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The John D. and Gatheríne T
Mac ArLhur Foundation
DED -- Deutscher EnwicMungsdlenst
Jorge Vivan
AS-PTA II ASSESSORIA E
SERVIGOS A PROJETOS EM
AGRICULTURA ALTERNATIVA
LI E EDITORA AGROPEC
1998
CATALOGAÇÃO NA PUBLIGAÇÃO
Ficha de calalogaç'o elaborada por Inês Maria de Gasperin
CRB 1 10-733
V855a Vivan, Jorge Luiz
Agricultura e Florestas : princípios de uma
interação vital I Jorge Luiz Vivan. - Guaíba :
Agropecuária, 1998.
ISBN 85-85347-23-6
1. Agricultura - Florestas - Interação. I. t.
CDU 631.630
Capa: S. Miguel.
Projeto gráfico: PF Propaganda Ltda.
Impressão e acabamento: Metrópole Indústria Gráfica Ltda.
Ilustrações: Jorge Luiz Vivan
AS-PTA - ASSmSORIA E SERVIÇOS A
PROJETOS EM AGRICULTURA ALTERNATIVA
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92500-000 - Guaíba-RS - Brasil
Agradecimentos
A Jean Marc e à AS-PTA pela
confiança durante todos estes anos,
e a todos que me estimularam e aju-
daram a tecer as idéias e os fatos que
estão neste livro.
Dedico este livro a meu pai, pelas
aulas de geografia pelas estradas do Brasil,
à minha mue pela sensibilidade para
entendes as coisas, e a meu avo Germano
por cada dia mmavilhoso da m i d a hfância
que passamos Juntos em meio às arvores.
In memorim à Ida Marconm Mvm.
0 Autor
Jorge Luiz Vlvan é engenheiro agronomo formado pela
Universidade Federal de Pelotas, em 1983. Trabalhou no antigo
projeto Tecnologias AlternativaslFASE-ES de 1986 a 1989 na
sistematização, avaliação e difùsão de tecnologias alternativas no
Estado do Espírito Santo.
Após uma breve passagem pelos sistemas agroflorestais de
Ernst Gotsch em Piraí do Norte, BA, assumiu em 1990 como
extensionista da EMATER-RS, no município de Ipê, RS, onde
ajudou a consolidar e expandir o trabalho em agricultura ecológica
iniciado pelo Centro Ecológico - Ipê e que se tornou uma das
referências nacionais em agroecologia.
Em 1994, a convite do AS-PTA Nacional e sob licença da
EMATER-RS coordenou a implantação do Centro de Fomação
em Agroflorestas - Jatobá, trabalhando associado ao idealizador
dos sistemas agroflorestais regenerativos análogos, sn: Emst Gotsch.
Retornando em 1996 à EMATER-RS, assumiu como
Assistente Técnico Regional no Escritório Regional da Serra, com
sede em Caxias do Sul, RS, numa área que abrange 42 municípios,
onde assumiu a coordenação de programas de recuperação
arnbiental (Pró-Guaíba), e desenvolveu e aplicou conteúdos e
métodos para capacitação em educação ambienta1 e agroecologia.
Atualmente cursa o Mestrado em Agroecossistemas da WSC,
Florianópolls, SC, onde desenvolve metodologias de formação à
distância de mediadores técnicos voltados para diagnóstico,
desenho, implantação e avaliação de sistemas agroflorestais
regenerativos, baseado em métodos participativos e de formação
de conhecimento em rede.
k Editora
Durante o Segundo Encontro Brasileiro de Agricultura
Alternativa realizado em Petrópo%ls, em maio de 1985, assisti uma
conferência de Ernst Gotsch, agricultor suíço radicado no sul da
Bahia, nos limites da zona cacaueira da Mata Atlântica A
experiência de manejo florestal apresentada por Ernst era, de longe,
a mais completa em termos de aplica$" dos critérios e princípios
de agroecologla mas alguns Mores fizeram com que fosse pouco
valorizada, por mim e por outros, naquele momento
Em primeiro lugar, Ernst estava lidando com uma grande
propriedade (500 hectares) de um capitalista suíço (sbcio de Ernst)
e enipregando mk-de-obra assdarlada Estas caracternstlcas fugiam
de tal maneira ao perfil do trabalho da AS-PTA que germam uma
reação automática de desconfiança quanto à adequação da proposta
para o nosso publico, os pequenos produtores agricolas
Em segundo lugar, o sistema de manejo florestal agre-
sentado por E r n s h r a muito complexo e, para nossa limitada
compreens5so e experiência naquela época, nos parecia de dificll
ap%icagão de forma generalizada pelos pequenos produtores
Foram precisos vários anos, muito aciíamulo de experiência
e muita insistência por parte do Mlaus Nowotny, técnico do DE@
(cooperação alemã) trabalhando com uma entidade da Rede PTA
no Espírito Santo, a MTA, para que eu decidisse fazer uma visita
a propriedade de Ernst em Pirai do Node O Impacto deste contato
direto foi decisivo para perceber que estava diante de conceitos e
práticas revolucionárias em termos de agroecologla e que
transcendiairi os limites do ecosslstema onde tinham sido aplicadas
Com uma precisão e rigor decididamente s~1iço, Ernst respondeu
de foma mais que sabsfatória a todas as questões levantadas, fossem
elas sobre a viabilidade econ6unica7 exigências de mão-de-obra,
eficiência -ron6mic*a, escala mlima de propriedade para apllcagão
da proposta, impacto amblental, etc
A questlo sobre a reprodutlbilldade da proposta, cuja
complexidade assusta 5k primeira vista ficou respondida por urna
visita a pequenos produtores da região que tinhm trabdhado como
assalariados de Ernst e estavam aplicando os métodos aprendidos
em suas propriedades. I?. claro que estes agricultores aplicaram o
"método Ernst" à sua maneira, com adaptações que s próprao Ernst,
um tanto purista e muito crítico, considerava como erros ou falhas.
Para nós, no entanto, isto provava que o método era reprodutlvel,
mesmo se não tão rigorasamente corno desejaria o seu criador.
A padir deste momento a AS-PTA decidiu investir na
sistematização possível. Jorge Mvan, um dos mais bem preparados
agroecólogos que conheço e também um excelente extensionista,
foi ""roubado" à EMATER do &o &ande do Sul, através de um
acordo de cooperação com a AS-PTA e foi viver em Píraí do Node
para poder aprender com Ernst e sistem&iaar o método, buscando
criar Instmmentos para sua apreensão por técnicos da Rede PTA e
outros mais. O livro "'Agricultura e Florestas - princípios de uma
Interação vital" é o rewltado de dois anos de esforços do Vvan e
da AS-PTA. Ele apresenta os pRncípios do método com um máximo
de exemplos de sua aplicação. É importante esclarecer que o
conteúdo deste livro baseia-se em Emst mas não pretende ser a
expressão perfeita do pensamento e da pratica do próprio Ernst, Já
que inclui reflexões e praticas de Vlvan e de outros técnicos da AS-
PqlA e que o Ernst vem enriquecendo sua abordagem de forma
Independente deste processo de sistematização. Por outro lado, a
AS-PTA pretende ir além deste acúmulo aqui apresentado e esta
preparando um manual do aplicador do método (tal como o
entendemos) para dar semimento ao esforço de tornar esta proposta
acessível ao maior número possível de técnicos e, pofianto, leva-la
à prática dos agricultores familiares de todo o Brasil.
Jean Marc Von Der W i d
Diretor-Executivo da AS-P'TA
Introdu~ão ................................................................................. 14
Holismo e reducionismo. política e ecologia ............................... 18
A história nas entrelinhas: desenvolvimento e ambiente ............... 19
Os dilemas do modelo ................................................................ 22
Da constmção do saber .............................................................. 23
Capítulo 1
Discutindo os dogmas do desenvolvimento ................................. 29
Civilizações "versus" natureza ................................................... 30
Os sistemas vivos e a segunda lei da temodinâmica ................... 32
As utopias do progresso ............................................................. 37
O homem como parte dos ecossistemas ..................................... 39
Além do antropocentrismo .........................................................40
Agroecologia ou simplesmente agricultura? ................................ 42
Capítulo II
Parte 1
Conceitos e ferramentas básicas para os sistemas regenerativos . . 47
. .
Otimizar e não maximizar .......................................................... 49
Da lógica linear para a biologia ................................................. 52
Potenciais e limilações ............................................................... 55
Conceitos e princípios básicos dos sistemas ................................ 56
A sucessão natural de espécies ................................................... 57
. A . Clímax dinmico ....................................................................... 60
Parte 2
Aprendendo a observar ............................................................. 6 5
Conhecendo as interações do triângulo ambienta1 ....................... 66
Ciclos de chuvas, orvalho e neblinas .......................................... 68
Ciclos de ventos e/ou chuvas torrenciais ..................................... 69
Ciclos de radiação ................................................................... 69
Variações locais no padrão pedológico ....................................... 70
Consórcios e arquitehira de espécies .......................................... 71
Estratégias de othização da vida ............................................... 74
Estratégias de dispersão de sementes e de interações
com a fauna ............................................................................... 75
A homeostase ou auto-regulação ................................................ 77
Buscando recursos - o conceito de '"bordas" .............................. 79
Nichos ....................................................................................... 82
Diagnóstico por indicadores de densidade, porte e
composição de espécies ........................................................... 84
A renovação natural de folhas. copas e raizes ............................. 85
Critérios para o manejo da vegetação por podas.
caplnas e roçagens ..................................................................... 86
O compofimento do rebrote ...................................................... 86
As diferenks reações à perda de rmos e galhos ......................... 88
Capacidade de supofie ao dmo .................................................. 89
....................................................................... Ciclos de eventos 89
Capítulo III 9
............................. Conhecer a realidade para poder transfomar 93
................................................. Para entender os sistemas atuais 96
.... Agriculturdecossistemas: a fomação das paisqens agrícolas 97
............................................... 8 caso da Região dos Tabuleiros 99
............ Elementos de transfomação no próprio sistema vigermle 105
Reconhecendo os mbientes e sua ocupação
........................................................... pelos sistemas agrícolas 107
8 ambiente nahiral numa descrição acadêmica ......................... 108
......................... Integrando a percepção popular dos ambientes 111
............ Critérios locais para zoneamento de ambientes naturais 112
................................................................. Fomação do relevo 113
..................................................... As Unfonnações agrega-se 116
..................................................... Zoneamento mbienlal local 118
............................................................................ As ecozonas 120
...................................................... 1 - Mata ciliar Iiigrofila 121
................... 2 - Mata ciliar de base de encosta ou piemonte 124
......................................................... 3 - Mata de terra seca 125
............................................................................ Comentários 127
Capitulo IV
A construção de roteiros básicos de sistemas agroflorestais
........................................................................... regenerativos 131
.............................. Itinerário técnico de sistemas agroflorestais 134
Sistemas para regeneração de áreas de base de encosta
............................................................................. e mata ciliar 136
Eixos produtivos e fases do sistema ........................................ 136
................................................................. Instalando o sistema 139
.............................. Situações com mmejo em desenvolvimento 156
Capítulo V
.............................................................. Diagnóstico e desenho 169
................ Passos para um diagnóstico: um exemplo de método 171
.............................................. Critérios para o plano e desenho 176
.............. Sistematizar o conhecimento para poder ~erTeiçoá-lo 181
..................................... Infomação básica para sistematização 181
Análise economica dos sistemas ............................................... 192
Capítulo VI
Experimentação pafiicipativa, capacitação e difusão ................ 195
...... O processo de mutirão-escola na zona cacaueira sbilbaima "201
Desde tempos imemoriais o homem cruza-
va os mares em busca de novas terras e
recursos. Mas .foi a partir das viagens de
Colombo, MagaEhGes e Vasco da Gama que
a expansão colonialisla européia alcançou
os quatro cantos do mundo. A madeira foi
Introdução
Pergunte a qualquer um na massa de gente obscura: qual é o propósito
da existência das coisas? A resposta geral é que todas as coisas foram
criadas para nosso auxilio e uso prático! (. . .] Em resumo, todo o cenário
magnuico das coisas é diário e con3antemente visto como destinado, em
última inst&ncia, conveniência peculiar do gênero humano. Dessa forma,
o grosso da espécie humana arrogantemente se eleva acima das
inumeráveis existências que o cercam.
G.H. 'Foulrnin. 7'he Antiqu~ty andDuration of the World. 1780. ed. de 1824, pág. 5 1-2. Citado
por Thornas, Keith. in O Homem e O Mundo Natural. ê i a das Letras, t 988.
Ecossistemas ameaçados e degradados deixaram de ser
somente curiosidade de cientistas para ocuparem foros como a ONU
e FAO, há mais de 20 anos.
Errabora tenha sido uma "descoberta" um tanto tardia, o
fato 6 que, entre as populações animais e vegetais que habitam e
dependem dos ecosslstemas, estamos nós. Seres humanos, ou de
acordo com a cizncia, primatas de cérebro complexo, polegar oposto
ao indicador, com habilidades desenvolvidas, brincando de destniir
os recursos planetários que nos sustentam.
a base deste processo, na forma das em-
barcações que eram utllrzadas e n a f o y a
dos canhões e armas que s~~bjzkgavam os
concorrentes e os povos aulóctouaes i3 gra-
vura representa as ahvldades de um esta-
lerro na fiança
" Compilado da obra de Johi Perlin. AH~storia das Flo-
restas' Universidade da Califórnia, Sta. Bárbara, Ribli-
oteca de Coleções Especiais.
Embora nossa tendência inata de julgar o mundo pelos
pargmetros de nossa própria espéck? procuramos neste Ilvro avmçcas
um pouco além dessa visão A%inal, necessitamos de soIuq&s para
a vida, a biosfera como um todo, e não apenas para a raça humana
Estarnos descobrindo aos poucos que não haverá uma " k c a de
Woé" tecnológica que salve apenas a espécie humana de morrer
mfocada em seus próprios resíduos, e a cada espécie que se extingue
diminuem nossas possibilidades de futuro
O Morno Aapjens saplens, apesar de, originalmente, não
pe~encer a determinados ecosslstemaç, ocupou-os de forma gene-
ralizada ao longo do tempo histórico R n d o mantido populações
relativamente estáveis durante mais de oito mil anos, os aíttimos
1 000 anos viram a população mundial de seres humanos saltar, ern
naímeros aproximados, de menos de 300 milhks por volta de 1 000
d C para os atuais 5,5 bilhões1
Mas não 6 apenas o incremento demográfico que nospreocupa Densidades populaclonais elevadas e localizadas podem
jhtter causado problemas no período pré-incalco para determinadas
civilizações Porém, a longo prazo e numa escala completamente
diferente da atual Trabalhos de Demografia Histórica da escola de
Berkeley fixaram as estimativas de habitantes para o México Central
por volta de 15 18 em torno de 25 200 000 babitaMes2f
Esses espaços foram densamente ocupados por apresen-
tarem possibilidades excepcionais de obtenção de recursos Esse
fato, aliado a uma afinada tecnologia de conviv6ncia e otimização
desses recursos, transmitida ao longo de séculos, é o responsável
pelas centenas de anos que esses ecossistemas suportaram densos
assentamentos humanos
No entanto, Isso nib impediu que eventos geoclimáticos,
Invasões expansionistas e ambição desmedida eventualmente
minassem essa base cultural e tecnológica, contribuindo para a
*
decadência das sociedades do passado Muitas vezes, urna sobrevida
foi obtida graças ao expanslonismo Sociedades militaristas e
centralizadas colonizaram novas terras e submeteram outros povos
e seus recursos, como a cultura tecnológica e riquezas naturais
Dentro desse espiríto, a era das navegações trouxe uma
sobrevida à decadente Europa do final do século XV As conquistas
serviram como válvula de escape em relação à degradação
ambienta], escassez de recursos e concentraçk demográfica
O processo de expansão coloniallsta começado na era das
descobertas ainda não terminou Analisando a progressiva e
assustadora capacidade humana de degradação de recursos dos
ecossistemas ao longo da hlstória da humanidade, podemos levantar
alguns dos principais pontos que a ti?m causado. Vejiamos:
0 s e@los diretos úla presslo demogrdfica localizada
sobre os ambientes9 reclikzindo ou eliminando recurso~florestais~
minerais9 de dgua, solos e pastagens naturais.
As consequencias microcllmáticas em alguns casos foram
e continuam sendo drásticas. Áreas ocupadas por sociedades
mercantilistas e militaristas muito antigas, como grande parte da
Ásia, nofie da Africa e Mediterrâneo mostram registros claros da
ação humana modificando e extinguindo fauna e flora, e causando
mudanças rnicroclimáticas, principalmente, desertos e semi-aridez3.
dbs efitos da colonizaçlo de ecossistemas por populações
estmnhas ao ambiente e 2 cultura autdctone.
A arrogância da cruz e da espada chegaram ao Novo
Mundo com toda a bagagem de animais, plantas, doenças,
vestimentas, arquitetura e língua do Velho Mundo. Como quem
ocupa um terreno baldio para instalar sua casa, jardim e horta, os
europeus simplesmente transferiram seu how-how para o Novo
Mundo, com seqüelas Irreversíveis para todo o sistema vivo original,
incluindo aí os seres humanos dessas nações.
O tipo de organização social e a ideologia que move a
sociedade, e a tecnologia de manejo de recursos como eacpressão
de cadafase da orgaszizaçlo social,
Já nas sociedades da Mesopotâmla, por volta de 3.500 a.C.,
ou seja, há mais de 5.600 anos havia relatos de expedigões de "caça"
aos povos nômades que habitavam as encostas montanhosas. O
homem recém inaugurava a agricultura, o mercado, a acumulação
e a escravidão, e os povos caçadores-coletores do período neolitico,
expulsos das terras baixas, eram perseguidos para escravização ou
eliminados, quando os recursos necessários (como a madeira ou
novas terras) estavam em áreas por eles habitadas. Portanto, fica
claro que a transformação dos ecossistemas não pode ser levada
de modo isolado do contexto histórico, social, cultural, político e
econômico das populações humanas envolvidas.
F~gura 2 mostrando feniclos cortando
cedro, que era exportado para o Egito Os
recursosJlorestais foram, desde o ber(ío da
c~v~lrzação oc~dentaf um recurso capaz de
mobilizar guerras. tratados e gerar a n-
quem das nações, eventualmente, levadas
a decadência pelo mau uso desses recursos
As informações que apresentamos aqui são frutos de
obsewações praticas e princípios cientificamente embasados. Como
ressalva, reconhecemos as limitações da ciência convencional em
compreender as interações dos sistemas vivos.
Esperamos também, ao longo do texto, mostrar ao leitor
que os interesses humanos não são antagonicos aos "interesses"
dos sistemas naturais. Pelo contrário, podemos nos perguntar se
haverá futuro para a humanidade num planeta só de seres humanos
e suas plantações. A resposta, sem dúvida, está no fato de que nós
somos parte da "fauna": uma população em desequilibrio que busca
seu lugar dentro do coletivo da vida.
Reequilibrar a presença humana no planeta é uma saudável
utopia. Mas uma utopia em constmção, e não apenas realizável
como necessária. Gomo já colocamos, a sustentabilidade ou mesmo
o fùturo da humanidade passa por uma revisão profunda em termos
de organização da sociedade em todas as suas expressões.
Aqui iremos tratar de uma pequena parte, que é a agri-
cultura, e dentro dessa a compreensão dos processos da sucessão
natural de espécies como base de ferramentas tecnológicas. Os
métodos participativos orientam a geração e difusão dos sistemas
técnicos. Através desse processo, podemos harmonizar nossas
intervenções de modo que a regeneração de um ecossistema seja
ótimo para os recursos de que necessitamos e para a vida como um
todo. Não estamos buscando o málcimo de recursos por um curto
período de tempo, mas sim o ótimo sempre.
Para chegar a esse objetivo, procuramos aqui e no trabalho
de campo que originou estes escritos estimular e agregar saberes.
Isto foi feito através do individual e do coletivo, no âmbito popular
e acadêmico, reavivando memorias e trazendo informações que
motivem as pessoas a buscarem seus caminhos neste processo de
__-._L
constmção de uma nova agricultura.
- - .. - -- -- Como parte inseparável dessa estratégia, objetivamos
também que o processo civilizatório supere o dogma secular que
nos colocou "no centro da Criação".
E dogmas só podem ser superados na prática, através de
Oniversidade de Chicago, Jnarifuto Orienrai atos que mostrem que o que é bom para a sociedade humana pode
('ompiludo de Perlin John Historia das Florestas
a imporrãncia da madeira no deaenvolvimenro da e, obrigatoriamente, deve ser bom para o conjunto da vida
C ~ V I ~ ~ Z U ~ Ü L ) RIO de Janeiro [mago ~d 1992 Essa é a nossa porta de entrada para o futuro possível,
onde o homem deixe de ser o sabotador de seu próprio sustento, e
incorpore em sua vida diária a interação otimizada com o ambiente
que nos sustenta
Quem sabe, assim Ifckçamos jus ao polegar oposto a s
indicador, às habilidades e ao Intelecto desenvolvido que
consideramos possuir.
Holismo e reducionismo,
política e ecologia
O clichê máximo do movimento ambientalista ""pensar
globalmente, agir localmente" contém uma verdade hoje cada vez
mais aceita. A abordagem holista, que busca o todo para entender
as parles, de ""cima para baixo", quando integrada a uma visão
reducionista, malitica, de '%baixo para cima" pode produzir grandes
resultados
Sem dúvida, a visão reducionista hoje domina quase que
exclusivamente, o cenário cientifico, principalmente, nas ciências
qrárlas, chegando a não considerar ciência o que não tenha passado
pelo analítico e pela expenmentação indutlva. Porém, é no encontro
com a abordagem hollsta que a especialização reducionista ganha
sentido e objetividade, e é nesse encontro que se fazem os grandes
avanços científicos.
O bom senso, a mente aberta e a criatividade são qualidades
ftrndamentais numa atividade científica. Com base nessas qualidades,
a humanidade tem avançado no conhecimento do mundo que rios
cerca, e o embate entre reducionlsmo e holismo tem o mesmo berço
do embate entre saber popular e saber científico. Na pratica, uma
guerra onde o indivíduo que convenclonou-se que sabe procura
convencer o outro que sabe algo que seu saber não vale, porque
não foi assim convencionado. O resultado é que este '"saber
institucionalizado9'torna-se um pacote medíocre e estreito.
Do mesmo modo, sem a parlicipação popular, políticas
ambientais globais tornam-se inócuas e dlscussivas. Para nada
servem, em termos de consolidação de uma prática social, as
políticas públicas que não são constmídas sem a parlicipagão e a
informação que vem a partir da base da sociedade. Essa tem sido a
preocupação central das organizações envolvidas com o
desenvolvimento sustentável e a agroecologia, desde o inicio dos
anos 80, e foi a base deste trabalho.
Porlanto, consideramos que as informaçks contidas na
tradição oral e relatos históricos, juntamente com o interesse e
Limites etnogeogr&ficos na
Mata de Aaaucárias
Marcas que eram gravadas na
casca das araucáriaoi pelos Endios
Coroados QRS),dernarcankk@ seus
territhricss de coleta. Extraído d e
Mabilde, P.F.A.Bootli. Ap»ntame~?tos Sobre
oslndigenas Selvagens da Nação Coroados
dos Matos da Provinela do RIO Grande do
Sul. TBRASMró-Mcmória/ZNE. 1983
respeito ao saber popular, são preocupações centrais e ao mesmo
tempo instmmentos de nosso trabalho. Sem eles, dificilmente,
chegaríamos a desenvolver propostas realmente factíveis,
apropriáveis em seus princípios pelos agricultores.
A história nas entrelinhas:
desenvolvimento e ambiente
A história oficial é escrita de modo a relatar a glória dos
poderosos, os feitos militares, as obras e monumentos, a Arte e a
Filosofia. Porém, entre dominmtes e dominados, uma outra história
poderia se3- escrita. Desde pelo menos 30.000 anos atrás, os seres
humanos já atravessavam os continentes em busca de recursos para
sua sobrevivência. Desde então, o que aprendiam na sua convivência
com o ambiente era transmitido para as próximas gerações.
Desse tempo profundo em termos de escala humana,
chegamos ao passado relativamente recente, dos colonizadores do
Novo Mundo. A pafiir de 1490, eles trouxeram para a "'Aniérica",
junto com a sua esperança de dias melhores e a ganância por ouro
e pedras preciosas, uma enorme bagagem.
Nela, vinham a religião, a língua, plantas, animais e doenças,
que eram um conjunto que vinha sendo acumulado e transmitido
ao longo de gerações. Sem conhecer essa bagagem, nunca sabe-
ríamos a origem de seus atos, a lógica de suas ações e, a trajetória
que os levou até o Novo Mundo, cruzando um oceano desconhe-
cido. Também não tedamos como avaliar a herança que deixaram
na sua passagem, dominação e instalação nas paisagens e culturas
das Américas.
Ainda, não teríamos como analisar nosso presente. Quem
somos nós, qual foi nossa trajetória?
Os colonos italianos que chegaram ao sul do Brasil, em
1885 dermbaram araucánas (Arazccarla a~;~gustfolia) de mais de
3,00m de diâmetro e 451x1 de altura, visando o plantio de trigo,
cujas sementes trouxeram da Itália. Na mesma área, relativa (600m2)
à copa de uma dessas árvores que produzia mais de 300kg de
pinhões por ano por árvore, menos de 60kg de trigo eram colhidos.
Embora esse cálculo não traga de volta as árvores gigantes de mais
de 1.000 anos de idade nem os povos autóctones que delas
dependiam, podemos hoje entender as causas primárias dessa
incoerência.
Do mesmo modo, poderíamos entender o porquê das tribos
que habitavam estas regiões do sul do Brasil praticarem controle
populacional, mantendo populações estáveis e territórios bem
determinados de coleta, com marcas nas arvores. Alnda, o porquê
da profunda revolta e ódio que nutriam pela invasão colonial e pela
dermbada das florestas que os sustentavam.
Filhos e netos daqueles colonos europeus que chegaram a
partir de 1500, num corte, de amostragem social que vai desde o
minifundiário despojado até os atuais "barões do gado e da soja",
podem hoje ser encontrados na Amazônia. Os movimentos de
migração interna foram abrindo lavouras de grãos e criações de
gado do Rio Grande do Sul até o Acre, penetrando a Argentina e o
Paraguai Nesses lugares, sua noção de civilização marca a pai-
sagem conglomerados urbanos, paisagens cobertas por pastagens
e lavouras, comércio e todos as seqitelas da degradação ambiental
e cultural que é sentida na pele pelos povos autóctones.
Em substituição ao papel "orquestrador" da Companhia
das Indias Ocidentais do tempo das caravelas, temos os con-
glomerados madeireiros, o agribusiness pecuário e seus elos
internacionais de mercado. Do migrante miserável ao alto executivo,
a ideologia é de que é uma "missão" dar uma "utilidade" aos
ecossistemas e "civilizar" os indígenas. Maximizar o uso do recurso
natural e acumular bens é tão natural na ideologia dessas regiões
como respirar.
Poaanto, este processo, que remonta aos tempos do embate
entre Caim (o agncuhor que arava o solo, representando a revolução
agrícola, e com ela a urbanização) e Abel (o pastor, representando
as civilizações nômades ou semi-nômades que viviam da coleta e
extrativismo e manejando os recursos já existentes) ainda não
encontrou seu limite no nosso planeta.
Essa "janela no tempo" procura mostrar como a re-
constituição histórica de culturas e ecossistemas são fundamentais.
O cenário ambienta1 e cultural das populações originais nos a~uda a
entender sua lógica e estratégias de sobrevivência, e contribuem
para o novo conhecimento que precisamos constmir.
Princípios gerais renascem num outro contexto, mas
carregando consigo reminiscências de sistemas que nasceram com
a própria humanidade. A história também pode ser lida na
observação atual e na recuperação de dados históricos dos desertos,
florestas e estepes por onde passaram as civilizações.
Nesse sentido, os avanços na informática, robotização e
tecnologia de satélites propiciaram-nos uma visão analítica e global
do planeta e do cosmo em que vivemos de um modo que nossos
antepassados provavelmente não tiveram. Também os avanços na
arqueologia e paleontologia trazem-nos cada vez mais informações
das sociedades passadas, sua organização, seu apogeu e sua
decadência. Mesmo assim, estamos longe de poder reconstituir o
real significado - para nosso futuro - das ruínas das civilizações
que hoje encontramos.
Buscando significados a partir das evidências da História,
podemos afirmar que o bom senso em relação ao manejo dos
recursos naturais não foi a regra. Pelo contrário, foram frequen-
temente suplantados pela insensatez, pela sede psicótica por poder
e acumulação material. Esses desequilíbrios parecem ter coevoluído
e se consolidado em sistemas autoritários e centralizadores, com
forte controle social e dos recursos.
Poderíamos ainda arriscar que os téoricos e práticos do
desenvolvimento sustentado, desde as mais remotas eras, têm se
confrontado e andado a margem do poder. Esse é um desafio para
as democracias de hoje. Resistirão elas ao desafio de um planeta
com recursos cada vez mais escassos? Ou será que, na iminência
das crises, todos correremos ao "oráculo da ciência", ao invés de
simplesmente olhamos ao nosso redor e resgatamos o bom senso?
Persistirá a humanidade acreditando que os "deuses da tecnologia"
a salvarão de modificar seus dogmas e hábitos ainda por quanto
tempo?
Enfim, é preciso aprender com a Wistória. I? consternador
aceitar que discursos inflamados, dados e evidências, e inclusive
leis específicas não foram suficientes para evitar as catástrofes
ambientais e sociais que já aconteceram na história. Isso é um fato
relevante e grave para nosso hturo.
O ensino da História atém-se mais ao universo polí-
tico-ideológico e econômico-militar, enfatizando figuras e per-
sonagens.Não nos deixa claro como foi o gerenciamento de recursos
não-renováveis pelas civilizações, no período compreendido entre
sua ascensão e decadência. Porém, através de manuscritos e textos
que se prestam a esse objetivo, parte dessa história esquecida vai
sendo aos poucos recuperada.
Já nos povos de tradição oral, essas mensagens de alerta e
"códigos de conduta ambientar estão amalgamados com mitos,
lendas e tabus, e podem desaparecer no processo de aculturação.
Uma informaçãovital a sobrevivência, como é o caso do
manejo do ambiente, incorporada em mitos e rituais pode,
eventualmente, enfraquecer o objetivo primordial. Uma vez que
uma cultura se esvai num processo de dominação junto com suas
crenças, o saber embutido nesse conjunto também se perde. Os
deuses e mitos são desacreditados pela nova cultura e religião, e as
informações-chave ali contidas são esquecidas ou relegadas como
superstição antiga.
Nesse sentido, os registros históricos dos manuscritos são
diretos, embora mais frios. Através deles pudemos descobrir que,
há milhares de anos, fazem-se campanhas de reflorestamento, de-
bates sobre a degradação ambienta] e políticas públicas. De modo
geral, o que esses achados históricos mostram-nos é que as legis-
lações ambientais vieram sempre após a formalização social4 do
processo de degradação, e que o povo obedeceu as novas regras
enquanto houve coerção pela força. Ainda, concluímos que eram
frequentes os casos de compção de funcionários, legislação em
causa própna e sobrecaga dos agroecossistemas, em função de
campanhas militares ou da constmção de monumentos e obras que
objetivavam a perpetuação das elites no poder5 na memória dos
povos.
Os dilemas do modelo
Objetivamente, a História coíoca-nos algumas questões
cmciais.
Existem possibilidades concretas de hturo para sociedades
baseadas no desenvolvimento ilimitado das ambições humanas de
ocupação de espaços, acumulação material e poder?
Leis e técnicas preservacionistas geradas a partir do "topo
da pir2miden serão eficientes para conter as populações, que
almejam chegar aos mesmos padrões de consumo e gasto energético
dos que ocupam os estratos ""superiores" da sociedade?
Serão realmente desenvolvidas tecnologias que permitirão
no futuro que o desenvolvimento mantenha-se baseado no ritmo
atual de crescente déficit energético, crescimento demográfico e
extinção da biodiversidade?
Sem dúvida, a resposta é não. Essas são premissas que
têm sua base assentada sobre uma visão elitista e antropocêntrica,
que considera que as necessidades do "ser mais desenvolvido do
planeta, o homem", devem ser o centro do universo conhecido.
Nos tópicos anteriores, co1ocmos alpmas das dicotomias
ou antagonismos tratados como verdadeiros dogmas de nossa
sociedade originada na Wevolug%o Industrial. Vamos revê-los
Civili:aç&o x Natureza, ""O homem precisa de certo modo
destruir e dominar a natureza para sobreviver Afinal, todo o
uiverso baseia-se na dissipaç5o de energia e tende ao equilíbrio,
que é a ausência de energia. Portanto, só estamos apressando um
fenomeno natural, que é a entropia do universo".
Hokisms x Redueionisíaizo. "A abordagem holista
(conhecer o todo para entender as parles) é superficial e anticlen-
tifica, e o reducionismo (a partir das partes se reconhece o todo) é
a única ciênQa possível".
Poléllca x Ecologia. IÉ redundância do primeiro pressu-
posto. ""A preservaç'o ambienta1 é um born tema para um discurso,
se na pratica as políticas visarem o progresso do ser humano"
(mesmo que às custas da predaçk de recursos naturais). "Agricul-
tura e preservação n90 podem ocupar o mesmo lugar no espaçon6
Ci2neia x Salrer Popuka-. 'TI progresso científico7 só é
possível se os cânones e parâmetros ewstentes forem respeitados
O saber popular é ineficaz para alavancar um processo inovadorm8
Nossa expectativa ao longo da leitura 6, primeiro na parte
conceitual e teórlca, e depois com dados concretos, polemizar e
contra-argumentar esses dogmas, pelo menos como desafio ao
leitor. Essa d i s c u s s ~ , embora pareça apenas filosófica, permite-
nos um olhar renovador sobre problemas antigos.
Este é um dos meios para que novas pe-untas e respostas
possam traduzir-se em sistemas produtivos de maior sustenta-
bilidade do ponto de vista economico-ambienta1 Talvez m d a r as
perguntas ao invés de apenas procurar novas respostas seja um
born caminho. Principalmente, apreciar a caminhada coletiva da
humímidade nlo apenas do ponto de vista do ser humano, mas dele
como parte do tecido vivo que cobre e interage com o planeta
Da construgão do saber
Boa parle dos princípios aqui expostos e utilizados na
constmgão de sistemas produtivos foram extraídos da prhtica de
pesquisadores, agricultores e toda uma série de pessoas que, à sua
maneira, trabalham na construçk de alternativas ao modelo atual
de desenvolvimento. k dificil dar a todos os créditos devidos, como
numa publicação acadêmica, com citações de datas e autor ao longo
do texto. Teríamos que incluir citações como "Malas (765 a.C.)".
Afinal, determinadas práticas de manejo agroflorestal foram
herdadas deles, embora diferentes pesquisadores tenham se ocupado
em relatá-las, e agricultores contemporâneos ainda as adotem.
Mesmo assim, sempre que necessário ou relevante para o
aprofiindamento por parte do leitor, procuramos ao longo do texto
dar os créditos devidos.
Uma parabola da gênese do saber
Para ilustrar esta "gênese de conhecimento", imaginemos
que o conhecimento é uma árvore.
Ela tem portanto um esqueleto básico (os princípios),
formado por raízes e ramos principais.
Folhas, ramos e raízes finas renovam-se em ciclos in-
fluenciados pelo ambiente externo (a contextualização do conhe-
cimento). Portanto, a expressão do conhecimento é ligada ao
momento de cada sociedade e civilização, influenciando e sendo
influenciada.
Finalmente, os fmtos. Eles são o produto e garantia de
transmissão da bagagem genética acumulada neste contexto, de
evolução e intercâmbio. Se não forem consumidos (o que simboliza
a disseminação do conhecimento), o sistema torna-se endogâmico.
Apodrecem os fnitos e as sementes permanecem junto ao tronco.
Isso acontecendo, ele não se dissemina e não evolui. Os fmtos
trazem na sua aparência externa a influência dos ciclos (a con-
textualização e atualização do conhecimento). Já é na semente que
se imprime e armazena constantemente a carga genktica, permitindo
que este conhecimento permaneça vivo e atualizado, preparado e
adaptado para ressurgir em outros tempos. Para isto, as idéias e
observações resultantes da união da teoria com a prática são para
o saber o mesmo que o intercâmbio genético e evolução em
interação com o ambiente são para a semente, modificando e sendo
modificados.
Essa é uma parábola da gênese do próprio conhecimento
que tem sido transmitida através das gerações.
Essa metáfora sobre a epistemoiogla do saber recoloca a
questão que levantamos no nosso primeiro livro, "Pomar ou
Floresta". Devemos patentear esse tipo de saber, mesmo sabendo
que a relação entre ""isplração" e "aspiração" é francamente
favorávej para a "aspiração" de dados, obsewagões e conhecimento
ao longo da história do conhecimento?
No contexto desta discussão, reconhecemos a hndamental
lmponância para nosso trabalho atual do que foi desenvolvido por
Ernst Gotsch e sua %milia em Piral do Norte, BA9 Como a
germinação de uma semente de uma espécie que se considerava
extinta, com uma história que se perde no tempo, tivemos
opoflunidade de ver a teoria e pratica de sistemas produtivos de
um ramo do conhecimento que é exemplar raro da áwore do saber
que acompanha a humanidade desde seu berço. Nosso trabalho
procura garantir hoje que esta semente de conhecimento cresça,
floresça e produza novos fmtos, para que evolua e continue viva
na sua trajetória, criando novas possibilidades para as relações da
humanidade com os ecossistemas.
Referências
' Ver Perdas da Biodlversldade e Suas Causas. zn A Estratégia Global da
Biodiversidade, Instituto de Recursos Mundiais (W), edição em português
da Fundação O Boticário, 1992.
Para ir adante, ver: Cardoso, Giro Flamarion S. Modo de Produyão Asiático:
Nova Usita a lJm &lho Conceito. Editora Campus, 1990.
' No oeste do Paquistão, a ação humana (agricultura e pastoreio) criou o deserto
de Warrapan, um dos mais conhecidos e estudados desertos "antropogênicos":
após a retirada de mais de50% da cobertura vegetal original, as chuvas de
monção não mais chegaram e as Rorestas remanescentes regrediram para uma
situação de semi-aridez, que pode sustentar uma pequena fração da populagão
humana que já suslentou no passado. Na África, o deserto do Saara, por exemplo,
avançou mais de 350 km nos últlmos 20 anos.
Vamos conceituar aqui "formalização social da degradação" como o ponto
em que cultura e sistema político-econômico são contraditórios aos objetivos
preservacionistas que ele mesmo tenta implementar de "cima para baixo",
afím de preservar pontos estratégicos para a manutenção do status quo.
O mais antigo relato conhecido neste sentido está no Épico de Gilgamesh.
Segundo o épico, Gilgamesh, o regente de Unik, uma cidade reino do sul da
Mesopotâmia. há 4.700 anos atrás desejava fazer para si "um nome que
perdurasse", através da constmção de "sua" cidade. Einbora pareça incrível e
um vôo de imaginação, a região hoje árida do Crescente Fértil, próxima ao
Golfo Pérsico, foi coberta de florestas. O épico conta como Gilgamesh desfiou
Enlil, a principal divindade sumenana, para devastar a floresta visando a
constmção da "sua cidade". O simbolismo da ambição por "deixar uma marca
na história", com um megqrojeto, rompendo com o bom senso ambienta1
intrínseco aos mitos religiosos da época é incrlvelmenle atual, com a diferença
que hoje não são mims que são desrespeitados, mas dados e evidências
cienlificas, o que dá na mesma. Para ir mais adiante: Perlin, John. 0p.çlt. ouA
Epopéia de Gilgamesh, Mafiins Fontes, são Paulo, f 992. " a crença hndamentalista no ""cescei e multipllcai-vos", Uansf'erida corno
moto de fti da nova religião: o poder ilimitado do desertvolvlmento tecnológico.
Esse ""desnvolvimenlo" permitina no futuro w e áreas minimas e poucos
agricultores alimentassem, com alta tecnologia, grandes populal;ães urbanas
vivendo em cidades-Jardins, cercadas por parques florestais intocáveis. A
hipótese é conjunturalmente e localizadamente possivel, ernbora os fatos
mostrem que é insustentável. A crise da agricultura nofie-americana, a chuva
ácida destruindo resewas florestais e as nuvens radioativas geradas em
Ghemobyl contaminando a flora e fauna dos países escaudinavos nos lembram
muito mais os celiános de pesadelo httrrisrsa de degradação ambienta] do filme
"BBlade Runner", rodado na dkcada de 80 pelo diretor IZldley Scott do que os
quadrinhos otimistas do personagem Flash Gordon, escritos ainda nos anos
50. Neste último, o único problema não resolvido pela tecnologla nos cenários
futuros era o sempre eterno embate entre vilães e heróis.
' Rara ir rnals ad~ante ver Muhn, Toanas A esbutura das ievoluçijes clenb@cas
São Paulo Perspectiva, 1987
'Qw belo tema de drsputa sofistica nos trazes, Ménon, é a teoria sega~ndo a
qual não se pode procurar nem o que se conhece nem o que não se conhece o
que se conhece porque, conhecendo-o, não se precisa procurá-lo, o que não se
conhece porque nem se sabe o que se há de procurar" Platgo, citado por PJlonn,
Edgar O Método 111 0 conhecimento do conheclmenlo/l hblicaçks Europa-
Aménca. 1986
Dentro deste espírito e r-iuma relação que vem desde 1988, a Assessoria e
Projetos em Agricultura Alternativa, (AS-PTA) manteve uma equrpe em Paraí
do Norle. Mata Atlâmlica Sul-Baiana, de janerro de 1994 a março de 1995
Esta equipe (de 3 pessoas) ~nstalou áreas produlrvas, srsternatizou dados e os
difundiu para agrrcultores e t6cnicos
83 apoio velo da organrz-50 não-governamental norte-americana The John
D and CathcTine T MacArthur Foundatiori e da organização governamenhl
alemã DED (Deutscher Entwrcklungsdrenst), e o trabalho foi sed~ads em uma
área vizinha à Fa~enda Três Cohnas, ernpreend~mento tmplaritado a pafllr de
1984 pela farnílra Gotsch
A localização da e-genência deveu-se ao f ab desta fazenda Wresenlar sistemas
produtivos reconhecidos a nível nac~onal e internacional como exemplo e
fonte de insprração para mtervençães nas condições da Mata Atlântica, num
sentido bastante nnovador
Analisados os princípios que orientavam estes sistemas, foi fácil concluir que
eles continham elementos de avançii em relação ao paradigma que doanina a
agricultura e a própria agrossilvicultura. Ainda, que estes princípios
extrapolavam os limites do ecossiskema no qual estavam aplicados.
O trabalho visou então a avaliação, sistematizaç2o e dihsão dos sistemas
técnicos para organizações e agricultores, sendo ob~etivo fundamental sua
reprodução nas condi~ães da pequena propriedade típica da região. Gomo parle
do processo, foi necessária a montagexn, n m a área vizinha ao local, no penodo
de setembro de 1993 a maqo de 199.5, de uma estmtura para capacitaqão.
incluindo 2,s ha de áreas expenmentals-produtivas. Esse processo possibilitou
um aciimulo de experiências que permitirão, sem dúvida, dar um salto de
qualidade nas intewenções das organizaçks que se benenciaram e beneficiarão
da experiência como um todo.
Sem mais participar diretamente do controle da área, a AS-TA segue nas
atividades de difusão e acompanhamento de experiências junto a várias
organizações que acompanharam o processo. Muitas delas já adotaram os
princípios de manejo de sucessão em suas propostas técnicas, o que teni
contribuído para um enriquecimento progressivo dos princípios em si, através
da ampliação do raio de dihsão e mesmo da ótica de adoção. Este é, sem
dúvida, um resultado imporlante e foi uma das principais metas do trabalho.
Assim, cada novo gmpo de técnicos e agricultores que se apropria da idéia
materializa estes princípios em sistemas inovadores em diferentes ecossistemas,
com as principais caractensticas que objetivamos, ou seja:
- aptos a fazer face à realidade do produtor e a buscar transformá-la sendo
produtivos, biodiversos, conservadores de energia e economicamente viáveis.
A proposta tem tido resultados sociais e ambientais práticos consideráveis nos
casos em que foi adaptadia e adotada, m a vez que o método prevê a regeneração
de fauna e flora com retornos econ6micos de curto, médio e longo prazo.
Portanto, embora o trabalho inicial enfocasse com mais detalhe as condições
da Mata Adântica Sulbaiana, os princípios embutidos têm sido. como relatamos
acima, apropriados por técnicos e agricultores em vários ecossistemas do país.
Deste modo, procuramos contribuir à teoria e prática dos que estão kngajados
na constmção de propostas práticas que somem para um projeto global de
desenvolvimento realmente sustentável.
Capítulo I
Foi sempre necessário muito mais imaginaçdo para apreender a realidade do que para
ignorá-la.
.I. Giradoux. Citado por Morin, Edgar. in O Método 11. A v ida da vida. Europa América,
1980.
Num dia como hoje, percebo o quejá disse a você umas vetes: não há nada de errado com
o mundo. O que está errado é a nossa maneira de olhar para ele.
E h r y Miller. A Devi1 Ui Paradise. Citado por Lovelock, James. As Eras de Gaia, Campus,
1991.
Discutindo os dogmas do
desenvolvimento
Sem discutir o nosso -'paradigma", ou seja, o conjunto de
idéias que pemeia nossa sociedade, seria dificil entender o conteúdo
deste livro As propostas que contém acabariam como "receitas
tecnológicas". Uma vez postas em prática fora do contexto,
resultariam inócuas e desanimadoras.
Portanto, a discussão que segue, mais do que uma
potemização teórica, constitui a base da abordagem prática que
pretendemos. Resumidamente, é avançar além do antagonismo
clássico entre preservação e agricultura.
Civilizações "versus9' natureza
Certamente, a raiz da agricultura constituiu-se no ato de
observar como a natureza regenera as formas de vida, após ciclos
que a restrinjam Essas restrlgks momentâneas podem ser causadas
por eventos como falta ou excesso de umidade, falta ou excesso de
radiação (luz e cdor), falta ou excesso de nutrientes Eventos
geoclimáticos tarabém contribuem para restrições iriomentâneas,
como vendavais, imndações, fogo, vulcanismo, movimentos de
solo,etc
Utilizando a radiação solar, o banco genético de sementes
e espécies, a umidade e os recursos minerais e biológicos do solo,
a vida logo retoma seu fluxo e readquire sua complexidade,
adaptando-se às novas situações e recrimdo a si própria.
Provavelmente, a imitação desse processo, que chamare-
mos de sucessão natural de espécies, deve ter contribuído para
Inspirar as primeiras formas de intervenção nos sistemas naturais
visando a obtenção de produtos de interesse humano.
Podemos então afirmar que o quanto intervir e o como
intervir nos sistemas naturais formou o refinamento da tecnologia
e mediou sua sustentabilidade Mnal, exemplos não faltavam: todos
os seres vivos modificam o ambiente e por ele são modificados.
Podanto, tentar entender a dinâmica de ciclos climáticos e
de sucessão de espécies afim de obter recursos é uma Idéia que
sempre existiu e que sobreviveu em exemplos ao redor do mundo,
em vários ecossistemasl Desse modo, agricultores e populaçâtes
inteiras, ao longo dos séculos, têm baseado seus sistemas produtivos
na imitação da dinâmica sucessional do ecossistema original.
Acompanhando os ciclos e padrões observados, encontram os
momentos precisos para Introduzir ou suhtituir plantas e espécies,
de modo a compor os seus "agr~ecossistemas~'~.
Um exemplo c1ássIco de adaptação desse princípio foram
os cultivos anuais de grãos em áreas periodicamente alagadas, como
deltas de rios. No Sudeste da Ásia, a compreensão dos padrões de
inundação e estiagem, com fedillzação pelos sedimentos do rio
propiciou a domesticagão e cultivo de uma graminea com grãos
comestiveis 6 arroz (Oryza sativ~). 8 manejo do sistema natural
deu origem à rizicultura irrigada. Dentro dessa origem, a maior
parte dos sistemas ancestrais de cultivo de arroz nessas regiões era
basicamente conservadores de energia e otimizadores de recursos.
Infelizmente, a ideologia que dominou foi a de maximizar
a utilização dos recursos naturais A visão que herdamos é a de
que os recursos naturais são bons quando se pode transformá-los
de modo linear em dinheiro, ou alimentos e dinheiro
Nessa vis", uma floresta é um recurso somente quando é
possível extrair toda a madeira e cultivar o solo, transformando-o
em pastagem, cuLtivo de grãos ou pomar P a d r k s rígidos de
desenvolvimento e cultura alimentar não se preocupam em
questionar a sustentabilidade do processo em relação à m d m ç a
de ambientes Esse tem sido o paradigma de multas civilizações,
eventualmente, levadas i decadência por não conseguirem seguir
adiante baseadas nessa concepção
Podemos dizer que, mediada pelas condições ambientais,
culturais e políticas de cada povo, a tentativa de Imitar a natureza
produziu a tecnologia e os sistemas agrícolas, com emos e acerlos
Analisando a História, obsexvamos que o belicismo
expansionista e o mercantllismo, muitas vezes apoiados por
convenientes religiosas, Influenciaram de modo
negativo a balança do manejo de recursos naturais na trdetóna das
civilizações e) resultado em geral foi uma pressão insustentável
sobre os recursos, levando ecossistemas inteiros ao colapso, e
Junto com eles as ambições das civilizações neles baseadas3
Na verdade, do colonialismo mercantil e expansionista do
tempo dos gregos e leeníclos aos mercados mundiais de hoje, nada
mais temos do que a ampliação de uma ótica muito antiga Em
outras palavras, continua sendo vital conquistar novos espaços para
obtenção de recursos, utilizando para isso o comércio, a pressão
economica ou mesmo a intervenção militar
Uma civilização em ascensão engloba a outra, admi-
nistrando seu legado cultural e de recursos naturais, de modo
conveniente a seus objetivos Essa foi, desde tempos imemonals, a
estrada que nos trouxe ao Mercado Comum Europeu e que procura
criar os Mercados (Jlobais do século XXZ
O objetivo é sempre o mesmo manter internamente um
padrão civlllzatBrio e de consumo, que não é mais sustentável dentro
dos recursos naturais existentes nos Iinnites do país ou da sociedade
que o preconiza
8 caso do Japão é um exemplo típico, para não ficarmos
restritos às çivllizaçles do Ocidente. Seus parques florestais são
muito bem conservados, porém sua "fome" de madeira tem
provocado a reação de amblentalistas, políticos e populações
autóctones ao redor do mundo Entre os milhares de povos
diretamente ameaçados pela destmiçb de florestas ~rnldas do
planeta. afora a h a z o n i a , estão os Papua, na Nova Gulné, os
Iban, de Sarawak, Malásia e os remanescentes de Masris. na Nova
Zelgndla
Resurnlndo, a análise histórica mostra que, mesmo tendo
elementos fortes de sustentabilidade e adaptação ambiental, os
sistemas agrícolas - os agroecosslstemas - sempre foram muito
influenciados pela Ideologia dos segmentos dominantes
Mais preocupados em manter o poder e perpetuar seu
nome por monumentos ou conquistas, o futuro dos povos que
governavam e dos ecossistemas que os sustentavam foi uma
preocupação infinitainente menor do que o tamanho de seus
exércitos e o potencial de suas armas de guerra
A História contkm exemplos de perlodos onde civilizações
prósperas conviveram com os ecossistemas Porém, a pressão por
recursos em tempos de @erras expansionistas e delírios de grandeza
arquitetônica jogaram por terra e relegaram ao esquecimento as
tecnologias de convivência, que foram substituídas pela pecua-
rização e agricultura extensiva. baseadas na mão-de-obra escrava
Sem dúvida, os registros históricos demonstram que os
alertas que padiam da intelectualidade apontavam para praticas
mais sensatas Talvez sem o embasamento teórico da ciência
analítica à qual temos acesso Mas, sem dúvida, dentro do mesmo
cenário de desastre ambiental e social iminente e com o mesmo
grau de ceticismo com que hoje nos deparamos, por parte de
governos e mesmo da sociedade
Os sistemas vivos e
a segunda lei da termodinâmica
As ciências, especialmente a Física e a Astrofislca, t6m
proporcionado avanços consideráveis na nossa busca de com-
preensão dos fenomenos planetarios. Mas o que a Física, e es-
pecialmente, seu ramo que lida com tempo e energia, tem a ver
com a agricultura?
Tudo. A radiação solar, combustível básico da vida do
planeta, e portanto da agricultura, é energia. O sol, como outras
estrelas, é uma verdadeira 'Tornalha", queimando combustível
nuclear, com data de nascimento e de morte aproximadamente
determinada. A radiação que libera através do espaço chega ao
planeta Terra e fornece a energia básica para a vida, percebida por
nós na forma de luz e calor. A termodinâ~ca, que esnida fenômenos
correlatos aos efeitos da radiaçk solar, tern três leis principais, e
vamos comentar duas delas.
A primeira estabelece que quando umaforma de energia
é convertida em outra, n& hhá nem perda nem ganho. Em outras
palavras, a energia é sempre conservada.
A segunda, a Lei da Entropia, estabelece que quando uma
forma de energia é convertida em o u m , há uma perda na forma
dé calor. Isso implica que o sol tem seus dias contados: a queima
de combustíveis radioativos como Hidrogênio (e Hélio na etapa
final de sua existência) tem uma duração estimável pelos conhe-
cimentos atuais de fisica.
Portanto, a tendência de estrelas como o Sol e, conse-
qüentemente, dos corpos quentes do universo, é passar lentamente
de um estado potencial instável e rico em energia para um estável e
pobre em energia.
Tendo em mente essas informações, podemos observar que
os sistemas vivos têm algumas características que os tornam únicos.
Numa conceituação fisica, a vida é definida pela sua habilidade em
reduzir sua entropia interna4, excretando elementos de baixa energia
em seus limites.
Numa definição geofísiológica, a vida é uma propriedade
de um sistema delimitado que é aberto a urn fluxo de energia e
matéria, e que é capaz de manter suas condições internas constantes,
apesar da mudança das condições externas.
Colocando isso de modo prático, veja seu próprio corpo.
Entram alimentose saem dejetos, dos quais praticamente tudo que
podia servir a seu organismo foi retirado. Também sua temperatura
corporal é constante e, a uma ameaça de doença, o sistema
irnunológico dispara anticorpos para recuperar o equilíbrio
fisiológico. O pH do sangue e outros fluidos também são constantes,
mesmo que bebamos líquidos básicos ou ácidos. Finalmente,
reproduzimos-nos e transmitimos nossa herança genética aos
descendentes. Isso traduz o termo "habilidade em reduzir sua
entropia interna".
Essas definições servirão para entendermos tanto uma
bactéria unicelular, uma árvore, uma floresta, como o próprio
planeta Terra. Embora consuma constantemente energia direta ou
indiretamente hrnecida pelo Sol, as interações entre os seres vivos
conservam a energia total incorporada na biomassa plmetárla. Com
diferentes graus de interação ou complexidade, todos organismos
vivos são unidades básicas e interdependentes em seu
fiincionamento.
Todas as formas vivas contêm alta energia potencial.
Durante o processo de senescência e morte, ocorre a desorganização
e a transferência desta ene-ia para outras fomas, eventualmente
não vivas, como minerais.
Por sua vez, os elementos simples têm
um baixo nível de energia potencial. Pode- ..~
ríamos dizer que a vida é um processo com- '2 \\--.-,/ 1
plementar à entropia. Ela organiza os resíduos
_.._ ..--
da entropia em formas complexas, altamente
r-- --- ----- ---- ----
I
organizadas e conservadoras de energia. Para I
isso, unidades básicas da vida, como algas ,
microscópicas, usam como combustível uma
pequena parte do espectro de radiação solar
que chega ao planeta para sintetizar, a partir
dos elementos simples a que nos referimos,
seu próprio tecido vivo.
Mas onde estão e quem são estes
elementos simples a serem organizados pela
vida?
Eles são os resíduos da entropia pla-
netária. São os "dejetos" do planeta, como
gases, cinzas vulcânicas e os minerais solu-
bilizados da rocha. Sem a complexificação e
organização promovida pelas formas vivas,
A consewa-Bo energeti-a e
o processo organizador da
vida
1 Resíduos da atividade geojisiológica,
como nutrientes e gases são constan-
temente liberados na atmosfera.
seriam poluentes.
O principal resíduo entrópico da atividade cósmica é a
radiação solar. A vida, portanto, parte de elementos simples e de
baixa energia e, utilizando uma pequena parte da radiagão solar
que chega ao planeta, cria formas complexas e de alta energia
potencial. Em outras palavras, a vida organlza os resíduos entrópicos
em formas complexas e conservadoras de energia.
Assim, se aparentemente o universo está em franca en-
tropia, os processos vivos parecem atuar conforme a primeira lei
da termodinâmica, transferindo energia sem perdas.
Se não incluíssemos em nossa equação a energia solar,
teríamos um balanço positivo. A este fenômeno chamaríamos
2 Há mais de 3,5 bilhões de anos, estes
resíduos vêm sendo complexiJicados
por microoeanismos graças a
existência de água e pela enetgia
provida pelo sol.
3 Estas formas de vida evoluíram e se
complexijicaram, gerando cada vez
mais quantidade e diversidade de
espécies.
4 do longo do tempo afing~ram njvels sintropia, ou entropia negativa. ou ainda negentropia, como 6
ótlmos para cada momento da evolu- conhecida na fisica.
ção Estes nivers, caracterzzados por Portanto, enquanto uma floresta organiza elementos
dferentes formas e znterações, foram
por sua vez determznados pela dispo- simples e complexos (e promove slntropla a nível planetário), sua
nlbzlzdade & radiação, nuprentes e queima para a instalação de um pa&Q é um ato desorganizador,
água em cada um destes momentos. que produz alta entropia.
Isso ocorre porque durante sua
vida a árvore absorveu minerais e gases,
principalmente, o dióxido de carbono,
utilizando a radiação solar como com-
bustível e complexificando tudo em sua
biomassa. Esse já é um primeiro nível de
auto-regulação típico dos organismos
vivos.
Ainda, a floresta é sistema vivo,
..- formado por toda uma garna interdepen-
dente de seres vivos. Seguindo em escala,
constitui um ecossistema, um bloma. Esse,
por sua vez, cumpre uma tarefa global de
moderação climática e conservação da
energia, ciclagem de nutrientes, moderação
da radiação e manutenção da umidade.
Essa atividade e essas características re-
fletem nos microclimas, moderam os climas
regionais e podem afetar o clima global.
Isto implica em afetar praticamente todas
as outras formas dé vida que formam o
planeta. Temos então o '"uper-o-anismo"
na concepção de James Hutton, já em
1785 ou "Gaia", como a chamou James
Lovelock.
Portanto, a nível localizado, a morte de uma floresta libera
5 Este conjunto otimizado que chamamos energia, gases e minerais armazenados, entre eles o dióxido de
ecosslstemas, dentro do qual estamos carbono> num processo de descomplexificação. O que era c o ~ l e x o
znsendos, representa, portanto, o n- é dividido e simplificado, e a energia liberada é perdida do sistema
sultado da evolução btológlca conjun- "ivo, isso é entropia.
ta da vida na Terra por bllhões de anos, O processo contrário é a sucessão de espécies. Podemos
num processo anda em andamento.
conceituá-Ia como o canal da vida para moderar, conservar e
acumular energia. Esse é um processo crescente e dinâmico, onde
a transferência de energia dá-se de formas mais simples para outras
sucessivamente mais complexas. As irregularidades ou distúrbios
ocorrem, e há um retorno às formas simples. Porém, se o dano não
afetar o sistema de auto-regulação, será mantlda a biomassa total,
de modo a manter a energia potencial total.
O exennplo do balanço de nutrientes abaixo Ilustra multo
bem o que tentamos colocar aqui. Mudam os animais e vegetais
envolvidos c o d o m e as diferentes condições, mas todos os sistemas
têm em comum a otimização de recursos.
Para isso, precisa moderar a energia de modo a incrementar
e compleXificar a vida, conservando e, eventualmente, incrementm-
do os nutrientes incorporados ao sistema vivo.
Assim, os sistemas vivos mantêm a nivel planetário sua
entropia Interna minlniizada. Esse processo é resultado da evolução
conjunta da vida e do meio físico nos Yltimos 3 3 bilhões de anos,
o que é tempo suficiente (e multo além de nossa Im-inação) para
acreditarmos que o sistema realmentef~nciona.
8 sucesso destas interações (e erros e tentativas) está
refletido nas formas e arquitetura de plantas e animais, consórcios
vivos que formaram cada etapa da sucessão namral de espkcies.
Fisiologia de um sistema
vivo: a cornplexifieaçãs e
cicfagem d e nutrientes numa
floresb tmpical dmida.
Balanço de nutrientes na
bacia do iga~apé Barro Branco,
Manaus, AM
P = água de chuva;
Pi = água de gotejarnento da copa das
ámores;
Q = &ua do igarapé.
Toda esta bagqem em constante evolução esta codificada na carga
Dados: kg/ha/ano.
genética, um imenso tesouro que constantemente evolui e Fonte: schubart, H. O. R.; Franken, W. e 1,uizão. E J.
aperfeiçoa-se, de modo a fazer face ao dinamismo do planeta em Uma floresta sobre solos pobres. Ciência hoje, W f e v
1984 -- v01 2, no 10.
sua viagem pelo cosmo.
O homem ainda engatinha
nesse campo. A agricultura conside-
pelas chuvas s k maiores que a Iixiviação através das águas de
rada moderna é capaz de produzir filtração e dos igarapés.
excedentes em curto espaço de tem-
po, mas, por sua vez, é altamente P Pi
entrópica.
Se todos os seres vivos tives- 5,3 5,6
sem seu crescimento baseado na ma-
21,2 29,9 ximlzaqão da utilização Individual dos
recursos naturais, na forma de ml- h o n i o m ~ , ) 6,0 7,4 0,2
nerais, gases, solo, água e outras for-
mas de vida, o que conhecemos por Fósforo (PO,) 0,104 0,266 0,008
Terra não existiria.
Em suma, a vida no planeta Sódio @a+) 10,4 11,1 0,9
baseia-se em interações, transferên-
Potássio (K+) L1 22,1
clas precisas de energia e coevoluç" o.
Os sistemas -rícolas, para nãodizer
o modo de vida de nossas civilizações,
não se comportam com as características básicas dos sistemas vivos
sadios, mas sim como uma virose que ataca um organismo debilitado
e se reproduz enquanto houver hospedeiro, ou seja, até sua própria
morte junto com o hospedeiro. A dffexqa é que vinis e bactérias
trocam informações genéticas com o hospedeiro, apedeiçoando-o
e a si próprios, e mesmo quando liquidam um hospedeiro individual
o fazem de maneira que sobrevivam várias outras formas mais aptas,
preservando assim, seu próprio hturo.
Finalmente, o que nos toca diretamente em relação ao que
foi visto?
O solo 6 um organismo uno com a flora e fauna. Uma
vez desestniturada a vegetação e a fauna, é um organismo que está
sendo entropizado. Toda a energia acumulada pelas formas do
complexo vivo gerado na coevolução de solo, fauna e flora é
dissipada, sendo uma pequeníssima parcela aproveitada pelos
cultivos introduzidos. Para evitar essa perda eneqética, os sistemas
agrícolas devem prever uma constafite ciclagem dos nutientes entre
consórcios de plantas e animais. Esses consórcios devem estar
espelhados nos ecossistemas originais.
A transferência de energia,
viablllzada pela sucessão de espécies,
permite perdas mínimas do sistema,
reduzindo a entropia como um todo.
Portanto, como teremos opodunidade de
obsewar ao longo do texto, os conceitos
de termodingmlca, sistemas vivos e
entropia são básicos. Eles permitem
entender as estratégias usadas pelos
ecossistemas e formas vivas que os
integram para se reproduzirem e
acumularem energia. Esse é o ponto de
parlida para os agroecossistemas que
podemos criar.
As utopias do progresso
Sem dúvida, transformar toda a
biodiversldade num pasto entremeado de
lavouras e pomares, mantendo algumas
árvores Uteis perto de casa era a utopia
do projeto colonizador dos habitantes do Velho Nlundo. Uma utopia
que ia além das necessidades básicas do ser humano, avançando
pelo terreno do ""pder" sobre a natureza enquanto missão do
homem.
Esse proceder está assentado em raízes filosóficas,
ideológicas e religiosas alimentadas pela ação concreta destes povos
colonizadores sobre as outras culturas e ecossistemas. O fato de
etnias inteiras do "Novo Mundo9' sucumbirem às doenças geradas
nos aglomerados urbanos da Idade Média era para os colonizadores
a prova de sua ascendência junto ao Criador. Essa é a bagagem que
carregamos até a sociedade atual.
Porém, esta utopia colonizadora teve sérios entraves à sua
sustentabilidade, face à realidade dos processos vivos do planeta.
Destes insucessos resultaram soluções locais para problemas, muitas
vezes esquecendo ou adaptando as técnicas herdadas do Velho
Mundo. ainda, em lugares como a Asia e Indonésia, onde o clima
e as civilizações ofereceram resistência ao ímpeto colonizador,
restaram sistemas ancestrais de manejo sustentável de recursos.
Também populações autóctones, pelo isolamento imposto por
florestas, oceanos, desertos ou montanhas chegaram a desenvolver
sistemas técnicos elaborados de convivência com o aimbiente.
Felizmente, ainda existem exemplos vivos para quem quiser
e puder aprender com eles. Geralmente, baseiam-se na busca da
superação pratica de limitações de espaço e falta de insumos
externos, o que é obtido através de urna reprodução manejada do
que a própria natureza faz para superar estas limitações, via sucessão
natural e organização de elementos simples.
Portanto, desde o início da humanidade, o que atrai e
fascina o agiculto6 de modo que o motiva a tentar copiar os
sistemas naturais?
A "mágica" pode ser resumida em obsemar como, a partir
dos escombros de uma floresta queimada pelo efeito inicial de um
raio, ressurge uma nova, bastante semelhante à anterior, sem a
necessidade do uso de adubos, irrigação, tratores ou plantios em
covas. Iljnda como, a parlir da inundação natural e periódica de
uma planície por um rio, o espaço recobre-se de gramíneas pro-
dutoras de grãos comestíveis e herbáceas suculentas, propiciando
que peixes, répteis, aves e animais, entre outras espécies floresçam
e se reproduzam, num ciclo integrado, harmônico e extremamente
produtivo à medida da subida e descida das águas, numa sincronia
perfeita e interligada.
O homem como parte dos ecossistemas
Podmto, encarando de fiente a vida que nos envolve, como
pade dela que somos e não como deuses onipotentes, podemos
nos propor alguns princípios básicos, bastante repetidos hoje em
dia, mas hndamentals para nossos objetivos.
Primeiro, faz-se necessário compteender os ecossistemas
como eles são e como hncionam. Neste contexto, o próprio Homo
mpiens sapiens em seus centros de origem conhecidos, na h i c a e
Ásia, como qualquer outro ser vivo que habita o planeta.
A Arqueologia, Antropologia e a História esforçam-se em
revelar como ele se adaptou aos diferentes ecossistemas, e como
fatos sociais, políticos e até geoclimáticos - como os períodos
glaciais5 - determinaram a migração e ocupação dos diferentes
continentes e ecossistemas. Essa é uma fonte de conhecimento
hndamental.
Segundo, implica em ter consciência do papel da integração
de saberes. É necessáio refazer não só o histórico dos ecossistemas
que procuramos entender, mas também das populações que
atualmente os ocupam e seus movimentos geográficos e sócio-
culturais. A tradição oral, o saber popular são o acumlado de
gerações convivendo com ecossistemas e ciclos climáticos. Uma
vez que integrarmos este acumulado a uma visão científica não-
-preconceituosa, poderemos germ informações que de outra forma
seriam inacessíveis.
É a padir desse conhecimento que procuraremos entender
a intervenção humana e sua interação com o ambiente natural e o
resultante deste processo: os atuais espaços "humanizados", no
meio rural e urbano, os sistemas agrícolas.
Se lançarmos um olhar analítico sobre a civilização do
6 L progresso", chegaremos a duas conclusões em relação as nossas
ilitemenções "agrícolas":
- é necessário otimizá-ias e não maximizá-las;
- na atual conjuntura, onde possível e necessário, limi-
tá-las.
Esses propósitos batem'de frente com o dogma da supe-
rioridade inerente da espécie humana, que nos "autoriza" a intervir
e ocupar todos os espaços biológicos e geogaficos e, pela pretensão
atual, inclusive cósmicos.
A realidade é porém mais dura e próxima, e coloca como
prioridades a recuperação do potencial produtivo de áreas já
degradadas, e na mesma ótica o aproveitamento ótimo e sustentável
dos recursos existentes.
Para viabilizar esses objetivos, quanto maior o conhe-
cimento dos ciclos e padrões dos sistemas naturais, maiores as
possibilidades de harmonizar com eles visando o progresso do
homem no seu sentido mais amplo.
Nessa afirmação estamos chocando de frente com o dogma
que estabelece o antagonismo homem versus natureza como forga
diretiva da evolução, do progresso e do desenvolvimento da
humanidade. Finalmente, estamos polemizando o papel da
competição como moto contínuo de evolução da natureza e,
conseqüentemente, da sociedade. Mas para onde estarão nos
levando estes dogmas? Essa pergunta já foi respondida em teoria
por muitos pensadores, e cada vez mais é respondida na prática
por agricultores e cientistas.
Além do antropocentrismo
Masanobu Fukuoka
Um dos pioneiros do rompimento desses dogmas, com uma
abordagem holística para a agricultura e uma análise crítica da
ideologia do desenvolvimento e resultados convincentes é
Nasanobu Fukuoka6.
Já no final dos anos 30, Fukuoka, então um jovem
pesquisador numa estação experimental agrícola do Japão,
redirecionou sua carreira, procurando avançar além dos esquemas
tradicionais de compostagem e adubação verde, já apregoados na
época. No pós-guerra, continuou desenvolvendo seus sistemas,
publicando, no início dos anos 70, um livro onde relatava suas
experiências, que basicamente criavam um manejo de sucessão de
cultivos de grãos e consórcio de, espécies para áreas deinundação,
bem como de consórcios para cultivos de hodaliças, árvores e
fmtíferas.
Enunciava então que, para aumentar a produção das
culturas, devíamos procurar entendê-las fora de um olhar
antropocêntrico. Devíamos buscar conhecê-las em seus ciclos e
necessidades, observadas em seu habitat natural.
No seu entender, e como ele provou ao longo de mais de
50 anos de resultados convincentes, o fluxo natural da vida expresso
na sucessão das espécies é grande fator potenciallzador da produção,
e não a quantidade de energia com a qual intervimos num sistema.
Em suma, não é o que queremos que as plantas e os anlmais
nos produzam. O que comanda é o potencial inerente que todo o
organismo vivo que congrega e integra plantas e animais pode
produzir, e quais são os fluxos e ciclos de energia que determinam
esta produção.
No prefácio de seu livro ""The Natural Way of Faming",
Fukuoka afirma:
"Mesmo a aqicultura orgânica, h qual se faz uma -ande
apologia nos dzas atuais, é apenas outro ramo da agricultura
cientifica moderna. São muitos os problemas em mover materiais
orgânicos de lápara cá, process&los e trata-lm. 2Muitos dos ganhos
obtialos com esta atividade s&o ganhos locais e tenzporárlos. De
fato, quandó examinados numa perspectiva mais ampla, muitas
destas tentativas de proteger a natureza na verdade a destroem".
Bilt Mollisson e a Permacultura
Outro caso de abordagem e crítica ao modelo global é a
Permacultura, pelo menos em sua concepção básica. Já no início
dos anos 80, Bill Mollisson, um pesquisador e prático multi-
disciplinar natural da Tasmânla, lançou ""Prmacultura Um" e
""Prmacultura Dois", livros onde colocava ao mundo propostas
integrais de relacionamento com os ecosslstemas.
A agricultura é o tema central, mas a abordagem é holística,
englobando de certa forma todas as relações humanas. Gomo ele
próprio definiu em uma entrevista7, a Permacultura é:
"um sistema organizado de design para viver(...). Uma
das normas fundamentais do design é: "aça algo bkico (em
relação aos padrões da natureza) correto, porque então todo o resto
é mais correto por siprópdo " (. . .). Em relação ao corpo filosófico
ele explica que "(apermacultura) é uma estrutura que nuncapára
de mover-se, mas que aceita informação de onde quer que seja. ..)
nós (a humanidade) carecemos de qualquer poder de criação;
somente temos poder de reunião. Por isso, simplesmente,
admiramos assombrados como as coisas relacionam-se entre si."
Ao lado de centenas de obras m i t o interessantes, esses
são dois autores cqas obras permitem avançar para além das
correntes da agricultura e mesmo da agrossilvicultura que se
pretendem hoje sustentáveis. De modo geral, acrescentam uma visão
mais ousada e crítica do nosso paradigma de progresso, tocando
no ponto-chave: não são apenas necessários 4ustes no modelo,
mas sim, redirecionar a própria essência de nosso projeto de
civilização.
Agroecologia ou
simplesmente agricultura?
Portanto, o que difere as duas iniciativas que citamos, bem
como a abordagem deste livro da agricultura orgânica clássica é a
mudança de paradigma. Não se trata mais de apenas substituir o
insumo externo por um menos danoso ao ecossslstema e à saúde
humana, ou de criar um eficiente organismo rurai padrão.
Resumindo, trata-se de assumir como fundamental para a geração
de tecnologias agrícolas alguns pontos básicos:
- compreensão dos componentes da sucessão natural de
eLypécies em cada ecossistema e de como esle processo utiliza de
modo ótimo os recursos no tempo e no espaço;
- os mecanismos de evolução interativa entre as co-
munidades vivas e o meio Rico , criando as condzçBes bhsicas
para o desenvolvimento da vida (olimização de radiação, umihde
e nu2rientes);
- os ciclos epdrões que refletem essas interações, e como
neles inteqar as ações e interesses humanos, buscando otimim
nossa intervençzo nos ambientes;
-fazer deste processo a matriz de um desenvolvimento
tecno2ógzco adaptado C$ escala humana, o que inzplica no
reconhecimento da importância das particularidades de culturas
e etnias e sua bagagem de Fnteração com os ecossistemas.
Esse último tópico nos remete ao fato de que a constmção
de sistemas agrícolas sustentáveis passa pela observação local dos
ecossistemas e a consequente formulação de hipóteses, gestadas e
testadas na prática pelas populações ao longo do tenipo.
O aperfeiçoamento desse processo só é possível numa
perspectiva contínua, viabilizada pela existência de sociedades
estáveis com níveis satisfatórlos de equidade social. Portanto, a
(re)construção de um saber adaptado só é possível com a
participação efetiva e interessada das populações mrais e aut~ctones
na fòrmulação, Implantação e avaliação dos sistemas.
Objetivando a visão global e clareando as informaç6es
obtidas dos preconceitos e heranças culturais originadas de fora do
ecossistema, teremos os eixos hndmentais para a constnição de
tecnologias realmente sustentáveis e aproprláveis pelos agricultores
Ainda, quando nos referimos a clarear as informações,
assumimos também nossa própria herança filosófica, e buscamos
nos tornar aptos a reconhecer suas mazelas. A mais pesada delas é
o dualismo presente em várias culturas e religiões. Esse dualismo
reflete-se num antagonismo constante entre homem e natureza,
espirito-maténa. O homem retrata a encarnação do espírito, superior
à matéria, vista como todo o resto da natureza exceto o homem.
Essa herança filosófica e cultural leva à rejeição de
determinadas espécies vegetais e animais, ao combate sistemático
e não-fundamentado (se é que existe alguma campanha de
erradicação realmente hndamentada) de espécies e até mesmo à
sua extinção. A origem e históna dos gmpos humanos pode nos
auxiliar a compreender tabus e preconceitos, suas origens e como
lidar com eles.
O resultado global destes preceitos é uma abordagem que
procura não como intemir, mas sim, como não intervir. Abre-se
assim a possibilidade de que o insumo externo, via treinamento em
tecnologla, capital, adubos (orgânicos. sintéticos ou minerais),
mudas, sementes, maquinário, etc. sejam elementos conjunturais e,
a seu tempo, dispensaveis elou substituíveis, e não a base central e
alicerce dos sistemas produtivos.
Concluindo, o processo de consolidar princípios em
diferentes situações e ecossistemas é um ato que nos desafia
continuamente. Podemos usar a figura do velejador, que viaja
impulsionado pela força das correntes e dos ventos, usando seu
discernimento para tragar um mmo adequado e de baixo esforço
que o levará a seu destino.
É nesta vi-em que está apenas iniciando que procuraremos
ajudar. Não é uma viagem linear e confortável, movida a motores
potentes e com hora marcada para chegar. Okrecemos ao leitor
dados, observações e princípios que, uma vez enriquecidos e
trabalhados de acordo com as diferentes realidades locais, podem
vir a constituir valioso instmmento de trabalho.
Resumidamente, esperamos contribuir na criagão de
sistemas produtivos adequados e sustentáveis, que resgatem a
dignidade economica e cultural do homem frente a si próprio e sua
sociedade mas, principalmente, frente à1 grandiosidade da vida, em
parte expressa nas Rorestas que nOs, seres humanos, de modo
suicida, temos teimado em reduzir a escombros ao longo das eras.
Referências
' Os povos autóctones do Ártico, principalmente na tundra siberiana e
canadense, são um exemplo claro desta adaplação. A rena, popularizada,
mundialmente, como o animal que puxa o trenó de Santa maus ou São Nicolau
(Papai Noel no Brasil) é um herbívoro nativo daquela região, e manejado há
dezenas de milhares de anos pelos autóctones. De um rebanho total estimado
em três milhões de indivíduos, dois milhões são domesticados. Porém, esses
são manejados dentro do mesmo sistema de migração através da tundra que
seus irmãos selvagens, em busca dos excelentes recursos forrageiros
possibilitados pelo cui-Êo verão ártico. Dali. a carne, pele,chifres e outros
produtos chegam aos mercados da Europa e Ásia com altos preços. Ver tmbém
Setos, tradición e ecologia, por Ramón Martin e Carlos Mufioz em Revista
Integral, Enero 1995, pg. 72-77, Barcelona, Espana.
Contido no que poderia ser chamado de um ancestral dos manuais de
agrossilvicultura, um sábio romano conhecido como Calo, o Velho, escreveu
no final do século 111 a. C, inslmções para "como fazer as árvores crescerem
como treliças de modo que as videiras nelas se amparassem, e as sobras de
parreiras e árvores pudessem ser usadas como combustível". Esse tipo de
preocupação surgiu após a conquista de Cartago, quando a recompensa gelas
vitórias foram terras aos generais e a utilização de escravos intensificou o uso
da terra e o modo de exploração, com a agricultura de subsistência dos
camponeses dando lugar à pecuária e agncullura extensiva, e aumentando a
pressão sobre as florestas remanescentes. Dentro desse modelo de
desenvolvimento, as conquistas ronianas desempenhavam o papel essencial de
seguir fornecendo terras novas. madeira e minerais para os ceneos urbanos e
fabris, o que fontalecia sua frota mercante, marinha e exércitos, num ciclo
rerroalimentado, onde a religião era, em tempos de guerra e colonização, o
fator convenientemente unificador. Perlin, John. Histórias das Florestas: A
imporllincia da madeira no desenvolvimento da civilização. Rio de Janeiro:
Imago ed., 1992.
Discorrendo a respeito da pressão sobre recursos natwais promvida no apogeu
das civilizações antigas, é interessante citar este trecho de “História das
Florestas": "Inversamente, quando uma sociedade entra em declínio, a
tendência das Rorestas é de se regenerarem. O profeta Isaías viu isso ocorrer
depois da mofie de um ambicioso rei assírio. "O cipreste e os cedros-do-líbano
regozijam-se", escreveu ele: "eles dizem: agora que você foi posto no chão,
não surgirá ninguém para nos dermbar". Perlin, John, Op. cit.
"A enlropia pode ser definida como a medida da proximidade do equilíbrio.
Todos os seres vivos exibem baixa entropia - eles mantêm um nível alto de
desequilíbno Interno e idomação abundante". Para ir adiante ver: Eovelock,
James. Weallng Caia: PracticalMedicinefor the Planet. H m o n y Books, New
Uork, 1991.
Nos últimos dois milhões de anos, o planeta parece se alternar entre grandes
penodos glaclais (da ordem de 150.000 anos) e interglaciais (da ordem de
100.000 anos). Flutuações menores parecem ocorrer em Intervalos de 40.000
anos, devido a variações na órbita e inclinação da Terra. Essa Rutirações,
conhecidas corno "Efeito Milankovich", alavancarim o processo quando urna
tendência de resfriamento ou aquecimento já estivesse ocorrendo. Para ir mais
longe, ver: Lovelock, James. Op. cit. e Molion, L.C.B. Aquecimento global.
Ciência Hoje, março 1995, vol. 18, pg. 20-29.
6Duas obras principais para ler: "One-Straw Revolutionne "The Natural Way
oEFarmingW, Japan Publications, Tokyo, 1985 e "The Road Back to Nature",
Japan Publications, Inc.Tokyo, L 987.
Permacultura, Lrn disefio para vlvir. Revista Integral, 180, vol & Dicienibre
94, pg. 72-75, Barcelona, Espana. Outros títulos: Mollisson, Bill e David
Holmgren ""Prmacultura Um" Editora Cround, 1983. Mollisson, Bill
"'Permaculture - A Designer's Manual", Tagari Publications, Tyalgum,
Australia, 1988 Lindegger, Tap "The Best of Pemaculture". Pirie Printers
Ltd, Canbenra, ACT, 1986.
O objetivo último da agricultura não é cult~var as plantas, mas slm cultivar os seres humanos
Masanohu Fukuoka. The One Straw Revolution
Conceitos e ferramentas básicas para os
sistemas regenerativos
Ferramentas são instrumentos de transformação do
ambiente. Conceitos são ferramentas de transformação das idéias.
Porém, ao usar uma ferramenta, estamos também tendo que adaptar
nossos conceitos aos resultados que a ferramenta produz, ao mesmo
tempo que refletimos sobre esses resultados.
É um processo constaae e passa por cicios e "cTises". Essas
crises ciclicas nada mais são do que uma necessidade vital de refletir
sobre nossas ferramentas, quando elas produzem resultados que
afetam - ou ameaçam - nossas existências.
E no caso particular dos conceitos e ferramentas da
agricultura, é bom constatar que, mesmo sem ler os mesmos livros
ou falar a mesma língua (ou compartilhar a mesma cultura), ($tinilarar e n3o Maximizar:
podemos chegar a principias Idênticos em diferentes partes do a abordagem do cors-eito
mundo, convivendo com ecossistemas os mais variados Podem de produtividade
mudar as ferramentas para cada ecossistema, mas os pricíplos
básicos da sustentabllidade são comuns
Esta relativa espontaneidade na formlação de teorias do
tipo sistêmico a respeito da intewenção humana na natureza é
possível, porque a educação básica do ser humano é feita através
de todos os sentidos e em relação ao ambiente que o rodela O tipo
de racionalização que nos leva a gerar as "krramentas" é, de certo
modo, consequência deste processo de ""reconhecer o mundo"
Essa constalação se refere, principalmente,
a agricultores e populações autóctones 8 fato
globalmente reconhecido é que estas comunidades
são c-azes não só de zonear ambientes e classificar
solos, mas também de formular teorias complexas
para explicar fenomenos naturais, a partir da
observação, formulação de hipóteses e aplicação
prática, por tentativa e erro
Na verdade, estas teorias "sistêrnlcas" cons-
tituem uma abordqem de ecologia básica aplicada
a agricultura, ainda que em bases empíricas Este
tipo de enfoque não constava do currículo das
Ciências Agronômicas nos anos 70 e início dos 80,
no auge da "Revolução Verde" Naquela 6poca. só
podiam ser encontradas referências ao impacto da
agricultura nos ambientes em leituras especializadas
e m i t o raras, em "nichosy7 acadêmicos de cursos ,- ---̂ C--̂ vL
como Geologia, Biologia e Ecologia Portanto, era
de se esperar que os conceitos e ferramentas usados
pela ciência Agronômica refletissem uma aborda- ,--
gem mais reducionista e linear Ferramenta e con-
ceito, como vimos, têm sempre uma ligação que os
toma coerentes entre si, embora não necessariamente
sustentáveis em relação ao ambiente
8 método básico de aprendizado do ambiente que produz
a abordagem sistêmica e ferramentas coerentes com este conceito
tem servido para a constmção de sistemas ag~-lcolas desde o começo
da humanidade Não importam fronteiras ou culturas A "disciplina"
básica é ministrada pela mesma "professora" há pelo menos 3,s
bilhões de anos: chama-se vida na Terra, e o homem agricultor
aparece de modo muito recente nesta história.
Portanto, a observação, fomulação de hipóteses e tentativa
O conceito de produtividade na nossa
de prová-las na prática é uma herança cultural da humanidade como
civilização está ligado a ferramenta, e método de aprendizado do mundo que nos cerca. O primeiro passo
não ao produto obtido. Uma ferramenta do aprendizado é andar com olhos e ouvidos bem abertos para o
aumenta a produtividade quando permite conhecimento acumulado pelas populações que conviveram com
que se obtenha mais (maximizar) do
recurso que nos interessa.
- a
os ecossistemas. Através deles, chegaremos a lógica que gera as
técnicas, os sistemas e os conceitos que regem nossas vidas.
Neste processo, iremos nos dar conta de que muitas de
nossas razões são amparadas no mesmo tipo de conclusão a que os
métodos analíticos e indutivos usados pelos ecólogos chegariam.
Este é um bom começo: mostra que não
precisaremos criar uma uniformidade cultural para
aprender a conviver com a vida no planeta. Bastará
bom senso e integração de saberes.
Otimizar e n b aaiaxiaizar
O conceito de "otimizar ao invés de ma-
n ximizar" já estava embutido nos clássicos da agri-
cultura orgânica. A idéia básica era alimentar o solo
para que ele alimentasse as plantas. A figuração
usada era de que "enchendo o barril, utilizaremos o
que dele se denamar". Porém, o maior problema
era a tecnologia para'"encher o barril". Gestada na
tradição de agricultura européia, de grãos e carne,
a construção da fertilidade do solo era baseada na
adição de materiais orgânicos reciclados delavouras
de grãos e pastagens, que produziam carne e leite.
Os resíduos destas atividades, como palhadas e
esterco animal, eram retornados ao solo. - - -
O conceito de otimizar que procuramos construir se estende
do solo para todo o ecossistema. ""Alimentar o solo" passa a ser
Por outro lado, a produllvldade dos
ècossrstemas mede-se pela quantidade de criar condições para que as formas de vida já existentes ou
subslâncla orgânica adquirida pelas introduzidas se sucedam e se complementem num processo que -
,formas vivas numa unidade de tempo. resulte num aumento da vida como um todo. Esta abundância de
equiiibrio dinâmico de um ecossistema vida, em quantidade e diversidade, é o "enchimento do barril". É o
se baseia na otimitaçGo do aproveita-
mento dos recursos que ele proporciona objetivo final e, ao mesmo tempo, o processo que nos permitirá
para o conjunto das fórmas vivas. obter os recursos dos quais dependem nossas vidas. Na prática,
isto significa que doses maciças de esterco bovino não ajudarão a
regenerar a Mata Atlântica, assim como reflorestamentos de Pinus
e Eucaliptus não recuperarão a fertilidade dos campos naturais e
cerrados. É o caso do uso de princípios corretos, como o retorno
de matéria orgânica ao solo e cobertura verde materializados pelas
ferramentas erradas.
Gomo veremos ao longo do texto, há uma ligação total
entre fauna, flora e a paisagem. Cada etapa da regeneração de um
ecossistema está baseada na sucessão de espécies da fauna e flora
locais. Este processo pode gerar produtos como alimentos, fibras,
madeira, condimentos e toda uma série de necessidades do ser
humano, através de recursos já existentes ou que introduziremos.
Para isso, as intervenções devem ser pontuais e estrategicamente
sincronizadas com o fluxo da sucessão natural de espécies.
O objetivo é que esta intervenção resulte sempre num
aumento da vida em termos quantitativos e qualitativos. Em outras
palavras, que produza não só biomassa como também biodiversi-
dade. Para o aperfeiçoamento do processo, o grau de acerto de
nossas estratégias deverá ser avaliado de várias maneiras, através
de alguns parâmetros básicos e rapidamente visualiáveis que são:
A flora antes e depois da intemençãio
Uma das possibilidades é comparar áreas manejadas com
as áreas em estado natural. Podemos analisar, por exemplo, a
velocidade de recuperação da biomassa e composição de espécies
(fauna e flora). No caso, uma regressão na sucessão de espécies e
uma queda de biodiversidade pode indicar erros de manejo e perdas
energétlcas (entropização) do sistema.
Do ponto de vista economico-social
Outro parâmetro básico é a avaliação da recuperação da
energia gasta para formar o sistema. Quais são os recursos que
conseguimos gerar de modo direto ou indireto a curto, médio e
longo prazo?' Este é um pressuposto básico de qualquer ser vivo:
ele não pode gastar mais energia para obter um recurso do que a
energia que o recurso lhe fornecerá.
Devemos considerar que pequenos desequilíbrios no
sistema, como exportação de nutrientes via produtos e derivados,
queima de lenha e pequena lixiviação de nutrientes ou perdas gasosas
podem ser compensados por um equilibno entre sistemas vizinhos,
ou ainda a nível de comunidade biogeográfica. Isto se dá pela
integração de métodos entre unidades de produção, comunidades
e microregiões, que pode ser planejada ou desenvolvida em torno
de uma microbacla hidrográfica, por exemplo. As técnicas
envolvidas vão desde reciclagem a nível de habitação até medidas
de escala macro-regional. Ao atingir estes objetivos, estadamos
qualificando o desenvolvimento e a vida nos assentamentos
humanos. Este "beenficio" estenderia-se a todas as outras espécies
dentro do ecossistema a ser regenerado.
Para chegar a este ponto, é preciso:
- a cuHo prazo, produção de alimentos; a me& prazo,
potencializar esta produção de alimentos e proporcionar outvos
recursos uibras, madeira, essências, forragem); a longo prazo, o
fornecimento estdvel de recursos como madeira, alimento,
forragem e frutos. Finalmente, a estabiliza~6o demogrh)ca dos
assentamentos humanos.
Os resultados dessa política de otimizar o uso de recursos
são bastante amplos. O conforto ambienta1 surge como con-
seqüência da regeneração da cobertura florestal, pelo efeito
amenizador que ela exerce sobre as oscilações climáticas e eventos
como vendavais, inundações, secas. Todas essas condições são da
esfera básica da vida humana e podem influenciar nas relações sociais
e culturais. Finalmente, a estabilização das nossas próprias
populações, bem como a manutenção do consumo energético de
fontes não-renováveis ao mínimo2 necessário e suporlável pelo
ecossistema é condição básica para haver um fituro comum.
O que foi colocado até agora não significa o fim da
-ricultura mecanizada de grãos ou da pesca industrial, mas aponta
para o fituro sustentável que procuramos constniir. Geflamente,
os sistemas de produção confinada de carne e leite do Mercado
Comum Europeu, sustentados com soja argentina e brasileira, ou
farinha de anchovas peruanas e chilenas não pedencerão a esse
fùturo, se pretendemos que h i a algum.
Da lógica linear para a biologia
E hndamental cornpreender que os sistemas agrícolas
baseados em setores estanques têm uma lógica linear. Em outras
palavras, a fórmula é Juntar petróleo e derivados, recursos de solo,
capital, mão-de-obra e maquinário e assim gerar mais dinheiro. k.
uma atividade gêmea da mineração: tem a riqueza a ser explorada,
a tecnologia, e o destino certo para os beneficiários. Esses
certamente não dependerão da continuidade daquela "mina" no
futuro. Ou pelo menos não esperam depender.
Quando se adota a lógica da economia ambiental, os
princípios de o-anização dos sistemas adotam uma dinâmica
permanente baseada na sucessão natural de espécies. Cada cultura
de interesse humano aparece dentro do sistema a partir de alguns
passos.
O primeiro critério é o zoneamento de
ambientes favoráveis às culturas que pretendemos.
O segundo critério é lugar, sempre que as condições
oportunizarem. Isso significa que, por exemplo, ba-
naneiras precisam de zonas de umidade constante,
boa exposição solar e matéria orgânica. Isso não é
encontrado dentro de uma mata primária intacta:
uma clareira natural em terreno fértil e com umidade
adequada preenche melhor esses requisitos.
Do mesmo modo, um pasto degradado não
irá receber de modo apropriado árvores da mata
clímax. Elas necessitam estar em consorcio com
espécies pioneiras e secundárias para se esta-
belecerem e prosperarem.
Portanto, criar as condições usando o
próprio fluxo ene-ético da natureza constitui o
refinamento tecnológico que separa a agricultura que
nos levará para o futuro daquela que nos trouxe até
aqui.
Para facilitar nossa tarefa, temos os exemplos à nossa volta.
Observando a vida que nos rodeia, concluiremos que os sistemas
naturais são baseados em slneqismos. Portanto, dependem de uma
transferência eficiente de energia de um consórcio de espécies para
outro. Ou ainda, de algumas espécies dentro de um consórcio para
A sueess&s e o conâssircio
corno estratégia
de eonsemação de energia
1 - A ayace cresce consorciada com o
amaranto, fechando completamente o
solo.
2 - O porte mais elevado do amaranto
permite-lhe iniciar a dominar o
consórcio, cortando a luz da alface.
3 - Uma poda do amaranto da a vanta-
gem que a aljace precisava para chegar
ao ponto de colheita. O mater~al podad~
retorna ao solo.
4 - Finalmente, a alface é colhida e o
canteiro é dominado pelo amaranto.
Poderíamos introduzir toda uma
sequência da sucessão "manejada", e o
amaranto também seria substituído por
outras espécies e assim sucessivamente
até chegarmos próximo do que era a
vegetaçãooriginal do local.
outras. Se o que sucede à dermbada de uma floresta é uma lavoura
de arroz por cinco anos , que por sua vez torna-se pastagem por
um período igual ou superior, antes do abandono total, a ene-ia
não foi transfeida. Foi simplesmente dissipada através da lixiviação
e imobilização química de nutrientes do sistema.
O que permite o crescimento e a produção agrícola nos
sistemas regenerativos é a inserção da planta cultivada no consórcio
adequado, no tempo e no espaço da sucessão. Esta introdução se
dá de modo que estas espécies beneficiam-se dos nutrientes que
estão sendo ciclados pelo consorcio. Vamos exemplificar:
Como tentamos representar na figura ao
lado, um canteiro de alface recém instalado fica
recoberto por Amaranthus spp. Essa planta cobre
bem o solo e é grande recuperadora de nitratos. En-
quanto não competem por luz, a alface e o amaranto
são um consórcio. Quando esta competição se inicia,
o manejo de "capina" é quebrar o amaranto, de modo
que os nutrientes que acumulou sejam recuperados
pela dface. Uma vez colhido, o amaranto fecha
completamente o canteiro.
Se quiséssemos aumentar a eficiencia
energética do sistema, poderíamos ter introduzido
mamão ou outro cultivo apropriado de ciclo médio.
Este inviabilizaria o cultivo da alface a médio prazo,
mas teria, no conjunto, criado as condições
econômicas e ambientais para o aproveitamento
ótimo da área com o mínimo gasto energétlco (mão-
-de-obra, insumos, perdas mínimas de nutrientes).
O resultado economico dos sistemas sempre
é uma variável complexa, pois envolve mercado,
distribuição, costumes e conjuntura econômico-
social. Porém, é mais provável haver coerência
econômica num sistema quando há também
coerência energética.
Portanto, para que este sistema hncione, os cultivos devem
migrar dentro das áreas maiores, acompanhando a renovação da
vegetação e os ciclos do ecossistema. Eles formam consorcios entre
si e com as espécies nativas. e vão se sucedendo dentro da área.
Em regiões florestais, as plantas anuais fazem parte das etapas
iniciais de sucessão, e vão sendo substituídas gradativamente por
bianuais, arbustos semiperenes, e, finalmente, árvores. Urna
infinidade de espécies e formas podem compor este processo, em
suas várias etapas.
A arte da agricultura sustentável consiste em Imitar este
processo sem recorrer ao fogo ou à aração generalizada, que
induzem à renovqão, mas são extremamente entróplcos. Ainda,
como evento generalizado, não ocorrem nos sistemas naturais das
florestas hímldas.
Os cultivos anuais poderão ser introduzidos numa área
nova, onde o sistema está sendo implantado, mudando, portanto,
de local. Ou ainda, se as condições permitirem, eles voltarão a
ocupar nichos dentro da mesma área que já ocuparam. No caso,
não mais como dominantes, mas como parte da produtividade total
do consórcio ou sistema.
Como cada espécie tem longevidade e ciclos diferenciados,
enquanto algumas anuais poderão ser cultivadas por muito tempo
em alguns locais e sistemas, em outros elas aparecerão por qenas
um ano ou dois.
Ainda, algumas espécies de ciclo longo estarão presentes
desde o Início da formação do sistema até o momento de sua
renovação, com o final de ciclo. É o caso de algumas áwores e de
espécies herbáceas de ciclo perene e que suportam uma situação
medianamente umbrófila, como a Colocasia antiquarum.
É de conhecimento geral que a principal característica das
florestas do trópico e subtrópico úmido é a manutenção dos
nutrientes na biomassa, e não no solo3. Portanto, o sucesso da
agricultura nestas condições depende mais da contínua ciclagem
de nutrientes4 e dos sinergismos criados pelo consórcio de espécies,
do que de seu acúmulo ao nível do solo.
O estudo do trópico úmido permitiu-nos entender melhor
a agricultura dos climas temperados, subtropicais e sazonais por
frio, falta de umidade ou ambos. Nesses climas sazonais, após um
ciclo de grande redução de atividade biológica há uma grande
produção de biomassa5. Essa é a base científica que explica o relativo
sucesso do modelo de agricultura européia que foi expandido para
a Oceania, h é r i c a do Sul Meridional (abaixo de 30 graus de
latitude sul) e em boa parte da América do Node. Também a~uda a
entender seu fracasso e os danos ambientais inerentes ao modelo
no trópico úmido.
A antiga técnica européia de arar os campos antes das
nevascas invernais tinha consequências bem claras. Ela forçava,
por ocasião do degelo da primavera, uma mlneralização intensa do
1-Mata Secundaria de mais de 25 anos
2-Na derrubada e queimada, todas asfornas
de vida são mineralizadas
3-A mandioca aproveita unza pequeníssima
parte destes nupientes minerais
#-Sem condzçõespara novu cultzvo, a área e
abandonada para encapoelrar
5-A rírea é novamente quelmada para tornar-
se um pasto de bama lotação (0,5 u a /ha)
1
húmus acumulado. Estes nutrientes solúveis ficavam então
disponíveis para os cultivos. Esse procedimento levava a uma
exaustão progressiva das resenras de húmus, Já que elas não eram
repostas em função da retirada da vegetação original. Como vemos,
a agricultura tradicional também utiliza os pontos críticos do fluxo
energético dentro dos sistemas. Porém, suafunção semprefoi a de
maxinzizar o resultado, e n6o otimlzb-lo.
Portanto, ao utilizar o fluxo da sucessão nahird de espécies
e seus ciclos e padrões para formar nossos -roecossistemas,
estamos refinando nossa tecnologia agrícola. Nossos cuItivos
passam a se beneficiar dos nutrientes ciclados pelo sistema natural
de modo contínuo, pela convivência com a vegetação nativa, e não
às custas da mineralização dela e do sistema vivo original.
Além disso, estamos criando deste modo espaços de
convivência entre cultivos de i~ere;se humano e espécies nalivas,
bem como zoneando a intensidade de intervenção no ambiente
natural. Isto poderia tornar praticamente toda a atividade qrícola
compatível com a regeneração de um ecossistema já desestabilizado
pela intervenção humana.
Potenciais e limitações
Nutrientes, biomassa e biodiversidade presentes numa área
indicam o que é possível esperar como retorno economico-
produtivo de nossas intervenções. Sistemas arrasados, com solos
lixiviados e poucas espécies não têm como fornecer recursos para
espécies de grande porte e exigentes.0 homem europeu e o gado
bovino, por exemplo, dificilmente obterão retornos imediatos em
uma capoeira degradada na h a z o n i a ou Mata Atlântica6.
Podanto, embora a paisagem de uma pastgem abandonada
e degradada em uma zona de mata tropical úmida se assemelhe a
uma estepe ou savana, não oferece os beneficios em termos de
solo, clima e flora herbácea para a criação de grandes mamlferos
que uma estepe natural asiática ou uma savma africana oferecerim.
Pelo contrário, constitui um desastre artificial, um virtual buraco
negro energético provocado pelo homem. Casos como esse são
comuns no dia-a-dia das zonas florestais ainda existentes na Mata
de Araucárias, Mata Atlântica e regiões "integradas" da Amazonia.
Os agricultores chegam com seus cultivos e animais, e utilizam os
recursos locais de vegetação, umidade e solo do modo que
conhecem - a queimada. Sejam tratores de esteira ou machados,
prevalece o conceito básico de mineralizar o sistema vivo e
direcionar os nutrientes para os cultivos. Podanto, uma transição
deste sistema para outros mais sustentáveis deve partir das realidades
locais. O objetivo do método que estamos descrevendo foi de
estimular a criação de parâmetros locais do que cada situação
poderia produzir com os recursos propiciados somente pelo manejo
da sucessão vegetal natural e introduzida. Assim, a possibilidade
de utilização de insumos externos "facilitadores" poderia ser
avaliada para cada situação e conjuntura frente a um parâmetro
mais fíel, onde a real necessidade de insumos externos e,
consequentemente, a relação custolbenefício do sistema de
produção ficasse mais clara.
Conceitose princípios
básicos dos sistemas
O princípio fiindamental do trabalho é o mane~o da sucessão
de espécies. Este manejo é feito de modo a não comprometer o
fluxo de complexificação da vida que está sendo levado
naturalmente. Buscamos então criar junto ao sistema natural as
condições de tempo e espaço físico para o desenvolvimento de
espécies cultivadas, ou de especies nativas que forneçam recursos
que nos interessam.
A transição de um sistema "roça-queima" para um sistema
regenerativo tem sua "porta de entrada" por exemplos do próprio
sistema do agricultor.
Em alguns sistemas tradicionais, após a queimada é
instalada uma mistura de cultivos anuais, semiperenes e perenes.
Por dois ou três anos, os cultivos anuais são obtidos e a regeneração
de espécies nativas combatida por capina e podas. Após, toda a
Sucessão natural e sucess&o
antrcapogênica
regeneração é permitida e se estabelece um sistema misto de cultivos
A ação humana ~nduz a estág~os de
perenes (frutíferas, oleaginosas, etc) e espécies nativas (ervas, bem rlemarcados, Aqui & .
arbusto e árvores). observar a cronologia da intervenção na
Mata de Araucánas no centro-sul do
estado do Paraná:
- gramíneas nas áreas de intervenção
mars recente;
- vassourznha (Composltae) nas áreas de
m a u de dors anos;
Porém, este sistema p a ~ e de uma grande perda energetica
Inicial. O uso do fogo não é um evento conservador de ene-ia e
não é característico do t ró~ ico úmido. Pelo contrário, 6 restrito a
zonas sazonalmente secas, onde abundam plantas resinosas, como
coniferas e algumas espécies de Eucaliptus. Em nossos sistemas
regenerativos, o que buscamos é a renovação da vegetaçb do
sistema natural no modo mais eficiente em termos de conservação
de energia.
Nas matas tropicais e subtropãcals úmidas, isso é obtido
naturalmente pela queda de folhas, podaçzo cíclica de ramos finos,
ramos, galhos e mesmo parte de troncos. Vendavais e enxurradas
fazem parte do cotidiano ao qual a natureza se habituou, e cumprem
esta função. Urna vez que o material ""pdado" chega ao solo, não
há necessidade do fogo periódico. b ciclagem deste matena1 é rápida
e Intensa pela vida febril que domina estes ecossistemas,
O que fazemos então é entrar no Ruxo de ciclagem. Para
isso, nossa intervençk deve visar a renovação do que está velho
no consórcio, seja por roçagem ou podação. Esta renovação pode
ser de partes velhas da planta, do indivíduo todo ou mesmo de
todo um consórcio. Gomo estamos manejando a vegetação em
antecipação a eventos naturais, podernos incorrer em erros. A
eliminação e substituição de uma planta ou consórcio só deve ser
feita quando a finção ecofisiológica8 daquele indivíduo ou consórcio
está cumprida. Ou ainda, se essa hnção será ou está sendo
devidamente substituída, seJa pela vegetação nativa, seja por
espécies introduzidas. Um aprohndamento na dinâmica de sucessão
de espécies pode nos dudar a compreender a prática.
A sucessão natural de espécies
Todos os sistemas naturais têm ciclos de crescimento,
estabilização, senescência e morte. Desse ponto de vista, a morte
- taquara (Bambusa spp) nas áreas de at6 do indivíduo como ponto final ia" existe. Gomo não há
cinco anos;
- bracatinga Mimosa scabrella) nas áreas
de 15 anos.
A sucessão poderá formar um novo climax,
diferente porém daquele que já ocupou a
área.
""dsapareclmento" da e n e ~ i a , o fim de um c1610 apenas representa
a transferência da energia potencial da biomassa para uma outra
forma (ou formas), conforme a primeira lei da terrnodlnâmica
As unidades vivas microscópicas a l u a transformando,
reorgmlzando e recriando fomas cada vez mals complexas A carga
geilétlca se enriquece, fazendo f a e às novas condições e criando
al"crnativas para os Iirnitantes encontrados Isso se dá do nível micro
ao rnacro, de colonias de bactérias, árvores até ecossisternas inteiros
Porém, é o microcosmo, formado por bactérias, vírus, hngos e
outros seres, que comanda o processog
VeJramos um exemplo um consórcio de fermentos láctlcos
coloniza o leite fresco até transformá-lo em coalhada Enquanto
senesce e morre, a biomassa e os resíduos destes krmentos são
paulatinamente incorporados a seus sucessores, outra estirpe de
leveduras e bactérias Essas formarão bolores, eventualmente,
predados por outros hngos, que serão incorporados à biomassa
de moscas e outros organismos que venham a se alimentar deste
material Estes organismos podem ser a base alimentar de outros,
os quais se integrarão em outros ciclos, cada vez mais longos e
complexos A sucessk de espécies é, portanto, o caminho por
onde fluem as forças formadoras da teia da vida
VeJarnos outro exemplo Os inóculos dos microorganlsmos
que Iàrão a decomposição de urna árvore no final do seu ciclo de
vida a acompanham desde a mais tenra idade São bactérias
celulíticas que trabalham utilizando cada resíduo em forma de folha
e casca que a jovem plântula produz E lá estarão, no final do seu
ciclo de vida, para não perder praticamente nada do que sua
estnitura acumulou
As espécies microscópicas começam e termlnam as cadelas
Fungos patógenos, bactérias fixadoras de nitrogênio e microalgas
fazem parte deste universo, que é a base sobre a qual se assenta a
ciclagem da vida e a sucessão de espécies Sem a relação estreita e
equilibrada entre o "mundo microscópico" e o "mundo dos seres
visíveis a olho nu", não haveria nem vida nem evolução
Podemos traGar um gráfico relativo à crescente comple-
xificação da vida, usando essa situaqão que acabamos de descrever
É importante deixar claro que esse processo não é linear como
pode ser apresentado num gráfico, e nem tão setorlzado e
compartimentalizado Esse é apenas um artifício de explanação que
cabe em nosso raciocínio acadêmico As inter-relaçks são
infinitamente mais complexas, se tentarmos uma dissecação
A Sucesç" Natural
de "sspbcierí,
A Sucessão hratural de Espécies é o veicu-
lo que a vida utiliza para viajar pelo tem-
po e pelo espaço. O que podemos apreciar
como climax de um ecossistema é uma etev-
nidade para os seres humanos, mas um
átimo para o histórico da vida no planeta.
I a,
73
cri
i rCi 73 -c3 .z
= ' B j
i '8" ..s cri
i 5 g
I a> a,
Susessão Natural de
Especieç-escala de tempo
Longe de ser um processo linear como
apresentado, é repleto de inter-relações e
distúrbios, cuja representação grajca se-
ria bem mais complexa do que a que usa-
mos aqui.
analíbca. Por isso, mais do que nunca, é preciso entrar na mata,
andar, tocar, observar e senti-la como o que verdadeiramente é, ou
seja, um organismo vivo e auto-regulado.
Cada pequeno arco do gráfico representa uma etapa da
sucessão. A ligação entre os arcos demonstra que não são ciclos
estanques, mas que se Interpenetram. Os ciclos ou etapas da
sucessão são de diferentes escalas de tempo: col0nias de algas e
bactérias podem durar horas, enquanto árvores da mata primária
podem chegar a mais de 1.000 anos.
A ampliação destes ciclos ou consórcios de espécies não
mostrana uma trdetória linear, mas sim, acompanhando os eventos
climáticos de nível global, como glaciações, empções e movimentos
da crosta terrestre, mudanças de pólo magnético, o que faz com
que sugam desedos onde eram matas tropicais, coplíferas onde
existia uma estepe gelada, e assim por diante.
Ainda, mesmo nas etapas mais avançadas estarão presentes
os elementos mais simples. As bactérias anaeróbicas que habitam a
fossa de nossa casa já estavam presentes (ou pelo menos suas
"parentes próximas") no planeta há pelo menos dois bilhões de
anos.
Portanto, o maior potencial de vida de uma área florestal
não está numa mata estática, como um museu de cera. Essa é a
imagem que o cidadão urbano desinformado faz da mata. Na
verdade, todos os sistemas naturais vivem da constante renovação,
o que incrementa sua produtividade e biodiversidade. Quedas
naturais de árvores são multo frequentes mesmo em áreas florestais
bastante pequenas,o que propicia uma constante renovação dos
ciclos de crescimento e da sucessão de espécies.
Isto porém não significa que dermbadas e queimadas se~am
sincronizadas com a dinâmica da natureza. Estas intervenções
causam distúrbios de grande escala, grande entropla e desperdício
de recursos, jogando as possibilidades da vida para patamares
bastante baixos. Descer a escada energética nada tem a ver com o
nosso objetivo, que é alcançar o clímax de cada ecossistema e manter
o nível ene-ético alto. Como vimos, este objetivo é possível de
alcançar através de transferências de nutrientes de um consórcio
de espécies para outras, dentro do Auxo da sucessão natural, criando
uma dinâmica cíclica.
O grande desafio, pofianto, é encontrar o ponto ótimo de
utilização de intervenção, propiciando os recursos sem comprometer
sua geração.
Nas condições da mata tropical umida, o aporte de
nutrientes via chuva é fundamental e, como vimos, pode ser
a~umajilado pelo codunto vivo da floresta. Uma pastagem
degradada, uma vez abandonada, pode levar até 470 anos para
recuperar o acúrnulo de nutrientes que se encontravam na biomassa
original da mata primária.
Quando nos referimos anteriomente i renovaçâo constante
dos ecossistemas, estâvmos nos referindo a um determinado nível
alcançado pelo sistema nalurai. I? um patamar de complexificaçâo
das fomas vivas que é típico de cada ecossistema e de cada ecozona.
A dinâmica do sistema se baseia na renovaçk. Podanto, renovar
não significa necessariamente retornar às espécies colonizadoras.
Vamos exempllficar: uma clareira natural na mata tropacai
úmida irá se regenerar a partir de um patamar de alta energia
potencial, na forma de uma grande biomassa e bfodiversldade. Esse
patamar foi alcançado ao longo de um processo de sucessão de
espécies em interação com o ambiente.
* Para Ir mais longe, ver K e m e n t , Nemam P
Ecologia - São Paulo EDUSP/Sprmger/EDUSP,
1982, as páginas 209-230 e 267-277
As florestas são tudo, menos estát~cas tu
A medda que se aproxrma do cclirnax.
uma floresta drmlnu~ sua produtrvldaa'e
ecológ~ca Em outraspalavras, d~mtnur o
incremento de biomassa por área/ano e
drmrnui a blodzversrdade.
Portanto, a cada pequeno distúrbro
causado pelo jna l de czclo de alguma
áwore dominante, ou por eventos
clrmáticos, ocorre a renovação. a
Na verdade, são estes nlchos de mnova-
@o os mals rrcos em produtzvidade. em
ternzos de Incremento de bromassa a
brodtversidade Esse "modelo" tem sldo
usa& com sucesso pelm populações
indigenas por milhares de anos.
Esse processo é que sustenta a alta produtkldade das areas
de regeneração, onde ocorre uma renovação constante baseada
nos recursos acumulados pelo sistema clímax. Na verdade, a fmna
de maior pofie encontra recursos alimentaes Justamente nos pontos
Uma floresta é assim um mosaico de
diferentes estágios da sucesszo de de renovação da mata primaria.
espécies. Porém, em todos estes mosaicos O objetivo, portanto, é alcangar este patamar, cumprindo
a sucessão já parte de um grande som as exigências de cada etapa da sucessão de espécies e, buscando
acumulo de diversidade genética e no processo produzir recursos para o homem.
biomassa.
Uma vez alcançado o clímax, mesmo que num processo
induzido pelo homem, buscamos manejá-lo de modo a induzir a
renovaçâo cíclica. O duste crítico é fazer isso sem perder o potencial
energético Já alcançado, visto que 6 nesse ponto que a necessidade
Clareira natural aibeda
pela queda de uma &more
madura.
Desde as fases iniciais ate os estágios
mais avançados de recuperação, uma
grande quantidade de recursos para a
fauna prolifera, propiciando nichos
para inúmeras espécies animais e
de intervenção pode passar a ser mínima face aos resultados que
podem ser obtidos.
Em linguagem econ6mlca, este 6 o ponto da curva onde a
relação custoheneficio é a maior de todas. E sabendo disso,
madeireiros, agricultores e pecuarlstas tem buscado as fronteiras
agrícolas - o Novo Mundo - desde os tempos de Molsés. Infe-
lizmente, nossos antepassados e nós mesmos temos feito isso sem
a tecnologia - ou a intenção - que possibilitasse manter os sistemas
vegetais. nesse patamar de produtividade para as flituras gerações
Num olhar gerd sobre as zonas agrícolas, vamos encontrar 8 clímax e sua dinâmica
as áreas ocupadas por agricultores nos mais diversos estágios de
sucessão. Para deteminadas regiões, as condiq6es de solo perniitem
uma regeneração rápida e extremamente coqensadora. Em Eunção
de terem naturalmente acumulado mais nutrientes no solo, saio aptas
à produção de recursos para animais de maior gorle ou cultivos de O climax é o resultante do processo de
grãos, mesino depois de um longo tempo da inlermpção do processo evO1"çãO conJunta dafauna~JOra
ambzente. A wda mod~fica o amblente
de acúmlo que o sistema natural propiciava.
Jsico e é por ele mo@cada.
Isso zoneou a agricultura "moderna" Temos assim, na
h é r i c a do Sul, cerrados, pampas e campos de altitude com o
gado bovino há mais de 250 anos, e cultivos de grãos há mais de 50
anos. Embora apresentem uma pálida lembrança da capacidade de
lotação ou produtividade do início da colonizaçk, ainda mantêm
reservas de recursos de solo que sustentam animais e cultivos.
Já nos trópicos úmidos, onde os nutrientes estão na
biomassa e não no solo, os 250 anos de sustentação podem cair
para cinco anos ou menos. A exceção a esta regra são as zonas
privilegiadas em fertilidade natural, como bacias sedimentares I
aluviais de origem recente, como o vale do rio Cauca, na Colombia. I I
Nesse vale, aos sedimentos provenientes dos Andes soma-se a I i
deposição de cinzas vulcânicas ricas em ósUdos de fósforo e potássio
ao longo da formação do local.
Outro exemplo, são as florestas da base das encostas
vulcânicas do arquipélago havaiano. A retirada da vegetação pelos
colonizadores deixou áreas abertas que estão sendo colonizadas
por plantas como goiabeiras e jambos. Nas áreas de solos mais
antigos da Mata Atlântica, estas Myrtacea são frutíferas que
geralmente temos que protqer e amparar, escolhendo nichos ótimos
e vigiados. Do mesmo modo, na Costa f i ca há áreas "colonizadas"
por bananeiras, assim como nas baixadas mais férteis da Mata
Atlântica Sulbaiana determinadas espécies comestíveis, como a
taioba e o inhame roxo tornam-se ""ivasoras".
Esta abundância de recursos propicia que espécies que
normalmente habitam a faixa de clímax dinâmico colonizem como
pioneiras. Nestas condições peculiares, são possíveis densidades
I
I Sucessão de Espécies
(tempo)
populacionais maiores e retornos em alimentos a curto prazo, para
O d~namlsmo deste processo se da pelos determinadas áreas, ainda nas primeiras etapas de regeneração. crclos de vrda e morte dos componentes
Como todo paraíso tem seu inferno, a fertilidade natural mascara a do eco,,stema. A sucessão de esDécles é
prohndidade de nossos erros de manejo, o que a Longo prazo pode o veículo de reo~anzzação da complex1-
trmer consequências irreversíveis. dade rumo ao clímax.
- Assim, o que conhecemos como clímax
de um ecosszstema é o resultado da
otlmização dos fafores de radzação,
nutrientes e umidade pelas formas vlvas
I
I Faixa de, Clbmsnx , Dinâmico
I
A 'tfaixa de clímax dinâmico" é o espaço
onde se da esta reo~anização com o
mínimo de perdas energétzcas e,
portanto, com a maior possibilidade de
sustentar as formas vivas em quantzdade
e diversidade.
Se pensamos um pouco, entenderemos por que as florestas
das ilhas havaianas eram '%aboo9', só podendo ser alteradas sob
comando dos chefes.
Esta abundância não é o caso, por exemplo, do extremo
sulbalano. Nessa região do nordeste brasileiro antes ocupada por
Mata Atlântica contínua, os pastos degradados que hoje dominam
a paisagem não poderiam suportar assentamentos humanos ávidos
pelo padrão alimentar baseado em carne bovina, ovos, leite e
verduras. Na maior pade dos solos daquela região, principalmente,
os próximosà costa, a retirada da vegetaçgo para ciclos de fogo,
mandioca e pastagens corre o risco de não se perpetuar por mais
tempo do que uma vida humana antes de chegar no ponto de
sustentar apenas insetos, pequenos répteis e roedores.
Referências
Quando nos refeimos a recursos de inkresse humano, eslamos nos reportando
desde a fatores de moderação climática local e regional, passando pelo aspecto
lúdico até o material básico para habitação e alimentação. De qualquer modo,
o "gancho" do trabalho com agriçultores começa pelo básico e imediato, muito
mais do que com argumentos de climatologia macroregional.
Os dogmas do humanismo cIássíco têm que ser atualizados. Fome, saúde,
habitação e consumo devem ser questões enfrentadas a parlir de um esforço
global em manter o planeta habitável e local na geração de soluções. O
populismo político acena para todos um consumo padrão baseado nas séries de
televisão norte-americanas. Na superficialidade, todas as capitais do mundo
tornam-se parecidas, em seus "trajes ocidentais". Enquanto isso, a massa da
população que nelas circula é digida de modo relativo pelos mesmos problemas
de dculos atrás, quando edificios de pedra encaixada, colunas de mármore e
pirâmides diferenciavam cídades como Lima, Atenas e o Cairo.
Ver na Introdução: "'Fisiologia de um sistema vivo: a ciclagem de nutrientes
numa floresta", pp 32-33.
Ver na Introdução: "Os sistemas vivos e a segunda lei da Temodinâmica". a
lei que trata da consewação de energia quando da passagem de uma foma
para outra. Esse é um exemplo prático da aplicação dessa lei, pp28-30.
Na verdade, o processo de mineraliz~ção da biomasm é relativo em condições
de extremos climáticos sazonals. Tanto o gelo como a ausência de umidade
não mineralizam a matéria viva de imediato, o que daria ma-em a perdas,
aumentando a entropia do sistema. No gelo, o resfriamenio preserva nutrientes
e sais dos tecidos e os deixa -tos a serem atacados por microorganismos no
degelo. Na seca, as folhas, flores, excrementos e carcaças são praticamente
"'liofilizadas" pela baixa umidade relativa. Como os alimentos desidratados
que compramos em supemercados, perdem água, porém conservam açúcares,
sais minerais e determinadas proteínas. Poreanto, são fontes preciosas de
aminoácidos e substâncias básicas que financiarão a explosão de vida que se
segue as primeiras chuvas, ou ao aumento de t e q e r m r a , no caso dos climas
temperados.
Em reIação ao que pode se esperar de arcas degradadas pela ação humana, é
bom lembrar o passado: "'Toda a zona mral da Grécia tomou-se esparsamente
povoada ou quase &serta. A população da planície de Argos, por exemplo,
sofreu um decréscimo considerável, e a Nlessênia perdeu 90% de sua popukpção
entre os séculos XIIí e X I a.C. (...) Algumas abandonaram suas fazendas
exauridas a fim de ir para as terras férteis que ficavam nas regiões antes
desabitadas da Acaia (...) Ali, os refugiados podiam encontrar "uma saída
para a fome atroz", alimentando-se das bolotas que existiain em abundância
nas montanhas cobertas de cawalhos". Perlin, John. Op. cih.
As estepes naturais da Ásia podem parecer inhspitas, mas possuem solos
nquíssimos que favorecem, no conjunto das relações clima-solo-flora-fauna
uma biomassa animal muito grande. No caso, urna reswição climática força a
transição de uma forma de energia (vegetal) para outra (animal). Ambos se
intercomplemenbm para aumentar o potencial biótico daquele ecossistema,
mesmo em sms características aparentemente inóspias. Uma pequena mudança
climática, com um aumento de 2 a 4°C as tornariam celeiros mundiais de
grãos, segundo projeções de climatologistas ligados ao estudo do efeito estuf;a.
Outras projeções não são tão olimislas: a tundra derreteria, inundando as estepes
e produzindo mais metano, que aceleraria o efeito estufa e a subida do nível
dos mares, num cenhio nada promissor para quem quer que seja. Ver Lovelock,
James. Op. cit. Tarnbém: Molion, L.C.B. Op. cih.
EcoJislológ~co refere-se ao papel que cada espécie desempenha no fun-
cionamento do sistema vivo a que está integrada: o ecossistema. Por exemplo:
gramíneas pioneiras e estoloníferas cobrem o solo rclpidamente e conservam
umidade alravés de seu sistema radicular extremamente intrincado e denso, ao
mesmo tempo que inicia a agregação de carbono ao solo nu, criando condições
para que outras e-écies prossigam a tarefa de complexificar a vida.
Para Ir mais longe, ver Margulis, Lynn & Dorion Sagan "iMicrocosmos:
quatro brlhões de amos de evoluç2o microbiana" . Universo da Ciência, edições
70, RJ, 1986.
Conhecia as querências pelo faro: aqui era o cheiro do açouta-cavalo florescido; lá, o dos trevais,
o das guabirobas rasteiras, do capim limão; pelo ouvido: aqui, a cancha dos graxains, lá, os
pastos que ensurdecem ou estalam no casco do cavalo; adiante, o chape-chape, noutro ponto, o
areião.
J . Simões Lopes Neto. Contos Gauchescos. Citado por Araújo. Anacreonre Ávila de. Principais
Gramineas do Rio Grande do Sul. Edição Sulina, Porto Alegre, 1971.
Aprendendo a observar
Um primeiro passo para se chegar a sistemas que
promovam a regeneração produtiva de ecossistemas é desenvolver
a capacidade de observar os ambientes desprovido de preconceitos,
e tentando entendê-lo como o organismo vivo que é. Esta atitude
irá nos levar a respostas bastante simples a problemas aparentemente
complexos. Estas respostas estão geralmente materializadas na
dinâmica da vida que nos rodeia, nos espantando em como nossos
maiores dilemas nadam em um mar de obviedades.
Observar uma beira de estrada, um terreno baldio ou uma
clareira em regeneração é praticar e ver este princípio em ação. Ao
longo de uma estrada, os barrancos são cobertos por diferentes
comunidades vegetais: quase microscópicas em alguns pontos, já
mais complexas em outros. Isso demonstra diferentes estratégias
para diferentes situações de radiação, umidade e nutrientes.
Essas comunidades, a menos que a ação humana
interrompa, evoluem para o clímax, de f o m a a otimizar recursos e
conservar energia. Até o clímax, se estabelece uma dinâmica de
sucessão que é a possível naquele nível de recursos.
Esta abordagem, enriquecida pela observação sistemática,
leva-nos a identificar no meio em que vamos intervir todas as
possibilidades existentes e como elas estão sendo ocupadas pela
vida. Os conceitos de ecologia básica ajudam-nos a organizar este
conhecimento e a extrair princípios gerais de kncionamento dos
ecossistemas onde estamos intervindo.
Sempre partimos do princípio que fauna e flora Já
desenvolveram estratégias e recursos, e que este conjunto pemlte
a renovação e reorganização constante da vida em patamares cada
vez mais complexos e biodiversos. Esse fato é o que nos leva a
acrescentar a palavra dinâmico ao conceito de clímax. Polptanto, o
que já existe em termos de flora e fauna, a nível micro e macro, é
h t o de uma coevolução muito anterior a presença humana, e dispõe
de uma estratégia infinitamente mais complexa da que podemos
criar.
"Depois do Periodo Nademo /3,6 a 4,7
bilhões de anos atrás), a Terra esfriou e a
química e o clima se tornaramfmorheis
à vida (.../. Porém, as condiçõesjsicas do
meio evoluíam para um estado hostil, mu-
dando de congelamento para superaque-
cimento, o que levaria a uma dessecação,
como o que houve em Marte e b'ênus L..).
Do mesmo modo, a bagagem genética da biodiversidade a auto-regu'a~ão no pianeta,
as condiçõesfavorhe~s serram trans~tón-
local tem recursos para lidar com eventos que são potencialmente
entrópicos ou desorganizadores, dispersadores de energia, como
vendavais, inundações, fogo, vulcanismo, seca, etc, desde que o
homem não tenba exercido uma pressão sobre os recursos genkticos,
elisninando espécies. Neste caso, a ação mtrópica pode ter alterado
profùndamente a paisagem e comprometido a capacidade de
regeneração local, em temos de sementes e dispersores. Portanto,
o olhar atento ao históricolocal e aos fenômenos da vida é um
primeiro e importante passo para adquirir conhecimento e montar
sistemas.
Conhecendo as interaçóes
do triângulo ambienta1
A radiação solar, a umidade e os nutrientes, presentes nos
gases e minerais, interagem entre si e com as formas vivas para
criar o que conhecemos como biosfera. A vida microscópica e
macroscópica trabalha sobre a rocha matriz, mediada pela umidade
Temperatura (%)
e temperatura, e confère parte das características dos solos. Grandes
movimentos tectonicos e alterações geociimátlcas (glaclações; etc)
as c..). O diagrama mostra uma noção da promovem diferentes comunidades de fmna e flora e diferentes
"janela" da vida, criada quando condições Interações.
favoráveis são encontradas em três O relevo Influencia essas interações, crlando opomnldades
parâmetros críticos drs~onibil 'dade de diferenciadas para espécies. Po~ârito, a análise das formas de relevo
água temperatura, e dzsponibr lrdade de
nutrlentes fminerals. sals. etc i ". e das corriunidades típicas que as habitam (flora e faunâ) ajuda-nos
AdaptadodeLovelock, James HeaLngGaza Practical a fazer âssociações, criando a possibilidade de caracterizar
Med~crnefor the Planei Hamony B o o t , New York,
1991 indicadores biológicos, os quals são ""sllalhos" para se diagnosticar > -
determinadas situações e seu histórico. Indicadores são, por
exemplo, formações vegetais comuns a determinados padrões de
I Nutrientes (%) i \
umidade, radiação e nutrientes, efêmeros, transitórios ou de longa
durabilidade. o caso de determinadas espécies da Mata Atlântica,
como o guanandi (Symphonza gkobulflerae, htt iferae) , que
ocorrem tipicamente em terrenos encharcados. Como árvore
I '\, colonizadora que acompanha a sucessão ate a mata primária, ela
I
I
\
\ indica uma situação de alta umidade de longo prazo. Já a Gleichenia
sp (Gleicheniaceae-NymenophyIZaceae) conhecida no sul da Bahia
como feto-gaiola, é a sucessora de briófitas e Iiquens na colonização
de barrancos a partir de uma situação inicial que indica pobreza de
nutrientes e alumínio alto. Portanto, é um indicador conjuntural e
mostra um status inicial quanto a disponibilidade de nutrientes. No
hturo, no mesmo local, poderemos talvez encontrar a caapeba
(Piperaceae), tida como indicadora de solos férteis.
Outro exemplo, é a presença de capões de mato nas
encostas voltadas para leste, no Nordeste de Minas, numa área de
campo cerrado. Ela não está relacionada com a maior riqueza nos
solos, mas sim, com o menor estresse hídrico na encosta voltada
para o leste, que não recebe o sol da tarde. Na parte da manhã,
quando recebe isolação direta, há a presença de nevoeiro, orvalho,
etc, amenizando as perdas de água1.
Umidade (%)
Podanto, quanto maior o conhecimento do histórico do Umidade E? Radiação na
local, maior será a quanlidade de informações que um Indicador velocidade de ~~~~~~~~~~ão
biológico poderá fornecer Comparando várias situações, iremos da matena o-ianica
compondo padrões comuns e teremos um quadro "fisiológico" de
cada ecossistema. No caso, a ferramenta básica para encontrar esses
padrões e a análise das interagões entre radiação, umidade e
nutrientes. Essas interações determinam as características básicas
da fauna e da flora. Assim, o refinamento desta análise nos levará a
selecionar quais espécies podem nos ajudar a recompor a
produtividade de diferentes ecossistemas, assim como de uma
determinada área, e como manejar essas espécies.
Ciclos de chuvas, orvalho e
neblinas
A água chega as formas vivas de várias
maneiras: degelo, neblina, reservas subterrâneas,
chuvas, inundações periódicas. Dados históricos
podem nos ajudar a levantar a origem e o ciclo
da água em cada ecossistema, e isso, nos servirá
para balizar intervenções. No caso do trópico
úmido sazonal, quando as séries históricas de
chuvas apontam para a possibilidade de estiagem
de modo irregular em determinados meses, uma
implicação prática imediata é que não é sábio
podar drasticamente a vegetação visando matena
orgânica e rejuvenescimento da vegetação. Esse
não é um problema quando a vegetação com que
estamos trabalhando já tem previstas na sua
própria fisiologia estiagens cíclicas, como e o caso
das matas subcaducifólias ou de climas sazonais
bem marcados. Também pode nos aconselhar a
não apostar em culturas anuais quando se
esperam chuvas pesadas e baixa insolação.
Ainda, a arquitetura de determinadas
plantas e formações vegetais servem como
verdadeiras coletoras de orvalho e neblina,
capturando o vapor de água, condensando-o e
dirigindo para suas raízes. Em ilhas oceânicas,
a,
+.r
z
Q1
O
U)
a,
c
2 -
m .-
L
Q1
+.r
E"
CU
-a estação chuvosa
s
dias de permanência sobre o solo
O -&fico abaixo mostra a relação
entre a di-onibilidade de umidade
e a vebcidcede de degrcÃdação da
serrapilheira, o que afeta diretamen-
te a ciclagem de nutrientes dentro
do sistema.
Extraído de Schubart, Werbert O.R.,
Wolfram Franken e Flávio Luizão. Uma
Floresta Sobre Solos Pobres. Ciência Hoje,
jan/fev de 1984-v01 2 no 10, págs 30-3 1.
como as Canárias, Madeira, Tenerife e outras ao Longo da costa
ocidental da África, a vegetação obtém assim não apenas umidade,
mas nutrientes provenientes do mar ou transpo~adss por ventos
dos continentes. Sem dúvida, os dados climatológicos históricos e
a tradição oral podem nos dudar a compor um quadro com boas
indicações.
Ciclos de ventos calou chuvas torrenciais
Estes eventos naturais são balizadores para
nossas intervenções mais fortes. O período ou ciclos
em que acontecem coincidem com quedas de árvores
em áreas mais extensas, inundações e alagamentos,
vendavais e outras formas de alteração das co-
munidades vegetais e animais estabelecidas. A
diferença é que, durante esses ciclos, o distúrbio já
está previsto no comportamento e na fisiologia de
boa parte das espécies afetadas. Estamos assim
acompanhando um fluxo energético já existente.
Os aborígenes australianos do Território do
Norte costumavam queimar as savanas no início das
chuvas, visando evitar que o fogo descontrolado e
espontâneo típico do início das trovoadas causassem
danos a seus campos de caça e habitações2. Esse
tipo de adaptação a eventos potencialmente
entrópicos é comum e está enraizada em um sem-
-número de práticas tradicionais ou ligadas a mitos
e tradições. Conhecê-las fornece dados que podem
evitar que, literalmente, nossos projetos sejam
queimados ou submejam água abaixo. Linhas de
água marcam a vegetação e a modificam, pela
presença cíclica de sedimentos, assim como os
ventos predominantes refletem-se na arquitetura de
árvores ou de formações vegetais.
Ciclos de radiação
A intensidade de radiação durante os meses
do ano e o ângulo do sol são informações críticas
para latitudes acima dos 30 gaus. Quanto mais perto
dos pólos, mais crítico é o fator radiação, através da redução de
luz e calor. Mas para o trópico úmido tarnbém é um falar Ipnportante,
em hnção da n&ulosidade típica destas regiões. A trajetória da
sombra projetada por árvores dos estratos mais altos associada ao
relevo e a korárlos mais ou menos regulares de nebulosidade podem
Influenciar na composiçb de espécies.
Também aliada à1 umidade alta, a sombra não guda muito
secadores solares, plantios de determinadas culturas anuais e
determinadas fases de fnatlferas, como a floração. Do mesmo modo,
podas drásticas e extensas da vegetação no pleno verão do trópico
aceleram a perda de água e a oxidação da matéria orgânica, o que
pode causar uma perda irreversível do potencial de produção de
uma Frea. Esse tipo de intervenção deve ser bem estudada em suas
implqações.
Frutos e folhas danificados pelo sol podem indicar uma
açãg antrópica que retirou estratos superiores. Também um
creskimento lateral de espécies normalmente retilíneas pode indicar
uma tentativa de adaptação forçada ao crescimento a pleno sol e
retirada de umidade por ventosfrequentes de quadrantes definidos.
Variações locais no padrão pedológico
Os nutrientes chegam às formas vivas sob várias formas:
sedimentos marinhos, sedimentos traidos por corpos de água doce,
ventos, arraste por geleiras e degelo, animais, gases e através da
chuva. A composição do quadro regional via informes acadêmicos
passa por um enriquecimento com o saber local sobre que tipos de
solos existem, onde eles se encontram e o que os -ricultores
relacionam a esses solos, em relação a vegetação, umidade e
possibilidades de cultivos.
Zonear as manchas de solo dentro de uma área é um passo
adiante para uma utilização mais adequada e planejamento de
sistemas com diferentes cultivos, dentro de uma estratégia de
consewaçk de energia e otimização do trabalho e recursos. De
modo geral, as classificações de solo por agricultores e populações
autóctones levam em conta as interações solo-fauna-vegetação,
bem como a reação aos cultivos. Se não pode ser generalizada,
essas classificações siio importantes, porque são feitas de acordo
com a interação entre ambiente físico e formas de vida. Isso gera
Arquitetura de plantas e s
ambiente
No planalto sul-brasileiro, aspaisagens de
campos naturais são pot2Nlhadas de matas
de galerias e "capões". As bordas são ge-
ralmente ocupadas por espécies pioneiras
que se adaptam aos extremos de fempera-
tura e baixa umidade provocado pelos ven-
tos fortes e agravados pelos solos rasos.
Capões isolados tomam a forma de um
chapéu.
Os ventos dominantes nos tahulerros do
extremo sul da Bahza retlram umidade da
vegetação, principalmente das plantas da
horn%r dos plan flos Este plan fro de serin-
gueira reflete essa sltuação pela forma de
"chqku" que o serrngai acaba adqurnn-
do com o passar do tempo
insegurmça nos técnicos, que trabalha com uma classificação mais
analítica e reducionista, em t e r m s de rocha-matrjiz, granulometria,
perfil e análise química. Se de um modo geral um mapa de solos
traça um pano de hndo para os cultivos, ele é totalmente ineficiente
para lidar com as particularidades do relevo e as interações entre a
vegetação, radiação e umidade. Enquanto as classificações
'kennpiricas" trabdham mals a nível de camada superficial (que reflete
de certo modo como o conjunto solo-fauna-flora inter-e), os
sistemas científicos trabalham mais com perfíl e composição
química, com pouca ênfase na vegetação ou paisagem3. Como
ressaltamos no Capítulo 1, o encontro entre o reducionismo e o
holismo, entre o saber popular e o saber acadêmico é o caminho
para se chegar a um conhecimento real dos ambientes.
Consórcios e arquitetura de espécies
Bi11 Mollisson, mentor da Permacultura, afirmava num
curso realizado em Porto Alegre, em 1992, que "para conhecer a
natureza, devemos prestar mais atenção as formas do que ao
conteúdo". De certa foma, as interações do triângulo ambienta1
são espelhadas pela forma da vegetação e dos consórcios que essas
criam para otimizarem a si próprias. Os ventos secos ou salinos
retiram umidade e criam limitações ao crescimento, gerando árvores
mais baixas e retorcidas, e folhas coriáceas ou que se fecham a
noite. Condições extremas de baixa temperatura e curto período
de luz solar (radiação) reduzem o porte das ániores e condicionam
sua forma. A copa assume uma f o m a elíptica alongada, de forma a
receber os raios de sol que chegam num ângulo bastante baixo em
relaçk ao zênite. No oposto, as árvores do trópico úmido têm
copas na forma de guarda-chuvas, de modo a moderar a ene-ia
solar e o impacto das chuvas.
Solos muito velhos e lixiviados produzem plantas menores,
distrjibuídas em espaços mals amplos e com sistemas radiculares
muito eficientes, assim como caracterlsticas de folha e copa que
buscam otimizar umidade e moderar radiação.
Como vemos, estes dois conceitos, ou seja: a forma dos
consórcios e a forma individual, dificilmente podem ser tratados
separadamente, se queremos utilizá-los como ferramentas de
reconhecimento dos ambientes.
Quando falamos da dinâmica da sucessão natural de Nasce uma ilha de vegcstaças
espécies, citamos a palavra '~onsórcios" e "consórcios dominantes" Fauna e g o r a interagem de modo
algumas vezes. Na verdade, não se trata apenas de uma sucessão e,t, jto na evolução de um
de espécies, mas sim de uma sucessão de consórcios de espécies. lema.
Ainda, não é apenas uma sucessão de consórcios vegetais, mas,
sim, de um consórcio de seres vivos, do nível micro ao macro.
Fauna e flora interagem de modo incessante. Nesse aspecto, o 1 A fauna dissemina sementes, que
ocasionalmente se instalarão em pontos
reducionismo é um aliado secundário para o conhecimento: o grau favoráveis.
de inter-complementariMe e sinergismos é tão grande entre as
várias formas de vida e o meio, que o estudo das partes só pode ser
feito após o entendimento do sistema como um todo.
E para se chegar a esse entendimento, o estudo
das formas é de grande valia. A arquitetura das espécies
envolvidas no consórcio diz muito de sua função
ecofisiológica. Em suma, de como contribuem para o
progresso do consórcio a que perlencem, de como
evoluíram do consórcio anterior, e de como serão
substituídas pelos consórcios do futuro. @ --
Tomemos como exemplo a colonização de um
nicho para espécies arbóreas nos campos de altitude
do sul do Brasil. Pontos de solo mais prohndo e acesso
1
regular a umidade - sem encharcamento - nos campos
do planalto sul-brasileiro permitem o aparecimento de
uma mata ciliar e "capões" de árvores.
Existem espécies como o guamirim 3 -
(Myrceugenia euosma, Myrtaceae) que formam no
início pequenos bosques homogêneos, de sementes
trazidas por roedores. Estes capões tomam a forma de
um chapéu, uma vez que a dispersão dá-se também
por gravidade e por rebentos de raiz, e o vento,
competição com gramíneas e pastoreio freqüente por
pequenos mamíferos, como lebres, veados, cotias e
outros roedores.
A arquitetura do bosque é muito prática: desvia os forles
ventos dos campos do planalto e cria obstáculo aos herbívoros de
maior porte. Àmedida que estes capões evoluem. seu centro começa a Estas condiçõesgeram umpequeno bos-
a oferecer as condições necessárias ao desenvolvimento de espécies que em forma de chapéu, que ajuda as su-
que habitam as matas de galerias, cujas sementes chegam através perar as limitações jmpostasPor ventos e
de pássaros e animais em passagem. A arquitetura dessas espécies herbivoros de maior porte.
é menos adaptada e não sobreviveriam aos ventos gelados do
inverno ou à rápida evaporação acelerada pelo vento nordeste nos
solos rasos destas regiões. Nos dias mais secos, a umidade relativa
do ar dentro do "chapéu" (80% a 90%) é bem mais alta que no
exterior (40% a 60%), e a temperalura apresenta menos extremos.
Isso atrai animais nativos, potencializando tanto o sistema com os
nutrientes contidos nos dejetos, como com material genético, com
2 As espécies pioneiras formam uma as sementes escarificadas e "peeletizadas" que chegam com os
população densa, adaptando sua forma
as condições reinantes. animais e seus excrementos.
Os indígenas faziam suas ocas nestes capões,
verdadeiras ilhas de recursos. Os antigos estancieiros
sabiam disso e preservaram esses capões para servirem
de abrigo para os bovinos e ovinos contra os extremos
climáticos. Geralmente, oferecendo água, brotos, ar-
bustos e árvores como alimento e proteção, foram
2 mantidos em grandes áreas e chegaram a constituir parte
do sistema de criação. Numa visão cartesiana, quebra-
-ventos retilíneos de eucaliptus e aguadas criadas a
partir de açudes desempenhariam o mesmo papel.
Como em qualquer outro campo, obtém-se uma gama
estreita de beneficias por um custo bastante alto. Além
disso, esse beneficio dura enquanto dura a energia
externa (manutenção) que o gerou. É algo como um
fast-foodcujos sanduíches e custos operacionais fossem
superiores às refeições e custos de um prestigiado
restaurante de pratos típicos.Eventualmente, a pressão do gado bovino corta
a dinâmica de regeneração causando a decadência do
sistema. Num clima mais frio, a decadência, even-
tualmente, dá-se em escala mais longa do que a
- capacidade de observação de uma geração de seres
humanos
Em "ilhas" de Roresta no meio de pastagens no trópico
úmido a degradação é mais rápida, assim como são mais curtos e
frequentes os ciclos e a dinâmica de nutrientes, e a ação do gado
cortando a dinâmica sucessional e a ciclagem de nutrientes 6 visível
4 F~nalmente, ajauna var agregando ma- a curto prazo A esse exemplo, poderíamos juntar inúmeros outros
terralgenétzco, e espécies de ciclos rnam Em todos teríamos a noção da intima ligação de aspectos da
avançadosdasucess60 rnstaiarn-se na arquitetura das plantas e da formação vegetal como um todo, dos
d ~ d a que as condzções melhoram Está cn-
ado um "capão" de mato r ico em hábitos de crescimento e formas de reprodução, das características
blodlversldade epleno de recursospara a de folha, tipo de semente e agente dispersor Ainda, explorando
fauna.
um reducionismo útil, a análise química das espécies poderia nos
apontar nos consórcios uma complementaridade de habilidades
em concentrar determinados nutrientes, complefixlcar elementos
tóxicos ou atrair determinadas espécies da fmna, fechando uma
estratégia de constante renovação, diversificação e coevolução
genética, disseminagão de sementes e complexificação progressiva.
Finalmente, esse conjunto obtem assim sua estratégia para
a reprodução, que é a auto-regulação ou homeostase. Essa é uma
capacidade que cresce na medida da complexidade de um sistema,
e, é como vimos no Capítulo I, na parte relativa aos conceitos de
Termodinâmica, uma das propriedades dos sistemas vivos.
Estratégias de otimização da vida
Vamos reforçar o que foi visto citando alguns exemplos
de como as fomas de vida buscam otimizar os fatores que propicim
sua existência. Agregar mais exemplos é uma habilidade a ser
desenvolvida pela observação e trabalho prático. De qualquer modo,
pode nos auxiliar a observação dos seguintes ítens:
Arquitetura da planta
(incluindo sistema radicular)
VeJamos como exemplo dois casos extremos, em relagão
a herbáceas que colonizam áreas abedas.
- raízes profundas, folhas finas e coriáceas revelam
adaptação a situações de solos ou períodos secos;
- herbáceas de raizes superáíciais, com folhas largas e
macias, com baixa relagão C/N indicam adaptação a colonização
de clareiras naturais onde abunda umidade e inatéria orgânica. Esse
tipo de correlação pode ser afinado com o conhecimento popular e
complementado pelo estudo de botsnica e ecologia vegetal básica.
Aquitetura d a formação vegetal no tempo e no espaço, ou
seja, nas diferentes etapas da sucessão
A multiplicidade de formas e sua combinação, ao longo
do tempo e do espaço, da sucessão natural de espécies aponta-nos
quais são as formas que a sucessão de consórcios de espécies que
estamos introduzindo devem tomar, o que podemos introduzir e
como manejar estas introduções.
1 Num pr~merro momento, seu rápldo cres-
cimento e dennsmassa folrar recobre a da-
reira e modera a radzação e o rmpacto da
chuva
2 A seguli; desloca-se junto com a vegeta-
ção que emeee, amarrando a borda da ,
mata e dlm~nurndo as perdas de umrdade
por evaporação.
3 finalmente, estabelecem-se no alto das
árvores, onde dl-ersam sementes através
de vento e agentes dz-ersores da própna
fauna, que deles se alimentam ou que os
usam como acesso aos estratos mais alt0.s
da$oresta.
Um exemplo claro é a hnção dos cipós nas clareiras da
mata. Adaptados ao rebrote vigoroso, os cipós fecham o solo e
cobrem a biomassa que caiu, favorecendo a degradação da lignina,
ao criar condições de umidade, abrigo para insetos e fonte de
nutrientes para os decompositores. A medida que arbustos
agressivos crescem, levando os cipós para cima, vai diminuindo
gradativamente sua área foliar, mas as condigões geradas pelo
conJunto da vegetação é Ideal para evitar o crescimento de herbáceas
agressivas pioneiras, bem como a perda de água por evaporação.
Na sequêncla, os cipós deslocam-se para o alto das árvores, criando
uma teia de amarração que "uda a vegetação a resistir aos vendavais
e cicloneio. Por isso, matas exploradas para madeira ou "'clareadas9'
para Introdução periódica de anima;ls são muito mais sujeitas a danos
por ventos e, um dos principais fatores, é a ausência de cipós.
Estratégias de dispersão de sementes e
de interaçóes com a fauna
comum encontramos áreas de capoelrão de até 20 anos
povoadas por consórcios e indivíduos comuns a situações pioneiras.
8 tempo de regeneração seria suficiente para uma população de
mata secundária, mas observa-se ainda uma domingncia de pioneiras.
Isso tem causas, geralmente, na degradação do banco genético,
sob várlas formas: fogo, pastoreio, diminuição ou extingão da fauna
por caça ou destruição dos habltats, retirada sistemática de
indivíduosjovens, na faixa de diâmetro de 5-20 cm para construção,
codando a regeneração natural, e pela busca seletiva e destruidora
dos madeireiros a espécies nobres, muitas vezes eliminando
matrizes.
Esse último item é particularmente problemático para
espécies dióicas, onde, geralmente, a Emea representa menos de
30% do total de Indivíduos da espécie. Conhecendo as estratégias
de dispersk das espécies e do repovoamento (vento, animais
especlficos, vegetativa, etc), podemos substitui-las ou repo-Ias
através de abrigos específicos para dlssemlnadores, identificação e
proteção de matrizes, bolsas de setnentes, envlveiramento, etc
Enquanto teimamos em colocar as mudas de árvores no
espaçamento definitivo, de modo que as copas, mesmo daí a 50
anos, não se toquem, a natureza mantém uma densidade de amores
enorme por metro quadrado. É fácil observar mais de 30 ou 60
plântulas de espécies de mata pioneira como a Trema micranla
(Ulmaceae). Esta densidade vai caindo drasticamente durante o
desenrolar da sucessão. Somente permanecem os indivíduos que
encontraram as melhores condições e que, eventualmente, carre-
gavam a carga genética adequada. Ainda, que se estabeleceram
onde as condições necessárias a sua espécie deram-se durante mais
tempo do que suas companheiras de "ninhada9'.
Durante o ciclo das pioneiras, o olho observador vai
encontrar enorme densidade de espécies da mata secundária
regenerando no sub-bosque das pioneiras, em taxas de 1 a 10 por
metro quadrado. O processo é o mesmo: uma seleção promovida
por vários fatores e diferentes ciclos de vida.
Plantas colonizadoras como as gramíneas são ainda mais
agressivas neste sentido. Espécies de Festuca sp. podem ser
encontradas em concentrações de até 220 mil por metro quadrado
Espécies pioneiras da família das Compositae, como o assa-peixe
(Ernonza spp), um arbusto colonizador de pastagens degradadas
tem a mesma proliisão de sementes, transportadas pelo vento, assim
como o vassourão-branco (Piptadenza angustlfolia), árvore pioneira
da Mata de Araucárias.
Outras colonizadoras têm a mesma profusão de sementes,
mas não têm dispersão tão eficiente, o que é o caso da bracatinga
(Mimosa scabrella, Leguminosae), cuja dispersão é por gravidade,
o que já limita sua presença em blocos de regeneração natural em
solos muito degradados, onde o banco de sementes (e, pro-
vavelmente, as condições mínimas de que necessita) foi perdido.
Avançando na sucessão até a mata primária, chegaremos a
espécies que têm povoamentos iniciais bem mais ralos e exigem
nichos específicos, chegando a densidades de menos de 0,3
indivíduos por hectare em matas clímax, ainda que esta densidade
possa ter sido de mais de 100 indivíduos/ha nas etapas de transição
de mata secundária para mata primária.
Essas observações mostram-nos que as densidades de
plantio não devem se ater somente ao que esperamos obter no
espaçamento final. As densidades altas de sementes e plântulas são
estratégias dos consórcios deespécies de modo a otimizar a
ocupação do espaço e o desempenho futuro do sistema. Afinal,
numa simples conta de probabilidades, é mais fácil que o lugar
adequado de uma planta seja encontrado pela árvore-matriz e seus
agentes dispersores, do que através da mão do diligente agricultor
que as planta em covas num esgaçamento definitivo e em linha.
Isso nos leva a entender o potencial agrlcola do comportamento
descrito anteriormente, que é o de ""lhas de vegetação7'.
Essas ilhas não são casualizadas, mas sim localizadas
segundo vários fatores que aumentam suas possibilidades de
sucesso. Este comporlamento já foi comentado na conceituação
de nichos: as plantas e os consórcios a que estas plantas peflencem
não buscam a linearidade, mas sim, as possibilidades de obter os
recursos de que necessitam para sua sobrevivência e reprodução.
Este é o conceito básico de como se instalam as espécies
num ambiente. Com esta base podemos, de modo pragmático,
ajustar as densidades de plantio e a localização de nossos cultivos
segundo um zoneamento ambiental.
Logicamente áreas mais homogêneas em termos de relevo,
solo e umidade permitirão que cultivemos nossas plantas em linha,
se assim quisermos. Já áreas de relevo, radiação, umidade e
características de solo diferenciadas pedirão uma abordagem menos
rígida, mas certamente muito mais eficiente do ponto de vista de
auto-regulação e desempenho produtivo naquelas condições.
A resposta dos sistemas convencionais para essas diferenças
é a utilização maciça de insumos externos para viabilizar o sistema
linear, pelo menos enquanto houver recursos externos para manter
o sistema funcionando. A diferença para os sistemas naturais é a
relação custolbeneficio favorável, obtida pelo zoneamento eficiente
dos nichos para cada espécie dentro de uma área.
A homeostase ou auto-regulação
Tudo o que vimos em termos de estratégias de formas e
consórcios visa a homeostase. A auto-regulação ou homeostase de
um sistema dá-se na medida que este evolui conjuntamente com
uma série de "fiscais" do processo evolutivo, como predadores,
vírus, bactérias, fiingos, etc. Ela se expressa nas árvores, a nível
Individual, de várias formas:
- na capacidade de repor a casca parcialmente perdida
em distúrbios como quedas de árvores;
- na capacidade de perder folhas numa estiagem e rebrotar
nas chuvas;
- em fechar as folhas ao anoitecer, desenvolver pilosidade,
ou ainda plginentação clara na face inferior, de modo a refletir a
radiação e diminuir a perda de umidade;
- na capacidade de evoluir de modo a gerar folhas aptas a Bordas ecssslstemas
captar a neblina e condensh-Ia, de forma a suprir a umidade
necessáila em áreas de baixa precipitação e nevoeiros freqoentes.
Ao nível das Interações, a auto-regulação vai se expressar:
- na exudação pelas raizes de nutrientes, substâncias zonas de tmiGáo entre ecox,siLy-
inibidoras ou estimuladoras de crescimento de modo a compor e temas têm carac~erír;~icas únicas,
regular de forma otimizada o consórcio de espécies como a própria
atividade biológica ao nível da rizosfera (fixadores de N, micorizas,
A principal delas diz respeito a sua dmâ-
etc), mlca um szstema exporta e recebe nutrn-
- na exudação de substâncias químicas odoríferas que enteL$ do outro, e esse fluxo de nutrientes
atraem predadores de insetos, na medida que esses mastigam suas favorece^ pflnczpaimeflte, afafauna
hlhas,
- na exudação de açúcares e outras substâncias que atraem
insetos que por sua vez repelem ou predam outros insetos que Ihe
causam danos;
- na capacidade de
extrair água e nutrientes de águas rasas de um litoral,
modo diferenciado para cada restingas e mangues
espécie e complemeistar dentro
de um consórcio.
Ao nível do conjunto
ou floresta (macro-organis-
mo):
- reciclando a urnida-
de na forma de vapor de k u a
pelo dossel da floresta, o que
aumenta a área de dispersão da
própria floresta pelo car-
reamento da umidade para o
interior do continente;
- reciclando nutrien-
tes em conjunto de modo a
zerar a perda ou aumentar o
estoque destes na biomassa
total do sistema;
- moderando a radia-
ção e os ventos, de modo que
a umidade não se perca rapi-
damente nem que a matéria
orgânica seja oxidada sem sua
imediata incorporação a
mata pluvial em transição para
pastagens e alagados
* . . . L > U
biomassa, numa estratégia que obedece h lei de conservação
ene-ética da Termodinâmica.
Todas essas habilidades, que vão do nivel do indivíduo ao
nível do consbrcio, até chegar ao ecossistema Inteiro, podem ser
conceituadas como auto-regulação. Alnda, em cada uma de nossas
ações devemos ter em mente essas habilidades de auto-regulação.
Este é o nosso -guia para sistemas agrícolas de baixa
I - intervenção Qualquer ação orientada dentro de princípios
O manejo destas zonas de transiçdo tem
paranli~o ao homem e a vdrras es.ecies sistêmicos, como é o caso do manejo de bacias hidrográficas, deve
anlmals a sohrevivêncla ao longo da hls- levar em conta estes aspectos Do mesmo modo, ao efetuarmos -
loria da evolução uma intewenção numa vegetação nativa ou reflorestarmos uma
I área, devemos ter em mente as estratégias locais da vida, que serão
nossas gulas permanente
1
Buscando
mata pluvial de altitude em transiçgo
para campos de altitude
Todos os conceitos
que vimos até agora nos
ajudarão a compreender por
que animais e vegetais - e o
próprio homem - concentram
suas populações em deter-
minadas regiões, ou provocam
alterações nas condições
clímax de modo a obter
TeGUrSOS.
O conceito de clímax
dinâmico e o conceito de
bordas ou zonas de transição
estão intimamente ligados. 0
clímax dinâmico é um estado
potencialmente instável dentro
de um determinado ecossis-
tema. Por exemplo, uma
árvore gigantesca da mata
primária acumula enorme
inassa de nutrientes, em seu próprios tecidos e nos seus "hóspedes", A mata cilliar como sistema
como bromélias e toda uma série de espécies que nela encontram de borda
abrigo e recursos A queda dessa árvore e sua posterior decom-
posição Irá lentamente transferindo as unidades básicas da vida para
incontáveis espécies que encontram um nicho adequado na clareira A exrstêncla de um volume de agua
aberta na mata, rica em matéria o-ânica e radiação Essa é uma regula6 com cheias que trazem arras-
alteração que o homem provoca, imitando a dinâmica de um sistema tam sedzmentos, condrcionam $ora e
fauna
clímax
Já as bordas ou zonas de transição referem-se a zonas onde
essa dinâmica dos sistemas clímax é bastante previsível e cíclica,
propiciando oferta regular de recursos Essas zonas são faixas de
interação entre sistemas complexos, se~am estes dois ou mais
sistemas (ou ecossistemas) diferentes e intercomplementares Existe
nesta interface uma instabilidade que propicia a reorganização
periódica com certa abundância de recursos para a fauna Podemos
dizer que é o clímax dinâmico dando-se a nível mais amplo, em
ciclos determinados e em faixas mais delimitadas dos ambientes
Vejamos um exemplo Um sistema lacustre,
como uma lagoa, tem períodos de inundação e sêca
cíclico~, regidos por fenômenos climkticos Para o
sistema de várzea, a subida do nível das águas Na cheia, sedimentos, sementes e material
vegetativo são distribuídos nas margens.
representa o aporte de sedimentos ricos em nu-
trientes nas faixas inundadas. Após o retorno das
águas, há um subsequente crescimento exuberante
de gramíneas e outras herbáceas de baixa relação
C/N. Este recurso alimentar é transformado por
herbívoros, e seus predadores têm possibilidades de
aumento populacional. Para os seres aquáticos, a
subida do nível das águas aumenta seu territórió e a
oferta de alimentos, bem como acesso a colonizar
outros corpos de água, que se juntam.
De modo mais marcado do que num sistema
clímax, que conceituamos como clímax dinâmico,
as bordas têm uma certa regularidade de distúrbios
ou eventos "renovadores". Marés de grandeamplitude, cheias sazonais, épocas de ventos fortes,
ou o degelo nas montanhas têm ciclos mais ou menos
previsíveis. Esta previsibilidade oferece aos animais
um tipo de segurança mais dificil de se obter dentro
de um sistema clímax. Por exemplo, uma árvore
madura pode cair ao primeiro vendaval, ou demorar
Nível do rio na cheia
. . , . - . . . . . . . . . . . 'i--
10 anos ou mais. Portanto, o nicho que sua queda proporciona é
mais aleatório.
Já numa zona de borda ou transição, estes nichos são bem
mais previsíveis, tanto no tempo como no espaço, o que se reflete,
A cheia funciona como elemento de geralmente, numa profusa e biodiversa vida vegetal e animal. Bordas
renovação, ao arrancar árvores velhas e podem ser observadas na transição da savana para a floresta, da
ramos e trazer sementes e sedimentos em
ciclos espaçados. Esta é a dinâmica mata de restinga para o mar, dos campos de altitude para as florestas
típica de um sistema de borda de encosta, do semideserto para as matas formadas ao longo dos
cursos de água. Aí se incluem as florestas ciclicamente alagadas e/
ou semeadas de lagos, florestas em transição para alagados, como
nos deltas dos grandes rios, ou áreas de manguezais e recifes
próximos à linha da praia.
Recifes e rochedos, bem como as franjas
mata de de coral que caracterizam um atol, constituem uma
mata higrófila encosta
"zona de borda" entre as águas de baixa fertilidade
do ocemo aberto e as bordas de ilhas. Estes sistemas
i são considerados as ""Rrestas do mar".
As bordas são, portanto, componente,
natural da dinâmica dos ecossistemas e da paisagem,
e o ser humano aprendeu a reproduzi-las em nível
localizado, utilizando o fogo controlado, a abertura
de clareiras, o represamento de córregos, o manejo
de arrecifes para peixes, crustáceos e algas, a ca-
nalização de águas de degelo e a utilização dos
sedimentos de canais e lagos.
A busca pelo homem de sistemas de borda
vai de encontro ao princípio básico da susten-
tabilidade, que é a mínima intervenção. Ao invés de
criar uma savana pela dembada da floresta, era mais
óbvio para os povos autóctones buscar a savana e o
cerrados nos ciclos favoráveis em termos de oferta
de alimentos, reduzindo a necessidade de artifi-
cialização dos sistemas4.
Na mata úmida tropical, e na transição da
floresta para os cursos de água, principalmente, na
mata ciliar, que o homem achou as condições mais - -- -r=--- - --_
e -
b- _ -7 - - próximas às necessárias para a sua proliferação.
, - --- ------ - - . - - - -c ---c'- - --_____ . - --- - - r--'- -- -------- - Como toda a fauna desta ecozona, o homem tem L
mobilidade e circulou por outras áreas na busca de
I
Entre as cheias, os sedimentos se acumulam recursos eventuais, como nozes, fibras, etc. Essa
nas margens e fundo do curso d'água. mobilidade, que é a característica maior da fauna,
hnciona para a flora como estratégia complementar (e até principal)
de evolução e enriquecimento da bagagem genética, a partir da
dispersão de sementes, busca e ocupação de nichos.
Esta Interação e interdependência na ocupação de nichos
disponíveis dá-se com espécies de ecozonas diferentes. Desse modo,
as espécies podem encontrar recursos em outros ambientes, o que
estimula o intercâmbio genético e a longo prazo a biodiversidade
como um todo. Estudos etnobiológicos com populaç6es autóctones
mostram o papel da espécie humana neste processo5.
Já as matas de áreas elevadas e drenadas do trópico úmido,
muito afastadas dos rios, são o reinado vegetal por excelência, com
oferta de alimentos para animais de menor porte, principalmente,
pássaros e mamíferos que vivem a maior parte de suas vidas nas
árvores, como a preguiça. São sistemas dominados por grande
concentração de lignina6, o que não propicia uma fauna regular de
mamíferos ou herbívoros de grande porte, se compararmos com as
savanas ou mesmo com as matas ciliares ou de várzea, e isto reflete
na capacidade de suporte para a espécie humana. Essa hipótese
ajuda a entender parcialmente o zoneamento ancestral de populações
humanas, geralmente, ocupando o nicho que aqui estamos con-
ceituando como zonas de borda: savanas, matas ciliares em estepes
e pradarias, matas ciliares em florestas úmidas, os vales e lagos das
florestas temperadas, as restingas, praias, recifes e lagunas dos
sistemas costeiros.
Ao entendermos o conceito de nicho, estaremos enten-
dendo como as espécies fazem o "refinamento9' de sua estratégia
de ocupar espaços e utilizar recursos. Ao longo do texto, temos
citado a palavra nicho, de modo a dar a ela um contexto de seu uso
prático, que aqui vamos começar a consolidar. Nichos, no sentido
prático relativo aos processos vivos, é um determinado ponto, no
tempo e no espaço, onde os recursos fùndamentais para a vida de
uma ou várias espécies estão se dando.
Considerando o nível cósmico, a vida encontrou na Terra
um nicho adequado e trabalha para mantê-lo assim. Nos oceanos,
as correntes frias, como a Corrente de Humboidt na costa
sulamericana do Pacifico Xu a Corrente de Benguela na costa
Atlântica da krica, propiciam um nicho para o desenvolvimento
A i n t e r a ~ h entre animais e
vegeta-ao numa situagãco de
borda
Felizmente, ainda podemos, em 1996, re-
petir a campo observações registradas pe-
los primeiros colonizadores. Nesta foto, a
borda de um capão de matas de galeria
em Ipê, RS, no domínio dos Campos de
Cima da Serra, mostra nitidamente o efei-
to do pastoreiofrequente de herbivoros da
fauna naliva, como o veado7.
do plancton e de toda a vida marinha que ele desencadeia Ainda, a
existência de baías pedregosas de dificil acesso a predadores
terrestres oferece campo para os lobos-marinhos e outros
mamíferos. A constância destas correntes e a imobilidade das balas
(a menos que sejam assoreadas pela atividade humana) nos dâo
uma idéia geográfica e estática para o conceito de nicho No entanto,
esse conceito também está preso a uma dimensão de tempo
Já determinados nichos têm sua transitoriedade visível aos
nossos olhos Para vegetais rizomatosos7 como a bananeira, um
nicho é como uma casa alugada nas férias com geladeira cheia e
tempo bom: radiação, umidade e nutrientes por um período variável,
mas de estação pré-determinada, num lugar excelente. Este lugar
O ejèlto de renovação de raizes e de que- tem "endereço", data de "entrada" e data de "saída". Seu "endereço"
da de folhas crm uma condiçãopartlcular são as matas ciliares e sopés de encostas de montanha no trópico
Para mais exigentes nafaixa únudo. A data de "entrada" é determinada por eventos como cheias,
rente a mata, ilustrando muito bem o que
mantém a alta ~rodutividade das bordas deslizamentos e quedas de grandes áwores.
entre ecossistemas. Ver a referência7 no$- Esses eventos levam os rizomas junto com detritos
na1 da Parte 2, gp87. orgânicos e sedimentos para as beiras de rios ou abrem clareiras.
Ela se estabelece então com condições ideais: abundante radiação,
matéria orgânica e sedimentos, umidade e ausência de ventos. A
data de "saída" é determinada pela velocidade de crescimento da
vegetaçâo que a rodeia. A medida que diminuem as condições de
radiacão e aue os nutrientes são incorporados na biomassa da
floresta, a bananeira diminui sua produção de cachos e rebentos,
até que um novo ciclo recomece.
Em ambientes onde ocorre a renovação periódica de copas
por ventos fortes típicos das estações de furacões na h é r i c a
Central e Caribe, aliada ii umidade constante e solos vulcânicos de
alta fertilidade, este nicho pode ter vida longa (mais de 100 anos),
enqua;to que um bananal abandonado a sua própria sorte numa
mata de terra firme não passará de 1 O anos, embora possa se manter
no interior da mata, esperando por uma oportunidade.
O nicho pode ainda ser de um nível mais especializado, ou
ainda mais efêmero. São situagões pontuais, de maior ou menor
duração, que criam condições ótimas para determinadas espécies:
uma depressãono terreno, que retém umidade e matéria orgânica e
abriga sementes; um afloramento de rochas que hospeda orquídeas,
um cupinzeiro abandonado que pode ser usado para o plantio de
inhame num pasto abandonado, e assim por diante. A natureza usa
estes nichos como ""postos avançados" na recolonização de áreas
degradadas, apontando-nos um instmmento precioso para nossas
estratégias.Geralmente, um nicho deste tipo pode abrigar espécies
de estágios mais avançados da sucessão numa área que, pelas
condições gerais, não as comportaria.
Diagnóstico por indicadores de
densidade, porte e composição de
espécies
Para identificar as possibilidades de reproduzir as vantagens
de nichos e bordas, temos que ter primeiro uma noção do clímax
dinâmico de fauna e flora naquela região particular, nas suas
diferentes ecozonas, como a mata primária nos topos, piemontes,
encostas, baixadas, beiras de riacho. É também fundamental
observar as clareiras naturais provocadas por quedas naturais e
vendavais, analisando a sucessão de espécies em cada uma delas.
Comparando estas observações com áreas de intervenção
humana sob vários sistemas e vários graus de intensidade de
degradação, teremos uma idéia do potencial biótico local, das
estratégias de regeneração e indícios das metas locais. Do mesmo
modo, já teremos boas pistas de que espécies, comunidades e
consórcios poderemos usar para atingir a regeneração produtiva
de cada situação específica
Os indivíduos e consórcios observados nos vários estágios
da sucessão natural de espécies a partir de intervenções humanas
ou de eventos naturais a~udam a montar estratégias de introdução
e manejo de espécies nativas e introduzidas. É um refinamento do
item anterior. Vejamos alguns exemplos:
Áreas abandonadas há mais de oito anos e que sustentam
apenas samambaias e arbustos pioneiros indicam como histórico
uma ação antropogênica intensa, com fogo e pastoreio. Do mesmo
modo, uma formação homogênea de embaúbas (Cecropia spp)
mostra uma dernibada seguida de fogo com posterior abandono.
Em solos mais férteis e úmidos, a embaúba branca pode predominar,
enquanto a embaúba vermelha pode ser dominante em solos mais
fracos. Portanto, as espécies que podemos manejar como plantios
pioneiros de interesse economico devem ter um grau de nisticidade
próximo as espécies autóctones.
Este é um conhecimento bastante.disponíve1 regionalmente,
e que deve ser relativizado frente aos vários fatores que produzem
Comporlamento de rebrote
de arvores e arbustos
A capacidade de rebrote tem como base
a herança genética, que reflete a
coevolução da planta e seu meio. Ainda,
fatores como idade e disponibilidade de
recursos (radiação, água, nutrientes)
podem influir nesta capacidade.
rebrote após perda parcial de
galhos finos da copa
eliminação natural de galhos mais baixos, sem
rebrote
uma determinada vegetação. Aprendendo a distinguir e comparar,
podemos chegar a um diagnóstico bastante preciso, traçando um
histórico de cada área, o que nos indicará os procedimentos mais
apropriados para regenerá-la.
A renovaçáo natural de folhas,
Alguns comportamentos básicos podem
ser descritos:
copas e raizes
A renovação cíclica da parte aérea da vegetação (e con-
rebrote após rebaixamento total sequentemente de parte das raízes) é princípio básico da sucessão
dos ramos mais grossos vegetal, e a reprodução manejada deste evento, traduzida na poda
e capina seletiva é um instmmento fiindamental para os sistemas
que estamos propondo.
Assim, as técnicas de poda da vegetação são adaptações
originadas da observação de como as espécies reagem a perda total
ou parcial da massa foliar de suas copas. Naturalmente, esta e
causada por eventos climáticos como quedas de árvores senescentes,
vendavais, inundações ou por adaptação fisiológica, que deteminam
uma renovação cíclica nas espécies caducifólias e semicaducifólias.
Em espécies de cerrado e caatinga esta renovação também pode
ser causada por fogo espontâneo ou devido ao forrageamento por
herbívoros, como veados, capivaras, etcs. Portanto, quando falamos
de renovação cíclica de vegetação estamos nos referindo também
as espécies herbáceas.
A renovação de folhas e raízes tem implicações a nível de
toda a fauna e flora associadas que formam a rizosfera e filosfera.
Portanto, num sistema clímax, após uma troca de folhas ou um
distúrbio causado por eventos naturais (vendavais, granizo, etc),
pode-se esperar também alterações ao nível de solo, em termos de
disponibilidade de alimento (nutrientes). Essa disponibilidade
conjuntura1 de nutrientes no solo logo é complexificada pelos
transformadores, como insetos, minhocas, fiingos e bactérias.
Eventualmente, pequenos herbívoros aproveitam as folhas secas
antes que sejam decompostas, o que é bastante comum nas matas
de cerrado e caatingas.
Na sequência, os nutrientes incorporados nesta biomassa
ao nível de solo vão lentamente se reestmturando na massa vegetal.
Este.lapso de tempo, que pode ser de dezenas de anos, é o clímax
rebrote de galhos mais baixos, dinâmico, e é onde a agricultura deve se sihiar. Portanto, o conceito ! sem tolerar perda do ápice de renovação da vegetação pela podação e o conceito de clímax
dinâmico estão Intimamente ligados. O objetivo primeiro da 'FransferQncIas de blorna~sa
renovação da vegetação deve ser conduzir o sistema ao estágio de na ~ucde~%" dde espécies
clímax dinâmlco, ou reproduzi-lo quando já existente.
A queda de uma árvore fenomeno natu-
ritérios para 0 manejo da vegetação rao OU a podação seletiva de indivíduos
causa uma transferbncia progressiva da
por podas, capinas e roçagens biomassa ( e consequentemente dos nutri-
entes) armazenados na vegetação para o
solo. Podemos dizer que a biomassa acu-
O primeiro e fundamental critério já foi enunciado. Nosso muladapassa
objetivo é o aumento da vida no lugar e a poda, bem como outras do solo) para a rizos-ra (dominio abaixo
operagões, culminando com a introdução de espécies, deve do solo). A sucessão reorganiza os nutri-
contribuir neste sentido. O indicador maior de a c e ~ o e erro é a entes e a biomassa da rizosfera para a
sucessão de espécies. Se após uma intervenção senescem as espécies Jilosfera novamente.
mais adiantadas e revigoram as mais atrasadas, então fracassamos
enquanto tentativa de seguir o fluxo e n e ~ é t i c o da sucessão e
dinamizá-lo, e perdemos energia.
O comportamento do rebrote
P,
Esta é uma pergunta que só
pode ser respondida pela observação da
vegetação nativa. O estrato superior ou
dominante da mata clímax adaptou-se podaçáo ou
a perder folhas, ramos ou parte da copa, queda
em função de ciclos climáticos e natural
vendavais. Deve-se respeitar a natureza
de cada espécie e o fato de que, se uma
queda de folhas é cíclica, uma podação
de 30-50% da copa em uma árvore do
estrato dominante é um evento mais
raro, mesmo que ela aparentemente se
recupere do dano. Portanto, nem todas
as espécies tolerarão podas anuais, mas
sim deverão ser avaliadas em fùnção da
recuperação que Vresentarem.
Em relação ao sub-bosque das
matas primárias, vános eventos deter-
minam a "podação natural", pela que-
da de galhos e mesmo de indivíduos
inteiros dos estratos superiores. Isso
facilita que algumas espécies da mata secundária e do sub-bosque
da mata primária tenham excepcional capacidade de rebrote após
poda drástica.
Já na Mata Atlântica, nas espécies de transição de for-
mações pioneiras para secundárias, a habilidade do rebrote de copa
&te período de transição cria uma condi- pode ser menor. É o caso de algumas melastomatáceas pioneiras
ção especzal de fertilidade e condições da Mata Atlântica. e é o caso da Mimosa scahrella na Mata de
ambientazs no local da clareira, o que fa-
vorece plantas de baixa relação C/N, Araucárias. Esta habilidade de rebrote aparece mais nas espécies
nalatbveis e nutritjvas oara animais de que se instalam como pioneiras mas que avançam na sucessão atéa r
maior porte. Este é um principio que ori- mata primária, como é o caso de algumas Sapindaceae (Camboatá-
enta as roças indígenas e que pode ser Cupania vernalis) e Melastomataceae (Jacatirão, Pequi-de-
muito $til em vários aspectos da agricul-
tura moderna. capoeira-Tihogchina mufabilis) É comum nas espécies dominantes
da mata secundária a perda paulatina de galhos mais baixos e uma
perda com recuperação de até 30% da copa, desde que o ápice não
seja danificado e estes não sejam danos anuais.
As espécies pioneiras têm
diferentes respostas, de acordo
com sua função no sistema. Em-
baúbas (Ceeropia spp) têm seus
brotos ""gstoreados", inicial-
mente, em clareiras por herbí-
voros, principalmente veados, e
desenvolveram certa habilidade de
rebrote enquanto juvenis e adul-
tas. Mundururús (Melastoma-
taceae) já s" menos hábeis no
rebrote, e podem ser manejados
por raleamento de copa, o que já
é natural da espécie. Capiangas
têm grande capacidade de rebrote,
assim como o Fumo-Bravo
(Solanaceae), e são pioneiras de
situações bastante degradadas, o
que é um fator positivo em seu
favor. Ainda, arbustos e sub-
arbustos, como a jumbeba (So-
lanaceae), a candeia (conhecida
como "vassourinha" no sul do
Brasil, família Compositae) são .. -, ;r8 hábeis no rebrote mesmo após
9 -
poda anual. Em ecossistemas onde houve coevolução com maior
densidade de herbívoros, como o cerrado, caatinga e savanas, as
espécies pioneiras têm uma facilidade natural para se recuperarem
da perda periódica de folhas e ramos finos.
Resumindo, o comportamento das espécies é o resultado
de uma interação entre o nicho que ocupam na sucessão, e fatores
de nutrientes, umidade e radiação. O que pode parecer complexo
nada mais é que um simples trabalho de obsewação e recuperação
do saber popular, incorporado através de uma convivência íntima,
embora nem sempre amigável, com as diferentes capacidades de
rebrote das diferentes espécies.
As diferentes reações B perda
de ramos e galhos
As árvores do estrato dominante criaram diferentes
estratégias para resistir a vendavais, perdendo ramos grossos e parte
da copa (caso típico do gênero Ficus) OU soltando ramos inferiores
já decadentes (caso das Araucariaceae). Estas espécies raramente
resistem a uma decepa total, como um rebgxamento. A recuperação
é lenta, de dois a três anos, quando praticamente não distinguiremos
a parte renovada, com excessão das araucárias, que ficam marcadas
para sempre.
Árvores de porte alto do sub-bosque desenvolveram a
habilidade de resistir a eventuais danos causados por quedas de
galhos dos estratos superiores, bem como à queda de árvores
senescentes deste extrato, às vezes, resistindo a decepa ou perda
total de copa. Nesses casos, modificam sua arquitetura em função
da clareira aberta e da perda de dominância apical, passando a uma
forma arredondada. Essa forma vai voltando a original na medida
em que os estratos superiores reconstituem-se, o que pode levar
muitos anos. O caso da erva-mate (Ilexparaguariensis) é exemplar,
passando de um eixo central para uma forma arredondada mesmo
dentro de matas primárias, desde que ocorra o evento descrito
anteriormente.
Do mesmo modo, as Arvores de mata ciliar desenvolveram
esta habilidade em knção de arraste por inundações. Arbustos e
subarbustos de beira de mata e de clareiras em mata clímax,
geralmente, suportam um rebaixamento geral da massa foliar. Essa
habilidade é originada da adaptação a pressão de forrageamento
por herbívoros e é muito comum nas leguminosas e malváceas. O
retorno à forma original e rápido.
Capacidade de suporte ao dano
Camihando por uma mata, pode-se observar os fenomenos
que citamos e avaliar a resposta em termos de rebrote de cada
espécie em diferentes situações, como perda parcial da copa,
rebaixamento por perda total, com rebrote do toco, etc. Também
podemos avaliar se este potencial de rebrote é comum a todas as
idades da árvore ou só a indivíduos juvenis e adultos, o que é
bastante comum. Ainda, poderemos observar como se comportam
as espécies e os diferentes consórcios, após distúrbios que lhes
afetem a estmtura e forma.
1É fùndamental o aprendizado prático da forma e geometria
da distribuição espacial de folhas e ramos. Embasado na Filotaxia,
que vem a ser a ciência que estuda a forma natural da planta, este
conhecimento também é fùndamental, pois a poda deve procurar
respeitar e otimizar as formas naturais. Essas refletem a evolução
da planta em seu ambiente.
Entretanto, integrando nossos objetivos de produção com
os objetivos do consórcio vegetal em otimizar a biomassa naquelas
condições, podemos dar as plantas as formas mais adequadas a
cada etapa da sucessão e pressão dos fatores ambientais, induzindo
os fatores que a regulam, como radiação e ciclagem de nutrientes.
O ponto de equilíbrio é determinado pela época onde as espécies
toleram melhor o distúrbio, bem como a Intensidade com que esse
distúrbio (podação e perda de massa foliar) é tolerado.
Ciclos de eventos
A resposta ao "cronograma" de distúrbios ou eventos
naturais aos quais as espécies se adaptaram é encontrada na
observação do conjunto do ecossistema. O conjunto de espécies
nativas da Mata Atlântica do sul da Bahia troca folhas cons-
tantemente, de modo desigual e continuo. Enquanto os jatobás
(Hymenea courbaril L.var. stilbocarpa) trocam a folhagem, outras
espécies estarão já com folhas novas, outras florescendo e assim
por diante. Embora hqam ciclos para espécies, a mata em si
permanece com um equilíbrio entre áwores em troca de folhas com
árvores enfolhadas.Portanto, a renovação de copas nesta situação
deve ser constante e dosada de modo a manter um certo equilíbrio
no sombreamento e cobertura de solo.
Já numa situação de caatinga, cerrado ou de mata sub-
caducifólia, o período seco é o período onde naturalmente ocorre
a queda de folhas e renovação da vegetação. Uma perda de massa
foliar durante o período chuvoso implicaria numa perda da
capacidade de armazenar reservas e, po~an to , da capacidade de
produzir biomassa na próxima estação de chuvas.
Na Mata Tropical Úmida, quando há a ausência de um
período seco previsível, o final da época dos vendavais 6 propícia
para o manejo de áreas de mata secundária madura e mata primária,
com a reorganização e colonização de clareiras naturais e o manejo
de situações de queda iminentes, como grupos de árvores
senescentes ou maduras.
No sul do estado da Bahia, o período de junho a agosto,
marcado por chuvas frontais e nebulosidade, é ideal para manejo
de áreas já instaladas, uma vez que propicia a entrada de radiação
e nutrientes numa época onde esses fatores poderiam limitar o
crescimento das espécies introduzidas.
De modo geral, a podação deve sincronizar os ciclos das
espécies introduzidas (floração, lançamento de ramos, fmtificação)
com a vegetação nativa, de modo a dinamizar o sistema como um
todo, manejando cada situação de modo a otimizar os recursos
disponíveis. Naturalmente, esse objetivo é tão mais fácil de alcançar
quanto mais adaptadas ao ecossistema forem as espécies.
Referências
' Resende, Mauro et d.. Pedologia: base para distinqão de ambientes. Vaçosa,
: NEPUT, 1995
AIfred W Crosby, na elaboração de seu livro "Imperialismo Ecolitgico" (já
citado aqui) compilou extensa bibliografia sobre o tema, que reproduzimos
aqui; A.G. Thorne, "The arrival and adaptation of Australian aborigenes",
Ecological biogeography of Australia, organizado por Allen Keast (Haia, Dr.
W. Junk, 198 I), págs. 178-9; D. Merriles, "Man the destroyer: late quataernary
changes in auslralian marsupial fauna ", Journal of the Royal Sociely of Westem
Australia, 5 1 (parteI, 1968), págs. 1-24; D. Mulvaney, "The pre-history ofthe
Australian Aborigene", Avenues of AntiquiQ, readings from Scientific
American, organizado por Bnan M. Fagan (San Francisco, Freeman, 1976),
pags. 6, 16, 51-66.
Para ir mais adiante, ver Systèmes Indigènesde Classi$catjon des Sols. Por
Grobben, P. Source de TA. Wagenin-n: CTA, v.20, n. 1, págs. 6-9, março
1992. Também Misrnatched Models: How farmers and scientists see soils.
Ileia Newsletler, v. 9, n. 1, pags. 15-16, março 1993.
"Como é fácil adivinhar, foi na costa árida (na região central da costa do
Pacífico, na héI . Ica do Sul pré-colombiana) que os sistemas de imgação
alcançaram maior importância, aproveitandos os rios e torrentes (originados
do degelo das neves andinas). Outrosslm, ao reunirem recursos variados,
pemitindo muibs atividades complementares - pesca e coleta marinhas, caça,
coleta vegetal, agricultura, etc., os vales litorâneos (úmidos e florestados)
desenvolveram-se mais rapidamente que a serra durante muitos séculos". Para
ir mais adiante, ver: Cardoso, Ciro Flamarion S., Op. cit.
Ver: Anderson, A.B. e Posey, D. A. Reflorestamento Indígena. Ciência Hoje,
Volume especial Amazônia, Dezembro de 1991, pg 6-12.
Em torno de 97% da biomassa de uma floresta tropical úmida de terra firme
está em troncos, galhos e ramos, enquanto de 1 3 % a 5,0% estão nas folhas,
embora sejam nelas que se enconlre o maior percentual de nutrientes por % de
peso seco. Esta análise seria totalmente diversa num ecossisterna de pradaria
ou de várzea, demonstrando de modo analítico a correlação a evolução de flora
e fauna. Ver: Dantas, Mario. Studies on Sucession in Cleared Areas of
Amazonian Rain Forcíst. gR.D. Thesis, Linacre College, Oxford, 1989.
Que se reproduzem basicamente por pedaços de raiz. ricas em reservas e
gemas de crescimento.
O'"(. .) nossos anceslrais encontraram aqui grandes áreas de macegas elevadas,
tão altas que molhavam as pernas dos gaúchos em suas montarias. A isso
faziam exceção apenas as pequenas áreas periféricas de certos banhados, onde
habitavam as preás (Cavia aperea), que modificaram a flora agrostologica, e
originaram o aparecimento de pequenos gramados tenros de grama tapete (. . .)
de que se nutriain. Também os rebanhos de capivara (Hidrochoerus
hidrochoeris) faziam sentir sua iduência nas várzeas junto aos rios e, por
isso. talvez seja muito certa a denominação de capim e capivara ao Panzcurn
laxurn. Aliás, (...) caapi-goara é traduzida do tupi como "comedor de capim".
Quanto aos veados, não eram em número elevado e mantinham-se na periferia
das matas. Mas não era justamente nessa perzeeria que havia pequenos gramados
enquanto que, logo adiante, crescim altos o capim-caninha, a barba-de-bode
ou a macega estaladeira?" Araújo, Anacreonte Aviia de. Principais Gramineas
do Rlo Grande do Sul. Edição Sulina, 197 1.
"O livro e um mudo que fala, é um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive".
Padre Antonio Vierra
"... porque unindo pedaços de palavras
aospoucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e berja-flor,
e acaba por unrr a própria vida
no seu peito partida e repartida ... "
Trecho do poema "Canção Para os Fonemas da Alegria ", de Thiago de Mello in Faz Escuro
Mas eu Canto - Porque o Amanhã vai Chegar. Poesras, Edrrora Civilização Brasileira, Rio,
1965.
Conhecer a realidade para poder
transformar
A simples transferência de tecnologia como ferramenta de
desenvolvimento mostrou, ao longo do tempo, que pode por em
risco não apenas o futuro de setores descapitalizados, mas que pode
afetar a sociedade como um todo. Portanto, independentemente
de com que setor estamos preocupados, temos que considerar que
desvendar as interações entre o cultural, econômico, social e
ambienta1 é cnicial para se traçar as estratégias que garantirão a
sobrevivência das sociedades humanas no presente e no futuro.
Os fatores culturais, sociais e econômicos devem ser
desvendados e analisados tendo como mediador a base de recursos
naturais que os sustenta. Para isso, a tipificação dos ambientes
ocupados pelos sistemas dos agricultores impõe-nos um
conhecimento do ecossistema e um zoneamento, baseado em
critérios de produtividade e sustentabilidade face aos usos atuais,
que se agregue ao histórico da ocupação humana.
Essa análise, já enriquecida pelo acumulado com relação
aos fatores sociais, culturais e econômicos nos levará a geração de
propostas, e como implementá-Ias e difundi-las.
Qualquer método que esqueça que as transformações só
podem ser realizadas de modo permanente e progressivo por
populações que partipem ativamente do processo está fadado a ser
efêmero, sem auto-sustentabilidade.
Portanto, regenerar o potencial produtivo de ecossistemas
não é uma tarefa de técnicos que buscam viabilizar a transferência
tecnológica. O diagnóstico irá fornecer as pistas e facilitar a criação
coletiva de ferramentas de transformação social apropriadas a cada
situação e ambiente. A contribuição do -ente externo, o papel do
técnico, e de wregação de conhecimento na forma de princípios
que auxiliem na constmção destas ferramentas, ajudando a criar
estratégias que logrem constniir no presente perspectivas de um
futuro sustentável.
Porém, o papel do diagnóstico participativo e primeiro
passo é saber que fùturo é este a que nós, técnicos e agricultores,
queremos chegar. Não há diagnóstico nem intewenções casuais ou
tópicas. Todos os envolvidos num diagnóstico participativo buscam
transformaç&s e toda intervenção causa uma reação em cadeia,
seja no sistema social, seja no anibiente natural.
Portanto, técnicos e agricultores envolvidos devem se fazer
uma pergunta básica: qual é o tipo de desenvolvimento que
queremos? O quanto conhecemos dos nosssos agroecossistemas
atuais e do ecossistema que estamos procurando regenerar?
Estas duas perguntas-base irão gerar toda uma série de
outras perguntas e respostas de modo a criar uma imagem global,
a visão do futuro. Como num quebra-cabeças vivo, que evolui e se
transforma a medida que o vamos montando, esta visão deverá ser
reconstmída constantemente pelas comunidades rurais e pela
sociedade como um todo. Neste processo e como sequência natural
do di-nóstico, as metas irão sendo estabelecidas desde o nível de
"IZsperamos que $que bem
claro aqui que a essência do
diagnóstico participativo
ambiental e sócio econo-
mico não é facilitar a
tran,rferência de tecnologia.
O diagnóstico ide~lti$ca e
analisa problemas quanto
aos aspectos sociais, cul-
turais, econômicos e am-
bientais, e as interações
entre estes fatores. Assim,
fbcilita a apropriação de
prinebios pelas populações
e permite gerar as ferra-
mentas tecnológicaIr contex-
tualizadas e aptas a trans-
formarem as realidades
técnicas isoladas utilizadas na unidade de produção familiar até ao
nível de propostas políticas públicas.
A resposta à primeira peGunta é simples e complexa ao
mesmo tempo. Qual é o tipo de desenvolvimento que queremos?
Pelo menos, sabemos multo bem o que não queremos. Milênios de
mercantilismo agressivo e expansionismo rnllitarlsta deixaram um
rastro de destmição dos recursos naturais e agudas diferenças
sociais, desde a Mesopotâmia até os dias atuais. O resultado do
desenvolvimento tecnológico foi, ao lado de uma série de facilidades
para a vida dos seres humanos, a degradação bmtal e progressiva
do conjunto das condições que possibilitam nossa vida no planeta,
principalmente, a partir da Revolução Industrial, no final do século
XIX.
A segunda pe-unta é mais simples e uma abordagem
interdisciplinar, histórica e enriquecida com o saber local pode nos
dar uma resposta bastante confiável à pergunta: "Qual é o
ecossistema que estamos querendo regenerar?"
Uma vez tendo um "rascunho" geral dessas duas assertivas,
social e ambiental, vamos encarar a realidade em termos de
ecossistema e sociedade. A realidade sbcio-ambienta1 e economica
das populações não é gratuita e nem fmto de questões isoladas. Se
assim fosse, a degradação dos recursos naturais seria facilmente
resolvida. Bastaria uma melhor distribuição de renda, segundo a
teoria defendida pelo famoso "Informe Bmndtland", avalizado pela
Comissão Mundial sobreMeio Ambiente e Desenvolvimento'
Embora concordem que a miséria possa pressionar o ambiente.
uma linha importante de economistas acrescenta que isto não
equivale a dizer que o desenvolvimento melhore as relações do
homem com o ambiente. Ainda, consideram que parte dos
movimentos ecologistas tem raízes nos setores marginalizados, em
luta pela preservação de seu espaço e seus recursos2.
Portanto, reconhecer e desvendar estas inter-relações é
hndamental. E para chegas às perguntas corretas é preciso método
As metodologias participativas de diagnóstico mral e diagnóstico
ambiental têm sido amplamente trabalhadas, principalmente, nos
países do Terceiro Mundo. Os mediadores técnicos precisam estar
munidos de informações conjunturais e históricas a respeito de
mercado, políticas públicas, estruturas locais de poder e
transformações da base de recursos naturais ao longo do tempo
(ciclos de exploração de recursos). Como em qualquer processo
no qual esperamos sucesso, o importante na metodologia é a
adequação dos princípios à realidade local. Como foi ressaltado,
devemos, uma vez que nos apropriarmos da essência do método
pmicipativo, aprender a buscar as perpntas certas. Essas perguntas
são orientadoras e fazem brotar das pessoas sua percepção da
história e da atualidade, e abrem as portas da transformação da
realidade.
Esperamos que fique bem claro aqui que a essência do
diagnóstico participativo ambienta1 e sócio-econômico não é facilitar
a transferência de tecnologla. O diagnóstico identifica e analisa
problemas quanto aos aspectos sociais, culturais, econômicos e
ambientais, e as interações entre esses fatores. Assim, facilita a
apropriação de princípios pelas populações e permite gerar as
ferramentas tecnológlcas contextualizadas e aptas a transformarem
as realidades locais.
Para entender os sistemas atuais
Quase todos nós conhecemos o Jogo infantil onde peças
de diferentes formas devem ser encaixadas numa cavidade com a
forma correspondente. Podemos, numa comparação, dizer que os
sistemas agrícolas disseminados pela colonização européia são como
peças desse brinquedo. As peças de encaixar são os sistemas técnicos
de produção agrícola e pecuária, moldados pelo atrelamento a
mercados e políticas colonialistas, cultura alimentar e conjuntura
política e econômica. A placa com as cavidades representa os
ecossistemas colonizados.
Como no brinquedo, a insistência - por Ignorância ou pouca
familiaridade - em tentar fazer entrar uma peça em forma de
quadrado numa cavidade em forma de triângulo acaba num resultado
previsível: estraga-se o brinquedo.
Em suma, esse é o dilema da agricultura atual: ao tentar
impor um determinado sistema técnico ao ambiente sem conhecer
de modo aprohndado suas características, acaba por degradá-lo.
Do mesmo modo, ao impor um padrão tecnológico uniforme às
comunidades rurais sem conhecer seus potenciais e limitações,
tendemos a acentuar a exclusão social. Voltando ao ecossistema,
as necessidades das "nossas" plantas e animais interrompem os ciclos
do ecossistema e promovem enormes perdas energéticas. De modo
geral, o tipo de organização social e suas decorrências, como
mercados, cultura e determinadas conjunturas político-econômicas
aceleram o processo de degradação. Esse é um processo que vem
desde as sociedades sumero-babilônlcas de 3 100 a.C, passando pela
colonização portuguesa da Ilha da Madeira e Porto Santo3. Sua
continuação lógica é a "maré" de soja que ocupou as florestas
subtropicais interiores dos estados do sul, chegando hoje aos
cerrados e florestas tropicais dos estados do centro e centro-oeste
brasileiros. A essência da Iógica colonialista ainda impera, se
analisarmos o destino dessa soja nos mercados europeus.
Agricultura/Ecossistemas::
a formaçáo das paisagens agrícolas
Sem conhecer profundamente o ecossistema local, é dificil
pensar em sustentabilidade. Afinal, quem mais entende de
sustentabilidade do que o conjunto da vida (flora e fauna) que
coevoluiu localmente por milhões de anos? Esse bioma e a sucessão
natural de espécies e de consórcios de espécies que o rege são
guias confiáveis as estratégias de sustentabilidade de médio e longo
prazo que procuramos.
O diagnóstico sócio-econômico e ambienta) é um produto
interdisciplinar e participativo. Interdisciplinar porque não se
conhece uma paisagem por caixas estanques entre populações que
a ocuparam, solos, fauna e flora. Participativo porque populações
humanas estiveram em constante inter-relação por milênios com
os ambientes, e essa é uma fonte de informações básica. Portanto,
uma abordagem tecno-ambientalista resultaria estreita. Ao
conhecimento dos processos formadores e reguladores das formas
de vida que constituem o ecossistema devemos agregar o
componente antropológico e etnobiológico.
Devemos ter claro que boa parte do conhecimento em
relação as várias formas de vida, ciclos e padrões do ecossistema
está disponível Junto as sociedades humanas que habitaram ou ainda
habitam os ambientes. Ainda, que as transformações que esses
ambientes sofreram podem ser resgatadas junto aos colonizadores,
via documentos historicos e depoimentos de pessoas ainda vivas?
Portanto, o conceito e a prática de diagnóstico participativo
que se procura está ligado a um conhecimento abrangente do
ambiente e do processo histórico sócio-cultural e econômico que
gerou os sistemas produtivos atuais, aliado aos reflexos desse
processo nos ecossistemas locais.
O histórico do ambiente e das populações humanas que os
colonizaram nos clareiam como se chegou ao que hoje conceltumos
como agroecossistemas. Esse quadro histórico e atualizado pode e
deve ser recuperado e reconstruido junto as populações que
ocuparam e ocupam o espaço vital, através do resgate do
conhecimento ainda existente e da geração do novo. Esse é, a nosso
ver, um princípio e ferramenta básica de qualquer diamóstico, como
estratégia primeira no processo de construir alternativas sustentáveis
de desenvolvimento.
Resunundo, metodologias de diagnósticos são ferramentas
em uso que necessitam de constante anialização, reparos e evolução.
Portanto, devem ser adaptadas e não padronizadas, objetivadas sem
serem ideologicamente sectárias, de modo a potencializar as metas
sociais e ambientais que pretendemos.
Considerando que o objetivo central do diagnóstico seja o
desenvolvimento sustentável e a regeneração produtiva dos
ecosssistemas, devemos então:
- conhecer o histórico das populações que ocupam o
ambiente;
- identificar a lógica de exploração dos recursos pelos
diferentes segmentos sociais e os agroecossistemas5 resultantes;
- conhecer o ambiente em sua forma primitiva e atual, e
como ele é visto pelos seus atuais ocupantes;
- identificar a sustentabilidade (economica e ambiental)
dos sistemas adotados;
- gerar neste contexto de participação as possíveis
intervenções e modificações que otimizem os recursos a nível de
propriedade, comunidade e região, abrindo a possibilidade de
integrar estas propostas a estratégias mais amplas no plano macro-
ambiental e econômico.
Durante o diagnóstico e como conseqüência desse, iremos
obtendo informações que são pilares básicos para criar as
ferramentas de regeneração produtiva de ecossistemas:
- Enriquecimento do conhecimento já disponível sobre as
plantas cultivadas e/ou introduzidas, bem como das comunidades
vegetais autóctones associadas a estes cultivos, através de dados
obtidos nos ecossistemas ou centros de origem das espécies em
questão6;
- Cqacidade do diagnóstico de identificar no itinerário
técnico do agricultor o conhecimento do ecossistema local e de
sua dinâmica. De posse desses ""gnchos", analisar, ampliar e
enriquecer as técnicas, itinerários e sistemas com um todo.
O conhecimento do ecossistema local no itinerário t é c ~ c o
do agricultor expressa-se através do grau de reconhecimento das
espécies nativas e de suas hnções no ecossistema, e se reflete emvarias operações, como capinas, roç-ens, instalação e manutenção
de cultivos, bem como outras atividades. Um erariquecimento desse
conhecimento possibilita uma política de ajustes graduais do sistema
técnico em uso de modo a obter sua reorientação gradual para
sistemas regenerativos da produtividade e biodiversidade dos
ambientes naturais e dos sistemas agrícolas nele baseados.
O resultado maior do diagnóstico é criar a base para que
as mudanças e inovações ocorram num contexto de geração
participativa de técnicas, itinerários e sistemas técnicos que, ao se
encaixarem nos sistemas existentes, atuam como catalizadores de
mudanças.
Dentro dos conceitos que desenvolvemos ao longo deste
livro, a meta destas mudanças e modelo geral são as estratégias
naturais de regeneração (sucessão natural de espécies) e o clímax
dinâmico de cada ecossistema, o qual irá apontar para um
zonemento de sistemas e intensidades de uso, mediadas por fatores
culturais, sociais e econômicos. A otimização de uso de nichos e
microclimas irá enriquecer este zoneamento fornecendo um modelo
de como a diversificação pode ocorrer no tempo e no espaço, ou
seja, rotações, sucessões, consórcios, etc7.
Finalmente, este processo procurará gerar na prática uma
consciência preservacionista, uma vez que os recursos naturais e
sua biodiversidade passam a ser encarados pelas populqões como
parte essencial de suas estratégias de reprodução enquanto culturas
e sociedades8.
O caso da Regiáo dos Tabuleiros
Para o leitor entender o contexto de geração de alguns
dos sistemas que iremos apresentar mais adiante, faremos um breve
relato dos fatores sociais, culturais, econômicos e ambientais que
que dizem respeito à região onde estão implantados e que
iduenciarm seu desenvolvimentog, Esse relato também serve para
ilustrar, de modo prático, alguns pontos que devem ser levantados
por um diagnóstico.
RfstDrieo de ocupação e eixos
eeonomicos.
A colonização da região deu-se
pela ocupação do litoral, utilizando os
portos naturais de Cairú, Valença e @a-
mamú. A entrada deu-se pelos rios, com
plantios de arroz nas baixadas, cacau nos
boqueirões e mandioca na meia encosta.
Também era comum o represamento e
inundação das baixadas para a criação de
porcos. A exploração de madeira deu-se
em maior intensidade nas margens dos rios.
A abertura de estradas (BA-00 1, BR- 10 1,
BA-650, BA-23) abriu para o desma-
tamento em épocas diferentes os recursos
do interior, algumas em tempo relativa-
mente recente (a partir de 1970). O des-
matamento foi seletivo em certas regiões a
ponto de tornar rara a ocorrência de de-
terminadas espécies de árvores, exploradas
por seu valor madeireiro.
Indústrias
Começa, nos anos 50, com a
Companhia Valença Industrial (tecidos).
Mais recentemente, fábricas de óleo de
dendê em Valença e Taperoá (Oledesa e
Opalma). A extração mineral concentrou-
-se em Maraú (manganês) e Camamú
(barita). Ituberá Já contou com empresas
de laminados e compensados (Odebrecht)
e pré-tratamento de látex (Agroindustrial
Ituberá e em Igrapiuna a Cultrosa e a
Michelin), sendo que o setor de Iátex
continua em atividade, embora reduzido em
relação ao passado.
Sistema de produgão:
médio proprietário ("Oka)
na nona cacaueira sul-bahiana
Sistema evolui para cacau
sombreado por eritrina e
ingazeiro. Ainda colhe-se
banana nas falhas.
Também cravo em
consórcio com
plaçava ocupa a
sequência das lavouras
anuars.
Plantio de feijão,
mandioca e banana.
Cultivos anuais:
POY@
Sistemas Agrários
Preparo da área: derrubacia,
queimada. Coivara,
separando a madeira.
Tempo de pousio
possivel: três a cinco anos.
Uma parcela da
área de capoeira degradada
pode ser incorporada
anualmente, a área de pasto,
conforme os preços dos
cultivos permanentes em
relação ao gado
A estmbra agrária é composta por
grandes fazendas, empresas e médios,
pequenos e microprodutores. Bolsões de
pequenos e microprodutores próximos a
grandes fazendas servem para essas como
reserva de mão-de-obra. Muitas delas
surgiram na década de 50, quando o
governo favoreceu a compra de terras e a
instalação de empresas. Dessa época,
também é o Projeto Integrado de
Colonização, que trouxe Imigrantes
japoneses para a região, introduzindo a
pimenta-do-reino e expandindo o cultivo
do cravo-da-índia. Nas empresas, a base
produtiva é a borracha e o cacau, com
expansão da pecuáia extensiva. Áreas mais
próximas a polos turísticos estão sendo
usadas para especulação imobiliária em
fiinção de queda de preços do cacau e látex.
Os outros estratos sociais acompanham a
tendência cacau-seringueira-cravo e,
recentemente, pasto. A madeira, como a
maior parte dos produtos, paga muito
pouco ao seu dono, a menos que ele mesmo
possa beneficiá-la e comercializá-la, o que
é legalmente complexo e economicamente
proibitivo na conjuntura atual, face à
desorganização dos pequenos proprietários
e mesmo dos "oeneficiários da reforma
agrária neste sentido. Mais de 90% do
abate de árvores e, consequentemente, do
comércio de madeira é juridicamente ilegal
na região.
Existe uma tendência dos pe-
quenos e microproprietários a vender seus
terrenos situados em solos mais férteis e
comprar áreas maiores mas mais baratas
em solos piores. A concentração de terras
dá-se frequentemente via comerciantes e
compradores de cacau. Na maior parte das vezes, essas áreas têm
sua madeira retirada, mesmo que estas árvores sejam hoje o
sombreamento do cacau, e após a queimada e coivara são
tranfomadas em pasto.
RelaçOes de trabalho
Parceria, assalariamento e diaristas. Mutirões são forma
comum de trabalho coletivo entre os pequenos agricultores.
Comentarios gerais
A região, como é a regra nacional, baseia sua economia
na extração não sustentada de recursos naturais. A madeira, primeiro
pelo litoral e depois pelas BR's e BA's abertas nos anos 70 e nos
90, é um ciclo perto do final. Os plantios de cacau e seringueira,
uma vez esgotados os solos que os sustent-am, encontram hoje
uma relação custo de produção/preço de venda amplamente
desfavorável, o que impede uma maior artificialização do sistema
via fertilizantes e agroquímicos. Ocorre, atualmente, uma nova
fase de expansão de pastos, concentração de terras e aumento do
êxodo rural.
Diversificação e processamento
As alternativas de diversificação tem falhado no geral por
falta de compreensão do ecossistema e pela inexistência e falta de
apoio mais concreto a criação de estmturas organizativas para
processamento e comercialização. As diferenças entre preços de
mercado e preços ao consumidor de produtos locais como
condimentos e especiarias, madeira, amêndoas (cacau,
principalmente) e Erutas situa-se na absurda faixa de 1.000% a
10.000%. Em outras palavras, o produtor pode receber de 10 a
100 vezes menos do que o consumidor paga pelo mesmo produto.
O grau de beneficiamento da maior parte desses produtos é primário,
como no caso do cravo-da-índia (secagem, classificação e
embalagem), sendo que o produto que por mais processamento
passa é o cacau. Podanto, o setor de trmsfomaçk local associativa
e a comercialização direta seriam um passo associado a qualquer
intervenção que se proponha a mudar o perfíl sócio-econômico e
ambienta1 da região.
Agroecosslistema e sustentabilidade arnbientaa:
o caso do cacau
8 papel do cacau na economia e cokrtura florestal do sul
da Bâhia merece um capítulo à parte. Extremamente adaptado ao
ecossistema, ele manteve cerca de 600.000ha com cultivos perma-
nentes e certa cobertura florestal desde o início do sémlo.
Porém, no entusiasmo da Revolução Verde, uma série de
medidas podem ter comprometido o futuro deste agroecossistema
que aparentava ser "ecologicamente correto9':
- campanhas de redução de sombreamento total;
- substituição total de sombreamento nativo por
introduzido;
- práticas de roç-em e cqina (química e mecânica) que
impediram a regeneração natural.
Estesprocedimentos contribuíram para:
- falta de regeneração e sincronia do sistema de
sombreamento e do cacau;
- falta de rendimento economico direto das espécies de
sombreamento;
- dhinuição da proteção do solo e, conseqüente, oxidação
acelerada da matéria orgânica acumulada pelo ecossistema original.
A queda de preços veio a intensificar e apressar os
problemas de manejo pelo abandono das lavouras. Portanto, as
mudanças nos preços de mercado aliados ao conjunto de sistemas
técnicos baseados na intensificação via capital e insumos
qroquímicos geraram o quadro atual de crise no setor cacaueiro,
com graves reflexos sociais e ambientais. Intewenções oficiais desse
tipo causaram problemas idênticos com o café sombreado na
Nicarkgua pós-revolução e na Colombla, via políticas do Instituto
Nacional de1 Gafe.
Arnostragern de propriedades. Médio Proprietário
Descrição diz drea. 20ha próprios e 5ha na terra de um
tio, ocupados desde maio de 1969. Possui açude com peixes, solos
de fertilidade média a boa para a região.
Culturas. Cacau, banana, cravo, piaçava. Para consumo
planta feijão, milho, batata-doce, fmteiras, abacaxi. Guaraná em
implantação.
Seguência típica de cultivo. Roça, derruba, queima.
Coivara, separando a madeira. Destoca para feijão e milho. Colhe
e retira a palhada, sem aproveitá-la. Planta feijão, mandioca e
banana. Já com sombra demais para a mandioca, planta cacau, ingá
e eritrina. Usa adubação química para o feijão (1 1- 15-10).
Criação. Tilápias, porcos, galinhas e um burro de tração.
Produtividade média. 180 arrobas de cacau, 100 arrobas
de piaçava, uma tonelada de cravo em estoque esperando preço.
MGo-de-obra. Oito adultos, sendo que quatro só em meio
turno. Os filhos complementam a renda com trabalho assalariado e
empreitas.
Renda. Piaçava, cravo, cacau, farinha de mandioca. O
cacau é o maior responsável pela renda.
Coberturaflorestal. nove hectares de capoeirão.
Comentários
Este relato sucinto é um recorte da conjuntura econômico-
-social da maior parte da agricultura familiar brasileira, onde
podemos ressaltar:
- crise de preços nos produtos básicos obtidos nos sistemas
agrícolas;
- falta de estmtura organizacional para fazer frente ao
processamento e comercialização das culturas principais e mesmo
das alternativas que poderiam compor a diversificação;
- queda vertiginosa do potencial produtivo das áreas: solo,
madeira, água;
- tendência a concentração da posse da terra e a pe-
cuarização nas zonas mais afastadas dos centros urbanos;
- êxodo rural acentuado e, consequente, favelização nos
centros urbanos.
Esses fatores levam-nos a pensar na necessidade natural
da organização visando propostas para a agricultura familiar. Antes
de ser uma espécie de entidade onipresente e onipotente, a mudança
da realidade política deve também ser constmída no enfrentamento
diário dos problemas da luta pela terra, da cadeia produtiva e da
sustentabilidade desse processo.
Cenários hturos
Sem nenhuma alteração na conjuntura econômica e nas
propostas técnicas, a tendência é a substituição de cultivos de baixo
Bancos Geri-ticos Vivos
Acervo Genktico
M i t o s dos problemas de
determinados cultivos co-
merciais provêm de uma
inadqtação clara das espécies
ou variedades usadas. Como
vimos no item anteriol; um di-
agnóstico deve levantar o que
existe em termos de material
local e buscar fontes externas
para materiais adaptados.
Novamente, mulheres, pelo já
destacado manejo de bio-
diversidade em quintais e idosos
pelo conhecimento acumulado
são fontes seguras para o
reconhecimento e busca de
espécies relevantes regional-
mente.
Um diagnóstico partici-
pativo que tem como um de seus
desdobramentos a de$niçGo de
que os sistemcrs agrflorestais
serão uma estratégia bhsica do
desenvolvimento da comuni-
dade, deve prever iam enrique-
cimento especzlfico nesse sen-
tido,
Quando citamos anterior-
mente que um dos resultados do
diagnóstico deve ser "a capa-
cidade de ident~ficar no
itinerário técnico do agricultor
o conhecimento do ecossistema
local e de sua dindmica",
estamos frente à JOnte deste
enriquecimento.
Uma vez que conhecemos
o sistema, os itinerários e as
ferramentas usadas, irão apa-
recer elementos de reconhe-
cimento, presewação e manejo
de biodiversidade básicos para
construir sistemas agroflo-
restais regenerativos. Num
zoneamento que irá desde o
t-ruintal até as áreas mais dis-
, tantes e de menor intewenção,
aparecerão desde herbáceas até
árvores de ciclo longo que são
conscientemente utilizadas e
manejadas pela familra para
potenciaiizar o sistema como
um todo. Essas são as peças
básicas para criar sistemas
agroflorestais que tenham
t-
chance de aceitação e dfusão
espontdnea numa região.
Ka de regra, a aceitação
dos materiais locais pelos agri-
cultores pode ser imediata,
princpalmente, se se conquistar
um mercado para os produtos
deles derivados direta ou in-
diretamente, numa compre-
ensão do papel que podem
desempenhar como espécies
fertilizadoras, madeirávels, me-
dicinais, fru tllferas, forrageiras,
alimentares, etc.
poder de barganha e perecivei§, que dependem de uma afinada e
confiável relação com o mercado (como fmtas e hortaliças), para
produtos cada vez mais auto-regulados, que convivem com áreas
degradadas e que mesmo assim têm mercado ou servem de alimento,
como o gado bovino, ovino e caprino. A redução progressiva de
cultivos perenes nos sistemas de produção e sua substituição por
grãos, raízes e pastos permitem o que está relacionado com esta
crise.
Porém, a pecuária de corte, em geral, não produz um valor
agregado por área que viabilize a médio e longo prazo a unidade
de produção familiar no tropico umidoIo. Na medida do crescimento
da família e do rebanho, novas áreas devem transformar-se em
pastos. Com a degradação desses pastos, num curto período de
tempo (três a oito anos), o sistema esgota-se na medida do tamanho
do incremento demográfico de homens e animais, e na proporção
do esgotamento da fertilidade inerente dos solos.
Elementos de transformação
no próprio sistema vigente
Antes de mais nada, é preciso termos claros alguns
elementos de ligação do micro e regional com a superestmtura.
Esses elementos podem constituir o que aqui denominamos de
elementos de transformação, os "ganchos" para nossas intervenções
a nível geral.
Estradas e acessos
A distância e a facilidade de acesso são fatores deter-
minantes numa estratégia. Se os agricultores optaram por cultivos
que podem ser processados ou armazenados localmente, como
amêndoa de cacau, cravo e gado vivo, certamente esse fato está
ligado a dificuldade de escoamento. Se não temos como melhorar
as estradas a curto prazo, trata-se de reforçar e aperfeiçoar a
estratégia de processamento e armazenamento, qualificando o
processo e, se necessário, diversificando os produtos.
Mercados
Os mercados são de modo geral bastante desorganizados.
Isso quer dizer que investindo na aquisição de um pequeno caminhão
usado, um agricultor passa a ser também atravessador. Mesmo que
tenha subido um pequeno degrau na cadeia de intermediaqão até
os mercados dos centros urbanos, esse fato pode determinar a
ascensão de vários graus na renda e na escala social local. Porém,
como o hospedeiro levado a inanição pelo parasita, o efeito dessa
sobre-exploração de uma cadeia produtiva pela intermediação pode
gerar, além da concentração de renda, até o desestímulo de plantio
e manutenção de determinadas culturas, face a redução forçada de
preços dos produtos primários necessária para satisfazer a
desorganização de mercado e todos os níveis de "oportunistas"
que lucram nesse espaço. A busca de alternativas de escoamento
pode implicar em "cooptar" os atravessadores, que geralmente
detêm conhecimento local e de mercados. Geralmente, esses ganham
menos do que ganhariam se associados a gmpos organizados de
agricultores que entre si planejemplantios e se mantêm informados
do mercado.
Monopólios e escala de produçâio
Determinados produtos têm sua comercialização mono-
polizada por verdadeiras "máfias", que controlam preços e acesso
a mercados nacionais e internacionais. Portanto, uma boa estratégia
é oferecer o que eles geralmente não podem oferecer: qualidade
biológica e boa aparência a preços de mercado. Nos sistemas massais
de produção agrícola, manter a boa aparência envolve custos altos
em vários níveis, que devem ser compensados por subsldios aos
insumos agrícolas, transporte, salários baixos, facilidades go-
vernamentais para crédito, expo~ação e armazenamento.
Pequenos gmpos articulados em rede podem chegar com
agilidade e bom desempenho econômico nos mercados interno e
externo, criando nichos bastante eficientes no mercado. Sistemas
desse tipo hoje movimentam bilhões de dólareslano. Porém, ao
aceitar as regras do mercado e usar apenas as armas tecnológlcas e
organlzacionais existentes, todo o resultado obtido pela im-
plementação de novidades nos sistemas técnicos toma-se pequeno
face ao percentual de influência que exerce no rendimento final da
atividade o escoamento, processamento e, principalmente,
comercialização.
Nem todos os agricultores hoje têm uma cultura agncola
em sua bagagem. Porém, num bom diagnóstico devem aparecer,
por mais incipientes que pareçam, sistemas tradicionais de
subsistência com precedentes Interessantes em temos de sus-
tentabilidade. Esses sistemas, geralmente, não aparecem nas
estatísticas, pois não entram como culturas de mercadò. Entretanto,
podem chegar a fornecer mais de 75% da alimentação das famílias.
Muitas vezes são pequenos quintais de 1000m2 ou menos. Nesses
espaços, frequentemente manejados pelas crianças, mulheres e
idosos, mantiveram-se e aperfeiçoaram variedades, sistemas de
policultivos multiestratificados e técnicas de processamento
artesanais. Esses sistemas carregam em si princípios que podem
ser seinventados em áreas maiores com grandes resultados.
Reconhecendo os ambientes e sua
ocupaçáo pelos sistemas agrícolas"
De modo geral, os diagnósticos retratam o ambiente numa
linguagem técnica, a qual se constitui numa barreka de comnicação
com os agricultores. Ainda, o ecossistema e os sistemas produtivos
são descritos como se desconectados e sobrepostos. Isso reflete a
crença no sucesso da artificialização dos ambientes, eixo principal
da Revolução Verde. Se basearmos nosso trabalho num diagnóstico
gerado nessa filosofia, nos perderemos num labirinto onde os
problemas parecem ter toda sua origem na tecnologia inadequada,
falta de cultura ou capital. Embora esse diagnóstico possa estar
parcialmente correto, ele peca por superficialidade e o prognóstico
resultante, geralmente, aponta uma realidade sócio-economlca
condicionada a ""dtermlnismos9' economicos. Cria-se, então, uma
espécie de "destino inevitável": os que não podem integrar-se aos
avanços tecnológicos ser" excluídos. Por isso, é importante que
o diagnóstico sócio-ambienta1 busque as causas, e não os sintomas.
E para cumprir esse objetivo, ele deve ser capaz de reconhecer os
estratos sociais, econ0micos, culturais e ambientais, e ser capaz de
reconstmir essa identificação junto aos agricultores, transforman-
do-os em sujeitos do processo de desenvolvimento e não em fontes
de dados estatísticos ou analíticos.
Tomemos um exemplo: a pecuária de determinada
região é di-nosticada como "de baixa produtividade devido
à ocorrência generalizada de verminoses e carrapatos, com
sérios problemas de avitaminoses e deficiências minerais".
Sem conectar essa informação ao ecossistema que deu lugar
aos pastos (conjunto solo-fauna-vegetação e clima) e a
conjunhira sócio-econôwiica de ocupação da região, a solução
do problema só pode ser combatida em seus sintomas, via
insumos externos.
No nosso caso, pariimos de uma premissa diferente,
que vai na via inversa da ariificialização do sistema. Queremos
conhecer prohndamente populações e ambientes e desvendar
a lógica dos sistemas, de modo a deixá-los mais afinados
com os ambientes, o que pode vir a torná-los economicamente
eficientes, ambientalmente sustentáveis e socialmente
beneficos.
Para isso, a descrição acadêmica traça o pano de
hndo (Campos de Cima da Serra, Mata Atlântica, Caatinga,
etc.), que vai ganhando vida e dinamismo com a percepção
fina dos agricultores e autóctones. Mesmo que os parâmetros
empíricos sejam apenas localmente utilizáveis, já basta:
construímos assim uma linguagem comum para o re-
conhecimento do ambiente e sua regeneração, na lógica das
populações que o ocupam. Assim, podemos chegar à desejada
integração do conhecimento acadêmico com o saber popular.
8 ambiente natural
numa descriçáo acadêmica
Todas as fases de um diagnóstico desse tipo são
momentos de criação de laços de comunicação e mútuo
reconhecimento com as populações locais. Do mesmo modo,
a busca de informações nos põe em contato com lideranças
locais, práticos e especialistas empíricos, como mateiros,
pescadores, pequenos agroprocessadores artesanais, órgãos
de pesquisa e extensão. Sem dúvida, o reconhecimento de
um ecossistema visando um trabalho com populações, como
no caso da Mata Pluvial Atlântica do Nordeste Brasileiro,
não pode prescindir de informações acadêmicas básicas.
A Mata Atlântica atravessou uma flutuação bastante
grande de sua área em função das glaciações. Embora a
diminuição de pluviosidade tenha sido bastante drástica em
pehodos relativamente recentes, de 2.000 a 3.000 anos atrás12,
a borda Atlântica não foi submetida de modo homogêneo e
completo i aridez, provavelmente, graças à influência do
mar e do relevo.
Como em qualquer mata tropical úmida, as es-
tratégias da flora são orientadas para a moderação da radiação
e para otimização do uso da água, no caso. o elemento
extremo, por falta ou excesso. Assumimos que os nutrientes
aqui não são Iimitantes, mas sim organizados, principalmen-
te, na biomassa vegetal e, secundariamente, na animal. A
reciclagem constante e consesvação da umidade, o entre-
laçado de copas e a regeneração agressiva buscam moderar
e controlar a oxidação contínua da matéria orgãnica pro-
piciada pela umidade e temperatura, bem como a perda de
água por evaporação via ventos e insolação.
A vegetação clímax sobre solos vulcânicos em áreas
de floresta tropical úmida da América Central tem simi-
laridades com a vegetação sobre Latossolos mais Iixiviados
da Mata Atlântica brasileira. Porém, indivíduos do mesmo
gênero, espécie e idade terão maior porte nas condições,
especialmente, favoráveis dos solos vulcânicos da América
Central.
Em relação aos solos da região onde se desenvolveu
a maior pafie da base prática deste trabalho, segundo o boletim
técnico 1 10 da CEPLAC, datado de 1983, denominado "Solos
do Munlcipio de Gandú", "a geologia da área esta enquadrada
no Prk-Cambrimo Inferior, constituído de rochas granulíticas
e gnalssico-mlgmáticas e intercalações graníticas".
A classificação pelo sistema brasileiro é Latossolo
Vermelho Amarelo variação Agua Sumida, Distrófico A
proeminente, textura muito argilosa, fase floresta perenifólia,
relevo montanhoso. No sistema americano, classifica-se corno
Umbriorthox.
Esses solos, além de caulinita apresentam gibsita,
atestando um grau avançado de intemperizaçk ((1 0 e 1 1 de
Jackson). São solos profundos (+ de 1,60m), de alta
porosidade (até 60% em alguns sub-horizontes), ácidos, com
valores de pEI em água entre 5,7 a 4,5. A saturação de bases
Dlstribaii~ão mensal da precipitação e temperatura
rn4dia na Fazenda Três Gollinas, Piraí do Norte, BA,
período "1988-1994. Dados cedidos por Ernst Gotsch.
Mês Precipitação (mm) Média da temperatura Média da temperatura Média do mês
mbima ("C) mínima ("C) ("6)
Janeiro
Fevereiro
Maqo
Abril
Maio
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro
Totallano
Janeiro Março Maio Julho Setembro Novembro
m%s
ébaixa, iderior a 50% no horizonte B. Cálcio, m-nésio e potássio
apresentam baixos teores ao longo do p e ~ l , com valores mais
elevados nos horizontes superficiais. Apresenta uma distribuição
de C de no mínimo um por cento até 75 cm de profllndidade.
O clima regional é quente e úmido, sem estação seca
definida. As chuvas são igualmente distribuídas durante o ano,
podendo ocorrer, eventualmente, um período mais seco de um a
três meses. A variação entre anos secos e chuvosos é de 1.148
ano a I ,617mmlano. A umidade relativa é de 80-90%, e as
temperaturas máximas e mínimas são de 14°C a 32"C, com uma
autuação média anual de 7°C a 8°C. Na pagina anterior a tabela
mostra a distribuição mensal da precipitação e temperatura média
na Fazenda Três Colinas, Pirai do Norte, BA, numa média dos
anos de 1988-1994.
As cinco famílias de áwores mais importantes em temos
de diversidade, densidade e dominância são Myrtaceae, Sapotaceae,
Caesalpiniaceae, Lauraceae e Chrysobalanaceae. h e a s protegidas
representam apenas 0,1% das matas da região13.
Integrando a percepgáo
popular dos ambientes
"A terra daquelas regiões é fértil e amena, de muitos montes e morros, e infinitos vales, e
regada de grandes rios e fontes, coberta de extensos bosques, densos e apenas penetrcíveis,
e povoada copiosamente de feras de todas as castas. Nela nascem, sem cultura, grandes
árvores, as guais produzem frutos deleitosos, e de proveito ao corpo e nada nocivos, e
nenhuns frutos são parecidos com os nossos"
Extraído da Carta Mundus Novus, de Arnérico Vespúcio, datada de 1503.
De modo geral, o critério básico da descrição de um
ecossistema pelas populações que o ocuparam é em relação a seu
valor de uso. O grau de refinamento vem da convivência. Portanto,
é de se esperar que populações autóctones tenham um diagnóstico
mais refinado e preciso do que populações que chegaram em
colonizagões mais recentes, como e o caso de grande parte do meio
mrd brasileiro. Mesmo assh , numa região com um passado recente
de exploração florestal e alto grau de miscigenagão cultural
(africanos, porlugueses, indígenas), o valor de uso ainda está
intimamente ligado a elementos do ecossistema original. A blmidade, radiaçéa êb
afirmação corrente de que "onde cresce esta árvore dá cacau e dá nutrientes na zoneamentã,
feijão" é um exemplo desse elo. ambienta!
Nesses casos, em geral existe um bom conhecimento das
espécies e dos nichos que ocupam tanto vegetais como animais
nativos. Usando o critério do trio ambiental básico, proposto pelo
professor Mauro Resende, da UFV-MG e adotado também por
James Lovelock para entender a interação dos processos vivos com
a paisagem, podemos fazer uma fusão interessante entre informações
acadêmicas e informações obtidas pelo reconhecimento popular
dos ambientes.
Critérios locais para zoneamento de
ambientes naturais
No caso da região de Piraí do
Norte, BA, o trio ambiental básico
(umidade, radiação e nutrientes)
delineia, em interação com o relevo, a
estratificação inicial. Essa coloca as * 4 .
paisagens ao longo dos rios principais
como "terras de primeira" e as paisagens
de encostas e no divisor de águas com
o litoral afastadas dos vales dos rios
como "terras de segunda e de terceira".
fi imponante ressaltar que essa classifi-
cação tem como parâmetro o desem-
penho da cultura do cacau e é amparada
por uma série de indicadores biológicos,
notadamente a especie e o porte de
árvores, arbustos, cipós e herbáceas do
sub-bosque. Na medida em que nos
aprofundamos no detalhamento do relevo, essa classificação
empirica deixa de ser excludente. Isso significa que determinados
nichos de uma terra de segunda ou de terceira podem ser de pnmeira
e vice-versa, em função da interação entre os fatores de relevo,
umidade e nutrientes. A intervenção humana pode ser decisiva na
alteração desse padrão, transformando "terra de primeira" em "terra
de terceira" e, como propomos aqui, também trabalhar no sentido
contrario, regenerando o potencial inerente a cada ambiente.
A umidade é o elemento critico na
formação destaspaisagens. Nutrientes e Formações do relevo
relevo somam-se para amenizar ou
tornar extremas as condições, o que ~ r a Estas formações têm um papel importante no zoneamento
se rejletzr naJora e na fauna origrnazs.
Essas, por sua vez, refletem estratégzas
ambiental. Ao entendermos como interagem áwa, nutrientes e
evoluc~onars de convívio com O S posição em relação ao sol, começamos a desvendar as estratégias
extremos climáticos em sua arquztetura, da vegetação para otimizar a si própria. E é a partir desse
composição de consórcros e sucessão de conhecimento que vamos analisar sucessos e insucessos dos sistemas
espec~es. tradicionais, bem como oportunidades de mudança e inovações,
selecionando culturas e gerando as técnicas apropriadas Vejamos
algumas das formações identificadas no caso da área estudada em
Piraí do Norte
1) Topo geralmente plano Eventualmente, apresenta uma
depressão conhecida como "lagoa", na atualidade muitas vezes seca,
mas sempre apresentando maior teor de umidade que a redondeza
2) Lagoa. São assim
chamadas as depressões formadas
sempre na cabeceira de nascentes
Tem forma de bacia e numa
sequência de anos chuvosos pode
apresentar um espelho de água O
histórico da região é que muitas
dessas "lagoas" tinham um espelho
de agua constante, de um metro ou
mais de profundidade no centro, com
10 a 15m de diâmetro De modo
geral, mesmo hoje em dia, apre-
sentam, proporcionalmente, mais
espécies higrófilas que as encostas,
mesmo quando não há mais água, o
que parece confirmar o histórico
Mais comum, nos dias atuais, é
encontrar apenas a depressão
característica e árvores marcadamente higrófilas, como o guanandi
(Symphonza globulfera, Guttiferae) e a faveca (Moldenhawera
Jlorzbunda Schrad Leguminosae-Caesalpinoideae)
3) Espinhaço ou dorso. São as áreas mais secas e drenadas,
o que se reflete na vegetação, em termos de tamanho, gênero e
densidade de espécies. As áwores têm madeira mais densa, menor A interciogb oe%evca-clima
diâmetro e tamanho. pia caoacteriza~ao
da vegeta~20
4) '6Sela'9. É uma área relativamente plana e mais baixa
Naparte da manhò a nebuios
entre dois topos É comum apresentar uma "lagoa", atualmente dliimrnui a evaporaçfioprowcah
seca (no período 1986-1 994), porém com vegetação característica sol
de solos mais úmidos
Isso defermzna uma vegetação hogro$la
nas encostas voltadaLs para o nascente
5) Nascentes. São bas-
tante comuns e desaparecem com
o desmatamento, uma vez que o
efeito regulador da vegetação é
anulado, a evaporação é intensa
e os solos são muito permeáveis.
Ocorrem ou no pé do boqueirão
ou logo acima, sendo que rara-
mente ocorre afloramento de &ua
na cabeceira, a menos que pro-
vocado por um horizonte imper-
meabilizado por rocha, o que é
bastante raro no caso específico
da região analisada.
6) Boqueirão. Cavados
pela água no decorrer da história
geomorfológica, os boqueirões
são sempre mais úmidos e em sua
base apresentam as nascentes. A
vegetação de um boqueirão
costuma enganar o observador
quanto a profundidade do vale,
pois é Invariavelmente mais alta e
mais vigorosa que nas encostas
mais secas e espinhaços, em
função da disponibilidade de
nutrientes e umidade.
7) Riachos e baixadas.
Os riachos da região são de águas
claras e pobres em nutrientes,
geralmente, correndo em um leito
de tabatinga e areia alternado por '4 tarde, a nebulos~dade d~sssipou-se e o
sol atinge as encostas voltada5 para o corredeiras com base de pedras de
oeste com toda ~ntensidade quartzo ou lajedos de granito A
fauna desses riachos é constituída,
principalmente, por pequenos
crustáceos, como camarões de
água doce - pitu - e pequenos
caranguejos e piavas, o popular
lambari, de no mâxlmo oito centl-
metros de comprimento h medi-
da que esses riachos juntam-se, a
fauna cresce em tamanho e di-
versidade, porém com caracteris-ticas totalmente diferenciadas de
rios que arrastam sedimentos,
como o Rio Pardo, Jequitinhonha
e Jequie, ou mesmo, o Rio do
Peixe, que cmza Piraí do Norte.
Porém, igualmente, contribuem
para a riqueza das matas ciliares
e dos manguezais, ao transpor-
tarem sedimentos orgânicos por
ocasião de chuvas torrenciais,
bem como ao oferecerem nichos
para inúmeras espécies.
8) Cabeceiras de naseentes são marcadas pela presença
de uma vegetação mais rica, e é zoneada pelos agricultores como
área propícia para o cacau. Notadamente, mesmo apósuso intensivo
são áreas cuja recuperação em geral pode produzir uma vegetação
mais rica, com maiores retornos em alimentos a curto prazo.
A partir desses dados, começa a tarefa.de dar vida as
Assim a vegetação das encontas com informações, e direcionamento às expectativas que vão sendo
exposição oeste tendem a sofrer mais os
efeltos do desmatamento, uma vez que o criadas ao longo do processo de diagnóstico A cumplicidade de
dessecamento provocado pela radlção objetivos e a transparência em relação as possibilidades de alcançá-
solar é acentuado pelo ângulo de sol e 10s são condições básicas para que todos os dados e esforços
pela falta de neblina transformem-se em prática de campo a serviço da transformação
115
As informações
agregam-se
8 ambiente e os sistemas naturais
Na visão convencional das
ciências agária, o status mineral do solo
é considerado como um dos elementos
críticos e limitantes da agricultura e
portanto da própria vida. Porém, nas
florestas tropicais úmidas sobre solos de
formagão muito antiga, como os latos-
solos da Mata Atlântica, os nutrientes
que não foram lixiviados já no processo
pedogenético estão basicamente arma-
zenados na biomassa, em processo de
constante ciclagem. Porém, o fator
verdadeiramente limitante passa a ser
não os nutrientes disponíveis em si, mas
o conhecimento de como mantê-los na
biomassa Na verdade, uma vez des-
tmída a dinâmica ecofisiológica exis-
tente, rompe-se a cadeia de ciclagem e
o sistema entra em colapso. Poaanto,
temos que nos perguntar qual é a
-ricultura que podemos praticar nesse
ecossistema. A resposta que qarece é
bastante óbvia e antiga conhecida dos
agricultores:
- cultivos sucessivos e con-
sorciados que mantêm o solo coberto;
- rotações de cultivos com es-
pécies fertilizadoras, introduzidas ou
nativas;
- convivência dos cultivos
com plantas nativas;
- zoneamento dos cultivos de
acordo com os diferentes ambientes
aptidão de cada setor da propriedade.
Autonomia e intercsmp8ementarIdade:
sistemas naturais e sistemas êintrspogê?nilcos
A a'ntercornplementaridade surge como a
seguência natural da integração entre di-
ferentes sistemas. Propriedades unem-se
para somar prodzltos visando transfurma-
ção ou produtos pré-transformados, tro-
cando ainda recursos e mão-de-ohra.
Zonas de bordadura, com sistemas rnis-
I tos garantem uma transicão harmônica 1
sistemas naturais
A escala desta lógica vale 610 roçado até o nível
microregional, e o tamanho do "maciooiganismo
rural" dependerá da sua sust~ntabilidade em ter-
mos de recursos naturais. (Ainda que tenhamos
n ilusno de que capital, insumos e tecnolo,pia
"tudo podem ").
A manutenção ou regeneração do
ecossistema original nas áreas não-traba-
lhadas garantem o equilíbrio entre popu-
lações de insetos. fungos e bactérias, atu-
ando como zona-tampão contra desequi-
lihrilos, promovendo a diversidade e cri-
ando intercomplementaridades entm espê-
cies de fauna e flora, potencializando seus
amhierztes e suas possibilidades.
resíduos que podem intensificar determinadas fases de um
sistema, mantendo e aumentando sua produtividade. Os vári-
os sistemas beneficiam-se mutuamente.
Os principias de sucessão vegetal
encontram ai sua aplicação maior, como
vimos anteriormente e como veremos na
sequência.
(19 sistema produtivo e o zorneamento
de cultivos
Devemos buscar no diagnóstico
padiclpativo as prioridades em termos dos
ambientes ocupados e das culturas que dele
fazem parte. Ao identificar e priorizar
culturas e ambientes, vem a necessidade de
dar vida aos dados econômicos. M~nal, o
problema básico, da lavoura para fora, é
de processamento, escoamento, comer-
clalização ou todos esses elementos juntos?
Ao zonear os cultivos, podemos
chegar a conclusão que o principal cuItivo
econômico, a cebola, por exemplo, ocupa
áreas completamente desfavoráveis. No
caso, trata-se de um problema ligado à
integração com mercado, cultura e
possibilidades de armazenamento e
barganha. Portanto, não basta apenas criar
sistemas técnicos mais "ecológicos" para
a cebola. 8 objetivo deve ser construir
alternativas de organização e mercado, de
modo a aumentar o ganho da cultura
principal (a cebola) e, ao mesmo tempo,
procurar culturas alternativas para reduzir
o pêso econômico dessa cultura. Esse
principio é válido para outros cultivos e
criações.
Considerando que prévio ao
diagnóstico e durante ele houve uma
sensibillzação e uma clarificação quanto
aos objetivos sociais, econômicos e
ambientais dos agentes e da comunidade,
voltamos para a célula básica, que é a
unidade de produção familiar, o sistema técnico, os itinerários e as
técnicas em si, e o que podemos fazer nesse campo.
Para orientar nossas intervenções, arbitramos os diferentes
conjuntos de condiqães, as quais geram uma determinada
dominância de espécies, formas, densidade de plantas e huna
característica. 0 agricultor já domina esse enfoque, ao ocupá-la
com diferentes culturas. Embora ao longo do processo histórico
de exploração as condições bióticas mdem, o potencial básico
ligado ao relevo, umidade e nut8entes persiste. Desse modo, nossos
sistemas devem ser oriei~tados de modo a regenerar as áreas até o
ponto mais próximo de sua capacidade produtiva original, no sentido
ecológico da palavra "produtividade", que deve refletir-se na
produtividade agrícola.
Como regra geral, esses sistemas não podem escapar da
lei básica da sobrevivência: não se pode gastar mais energia para
obter alimento do que aquela energia que o produto nos dará, dentro
do sistema como um todo Isso significa que a regeneração produtiva
é limitada, pelo menos na intensidade de mão-de-obra a ser usada
nas áreas, em condições de extrema degradação de recursos. Nessas
condições extremas, a Ynica possibilidade é dar tempo ao tempo
ou recorrer a insumos externos, como mão-de-obra extra, sementes,
mudas, nutrientes, etc. Felizmente, essas condições não são a regra
geral das propriedades, mas se apresentam em percentuais variáveis
de região para região e mesmo dentro de propriedades vizinhas.
Como veremos a seguir, o zoneamento do ambiente e os sistemas
tradicionais oferecem muitas oportunidades de inovações que
promovam a valorização do sistema existente via a incorporação
de elementos da fauna e flora nativas, conduzindo a sistemas
regenerativos e economicamente atraentes.
8 objetivo básico do zoneamento ambienta] local e
identificar quais as estratégias da fauna e flora para administrar
radiação, umidade e nutrientes no ambiente em que estamos
atuando. Do mesmo modo, cria uma base para o entendimento de
como os sistemas agrícolas ajustaram-se e poderão "ustar-se (ou
não) a essas estratégias.
Várias técnicas podem ser agregadas nesse zoneamento,
com vários níveis de custo e tempo. Por exemplo, num sobrevoo
sobre a microregião que estamos descrevendo em nosso diagnóstico,
teríamos a impressão de uma cefla homogeneldade Um "mar de
morros" coberto pela floresta perenifólia característica da Mata
Atlântica. Porém, um registro fotográfico desse sobrevoo mudaria
nossa opinião quanto à homogeneldade. A dikrenciação de cores
indicaria-nos diferenças de idade e tipo da vegetação, e imagens
ampliadas poderiam ajudar-nos a identificar diferentes padrões de
espécies em floração ocupando nichos específicos, como hndos
de vales, boqueirões e baixadas, espinhaços e encostas mais secasEsse quadro, que é básico para nosso trabalho regenerativo,
pode ser criado sem sobrevôo e de modo participativo e
sensibilizador. Sua construção é um exercício metódico de
agregação do saber popular às informações acadêmicas O
zoneamento resultante poderá identificar esuatégias comuns entre
a vegetação original e sistemas agrícolas, assim como poderá
apontar limitações resultantes da inadaptação de determinados
sistemas a determinadas "zonas" do ecossistema regional
Usando os indicadores de fauna e flora a que chegamos
associando condições de solo, relevo e umidade, zoneamos para a
microregião trabalhada diferentes conjuntos de condições,
traduzidos por uma determinada dominância de espécies, formas,
densidade de plantas e fauna caracteristica.
Para o caso específico que estamos abordando como
exemplo, que é a região circunvizinha ao município de Piraí do
Norte, estas ecozonas foram definidas como:
- Mata CiPiar Higrófila,
- Mata Giliar de Encosta;
- Mata de Terra Seca.
A conceltuação, embora arbitrária, é importante porque
nos permite visualizar que existem princípios básicos que perpassam
as diferentes estratégias da fauna e flora em diferentes situações.
Poflanto, esses princípios, uma vez identificados, mostram caminhos
que podemos adotar para cada sistema agrlcola dentro de cada*
ecozona identificada.
Cada consórcio dominante dentro dessas "ecozonas"
identificadas tem estrategias específicas de lidar com os elementos
cnticos. Essas estratégias são complementares entre ecozonas, para
o que contribuem i~ualmente flora e fauna, do nível de mi-
croorganismos a macroorganismos. Esse também deve ser o
objetivo dos sistemas agrícolas regenerativos que pretendemos
Implantar.
Ençim, é claro que há uma estratégia comum à vida, que
interliga essas "ecozonas" como um todo. Animais e insetos
dispersam sementes contribuindo para a diversidade genética,
intercambiando material de um ponto para outro. Isso permite que
todo microsítio ou nicho seja ocupado com a espécie que ali
desempenhe um ótimo ecofisiológico.
Do mesmo modo, nossos sistemas agrícolas devem bussar
a otimização do fluxo de nutrientes e a consewação de energia.
Portanto, cada área plantada deve buscar uma estratégia de
autonomia e de intercomplementaridade.
Assim encontraremos no sistema natural espécies da mata
ciliar ocupando nichos na mata de terra seca e vice-versa. Porém,
nunca como consórcio dominante, mas sempre otimizando recursos
disponíveis no tempo e no espaço, dentro do fluxo dinâmico da
sucessão natural de espécies.
Esse é um princípio que contribui na tarefa de zonear e
planejar, e assim dirigir as introduções de espécies vegetais anuais
e perenes em nossos sistemas, bem como orienta espaçamentos e
metas de curto, médio e longo prazo, em termos de sucessão de
espécies nativas e cultivadas. Os animais domésticos, suas
necessidades alimentares, comportamentais e dejetos são tratados
dentro da mesma perspectiva: maximo de autonomia para
alimentação, reprodução e higiene. A intercomplementandade
manejada entre diferentes sistemas potencializa todo o sistema de
produção. Desse modo, podemos chegar a prever limites e
potenciais de cada propriedade para cada atividade, e quais as
necessidades de integração e fluxo de energia (insumos) dentro de
setores da propriedade, entre propriedades e mesmo regionalmente
para se chegar a uma produção agficola sustentável sob todos os
aspectos.
Essa descrição de ecozonas do caso-exemplo é fmto de
saber empírico (observação local) e acadêmico (dados de
bibliografia). Cada microregião deve passar por esse zoneamento,
pois a interação de fatores é bastante dinâmica e os indicadores
biológicos têm validade local e não geral. Mesmo regiões
aparentemente homogêneas terão uma grande diversidade de
ambientes descritos de forma bastante rica em detalhes por seus
habitantes locais, que dão vida e sentido às descrições acadêmicas
de solos e composição botânicalfaunística. No caso, a identificação
e compreensão pelos técnicos dos indicadores adotados pelos
agricultores cria uma linguagem comum entre ambos. O resultado
é que esta "leitura" comum permite reconhece5 com maior riqueza
de detalhes e com resultados mais dirigidos, pequenas variações de
ambientes que influenciarão no desempenho dos cultivos.
A estratificação que se segue é fmto da integração a que
nos referimos até agora.
I - Mata ciliar higrófila
A estratégia de uma comunidade viva é sempre marcada
pelos extremos que tem que enfrentar. Esse extremo, no caso, é a
umidade: por um lado, ciclos regulares de encharcamento nos
períodos chuvosos e ciclos irregulares de cheias mais intensas de
curta duração. Por outro, secas também irregulares que podem
chegar a mais de quatro meses, afetando áreas já submetidas a
intervenção humana e porlanto mais suscestíveis.
Os extremos de umidade causam, eventualmente, uma
inundação, que arrasta junto à água matéria orgânica e sedimentos
dos boqueirões e riachos até as áreas de baixadas, arranca touceiras
de plantas e ate galhos mais baixos de árvores. Ventos fortes
acompanham esse tipo de Inundação, aumentando o fluxo de
material orgânico para o solo. Isso se reflete em vários aspectos da
relação Rora-fauna através de estratégias de disseminação, potencial
de rebrota frente ao dano e arquitetura das plantas e maior presença
de pedofauna, entre outros aspectos. Vejamos alguns deles:
Esta ecozona é, juntamente com a mata ciliar de encosta,
mais rica em animais de maior porte. h i m a i s têm mobilidade, o'
que é importante numa zona que pode se tornar temporariamente
crítica para mamíferos terrestres. A mobilidade permite que a
biomassa vegetal incorporada pelos animais retorne ao sistema após
a inundação. A medida que voltam os animais, retomando um ciclo,
sementes e rizomas também foram carregados para outras áreas,
repovoando clareiras às margens dos rios. Isto por sua vez favorece
a fauna que se alimenta de brotos novos, que são oportunizados
pelo evento renovador (ventos e cheias). A reproduçâo vegetativa Mata Ciliar Higrófila
- típica das musáceas, zinziberáceas e aráceas - é parte desta
estratégia conjunta de flora e fauna Os rizomas carregados junto Nesta ecmona, o ciiniax é marcado por
com folhas e sedimentos estabelecem-se nas margens, em condições uma paisagem que deixa entrever que
ótimas de luz, umidade e nutrienles, retomando um ciclo vivo em umidade e nutrzentes estão em maror
oferta . Os espécimes chegam q alcan~ar
condições renovadas. 4Srn e até mais de dois metros de kl
Densidade de indivíduos
d~âmetro, as copas são largas. muito
enfolhadas, e a densidade por área de ,
árvores é menor:
Podemos supor que a biomassa total, somando-se fauna e
flora do nível rnicro ao macro (animais e vegetais) é próxima à
Mata de Terra Seca e a Mata de Encosta. Mas é notório que a
densidade de árvores por área é menor e os indivíduos possuem
copas de largo diâmetro e densamente folhadas e, em geral, são de
maior diâmetro que seus equivalentes na Mata de Terra Seca. Essas
características denotam uma estratégia específica de lidar com os
recursos disponíveis.
lação C/N e menos plantas silicosas ou ricas em
Arquitetura
Esta é uma descrição bastante simplificada de um sistema
complexo. Para os objetivos que desejamos,,porém, é importante
saber que, em termos de indivíduos, é típico da mata ciliar higrófila
-
$% uma relação copa/tronco maior que a mata de terra sêca. Na
condição local, as raizes aéreas não são muito comns, visto que
na região estudada o período de encharcamento atualmente não é ,
superior a três ou quatro meses. Porém, são comuns as raízes
tabulares e as sapopemas, típicas de solos parcialmente ou tem-
porariamente inundados. Em termos de fomação clímax é comum
um estrato superior ocupado por espécies de grande enfolhamento
e copas largas (25-40m de altura, copas de até 40m de diâmetro).
Ocorrem bastante eplfitas, os estratos intermediários(1 0-20m) são
ocupados por palmeiras e outras espécies. Ocorre ainda um estrato
baixo (0-3m) denso de espécies de folhas largas e pouco Iignificadas,
se comparadas com as espécies do mesmo estrato na Mata de Terra
Seca. Um estudo acadêmico poderia aumentar a estratificação aqui
proposta e este detalhamento é não apenas desejável como deve
ser constmído em cima das observações de trabalhos de campo
com sistemas cultivados.
Espécies representativas do clímax3
Procurou-se aqui citar apenas as mais notoiamente ligadas
a esta situação. Eventualmente, indivíduos de outras ecozonas
ocupam nichos apropriados às suas exigencias, como pequenas
elevações, Iajedos. etc No estrato dominante, encontraremos o
Guanandi ( ~ ' ~ m o n i a glohulfera, Guttiferae), Cajueiro Bravo
(eeronzma alchorneoldes, Euphorbiaceae) e Pau D'alho (Galle.ua
scordodendron, Phytolacaceae). Nos estratos intemediários, existe
uma grande ocorrência de Buri (PoSandrococos caudescens,
Palmae). No estrato arbustlvo, piperáceas e musáceas predominam
% Mata Ciliar de Baw Mata Ailiar de Base
de Encosta
Esta ecozona é privilegiada em termos da ausência de
extremos de umidade. Mesmo durante a glaciação, foram as matas
ciliares de base de encosta ou piemonte que abrigaram as espécies
que migravam das zonas que iam tornando-se mais secas.
Notadamente, a cicl-em de nutrientes favorece para que o solo
mantenha mais matéria orgânica e pedofauna (minhocas e outros
reciciadores) que a mata de terra seca, onde tudo é imediatamente
e minuciosamente reciclado. Esse ambiente favorece uma vegetação
com relação C/N mais baixa, o que, por sua vez, favorece uma
fauna de maior porte.
Relação flora-faunia
Esta ecozona é passagem e ponto de alimentação
obrigatório de toda fauna de maior porte, como várias espécies de
macacos, veados, porco-do-mato, cotia, paca. ainda abriga a maior
parte das espécies fmtiferas. A relação intima com a fauna propicia
a dispersão de espécies de modo que essas povoem todos os nichos
favoráveis nas outras ecozonas. Desse modo, a vida otimiza a si
própria ocupando todos os nichos possíveis, o que explica
paradoxos como xerófitas na mata higrófila e higrófilos na mata de
terra seca. Na verdade, são exceções que confirmam a regra,
otimizando o aproveitamento de todos os recursos disponíveis.
Densidade de indivíduos
Aumenta em relação a mata higrófila, mas ainda é menor
que na mata de terra seca. Nas condições de Buerarema, BA, 140
km ao sul de Piraí do Norte, em solos mais férteis e relevo mais
plano que o da microregião de Piraí do Norie, foram encontrados
até 891 indivíduos por hectare, considerando apenas aqueles com
mais de 1 Ocm de diâmetro14. Se considerarmos todos os indivíduos
presentes (somente árvores), desde plântulas de 0,5cm de diâmetro
até arvores adultas, esse número pode subir para muito mais de
25.000/ha.
Nesta ecozona, as espécies de terra seca
e de baixadas interpemefram-se. Porém,
embora o climax apresente espécies de
ambos os extremos, é notório que os
individuos são mais vigorosos,
alcançando maior altura que nas áreas
mais secas. É hahitat da maior parte da
fauna de maior porte.
Arquitetura
São também indivíduos de copas de largo diâmetro e
densamente folhadas, porém menos típicos que na mata higrófila.
A transição da Mata Higrófila para o Piemonte é suave em hnção
da ocupação de nichos por espécies das diferentes ecozonas, como
nos referimos anteriormente. Os indivíduos também são em geral
de maior diâmetro que na mata de terra seca.
Espécies representativas do c1imaxl5
Algumas espécies são típicas, como o Ingá-cipó (Ingn
affiinis, Leguminosae), Guapuruvu (S'chizolobium parahyha,
Leguminosae-Caesalpinoideae), Cedro (Cedrella odorata,
Meliaceae), Jequitlbá (Cavlniana legalis, Lecythidaceae), Caroba
(Sparattosperma leucanthum, Bignoniaceae), Pequi-preto
(Cáryocar edule, Caryocaraceae), Imbiruçu-branco (Rombax
macrophyllum, Bombacaceae), Vinhátlco (Phlantymenia
foliolosa, Leguminosae-Mimosoideae), Putumujú (Centrolobium
robustum, Eeguminosae-Papilionoideae), Jangada-preta (Rollinia
silvatica, honaceae), Juçara (Euterpe edulis, Palmae).
3 -- Mata de Terra Seca
Novamente a umidade, no caso sua eventual falta, é o
extremo com que lida a estratégia da vida. Isso se reflete bastante
no solo, que mantém apenas uma fina camada de matéria orgânica,
reciclando rapidamente tudo16. A estratégia do conjunto da vida
para esse ambiente parece estar concentrado na acumulação de
lignina, característica mais marcante da mata de terra seca. Essa
dominância da lignina apresenta-se na maior densidade do lenho
das arvores e através de folhas menores e corláceas. bem como na
presença de arbustos e cipós de folhas e caules lenhosos e lãmbos
de folhas cortantes ou coriáce~s.
Relação flora-ãauna
A produção de nozes e amêndoas, bem como frutos
pequenos atrai toda uma fauna que promove a mobilidade das
espécies e ocupação de nichos favoráveis por indivíduos da mata
ciliar. Cupins, Bòrmigas arborícolas, pássaros insetívoros, pequenos
mamíferos arbóreos, tatus e tamanduás são a fauna típica desta
ecozona.
Densidade de Indivíduos
Aumenta muito em relação à mata ciliar. Nesse tipo de
mata, possivelmente, encontrem-se as maiores biodiversldades do
mundo em termos de espécies arbóreas. 8 espaçameneo pode
chegar, em nichos específicos, a concentrar cinco ou mais indivíduos,
com diâmetro superior a 40cm em uma área de menos de nove
metros quadrados conforme observamos nos remanescentes de mata
primaria da região.
Arquitetura
Outro extremo ocasional na mata de terra seca são os
ventos, já que se situam sempre em relevos que expõem a vegetação
a esse fator climático. Isso reflete nas folhas, geralmente, mais
coriáceas e cerosas, eventualmente, com uma face de coloração
mais clara ou pilosa, refletora da luz e economizadora de água. A
relação copa/tronco é menor que na mata higrófila, o que revela
uma maior concentração de carbono, sob a foma de lignina e menos
folhas. Os indivíduos também são em geral de menor diâmetro que
na mata de piemonte, e de madeira mais densa, com exceção de
áreas com fertilidade diferenciada, onde tanto altura niédla como
diâmetro aumentam. É uma mata densa, com estratos diversos e
adaptada em sua arquitetura para manter em seu interior uma alta
umidade relativa. Essa estratégia permite-lhe manter condições de
umidade relativamente estáveis. Esse é um principio básico para os
sistemas agrícolas que se pretenda implantar nessa ecozona.
Espécies representativas3
Entre outras, o Aderno, Inhaíba (Lecythis Zurida,
Lecythidaceae), Sapucaia (Lecythis pisonis, Lecythidaceae),
Coquinho (Chrysobalanaceae), Oiti (Couepia impressa,
Chrysobalanaceae), Camaçari, Binbeira (Lecphidaceae), Sucupira
(Bowdzchia s p p . Leguminosae-Papilionaideae), Babatenan
(Eeguminosae-Mimoisoidae).
Mata de terra seca
Madeiras de alta densidade especijcn e
de menor porte que nas áreas mais
favorecidas por umidade e nutrientes,fòr-
m m o climax desta ecozona. Eventualmen-
te, nichos propícios. como as lagoas de
topo de morro podem criar condições para
que alguns gigantes da Mata Atlantica es-
tabeleçam-se, aparentando uma contradi-
ção. A verdade e mais rica: ao ocupar con-
dições favoráveis em ambientes mais se-
cos, essas espécies acabam javorecendo
todo o conjunto, ao otimizarem o uso dos
recursos naquele ponto espec~jico.
Comentários
Quais são os encamiaihamentos práticos que podemos obter
a pafilr destes dados ou da análise de outros ecossistemas? Essa
pergunta não é nova. Provavelmente, a pafiir de um diagnóstico
não muito diferente e gelo método de tentativa e erro. as populações
AS clareiras nesta ecozona mostram uma menos 3.500 anos antes da chegada de Colombo ao Novo Mundo
estratégia agressiva de retenção de água O cacau foi introduzido nas civilizações centro-americanas,
e predom'nam plantas de fo- situadas em áreas mais secas, e foi mantido graças a sistemas delhas sihcosas e ricas em lignina - o que
i rrurnenta a v,& útrl da matéria ovgânrca irrigação e sombreamento Introduzido, reproduzindo suas
sobre o - e us bordas são protegidas exigências naturais Quintais de abastecimento eram formados por
/ por espécies com folhas cortantes e que sistemas agroflorestais intensivos, onde a menor área e os -
/ formam densa proteção e di- multiestratos permitiam maior retomo da mão-de-obra e recursos
i mrnurndo o estresse hidrrco e danos cau-
saúos pejos ventos investidos, o que também foi inspirado nos multiestratos das matas
I ciliares
Com esses sistemas, sem insumos industriais, a partir do
manejo dos recursos naturais, de áreas florestais a altiplanos, os
antigos mesoamericanos puderam chegar a padrões de desen-
volvimento bastante altos. A arquitetura, as artes e a escrita
atingiram altos padrões e os cálculo^ astronomicos desenvolvidos
a partir de suas observações ainda são válidos h o ~ e em dia.
Constniíram monumentos e cidades de urbanizqão planejada, como
Teotihuacáni7, cuJos processos de decadência podem estar
associados à pressão sobre os recursos naturais decorrente do
abandono do gerenciamento ambienta1 em favor da sacralização
da guerra como fonte de poder e recursos.
Pofianto, não seria o caso de nos perguntarmos se, a partir
do reconhecimento do potencial dos diferentes ecossistemas
florestais, e no nosso caso da Mata Atlântica Sul-Bahiana, não
poderíamos chegar a algo mais eficiente (sob todos os pontos de
vista) do que pecuária de corte, "'mineração" de recursos madeireiros
e cultivos anuais? Como o modelo atual de exploração de recursos
irá responder ao incremento populacional e de necessidades
humanas? Como o microclima regional reqirá a maior produção
de calor e evaporação provocada pelas áreas desmatadas e extensas
áreas de pastagens? Que tipo de ordem social será capaz de
administrar cidades-favelas que crescerão dia-a-dia?
8 s sistemas que descreveremos a seguir são fmtos do
método de tentativa e erro, baseados nos princípios da sucessão
natural de espécies e buscaram integrar os princípios descritos até
aqui. É importante deixar claro o objetivo do relato que se segue.
A teoria é produto da reflexão sobre a prática, e o que expomos
não são receitas de sistemas agrícolas ou agroflorestais que salvarão
a humanidade ou a Mata Atlântica. São relatos da aplicação pratica
dos princípios já qresentados. os quais se qresentam em constante
evolução e aperEeiçoamento, ao longo de mais de I0 anos de
trabalho de campo na região descrita.
Esperamos assim que sejam um estímulo a iniciativas locais
e uma contribuição à teorização e constmção na prática do grande
d e s a h que é harmonizar as necessidades humanas com a
preservação e regeneração dos ecossistemas florestais.
Referências
Para ir adiante, ver: Nosso Futuro Comum1 Comissão Mundial sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento. Rio de Janeiro. Editora da Fundação Getí~lio
Vargas, 1988.
Ver Alier, Joan Martínez. De Ia economia ecológica a1 ecologismo popular.
Editorial Nordan-Comunidad. Montevideo, 1995.
"Quando os europeus chegaram pela primeira vez (em torno de 1420), a Ilha
da Madeira não tinha um palmo de terra que não fosse inteiramente coberto
por grandes árvores. Daí o nome que lhe deram. A madeira revelou-se valiosa
como item de exportação, mas as Rorestas eram boas demais e os colonos
queriam abrir espaço para eles mesmos, suas culturas e seus animais - o que
exigia uma derrubada mais rápida que a da extração com finalidade comercial.
Assim, os primeiros colonos atearam um fogo depois do outro, o que teve
como resultado uma conflagração que quase os expulsou da ilha. Um grupo,
pelo menos, "foi forçado, com todos os homens, a fugir da fúria do fogo e
procurar refúgio no mar, onde todos pemneceram, mergulhados até o pescoço,
sem água ou alimento, por dois dias e duas noites". A história prossegue
revelando que o fogo durou sete anos, o que talvez possamos intepretar como
significando que os colonos continuaram queimando florestas durante todo
este tempo". Crosby, Alfred W. Op. cit
"A terra, nota bene, é tão fértil, que por toda parte encontrarás uns doze a
quinze mil bois e vacas, dos maiores e mais bonitos, deitados no capim ou
pastando. São livres e não fazem parte de nenhum rebanho (...) Aldeamento
que não fosse capaz de criar três a quatro mil cavalos de montaria seria
considerado pobre (...)". Esse depoimento de umjesuíta, datado de 1698, situa
o leitor na produtividade original das pastagens nahirais da região das Missões,
no Rio Grande do Sul, banhadas pelo Rio Uruguai. É possível falar hoje em
dia em ganhos de produtividade via insumos se não sabemos o que o ecossistema
já produziu naturalmente? Para ir mais longe, ver, entre centenas de obras de
recuperação histórica: Ribeiro, Da rq e Carlos de Araújo Moreira Neto. A
Fundação do Brasil. Vozes, 1992.
' No sentido de ecossistemas transformados pela atividade agrícola.
Este conhecimento pode nos agontar sinergismos e anQgonismos entre planras
introduzidas e plantas autóctones. De posse desse conhecimento, podemos
elaborar melhor nossas estratégias de convivência dos sistemas agrícolas com
os sistemas naturais, e Inclusive revelar potenciais de plantas como forrageiras,
fertilizadoras, madeiráveis, sombreamento, etc.
" .' , No tempo e no espaço" refere-se a que determinados cultivos irão ocupar
áreas por tempos definidos e variáveis de acordo com seu papel na sucessão de
espécies e dos nichos que ocupam, conforme foi apresentado no item "A
Sucessão Natural de Espécies", pp53.
Compostos extraídos de plantas, microorganimos e animais estão presentes
em todas as 20 drogas mais vendidas dos Estados Unidos, cujo valor de vendas
chegou perto de 6 bilhões de dólares em 1988. De modo mais direto, a pesca,
baseada predominantemente em espécies de ocorrência natural, contribuiu com
qroximadamente 100 milhões de toneladas de alimentos no mundo inteiro
em 1989. Para ir mais adiante, ver: Perdas da Biodiversidade e Suas Causas,
in A Estratkgia Global da Biodiversidade, págs. 1-5. Instituto de Recursos
Mundiais (m), edição em português da Fundação O Boticário, 1992.
Para ir adiante ver: Enfoque Sistêmico en la Agricultura. Bibliografia
selecionada. Elaboraclón: Mxlene Caltillo Femández. CIPCA. Centro de
Investigación de1 Campesinado. Piúra, Peníi, Setiembre, 1989. Ver também
Diagnóstico Sócio-econômico da Região Cacaueira. Volumes 1 , 2 e 3.
CEPLACIIICA, Bahia, 1975.
' O A rentabilidade da atividade pecuária em regiões do trópico íimido, como
no sul do Pará, é bastante baixa, variando de US$ 17lhdano até US$ 901lid
ano, esse último valor no caso de pecuária leiteira. A produtividade de carne
varia em torno de 24 a l01kgIhdano. Para ir alem, ver: Anmo, Eugenio &
Christopher UM. Pecuária na Amazônia Orienlal: Situação Atual e Tendências
Futuras. In "Abordagens Interdisciplinares para a Conservação da
Biodiversidade e Dinâmica do Uso da Terra no Novo Mundo". Consewation
Internationa! do Brasil, WMG, Universi@ of Florida. Belo Horizonte, 1995.
l1 O AS-PTA tem buscado o aperfeiçoamento do diagnóstico ambienta1 dentro
do conceito de DRP (diagnostico rápido participativo), e alguns textos
preliminares estão disponíveis, como o texto por Paulo Petersen "Diagnbstico
ilmbiental - Rápido e Participativo" Proposta Preliminar, AS-PTA, Rio de
Janeiro, outubro11 995.
l2 Ver Ab' Saber, A. N. 1980. Espaços ocupados pela expansão dos climas secos
na América do Sul por ocasião dos periodos glaciais quaternários. Craton &
lntracraton. São José do Rio Preto, Uney, n.8., 1980. Também ver, do mesmo
autor, Razões da retomada parcial de semi-aridez holocênica, por ocasião do
"otimum climaticum ". Inter-facies, São José do Rio Preto, Unesp, n.8, 1980.
" Ver MORI, S.A & BOOM, B.M., CARVALtIO, A.M. & SANTOS, T.S
Southem Bahian Moist Forest. The Botanical Review, 49,155-232, April-
June 1 1983, The New York Botanical Garden.
IdVer MOWI, §.A & BOOM, B.M., CAliVALHO, A.M. & SANTOS, T.S.op.
cit.
15 , S.G. & SILVA, L.A.M. Árvores Aproveitadas Como Sombreadoras
de Cacaueiros no Sul da Bahia e Norte do Espírito Santo. CEPLAC, Ilhéus,
BA, 1982.
l6 DANTAS, M. & PHILLIPSON, J. LitterEall and litter nutrient contenl in
primary and secondq 7~nim '"erra firme" rainforea. Jornal of Tropical
E c o l o ~ (1989) 5127-36.
I 7 Descoberta próxima a atual Cidade do México, Teotihuacán teve no seu
auge, em tomo do ano 500 D.C. entre 125.000 a 200.000 habitantes, rivalizando
com a Londres do século XIV. As mínas apresentam um dos três maiores eixos
transversais planejados existentes no planeta (Washinglon D.C. e Brasília são
os outros dois). Para ir adiante, ver: The Zmeless Yision of Teotihuacán, by
George E. Stuart.Nationa1 Geografic. vol. 188, no 6, December 1995, pág. 2-
35.
A construção de roteiros básicos
de sistemas agroflorestais
regenerativos
Para cumprir esse objetivo, faremos a reconstituição de
como cada etapa de um sistema agroflorestal foi definida tendo
por base as condições de uma área de roça abandonada entre 5 a
10 anos, em condições de mata ciliar para as condições edafo-
climáticas relatadas para a Mata Atlântica Sul-Bahiana.
Uma área de roça abandonada tem em gera9 varias situações
de vegetação a serem trabalhadas de formas diferentes. analisando
a prática com cada uma dessas situações, teremos exercitado vários
princípios de constmção de sistemas qroflorestais, lidando com.
- manejo de bordas de transição entre um sistema agrícola
e o sistema natural, incluindo clareiras naturais ou de renovação
com introdução ou adensamento de espécies;
- formação de sistemas agroflorestais centrados em fmtas,
amêndoas e madeira;
- introdução de componentes alimentares de auto-
consumo de curto, médio e longo prazo, desenvolvendo sistemas
de produção de grãos, leguminosas e hortaliças como parte da
estratégia de formação do sistema.
A estrutura projetada de um sistema agro$orestal regenerativo análogo é o que seu nome diz: busca regenerar um
consórcio de espécies que estabeleça uma d i n h i c a deformas, ciclagem de nutrientes e equilíbrio dinâmico análogos d
vegetação original do ecossisiema onde será implantado. Para isso, baseia-se em grande parte na própria sucessão de
espécies nativas não só para alavancar o sistema mas também para counpô-lo nas várias fases.
preservar a regeneração natural e /ou adensada. O sistema todo é baseado na dinâmica da suce.ssão
natural de espécies e seu manejo.
espécies que formarão a segunda fase, de três a cinco anos (2) O desenho projetado se definirá na terceira fase, a'e h1 0 anos
(3j, quando do início da produção comercial das espéciesperenes de ciclo médio e longo. Esse sistema chegará aos ciclos de
renovações mais agudas, na faixa de 11-15 anosi- 0, quando algumas espécies da mata secundária (ciclos intermediários)
que ocupavam os estratos superiores começam a declinar: sendo gradativarnente substltuidas pelas espécies da mata primá-
O que diferencia um
Siseernt Agroflorestçil
Regenerativo Análoga de um
~"Fonvenc fona l?
NO SAF conveneíana[ o sistema natural é substituído por um sistema de monocultivo por estratos. As
roçagens e capinas não são seletivas, e o sistema é estático. Isso diminui a produção de biomassa e aumenta .a
dependência de fertilizantes externos ao sistema, fator mais grave quanto menor a fertilidade natural e maior a
velocidade de decomposição da matéria o@nica original. Ofinal de ciclo ou decadência de indivíduos de um dos
estratos não é reposta por uma renovação dinâmica, e áreas bastante grandes (o total do SAI;: eventualmente) têm que
Itinerário técnico de sistemas
agroflorestais
Neste tópico, vamos relatar e descrever alguns sistemas
agroflorestais desenvolvidos e testados nas condições da Mata
Atlãntica Sulbaiana, na região descrita no capitulo anterior.
Analisando os pincipios que orientam cada passo do sistema, iremos
observar que existem possibilidades de alterar parte do roteiro para
ambientes diferentes. Esse 6 um exercicio que atende o objetivo
maior deste livro: estimular a recriaçào local de sistemas agro-
florestais regenerativos compativeis com os ecossistemas onde serão
implantados A base de inspiração e, portanto, a sucessáo de
vegetação e fauna dos ecossistemas onde serào instalados, de modo
a harmonizar os obetivos do agricultor e as espécies que lhe
interessam com as características do ecossistema local.
Os roteiros apresentados se orientam por três eixos:
- primeiro, quais são os objelivos humanos em termos de
produtos e como funciona, em termos de adaptação ao ambiente,
cada fase do sistema;
O eeossislema
O sistema natural tem na suces-
sGo de espécies o mecavlismo que
organiza a biomassa no tenzpo e
no espaço. As formas ou a ar-
quitetura de individuos e dos
consórcios que se sucedem nos
indicam como funciona cada
etapa dentro daquele determina-
do ecossistema.
s e palmeiras no estrato
2
2 - Árvores e arvoretas umbrófiias
nos estmtos inferiores
3 - Nerbsceas anualã, árvoresJ arbus-
JV tos, cipós e arvoretrlâ pioneiras n a I
4 - Constante reciclagern de nutrlen-
tes e contole das condições de radi-
O apecossistema
"Sistema AgoPJkorestal Regeneralivo Análogo ''
Nossos sistemas agroflorestais devem tentar reproduzir ao
máximo a arquitetura das formações naturazs, pois elas
coevoluíram com o ambiente físico na perspectiva da utilz-
z a ~ ã o otimlzada de radiayão, umidade e nutrientes. Portan-
to, cada etapa não é apenas sukstztuição ou uma zmitayão
do sistema natural, mas sim conta com uma grande porcen-
tagem de e,rpéczes que a ele pertencem para conslrulr e man-
ter o sistema agroflorestal em funcionamento. A isso pode-
mos chamar de um agoecossistema.
- segundo, em que zonas do ambiente ocupado pela
propriedade ou conjunto de propriedades agrícolas esses objetivos
poderão ser melhor cumpridos, o que levara ao zoneamento por
propriedade e por comunidades ou regiões;
- terceiro, como ajustar nesses ambientes as espécies
nativas e introduzidas em termos dos consórcios e da sucessão
desses consórcios, de modo a regenerar a biodiversidade e biomassa
mais próximas do sistema natural.
Sistemas para regeneraçáo de áreas
de base de encosta e mata eiliar
Parlindo de lavouras abandonadas
com capoeiras de 5-10 anos de idade
Dentro de uma propriedade, são comuns áreas degradadas
e abandonadas em ambientes de mata ciliar e base de encosta. Os
sistemas que vamos descrever visam a regeneração produtiva dessas
áreas com sistemas de várias fases, onde cultivos anuais, fmtíferas,
árvores de múltiplos propósitos e uma grande variedade de espécies
nativas de vários estratos e estágios da sucessão criam condições
para a formação de uma estmtura que convencionamos chamar de
sistema agroflorestal regenerativo análogo.
Os sistemas têm um funcionamento básico e uma vez
apreendidos em seus princípios, podem ser introduzidos em todas
as zonas que apresentamos anteriormente, com exceção das áreas
de mata primária preservada, onde é desejável manter o máximo
de biodiversidade.
A aptidão do ambiente é fundamental para definirmos a
capacidade de suporte e as características e sutilezas dos sistemas
que pretendemos desenhar e instalar. Para isso, o zoneamento local
é fundamental. O sistema a ser implantado deve; então, buscar um
tipo de sucessão e arquitetura de espécies e consórcios inspirado
na vegetação que foi encontrada nesse zoneamento. Por isso, em
cada região as características de umidade, nutrientes e radiação
irão propiciar que um sistema diferente seja Instalado. Ainda, que
sistemas semelhantes surjam em regiões geograficamente distantes,
mas com condições edafoclimáticas similares.
Mercados, cultura e conjuntura sócio-econômica irão,
então, definir as nuances do desenho dos sistemas, buscando
propiciar uma vegetação com caracteristicas e funções semelhantes
a da vegetação original dolocal, e que produzam renda, alimentos
e qualidade de vida como um todo.
Eixos produtivos e fases do sistema
O desenho de um sistema deve ser o produto final e
participativo que surge no contexto que procuramos explanar
durante todo este livro. Podemos dividir a evolução desse tipo de
sistema em quatro fases que se intercomplementam sob o ponto de
Formas e fun~õcrs das espécies de interesse direto.
Caso-exemplo para a Mata Atl-ntica Sul Balana
Fase 1 (anos 0 e 2 )
Dependendo das condições de clima, solo e vegetação existente (indicadores biológicos), nessa fase o sistema poderá
produzir uma série de espécies comestíveis. Nos sistemas já implantados denwo dessa metodologia. as espécies que fomam
o eixo dessa primeira fase são, em ordem decrescente.
- grãos, como o milho;
- leguminosas trepadoras, como feijão-lima, feijão-fava. caupí, etc;
- folhas comediveis trepadoras, como ora-pro-nobis e bexzalha e herbáceas. como taioba e brotos de mandioca;
Rores comestíveis, como o malvavisco.
- inhames, como o cará-aéreo, inhame-quiçari, inhame d'água e outros.
- legumes, como o pepino-salada, tomate-cereja, maxixe, etc.
No médio prazo, as espécies-eixo do sistema passam a ser as frutas, raizes, tubérculos e outras fontes de amido, nesta
ordem de importâncta.
- frutas deporte arbusilivo, como diversas variedades de banana de porte alto, mamão, araçá-boi, etc;
- fr&s deporte radeiro, como o abacaxi;
- folhas comestiveis umbrbfilas, como taioba. bertalha, ora-pro-nobis;
- fontes de amido, como o cará-aéreo, vários tipos de inhames, chuchu.
As folhas comestiveis herbáceas como a taioba diminuem sua produção em sistemas muito sombreados e as espécies
trepadeiras deslocam sua produção de biomassa para o alto das árvores, onde conseguem a radiação de que necessitam.
Renovações periódicas das copas das árvores podem controlar o acesso a radiação prolongando a vida Iitil dessas espécies no
sistema, com exceção da mandioca, francamente heliófita, que irá sendo substituída rapidamente devido a sombra.
Fase 3 (6-10 anos)
As bananeiras irão sair do sistema a medida que o dossel superior for fechando, o que deve acontecer do oitavo ano
em diante, quando o eixo do sistema já será:
- frutqeras tkicas de sub-bosque, como cacau, pataste, citrus, mapati e várias outras;
- frutqeras depoHe alto que toleram sombra nafase inicial e que na fase produtiva necessitam de mais luz, como
jaqueira, abacate, pupunha e muitos outros.
A produtividade dessas espécies dependerá de um manejo constante e ciclico das copas das espécies ferlilizadoras,
como ingazeiros, eritrinas, louros, cobis e outras que cumpram essa Iùnção e que foram instaladas no início do sistema e
tutoradas pelas espécies pioneiras, como abacaxis, malvaviscos, etc.
Fase 4 (11-15+ anos): o futuro do sistema definindo-se
Se estabelece uma produção regular de amêndoas de cacau, pataste, cupuaçu. Frutas de sub-bosque entram em
produção comercial, bem como as palmeiras (pupunha, açaí, juçara, etc). Algumas das árvores madeiráveis já mostram seu
potencial de fuste e podem ser selecionadas, enquanto parte das pioneiras fertilizadoras encerra seu ciclo, sendo substituídas
por outras. Nesse intervalo, algumas clareiras abrem-se e podem ser ocupadas novamente por espécies da fase 1 e 2.
vista de retorno econ0mlco e de avanço no processo de sucessão Definindo e zoneaaado
de espécies, imitando de forma mais próxima possível a sucessão esp6cf%"s2 consá"rcios e
natural e visando a regeneração produtiva do ambiente. sracess" para kirn S A E M
O fùndamental é entender cada etapa como um consórcio
de plantas nativas e exóticas que se compiementam entre si para Cada espécie ou consórcio de espécies
ocupa um nicho adequado, possibilitando
cumprir os dois objetivos que enunciamos. que na fase inicial o sistema otirnáe o uso
Reforçamos que O sistema adulto dos recursos de radiação, nutrientes e
deve respeitar o ecótipo do local onde estamos umidade, conserve energia, produza
intewindo. Foaanto, trabalhamos para que o alimentos e renda e crie condições para o
avanço do processo de sucessCo de
kturo seJa uma floresta terciária induzida aos espécies.
interesses humanos, onde o objetivo seja, em
ordem decrescente, a colheita de frutas e
amêndoas, folhas e flores comestíveis,
especiarias, ornamentais e, em último lugar, Griios e legumes comestiveis
de alta produção de biomassa.
madeiras de lei. A pouca ênfase na madeira como O milho e o feijão
de lei segue a lógica de menor densidade por tvepador
área de madeira nas matas ciliares, menor
distúrbio possível e aproveita o potencial do
sub-bosque desses ambientes para a produção
de fmtas e outros produtos. Porém, o valor
agregado pela madeira não é desprezível, uma
pegam por estaquia
vez que algumas das espécies madeiráveis mais
valorizadas crescem nesses ambientes, como
o cedro, putumuju, guanandí, etç. Essas
espécies contribuem não apenas para O VAIP Especie pioneira para
da área (Valor Agregado Projetado), mas para
a estabilidade, autonomia e saúde do sistema economico, sewrndri
como um todo, atraindo e sustentando a fauna, /*' corno zulor para a3
árvores do futuro.
estimulando a biodiversidade e a regeneração a abacaxi tem todas
do ambiente. essas características
Na primeira fase do sistema, o que realmente importa em relação as espécies que usa-
mos como pioneiras (nativas ou introduzidas) é que cumprm af inyão de cobrir o solo
com sua biomassa, produzam algum tipo de retorno aos inreresses humanos e que, nesse
processo, sejam ejcientes em conservar a energia do lugar: Em outras palavras, que
conservem umidade e nutrientes, protejam e criem matéria orgânica e alavanquem o
cesso de sucessão de espécies.
I O sistema agrojoresial dea ai não existe
sem a v~são de toda a cadeia produt~va O
agroprocessamento local e busca de
mercados é tão essencial quanto os
esforços em harmonizar a arquitetura e a
componção de espécles de cada fase do
sistema O esforço é então recompensado
e a mão-de-obra empregada valorzzada O
aumento da qual~dade de vida e a cnação
de uma verdadeira oikonomia é o objetivo
final, que desbanque os sistemas de
I produção baseados na mercantillzação
irnediat~sfa dos recursos naturais,na
definição malspobre do termo "economia"
I ) Brodução de alimentos a curto ~ ~ C B Z O , médio e longo prazo.
2) Rdpida cobertura do solo a curto prazo com materiais de dqeren-
tes composições e velocidades de decomposição.
3) I7.odução a médio e longo prazo de material fertilizador com ca-
racterídicas de rudicidade, residência e se pofshel usos m<iplos
Frutas de crescimento
rápido, como banana,
mamão, e oulras.
Árvores fertilizadoras
,
e'ou madeiráveis.
palmeiras e outras
espécies de interesse
I \ . direto que demoram
Áwores de
crescimento
rápido ou
mediano para
fertilização,
plantadas por
sementes e
estacas
mais de cinco anos
para iniciar a produ-
ção fazem o fiiuro do
sistema
Instalando o sistema
Reconhecimento e roçagem (semana 1)
O primeiro passo é uma avaliação e reconhecimento da
vegetaqão, onde temos de nos perguntar se há condições, pela
biomassa existente e pelos indicadores do terreno, de usar milho e
feijão trepador como primeiro eixo da sucessão
Se afirmativo, a área é zoneada quanto à umidade para
ailmentos e evitar desperdício de sementes e orientar a Introdução de folhas
b~omassa para comestíveis e inhames de acordo com sua resistencia a solos mais
secos ou mais úmidos. 8 feUão é semeado a lanço ou plantado à
ponta de facão. No caso do plantio a lanço, após a semeadura sobre
a vegetação é feita uma roçagem seletiva à facão, preservando a
regeneração de espécies arbóreas.
Aprohndando este item, o critério básico da roçagem é:
- todas as herbáceas são roçadas rente ao solo a pelo
menos um palmo do solo,
- toda a regeneração arbórea é preservada e marcada por
estacas;
- as copas de espécies pioneiras são podadas, desde que a
espécietolere esse procedimento Essa roçagem é feita simulta-
neamente com uma replcagem, de modo a facilitar o contato do
material com o solo, facilitando sua decomposição e o transito pela
krea
Plantios
O abacaxi é então plantado no espaçamento de 1,5m x
0,5m ou até 2,OOm x 0,5m, e deve estar Implantado no solo logo
apOs a camada orgânica, bem firmado e com mudas limpas de broca,
gomose ou raizes velhas.
O milho é plantado na entrelinha do abacaxi, e variedades
são preferíveis a híbridos pela msticidade. Pode-se usar uma linha
dupla de milho (0,70m x 0,40m) ou urna linha simples. Isso irá
depender das condições edafoclimátlcas. Quanto mais rica a
combinação fe'ertilidade do solo, radiação e regularidade de chuvas,
maior a possibilidade de produção de biomassa.
As primeiras etapas
da inlte-ven-8s
Biornassa e esthgio de suces
s& da vegetação erxlsle~le, A
vegetaç" no local da inter-
venção atinge em torno de três
metros de ahura, e está composta de
e-écies herbáceas. subarhustivas,
cigos herbáceos e algdmas áwores
pioneiras. Na maliagão dos agricul-
tores, o con~unto da biomam mos-
tra condições de fertilidade e um-
dade que permztem que milho e fez-
jão sejam cultivados ali.
A regeneração é toda preservada até
que se identifique a espécie, a que eta-
pa da sucessão pertence e sua tolerân-
cia à poda. @
2 Rejuvenescimento e sinçro- nkação da sucessão, Áwores pioneiras e secundárias de
maior porte são podadas de acordo
com suas camcterkticas individuais
e estado jzsiológico. A idéia é pro-
vocar um rejuvenescimento do indi-
viduo e sincronizá-lo com o restante
da sucessdo que se verfica no lo-
cal.
A roçapem é feita após a semeadura do fegGo a lanço de modo seletivo, preservando as árvores
e renovando as copas de alguns individuos de mata pioneira ou secundária que tenham perma-
necido dede a última intervenção. Tudo é picado de modo a facilitar o trânsito e a ciclapem dos
nu&ientes. O plantio em sucessão sem fogo ou revolvimento do solo permitirá uma rápida cobertura do
terreno, minimizando as perdas energéticas do sistema.
O fedão pode ser prejudicado pelo adensamento do milho. , Primeira fase
Mas o milho é a espécie-eixo dos produtos alimentares nessa "91 siatem"
primeira fase. O milho é plantado até com a ponta do facão, em
linha.
O malvavisco é plantado via estacas de 0,30-0,40m. Essas
estacas distam entre si 0,ibOnl e ficam na entrelinha do abacaxi, lhas de mandioca produzem alimentos
distando 0,40m e 0,50m da linha desse. Também se pode usar uma a curto prazo nas áreas mais drena-
fila dupla, o que depende dos mesmos fatores citados para o milho. das. O feijão dará lugar a herbáceas
nativas como a jurubeba (Solanz~m
spp.) e à cobertura foliar proporcio-
O Futuro nada pelo malvavisco e mandioca.
O abacaxi e o malvavisco são os tutores ou formadores
para as espécies arbóreas do hturo. Ingazeiro, sombreiro, jaca,
citms, cedro, pau d'alho, eritrina e outras espécies são plantadas
na mesma linha do abacaxi e malvavisco, conforme as sementes e
mudas a disposição na época e conforme o zoneamento do terreno
que fizemos (umidade, fertilidade).
Mudas crescidas em saquinhos ou jacas, como pupunha,
mangostão, etc. podem ser plantadas em nichos privilegiados. O
cacau e o pataste são plantados de semente na linha do abacaxi e
malvavisco, distando de lm a 1,5m entre sementes. A técnica de
cacheando no seaundo ano
~ a m ã o - L l i W " B
1Malvavisco e outras espécies
plantio é a ponta de facão, que abre a vegetação repicada e o solo
superficial
Primeiros manejos ( 4" semana)
Um mês após o plantio, fa-se uma quebra manual ou de
facão nos fetos e outras ervas que rebrotam para favorecer o milho
e o feião. A próxima operação (12 semanas) é colher o feijão e
podar algumas ervas, sem eliminá-las, provocando uma renovação
da biomassa.
A colheita do milho (20 semanas) é um momento de
transigão. Junto com a colheita faz-se uma capina seletiva,
renovando parte das ervas e fetos pelo seu aspecto e estado de
maturação, e planta-se a bananeira, no espaçamento de 3m x 3m.
Se quisermos manter a bananeira por mais tempo no sistema,
devemos procurar variedades tolerantes a sombreamento, como as
variedades de banana-prata de pofie vigoroso. A banana-da-terra
já é menos tolerante ao sombremento e poderá ser usada em bordas
ensolaradas de boa fertilidade, caso contrário teremos sua saída do
inhame, taioba, ora-pro-nobis,
sistema tão logo diminua a insolação. No momento do plantio da
bertalha e outras espécies cumprem o bananeira e, consequente, pisoteamento pelo agricultor, podemos
papel de fornecer alimentos, tutorar podar e renovar partes das herbáceas nativas e introduzir mamão
as árvores e cobrir o solo. na entrelinha da banana. O ideal é introduzir mudas de saquinho
com três ou mais mudas, afim de selecionar, após, as que produzem
os melhores fnitos.
Maneja até as primeiras colheitas de abacaxi
Até o 12" mês, quando Irão surgir os primeiros fmtos de ciam das condições oferecidas nos pri-
abacaxi, o manejo será de supressão de gramíneas, poda de meiros três anos de sistema e em cla-
reiras criadas pela renovaç2o é o aba-
renovação no malvavisco e herbáceas nativas, e colheita de folhas caxi. Aqui ele pode ser visto no ponto
e brotos. A partir do 14" mês Intensifica-se a produção de abacaxi de colheita em consórcio com espéci-
e começa a colheita da banana. es em desenvolvimento como a
Em alguns casos de áreas que por sua posição recebam
exposição solar intensa, o milho pode ser reintroduzido, após uma
poda drástica do malvavisco em julholagosto (a um palmo do chão
no mínimo), repetindo um ciclo de grãos.
Terceiro ao quarta ano
As touceiras de abacaxi que produziram são desbastadas,
mantendo-se as touceiras sadias para sua última produção comercial.
Os talos de bananeira que foram cortados e dobrados para a colheita
são cortados rente, picados em toletes de 40-50cm, abertos ao meio
e usados para favorecer o desenvolvimento das fnitíferas que estarão
se desenvolvendo.
A cada 2-3 meses a área deve passar por uma operaqão de
capina e poda seletiva, de modo a renovar a vegetação e favore- O sistema testa a aptidão
cer as espécies arbóreas que introdu-inos. Isto não s i d c a "eli- das espécies e o acerto do
ar" a vegetação herbácea, mas sincronizar o siaema, retiran- manejo -
do as partes velbas das plantas, renovando-as e dando comdiqões
para uma ciclagem conthua dos nut~entes: favorecendo as es-
pécies do fiituro. Este e o momento de reintroduzir sementes e
mudas nas folhas, e ar toucekas doentes de banana, introdu-
.& sementes da mata primária e espécies herbáceas umbiróflas
dos estagios mais avançados, como algumas ornamentais.
Do auinto ao oitavo ano
Começa a colheita comercial de pupuáha, num espaçamto
definitivo de 8m x 8m, do cacau e pataste (3m x 3119, citms, jaca,
abacate, cupuaçh e outros (em nichos favoráveis) sem
espaçamento padrão. Para manter a produtividade das htlferas
No ~mzhlrnte de Mata dr Araucána.,, um agricultor rtdiza no
inverno uma poda de renovação na copa de um fumo-bravo (Solanaceae).
Essa operação cria condições de luz, reciclagem e estimulos de cresci-
mento para a instalação de um sistema agrojlo~estal num capoeirão de
PR). Os c on iórc ioc udequados permitiram a
formaçmo de uur ifronco retilineo sem o ataque
da broca dos ponteiros
Nesta etapa, os consórcios de mais longa du-
ração começam suas curvas ascendentes de
produção. Espécies como as f ru tveras
zlmbrófilas, palmeiras, madeiráveis formam um
conjunto afinado que pode ser complexado e
dinamizado constantemente. Este papel será
desempenhado pelo manejo das copas que pro-
duzenz sombreamento através de podas, intro-
dução de novas espécies nos nichos criados,
retirada de pioneiras em final de ciclo, indiví-
duos doentes ou inadaptados. Nestatuse, como
em qualquer sistema de produção de perenes,
é que os acertos e erros do desenho se tmduzi-
rãoem fracassos ou altas produções.
6 Lima ( I ) na companhia de mapati ( 2 ) , plvilnhn(.i), nlalvavisco(4)
entre outras espécies, nunz aspecto reprc.scratutli70 de rlrrz sistema de
quatro a cinco anos em solos pobres. Fa:rn(la TrC, Colirzn,. Pirai do
Norte, BA.
$ Pupunha ( I ) , árvores da mata primária (21, pataste (3) herbáceas umbrófilas (41, cacau (5), espécie pioneira em
onto de renovação (6), espécie da mata secundária em consolidação (71, abacaxi e banana ainda pro(luzindo marginal-
147
*
do sub-bosque é fundamental um trabalho periódico de renovação Dinamizando s sistema
das copas das espécies arbóreas pioneiras que estão proporcionando
o sombreamento, feito através dos critérios que discutimos nos A partir do 10" ano, uma série de
cayritulos anteriores. áwores pioneiras começam a reduzir suas
curvas de crescimento e produção de
Do 10" ano em diante biomassa. E neste momento que as copas podem ser podadas mais intensamente,
uma vez que exista um potencial de rege-
Ficam agora cristalizados os erros e aceaos do zoneamento neração e, principalmente, uma reposição
do ambiente. Assim, o que parecia um exagero em densidade de em das espécies do secundá-
rio, que irão substituir as espécies deca- plantio na implantaçâo do sistema irá nos dar a possibilidade, ao dentes Eventualmenle, clareiras
longo deste período, de manter apenas OS indivíduos mais Ggorosos irfio se abrir. oDortunizando a entrada de
' &
e produtivos. Em outras palavras, aqueles que encontraram seu espéciespioneiras, que serão controladas.
lugar ótimo dentro do sistema estarão vigorosos e produtivos e os
Parte importante do manejo é a sincronização de todo o siste-
ma. A abertura das copas aumenta a luminosidade, e espécies
do estrato herbáceo desenvolvem-se, como resposta natural. As
estolonzjreras agressivas (a) devem ser removidas, e as espécies
de maior produção de biomassa e cobertura do solo, como esta
grarninea (b) que cresce nos capoeirões da Mata de Araucária
deve ser roçada. O rnaterial de roçagem cobre o solo e evita a
disseminação das estolonljeras, ao mesmo tempo, reciclando nu-
trientes e fazendo avançar a sucessão nos estratos mais baixos,
enquanto a cobertura das copas se recupera.
A renovação de copas em espécies
pioneiras e de mata secundária
No insert (a) vemos um agricultor po-
dando o fumo-bravo que quatro meses de-
pois reage (h) com nova brotação que
ainda não atingiu seu máximo (nesta re-
gião ele terá mais três meses ou mais de
crescimento. Na foto de fundo (c) temos
a reação à poda de uma espécie da mata ,
Mata Atlântica, o cobi, leguminosa de
grande valia na transição de mata secun-
Espécies de ciclo longo (50 anos+), como a pupunha (a), o abacate (6)
e árvores nativas (c) começam a substituir as espécies de ciclo médio (d) no
estrato dominante do sistema. As espécies substituídas deixam material orgâ-
nico suficiente para manter consórcios de espécies de menor relação C/N,
como herbáceas umbrófilas e árvores frutijeras. Manter este equilíbrio é man-
ter o tão desejado equilíbrio dinâmico.
outros serão gradatlvamente eliminados, sendo substituídos oporlu- %) manejo de aceirss para a
namente por espécies mais adaptadas àquela condição específica. instala-a de SAF's
regerierativos
Acehros e bordas de tsansiçro
Quando situado em bordas de sistemas de menor
intervenção (zona I,2 e 3), espécies trepadoras como maracujá,
pimenta do reino, cará-voador e outras podem ser instaladas nas
bordaduras, e produzirão satisfatoriamente até o sistema alcançar
a mesma altura da vegetação com a qual se limita. Para todo sistema
iùncionar sincronizado, o acelro a ser feito deve ter uma dimensão
proporcional à altura da vegetação Assim, se numa borda da área
implantada a vegetação tem I Om de altura, deve-se proceder a uma
intervenção gradativa no sentido da nossa "roça" para a área natural
com IOm de extensão. Esta intervenção gradativa constitui uma
renovação parcial e gradativamente menos itensiva no sentido roça-
-mato de todos os estratos de vegetação, afim de evitar o efeito
I Poda parcial das copas das hrvores, renovação de bambus e cipós
-r
\\ \
Toa'crs as herbáceas em brotação são gresewadas,
bem corno a regeneração natural de árvores e arvoretas.
k sincronza da vegetação do sistema
agroflorestal com a vegetação clrcundante
e lão ~mportante quanto a sincronra den-
tro do propno czsrema em sr Obsewando
uma c/areira, notaremos que o impacto da
queda natural de uma árvore causa uma
yerre de alterações graduazs, do centro
para as bordas A obsewação desse tipo
de "yenovação" de srstemas e reação das
erpecie~ e o modelo para manejar as bor-
das de t r a n s ~ ç ã o entre o s ~ s t e m a
antropogênrco fo SAI;;) e o slstema natu-
ra l
alelopátlco da vegetação nativa sobre o sistema que estamos
Instalando. Lembrando os conceitos apresentados anteriomente,
teremos dois sistemas em estágios de sucessão completamente
diferentes, na área de intervenção e na irea de capoeira limítrofe, e
essa intervenção irá reduzir a ""rjeição" da roça pelo sistema natural
em regeneração.
Portanto, nosso trabalho de acelro visa reduzir esse
descompasso, provocando uma renovação na borda da mata Se
obsewarmos uma clareira natural, veriharemos o mesmo processo,
ou seja, danos mais pesados no centro da clareira e danos cada vez
mais leves na medida da distância da queda das árvores. Isso pemite
uma recuperação hamonica da vegetação e evita o efeito depressivo
observado em geral nas bordas de lavouras e roçados.
/ Parte dos bambus c cipós velhos i renovada, como se i.enjka na borda de
1 uma clareira natural.
I
I I / Formação narural sem intervenção 1
Árvores secas e em final de
ciclo em bordas de aceirss
É comum as bordas de uma lavoura abandonada apre-
sentarem árvores secas ou em final de ciclo (a); muitas vezes
em conseqüência da queimada que instalou a roga antiga.
Como primeiro passo, verificamos se não estão servindo de
abrigo pam a fauna silvestre, como pica-paus e araçaws;
mamljeros de hábito noturno e que dormem em ocos de árvo-
res, como o caixeiro, cuícas e gambás. Identificadas como
espécies de madeira útil ou que podem vir a cair sobre a área
onde instalaremos nosso SAE estas árvores devem ser retira-
152
6 O aproveitamento tem um
resultado economico imediato se
houver uma iniciativa de be-
neficiamento associativo da ma-
deira. Quedas por vento de ár-
vores anteriormente danificadas
em bordas de lavouras são co-
muns, como a da foto (6). Por-
tanto, esse trabalho previne o
que poderá ocorrer quando o sis-
Nestafoto ( c), que é sequência da foto (b), a madeira é
pré-beneficiada em pranchões. O uso de equipamento ade-
quado para a moto-serra, como sabres maiores, fitas de cor-
te mais fino e esquadrinhadores, aliado a pessoal treinado
otimiza o beneficiamento local da madeira, além de reduzir o
impacto na vegetação circundante. O complemento do tra-
balho de extração da madeira é uma poda seletiva e correti-
va de árvores danificadas, marcação da regeneração natu-
ral, bem como introdução de espécies nativas de interesse
econômico.
Epqitas arhóreas necessitam de ambientes especlj"i-
cos e criam inter-relações com a fauna que implicam em
Situações com manejo em
desenvolvimento
Seguem aqui exemplos de desenhos possíveis para si-
tuações bastante comuns as propriedades rurais da região cacaueira
sulbaiana as quais apresentam várias possibilidades para a formação
de sistemas agroflorestais sustentáveis e diversificados.
As situações descritas, a seguir, incluem o relato de
métodos em desenvolvimento, cujos resultados iniciais foram
bastante promissores, e que estão amparados em sistemas
produtivos já praticados na Fazenda Três Colinas, bem como
baseados em observações feitas sobre sistemas espontâneos criados
por agricultores em diferentes ecossistemas.
Situação 1. Clareiras provocadas por quedas
naturais dentro de roças de cacau.Essa situação é comum na região. Eventualmente,
vendavais "podam" as copas das árvores do estrato dominante,
num evento para o qual a vegetação nativa desenvolveu estratégias
ao longo do processo de evolução. Em termos de possibilidade de
dano e dificuldade de recuperação (entropia) por ventos, plantios
homogêneos de eritrina e cacau são os mais suscetíveis, devido as
características da eritrina (facilidade de quebra de galhos) e a
arquitetura da formação vegetal como um todo, que é incompleta
em relação aos estratos. Cabmcas nos moldes antigos (raleio da
vegetação original eliminando-se os indivíduos de menor diâmetro)
também são suscetíveis e, por último, matas degradadas pela ação
de madeireiros. Fica claro que quanto maior a quebra da estmtura
complexa da vegetação original, maior a suscetibilidade aos
distúrbios causados por fatores climáticos.
1. Critérios para a escolha do sítio favorável ii intervenção
a) Estkgio da sucessão em que se encontra a vegetação.
As "podações" naturais feitas pelos vendavais indicam o caminho
a ser seguido: as árvores dominantes já maduras em parte ou no
todo caem ou perdem parte da copa, ')odando9' os cacaueiros
abaixo, gerando enorme cobertura de matéria orgânica no solo.
Agricultores mais observadores usam estas áreas para renovação,
plantando banana-da-terra. Temos a nosso favor a ecozona (mata
ciliar) com todas as vantagens em temos de solo, matéria orgânica,
umidade, ausência de gramíneas agressivas e condições de
introdução simultânea de inúmeras espécies com finalidade
alimentícia já nos primeiros estágios da sucessão.
b) Radiaçao. Nas condições locais, onde as manhãs são,
geralmente, mais encobertas e frescas, uma exposição voltada para
o noroeste aumenta significativamente a quantidade de energia
radiante recebida, principalmente, em áreas declivosas. Isso implica
em um aceleramento de toda a atividade biológica, o que pode ser
vantajoso em sistemas já avançados e com características de mata
ciliar de base de encosta. Naquelas condições, uma exposição solar
mais intensa permite uma maior produtividade por ocasião do
rejuvenescimento do sistema. Já numa área menos exposta à
radiação, algumas culturas, como o feijão e o milho, podem ter
dificuldades ou diminuição de produtividade.
2. Procedimentos
Escolha de espécies e variedades. Após a obsemação dos
critérios acima relacionados, o próximo passo é a escolha de espécies
e variedades. Nas áreas analisadas, estas espécies foram:
a) Milho (Zea mays) - usamos varietais, que estão ainda
sendo testados nestas condições. Porte alto e tolerância a solos
ácidos são características desejáveis.
b) Feijão e Eeijão-caupi (Phaseolus e Egna) - E comum
na região o uso de Phaseolus, (variedade carioquinha). Porém, nas
condições do trópico úmido e para estes sistemas, a melhor opção
são variedades de E p a (feijão de corda ou caupí) que produzem
suas vagens de modo que elas ficam sobre a folhagem. voltadas
para cima, evitando o excesso de umidade. Essa é a variedade
utilizada na América Central, e a mais adaptada as condições de
umidade e sombreamento típicos destes sistemas.
c) Iilibisco (Malvaviscus sp.) - da família Malvaceae, o
mais produtivo em termos de biomassa é a graxa-parreira ou graxa-
de-estudante, comum nas propriedades rurais formando cercas
vivas. Suas Rores são vermelho-vivo e não abrem, sendo muito
procuradas por beija-flores pelo néctar. Essa planta tem grande
potencial de rebrote, tolera sombreamento, sua Ror é comestível in
natura e suas folhas têm grande valor forrageiro, principalmente,
para cabras. Para o plantio, ela é preparada em estacas de 40cm,
com uma ponta em bise1 e outra afilada. Outro gênero com potencial
para o subtrópico é o A butillon spp.
d) Capim elefante "enzsetum purpureum) - finção de
produgão de biomassa e forragem Nesse caso, o esterco produzido
pelos animais deve retomar à area Planta-se estacas de duas gemas
ou de 30 a 40cm de comprimento
e) Mandioca (Manrhot esculenta) - nestes sistemas, é
plantada com função de produção de biomassa, folhas novas
comestíveis com alto teor protéico, folhas desidratadas para
alimento humano Estacas de 20-30cm Pode-se plantar em locais
mais favoráveis aipim-manteiga ou outras variedades para raízes,
abrindo pequenas covas
f) Abacaxi (Ananas comosus) - a variedade Smooth
Cayenne é mais indicada por sua adaptação para o processamento
Variedades totalmente sem sernlhas ainda não f o r m suficientemente
testadas, embora facilitassem o manejo Em relação ao efeito do
sombreamento, mesmo sem a realização de experimentos formais,
as obsemações nos últimos cinco anos mostraram que, nos sistemas
agroflorestais, os f i t o s alcançam altos teores de açúcares, mesmo
amadurecendo em sombreamento parcial Ainda como vantagem,
a safra é mais larga em até dois meses (novembro a março),
facilitando colheita e coinércio As mudas de rebento, que saem da
base da planta são precoces em termos de produção, porém são
mais difíceis de obter e desenvolvem frutos menores Usa-se
normalmente mudas de filhote, que se desenvolvem na base do
fiuto, sendo retiradas quando estão com 30-40cm, já que mudas
maiores são mais fáceis de manejar quando há urna cobe&ura no
solo As mudas devem ser plantadas no solo argiloso, nunca na
camada orgânica, embora tolerem e se beneficiem desta após
instaladas
g) Cacau (Teobroma cacao) - C ) cacau é uma espécie
praticamente espontânea nesta região, sendo inclusive disseminada
por animais ao longo do curso de rios como o Rio Pardo
Geralmente, é plantado de caroço nestes sistemas, buscando-se um
leque de variedades, o que garantirá uma polinização mais efetiva
h) Pataste (Teobroma brcolor) - oriundo da h a z o n i a ,
onde é conhecido como cacau-tigre, cacau-branco ou cacau-dos-
-índios, o gataste convive muito bem com o cacau, ajudando a
compor a multiestratificação que imitará o sistema natural Todo o
fmto é aproveltável e tem grande potencial agroindustrial, sendo
que as amêndoas podem ser consumidas secas ou torradas como
nozes, sem necessidade de fermentação altmente produtivo (50
a 80 arrobas de amêndoa secdha), de porle alto (até 15m) e os
fmtos caem por si quando maduros Inicia a produção aos cinco a
sets anos, junto com o cacau
i ) Cupuaçu (Teobroma grand@orum) - também nativo d a
hazon la , é mais rústico do que o cacau Pertence ao mesmo
consórcno de sucessão do cacau, só que parece preferir areas mais
secas que este, que chega a produzir em zonas de encharcamento
periódico Nasce bem de caroço, chega a um porte de mais de I Om
e inicia a produção aos cinco a seis anos, tendo muita procura para
polpa congelada e confecção de um chocolate diferenciado, já
registrado na Amazônia como "cupulate" Também e produtor de
manteiga de qualidade comparável à manteiga de cacau
j) Pupunha (Bactrrs gasspaes) - palmeira de grande
produtividade, com fmtos comestíveis de alto valor alimentício,
contendo bons teores de proteínas, óleos e carboidratos, além de
uma grande porcentagem de fósforo livre I? o "milho" do sistema
agroflorestal, iniciando a produção aos cinco a seis anos Existem
muitas variedades, basicamente divididas nas originárias do Baixo
e Alto Amazonas Existem ainda espécies pemanas e colombianas
de fmtos grandes, maiores que uma laranja Planta-se por mudas
quando há baixa disponibilidade de sementes Havendo quantidade
suficiente, pode-se plantar sementes pré-geminadas, quando estarão
menos apetecíveis aos roedores Além da pupunha, varias palmeiras
nativas podem e devem também ser introduzidas, como já foi citado
anteriormente
1) Frutas tropicais, Aqui vamos enumerar uma pequena
quantidade das espécies posslveis:
1) Jaca (Artoearpus integrifolia), Abacate (Perseu
americana), 6-á (Spondias dulcis), Mapati (Urticaceae), Mamão
(Cavlea pagaya) plantado em mudas de 40-50cm, Limas,
aàngerinas, Laranjas (Citrus spy), Abiu (Pouten;a torta), Sapoti
(Sapotaceae). As espécies aqui citadaspodem ser plantadas
imediatamente ou assim que forem disponíveis sementes.
m) Cipós: Inhames. A variedade é grande, mas os mais
aptos para esta situação são o inharne d'água, inhame-caratlnga.
Anda entram aqui o maracujá (Pamrjora edulis) e o chuchu
(Sechium eklrule). Essas plantas têm hábitos trepadores, porém não
c L enforcam" as plantas e, sim, apoiam-se na vegetação que
encontram, o que favorece o manejo da área. Como folha
comestível, pode-se introduzir o ora-pro-nobis, conhecido
localmente como barba-de-paca (Pereskia sg. Cactaceae), bertalha
(Basella alba, Basellaceae) e couve-folha (BraL~sica spp, Brasslcae).
n) Árvores. Entram num primeiro momento espécies
apropriadas as condições de luniinosidade e matéria ogânica, como
Ingá-Metro (lnga edulis Leguminoseae-Mimosoideae), Inga-Cipó
(Inga afinnis) e Inga Tapaúna (Inga spp), Cmeira (Cytharexillum
myrianthum, Verbenaceae) Guapumvu (Schzl~zobium parahyba,
Leguminoseae-Caesalpinoideae), Pau d'alho (Gallesia irztegr!fol~a,
Phytolaccaceae), Cedro (Gedrella odorata, Cedrella fissilrs,
Meliaceae), Piti-cobra (Boraginaceae), Sumaúma (Cezbapentandra,
Bombacaceae). Uma infinidade de outras espécies podem ser
introduzidas nas etapas posteriores, quando as condições gerais da
sucessão estiverem proporcionando habitat adequado.
Preparo da área e plantio
1) Retirar a madeira de importância econômica. Repicar
os galhos remanescentes de modo a facilitar o trânsito pela área e
um perfeito contato do material com o solo. Podar com corte limpo
os cacaueiros com possibilidade de rebrote, sempre distribuindo o
material o mais uniformemente possível sobre o solo.
2) Em áreas de terra firme e boa exposição solar, plantar o
abacaxi em linhas de 2,0113 x 0,50rn entre plantas.
3) Plantar o malvavisco a 1,Om x 0,301~1 entre estacas
4) Plantar o capim-elefante no espaço entre as linhas de
hibisco (2,0131 x 0,40m entre estacas)
5) Plantar o milho à ponta de facão na linha do hiblsco. O
espaçamento ideal ainda é objeto de pesquisa. Os plantios já testados
seguiram o espaçamento tradicional da região (1,Om x 0,8m entre
plantas, 3 sementes).
6) Banana a 4,Om x 4,0 m, visando toucelras duplas onde
houver condições favoráveis.
7) Árvores são plantadas de acordo com a disponibilidade
de sementes ou mudas, sempre na linha de abacaxi, junto ao pé
deste. Também se plantam os ingazeiros, erltrinas e sombreiros
(&'litoria fairchildiana Howard, Eeguminosae-Papilionoldeae) na
linha do hlbisco, entre as estacas. Quanto maior a disponibilidade
de sementes, maior a densidade. O ideal é no mínimo a cada 30 cm
uma semente. O estabelecimento dá-se de forma desigual e o stand
final é determinado pelas condições do terreno e os nichos
encontrados pelas árvores, o que imita o sistema natural.
8) Fmtíferas plantadas de semente o são na linha do abacaxi.
Espécies mais delicadas ou de sementes menos disponíveis podem
ser plantadas como mudas, após a colheita do milho, na linha do
abacaxi ou em pontos favoráveis do terreno.
9) Os cipós são introduzidos também em sítios mais
favoráveis as caracterísicas peculiares de cada espécie.
Cronograma de manutenqão
Janeiro. É o mês típico para ocorrência destes eventos.
Isso reduz as chances de iniciarmos com milho (somente a partir
de final de fevereiro) e feijão nestas áreas. Plantio da mandioca,
capim-elefante, abacaxi, banana e cacau de caroço, em caso de
estarem ocorrendo chuvas regulares.
Junho. Poda do capim-elefante, mandioca, vegetação
espontânea e cipós. Plantio de milho, feijão, malvavisco (graxa) e
árvores de sombreamento.
Novembro. Colheita do milho. Colhe-se as espigas e repi-
ca-se o talo, cobrindo o solo. É feita nova capina seletiva e o ca-
pim-elefante é cortado para fornecer material.
Fevereiro. Novo cone do capim-elefante e capina seletiva.
O período é de abundância de sementes de jaca, abacate, mapati,
piti-cobra, cerejinha e outras nativas; portanto. as sementes serão
introduzidos nesta época. Começo da colheita da banana e do
abacaxi.
Situagão 2: Falhas em roças de cacau (sítios onde os
cacaueiros estão senescentes e improdutivos, pode haver
falta total de sombreamento e considerável quantidade de
ervas pioneiras)
Diminuem as condições em termos de umidade, mas
persiste um potencial de biomassa que pode ser rejuvenescida.
Mudam parcialmente as espécies que podem ser introduzidas e
estratégias.
1, Critérios para a escolha do sítio favorável à intervenção
a) EstcLgio da sucessáo em que se erlcontm a vegetaçl'o.
A situação pode ser descrita assim: árvores de sombreamento
mostrando sinais de decadência e maturidade, cacau com decadência
evidente e sensibilizado a problemas fitossanitários, como
ponteiramento, vassoura-de-bmxa, baixa produção, deslocmiento
da produçgo para as pontas dos ramos, falta de vigor nos
lançamentos novos. Estas situações ocorrem, geralmente, por
manchas, em aceiros ou em sítios com sombreamento senescente.
b) Radiaclo. Uma exposição voltada para o noroeste
aumenta significativamente a quantidade de energia radiante
recebida, principalmente, em áreas declivosas. Isso implica em um
aceleramento de toda a atividade biológica, o que deve ser levado
em conta na escolha e grau de adensamento de especies.
2. Procedimentos
ficolha de espkcícies e variedades. Dependendo do fator
que predomina como causa do declínio do sistema, podemos
selecionar pioneiras com maiores ou menores exigências em temos
de solo, umidade, etc.
Preparo da 5rea e plantio
1) Roçar a area semeada, cor~ando as plantas maduras e
distribuindo-as o mais uni-formemente possível sobre o solo,
repicando-as de modo a facilitar o trânsito pela área e um perfeito
contato do material com o solo. Plantar no centro da clareira o
feijão de ponta de facão, no espaçamento convencional.
2) Plantar o abacaxi em linhas de 2,Qm x 0,50m entre
plantas.
3) Plantar o malvavisco a 1,Om x 0,30m entre estacas
4) Plantar o capim-elefante no espaço entre as linhas de
malvavisco (2,Qm x 0,40m entre estacas).
5) Plantar o milho à ponta de facão na linha do malvavisco.
O espaçamento ideal ainda é objeto de pesquisa. Os plantios feitos
até agora seguiram o espaçamento tradicional da região (1,Qm x
0,8m entre plantas, 3 sementes).
6) Banana a 4,0m x 4,0m, visando toucelras duplas onde
houver condições favorkveis.
7) Árvores são plantadas de acordo com a disponibilidade
de sementes ou mudas, sempre na linha de abacaxi, junto ao pé
deste. Também se plantam os ingaaeiros, eritrinas e sombreiros na
linha do hibisco, entre as estacas. Quanto maior a disponibilidade
de sementes, maior a densidade. O ideal seria no mínimo a cada 30
cm uma semente. O estabelecimento dá-se de forma desigual e o
stand final é determinado pelas condições do terreno e os nichos
encontrados pelas ámores, o que imita o sistema natural.
8) Fmtíferas são plantadas de semente quando possive'i,
na linha do abacaxi. Espécies mais delicadas ou de sementes menos
disponíveis podem ser plantadas, após a colheita do milho, na linha
do abacaxi ou em pontos favoráveis do terreno.
9) Os cipós são introduzidos também em sítios mais
favoráveis As caracteríslcas peculiares a cada espécie.
Cronograma de manutenção
Junho. Plantio
,lietembro. Colheita do feijão na maturação fisiológica
Renovar a partes maduras da vegetação espontânea e introduzida,
como folhas secas da bananeira, etc.(capina seletiva)
Novembro. Colheita do niilho. Colhe-se as espigas e repica-
se o talo, cobrindo o solo. 6 feita nova capina seletiva e o caplm-
elefante é cortado para fornecer material.
Fevereiro. Novo corte do capim-elefante e capina seletiva.
O período é de abundância de sementes de jaca, abacate, mapati,
plti-cobra, cerejinha e outras nativas.
Junho. Poda do hibisco, capim-elefante, vegetação
espontânea e cipós. Novo plantio de milho.
Setembro. Se necessário, capina seletiva e renovação do
capim-elefante.
Novembro. Colheita do milho e capina seletivaDezembro a M a r ~ o . Colheita de banana e abacaxi,
manutenção com capina seletiva, repicagem dos talos que
produziram cacho e quejá retornaram a selva ao rizoma. Favorecer
fmtíferas com o material.
Animais no sistema
Nestes ambientes, somente animais nativos não causam
danos ao processo de sucessão. Se queremos produzir proteína
animal, o melhor é orientar o sistema de modo que este produza
resíduos e subprodutos que sirvam ao consumo animal. O animal
passa então a f u e r parte do processo de reciclagem, mas como
elemento artificial, e não Inserido à paisagem.
Isso significa que muares, equinos, bovinos, suínos,
capnnos, galinhas e patos não fazem parte da dinâniica de reciclagem
de nutrientes da Mata Atlântica, não coevoluíram com ela e não
podem ser criados soltos neste ambiente. Portanto, eles podem ser
manejados à parte do sistema, que passa a ser direcionado de forma
a produzir excedentes que possam ser consumidos por estes animais.
Podemos introduzir espécies de duplo propósito
(fertilização e consumo animal) como o capim-elefante e o sorgo-
forrageiro. Podemos também pré-beneficiar algumas espécies como
o malvavisco e a mandioca, secando suas folhas e preparando
forragem. Nesta linha, existem outras espécies, desde arbustos ate
árvores, que produzem folhas de alto valor forrageiro e que podem
ser secas e armazenadas ou fornecidas verdes. A farinha de pupunha
fornece excelente ração animal, assim como a jaca é excelente
forragem para porcos.
O que ternos que pesar ao elaborar estes sistemas é a relação
custoheneficio. Sem dúvida, a produção de carne e Peite não é a
vocação da Floresta Tropical Úmida, senão ela seria centro de
origem para bovinos e caprinos. Dados obtidos no Baixo Amazonas
confirmam a baixa rentabilidade dos sistemas de criação bovina
(US$35/hdano para gado leiteiro no Sul do Pará e de US$ 19lhd
ano para gado de corte)'. Portanto, a criação animal deve estar
voltada para sistemas semi-intensivos de criação privilegiando
pequenos animais e animais nativos. Animais de maior porte como
bovinos podem ser criados, desde que visando uma economia
comunitária, mas nunca como economia de mercado, uma vez que
a rentabilidadelhdano somada com a degradação que os bovinos
impõem à vegetação e solo não são compatíveis com o crescimento
populacional, as necessidades de oferta de emprego e alimentação,
além da questão crucial da presemação e manejo do patrimônio
genético dos ecossistemas de florestas úmidas tropicais.
O que pode produzir um sistema adulto
Num exemplo como os que foram descritos aqui, inspirados
nos sistemas desenvolvidos na Fazenda Três Colinas, Piraí do Norte,
BA, a diversidade de espécies e o potencial produtivo são enormes.
Portanto, vamos nos reportar apenas às espécies-eixo. Por ordem
decrescente de importância:
- Cacau (400-600kg de amêndoa secâlha);
- Pataste (400-600kg de amêndoa secdha);
- Bupunha (6.000kg para um espaçamento de 8mx8m);
- Abacate, jaca e citrus irão depender do número de
indivíduos e das condições do terreno, que variam muito nas áreas
que basearam nossos cálculos;
- Ornamentais, especiarias, medicinais. Havendo
mercado e mão-de-obra especializada, mais estas espécies ganham
em importância econômica. Infelizmente, não temos dados
acumulados para estabelecer um padrão de ganho por área.
- Madeiras nobres. Mesmo não sendo o objetivo
fùndamental do sistema, pode-se esperar um retorno de pelo menos
60m3 de madeiralha num prazo de 50 anos. Aos preços atuais, isto
representaria um VM (valor agregado projetado) de R$ 1.200,00/
ha/ano. Para um cálculo no domínio da Mata de Araucarias, ern
florestas virgens a densidade é em torno de 50 árvores por ha, das
quais 30 com diâmetro acima de 45cm. Considerando uma média
de 50 anos para alcançar este diâmetro, teríamos uma media de
1,5m3 de madeira serrada por arvore, o que daria 45m3/ha somente
com araucária, sem considerar cedro, canela-preta, imbuia,
canjerana e outras2.
Referências:
'Para ir mais adiante, ver;4bordanens Interdiscipfinares para a Conservação
da Biodiversidade e Dinâmica do Uso da Terra no Novo Mundo. Conservation
Intemational do Brasil, Universidade Federal de Minas Gerais, University of
Florida. Belo Horizonte, Brasil 1995.
2Para ir mais adiante adiante, ver: Rizzini, Carlos Toledo. Áwores eA4adeiras
Uteis do Brasil. Manual de Dendrolonia Brasileira. Editora Edgard Blucher
Ltda, São Paulo, 197 1. Ver também: Inventário Florestal Nacional. Florestas
Nativas-Rio de Janeiro, Espírito Santo. Ministério da Agricultura, Instituto
Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, Dep nto de Economia Florestal.
Brasília, 1984.
Aqui vemos um faxina1 jú desprovido ria cobertura de
araucárias. Porém, os indivíduos remanescentes aliados a uma
baixa lotaçno (< de I U.A./ha) permitem um percentual razoável
de regeneraçUo do sub-bosque, irzclusive com a presença de
araucárias.
Herdados de antiga;, tradições européias,
os faxinais consistiam na posse coletiva de
remanescentes florestais por um grupo de
familias que ali criavam animais como
bovinos, eyuinos e suinos. Assim como os
poloneses a traiam com alirnento os
bisontes (semelhantes aos búfalos das pla-
nícies norte-americanas) europeus que se
refugiavam do inverno nas jloresfas, de
modo a eventualmente os utilizarem como
fonte de alimento, nos faxinais cada fami-
lia mantinha um ponto de forrageamento
de seus animais, de modo a manter sobre
eles um certo controle e domesficação.
Com o passar do tempo, alguizs fatores
começaram a acelerar a degradação des-
te sistema:
- a degradação rultural e a pressão eco-
n0mica, em termos da renda/área;
- a degradação dos recursos e oferta de
alimento nos faxinais, com a retirada do
estrato dominante de araucárias, que for-
neciam grande parte do alimento parapor-
cos e gado:
- ao abrir o espaço para a insolação, hou-
ve a entrada de gramineas de boa quali-
&de, como a que mostramos anteriormente
(página 145, foto "b"). Porém, o pastoreio
impediu a regeneração de árvores e o sis-
tema entrou em um processo de envelheci-
mento precoce;
- a erva-mate (Ilex paraguariensis), que
propiciava uma renda complementar tam-
bém entrou em decadência junto com O
resto do sistema, diminuindo a prod~~ção
de folhas.
Hoje o des&o nestes sistemas é aplicar os
métodos de S.A.F.R.A.'s (S is tema
Agroflorestais Regenerativos Análogos)
aj2m de evitar a perda total dos fairzais,
que constituem refúgios de faunu e flora e
ilhas de biodiversidade num mar de pas-
tos, cultivos anuais e perda irreversivel de
cobertura florestal.
Já nesla foto podemos ver um faxina1 com lotação mais
alta, e os sintonzas da decadência do sistema. No solo, a cobertu-
ra é de gramineas estoloníferas, praticamente, não ocorre rege-
neração e muitas árvores estão entrando em final de ciclo. O sis-
tema conta com erva-mate nativa, tambkm com produtividade bai-
xa. A boa fertilidade do solo e o tewipo relativamente recente
(< de 40 anos) de ocupação ainda mascaram os <feitos do corte
da regeneração natural e da estrutura da mata, com a retirada
quase que total das araucárias. Nas condições Amaz6nicas, estes
processos são muito mais acelerados na razão proporcional da
fertilidade natural, temperatura e ciclos de chuvas.
Capítu
Diagnóstico e desenho
"Diferentemente dos sofistas, Sócrates não se apresenta como professor. Pergunta. não
responde. Indaga. não ensina. Não faz preleções, mas rntroduz o drálogo como forma de
busca da verdade (...). Dizia que a escrita é muda e que sua mudez crisralrza idéias corno
verdades acabadas e indrscutiveis. (...) "
Marilena Chaui.Introdução a História da Filosofia dos Pré-Socráticos a Aristóteles.Volume I ,
Brasrliense, 1994.
"O que é bem conhecrdo, justamente porque e bem conhecido, não é conhecido".
Hegel. Citado por EdgarMorin in OMétodo 111. O conhecrmento do conhecrmento. Europa-
Amérrca. 1986.
Procuramos ao longo dos capítulos anteriores descreveras "peças" da engrenagem que irá produzir sistemas agroflorestais
que podem resultar em conservação de energia e recuperação
ambiental, e que têm chances de adoção pelos agricultores.
Da introdução ao Capítulo I, procuramos dar a base
filosófica que norteia sua construção. É neste espaço que
apresentamos como aprendemos a ver o que chamamos de
"agricultura" através dos séculos, e por que a vemos assim. Esse
conjunto de informações históricas, sociais e culturais buscou clarear
o contexto do desenvolvimento da cultura humana e de como ela
influiu nas relações das sociedades com os ambientes naturais.
Em todo o Capítulo 11, trabalhamos com conceitos de
eneqia, bem como abordamos as estratégias das formas vivas em
sua interação com o meio Císíco. Desses conceitos geramos algumas
ferramentas básicas que nos permitirão instalar e manejar os
sistemas, como sucessão de espécies e consórcios, podas, etc. Este
conjunto de conceitos e ferramentas nos ajuda a entender o meio
natural através da análise dos seus mecanismos de hncionamento
(conceitos), e as pistas para o desenvolvimento de técnicas
(ferramentas) para uma relação homedambiente mais equilibrada
O Capítulo 111, buscou identificar elementos obrigatórios
para um método de construção do saber coletivo Para isso, foram
apresentados conceitos e roteiros para entender os sistemas
produtivos, os ambientes e os agroecossistemas resultantes. A
abordagem foi na forma de exemplos referendados em trabalhos
práticos na Mata Atlântica Sulbaiana
Daqui para a frente, vamos tentar dar um corpo sintético a
este método, onde usaremos todas as ferramentas que ja conhe-
cemos, do diagnóstico a implantação a campo de um sistema.
incluindo aí seu acompanhamento e estratkgias de difusão. Do
mesmo modo, aplicaremos os conceitos explanados para mostrar
como poderemos gerar as ferramentas que forem necessárias para
cada nova situação a ser enfrentada
Do plano até o desenho de um sistema agroflorestal temos
um roteiro de princípios que são bastante gerais O que vamos criar
com base nestes princípios terh repercussões na cultura, na per-
cepção do ambiente, na economia e em interesses internos e externos
a coinunidade E por isto, todos os momentos, da concepção à
aplicação, devem ser compartilhados com os maiores interessados
- os agricultores.
Sistemas agroflorestais regenerativos envolvem sucessão
de espécies, consórcios, plantas com múltiplas hnções e um sem-
-número de interações. Enfim, toda a série de conceitos que vimos
até agora. Porém, seja um sistema agroflorestal sustentável ou a
propriedade rural como um todo, o plano e o desenho devem estar
baseados nos mesmos princípios de autonomia e intercomple-
mentaridade, construidos a partir de um diagnbstico sócio-eco-
nômico e ambiental, que será a base de nosso trabalho
Passos para um diagnóstico:
um exemplo de método
A sensibilização
Qualquer trabalho numa comunidade prevê um período
de sensibilização. Ela pode ser facilitada ou complicada via fatores
externos, como uma conjuntura econômica que cria uma demanda
concreta para modificações, em função da falência econômica dos
sistemas em uso. A sensibilização pode ter origem interna, face à
percepção da degradação de recursos naturais. Grupos de agri-
cultores preocupados com o futuro das fontes de recursos que
sustentam seus sistemas criam demandas frequente^',^. O primeiro
passo é a identificação desses aliados no processo de mapear as
pessoas, grupos e instituições que estão sensibilizadas ou que já
atuam de certo modo, procurando então articular os potenciais,
montar estratégias e definir por onde iremos começar, em termos
das comunidades e ambientes naturais.
Primeira fase: gerar Indicadores e uma tiplficação
A primeira pergunta é: qual é o oketivo do diqnóstlco
parlieipativo? No nosso caso específico, a resposta é constniir a
base de saberes coletivos de maneira participativa que pode nos
levar a alcançar a sustentabilldade econômica, social e ambienta1
dos sistemas produtivos levantando prioridades e constmindo
soluções com a comunidade que demanda o processo.
A segunda pergunta é: apadr dos d a h p r o d u ~ d o s , quais
as ferramentas de transformação que estamos querendo
construlir? Uma das ferramentas, no caso específico que estamos
tratando aqui, são os sistemas agroflorestais regenerativos Ela irá
surgir dentro de um contexto de transformação criado em conjunto
com os agricultores, e não como uma formula pronta, uma receita
que irá se sobrepor aos '"neficientes" sistemas tradicionais.
Definidos os ob~etlvos, vamos partir para o método. Para
os agricultores, o diagnostico rápido participativo apresenta-se
como uma análise compartilhada dos sistemas atuais de uso da
terra, com o objetivo de explorar os potenciais e superar as limi-
tações dos sistemas em uso, através de melhorias e transformações
no que não está funcionando.
Construindo um diagnóstico com os agricultores
Qual 4 o owetivo geral do diagnóstico?
Qual é o objetivo específico que vai dar a partida no processo?
. >
Quais são as fermentas de transformação que estamos querendo gerar?
Objetivo
Conhecer os sistemas de uso da terra, suas relações culturais, econômicas e ambientais
Gerar indicadores.
Gerar uma tipificação dos sistemas e das famílias envolvidas.
Perguntas orientadoras
Como se distribui o uso atual das áreas e que ambientes ocupam?
Como se distribui a mão-de-obra nestas áreas ao longo do ano?
Qual é a renda bruta que estas atividades geram ao longo do ano?
Preparação da devolução aos agricultores
Análise dos dados obtidos e geração de perguntas orientadoras para a próxima etapa.
Indicadores obtidos
Relação para cada sistema de produção entre rendahão-de-obra/área/ano
Tipificação obtida
Atividades principais associadas a ambientes.
Faixas de renda dentro do grupo trabalhado.
Objetivo
Criar uma visão compartilhada dos sistemas produtivos em uso
Identipcar causa/efeito.
Devolução para a comunidade do Indicador e Tipificação
Apresentar material de fácil visualização representando a fipficação de modo a motivar a problematização.
Problematizaçãolperguntas orientadoras
Pe~unta-chave: O que determina que sejam estes os cultivos adotados?
Agrupar as respostas em: I) papel econômico dos sistema; 2) papel social e cultural; 3) sustentabilidade em
relação aos recursos naturais.
Agrupamento de idéias
Papel econômico: a renda bruta reyete-se na renda liquida? Por quê?
Papel social e cultural: como aprendemos o que hoje fazemos e como aperfeiçoamos e transmitimos este
conhecimento?
Sustentabilidade: qual é a percepção geral da interação (positiva ou negativa) de cada um dos sistemas
atualmente em uso?
Inter-relação entre as idéias
O que fazemos?(con$rma ou desmente a tipijkação dos sistemas produtivos)
Por que fazemos? (clareia a lógica de adoção dos sistemas)
Quais são os limites e potenciais do que estamos jazendo? (cria a expectativa de gerar propostas).
Objetivo
Gerar técnicas, itinerários novos, sistemas técnicos.
Delinear estratégia para a sustentabilidade dos sistemas produtivos.
Amarração de causas e sintomas
Como aprendemos e transmitimos cada um dos sistemas atuais?
Quanto trabalhamos, como trabalhamos e o que gastamos em recursos ($ e ambientais) com estes
sistemas?
Que tipo de impacto eles causam nos recursos naturais?
Problematizaçãolperguntas orientadoras
De cada um dos sistemas atuais, o que devemos manter e o que devemos mudar em relação a:
- I) Técnicas isoladas? - 2) Itinerário técnico? - 3) Sistema como um todo?
Definir estratégia
Por onde vamos começar em relação ao ponto 1, 2 e 3?
Detalhar plana de ação
O que precisamos para alcançar estes objetivos?(ao nível individual, do grupo, da extensão,
das instituições de crédito e políticas públicas).
Quem, quando, onde,como?
Como vamos avaliar o caminho percorrido e replanejar o que for necessário? (quem, quando, onde, como)
A técnica para levantar essesdados pode ser a colocação
de perguntas orientadoras para discussão:
Como se distribui o uso atual das areas e que ambientes
ocupam? A resposta deve ser traduzida em hectares, e os ambientes
descritos pela tipologia adotada pelos agricultores, tais como
baixada, várzea, encosta, "chato", etc.
Como se distribui a m&-de-obra nestas áreas ao longo
do ano? A resposta deve ser transfomada em diárias. Consideramos
a diária como oito horas de trabalho de um adulto.
Qual é a renda bruta que cada uma destas atividades
gera? A resposta 6 complexa para sistemas com muitas inter-
-relaçOes. Associando o roteiro de mão-de-obra ao resultado
econômico pdemos definir que um conjunto de produtos constitui
um sistema dentro da lógica do agricultor. A renda bruta é a renda
do sistema, por exemplo, milholfeijão, e não de cada produto em
separado.
De posse das respostas trabalhadas pelo grupo, dois pontos
chaves são levantados:
- ah"vidades principais, que são os sistemas técnicos
associados a ambientes;
- @&as de renda por ativilkade e, porlanto, dentro do
grupo a ser trabalhado;
Esses pontos permitem criar uma tipificação e uma relação
para cada sistema básico em termos de rendhão-de-obra investida1
área (R$ldiaslhomemlhecrare). Este ponto cria um retrato eco-
nômico dos sistemas, ao mesmo tempo que identifica que ambientes
eles ocupam.
Segunda Fase:
criar uma visão compartilhada dos sistemas produtivos
De posse da tipificação e dos indicadores em R$/dias/
homedhaJano o próximo passo e a devolução desses dados aos
agricultores. A análise dos resultados pode ser feita com uma
problematização, cuja ferramenta e uma pergunta orlentadora eixo,
que originará os três pontos básicos para compreender cada um
dos sistemas em suas mazelas e potenciais.
A pergunta-chave é: o que determina que seJam estes os
culh'vos adotados?
As respostas podem ser agmpadas em três eixos básicos:
1) 0 papel economico dos sisfemas.
Para aprohndar, pelo menos 2 perguntas:
A renda bruta reflete-se na renda líquida?
Dos sistemas e seus produtos, quais são os potenciais e
quais são as limitações que percebemos?
2) O papel social e cullural.
Uma única questão geradora:
Como aprendemos o que hoje fazemos e como estamos
aperfeiçoand'o e transmitindo este corllhecimento?
3) A sustentabiSdade em relag.&o aos recursos naturais.
Qual 6 a percepçh geral dã interação @ositiva ou
negativa) de cada um dos sistemas atualmente em uso?
O produto desta segunda fase, além da análise e
aprohndamento de nossa visão dos sistemas produtivos, é ligar os
fatores sócio-culturais, econômicos e ambientais como elementos
formadores do agroecossistema. Em suma, o que fazemos, por que
fazemos e quais os reflexos deste "fazer".
Terceira fase:
o que sahemos como é gerado podemos tmnsformar
Esta é a fase de geração de respostas. Para isso, precisamos
amarrar os três níveis de influência que criam um sistema:
- como aprendemos e transmitimos os sistemas atuais;
- o quanto trabalhamos, como trabalhamos e o que
gastamos com esses sistemas;
- que tipo de impacto eles causam na base de recursos
naturais.
O produto dessa amarração é riquíssimo. Os resultados
oferecem um leque de possibilidadas de temas para a comunidade
desenvolver. Como estamos direcionando o texto deste livro para
a constmção de uma das ferramentas de transformação que são os
sistemas agroflorestais regenerativos, podemos colocar os sistemas,
atualmente, em uso numa gradação quanto à sua sustentabilidade,
considerando os três níveis citados acima. Esta gradação poderia
ser de um nivel cítimo (sistema perfeito, deve ser mantido tal e
qual) até um nivel péssimo (atualmente, comprometerá a
sobrevivência das famílias e deve ser inteiramente substituído). É
neste gradiente que surgirão os "'ganchos" para recrimos, baseados
nos princípios regenerativos, sistemas agroflorestais adaptados a
cada realidade específica, de maneira compartilhada com a
comunidade.
O nosso produto nesta terceira fase é muito grande. Para
não perdermos a objetividade, temos que ter claro em quais sistemas
podemos intervir de imediato e dimensionar nossa estratégia no
tempo e no espaço. Para o caso específico dos sistemas agrofio-
restais regenerativos, aparecerão aqui três níveis crescentes de
adoção de princípios regenerativos:
- técnicas isoladas que podem ser integradas a sistemas
tradicionais melhorando sua eficiência,
- i~nerhr ios técnicos (seqiiência ordenada de técnicas)
que irão modificar parcialmente o resultado de sistemas tradicionais
em uso,
- sistemas técnicos, onde todo um conjunto ordenado de
roteiros é adotado, mudando completamente um determinado
sistema dentro da propriedade e a própria orientação da propriedade
ao longo do tempo.
Esses níveis são dinâmicos entre si. O sucesso de uma
técnica pode conter a chave da compreensão para a mudança de
todo o sistema. Uma comunidade pode começar preservando a
regeneração em áreas de cultivos anuais e chegar a adotar sistemas
agroflorestais complexos, rotações e zoneamento de áreas,
chegando a processamento e comercialização, ao longo de uma
caminhada de alguns anos. Tendo em mente essas condições,
podemos partir para uma estratégia conjunta para gerar técnicas,
itinerários e sistemas, que é nosso passo seguinte.
Critérios para o plano e desenho
Ambientes bastante diversificados em termos de solo,
relevo e umidade produzem sistemas de uso do solo bastante
complexos. Na mesma lógica, ambientes homogêneos facilitam a
implantação de sistemas de zoneamento de cultivos mais simples.
O zoneamento de ambientes agrícolas em áreas de Iatossolo
em relevo acidentando, como é o caso da Mata Atlântica, gera o
tipo de zoneamento complexo. Nos sistemas tradicionais, a falta
de um hist~rico de convivência com o ambiente, numa cultura
repassada através das gerações pode induzir a uma degradação
rápida e acentuada de recursos, enquanto que o inverso também é
possível: técnicas sustentáveis incorporadas na culhira agrícola local,
que poderão vir a ser nosso ponto de partida.
A proposta de zoneamento para orientar a instalação dos
sistemas agroflorestais que tratamos aqui leva em consideração
ambientes bastante diversificados. onde três critérios básicos são
usados para o zoneamento:
Distância da sede. A facilidade ou dificuldade de acesso
determina sistemas técnicos com atividades mais pontuais, que não
exijam intervenções frequentes. Conseqüentemente. é mais fácil
para o agricultor aceitar uma maior convivência com a regeneração
natural.
Protegão de áreas críhcas. Dentro deste conceito estão
topos e testas de morros, margens de mananciais e cabeceiras de
nascentes, bem como formações sobre solos extremamente frágeis
ou endêmicas de uma região. Matas ciliares e recursos hídricos são
protegidos por leis que não são cumpridas. Porém, sem criar
alternativas de renda fora destas zonas ou viabilizar determinadas
atividades dentro delas nunca teremos como proteger estes recursos
Esse é um ponto chave para a adoção destes sistemas
Disponibilidade de nutrientes, umidade e insolação para
os cultivos. A busca desta combinação é o eixo da agricultura
tradicional, aliada a facilidade de acesso
Os zoneamentos do agricultor utilizam o primeiro e o
último cntério como base. Cabe ao nosso trabalho incorporar o
elemento de conservação das fontes de recursos, se ele não estiver
presente no zoneamento tradicional. Problemas de declividades
acentuadas, tradicionalmente utilizados como zoneadores para
capacidade de uso do solo colocariam grande parte das populações
rurais em zonas montanhosas como ilegais. Para isso, são
desenhados os sistemas agroflorestais com movimentação zero do
solo e arquitetura e fùnção análoga à vegetação original podem
superar este critério, deixando de torna-lo impedimento ao manejo
destas areas Porém. não se deve ignorar áreas de risco, em solos
sujeitos a deslizamentos ou de equilíbrio nutrientes-vegetaçãodelicado, onde pequenas intervenções causam grandes alterações
Zona 1. O a 10% de intervenção, são áreas de matas ciliares, topos de morros,
cabeceiras de nascentes, manchas de solo frdgil e, eventualmente, faixas de
divisa com outms propriedades. São áreas de preservação permanente ou de
manejo extrativista legalizado. Estes corredores da vida selvagem formam
bancos genéticos vivos essênciais à sobrevivência de todas as espécies, inclu-
indo a que se autodenomina Homo Sapiens Sapiens.
Zoneamento por Intensidade
de intervenqão
O objetivo do zoneamento é identificar
qual é o contexto onde irá se desenvol-
ver o sistema que estamos propondo.
Seus dois critérios básicos são grau de
intervenção na vegetação nativa e dis-
tância da sede. O primeiro é determina-
Zona 2. 10 a 30% de intervenção, são áreas pontuais nas bordas das
áreas de preservação permanente onde ocorrem clareiras criadas por
a madeira mais grossa e pressupõe a serragem no local, para evitar
danos. Espécies nativas de múltiplos interesses (jrutljcems, medicinais,
maderáveis, fibras) podem ser introduzidas, afim de aumentar o
percentual da regeneração natural, introdução de espécies exóticas de
interesse ou adensamento de nativas.
As zonas por este critério podem ser assim arbitradas:
Zona I . Intervenção de O a 10% São as faixas de mata
ciliar, nascentes e suas cabeceiras, áreas críticas em termos de
declividade ou de dificil acesso. São corredores da vida selvagem e
bancos genéticos vivos. Um planejamento regional de preservação
da biodiversidade e vida selvagem deveria prever uma interligação
entre todas estas áreas, de propriedade a propriedade.
fina 2. Intervenção de 10 a 30%. São sistemas naturais
com manejo seletivo e adensamento de espécies de interesse
econômico em clareiras naturais ou abertas para aproveitamento
pontual de árvores secas ou em final de ciclo. Os castanhais da
Amazônia podem ter sua origem neste tipo de zoneamento, assim
como o pequi e o jatobá em determinadas áreas dos cerrados.
Zona 3. Intervenção de 30 a 60%. São sistemas agro-
florestais mistos com predomínio de especies introduzidas e manejo
de determinadas espécies nativas.
Zona 4. Intervenção de 60 a 80%. São sistemas agro-
florestais que afetam ou substituem de 60 a 80% da vegetação
original, incluem plantios de cultivos anuais ou bianuais e recebem
manejo semi-intensivo, como podas, replantios, colheitas sucessivas.
Zona 5. Intervenção de 80 a 100%. São áreas de total
transformação da paisagem inicial, como as áreas próximas as
habitações, hortas, quintais agroflorestais, ou sistemas agroflorestais
de ciclos curtos, como cultivos de grãos entre aléias, sistemas de
forrageamento animal, pequenas áreas de insolação e pasto para
animais domésticos, etc.
O objetivo do zoneamento é identificar qual e o contexto
onde irá se desenvolver o sistema que estamos propondo. Isso não
implica em zonas estanques. Afora as áreas de preservação
permanente que constituam a reserva legal da propriedade, nada
impede que um sistema inicialmente instalado numa zona de
intervenção alta (Zona 4, de 60 a 80%) venha a evoluir para um
sistema do tipo da Zona dois ou três. (de 60 a 10% de intenienção).
Portanto, a perspectiva é de que estamos buscando uma
predominância de determinado tipo de técnicas e itinerários para
algumas áreas, visando:
- economia de mão-de-obra;
- aumento do retorno em alimentos e renda da mão-de-
obra e recursos investida;
- conservação e regeneração dos recursos naturais e da
biodiversidade.
Sistematizar o eonlieeimento
para poder aperfeiçoá-lo
A seqüência de informações sobre as espécies que temos
que ter em mãos para manejar com sucesso um sistema agroflorestal
é bastante grande. Mas, paradoxalmente, pode ser obtida em grande
parte com os próprios agricultores, em conversas informais. Uma
vez que definimos quais são os produtos de interesse básico em
cada uma das etapas do sistema e tivermos informações sobre elas,
as outras espécies podem ir se agregando na prática, ao longo do
processo.
Tomemos como exemplo um sistema bastante tradicional
de anuais, bianuais, produtos de curto, médio e longo prazo, como
as roças indígenas.
No cuHo prazo, o eixo são feijões, milho, batata-doce e
mandioca. Inhames também são de interesse, mesmo que em menor
escala. As ervas, rebrotes, regeneração natural e cipós são com-
ponentes do sistema, mas não são o eixo.
No mé&oprazo, abacaxis, bananas e mamões são o eixo.
Vários rebrotes irão surgir e a regeneração tomará corpo. Espécies
de longo prazo serão introduzidas.
No longo prazo, castanheiras, jatobás e ingazeiros passam
a ser o eixo, além de algumas palmeiras e cipós. Uma miríade de
espécies forma o conjunto e é essencial para o sucesso da instalação
destas espécies citadas, mas não são o eixo desta fase.
Portanto, ao botar no papel um sistema, devemos ter bem
claro o que cada etapa poderá produzir, a que fim se destinam
estes produtos e quais são os coadjuvantes fundamentais, em termos
de ervas, arbustos, cipós e árvores para que todo o consórcio
prospere.
Informação básica para sistematização
Nome do sistema
Esta é uma informação direta do agricultor. O sistema
chama-se "feijão abafado", "café sombreado", etc.
Zona de implantação
Deve se ter em mãos um zoneamento, do tipo que foi
proposto aqui. Não há um padrão rígido, mas, sim, princípios de
sustentabilidade social, economica e ambiental.
Lista de espécies
Nome O nome popular é mais importante num primeiro
momento. Sua classificação botânica é interessante e deverá ser
incluída na medida do possível.
Arquitetura da espkcie. Mesmo um desenho do agricultor
serve para identificar a forma. Na sequência poderemos agregar a
designação botânica para esta forma, com detalhamentos.
Reprodução. São duas informações. Primeiro, qual é o
tipo de reprodução, no conhecimento popular (estaca, muda de
raiz nua, semente, pedaço de raiz, muda com torrão, etc). A segunda
é o agente dispersor (roedores, pássaros, vento, inundações, animais
domésticos).
Densidade por unidade de área (ha). Para o caso das
espécies exóticas, essa é uma informação bastante fácil. Para
espécies nativas, um inventário é necessário, mesmo que realizado
de forma simplificada em áreas de intervenção legal. Isso é
fundamental para todas as espécies silvestres que se~am submetidas
a podas, coleta (epífitas, nozes e cones, frutos, raízes e cascas) ou
manejo madeireiro. Sem isso, seria irresponsável propor um "manejo
sustentável".
Formas de uso
Refere-se aos usos adotados atualmente, potenciais,
limitações. Por exemplo: se a espécie é usada como fertilizadora
de alto poder de rebrote, casca medicinal, frutos para consumo in
natura e processamento, que tipo de processamento é usado, etc.
O grau de detalhamento de espécies coadjuvantes é mais uma
questão de tempo e conhecimento do que imperioso para instalar o
sistema.
Tempo até o uso
A velocidade de desenvolvimento de deterniinadas espécies
obedece a padrões climáticos locais, está ligada a um zoneamento
correto e a um consórcio adequado. Informações acadêmicas podem
ter sido obtidas em situações artificializadas (arboretos,
monocultivos), que devem ser checadas nas condições naturais
locais, roças abandonadas e quintais agroflorestais tradicionais.
Os demais pontos para sistematização seguem no esquema
proposto nas páginas seguintes.
Proposta para relato sintético de
Sistemas Agroflorestais Regenerativos Analogos (SAFRA'S)
Nome do Sistema Qual é o nome adotado pelos agricultores ou qual foi o Zona de implantação*
nome "publicitário" adotado para o sistema?
se possível class~icação prevista neste sistema.?
botânica família, gênero e sistema?Exemplo: a Quais são os usos conhecidos
espécie. aiaucária até os 12-20 localmente e quais são os
tem forma cônica e copa potenciais? Existe
adensah, tomando a processmento indicado ou
guarda-chuva invertido Qual é o potencial deem sua fase adulta.
*Qual é a intensidade de interven~ão inicial na vegetação nativa que o sistema pressupõe e qual é o grau de freqüência e intensidade de mão de obra?
Propomos o critério apresentado no anexo 1 .
Folha 1lDescrtção de espécies exóticas
Descrever a forma: Qual é a densihde por Quando começa e quando
planta dióica ou área recomendável para o termina o ciclo produtivo
monóica, reproduz por sistema que esta sendo desta espécie no sistema?
raiz, rzzoma, tubérculo, descrito.? A espécie Qual é a época de
galho. sementes, etc. adapta-se a povoamentos colheita prevista para este
Citar capacihde de adensados ou necessita produto? Quanta mfio-de-
pega/germinação/tempo estar esparsa dentro de -obra gasta-se por
possivel de estocagem e consórcios? Exemplo: quantidade de prodz~to
formas conhecidas de mogno, cedro e outras
estocagem espécies não-formam
adensamentos. Bambus,
helicônias, algumas
pioneiras, bem como
algumas frutiferas nativas
formam povoamentos.
Proposta para relato sintbtieo de
Sistemas Agroflorestais Regenerativos Análogos (SAFRA")
Nome do sistema Qual é o nome adotado pelos agrzcultores ou qual foz o Zona de impiantag&*
nome '~u61zcztárzo" adotado para o szstema?
Nome popular da espécie e Qual é a forma que a Descrever a forma:
se possível classificação
botânica família, gênero e monóica, reproduz por
espécie. raiz, rizoma, tubérculo,
galho, sementes, etc.
Citar capacidade de
pega/germinação/tempo
possível de estocagem e
formas conhecidas de
*Qual e a intensidade de intervenção inicial na vegetação nativa que o sistema pressupõe e qual e o grau de frequência e intensidade de mão-de-obra?
Propomos o critério apresentado no anexo 1
Folha I-/Descrição de espécies nativas
>
prevista neste sistema?
Quais são os usos conhecidos natureza? Levantamentos Quais são os usos
localmente e quais são os florísticos e ecologia da conhecidos localmente e
potenciais? Existe espécie são fundamentais quais são os potenciais em
processamento indicado ou para as especies a serem estudo?Existe processamento
conhecido? manejadas. O saber local conhecido? Qual é o
Qual é o potencial de indica possibilidades e potencial de mercado?
mercado? pode basear deras de Qual é a época de colheita
prevista para este produto .?
participativa, mas a Quanta mão-de-obra
difusão déstes manejos gasta-se por quantidade de
deve estar baseada em
&dos consolidados e
juridicamente aceitos.
Proposta para relato slnt4tilco de
Sistemas Agroflorestais Regenerativos Análogos (SAFRA'S)
Nome do Sistema Qual é o nome adotado pelos agricultores ou qualfoi o Zona de implanta$&*
nome '>ublicitário" adotado para o sistema?
Caracterização dos sistemas
tradicionais da região
Sistema tecnico vigente onde
se encaixa o S A F U
Roteiro técnico do sistema
tradicional ao longo do ano e
mão-de-obra usada (diáriaslano)
Tamanho médio das
propriedades, principais
atividades, percentuais do
uso da terra por atividade ou
ocupação (descvevendo o
estágio de sucessão das
áreas não-ocupadas,
atualmente, com atividade
agrícola), faixas de renda,
tamanho médio das famílias.
Qual é o sistema
tradicional em que esta
técnica, itinerário ou
sistema irá interferir?
Por exemplo, cafezal,
pastagem, olericultura,
fruticulura, etc.
Descrever.
I
, Descrever o roteiro ligando
ativihde a épocas do ano,
mão-de-obra relacionada por
área. Descrever a renda
bruta esperada na atividade
por área/ano.
*Qual é a intensidade de intervenção inicial na vegetação nativa que o sistema pressupõe e qual é o grau de freqüência e intensidade de mão-de-obra?
Propomos o critério apresentado no anexo 1.
Folha 3/8escri~ão do sistema técnico
3'
Técnicas novas que foram
roteiro do sistema tradicional e introduzidas no itinerário
mão-de-obra necessária para este novo sistema
Em qual parte do roteiro Descrever a técnica
foram introduzidas relacionando-a com a ilustrá-la com desenho ou
modrficações para se chegar técnica que ela substitui.
ao objetivo esperado? Quais materiais e custos, além
as implicações destas de eventual necessidade
mudanças na mão-de-obra de treinamento especifico
total necessária para
completar o roteiro?
Proposta para relato sintético de
Sistemas Agrofiorestais Regenerativos Blntíilogos (WAFBA"s)
Nome do Qual é o nome adotado pelos agricultores ou qual foi Zona de irnplantaçh*
o nome '$ublicitário" adotado para o sistema?
O desenho mostra quais as Este é um momento de Novamente, existe a abertura
espécies presentes na
e introdução de outras. deve mostrar a nova situagão.
Hcí uma mod@cação e
complexificação do desenho
*Qual é a intensidade de intervenção inicial na vegetação nativa que o sistema pressupõe e qual é o grau de freqüência e intensidade de mão-de-obra?
Propomos o critério apresentado no anexo 1.
i Folha 4IDescrição e desenho da sistema tecnico
a
I
4 Este desenho deve mostrar como o
sistema encontra-se no início da fase
produtiva das espécies perenes, e qual
o manejo recomendo para o resto do
srstema.
1 '
A colheita de espécies de ciclo longo, como as
madeiráveis, pressupoõe intervenções fortes, que
renovam boa parte do sistema onde se realiza a
colheita. A descrição e desenho deve mostrar
como ficará a nova distribuição de espécies, após
a retirada ou colheita destas espécies de ciclo
longo.
Análise eeon6rniea dos sistemas
Como já foi dito, sistemas agroflorestais regenerativos são
via de regra compostos de dezenas de espécies que se sucedem em
consórcios. Esses consórcios interagem entre si desde a implantação,
e não existem ciclos fechados de plantio, manutenção e colheita.
Essa característica de multiplicidade de etapas dentro de uma mesma
área criou barreiras aos conceitos clássicos de acompanhamento
econômico de propriedades.
A administração econômica-agrícola-clássica nasceu nos
sistemas agropastoris da Mesopotâmia, há mais de 6.000 anos,
adaptada aos sistemas agrícolas vigentes. Esses sistemas, baseados
em cultivos de grãos em áreas de irrigação ou em climas
marcadamente sazonais e rebanhos manejados adaptam-se a uma
administração de poucas variáveis. São ciclos definidos no tempo
(safras, ciclos de nascimento, desenvolvimento e abate) e no espaço
(áreas pastoris, áreas agrícolas, rotações com poucas variáveis).
Como continuadores da tradição mesopotâmica,
continuamos querendo adaptar sistemas complexos, como os que
permitiram a existência de civilizações complexas na Ásia Tropical
e Novo Mundo, a um sistema administrativo criado para cultivos
sazonais de grãos e animais. Para o agricultor que planta, maneja e
colhe em um sistema agroflorestal, dois fluxos são básicos:
quantificar entradas e saídas, relacionadas a volume, data e natureza
da atividade ou produto. Esse tipo de anotação primária permitirá
traçar um perfil de consumo de capital, mão-de-obra e insumos,
bem como de produtos obtidos ao longo do tempo.
A grande dificuldade é analisar o desempenho dos produtos
item por item, uma vez que os insumos, manutenção e mão-de-
-obra afetam praticamente todo o sistema, não impofiando se ele
será colhido em 3 meses ou 30 anos. De qualquer modo, os retornos
proporcionados pelos produtos de curto e medio prazo podem ser
relativizados aos custos integrais do sistema no período, o que dá
uma relação custoheneficio do produto em relação ao sistema como
um todo.
Quanto aos produtos de longo prazo, uma previsão de
retorno por unidade de área deve ser somada aos benefícios
proporcionais dos produtos de curto e médio prazo, amortizando
o custo inicial de implantação de modo progressivo.
A lógica da adição desses benefícios proporcionais 6
simples. Na instalação do sistema e manejo nos primeiros anos, o
custo de Implantação e manutenção tornaria impraticáveis os custos
de produção de produtos de cu&o prazo como milho, feijão,
mandioca, banana e abacaxi se relacionados aos cultivos solteiros
respectivos. Para ter uma avdiqãoclara, devemos abater dos custos
o valor agregado proporcional por área do sistema que estamos
instalando junto com estes cultivos de cuflo prazo. A equação é
simples:
Renda projetada do SAFIRA
Renda Projetada é o valor obtido no momento da análise
acrescido do valor agregado até aquele momerzto.
Custo 'Fotal corresgonde ao somatorio de dspesas e desvalo-
rização de equipamentos utilizados até o momento da análise.
Válor Agregado por Área é o valor total (Á?a colheita esperada
das espécies que serão colhidas até o final do sistema dividido
por hrea e por tempo. Exemplo: Se o sistema prev; a colheita de
100m3 de madeira por hectare a U$I,O00 o m3 num prazo de até
20 anos, então teremos que o valor apegado será de:
VAP = 100m3/ha . U$ 1,000 : 20 anos = U$ 5,00O/ha/ano
Portanto, a Renda Projetada no 10" ano será:
IRenda Projetada
Valores tlos produtos colhldQs: mesmo que para autoconsumo,
deve-se obedecer ao valor de mercado direto desde que existente e
viável na região. Em outras palavras, se existir a possibilidade real
de obter aquele preço por aquela mercadoria naquelas condições,
considerando os aspectos de transporte, qualidade e quantidade,
então temos um valor aceitável para efeito dos cálculos econômicos.
Se a possibilidade de venda direta é real e concretizável, o valor de
varejo pode ser tomado como referencial para projeções de retornos.
Portanto, um livro simples de entradas e saídas, que discrimine a
operação, produto ou mercadoria vendida com a unidade
correspondente poderá ser nosso banco de dados para análises
econômicas como a que propomos, bem como o desenvolvimento
e aperfeiçoamento de outras análises que melhor analisem o
desempenho economico dos sistemas regenerativos, como os que
apresentaremos na sequência.
Referencias bibliográficas
' "Muchos movimientos sociales surgen de las lutas de 10s pobres por la
supervivencia, tanto en la historia como actualmente. Son por tanto movimientos
ecologistas (qualquiera que sea e1 idioma en el que se expresen) en quanto sus
objetivos consisten en obtener las necessidades ecológicas para la vida: energía
(incluyendo las calorias de la comida), ama, espacio para albergarse. Son
movimientos ecologistas que tratan de sacar 10s recursos naturales del sistema
de mercado generalizado, de Ia racionalidad mercantil, para mantenerlos o
devolverlos a la oikonornia (en e1 sentido que Aristóteles usó la palabra. como
ecologia humana, opuesto a crematística)".
Para ir mais longe, ve;: Alier, Joan Martínez. De ia economía ecológica al
ecologismo popular, pg. 20 1-222. Editorial Nordan-Comunidad, Montevideo,
1995.
"Não sabemos ao certo quem está dermbando nossas florestas e nem quem
vai alagar nossas tenas, mas sabemos que moram em cidades, onde os ricos
estão ficando mais ricos, e nós os pobres estarrios perdendo o pouco que temos."
Declaração do Povo Iban. Sarawak, Malasia. Para ir mais longe, ver: Perdas
da biodiversidade e suas causas. in A Estratégia Global da Biodiversidade.
World Resources Institutel União Mundial para a Conservação da Natureza,
Programa das Nações Unidas para O Meio Ambiente. Versão em Português
pela Fundação O Boticário de Proteção a Natureza, 1992.
Experimentação participativa,
capacitação e difusão
Podemos dizer que trabalhamos todo o tempo em duas
perspectivas. A primeira, é a de que temos que construir uma
apropriação coletiva dos princípios que regem os sistemas e
agroecossistemas. Segundo, que para isso precisamos gerar
experiências concretas, enfim, sistemas que funcionem localmente.
E quando falamos localmente, nos referimos as particularidades de
cada agricultor ou técnico que é atingido pelo processo, na sua
propriedade ou região de atuação.
Isso implica numa estratégia de rede de informações e
evolução local de técnicas e sistemas. Esse processo busca avançar
além dos pacotes difusionistas, que trabalham a redução de técnicas
e sistemas para alcançar um maior numero de pessoas em um curto
espaço de tempo.
Na verdade, não são estratégias excludentes e, sim
complementares, desde que consolidadas sobre os mesmos
princípios de desenvolvimento pariicipativo e criativo da sociedade
e da relação destas com os ambientes naturais.
Para tentar passar nossa visão de como se pode conduzir
este processo, vamos trabalhar com um modelo básico de princípios
apresentado em representações esquemáticas e depois confrontá-
-lo com um exemplo-caso que conduzimos na zona cacaueira
bahiana.
Experimentação Participativa, Capacitaçso e
Difus2a de Técnicas e Sistemas
Na legenh abaixo, veJa uma representação gb)ca dos atores em c a h momento descrito.
Legenda
Parcerias Agricultores experimentadores Comunidade
Comunidades
- tipificação dos produtores, sistemas produtivos e ambientes.
- das tkcnicas, sistemas tkcnicos e sistemas de produ~ão potenciais face & conjuntura
sócio-ecsnomica e ambientas que resulta da tipificação;
- dentro deste universo. dos possíveis agricultores experimentadores e parcerias no
processo (OG's e ONG's).
- definir a estratkgia para AE na instalação e condução das t6cnicas e sistemas tanto na
área do Centro como nas propriedades;
- definir os Agricultores Experimentadores.
1
I
Centro de Experimentação, Capacitação e Difusão
Metodologia do DiagnQstico A s
1
I Operacionalização
I
Sistematização e Registro
Rastreamento de aportes populares, técnicos e
científicos aos sistemas e técnicas em desenvolvimento
- testados isoladamente; & V
- incluídos nos sistemas.
Instalação das UEP's (Unidades de Experimentação
Participativa) no Centro
Manutenção das UEP's no Centro AR%
Avaliação das UEP's
Comunidade após a primeira fase de resultados
Devolução dos resultados parciais das avaliações A % F %
Definição de novos agricultores experimentadores e novas UEP's A%%%
A propriedade tipifieadalo
agricultor experimentador
-os sistemas t6cnicos
-as técnicas
Mecanismos e métodos participativos
Apropriação de princípios e
recriação de técnicas e sistemas
Nesta representação simbólica, pretendemos ressaltar as três
fases,fundamentais da geração de sistemas agroflorestais regeneratjvos,
os SAFRA k.
O processo busca identrficar o contexto sócio-econbmico e
ambienta1 (representado pelo círculo que envolve os símbolos) onde se
inserem e funcionam as ferramentas ou técnicas (representadas pelos
símbolos isolados) e pelos sistemas técnicos (representados pela se-
qüência de sirnbolos interligados por setas).
9 Uma vez tiprficados os sistemas do agricultor (I) , buscam-se
então ferramentas e sistemas técnicos com princípios similares em
outros saberes populares e no saber acadêmico (2).
As eontribuíções de outros
saberes:popular/acadêmico
Legenda
nti$cação de problemas
i ---L
De outros saberes
(populares e acadêmicos)
Novas ferramentas ou
O ciclo de apropriação de princípios,
recriação de técnicas e sistemas e, con-
seqüente, geração e aprimoramento de
saberes forma as condições para uma
dífusão exponencial e horizontalizada,
sem as características de adoção 'tfe-
chada" de tecnologias.
O resultado: novos sistemas
e ferramentas ape~eiçoadas
A agregação destas novasferramentas e sistemas técnicos dá-
-se então mediada pelo contexto (o circulo) e resulta em novas ferra-
mentas e novos sistemas técnicas.
9 Num processo mais avançado, o contexto sócio-econômico e
ambienta1 pode ser também trabalhado. Esta etapa seria a de de$ni-
ção conjunta (OG 's, ONG k e comunidades agrícolas, sociedade) de
politicas de crédito (interno e externo), legislação para a cadeia pro-
dutiva jgerenciamento dos recursos naturais, agroprocessamento e
cornercialização) e linhas de pesquisa e ensino.
Esta é a direção que as iniciativas de Centros buscam, de modo
a incorporarem de maneira institucional suas contribuições no pro-
cesso de desenvolvimento da sociedade.
1 Formação dos Agricultores Experimentadores 1
Legenda
$ Novas ferramen-
tas ou técnicasgeradas
Nosso modelo básico dividese em tres niveis diferentes:
- o trabalho na comunidade antes e durante o processo;
- o trabalho no Centro de Experimentação, Capacitação e
Dihsão;
- o trabalho junto aos Agricultores-Experimentadores;
- o trabalho na comunidade, após a instalação e avaliação
dos sistemas e técnicas.
Ainda, temos quatro diferentes tipos de agentes no
processo:
- a equipe do Centro;
- as parcerias e integrações (OG's e ONG's);
- os agricultores experimentadores (AE);
- as comunidades agrícolas.
Finalmente, trabalhamos identificando, avaliando,
sistematizando, aperfeiçoando e difundindo algumas categorias
básicas como:
- técnicas isoladas;
- conjuntos de técnicas (sistemas técnicos);
- sistemas de produção.
Como produto esperado do processo, teremos:
Na área do Centro:
- áreas de teste de técnicas e sistemas técnicos totalmente
inovadores em relação aos sistemas tradicionais;
- áreas de teste de sistemas tradicionais inovadores ou
com potencial;
- sistemas híbridos que agregam o saber inovador
tradicional com técnicas trazidas de fontes externas ao meio, sejam
de origem popular ou acadêmica.
Na hrea dos agricultores-experimentadares:
- sistemas tradicionais inovadores;
- sistemas tradicionais inovadores que agregam técnicas
trazidas do meio externo (sistemas híbridos).
Na área das comunidades:
- sistemas tradicionaislconse~vadores, mas já adotando
técnicas do sistemas inovadores;
- adoção de sistemas inovadores gerados pelos M ' s ;
- adesão de mais agricultores ao processo de expe-
rimentação participativa (aumento do número de AE's).
Em relação à capacitaç", nossos objetivos são:
- habilitar os AE's a serem dihsores de princípios e,
portanto, adaptadores e recriadores de técnicas e sistemas;
- habilitar os técnicos a serem assessores eficientes neste
processo;
- habilitar os técnicos e agricultores a identificarem ,no
seu dia-a-dia técnicas, sistemas técnicos e sistemas de produção
com potencial para aumentar a economicidade e sustentabiiidade
dos processos agrícolas frente aos ambientes e conjunturas sócio-
culturais onde se inserem;
- finalmente, criar padrões técnicos e sistemas aptos a
difusão massal, mas dentro de uma perspectiva de tipificação sócio-
-econômica e ambienta]. Em suma, tratar as diferenças com soluções
apropriadas, e não com pacotes tecnológlcos que tratam da mesma
forma os desiguais, acelerando e aumentando as diferenças sociais.
O processo do mutirão-escola na zona
cacaueira sulbaíana
O mutirão-escola foi um mecanismo criado em cima de
uma tradição local (o mutirão), visando atender demandas imediatas
dos agricultores e contendo em si um objetivo estratégico.
As demandas eram no sentido da assistência técnica aos
produtores vizinhos, sensibilizados por anos de observação dos
sistemas implantados na Fazenda Três Colinas, mas com dificuldades
para implementá-10s. O objetivo estratégico era implantar as áreas
experimentais produtivas dentro da área do Centro de Expe-
rimentação, Capacitação e Difbsão (CECAD) com a participação
de agricultores vizinhos no esquema do mutirão-escola.
Esse objetivo estratégico também trazia a idéia da criação
de um embrião cooperativista, tendo como primeiros sócios O
próprio CECAD e as famílias dos produtores do mutirão. A já
existente Associação de Pequenos Agricultores locais poderia ser,
paulatinamente, enriquecida com a adoção de princípios rege-
nerativos, e seus componentes poderiam se incorporar ao processo
cooperativista e de mutirão sem desarticular ou enfraquecer a
associação.
Recursos financeiros e estratkgias de abrangência
O projeto não dispunha de recursos para difusão e extensão
locais. Com o mutirão-escola, sem custos adicionais, buscava-se
formar os Agricultores Experimentadores, que após um ano de
mutirão, seriam "cabeças-de-mutirão". Em outras palavras, eles
passariam a atuar liderando os mutlrões de suas comunidades,
aumentando sensivelmente o leque de fannílias inlciaime49ee &ingidas,
que foi de quatro e que chegou a cinco. num período de seis meses
Os mutirões são tradicionais na região, porém sQ goken-
cializam a tecnologia e eixo ecowi6mlco tradicional, que é a roça de
queimada, o plantio e o beneficiamento da mandioca Com a entrada
de um "Agricultor Experimentador" no mutlrão, sltravés de um
processo prévio de senslbilização do gmpo, as técnicas poderiam
ser paulatinamente adotadas, diversificando e ampliando as
possibilidades dos gnipos tradicionais.
Prsmessaments e comerclalizaqdPo
Ficou claro desde o começo que esses dois tópicos eram a
alavanca do trabalho Embora tendo apenas a mandioca como
recurso de curto prazo, os dois maiores recursos potenciais dos
sistemas dos agricultores - que eram a madeira e o trlnomio fmtasl
condimentoslamêndoas - sQ passariam de recurso potencial a
recurso real através de processamento e investimento em comer-
cialização
Em suma, sem abarcar a cadeia produtiva, encarando
modifl~ações no contexto sócio-econ6mic0, não havia como
quebrar o ciclo de degradação economica e ambientar
Na inexistêncla total de mecanismos próprios nesta área..
como associqões com experiência ja consolidada e/ou cooperceLivas,
era necessário criar este aparato
Para isso, foram pleiteados e aprovados recursos
específicos visando a implantaqão de secadores de Gutas e
condimentos7 bem como uma serraria de pequenas dimensões. com
uma marcenaria completa acoplada Essa infraestmtura sewiria &
capacitação e ao projeto de mtonomizagão progressiva do C E C D
Projetos de expansão da equipe do CECAD possibilitariam o
aumento do número de mutlrões-escola com um aumento dos
associados ao processo, bem como das possibilidades econ6micas
do empreendimento cooperativista Considerado do ponto de vista
administrativo, o capital e logískica oferecida pelo C E C m pehtir la
uma agregação de valor tão significativa que possibilitavam
previsões de contrapaflidas financeiras (autosustentação) do projeto
em menos de três anos, e uma possibilidade de reprodução e
autogestão do processo de agroproçessamento e cooperação em
cinco a seis anos.
$ Tdcnicos do AS-PTA uvaliun-
do úrea em inicia de znstaluçGo junto
técnicos de uorgawzi~uqfies regionais,
imí do Norte, BA.
ao trabalho desenvolvido pelo AS-
PTA/PB avaliam área de mandioca1
A prática a campo
Os mutirões serviram para desmistificar a aparente
complexidade de trabalhar sistemas agroflorestais regenerativos com
agricultores, e serviram também para, definitivamente, enterrar a
idéia de que era possível naquelas condições Introduzir "módulos
agroflorestais" como forma de convencimento paulatino dos
agricultores.
Na conjuntura local, os mutirões tiveram a seguinte
dinâmica:
- diagnóstico rápido conjunto com o gmpo;
- definição das atividades na propriedade do Agricultor
Experimentador, onde o anfitrião dava a palavra final,
- incorporação dos princípios de manejo regenerativo
dentro do itinerário técnico proposto pelo anfitrião.
Definiu-se que o tamanho ideal de cada mutirão era o que
possibilitava que cada propriedade fosse visitada uma vez por mês
O mutirão era assim realizado todas as segundas-feiras, o que
permitiu quatro famílias de agricultores mais o CECAD. Com o
crescimento dos interessados, formou-se um segundo gmpo a parllr
da mudança de local de trabalho de um dos integrantes, cujos
conhecimentos sobre os sistemas já era anterior ao processo, visto
que havia trabalhado na Fazenda Três Colinas
Avaliação do processo
Aspectos técnicos. A cada mutirão, crescia a apropriação
dos princípios básicos. Isso se observava pela adoção da capina e
roçagem seletiva de ervas por estado individual, a poda de renovação
de árvores, bem como a introdução de espécies que cumprissem
uma função de sinergismo e dinamização do sistema
Nos mandlocais esse processo ficou bem claro, pois
passaram a apresentar uma regeneração natural multo mais rica.
Também se verificou no manejo dasáreas de banana e cacau a
introdução de muito mais árvores e uma maior preocupação com a
cobertura do solo e com a diversificação. via plantio de abacaxi
como "pagador" de curto prazo da regeneração das áreas mais
degradadas.
Na verdade, o sucesso de apropriação da tecnologia de-
veu-se muito ao fato de que não propusemos um novo itinerário
técnico, nem grandes modificações no sistema produtivo. O que
ocorreu foi um enriquecimento do itinerário técnico já determinado
pelo agricultor, com pequenas modificações que iam preparando o
terreno para uma potencialização do sistema produtivo como um
todo. Além disso, o grupo vislumbrava uma comercialização
conjunta. Isso deve ser ressaltado: sem a perspectiva de alcançar o
mercado de modo associativo e abarcando a cadeia produtiva, a
estratégia de diversificação não tem como competir com os sistemas
tradicionais.
De qualquer modo, algumas técnicas e ferramentas já eram
adotadas como práticas mesmo para os sistemas tradicionais.Por
exemplo:
- a regeneração espontânea salva na capina seletiva gerava
em pouco tempo uma biomassa que propiciava a cobertura do solo
e dinamização do sistema produtivo a ser instalado, geralmente,
com banana, cacau, pataste, fmtas e madeiras;
- o manejo de aceiros, conforme relatado na parte de
propostas técnicas, mostrava como a regeneração podia gerar a
adubação que faltava e proteger o que introduzíamos, melhorando
a produtividade da roqa já instalada.
As únicas introduções, na verdade pequenas modificações
no sistemas produtivo, eram a introdução de abacaxi e a marcação
e proteção de madeiras de lei já em regeneração, bem como a
introdução de novas culturas através de mudas disponíveis na
própria mata, na propriedade ou em vizinhos.
Ao mesmo tempo, o fato de se trabalhar em uma
diversidade de situações que ia desde áreas praticamente nuas,
capoeiras recentes até bordas de mata (aceiros) dava aos agricultores
uma visão das diferentes etapas da regeneração de suas áreas, bem
como do manejo necessário para dinamizá-las e torná-las
economicamente interessantes.
A insistência no uso de insumos agroqulmicos nunca foi
um problema sério, em hnção da total descapitalização destes
agricultores. Mesmo assim, era uma discussão presente que se
materializava na prática: o que era realmente necessário comprar
de fora da propriedade e que se p-ava com o resultado do trabalho?
A resposta dificilmente apontava adubos ou agrotóxicos
como excelente investimento em termos de retornos, o que bem
espelha o desempenho destes insumos nos latossolos de baixa
fertilidade das florestas úmidas tropicais.
Apesar da uréia como fonte de N ser de uso comum entre
os agricultores, qualquer prática que envolvesse apenas recursos
locais e trouxesse bons resultados sem seu uso era bem vista, em
finção do contexto social e econômico.
um grupo de agrzcultores estabelece
um sistema agroflorestal numa capo-
ezra de 10 anos. O trabalho t a ; parte
de um projeto de regeneração da Mata
de Araucbnai e dos ervazs, apolcido
pelo PDA (Programa Demonstrativo
de Defesa dai Florestas Trqzcazs do
Brarrl) O ~nrxterial em vídeo faz parte
da si rtc~mcxt~zugão e dlfusáo do proce5-
gados a associações de agricultores
ecologistas instalam sistemas agro-
florestais utilizando elementos dos
SAFRAS, a partir da assessoria de téc-
nicos locais. O abacaxi é um dos ele-
mentos fundamentais, junto com ba-
A pratica e discussão coletiva via mutirão em diferentes
propriedades enriquecia a experiência pessoal de cada um, prin-
cipalmente, a dos técnicos envolvidos. A passagem mensal pela
área experimental do Centro permitia aos agricultores verem
sistemas mais complexos, que instalávamos como observação, o
que facilitava muito a perspectiva do "onde chegar". Suas opiniões
situavam-nos sobre o hturo daquelas idéias e correções de mmos
para que elas passassem a integrar as ferramentas a serem usadas
nas propriedades dos integrantes do mutirão.
Assim, o "como chegar no futuro" e os recursos necessários
para tanto, eles mesmos desvendavam, visto que a área do C E G m
era basicamente tocada na mesma lógica do mutirão, onde o único
insumo eram Instnimentos manuais de trabalho e conhecimento
por parte de técnicos e -ricultores dos ambientes das culturas
associadas a ele (os agroamblentes).
Aspectos estratbglcos. Como já ressaltamos, também foi
fundamental para o relativo sucesso do mutirão-escola a existência
de uma perspectiva htura de processamento e comercialização, e
de um veículo como pequeno fomento ao processo, através do
transporte de mudas. O valor do frete era descontado depois na
forma de horas de serviço, mudas, etc., o que valorizava e
selecionava os pedidos de serviços ao CECAD, como aluguel da
camionete, moto-serra ou marcenaria pelos agricultores.
As desistências neste tipo de processo devem ser
relativizadas em função da trajetória de cada indivíduo, e pelo fato
de que cada modificação proposta no sistema produtivo,
acarretando trabalho e resultado-produto, deve estar amarrada a
uma ligação com mercado, ainda que provisoriamente a mercados
convencionais. Novamente, vamos reforçar que sem este anel, o
elo rompe-se facilmente ou então estagna em termos de crescimento
e dihsão das propostas.
Ainda, devemos ter claras as limitações de um processo
onde não se consiga uma rápida transição para um mercado
diferenciado, com eliminação de atravessador e processamento de
excessos visando estabilizar a renda após passada a principal
colheita.
Dentro de uma estratégia de sistemas regenerativos
agroflorestais, esta é uma preocupação hndamental, se levarmos
em conta os períodos relativamente longos que existem entre a
implantação do sistema blodiverso e sua produtividade plena. O
processamento permite que produtos de curto prmo, como banana
e abacaxi sejam processados, estabilizando a renda nas fases iniciais
e criando uma confiança no sistema fiituro.
Continuidade do processo
O Centro de Formação em Agroflorestas teve suas
atividade interrompidas em junho de 1995. A interrupção dos
trabalhos locais poderia ser prevenida se tivéssemos acesso, por
uma espécie de "portal do tempo", às informações que procuramos
sistematizar para passar ao leitor ao longo do texto deste livro:
todo aprendizado tem um preço. Porém, o projeto de continuidade
não ficou apenas nas experiências registradas neste livro, uma vez
que foi desencadeado um processo de multiplicação de experiências
baseadas nos métodos descritos tanto na região do projeto como
em vários pontos do pais, e pelo próprio Ernest Gotsch em alguns
países da América do Sul. Este fOi um dos objetivos fiindamentais
da idéia que criou o Centro.
Assim, como reitaramos como objetivo no irucio deste livro,
o saber deixa de ser uma propriedade e passa a ser apropriado
pelas populações e recriado em cada contexto social e ambienta].
Da mesmo modo, nos apropriamos de tecnologias que foram
geradas ainda no Período Neolítico e que foram sendo aperfeiçoadas
por inilhares de anos pelas populações que, entre outros pontos do
planeta, viscejaram nas Florestas Tropicais da h é r i c a do Sul e
Central
Nada mais oportuno recuperar saberes de convivência com
as florestas numa época onde avanços na arqueologia modificam
as teorias de ocupação das h é r i c a s , nos mostrando que elas foram
colonizadas pelo ser humano há mais de 11.500 anos e, por
evidências a serem ainda reconhecidas pela academia, há mais de
30 000 anos. Atnda, que a Aniazônia pode ter suportado grandes
concentrações populacionais que conheciam a cerâmica e o fabrico
de louça e que faziam do manejo da floresta e dos rios a base de
sua civilização .
Em outras palavras, a reconciliação das populações
humanas com os ecossistemas que as sustentam não é apenas um
fato novo e alentador num mundo de "herdeiros culturais da
Revolução Industrial", mas acreditamos que aponta para um novo
paradigma em construção. Muito mais, acreditamos queesta
reconciliação 6 condição sine qua non p u a a viabilidade do processo
eivilizatóris que se busca constniir neste século que está para se
iniciar.