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pdfcookie com_agricultura-e-florestaspdf

Livro sobre a interação entre agricultura e florestas e princípios de agroecologia e sistemas agroflorestais. Inclui biografia do autor, relatos de trabalho com AS‑PTA e EMATER‑RS, experiência com Ernst Gotsch e métodos de formação em agroflorestas.

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The John D. and Gatheríne T 
Mac ArLhur Foundation 
DED -- Deutscher EnwicMungsdlenst 
Jorge Vivan 
AS-PTA II ASSESSORIA E 
SERVIGOS A PROJETOS EM 
AGRICULTURA ALTERNATIVA 
LI E EDITORA AGROPEC 
1998 
CATALOGAÇÃO NA PUBLIGAÇÃO 
Ficha de calalogaç'o elaborada por Inês Maria de Gasperin 
CRB 1 10-733 
V855a Vivan, Jorge Luiz 
Agricultura e Florestas : princípios de uma 
interação vital I Jorge Luiz Vivan. - Guaíba : 
Agropecuária, 1998. 
ISBN 85-85347-23-6 
1. Agricultura - Florestas - Interação. I. t. 
CDU 631.630 
Capa: S. Miguel. 
Projeto gráfico: PF Propaganda Ltda. 
Impressão e acabamento: Metrópole Indústria Gráfica Ltda. 
Ilustrações: Jorge Luiz Vivan 
AS-PTA - ASSmSORIA E SERVIÇOS A 
PROJETOS EM AGRICULTURA ALTERNATIVA 
Rua da Candelária, 9 - 6 O andar - Centro 
Fone: (021) 2538317 - Fax: (021) 2338363 
E-rnail: aspta@ax.apc.org 
20091-020 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil 
Todos os direitos reservados de acordo 
com a legislação em vigor. 
Copyright by 
LIVRARIA E EDITORA AGROPECUARIA LTDA. 
Rua Bento Gonçalves, 236 - Cx. Postal 66 
Fone: (051) 4803030 - Fax: (051) 4803309 
E-rnail: edipecaplug-in.com. br 
92500-000 - Guaíba-RS - Brasil 
Agradecimentos 
A Jean Marc e à AS-PTA pela 
confiança durante todos estes anos, 
e a todos que me estimularam e aju- 
daram a tecer as idéias e os fatos que 
estão neste livro. 
Dedico este livro a meu pai, pelas 
aulas de geografia pelas estradas do Brasil, 
à minha mue pela sensibilidade para 
entendes as coisas, e a meu avo Germano 
por cada dia mmavilhoso da m i d a hfância 
que passamos Juntos em meio às arvores. 
In memorim à Ida Marconm Mvm. 
0 Autor 
Jorge Luiz Vlvan é engenheiro agronomo formado pela 
Universidade Federal de Pelotas, em 1983. Trabalhou no antigo 
projeto Tecnologias AlternativaslFASE-ES de 1986 a 1989 na 
sistematização, avaliação e difùsão de tecnologias alternativas no 
Estado do Espírito Santo. 
Após uma breve passagem pelos sistemas agroflorestais de 
Ernst Gotsch em Piraí do Norte, BA, assumiu em 1990 como 
extensionista da EMATER-RS, no município de Ipê, RS, onde 
ajudou a consolidar e expandir o trabalho em agricultura ecológica 
iniciado pelo Centro Ecológico - Ipê e que se tornou uma das 
referências nacionais em agroecologia. 
Em 1994, a convite do AS-PTA Nacional e sob licença da 
EMATER-RS coordenou a implantação do Centro de Fomação 
em Agroflorestas - Jatobá, trabalhando associado ao idealizador 
dos sistemas agroflorestais regenerativos análogos, sn: Emst Gotsch. 
Retornando em 1996 à EMATER-RS, assumiu como 
Assistente Técnico Regional no Escritório Regional da Serra, com 
sede em Caxias do Sul, RS, numa área que abrange 42 municípios, 
onde assumiu a coordenação de programas de recuperação 
arnbiental (Pró-Guaíba), e desenvolveu e aplicou conteúdos e 
métodos para capacitação em educação ambienta1 e agroecologia. 
Atualmente cursa o Mestrado em Agroecossistemas da WSC, 
Florianópolls, SC, onde desenvolve metodologias de formação à 
distância de mediadores técnicos voltados para diagnóstico, 
desenho, implantação e avaliação de sistemas agroflorestais 
regenerativos, baseado em métodos participativos e de formação 
de conhecimento em rede. 
k Editora 
Durante o Segundo Encontro Brasileiro de Agricultura 
Alternativa realizado em Petrópo%ls, em maio de 1985, assisti uma 
conferência de Ernst Gotsch, agricultor suíço radicado no sul da 
Bahia, nos limites da zona cacaueira da Mata Atlântica A 
experiência de manejo florestal apresentada por Ernst era, de longe, 
a mais completa em termos de aplica$" dos critérios e princípios 
de agroecologla mas alguns Mores fizeram com que fosse pouco 
valorizada, por mim e por outros, naquele momento 
Em primeiro lugar, Ernst estava lidando com uma grande 
propriedade (500 hectares) de um capitalista suíço (sbcio de Ernst) 
e enipregando mk-de-obra assdarlada Estas caracternstlcas fugiam 
de tal maneira ao perfil do trabalho da AS-PTA que germam uma 
reação automática de desconfiança quanto à adequação da proposta 
para o nosso publico, os pequenos produtores agricolas 
Em segundo lugar, o sistema de manejo florestal agre- 
sentado por E r n s h r a muito complexo e, para nossa limitada 
compreens5so e experiência naquela época, nos parecia de dificll 
ap%icagão de forma generalizada pelos pequenos produtores 
Foram precisos vários anos, muito aciíamulo de experiência 
e muita insistência por parte do Mlaus Nowotny, técnico do DE@ 
(cooperação alemã) trabalhando com uma entidade da Rede PTA 
no Espírito Santo, a MTA, para que eu decidisse fazer uma visita 
a propriedade de Ernst em Pirai do Node O Impacto deste contato 
direto foi decisivo para perceber que estava diante de conceitos e 
práticas revolucionárias em termos de agroecologla e que 
transcendiairi os limites do ecosslstema onde tinham sido aplicadas 
Com uma precisão e rigor decididamente s~1iço, Ernst respondeu 
de foma mais que sabsfatória a todas as questões levantadas, fossem 
elas sobre a viabilidade econ6unica7 exigências de mão-de-obra, 
eficiência -ron6mic*a, escala mlima de propriedade para apllcagão 
da proposta, impacto amblental, etc 
A questlo sobre a reprodutlbilldade da proposta, cuja 
complexidade assusta 5k primeira vista ficou respondida por urna 
visita a pequenos produtores da região que tinhm trabdhado como 
assalariados de Ernst e estavam aplicando os métodos aprendidos 
em suas propriedades. I?. claro que estes agricultores aplicaram o 
"método Ernst" à sua maneira, com adaptações que s próprao Ernst, 
um tanto purista e muito crítico, considerava como erros ou falhas. 
Para nós, no entanto, isto provava que o método era reprodutlvel, 
mesmo se não tão rigorasamente corno desejaria o seu criador. 
A padir deste momento a AS-PTA decidiu investir na 
sistematização possível. Jorge Mvan, um dos mais bem preparados 
agroecólogos que conheço e também um excelente extensionista, 
foi ""roubado" à EMATER do &o &ande do Sul, através de um 
acordo de cooperação com a AS-PTA e foi viver em Píraí do Node 
para poder aprender com Ernst e sistem&iaar o método, buscando 
criar Instmmentos para sua apreensão por técnicos da Rede PTA e 
outros mais. O livro "'Agricultura e Florestas - princípios de uma 
Interação vital" é o rewltado de dois anos de esforços do Vvan e 
da AS-PTA. Ele apresenta os pRncípios do método com um máximo 
de exemplos de sua aplicação. É importante esclarecer que o 
conteúdo deste livro baseia-se em Emst mas não pretende ser a 
expressão perfeita do pensamento e da pratica do próprio Ernst, Já 
que inclui reflexões e praticas de Vlvan e de outros técnicos da AS- 
PqlA e que o Ernst vem enriquecendo sua abordagem de forma 
Independente deste processo de sistematização. Por outro lado, a 
AS-PTA pretende ir além deste acúmulo aqui apresentado e esta 
preparando um manual do aplicador do método (tal como o 
entendemos) para dar semimento ao esforço de tornar esta proposta 
acessível ao maior número possível de técnicos e, pofianto, leva-la 
à prática dos agricultores familiares de todo o Brasil. 
Jean Marc Von Der W i d 
Diretor-Executivo da AS-P'TA 
Introdu~ão ................................................................................. 14 
Holismo e reducionismo. política e ecologia ............................... 18 
A história nas entrelinhas: desenvolvimento e ambiente ............... 19 
Os dilemas do modelo ................................................................ 22 
Da constmção do saber .............................................................. 23 
Capítulo 1 
Discutindo os dogmas do desenvolvimento ................................. 29 
Civilizações "versus" natureza ................................................... 30 
Os sistemas vivos e a segunda lei da temodinâmica ................... 32 
As utopias do progresso ............................................................. 37 
O homem como parte dos ecossistemas ..................................... 39 
Além do antropocentrismo .........................................................40 
Agroecologia ou simplesmente agricultura? ................................ 42 
Capítulo II 
Parte 1 
Conceitos e ferramentas básicas para os sistemas regenerativos . . 47 
. . 
Otimizar e não maximizar .......................................................... 49 
Da lógica linear para a biologia ................................................. 52 
Potenciais e limilações ............................................................... 55 
Conceitos e princípios básicos dos sistemas ................................ 56 
A sucessão natural de espécies ................................................... 57 
. A . Clímax dinmico ....................................................................... 60 
Parte 2 
Aprendendo a observar ............................................................. 6 5 
Conhecendo as interações do triângulo ambienta1 ....................... 66 
Ciclos de chuvas, orvalho e neblinas .......................................... 68 
Ciclos de ventos e/ou chuvas torrenciais ..................................... 69 
Ciclos de radiação ................................................................... 69 
Variações locais no padrão pedológico ....................................... 70 
Consórcios e arquitehira de espécies .......................................... 71 
Estratégias de othização da vida ............................................... 74 
Estratégias de dispersão de sementes e de interações 
com a fauna ............................................................................... 75 
A homeostase ou auto-regulação ................................................ 77 
Buscando recursos - o conceito de '"bordas" .............................. 79 
Nichos ....................................................................................... 82 
Diagnóstico por indicadores de densidade, porte e 
composição de espécies ........................................................... 84 
A renovação natural de folhas. copas e raizes ............................. 85 
Critérios para o manejo da vegetação por podas. 
caplnas e roçagens ..................................................................... 86 
O compofimento do rebrote ...................................................... 86 
As diferenks reações à perda de rmos e galhos ......................... 88 
Capacidade de supofie ao dmo .................................................. 89 
....................................................................... Ciclos de eventos 89 
Capítulo III 9 
............................. Conhecer a realidade para poder transfomar 93 
................................................. Para entender os sistemas atuais 96 
.... Agriculturdecossistemas: a fomação das paisqens agrícolas 97 
............................................... 8 caso da Região dos Tabuleiros 99 
............ Elementos de transfomação no próprio sistema vigermle 105 
Reconhecendo os mbientes e sua ocupação 
........................................................... pelos sistemas agrícolas 107 
8 ambiente nahiral numa descrição acadêmica ......................... 108 
......................... Integrando a percepção popular dos ambientes 111 
............ Critérios locais para zoneamento de ambientes naturais 112 
................................................................. Fomação do relevo 113 
..................................................... As Unfonnações agrega-se 116 
..................................................... Zoneamento mbienlal local 118 
............................................................................ As ecozonas 120 
...................................................... 1 - Mata ciliar Iiigrofila 121 
................... 2 - Mata ciliar de base de encosta ou piemonte 124 
......................................................... 3 - Mata de terra seca 125 
............................................................................ Comentários 127 
Capitulo IV 
A construção de roteiros básicos de sistemas agroflorestais 
........................................................................... regenerativos 131 
.............................. Itinerário técnico de sistemas agroflorestais 134 
Sistemas para regeneração de áreas de base de encosta 
............................................................................. e mata ciliar 136 
Eixos produtivos e fases do sistema ........................................ 136 
................................................................. Instalando o sistema 139 
.............................. Situações com mmejo em desenvolvimento 156 
Capítulo V 
.............................................................. Diagnóstico e desenho 169 
................ Passos para um diagnóstico: um exemplo de método 171 
.............................................. Critérios para o plano e desenho 176 
.............. Sistematizar o conhecimento para poder ~erTeiçoá-lo 181 
..................................... Infomação básica para sistematização 181 
Análise economica dos sistemas ............................................... 192 
Capítulo VI 
Experimentação pafiicipativa, capacitação e difusão ................ 195 
...... O processo de mutirão-escola na zona cacaueira sbilbaima "201 
Desde tempos imemoriais o homem cruza- 
va os mares em busca de novas terras e 
recursos. Mas .foi a partir das viagens de 
Colombo, MagaEhGes e Vasco da Gama que 
a expansão colonialisla européia alcançou 
os quatro cantos do mundo. A madeira foi 
Introdução 
Pergunte a qualquer um na massa de gente obscura: qual é o propósito 
da existência das coisas? A resposta geral é que todas as coisas foram 
criadas para nosso auxilio e uso prático! (. . .] Em resumo, todo o cenário 
magnuico das coisas é diário e con3antemente visto como destinado, em 
última inst&ncia, conveniência peculiar do gênero humano. Dessa forma, 
o grosso da espécie humana arrogantemente se eleva acima das 
inumeráveis existências que o cercam. 
G.H. 'Foulrnin. 7'he Antiqu~ty andDuration of the World. 1780. ed. de 1824, pág. 5 1-2. Citado 
por Thornas, Keith. in O Homem e O Mundo Natural. ê i a das Letras, t 988. 
Ecossistemas ameaçados e degradados deixaram de ser 
somente curiosidade de cientistas para ocuparem foros como a ONU 
e FAO, há mais de 20 anos. 
Errabora tenha sido uma "descoberta" um tanto tardia, o 
fato 6 que, entre as populações animais e vegetais que habitam e 
dependem dos ecosslstemas, estamos nós. Seres humanos, ou de 
acordo com a cizncia, primatas de cérebro complexo, polegar oposto 
ao indicador, com habilidades desenvolvidas, brincando de destniir 
os recursos planetários que nos sustentam. 
a base deste processo, na forma das em- 
barcações que eram utllrzadas e n a f o y a 
dos canhões e armas que s~~bjzkgavam os 
concorrentes e os povos aulóctouaes i3 gra- 
vura representa as ahvldades de um esta- 
lerro na fiança 
" Compilado da obra de Johi Perlin. AH~storia das Flo- 
restas' Universidade da Califórnia, Sta. Bárbara, Ribli- 
oteca de Coleções Especiais. 
Embora nossa tendência inata de julgar o mundo pelos 
pargmetros de nossa própria espéck? procuramos neste Ilvro avmçcas 
um pouco além dessa visão A%inal, necessitamos de soIuq&s para 
a vida, a biosfera como um todo, e não apenas para a raça humana 
Estarnos descobrindo aos poucos que não haverá uma " k c a de 
Woé" tecnológica que salve apenas a espécie humana de morrer 
mfocada em seus próprios resíduos, e a cada espécie que se extingue 
diminuem nossas possibilidades de futuro 
O Morno Aapjens saplens, apesar de, originalmente, não 
pe~encer a determinados ecosslstemaç, ocupou-os de forma gene- 
ralizada ao longo do tempo histórico R n d o mantido populações 
relativamente estáveis durante mais de oito mil anos, os aíttimos 
1 000 anos viram a população mundial de seres humanos saltar, ern 
naímeros aproximados, de menos de 300 milhks por volta de 1 000 
d C para os atuais 5,5 bilhões1 
Mas não 6 apenas o incremento demográfico que nospreocupa Densidades populaclonais elevadas e localizadas podem 
jhtter causado problemas no período pré-incalco para determinadas 
civilizações Porém, a longo prazo e numa escala completamente 
diferente da atual Trabalhos de Demografia Histórica da escola de 
Berkeley fixaram as estimativas de habitantes para o México Central 
por volta de 15 18 em torno de 25 200 000 babitaMes2f 
Esses espaços foram densamente ocupados por apresen- 
tarem possibilidades excepcionais de obtenção de recursos Esse 
fato, aliado a uma afinada tecnologia de conviv6ncia e otimização 
desses recursos, transmitida ao longo de séculos, é o responsável 
pelas centenas de anos que esses ecossistemas suportaram densos 
assentamentos humanos 
No entanto, Isso nib impediu que eventos geoclimáticos, 
Invasões expansionistas e ambição desmedida eventualmente 
minassem essa base cultural e tecnológica, contribuindo para a 
* 
decadência das sociedades do passado Muitas vezes, urna sobrevida 
foi obtida graças ao expanslonismo Sociedades militaristas e 
centralizadas colonizaram novas terras e submeteram outros povos 
e seus recursos, como a cultura tecnológica e riquezas naturais 
Dentro desse espiríto, a era das navegações trouxe uma 
sobrevida à decadente Europa do final do século XV As conquistas 
serviram como válvula de escape em relação à degradação 
ambienta], escassez de recursos e concentraçk demográfica 
O processo de expansão coloniallsta começado na era das 
descobertas ainda não terminou Analisando a progressiva e 
assustadora capacidade humana de degradação de recursos dos 
ecossistemas ao longo da hlstória da humanidade, podemos levantar 
alguns dos principais pontos que a ti?m causado. Vejiamos: 
0 s e@los diretos úla presslo demogrdfica localizada 
sobre os ambientes9 reclikzindo ou eliminando recurso~florestais~ 
minerais9 de dgua, solos e pastagens naturais. 
As consequencias microcllmáticas em alguns casos foram 
e continuam sendo drásticas. Áreas ocupadas por sociedades 
mercantilistas e militaristas muito antigas, como grande parte da 
Ásia, nofie da Africa e Mediterrâneo mostram registros claros da 
ação humana modificando e extinguindo fauna e flora, e causando 
mudanças rnicroclimáticas, principalmente, desertos e semi-aridez3. 
dbs efitos da colonizaçlo de ecossistemas por populações 
estmnhas ao ambiente e 2 cultura autdctone. 
A arrogância da cruz e da espada chegaram ao Novo 
Mundo com toda a bagagem de animais, plantas, doenças, 
vestimentas, arquitetura e língua do Velho Mundo. Como quem 
ocupa um terreno baldio para instalar sua casa, jardim e horta, os 
europeus simplesmente transferiram seu how-how para o Novo 
Mundo, com seqüelas Irreversíveis para todo o sistema vivo original, 
incluindo aí os seres humanos dessas nações. 
O tipo de organização social e a ideologia que move a 
sociedade, e a tecnologia de manejo de recursos como eacpressão 
de cadafase da orgaszizaçlo social, 
Já nas sociedades da Mesopotâmla, por volta de 3.500 a.C., 
ou seja, há mais de 5.600 anos havia relatos de expedigões de "caça" 
aos povos nômades que habitavam as encostas montanhosas. O 
homem recém inaugurava a agricultura, o mercado, a acumulação 
e a escravidão, e os povos caçadores-coletores do período neolitico, 
expulsos das terras baixas, eram perseguidos para escravização ou 
eliminados, quando os recursos necessários (como a madeira ou 
novas terras) estavam em áreas por eles habitadas. Portanto, fica 
claro que a transformação dos ecossistemas não pode ser levada 
de modo isolado do contexto histórico, social, cultural, político e 
econômico das populações humanas envolvidas. 
F~gura 2 mostrando feniclos cortando 
cedro, que era exportado para o Egito Os 
recursosJlorestais foram, desde o ber(ío da 
c~v~lrzação oc~dentaf um recurso capaz de 
mobilizar guerras. tratados e gerar a n- 
quem das nações, eventualmente, levadas 
a decadência pelo mau uso desses recursos 
As informações que apresentamos aqui são frutos de 
obsewações praticas e princípios cientificamente embasados. Como 
ressalva, reconhecemos as limitações da ciência convencional em 
compreender as interações dos sistemas vivos. 
Esperamos também, ao longo do texto, mostrar ao leitor 
que os interesses humanos não são antagonicos aos "interesses" 
dos sistemas naturais. Pelo contrário, podemos nos perguntar se 
haverá futuro para a humanidade num planeta só de seres humanos 
e suas plantações. A resposta, sem dúvida, está no fato de que nós 
somos parte da "fauna": uma população em desequilibrio que busca 
seu lugar dentro do coletivo da vida. 
Reequilibrar a presença humana no planeta é uma saudável 
utopia. Mas uma utopia em constmção, e não apenas realizável 
como necessária. Gomo já colocamos, a sustentabilidade ou mesmo 
o fùturo da humanidade passa por uma revisão profunda em termos 
de organização da sociedade em todas as suas expressões. 
Aqui iremos tratar de uma pequena parte, que é a agri- 
cultura, e dentro dessa a compreensão dos processos da sucessão 
natural de espécies como base de ferramentas tecnológicas. Os 
métodos participativos orientam a geração e difusão dos sistemas 
técnicos. Através desse processo, podemos harmonizar nossas 
intervenções de modo que a regeneração de um ecossistema seja 
ótimo para os recursos de que necessitamos e para a vida como um 
todo. Não estamos buscando o málcimo de recursos por um curto 
período de tempo, mas sim o ótimo sempre. 
Para chegar a esse objetivo, procuramos aqui e no trabalho 
de campo que originou estes escritos estimular e agregar saberes. 
Isto foi feito através do individual e do coletivo, no âmbito popular 
e acadêmico, reavivando memorias e trazendo informações que 
motivem as pessoas a buscarem seus caminhos neste processo de 
__-._L 
constmção de uma nova agricultura. 
- - .. - -- -- Como parte inseparável dessa estratégia, objetivamos 
também que o processo civilizatório supere o dogma secular que 
nos colocou "no centro da Criação". 
E dogmas só podem ser superados na prática, através de 
Oniversidade de Chicago, Jnarifuto Orienrai atos que mostrem que o que é bom para a sociedade humana pode 
('ompiludo de Perlin John Historia das Florestas 
a imporrãncia da madeira no deaenvolvimenro da e, obrigatoriamente, deve ser bom para o conjunto da vida 
C ~ V I ~ ~ Z U ~ Ü L ) RIO de Janeiro [mago ~d 1992 Essa é a nossa porta de entrada para o futuro possível, 
onde o homem deixe de ser o sabotador de seu próprio sustento, e 
incorpore em sua vida diária a interação otimizada com o ambiente 
que nos sustenta 
Quem sabe, assim Ifckçamos jus ao polegar oposto a s 
indicador, às habilidades e ao Intelecto desenvolvido que 
consideramos possuir. 
Holismo e reducionismo, 
política e ecologia 
O clichê máximo do movimento ambientalista ""pensar 
globalmente, agir localmente" contém uma verdade hoje cada vez 
mais aceita. A abordagem holista, que busca o todo para entender 
as parles, de ""cima para baixo", quando integrada a uma visão 
reducionista, malitica, de '%baixo para cima" pode produzir grandes 
resultados 
Sem dúvida, a visão reducionista hoje domina quase que 
exclusivamente, o cenário cientifico, principalmente, nas ciências 
qrárlas, chegando a não considerar ciência o que não tenha passado 
pelo analítico e pela expenmentação indutlva. Porém, é no encontro 
com a abordagem hollsta que a especialização reducionista ganha 
sentido e objetividade, e é nesse encontro que se fazem os grandes 
avanços científicos. 
O bom senso, a mente aberta e a criatividade são qualidades 
ftrndamentais numa atividade científica. Com base nessas qualidades, 
a humanidade tem avançado no conhecimento do mundo que rios 
cerca, e o embate entre reducionlsmo e holismo tem o mesmo berço 
do embate entre saber popular e saber científico. Na pratica, uma 
guerra onde o indivíduo que convenclonou-se que sabe procura 
convencer o outro que sabe algo que seu saber não vale, porque 
não foi assim convencionado. O resultado é que este '"saber 
institucionalizado9'torna-se um pacote medíocre e estreito. 
Do mesmo modo, sem a parlicipação popular, políticas 
ambientais globais tornam-se inócuas e dlscussivas. Para nada 
servem, em termos de consolidação de uma prática social, as 
políticas públicas que não são constmídas sem a parlicipagão e a 
informação que vem a partir da base da sociedade. Essa tem sido a 
preocupação central das organizações envolvidas com o 
desenvolvimento sustentável e a agroecologia, desde o inicio dos 
anos 80, e foi a base deste trabalho. 
Porlanto, consideramos que as informaçks contidas na 
tradição oral e relatos históricos, juntamente com o interesse e 
Limites etnogeogr&ficos na 
Mata de Aaaucárias 
Marcas que eram gravadas na 
casca das araucáriaoi pelos Endios 
Coroados QRS),dernarcankk@ seus 
territhricss de coleta. Extraído d e 
Mabilde, P.F.A.Bootli. Ap»ntame~?tos Sobre 
oslndigenas Selvagens da Nação Coroados 
dos Matos da Provinela do RIO Grande do 
Sul. TBRASMró-Mcmória/ZNE. 1983 
respeito ao saber popular, são preocupações centrais e ao mesmo 
tempo instmmentos de nosso trabalho. Sem eles, dificilmente, 
chegaríamos a desenvolver propostas realmente factíveis, 
apropriáveis em seus princípios pelos agricultores. 
A história nas entrelinhas: 
desenvolvimento e ambiente 
A história oficial é escrita de modo a relatar a glória dos 
poderosos, os feitos militares, as obras e monumentos, a Arte e a 
Filosofia. Porém, entre dominmtes e dominados, uma outra história 
poderia se3- escrita. Desde pelo menos 30.000 anos atrás, os seres 
humanos já atravessavam os continentes em busca de recursos para 
sua sobrevivência. Desde então, o que aprendiam na sua convivência 
com o ambiente era transmitido para as próximas gerações. 
Desse tempo profundo em termos de escala humana, 
chegamos ao passado relativamente recente, dos colonizadores do 
Novo Mundo. A pafiir de 1490, eles trouxeram para a "'Aniérica", 
junto com a sua esperança de dias melhores e a ganância por ouro 
e pedras preciosas, uma enorme bagagem. 
Nela, vinham a religião, a língua, plantas, animais e doenças, 
que eram um conjunto que vinha sendo acumulado e transmitido 
ao longo de gerações. Sem conhecer essa bagagem, nunca sabe- 
ríamos a origem de seus atos, a lógica de suas ações e, a trajetória 
que os levou até o Novo Mundo, cruzando um oceano desconhe- 
cido. Também não tedamos como avaliar a herança que deixaram 
na sua passagem, dominação e instalação nas paisagens e culturas 
das Américas. 
Ainda, não teríamos como analisar nosso presente. Quem 
somos nós, qual foi nossa trajetória? 
Os colonos italianos que chegaram ao sul do Brasil, em 
1885 dermbaram araucánas (Arazccarla a~;~gustfolia) de mais de 
3,00m de diâmetro e 451x1 de altura, visando o plantio de trigo, 
cujas sementes trouxeram da Itália. Na mesma área, relativa (600m2) 
à copa de uma dessas árvores que produzia mais de 300kg de 
pinhões por ano por árvore, menos de 60kg de trigo eram colhidos. 
Embora esse cálculo não traga de volta as árvores gigantes de mais 
de 1.000 anos de idade nem os povos autóctones que delas 
dependiam, podemos hoje entender as causas primárias dessa 
incoerência. 
Do mesmo modo, poderíamos entender o porquê das tribos 
que habitavam estas regiões do sul do Brasil praticarem controle 
populacional, mantendo populações estáveis e territórios bem 
determinados de coleta, com marcas nas arvores. Alnda, o porquê 
da profunda revolta e ódio que nutriam pela invasão colonial e pela 
dermbada das florestas que os sustentavam. 
Filhos e netos daqueles colonos europeus que chegaram a 
partir de 1500, num corte, de amostragem social que vai desde o 
minifundiário despojado até os atuais "barões do gado e da soja", 
podem hoje ser encontrados na Amazônia. Os movimentos de 
migração interna foram abrindo lavouras de grãos e criações de 
gado do Rio Grande do Sul até o Acre, penetrando a Argentina e o 
Paraguai Nesses lugares, sua noção de civilização marca a pai- 
sagem conglomerados urbanos, paisagens cobertas por pastagens 
e lavouras, comércio e todos as seqitelas da degradação ambiental 
e cultural que é sentida na pele pelos povos autóctones. 
Em substituição ao papel "orquestrador" da Companhia 
das Indias Ocidentais do tempo das caravelas, temos os con- 
glomerados madeireiros, o agribusiness pecuário e seus elos 
internacionais de mercado. Do migrante miserável ao alto executivo, 
a ideologia é de que é uma "missão" dar uma "utilidade" aos 
ecossistemas e "civilizar" os indígenas. Maximizar o uso do recurso 
natural e acumular bens é tão natural na ideologia dessas regiões 
como respirar. 
Poaanto, este processo, que remonta aos tempos do embate 
entre Caim (o agncuhor que arava o solo, representando a revolução 
agrícola, e com ela a urbanização) e Abel (o pastor, representando 
as civilizações nômades ou semi-nômades que viviam da coleta e 
extrativismo e manejando os recursos já existentes) ainda não 
encontrou seu limite no nosso planeta. 
Essa "janela no tempo" procura mostrar como a re- 
constituição histórica de culturas e ecossistemas são fundamentais. 
O cenário ambienta1 e cultural das populações originais nos a~uda a 
entender sua lógica e estratégias de sobrevivência, e contribuem 
para o novo conhecimento que precisamos constmir. 
Princípios gerais renascem num outro contexto, mas 
carregando consigo reminiscências de sistemas que nasceram com 
a própria humanidade. A história também pode ser lida na 
observação atual e na recuperação de dados históricos dos desertos, 
florestas e estepes por onde passaram as civilizações. 
Nesse sentido, os avanços na informática, robotização e 
tecnologia de satélites propiciaram-nos uma visão analítica e global 
do planeta e do cosmo em que vivemos de um modo que nossos 
antepassados provavelmente não tiveram. Também os avanços na 
arqueologia e paleontologia trazem-nos cada vez mais informações 
das sociedades passadas, sua organização, seu apogeu e sua 
decadência. Mesmo assim, estamos longe de poder reconstituir o 
real significado - para nosso futuro - das ruínas das civilizações 
que hoje encontramos. 
Buscando significados a partir das evidências da História, 
podemos afirmar que o bom senso em relação ao manejo dos 
recursos naturais não foi a regra. Pelo contrário, foram frequen- 
temente suplantados pela insensatez, pela sede psicótica por poder 
e acumulação material. Esses desequilíbrios parecem ter coevoluído 
e se consolidado em sistemas autoritários e centralizadores, com 
forte controle social e dos recursos. 
Poderíamos ainda arriscar que os téoricos e práticos do 
desenvolvimento sustentado, desde as mais remotas eras, têm se 
confrontado e andado a margem do poder. Esse é um desafio para 
as democracias de hoje. Resistirão elas ao desafio de um planeta 
com recursos cada vez mais escassos? Ou será que, na iminência 
das crises, todos correremos ao "oráculo da ciência", ao invés de 
simplesmente olhamos ao nosso redor e resgatamos o bom senso? 
Persistirá a humanidade acreditando que os "deuses da tecnologia" 
a salvarão de modificar seus dogmas e hábitos ainda por quanto 
tempo? 
Enfim, é preciso aprender com a Wistória. I? consternador 
aceitar que discursos inflamados, dados e evidências, e inclusive 
leis específicas não foram suficientes para evitar as catástrofes 
ambientais e sociais que já aconteceram na história. Isso é um fato 
relevante e grave para nosso hturo. 
O ensino da História atém-se mais ao universo polí- 
tico-ideológico e econômico-militar, enfatizando figuras e per- 
sonagens.Não nos deixa claro como foi o gerenciamento de recursos 
não-renováveis pelas civilizações, no período compreendido entre 
sua ascensão e decadência. Porém, através de manuscritos e textos 
que se prestam a esse objetivo, parte dessa história esquecida vai 
sendo aos poucos recuperada. 
Já nos povos de tradição oral, essas mensagens de alerta e 
"códigos de conduta ambientar estão amalgamados com mitos, 
lendas e tabus, e podem desaparecer no processo de aculturação. 
Uma informaçãovital a sobrevivência, como é o caso do 
manejo do ambiente, incorporada em mitos e rituais pode, 
eventualmente, enfraquecer o objetivo primordial. Uma vez que 
uma cultura se esvai num processo de dominação junto com suas 
crenças, o saber embutido nesse conjunto também se perde. Os 
deuses e mitos são desacreditados pela nova cultura e religião, e as 
informações-chave ali contidas são esquecidas ou relegadas como 
superstição antiga. 
Nesse sentido, os registros históricos dos manuscritos são 
diretos, embora mais frios. Através deles pudemos descobrir que, 
há milhares de anos, fazem-se campanhas de reflorestamento, de- 
bates sobre a degradação ambienta] e políticas públicas. De modo 
geral, o que esses achados históricos mostram-nos é que as legis- 
lações ambientais vieram sempre após a formalização social4 do 
processo de degradação, e que o povo obedeceu as novas regras 
enquanto houve coerção pela força. Ainda, concluímos que eram 
frequentes os casos de compção de funcionários, legislação em 
causa própna e sobrecaga dos agroecossistemas, em função de 
campanhas militares ou da constmção de monumentos e obras que 
objetivavam a perpetuação das elites no poder5 na memória dos 
povos. 
Os dilemas do modelo 
Objetivamente, a História coíoca-nos algumas questões 
cmciais. 
Existem possibilidades concretas de hturo para sociedades 
baseadas no desenvolvimento ilimitado das ambições humanas de 
ocupação de espaços, acumulação material e poder? 
Leis e técnicas preservacionistas geradas a partir do "topo 
da pir2miden serão eficientes para conter as populações, que 
almejam chegar aos mesmos padrões de consumo e gasto energético 
dos que ocupam os estratos ""superiores" da sociedade? 
Serão realmente desenvolvidas tecnologias que permitirão 
no futuro que o desenvolvimento mantenha-se baseado no ritmo 
atual de crescente déficit energético, crescimento demográfico e 
extinção da biodiversidade? 
Sem dúvida, a resposta é não. Essas são premissas que 
têm sua base assentada sobre uma visão elitista e antropocêntrica, 
que considera que as necessidades do "ser mais desenvolvido do 
planeta, o homem", devem ser o centro do universo conhecido. 
Nos tópicos anteriores, co1ocmos alpmas das dicotomias 
ou antagonismos tratados como verdadeiros dogmas de nossa 
sociedade originada na Wevolug%o Industrial. Vamos revê-los 
Civili:aç&o x Natureza, ""O homem precisa de certo modo 
destruir e dominar a natureza para sobreviver Afinal, todo o 
uiverso baseia-se na dissipaç5o de energia e tende ao equilíbrio, 
que é a ausência de energia. Portanto, só estamos apressando um 
fenomeno natural, que é a entropia do universo". 
Hokisms x Redueionisíaizo. "A abordagem holista 
(conhecer o todo para entender as parles) é superficial e anticlen- 
tifica, e o reducionismo (a partir das partes se reconhece o todo) é 
a única ciênQa possível". 
Poléllca x Ecologia. IÉ redundância do primeiro pressu- 
posto. ""A preservaç'o ambienta1 é um born tema para um discurso, 
se na pratica as políticas visarem o progresso do ser humano" 
(mesmo que às custas da predaçk de recursos naturais). "Agricul- 
tura e preservação n90 podem ocupar o mesmo lugar no espaçon6 
Ci2neia x Salrer Popuka-. 'TI progresso científico7 só é 
possível se os cânones e parâmetros ewstentes forem respeitados 
O saber popular é ineficaz para alavancar um processo inovadorm8 
Nossa expectativa ao longo da leitura 6, primeiro na parte 
conceitual e teórlca, e depois com dados concretos, polemizar e 
contra-argumentar esses dogmas, pelo menos como desafio ao 
leitor. Essa d i s c u s s ~ , embora pareça apenas filosófica, permite- 
nos um olhar renovador sobre problemas antigos. 
Este é um dos meios para que novas pe-untas e respostas 
possam traduzir-se em sistemas produtivos de maior sustenta- 
bilidade do ponto de vista economico-ambienta1 Talvez m d a r as 
perguntas ao invés de apenas procurar novas respostas seja um 
born caminho. Principalmente, apreciar a caminhada coletiva da 
humímidade nlo apenas do ponto de vista do ser humano, mas dele 
como parte do tecido vivo que cobre e interage com o planeta 
Da construgão do saber 
Boa parle dos princípios aqui expostos e utilizados na 
constmgão de sistemas produtivos foram extraídos da prhtica de 
pesquisadores, agricultores e toda uma série de pessoas que, à sua 
maneira, trabalham na construçk de alternativas ao modelo atual 
de desenvolvimento. k dificil dar a todos os créditos devidos, como 
numa publicação acadêmica, com citações de datas e autor ao longo 
do texto. Teríamos que incluir citações como "Malas (765 a.C.)". 
Afinal, determinadas práticas de manejo agroflorestal foram 
herdadas deles, embora diferentes pesquisadores tenham se ocupado 
em relatá-las, e agricultores contemporâneos ainda as adotem. 
Mesmo assim, sempre que necessário ou relevante para o 
aprofiindamento por parte do leitor, procuramos ao longo do texto 
dar os créditos devidos. 
Uma parabola da gênese do saber 
Para ilustrar esta "gênese de conhecimento", imaginemos 
que o conhecimento é uma árvore. 
Ela tem portanto um esqueleto básico (os princípios), 
formado por raízes e ramos principais. 
Folhas, ramos e raízes finas renovam-se em ciclos in- 
fluenciados pelo ambiente externo (a contextualização do conhe- 
cimento). Portanto, a expressão do conhecimento é ligada ao 
momento de cada sociedade e civilização, influenciando e sendo 
influenciada. 
Finalmente, os fmtos. Eles são o produto e garantia de 
transmissão da bagagem genética acumulada neste contexto, de 
evolução e intercâmbio. Se não forem consumidos (o que simboliza 
a disseminação do conhecimento), o sistema torna-se endogâmico. 
Apodrecem os fnitos e as sementes permanecem junto ao tronco. 
Isso acontecendo, ele não se dissemina e não evolui. Os fmtos 
trazem na sua aparência externa a influência dos ciclos (a con- 
textualização e atualização do conhecimento). Já é na semente que 
se imprime e armazena constantemente a carga genktica, permitindo 
que este conhecimento permaneça vivo e atualizado, preparado e 
adaptado para ressurgir em outros tempos. Para isto, as idéias e 
observações resultantes da união da teoria com a prática são para 
o saber o mesmo que o intercâmbio genético e evolução em 
interação com o ambiente são para a semente, modificando e sendo 
modificados. 
Essa é uma parábola da gênese do próprio conhecimento 
que tem sido transmitida através das gerações. 
Essa metáfora sobre a epistemoiogla do saber recoloca a 
questão que levantamos no nosso primeiro livro, "Pomar ou 
Floresta". Devemos patentear esse tipo de saber, mesmo sabendo 
que a relação entre ""isplração" e "aspiração" é francamente 
favorávej para a "aspiração" de dados, obsewagões e conhecimento 
ao longo da história do conhecimento? 
No contexto desta discussão, reconhecemos a hndamental 
lmponância para nosso trabalho atual do que foi desenvolvido por 
Ernst Gotsch e sua %milia em Piral do Norte, BA9 Como a 
germinação de uma semente de uma espécie que se considerava 
extinta, com uma história que se perde no tempo, tivemos 
opoflunidade de ver a teoria e pratica de sistemas produtivos de 
um ramo do conhecimento que é exemplar raro da áwore do saber 
que acompanha a humanidade desde seu berço. Nosso trabalho 
procura garantir hoje que esta semente de conhecimento cresça, 
floresça e produza novos fmtos, para que evolua e continue viva 
na sua trajetória, criando novas possibilidades para as relações da 
humanidade com os ecossistemas. 
Referências 
' Ver Perdas da Biodlversldade e Suas Causas. zn A Estratégia Global da 
Biodiversidade, Instituto de Recursos Mundiais (W), edição em português 
da Fundação O Boticário, 1992. 
Para ir adante, ver: Cardoso, Giro Flamarion S. Modo de Produyão Asiático: 
Nova Usita a lJm &lho Conceito. Editora Campus, 1990. 
' No oeste do Paquistão, a ação humana (agricultura e pastoreio) criou o deserto 
de Warrapan, um dos mais conhecidos e estudados desertos "antropogênicos": 
após a retirada de mais de50% da cobertura vegetal original, as chuvas de 
monção não mais chegaram e as Rorestas remanescentes regrediram para uma 
situação de semi-aridez, que pode sustentar uma pequena fração da populagão 
humana que já suslentou no passado. Na África, o deserto do Saara, por exemplo, 
avançou mais de 350 km nos últlmos 20 anos. 
Vamos conceituar aqui "formalização social da degradação" como o ponto 
em que cultura e sistema político-econômico são contraditórios aos objetivos 
preservacionistas que ele mesmo tenta implementar de "cima para baixo", 
afím de preservar pontos estratégicos para a manutenção do status quo. 
O mais antigo relato conhecido neste sentido está no Épico de Gilgamesh. 
Segundo o épico, Gilgamesh, o regente de Unik, uma cidade reino do sul da 
Mesopotâmia. há 4.700 anos atrás desejava fazer para si "um nome que 
perdurasse", através da constmção de "sua" cidade. Einbora pareça incrível e 
um vôo de imaginação, a região hoje árida do Crescente Fértil, próxima ao 
Golfo Pérsico, foi coberta de florestas. O épico conta como Gilgamesh desfiou 
Enlil, a principal divindade sumenana, para devastar a floresta visando a 
constmção da "sua cidade". O simbolismo da ambição por "deixar uma marca 
na história", com um megqrojeto, rompendo com o bom senso ambienta1 
intrínseco aos mitos religiosos da época é incrlvelmenle atual, com a diferença 
que hoje não são mims que são desrespeitados, mas dados e evidências 
cienlificas, o que dá na mesma. Para ir mais adiante: Perlin, John. 0p.çlt. ouA 
Epopéia de Gilgamesh, Mafiins Fontes, são Paulo, f 992. " a crença hndamentalista no ""cescei e multipllcai-vos", Uansf'erida corno 
moto de fti da nova religião: o poder ilimitado do desertvolvlmento tecnológico. 
Esse ""desnvolvimenlo" permitina no futuro w e áreas minimas e poucos 
agricultores alimentassem, com alta tecnologia, grandes populal;ães urbanas 
vivendo em cidades-Jardins, cercadas por parques florestais intocáveis. A 
hipótese é conjunturalmente e localizadamente possivel, ernbora os fatos 
mostrem que é insustentável. A crise da agricultura nofie-americana, a chuva 
ácida destruindo resewas florestais e as nuvens radioativas geradas em 
Ghemobyl contaminando a flora e fauna dos países escaudinavos nos lembram 
muito mais os celiános de pesadelo httrrisrsa de degradação ambienta] do filme 
"BBlade Runner", rodado na dkcada de 80 pelo diretor IZldley Scott do que os 
quadrinhos otimistas do personagem Flash Gordon, escritos ainda nos anos 
50. Neste último, o único problema não resolvido pela tecnologla nos cenários 
futuros era o sempre eterno embate entre vilães e heróis. 
' Rara ir rnals ad~ante ver Muhn, Toanas A esbutura das ievoluçijes clenb@cas 
São Paulo Perspectiva, 1987 
'Qw belo tema de drsputa sofistica nos trazes, Ménon, é a teoria sega~ndo a 
qual não se pode procurar nem o que se conhece nem o que não se conhece o 
que se conhece porque, conhecendo-o, não se precisa procurá-lo, o que não se 
conhece porque nem se sabe o que se há de procurar" Platgo, citado por PJlonn, 
Edgar O Método 111 0 conhecimento do conheclmenlo/l hblicaçks Europa- 
Aménca. 1986 
Dentro deste espírito e r-iuma relação que vem desde 1988, a Assessoria e 
Projetos em Agricultura Alternativa, (AS-PTA) manteve uma equrpe em Paraí 
do Norle. Mata Atlâmlica Sul-Baiana, de janerro de 1994 a março de 1995 
Esta equipe (de 3 pessoas) ~nstalou áreas produlrvas, srsternatizou dados e os 
difundiu para agrrcultores e t6cnicos 
83 apoio velo da organrz-50 não-governamental norte-americana The John 
D and CathcTine T MacArthur Foundatiori e da organização governamenhl 
alemã DED (Deutscher Entwrcklungsdrenst), e o trabalho foi sed~ads em uma 
área vizinha à Fa~enda Três Cohnas, ernpreend~mento tmplaritado a pafllr de 
1984 pela farnílra Gotsch 
A localização da e-genência deveu-se ao f ab desta fazenda Wresenlar sistemas 
produtivos reconhecidos a nível nac~onal e internacional como exemplo e 
fonte de insprração para mtervençães nas condições da Mata Atlântica, num 
sentido bastante nnovador 
Analisados os princípios que orientavam estes sistemas, foi fácil concluir que 
eles continham elementos de avançii em relação ao paradigma que doanina a 
agricultura e a própria agrossilvicultura. Ainda, que estes princípios 
extrapolavam os limites do ecossiskema no qual estavam aplicados. 
O trabalho visou então a avaliação, sistematizaç2o e dihsão dos sistemas 
técnicos para organizações e agricultores, sendo ob~etivo fundamental sua 
reprodução nas condi~ães da pequena propriedade típica da região. Gomo parle 
do processo, foi necessária a montagexn, n m a área vizinha ao local, no penodo 
de setembro de 1993 a maqo de 199.5, de uma estmtura para capacitaqão. 
incluindo 2,s ha de áreas expenmentals-produtivas. Esse processo possibilitou 
um aciimulo de experiências que permitirão, sem dúvida, dar um salto de 
qualidade nas intewenções das organizaçks que se benenciaram e beneficiarão 
da experiência como um todo. 
Sem mais participar diretamente do controle da área, a AS-TA segue nas 
atividades de difusão e acompanhamento de experiências junto a várias 
organizações que acompanharam o processo. Muitas delas já adotaram os 
princípios de manejo de sucessão em suas propostas técnicas, o que teni 
contribuído para um enriquecimento progressivo dos princípios em si, através 
da ampliação do raio de dihsão e mesmo da ótica de adoção. Este é, sem 
dúvida, um resultado imporlante e foi uma das principais metas do trabalho. 
Assim, cada novo gmpo de técnicos e agricultores que se apropria da idéia 
materializa estes princípios em sistemas inovadores em diferentes ecossistemas, 
com as principais caractensticas que objetivamos, ou seja: 
- aptos a fazer face à realidade do produtor e a buscar transformá-la sendo 
produtivos, biodiversos, conservadores de energia e economicamente viáveis. 
A proposta tem tido resultados sociais e ambientais práticos consideráveis nos 
casos em que foi adaptadia e adotada, m a vez que o método prevê a regeneração 
de fauna e flora com retornos econ6micos de curto, médio e longo prazo. 
Portanto, embora o trabalho inicial enfocasse com mais detalhe as condições 
da Mata Adântica Sulbaiana, os princípios embutidos têm sido. como relatamos 
acima, apropriados por técnicos e agricultores em vários ecossistemas do país. 
Deste modo, procuramos contribuir à teoria e prática dos que estão kngajados 
na constmção de propostas práticas que somem para um projeto global de 
desenvolvimento realmente sustentável. 
Capítulo I 
Foi sempre necessário muito mais imaginaçdo para apreender a realidade do que para 
ignorá-la. 
.I. Giradoux. Citado por Morin, Edgar. in O Método 11. A v ida da vida. Europa América, 
1980. 
Num dia como hoje, percebo o quejá disse a você umas vetes: não há nada de errado com 
o mundo. O que está errado é a nossa maneira de olhar para ele. 
E h r y Miller. A Devi1 Ui Paradise. Citado por Lovelock, James. As Eras de Gaia, Campus, 
1991. 
Discutindo os dogmas do 
desenvolvimento 
Sem discutir o nosso -'paradigma", ou seja, o conjunto de 
idéias que pemeia nossa sociedade, seria dificil entender o conteúdo 
deste livro As propostas que contém acabariam como "receitas 
tecnológicas". Uma vez postas em prática fora do contexto, 
resultariam inócuas e desanimadoras. 
Portanto, a discussão que segue, mais do que uma 
potemização teórica, constitui a base da abordagem prática que 
pretendemos. Resumidamente, é avançar além do antagonismo 
clássico entre preservação e agricultura. 
Civilizações "versus9' natureza 
Certamente, a raiz da agricultura constituiu-se no ato de 
observar como a natureza regenera as formas de vida, após ciclos 
que a restrinjam Essas restrlgks momentâneas podem ser causadas 
por eventos como falta ou excesso de umidade, falta ou excesso de 
radiação (luz e cdor), falta ou excesso de nutrientes Eventos 
geoclimáticos tarabém contribuem para restrições iriomentâneas, 
como vendavais, imndações, fogo, vulcanismo, movimentos de 
solo,etc 
Utilizando a radiação solar, o banco genético de sementes 
e espécies, a umidade e os recursos minerais e biológicos do solo, 
a vida logo retoma seu fluxo e readquire sua complexidade, 
adaptando-se às novas situações e recrimdo a si própria. 
Provavelmente, a imitação desse processo, que chamare- 
mos de sucessão natural de espécies, deve ter contribuído para 
Inspirar as primeiras formas de intervenção nos sistemas naturais 
visando a obtenção de produtos de interesse humano. 
Podemos então afirmar que o quanto intervir e o como 
intervir nos sistemas naturais formou o refinamento da tecnologia 
e mediou sua sustentabilidade Mnal, exemplos não faltavam: todos 
os seres vivos modificam o ambiente e por ele são modificados. 
Podanto, tentar entender a dinâmica de ciclos climáticos e 
de sucessão de espécies afim de obter recursos é uma Idéia que 
sempre existiu e que sobreviveu em exemplos ao redor do mundo, 
em vários ecossistemasl Desse modo, agricultores e populaçâtes 
inteiras, ao longo dos séculos, têm baseado seus sistemas produtivos 
na imitação da dinâmica sucessional do ecossistema original. 
Acompanhando os ciclos e padrões observados, encontram os 
momentos precisos para Introduzir ou suhtituir plantas e espécies, 
de modo a compor os seus "agr~ecossistemas~'~. 
Um exemplo c1ássIco de adaptação desse princípio foram 
os cultivos anuais de grãos em áreas periodicamente alagadas, como 
deltas de rios. No Sudeste da Ásia, a compreensão dos padrões de 
inundação e estiagem, com fedillzação pelos sedimentos do rio 
propiciou a domesticagão e cultivo de uma graminea com grãos 
comestiveis 6 arroz (Oryza sativ~). 8 manejo do sistema natural 
deu origem à rizicultura irrigada. Dentro dessa origem, a maior 
parte dos sistemas ancestrais de cultivo de arroz nessas regiões era 
basicamente conservadores de energia e otimizadores de recursos. 
Infelizmente, a ideologia que dominou foi a de maximizar 
a utilização dos recursos naturais A visão que herdamos é a de 
que os recursos naturais são bons quando se pode transformá-los 
de modo linear em dinheiro, ou alimentos e dinheiro 
Nessa vis", uma floresta é um recurso somente quando é 
possível extrair toda a madeira e cultivar o solo, transformando-o 
em pastagem, cuLtivo de grãos ou pomar P a d r k s rígidos de 
desenvolvimento e cultura alimentar não se preocupam em 
questionar a sustentabilidade do processo em relação à m d m ç a 
de ambientes Esse tem sido o paradigma de multas civilizações, 
eventualmente, levadas i decadência por não conseguirem seguir 
adiante baseadas nessa concepção 
Podemos dizer que, mediada pelas condições ambientais, 
culturais e políticas de cada povo, a tentativa de Imitar a natureza 
produziu a tecnologia e os sistemas agrícolas, com emos e acerlos 
Analisando a História, obsexvamos que o belicismo 
expansionista e o mercantllismo, muitas vezes apoiados por 
convenientes religiosas, Influenciaram de modo 
negativo a balança do manejo de recursos naturais na trdetóna das 
civilizações e) resultado em geral foi uma pressão insustentável 
sobre os recursos, levando ecossistemas inteiros ao colapso, e 
Junto com eles as ambições das civilizações neles baseadas3 
Na verdade, do colonialismo mercantil e expansionista do 
tempo dos gregos e leeníclos aos mercados mundiais de hoje, nada 
mais temos do que a ampliação de uma ótica muito antiga Em 
outras palavras, continua sendo vital conquistar novos espaços para 
obtenção de recursos, utilizando para isso o comércio, a pressão 
economica ou mesmo a intervenção militar 
Uma civilização em ascensão engloba a outra, admi- 
nistrando seu legado cultural e de recursos naturais, de modo 
conveniente a seus objetivos Essa foi, desde tempos imemonals, a 
estrada que nos trouxe ao Mercado Comum Europeu e que procura 
criar os Mercados (Jlobais do século XXZ 
O objetivo é sempre o mesmo manter internamente um 
padrão civlllzatBrio e de consumo, que não é mais sustentável dentro 
dos recursos naturais existentes nos Iinnites do país ou da sociedade 
que o preconiza 
8 caso do Japão é um exemplo típico, para não ficarmos 
restritos às çivllizaçles do Ocidente. Seus parques florestais são 
muito bem conservados, porém sua "fome" de madeira tem 
provocado a reação de amblentalistas, políticos e populações 
autóctones ao redor do mundo Entre os milhares de povos 
diretamente ameaçados pela destmiçb de florestas ~rnldas do 
planeta. afora a h a z o n i a , estão os Papua, na Nova Gulné, os 
Iban, de Sarawak, Malásia e os remanescentes de Masris. na Nova 
Zelgndla 
Resurnlndo, a análise histórica mostra que, mesmo tendo 
elementos fortes de sustentabilidade e adaptação ambiental, os 
sistemas agrícolas - os agroecosslstemas - sempre foram muito 
influenciados pela Ideologia dos segmentos dominantes 
Mais preocupados em manter o poder e perpetuar seu 
nome por monumentos ou conquistas, o futuro dos povos que 
governavam e dos ecossistemas que os sustentavam foi uma 
preocupação infinitainente menor do que o tamanho de seus 
exércitos e o potencial de suas armas de guerra 
A História contkm exemplos de perlodos onde civilizações 
prósperas conviveram com os ecossistemas Porém, a pressão por 
recursos em tempos de @erras expansionistas e delírios de grandeza 
arquitetônica jogaram por terra e relegaram ao esquecimento as 
tecnologias de convivência, que foram substituídas pela pecua- 
rização e agricultura extensiva. baseadas na mão-de-obra escrava 
Sem dúvida, os registros históricos demonstram que os 
alertas que padiam da intelectualidade apontavam para praticas 
mais sensatas Talvez sem o embasamento teórico da ciência 
analítica à qual temos acesso Mas, sem dúvida, dentro do mesmo 
cenário de desastre ambiental e social iminente e com o mesmo 
grau de ceticismo com que hoje nos deparamos, por parte de 
governos e mesmo da sociedade 
Os sistemas vivos e 
a segunda lei da termodinâmica 
As ciências, especialmente a Física e a Astrofislca, t6m 
proporcionado avanços consideráveis na nossa busca de com- 
preensão dos fenomenos planetarios. Mas o que a Física, e es- 
pecialmente, seu ramo que lida com tempo e energia, tem a ver 
com a agricultura? 
Tudo. A radiação solar, combustível básico da vida do 
planeta, e portanto da agricultura, é energia. O sol, como outras 
estrelas, é uma verdadeira 'Tornalha", queimando combustível 
nuclear, com data de nascimento e de morte aproximadamente 
determinada. A radiação que libera através do espaço chega ao 
planeta Terra e fornece a energia básica para a vida, percebida por 
nós na forma de luz e calor. A termodinâ~ca, que esnida fenômenos 
correlatos aos efeitos da radiaçk solar, tern três leis principais, e 
vamos comentar duas delas. 
A primeira estabelece que quando umaforma de energia 
é convertida em outra, n& hhá nem perda nem ganho. Em outras 
palavras, a energia é sempre conservada. 
A segunda, a Lei da Entropia, estabelece que quando uma 
forma de energia é convertida em o u m , há uma perda na forma 
dé calor. Isso implica que o sol tem seus dias contados: a queima 
de combustíveis radioativos como Hidrogênio (e Hélio na etapa 
final de sua existência) tem uma duração estimável pelos conhe- 
cimentos atuais de fisica. 
Portanto, a tendência de estrelas como o Sol e, conse- 
qüentemente, dos corpos quentes do universo, é passar lentamente 
de um estado potencial instável e rico em energia para um estável e 
pobre em energia. 
Tendo em mente essas informações, podemos observar que 
os sistemas vivos têm algumas características que os tornam únicos. 
Numa conceituação fisica, a vida é definida pela sua habilidade em 
reduzir sua entropia interna4, excretando elementos de baixa energia 
em seus limites. 
Numa definição geofísiológica, a vida é uma propriedade 
de um sistema delimitado que é aberto a urn fluxo de energia e 
matéria, e que é capaz de manter suas condições internas constantes, 
apesar da mudança das condições externas. 
Colocando isso de modo prático, veja seu próprio corpo. 
Entram alimentose saem dejetos, dos quais praticamente tudo que 
podia servir a seu organismo foi retirado. Também sua temperatura 
corporal é constante e, a uma ameaça de doença, o sistema 
irnunológico dispara anticorpos para recuperar o equilíbrio 
fisiológico. O pH do sangue e outros fluidos também são constantes, 
mesmo que bebamos líquidos básicos ou ácidos. Finalmente, 
reproduzimos-nos e transmitimos nossa herança genética aos 
descendentes. Isso traduz o termo "habilidade em reduzir sua 
entropia interna". 
Essas definições servirão para entendermos tanto uma 
bactéria unicelular, uma árvore, uma floresta, como o próprio 
planeta Terra. Embora consuma constantemente energia direta ou 
indiretamente hrnecida pelo Sol, as interações entre os seres vivos 
conservam a energia total incorporada na biomassa plmetárla. Com 
diferentes graus de interação ou complexidade, todos organismos 
vivos são unidades básicas e interdependentes em seu 
fiincionamento. 
Todas as formas vivas contêm alta energia potencial. 
Durante o processo de senescência e morte, ocorre a desorganização 
e a transferência desta ene-ia para outras fomas, eventualmente 
não vivas, como minerais. 
Por sua vez, os elementos simples têm 
um baixo nível de energia potencial. Pode- ..~ 
ríamos dizer que a vida é um processo com- '2 \\--.-,/ 1 
plementar à entropia. Ela organiza os resíduos 
_.._ ..-- 
da entropia em formas complexas, altamente 
r-- --- ----- ---- ---- 
I 
organizadas e conservadoras de energia. Para I 
isso, unidades básicas da vida, como algas , 
microscópicas, usam como combustível uma 
pequena parte do espectro de radiação solar 
que chega ao planeta para sintetizar, a partir 
dos elementos simples a que nos referimos, 
seu próprio tecido vivo. 
Mas onde estão e quem são estes 
elementos simples a serem organizados pela 
vida? 
Eles são os resíduos da entropia pla- 
netária. São os "dejetos" do planeta, como 
gases, cinzas vulcânicas e os minerais solu- 
bilizados da rocha. Sem a complexificação e 
organização promovida pelas formas vivas, 
A consewa-Bo energeti-a e 
o processo organizador da 
vida 
1 Resíduos da atividade geojisiológica, 
como nutrientes e gases são constan- 
temente liberados na atmosfera. 
seriam poluentes. 
O principal resíduo entrópico da atividade cósmica é a 
radiação solar. A vida, portanto, parte de elementos simples e de 
baixa energia e, utilizando uma pequena parte da radiagão solar 
que chega ao planeta, cria formas complexas e de alta energia 
potencial. Em outras palavras, a vida organlza os resíduos entrópicos 
em formas complexas e conservadoras de energia. 
Assim, se aparentemente o universo está em franca en- 
tropia, os processos vivos parecem atuar conforme a primeira lei 
da termodinâmica, transferindo energia sem perdas. 
Se não incluíssemos em nossa equação a energia solar, 
teríamos um balanço positivo. A este fenômeno chamaríamos 
2 Há mais de 3,5 bilhões de anos, estes 
resíduos vêm sendo complexiJicados 
por microoeanismos graças a 
existência de água e pela enetgia 
provida pelo sol. 
3 Estas formas de vida evoluíram e se 
complexijicaram, gerando cada vez 
mais quantidade e diversidade de 
espécies. 
4 do longo do tempo afing~ram njvels sintropia, ou entropia negativa. ou ainda negentropia, como 6 
ótlmos para cada momento da evolu- conhecida na fisica. 
ção Estes nivers, caracterzzados por Portanto, enquanto uma floresta organiza elementos 
dferentes formas e znterações, foram 
por sua vez determznados pela dispo- simples e complexos (e promove slntropla a nível planetário), sua 
nlbzlzdade & radiação, nuprentes e queima para a instalação de um pa&Q é um ato desorganizador, 
água em cada um destes momentos. que produz alta entropia. 
Isso ocorre porque durante sua 
vida a árvore absorveu minerais e gases, 
principalmente, o dióxido de carbono, 
utilizando a radiação solar como com- 
bustível e complexificando tudo em sua 
biomassa. Esse já é um primeiro nível de 
auto-regulação típico dos organismos 
vivos. 
Ainda, a floresta é sistema vivo, 
..- formado por toda uma garna interdepen- 
dente de seres vivos. Seguindo em escala, 
constitui um ecossistema, um bloma. Esse, 
por sua vez, cumpre uma tarefa global de 
moderação climática e conservação da 
energia, ciclagem de nutrientes, moderação 
da radiação e manutenção da umidade. 
Essa atividade e essas características re- 
fletem nos microclimas, moderam os climas 
regionais e podem afetar o clima global. 
Isto implica em afetar praticamente todas 
as outras formas dé vida que formam o 
planeta. Temos então o '"uper-o-anismo" 
na concepção de James Hutton, já em 
1785 ou "Gaia", como a chamou James 
Lovelock. 
Portanto, a nível localizado, a morte de uma floresta libera 
5 Este conjunto otimizado que chamamos energia, gases e minerais armazenados, entre eles o dióxido de 
ecosslstemas, dentro do qual estamos carbono> num processo de descomplexificação. O que era c o ~ l e x o 
znsendos, representa, portanto, o n- é dividido e simplificado, e a energia liberada é perdida do sistema 
sultado da evolução btológlca conjun- "ivo, isso é entropia. 
ta da vida na Terra por bllhões de anos, O processo contrário é a sucessão de espécies. Podemos 
num processo anda em andamento. 
conceituá-Ia como o canal da vida para moderar, conservar e 
acumular energia. Esse é um processo crescente e dinâmico, onde 
a transferência de energia dá-se de formas mais simples para outras 
sucessivamente mais complexas. As irregularidades ou distúrbios 
ocorrem, e há um retorno às formas simples. Porém, se o dano não 
afetar o sistema de auto-regulação, será mantlda a biomassa total, 
de modo a manter a energia potencial total. 
O exennplo do balanço de nutrientes abaixo Ilustra multo 
bem o que tentamos colocar aqui. Mudam os animais e vegetais 
envolvidos c o d o m e as diferentes condições, mas todos os sistemas 
têm em comum a otimização de recursos. 
Para isso, precisa moderar a energia de modo a incrementar 
e compleXificar a vida, conservando e, eventualmente, incrementm- 
do os nutrientes incorporados ao sistema vivo. 
Assim, os sistemas vivos mantêm a nivel planetário sua 
entropia Interna minlniizada. Esse processo é resultado da evolução 
conjunta da vida e do meio físico nos Yltimos 3 3 bilhões de anos, 
o que é tempo suficiente (e multo além de nossa Im-inação) para 
acreditarmos que o sistema realmentef~nciona. 
8 sucesso destas interações (e erros e tentativas) está 
refletido nas formas e arquitetura de plantas e animais, consórcios 
vivos que formaram cada etapa da sucessão namral de espkcies. 
Fisiologia de um sistema 
vivo: a cornplexifieaçãs e 
cicfagem d e nutrientes numa 
floresb tmpical dmida. 
Balanço de nutrientes na 
bacia do iga~apé Barro Branco, 
Manaus, AM 
P = água de chuva; 
Pi = água de gotejarnento da copa das 
ámores; 
Q = &ua do igarapé. 
Toda esta bagqem em constante evolução esta codificada na carga 
Dados: kg/ha/ano. 
genética, um imenso tesouro que constantemente evolui e Fonte: schubart, H. O. R.; Franken, W. e 1,uizão. E J. 
aperfeiçoa-se, de modo a fazer face ao dinamismo do planeta em Uma floresta sobre solos pobres. Ciência hoje, W f e v 
1984 -- v01 2, no 10. 
sua viagem pelo cosmo. 
O homem ainda engatinha 
nesse campo. A agricultura conside- 
pelas chuvas s k maiores que a Iixiviação através das águas de 
rada moderna é capaz de produzir filtração e dos igarapés. 
excedentes em curto espaço de tem- 
po, mas, por sua vez, é altamente P Pi 
entrópica. 
Se todos os seres vivos tives- 5,3 5,6 
sem seu crescimento baseado na ma- 
21,2 29,9 ximlzaqão da utilização Individual dos 
recursos naturais, na forma de ml- h o n i o m ~ , ) 6,0 7,4 0,2 
nerais, gases, solo, água e outras for- 
mas de vida, o que conhecemos por Fósforo (PO,) 0,104 0,266 0,008 
Terra não existiria. 
Em suma, a vida no planeta Sódio @a+) 10,4 11,1 0,9 
baseia-se em interações, transferên- 
Potássio (K+) L1 22,1 
clas precisas de energia e coevoluç" o. 
Os sistemas -rícolas, para nãodizer 
o modo de vida de nossas civilizações, 
não se comportam com as características básicas dos sistemas vivos 
sadios, mas sim como uma virose que ataca um organismo debilitado 
e se reproduz enquanto houver hospedeiro, ou seja, até sua própria 
morte junto com o hospedeiro. A dffexqa é que vinis e bactérias 
trocam informações genéticas com o hospedeiro, apedeiçoando-o 
e a si próprios, e mesmo quando liquidam um hospedeiro individual 
o fazem de maneira que sobrevivam várias outras formas mais aptas, 
preservando assim, seu próprio hturo. 
Finalmente, o que nos toca diretamente em relação ao que 
foi visto? 
O solo 6 um organismo uno com a flora e fauna. Uma 
vez desestniturada a vegetação e a fauna, é um organismo que está 
sendo entropizado. Toda a energia acumulada pelas formas do 
complexo vivo gerado na coevolução de solo, fauna e flora é 
dissipada, sendo uma pequeníssima parcela aproveitada pelos 
cultivos introduzidos. Para evitar essa perda eneqética, os sistemas 
agrícolas devem prever uma constafite ciclagem dos nutientes entre 
consórcios de plantas e animais. Esses consórcios devem estar 
espelhados nos ecossistemas originais. 
A transferência de energia, 
viablllzada pela sucessão de espécies, 
permite perdas mínimas do sistema, 
reduzindo a entropia como um todo. 
Portanto, como teremos opodunidade de 
obsewar ao longo do texto, os conceitos 
de termodingmlca, sistemas vivos e 
entropia são básicos. Eles permitem 
entender as estratégias usadas pelos 
ecossistemas e formas vivas que os 
integram para se reproduzirem e 
acumularem energia. Esse é o ponto de 
parlida para os agroecossistemas que 
podemos criar. 
As utopias do progresso 
Sem dúvida, transformar toda a 
biodiversldade num pasto entremeado de 
lavouras e pomares, mantendo algumas 
árvores Uteis perto de casa era a utopia 
do projeto colonizador dos habitantes do Velho Nlundo. Uma utopia 
que ia além das necessidades básicas do ser humano, avançando 
pelo terreno do ""pder" sobre a natureza enquanto missão do 
homem. 
Esse proceder está assentado em raízes filosóficas, 
ideológicas e religiosas alimentadas pela ação concreta destes povos 
colonizadores sobre as outras culturas e ecossistemas. O fato de 
etnias inteiras do "Novo Mundo9' sucumbirem às doenças geradas 
nos aglomerados urbanos da Idade Média era para os colonizadores 
a prova de sua ascendência junto ao Criador. Essa é a bagagem que 
carregamos até a sociedade atual. 
Porém, esta utopia colonizadora teve sérios entraves à sua 
sustentabilidade, face à realidade dos processos vivos do planeta. 
Destes insucessos resultaram soluções locais para problemas, muitas 
vezes esquecendo ou adaptando as técnicas herdadas do Velho 
Mundo. ainda, em lugares como a Asia e Indonésia, onde o clima 
e as civilizações ofereceram resistência ao ímpeto colonizador, 
restaram sistemas ancestrais de manejo sustentável de recursos. 
Também populações autóctones, pelo isolamento imposto por 
florestas, oceanos, desertos ou montanhas chegaram a desenvolver 
sistemas técnicos elaborados de convivência com o aimbiente. 
Felizmente, ainda existem exemplos vivos para quem quiser 
e puder aprender com eles. Geralmente, baseiam-se na busca da 
superação pratica de limitações de espaço e falta de insumos 
externos, o que é obtido através de urna reprodução manejada do 
que a própria natureza faz para superar estas limitações, via sucessão 
natural e organização de elementos simples. 
Portanto, desde o início da humanidade, o que atrai e 
fascina o agiculto6 de modo que o motiva a tentar copiar os 
sistemas naturais? 
A "mágica" pode ser resumida em obsemar como, a partir 
dos escombros de uma floresta queimada pelo efeito inicial de um 
raio, ressurge uma nova, bastante semelhante à anterior, sem a 
necessidade do uso de adubos, irrigação, tratores ou plantios em 
covas. Iljnda como, a parlir da inundação natural e periódica de 
uma planície por um rio, o espaço recobre-se de gramíneas pro- 
dutoras de grãos comestíveis e herbáceas suculentas, propiciando 
que peixes, répteis, aves e animais, entre outras espécies floresçam 
e se reproduzam, num ciclo integrado, harmônico e extremamente 
produtivo à medida da subida e descida das águas, numa sincronia 
perfeita e interligada. 
O homem como parte dos ecossistemas 
Podmto, encarando de fiente a vida que nos envolve, como 
pade dela que somos e não como deuses onipotentes, podemos 
nos propor alguns princípios básicos, bastante repetidos hoje em 
dia, mas hndamentals para nossos objetivos. 
Primeiro, faz-se necessário compteender os ecossistemas 
como eles são e como hncionam. Neste contexto, o próprio Homo 
mpiens sapiens em seus centros de origem conhecidos, na h i c a e 
Ásia, como qualquer outro ser vivo que habita o planeta. 
A Arqueologia, Antropologia e a História esforçam-se em 
revelar como ele se adaptou aos diferentes ecossistemas, e como 
fatos sociais, políticos e até geoclimáticos - como os períodos 
glaciais5 - determinaram a migração e ocupação dos diferentes 
continentes e ecossistemas. Essa é uma fonte de conhecimento 
hndamental. 
Segundo, implica em ter consciência do papel da integração 
de saberes. É necessáio refazer não só o histórico dos ecossistemas 
que procuramos entender, mas também das populações que 
atualmente os ocupam e seus movimentos geográficos e sócio- 
culturais. A tradição oral, o saber popular são o acumlado de 
gerações convivendo com ecossistemas e ciclos climáticos. Uma 
vez que integrarmos este acumulado a uma visão científica não- 
-preconceituosa, poderemos germ informações que de outra forma 
seriam inacessíveis. 
É a padir desse conhecimento que procuraremos entender 
a intervenção humana e sua interação com o ambiente natural e o 
resultante deste processo: os atuais espaços "humanizados", no 
meio rural e urbano, os sistemas agrícolas. 
Se lançarmos um olhar analítico sobre a civilização do 
6 L progresso", chegaremos a duas conclusões em relação as nossas 
ilitemenções "agrícolas": 
- é necessário otimizá-ias e não maximizá-las; 
- na atual conjuntura, onde possível e necessário, limi- 
tá-las. 
Esses propósitos batem'de frente com o dogma da supe- 
rioridade inerente da espécie humana, que nos "autoriza" a intervir 
e ocupar todos os espaços biológicos e geogaficos e, pela pretensão 
atual, inclusive cósmicos. 
A realidade é porém mais dura e próxima, e coloca como 
prioridades a recuperação do potencial produtivo de áreas já 
degradadas, e na mesma ótica o aproveitamento ótimo e sustentável 
dos recursos existentes. 
Para viabilizar esses objetivos, quanto maior o conhe- 
cimento dos ciclos e padrões dos sistemas naturais, maiores as 
possibilidades de harmonizar com eles visando o progresso do 
homem no seu sentido mais amplo. 
Nessa afirmação estamos chocando de frente com o dogma 
que estabelece o antagonismo homem versus natureza como forga 
diretiva da evolução, do progresso e do desenvolvimento da 
humanidade. Finalmente, estamos polemizando o papel da 
competição como moto contínuo de evolução da natureza e, 
conseqüentemente, da sociedade. Mas para onde estarão nos 
levando estes dogmas? Essa pergunta já foi respondida em teoria 
por muitos pensadores, e cada vez mais é respondida na prática 
por agricultores e cientistas. 
Além do antropocentrismo 
Masanobu Fukuoka 
Um dos pioneiros do rompimento desses dogmas, com uma 
abordagem holística para a agricultura e uma análise crítica da 
ideologia do desenvolvimento e resultados convincentes é 
Nasanobu Fukuoka6. 
Já no final dos anos 30, Fukuoka, então um jovem 
pesquisador numa estação experimental agrícola do Japão, 
redirecionou sua carreira, procurando avançar além dos esquemas 
tradicionais de compostagem e adubação verde, já apregoados na 
época. No pós-guerra, continuou desenvolvendo seus sistemas, 
publicando, no início dos anos 70, um livro onde relatava suas 
experiências, que basicamente criavam um manejo de sucessão de 
cultivos de grãos e consórcio de, espécies para áreas deinundação, 
bem como de consórcios para cultivos de hodaliças, árvores e 
fmtíferas. 
Enunciava então que, para aumentar a produção das 
culturas, devíamos procurar entendê-las fora de um olhar 
antropocêntrico. Devíamos buscar conhecê-las em seus ciclos e 
necessidades, observadas em seu habitat natural. 
No seu entender, e como ele provou ao longo de mais de 
50 anos de resultados convincentes, o fluxo natural da vida expresso 
na sucessão das espécies é grande fator potenciallzador da produção, 
e não a quantidade de energia com a qual intervimos num sistema. 
Em suma, não é o que queremos que as plantas e os anlmais 
nos produzam. O que comanda é o potencial inerente que todo o 
organismo vivo que congrega e integra plantas e animais pode 
produzir, e quais são os fluxos e ciclos de energia que determinam 
esta produção. 
No prefácio de seu livro ""The Natural Way of Faming", 
Fukuoka afirma: 
"Mesmo a aqicultura orgânica, h qual se faz uma -ande 
apologia nos dzas atuais, é apenas outro ramo da agricultura 
cientifica moderna. São muitos os problemas em mover materiais 
orgânicos de lápara cá, process&los e trata-lm. 2Muitos dos ganhos 
obtialos com esta atividade s&o ganhos locais e tenzporárlos. De 
fato, quandó examinados numa perspectiva mais ampla, muitas 
destas tentativas de proteger a natureza na verdade a destroem". 
Bilt Mollisson e a Permacultura 
Outro caso de abordagem e crítica ao modelo global é a 
Permacultura, pelo menos em sua concepção básica. Já no início 
dos anos 80, Bill Mollisson, um pesquisador e prático multi- 
disciplinar natural da Tasmânla, lançou ""Prmacultura Um" e 
""Prmacultura Dois", livros onde colocava ao mundo propostas 
integrais de relacionamento com os ecosslstemas. 
A agricultura é o tema central, mas a abordagem é holística, 
englobando de certa forma todas as relações humanas. Gomo ele 
próprio definiu em uma entrevista7, a Permacultura é: 
"um sistema organizado de design para viver(...). Uma 
das normas fundamentais do design é: "aça algo bkico (em 
relação aos padrões da natureza) correto, porque então todo o resto 
é mais correto por siprópdo " (. . .). Em relação ao corpo filosófico 
ele explica que "(apermacultura) é uma estrutura que nuncapára 
de mover-se, mas que aceita informação de onde quer que seja. ..) 
nós (a humanidade) carecemos de qualquer poder de criação; 
somente temos poder de reunião. Por isso, simplesmente, 
admiramos assombrados como as coisas relacionam-se entre si." 
Ao lado de centenas de obras m i t o interessantes, esses 
são dois autores cqas obras permitem avançar para além das 
correntes da agricultura e mesmo da agrossilvicultura que se 
pretendem hoje sustentáveis. De modo geral, acrescentam uma visão 
mais ousada e crítica do nosso paradigma de progresso, tocando 
no ponto-chave: não são apenas necessários 4ustes no modelo, 
mas sim, redirecionar a própria essência de nosso projeto de 
civilização. 
Agroecologia ou 
simplesmente agricultura? 
Portanto, o que difere as duas iniciativas que citamos, bem 
como a abordagem deste livro da agricultura orgânica clássica é a 
mudança de paradigma. Não se trata mais de apenas substituir o 
insumo externo por um menos danoso ao ecossslstema e à saúde 
humana, ou de criar um eficiente organismo rurai padrão. 
Resumindo, trata-se de assumir como fundamental para a geração 
de tecnologias agrícolas alguns pontos básicos: 
- compreensão dos componentes da sucessão natural de 
eLypécies em cada ecossistema e de como esle processo utiliza de 
modo ótimo os recursos no tempo e no espaço; 
- os mecanismos de evolução interativa entre as co- 
munidades vivas e o meio Rico , criando as condzçBes bhsicas 
para o desenvolvimento da vida (olimização de radiação, umihde 
e nu2rientes); 
- os ciclos epdrões que refletem essas interações, e como 
neles inteqar as ações e interesses humanos, buscando otimim 
nossa intervençzo nos ambientes; 
-fazer deste processo a matriz de um desenvolvimento 
tecno2ógzco adaptado C$ escala humana, o que inzplica no 
reconhecimento da importância das particularidades de culturas 
e etnias e sua bagagem de Fnteração com os ecossistemas. 
Esse último tópico nos remete ao fato de que a constmção 
de sistemas agrícolas sustentáveis passa pela observação local dos 
ecossistemas e a consequente formulação de hipóteses, gestadas e 
testadas na prática pelas populações ao longo do tenipo. 
O aperfeiçoamento desse processo só é possível numa 
perspectiva contínua, viabilizada pela existência de sociedades 
estáveis com níveis satisfatórlos de equidade social. Portanto, a 
(re)construção de um saber adaptado só é possível com a 
participação efetiva e interessada das populações mrais e aut~ctones 
na fòrmulação, Implantação e avaliação dos sistemas. 
Objetivando a visão global e clareando as informaç6es 
obtidas dos preconceitos e heranças culturais originadas de fora do 
ecossistema, teremos os eixos hndmentais para a constnição de 
tecnologias realmente sustentáveis e aproprláveis pelos agricultores 
Ainda, quando nos referimos a clarear as informações, 
assumimos também nossa própria herança filosófica, e buscamos 
nos tornar aptos a reconhecer suas mazelas. A mais pesada delas é 
o dualismo presente em várias culturas e religiões. Esse dualismo 
reflete-se num antagonismo constante entre homem e natureza, 
espirito-maténa. O homem retrata a encarnação do espírito, superior 
à matéria, vista como todo o resto da natureza exceto o homem. 
Essa herança filosófica e cultural leva à rejeição de 
determinadas espécies vegetais e animais, ao combate sistemático 
e não-fundamentado (se é que existe alguma campanha de 
erradicação realmente hndamentada) de espécies e até mesmo à 
sua extinção. A origem e históna dos gmpos humanos pode nos 
auxiliar a compreender tabus e preconceitos, suas origens e como 
lidar com eles. 
O resultado global destes preceitos é uma abordagem que 
procura não como intemir, mas sim, como não intervir. Abre-se 
assim a possibilidade de que o insumo externo, via treinamento em 
tecnologla, capital, adubos (orgânicos. sintéticos ou minerais), 
mudas, sementes, maquinário, etc. sejam elementos conjunturais e, 
a seu tempo, dispensaveis elou substituíveis, e não a base central e 
alicerce dos sistemas produtivos. 
Concluindo, o processo de consolidar princípios em 
diferentes situações e ecossistemas é um ato que nos desafia 
continuamente. Podemos usar a figura do velejador, que viaja 
impulsionado pela força das correntes e dos ventos, usando seu 
discernimento para tragar um mmo adequado e de baixo esforço 
que o levará a seu destino. 
É nesta vi-em que está apenas iniciando que procuraremos 
ajudar. Não é uma viagem linear e confortável, movida a motores 
potentes e com hora marcada para chegar. Okrecemos ao leitor 
dados, observações e princípios que, uma vez enriquecidos e 
trabalhados de acordo com as diferentes realidades locais, podem 
vir a constituir valioso instmmento de trabalho. 
Resumidamente, esperamos contribuir na criagão de 
sistemas produtivos adequados e sustentáveis, que resgatem a 
dignidade economica e cultural do homem frente a si próprio e sua 
sociedade mas, principalmente, frente à1 grandiosidade da vida, em 
parte expressa nas Rorestas que nOs, seres humanos, de modo 
suicida, temos teimado em reduzir a escombros ao longo das eras. 
Referências 
' Os povos autóctones do Ártico, principalmente na tundra siberiana e 
canadense, são um exemplo claro desta adaplação. A rena, popularizada, 
mundialmente, como o animal que puxa o trenó de Santa maus ou São Nicolau 
(Papai Noel no Brasil) é um herbívoro nativo daquela região, e manejado há 
dezenas de milhares de anos pelos autóctones. De um rebanho total estimado 
em três milhões de indivíduos, dois milhões são domesticados. Porém, esses 
são manejados dentro do mesmo sistema de migração através da tundra que 
seus irmãos selvagens, em busca dos excelentes recursos forrageiros 
possibilitados pelo cui-Êo verão ártico. Dali. a carne, pele,chifres e outros 
produtos chegam aos mercados da Europa e Ásia com altos preços. Ver tmbém 
Setos, tradición e ecologia, por Ramón Martin e Carlos Mufioz em Revista 
Integral, Enero 1995, pg. 72-77, Barcelona, Espana. 
Contido no que poderia ser chamado de um ancestral dos manuais de 
agrossilvicultura, um sábio romano conhecido como Calo, o Velho, escreveu 
no final do século 111 a. C, inslmções para "como fazer as árvores crescerem 
como treliças de modo que as videiras nelas se amparassem, e as sobras de 
parreiras e árvores pudessem ser usadas como combustível". Esse tipo de 
preocupação surgiu após a conquista de Cartago, quando a recompensa gelas 
vitórias foram terras aos generais e a utilização de escravos intensificou o uso 
da terra e o modo de exploração, com a agricultura de subsistência dos 
camponeses dando lugar à pecuária e agncullura extensiva, e aumentando a 
pressão sobre as florestas remanescentes. Dentro desse modelo de 
desenvolvimento, as conquistas ronianas desempenhavam o papel essencial de 
seguir fornecendo terras novas. madeira e minerais para os ceneos urbanos e 
fabris, o que fontalecia sua frota mercante, marinha e exércitos, num ciclo 
rerroalimentado, onde a religião era, em tempos de guerra e colonização, o 
fator convenientemente unificador. Perlin, John. Histórias das Florestas: A 
imporllincia da madeira no desenvolvimento da civilização. Rio de Janeiro: 
Imago ed., 1992. 
Discorrendo a respeito da pressão sobre recursos natwais promvida no apogeu 
das civilizações antigas, é interessante citar este trecho de “História das 
Florestas": "Inversamente, quando uma sociedade entra em declínio, a 
tendência das Rorestas é de se regenerarem. O profeta Isaías viu isso ocorrer 
depois da mofie de um ambicioso rei assírio. "O cipreste e os cedros-do-líbano 
regozijam-se", escreveu ele: "eles dizem: agora que você foi posto no chão, 
não surgirá ninguém para nos dermbar". Perlin, John, Op. cit. 
"A enlropia pode ser definida como a medida da proximidade do equilíbrio. 
Todos os seres vivos exibem baixa entropia - eles mantêm um nível alto de 
desequilíbno Interno e idomação abundante". Para ir adiante ver: Eovelock, 
James. Weallng Caia: PracticalMedicinefor the Planet. H m o n y Books, New 
Uork, 1991. 
Nos últimos dois milhões de anos, o planeta parece se alternar entre grandes 
penodos glaclais (da ordem de 150.000 anos) e interglaciais (da ordem de 
100.000 anos). Flutuações menores parecem ocorrer em Intervalos de 40.000 
anos, devido a variações na órbita e inclinação da Terra. Essa Rutirações, 
conhecidas corno "Efeito Milankovich", alavancarim o processo quando urna 
tendência de resfriamento ou aquecimento já estivesse ocorrendo. Para ir mais 
longe, ver: Lovelock, James. Op. cit. e Molion, L.C.B. Aquecimento global. 
Ciência Hoje, março 1995, vol. 18, pg. 20-29. 
6Duas obras principais para ler: "One-Straw Revolutionne "The Natural Way 
oEFarmingW, Japan Publications, Tokyo, 1985 e "The Road Back to Nature", 
Japan Publications, Inc.Tokyo, L 987. 
Permacultura, Lrn disefio para vlvir. Revista Integral, 180, vol & Dicienibre 
94, pg. 72-75, Barcelona, Espana. Outros títulos: Mollisson, Bill e David 
Holmgren ""Prmacultura Um" Editora Cround, 1983. Mollisson, Bill 
"'Permaculture - A Designer's Manual", Tagari Publications, Tyalgum, 
Australia, 1988 Lindegger, Tap "The Best of Pemaculture". Pirie Printers 
Ltd, Canbenra, ACT, 1986. 
O objetivo último da agricultura não é cult~var as plantas, mas slm cultivar os seres humanos 
Masanohu Fukuoka. The One Straw Revolution 
Conceitos e ferramentas básicas para os 
sistemas regenerativos 
Ferramentas são instrumentos de transformação do 
ambiente. Conceitos são ferramentas de transformação das idéias. 
Porém, ao usar uma ferramenta, estamos também tendo que adaptar 
nossos conceitos aos resultados que a ferramenta produz, ao mesmo 
tempo que refletimos sobre esses resultados. 
É um processo constaae e passa por cicios e "cTises". Essas 
crises ciclicas nada mais são do que uma necessidade vital de refletir 
sobre nossas ferramentas, quando elas produzem resultados que 
afetam - ou ameaçam - nossas existências. 
E no caso particular dos conceitos e ferramentas da 
agricultura, é bom constatar que, mesmo sem ler os mesmos livros 
ou falar a mesma língua (ou compartilhar a mesma cultura), ($tinilarar e n3o Maximizar: 
podemos chegar a principias Idênticos em diferentes partes do a abordagem do cors-eito 
mundo, convivendo com ecossistemas os mais variados Podem de produtividade 
mudar as ferramentas para cada ecossistema, mas os pricíplos 
básicos da sustentabllidade são comuns 
Esta relativa espontaneidade na formlação de teorias do 
tipo sistêmico a respeito da intewenção humana na natureza é 
possível, porque a educação básica do ser humano é feita através 
de todos os sentidos e em relação ao ambiente que o rodela O tipo 
de racionalização que nos leva a gerar as "krramentas" é, de certo 
modo, consequência deste processo de ""reconhecer o mundo" 
Essa constalação se refere, principalmente, 
a agricultores e populações autóctones 8 fato 
globalmente reconhecido é que estas comunidades 
são c-azes não só de zonear ambientes e classificar 
solos, mas também de formular teorias complexas 
para explicar fenomenos naturais, a partir da 
observação, formulação de hipóteses e aplicação 
prática, por tentativa e erro 
Na verdade, estas teorias "sistêrnlcas" cons- 
tituem uma abordqem de ecologia básica aplicada 
a agricultura, ainda que em bases empíricas Este 
tipo de enfoque não constava do currículo das 
Ciências Agronômicas nos anos 70 e início dos 80, 
no auge da "Revolução Verde" Naquela 6poca. só 
podiam ser encontradas referências ao impacto da 
agricultura nos ambientes em leituras especializadas 
e m i t o raras, em "nichosy7 acadêmicos de cursos ,- ---̂ C--̂ vL 
como Geologia, Biologia e Ecologia Portanto, era 
de se esperar que os conceitos e ferramentas usados 
pela ciência Agronômica refletissem uma aborda- ,-- 
gem mais reducionista e linear Ferramenta e con- 
ceito, como vimos, têm sempre uma ligação que os 
toma coerentes entre si, embora não necessariamente 
sustentáveis em relação ao ambiente 
8 método básico de aprendizado do ambiente que produz 
a abordagem sistêmica e ferramentas coerentes com este conceito 
tem servido para a constmção de sistemas ag~-lcolas desde o começo 
da humanidade Não importam fronteiras ou culturas A "disciplina" 
básica é ministrada pela mesma "professora" há pelo menos 3,s 
bilhões de anos: chama-se vida na Terra, e o homem agricultor 
aparece de modo muito recente nesta história. 
Portanto, a observação, fomulação de hipóteses e tentativa 
O conceito de produtividade na nossa 
de prová-las na prática é uma herança cultural da humanidade como 
civilização está ligado a ferramenta, e método de aprendizado do mundo que nos cerca. O primeiro passo 
não ao produto obtido. Uma ferramenta do aprendizado é andar com olhos e ouvidos bem abertos para o 
aumenta a produtividade quando permite conhecimento acumulado pelas populações que conviveram com 
que se obtenha mais (maximizar) do 
recurso que nos interessa. 
- a 
os ecossistemas. Através deles, chegaremos a lógica que gera as 
técnicas, os sistemas e os conceitos que regem nossas vidas. 
Neste processo, iremos nos dar conta de que muitas de 
nossas razões são amparadas no mesmo tipo de conclusão a que os 
métodos analíticos e indutivos usados pelos ecólogos chegariam. 
Este é um bom começo: mostra que não 
precisaremos criar uma uniformidade cultural para 
aprender a conviver com a vida no planeta. Bastará 
bom senso e integração de saberes. 
Otimizar e n b aaiaxiaizar 
O conceito de "otimizar ao invés de ma- 
n ximizar" já estava embutido nos clássicos da agri- 
cultura orgânica. A idéia básica era alimentar o solo 
para que ele alimentasse as plantas. A figuração 
usada era de que "enchendo o barril, utilizaremos o 
que dele se denamar". Porém, o maior problema 
era a tecnologia para'"encher o barril". Gestada na 
tradição de agricultura européia, de grãos e carne, 
a construção da fertilidade do solo era baseada na 
adição de materiais orgânicos reciclados delavouras 
de grãos e pastagens, que produziam carne e leite. 
Os resíduos destas atividades, como palhadas e 
esterco animal, eram retornados ao solo. - - - 
O conceito de otimizar que procuramos construir se estende 
do solo para todo o ecossistema. ""Alimentar o solo" passa a ser 
Por outro lado, a produllvldade dos 
ècossrstemas mede-se pela quantidade de criar condições para que as formas de vida já existentes ou 
subslâncla orgânica adquirida pelas introduzidas se sucedam e se complementem num processo que - 
,formas vivas numa unidade de tempo. resulte num aumento da vida como um todo. Esta abundância de 
equiiibrio dinâmico de um ecossistema vida, em quantidade e diversidade, é o "enchimento do barril". É o 
se baseia na otimitaçGo do aproveita- 
mento dos recursos que ele proporciona objetivo final e, ao mesmo tempo, o processo que nos permitirá 
para o conjunto das fórmas vivas. obter os recursos dos quais dependem nossas vidas. Na prática, 
isto significa que doses maciças de esterco bovino não ajudarão a 
regenerar a Mata Atlântica, assim como reflorestamentos de Pinus 
e Eucaliptus não recuperarão a fertilidade dos campos naturais e 
cerrados. É o caso do uso de princípios corretos, como o retorno 
de matéria orgânica ao solo e cobertura verde materializados pelas 
ferramentas erradas. 
Gomo veremos ao longo do texto, há uma ligação total 
entre fauna, flora e a paisagem. Cada etapa da regeneração de um 
ecossistema está baseada na sucessão de espécies da fauna e flora 
locais. Este processo pode gerar produtos como alimentos, fibras, 
madeira, condimentos e toda uma série de necessidades do ser 
humano, através de recursos já existentes ou que introduziremos. 
Para isso, as intervenções devem ser pontuais e estrategicamente 
sincronizadas com o fluxo da sucessão natural de espécies. 
O objetivo é que esta intervenção resulte sempre num 
aumento da vida em termos quantitativos e qualitativos. Em outras 
palavras, que produza não só biomassa como também biodiversi- 
dade. Para o aperfeiçoamento do processo, o grau de acerto de 
nossas estratégias deverá ser avaliado de várias maneiras, através 
de alguns parâmetros básicos e rapidamente visualiáveis que são: 
A flora antes e depois da intemençãio 
Uma das possibilidades é comparar áreas manejadas com 
as áreas em estado natural. Podemos analisar, por exemplo, a 
velocidade de recuperação da biomassa e composição de espécies 
(fauna e flora). No caso, uma regressão na sucessão de espécies e 
uma queda de biodiversidade pode indicar erros de manejo e perdas 
energétlcas (entropização) do sistema. 
Do ponto de vista economico-social 
Outro parâmetro básico é a avaliação da recuperação da 
energia gasta para formar o sistema. Quais são os recursos que 
conseguimos gerar de modo direto ou indireto a curto, médio e 
longo prazo?' Este é um pressuposto básico de qualquer ser vivo: 
ele não pode gastar mais energia para obter um recurso do que a 
energia que o recurso lhe fornecerá. 
Devemos considerar que pequenos desequilíbrios no 
sistema, como exportação de nutrientes via produtos e derivados, 
queima de lenha e pequena lixiviação de nutrientes ou perdas gasosas 
podem ser compensados por um equilibno entre sistemas vizinhos, 
ou ainda a nível de comunidade biogeográfica. Isto se dá pela 
integração de métodos entre unidades de produção, comunidades 
e microregiões, que pode ser planejada ou desenvolvida em torno 
de uma microbacla hidrográfica, por exemplo. As técnicas 
envolvidas vão desde reciclagem a nível de habitação até medidas 
de escala macro-regional. Ao atingir estes objetivos, estadamos 
qualificando o desenvolvimento e a vida nos assentamentos 
humanos. Este "beenficio" estenderia-se a todas as outras espécies 
dentro do ecossistema a ser regenerado. 
Para chegar a este ponto, é preciso: 
- a cuHo prazo, produção de alimentos; a me& prazo, 
potencializar esta produção de alimentos e proporcionar outvos 
recursos uibras, madeira, essências, forragem); a longo prazo, o 
fornecimento estdvel de recursos como madeira, alimento, 
forragem e frutos. Finalmente, a estabiliza~6o demogrh)ca dos 
assentamentos humanos. 
Os resultados dessa política de otimizar o uso de recursos 
são bastante amplos. O conforto ambienta1 surge como con- 
seqüência da regeneração da cobertura florestal, pelo efeito 
amenizador que ela exerce sobre as oscilações climáticas e eventos 
como vendavais, inundações, secas. Todas essas condições são da 
esfera básica da vida humana e podem influenciar nas relações sociais 
e culturais. Finalmente, a estabilização das nossas próprias 
populações, bem como a manutenção do consumo energético de 
fontes não-renováveis ao mínimo2 necessário e suporlável pelo 
ecossistema é condição básica para haver um fituro comum. 
O que foi colocado até agora não significa o fim da 
-ricultura mecanizada de grãos ou da pesca industrial, mas aponta 
para o fituro sustentável que procuramos constniir. Geflamente, 
os sistemas de produção confinada de carne e leite do Mercado 
Comum Europeu, sustentados com soja argentina e brasileira, ou 
farinha de anchovas peruanas e chilenas não pedencerão a esse 
fùturo, se pretendemos que h i a algum. 
Da lógica linear para a biologia 
E hndamental cornpreender que os sistemas agrícolas 
baseados em setores estanques têm uma lógica linear. Em outras 
palavras, a fórmula é Juntar petróleo e derivados, recursos de solo, 
capital, mão-de-obra e maquinário e assim gerar mais dinheiro. k. 
uma atividade gêmea da mineração: tem a riqueza a ser explorada, 
a tecnologia, e o destino certo para os beneficiários. Esses 
certamente não dependerão da continuidade daquela "mina" no 
futuro. Ou pelo menos não esperam depender. 
Quando se adota a lógica da economia ambiental, os 
princípios de o-anização dos sistemas adotam uma dinâmica 
permanente baseada na sucessão natural de espécies. Cada cultura 
de interesse humano aparece dentro do sistema a partir de alguns 
passos. 
O primeiro critério é o zoneamento de 
ambientes favoráveis às culturas que pretendemos. 
O segundo critério é lugar, sempre que as condições 
oportunizarem. Isso significa que, por exemplo, ba- 
naneiras precisam de zonas de umidade constante, 
boa exposição solar e matéria orgânica. Isso não é 
encontrado dentro de uma mata primária intacta: 
uma clareira natural em terreno fértil e com umidade 
adequada preenche melhor esses requisitos. 
Do mesmo modo, um pasto degradado não 
irá receber de modo apropriado árvores da mata 
clímax. Elas necessitam estar em consorcio com 
espécies pioneiras e secundárias para se esta- 
belecerem e prosperarem. 
Portanto, criar as condições usando o 
próprio fluxo ene-ético da natureza constitui o 
refinamento tecnológico que separa a agricultura que 
nos levará para o futuro daquela que nos trouxe até 
aqui. 
Para facilitar nossa tarefa, temos os exemplos à nossa volta. 
Observando a vida que nos rodeia, concluiremos que os sistemas 
naturais são baseados em slneqismos. Portanto, dependem de uma 
transferência eficiente de energia de um consórcio de espécies para 
outro. Ou ainda, de algumas espécies dentro de um consórcio para 
A sueess&s e o conâssircio 
corno estratégia 
de eonsemação de energia 
1 - A ayace cresce consorciada com o 
amaranto, fechando completamente o 
solo. 
2 - O porte mais elevado do amaranto 
permite-lhe iniciar a dominar o 
consórcio, cortando a luz da alface. 
3 - Uma poda do amaranto da a vanta- 
gem que a aljace precisava para chegar 
ao ponto de colheita. O mater~al podad~ 
retorna ao solo. 
4 - Finalmente, a alface é colhida e o 
canteiro é dominado pelo amaranto. 
Poderíamos introduzir toda uma 
sequência da sucessão "manejada", e o 
amaranto também seria substituído por 
outras espécies e assim sucessivamente 
até chegarmos próximo do que era a 
vegetaçãooriginal do local. 
outras. Se o que sucede à dermbada de uma floresta é uma lavoura 
de arroz por cinco anos , que por sua vez torna-se pastagem por 
um período igual ou superior, antes do abandono total, a ene-ia 
não foi transfeida. Foi simplesmente dissipada através da lixiviação 
e imobilização química de nutrientes do sistema. 
O que permite o crescimento e a produção agrícola nos 
sistemas regenerativos é a inserção da planta cultivada no consórcio 
adequado, no tempo e no espaço da sucessão. Esta introdução se 
dá de modo que estas espécies beneficiam-se dos nutrientes que 
estão sendo ciclados pelo consorcio. Vamos exemplificar: 
Como tentamos representar na figura ao 
lado, um canteiro de alface recém instalado fica 
recoberto por Amaranthus spp. Essa planta cobre 
bem o solo e é grande recuperadora de nitratos. En- 
quanto não competem por luz, a alface e o amaranto 
são um consórcio. Quando esta competição se inicia, 
o manejo de "capina" é quebrar o amaranto, de modo 
que os nutrientes que acumulou sejam recuperados 
pela dface. Uma vez colhido, o amaranto fecha 
completamente o canteiro. 
Se quiséssemos aumentar a eficiencia 
energética do sistema, poderíamos ter introduzido 
mamão ou outro cultivo apropriado de ciclo médio. 
Este inviabilizaria o cultivo da alface a médio prazo, 
mas teria, no conjunto, criado as condições 
econômicas e ambientais para o aproveitamento 
ótimo da área com o mínimo gasto energétlco (mão- 
-de-obra, insumos, perdas mínimas de nutrientes). 
O resultado economico dos sistemas sempre 
é uma variável complexa, pois envolve mercado, 
distribuição, costumes e conjuntura econômico- 
social. Porém, é mais provável haver coerência 
econômica num sistema quando há também 
coerência energética. 
Portanto, para que este sistema hncione, os cultivos devem 
migrar dentro das áreas maiores, acompanhando a renovação da 
vegetação e os ciclos do ecossistema. Eles formam consorcios entre 
si e com as espécies nativas. e vão se sucedendo dentro da área. 
Em regiões florestais, as plantas anuais fazem parte das etapas 
iniciais de sucessão, e vão sendo substituídas gradativamente por 
bianuais, arbustos semiperenes, e, finalmente, árvores. Urna 
infinidade de espécies e formas podem compor este processo, em 
suas várias etapas. 
A arte da agricultura sustentável consiste em Imitar este 
processo sem recorrer ao fogo ou à aração generalizada, que 
induzem à renovqão, mas são extremamente entróplcos. Ainda, 
como evento generalizado, não ocorrem nos sistemas naturais das 
florestas hímldas. 
Os cultivos anuais poderão ser introduzidos numa área 
nova, onde o sistema está sendo implantado, mudando, portanto, 
de local. Ou ainda, se as condições permitirem, eles voltarão a 
ocupar nichos dentro da mesma área que já ocuparam. No caso, 
não mais como dominantes, mas como parte da produtividade total 
do consórcio ou sistema. 
Como cada espécie tem longevidade e ciclos diferenciados, 
enquanto algumas anuais poderão ser cultivadas por muito tempo 
em alguns locais e sistemas, em outros elas aparecerão por qenas 
um ano ou dois. 
Ainda, algumas espécies de ciclo longo estarão presentes 
desde o Início da formação do sistema até o momento de sua 
renovação, com o final de ciclo. É o caso de algumas áwores e de 
espécies herbáceas de ciclo perene e que suportam uma situação 
medianamente umbrófila, como a Colocasia antiquarum. 
É de conhecimento geral que a principal característica das 
florestas do trópico e subtrópico úmido é a manutenção dos 
nutrientes na biomassa, e não no solo3. Portanto, o sucesso da 
agricultura nestas condições depende mais da contínua ciclagem 
de nutrientes4 e dos sinergismos criados pelo consórcio de espécies, 
do que de seu acúmulo ao nível do solo. 
O estudo do trópico úmido permitiu-nos entender melhor 
a agricultura dos climas temperados, subtropicais e sazonais por 
frio, falta de umidade ou ambos. Nesses climas sazonais, após um 
ciclo de grande redução de atividade biológica há uma grande 
produção de biomassa5. Essa é a base científica que explica o relativo 
sucesso do modelo de agricultura européia que foi expandido para 
a Oceania, h é r i c a do Sul Meridional (abaixo de 30 graus de 
latitude sul) e em boa parte da América do Node. Também a~uda a 
entender seu fracasso e os danos ambientais inerentes ao modelo 
no trópico úmido. 
A antiga técnica européia de arar os campos antes das 
nevascas invernais tinha consequências bem claras. Ela forçava, 
por ocasião do degelo da primavera, uma mlneralização intensa do 
1-Mata Secundaria de mais de 25 anos 
2-Na derrubada e queimada, todas asfornas 
de vida são mineralizadas 
3-A mandioca aproveita unza pequeníssima 
parte destes nupientes minerais 
#-Sem condzçõespara novu cultzvo, a área e 
abandonada para encapoelrar 
5-A rírea é novamente quelmada para tornar- 
se um pasto de bama lotação (0,5 u a /ha) 
1 
húmus acumulado. Estes nutrientes solúveis ficavam então 
disponíveis para os cultivos. Esse procedimento levava a uma 
exaustão progressiva das resenras de húmus, Já que elas não eram 
repostas em função da retirada da vegetação original. Como vemos, 
a agricultura tradicional também utiliza os pontos críticos do fluxo 
energético dentro dos sistemas. Porém, suafunção semprefoi a de 
maxinzizar o resultado, e n6o otimlzb-lo. 
Portanto, ao utilizar o fluxo da sucessão nahird de espécies 
e seus ciclos e padrões para formar nossos -roecossistemas, 
estamos refinando nossa tecnologia agrícola. Nossos cuItivos 
passam a se beneficiar dos nutrientes ciclados pelo sistema natural 
de modo contínuo, pela convivência com a vegetação nativa, e não 
às custas da mineralização dela e do sistema vivo original. 
Além disso, estamos criando deste modo espaços de 
convivência entre cultivos de i~ere;se humano e espécies nalivas, 
bem como zoneando a intensidade de intervenção no ambiente 
natural. Isto poderia tornar praticamente toda a atividade qrícola 
compatível com a regeneração de um ecossistema já desestabilizado 
pela intervenção humana. 
Potenciais e limitações 
Nutrientes, biomassa e biodiversidade presentes numa área 
indicam o que é possível esperar como retorno economico- 
produtivo de nossas intervenções. Sistemas arrasados, com solos 
lixiviados e poucas espécies não têm como fornecer recursos para 
espécies de grande porte e exigentes.0 homem europeu e o gado 
bovino, por exemplo, dificilmente obterão retornos imediatos em 
uma capoeira degradada na h a z o n i a ou Mata Atlântica6. 
Podanto, embora a paisagem de uma pastgem abandonada 
e degradada em uma zona de mata tropical úmida se assemelhe a 
uma estepe ou savana, não oferece os beneficios em termos de 
solo, clima e flora herbácea para a criação de grandes mamlferos 
que uma estepe natural asiática ou uma savma africana oferecerim. 
Pelo contrário, constitui um desastre artificial, um virtual buraco 
negro energético provocado pelo homem. Casos como esse são 
comuns no dia-a-dia das zonas florestais ainda existentes na Mata 
de Araucárias, Mata Atlântica e regiões "integradas" da Amazonia. 
Os agricultores chegam com seus cultivos e animais, e utilizam os 
recursos locais de vegetação, umidade e solo do modo que 
conhecem - a queimada. Sejam tratores de esteira ou machados, 
prevalece o conceito básico de mineralizar o sistema vivo e 
direcionar os nutrientes para os cultivos. Podanto, uma transição 
deste sistema para outros mais sustentáveis deve partir das realidades 
locais. O objetivo do método que estamos descrevendo foi de 
estimular a criação de parâmetros locais do que cada situação 
poderia produzir com os recursos propiciados somente pelo manejo 
da sucessão vegetal natural e introduzida. Assim, a possibilidade 
de utilização de insumos externos "facilitadores" poderia ser 
avaliada para cada situação e conjuntura frente a um parâmetro 
mais fíel, onde a real necessidade de insumos externos e, 
consequentemente, a relação custolbenefício do sistema de 
produção ficasse mais clara. 
Conceitose princípios 
básicos dos sistemas 
O princípio fiindamental do trabalho é o mane~o da sucessão 
de espécies. Este manejo é feito de modo a não comprometer o 
fluxo de complexificação da vida que está sendo levado 
naturalmente. Buscamos então criar junto ao sistema natural as 
condições de tempo e espaço físico para o desenvolvimento de 
espécies cultivadas, ou de especies nativas que forneçam recursos 
que nos interessam. 
A transição de um sistema "roça-queima" para um sistema 
regenerativo tem sua "porta de entrada" por exemplos do próprio 
sistema do agricultor. 
Em alguns sistemas tradicionais, após a queimada é 
instalada uma mistura de cultivos anuais, semiperenes e perenes. 
Por dois ou três anos, os cultivos anuais são obtidos e a regeneração 
de espécies nativas combatida por capina e podas. Após, toda a 
Sucessão natural e sucess&o 
antrcapogênica 
regeneração é permitida e se estabelece um sistema misto de cultivos 
A ação humana ~nduz a estág~os de 
perenes (frutíferas, oleaginosas, etc) e espécies nativas (ervas, bem rlemarcados, Aqui & . 
arbusto e árvores). observar a cronologia da intervenção na 
Mata de Araucánas no centro-sul do 
estado do Paraná: 
- gramíneas nas áreas de intervenção 
mars recente; 
- vassourznha (Composltae) nas áreas de 
m a u de dors anos; 
Porém, este sistema p a ~ e de uma grande perda energetica 
Inicial. O uso do fogo não é um evento conservador de ene-ia e 
não é característico do t ró~ ico úmido. Pelo contrário, 6 restrito a 
zonas sazonalmente secas, onde abundam plantas resinosas, como 
coniferas e algumas espécies de Eucaliptus. Em nossos sistemas 
regenerativos, o que buscamos é a renovação da vegetaçb do 
sistema natural no modo mais eficiente em termos de conservação 
de energia. 
Nas matas tropicais e subtropãcals úmidas, isso é obtido 
naturalmente pela queda de folhas, podaçzo cíclica de ramos finos, 
ramos, galhos e mesmo parte de troncos. Vendavais e enxurradas 
fazem parte do cotidiano ao qual a natureza se habituou, e cumprem 
esta função. Urna vez que o material ""pdado" chega ao solo, não 
há necessidade do fogo periódico. b ciclagem deste matena1 é rápida 
e Intensa pela vida febril que domina estes ecossistemas, 
O que fazemos então é entrar no Ruxo de ciclagem. Para 
isso, nossa intervençk deve visar a renovação do que está velho 
no consórcio, seja por roçagem ou podação. Esta renovação pode 
ser de partes velhas da planta, do indivíduo todo ou mesmo de 
todo um consórcio. Gomo estamos manejando a vegetação em 
antecipação a eventos naturais, podernos incorrer em erros. A 
eliminação e substituição de uma planta ou consórcio só deve ser 
feita quando a finção ecofisiológica8 daquele indivíduo ou consórcio 
está cumprida. Ou ainda, se essa hnção será ou está sendo 
devidamente substituída, seJa pela vegetação nativa, seja por 
espécies introduzidas. Um aprohndamento na dinâmica de sucessão 
de espécies pode nos dudar a compreender a prática. 
A sucessão natural de espécies 
Todos os sistemas naturais têm ciclos de crescimento, 
estabilização, senescência e morte. Desse ponto de vista, a morte 
- taquara (Bambusa spp) nas áreas de at6 do indivíduo como ponto final ia" existe. Gomo não há 
cinco anos; 
- bracatinga Mimosa scabrella) nas áreas 
de 15 anos. 
A sucessão poderá formar um novo climax, 
diferente porém daquele que já ocupou a 
área. 
""dsapareclmento" da e n e ~ i a , o fim de um c1610 apenas representa 
a transferência da energia potencial da biomassa para uma outra 
forma (ou formas), conforme a primeira lei da terrnodlnâmica 
As unidades vivas microscópicas a l u a transformando, 
reorgmlzando e recriando fomas cada vez mals complexas A carga 
geilétlca se enriquece, fazendo f a e às novas condições e criando 
al"crnativas para os Iirnitantes encontrados Isso se dá do nível micro 
ao rnacro, de colonias de bactérias, árvores até ecossisternas inteiros 
Porém, é o microcosmo, formado por bactérias, vírus, hngos e 
outros seres, que comanda o processog 
VeJramos um exemplo um consórcio de fermentos láctlcos 
coloniza o leite fresco até transformá-lo em coalhada Enquanto 
senesce e morre, a biomassa e os resíduos destes krmentos são 
paulatinamente incorporados a seus sucessores, outra estirpe de 
leveduras e bactérias Essas formarão bolores, eventualmente, 
predados por outros hngos, que serão incorporados à biomassa 
de moscas e outros organismos que venham a se alimentar deste 
material Estes organismos podem ser a base alimentar de outros, 
os quais se integrarão em outros ciclos, cada vez mais longos e 
complexos A sucessk de espécies é, portanto, o caminho por 
onde fluem as forças formadoras da teia da vida 
VeJarnos outro exemplo Os inóculos dos microorganlsmos 
que Iàrão a decomposição de urna árvore no final do seu ciclo de 
vida a acompanham desde a mais tenra idade São bactérias 
celulíticas que trabalham utilizando cada resíduo em forma de folha 
e casca que a jovem plântula produz E lá estarão, no final do seu 
ciclo de vida, para não perder praticamente nada do que sua 
estnitura acumulou 
As espécies microscópicas começam e termlnam as cadelas 
Fungos patógenos, bactérias fixadoras de nitrogênio e microalgas 
fazem parte deste universo, que é a base sobre a qual se assenta a 
ciclagem da vida e a sucessão de espécies Sem a relação estreita e 
equilibrada entre o "mundo microscópico" e o "mundo dos seres 
visíveis a olho nu", não haveria nem vida nem evolução 
Podemos traGar um gráfico relativo à crescente comple- 
xificação da vida, usando essa situaqão que acabamos de descrever 
É importante deixar claro que esse processo não é linear como 
pode ser apresentado num gráfico, e nem tão setorlzado e 
compartimentalizado Esse é apenas um artifício de explanação que 
cabe em nosso raciocínio acadêmico As inter-relaçks são 
infinitamente mais complexas, se tentarmos uma dissecação 
A Sucesç" Natural 
de "sspbcierí, 
A Sucessão hratural de Espécies é o veicu- 
lo que a vida utiliza para viajar pelo tem- 
po e pelo espaço. O que podemos apreciar 
como climax de um ecossistema é uma etev- 
nidade para os seres humanos, mas um 
átimo para o histórico da vida no planeta. 
I a, 
73 
cri 
i rCi 73 -c3 .z 
= ' B j 
i '8" ..s cri 
i 5 g 
I a> a, 
Susessão Natural de 
Especieç-escala de tempo 
Longe de ser um processo linear como 
apresentado, é repleto de inter-relações e 
distúrbios, cuja representação grajca se- 
ria bem mais complexa do que a que usa- 
mos aqui. 
analíbca. Por isso, mais do que nunca, é preciso entrar na mata, 
andar, tocar, observar e senti-la como o que verdadeiramente é, ou 
seja, um organismo vivo e auto-regulado. 
Cada pequeno arco do gráfico representa uma etapa da 
sucessão. A ligação entre os arcos demonstra que não são ciclos 
estanques, mas que se Interpenetram. Os ciclos ou etapas da 
sucessão são de diferentes escalas de tempo: col0nias de algas e 
bactérias podem durar horas, enquanto árvores da mata primária 
podem chegar a mais de 1.000 anos. 
A ampliação destes ciclos ou consórcios de espécies não 
mostrana uma trdetória linear, mas sim, acompanhando os eventos 
climáticos de nível global, como glaciações, empções e movimentos 
da crosta terrestre, mudanças de pólo magnético, o que faz com 
que sugam desedos onde eram matas tropicais, coplíferas onde 
existia uma estepe gelada, e assim por diante. 
Ainda, mesmo nas etapas mais avançadas estarão presentes 
os elementos mais simples. As bactérias anaeróbicas que habitam a 
fossa de nossa casa já estavam presentes (ou pelo menos suas 
"parentes próximas") no planeta há pelo menos dois bilhões de 
anos. 
Portanto, o maior potencial de vida de uma área florestal 
não está numa mata estática, como um museu de cera. Essa é a 
imagem que o cidadão urbano desinformado faz da mata. Na 
verdade, todos os sistemas naturais vivem da constante renovação, 
o que incrementa sua produtividade e biodiversidade. Quedas 
naturais de árvores são multo frequentes mesmo em áreas florestais 
bastante pequenas,o que propicia uma constante renovação dos 
ciclos de crescimento e da sucessão de espécies. 
Isto porém não significa que dermbadas e queimadas se~am 
sincronizadas com a dinâmica da natureza. Estas intervenções 
causam distúrbios de grande escala, grande entropla e desperdício 
de recursos, jogando as possibilidades da vida para patamares 
bastante baixos. Descer a escada energética nada tem a ver com o 
nosso objetivo, que é alcançar o clímax de cada ecossistema e manter 
o nível ene-ético alto. Como vimos, este objetivo é possível de 
alcançar através de transferências de nutrientes de um consórcio 
de espécies para outras, dentro do Auxo da sucessão natural, criando 
uma dinâmica cíclica. 
O grande desafio, pofianto, é encontrar o ponto ótimo de 
utilização de intervenção, propiciando os recursos sem comprometer 
sua geração. 
Nas condições da mata tropical umida, o aporte de 
nutrientes via chuva é fundamental e, como vimos, pode ser 
a~umajilado pelo codunto vivo da floresta. Uma pastagem 
degradada, uma vez abandonada, pode levar até 470 anos para 
recuperar o acúrnulo de nutrientes que se encontravam na biomassa 
original da mata primária. 
Quando nos referimos anteriomente i renovaçâo constante 
dos ecossistemas, estâvmos nos referindo a um determinado nível 
alcançado pelo sistema nalurai. I? um patamar de complexificaçâo 
das fomas vivas que é típico de cada ecossistema e de cada ecozona. 
A dinâmica do sistema se baseia na renovaçk. Podanto, renovar 
não significa necessariamente retornar às espécies colonizadoras. 
Vamos exempllficar: uma clareira natural na mata tropacai 
úmida irá se regenerar a partir de um patamar de alta energia 
potencial, na forma de uma grande biomassa e bfodiversldade. Esse 
patamar foi alcançado ao longo de um processo de sucessão de 
espécies em interação com o ambiente. 
* Para Ir mais longe, ver K e m e n t , Nemam P 
Ecologia - São Paulo EDUSP/Sprmger/EDUSP, 
1982, as páginas 209-230 e 267-277 
As florestas são tudo, menos estát~cas tu 
A medda que se aproxrma do cclirnax. 
uma floresta drmlnu~ sua produtrvldaa'e 
ecológ~ca Em outraspalavras, d~mtnur o 
incremento de biomassa por área/ano e 
drmrnui a blodzversrdade. 
Portanto, a cada pequeno distúrbro 
causado pelo jna l de czclo de alguma 
áwore dominante, ou por eventos 
clrmáticos, ocorre a renovação. a 
Na verdade, são estes nlchos de mnova- 
@o os mals rrcos em produtzvidade. em 
ternzos de Incremento de bromassa a 
brodtversidade Esse "modelo" tem sldo 
usa& com sucesso pelm populações 
indigenas por milhares de anos. 
Esse processo é que sustenta a alta produtkldade das areas 
de regeneração, onde ocorre uma renovação constante baseada 
nos recursos acumulados pelo sistema clímax. Na verdade, a fmna 
de maior pofie encontra recursos alimentaes Justamente nos pontos 
Uma floresta é assim um mosaico de 
diferentes estágios da sucesszo de de renovação da mata primaria. 
espécies. Porém, em todos estes mosaicos O objetivo, portanto, é alcangar este patamar, cumprindo 
a sucessão já parte de um grande som as exigências de cada etapa da sucessão de espécies e, buscando 
acumulo de diversidade genética e no processo produzir recursos para o homem. 
biomassa. 
Uma vez alcançado o clímax, mesmo que num processo 
induzido pelo homem, buscamos manejá-lo de modo a induzir a 
renovaçâo cíclica. O duste crítico é fazer isso sem perder o potencial 
energético Já alcançado, visto que 6 nesse ponto que a necessidade 
Clareira natural aibeda 
pela queda de uma &more 
madura. 
Desde as fases iniciais ate os estágios 
mais avançados de recuperação, uma 
grande quantidade de recursos para a 
fauna prolifera, propiciando nichos 
para inúmeras espécies animais e 
de intervenção pode passar a ser mínima face aos resultados que 
podem ser obtidos. 
Em linguagem econ6mlca, este 6 o ponto da curva onde a 
relação custoheneficio é a maior de todas. E sabendo disso, 
madeireiros, agricultores e pecuarlstas tem buscado as fronteiras 
agrícolas - o Novo Mundo - desde os tempos de Molsés. Infe- 
lizmente, nossos antepassados e nós mesmos temos feito isso sem 
a tecnologia - ou a intenção - que possibilitasse manter os sistemas 
vegetais. nesse patamar de produtividade para as flituras gerações 
Num olhar gerd sobre as zonas agrícolas, vamos encontrar 8 clímax e sua dinâmica 
as áreas ocupadas por agricultores nos mais diversos estágios de 
sucessão. Para deteminadas regiões, as condiq6es de solo perniitem 
uma regeneração rápida e extremamente coqensadora. Em Eunção 
de terem naturalmente acumulado mais nutrientes no solo, saio aptas 
à produção de recursos para animais de maior gorle ou cultivos de O climax é o resultante do processo de 
grãos, mesino depois de um longo tempo da inlermpção do processo evO1"çãO conJunta dafauna~JOra 
ambzente. A wda mod~fica o amblente 
de acúmlo que o sistema natural propiciava. 
Jsico e é por ele mo@cada. 
Isso zoneou a agricultura "moderna" Temos assim, na 
h é r i c a do Sul, cerrados, pampas e campos de altitude com o 
gado bovino há mais de 250 anos, e cultivos de grãos há mais de 50 
anos. Embora apresentem uma pálida lembrança da capacidade de 
lotação ou produtividade do início da colonizaçk, ainda mantêm 
reservas de recursos de solo que sustentam animais e cultivos. 
Já nos trópicos úmidos, onde os nutrientes estão na 
biomassa e não no solo, os 250 anos de sustentação podem cair 
para cinco anos ou menos. A exceção a esta regra são as zonas 
privilegiadas em fertilidade natural, como bacias sedimentares I 
aluviais de origem recente, como o vale do rio Cauca, na Colombia. I I 
Nesse vale, aos sedimentos provenientes dos Andes soma-se a I i 
deposição de cinzas vulcânicas ricas em ósUdos de fósforo e potássio 
ao longo da formação do local. 
Outro exemplo, são as florestas da base das encostas 
vulcânicas do arquipélago havaiano. A retirada da vegetação pelos 
colonizadores deixou áreas abertas que estão sendo colonizadas 
por plantas como goiabeiras e jambos. Nas áreas de solos mais 
antigos da Mata Atlântica, estas Myrtacea são frutíferas que 
geralmente temos que protqer e amparar, escolhendo nichos ótimos 
e vigiados. Do mesmo modo, na Costa f i ca há áreas "colonizadas" 
por bananeiras, assim como nas baixadas mais férteis da Mata 
Atlântica Sulbaiana determinadas espécies comestíveis, como a 
taioba e o inhame roxo tornam-se ""ivasoras". 
Esta abundância de recursos propicia que espécies que 
normalmente habitam a faixa de clímax dinâmico colonizem como 
pioneiras. Nestas condições peculiares, são possíveis densidades 
I 
I Sucessão de Espécies 
(tempo) 
populacionais maiores e retornos em alimentos a curto prazo, para 
O d~namlsmo deste processo se da pelos determinadas áreas, ainda nas primeiras etapas de regeneração. crclos de vrda e morte dos componentes 
Como todo paraíso tem seu inferno, a fertilidade natural mascara a do eco,,stema. A sucessão de esDécles é 
prohndidade de nossos erros de manejo, o que a Longo prazo pode o veículo de reo~anzzação da complex1- 
trmer consequências irreversíveis. dade rumo ao clímax. 
- Assim, o que conhecemos como clímax 
de um ecosszstema é o resultado da 
otlmização dos fafores de radzação, 
nutrientes e umidade pelas formas vlvas 
I 
I Faixa de, Clbmsnx , Dinâmico 
I 
A 'tfaixa de clímax dinâmico" é o espaço 
onde se da esta reo~anização com o 
mínimo de perdas energétzcas e, 
portanto, com a maior possibilidade de 
sustentar as formas vivas em quantzdade 
e diversidade. 
Se pensamos um pouco, entenderemos por que as florestas 
das ilhas havaianas eram '%aboo9', só podendo ser alteradas sob 
comando dos chefes. 
Esta abundância não é o caso, por exemplo, do extremo 
sulbalano. Nessa região do nordeste brasileiro antes ocupada por 
Mata Atlântica contínua, os pastos degradados que hoje dominam 
a paisagem não poderiam suportar assentamentos humanos ávidos 
pelo padrão alimentar baseado em carne bovina, ovos, leite e 
verduras. Na maior pade dos solos daquela região, principalmente, 
os próximosà costa, a retirada da vegetaçgo para ciclos de fogo, 
mandioca e pastagens corre o risco de não se perpetuar por mais 
tempo do que uma vida humana antes de chegar no ponto de 
sustentar apenas insetos, pequenos répteis e roedores. 
Referências 
Quando nos refeimos a recursos de inkresse humano, eslamos nos reportando 
desde a fatores de moderação climática local e regional, passando pelo aspecto 
lúdico até o material básico para habitação e alimentação. De qualquer modo, 
o "gancho" do trabalho com agriçultores começa pelo básico e imediato, muito 
mais do que com argumentos de climatologia macroregional. 
Os dogmas do humanismo cIássíco têm que ser atualizados. Fome, saúde, 
habitação e consumo devem ser questões enfrentadas a parlir de um esforço 
global em manter o planeta habitável e local na geração de soluções. O 
populismo político acena para todos um consumo padrão baseado nas séries de 
televisão norte-americanas. Na superficialidade, todas as capitais do mundo 
tornam-se parecidas, em seus "trajes ocidentais". Enquanto isso, a massa da 
população que nelas circula é digida de modo relativo pelos mesmos problemas 
de dculos atrás, quando edificios de pedra encaixada, colunas de mármore e 
pirâmides diferenciavam cídades como Lima, Atenas e o Cairo. 
Ver na Introdução: "'Fisiologia de um sistema vivo: a ciclagem de nutrientes 
numa floresta", pp 32-33. 
Ver na Introdução: "Os sistemas vivos e a segunda lei da Temodinâmica". a 
lei que trata da consewação de energia quando da passagem de uma foma 
para outra. Esse é um exemplo prático da aplicação dessa lei, pp28-30. 
Na verdade, o processo de mineraliz~ção da biomasm é relativo em condições 
de extremos climáticos sazonals. Tanto o gelo como a ausência de umidade 
não mineralizam a matéria viva de imediato, o que daria ma-em a perdas, 
aumentando a entropia do sistema. No gelo, o resfriamenio preserva nutrientes 
e sais dos tecidos e os deixa -tos a serem atacados por microorganismos no 
degelo. Na seca, as folhas, flores, excrementos e carcaças são praticamente 
"'liofilizadas" pela baixa umidade relativa. Como os alimentos desidratados 
que compramos em supemercados, perdem água, porém conservam açúcares, 
sais minerais e determinadas proteínas. Poreanto, são fontes preciosas de 
aminoácidos e substâncias básicas que financiarão a explosão de vida que se 
segue as primeiras chuvas, ou ao aumento de t e q e r m r a , no caso dos climas 
temperados. 
Em reIação ao que pode se esperar de arcas degradadas pela ação humana, é 
bom lembrar o passado: "'Toda a zona mral da Grécia tomou-se esparsamente 
povoada ou quase &serta. A população da planície de Argos, por exemplo, 
sofreu um decréscimo considerável, e a Nlessênia perdeu 90% de sua popukpção 
entre os séculos XIIí e X I a.C. (...) Algumas abandonaram suas fazendas 
exauridas a fim de ir para as terras férteis que ficavam nas regiões antes 
desabitadas da Acaia (...) Ali, os refugiados podiam encontrar "uma saída 
para a fome atroz", alimentando-se das bolotas que existiain em abundância 
nas montanhas cobertas de cawalhos". Perlin, John. Op. cih. 
As estepes naturais da Ásia podem parecer inhspitas, mas possuem solos 
nquíssimos que favorecem, no conjunto das relações clima-solo-flora-fauna 
uma biomassa animal muito grande. No caso, urna reswição climática força a 
transição de uma forma de energia (vegetal) para outra (animal). Ambos se 
intercomplemenbm para aumentar o potencial biótico daquele ecossistema, 
mesmo em sms características aparentemente inóspias. Uma pequena mudança 
climática, com um aumento de 2 a 4°C as tornariam celeiros mundiais de 
grãos, segundo projeções de climatologistas ligados ao estudo do efeito estuf;a. 
Outras projeções não são tão olimislas: a tundra derreteria, inundando as estepes 
e produzindo mais metano, que aceleraria o efeito estufa e a subida do nível 
dos mares, num cenhio nada promissor para quem quer que seja. Ver Lovelock, 
James. Op. cit. Tarnbém: Molion, L.C.B. Op. cih. 
EcoJislológ~co refere-se ao papel que cada espécie desempenha no fun- 
cionamento do sistema vivo a que está integrada: o ecossistema. Por exemplo: 
gramíneas pioneiras e estoloníferas cobrem o solo rclpidamente e conservam 
umidade alravés de seu sistema radicular extremamente intrincado e denso, ao 
mesmo tempo que inicia a agregação de carbono ao solo nu, criando condições 
para que outras e-écies prossigam a tarefa de complexificar a vida. 
Para Ir mais longe, ver Margulis, Lynn & Dorion Sagan "iMicrocosmos: 
quatro brlhões de amos de evoluç2o microbiana" . Universo da Ciência, edições 
70, RJ, 1986. 
Conhecia as querências pelo faro: aqui era o cheiro do açouta-cavalo florescido; lá, o dos trevais, 
o das guabirobas rasteiras, do capim limão; pelo ouvido: aqui, a cancha dos graxains, lá, os 
pastos que ensurdecem ou estalam no casco do cavalo; adiante, o chape-chape, noutro ponto, o 
areião. 
J . Simões Lopes Neto. Contos Gauchescos. Citado por Araújo. Anacreonre Ávila de. Principais 
Gramineas do Rio Grande do Sul. Edição Sulina, Porto Alegre, 1971. 
Aprendendo a observar 
Um primeiro passo para se chegar a sistemas que 
promovam a regeneração produtiva de ecossistemas é desenvolver 
a capacidade de observar os ambientes desprovido de preconceitos, 
e tentando entendê-lo como o organismo vivo que é. Esta atitude 
irá nos levar a respostas bastante simples a problemas aparentemente 
complexos. Estas respostas estão geralmente materializadas na 
dinâmica da vida que nos rodeia, nos espantando em como nossos 
maiores dilemas nadam em um mar de obviedades. 
Observar uma beira de estrada, um terreno baldio ou uma 
clareira em regeneração é praticar e ver este princípio em ação. Ao 
longo de uma estrada, os barrancos são cobertos por diferentes 
comunidades vegetais: quase microscópicas em alguns pontos, já 
mais complexas em outros. Isso demonstra diferentes estratégias 
para diferentes situações de radiação, umidade e nutrientes. 
Essas comunidades, a menos que a ação humana 
interrompa, evoluem para o clímax, de f o m a a otimizar recursos e 
conservar energia. Até o clímax, se estabelece uma dinâmica de 
sucessão que é a possível naquele nível de recursos. 
Esta abordagem, enriquecida pela observação sistemática, 
leva-nos a identificar no meio em que vamos intervir todas as 
possibilidades existentes e como elas estão sendo ocupadas pela 
vida. Os conceitos de ecologia básica ajudam-nos a organizar este 
conhecimento e a extrair princípios gerais de kncionamento dos 
ecossistemas onde estamos intervindo. 
Sempre partimos do princípio que fauna e flora Já 
desenvolveram estratégias e recursos, e que este conjunto pemlte 
a renovação e reorganização constante da vida em patamares cada 
vez mais complexos e biodiversos. Esse fato é o que nos leva a 
acrescentar a palavra dinâmico ao conceito de clímax. Polptanto, o 
que já existe em termos de flora e fauna, a nível micro e macro, é 
h t o de uma coevolução muito anterior a presença humana, e dispõe 
de uma estratégia infinitamente mais complexa da que podemos 
criar. 
"Depois do Periodo Nademo /3,6 a 4,7 
bilhões de anos atrás), a Terra esfriou e a 
química e o clima se tornaramfmorheis 
à vida (.../. Porém, as condiçõesjsicas do 
meio evoluíam para um estado hostil, mu- 
dando de congelamento para superaque- 
cimento, o que levaria a uma dessecação, 
como o que houve em Marte e b'ênus L..). 
Do mesmo modo, a bagagem genética da biodiversidade a auto-regu'a~ão no pianeta, 
as condiçõesfavorhe~s serram trans~tón- 
local tem recursos para lidar com eventos que são potencialmente 
entrópicos ou desorganizadores, dispersadores de energia, como 
vendavais, inundações, fogo, vulcanismo, seca, etc, desde que o 
homem não tenba exercido uma pressão sobre os recursos genkticos, 
elisninando espécies. Neste caso, a ação mtrópica pode ter alterado 
profùndamente a paisagem e comprometido a capacidade de 
regeneração local, em temos de sementes e dispersores. Portanto, 
o olhar atento ao históricolocal e aos fenômenos da vida é um 
primeiro e importante passo para adquirir conhecimento e montar 
sistemas. 
Conhecendo as interaçóes 
do triângulo ambienta1 
A radiação solar, a umidade e os nutrientes, presentes nos 
gases e minerais, interagem entre si e com as formas vivas para 
criar o que conhecemos como biosfera. A vida microscópica e 
macroscópica trabalha sobre a rocha matriz, mediada pela umidade 
Temperatura (%) 
e temperatura, e confère parte das características dos solos. Grandes 
movimentos tectonicos e alterações geociimátlcas (glaclações; etc) 
as c..). O diagrama mostra uma noção da promovem diferentes comunidades de fmna e flora e diferentes 
"janela" da vida, criada quando condições Interações. 
favoráveis são encontradas em três O relevo Influencia essas interações, crlando opomnldades 
parâmetros críticos drs~onibil 'dade de diferenciadas para espécies. Po~ârito, a análise das formas de relevo 
água temperatura, e dzsponibr lrdade de 
nutrlentes fminerals. sals. etc i ". e das corriunidades típicas que as habitam (flora e faunâ) ajuda-nos 
AdaptadodeLovelock, James HeaLngGaza Practical a fazer âssociações, criando a possibilidade de caracterizar 
Med~crnefor the Planei Hamony B o o t , New York, 
1991 indicadores biológicos, os quals são ""sllalhos" para se diagnosticar > - 
determinadas situações e seu histórico. Indicadores são, por 
exemplo, formações vegetais comuns a determinados padrões de 
I Nutrientes (%) i \ 
umidade, radiação e nutrientes, efêmeros, transitórios ou de longa 
durabilidade. o caso de determinadas espécies da Mata Atlântica, 
como o guanandi (Symphonza gkobulflerae, htt iferae) , que 
ocorrem tipicamente em terrenos encharcados. Como árvore 
I '\, colonizadora que acompanha a sucessão ate a mata primária, ela 
I 
I 
\ 
\ indica uma situação de alta umidade de longo prazo. Já a Gleichenia 
sp (Gleicheniaceae-NymenophyIZaceae) conhecida no sul da Bahia 
como feto-gaiola, é a sucessora de briófitas e Iiquens na colonização 
de barrancos a partir de uma situação inicial que indica pobreza de 
nutrientes e alumínio alto. Portanto, é um indicador conjuntural e 
mostra um status inicial quanto a disponibilidade de nutrientes. No 
hturo, no mesmo local, poderemos talvez encontrar a caapeba 
(Piperaceae), tida como indicadora de solos férteis. 
Outro exemplo, é a presença de capões de mato nas 
encostas voltadas para leste, no Nordeste de Minas, numa área de 
campo cerrado. Ela não está relacionada com a maior riqueza nos 
solos, mas sim, com o menor estresse hídrico na encosta voltada 
para o leste, que não recebe o sol da tarde. Na parte da manhã, 
quando recebe isolação direta, há a presença de nevoeiro, orvalho, 
etc, amenizando as perdas de água1. 
Umidade (%) 
Podanto, quanto maior o conhecimento do histórico do Umidade E? Radiação na 
local, maior será a quanlidade de informações que um Indicador velocidade de ~~~~~~~~~~ão 
biológico poderá fornecer Comparando várias situações, iremos da matena o-ianica 
compondo padrões comuns e teremos um quadro "fisiológico" de 
cada ecossistema. No caso, a ferramenta básica para encontrar esses 
padrões e a análise das interagões entre radiação, umidade e 
nutrientes. Essas interações determinam as características básicas 
da fauna e da flora. Assim, o refinamento desta análise nos levará a 
selecionar quais espécies podem nos ajudar a recompor a 
produtividade de diferentes ecossistemas, assim como de uma 
determinada área, e como manejar essas espécies. 
Ciclos de chuvas, orvalho e 
neblinas 
A água chega as formas vivas de várias 
maneiras: degelo, neblina, reservas subterrâneas, 
chuvas, inundações periódicas. Dados históricos 
podem nos ajudar a levantar a origem e o ciclo 
da água em cada ecossistema, e isso, nos servirá 
para balizar intervenções. No caso do trópico 
úmido sazonal, quando as séries históricas de 
chuvas apontam para a possibilidade de estiagem 
de modo irregular em determinados meses, uma 
implicação prática imediata é que não é sábio 
podar drasticamente a vegetação visando matena 
orgânica e rejuvenescimento da vegetação. Esse 
não é um problema quando a vegetação com que 
estamos trabalhando já tem previstas na sua 
própria fisiologia estiagens cíclicas, como e o caso 
das matas subcaducifólias ou de climas sazonais 
bem marcados. Também pode nos aconselhar a 
não apostar em culturas anuais quando se 
esperam chuvas pesadas e baixa insolação. 
Ainda, a arquitetura de determinadas 
plantas e formações vegetais servem como 
verdadeiras coletoras de orvalho e neblina, 
capturando o vapor de água, condensando-o e 
dirigindo para suas raízes. Em ilhas oceânicas, 
a, 
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-a estação chuvosa 
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dias de permanência sobre o solo 
O -&fico abaixo mostra a relação 
entre a di-onibilidade de umidade 
e a vebcidcede de degrcÃdação da 
serrapilheira, o que afeta diretamen- 
te a ciclagem de nutrientes dentro 
do sistema. 
Extraído de Schubart, Werbert O.R., 
Wolfram Franken e Flávio Luizão. Uma 
Floresta Sobre Solos Pobres. Ciência Hoje, 
jan/fev de 1984-v01 2 no 10, págs 30-3 1. 
como as Canárias, Madeira, Tenerife e outras ao Longo da costa 
ocidental da África, a vegetação obtém assim não apenas umidade, 
mas nutrientes provenientes do mar ou transpo~adss por ventos 
dos continentes. Sem dúvida, os dados climatológicos históricos e 
a tradição oral podem nos dudar a compor um quadro com boas 
indicações. 
Ciclos de ventos calou chuvas torrenciais 
Estes eventos naturais são balizadores para 
nossas intervenções mais fortes. O período ou ciclos 
em que acontecem coincidem com quedas de árvores 
em áreas mais extensas, inundações e alagamentos, 
vendavais e outras formas de alteração das co- 
munidades vegetais e animais estabelecidas. A 
diferença é que, durante esses ciclos, o distúrbio já 
está previsto no comportamento e na fisiologia de 
boa parte das espécies afetadas. Estamos assim 
acompanhando um fluxo energético já existente. 
Os aborígenes australianos do Território do 
Norte costumavam queimar as savanas no início das 
chuvas, visando evitar que o fogo descontrolado e 
espontâneo típico do início das trovoadas causassem 
danos a seus campos de caça e habitações2. Esse 
tipo de adaptação a eventos potencialmente 
entrópicos é comum e está enraizada em um sem- 
-número de práticas tradicionais ou ligadas a mitos 
e tradições. Conhecê-las fornece dados que podem 
evitar que, literalmente, nossos projetos sejam 
queimados ou submejam água abaixo. Linhas de 
água marcam a vegetação e a modificam, pela 
presença cíclica de sedimentos, assim como os 
ventos predominantes refletem-se na arquitetura de 
árvores ou de formações vegetais. 
Ciclos de radiação 
A intensidade de radiação durante os meses 
do ano e o ângulo do sol são informações críticas 
para latitudes acima dos 30 gaus. Quanto mais perto 
dos pólos, mais crítico é o fator radiação, através da redução de 
luz e calor. Mas para o trópico úmido tarnbém é um falar Ipnportante, 
em hnção da n&ulosidade típica destas regiões. A trajetória da 
sombra projetada por árvores dos estratos mais altos associada ao 
relevo e a korárlos mais ou menos regulares de nebulosidade podem 
Influenciar na composiçb de espécies. 
Também aliada à1 umidade alta, a sombra não guda muito 
secadores solares, plantios de determinadas culturas anuais e 
determinadas fases de fnatlferas, como a floração. Do mesmo modo, 
podas drásticas e extensas da vegetação no pleno verão do trópico 
aceleram a perda de água e a oxidação da matéria orgânica, o que 
pode causar uma perda irreversível do potencial de produção de 
uma Frea. Esse tipo de intervenção deve ser bem estudada em suas 
implqações. 
Frutos e folhas danificados pelo sol podem indicar uma 
açãg antrópica que retirou estratos superiores. Também um 
creskimento lateral de espécies normalmente retilíneas pode indicar 
uma tentativa de adaptação forçada ao crescimento a pleno sol e 
retirada de umidade por ventosfrequentes de quadrantes definidos. 
Variações locais no padrão pedológico 
Os nutrientes chegam às formas vivas sob várias formas: 
sedimentos marinhos, sedimentos traidos por corpos de água doce, 
ventos, arraste por geleiras e degelo, animais, gases e através da 
chuva. A composição do quadro regional via informes acadêmicos 
passa por um enriquecimento com o saber local sobre que tipos de 
solos existem, onde eles se encontram e o que os -ricultores 
relacionam a esses solos, em relação a vegetação, umidade e 
possibilidades de cultivos. 
Zonear as manchas de solo dentro de uma área é um passo 
adiante para uma utilização mais adequada e planejamento de 
sistemas com diferentes cultivos, dentro de uma estratégia de 
consewaçk de energia e otimização do trabalho e recursos. De 
modo geral, as classificações de solo por agricultores e populações 
autóctones levam em conta as interações solo-fauna-vegetação, 
bem como a reação aos cultivos. Se não pode ser generalizada, 
essas classificações siio importantes, porque são feitas de acordo 
com a interação entre ambiente físico e formas de vida. Isso gera 
Arquitetura de plantas e s 
ambiente 
No planalto sul-brasileiro, aspaisagens de 
campos naturais são pot2Nlhadas de matas 
de galerias e "capões". As bordas são ge- 
ralmente ocupadas por espécies pioneiras 
que se adaptam aos extremos de fempera- 
tura e baixa umidade provocado pelos ven- 
tos fortes e agravados pelos solos rasos. 
Capões isolados tomam a forma de um 
chapéu. 
Os ventos dominantes nos tahulerros do 
extremo sul da Bahza retlram umidade da 
vegetação, principalmente das plantas da 
horn%r dos plan flos Este plan fro de serin- 
gueira reflete essa sltuação pela forma de 
"chqku" que o serrngai acaba adqurnn- 
do com o passar do tempo 
insegurmça nos técnicos, que trabalha com uma classificação mais 
analítica e reducionista, em t e r m s de rocha-matrjiz, granulometria, 
perfil e análise química. Se de um modo geral um mapa de solos 
traça um pano de hndo para os cultivos, ele é totalmente ineficiente 
para lidar com as particularidades do relevo e as interações entre a 
vegetação, radiação e umidade. Enquanto as classificações 
'kennpiricas" trabdham mals a nível de camada superficial (que reflete 
de certo modo como o conjunto solo-fauna-flora inter-e), os 
sistemas científicos trabalham mais com perfíl e composição 
química, com pouca ênfase na vegetação ou paisagem3. Como 
ressaltamos no Capítulo 1, o encontro entre o reducionismo e o 
holismo, entre o saber popular e o saber acadêmico é o caminho 
para se chegar a um conhecimento real dos ambientes. 
Consórcios e arquitetura de espécies 
Bi11 Mollisson, mentor da Permacultura, afirmava num 
curso realizado em Porto Alegre, em 1992, que "para conhecer a 
natureza, devemos prestar mais atenção as formas do que ao 
conteúdo". De certa foma, as interações do triângulo ambienta1 
são espelhadas pela forma da vegetação e dos consórcios que essas 
criam para otimizarem a si próprias. Os ventos secos ou salinos 
retiram umidade e criam limitações ao crescimento, gerando árvores 
mais baixas e retorcidas, e folhas coriáceas ou que se fecham a 
noite. Condições extremas de baixa temperatura e curto período 
de luz solar (radiação) reduzem o porte das ániores e condicionam 
sua forma. A copa assume uma f o m a elíptica alongada, de forma a 
receber os raios de sol que chegam num ângulo bastante baixo em 
relaçk ao zênite. No oposto, as árvores do trópico úmido têm 
copas na forma de guarda-chuvas, de modo a moderar a ene-ia 
solar e o impacto das chuvas. 
Solos muito velhos e lixiviados produzem plantas menores, 
distrjibuídas em espaços mals amplos e com sistemas radiculares 
muito eficientes, assim como caracterlsticas de folha e copa que 
buscam otimizar umidade e moderar radiação. 
Como vemos, estes dois conceitos, ou seja: a forma dos 
consórcios e a forma individual, dificilmente podem ser tratados 
separadamente, se queremos utilizá-los como ferramentas de 
reconhecimento dos ambientes. 
Quando falamos da dinâmica da sucessão natural de Nasce uma ilha de vegcstaças 
espécies, citamos a palavra '~onsórcios" e "consórcios dominantes" Fauna e g o r a interagem de modo 
algumas vezes. Na verdade, não se trata apenas de uma sucessão e,t, jto na evolução de um 
de espécies, mas sim de uma sucessão de consórcios de espécies. lema. 
Ainda, não é apenas uma sucessão de consórcios vegetais, mas, 
sim, de um consórcio de seres vivos, do nível micro ao macro. 
Fauna e flora interagem de modo incessante. Nesse aspecto, o 1 A fauna dissemina sementes, que 
ocasionalmente se instalarão em pontos 
reducionismo é um aliado secundário para o conhecimento: o grau favoráveis. 
de inter-complementariMe e sinergismos é tão grande entre as 
várias formas de vida e o meio, que o estudo das partes só pode ser 
feito após o entendimento do sistema como um todo. 
E para se chegar a esse entendimento, o estudo 
das formas é de grande valia. A arquitetura das espécies 
envolvidas no consórcio diz muito de sua função 
ecofisiológica. Em suma, de como contribuem para o 
progresso do consórcio a que perlencem, de como 
evoluíram do consórcio anterior, e de como serão 
substituídas pelos consórcios do futuro. @ -- 
Tomemos como exemplo a colonização de um 
nicho para espécies arbóreas nos campos de altitude 
do sul do Brasil. Pontos de solo mais prohndo e acesso 
1 
regular a umidade - sem encharcamento - nos campos 
do planalto sul-brasileiro permitem o aparecimento de 
uma mata ciliar e "capões" de árvores. 
Existem espécies como o guamirim 3 - 
(Myrceugenia euosma, Myrtaceae) que formam no 
início pequenos bosques homogêneos, de sementes 
trazidas por roedores. Estes capões tomam a forma de 
um chapéu, uma vez que a dispersão dá-se também 
por gravidade e por rebentos de raiz, e o vento, 
competição com gramíneas e pastoreio freqüente por 
pequenos mamíferos, como lebres, veados, cotias e 
outros roedores. 
A arquitetura do bosque é muito prática: desvia os forles 
ventos dos campos do planalto e cria obstáculo aos herbívoros de 
maior porte. Àmedida que estes capões evoluem. seu centro começa a Estas condiçõesgeram umpequeno bos- 
a oferecer as condições necessárias ao desenvolvimento de espécies que em forma de chapéu, que ajuda as su- 
que habitam as matas de galerias, cujas sementes chegam através perar as limitações jmpostasPor ventos e 
de pássaros e animais em passagem. A arquitetura dessas espécies herbivoros de maior porte. 
é menos adaptada e não sobreviveriam aos ventos gelados do 
inverno ou à rápida evaporação acelerada pelo vento nordeste nos 
solos rasos destas regiões. Nos dias mais secos, a umidade relativa 
do ar dentro do "chapéu" (80% a 90%) é bem mais alta que no 
exterior (40% a 60%), e a temperalura apresenta menos extremos. 
Isso atrai animais nativos, potencializando tanto o sistema com os 
nutrientes contidos nos dejetos, como com material genético, com 
2 As espécies pioneiras formam uma as sementes escarificadas e "peeletizadas" que chegam com os 
população densa, adaptando sua forma 
as condições reinantes. animais e seus excrementos. 
Os indígenas faziam suas ocas nestes capões, 
verdadeiras ilhas de recursos. Os antigos estancieiros 
sabiam disso e preservaram esses capões para servirem 
de abrigo para os bovinos e ovinos contra os extremos 
climáticos. Geralmente, oferecendo água, brotos, ar- 
bustos e árvores como alimento e proteção, foram 
2 mantidos em grandes áreas e chegaram a constituir parte 
do sistema de criação. Numa visão cartesiana, quebra- 
-ventos retilíneos de eucaliptus e aguadas criadas a 
partir de açudes desempenhariam o mesmo papel. 
Como em qualquer outro campo, obtém-se uma gama 
estreita de beneficias por um custo bastante alto. Além 
disso, esse beneficio dura enquanto dura a energia 
externa (manutenção) que o gerou. É algo como um 
fast-foodcujos sanduíches e custos operacionais fossem 
superiores às refeições e custos de um prestigiado 
restaurante de pratos típicos.Eventualmente, a pressão do gado bovino corta 
a dinâmica de regeneração causando a decadência do 
sistema. Num clima mais frio, a decadência, even- 
tualmente, dá-se em escala mais longa do que a 
- capacidade de observação de uma geração de seres 
humanos 
Em "ilhas" de Roresta no meio de pastagens no trópico 
úmido a degradação é mais rápida, assim como são mais curtos e 
frequentes os ciclos e a dinâmica de nutrientes, e a ação do gado 
cortando a dinâmica sucessional e a ciclagem de nutrientes 6 visível 
4 F~nalmente, ajauna var agregando ma- a curto prazo A esse exemplo, poderíamos juntar inúmeros outros 
terralgenétzco, e espécies de ciclos rnam Em todos teríamos a noção da intima ligação de aspectos da 
avançadosdasucess60 rnstaiarn-se na arquitetura das plantas e da formação vegetal como um todo, dos 
d ~ d a que as condzções melhoram Está cn- 
ado um "capão" de mato r ico em hábitos de crescimento e formas de reprodução, das características 
blodlversldade epleno de recursospara a de folha, tipo de semente e agente dispersor Ainda, explorando 
fauna. 
um reducionismo útil, a análise química das espécies poderia nos 
apontar nos consórcios uma complementaridade de habilidades 
em concentrar determinados nutrientes, complefixlcar elementos 
tóxicos ou atrair determinadas espécies da fmna, fechando uma 
estratégia de constante renovação, diversificação e coevolução 
genética, disseminagão de sementes e complexificação progressiva. 
Finalmente, esse conjunto obtem assim sua estratégia para 
a reprodução, que é a auto-regulação ou homeostase. Essa é uma 
capacidade que cresce na medida da complexidade de um sistema, 
e, é como vimos no Capítulo I, na parte relativa aos conceitos de 
Termodinâmica, uma das propriedades dos sistemas vivos. 
Estratégias de otimização da vida 
Vamos reforçar o que foi visto citando alguns exemplos 
de como as fomas de vida buscam otimizar os fatores que propicim 
sua existência. Agregar mais exemplos é uma habilidade a ser 
desenvolvida pela observação e trabalho prático. De qualquer modo, 
pode nos auxiliar a observação dos seguintes ítens: 
Arquitetura da planta 
(incluindo sistema radicular) 
VeJamos como exemplo dois casos extremos, em relagão 
a herbáceas que colonizam áreas abedas. 
- raízes profundas, folhas finas e coriáceas revelam 
adaptação a situações de solos ou períodos secos; 
- herbáceas de raizes superáíciais, com folhas largas e 
macias, com baixa relagão C/N indicam adaptação a colonização 
de clareiras naturais onde abunda umidade e inatéria orgânica. Esse 
tipo de correlação pode ser afinado com o conhecimento popular e 
complementado pelo estudo de botsnica e ecologia vegetal básica. 
Aquitetura d a formação vegetal no tempo e no espaço, ou 
seja, nas diferentes etapas da sucessão 
A multiplicidade de formas e sua combinação, ao longo 
do tempo e do espaço, da sucessão natural de espécies aponta-nos 
quais são as formas que a sucessão de consórcios de espécies que 
estamos introduzindo devem tomar, o que podemos introduzir e 
como manejar estas introduções. 
1 Num pr~merro momento, seu rápldo cres- 
cimento e dennsmassa folrar recobre a da- 
reira e modera a radzação e o rmpacto da 
chuva 
2 A seguli; desloca-se junto com a vegeta- 
ção que emeee, amarrando a borda da , 
mata e dlm~nurndo as perdas de umrdade 
por evaporação. 
3 finalmente, estabelecem-se no alto das 
árvores, onde dl-ersam sementes através 
de vento e agentes dz-ersores da própna 
fauna, que deles se alimentam ou que os 
usam como acesso aos estratos mais alt0.s 
da$oresta. 
Um exemplo claro é a hnção dos cipós nas clareiras da 
mata. Adaptados ao rebrote vigoroso, os cipós fecham o solo e 
cobrem a biomassa que caiu, favorecendo a degradação da lignina, 
ao criar condições de umidade, abrigo para insetos e fonte de 
nutrientes para os decompositores. A medida que arbustos 
agressivos crescem, levando os cipós para cima, vai diminuindo 
gradativamente sua área foliar, mas as condigões geradas pelo 
conJunto da vegetação é Ideal para evitar o crescimento de herbáceas 
agressivas pioneiras, bem como a perda de água por evaporação. 
Na sequêncla, os cipós deslocam-se para o alto das árvores, criando 
uma teia de amarração que "uda a vegetação a resistir aos vendavais 
e cicloneio. Por isso, matas exploradas para madeira ou "'clareadas9' 
para Introdução periódica de anima;ls são muito mais sujeitas a danos 
por ventos e, um dos principais fatores, é a ausência de cipós. 
Estratégias de dispersão de sementes e 
de interaçóes com a fauna 
comum encontramos áreas de capoelrão de até 20 anos 
povoadas por consórcios e indivíduos comuns a situações pioneiras. 
8 tempo de regeneração seria suficiente para uma população de 
mata secundária, mas observa-se ainda uma domingncia de pioneiras. 
Isso tem causas, geralmente, na degradação do banco genético, 
sob várlas formas: fogo, pastoreio, diminuição ou extingão da fauna 
por caça ou destruição dos habltats, retirada sistemática de 
indivíduosjovens, na faixa de diâmetro de 5-20 cm para construção, 
codando a regeneração natural, e pela busca seletiva e destruidora 
dos madeireiros a espécies nobres, muitas vezes eliminando 
matrizes. 
Esse último item é particularmente problemático para 
espécies dióicas, onde, geralmente, a Emea representa menos de 
30% do total de Indivíduos da espécie. Conhecendo as estratégias 
de dispersk das espécies e do repovoamento (vento, animais 
especlficos, vegetativa, etc), podemos substitui-las ou repo-Ias 
através de abrigos específicos para dlssemlnadores, identificação e 
proteção de matrizes, bolsas de setnentes, envlveiramento, etc 
Enquanto teimamos em colocar as mudas de árvores no 
espaçamento definitivo, de modo que as copas, mesmo daí a 50 
anos, não se toquem, a natureza mantém uma densidade de amores 
enorme por metro quadrado. É fácil observar mais de 30 ou 60 
plântulas de espécies de mata pioneira como a Trema micranla 
(Ulmaceae). Esta densidade vai caindo drasticamente durante o 
desenrolar da sucessão. Somente permanecem os indivíduos que 
encontraram as melhores condições e que, eventualmente, carre- 
gavam a carga genética adequada. Ainda, que se estabeleceram 
onde as condições necessárias a sua espécie deram-se durante mais 
tempo do que suas companheiras de "ninhada9'. 
Durante o ciclo das pioneiras, o olho observador vai 
encontrar enorme densidade de espécies da mata secundária 
regenerando no sub-bosque das pioneiras, em taxas de 1 a 10 por 
metro quadrado. O processo é o mesmo: uma seleção promovida 
por vários fatores e diferentes ciclos de vida. 
Plantas colonizadoras como as gramíneas são ainda mais 
agressivas neste sentido. Espécies de Festuca sp. podem ser 
encontradas em concentrações de até 220 mil por metro quadrado 
Espécies pioneiras da família das Compositae, como o assa-peixe 
(Ernonza spp), um arbusto colonizador de pastagens degradadas 
tem a mesma proliisão de sementes, transportadas pelo vento, assim 
como o vassourão-branco (Piptadenza angustlfolia), árvore pioneira 
da Mata de Araucárias. 
Outras colonizadoras têm a mesma profusão de sementes, 
mas não têm dispersão tão eficiente, o que é o caso da bracatinga 
(Mimosa scabrella, Leguminosae), cuja dispersão é por gravidade, 
o que já limita sua presença em blocos de regeneração natural em 
solos muito degradados, onde o banco de sementes (e, pro- 
vavelmente, as condições mínimas de que necessita) foi perdido. 
Avançando na sucessão até a mata primária, chegaremos a 
espécies que têm povoamentos iniciais bem mais ralos e exigem 
nichos específicos, chegando a densidades de menos de 0,3 
indivíduos por hectare em matas clímax, ainda que esta densidade 
possa ter sido de mais de 100 indivíduos/ha nas etapas de transição 
de mata secundária para mata primária. 
Essas observações mostram-nos que as densidades de 
plantio não devem se ater somente ao que esperamos obter no 
espaçamento final. As densidades altas de sementes e plântulas são 
estratégias dos consórcios deespécies de modo a otimizar a 
ocupação do espaço e o desempenho futuro do sistema. Afinal, 
numa simples conta de probabilidades, é mais fácil que o lugar 
adequado de uma planta seja encontrado pela árvore-matriz e seus 
agentes dispersores, do que através da mão do diligente agricultor 
que as planta em covas num esgaçamento definitivo e em linha. 
Isso nos leva a entender o potencial agrlcola do comportamento 
descrito anteriormente, que é o de ""lhas de vegetação7'. 
Essas ilhas não são casualizadas, mas sim localizadas 
segundo vários fatores que aumentam suas possibilidades de 
sucesso. Este comporlamento já foi comentado na conceituação 
de nichos: as plantas e os consórcios a que estas plantas peflencem 
não buscam a linearidade, mas sim, as possibilidades de obter os 
recursos de que necessitam para sua sobrevivência e reprodução. 
Este é o conceito básico de como se instalam as espécies 
num ambiente. Com esta base podemos, de modo pragmático, 
ajustar as densidades de plantio e a localização de nossos cultivos 
segundo um zoneamento ambiental. 
Logicamente áreas mais homogêneas em termos de relevo, 
solo e umidade permitirão que cultivemos nossas plantas em linha, 
se assim quisermos. Já áreas de relevo, radiação, umidade e 
características de solo diferenciadas pedirão uma abordagem menos 
rígida, mas certamente muito mais eficiente do ponto de vista de 
auto-regulação e desempenho produtivo naquelas condições. 
A resposta dos sistemas convencionais para essas diferenças 
é a utilização maciça de insumos externos para viabilizar o sistema 
linear, pelo menos enquanto houver recursos externos para manter 
o sistema funcionando. A diferença para os sistemas naturais é a 
relação custolbeneficio favorável, obtida pelo zoneamento eficiente 
dos nichos para cada espécie dentro de uma área. 
A homeostase ou auto-regulação 
Tudo o que vimos em termos de estratégias de formas e 
consórcios visa a homeostase. A auto-regulação ou homeostase de 
um sistema dá-se na medida que este evolui conjuntamente com 
uma série de "fiscais" do processo evolutivo, como predadores, 
vírus, bactérias, fiingos, etc. Ela se expressa nas árvores, a nível 
Individual, de várias formas: 
- na capacidade de repor a casca parcialmente perdida 
em distúrbios como quedas de árvores; 
- na capacidade de perder folhas numa estiagem e rebrotar 
nas chuvas; 
- em fechar as folhas ao anoitecer, desenvolver pilosidade, 
ou ainda plginentação clara na face inferior, de modo a refletir a 
radiação e diminuir a perda de umidade; 
- na capacidade de evoluir de modo a gerar folhas aptas a Bordas ecssslstemas 
captar a neblina e condensh-Ia, de forma a suprir a umidade 
necessáila em áreas de baixa precipitação e nevoeiros freqoentes. 
Ao nível das Interações, a auto-regulação vai se expressar: 
- na exudação pelas raizes de nutrientes, substâncias zonas de tmiGáo entre ecox,siLy- 
inibidoras ou estimuladoras de crescimento de modo a compor e temas têm carac~erír;~icas únicas, 
regular de forma otimizada o consórcio de espécies como a própria 
atividade biológica ao nível da rizosfera (fixadores de N, micorizas, 
A principal delas diz respeito a sua dmâ- 
etc), mlca um szstema exporta e recebe nutrn- 
- na exudação de substâncias químicas odoríferas que enteL$ do outro, e esse fluxo de nutrientes 
atraem predadores de insetos, na medida que esses mastigam suas favorece^ pflnczpaimeflte, afafauna 
hlhas, 
- na exudação de açúcares e outras substâncias que atraem 
insetos que por sua vez repelem ou predam outros insetos que Ihe 
causam danos; 
- na capacidade de 
extrair água e nutrientes de águas rasas de um litoral, 
modo diferenciado para cada restingas e mangues 
espécie e complemeistar dentro 
de um consórcio. 
Ao nível do conjunto 
ou floresta (macro-organis- 
mo): 
- reciclando a urnida- 
de na forma de vapor de k u a 
pelo dossel da floresta, o que 
aumenta a área de dispersão da 
própria floresta pelo car- 
reamento da umidade para o 
interior do continente; 
- reciclando nutrien- 
tes em conjunto de modo a 
zerar a perda ou aumentar o 
estoque destes na biomassa 
total do sistema; 
- moderando a radia- 
ção e os ventos, de modo que 
a umidade não se perca rapi- 
damente nem que a matéria 
orgânica seja oxidada sem sua 
imediata incorporação a 
mata pluvial em transição para 
pastagens e alagados 
* . . . L > U 
biomassa, numa estratégia que obedece h lei de conservação 
ene-ética da Termodinâmica. 
Todas essas habilidades, que vão do nivel do indivíduo ao 
nível do consbrcio, até chegar ao ecossistema Inteiro, podem ser 
conceituadas como auto-regulação. Alnda, em cada uma de nossas 
ações devemos ter em mente essas habilidades de auto-regulação. 
Este é o nosso -guia para sistemas agrícolas de baixa 
I - intervenção Qualquer ação orientada dentro de princípios 
O manejo destas zonas de transiçdo tem 
paranli~o ao homem e a vdrras es.ecies sistêmicos, como é o caso do manejo de bacias hidrográficas, deve 
anlmals a sohrevivêncla ao longo da hls- levar em conta estes aspectos Do mesmo modo, ao efetuarmos - 
loria da evolução uma intewenção numa vegetação nativa ou reflorestarmos uma 
I área, devemos ter em mente as estratégias locais da vida, que serão 
nossas gulas permanente 
1 
Buscando 
mata pluvial de altitude em transiçgo 
para campos de altitude 
Todos os conceitos 
que vimos até agora nos 
ajudarão a compreender por 
que animais e vegetais - e o 
próprio homem - concentram 
suas populações em deter- 
minadas regiões, ou provocam 
alterações nas condições 
clímax de modo a obter 
TeGUrSOS. 
O conceito de clímax 
dinâmico e o conceito de 
bordas ou zonas de transição 
estão intimamente ligados. 0 
clímax dinâmico é um estado 
potencialmente instável dentro 
de um determinado ecossis- 
tema. Por exemplo, uma 
árvore gigantesca da mata 
primária acumula enorme 
inassa de nutrientes, em seu próprios tecidos e nos seus "hóspedes", A mata cilliar como sistema 
como bromélias e toda uma série de espécies que nela encontram de borda 
abrigo e recursos A queda dessa árvore e sua posterior decom- 
posição Irá lentamente transferindo as unidades básicas da vida para 
incontáveis espécies que encontram um nicho adequado na clareira A exrstêncla de um volume de agua 
aberta na mata, rica em matéria o-ânica e radiação Essa é uma regula6 com cheias que trazem arras- 
alteração que o homem provoca, imitando a dinâmica de um sistema tam sedzmentos, condrcionam $ora e 
fauna 
clímax 
Já as bordas ou zonas de transição referem-se a zonas onde 
essa dinâmica dos sistemas clímax é bastante previsível e cíclica, 
propiciando oferta regular de recursos Essas zonas são faixas de 
interação entre sistemas complexos, se~am estes dois ou mais 
sistemas (ou ecossistemas) diferentes e intercomplementares Existe 
nesta interface uma instabilidade que propicia a reorganização 
periódica com certa abundância de recursos para a fauna Podemos 
dizer que é o clímax dinâmico dando-se a nível mais amplo, em 
ciclos determinados e em faixas mais delimitadas dos ambientes 
Vejamos um exemplo Um sistema lacustre, 
como uma lagoa, tem períodos de inundação e sêca 
cíclico~, regidos por fenômenos climkticos Para o 
sistema de várzea, a subida do nível das águas Na cheia, sedimentos, sementes e material 
vegetativo são distribuídos nas margens. 
representa o aporte de sedimentos ricos em nu- 
trientes nas faixas inundadas. Após o retorno das 
águas, há um subsequente crescimento exuberante 
de gramíneas e outras herbáceas de baixa relação 
C/N. Este recurso alimentar é transformado por 
herbívoros, e seus predadores têm possibilidades de 
aumento populacional. Para os seres aquáticos, a 
subida do nível das águas aumenta seu territórió e a 
oferta de alimentos, bem como acesso a colonizar 
outros corpos de água, que se juntam. 
De modo mais marcado do que num sistema 
clímax, que conceituamos como clímax dinâmico, 
as bordas têm uma certa regularidade de distúrbios 
ou eventos "renovadores". Marés de grandeamplitude, cheias sazonais, épocas de ventos fortes, 
ou o degelo nas montanhas têm ciclos mais ou menos 
previsíveis. Esta previsibilidade oferece aos animais 
um tipo de segurança mais dificil de se obter dentro 
de um sistema clímax. Por exemplo, uma árvore 
madura pode cair ao primeiro vendaval, ou demorar 
Nível do rio na cheia 
. . , . - . . . . . . . . . . . 'i-- 
10 anos ou mais. Portanto, o nicho que sua queda proporciona é 
mais aleatório. 
Já numa zona de borda ou transição, estes nichos são bem 
mais previsíveis, tanto no tempo como no espaço, o que se reflete, 
A cheia funciona como elemento de geralmente, numa profusa e biodiversa vida vegetal e animal. Bordas 
renovação, ao arrancar árvores velhas e podem ser observadas na transição da savana para a floresta, da 
ramos e trazer sementes e sedimentos em 
ciclos espaçados. Esta é a dinâmica mata de restinga para o mar, dos campos de altitude para as florestas 
típica de um sistema de borda de encosta, do semideserto para as matas formadas ao longo dos 
cursos de água. Aí se incluem as florestas ciclicamente alagadas e/ 
ou semeadas de lagos, florestas em transição para alagados, como 
nos deltas dos grandes rios, ou áreas de manguezais e recifes 
próximos à linha da praia. 
Recifes e rochedos, bem como as franjas 
mata de de coral que caracterizam um atol, constituem uma 
mata higrófila encosta 
"zona de borda" entre as águas de baixa fertilidade 
do ocemo aberto e as bordas de ilhas. Estes sistemas 
i são considerados as ""Rrestas do mar". 
As bordas são, portanto, componente, 
natural da dinâmica dos ecossistemas e da paisagem, 
e o ser humano aprendeu a reproduzi-las em nível 
localizado, utilizando o fogo controlado, a abertura 
de clareiras, o represamento de córregos, o manejo 
de arrecifes para peixes, crustáceos e algas, a ca- 
nalização de águas de degelo e a utilização dos 
sedimentos de canais e lagos. 
A busca pelo homem de sistemas de borda 
vai de encontro ao princípio básico da susten- 
tabilidade, que é a mínima intervenção. Ao invés de 
criar uma savana pela dembada da floresta, era mais 
óbvio para os povos autóctones buscar a savana e o 
cerrados nos ciclos favoráveis em termos de oferta 
de alimentos, reduzindo a necessidade de artifi- 
cialização dos sistemas4. 
Na mata úmida tropical, e na transição da 
floresta para os cursos de água, principalmente, na 
mata ciliar, que o homem achou as condições mais - -- -r=--- - --_ 
e - 
b- _ -7 - - próximas às necessárias para a sua proliferação. 
, - --- ------ - - . - - - -c ---c'- - --_____ . - --- - - r--'- -- -------- - Como toda a fauna desta ecozona, o homem tem L 
mobilidade e circulou por outras áreas na busca de 
I 
Entre as cheias, os sedimentos se acumulam recursos eventuais, como nozes, fibras, etc. Essa 
nas margens e fundo do curso d'água. mobilidade, que é a característica maior da fauna, 
hnciona para a flora como estratégia complementar (e até principal) 
de evolução e enriquecimento da bagagem genética, a partir da 
dispersão de sementes, busca e ocupação de nichos. 
Esta Interação e interdependência na ocupação de nichos 
disponíveis dá-se com espécies de ecozonas diferentes. Desse modo, 
as espécies podem encontrar recursos em outros ambientes, o que 
estimula o intercâmbio genético e a longo prazo a biodiversidade 
como um todo. Estudos etnobiológicos com populaç6es autóctones 
mostram o papel da espécie humana neste processo5. 
Já as matas de áreas elevadas e drenadas do trópico úmido, 
muito afastadas dos rios, são o reinado vegetal por excelência, com 
oferta de alimentos para animais de menor porte, principalmente, 
pássaros e mamíferos que vivem a maior parte de suas vidas nas 
árvores, como a preguiça. São sistemas dominados por grande 
concentração de lignina6, o que não propicia uma fauna regular de 
mamíferos ou herbívoros de grande porte, se compararmos com as 
savanas ou mesmo com as matas ciliares ou de várzea, e isto reflete 
na capacidade de suporte para a espécie humana. Essa hipótese 
ajuda a entender parcialmente o zoneamento ancestral de populações 
humanas, geralmente, ocupando o nicho que aqui estamos con- 
ceituando como zonas de borda: savanas, matas ciliares em estepes 
e pradarias, matas ciliares em florestas úmidas, os vales e lagos das 
florestas temperadas, as restingas, praias, recifes e lagunas dos 
sistemas costeiros. 
Ao entendermos o conceito de nicho, estaremos enten- 
dendo como as espécies fazem o "refinamento9' de sua estratégia 
de ocupar espaços e utilizar recursos. Ao longo do texto, temos 
citado a palavra nicho, de modo a dar a ela um contexto de seu uso 
prático, que aqui vamos começar a consolidar. Nichos, no sentido 
prático relativo aos processos vivos, é um determinado ponto, no 
tempo e no espaço, onde os recursos fùndamentais para a vida de 
uma ou várias espécies estão se dando. 
Considerando o nível cósmico, a vida encontrou na Terra 
um nicho adequado e trabalha para mantê-lo assim. Nos oceanos, 
as correntes frias, como a Corrente de Humboidt na costa 
sulamericana do Pacifico Xu a Corrente de Benguela na costa 
Atlântica da krica, propiciam um nicho para o desenvolvimento 
A i n t e r a ~ h entre animais e 
vegeta-ao numa situagãco de 
borda 
Felizmente, ainda podemos, em 1996, re- 
petir a campo observações registradas pe- 
los primeiros colonizadores. Nesta foto, a 
borda de um capão de matas de galeria 
em Ipê, RS, no domínio dos Campos de 
Cima da Serra, mostra nitidamente o efei- 
to do pastoreiofrequente de herbivoros da 
fauna naliva, como o veado7. 
do plancton e de toda a vida marinha que ele desencadeia Ainda, a 
existência de baías pedregosas de dificil acesso a predadores 
terrestres oferece campo para os lobos-marinhos e outros 
mamíferos. A constância destas correntes e a imobilidade das balas 
(a menos que sejam assoreadas pela atividade humana) nos dâo 
uma idéia geográfica e estática para o conceito de nicho No entanto, 
esse conceito também está preso a uma dimensão de tempo 
Já determinados nichos têm sua transitoriedade visível aos 
nossos olhos Para vegetais rizomatosos7 como a bananeira, um 
nicho é como uma casa alugada nas férias com geladeira cheia e 
tempo bom: radiação, umidade e nutrientes por um período variável, 
mas de estação pré-determinada, num lugar excelente. Este lugar 
O ejèlto de renovação de raizes e de que- tem "endereço", data de "entrada" e data de "saída". Seu "endereço" 
da de folhas crm uma condiçãopartlcular são as matas ciliares e sopés de encostas de montanha no trópico 
Para mais exigentes nafaixa únudo. A data de "entrada" é determinada por eventos como cheias, 
rente a mata, ilustrando muito bem o que 
mantém a alta ~rodutividade das bordas deslizamentos e quedas de grandes áwores. 
entre ecossistemas. Ver a referência7 no$- Esses eventos levam os rizomas junto com detritos 
na1 da Parte 2, gp87. orgânicos e sedimentos para as beiras de rios ou abrem clareiras. 
Ela se estabelece então com condições ideais: abundante radiação, 
matéria orgânica e sedimentos, umidade e ausência de ventos. A 
data de "saída" é determinada pela velocidade de crescimento da 
vegetaçâo que a rodeia. A medida que diminuem as condições de 
radiacão e aue os nutrientes são incorporados na biomassa da 
floresta, a bananeira diminui sua produção de cachos e rebentos, 
até que um novo ciclo recomece. 
Em ambientes onde ocorre a renovação periódica de copas 
por ventos fortes típicos das estações de furacões na h é r i c a 
Central e Caribe, aliada ii umidade constante e solos vulcânicos de 
alta fertilidade, este nicho pode ter vida longa (mais de 100 anos), 
enqua;to que um bananal abandonado a sua própria sorte numa 
mata de terra firme não passará de 1 O anos, embora possa se manter 
no interior da mata, esperando por uma oportunidade. 
O nicho pode ainda ser de um nível mais especializado, ou 
ainda mais efêmero. São situagões pontuais, de maior ou menor 
duração, que criam condições ótimas para determinadas espécies: 
uma depressãono terreno, que retém umidade e matéria orgânica e 
abriga sementes; um afloramento de rochas que hospeda orquídeas, 
um cupinzeiro abandonado que pode ser usado para o plantio de 
inhame num pasto abandonado, e assim por diante. A natureza usa 
estes nichos como ""postos avançados" na recolonização de áreas 
degradadas, apontando-nos um instmmento precioso para nossas 
estratégias.Geralmente, um nicho deste tipo pode abrigar espécies 
de estágios mais avançados da sucessão numa área que, pelas 
condições gerais, não as comportaria. 
Diagnóstico por indicadores de 
densidade, porte e composição de 
espécies 
Para identificar as possibilidades de reproduzir as vantagens 
de nichos e bordas, temos que ter primeiro uma noção do clímax 
dinâmico de fauna e flora naquela região particular, nas suas 
diferentes ecozonas, como a mata primária nos topos, piemontes, 
encostas, baixadas, beiras de riacho. É também fundamental 
observar as clareiras naturais provocadas por quedas naturais e 
vendavais, analisando a sucessão de espécies em cada uma delas. 
Comparando estas observações com áreas de intervenção 
humana sob vários sistemas e vários graus de intensidade de 
degradação, teremos uma idéia do potencial biótico local, das 
estratégias de regeneração e indícios das metas locais. Do mesmo 
modo, já teremos boas pistas de que espécies, comunidades e 
consórcios poderemos usar para atingir a regeneração produtiva 
de cada situação específica 
Os indivíduos e consórcios observados nos vários estágios 
da sucessão natural de espécies a partir de intervenções humanas 
ou de eventos naturais a~udam a montar estratégias de introdução 
e manejo de espécies nativas e introduzidas. É um refinamento do 
item anterior. Vejamos alguns exemplos: 
Áreas abandonadas há mais de oito anos e que sustentam 
apenas samambaias e arbustos pioneiros indicam como histórico 
uma ação antropogênica intensa, com fogo e pastoreio. Do mesmo 
modo, uma formação homogênea de embaúbas (Cecropia spp) 
mostra uma dernibada seguida de fogo com posterior abandono. 
Em solos mais férteis e úmidos, a embaúba branca pode predominar, 
enquanto a embaúba vermelha pode ser dominante em solos mais 
fracos. Portanto, as espécies que podemos manejar como plantios 
pioneiros de interesse economico devem ter um grau de nisticidade 
próximo as espécies autóctones. 
Este é um conhecimento bastante.disponíve1 regionalmente, 
e que deve ser relativizado frente aos vários fatores que produzem 
Comporlamento de rebrote 
de arvores e arbustos 
A capacidade de rebrote tem como base 
a herança genética, que reflete a 
coevolução da planta e seu meio. Ainda, 
fatores como idade e disponibilidade de 
recursos (radiação, água, nutrientes) 
podem influir nesta capacidade. 
rebrote após perda parcial de 
galhos finos da copa 
eliminação natural de galhos mais baixos, sem 
rebrote 
uma determinada vegetação. Aprendendo a distinguir e comparar, 
podemos chegar a um diagnóstico bastante preciso, traçando um 
histórico de cada área, o que nos indicará os procedimentos mais 
apropriados para regenerá-la. 
A renovaçáo natural de folhas, 
Alguns comportamentos básicos podem 
ser descritos: 
copas e raizes 
A renovação cíclica da parte aérea da vegetação (e con- 
rebrote após rebaixamento total sequentemente de parte das raízes) é princípio básico da sucessão 
dos ramos mais grossos vegetal, e a reprodução manejada deste evento, traduzida na poda 
e capina seletiva é um instmmento fiindamental para os sistemas 
que estamos propondo. 
Assim, as técnicas de poda da vegetação são adaptações 
originadas da observação de como as espécies reagem a perda total 
ou parcial da massa foliar de suas copas. Naturalmente, esta e 
causada por eventos climáticos como quedas de árvores senescentes, 
vendavais, inundações ou por adaptação fisiológica, que deteminam 
uma renovação cíclica nas espécies caducifólias e semicaducifólias. 
Em espécies de cerrado e caatinga esta renovação também pode 
ser causada por fogo espontâneo ou devido ao forrageamento por 
herbívoros, como veados, capivaras, etcs. Portanto, quando falamos 
de renovação cíclica de vegetação estamos nos referindo também 
as espécies herbáceas. 
A renovação de folhas e raízes tem implicações a nível de 
toda a fauna e flora associadas que formam a rizosfera e filosfera. 
Portanto, num sistema clímax, após uma troca de folhas ou um 
distúrbio causado por eventos naturais (vendavais, granizo, etc), 
pode-se esperar também alterações ao nível de solo, em termos de 
disponibilidade de alimento (nutrientes). Essa disponibilidade 
conjuntura1 de nutrientes no solo logo é complexificada pelos 
transformadores, como insetos, minhocas, fiingos e bactérias. 
Eventualmente, pequenos herbívoros aproveitam as folhas secas 
antes que sejam decompostas, o que é bastante comum nas matas 
de cerrado e caatingas. 
Na sequência, os nutrientes incorporados nesta biomassa 
ao nível de solo vão lentamente se reestmturando na massa vegetal. 
Este.lapso de tempo, que pode ser de dezenas de anos, é o clímax 
rebrote de galhos mais baixos, dinâmico, e é onde a agricultura deve se sihiar. Portanto, o conceito ! sem tolerar perda do ápice de renovação da vegetação pela podação e o conceito de clímax 
dinâmico estão Intimamente ligados. O objetivo primeiro da 'FransferQncIas de blorna~sa 
renovação da vegetação deve ser conduzir o sistema ao estágio de na ~ucde~%" dde espécies 
clímax dinâmlco, ou reproduzi-lo quando já existente. 
A queda de uma árvore fenomeno natu- 
ritérios para 0 manejo da vegetação rao OU a podação seletiva de indivíduos 
causa uma transferbncia progressiva da 
por podas, capinas e roçagens biomassa ( e consequentemente dos nutri- 
entes) armazenados na vegetação para o 
solo. Podemos dizer que a biomassa acu- 
O primeiro e fundamental critério já foi enunciado. Nosso muladapassa 
objetivo é o aumento da vida no lugar e a poda, bem como outras do solo) para a rizos-ra (dominio abaixo 
operagões, culminando com a introdução de espécies, deve do solo). A sucessão reorganiza os nutri- 
contribuir neste sentido. O indicador maior de a c e ~ o e erro é a entes e a biomassa da rizosfera para a 
sucessão de espécies. Se após uma intervenção senescem as espécies Jilosfera novamente. 
mais adiantadas e revigoram as mais atrasadas, então fracassamos 
enquanto tentativa de seguir o fluxo e n e ~ é t i c o da sucessão e 
dinamizá-lo, e perdemos energia. 
O comportamento do rebrote 
P, 
Esta é uma pergunta que só 
pode ser respondida pela observação da 
vegetação nativa. O estrato superior ou 
dominante da mata clímax adaptou-se podaçáo ou 
a perder folhas, ramos ou parte da copa, queda 
em função de ciclos climáticos e natural 
vendavais. Deve-se respeitar a natureza 
de cada espécie e o fato de que, se uma 
queda de folhas é cíclica, uma podação 
de 30-50% da copa em uma árvore do 
estrato dominante é um evento mais 
raro, mesmo que ela aparentemente se 
recupere do dano. Portanto, nem todas 
as espécies tolerarão podas anuais, mas 
sim deverão ser avaliadas em fùnção da 
recuperação que Vresentarem. 
Em relação ao sub-bosque das 
matas primárias, vános eventos deter- 
minam a "podação natural", pela que- 
da de galhos e mesmo de indivíduos 
inteiros dos estratos superiores. Isso 
facilita que algumas espécies da mata secundária e do sub-bosque 
da mata primária tenham excepcional capacidade de rebrote após 
poda drástica. 
Já na Mata Atlântica, nas espécies de transição de for- 
mações pioneiras para secundárias, a habilidade do rebrote de copa 
&te período de transição cria uma condi- pode ser menor. É o caso de algumas melastomatáceas pioneiras 
ção especzal de fertilidade e condições da Mata Atlântica. e é o caso da Mimosa scahrella na Mata de 
ambientazs no local da clareira, o que fa- 
vorece plantas de baixa relação C/N, Araucárias. Esta habilidade de rebrote aparece mais nas espécies 
nalatbveis e nutritjvas oara animais de que se instalam como pioneiras mas que avançam na sucessão atéa r 
maior porte. Este é um principio que ori- mata primária, como é o caso de algumas Sapindaceae (Camboatá- 
enta as roças indígenas e que pode ser Cupania vernalis) e Melastomataceae (Jacatirão, Pequi-de- 
muito $til em vários aspectos da agricul- 
tura moderna. capoeira-Tihogchina mufabilis) É comum nas espécies dominantes 
da mata secundária a perda paulatina de galhos mais baixos e uma 
perda com recuperação de até 30% da copa, desde que o ápice não 
seja danificado e estes não sejam danos anuais. 
As espécies pioneiras têm 
diferentes respostas, de acordo 
com sua função no sistema. Em- 
baúbas (Ceeropia spp) têm seus 
brotos ""gstoreados", inicial- 
mente, em clareiras por herbí- 
voros, principalmente veados, e 
desenvolveram certa habilidade de 
rebrote enquanto juvenis e adul- 
tas. Mundururús (Melastoma- 
taceae) já s" menos hábeis no 
rebrote, e podem ser manejados 
por raleamento de copa, o que já 
é natural da espécie. Capiangas 
têm grande capacidade de rebrote, 
assim como o Fumo-Bravo 
(Solanaceae), e são pioneiras de 
situações bastante degradadas, o 
que é um fator positivo em seu 
favor. Ainda, arbustos e sub- 
arbustos, como a jumbeba (So- 
lanaceae), a candeia (conhecida 
como "vassourinha" no sul do 
Brasil, família Compositae) são .. -, ;r8 hábeis no rebrote mesmo após 
9 - 
poda anual. Em ecossistemas onde houve coevolução com maior 
densidade de herbívoros, como o cerrado, caatinga e savanas, as 
espécies pioneiras têm uma facilidade natural para se recuperarem 
da perda periódica de folhas e ramos finos. 
Resumindo, o comportamento das espécies é o resultado 
de uma interação entre o nicho que ocupam na sucessão, e fatores 
de nutrientes, umidade e radiação. O que pode parecer complexo 
nada mais é que um simples trabalho de obsewação e recuperação 
do saber popular, incorporado através de uma convivência íntima, 
embora nem sempre amigável, com as diferentes capacidades de 
rebrote das diferentes espécies. 
As diferentes reações B perda 
de ramos e galhos 
As árvores do estrato dominante criaram diferentes 
estratégias para resistir a vendavais, perdendo ramos grossos e parte 
da copa (caso típico do gênero Ficus) OU soltando ramos inferiores 
já decadentes (caso das Araucariaceae). Estas espécies raramente 
resistem a uma decepa total, como um rebgxamento. A recuperação 
é lenta, de dois a três anos, quando praticamente não distinguiremos 
a parte renovada, com excessão das araucárias, que ficam marcadas 
para sempre. 
Árvores de porte alto do sub-bosque desenvolveram a 
habilidade de resistir a eventuais danos causados por quedas de 
galhos dos estratos superiores, bem como à queda de árvores 
senescentes deste extrato, às vezes, resistindo a decepa ou perda 
total de copa. Nesses casos, modificam sua arquitetura em função 
da clareira aberta e da perda de dominância apical, passando a uma 
forma arredondada. Essa forma vai voltando a original na medida 
em que os estratos superiores reconstituem-se, o que pode levar 
muitos anos. O caso da erva-mate (Ilexparaguariensis) é exemplar, 
passando de um eixo central para uma forma arredondada mesmo 
dentro de matas primárias, desde que ocorra o evento descrito 
anteriormente. 
Do mesmo modo, as Arvores de mata ciliar desenvolveram 
esta habilidade em knção de arraste por inundações. Arbustos e 
subarbustos de beira de mata e de clareiras em mata clímax, 
geralmente, suportam um rebaixamento geral da massa foliar. Essa 
habilidade é originada da adaptação a pressão de forrageamento 
por herbívoros e é muito comum nas leguminosas e malváceas. O 
retorno à forma original e rápido. 
Capacidade de suporte ao dano 
Camihando por uma mata, pode-se observar os fenomenos 
que citamos e avaliar a resposta em termos de rebrote de cada 
espécie em diferentes situações, como perda parcial da copa, 
rebaixamento por perda total, com rebrote do toco, etc. Também 
podemos avaliar se este potencial de rebrote é comum a todas as 
idades da árvore ou só a indivíduos juvenis e adultos, o que é 
bastante comum. Ainda, poderemos observar como se comportam 
as espécies e os diferentes consórcios, após distúrbios que lhes 
afetem a estmtura e forma. 
1É fùndamental o aprendizado prático da forma e geometria 
da distribuição espacial de folhas e ramos. Embasado na Filotaxia, 
que vem a ser a ciência que estuda a forma natural da planta, este 
conhecimento também é fùndamental, pois a poda deve procurar 
respeitar e otimizar as formas naturais. Essas refletem a evolução 
da planta em seu ambiente. 
Entretanto, integrando nossos objetivos de produção com 
os objetivos do consórcio vegetal em otimizar a biomassa naquelas 
condições, podemos dar as plantas as formas mais adequadas a 
cada etapa da sucessão e pressão dos fatores ambientais, induzindo 
os fatores que a regulam, como radiação e ciclagem de nutrientes. 
O ponto de equilíbrio é determinado pela época onde as espécies 
toleram melhor o distúrbio, bem como a Intensidade com que esse 
distúrbio (podação e perda de massa foliar) é tolerado. 
Ciclos de eventos 
A resposta ao "cronograma" de distúrbios ou eventos 
naturais aos quais as espécies se adaptaram é encontrada na 
observação do conjunto do ecossistema. O conjunto de espécies 
nativas da Mata Atlântica do sul da Bahia troca folhas cons- 
tantemente, de modo desigual e continuo. Enquanto os jatobás 
(Hymenea courbaril L.var. stilbocarpa) trocam a folhagem, outras 
espécies estarão já com folhas novas, outras florescendo e assim 
por diante. Embora hqam ciclos para espécies, a mata em si 
permanece com um equilíbrio entre áwores em troca de folhas com 
árvores enfolhadas.Portanto, a renovação de copas nesta situação 
deve ser constante e dosada de modo a manter um certo equilíbrio 
no sombreamento e cobertura de solo. 
Já numa situação de caatinga, cerrado ou de mata sub- 
caducifólia, o período seco é o período onde naturalmente ocorre 
a queda de folhas e renovação da vegetação. Uma perda de massa 
foliar durante o período chuvoso implicaria numa perda da 
capacidade de armazenar reservas e, po~an to , da capacidade de 
produzir biomassa na próxima estação de chuvas. 
Na Mata Tropical Úmida, quando há a ausência de um 
período seco previsível, o final da época dos vendavais 6 propícia 
para o manejo de áreas de mata secundária madura e mata primária, 
com a reorganização e colonização de clareiras naturais e o manejo 
de situações de queda iminentes, como grupos de árvores 
senescentes ou maduras. 
No sul do estado da Bahia, o período de junho a agosto, 
marcado por chuvas frontais e nebulosidade, é ideal para manejo 
de áreas já instaladas, uma vez que propicia a entrada de radiação 
e nutrientes numa época onde esses fatores poderiam limitar o 
crescimento das espécies introduzidas. 
De modo geral, a podação deve sincronizar os ciclos das 
espécies introduzidas (floração, lançamento de ramos, fmtificação) 
com a vegetação nativa, de modo a dinamizar o sistema como um 
todo, manejando cada situação de modo a otimizar os recursos 
disponíveis. Naturalmente, esse objetivo é tão mais fácil de alcançar 
quanto mais adaptadas ao ecossistema forem as espécies. 
Referências 
' Resende, Mauro et d.. Pedologia: base para distinqão de ambientes. Vaçosa, 
: NEPUT, 1995 
AIfred W Crosby, na elaboração de seu livro "Imperialismo Ecolitgico" (já 
citado aqui) compilou extensa bibliografia sobre o tema, que reproduzimos 
aqui; A.G. Thorne, "The arrival and adaptation of Australian aborigenes", 
Ecological biogeography of Australia, organizado por Allen Keast (Haia, Dr. 
W. Junk, 198 I), págs. 178-9; D. Merriles, "Man the destroyer: late quataernary 
changes in auslralian marsupial fauna ", Journal of the Royal Sociely of Westem 
Australia, 5 1 (parteI, 1968), págs. 1-24; D. Mulvaney, "The pre-history ofthe 
Australian Aborigene", Avenues of AntiquiQ, readings from Scientific 
American, organizado por Bnan M. Fagan (San Francisco, Freeman, 1976), 
pags. 6, 16, 51-66. 
Para ir mais adiante, ver Systèmes Indigènesde Classi$catjon des Sols. Por 
Grobben, P. Source de TA. Wagenin-n: CTA, v.20, n. 1, págs. 6-9, março 
1992. Também Misrnatched Models: How farmers and scientists see soils. 
Ileia Newsletler, v. 9, n. 1, pags. 15-16, março 1993. 
"Como é fácil adivinhar, foi na costa árida (na região central da costa do 
Pacífico, na héI . Ica do Sul pré-colombiana) que os sistemas de imgação 
alcançaram maior importância, aproveitandos os rios e torrentes (originados 
do degelo das neves andinas). Outrosslm, ao reunirem recursos variados, 
pemitindo muibs atividades complementares - pesca e coleta marinhas, caça, 
coleta vegetal, agricultura, etc., os vales litorâneos (úmidos e florestados) 
desenvolveram-se mais rapidamente que a serra durante muitos séculos". Para 
ir mais adiante, ver: Cardoso, Ciro Flamarion S., Op. cit. 
Ver: Anderson, A.B. e Posey, D. A. Reflorestamento Indígena. Ciência Hoje, 
Volume especial Amazônia, Dezembro de 1991, pg 6-12. 
Em torno de 97% da biomassa de uma floresta tropical úmida de terra firme 
está em troncos, galhos e ramos, enquanto de 1 3 % a 5,0% estão nas folhas, 
embora sejam nelas que se enconlre o maior percentual de nutrientes por % de 
peso seco. Esta análise seria totalmente diversa num ecossisterna de pradaria 
ou de várzea, demonstrando de modo analítico a correlação a evolução de flora 
e fauna. Ver: Dantas, Mario. Studies on Sucession in Cleared Areas of 
Amazonian Rain Forcíst. gR.D. Thesis, Linacre College, Oxford, 1989. 
Que se reproduzem basicamente por pedaços de raiz. ricas em reservas e 
gemas de crescimento. 
O'"(. .) nossos anceslrais encontraram aqui grandes áreas de macegas elevadas, 
tão altas que molhavam as pernas dos gaúchos em suas montarias. A isso 
faziam exceção apenas as pequenas áreas periféricas de certos banhados, onde 
habitavam as preás (Cavia aperea), que modificaram a flora agrostologica, e 
originaram o aparecimento de pequenos gramados tenros de grama tapete (. . .) 
de que se nutriain. Também os rebanhos de capivara (Hidrochoerus 
hidrochoeris) faziam sentir sua iduência nas várzeas junto aos rios e, por 
isso. talvez seja muito certa a denominação de capim e capivara ao Panzcurn 
laxurn. Aliás, (...) caapi-goara é traduzida do tupi como "comedor de capim". 
Quanto aos veados, não eram em número elevado e mantinham-se na periferia 
das matas. Mas não era justamente nessa perzeeria que havia pequenos gramados 
enquanto que, logo adiante, crescim altos o capim-caninha, a barba-de-bode 
ou a macega estaladeira?" Araújo, Anacreonte Aviia de. Principais Gramineas 
do Rlo Grande do Sul. Edição Sulina, 197 1. 
"O livro e um mudo que fala, é um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive". 
Padre Antonio Vierra 
"... porque unindo pedaços de palavras 
aospoucos vai unindo argila e orvalho, 
tristeza e pão, cambão e berja-flor, 
e acaba por unrr a própria vida 
no seu peito partida e repartida ... " 
Trecho do poema "Canção Para os Fonemas da Alegria ", de Thiago de Mello in Faz Escuro 
Mas eu Canto - Porque o Amanhã vai Chegar. Poesras, Edrrora Civilização Brasileira, Rio, 
1965. 
Conhecer a realidade para poder 
transformar 
A simples transferência de tecnologia como ferramenta de 
desenvolvimento mostrou, ao longo do tempo, que pode por em 
risco não apenas o futuro de setores descapitalizados, mas que pode 
afetar a sociedade como um todo. Portanto, independentemente 
de com que setor estamos preocupados, temos que considerar que 
desvendar as interações entre o cultural, econômico, social e 
ambienta1 é cnicial para se traçar as estratégias que garantirão a 
sobrevivência das sociedades humanas no presente e no futuro. 
Os fatores culturais, sociais e econômicos devem ser 
desvendados e analisados tendo como mediador a base de recursos 
naturais que os sustenta. Para isso, a tipificação dos ambientes 
ocupados pelos sistemas dos agricultores impõe-nos um 
conhecimento do ecossistema e um zoneamento, baseado em 
critérios de produtividade e sustentabilidade face aos usos atuais, 
que se agregue ao histórico da ocupação humana. 
Essa análise, já enriquecida pelo acumulado com relação 
aos fatores sociais, culturais e econômicos nos levará a geração de 
propostas, e como implementá-Ias e difundi-las. 
Qualquer método que esqueça que as transformações só 
podem ser realizadas de modo permanente e progressivo por 
populações que partipem ativamente do processo está fadado a ser 
efêmero, sem auto-sustentabilidade. 
Portanto, regenerar o potencial produtivo de ecossistemas 
não é uma tarefa de técnicos que buscam viabilizar a transferência 
tecnológica. O diagnóstico irá fornecer as pistas e facilitar a criação 
coletiva de ferramentas de transformação social apropriadas a cada 
situação e ambiente. A contribuição do -ente externo, o papel do 
técnico, e de wregação de conhecimento na forma de princípios 
que auxiliem na constmção destas ferramentas, ajudando a criar 
estratégias que logrem constniir no presente perspectivas de um 
futuro sustentável. 
Porém, o papel do diagnóstico participativo e primeiro 
passo é saber que fùturo é este a que nós, técnicos e agricultores, 
queremos chegar. Não há diagnóstico nem intewenções casuais ou 
tópicas. Todos os envolvidos num diagnóstico participativo buscam 
transformaç&s e toda intervenção causa uma reação em cadeia, 
seja no sistema social, seja no anibiente natural. 
Portanto, técnicos e agricultores envolvidos devem se fazer 
uma pergunta básica: qual é o tipo de desenvolvimento que 
queremos? O quanto conhecemos dos nosssos agroecossistemas 
atuais e do ecossistema que estamos procurando regenerar? 
Estas duas perguntas-base irão gerar toda uma série de 
outras perguntas e respostas de modo a criar uma imagem global, 
a visão do futuro. Como num quebra-cabeças vivo, que evolui e se 
transforma a medida que o vamos montando, esta visão deverá ser 
reconstmída constantemente pelas comunidades rurais e pela 
sociedade como um todo. Neste processo e como sequência natural 
do di-nóstico, as metas irão sendo estabelecidas desde o nível de 
"IZsperamos que $que bem 
claro aqui que a essência do 
diagnóstico participativo 
ambiental e sócio econo- 
mico não é facilitar a 
tran,rferência de tecnologia. 
O diagnóstico ide~lti$ca e 
analisa problemas quanto 
aos aspectos sociais, cul- 
turais, econômicos e am- 
bientais, e as interações 
entre estes fatores. Assim, 
fbcilita a apropriação de 
prinebios pelas populações 
e permite gerar as ferra- 
mentas tecnológicaIr contex- 
tualizadas e aptas a trans- 
formarem as realidades 
técnicas isoladas utilizadas na unidade de produção familiar até ao 
nível de propostas políticas públicas. 
A resposta à primeira peGunta é simples e complexa ao 
mesmo tempo. Qual é o tipo de desenvolvimento que queremos? 
Pelo menos, sabemos multo bem o que não queremos. Milênios de 
mercantilismo agressivo e expansionismo rnllitarlsta deixaram um 
rastro de destmição dos recursos naturais e agudas diferenças 
sociais, desde a Mesopotâmia até os dias atuais. O resultado do 
desenvolvimento tecnológico foi, ao lado de uma série de facilidades 
para a vida dos seres humanos, a degradação bmtal e progressiva 
do conjunto das condições que possibilitam nossa vida no planeta, 
principalmente, a partir da Revolução Industrial, no final do século 
XIX. 
A segunda pe-unta é mais simples e uma abordagem 
interdisciplinar, histórica e enriquecida com o saber local pode nos 
dar uma resposta bastante confiável à pergunta: "Qual é o 
ecossistema que estamos querendo regenerar?" 
Uma vez tendo um "rascunho" geral dessas duas assertivas, 
social e ambiental, vamos encarar a realidade em termos de 
ecossistema e sociedade. A realidade sbcio-ambienta1 e economica 
das populações não é gratuita e nem fmto de questões isoladas. Se 
assim fosse, a degradação dos recursos naturais seria facilmente 
resolvida. Bastaria uma melhor distribuição de renda, segundo a 
teoria defendida pelo famoso "Informe Bmndtland", avalizado pela 
Comissão Mundial sobreMeio Ambiente e Desenvolvimento' 
Embora concordem que a miséria possa pressionar o ambiente. 
uma linha importante de economistas acrescenta que isto não 
equivale a dizer que o desenvolvimento melhore as relações do 
homem com o ambiente. Ainda, consideram que parte dos 
movimentos ecologistas tem raízes nos setores marginalizados, em 
luta pela preservação de seu espaço e seus recursos2. 
Portanto, reconhecer e desvendar estas inter-relações é 
hndamental. E para chegas às perguntas corretas é preciso método 
As metodologias participativas de diagnóstico mral e diagnóstico 
ambiental têm sido amplamente trabalhadas, principalmente, nos 
países do Terceiro Mundo. Os mediadores técnicos precisam estar 
munidos de informações conjunturais e históricas a respeito de 
mercado, políticas públicas, estruturas locais de poder e 
transformações da base de recursos naturais ao longo do tempo 
(ciclos de exploração de recursos). Como em qualquer processo 
no qual esperamos sucesso, o importante na metodologia é a 
adequação dos princípios à realidade local. Como foi ressaltado, 
devemos, uma vez que nos apropriarmos da essência do método 
pmicipativo, aprender a buscar as perpntas certas. Essas perguntas 
são orientadoras e fazem brotar das pessoas sua percepção da 
história e da atualidade, e abrem as portas da transformação da 
realidade. 
Esperamos que fique bem claro aqui que a essência do 
diagnóstico participativo ambienta1 e sócio-econômico não é facilitar 
a transferência de tecnologla. O diagnóstico identifica e analisa 
problemas quanto aos aspectos sociais, culturais, econômicos e 
ambientais, e as interações entre esses fatores. Assim, facilita a 
apropriação de princípios pelas populações e permite gerar as 
ferramentas tecnológlcas contextualizadas e aptas a transformarem 
as realidades locais. 
Para entender os sistemas atuais 
Quase todos nós conhecemos o Jogo infantil onde peças 
de diferentes formas devem ser encaixadas numa cavidade com a 
forma correspondente. Podemos, numa comparação, dizer que os 
sistemas agrícolas disseminados pela colonização européia são como 
peças desse brinquedo. As peças de encaixar são os sistemas técnicos 
de produção agrícola e pecuária, moldados pelo atrelamento a 
mercados e políticas colonialistas, cultura alimentar e conjuntura 
política e econômica. A placa com as cavidades representa os 
ecossistemas colonizados. 
Como no brinquedo, a insistência - por Ignorância ou pouca 
familiaridade - em tentar fazer entrar uma peça em forma de 
quadrado numa cavidade em forma de triângulo acaba num resultado 
previsível: estraga-se o brinquedo. 
Em suma, esse é o dilema da agricultura atual: ao tentar 
impor um determinado sistema técnico ao ambiente sem conhecer 
de modo aprohndado suas características, acaba por degradá-lo. 
Do mesmo modo, ao impor um padrão tecnológico uniforme às 
comunidades rurais sem conhecer seus potenciais e limitações, 
tendemos a acentuar a exclusão social. Voltando ao ecossistema, 
as necessidades das "nossas" plantas e animais interrompem os ciclos 
do ecossistema e promovem enormes perdas energéticas. De modo 
geral, o tipo de organização social e suas decorrências, como 
mercados, cultura e determinadas conjunturas político-econômicas 
aceleram o processo de degradação. Esse é um processo que vem 
desde as sociedades sumero-babilônlcas de 3 100 a.C, passando pela 
colonização portuguesa da Ilha da Madeira e Porto Santo3. Sua 
continuação lógica é a "maré" de soja que ocupou as florestas 
subtropicais interiores dos estados do sul, chegando hoje aos 
cerrados e florestas tropicais dos estados do centro e centro-oeste 
brasileiros. A essência da Iógica colonialista ainda impera, se 
analisarmos o destino dessa soja nos mercados europeus. 
Agricultura/Ecossistemas:: 
a formaçáo das paisagens agrícolas 
Sem conhecer profundamente o ecossistema local, é dificil 
pensar em sustentabilidade. Afinal, quem mais entende de 
sustentabilidade do que o conjunto da vida (flora e fauna) que 
coevoluiu localmente por milhões de anos? Esse bioma e a sucessão 
natural de espécies e de consórcios de espécies que o rege são 
guias confiáveis as estratégias de sustentabilidade de médio e longo 
prazo que procuramos. 
O diagnóstico sócio-econômico e ambienta) é um produto 
interdisciplinar e participativo. Interdisciplinar porque não se 
conhece uma paisagem por caixas estanques entre populações que 
a ocuparam, solos, fauna e flora. Participativo porque populações 
humanas estiveram em constante inter-relação por milênios com 
os ambientes, e essa é uma fonte de informações básica. Portanto, 
uma abordagem tecno-ambientalista resultaria estreita. Ao 
conhecimento dos processos formadores e reguladores das formas 
de vida que constituem o ecossistema devemos agregar o 
componente antropológico e etnobiológico. 
Devemos ter claro que boa parte do conhecimento em 
relação as várias formas de vida, ciclos e padrões do ecossistema 
está disponível Junto as sociedades humanas que habitaram ou ainda 
habitam os ambientes. Ainda, que as transformações que esses 
ambientes sofreram podem ser resgatadas junto aos colonizadores, 
via documentos historicos e depoimentos de pessoas ainda vivas? 
Portanto, o conceito e a prática de diagnóstico participativo 
que se procura está ligado a um conhecimento abrangente do 
ambiente e do processo histórico sócio-cultural e econômico que 
gerou os sistemas produtivos atuais, aliado aos reflexos desse 
processo nos ecossistemas locais. 
O histórico do ambiente e das populações humanas que os 
colonizaram nos clareiam como se chegou ao que hoje conceltumos 
como agroecossistemas. Esse quadro histórico e atualizado pode e 
deve ser recuperado e reconstruido junto as populações que 
ocuparam e ocupam o espaço vital, através do resgate do 
conhecimento ainda existente e da geração do novo. Esse é, a nosso 
ver, um princípio e ferramenta básica de qualquer diamóstico, como 
estratégia primeira no processo de construir alternativas sustentáveis 
de desenvolvimento. 
Resunundo, metodologias de diagnósticos são ferramentas 
em uso que necessitam de constante anialização, reparos e evolução. 
Portanto, devem ser adaptadas e não padronizadas, objetivadas sem 
serem ideologicamente sectárias, de modo a potencializar as metas 
sociais e ambientais que pretendemos. 
Considerando que o objetivo central do diagnóstico seja o 
desenvolvimento sustentável e a regeneração produtiva dos 
ecosssistemas, devemos então: 
- conhecer o histórico das populações que ocupam o 
ambiente; 
- identificar a lógica de exploração dos recursos pelos 
diferentes segmentos sociais e os agroecossistemas5 resultantes; 
- conhecer o ambiente em sua forma primitiva e atual, e 
como ele é visto pelos seus atuais ocupantes; 
- identificar a sustentabilidade (economica e ambiental) 
dos sistemas adotados; 
- gerar neste contexto de participação as possíveis 
intervenções e modificações que otimizem os recursos a nível de 
propriedade, comunidade e região, abrindo a possibilidade de 
integrar estas propostas a estratégias mais amplas no plano macro- 
ambiental e econômico. 
Durante o diagnóstico e como conseqüência desse, iremos 
obtendo informações que são pilares básicos para criar as 
ferramentas de regeneração produtiva de ecossistemas: 
- Enriquecimento do conhecimento já disponível sobre as 
plantas cultivadas e/ou introduzidas, bem como das comunidades 
vegetais autóctones associadas a estes cultivos, através de dados 
obtidos nos ecossistemas ou centros de origem das espécies em 
questão6; 
- Cqacidade do diagnóstico de identificar no itinerário 
técnico do agricultor o conhecimento do ecossistema local e de 
sua dinâmica. De posse desses ""gnchos", analisar, ampliar e 
enriquecer as técnicas, itinerários e sistemas com um todo. 
O conhecimento do ecossistema local no itinerário t é c ~ c o 
do agricultor expressa-se através do grau de reconhecimento das 
espécies nativas e de suas hnções no ecossistema, e se reflete emvarias operações, como capinas, roç-ens, instalação e manutenção 
de cultivos, bem como outras atividades. Um erariquecimento desse 
conhecimento possibilita uma política de ajustes graduais do sistema 
técnico em uso de modo a obter sua reorientação gradual para 
sistemas regenerativos da produtividade e biodiversidade dos 
ambientes naturais e dos sistemas agrícolas nele baseados. 
O resultado maior do diagnóstico é criar a base para que 
as mudanças e inovações ocorram num contexto de geração 
participativa de técnicas, itinerários e sistemas técnicos que, ao se 
encaixarem nos sistemas existentes, atuam como catalizadores de 
mudanças. 
Dentro dos conceitos que desenvolvemos ao longo deste 
livro, a meta destas mudanças e modelo geral são as estratégias 
naturais de regeneração (sucessão natural de espécies) e o clímax 
dinâmico de cada ecossistema, o qual irá apontar para um 
zonemento de sistemas e intensidades de uso, mediadas por fatores 
culturais, sociais e econômicos. A otimização de uso de nichos e 
microclimas irá enriquecer este zoneamento fornecendo um modelo 
de como a diversificação pode ocorrer no tempo e no espaço, ou 
seja, rotações, sucessões, consórcios, etc7. 
Finalmente, este processo procurará gerar na prática uma 
consciência preservacionista, uma vez que os recursos naturais e 
sua biodiversidade passam a ser encarados pelas populqões como 
parte essencial de suas estratégias de reprodução enquanto culturas 
e sociedades8. 
O caso da Regiáo dos Tabuleiros 
Para o leitor entender o contexto de geração de alguns 
dos sistemas que iremos apresentar mais adiante, faremos um breve 
relato dos fatores sociais, culturais, econômicos e ambientais que 
que dizem respeito à região onde estão implantados e que 
iduenciarm seu desenvolvimentog, Esse relato também serve para 
ilustrar, de modo prático, alguns pontos que devem ser levantados 
por um diagnóstico. 
RfstDrieo de ocupação e eixos 
eeonomicos. 
A colonização da região deu-se 
pela ocupação do litoral, utilizando os 
portos naturais de Cairú, Valença e @a- 
mamú. A entrada deu-se pelos rios, com 
plantios de arroz nas baixadas, cacau nos 
boqueirões e mandioca na meia encosta. 
Também era comum o represamento e 
inundação das baixadas para a criação de 
porcos. A exploração de madeira deu-se 
em maior intensidade nas margens dos rios. 
A abertura de estradas (BA-00 1, BR- 10 1, 
BA-650, BA-23) abriu para o desma- 
tamento em épocas diferentes os recursos 
do interior, algumas em tempo relativa- 
mente recente (a partir de 1970). O des- 
matamento foi seletivo em certas regiões a 
ponto de tornar rara a ocorrência de de- 
terminadas espécies de árvores, exploradas 
por seu valor madeireiro. 
Indústrias 
Começa, nos anos 50, com a 
Companhia Valença Industrial (tecidos). 
Mais recentemente, fábricas de óleo de 
dendê em Valença e Taperoá (Oledesa e 
Opalma). A extração mineral concentrou- 
-se em Maraú (manganês) e Camamú 
(barita). Ituberá Já contou com empresas 
de laminados e compensados (Odebrecht) 
e pré-tratamento de látex (Agroindustrial 
Ituberá e em Igrapiuna a Cultrosa e a 
Michelin), sendo que o setor de Iátex 
continua em atividade, embora reduzido em 
relação ao passado. 
Sistema de produgão: 
médio proprietário ("Oka) 
na nona cacaueira sul-bahiana 
Sistema evolui para cacau 
sombreado por eritrina e 
ingazeiro. Ainda colhe-se 
banana nas falhas. 
Também cravo em 
consórcio com 
plaçava ocupa a 
sequência das lavouras 
anuars. 
Plantio de feijão, 
mandioca e banana. 
Cultivos anuais: 
POY@ 
Sistemas Agrários 
Preparo da área: derrubacia, 
queimada. Coivara, 
separando a madeira. 
Tempo de pousio 
possivel: três a cinco anos. 
Uma parcela da 
área de capoeira degradada 
pode ser incorporada 
anualmente, a área de pasto, 
conforme os preços dos 
cultivos permanentes em 
relação ao gado 
A estmbra agrária é composta por 
grandes fazendas, empresas e médios, 
pequenos e microprodutores. Bolsões de 
pequenos e microprodutores próximos a 
grandes fazendas servem para essas como 
reserva de mão-de-obra. Muitas delas 
surgiram na década de 50, quando o 
governo favoreceu a compra de terras e a 
instalação de empresas. Dessa época, 
também é o Projeto Integrado de 
Colonização, que trouxe Imigrantes 
japoneses para a região, introduzindo a 
pimenta-do-reino e expandindo o cultivo 
do cravo-da-índia. Nas empresas, a base 
produtiva é a borracha e o cacau, com 
expansão da pecuáia extensiva. Áreas mais 
próximas a polos turísticos estão sendo 
usadas para especulação imobiliária em 
fiinção de queda de preços do cacau e látex. 
Os outros estratos sociais acompanham a 
tendência cacau-seringueira-cravo e, 
recentemente, pasto. A madeira, como a 
maior parte dos produtos, paga muito 
pouco ao seu dono, a menos que ele mesmo 
possa beneficiá-la e comercializá-la, o que 
é legalmente complexo e economicamente 
proibitivo na conjuntura atual, face à 
desorganização dos pequenos proprietários 
e mesmo dos "oeneficiários da reforma 
agrária neste sentido. Mais de 90% do 
abate de árvores e, consequentemente, do 
comércio de madeira é juridicamente ilegal 
na região. 
Existe uma tendência dos pe- 
quenos e microproprietários a vender seus 
terrenos situados em solos mais férteis e 
comprar áreas maiores mas mais baratas 
em solos piores. A concentração de terras 
dá-se frequentemente via comerciantes e 
compradores de cacau. Na maior parte das vezes, essas áreas têm 
sua madeira retirada, mesmo que estas árvores sejam hoje o 
sombreamento do cacau, e após a queimada e coivara são 
tranfomadas em pasto. 
RelaçOes de trabalho 
Parceria, assalariamento e diaristas. Mutirões são forma 
comum de trabalho coletivo entre os pequenos agricultores. 
Comentarios gerais 
A região, como é a regra nacional, baseia sua economia 
na extração não sustentada de recursos naturais. A madeira, primeiro 
pelo litoral e depois pelas BR's e BA's abertas nos anos 70 e nos 
90, é um ciclo perto do final. Os plantios de cacau e seringueira, 
uma vez esgotados os solos que os sustent-am, encontram hoje 
uma relação custo de produção/preço de venda amplamente 
desfavorável, o que impede uma maior artificialização do sistema 
via fertilizantes e agroquímicos. Ocorre, atualmente, uma nova 
fase de expansão de pastos, concentração de terras e aumento do 
êxodo rural. 
Diversificação e processamento 
As alternativas de diversificação tem falhado no geral por 
falta de compreensão do ecossistema e pela inexistência e falta de 
apoio mais concreto a criação de estmturas organizativas para 
processamento e comercialização. As diferenças entre preços de 
mercado e preços ao consumidor de produtos locais como 
condimentos e especiarias, madeira, amêndoas (cacau, 
principalmente) e Erutas situa-se na absurda faixa de 1.000% a 
10.000%. Em outras palavras, o produtor pode receber de 10 a 
100 vezes menos do que o consumidor paga pelo mesmo produto. 
O grau de beneficiamento da maior parte desses produtos é primário, 
como no caso do cravo-da-índia (secagem, classificação e 
embalagem), sendo que o produto que por mais processamento 
passa é o cacau. Podanto, o setor de trmsfomaçk local associativa 
e a comercialização direta seriam um passo associado a qualquer 
intervenção que se proponha a mudar o perfíl sócio-econômico e 
ambienta1 da região. 
Agroecosslistema e sustentabilidade arnbientaa: 
o caso do cacau 
8 papel do cacau na economia e cokrtura florestal do sul 
da Bâhia merece um capítulo à parte. Extremamente adaptado ao 
ecossistema, ele manteve cerca de 600.000ha com cultivos perma- 
nentes e certa cobertura florestal desde o início do sémlo. 
Porém, no entusiasmo da Revolução Verde, uma série de 
medidas podem ter comprometido o futuro deste agroecossistema 
que aparentava ser "ecologicamente correto9': 
- campanhas de redução de sombreamento total; 
- substituição total de sombreamento nativo por 
introduzido; 
- práticas de roç-em e cqina (química e mecânica) que 
impediram a regeneração natural. 
Estesprocedimentos contribuíram para: 
- falta de regeneração e sincronia do sistema de 
sombreamento e do cacau; 
- falta de rendimento economico direto das espécies de 
sombreamento; 
- dhinuição da proteção do solo e, conseqüente, oxidação 
acelerada da matéria orgânica acumulada pelo ecossistema original. 
A queda de preços veio a intensificar e apressar os 
problemas de manejo pelo abandono das lavouras. Portanto, as 
mudanças nos preços de mercado aliados ao conjunto de sistemas 
técnicos baseados na intensificação via capital e insumos 
qroquímicos geraram o quadro atual de crise no setor cacaueiro, 
com graves reflexos sociais e ambientais. Intewenções oficiais desse 
tipo causaram problemas idênticos com o café sombreado na 
Nicarkgua pós-revolução e na Colombla, via políticas do Instituto 
Nacional de1 Gafe. 
Arnostragern de propriedades. Médio Proprietário 
Descrição diz drea. 20ha próprios e 5ha na terra de um 
tio, ocupados desde maio de 1969. Possui açude com peixes, solos 
de fertilidade média a boa para a região. 
Culturas. Cacau, banana, cravo, piaçava. Para consumo 
planta feijão, milho, batata-doce, fmteiras, abacaxi. Guaraná em 
implantação. 
Seguência típica de cultivo. Roça, derruba, queima. 
Coivara, separando a madeira. Destoca para feijão e milho. Colhe 
e retira a palhada, sem aproveitá-la. Planta feijão, mandioca e 
banana. Já com sombra demais para a mandioca, planta cacau, ingá 
e eritrina. Usa adubação química para o feijão (1 1- 15-10). 
Criação. Tilápias, porcos, galinhas e um burro de tração. 
Produtividade média. 180 arrobas de cacau, 100 arrobas 
de piaçava, uma tonelada de cravo em estoque esperando preço. 
MGo-de-obra. Oito adultos, sendo que quatro só em meio 
turno. Os filhos complementam a renda com trabalho assalariado e 
empreitas. 
Renda. Piaçava, cravo, cacau, farinha de mandioca. O 
cacau é o maior responsável pela renda. 
Coberturaflorestal. nove hectares de capoeirão. 
Comentários 
Este relato sucinto é um recorte da conjuntura econômico- 
-social da maior parte da agricultura familiar brasileira, onde 
podemos ressaltar: 
- crise de preços nos produtos básicos obtidos nos sistemas 
agrícolas; 
- falta de estmtura organizacional para fazer frente ao 
processamento e comercialização das culturas principais e mesmo 
das alternativas que poderiam compor a diversificação; 
- queda vertiginosa do potencial produtivo das áreas: solo, 
madeira, água; 
- tendência a concentração da posse da terra e a pe- 
cuarização nas zonas mais afastadas dos centros urbanos; 
- êxodo rural acentuado e, consequente, favelização nos 
centros urbanos. 
Esses fatores levam-nos a pensar na necessidade natural 
da organização visando propostas para a agricultura familiar. Antes 
de ser uma espécie de entidade onipresente e onipotente, a mudança 
da realidade política deve também ser constmída no enfrentamento 
diário dos problemas da luta pela terra, da cadeia produtiva e da 
sustentabilidade desse processo. 
Cenários hturos 
Sem nenhuma alteração na conjuntura econômica e nas 
propostas técnicas, a tendência é a substituição de cultivos de baixo 
Bancos Geri-ticos Vivos 
Acervo Genktico 
M i t o s dos problemas de 
determinados cultivos co- 
merciais provêm de uma 
inadqtação clara das espécies 
ou variedades usadas. Como 
vimos no item anteriol; um di- 
agnóstico deve levantar o que 
existe em termos de material 
local e buscar fontes externas 
para materiais adaptados. 
Novamente, mulheres, pelo já 
destacado manejo de bio- 
diversidade em quintais e idosos 
pelo conhecimento acumulado 
são fontes seguras para o 
reconhecimento e busca de 
espécies relevantes regional- 
mente. 
Um diagnóstico partici- 
pativo que tem como um de seus 
desdobramentos a de$niçGo de 
que os sistemcrs agrflorestais 
serão uma estratégia bhsica do 
desenvolvimento da comuni- 
dade, deve prever iam enrique- 
cimento especzlfico nesse sen- 
tido, 
Quando citamos anterior- 
mente que um dos resultados do 
diagnóstico deve ser "a capa- 
cidade de ident~ficar no 
itinerário técnico do agricultor 
o conhecimento do ecossistema 
local e de sua dindmica", 
estamos frente à JOnte deste 
enriquecimento. 
Uma vez que conhecemos 
o sistema, os itinerários e as 
ferramentas usadas, irão apa- 
recer elementos de reconhe- 
cimento, presewação e manejo 
de biodiversidade básicos para 
construir sistemas agroflo- 
restais regenerativos. Num 
zoneamento que irá desde o 
t-ruintal até as áreas mais dis- 
, tantes e de menor intewenção, 
aparecerão desde herbáceas até 
árvores de ciclo longo que são 
conscientemente utilizadas e 
manejadas pela familra para 
potenciaiizar o sistema como 
um todo. Essas são as peças 
básicas para criar sistemas 
agroflorestais que tenham 
t- 
chance de aceitação e dfusão 
espontdnea numa região. 
Ka de regra, a aceitação 
dos materiais locais pelos agri- 
cultores pode ser imediata, 
princpalmente, se se conquistar 
um mercado para os produtos 
deles derivados direta ou in- 
diretamente, numa compre- 
ensão do papel que podem 
desempenhar como espécies 
fertilizadoras, madeirávels, me- 
dicinais, fru tllferas, forrageiras, 
alimentares, etc. 
poder de barganha e perecivei§, que dependem de uma afinada e 
confiável relação com o mercado (como fmtas e hortaliças), para 
produtos cada vez mais auto-regulados, que convivem com áreas 
degradadas e que mesmo assim têm mercado ou servem de alimento, 
como o gado bovino, ovino e caprino. A redução progressiva de 
cultivos perenes nos sistemas de produção e sua substituição por 
grãos, raízes e pastos permitem o que está relacionado com esta 
crise. 
Porém, a pecuária de corte, em geral, não produz um valor 
agregado por área que viabilize a médio e longo prazo a unidade 
de produção familiar no tropico umidoIo. Na medida do crescimento 
da família e do rebanho, novas áreas devem transformar-se em 
pastos. Com a degradação desses pastos, num curto período de 
tempo (três a oito anos), o sistema esgota-se na medida do tamanho 
do incremento demográfico de homens e animais, e na proporção 
do esgotamento da fertilidade inerente dos solos. 
Elementos de transformação 
no próprio sistema vigente 
Antes de mais nada, é preciso termos claros alguns 
elementos de ligação do micro e regional com a superestmtura. 
Esses elementos podem constituir o que aqui denominamos de 
elementos de transformação, os "ganchos" para nossas intervenções 
a nível geral. 
Estradas e acessos 
A distância e a facilidade de acesso são fatores deter- 
minantes numa estratégia. Se os agricultores optaram por cultivos 
que podem ser processados ou armazenados localmente, como 
amêndoa de cacau, cravo e gado vivo, certamente esse fato está 
ligado a dificuldade de escoamento. Se não temos como melhorar 
as estradas a curto prazo, trata-se de reforçar e aperfeiçoar a 
estratégia de processamento e armazenamento, qualificando o 
processo e, se necessário, diversificando os produtos. 
Mercados 
Os mercados são de modo geral bastante desorganizados. 
Isso quer dizer que investindo na aquisição de um pequeno caminhão 
usado, um agricultor passa a ser também atravessador. Mesmo que 
tenha subido um pequeno degrau na cadeia de intermediaqão até 
os mercados dos centros urbanos, esse fato pode determinar a 
ascensão de vários graus na renda e na escala social local. Porém, 
como o hospedeiro levado a inanição pelo parasita, o efeito dessa 
sobre-exploração de uma cadeia produtiva pela intermediação pode 
gerar, além da concentração de renda, até o desestímulo de plantio 
e manutenção de determinadas culturas, face a redução forçada de 
preços dos produtos primários necessária para satisfazer a 
desorganização de mercado e todos os níveis de "oportunistas" 
que lucram nesse espaço. A busca de alternativas de escoamento 
pode implicar em "cooptar" os atravessadores, que geralmente 
detêm conhecimento local e de mercados. Geralmente, esses ganham 
menos do que ganhariam se associados a gmpos organizados de 
agricultores que entre si planejemplantios e se mantêm informados 
do mercado. 
Monopólios e escala de produçâio 
Determinados produtos têm sua comercialização mono- 
polizada por verdadeiras "máfias", que controlam preços e acesso 
a mercados nacionais e internacionais. Portanto, uma boa estratégia 
é oferecer o que eles geralmente não podem oferecer: qualidade 
biológica e boa aparência a preços de mercado. Nos sistemas massais 
de produção agrícola, manter a boa aparência envolve custos altos 
em vários níveis, que devem ser compensados por subsldios aos 
insumos agrícolas, transporte, salários baixos, facilidades go- 
vernamentais para crédito, expo~ação e armazenamento. 
Pequenos gmpos articulados em rede podem chegar com 
agilidade e bom desempenho econômico nos mercados interno e 
externo, criando nichos bastante eficientes no mercado. Sistemas 
desse tipo hoje movimentam bilhões de dólareslano. Porém, ao 
aceitar as regras do mercado e usar apenas as armas tecnológlcas e 
organlzacionais existentes, todo o resultado obtido pela im- 
plementação de novidades nos sistemas técnicos toma-se pequeno 
face ao percentual de influência que exerce no rendimento final da 
atividade o escoamento, processamento e, principalmente, 
comercialização. 
Nem todos os agricultores hoje têm uma cultura agncola 
em sua bagagem. Porém, num bom diagnóstico devem aparecer, 
por mais incipientes que pareçam, sistemas tradicionais de 
subsistência com precedentes Interessantes em temos de sus- 
tentabilidade. Esses sistemas, geralmente, não aparecem nas 
estatísticas, pois não entram como culturas de mercadò. Entretanto, 
podem chegar a fornecer mais de 75% da alimentação das famílias. 
Muitas vezes são pequenos quintais de 1000m2 ou menos. Nesses 
espaços, frequentemente manejados pelas crianças, mulheres e 
idosos, mantiveram-se e aperfeiçoaram variedades, sistemas de 
policultivos multiestratificados e técnicas de processamento 
artesanais. Esses sistemas carregam em si princípios que podem 
ser seinventados em áreas maiores com grandes resultados. 
Reconhecendo os ambientes e sua 
ocupaçáo pelos sistemas agrícolas" 
De modo geral, os diagnósticos retratam o ambiente numa 
linguagem técnica, a qual se constitui numa barreka de comnicação 
com os agricultores. Ainda, o ecossistema e os sistemas produtivos 
são descritos como se desconectados e sobrepostos. Isso reflete a 
crença no sucesso da artificialização dos ambientes, eixo principal 
da Revolução Verde. Se basearmos nosso trabalho num diagnóstico 
gerado nessa filosofia, nos perderemos num labirinto onde os 
problemas parecem ter toda sua origem na tecnologia inadequada, 
falta de cultura ou capital. Embora esse diagnóstico possa estar 
parcialmente correto, ele peca por superficialidade e o prognóstico 
resultante, geralmente, aponta uma realidade sócio-economlca 
condicionada a ""dtermlnismos9' economicos. Cria-se, então, uma 
espécie de "destino inevitável": os que não podem integrar-se aos 
avanços tecnológicos ser" excluídos. Por isso, é importante que 
o diagnóstico sócio-ambienta1 busque as causas, e não os sintomas. 
E para cumprir esse objetivo, ele deve ser capaz de reconhecer os 
estratos sociais, econ0micos, culturais e ambientais, e ser capaz de 
reconstmir essa identificação junto aos agricultores, transforman- 
do-os em sujeitos do processo de desenvolvimento e não em fontes 
de dados estatísticos ou analíticos. 
Tomemos um exemplo: a pecuária de determinada 
região é di-nosticada como "de baixa produtividade devido 
à ocorrência generalizada de verminoses e carrapatos, com 
sérios problemas de avitaminoses e deficiências minerais". 
Sem conectar essa informação ao ecossistema que deu lugar 
aos pastos (conjunto solo-fauna-vegetação e clima) e a 
conjunhira sócio-econôwiica de ocupação da região, a solução 
do problema só pode ser combatida em seus sintomas, via 
insumos externos. 
No nosso caso, pariimos de uma premissa diferente, 
que vai na via inversa da ariificialização do sistema. Queremos 
conhecer prohndamente populações e ambientes e desvendar 
a lógica dos sistemas, de modo a deixá-los mais afinados 
com os ambientes, o que pode vir a torná-los economicamente 
eficientes, ambientalmente sustentáveis e socialmente 
beneficos. 
Para isso, a descrição acadêmica traça o pano de 
hndo (Campos de Cima da Serra, Mata Atlântica, Caatinga, 
etc.), que vai ganhando vida e dinamismo com a percepção 
fina dos agricultores e autóctones. Mesmo que os parâmetros 
empíricos sejam apenas localmente utilizáveis, já basta: 
construímos assim uma linguagem comum para o re- 
conhecimento do ambiente e sua regeneração, na lógica das 
populações que o ocupam. Assim, podemos chegar à desejada 
integração do conhecimento acadêmico com o saber popular. 
8 ambiente natural 
numa descriçáo acadêmica 
Todas as fases de um diagnóstico desse tipo são 
momentos de criação de laços de comunicação e mútuo 
reconhecimento com as populações locais. Do mesmo modo, 
a busca de informações nos põe em contato com lideranças 
locais, práticos e especialistas empíricos, como mateiros, 
pescadores, pequenos agroprocessadores artesanais, órgãos 
de pesquisa e extensão. Sem dúvida, o reconhecimento de 
um ecossistema visando um trabalho com populações, como 
no caso da Mata Pluvial Atlântica do Nordeste Brasileiro, 
não pode prescindir de informações acadêmicas básicas. 
A Mata Atlântica atravessou uma flutuação bastante 
grande de sua área em função das glaciações. Embora a 
diminuição de pluviosidade tenha sido bastante drástica em 
pehodos relativamente recentes, de 2.000 a 3.000 anos atrás12, 
a borda Atlântica não foi submetida de modo homogêneo e 
completo i aridez, provavelmente, graças à influência do 
mar e do relevo. 
Como em qualquer mata tropical úmida, as es- 
tratégias da flora são orientadas para a moderação da radiação 
e para otimização do uso da água, no caso. o elemento 
extremo, por falta ou excesso. Assumimos que os nutrientes 
aqui não são Iimitantes, mas sim organizados, principalmen- 
te, na biomassa vegetal e, secundariamente, na animal. A 
reciclagem constante e consesvação da umidade, o entre- 
laçado de copas e a regeneração agressiva buscam moderar 
e controlar a oxidação contínua da matéria orgãnica pro- 
piciada pela umidade e temperatura, bem como a perda de 
água por evaporação via ventos e insolação. 
A vegetação clímax sobre solos vulcânicos em áreas 
de floresta tropical úmida da América Central tem simi- 
laridades com a vegetação sobre Latossolos mais Iixiviados 
da Mata Atlântica brasileira. Porém, indivíduos do mesmo 
gênero, espécie e idade terão maior porte nas condições, 
especialmente, favoráveis dos solos vulcânicos da América 
Central. 
Em relação aos solos da região onde se desenvolveu 
a maior pafie da base prática deste trabalho, segundo o boletim 
técnico 1 10 da CEPLAC, datado de 1983, denominado "Solos 
do Munlcipio de Gandú", "a geologia da área esta enquadrada 
no Prk-Cambrimo Inferior, constituído de rochas granulíticas 
e gnalssico-mlgmáticas e intercalações graníticas". 
A classificação pelo sistema brasileiro é Latossolo 
Vermelho Amarelo variação Agua Sumida, Distrófico A 
proeminente, textura muito argilosa, fase floresta perenifólia, 
relevo montanhoso. No sistema americano, classifica-se corno 
Umbriorthox. 
Esses solos, além de caulinita apresentam gibsita, 
atestando um grau avançado de intemperizaçk ((1 0 e 1 1 de 
Jackson). São solos profundos (+ de 1,60m), de alta 
porosidade (até 60% em alguns sub-horizontes), ácidos, com 
valores de pEI em água entre 5,7 a 4,5. A saturação de bases 
Dlstribaii~ão mensal da precipitação e temperatura 
rn4dia na Fazenda Três Gollinas, Piraí do Norte, BA, 
período "1988-1994. Dados cedidos por Ernst Gotsch. 
Mês Precipitação (mm) Média da temperatura Média da temperatura Média do mês 
mbima ("C) mínima ("C) ("6) 
Janeiro 
Fevereiro 
Maqo 
Abril 
Maio 
Junho 
Julho 
Agosto 
Setembro 
Outubro 
Novembro 
Dezembro 
Totallano 
Janeiro Março Maio Julho Setembro Novembro 
m%s 
ébaixa, iderior a 50% no horizonte B. Cálcio, m-nésio e potássio 
apresentam baixos teores ao longo do p e ~ l , com valores mais 
elevados nos horizontes superficiais. Apresenta uma distribuição 
de C de no mínimo um por cento até 75 cm de profllndidade. 
O clima regional é quente e úmido, sem estação seca 
definida. As chuvas são igualmente distribuídas durante o ano, 
podendo ocorrer, eventualmente, um período mais seco de um a 
três meses. A variação entre anos secos e chuvosos é de 1.148 
ano a I ,617mmlano. A umidade relativa é de 80-90%, e as 
temperaturas máximas e mínimas são de 14°C a 32"C, com uma 
autuação média anual de 7°C a 8°C. Na pagina anterior a tabela 
mostra a distribuição mensal da precipitação e temperatura média 
na Fazenda Três Colinas, Pirai do Norte, BA, numa média dos 
anos de 1988-1994. 
As cinco famílias de áwores mais importantes em temos 
de diversidade, densidade e dominância são Myrtaceae, Sapotaceae, 
Caesalpiniaceae, Lauraceae e Chrysobalanaceae. h e a s protegidas 
representam apenas 0,1% das matas da região13. 
Integrando a percepgáo 
popular dos ambientes 
"A terra daquelas regiões é fértil e amena, de muitos montes e morros, e infinitos vales, e 
regada de grandes rios e fontes, coberta de extensos bosques, densos e apenas penetrcíveis, 
e povoada copiosamente de feras de todas as castas. Nela nascem, sem cultura, grandes 
árvores, as guais produzem frutos deleitosos, e de proveito ao corpo e nada nocivos, e 
nenhuns frutos são parecidos com os nossos" 
Extraído da Carta Mundus Novus, de Arnérico Vespúcio, datada de 1503. 
De modo geral, o critério básico da descrição de um 
ecossistema pelas populações que o ocuparam é em relação a seu 
valor de uso. O grau de refinamento vem da convivência. Portanto, 
é de se esperar que populações autóctones tenham um diagnóstico 
mais refinado e preciso do que populações que chegaram em 
colonizagões mais recentes, como e o caso de grande parte do meio 
mrd brasileiro. Mesmo assh , numa região com um passado recente 
de exploração florestal e alto grau de miscigenagão cultural 
(africanos, porlugueses, indígenas), o valor de uso ainda está 
intimamente ligado a elementos do ecossistema original. A blmidade, radiaçéa êb 
afirmação corrente de que "onde cresce esta árvore dá cacau e dá nutrientes na zoneamentã, 
feijão" é um exemplo desse elo. ambienta! 
Nesses casos, em geral existe um bom conhecimento das 
espécies e dos nichos que ocupam tanto vegetais como animais 
nativos. Usando o critério do trio ambiental básico, proposto pelo 
professor Mauro Resende, da UFV-MG e adotado também por 
James Lovelock para entender a interação dos processos vivos com 
a paisagem, podemos fazer uma fusão interessante entre informações 
acadêmicas e informações obtidas pelo reconhecimento popular 
dos ambientes. 
Critérios locais para zoneamento de 
ambientes naturais 
No caso da região de Piraí do 
Norte, BA, o trio ambiental básico 
(umidade, radiação e nutrientes) 
delineia, em interação com o relevo, a 
estratificação inicial. Essa coloca as * 4 . 
paisagens ao longo dos rios principais 
como "terras de primeira" e as paisagens 
de encostas e no divisor de águas com 
o litoral afastadas dos vales dos rios 
como "terras de segunda e de terceira". 
fi imponante ressaltar que essa classifi- 
cação tem como parâmetro o desem- 
penho da cultura do cacau e é amparada 
por uma série de indicadores biológicos, 
notadamente a especie e o porte de 
árvores, arbustos, cipós e herbáceas do 
sub-bosque. Na medida em que nos 
aprofundamos no detalhamento do relevo, essa classificação 
empirica deixa de ser excludente. Isso significa que determinados 
nichos de uma terra de segunda ou de terceira podem ser de pnmeira 
e vice-versa, em função da interação entre os fatores de relevo, 
umidade e nutrientes. A intervenção humana pode ser decisiva na 
alteração desse padrão, transformando "terra de primeira" em "terra 
de terceira" e, como propomos aqui, também trabalhar no sentido 
contrario, regenerando o potencial inerente a cada ambiente. 
A umidade é o elemento critico na 
formação destaspaisagens. Nutrientes e Formações do relevo 
relevo somam-se para amenizar ou 
tornar extremas as condições, o que ~ r a Estas formações têm um papel importante no zoneamento 
se rejletzr naJora e na fauna origrnazs. 
Essas, por sua vez, refletem estratégzas 
ambiental. Ao entendermos como interagem áwa, nutrientes e 
evoluc~onars de convívio com O S posição em relação ao sol, começamos a desvendar as estratégias 
extremos climáticos em sua arquztetura, da vegetação para otimizar a si própria. E é a partir desse 
composição de consórcros e sucessão de conhecimento que vamos analisar sucessos e insucessos dos sistemas 
espec~es. tradicionais, bem como oportunidades de mudança e inovações, 
selecionando culturas e gerando as técnicas apropriadas Vejamos 
algumas das formações identificadas no caso da área estudada em 
Piraí do Norte 
1) Topo geralmente plano Eventualmente, apresenta uma 
depressão conhecida como "lagoa", na atualidade muitas vezes seca, 
mas sempre apresentando maior teor de umidade que a redondeza 
2) Lagoa. São assim 
chamadas as depressões formadas 
sempre na cabeceira de nascentes 
Tem forma de bacia e numa 
sequência de anos chuvosos pode 
apresentar um espelho de água O 
histórico da região é que muitas 
dessas "lagoas" tinham um espelho 
de agua constante, de um metro ou 
mais de profundidade no centro, com 
10 a 15m de diâmetro De modo 
geral, mesmo hoje em dia, apre- 
sentam, proporcionalmente, mais 
espécies higrófilas que as encostas, 
mesmo quando não há mais água, o 
que parece confirmar o histórico 
Mais comum, nos dias atuais, é 
encontrar apenas a depressão 
característica e árvores marcadamente higrófilas, como o guanandi 
(Symphonza globulfera, Guttiferae) e a faveca (Moldenhawera 
Jlorzbunda Schrad Leguminosae-Caesalpinoideae) 
3) Espinhaço ou dorso. São as áreas mais secas e drenadas, 
o que se reflete na vegetação, em termos de tamanho, gênero e 
densidade de espécies. As áwores têm madeira mais densa, menor A interciogb oe%evca-clima 
diâmetro e tamanho. pia caoacteriza~ao 
da vegeta~20 
4) '6Sela'9. É uma área relativamente plana e mais baixa 
Naparte da manhò a nebuios 
entre dois topos É comum apresentar uma "lagoa", atualmente dliimrnui a evaporaçfioprowcah 
seca (no período 1986-1 994), porém com vegetação característica sol 
de solos mais úmidos 
Isso defermzna uma vegetação hogro$la 
nas encostas voltadaLs para o nascente 
5) Nascentes. São bas- 
tante comuns e desaparecem com 
o desmatamento, uma vez que o 
efeito regulador da vegetação é 
anulado, a evaporação é intensa 
e os solos são muito permeáveis. 
Ocorrem ou no pé do boqueirão 
ou logo acima, sendo que rara- 
mente ocorre afloramento de &ua 
na cabeceira, a menos que pro- 
vocado por um horizonte imper- 
meabilizado por rocha, o que é 
bastante raro no caso específico 
da região analisada. 
6) Boqueirão. Cavados 
pela água no decorrer da história 
geomorfológica, os boqueirões 
são sempre mais úmidos e em sua 
base apresentam as nascentes. A 
vegetação de um boqueirão 
costuma enganar o observador 
quanto a profundidade do vale, 
pois é Invariavelmente mais alta e 
mais vigorosa que nas encostas 
mais secas e espinhaços, em 
função da disponibilidade de 
nutrientes e umidade. 
7) Riachos e baixadas. 
Os riachos da região são de águas 
claras e pobres em nutrientes, 
geralmente, correndo em um leito 
de tabatinga e areia alternado por '4 tarde, a nebulos~dade d~sssipou-se e o 
sol atinge as encostas voltada5 para o corredeiras com base de pedras de 
oeste com toda ~ntensidade quartzo ou lajedos de granito A 
fauna desses riachos é constituída, 
principalmente, por pequenos 
crustáceos, como camarões de 
água doce - pitu - e pequenos 
caranguejos e piavas, o popular 
lambari, de no mâxlmo oito centl- 
metros de comprimento h medi- 
da que esses riachos juntam-se, a 
fauna cresce em tamanho e di- 
versidade, porém com caracteris-ticas totalmente diferenciadas de 
rios que arrastam sedimentos, 
como o Rio Pardo, Jequitinhonha 
e Jequie, ou mesmo, o Rio do 
Peixe, que cmza Piraí do Norte. 
Porém, igualmente, contribuem 
para a riqueza das matas ciliares 
e dos manguezais, ao transpor- 
tarem sedimentos orgânicos por 
ocasião de chuvas torrenciais, 
bem como ao oferecerem nichos 
para inúmeras espécies. 
8) Cabeceiras de naseentes são marcadas pela presença 
de uma vegetação mais rica, e é zoneada pelos agricultores como 
área propícia para o cacau. Notadamente, mesmo apósuso intensivo 
são áreas cuja recuperação em geral pode produzir uma vegetação 
mais rica, com maiores retornos em alimentos a curto prazo. 
A partir desses dados, começa a tarefa.de dar vida as 
Assim a vegetação das encontas com informações, e direcionamento às expectativas que vão sendo 
exposição oeste tendem a sofrer mais os 
efeltos do desmatamento, uma vez que o criadas ao longo do processo de diagnóstico A cumplicidade de 
dessecamento provocado pela radlção objetivos e a transparência em relação as possibilidades de alcançá- 
solar é acentuado pelo ângulo de sol e 10s são condições básicas para que todos os dados e esforços 
pela falta de neblina transformem-se em prática de campo a serviço da transformação 
115 
As informações 
agregam-se 
8 ambiente e os sistemas naturais 
Na visão convencional das 
ciências agária, o status mineral do solo 
é considerado como um dos elementos 
críticos e limitantes da agricultura e 
portanto da própria vida. Porém, nas 
florestas tropicais úmidas sobre solos de 
formagão muito antiga, como os latos- 
solos da Mata Atlântica, os nutrientes 
que não foram lixiviados já no processo 
pedogenético estão basicamente arma- 
zenados na biomassa, em processo de 
constante ciclagem. Porém, o fator 
verdadeiramente limitante passa a ser 
não os nutrientes disponíveis em si, mas 
o conhecimento de como mantê-los na 
biomassa Na verdade, uma vez des- 
tmída a dinâmica ecofisiológica exis- 
tente, rompe-se a cadeia de ciclagem e 
o sistema entra em colapso. Poaanto, 
temos que nos perguntar qual é a 
-ricultura que podemos praticar nesse 
ecossistema. A resposta que qarece é 
bastante óbvia e antiga conhecida dos 
agricultores: 
- cultivos sucessivos e con- 
sorciados que mantêm o solo coberto; 
- rotações de cultivos com es- 
pécies fertilizadoras, introduzidas ou 
nativas; 
- convivência dos cultivos 
com plantas nativas; 
- zoneamento dos cultivos de 
acordo com os diferentes ambientes 
aptidão de cada setor da propriedade. 
Autonomia e intercsmp8ementarIdade: 
sistemas naturais e sistemas êintrspogê?nilcos 
A a'ntercornplementaridade surge como a 
seguência natural da integração entre di- 
ferentes sistemas. Propriedades unem-se 
para somar prodzltos visando transfurma- 
ção ou produtos pré-transformados, tro- 
cando ainda recursos e mão-de-ohra. 
Zonas de bordadura, com sistemas rnis- 
I tos garantem uma transicão harmônica 1 
sistemas naturais 
A escala desta lógica vale 610 roçado até o nível 
microregional, e o tamanho do "maciooiganismo 
rural" dependerá da sua sust~ntabilidade em ter- 
mos de recursos naturais. (Ainda que tenhamos 
n ilusno de que capital, insumos e tecnolo,pia 
"tudo podem "). 
A manutenção ou regeneração do 
ecossistema original nas áreas não-traba- 
lhadas garantem o equilíbrio entre popu- 
lações de insetos. fungos e bactérias, atu- 
ando como zona-tampão contra desequi- 
lihrilos, promovendo a diversidade e cri- 
ando intercomplementaridades entm espê- 
cies de fauna e flora, potencializando seus 
amhierztes e suas possibilidades. 
resíduos que podem intensificar determinadas fases de um 
sistema, mantendo e aumentando sua produtividade. Os vári- 
os sistemas beneficiam-se mutuamente. 
Os principias de sucessão vegetal 
encontram ai sua aplicação maior, como 
vimos anteriormente e como veremos na 
sequência. 
(19 sistema produtivo e o zorneamento 
de cultivos 
Devemos buscar no diagnóstico 
padiclpativo as prioridades em termos dos 
ambientes ocupados e das culturas que dele 
fazem parte. Ao identificar e priorizar 
culturas e ambientes, vem a necessidade de 
dar vida aos dados econômicos. M~nal, o 
problema básico, da lavoura para fora, é 
de processamento, escoamento, comer- 
clalização ou todos esses elementos juntos? 
Ao zonear os cultivos, podemos 
chegar a conclusão que o principal cuItivo 
econômico, a cebola, por exemplo, ocupa 
áreas completamente desfavoráveis. No 
caso, trata-se de um problema ligado à 
integração com mercado, cultura e 
possibilidades de armazenamento e 
barganha. Portanto, não basta apenas criar 
sistemas técnicos mais "ecológicos" para 
a cebola. 8 objetivo deve ser construir 
alternativas de organização e mercado, de 
modo a aumentar o ganho da cultura 
principal (a cebola) e, ao mesmo tempo, 
procurar culturas alternativas para reduzir 
o pêso econômico dessa cultura. Esse 
principio é válido para outros cultivos e 
criações. 
Considerando que prévio ao 
diagnóstico e durante ele houve uma 
sensibillzação e uma clarificação quanto 
aos objetivos sociais, econômicos e 
ambientais dos agentes e da comunidade, 
voltamos para a célula básica, que é a 
unidade de produção familiar, o sistema técnico, os itinerários e as 
técnicas em si, e o que podemos fazer nesse campo. 
Para orientar nossas intervenções, arbitramos os diferentes 
conjuntos de condiqães, as quais geram uma determinada 
dominância de espécies, formas, densidade de plantas e huna 
característica. 0 agricultor já domina esse enfoque, ao ocupá-la 
com diferentes culturas. Embora ao longo do processo histórico 
de exploração as condições bióticas mdem, o potencial básico 
ligado ao relevo, umidade e nut8entes persiste. Desse modo, nossos 
sistemas devem ser oriei~tados de modo a regenerar as áreas até o 
ponto mais próximo de sua capacidade produtiva original, no sentido 
ecológico da palavra "produtividade", que deve refletir-se na 
produtividade agrícola. 
Como regra geral, esses sistemas não podem escapar da 
lei básica da sobrevivência: não se pode gastar mais energia para 
obter alimento do que aquela energia que o produto nos dará, dentro 
do sistema como um todo Isso significa que a regeneração produtiva 
é limitada, pelo menos na intensidade de mão-de-obra a ser usada 
nas áreas, em condições de extrema degradação de recursos. Nessas 
condições extremas, a Ynica possibilidade é dar tempo ao tempo 
ou recorrer a insumos externos, como mão-de-obra extra, sementes, 
mudas, nutrientes, etc. Felizmente, essas condições não são a regra 
geral das propriedades, mas se apresentam em percentuais variáveis 
de região para região e mesmo dentro de propriedades vizinhas. 
Como veremos a seguir, o zoneamento do ambiente e os sistemas 
tradicionais oferecem muitas oportunidades de inovações que 
promovam a valorização do sistema existente via a incorporação 
de elementos da fauna e flora nativas, conduzindo a sistemas 
regenerativos e economicamente atraentes. 
8 objetivo básico do zoneamento ambienta] local e 
identificar quais as estratégias da fauna e flora para administrar 
radiação, umidade e nutrientes no ambiente em que estamos 
atuando. Do mesmo modo, cria uma base para o entendimento de 
como os sistemas agrícolas ajustaram-se e poderão "ustar-se (ou 
não) a essas estratégias. 
Várias técnicas podem ser agregadas nesse zoneamento, 
com vários níveis de custo e tempo. Por exemplo, num sobrevoo 
sobre a microregião que estamos descrevendo em nosso diagnóstico, 
teríamos a impressão de uma cefla homogeneldade Um "mar de 
morros" coberto pela floresta perenifólia característica da Mata 
Atlântica. Porém, um registro fotográfico desse sobrevoo mudaria 
nossa opinião quanto à homogeneldade. A dikrenciação de cores 
indicaria-nos diferenças de idade e tipo da vegetação, e imagens 
ampliadas poderiam ajudar-nos a identificar diferentes padrões de 
espécies em floração ocupando nichos específicos, como hndos 
de vales, boqueirões e baixadas, espinhaços e encostas mais secasEsse quadro, que é básico para nosso trabalho regenerativo, 
pode ser criado sem sobrevôo e de modo participativo e 
sensibilizador. Sua construção é um exercício metódico de 
agregação do saber popular às informações acadêmicas O 
zoneamento resultante poderá identificar esuatégias comuns entre 
a vegetação original e sistemas agrícolas, assim como poderá 
apontar limitações resultantes da inadaptação de determinados 
sistemas a determinadas "zonas" do ecossistema regional 
Usando os indicadores de fauna e flora a que chegamos 
associando condições de solo, relevo e umidade, zoneamos para a 
microregião trabalhada diferentes conjuntos de condições, 
traduzidos por uma determinada dominância de espécies, formas, 
densidade de plantas e fauna caracteristica. 
Para o caso específico que estamos abordando como 
exemplo, que é a região circunvizinha ao município de Piraí do 
Norte, estas ecozonas foram definidas como: 
- Mata CiPiar Higrófila, 
- Mata Giliar de Encosta; 
- Mata de Terra Seca. 
A conceltuação, embora arbitrária, é importante porque 
nos permite visualizar que existem princípios básicos que perpassam 
as diferentes estratégias da fauna e flora em diferentes situações. 
Poflanto, esses princípios, uma vez identificados, mostram caminhos 
que podemos adotar para cada sistema agrlcola dentro de cada* 
ecozona identificada. 
Cada consórcio dominante dentro dessas "ecozonas" 
identificadas tem estrategias específicas de lidar com os elementos 
cnticos. Essas estratégias são complementares entre ecozonas, para 
o que contribuem i~ualmente flora e fauna, do nível de mi- 
croorganismos a macroorganismos. Esse também deve ser o 
objetivo dos sistemas agrícolas regenerativos que pretendemos 
Implantar. 
Ençim, é claro que há uma estratégia comum à vida, que 
interliga essas "ecozonas" como um todo. Animais e insetos 
dispersam sementes contribuindo para a diversidade genética, 
intercambiando material de um ponto para outro. Isso permite que 
todo microsítio ou nicho seja ocupado com a espécie que ali 
desempenhe um ótimo ecofisiológico. 
Do mesmo modo, nossos sistemas agrícolas devem bussar 
a otimização do fluxo de nutrientes e a consewação de energia. 
Portanto, cada área plantada deve buscar uma estratégia de 
autonomia e de intercomplementaridade. 
Assim encontraremos no sistema natural espécies da mata 
ciliar ocupando nichos na mata de terra seca e vice-versa. Porém, 
nunca como consórcio dominante, mas sempre otimizando recursos 
disponíveis no tempo e no espaço, dentro do fluxo dinâmico da 
sucessão natural de espécies. 
Esse é um princípio que contribui na tarefa de zonear e 
planejar, e assim dirigir as introduções de espécies vegetais anuais 
e perenes em nossos sistemas, bem como orienta espaçamentos e 
metas de curto, médio e longo prazo, em termos de sucessão de 
espécies nativas e cultivadas. Os animais domésticos, suas 
necessidades alimentares, comportamentais e dejetos são tratados 
dentro da mesma perspectiva: maximo de autonomia para 
alimentação, reprodução e higiene. A intercomplementandade 
manejada entre diferentes sistemas potencializa todo o sistema de 
produção. Desse modo, podemos chegar a prever limites e 
potenciais de cada propriedade para cada atividade, e quais as 
necessidades de integração e fluxo de energia (insumos) dentro de 
setores da propriedade, entre propriedades e mesmo regionalmente 
para se chegar a uma produção agficola sustentável sob todos os 
aspectos. 
Essa descrição de ecozonas do caso-exemplo é fmto de 
saber empírico (observação local) e acadêmico (dados de 
bibliografia). Cada microregião deve passar por esse zoneamento, 
pois a interação de fatores é bastante dinâmica e os indicadores 
biológicos têm validade local e não geral. Mesmo regiões 
aparentemente homogêneas terão uma grande diversidade de 
ambientes descritos de forma bastante rica em detalhes por seus 
habitantes locais, que dão vida e sentido às descrições acadêmicas 
de solos e composição botânicalfaunística. No caso, a identificação 
e compreensão pelos técnicos dos indicadores adotados pelos 
agricultores cria uma linguagem comum entre ambos. O resultado 
é que esta "leitura" comum permite reconhece5 com maior riqueza 
de detalhes e com resultados mais dirigidos, pequenas variações de 
ambientes que influenciarão no desempenho dos cultivos. 
A estratificação que se segue é fmto da integração a que 
nos referimos até agora. 
I - Mata ciliar higrófila 
A estratégia de uma comunidade viva é sempre marcada 
pelos extremos que tem que enfrentar. Esse extremo, no caso, é a 
umidade: por um lado, ciclos regulares de encharcamento nos 
períodos chuvosos e ciclos irregulares de cheias mais intensas de 
curta duração. Por outro, secas também irregulares que podem 
chegar a mais de quatro meses, afetando áreas já submetidas a 
intervenção humana e porlanto mais suscestíveis. 
Os extremos de umidade causam, eventualmente, uma 
inundação, que arrasta junto à água matéria orgânica e sedimentos 
dos boqueirões e riachos até as áreas de baixadas, arranca touceiras 
de plantas e ate galhos mais baixos de árvores. Ventos fortes 
acompanham esse tipo de Inundação, aumentando o fluxo de 
material orgânico para o solo. Isso se reflete em vários aspectos da 
relação Rora-fauna através de estratégias de disseminação, potencial 
de rebrota frente ao dano e arquitetura das plantas e maior presença 
de pedofauna, entre outros aspectos. Vejamos alguns deles: 
Esta ecozona é, juntamente com a mata ciliar de encosta, 
mais rica em animais de maior porte. h i m a i s têm mobilidade, o' 
que é importante numa zona que pode se tornar temporariamente 
crítica para mamíferos terrestres. A mobilidade permite que a 
biomassa vegetal incorporada pelos animais retorne ao sistema após 
a inundação. A medida que voltam os animais, retomando um ciclo, 
sementes e rizomas também foram carregados para outras áreas, 
repovoando clareiras às margens dos rios. Isto por sua vez favorece 
a fauna que se alimenta de brotos novos, que são oportunizados 
pelo evento renovador (ventos e cheias). A reproduçâo vegetativa Mata Ciliar Higrófila 
- típica das musáceas, zinziberáceas e aráceas - é parte desta 
estratégia conjunta de flora e fauna Os rizomas carregados junto Nesta ecmona, o ciiniax é marcado por 
com folhas e sedimentos estabelecem-se nas margens, em condições uma paisagem que deixa entrever que 
ótimas de luz, umidade e nutrienles, retomando um ciclo vivo em umidade e nutrzentes estão em maror 
oferta . Os espécimes chegam q alcan~ar 
condições renovadas. 4Srn e até mais de dois metros de kl 
Densidade de indivíduos 
d~âmetro, as copas são largas. muito 
enfolhadas, e a densidade por área de , 
árvores é menor: 
Podemos supor que a biomassa total, somando-se fauna e 
flora do nível rnicro ao macro (animais e vegetais) é próxima à 
Mata de Terra Seca e a Mata de Encosta. Mas é notório que a 
densidade de árvores por área é menor e os indivíduos possuem 
copas de largo diâmetro e densamente folhadas e, em geral, são de 
maior diâmetro que seus equivalentes na Mata de Terra Seca. Essas 
características denotam uma estratégia específica de lidar com os 
recursos disponíveis. 
lação C/N e menos plantas silicosas ou ricas em 
Arquitetura 
Esta é uma descrição bastante simplificada de um sistema 
complexo. Para os objetivos que desejamos,,porém, é importante 
saber que, em termos de indivíduos, é típico da mata ciliar higrófila 
- 
$% uma relação copa/tronco maior que a mata de terra sêca. Na 
condição local, as raizes aéreas não são muito comns, visto que 
na região estudada o período de encharcamento atualmente não é , 
superior a três ou quatro meses. Porém, são comuns as raízes 
tabulares e as sapopemas, típicas de solos parcialmente ou tem- 
porariamente inundados. Em termos de fomação clímax é comum 
um estrato superior ocupado por espécies de grande enfolhamento 
e copas largas (25-40m de altura, copas de até 40m de diâmetro). 
Ocorrem bastante eplfitas, os estratos intermediários(1 0-20m) são 
ocupados por palmeiras e outras espécies. Ocorre ainda um estrato 
baixo (0-3m) denso de espécies de folhas largas e pouco Iignificadas, 
se comparadas com as espécies do mesmo estrato na Mata de Terra 
Seca. Um estudo acadêmico poderia aumentar a estratificação aqui 
proposta e este detalhamento é não apenas desejável como deve 
ser constmído em cima das observações de trabalhos de campo 
com sistemas cultivados. 
Espécies representativas do clímax3 
Procurou-se aqui citar apenas as mais notoiamente ligadas 
a esta situação. Eventualmente, indivíduos de outras ecozonas 
ocupam nichos apropriados às suas exigencias, como pequenas 
elevações, Iajedos. etc No estrato dominante, encontraremos o 
Guanandi ( ~ ' ~ m o n i a glohulfera, Guttiferae), Cajueiro Bravo 
(eeronzma alchorneoldes, Euphorbiaceae) e Pau D'alho (Galle.ua 
scordodendron, Phytolacaceae). Nos estratos intemediários, existe 
uma grande ocorrência de Buri (PoSandrococos caudescens, 
Palmae). No estrato arbustlvo, piperáceas e musáceas predominam 
% Mata Ciliar de Baw Mata Ailiar de Base 
de Encosta 
Esta ecozona é privilegiada em termos da ausência de 
extremos de umidade. Mesmo durante a glaciação, foram as matas 
ciliares de base de encosta ou piemonte que abrigaram as espécies 
que migravam das zonas que iam tornando-se mais secas. 
Notadamente, a cicl-em de nutrientes favorece para que o solo 
mantenha mais matéria orgânica e pedofauna (minhocas e outros 
reciciadores) que a mata de terra seca, onde tudo é imediatamente 
e minuciosamente reciclado. Esse ambiente favorece uma vegetação 
com relação C/N mais baixa, o que, por sua vez, favorece uma 
fauna de maior porte. 
Relação flora-faunia 
Esta ecozona é passagem e ponto de alimentação 
obrigatório de toda fauna de maior porte, como várias espécies de 
macacos, veados, porco-do-mato, cotia, paca. ainda abriga a maior 
parte das espécies fmtiferas. A relação intima com a fauna propicia 
a dispersão de espécies de modo que essas povoem todos os nichos 
favoráveis nas outras ecozonas. Desse modo, a vida otimiza a si 
própria ocupando todos os nichos possíveis, o que explica 
paradoxos como xerófitas na mata higrófila e higrófilos na mata de 
terra seca. Na verdade, são exceções que confirmam a regra, 
otimizando o aproveitamento de todos os recursos disponíveis. 
Densidade de indivíduos 
Aumenta em relação a mata higrófila, mas ainda é menor 
que na mata de terra seca. Nas condições de Buerarema, BA, 140 
km ao sul de Piraí do Norte, em solos mais férteis e relevo mais 
plano que o da microregião de Piraí do Norie, foram encontrados 
até 891 indivíduos por hectare, considerando apenas aqueles com 
mais de 1 Ocm de diâmetro14. Se considerarmos todos os indivíduos 
presentes (somente árvores), desde plântulas de 0,5cm de diâmetro 
até arvores adultas, esse número pode subir para muito mais de 
25.000/ha. 
Nesta ecozona, as espécies de terra seca 
e de baixadas interpemefram-se. Porém, 
embora o climax apresente espécies de 
ambos os extremos, é notório que os 
individuos são mais vigorosos, 
alcançando maior altura que nas áreas 
mais secas. É hahitat da maior parte da 
fauna de maior porte. 
Arquitetura 
São também indivíduos de copas de largo diâmetro e 
densamente folhadas, porém menos típicos que na mata higrófila. 
A transição da Mata Higrófila para o Piemonte é suave em hnção 
da ocupação de nichos por espécies das diferentes ecozonas, como 
nos referimos anteriormente. Os indivíduos também são em geral 
de maior diâmetro que na mata de terra seca. 
Espécies representativas do c1imaxl5 
Algumas espécies são típicas, como o Ingá-cipó (Ingn 
affiinis, Leguminosae), Guapuruvu (S'chizolobium parahyha, 
Leguminosae-Caesalpinoideae), Cedro (Cedrella odorata, 
Meliaceae), Jequitlbá (Cavlniana legalis, Lecythidaceae), Caroba 
(Sparattosperma leucanthum, Bignoniaceae), Pequi-preto 
(Cáryocar edule, Caryocaraceae), Imbiruçu-branco (Rombax 
macrophyllum, Bombacaceae), Vinhátlco (Phlantymenia 
foliolosa, Leguminosae-Mimosoideae), Putumujú (Centrolobium 
robustum, Eeguminosae-Papilionoideae), Jangada-preta (Rollinia 
silvatica, honaceae), Juçara (Euterpe edulis, Palmae). 
3 -- Mata de Terra Seca 
Novamente a umidade, no caso sua eventual falta, é o 
extremo com que lida a estratégia da vida. Isso se reflete bastante 
no solo, que mantém apenas uma fina camada de matéria orgânica, 
reciclando rapidamente tudo16. A estratégia do conjunto da vida 
para esse ambiente parece estar concentrado na acumulação de 
lignina, característica mais marcante da mata de terra seca. Essa 
dominância da lignina apresenta-se na maior densidade do lenho 
das arvores e através de folhas menores e corláceas. bem como na 
presença de arbustos e cipós de folhas e caules lenhosos e lãmbos 
de folhas cortantes ou coriáce~s. 
Relação flora-ãauna 
A produção de nozes e amêndoas, bem como frutos 
pequenos atrai toda uma fauna que promove a mobilidade das 
espécies e ocupação de nichos favoráveis por indivíduos da mata 
ciliar. Cupins, Bòrmigas arborícolas, pássaros insetívoros, pequenos 
mamíferos arbóreos, tatus e tamanduás são a fauna típica desta 
ecozona. 
Densidade de Indivíduos 
Aumenta muito em relação à mata ciliar. Nesse tipo de 
mata, possivelmente, encontrem-se as maiores biodiversldades do 
mundo em termos de espécies arbóreas. 8 espaçameneo pode 
chegar, em nichos específicos, a concentrar cinco ou mais indivíduos, 
com diâmetro superior a 40cm em uma área de menos de nove 
metros quadrados conforme observamos nos remanescentes de mata 
primaria da região. 
Arquitetura 
Outro extremo ocasional na mata de terra seca são os 
ventos, já que se situam sempre em relevos que expõem a vegetação 
a esse fator climático. Isso reflete nas folhas, geralmente, mais 
coriáceas e cerosas, eventualmente, com uma face de coloração 
mais clara ou pilosa, refletora da luz e economizadora de água. A 
relação copa/tronco é menor que na mata higrófila, o que revela 
uma maior concentração de carbono, sob a foma de lignina e menos 
folhas. Os indivíduos também são em geral de menor diâmetro que 
na mata de piemonte, e de madeira mais densa, com exceção de 
áreas com fertilidade diferenciada, onde tanto altura niédla como 
diâmetro aumentam. É uma mata densa, com estratos diversos e 
adaptada em sua arquitetura para manter em seu interior uma alta 
umidade relativa. Essa estratégia permite-lhe manter condições de 
umidade relativamente estáveis. Esse é um principio básico para os 
sistemas agrícolas que se pretenda implantar nessa ecozona. 
Espécies representativas3 
Entre outras, o Aderno, Inhaíba (Lecythis Zurida, 
Lecythidaceae), Sapucaia (Lecythis pisonis, Lecythidaceae), 
Coquinho (Chrysobalanaceae), Oiti (Couepia impressa, 
Chrysobalanaceae), Camaçari, Binbeira (Lecphidaceae), Sucupira 
(Bowdzchia s p p . Leguminosae-Papilionaideae), Babatenan 
(Eeguminosae-Mimoisoidae). 
Mata de terra seca 
Madeiras de alta densidade especijcn e 
de menor porte que nas áreas mais 
favorecidas por umidade e nutrientes,fòr- 
m m o climax desta ecozona. Eventualmen- 
te, nichos propícios. como as lagoas de 
topo de morro podem criar condições para 
que alguns gigantes da Mata Atlantica es- 
tabeleçam-se, aparentando uma contradi- 
ção. A verdade e mais rica: ao ocupar con- 
dições favoráveis em ambientes mais se- 
cos, essas espécies acabam javorecendo 
todo o conjunto, ao otimizarem o uso dos 
recursos naquele ponto espec~jico. 
Comentários 
Quais são os encamiaihamentos práticos que podemos obter 
a pafilr destes dados ou da análise de outros ecossistemas? Essa 
pergunta não é nova. Provavelmente, a pafiir de um diagnóstico 
não muito diferente e gelo método de tentativa e erro. as populações 
AS clareiras nesta ecozona mostram uma menos 3.500 anos antes da chegada de Colombo ao Novo Mundo 
estratégia agressiva de retenção de água O cacau foi introduzido nas civilizações centro-americanas, 
e predom'nam plantas de fo- situadas em áreas mais secas, e foi mantido graças a sistemas delhas sihcosas e ricas em lignina - o que 
i rrurnenta a v,& útrl da matéria ovgânrca irrigação e sombreamento Introduzido, reproduzindo suas 
sobre o - e us bordas são protegidas exigências naturais Quintais de abastecimento eram formados por 
/ por espécies com folhas cortantes e que sistemas agroflorestais intensivos, onde a menor área e os - 
/ formam densa proteção e di- multiestratos permitiam maior retomo da mão-de-obra e recursos 
i mrnurndo o estresse hidrrco e danos cau- 
saúos pejos ventos investidos, o que também foi inspirado nos multiestratos das matas 
I ciliares 
Com esses sistemas, sem insumos industriais, a partir do 
manejo dos recursos naturais, de áreas florestais a altiplanos, os 
antigos mesoamericanos puderam chegar a padrões de desen- 
volvimento bastante altos. A arquitetura, as artes e a escrita 
atingiram altos padrões e os cálculo^ astronomicos desenvolvidos 
a partir de suas observações ainda são válidos h o ~ e em dia. 
Constniíram monumentos e cidades de urbanizqão planejada, como 
Teotihuacáni7, cuJos processos de decadência podem estar 
associados à pressão sobre os recursos naturais decorrente do 
abandono do gerenciamento ambienta1 em favor da sacralização 
da guerra como fonte de poder e recursos. 
Pofianto, não seria o caso de nos perguntarmos se, a partir 
do reconhecimento do potencial dos diferentes ecossistemas 
florestais, e no nosso caso da Mata Atlântica Sul-Bahiana, não 
poderíamos chegar a algo mais eficiente (sob todos os pontos de 
vista) do que pecuária de corte, "'mineração" de recursos madeireiros 
e cultivos anuais? Como o modelo atual de exploração de recursos 
irá responder ao incremento populacional e de necessidades 
humanas? Como o microclima regional reqirá a maior produção 
de calor e evaporação provocada pelas áreas desmatadas e extensas 
áreas de pastagens? Que tipo de ordem social será capaz de 
administrar cidades-favelas que crescerão dia-a-dia? 
8 s sistemas que descreveremos a seguir são fmtos do 
método de tentativa e erro, baseados nos princípios da sucessão 
natural de espécies e buscaram integrar os princípios descritos até 
aqui. É importante deixar claro o objetivo do relato que se segue. 
A teoria é produto da reflexão sobre a prática, e o que expomos 
não são receitas de sistemas agrícolas ou agroflorestais que salvarão 
a humanidade ou a Mata Atlântica. São relatos da aplicação pratica 
dos princípios já qresentados. os quais se qresentam em constante 
evolução e aperEeiçoamento, ao longo de mais de I0 anos de 
trabalho de campo na região descrita. 
Esperamos assim que sejam um estímulo a iniciativas locais 
e uma contribuição à teorização e constmção na prática do grande 
d e s a h que é harmonizar as necessidades humanas com a 
preservação e regeneração dos ecossistemas florestais. 
Referências 
Para ir adiante, ver: Nosso Futuro Comum1 Comissão Mundial sobre Meio 
Ambiente e Desenvolvimento. Rio de Janeiro. Editora da Fundação Getí~lio 
Vargas, 1988. 
Ver Alier, Joan Martínez. De Ia economia ecológica a1 ecologismo popular. 
Editorial Nordan-Comunidad. Montevideo, 1995. 
"Quando os europeus chegaram pela primeira vez (em torno de 1420), a Ilha 
da Madeira não tinha um palmo de terra que não fosse inteiramente coberto 
por grandes árvores. Daí o nome que lhe deram. A madeira revelou-se valiosa 
como item de exportação, mas as Rorestas eram boas demais e os colonos 
queriam abrir espaço para eles mesmos, suas culturas e seus animais - o que 
exigia uma derrubada mais rápida que a da extração com finalidade comercial. 
Assim, os primeiros colonos atearam um fogo depois do outro, o que teve 
como resultado uma conflagração que quase os expulsou da ilha. Um grupo, 
pelo menos, "foi forçado, com todos os homens, a fugir da fúria do fogo e 
procurar refúgio no mar, onde todos pemneceram, mergulhados até o pescoço, 
sem água ou alimento, por dois dias e duas noites". A história prossegue 
revelando que o fogo durou sete anos, o que talvez possamos intepretar como 
significando que os colonos continuaram queimando florestas durante todo 
este tempo". Crosby, Alfred W. Op. cit 
"A terra, nota bene, é tão fértil, que por toda parte encontrarás uns doze a 
quinze mil bois e vacas, dos maiores e mais bonitos, deitados no capim ou 
pastando. São livres e não fazem parte de nenhum rebanho (...) Aldeamento 
que não fosse capaz de criar três a quatro mil cavalos de montaria seria 
considerado pobre (...)". Esse depoimento de umjesuíta, datado de 1698, situa 
o leitor na produtividade original das pastagens nahirais da região das Missões, 
no Rio Grande do Sul, banhadas pelo Rio Uruguai. É possível falar hoje em 
dia em ganhos de produtividade via insumos se não sabemos o que o ecossistema 
já produziu naturalmente? Para ir mais longe, ver, entre centenas de obras de 
recuperação histórica: Ribeiro, Da rq e Carlos de Araújo Moreira Neto. A 
Fundação do Brasil. Vozes, 1992. 
' No sentido de ecossistemas transformados pela atividade agrícola. 
Este conhecimento pode nos agontar sinergismos e anQgonismos entre planras 
introduzidas e plantas autóctones. De posse desse conhecimento, podemos 
elaborar melhor nossas estratégias de convivência dos sistemas agrícolas com 
os sistemas naturais, e Inclusive revelar potenciais de plantas como forrageiras, 
fertilizadoras, madeiráveis, sombreamento, etc. 
" .' , No tempo e no espaço" refere-se a que determinados cultivos irão ocupar 
áreas por tempos definidos e variáveis de acordo com seu papel na sucessão de 
espécies e dos nichos que ocupam, conforme foi apresentado no item "A 
Sucessão Natural de Espécies", pp53. 
Compostos extraídos de plantas, microorganimos e animais estão presentes 
em todas as 20 drogas mais vendidas dos Estados Unidos, cujo valor de vendas 
chegou perto de 6 bilhões de dólares em 1988. De modo mais direto, a pesca, 
baseada predominantemente em espécies de ocorrência natural, contribuiu com 
qroximadamente 100 milhões de toneladas de alimentos no mundo inteiro 
em 1989. Para ir mais adiante, ver: Perdas da Biodiversidade e Suas Causas, 
in A Estratkgia Global da Biodiversidade, págs. 1-5. Instituto de Recursos 
Mundiais (m), edição em português da Fundação O Boticário, 1992. 
Para ir adiante ver: Enfoque Sistêmico en la Agricultura. Bibliografia 
selecionada. Elaboraclón: Mxlene Caltillo Femández. CIPCA. Centro de 
Investigación de1 Campesinado. Piúra, Peníi, Setiembre, 1989. Ver também 
Diagnóstico Sócio-econômico da Região Cacaueira. Volumes 1 , 2 e 3. 
CEPLACIIICA, Bahia, 1975. 
' O A rentabilidade da atividade pecuária em regiões do trópico íimido, como 
no sul do Pará, é bastante baixa, variando de US$ 17lhdano até US$ 901lid 
ano, esse último valor no caso de pecuária leiteira. A produtividade de carne 
varia em torno de 24 a l01kgIhdano. Para ir alem, ver: Anmo, Eugenio & 
Christopher UM. Pecuária na Amazônia Orienlal: Situação Atual e Tendências 
Futuras. In "Abordagens Interdisciplinares para a Conservação da 
Biodiversidade e Dinâmica do Uso da Terra no Novo Mundo". Consewation 
Internationa! do Brasil, WMG, Universi@ of Florida. Belo Horizonte, 1995. 
l1 O AS-PTA tem buscado o aperfeiçoamento do diagnóstico ambienta1 dentro 
do conceito de DRP (diagnostico rápido participativo), e alguns textos 
preliminares estão disponíveis, como o texto por Paulo Petersen "Diagnbstico 
ilmbiental - Rápido e Participativo" Proposta Preliminar, AS-PTA, Rio de 
Janeiro, outubro11 995. 
l2 Ver Ab' Saber, A. N. 1980. Espaços ocupados pela expansão dos climas secos 
na América do Sul por ocasião dos periodos glaciais quaternários. Craton & 
lntracraton. São José do Rio Preto, Uney, n.8., 1980. Também ver, do mesmo 
autor, Razões da retomada parcial de semi-aridez holocênica, por ocasião do 
"otimum climaticum ". Inter-facies, São José do Rio Preto, Unesp, n.8, 1980. 
" Ver MORI, S.A & BOOM, B.M., CARVALtIO, A.M. & SANTOS, T.S 
Southem Bahian Moist Forest. The Botanical Review, 49,155-232, April- 
June 1 1983, The New York Botanical Garden. 
IdVer MOWI, §.A & BOOM, B.M., CAliVALHO, A.M. & SANTOS, T.S.op. 
cit. 
15 , S.G. & SILVA, L.A.M. Árvores Aproveitadas Como Sombreadoras 
de Cacaueiros no Sul da Bahia e Norte do Espírito Santo. CEPLAC, Ilhéus, 
BA, 1982. 
l6 DANTAS, M. & PHILLIPSON, J. LitterEall and litter nutrient contenl in 
primary and secondq 7~nim '"erra firme" rainforea. Jornal of Tropical 
E c o l o ~ (1989) 5127-36. 
I 7 Descoberta próxima a atual Cidade do México, Teotihuacán teve no seu 
auge, em tomo do ano 500 D.C. entre 125.000 a 200.000 habitantes, rivalizando 
com a Londres do século XIV. As mínas apresentam um dos três maiores eixos 
transversais planejados existentes no planeta (Washinglon D.C. e Brasília são 
os outros dois). Para ir adiante, ver: The Zmeless Yision of Teotihuacán, by 
George E. Stuart.Nationa1 Geografic. vol. 188, no 6, December 1995, pág. 2- 
35. 
A construção de roteiros básicos 
de sistemas agroflorestais 
regenerativos 
Para cumprir esse objetivo, faremos a reconstituição de 
como cada etapa de um sistema agroflorestal foi definida tendo 
por base as condições de uma área de roça abandonada entre 5 a 
10 anos, em condições de mata ciliar para as condições edafo- 
climáticas relatadas para a Mata Atlântica Sul-Bahiana. 
Uma área de roça abandonada tem em gera9 varias situações 
de vegetação a serem trabalhadas de formas diferentes. analisando 
a prática com cada uma dessas situações, teremos exercitado vários 
princípios de constmção de sistemas qroflorestais, lidando com. 
- manejo de bordas de transição entre um sistema agrícola 
e o sistema natural, incluindo clareiras naturais ou de renovação 
com introdução ou adensamento de espécies; 
- formação de sistemas agroflorestais centrados em fmtas, 
amêndoas e madeira; 
- introdução de componentes alimentares de auto- 
consumo de curto, médio e longo prazo, desenvolvendo sistemas 
de produção de grãos, leguminosas e hortaliças como parte da 
estratégia de formação do sistema. 
A estrutura projetada de um sistema agro$orestal regenerativo análogo é o que seu nome diz: busca regenerar um 
consórcio de espécies que estabeleça uma d i n h i c a deformas, ciclagem de nutrientes e equilíbrio dinâmico análogos d 
vegetação original do ecossisiema onde será implantado. Para isso, baseia-se em grande parte na própria sucessão de 
espécies nativas não só para alavancar o sistema mas também para counpô-lo nas várias fases. 
preservar a regeneração natural e /ou adensada. O sistema todo é baseado na dinâmica da suce.ssão 
natural de espécies e seu manejo. 
espécies que formarão a segunda fase, de três a cinco anos (2) O desenho projetado se definirá na terceira fase, a'e h1 0 anos 
(3j, quando do início da produção comercial das espéciesperenes de ciclo médio e longo. Esse sistema chegará aos ciclos de 
renovações mais agudas, na faixa de 11-15 anosi- 0, quando algumas espécies da mata secundária (ciclos intermediários) 
que ocupavam os estratos superiores começam a declinar: sendo gradativarnente substltuidas pelas espécies da mata primá- 
O que diferencia um 
Siseernt Agroflorestçil 
Regenerativo Análoga de um 
~"Fonvenc fona l? 
NO SAF conveneíana[ o sistema natural é substituído por um sistema de monocultivo por estratos. As 
roçagens e capinas não são seletivas, e o sistema é estático. Isso diminui a produção de biomassa e aumenta .a 
dependência de fertilizantes externos ao sistema, fator mais grave quanto menor a fertilidade natural e maior a 
velocidade de decomposição da matéria o@nica original. Ofinal de ciclo ou decadência de indivíduos de um dos 
estratos não é reposta por uma renovação dinâmica, e áreas bastante grandes (o total do SAI;: eventualmente) têm que 
Itinerário técnico de sistemas 
agroflorestais 
Neste tópico, vamos relatar e descrever alguns sistemas 
agroflorestais desenvolvidos e testados nas condições da Mata 
Atlãntica Sulbaiana, na região descrita no capitulo anterior. 
Analisando os pincipios que orientam cada passo do sistema, iremos 
observar que existem possibilidades de alterar parte do roteiro para 
ambientes diferentes. Esse 6 um exercicio que atende o objetivo 
maior deste livro: estimular a recriaçào local de sistemas agro- 
florestais regenerativos compativeis com os ecossistemas onde serão 
implantados A base de inspiração e, portanto, a sucessáo de 
vegetação e fauna dos ecossistemas onde serào instalados, de modo 
a harmonizar os obetivos do agricultor e as espécies que lhe 
interessam com as características do ecossistema local. 
Os roteiros apresentados se orientam por três eixos: 
- primeiro, quais são os objelivos humanos em termos de 
produtos e como funciona, em termos de adaptação ao ambiente, 
cada fase do sistema; 
O eeossislema 
O sistema natural tem na suces- 
sGo de espécies o mecavlismo que 
organiza a biomassa no tenzpo e 
no espaço. As formas ou a ar- 
quitetura de individuos e dos 
consórcios que se sucedem nos 
indicam como funciona cada 
etapa dentro daquele determina- 
do ecossistema. 
s e palmeiras no estrato 
2 
2 - Árvores e arvoretas umbrófiias 
nos estmtos inferiores 
3 - Nerbsceas anualã, árvoresJ arbus- 
JV tos, cipós e arvoretrlâ pioneiras n a I 
4 - Constante reciclagern de nutrlen- 
tes e contole das condições de radi- 
O apecossistema 
"Sistema AgoPJkorestal Regeneralivo Análogo '' 
Nossos sistemas agroflorestais devem tentar reproduzir ao 
máximo a arquitetura das formações naturazs, pois elas 
coevoluíram com o ambiente físico na perspectiva da utilz- 
z a ~ ã o otimlzada de radiayão, umidade e nutrientes. Portan- 
to, cada etapa não é apenas sukstztuição ou uma zmitayão 
do sistema natural, mas sim conta com uma grande porcen- 
tagem de e,rpéczes que a ele pertencem para conslrulr e man- 
ter o sistema agroflorestal em funcionamento. A isso pode- 
mos chamar de um agoecossistema. 
- segundo, em que zonas do ambiente ocupado pela 
propriedade ou conjunto de propriedades agrícolas esses objetivos 
poderão ser melhor cumpridos, o que levara ao zoneamento por 
propriedade e por comunidades ou regiões; 
- terceiro, como ajustar nesses ambientes as espécies 
nativas e introduzidas em termos dos consórcios e da sucessão 
desses consórcios, de modo a regenerar a biodiversidade e biomassa 
mais próximas do sistema natural. 
Sistemas para regeneraçáo de áreas 
de base de encosta e mata eiliar 
Parlindo de lavouras abandonadas 
com capoeiras de 5-10 anos de idade 
Dentro de uma propriedade, são comuns áreas degradadas 
e abandonadas em ambientes de mata ciliar e base de encosta. Os 
sistemas que vamos descrever visam a regeneração produtiva dessas 
áreas com sistemas de várias fases, onde cultivos anuais, fmtíferas, 
árvores de múltiplos propósitos e uma grande variedade de espécies 
nativas de vários estratos e estágios da sucessão criam condições 
para a formação de uma estmtura que convencionamos chamar de 
sistema agroflorestal regenerativo análogo. 
Os sistemas têm um funcionamento básico e uma vez 
apreendidos em seus princípios, podem ser introduzidos em todas 
as zonas que apresentamos anteriormente, com exceção das áreas 
de mata primária preservada, onde é desejável manter o máximo 
de biodiversidade. 
A aptidão do ambiente é fundamental para definirmos a 
capacidade de suporte e as características e sutilezas dos sistemas 
que pretendemos desenhar e instalar. Para isso, o zoneamento local 
é fundamental. O sistema a ser implantado deve; então, buscar um 
tipo de sucessão e arquitetura de espécies e consórcios inspirado 
na vegetação que foi encontrada nesse zoneamento. Por isso, em 
cada região as características de umidade, nutrientes e radiação 
irão propiciar que um sistema diferente seja Instalado. Ainda, que 
sistemas semelhantes surjam em regiões geograficamente distantes, 
mas com condições edafoclimáticas similares. 
Mercados, cultura e conjuntura sócio-econômica irão, 
então, definir as nuances do desenho dos sistemas, buscando 
propiciar uma vegetação com caracteristicas e funções semelhantes 
a da vegetação original dolocal, e que produzam renda, alimentos 
e qualidade de vida como um todo. 
Eixos produtivos e fases do sistema 
O desenho de um sistema deve ser o produto final e 
participativo que surge no contexto que procuramos explanar 
durante todo este livro. Podemos dividir a evolução desse tipo de 
sistema em quatro fases que se intercomplementam sob o ponto de 
Formas e fun~õcrs das espécies de interesse direto. 
Caso-exemplo para a Mata Atl-ntica Sul Balana 
Fase 1 (anos 0 e 2 ) 
Dependendo das condições de clima, solo e vegetação existente (indicadores biológicos), nessa fase o sistema poderá 
produzir uma série de espécies comestíveis. Nos sistemas já implantados denwo dessa metodologia. as espécies que fomam 
o eixo dessa primeira fase são, em ordem decrescente. 
- grãos, como o milho; 
- leguminosas trepadoras, como feijão-lima, feijão-fava. caupí, etc; 
- folhas comediveis trepadoras, como ora-pro-nobis e bexzalha e herbáceas. como taioba e brotos de mandioca; 
Rores comestíveis, como o malvavisco. 
- inhames, como o cará-aéreo, inhame-quiçari, inhame d'água e outros. 
- legumes, como o pepino-salada, tomate-cereja, maxixe, etc. 
No médio prazo, as espécies-eixo do sistema passam a ser as frutas, raizes, tubérculos e outras fontes de amido, nesta 
ordem de importâncta. 
- frutas deporte arbusilivo, como diversas variedades de banana de porte alto, mamão, araçá-boi, etc; 
- fr&s deporte radeiro, como o abacaxi; 
- folhas comestiveis umbrbfilas, como taioba. bertalha, ora-pro-nobis; 
- fontes de amido, como o cará-aéreo, vários tipos de inhames, chuchu. 
As folhas comestiveis herbáceas como a taioba diminuem sua produção em sistemas muito sombreados e as espécies 
trepadeiras deslocam sua produção de biomassa para o alto das árvores, onde conseguem a radiação de que necessitam. 
Renovações periódicas das copas das árvores podem controlar o acesso a radiação prolongando a vida Iitil dessas espécies no 
sistema, com exceção da mandioca, francamente heliófita, que irá sendo substituída rapidamente devido a sombra. 
Fase 3 (6-10 anos) 
As bananeiras irão sair do sistema a medida que o dossel superior for fechando, o que deve acontecer do oitavo ano 
em diante, quando o eixo do sistema já será: 
- frutqeras tkicas de sub-bosque, como cacau, pataste, citrus, mapati e várias outras; 
- frutqeras depoHe alto que toleram sombra nafase inicial e que na fase produtiva necessitam de mais luz, como 
jaqueira, abacate, pupunha e muitos outros. 
A produtividade dessas espécies dependerá de um manejo constante e ciclico das copas das espécies ferlilizadoras, 
como ingazeiros, eritrinas, louros, cobis e outras que cumpram essa Iùnção e que foram instaladas no início do sistema e 
tutoradas pelas espécies pioneiras, como abacaxis, malvaviscos, etc. 
Fase 4 (11-15+ anos): o futuro do sistema definindo-se 
Se estabelece uma produção regular de amêndoas de cacau, pataste, cupuaçu. Frutas de sub-bosque entram em 
produção comercial, bem como as palmeiras (pupunha, açaí, juçara, etc). Algumas das árvores madeiráveis já mostram seu 
potencial de fuste e podem ser selecionadas, enquanto parte das pioneiras fertilizadoras encerra seu ciclo, sendo substituídas 
por outras. Nesse intervalo, algumas clareiras abrem-se e podem ser ocupadas novamente por espécies da fase 1 e 2. 
vista de retorno econ0mlco e de avanço no processo de sucessão Definindo e zoneaaado 
de espécies, imitando de forma mais próxima possível a sucessão esp6cf%"s2 consá"rcios e 
natural e visando a regeneração produtiva do ambiente. sracess" para kirn S A E M 
O fùndamental é entender cada etapa como um consórcio 
de plantas nativas e exóticas que se compiementam entre si para Cada espécie ou consórcio de espécies 
ocupa um nicho adequado, possibilitando 
cumprir os dois objetivos que enunciamos. que na fase inicial o sistema otirnáe o uso 
Reforçamos que O sistema adulto dos recursos de radiação, nutrientes e 
deve respeitar o ecótipo do local onde estamos umidade, conserve energia, produza 
intewindo. Foaanto, trabalhamos para que o alimentos e renda e crie condições para o 
avanço do processo de sucessCo de 
kturo seJa uma floresta terciária induzida aos espécies. 
interesses humanos, onde o objetivo seja, em 
ordem decrescente, a colheita de frutas e 
amêndoas, folhas e flores comestíveis, 
especiarias, ornamentais e, em último lugar, Griios e legumes comestiveis 
de alta produção de biomassa. 
madeiras de lei. A pouca ênfase na madeira como O milho e o feijão 
de lei segue a lógica de menor densidade por tvepador 
área de madeira nas matas ciliares, menor 
distúrbio possível e aproveita o potencial do 
sub-bosque desses ambientes para a produção 
de fmtas e outros produtos. Porém, o valor 
agregado pela madeira não é desprezível, uma 
pegam por estaquia 
vez que algumas das espécies madeiráveis mais 
valorizadas crescem nesses ambientes, como 
o cedro, putumuju, guanandí, etç. Essas 
espécies contribuem não apenas para O VAIP Especie pioneira para 
da área (Valor Agregado Projetado), mas para 
a estabilidade, autonomia e saúde do sistema economico, sewrndri 
como um todo, atraindo e sustentando a fauna, /*' corno zulor para a3 
árvores do futuro. 
estimulando a biodiversidade e a regeneração a abacaxi tem todas 
do ambiente. essas características 
Na primeira fase do sistema, o que realmente importa em relação as espécies que usa- 
mos como pioneiras (nativas ou introduzidas) é que cumprm af inyão de cobrir o solo 
com sua biomassa, produzam algum tipo de retorno aos inreresses humanos e que, nesse 
processo, sejam ejcientes em conservar a energia do lugar: Em outras palavras, que 
conservem umidade e nutrientes, protejam e criem matéria orgânica e alavanquem o 
cesso de sucessão de espécies. 
I O sistema agrojoresial dea ai não existe 
sem a v~são de toda a cadeia produt~va O 
agroprocessamento local e busca de 
mercados é tão essencial quanto os 
esforços em harmonizar a arquitetura e a 
componção de espécles de cada fase do 
sistema O esforço é então recompensado 
e a mão-de-obra empregada valorzzada O 
aumento da qual~dade de vida e a cnação 
de uma verdadeira oikonomia é o objetivo 
final, que desbanque os sistemas de 
I produção baseados na mercantillzação 
irnediat~sfa dos recursos naturais,na 
definição malspobre do termo "economia" 
I ) Brodução de alimentos a curto ~ ~ C B Z O , médio e longo prazo. 
2) Rdpida cobertura do solo a curto prazo com materiais de dqeren- 
tes composições e velocidades de decomposição. 
3) I7.odução a médio e longo prazo de material fertilizador com ca- 
racterídicas de rudicidade, residência e se pofshel usos m&ltiplos 
Frutas de crescimento 
rápido, como banana, 
mamão, e oulras. 
Árvores fertilizadoras 
, 
e'ou madeiráveis. 
palmeiras e outras 
espécies de interesse 
I \ . direto que demoram 
Áwores de 
crescimento 
rápido ou 
mediano para 
fertilização, 
plantadas por 
sementes e 
estacas 
mais de cinco anos 
para iniciar a produ- 
ção fazem o fiiuro do 
sistema 
Instalando o sistema 
Reconhecimento e roçagem (semana 1) 
O primeiro passo é uma avaliação e reconhecimento da 
vegetaqão, onde temos de nos perguntar se há condições, pela 
biomassa existente e pelos indicadores do terreno, de usar milho e 
feijão trepador como primeiro eixo da sucessão 
Se afirmativo, a área é zoneada quanto à umidade para 
ailmentos e evitar desperdício de sementes e orientar a Introdução de folhas 
b~omassa para comestíveis e inhames de acordo com sua resistencia a solos mais 
secos ou mais úmidos. 8 feUão é semeado a lanço ou plantado à 
ponta de facão. No caso do plantio a lanço, após a semeadura sobre 
a vegetação é feita uma roçagem seletiva à facão, preservando a 
regeneração de espécies arbóreas. 
Aprohndando este item, o critério básico da roçagem é: 
- todas as herbáceas são roçadas rente ao solo a pelo 
menos um palmo do solo, 
- toda a regeneração arbórea é preservada e marcada por 
estacas; 
- as copas de espécies pioneiras são podadas, desde que a 
espécietolere esse procedimento Essa roçagem é feita simulta- 
neamente com uma replcagem, de modo a facilitar o contato do 
material com o solo, facilitando sua decomposição e o transito pela 
krea 
Plantios 
O abacaxi é então plantado no espaçamento de 1,5m x 
0,5m ou até 2,OOm x 0,5m, e deve estar Implantado no solo logo 
apOs a camada orgânica, bem firmado e com mudas limpas de broca, 
gomose ou raizes velhas. 
O milho é plantado na entrelinha do abacaxi, e variedades 
são preferíveis a híbridos pela msticidade. Pode-se usar uma linha 
dupla de milho (0,70m x 0,40m) ou urna linha simples. Isso irá 
depender das condições edafoclimátlcas. Quanto mais rica a 
combinação fe'ertilidade do solo, radiação e regularidade de chuvas, 
maior a possibilidade de produção de biomassa. 
As primeiras etapas 
da inlte-ven-8s 
Biornassa e esthgio de suces 
s& da vegetação erxlsle~le, A 
vegetaç" no local da inter- 
venção atinge em torno de três 
metros de ahura, e está composta de 
e-écies herbáceas. subarhustivas, 
cigos herbáceos e algdmas áwores 
pioneiras. Na maliagão dos agricul- 
tores, o con~unto da biomam mos- 
tra condições de fertilidade e um- 
dade que permztem que milho e fez- 
jão sejam cultivados ali. 
A regeneração é toda preservada até 
que se identifique a espécie, a que eta- 
pa da sucessão pertence e sua tolerân- 
cia à poda. @ 
2 Rejuvenescimento e sinçro- nkação da sucessão, Áwores pioneiras e secundárias de 
maior porte são podadas de acordo 
com suas camcterkticas individuais 
e estado jzsiológico. A idéia é pro- 
vocar um rejuvenescimento do indi- 
viduo e sincronizá-lo com o restante 
da sucessdo que se verfica no lo- 
cal. 
A roçapem é feita após a semeadura do fegGo a lanço de modo seletivo, preservando as árvores 
e renovando as copas de alguns individuos de mata pioneira ou secundária que tenham perma- 
necido dede a última intervenção. Tudo é picado de modo a facilitar o trânsito e a ciclapem dos 
nu&ientes. O plantio em sucessão sem fogo ou revolvimento do solo permitirá uma rápida cobertura do 
terreno, minimizando as perdas energéticas do sistema. 
O fedão pode ser prejudicado pelo adensamento do milho. , Primeira fase 
Mas o milho é a espécie-eixo dos produtos alimentares nessa "91 siatem" 
primeira fase. O milho é plantado até com a ponta do facão, em 
linha. 
O malvavisco é plantado via estacas de 0,30-0,40m. Essas 
estacas distam entre si 0,ibOnl e ficam na entrelinha do abacaxi, lhas de mandioca produzem alimentos 
distando 0,40m e 0,50m da linha desse. Também se pode usar uma a curto prazo nas áreas mais drena- 
fila dupla, o que depende dos mesmos fatores citados para o milho. das. O feijão dará lugar a herbáceas 
nativas como a jurubeba (Solanz~m 
spp.) e à cobertura foliar proporcio- 
O Futuro nada pelo malvavisco e mandioca. 
O abacaxi e o malvavisco são os tutores ou formadores 
para as espécies arbóreas do hturo. Ingazeiro, sombreiro, jaca, 
citms, cedro, pau d'alho, eritrina e outras espécies são plantadas 
na mesma linha do abacaxi e malvavisco, conforme as sementes e 
mudas a disposição na época e conforme o zoneamento do terreno 
que fizemos (umidade, fertilidade). 
Mudas crescidas em saquinhos ou jacas, como pupunha, 
mangostão, etc. podem ser plantadas em nichos privilegiados. O 
cacau e o pataste são plantados de semente na linha do abacaxi e 
malvavisco, distando de lm a 1,5m entre sementes. A técnica de 
cacheando no seaundo ano 
~ a m ã o - L l i W " B 
1Malvavisco e outras espécies 
plantio é a ponta de facão, que abre a vegetação repicada e o solo 
superficial 
Primeiros manejos ( 4" semana) 
Um mês após o plantio, fa-se uma quebra manual ou de 
facão nos fetos e outras ervas que rebrotam para favorecer o milho 
e o feião. A próxima operação (12 semanas) é colher o feijão e 
podar algumas ervas, sem eliminá-las, provocando uma renovação 
da biomassa. 
A colheita do milho (20 semanas) é um momento de 
transigão. Junto com a colheita faz-se uma capina seletiva, 
renovando parte das ervas e fetos pelo seu aspecto e estado de 
maturação, e planta-se a bananeira, no espaçamento de 3m x 3m. 
Se quisermos manter a bananeira por mais tempo no sistema, 
devemos procurar variedades tolerantes a sombreamento, como as 
variedades de banana-prata de pofie vigoroso. A banana-da-terra 
já é menos tolerante ao sombremento e poderá ser usada em bordas 
ensolaradas de boa fertilidade, caso contrário teremos sua saída do 
inhame, taioba, ora-pro-nobis, 
sistema tão logo diminua a insolação. No momento do plantio da 
bertalha e outras espécies cumprem o bananeira e, consequente, pisoteamento pelo agricultor, podemos 
papel de fornecer alimentos, tutorar podar e renovar partes das herbáceas nativas e introduzir mamão 
as árvores e cobrir o solo. na entrelinha da banana. O ideal é introduzir mudas de saquinho 
com três ou mais mudas, afim de selecionar, após, as que produzem 
os melhores fnitos. 
Maneja até as primeiras colheitas de abacaxi 
Até o 12" mês, quando Irão surgir os primeiros fmtos de ciam das condições oferecidas nos pri- 
abacaxi, o manejo será de supressão de gramíneas, poda de meiros três anos de sistema e em cla- 
reiras criadas pela renovaç2o é o aba- 
renovação no malvavisco e herbáceas nativas, e colheita de folhas caxi. Aqui ele pode ser visto no ponto 
e brotos. A partir do 14" mês Intensifica-se a produção de abacaxi de colheita em consórcio com espéci- 
e começa a colheita da banana. es em desenvolvimento como a 
Em alguns casos de áreas que por sua posição recebam 
exposição solar intensa, o milho pode ser reintroduzido, após uma 
poda drástica do malvavisco em julholagosto (a um palmo do chão 
no mínimo), repetindo um ciclo de grãos. 
Terceiro ao quarta ano 
As touceiras de abacaxi que produziram são desbastadas, 
mantendo-se as touceiras sadias para sua última produção comercial. 
Os talos de bananeira que foram cortados e dobrados para a colheita 
são cortados rente, picados em toletes de 40-50cm, abertos ao meio 
e usados para favorecer o desenvolvimento das fnitíferas que estarão 
se desenvolvendo. 
A cada 2-3 meses a área deve passar por uma operaqão de 
capina e poda seletiva, de modo a renovar a vegetação e favore- O sistema testa a aptidão 
cer as espécies arbóreas que introdu-inos. Isto não s i d c a "eli- das espécies e o acerto do 
ar" a vegetação herbácea, mas sincronizar o siaema, retiran- manejo - 
do as partes velbas das plantas, renovando-as e dando comdiqões 
para uma ciclagem conthua dos nut~entes: favorecendo as es- 
pécies do fiituro. Este e o momento de reintroduzir sementes e 
mudas nas folhas, e ar toucekas doentes de banana, introdu- 
.& sementes da mata primária e espécies herbáceas umbiróflas 
dos estagios mais avançados, como algumas ornamentais. 
Do auinto ao oitavo ano 
Começa a colheita comercial de pupuáha, num espaçamto 
definitivo de 8m x 8m, do cacau e pataste (3m x 3119, citms, jaca, 
abacate, cupuaçh e outros (em nichos favoráveis) sem 
espaçamento padrão. Para manter a produtividade das htlferas 
No ~mzhlrnte de Mata dr Araucána.,, um agricultor rtdiza no 
inverno uma poda de renovação na copa de um fumo-bravo (Solanaceae). 
Essa operação cria condições de luz, reciclagem e estimulos de cresci- 
mento para a instalação de um sistema agrojlo~estal num capoeirão de 
PR). Os c on iórc ioc udequados permitiram a 
formaçmo de uur ifronco retilineo sem o ataque 
da broca dos ponteiros 
Nesta etapa, os consórcios de mais longa du- 
ração começam suas curvas ascendentes de 
produção. Espécies como as f ru tveras 
zlmbrófilas, palmeiras, madeiráveis formam um 
conjunto afinado que pode ser complexado e 
dinamizado constantemente. Este papel será 
desempenhado pelo manejo das copas que pro- 
duzenz sombreamento através de podas, intro- 
dução de novas espécies nos nichos criados, 
retirada de pioneiras em final de ciclo, indiví- 
duos doentes ou inadaptados. Nestatuse, como 
em qualquer sistema de produção de perenes, 
é que os acertos e erros do desenho se tmduzi- 
rãoem fracassos ou altas produções. 
6 Lima ( I ) na companhia de mapati ( 2 ) , plvilnhn(.i), nlalvavisco(4) 
entre outras espécies, nunz aspecto reprc.scratutli70 de rlrrz sistema de 
quatro a cinco anos em solos pobres. Fa:rn(la TrC, Colirzn,. Pirai do 
Norte, BA. 
$ Pupunha ( I ) , árvores da mata primária (21, pataste (3) herbáceas umbrófilas (41, cacau (5), espécie pioneira em 
onto de renovação (6), espécie da mata secundária em consolidação (71, abacaxi e banana ainda pro(luzindo marginal- 
147 
* 
do sub-bosque é fundamental um trabalho periódico de renovação Dinamizando s sistema 
das copas das espécies arbóreas pioneiras que estão proporcionando 
o sombreamento, feito através dos critérios que discutimos nos A partir do 10" ano, uma série de 
cayritulos anteriores. áwores pioneiras começam a reduzir suas 
curvas de crescimento e produção de 
Do 10" ano em diante biomassa. E neste momento que as copas podem ser podadas mais intensamente, 
uma vez que exista um potencial de rege- 
Ficam agora cristalizados os erros e aceaos do zoneamento neração e, principalmente, uma reposição 
do ambiente. Assim, o que parecia um exagero em densidade de em das espécies do secundá- 
rio, que irão substituir as espécies deca- plantio na implantaçâo do sistema irá nos dar a possibilidade, ao dentes Eventualmenle, clareiras 
longo deste período, de manter apenas OS indivíduos mais Ggorosos irfio se abrir. oDortunizando a entrada de 
' & 
e produtivos. Em outras palavras, aqueles que encontraram seu espéciespioneiras, que serão controladas. 
lugar ótimo dentro do sistema estarão vigorosos e produtivos e os 
Parte importante do manejo é a sincronização de todo o siste- 
ma. A abertura das copas aumenta a luminosidade, e espécies 
do estrato herbáceo desenvolvem-se, como resposta natural. As 
estolonzjreras agressivas (a) devem ser removidas, e as espécies 
de maior produção de biomassa e cobertura do solo, como esta 
grarninea (b) que cresce nos capoeirões da Mata de Araucária 
deve ser roçada. O rnaterial de roçagem cobre o solo e evita a 
disseminação das estolonljeras, ao mesmo tempo, reciclando nu- 
trientes e fazendo avançar a sucessão nos estratos mais baixos, 
enquanto a cobertura das copas se recupera. 
A renovação de copas em espécies 
pioneiras e de mata secundária 
No insert (a) vemos um agricultor po- 
dando o fumo-bravo que quatro meses de- 
pois reage (h) com nova brotação que 
ainda não atingiu seu máximo (nesta re- 
gião ele terá mais três meses ou mais de 
crescimento. Na foto de fundo (c) temos 
a reação à poda de uma espécie da mata , 
Mata Atlântica, o cobi, leguminosa de 
grande valia na transição de mata secun- 
Espécies de ciclo longo (50 anos+), como a pupunha (a), o abacate (6) 
e árvores nativas (c) começam a substituir as espécies de ciclo médio (d) no 
estrato dominante do sistema. As espécies substituídas deixam material orgâ- 
nico suficiente para manter consórcios de espécies de menor relação C/N, 
como herbáceas umbrófilas e árvores frutijeras. Manter este equilíbrio é man- 
ter o tão desejado equilíbrio dinâmico. 
outros serão gradatlvamente eliminados, sendo substituídos oporlu- %) manejo de aceirss para a 
namente por espécies mais adaptadas àquela condição específica. instala-a de SAF's 
regerierativos 
Acehros e bordas de tsansiçro 
Quando situado em bordas de sistemas de menor 
intervenção (zona I,2 e 3), espécies trepadoras como maracujá, 
pimenta do reino, cará-voador e outras podem ser instaladas nas 
bordaduras, e produzirão satisfatoriamente até o sistema alcançar 
a mesma altura da vegetação com a qual se limita. Para todo sistema 
iùncionar sincronizado, o acelro a ser feito deve ter uma dimensão 
proporcional à altura da vegetação Assim, se numa borda da área 
implantada a vegetação tem I Om de altura, deve-se proceder a uma 
intervenção gradativa no sentido da nossa "roça" para a área natural 
com IOm de extensão. Esta intervenção gradativa constitui uma 
renovação parcial e gradativamente menos itensiva no sentido roça- 
-mato de todos os estratos de vegetação, afim de evitar o efeito 
I Poda parcial das copas das hrvores, renovação de bambus e cipós 
-r 
\\ \ 
Toa'crs as herbáceas em brotação são gresewadas, 
bem corno a regeneração natural de árvores e arvoretas. 
k sincronza da vegetação do sistema 
agroflorestal com a vegetação clrcundante 
e lão ~mportante quanto a sincronra den- 
tro do propno czsrema em sr Obsewando 
uma c/areira, notaremos que o impacto da 
queda natural de uma árvore causa uma 
yerre de alterações graduazs, do centro 
para as bordas A obsewação desse tipo 
de "yenovação" de srstemas e reação das 
erpecie~ e o modelo para manejar as bor- 
das de t r a n s ~ ç ã o entre o s ~ s t e m a 
antropogênrco fo SAI;;) e o slstema natu- 
ra l 
alelopátlco da vegetação nativa sobre o sistema que estamos 
Instalando. Lembrando os conceitos apresentados anteriomente, 
teremos dois sistemas em estágios de sucessão completamente 
diferentes, na área de intervenção e na irea de capoeira limítrofe, e 
essa intervenção irá reduzir a ""rjeição" da roça pelo sistema natural 
em regeneração. 
Portanto, nosso trabalho de acelro visa reduzir esse 
descompasso, provocando uma renovação na borda da mata Se 
obsewarmos uma clareira natural, veriharemos o mesmo processo, 
ou seja, danos mais pesados no centro da clareira e danos cada vez 
mais leves na medida da distância da queda das árvores. Isso pemite 
uma recuperação hamonica da vegetação e evita o efeito depressivo 
observado em geral nas bordas de lavouras e roçados. 
/ Parte dos bambus c cipós velhos i renovada, como se i.enjka na borda de 
1 uma clareira natural. 
I 
I I / Formação narural sem intervenção 1 
Árvores secas e em final de 
ciclo em bordas de aceirss 
É comum as bordas de uma lavoura abandonada apre- 
sentarem árvores secas ou em final de ciclo (a); muitas vezes 
em conseqüência da queimada que instalou a roga antiga. 
Como primeiro passo, verificamos se não estão servindo de 
abrigo pam a fauna silvestre, como pica-paus e araçaws; 
mamljeros de hábito noturno e que dormem em ocos de árvo- 
res, como o caixeiro, cuícas e gambás. Identificadas como 
espécies de madeira útil ou que podem vir a cair sobre a área 
onde instalaremos nosso SAE estas árvores devem ser retira- 
152 
6 O aproveitamento tem um 
resultado economico imediato se 
houver uma iniciativa de be- 
neficiamento associativo da ma- 
deira. Quedas por vento de ár- 
vores anteriormente danificadas 
em bordas de lavouras são co- 
muns, como a da foto (6). Por- 
tanto, esse trabalho previne o 
que poderá ocorrer quando o sis- 
Nestafoto ( c), que é sequência da foto (b), a madeira é 
pré-beneficiada em pranchões. O uso de equipamento ade- 
quado para a moto-serra, como sabres maiores, fitas de cor- 
te mais fino e esquadrinhadores, aliado a pessoal treinado 
otimiza o beneficiamento local da madeira, além de reduzir o 
impacto na vegetação circundante. O complemento do tra- 
balho de extração da madeira é uma poda seletiva e correti- 
va de árvores danificadas, marcação da regeneração natu- 
ral, bem como introdução de espécies nativas de interesse 
econômico. 
Epqitas arhóreas necessitam de ambientes especlj"i- 
cos e criam inter-relações com a fauna que implicam em 
Situações com manejo em 
desenvolvimento 
Seguem aqui exemplos de desenhos possíveis para si- 
tuações bastante comuns as propriedades rurais da região cacaueira 
sulbaiana as quais apresentam várias possibilidades para a formação 
de sistemas agroflorestais sustentáveis e diversificados. 
As situações descritas, a seguir, incluem o relato de 
métodos em desenvolvimento, cujos resultados iniciais foram 
bastante promissores, e que estão amparados em sistemas 
produtivos já praticados na Fazenda Três Colinas, bem como 
baseados em observações feitas sobre sistemas espontâneos criados 
por agricultores em diferentes ecossistemas. 
Situação 1. Clareiras provocadas por quedas 
naturais dentro de roças de cacau.Essa situação é comum na região. Eventualmente, 
vendavais "podam" as copas das árvores do estrato dominante, 
num evento para o qual a vegetação nativa desenvolveu estratégias 
ao longo do processo de evolução. Em termos de possibilidade de 
dano e dificuldade de recuperação (entropia) por ventos, plantios 
homogêneos de eritrina e cacau são os mais suscetíveis, devido as 
características da eritrina (facilidade de quebra de galhos) e a 
arquitetura da formação vegetal como um todo, que é incompleta 
em relação aos estratos. Cabmcas nos moldes antigos (raleio da 
vegetação original eliminando-se os indivíduos de menor diâmetro) 
também são suscetíveis e, por último, matas degradadas pela ação 
de madeireiros. Fica claro que quanto maior a quebra da estmtura 
complexa da vegetação original, maior a suscetibilidade aos 
distúrbios causados por fatores climáticos. 
1. Critérios para a escolha do sítio favorável ii intervenção 
a) Estkgio da sucessão em que se encontra a vegetação. 
As "podações" naturais feitas pelos vendavais indicam o caminho 
a ser seguido: as árvores dominantes já maduras em parte ou no 
todo caem ou perdem parte da copa, ')odando9' os cacaueiros 
abaixo, gerando enorme cobertura de matéria orgânica no solo. 
Agricultores mais observadores usam estas áreas para renovação, 
plantando banana-da-terra. Temos a nosso favor a ecozona (mata 
ciliar) com todas as vantagens em temos de solo, matéria orgânica, 
umidade, ausência de gramíneas agressivas e condições de 
introdução simultânea de inúmeras espécies com finalidade 
alimentícia já nos primeiros estágios da sucessão. 
b) Radiaçao. Nas condições locais, onde as manhãs são, 
geralmente, mais encobertas e frescas, uma exposição voltada para 
o noroeste aumenta significativamente a quantidade de energia 
radiante recebida, principalmente, em áreas declivosas. Isso implica 
em um aceleramento de toda a atividade biológica, o que pode ser 
vantajoso em sistemas já avançados e com características de mata 
ciliar de base de encosta. Naquelas condições, uma exposição solar 
mais intensa permite uma maior produtividade por ocasião do 
rejuvenescimento do sistema. Já numa área menos exposta à 
radiação, algumas culturas, como o feijão e o milho, podem ter 
dificuldades ou diminuição de produtividade. 
2. Procedimentos 
Escolha de espécies e variedades. Após a obsemação dos 
critérios acima relacionados, o próximo passo é a escolha de espécies 
e variedades. Nas áreas analisadas, estas espécies foram: 
a) Milho (Zea mays) - usamos varietais, que estão ainda 
sendo testados nestas condições. Porte alto e tolerância a solos 
ácidos são características desejáveis. 
b) Feijão e Eeijão-caupi (Phaseolus e Egna) - E comum 
na região o uso de Phaseolus, (variedade carioquinha). Porém, nas 
condições do trópico úmido e para estes sistemas, a melhor opção 
são variedades de E p a (feijão de corda ou caupí) que produzem 
suas vagens de modo que elas ficam sobre a folhagem. voltadas 
para cima, evitando o excesso de umidade. Essa é a variedade 
utilizada na América Central, e a mais adaptada as condições de 
umidade e sombreamento típicos destes sistemas. 
c) Iilibisco (Malvaviscus sp.) - da família Malvaceae, o 
mais produtivo em termos de biomassa é a graxa-parreira ou graxa- 
de-estudante, comum nas propriedades rurais formando cercas 
vivas. Suas Rores são vermelho-vivo e não abrem, sendo muito 
procuradas por beija-flores pelo néctar. Essa planta tem grande 
potencial de rebrote, tolera sombreamento, sua Ror é comestível in 
natura e suas folhas têm grande valor forrageiro, principalmente, 
para cabras. Para o plantio, ela é preparada em estacas de 40cm, 
com uma ponta em bise1 e outra afilada. Outro gênero com potencial 
para o subtrópico é o A butillon spp. 
d) Capim elefante "enzsetum purpureum) - finção de 
produgão de biomassa e forragem Nesse caso, o esterco produzido 
pelos animais deve retomar à area Planta-se estacas de duas gemas 
ou de 30 a 40cm de comprimento 
e) Mandioca (Manrhot esculenta) - nestes sistemas, é 
plantada com função de produção de biomassa, folhas novas 
comestíveis com alto teor protéico, folhas desidratadas para 
alimento humano Estacas de 20-30cm Pode-se plantar em locais 
mais favoráveis aipim-manteiga ou outras variedades para raízes, 
abrindo pequenas covas 
f) Abacaxi (Ananas comosus) - a variedade Smooth 
Cayenne é mais indicada por sua adaptação para o processamento 
Variedades totalmente sem sernlhas ainda não f o r m suficientemente 
testadas, embora facilitassem o manejo Em relação ao efeito do 
sombreamento, mesmo sem a realização de experimentos formais, 
as obsemações nos últimos cinco anos mostraram que, nos sistemas 
agroflorestais, os f i t o s alcançam altos teores de açúcares, mesmo 
amadurecendo em sombreamento parcial Ainda como vantagem, 
a safra é mais larga em até dois meses (novembro a março), 
facilitando colheita e coinércio As mudas de rebento, que saem da 
base da planta são precoces em termos de produção, porém são 
mais difíceis de obter e desenvolvem frutos menores Usa-se 
normalmente mudas de filhote, que se desenvolvem na base do 
fiuto, sendo retiradas quando estão com 30-40cm, já que mudas 
maiores são mais fáceis de manejar quando há urna cobe&ura no 
solo As mudas devem ser plantadas no solo argiloso, nunca na 
camada orgânica, embora tolerem e se beneficiem desta após 
instaladas 
g) Cacau (Teobroma cacao) - C ) cacau é uma espécie 
praticamente espontânea nesta região, sendo inclusive disseminada 
por animais ao longo do curso de rios como o Rio Pardo 
Geralmente, é plantado de caroço nestes sistemas, buscando-se um 
leque de variedades, o que garantirá uma polinização mais efetiva 
h) Pataste (Teobroma brcolor) - oriundo da h a z o n i a , 
onde é conhecido como cacau-tigre, cacau-branco ou cacau-dos- 
-índios, o gataste convive muito bem com o cacau, ajudando a 
compor a multiestratificação que imitará o sistema natural Todo o 
fmto é aproveltável e tem grande potencial agroindustrial, sendo 
que as amêndoas podem ser consumidas secas ou torradas como 
nozes, sem necessidade de fermentação altmente produtivo (50 
a 80 arrobas de amêndoa secdha), de porle alto (até 15m) e os 
fmtos caem por si quando maduros Inicia a produção aos cinco a 
sets anos, junto com o cacau 
i ) Cupuaçu (Teobroma grand@orum) - também nativo d a 
hazon la , é mais rústico do que o cacau Pertence ao mesmo 
consórcno de sucessão do cacau, só que parece preferir areas mais 
secas que este, que chega a produzir em zonas de encharcamento 
periódico Nasce bem de caroço, chega a um porte de mais de I Om 
e inicia a produção aos cinco a seis anos, tendo muita procura para 
polpa congelada e confecção de um chocolate diferenciado, já 
registrado na Amazônia como "cupulate" Também e produtor de 
manteiga de qualidade comparável à manteiga de cacau 
j) Pupunha (Bactrrs gasspaes) - palmeira de grande 
produtividade, com fmtos comestíveis de alto valor alimentício, 
contendo bons teores de proteínas, óleos e carboidratos, além de 
uma grande porcentagem de fósforo livre I? o "milho" do sistema 
agroflorestal, iniciando a produção aos cinco a seis anos Existem 
muitas variedades, basicamente divididas nas originárias do Baixo 
e Alto Amazonas Existem ainda espécies pemanas e colombianas 
de fmtos grandes, maiores que uma laranja Planta-se por mudas 
quando há baixa disponibilidade de sementes Havendo quantidade 
suficiente, pode-se plantar sementes pré-geminadas, quando estarão 
menos apetecíveis aos roedores Além da pupunha, varias palmeiras 
nativas podem e devem também ser introduzidas, como já foi citado 
anteriormente 
1) Frutas tropicais, Aqui vamos enumerar uma pequena 
quantidade das espécies posslveis: 
1) Jaca (Artoearpus integrifolia), Abacate (Perseu 
americana), 6-á (Spondias dulcis), Mapati (Urticaceae), Mamão 
(Cavlea pagaya) plantado em mudas de 40-50cm, Limas, 
aàngerinas, Laranjas (Citrus spy), Abiu (Pouten;a torta), Sapoti 
(Sapotaceae). As espécies aqui citadaspodem ser plantadas 
imediatamente ou assim que forem disponíveis sementes. 
m) Cipós: Inhames. A variedade é grande, mas os mais 
aptos para esta situação são o inharne d'água, inhame-caratlnga. 
Anda entram aqui o maracujá (Pamrjora edulis) e o chuchu 
(Sechium eklrule). Essas plantas têm hábitos trepadores, porém não 
c L enforcam" as plantas e, sim, apoiam-se na vegetação que 
encontram, o que favorece o manejo da área. Como folha 
comestível, pode-se introduzir o ora-pro-nobis, conhecido 
localmente como barba-de-paca (Pereskia sg. Cactaceae), bertalha 
(Basella alba, Basellaceae) e couve-folha (BraL~sica spp, Brasslcae). 
n) Árvores. Entram num primeiro momento espécies 
apropriadas as condições de luniinosidade e matéria ogânica, como 
Ingá-Metro (lnga edulis Leguminoseae-Mimosoideae), Inga-Cipó 
(Inga afinnis) e Inga Tapaúna (Inga spp), Cmeira (Cytharexillum 
myrianthum, Verbenaceae) Guapumvu (Schzl~zobium parahyba, 
Leguminoseae-Caesalpinoideae), Pau d'alho (Gallesia irztegr!fol~a, 
Phytolaccaceae), Cedro (Gedrella odorata, Cedrella fissilrs, 
Meliaceae), Piti-cobra (Boraginaceae), Sumaúma (Cezbapentandra, 
Bombacaceae). Uma infinidade de outras espécies podem ser 
introduzidas nas etapas posteriores, quando as condições gerais da 
sucessão estiverem proporcionando habitat adequado. 
Preparo da área e plantio 
1) Retirar a madeira de importância econômica. Repicar 
os galhos remanescentes de modo a facilitar o trânsito pela área e 
um perfeito contato do material com o solo. Podar com corte limpo 
os cacaueiros com possibilidade de rebrote, sempre distribuindo o 
material o mais uniformemente possível sobre o solo. 
2) Em áreas de terra firme e boa exposição solar, plantar o 
abacaxi em linhas de 2,0113 x 0,50rn entre plantas. 
3) Plantar o malvavisco a 1,Om x 0,301~1 entre estacas 
4) Plantar o capim-elefante no espaço entre as linhas de 
hibisco (2,0131 x 0,40m entre estacas) 
5) Plantar o milho à ponta de facão na linha do hiblsco. O 
espaçamento ideal ainda é objeto de pesquisa. Os plantios já testados 
seguiram o espaçamento tradicional da região (1,Om x 0,8m entre 
plantas, 3 sementes). 
6) Banana a 4,Om x 4,0 m, visando toucelras duplas onde 
houver condições favoráveis. 
7) Árvores são plantadas de acordo com a disponibilidade 
de sementes ou mudas, sempre na linha de abacaxi, junto ao pé 
deste. Também se plantam os ingazeiros, erltrinas e sombreiros 
(&'litoria fairchildiana Howard, Eeguminosae-Papilionoldeae) na 
linha do hlbisco, entre as estacas. Quanto maior a disponibilidade 
de sementes, maior a densidade. O ideal é no mínimo a cada 30 cm 
uma semente. O estabelecimento dá-se de forma desigual e o stand 
final é determinado pelas condições do terreno e os nichos 
encontrados pelas árvores, o que imita o sistema natural. 
8) Fmtíferas plantadas de semente o são na linha do abacaxi. 
Espécies mais delicadas ou de sementes menos disponíveis podem 
ser plantadas como mudas, após a colheita do milho, na linha do 
abacaxi ou em pontos favoráveis do terreno. 
9) Os cipós são introduzidos também em sítios mais 
favoráveis as caracterísicas peculiares de cada espécie. 
Cronograma de manutenqão 
Janeiro. É o mês típico para ocorrência destes eventos. 
Isso reduz as chances de iniciarmos com milho (somente a partir 
de final de fevereiro) e feijão nestas áreas. Plantio da mandioca, 
capim-elefante, abacaxi, banana e cacau de caroço, em caso de 
estarem ocorrendo chuvas regulares. 
Junho. Poda do capim-elefante, mandioca, vegetação 
espontânea e cipós. Plantio de milho, feijão, malvavisco (graxa) e 
árvores de sombreamento. 
Novembro. Colheita do milho. Colhe-se as espigas e repi- 
ca-se o talo, cobrindo o solo. É feita nova capina seletiva e o ca- 
pim-elefante é cortado para fornecer material. 
Fevereiro. Novo cone do capim-elefante e capina seletiva. 
O período é de abundância de sementes de jaca, abacate, mapati, 
piti-cobra, cerejinha e outras nativas; portanto. as sementes serão 
introduzidos nesta época. Começo da colheita da banana e do 
abacaxi. 
Situagão 2: Falhas em roças de cacau (sítios onde os 
cacaueiros estão senescentes e improdutivos, pode haver 
falta total de sombreamento e considerável quantidade de 
ervas pioneiras) 
Diminuem as condições em termos de umidade, mas 
persiste um potencial de biomassa que pode ser rejuvenescida. 
Mudam parcialmente as espécies que podem ser introduzidas e 
estratégias. 
1, Critérios para a escolha do sítio favorável à intervenção 
a) EstcLgio da sucessáo em que se erlcontm a vegetaçl'o. 
A situação pode ser descrita assim: árvores de sombreamento 
mostrando sinais de decadência e maturidade, cacau com decadência 
evidente e sensibilizado a problemas fitossanitários, como 
ponteiramento, vassoura-de-bmxa, baixa produção, deslocmiento 
da produçgo para as pontas dos ramos, falta de vigor nos 
lançamentos novos. Estas situações ocorrem, geralmente, por 
manchas, em aceiros ou em sítios com sombreamento senescente. 
b) Radiaclo. Uma exposição voltada para o noroeste 
aumenta significativamente a quantidade de energia radiante 
recebida, principalmente, em áreas declivosas. Isso implica em um 
aceleramento de toda a atividade biológica, o que deve ser levado 
em conta na escolha e grau de adensamento de especies. 
2. Procedimentos 
ficolha de espkcícies e variedades. Dependendo do fator 
que predomina como causa do declínio do sistema, podemos 
selecionar pioneiras com maiores ou menores exigências em temos 
de solo, umidade, etc. 
Preparo da 5rea e plantio 
1) Roçar a area semeada, cor~ando as plantas maduras e 
distribuindo-as o mais uni-formemente possível sobre o solo, 
repicando-as de modo a facilitar o trânsito pela área e um perfeito 
contato do material com o solo. Plantar no centro da clareira o 
feijão de ponta de facão, no espaçamento convencional. 
2) Plantar o abacaxi em linhas de 2,Qm x 0,50m entre 
plantas. 
3) Plantar o malvavisco a 1,Om x 0,30m entre estacas 
4) Plantar o capim-elefante no espaço entre as linhas de 
malvavisco (2,Qm x 0,40m entre estacas). 
5) Plantar o milho à ponta de facão na linha do malvavisco. 
O espaçamento ideal ainda é objeto de pesquisa. Os plantios feitos 
até agora seguiram o espaçamento tradicional da região (1,Qm x 
0,8m entre plantas, 3 sementes). 
6) Banana a 4,0m x 4,0m, visando toucelras duplas onde 
houver condições favorkveis. 
7) Árvores são plantadas de acordo com a disponibilidade 
de sementes ou mudas, sempre na linha de abacaxi, junto ao pé 
deste. Também se plantam os ingaaeiros, eritrinas e sombreiros na 
linha do hibisco, entre as estacas. Quanto maior a disponibilidade 
de sementes, maior a densidade. O ideal seria no mínimo a cada 30 
cm uma semente. O estabelecimento dá-se de forma desigual e o 
stand final é determinado pelas condições do terreno e os nichos 
encontrados pelas ámores, o que imita o sistema natural. 
8) Fmtíferas são plantadas de semente quando possive'i, 
na linha do abacaxi. Espécies mais delicadas ou de sementes menos 
disponíveis podem ser plantadas, após a colheita do milho, na linha 
do abacaxi ou em pontos favoráveis do terreno. 
9) Os cipós são introduzidos também em sítios mais 
favoráveis As caracteríslcas peculiares a cada espécie. 
Cronograma de manutenção 
Junho. Plantio 
,lietembro. Colheita do feijão na maturação fisiológica 
Renovar a partes maduras da vegetação espontânea e introduzida, 
como folhas secas da bananeira, etc.(capina seletiva) 
Novembro. Colheita do niilho. Colhe-se as espigas e repica- 
se o talo, cobrindo o solo. 6 feita nova capina seletiva e o caplm- 
elefante é cortado para fornecer material. 
Fevereiro. Novo corte do capim-elefante e capina seletiva. 
O período é de abundância de sementes de jaca, abacate, mapati, 
plti-cobra, cerejinha e outras nativas. 
Junho. Poda do hibisco, capim-elefante, vegetação 
espontânea e cipós. Novo plantio de milho. 
Setembro. Se necessário, capina seletiva e renovação do 
capim-elefante. 
Novembro. Colheita do milho e capina seletivaDezembro a M a r ~ o . Colheita de banana e abacaxi, 
manutenção com capina seletiva, repicagem dos talos que 
produziram cacho e quejá retornaram a selva ao rizoma. Favorecer 
fmtíferas com o material. 
Animais no sistema 
Nestes ambientes, somente animais nativos não causam 
danos ao processo de sucessão. Se queremos produzir proteína 
animal, o melhor é orientar o sistema de modo que este produza 
resíduos e subprodutos que sirvam ao consumo animal. O animal 
passa então a f u e r parte do processo de reciclagem, mas como 
elemento artificial, e não Inserido à paisagem. 
Isso significa que muares, equinos, bovinos, suínos, 
capnnos, galinhas e patos não fazem parte da dinâniica de reciclagem 
de nutrientes da Mata Atlântica, não coevoluíram com ela e não 
podem ser criados soltos neste ambiente. Portanto, eles podem ser 
manejados à parte do sistema, que passa a ser direcionado de forma 
a produzir excedentes que possam ser consumidos por estes animais. 
Podemos introduzir espécies de duplo propósito 
(fertilização e consumo animal) como o capim-elefante e o sorgo- 
forrageiro. Podemos também pré-beneficiar algumas espécies como 
o malvavisco e a mandioca, secando suas folhas e preparando 
forragem. Nesta linha, existem outras espécies, desde arbustos ate 
árvores, que produzem folhas de alto valor forrageiro e que podem 
ser secas e armazenadas ou fornecidas verdes. A farinha de pupunha 
fornece excelente ração animal, assim como a jaca é excelente 
forragem para porcos. 
O que ternos que pesar ao elaborar estes sistemas é a relação 
custoheneficio. Sem dúvida, a produção de carne e Peite não é a 
vocação da Floresta Tropical Úmida, senão ela seria centro de 
origem para bovinos e caprinos. Dados obtidos no Baixo Amazonas 
confirmam a baixa rentabilidade dos sistemas de criação bovina 
(US$35/hdano para gado leiteiro no Sul do Pará e de US$ 19lhd 
ano para gado de corte)'. Portanto, a criação animal deve estar 
voltada para sistemas semi-intensivos de criação privilegiando 
pequenos animais e animais nativos. Animais de maior porte como 
bovinos podem ser criados, desde que visando uma economia 
comunitária, mas nunca como economia de mercado, uma vez que 
a rentabilidadelhdano somada com a degradação que os bovinos 
impõem à vegetação e solo não são compatíveis com o crescimento 
populacional, as necessidades de oferta de emprego e alimentação, 
além da questão crucial da presemação e manejo do patrimônio 
genético dos ecossistemas de florestas úmidas tropicais. 
O que pode produzir um sistema adulto 
Num exemplo como os que foram descritos aqui, inspirados 
nos sistemas desenvolvidos na Fazenda Três Colinas, Piraí do Norte, 
BA, a diversidade de espécies e o potencial produtivo são enormes. 
Portanto, vamos nos reportar apenas às espécies-eixo. Por ordem 
decrescente de importância: 
- Cacau (400-600kg de amêndoa secâlha); 
- Pataste (400-600kg de amêndoa secdha); 
- Bupunha (6.000kg para um espaçamento de 8mx8m); 
- Abacate, jaca e citrus irão depender do número de 
indivíduos e das condições do terreno, que variam muito nas áreas 
que basearam nossos cálculos; 
- Ornamentais, especiarias, medicinais. Havendo 
mercado e mão-de-obra especializada, mais estas espécies ganham 
em importância econômica. Infelizmente, não temos dados 
acumulados para estabelecer um padrão de ganho por área. 
- Madeiras nobres. Mesmo não sendo o objetivo 
fùndamental do sistema, pode-se esperar um retorno de pelo menos 
60m3 de madeiralha num prazo de 50 anos. Aos preços atuais, isto 
representaria um VM (valor agregado projetado) de R$ 1.200,00/ 
ha/ano. Para um cálculo no domínio da Mata de Araucarias, ern 
florestas virgens a densidade é em torno de 50 árvores por ha, das 
quais 30 com diâmetro acima de 45cm. Considerando uma média 
de 50 anos para alcançar este diâmetro, teríamos uma media de 
1,5m3 de madeira serrada por arvore, o que daria 45m3/ha somente 
com araucária, sem considerar cedro, canela-preta, imbuia, 
canjerana e outras2. 
Referências: 
'Para ir mais adiante, ver;4bordanens Interdiscipfinares para a Conservação 
da Biodiversidade e Dinâmica do Uso da Terra no Novo Mundo. Conservation 
Intemational do Brasil, Universidade Federal de Minas Gerais, University of 
Florida. Belo Horizonte, Brasil 1995. 
2Para ir mais adiante adiante, ver: Rizzini, Carlos Toledo. Áwores eA4adeiras 
Uteis do Brasil. Manual de Dendrolonia Brasileira. Editora Edgard Blucher 
Ltda, São Paulo, 197 1. Ver também: Inventário Florestal Nacional. Florestas 
Nativas-Rio de Janeiro, Espírito Santo. Ministério da Agricultura, Instituto 
Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, Dep nto de Economia Florestal. 
Brasília, 1984. 
Aqui vemos um faxina1 jú desprovido ria cobertura de 
araucárias. Porém, os indivíduos remanescentes aliados a uma 
baixa lotaçno (< de I U.A./ha) permitem um percentual razoável 
de regeneraçUo do sub-bosque, irzclusive com a presença de 
araucárias. 
Herdados de antiga;, tradições européias, 
os faxinais consistiam na posse coletiva de 
remanescentes florestais por um grupo de 
familias que ali criavam animais como 
bovinos, eyuinos e suinos. Assim como os 
poloneses a traiam com alirnento os 
bisontes (semelhantes aos búfalos das pla- 
nícies norte-americanas) europeus que se 
refugiavam do inverno nas jloresfas, de 
modo a eventualmente os utilizarem como 
fonte de alimento, nos faxinais cada fami- 
lia mantinha um ponto de forrageamento 
de seus animais, de modo a manter sobre 
eles um certo controle e domesficação. 
Com o passar do tempo, alguizs fatores 
começaram a acelerar a degradação des- 
te sistema: 
- a degradação rultural e a pressão eco- 
n0mica, em termos da renda/área; 
- a degradação dos recursos e oferta de 
alimento nos faxinais, com a retirada do 
estrato dominante de araucárias, que for- 
neciam grande parte do alimento parapor- 
cos e gado: 
- ao abrir o espaço para a insolação, hou- 
ve a entrada de gramineas de boa quali- 
&de, como a que mostramos anteriormente 
(página 145, foto "b"). Porém, o pastoreio 
impediu a regeneração de árvores e o sis- 
tema entrou em um processo de envelheci- 
mento precoce; 
- a erva-mate (Ilex paraguariensis), que 
propiciava uma renda complementar tam- 
bém entrou em decadência junto com O 
resto do sistema, diminuindo a prod~~ção 
de folhas. 
Hoje o des&o nestes sistemas é aplicar os 
métodos de S.A.F.R.A.'s (S is tema 
Agroflorestais Regenerativos Análogos) 
aj2m de evitar a perda total dos fairzais, 
que constituem refúgios de faunu e flora e 
ilhas de biodiversidade num mar de pas- 
tos, cultivos anuais e perda irreversivel de 
cobertura florestal. 
Já nesla foto podemos ver um faxina1 com lotação mais 
alta, e os sintonzas da decadência do sistema. No solo, a cobertu- 
ra é de gramineas estoloníferas, praticamente, não ocorre rege- 
neração e muitas árvores estão entrando em final de ciclo. O sis- 
tema conta com erva-mate nativa, tambkm com produtividade bai- 
xa. A boa fertilidade do solo e o tewipo relativamente recente 
(< de 40 anos) de ocupação ainda mascaram os <feitos do corte 
da regeneração natural e da estrutura da mata, com a retirada 
quase que total das araucárias. Nas condições Amaz6nicas, estes 
processos são muito mais acelerados na razão proporcional da 
fertilidade natural, temperatura e ciclos de chuvas. 
Capítu 
Diagnóstico e desenho 
"Diferentemente dos sofistas, Sócrates não se apresenta como professor. Pergunta. não 
responde. Indaga. não ensina. Não faz preleções, mas rntroduz o drálogo como forma de 
busca da verdade (...). Dizia que a escrita é muda e que sua mudez crisralrza idéias corno 
verdades acabadas e indrscutiveis. (...) " 
Marilena Chaui.Introdução a História da Filosofia dos Pré-Socráticos a Aristóteles.Volume I , 
Brasrliense, 1994. 
"O que é bem conhecrdo, justamente porque e bem conhecido, não é conhecido". 
Hegel. Citado por EdgarMorin in OMétodo 111. O conhecrmento do conhecrmento. Europa- 
Amérrca. 1986. 
Procuramos ao longo dos capítulos anteriores descreveras "peças" da engrenagem que irá produzir sistemas agroflorestais 
que podem resultar em conservação de energia e recuperação 
ambiental, e que têm chances de adoção pelos agricultores. 
Da introdução ao Capítulo I, procuramos dar a base 
filosófica que norteia sua construção. É neste espaço que 
apresentamos como aprendemos a ver o que chamamos de 
"agricultura" através dos séculos, e por que a vemos assim. Esse 
conjunto de informações históricas, sociais e culturais buscou clarear 
o contexto do desenvolvimento da cultura humana e de como ela 
influiu nas relações das sociedades com os ambientes naturais. 
Em todo o Capítulo 11, trabalhamos com conceitos de 
eneqia, bem como abordamos as estratégias das formas vivas em 
sua interação com o meio Císíco. Desses conceitos geramos algumas 
ferramentas básicas que nos permitirão instalar e manejar os 
sistemas, como sucessão de espécies e consórcios, podas, etc. Este 
conjunto de conceitos e ferramentas nos ajuda a entender o meio 
natural através da análise dos seus mecanismos de hncionamento 
(conceitos), e as pistas para o desenvolvimento de técnicas 
(ferramentas) para uma relação homedambiente mais equilibrada 
O Capítulo 111, buscou identificar elementos obrigatórios 
para um método de construção do saber coletivo Para isso, foram 
apresentados conceitos e roteiros para entender os sistemas 
produtivos, os ambientes e os agroecossistemas resultantes. A 
abordagem foi na forma de exemplos referendados em trabalhos 
práticos na Mata Atlântica Sulbaiana 
Daqui para a frente, vamos tentar dar um corpo sintético a 
este método, onde usaremos todas as ferramentas que ja conhe- 
cemos, do diagnóstico a implantação a campo de um sistema. 
incluindo aí seu acompanhamento e estratkgias de difusão. Do 
mesmo modo, aplicaremos os conceitos explanados para mostrar 
como poderemos gerar as ferramentas que forem necessárias para 
cada nova situação a ser enfrentada 
Do plano até o desenho de um sistema agroflorestal temos 
um roteiro de princípios que são bastante gerais O que vamos criar 
com base nestes princípios terh repercussões na cultura, na per- 
cepção do ambiente, na economia e em interesses internos e externos 
a coinunidade E por isto, todos os momentos, da concepção à 
aplicação, devem ser compartilhados com os maiores interessados 
- os agricultores. 
Sistemas agroflorestais regenerativos envolvem sucessão 
de espécies, consórcios, plantas com múltiplas hnções e um sem- 
-número de interações. Enfim, toda a série de conceitos que vimos 
até agora. Porém, seja um sistema agroflorestal sustentável ou a 
propriedade rural como um todo, o plano e o desenho devem estar 
baseados nos mesmos princípios de autonomia e intercomple- 
mentaridade, construidos a partir de um diagnbstico sócio-eco- 
nômico e ambiental, que será a base de nosso trabalho 
Passos para um diagnóstico: 
um exemplo de método 
A sensibilização 
Qualquer trabalho numa comunidade prevê um período 
de sensibilização. Ela pode ser facilitada ou complicada via fatores 
externos, como uma conjuntura econômica que cria uma demanda 
concreta para modificações, em função da falência econômica dos 
sistemas em uso. A sensibilização pode ter origem interna, face à 
percepção da degradação de recursos naturais. Grupos de agri- 
cultores preocupados com o futuro das fontes de recursos que 
sustentam seus sistemas criam demandas frequente^',^. O primeiro 
passo é a identificação desses aliados no processo de mapear as 
pessoas, grupos e instituições que estão sensibilizadas ou que já 
atuam de certo modo, procurando então articular os potenciais, 
montar estratégias e definir por onde iremos começar, em termos 
das comunidades e ambientes naturais. 
Primeira fase: gerar Indicadores e uma tiplficação 
A primeira pergunta é: qual é o oketivo do diqnóstlco 
parlieipativo? No nosso caso específico, a resposta é constniir a 
base de saberes coletivos de maneira participativa que pode nos 
levar a alcançar a sustentabilldade econômica, social e ambienta1 
dos sistemas produtivos levantando prioridades e constmindo 
soluções com a comunidade que demanda o processo. 
A segunda pergunta é: apadr dos d a h p r o d u ~ d o s , quais 
as ferramentas de transformação que estamos querendo 
construlir? Uma das ferramentas, no caso específico que estamos 
tratando aqui, são os sistemas agroflorestais regenerativos Ela irá 
surgir dentro de um contexto de transformação criado em conjunto 
com os agricultores, e não como uma formula pronta, uma receita 
que irá se sobrepor aos '"neficientes" sistemas tradicionais. 
Definidos os ob~etlvos, vamos partir para o método. Para 
os agricultores, o diagnostico rápido participativo apresenta-se 
como uma análise compartilhada dos sistemas atuais de uso da 
terra, com o objetivo de explorar os potenciais e superar as limi- 
tações dos sistemas em uso, através de melhorias e transformações 
no que não está funcionando. 
Construindo um diagnóstico com os agricultores 
Qual 4 o owetivo geral do diagnóstico? 
Qual é o objetivo específico que vai dar a partida no processo? 
. > 
Quais são as fermentas de transformação que estamos querendo gerar? 
Objetivo 
Conhecer os sistemas de uso da terra, suas relações culturais, econômicas e ambientais 
Gerar indicadores. 
Gerar uma tipificação dos sistemas e das famílias envolvidas. 
Perguntas orientadoras 
Como se distribui o uso atual das áreas e que ambientes ocupam? 
Como se distribui a mão-de-obra nestas áreas ao longo do ano? 
Qual é a renda bruta que estas atividades geram ao longo do ano? 
Preparação da devolução aos agricultores 
Análise dos dados obtidos e geração de perguntas orientadoras para a próxima etapa. 
Indicadores obtidos 
Relação para cada sistema de produção entre rendahão-de-obra/área/ano 
Tipificação obtida 
Atividades principais associadas a ambientes. 
Faixas de renda dentro do grupo trabalhado. 
Objetivo 
Criar uma visão compartilhada dos sistemas produtivos em uso 
Identipcar causa/efeito. 
Devolução para a comunidade do Indicador e Tipificação 
Apresentar material de fácil visualização representando a fipficação de modo a motivar a problematização. 
Problematizaçãolperguntas orientadoras 
Pe~unta-chave: O que determina que sejam estes os cultivos adotados? 
Agrupar as respostas em: I) papel econômico dos sistema; 2) papel social e cultural; 3) sustentabilidade em 
relação aos recursos naturais. 
Agrupamento de idéias 
Papel econômico: a renda bruta reyete-se na renda liquida? Por quê? 
Papel social e cultural: como aprendemos o que hoje fazemos e como aperfeiçoamos e transmitimos este 
conhecimento? 
Sustentabilidade: qual é a percepção geral da interação (positiva ou negativa) de cada um dos sistemas 
atualmente em uso? 
Inter-relação entre as idéias 
O que fazemos?(con$rma ou desmente a tipijkação dos sistemas produtivos) 
Por que fazemos? (clareia a lógica de adoção dos sistemas) 
Quais são os limites e potenciais do que estamos jazendo? (cria a expectativa de gerar propostas). 
Objetivo 
Gerar técnicas, itinerários novos, sistemas técnicos. 
Delinear estratégia para a sustentabilidade dos sistemas produtivos. 
Amarração de causas e sintomas 
Como aprendemos e transmitimos cada um dos sistemas atuais? 
Quanto trabalhamos, como trabalhamos e o que gastamos em recursos ($ e ambientais) com estes 
sistemas? 
Que tipo de impacto eles causam nos recursos naturais? 
Problematizaçãolperguntas orientadoras 
De cada um dos sistemas atuais, o que devemos manter e o que devemos mudar em relação a: 
- I) Técnicas isoladas? - 2) Itinerário técnico? - 3) Sistema como um todo? 
Definir estratégia 
Por onde vamos começar em relação ao ponto 1, 2 e 3? 
Detalhar plana de ação 
O que precisamos para alcançar estes objetivos?(ao nível individual, do grupo, da extensão, 
das instituições de crédito e políticas públicas). 
Quem, quando, onde,como? 
Como vamos avaliar o caminho percorrido e replanejar o que for necessário? (quem, quando, onde, como) 
A técnica para levantar essesdados pode ser a colocação 
de perguntas orientadoras para discussão: 
Como se distribui o uso atual das areas e que ambientes 
ocupam? A resposta deve ser traduzida em hectares, e os ambientes 
descritos pela tipologia adotada pelos agricultores, tais como 
baixada, várzea, encosta, "chato", etc. 
Como se distribui a m&-de-obra nestas áreas ao longo 
do ano? A resposta deve ser transfomada em diárias. Consideramos 
a diária como oito horas de trabalho de um adulto. 
Qual é a renda bruta que cada uma destas atividades 
gera? A resposta 6 complexa para sistemas com muitas inter- 
-relaçOes. Associando o roteiro de mão-de-obra ao resultado 
econômico pdemos definir que um conjunto de produtos constitui 
um sistema dentro da lógica do agricultor. A renda bruta é a renda 
do sistema, por exemplo, milholfeijão, e não de cada produto em 
separado. 
De posse das respostas trabalhadas pelo grupo, dois pontos 
chaves são levantados: 
- ah"vidades principais, que são os sistemas técnicos 
associados a ambientes; 
- @&as de renda por ativilkade e, porlanto, dentro do 
grupo a ser trabalhado; 
Esses pontos permitem criar uma tipificação e uma relação 
para cada sistema básico em termos de rendhão-de-obra investida1 
área (R$ldiaslhomemlhecrare). Este ponto cria um retrato eco- 
nômico dos sistemas, ao mesmo tempo que identifica que ambientes 
eles ocupam. 
Segunda Fase: 
criar uma visão compartilhada dos sistemas produtivos 
De posse da tipificação e dos indicadores em R$/dias/ 
homedhaJano o próximo passo e a devolução desses dados aos 
agricultores. A análise dos resultados pode ser feita com uma 
problematização, cuja ferramenta e uma pergunta orlentadora eixo, 
que originará os três pontos básicos para compreender cada um 
dos sistemas em suas mazelas e potenciais. 
A pergunta-chave é: o que determina que seJam estes os 
culh'vos adotados? 
As respostas podem ser agmpadas em três eixos básicos: 
1) 0 papel economico dos sisfemas. 
Para aprohndar, pelo menos 2 perguntas: 
A renda bruta reflete-se na renda líquida? 
Dos sistemas e seus produtos, quais são os potenciais e 
quais são as limitações que percebemos? 
2) O papel social e cullural. 
Uma única questão geradora: 
Como aprendemos o que hoje fazemos e como estamos 
aperfeiçoand'o e transmitindo este corllhecimento? 
3) A sustentabiSdade em relag.&o aos recursos naturais. 
Qual 6 a percepçh geral dã interação @ositiva ou 
negativa) de cada um dos sistemas atualmente em uso? 
O produto desta segunda fase, além da análise e 
aprohndamento de nossa visão dos sistemas produtivos, é ligar os 
fatores sócio-culturais, econômicos e ambientais como elementos 
formadores do agroecossistema. Em suma, o que fazemos, por que 
fazemos e quais os reflexos deste "fazer". 
Terceira fase: 
o que sahemos como é gerado podemos tmnsformar 
Esta é a fase de geração de respostas. Para isso, precisamos 
amarrar os três níveis de influência que criam um sistema: 
- como aprendemos e transmitimos os sistemas atuais; 
- o quanto trabalhamos, como trabalhamos e o que 
gastamos com esses sistemas; 
- que tipo de impacto eles causam na base de recursos 
naturais. 
O produto dessa amarração é riquíssimo. Os resultados 
oferecem um leque de possibilidadas de temas para a comunidade 
desenvolver. Como estamos direcionando o texto deste livro para 
a constmção de uma das ferramentas de transformação que são os 
sistemas agroflorestais regenerativos, podemos colocar os sistemas, 
atualmente, em uso numa gradação quanto à sua sustentabilidade, 
considerando os três níveis citados acima. Esta gradação poderia 
ser de um nivel cítimo (sistema perfeito, deve ser mantido tal e 
qual) até um nivel péssimo (atualmente, comprometerá a 
sobrevivência das famílias e deve ser inteiramente substituído). É 
neste gradiente que surgirão os "'ganchos" para recrimos, baseados 
nos princípios regenerativos, sistemas agroflorestais adaptados a 
cada realidade específica, de maneira compartilhada com a 
comunidade. 
O nosso produto nesta terceira fase é muito grande. Para 
não perdermos a objetividade, temos que ter claro em quais sistemas 
podemos intervir de imediato e dimensionar nossa estratégia no 
tempo e no espaço. Para o caso específico dos sistemas agrofio- 
restais regenerativos, aparecerão aqui três níveis crescentes de 
adoção de princípios regenerativos: 
- técnicas isoladas que podem ser integradas a sistemas 
tradicionais melhorando sua eficiência, 
- i~nerhr ios técnicos (seqiiência ordenada de técnicas) 
que irão modificar parcialmente o resultado de sistemas tradicionais 
em uso, 
- sistemas técnicos, onde todo um conjunto ordenado de 
roteiros é adotado, mudando completamente um determinado 
sistema dentro da propriedade e a própria orientação da propriedade 
ao longo do tempo. 
Esses níveis são dinâmicos entre si. O sucesso de uma 
técnica pode conter a chave da compreensão para a mudança de 
todo o sistema. Uma comunidade pode começar preservando a 
regeneração em áreas de cultivos anuais e chegar a adotar sistemas 
agroflorestais complexos, rotações e zoneamento de áreas, 
chegando a processamento e comercialização, ao longo de uma 
caminhada de alguns anos. Tendo em mente essas condições, 
podemos partir para uma estratégia conjunta para gerar técnicas, 
itinerários e sistemas, que é nosso passo seguinte. 
Critérios para o plano e desenho 
Ambientes bastante diversificados em termos de solo, 
relevo e umidade produzem sistemas de uso do solo bastante 
complexos. Na mesma lógica, ambientes homogêneos facilitam a 
implantação de sistemas de zoneamento de cultivos mais simples. 
O zoneamento de ambientes agrícolas em áreas de Iatossolo 
em relevo acidentando, como é o caso da Mata Atlântica, gera o 
tipo de zoneamento complexo. Nos sistemas tradicionais, a falta 
de um hist~rico de convivência com o ambiente, numa cultura 
repassada através das gerações pode induzir a uma degradação 
rápida e acentuada de recursos, enquanto que o inverso também é 
possível: técnicas sustentáveis incorporadas na culhira agrícola local, 
que poderão vir a ser nosso ponto de partida. 
A proposta de zoneamento para orientar a instalação dos 
sistemas agroflorestais que tratamos aqui leva em consideração 
ambientes bastante diversificados. onde três critérios básicos são 
usados para o zoneamento: 
Distância da sede. A facilidade ou dificuldade de acesso 
determina sistemas técnicos com atividades mais pontuais, que não 
exijam intervenções frequentes. Conseqüentemente. é mais fácil 
para o agricultor aceitar uma maior convivência com a regeneração 
natural. 
Protegão de áreas críhcas. Dentro deste conceito estão 
topos e testas de morros, margens de mananciais e cabeceiras de 
nascentes, bem como formações sobre solos extremamente frágeis 
ou endêmicas de uma região. Matas ciliares e recursos hídricos são 
protegidos por leis que não são cumpridas. Porém, sem criar 
alternativas de renda fora destas zonas ou viabilizar determinadas 
atividades dentro delas nunca teremos como proteger estes recursos 
Esse é um ponto chave para a adoção destes sistemas 
Disponibilidade de nutrientes, umidade e insolação para 
os cultivos. A busca desta combinação é o eixo da agricultura 
tradicional, aliada a facilidade de acesso 
Os zoneamentos do agricultor utilizam o primeiro e o 
último cntério como base. Cabe ao nosso trabalho incorporar o 
elemento de conservação das fontes de recursos, se ele não estiver 
presente no zoneamento tradicional. Problemas de declividades 
acentuadas, tradicionalmente utilizados como zoneadores para 
capacidade de uso do solo colocariam grande parte das populações 
rurais em zonas montanhosas como ilegais. Para isso, são 
desenhados os sistemas agroflorestais com movimentação zero do 
solo e arquitetura e fùnção análoga à vegetação original podem 
superar este critério, deixando de torna-lo impedimento ao manejo 
destas areas Porém. não se deve ignorar áreas de risco, em solos 
sujeitos a deslizamentos ou de equilíbrio nutrientes-vegetaçãodelicado, onde pequenas intervenções causam grandes alterações 
Zona 1. O a 10% de intervenção, são áreas de matas ciliares, topos de morros, 
cabeceiras de nascentes, manchas de solo frdgil e, eventualmente, faixas de 
divisa com outms propriedades. São áreas de preservação permanente ou de 
manejo extrativista legalizado. Estes corredores da vida selvagem formam 
bancos genéticos vivos essênciais à sobrevivência de todas as espécies, inclu- 
indo a que se autodenomina Homo Sapiens Sapiens. 
Zoneamento por Intensidade 
de intervenqão 
O objetivo do zoneamento é identificar 
qual é o contexto onde irá se desenvol- 
ver o sistema que estamos propondo. 
Seus dois critérios básicos são grau de 
intervenção na vegetação nativa e dis- 
tância da sede. O primeiro é determina- 
Zona 2. 10 a 30% de intervenção, são áreas pontuais nas bordas das 
áreas de preservação permanente onde ocorrem clareiras criadas por 
a madeira mais grossa e pressupõe a serragem no local, para evitar 
danos. Espécies nativas de múltiplos interesses (jrutljcems, medicinais, 
maderáveis, fibras) podem ser introduzidas, afim de aumentar o 
percentual da regeneração natural, introdução de espécies exóticas de 
interesse ou adensamento de nativas. 
As zonas por este critério podem ser assim arbitradas: 
Zona I . Intervenção de O a 10% São as faixas de mata 
ciliar, nascentes e suas cabeceiras, áreas críticas em termos de 
declividade ou de dificil acesso. São corredores da vida selvagem e 
bancos genéticos vivos. Um planejamento regional de preservação 
da biodiversidade e vida selvagem deveria prever uma interligação 
entre todas estas áreas, de propriedade a propriedade. 
fina 2. Intervenção de 10 a 30%. São sistemas naturais 
com manejo seletivo e adensamento de espécies de interesse 
econômico em clareiras naturais ou abertas para aproveitamento 
pontual de árvores secas ou em final de ciclo. Os castanhais da 
Amazônia podem ter sua origem neste tipo de zoneamento, assim 
como o pequi e o jatobá em determinadas áreas dos cerrados. 
Zona 3. Intervenção de 30 a 60%. São sistemas agro- 
florestais mistos com predomínio de especies introduzidas e manejo 
de determinadas espécies nativas. 
Zona 4. Intervenção de 60 a 80%. São sistemas agro- 
florestais que afetam ou substituem de 60 a 80% da vegetação 
original, incluem plantios de cultivos anuais ou bianuais e recebem 
manejo semi-intensivo, como podas, replantios, colheitas sucessivas. 
Zona 5. Intervenção de 80 a 100%. São áreas de total 
transformação da paisagem inicial, como as áreas próximas as 
habitações, hortas, quintais agroflorestais, ou sistemas agroflorestais 
de ciclos curtos, como cultivos de grãos entre aléias, sistemas de 
forrageamento animal, pequenas áreas de insolação e pasto para 
animais domésticos, etc. 
O objetivo do zoneamento é identificar qual e o contexto 
onde irá se desenvolver o sistema que estamos propondo. Isso não 
implica em zonas estanques. Afora as áreas de preservação 
permanente que constituam a reserva legal da propriedade, nada 
impede que um sistema inicialmente instalado numa zona de 
intervenção alta (Zona 4, de 60 a 80%) venha a evoluir para um 
sistema do tipo da Zona dois ou três. (de 60 a 10% de intenienção). 
Portanto, a perspectiva é de que estamos buscando uma 
predominância de determinado tipo de técnicas e itinerários para 
algumas áreas, visando: 
- economia de mão-de-obra; 
- aumento do retorno em alimentos e renda da mão-de- 
obra e recursos investida; 
- conservação e regeneração dos recursos naturais e da 
biodiversidade. 
Sistematizar o eonlieeimento 
para poder aperfeiçoá-lo 
A seqüência de informações sobre as espécies que temos 
que ter em mãos para manejar com sucesso um sistema agroflorestal 
é bastante grande. Mas, paradoxalmente, pode ser obtida em grande 
parte com os próprios agricultores, em conversas informais. Uma 
vez que definimos quais são os produtos de interesse básico em 
cada uma das etapas do sistema e tivermos informações sobre elas, 
as outras espécies podem ir se agregando na prática, ao longo do 
processo. 
Tomemos como exemplo um sistema bastante tradicional 
de anuais, bianuais, produtos de curto, médio e longo prazo, como 
as roças indígenas. 
No cuHo prazo, o eixo são feijões, milho, batata-doce e 
mandioca. Inhames também são de interesse, mesmo que em menor 
escala. As ervas, rebrotes, regeneração natural e cipós são com- 
ponentes do sistema, mas não são o eixo. 
No mé&oprazo, abacaxis, bananas e mamões são o eixo. 
Vários rebrotes irão surgir e a regeneração tomará corpo. Espécies 
de longo prazo serão introduzidas. 
No longo prazo, castanheiras, jatobás e ingazeiros passam 
a ser o eixo, além de algumas palmeiras e cipós. Uma miríade de 
espécies forma o conjunto e é essencial para o sucesso da instalação 
destas espécies citadas, mas não são o eixo desta fase. 
Portanto, ao botar no papel um sistema, devemos ter bem 
claro o que cada etapa poderá produzir, a que fim se destinam 
estes produtos e quais são os coadjuvantes fundamentais, em termos 
de ervas, arbustos, cipós e árvores para que todo o consórcio 
prospere. 
Informação básica para sistematização 
Nome do sistema 
Esta é uma informação direta do agricultor. O sistema 
chama-se "feijão abafado", "café sombreado", etc. 
Zona de implantação 
Deve se ter em mãos um zoneamento, do tipo que foi 
proposto aqui. Não há um padrão rígido, mas, sim, princípios de 
sustentabilidade social, economica e ambiental. 
Lista de espécies 
Nome O nome popular é mais importante num primeiro 
momento. Sua classificação botânica é interessante e deverá ser 
incluída na medida do possível. 
Arquitetura da espkcie. Mesmo um desenho do agricultor 
serve para identificar a forma. Na sequência poderemos agregar a 
designação botânica para esta forma, com detalhamentos. 
Reprodução. São duas informações. Primeiro, qual é o 
tipo de reprodução, no conhecimento popular (estaca, muda de 
raiz nua, semente, pedaço de raiz, muda com torrão, etc). A segunda 
é o agente dispersor (roedores, pássaros, vento, inundações, animais 
domésticos). 
Densidade por unidade de área (ha). Para o caso das 
espécies exóticas, essa é uma informação bastante fácil. Para 
espécies nativas, um inventário é necessário, mesmo que realizado 
de forma simplificada em áreas de intervenção legal. Isso é 
fundamental para todas as espécies silvestres que se~am submetidas 
a podas, coleta (epífitas, nozes e cones, frutos, raízes e cascas) ou 
manejo madeireiro. Sem isso, seria irresponsável propor um "manejo 
sustentável". 
Formas de uso 
Refere-se aos usos adotados atualmente, potenciais, 
limitações. Por exemplo: se a espécie é usada como fertilizadora 
de alto poder de rebrote, casca medicinal, frutos para consumo in 
natura e processamento, que tipo de processamento é usado, etc. 
O grau de detalhamento de espécies coadjuvantes é mais uma 
questão de tempo e conhecimento do que imperioso para instalar o 
sistema. 
Tempo até o uso 
A velocidade de desenvolvimento de deterniinadas espécies 
obedece a padrões climáticos locais, está ligada a um zoneamento 
correto e a um consórcio adequado. Informações acadêmicas podem 
ter sido obtidas em situações artificializadas (arboretos, 
monocultivos), que devem ser checadas nas condições naturais 
locais, roças abandonadas e quintais agroflorestais tradicionais. 
Os demais pontos para sistematização seguem no esquema 
proposto nas páginas seguintes. 
Proposta para relato sintético de 
Sistemas Agroflorestais Regenerativos Analogos (SAFRA'S) 
Nome do Sistema Qual é o nome adotado pelos agricultores ou qual foi o Zona de implantação* 
nome "publicitário" adotado para o sistema? 
se possível class~icação prevista neste sistema.? 
botânica família, gênero e sistema?Exemplo: a Quais são os usos conhecidos 
espécie. aiaucária até os 12-20 localmente e quais são os 
tem forma cônica e copa potenciais? Existe 
adensah, tomando a processmento indicado ou 
guarda-chuva invertido Qual é o potencial deem sua fase adulta. 
*Qual é a intensidade de interven~ão inicial na vegetação nativa que o sistema pressupõe e qual é o grau de freqüência e intensidade de mão de obra? 
Propomos o critério apresentado no anexo 1 . 
Folha 1lDescrtção de espécies exóticas 
Descrever a forma: Qual é a densihde por Quando começa e quando 
planta dióica ou área recomendável para o termina o ciclo produtivo 
monóica, reproduz por sistema que esta sendo desta espécie no sistema? 
raiz, rzzoma, tubérculo, descrito.? A espécie Qual é a época de 
galho. sementes, etc. adapta-se a povoamentos colheita prevista para este 
Citar capacihde de adensados ou necessita produto? Quanta mfio-de- 
pega/germinação/tempo estar esparsa dentro de -obra gasta-se por 
possivel de estocagem e consórcios? Exemplo: quantidade de prodz~to 
formas conhecidas de mogno, cedro e outras 
estocagem espécies não-formam 
adensamentos. Bambus, 
helicônias, algumas 
pioneiras, bem como 
algumas frutiferas nativas 
formam povoamentos. 
Proposta para relato sintbtieo de 
Sistemas Agroflorestais Regenerativos Análogos (SAFRA") 
Nome do sistema Qual é o nome adotado pelos agrzcultores ou qual foz o Zona de impiantag&* 
nome '~u61zcztárzo" adotado para o szstema? 
Nome popular da espécie e Qual é a forma que a Descrever a forma: 
se possível classificação 
botânica família, gênero e monóica, reproduz por 
espécie. raiz, rizoma, tubérculo, 
galho, sementes, etc. 
Citar capacidade de 
pega/germinação/tempo 
possível de estocagem e 
formas conhecidas de 
*Qual e a intensidade de intervenção inicial na vegetação nativa que o sistema pressupõe e qual e o grau de frequência e intensidade de mão-de-obra? 
Propomos o critério apresentado no anexo 1 
Folha I-/Descrição de espécies nativas 
> 
prevista neste sistema? 
Quais são os usos conhecidos natureza? Levantamentos Quais são os usos 
localmente e quais são os florísticos e ecologia da conhecidos localmente e 
potenciais? Existe espécie são fundamentais quais são os potenciais em 
processamento indicado ou para as especies a serem estudo?Existe processamento 
conhecido? manejadas. O saber local conhecido? Qual é o 
Qual é o potencial de indica possibilidades e potencial de mercado? 
mercado? pode basear deras de Qual é a época de colheita 
prevista para este produto .? 
participativa, mas a Quanta mão-de-obra 
difusão déstes manejos gasta-se por quantidade de 
deve estar baseada em 
&dos consolidados e 
juridicamente aceitos. 
Proposta para relato slnt4tilco de 
Sistemas Agroflorestais Regenerativos Análogos (SAFRA'S) 
Nome do Sistema Qual é o nome adotado pelos agricultores ou qualfoi o Zona de implanta$&* 
nome '>ublicitário" adotado para o sistema? 
Caracterização dos sistemas 
tradicionais da região 
Sistema tecnico vigente onde 
se encaixa o S A F U 
Roteiro técnico do sistema 
tradicional ao longo do ano e 
mão-de-obra usada (diáriaslano) 
Tamanho médio das 
propriedades, principais 
atividades, percentuais do 
uso da terra por atividade ou 
ocupação (descvevendo o 
estágio de sucessão das 
áreas não-ocupadas, 
atualmente, com atividade 
agrícola), faixas de renda, 
tamanho médio das famílias. 
Qual é o sistema 
tradicional em que esta 
técnica, itinerário ou 
sistema irá interferir? 
Por exemplo, cafezal, 
pastagem, olericultura, 
fruticulura, etc. 
Descrever. 
I 
, Descrever o roteiro ligando 
ativihde a épocas do ano, 
mão-de-obra relacionada por 
área. Descrever a renda 
bruta esperada na atividade 
por área/ano. 
*Qual é a intensidade de intervenção inicial na vegetação nativa que o sistema pressupõe e qual é o grau de freqüência e intensidade de mão-de-obra? 
Propomos o critério apresentado no anexo 1. 
Folha 3/8escri~ão do sistema técnico 
3' 
Técnicas novas que foram 
roteiro do sistema tradicional e introduzidas no itinerário 
mão-de-obra necessária para este novo sistema 
Em qual parte do roteiro Descrever a técnica 
foram introduzidas relacionando-a com a ilustrá-la com desenho ou 
modrficações para se chegar técnica que ela substitui. 
ao objetivo esperado? Quais materiais e custos, além 
as implicações destas de eventual necessidade 
mudanças na mão-de-obra de treinamento especifico 
total necessária para 
completar o roteiro? 
Proposta para relato sintético de 
Sistemas Agrofiorestais Regenerativos Blntíilogos (WAFBA"s) 
Nome do Qual é o nome adotado pelos agricultores ou qual foi Zona de irnplantaçh* 
o nome '$ublicitário" adotado para o sistema? 
O desenho mostra quais as Este é um momento de Novamente, existe a abertura 
espécies presentes na 
e introdução de outras. deve mostrar a nova situagão. 
Hcí uma mod@cação e 
complexificação do desenho 
*Qual é a intensidade de intervenção inicial na vegetação nativa que o sistema pressupõe e qual é o grau de freqüência e intensidade de mão-de-obra? 
Propomos o critério apresentado no anexo 1. 
i Folha 4IDescrição e desenho da sistema tecnico 
a 
I 
4 Este desenho deve mostrar como o 
sistema encontra-se no início da fase 
produtiva das espécies perenes, e qual 
o manejo recomendo para o resto do 
srstema. 
1 ' 
A colheita de espécies de ciclo longo, como as 
madeiráveis, pressupoõe intervenções fortes, que 
renovam boa parte do sistema onde se realiza a 
colheita. A descrição e desenho deve mostrar 
como ficará a nova distribuição de espécies, após 
a retirada ou colheita destas espécies de ciclo 
longo. 
Análise eeon6rniea dos sistemas 
Como já foi dito, sistemas agroflorestais regenerativos são 
via de regra compostos de dezenas de espécies que se sucedem em 
consórcios. Esses consórcios interagem entre si desde a implantação, 
e não existem ciclos fechados de plantio, manutenção e colheita. 
Essa característica de multiplicidade de etapas dentro de uma mesma 
área criou barreiras aos conceitos clássicos de acompanhamento 
econômico de propriedades. 
A administração econômica-agrícola-clássica nasceu nos 
sistemas agropastoris da Mesopotâmia, há mais de 6.000 anos, 
adaptada aos sistemas agrícolas vigentes. Esses sistemas, baseados 
em cultivos de grãos em áreas de irrigação ou em climas 
marcadamente sazonais e rebanhos manejados adaptam-se a uma 
administração de poucas variáveis. São ciclos definidos no tempo 
(safras, ciclos de nascimento, desenvolvimento e abate) e no espaço 
(áreas pastoris, áreas agrícolas, rotações com poucas variáveis). 
Como continuadores da tradição mesopotâmica, 
continuamos querendo adaptar sistemas complexos, como os que 
permitiram a existência de civilizações complexas na Ásia Tropical 
e Novo Mundo, a um sistema administrativo criado para cultivos 
sazonais de grãos e animais. Para o agricultor que planta, maneja e 
colhe em um sistema agroflorestal, dois fluxos são básicos: 
quantificar entradas e saídas, relacionadas a volume, data e natureza 
da atividade ou produto. Esse tipo de anotação primária permitirá 
traçar um perfil de consumo de capital, mão-de-obra e insumos, 
bem como de produtos obtidos ao longo do tempo. 
A grande dificuldade é analisar o desempenho dos produtos 
item por item, uma vez que os insumos, manutenção e mão-de- 
-obra afetam praticamente todo o sistema, não impofiando se ele 
será colhido em 3 meses ou 30 anos. De qualquer modo, os retornos 
proporcionados pelos produtos de curto e medio prazo podem ser 
relativizados aos custos integrais do sistema no período, o que dá 
uma relação custoheneficio do produto em relação ao sistema como 
um todo. 
Quanto aos produtos de longo prazo, uma previsão de 
retorno por unidade de área deve ser somada aos benefícios 
proporcionais dos produtos de curto e médio prazo, amortizando 
o custo inicial de implantação de modo progressivo. 
A lógica da adição desses benefícios proporcionais 6 
simples. Na instalação do sistema e manejo nos primeiros anos, o 
custo de Implantação e manutenção tornaria impraticáveis os custos 
de produção de produtos de cu&o prazo como milho, feijão, 
mandioca, banana e abacaxi se relacionados aos cultivos solteiros 
respectivos. Para ter uma avdiqãoclara, devemos abater dos custos 
o valor agregado proporcional por área do sistema que estamos 
instalando junto com estes cultivos de cuflo prazo. A equação é 
simples: 
Renda projetada do SAFIRA 
Renda Projetada é o valor obtido no momento da análise 
acrescido do valor agregado até aquele momerzto. 
Custo 'Fotal corresgonde ao somatorio de dspesas e desvalo- 
rização de equipamentos utilizados até o momento da análise. 
Válor Agregado por Área é o valor total (Á?a colheita esperada 
das espécies que serão colhidas até o final do sistema dividido 
por hrea e por tempo. Exemplo: Se o sistema prev; a colheita de 
100m3 de madeira por hectare a U$I,O00 o m3 num prazo de até 
20 anos, então teremos que o valor apegado será de: 
VAP = 100m3/ha . U$ 1,000 : 20 anos = U$ 5,00O/ha/ano 
Portanto, a Renda Projetada no 10" ano será: 
IRenda Projetada 
Valores tlos produtos colhldQs: mesmo que para autoconsumo, 
deve-se obedecer ao valor de mercado direto desde que existente e 
viável na região. Em outras palavras, se existir a possibilidade real 
de obter aquele preço por aquela mercadoria naquelas condições, 
considerando os aspectos de transporte, qualidade e quantidade, 
então temos um valor aceitável para efeito dos cálculos econômicos. 
Se a possibilidade de venda direta é real e concretizável, o valor de 
varejo pode ser tomado como referencial para projeções de retornos. 
Portanto, um livro simples de entradas e saídas, que discrimine a 
operação, produto ou mercadoria vendida com a unidade 
correspondente poderá ser nosso banco de dados para análises 
econômicas como a que propomos, bem como o desenvolvimento 
e aperfeiçoamento de outras análises que melhor analisem o 
desempenho economico dos sistemas regenerativos, como os que 
apresentaremos na sequência. 
Referencias bibliográficas 
' "Muchos movimientos sociales surgen de las lutas de 10s pobres por la 
supervivencia, tanto en la historia como actualmente. Son por tanto movimientos 
ecologistas (qualquiera que sea e1 idioma en el que se expresen) en quanto sus 
objetivos consisten en obtener las necessidades ecológicas para la vida: energía 
(incluyendo las calorias de la comida), ama, espacio para albergarse. Son 
movimientos ecologistas que tratan de sacar 10s recursos naturales del sistema 
de mercado generalizado, de Ia racionalidad mercantil, para mantenerlos o 
devolverlos a la oikonornia (en e1 sentido que Aristóteles usó la palabra. como 
ecologia humana, opuesto a crematística)". 
Para ir mais longe, ve;: Alier, Joan Martínez. De ia economía ecológica al 
ecologismo popular, pg. 20 1-222. Editorial Nordan-Comunidad, Montevideo, 
1995. 
"Não sabemos ao certo quem está dermbando nossas florestas e nem quem 
vai alagar nossas tenas, mas sabemos que moram em cidades, onde os ricos 
estão ficando mais ricos, e nós os pobres estarrios perdendo o pouco que temos." 
Declaração do Povo Iban. Sarawak, Malasia. Para ir mais longe, ver: Perdas 
da biodiversidade e suas causas. in A Estratégia Global da Biodiversidade. 
World Resources Institutel União Mundial para a Conservação da Natureza, 
Programa das Nações Unidas para O Meio Ambiente. Versão em Português 
pela Fundação O Boticário de Proteção a Natureza, 1992. 
Experimentação participativa, 
capacitação e difusão 
Podemos dizer que trabalhamos todo o tempo em duas 
perspectivas. A primeira, é a de que temos que construir uma 
apropriação coletiva dos princípios que regem os sistemas e 
agroecossistemas. Segundo, que para isso precisamos gerar 
experiências concretas, enfim, sistemas que funcionem localmente. 
E quando falamos localmente, nos referimos as particularidades de 
cada agricultor ou técnico que é atingido pelo processo, na sua 
propriedade ou região de atuação. 
Isso implica numa estratégia de rede de informações e 
evolução local de técnicas e sistemas. Esse processo busca avançar 
além dos pacotes difusionistas, que trabalham a redução de técnicas 
e sistemas para alcançar um maior numero de pessoas em um curto 
espaço de tempo. 
Na verdade, não são estratégias excludentes e, sim 
complementares, desde que consolidadas sobre os mesmos 
princípios de desenvolvimento pariicipativo e criativo da sociedade 
e da relação destas com os ambientes naturais. 
Para tentar passar nossa visão de como se pode conduzir 
este processo, vamos trabalhar com um modelo básico de princípios 
apresentado em representações esquemáticas e depois confrontá- 
-lo com um exemplo-caso que conduzimos na zona cacaueira 
bahiana. 
Experimentação Participativa, Capacitaçso e 
Difus2a de Técnicas e Sistemas 
Na legenh abaixo, veJa uma representação gb)ca dos atores em c a h momento descrito. 
Legenda 
Parcerias Agricultores experimentadores Comunidade 
Comunidades 
- tipificação dos produtores, sistemas produtivos e ambientes. 
- das tkcnicas, sistemas tkcnicos e sistemas de produ~ão potenciais face & conjuntura 
sócio-ecsnomica e ambientas que resulta da tipificação; 
- dentro deste universo. dos possíveis agricultores experimentadores e parcerias no 
processo (OG's e ONG's). 
- definir a estratkgia para AE na instalação e condução das t6cnicas e sistemas tanto na 
área do Centro como nas propriedades; 
- definir os Agricultores Experimentadores. 
1 
I 
Centro de Experimentação, Capacitação e Difusão 
Metodologia do DiagnQstico A s 
1 
I Operacionalização 
I 
Sistematização e Registro 
Rastreamento de aportes populares, técnicos e 
científicos aos sistemas e técnicas em desenvolvimento 
- testados isoladamente; & V 
- incluídos nos sistemas. 
Instalação das UEP's (Unidades de Experimentação 
Participativa) no Centro 
Manutenção das UEP's no Centro AR% 
Avaliação das UEP's 
Comunidade após a primeira fase de resultados 
Devolução dos resultados parciais das avaliações A % F % 
Definição de novos agricultores experimentadores e novas UEP's A%%% 
A propriedade tipifieadalo 
agricultor experimentador 
-os sistemas t6cnicos 
-as técnicas 
Mecanismos e métodos participativos 
Apropriação de princípios e 
recriação de técnicas e sistemas 
Nesta representação simbólica, pretendemos ressaltar as três 
fases,fundamentais da geração de sistemas agroflorestais regeneratjvos, 
os SAFRA k. 
O processo busca identrficar o contexto sócio-econbmico e 
ambienta1 (representado pelo círculo que envolve os símbolos) onde se 
inserem e funcionam as ferramentas ou técnicas (representadas pelos 
símbolos isolados) e pelos sistemas técnicos (representados pela se- 
qüência de sirnbolos interligados por setas). 
9 Uma vez tiprficados os sistemas do agricultor (I) , buscam-se 
então ferramentas e sistemas técnicos com princípios similares em 
outros saberes populares e no saber acadêmico (2). 
As eontribuíções de outros 
saberes:popular/acadêmico 
Legenda 
nti$cação de problemas 
i ---L 
De outros saberes 
(populares e acadêmicos) 
Novas ferramentas ou 
O ciclo de apropriação de princípios, 
recriação de técnicas e sistemas e, con- 
seqüente, geração e aprimoramento de 
saberes forma as condições para uma 
dífusão exponencial e horizontalizada, 
sem as características de adoção 'tfe- 
chada" de tecnologias. 
O resultado: novos sistemas 
e ferramentas ape~eiçoadas 
A agregação destas novasferramentas e sistemas técnicos dá- 
-se então mediada pelo contexto (o circulo) e resulta em novas ferra- 
mentas e novos sistemas técnicas. 
9 Num processo mais avançado, o contexto sócio-econômico e 
ambienta1 pode ser também trabalhado. Esta etapa seria a de de$ni- 
ção conjunta (OG 's, ONG k e comunidades agrícolas, sociedade) de 
politicas de crédito (interno e externo), legislação para a cadeia pro- 
dutiva jgerenciamento dos recursos naturais, agroprocessamento e 
cornercialização) e linhas de pesquisa e ensino. 
Esta é a direção que as iniciativas de Centros buscam, de modo 
a incorporarem de maneira institucional suas contribuições no pro- 
cesso de desenvolvimento da sociedade. 
1 Formação dos Agricultores Experimentadores 1 
Legenda 
$ Novas ferramen- 
tas ou técnicasgeradas 
Nosso modelo básico dividese em tres niveis diferentes: 
- o trabalho na comunidade antes e durante o processo; 
- o trabalho no Centro de Experimentação, Capacitação e 
Dihsão; 
- o trabalho junto aos Agricultores-Experimentadores; 
- o trabalho na comunidade, após a instalação e avaliação 
dos sistemas e técnicas. 
Ainda, temos quatro diferentes tipos de agentes no 
processo: 
- a equipe do Centro; 
- as parcerias e integrações (OG's e ONG's); 
- os agricultores experimentadores (AE); 
- as comunidades agrícolas. 
Finalmente, trabalhamos identificando, avaliando, 
sistematizando, aperfeiçoando e difundindo algumas categorias 
básicas como: 
- técnicas isoladas; 
- conjuntos de técnicas (sistemas técnicos); 
- sistemas de produção. 
Como produto esperado do processo, teremos: 
Na área do Centro: 
- áreas de teste de técnicas e sistemas técnicos totalmente 
inovadores em relação aos sistemas tradicionais; 
- áreas de teste de sistemas tradicionais inovadores ou 
com potencial; 
- sistemas híbridos que agregam o saber inovador 
tradicional com técnicas trazidas de fontes externas ao meio, sejam 
de origem popular ou acadêmica. 
Na hrea dos agricultores-experimentadares: 
- sistemas tradicionais inovadores; 
- sistemas tradicionais inovadores que agregam técnicas 
trazidas do meio externo (sistemas híbridos). 
Na área das comunidades: 
- sistemas tradicionaislconse~vadores, mas já adotando 
técnicas do sistemas inovadores; 
- adoção de sistemas inovadores gerados pelos M ' s ; 
- adesão de mais agricultores ao processo de expe- 
rimentação participativa (aumento do número de AE's). 
Em relação à capacitaç", nossos objetivos são: 
- habilitar os AE's a serem dihsores de princípios e, 
portanto, adaptadores e recriadores de técnicas e sistemas; 
- habilitar os técnicos a serem assessores eficientes neste 
processo; 
- habilitar os técnicos e agricultores a identificarem ,no 
seu dia-a-dia técnicas, sistemas técnicos e sistemas de produção 
com potencial para aumentar a economicidade e sustentabiiidade 
dos processos agrícolas frente aos ambientes e conjunturas sócio- 
culturais onde se inserem; 
- finalmente, criar padrões técnicos e sistemas aptos a 
difusão massal, mas dentro de uma perspectiva de tipificação sócio- 
-econômica e ambienta]. Em suma, tratar as diferenças com soluções 
apropriadas, e não com pacotes tecnológlcos que tratam da mesma 
forma os desiguais, acelerando e aumentando as diferenças sociais. 
O processo do mutirão-escola na zona 
cacaueira sulbaíana 
O mutirão-escola foi um mecanismo criado em cima de 
uma tradição local (o mutirão), visando atender demandas imediatas 
dos agricultores e contendo em si um objetivo estratégico. 
As demandas eram no sentido da assistência técnica aos 
produtores vizinhos, sensibilizados por anos de observação dos 
sistemas implantados na Fazenda Três Colinas, mas com dificuldades 
para implementá-10s. O objetivo estratégico era implantar as áreas 
experimentais produtivas dentro da área do Centro de Expe- 
rimentação, Capacitação e Difbsão (CECAD) com a participação 
de agricultores vizinhos no esquema do mutirão-escola. 
Esse objetivo estratégico também trazia a idéia da criação 
de um embrião cooperativista, tendo como primeiros sócios O 
próprio CECAD e as famílias dos produtores do mutirão. A já 
existente Associação de Pequenos Agricultores locais poderia ser, 
paulatinamente, enriquecida com a adoção de princípios rege- 
nerativos, e seus componentes poderiam se incorporar ao processo 
cooperativista e de mutirão sem desarticular ou enfraquecer a 
associação. 
Recursos financeiros e estratkgias de abrangência 
O projeto não dispunha de recursos para difusão e extensão 
locais. Com o mutirão-escola, sem custos adicionais, buscava-se 
formar os Agricultores Experimentadores, que após um ano de 
mutirão, seriam "cabeças-de-mutirão". Em outras palavras, eles 
passariam a atuar liderando os mutlrões de suas comunidades, 
aumentando sensivelmente o leque de fannílias inlciaime49ee &ingidas, 
que foi de quatro e que chegou a cinco. num período de seis meses 
Os mutirões são tradicionais na região, porém sQ goken- 
cializam a tecnologia e eixo ecowi6mlco tradicional, que é a roça de 
queimada, o plantio e o beneficiamento da mandioca Com a entrada 
de um "Agricultor Experimentador" no mutlrão, sltravés de um 
processo prévio de senslbilização do gmpo, as técnicas poderiam 
ser paulatinamente adotadas, diversificando e ampliando as 
possibilidades dos gnipos tradicionais. 
Prsmessaments e comerclalizaqdPo 
Ficou claro desde o começo que esses dois tópicos eram a 
alavanca do trabalho Embora tendo apenas a mandioca como 
recurso de curto prazo, os dois maiores recursos potenciais dos 
sistemas dos agricultores - que eram a madeira e o trlnomio fmtasl 
condimentoslamêndoas - sQ passariam de recurso potencial a 
recurso real através de processamento e investimento em comer- 
cialização 
Em suma, sem abarcar a cadeia produtiva, encarando 
modifl~ações no contexto sócio-econ6mic0, não havia como 
quebrar o ciclo de degradação economica e ambientar 
Na inexistêncla total de mecanismos próprios nesta área.. 
como associqões com experiência ja consolidada e/ou cooperceLivas, 
era necessário criar este aparato 
Para isso, foram pleiteados e aprovados recursos 
específicos visando a implantaqão de secadores de Gutas e 
condimentos7 bem como uma serraria de pequenas dimensões. com 
uma marcenaria completa acoplada Essa infraestmtura sewiria & 
capacitação e ao projeto de mtonomizagão progressiva do C E C D 
Projetos de expansão da equipe do CECAD possibilitariam o 
aumento do número de mutlrões-escola com um aumento dos 
associados ao processo, bem como das possibilidades econ6micas 
do empreendimento cooperativista Considerado do ponto de vista 
administrativo, o capital e logískica oferecida pelo C E C m pehtir la 
uma agregação de valor tão significativa que possibilitavam 
previsões de contrapaflidas financeiras (autosustentação) do projeto 
em menos de três anos, e uma possibilidade de reprodução e 
autogestão do processo de agroproçessamento e cooperação em 
cinco a seis anos. 
$ Tdcnicos do AS-PTA uvaliun- 
do úrea em inicia de znstaluçGo junto 
técnicos de uorgawzi~uqfies regionais, 
imí do Norte, BA. 
ao trabalho desenvolvido pelo AS- 
PTA/PB avaliam área de mandioca1 
A prática a campo 
Os mutirões serviram para desmistificar a aparente 
complexidade de trabalhar sistemas agroflorestais regenerativos com 
agricultores, e serviram também para, definitivamente, enterrar a 
idéia de que era possível naquelas condições Introduzir "módulos 
agroflorestais" como forma de convencimento paulatino dos 
agricultores. 
Na conjuntura local, os mutirões tiveram a seguinte 
dinâmica: 
- diagnóstico rápido conjunto com o gmpo; 
- definição das atividades na propriedade do Agricultor 
Experimentador, onde o anfitrião dava a palavra final, 
- incorporação dos princípios de manejo regenerativo 
dentro do itinerário técnico proposto pelo anfitrião. 
Definiu-se que o tamanho ideal de cada mutirão era o que 
possibilitava que cada propriedade fosse visitada uma vez por mês 
O mutirão era assim realizado todas as segundas-feiras, o que 
permitiu quatro famílias de agricultores mais o CECAD. Com o 
crescimento dos interessados, formou-se um segundo gmpo a parllr 
da mudança de local de trabalho de um dos integrantes, cujos 
conhecimentos sobre os sistemas já era anterior ao processo, visto 
que havia trabalhado na Fazenda Três Colinas 
Avaliação do processo 
Aspectos técnicos. A cada mutirão, crescia a apropriação 
dos princípios básicos. Isso se observava pela adoção da capina e 
roçagem seletiva de ervas por estado individual, a poda de renovação 
de árvores, bem como a introdução de espécies que cumprissem 
uma função de sinergismo e dinamização do sistema 
Nos mandlocais esse processo ficou bem claro, pois 
passaram a apresentar uma regeneração natural multo mais rica. 
Também se verificou no manejo dasáreas de banana e cacau a 
introdução de muito mais árvores e uma maior preocupação com a 
cobertura do solo e com a diversificação. via plantio de abacaxi 
como "pagador" de curto prazo da regeneração das áreas mais 
degradadas. 
Na verdade, o sucesso de apropriação da tecnologia de- 
veu-se muito ao fato de que não propusemos um novo itinerário 
técnico, nem grandes modificações no sistema produtivo. O que 
ocorreu foi um enriquecimento do itinerário técnico já determinado 
pelo agricultor, com pequenas modificações que iam preparando o 
terreno para uma potencialização do sistema produtivo como um 
todo. Além disso, o grupo vislumbrava uma comercialização 
conjunta. Isso deve ser ressaltado: sem a perspectiva de alcançar o 
mercado de modo associativo e abarcando a cadeia produtiva, a 
estratégia de diversificação não tem como competir com os sistemas 
tradicionais. 
De qualquer modo, algumas técnicas e ferramentas já eram 
adotadas como práticas mesmo para os sistemas tradicionais.Por 
exemplo: 
- a regeneração espontânea salva na capina seletiva gerava 
em pouco tempo uma biomassa que propiciava a cobertura do solo 
e dinamização do sistema produtivo a ser instalado, geralmente, 
com banana, cacau, pataste, fmtas e madeiras; 
- o manejo de aceiros, conforme relatado na parte de 
propostas técnicas, mostrava como a regeneração podia gerar a 
adubação que faltava e proteger o que introduzíamos, melhorando 
a produtividade da roqa já instalada. 
As únicas introduções, na verdade pequenas modificações 
no sistemas produtivo, eram a introdução de abacaxi e a marcação 
e proteção de madeiras de lei já em regeneração, bem como a 
introdução de novas culturas através de mudas disponíveis na 
própria mata, na propriedade ou em vizinhos. 
Ao mesmo tempo, o fato de se trabalhar em uma 
diversidade de situações que ia desde áreas praticamente nuas, 
capoeiras recentes até bordas de mata (aceiros) dava aos agricultores 
uma visão das diferentes etapas da regeneração de suas áreas, bem 
como do manejo necessário para dinamizá-las e torná-las 
economicamente interessantes. 
A insistência no uso de insumos agroqulmicos nunca foi 
um problema sério, em hnção da total descapitalização destes 
agricultores. Mesmo assim, era uma discussão presente que se 
materializava na prática: o que era realmente necessário comprar 
de fora da propriedade e que se p-ava com o resultado do trabalho? 
A resposta dificilmente apontava adubos ou agrotóxicos 
como excelente investimento em termos de retornos, o que bem 
espelha o desempenho destes insumos nos latossolos de baixa 
fertilidade das florestas úmidas tropicais. 
Apesar da uréia como fonte de N ser de uso comum entre 
os agricultores, qualquer prática que envolvesse apenas recursos 
locais e trouxesse bons resultados sem seu uso era bem vista, em 
finção do contexto social e econômico. 
um grupo de agrzcultores estabelece 
um sistema agroflorestal numa capo- 
ezra de 10 anos. O trabalho t a ; parte 
de um projeto de regeneração da Mata 
de Araucbnai e dos ervazs, apolcido 
pelo PDA (Programa Demonstrativo 
de Defesa dai Florestas Trqzcazs do 
Brarrl) O ~nrxterial em vídeo faz parte 
da si rtc~mcxt~zugão e dlfusáo do proce5- 
gados a associações de agricultores 
ecologistas instalam sistemas agro- 
florestais utilizando elementos dos 
SAFRAS, a partir da assessoria de téc- 
nicos locais. O abacaxi é um dos ele- 
mentos fundamentais, junto com ba- 
A pratica e discussão coletiva via mutirão em diferentes 
propriedades enriquecia a experiência pessoal de cada um, prin- 
cipalmente, a dos técnicos envolvidos. A passagem mensal pela 
área experimental do Centro permitia aos agricultores verem 
sistemas mais complexos, que instalávamos como observação, o 
que facilitava muito a perspectiva do "onde chegar". Suas opiniões 
situavam-nos sobre o hturo daquelas idéias e correções de mmos 
para que elas passassem a integrar as ferramentas a serem usadas 
nas propriedades dos integrantes do mutirão. 
Assim, o "como chegar no futuro" e os recursos necessários 
para tanto, eles mesmos desvendavam, visto que a área do C E G m 
era basicamente tocada na mesma lógica do mutirão, onde o único 
insumo eram Instnimentos manuais de trabalho e conhecimento 
por parte de técnicos e -ricultores dos ambientes das culturas 
associadas a ele (os agroamblentes). 
Aspectos estratbglcos. Como já ressaltamos, também foi 
fundamental para o relativo sucesso do mutirão-escola a existência 
de uma perspectiva htura de processamento e comercialização, e 
de um veículo como pequeno fomento ao processo, através do 
transporte de mudas. O valor do frete era descontado depois na 
forma de horas de serviço, mudas, etc., o que valorizava e 
selecionava os pedidos de serviços ao CECAD, como aluguel da 
camionete, moto-serra ou marcenaria pelos agricultores. 
As desistências neste tipo de processo devem ser 
relativizadas em função da trajetória de cada indivíduo, e pelo fato 
de que cada modificação proposta no sistema produtivo, 
acarretando trabalho e resultado-produto, deve estar amarrada a 
uma ligação com mercado, ainda que provisoriamente a mercados 
convencionais. Novamente, vamos reforçar que sem este anel, o 
elo rompe-se facilmente ou então estagna em termos de crescimento 
e dihsão das propostas. 
Ainda, devemos ter claras as limitações de um processo 
onde não se consiga uma rápida transição para um mercado 
diferenciado, com eliminação de atravessador e processamento de 
excessos visando estabilizar a renda após passada a principal 
colheita. 
Dentro de uma estratégia de sistemas regenerativos 
agroflorestais, esta é uma preocupação hndamental, se levarmos 
em conta os períodos relativamente longos que existem entre a 
implantação do sistema blodiverso e sua produtividade plena. O 
processamento permite que produtos de curto prmo, como banana 
e abacaxi sejam processados, estabilizando a renda nas fases iniciais 
e criando uma confiança no sistema fiituro. 
Continuidade do processo 
O Centro de Formação em Agroflorestas teve suas 
atividade interrompidas em junho de 1995. A interrupção dos 
trabalhos locais poderia ser prevenida se tivéssemos acesso, por 
uma espécie de "portal do tempo", às informações que procuramos 
sistematizar para passar ao leitor ao longo do texto deste livro: 
todo aprendizado tem um preço. Porém, o projeto de continuidade 
não ficou apenas nas experiências registradas neste livro, uma vez 
que foi desencadeado um processo de multiplicação de experiências 
baseadas nos métodos descritos tanto na região do projeto como 
em vários pontos do pais, e pelo próprio Ernest Gotsch em alguns 
países da América do Sul. Este fOi um dos objetivos fiindamentais 
da idéia que criou o Centro. 
Assim, como reitaramos como objetivo no irucio deste livro, 
o saber deixa de ser uma propriedade e passa a ser apropriado 
pelas populações e recriado em cada contexto social e ambienta]. 
Da mesmo modo, nos apropriamos de tecnologias que foram 
geradas ainda no Período Neolítico e que foram sendo aperfeiçoadas 
por inilhares de anos pelas populações que, entre outros pontos do 
planeta, viscejaram nas Florestas Tropicais da h é r i c a do Sul e 
Central 
Nada mais oportuno recuperar saberes de convivência com 
as florestas numa época onde avanços na arqueologia modificam 
as teorias de ocupação das h é r i c a s , nos mostrando que elas foram 
colonizadas pelo ser humano há mais de 11.500 anos e, por 
evidências a serem ainda reconhecidas pela academia, há mais de 
30 000 anos. Atnda, que a Aniazônia pode ter suportado grandes 
concentrações populacionais que conheciam a cerâmica e o fabrico 
de louça e que faziam do manejo da floresta e dos rios a base de 
sua civilização . 
Em outras palavras, a reconciliação das populações 
humanas com os ecossistemas que as sustentam não é apenas um 
fato novo e alentador num mundo de "herdeiros culturais da 
Revolução Industrial", mas acreditamos que aponta para um novo 
paradigma em construção. Muito mais, acreditamos queesta 
reconciliação 6 condição sine qua non p u a a viabilidade do processo 
eivilizatóris que se busca constniir neste século que está para se 
iniciar.

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