte do Pa ís , persistindo a t é
hoje. Atualmente, o B r a s i l é o segundo maior produtor e
exportador dessa leguminosa, ficando mesmo à frente da
China, que é o centro de origem dessa espécie. E m 2008
foram plantados aproximadamente 23 milhões de hectares
no Bra s i l .
É interessante notar que as principais espécies
cultivadas em um pa í s são, frequentemente, o r ig inár ias de
outras regiões do mundo. Atualmente, a in t rodução de
germoplasma continua desempenhando importante papel na
agricultura, na identif icação de novas espécies agronómicas e
na obtenção de germoplasma para desenvolvimento de
cultivares.
Uso da introdução de germoplasma
Podem-se introduzir espécies, cultivares ou acessos
com carac te r í s t i cas especiais para serem usados no
desenvolvimento de cultivares.
A in t rodução de espécies exóticas em uma região pode
Hignificar novas alternativas económicas para os produtores
198 Borém e Miranda
e permitir a ut i l ização de á r e a s marginais para cultivo de
espécies mais exigentes. O amaranto e a canola,
recentemente introduzidos no Bra s i l , despertaram interesse
económico
em algumas regiões do Pa í s e hoje são cultivados
comercialmente.
Cult ivares de diversas espécies são levados constan-
temente para outras regiões. E m regiões ou pa í ses com
condições edafocl imáticas semelhantes, pode-se, muitas
vezes, estabelecer in te rcâmbio de cultivares de forma
mutuamente proveitosa. Cult ivares de soja desenvolvidos
para regiões de mesma latitude t êm maiores chances de
sucesso do que aqueles or iginár ios de regiões de latitudes
diferentes.
Quando cultivares ou novas espécies são introduzidos,
o melhorista pode fazer uso direto do germoplasma
introduzido ou selecionar linhagens.
O cultivar de feijão Rico-23, or ig inár io da Costa Rica ,
foi introduzido no Bra s i l , em 1954, pelo professor Clibas
Vie i ra , e avaliado em testes comparativos de produtividade
com outros cultivares locais.. Por suas ca rac te r í s t i cas
agronómicas terem-se destacado, esse cult ivar foi l ançado e
d is t r ibuído aos produtores em 1959, constituindo um
exemplo de uso direto do germoplasma introduzido.
E m 1969, o Programa de Melhoramento de Soja da
U F V lançou o cult ivar Mineira, selecionado dentro de uma
população he te rogénea originada nos Estados Unidos. Por
apresentar maior produtividade de grãos que Hardee e
outros cultivares da época, o cult ivar Minei ra foi
recomendado para a Região Su l do Bra s i l , constituindo um
exemplo de uma seleção dentro do germoplasma introduzido.
Com a consolidação dos programas de melhoramento
no Bra s i l , a in t rodução de germoplasma para uso direto
passou a ter menor impor t ânc ia do que para uso como
genitores para obtenção de populações segregantes.
Pode-se, com a introdução de germoplasma, visar à
resistência a doenças, à insensibilidade ao fotoperíodo ou à
Introdução de germoplasma 199
obtenção de característ icas nutricionais ou organolépticas.
Nesse caso, o melhorista tem interesse em um gene ou um
grupo de genes presente no germoplasma e não no genoma
como um todo.
Com a in t rodução de cultivares de outras regiões,
atingem-se resultados semelhantes aos de um programa de
melhoramento, e essa in t rodução pode ser t amb ém
considerada um método de melhoramento ( A L LARD , 1960).
Todavia, para os programas de melhoramento que j á
atingiram a maturidade, a impor t ânc i a desse método é
relativamente pequena, uma vez que a maioria dos
cruzamentos para desenvolvimento de cultivares envolve
genót ipos adaptados à região de destino e, portanto, com
maiores chances de desenvolvimento de cultivares
superiores.
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Seleção no
Melhoramento
de Plantas
maior desafio do melhorista é desenvolver
cultivares superiores aos que j á se encontram no mercado.
Neste capí tu lo serão discutidos métodos de seleção aplicados
à obtenção de cultivares.
Pa ra entender os resultados da seleção em uma
população, é necessár io conhecer a sua estrutura genét ica .
Nas espécies au t ógamas , os indivíduos, em geral, encontram-
se em homozigose, uma vez que os indivíduos homozigóticos
(AA ou aa), com a autofecundação, produzem progénies
homozigót icas , enquanto indivíduos heterozigót icos (Aa)
segregam progénies homozigót icas e heterozigót icas em igual
proporção.
Após vá r i a s gerações de autofecundação , a proporção
de indivíduos heterozigóticos na população é substancial-
mente reduzida. Embora a homozigose completa
teoricamente nunca seja atingida com as sucessivas
autofecundações , na p rá t i ca a uniformidade fenotípica é
Seleção no melhoramento de plantas 201
a lcançada após cinco a oito gerações de autofecundação para
a maioria das ca rac te r í s t i cas agronómicas .
Conforme mencionado, as autofecundações conduzem
à homozigose, mas não à homogeneidade, pois resultam na
formação de 2a l inhas na população, em que n é o n úme r o de
genes segregantes.
A proporção de indivíduos homozigóticos, após
determinado núme r o de gerações de autofecundação, pode
ser calculada de acordo com a seguinte fórmula:
V ^ J
em que:
I H : proporção de indivíduos homozigóticos;
m: n úme ro de gerações de autofecundação; e
n: n úme ro de genes segregantes.
Teoria das linhas puras
A teoria das linhas puras foi desenvolvida pelo
botânico d i nama rquê s W. L . Johannsen, em 1903, que
conduziu uma série de experimentos com o cultivar de feijão
Princess. Johannsen utilizou um lote de sementes de
diferentes tamanhos, no qual investigou o efeito da seleção
sobre o peso médio das sementes nas progénies . E le classificou
e selecionou, no lote original, sementes grandes e pequenas,
que foram semeadas e produziram novas sementes. Estas
foram classificadas em cada planta, individualmente. Este
processo de seleção de tamanho de sementes, semeadura e
classificação das sementes produzidas pelas progénies foi
repetido por seis gerações. Johannsen verificou que, no
primeiro ciclo de seleção, as progénies derivadas das sementes
maiores produziram, em geral, sementes maiores do que as
progénies provenientes das sementes menores, o que indicou
202 Borém e Miranda
que a seleção havia sido eficiente para separar sementes com
diferente consti tuição genética. Como o feijoeiro é uma espécie
au tógama , as sementes utilizadas por Johannsen eram
homozigotas quanto aos genes que controlam o seu tamanho.
Na busca da eficiência da seleção nos ciclos subsequen-
tes, Johannsen selecionou novamente sementes grandes e
pequenas em 19 linhas estabelecidas a partir de progénies
derivadas de 19 diferentes sementes do lote original (Figura
14.1). Cada l inha apresentava sementes com peso médio
característico, embora o peso de cada uma variasse. Durante os
seis ciclos, cada linha foi submetida à seleção de sementes
grandes e pequenas. A partir do segundo ciclo, as progénies de
sementes grandes e pequenas derivadas de uma linha pura
variaram de tamanho, mas o tamanho médio de sementes de
uma progénie originada de sementes grandes era similar ao
das originadas de sementes pequenas. Os resultados dos ciclos
de seleção subsequentes indicaram que o peso médio das
sementes de cada linha permanecia constante, geração após
geração. Johannsen concluiu que a seleção em uma população
heterogénea pode ser efetiva para isolar linhas distintas entre
si e a seleção nestas linhas é ineficiente. O lote original de
sementes utilizado por Johannsen apresentava variações de
natureza genética e de ambiente em relação ao tamanho das
sementes. As linhas, a partir do segundo ciclo de seleção, eram
geneticamente uniformes e toda a variação presente era
proveniente de causas ambientais, exclusivamente. Johannsen
estabeleceu t rês princípios com os seus estudos: i) h á variações
herdáveis e variações causadas pelo ambiente; ii) a seleção só é
eficiente se recair sobre diferenças herdáveis ; e iii) a seleção
não gera variação. A part ir dos trabalhos de
W. L . Johannsen,
o termo Unha pura foi definido como toda a descendência , por
autofecundação, de um único indivíduo homozigoto.
Seleção no melhoramento de plantas 203
Figura 14.1 - Rep re sen t ação do trabalho conduzido por
Johannsen (1903).
Seleção genealógica
As populações das espécies au tógamas são
frequentemente const i tuídas pela mistura de plantas
homozigóticas, muitas vezes fenotipicamente semelhantes. Os
cultivares que estão em cultivo h á longo tempo, mesmo aqueles
que se originam de uma única l inha pura, vão pouco a pouco
perdendo a pureza genética, em razão de: i) mistura acidental
com sementes de outros cultivares; ii) mutações; e iii)
cruzamentos naturais com outros cultivares. Nessas populações
geneticamente heterogéneas , podem-se isolar diversas linhas
puras por seleção. Uma vez selecionada uma linha pura, a
continuação do processo de seleção nela é trabalho
inteiramente inúti l .
O método da seleção de linhas puras, t ambém conhecido
por Seleção Genealógica, baseia-se na seleção individual de
plantas, feita na população original, seguida da observação de
suas descendências, para fins de avaliação. Nenhum genótipo é
criado por esse processo; apenas procura-se isolar os melhores
204 Borém e Miranda
genótipos na população heterogénea. Esse método é muito
utilizado em espécies au tógamas com frequente alogamia.
O procedimento geral para se realizar a seleção de
linhas puras está esquematizado na Figura 14.2. Começa-se
semeando a população original, cujo tamanho depende de sua
heterogeneidade genética e dos meios materiais de que dispõe o
melhorista. E m seguida, quando chegar a época apropriada,
examina-se cuidadosamente cada planta em busca dos
melhores fenótipos. Escolhem-se em geral de 200 a 1.000
plantas e colhem-se separadamente as sementes de cada uma.
Essas sementes são semeadas separadamente, em linhas ou em
pequenas parcelas iguais, na estação de plantio seguinte.
Observam-se as progénies das plantas selecionadas e
aproveitam-se apenas as linhas ou parcelas que se mostrarem
superiores e uniformes; as sementes são colhidas,
separadamente, por progénie. A descendência de cada planta
originalmente selecionada passa, então, a constituir uma linha
experimental ou seleção. Essas linhas, no plantio seguinte, são
novamente examinadas no campo, porém com critério mais
rigoroso e com repetição, aproveitando-se apenas as melhores.
Paralelamente, podem-se realizar outros testes das linhas,
como o de resistência a doenças, o de qualidade etc.
Com o n úme r o de l inhas bastante reduzido, o
melhorista não pode mais ju lgá- las apenas por observação,
sendo preciso colocá-las em ensaios comparativos de
produção, nos quais são t amb ém incluídos alguns dos
melhores cultivares utilizados pelos agricultores. Esses
ensaios são realizados em apenas um ano e, à medida que se
aumenta a disponibilidade de sementes de cada l inha,
estendem-se por diferentes localidades da á r e a onde se
pretende l ança r o possível novo cultivar. Finalmente, a l inha
ou as linhas que sobressa í r em são multiplicadas, nomeadas e
d i s t r ibu ídas .
Seleção no melhoramento de plantas 205
População original
Progén ies selecionadas
Progénies resselocionadas
Ensaios comparativos
R i RII RIU
Mult ip l icação
Dis t r ibuição
F igura 14.2 - Método da seleção genealógica ou individual de
plantas com teste de progénie .
Seleção massal
Este método consiste na seleção de grande núme ro de
indiv íduos com carac te r í s t i cas fenotípicas semelhantes, que
são colhidos em conjunto para constituir a geração seguinte.
A seleção massal é um dos mais antigos métodos de
melhoramento de plantas. A prese rvação das plantas mais
atraentes ou produtivas pelos primeiros agricultores resultou
na elevação da f requência de alelos favoráveis . E provável
206 Borém e Miranda
que os primeiros cultivares tenham sido desenvolvidos por
esse método. A seleção massal só é eficiente se recair em
populações he t e rogéneas , cons t i tu ídas por mistura de l inhas
puras, no caso das espécies au t ógamas , ou por indivíduos
heterozigóticos, no caso de a lógamas e em carac te r í s t i cas
com al ta herdabilidade.
A ideia principal da seleção massal é, por meio da
escolha dos melhores fenótipos, aumentar a méd ia geral da
população com a r eun ião dos seus fenótipos superiores.
Há dois tipos de seleção massal: a positiva e a
negativa. A primeira é conduzida para se selecionarem os
tipos desejáveis e a segunda para se eliminarem os tipos
indesejáveis em um campo, preservando os remanescentes.
Na seleção massal, plantas individuais são
selecionadas fenotipicamente, isto é, somente informações
sobre o fenótipo dos indivíduos são consideradas cr i tér io de
seleção. Como os indivíduos com fenótipos semelhantes
podem apresentar const i tu ição genét ica distinta, a seleção
nem sempre é efetiva.
Na seleção massal positiva, procuram-se identificar
indivíduos com o fenótipo desejado (Figura 14.3) e os
indivíduos selecionados são agrupados para formar a nova
população ou cultivar. Os campos de seleção das espécies
a l ógamas devem ficar isolados de outros campos da mesma
espécie para se prevenir a pol inização indesejável , mantendo
a d i s tânc ia de 200 a 300 m das espécies polinizadas por
insetos e 500 m daquelas polinizadas pelo vento.
Figura 14.3 - Esquema do método da seleção massal positiva.
Seleção no melhoramento de plantas 207
A seleção massal é geralmente pouco uti l izada para as
carac te r í s t i cas de baixa herdabilidade. A eficiência dessa
seleção é influenciada pelo modo de reprodução da espécie, se
a u t ó g ama ou a lógama. Nas espécies a lógamas , quando a
seleção de ambos os genitores antecede o florescimento, h á
maior ganho genético do que quando é posterior. Esse
método é t amb ém mais eficiente com caracteres recessivos do
que com os dominantes.
Atualmente, a seleção massal é mais uti l izada para a
purificação de cultivares de espécies a u t ógamas . O
procedimento normal consiste na seleção de aproxima-
damente 200 indivíduos típicos do cultivar, que são trilhados
em conjunto para a r ecuperação dos descritores do cultivar.
Nas espécies a lógamas , essa seleção tem sido ut i l izada para
aumentar a uniformidade do ciclo de cenoura e beterraba.
Hal lauer e Miranda (1988) relataram o uso da seleção
massal em milho para diversas ca rac te r í s t i cas .
Quando a seleção massal é usada em espécies
a u t ógamas , quatro l imitações são evidentes:
a) Não é possível saber se as plantas selecionadas são
homozigotas. Se indivíduos heterozigotos forem
selecionados, novos ciclos de seleção serão necessár ios .
b) Não é possível saber se as plantas selecionadas foram
superiores por causa de sua const i tu ição genét ica ou do
ambiente.
c) A seleção massal só pode ser utilizada em ambientes onde as
característ icas se expressam. Isso exclui o uso desse método
para populações conduzidas fora do ambiente convencional
de plantio.
d) A seleção massal apresenta pouca eficiência para caracte-
r í s t icas com baixa herdabilidade.
As principais vantagens da seleção massal são a
facilidade de condução e o baixo custo operacional.
208 Borém e Miranda
O trabalho sobre teor de óleo e p ro te ína em milho
iniciado em 1896 na Universidade de I l l inois é o mais
clássico e citado programa de seleção massal em plantas. A
part ir de 163 espigas de milho do cult ivar de polinização
aberta Bu r r foram inicialmente selecionadas 24 espigas com
alto conteúdo de óleo e 12 com baixo conteúdo. Independen-
temente, selecionaram-se 24 espigas com alto conteúdo de
p ro t e ína e 12 com baixo conteúdo. Os subgrupos selecionados
foram trilhados e conduzidos individualmente, repetindo-se o
mesmo procedimento durante mais de 90 gerações, conforme
demonstrado na Tabela 14.1.
Tabela 14.1 - Conteúdo médio de óleo e p ro te ína (%) em
quatro subgrupos da população original, após
90 gerações de seleção massal
Subgrupo para População Subgrupo para
Baixo Conteúdo Original Alto Conteúdo
Oleo (%) 0,4 4,7 16,6
Proteína (%) 4,0 10,9 25,0
Fonte: DUDLEY; LAMBERT, 1992.
Os resultados obtidos evidenciam a eficiência da
seleção massal para elevação e r edução do conteúdo de óleo e
p ro te ína na população original. Duas ca rac te r í s t i cas
in t r ín secas desse programa de melhoramento podem ser
indicadas como fatores do sucesso da seleção massal: a
exis tência de variabilidade genét ica na população original e a
al ta herdabilidade das carac te r í s t i cas que constituem o
objetivo da seleção.
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Hibridação no
Melhoramento
de Plantas
JHÍibridação é a fusão de gâmetas geneticamente
diferentes, que resulta em indivíduos híbridos
heterozigóticos para um ou mais loci. Após a hibridação, o
objetivo do melhoramento de espécies autógamas é obter
indivíduos homozigóticos por sucessivas gerações de
autofecundação. Indivíduos com as características desejáveis
de ambos os genitores são selecionados na população
segregante, e as linhagens originadas de indivíduos
selecionados são avaliadas em testes comparativos de
produtividade (teste de valor de cultivo e uso), sendo as
comprovadamente superiores lançadas como cultivares.
Na hibridação de espécies autógamas, os genitores são
cruzados artificialmente. A hibridação artificial é
relativamente simples nas espécies com grandes partes
florais. A técnica de cruzamento consiste na emasculação da
flor a ser utilizada no genitor feminino antes que as anteras
iniciem a derriça do pólen. Coleta-se o pólen do genitor
masculino, que é aplicado sobre o estigma da flor
emasculada. Obviamente, o procedimento varia de acordo
212 Borém e Miranda
com as espécies. Por exemplo, na soja, a remoção das anteras
das flores do genitor feminino a serem polinizadas é
desnecessária.
Conforme mencionado no capítulo anterior, a
seleção massal foi um dos principais métodos de
melhoramento. Os primeiros cultivares das espécies
autógamas foram obtidos por seleção em populações
heterogéneas. Com a exaustão da variabilidade natural
nessas populações, os melhoristas buscaram outros
métodos de melhoramento que permitissem a liberação de
variabilidade genética em que a seleção pudesse ser
realizada eficientemente. Frey (1976) relatou que os
melhoristas das décadas de 1920 e 1930 sentiram a
necessidade de criar mais variabilidade em que pudessem
praticar a seleção. Para criar essa variabilidade, os
melhoristas vêm recorrendo à hibridação de genitores com
características desejáveis, visando reuni-las em um
cultivar pela recombinação genética.
Sprague (1967) ilustrou, de forma objetiva, a impor-
tância da hibridação no melhoramento de aveia, relatando
que o período de melhoramento desta espécie, de 1906 a
1963, pode ser dividido da seguinte maneira: introdução de
plantas, seleção de linhas puras e utilização de métodos que
envolvem a hibridação. Sprague demonstrou que os ganhos
genéticos em produtividade de grãos após o início da
utilização dos métodos que usam a hibridação foram maiores
que aqueles obtidos nos dois outros métodos (Figura 15.1).
Em espécies autógamas, a homozigose é atingida
pelas sucessivas gerações de autofecundação. Considere-se
o exemplo em que os dois genitores são contrastantes para
um locus, conforme ilustrado na Figura 15.2.
Todos os indivíduos na geração F i são heterozigotos.
Conformo acontece nas espécies autógamas, a autofecundação
ocorri! naturalmente em cada flor e a segregação na geração F2
Hibridação no melhoramento de plantas 213
é de 25% AA: 50% Aa: 25% aa. A proporção de homozigotos (AA
e aa) para heterozigotos (Aa) é de 50%: 50%. O nível de
homozigose atinge
50% na primeira geração de autofecundação.
Com as sucessivas gerações de autofecundação, os indivíduos
homozigóticos produzirão progénies homozigóticas, enquanto os
heterozigóticos produzirão tanto genótipos homozigóticos
quanto heterozigóticos. Após quatro gerações de autofecun-
dação, ou seja, na geração F 5 , haverá 93,75% de indivíduos
homozigóticos, em média.
Ganhos Relativos de
Produtividade de Grãos
100
90
80
70
60
50 h
- Introdução Seleção de Linhas Puras Hibridação
-Anos
1906 1918 1942 1963
Figura 15.1 - Regressão das produtividades máximas de
aveia (Avena saliva), em diferentes anos, e
métodos de melhoramento utilizados em três
fases de obtenção de cultivares, durante o
período de 1906 a 1963, nos Estados Unidos.
214 Borém e Miranda
A Figura 15.2 refere-se ao cruzamento entre
genitores que contrastam em apenas um locus. Se os
genitores diferem entre si em relação a um grande
número de loci, a homozigose será atingida após maior
número de gerações de autofecundação.
P-L P2 % Heterozigose
AA x aa
Geração j
F l Aa 100
F2 '25%AA
i
50% Aa
|®
25% aa1
i
50
F3 I25%AA 12,5%AA
i /
25% Aa
|®
12,5% aa 25% aal
X I
25
F4 l37,5%AA 6,25%AA
i /
12,5% Aa 6,25% aa 37,5% aa'
X i
12,5
F5 '43,75% AA3,125%AA 6,25% Aa 3,125%aa 43,75% aa' 6,25
Figura 15.2 - Proporção de indivíduos homozigóticos e
heterozigóticos em uma população submetida a
sucessivas gerações de autofecundação.
Tipos de população
Os mais variados tipos de população são utilizados
nos diversos programas de melhoramento das espécies
cultivadas. Alguns melhoristas preferem as populações
originadas de cruzamentos simples, enquanto outros optam
por cruzamentos complexos, em que a genealogia da
população inclui diversas linhagens e cultivares, envolvendo
desde cruzamentos simples até retrocruzamentos.
Hibridação no melhoramento de plantas 215
Cruzamento s imples
Este é o mais utilizado método de formação de
populações segregantes nos programas de obtenção de
cultivares das espécies autógamas. O procedimento consiste
no cruzamento entre dois genitores, P i x P2.
Cruzamento duplo
O cruzamento duplo envolve a hibridação entre dois
híbridos originários de cruzamentos simples [ (P i x P2) x ( P 3 x
P 4 ) ] . A contribuição média de cada genitor para a população é
de 25%.
Cruzamento triplo
Neste caso, a população é formada pelo cruzamento
entre dois genitores, resultando no híbrido F i , que é cruzado
com um terceiro genitor [ ( P i x P2) x P 3 ] . A participação dos
genitores P i e P2 na constituição da população é de 25% cada
um, enquanto a contribuição de P3 é de 50%. Essa diferença
de contribuição dos genitores permite ao melhorista incluir
cultivares que apresentem características indesejáveis na
formação da população, sem grande comprometimento da
sua média.
Retrocruzamento
O cruzamento entre o híbrido F i e um dos seus
genitores é denominado retrocruzamento. Neste método de
obtenção da população segregante, a contribuição dos dois
genitores envolvidos é diferente. Por exemplo, quando
apenas um retrocruzamento é feito, ( P i x P2) x P i , o genitor
P i contribui, em média, com 75% dos alelos da população. Se
mais de um retrocruzamento é realizado, [ ( P i x P2) x P J x P i ,
a contribuição de P i é de 87,5%, em média, na formação da
população segregante.
216 Borém e Miranda
Diversos melhoristas optam pelo uso de
retroeruzamentos na formação das populações quando é
introduzido germoplasma exótico ou não adaptado à região.
Dessa forma, pode-se reduzir a sua contribuição na
população formada.
Cruzamentos complexos
São aqueles que envolvem mais de quatro genitores.
O uso deste método tem sido restrito a condições
especiais ou a programas específicos. O programa de
melhoramento de feijão do Centro Internacional de
Agricultura Tropical - CIAT, em geral, tem complexas
genealogias em suas populações. Por exemplo, em 1995 o
CIAT distribuiu a seguinte população: {EMP250 x [(Carioca x
A429) x (FEB200 x XANT159)]}, que reúne as seguintes
características: tipo comercial carioca e preto, resistência ao
cancro-bacteriano, resistência ao vírus do mosaico-dourado e
hábito de crescimento ereto. EMP250 é uma linhagem da
raça Mesoamérica, com grãos do tipo carioca; resistente à
cigarrinha-verde e com porte ereto. O cultivar Carioca, da
raça Mesoamérica, apresenta diversas características
agronómicas de importância, como tolerância à baixa
fertilidade do solo. A linhagem A429, da raça Durango,
apresenta resistência ao mosaico-dourado e a FEB200, da
raça Mesoamérica, porte ereto, grãos do tipo carioca e
resistência múltipla à antracnose, mancha-angular e
ferrugem. A linhagem XANT159, da raça Nova Granada, é
resistente à bacteriose-comum.
A inclusão de diversos genitores na genealogia de uma
população resulta em maior número de diferentes alelos para
cada locus na população, havendo maior probabilidade de
ocorrer heterozigose. E com base neste princípio que os
cultivares sintéticos, em geral, são constituídos por vários
genitores. Busbice e colaboradores (1972) acreditam que
sintéticos de alfafa devam ser formados por 16 genitores. Na
prática, a maioria dos cultivares sintéticos de alfafa obtidos
Hibridação no melhoramento de plantas 217
em viveiros de policruzamentos apresenta mais de 40
genitores, a exemplo da alfafa AV 89-14B (ERWIN; KHAN,
1993).
Número de cruzamentos
O sucesso na obtenção de cultivares depende da
escolha correta dos genitores; como a segregação genética se
inicia na geração F2, o tamanho desta população deve ser
criteriosamente definido.
Durante a definição dos cruzamentos, os primeiros
pontos a serem considerados são: i) quais cultivares ou
linhagens incluir no bloco de cruzamentos; ii) em que
combinações elas devem ser cruzadas; e iii) quantas
polinizações devem ser realizadas em cada cruzamento.
Muitos melhoristas optam pela condução de centenas
de cruzamentos por ano, enquanto alguns preferem conduzir
menor número deles, cuidadosamente planejados, associados
ao maior tamanho das populações.
Baker (1984), estimando o número ideal de
cruzamentos para maximização da obtenção de linhagens
superiores, considerou apenas uma única característica
quantitativa, desprezando a epistasia e a ligação gênica.
Esse autor recomenda 50 cruzamentos cuidadosamente
planejados para obtenção de cultivares autógamos.
Yonezawa e Yamagata (1982) apresentaram um
modelo matemático para a identificação de cruzamentos com
alta probabilidade de geração de linhagens promissoras.
Esses autores consideraram mais vantajosa a manipulação
de grande número de cruzamentos que a utilização de menos
cruzamentos com grandes populações.
Ainda hoje existem divergências entre os melhoristas
com relação à melhor estratégia no binómio número de
cruzamentos e tamanho de população a ser utilizada.
218 Borém e Miranda
Tamanho das populações segregantes
Quando dois genitores são cruzados, o maior número
de diferentes combinações alélicas é obtido na geração F2 . No
caso das espécies autógamas, a frequência de indivíduos
homozi-
góticos aumenta com o avanço de gerações.
O número de flores a serem polinizadas para cada
combinação de genitores deve ser planejado. Por exemplo,
para uma população de 500 plantas F2 de soja, são
necessárias cerca de cinco sementes F i . Para o cálculo do
número de flores a serem cruzadas, devem-se considerar a
eficiência do operador e que parte das sementes pode ser
oriunda de autofecundação.
Se os genitores diferem entre si em dois loci, quatro
tipos distintos de gâmetas serão formados na geração F i ,
número obtido pela expressão 2
n, em que n é o número de loci
para os quais os genitores diferem. Considerando o mesmo
caso, o número de diferentes genótipos que pode ser obtido na
geração F2 é dado por 3 n, ou seja, AA, Aa e aa. Para que todos os
genótipos pudessem expressar-se na geração F2, seria
necessária uma população mínima de quatro indivíduos,
número obtido pela expressão 4 n. A Tabela 15.1 ilustra a
rapidez do aumento da população mínima na geração F2 com o
incremento do número de genes segregantes.
Se o locus em consideração possui vários alelos, o
número de recombinações gênicas e de genótipos aumenta
consideravelmente, requerendo uma população F2 substancial-
mente maior.
Sneep (1977), ao trabalhar com a cultura do trigo e
considerando a segregação para 21 loci independentes,
concluiu que a chance de obtenção de uma planta com todos
OH altílofl favoráveis (em homozigose ou heterozigose) é de
1/421 na geração F2, ou de 1/19.343 na geração F3 ou, ainda,
de 1/17(1778 nu geração F4. Esse autor recomendou que, na
Hibridação no melhoramento de plantas 219
prática e por garantia, esses números devem ser
multiplicados por quatro, isto é, 1.684 indivíduos na geração
F2 . Dessa forma, conclui-se que é extremamente difícil
encontrar uma planta com todos os alelos desejáveis após a
geração F2 . Sneep ainda relatou que, se as plantas F2
selecionadas forem homozigóticas para sete alelos desejáveis
e heterozigóticas para os demais 14, as linhas F a devem ser
constituídas de, no mínimo, 57 plantas para se garantir uma
chance de obtenção de um indivíduo desejável. Novamente,
por segurança, ele voltou a recomendar a avaliação de quatro
vezes esse valor, ou seja, 228 plantas por linha F3.
Tabela 15.1 - Variabilidade na geração F2 para genitores con-
trastando em n loci
Número de Número de Número de Número Mínimo
Genes Gâmetas na Genótipos na de Indivíduos
Segregando Geração F i Geração F2 na Geração F2
N 2 n 3 n 4 n
1 2 3 4
2 4 9 16
3 8 27 64
4 16 81 256
5 32 243 1.024
10 1.024 59.049 1,1x10a
20 1.084.576 3,5 xlO 9 1,1 xlO 1 2
Baker (1984) apresentou uma avaliação do assunto
em outra perspectiva, usando a terminologia "máximo valor
genotípico esperado" para caracterizar o máximo valor que
será observado em 50% das amostras de dado tamanho. Ele
concluiu que populações F2 de 500 a 1.000 indivíduos são
adequadas para os programas de melhoramento com
objetivos no curto prazo.
220 Borém e Miranda
Rasmusson (1991) recomendou o uso de populações F2
com 200 indivíduos para os cruzamentos convergentes, isto é,
uma situação em que a distância genética entre os genitores
é relativamente pequena, como acontece em cruzamentos
para obtenção de cultivares em programas de melhoramento
já consolidados.
Em virtude da importância da hibridação na liberação
da variabilidade genética, diversos métodos foram
desenvolvidos para condução das gerações segregantes.
Inicialmente, foram criados o método genealógico e o da
população. O primeiro baseou-se no comportamento das
progénies para julgar determinado genótipo, e o segundo
caracterizou-se inicialmente pela exploração dos efeitos
vantajosos da seleção natural, além do baixo custo e da
demanda de mão de obra. Em virtude das desvantagens ou
limitações dos métodos originais, várias modificações foram
introduzidas e outros métodos desenvolvidos, visando tornar
a condução das gerações segregantes mais simples e rápida.
Nos capítulos subsequentes serão apresentados e
discutidos os principais métodos de melhoramento que
envolvem a hibridação.
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Método da
População
método da população, também conhecido como
método bulk, foi inicialmente proposto por Nilsson-Ehle, em
1908, quando desenvolvia seus trabalhos no Instituto Svalõf, na
Suécia. Quatro anos mais tarde, Newman (1912 citado por
FLORELL , 1929), descreveu o recém-criado método em uma
reunião de melhoristas no Canadá. Em seu artigo, Florell
(1929) apresentou as principais vantagens do método da
população. Esse autor discutiu as bases teóricas para
determinar o número de gerações necessárias antes de se
iniciar a seleção de plantas. Outros melhoristas incorporaram o
método da população em seus programas de melhoramento de
espécies autógamas (HARLAN; MARTINi, 1937; MAC KEY ,
1962; QUALSET; VOGT, 1980).
O método da população tem sido utilizado no
melhoramento de plantas de forma limitada. Por exemplo,
em 1985 ele foi responsável pelo desenvolvimento de apenas
4% das linhagens de
soja nos Estados Unidos. Não existem
estatísticas do uso desse método no Brasil, porém estima-se
que sua utilização seja restrita. Com o feijão, ele é
relativamente mais utilizado.
224 Borém e Miranda
Descrição do método
O desenvolvimento do método da população inicia-se
com o cruzamento de dois genitores selecionados conforme o
objetivo do programa. As plantas F i são conduzidas de forma a
se obter grande número de sementes. Todas as sementes F2
colhidas nas plantas F i são agrupadas e utilizadas para a
obtenção da geração F2. A geração F2 deve ser conduzida na
região à qual o futuro cultivar se destina ou em condições
edafoclimáticas representativas daquelas onde o novo cultivar
será plantado. De igual forma, as práticas agrícolas também
devem ser representativas.
Por ocasião da maturação, as plantas F2 são colhidas em
conjunto (bulk) e uma amostra das sementes F3 é utilizada
para obtenção da geração F3, que é conduzida à semelhança da
F2 (Figura 16.1). Este procedimento é repetido até que o nível
de homozigose desejado seja obtido. O número de gerações
conduzidas em bulk depende do tipo de cruzamento, ou seja, do
grau de divergência genética entre os genitores e dos padrões
estabelecidos para lançamento de cultivares.
Para algumas espécies, exige-se alto grau de unifor-
midade e que as populações sejam conduzidas até as gerações
F7 ou F s . Em outras situações, a condução da população até F4
ou F5 pode ser satisfatória. Embora o método, conforme
inicialmente descrito, não preconize a eliminação de tipos
nitidamente inferiores, o melhorista pode, e deve, introduzir
essa modificação sempre que for conveniente (VAN DER
KLEY , 1955).
A geração subsequente à última colhida em bulk é
conduzida com o plantio mais espaçado entre as plantas. Nessa
geração, o melhorista inicia a seleção, identificando os tipos
desejáveis com base no fenótipo das plantas. Os indivíduos
selecionados são colhidos e trilhados separadamente. Cada
planta selecionada é plantada em uma fileira na geração
seguinte para teste de progénie. A semelhança das gerações
anteriores, esses indivíduos devem ser conduzidos em condições
Método da população 225
representativas daquelas em que o futuro cultivar será
plantado. As fileiras que se apresentarem promissoras e
uniformes para as principais características agronómicas são
colhidas em bulk e avaliadas no ensaio preliminar de linhagem
(EPL). Aquelas que ainda manifestarem segregação ou
desuniformidade podem ser objeto de seleção individual, se
promissoras, ou ser descartadas, se de pequeno mérito.
A x b
Selceionar plantas superiores
E P L
E I L , R F L , V C U
li
Lançamento de variedades
Figura 16.1 - Esquema do método da população.
226 Borém e Miranda
O EPL é o primeiro teste comparativo de produtividade.
Suas características variam de acordo com cada espécie e
programa de melhoramento. O Programa de Melhoramento de
Soja da UFV conduz o E P L em uma localidade, em
delineamento de blocos casualizados, com duas repetições. A
parcela é constituída de uma fileira de 6,0 m de comprimento,
com espaçamento de 1,0 m entre fileiras. Cada ensaio consiste
de dois cultivares-testemunha e 23 linhagens. Nesses ensaios
são avaliados: dias para a floração e maturação, cor da flor e da
pubescência, altura da primeira vagem, altura de planta,
hábito de crescimento, produtividade de grãos e resistência às
doenças. Após coleta dos dados e análise estatística, as
linhagens mais promissoras são selecionadas para uma
avaliação mais rigorosa no ensaio intermediário de avaliação de
linhagens (EIL) .
O E I L é conduzido em duas ou três localidades, em
delineamento de blocos casualizados, com três repetições. A
parcela é constituída de quatro fileiras de 5,0 m, com
espaçamento de 50 cm entre fileiras e densidade de plantio de
22 plantas por metro. Cada ensaio consiste de dois cultivares-
testemunha e 14 linhagens. As características avaliadas são
semelhantes às do ensaio EPL .
De forma análoga, procede-se à análise estatística e à
seleção das melhores linhagens para avaliação no ensaio final
de avaliação de linhagens (EFL) . O E F L é conduzido em cinco
ou mais localidades representativas da região à qual o futuro
cultivar se destina. O delineamento experimental, os detalhes
das parcelas e as características avaliadas são semelhantes aos
do E I L . Após a avaliação das linhagens em testes comparativos
de produtividade durante dois anos e estabelecimento do valor
de cultivo e uso (VCU), as linhagens superiores podem ser
registradas, protegidas e lançadas.
As atividades do melhorista não se encerram com o
lançamento de um cultivar. Compete a ele providenciar um
estoque de sementes genéticas para serem distribuídas aos
produtores de sementes básicas por ocasião do lançamento.
Estas werão comercializadas com os produtores de sementes
Método da população 227
certificadas que são utilizadas pelos agricultores por ocasião da
semeadura. O melhorista deve também manter um estoque da
semente genética dos cultivares enquanto for recomendado
para plantio. Também pode competir ao melhorista divulgar o
cultivar entre agricultores e extensionistas, por intermédio de
dias de campo, encontros técnicos e da literatura científica.
Decidido o lançamento de uma linhagem como novo
cultivar, o melhorista escolhe um nome e, ou, uma sigla para
sua identificação, devendo procurar nomes que tenham
significado para o agricultor e que sejam de fácil memorização.
Nomes compostos, complexos ou de difícil pronúncia devem ser
evitados, pois, embora as características mais importantes do
cultivar sejam as agronómicas, o nome pode ser fator decisivo
para a sua ampla aceitação no mercado.
Princípio do método da população
Este método procura tirar vantagem da seleção natural
para a identificação de tipos superiores. Portanto, baseia-se na
associação entre a capacidade de competição dos indivíduos e a
produtividade em uma população heterogénea. As gerações
segregantes conduzidas pelo método da população submetem os
seus integrantes a uma competição, em virtude da pressão da
seleção natural. A capacidade de competição dos indivíduos
relaciona-se com a habilidade de sobrevivência de cada
genótipo, e esta depende do número de descendentes que cada
indivíduo deixa para a geração seguinte. Indivíduos que
produzem maior número de sementes viáveis tendem a
contribuir de forma mais expressiva para a constituição da
próxima geração.
No método da população, a capacidade de sobrevivência
em competição deve estar correlacionada positivamente com a
adaptabilidade e produtividade. O melhorista deve escolher
criteriosamente o ambiente que maximiza essa correlação, ou
seja, aquele onde a seleção natural favoreça os indivíduos
desejáveis. Para as espécies cujo produto comercial são as
sementes, a capacidade de sobrevivência pode estar relacionada
228 Borém e Miranda
com a produtividade. Para aquelas cujo produto comercial é o
colmo, folhas, inflorescências, raízes ou frutos, a possibilidade
de haver correlação positiva é praticamente nula.
Harlan e Martini (1937), trabalhando com a competição
em misturas de cultivares, forneceram fortes subsídios para a
adoção do método da população. Uma mistura de 10 cultivares
de cevada foi avaliada durante 12 anos, em diversas
localidades. Esses autores concluíram que alguns cultivares
considerados mais competitivos dominaram os demais na
mistura e apresentaram maiores produtividades quando
avaliados separadamente (Figura 16.2).
-
—
—
—
— / / — / - r —
— /
—
— / —
— —- ...
—
— *—
--^
7
0 0 1 '•! S 4 5 <i 7 8 í) 10 1 L l i '.S 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24
Anos
^igura
16.2 - Efeito da seleção natural em uma mistura de
igual número de sementes de 10 cultivares de
cevada (HARLAN; MARTIN, 1937).
Método da população 229
Diversos outros estudos de misturas de cultivares foram
conduzidos a partir do trabalho de Harlan e Martini. Os
resultados relatados na literatura são de alguma forma
contraditórios (TAYLOR; ATKINS, 1954; SUNESON, 1956;
MUMAW; WEBER, 1957). Alguns autores encontraram forte
correlação entre a capacidade de sobrevivência ou agressividade
e a produtividade, enquanto os resultados de outros autores
indicaram falta de consistência nessa correlação.
Vantagens e desvantagens do método da população
Vantagens
• Economia de mão de obra na condução da população
segregante.
• Possibilidade de condução de grande número de
populações com maior facilidade.
• Aumento da proporção de indivíduos mais adaptados e
competitivos.
Desvantagens
• E inadequado para espécies cujo produto comercial não
são as sementes.
• Impossibilita o uso de casas de vegetação e a condução de
mais de uma geração por ano.
• Não permite o uso da população para estudos de
herdabilidade.
• Apresenta risco de perda de genótipos desejáveis com baixa
capacidade de competição, a exemplo do tipo semianão.
Modificações no método da população
Método Bulk dentro de progénies derivadas em F 2
Este método possibilita melhor amostragem da
população segregante nas gerações iniciais (Figura 16 .3) .
230 Borém e Miranda
Tem como princípio a colheita de plantas individuais nas
gerações F2 ou F3, em que cada planta dá origem a uma
progénie e as sementes provenientes de cada progénie são
colhidas em bulk (misturadas) e utilizadas para obtenção da
geração seguinte. O efeito da seleção natural ocorre apenas
dentro das progénies, sendo mantida a variação existente
entre as plantas F2. Este método foi inicialmente descrito por
Frey (1954), e várias modificações foram sugeridas
posteriormente. Na Universidade Federal de Lavras, onde é
bastante utilizado no melhoramento do feijoeiro, as
progénies são avaliadas em testes precoces de produtividade
com repetição, normalmente a partir da geração F2.3. Após os
vários ciclos de avaliação e por meio de uma análise
estatística conjunta, procede-se à seleção entre progénies,
especialmente as que apresentam melhor comportamento ao
longo das várias gerações.
O esquema básico relatado por Ramalho, Santos e
Zimmermann (1993) e por Ramalho, Abreu e Santos (2001) é
apresentado na Figura 16.3. A desvantagem desse método é
a necessidade de avaliação em todas as etapas. Contudo, a
seleção é realizada em função do desempenho após vários
ciclos seletivos, o que evidentemente é uma grande
vantagem. Diversos cultivares de feijão foram desenvolvidas
por essa metodologia.
Método de Harrington
Visando agrupar as vantagens do método da
população com o método genealógico, Harrington (1937)
propôs modificações na metodologia original: a população
segregante é conduzida pelo método da população até que
condições favoráveis permitam a expressão de caracteres
importantes quando se faz a seleção de plantas individuais
e, daí em diante, conduz-se o material pelo método
genealógico. Segundo esse autor, as condições favoráveis à
seleção correspondem à falta ou ao excesso de umidade e
Método da população 231
frio,^ incidência de doenças etc, permitindo que os
genótipos resistentes sobressaiam.
A x B
F 2 :
F 2 : ,
4:5
F&6, F4:7 e F4:
o -o
•0 .
Seleção dc plantas
superiores para constituir
as progénies
Testes de produtividade
com repetições
(Análise conjunta das
gerações)
Seleção de plantas
dentro de progénies
Avaliações da produtividade
Ri Rn Rm
Figura 16.3 - Esquema do bulk dentro de progénies derivadas
em F2.
232 Borém e Miranda
Segundo Harrington, este método apresenta as
seguintes vantagens em relação ao genealógico: i) é flexível
e o teste de progénies é empregado eficientemente quando
as condições ambientais são favoráveis à seleção; e ii)
permite avaliar maior quantidade de material.
Método de Empig e Fehr
Ao estudar diversos cruzamentos entre cultivares de
soja de diferentes grupos de maturação, Empig e Fehr (1971)
propuseram a condução do método da população por grupo de
maturação. Esse procedimento consiste em subdividir a
população segregante em grupos com épocas de maturação
diferentes, e cada subpopulação é conduzida pelo procedimento
original até a geração F5, de onde se extraem, aleatoriamente,
linhas para o ensaio EPL . Essa modificação visa eliminar a
competição entre indivíduos com ciclos diferentes e, portanto,
com diferentes habilidades de competição.
Método de Van der Kley
Van der Kley (1955) propôs o uso da seleção massal
negativa gradual, visando à eliminação de características
indesejáveis na população.
Nesse método é utilizada uma pequena pressão de
seleção na geração F2, a qual é elevada gradativamente até a
geração F4 ou F5. Segundo esse autor, este método faz com
que a probabilidade de sucesso durante a abertura de linhas
nas gerações avançadas seja aumentada.
Método de Jennings e Aquino
Jennings e Aquino (1968) verificaram que as plantas
de arroz mais altas e vigorosas são geralmente pouco
produtivas e as baixas, quando em condições de competição
com as altas, apresentam pequena produção de grãos em
virtude do sombreamento. Nessas condições, o método da
Método da população 233
população favorece os indivíduos de menor potencial
produtivo. Esses autores propuseram o desbaste antes do
florescimento e a eliminação de plantas altas antes da
maturação.
Método evolucionário
Em 1956, Suneson apresentou à comunidade
científica o método que o tornaria conhecido internacional-
mente e que lhe garantiria o prémio Crop Science Annual
Award, conferido pela Sociedade Americana de Agronomia,
publicando o artigo intitulado "Um método de melhoramento
de plantas evolucionário".
Esse método consiste em conduzir uma população
segregante, obtida pelo cruzamento de vários genitores
durante grande número de gerações, pelo método da
população. Em seu trabalho, Suneson incluiu 28 genitores de
cevada, com os quais obteve 378 híbridos. Igual número de
sementes de todos os cruzamentos foi agrupado, constituindo
um cruzamento composto, que foi conduzido por 12 a 29
gerações, dando oportunidade para que a seleção natural
eliminasse os indivíduos com baixa capacidade de
competição. Esse autor afirmou que, utilizando esse método,
foi possível encontrar genótipos que produzissem 56% a mais
do que o cultivar Atlas-46, considerado produtivo naquela
ocasião. Entretanto, o programa de melhoramento de cevada
da Universidade da Califórnia, em Davis, sob a liderança de
Suneson, jamais lançou os referidos genótipos como novos
cultivares. Gradativamente, os melhoristas perderam o
interesse por esse método, em virtude da falta de evidências
a respeito de sua eficiência e do longo tempo requerido para
a obtenção de cultivares.
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Método
Genealógico
o método genealógico, t ambém denominado método
pedigree, foi inicialmente proposto por Hjalman Nilsson.
Aproximadamente na mesma época, Louis de Vilmorin (citado
por A L LARD , 1971), usava a seleção individual de plantas com
teste de progénie, metodologia que deu origem ao método
genealógico convencional, que tem sido utilizado tanto no
melhoramento de espécies au tógamas quanto no de a lógamas.
Es te método foi o mais popular para o desenvolvi-
mento de linhagens de espécies a u t ógamas a t é meados da
década de 1970. mas, a part ir de então , ele vem sendo
subs t i tu ído . E m 1985, 18% das linhagens americanas de soja
foram desen-volvidas pelo método genealógico, sendo
superado apenas pelo método SSD .
O método genealógico baseia-se na seleção individual de
plantas na população segregante com a avaliação de cada
progénie separadamente. O méri to dos indivíduos selecionados
é avaliado pelo teste de progénie. Dessa forma, a seleção é
praticada com base no genótipo dos indivíduos, ao contrário da
seleção massal, que se baseia apenas no fenótipo das p h m t i i h
238 Borém e Miranda
selecionadas. A diferença entre esses dois métodos é evidente se
se considerar uma população de soja segregando para a
habilidade de nodulação. Indivíduos com genótipos RjlRjl ou
Rjlrjl apresentam nodulação normal, enquanto os com
genótipos rjlrjl não mostram capacidade de nodulação. Se
indivíduos não nodulantes (rjlrjl) são eliminados em uma
população F2 pela seleção massal negativa, plantas não-
nodulantes ainda aparecerão nas gerações seguintes. Se
progénies F.s são testadas, podem-se eliminar
os indivíduos
segregantes da população.
Descrição do método
A primeira descr ição completa e detalhada do método
genealógico foi apresentada por Love (1927), que o priorizou
nos vár ios programas de melhoramento que coordenava na
Universidade de Cornell. Conforme descreveu esse autor, a
geração F2 deve ser conduzida em condições representativas
de cultivo, utilizando, porém, um espaçamen to ligeiramente
maior, para possibilitar a aval iação individual de plantas. A s
plantas fenotipicamente superiores são selecionadas e
colhidas separadamente (Figura 17.1). Cada planta F2
selecionada é conduzida em uma fileira na geração F3 . As
l inhas F2:3 são avaliadas durante o ciclo da espécie e aquelas
consideradas superiores, submetidas à seleção individual de
plantas por ocasião da ma tu r ação . Cada planta F3
selecionada é conduzida em uma fileira na geração F4 e, à
s eme lhança do procedimento na geração anterior, as l inhas
F:i:4 consideradas superiores são submetidas à seleção
individual. Esse procedimento de seleção das melhores
linhas e, dentro destas, das melhores plantas é repetido nas
gerações seguintes a t é que o nível de homozigose desejado
seja obtido. Cada geração deve ser conduzida em região e
época de plantio representativas do ambiente onde se
p l an t a r á o novo cultivar.
Método genealógico 239
5-6
8 - 10
A x B
I
T
. y . j . \o de plantas superiores
7 / V \
Avaliação de progénies
Avaliação de progénies
Avaliação de progénies
Ri R I I
E PL
E I L , E F L , VCU
Ri R I I R U I
Lançamen to de cultivares
F igura 17.1 - Esquema do método genealógico.
240 Borém e Miranda
A geração F.i é a primeira após a h ibr idação em que
l inhas começam a ser obtidas. Ass im, a seleção a part ir de F3
baseia-se na aval iação da progénie dos indivíduos F2 e em
plantas individuais.
Na geração F4, o nível de homozigose médio atinge
87,5% e grande núme ro de progénies expressa uniformidade
de diversos caracteres morfológicos. A seleção na geração F4 e
nas subsequentes deve ser baseada principalmente no
comportamento das progénies em vez de se fundamentar na
aval iação individual de plantas, visto que a seleção dentro
das linhas é pouco eficiente.
As l inhas promissoras e uniformes devem ser colhidas
em massa e destinadas ao ensaio preliminar de
produtividade ( E P L ) . As linhagens promissoras com
inacei tável grau de segregação devem ser submetidas
novamente à seleção individual de plantas, com aval iação de
progénie na geração seguinte, ou descartadas.
Os ensaios preliminares de produtividade ( E P L ) ,
ensaios in t e rmed iá r ios de aval iação de linhagens ( E I L ) ,
ensaios finais de aval iação de linhagens ( E F L ) e
estabelecimento do V C U , apresentados na F igura 17.1, são
conduzidos da forma descrita para o método de população.
Princípio do método genealógico
O princípio deste método é que a seleção com teste de
progén ie e o conhecimento da genealogia dos tipos
selecionados permitem a max imização da eficiência da
seleção. Por exemplo, após as linhagens atingirem elevado
grau de homozigose, aquelas que apresentam ancestral
comum a uma ou duas gerações anteriores devem ser
consideradas geneticamente semelhantes e apenas uma
delas deve ser preservada para aval iações futuras.
Uma das principais ca rac te r í s t i cas deste método é o
registro da genealogia de cada l inha, que permite estabelecer
Método genealógico 241
o grau de parentesco entre as l inhas selecionadas. O registro
inicia-se com a nume r a ç ão de cada planta F2 selecionada.
Cada seleção individual dentro de uma progénie F2:3 recebe
um núme r o que é adicionado à des ignação daquela progénie .
Esse procedimento é repetido durante as gerações seguintes
a t é a geração anterior à do E P L (Figura 17.1).
Nomenclatura da genea logia
No exemplo apresentado na F igura 17.2, o
cruzamento Inox x Pr imavera-1 foi denominado VX1028,
indicando que esse foi o 1028° cruzamento de soja realizado
em Viçosa, na obtenção de cultivares. A geração F i recebeu
idênt ica denominação , VX1028, uma vez que ela não foi
submetida à seleção. Se 100 plantas F2 tivessem sido
selecionadas, elas receberiam as designações VX1028-1 ,
VX1028-2, VX1028-100. Supondo que duas plantas sejam
selecionadas dentro da progénie VX1028-3, elas seriam
chamadas de VX1028-3-1 e VX1028-3-2, e assim
sucessivamente.
Outros sistemas de nomenclatura t êm sido adotados
em diferentes programas de melhoramento. Sem a adoção de
um sistema lógico, a condução de dado programa se rá
grandemente dificultada, podendo contribuir para o
surgimento de erros grosseiros.
Seleção durante as gerações segregantes
As seleções praticadas durante as gerações
segregantes são baseadas no fenótipo e genót ipo dos
indivíduos , o que confere a este método alta eficiência para a
seleção de caracteres mono ou oligogênicos.
O método genealógico foi adotado pela maioria dos
programas de melhoramento de leguminosas e cereais
au tógamos . Recentemente, este método vem sendo
subs t i tu ído por outros que permitem maior rapidez, na
242 Borém e Miranda
obtenção de cultivares. E le t amb ém se aplica às espécies
a lógamas , sendo inclusive o mais popular para obtenção de
linhagens endogâmicas de milho atualmente.
Genealogia
Inox x Pr imavera
i
Designação
(VX1028)
(VX1028)
(VX1028)
(VX1028-3)
i: (VX1028-3-1)
*• (VX1028-3-2)
(VX1028-3-2-1)
Figura 17.2 - Exemplo de sistema de nomenclatura da genealo-
gia no método genealógico (ver Figura 17.1).
Método genealógico 243
Este método permite ao melhorista exercitar sua
habilidade de seleção em grau mais elevado do que seria
possível em qualquer dos demais métodos de melhoramento
usados em espécies au t ógamas , sendo por isso mesmo
excelente al ternativa para jovens melhoristas.
Var iabi l idade genética
A variabilidade genét ica na população segregante
modifica-se com as gerações de autofecundação. A va r i ânc i a
genét ica aditiva em uma população sem seleção aumenta
entre linhas, sendo, contudo, reduzida dentro das l inhas
(Tabela 17.1).
A va r i ânc ia genét ica aditiva, em termos relativos,
entre plantas F2 e entre l inhas F2:3 é igual à unidade. E s s a
va r i ânc ia entre l inhas é maior que a va r i ânc ia genét ica
aditiva dentro das l inhas, conforme mostrado na Tabela 17.1.
Quanto maior a variabilidade genét ica , maior é o progresso
com a seleção e, por isso, deve-se aval iar e selecionar grande
n úme r o de plantas F2.
Tabela 17.1 - Var iânc ia genét ica re la t iva entre e dentro de
l inhas em uma população conduzida sem
seleção
Variância Genética
Geração Aditiva Dominância
Entre Dentro Entre Dentro
F 2 : 3 1 1/2 1/4 1/2
F3:4 3/2 1/4 3/16 1/4
F 4:5 7/4 1/8 7/64 1/8
F 5:6 15/8 1/16 15/256 1/16
F6:7 31/16 1/32 31/1024 1/32
F«, 2 0 0 0
244 Borém e Miranda
A seleção entre fileiras é mais eficiente do que dentro,
onde a variabilidade genét ica é menor. Com o avanço das
gerações, a variabilidade genét ica aditiva é gradativamente
exaurida dentro das l inhas e a seleção dentro destas torna-se
mais ineficiente. Uma das principais razões para o registro
da genealogia das seleções no método genealógico é permitir
ao melhorista a maximização da diversidade entre as l inhas
selecionadas. A seleção dentro de fileiras é just if icável
somente nas primeiras gerações de autofecundação, quando
a variabilidade genét ica é ainda razoável .
O n úme r o de gerações de au to fecundação a ser
conduzido pelo método genealógico va i depender do nível da
uniformidade gené t ica desejada e da diversidade dos
genitores utilizados. E m cruzamentos convergentes (narrow
crosses) e s i tuações em que pequena desuniformidade não
inviabi l iza o l a n ç amen t o de um cultivar, a condução do
método genealógico a t é F4 pode ser sa t i s fa tór ia . E m outros
casos, pode ser nece s sá r i a a condução desse método a t é Fs
ou gerações posteriores, antes de se iniciarem os testes
comparativos de produtividade.
Pa r a o treinamento dos melhoristas, o mé todo
genealógico é bastante prá t ico , pois dá a eles a
oportunidade de selecionar plantas individuais e l inhas .
Àque les que se inic iam nessa atividade o método permite o
desenvolvimento da habilidade para selecionar tipos
superiores.
O método genealógico p revê a seleção e a tr i lhagem
de plantas separadamente e o cultivo destas em fileiras
individuais. Além desse procedimento, o melhorista deve
fazer um registro genealógico das principais ca r ac t e r í s t i c a s
ag ronómicas de cada seleção. O mér i t o das l inhas e das
plantas individuais é estabelecido com base em aval iações
visuais . Portanto, o melhorista precisa conhecer
profundamente a cul tura e ter em mente o tipo ideal de
cultivar, ou seja, o ideót ipo. Esse método demanda grande
dedicação do melhorista e acompanhamento direto das
Método genealógico 245
atividades de campo, o que pode ser considerado uma
l imi t ação na p rá t i ca .
O uso de técnicas especiais, na maioria das vezes,
facilita a seleção de tipos desejáveis. Por exemplo, para a
seleção de indivíduos resistentes a um patógeno, pode-se
inocular artificialmente a população e, com criatividade, ainda
estabelecer outras técnicas que facilitem a identificação de tipos
superiores.
Característ icas se lec ionadas
A maioria das definições de melhoramento inclui os
termos "ciência e arte*'. A avaliação visual e a seleção com base
na inspeção de indivíduos estão mais associadas à "arte" do que
à "ciência" do melhoramento. Diversos autores usam o termo
"olho clínico" para caracterizar a habilidade do melhorista na
avaliação fenotípica.
Na geração F2, o nível de heterozigose ainda é alto, e
muitos indivíduos expressam vigor híbr ido. E s t a
mani fes tação de vigor h íbr ido ou heterose pode induzir à
seleção de tipos mais heterozigóticos, o que constitui um
problema.
Durante as primeiras gerações de segregação, devem-
se selecionar, principalmente, indivíduos com base nos
caracteres mono ou oligogênicos. Com o avanço das gerações,
a ênfase pode ser dada às ca rac te r í s t i cas um pouco mais
complexas. Produtividade, entretanto, deve ser avaliada
somente a part ir da geração em que as linhagens
expressarem uniformidade genét ica . Uma prá t i ca út i l é
colocar fileiras de cultivares-testemunha entre as progénies
em aval iação. Com base nesses cultivares-testemunha, o
melhorista pode conferir um índice fenotípico, que reflete o
mér i to geral de cada progénie . Na composição desse índice,
podem-se incluir res i s tênc ia ao acamamento, al tura de
plantas, res i s tênc ia a doenças , ciclo e arquitetura díis
plantas etc. A adoção desse índice permite que o melhorista
246 Borém e Miranda
tenha em mente o cult ivar ideal, facilitando a seleção de
tipos desejáveis .
Conforme relatou Allard (1971), é necessário rigor no
processo de seleção. Precisa-se afastar a hipótese de que, entre as
plantas eliminadas, poderia estar aquela que conduziria ao novo
cult ivar ou em pouco tempo haveria sobrecarga de linhagens
não eliminadas, comprometendo a eficiência do programa.
Vantagens e desvantagens do método genealógico
Vantagens
• permite o controle do grau de parentesco entre as seleções;
• permite o descarte de i n d i v í d uo s infer iores em
ge r a çõe s precoces;
• permite a ut i l ização de dados obtidos para estudos
genéticos; e
• possibi l i ta o t re inamento de jovens melhor i s tas .
Desvantagens
• só permite a condução de uma ún i ca geração por ano,
tornando o método moroso;
• exige elevada demanda de mão de obra e campo expe-
rimental; e
• requer pessoal qualificado para selecionar tipos dese-
jáve is .
Modificações no método genealógico
Diversas modificações neste método t êm sido
propostas por vár ios melhoristas, visando contornar suas
l imitações, conforme descrito a seguir.
Método genealógico 247
Método Bulk dentro de progénies
Akerman e Mackey (1948) propuseram modificações
no método genealógico visando minimizar a inf luência do
vigor h íbr ido durante a seleção. Conforme procedimento
proposto, plantas com carac te r í s t i cas fenotípicas desejáveis
são selecionadas na geração F2. As progénies de cada planta
F2 selecionada são cultivadas em fileiras individuais na
geração F 3 . Todas as fileiras são colhidas, separadamente,
em massa, para plantio da geração F 4 . Novamente, todas as
fileiras são colhidas em massa, sem seleção, e destinadas ao
ensaio preliminar de produtividade ( E P L ) . Os testes
comparativos de produtividade são repetidos nas gerações FG,
sem qualquer seleção.
Como a seleção de plantas individuais é realizada
somente na geração F2, as linhagens na geração Fe
apresentam elevado grau de homozigose, porém com al ta
heterogenia.
Após a seleção das melhores linhagens Fe, com base nos
testes comparativos de produtividade, inicia-se a seleção de
plantas individuais. Os indivíduos selecionados são
novamente submetidos a testes comparativos de
produtividade, quando, então, se decide sobre o lançamento de
um novo cult ivar (Figura 17.3).
O princípio dessa modificação introduzida por Akerman
e Mackey es tá na suposição de que as gerações de
autofecundação dissipam a var iância genética devido à
dominância, que tende a confundir a seleção em gerações
precoces. Uma das sérias desvantagens dessa modificação é a
avaliação de linhagens geneticamente heterogéneas em ensaios
comparativos de produtividade. Outra l imitação es tá no
elevado número de indivíduos que devem constituir cada l inha
a partir da geração F 3 , visando à preservação da variabilidade
genética dentro das linhas. O melhorista que optar por este
método deve considerar essa limitação e suas vantagens.
248 Borém e Miranda
A x B I
Seleção de plantas
superiores
ã
E P L
E I L
E F L
R i R I I R U I
Figura 17..'i - Método genealógico modificado por Akerman e
Mackey.
Método genealógico 249
Método da se leção gamética
0 método de melhoramento seleção gamét ica foi
inicialmente teorizado por Stadler (1944), quando trabalhava
com uma espécie a lógama, o milho. Hal lauer (1970) avaliou a
seleção zigótica para obtenção de h íbr idos em milho e
concluiu que este método pode ser utilizado com sucesso no
melhoramento dessa g ramínea .
E m 1994, Singh descreveu o método da seleção
gamét ica para o melhoramento de ca rac te r í s t i cas mú l t i p l a s
em feijão. O método baseia-se nas seguintes premissas: i) os
cruzamentos complexos ou múl t ip los são necessár ios para o
melhoramento de carac te r í s t i cas múl t ip las ; i i ) o genitor
masculino do ú l t imo cruzamento é heterozigótico, heteroga-
mético e he te rogéneo; e i i i ) o teste de geração precoce é
essencial para a seleção de ca rac te r í s t i cas múl t ip l a s .
Cruzamentos múl t ip los são frequentemente
necessár ios quando dois genitores potenciais não r e ú n em
todas as ca rac te r í s t i cas desejáveis de novo cultivar. Nesses
casos, os cruzamentos múl t ip los envolvendo vár ios genitores
são essenciais para se combinarem os caracteres desejáveis
em uma única população.
Para melhor explicar esse método, será utilizado um
exemplo envolvendo o seguinte cruzamento entre cinco
genitores: EMP250///Carioca/A429//FEB200/XANT159. Os
genitores para esse cruzamento foram selecionados com o
objetivo
de desenvolver um cultivar de feijão com as
característ icas: grão tipo carioca; resistência à mancha-angular,
à antracnose, à ferrugem, à bacteriose-comum, ao mosaico-
dourado e à cigarrinha-verde; ciclo precoce; porte ereto; e alta
produtividade. EMP250 é uma linhagem melhorada, com grãos
do tipo carioca resistentes à cigarrinha-verde, de porte ereto e
que pertence à raça M . O cultivar Carioca é agronomicamente
superior e apresenta tolerância à baixa fertilidade dos solos. A
linhagem A429 é resistente ao mosaico-dourado e pertence à
250 Barém e Miranda
raça D. Pertencente à raça M, a linhagem FEB200 apresenta
grãos do tipo carioca, hábi to de crescimento do tipo I I , porte
ereto e resis tência múlt ipla à antracnose, mancha-angular e
ferrugem. A linhagem XANT159, da raça N , é resistente à
bacteriose-comum, tem hábito de crescimento do tipo I e porte
ereto. Esses genitores apresentam genes de interesse, que, se
agregados em um único indivíduo, podem resultar no cultivar-
objeto do cruzamento realizado.
Descrição do método
A se leção g amé t i c a inicia-se com a def inição do
cruzamento f ina l a ser realizado. O primeiro passo é a
ob t enção dos cruzamentos simples. No exemplo tomado, os
genitores Carioca e A429 e F EB 2 0 0 e XANT159 são
cruzados. Ob têm-se sementes F i de ambos os cruzamentos,
que são plantadas para ob t enção das plantas F i , que são
cruzadas em pares pa ra se conseguirem cruzamentos
duplos. Cada planta o r i g i ná r i a dos cruzamentos duplos é
cruzada com uma outra do genitor feminino EMP250 ,
constituindo a popu l ação F i f inal . A s sementes F i do
cruzamento f inal são semeadas em parcelas con s t i t u í d a s
de covas e s p a ç ada s (hill plots) e submetidas à se leção para
caracteres dominantes e co-dominantes favoráve i s .
A s plantas F i selecionadas são colhidas indiv idual -
mente para con s t i t u í r em as progénies Fi:2 (progénies F2
derivadas de F i ) . A s progénies F12 são aval iadas em
ensaios com repe t i ções , em dois ambientes contrastantes,
agrupando, ao acaso, quatro progénies Fi:2 por parcela.
Cada parcela é con s t i t u í d a por quatro progénies Fi:2
diferentes, po r ém da mesma popu lação . Cada f i le i ra F12 de
cada parcela é colhida individualmente em bulk, e a
p rodução de g rãos das quatro fi leiras da parcela é
u t i l izada para est imar a sua méd i a . Identificam-se as
popu lações ou cruzamentos superiores com base na
Método genealógico 251
ava l i ação de produtividade de grãos e outras
c a r a c t e r í s t i c a s , descartando-se as inferiores. A intensidade
da se leção entre popu lações é va r i áve l e, em geral, 30 a
50% destas podem ser descartadas. A s progénies F i :3 das
popu lações superiores são aval iadas nesta ge r ação em
ensaios replicados para ident i f icação de progénies
superiores. Cada parcela é con s t i t u í d a por uma ún i ca
progénie F i :3 . A s parcelas são colhidas em bulk para
c on s t i t u í r em as progénies Fi:4. Selecionam-se as progénies
Fi:4 superiores com base em produtividade de g r ãos e em
outras c a r a c t e r í s t i c a s ag ronómica s . Plantam-se, de forma
e spaçada , as p rogén i e s Fi:õ selecionadas e seleciona-se o
maior n úme r o de plantas F I :Õ individualmente. Es se
procedimento objetiva explorar a variabi l idade gené t i ca
dentro de cada progénie . Nessa ge ração , as progénies F15
são altamente homozigó t icas e h e t e r o g én e a s . Descartam-se
ind iv íduos com caracteres morfológicos indese jáve i s , como
tipo comercial de grãos , h áb i t o de crescimento, ciclo etc.
Na ge r ação Fe, faz-se o teste de p rogén ie com as plantas
selecionadas na ge ração F5. Descartam-se as p rogén i e s Fs:6
inferiores e as segregantes. A ge ração F 7 é u t i l izada pa ra
ava l i a ção das p rogén ie s Fa:? selecionadas e para
mu l t i p l i c ação das sementes. As gerações subsequentes são
empregadas na ava l i ação de produtividade e a d a p t a ç ã o
das l inhagens selecionadas antes do l a n ç amen t o de algum
genó t ipo superior.
No esquema apresentado na Figura 17.4 são utilizadas
algumas informações numér icas apenas para facilitar o
entendimento da metodologia. Obviamente, tamanho das popu-
lações, parcelas, intensidade de seleção, delineamentos
estatísticos e número de repetições variaram de acordo com a
espécie e com as condições existentes.
252 Borém e Miranda
Geração
Progenitores
Esquema Procedimento
(Carioca x A429) (FEB200 x XANT159)
x
x
X
1
EMP250 x o
EMP250 x o
EMP250 x o
i
INI
1
o Obtenção de
o cruzamentos
o duplos
Obtenção de
cruzamentos finais
Plantio espaçado
Seleção
Sei. de populações
Ensaio de rendimento
Plantio espaçado das F1:S
I I Teste de progénie F5.6
III Avaliação e multiplicação
Ensaios de rendimento
Figura 17.4 - Método da seleção gamética em progénies
derivadas da geração F i , utilizando-se como
exemplo o cruzamento EMP250///Carioca/
A-189//FEB200/ XANT159.
Método genealógico 253
Procedimento alternativo
Na geração Fi:2 selecionam-se visualmente as
melhores populações ou os melhores cruzamentos e, dentro
destes, as melhores progénies , das quais são escolhidas 5 a
10 plantas superiores, que são colhidas em bulk e utilizadas
para cons t i tu í r em as progénies FIA, plantadas em fileiras
individuais. Na geração Fi :a selecionam-se t amb ém as
melhores progénies , que são colhidas em bulk, gerando
sementes suficientes para uma aval iação de produtividade,
com repet ições na geração F4. Nesta geração selecionam-se as
progénies superiores e, dentro destas, colhem-se plantas
individuais. As plantas colhidas individualmente, Fi:5, são
submetidas a um teste de progénie na geração Fe. As fileiras
FÕ:6 uniformes e superiores são colhidas em bulk. A geração F 7 é
utilizada para multiplicação de sementes em um viveiro de
observação. As progénies Fss são avaliadas em um teste de
produtividade. Na geração Fg e Fsao as progénies selecionadas
são reavaliadas e as superiores, lançadas como novos
cultivares.
Método genealógico modificado por Lupton e Whitehouse
Lupton e Whitehouse (1957) descreveram uma sér ie
de esquemas de melhoramento, em que são selecionados
aproximadamente 10% de plantas fenotipicamente
superiores em uma população de 2.000 a 3.000 indivíduos .
Cada indivíduo selecionado é plantado em uma fileira,
separadamente, na geração F 3 . As melhores progénies F 3 são
selecionadas e, dentro delas, as melhores plantas. A s plantas
selecionadas são conduzidas em fileiras, na geração F4. Uma
fileira F4, ou duas, de cada progénie promissora continua a
ser submetida à seleção individual de plantas (Figura 17.5).
As demais fileiras das progénies promissoras são
colhidas em massa para condução do ensaio E P L .
254 Borém e Miranda
A x B
1
| (8)
F
r 2 i j
1 I 1
f 3 - 4
Figura 17.5 - Método genealógico modificado por Lupton e
Whitehouse.
Método genealógico modificado por Valentine
Valentine (1984) propôs o método genealógico acelerado,
visando implementar a rapidez no avanço de geração desse
método.
A modificação proposta é baseada na premissa de que a
seleção para produtividade com base em uma única planta F2
é ineficiente. Valentine recomendou que o cruzamento entre os
genitores fosse realizado em casa de vegetação, durante a época
convencional. As gerações F i e F2 t ambém são conduzidas em
casa de vegetação durante a entressafra, de forma que as
sementes F,i estejam disponíveis para plantio no campo, na
é pí x:i \n vencional. Progénies F 3 são conduzidas
separadamente e avaliadas quanto à produtividade de grãos,
255
sendo as superiores submetidas aos
ensaios comparativos de
produtividades convencionais.
Considerações finais
I númera s outras modificações do método genealógico
foram publicadas na literatura especializada. Estima-se que
um número ainda maior de variações tenha sido desenvolvido
por melhoristas que utilizavam originalmente esse método.
O melhorista deve estar sempre disposto a aval iar
possibilidades de modificar as metodologias utilizadas,
visando to rná - l a s mais adequadas a sua s i tuação .
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Método
Descendente de
A
Uma Única
Semente
o mé todo descendente de uma ún ica semente é
mais conhecido como SSD (do inglês single seed descent)
entre os melhoristas no B r a s i l e, por essa razão, esta se rá a
terminologia uti l izada neste livro.
A primeira referência ao princípio deste método data
de 1939, quando Goulden propôs a maximização do núme r o
de linhagens em homozigose descendentes de diferentes
indiv íduos da geração F2. Es te procedimento garante que
cada linhagem homozigót ica na população final corresponda
a uma planta F2, o que, entretanto, não significa que todas
as plantas F2 e s t a r ão representadas na população final. De
fato, o tamanho da população é reduzido a cada geração, em
virtude da incapacidade de ge rminação das sementes e de
algumas plantas não completarem o ciclo.
E m 1961, Kaufmann propôs o "método a leatór io" para
melhoramento de aveia, utilizando os mesmos princípioH
258 Borêm e Miranda
empregados por Goulden (1939). Esse autor sugeriu que os
avanços de geração a part ir da F2 fossem realizados de forma
a lea tór ia , separando esta fase da etapa de seleção.
Embora os pr incípios do método SSD tenham sido
originalmente reportados na l i teratura por Goulden (1939), o
seu desenvolvimento é frequentemente creditado a B r im
(1966).
Segundo Charles B r im , o método consiste em avança r
as gerações segregantes a t é um nível sa t is fa tór io de
homozigose, tomando uma ún ica semente de cada indiv íduo
de uma geração para estabelecer a geração subsequente.
B r im sugeriu a semeadura de duas ou t r ê s sementes de cada
planta F2 em covas individuais para assegurar a
ge rminação . Após a emergênc ia , uma ún ica planta é
preservada e as demais são desbastadas. T a l procedimento é
repetido nas gerações seguintes a t é que o nível de
homozigose desejado seja obtido. Dessa forma, cada
linhagem corresponde a um genitor F2 diferente.
Após a clara descrição feita por B r im (1966) e com o
crescente interesse por métodos de melhoramento que
permitem ráp ido desenvolvimento de linhagens
homozigót icas , o SSD foi, gradativamente, substituindo
outros métodos . Hu rd (1977) reportou que, antes do décimo
an iversá r io da publ icação do artigo de B r im (1966), o SSD j á
havia conquistado mais de um terço dos melhoristas de
cevada no Canadá . Conforme relatou Fehr (1987), 65% das
l inhas puras de soja desenvolvidas pelos melhoristas nos
Estados Unidos, em 1985, foram obtidas pelo SSD , indicando
a grande preferência por este método.
A principal ca rac te r í s t i ca do SSD é a r edução do
tempo requerido para obtenção de linhagens homozigót icas .
Considerando que neste método os processos de aval iação e
seleção de genótipos só se in ic iam após a obtenção das
linhagens em homozigose, podem-se conduzir tantas
Método descendente de uma única semente 259
gerações , por ano, quantas se desejarem. A condução de mais
de uma geração por ano não é viável com os métodos
genealógico e da população, uma vez que a seleção precisa
ser realizada em condições representativas e, em geral, estas
só ocorrem uma ún ica vez por ano.
Como apenas uma única semente por planta é utilizada
para constituir a geração seguinte, eliminando a seleção
natural, os indivíduos podem ser conduzidos em casa de
vegetação ou em ambientes marginais para cultivo da espécie.
A man ipu l ação das condições de ambiente, visando à
r edução do ciclo das plantas, tem sido p rá t i ca comum entre
aqueles que ut i l izam este método. Pa r a as espécies fotos-
sensíveis como a soja, a condução das populações em regiões
de baixa latitude ou em casa de vegetação, com longa
du ração do per íodo escuro, resulta na aceleração do ciclo das
plantas. Condições nutricionais pobres t amb ém contribuem
para a r edução do ciclo ( GRAF IU S , 1965). A l t a densidade de
plantio é uti l izada com o mesmo propósi to .
Diversos autores estudaram os efeitos do SSD nas
ca rac te r í s t i cas das linhagens obtidas. Snape e Riggs (1975)
examinaram as consequênc ias do S SD sobre caracteres
quantitativos, v i a s imulação em computador. Uma das
principais conclusões deste estudo é que, na ausênc ia de
dominânc ia