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Indaial – 2020 Estudos LitErários: GênEros, idEntidadEs, Etnias E rEprEsEntaçõEs Prof.a Marilsa Aparecida Alberto Assis Souza 1a Edição Copyright © UNIASSELVI 2020 Elaboração: Prof.a Marilsa Aparecida Alberto Assis Souza Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: SO729e Souza, Marilsa Aparecida Alberto Assis Estudos literários: gêneros, identidades, etnias e representações. / Marilsa Aparecida Alberto Assis Souza. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 276 p.; il. ISBN 978-85-515-0447-5 1. Estudos literários. - Brasil. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 869.909 III aprEsEntação Prezado acadêmico! Neste momento, inicia-se uma nova etapa de sua formação profissional em torno da construção de conhecimentos relacionados aos estudos literários. No caminho trilhado até aqui, você já fez muitas descobertas acerca da importância da literatura. Compreendeu que o acesso a ela permite o desenvolvimento de uma gama de conhecimentos que perpassam por aspectos linguísticos, pela educação estética e pelo contato com diferentes saberes e culturas. Além disso, já percebeu que desde a Antiguidade a literatura é uma forma de expressão de sentimentos, anseios, aspirações e ideologias. Assim, o saber literário permite a formação de um sujeito mais crítico e reflexivo, ou seja, trata-se de uma importante ferramenta de formação e educação do ser humano. Neste livro didático, especificamente, serão abordados temas referentes a gêneros, identidades, etnias e representações. Além de ampla, trata-se de uma temática bastante presente nas discussões contemporâneas e no dia a dia da escola. Dessa forma, os estudos que iniciamos a partir de agora pretendem propiciar uma reflexão analítica e crítica acerca da Literatura enquanto fenômeno social, histórico, cultural, político e ideológico, capaz de influenciar o modo de pensar e agir das pessoas. O livro didático está dividido em três unidades, sendo a primeira intitulada Relações de gênero e literatura. Inicialmente, discutiremos o conceito de gênero e como as questões relacionadas a essa temática estão presentes no cotidiano escolar. Também veremos como as questões de gênero são abordadas na literatura, de forma geral, bem como em algumas obras específicas. Na unidade denominada Raça, etnia, diversidade cultural e literatura, trataremos da diversidade cultural e suas implicações no contexto educacional. Faremos uma reflexão sobre a literatura pós-colonial e entraremos em contato com a literatura africana, indígena e de imigrantes. Por fim, na terceira unidade, intitulada Literatura, leitura e identidade na contemporaneidade, teremos a oportunidade de pensar a identidade do leitor contemporâneo frente à era digital. Também discutiremos a ciberliteratura e os novos suportes de leitura. Como você pode perceber, os assuntos a serem tratados neste livro didático são extremamente oportunos e pertinentes ao contexto educacional atual. Espera-se que por meio destes estudos seja possível ampliar o debate, alargar horizontes e aprimorar sua formação em torno das questões que envolvem o respeito à diversidade, tendo como viés os estudos literários. IV Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA Ao término de cada unidade, você também encontrará uma lista de referências bibliográficas, composta por autores e autoras com os quais dialogamos na tessitura do texto. São estudiosos — alguns mais antigos, outros mais recentes — que vêm fomentando o debate acerca dos temas trabalhados. À medida do possível, e quando você achar oportuno, busque essas referências para que possa ampliar o olhar sobre a temática estudada. Prof.a Marilsa Aparecida Alberto V Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais que possuem o código QR Code, que é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar mais essa facilidade para aprimorar seus estudos! UNI VI VII Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! LEMBRETE VIII IX UNIDADE 1 – RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA ..............................................................1 TÓPICO 1 – REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO .................................................3 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................................................3 2 GÊNERO E MOVIMENTO FEMINISTA ...........................................................................................4 3 COMPREENDENDO O CONCEITO DE GÊNERO ........................................................................6 4 ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO: COMPREENDENDO O CONCEITO DE GÊNERO E SUAS IMPLICAÇÕES .......................................................................................................................8 5 RELAÇÕES DE GÊNERO NO ESPAÇO ESCOLAR E INTERVENÇÃO DOCENTE .............14 6 GÊNERO GRAMATICAL E LINGUAGEM INCLUSIVA ............................................................21 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................25 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................26 TÓPICO 2 – LITERATURA, GÊNERO E A FORMAÇÃO DE LEITORAS E LEITORES ..........29 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................29 2 A INTERFACE ENTRE A LITERATURA E A REALIDADE SOCIAL ......................................30 3 A CRÍTICA LITERÁRIA FEMINISTA .............................................................................................334 QUESTÕES DE GÊNERO NAS NARRATIVAS INFANTIS E JUVENIS ..................................39 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................49 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................50 TÓPICO 3 – REPRESENTATIVIDADE E REPRESENTAÇÃO FEMININA NA LITERATURA BRASILEIRA ..........................................................................................53 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................53 2 A REPRESENTAÇÃO FEMININA EM CLARICE LISPECTOR .................................................54 3 A REPRESENTAÇÃO FEMININA EM LYGIA BOJUNGA .........................................................63 4 A REPRESENTAÇÃO FEMININA EM MARINA COLASANTI ................................................69 LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................74 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................77 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................78 UNIDADE 2 – RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA ..........................................................83 TÓPICO 1 – DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO ....................................................................................85 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................85 2 A DIVERSIDADE NO CONTEXTO ESCOLAR .............................................................................86 3 COMPREENDENDO O CONCEITO DE CULTURA E ETNOCENTRISMO .........................88 4 A DIVERSIDADE CULTURAL E A CONSTRUÇÃO DAS DIFERENÇAS ..............................94 5 A DIVERSIDADE NO CONTEXTO ESCOLAR ..........................................................................101 6 A EDUCAÇÃO NO CONTEXTO DAS LEIS nº 10.639/2003 E Nº 11.645/2008.........................103 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................106 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................107 sumário X TÓPICO 2 – A LITERATURA E OS ESTUDOS PÓS-COLONIAIS ............................................113 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................113 2 COLONIALISMO, ETNOCENTRISMO E EUROCENTRISMO ..............................................113 3 PÓS-COLONIALISMO ....................................................................................................................117 4 DESCOLONIZAÇÃO, LITERATURA E CRÍTICA PÓS-COLONIAL .....................................122 5 CRÍTICA LITERÁRIA FEMINISTA E ESTUDOS PÓS-COLONIAIS ....................................126 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................127 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................128 TÓPICO 3 – LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES ............................131 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................131 2 LITERATURA AFRICANA ...............................................................................................................131 2.1 JOSÉ LUANDINO VIEIRA ..........................................................................................................135 2.2 PEPETELA ......................................................................................................................................138 2.3 AGUALUSA ..................................................................................................................................142 2.4 PAULINA CHIZIANE ..................................................................................................................145 2.5 MIA COUTO...................................................................................................................................148 3 LITERATURA INDÍGENA ...............................................................................................................153 3.1 YAGUARÊ YAMÃ .........................................................................................................................157 3.2 DANIEL MUNDURUKU .............................................................................................................160 3.3 LITERATURA DE IMIGRANTES ................................................................................................166 3.3.1 Tatiana Salem Levy ..............................................................................................................167 3.3.2 Milton Hatoum .....................................................................................................................171 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................175 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................179 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................180 UNIDADE 3 – LITERATURA, LEITURA E IDENTIDADE NA CONTEMPORANEIDADE ...............................................................................183 TÓPICO 1 – LEITURA, EDUCAÇÃO E CULTURA DIGITAL .....................................................185 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................185 2 UM POUCO SOBRE A HISTÓRIA DA LEITURA .....................................................................186 2.1 CULTURA, LEITURA E LETRAMENTO DIGITAL .................................................................192 3 A ESCOLA NA ERA DIGITAL ........................................................................................................197 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................201 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................202 TÓPICO 2 – LITERATURA NA ERA DIGITAL ..............................................................................205 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................205 2 SUPORTES DE ESCRITA AO LONGO DA HISTÓRIA ............................................................205 3 CIBERLITERATURA, A LITERATURA NA ERA DIGITAL ......................................................212 4 NARRATIVAS E POESIAS DIGITAIS ...........................................................................................215 4.1 TRISTESSA, DE MARCO ANTONIO PAJOLA .......................................................................216 4.2 INANIMATE ALICE, DE KATE PULLINGER ...........................................................................217 4.3 UM ESTUDO EM VERMELHO, DE MARCELO SPALDING .................................................218 4.4 DOIS PALITOS, DE SAMIR MESQUITA ...................................................................................219 4.5 MINICONTOS COLORIDOS, DE MARCELOSPALDING .....................................................219 4.6 POESIA MULTIMÍDIA ................................................................................................................221 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................225 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................226 XI TÓPICO 3 – LITERATURA CONTEMPORÂNEA: VOZES, ........................................................229 ESPAÇOS E SUPORTES .......................................................................................................................229 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................229 2 CARACTERÍSTICAS DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA ....................230 3 CONHECENDO ALGUNS AUTORES DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA ...............................................................................................235 3.1 RUBEM FONSECA ........................................................................................................................236 3.2 FERNANDO BONASSI.................................................................................................................238 3.3 ADRIANA LUNARDI ...................................................................................................................240 4 A ESCOLA E A FORMAÇÃO DE LEITORES NA CONTEMPORANEIDADE ....................243 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................245 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................255 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................256 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................259 XII 1 UNIDADE 1 RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender e discutir o conceito de gênero e suas implicações no contexto educacional; • analisar como as questões de gênero são abordadas nas obras literárias; • identificar a representatividade e a representação feminina na literatura brasileira; • discutir aspectos relacionados à representatividade e à representação feminina na literatura brasileira. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO TÓPICO 2 – LITERATURA, GÊNERO E FORMAÇÃO DE LEITORAS E LEITORES TÓPICO 3 – REPRESENTATIVIDADE E REPRESENTAÇÃO FEMININA NA LITERATURA BRASILEIRA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO 1 INTRODUÇÃO Os assuntos abordados neste primeiro tópico fazem parte de uma pauta bastante atual, quando diversos setores da sociedade têm debatido questões de gênero, respeito às diferenças e conquista de novos espaços pelas mulheres. É possível que neste momento você esteja se perguntando: qual é a relação do docente de Língua Portuguesa e Literatura com essas discussões? Primeiramente é preciso compreender que a sala de aula é, por excelência, espaço da diversidade, no qual é possível encontrar uma pluralidade de expressões. Saber lidar com essa diversidade de forma ética e responsável é um desafio para todos que resolveram dedicar-se ao magistério. Por esse motivo, concordamos com a professora Maria Eulina Pessoa de Carvalho ao afirmar que “gênero atravessa as relações escolares e interessa a educador/as. Atravessa as relações sociais e interessa a todas as pessoas. Então é preciso estudar e entender gênero, sua construção e suas implicações para o desenvolvimento humano e para a vida coletiva” (CARVALHO, 2000, p. 19). Além disso, é preciso ter em mente que, mesmo que o corpo docente adote uma postura de não trabalhar diretamente com questões relacionadas a gênero em sala de aula, essa temática emerge naturalmente no contexto escolar. A propósito, considerando que profissionais que trabalham com a Língua Portuguesa e a Literatura têm a linguagem como principal ferramenta de trabalho, é oportuno ressaltar que ela se constitui em um instrumento poderoso no processo de construção do gênero, uma vez que o ser humano tende a incorporar esse conceito por meio do aprendizado de discursos que são produzidos a partir de padrões socialmente determinados como sendo inerentes à constituição feminina ou masculina. Por hora, este primeiro tópico irá retomar, inicialmente, um pouco da história do movimento feminista, didaticamente dividido na Primeira, Segunda e Terceira Onda Feminista. A seguir, será abordado o conceito de gênero e suas implicações práticas no cotidiano de homens e mulheres e, finalmente, faremos alguns apontamentos sobre como as questões de gênero se manifestam no espaço escolar, dando algumas pistas sobre o trabalho que pode ser realizado em sala de aula. UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 4 2 GÊNERO E MOVIMENTO FEMINISTA Vamos iniciar nossa conversa sobre gênero fazendo uma pequena retrospectiva histórica. Provavelmente, você deve ter ouvido bastante essa palavra ultimamente, visto que ela tem estado em evidência tanto na mídia como nos discursos que norteiam as políticas públicas do país. Entretanto, o conceito de gênero não é recente, tendo sido incorporado às discussões pertinentes às Ciências Sociais desde a década de 1970. Isso mesmo! Embora para muitas pessoas possa parecer um conceito novo, há aproximadamente cinquenta anos diversas pesquisas, dos mais diversos campos do saber, vêm tratando de estudos sobre esse tema. De acordo com a definição encontrada em Barreto, Araújo e Pereira (2009, p. 60), gênero é um [...] conceito formulado nos anos 1970 com profunda influência do pensamento feminista. Ele foi criado para distinguir a dimensão biológica da dimensão social, baseando-se no raciocínio de que há machos e fêmeas na espécie humana, no entanto, a maneira de ser homem e de ser mulher é realizada pela cultura. Assim, gênero significa que homens e mulheres são produtos da realidade social e não decorrência da anatomia de seus corpos. Como você pôde perceber neste pequeno conceito, as discussões em torno desse assunto surgiram no bojo do movimento feminista, organização de cunho político e social em defesa da igualdade de direitos, oportunidades e tratamento entre homens e mulheres. É importante ressaltar que o movimento feminista não surgiu nos anos 1970. A partir da Revolução Francesa (1789), que foi embasada nos princípios da liberdade, igualdade e fraternidade, as mulheres começaram a tomar consciência das desigualdades sociais às quais eram expostas. A partir de então as reflexões em torno dessas diferenças entre homens e mulheres foram intensificando-se, passando por três momentos distintos, denominados “ondas feministas”. Veja, a seguir, as principais características dessas três fases: • A Primeira Onda feminista ocorreu no final do século XIX e início do século seguinte. Destacou-se, nesse momento, o movimento sufragista, que lutava pela garantia do direito ao voto das mulheres. Tal movimento já vinha ocorrendo na Inglaterra e nos Estados Unidos, com destaque para a escritora Mary Wollstonecraft, que desde 1792 já escrevia livros e manifestos em defesa do voto feminino. Interessante, não é? No final do século XVIIIela já clamava sobre os direitos das mulheres na obra Vindication of the rights of women, traduzida livremente por Nísia Floresta, com o título Os direitos das mulheres e as injustiças dos homens (ZINANI, 2009). No contexto da Primeira Onda feminista foi notório, no Brasil, o envolvimento da bióloga Bertha Lutz que fundou, em 1922, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, com o objetivo de lutar pela extensão de direito de voto às mulheres, entre outras pautas. • A Segunda Onda feminista perdurou entre os anos de 1960 a 1980, com a intensificação da luta pela igualdade social e de direitos e contra toda forma de opressão, além das discussões acerca da liberdade sexual, maternidade e reprodução. Nesse momento, o movimento foi bastante influenciado pelas TÓPICO 1 | REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO 5 ideias de Simone de Beauvoir, que em 1949 havia publicado o livro O Segundo Sexo, no qual ela reflete sobre a inferiorização feminina, inaugurando um novo modelo de pensamento acerca da mulher na sociedade moderna. Nesta obra, fica evidente o pensamento existencialista da autora por meio da célebre frase “Não se nasce mulher, torna-se mulher” (BEAUVOIR, 1980, p. 9). Observe que essa frase está estritamente relacionada ao conceito de gênero apresentado no início deste tópico, que enfatiza que a maneira de ser homem e ser mulher é mediada pela sociedade e pela cultura, e não pela anatomia dos corpos. De acordo com Zinani (2011, p. 412), “essa obra foi um marco no pensamento feminista, discutindo a questão da mulher através de vários ângulos: da biologia, da psicanálise, do materialismo histórico, a fim de demonstrar como a realidade feminina se constitui como o outro e quais as consequências desse posicionamento”. Para Silva (2007, p. 2), o ganho concreto para as mulheres, decorrente da Segunda Onda feminista, foi “[...] a emergência da questão de gênero na agenda governamental e a consequente implementação de política públicas direcionadas para as mulheres, principalmente, na área de combate à violência e na atenção à saúde”. • A Terceira Onda feminista iniciou-se a partir dos anos 1990, tendo como particularidade a busca de total liberdade de escolha pelas mulheres. Na pauta do movimento feminista destacam-se questões referentes à igualdade salarial entre homens e mulheres, igualdade de participação política, combate ao assédio e à violência contra a mulher, libertação de padrões de beleza culturalmente impostos, entre outros. Também é importante observar que no contexto da Terceira Onda surgiu o termo interseccionalidade, utilizado para referir-se a marcadores sociais da diferença que se interagem, potencializando cenários de desigualdades sociais e hierarquizações. Trata-se, por exemplo, das diversas formas de opressão que uma mesma mulher pode sofrer quando as questões de gênero se interseccionam com outros marcadores, como idade/ geração, raça/etnia, classe social, dentre outros (HENNING, 2015). Conforme apontado por Zinani (2011, p. 413), [...] a Terceira Onda apresenta uma pauta de reivindicações mais ampla do que o grupo da Segunda Onda, uma vez que engloba a teoria queer, a conscientização da negra, o pós-colonialismo, a teoria crítica, o transnacionalismo, entre outros. Aponta como aspecto relevante a autoestima sexual, uma vez que a sexualidade é também uma modalidade de poder. Feministas marginalizadas, anteriormente, contribuem para estabelecer a identidade dessa onda que acredita ser a contradição e a negociação das diferenças uma das características mais significativas do feminismo contemporâneo. Como você deve ter percebido, essas ondas mostram que as mulheres vêm se organizando na história de diversas maneiras e contextos, sendo que cada momento tem suas pautas, demandas, reinvindicações, interesses e conquistas. Em meio a esses movimentos surgiu a crítica literária feminista, assunto que será abordado mais adiante, ainda nesta unidade. UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 6 Quer saber mais sobre a Primeira Onda Feminista que tinha, dentre suas pautas, o direito ao voto feminino? Assista ao filme As sufragistas (2015), ambientado na Inglaterra do início do século XX, quando o movimento feminista lutava pelo direito de voto e melhores condições de vida para as mulheres. FICHA TÉCNICA Título: Suffragette (Original) Ano produção: 2015 Dirigido por: Sarah Gavron Duração: 106 minutos Gênero: Biografia-Drama-História Países de Origem: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte DICAS FIGURA – AS SUFRAGISTAS FONTE: http://www.ipvc.pt/ese- geed-cinema-as-sufragistas. Acesso em: 7 set. 2019. 3 COMPREENDENDO O CONCEITO DE GÊNERO Dando continuidade a nossa conversa sobre gênero, é importante ter uma compreensão clara acerca desse conceito. Afinal, o que é gênero? Para responder a essa indagação é pertinente estabelecer a diferença entre as terminologias gênero e sexo, observando que são dois conceitos distintos, embora sejam algumas vezes utilizados equivocadamente como sinônimos. Entende-se por sexo as distinções biológicas entre homens e mulheres, ou seja, ao classificar os seres humanos a partir desta categoria, faz-se uma separação entre eles de acordo com as diferenças impressas na anatomia de seus corpos. O sexo, portanto, é construído biologicamente e está relacionado à constituição dos órgãos genitais, que apontam se determinada pessoa, ao nascer, é macho ou fêmea. O conceito de gênero, por sua vez, é muito mais amplo, devendo ser compreendido na perspectiva da construção das identidades. De acordo com Scott (1989, p. 3), [...] o “gênero” parece ter aparecido primeiro entre as feministas americanas que queriam insistir no caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como “sexo” ou “diferença sexual”. O gênero sublinhava também o aspecto relacional das definições normativas das feminilidades. TÓPICO 1 | REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO 7 Louro (1997), por sua vez, explica que as questões de gênero estão relacionadas à subjetividade, bem como a aspectos históricos, sociais e culturais que diferenciam homens e mulheres. Por esse motivo, pessoas que viveram em épocas diferentes ou que tiveram contato com culturas diferentes podem ter comportamentos totalmente distintos, mesmo tendo o mesmo formato de órgão genital. E o que isso significa, na prática? Significa que a forma de se portar, de homens e mulheres, corresponde a aprendizagens socioculturais adquiridas ao longo da vida. Em outras palavras, o modo de ser, pensar e agir das pessoas não é determinado apenas pelo órgão sexual com o qual elas nasceram. Trata-se de uma dimensão que se constrói progressivamente, de acordo com o meio em que se vive, com os exemplos que se tem, com os discursos que se ouve. Um exemplo simples de como os discursos circulantes podem moldar o comportamento das pessoas é o dito popular Homem que é homem não chora. Uma pessoa que ouve constantemente essa frase, no meio em que vive, mesmo sem perceber vai incorporando essa crença ao longo da vida, passando a acreditar que o não chorar é uma atribuição natural do ser homem, e não algo que lhe foi ensinado, mesmo que de forma indireta. Considerando então que o gênero é incorporado por meio da vivência de comportamentos, é importante lembrar que estes são predefinidos pela própria sociedade que, imbuída pelo senso comum, acredita que as diferenças entre homens e mulheres se devem unicamente a motivos naturais. Dessa forma, a própria sociedade é quem dita as regras daquilo que é ou não pertinente a homens e mulheres, rapazes e moças, meninos e meninas. O papel que a biologia desempenha na determinação de comportamentos sociais é fraco — a espécie humana é essencialmente dependente da socialização. Contudo, de acordo com o senso comum, as condutas de homens e mulheres originam-se de uma dimensão natural(os instintos) inscrita nos corpos com que cada indivíduo nasce. Acredita-se, com frequência, que existe um tipo de personalidade ou padrão de comportamento para cada um dos sexos. Na cultura ocidental, supõe-se que o masculino seja dotado de maior agressividade e o feminino de maior suavidade e delicadeza (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 45). O conceito de gênero, portanto, foi cunhado com o intuito de mostrar que o sexo anatômico não é suficiente para definir as formas de comportamento e as condutas humanas, ressaltando a importância e a influência dos aspectos sociais e culturais no decorrer deste processo de construção da identidade do sujeito. UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 8 Em uma sociedade patriarcal, por exemplo, ser representado como homem pressupõe os atributos de força, virilidade e insensibilidade, uma vez que, desde a mais tenra infância, a grande maioria dos homens é advertida de que “homem não chora”, e de que qualquer demonstração de sentimentos pode gerar dúvidas em relação à masculinidade. Por outro lado, ser representada como mulher pressupõe a existência de valores tradicionalmente considerados “femininos”, tais como a maternidade, a empatia, a sensibilidade, a solidariedade e o sentimentalismo (BELLIN, 2011, p. 6). Percebe-se, assim, que características que muitas vezes são atribuídas ao sexo com que a pessoa nasceu, são, na verdade, resultantes de aprendizagens construídas ao longo da vida. Portanto, a diferença sexual não é a única variável na construção da identidade dos sujeitos, pois nesse processo entram em cena os valores e as normas de conduta que configuram as representações culturais e sociais. 4 ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO: COMPREENDENDO O CONCEITO DE GÊNERO E SUAS IMPLICAÇÕES Até aqui você já compreendeu o conceito de gênero e situou-o cronologicamente, a partir da contextualização histórica do movimento feminista. Agora, vamos refletir sobre as implicações sociais decorrentes das diferentes concepções em relação às questões de gênero. Para isso, é oportuno retomar o pensamento de Louro (1997, p. 20-21) ao afirmar que: O argumento de que homens e mulheres são biologicamente distintos e que a relação entre ambos decorre dessa distinção, que é complementar e na qual cada um deve desempenhar um papel determinado secularmente, acaba por ter o caráter de argumento final, irrecorrível. Seja no âmbito do senso comum, seja revestido por uma linguagem “científica”, a distinção biológica, ou melhor, a distinção sexual, serve para compreender — e justificar — a desigualdade social. Conforme observado nesse trecho, a principal implicação desta concepção que limita as diferenças entre homens e mulheres a aspectos unicamente biológicos é que ela passa a servir de justificativa para a preservação e a reprodução das desigualdades de gênero, que são muitas em nossa sociedade. Esta posição também é defendida nos Parâmetros Curriculares Nacionais, formulados pelo MEC, que na década de 1990 já diziam o seguinte sobre o assunto: O conceito de gênero diz respeito ao conjunto das representações sociais e culturais construídas a partir da diferença biológica dos sexos. Enquanto o sexo diz respeito ao atributo anatômico, no conceito de gênero toma-se o desenvolvimento das noções de ‘masculino’ e ‘feminino’ como construção social. O uso desse conceito permite abandonar a explicação da natureza como a responsável pela grande diferença existente entre os comportamentos e os lugares ocupados por homens e mulheres na sociedade. Essa diferença historicamente tem privilegiado os homens, na medida em que a sociedade não tem TÓPICO 1 | REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO 9 oferecido as mesmas oportunidades de inserção social e exercício de cidadania a homens e mulheres. Mesmo com a grande transformação dos costumes e dos valores que vêm ocorrendo nas últimas décadas, ainda persistem muitas discriminações, por vezes encobertas, relacionadas ao gênero (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 45). A referência, no trecho que você acabou de ler, a diferentes lugares ocupados por homens e mulheres na sociedade, faz alusão à distinção, historicamente engendrada, da rua enquanto espaço masculino e do lar enquanto espaço feminino. Muito embora as formas de apropriação do espaço pelas mulheres venham se modificado progressivamente, os discursos que permeiam as relações de gênero ainda são baseados em relações hegemônicas de poder, que podem ser percebidas por meio de diversos estereótipos e preconceitos. Essa delimitação de espaços nos permite reportar à Grécia Antiga, quando a cidadania era exercida somente pelos homens que participavam das decisões políticas e das atividades relativas ao mercado na praça principal da polis, que representava o espaço público. Às mulheres era negado o direito de participar das decisões que aconteciam nesse espaço, ficando responsáveis por cuidar da oikos, que era a unidade social que comportava os membros da família. Observa-se, porém, que também no espaço da oikos as mulheres não tinham voz ativa, pois a família era nuclear e seguia uma rígida hierarquia na qual o poder se concentrava na figura masculina paterna. Assim, historicamente o espaço público, simbolizado pela rua, é identificado como sendo um espaço tipicamente masculino. Durante muitos séculos, o homem assumiu o papel de provedor, saindo de casa para as ruas em busca de renda para o sustento familiar, enquanto à mulher cabia a execução de tarefas domésticas. Este tipo de relação social de gênero naturalizou-se com o passar dos tempos, distinguindo o papel familiar de cada um: o homem, por ser o produtor/provedor apropriou-se do espaço público incorporando-se no mercado de trabalho e à mulher coube o papel reprodutivo biológico, no âmbito domiciliar. Conforme Bourdieu, a divisão do trabalho entre os sexos concede ao homem a política, como lhe concede o exterior, a praça pública, o trabalho assalariado fora de casa, etc., ao passo que vota a mulher ao interior, ao trabalho obscuro, invisível, e também à psicologia, ao sentimento, à leitura de romances, etc. (BOURDIEU, 2003, p. 21). Atualmente, nem todas as famílias se enquadram nesse modelo de família nuclear e essa distinção de papéis, segundo o gênero, vem se modificando. Entretanto, os reflexos desse modelo familiar patriarcal que perdurou por tanto tempo na sociedade continua influenciando o processo de organização familiar e na educação das crianças. Assim, ainda é comum, em muitas famílias, encontrar situações em que tanto o homem como a mulher trabalham fora para o provimento da casa, mas, ao término da jornada de trabalho, enquanto o homem descansa, a mulher cuida da organização do lar. Também é comum encontrar UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 10 mães que ensinam às filhas desde cedo a arrumarem a casa, mas isentam os filhos desta aprendizagem. Da mesma forma, diversas famílias liberam as crianças do sexo masculino para brincarem de bola ou bicicleta na rua, enquanto as do sexo feminino brincam de casinha dentro de casa. E tem mais: A divisão do “espaço público e privado” pode ser percebida, por exemplo, quando se quer insultar uma mulher. Ela é chamada de “mulher da rua”, “vadia”, “puta”, em oposição à “mulher da casa”, “mulher ou moça de família”, “santa”, “do lar”. A oposição “rua x casa” é particularmente interessante para percebermos como os gêneros masculino e feminino estão associados a cada uma dessas instâncias, conformando a divisão entre o mundo da produção (masculino) e o da reprodução (feminino) (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 55). Essa forma de pensar o espaço da rua, levando em consideração a distinção dos gêneros, reflete-se em várias instâncias da vida social. Vamos pensar, por exemplo, nas relações de gênero presentes nas situações que envolvem o trânsito. A relação do homem com o automóvel é construída socialmente, desde a infância, quando o quarto dos meninos é decoradocom automóveis e os presentes mais comuns que recebem são carrinhos, pistas de corrida, skates e jogos eletrônicos que remetem à ideia de velocidade e competitividade, comuns no ambiente do trânsito. Além disso, são encorajados a brincar em espaços abertos e a ter um comportamento que prioriza a força, a valentia e a independência. Os estímulos recebidos, portanto, reforçam seu pertencimento ao espaço público e estimulam a criatividade e a agressividade. Esses pequenos gestos refletem a preparação do menino para ser um futuro motorista a usufruir, quando adulto, do espaço público. As meninas, por outro lado, são orientadas a ter um comportamento mais sensível, frágil, dependente, dócil e passivo. Os brinquedos que recebem (bonecas, panelinhas e outros utensílios domésticos) reforçam seu pertencimento ao ambiente doméstico e seu envolvimento com situações que indiquem o cuidado com os filhos ou com o lar. Não é de se estranhar, portanto, que quando alguém vê uma mulher tendo alguma conduta inadequada no trânsito, repita a frase “Vai pilotar fogão!”, cujo significado remete à exclusão do espaço público e sua devolução ao universo doméstico. A forma de apropriação do espaço pela mulher vem se modificando através dos tempos, muito embora o discurso social que rege as condutas de gênero tenha se perpetuado de maneira a reproduzir relações hegemônicas nas quais as mulheres sempre ocupam uma posição inferior em relação ao homem. Assim, se por um lado a mulher vem conquistando espaço no trânsito, por exemplo, por outro lado essa conquista não é legitimada nos mecanismos dos discursos sociais, que continuam propagando que lugar de mulher é na cozinha, pilotando fogão. Vale lembrar aqui que a utilização do automóvel pela mulher, além de significar a conquista do espaço da rua, significa também a conquista de espaço no mercado de trabalho, realizando funções que até pouco tempo eram consideradas típicas do universo masculino (SOUZA, 2010). TÓPICO 1 | REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO 11 Além disso, até o início do século XX, as relações assimétricas entre homens e mulheres eram respaldadas pela ideologia da maternidade, que, segundo Rago (2001), reduzia as mulheres à esfera privada, lugar considerado natural da esposa/ mãe/dona de casa. Entretanto, é importante observar que somente as mulheres pertencentes a famílias mais abastadas ficavam restritas ao espaço doméstico, podendo dedicar seu tempo unicamente à maternidade. Mulheres pobres sempre trabalharam fora de casa, o que corrobora com a ideia de que diferentes desigualdades, quando interagidas simultaneamente — neste caso, o fato de ser pobre e ser mulher — geram tratamentos desiguais. O fato de trabalhar fora, entretanto, não significa reconhecimento. Segundo Fonseca (2001, p. 517), [...] ironicamente, apesar de ser evidente que em muitos casos a mulher trazia o sustento principal da casa, o trabalho feminino continuava a ser apresentado pelos advogados e até pelas mulheres como um mero suplemento à renda masculina. Sem ser encarado como profissão, seu trabalho em muitos casos nem nome merecia. Além desse caráter de invisibilidade, a mulher trabalhadora era duplamente discriminada: primeiro pela sociedade, pois em vez de ser admirada por ser boa trabalhadora, como o homem em situação parecida, a mulher com trabalho assalariado tinha de defender sua reputação contra a poluição moral, uma vez que o assédio sexual era lendário (FONSECA, 2001), e também em relação ao salário, visto que, em geral, na divisão do trabalho, as mulheres ficavam com as tarefas menos especializadas e mal remuneradas; os cargos de direção e de concepção, como os de mestre, contramestre e assistente, cabiam aos homens (RAGO, 2001). A partir da segunda metade do século XX, o movimento feminista conseguiu colocar em discussão o tema da desvalorização da mulher, expressamente manifestado na divisão sexual do trabalho, na organização política e no ordenamento jurídico social. À custa de muita persistência e luta foi possível pensar em uma nova configuração social por meio de legislações e políticas públicas voltadas para a valorização da mulher. A partir da década de 1960, o movimento pela saúde da mulher passou a defender o direito ao acesso à contracepção, que possibilitou a autonomia das mulheres na escolha do momento para engravidar, criando assim maiores possibilidades de inserção e permanência no mercado de trabalho. Tal situação pode ser considerada uma conquista, pois, [...] penetrar na esfera pública era um velho anseio por longo tempo vedado às mulheres. Significava uma conquista, possibilitando- lhes, segundo Hannah Arendt, assumir sua plena condição humana através da ação política, da qual, por longo tempo, permaneceram violentamente excluídas. Passavam as mulheres a garantir sua transcendência, pois o espaço público, afirma aquela filósofa, não pode ser construído apenas para uma geração e planejado somente para os que estão vivos: deve transcender a duração da vida dos homens mortais, aos quais acrescentamos, também, a das mulheres mortais (SOIHET, 2002, p. 116). Não restam dúvidas de que foram muitas as conquistas obtidas pelas mulheres ao longo da história. Entretanto, a luta continua, pois existem muitas demandas a serem atendidas. Reflita a seguir sobre algumas delas: UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 12 • Em décadas não muito distantes, o mercado de trabalho era majoritariamente masculino, sendo que a mulher não tinha muitas perspectivas em relação à carreira profissional. Muito embora esse quadro tenha mudado e a mulher apresente uma presença significativa nesse setor, ainda existem alguns impasses que não foram solucionados, como, por exemplo, salários inferiores, mesmo realizando funções semelhantes às dos homens e menor quantidade de mulheres em cargos de chefia e liderança. • Atividades relacionadas ao cuidado como cuidar do lar, das crianças, dos idosos ou dos doentes, por exemplo, quase sempre são atribuídas às mulheres. Além da carga horária diária dedicada ao trabalho remunerado, cabe às mulheres a realização destas atividades de cuidado que acabam trazendo implicações em relação à participação em condições de igualdade no mercado de trabalho, restringindo as oportunidades de acesso aos recursos econômicos, culturais, sociais e políticos. O fato de a mulher engravidar e amamentar faz com que quase toda a totalidade do trabalho reprodutivo fique sob sua responsabilidade, levando algumas delas a abandonarem a carreira profissional para cuidar dos filhos, fato que gera uma dependência econômica em relação aos homens. Ou então, nota-se um excesso de trabalho devido ao acúmulo da jornada laboral remunerada com os afazeres domésticos. Em suma, a conquista do mercado de trabalho pela mulher trouxe, em contrapartida, impactos na saúde física e mental, incluindo o sentimento de culpa por achar que não está desempenhando bem essas funções relacionadas ao cuidado. • Em relação à participação política, o ato de votar só foi conquistado pelas mulheres brasileiras em 1932 devido à intensa luta do movimento sufragista feminino. Entretanto, a representatividade feminina nos cargos eletivos ainda hoje é bastante pequena, muito embora as mulheres correspondam a quase 52% do eleitorado brasileiro. O fato de as mulheres não serem devidamente representadas no sistema político implica, para alguns estudiosos, no enfraquecimento da elaboração e execução de políticas públicas que priorizem as questões de gênero. Conforme já mencionado, essas diferenças entre os gêneros são construídas culturalmente, sendo que o papel esperado de cada pessoa já é delimitado desde o nascimento, sendo que tais expectativas continuam ao longo da vida. A partir do momento em que se sabe o sexo do bebê, aqueles que fazem parte de seu círculo de relações (pai, mãe, família, escola e sociedade em geral) passam a ensinar, de forma direta ou indireta, determinados comportamentose modos de conduta, ou seja, a todo momento as crianças são bombardeadas com estímulos que reforçam a divisão de papéis entre os diferentes gêneros. Não se trata de negar as diferenças físicas e biológicas entre homens e mulheres, que comprovadamente existem. Pretendemos, sim, refletir se essas diferenças justificam formas desiguais de tratamento. Além disso, vale lembrar que uma das consequências mais graves da desigualdade de gênero é a violência de gênero, que é aquela proveniente de preconceitos e da desigualdade instaurada entre mulheres e homens. TÓPICO 1 | REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO 13 [...] a despeito de todos os avanços e conquistas das mulheres na direção da equidade de gênero, persiste entre nós essa forma perversa de manifestação do poder masculino por meio da expressão da violência física, sexual ou psicológica, que agride, amedronta e submete não só as mulheres, mas também os homens que não se comportam segundo os rígidos padrões da masculinidade dominante (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 74). A questão do gênero em interface com a violência é um fenômeno social presente no cotidiano. Trata-se de um fenômeno complexo cujas raízes envolvem questões sociais, econômicas, políticas e culturais, estando diretamente relacionado com as desigualdades sociais e as relações de gênero. Os alarmantes e assustadores números referentes à violência de gênero em nosso país apontam para a necessidade de ações multisetoriais e multidisciplinares, ações estas que não poderiam isentar a participação da escola, entendida como espaço educativo por excelência. Com certeza, você já ouviu falar na Lei Maria da Penha, decretada em 2006, com o objetivo de criar mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. O nome Maria da Penha é uma homenagem a Maria da Penha Maia Fernandes, farmacêutica e bioquímica que sofreu violência doméstica durante 23 anos de casamento, tendo ficado paraplégica após ser vítima de dupla tentativa de feminicídio pelo marido. Seu caso é representativo da violência doméstica sofrida por inúmeras mulheres em nosso país. Para saber mais sobre a história dessa mulher você pode: • Acessar o site do Instituto Maria da Penha e ler sobre sua história de vida: http://www. institutomariadapenha.org.br/. • Ler o livro Sobrevivi... posso contar, escrito por ela mesma. • Assistir ao documentário O silêncio das inocentes (2010), dirigido por Ique Gazzol. DICAS FONTE: https://www.saraiva.com.br/ sobrevivi-posso-contar-3065914/p>. Acesso em: 7 set. 2019. FONTE: http://www.ameliapt.com.br/ sesc-tv-exibe-documentario-violencia- domestica-mulher-dia-2812/. Acesso em: 7 set. 2019. FIGURA – SOBREVIVI... POSSO CONTAR FIGURA – SILÊNCIO DAS INOCENTES UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 14 Nesse subtópico, você esteve em contato com o conceito de gênero e suas implicações e compreendeu o contexto em que o termo começou a ser utilizado. Pelos estudos realizados até aqui você deve ter percebido que o conceito de gênero parte de uma perspectiva relacional, isto é, os estudos relacionados às mulheres e aos homens devem ser “definidos em termos recíprocos e nenhuma compreensão de qualquer um pode existir através de estudo inteiramente separado” (SCOTT, 1989, p. 4). Essa perspectiva relacional também é explorada por Bellin (2011, p. 7), que explica que “o gênero é também a representação de uma relação, a relação de pertencer a uma classe. A noção de gênero constrói uma relação entre uma pessoa e outras pessoas previamente constituídas como classe, não se referindo a um indivíduo isolado e sim a uma relação social”. Para Matos e Soler (1997, p. 97) “a categoria gênero procura destacar que os perfis de comportamento feminino e masculino se definem um em função do outro. Esses perfis se constituem social, cultural e historicamente num tempo, espaço e cultura determinados”. Tendo compreendido o conceito de gênero sua abordagem enquanto categoria relacional, no próximo subtópico trataremos das questões de gênero em um espaço específico que é o ambiente escolar. 5 RELAÇÕES DE GÊNERO NO ESPAÇO ESCOLAR E INTERVENÇÃO DOCENTE Conforme vimos até aqui, até o momento de ser enviada para a escola, a criança já incorporou diversos comportamentos relativos às questões de gênero aprendidos na convivência familiar e em outros grupos sociais dos quais porventura ela faça parte; já percorreu um caminho social no qual conviveu com diferentes pessoas e teve contato com diferentes modelos de homem, de mulher e de família e já começou a construir suas referências de gênero tendo como base essas pessoas com as quais conviveu, os discursos que ouviu, os comportamentos que assimilou. Ao ingressar na escola, e durante os vários anos de permanência na instituição, amplia-se consideravelmente o leque de relacionamentos da criança/adolescente, e a escola passa a ser um novo local de aprendizagem de comportamentos e de construção (ou desconstrução) de estereótipos e preconceitos adquiridos em relação às questões de gênero. O processo de socialização que ocorre no ambiente escolar, tanto na infância quanto na adolescência, tem importância fundamental na construção da identidade do sujeito, sendo que a escola tem significativa responsabilidade no processo de formação de meninos e meninas, bem como de moças e rapazes, ao desnaturalizar as diferenças de gênero e possibilitar um ambiente propício ao debate acerca das desigualdades decorrentes dessas diferenças. TÓPICO 1 | REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO 15 Conforme já mencionado no decorrer desta unidade, a imagem que construímos acerca do outro no que tange às questões de gênero são construídas a partir dos modelos que a própria sociedade nos oferece. Em outras palavras, é a sociedade, e não os aspectos biológicos, que determina as normas de comportamento, bem como as possibilidades e os limites de cada sujeito. À medida que estamos convencidos de que as diferenças entre os gêneros não estão inscritas nos corpos, mas são decorrentes de aprendizagens construídas desde o nascimento, é possível, em contrapartida, desconstruí-las por meio do processo educativo, conforme sugerido por Moreno (1999, p. 28) ao afirmar que se os seres humanos se comportassem unicamente a partir de seus impulsos biológicos, se as condutas consideradas masculinas e femininas fossem espontâneas, naturais e predeterminadas, não seria necessário educar tão cuidadosamente todos os aspectos diferenciais; bastaria deixar que a natureza atuasse por si mesma. A escola, portanto, enquanto espaço de socialização e interação, possibilita o processo de construção de homens e mulheres enquanto sujeitos sociais. Nesse espaço, os sujeitos não somente são influenciados como também ajudam a construir o próprio meio no qual estão inseridos. A escola, portanto, não é uma instância neutra. Mesmo que haja um silenciamento por parte da instituição ao optar por não trabalhar diretamente com questões que envolvam diversidade e gênero, este silenciamento, por si só, já produz um efeito sobre a realidade dos sujeitos inseridos na dinâmica escolar. Em outras palavras, mesmo que a escola não aborde em seu currículo, seja de forma transdisciplinar ou interdisciplinar, temática que envolva a desigualdade entre os gêneros, o currículo oculto manifesto no ambiente escolar tem muito a dizer. Sobre o currículo oculto, que pode ser definido como um conjunto de normas, princípios e valores transmitidos de forma tácita no ambiente escolar, Giroux (1986, p. 70) propõe três bases essenciais que permitem melhor compreender sua fundamentação: As escolas não podem ser analisadas como instituições removidas do contexto socioeconômico em que estão situadas; as escolas são espaços políticos envolvidos na construção e controle do discurso, dos significados e das subjetividades; os valores e crenças do senso comum que guiam e estruturam a prática escolar não são universais a priori,mas construções sociais baseadas em pressuposições normativas políticas. Concordando com os fundamentos apresentados por Giroux (1986), é possível afirmar a existência de uma relação intrínseca entre a instituição educativa e os sistemas social, cultural e econômico, que perpassa pelo conceito do currículo oculto. Por meio da investigação desse currículo é possível proceder a uma análise do que ocorre por entre os muros escolares. UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 16 Desse modo, a instituição escolar pode acabar reproduzindo, mesmo que de forma sutil ou velada, práticas androcêntricas já enraizadas em uma cultura patriarcal que não dá espaço para questionamentos acerca de um modelo diferente de relações entre homens e mulheres pautados em princípios de respeito, igualdade e justiça, sem fortalecer modos de conduta, pensamentos e atitudes discriminatórias. O currículo oculto pode se manifestar, por exemplo, por meio da prática do bullying no interior da escola e consequente posicionamento da equipe escolar frente a essa situação. A forma como a escola lida (ou deixa de lidar), em seu dia a dia, com essas manifestações de violência expressa, de forma indireta, seus valores e princípios. Sendo uma prática bastante recorrente no ambiente escolar: O bullying é um problema generalizado em escolas de todo o mundo. Trata-se de uma violência intencional e repetitiva, praticada por um ou mais estudantes e dirigida a outros, manifestando uma relação de desigualdade de poder. O bullying exerce efeito negativo sobre a escolarização, a saúde e o desenvolvimento psicossocial, atingindo, além de suas vítimas, dos próprios agressores e das testemunhas. Essas agressões podem ser praticadas de forma reativa, como defesa contra alguma provocação ou agressão sofrida, ou de forma proativa, como uma ação deliberada e planejada, com o propósito de atingir algum objetivo, não necessitando de estímulos para se efetivar (SILVA et al., 2019, p. 2). Em se tratando especificamente da violência de gênero, o que muitas vezes acontece na escola é que a discriminação a determinados grupos considerados frágeis ou passíveis de serem dominados (mulheres, homens que não manifestam uma masculinidade violenta etc.) é exercida por meio de apelidos, exclusão, perseguição, agressão física. Além disso, a depredação de instalações ou atos de vandalismo são algumas das manifestações públicas da violência por parte daqueles que querem se impor e se afirmar pela força de seu gênero (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 76). Ainda sobre o currículo oculto que permeia o ambiente educacional, é interessante observar que a própria estrutura escolar é uma forma silenciosa de ensino que pode ser considerado um “elemento curricular que proporciona aprendizagem de um conjunto de valores, normas, conteúdos e estímulos que não são determinados pelo currículo formal [...]” (SÁ, 2007, p. 131-132). Não é raro adentrar em salas de aula e constatar, pela própria disposição das carteiras, uma separação evidente entre alunos e alunas. Essa divisão fica mais patente quando se observa as brincadeiras e os jogos organizados durante o recreio, nos quais é possível notar uma expressa demarcação de espaços e territórios. Conforme Barreto, Araújo e Pereira (2009, p. 105), “esses territórios são construídos utilizando-se diferentes artifícios originados nos conceitos preestabelecidos de masculino e feminino e de relações de poder”. TÓPICO 1 | REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO 17 Assim é possível constatar, no pátio escolar, atividades consideradas exclusivas de meninas (geralmente são atividades mais calmas), de meninos (atividades mais agitadas) ou outras em que ambos podem participar (atividades que não requerem habilidades e movimentos próprios “de meninos” ou “de meninas”). A cada ano que passa, essas delimitações de territórios vêm se apresentando menos rígidas, sendo comum encontrar, por exemplo, meninas jogando futebol. Cabe notar, porém, que quando a situação é inversa (meninos se ocupando de atividades tradicionalmente consideradas femininas, como brincar de boneca, por exemplo), o estranhamento das pessoas é mais exacerbado. Tal situação está relacionada à hierarquização dos gêneros, que atribui valores àquilo que é pertinente ao masculino e ao feminino. Por esse motivo, é frequente a desvalorização de meninos ou rapazes que realizam atividades do universo feminino, consideradas atividades inferiores. [...] as atividades típicas do pátio são potentes expressões de como as concepções de gênero orientam a maneira como alunos e alunas interagem entre si, expressam seus corpos e aproveitam de forma diferenciada e desigual, por toda a infância e até a idade adulta, o elenco de movimentos, jogos e brincadeiras possíveis. Portanto, a observação dessas atividades pode evidenciar como se dá o aprendizado da separação. Em última análise, jogos e brincadeiras são capazes de fornecer dados necessários à elaboração de atividades de lazer que remetam às competências a serem desenvolvidas igualmente por meninos e meninas. As brincadeiras seriam de todos que quisessem reinventá-las cotidianamente. As quadras poderiam ser ocupadas segundo diferentes objetivos que não apenas o desenvolvimento da agilidade e da força. Esta seria uma das variadas maneiras de escolarizar crianças e adolescentes visando a perseguir a igualdade racial, de gênero e de orientação sexual como conteúdos curriculares de orientação interdisciplinar, abarcando inclusive disciplinas como matemática, português geografia e língua estrangeira (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 106). Conclui-se, assim, que pela simples observação das atividades rotineiras realizadas no recreio é possível perceber evidências de um currículo oculto que potencializa as diferenças no espaço escolar por meio da sedimentação de práticas que hierarquizam os gêneros e reforçam modelos estereotipados de masculinidade e feminilidade. Esse modelo também pode ser percebido no interior das salas de aula, nas quais é possível encontrar dois tipos de demarcação dos lugares em conformidade com as expectativas esperadas de comportamento conforme a distinção entre os gêneros. Por julgarem que as meninas costumam ser mais ordeiras e disciplinadas que os meninos, é comum, nas escolas, a disposição de alunos e alunas de forma alternada, com o intuito de manter o controle da disciplina em sala de aula. Em alguns casos, docentes preferem manter meninos e meninas em grupos separados. UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 18 Nesta ambiência, espera-se que as meninas sejam mais atentas, organizadas, caprichosas, asseadas, disciplinadas e tenham mais propensão à submissão e à obediência. Como consequência desses padrões de comportamento, espera- se que tenham um melhor rendimento em sala de aula. Quanto aos meninos, espera-se que façam mais bagunça, falem alto, perturbem a ordem e a disciplina da sala. Não é exigido dos meninos o mesmo zelo e capricho com a letra, os cadernos e outros materiais escolares quando comparado com o que se espera das meninas. A inversão desses modelos estereotipados quase sempre provoca um estranhamento da parte do corpo docente que geralmente é mais propenso a tolerar atitudes desrespeitosas dos meninos, agindo de forma mais intransigente quando esse tipo de comportamento parte de uma menina. Como consequência: o rendimento das estudantes é favorecido de diferentes maneiras, pois a escola beneficia-se das distintas habilidades produzidas por outras instâncias de socialização. O papel de “boa aluna que ajuda os colegas” é uma dessas habilidades. As meninas devem ser aquelas que servem e cuidam, que estão à disposição para ajudar e atender às necessidades das outras pessoas. Estes são afazeres e posturas relacionados à feminilidade, segundo o modo com que tradicionalmente as relações de gênero foram construídas e organizadas em nossa sociedade. Vale notar que istonão corresponde a uma subordinação das estudantes, uma vez que aceitar tais demandas dá a elas a oportunidade de angariarem prestígio ao se relacionarem, em um patamar diferenciado, com as/os professoras/es e com os/as demais estudantes. Fazer com que as estudantes assumam tarefas de organização e cuidado expressa como a tradicional socialização feminina opera na escola de modo a reforçar e a perpetuar uma determinada divisão sexual do trabalho, na qual as mulheres e os homens devem se ocupar de diferentes obrigações. Nesta divisão, as meninas e as mulheres são as obedientes cuidadoras, que trabalham duro e asseguram a ordem, sem subvertê- la ou questioná-la. Para meninos e homens, resta corresponder à demanda por comportamentos rebeldes e agressivos, a fim de ser reafirmado um modelo específico de masculinidade (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 96). A propósito, essa divisão sexual do trabalho pode acabar influenciando os jovens na escolha profissional. Cursos cujos atributos envolvem o ensinar e o cuidar - que são, tradicionalmente, associados ao gênero feminino – são, na maioria das vezes, preenchidos por mulheres, como, por exemplo, Enfermagem, Pedagogia, Serviço Social, Terapia Ocupacional, dentre outros. Em contrapartida, alguns cursos são, de acordo com o senso comum, mais favoráveis aos homens, como as Engenharias, o Direito, a Informática, a Administração. Gradualmente, esse quadro tem mudado, com mulheres buscando profissões predominantemente masculinas e vice-versa. Entretanto, as escolhas não são aleatórias; essa suposta propensão natural para a escolha de determinadas profissões em conformidade com a divisão sexual do trabalho é fruto de expectativas criadas e fabricadas ao longo do tempo, no convívio social, inclusive durante o processo de escolarização. TÓPICO 1 | REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO 19 Por trás das palavras... Mesmo que de forma sutil, pela linguagem é possível estabelecer diferenças e promover desigualdades, pois os discursos produzidos na sociedade costumam demarcar, de forma direta ou indireta, os lugares dos gêneros. Veja, a seguir, uma lista de ditos populares carregados de valores metafóricos que reproduzem estereótipos e preconceitos referentes à mulher. Mulher no volante, perigo constante. Mulher magra sem ser de fome, foge dela que te come. Mulher de cego, para que se enfeita? Mulher boa, ave rara. Mulher não casa com sapo porque não sabe qual é o macho. Mulher sabida é mulher perdida. Entre marido e mulher nunca metas a colher. Ele não sabe porque bate, mas ela sabe porque apanha. Mulher é como bife, só amacia quando apanha. Mulher na janela não cozinha nem mexe panela. Espelho reflete sem falar, a mulher fala sem refletir. Segredo em mulher é pão em boca de pobre. Qual destes ditos populares você já conhecia? Conseguiu entender o significado de cada um deles? O que eles revelam? Você saberia levantar outros ditos populares para completar esta lista? IMPORTANT E As reflexões apresentadas até aqui mostraram quanto a escola pode ser um local de reprodução das desigualdades de gênero, que pode acontecer de forma consciente ou inconsciente ou até mesmo por meio da omissão, concordando aqui com as palavras de Moreno (1999, p. 74) ao asseverar que “não intervir equivale a apoiar o modelo existente”. A proposta deste subtópico é trazer reflexões sobre como você pode melhorar esse quadro de desigualdade de gênero reproduzido ao longo do processo de escolarização de crianças e jovens, tendo em mente a perspectiva freiriana de que “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda” (FREIRE, 2000, p. 67). A promoção da igualdade de gênero e do respeito à diversidade perpassa pelo ambiente escolar e, portanto, deve ser objeto de políticas públicas de formação docente, seja ela inicial ou continuada. Também deve incorporar o Projeto Pedagógico das instituições educativas e de seus respectivos cursos, que devem primar por um ambiente educacional no qual as diferenças entre os gêneros sejam repensadas e, no mínimo, desnaturalizadas. Não há dúvidas de que lidar com estas questões constituiu um desafio à prática docente, pois faz-se necessário desconstruir conceitos e preconceitos que fazem parte de sua própria constituição identitária. Como bem coloca Gomes (2004, p. 13), UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 20 [...] em face de uma forma de pensar e de agir, de uma lógica que nos é proposta por alguém que fala a partir de uma experiência outra, diferente da que estamos prontos a compreender, podemos, mesmo sem perceber, reconduzir o que ouvimos ao que já conhecemos. É somente nessa interação com o outro, nas reiteradas verificações do que não compreendemos (quando temos tanta pressa em já ter entendido tudo) e no exercício paciente de continuar a procurar entender, que avançamos no conhecimento das diversas formas que a realidade social pode assumir para os diferentes sujeitos envolvidos. Assim, é de extrema importância o processo de formação no qual o corpo docente possa continuamente repensar e reavaliar prática, considerando que “pensar o mundo – nomear o mundo [...] é agir sobre ele” (GOMES, 2004, p. 15). Para propiciar o debate em torno da diversidade é importante que professoras e professores aprendam a interrogar sua posição frente à diversidade tão presente no universo escolar. Endossamos aqui as palavras de Carrara (2009, p. 15), que afirma que: Ao discutir tais questões com os/as professores/as brasileiros/as, busca- se contribuir, mesmo que modestamente, com a escola em sua missão de formadora de pessoas dotadas de espírito crítico e de instrumentos conceituais para se posicionarem com equilíbrio em um mundo de diferenças e de infinitas variações. Pessoas que possam refletir sobre o acesso de todos/as à cidadania e compreender que, dentro dos limites da ética e dos direitos humanos, as diferenças devem ser respeitadas e promovidas e não utilizadas como critérios de exclusão social e política. Precisamos, portanto, ir além da promoção de uma atitude apenas tolerante para com a diferença, o que em si já é uma grande tarefa, sem dúvida. Afinal, as sociedades fazem parte do fluxo mais geral da vida e a vida só persevera, só se renova, só resiste às forças que podem destruí-la através da produção contínua e incansável de diferenças, de infinitas variações. As sociedades também estão em fluxo contínuo, produzindo a cada geração novas ideias, novos estilos, novas identidades, novos valores e novas práticas sociais. Trata-se, portanto, de um processo de reconstrução de sentidos e práticas que não deixa de ser um desafio para o professorado, que precisa estar devidamente instrumentalizado para ter um posicionamento crítico e equilibrado frente a uma realidade infinitamente plural. TÓPICO 1 | REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO 21 6 GÊNERO GRAMATICAL E LINGUAGEM INCLUSIVA Para concluir esse tópico que traz algumas reflexões acerca do conceito de gênero e educação, é importante fazermos algumas ponderações sobre gênero social e gênero gramatical, uma vez que este último é trabalhado diretamente em sala de aula por docentes de Língua Portuguesa. Primeiramente, é preciso ter em mente que, apesar de o senso comum veicular a ideia generalizada de que o gênero gramatical está relacionado à noção de sexo, tal correlação nem sempre é verdadeira, muito embora o gênero tenha como função “parear as palavras entre masculino e feminino” (KOLODNY, 2016, p. 12). Em decorrência dessa função, de natureza contrastiva, “toda língua dotada desta categoria gramatical possui no mínimo dois gêneros” sendo que, no caso da Língua Portuguesa, “o sistema reduz-se à presença de dois gêneros formais: masculino (não marcado) e feminino (marcado)” (KOLODNY, 2016, p. 13). O uso dos termos masculino e feminino para referir-se ao gênero das palavras costuma gerar confusão entre a categoria gramatical e a característica biológicados sexos. Para evitar tal equívoco, os gramáticos Pasquale e Ulisses esclarecem: [...] observe que definimos gênero como um fato ligado à concordância das palavras em seu relacionamento linguístico: pó, por exemplo, é um substantivo masculino pela concordância que estabelece com o artigo o, e não porque se possa pensar num possível comportamento sexual das partículas de poeira. Só faz sentido relacionar o gênero ao sexo quando se trata de palavras que designam pessoas e animais, como os pares professor/professora ou gato/gata. Ainda assim, essa relação não é obrigatória, pois há palavras que, mesmo pertencendo exclusivamente a um único gênero, podem indicar seres do sexo masculino ou feminino. É o caso de criança, palavra do gênero feminino que pode designar seres de dois sexos (CIPRO NETO; INFANTE, 2008, p. 218). Levando em consideração a polissemia do termo – que detém significados diferentes na literatura, na sociologia, na biologia, nas artes e na linguística – é importante compreender que, enquanto categoria gramatical, o gênero opera como divisor semântico que nem sempre está relacionado ao traço de sexo, embora isso fique evidente quando se trata de substantivos animados, ou seja, que designam pessoas ou animais. Sobre a etimologia da palavra, sabe-se que ela é derivada do latim genus, que originalmente significava tipo (KOLODNY, 2016). De acordo com Cipro Neto e Infante (2008), a tipologia de gênero compreende as seguintes distribuições: substantivos biformes, substantivos comuns de dois (ou comuns de dois gêneros), substantivos sobrecomuns e epicenos, cujas definições e exemplos estão apresentados no quadro seguinte: UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 22 QUADRO 1 - CLASSIFICAÇÃO DOS SUBSTANTIVOS TIPOLOGIA DEFINIÇÃO EXEMPLOS Substantivos biformes Substantivos que designam seres humanos e animais, apresentando uma forma para o masculino e outra para o feminino. menina/menino gata/gato pomba/pombo francês/francesa Substantivos comuns de dois gêneros (uniformes) Apresentam uma forma única para os dois gêneros, sendo que a distinção entre a forma masculina e a forma feminina é feita pela concordância com o artigo ou outro determinante. o agente/a agente o dentista/a dentista o colega/a colega o jornalista/ a jornalista Substantivos sobrecomuns Substantivos de um único gênero que se referem a seres humanos. o cônjuge a criança a testemunha a criatura o indivíduo a vítima Substantivos epicenos Substantivos de um único gênero que designam animais e algumas plantas. a águia a baleia a borboleta o besouro a palmeira o mamoeiro FONTE: Adaptado de Cipro Neto e Infante (2008, p. 218-221) A classificação apresentada corrobora a ideia de que, na língua portuguesa, a diferenciação de gênero nem sempre está relacionada à identificação de sexo do substantivo, uma vez que apenas substantivos animados apresentarão esse tipo de caracterização. Além disso, até mesmo em alguns casos de substantivos animados essa diferenciação não é evidente, como se pode notar nos substantivos sobrecomuns e epicenos nos quais palavras de gênero feminino podem fazer referência a algum ser do sexo masculino e vice-versa (como exemplos temos as palavras vítima e cônjuge, dentre os sobrecomuns, e as palavras cobra e jacaré, dentre os epicenos). Feito esse esclarecimento acerca da “incompreensão semântica” (CÂMARA JR., 2004, p. 42), que envolve o estudo de gênero enquanto categoria gramatical, é oportuno mencionar uma discussão recente na sociedade, tanto no Brasil como em outros países, que originou estudos relacionados à linguagem inclusiva e gênero, bem como a criação de diversos manuais voltados para uma linguagem não sexista. Tais estudos defendem o uso de marcadores de gênero em substituição ao uso do masculino genérico, entendido como: [...] o uso do gênero gramatical masculino para denotar o gênero humano (isto é, a espécie humana, incluindo homens e/ou mulheres). O conceito de gênero não marcado, por sua vez, origina-se na escola estruturalista e ainda ocupa um lugar de destaque nos estudos linguísticos atuais como suporte teórico para a descrição do masculino genérico (MÄDER, 2015, p. 17). TÓPICO 1 | REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO 23 As pessoas que defendem uma linguagem inclusiva afirmam que o uso do genérico masculino, aceito com naturalidade por parte expressiva da sociedade, confere um caráter machista à linguagem. O Manual para o uso não sexista da linguagem, por exemplo, elaborado pelo governo do Rio Grande do Sul, explica que: Se a Língua Portuguesa apresenta os gêneros masculino e feminino, por que não os usarmos quando falamos, escrevemos ou lemos? Por sua origem, não se caracteriza como uma ferramenta de comunicação sexista, mas sim a forma como a utilizamos faz com que haja discriminação entre mulheres e homens. Da mesma forma que contribui para a discriminação de gênero, a linguagem pode ser utilizada para reforçar estereótipos impostos culturalmente. A linguagem sexista, utilizada de forma irrestrita, impõe-nos que o masculino (homem) é empregado como norma, ficando o feminino (mulheres) incluído como referência ao discurso masculinizado (TOLEDO et al., 2014, p. 13). Contrariando esse pensamento, significativo número de linguistas afirma que a adoção desse tipo de linguagem demonstra desconhecimento de questões linguísticas. Acerca desse assunto, Silva (2019) apresenta o pronunciamento da Real Academia Espanhola (2005) que diz: Em substantivos que designam seres animados, o masculino gramatical é usado não apenas para se referir a indivíduos do sexo masculino, mas também para designar a classe, ou seja, todos os indivíduos da espécie, sem distinção de sexos. [...] consequentemente, nomes masculinos, quando usados no plural, podem incluir ambos os sexos em sua designação [...]. Apesar disso, nos últimos tempos, por razões políticas, e não linguísticas, o costume de tornar esse uso comum, a alusão de respeito a ambos os sexos está se espalhando [...]. Esquece-se de que, na linguagem, se prevê a possibilidade de se referir a coletivos mistos através do gênero gramatical masculino, possibilidade em que não se visse intenção discriminatória, mas a aplicação da lei linguística da economia expressiva [...] (SILVA, 2019, p. 25). Concordando com o exposto pela Real Academia Espanhola, Silva (2019) observa que muitas pessoas que acreditam agir de forma politicamente correta ao utilizar, em seus discursos, formas do feminino e do masculino, acabam incorrendo no equívoco de confundir gênero gramatical com sexo biológico, conforme já descrito nesta seção. Muito embora linguistas e gramáticos renomados defendam esse ponto de vista, ele não é um consenso entre todas as pessoas da área. Mäder (2015, p. 24-25), por exemplo, defende que o uso do masculino genérico, justificado pelo conceito de gênero não marcado, pode, “em nome de uma suposta neutralidade, escamotear as relações de poder entre homens e mulheres e contribuir para a manutenção de relações sexistas e opressivas”. Nota-se, assim, que essa temática ainda demanda novos debates, de caráter multidisciplinar, com o envolvimento de pessoas da área da linguística e outros setores da sociedade. Por ora, é interessante uma leitura crítica das propostas relacionadas à linguagem inclusiva que têm como propósito apresentar estratégias para construção de uma linguagem mais equitativa. UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 24 É importante refletir como a linguagem institui e demarca os lugares dos gêneros não apenas pela ocultação do feminino, mas também pelas adjetivações diferenciadas que são atribuídas aos sujeitos, pelo uso (ou não) do diminutivo, pela escolha dos verbos, pelas associações e pelas analogias feitas entre os gêneros e determinadas qualidades, atributos ou comportamentos. É importante escutar o que é dito sobre os sujeitos, mas também perceber o não dito, aquilo que é silenciado — os sujeitos quenão são, seja porque não podem ser associados aos atributos desejados, seja porque não podem existir ou porque não podem ser nomeados (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 99). De acordo com o texto apresentado, não é apenas por meio da ocultação do feminino que as produções discursivas e linguísticas podem hierarquizar diferenças e gerar desigualdade. Você concorda com essa afirmativa? Em caso afirmativo, consegue dar exemplos de situações – que vão além das questões de marcadores de gênero – nas quais a prática discursiva contribui para reforçar estereótipos e preconceitos sociais? IMPORTANT E 25 Neste tópico, você aprendeu que: • Por meio do movimento feminista as mulheres vêm se organizando, ao longo da história, lutando por diversas pautas acerca da condição da mulher na sociedade. • Sexo e gênero são termos diferentes, estando o primeiro ligado à anatomia do indivíduo e o segundo a construções sociais. • O gênero é construído ao longo da vida por meio da aprendizagem. Sendo assim, as diferentes entre homens e mulheres são decorrentes da cultura, situam-se no campo da subjetividade e estão relacionadas ao processo de construção de identidade. • Gênero e diversidade são temas inerentes ao espaço escolar, motivo pelo qual profissionais de quaisquer disciplinas devem atentar para não reproduzirem estereótipos e preconceitos em sala de aula. • As obras literárias podem construir ou desconstruir preconceitos de gênero e reforçar a desigualdade. • A análise feita pela crítica literária feminista tem como foco o gênero da autoria das obras literárias. • A linguagem inclusiva tem como propósito apresentar estratégias para construção de uma linguagem mais equitativa. RESUMO DO TÓPICO 1 26 1 “Os sujeitos que constituem a dicotomia não são, de fato, apenas homens e mulheres, mas homens e mulheres de várias classes, raças, religiões, idades etc. e suas solidariedades e antagonismos podem provocar os arranjos mais diversos, perturbando a noção simplista e reduzida de ‘homens dominantes versus mulher dominada’ [...]. Essas múltiplas identidades não podem, no entanto, ser percebidas como se fossem ‘camadas’ que se sobrepõem umas às outras, como se o sujeito fosse se fazendo ‘somando-as’ ou agregando- as. Em vez disso, é preciso notar que elas se interferem mutuamente, se articulam; podem ser contraditórias; provocam, enfim, diferentes ‘posições’. Essas distintas posições podem se mostrar conflitantes até mesmo para os próprios sujeitos, fazendo-os oscilar, deslizar entre elas — perceber-se de distintos modos” (LOURO, 1997, p. 33 e 51). O trecho que você acabou de ler foi retirado do livro Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista, de Guacira Lopes Louro, importante referência nos estudos sobre gênero em nosso país. Com base no que você estudou até aqui, faça uma análise do trecho lido relacionando-o com o termo interseccionalidade, cuja definição foi apresentada no decorrer da unidade. 2 (ENADE/2014 - LETRAS PORTUGUÊS LICENCIATURA) As mulheres frequentam mais os bancos escolares que os homens, dividem seu tempo entre o trabalho e os cuidados com a casa, geram renda familiar, porém continuam ganhando menos e trabalhando mais que os homens. As políticas de benefícios implementadas por empresas preocupadas em facilitar a vida das funcionárias que têm criança pequena em casa já estão chegando ao Brasil. Acordos de horários flexíveis, programas como auxílio- creche, auxílio-babá e auxílio-alimentação são alguns dos benefícios oferecidos. FONTE: <http ://www1.folha.uol.com.br>. Acesso em: 30 jul. 2013 (adaptado) AUTOATIVIDADE 27 Considerando o texto e o gráfico, avalie as afirmações a seguir. I- O somatório do tempo dedicado pelas mulheres aos afazeres domésticos e ao trabalho remunerado é superior ao dedicado pelos homens, independentemente do formato da família. II- O fragmento de texto e os dados do gráfico apontam para a necessidade de criação de políticas que promovam a igualdade entre os gêneros no que concerne, por exemplo, a tempo médio dedicado ao trabalho e remuneração recebida. III- No fragmento de reportagem apresentado, ressalta-se a diferença entre o tempo dedicado por mulheres e homens ao trabalho remunerado, sem alusão aos afazeres domésticos. É CORRETO o que se afirma em: a) ( ) I, apenas. b) ( ) III, apenas. c) ( ) I e II, apenas. d) ( ) II e III, apenas. e) ( ) I, II e III. 3 (ENADE/2008 – CIÊNCIAS SOCIAIS) As relações de gênero assumem formas diferentes em diferentes sociedades, períodos históricos, grupos étnicos, classes sociais e gerações. Não obstante, têm em comum a diferenciação entre homens e mulheres, apesar da imensa variabilidade social da natureza da diferença. Um aspecto muito comum é que a diferença de gêneros se associa à desigualdade de gênero, com homens exercendo poder sobre as mulheres – alguns afirmam universalmente, outros que quase universalmente. FONTE: Sylvia Walby. Gênero. In: William Outhwaite e Tom Bottomore (Ed.). Dicionário do pensamento social do século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996, p. 332. O termo sociológico utilizado para conceituar a desigualdade estrutural de gênero em nossa sociedade é: a) ( ) Feminismo. b) ( ) Liberalismo. c) ( ) Patriarcado. d) ( ) Homofobia. e) ( ) Paternalismo. 28 29 TÓPICO 2 LITERATURA, GÊNERO E A FORMAÇÃO DE LEITORAS E LEITORES UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Após estudar o conceito de gênero, entender o espaço escolar como expressão da diversidade e compreender que por meio de seus discursos e práticas docentes pode construir ou desconstruir estereótipos de gênero junto aos discentes, vamos tratar especificamente de questões relacionadas a gênero e literatura. Sabemos que a literatura é uma forma de expressão que permite a reflexão sobre o ser humano, instaurando diálogos entre textos e leitores de diferentes épocas e contextos. Por meio das obras literárias é possível identificar marcas discursivas que permitem situar a escrita em um determinado momento histórico; estas refletem, por sua vez, sua visão de mundo e sociedade. Por outro lado, o texto literário desencadeia um processo de comunicação com sujeitos-leitores, sendo capaz de provocar reflexões que contribuem para a construção da identidade. Por meio da literatura a pessoa percorre caminhos permeados de inúmeras sensações e emoções que unem o mundo imaginário e o real, ocasionando a expansão e a transformação de sua visão de mundo, levando-a a refletir, expor opiniões, cotejar o lido e a realidade vivida e, quem sabe, intervir nessa realidade. No caso específico das discussões de gênero, são inúmeras as obras literárias — infantis, juvenis e do universo adulto — nas quais é possível perceber as relações homem-mulher na sociedade. Tais textos contribuem para subsidiar uma prática de ensino e aprendizagem comprometida com uma postura crítica frente às diferentes situações de desigualdade e preconceito que permeiam as relações sociais. A inserção dessas obras no currículo escolar é uma forma de oportunizar ao corpo discente reflexões sobre a condição histórica da mulher na sociedade, de forma a desenvolverem a criticidade para que possam ser capazes de enxergar o mundo de outra maneira e contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária. No primeiro momento desse tópico retomaremos como a literatura pode contribuir para as transformações das práticas sociais e traçaremos um olhar panorâmico sobre as ideias fundamentais que orientam a crítica literária feminista. UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 30 A seguir, serão apresentadas algumas análises de obras literárias infantis e juvenis, incluindo contos de fadas, com o intuito de subsidiar a abordagem das questões de gênero em sala de aula por meio da literatura. A literatura é, pois, um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes a vivem, decifrando-a,deformando-a. A obra não é produto fixo, unívoco ante qualquer público; nem este é passivo, homogêneo, registrando uniformemente o seu efeito. São dois termos que atuam um sobre o outro, aos quais se junta o autor, termo inicial desse processo de circulação literária, para configurar a realidade da literatura atuando no tempo (CÂNDIDO, 1985, p. 74). As palavras de Antônio Cândido que você acabou de ler condensam o que iremos abordar a partir de agora: a literatura enquanto um sistema vivo de obras capaz de agir sobre leitores e leitoras a partir do momento em que eles se permitem mergulhar na tessitura do texto, interpretando-o, problematizando-o, questionando-o e criticando-o. Ao mesmo tempo analisaremos o texto literário como algo não fixo, passivo, acabado, pois é na interação com o público leitor que o texto se completa. Diante de uma mesma obra cada pessoa vivencia sentimentos diferentes, tem reações diferentes e faz interpretações diferentes, ou seja, o ser humano não é passivo nem fica indiferente diante do texto literário. Entendemos, portanto, que a literatura pode contribuir no processo de formação do sujeito à medida que o instiga a pensar criticamente, a expor opiniões, a realizar comparações entre o lido e a realidade vivida. 2 A INTERFACE ENTRE A LITERATURA E A REALIDADE SOCIAL Como você viu na unidade anterior, é importante que a escola promova reflexões sobre as diferenças e preconceitos de gênero, contribuindo para a desconstrução de estereótipos que invisibilizam e inferiorizam a mulher, naturalizando situações de violência, seja ela física ou simbólica. Apesar das mudanças e dos avanços obtidos pelas mulheres, principalmente devido à luta dos movimentos sociais, ainda prevalece em nossa sociedade uma cultura machista que interpreta o mundo pelo viés androcêntrico. Embora diferentes no que se refere à anatomia e biologia, homens e mulheres compartilham de sua humanidade, devendo primar por relacionamentos equilibrados nos quais não haja espaço para o preconceito, a discriminação, a hierarquização e, principalmente, a violência. Nesse contexto, qual seria o papel da escola? Ela deve fechar os olhos para o problema e permitir a reprodução da desigualdade ou garantir uma cultura escolar que lute pela efetivação dos direitos humanos? TÓPICO 2 | LITERATURA, GÊNERO E A FORMAÇÃO DE 31 A escola é, por excelência, espaço de socialização e aprendizagem de comportamentos, seja de forma direta ou indireta. Assim, em todas as disciplinas escolares é possível introduzir a temática acerca das relações de gênero, oportunizando momentos de reflexões e discussões que contribuam para aguçar a criticidade do corpo discente em relação a esse assunto. A literatura, por sua vez, é uma disciplina privilegiada, já que permite a abordagem do tema por meio de uma infinidade de títulos que fornecem elementos para a compreensão da relação homem-mulher na sociedade. Por meio da leitura e reflexão das obras literárias é possível estimular o debate, conferindo aos discentes o desenvolvimento da criticidade de forma que sejam capazes de questionar a sociedade e combater as desigualdades que afetam não somente às mulheres, mas a todos aqueles que estão associados ao universo feminino, como os homossexuais e transgêneros. Por esse motivo, é importante que você compreenda o poder da literatura enquanto transformadora da sociedade, já que por meio dela as pessoas são instigadas a refletir sobre o próprio cotidiano. As obras literárias podem veicular paradigmas de comportamento que reforçam a ordem social vigente ou desconstruir esse tipo de representação, dando voz e possibilitando a identificação de quem as lê. A literatura, portanto, contribui para a formação do sujeito, pois propicia situações em que o aluno pode pensar, emitir opiniões e atuar frente a realidade. Enquanto futuros professores e professoras de Língua Portuguesa e Literatura, é importante que vocês compreendam como se dá a interface entre a literatura e a realidade social. Abordaremos esse tema a partir de agora, tendo como referência a proposição de alguns autores que há algum tempo já se detêm sobre os estudos literários. Rildo Cosson, por exemplo, ao apresentar suas reflexões acerca do lugar da literatura na sociedade contemporânea, faz referência ao crítico literário Itamar Even-Zohar, que afirma que a literatura deve ser concebida “não como uma atividade isolada na sociedade, regulada por leis exclusivamente (e inerentemente) diferentes de todo o resto das atividades humanas, mas sim como um fator integral — frequentemente central e muito poderoso — entre essas atividades” (EVEN-ZOHAR, 2005 apud COSSON, 2016, p. 48). Além de endossar o pensamento de Even-Zohar, Cosson (2016) acredita que a literatura vai além da promoção do encontro do púbico leitor com o texto. A experiência da literatura em sala de aula – que é composta por uma comunidade de leitores – permite um processo de compartilhamento de saberes e práticas, ou seja, trata-se de uma experiência que permite a organização de um repertório pessoal e coletivo, abrindo caminhos “que os levem para o futuro desejado, os caminhos que dizem sobre o que se quer ser e como se quer ser humano, os caminhos que mostram como construímos e devemos construir a nós e a nossas comunidades” (COSSON, 2016, p. 64). UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 32 Zinani e Santos (2002) reforçam a importância do papel da literatura enquanto forma de compreensão da realidade e do aguçamento do espírito crítico. Para elas, a experiência com a literatura permite que discentes melhorem sua percepção de mundo e fiquem mais sensíveis aos problemas sociais, detendo mais instrumentos para colaborarem na transformação da realidade. Zilberman (2008) também contribui com essas reflexões ao apresentar o ângulo individual e social que envolve a literatura e o ato de ler. Sob o ponto de vista individual, a leitura literária constitui-se em uma atividade que permite ao sujeito ampliar os horizontes e ultrapassar fronteiras, por meio de um processo que envolve a imaginação e o intelecto. Pensando no ângulo social, a leitura permite a socialização de experiências e encoraja o diálogo: “[...] não se trata de uma atividade egocêntrica ou narcisista, se bem que, no começo, exercida solitariamente; depois, aproxima as pessoas e coloca-as em situação de igualdade, pois todos estão capacitados a ela” (ZILBERMAN, 2008, p. 17-18). Antônio Cândido (2004), por seu turno, é contundente ao apresentar a relação entre a literatura e os direitos humanos, afirmando que ao “dar forma aos sentimentos e à visão do mundo”, a literatura “nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza”. Partindo dessa premissa, o autor alega que “negar a fruição da literatura é mutilar a nossa humanidade”. Para ele, “a literatura pode ser um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos, ou de negação deles, como a miséria, a servidão, a mutilação espiritual” (CÂNDIDO, 2004, p. 186). Concordando com as proposições apresentadas, é oportuno salientar que a abordagem dessas questões em sala de aula deve estreitar as relações entre público-leitor e o texto literário, fazendo com que a leitura deixe de ser simplesmente um processo constituinte da escolarização, passando a configurar- se como uma ação cultural. A propósito, as relações entre a leitura, a literatura e a teoria literária em sala de aula também devem ser estreitadas, conforme apresentado por Silva (2003, p. 514-515): A própria natureza interdisciplinar do ato de ler que envolve contribuições de diversas áreas. No caso da leitura literária, o ato de ler é influenciado por estratégias cognitivas, linguísticas, metalinguísticas, conhecimento do policódigo literário, noção de gênero literário, estilo de época no qual o texto está inserido, enfim, um conjunto de noções determinantes na interação do leitor com otexto; o fato de a significação do texto literário ser construída a partir da participação efetiva do receptor, o que torna evidente as relações dinâmicas entre a literatura e o leitor; a teoria literária só existe em função da leitura e da literatura: esse é outro aspecto a ser considerado quando se trabalha o texto literário em sala de aula. A teoria literária deve estar presente na escola, subsidiando a prática do professor, no sentido de ampliar concepções críticas sobre o fazer literário e a recriação do texto pelo leitor, o que só ocorre no ato da leitura. As relações entre leitura e literatura nem sempre são analisadas, reavaliadas e praticadas como deveriam no contexto escolar. A leitura – como atividade atrelada à consciência crítica do mundo, do contexto histórico-social em que o aluno está inserido – ainda é uma prática que precisa ser mais efetivada no espaço escolar. TÓPICO 2 | LITERATURA, GÊNERO E A FORMAÇÃO DE 33 Chama a atenção, no excerto lido, a necessidade ainda premente de vincular a leitura à consciência crítica do mundo, dado o caráter privilegiado da literatura enquanto ferramenta capaz de discutir e equacionar questões que ainda não foram suficientemente debatidas acerca dos problemas sociais. Em se tratando especificamente das questões de gênero, Zinani e Carvalho (2015, p. 13) salientam que [...] a crítica literária androcêntrica criou e consolidou importante instrumental teórico para a análise literária que tem, tradicionalmente, orientado esses estudos; outrossim, coube aos estudos literários feministas desenvolverem um aparato teórico que possibilitasse uma abordagem igualmente científica, mas que atendesse às especificidades de uma literatura escrita e lida, a partir do ponto de vista da mulher. Dada a importância da temática, trataremos, a seguir, da crítica literária feminista, lembrando que, na esteira do movimento feminista, a literatura foi um meio utilizado como forma de expressão de diversos artistas, especialmente mulheres, que se utilizaram desse recurso como um modo de se posicionarem frente aos desafios enfrentados. 3 A CRÍTICA LITERÁRIA FEMINISTA A crítica literária feminista constitui-se em “um modelo conceitual de questionamento da cultura dominante, mas também uma prática de leitura e análise da produção de autoria feminina”, (CUNHA, 2012, p. 1). Isso significa que, diferentemente da crítica literária tradicional, que você já estudou em outros momentos do curso, a crítica feminista propõe um modelo de análise que se detém sobre o gênero da autoria das obras literárias, sobre o gênero do público- leitor e, consequentemente, sobre questões que buscam ressignificar o papel da mulher enquanto produtora e consumidora de literatura. A propósito, é oportuno ressaltar que o próprio ato de ler, a princípio, era uma ação pertencente ao universo masculino, já que às mulheres era negado o acesso à educação. No Brasil, desde o período colonial já circulavam discursos que colocavam a mulher “em seu devido lugar”. Por meio de versinhos aparentemente inocentes e divertidos como “Mulher que sabe muito é mulher atrapalhada, para ser mãe de família, saiba pouco ou saiba nada”; “A mulher honrada deve ser sempre calada”; e “Mulher que sabe latim não tem marido, nem bom fim”, nota- se que a aprendizagem da leitura pela mulher não era considerada importante porque as atividades a elas destinadas prescindiam do domínio dessa habilidade. Por esse motivo, a educação feminina ocorreu tardiamente quando comparada à educação dos homens. Ademais, no início, essa educação era voltada somente à aprendizagem dos saberes elementares de assuntos considerados pertinentes às mulheres, como os trabalhos domésticos e de agulha. Com o surgimento das escolas normais, o processo de feminização do magistério ampliou UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 34 o acesso das mulheres à educação. Entretanto, conforme Rezzutti (2018), isso se deu porque o ato de cuidar das crianças não deixava de ser um prolongamento das funções maternas e, por isso, aceitável como profissão feminina. Esse pensamento também é corroborado em Souza, Ribeiro e Isobe (2014, p. 173) ao afirmarem que: Ao longo do século XX [...], a escola primária se tornou um campo profissional majoritariamente feminino. Diversos fatores contribuíram para o processo de feminização do magistério no Brasil, dentre eles os movimentos de urbanização e industrialização que expandiram as oportunidades de trabalho para os homens e ampliaram a apropriação dos espaços públicos pelas mulheres. Nesse processo, o fazer docente foi se constituindo no âmbito de um conjunto de normas e prescrições que contribuíram de forma significativa para a construção da identidade docente enquanto ocupação que demandava paciência, afabilidade, desprendimento, virtudes historicamente atribuídas ao gênero feminino. Paulatinamente, a mulher começou a se fazer presente nos espaços públicos, participando, de alguma maneira, da vida social. Entretanto, de forma geral, a história das mulheres foi marcada por pouca visibilidade social, o que é referendado por Bortolanza (2014, p. 423) ao explicitar que [...] até final do século XIX, as mulheres foram mais imaginadas, idealizadas, representadas que descritas, narradas, contadas. Frequentemente excluídas da vida pública, não apareciam nas estatísticas, não votavam, não tinham visibilidade em arquivos públicos, e só começaram a ter presença à medida que se apropriaram da leitura e da escrita. Também é importante destacar que a extensão da escolarização às mulheres — e consequente apreensão do hábito de leitura — aliada ao surgimento do romance sentimental, no século XVII — ampliaram o acesso da mulher a esse tipo de literatura, cujos temas giravam em torno daquilo que se considerava pertinente ao universo feminino, como o casamento, as conquistas, as decepções amorosas, o ciúme e a infidelidade (BELLIN, 2011). A propósito, cabe observar que: [...] leitura e escrita sempre estiveram associadas ao poder e foram usadas como forma de dominação. Por isto, o romance do século XIX acabou associando a leitura feminina às características tidas como naturais da mulher como sensibilidade, irracionalidade e emoção, impondo o amor como ingrediente constitutivo, e essencial, da identidade feminina (DUMONT; ESPÍRITO SANTO, 2007, p. 31). Nota-se, assim, que até no processo de apropriação da leitura constata- se uma assimetria entre os gêneros. Enquanto aos homens eram produzidos textos considerados canais de informação e estudo, às mulheres eram reservados escritos de entretenimento, na forma de romances que, segundo Lyons (2002, p, 172), eram mais adequados às mulheres “por serem elas vistas como criaturas em que prevalecia a imaginação, com capacidade intelectual limitada, frívolas e emotivas [...] era a antítese da literatura prática e instrutiva”. TÓPICO 2 | LITERATURA, GÊNERO E A FORMAÇÃO DE 35 Felski (2003 apud BELLIN, 2011), por sua vez, assegura que o gosto pelos romances sentimentais por parte das mulheres era algo concebível, já que estes, ao priorizarem temas relacionados à psicologia e aos sentimentos humanos, tornavam-se adequados para a mulher devido a sua expertise em emoções e por serem consideradas guardiãs da vida privada. É neste contexto que surge a crítica literária feminista, que tem, a princípio, o desafio de percorrer o caminho trilhado pelas mulheres enquanto leitoras. Ela busca retratar a interface entre a literatura e o mundo social, demonstrando o quanto as representações de gênero circulantes na sociedade estão intrinsecamente relacionadas com valores e crenças construídos historicamente e socialmente. Eminentemente pragmática, acreditando numa relação direta entre a prática literária e o efeito político das representações de gênero, a crítica feminista nesta fase inicial desdenhava a teoria por considerá-la a viga mestra do edifício intelectual patriarcal que aprisionara amulher numa verdadeira torre de marfim conceitual. Era preciso reformular o estatuto representação (e da autorrepresentação) da mulher e alterar os parâmetros das identidades de gênero (FUNCK, 1996, p. 45). Ao traçar o caminho percorrido pela crítica literária feminista, nota- se quanto ela está imiscuída ao movimento feminista que, conforme tratado anteriormente, repercutiu, historicamente, em momentos distintos denominados Ondas Feministas. A crítica feminista assenta-se em duas perspectivas distintas, que se inter-relacionam. A primeira, que corresponde à fase inicial do movimento feminista, evidencia o papel da mulher enquanto leitora. Nota-se, nessa perspectiva, uma [...] crítica contundente em relação à noção de universalidade do sujeito e aos parâmetros de verdade e subjetividade, afirmando que tudo isso era, na realidade, uma construção masculina. O ato fundador da crítica feminista foi uma releitura de obras que fazem parte da tradição literária ocidental, quase em sua totalidade escrita por homens. Tal crítica se concentrava nos modos de representação das personagens femininas e continha um caráter de denúncia, afirmando que elas eram muitas vezes representadas como seres passivos, sem qualquer influência no desenrolar da ação de romances centrados na experiência masculina, tais como, por exemplo, o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (BELLIN, 2011, p. 2). A estudiosa literária americana Judith Fetterly é um dos expoentes da primeira fase da crítica feminista. Na obra The Resisting Reader: Uma Abordagem Feminista à American Fiction, publicada em 1978, Fetterly, ajudou a formular o conceito de leitura resistente. Conforme explicitado por Bellin (2011), Fetterly defende que a leitura da literatura clássica americana implica a identificação da mulher com o masculino, uma vez que a leitora se vê forçada a identificar-se contra si própria, ou seja, trata-se de uma linguagem que exclui e oprime, pois impõe às mulheres a adoção do ponto de vista masculino. E é nesta conjuntura que UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 36 Fetterly propõe a adoção de uma postura crítica e de resistência frente à literatura produzida por homens, encarando-a unicamente como um veículo reprodutor de valores androcênticos (BELLIN, 2011). Mesmo reconhecendo a importância da contribuição de Fetterly naquele momento inicial da crítica feminista, seu posicionamento foi posteriormente problematizado por outros teóricos que postulam que a leitura resistente prevê “uma leitura dogmática da questão de gênero, esquecendo-nos de considerar as convenções estéticas e formais que estão presentes no texto ficcional” (BELLIN, 2011, p. 4). Ademais, Felsky (2003 apud BELLIN, 2011, p. 4) acentua que a leitura feminina de resistência “confina o leitor a uma instância negativa, forçando-o sempre a reagir ao que lê. Ao recusar baixar sua guarda, a leitura feminista se priva de ser inspirada, afetada ou transformada pela leitura de uma obra”. Outra autora que se destaca nesse primeiro momento da crítica feminista foi Kate Millet, autora do livro Sexual Politics, de 1970, no qual ela realiza um estudo da representação feminina na literatura, analisando estereótipos femininos presentes em textos de autoria masculina. Na obra, Millet: [...] analisa textos de Henry Miller, Norman Mailer e Jean Genet em busca da maneira como a personagem feminina, ou do personagem masculino em posição feminina, no caso da obra de Genet, é retratada nessas obras. Mais do que se aprofundar na análise dos textos desses autores, Millet os utiliza como base para a formulação de sua teoria da política sexual, onde denuncia, entre outras coisas, a extensão e penetração do patriarcado em nossa sociedade (ANDREOSSI, 2011, p. 254). Para Zolin (2005), a aguçada consciência política de Kate Millet faz com que ela problematizasse a prática acadêmica fundamentada no patriarcalismo, fazendo emergir reflexões sobre a posição notoriamente secundária ocupada pelas heroínas dos romances de autoria masculina. O mesmo ocorre em relação às escritoras e críticas literárias. Assim, neste sistema que hierarquiza as relações de gênero, “o poder é exercido na vida civil e doméstica de modo a submeter a mulher, que, a despeito dos avanços democráticos, tem continuado a ser dominada, desde muito cedo, por um sistema rígido de papéis sexuais” (ZOLIN, 2005, p. 226). Em um segundo momento, a crítica feminista teve como perspectiva de análise as obras escritas por mulheres, ou ainda, a análise da mulher enquanto escritora, produtora de textos que refletem sua identidade e seu estar no mundo. Destacaram-se, nesse momento, as proposições de Elaine Showalter, crítica literária americana que desenvolveu o conceito de ginocrítica, termo usado para designar o estudo de mulheres como escritoras ou das obras escritas por mulheres. TÓPICO 2 | LITERATURA, GÊNERO E A FORMAÇÃO DE 37 Elaine Showalter, reconhecendo que as leituras da primeira fase do feminismo não tinham um objeto próprio, pois se concentravam predominantemente na análise dos estereótipos sexuais presentes nas obras de autores masculinos, preocupava-se com a sistematização dos estudos feministas, propondo que, ao invés de se debruçar sobre toda a literatura, era mais proveitoso se debruçar sobre a literatura escrita por mulheres (BELLIN, 2011, p. 5). Ao cunhar o termo ginocrítica, Showalter queria ressaltar as peculiaridades de expressão do gênero feminino na literatura. A ginocrítica propunha, então, a criação de um modelo de interpretação literária voltado unicamente para textos de autoria feminina, ou seja, um cânone feminino oposto ao cânone masculino. Entretanto, Andreossi (2011) explicita que essa teoria apresenta falhas por não conseguir abarcar a pluralidade dessa literatura. Essa posição é endossada por Mariano (2005, p. 486) que, revisitando a obra de Joan Scott, conclui ser necessário [...] pensar em termos de pluralidades e diversidades, em lugar de unidades e universais; que rompam o esquema tradicional das velhas tradições filosóficas ocidentais, baseadas em esquemas binários que constroem hierarquias, como aquela entre universos masculinos e especificidades femininas; que nos permitam articular modos de pensamento alternativos sobre o gênero [...]. Bellin (2011) chama a atenção para o fato de que Elaine Showalter não conseguiu solucionar o impasse acerca das diferenças nos escritos femininos que permitiriam considerar as mulheres como um grupo literário distinto. Concretamente, não existem marcas específicas do feminino ou do masculino na escrita, de forma que nos parece complicado considerar as escritoras mulheres como um grupo à parte. Além disso, tal separatismo, assim como a teoria cultural de Showalter, pode reforçar a ideologia patriarcal, aumentando ainda mais as diferenças entre escritores homens e escritoras mulheres (BELLIN, 2011, p. 6). Ainda no contexto da ginocrítica, é importante conhecer as três fases da tradição literária de autoria feminina formulada por Elaine Showalter, a saber: a) a fase feminina (1844-1880), na qual as escritoras imitam os modelos literários vigentes — colocados em circulação pelos escritores homens —, reproduzindo os papéis sociais de gênero; b) a fase feminista (1880-1920), que assinala um período de protesto no qual as mulheres rejeitam as normas vigentes e defendem reformas sociais e direitos iguais em seus projetos literários (tais como o sufrágio universal, o direito ao divórcio e a paridade salarial); e c) a fase da mulher (1920-1965), período no qual surge uma literatura fortemente intimista, caracterizada como “viagem para dentro”, quando as escritoras passam a escrever sobre seus processos de autodescoberta (ALÓS; ANDRETA, 2007, p. 22). UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 38 Os momentos pelo qual passou a crítica literária feminista são importantes porque possibilitaram uma nova leitura das obras literárias a partir de uma perspectivafeminina, considerando o espaço ocupado pela mulher enquanto produtora, consumidora e/ou objeto representado nos textos literários; afinal, “se é verdade que as mulheres, como leitoras, releem a tradição literária sob novas lentes, as mulheres, como escritoras, reescrevem, subvertem e reelaboram a tradição literária” (ALÓS; ANDRETA, 2017, p. 28). Ao considerar a inter-relação existente entre as obras literárias e o contexto sociocultural em que foram produzidas, evidencia-se as relações políticas estabelecidas entre os textos e os discursos propagados, visto que envolvem relações de saber/poder (ALÓS; ANDRETA, 2017). Os estudos da crítica literária feminista colocam em pauta discussões acerca do cânone, evidenciando o fato de que muitas escritoras, mesmo produzindo obras de reconhecida qualidade literária, não figuram nessa categoria (ZINANI, 2011). Acerca desse assunto Zolin (2005, p. 202) observa que, mesmo diante da dificuldade de “desafiar os valores instituídos e arraigados no inconsciente coletivo”, qualquer discente, em especial aqueles que cursam Letras, precisam conhecer “não apenas os textos literários canônicos, mas também outros tipos de textos, provenientes de outros segmentos culturais”. E você? Como acadêmico de Letras, o que pensa disso? Acredita que o contato com outros tipos de textos contribuirá para uma leitura mais crítica do mundo? Gostaria de aprofundar mais nos estudos da crítica literária feminista? Leia o livro Teoria e crítica literária feminista: conceitos e tendências, de Thomas Bonnici. Organizado como dicionário, apresenta verbetes explicativos sobre temas literários, históricos, conceituais, ficcionais, psicanalíticas, sociológicos e de política sexual referentes aos estudos feministas e de gênero. Encontram-se biografias de teóricas como também a trajetória histórica das duas Ondas Feministas e uma análise dos vários feminismos, especialmente os que envolvem raça e opção sexual. Esse dicionário tenta fornecer explicações sobre termos mais usados na crítica literária feminista (como Outro/ outro, gênero, sexo, patriarcalismo, poder, dominância, paródia) para instrumentar o/a leitor(a) para o desafio da alternativa feminista. FONTE:<http://twixar.me/xCjT>. Acesso: 13 ago. 2019). NOTA FONTE: <http://twixar.me/J6jT>. Acesso em: 7 set. 2019. FIGURA – TEORIA E CRÍTICA LITERÁRIA FEMINISTA: CONCEITOS E TENDÊNCIAS TÓPICO 2 | LITERATURA, GÊNERO E A FORMAÇÃO DE 39 4 QUESTÕES DE GÊNERO NAS NARRATIVAS INFANTIS E JUVENIS Como você já deve ter percebido, nos estudos realizados até aqui, mulher e gênero compreendem complexos campos de estudo que se constituem como categorias interpretativas por meio das quais é possível desvelar constructos sociais. Embora vasta, essa temática encontra refúgio na literatura que consegue — devido à singularidade de sua forma de expressão artística — dar lugar a diversas formas de representação, trazendo à tona, seja de forma lúdica, poética, realista, crítica ou filosófica, aspectos inerentes às relações sociais de gênero que afloram na sociedade. Por meio da arte literária é possível perceber o tratamento dispensado às mulheres através dos tempos, as presenças e as ausências, as invisibilidades e os silenciamentos, as continuidades e as rupturas, os enfrentamentos e as resistências. Neste momento, trataremos especificamente das narrativas infantis e juvenis, modelo historicamente caracterizado por veicular paradigmas de comportamento que reproduzem um padrão de sociedade associado à ideologia dominante (ZINANI, 2009). Para iniciar nossa conversa faremos uma breve retrospectiva histórica a fim de compreender o lugar ocupado pela literatura infantil no contexto de seu surgimento. De acordo com Zilberman (2003), a literatura infantil, enquanto gênero literário, pode ser considerada recente. Sua origem está relacionada a algumas mudanças ocorridas na sociedade como a ascensão da família burguesa, o ordenamento do sistema escolar e a instituição do conceito de infância. Sim, a infância configura-se como uma construção social que assume diversos significados ao longo da história, sendo que alguns estudiosos chegam a defender a tese de que o sentimento de infância não existia na sociedade medieval; trata-se de um conceito que surgiu na modernidade ocidental (ARIÈS, 1981). Na sociedade antiga, não havia a “infância”: nenhum espaço separado do “mundo adulto”. As crianças trabalhavam e viviam junto com os adultos, testemunhavam os processos naturais da existência (nascimento, doença, morte), participavam junto deles da vida pública (política), nas festas, guerras, audiências, execuções, etc., tendo assim seu lugar assegurado nas tradições culturais comuns: na narração de histórias, nos cantos, nos jogos (ZILBERMAN, 2003, p. 36). Assim, não havia uma modalidade de literatura específica para esse segmento etário, e os textos que hoje são considerados como literatura infantil e juvenil faziam parte da tradição oral e circulavam em meio a população, sem distinção de adultos e crianças (ZINANI, 2009). Tratava-se, portanto, de uma produção direcionada para adultos, porém aproveitada para as crianças. UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 40 Com a organização do sistema de ensino, a literatura foi incorporada à escola, passando a ter acentuado valor pedagógico propagador de normas de comportamento a serem incorporadas pelas crianças. O aspecto didático- pedagógico conferido à literatura infantil tinha como foco a moldagem da criança segundo as expectativas dos adultos, incitando-as a serem obedientes às normas sociais. Partindo de uma concepção de mundo maniqueísta, as histórias quase sempre terminavam premiando o bom e castigando o mau (CASTRO, s/d). De acordo com Zinani (2009, p. 147), a literatura, nesse contexto, passou a destacar “seu caráter exemplar na consolidação de valores burgueses, ao mesmo tempo que eram menos considerados os valores estéticos, o que configura a literatura infantil como uma arte menor, em consonância com o tamanho de seu recebedor”. Zilberman (2003, p. 4) também assevera que “o novo gênero careceu de imediato de estatuto artístico, sendo-lhe negado a partir de então um reconhecimento de valor estético, vale dizer, a oportunidade de fazer parte do reduto seleto da literatura”. Com o passar do tempo a literatura infantil adquire um novo status, passando a ser objeto de estudo de outros campos do saber. Os estudos psicanalíticos, por exemplo, reconhecem a fantasia — elemento quase sempre presente na literatura infantil, especialmente nos contos de fadas — como fundamental para o desenvolvimento da criança. De acordo com, Bettelheim (1980, p. 19), o conto de fadas “[...] é orientado para o futuro e guia a criança — em termos que ela pode entender tanto na sua mente consciente quanto inconsciente — a abandonar seus desejos de independência infantil e a conseguir uma existência mais satisfatoriamente independente”. A sociologia, por sua vez, defende “a adequação dos contos à infância, uma vez que auxiliam na elaboração de um esquema compreensível do mundo; no entanto, também enfatizam a possibilidade de realização de desejos e projetos através do sonho, o que lhe empresta uma índole escapista” (ZINANI, 2009, p. 147). A partir da segunda metade do século XX, a literatura infantil ganha novo impulso e passa a ser mais valorizada. As temáticas produzidas imbricavam-se com várias dimensões da atividade humana, passando a “suprir a necessidade de ficção, veiculando fantasia e criatividade, ao mesmo tempo em promove o acesso ao real [...] possibilitando uma experiência de vida de caráter formativo” (ZINANI, 2009, p. 147). A literatura infantil e juvenil deixou de ter um caráter eminentemente pedagógico e passou a ser vista também como fonte de prazer, abrindo a possibilidade de retratar a aventura pela aventura ou tratar de temas do cotidiano de forma lúdica e inusitada. A partir de então passou a abarcar umapluralidade de temas e problemas existenciais próprios da infância, permitindo às crianças uma melhor compreensão de seus sentimentos em relação ao mundo. TÓPICO 2 | LITERATURA, GÊNERO E A FORMAÇÃO DE 41 É ouvindo histórias que se pode sentir (também) emoção importante, como a tristeza, a raiva, a irritação, o bem estar, o medo, a alegria, o pavor, a insegurança, a tranquilidade, e tantas outras mais, e viver profundamente tudo que as narrativas provocam em quem as ouve — com toda amplitude, significância e verdade que cada uma delas fez (ou não) brotar... Pois é ouvir, sentir e enxergar com os olhos do imaginário! (ABRAMOVICH, 1991, p. 17). Tendo como princípio o potencial da literatura como forma de reflexão sobre o ser humano e as relações sociais, bem como sua capacidade de proporcionar ao público leitor caminhos que levem ao autoconhecimento e à organização da personalidade (SANTOS, 2009), a literatura infantil e juvenil é uma importante ferramenta para trabalhar as relações de gênero no espaço escolar pois, além de suscitar o debate sobre a discriminação, o preconceito e as diferenças sociais, permite uma melhor compreensão e apreensão da realidade. Se a criança — devido não só a sua circunstância social, mas também por razões existenciais — se vê privada ainda de um meio interior para a experimentação do mundo, ela necessitará de um suporte fora de si que lhe sirva de auxiliar. É este lugar que a literatura infantil preenche de modo particular, porque, ao contrário da pedagogia ou dos ensinamentos escolares, ela lida com dois elementos que são especialmente adequados para a conquista desta compreensão do real: — com uma história que apresenta, de maneira sistemática, as relações presentes na realidade, que a criança não pode perceber por conta própria; [...] — com a linguagem, que é o mediador entre a criança e o mundo, de modo que, propiciando, através da leitura, um alargamento do domínio linguístico, a literatura infantil preencherá uma função de conhecimento (ZILBERMAN, 2003, p. 13). A literatura infantil pode, portanto, ser um instrumento de mediação e problematização das relações de gêneros construídas na sociedade, possibilitando um ambiente mais propício para a abordagem dessas temáticas em sala de aula. Para tanto, é necessário um olhar atento do corpo docente na seleção de obras que propiciem diálogos acerca das relações de gênero, contribuindo para uma educação em que “as diversidades sejam respeitadas e aceitas como constituintes e legítimas da nossa sociedade plural” (DAROS, 2013, p. 181). Dada a relevância e pertinência dessa temática, diversos pesquisadores têm se debruçado sobre obras literárias infantojuvenis com o objetivo de fazer uma análise das distintas representações das diversidades de gênero presentes nessas produções, evidenciando, assim, como essa diferença é representada na tessitura do texto. Selecionamos algumas dessas pesquisas para apresentá-las a você. Com base nessas análises interpretativas, você poderá selecionar outros livros e fazer suas próprias análises acerca da pertinência da obra em relação aos objetivos propostos. A primeira obra é Bia Bisa, Bisa Bel, de Ana Maria Machado. Trata-se de uma obra que já foi traduzida para diversas línguas e ganhou vários prêmios, já tendo vendido mais de 500.000 exemplares. O livro conta a história de Isabel, UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 42 uma menina de dez anos que encontra uma fotografia antiga de sua bisavó, Bia. A partir de então se estabelece um diálogo imaginário entre ambas, que desencadeia um processo de autoconhecimento de Isabel, em um momento delicado da vida que é a fase da puberdade. A obra em questão foi analisada por Salete Rosa Pezzi dos Santos (2009), com o objetivo de explorar a representação do sujeito feminino em épocas distintas: Bisa Bia, representativa de uma sociedade do século XIX, de uma época em que “a gente lavava o rosto no quarto mesmo, e sempre tinha uma bacia e um jarro d’água, com uma toalha limpinha do lado” e Isabel, jovem do final do século XX, protagonista de um tempo do “congelado, enlatado, desidratado, ensacado, emplasticado...” (MACHADO, 1985, p. 24-25). De acordo com Santos (2009, p. 158), ao traduzir experiências de vida de épocas diferentes, “descortinam-se as coordenadas de um universo feminino repleto de contradições”. Dessa forma, ao trazer as vivências da bisavó, Ana Maria Machado consegue remeter a uma época em que o casamento era a única alternativa de vida para as mulheres, que deveriam manter-se restritas aos espaços privados: “mulheres como Bisa Bia repetiam comportamentos estereotipados sem questionamentos, pois não se vislumbrava, no horizonte de expectativas do universo feminino da época, mais que a realização pelo casamento, pela maternidade, pela dedicação exclusiva ao lar” (SANTOS, 2009, p. 159). No desenrolar da história vão se entrecruzando costumes do momento passado e do momento presente que causam estranhamento, tanto aos olhos da bisa como aos olhos da menina. Isabel, inclusive, começa a perceber diferenças de comportamento também no tempo presente, como, por exemplo, quando ela e sua amiga Marcela reagem de formas diferentes diante de um portão trancado: enquanto Isabel se dispõe a pular o muro, Marcela recua, porque aquilo era “coisa de moleque”. Diante das reflexões dessas diferentes formas de ser, de agir, de brincar e de estar no mundo, Isabel percorre um caminho no qual ela vai se transformando e construindo sua autonomia. Na perspectiva de Santos (2009, p. 163-164): Essa capacidade de relativizar circunstâncias de vida só se concretiza à medida que a menina entende que há formas diferentes de perceber o mundo, que não há respostas definitivas, e que convenções fixas podem ser modificadas. [...] A heroína depara-se com a descoberta de que passado, presente e futuro fazem parte dela e, do entendimento dessa confluência surge a consciência de si mesma. [...] A heroína alcança, na integração entre passado e futuro, a essência de si mesma; sua identidade consolida-se na capacidade de transgredir o estabelecido, na busca de novas alternativas de vivências, na possibilidade de autonomia e de aprendizado contínuo, oferecendo ao leitor mirim um modelo reassegurador de vida. Uma outra obra interessante é O mágico de Oz, de L. Frank Baum (1901). Trata-se de uma obra clássica da literatura infantil estadunidense que conta a história de Dorothy, uma garota órfã que vivia com seus tios em uma fazenda no interior do Kansas, mas que acaba se perdendo deles ao ser levada inesperadamente TÓPICO 2 | LITERATURA, GÊNERO E A FORMAÇÃO DE 43 por um ciclone, junto com seu cachorro, para a Terra de Oz. A partir daí a história narra as aventuras e os perigos enfrentados pela menina, como bruxas malvadas e monstros, na tentativa de voltar para casa. Neste percurso ela faz alguns amigos, sendo que cada um estava à procura de algo que pudesse suprir suas carências: o Lenhador de Lata, que procura um coração, o Espantalho, que deseja um cérebro, e o Leão, que quer ser corajoso. Juntos eles se unem para encontrar o Mágico de Oz, acreditando que este poderia ajudá-los na realização de seus desejos. A obra em tela foi analisada tanto por Cecil Jeanine Albert Zinani (2009) como por Ana Carolina Lazzari Chiovatto (2017), ambas com o intuito de discutir as representações de gênero veiculadas pelas personagens femininas que compõem a história. Primeiramente, Zinani (2009) chama a atenção para o fato de que a história dá visibilidade não só a uma criança, mas a uma criança do gênero feminino, dois segmentos até então pouco valorizados na literatura, que raramente tinha infantes e mulheres como protagonistas. A propósito, a introdução de personagens infantis na condição de protagonistas foi mais recorrente depois da metade do século XIX, com a publicação das obras Alice nos país das maravilhas, As aventuras de Tom Sawyer e Pinóquio (ZINANI,2009). Para Zinani, a grande contribuição da obra no que tange às reflexões acerca das relações de gênero é a ênfase dada aos papéis femininos, até então negligenciados nas obras literárias: O gênero feminino desempenha um papel muito importante na narrativa: além de ser uma menina a personagem principal, são as mulheres que contribuem para que ela obtenha sucesso em seu empreendimento [...]. Numa época em que as mulheres tinham pouca representatividade, a narrativa de Baum causa certo estranhamento. Se for considerada a categoria ser humano, constata-se que o polo positivo é representado, exclusivamente, pelo gênero feminino. Na categoria não humano, representada pelos amigos de Dorothy e pelas Bruxas Boas, há equilíbrio entre os gêneros, no polo positivo. Dessa maneira, o universo feminino apresenta uma visibilidade incomum para a época. Provavelmente, o início do novo século que estava sendo prenunciado já apontava para transformações que iriam ocorrer nos tempos que estavam por vir, entre eles o reconhecimento e a valorização da criança e da mulher. Dessa maneira, a apresentação de obras que desconstruam os estereótipos de gênero e de infância e que deem voz à criança contribuem para desenvolver a criticidade e o gosto pela leitura (ZINANI, 2009, p. 153). Chiovatto (2017), por sua vez, observa que as representações do feminino contidas no livro são inovadoras quando comparadas aos contos de fadas e outros clássicos infantojuvenis, havendo a [...] quebra de diversos estereótipos do feminino nas diferentes personagens baumianas analisadas, que têm como resultado uma ampla grade de modelos femininos para seu público-alvo, pois trazem figuras femininas nos mais diversos papeis, euforizando nelas poder e autoridade, disforizando apenas o que é universalmente disforizado, como a maldade, o egoísmo, a vaidade, a futilidade etc. (CHIOVATTO, 2017, p. 168). UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 44 Sobre a pertinência do trabalho desse livro nas escolas, Zinani (2009) afirma que ele permite a desconstrução de estereótipos de gênero e de infância, ajudando a desenvolver o senso crítico. Em consonância com Zinani, Chiovatto (2017, p. 168) assevera, acerca da obra, que “seu rompimento com os tradicionais estereótipos é conduzido de maneira a mantê-los reconhecíveis, o que é adequado a funções didáticas num mundo que ainda se baseia no binarismo sexual”. Outro título analisado foi Hoje é dia de Maria, de Luis Alberto de Abreu e Luiz Fernando Carvalho. Trata-se de uma obra que ficou bastante conhecida ao ser produzida em formato de minissérie, transmitida pela televisão brasileira em 2005. A narrativa conta a história de uma menina órfã de mãe que vive em um sítio localizado no interior do Nordeste brasileiro. Utilizando-se do recurso da intertextualidade, os autores dialogam com a obra A gata borralheira, de Charles Perrault, pois assim como a protagonista do clássico literário, Maria também convive com as perversidades de uma madrasta cruel. Cansada de ser perseguida pela madrasta, Maria resolve fugir em busca de seu sonho que é conhecer as franjas do mar. No decorrer dessa jornada Maria enfrenta vários perigos, ao mesmo tempo em que revisita diversos contos populares. A obra em questão foi analisada pelas pesquisadoras Elisângela Araújo Silva e Naelza de Araújo Wanderley (2015). Ao fazer uma releitura de A gata borralheira, as autoras revelam ao público- leitor uma representação feminina bem diferente daquela que protagoniza o clássico literário: Maria não somente é diferente como também é divergente, trata-se de uma princesa que, embora queira encontrar seu amor, não fica esperando por ele; ao contrário, ela é capaz de lançar-se em busca de seus sonhos de forma destemida, aventureira, com segurança e inteligência (SILVA; WANDERLEY, 2015). De acordo com as autoras, a travessia realizada por Maria, que sai da pequena cidade em que morava em busca das franjas do mar, extrapola o percurso geográfico. Trata-se de uma travessia interior na qual Maria perde a infância e se transforma em mulher, ingressando na vida adulta. Além de apresentar a metamorfose, elemento característico dos contos de fadas, proporciona a discussão em torno das questões comuns à mulher adulta. A inocência infantil da personagem, após a transformação, dá lugar a outros desafios como trabalho, problemas amorosos, sexualidade, dentre outros que compõem as preocupações do cotidiano da mulher comum, principalmente a mulher contemporânea e, a nosso ver, faz de Maria a representação de uma menina, uma mulher, uma princesa divergente, uma vez que dos ideários dos contos de fadas ela faz uma trajetória, na condição de uma heroína do interior do Nordeste, pautada nos elementos representantes da cultura popular, seja nas cantigas, nas festas, na pelejas e até nas descrições dos interiores e exteriores presentes na obra (SILVA; WANDERLEY, 2015, p. 102). TÓPICO 2 | LITERATURA, GÊNERO E A FORMAÇÃO DE 45 A guisa de conclusão, as autoras reforçam o caráter transformador do texto literário, que permite um diálogo entre o clássico e o popular, destacando que por meio de histórias do passado é possível tematizar questões do presente. Além disso, Silva e Wanderley chamam a atenção para o fato de a narrativa atualizar a discussão sobre a situação da mulher na contemporaneidade, que pode ir além dos estereótipos historicamente determinados, sendo capaz de contrariar o padrão da figura indefesa comumente disseminado no imaginário social. Os contos de fadas, por sua vez, também são narrativas nas quais podemos encontrar muitas representações de gênero. Originalmente, construídos para o mundo adulto, a partir da apropriação do conceito de infância (ARIÈS, 1981) eles passaram a ser adaptados para o universo infantil. Embora denominadas contos de fadas, o que caracteriza essas narrativas não é, necessariamente, a existência de fadas, mas a presença do espaço maravilhoso, que extrapola a realidade concreta (PINHEIRO; GOMES, 2018). São narrativas caracterizadas pela prevalência da magia e do encantamento, pela existência de um núcleo problemático no qual protagonistas buscam sua realização pessoal e pela existência de entraves a serem heroicamente enfrentados, culminando na vitória do bem contra o mal. Normalmente, eles são compostos em torno de algumas etapas distintas: “a travessia, a viagem ao mundo mágico; o encontro com o personagem do mal ou o obstáculo a ser vencido; a dificuldade a ser superada; e a conquista (destruição do mal); a celebração da recompensa” (SCHNEIDER; TOROSSIAN, 2009, p. 135). A primeira coletânea de contos infantis que chegou até nós foi organizada por Charles Perrault, ainda no século XVII, na França. As histórias por ele coletadas tinham origem na tradição oral e até então não haviam sido documentadas. Posteriormente, destacaram-se as coletâneas dos irmãos Grimm, na Alemanha, e as de Hans Christian Andersen, na Dinamarca, que além de compilar e adaptar contos orais, criou diversas outras narrativas (PINHEIRO; GOMES, 2018). Perrault, Grimm e Anderson podem ser considerados, portanto, os precursores da literatura infantil. Entretanto, ao realizarem a documentação das narrativas orais, fizeram algumas adaptações no enredo de algumas histórias, tornando-as mais palatáveis aos valores morais da época e à fé cristã. Sobre a importância dos contos de fadas, Bastos e Nogueira salientam que eles: [...] partilham de uma narrativa na qual o personagem central deve enfrentar grandes obstáculos passando por diversas provações antes de triunfar contra o mal. Tais narrativas transferem o leitor para um mundo imaginário, mas ainda assim pautado em elementos do seu cotidiano, como os valores morais e os ideais de bondade e maldade. Além disso, os contos de fada evocam sentimentos como medo, amor, ódio e simpatia através de uma jornada que envolve conflitos, rivalidade e superação, convidando o leitor a experimentar a sensaçãode um final feliz, transferindo essa expectativa para sua experiência individual. Historicamente, os contos de fadas oferecem informações sobre a sociedade em diferentes aspectos, como as relações de poder, de afeto, as concepções familiares e a moralidade (BASTOS; NOGUERIA, 2016, p. 13). UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 46 Em meio à diversidade de questões sociais que podem ser analisadas pelo viés dos contos de fadas situam-se as questões de gênero, uma vez que tais narrativas revelam expectativas, valores e anseios que emergem no contexto social, podendo influenciar na produção de identificações binárias de masculino e feminino. Assim, tais narrativas estão repletas de representações engendradas pelo imaginário social acerca das relações de gênero, divulgando e reproduzindo comportamento e estereótipos, muito embora estando envolvidas por uma roupagem aparentemente inocente (BASTOS; NOGUEIRA, 2016). Mesmo assim é possível, a partir desse diálogo entre fantasia e realidade, utilizar tais narrativas como ferramentas problematizadoras das relações de gênero. Um exemplo é o conto de fadas Cinderela, que será analisado a seguir. Embora seja um conto bastante conhecido, faremos aqui um breve resumo de uma das versões mais populares da obra, cuja protagonista é Cinderela, uma linda moça vive com seu pai, viúvo, a madrasta e suas duas filhas. Com a morte do pai, a madrasta começa a maltratar Cinderela, delegando-lhe todos os afazeres domésticos e privando-a do conforto do qual usufruíram suas duas filhas. Certo dia, o rei decide realizar um baile para que seu filho pudesse escolher uma moça com a qual se casar. Embora todas as moças do reino tenham sido convidadas para o baile, a madrasta não permite que Cinderela compareça, obrigando-a a ficar em casa. No entanto, após a saída da madrasta e suas filhas, surge a fada madrinha que, por meio de um encanto, transforma as roupas esfarrapadas da jovem em um lindo vestido que se completa com um par de sapatinhos de cristal. A fada, porém, adverte que o encanto terminaria à meia-noite, motivo pelo qual Cinderela sai do baile repentinamente, deixando para trás o príncipe que havia se encantado com sua beleza. Na pressa de voltar para casa, Cinderela perde seu sapato de cristal, e é por meio dele que o príncipe a reencontra. Em seguida, eles casaram-se e viverem felizes para sempre. Diversos estudiosos já analisaram o clássico infantil em questão a partir da perspectiva das relações de gênero. Vamos nos deter aqui às analises empreendidas por Bastos e Nogueira (2016) e Pereira et al. (2018). Vejamos, então, a percepção desses autores sobre a forma com que a figura feminina e as relações de gênero são concebidas na obra. Bastos e Nogueira (2016) chamam a atenção, inicialmente, para o fato de os estereótipos sociais estarem muito bem demarcados: De um lado, temos o bem representado por Cinderela, submissa, dócil, virtuosa e prendada, incapaz de apresentar qualquer sinal de rebeldia; na extremidade oposta, o mal é representado pela madrasta e suas filhas, que fazem de tudo para alcançar seus objetivos. O papel de Cinderela como passiva e/ou submissa remete-nos à crença de que a mulher, para ser feliz, precisa sujeitar-se às ordens e imposições, esperando que forças mágicas e exteriores (fada madrinha, por exemplo) lhe auxiliem e a guiem até ao príncipe — homem sempre forte e seguro que representa a salvação, libertação e felicidade (BASTOS; NOGUEIRA, 2016, p. 20). TÓPICO 2 | LITERATURA, GÊNERO E A FORMAÇÃO DE 47 Ainda recorrendo à análise feita por Bastos e Nogueira, conclui-se que os contos de fadas “servem para acentuar e perpetuar estes paradigmas femininos, além de (re) afirmarem que o modelo ideal de mulher é aquele submisso, que merece e recebe a tutela do poder divino e/ou mágico e masculino como é o caso de Cinderela” (BASTOS; NOGUEIRA, 2016, p. 20). Pereira et al. (2018, p. 343) também evidenciam, em sua análise, a divisão social de papéis atribuídos ao masculino e ao feminino ao pontuarem que a sociedade referendada, na obra em destaque, “era a burguesa, branca, em que as mulheres, deviam ser gentis, contidas e bem-comportadas, enquanto os homens seu inverso, deviam ser fortes e viris para defender a amada e sustentar uma casa”. As autoras também chamam a atenção para o fato de que a obra não só reproduz modelos estereotipados de comportamento de gênero, mas também acerca dos padrões de beleza endossados naquela época. Desta feita, afirmam que tais escritos: [...] ditam determinado padrão de beleza, isentos na segunda mulher do pai da heroína, caracterizada como má, assim como em suas duas filhas igualmente que, além de malvadas, eram feias. Enredos que “ensinam” crianças e instruem leitores e ouvintes, formando a sua forma de ver, entender e se reproduzir na sociedade. Percebe-se assim que, estão reproduzindo e propagando um tipo de sujeito social normalizado pela sociedade e que acaba legitimando certas práticas de discriminação à mulher que ainda emergem no interior de diversas instâncias sociais, de forma bastante sutil (PEREIRA et al., 2018, p. 344). As autoras também atentam para o fato de que, mesmo ocupando a posição de protagonista, figura central da narrativa, Cinderela acabava tendo um lugar secundário em relação ao príncipe, ao qual é atribuído o papel de salvador por libertar a jovem indefesa da condição social e familiar em que vivia. Cinderela, por sua vez, dissemina um padrão de comportamento historicamente atribuído ao gênero feminino de submissão em relação ao masculino, sendo o casamento apresentado como a única via para a felicidade. De acordo com Pereira et al. (2018, p. 341), os contos de fadas não são somente estórias distrativas, posto que são amplamente disseminados, transcendem barreiras geográficas, encantam o imaginário de crianças (e adultos) com narrativas, personagens, padrões de beleza, estereótipos, sentimentos e comportamentos que traduzem fascínio e, em geral, exprimem relações de gênero marcadas pela cultura patriarcal. Reafirmam papéis sociais distintos para cada sexo como produto natural, ao mesmo tempo em que reproduz hierarquias e lugares distintos para homens e mulheres, prenhes de simbolismos que ofuscam a percepção de suas construções sociais, como produto deliberado da ação humana que institui o jeito de ser, agir e viver de ambos. Determina o espaço público, a razão, a força, ao primeiro, e o espaço privado, a emoção, a delicadeza à segunda. Apesar desse conto infantil reproduzir modelos estereotipados de gênero ele não precisa ser descartado como ferramenta pedagógica. Ao contrário, tanto ele como outros contos de fadas podem ser abordados em sala de aula de forma problematizada, levando o alunado a refletir sobre os valores e estereótipos nele apresentados e a questionar os papeis sociais ali representados. UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA 48 Quer conhecer alguns títulos de obras literárias que abordam temas como igualdade, feminismo e direitos humanos direcionados ao público infantojuvenil? Veja, a seguir, uma relação de quinze livros que ajudam a desconstruir preconceitos e estereótipos sociais. Boa leitura! • Coleção antiprincesas, de Nádia Fink e Pitu Saá. • O Mundo no Black Power de Tayó, de Kiusam de Oliveira e Taisa Borges. • As cientistas: 50 mulheres que mudaram o mundo, de Rachel Ignotofsky. • Malala, a menina que queria ir para a escola, de Adriana Carranca e Bruna Assis Brasil. • Para educar crianças feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie. • Histórias de ninar para garotas rebeldes, de Elena Favilli. • Coisa de menina, de Pri Ferrari. • Coisa de menino, de Pri Ferrari. • A vida não me assusta, de Maya Angelou e Jean-Michel Basquiat. • Tudo bem ser diferente, de Todd Parr. • O menino de vestido, de David Walliams. • Até as princesas soltam pum, de Ilan Brenman e Ionit Zilberman. • Cachorros não dançam balé, de Anna Kemp e Sara Ogilvie. • Aparelho sexuale cia: um guia inusitado para crianças descoladas, de Zep e Hélène Bruller. • Mais pessoas para me amar: família de tudo que é jeito! – Mo O’Hara. Para saber mais sobre os livros, acesse: https://livroecafe.com/2019/01/27/15-livros-para- ensinar-criancas-sobre-igualdade-feminismo-e-direitos-humanos/. IMPORTANT E 49 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A literatura é uma importante ferramenta para a compreensão da realidade, uma vez que ela é uma forma de expressão que instiga as pessoas a pensarem de forma crítica. • A literatura é uma ferramenta que pode ser utilizada para reflexões e discussões acerca das questões de gênero que permeiam as relações sociais. • Por meio da disciplina de Literatura o docente pode estimular o debate das relações de gênero em sala de aula. • A crítica literária feminista tem como escopo retratar a interface entre a literatura e o mundo social. • Em um primeiro momento, a crítica literária feminista evidenciou o papel da mulher enquanto leitora. Posteriormente também passou a analisar as obras de autoria feminina. • Obras literárias infantojuvenis, inclusive contos de fadas, são ferramentas que podem ser utilizadas em sala de aula para problematizar as relações de gênero na sociedade. 50 1 As obras literárias infantojuvenis podem ser instrumentos no trabalho com a temática gênero e diversidade em sala de aula. Com base no que foi estudado até aqui, analise as afirmativas a seguir referentes à literatura infantojuvenil: I- Devido às peculiaridades do público infantojuvenil, os escritores, desde sempre, tiveram o cuidado de produzir uma literatura específica para esse segmento etário, muito embora, a princípio, essa literatura não tivesse como preocupação desconstruir estereótipos e preconceitos de gênero comuns na sociedade. II- Com a incorporação da literatura na escola, o aspecto didático-pedagógico conferido a esse tipo de literatura tinha como foco a inculcação de valores morais e normas de comportamento. III- A literatura infantojuvenil nem sempre teve o status que tem hoje, sendo que a princípio ela não era reconhecida como produção artística. IV- Os contos de fadas são caracterizados pela presença da fantasia, da magia e do encantamento e, por não tratarem do real, são incapazes de refletir valores e normas de conduta próprios do momento histórico em que foram produzidos. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas. b) ( ) As afirmativas I, II e IV estão corretas. c) ( ) As afirmativas II e III estão corretas. d) ( ) As afirmativas III e IV estão corretas. 2 (ENADE/2017 – LETRAS/INGLÊS) As escolas brasileiras não têm um único jeito de ensinar sobre gênero e sexualidade; pesquisas evidenciam currículos e práticas pedagógicas e de gestão marcadas pela discriminação. Distinções sexistas nas aulas, na chamada, nas filas de meninos e de meninas, nos uniformes, no tratamento e nas expectativas sobre alunos ou alunas, tolerância da violência verbal e até física entre meninos, representações de homens e mulheres nos materiais didáticos, abordagem quase exclusivamente biológica da sexualidade no livro didático, estigmatização referente à manifestação da sexualidade das adolescentes, perseguição sofrida por homossexuais, travestis e transexuais, evidenciam o quanto a escola (já) ensina, em diferentes momentos e espaços, sobre masculinidade, feminilidade, sexo, afeto, conjugalidade, família. FONTE: <http://www.spm.gov.br>. Acesso em: 11 jul. 2017 (adaptado) AUTOATIVIDADE 51 Nesse contexto, para construir uma prática pedagógica que promova transformações no sentido da igualdade de gênero a partir do respeito às diferenças, espera-se que a escola a) ( ) incorpore o conceito de gênero nos diferentes componentes do currículo de maneira transversal. b) ( ) realize atividades em seu cotidiano que definam para as crianças o que é masculino e o que é feminino. c) ( ) se valha das diferenças sexuais naturais entre meninos e meninas para conduzir a classe e manter a disciplina. d) ( ) se refira à questão de gênero de forma tangencial, suficiente para promover vivência menos intransigente e mais equânime entre homens e mulheres. e) ( ) reforce modelos de comportamentos socialmente atribuídos a homens e mulheres que formam um conjunto de representações sobre masculinidade e feminilidade. 52 53 TÓPICO 3 REPRESENTATIVIDADE E REPRESENTAÇÃO FEMININA NA LITERATURA BRASILEIRA UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Durante muito tempo, o universo literário constituiu-se em um espaço precipuamente masculino, o que não significa que as mulheres não tivessem competência e habilidade para transitar nesse ambiente. Na verdade, as pressões socioculturais restringiam as mulheres à esfera doméstica, conforme já abordado nessa unidade, e aquelas que resolvessem percorrer outros caminhos eram vistas como transgressoras da ordem social. Por esse motivo, algumas mulheres tiveram que publicar livros usando pseudônimos masculinos, sob pena de não serem reconhecidas ou de terem que dar satisfações à sociedade relativas ao seu desejo de transitar por esse universo de predominância masculina. A propósito, não foram somente as mulheres que sofreram esse processo de exclusão. De forma geral, os escritos literários eram praticados por homens, quase sempre brancos, heterossexuais e pertencentes à classe média, o que limitava as manifestações artísticas que expressassem os sentimentos dos negros e outras minorias historicamente marginalizadas. Grande parte das obras literárias, nessa conjuntura, externavam a visão masculina das pessoas e do mundo, contribuindo para corroborar formas de pensamento que justificavam a submissão feminina e a desigualdade. Tal pensamento é endossado por Zolin (2005, p. 275) ao afirmar que: Historicamente, o cânone literário, tido como um perene e exemplar conjunto de obras-primas representativas de determinada cultura local, sempre foi constituído pelo homem ocidental, branco, de classe média/alta; portanto, regulado por uma ideologia que exclui os escritos das mulheres, das etnias não brancas, das chamadas minorias sexuais, dos segmentos sociais menos favorecidos etc. Esse processo de exclusão também fez com que a produção literária das mulheres fosse quantitativamente inferior à masculina, gerando um pensamento equivocado de que a escrita feminina também seria inferior em termos de qualidade. Apenas com a emergência da crítica literária feminista, já estudada no tópico anterior, que se começou a questionar o papel da mulher enquanto leitora, enquanto escritora e enquanto objeto de representação nas obras literárias. Os escritos femininos, por sua vez, passam a dar voz às inquietudes individuais e coletivas das mulheres em geral, problematizando seu papel na sociedade por meio de personagens femininas que muitas vezes estão em processo de descoberta de si. 54 A seguir, será feita a análise de algumas obras protagonizadas por personagens femininas. São contos produzidos por três importantes escritoras da literatura brasileira: Clarice Lispector, Lygia Bojunga e Marina Colasanti. Você conhece a obra de alguma delas? No decorrer das análises, serão transcritos alguns trechos das respectivas obras. Esperamos que essas transcrições agucem sua curiosidade para que você busque os textos, na íntegra. São textos bastante acessíveis, facilmente encontrados em livraria, bibliotecas e até mesmo na internet. Antes de continuar a leitura, vamos propor um pequeno exercício. Quando fazemos referência escritos de autoria feminina, que nomes vêm a sua cabeça? Você já leu obras de escritoras? Quais? Consegue identificar alguma obra ou texto representativo da situação da mulher na sociedade que tenha sido escrito por uma mulher? Qual? Pegue papel e caneta e anote as obras e escritoras que você conseguir lembrar. IMPORTANT E 2 A REPRESENTAÇÃO FEMININA EM CLARICE LISPECTOR Clarice Lispector é uma das autorasmais celebradas e estudadas pela academia. Nas palavras de Barbosa e Moraes (2007, p. 81), “a linguagem clariceana atinge a essência do ser, uma vez que deixa em alerta o leitor, permitindo-o fazer questionamentos profundos que ultrapassam o cotidiano e o superficial da língua, possibilitando, assim, uma percepção desautomatizada da vida”. Destaca-se, em sua obra, a construção de personagens femininas que, criadas com riqueza de sentimentos, permitem uma reflexão acerca da condição humana da mulher na contemporaneidade. A representação feminina, recorrente nas obras de Clarice Lispector, coloca o leitor face a face com multirrepresentações da mulher, em meio a uma variedade de contos produzidos. 55 Um pouco sobre Clarice Lispector “Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, mas seus pais imigraram para o Brasil pouco depois, indo instalar-se em Maceió e, mais tarde, em Recife. Estudou inglês e francês, na infância, e cresceu ouvindo o idioma dos pais, o iídiche. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na universidade, conheceu aquele que viria a ser seu marido, o diplomata Maury Gurgel Valente. Da união nasceram seus dois filhos [...]. Dedicou a vida à escrita, produzindo textos para jornais, mas principalmente, escrevendo literatura” (MACENA, 2017, p. 27). IMPORTANT E Algumas de suas obras: • Perto do coração selvagem (1942) • O lustre (1946) • A cidade sitiada (1949) • Laços de família (1960) • A maçã no escuro (1961) • A legião estrangeira (1964) • A paixão segundo G. H. (1964) • O mistério do coelho pensante (1967) • A mulher que matou os peixes (1968) • Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969) • Felicidade clandestina (1971) • Água viva (1973) • A imitação da rosa (1973) • Via-crúcis do corpo (1974) • Onde estivestes de noite? (1974) • Visão do esplendor (1975) • A hora da estrela (1977) Quer saber mais sobre essa importante escritora? Acesse o site https://claricelispectorims. com.br/vida/. Nele você encontrará uma variedade de informações, muito bem organizadas, sobre a vida e a obra de Clarice Lispector, além de ter acesso a um rico acervo de imagens que compõem a linha do tempo da escritora. Também poderá localizar artigos, teses e dissertações já escritas sobre ela. Agora que você já conheceu um pouco sobre a vida e a obra de Clarice Lispector, vamos analisar alguns contos de sua autoria que refletem sobre a condição da mulher na sociedade. A forma irreverente de compor suas personagens faz com que a cada conto Clarice traga à tona uma mulher diferente, sendo que algumas delas, inclusive, não costumam ocupar o papel de protagonistas nas obras literárias por não se enquadrarem dentro dos padrões aceitáveis de beleza. FONTE: <http://twixar.me/Z2jT>. Acesso: 9 set. 2019. FIGURA – CLARICE LISPECTOR 56 É o caso do conto A solução, no qual Clarice dá visibilidade à mulher gorda, tipo de personagem comumente retratado no modelo discursivo patriarcal de forma negativa, quase sempre associada a termos pejorativos como “feia, irritadiça, arfante, de olhar guloso, irrequieta, engraçada, de classe baixa” (AZEVEDO, 2016, p. 55). A solução é um pequeno conto de apenas duas páginas do livro A Legião Estrangeira, publicado em 1964, que narra a estranha amizade entre duas colegas de trabalho, Almira e Alice, cujos contrastes são evidentes: “À medida que a amizade de Alice não existia, a amizade de Almira mais crescia. Alice era de rosto oval e aveludado. O nariz de Almira brilhava sempre. Havia no rosto de Almira uma avidez que nunca lhe ocorrera disfarçar: a mesma que tinha por comida, seu contato mais direto com o mundo” (LISPECTOR, 1999, p. 65). Ao apresentar Almira, protagonista da história, Clarice nos mostra uma figura estereotipada em relação à representação comumente associada às pessoas que possuem esse tipo de porte físico, mas ao mesmo ela tempo humaniza a personagem, ao afirmar que “só a natureza de Almira era delicada” (LISPECTOR, 1999, p. 6). No decorrer do conto, Clarice vai desvendando Almira, revelando uma personagem “sufocada com a sensação de que fez algo errado, falou algo errado, é uma pessoa errada que vive em uma sociedade na qual não há lugar nem pertencimento para as pessoas gordas” (AZEVEDO, 2016, p. 56). O sentimento de solidão e exclusão da personagem é evidenciado quando a autora descreve sua amizade com Alice, colega de trabalho: “Alice era a sua maior amiga. Pelo menos era o que dizia a todos com aflição, querendo compensar com a própria veemência a falta de amizade que a outra lhe dedicava” (LISPECTOR, 1999, p. 65). Ao final da trama, um acontecimento inesperado faz com que Almira tome consciência de si. Entretanto, essa tomada de consciência não significa uma reviravolta rumo a um final feliz, como nos contos de fadas. Ao contrário, conforme advertido por Azevedo (2016, p. 57), “a literatura de Clarice não é redentora, não tem a função de agradar o leitor e a leitora”. O conto em questão propicia uma reflexão acerca da condição humana, representada por meio de uma figura feminina que não atende aos padrões estéticos da contemporaneidade. Trata-se de uma obra que “procura nos provocar incômodo e nos acompanha ao longo do tempo, como reflexão do que somos, como vivemos, quem é o nosso outro e como somos indiferentes ao estranho” (AZEVEDO, 2016, p. 57). Outra obra de Clarice Lispector que permite fazer várias leituras da condição feminina na contemporaneidade é Laços de Família, coletânea de contos publicada em 1960 cujas temáticas se interligam por tratarem de relações familiares. 57 O livro Laços de Família está disponível para download em: https://cs.ufgd.edu.br/download/Lacos%20 de%20Familia%20-%20Clarice%20Lispector.pdf. Que tal fazer uma leitura prévia dos contos que serão analisados a seguir? Posteriormente, leia os demais contos da coletânea. Com certeza você vai gostar! Contos que serão analisados a seguir: • Devaneio e embriaguez de uma rapariga. • Amor. • A imitação da rosa. Boa leitura! DICAS FONTE: <http://twixar.me/R2jT>. Acesso: 8 set. 2019. Apresentaremos, agora, três contos que fazem parte dessa obra, iniciando por Devaneio e embriaguez de uma rapariga, que retrata a história de uma mulher consumida pela rotina e entediada com as funções cotidianas e repetitivas da vida doméstica. Em um dia em que o marido estava no trabalho e os filhos na casa das tias, ela se vê absorta em seus devaneios que indicam um estado de angústia e inquietação: “Os olhos não se abandonavam, os espelhos vibravam ora escuros, ora luminosos [...]. Os olhos não se despregavam da imagem, o pente trabalhava meditativo, o roupão aberto deixava aparecerem nos espelhos os seios entrecortados de várias raparigas” (LISPECTOR, 1998, p. 17). A insatisfação com a vida doméstica evidencia-se com a chegada do marido que a encontrou ainda dentro do quarto, sem ter cuidado dos habituais afazeres: “Não quis jantar nem sair de seus cuidados, dormiu de novo: o homem lá que se regalasse com as sobras do almoço. E, já que os filhos estavam na quinta das titias em Jacarepaguá, ela aproveitou para amanhecer esquisita: túrbida e leve na cama, um desses caprichos, sabe-se lá” (LISPECTOR, 1998, p. 19). Na sequência, ao recusar os carinhos do marido, a mulher demonstra também estar insatisfeita no campo sexual e amoroso: Mas quando ele se inclinou para beijá-la, sua leveza crepitou como folha seca: - Larga-te daí! – E o que tens? pergunta-lhe o homem atônito, a ensaiar imediatamente carinho mais eficaz. Obstinada, ela não saberia responder, estava tão rasa e princesa que não tinha sequer onde se lhe buscar uma resposta. Zangou-se: – Ai que não me maces! não me venhas a rondar como um galo velho! Ele pareceu pensar melhor e declarou: – Ó rapariga, estás doente. Ela aceitou surpreendida, lisonjeada (LISPECTOR, 1998, p. 19). FIGURA – LAÇOS DE FAMÍLIA 58 Ao sugerir que a mulher estava doente, o marido, na verdade, nãoqueria aceitar uma recusa da esposa: “o homem, por sua vez, cujo papel social atribuído a ele o fez crer que sempre teria seus galanteios atendidos, diante da situação, recusa-se a acreditar que sua mulher não mais se enquadrava no padrão de esposa ideal, e prefere acreditar que ela estaria doente” (RIBEIRO; MOL, 2014, p. 184). O conto segue narrando os devaneios da rapariga, que continuava “ainda à cama, tranquila, improvisada. Ela amava… Estava previamente a amar o homem que um dia ela ia amar” (LISPECTOR, 1998, p. 20). Por fim, no final daquela semana acontece uma reviravolta no enredo quando ela precisou sair com o marido para jantar com um negociante. No restaurante ela acaba bebendo muito vinho e, embriagada, sente aflorar sua sensibilidade, fazendo com que perceba que sua vida pode ir muito além do âmbito doméstico familiar ao qual estava confinada. Ao término do jantar a mulher regressa para casa, reassumindo seu papel de dona de casa, tal como preconizado pela cultura patriarcal: “Mas depois de amanhã aquela sua casa havia de ver: dar-lhe-ia um esfregaço com água e sabão que se arrancaria as sujidades todas! A casa havia de ver! Ameaçou ela colérica. Ai que sentia tão bem, tão áspera, como se ainda estivesse a ter leite nas mamas, tão forte” (LISPECTOR, 1998, p. 27). É interessante notar que tanto os devaneios da rapariga – desencadeados no momento em que ela vê sua imagem refletida no espelho – quanto o estado de embriaguez sinalizam momentos de tomada de consciência de si. Os conflitos internos levam a mulher a se autoconhecer. Na percepção de Lima (2007, p. 99), “é nesse universo em que a arte e a vida se confundem, através de devaneios provocados ora pela imaginação da mulher, ora por seu estado de embriaguez, que a portuguesa desperta, após a experiência do contato com o seu outro possível e até mais desejável”. Já no conto Amor, o público-leitor é apresentado à personagem Ana, que “por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros” (LISPECTOR, 1998, p. 30). Esse trecho dá a entender que Ana adaptara-se bem à vida de casada, tornando-se uma mulher dedicada à casa, ao marido e aos filhos, sendo que sua ocupação principal era manter a casa limpa e organizada. Tratava-se de uma vida que ela “quisera e escolhera”, expressão destacada mais de uma vez no conto. Entretanto, sua maior preocupação era “tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto” (LISPECTOR, 1998, p. 31). Ana, portanto, procurava ocupar-se o tempo todo, reprimindo seus sentimentos e 59 inquietações: “na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto – ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido” (LISPECTOR, 1998, p. 31). Por esse motivo, na “hora perigosa da tarde”, quando as obrigações domésticas estavam todas cumpridas, Ana precisava encontrar alguma forma de despistar o vazio e a solidão. Para isso ela costumava aproveitar esse momento para ir às compras ou sair para levar algo para consertar, pois quando voltava a família já estava em casa, logo chegaria a noite e no dia seguinte ela “encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos” (LISPECTOR, 1998, p. 31), ou seja, a cada manhã ela podia retomar sua rotina habitual, que lhe permitia sentir-se segura. E é justamente numa dessas idas regulares às compras que acontece algo inusitado na rotina da protagonista. Voltando para casa, de bonde, ela vê um homem cego parado no ponto mascando chicletes. Uma cena que passaria despercebida para a maioria das pessoas incomodou profundamente a protagonista: “Ele mastigava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir - como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o [...]” (LISPECTOR, 1998, p. 32). Na sequência dos acontecimentos, Ana deixa cair a sacola de compras e a atenção de todas as pessoas no bonde volta-se para ela, inclusive do condutor, que estacou o veículo para saber o que estava acontecendo. Por fim o bonde voltou a se movimentar, o cego ficou para trás, mas para Ana, “o mal estava feito. Por quê? Teria esquecido que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente [...]. O mundo se tornara de novo um mal-estar” (LISPECTOR, 1998, p. 33). Não se sabe porque, mas aquele encontro insólito com o cego desperta profundos sentimentos na personagem, que começa a refletir profundamente sobre sua própria existência. Conforme Pozenato (2010, p. 167), [...] o cego desempenha aqui a função do espelho do conto anterior. Ana se vê, de alguma forma, refletida no cego: ela também não vê o mundo. Ao fazer esta constatação, entra em crise. E a marca da crise é o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. A esse novo olhar o mundo se apresenta sem lei, a serena compreensão baseada na separação entre as coisas desaparece. Tudo isso provoca simultaneamente prazer e mal-estar. É a náusea doce como situação- limite da consciência. Diante de uma vida resignada, na qual Ana desempenhava mecanicamente as funções tradicionalmente designadas para a mulher/mãe/esposa/dona de casa, Ana vive um processo de tomada de consciência após seu encontro com o cego, passando a refletir e questionar sua própria existência. Entretanto, mesmo passando a ter consciência de seu estar no mundo, 60 Ana não conseguirá mudar o futuro que seu destino de mulher lhe reserva, porque este é, na verdade, uma invenção de Ana para tornar inteligível o que ela não consegue compreender, mas que a epifania do cego mascando chicles a faz intuir, isto é, a falta de sentido da monotonia de sua vida. E o retorno de Ana à alienação não se dá mediante uma imposição, mas devido ao seu próprio assujeitamento (RÖHRIG, 2017, p. 202). Por fim analisaremos o conto A imitação da Rosa, cuja protagonista é Laura, personagem feminina de Clarice Lispector cujo rosto “tinha uma graça doméstica, os cabelos eram presos com grampos atrás das orelhas grandes e pálidas. Os olhos marrons, os cabelos marrons, a pele morena e suave, tudo dava a seu rosto já não muito moço um ar modesto de mulher” (LISPECTOR, 1998, p. 48). Trata- se de mais uma personagem clariceana que, que ao longo da narrativa, tem seu momento de epifania ao se deparar com o lado mais profundo do seu interior. De acordo com Brito (2007, p. 39), A imitação da rosa ilustra bem a noção de mimesis como “criação imagética”. A simplicidade dessa história é só aparente, ou seja, quando nos limitamos a ver que o fluxo narrativo se refere a uma mulher, no interior de sua casa, ocupando apenas três dos cômodos: a sala, o quarto, a cozinha. Ficam muito claras, neste conto, as transformações que a literatura promove ao incorporar referências e valores aceitos entre sujeitos da realidade da vida cotidiana. A narrativa, que gira em torno das rememorações e reflexões da personagem principal, começa com sua Laura preparando-se para aguardar a chegada do marido, Armando, pois juntos iriam ao encontro de um casal de amigos cujos nomes eram Carlota e João. Em sua imaginação, Laura pensava, em detalhes, sobre como seria a noite e como deveria esforçar-se para não falhar, não decepcionar o marido e nem seus amigos: eles iriam para o jantar de ônibus, “ela olhando como uma esposa pela janela, o braço no dele” (LISPECTOR, 1998, p. 47). No jantar, Armando, seu marido, ficaria conversando com João sobre as notícias dos jornais, ao passo que ela “falaria com Carlota sobre coisas de mulheres, submissa à bondade autoritária e prática de Carlota, recebendo enfimde novo a desatenção e o vago desprezo da amiga, a sua rudeza natural, e não mais aquele carinho perplexo e cheio de curiosidade” (LISPECTOR, 1998, p. 47). À medida que o conto avança, Clarice vai compondo o universo íntimo da personagem, levando o público-leitor a compreender, por exemplo, que Laura passa por um momento de retomada da normalidade, após um período de tratamento em uma clínica ou hospital. Ela está, portanto, tentando reassumir o controle de sua vida, “com seu gosto minucioso pelo método”, (LISPECTOR, 1998, p. 30) esforçando-se para cumprir seu papel de esposa conforme as convenções sociais determinadas pela sociedade. 61 Ao dar voz aos devaneios de Laura no momento em que ela se prepara para o jantar, Clarice vai compondo paulatinamente a personagem, contrapondo-a à amiga: “Carlota ambiciosa e rindo com força: ela, Laura, um pouco lenta, e por assim dizer cuidando em se manter sempre lenta; Carlota não vendo perigo em nada. E ela cuidadosa” (LISPECTOR, 1998, p. 49). A diferença entre ambas também fica evidente quando a autora descreve a forma com que elas organizam suas respectivas casas: “ao contrário de Carlota, que fizera de seu lar algo parecido com ela própria, Laura tinha tal prazer em fazer de sua casa uma coisa impessoal; de certo modo perfeita por ser impessoal” (LISPECTOR, 1998, p. 50). O ponto alto da narrativa acontece quando Laura se vê diante de um jarro com rosas e fica surpresa com tamanha beleza e perfeição: Nunca vi rosas tão bonitas, pensou com curiosidade. E como se não tivesse acabado de pensar exatamente isso, vagamente consciente de que acabara de pensar exatamente isso e passando rápida por cima do embaraço em se reconhecer um pouco cacete, pensou numa etapa mais nova de surpresa: “sinceramente, nunca vi rosas tão bonitas”. Olhou-as com atenção. Mas a atenção não podia se manter muito tempo como simples atenção, transformava-se logo em suave prazer, e ela não conseguia mais analisar as rosas, era obrigada a interromper- se com a mesma exclamação de curiosidade submissa: como são lindas (LISPECTOR, 1998, p. 57). Pensa, então, em pedir à empregada que leve as rosas para Carlota, que ficaria surpresa com a sua “delicadeza de sentimentos”, já que, afinal, “ninguém imaginaria que Laura tivesse também suas ideiazinhas” (LISPECTOR, 1998, p. 59). Esse gesto também impressionaria seu esposo, que “encararia com benevolência os impulsos de sua pequena mulher, e de noite eles dormiriam juntos” (LISPECTOR, 1998, p. 60). Esses pensamentos demonstram, mais uma vez, o desejo de Laura em ser reconhecida por estar adaptada a um padrão esperado de comportamento, bem como o desejo de agradar às pessoas, para ser bem vista e aceita socialmente. Entretanto, depois de pedir para a empregada enviar as rosas, Laura se vê arrependida, afinal: Por que dá-las, então? lindas e dá-las? Pois quando você descobre uma coisa boa, então você vai e dá? Pois se eram suas, insinuava-se ela persuasiva sem encontrar outro argumento além do mesmo que, repetido, lhe parecia cada vez mais convincente e simples. Não iam durar muito – por que então dá-las enquanto estavam vivas? O prazer de tê-las não significava grande risco – enganou-se ela – pois, quisesse ou não quisesse, em breve seria forçada a se privar delas, e nunca mais então pensaria nelas pois elas teriam morrido – elas não iam durar muito, por que então dá-las? O fato de não durarem muito parecia tirar-lhe a culpa de ficar com elas, numa obscura lógica de mulher que peca. Pois via-se que iam durar pouco (ia ser rápido, sem perigo) [...]. Olhou-as com enlevo, pensativa, profunda. E, sinceramente, nunca vi na minha vida coisa mais perfeita (LISPECTOR, 1998, p. 61). 62 Um simples jarro de rosas foi capaz de perturbar a ordem recentemente estabelecida, já que a “beleza extrema” das rosas a incomodava, contrastando com a opacidade de sua vida. Além disso, as rosas despertam em Laura questionamentos acerca de si, fazendo-a refletir sobre questões que nunca havia pensado, como, por exemplo, o fato dela nunca se preocupar consigo, vivendo a vida em função do outro: “Um segundo depois, muito suave ainda, o pensamento ficou levemente mais intenso, quase tentador: não dê, elas são suas. Laura espantou-se um pouco: porque as coisas nunca eram dela” (LISPECTOR, 1988, p. 61). Todo o discurso narrativo desenvolve-se na zona de tensão entre o pessoal e o impessoal, entre o positivo e o negativo, entre o sim e o não, revelando o quanto atitudes individuais podem afetar a coletividade. As escolhas de Laura são pensadas e repensadas com o objetivo de não frustrar os outros, aqueles com quem convive socialmente. A preocupação com a opinião alheia é o que mais a atormente. Enquanto Laura desempenha o papel social que dela esperam, a vida segue tranquila para os que estão a seu redor. No entanto, a partir do momento em que deixa de agir conforme os padrões sociais para ela estabelecidos, tudo se abala, tudo se desestrutura (BRITO, 2007, p. 46). Por fim, ao desfazer-se das rosas, Laura sente sua falta pois “haviam deixado um lugar claro dentro dela [...]. As rosas haviam deixado um lugar sem poeira e sem sono dentro dela. No seu coração, aquela rosa, que ao menos poderia ter tirado para si sem prejudicar ninguém no mundo, faltava. Como uma falta maior” (LISPECTOR, 1998, p. 31). O conto leva o público-leitor a refletir sobre os conflitos internos que podem ser desencadeados mediante situações simples e inusitadas do cotidiano. Quer conhecer outra interessante personagem feminina de Clarice Lispector? Leia o livro A hora da estrela, romance protagonizado por Macabéa, que será brevemente apresentado a seguir: DICAS 63 “Em seu último texto, A hora da estrela nos apresenta a história de Macabéa, uma nordestina pobre, raquítica e semianalfabeta. Diferente de suas personagens anteriores que inseridas no vazio de um quotidiano pequeno burguês, viviam um tédio confortável, Macabéa é só, sem laços de família e que mal tem forças para lutar pela sua sobrevivência na cidade do Rio de Janeiro. Macabéa, essa personagem de existência insignificante e miserável, é de grande importância no conjunto da obra de Clarice Lispector, pois trata-se de sua última personagem, de seu último livro. Depois de A Hora da Estrela, Clarice retira- se de cena, como que num gesto de desistência de tentar entender-se, de tentar entender a vida e sua dor, cessa sua busca desesperada de seu eu. Órfã de pai e mãe, Macabéa foi criada por uma tia “muito madrasta má” que também vem a falecer alguns anos depois. Não se sabe de que maneira, mas um dia a jovem chega ao Rio de Janeiro. Lá vai viver em uma pensão na rua do Acre, dividindo o quarto com mais quatro moças, todas Marias (da Penha, Aparecida, José e uma quarta que era apenas Maria), que trabalham como balconistas nas Lojas Americanas. Macabéa consegue um emprego de datilógrafa em um pequeno escritório (foi a única que aceitou trabalhar por aquele salário tão baixo). Lá divide o espaço com o chefe, o dono da firma e Glória, uma carioca da gema, fogosa e loira (artificial)” (CORDEIRO, 2017, p. 3273). Quer conhecer o restante da história dessa intrigante personagem? Leia o livro na íntegra, que está disponível em: http://colegioplante.com.br/wp-content/ uploads/2016/06/A-Hora-da-Estrela-Clarice-Lispector.pdf. Você também pode assistir ao filme cujo roteiro é uma adaptação do romance homônimo de Clarice Lispector. Ele foi produzido por Suzana Amaral em 1985. DICAS 3 A REPRESENTAÇÃO FEMININA EM LYGIA BOJUNGA Lygia Bojunga é autora de um expressivo conjunto de obras infantojuvenis, reconhecida pela qualidade de suas produções as quais problematizam o universo da criança inserida na dinâmica familiar e social. A notoriedade alcançada pelas personagens criados pela autora ganhou tamanho significado que ela é apontada pela crítica como sucessora de Monteiro Lobato. 64 UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA De acordocom Cristófano (2011, p. 1), “ao pensar na literatura como uma possibilidade de contribuir para a formação ideológica do povo brasileiro”, a escritora “utiliza as suas obras infantis e juvenis como um compromisso social. Por meio de suas obras literárias denuncia e favorece reflexões sobre várias questões, entre eles, o preconceito contra a mulher”. Além disso, em seu universo literário a temática de gênero também ganha atenção, motivo pelo qual será feita, a seguir, a análise de duas obras publicadas por Bojunga: A bolsa amarela e Corda Bamba. De forma sensível, a autora utiliza-se da fantasia para abordar temas essenciais como o respeito, a desigualdade e a liberdade, além de problematizar importantes questões acerca da identidade feminina. Um pouco sobre Lygia Bojunga Antes de continuar a leitura, que tal conhecer um pouco sobre a vida e a obra dessa escritora? “Nascida em Pelotas, em 1932, desde sua primeira publicação – Os colegas – em 1972, cativou um público que foi se solidificando a cada nova publicação. Esse reconhecimento resultou em premiações de mérito, tais como: em 1973, recebeu o Prêmio Jabuti, o mais importante prêmio literário do Brasil; em 1982, o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais prestigiado prêmio literário da literatura infantojuvenil, considerado o pequeno Nobel de Literatura; em 2004, foi agraciada com o Prêmio Memorial Astrid Lindgren, que é outorgado pelo governo da Suécia a um autor de literatura infantil e juvenil, a um ilustrador ou a um promotor da leitura, de qualquer país do mundo” (SANTOS, 2015, p. 34). FIGURA – LYGIA BOJUNGA FONTE: <http://obviousmag.org/literatura_em_movimento/2017/por-que-amar-as-obras- de-lygia-bojunga.html>. Acesso em: 8 set. 2019. Para conhecer as obras e outros dados interessantes da vida da autora, acesse o site: http:// www.casalygiabojunga.com.br/pt/index.html. IMPORTANT E TÓPICO 3 | REPRESENTATIVIDADE E REPRESENTAÇÃO FEMININA NA LITERATURA BRASILEIRA 65 O livro A bolsa amarela conta a história de Raquel, protagonista que, apesar de criança, possui personalidade forte e está sempre atenta a tudo que se passa ao seu redor, sendo detentora de três vontades. Logo no início do livro, Raquel deixa claro que sua vontade não é “vontade magra, pequenininha”, mas são vontades que “vão crescendo e engordando toda a vida” (BOJUNGA, 1990, p. 11), a saber: vontade de ser escritora, de ser garoto e de crescer. Nem sei qual das três me enrola mais. Às vezes acho que é a vontade de crescer de uma vez e deixar de ser criança. Outra hora acho que é a vontade de ter nascido garoto em vez de menina. Mas hoje tô achando que é a vontade de crescer. Já fiz de tudo para me livrar delas. Adiantou? Hmm! É só me distrair um pouco e uma aparece logo. Ontem mesmo eu tava jantando e de repente pensei: puxa vida, falta tanto ano pra eu ser grande. Pronto: a vontade de crescer desatou a engordar, tive que sair correndo pra ninguém ver. Faz tempo que eu tenho vontade de ser grande e ser homem. Mas foi só no mês passado que a vontade de escrever deu pra crescer também (BOJUNGA, 1990, p. 11-12). É a partir desses três desejos de Raquel que o público-leitor é convidado a mergulhar no universo da menina, caçula de quatro irmãos que sente falta da atenção familiar: “quando eu nasci minhas duas irmãs e meu irmão já tinham mais de dez anos. Fico achando que é por isso que ninguém aqui em casa tem paciência comigo” (BOJUNGA, 1990, p. 12). O grande conflito de Raquel é a necessidade de reprimir suas vontades, pois teme ser ridicularizada pela família. Esse fato, por si só, já dá pistas da estrutura familiar tradicional na qual crianças não podem ter vontades, devendo adotar uma postura de submissão frente às regras que lhe são impostas. Por esse motivo, a bolsa amarela torna-se o refúgio ideal para guardar e proteger as vontades de Raquel, que ficariam escondidas dos adultos que não se esforçam por compreendê-las. Não serão somente suas vontades que viverão na bolsa, mas também outros personagens que a menina vai agregando ao longo da história, como o galo Afonso. E assim a narrativa vai se desenvolvendo, em meio a relatos que misturam acontecimentos reais da família com o mundo criado no pensamento de Raquel, povoado por fantasias e por seus amigos imaginários, denominados André e Lorelai. Acerca das vontades de Raquel, Zinani (2015) observa que os problemas mais cruciais enfrentados pela menina são os dois últimos (vontade de ser garoto e de crescer). Considerando que crescer é algo que se resolverá automaticamente com o tempo, resta a vontade de tornar-se um garoto, desejo este que não está relacionado à troca de sexo, ou seja, o que está em jogo não são aspectos relacionados à anatomia ou à fisiologia, mas às questões sociais decorrentes das relações de gênero. Raquel passou a ter vontade de ser menino quando percebeu as relações de poder que remetem, inevitavelmente, as questões relacionadas à inferioridade atribuída ao feminino (ZINANI, 2015). 66 UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA Porque eu acho que é muito melhor ser homem do que mulher [...]. É, sim. Vocês podem um monte de coisas que a gente não pode. Olha: lá na escola, quando a gente tem que escolher um chefe, pras brincadeiras, ele sempre é um garoto. Que nem chefe de família: é sempre o homem também. Se eu quero jogar uma pelada, que é o tipo de jogo que eu gosto, todo o mundo faz pouco de mim e diz que é coisa pra homem; se eu quero soltar pipa, dizem logo a mesma coisa. É só a gente bobear que fica burra: todo o mundo tá sempre dizendo que vocês é que têm que meter as caras no estudo, que vocês é que vão ser chefe de família, que vocês é que vão ter responsabilidade, que – puxa vida! – você é que vão ter tudo. Até pra resolver casamento – então eu não vejo? – a gente fica esperando vocês decidirem. A gente tá sempre esperando vocês resolverem as coisas pra gente. Você quer saber de uma coisa? Eu acho fogo ter nascido menina (BOJUNGA, 1990, p. 16). Algumas formas de representação do feminino vão se desvelando no decorrer do texto, por exemplo, quando Raquel descreve uma de suas irmãs mais velhas: “Essa irmã que eu tô falando é bonita pra burro, você precisa ver. Nem sei o que ela é mais se bonita ou mascarada. Imagina que outro dia ela me disse: Eu sou bonita, não preciso trabalhar nem estudar: tem homem assim querendo me sustentar; posso escolher à vontade” (BOJUNGA, 1990, p. 26). A fala da irmã de Raquel (“tem homem querendo me sustentar”) associada à descrição física da moça (“bonita pra burro”) remete à objetificação do corpo feminino, que consiste em considerar a mulher como objeto ou coisa, e não como sujeito dotado de aspectos emocionais e psicológicos (BELMIRO et al., 2015). Em outro momento da narrativa Raquel tece reflexões sobre seu tio Júlio, cuja esposa gosta de gastar dinheiro com coisas que logo enjoam e descarta: Se eu fosse ele, eu ficava pra morrer de ver a tia Brunilda gastar o dinheiro numas coisas que ela enjoa logo. Mas ele não fica. Eu acho isso tão esquisito! Outra coisa um bocado esquisita é que, se ele reclama, ela diz logo: Vou arranjar um emprego. Aí ele fala: De jeito nenhum! E dá mais dinheiro. Pra ela comprar mais. E continuar enjoando (BOJUNGA, 1990, p. 26). Esse pequeno excerto do livro evidencia “uma forma de pensamento arcaico, base da sociedade patriarcal, no qual o homem se constitui como o único provedor e mantenedor do lar, não aceitando, de forma alguma, a participação feminina”; além disso, esse modo de pensar “contrapõe-se às discussões que preconizam o reconhecimento da mulher como sujeito e a valorização dos papeis sociais de ambos os gêneros” (ZINANI, 2015, p. 26-27). Ao situar o texto no momento histórico em que foi produzido, Cristófano (2011) lembra que [...] o discurso da protagonista vem de encontro às preocupações e ao debate das mulheres na década de setenta, quando o movimento hippie tendo por ideal ideias de BettyFriedman, luta pela igualdade entre os sexos qualquer que fosse a sua raça, sexo ou cor. Pela voz de Raquel, a autora apresenta, do ponto de vista da infância, reflexões a respeito de uma sociedade patriarcal que trata a mulher como um “segundo sexo”. TÓPICO 3 | REPRESENTATIVIDADE E REPRESENTAÇÃO FEMININA NA LITERATURA BRASILEIRA 67 Ao término da narrativa Raquel descobre que “ser menina podia ser tão legal quanto ser garoto (BOJUNGA, 1990, p. 125), e a vontade de ser um menino emagreceu tanto que foi sumindo. Isso aconteceu após Raquel conhecer a Casa dos Consertos, onde ela encontra uma família diferente na qual os papéis sociais não estão pré-definidos; ao contrário, os moradores alternam nas funções que tradicionalmente são divididas entre homens e mulheres. A bolsa amarela propicia ao público-leitor momentos de reflexão sobre o papel do homem e da mulher na sociedade, bem como sobre os problemas relacionados à infância, às relações familiares e ao questionamento da autoridade. Trata-se, portanto, de uma obra que contribui para a tomada de consciência da própria identidade. Outro livro importante de Lygia Bojunga que põe em cena questões relacionadas à descoberta da identidade e emancipação feminina é Corda bamba, protagonizada pela personagem Maria, menina que com apenas dez anos sofre a perda dos pais, Márcia e Marcelo, equilibristas de circo. Após o acidente ela vai morar com a avó materna, Dona Maria Cecília Mendonça de Melo, mulher de classe média alta que tentava comprar tudo, inclusive pessoas, com o poder do dinheiro. A narrativa tem início com a chegada de Maria na casa da avó, levada por Barbuda e Foguinho, artistas que trabalhavam no mesmo circo que os pais de Maria. A menina, que estava em luto pela perda dos pais, passava também por um momento de bloqueio psicológico que a impedia de compreender os acontecimentos em torno daquelas mortes. O obscurantismo desses fatos fazia com que a menina se sentisse culpada pelos acontecimentos. Percebe-se logo de início, pela atitude da avó, que a vida de Maria mudaria drasticamente na nova residência. Quando Barbuda explica aos moradores da casa que Maria trabalhava com eles no circo, a avó interrompe de forma veemente: “v – Agora ela não trabalha em mais nada, agora ela vai ficar morando aqui comigo e só vai estudar e brincar [...] – Isso era antigamente, essa história de Maria trabalhar em circo já passou (BOJUNGA, 1987, p. 13-14). A partir de então, além de ser tolhida em sua criatividade e liberdade, Maria passa a sofrer um processo de perda de identidade, já que as aprendizagens e vivências do circo são anuladas e ela passa a ter aulas particulares para recuperar, na percepção da avó, o tempo perdido em relação aos estudos. Entretanto, tal como a personagem Raquel, de A bolsa amarela, Maria encontra uma forma, em seu mundo imaginário, de sair daquele mundo em que ficava reclusa sob as determinações da avó. Tratava-se de uma corda bamba que a leva para um prédio em frente à janela do seu quarto, no qual se visualiza uma janela distinta das demais. Ao atravessá-la, Maria descobre seis portas de cores diferentes pelas quais ela vai incursionando ao longo da narrativa, sendo que a cada porta atravessada ela vai fazendo importantes descobertas acerca de si e da sua família. 68 UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA Maria acordou na hora certinha: estava recém clareando [...] pegou o arco e saiu pro calçadão. Não sentiu mais medo, não tremeu nem nada. E foi achando tão bom lá em cima, o passeio, tudo, que quando viu já tinha passado a janela diferente [...] então deu macha-à-ré até chegar no andaime [...] e aí espiou de rabo de olho. Viu um rapaz deitado e se assustou [...] Maria pulou pro andaime [...] Parou. Fascinada. Mal podendo acreditar. O rapaz era igualzinho ao pai dela, só que mais moço [...] ouviu uma voz dizendo Oi! Acorda! E só de ouvir a voz, o coração deu um esbarrão no peito e ela toda se virou pra olhar. Tinha uma moça debruçada na janela, igualzinha a mãe dela (BOJUNGA, 1987, p. 63) Durante os passeios que fez pela corda bamba Maria descobre, por exemplo, o motivo da solidão e do egoísmo da sua avó e revive o momento da morte dos pais, compreendendo o motivo pelo qual eles arriscaram a vida no espetáculo circense que ocasionou a tragédia. Ao reviver fatos de dor, Maria consegue elaborar seu luto e viver momentos de superação: trata-se de um processo que, “embora doloroso, conduz a menina para a recuperação da memória e, de posse do conhecimento da vida vivida, sente-se livre da culpa [...]” (SANTOS, 2015, p. 46-47). Finalmente, Maria se vê diante de uma porta de cores múltiplas, que ela nunca tinha visto: [...] ué que porta nova era aquela? Era uma porta diferente de tamanho e de feitio, diferente de pintura também: parecia que estavam experimentando uma porção de cor: tinha uma porção de pinceladas, cada uma de uma tinta. Maria abriu a porta bem devagar. Mas sem medo. Era um quarto vazio [...] Maria começou a passar muito tempo no quarto novo [...] O tempo vai passando, mais portas vão aparecendo, e Maria vai abrindo todas elas, e vai arrumando cada quarto[...] Num quarto ela bota o circo onde vai trabalhar; no outro ela gota o homem que ela vai gostar; no outro os que ela vai ter. Arruma, prepara, prepara: ela sabe que vai chegar o dia de poder escolher (BOJUNGA, 1987, p. 123). Na percepção de Santos (2015), Corda bamba é uma obra emancipatória, pois a menina consegue suplantar um passado opressor podendo, por fim, planejar ela mesma seu futuro, sem ficar presa às determinações que lhe são impostas. Lima (2014), por sua vez, destaca a importância desse processo de emancipação uma vez que o que se vê, ao longo do tempo, é que ao gênero feminino sempre foi “imposto o silêncio, a aceitação a tudo que lhes fosse imputado e a não permissividade de realizar escolhas”. É interessante notar que o processo de escolha e de emancipação feminina pode ser notado também na história da mãe de Maria, que mesmo contrariando sua mãe, resolve casar-se com Marcelo, que não pertencia à mesma classe social. A tentativa de Dona Maria Cecília de comprar Marcelo para que a união não se concretizasse foi em vão, já que o amor de ambos falou mais forte. TÓPICO 3 | REPRESENTATIVIDADE E REPRESENTAÇÃO FEMININA NA LITERATURA BRASILEIRA 69 4 A REPRESENTAÇÃO FEMININA EM MARINA COLASANTI Marina Colasanti, além de escritora de obras literárias é também jornalista, ensaísta, tradutora e artista plástica. Autora de mais de 50 títulos publicados dentro e fora do Brasil, ela é também uma das mais premiadas escritoras brasileiras. De acordo com Silva (2003, p. 32), a principal característica dessa personalidade cultural expoente da contemporaneidade é a diversidade, sendo que “em cada uma dessas suas atividades, constitui uma espécie de leitmotiv a preocupação com o universo feminino. (Re) pensar a condição feminina no mundo é, para a autora, reflexão imprescindível na prática intelectual e artística da mulher”. De fato, a obra literária de Colasanti fornece uma série de elementos que permitem ao público-leitor perceber as relações homem-mulher no mundo. A propósito, Marina não somente escreve sobre a mulher como também tece importantes reflexões sobre o papel social da mulher-escritora, sendo bastante conhecido seu artigo Por que nos perguntam se existimos, no qual ela afirma que [...] as escritoras estão perfeitamente conscientes de que ainda hoje um preconceito pesado tende a colorir de rosa qualquer obra de literatura feminina. Apesar da onda dos anos sessenta que envolveu os escritos das mulheres em um grande e esperançoso movimento, não conseguimos vencer a barreira. O preconceito perdura. Pesquisas mostram que basta a palavra mulher em um título para espantar os leitores homens e abrandar o entusiasmo dos críticos. E embora não precisemos mais nos esconder atrás de pseudônimos masculinos, como no século XIX,sabemos que os leitores abordam um livro de maneira diferente quando ele é escrito por uma mulher ou por um homem (COLASANTI, 1997, p. 37). Por meio de suas obras, Marina Colasanti leva o público-leitor a refletir sobre a condição da mulher na sociedade e, ao mesmo tempo, dá voz a essa mulher, sugerindo a construção de outras imagens representativas do feminino. Para compreender como essa temática está presente na obra dessa escritora, faremos a análise dos contos A moça tecelã e Além do bastidor. 70 UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA Que tal conhecer um pouco mais sobre a escritora Marina Colasanti antes de continuar a leitura? Leia, a seguir, sua biografia. Marina Colasanti nasceu em 1937 na cidade de Asmara, capital da Eritreia. Residiu posteriormente em Trípoli, na Líbia, mudou-se para Itália e, em 1948, transferiu-se com a família para o Brasil, onde vive até hoje na cidade do Rio de Janeiro. É casada com o também escritor Affonso Romano de Sant’Anna e tem duas filhas, Fabiana e Alessandra Colasanti. De formação artista plástica, ingressou no Jornal do Brasil, dando início à sua carreira de jornalista. Desenvolveu atividades em televisão, editando e apresentando programas culturais. Foi publicitária. Traduziu importantes autores da literatura universal. Seu primeiro livro data de 1968, hoje são mais de cinquenta títulos publicados no Brasil e no exterior, entre os quais livros de poesia, contos, crônicas, livros para crianças e jovens e ensaios sobre os temas literatura, o feminino, a arte, os problemas sociais e o amor. Hora de alimentar serpentes e Mais de 100 histórias maravilhosas são algumas de suas obras consagradas. Por meio da literatura, teve a oportunidade de retomar sua atividade de artista plástica, tornando-se sua própria ilustradora. [...] FIGURA – MARINA COLASANTI FONTE: <https://globaleditora.com.br/autores/biografia/?id=2607>. Acesso em: 8 set. 2019. É uma das mais premiadas escritoras brasileiras, detentora de vários prêmios Jabutis, do Grande Prêmio da Crítica da APCA, do Melhor Livro do Ano da Câmara Brasileira do Livro, do prêmio da Biblioteca Nacional para poesia, de dois prêmios latino-americanos. Foi o terceiro prêmio no Portugal Telecom de Literatura 2011. Tornou-se hors-concours da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), após ter sido várias vezes premiada. FONTE: <https://globaleditora.com.br/autores/biografia/?id=2607>. Acesso: 13 ago. 2019. IMPORTANT E A moça tecelã é considerado um conto de fadas moderno, que retrata a vida de uma jovem que passa o dia a tecer, conforme enunciado nos parágrafos iniciais da narrativa: TÓPICO 3 | REPRESENTATIVIDADE E REPRESENTAÇÃO FEMININA NA LITERATURA BRASILEIRA 71 Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear. Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte. Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava. Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela. Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza. Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias (COLASANTI, 1985, p. 7). Conforme reiterado mais de uma vez no texto, “Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer”, pois realizando essa atividade cotidiana ela se sentia feliz. Com o tempo, porém, a tecelã começa a se sentir sozinha, motivo pelo qual resolve tecer um marido: “com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia” (COLASANTI, 1985, p. 8). E foi assim que ela compôs seu esposo, com o qual viveu feliz por um certo tempo, sempre pensando em aumentar sua felicidade quando os filhos viessem a fazer parte daquela família. O marido, porém, não compactuava dos mesmos sonhos que a esposa. Ao invés de filhos ele pediu que ela tecesse uma casa melhor, e a seguir quis que a casa se transformasse em um palácio, feito de pedra e arrematado em prata. O trabalho de tessitura do palácio foi exaustivo, exigindo muito trabalho da jovem tecelã. Quando ficou pronto, o marido abrigou-a no alto da torre, para que ninguém descobrisse seu tear. Os desejos do marido eram infinitos e, sem descanso, a mulher era obrigada a tecer seus caprichos: estrebarias, cavalos, cofres de moedas, salas de criados. Porém, quanto mais tecia mais triste ficava, passando a sentir saudades do tempo em que, mesmo sozinha, era feliz, tecendo sua vida, sonhos e humores com as diversas cores dos fios que colocava em seu tear. Resolveu, então, voltar ao tear, segurar a lançadeira ao contrário e desfazer todo aquele tecido: Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela. A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu. Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte (COLASANTI, 1985, p. 8). 72 UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA Analisando o conto nota-se que o marido, a princípio, exerce uma evidente dominação em relação à tecelã, que cumpria todos os seus desejos materiais. Instaurado o conflito, ou seja, quando a mulher tem consciência do estado de tristeza em que vivia, ela mesma resolve a situação em busca do seu final feliz. Como bem observado por Soares e Carvalho (2015, p. 119), é interessante notar que “a resolução do conflito não está na figura masculina e sim no desaparecimento do companheiro”, expediente bastante inusitado quando comparado aos contos de fadas tradicionais. Além do bastidor, conto integrante do livro Uma ideia toda azul (1998), também gira em torno do ofício do tear, metáfora recorrente na obra de Colasanti que remete à ideia de transformação interior e crescimento natural (GOULD, 2005). O conto tem início com a personagem decidindo o que irá bordar; ela sabe apenas que quer utilizar a cor verde. Ao começar o bordado, viu que ele tomou a forma de capim, “alto, com as pontas bordadas como se olhasse para alguma coisa” (COLASANTI, 2015, p. 16). Aos poucos, diferentes componentes são gradativamente tecidos e um cenário vai surgindo por meio de suas habilidosas mãos: Assim, aos poucos, sem risco, um jardim foi aparecendo no bastidor. Obedecia às suas mãos, obedecia ao seu próprio jeito, e surgia como se no orvalho da noite se fizesse a brotação. Toda manhã a menina corria para o bastidor, olhava, sorria, e acrescentava mais um pássaro, uma abelha, um grilo escondido atrás de uma haste (COLASANTI, 1985, p. 7). Embora fruto de um trabalho intenso da jovem, trata-se de um cenário que vai se formando espontaneamente, sendo sua composição comparada à brotação que surge imperceptivelmente no orvalho da noite. À medida que vai compondo seu bordado, a menina sente-se feliz, diante daquele universo que ela mesma criara. Começa, então, “a gostar dele mais do que qualquer outra coisa” (COLASANTI, 1985, p. 5).Na sequência da narrativa chama a atenção uma mudança repentina na forma verbal utilizada por Marina Colasanti, que do passado contínuo vai para pretérito perfeito “Foi no dia da árvore”. Na percepção de Cordeiro (2018), a mudança é indicativa de que algo definitivo estava prestes a acontecer: Foi no dia da árvore. A árvore estava pronta, parecia não faltar nada. Mas a menina sabia que tinha chegado a hora de acrescentar os frutos. Bordou uma fruta roxa, brilhante, como ela mesma nunca tinha visto. E outra, até a árvore ficar carregada, até a árvore ficar rica, e sua boca se encher do desejo daquela fruta nunca provada (COLASANTI, 1985, p. 13). Ao término do bordado, portanto, a menina sente necessidade de bordar os frutos, cuja presença lhe despertam novos desejos. Para Cordeiro (2018, p. 3330), “a fruta bordada a conduz para um mundo de descoberta. Provado esse novo sabor, todos os dias, a personagem busca por ele, descendo ao seu bordado”. TÓPICO 3 | REPRESENTATIVIDADE E REPRESENTAÇÃO FEMININA NA LITERATURA BRASILEIRA 73 O final da narrativa permite supor que a menina foi viver dentro do seu próprio bordado, contando, para isso, com a ajuda da irmã mais velha, já que ela mesma não poderia fazer seu próprio bordado: Bordou os cabelos, e o vento não mexeu mais neles. Bordou a saia, e as pregas se fixaram. Bordou as mãos, para sempre paradas no pescoço da garça. Quis bordar os pés, mas estavam escondidos pela grama. Quis bordar o rosto, mas estava escondido pela sombra. Então bordou a fita dos cabelos, arrematou o ponto, e com muito cuidado cortou a linha (COLASANTI, 1985, p. 14). Chama a atenção, no final, o fato de a menina ir morar dentro de um bordado que ela mesma criou, situação que remete à ideia da mulher enquanto construtora de seu próprio destino. Ao contrário dos contos de fadas tradicionais, nos quais a mulher fica à espera do príncipe que a levará para um castelo, aqui seu futuro é definido e composto por ela mesma. Também é interessante notar que em nenhum momento a garota demonstra medo ou insegurança; ao contrário, ela sempre se mostrava decidida quanto ao que fazer. Isso configura-se, para Soares e Carvalho (2015, p. 115), em um novo tipo de protagonismo feminino presente nos contos de fadas modernos, que “propõe a desconstrução de estereótipos. O natural, para alguns, seria que a personagem feminina tivesse seus medos e fosse frágil, características tradicionalmente ligadas ao feminino”. Fazendo uma correlação entre A moça tecelã e Além do bastidor, nota- se que ambas as narrativas são canalizadas para o desejo de libertação de suas protagonistas que, em suas atividades cotidianas, tecem seus mundos, atravessam obstáculos e constroem seus destinos de forma independente. São contos em que “novas imagens são divergentes das que foram estigmatizadas, ao longo da história, por obras em que a voz autoral masculina era a única legitimada” (SOARES; CARVALHO, 2015, p. 120). Chegamos ao final da primeira unidade. Esperamos que os estudos realizados até aqui tenham contribuído para sua construção do conhecimento acerca das relações entre gênero e literatura. Na próxima unidade daremos continuidade ao debate, colocando em pauta questões relacionadas à raça, à etnia e à diversidade cultura. Será que esses temas são contemplados na nossa literatura? 74 UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA LEITURA COMPLEMENTAR DA MARGEM: A MULHER ESCRITORA E A HISTÓRIA DA LITERATURA Cecil Jeanine Albert Zinani Natalia Borges Polesso Este artigo busca, dentro de uma visão histórico-cultural, aproximar-se do entendimento da crítica feminista e de suas implicações no sistema literário brasileiro e sul-rio-grandense, bem como agregação ou exclusão de obras no cânone. Também, procura mostrar que literatura é, por vezes, uma provocação ao conhecimento das coisas e do mundo. A literatura carrega marcas do particular cultural de cada autor/a e das posições de sujeito com as quais ele ou ela se identifica e se relaciona. Nessa perspectiva, podemos pensar a literatura como um produto estético não determinado pelo meio nem feito para determiná-lo como algo específico, porém, carregado de marcas culturais que afetam os processos de formação, com suas peculiaridades e possibilidades, ou seja, o registro de uma construção das diferenças e das distintas formas de se lidar com as experiências do desenvolvimento social e cultural do indivíduo e da coletividade. Para esse entendimento, Lopes (2005, p. 19) sugere que se desconstrua o discurso canônico, pois “a certeza fendida solicita o diálogo [...], descentraliza o poder e ilumina facetas do objeto que um único olhar não desvendaria. Sob essa luz, a literatura brasileira deve transparecer um pouco mais claramente”. Como consequência, a compreensão desses processos poderia propor uma diferente leitura do mundo, valorizando as produções culturais que figuram às margens da história da literatura. É realmente necessário discutirmos a violência aplicada à subjetividade feminina numa sociedade de arranjos patriarcais. Portanto, um olhar a partir da margem é urgente. E o que seria essa margem? Nas relações de gênero, assimétricas e de dominação, o que não é masculino assume uma posição marginal. No século XVIII, Mary Wollstonecraft (1792) fazia uma crítica ao poeta Hans Carvel que escreveu “If weak women go astray, the stars are more in fault than they”, dizendo que mulheres fracas não são capazes de exercer a razão, o pensamento próprio, e vivem à deriva de sonhos. Wollstonecraft percebeu o insulto à intelectualidade feminina no poema de Carvel, e no livro A vindication of the rights of woman, ela discute o fato de que as mulheres são forçadas a uma passividade e caracterizadas como inocentes ou ingênuas quando o mérito é o intelecto. Podemos notar que a discussão é bastante longa e adversa, visto que ainda hoje é preciso quebrar preconceitos e retomar debates acerca do tema, para que se crie um espaço de diálogo simétrico. Historicamente, o discurso dominante (androcêntrico) reforçou a ideia de inferioridade intelectual feminina e, nesse sentido, podemos dizer que “a figura da autora foi deformada [...] e para se chegar a ela é preciso ler através das ocultações que apontam conflitos sincrônicos entre as representações da mulher, TÓPICO 1 | REFLEXÕES ACERCA DE GÊNERO E EDUCAÇÃO 75 as representações de sua desfiguração e sua afirmação pela escrita”, conforme Telles. (1992, p. 45-46). Isto é, além de fazer uma espécie de decodificação do texto, é preciso fazer emergir o discurso que ali subjaz. Além disso, segundo Moi (1988), o principal objetivo de uma crítica feminista sempre foi político, simplesmente porque procura desvelar e não perpetuar práticas tomadas como naturais na sociedade. Logo, a crítica feminista está para, em princípio, revelar essa “desfiguração” e, depois, para, gradativamente, diminuir as lacunas culturais deixadas ao longo dos séculos na consolidação do percurso intelectual feminino. A crítica feminista e os estudos culturais de gênero trazem a possibilidade de observação do fenômeno de maneira mais atenta, iluminando as produções deixadas às escuras margens da dita Literatura – com L maiúsculo. Porém, além de observar a margem, é também necessário trazer o olhar desde a margem. Dessa forma, criando um estranhamento às práticas naturalizadas, é possível reescrever “a” história da literatura e perceber que há sempre uma perspectiva diferente da que hoje existe e que já está tão desgastada. A pluralidade que o olhar da margem traz, permite a inclusão e a legitimação de escritores e escritoras que foram esquecidos ao longo da história. Esse calibrado olhar desde a margem proporciona um deslocamento completo do sujeito para com a visão de mundo, que, muitas vezes, é construída monoliticamente, e, assim, se inscreveu na história da sociedade, no pensamento dessa. Subverter esse modo de pensar tradicional é penetrar no território selvagemde que fala Showalter (1994), um campo de domínio masculino, onde o poder autoriza o próprio poder, criando um hermetismo sociocultural para o trânsito intelectual feminino. Então, subverter significa desvincular-se de alguns padrões e criar conceitos para uma crítica marginal, ou seja, preparar um aparato crítico que dê conta da análise textual de escritores e escritoras, sem se contaminar com o olhar dominante que se tinha até então, para, mais tarde, verificar as diferenças interiores dessa escrita. Assim, a revisitação teórico-crítica de obras marginalizadas, as reinscreveria na trajetória da literatura, propondo a desuniversalização do ponto de vista masculino. E, através da compreensão de escritoras que produzem uma literatura particular, construída pelo seu ato de escrever, num campo em que predominam valores tradicionais arraigados às práticas sociais e à sua cultura, poder-se-ia ter um enriquecimento do processo literário. Contudo, a produção de estudos acadêmicos sobre gênero, ou estudos femininos dentro da literatura de pesquisa, é recente no Brasil, e, em termos de crítica literária independente, pode ser considerada ainda um tanto incipiente, especialmente se levarmos em consideração o fator da alfabetização. De acordo com Galvão (2002), até as primeiras décadas do século XX, as taxas de analfabetismo chegavam a quase 70% da população, e os índices de escolarização eram muito baixos. Ora, a produção de cultura escrita e a produção acadêmica geradas algumas décadas atrás, certamente, não tinham o impacto que têm hoje. Ao contrário, essas produções poderiam ser acessadas, entendidas e discutidas apenas por uma elite letrada, em geral, dos grandes centros urbanos, que, muitas vezes, se identificava mais com o mote do poema de Carvel, citado no início do 76 UNIDADE 1 | RELAÇÕES DE GÊNERO E LITERATURA artigo, do que com a discussão que Mary Wollstonecraft (1995) gerou a partir dele. Portanto, muito da produção feminina escrita, tanto literária quanto crítica, política ou social pode ter-se perdido, especialmente pela não valorização desses trabalhos, afinal, o contexto da produção é uma sociedade patriarcal dominante que não considera a mulher como cidadã dotada de pensamentos, vontades e direitos, negando-lhe, também, uma identidade intelectual. Entendemos sociedade patriarcal como uma sociedade em que naturalmente os homens detêm o poder de decidir as verdades que sustentam o mundo. Lemaire, considera que a história literária, da maneira como vem sendo escrita e ensinada até hoje na sociedade ocidental moderna, constitui um fenômeno estranho e anacrônico. Um fenômeno que pode ser comparado com aquele da genealogia nas sociedades patriarcais do passado: primeiro, a sucessão cronológica de guerreiros heroicos; o outro, a sucessão de escritores brilhantes. Em ambos os casos, as mulheres, mesmo que tenham lutado com heroísmo ou escrito brilhantemente, foram eliminadas ou apresentadas como casos excepcionais, mostrando que, em assuntos de homem, não há espaço para mulheres “normais” (1994, p. 58). Sendo assim, por muito tempo, a literatura feminina foi uma literatura de margem, ou seja, esteve à parte das grandes obras canônicas, salvo algumas exceções. Conforme considera Pinto (2003), embora no fim do século XIX, já houvesse indícios de um movimento sufragista no Brasil, foi mesmo no século XX, com o processo de urbanização, que ele ganhou expressão. Logo, precisamos lembrar que apenas uma pequena elite tinha acesso à língua escrita no País e que essa elite era composta, em sua maioria, pelo gênero masculino, portanto, tanto a figura da leitora quanto a da autora foram restringidas ou totalmente excluídas. Muito embora as relações entre os gêneros sejam díspares, e os estudos sobre essas relações sejam baseados no contraste das representações simbólicas, culturalmente relativas, de masculinidades e feminilidades, ou de classes, ou ainda étnicas, é também possível estudar a representação de cada gênero por si, situado historicamente num espaço construído, como o da literatura. Através dos estudos culturais de gênero, é possível estabelecer algumas hipóteses relevantes, especialmente, se considerarmos a desuniversalização dos pontos de vista canônicos. Sabemos que a construção da identidade e, no caso, de uma identidade cultural, é marcada pela diferença e envolve certa negação. Isto é, ser mulher é não ser homem. Mas a constituição da identidade tem caráter relacional e, por isso, sempre há um ponto de convergência: somos todos humanos. Os fatores se entrelaçam sem que possamos delimitar uma margem. Contudo, não se pode negar a influência dessa divisão na construção das sociedades e de seus reflexos no campo intelectual, bem como na linguagem e na cultura, proporcionando leituras hierárquicas que são aceitas como verdades. [...] FONTE: ZINANI, C. J. A.; POLESSO, N. B. Da margem: a mulher escritora e a história da literatura. Métis: história e cultura, Caxias do Sul, v. 9, n. 18, p. 99-112, jul./dez. 2010. Disponível em: www. ucs.br/etc/revistas/index.php/metis/article/download/998/1054. Acesso: 13 ago. 2019. 77 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Durante muito tempo as mulheres não tiveram espaço na literatura, motivo pelo qual a representatividade do cânone é majoritariamente masculina. • O fato das mulheres não compuserem o cânone literário não significa incompetência para escrever, mas que a escrita literária era um espaço de predominância masculino. • A leitura de obras literárias escritas por mulheres permite identificar suas inquietudes individuais e coletivas, problematizando seu papel na sociedade. • Dentre as diversas escritoras que retratam a condição da mulher na sociedade por meio de obras com protagonistas femininas destacam-se Clarisse Lispector, Lygia Bojunga e Marina Colasanti. • Os diversos contos produzidos por Clarice Lispector, que quase sempre retratam situações do cotidiano, colocam o leitor face a face com multirrepresentações da mulher na sociedade. • As obras infantojuvenis produzidas por Lygia Bojunga favorecem reflexões sobre diversas questões sociais, dentre elas as relações de gênero. • A obra de Marina Colasanti permite que o público-leitor reflita sobre a condição da mulher na sociedade, sugerindo a construção de outras imagens representativas do feminino. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 78 1 Leia o conto Entre a espada e a rosa, de Marina Colasanti. AUTOATIVIDADE Qual é a hora de casar, senão aquela em que o coração diz "quero"? A hora que o pai escolhe. Isso descobriu a Princesa na tarde em que o Rei mandou chamá-la e, sem rodeios, lhe disse que, tendo decidido fazer aliança com o povo das fronteiras do Norte, prometera dá-la em casamento ao seu chefe. Se era velho e feio, que importância tinha frente aos soldados que traria para o reino, às ovelhas que poria nos pastos e às moedas que despejaria nos cofres? Estivesse pronta, pois breve o noivo viria buscá-la. De volta ao quarto, a Princesa chorou mais lágrimas do que acreditava ter para chorar. Embotada na cama, aos soluços, implorou ao seu corpo, a sua mente, que lhe fizesse achar uma solução para escapar da decisão do pai. Afinal, esgotada, adormeceu. E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo ficou. E ao acordar de manhã, os olhos ainda ardendo de tanto chorar, a Princesa percebeu que algo estranho se passava. Com quanto medo correu ao espelho! Com quanto espanto viu cachos ruivos rodeando-lhe o queixo! Não podia acreditar, mas era verdade. Em seu rosto, uma barba havia crescido. Passou os dedos lentamente entre os fios sedosos. E já estendia a mão procurando a tesoura, quando afinal compreendeu. Aquela era a sua resposta. Podia vir o noivo buscá-la. Podia vir com seus soldados, suas ovelhase suas moedas. Mas, quando a visse, não mais a quereria. Nem ele nem qualquer outro escolhido pelo Rei. Salva a filha, perdia-se, porém, a aliança do pai. Que tomado de horror e fúria diante da jovem barbada, e alegando a vergonha que cairia sobre seu reino diante de tal estranheza, ordenou-lhe abandonar o palácio imediatamente. A Princesa fez uma trouxa pequena com suas joias, escolheu um vestido de veludo cor de sangue. E, sem despedidas, atravessou a ponte levadiça, passando para o outro lado do fosso. Atrás ficava tudo o que havia sido seu, adiante estava aquilo que não conhecia. Na primeira aldeia aonde chegou, depois de muito caminhar, ofereceu- se de casa em casa para fazer serviços de mulher. Porém ninguém quis aceitá-la porque, com aquela barba, parecia-lhes evidente que fosse homem. 79 Na segunda aldeia, esperando ter mais sorte, ofereceu-se para fazer serviços de homem. E novamente ninguém quis aceitá- la porque, com aquele corpo, tinham certeza de que era mulher. Cansada, mas ainda esperançosa, ao ver de longe as casas da terceira aldeia, a Princesa pediu uma faca emprestada a um pastor, e raspou a barba. Porém, antes mesmo de chegar, a barba havia crescido outra vez, mais cacheada, brilhante e rubra do que antes. Então, sem mais nada pedir, a Princesa vendeu suas joias para um armeiro, em troca de uma couraça, uma espada e um elmo. E, tirando do dedo o anel que havia sido de sua mãe, vendeu-o para um mercador, em troca de um cavalo. Agora, debaixo da couraça, ninguém veria seu corpo, debaixo do elmo, ninguém veria sua barba. Montada a cavalo, espada em punho, não seria mais homem, nem mulher. Seria guerreiro. E guerreiro valente tornou-se, à medida que servia aos Senhores dos castelos e aprendia a manejar as armas. Em breve, não havia quem a superasse nos torneios, nem a vencesse nas batalhas. A fama da sua coragem espalhava-se por toda parte e a precedia. Já ninguém recusava seus serviços. A couraça falava mais que o nome. Pouco se demorava em cada lugar. Lutava cumprindo seu trato e seu dever, batia-se com lealdade pelo Senhor. Porém suas vitórias atraíam os olhares da corte, e cedo os murmúrios começavam a percorrer os corredores. Quem era aquele cavaleiro, ousado e gentil, que nunca tirava os trajes de batalha? Por que não participava das festas, nem cantava para as damas? Quando as perguntas se faziam em voz alta, ela sabia que era chegada a hora de partir. E ao amanhecer montava seu cavalo, deixava o castelo, sem romper o mistério com que havia chegado. Somente sozinha, cavalgando no campo, ousava levantar a viseira para que o vento lhe refrescasse o rosto acariciando os cachos rubros. Mas tornava a baixá-la, tão logo via tremular na distância as bandeiras de algum torreão. Assim, de castelo em castelo, havia chegado àquele governado por um jovem Rei. E fazia algum tempo que ali estava. Desde o dia em que a vira, parada diante do grande portão, cabeça erguida, oferecendo sua espada, ele havia demonstrado preferi-la aos outros guerreiros. Era a seu lado que a queria nas batalhas, era ela que chamava para os exercícios na sala de armas, era ela sua companhia preferida, seu melhor conselheiro. Com o tempo, mais de uma vez, um havia salvo a vida do outro. E parecia natural, como o fluir dos dias, que suas vidas transcorressem juntas. 80 Companheiro nas lutas e nas caçadas, inquietava-se, porém, o Rei vendo que seu amigo mais fiel jamais tirava o elmo. E mais ainda se inquietava, ao sentir crescer dentro de si um sentimento novo, diferente de todos, devoção mais funda por aquele amigo do que um homem sente por um homem. Pois não podia saber que à noite, trancado o quarto, a princesa encostava seu escudo na parede, vestia o vestido de veludo vermelho, soltava os cabelos, e diante do seu reflexo no metal polido, suspirava longamente pensando nele. Muitos dias se passaram em que, tentando fugir do que sentia, o Rei evitava vê-la. E outros tantos em que, percebendo que isso não a afastava da sua lembrança, mandava chamá-la, para arrepender-se em seguida e pedia- lhe que se fosse. Por fim, como nada disso acalmasse seu tormento, ordenou que viesse ter com ele. E, em voz áspera, lhe disse que há muito tempo tolerava ter a seu lado um cavaleiro de rosto sempre encoberto. Mas que não podia mais confiar em alguém que se escondia atrás do ferro. Tirasse o elmo, mostrasse o rosto. Ou teria cinco dias para deixar o castelo. Sem resposta, ou gesto, a Princesa deixou o salão, refugiando-se no seu quarto. Nunca o Rei poderia amá-la, com sua barba ruiva. Nem mais a quereria como guerreiro, com seu corpo de mulher. Chorou todas as lágrimas que ainda tinha para chorar. Dobrada sobre si mesma, aos soluços, implorou ao seu corpo que lhe desse uma solução. Afinal, esgotada, adormeceu. E na noite seu mente ordenou, e no escuro seu corpo brotou. E ao acordar de manhã, com os olhos inchados de tanto chorar, a Princesa percebeu que algo estranho se passava. Não ousou levar as mãos ao rosto. Com medo, quanto medo! Aproximou-se do escudo polido, procurou seu reflexo. E com espanto, quanto espanto! Viu que, sim, a barba havia desaparecido. Mas em seu lugar, rubras como os cachos, rosas lhe rodeavam o queixo. Naquele dia não ousou sair do quarto, para não ser denunciada pelo perfume, tão intenso, que ela própria sentia-se embriagar de primavera. E perguntava-se de que adiantava ter trocado a barba por flores, quando, olhando no escudo com atenção, pareceu-lhe que algumas rosas perdiam o viço vermelho, fazendo-se mais escuras que o vinho. De fato, ao amanhecer, havia pétalas no seu travesseiro. 81 Uma após a outra, as rosas murcharam, despetalando-se lentamente. Sem que nenhum botão viesse substituir as flores que se iam. Aos poucos, a rósea pele aparecia. Até que não houve mais flor alguma. Só um delicado rosto de mulher. Era chegado o quinto dia. A Princesa soltou os cabelos, trajou seu vestido cor de sangue. E, arrastando a cauda de veludo, desceu as escadarias que a levariam até o Rei, enquanto um perfume de rosas se espalhava no castelo. FONTE: <https://www.marinacolasanti.com/2014/01/entre-espada-e-rosa.html>. Acesso: 13 ago. 2019. Agora é sua vez! Tendo como base os estudos realizados nessa unidade e as análises dos textos literários apresentados, faça sua própria análise do conto Entre a espada e a rosa, com o olhar voltado para as relações sociais de gênero presentes na narrativa. 2 (ENADE/2008 – LETRAS) Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espalhados. Ah que medo de começar e ainda nem sequer sei o nome da moça. Sem falar que a história me desespera por ser simples demais. O que me proponho contar parece fácil e à mão de todos. Mas a sua elaboração é muito difícil. Pois tenho que tornar nítido o que está quase apagado e que mal vejo. Com mãos de dedos duros enlameados apalpar o invisível na própria lama. Clarice Lispector. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 25. No trecho do romance A hora da Estrela, de Clarice Lispector, apresenta-se uma concepção do fazer literário, segundo a qual a literatura é: a) ( ) uma forma de resolver os problemas sociais abordados pelo escritor ao escrever suas histórias. b) ( ) uma forma de, pelo trabalho do escritor, tornar sensível o que não está claramente disponível na realidade. c) ( ) um dom do escritor, que, de forma espontânea e fácil, alcança o indizível e o mistério graças a sua genialidade. d) ( ) o resultado do trabalho árduo do escritor, que transforma histórias complexas em textos simples e interessantes. e) ( ) um modo mágico de expressão, por meio do qual se de abandona a realidade histórica em favor da pura beleza estética graças à sensibilidade do escritor. 82 83 UNIDADE 2 RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: •discutir o conceito de cultura, etnocentrismo, relativismo cultural, preconceito e discriminação e perceber a relação entre eles; • identificar a escola enquanto espaço de diversidade, respeito e valorização das diferenças; • compreender a importância das Leis n° 10.639/2003 e n° 11.645/2008 no contexto das relações étnico-raciais; • avaliar a importância dos estudos pós-coloniais enquanto perspectiva teórica e cultural que valoriza saberes não hegemônicos; • identificar autores e obras da literatura africana, indígena e de imigrantes. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO TÓPICO 2 – A LITERATURA E OS ESTUDOS PÓS-COLONIAIS TÓPICO 3 – LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 84 85 TÓPICO 1 DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Estamos iniciando a Unidade 2 deste Livro Didático denominado Raça, etnia, cultura e literatura, em que trataremos da diversidade cultural e suas implicações no contexto educacional e veremos como esses temas podem ser trabalhados em sala de aula por meio da literatura. A diversidade étnica e cultural brasileira é um fator de destaque do nosso país quando comparado com outros povos. O processo de colonização e os movimentos migratórios possibilitaram o desenvolvimento de um país plural no qual se integram culturas diversas como a indígena, a africana e a europeia, entre outras. Esse encontro de culturas pode ser sinônimo de riqueza – sempre há algo de bom para aprender com o outro – mas também pode significar a imposição de uma cultura sobre a outra, fazendo com que determinados modos de vida sejam considerados atrasados e inferiores. Assim, refletir sobre as relações étnico-raciais no ambiente escolar é uma forma de contribuir para a eliminação de atitudes preconceituosas que dificultam a convivência, estigmatizam pessoas e interferem no processo de construção da identidade pessoal e coletiva. O intuito desta unidade é abordar temas como diversidade, cultura e construção da identidade para que você, quando docente, esteja instrumentalizado teoricamente para adotar uma postura crítica e reflexiva frente aos desafios que provavelmente encontrará em sala de aula. No caso específico da literatura, adotamos o posicionamento de Jordão (2011, p. 291) ao enfatizar que “a sala de aula de literatura precisa ser valorizada como lócus potencial para a transformação dos processos interpretativos de alunos e professores, como espaço de confronto com o legitimado”. Assim, a temática da literatura pós-colonial e dos textos da literatura africana, indígena e de imigrantes serão contemplados nesta unidade para que posteriormente sejam levados para a sala de aula, oportunizando a formação de leitores e leitoras multiculturais e de pessoas que reconhecem a importância e o valor da diferença no processo de construção de si próprio. UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 86 2 A DIVERSIDADE NO CONTEXTO ESCOLAR Conforme visto na unidade anterior, a sala de aula é, por excelência, espaço de manifestação da diversidade na qual convivem pessoas de diferentes gêneros, etnias, religiões, orientação sexual, composição familiar, regiões geográficas, características físicas e comportamentais, ritmos de aprendizagem etc. Tais diferenças, que configuram uma riqueza cultural, muitas vezes acabam servindo para demarcar espaços que separam uns dos outros, em meio a uma prática social que inferioriza as pessoas conforme suas características identitárias e seu pertencimento a um determinado grupo: […] tal como acontece de maneira mais ampla na sociedade, sexismo, racismo e homofobia fazem parte do cotidiano escolar. Atitudes preconceituosas, discriminatórias, ofensivas, constrangedoras e mesmo práticas violentas com relação a mulheres, negros, pobres, homossexuais, entre outras categorias na qual se veste o preconceito, se inserem no meio escolar, fazendo com que se tenha que lidar, desde a mais tenra infância, com aquilo que se pode chamar de uma pedagogia do insulto, constituída de piadas, brincadeiras, jogos, apelidos, insinuações, expressões desqualificantes – poderosos mecanismo de silenciamentos e de dominação simbólica (DESLANDES, 2010, p. 1-2). Nesse contexto, a compreensão e o respeito à diversidade constituem-se em dimensões extremamente importantes do processo educativo, já que aprender a conviver com as diferenças é um grande desafio da contemporaneidade. Entretanto, tal como acontece em relação às questões de gênero, a escola muitas vezes contribui para reforçar atitudes preconceituosas, haja vista que a discriminação pode manifestar-se de diferentes formas, seja por meio do currículo formal ou do currículo oculto, ou seja, ela pode evidenciar-se no conteúdo ensinado, nos livros didáticos, nas atividades desenvolvidas, nas formas de avaliação, nas festas e comemorações, nos jogos e brincadeiras, nas piadas, apelidos, gestos e comportamentos de todos os sujeitos que fazem parte da dinâmica institucional. Conforme visto na unidade anterior, currículo oculto é tudo aquilo que é ensinado e aprendido na escola que não está expresso no currículo formal. “A acepção do currículo como conjunto de experiências planejadas é insuficiente, pois os efeitos produzidos nos alunos por um tratamento pedagógico ou currículo planejado e suas consequências são tão reais e efetivos quanto podem ser os efeitos provenientes das experiências vividas na realidade da escola sem tê-las planejado, às vezes nem sequer ser conscientes de sua existência. É o que conhece como currículo oculto” (SACRISTÁN, 1998, p. 43). IMPORTANT E TÓPICO 1 | DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO 87 Dessa forma, é necessário um olhar atento sobre as práticas escolares cotidianas, observando se elas estão ajudando a reforçar preconceitos e atitudes discriminatórias. Além disso, docentes podem fazer da sala de aula um espaço em que tais ações sejam problematizadas, discutidas e desnaturalizadas, uma vez que “a pluralidade cultural brasileira exige de cada um de nós um constante aprendizado de respeito às diferenças e de percepção da riqueza cultural que estas trazem consigo” (MICHALISZYN, 2014, p. 7). Por outro lado, é importante compreender que as diferenças não existem por si só; ao contrário, elas são construídas socialmente. Quando se definem pessoas ou atitudes como diferentes ou estranhas, faz-se uma comparação que é estabelecida por meio de parâmetros previamente determinados. Assim, é importante que o corpo docente reflita, junto com o discente, qual a origem histórica, social e cultural desses padrões de comportamento, uma vez que tais reflexões podem, segundo Michaliszyn (2014, p. 10), “contribuir para a eliminação de pensamentos e atitudes etnocêntricas, decorrentes das diferenças socioculturais presentes em grupamentos humanos distintos”. Antes de dar continuidade à leitura, que tal assistir a uma animação que ilustra como a diversidade pode ser trabalhada a partir de uma perspectiva de integração, em vez de negação? O curta metragem Dia e Noite (Day & Night) – dirigida por Teddy Newton e produzida pelos estúdios Disney Pixar – retrata o encontro do Dia com a Noite. A princípio eles se estranham e divergem entre si, mas depois percebem que cada um possui suas próprias especificidades e fascínios. Trata-se de uma animação que pode ser trabalhada em sala de aula com pessoas de qualquer idade, servindo como estímulo à reflexão sobre a importância de estarmos abertos para conhecer e vivenciar o modo de ser do outro. FICHA TÉCNICA: Título: Day & Night (Original) Ano produção: 2010 Dirigido por: Teddy Newton Duração: 6 minutos Gênero: Animação País de Origem: Estados Unidos Link para acesso ao vídeo:https://www.youtube.com/ watch?v=ZxFlN-yHES0. DICAS FIGURA – CURTA METRAGEM DIA E NOITE FONTE: <http://twixar.me/CHjT>. Acesso em: 10 jan. 2020. UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 88 3 COMPREENDENDO O CONCEITO DE CULTURA E ETNOCENTRISMO Conforme você acabou de ver, a hierarquização das diferenças não existe por si só; ela é construída socialmente a partir de parâmetros previamente determinados como sendo melhores ou mais corretos. Você também viu que é importante compreender a origem histórica, social e cultural desses padrões de comportamento que tentam sobrepor uma cultura a outra. Vejamos como isso acontece em relação a diferentes povos, por exemplo. É comum cada povo acreditar que sua cultura é melhor que a de outros povos, e tudo aquilo que se distancia de seu modo de vida é visto com estranhamento. Essa forma de enxergar o mundo é chamada de etnocentrismo, termo formado pela justaposição da palavra grega ethnos, que significa nação, tribo ou pessoas que vivem juntas e centrismo, que indica o centro. Ser etnocêntrico, portanto, significa colocar a própria cultura, o próprio modo de vida, no centro das relações. Retomando a canção popular que diz que Narciso acha feio o que não é espelho, Barreto, Araújo e Pereira (2009), sugerem que cada povo carrega em si um pouco de narcisismo e que isso, em certa medida, é compreensível, já que é normal gostarmos daquilo que crescemos acostumados a aprender a gostar. O termo narcisismo “tem origem na Mitologia Grega, na narrativa sobre Narciso, um jovem muito bonito que desprezou o amor de Eco e, por este motivo, foi condenado a apaixonar-se por sua própria imagem espelhada na água. Este amor levou-o à morte, afogado em seu reflexo. A partir deste mito, narcisismo passou a significar a tendência doentia de os indivíduos alimentarem paixão por si mesmos” (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 197, grifo das autoras). Segundo a lenda, a mãe Terra o converteu em uma flor (narciso). FIGURA – NARCISO, OBRA DO PINTOR BARROCO ITALIANO CARAVAGGIO FONTE: <https://virusdaarte.net/caravaggio-narciso/>. Acesso em: 15 set. 2019. NOTA TÓPICO 1 | DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO 89 Você já deve ter ouvido falar, por exemplo, que os seguidores do hinduísmo não comem carne bovina porque para eles a vaca é um animal sagrado. Provavelmente, essa crença causa estranhamento a nós, povo brasileiro, que crescemos imersos em outra cultura e em outras crenças religiosas. Da mesma forma, muitos hábitos e costumes brasileiros são estranhos para pessoas de outras nacionalidades, já que cada espaço organizado socialmente tem sua própria cultura, suas crenças e sua forma de compreender o mundo. Você conhece crenças ou hábitos que são comuns em outros povos, mas que parecem estranhos a nós que vivemos no Brasil e vice-versa? Vamos pensar em alguns e anotá-los aqui? Veja, a seguir, dez costumes brasileiros que são estranhos para pessoas que vivem em outros países. Hábitos que para algumas pessoas são normais podem ser estranhos para pessoas de outras culturas. Mostramos 10 hábitos brasileiros para gringos e eles estranharam tudo 1- Tomar mais de um banho por dia. 2- Escovar os dentes no trabalho. 3- Sentar ao lado do parceiro no restaurante. 4- Segurar sanduíche com guardanapo e comer pizza com garfo e faca. 5- Chamar todo mundo pelo primeiro nome (inclusive a presidente da República). 6- Jogar papel higiênico sujo em um lixinho ao lado da privada. 7- Ter 30 dias de férias por ano e mais de dez dias de feriados. 8- Comer abacate como fruta, inclusive com açúcar. 9- Marcar o horário de uma festa sabendo que as pessoas só vão chegar duas ou três horas depois. 10- Terminar mensagens com “abraços” ou “beijos”, mesmo com pessoas que você não conhece pessoalmente. Caso queira ler a matéria na íntegra, acesse o link: https://www.buzzfeed.com/br/rafaelcapanema/gringos-reagem-a-habitos-brasileiros. NOTA UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 90 Quando pensamos em hábitos e costumes de um determinado grupo social, estamos nos referindo a sua cultura. Assim, é importante que inicialmente tenhamos claro o conceito de cultura, palavra que norteará nossos estudos a partir de agora. Para isso, é preciso estabelecer um diálogo com a Antropologia, ramificação das Ciências Sociais responsável por estudar esse conceito. De forma geral, a cultura pode ser definida como um conjunto de padrões de comportamentos, mitos e crenças criados pelos seres humanos em determinada época e local. Trata-se, portanto, de um conjunto de saberes e conhecimentos acumulado pelas pessoas de um determinado grupo social que se torna traço distintivo de outros agrupamentos. O conceito de cultura foi modificando-se ao longo do tempo, sendo que algumas teorias antropológicas que surgiram no século XIX foram refutadas em estudos posteriores. Uma dessas teorias, conhecida como determinismo biológico, entende que a grande variedade cultural existente no mundo está relacionada à variedade genética. Essa teoria, que postula que a cultura está vinculada à biologia, influenciou teorias racistas e eugênicas, que defendiam o aperfeiçoamento e melhoria da raça por meio da genética. Tal ideia, entretanto, pode ser facilmente refutada: imagine, por exemplo, um bebê asiático sendo criado por uma família francesa. Com certeza ao longo da vida ele aprenderá hábitos e costumes europeus, e não asiáticos. Esse simples exemplo demonstra que o comportamento não está relacionado a fatores genéticos, mas sim a um processo de aprendizagem que recebe o nome de endoculturação, ou seja, “[...] não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais. Qualquer criança humana normal pode ser educada em qualquer cultura, se for colocada desde o início em situação conveniente de aprendizado” (LARAIA, 2011, p. 17). Essa explicação serve também para reforçar o que vimos na unidade anterior acerca das relações de gênero, já que muitos estudos antropológicos demonstram que atividades atribuídas a homens em uma determinada cultura podem ser delegadas a mulheres em outra, ou seja, a divisão sexual do trabalho é determinada culturalmente, e não biologicamente (LARAIA, 2011). O determinismo geográfico, por sua vez, é uma teoria que associa a cultura a aspectos geográficos, tentando provar que os comportamentos estão relacionados ao ambiente físico (clima, temperatura, vegetação, latitude) em que determinada população vive. Essa teoria também foi refutada pela constatação de que podem ocorrer manifestações culturais distintas entre povos que habitam o mesmo tipo de ambiente físico. Os esquimós e os lapões, por exemplo, que habitam a calota polar do norte da América e da Europa, respectivamente, embora vivendo sob as mesmas condições climáticas, encontraram maneiras distintas de solucionar problemas básicos de sobrevivência (LARAIA, 2011). TÓPICO 1 | DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO 91 O britânico Edward Taylor (1832-1917), por sua vez, influenciado pelas ideias evolucionistas, acreditava que a cultura seria um conjunto de regras, leis, tradições, religiões etc. organizadas em um todo complexo que passaria por diversos estágios até chegar em um grau mais elevado. Tendo como parâmetro a sociedade europeia, entendida como centro da civilização e polo irradiador de cultura, demais sociedades, segundo esse conceito, eram vistas como selvagens e deveriam, portanto, passar por um processo de evolução até conseguirem atingir o patamar europeu. Estabelecia-se, então, uma escala evolutiva que, na perspectiva de Laraia (2011, p. 34), “[…] não deixava de ser um processo discriminatório, através do qual as diferentes sociedades humanas eram classificadas hierarquicamente, com nítida vantagem para as culturas europeias. Etnocentrismo e ciência marchavam então de mãos juntas”. Refutando essa teoria de viés evolucionista, Franz Boas (1858 a 1942) afirmava que “cada culturasegue seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou” (LARAIA, 2011, p. 36). Boas desenvolveu, então, o método denominado particularismo histórico, que tinha como proposta investigar as particularidades de cada sociedade através do detalhamento histórico para então proceder à busca de evidências culturais. Ainda em oposição à perspectiva evolucionista, Bronislaw Manilowsky (1884-1942) concluiu que todas as culturas têm problemas muito parecidos, ou seja, todos os povos precisam criar formas de lidar com questões básicas de sobrevivência como a alimentação, a locomoção, a economia e a própria organização social. Entretanto, mesmo tendo problemas parecidos, cada cultura organiza-se de formas diferentes, ou seja, cada elemento da cultura tem como propósito cumprir determinada tarefa ou função, daí o nome da teoria por ele desenvolvida ficar conhecida como funcionalismo. Apesar das críticas à teoria evolucionista de Taylor, é preciso reconhecer, dentre outros méritos, que ele foi o primeiro a formular uma definição de cultura do ponto de vista antropológico. Utilizando a palavra germânica Kultur, que está relacionada aos aspectos espirituais de uma comunidade, e a palavra francesa civilization, que está relacionada às conquistas materiais, Taylor criou a ideia de culture, relacionada a um todo complexo que inclui tanto os aspectos espirituais quanto os materiais de uma sociedade, isto é, a cultura é um conjunto de “conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes, ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” (LARAIA, 2011, p. 25). Assim, consolidou-se a ideia de que a cultura está muito mais relacionada a um aprendizado – denominado endoculturação – do que a uma aptidão inata. Em 1917, um artigo publicado por Alfred Kroeber (1876-1960), denominado O superorgânico, trouxe elementos que finalmente dissociaram os aspectos culturais dos biológicos. Nele, Kroeber deixa claro que é pela cultura que homens e mulheres se distanciam do mundo animal, já que seus comportamentos são influenciados pela aprendizagem, e não definidos por instintos. UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 92 O defensor da teoria estruturalista Claude Lévi-Strauss (1908-2009), por sua vez, postula que as culturas operam com uma lógica própria a partir de sua própria estrutura simbólica. Assim, não é possível entender a lógica de outra cultura a partir da lógica da própria cultura, ou seja, sem conhecer o sistema que fundamenta essa lógica. Quando a pessoa tenta enxergar a cultura do outro a partir da própria lógica, quase sempre existe uma tendência a considerar o próprio modo de ser e viver como o melhor e o mais correto. Essa propensão para considerar a própria cultura como referência central para entender o mundo recebe o nome de etnocentrismo. Etnocentrismo é uma forma de pensar que considera o grupo em que se vive como melhor ou mais importante que qualquer outro. Assim, se um indivíduo acredita que seu grupo social é superior aos demais, ele pode ser considerado etnocêntrico. Tal conceito contrapõe-se ao de alteridade, que busca o respeito e a valorização do outro. IMPORTANT E O pensamento etnocêntrico geralmente gera intolerância em relação ao diferente, já que o ser humano tem uma propensão a entender aquilo que é diferente como errado, estranho ou bizarro, ou seja, ele tem uma tendência a considerar a própria cultura como superior à do outro. A ideia de superioridade, por sua vez, está relacionada à ideia de dominação, pensamento que ocasionou diversas guerras e conflitos no decorrer da história da humanidade. Vejamos, por exemplo, o que aconteceu durante o período de colonização brasileira. Os portugueses que chegaram ao Brasil enxergaram o modo de viver indígena com o olhar europeu e, por esse motivo, tentaram impor sua própria cultura para que a população nativa se portasse de acordo com seus padrões de comportamento. A não aceitação da imposição portuguesa pelos indígenas originou uma série de estereótipos, já que eles passaram a ser vistos como rebeldes, preguiçosos, indecentes e não civilizados. Da mesma forma, a situação de escravidão a qual os negros foram submetidos denota uma relação de dominação e controle visivelmente etnocêntrica (MICHALISZYN, 2014). Essa forma de entender a cultura remete ao pensamento da antropóloga americana Ruth Benedict, que afirma que “[...] as lentes através das quais uma nação olha a vida não são as mesmas que uma outra usa. É difícil ser consciente com os olhos através dos quais olhamos” (BENEDICT, 1972, p. 19). A compreensão de mundo de cada pessoa, portanto, passa por um filtro cultural, ou seja, por referências de sua própria cultura que lhe permite constituir valores e identidades. Em outras palavras, é possível afirmar que nossa visão de mundo está intrinsecamente relacionada a nossa herança cultural. TÓPICO 1 | DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO 93 Você já deve ter ouvido falar na carta escrita por Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel por ocasião do descobrimento do Brasil, na qual ele registra suas impressões sobre a nova terra e o novo povo encontrado. Veja, a seguir, alguns trechos da carta. À medida que for lendo, grife as partes em que é possível perceber o estranhamento do europeu frente aos hábitos e costumes do povo indígena. FIGURA – MANUSCRITO DE PERO VAZ DE CAMINHA FONTE: <https://www.todamateria.com.br/carta-de-pero-vaz-de-caminha/>. Acesso em: 15 set. 2019. “Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma”. “Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos”. “Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora. Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo”. FONTE: <http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/livros_eletronicos/carta.pdf>. Acesso: 15 set. 2019. NOTA UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 94 4 A DIVERSIDADE CULTURAL E A CONSTRUÇÃO DAS DIFERENÇAS A compreensão das relações étnico-raciais perpassa pelo entendimento de alguns conceitos importantes que envolvem essa temática como racismo, preconceito, diversidade e alteridade, dentre outros. Portanto, no desenvolvimento deste tópico iremos consolidando nossos conhecimentos sobre esses termos à medida que formos refletindo sobre as consequências das práticas etnocêntricas na sociedade. De acordo com Barreto, Araújo e Pereira (2009), ao longo da história da humanidade,povos relativamente homogêneos conseguiram manter contato com outros de culturas diversas por meio de encontros cuidadosamente organizados a fim de diminuir riscos de desentendimentos devido à dificuldade de compreensão de um em relação ao outro. Tais encontros eram motivados por determinações específicas, por exemplo, as relações comerciais ou troca de esposas. Entretanto, conforme explicitado por Barreto, Araújo e Pereira (2009, p. 192), a situação fica diferente quando “os baralhos dos povos se misturam”, ou seja, quando “o contexto muda e no lugar desses povos relativamente homogêneos, mas separados, surge um mundo conectado por diversas formas de comunicação e onde se dá a migração de populações”, acontecendo, então, o encontro com o Outro: Pensemos no primeiro grupo humano que se encontrou com “outro”, sendo ao mesmo tempo por “outro” encontrado, um “outro” para quem ele próprio revestia-se deste selo definidor da alteridade… Reconhecimento mútuo como semelhante? Ou evidência de “diferenças”, que levam a duvidar da participação a uma ipseidade radical: “Isto é gente?”. Ora, esta experiência da Diferença, a humanidade a fez com diversas modalidades, em diversos patamares, revestindo-a em diversos graus de compacta densidade ou de seletividade de traços. Para os ocidentais – e vejam como o problema é sutil e complexo: somos nós, do Brasil, parte deste Ocidente, aquele que um dia “encontrou”? Ou, neste dia, fomos nós por ele encontrados? […] –, em todo caso, os primeiros grandes momentos desta experiência, depois do encontro dos gregos com os “bárbaros”, foram, sem dúvida, o das cruzadas, encontro antagônico de dois universos redondamente fechados, o das “Grandes Descobertas” do séc. XVI, quando a “humanidade” descobre-se no plural, e o da colonização, que expande sobre todos os Continentes a presença desse Outro universal, que se dá o direito de ser em toda parte o Mesmo, Ele Mesmo, enquanto o resto passa a ser “os outros” (SANCHIS, 1996, p. 25). Observa-se, então, que nesse encontro com o Outro, as diferenças – que antes eram pontuadas apenas em relação ao distante – passam a ser percebidas no interior de uma mesma sociedade; tal estranhamento em relação ao diferente manifesta-se de diversas formas, sendo o racismo a mais perversa de todas. Para Barreto, Araújo e Pereira (2009, p. 193), TÓPICO 1 | DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO 95 […] é impossível entender o racismo sem fazer referência, mesmo que muito rápida, à relação que em sua origem ele mantém com dois fatos históricos de enorme importância: a afirmação da ciência positiva contra as teorias religiosas na explicação da origem e das diferenças entre as pessoas humanas; e a expansão colonial europeia que, por meios militares, religiosos e comerciais, dominou grandes extensões de terras ultramar, onde habitavam povos com culturas e aparências físicas muito diferentes daquelas dos europeus. Reconhecer isto implica perceber a estreita relação que existe entre saber e poder, assim como considerar o racismo um dos mais indignos produtos de tal relação. O racismo, portanto, serviu como justificativa para o domínio europeu sobre os povos africanos, asiáticos e americanos, já que o primeiro julgava que estes últimos, em decorrência de suas supostas incapacidades raciais, fossem incapazes de exercer o autogoverno. Essas diferenças, vistas como supostamente naturais, justificaram a exclusão do outro do exercício de direitos políticos e sociais, ou seja, “o mundo estava separado não mais pela fé e pela cultura, mas pela própria natureza” (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 195). Um dos desdobramentos dessa forma de pensar foi a eugenia, que postulava o aprimoramento da raça humana com a aplicação das teorias evolucionistas e de seleção natural. A propósito, a ideia de hierarquização das raças é anterior à configuração da ciência eugênica, fazendo parte da ideologia liberal burguesa, conforme visto em Hobsbawm (2000), que explica que […] outras raças eram “inferiores” porque representavam um estágio anterior da evolução sociocultural, ou então de ambas. E essa inferioridade era comprovada porque, de fato, a “raça superior” era superior pelos critérios de sua própria sociedade: tecnologicamente mais avançada, militarmente mais poderosa, mais rica e mais “bem- sucedida”. O argumento era tão lisonjeiro quanto convincente – tão convincente que as classes médias estavam inclinadas a tomá-lo dos aristocratas (que haviam por longo tempo se considerado uma raça superior) por razões internas e também internacionais: os pobres eram pobres porque biologicamente inferiores, e, por outro lado, se cidadãos pertenciam às “raças inferiores”, não era de se esperar que eles permanecessem pobres e atrasados. […] de uma forma primitiva, a ideia de que as classes superiores eram um tipo mais elevado de humanidade, desenvolvendo uma superioridade por endogamia, e ameaçada pela mistura com as ordens inferiores e, mais ainda, pelo rápido aumento numérico desses inferiores, era largamente aceita (HOBSBAWM, 2000, p. 370). As teorias eugênicas originaram experiências e políticas governamentais que tinham como objetivo controlar a qualidade racial das populações. Nesse contexto foram alvo de práticas eugenistas povos considerados inferiores como aqueles compostos por negros, índios, ciganos e aborígenes, dentre outros. Por fim, chegamos ao regime nazista, cuja principal característica foi UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 96 dar forma oficial, obrigatória e sistemática, em moldes científicos e industriais, às normas de separação, seleção e eliminação de indivíduos em função de determinados caracteres “naturais” tidos como desviantes: desde as minorias nacionais até as pessoas com déficit intelectual (consideradas doentes mentais); as pessoas com deficiências físicas (tidas como aleijadas); os/ as homossexuais, judeus e judias, passando pelos/as artistas e escritores/as modernistas, identificados como responsáveis por uma arte degenerada (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 196). As reflexões apresentadas até aqui permitem elaborar uma conceituação do termo racismo que, conforme Michaliszyn (2014, p. 85), “refere-se a uma conduta ideológica, etnocêntrica por excelência, que se baseia no princípio de que uma raça ou etnia pode ser encarada como superior a outras raças e etnias. Ou seja, o racismo constitui-se em uma ideologia que apregoa a existência de uma hierarquia entre grupos raciais […]”. O racismo, portanto, vai além do etnocentrismo, pois enquanto esse último pode ser encarado como um comportamento generalizado decorrente do olhar que cada um tem sobre o outro, ou seja, decorrente de uma reação ao outro, ao diferente, o racismo utiliza as diferenças como forma de dominação/subordinação (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009). Conforme nos mostra Vieira (2012, p. 98), “as vítimas mais óbvias do racismo são os povos e os grupos, cujas identidades foram forjadas no caldeirão colonial: os africanos, os asiáticos e os povos nativos das Américas, assim como aqueles que foram deslocados pelo colonialismo”. Por razões lógicas e ideológicas, o racismo é geralmente abordado a partir da raça, dentro da extrema variedade das possíveis relações existentes entre as duas noções. Com efeito, com base nas relações entre “raça” e “racismo”, o racismo seria teoricamente uma ideologia essencialista que postula a divisão da humanidade em grandes grupos chamados raças contrastadas que têm características físicas hereditárias comuns, sendo estas últimas suportes das características psicológicas, morais, intelectuais e estéticas e se situam numa escala de valores desiguais. Visto deste ponto de vista, o racismo é uma crença na existência das raças naturalmente hierarquizadas pela relação intrínseca entre o físico e o moral, o físico e o intelecto, o físico e o cultural. O racista cria a raça no sentido sociológico, ou seja, a raça no imaginário do racista não é exclusivamenteum grupo definido pelos traços físicos. A raça na cabeça dele é um grupo social com traços culturais, linguísticos, religiosos etc. que ele considera naturalmente inferiores ao grupo à qual ele pertence. De outro modo, o racismo é essa tendência que consiste em considerar que as características intelectuais e morais de um dado grupo, são consequências diretas de suas características físicas ou biológicas (MUNANGA, 2003). IMPORTANT E TÓPICO 1 | DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO 97 A definição de racismo trazida anteriormente por Michaliszyn (2014) apresenta dois termos que também merecem especial atenção nesse estudo: raça e etnia. Do ponto de vista científico, não é correta a referência a raças humanas, visto que há apenas uma raça, a humana. Entretanto, do ponto de vista social e político, e em uma sociedade marcada pelo racismo, alguns autores acreditam fazer sentido a adoção do termo raça, reconhecendo a existência do racismo enquanto atitude (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009). Em consonância com esse pensamento, Dias (2005, p. 174) afirma que “a importância do conceito de raça não é a sua precisão do ponto de vista biológico, mas a sua realidade social, ou seja, se as pessoas acreditam e agem em função do que se entende do conceito de raça”. Michaliszyn (2014), por seu turno, observa que o conceito de raça passou por um processo de ressignificação, haja vista que a ideia da existência de diferentes raças perdeu sua sustentação quando a biologia comprovou que as diferenças genéticas entre os seres humanos são mínimas. Sobre esse aspecto são oportunas e pertinentes as considerações do sociólogo Kabengele Munanga ao afirmar que: Ao decretar, no início da segunda metade do século XX, que cientificamente a raça não existe, o racismo científico deixou de existir, mas o racismo de fato já incorporado nas culturas de diversas sociedades continua a persistir, e é contra ele que se luta hoje. As raças como construção sociológica ou política continuam a existir no imaginário coletivo de todos os racistas, e a raça como noção e ferramenta de análise sociológica e histórica se mantém no vocabulário das ciências sociais. Não se trata mais de raças biológicas, mas sim de raças sociais. Em outros termos, depois da morte científica da raça, seu filhote “racismo” continua solto no mundo e faz vítimas independentemente da mãe já morta (REVISTA IHU, 2015). Michaliszyn (2014) também ajuda a compreender o conceito de etnia, ponderando que esse termo abarca os fatores culturais de um povo, dentre eles a língua, a religião, as tradições e as afinidades linguísticas e culturais. Dessa forma, “cada grupo étnico tem uma origem comum – sua história é construída e transmitida de geração a geração por meio da língua, sendo esta considerada um dos elementos principais para a sua classificação” (MICHALISZYN, 2014, p. 83). A etnia, portanto, refere-se à classificação de um povo segundo sua organização social e cultural, sendo que cada povo possui modos de vida particulares e distintos uns dos outros. E é por meio da comunicação que cada grupo étnico se desenvolve, além de acumular e transmitir conhecimentos e experiências de vida que são passadas de geração em geração. Por outro lado, também é por meio da comunicação que as pessoas expressam sentimentos de pertencimento, respeito ou repulsa em relação aos diversos grupos sociais (MICHALISZYN, 2014). Quando o sentimento em relação ao outro não é de respeito, mas de repúdio, ocorre o preconceito, que pode ser definido como “qualquer atitude negativa em relação a uma pessoa ou a um grupo social que derive de uma ideia preconcebida sobre tal pessoa ou grupo” (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 197). Entretanto, UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 98 essa atitude preconceituosa não tem como fundamento opiniões adquiridas devido à experiência, mas a generalizações advindas de estereótipos construídos socialmente. Retomando a origem da palavra, que vem do latim praeconcepto, trata-se de um conceito, opinião ou julgamento formado a priori, ou seja, sem conhecimento ou ponderação dos fatos (DESLANDES; FIALHO, 2010, p. 9). O preconceito, por sua vez, quando manifestado publicamente por meio de ações deliberadas e intencionais, sejam elas verbais ou não verbais, constitui-se em discriminação que, conforme apresentado no texto da Convenção Internacional sobre a eliminação de todas as formas de discriminação, citado por Deslandes e Fialho (2010, p. 9-10), pode ser definida como: […] qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência, ou origem nacional ou étnica, que tenha o propósito ou efeito de anular ou prejudicar o reconhecimento, gozo ou exercício em pé de igualdade de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública. Atitudes de racismo, preconceito e discriminação levam as pessoas que as praticam a sentirem-se ilusoriamente superiores e, ao mesmo tempo, fazem com que as vítimas dessas ações se sintam excluídas e marginalizadas socialmente. Estudos realizados por Maria Batista Lima (2008) referentes à identidade e às relações étnico-raciais no Brasil apontam que o racismo apresenta quatro características básicas, a saber: autoria, ambiguidade, irresponsabilidade e oralidade. Veja como essas características foram sintetizadas por Michaliszyn (2014, p. 87-88): Autoria: apresenta forte conteúdo ideológico racial, de conotação científica, cuja elaboração responde a interesses das elites econômicas, intelectuais, políticas, científicas, artísticas e militares. Envolve sempre questões relacionadas a raças, mestiçagem, grupo étnico, minorias étnicas, classe social e região/redutos/bolsões. Ambiguidade: apresenta um comportamento característico que resulta de atitudes, ideias e discursos paradoxais apoiados pela mídia e praticados nos espaços públicos e privados, envolvendo um agressor e uma vítima. Também apresenta variações entre culturas, folclores, grupos culturais, cor da pele, fenótipos, status e função social. Irresponsabilidade: marcada pela negação dos direitos humanos, pode ser identificada em várias formas de violência policial, bem como nas agressões física, verbal e visual. Também se traduz em políticas institucionais e em comportamentos sociais de todos os grupos (inclusive a vítima) contra o objeto da ideologia racista. Oralidade: põe em descrédito a vítima do racismo, garantindo a impunidade do agressor. O uso da oralidade está diretamente relacionado à posição ocupada pelos atores sociais na hierarquia social, de modo a cumpri o objetivo racista de reprodução das desigualdades. As discussões apresentadas até aqui demonstram a urgência da construção de um projeto social sustentado no reconhecimento da diversidade étnica e na valorização das diferentes culturas. Uma das estratégias possíveis para a superação de atitudes etnocêntricas é a adoção do relativismo cultural enquanto norteador ético. TÓPICO 1 | DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO 99 O relativismo cultural é um conceito oriundo da sociologia que entende que cada sociedade tem seu próprio código cultural, ou seja, “[…] cada grupo social é portador de seus próprios padrões, valores e normas de conduta. Em cada contexto sociocultural, é possível identificarmos reações psicológicas específicas para cada fenômeno, assim como convenções estabelecidas, por meio das quais é possível conceituar e diferenciar o certo e o errado, o bem e o mal, o belo e o feio, além de concepções de justiça e injustiça” (MICHALISZYN, 2014, p. 60). O relativismo cultural, portanto, entende que cada sociedade possui características próprias que devem ser conhecidas e compreendidas, e não julgadas. Isso não significa que devemos concordar com todo tipo de comportamento, mas, diante de modos de agir que nos parecem estranhos, devemos procurar entender por que determinada sociedade age de tal maneira, analisando seucontexto histórico e social. De acordo com Assis e Nepomuceno (2008, p. 8), o relativismo cultural nos ensina: • a compreender que a diferença deve ser tomada como sinônimo de diversidade e nunca de desigualdade; • que não devemos usar os padrões da nossa própria cultura para julgar os padrões culturais de outro grupo; • e a perceber que o que caracteriza o homem é sua aptidão praticamente infinita para inventar modos de vida e formas de organização social extremamente diversas. IMPORTANT E Embora existam críticas ao relativismo cultural – especialmente da corrente universalista, que defende a existência de padrões culturais universalmente aceitos como bons – o relativismo cultural evita que as culturas sejam estratificadas como melhores ou piores e incita-nos a praticar o exercício de olhar o outro não a partir do lugar em que estamos – já que nosso olhar estará contaminado pelos nossos próprios julgamentos – mas do lugar em que esse outro está, uma vez que os usos e costumes de um povo só têm sentido a partir dele próprio (BODART, 2016). O relativismo cultural leva-nos ao conceito de alteridade, concebido por Michaliszyn (2014, p. 16) como “moeda de troca fundamental e antídoto contra posturas e práticas etnocêntricas”. Ainda segundo esse autor, a alteridade […] adota como princípio a necessidade de conhecermos, compreendermos e respeitarmos os demais seres humanos (o outro) exatamente como são, respeitando-os em suas diferenças e em seus direitos. […]. Quando esse princípio não é respeitado nas relações sociais, podemos ampliar situações de conflito (MICHALISZYN, 2014, p. 16-17, grifo do autor). A alteridade, portanto, pressupõe a aceitação do outro, tendo em vista a coexistência respeitosa entre as partes. Trata-se de aceitar o outro e respeitar a diferença, ajustando o próprio comportamento de forma a criar um ambiente UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 100 inclusivo no qual seja possível relacionar e conviver com pessoas que pensam, sentem e veem o mundo de forma diferente. Conforme exposto em Barreto, Araújo e Pereira (2009, p. 204), “uma relação de alteridade é uma relação com um outro no qual não nos vemos refletidos. É oposto de identidade”. Vamos fazer uma pausa na leitura para apreciar o poema Anedota búlgara, de Carlos Drummond de Andrade (2009, p. 36). Anedota Búlgara Era uma vez um czar naturalista que caçava homens. Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas, ficou muito espantado e achou uma barbaridade. FIGURA – ALGUMA POESIA FONTE: <https://www.travessa.com.br/alguma-poesia/artigo/32907be0-eb06-4667- 8b4a-c4c6d2f4365a>. Acesso: 4 out. 2019. Com base no que estudamos até agora, pense na relação que pode ser feita entre o poema de Drummond e o conceito de alteridade. Anote aqui suas considerações: NOTA TÓPICO 1 | DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO 101 5 A DIVERSIDADE NO CONTEXTO ESCOLAR A diversidade é inerente às relações sociais e, por esse motivo, está presente na escola e no interior da sala de aula. Ela pode ser vista como uma riqueza cultural, já que permite contato com diversas formas de ser, agir e pensar, mas também pode originar atitudes de preconceito e discriminação. No trecho a seguir, retirado de uma campanha da Unicef contra o racismo infantil, é possível perceber os efeitos danosos dessa prática social na vida de crianças e adolescentes: Estudos na área de educação infantil revelam que, ainda na primeira infância, a criança já percebe diferenças na aparência das pessoas (cor de pele, por exemplo). A responsabilidade dos adultos é muito importante nesse momento, evitando explicações ou orientações preconceituosas. Não importa se uma criança é negra, branca ou indígena. Qualquer criança ao conviver em uma realidade de desigualdade e de discriminação tem a ilusão de que negros, brancos e indígenas devem ocupar necessariamente lugares diferentes na sociedade. Seja diante da TV, nas escolas, ou em histórias infantis, as crianças vão se desenvolvendo com imagens retorcidas de papéis e lugares segundo cor de pele ou aparências. Por essa razão, uma criança pode achar “desvantajoso” ter nascido negra ou indígena ou pertencer a um grupo étnico-racial mais discriminado. Os efeitos disso são a negação e o esquecimento de suas histórias e culturas. Portanto, nosso compromisso é construir um lugar justo, igual e sem discriminação para nossas crianças (UNICEF, 2010, p. 3). O racismo, portanto, gera impactos nas pessoas envolvidas, motivo pelo qual faz-se necessário “rever imaginários e promover mudanças que ajudem a eliminar atitudes discriminatórias, que, por gerações, vêm exercendo efeitos danosos na formação e na afirmação da identidade da criança e do adolescente indígenas, negros e brancos” (UNICEF, 2010, p. 6). Conforme reiteradas diversas vezes, neste livro didático, a escola pode ser um local que reproduz, de forma direta ou indireta, estereótipos e preconceitos. Isso acontece quando ela mantém um abismo entre a cultura escolar e a cultura de referência de discentes pertencentes a grupos sociais, étnicos e culturais marginalizados, deixando prevalecer, em seu currículo, a matriz cultural europeia. Conforme exposto por Moreira e Candau (2005, p. 37-38): […] tais questões refletem visões de cultura, escola, ensino e aprendizagem que não dão conta, a nosso ver, dos desafios encontrados em uma sala de aula “invadida” por diferentes grupos sociais e culturais, antes ausentes desse espaço. Não dão conta, acreditamos, do inevitável caráter multicultural das sociedades contemporâneas, nem respondem às contradições e às demandas provocadas pelos processos de globalização econômica e de mundialização da cultura […], que tanto têm intensificado a cisão do mundo em “ricos” e “pobres”, “civilizados” e “selvagens”, “nós” e “eles”, “incluídos” e “excluídos”. UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 102 Assim, práticas curriculares excludentes não permitem que a criança negra ou indígena possa identificar-se com a escola, bem como com padrões estéticos que a ajude a se afirmar de forma positiva. Por outro lado, o espaço escolar pode assumir a formação e o respeito para com as diferenças étnicas, de gênero, classes sociais e de outros grupos historicamente subalternizados. A escola pode ajudar a desconstruir preconceitos quando reconhece, de forma equânime, a diversidade cultural brasileira, ou seja, “em vez de preservar uma tradição monocultural, a escola está sendo chamada a lidar com a pluralidade de culturas, reconhecer os diferentes sujeitos socioculturais presentes em seu contexto, abrir espaços para a manifestação e valorização das diferenças” (MOREIRA; CANDAU, 2005, p. 45). Entretanto, ao contrário do que muitos acreditam, […] pensar numa perspectiva multicultural não significa promover festas, trabalhar com manifestações folclóricas, lendas e mitos. Para além disso – ou melhor, em paralelo a todas essas ações, que tampouco devem ser descartadas –, devemos ter sempre em mente que lidamos com realidades distintas e culturas diversificadas (MICHALISZYN, 2014, p. 107). Para que se possa avançar nesse processo de reconhecimento da diversidade e problematização das diferenças no ambiente escolar o papel de cada docente é fundamental. Conforme posto por Moreira e Candau (2005, p. 54), “[…] a formação docente, tanto a inicial como a continuada, passa a ser um lócus prioritário para todos aqueles que queremos promover a inclusão destas questões na educação”. Esses autores também reconhecem que: Construir o currículo com base nessa tensão não é tarefa fácil e irá certamente requerer do professor nova postura, novos saberes, novos objetivos, novos conteúdos, novas estratégias e novas formas de avaliação. Será necessário que o docente se disponha e se capacite a reformular o currículo e a prática docente com base nas perspectivas, necessidades e identidades de classes e grupos subalternizados (MOREIRA; CANDAU, 2005, p. 39). Alémdisso, cada área do conhecimento deve reconhecer e trabalhar a diversidade cultural de forma a valorizar culturas até então esquecidas. No caso específico da Língua Portuguesa e Literatura, faz-se necessária a valorização, no currículo, das literaturas pós-colonial, africana, indígena e de imigrantes, que serão abordadas nos próximos tópicos dessa unidade. TÓPICO 1 | DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO 103 Antes de dar continuidade à leitura, veja essas “10 maneiras de contribuir para Uma Infância sem Racismo” apresentadas pela Unicef. 1- Eduque as crianças para o respeito à diferença. Ela está nos tipos de brinquedos, nas línguas faladas, nos vários costumes entre os amigos e pessoas de diferentes culturas, raças e etnias. As diferenças enriquecem nosso conhecimento. 2- Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem ser estigmatizantes com outras crianças, culturas e tradições. Indigne-se e esteja alerta se isso acontecer – contextualize e sensibilize! 3- Não classifique o outro pela cor da pele; o essencial você ainda não viu. Lembre-se: racismo é crime. 4.- Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é legal e que cada um pode usufruir de seus direitos igualmente. Toda criança tem o direito de crescer sem ser discriminada. 5- Não deixe de denunciar. Em todos os casos de discriminação, você deve buscar defesa no conselho tutelar, nas ouvidorias dos serviços públicos, na OAB e nas delegacias de proteção à infância e adolescência. A discriminação é uma violação de direitos. 6- Proporcione e estimule a convivência de crianças de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, nas salas de aula, em casa ou em qualquer outro lugar. 7- Valorize e incentive o comportamento respeitoso e sem preconceito em relação à diversidade étnico-racial. 8- Muitas empresas estão revendo sua política de seleção e de pessoal com base na multiculturalidade e na igualdade racial. Procure saber se o local onde você trabalha participa também dessa agenda. Se não, fale disso com seus colegas e supervisores. 9- Órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras. Você pode cobrar essa postura dos serviços de saúde e sociais da sua cidade. Valorize as iniciativas nesse sentido. 10- As escolas são grandes espaços de aprendizagem. Em muitas, as crianças e os adolescentes estão aprendendo sobre a história e a cultura dos povos indígenas e da população negra; e como enfrentar o racismo. Ajude a escola de seus filhos a também adotar essa postura. E você? Como acha que docentes podem contribuir para que atitudes de racismo não aconteçam na escola? NOTA 6 A EDUCAÇÃO NO CONTEXTO DAS LEIS nº 10.639/2003 E Nº 11.645/2008 Na unidade anterior vimos a importância do movimento feminista em defesa dos direitos das mulheres ao longo da história. Com relação às questões étnico-raciais, destacaram-se as lutas do Movimento Negro que tiveram como pauta a equidade racial na sociedade brasileira, sendo que dentre as diversas ações de promoção do diálogo intercultural e da igualdade racial evidenciou- se, em 2001, a III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 104 Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata realizada em Durban, na África do Sul. Por ocasião dessa conferência o Brasil assumiu publicamente o compromisso de desenvolver ações afirmativas contra o racismo e a discriminação racial no campo da educação (MEINERZ, 2017). Em decorrência desse compromisso foi promulgada, em 2003, a Lei nº 10.639, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996) para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira. De acordo com o texto legal, Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras (BRASIL, 2003). Posteriormente, em 2008, essa lei foi alterada por outra, de nº 11.645, que acrescentava a temática da cultura indígena ao lado da afro-brasileira. Ambas as leis trouxeram, portanto, novas demandas para serem inseridas no currículo escolar brasileiro que – movido por um legado eurocêntrico – dava pouco ou nenhum espaço para reflexões acerca da contribuição da cultura afro-brasileira e indígena na constituição de nossa identidade. Conforme nos lembra Meinerz (2016, p. 3), […] a História do Brasil contém muitas histórias. Nem todas foram ou são contadas nas pesquisas historiográficas, nas escolas ou nos materiais didáticos. Em geral, falamos do Brasil numa perspectiva que coloca a chegada do europeu em sua centralidade, consolidando uma espécie de eurocentrismo inclusive em nossas formas de pensar nós mesmos. Como você pode perceber, as Leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08 trouxeram para as escolas uma série de questões antes silenciadas, ignoradas ou tratadas de forma equivocada. No caso dos indígenas, por exemplo, a visão que foi disseminada por décadas nas escolas era a de que estes povos “pertencem a culturas ‘atrasadas’, ‘inferiores’, ‘ignorantes’, despossuídas de tecnologia e de saberes. Da mesma forma, tais imagens consideram os índios como ‘coisas do passado’, como ‘primitivos’, acreditando que suas culturas são incompatíveis com a existência de um Brasil moderno” (FREIRE, 2016, p. 33-34). A África, por seu turno, na maioria das vezes era apresentada de forma generalizada, disseminando a ideia de um país uniforme, exótico, selvagem e pobre. A abolição da escravatura também era ensinada como se fosse um ato de bondade para com a população negra. Cabe ressaltar, ainda, que a implementação dessas leis TÓPICO 1 | DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO 105 [...] justifica-se num contexto de reparação histórica que atende ao reconhecimento de que nossa sociedade, através de seus gestores, cometeu crimes gravíssimos no passado (comércio transatlântico, escravização, impedimento de acesso à terra, trabalho e escola), causando uma assimetria do ponto de vista étnico-racial. Reconhecem- se os crimes do passado, contudo, no presente, novos processos de racismo e racialização se reinventam, exigindo de fato um projeto de transformação da sociedade brasileira. Essa política de estado vincula- se ao que chamamos de ações afirmativas que se interseccionam, mas que parecem ter objetivos distintos. Uma delas são as cotas raciais em concursos públicos, que atingem profundamente a meta de equidade racial em todas as instituições, começando com as que são públicas e sobre as quais o Estado legisla e fiscaliza mais diretamente. Outra é a política curricular vinculada à obrigatoriedade legal do ensino positivado de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena (MEINERZ, 2017, p. 242). A inclusão de estudos sobre essa temática no currículo escolar causou estranhamento e resistência por parte de alguns segmentos da sociedade que desconhecem e/ou ignoram sua importância. Entretanto, é preciso ter em mente que se trata de: […] uma perspectiva de intervenção na história e nos processos educativos que nos possibilita compreender que o respeito à diferença não implica a transformação do outro no que somos, tampouco que devemos ser tal qual o outro é. Ao contrário, trata-se de compreender e aceitar que o outro é o que não somos. Trata-se de evidenciar,na identidade nacional, nossas raízes, reconhecendo a presença e respeitando as contribuições culturais trazidas por diferentes povos e etnias que constituem a identidade do povo brasileiro. Eis aí a riqueza dessa lei: ela exige um novo olhar sobre nós mesmos, sobre o outro e sobre as nossas diferenças (MICHALISZYN, 2014, p. 109). Como você deve ter percebido, essas leis são extremamente importantes pois reconhecem a pluralidade que faz parte da formação da sociedade brasileira, sendo a diversidade inerente ao espaço escolar. A propósito, pensar o espaço escolar enquanto lócus de manifestação da diversidade cultural implica pensar no papel do docente enquanto mediador das relações de ensino-aprendizagem, relações éticas e conflitos de ideologias (SILVA; SILVA, 2013), uma vez que sua figura acaba sendo central na aplicação destas leis. Considerando-se que a simples promulgação da lei não garante sua aplicação, faz-se necessário o envolvimento do corpo docente na implementação de práticas afirmativas nas escolas. Para tanto, é imprescindível investir na formação docente, tanto inicial quanto continuada, por meio de estudos e pesquisas que promovam a reflexão acerca da diversidade étnica e cultural existente no país. 106 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • O termo cultura não está relacionado a aspectos biológicos ou geográficos, mas sociais. • Etnocentrismo é uma forma de pensar que considera a própria cultura como melhor ou superior às demais. • Etnia, raça, racismo, preconceito, discriminação e alteridade são termos importantes a serem estudados no contexto das relações étnico-raciais. • É importante que as relações étnico-raciais sejam trabalhadas nas escolas, motivo pelo qual foram criadas leis no Brasil para garantir a inserção da cultura afro-brasileira e indígena no currículo escolar. 107 AUTOATIVIDADE 1 (ENADE, 2017) Uma das questões discursivas da prova do Enade em 2017 abordou a temática das relações étnico-raciais. Leia os dois textos apresentados para responder à questão. Texto 1 Texto 2 Essa Negra Fulô Ora, se deu que chegou (isso já faz muito tempo) no banguê dum meu avô uma negra bonitinha, chamada negra Fulô. Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) — Vai forrar a minha cama pentear os meus cabelos, vem ajudar a tirar a minha roupa, Fulô! Essa negra Fulô! 108 Essa negrinha Fulô! ficou logo pra mucama pra vigiar a Sinhá, pra engomar pro Sinhô! Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) vem me ajudar, ó Fulô, vem abanar o meu corpo que eu estou suada, Fulô! vem coçar minha coceira, vem me catar cafuné, vem balançar minha rede, vem me contar uma história, que eu estou com sono, Fulô! Essa negra Fulô! "Era um dia uma princesa que vivia num castelo que possuía um vestido com os peixinhos do mar. Entrou na perna dum pato saiu na perna dum pinto o Rei-Sinhô me mandou que vos contasse mais cinco". Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! Vai botar para dormir esses meninos, Fulô! "minha mãe me penteou minha madrasta me enterrou pelos figos da figueira que o Sabiá beliscou". Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá Chamando a negra Fulô!) 109 Cadê meu frasco de cheiro Que teu Sinhô me mandou? — Ah! Foi você que roubou! Ah! Foi você que roubou! Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! O Sinhô foi ver a negra levar couro do feitor. A negra tirou a roupa, O Sinhô disse: Fulô! (A vista se escureceu que nem a negra Fulô). Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! Cadê meu lenço de rendas, Cadê meu cinto, meu broche, Cadê o meu terço de ouro que teu Sinhô me mandou? Ah! foi você que roubou! Ah! foi você que roubou! Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! O Sinhô foi açoitar sozinho a negra Fulô. A negra tirou a saia e tirou o cabeção, de dentro dêle pulou nuinha a negra Fulô. Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! Cadê, cadê teu Sinhô que Nosso Senhor me mandou? Ah! Foi você que roubou, foi você, negra fulô? Essa negra Fulô! Lima, J. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980 (adaptado). 110 Considerando que o trabalho de leitura na educação básica visa ao letramento crítico e à discussão das representações acerca de diferenças de sexo, de gênero, de raça e de classe social, redija um texto estabelecendo pontos de aproximação e distanciamento entre os textos 1 e 2. Em seu texto, aborde: • dois aspectos (temáticos e/ou formais) que fundamentam uma leitura comparativa das obras; • uma estratégia de leitura para a abordagem dos dois textos em sala de aula, com vistas ao desenvolvimento do letramento crítico do estudante. 2 (ENADE, 2014) Fora de Foco Uma jornalista baiana passou pelo que classificou como "enorme constrangimento" ao tirar a foto para renovar o passaporte, em Salvador: agentes da Polícia Federal pediram que ela prendesse o cabelo estilo black power, pois o sistema não aceitava a imagem gerada. "Eu gosto do meu cabelo e, naquela foto, fiquei terrível", disse. A jornalista descarta ter recebido qualquer tratamento racista dos funcionários do local, mas reclamou no Facebook: "Essas coisas podem não ser intencionais, mas tudo, no fundo, tem um padrão que desvaloriza a estética que foge do convencional." O delegado, chefe do setor, explicou que um cabelo de proporções maiores diminui o rosto do fotografado, e foi isso que o sistema impediu. "A gente concorda com ela que isso é inadmissível. O caso já foi passado para nossa sede em Brasília, para sabermos que medidas podem ser adotadas", afirmou. Diários Associados. Estado de Minas, 18 jul. 2014 (adaptado). A notícia publicada no jornal abre um leque de possibilidades para o professor abordar o tema da diversidade cultural, por meio de práticas educativas que contemplem as questões históricas e suas implicações na vida cotidiana. Nessa perspectiva, avalie as afirmações a seguir. I- A temática diversidade cultural é parte do currículo de História do Brasil, conforme preconiza a Lei nº 9.394/1996 (LDB), e, por estar relacionada a aspectos referentes a identidade nacional, portanto, a abordagem das temáticas correlatas deve restringir se ao âmbito da referida disciplina. II- A abordagem disciplinar da diversidade cultural deve ser priorizada, buscando se associações com conhecimentos não constantes do programa da disciplina. III- A diversidade cultural é tema a ser abordado na perspectiva da transversalidade, o que possibilita colocar em prática a relação entre as áreas dos conhecimentos em sua aplicabilidade transformadora dos fenômenos sociais e naturais. IV- A principal característica do trabalho com temas transversais é a condição de estabelecimento de relações entre disciplinas e teoria e prática; sujeito e sua produção de conhecimento; conhecimento trabalhado em sala de aula e conhecimentos não constantes dos programas escolares. 111 É CORRETO apenas o que se afirma em: a) ( ) I e II. b) ( ) I e III, c) ( ) III e IV. d) ( ) I, II e IV. e) ( ) II, III e IV. FONTE: <http://download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/provas/2014/36_ pedagogia.pdf.>. Acesso em: 22 set. 2019. 3 Em 2003 e 2008 foram promulgadas, respectivamente, as Leis n° 10.639 e n° 11.645 que incluíram a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena no currículo oficial da rede de ensino. Leia as alternativas abaixo referentes a essas legislações: I- De acordo com a lei, apenas docentes das áreas de Educação Artística, Literatura e História devem a incluir a temática da cultura afro-brasileira e indígena em seu planejamento didático-pedagógico. II- A promulgação da lei não assegurou sua implementação nas escolas, visto que sua execução está relacionada à sua incorporação, por aqueles a quem ela se destina, na prática pedagógica escolar, bem como ao compromisso do poder público em sua execução. III- A contemplação da temática da diversidade cultural na legislaçãobrasileira deve ser entendida como uma concessão resultante de um processo de democratização do país que prescinde da luta dos movimentos negros e indígenas por visibilidade e reconhecimento. IV- A falta de preparo docente para trabalhar com conteúdos relacionados à história da África é uma das dificuldades encontradas na implementação de práticas afirmativas nas escolas. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. b) ( ) As afirmativas II e IV estão corretas. c) ( ) As afirmativas I e III estão corretas. d) ( ) As afirmativas III e IV estão corretas. 4 (ENADE, 2011) A escola delimita espaços. Servindo-se de símbolos e códigos, ela afirma o que cada um pode (ou não pode) fazer, ela separa e institui. Informa o “lugar” dos pequenos e dos grandes, dos meninos e das meninas. Através dos seus quadros, crucifixos, santas ou esculturas, aponta aqueles/as que deverão ser modelos e permite, também, que os sujeitos se reconheçam (ou não) nesses modelos [...] Currículos, normas, procedimentos de ensino, teorias, linguagem, materiais didáticos, processo de avaliação são, seguramente, loci das diferenças de gênero, sexualidade, etnia, classe — são constituídos por essas distinções e, ao mesmo tempo, seus produtores. Todas essas dimensões precisam, pois, ser colocadas em questão. É indispensável questionar não apenas o que ensinamos, mas 112 o modo como ensinamos e que sentidos nossos/as alunos/as dão ao que aprendem. Atrevidamente é preciso, também, problematizar as teorias que orientam nosso trabalho (incluindo, aqui, até mesmo aquelas teorias consideradas “críticas”). Temos de estar atentas/os, sobretudo, para nossa linguagem, procurando perceber o sexismo, o racismo e o etnocentrismo que ela frequentemente carrega e institui. LOURO, G. L. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 58 e 64. Com base no texto anterior, avalie as afirmações que se seguem. I- A escola define os espaços que cada um deve ocupar socialmente, visto que reproduz modelos e condiciona os alunos a segui-los. II- Os espaços delimitados pela escola representam a sala de aula em si, visto que é o ambiente predominante em que acontece o processo de aprendizagem. III- A delimitação de espaços pela escola só acontece no espaço escolar, visto que o(a) aluno(a) o ignora nos momentos em que não está inserido no contexto educacional. IV- Os espaços delimitados pela escola representam a rotulação e o estabelecimento de papéis e padrões de comportamento. É CORRETO apenas o que se afirma em: a) ( ) I e II. b) ( ) I e IV. c) ( ) II e III. d) ( ) I, III e IV. e) ( ) II, III e IV. FONTE: <http://download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/provas/2011/PEDAGOGIA.pdf>. Acesso em: 29 set. 2019. 113 TÓPICO 2 A LITERATURA E OS ESTUDOS PÓS- COLONIAIS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Estamos iniciando mais um tópico no qual estudaremos a relação entre a produção literária e os estudos pós-coloniais. Antes, porém, será feita uma retomada de alguns termos importantes como colonialismo, etnocentrismo e eurocentrismo, essenciais para a compreensão dos estudos relacionados. Faremos uma reflexão sobre o significado do processo de colonização ao qual o país foi submetido e quais as consequências disso em termos de disseminação do conhecimento. Por fim, veremos que, com o surgimento da crítica pós-colonial, voltou-se a atenção para produções que até então não tinham visibilidade. De acordo com Mascena e Lúcio (2011, p. 2), “com a sistematização da crítica pós- colonial, foi possível documentar, representar e publicar as literaturas produzidas pelos povos colonizados, classificados até então por incultos, selvagens e ausentes de qualquer tipo de cultura”. Veremos, então, que o estudo de literaturas não pertencentes ao cânone literário tradicional é essencial no processo de construção da identidade individual e coletiva, uma vez que tais textos, quando devidamente estudados e problematizados, promovem o autoconhecimento e melhor compreensão de si e do outro. 2 COLONIALISMO, ETNOCENTRISMO E EUROCENTRISMO Antes de adentrar no conceito de pós-colonialismo e nos estudos pós- coloniais, é importante fazer uma retomada do significado do termo colonialismo. Veja, a seguir, a definição e a explicação acerca do colonialismo apresentadas por Thomas Bonnici (2005, p. 187): O colonialismo consiste na opressão militar, econômica e cultural de um país sobre um outro, qual a invasão europeia da África, Ásia e América a partir do século 16. Evidentemente, a ideia de império e colônias não é algo novo na história humana. Não apenas houve a colonização pré-capitalista na antiguidade engendrada pelos fenícios, gregos, persas e romanos, mas também na Idade Média os árabes colonizaram o norte da África e a península ibérica, as potências europeias invadiram o Oriente Médio sob a forma de Cruzadas e o mongol Genghis Khan dominou a China. A diferença entre a colonização antiga e a capitalista na Modernidade consiste no UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 114 fato que essa não exigia apenas tributos, bens e riquezas dos países conquistados, mas reestruturava as economias dos países colonizados de tal modo que o relacionamento entre o colonizador e o colonizado interferiu no intercâmbio de recursos materiais e humanos trocados entre ambos. Consequentemente essa colonização devastou a cultura, as vezes milenar, de muitos povos, a qual foi substituída por uma cultura eurocêntrica e cristã. Entende-se, portanto, que o colonialismo está relacionado ao conceito de etnocentrismo, pois enquanto este último considera a própria cultura como parâmetro para entender o mundo, o colonialismo é uma forma de imposição de uma cultura sobre ou, em outras palavras, “o termo colonialismo caracteriza o modo peculiar como aconteceu a exploração cultural durante os últimos 500 anos causada pela expansão europeia” (BONNICI, 2009, p. 262). Além dos exemplos de colonialismo citados por Bonnici é importante retomar a história do nosso país que, durante muitos anos, foi colônia de Portugal. Durante esse período, além de explorarem os recursos naturais do Brasil, os portugueses também tiveram a preocupação em impor sua cultura, linguagem e religião aos povos indígenas que aqui viviam. Infere-se, assim, que o processo de colonização não se restringiu a motivações de ordem política e econômica, estando também relacionado a uma visão etnocêntrica dos colonizadores que enxergavam as culturas não europeias como atrasadas e inferiores. De acordo com Dermeval Saviani, […] o processo de colonização abarca, de forma articulada mas não homogênea ou harmônica, antes dialeticamente, esse três momentos representados pela colonização propriamente dita, ou seja, a posse e exploração da terra subjugando os seus habitantes (os íncolas); a educação enquanto aculturação, isto é, inculcação nos colonizados das práticas, técnicas, símbolos e valores próprios dos colonizadores; e a catequese entendida como a difusão e conversão dos colonizados à religião dos colonizadores (SAVIANI, 2010, p. 29). Ademais, no contexto da colonização agravou-se a situação dos povos colonizados que eram racialmente diferentes já que, conforme Bonnici (2009), a relação colonizador/colonizado era notoriamente injusta e desigual: Os termos raça, racismo e preconceito racial são oriundos da posição hegemônica europeia. Esse tópico transformou-se numa justificativa para introduzir o regime escravocrata a partir de meados do século XVI, quando se formou a ideia de um mundo colonial habitado por gente “naturalmente” inferior, programada pela natureza para trabalhar braçalmente e servir ao homem europeu branco. […] Aos olhos dos europeus colonizadores, o estado naturalmente inferior dos colonizados era um fato indiscutível, “provado” no século XIX pelas teorias da evolução e da sobrevivência do mais forte na doutrina darwinista(BONNICI, 2009, p. 262). TÓPICO 2 | A LITERATURA E OS ESTUDOS PÓS-COLONIAIS 115 A implantação da ordem colonial no Brasil foi organizada em meio a um discurso eurocêntrico que inferiorizava os povos nativos, ou seja, essa suposta condição de superioridade cultural serviu de justificativa para a ação colonizadora nas terras encontradas. De acordo com Ashcroft et al. (1991 apud BONNICI, 2009), as colônias podem ser sistematizadas em três categorias: colônias de povoadores, colônias de sociedades invadidas e colônias de sociedades duplamente invadidas. O Brasil enquadra-se na primeira situação, ou seja, colônia de povoadores, situação em que: […] a terra foi ocupada por colonos europeus que conquistaram, mataram ou deslocaram as populações indígenas. Uma modalidade de civilização europeia foi transplantada no vazio construído e os descendentes europeus, mesmo após a independência política, mantiveram o idioma não-indígena. Os colonos inquestionavelmente consideraram que o idioma europeu era apropriado para expressar a complexa realidade do lugar ocupado, marginalizando as línguas indígenas (BONNICI, 2009, p. 263). Diversos registros, tanto escritos quanto iconográficos, demonstram como era o modo de vida das populações nativas sob a ótica do colonizador, ou seja, demonstram como se formou, no imaginário europeu, um conjunto de conceitos sobre as terras descobertas. Veja, por exemplo, nas imagens a seguir que, ao retratar os povos indígenas que viviam nas terras colonizadas, os europeus não conseguiam dissociá-los das práticas de canibalismo, presentes em muitos relatos de viajantes. Tais imagens, que passaram a nutrir o imaginário da população, serviam aos interesses expansionistas da época uma vez que legitimavam a colonização e o processo de aculturação perpetrados pelos europeus. FIGURA 1 – THEODOR DE BRY, 1528-1598. CENA DE CANIBALISMO, A PARTIR DE “AMERICAE TERTIA PARS”, 1592. GRAVURA COLORIDA. SERVICE HISTORIQUE DE LA MARINE, VINCENNES, FRANCE FONTE: <https://lume-re-demonstracao.ufrgs.br/imagens-para-pensar-o-outro/1-recursos.html>. Acesso em: 21 set. 2019 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 116 De acordo com Bonnici (2009, p. 265), essa forma de retratar os habitantes locais era uma “degradação sistemática do nativo”, sendo que “a imagem do nativo/escravo em tais condições foi o gatilho psicológico para a rapinagem da colônia em todos os sentidos”. Dentre os registros escritos podemos citar a obra denominada Tratado da Terra do Brasil, do historiador e cronista português Pero de Magalhães Gandavo. Além de dissertar sobre a fauna e a flora brasileira, Gandavo também registrou suas impressões sobre os hábitos e costumes das pessoas encontradas no local: […] Estes índios andam nus sem cobertura alguma, assim machos como fêmeas, não cobrem parte nenhuma de seu corpo, e trazem descoberto quanto a natureza lhes deu. Vivem todos em aldeias, pode haver em cada uma sete, oito casas, as quais são compridas feitas à maneira de cordoarias; e cada uma delas está cheia de gente duma parte e doutra, e cada um por si tem sua estância e sua rede armada em que dorme, e assim estão todos juntos uns dos outros por ordem, e pelo meio da casa fica um caminho aberto para se servirem. Não há como digo entre eles nenhum Rei, nem Justiça, somente em cada aldeia tem um principal que é como capitão, ao qual obedecem por vontade e não por força; morrendo este principal fica seu filho no mesmo lugar; não serve doutra cousa se não de ir com eles à guerra, e aconselhá-los como se hão de haver na peleja, mas não castiga seus erros nem manda sobre eles cousa alguma contra sua vontade. Este principal tem três, quatro mulheres, a primeira tem em mais conta, e faz dela mais caso que das outras. Isto tem por estado e por honra. Não adoram cousa alguma nem têm para si que há na outra vida glória para os bons, e pena para os maus, tudo cuidam que se acaba nesta e que as almas fenecem com os corpos, e assim vivem bestialmente sem ter conta, nem peso, nem medida (GANDAVO, 2008, p. 66). Como você pôde perceber, nesse pequeno trecho, Gandavo aponta diversos aspectos do modo de vida indígena fazendo referência ao não uso de vestimentas, ao tipo de moradia, à ausência de autoridade política, à prática da poligamia pelos homens e à ausência algum tipo de culto religioso que pudesse cercear as ações dos indivíduos. Os aspectos destacados por Gandavo não foram aleatórios pois, ao abordá-los, ele estabelece, internamente, um diálogo com os valores da cultura na qual estava inserido. O autor, portanto, olha para a população nativa com as lentes da própria cultura, concluindo, então, que aquele modo de vida era bestial, fazendo-se necessária a intervenção do colonizador para salvar essa gente. O encontro com os nativos deste Novo Mundo originou relatos e discussões nas quais delineava-se tanto uma recusa quanto uma fascinação por esse Outro desconhecido, visto em alguns momentos como bom e em outros como mau selvagem. O discurso acerca do mau selvagem colocava-o em contraposição ao bom civilizado. Assim falava-se, nessa ideologia, “dos outros descobertos, como naturais ou selvagens (seres da floresta) opondo-se a humanidade e parecendo como aberrações: são sem religião, sem moral, sem leis; eles estão nus; comem carne crua; falam uma língua inteligível” (GERHARDT, 2019, p. 1, grifo nosso). TÓPICO 2 | A LITERATURA E OS ESTUDOS PÓS-COLONIAIS 117 Por outro lado, naquela ambiência também circularam discursos que originaram o mito do bom selvagem, fundamentado na obra de Jean-Jacques Rousseau. De acordo com esse filósofo, todo homem primitivo seria bom, tornando-se mau quando corrompido pela sociedade. O selvagem primitivo, portanto, “gozava de uma índole pacífica e pura, desprovida de desejos de riqueza, glória e poder, próprios de cidadãos civilizados” (GERHARDT, 2019, p. 9). Assim, “o que era apreendido como um menos agora se torna um mais. Ou seja, o selvagem, mesmo sem clero, sem leis, sem tecnologia, passa a ser valorizado, suas ausências são vistas como vantagens” (GERHARDT, 2019, p. 3). Vale ressaltar, porém, que, em ambos os casos, sendo concebido como bom ou mau selvagem, esse outro era visto apenas como “objeto-pretexto para todo tipo de exploração econômica, política quanto à conversão religiosa ou à emoção estética” (GERHARDT, 2019, p. 4). Em outras palavras, “a tarefa civilizatória e a tutelagem paternal assumidas pela nação europeia nada mais foram que um pretexto pelo qual intensificavam a rapinagem e a luta pela aquisição de matérias- primas” (BONNICI, 2009, p. 264), não podendo ser dissociado, portanto, do ideário colonialista. Essa breve retomada do conceito de colônia teve como intuito situar o eurocentrismo – conceito que entende a cultura europeia como a mais importante do mundo – no período das grandes navegações e descobrimentos. Muito embora os países descobertos nesta conjuntura tenham conquistado sua independência política, permaneceu em nosso meio uma visão equivocada da existência de uma essência cultural europeia que se contrapõe aos demais povos, ou seja, hoje, a dominação das metrópoles hegemônicas perpetua-se por meio de outros arranjos. Essa situação de dependência cultural e epistemológica dos povos colonizados originou os estudos pós-coloniais, que serão abordados a seguir. 3 PÓS-COLONIALISMO O colonialismo contribuiu para que a diversidade cultural da humanidade acabasse sendo limitada “a apenas uma perspectiva paradigmática que vê a Europa como a origem única dos significados, como o centro de gravidade do mundo, como realidade ontológica em comparação com a sombra do resto do planeta” (SHOHAT; STAM, 2006, p. 20). Em contrapartida, “as experiências culturais dos subalternos – dos povos colonizados – as suas construções culturais são relegadas a um secundário lugar rotulado como saber local, que a tradição filosófica ocidental não considera relevante” (MATA, 2014, p.29). Não restam dúvidas de que a Europa contribuiu, sobremaneira, para a consolidação do pensamento filosófico e científico da humanidade. Entretanto, a visão eurocêntrica – estabelecida nas práticas e representações contemporâneas – acabou promovendo o apagamento e o silenciamento de outros povos, especialmente indígenas e africanos, que também fazem parte de nossa identidade multicultural. UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 118 Por esse motivo é possível afirmar que o colonialismo foi muito além das dominações políticas, territoriais e econômicas, configurando-se também como uma dominação epistemológica pois, em meio a uma relação notoriamente desigual, “conduziu à supressão de muitas formas de saber próprias dos povos e nações colonizados, relegando muitos outros saberes para um espaço de subalternidade” (SANTOS; MENESES, 2009, p. 5). Para melhor compreender as relações de poder entre colonizador/ colonizado que permaneceram mesmo após a superação do colonialismo, são oportunas as reflexões de Quijano (2009) ao forjar o termo colonialidade, contrapondo-o ao conceito de colonialismo: Colonialidade é um conceito diferente de, ainda que vinculado a Colonialismo. Este último refere-se estritamente a uma estrutura de dominação/exploração onde o controle da autoridade política, dos recursos de produção e do trabalho de uma população determinada domina outra de diferente identidade e cujas sedes centrais estão, além disso, noutra jurisdição territorial. Mas nem sempre, nem necessariamente, implica relações racistas de poder. O colonialismo é obviamente, mais antigo, enquanto a Colonialidade tem vindo a provar, nos últimos 500 anos, ser mais profunda e duradoura que o colonialismo. Mas, foi, sem dúvida, engendrada dentro daquele e, mais ainda, sem ele não poderia ser imposta na intersubjetividade do mundo tão enraizado e prolongado (QUIJANO, 2009, p. 74). Uma das consequências do colonialismo é a perda da identidade e da autorreferência dos povos colonizados, conforme explicado por Santos e Meneses (2009, p. 10): De facto, sob o pretexto da missão colonizadora, o projeto da colonização procurou homogeneizar o mundo, obliterando as diferenças culturais […]. Com isso, desperdiçou-se muita experiência social e reduziu- se a diversidade epistemológica, cultural e política do mundo. Na medida em que sobreviveram, essas experiências e essa diversidade foram submetidas à norma epistemológica dominante […]. A perda de uma auto-referência genuína não foi apenas uma perda gnoseológica, foi também, e sobretudo, uma perda ontológica: saberes inferiores próprios de seres inferiores. Levando em consideração as palavras de Hall (2002, p. 48) ao afirmar que “as identidades nacionais não são como coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da representação”, é possível inferir que o respeito e a valorização das diferentes culturas constituintes da nossa identidade estão relacionados à forma com que essas culturas nos são apresentadas, especialmente no ambiente escolar: […] o eurocentrismo constitui a visão “normal” da história que a maioria das pessoas no Primeiro Mundo (e até no Terceiro Mundo) aprendem na escola e assimilam através dos meios de comunicação. O resultado dessa operação de naturalização é a possibilidade de ser contra o racismo em um nível consciente e prático, e mesmo assim ser eurocêntrico (SHOHAT; STAM, 2006, p. 24). TÓPICO 2 | A LITERATURA E OS ESTUDOS PÓS-COLONIAIS 119 As ponderações apresentadas por Shohat e Stam (2006) corroboram as palavras de Quijano (2009, p. 74-75), segundo o qual […] a colonialidade do poder e a dependência histórico-estrutural implicam ambas na hegemonia do eurocentrismo como perspectiva epistemológica. No contexto da colonialidade do poder, a população dominada, nas novas identidades que lhes haviam sido atribuídas, foram também submetidas à hegemonia eurocêntrica como maneira de conhecer, na medida em que alguns de seus setores puderam aprender a língua dos dominadores. Portanto, o eurocentrismo não é exclusivamente a perspectiva cognitiva dos europeus, ou apenas dos dominantes do capitalismo mundial, mas também do conjunto dos educados sob sua hegemonia. Sobre o processo de constituição da identidade dos povos colonizados, Carvalho (2010, p. 4) salienta que estes “aprenderam a habitar duas identidades: a cultura do colonizador – socialmente mais valorizada e aceita como válida – eurocêntrica, masculina, heterossexual e cristã, e a do colonizado – comunitária, matrial e coletiva”. Em meio a esses questionamentos acerca da diversidade cultural e da construção da identidade surgiu o termo pós-colonialismo, cuja perspectiva conceitual remete à ideia de que determinados lugares e povos são vistos como subalternos em relação a outros, considerados superiores e desenvolvidos. A abordagem pós-colonial constrói, sobre a evidência […] de que toda enunciação vem de algum lugar, sua crítica ao processo de produção do conhecimento científico que, ao privilegiar modelos e conteúdos próprios ao que se definiu como a cultura nacional nos países europeus, reproduziria, em outros termos, a lógica da relação colonial. Tanto as experiências de minorias sociais como os processos de transformação ocorridos nas sociedades “não ocidentais” continuariam sendo tratados a partir de suas relações de funcionalidade, semelhança ou divergência com o que se denominou centro. Assim, o prefixo “pós” na expressão pós-colonial não indica simplesmente um “depois” no sentido cronológico linear; trata-se de uma operação de reconfiguração do campo discursivo, no qual as relações hierárquicas ganham significado […]. Colonial, por sua vez, vai além do colonialismo e alude a situações de opressão diversas, definidas a partir de fronteiras de gênero, étnicas ou raciais (COSTA, 2006, p. 117-118). O termo pós-colonialismo, portanto, refere-se a uma perspectiva teórica e cultural que realiza uma releitura crítica do processo de colonização apontando para novas perspectivas de análise que valorizam saberes não hegemônicos. UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 120 O pós-colonialismo não deve ser tratado como um órgão unificado de pensamento; pelo contrário, ele é múltiplo, diverso e não é fácil de generalizar. Embora o pós em pós- colonialismo seja indicativo do fim do colonialismo e do imperialismo como dominância política directa, isto não implica o desaparecimento do colonialismo como um sistema mundial de poder hegemônico imperial. A abordagem pós-colonial procura captar as continuidades, rupturas e complexidades específicas de períodos históricos, na tentativa de ir além das concepções cronológicas estritas, lineares e dicotômicas, que dominam o pensamento social e político contemporâneo (MENESES, 2009, p. 178). IMPORTANT E A utilização desses saberes, considerados alternativos à epistemologia dominante, apresenta como premissa o fato de que “o mundo é epistemologicamente diverso e essa diversidade, longe de ser algo negativo, representa um enorme enriquecimento das capacidades humanas para conferir inteligibilidade e intencionalidade às experiências sociais” (SANTOS; MENESES, 2009, p. 12). Fazendo uma retomada do emprego desse conceito, Carvalho (2010) explicita que inicialmente ele foi utilizado em referência ao processo de independência das colônias europeias. Somente a partir da década de 1970 o conceito de pós-colonialismo passou a ser usado pelos críticos literários para explicar as consequências da colonização para os povos colonizados. Constata-se, assim, que o prefixo pós, “[…] apesar de ser um depois, vai além do colonialismo, já que as teorias pós-coloniais se fundamentam numa atividade crítica de contestação e leitura crítica do legado colonial” (CARVALHO, 2010, p. 3). Não se trata, portanto, de uma sucessão cronológica de algo que aconteceu imediatamente depois, uma vez que “o fim do colonialismo nãorepresentou o fim das relações de poder discriminatórias desenvolvidas no seio das sociedades pós-coloniais” (CARVALHO, 2010, p. 2). Em síntese, “o pós- colonial, portanto, vai além do cronológico – de um período específico – para estabelecer-se enquanto corrente teórica que problematiza as relações desiguais entre quem produz o conhecimento e quem carrega as marcas de desigualdade advindas da situação colonial” (CARVALHO, 2010, p. 3). A compreensão deste conceito, portanto, deve levar em consideração a utilização do prefixo pós não no sentido de sucessão, mas de superação. Embora o conceito de pós-colonialismo tenha emergido nos anos 1970, ele adquire consistência a partir dos anos 1980, com a produção de obras seminais voltadas para essa temática. A propósito, cumpre ressaltar que não é possível TÓPICO 2 | A LITERATURA E OS ESTUDOS PÓS-COLONIAIS 121 falar de uma única teoria pós-colonial, mas de uma série de estudos oriundos de diversos campos epistemológicos cujo ponto em comum é a crítica às narrativas que apresentam a cultura eurocêntrica como modelo civilizatório universal (GUERRA, 2014). Ou ainda, trata-se de “uma variedade de contribuições com orientações distintas, mas que apresentam como característica comum esforço de esboçar, pelo método da desconstrução dos essencialismos, uma referência epistemológica crítica às concepções dominantes da modernidade” (COSTA, 2006, p. 84). De acordo com esse autor, a crítica colonial foi iniciada por “autores qualificados como intelectuais da diáspora negra ou migratória – fundamentalmente imigrantes oriundos de países pobres que vivem na Europa Ocidental e na América do Norte – teve, na crítica literária, sobretudo na Inglaterra e nos EUA, a partir dos anos 1980, suas áreas pioneiras de difusão” (COSTA, 2006, p. 84). Os estudos pós-coloniais, portanto, estão voltados para a história dos grupos subalternos, termo utilizado para descrever o colonizado-objeto. De acordo com Bonnici (2009, p. 265), o termo subalterno “refere-se a pessoas na sociedade que são o objeto da hegemonia das classes dominantes. As classes subalternas podem ser compostas por colonizados, trabalhadores rurais, operários e outros grupos aos quais o acesso ao poder é vedado”. Um dos primeiros autores a tratar do pós-colonialismo foi o palestino Edward Said, cujo livro, denominado Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente, é considerado um dos textos fundadores desses estudos. Nele, o autor – além de retratar a imagem que o Ocidente criou em relação ao Oriente principalmente durante o período da colonização europeia na África – chama a atenção para o fato de que essa imagem é repleta de estereótipos, homogeneizações e generalizações acerca do outro (SAID, 1990). Ao afirmar que o Oriente foi, na verdade, fabricado pelo Ocidente, Said questiona a representação binária que divide o mundo em Nós e o Outro, sendo o primeiro constituído pelo ocidental/ europeu/civilizado e o segundo pelo oriental/não-europeu/bárbaro. O autor também aponta para uma relação de poder por parte do colonizador ocidental frente ao colonizado, sendo que o colonizador sempre é detentor de privilégios do ponto de vista social, político e discursivo (COELHO, 2009). Alguns autores apresentaram críticas à teoria formulada por Said, apontando seu reducionismo. Um desses autores é Homi Bhabha, que ao analisar as relações entre colonizadores e colonizados, conclui que elas “não são homogêneas, mas marcadas pela ambivalência […], pondo em relevo a esfera inconsciente das relações coloniais e mostrando de que forma o sujeito colonial se converte em objecto de fantasia e desejo por parte do colonizador” (COELHO, 2009, s.p.). A crítica de Gayatri Chakravorty Spivak, por sua vez, põe em evidência a história dos subalternos e propõe “dar voz aos excluídos, nomeadamente às mulheres nativas subalternas, cujo ponto de vista nunca é ouvido, vítimas que são da visão de superioridade do feminismo ocidental que autora considera sinônimo dos comportamentos do colonizador face ao colonizado” (COELHO, 2009, s.p.). UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 122 Ainda sobre autores e obras que tratam do pós-colonialismo, mais especificamente no campo da literatura pós-colonial, o livro The empires writes back: theory and practice in post-colonial literatures (ASHCROFT; GRIFFITHS; TIFFIN, 1989) é considerado um dos mais significativos e importantes trabalhos publicados. Além desses autores já citados destacam ainda, Aimé Césaire, Frantz Fanon, Boaventura de Sousa Santos e Stuart Hall. Na América Latina destacam-se autores como Enrique Dussel, Edgardo Lander, Aníbal Quijano, Walter Mignolo, María Lugones, Silvia Rivera Cusicanqui e Rita Segato (GUERRA, 2014). 4 DESCOLONIZAÇÃO, LITERATURA E CRÍTICA PÓS-COLONIAL Entende-se por literatura pós-colonial aquela “afetada pelo processo imperial, desde o primeiro momento da colonização europeia até o presente” (ASHCROFT et al., 1991 apud BONNICI, 2009, p. 267). Ela abrange, portanto, “as literaturas provenientes das ex-colônias europeias que surgiram da experiência da colonização e diante das diferenças com os pressupostos do centro imperial”, sendo que o desenvolvimento dessas literaturas dependem de dois fatores: “progressão gradual da conscientização nacional e convicção de serem diferentes da literatura do centro imperial” (BONNICI, 2009, p. 267-268). Analisando as produções literárias brasileiras, Bonnici (2009) destaca três momentos distintos: no primeiro momento tem-se uma gama de textos produzidos por representantes do poder colonial, ou seja, trata-se de um material no qual não é possível localizar nem a conscientização nacional e muito menos a diferenciação. Tais textos, produzidos por viajantes, administradores, soldados e esposas de administradores coloniais “privilegiam o centro em detrimento da periferia porque visavam exclusivamente ao lucro que a metrópole terá com a invasão e a manutenção da colônia” (BONNICI, 2009, p. 268). A seguir, predominam os textos escritos por nativos educados na metrópole que deixaram de lado a própria língua para utilizar a língua do colonizador europeu. Já na terceira etapa começam a ser produzidos textos que rompem com os padrões, ocorrendo “a guinada completa do estranhamento e afastamento da literatura brasileira dos parâmetros metropolitanos” (BONNICI, 2009, p. 268). Com a emergência dos debates acerca da relação de dependência cultural dos povos colonizados de seus colonizadores, mesmo após a conquista da independência, deu-se início ao processo de descolonização, definida por Bonnici (2009, p. 272) como “processo de desmascaramento e demolição do poder colonial em todos os seus aspectos”. Na perspectiva desse autor, o processo de descolonização faz-se necessário porque a independência política não garante, por si só, a descolonização da mente, já que tanto nas literaturas nacionais como também em outros campos do saber permanecem resíduos coloniais. De TÓPICO 2 | A LITERATURA E OS ESTUDOS PÓS-COLONIAIS 123 forma contraditória, “os defensores e proclamadores da independência sentem- se herdeiros dos modelos políticos europeus e relutam em rejeitar a cultura importada, não podem escapar de uma profunda cumplicidade com os poderes coloniais dos quais queriam se libertar” (BONNICI, 2009, p. 272). Fazem parte do processo de descolonização o deslocamento do cânone literário, a releitura e a reescrita, que serão explicados a seguir. A formação do cânone literário dá-se não somente em função da excelência literária ou do valor estético de uma obra, mas também “reflete características positivas reguladoras de um comportamento compatível com a sociedade em questão” (CORRÊA, 1995, p. 325). Veja, por exemplo, como aconteceu a apropriação (ou a não apropriação) de algumas obras no cânone literário brasileiro e internacional: Os romances de José de Alencar (1829-1877), o principal escritor da ficção romântica brasileira e expoentemáximo do Indianismo, foram apropriados ao cânone literário porque nos períodos pós-independência e pós-república necessitava-se de alguém que mostrasse orgulho, amor, defesa da pátria e criasse arquétipos de uma terra edênica e da unificação nacional. Na Inglaterra, as obras de Alfred Tennyson (1809- 1892) naturalmente entraram no cânone literário por causa de seu enaltecimento do imperialismo britânico, da coragem de seus soldados e dos arquétipos criados no conjunto de poemas sobre os fundamentos míticos do povo inglês. Por outro lado, numa sociedade patriarcal e machista, os textos e as biografias das escritoras brasileiras do século XIX e do início do século XX foram quase todos suprimidos. Suas obras foram literalmente relegadas ao esquecimento. Somente nestas últimas décadas a academia brasileira (especialmente nas universidades federais do Rio Grande do Norte, de Minas Gerais e de Santa Catarina) resgatou a história e as obras de autoras brasileiras. O mesmo aconteceu no bojo da sociedade branca e europeia dos Estados Unidos. Entraram no cânone literário estadunidense os textos dos ex-escravos Frederick Douglass (1817-1895) e Harriet Ann Jacobs (1813-1897) apenas nos últimos vinte e cinco anos do século XX, devido a interesses de diferentes experiências culturais e de formas literárias (BONNICI, 2009, p. 269). Quando se propõe, em um processo de descolonização, o deslocamento do cânone literário, busca-se abrir espaço para a diversidade, voltando o olhar para outros tipos de produção. Não se trata de desmerecer as obras clássicas, mas questioná-las e, ainda, deixar de estabelecer comparações que sobrepujem as demais criações. A reescrita, por sua vez, é um fenômeno literário “que consiste em selecionar um texto canônico da metrópole e, através de recursos da paródia, produzir uma nova obra escrita do ponto de vista da ex-colônia”, sendo que sua finalidade é “a quebra da ocultação da hegemonia canônica e o questionamento dos vários temas, enfoques, pontos de vista da obra literária em questão, os quais reforçavam a mentalidade colonial” (BONNICI, 2009, p. 271). UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 124 Um exemplo de reescrita é o romance Foe (1986), de John Maxwell Coetzee e, no qual o autor faz uma releitura contemporânea da obra Robson Crusoe (1719), de Daniel Defoe. Em seu texto, Coetzee lança um novo olhar para a obra de Defoe com o enfoque pós-colonial. Uma das estratégias utilizadas pelo autor foi dar voz a uma narradora feminina, inexistente na obra original. Além disso, […] o texto de Coetzee desconstrói a aparência de verdade incontestável presente em Defoe, trazendo para a discussão a ordem sob a qual aquela sociedade estava organizada, apontando lacunas deixadas pelo clássico. O escritor sul-africano chama atenção para aquilo que não foi passível de discussão no texto de Defoe e figurou como natural. Dessa maneira, Coetzee leva à reflexão sobre questões sociais relevantes como o comércio de escravos, a marginalização da mulher, e a imposição do poder colonizador como questões estruturais e, por isso, não passíveis de questionamentos (MORAES, 2012, p. 13-14). Já a releitura é uma estratégia de leitura de textos literários e não literários que permite “garimpar suas implicações imperialistas e trazer à tona o processo colonial”, fazendo “emergir nuanças coloniais que ele mesmo esconde” (BONNICI, 2009, p. 269). O autor ainda destaca algumas estratégias de releitura, a saber: 1. Passar de uma atitude que define a literatura como enaltecedora e transcendente para uma visão de literatura inserida no contexto histórico e no espaço geográfico. 2. Perceber como as obras de certos autores aprofundam o imperialismo, o colonialismo e o patriarcalismo, especialmente quando supõem que os leitores sejam do sexo masculino e brancos. 3. Classificar o autor segundo o esquema representando os três momentos da literatura pós-colonial. 4. Detectar na ficção a ambiguidade ameaçadora do nativo e da mulher diante da ideologia dominante da conquista. 5. Descobrir o silêncio absoluto, escondendo o sistema escravagista, a objetificação da mulher e o aviltamento dos nativos, embora mascarados atrás de manifestações de riquezas e de patriarcalismos. 6. Investigar o aprisionamento do espaço colonial e pós-colonial pelo texto europeu ou pela teoria literária oriundos das metrópoles renascentistas ou modernas (BONNICI, 2009, p. 271). Tais estratégias visam fazer a releitura dos textos de forma a localizar os efeitos da colonização sobre as obras literárias e outras produções escritas por meio de um processo de desconstrução. Veja, como exemplo, algumas considerações referentes à análise empreendida por Bonnici (2009, p. 270) das obras Na festa de São Lourenço e O Ateneu: A peça Na festa de São Lourenço (1578), de José de Anchieta (1534- 1597), parece revelar simplesmente um drama singelo e primário com que o missionário podia facilitar a pregação da doutrina cristã. Uma leitura pós-colonial traz à tona a demonização e a zoomorfização dos índios, as quais revelam o maniqueísmo (ou binarismo) de Anchieta, a objetificação dos nativos, o vilipêndio de sua cultura, a superioridade da civilização europeia (e da religião cristã). O texto dramático expõe às claras a ideologia colonial. Normalmente a leitura de O Ateneu (1888), de Raul Pompeia, mostra a história do internado como reflexo da sociedade no terceiro quartel do século XIX, ou seja, TÓPICO 2 | A LITERATURA E OS ESTUDOS PÓS-COLONIAIS 125 a história da elite brasileira enriquecida pela setentrional borracha ou pela charqueada do sul, no contexto da falência e da decadência do regime monárquico de base escravista. Uma releitura poderia revelar o sistema educacional europeu como centralizador e esmagador da personalidade; a resistência de uma sociedade oprimida que anseia por uma independência verdadeira, em todos os sentidos; a elite traidora da nacionalidade e do povo; a incapacidade de distanciar- se do contexto de dependência completo; o surgimento de sujeitos/ agentes que constroem dos escombros a autonomia da nação. Nota-se, assim, que a proposta de releitura e reinterpretação das obras acaba por subverter o texto metropolitano, trazendo à tona algumas nuances do colonialismo ao revelar as implicações do processo de dominação e a forma como o nativo era tratado pelos colonizadores. A literatura pós-colonial, portanto, tem como intento resgatar a identidade dos povos subjugados para que estes possam narrar, “sob sua própria perspectiva, a experiência de contato com o Outro e assim revelar um outro ponto de vista, jamais antes citado, o ponto de vista da margem” (MORAES, 2012, p. 39). Antes de continuar a leitura, conheça um trecho do segundo ato da peça Na festa de São Lourenço, escrita por José de Anchieta. Ao caracterizar os costumes do povo nativo como demoníacos e afastados das crenças do povo europeu, percebe-se a visão do colonizador frente ao indígena por ocasião da chegada dos portugueses ao Brasil. Você pode ler a peça na íntegra acessando o link: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000145.pdf. NOTA Guaixará Esta virtude estrangeira me irrita sobremaneira. Quem a teria trazido, com os seus hábitos polidos estragando a terra inteira? Quem é forte como eu? Como eu, conceituado? Sou diabo bem assado, a fama me precedeu: Guaixará sou chamado Que bom costume é bailar! Adornar-se, andar pintado, tingir pernas, empenado fumar e curandeirar, andar de negro pintado. Para isso com os índios convivi. Vêm os tais padres agora com regras fora de hora para que duvidem de mim. Lei de Deus que não vigora. FIGURA – O AUTO DE SÃO LOURENÇO FONTE: <http://twixar.me/nypT>. Acesso em: 13 jan. 2020. UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 126 5 CRÍTICA LITERÁRIA FEMINISTA E ESTUDOS PÓS-COLONIAIS Conforme estudado na unidade anterior, a crítica literária feminista propõe um modelo de análise que se detém sobreas questões de gênero, com o intuito de ressignificar o papel da mulher enquanto produtora e consumidora de literatura. Ao retratar a interface entre a literatura e o mundo social, a teoria feminista procede a uma análise das representações de gênero circulantes na sociedade, enfatizando sua relação com questões culturais, políticas, sociais e econômicas. Os estudos feministas e os estudos pós-coloniais abordam temas convergentes, já que ambos se ocupam de temáticas semelhantes tais como “representação, voz, marginalidade e da relação entre política e literatura. Visto que os dois projetos empregam perspectivas multidisciplinares, ambos estão atentos, pelo menos em princípio, ao contexto histórico e às coordenadas geopolíticas do tema em discussão” (BAHRI, 2013, p. 662). De acordo com Bonnici (2009), existe uma analogia entre patriarcalismo/ feminismo e metrópole/colônia ou colonizador/colonizado, já que é possível considerar o termo mulher da colônia como uma metáfora da mulher como colônia. Além disso, Bonnici (2009, p. 231) também pontua que “se o homem foi colonizado, a mulher, nas sociedades pós-coloniais, foi duplamente colonizada”. Cabe ressaltar que, durante muito tempo, o cânone literário consolidou a hegemonia das elites letradas, majoritariamente compostas por homens, brancos e europeus. Dessa forma, o discurso de um grupo acabou sendo tomado como o discurso de toda a sociedade. Os discursos pós-coloniais, entretanto, junto a crítica feminista, se propõem a questionar “as formas literárias e o desmascaramento dos fundamentos masculinos do cânone” (BONNICI, 2009, p. 231-232). O tema do feminismo, portanto, está inter-relacionado aos estudos pós-coloniais pois ambos pressupõem uma leitura crítica dos textos coloniais e pós-coloniais. Assim, uma perspectiva feminista pós-colonial pretende “ler representações literárias de mulheres levando em conta tanto o sujeito quanto o meio de representação. Exige também um letramento crítico geral, isto é, a capacidade de ler o mundo (especificamente, nesse contexto, as relações de gênero) com um olhar crítico” (BAHRI, 2013, p. 660). 127 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Existe uma inter-relação entre os termos colonialismo, etnocentrismo e eurocentrismo. • O processo de colonização contribuiu para limitar nosso conhecimento a determinados paradigmas. • A crítica pós-colonial contribui para a desconstrução de estereótipos, pois permite ampliar o olhar e valorizar culturas diferentes. • A crítica literária feminista e os estudos pós-coloniais se inter-relacionam, já que ambos se ocupam com a questão da representação. 128 AUTOATIVIDADE 1 “O Feminismo e Pós-Colonialismo são movimentos que surgiram no século XX no âmbito das Ciências Sociais e, nos estudos literários, procuram analogamente desconstruir o cânone literário hegemonicamente europeu e patriarcal, para então entendê-lo e modificar as estruturas performáticas dos indivíduos, possibilitando a eles uma interação ainda maior com a literatura e todas as áreas do conhecimento e expressão humana” (SENEM, 2008, p. 11). Considerando o que foi estudado neste tópico, e tendo como referência a citação de Senem transcrita anteriormente, elabore um pequeno texto no qual sejam apresentadas as interfaces entre a teoria feminista e a crítica pós-colonial, identificando possíveis linhas de continuidade entre ambas. 2 (ENADE, 2018): TEXTO 1: FONTE: <http://design.ufes.br/sites/design.ufes.br/files/field/anexo/provas-e-gabarito_ enade2018-design.pdf>. Acesso em: 2 dez. 2019. A frase em latim “Ex Africa semper aliquid novi”, do escritor romano Caio Plínio, dita há 2.000 anos, significa “da África sempre há novidades a reportar”. A partir dessa ideia, o curador alemão Alfons Hug montou a exposição “Ex Africa”, que conta com 18 artistas de oito países africanos e dois artistas brasileiros. A ideia da mostra é retratar a produção artística africana sem estereótipos aos quais estamos acostumados, como objetos de artesanato e referências iconográficas. FONTE: Adaptado de <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/. Acesso em: 12 jul. 2018. TEXTO 2 Até as vésperas da era colonial moderna era comum encontrar as imagens positivas sobre a África. Árabes e europeus descreveram as formas políticas africanas altamente elaboradas e socialmente aperfeiçoadas, entre as quais se alternavam reinos, impérios, cidades-estados, entre outras. Após a conferência 129 de Berlim (1885), que definiu a partilha colonial da África, essas imagens “simpáticas” começaram a sombrear. Reinos e Impérios foram substituídos pelas tribos primitivas em estado de guerra permanente, umas contra outras, para justificar e legitimar a Missão Civilizadora, que até hoje alimenta o imaginário da África no Brasil. FONTE: Adaptado de VIEIRA, F. S.S. Do eurocentrismo ao afropessimismo: reflexões sobre a construção do imaginário “África” no Brasil. Em Debate. PUC-Rio, n° 3, 2006. A partir dos textos apresentados, avalie as afirmações a seguir. I- A África tem sido pensada, por muitos, como um único país, compreendida de forma monolítica, como se fosse formada por cultura única, ou, até mesmo, um lugar de povos sem cultura alguma, o que contribui e reforça a exclusão social das obras africanas do sistema das artes visuais. II- Construídas sob a égide do clichê da miserabilidade, as clássicas representações sobre a África, que retratam o continente como um celeiro da tradição, do arcaísmo, da produção manufaturada e artesanal, são estereótipos que precisam ser superados, por serem incompatíveis com a multiplicidade de expressões artísticas africanas. III- Os estereótipos sobre o continente africano foram construídos a partir de interesses políticos, culturais e econômicos que sustentaram, durante séculos, projetos de exploração e ações excludentes. É CORRETO o que se afirma em: a) ( ) I, apenas. b) ( ) III, apenas. c) ( ) I e II, apenas. d) ( ) II e III, apenas. e) ( ) I, II III. 130 131 TÓPICO 3 LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Conforme visto no decorrer desta unidade, a Lei nº 11.645/08 regulamentou a obrigatoriedade da inclusão, no currículo oficial da rede de ensino, da temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. A escola, enquanto locus de transmissão e socialização de conhecimento e cultura, pode contribuir ou não para a implantação de uma prática pedagógica de respeito e valorização de diferentes culturas, dentre elas a africana e a indígena. Assim, espera que as escolas superem práticas pedagógicas que submetem tais culturas a um processo de cristalização ou folclorização (GOMES, 2003), tornando o currículo mais democrático e aberto à diversidade cultural existente em nosso país. Por esse motivo, é essencial que o corpo docente esteja preparado para trabalhar com tais temáticas em sala de aula. No caso específico da Literatura, o conhecimento das obras de escritores africanos, indígenas e de imigrantes oportuniza uma aproximação rica e interessante com essas culturas nem sempre valorizadas no ambiente escolar. 2 LITERATURA AFRICANA Para iniciar os estudos sobre a literatura africana é importante ter em mente que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não existe uma uniformidade cultural neste continente. Além de ser necessário levar em conta as diferenças existentes entre os países localizados ao norte do deserto do Saara e aqueles localizados ao sul, na região denominada África subsaariana, é preciso compreender que, mesmo nesta região, de grande extensão territorial, também é possível encontrar bastante diversidade, muito embora eles tenham diversos traços em comum. 132 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA AUTOATIVIDADE No mapa a seguir, que distingue a África do Norte da África Subsaariana, é possível divisar o nome dos países que compõem o continente. Que tal localizar e marcar no mapa os países africanosque têm como idioma a Língua Portuguesa? FIGURA – REGIONALIZAÇÃO DO CONTINENTE AFRICANO FONTE: <https://www.todamateria.com.br/africa-subsaariana/>. Acesso em: 3 out. 2019. A ideia de uniformidade acerca do continente africano está relacionada a uma visão eurocêntrica que desconsidera a pluralidade étnica e cultural existente no continente. Essa visão não deixa de estar relacionada ao fato de que “estamos familiarizados com ideia da África como uma invenção do Ocidente e com o fato de a história da África ter sido escrita por historiadores não africanos” (SOARES, 2011, p. 99). Dessa forma, muitos aspectos da riqueza desse continente permanecem desconhecidos para nós, brasileiros, muito embora sejam inúmeras as semelhanças que unem e aproximam nosso país dos países africanos. A literatura produzida no continente africano também é extremamente heterogênea, a começar pela língua em que é produzida, havendo a vertente lusófona, a francófona, a árabe, a egípcia, a sul-africana, dentre outras. Para além da língua utilizada, essa diversidade também pode ser observada em suas diferentes pautas identitárias, como, por exemplo, a racial, a nacional, a continental, a étnica, a de gênero etc. Além disso, considerando que cada país africano teve sua própria história de colonização e de independência, isso acaba reverberando no processo de produção literária de cada um. TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 133 Outras diferenças também podem ser percebidas quando se analisa diferentes momentos da produção literária. Entre 1950 a meados de 1970, por exemplo, a literatura teve relevada importância enquanto instrumento de afirmação política e cultural no processo de emancipação e construção dos estados- nações africanos (ANDRADE, 2013), sendo que os escritores representativos desse período [...] incorporaram a tradição oral local para difundir os ideais anticoloniais e versar sobre conflitos existentes na relação entre passado e presente, tradição e modernidade, mundo autóctone e mundo estrangeiro. Esses autores percebiam nos métodos de instrução e de socialização formas variadas de dependência cultural, denunciando temas como o assimilacionismo, o racismo e outras formas de desigualdades sociais originadas pelo sistema colonial (ANDRADE, 2013, p. 46). No período anterior à independência dos países africanos a literatura produzida girava em torno de ideais comuns como, por exemplo, a libertação, a independência e a afirmação da identidade nacional (ANDRADE, 2013). Após esse período, verifica-se a emergência de uma pluralidade de estilos que passam a retratar diferentes realidades. Nessa nova fase, que se estende até os dias atuais, chama a atenção a “tematização dos conflitos internos e das guerras civis que marcaram os seus países após o processo de independência, legado deixado pelo sistema colonial no seu reforço dado às rivalidades étnicas já existentes” (ANDRADE, 2013, p. 46). A produção literária pós-colonial dos países africanos, portanto, é vasta, diversificada e, tendo emergido da luta e do conflito, consegue problematizar diversos processos de identificação social como por exemplo a noção de lugar, de africanidade e de nação (ANDRADE, 2013). A propósito, de acordo com Soares (2011, p. 99-100), as literaturas africanas [...] deveriam ser compreendidas simplesmente como literatura. Como qualquer literatura, ela é um produto da vida social e, como tal, surge em contextos específicos (sempre vinculados aos processos de modernização e urbanização), transforma-se, diversifica-se, assume novas formas, cria estilos etc. Em África, como decorrência do processo de colonização, a literatura parece ter assumido uma posição especial: ela teria ocupado o lugar da antropologia, produzindo etnografias sobre o que seria o continente e os seus habitantes [...]. Trata-se de uma literatura de luta e conflito, uma literatura produtora e problematizadora da identidade, uma literatura que dialoga de modo ambíguo com a “tradição”, a “literatura colonial” e com o seu tempo. Uma literatura tipicamente moderna no sentido de ser aquela que surge da contingência de um conjunto de mudanças e que expõe um sem número de conflitos e contradições. Também é interessante observar que, durante os movimentos de independência, diversos escritores africanos foram influenciados pela literatura brasileira; entretanto, hoje é possível perceber o movimento inverso, ou seja, a literatura africana tem-se afirmado no Brasil, contribuindo, inclusive, para nosso 134 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA processo de afirmação identitária. Utilizando as palavras de Soares (2011, p. 95), primeiramente “observa-se um fluxo da literatura brasileira em direção aos países de colonização portuguesa, no qual navegou a estrutura de sentimento da mestiçagem harmoniosa”. A seguir, nota-se um “fluxo no sentido África- Brasil, em que uma estrutura de sentimento afirmativa, amadurecida no período pós-independência das ex-colônias, passa a influenciar, já no século XXI, uma estrutura de sentimento emergente na sociedade brasileira, a estrutura de sentimento africanizante”. O estudo das literaturas africanas de língua portuguesa promove uma aproximação com diferentes aspectos culturais, históricos e sociais destes povos. Trata-se, conforme Silva (2011, p. 1), de uma “uma aproximação entre culturas que, historicamente, sempre estiveram unidas”, ou seja, o estudo destas literaturas permite lidar com uma realidade que, ao mesmo tempo, é próxima, porém diversa da nossa. Vamos conhecer, a partir de agora, um pouco da literatura produzida em Angola e Moçambique, dois países africanos de língua portuguesa. Conforme estudado na unidade anterior, toda produção literária faz parte de um determinado contexto histórico e, por esse motivo, é influenciada por questões políticas, econômicas e sociais do tempo e local em que é produzida. E isso não é diferente com a literatura angolana que, embora tenha surgido bem antes de sua independência, ocorrida em 1975, foi extremamente profícua no período que antecedeu e que sucedeu o processo de libertação. De acordo com Crosariol (2009), a literatura na Angola, articulada com outras forças, desempenhou “um importante papel na superação do estatuto de colônia. Presente nas campanhas libertadoras foi responsável por ecoar o grito de liberdade de uma nação por muito tempo silenciado, mas nunca esquecido”. A literatura produzida em Moçambique apresenta uma trajetória semelhante à de Angola, muito embora possua suas singularidades decorrentes da necessidade de dialogar com as questões culturais locais. De forma didática, Silva (2011) distingue cinco fases da literatura moçambicana, sendo a primeira, de formação (1920-1940), caracterizada pela presença profissionais liberais que procuravam dar voz à cultura africana nativa por meio da literatura. A segunda fase (1940-1960), pré-independente, é movida pela motivação política, muito embora ainda seja evidente a influência europeia. A seguir, temos a literatura revolucionária (1960-1980), na qual predominam um entusiasmo nacionalista bem como a temática independentista. A seguir temos a fase independente (1980- 1990) que tem como características a valorização da independência e o apego a valores nacionais. Por fim, a literatura contemporânea, que conforme Silva (2011, p. 7-8) tem como características “confecção de uma prosa mais intimista, bem como pela valorização da literatura popular e, ao mesmo tempo, a superação da perspectiva político-ideológica”. A seguir, conheceremos alguns autores de Angola e de Moçambique e respectivas obras literárias. TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 135 2.1 JOSÉ LUANDINO VIEIRA Escritor angolano, José Luandino Vieira nasceu a 4 de maio de 1935, na Lagoa do Furadouro (Portugal). É cidadão angolano e participou activamente no movimento de libertação nacional, contribuindo para onascimento da República Popular de Angola. Passou toda a infância e juventude em Luanda, onde fez o ensino secundário. Exerceu diversas profissões até ser preso em 1959, sendo depois libertado. Posteriormente, em 1961, foi de novo preso e condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança. Transferido, em 1964, para o campo de concentração do Tarrafal, onde passou oito anos, foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa. Iniciou então a publicação da sua obra, escrita, a maioria, nas diversas prisões por onde passou. Depois da independência angolana, foi nomeado para diversos cargos: organizou e dirigiu a Televisão Popular de Angola de 1975 a 1978; dirigiu o Departamento de Orientação Revolucionária do MPLA até 1979; organizou e dirigiu o Instituto Angolano de Cinema de 1979 a 1984. FONTE: <https://www.wook.pt/autor/jose-luandino-vieira/15732>. Acesso: 4 out. 2019. As obras de José Luandino Vieira, produzidas – em grande parte, nas prisões por onde passou devido à sua militância nas lutas anticolonialistas e por pertencer ao Movimento Popular de Libertação da Angola (MPLA) – trazem em sua essência a tensão entre a sociedade colonial e a sociedade angolana. Produzida no contexto colonial, trata-se de uma obra marcada pela resistência e pelo desejo de construção da nacionalidade e identidade angolana, conforme explicitado por Silva (2011, p. 4): Do ponto de vista dos temas e motivos literários representados em sua obra, destaca-se, sem dúvida alguma, a temática social, sempre reconstruída a partir da ótica literária, com a exposição dos conflitos raciais e a exploração da dicotomia entre civilização (europeus) e barbárie (africanos), temas construídos a partir de uma visão deliberadamente pessimista da sociedade. Não se trata, evidentemente, de um pessimismo desalentador, que enrijece a vontade de luta e mudança, mas um pessimismo aliciante, que instiga à revolta contra as distorções sociais apontadas na trama de suas efabulações. Dessa forma, além de apresentar denúncias contra o modo de vida colonial, a obra de Luandino também aponta caminhos para a independência, destacando a importância do processo de afirmação da identidade do povo angolano. Além desse relevante papel político e social, suas obras também possuem inegável valor estético marcado “pelos achados criativos e pelas ousadias estilísticas – numa moderada tradição de transgressão linguística” (SILVA, 2011, p. 4). 136 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA A utilização de recursos da oralidade nas obras de Luandino funciona, conforme Ferreira e Souto (2013, p. 20), como “um grito de liberdade de um país que ainda não tinha voz”. Dentre as diversas obras produzidas por esse autor, Luuanda (1964) foi vencedora de vários prêmios, fazendo de Luandino Vieira uma expressão máxima da literatura angolana (SILVA; SILVA, 2013). Veja, a seguir, o que é tratado nessa narrativa. Luuanda está dividida em três contos que têm em comum o fato de tratarem do cotidiano e da luta pela sobrevivência nos musseques – bairros pobres de Luanda. Utilizando-se de recursos da oralidade, o autor consegue recriar o modo de vida angolano, aproximando o leitor de aspectos culturais e linguísticos de seu povo. A primeira narrativa – denominada Vavó Xíxi e Seu Neto Zeca Santos – conta a vida desses dois personagens, sempre marcada pela pobreza e pela fome. Utilizando as palavras de Ferreira e Souto (2013, p. 12), “a dificuldade imposta pela colonização, impedindo dignidade de vida aos personagens, o espaço de discriminação imposto pelos musseques, soa como um grito na narração de Luandino”. Em A Estória do Ladrão e do Papagaio, segunda narrativa de Luuanda, Luandino Vieira conta o envolvimento de Lomelino dos Reis em um roubo de patos. Embora sendo aparentemente simples, o conto apresenta uma forte denúncia à realidade social. De acordo com Ferreira e Souto (2013, p. 13), “o envolvimento dos personagens no roubo dos patos representa o cotidiano nos musseques, a criminalidade, a miséria através de uma linguagem que protesta a disjuntura da sociedade local com a imposição de outra cultura, outras normas”. Já em Estória da Galinha e do Ovo, o autor narra a disputa por um ovo entre Nga Zefa e Nga Bina, duas mulheres que são vizinhas no musseque. A partir de então diversas pessoas aparecem na história para dar sua opinião sobre a situação das mulheres. Apesar de retratar uma briga aparentemente boba entre duas vizinhas, em suas entrelinhas o conto “esconde uma realidade de opressão de um povo negro e pobre de uma colônia governada por brancos [...] revela uma realidade de extrema pobreza dos musseques angolanos” (OLIVEIRA, 2017, p. 95). Ao fazer uma análise das obras de Luandino Vieira, Ferreira e Souto (2013, p. 14) ponderam que: O tecido de Luandino é aqui desfiado, exercendo uma função social. Tratam-se de narrativas que acalentam crianças e adultos, promovendo risos e sorrisos, imprescindíveis aos agitados movimentos de leitura contemporânea. Nesse largo tecido, o natural, a dor, a sorte, a ira, a fome mesclam-se aos mitos universais para expressarem o desejo de um povo a infinitas vozes, emergindo de um sistema austero, que pune, faz calar, mas não faz silenciar. Os contos de Luuanda retratam, de forma singular e encantadora, a busca pela identidade, representada na figura dos personagens. Identidade essa que estava desenraizada, deteriorada, mas que, de alguma maneira, tentava mostrar seus vestígios deixados na língua e no cotidiano dos personagens. TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 137 Além de Luuanda, José Luandino Vieira escreveu outras obras, dentre as quais destacam-se A Cidade e a Infância (1960), A Vida Verdadeira de Domingos Xavier (1961), Velhas Estórias (1974), No Antigamente, na Vida (1974), Nós, os do Makulusu, (1975), Macandumba (1978) e João Vêncio e os seus Amores (1979). Para conhecer melhor o autor, apresentaremos, a seguir, alguns trechos do livro Nós, os do Makulusu, seguido de uma breve análise feita por Barboza (2017). Antes, porém, cabe destacar um fato curioso sobre este livro: ele foi escrito em apenas uma semana, enquanto o autor estava no Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, entre 16 e 23 de abril de 1967. FIGURA 2 – NÓS, OS DO MAKULUSU FONTE: <https://melhorliteratura.files.wordpress.com/2014/12/imagem.jpg>. Acesso em: 13 jan. 2020. “Isto, Mais-Velho, é que é difícil e tenho de o fazer: o capim do Makulusu secou em baixo do alcatrão e nós crescemos. E enquanto não podemos nos entender porque só um lado de nós cresceu, temos de nos matar uns aos outros: é a razão da nossa vida, a única forma que lhe posso dar, fraternalmente, de assumir a sua dignidade, a razão de viver – matar ou ser morto, de pé”. “Quero rir, me sentir feliz, livre, despreocupado, Paizinho está ali, mas não posso: no seu rir e estar ali eu vejo, como Rute vai ver daqui a pouco no último passeio de barco na baía da nossa terra de Luanda, a morte de Maninho. É a chorar e sem as flores na mão que a Igreja do Carmo me entra pelo corpo adentro”. “[…] por isso, mãe, eu não quero ser enterrado, é uma palavra tão feia, tão fria, tão fosca, tão fresca; ou sepultado, outra, rima com abandonado, excomungado, capado e castrado, dominado e discriminado – escravizado! – essas todas palavras e suas rimas e sinónimos, todas têm silêncio e quietez e eu quero ser lançado no mar, então terei ao menos a ilusão de movimento, vou nascer outra vez embalado, baloiçado nas ondas todo o tempo e não vou ser pó, serei plâncton e vadiarei, vou andar no quilapanga por todas as praias do Mundo” (VIEIRA, 2004). 138 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA “O breve e denso romance apresenta ao leitor quatro personagens principais que cresceram juntas no musseque de Luanda: Mais-Velho, Maninho, Paizinho e Kibiaka. Agudas tensões decorrentes do colonialismo obrigam os companheiros de aventuras infantisa escolher caminhos inconciliáveis: Maninho, branco nascido na metrópole (assim como seu irmão Mais-Velho) vai lutar no exército colonial português [...]; Paizinho, meio-irmão mestiço dos dois, participa de ações clandestinas e é preso pela PIDE. Kibiaka, colega negro morador do Bairro Operário, entra para a guerrilha, partindo para o mato. MaisVelho, narrador onisciente por meio de quem tomamos conhecimento de todos os demais elementos da narrativa [...]. As personagens são levadas a uma situação diante da qual não há neutralidade possível. Deflagrada a guerra, não há mais possibilidade de negociação e cada um precisa escolher seu lado. A conjuntura que, por fim, obriga companheiros de infância a se enfrentarem em uma guerra que não querem impede que o leitor faça uma leitura irrefletida e o mergulha no centro nevrálgico da situação colonial que, como fato social total, abarca tudo e todos, em todas as instâncias, de modo inevitavelmente violento. [...] O movimento que rodopia o texto, desorganiza o tempo, inquieta a memória, pode também ser encontrado no interior contraditório de cada personagem, capaz de, a partir dali, retomar o conflito social amplo de um espaço turbulento” (BARBOZA, 2017). 2.2 PEPETELA FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Pepetela>. Acesso em: 4 out. 2019. FIGURA 3 – PEPETELA (ANGOLA) TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 139 O angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) nasceu em Benguela, a 29 de outubro de 1941. Fez os seus estudos primários e secundários em Benguela e em Lubango. Em 1958, mudou-se para Lisboa para fazer faculdade. Frequentou o Instituto Superior Técnico, tendo a essa altura participado de atividades políticas e literárias. Por razões políticas, em 1962 saiu de Portugal para Paris, França, onde passou seis meses. Depois, seguiu para a Argélia, onde se licenciou em Sociologia e trabalhou na representação do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e no centro de Estudos Angolanos, que ajudou a criar. De volta a Angola, ele participou diretamente na luta armada como guerrilheiro e como responsável pelo setor da educação, em diferentes áreas de combate, de 1969 a 1974. Adotou o nome de guerra de Pepetela, que significa “pestana” na língua Umbundo, e que mais tarde passou a utilizar como pseudônimo literário. Integrou a primeira delegação do MPLA que chegou à capital, Luanda, em novembro de 1974. Desempenhou os cargos de Diretor de Departamento de Educação e Cultura e do Departamento de Orientação Política. Foi membro do Estado Maior da Frente Centro. De 1975 a 1982 foi vice-ministro da Educação, passando posteriormente a lecionar sociologia na Universidade de Luanda. É membro fundador da União dos Escritores Angolanos. FONTE: <https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/pepetela-biografia/>. Acesso em: 4 out. 2019. Pepetela é um escritor de repercussão internacional cuja obra – que dialoga com a história contemporânea de seu país – também contribuiu para a consolidação da literatura angolana. Tendo lutado junto ao MPLA, possui obras que retratam a história de vida do povo angolano antes, durante a guerra e depois da independência. O romance Mayombe (1980), por exemplo, recompõe a vida dos guerrilheiros que lutaram pela independência do país contra as tropas portuguesas na década de 1970. A geração da utopia, por sua vez, retrata o período pós-independência no qual se busca um sentido para a nacionalidade angolana e uma razão para a consolidação de sua identidade cultural (SILVA; SILVA, 2013). Em A geração da utopia (1992), Pepetela reflete sobre as incertezas advindas do projeto político desenvolvido no país após a independência, conforme se observa no excerto que segue: O colonialista é colonialista, acabou. Dele não há nada a esperar. Mas de nós? O povo esperava tudo de nós, prometemos-lhe o paraíso na terra, a liberdade, a vida tranquila do amanhã. Falamos sempre no amanhã. Ontem era a noite escura do colonialismo, hoje é o sofrimento da guerra, mas amanhã será o paraíso. Um amanhã que nunca vem, um hoje eterno. Tão eterno que o povo esquece o passado e diz ontem era melhor que hoje (PEPETELA, 2013, p. 169). 140 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA Em linhas gerais, é possível afirmar que a obra de Pepetela nos convida ao debate acerca do tema da identidade nacional angolana. Tal perspectiva é confirmada pelo próprio autor que, questionado pelo Zero Hora (2013) se sua literatura tem como propósito construir uma versão da identidade angolana, afirmou: Sim, até porque a história de Angola é mal conhecida. E é uma história escrita por estrangeiros, fossem portugueses ou não, há também relatos de missionários italianos, por exemplo. Sobretudo a visão angolana da história é pouco conhecida – a visão angolana hoje, já que durante a guerra não a havia. Tenho tentado tratar alguns temas do passado mostrando que há elementos do passado que ficaram preservados no inconsciente coletivo e que servem para marcar aspectos importantes da identidade nacional. E penso que é com base no uso desses elementos de uma forma consciente, trabalhada, que nós podemos ter fato uma nação orgulhosa de si própria, porque, apesar de dominada, sabia lutar, e tinha personagens, tinha pessoas com capacidade de enfrentar todas as situações. E por isso procuro essas situações no passado para minha literatura. O objetivo é esse: a procura das linhas da chamada angolanidade. Além das obras citadas, Pepetela também escreveu As aventuras de Ngunga (1973), Muana Puó (1978), A revolta da casa dos ídolos (1979), Yaka (1985), O cão e os calús (1985), Lueji (1989), Luandando (1990), O desejo da Kianda (1995), Parábola do cágado velho (1996); A gloriosa família (1997); A montanha da água lilás (2000) e Jaime Bunda, agente secreto (2001). Veja, a seguir, um excerto da obra Yaka, seguido de uma breve análise feita por Santos (2014). FIGURA 4 – YAKA FONTE: <https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTxwqc3o8Vx2jG-Kp7KiIL 7kmTA4PVtj182spLXwo9wo3cjq9UI&s>. Acesso em: 13 jan. 2020. É o fim, pensou ele, já sem forças para o dizer em voz alta. Devo fazer o balanço da minha vida. [...] Só tenho que fazer a das perdas. Uma família a que dei origem, hoje espalhada pelo mundo. Só Joel e Chico sobraram. E Joel talvez agora já esteja morto, sem sepultura. É importante estar sem sepultura? Gostaria de levar a enterrar esse menino que descobri no fim da vida. E fui egoísta e ia dizer- TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 141 lho, quando me alegrei que fosse lutar. Ia fazer o que nunca fui capaz de fazer, ele ia redimir-me. É sempre assim, descobre-se demasiado tarde. Não deixará traço no mundo. Nem o sapalalo. Não foi ele que o construiu, mas deixei-o apodrecer, já saí pó por todos os lados, basta uma explosão aqui perto para ele desabar. Nada, não deixa nada atrás dele. A sociedade será outra nesta terra, nem vestígios registará na História. A História guarda os feitos de heróis, na medida que interessam às forças vitoriosas da época. Não são os seus vestígios que a nova sociedade vai querer na História. Um colono a mais. Para esquecer. A culpa foi minha? Tinha sido apenas o mexilhão da história, uma bimba que se afogou porque duas vagas chocaram exactamente sobre ela. [...] A terra que a boca de Alexandre Semedo morde lhe sabe bem. É o cheiro do barro molhado pelo orvalho de madrugada e o som longínquo de badalos de vacas na vastidão do Mundo. Leva esse sabor e cheiro de terra molhada para cima da pitangueira, onde fica a balouçar, para sempre (PEPETELA, 1998, p. 393-395). “Yaka segue o modelo grego de saga familiar pelo fato de ter o seu principal núcleo narrativo centralizado na história dos Semedo, uma família de colonos portugueses que veio para Angola no final do século XIX, ao mesmo tempo em que a história desse clã está atrelada ao desenvolvimento histórico de uma região de Angola e da própria naçãoangolana. A utilização da saga familiar como estratégia narrativa permite a Pepetela entrelaçar a história da família fictícia à história do desenvolvimento da cidade de Benguela e de Angola, de modo a realizar uma análise da sociedade colonial, ao mesmo tempo em que faz uma releitura da história do país, dando voz a tudo aquilo que foi silenciado e obscurecido pela historiografia oficial portuguesa. Para tanto, Pepetela se apropriou de matéria de extração histórica tanto angolana quanto portuguesa e mundial. [...] Em sua análise da sociedade colonial angolana, Pepetela representa literariamente como os colonos que viveram naquela sociedade foram afetados por determinados acontecimentos históricos do período e como reagiram a eles, mostrando como pensavam e agiam. [...] Desse modo, a narrativa mostra que o pensamento do colono português em relação às terras africanas é que elas eram propriedade portuguesa por direito natural de descoberta, sem levar em conta, em nenhum momento, que essas terras já eram habitadas e possuíam donos” (SANTOS, 2014). 142 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 2.3 AGUALUSA FIGURA 5 – AGUALUSA (ANGOLA) FONTE: <https://www.estantevirtual.com.br/livros/jose-eduardo-agualusa>. Acesso em: 4 out. 2019. José Eduardo Agualusa [Alves da Cunha] nasceu no Huambo, Angola, em 1960. Estudou agronomia e silvicultura e foi jornalista. Publicou até agora 13 romances, e diversas colectâneas de contos e de poesia. Os seus livros estão traduzidos em mais de 30 idiomas. Um dos seus romances, “O Vendedor de Passados”, ganhou o Independent Foreign Fiction Prize, em 2007. “Teoria Geral do Esquecimento” foi finalista do Man Booker International, em 2016, e vencedor do International Dublin Literary Award, em 2017. José Eduardo Agualusa divide o seu tempo entre a Ilha de Moçambique, no norte de Moçambique, e Lisboa, em Portugal. FONTE: <https://www.agualusa.pt/cat.php?catid=27>. Acesso em: 4 out. 2019. José Eduardo Agualusa, autor expressivo da literatura contemporânea, narra, em suas obras, “acontecimentos relacionados não apenas a história recente de Angola, mas também ao vasto imaginário do continente africano, com sua diversidade cultural e suas ricas manifestações locais” (SILVA, 2011, p. 6). Além disso, ele também estabelece, em suas narrativas, um diálogo fecundo com a cultura e a literatura brasileiras. Na obra A Conjura (1989) – que traz como cenário a cidade de Luanda em 1880 – Agualusa apresenta “questões relacionadas à colonização portuguesa e à independência de Angola, num contexto em que se planeja uma revolta (conjura) independentista, frustrada pelo barbeiro Jerónimo Caninguili” (SILVA, 2011, p. 5). Em A Feira dos Assombrados e Outras Estórias Inverossímeis (1992), Agualusa “exercita com mais competência e ousadia faces da mística africana, misturando história e ficção, com uma narrativa de cunho memorialístico em que verdade e mentira se entrecruzam constantemente” (p. 6). Já em Estação das Chuvas (1996) “prevalece o cunho documental, inspirada na história de Angola”. Em seu TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 143 livro mais famoso, o romance epistolar Nação Crioula (1997), “afirma-se como o desfecho de um longo percurso de construção de uma identidade marcada pela miscigenação e pela consciência crítica das relações entre os continentes americano, europeu e africano” (SILVA, 2011, p. 7). Veja, a seguir, um enxerto da obra O vendedor de passados, seguida de uma breve análise empreendida por Martins e Martins (2015). FIGURA 6 – O VENDEDOR DE PASSADOS FONTE: <https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/5126uMjIrQL.jpg>. Acesso em: 13 jan. 2020. “Podem argumentar que todos estamos em constante mutação. Sim, também eu não sou o mesmo de ontem. A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O passado costuma ser estável, está sempre lá, belo ou terrível, ele ficará para sempre”. [...] «Não!», conseguiu dizer. «Isso eu não faço. Fabrico sonhos, não sou um falsário... Além disso, permita-me a franqueza, seria difícil inventar para o senhor toda uma genealogia africana.» «Essa agora! E por quê?!...» «Bem... O cavalheiro é branco!» «E então?! Você é mais branco do que eu!...» «Branco, eu?!» O albino engasgou-se. Tirou um lenço do bolso e enxugou a testa: «Não, não! Sou negro. Sou negro puro. Sou um autóctone. Não está a ver que sou negro?...» (AGUALUSA, 2004, p. 9). [...] “Porque queriam um herói angolano, suponho, naquela época precisávamos de heróis como de pão para a boca. Se quiser ainda lhe posso arranjar outro avô. Consigo documentos provando que você descende do próprio Mutuya Kevela, de N 'Gola Quiluange, até mesmo da Rainha Ginga. Prefere?” (AGUALUSA, 2004). 144 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA Em O Vendedor de Passados (2004), Agualusa focaliza os principais debates da contemporaneidade como a diversidade cultural, o estranhamento, a tradição revisitada e, sob uma nova perspectiva, o estilhaçamento da identidade, do sujeito e da História africana. O tema visceral do livro é o repensar sobre o valor da identidade. Tem-se como trama discursiva um enredo inusitado. Félix Ventura é um homem que nasceu diferenciado, é albino: “A pele perfeita, muito negra, húmida e luminosa, contrasta com a do albino, seca e áspera, cor-de-rosa” (AGUALUSA, 2004, p. 4). Escolheu um estranho ofício: vende passados falsos, fictícios: “Ele vende-lhes um passado novo em folha. Traça-lhes a árvore genealógica. Dá- lhes as fotografias dos avós e bisavós, cavalheiros de fina estampa, senhoras do tempo antigo” (AGUALUSA, 2004, p. 8). Seus clientes são diferenciados: prósperos empresários, políticos, generais, enfim, a burguesia angolana que irrompe e quer assegurar o futuro de maneira gloriosa: “Eram empresários, ministros, fazendeiros, camanguistas, generais, gente, enfim, com o futuro assegurado. Falta a essas pessoas um bom passado, ancestrais ilustres, pergaminhos” (AGUALUSA, 2004, p. 8). [...] Tendo como debate central a identidade, Agualusa, em O Vendedor de Passados (2004), ressalta no romance um espaço que re-elabora um discurso tentando dar conta dessa multiplicidade que existe em África. Na atualidade, o processo de construção nacionalista angolano sofre modificações nos sistemas internos e externos, sempre evidenciando a dicotomia tradição e modernidade. Tem-se instaurada a instabilidade do sujeito e do seu discurso na sua cultura, nas sociedades africanas. Acometido por um sentimento de perturbação de suas bases sólidas, o povo africano procura o fechamento desse processo e encontra a fragmentação; assim como Félix Ventura que se despedaça, frente ao novo, em outros “eus” – Eulálio, José Buchmann, o diário. Esse processo conflituoso de recusa e aceitação cultural, essa busca por uma composição que dê conta da multiplicidade africana, essa necessidade em transpor as marcas do colonialismo, e de todo um percurso de tentativa de anulação identitária, faz do continente africano um caso de particularidade significativamente sensível. Talvez a transculturação seja o momento de fôlego. Mas a inquietude, essa energia explosiva da cultura africana não cabe em si, e nem se limita a conceituações enfaixadas. É preciso, contudo, reconhecer esse mosaico, ouvir o balbucio, acompanhar a riqueza que vem de fora, avançar nos paradigmas dos cânones literários (MARTINS; MARTINS, 2015). TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 145 2.4 PAULINA CHIZIANE FIGURA 7 – PAULINA CHIZIANE (MOÇAMBIQUE) FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulina_Chiziane>. Acesso em: 6 out. 2019. Nasceu a 4 de Junho de 1955 na província moçambicana de Gaza, no seio de uma família protestante, onde se falava chope e ronga. Aprendeu a falar português na escola de uma missão católica, pouco antes de se mudar para Maputo. Iniciou os estudos superiores na Universidade Eduardo Mondlane, mas nunca concluiu a licenciaturade Linguística. A viver na capital moçambicana, Paulina acabou por se juntar a FRELIMO durante a luta pela independência. Desiludida com a política, em 1984 abraça a escrita, começando pelos contos. A grande influência veio do avô, um contador de histórias nato. Começa por publicar alguns dos seus contos na imprensa moçambicana, como a Página Literária e a revista Tempo, histórias que falam da vida em tempos difíceis, mas da esperança, do amor, da mulher, e de África. Em 1990, Paulina Chiziane torna-se a primeira mulher moçambicana a publicar um romance – ‘Balada de Amor ao Vento’. No entanto, Paulina não gosta do termo romancista e diz sobre si: Sou contadora de estórias e não romancista. Escrevo livros com muitas estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte. FONTE: <http://ensina.rtp.pt/artigo/paulina-chiziane/>. Acesso em: 6 out. 2019 Conforme visto na unidade anterior, a crítica literária feminista enfatiza questões que buscam ressignificar o papel da mulher na literatura, seja como produtora, consumidora ou personagem das obras literárias. Se a representatividade feminina na literatura contemporânea pode ser considerada uma subversão ao cânone literário, o que não dizer da presença de escritoras africanas, cuja cultura sempre foi marcada pela invisibilidade ou inferioridade frente à perspectiva eurocêntrica? Conforme Silva (2018, p. 1-2), 146 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA A literatura escrita por mulheres africanas é, acima de tudo, uma das grandes vitórias sobre os estigmas sociais e antropológicos consolidados no decorrer dos séculos, os quais acabaram por instituir “verdades absolutas” baseadas em preconceitos raciais e de gênero. São textos que permitem a subversão do cânone literário europeu através das variadas perspectivas sobre a realidade da mulher africana que ali se apresenta. [...] A presença da mulher, principalmente a mulher negra africana, enquanto escritora, torna-se transgressora das verdades estabelecidas pelo cânone literário e por segmentos sociais específicos, os quais desconhecem, ou ignoram, a perspectiva feminina da literatura. De acordo com Silva (2018, p. 2), a obra de Paulina Chiziane, que aborda questões femininas e da cultura moçambicana, acaba configurando-se como “o espaço da representação universal feminina, já que ali encontram-se transfiguradas as inúmeras e diversas faces e vozes há muito silenciadas”. Ainda segundo essa autora, “a prosa de Paulina Chiziane, por meio de uma narrativa livre de tabus e de um lirismo advindo de uma estrutura discursiva específica que assume o tom confessional [...] desloca o leitor do centro masculino ocidental e lhe apresenta diversas margens interpretativas até então não observadas” (SILVA, 2018, p. 14). Uma das obras de destaque de Chiziane é Niketche: uma história de poligamia (2002), que conta a história de Rami, mulher que, após vinte anos casada, descobre que seu marido é polígamo, tendo outras quatro mulheres e vários filhos espalhados pelo país. Conforme Araújo (2018, p. 314), [...] através de uma extensa pesquisa e sensibilidade literária, a autora constrói um enredo emocionante que narra as dores, incertezas e conflitos de Rami, uma mulher de meia idade criada em meio à cultura cristã, que se vê na necessidade de aceitar os outros quatro relacionamentos do seu marido para não o perder, e que com isto passa por um momento de crise pessoal e de reflexão acerca da situação das mulheres que concerne às tradições e heranças cristãs. Dessa forma, a protagonista se encontra enredada por um embate de culturas distintas, bem como entre seus anseios e limites interiores. Por meio de uma escrita extremamente sensível, Chiziane convida seus leitores a dialogarem com aspectos da contemporaneidade moçambicana, expondo situações conflituosas e de opressão às quais as mulheres são submetidas. Além dessa obra, Chiziane publicou diversos outros livros, entre eles: Balada de amor ao vento (1990), Ventos do apocalipse (1993), Sétimo juramento (2000), O alegre canto da perdiz (2008), As andorinhas (2009), Por quem vibram os tambores do além (2015) e O canto dos escravizados (2017). Veja agora alguns excertos retirados da obra O sétimo juramento seguidos de uma breve análise feita por Inocência Mata (2001). TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 147 FIGURA 8 – O SÉTIMO JURAMENTO FONTE: <https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/51kLX3pK39L._SX322_ BO1,204,203,200_.jpg>. Acesso em: 13 jan. 2019. “Mulher é fruta boa. Mulher é tranquilidade e frescura. Mulher é noite negra que faz a luz ofuscante transformar-se em penumbra. Mulher é mãe, mulher é terra que Deus colocou à disposição do homem como rampa de lançamento no voo da vida. [...] Oh, Vera, usa o exemplo de Eva, a traidora. Aprende a subtileza da serpente. Que poderes tinha Eva perante Deus e Adão? Nenhuns. Usou a traição e vingou-se. Ela conseguiu provocar a fúria de Deus de tal modo que Adão, filho adorado, acabou condenado. Se nós mulheres não temos poder, que seja a traição a nossa força. [...] Lobolo é casamento. E como todos os casamentos do mundo é um contrato de desigualdade e injustiça, em que o homem jura dominar a mulher, e a mulher jura subordinar-se ao homem e obedecer até ao fim dos seus dias” (CHIZIANE, 2000). O último romance da moçambicana Paulina Chiziane, O sétimo juramento, retoma algumas preocupações que têm marcado a obra desta romancista moçambicana: a encenação quotidiana do feminino. Com este edifício sociocultural como pano de fundo, o romance focaliza o ritual de iniciação de uma personagem masculina, David, que, para ascender ao poder político, consolidado o poder econômico, recorre à feitiçaria, ao poder de um nynaga, que lhe exige, em troca, o que tem de mais precioso: a família. É aqui que as mulheres têm um papel fundamental: de simples objeto de prazer e de troca, elas se unem e se tornam sujeitos do processo, revertendo-o apesar de duas não terem logrado sobreviver. Portanto desta vez, para além da deslocação da cena para o mundo urbano do poder político e socioeconómico, o romance, embora revelando os meandros que determinam a vida da mulher mesmo numa sociedade urbana, diz também do conhecimento feminino sobre estratégias para contornar o peso da condição subalterna (MATA, 2001). 148 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA 2.5 MIA COUTO FIGURA 9 – MIA COUTO (MOÇAMBIQUE) FONTE: <http://www.pluraleditores.co.mz/our-country/authors/author/ver/?id=32845>. Acesso em: 6 out. 2019 Mia Couto, pseudônimo de António Emílio Leite Couto (Beira, 5 de julho de 1955), é um biólogo e escritor moçambicano. Mia nasceu e foi escolarizado na Beira. Adotou o nome porque tinha uma paixão por gatos e porque o seu irmão não sabia pronunciar o nome dele. Com catorze anos de idade, teve alguns poemas publicados no jornal Notícias da Beira e três anos depois, em 1971, mudou-se para a cidade capital de Lourenço Marques (agora Maputo). Iniciou os estudos universitários em medicina, mas abandonou esta área no princípio do terceiro ano, passando a exercer a profissão de jornalista depois do 25 de Abril de 1974. Foi nomeado diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM) e formou ligações de correspondentes entre as províncias moçambicanas durante o tempo da guerra de libertação. A seguir trabalhou como diretor da revista Tempo até 1981 e continuou a carreira no jornal Notícias até 1985. Em 1983, publicou o seu primeiro livro de poesia, Raiz de Orvalho, que inclui poemas contra a propaganda marxista militante. Dois anos depois, demitiu-se da posição de diretor para continuar os estudos universitários na área de biologia. Além de considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique, é o escritor moçambicano mais traduzido. Em muitas das suas obras, Mia Couto tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana,utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana. FONTE: <https://www.fnac.pt/Mia-Couto/ia240684/biografia>. Acesso em: 6 out. 2019. Mia Couto é considerado, na atualidade, o autor de maior visibilidade na literatura africana de língua portuguesa. Devido à inventividade presente na sua escrita por meio da criação de novas palavras, já foi comparado ao escritor brasileiro Guimarães Rosa. De acordo com Silva (2011, p. 11), em sua obra ficcional que tematiza a vida do povo moçambicano e sua cultura, “não faltam o humor e o trágico, a incorporação da linguagem cotidiana, a inclusão do fantástico e do imaginário, tudo veiculado por meio de uma escrita em que se destaca [...] um intenso trabalho de criatividade linguística”. TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 149 Muitas obras de Mia Couto sinalizam a tensão e o confronto provocados pelos conflitos resultantes do colonialismo. É o caso da obra Venenos de Deus, remédios do Diabo: as incuráveis de Vila Cacimba (2008), na qual o autor ilustra “o embate entre os sujeitos envolvidos no processo de colonização, bem como de que maneira o legado do passado colonial se faz presente nesse contexto” (TAVARES, 2011, p. 4). Ao narrar a história de Bartolomeu Sozinho e outras personagens que se entrelaçam à vida do mecânico, Mia Couto problematiza os discursos sobre a construção da identidade africana. Na perspectiva de Tavares (2011, p. 4), [...] embora os discursos fabricados sobre a reconstrução das nações, que foram vítimas das forças coloniais, divulguem a imagem de que os povos envolvidos nesse processo possuíram uma relação harmônica, a obra aqui analisada apresenta tensões que apontam para o fato de que os conflitos existentes entre colonizador e colonizado não chegaram ao fim com a descolonização. Dessa forma, a questão da constituição da identidade do sujeito pós- colonial é tematizada de forma crítica nesta obra em que a diversidade étnica se faz presente na construção de cada uma das personagens. Além disso, “o aspecto da representação de superioridade entre etnias é colocado em primeiro plano em diversos contextos da narrativa” (TAVARES, 2011, p. 4). A temática do pós-colonialismo também se faz presente na obra Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2002), na qual Mia Couto apresenta, ora de forma conflituosa, ora pacífica, os “retratos de um país colonizado, com elementos tanto das tradições africanas, quanto da cultura do colonizador europeu; além das marcas da guerra pela independência” (ENEDINO; ZAMPIERI, 2016, p. 176). A temática é recorrente na obra A varanda do frangipani (1996), na qual o autor moçambicano desenvolve uma narrativa na qual “a guerra civil deixa um cenário de desolação e vulnerabilidade para as pessoas que residem no país. Sobretudo, a dizimação da população e a falta de esperança e credibilidade sobre o futuro também podem ser consideradas como consequências do colonialismo” (MASCENA; LÚCIO, 2011, p. 3). Além das obras citadas, Mia Couto publicou diversos contos, crônicas e romances, dentre eles: Terra Sonâmbula (1992), Mar Me Quer, (1998), Vinte e Zinco (1999), Último Voo do Flamingo (2000), O Gato e o Escuro (2001), A Chuva Pasmada, (2004), O Outro Pé da Sereia (2006), O beijo da palavrinha (2006), Jesusalém (Antes de nascer o mundo) (2009), Pensageiro frequente (2010), A Confissão da Leoa (2012), Mulheres de cinzas (2015), A Espada e a Azagaia (2016), O Bebedor de Horizontes (2017). Veja agora alguns trechos da obra Terra Sonâmbula e respectiva análise feita por Rabello (2011). 150 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA FIGURA 10 – TERRA SONÂMBULA FONTE: <https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/517etOJMUVL.jpg>. Acesso em: 13 jan. 2020. “– Que pátria, Kindzu? Eu não tenho lugar nenhum. Ter pátria é assim como você está a fazer agora, saber que vale a pena chorar. [...] – Não gosto de pretos, Kindzu. – Como? Então gosta de quem? Dos brancos? – Também não. – Já sei: gosta de indianos, gosta da sua raça. – Não. Eu gosto de homens que não tem raça. É por isso que gosto de si, Kindzu. [...] O povo acorreu para lhe tirar carnes, fatias e fatias de quilo. Ainda não morrera e já seus ossos brilhavam no sol. Agora, eu via o meu país como uma dessas baleias que vêm agonizar na praia. A morte nem sucedera e já as facas lhe roubavam pedaços, cada um tentado o mais para si.... Estou condenado a uma terra perpétua, como a baleia que esfalece na praia. Se um dia me arriscar num outro lugar, hei de levar comigo a estrada que não me deixa sair de mim. [...] Então ele com um pequeno pau rabisca na poeira do chão: “AZUL”. Fica a olhar o desenho, com a cabeça inclinada sobre o ombro. Afinal, ele também sabia escrever? Averiguou as mãos quase com medo. Que pessoa estava em si e lhe ia chegando com o tempo? Esse outro gostaria dele? Chamar-se ia Muidinga? Ou teria outro nome, desses assimilados, de usar em documento?” (COUTO, 2007). “[...] A obra de Mia Couto revela-se de extrema importância para a análise da construção da identidade, pois questiona a suposta condição de dependência política e cultural em que se encontram os povos africanos de língua portuguesa. É essencial levar esses dados em consideração durante a leitura do romance de Mia Couto, visto que a questão da língua, da construção de uma ideia de nação e da especificidade da literatura em um espaço colonizado contribuem para a discussão. Não é gratuito o fato de que a identidade, bem como toda a ideia de país, se mostre no livro como uma busca pessoal e não como algo meramente herdado de outrem. [...] TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 151 É notável, de fato, que Mia Couto faça com a língua portuguesa o que ele próprio chamou de “brincriações”, criando neologismos e expressões peculiares como uma maneira de se apropriar de uma língua que veio do colonizador, mas modificando-a segundo sua sensibilidade artística [...]. Os neologismos aparecem na formação de adjetivos ou verbos, acrescentando novos valores semânticos às palavras primitivas. Mesmo que algumas construções causem certa estranheza ao leitor, é evidente como os neologismos e os termos autóctones enriquecem o texto, ampliando e diversificando o léxico da língua portuguesa. Mia Couto explora consistentemente os significados telúricos ou primitivos da ligação do homem com a terra, simbolizada de diversas maneiras ao longo do livro. O romance se inicia com a revelação de que naquele lugar onde se encontram as personagens, a estrada havia sido destruída pela guerra. Trata-se de uma paisagem devastada, em que hienas se arrastam e a tristeza se adensa, retirando a leveza das cores. Nesse cenário, movimentam-se as personagens em uma dimensão mítica, errando pela terra destroçada, com um desespero pungente e uma recusa da morte. Assim se apresentam Muidinga e Thuair, vagando em busca de um lugar até avistarem um machibombo queimado. Nesse momento, também descobrem os cadernos de Kindzu, o único dos mortos que não tinha o corpo queimado. A figura de um homem se faz notável enquanto Muidinga e Thuair retiram as vítimas carbonizadas de dentro do antigo automóvel [...]. A presença da escrita e da oralidade, do novo e do antigo, é sensível em Terra Sonâmbula, envolvendo toda a complexa construção textual e a busca das personagens por sua identidade. É através da alternância de perspectivas entre os cadernos de Kindzu e as vidas de Muidinga e Thuair que decorre a trama. O texto é narrado em primeira e em terceira pessoa. Há uma voz em terceira pessoa que narra as aventuras das personagens que se sucedem ao longo dos capítulos e uma voz em primeira pessoa que narra os escritos de Kindzu” (RABELLO, 2011). Antes de dar continuidade à leitura, veja essa lista com 10 obras bastante interessantes e seus respectivos resumos para que você possa mergulhar na literaturaafricana. Dez obras fundamentais para conhecer ou se aprofundar na literatura africana Autor: Mia Couto (Moçambique) Terra Sonâmbula Narra a trajetória iniciática do menino Muidinga, auxiliado pelo mais velho Tuahir, em meio à devastação da guerra civil pós-independência em Moçambique. Duas narrativas se entrecruzam nesse romance: a peregrinação de Muidinga e Tuahir em direção ao mar; e a composição dos cadernos de Kindzu, diário encontrado nos escombros da guerra pelo DICAS 152 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA menino Muidinga, cuja leitura devolve humanidade e esperança às duas personagens em meio a tantas privações. O traço cultural moçambicano e o elemento social e histórico é transposto pela linguagem poética de Mia Couto. Estórias Abensonhadas Os contos podem ser uma boa iniciação à literatura africana. Nesse livro, eles foram escritos depois da guerra e, conforme o autor, “surgiram entre as margens da mágoa e da esperança”. Em cada uma das 26 histórias é possível notar o traço inventivo e original da linguagem de Couto. Aspectos da tradição oral africana recebem relevo na obra desse premiado autor. Autor: Pepetela (Angola) Mayombe Escrito quando Pepetela participava como guerrilheiro na guerra de libertação de Angola, o autor constrói uma estrutura narrativa complexa e trabalhada pela alternância de vozes a relatar os fatos. O leitor tem acesso, assim, a diferentes pontos de vista a respeito da organização do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) a partir do contato com os combatentes em plena guerrilha, no interior da floresta que dá nome ao romance. A Sul. O sombreiro Trabalho mais recente de Pepetela, é ambientado em Angola nos séculos XVI e XVII, portanto, no início da colo nização portuguesa naquele país. O núcleo narrativo desdobra- se novamente. Desta feita, Pepetela dá voz a três narradores que se revezam no intuito de contar a história dos primórdios do que viria a ser a Angola atual. Autor: Ondjaki (Angola) A Bicicleta Que Tinha Bigodes É um romance infantojuvenil do jovem autor. Ambientado em Luanda, o livro tem como enredo a busca de três crianças por uma boa história que seja uma forte concorrente em um concurso de redação cujo prêmio, muito desejado, é uma bicicleta. As personagens adultas, como o tio Rui, que tem bigodes mágicos, acompanham a busca das crianças e compartilham a vida cotidiana da rua no bairro simples da cidade de Luanda. Bom Dia Camaradas A temática da infância é novamente trabalhada em Bom Dia Camaradas, publicado em 2003. Desta feita o desafio do autor é narrar o momento histórico da independência de Angola pelo olhar da criança. Nascido em 1977, dois anos após a independência, Ondjaki maneja elementos da história e suas memórias infantis para construir o romance. Autor: Naguib Mahfouz (Egito) O Ladrão e os Cães Escritor egípcio, Nobel de Literatura em 1988, Mahfouz publicou O Ladrão e os Cães em 1961. O romance mistura suspense, fábula moral e alegoria política. A história de Said, presidiário que acaba de ser libertado, é ambientada no Cairo e narrada, alternativamente, em terceira e em primeira pessoa para dar vazão aos monólogos interiores de Said. Noites das Mil e Uma Noites Tradição e modernidade atualizam a vida de Xerazade, grande contadora de histórias do mundo árabe. O romance começa onde termina o clássico As Mil e Uma Noites. Ao estabelecer esse diálogo, Mahfouz rompe as expectativas ocidentais em torno da descrição de uma cultura exótica e insere elementos sobre suas expectativas em relação à literatura, cultura e história. TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 153 Autor: Nadine Gordimer (África do Sul) A Arma da Casa A obra publicada em 1998 traz a história de assassinato cometido por um filho da elite branca sul-africana e os desdobramentos morais e legais desse ato. Aspectos do preconceito racial e social da sociedade pátria de Nelson Mandela são trabalhados pela autora para questionar a presença da violência e da culpa na África do Sul pós-apartheid. Beethoven era 1/16 negro Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 1991, a autora utiliza como base para suas histórias o contexto histórico de uma sociedade dividida pelo apartheid e as consequências morais e psicológicas dessa divisão. *Ludmylla Mendes Lima é professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). FONTE: <https://www.cartacapital.com.br/opiniao/paraconheceraliteraturaafricana/>. Acesso em: 8 out. 2019. 3 LITERATURA INDÍGENA Antes de falarmos da literatura indígena propriamente dita, é importante tecer algumas considerações acerca da literatura indianista e indigenista. A literatura indianista foi aquela produzida no Brasil no século XIX, no período do romantismo. Ela exaltava a natureza nacional e a construção da imagem idealizada do índio como herói brasileiro. Tais obras, escritas por autores não índios, tinham como perspectiva a visão do branco/colonizador, ou seja, elas “trazem a cultura, os costumes, a língua e a religiosidade do índio retratados pelo outro, pelo não índio. É o olhar do outro sobre uma cultura que não é a sua” (AMARAL, 2017, p. 24074). Tal literatura, comumente disseminada nos currículos escolares, reporta a obras como O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874), de José de Alencar; I-Juca-Pirama (1851), Os Timbiras (1857) e Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias, dentre outras. De acordo com Carvalho (2018, p. 175), [...] o indianismo de Gonçalves Dias ou José de Alencar, ou mesmo as complexas possibilidades de diálogo antropófago de Oswald de Andrade, tudo isso construiu uma perspectiva de apreensão do ser indígena pela ótica colonizadora, ou neocolonizadora, e a construção do nosso arsenal literário esteve atrelado indubitavelmente em prol de afirmar um sujeito que deveria se enquadrar numa problemática em que ele funcionaria como um apêndice privilegiado [...]. 154 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA As obras indigenistas, por sua vez, são caracterizadas por Thiél (2013, p. 1178) como sendo aquelas: [...] produzidas também por não índios e tratam de temas ou reproduzem narrativas indígenas. A perspectiva ocidental característica destas narrativas pode ser evidenciada pela vinculação dos textos nativos a gêneros literários ocidentais, lendas, por exemplo; entretanto, os gêneros textuais e literários são também gêneros culturais, consequentemente construídos a partir de visões de mundo e conceitos diferentes. Para além dos estudos literários, vale ressaltar que o termo indigenista também está relacionado, na contemporaneidade, às políticas de proteção ao índio (CARVALHO, 2018). Nota-se, assim, que tanto as obras indianistas como as indigenistas abordam a temática indígena – seus costumes, língua, religiosidade e tradição – sob a ótica do outro, ou seja, a ótica do não índio. Entretanto, conforme destacado por Amaral (2017, p. 24079), é importante ter em mente que tais literaturas não devem ser vistas “como algo negativo ou errado, haja vista que foi o ponto de partida para a legitimação da Literatura Indígena”. Mas elas devem, sim, ser estudadas como “algo escrito sob a perspectiva do colonizador onde ele é visto como o bom selvagem e passível de se aculturar ou, como símbolo nacional e herói romântico ou, ainda como figura satirizada e ridicularizada” (AMARAL, 2017, p. 24079). Tais representações, portanto, desconsideram a identidade indígena no que tange ao contexto político, social, religioso e cultural. Exemplos disso são os rituais antropofágicos que, presentes nas culturas indígenas, são citados em diversas obras literárias sob o olhar da incivilidade. Também em I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, nota-se que “[...] apesar de narrar a saga de um guerreiro verdadeiro, por ser forte, fiel e bravo, o protagonista entrega-se à sentimentalidade romântica, tal qual os heróis dos romances e da poesia romântica europeia – e fraqueja dianteda morte, pedindo aos inimigos para não morrer” (GAUDÊNCIO; BERNARDES; MELO, 2014, p. 5-6). Além disso, o poema reproduz estereótipos ao fazer referência ao indígena como ignavo, cujo significado é preguiçoso. Ainda sobre a representação indígena na literatura indianista, Gaudêncio, Bernardes e Melo (2014, p. 6) fazem a seguinte observação acerca das obras de José de Alencar e Lima Barreto: O romancista brasileiro José de Alencar, mesmo que tenha levantado a bandeira indianista em uma de suas vertentes românticas, optou pelo etnocentrismo. Em Iracema, a virgem dos lábios de mel (1865), o autor trabalha a submissão da índia em busca de um amor por um representante do colonizador e acaba sucumbindo ao abandono, ficando só afastada dos seus e sem a presença daquele que julgava amá-la. Em outra obra sua, O Guarani (1857), assinala para submissão masculina, mas o enredo também tem um desfecho eurocêntrico. TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 155 Em ambas as obras se percebe a necessidade de se adaptar as expectativas de um público leitor burguês. O pré-modernista, Lima Barreto, conhecido pela sua crítica ferrenha à sociedade brasileira também abordou a temática indianista. Em seu clássico “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, que passou de folhetim (1911) a livro (1915), busca resgatar a nacionalidade por meio da referência ao índio, tanto no âmbito na linguagem – ao propor que o tupi seria a forma mais original de se expressar a cultura do país –, quanto no que se refere à eleição deste como representação de uma cultura local, amplamente impregnada de valores europeus. Tais valores são tão fortes que ao longo do Realismo/Naturalismo não se percebe mais a presença de protagonistas índios, entra em cena o mestiço, considerado como símbolo da predileção pela “branquetude”. A literatura indígena, por sua vez, é aquela produzida pelos próprios indígenas, ou seja, uma de suas especificidades é ser uma auto-história, devendo conferir significado à história de um povo que sempre foi retratado pelo viés do outro. Além disso, [...] a produção indígena é realizada pelos próprios índios segundo as modalidades discursivas que lhes são peculiares. As obras indígenas, voltadas para o público infanto-juvenil e para o público maduro, apresentam uma interação de multimodalidades: a leitura da palavra impressa interage com a leitura das ilustrações, com a percepção de desenhos geométricos, de elementos rítmicos e performáticos. Os grafismos indígenas constituem narrativas e devem ser valorizados por sua especificidade, podendo inclusive indicar a autoria do texto indígena, se coletiva/ancestral ou individual. Ademais, a leitura da literatura indígena deve levar em conta o entre-lugar cultural dessa produção que está em uma zona de contato e conflito localizada entre a oralidade e a escrita, entre línguas nativas e europeias, entre tradições literárias europeias e indígenas, entre sujeição e resistência (THIÉL, 2013, p. 1178). Ainda acerca da especificidade da literatura indígena, são oportunas as considerações de Graúna (2013, p. 190) ao afirmar que: [...] a literatura escrita pelos povos indígenas no Brasil pede que se leiam as várias faces de sua transversalidade, a começar pela estreita relação que mantém com a literatura de tradição oral, com a história de outras nações excluídas (as nações africanas, por exemplo), com a mescla cultural e outros aspectos fronteiriços que se manifestam na literatura estrangeira e, acentuadamente, no cenário da literatura nacional. Reafirmando o que está preconizado na Lei nº 11.645/2008, que insere a temática da cultura indígena ao lado da afro-brasileira nos currículos escolares, o ensino da literatura indígena nas escolas permite que crianças e jovens estejam em contato com textos que promovem a diversidade cultural do país. Tal prática contribui para a desconstrução de visões estereotipadas e depreciativas acerca do outro e sua cultura, permitindo aos alunos o enriquecimento de sua prática de letramento. 156 UNIDADE 2 | RAÇA, ETNIA, CULTURA E LITERATURA A literatura indígena possui alguma s peculiaridades em relação à linguagem utilizada, que é “construída no imbricamento da tradição oral, escrita e performática”, ou seja, “estratégias narrativas da tradição oral aparecem nos textos juntamente com estratégias de modalidade gráfica e visual” (THIÉL, 2013, p. 1180). No caso do recurso da oralidade, a autora salienta que, “ao serem traduzidas para o texto escrito, as estratégias discursivas da oralidade [...] podem promover a sensibilidade estético-linguística de seus leitores, neste caso, de crianças e jovens” (THIÉL, 2013, p. 1181). Além do recurso da oralidade, é recorrente na literatura indígena a narrativa mítica que, conforme pontuado por Thiél (2013, p. 1181), possui sentido diferente daquele difundido na cultura europeia: Dentre os gêneros narrativos indígenas, o relato mítico assume, em tradições tribais, um papel essencial; o mito, na tradição europeia normalmente vinculado a relatos fantasiosos e desvinculado de um discurso histórico ou verdadeiro, assume outras conotações em contextos tribais. Nestes, sugere ligação a narrativas verdadeiras, servindo uma função religiosa. O relato mítico que se refere à origem do mundo, dos deuses e do homem, oferece mais que entretenimento, como poderia ser concebido pela perspectiva ocidental; entendido como verdadeiro saber, o mito fornece as bases que sustentam as relações sociais das comunidades tribais. Portanto, o mito não é construção ficcional, mas construção social. Outra peculiaridade da literatura indígena é o contato com modalidades discursivas diversas, tais como o recurso visual, o som, a música, o gesto, a fala. Acerca dos recursos visuais, Thiél (2013, p. 1182) salienta que: [...] as ilustrações estão presentes em grande parte dos textos indígenas, principalmente naqueles dedicados ao público jovem. Há um enredo nos desenhos que lança o leitor para uma rede de significados forjados pela interação de palavra e imagem. Muitas vezes a palavra escrita, tão privilegiada pela literatura canônica, passa a ser um complemento do elemento visual. Assim, a partir da representação visual e gráfica de seu potencial imaginativo, o narrador indígena amplia a latitude e a longitude de seu olhar sobre o mundo e recorre à imaginação como forma de se relacionar com o real, projetando-o ou reformulando-o. Por fim, é importante ressaltar que a literatura indígena no ambiente escolar é uma forma de valorização da diferença, lembrando que, “o contato com a literatura indígena nos desafia e proporciona o encontro com este outro cuja relação com a terra, o divino, a ordem social, a história, as artes, problematiza nossa própria relação com estes elementos e com a nossa própria identidade” (THIÉL, 2013, p. 1185). A seguir, serão apresentados alguns autores e obras pertencentes à literatura indígena classificadas como infanto-juvenis. TÓPICO 3 | LITERATURA AFRICANA, INDÍGENA E DE IMIGRANTES 157 3.1 YAGUARÊ YAMÃ Yaguarê Yamã nasceu no Amazonas. Formou- se em Geografia pela Unisa, em São Paulo, onde lecionou no ensino público por dois anos e iniciou sua carreira de escritor. Em 2004, retornou ao seu estado natal e organizou o projeto de volta às origens, cujo objetivo era a conscientização, revitalização cultural e a luta pela demarcação das terras do povo indígena Maraguá. Atualmente, mora no município de Nova Olinda do Norte (AM), onde continua dando aulas de Geografia, escrevendo livros e atuando no movimento indígena, como líder Maraguá. Seu trabalho como ilustrador e artista plástico pode ser visto em seus livros e em exposições. Participou da obra Brasil 500 anos, da escultora Maria Bonomi, no Memorial da América Latina. É autor de dez livros, entre eles O caçador de histórias, que recebeu o prêmio Altamente Recomendável, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ); e Sehaypóri,