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Página de VERSÃO 01/2020 APROVADA PELA DIREÇÃO ALVF - PROIBIDO REPRODUÇÃO Associação Hospitalar Lenoir Vargas Ferreira CNPJ 02.122.913/0003-78 Rua Uruguai, 1320-D – CEP: 89.802-165 – Chapecó – SC Fone: (0xx49)2049-1700 E-mail: educacaopermanentehc@hro.org.br MANEJO DA NEUTROPENIA FEBRIL NO PACIENTE ONCOLÓGICO PEDIÁTRICO CHAPECÓ-SC, SETEMBRO 2021 FICHA TÉCNICA Reinaldo Fernandes Lopes Vice-Presidente da Associação Hospitalar Lenoir Vargas Ferreira Raja Elias – Diretor Técnico Hospital da Criança Augusta Müller Bohner Marcos Antônio Neres – Gerente Administrativo Hospital da Criança Augusta Müller Bohner Francieli Cecconello – Coordenadora de Enfermagem Hospital da Criança Augusta Müller Bohner Giane Mara Guzzo – Enfermeira Educação Permanente Hospital da Criança Augusta Müller Bohner Autores Organizador e Revisor FICHA CATALOGRÁFICA LISTA DE ABREVIATURAS LISTA DE FLUXOGRAMAS 2. DEFINIÇÕES Neutropenia é definida como contagem de neutrófilos menor que 500 cels/mm3 ou valores entre 500-1000cels/mm3 com expectativa de redução nas próximas 48 horas. Outra definição dentro do conceito de neutropenia corresponde à neutropenia profunda, com níveis menores que 100 cels/mm3, traduzindo-se em situação de potencial gravidade. O quadro neutropênico pode estar associado a picos febris e exigir atendimento médico em caráter de urgência. Neste protocolo, será considerado febre no paciente neutropênico como a ocorrência de dois picos de temperatura axilar igual ou superior a 37,8°C em 24 horas (h); ou um pico de temperatura axilar igual a 38°C, mantido por um período de uma hora; ou ainda dois episódios de temperatura axilar entre 37,5°C – 37,8°C em um intervalo de 12h. Trata-se de agravo comumente encontrado em neoplasias hematológicas e sólidas e, em sua maioria, configura-se como Febre de Origem Indeterminada (FOI). É de suma importância uma anamnese detalhada e um exame físico (EF) minucioso, a fim de determinar o foco infeccioso, quando presente, para o estabelecimento do melhor tratamento antimicrobiano. Os locais mais comuns de infecção são pulmão, trato gastrointestinal (TGI) e pele. A bacteremia ocorre em 10 a 20% dos pacientes, sendo mais frequente nas neutropenias profundas. 3. OBJETIVOS Instituição de medidas terapêuticas adequadas em pacientes pediátricos com neutropenia febril. 4. PÚBLICO-ALVO Profissionais de saúde médicos e não-médicos que atuam diretamente nos cuidados dos pacientes pediátricos, atendidos no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (HC- UFTM). 5. ÂMBITO DE APLICAÇÃO Pronto Socorro Infantil, Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal/Pediátrica e Enfermaria de Pediatria do HC-UFTM. 6. ETIOLOGIA A etiologia da febre pode ser viral (mais frequente), não-infecciosa, bacteriana ou resultante de outros patógenos. Vale ressaltar, entretanto, que na maioria dos episódios, não se encontra foco infeccioso clínica ou microbiologicamente documentado, caracterizando FOI. Quando há foco identificado, os locais mais comuns de infecção são pulmão, TGI e pele. A bacteremia ocorre em 10 a 20% dos pacientes, sendo mais frequente nas neutropenias profundas e relacionadas a cateteres. O risco infeccioso desses indivíduos associa-se tanto ao grau como à duração da neutropenia. Fungos são causas raras de infecção na fase inicial da neutropenia; infecções por Candida sp costumam ocorrer após 1 semana de neutropenia, e infecções por fungos filamentosos como Aspergillus sp, após 2 semanas. Patógenos mais comuns em pacientes neutropênicos Bactérias Gram-positivas Bactérias Gram-negativas Vírus Staphylococcus coagulase negativo Staphylococcus aureus Enterococcus, incluindo cepas, vancomicina resistente Streptococcus viridans Streptococcus pneumoniae Streptococcus pyogenes Escherichia coli Klebsiella Enterobacter Pseudomonas aeruginosa Citrobater Acinetobacter sp. Stenotrophomas maltophilia Herpes vírus humano Vírus Varicela-zoster Vírus respiratórios Tabela 1: patógenos mais comuns em pacientes neutropênicos. HISTÓRIA CLÍNICA E EXAME FÍSICO Deve ser colhida história clínica completa do paciente em sua admissão, incluindo características da febre, sintomas associados, presença ou não de cateteres, comorbidades, cirurgias realizadas recentemente e informações sobre o último ciclo de quimioterapia (Qt) recebido. Quanto ao exame físico inicial, deve ser completo e minucioso, englobando avaliação de sinais vitais, busca de provável foco infeccioso (incluindo pele, fâneros, períneo, orofaringe, gengivas e ouvidos). 8. EXAMES DIAGNÓSTICOS INDICADOS Com a finalidade de estabelecer uma triagem infecciosa mais precisa, elegem-se alguns exames laboratoriais complementares à anamnese e exame físico: ● Hemograma completo; ● Creatinina, ureia, eletrólitos, enzimas hepáticas e bilirrubinas; ● Hemoculturas: ○ Com cateter venoso central (CVC): colher uma amostra em sangue periférico e outra amostra em cada via do cateter, simultaneamente; ○ Sem CVC: colher duas amostras de sangue periférico em punções diferentes; ○ Volume por Amostra: volume mínimo: 01mL |volume máximo: 5mL (indicação de 1 - 3mL) ● Urina 1 + Urocultura; ● Cultura de líquidos e secreções de outros locais, se indicado; ● Pesquisa de Clostridium difficile e cultura nas fezes em pacientes com diarreia; ● Coleta de líquor e realização de tomografia (TC) de crânio, na presença de sintomas neurológicos; ● Aspirado ou biópsia de lesão de pele suspeita; ● Radiografia de tórax, na presença de sintomas respiratórios; ● Ultrassonografia (US) abdominal ou TC abdômen, na presença de sintomas de TGI (avaliar de acordo com gravidade da sintomatologia) 9. CLASSIFICAÇÃO Para o melhor manejo dos pacientes neutropênicos febris, é sugerido classificar esses pacientes de acordo com a sintomatologia e os achados laboratoriais em grupos de risco, de acordo com a Tabela 2. Além da classificação de acordo com a sintomatologia e exames complementares, faz-se importante analisar os escores padronizados com intuito de otimizar e somar junto à estratificação dos pacientes. Ver tabelas 3 e 4. Avaliação de Risco em Neutropênicos Febris Pacientes de Alto Risco Pacientes de Baixo Risco Pacientes que apresentam neutropenia profuda (≤ 100 neutrófilos/mm 3 ) com previsão de febre por mais de 7 dias após quimioterapia e/ou alterações clinicas associadas: · Instabilidade hemodinâmica; · Mucosite oral ou gastrointestinal; · Sintomas gastrointestinais como dor abdominal, náusea, vômitos ou diarreia; · Alterações neurológicas ou do estado mental de início agudo; · Infecção de cateter vascular, especialmente os tunelisados; · Infiltrado pulmonar ou hipoxemia ou doença pulmonar de base; · Evidência laboratorial de insuficiência hepática (transaminases >5x o valor normal) ou renal (ClCr<30) Pacientes com previsão de tempo de neutropenia curta (dentro de 7 dias): · Clinicamente estáveis; · Ausência de comorbidades ou das complicações incluídas no alto risco; · Função hepática e renal adequadas. Estes pacientes devem ser OBRIGATORIAMENTE INTERNADOS para início de antibioticoterapia (ATB) empírica endovenosa (EV) Estes pacientes podem ser tratados no hospital com terapia sequencial EV-VO (endovenosa-via oral) ou antibioticoterapia oral desde o início, após avaliação criteriosa. IMPORTANTE!!!! Pacientes neutropênicos sem febre, mas que apresentam sinais de infecção como apatia e hipotensão, devem ser tratados como pacientes de alto risco. Tabela 2: avaliação de risco em pacientes neutropênicos febris Além da classificação de acordo com a sintomatologia e exames complementares, faz-se importante analisar os escores padronizados com intuito de otimizar e somar junto à estratificação dos pacientes. Segue abaixo: Escore Amnann et al (2010) Pontos Qt mais intensa do que para manutenção de Leucemia Linfoide Aguada (LLA) 4 Hemoglobina (Hb) ≥ 9,0 g/L 5 Glóbulos Brancos (GB) < 300/mm3 3 Plaquetas < 50.000/mm3 3 Tabela 3 – Escore Amnann et al (2010) Observação: Escore ≥ 9 indica alto risco comuma sensibilidade de 92%, especificidade 45% e VPN (valor preditivo negativo) 93% Escore de Rondinelli et al (2006) Pontos Idade ≤ 5 anos 1 Presença de CVC 2 Foco infeccioso encontrado 4,5 Febre > 38,5o C 1 Hb ≤ 7,0 1 Ausência de sinais de IVAS (infecção de vias aéreas superiores) 2,5 Pontos Risco 2,5 - ≤ 5,5 Baixo 5,5-9,0 Moderado ≥ 9,0 Alto Tabela 4-Escore de Rondinelli et all (2006) 10. TRATAMENTO INDICADO E PLANO TERAPÊUTICO 10.1 Antibioticoterapia Antibioticoterapia de escolha: monoterapia com Cefepime 50mg/kg/dose EV de 8h/8h (dose máxima: 2g/dose). a. Associar Vancomicina 10mg/kg/dose EV de 6h/6h (dose máxima: 500mg/dose) - Infecção de cateter documentada; - Infecção de pele e partes moles; -Instabilidade ou sepse grave; Pneumonia documentada em Rx de tórax; Hemocultura com Gram positivo até identificação e isolamento do agente; Importante: Mucosite grave não é indicação de Vancomicina, pois o Cefepime oferece boa cobertura para os Estreptococos do grupo viridans. b. Associar Metronidazol 15mg/kg EV (dose de ataque - dose máxima: 1g) + 7,5mg/kg/dose EV de 8h/8h (dose de manutenção - dose máxima: 500mg/dose) - se sintomatologia do TGI; c. Substituir Cefepime por Meropenem 40mg/kg/dose EV de 8h/8h (dose máxima: 2g/dose) - se uso de Cefalosporina nos últimos 30 dias em vigência de instabilidade hemodinâmica; d. Associar Amicacina 15mg/kg/dia EV de 24h/24h (dose máxima: 1,5g/dia) - se hemocultura com Gram Negativo até identificação e isolamento do agente. Pacientes sabidamente colonizados ou que tenham tido infecção recente por bactérias multirresistentes: discutir caso com equipe da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH). Pacientes classificados como baixo risco, é respaldado pela literatura e guidelines o tratamento inicialmente com antibioticoterapia EV e transicionamento para antibioticoterapia VO após 24- 48 horas: Ciprofloxacino 10-20mg/kg/dose VO de 12h/12h (dose máxima: 750mg/dose) + Amoxicilina/Clavulanato 50-90mg/kg/dia VO de 8h/8h (dose máxima: 1g/dose) 10.2 Duração e Suspensão do Tratamento Durante o seguimento desses pacientes, é necessário realizar exame físico diário detalhado, monitorar exames laboratoriais e checar culturas diariamente. Deve-se lembrar sempre que o tempo médio para defervescência da febre após o início do antibiótico é de 5 dias nos pacientes com neoplasias hematológicas e 2 dias naqueles com tumores sólidos. Em caso de persistência da febre apesar dos antimicrobianos empíricos, deve-se repetir as hemoculturas, a cada 48 horas, e investigar possíveis focos infecciosos. Para alterações no esquema terapêutico, deve-se considerar se há foco infeccioso documentado ou trata-se de FOI, da resposta terapêutica e de fatores de risco para infecção fúngica (vide abaixo). Não se recomenda a ampliação de espectro antimicrobiano com base apenas em persistência de febre, mas sim em todo o quadro clínico e hemodinâmico do paciente. a) Infecções documentadas: No caso de infecções documentadas, por hemoculturas ou demais focos, o esquema antimicrobiano inicial pode ser alterado, inclusive com redução de espectro. Entretanto, não é recomendado retirar a cobertura para Pseudomonas. O tempo de tratamento será definido a depender do agente isolado, do sítio de infecção (ver tabela 5 a seguir) e a duração da neutropenia. Manter a antibioticoterapia pelo tempo indicado ou até neutrófilos ≥ 500mm 3 , o que ocorrer por último. Sítio de Infecção Tempo de tratamento Pele e partes moles 10-14 dias Infecção da Corrente Sanguínea não complicada − Gram negativo 10-14 dias S. aureus 14 dias (no mínimo) − Estafilococo coagulase negativo 7 dias − Outros gram positivos 7-14 dias − Candida 14 dias após a primeira HMC negativa Sinusite 10-14 dias Pneumonia bacteriana 10-14 dias Tabela 5 – Sítio da infecção e tempo de tratamento b) Febre de origem indeterminada (FOI) Em pacientes com persistência de febre > 96 horas, deve-se continuar a procurar focos infecciosos, considerar causas não infecciosas (hemotransfusões, medicações, como quimioterápicos, tromboflebites, febre de origem central, reabsorção de hematomas, presença de tecidos necróticos ou a própria neoplasia), e investigar infecção fúngica invasiva naqueles pacientes de alto risco, com TC de tórax e seios da face. A coleta de galactomanana (GM) não é recomendada rotineiramente na pediatria. Considerar a suspensão do esquema antibiótico quando o paciente estiver afebril há 24-48h com evidência de recuperação medular (neutrófilos >500 cels/mm3) e culturas negativas, ou afebril há 48-72 horas com culturas negativas e neutropenia prolongada. 10.3 Infecção Fúngica Considerar infecção fúngica por Candida Albicans em pacientes neutropênicos com febre prolongada que se incluam nos seguintes fatores de risco: a. Neutropenia com duração superior a 7 dias; b. Presença de mucosite identificada; c. Paciente submetido a jejum prolongado; d. Paciente recebendo nutrição parenteral; e. Uso prolongado de corticoterapia; f. Uso de antibioticoterapia de amplo espectro; g. Presença de CVC; h. Cirurgias gastrointestinais recentes. Considerar infecção por fungos filamentosas se: a. Neutropenia profunda e prolongada (em torno de 14 dias); b. Transplante de células-tronco hematopoiéticas; c. Uso de corticoterapia por mais de 3 semanas; d. Tratamento com imunossupressores de células T; e. Doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH). Para tratamento empírico de candidemia, pode-se utilizar fluconazol ou micafungina, e para infecções por fungos filamentosos, a anfotericina ou voriconazol (Tabela 6). ANTIFÚNGICOS Fluconazol 12mg/kg/d 1x/dia 800mg/dose no primeiro dia e após 400mg/ dose Anfotericina Deoxicolato 1mg/kg/dia 1x/dia 50mg/dose Anfotericina Lipossomal 3mg/kg/dia 1x/dia 5mg/kg/dia APENAS em infecções por Mucor Caspofungina Ataque: 70mg/dose Manutenção: 50mg/dose 1x/dia Ataque: 70mg/dose Manutenção:50mg/m2 Micafungina 4-12mg/kg/dia 1x/dia 100mg/dose Voriconazol 9mg/kg/dose 12/12h VO: 200mg/dose EV: 400mg/dose Tabela 6 – Antifúngicos 11. FLUXOGRAMAS 12. REFERÊNCIAS a) Lehrnbecher, T, et al. Guideline for the Management of Fever and Neutropenia in Children With Cancer and/or Undergoing Hematopoietic Stem-Cell Transplantation. J Clin Oncol 30:4427- 4438. 2012 b)Freifeld AG, Bow EJ, Sepkowitz KA, et al:Clinical practice guideline for the use of antimicrobial agents in neutropenic patients with cancer: 2010 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis 52:e56-e93, 2011 c)Rondinelli et al.A Proposed Score for Predicting Severe Infection Complications in Children With Chemotherapy-induced Febrile Neutropenia.Pediatr Hematol Oncol Volume 28 (10): 665-670, 2006 d)Ammann et al. Predicting Adverse Events in Children With Fever and Chemotherapy-Induced Neutropenia: The Prospective Multicenter SPOG 2003 FN Study J Clin Oncol 28:2008-2014 e)Loggetto et al. Neutropenia sem febre e granulocitopenia febril. Em: Oncologia para o Pediatra. Editora Atheneu, Sociedade de Pediatria de São Paulo. 2012. Pg 317-326. f)Lehrnbecher, Thomas, et al. "Guideline for the management of fever and neutropenia in children with cancer and hematopoietic stem-cell transplantation recipients: 2017 update." American Society of Clinical Oncology, 2017. UNIVERSIDADE FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO HOSPITAL DE CLÍNICAS PROTOCOLO CLÍNICO MANEJO DA NEUTROPENIA FEBRIL NO PACIENTE ONCOLÓGICO PEDIÁTRICO 12/03/2021 Anna Luísa Oliveira Garcia, médica residente de pediatria, Eduardo Oliveira Prado, médico residente de pediatria, Ana Carla Souza Maciel, pediatra assistente do pronto socorro infantil, Rachel Samhan Martins, oncologista pediátrica assistente, Pollyana Bernardes Valize, hematologista pediátrica assistente, Laura Silva Cardoso, hematologista pediátrica assistente, Gustavo Henrique de Oliveira e Freitas, hematologista pediátricoassistente