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A pelagra é causada por deficiência de NIACINA (vitamina B3 ou aniacina ou nicotinamida), uma vitamina que ajuda o sistema nervoso, o sistema digestivo e a pele. Esta pode ser obtida na dieta (levedo de cerveja, fígado, amendoim, carne vermelha, carne de porco e salmão), ou sintetizada endogenamente a partir do aminoácido triptofano. Dois derivados da niacina (NAD e NADP – coenzimas que transportam elétrons) participam do metabolismo de carboidratos e ácidos graxos, por serem constituintes importantes da coenzima 1-NAD e da coenzima 2-NADP, as quais aceitam e doam hidrogênio nas reações de oxidação e redução, que são vitais. Quando medimos a sua quantidade, usamos a medida de miligramas de equivalentes de niacina (mgNE), sendo que 1 NE = 1mg de niacina ou 60mg de triptofano (que é um aminoácido que pode se converter em nicotinamida – uma das formas da niacina). Assim, o ideal de ingestão diária em maiores de 19 anos de idade é 16mgNE em homens e 14mgNE em mulheres. Além disso, o máximo que pode ser ingerido é 35mg NE. Vale ressaltar que a toxicidade de niacina é algo raro, mas ela pode ocorrer. A causa mais comum de pelagra é a INGESTÃO INADEQUADA, principalmente em alcoolistas ou em populações com a alimentação à base de milho. Um fato curioso é que o milho, na realidade, contém quantidades adequadas da vitamina, porém esta se encontra de forma ligada, o que dificulta sua absorção. Outro ponto importante do milho é que quando ele é tratado com álcali (ténica de hidrólise alcalina), como nos casos das tortillas, a niacina do milho consegue ser absorvida por nós humanos. A doença também pode ser causada por MÁ ABSORÇÃO (diarreia, alcoolismo, cirrose, síndromes carcinoides - triptofano é convertido a 5-hidroxitriptofano e serotonina -, doença de Hartnup*, doença de Crohn ou cirurgias, inclusive a bariátrica) e uso de MEDICAÇÕES como: isoniazida (bloqueia a atividade da piridoxina, cofator na biossíntese de niacina), 5-fluorouracila, azatioprina, sulfonamidas, pirazinamida, etionamida, cloranfenicol, anticonvulsivantes e antidepressivos. Vale ressaltar que situações como atividade física e maior ingesta de calorias podem causas um aumento da demanda de niacina. * A DOENÇA DE HARTNUP, que é extremamente rara e surge nos primeiros anos de vida, é transmitida de forma autossômica recessiva. Decorre da dificuldade de absorção intestinal e renal do triptofano, o que ocasiona excreção exagerada do mesmo. Na clínica ocorrem dermatite pelagroide, ataxia cerebelar intermitente, manifestações psiquiátricas e aminoacidúria. O quadro clínico da pelagra tem como característica ser crônica, com períodos de exacerbação e remissão. As alterações cutâneas ocorrem em locais de pressão, fricção e exposição solar. A ERUPÇÃO aparece, frequentemente, na face, no pescoço, no dorso das mãos, nos braços e nos pés. É característica a simetria, bem como os limites bem definidos das lesões. Localização interessante é ao redor do pescoço; o processo restringe-se à área descoberta pela conformação da camisa, reproduzindo um aspecto de colar (COLAR DE CASAL). Inicialmente, a doença caracteriza-se por eritema e leve edema após exposição solar, com prurido e sensação de queimação. Em casos mais graves, pode haver formação de bolhas. Em estágios mais avançados, ocorrem hiperpigmentação da pele afetada, ressecamento e aspecto apergaminhado, com formação de escamas grosseiras. As lesões se manifestam nas ÁREAS FOTOEXPOSTAS porque a diminuição da oferta de NAD e NADP prejudica as reações de oxidação/redução necessárias para o reparo do dano induzido em todas as células pela radiação ultravioleta. Outra possível explicação seria a redução do ácido urocânico e/ou o acúmulo de ácido quinurênico. Podem surgir também alterações mucosas, afetando boca (Figura 65.6) e vagina, além de queilite angular. As manifestações sistêmicas incluem fraqueza, anorexia, dor abdominal, diarreia e fotossensibilidade. Na parte gastrointestinal, o paciente, além da diarreia, pode ter vômitos. A diarreia pode ter sangue devido hiperemia e ulceração da mucosa. Dentre os sintomas neurológicos destacam-se apatia, depressão, parestesias, cefaleia, perda de memória e síncopes. Em casos mais graves, alucinações, psicose, convulsões, demência e coma podem ocorrer. A doença resultará em morte se o tratamento não for instituído. Nas alterações patológicas, podem ser percebidas alterações nas células grandes do córtex motor (células de Betz) e, em menor grau, nas células piramidais menores do córtex, nas células grandes dos gânglios da base, nos núcleos motores cranianos e nas células do corno anterior da medula espinal. Os neurônios afetados encontram-se edemaciados e arredondados, com núcleos excêntricos e perda dos corpos de Nissl, que têm a aparência de uma reação axonal secundária. Os poucos estudos sobre os nervos periféricos na pelagra revelaram alterações como as de etilistas crônicos e de outros pacientes com deficiência nutricional. As lesões da medula espinal na pelagra assumem a forma de degeneração simétrica das colunas dorsais. É provável que a degeneração da coluna posterior seja secundária à degeneração das células dos gânglios da raiz dorsal ou raízes posteriores. Os mecanismos exatos subjacentes à degeneração do trato cortiço espinal não foram elucidados. A pelagra é tradicionalmente conhecida como a doença dos 3 D: dermatite, diarreia e demência, apesar de, em muitos casos, não haver a tríade clássica; atualmente, em raríssimas ocasiões, pode ser acrescido um quarto D: death (morte). A antiga expressão pelagra sine pellagra era utilizada para descrever casos sem a lesão cutânea típica da doença, porém descobriu-se que esses casos eram causados por deficiência de riboflavina, e não de niacina. O DIAGNÓSTICO da pelagra é clínico! Por isso é importante fazer uma boa anamnese, perguntando sobre a alimentação do paciente, e também realizar um bom exame físico. Exames laboratoriais normalmente são usados, se dúvida diagnóstica. Nesses casos podemos medir o N-metil-nicotinamida (NMN) e o N-metil-piridona-5-carboxamida que estarão diminuídos na pelagra (no caso do NMN valores <0,8mg/dia ou <5,8mcmol/dia sugerem deficiência de niacina). Além disso, é importante ressaltar que não há nenhuma medida boa para mensurar os níveis de vitamina B3. Para se TRATAR a pelagra, é necessário administrar nicotinamida (niacinamida) ou ácido nicotínico numa dose de 100-300mg/dia via oral três vezes/dia. Normalmente não se usa niacina, porque ela causa mais efeitos indesejados, ao contrário da nicotinamida, como rubor, prurido, queimação e formigamento. A remissão das lesões varia. Nos casos neurológicos, os sinais e sintomas desaparecem em 24 a 48h, já as lesões cutâneas demoram de 3 a 4 semanas. Vale ressaltar que normalmente pacientes com pelagra terão também deficiências de outras vitaminas do complexo B, como a riboflavina e a piridoxina, então é necessário que, além da suplementação, o paciente tenha uma dieta balanceada. Outro ponto importante é que nas doenças de Hartnup e na síndrome carcinoide devemos suplementar niacina com uma dose de 40-200mg/dia. A rápida resolução dos sintomas após o início da suplementação confirma o diagnóstico. Casos muito graves podem necessitar de tratamento hospitalar, com reposição parenteral de nicotinamida, na dose de 1 g, 3 a 4 vezes ao dia.