Prévia do material em texto
Fundamentos da Educação João Maria Pires Vilma Vitor Cruz Interdisciplinar Fundamentos da Educação Natal – RN, 2012 Interdisciplinar Fundamentos da Educação João Maria Pires Vilma Vitor Cruz 3ª Edição Catalogação da publicação na fonte. Bibliotecária Verônica Pinheiro da Silva. © Copyright 2005. Todos os direitos reservados a Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – EDUFRN. Nenhuma parte deste material pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorização expressa do Ministério da Educacão – MEC COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS Marcos Aurélio Felipe GESTÃO DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS Luciana Melo de Lacerda Rosilene Alves de Paiva PROJETO GRÁFICO Ivana Lima REVISÃO DE MATERIAIS Revisão de Estrutura e Linguagem Eugenio Tavares Borges Janio Gustavo Barbosa Jeremias Alves de Araújo Kaline Sampaio de Araújo Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Thalyta Mabel Nobre Barbosa Revisão de Língua Portuguesa Camila Maria Gomes Cristinara Ferreira dos Santos Emanuelle Pereira de Lima Diniz Janaina Tomaz Capistrano Priscila Xavier de Macedo Rhena Raize Peixoto de Lima Sandra Cristinne Xavier da Câmara Revisão das Normas da ABNT Verônica Pinheiro da Silva EDITORAÇÃO DE MATERIAIS Criação e edição de imagens Adauto Harley Anderson Gomes do Nascimento Carolina Costa de Oliveira Dickson de Oliveira Tavares Leonardo dos Santos Feitoza Roberto Luiz Batista de Lima Rommel Figueiredo Diagramação Ana Paula Resende Carolina Aires Mayer Davi Jose di Giacomo Koshiyama Elizabeth da Silva Ferreira Ivana Lima José Antonio Bezerra Junior Rafael Marques Garcia Módulo matemático Thaisa Maria Simplício Lemos Pedro Gustavo Dias Diógenes IMAGENS UTILIZADAS Banco de Imagens Sedis (Secretaria de Educação a Distância) - UFRN Fotografi as - Adauto Harley MasterClips IMSI MasterClips Collection, 1895 Francisco Blvd, East, San Rafael, CA 94901,USA. MasterFile – www.masterfi le.com MorgueFile – www.morguefi le.com Pixel Perfect Digital – www.pixelperfectdigital.com FreeImages – www.freeimages.co.uk FreeFoto.com – www.freefoto.com Free Pictures Photos – www.free-pictures-photos.com BigFoto – www.bigfoto.com FreeStockPhotos.com – www.freestockphotos.com OneOddDude.net – www.oneodddude.net Stock.XCHG - www.sxc.hu FICHA TÉCNICA Governo Federal Presidenta da República Dilma Vana Rousseff Vice-Presidente da República Michel Miguel Elias Temer Lulia Ministro da Educação Aloizio Mercadante Oliva Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN Reitora Ângela Maria Paiva Cruz Vice-Reitora Maria de Fátima Freire Melo Ximenes Secretaria de Educação a Distância (SEDIS) Secretária de Educação a Distância Maria Carmem Freire Diógenes Rêgo Secretária Adjunta de Educação a Distância Eugênia Maria Dantas Sumário Apresentação Institucional 5 Aula 1 Vôo livre pelos caminhos da Educação 7 Aula 2 Missão e compromissos da Educação 23 Aula 3 Modelos teóricos e metodológicos para a Educação 41 Aula 4 Organizando a difusão dos saberes e das práticas educativas 57 Aula 5 Fundamentos dos saberes e das práticas tradicionais na Educação 71 Aula 6 A Educação e as exigências do mercado 83 Aula 7 Cultura tecnológica e Educação 99 Aula 8 Formação pedagógica e cultura tecnológica 115 Aula 9 A dimensão pedagógica e as inovações da cultura tecnológica 131 Aula 10 A racionalidade contemporânea e a prática pedagógica 147 Aula 11 A elitização e a universalização da Educação no Brasil 165 Aula 12 O analfabetismo entre jovens e adultos 179 Aula 13 Educação, tradição e modernidade 191 Aula 14 A institucionalização da modernização na Educação 207 Aula 15 Desenvolvimento e Educação: sonho e realidade 225 Apresentação Institucional A Secretaria de Educação a Distância – SEDIS da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, desde 2005, vem atuando como fomentadora, no âmbito local, das Políticas Nacionais de Educação a Distância em parceira com a Secretaria de Educação a Distância – SEED, o Ministério da Educação – MEC e a Universidade Aberta do Brasil – UAB/CAPES. Duas linhas de atuação têm caracterizado o esforço em EaD desta instituição: a primeira está voltada para a Formação Continuada de Professores do Ensino Básico, sendo implementados cursos de licenciatura e pós-graduação lato e stricto sensu; a segunda volta-se para a Formação de Gestores Públicos, através da oferta de bacharelados e especializações em Administração Pública e Administração Pública Municipal. Para dar suporte à oferta dos cursos de EaD, a Sedis tem disponibilizado um conjunto de meios didáticos e pedagógicos, dentre os quais se destacam os materiais impressos que são elaborados por disciplinas, utilizando linguagem e projeto gráfi co para atender às necessidades de um aluno que aprende a distância. O conteúdo é elaborado por profi ssionais qualifi cados e que têm experiência relevante na área, com o apoio de uma equipe multidisciplinar. O material impresso é a referência primária para o aluno, sendo indicadas outras mídias, como videoaulas, livros, textos, fi lmes, videoconferências, materiais digitais e interativos e webconferências, que possibilitam ampliar os conteúdos e a interação entre os sujeitos do processo de aprendizagem. Assim, a UFRN através da SEDIS se integra o grupo de instituições que assumiram o desafi o de contribuir com a formação desse “capital” humano e incorporou a EaD como modalidade capaz de superar as barreiras espaciais e políticas que tornaram cada vez mais seleto o acesso à graduação e à pós-graduação no Brasil. No Rio Grande do Norte, a UFRN está presente em polos presenciais de apoio localizados nas mais diferentes regiões, ofertando cursos de graduação, aperfeiçoamento, especialização e mestrado, interiorizando e tornando o Ensino Superior uma realidade que contribui para diminuir as diferenças regionais e o conhecimento uma possibilidade concreta para o desenvolvimento local. Nesse sentido, este material que você recebe é resultado de um investimento intelectual e econômico assumido por diversas instituições que se comprometeram com a Educação e com a reversão da seletividade do espaço quanto ao acesso e ao consumo do saber E REFLETE O COMPROMISSO DA SEDIS/UFRN COM A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA como modalidade estratégica para a melhoria dos indicadores educacionais no RN e no Brasil. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA SEDIS/UFRN 5 Vôo livre pelos caminhos da Educação 1 Aula Apresentação 1 2 3 4 Aula 1 Fundamentos da Educação 9 Nesta primeira aula da disciplina Fundamentos da Educação, nada melhor do que irmos à raiz das questões. Assim, pensamos em iniciar nossos estudos sobrevoando (como o fazem os passarinhos quando miram um alvo) em torno de alguns conceitos e terminologias que nos serão úteis no decorrer da disciplina. Esse sobrevôo tem por fi nalidade tentar analisar as nuanças que circundam o termo educação e, assim, compreender a prática educativa no contexto da escola e da sala de aula. O que seria então a educação? Você pode dizer: essa é fácil de “matar”. Todos nós (adultos) temos um conceito formado sobre educação. A questão que se coloca aqui é saber se estamos certos em simplesmente defi nir educação a partir do senso comum, da experiência vivida ao longo de nossa formação acadêmica ou se deveremos ir um pouco mais além e perguntar: será que existe uma teoria educativa? Caso a resposta seja positiva, quais seriam seus fundamentos? Em quais princípios ela se apóia? Como está organizada? Você, por acaso, já se preocupou com essas questões? Pois bem, todas elas circundam a discussão sobre a educação. Daí iniciarmos esta aula da disciplina refl etindo acerca do que pensamos sobre a Educação, para depois aprofundarmos a compreensão de como ela se organiza e como é posta em prática. Nesse sentido, entendemos que para compreender o processo do qual decorre e se completa a formação docente, será necessário compreender o sistema no qual a Educação está inserida, pois, somente a partir disso o profissional poderá emergir no universo do seu trabalho, conciliando teoria e prática. Objetivos Apresentar a educação como processo universal e civilizatório. Identifi car a Educação na dinâmica das mudanças nacionais e internacionais. Perceber as transformações econômicas e sociais, e os movimentos de padronização cultural na Educação. Compreender os processos educativos dentro de uma relação dialética à medida que contribui para que a cultura também se transforme. Aula 1 Fundamentos da Educação10 O que é Educação? Essa pergunta pode parecer despretensiosa e desinteressante para você ou para qualquer outro que pense, de imediato, saber a resposta. Mas, adiantamos desde já que, ao contrário do que possa sugerir a leitura rápida e o impulso imediato para expressar a primeira resposta, tal questão exige e pressupõe uma reflexão consistente sobre os fundamentos nos quais se apóia e se desenvolve a dimensão teórica e prática da Educação. É perceptível que o referido questionamento direciona nossa atenção e a nossa refl exão para a busca de informações que esclareçam a base conceitual e as justifi cativas nas quais repousam as idéias que temos sobre Educação. Em outras palavras, fi ca claro que a questão é simples na sua forma e provocativa no seu conteúdo. Com essa provocação, estamos querendo dizer que, por encontrar-se carregada de interesses e interpretações, podemos misturar informação política com política de formação. Por isso, torna-se imprescindível identifi car, compreender e discutir os fundamentos e os interesses que a questão comporta, o que facilita captar e distinguir o que dela se projeta como ação formativa e algo que se encontra além da dimensão simplesmente informativa. Convidamos, pois, você para refl etir conosco sobre essa e outras interpretações que compõem o universo da Educação. Assim, o que você acha de iniciarmos nossa investigação pensando e refl etindo sobre a importância do conteúdo que envolve a questão proposta: o que é a Educação? Ora, vamos, não se assuste! Apenas estamos propondo que o caminho investigativo comece pelo esclarecimento sobre a necessidade de discutirmos os fundamentos do que o senso comum Aula 1 Fundamentos da Educação 11 convencionou chamar de educação. Compreendeu? Vou esclarecer mais um pouco. Veja bem, a idéia é desenvolver o tema e responder à questão central a partir dos argumentos que costumeiramente apresentamos como explicações e justifi cativas para algumas das nossas necessidades práticas. Entre estas, encontra-se a educação. Entendemos que ao identifi car tais justifi cativas, poderemos compor um quadro teórico de informações consistentes e, desse modo, chegar a uma dimensão conceitual explicativa para o ato de educar, com maior fundamentação. Viu como pode ser “mais fácil” nossa estratégia? Essas aspas são um sinal de que mesmo adotando nossa sugestão como estratégia de abordagem, ainda poderemos ter turbulências durante o vôo. Por outro lado, acreditamos que não será algo complicado e perturbador a ponto de nos tirar do objetivo principal que é o desejo de conhecer a Educação de modo mais consistente e signifi cativo. Nesse sentido, devemos ir além da idéia comum de educação, ainda que encontremos pelo caminho argumentos reforçando a tese de que a formação contemporânea se basta ou se completa apenas com os conhecimentos dos sofi sticados meios de comunicação e dos seus infi nitos recursos tecnológicos. De um modo ou outro, pensamos ser possível demonstrar que o grande e diversifi cado número de informações, disponíveis em nossa sociedade, ainda não é suficiente para dispensar a preocupação com os fundamentos, seja da Educação ou de qualquer outra área de conhecimento. Sendo assim, perguntamos: pronto para um vôo pelos campos verdes, mas, também áridos da Educação? Pois bem, vamos lá. A primeira providência é lembrar que investigar uma pergunta do tipo o que é Educação, já desgastada pelo seu uso indiscriminado e pouco refl exivo, poderá nos forçar a reconhecer que se torna desnecessário e improdutivo insistir nisso para aprofundar a compreensão dos seus fundamentos. Isso porque nosso termômetro ingênuo de sabedoria, o senso comum, indicaria que já sabemos a resposta na sua completude, o que ela é na sua mais profunda dimensão e o que representa em termos de importância social, política e cultural na escala evolutiva e racional que a raça humana atingiu até chegar a nossa sociedade. Por outro lado, assim como uma moeda tem dois lados, cara e coroa, distintos e complementares entre si, acreditamos que uma análise rigorosa da questão, como a que estamos propondo aqui, não se limitará à garantia de sabermos o que é a Educação a partir da evolução histórica do conhecimento humano, baseando nossos argumentos simplesmente na estreita visão ocidental que temos do homem no mundo, ou seja, esquecemos de ampliar as informações além dos referenciais que delimitam a fronteira do nosso modo de ver as coisas. Esse caminho de fato limitaria o conhecimento de outras experiências e, portanto, de interpretações possivelmente diferentes das nossas. Olhando por outro lado, o raciocínio que acabamos de apresentar contrasta, ou choca- se de frente, com pelo menos uma outra perspectiva que radicaliza (no sentido de ir às raízes) a questão que queremos investigar. Estou me referindo à problemática que a questão Atividade 1 Aula 1 Fundamentos da Educação12 sugere quando aprofundamos a refl exão perguntando se será possível sabermos, de fato, a essência do signifi cado da Educação. Que tal fazermos um exercício refl exivo e expressar, no papel, nosso primeiro conceito de Educação? Pois bem, se já sabemos o que é a educação, então, nada mais oportuno do que expormos esse saber, não é mesmo? Ele será resultado do que nossa experiência ingênua nos sugere acrescido do breve conteúdo exposto até o momento. Procure agora defi nir o que é educação. De outro modo, para expressar bem o que já sabemos sobre Educação, ou, para, paradoxalmente, investigar sobre o que não sabemos, teremos que nos esforçar para identifi car o que caracteriza e justifi ca a ação educativa. Portanto, qualquer que seja o caminho investigativo escolhido por nós, o primeiro passo será unir forças e interesses para compreender e apreender os fundamentos do que se esconde no ato de educar. Com isso, a partir de agora faremos de conta, melhor dizendo, assumiremos como pressuposto investigativo a idéia de que já sabemos de fato o que signifi ca educação e que apenas estamos interessados em compreender os desdobramentos do ato de educar como garantia de boa formação do indivíduo e do pleno exercício de sua cidadania. Combinado? Aula 1 Fundamentos da Educação 13 Para auxiliar a nossa empreitada de superação da visão ingênua de educação oferecida pelo senso comum, seguiremos as linhas interpretativas indicadas pelas teorias da Educação. Assim, sugerimos recorrer a Libâneo (2004), pesquisador de larga experiência no campo da Educação, que deverá dar apoio teórico e sustentabilidade ao nosso esforço para fundamentar a idéia central que estamos desenvolvendo. As defi nições a seguir assumem formas conceituais que se identifi cam com concepções teóricas específi cas e determinadas. Assumem também sentido de criação, geração ou elaboração de uma representação do mundo e do homem. Desse modo, todas elas buscam identifi car e apreender a importância da ação educativa no conjunto das diversas relações que comportam as transformações entre o homem e o mundo. Vejamos, por exemplo, algumas defi nições conceituais que possivelmente serviriam como respostas para a questão enfocada (o que é educação?), de acordo com Libâneo (2004, p.72-79). 1) Uma concepção geral, que serve de orientação para muitos educadores a. O acontecer educativo corresponde à ação e ao resultado de um processo de formação dos sujeitos ao longo das idades para se tornarem adultos, pelo que adquirem capacidades e qualidades humanas parao enfrentamento de exigências postas por determinado contexto social. b. Educação como processo de desenvolvimento: o ser humano se desenvolve e se transforma continuamente, e a educação pode atuar como confi guração da personalidade a partir de determinadas condições internas do indivíduo. 2) Uma resposta com base na concepção naturalista a. A educação e o ensino devem adaptar-se à natureza biológica e psicológica da criança; e as tendências de seu desenvolvimento já estariam prontas desde o nascimento. 3) Resposta baseada na concepção pragmática a. A educação não é a preparação para a vida, é a própria vida. [...] A educação é uma constante reconstrução ou reorganização da nossa experiência que opera uma transformação direta da qualidade da experiência. 4) Uma defi nição de educação com base na concepção espiritualista a. Cabe à educação atualizar disposições existentes potencialmente no aluno, cultivando suas faculdades mentais para atingir o ideal de perfeição, cujo modelo é Cristo. 5) A proposta de educação associada a uma concepção cultural a. A educação é uma atividade cultural dirigida à formação dos indivíduos, mediante à transmissão de bens culturais que se transformam em forças espirituais internas no educando. Atividade 2 1 2 Aula 1 Fundamentos da Educação14 6) Por fi m, uma idéia de educação baseada na concepção histórico-social a. A educação é um acontecimento sempre em transformação. Seus objetivos e conteúdos não são sempre idênticos e imutáveis, variam ao longo da história e são determinados conforme o desdobramento concreto das relações sociais, das formas econômicas da produção, das lutas sociais. Exercite sua habilidade de “pescador” para lançar a rede sobre as defi nições anteriormente citadas. Em seguida, selecione entre as idéias pescadas aquela que melhor enfatiza a principal preocupação de cada uma das concepções dadas. Faça um breve comentário ressaltando o que lhe chamou a atenção em cada uma das concepções anteriormente citadas. Aula 1 Fundamentos da Educação 15 É claro que as defi nições apresentadas compõem apenas um pequeno acervo teórico das respostas para a nossa questão investigativa. Desse modo, talvez até seja possível dizer que o universo dos conceitos e das teorias explicativas sobre a educação varia conforme o entendimento e a experiência vivida em torno dos processos de formação e desenvolvimento humano. Como exercício crítico-refl exivo, sugerimos que leia mais uma vez sua defi nição de educação, elaborada na primeira atividade, e compare-a com as defi nições vistas objetivando encontrar semelhanças entre elas. Algo semelhante a uma idéia básica, implícita nas entrelinhas de uma das concepções, que poderá servir como referencial discursivo para nós. Veja, por exemplo, se concorda que é possível admitirmos como primeiro ponto de apoio para nossa investigação o entendimento de que a educação, em seu sentido amplo, é um meio de promoção do homem. Concorda? Pois bem, este será nosso primeiro referencial. Na seqüência, buscaremos identifi car o desdobramento da promoção do homem através dos jogos de interesses em vários contextos e situações das políticas públicas da educação brasileira. Libâneo (2004) e Ghiraldelli Júnior (2001) nos oferecem indicações das concepções de educação na perspectiva de promoção humana, a qual aparece no centro de um emaranhado de interesses sociais, políticos econômicos e culturais. Os autores apresentam quatro projetos distintos (descritos a seguir) para a educação brasileira, que se identifi cam com movimentos em torno da idéia de um “novo Brasil”. a) Católicos – Defensores da Pedagogia Tradicional. Grupo de manifestantes defensores dos interesses católicos e ferrenhos opositores das teses da Pedagogia Nova. b) Liberais – Composto por intelectuais que manifestavam desejos por um país construído sob as bases urbano-industriais democráticas. Esses manifestantes defendiam uma Pedagogia Nova para a educação. c) Governistas – Numa situação aparentemente neutra, de livre trânsito entre os liberais e os católicos, o Governo Federal colocou em execução uma política de educação diferente dos outros dois projetos, distantes dos princípios democráticos que o país apresentava para o contexto. d) Aliancistas – Representantes das classes populares (proletariado e camada média) que formaram uma frente antiimperialista e antifascista (grupo dos Integralistas), sob a sigla ANL – Aliança Nacional Libertadora. Defenderam uma democratização da educação, em referência às teses reivindicatórias do Movimento Operário. Pedagogia Tradicional Pedagogia de cunho religioso-católico, com base nos princípios da educação jesuítica. Liberais Basicamente constituído de intelectuais que nos anos 20 propuseram várias reformas educacionais e, em 1932, publicaram o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Pedagogia Nova Pautava-se em métodos ativos de ensino-aprendizagem, incentivando os trabalhos em grupo e as práticas manuais, com ênfase substancial à liberdade da criança e ao interesse do educando. John Dewey Filósofo da Educação, grande entusiasta da Pedagogia Nova. Anísio Teixeira Defendia uma escola democrática, única, e o ensino profi ssionalizante. Émile Durkheim Dedicou grande parte de seus estudos sociológicos a transformar a sociologia em ciência autônoma: como disciplina rigorosa e objetiva. Aula 1 Fundamentos da Educação16 Segundo Ghiraldelli Júnior (2001), todos esses movimentos desejavam um país diferente da República Oligárquica imposta pela Revolução de 30, a qual promoveu um rearranjo na sociedade política possibilitando o assento de setores sociais marginalizados do poder durante a Primeira República. Mas, na verdade, estamos querendo destacar que para compreender o que é a educação, deveremos primeiro perceber que o sentido social de promoção humana – nosso primeiro referencial, lembra? – surge entrelaçado, principalmente, com interesses políticos e econômicos. O ambiente é constituído em torno de lutas ideológicas ferrenhas, protagonizadas por facções de concepções conservadoras, reacionárias e por profi ssionais liberais querendo assumir os rumos da modernização do país, também, pela educação. Só para ilustrar o complicado contexto no qual se formam as políticas de educação que irão predeterminar a promoção humana, o autor referenciado cita uma passagem da participação do presidente Getúlio Vargas (ainda que apenas para reforçar seu marketing político), na IV Conferência Nacional de Educação, em 1931. Os educadores brasileiros estavam discutindo “As Grandes Diretrizes da Educação Popular”. Na oportunidade, Vargas apareceu e teria dito que “‘O governo revolucionário’ não tinha uma proposta educacional, e esperava-se dos intelectuais ali presentes a elaboração do ‘sentido pedagógico da Revolução’”. (GHIRALDELLI JÚNIOR, 2001, p.41). É bom não esquecer que os fundamentos da Educação que estavam sendo propostos no Brasil tinham suas raízes em teses e teorias da Educação e da Sociologia, mais elaboradas, fora do país. Estamos nos referindo principalmente às idéias de John Dewey (1859-1952), que infl uenciaram fortemente o pensamento de Anísio Teixeira, e ao sociólogo Émile Durkheim (1858- 1917), o qual infl uenciou diretamente o modo de pensar de Fernando Azevedo. Duas posturas diferentes de ver e projetar a educação, ainda que sob uma mesma base: a Pedagogia Nova. Para Anísio Teixeira, a escola seria controlada pela comunidade e aberta a todas as camadas sociais. Enquanto Fernando de Azevedo, procurando conciliar a proposta pedagógica de Dewey com a visão sociológica de Durkheim, assumiu uma visão elitista para a educação. Para ele, a escola deveria ter um papel de formadora de elites e a educação serviria para rearranjar os indivíduos na sociedade de acordo com suas aptidões. (GHIRALDELLI JÚNIOR, 2001). Vemos, pois, a linha de ruptura entre o tradicional e o novo aprofundar-seatravés da perspectiva modernizante da educação ao se apresentar como a dimensão pedagógica, crítica, ativa e atuante, que permitirá a promoção humana através da formação social e política dos jovens. Desse modo, acreditamos ter chegado ao nosso segundo ponto de apoio: a promoção humana implícita na perspectiva de formação educacional poderá ocorrer em nome de interesses econômicos, políticos e ideológicos associados à racionalização instrumental, através da qual a educação assume a dimensão de instrumento das mudanças sociais, urgentes e necessárias para acomodar o “novo”, a racionalidade científi ca e tecnológica que se encontra à frente das transformações contemporâneas. Considerando que o nosso objetivo neste momento é buscar compreender os fundamentos da Educação, e, como tal, já os concebemos entranhados no movimento histórico da educação, nada mais justo do que esclarecer essa história. Esta, por sua Paidéia A palavra grega Paidéia aproxima-se do termo cultura com signifi cado de formação individual, com base nas “boas artes”, aquelas que são próprias do homem e que o diferencia de todos os outros animais. Nas “boas artes”, estava incluída a poesia, a eloqüência, a fi losofi a, a matemática, a música etc. (ABBAGNANO, 1982, p.209). Aula 1 Fundamentos da Educação 17 vez, como ressaltamos anteriormente, é constituída a partir dos interesses envolvidos nas relações sociais, políticas e econômicas. Nesse sentido, iremos dar seqüência a nossa abordagem, mas, saltando a linha imaginária do tempo para, de modo mais evidente, chegarmos à forma contemporânea de discutir os princípios educativos e as novas tendências reservadas para a Educação. Nossa caminhada segue no sentido de mostrar que as informações basilares encontradas até o momento, das quais nos servimos como pontos de apoio interpretativos, identifi cam, em um primeiro momento, a educação como meio de promoção do homem e, em um segundo momento, demonstram que tal promoção humana ocorre em função dos interesses intrínsecos aos confl itos ideológicos, em sintonia com a racionalização instrumental, que surge como indicadora confi ável para as mudanças que irão acomodar as transformações contemporâneas. Assumimos anteriormente como pressuposto investigativo a idéia de que sabemos o que é a educação e que apenas estamos interessados em compreender a importância dos desdobramentos do ato de educar como garantia da boa formação do indivíduo e o pleno exercício de sua cidadania na contemporaneidade. Ora, tais desdobramentos, como já os vimos, aparecem inseridos em propostas da sociedade organizada, dos técnicos e dos políticos que se encontram à frente das decisões ofi ciais, na forma de políticas de educação. Estas, por sua vez, procuram acompanhar os interesses sociais, políticos e econômicos, nacionais e internacionais, para propor uma adequação pedagógica em sintonia com os valores que estão em formação. Desse modo, admitir que sabemos o que é a educação, é no mínimo uma ousadia imprecisa. Pois, tal questão pressupõe uma sintonia com o emaranhado jogo de interesses de concepções ideológicas, políticas e econômicas, as quais se transformam em decisões e se transportam para o social como normas, princípios e diretrizes que, inseridos no processo educativo, passarão a indicar os caminhos pelos quais deverá ocorrer a formação político-social dos indivíduos. Daí que, para pensar e admitir a educação como algo diferente, capacitada a percorrer uma via formativa mais rigorosa e profunda, teremos que nos remeter aos gregos antigos. Estes, de fato, nos legaram uma educação forte e consistente, idealizada para ser desenvolvida sem interferências danosas dos interesses referidos. Os gregos compreenderam a educação como Paidéia, ou seja, como uma formação integral do homem em sua dimensão cultural mais sensível e intelectual possível. Vemos, portanto, meu caro aluno, a distância que estamos dos gregos e da idéia de educação que eles tiveram. É claro que não pretendemos entrar em clima de saudosismo com essa referência. Apenas objetivamos mostrar a dinâmica que altera o movimento conceitual da resposta para nossa questão principal. Nesse sentido, chegamos ao nosso terceiro ponto: não é possível responder ou saber “o que é educação”. Ou melhor, para tal questão existe uma infi nidade de respostas, quantas forem possíveis identifi car através de um levantamento histórico dos modos ditos civilizatórios, sobre a organização social, política e cultural dos povos. Agora, como forma de melhor fi xar o conteúdo sistematizado e desenvolvido até o momento, faremos nossa terceira atividade. Atividade 3 Aula 1 Fundamentos da Educação18 Com base nas idéias anteriormente desenvolvidas, apresentamos como atividade complementar a questão que segue. Faça uma entrevista com algumas pessoas da sua comunidade (professores, alunos, padre, pastor, juiz, prefeito, delegado etc.), procurando informar-se sobre: a. o que é educação? b. o que signifi ca educar, hoje? c. o que representa uma boa educação? d. o que a sociedade espera obter com a educação dos jovens? Depois desse nosso vôo livre pelos caminhos da Educação, não devemos concluir que a caminhada investigativa não valeu a pena. Que não adiantou nada procurar os fundamentos da Educação. Ou seja, que já sabemos tudo sobre educação e que investigar seus fundamentos, de fato, nos levou e levará à frustração. Não podemos raciocinar dessa forma. O fato de não termos chegado a uma resposta precisa para a questão posta não justifi ca uma interpretação errônea e desqualifi cada para o conteúdo tratado. Nossa conclusão indica a rica dimensão conceitual que envolve a pergunta: o que é educação? O que, de certa forma, traduz a difícil tarefa que nós educadores temos em compreender o movimento atual das transformações sociais, econômicas, políticas e culturais, para oferecer uma perspectiva educacional, sintonizada com as mudanças contemporâneas e, principalmente, integrada a uma formação crítico-refl exiva que promova no homem uma visão além do senso comum. Uma visão privilegiada dos acontecimentos do seu tempo e o pleno exercício de sua cidadania. Agora que você já tem uma compreensão consistente do ato de educar e conhece como sua comunidade pensa e assume as ações educativas, tem condições de assumir uma visão de educação mais cuidadosa, criteriosa, com base no seu aguçado senso crítico. Que tal fazermos neste momento o caminho inverso ao que realizamos anteriormente? A proposta segue a seguinte linha de raciocínio: Aula 1 Fundamentos da Educação 19 a) já temos uma idéia do que é ou pode vir a ser a educação; b) estamos inseridos em um conjunto de relações sociais, nas quais se constroem e se destroem continuamente valores e princípios educativos de acordo com os interesses envolvidos; c) acreditamos nos processos educativos que se organizam em torno das mudanças exigidas pela sociedade contemporânea, mas, a partir de uma educação para o pensar, fundamentada na perspectiva crítico-refl exiva; d) portanto, temos condições de fazer comentários críticos (com critérios) e refl exivos sobre educação. Assim, complementaremos nossa atividade prática lendo, refl etindo e discutindo sobre o texto a seguir. Leia-o atentamente e, em seguida, sistematize por escrito a(s) idéia(s) de educação que nele encontrar e depois comente com seus colegas de curso. [...] vista em seu vôo mais livre, a educação aparece sempre que há relações entre pessoas e intenções de ensinar-e-aprender. Intenções, por exemplo, de aos poucos “modelar a criança”, para conduzi-la a ser o “modelo” social de adolescente, para torná-lo mais adiante um jovem e, depois, um adulto. Todos os povos traduzem de alguma maneira esta lenta transformação que a aquisição do saber deve operar. [...] Não é nada raro que tanto na cabeça de um índio quanto na de um de nossos educadores ocidentais, a melhor imagem de como a educação se idealiza seja a do oleiro quetoma o barro e faz o pote. O trabalho cuidadoso do artesão que age com o tempo e sabedoria sobre a argila viva que é o educando. [...] Quando o educador pensa a educação, ele acredita que, entre homens, ela é o que dá a forma e o polimento. Mas, ao fazer isso na prática, tanto pode ser a mão do artista que guia e ajuda o barro a que se transforme, quanto a forma que iguala e deforma. [...] A educação aparece sempre que surgem formas sociais de condução e controle da aventura de ensinar-e-aprender. (BRANDÃO, 1991, p.24). Leituras Complementares ABRAMOVICH, Fanny. Quem educa quem? São Paulo: Summus, 1985. A autora aborda problemas da realidade educacional a partir de uma abordagem eloqüente e construtiva, numa atualidade temática de rica variedade. GUDSDORF, Georges. Professores para quê? São Paulo: Martins Fontes, 1987. O autor discorre sobre a relação professor-aluno na perspectiva de aprendizagem, em um ensaio que extrapola as perspectivas de que as relações contemporâneas superaram a discussão sobre o ensino. Resumo Aula 1 Fundamentos da Educação20 ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. São Paulo: Cortez, 1986. Rubem Alves, de modo simples e cativante neste livro, lança convite a todos os educadores para reverem aspectos importantes da prática de educador, e da relação ensino-aprendizagem. Ao mesmo tempo em que sinaliza para o cultivo de uma dimensão crítico-sensitiva no ensinar e aprender. Este breve sobrevôo teve por fi nalidade apresentar e analisar as nuanças que circundam o termo educação, para depois compreender a prática educativa no contexto da escola e da sala de aula. A idéia central foi desenvolvida em torno da problematização dos argumentos direcionados para responder à questão O que é Educação. Nosso propósito foi demonstrar que costumeiramente banalizamos ou simplifi camos nossa explicação pela atividade ingênua do senso comum e, por isso, corremos o risco de não percebermos a beleza e a profundidade da questão, que está além dos argumentos que fundamentam e justifi cam um processo de formação e evolução civilizatória, como é o caso específi co da educação. Durante o vôo, demonstramos a importância de buscarmos os fundamentos históricos, políticos e culturais para os desdobramentos do ato de educar, a serviço da boa formação do indivíduo para o pleno exercício de sua cidadania. Ultrapassamos opiniões do senso comum com as teorias oferecidas por Libâneo, como referência para chegarmos a uma resposta à questão inicial. Entre os vários conceitos e defi nições para a educação, a identifi camos como constante reconstrução ou reorganização da nossa experiência, visando a uma transformação direta da qualidade da nossa experiência. É uma atividade cultural dirigida à formação dos indivíduos, mediante a transmissão de bens culturais que se transformam em forças internas no educando. Por fi m, admitimos que o universo conceitual do termo educação varia conforme o entendimento e a experiência em torno dos processos de formação e desenvolvimento humano. Desse modo, concluímos que uma resposta apressada oferecida pelo senso comum, na qual admitimos saber o que é a educação, poderá constituir-se apenas como uma ousadia imprecisa da nossa vã sabedoria. Aula 1 Fundamentos da Educação 21 Referências ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de fi losofi a. São Paulo: Mestre Jou, 1982. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, 1991. GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. História da educação. São Paulo: Cortez, 2001. JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1986. LIBÂNEO, José Carlos. Pedagogia e pedagogos para quê? São Paulo: Cortez, 2004. A partir da leitura e refl exão do texto que segue, retome sua defi nição de educação (elaborada na primeira atividade) e veja o que você mudaria nela. [...] a educação não é uma propriedade individual, mas pertence por essência a comunidade. [...] a educação participa na vida e no crescimento da sociedade, tanto no seu destino exterior como na sua estruturação interna e desenvolvimento espiritual; e, uma vez que o desenvolvimento social depende da consciência dos valores que regem a vida humana, a história da educação está essencialmente condicionada pela transformação dos valores válidos para cada sociedade. (JAEGER, 1986, p.40). Autoavaliação Anotações Aula 1 Fundamentos da Educação22 Missão e compromissos da Educação 2 Aula 1 2 3 Aula 2 Fundamentos da Educação 25 Na aula anterior, tratamos de alguns aspectos introdutórios da disciplina Fundamentos da Educação e, ao fi nal de sua apresentação, dissemos que a formação docente se completa quando o formando compreende o sistema no qual está inserido. Isso justifi ca-se pela necessidade que tem qualquer profi ssional de conciliar teoria e prática ao ingressar no universo de trabalho. Pois bem, nesta aula, tentaremos aprofundar as defi nições e terminologias já apresentadas na aula anterior. Sendo assim, nos reportaremos à dinâmica de organização e composição conceitual, em conformidade com os aspectos históricos, políticos, econômicos, sociais e culturais que envolvem o processo educativo. Certamente, não trataremos das bases conceituais com a profundidade que merecem, visto que nossa disciplina, por ser apenas de caráter introdutório, não dispõe do espaço necessário e sufi ciente para tal abordagem, a qual fi ca a cargo de disciplinas específi cas. No entanto, mesmo abordando apenas o necessário para entender a dinâmica do processo educativo, focalizaremos aspectos interessantes e instigantes que perpassam todo o conteúdo que envolve a base conceitual da Educação. No âmbito da educação nacional, por exemplo, trataremos das questões teórico- metodológicas, mas também das práticas ideológicas que acompanham suas aplicações pautadas na idéia de universalização da educação e do ensino. Assim, conheceremos aspectos relevantes das questões conceituais que fundamentam a educação, a partir de conceitos básicos como o de promoção do homem, tratado na aula anterior. Apresentação Proporcionar o entendimento teórico da Educação constituída em alicerces conceituais. Compreender que a educação, enquanto processo e produto, está além da simples visão mecânica do aprendizado pautado apenas em métodos e técnicas. Identifi car a base conceitual da Educação, a partir dos conteúdos gerados e organizados no processo civilizatório, estruturado em torno da formação de hábitos, atitudes e regras de boa convivência. Objetivos Aula 2 Fundamentos da Educação26 Organizando e discutindo a base teórico-conceitual da Educação Educar é mesmo promover o homem? A educação abrange os processos educativos que se desenvolvem na convivência humana, na vida familiar, no trabalho, nas instituições de ensino, de educação infantil, de formação profi ssional, de pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil, no esporte, no lazer, nas manifestações culturais e no contato com os meios de comunicação social. (BRASIL,1990, p.11). A questão da promoção do homem é recorrente pelo fato da noção de elevação humana impulsionar a organização e o desenvolvimento da Educação em todo o mundo. A Legislação Educacional Brasileira é clara quando defi ne e expressa os fi ns da educação. Ela é apresentada como “[...] instrumento da sociedade, para a promoção do exercício da cidadania, fundamentada nos ideais de igualdade, liberdade, solidariedade, democracia, justiça social e felicidade humana, no trabalho como fonte de riqueza, dignidade e bem-estar universais.” Os fi ns reservados à educação brasileira são os seguintes: Aula 2 Fundamentos da Educação 27 I – O pleno desenvolvimento do ser humano e seu aperfeiçoamento; II – a formação de cidadãos capazes de compreender criticamente a realidade social e a consciência dos seus direitos e responsabilidades, desenvolvendo-lhes os valores éticos e o aprendizado da participação; III – o preparo do cidadão para a compreensãoe o exercício do trabalho, mediante acesso à cultura, ao conhecimento científi co, tecnológico e artístico, e ao desporto; IV – a produção e a difusão do saber e do conhecimento; V – a valorização e a promoção da vida; VI – a preparação do cidadão para a efetiva participação política; VII – o fortalecimento da soberania do país, da unidade e soberania nacional e da solidariedade internacional, pela construção de uma cidadania contrária à exploração, opressão ou desrespeito ao homem, à natureza e ao patrimônio cultural da humanidade. (BRASIL, 1990, p. 11). Vemos, pois, que a Legislação Educacional Brasileira expressa um entendimento que não é apenas nosso, mas, universal. Ela expressa o sentimento universal de valorização da vida e da promoção humana. Essa perspectiva indica que nossa educação é melhor do que as outras? A nossa Legislação Educacional refl ete de fato os anseios do nosso povo? Calma! Calma! No momento, só estamos demonstrando que a lei que rege nossa educação amplia os limites e perspectivas de formação local e nacional para uma dimensão universal. Ou seja, estamos lhe mostrando que a educação brasileira encontra-se pautada ou fundamentada numa visão universal de homem, o que oferece uma perspectiva além da sua condição de indivíduo e cidadão. Desse modo, as diretrizes que regem a educação brasileira incorporam uma perspectiva ampliada de formação social e cultural, ao preocupar-se com o desenvolvimento das capacidades físicas, mentais, intelectuais, morais, éticas e estéticas dos seres humanos, de modo a lhes permitir viver dignamente, em todos os sentidos, sua existência. De outro modo, a legislação brasileira de educação também defi ne as perspectivas locais e institucionais ao afi rmar que “[...] a educação, direito fundamental dos cidadãos, é dever do estado e da família, com a colaboração da sociedade” (BRASIL, 1990, p.12.). No que diz respeito ao poder público, caberá: I – assegurar a todos o direito à educação escolar, em igualdade de condições de acesso e permanência pela oferta de ensino público e gratuito em todos os níveis, além de outras prestações suplementares, quando e onde necessário. (BRASIL, 1990, p.12.) Os princípios educativos, postos na legislação brasileira, reforçam o modelo e o caráter da formação ao proporcionar uma cultura de padrões universais, para a qual devem ser observados, independentemente de raça, cor, sexo, religião ou condição econômica e social, como prevê a Constituição do Brasil. Nesse ponto, podemos nos interrogar como anda a educação nacional e como esses princípios são postos em prática. O que é dito na legislação refl ete o que de fato é feito com a nossa educação? É possível e viável aplicar os fundamentos da educação que estão na legislação? O que não dá certo na aplicação da legislação? Atividade 1 1 2 Aula 2 Fundamentos da Educação28 Antes de passar adiante, que tal testar seus conhecimentos em relação ao entendimento de direitos e deveres constitucionais que fundamentam a educação nacional? Para tanto, responda às questões seguintes. Pesquise e liste documentos sobre a Legislação Educacional Brasileira. Teça comentários sobre a visão de educação contida nos documentos pesquisados e listados, por você, no item anterior. Aula 2 Fundamentos da Educação 29 Você deve ter percebido, pela leitura dos documentos sobre a nossa legislação e outras leituras realizadas sobre a história da nossa educação, que não se consegue pôr em prática as intenções expressas na legislação. Essa história revela que, até o momento, as decisões envolvendo os princípios educacionais e suas respectivas aplicações estiveram concentradas nos confl itos ideológicos, no jogo de interesses políticos, econômicos e fi nanceiros, e deixaram de lado, na maioria das vezes, as exigências e necessidades sociais e culturais, historicamente constituídas, como parte do próprio processo civilizatório. Surge, então, para todos nós a pergunta: o que podemos observar como direcionamento futuro para a nossa prática educativa e de ensino, além do que a história nos oferece como refl exão? Ao que nos parece, é visível a distância entre o que legislamos como compreensão, explicação e justifi cativa e a realidade traduzida pelo confl ito das relações e interesses, na qual desejamos interferir. Por outro lado, essa difi culdade não é identifi cada apenas na Educação, mas, é possível encontrar indicadores de tal distanciamento em todas as áreas de conhecimento. A própria história do conhecimento revela-nos facetas das difíceis relações envolvendo o binômio conhecimento e poder, o qual atrai interesses para a não aplicação do modo mais correto e justo do conteúdo das legislações. Na educação, especifi camente a brasileira, parece que a questão envolvendo saber e poder fi ca mais evidente. Talvez pelos elementos ideológicos implícitos no processo educativo, os quais de uma forma ou outra infl uenciam os instrumentos formadores de opinião. Por outro lado, a questão da educação não concentra sua força apenas em um dos pólos, o do conhecimento ou o do poder, mas, na própria relação entre os dois pólos, identifi cada nos processos de aprendizagem. Aparentemente, os processos educativos destacam-se como um lócus (local) fértil e viável para inseminação e germinação, tanto de células de boa formação quanto de células de má formação. No caso, a questão saber e poder, na educação, em que essa relação demonstre o predomínio do poder frente ao saber, o resultado poderá ser a origem de um vírus ideologicamente forte e de caráter quase indestrutível, diluído por todo o corpo administrativo e executivo, infectando todos os processos educativos por onde passa, a partir do acesso aos pacotes e práticas educativas impostas como políticas e ações dirigidas à educação. Parte dos resultados dessa infecção virulenta poderá ser vista em estudos e pesquisas que identifi cam e ressaltam o quanto a elite nacional tem difi culdades em compreender o acesso à educação como um direito de todos. Encontramos indicações de que no passado e ainda hoje a educação é praticada sob inspiração e direção dos interesses estabelecidos pelas elites social e econômica. Nesse sentido, é possível que o fato anteriormente citado, como resultado da relação saber e poder, seja sistematicamente evidenciado nas práticas educativas do ensino no país. A exemplo disso, é perceptível o direcionamento das políticas de ações e práticas educativas para a formação de um movimento em torno do Ensino Fundamental. Tais políticas e iniciativas em prol do nível básico de ensino poderão oferecer um entendimento do grau de ingerência do poder no conhecimento a partir de uma leitura das entrelinhas do conteúdo ideológico implícito nas políticas e ações dirigidas à educação. Aula 2 Fundamentos da Educação30 O resultado deverá nos oferecer uma dimensão interpretativa que vai além do espírito solidário e do compromisso social com a boa formação do povo brasileiro para exercer o pleno exercício da cidadania. A compreensão política e pedagógica deverá ir além de medidas simples para forjar arranjos globais como alternativa e suporte para o segmento marginalizado da sociedade que se concentra nos mais pobres da população. A perspectiva que se forma em prol do Ensino Básico não é nova, remonta ao século XIX. De lá para cá, foram criados e desenvolvidos muitos projetos e programas de suplência educacional. Observamos que a partir dos anos trinta, a discussão sobre o acesso ao sistema de ensino ganhou muito espaço entre os técnicos, que passaram a traduzir suas preocupações em ações teóricas e práticas. Nos anos cinqüenta, foi implementada uma série de campanhas de alfabetização, destinadas aos marginalizados do campo e das cidades. Para alguns estudiosos, essa tendência à elitização do ensino decorre das nossas raízes, ou melhor, da herança recebida dos colonizadores, mais especifi camente, da infl uência das idéias de Educação elaboradas pelos portuguesesem sintonia com os ideais cristãos da Companhia de Jesus. Vemos, pois, ao longo do processo de institucionalização, as infl uências teóricas, metodológicas e ideológicas de diversas ordens, assim como pressões políticas nacionais e internacionais no embate travado entre os defensores da universalização do ensino e os da educação de classe. Essa discussão ainda se encontra presente na história recente do país. Se ampliarmos o leque de infl uências teórico-metodológicas, identifi caremos concepções de educação orientadas por idéias de instrumentalização e de tecnização. As descobertas técnicas e científi cas são incorporadas aos processos produtivos a partir das exigências políticas, fi nanceiras e econômicas da sociedade. Depois, como conseqüência da lógica do desenvolvimento, são postas como necessidades para a educação, no sentido de acompanhar as mudanças e os rumos propostos para a sociedade contemporânea. Nesse sentido, podemos dizer que a educação brasileira se organiza, em termos conceituais, em duas frentes de apoio: a primeira privilegia uma formação moral, com fundamentos de ética e estética, ainda que sob a inspiração de princípios religiosos; a segunda privilegia aspectos técnicos e instrumentais, por infl uência recebida do movimento do laissez-faire, signifi cando o saber fazer, o realizar tarefas, em função das novas organizações de redes e sistemas operacionais que se interligam aos vários processos do trabalho na atualidade. Em função das duas frentes de apoio apontadas, as mudanças na educação, no que diz respeito à fundamentação, à conceituação e às novas defi nições sugeridas pela política brasileira, são mais visíveis a partir da segunda metade do século XX. Tais mudanças são decorrentes do contexto das transformações que ocorrem em todos os níveis de conhecimento e desenvolvimento desse processo civilizatório, e que são implementadas principalmente pela ciência e pela tecnologia, notadamente nas áreas da comunicação, da organização do trabalho e da economia, com o nome de globalização. Você deve lembrar que, na aula anterior, nós apresentamos e discutimos o movimento das transformações políticas e econômicas, e suas várias tentativas de adequação às Companhia de Jesus Congregação jesuítica que chegou ao Brasil do período Colonial com a fi nalidade de catequizar os índios e organizar os processos de ensino- aprendizagem. O plano de estudos foi denominado de Ratio Studiorum e publicado em 1599, com a fi nalidade de unifi car os métodos e as atividades desenvolvidas na educação formal. Aula 2 Fundamentos da Educação 31 dimensões sociais e culturais através da educação. Agora, queremos chamar sua atenção para o fato da concepção de promoção humana, incorporada à educação brasileira, ter sido projetada em função das mudanças, internas e externas, que infl uenciaram os processos históricos de organização dos indivíduos, no mundo moderno. Neste momento, cabem algumas refl exões... O que o contexto das transformações no chamado mundo moderno trouxe de mudanças para a educação brasileira? Que tipo de promoção humana desenvolveu-se na educação brasileira, a partir das transformações impulsionadas pela ciência e tecnologia? Quais são, de fato, as principais bases conceituais que apóiam o desenvolvimento humano, implementadas pela educação brasileira nas confi gurações exigidas pelo mundo moderno? Essas questões deverão servir como momento refl exivo, de modo a facilitar a ligação entre os pontos principais do que até agora você leu e do que ainda vai ter. Portanto, fi que ligado e atento aos elementos importantes no movimento das transformações políticas e econômicas que de alguma forma passam a infl uenciar mudanças nos processos educativos. Ora, se de fato o foco principal da educação é com a promoção do homem, então, deveremos, antes de tudo, identifi cá-lo e compreendê-lo como indivíduo pertencente a um grupo social. Por outro lado, se queremos aprofundar os fundamentos da educação, uma outra questão se põe: a do próprio sentido da expressão educar. Isso porque será a partir das evidências que se mostrarem nas implicações do ato de educar que poderemos identifi car, ou não, os princípios que estimulam a promoção humana. Sendo assim, vemos como necessário adentrar na complexidade das relações que os humanos estabelecem com o meio físico, social e cultural, em tempo determinado. Entendemos que ao aprofundar o ato de educar, na perspectiva das relações humanas, estaremos identifi cando elementos que estão além de uma visão mecanicista, mercantilista e utilitária que se pensa para a educação. Na realidade, aprofundar-se no desenvolvimento humano na perspectiva que pretendemos, é caminhar para compreender uma questão pouco conhecida e discutida por nós: a da herança recebida não só genética, mas também físico- ambiental, simbólico-cultural, resultado de uma longa construção social. Percebemos, pois, que em ducação as questões conceituais, aparentemente simples, não estão “soltas”, isoladas de um contexto e de um conjunto maior de relações e implicações políticas, econômicas, culturais e sociais. Assim, talvez não seja difícil perceber por que nossa busca por identifi cação das bases conceituais que apóiam a concepção de promoção humana, na educação, poderá se aproximar de uma investigação sobre o processo identitário dos povos e nações. Atividade 2 1 2 Aula 2 Fundamentos da Educação32 Faremos agora uma breve parada para você exercitar seu potencial refl exivo e investigativo, respondendo às questões a seguir. O que você pensa sobre a perspectiva atual de promoção humana, assumida pela Educação contemporânea? Questione outras pessoas (família, amigos, professores) sobre a questão anterior e teça comentários sobre as respostas obtidas. Encontramos em Saviani (1989) argumentos que reforçam o nosso ponto de vista, anteriormente apresentado. Assim como nós, Saviani entende que a educação ganha força e signifi cado especial, ao “tornar o homem cada vez mais capaz de conhecer os elementos de sua situação para intervir nela transformando-a no sentido de uma ampliação da liberdade, da comunicação e colaboração entre os homens” (SAVIANI, 1989, p.41). Desse modo, como conclusão parcial, deveremos fi car com a idéia de que a educação brasileira, ao longo dos processos de organização, formação e consolidação, passou por mudanças metodológicas e de operacionalização, mas conservou, ao nível do discurso, a defi nição de bem público universal e de promoção do homem. É, exatamente, nesse nível que reside o fundamento mais importante do processo educativo. Aula 2 Fundamentos da Educação 33 Avançando um pouco mais nas nossas discussões, podemos dizer que cada sociedade credita à educação valores e crenças advindos das concepções religiosas, dos padrões culturais, das concepções de mundo e das motivações políticas e econômicas. Desse modo, em qualquer um desses casos, pelo menos no discurso de humanização e civilidade que a sociedade percorre, as políticas públicas, embora refl itam tendências universais ou globalizantes, são alicerçadas nos padrões sociais e, a partir deles, passam a refl etir os estágios de desenvolvimento da nação. Ora, se tomarmos por pressupostos da fundamentação teórica e prática as informações anteriores, então, deveremos perceber que nesse contexto cabe outro fator na composição conceitual de educação: o grau de organização do povo para se adequar ao conjunto das transformações que ocorrem no desenvolvimento das sociedades. Nesse caso, admitimos que a formação dos indivíduos decorre tanto das suar histórias particulares, quanto do conjunto social nos quais se organizam e se desenvolvem para construir e desconstruir suas interpretações nos vários níveis das relações estabelecidas. Tomaremos, pois, os pressupostos sugeridos como parâmetros em nossas investigações. Por sua vez, é importante que fi que claro que não podemos defi nir educação partindo de relativismos.Assumiremos, portanto, que a organização dessa base conceitual é concebida a partir de um conjunto de relações e implicações em que os fatores políticos, econômicos, sociais e culturais cumprem importante papel. Outrossim, no contexto de realização da organização da base conceitual torna-se importante ter a clareza de que o ato de educar é patrimônio de cada povo e que cada um torna possível a promoção humana ao seu modo, em conformidade com suas necessidades, mesmo que o país esteja submetido a algum tratado, direcionamento ou intervenção internacional. Dessa forma, transcorrida a fase investigativa sobre os fundamentos conceituais da educação, especifi camente a brasileira, focalizaremos nossa abordagem, desse momento em diante, em torno de algumas implicações que ecoam com a tentativa de consolidar o estilo elitista e classista, que atravessa a história da educação brasileira desde o tempo da colônia até os dias atuais. Como evidência mais atual desse fato, destacaremos a discussão sobre a inserção das chamadas minorias, ou marginalizados, do contexto da educação. Na busca da compreensão acerca da visão elitista que se difundiu na educação brasileira, veremos que, de modo geral, ela encontra-se impregnada nas políticas públicas de educação como tendência colonizadora adotada pelos países desenvolvidos em relação aos países periféricos, no sentido de orientá-los e, em alguns casos, guiá-los nas ações educacionais. Esse fato nos remete a uma viagem de volta ao nosso passado colonial, no qual é possível identifi car origens dessa visão, no comportamento predominante das classes sociais que decidiam os rumos do país. No contexto do Brasil colonial, a classe dominante entendia a educação como uma forma de concentração de poder – idéia que não é de todo equivocada – e que, por isso mesmo, fez com que a educação brasileira fosse, durante muito tempo, prioridade exclusiva dos que detinham o poder. Nesse sentido, Romanelli chama nossa atenção para o fato de que Aula 2 Fundamentos da Educação34 [...] não é pois de se estranhar que na Colônia tenham vingado hábitos aristocráticos de vida. No propósito de imitar o estilo da Metrópole, era natural que a camada dominante procurasse copiar os hábitos da camada nobre portuguesa. E, assim, a sociedade latifundiária e escravocrata acabou por ser também uma sociedade aristocrática. E para isso contribuiu signifi cativamente a obra educativa da Companhia de Jesus. (ROMANELLI, 1998, p. 33). Vemos, pois, a partir do que nos diz a autora, que do período da colonização aos nossos dias, o processo educacional brasileiro sofreu infl uências de diferentes ordens e segmentos classistas, internos e externos. Entretanto, é possível perceber também que, concretamente, em seu movimento evolutivo, a educação brasileira continuou sendo permeada pela luta que separava as classes sociais, fi cando assegurado às elites econômicas um ensino, se não de qualidade, pelo menos coerente e efi ciente com esse segmento. De outro modo, para aprofundar ainda mais nossa abordagem, destacamos o movimento que se projetou como caminho de combate a essa tendência elitista. Tal movimento surgiu a partir de 1930, ressaltando a importância de discutir o tema da universalização do ensino. Ora, por essa via discursiva, o interesse maior manifestado era o de evidenciar a contradição que se apresentava entre os encaminhamentos locais e a tendência mundial de democratização do ensino, sobretudo, aquelas inspiradas na reforma francesa, que se encontravam alicerçadas na igualdade dos direitos. Dessa maneira, ao identifi carmos as bases conceituais da educação a encontramos também ancorada em pilares construídos sobre as bases da política e da economia que a tornam a cada dia um bem especial, embora continue sendo oferecida de maneira privilegiada à classe social economicamente bem sucedida. Por isso, ela ainda hoje é valorizada como instrumento elitista de formação cultural. Tal fato, que em parte traduz a linha e o perfi l do desenvolvimento da educação brasileira, carrega em si conseqüências imprevisíveis em função do que é negado a outra classe social, pois se trata de um processo histórico de exclusão da maioria da população. Para compreender melhor a complexidade da defi nição de educação enraizada na formação social e cultural brasileira, reportamo-nos novamente a Otaíza Romanelli, quando diz que: [...] A instrução em si não representava grande coisa na construção da sociedade nascente. As atividades de produção não exigiam preparo, quer do ponto de vista de sua administração, quer do ponto de vista da mão-de-obra. O ensino, assim, foi conservado à margem, sem utilidade prática visível para uma economia fundada na agricultura rudimentar e no trabalho escravo. Podia, portanto, servir tão-somente à ilustração de alguns espíritos ociosos que, sem serem diretamente destinados à administração da unidade produtiva, embora sustentados por ela, podiam dar-se ao luxo de se cultivarem. Evidentemente, a esse tipo de desocupados sociais, cujo destino não estava associado a uma atividade manual - então reservada aos cativos e, portanto, estigmatizada – ou mesmo profi ssional defi nida, só podia interessar uma educação cujo objetivo precípuo fosse cultivar “as coisas do espírito”, isto é, uma educação literária, humanista, capaz de dar brilho à inteligência. Esse tipo de indivíduo convinha bem à educação jesuítica, “porque não perturbava a estrutura vigente, subordinava-se aos imperativos do meio social, marchava paralelamente a ele. Sua marginalidade era a essência de que vivia e se alimentava” (ROMANELLI, 1998, p. 34). Aula 2 Fundamentos da Educação 35 Neste momento de nosso estudo, queremos chamar sua atenção para o fato de que logo depois da expulsão dos jesuítas, a educação brasileira foi consolidada e difundida como formação de classe, e como meio pelo qual as elites conseguiam distinção. Foi assim na Colônia, no Império, e na República. Mas, recentemente, algumas teses a colocam como meio de reprodução de classes. Destacamos entre essas teses, o estudo sobre a reprodução de Bourdieu e Jean Claude Passeron. Da sua origem, dos valores impressos pela cultura jesuíta, a educação brasileira conservou a herança de uma formação confessional, que até hoje é praticada no país por ordens religiosas. De outra forma, identifi camos as bases conceituais da formação laica, desenvolvida em escolas públicas sob a responsabilidade do poder público. Nesse sentido, é importante destacar que a luta pela hegemonia e pelo direcionamento da política educacional deu-se até meados dos anos oitenta, como combate teórico-metodológico entre os defensores da educação confessional e laica. A primeira, praticada em estabelecimentos privados, voltada para atender os interesses e necessidades das famílias mais abastadas da estrutura social. A segunda, mais praticada pelos estabelecimentos públicos, gratuitos, destinados às camadas menos favorecidas, social e economicamente. Daí, Otaíza Romanelli, dizer que [...] A constituição de 1891, que instituiu o sistema federativo de governo, consagrou também a descentralização do ensino, ou melhor, a dualidade de sistemas, já que, pelo seu artigo 35, item 3ª e 4ª, ela reservou à União, o direito de “criar instituições de ensino superior e secundário nos Estados “e “prover a instrução secundária no Distrito Federal”, o que, conseqüentemente, delegava aos Estados competência para prover e legislar sobre educação primária. (ROMANELLI, 1998, p. 41). Como vemos, das origens até os dias atuais, a questão do acesso ao sistema de educação e ensino formal no Brasil é emblemática. Por volta dos anos noventa, essa questão foi superfi cialmente resolvida com a privatização do ensino em todos os níveis. Veja que essa perspectiva da privatização nos conduz à questão proposta no início desta aula, lembra? Foi a discussão que articulamos sobre a questão da promoção humana. Pois bem, recolocada essa questão, nosperguntamos: como fi ca então a promoção social dos indivíduos que, ao nascer do lado dos menos favorecidos economicamente, foram, e continuam a ser, impedidos de terem acesso à escola? O refl exo da questão anterior aparece na atualidade entrelaçada a, pelo menos, dois fatores. Um deles decorre do fato de o sistema público de ensino, hoje, receber um número maior de pessoas em relação ao sistema privado de ensino, mas, continuar precário em suas estruturas físicas e humanas. O outro pode ser identifi cado no fato de o ensino privado ter sua maior clientela oriunda da classe média da sociedade. Essas duas vias de formação indicam que o acesso à educação continua, ainda hoje, condicionado às condições fi nanceiras da população. Portanto, à luz dos acontecimentos históricos, políticos e socioculturais, veremos que a partir dos anos vinte, mais precisamente em 1932, ocorreu o primeiro grande Movimento dos Pioneiros Movimento constituído em sua maioria por intelectuais que, nos anos 20, propuseram várias reformas educacionais e, em 1932, publicaram o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, apontando novas bases de reformulações para as políticas educacionais. Aula 2 Fundamentos da Educação36 movimento em defesa da reconstrução da educação pública no Brasil. Esse movimento embrionariamente permitiu mais tarde a discussão da educação popular no Brasil. Estamos falando do chamado Movimento dos Pioneiros, liderado pelo educador mineiro Fernando de Azevedo, o qual formalizou um documento assinado por 26 educadores de diferentes regiões do país. O teor do documento indicava o surgimento de uma nova postura frente à educação nacional, qual seja: a educação é um bem público e, sendo assim, constitui direito de todos. Nessa perspectiva, Janiel Cury afi rma em texto escrito para a abertura da II Conferência Brasileira de Educação, realizada em Minas Gerais, em junho de 1982, evento comemorativo dos cinqüenta anos do Manifesto dos Pioneiros: [...] Creio não podermos rememorar 1930, 1931, 1932 [...] cabe-nos rememorar uma postura que 26 corajosos educadores assumiram de se expor e dizer às claras que, no fi nal de contas, bem ou mal, a coisa pública, enquanto escola pública, era uma tarefa político-pedagógica que, sem práxis, não seria construída. (CURY, 1988, p. 6). Queremos destacar neste momento, que fi cam evidenciadas as bases conceituais na confi guração das concepções de educação como bem público e como promoção humana. A essas duas concepções são incorporadas as responsabilidades do Estado, evidenciando a perspectiva de promoção humana, sobretudo, no que diz respeito ao acesso da população que não tem como prover o seu ingresso ao sistema formal de ensino e educação. Ao referir-se à práxis educativa, Cury (1988) destacou a responsabilidade dos professores para alterar os padrões de ensino, principalmente, no que diz respeito à autonomia e à tomada de decisão para mudar os rumos nacionais. Seguindo essa mesma orientação, destacamos também o papel da sociedade civil, tomando para si a tarefa de pressionar o poder público no cumprimento das responsabilidades de prover o ensino nacional. Com isso, reforçamos a compreensão de educação como um ato político, em que instituições, governos e população devem trabalhar em conjunto, em prol da causa maior: o bem comum. Nesse sentido, lembramos que nos profícuos anos 30 surgiu no Brasil um sentimento de que algo deveria ser feito em prol da educação nacional, notadamente em relação à alfabetização de adultos. Tal sentimento revela a face da população que historicamente fi cou fora do sistema formal de ensino, entregue a sua própria sorte numa época em que a educação era meio de ascensão social e a escola cumpria esse papel. Todo esse contexto foi o ambiente favorável para o desencadeamento da reviravolta econômica e política que ocorreu nos anos trinta e quarenta. Destacamos como forças políticas atuantes nesse período a mobilização das ligas camponesas e o avanço do projeto de industrialização nos anos cinqüenta. Esses dois fatores foram importantes para fazer avançar as discussões em torno da elitização (privatização) do ensino e o seu oposto, a democratização. Educação popular Denominação utilizada para caracterizar os processos educativos que se preocupavam mais enfaticamente, em termos de métodos e conteúdos, com a classe trabalhadora e os menos favorecidos. Aula 2 Fundamentos da Educação 37 As discussões se estenderam por todo o resto do século XX com as propostas de reformas educacionais e a própria morosidade do Estado em operacionalizá-las. As discussões visavam sobremaneira reforçar uma concepção que permitisse os segmentos sociais marginalizados ingressarem no sistema formal de ensino. Assim, a sociedade civil organizada assumiu as bandeiras de luta dos trabalhadores no campo e dos operários na cidade em prol de uma educação, não só gratuita, mas também de qualidade. Surgiu, com isso, um novo conceito de educação – a educação popular. Antes de passarmos a discutir essa nova dimensão educativa, deveremos compreender o que se entende por “popular” no Brasil. Do ponto de vista erudito, esse termo é utilizado quando se faz referência ao povo, quando se quer designar uma ação ou um movimento realizado pela massa. Portanto, não existe consenso para essa terminologia. Entre as muitas defi nições, reportamo-nos ao conceito estudado por Brandão (1994) em seu livro Lutar com a palavra, no qual ele analisa as questões da educação popular no Brasil. Vejamos o que diz o autor sobre a concepção de educação popular: [...] o povo são os povos: índios, negros, caipiras. Não são nomes próprios, a não ser por acidente. A não ser quando um ou outro faz alguma coisa notável contra o senhor branco [...] Mas a cultura dos livros é a do povo. Nominada, quando consegue ser a de um aleijadinho (em geral os pobres têm apelidos) ou anônima, quando é a dos mulatos que fi zeram o que existe por debaixo da música erudita do Barroco Mineiro. Ela é principalmente a “cultura brasileira” dos “tipos” de gentes que a cultura livresca tipifi cou: bahiana, jangadeiros, cantadores de cordel, gaúchos, caipiras e tantos outros. Uma vaga cultura de “tipos” que são geralmente folclorizados (gaúchos, bahiana) ou gentes raciais (o branco, o negro o índio). Raros são povos (grupos tribais, nominados através de suas tribos e nações com a indicação das diferenças culturais) e, menos ainda, classes populares. (BRANDÃO, 1994, p. 68). Como se pode ver, o conceito de educação popular absorveu a condição excludente imposta pelas elites e sua posição de população marginalizada socialmente. A conseqüência mais grave foi o não reconhecimento ofi cial até o fi nal do século passado. À margem do Estado e do formalismo que tomou conta do ensino elitista, praticado até então, essa dimensão educativa popular já nasceu com o estigma de segunda categoria, em função da classe a que se destinava. A partir da segunda metade dos anos cinqüenta, a questão tomou fôlego e alguns programas de educação popular foram desenvolvidos. Alguns deles se impuseram como alternativa de ensino para os marginalizados do sistema. Esses programas serviram também para provocar o debate sobre a estrutura formal no seio da estrutura social. Por fi m, queremos destacar que esses movimentos acabaram vinculando a Educação à ótica do movimento político nacional – desenvolvimentista, sem perder, contudo, o vínculo com o ideário religioso dos movimentos de base, desenvolvidos sob a responsabilidade da Igreja Católica. Resumo Aula 2 Fundamentos da Educação38 SAVIANI, Dermeval. Do senso comum à consciência fi losófi ca. São Paulo: Cortez, 1989. Nesta obra, o autor reúne uma série de textos que mostram os fundamentos da Educação, seguindo orientações que visam aprofundar questões inerentes à prática educativa na perspectiva de sair do senso comum, para uma concepção fi losófi ca. CURY, Jamil. Ideologia e educaçãobrasileira: católicos e liberais. São Paulo: Cortez, 1988. O autor discute de modo simples e bem fundamentado confl itos ideológicos na cultura brasileira que confi guraram a emergência da sociedade urbano-industrial. Leituras Complementares A concepção de promoção do homem, na Educação, é recorrente da noção de elevação humana. Na história da educação brasileira, encontramos indicadores de uma prática educativa desenvolvida sob a inspiração e direção dos interesses estabelecidos pelas elites social e econômica. Na investigação que fi zemos acerca das bases conceituais da educação brasileira, fi cou clara a infl uência que recebemos dos colonizadores, em específi co dos valores portugueses incorporados aos ideais cristãos difundidos pelos Jesuítas. Nesse contexto, destacamos o embate entre os defensores da universalização do ensino e os da educação de classe. A partir de 1932, ocorreu o primeiro grande movimento em defesa da reconstrução da educação pública no Brasil. Aula 2 Fundamentos da Educação 39 Referências BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Lutar com a palavra. São Paulo: Brasiliense, 1994. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Lei de diretrizes e bases da educação. Brasília: MEC, 1990. CURY, Jamil. Ideologia e educação brasileira: católicos e liberais. São Paulo: Cortez, 1988. ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da educação no Brasil. 21. ed. Petrópolis: Vozes, 1998. SAVIANI, Dermeval. Do senso comum à consciência fi losófi ca. São Paulo: Cortez, 1989. Autoavaliação Agora que você conhece os fundamentos da Educação e, em específi co, a educação popular, sugerimos que faça uma refl exão sobre a presença (formas de manifestação artísticas, culturais, educativas etc.) da educação popular em sua cidade e região, e faça um breve comentário descrevendo o que mais lhe chama a atenção nesse modelo de formação. Anotações Aula 2 Fundamentos da Educação40 Modelos teóricos e metodológicos para a Educação 3 Aula 2 1 Aula 3 Fundamentos da Educação 43 Nesta aula, veremos como o desenvolvimento do país e as transformações pelas quais passaram a política e a economia a partir dos anos cinqüenta provocaram modifi cações na concepção e nos objetivos da Educação, que durante quatro séculos permaneceu praticamente sem mudanças estruturais. Somente na segunda metade do século XX, observou- se o aparecimento de movimentos políticos organizados em defesa da crescente demanda por acesso ao ensino gratuito e de qualidade. Movimentos legítimos em razão dos níveis de crescimento do país e as mudanças na base produtiva, notadamente a transformação da produção agrícola, predominante até os anos sessenta, em produção industrial, a qual se consolida como força produtiva a partir dos anos setenta no Brasil. Apresentação Objetivos Compreender as políticas de desenvolvimento que influenciaram e ainda hoje influenciam a educação nacional, quebrando resistências e conservadorismo em nome do progresso econômico e social. Identificar as metas e as ações implícitas nas transformações políticas e econômicas que interferiram nos processos educativos, apontando alternativas e caminhos pelos quais deve passar a educação para responder às demandas sociais. Aula 3 Fundamentos da Educação44 Pressupostos teóricos e práticos para as ações educativas Caro aluno, assim como muitos acreditam no poder das preces para vencer ou encontrar clareza no que dizer ou fazer para alcançar determinado objetivo, nós acreditamos que a indagação, quando bem articulada, pode ser um caminho viável para projetar não apenas nossas dúvidas, mas, fundamentalmente, para criar um vínculo investigativo entre o que acreditamos saber e o que de fato desejamos conhecer. Sendo guiado por essa perspectiva, queremos lhe estimular a fazer uma ou várias ações refl exivas sobre os saberes já organizados até o momento, a fi m de encontrar, ou não, uma relação entre o que se entende por educação e política. Nesse sentido, iniciaremos nossas discussões com uma pequena atividade refl exiva. Atividade 1 Movimento dos Pioneiros Movimento constituído em sua maioria por intelectuais que, nos anos 20, propuseram várias reformas educacionais e, em 1932, publicaram o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, apontando novas bases de reformulações para as políticas educacionais. Aula 3 Fundamentos da Educação 45 Veremos, nesta aula, que não importa a opinião que se tenha sobre a vinculação da política com a educação; as duas, enquanto instituições de instâncias deliberativas na sociedade civil, são autônomas. Mas, na dinâmica dos processos organizacionais da economia, da sociedade, da educação e até mesmo da cultura, elas se entrelaçam e, em alguns casos, são interdependentes. Como isso é possível? É o que veremos a partir de agora. Começaremos, portanto, por reforçar a tese já apresentada em aulas anteriores, nas quais defendemos que para compreender os fundamentos da Educação, especifi camente a brasileira, torna-se necessário nos debruçar sobre os acontecimentos históricos, políticos, sociais e culturais que infl uenciaram e continuam a infl uenciar direta ou indiretamente o processo educativo e de ensino. Sendo assim, confrontaremos, nesta aula, nossos julgamentos sobre a questão com a dinâmica das relações que são estabelecidas entre a educação e a política. Tomaremos como ponto de partida o contexto e o conteúdo do chamado Movimento dos Pioneiros, ocorrido em 1932, para continuar a caminhada investigativa pelas trilhas que fundamentam a educação. Lembramos também que já citamos tal movimento em aulas anteriores. Em seguida, veremos como as idéias de gratuidade e universalização do ensino Refl ita sobre os conceitos de educação e política, em seguida, escreva uma explicação clara e convincente para a possível relação existente entre esses dois conceitos. Utilize como parâmetro interpretativo a leitura desta aula. Aula 3 Fundamentos da Educação46 se ampliam e, a partir dos anos cinqüenta, tomaram corpo em ações efetivas de campanhas de alfabetização e de mobilização popular. Na contextualização dos fatores que se misturam na ampliação dos conceitos de gratuidade e universalização, ressaltamos que a educação foi inserida no pacote dos projetos de desenvolvimento como parte das discussões em torno das questões da industrialização brasileira, na segunda metade dos anos cinqüenta. Na mesma discussão, não podemos esquecer de inserir as implicações resultantes do crescente processo migratório ocorrido com o deslocamento do homem do campo para as emergentes cidades, sobretudo no centro-sul do país, e a concentração destes nos centros urbanos. Observa-se que no âmbito da política, no campo ou na cidade, há um crescente movimento em defesa da reconstrução nacional. Contexto no qual ressurgirá a discussão em torno da educação, sobretudo nas regiões mais pobres do país. A discussão sobre os novos rumos para a educação é explicada pela maioria dos historiadores como sendo resultado da evolução econômica na perspectiva da internacionalização da economia e das transformações técnicas e tecnológicas do processo produtivo. Nesse sentido, Cruz (1990), referindo-se aos anos cinqüenta, destaca a determinação do presidente Juscelino Kubistchek em tornar o Brasil uma grande nação, reconhecida internacionalmente. A autora complementa seu pensamento dizendo: [...] Acreditava o Governo que somente o desenvolvimento praticado em bases associadas ou dependentes tiraria o país da condição de subdesenvolvimento e o projetaria mundialmente como uma grande potência. É interessante chamar a atenção para o fato de que, na mesma proporção em que o governo avança na defesa desse projeto, avança também o movimento de oposição, em defesa do desenvolvimento econômico em bases nacionalistas. (CRUZ, 1990, p.16). Na discussão anterior, percebemos que a política norteia os embates políticos na década de 1960, em defesa do nacionalismo e dos valores morais, de tradiçãofamiliar e cristã. Vê-se, pois, que a mobilização popular observada a partir de então vai tornar-se o centro dos debates políticos e sociais, desafi ando as instituições Aula 3 Fundamentos da Educação 47 tradicionais a saírem do lugar comum para promover as mudanças requeridas por grupos ou instituições ligadas aos movimentos populares. Acerca desse momento político, alguns estudos, como os de Luis Antônio Cunha (1985), Jamil Cury (1982), Willington Germano (1992), Moacir de Góis (1980), Carlos Rodrigues Brandão (1982), dentre outros, dão conta da mobilização e da organização das massas nos movimentos populares. A respeito da crescente participação popular, Otaíza Romanelli diz que: [...] é no século XX que o povo brasileiro aparece como categoria política fundamental. Em particular, é depois da primeira Guerra Mundial – e em escala crescente a seguir – que os setores médios e proletários urbanos e rurais começam a contar mais abertamente como categoria política. Por isso, pode verifi car-se que a “revolução brasileira”, em curso neste século, é um processo que compreende a luta por uma participação cada vez maior da população nacional no debate e nas decisões políticas e econômicas. (ROMANELLI,1998, p. 55). Lembra-se daquela dimensão conceitual que destacamos nas aulas anteriores, aquela que projetava a educação como bem público e direito de todos? Pois bem, queremos que você entenda que os movimentos populares, de dimensões político-sociais, fi zeram fortalecer as tendências que defendiam tal postura para a educação nacional. Por sua vez, aqui, faz-se necessário analisar a questão do ponto de vista da intervenção do capitalismo internacional na economia nacional, numa perspectiva de inovação. Ora, o impacto do processo inovador na sociedade, na cultura e na educação acentuou- se a partir do fi nal dos anos cinqüenta, dado o fato do ideário liberal ter atrelado o progresso e o desenvolvimento econômico à elevação da escolaridade da população e dos padrões de educação da sociedade. Surgiu, então, o embrião do que vem a ser chamado mais adiante de políticas de desenvolvimento humano. A esse respeito, Cruz (1990, p.11), diz que: [...] O setor educacional absorve muito rapidamente esse ideário inovador, pelo fato de lhe atribuírem a responsabilidade pelo atraso técnico e científi co, provado pelos altos índices de mão-de-obra desqualifi cada, analfabeta, e pelo precário quadro de docentes que compunha o sistema educacional do país, notadamente no nordeste brasileiro. Como se pode ver, o clima político-econômico favorecia a discussão em torno da educação nacional em bases mais democráticas. A justifi cativa pauta-se no fato do contexto exigir novas bases de formação, o que reforça a idéia da educação constituir uma necessidade para o avanço do capitalismo no país. Acerca da questão e corroborando o pensamento anterior de Romanelli (1998), Cruz (1990, p.11) afi rma: [...] A luta política e o clima de democracia vivido na época permitiram o crescimento desses movimentos e campanhas [...]. Portanto, a contraposição ao projeto de inovação e modernização na economia, na sociedade e na educação nacional não se deu na sua totalidade, pois havia entre as forças antagônicas, pontos comuns, sobretudo no entendimento da elevação dos níveis de escolaridade e educação da população brasileira. Aula 3 Fundamentos da Educação48 O clima destacado pela autora demonstra que a dimensão popular da educação foi fortalecida pelas campanhas e movimentos. A dimensão política e o caráter educativo estiveram apoiados em grupos e partidos da esquerda, assim como a sua destinação para as massas. Nesse sentido, podemos dizer que ações educativas, de caráter popular, passaram a ser vistas como uma modalidade de educação diferenciada, praticada à margem das políticas do Estado, portanto, como educação informal. Por sua vez, o fato de não ser apoiada pelas políticas do Estado colocava a educação popular na condição de marginalização. Portanto, uma primeira conclusão a que deveremos chegar é a de que a educação popular já nasceu como um tipo de educação de segunda categoria. Por outro lado, se você pensa que a polêmica acerca da educação popular se encerra aí, engana-se. Pois, mesmo a terminologia “popular” que se encontra agregada ao termo educação e cultura, segundo Marilena Chauí (1994, p.10), é “de difícil defi nição”, diz ela: [...] Seria a cultura popular do povo ou a cultura para o povo? A difi culdade, porém, é maior se nos lembrarmos de que os produtores dessa cultura, as chamadas classes “populares”, não a designam com o objetivo “popular”, designação empregada por membros de outras classes sociais para defi nir as manifestações culturais das classes ditas “subalternas”. Assim trata-se de saber quem, na sociedade, designa uma parte da população como “povo” e de que critérios lança mão para determinar o que é e o que não é “popular”. Desse modo, fi ca evidente que a discussão em torno da educação dita popular comporta uma possível distinção de classe. O contexto dessa discussão traz à tona a contradição reinante na estrutura. Vejamos que elementos Marilena Chauí nos oferece sobre tal contradição, a fi m de melhor compreendermos o processo e o produto da educação no Brasil. [...] No Brasil, fala-se, por exemplo, em música popular para designar todo o campo musical que escapa da chamada música erudita, mas nem sempre compositores e ouvintes pertencem às chamadas “camadas subalternas” e sim à classe média urbana [...] Enfi m, do ponto de vista ofi cial ou estatal, “popular” costuma designar o regional, o tradicional e o folclore. [...] Numa perspectiva que considere primordialmente os produtores e seu público, guiando-se pelas idéias de regional, tradicional e típico, seriam populares a Marujada, a Congada, a Ciranda, o Bumba-meu-Boi. Todavia, resta saber o principal: por que regional, tradicional e típico designaria o popular? (CHAUÍ,1994, p. 10). Ao nosso ver, o que estamos caracterizando como educação popular pode ser compreendido como designação – ainda que preconceituosa e desqualificante – das manifestações e expressões legítimas do povo, da massa, do cidadão comum, visto que a autora fi naliza colocando os elementos fundamentais para a compreensão do termo e dos movimentos oriundos da população. Nesse sentido, Marilena Chauí (1994, p.10) afi rma: [...] A discussão do problema poderá ser facilitada se fi zermos breve retrospecto da emergência da expressão Cultura popular. Antes, porém, é conveniente recordarmos o surgimento da concepção moderna de cultura e seus laços com duas outras, Civilização e História. Aula 3 Fundamentos da Educação 49 Diante das evidências da contradição, Cruz (1990) nos diz que a saída do Governo foi lançar mão de recursos ideológicos de convencimento à nação, o que, numa certa medida, contribui para a mistifi cação da vinculação entre interesses econômicos e direcionamento político das massas, para expansão do mercado e modernização administrativa do setor público e privado e para a sociedade em geral. A despeito da polêmica em torno da expressão cultura popular, vê-se que alguns programas de educação foram desenvolvidos e se impuseram como alternativa de ensino e educação para as massas populares. Nesse contexto, o movimento de cultura e educação popular, impulsionado a partir dos anos cinqüenta, permitiu que o segmento marginalizado da sociedade adentrasse no sistema de ensino, ao mesmo tempo em que a discussão em torno da estrutura formal de ensino permitiu que a sociedade se engajasse na luta pela mudança da concepção da educação nacional, até então dominada apenas pela concepção elitista. Aos poucos, os movimentos de cultura e educação passaram a ser referência no quadro da discussão do nacionalismo-desenvolvimentista, discussão que permeou as décadas de cinqüenta e sessenta. A esse respeito, encontramos infl uências e conseqüências dessa discussão para a educação popularno estudo de Vanilda Paiva (1980). Sobretudo, no pensamento do teórico do método de alfabetização de adultos, Paulo Freire. Paiva fez referência ao pensamento de Roland Corbusier, mostrando que esse autor, desde os anos quarenta, defendia teses acerca das questões, principalmente, aquelas de cunho autoritário, nas perspectivas políticas, institucionais e morais. Para a autora, tais teses foram determinantes na formação de um pensamento sobre o nacionalismo. Ainda segundo a autora, Corbusier deixou clara sua preocupação predominantemente política com o “destino da Nação” que se mostrava no caminho autoritário (PAIVA,1980, p. 45). Agora, é possível compreender como ocorreram as inspirações para o fortalecimento dos movimentos populares e das campanhas de alfabetização a partir dos anos cinqüenta. Ora, a explicação é encontrada no desenvolvimento dos próprios movimentos e das campanhas. Elas foram desenvolvidas sem Aula 3 Fundamentos da Educação50 perder a vinculação com o ideário religioso da ação católica e da educação de base, ambas já em desenvolvimento sob a responsabilidade da igreja. Para esclarecer ainda mais a questão, Paiva fez referência aos escritos de Corbusier, datados de 1952, nos quais o autor expressou suas preocupações com questões ligadas à pedagogia. Disse Corbusier: “Se a sociedade nos educa, a pedagogia se identifi ca, sem a política, com a missão da comunidade de formar os ‘homens de acordo com os ideais e valores da cultura de que é portadora’” (CORBUSIER, 1952 apud PAIVA, 1980, p. 45). A autora complementa o entendimento do que foi exposto, dizendo que: [...] Ora, por um lado a fragmentação do mundo moderno destruiria a efi cácia da pedagogia e, por outro, a democracia liberal permitiria substituir a pedagogia pela propaganda: o resultado era a massifi cação característica do mundo contemporâneo, o mundo da técnica e dos meios de comunicação de massa. Em tal mundo, em que assistíamos à “rebeldia das massas”, a organização pedagógica se via prejudicada pela “crise de confi ança nas crenças e valores sobre os quais nos assentamos”. (PAIVA, 1980, p. 47). Nesse contexto, a arquidiocese de Natal apareceu como pioneira nos movimentos de ação católica (AC), atuando em vários setores da sociedade civil no Rio Grande do Norte. Destacamos entre esses movimentos aqueles ligados à Juventude Operária Católica (JOC) e à Juventude Estudantil Católica (JEC) (em nível de segundo grau) e à Juventude Universitária Católica (JUC) (em nível universitário). Esses movimentos formaram uma geração de jovens capazes de engajar-se nos movimentos de mobilização de base, de cultura e de educação popular, nos anos sessenta, notadamente o Movimento de Educação de Base (MEB) desenvolvido pela Arquidiocese de Natal e o Método de Alfabetização de Adultos, desenvolvido pelo educador Paulo Freire. Esse projeto foi originariamente desenvolvido em Recife – PE e mais tarde em outros estados do Nordeste, inclusive na cidade de Angicos, no RN. No início dos anos sessenta, a onda nacionalista que advinha dos movimentos populares contra as investidas do capital internacional na economia nacional, fez eclodir vários movimentos de mobilização popular, dentre os quais se destacam os círculos de cultura popular da UNE (União Nacional de Estudantes). Esse movimento infl uenciou outras iniciativas de educação, como a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, sob a responsabilidade do governo de Djalma Maranhão, na prefeitura do Natal, e o Movimento Nacional pela erradicação do analfabetismo. Por fi m, é interessante ressaltar que a importância das experiências populares não se encontra apenas na sua abrangência (nas massas populares), mas no fato delas terem desenvolvido metodologias de educação e ensino diferenciadas do tradicionalismo academicista que se pauta no que Paulo Freire chamou de “educação bancária”. A expressão assumiu o sentido de depósito de informações, pois não havia contextualização dialógica do conteúdo, o que permitiria a aproximação da compreensão da realidade, principalmente, da classe dos menos favorecidos. No período pós 64, o conceito de educação no Brasil passou por diversas transformações até assumir a conotação desenvolvimentista. Atividade 2 1 2 Aula 3 Fundamentos da Educação 51 Nessa perspectiva, o nacionalismo passou a ser funcional, no sentido de fazer avançar as forças produtivas para consolidar o emergente mercado econômico nacional. E o ideário socioeducacional brasileiro passou a incorporar, de fato e de direito, os direcionamentos fi rmados nos convênios de cooperação internacional para o desenvolvimento do país. Para fechar a abordagem desta aula, queremos concluir com os mesmos indicadores com que iniciamos. Ou seja, oferecendo-lhe um espaço para indagações e refl exões a fi m de que melhor compreenda os intricados caminhos que compõem o universo dinâmico da educação. Aproveite seu entusiasmo pela discussão da educação e da política e comente sua compreensão sobre a importância da política na educação popular. Pelo visto, você já reconhece tanto a infl uência política na educação, interferindo diretamente nas dimensões valorativas que deverão ser desenvolvidas pelas ações educativas, quanto o próprio papel político da educação na formação cultural e social dos indivíduos para o pleno exercício de sua cidadania. Portanto, nada mais justo que você expressar o modelo de “teórico da educação” que imagina como ideal para a formação das nossas crianças e jovens. Disserte, então, sobre o tema a seguir. A importância política da Educação na formação política do cidadão Aula 3 Fundamentos da Educação52 Resumo Aula 3 Fundamentos da Educação 53 Leituras Complementares BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, 1981. Nesta obra, o autor parte do pressuposto de que “ninguém escapa da educação”, para tratar de modo simples e direto questões fundamentais e pertinentes aos processos históricos da educação. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Saber e ensinar: três estudos de educação popular. Campinas: Papirus, 1994. Este livro reúne três estudos de Brandão sobre a educação popular na América Latina e, em especial, no Brasil. O autor aborda questões ainda hoje pertinentes para quem deseja conhecer mais sobre a história da educação. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970. Paulo Freire expressa suas idéias na forma de proposição lógica, dialógica e metodológica para falar sobre o papel do educador e da perspectiva da educação para a classe menos favorecida. Nesta obra, o autor demonstra que o pensar e o ensinar deverão ser trabalhados a partir das vivências e relações oferecidas pela realidade. Nesse sentido, ensinar se identifi ca com tomada de consciência, por quem ensina e por quem aprende. No âmbito da política, seja no campo ou na cidade, houve um crescente movimento em defesa da reconstrução nacional. Os impactos dessas discussões foram sentidos na sociedade, na cultura e na educação a partir do fi nal dos anos cinqüenta, dado o fato do ideário liberal ter atrelado o progresso e o desenvolvimento econômico à elevação da escolaridade da população e dos padrões de educação da sociedade. A dimensão popular da educação foi fortalecida pelas campanhas e pelos movimentos populares. Aos poucos, o movimento de cultura e educação popular passou a ser referência no quadro da discussão do nacionalismo-desenvolvimentista. Na relação política e educação, há vários fatores que se misturam na ampliação dos conceitos de gratuidade e universalização. Entre tais fatores, encontra-se o fato de que, na segunda metade dos anos cinqüenta, a educação foi inserida no pacote dos projetos de desenvolvimento como parte das discussões em torno das questões da industrialização brasileira. Outro fator advém das implicações com o processo migratório do homem do campo para as emergentes cidades, sobretudo, no centro-sul do país. ReferênciasBRANDÃO, Carlos R. Lutar com a palavra. Rio de Janeiro: Graal, 1982. CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1994. CUNHA, Luis Antonio. O golpe na educação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. CURY, Carlos R. Jamil. Comemorado o manifesto dos pioneiros da educação nova /32. Revista Educação e Sociedade, São Paulo: Cortez, n. 12, 1982. CRUZ, Vilma Vitor. Pioneirismo educacional no RN: realidade ou mito? (1960/1984). Natal: UFRN, 1990. (Dissertação de Mestrado em Educação. Programa de Pós-graduação em Educação – UFRN). GERMANO, Willington. Lendo e aprendendo: a campanha de-pé-no-chão também se aprende a ler. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1982. GOIS, Moacir de. De pé no chão também se aprende a ler: uma escola democrática (1961/1964). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. PAIVA, Vanilda Pereira. Paulo Freire e o nacionalismo: desenvolvimentista. São Paulo: Civilização Brasileira, 1980. ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da educação no Brasil. 21.ed. Petrópolis: Vozes, 1998. Autoavaliação Releia e refl ita sobre o que você escreveu no início desta aula acerca da relação entre educação e política e veja se, após ter lido e discutido todo o material, sua opinião mudou. Caso tenha mudado, reescreva nas linhas a seguir seu novo entendimento sobre política e educação. Se você permaneceu com a mesma opinião, discuta-a com seus colegas, veja o que eles também escreveram sobre o assunto e escreva uma das defi nições que você achou interessante. Aula 3 Fundamentos da Educação54 Anotações Aula 3 Fundamentos da Educação 55 Anotações Aula 3 Fundamentos da Educação56 Organizando a difusão dos saberes e das práticas educativas 4 Aula 3 2 1 Aula 4 Fundamentos da Educação 59 Apresentação A partir da segunda metade dos anos sessenta, observa-se que o conceito de educação e cultura no Brasil segue o direcionamento dos organismos internacionais – fi nanciadores – do nosso desenvolvimento. Após a instauração do governo militar (1964), o discurso sobre o desenvolvimento e a necessidade de impulsionar o progresso do país, na perspectiva de transformá-lo em uma grande nação, muda o eixo do nacionalismo, que passa a ser funcional no sentido de fazer avançar as forças produtivas para consolidar o emergente mercado econômico nacional. Assim, o ideário socioeducacional brasileiro passou a incorporar, de fato e de direito, os direcionamentos fi rmados nos convênios de cooperação internacional para o desenvolvimento do país. Objetivos Apresentar a relação entre educação e desenvolvimento como partes de um amplo processo conjuntural. Mostrar que é possível o país se desenvolver economicamente sem investir na universalização da educação e do ensino. Compreender que as conseqüências do processo conjuntural se refl etem nas estruturas econômica, ético- política, social e cultural. Aula 4 Fundamentos da Educação60 Que educação se projeta com o desenvolvimento brasileiro? As transformações pelas quais passaram a política e a economia a partir dos anos cinqüenta provocaram modifi cações na concepção e na destinação da educação, que durante quatro séculos permaneceu praticamente sem mudanças estruturais. Somente na segunda metade do século XX é que se observou o aparecimento de movimentos políticos organizados em defesa da crescente demanda por acesso ao ensino gratuito e de qualidade. Como decorrência das transformações, destacaremos a manifestação política e cultural de movimentos legítimos da sociedade, os quais se projetaram em razão dos níveis de crescimento do país, e, em função das mudanças na base produtiva, notadamente a transformação da produção agrícola, predominante até os anos sessenta, em produção industrial que se consolida como força produtiva predominante a partir dos anos setenta no Brasil. Começaremos nosso diálogo oferecendo elementos contextuais que facilitarão nossa caminhada investigativa. Nesse sentido, lembramos que o Brasil do início dos anos sessenta vivia momentos fortes de tensão política devido ao enfrentamento entre as forças nacionalistas e desenvolvimentistas. O mundo vivia as conseqüências do pós Segunda Guerra Mundial. Em busca dos sentidos e desenvolvimentos da Educação Aula 4 Fundamentos da Educação 61 A economia mundial do pós-guerra encontrava-se subordinada ao desenvolvimento técnico e tecnológico. Nesse contexto, modernizava-se o processo produtivo e a organização do trabalho, ao mesmo tempo em que se alteravam as relações de produção em função da mediação operacionalizada pelas máquinas, incorporada aos setores produtivos e sociais. A justifi cativa gerada e apresentada à população do mundo inteiro foi em torno da necessidade de aceleração dos processos de (re)organização dos países para atender as exigências da nova ordem mundial. A nova ordem mundial transformava a economia de base agrária em coisa do passado. Todas as forças sociais representativas passaram a desejar e defender a industrialização, ainda que entre os partidários houvesse divisões quanto ao controle e à gerência do processo, sob a infl uência predominante do capital nacional ou estrangeiro. O fato é que o processo de industrialização interessava à burguesia nacional, aos empresários estrangeiros, às camadas sociais médias e aos operários. A industrialização signifi cava o desenvolvimento do país e o surgimento de oportunidades em diversos setores da economia com forte possibilidade de realização individual e profi ssional, fosse em dimensões materiais com o consumo de produtos e bens utilitários, fosse em perspectivas sociais, com melhores condições existenciais. Pelo que se anuncia como “a galinha dos ovos de ouro”, a industrialização, que estava apenas se iniciando, ainda seria objeto de amplos confl itos e acirradas disputas políticas e econômicas, pela divisão dos lucros. A esse respeito, Ghiraldelli diz que: No raiar dos anos 60, o Brasil deixou, efetivamente, de ser um país “predominantemente agrícola”. A população urbana começou a ultrapassar a população rural em número. O país passou a contar com um parque industrial diferenciado e muito produtivo. A bandeira da industrialização deixou de unir as forças sociais; o que entrou em jogo foi a disputa pelo controle da divisão de lucros proporcionados pelo processo de desenvolvimento industrial. [...] a burguesia buscou consolidar seu poder, as forças de esquerda, radicalizando a ideologia nacionalista-desenvolvimentista, agitavam a sociedade com novas bandeiras: as célebres Reformas de Base (reformas tributárias, agrárias, fi nanceiras, educacionais etc.), que deveriam democratizar os lucros do processo de desenvolvimento até então conseguido. (GHIRALDELLI JÚNIOR, 2001, p.119). Um dos pontos fortes desse contexto brasileiro, na perspectiva da Educação, foi a aprovação da LDBEN – 4.024 / 61. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1961 pelo Senado, e, em seguida, sancionada pelo Presidente da República, João Goulart. Essa Lei passou aproximadamente treze anos tramitando entre a Câmara e o Senado. Foi objeto de grandes confl itos entre defensores da Educação Tradicional e os favoráveis à implantação dos princípios da Escola Nova. Outra discussão gerada por essa lei ocorreu entre os partidários da educação pública e os partidários da privatização do ensino. A frustração com a aprovação da Lei 4.024/61 pelas forças mais progressistas pautou-se principalmente na perspectiva de que ela teria sido articulada para responder a necessidades de um contexto brasileiro de dimensões políticas e sociais ainda pouco urbanizadas. Uma Aula 4 Fundamentos da Educação62 vez aprovada, não atenderia aos novos anseios de país industrializado. Outra decepção para os progressistas foi o fato de que no texto dessa lei assegurava-se a igualdade de tratamento para os estabelecimentos públicos e privados. A decepção gerada com a aprovação da 4.024/61 favoreceu, entre outras coisas,um amplo movimento alinhando forças nacionais entre os que se intitulavam progressistas e de esquerda com os partidários de uma escola pública de qualidade e de fácil acesso para a ampla maioria da população. Nesse sentido, começaram a surgir por todo o país movimentos e campanhas populares, discutindo e fazendo experiências no contexto da educação. No Brasil, na década de 60, tivemos uma intensa movimentação em torno do tema “cultura popular”. Surgiram Centros Populares de Cultura (CPCs), Movimentos de Cultura Popular (MCPs) e o Movimento de Educação de Base (MEB). Todos preocupados com questões nacionalistas que envolviam discussões sobre a alfabetização e a cultura das classes trabalhadoras e dos menos favorecidos, representantes diretos da cultura não-dominante. Na base teórica e prática desses movimentos, estava implícita a busca por uma dimensão libertadora de educação. Algo que representasse ao mesmo tempo o potencial humano de ler e aprender a conhecer o mundo a partir das lutas e das experiências diárias que davam o sentido maior da própria existência humana; uma teoria educativa gerada com a prática organizativa do povo, em sintonia direta com o movimento de transformação do homem no mundo. O sonho de uma Pedagogia Libertadora torna-se realidade na hábil e inteligente leitura que Paulo Freire faz da relação entre educação e mundo. Percebendo as transformações políticas, econômicas, culturais e sociais no mundo, Paulo Freire procurou construir, via educação, um método que servisse de ponte entre a realização das necessidades básicas do indivíduo e as exigências de compreensão da nova ordem mundial. Nessa perspectiva, nasceu o Método de Alfabetização de Adultos de Paulo Freire, o qual tornou-se uma sólida base para a Pedagogia Libertadora. A construção das bases da Pedagogia Libertadora foi organizada e desenvolvida em torno da idéia de homem como sujeito histórico. A idéia ganharia força à medida que, pela educação, o homem começasse a se perceber no mundo como ser capaz de transformar a realidade na qual se encontrava. Nesse sentido, a educação seria o caminho pelo qual o indivíduo tomaria consciência de sua situação mundana e forjaria uma nova mentalidade. Uma mentalidade que tornasse possível a libertação política, econômica, social e cultural. Uma das bases para a efetivação da Pedagogia Libertadora é o diálogo. Através do diálogo, com o mundo, com o outro e consigo mesmo, o indivíduo poderia organizar melhor sua leitura das transformações na sociedade. O ponto de partida para o diálogo deveria ser a realidade dos indivíduos em comunidade; sua situação de pressão e opressão para a realização de suas necessidades e dos seus desejos. Problematizar o contexto em busca de uma visão crítica da situação vivida torna-se o passo fundamental para organizar o processo de conscientização. Atividade 1 1 2 Aula 4 Fundamentos da Educação 63 Vemos, pois, que os movimentos de educação e cultura popular, no Brasil, procuraram ocupar espaços de inserção no processo de desenvolvimento ao colocar em discussão a situação educacional do país. As discussões possibilitaram o reconhecimento da gravidade do problema pelas autoridades, favorecendo a ofi cialização e o desenvolvimento das campanhas de alfabetização de adultos em todo o país. O referido contexto favoreceu o fortalecimento das ações populares da Igreja Católica, sobretudo na zona rural do Norte e do Amplie suas informações sobre o conteúdo desta aula, pesquisando outras fontes bibliográfi cas sobre os vários sentidos e signifi cados que podem conter os termos educação e liberdade. Apartir das informações da pesquisa realizada na questão anterior e o conteúdo desta aula, escreva um breve comentário sobre o que representa e signifi ca, para você, uma Educação Libertadora. MEC - USAID MEC – Ministério da Educação e Cultura e USAID (United States Agency for International Development). Lei 5.540/68 e 5.692/71 Lei 5.540/68 – criou a departamentalização e a matrícula por disciplina e instituiu o curso em sistema de créditos. Adotou o vestibular unifi cado e classifi catório. A Lei 5.92/71 implementou a profi ssionalização para o ensino secundário. Aula 4 Fundamentos da Educação64 Nordeste brasileiro. O Movimento de Educação de Base (MEB) projetou-se como expressão maior da participação da Arquidiocese de Natal nesses movimentos. Outro destaque foi a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, a qual nasceu de um projeto do prefeito da cidade do Natal, Djalma Maranhão, seguindo princípios do movimento nacional pela erradicação do analfabetismo. Os Movimentos de Educação de Base e a campanha pé no chão também se aprende a ler foram indicadores de uma tendência do poder público em reconhecer a importância e legitimar os movimentos populares de educação. Vemos, pois, que no quadro contextual exposto, a educação passou a ser vista como instrumento de libertação do homem em seu amplo sentido, bem como um meio propulsor de assumir o desenvolvimento e a construção de um novo país. No entanto, como sabemos, essa perspectiva foi interrompida pelo Golpe Militar que ocorreu em 31 de março de 1964 e perdurou por 21 anos no Brasil. O Golpe Militar, como era de se esperar, projetou uma educação nos mesmos princípios em que se fundamentava a formação militarista. No período pós-64, a educação foi reordenada sob inspiração militarista, economicista e desenvolvimentista. Desse modo, o seu conceito passou por transformações e assumiu um direcionamento voltado para a defesa da internacionalização da economia. É bom lembrar que esse redirecionamento pressupõe mudanças de visões de mundo, valores e atitudes individuais e coletivos. No contexto de redirecionamento político, econômico, social e cultural, no qual se insere a educação, é possível perceber o predomínio de uma tendência funcionalista regendo a visão nacionalista, ao valorizar o sentido do fazer-se valer, apenas para as ameaças de impedimento ao avanço do projeto de desenvolvimento das forças produtivas como destaque para consolidar o emergente mercado econômico nacional submetido às orientações externas. Nesse sentido, o ideário socioeducacional brasileiro passou a incorporar, de fato e de direito, os direcionamentos fi rmados nos convênios de cooperação internacional para o desenvolvimento do país. Destacamos nesse período, como mudanças na educação brasileira, além dos doze acordos MEC–USAID, articulados entre o Brasil e os Estados Unidos, através da AID – Agência Internacional de Desenvolvimento. Tais acordos foram, na verdade, articulações políticas entre tecnocratas brasileiros sob o comando de técnicos americanos para atrelar a escola ao mercado de trabalho. Outro destaque no campo da educação foram reformas impostas pelas leis 5.540/68 e 5.692/71. A primeira era dirigida ao ensino superior e a outra dirigia-se ao ensino de 1° e 2° graus, e vieram incorporadas ao projeto de desenvolvimento nacional como prioritário e emergencial. Em seguida, foi criada a Lei 7.044/82 que modifi cou a Lei 5.692, no que diz respeito ao ensino profi ssionalizante para o 2°grau. Enfi m, o registro que se faz no meio acadêmico sobre a educação brasileira, no período ditatorial, é que ela foi um desastre total. Passado o tenebroso período da ditadura, a educação brasileira passou a incorporar novas idéias e valores teóricos e práticos, a fi m de encontrar sentidos mais consistentes para as ações educativas no novo modelo de sociedade que estava sendo confi gurado pelas Aula 4 Fundamentos da Educação 65 articulações políticas e econômicas mundiais. Os teóricos da Educação, ainda imbuídos de uma perspectiva de Escola Nova, passaram a buscar alternativas pedagógicas fora dos modelos tradicionais, mas também sem se fecharem nos princípios liberais. Pretendiam conceber modelos de educação pautados em uma lógica racional de desenvolvimento individual e coletivo. Como o sentido da nova ordem mundialcomeçava a ser atribuído pela ciência e a técnica estava em sintonia com a tecnologia, a educação teria que caminhar próximo a mudanças oferecidas por tais modelos. O resultado foi uma enxurrada de teorias e pedagogias oferecendo interpretações e realizações no campo da educação nas mais variadas tendências fi losófi cas, pedagógicas e psicológicas. Escolhemos algumas tendências pedagógicas para que você tenha uma pequena visão panorâmica das infl uências teóricas e práticas que chegaram até a Educação contemporânea. Nesse sentido, tomaremos como referencial as refl exões feitas por Ghiraldelli Júnior (2001), em sua obra História da Educação. Ao que parece, a base para o surgimento de várias das tendências pedagógicas no Brasil, pós-período ditatorial, continuou sendo os princípios da Escola Nova, ainda que aprofundados e redirecionados em outras perspectivas. Dentre eles, destacamos as influências dos estudos de Jean Piaget, traduzidos e difundidos na perspectiva de uma educação construtivista. O método construtivista de Piaget resguarda-se em interpretações das fases do desenvolvimento cronológico da criança, segundo as quais o professor deverá estar atento ao modo como encaminhar suas atividades educativas. As pesquisas piagetianas contribuíram para aproximar as discussões pedagógicas dos processos científi cos. (GHIRALDELLI JÚNIOR, 2001, p.196). O Tecnicismo foi outra tendência pedagógica que procurou ocupar espaço nas propostas de novos rumos para a educação. Seus princípios estavam vinculados à racionalidade, associados à efi ciência e à produtividade. Tal tendência destacou-se também pela perspectiva de operacionalização didática, sob o nome de tecnologia educacional. Outro teórico a infl uenciar a nova perspectiva de educação que se buscava para o contexto das mudanças brasileiras dos anos de 1960 a 80 foi Célestin Freinet – teórico francês que se destacou na luta Aula 4 Fundamentos da Educação66 contra o tradicionalismo pedagógico e a favor de métodos ativos que proporcionassem às crianças um movimento de conscientização, principalmente das classes populares, semelhante ao que já foi proposto pela pedagogia libertadora. Outras perspectivas que podemos destacar entre os novos rumos da educação brasileira dizem respeito às Associações de Educação, que começaram a despontar pelo Brasil como uma forma de organização e luta pelos princípios democráticos historicamente conquistados antes e depois do golpe aplicado pela ditadura militar. Entre essas associações, destacamos a ANDE – Associação Nacional de Educação, criada em 1979, para defender, entre outras coisas, o ensino público, gratuito, obrigatório, universal, laico e de boa qualidade. Ainda no rol das entidades que foram criadas para refl etir, discutir e propor ações para a educação no Brasil, destacamos o CEDES – Centro de Estudos Educação e Sociedade que, junto com a ANDES, passou a promover a partir de 1980 as Conferências Brasileiras de Educação. (GHIRALDELLI JÚNIOR, 2001). Para fi nalizar, queremos reforçar os objetivos desta aula, no que diz respeito às relações que se apresentam entre educação e desenvolvimento como partes interligadas de um processo conjuntural no qual, a cada dia, fi ca mais visível a interferência da economia nos processos de organização da educação e do ensino. Desse modo, reforçamos nosso importante papel de educadores e educandos de não fi carmos apenas esperando chegar até nós as conseqüências de tal processo conjuntural, deveremos também ocupar nossos espaços e lutar em prol de uma educação e de um ensino de dimensões ético-política, social e cultural mais justas e humanas. Modelo de desenvolvimento Modelo de educação Comentário (uma breve análise comparativa) Atividade 2 1 2 Aula 4 Fundamentos da Educação 67 Faça uma pesquisa sobre os principais movimentos de cultura popular da sua comunidade e escreva um texto descrevendo os aspectos educativos que mais lhe chamaram a atenção. Destaque, nesse texto, palavras-chaves que representaram, de um lado, o desenvolvimento brasileiro e, do outro, o desenvolvimento da educação e faça um pequeno quadro conceitual, comparando a relação entre os dois modelos: o da educação e o do desenvolvimento. Resumo Aula 4 Fundamentos da Educação68 Leituras Complementares 1. GERMANO, José Willington. Lendo e aprendendo: a campanha de pé no chão também se aprende a ler. São Paulo: Autores Associados / Cortez, 1989. O autor investiga a campanha “De Pé no Chão também se Aprende a Ler”, desenvolvida pela Prefeitura de Natal no período compreendido entre fevereiro de 1961 e março de 1964. 2. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. Neste livro, Paulo Freire propõe condições e métodos para que ninguém seja mais excluído ou posto à margem da vida nacional. A proposta fundamenta-se na necessidade de superar o discurso oco e o verbalismo vazio sobre a educação. No contexto de modernização do processo produtivo e da organização do trabalho, alteraram-se as relações de produção em função da mediação operacionalizada pelas máquinas, incorporada aos setores produtivos e sociais. No Brasil, na década de 60, tivemos uma intensa movimentação em torno do tema “cultura popular”. O Movimento de Educação de Base (MEB) projetou-se como participante da Arquidiocese de Natal nesses movimentos. No período pós 64, a educação foi reordenada sob inspiração militarista, economicista e desenvolvimentista. O conceito de educação passou por transformações e assumiu um direcionamento voltado para a defesa da internacionalização da economia. Autoavaliação Refl ita sobre o conteúdo das duas questões anteriores e procure comentar com seus colegas os possíveis argumentos para responder à pergunta que lhe foi apresentada no início desta aula: Que educação se projeta com o desenvolvimento brasileiro? Anotações Aula 4 Fundamentos da Educação 69 Referências BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Saber e ensinar: três estudos de educação popular. Campinas: Papirus, 1986. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. GERMANO, José Willington. Lendo e aprendendo: a campanha de pé no chão também se aprende a ler. São Paulo: Autores Associados / Cortez, 1989. GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. História da educação. São Paulo: Cortez, 2001. Anotações Aula 4 Fundamentos da Educação70 Fundamentos dos saberes e das práticas tradicionais na Educação 5 Aula Objetivos 1 3 2 Aula 5 Fundamentos da Educação 73 Nesta aula, abordaremos elementos teóricos e metodológicos que orientam a aplicação conceitual da educação no processo universal e civilizatório. A dinâmica de construção e desenvolvimento do conteúdo oferecerá uma visão teórica e prática das discussões no campo da Educação, principalmente no que diz respeito às questões de estratégias e adequação do ensino e da aprendizagem às dimensões política e social que compõem a ação educativa. A abordagem aqui retratada está pautada em uma perspectiva dialética, através da qual procuramos ressaltar parâmetros de ensino e aprendizagem que visam à emancipação pela educação. O caráter emancipatório que destacamos como dimensão teórico-metodológica, na educação, pressupõe aplicações das políticas de ensino, em sintonia com o desenvolvimento civilizatório, gerando programas, conteúdos, atividades e interpretações teóricas importantes para a formação política, cultural e social dos indivíduos. Apresentação Demonstrar aspectos teóricos e metodológicos na padronização do ensino. Investigar aspectos da organização das relações de ensino-aprendizagem implícitos nos modelos ocidentais de desenvolvimento. Discutir algumas tendências pedagógicas que visaram estabelecer e conferir parâmetros de qualidade aos programas e conteúdos da formação cultural e social dos indivíduos. Aula 5 Fundamentos da Educação74 Nossa discussão ocorrerá em torno da questão “Por que precisamos da educação?”.Nosso exercício refl exivo caminhará na perspectiva de descobrir os argumentos que justifi cam as estratégias teórico-metodológicas com a fi nalidade de conduzirem da melhor forma a relação ensino-aprendizagem. Entraremos cuidadosamente pelos vários campos dos conhecimentos que interagem na composição dos fundamentos da Educação. Faremos um planejamento estratégico para defi nir o caminho que iremos assumir como pressuposto investigativo, e, a partir da idéia de educação, compreenderemos os desdobramentos teóricos e metodológicos do ato de educar. Para tanto, investigaremos as questões que se entrecruzam no caminho das teorias que difundem os ingredientes para a boa formação dos indivíduos. As respostas encontradas serão reapresentadas na forma de defi nições conceituais, a fi m de percebermos os caminhos percorridos pelas concepções teóricas para acomodar, na Educação, as inquietantes refl exões epistemológicas. Nosso objetivo maior será, de fato, identifi car nos fundamentos da Educação o que dá sentido e representação ao homem no mundo, em meio às relações que comportam transformações entre os dois, homem e mundo. Nessa perspectiva, caminharemos pelas várias faces da educação, discutindo momentos nos quais ela poderá ser concebida como uma constante reconstrução ou reorganização da nossa experiência. Em outros momentos, veremos que de algum modo ela parece operar uma transformação direta na qualidade da nossa experiência cultural. Desse modo, pelas várias tendências da Educação, perceberemos quais os bens culturais que se transformam Por que precisamos da educação? Aula 5 Fundamentos da Educação 75 em forças internas ao educando, através da incorporação dos conceitos e das teorias explicativas em torno dos processos de formação e desenvolvimento humano. Nossa responsabilidade, enquanto educador, é identificar o desdobramento dessa transformação intrínseca à relação ensino-aprendizagem, através da qual se estimula a promoção e a emancipação do homem. Veremos que as teorias e metodologias da Educação, que se apresentam como instrumentos de garantia da promoção e emancipação humana, aparecem, de modo central, no jogo de interesses políticos e econômicos das sociedades, como estratégias para conservar ou transformar valores e princípios de uma determinada tradição cultural. Desse modo, ao perguntar “por que precisamos da educação?”, estamos interessados em saber sobre os conhecimentos habilitados como estratégias de ações pedagógicas, aos quais as teorias e metodologias da Educação se incorporam e, em certo sentido, procuram responder às necessidades e interesses da sociedade, traduzidos em atividades de assimilação, interpretação, compreensão e transformação da realidade. O caminho que seguiremos em nossa abordagem investigativa admite que as teorias da Educação encontram-se em sua maioria revestidas do espírito da democratização para melhor organizar a produção do conhecimento, em ambientes amplamente constituídos por lutas ideológicas. Essa discussão já foi iniciada em aulas anteriores, ocasião em que mostramos que na passarela da Educação desfi lam concepções conservadoras, reacionárias e liberais. Todas elas envolvidas em acirradas disputas pelo controle do saber e dos rumos adotados na formação dos povos, como vias de modelação e adequação dos seus valores às perspectivas de modernização das nações. Nesse sentido, não podemos nos esquivar de enveredar por essas questões, pois é nesse complicado contexto que são geradas as teorias explicativas da realidade e, especifi camente, as metodologias que conduzem e regulam a relação de ensino-aprendizagem. Desse ambiente, surgem políticas para a educação com a função de predeterminar a formação política, cultural e social dos indivíduos, as quais, em sua grande maioria, apresentam fundamentos e pressupostos estruturados em teses e teorias elaboradas fora do país. As teorias e metodologias da Educação buscam, de um modo geral, superar a linha entre o tradicional e o novo. Desse modo, a base da estratégia de superação do tradicional, nas teorias da Educação, apóia-se nos limites de produção do conhecimento de cada época historicamente determinada, mas, também, e principalmente, na perspectiva modernizante oferecida pelas ações pedagógicas visando promover a emancipação humana. Objetivando, pois, compreender os fundamentos da Educação a partir do que dizem e apregoam as teorias e as metodologias do conhecimento, assumiremos a idéia de que o desdobramento, teórico e metodológico do ato de educar, visando a uma boa formação para os indivíduos, deverá levar em consideração a construção do conhecimento e o pleno exercício da cidadania. Por outro lado, vimos anteriormente que o ambiente da educação não é neutro, ou seja, isolado do barulho e das intrigas manifestadas pela ideologia para encobrir ou distanciar o sujeito do conhecimento da realidade. Aula 5 Fundamentos da Educação76 Espera-se, portanto, que as teorias da Educação possam, em certo modo, aprimorar os instrumentos interpretativos da realidade, a fi m de, senão isolar a ideologia, pelo menos compreender suas (más) infl uências no conjunto das ações pedagógicas. De outro modo, sabemos que, em sua maioria, as políticas educacionais são respostas elaboradas em gabinetes que técnicos e políticos, à frente de decisões ofi ciais, procuram dar aos insistentes apelos da sociedade. De outro modo, as políticas de educação, com base em teorias e metodologias que possivelmente deram certo em outros ambientes, são postas à prova e sujeitas a provocações, entre todos os tipos de interesses sociais, políticos e econômicos, nacionais e internacionais. Essa breve introdução aos pressupostos teóricos e práticos das ações educativas ressalta o papel de teorias que, fundamentalmente na Educação, não assumem o caráter de neutralidade na produção do conhecimento. Posto que, tanto na sua elaboração quanto na sua aplicação, os conhecimentos na forma de teorias ou políticas para a educação são concebidos com a fi nalidade de adequar a ação pedagógica aos diversos valores, já constituídos ou em fase de construção, em função dos quais será pensada e instituída uma formação. Desse modo, vale ressaltar a tese que admite a história da educação essencialmente condicionada pela transformação dos valores válidos para cada sociedade. Assim, as teorias e metodologias poderão ser vistas como importantes instrumentos interpretativos e explicativos das diversas modifi cações submetidas à realidade. Reforçamos aqui a importância de pensar e assumir um planejamento para a educação que mostre a aplicação de programas e conteúdos atuando como estratégia de interpretação e superação do conhecimento e dos valores de uma dada época ou estágio civilizatório. Como foi visto, a educação pode ser um importante instrumento de mudanças ou transformações sociais, políticas e culturais, mas, sua estrutura institucional ainda é mantida por teorias e políticas que incorporam papéis específi cos de atuações na formação individual e coletiva dos indivíduos. Sabemos que as diretrizes postas para as ações educativas combinam teorias e metodologias para atingir fi ns ligados aos interesses e ideologias visando controlar ou explorar situações determinadas. No campo das teorias e metodologias, encontraremo-nas selecionadas e divididas em pelo menos dois grandes grupos: tradicionais ou conservadores e liberais ou inovadores. Os educadores que utilizam as teorias tradicionais para direcionar suas ações pedagógicas, no geral, se apresentam como detentores do saber. Encontram-se determinados a demonstrar seus conhecimentos no trato com a informação deixando claro, ao educando, sua autoridade de mestre, a fi m de garantir a formação proposta como meta. A condução das atividades educativas pautadas em teorias tradicionais toma por base a transmissão verbal dos valores e princípios conservadores da moral e da cultura e um dos seus princípios é não alimentara discussão em torno da questão da compatibilidade entre os resultados obtidos e o desenvolvimento do pensamento. Assim, a educação pode ser assumida dentro das políticas que se alimentam das teorias tradicionais, tendo por objetivo trabalhar conteúdos estabelecidos em torno de idéias e ideais que serviram a um passado historicamente determinado. A idéia é que a aplicabilidade de tais conteúdos deverá servir, ainda hoje, para iluminar os confl itos da formação presente. Atividade 1 Pedagogia Tradicional Pedagogia, em seu sentido amplo, pode ser entendida como a metodologia da educação. Ela estuda as situações educativas, seleciona-as, depois organiza e assegura sua exploração. A Pedagogia Tradicional, na perspectiva do ensino-aprendizagem, focaliza fundamentalmente uma longa série de impressões depositadas, pelo professor, no espírito do aluno, de modo a torná-lo um ser passivo de modelação. Aula 5 Fundamentos da Educação 77 Para refletir: A Educação ao mesmo tempo em que deseja compreender a constituição do “Ser Moderno”, pela perspectiva tradicional, reforça a formação do indivíduo pautada em um passado superado, mas, do qual ainda sente orgulho. Agora, comente as questões que seguem. a. Quais os referenciais que temos sobre o “Ser Moderno” possíveis de ser discutidos em sala de aula? b. De qual passado, sob o ponto de vista da educação, poderíamos sentir orgulho? Veremos agora um pouco do modelo de educação através da perspectiva da Pedagogia Tradicional. Aula 5 Fundamentos da Educação78 A Pedagogia Tradicional As teorias e os métodos tradicionais, em certo sentido, se encontram fundados na atividade mental do aluno que é estritamente dirigida pelo professor. Como já vimos, em momentos anteriores da nossa exposição, a aula expositiva e a explicação do conteúdo são desenvolvidos sem a abertura para a intervenção do aluno, com perguntas ou problematização do assunto. É esse o foco e o ambiente principal para a aplicação da metodologia tradicional. A expectativa educacional que se reveste como processo e produto de formação, pela Pedagogia Tradicional, encontra-se posta na possibilidade de modelar, do exterior, o comportamento dos alunos. Ou seja, o aprendizado, estimulado e dirigido pelo professor, repousa suas bases de organização na análise dos conteúdos e na elucidação experimental das difi culdades que ele (o professor) oferece aos alunos. Nesse sentido, lembramos do conteúdo das aulas anteriores e percebemos que as teorias e metodologias tradicionais, na Educação, assumem e desenvolvem uma concepção intelectualista, possivelmente herdada dos jesuítas. Isso porque sua dimensão de aprendizagem está pautada na redução de um ensino que se limita a transmitir ao aluno certas noções conceituais apoiadas numa tradição cultural, que não o estimula a construir por si mesmo seus conceitos. Vemos, pois, que a Pedagogia Tradicional reivindica um sentido mais forte e rigoroso para o processo de formação dos indivíduos, defende a tese de que ao mestre cabe transmitir o conhecimento, porque ele sabe, e ao aluno cabe apenas a obrigação em adquiri-lo, porque ignora. Com esses ingredientes, os adeptos da postura tradicional acreditam que é possível garantir uma educação de qualidade. Veremos agora alguns ilustres teóricos e seus respectivos métodos de aplicação da postura tradicional na educação, ainda que com pequenos ajustes acadêmicos e institucionais para efetivar de modo mais consistente o método em questão. Tomaremos como referência informações oferecidas por Louis Not (1981), em seu estudo sobre as pedagogias do conhecimento. A Pedagogia Tradicional em Durkheim (a sociedade no centro) Durkheim adotava como referência principal para suas investigações sobre os fatos e as relações sociais uma idéia de sociedade forte, que predomina nos processos de organização, formação e adequação dos indivíduos nos diversos níveis de relações. Segundo Louis Not, para Durkheim, “o indivíduo está para a sociedade assim como a célula está para um organismo vivo de estruturas complexas. [...] O homem só pode ser feliz numa sociedade que lhe impõe normas e obrigações.” (NOT, 1981, p.40). Percebe-se, pois, na teoria social de Durkheim, o papel central que o conceito de sociedade exerce sobre os demais. Isso porque ele assume a idéia de sociedade como a construção de Aula 5 Fundamentos da Educação 79 um modelo de formação e desenvolvimento humano. Daí que, para Durkheim, cada sociedade constrói o modelo de que necessita para cada fase do seu desenvolvimento. Neste momento, poderemos nos perguntar: como de fato é possível a construção desse modelo de formação? Onde se encontram os princípios e os instrumentos ordenadores dessas fases de desenvolvimento? Ora, responderá Durkheim, a resposta para essas perguntas nós encontraremos na educação. Ela é a responsável pela ação que as gerações adultas exercem sobre as crianças e os jovens, com a responsabilidade de formá-los para a vida social. [...] trata-se de enxertar neste ser natural (a criança) um ser social conforme o modelo defi nido pelas aspirações e necessidades da sociedade. [...] É preciso realizar o homem tal qual a sociedade quer que seja. [...] A educação cognitiva se inscreve no processo de transmissão de geração a geração e se atualiza de indivíduo a indivíduo. Os mestres são os delegados da sociedade; [...] O ensino visa inserir o aluno no movimento para frente caracterizado pelo conhecimento, mas a princípio tudo vem do mestre, que transmite o saber já constituído em tradição. (NOT, 1981, p.40). A Pedagogia Tradicional na ótica de Alain (o homem no centro) Vimos com Durkheim que o ato de educar sob o prisma da Pedagogia Tradicional reforça a perspectiva social, ou seja, a educação constituída a partir do que a sociedade deseja e planeja como desenvolvimento humano. O próprio Not (1981) nos oferece outra dimensão de educação, ainda sob a mesma base pedagógica, a visão tradicional, mas, com outro olhar sobre o ato de educar. Estamos nos referindo às propostas de educação defendidas pelo pensador francês Alain. Segundo Not (1981), Alain destaca uma dimensão de educação, na qual o conceito de homem e sua respectiva formação aparecem como elementos fundamentais para o desenvolvimento e progresso social. Para Alain, o homem, por ser um ser pensante, deverá ser o referencial maior de liberdade e progresso social. Para esse autor, nem a cultura nem a verdade, tampouco a virtude, são possíveis de se transmitir. Nesse caso, Alain está propondo substituir a transmissão do mestre pela atividade do aluno. Na verdade, o autor em questão está querendo destacar a necessidade de explorar as vias internas da experiência individual como uma força pela qual o indivíduo deverá se realizar enquanto ser. É a experiência dos signos que Alain está nos sugerindo como caminho de construção do pensar e do conhecimento consistente. Nesse caso, o saber na Pedagogia Tradicional ganha uma nova dimensão: a do saber fazer. Vejamos as propostas de Alain para a educação. Aula 5 Fundamentos da Educação80 [...] Toda a arte de instruir é fazer com que a criança se esforce e se eleve ao seu estado de homem. [...] A criança está descontente com seu estado; quer ser adulta, quer ser educada: ela lhe agradecerá por tê-la forçado, o desprezará por tê-la mimado. [...]. Uma classe onde o mestre se cala e onde os alunos lêem, escrevem ou recitam é uma boa classe. Mas o mestre é indispensável, pois, ao se trabalhar sem mestre, as tentativas terminam precisamente onde o trabalho deveria começar. [...]. O mestre ideal deve ser sem coração. A grande tarefa do mestre é dar à criança uma elevada idéia do seu poder e sustentá-la com vitórias. Repetir e fazer repetir, corrigir e fazer corrigir, este é seu papel mais freqüente. Tudo isso sem demonstrar a menor afeição, o menor amor pelo seu aluno. (NOT, 1981, p. 46-53). Assim, como conclusão parcial, podemos dizer que existe uma percepçãogeral de que o movimento educacional em todos os tempos tenta dar uma direção às ações do pessoal envolvido no processo de ensino e educação, a fi m de que possam melhor formar os indivíduos para o convívio em sociedade. Leituras Complementares RODRIGUES, Neidson. Da mitifi cação da escola a escola necessária. São Paulo: Cortez / Autores associados, 1988. Uma obra simples, de leitura leve e instigante que nos conduz por caminhos históricos e complexos da educação. Nela, o autor aborda vários discursos ideológicos com os quais a escola conviveu e ainda convive como perspectivas “ilusórias” de mudanças. OZMON, Howard A.; CRAVER, Samuel M. Fundamentos fi losófi cos da educação. Porto Alegre: Artmed, 2004. Uma obra de grande porte teórico, na qual encontramos uma leitura crítico-refl exiva sobre as principais tendências da Educação que, em algum momento histórico, representaram ou ainda representam vias fundamentais de formação dos indivíduos. Resumo Aula 5 Fundamentos da Educação 81 Referências NOT, Louis. As pedagogias do conhecimento. São Paulo: Difel, 1981. OZMON, Howard A.; CRAVER, Samuel M. Fundamentos fi losófi cos da educação. Porto Alegre: Artmed, 2004. SAVIANI, Dermeval et al (Org.). História e história da educação: o debate teórico-metodológico atual. Campinas: Autores Associados, 2000. RODRIGUES, Neidson. Da mitifi cação da escola a escola necessária. São Paulo: Cortez / Autores associados, 1988. Apresentamos vários campos dos conhecimentos que interagem na composição dos fundamentos da Educação. Compreendemos de um modo geral como ocorrem os desdobramentos teóricos e metodológicos do ato de educar. Pelo caminho investigativo, percebemos que as teorias da Educação se revestem do espírito da democratização para organizar a produção do conhecimento em um ambiente amplamente constituído de lutas ideológicas. Vimos, nas leituras anteriores, que na passarela da Educação desfi lam concepções conservadoras, reacionárias e liberais, em acirradas disputas pelo controle do saber e dos rumos adotados na formação dos povos, como vias de modelação e adequação de valores às perspectivas de modernização das nações. Autoavaliação Identifi que, no contexto educativo em que você está inserido, práticas e ações educativas que se confi gurem como perspectiva tradicional (pode fazer referencia às ações educativas que são projetadas na sua comunidade, no seu município, na sua sala de aula). Acrescente a essa identifi cação um breve comentário crítico- refl exivo sobre os reais alcances e implicações da Teoria Tradicional para a educação contemporânea. Anotações Aula 5 Fundamentos da Educação82 A Educação e as exigências do mercado 6 Aula 2 1 Aula 6 Fundamentos da Educação 85 Apresentação Nesta aula, veremos como a transformação do processo produtivo, e da economia, infl uencia as transformações sociais e, particularmente, a educação e o ensino. Tratar da modernidade da educação e das transformações do ensino é trabalhar na perspectiva de se adequar o sistema educacional às exigências do mercado, sem, contudo, perder de vista a formação dos indivíduos na sua totalidade. Veja que a educação e o ensino, inseridos em uma estrutura econômica e em um contexto social regidos pela mediação da maquinaria, não podem prescindir de uma formação que permita aos indivíduos integrarem-se a essa conjuntura e acompanhar de modo crítico e refl exivo as mudanças que nela ocorrem, a fi m de que tenham uma melhor compreensão das mudanças e da estrutura na qual esses indivíduos se inserem. Objetivos Compreender como ocorreram as transformações na educação e no ensino-aprendizagem na contemporaneidade. Perceber as conseqüências decorrentes das mudanças suscitadas pelo processo de modernização no contexto social e educacional. Aula 6 Fundamentos da Educação86 Pressupostos das mudanças culturais e sociais Antes de tratarmos diretamente das transformações na educação e no ensino brasileiro, torna-se necessário voltarmos um pouco no tempo para que você compreenda a origem de tais mudanças e possa acompanhar suas implicações. Perceba que o avanço, ou progresso, observado no mundo após a II Guerra Mundial, notadamente nos países do hemisfério norte, deveu-se, em grande parte, ao desenvolvimento de instrumentos técnicos e tecnológicos ligados à logística e às estratégias de guerra, como a fabricação de artifícios bélicos, por exemplo. É bom você atentar para o detalhe de que na literatura específi ca são muitos os estudiosos que consideram tais fatores como o motor que gerou todo o desenvolvimento técnico e científi co observado no século XX. Nesse sentido, a tecnologia é vista como processo contínuo de aperfeiçoamento, o que acabou infl uenciando o mercado industrial emergente e carente de inovações. Desse impulso técnico e científi co, agora com o apoio do mercado fi nanceiro, desencadearam-se as mudanças sociais e educacionais com alterações nos costumes, na moral, na ética, na estética e no modo de vida dos indivíduos e grupos sociais. O sentimento de euforia, aliado às mudanças de comportamentos, hábitos e atitudes, provocou no seio das estruturas sociais, da mais tradicional a mais moderna, um outro sentimento – o de progresso não somente econômico, mas também sociocultural. Assim, observe que a partir da segunda metade do século XX, as sociedades, antes regidas pela idéia Atividade 1 Aula 6 Fundamentos da Educação 87 de harmonização dos indivíduos a partir de valores familiares, éticos e morais alicerçados em princípios religiosos, sobretudo cristãos, passaram a se pautar pela laicidade, liberdade de pensar, de agir e, principalmente, de escolher. A partir desses acontecimentos, a educação, que até então era vista como meio da promoção humana e integração dos indivíduos às estruturas sociais, sofreu infl uências que provocaram mudanças signifi cativas nos processos metodológicos de ensino e aprendizagem, a fi m de atender as demandas sociais de uma educação mais fl exível, livre e libertadora para os indivíduos. Agora, você já tem uma idéia de como e por que a revolução conceitual da educação passou a incorporar e acompanhar as mudanças que se operavam nas estruturas econômicas, políticas e socioculturais. Assim, visando lhe estimular a ampliar seus conhecimentos sobre os acontecimentos do período em questão, sugerimos a atividade seguinte. Faça uma pesquisa bibliográfi ca a fi m de identifi car e caracterizar os elementos históricos do desenvolvimento no período anterior e posterior à II Guerra Mundial, destacando, sobretudo, fatores técnicos e científi cos que estiveram por trás das mudanças de direção na produção das mercadorias e na base econômica. Aula 6 Fundamentos da Educação88 Transformações e adequações do ensino ao mercado A educação recebeu e continua a receber várias denominações, como vimos nas aulas anteriores: conservadora, bancária, elitista, nova, inovadora, democrática e antidemocrática etc. Todas essas denominações, via de regra, estão associadas às direções políticas da educação nacional e das formas de organização escolar que se difundem em determinadas conjunturas, bem como às críticas advindas dos teóricos e dos movimentos organizados da sociedade. Tratando especifi camente do processo que, de certa forma, revolucionou a educação brasileira e de suas conseqüências no processo de ensino-aprendizagem, verifi camos que a educação evoluiu da concepção associada à natureza física para a concepção associada aos relativismos econômico, político e sociocultural-afetivo. Você, neste momento, deverá estar se perguntando: o que, de fato, signifi cou essa tal “revolução” na educação? Em que medida a mudança de concepção da educação infl uenciou na formação dos indivíduos? Vejamos, então, como se deu essa evolução. Pesquisando obras de autores como Rousseau, Freinet ou entendendo a prática de Maria Inez Cavalieri Cabral, será mais fácil compreender processos signifi cativos dessasmudanças. Por exemplo, no pensamento de Jean Jacques Rousseau podemos identifi car três Aula 6 Fundamentos da Educação 89 distinções que ele faz da educação, quais sejam: natureza, homens e coisas, para as quais ele estabelece uma hierarquia. [...] Esta educação nos vem da natureza, ou dos homens ou das coisas. [...] Ora, dessas três educações diferentes, a da natureza não depende de nós; a das coisas só em certos pontos depende. A dos homens é a única de que somos realmente senhores [...] Tudo o que se pode fazer, à força de cuidados, é aproximar-se mais ou menos da meta, mas é preciso sorte para atingi-la. (CABRAL, 1978, p. 14). Que meta seria essa apontada por Rousseau? Aqui, devemos refl etir um pouco mais sobre o pensamento do autor acerca da educação. Cabral nos mostra que nas teses de Rousseau é possível identifi carmos ainda outras distinções, quando afi rma que: “Um pai, quando engendra e alimenta seus fi lhos, não faz nisso senão o terço de sua tarefa. Ele deve homens à sua espécie, deve à sociedade homens sociáveis, deve cidadãos ao estado”. (CABRAL, 1978, p. 14). Ora, podemos ver que os ingredientes colocados nessa defi nição vão além da simples capacidade reprodutiva dos seres humanos, pois o homem é separado da natureza, o indivíduo separado do ser social, assim como a responsabilidade individual é separada da responsabilidade do Estado. Essas observações permitiram a Cabral (1978) refl etir sobre os elementos que tornam os homens capazes de viver em sociedade, destacando-se dentre eles a educação. Daí, a autora concluir que “[...] o objetivo da educação é primeiramente a formação de homens, independentemente de qualquer sociedade e de todo e qualquer estado ou País” (CABRAL, 1978, p. 14). A partir dos pressupostos colocados por Rousseau, considera-se que o processo educacional se conduz no sentido de não mais ver o homem na sua condição de ser individual, mas de ser social que estabelece relações com os outros seres e com o Estado. Esse entendimento se amplia à medida que se multiplicam os conceitos e entendimentos sobre as liberdades individuais, a livre expressão e o combate aos preconceitos e discriminações de raça, cor, sexo, status econômico e social. A história nos mostra que em períodos de compreensão das liberdades, em geral, os movimentos de vanguarda (geralmente composto por intelectuais, pintores, músicos, compositores etc.) assumem a defesa dos desfavorecidos de bens sociais, dentre os quais, destaca-se o sistema formal de ensino. Ao que sabemos, o processo revolucionário de uma estrutura ou sistema manifesta-se pela sua própria transformação, dentro de uma dinâmica natural, ou provocada por fatores de ordem econômica, política e social. A revolução da educação e do ensino no Brasil vem acompanhando o processo de desenvolvimento do país. Portanto, embora se falasse em modernidade desde a segunda metade dos anos cinqüenta, esse ideário se fez presente, de fato e de direito, na segunda metade dos anos sessenta e, mais efetivamente, a partir dos anos setenta. Por sua vez, o Estado passou a direcionar as ações na área da educação, no sentido de modernizá-la de fato, propondo iniciativas e estimulando fi nanceiramente as mudanças. O otimismo da modernização educacional só foi confrontado com os dados da realidade que Aula 6 Fundamentos da Educação90 davam conta do declínio econômico e social passada a euforia do milagre brasileiro. Cruz, no seu estudo sobre o pioneirismo educacional no Rio Grande do Norte, diz que: [...] Politicamente o governo passa a conviver com sinais de reação da massa, pelo fato de ter assumido a proteção e o benefi ciamento ao grande capital, em detrimento do restante do conjunto da sociedade. O empobrecimento generalizado que se observava junto aos assalariados vai redundar no descontentamento com o governo e na tentativa de organização dos movimentos populares, esvaziados no pós – 1964. (CRUZ, 1990, p. 32). Portanto, o que se observou, de fato, foi uma tentativa de modernização a partir das orientações internacionais que se chocavam com os níveis de desenvolvimento econômico, social, cultural e político do país. Nesse quadro, o governo edita o I e o II Plano Nacional de Desenvolvimento e, neles, a educação aparece como uma das responsáveis pela transformação social e plena realização humana. Como decorrência, o governo federal, ao fi nal dos anos setenta, editou o Programa de Expansão e Melhoria do Ensino Médio (PREMEM) e o Programa de Assistência aos Municípios (PAEM); e, no início dos anos oitenta, o Programa de Ações Socioeducativas e Culturais para as Populações Carentes (PRODASEC/ URBANO e RURAL). No II PND, a ênfase recaiu sobre: questões energéticas, equilíbrio da balança de pagamentos, controle da infl ação, incentivos à produção agrícola e aumento das exportações. Como se observa, o direcionamento desse plano é mais econômico do que social, embora ele não deixe de se referir e de refl etir uma preocupação com o crescimento das cidades e da população de baixa renda, assim como com a marginalidade social, o analfabetismo e a baixa qualidade de vida da maioria da população. Como vemos, a modernização da educação nacional está submetida aos níveis de desenvolvimento estabelecidos para o país. Agora, vamos enveredar um pouco mais pelos caminhos refl exivos, procurando estabelecer relações entre o conteúdo teórico desenvolvido até o momento e os elementos do seu universo vivido, de sua história construída. Atividade 2 2 1 Aula 6 Fundamentos da Educação 91 Refl ita sobre as idéias de Rousseau que foram apresentadas nesta aula, relacione-as à sua compreensão acerca de educação e procure responder às seguintes questões. a) Que educação vem da natureza? b) Que educação vem do homem? c) Que educação vem das coisas? Identifi que e descreva, sucintamente, algumas mudanças sociais, políticas e de comportamento que você conhece, ocorridas no mundo e no Brasil, nas décadas de 50, 60 e 70 do século XX. Ações políticas para modernizar a educação brasileira Continuando nossa caminhada investigativa, veremos que a modernização da educação nacional passou todo o período da ditadura militar sob forte retórica de alavanca do progresso econômico, transformações sociais e meio de ascensão social, mesmo que os resultados nessa área tenham sido tímidos e as políticas altamente contraditórias. [...] Apesar de todos os presidentes que se sucederam no poder no pós-64 terem colocado a educação como prioridade, o que se observou foi, a exemplo de outras áreas sociais, um reforço ao processo de discriminação e exclusão social das populações pobres. Negando-lhes, de um lado, o saber adquirido na convivência e na luta pela sobrevivência e, de outro, o acesso à instrução formal, à aquisição do saber letrado, forma dominante no mundo moderno. Condenou-os ao analfabetismo, à marginalidade social, aproveitando-se de diferentes formas para manipulá-las, criando laços de dependência política, econômica e cultural. (CRUZ, 1990, p.134). A gravidade da situação educacional e a falta de políticas públicas efetivas para dar conta das necessidades do sistema conduzem o governo a abrir mão da responsabilidade constitucional, de prover o ensino público e gratuito, o que abriu espaço para que a iniciativa privada se instalasse no mercado, invertendo-se assim a tendência do campo educacional de área prioritariamente fi nanciada pelo poder público para mercado educacional, no qual quem tem condições compra o serviço. Aula 6 Fundamentos da Educação92 Vemos, pois que o sistema educacional passou a ser regido pela iniciativa privada. Nesse sentido, mais uma vez, Cruz nos oferece importantes indicadores. [...] Esse fato evidencia-se quando se constata que a rede pública cresceu nesse período (1968–1973), em torno de 210%, enquanto a rede privada cresceu em torno de 410%, na maioria dos casos com subsídios do governo, advindo dos fundos públicos. Aí está embutidoo direcionamento da educação nacional, numa perspectiva privatizante, como uma mercadoria sujeita às leis de mercado. De um serviço público essencial, a educação passa a ser tratada como investimento e o homem a ser visto como um produto. (CRUZ, 1990, p. 111). A modernidade da educação e do ensino no Brasil veio de fato com os princípios da teoria do capital humano – racionalidade, objetividade, produtividade, efi ciência e efi cácia. Postulados esses de que o Estado brasileiro deveria dar conta, sob pena de fi car isolado no atraso e conservadorismo das forças atuantes na estrutura econômica, política e social. Agora que já temos elementos sufi cientes para compreender melhor a atualidade da educação nacional, podemos nos deter no seu caráter modernizante para fi nalizar nossa discussão sobre os processos revolucionários da educação e do ensino. A partir da década de oitenta, e, particularmente, na década de noventa, a discussão em torno da modernidade da educação avançou, empurrada pela modernização de setores de ponta do processo produtivo, incorporando-se ao avanço tecnológico e à globalização da economia. O setor educacional ressente-se da ausência efetiva de políticas públicas para o ensino em todos os níveis. Diferentemente dos anos setenta e início dos anos oitenta, em que fi nanceiramente o Ensino Superior foi alimentado para atender a demanda do mercado em ascensão, o período subseqüente viu desaparecer os recursos. Os incentivos vieram submetidos a um aumento de competência técnica e educacional, sobretudo na pesquisa em nível de terceiro grau. Esse fato foi determinante para que a iniciativa privada se fi xasse no mercado, sendo majoritariamente o detentor das vagas na atualidade. Em relação ao declínio do Ensino Superior público no Brasil e o aumento de oferta na iniciativa privada nos anos oitenta, a Ministra da Educação Eunice Duran justifi ca, segundo Cruz, da seguinte maneira: O número de excedentes criou um mercado propício à iniciativa privada, que cresceu de forma acelerada neste período, tanto em termos absolutos como relativos, passando de 45% a 65% do total das inscrições [...] O Estado reconhece dessa maneira que há um processo de privatização em curso e que este não existe controle. Justifi cando ainda os motivos dessa falta de controle ela diz que [...] a aceleração do processo de privatização do setor educacional não pode ser interpretada simplesmente como o resultado de uma política deliberada de privatização, pois é inegável que existe um aumento dos investimentos para ampliação do setor público. Mas a restrição de inscrições imposta pelo modelo de universidade voltada para a pesquisa tornou os investimentos insufi cientes para responder as demandas, portanto, a restrição das inscrições foi legitimada em função da necessidade de seleção de candidatos bem preparados. (CRUZ, 1990, p. 268). Como vemos, o processo de seletividade do ensino público continuava, enquanto a iniciativa privada recebia os alijados desse processo. Outro fator importante a considerar Aula 6 Fundamentos da Educação 93 Aula 6 Fundamentos da Educação94 na fala da ministra é o fato de que o Ensino Superior voltado para a pesquisa é caro, mas a questão é saber: como modernizar a educação sem incorporá-la à norma dominante nas estruturas modernas? O desenvolvimento técnico, científi co e tecnológico que se encontra na base dessas estruturas, as quais são os pilares dos sistemas de base da economia, é também o motor da modernização das instituições sociais em que se encontra a educação formal. Ora, se é ela a instituição que cumpre papel importante de formar as gerações para atuarem tanto no setor produtivo como no social, torna-se impossível não conduzi-la nessa estrutura na perspectiva de uma educação técnica e científi ca. Isso em grande medida pressupõe estudos e pesquisas, meios pelos quais é possível garantir organizações em níveis burocrático, industrial, comercial e fi nanceiro. Desse modo, assegura-se a efi ciência das descobertas de novos materiais e processos de organização do trabalho e da vida, bem como se legitimam os processos e as inovações. A educação nacional passou toda a transição da ditadura militar para a democracia tentando superar o tempo perdido, pois o avanço da economia em perspectivas globais, regidas pelo desenvolvimento técnico e tecnológico, não podia esperar que o Brasil fi zesse as reformas de base, modernizasse as estruturas econômicas e sociais para serem incorporadas à nova ordem mundial. Os estudos desse período apontam que somente no fi nal do século XX é que ocorre um esforço governamental maior de modernização do sistema de ensino, incentivando a formação e qualifi cação docente, assim como investindo em infra-estrutura, melhoria do espaço físico de algumas escolas e provendo-as com acervo bibliográfi co e kits tecnológicos (TV, vídeo e laboratórios de informática), o que, diga-se de fato, vem provocando uma mudança signifi cativa no modo dos professores ensinarem e dos alunos aprenderem. Leituras Complementares Você pode complementar essa discussão e aprofundar seus conhecimentos sobre a modernização da educação nacional lendo as obras referenciadas a seguir. Nelas, encontrará com mais detalhes as mudanças e os direcionamentos políticos que regem a educação nas últimas três décadas no país. BUARQUE, Cristovam. O colapso da modernidade brasileira. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1991. Nesta obra, o autor analisa, dentre outras coisas, a evolução do Brasil em sua fase mais recente e nos oferece o retrato de uma modernidade que entrou em colapso. Resumo Aula 6 Fundamentos da Educação 95 GERMANO, José Willington. Estado militar e educação no Brasil (1964/1985). São Paulo: Cortez / Editora da UNICAMP, 1993. O autor desenvolveu essa temática destacando o hiato que existe entre o momento da elaboração e o da implementação das políticas sociais, nas quais se inclui a educação. SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. São Paulo: Cortez, 1986. O autor, nesta obra, discute implicações sociais, políticas e culturais que se manifestam nos confl itos educacionais a partir das questões inerentes aos fundamentos e à evolução de uma educação pautada nos princípios e na prática da democracia. Nesta aula, aprofundamos a discussão que vínhamos desenvolvendo sobre a educação nacional, agora em relação ao caráter modernizador e revolucionário do processo educacional e do ensino. Vimos que as transformações não ocorrem a partir do pensamento de mentes brilhantes, elas ocorrem a partir da dinâmica das estruturas econômicas, políticas e sociais. Nesse processo, entra em jogo os interesses dos grupos e as contradições sociais. É importante observar que a educação não se transforma em função única e exclusivamente da elevação do espírito humano. Autoavaliação Como estudante, você já passou por várias etapas do sistema de ensino, certo? Portanto, está apto a identifi car, comparar e comentar os diferentes níveis de ensino de ontem e de hoje. Faça, pois, seu comentário procurando destacar em que aspectos a educação se modernizou. Anotações Aula 6 Fundamentos da Educação96 Referências CABRAL, Maria Inez Cavalieri. De Rousseau a Freinet: ou da teoria à prática: uma nova pedagogia. São Paulo: Hemus, 1978. CRUZ, Vilma Vitor. Pioneirismo educacional no Rio Grande do Norte: realidade ou mito? (1960/1984). Natal: UFRN, 1990. (Dissertação de mestrado – Programa de Pós-Graduação em Educação). CRUZ, Vilma Vitor. Rationalité technologique et modernization de l’éducatio: le cas du Brésil (1964/1984). CAEN: Université de Caen/França, 1998. (Tese de Doutorado). CUNHA, Luiz Antônio; GÓIS, Moacyr. O golpe na educação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. DURKHEIM, Émile. Educação e sociologia. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1978. FALCON, Francisco José Calazans. Iluminismo. São Paulo: Ática, 1989. (Série princípios). ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social e outros escritos. Tradução deRolando Roque da Silva. São Paulo: Cultrix, 1989. Anotações Aula 6 Fundamentos da Educação 97 Anotações Aula 6 Fundamentos da Educação98 Cultura tecnológica e Educação 7 Aula 3 2 1 Aula 7 Fundamentos da Educação 101 Seguiremos como orientação, nesta aula, o movimento de expansão do desenvolvimento técnico-científi co como continuidade do processo de modernização ocidental. A referência para discorrer sobre as questões inerentes à educação contemporânea serão os fatores ideológicos, já discutidos nas aulas anteriores, e as evidências de uma possível ruptura entre os modelos de educação tradicional e uma perspectiva de educação tecnológica, exigida pelas transformações econômicas como instrumento da modernização. Na seqüência, você terá contato com as questões conceituais da interface educação- tecnologia, procurando delinear confi gurações dos processos educativos na perspectiva dos conhecimentos técnicos, científi cos e numa dimensão formadora fomentada pela esfera econômica. Veremos, também, que a dimensão educativa, com base na tecnologia, representa uma forte parceria entre vários setores das esferas política e econômica para compor uma trama cultural (e tecnológica), cuja função é acomodar confl itos de ordem política, social e cultural, a fi m de solidifi car as bases do sistema capitalista contemporâneo. Objetivos Apresentar o movimento de expansão do desenvolvimento técnico-científico, no contexto de modernização da educação. Abordar questões inerentes à educação contemporânea que oferecem evidências de ruptura com os modelos de educação tradicional em função de uma educação tecnológica. Destacar questões conceituais que estabelecem a interface educação-tecnologia, interferindo nas confi gurações dos processos educativos. Apresentação Aula 7 Fundamentos da Educação102 Cultura tecnológica e conhecimento Numa breve referência à composição da cultura tecnológica contemporânea, veremos a Ciência ocupar papel de destaque no processo e produto do conhecimento. Enquanto produto, observe que ela reforça seu papel na atual sociedade ao se mostrar como caminho seguro, teórica e metodologicamente, para produzir resultados explicativos e racionais na forma de bens de consumo. Enquanto processo, a Ciência respalda-se na identidade racional do sujeito que conhece para fundamentar suas explicações através dos caminhos investigativos, articulados na forma de estratégias da racionalidade para melhor compreensão do homem e do mundo, assim como das várias relações que se estabelecem entre ambos. Neste caso, conhecer, explorar e experimentar são atributos da nossa natureza interna enquanto indivíduos, cultivados como fundamentos do espírito científi co e, portanto, incorporados como componentes da cultura tecnológica. O raciocínio lógico e metodológico que se organiza em prol do conhecimento científi co, na maioria das vezes, visa desfazer confusões interpretativas de natureza religiosa ou de senso comum, ao explicar a dinâmica relação homem-mundo. E a educação formal é o caminho mais indicado para a construção e a evolução desse modo de ver e compreender o mundo e o homem em suas várias manifestações. De outra forma, o que estamos querendo dizer é que a Ciência, no modelo descrito anteriormente, alimenta a Educação como via interpretativa para assegurar ao sujeito a formação teórica e o caminho metodológico para compreender a dinâmica dos processos Processo civilizatório Essa expressão é empregada aqui com o sentido de infl uência da cultura ocidental nas outras culturas, impondo seu nível de tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científi ca ou sua visão de mundo (a esse respeito, ver ELIAS, Norbert. O processo civilizador. v.1. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. p. 23). Aula 7 Fundamentos da Educação 103 de transformação. Por outro lado, sabemos que a educação, de um modo geral, não assegura essa formação científi ca e tecnológica, principalmente por sofrer interferências do nível ideológico. A Ciência como referência de conhecimento seguro e confi ável necessita para tal de um sujeito “bem educado”, no sentido formal do termo escolarizado, metodicamente organizado e criterioso no desejo de conhecer e assumir os moldes rigorosos que determinam e orientam a investigação científi ca. Por outro lado, apontamos como conseqüência da ênfase demasiada nos métodos e resultados da Ciência a possibilidade de uma certa manipulação das informações com outros fi ns divergentes do bem coletivo. A esse respeito, podemos dizer que a ocorrência do desvio das “boas intenções” do pesquisador deve-se ao fato de ele não ter conseguido sua autonomia na relação direta que existe entre conhecimento e poder. Tal relação encontra-se, na maioria das vezes, mediada pela perspectiva ideológica, ou seja, por jogos de interesses que desviam os resultados científicos dos fins coletivos para fins particulares. Por isso, uma relação saudável de produção do conhecimento pode esconder no seu íntimo interesses políticos e econômicos que posteriormente serão traduzidos em exigências sociais e culturais e apresentados à sociedade contemporânea, como bens de consumo. Desse modo, o que podemos dizer de uma cultura tecnológica cujos rumos são regidos pelos resultados científi cos? Como identifi car e reter os avanços degradantes da ideologia, se ela mesma é quem se encarrega de diluir os contornos do que pode ser identifi cado como cultura tecnológica? E o que resta ou está a cargo da Educação? Será que, com a responsabilidade e a criatividade dos nossos educadores, ainda seremos capazes de projetar na sociedade contemporânea indivíduos éticos, comprometidos com o coletivo? Essas questões representam implicações signifi cativas para os caminhos contemporâneos da racionalidade humana por interferirem no conjunto dos instrumentos do conhecer, que, por sua vez, impulsionaram o “avanço” estratégico dos processos de produção que redefi niram o comportamento e a postura dos indivíduos até a sociedade contemporânea. Com isso, estamos querendo dizer que a cultura tecnológica que cultivamos hoje é resultado dos níveis de relações que historicamente se apresentaram como caminhos interpretativos nos diversos estágios do processo civilizatório. Tais estágios se desenvolveram na medida e na proporção da projeção das idéias, teorias e conhecimentos que se identifi caram como modeladores de comportamentos. Os modeladores a que nos referimos nada mais são do que um conjunto de idéias predominantes, organizadas por meio dos produtos e processos da aprendizagem, que, de forma direta ou indireta, interferiam na estruturação do contexto social e se mostravam como resultado dos confl itos de interesses dos grupos mais articulados. Atividade 1 2 1 Aula 7 Fundamentos da Educação104 Faça uma lista dos instrumentos técnicos e tecnológicos (dos mais antigos aos mais novos) que você considera indispensáveis no processo educativo. Como você defi ne a expressão “cultura tecnológica”? Aula 7 Fundamentos da Educação 105 De outra forma, mas ainda no contexto das idéias abstraídas do recorte histórico dos séculos XX e XXI, passaremos a analisar aspectos da revolução eletroeletrônica e tecnológica, e o que dela nos foi legado como forma e conteúdo para o que estamos denominando de cultura tecnológica. A ênfase será para o desvio dos princípios da racionalidade e da modernidade efetuado em nome da exploração econômica, a fi m de estimular o desejo e as expectativas com os novos direcionamentos para a racionalização e a modernização contemporâneas. Acreditamos que a organização da cultura tecnológica contemporânea foi tecida em jogos de interesses políticos, econômicos e ideológicos, já abordados em aulas anteriores, os quais se entrelaçaram entre si como forças produtivas e fi caram ainda mais estreitos pela fusão da técnica com a ciência para gerar a tecnologia dita moderna. Desse modo, as questões sobrehomem e mundo foram sendo atualizadas no que temos de mais evidente como caminhos tanto da racionalidade quanto da irracionalidade, em nome da modernização. Ora, estamos nos referindo aqui à relação direta do desenvolvimento da técnica e da Ciência como estruturas geradoras e aglutinadoras de conhecimentos e experiências a serviço do jogo de interesses políticos, econômicos e ideológicos que dinamizam as relações de produção das sociedades. Essa dinâmica, no nosso entendimento, estimulou ações sociais e culturais com conotações de “avanço”, mas a dimensão ideológica parece-nos ter desviado os caminhos da racionalidade para a irracionalidade humana. Esse desvio fi ca mais claro quando analisamos a difusão das idéias de “progresso” e “desenvolvimento”, na perspectiva ocidental, como estratégias e fundamentos da modernização. O século XIX e o início do século XX foram uma época de crise, um tempo em que as pessoas se deixavam impressionar pela tecnologia e viajavam grandes distâncias para se maravilhar com os motores a vapor nas feiras mundiais, um tempo em que os artistas pintavam as novas forjas e fornalhas em dimensões romanticamente aumentadas. [...] a combinação de grandes dimensões e alta complexidade, associadas aos sistemas tecnológicos praticamente garantia que as catástrofes ocorreriam com freqüência bem menor do que nos séculos anteriores. [...] à medida que os desastres eram controlados no Ocidente [...] os próprios meios para preveni-los às vezes criavam o risco de desastre ainda maior no futuro. Além disso, esses novos problemas eram freqüentemente de natureza gradual distribuída e, portanto, muito mais difíceis de resolver do que os problemas agudos, localizados (Tenner, 1997, p. 32). É interessante perceber que o projeto de desenvolvimento técnico, e científico, pelo que vimos, esteve muito presente no processo de colonização implementado pelo Ocidente para expandir não apenas os limites geográfi cos de sua extensão territorial, mas, principalmente, os limites de um modo de pensar e explorar economicamente que fornecia as bases estruturais da modernização. Para reforçar o que estamos dizendo, basta ver que a idéia de colonização, por exemplo, foi objeto de implementação por parte dos países ditos desenvolvidos, visando forjar uma falsa autorização internacional que os permitisse destruir territórios ou roubar a identidade cultural dos países subdesenvolvidos ou emergentes. As guerras e as imposições econômicas, Saber-poder No momento, estamos usando essas expressões no sentido mais amplo que o termo possa oferecer: conhecimento, dominação, experiência individual, exploração comercial visando ao lucro excedente, conhecimento técnico e científi co como visão de mundo superior etc. Aula 7 Fundamentos da Educação106 políticas, culturais e sociais foram amplamente utilizadas como instrumentos de poder e soberania entre povos e nações (muito presente ainda hoje no cenário internacional). Todo o cenário sugerido anteriormente foi montado e desenvolvido em nome da cultura tecnológica que predominou no processo de modernização do mundo. Tal cultura foi gerada e difundida como urgente e necessária para servir de erradicação da barbárie dos povos primitivos. A cultura tecnológica despontou como modelo ideal de civilização, apontado pela ciência e tecnologia como o melhor e o mais racional dentre os modelos até então concebidos pela raça humana. Para Tarnas (2000), a Ciência se desenvolveu e se projetou para a contemporaneidade como salvadora da cultura moderna. Essa representação da Ciência, já assinalada anteriormente, a caracterizou como caminho metodologicamente seguro para alcançar certezas teóricas e facilitar o processo de compreensão do mundo. Isso tudo graças aos “poderes” advindos com os avanços da previsibilidade de suas ações e pela “transparência” na manipulação dos dados experimentais que impulsionavam o “controle” da natureza (TARNAS, 2000, p.306). É importante observar que, apesar das conquistas científi cas indicarem uma certa “segu- rança” nos produtos da ciência e da tecnologia e gerarem uma crescente onda de aceitabilidade da cultura tecnológica, ainda é grande o medo, o receio e o distanciamento da maioria da população de se envolver pelos intrincados caminhos do conhecimento científi co. Você já deve ter percebido que a discussão conduzida até aqui está diretamente associada a uma postura consciente e intencional da comunidade científi ca, que vincula os conceitos de saber às estratégias de poder. Nessa discussão está inserida a perspectiva da educação enquanto articulação formal de conteúdos e saberes que podem ser projetados como conhecimento científi co. Para compreendermos os efeitos do binômio saber-poder na organização da cultura tecnológica, adotaremos a mesma conotação com a qual esteve associada durante vários períodos do desenvolvimento ocidental. Ou seja, associada ao conhecimento e à dominação. Nesse sentido, vamos retroceder um pouco na história da evolução humana para encontrar traços da adequação entre o saber e o poder, inscritos nas ações aplicadas nos primórdios do modelo de dominação proposto pelo Ocidente e implícitas nas políticas de colonização que foram efetivadas em nome do desenvolvimento econômico. A Europa seria a fábrica do universo, enquanto o resto do mundo seria fornecedor de matérias-primas e produtos primários. Considerava-se que esta divisão ‘espontânea’ do trabalho correspondia aos dotes naturais de recursos de cada parceiro e oferecia vantagens para todos. Ela jamais teria existido ‘naturalmente’ se a ordem colonial e imperial não tivesse instituído pela violência aberta (abertura de mercados a tiros de canhão, culturas obrigatórias) ou pela violência simbólica (intimidação, sedução). (LATOUCHE, 1994, p.22). O fato histórico anteriormente descrito nos permite perceber que além da preocupação com a extensão territorial predominou o caráter de trocas comerciais de mercadorias que Desenvolvimento da indústria na Europa O início da Indústria Moderna foi possível graças a pelo menos dois fatores: a existência de capital acumulado (boa parte conseguido com saques e explorações em diversos níveis) e a existência de uma classe trabalhadora livre, sem propriedades (resultante em sua grande maioria dos fechamentos de terras e elevação dos arrendamentos). (ANDERY, 1988, p.165). Aula 7 Fundamentos da Educação 107 foram intensifi cadas a partir da segunda metade do século XIX com o desenvolvimento da indústria na Europa. A Indústria, por sua vez, trouxe com ela o processo extremamente rápido da produção com a utilização das máquinas e das tecnologias, transformando a estrutura básica do mercado internacional, passando da esfera de simples circulação de mercadorias para a da produção. Kon (1998) aponta esse processo como movimento de transformação e internacionalização do capital fi nanceiro, resultando na acumulação de capital nos bancos, os quais unindo-se às empresas no processo produtivo passaram a atuar não apenas como intermediários, mas como monopolistas do capital-dinheiro, de meios de produção e de matéria-prima em vários países. Assim começou, portanto, o processo de consolidação do fenômeno da modernização, representando a independência valorativa de um modo de pensar e fazer racional. Esse fenômeno assumiu o objetivo ousado da “Modernização do Mundo”, sob o discurso inovador da ciência e da técnica confi gurado na tecnologia. Nas rápidas transformações pelo mundo, renovaram-se, estrategicamente, as relações de exploração. A relação que anteriormente era de senhor-escravo assumiu a forma do binômio patrão-empregado. Na mesma linha do processo de modernização, alteraram-se também as formas e os instrumentos de dominação (a terra, o chicote); símbolos visíveis do poder deram lugar à indústria e aos diversos produtos eletroeletrônicos que despontaram no mercado como instrumentos de um saber e de um novo modode fazer que exigia uma aproximação maior com a linguagem técnica da Ciência. Desse modo, a relação homem-natureza passou a ser conduzida pela Ciência, que assumiu o papel de protagonista na reorientação do mundo em prol de uma cultura tecnológica. Assim, o conteúdo e a forma do conhecimento, convertido em modelo do pensar moderno, avançaram como racionalização do mundo e ganharam espaço no desenvolvimento econômico, social e cultural. Tal dinâmica passou a adotar os padrões, o rigor e a precisão do método científi co como estratégia de legitimação do poder e do modelo ocidental de desenvolvimento. A necessidade vinculada ao interesse no aumento da produção semeou o campo para o cultivo da criatividade e da técnica. Essa conjunção de possibilidades somadas a um conjunto maior de fatores contextuais desencadeou uma série de invenções e reações que mudaram a dinâmica, os hábitos e os valores do homem moderno. Entrava em cena a máquina, com o papel específi co de substituir a força motriz, gerada pela energia humana e por outras fontes de energia no processo de produção. Com a introdução da máquina, elimina-se a necessidade seja de trabalhadores adultos resistentes, seja de operários especializados e hábeis, uma vez que o operário nada mais tem a fazer senão vigiar e corrigir o trabalho da máquina. Há, assim, uma maior desqualifi cação do trabalho operário, que não mais precisa passar por uma longa aprendizagem para exercer sua função: como conseqüência, torna-se possível a utilização de mão-de-obra não qualifi cada (principalmente mulheres e crianças). [...] o trabalhador perde o controle do processo de trabalho. É ele quem se adapta ao processo de produção. A máquina determina o ritmo do trabalho e é responsável pela qualidade do produto. (Andery, 1988, p.168). Atividade 2 2 1 Aula 7 Fundamentos da Educação108 Pesquise a diferença entre os conceitos de “Modernidade” e “Modernização”. A partir dos conceitos que você pesquisou, faça um breve comentário sobre a infl uência da modernização na sua vida. Assim, o moderno modo de pensar projetou-se dentro das novas orientações culturais. O capitalismo, enquanto sistema econômico, disponibilizou os recursos necessários para solidifi car o processo de modernização e preparou o melhor ambiente futurista para a exploração e a difusão dos produtos tecnológicos. Aula 7 Fundamentos da Educação 109 A nova confi guração social, advinda do rápido processo no qual se propagaram modelos racionais de interpretações do mundo, reforçou a posição de superioridade do homem em relação à natureza em relação aos outros homens e em relação a si próprio, posto que atingíamos o ponto no qual o próprio homem se espantava com seus feitos. Isto é, uma pequena amostra do espaço e do poder que a razão passou a ocupar na sociedade. O método científi co gerou atitudes mecanicistas também no pensamento político da Europa dos séculos XVII e XVIII. O conhecimento da lei universal da aceleração, por exemplo, levou as pessoas a achar que o progresso da sociedade também se aceleraria com o passar do tempo. Regularidade e uniformidade tornaram-se a marca da sociedade ‘moderna’. Na Inglaterra, a posição fi nanceira da monarquia foi regularizada e uniformizada, por meio de um salário real, e os assuntos nacionais passaram a ser codifi cados e monitorados pelo primeiro banco nacional (BURKE, 1998, p.182). O ritmo mais intenso das mudanças, ao mesmo tempo em que revelou a audácia humana em avançar no processo de racionalização e modernização, imprimiu uma certa comodidade ao indivíduo, que passou a fi car à mercê das intensas e ousadas inovações da Ciência e da tecnologia, as quais delinearam com mais sistematicidade e rapidez o amplo processo de modernização que chegou até nossos dias. Com isso, não estamos querendo negar a necessidade de se investir nos projetos tecnológicos. Apenas estamos ressaltando fatores que vieram junto com as novas perspectivas da modernização, implementados sem uma prévia formação para conviver com os novos instrumentos que passaram a ser o referencial da cultura tecnológica. De modo geral, o fi o histórico que nos trouxe até a nossa condição humana contemporânea possibilitou percebermos o desenvolvimento de uma formação social e cultural de vários períodos civilizatórios, traduzindo os “avanços” de modelo de modernização que congregou traços da racionalidade e da irracionalidade, em um amplo movimento de transformações formado paralelamente. Por fi m, podemos dizer que a tentativa de conhecer, mesmo sem saber o que, fez o homem descobrir e assumir a postura de morador do mundo. À medida que passou a se sentir mais seguro no mundo, o indivíduo percebeu que poderia ser, além de morador, também, criador, administrador, explorador, destruidor, defensor, dominador etc. Essa descoberta faz, ainda hoje, a diferença na dinâmica das relações estabelecidas entre o indivíduo e os outros da mesma espécie, e, entre ele e a natureza que lhe é exterior. Atividade 3 Aula 7 Fundamentos da Educação110 Com base no conteúdo desta aula, escreva as principais referências sobre “cultura tecnológica” e, em seguida, projete suas principais preocupações para um futuro próximo. Leituras Complementares BURKE, James; ORNSTEIN, Robert. O presente do fazedor de machados: os dois gumes da história da cultura humana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. Os autores criaram uma história imaginativa e brilhante que nos mostra elementos signifi cativos dos processos de desenvolvimento da cultura humana. TENNER, Edward. A vingança da tecnologia: as irônicas conseqüências das inovações mecânicas, químicas, biológicas e médicas. Rio de Janeiro: Campus, 1997. O autor discute de forma leve e clara as possíveis conseqüências do domínio da cultura tecnológica. Nesta obra, Tenner faz uma incursão aprofundada sobre os paradoxos que envolvem a criação e produção técnico-científi ca manifestadas nas irônicas conseqüências que advêm do uso das máquinas e aparelhos eletro-eletrônicos que tomam conta do mundo contemporâneo. Resumo Aula 7 Fundamentos da Educação 111 Autoavaliação Aproveite sua perspectiva do futuro, expressa na Atividade 3, e imagine-se na condição de um educador. Agora, descreva suas possíveis ações educativas acreditando que estaria fazendo o melhor, enquanto educador, inserido numa cultura tecnológica. A abordagem desta aula ressaltou questões conceituais da interface educação- tecnologia, procurando delinear configurações dos processos educativos na perspectiva dos conhecimentos técnico-científicos, dentro do que convencionamos chamar de cultura tecnológica. Vimos que o método científi co gerou atitudes mecanicistas no modo de pensar e de viver dos indivíduos em relação a essa cultura e à Ciência. Vimos, também, que as categorias conceituais conhecer, explorar e experimentar, sendo atributos da natureza interna do indivíduo, passaram a ser cultivadas como fundamentos do espírito científi co e, portanto, incorporados como componentes da cultura tecnológica que passou a ser o fi o condutor do projeto de “Modernização do Mundo”. Na evolução histórica das mudanças nos modos de produção, vimos alterações dos instrumentos artesanais do modo simples de pensar para o cultivo da criatividade e da técnica. Com isso, o trabalhador perdeu o controle do processo de trabalho e a máquina passou a determinar o ritmo das atividades. Anotações Aula 7 Fundamentos da Educação112 Referências ANDERY, Maria Amália et al. Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988. BURKE, James; ORNSTEIN, Robert. O presente do fazedor de machados. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. KON, Anita. Tecnologia e trabalho do cenário da globalização: desafi os da globalização. Petrópolis: Vozes, 1998. LATOUCHE, Serge. A ocidentalização do mundo: ensaios sobre a signifi cação, o alcance eos limites da uniformização planetária. Petrópolis: Vozes, 1994. TARNAS, Richard. A epopéia do pensamento ocidental: para compreender as idéias que moldaram nossa visão de mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. TENNER, Edward. A vingança da tecnologia: as irônicas conseqüências das inovações mecânicas, químicas, biológicas e médicas. Rio de Janeiro: Campus, 1997. Anotações Aula 7 Fundamentos da Educação 113 Anotações Aula 7 Fundamentos da Educação114 Formação pedagógica e cultura tecnológica 8 Aula 3 2 1 Aula 8 Fundamentos da Educação 117 Apresentação Na aula 7 (Cultura tecnológica e Educação), vimos que o movimento de expansão do desenvolvimento técnico-científi co favoreceu o processo de modernização e gerou o que hoje conhecemos por cultura tecnológica. Na área educacional, houve uma ruptura com o modelo de educação tradicional em prol de uma educação tecnológica, a qual se apresentou como exigência das transformações econômicas. Ainda no que diz respeito ao conteúdo da aula anterior, tomamos como referencial, para entender as alterações conceituais de interface entre cultura tecnológica e Educação, os processos educativos que foram redimensionados na perspectiva dos conhecimentos técnico- científi cos. Tal redimensionamento nos fez ver que no espaço educativo começa a surgir uma nova dimensão formadora, a qual se mostra com a fi nalidade de compor e justifi car uma perspectiva tecnológica cuja função é acomodar confl itos de ordem política, social e cultural, a fi m de solidifi car as bases do sistema capitalista contemporâneo. Nesta aula, retomaremos alguns conceitos da aula 7 e aprofundaremos as questões específicas da formação pedagógica, bem como os principais conflitos gerados pelas transformações técnicas, científi cas e tecnológicas, implementados em nome da modernização como fundamentos básicos de geração e alimentação da cultura tecnológica. Objetivos Apresentar a relação direta entre o desenvolvimento técnico-científi co, no contexto de modernização da educação, e a formação pedagógica. Abordar questões inerentes à formação pedagógica como conseqüência da ruptura com os modelos de educação tradicional em função de uma educação tecnológica. Destacar questões específi cas da cultura tecnológica, interferindo na configuração dos processos pedagógicos. Dessacralização do mundo Estamos aqui nos referindo aos processos teórico-metodológicos que a Ciência moderna assumiu como alternativa para explorar o mundo, o homem e as relações entre os dois, sem a interferência da dimensão “divina” ou “sagrada” que se evidenciou na Idade Média. Aula 8 Fundamentos da Educação118 Bases políticas e econômicas da cultura tecnológica A captação e a compreensão das implicações da cultura tecnológica nas escolas brasileiras nos leva a percorrer caminhos, teóricos e práticos, pelos quais encontraremos infl uências do produto tecnológico e da aceitação ou não da sua aplicabilidade no cotidiano dos professores e dos alunos. Esse produto e suas respectivas implicações no contexto do educador e da educação brasileira, se bem analisado, nos ajudará a identifi car os encantos e desencantos com os novos rumos dos processos educativos. O esforço analítico a que nos referimos pode ser dimensionado ao compreendermos as transformações ocorridas a partir das invenções humanas realizadas no decorrer dos anos, através do aprimoramento da técnica e da ciência que, como vimos em aulas anteriores, resultou no que hoje chamamos de cultura tecnológica. De outro modo, a produção do conhecimento historicamente constituída seguiu os padrões de rigor do método científi co, o qual prioriza em sentido amplo a dessacralização do mundo. A Ciência e os produtos gerados a partir do conhecimento técnico e científi co serviram de diretrizes para a modernização ocidental ao se mostrarem como alternativa de fuga da barbárie e da ignorância humana e ao delinearem o progresso tecnológico rumo à civilização moderna. No processo de dessacralização do mundo, a racionalidade científi ca surgiu como protagonista da verdade e a matemática, como única linguagem capaz de decifrar os enigmas dos deuses e das leis da natureza. Aula 8 Fundamentos da Educação 119 A expansão da produção científi ca e da linguagem matemática possibilitou a união da comunidade científi ca (cientistas e pesquisadores) com a elite fi nanceira internacional (grandes empresários e banqueiros). Devido a esse movimento expansivo, constituído em torno da produção tecnológica, é que o mundo inteiro encontra-se ligado em rápidas redes de informações. Assim, será pela compreensão do jogo de interesses científi cos e fi nanceiros que identifi caremos a idéia de crescimento econômico contida no projeto ocidental de desenvolvimento como caminho para identifi car o sentido e a legitimidade da cultura tecnológica. A trilha de organização e implementação da modernização e da cultura tecnológica nos levará até uma educação na qual encontraremos programas e ações políticas, de confi gurações pedagógicas, infl uenciando os conteúdos curriculares das escolas. No foco atual das políticas educacionais, encontra-se em destaque a informatização. Nesse caso, a informatização na educação apresenta-se como forma de adequar a escola aos novos rumos do desenvolvimento e como conteúdo de capacitação e inserção dos professores e dos alunos na cultura tecnológica. Ora, sabemos que as informações, dependendo da forma como são veiculadas, poderão esconder confl itos e interesses, principalmente, quando envolvem questões políticas e econômicas que as fomentaram. Chamamos essa camufl agem, em aulas anteriores, de perspectiva ideológica. Desse modo, os cursos de capacitação podem perfeitamente incorporar, sem discussão ou demonstração de confl itos e divergência de interesse, as diretrizes da cultura tecnológica. Estas, por sua vez, apontam para a idéia de modernização que se encontra sedimentada no uso dos computadores, pondo de lado a própria discussão do que torna possível e melhor a organização do trabalho educativo pelos educadores. Assim, os educadores contemporâneos e o grande contingente dos alunos, principalmente os oriundos de classes com baixo poder aquisitivo, convivem com a idéia, muitas vezes repassada pelos programas ofi ciais de formação e capacitação, de que a informatização das escolas e o computador são os “salvadores da pátria”. Nesse caso, estamos diante de uma idéia ideologicamente distorcida, segundo a qual nos basta a dimensão técnica e o instrumento tecnológico para superarmos as defi ciências que se acumularam ao longo dos anos na educação. O desvio ideológico ao qual nos referimos anteriormente ocorre pelo discurso, segundo o qual a informatização da escola é tomada como condição sufi ciente de melhoria na qualidade do ensino. Nesse discurso, destaca-se o esforço e o empenho do poder público em apresentar respostas à sociedade e se escondem os questionamentos em torno da aplicabilidade crítico- refl exiva dos conteúdos e recursos oferecidos pela máquina. Queremos deixar claro que não estamos defendendo a tese da não-informatização das escolas. Estamos apenas chamando a atenção para o fato de que, talvez antes da informatização, seja necessário reorientar o discurso e a prática política e pedagógica, visando implementar dinâmicas mais efetivas nas instituições educativas, a fi m de favorecer um amplo processo de análise, discussão e avaliação da aplicabilidade dos recursos humanos, materiais e tecnológicos. No nosso entendimento, a implantação da informática, na educação, deverá ir além do investimento em treinar professores e alunos para fazerem uso dos recursos inerentes aos Atividade 1 2 1 Aula 8 Fundamentos da Educação120 instrumentos técnicos, o que reduz o papel da escola e do educador apenas à racionalidade instrumental. Essa dimensão educativa limita a formação pedagógica apenas à compreensão do modo como utilizar os computadorescomo mero instrumento de continuação de uma formação pedagógica que não prioriza a crítica dos conteúdos e sua real importância na construção social do indivíduo. No entanto, o que vemos chegar às escolas é um projeto de intenções com o nome de informatização, no qual se percebe a simples presença de máquinas, representando a expansão do mercado globalizado. Faça uma lista de palavras e objetos do mundo tecnológico, usados no seu cotidiano, que represente, para você, “o ser moderno”. Refl ita sobre a lista que fez no item anterior e veja o que você conhece da história dos objetos listados; em seguida, elabore um texto relatando o que cada um deles mudou na sua vida a partir de sua aquisição. Aula 8 Fundamentos da Educação 121 O discurso econômico e tecnológico na prática político-pedagógica Atualmente, o mundo inteiro encontra-se ligado através do fenômeno da universalização da informação a qual representa parte do processo de modernização ocidental, em que a tecnologia passou a responder às preocupações da sociedade contemporânea sobre o bem- estar social. Ora, basta-nos uma breve contextualização dos processos de implementação da cultura tecnológica para percebemos que na verdade o que ocorre, em nossa sociedade, é apenas uma inversão dos valores sociais e culturais. Essa inversão de valores é visível na educação, que deixou de ser vista como protagonista de um conhecimento consistente e indispensável à evolução do homem. Ela, a educação, não aparece mais no cenário mundial como condutora de metas e princípios valorativos a serem seguidos e atingidos, como referência de uma boa formação cultural. A formação contemporânea nos chega hoje pelos instrumentos técnicos conectados às redes de fi bra ótica, via satélite. Isso nos impressiona pelo formato impresso, visual ou oral, em que as informações são vinculadas, na forma de sedutores pacotes prontos para serem consumidos compulsivamente. Aula 8 Fundamentos da Educação122 Ao homem, no avançado ponto de emancipação e modernização em que se encontra, talvez fosse interessante retomar a pergunta das nossas primeiras aulas: para que educação? Ou sondar se a educação ainda teria alguma utilidade em nossa moderna sociedade ou teria chegado ao seu fi m. Quanto às respostas, parte delas já foi apresentada também em aulas anteriores. O foco principal da questão nos remete à refl exão sobre os gastos com programas educativos que são implementados a cada governo que assume e diz ter sob controle o rumo das mudanças sociais, culturais, políticas e econômicas. O que percebemos com as conseqüências da inversão dos valores sociais e culturais é a angústia que a população carente sente ao ver fugir a esperança por dias melhores. Aqui, nos referimos principalmente àquele indivíduo que cresceu ouvindo slogans do tipo “só através da educação se consegue vencer na vida”, agora ele se vê sem o referencial de parâmetros para a construção do futuro melhor, antes oferecido pela escola. No Brasil, nosso referencial compreensivo deverá ser a partir do modelo de desenvolvimento assumido no fi nal da década de 60, início da década de 70, apropriadamente chamado de “Milagre Brasileiro”. Nesse período, é possível identifi car no modelo brasileiro a mesma idéia de crescimento econômico contida no projeto ocidental de desenvolvimento. O pressuposto para as análises sobre a modernização da educação brasileira está pautado no fato de que, enquanto instituição social, a escola também procura encontrar seu espaço no processo da modernização ocidental. Por sua vez, à educação é feita dupla exigência: por um lado, sua modernização e, por outro, sua adequação à própria dinâmica do mercado. Tais exigências ganham sentido e destaque quando vistas através da crescente onda de desemprego, pobreza, violência e tráfi co de drogas, que encurralaram a elite empresarial e fi nanceira em seus condomínios fechados. Nesse ponto de confl ito social, é cobrada uma política de educação, pois, a sociedade assusta- se ao ver a massa “descontrolada”. Passa a ser necessário reativar urgentemente um mecanismo de controle para a situação emergencial. Nesse caso, parece ser mais fácil e rápido retomar a velha educação com uma roupagem diferente. Daí porque, no cerne das questões mundiais, vemos a racionalidade técnica e científi ca ser envolvida pelo crescente desenvolvimento econômico e a educação ser alvo de grande atenção, principalmente por parte das nações consideradas emergentes, como é o caso do Brasil. Atendendo, portanto, ao apelo do mercado econômico e das elites fi nanceiras, internacional e nacional, o Governo Federal, através dos seus técnicos e especialistas, implementa a modernização do país e da educação com projetos e programas que chegam às escolas na forma de pacotes e ações com o intuito de injetar na educação um ensino voltado para receber e alocar os computadores como instrumentos de linguagem matemática que serão os indicadores da “nova” formação pedagógica. Mas, o que vemos na nossa realidade se apresentar como “nova” formação pedagógica é apenas uma troca de roupagem tecnológica. Pois, basta uma pequena incursão pelas escolas do Atividade 2 2 1 Aula 8 Fundamentos da Educação 123 nosso país, que facilmente encontraremos ainda em uso antigas práticas educativas como “retirar” letras do quadro; de deixar o aluno de castigo e sem direito ao recreio e à merenda; ou mesmo de não se sentir com a competência técnica para usar os novos instrumentos tecnológicos. O novo ambiente anunciado como modernização das escolas, no qual os educadores são convocados a confi gurar seu cotidiano educativo, encontra-se apenas no discurso político do governo, responsável direto pela nova dinâmica de ensino e formação global do indivíduo. A forma leve, descontraída e mais ativa para a educação em todos os níveis é difundida graças aos encantos produzidos pelos instrumentos tecnológicos. Você conseguiria viver, hoje, sem os produtos da tecnologia? Procure refl etir e responder à questão, fazendo uma referência às mudanças ocorridas na educação sob a infl uência direta da tecnologia. O que mais lhe atrai, hoje, no espaço educativo, em relação à tecnologia? Faça um comentário focalizando a perspectiva crítico-refl exiva sobre o uso da tecnologia na formação pedagógica. Razão instrumental Conceito desenvolvido por pensadores como Max Weber, Habermas, Adorno e Horkheimer para expressar limites na aplicação ou operacionalização do conceito de razão. Na maioria das vezes, essa expressão foi, e ainda é, utilizada para fazer referência a uma atividade da razão sob a forma de ação racional unicamente preocupada em atingir um fi m técnico, específi co, institucional, negando-lhe o sentido teórico, crítico e refl exivo para atingir uma visão racional do todo. Aula 8 Fundamentos da Educação124 No Brasil, como vimos anteriormente, o discurso de mudanças e de modernização para a educação vem de longas datas. Hoje ocupa grande espaço nos meios de comunicação, enfatizando principalmente a criação dos Centros e Núcleos de Informática, Cursos a distância, inclusão digital etc. Percebe-se o envolvimento e a participação das Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, como a implantação do Proinfo - Programa de Informática na Educação (desde 2000), programa apresentado à sociedade como resposta aos novos desafi os enfrentados pela educação. Por outro lado, ao que nos parece, as informações veiculadas nos cursos de capacitação dos programas de informatização da rede pública de ensino apontam para uma orientação em que prevalece ainda a Razão instrumental enquanto idéia sedimentada no uso dos computadores e na tecnologia dos sistemas operacionais, deixando de lado a preocupação maior com as refl exões sobre os conteúdos discursivos que têm servido de pressuposto na organização do trabalho crítico e criativo dos educadores. Para nós, essa questão diz respeito a uma política estrutural emnível nacional, que se encontra refl etida, e reforçada, na política local através dos discursos em tons democráticos. Tais discursos, por sua vez, ressaltam a descentralização e a autonomia das atividades para justifi car o modelo de modernização de educação pautado em determinações que não se adequam à realidade educacional regional. A informação tecnológica e a formação pedagógica Aula 8 Fundamentos da Educação 125 As determinações são seguidas de perto pelos que coordenam e executam os projetos estaduais e municipais, sem levar em conta as contradições inseridas na proposta, mas apenas o esforço para atingir um plano de modernização que se encontra no discurso, através de uma aparente adequação das exigências do mercado nacional e internacional à realidade educacional local. É nesse sentido que dizemos que os programas ofi ciais de modernização da educação, com o nome de informatização, apresentam ainda fortes indicadores da idéia de “salvador da pátria”. Portanto, no nosso entendimento, a formação pedagógica na cultura tecnológica contemporânea, com o pseudônimo de modernização da educação, tem a difícil responsabilidade de conviver sob uma cobertura de vidro construída sobre os pilares da educação tecnológica. Ironicamente, a obra é destinada aos educadores, exaltados como pioneiros e salvadores da pátria. A eles, o apelo da modernização é apenas para que fi quem susceptíveis às transformações, aceitando e convivendo com elas passivamente sem questionar as reais implicações para suas vidas. A discussão da formação pedagógica na cultura tecnológica comporta ainda questões que vão desde a falta de recursos humanos e materiais, para serem executadas as ações cotidianas, até a falta de apoio moral e intelectual, para se planejar as próprias atividades pedagógicas. Os técnicos e os políticos, que manipulam os recursos necessários para suprir tais exigências, justificam que os recursos são suficientes apenas para atender as necessidades básicas de mudanças estruturais aparentes, como aquelas de caráter meramente burocrático. Nesse sentido, percebemos que entram em cena os velhos e mesmos discursos de falta de verbas para a educação. No entanto, o diferencial, hoje, é que o discurso que justifi ca a urgência e necessidade da informatização na escola, é aceito sem questionamentos por ser condição (para alguns) imprescindível de melhoria na qualidade do ensino. Evidenciam-se desse modo o esforço e o empenho do poder público em apresentar respostas apressadas e, portanto, vazias de conteúdo, à sociedade. O que fazer diante dessa constatação? Aceitar de modo inquestionável a extensão instrumental e técnica da modernização como solução dos problemas da educação? Temos condições de desviar os rumos e perspectivas do desenvolvimento econômico, que enfatiza a virtualização da realidade e a universalização da cultura como formas de minimização da pobreza? Ainda há tempo, na educação, para cultivar uma formação crítica e cultural dos indivíduos? Ou estaremos fadados a nos render aos encantos da racionalidade técnica instrumental, que se preocupa apenas em assegurar o status de indivíduo moderno, exigido pelas alterações econômicas? A conclusão, parcial, a que chegamos, nesta aula, aponta como alternativa para a atual modernização da educação uma ação integrada por parte de órgãos governamentais e entidades da sociedade civil organizada, na qual haja um re-direcionamento político e pedagógico dos programas de informatização da educação. Essa reorientação se daria na própria estrutura técnica e pedagógica do programa, através da descentralização das Aula 8 Fundamentos da Educação126 atividades e da dinâmica mais efetiva de socialização do conteúdo entre os educadores e as instituições envolvidas. A execução dos programas de informatização da educação, por sua vez, deverá ser permanentemente acompanhada de um amplo processo de análise, discussão e avaliação da aplicabilidade dos recursos humanos, materiais e tecnológicos. Assim, a formação pedagógica na cultura tecnológica deverá ocorrer apoiada em reflexões e análises dos processos técnicos e pedagógicos que norteiam o uso dos instrumentos técnicos, de modo a poder oferecer, possivelmente através da informática educativa, um reforço instrumental a mais para o educador continuar ampliando os caminhos que se entrecruzam na dimensão do ensino-aprendizagem. Leituras Complementares SETZER, Valdemar W. Meios eletrônicos e educação: uma visão alternativa. São Paulo: Escrituras, 2001. (Coleção Ensaios transversais). Nesta obra, o autor articula refl exões teóricas e ações cotidianas em busca de uma melhor compreensão para o tema que relaciona as implicações da tecnologia na educação. LEITE, Lígia Silva (Org.). Tecnologia educacional: descubra suas possibilidades na sala de aula. Petrópolis: Vozes, 2003. Este livro oferece discussões sobre alternativas e possibilidades que surgem com a presença da tecnologia na sala de aula, apoiado numa visão crítica do uso dos instrumentos tecnológicos. Resumo Aula 8 Fundamentos da Educação 127 Você observou nesta aula que a racionalidade técnica e científi ca surgiu como protagonista da sociedade moderna e se difundiu como produção tecnológica, propagando a universalização da informação e a implementação da cultura tecnológica. A atualização permanente desse movimento de modernização alterou os processos educativos e a formação pedagógica em todos os níveis da educação. Para quem cresceu ouvindo slogans do tipo “só através da educação se consegue vencer na vida”, agora se vê sem o referencial de parâmetros para a construção do futuro melhor. Na modernização da educação brasileira, a escola ainda procura encontrar seu espaço. Você observou também que os programas ofi ciais de modernização da educação, com o nome de informatização, apresentam ainda fortes indicadores da idéia de “salvador da pátria” e são oferecidos à sociedade como instrumentos de superação das crônicas defi ciências que a educação acumulou ao longo dos anos. Nosso entendimento é o de que a formação pedagógica na cultura tecnológica deverá ocorrer apoiada em refl exões e análises dos processos técnicos e pedagógicos que norteiam o uso dos instrumentos técnicos. Autoavaliação Faça uma reflexão sobre a influência da tecnologia na sua formação profi ssional e, em seguida, escreva um texto em que você disserte sobre tal infl uência. Tome como referencial refl exivo e dissertativo a seguinte questão: “Qual o papel da educação na sociedade contemporânea?”. Anotações Aula 8 Fundamentos da Educação128 Referências LEITE, Lígia Silva (Org.). Tecnologia educacional: descubra suas possibilidades na sala de aula. Petrópolis: Vozes, 2003. PACHECO, Elza Dias (Org.). Televisão, criança, imaginário e educação. Campinas: Papirus, 1998. PIRES, João Maria. Tramas da (ir)racionalidade contemporânea para a composição do mito-tecno-lógico. Tese (doutorado em educação) – Programa de Pós-graduação em educação, UFRN, Natal, 2004. SETZER, Valdemar W. Meios eletrônicos e educação: uma visão alternativa. São Paulo: Escrituras, 2001. Anotações Aula 8 Fundamentos da Educação 129 Anotações Aula 8 Fundamentos da Educação130 A dimensão pedagógica e as inovações da cultura tecnológica 9 Aula Aula 9 Fundamentos da Educação 133 Apresentação Algumas questões que tratam da formação docente estão postas já há algum tempo. Entretanto, as que tratam da emergente cultura tecnológica são tímidas e vistas, de um certo modo, com desconfi ança, embora muita coisa a esse respeito já tenha sido dita. Tais como: em que mundo nós vivemos? Quais os comportamentos que cultivamos? Como nos portamos neste mundo? Onde e como aprendemos determinados comportamentos? Essas questões rondam os homens desde quando eles se identifi caram como seres pensantes e organizadores do espaço, do tempo e das manifestações de sua cultura. Portanto, o nosso modo de ver e de viver este mundo, assim comonossas explicações para compreendê-lo, acompanha os movimentos que regem determinadas épocas. No presente, vivemos em um mundo cujas relações de trabalho, sociais e de lazer são intermediadas pela ação direta dos sistemas tecnológicos que são incorporados às máquinas modernas. Daí, as questões que se colocam no momento serem do tipo: como conviver com os recursos e/ou meios tecnológicos que regem a vida moderna sem perder a nossa humanidade? Como viver e conviver em uma estrutura que sistematicamente transforma processos, revoluciona organizações e relações de trabalho, sociedades, culturas e homens? Qual o poder que esses processos e máquinas possuem de fato e suas limitações? E como devemos nos portar diante deles? Deu para sentir que não estamos falando de uma sociedade qualquer e que não existem formulas mágicas para encará-la de frente. Vemos que as questões nos levam a um grau de complexidade tal, que somente uma análise mais aprofundada nos daria a dimensão da sociedade na qual vivemos atualmente. Assim, sem pretensões de dar conta de toda a complexidade que envolve essa estrutura, tentaremos nesta aula compreender um pouco mais a dinâmica da formação da cultura tecnológica, sua vinculação com a educação e a formação pedagógica que prepara os indivíduos para se integrarem melhor a esse contexto. 2 1 Aula 9 Fundamentos da Educação134 Inovações da cultura tecnológica e a dinâmica pedagógica Em toda caminhada investigativa empreendida nesta disciplina, estivemos apresentando informações necessárias à compreensão das várias manifestações conceituais e estruturais da educação como instrumento de formação e transformação individual e coletiva, com o objetivo de ampliar essa compreensão. Agora, como você já dispõe de um número signifi cativo de informações sobre educação, conhecimento, ciência e tecnologia, queremos mudar um pouco nossa estratégia de abordagem. A proposta é que você avance na sua dimensão interpretativa a partir da refl exão de alguns conceitos de que já dispõe e que, na maioria das vezes, faz uso deles sem a preocupação específi ca de aprofundá-los. Nesse sentido, queremos que você se perceba como sujeito histórico que, no presente, vive em um mundo cujas relações de trabalho, sociais e de lazer são intermediadas pela ação direta dos sistemas tecnológicos, uma vez que você se move, age, reage e interage com máquinas modernas através dos mais variados recursos tecnológicos. Dessa forma, é que as questões anteriormente abordadas servem como estímulo investigativo para você se perceber enquanto indivíduo contemporâneo, preocupado em conhecer seu espaço e o seu papel nesta sociedade. Assim, você pode se questionar sobre como a educação poderá acompanhar e ajudar nas novas relações de convivência que se estabelecem no momento atual, viabilizadas pelos amplos recursos e meios tecnológicos que regem a vida moderna. É com essa intenção que iniciamos nossa abordagem sugerindo que você responda às questões seguintes. Objetivos Estabelecer relações entre a cultura tecnológica, o processo educativo e a formação pedagógica. Identifi car como a escola responde às exigências das sociedades regidas por princípios técnicos e tecnológicos. Atividade 1 1 2 3 Aula 9 Fundamentos da Educação 135 Você já se deu conta de em qual mundo está vivendo? Pense e escreva livremente sobre isso. Observe e descreva como as pessoas estão vivendo e como se relacionam com a parafernália tecnológica a sua volta. Você já observou como as pessoas se portam diante das máquinas que manipulam cotidianamente? Comente sobre isso. Agora que você respondeu às questões propostas, deve ter observado que nos relacionamos com a tecnologia de diferentes maneiras e em diferentes níveis. Alguns mais avançados e sofi sticados, outros menos avançados e sem qualquer sofi sticação, outros, ainda, que não tiveram oportunidade de acesso a nenhum desses sistemas. Mas, mesmo existindo essas diferenças, não podemos negar que para a sociedade, já foi disponibilizado o consumo dos recursos tecnológicos. Portanto, em tese, a tecnologia e os Aula 9 Fundamentos da Educação136 seus infi nitos recursos também estão acessíveis ao grande público por serem considerados de fácil assimilação e manipulação. Basta ver a quantidade de aparelhos tecnológicos que consideramos “domésticos”, tais como: o rádio, a tv, o vídeo, os aparelhos de DVD, CD e MP3, os computadores, os aparelhos de jogos eletrônicos de todo tipo e modelo etc. A essa altura, você também já deve ter notado que, na economia, o uso das novas tecnologias é determinante para consolidar produtos já existentes e ampliar os novos rumos das relações sociais de produção. Uma rápida olhada a nossa volta é o sufi ciente para compreendermos por que a tecnologia se encontra na base de produção da existência humana: justamente porque ela está em produtos que vão do alimento ao vestuário, na medicina, na indústria farmacêutica, nos serviços em geral e, particularmente, nos prestadores de serviço público ou privado. Desse modo, lojas comerciais, bancos e repartições públicas reforçam a idéia de que hoje nada é feito ou produzido sem a intermediação da maquinaria. Outra referência à infl uência que a tecnologia exerce nas nossas vidas está na base da estrutura em que se encontram os procedimentos da comunicação de massa e do sistema informacional. Os meios que nos permitem enviar e receber mensagens foram alvo dos interesses público e privado e, por isso, conquistaram espaços de destaque na sociedade contemporânea. Isso ocorreu graças às pesquisas nas ciências, na eletrônica e na telefonia fi xa e móvel, que resultaram em produtos tecnológicos inovadores na área das comunicações, como o advento da Internet e do telefone celular. Não podemos esquecer, ainda na área da comunicação, o espaço conquistado pela publicidade. É possível encontrá-la tanto no formato do mais simples panfl eto quanto no mais sofi sticado (e enorme) dos letreiros luminosos que vemos piscando sistematicamente diante de nós. Assim, é impossível pensar a vida hoje sem o uso de um recurso tecnológico qualquer. Numa certa perspectiva, eles chegam involuntariamente, não importa se essa sociedade é desenvolvida ou não. O que constatamos, em uma certa medida e proporção, é que os processos tecnológicos são altamente democráticos. Resta-nos, numa tentativa de juntar o útil (a tecnologia) ao fundamental (a educação), questionar sobre o importante papel que a educação poderá assumir neste crescente contexto de inovação tecnológica. Poderemos, pois, nos perguntar como a educação é infl uenciada por essas mudanças. Ou, ainda, como ocorre, nos dias atuais, a formação daqueles que são responsáveis pela modelação dos valores e do pensamento crítico-refl exivo das gerações do futuro que ora vislumbramos, ou seja, qual futuro vemos modelar-se diante de nós. Essas e outras questões poderão nos ajudar a compreender nosso papel na sociedade contemporânea, bem como facilitar uma possível tomada de decisão para o uso que faremos dos ricos recursos incorporados aos produtos tecnológicos a que temos acesso. Nesse sentido, sugerimos que continue sua investigação crítico-refl exiva e procure canalizar suas idéias para compreender o uso possível dos processos e recursos da tecnologia no âmbito da educação. Aula 9 Fundamentos da Educação 137 Aprofundando a conversa Como percebemos, a vida, em todas as suas dimensões, vem sendo alterada sistematicamente em função das transformações tecnológicas. Tais transformações modifi caram os processos de produção das mercadorias, as relações de trabalho e, conseqüentemente, as várias dimensões das relações sociais. Ora, sabemos que toda essa dinâmica de mudanças e transformações que a sociedade contemporânea vivencia, sob a infl uência da tecnologia, tem sua razão de ser. É visível o direcionamento de recursos e interesses em pesquisas e produção de conhecimento capazes de gerar inovações e alteraçõessignifi cativas nos modelos de uso e consumo dos produtos tecnológicos. Não podemos perder de vista que os interesses traduzidos em investimentos nas inovações dos processos tecnológicos têm sua razão de ser nas idéias e ideais incorporados aos produtos. Tais idéias facilmente são difundidas por todas as esferas da sociedade, impondo uma lógica de assimilação e incorporação de valores que justifi cam sua própria existência – a racionalidade tecnológica. É importante lembrar que, tradicionalmente, a fonte de reprodução humana esteve associada à relação do homem com a natureza. Portanto, independentemente da classe social, foi através de sua intervenção na natureza que o homem conseguiu extrair o necessário para sua sobrevivência e reprodução. Por outro lado, a questão que se apresenta hoje está associada ao fato do homem continuar interferindo na natureza, sendo que, agora, não mais com fi ns específi cos de sobrevivência, mas com fi nalidades de maximização dos lucros e reprodução de capital. Nessa perspectiva, queremos que você compreenda que a racionalidade contemporânea, na sua versão tecnológica, tem o importante papel de ampliar o controle e a dominação do mercado de trabalho e dos Aula 9 Fundamentos da Educação138 capitais fi nanceiros envolvidos. Isso nos leva a admitir a possibilidade de que a lógica implícita no que estamos chamando de racionalidade tecnológica se encontre confi gurada na própria luta pelo controle e aparelhamento das instituições da sociedade civil. Os princípios lógico-formais que compõem os sistemas tecnológicos também são extensivos às esferas sociais fora das relações de produção de bens materiais. Desse modo, a educação e a cultura sofrem também grande infl uência da racionalidade tecnológica por se encontrarem diretamente ligadas às mudanças que ocorrem na base produtiva e nas relações sociais. Aprofundemos agora essa questão, na tentativa de compreender algumas infl uências que a racionalidade tecnológica exerce sobre a educação. Sugerimos começar identifi cando alguns critérios que a Educação adota para estabelecer uma política de formação técnica, tecnológica e científi ca. Em seguida, relacionaremos tal formação com as necessidades de desenvolvimento da economia, isso porque compreendemos que a razão da existência dos sistemas tecnológicos é historicamente determinada a partir desse tipo de desenvolvimento. Ora, a questão que se coloca hoje não é mais a da aceitação ou não da razão sistêmica, científi ca e tecnológica como organização dos sistemas. Ou mesmo a discussão sobre qual racionalidade se encontra embutida nos processos e recursos que movimentam as máquinas, mas, sim, a forma de convivência pacífi ca e criativa com toda a parafernália tecnológica. De resto, no dizer de George Simodon (1985), sobram apenas a “ignorância e o ressentimento”. Com isso, destacamos que ignorar a cultura técnica nos períodos da primeira e da segunda revolução capitalista, como se fez no Brasil, foi um grande equívoco do processo educativo. Acreditava- se que formar bacharéis em direito e letrados generalistas, em detrimento das ciências e das técnicas, era sinal de desenvolvimento. Na realidade, o que vimos foi o desenvolvimento tecnológico infl uenciar a vida em todas as suas dimensões e em escala global, o que implicou compreender a razão técnico- científi ca e tecnológica como uma realidade que possui forma própria de se instalar e se reproduzir. Lembramos que esse fato teve, e ainda tem, implicações diretas na formação dos indivíduos. Isso se justifi ca porque é a educação que permite a formação, a especialização e o aperfeiçoamento dos indivíduos para operar os sistemas de maximização das estruturas econômica e social. Já sei, você agora está curioso para saber como se dá esse processo, não é? O primeiro passo é, então, relembrar que, tradicionalmente, na educação brasileira, a formação moral e cívica vinha em primeiro lugar. Hoje, notamos que o mercado de trabalho absorve mão- de-obra cada vez mais cedo. Isso nos leva ao segundo passo: compreender por que uma parte da formação é realizada como capacitação em serviço e, por vezes, antes mesmo do acesso aos bancos escolares nos diferentes níveis. Não esqueça que estamos tratando aqui da revolução ocorrida no mundo do trabalho e do que infl uencia diretamente as mudanças no sistema de ensino e de educação. A dinâmica e o ritmo das mudanças contemporâneas não esperam mais que o jovem passe por uma formação escolar de 20 ou 25 anos para ingressar no mercado de trabalho. Por outro lado, ainda é necessário reter uma elite Aula 9 Fundamentos da Educação 139 dentro do sistema educacional, a fi m de que se especialize para desempenhar bem atividades mais sofi sticadas, aquelas consideradas “de ponta”. Espero que você esteja acompanhando o nosso raciocínio e entenda que não estamos mais falando de uma sociedade primária, aquela na qual as relações eram estabelecidas de maneira simples, direta e, via de regra, executadas com base na improvisação. Também não estamos nos referindo a sua sucessora, a sociedade técnica, composta de homens com uma certa destreza motora e alguns rudimentos de leitura, contagem e escrita, os quais se colocavam diante das máquinas e as operavam mecanicamente. A dinâmica aqui destacada refere-se às sociedades modernas ou pós-modernas, que desenvolveram o grau máximo de racionalidade e de criatividade, não como saber-fazer destituído de um conhecimento prévio, mas como modelo de organização cuja base é a informação e a especialização. Nessa perspectiva, René de Paula Junior, diretor de conteúdo da Yahoo Brasil, atuando na Internet desde 1996, em artigo escrito para a revista Webdesign, diz que: [...] Alguém nos convenceu que genialidade é improviso, é inspiração, nasce por arroubos criativos, que rigor e método é coisa para quem não tem talento. Balela: Picasso dominava as técnicas clássicas, Bethoven rabiscava as partituras, os acrobatas do cirque de soleil se esfalfam o dia inteiro para poder dar uma pirueta graciosa (PAULA JUNIOR, 2005, p. 60). Vemos, portanto, que a sociedade que possui grau de complexidade maior precisa ser compreendida a partir das transformações ocorridas ao longo do tempo, como as que foram expressas na citação anterior e as que podemos captar no seguinte depoimento de Dominique Gellec e Pierre Ralle, em entrevista ao Jornal Le Monde. O único fator de crescimento no passado foi a acumulação de capital físico, submetido paralelamente a rendimentos decrescentes [...] para as novas teorias, as fontes de crescimento são mais diversifi cadas: capital físico, mas também capital humano (volume dos conhecimentos, saúde, higiene, aprendizagem prática, divisão do trabalho e tamanho do mercado), bens públicos de toda ordem (transportes, telecomunicações, segurança, direito a propriedade e desenvolvimento das ciências fundamentais). (GELLEC; RALLE, 1995, p. 15). Esse pensamento também foi corroborado por Michel Lent Schwartzman, designer gráfi co e mestre em telecomunicações interativas (TI), que trabalha no ramo de informática desde 1995: Necessitamos de bons designers de interface. Bons, não, os melhores! E o mercado já tem gente muito boa. Uma turma cada vez melhor, muitos premiados internacionalmente. Junto com a turma da interface, precisa vir a turma da TI. Um não funciona sem o outro. O programador de hoje é um cara diferente. Uma turma de fera que começa cada dia mais cedo. Imagine, tem gente programando PHP desde os nove, fazendo música, jogando bola. Uma beleza! Resolvido. [...] Ok, teremos uma ótima produção. Mas, e o resto da equipe? Oh – Oh. Alguém aí perguntou que resto da equipe? Hum, olha aí o problema. (SCHWARTZMAN, 2005, p. 58). Atividade 2 2 1 Aula 9 Fundamentos da Educação140 Como vemos, a questão da cultura tecnológica não está ligada apenas à utilização da parafernália tecnológica, mas também às formas de sobrevivência que os homens criam buscando interaçãocom os novos instrumentos de trabalho. Dentre estes, encontram-se o acesso e a formação adequada para melhor inserir-se no mercado de trabalho. Destacamos ainda como parte da cultura tecnológica adequações para as mudanças no modo de se relacionar socialmente, que agora conta com os instrumentos e os recursos tecnológicos como mediadores no processo de comunicação de massa. Tudo isso para tentar viver com mais conforto e segurança. Nessa perspectiva, passamos a reivindicar da Educação respostas aos novos desafi os sociais e culturais, exigindo que cumpra sua função crítico-pedagógica que é permitir o aumento das capacidades técnicas e a elevação dos níveis de especialização dos indivíduos, para melhor atender as exigências de um mercado cada vez mais fl utuante. Da Educação se exige, no mínimo, a preparação da mão-de-obra no nível básico e, no máximo, a qualifi cação para os níveis intermediários e superior, como condições primordiais para o desenvolvimento econômico e para a elevação da capacidade técnica e científi ca dos indivíduos. Como estímulo para melhor assimilação e compreensão reflexiva do conteúdo apresentado, propomos a você algumas questões. Como você vê a preparação de professores para lidar com as novas tecnologias em ambiente de ensino? Como você vê o uso dos recursos tecnológicos da comunicação e informação em ambiente escolar? Aula 9 Fundamentos da Educação 141 A aplicação dos recursos tecnológicos à educação Parece-nos que a questão do uso de instrumentos tecnológicos em educação ainda é um desafi o para os professores, pois apesar de já existir um consenso entre eles de que essas ferramentas são recursos auxiliares importantes no seu trabalho, a formação que lhes é destinada tem sido centralizada no uso instrumental dos programas já existentes, deixando de lado uma parte importante da formação: a compreensão dos sistemas e suas potencialidades em ambiente escolar, meio pelo qual poderiam utilizar o seu potencial criativo (assim como o dos alunos), fugindo do famigerado copiar/colar, tão em moda nos meios acadêmicos do Ensino Fundamental e da universidade. No passado recente, mais precisamente nos anos sessenta e setenta, negava-se a importância do uso dos meios e/ou recursos tecnológicos no ensino-aprendizagem. Nos anos oitenta, a universalização das políticas públicas voltadas para a inclusão dos recursos tecnológicos em ambiente de sala de aula abriu fronteira para o uso da tv e do vídeo na educação, ainda que timidamente. Na década seguinte, a discussão sobre os meios tecnológicos no processo de ensino se deslocou da negação, para uma aceitação com reservas. Aqui devemos nos questionar como as escolas e os professores foram incorporados à lógica da cultura tecnológica e quais meios e recursos do mundo da informação e da comunicação são melhores para serem usados em sala de aula. Essa incorporação existe e se deu ao longo de mais de trinta anos de políticas públicas voltadas para o uso racional da tecnologia no processo de Aula 9 Fundamentos da Educação142 ensino, em função da emergência de adequar a educação à realidade de mercado sem, contudo, perder de vista a sua função de preparar o homem na sua integralidade. Percebemos, pois, que muito já foi feito e muito ainda está por fazer. Isso não signifi ca dizer que a educação deve ajustar-se às regras do jogo de mercado (embora esse seja o desejo dos empresários), mas que deve fi car atenta às necessidades dele e, sobretudo, dos jovens que necessitam de preparação para esse ambiente competitivo, o qual exige do profi ssional e, conseqüentemente, da escola cada vez mais qualifi cação para preencher novas funções. Como, então, fazer isso com um sistema de ensino altamente academicista e/ou teórico? Daí, nos perguntarmos qual a função de um processo educacional cujas bases de formação não respondem à emergência de um projeto de desenvolvimento. Ora, sabemos que desde os anos cinqüenta vem sendo feito um esforço para enquadrar a educação nacional às políticas desenvolvimentistas, entretanto, as forças conservadoras centralizaram o pensamento educacional e de ensino no âmbito das letras e humanidades, deixando na marginalidade o ensino técnico e científi co. Isso porque se pensava que o ensino técnico profi ssional tinha menor valor em relação ao aprendizado das letras. Nesse sentido, quando o ensino profi ssional foi criado estava destinado aos pobres e/ou fi lhos da classe trabalhadora, enquanto o ensino letrado restringia-se às elites, que podiam ainda complementá-lo no exterior do país. Essa realidade começa a mudar somente nos anos setenta com a implantação da lei 5.692/71 que obriga todo o Ensino Fundamental a tratar da questão do trabalho, propondo uma terminalidade na 8º série do 1º grau, assim como no ensino técnico profi ssional de 2º grau. Essa obrigatoriedade não foi acompanhada pela iniciativa privada, a qual continuou fazendo ensino propedêutico e preparando os indivíduos para o ingresso no Ensino Superior. Nas escolas públicas, alguns projetos pilotos foram implementados, mas as condições precárias dessas escolas e a realidade fi nanceira da educação obrigaram o governo a liberar o sistema, retirando a obrigatoriedade do ensino profi ssional em todo país. Esse recuo deveu-se à realização de avaliações de cunho ofi cial no fi nal dos anos setenta, nas quais o MEC reconhecia a falência do ensino, apesar dos esforços e da expansão qualitativa ocorrida. Diante dos índices de rendimento considerados muito baixos, isso era indício de que tinha ocorrido um aumento signifi cativo dos níveis de seletividade do ensino, assunto já tratado em aulas anteriores da nossa disciplina. O entendimento era o de que as causas da baixa qualidade do ensino e dos elevados índices de repetência e de analfabetismo haviam sido provocados por uma formação inadequada dos docentes. Esse argumento era sufi ciente para justifi car uma série de experimentos educacionais, dentre os quais se destacam o Programa de Melhoria do Ensino Médio (PREMEM), o Programa de Assistência aos Municípios (PAEN) e o Programa de Ações Sócio-Educativas e Culturais para as populações carentes da cidade e do campo (PRODASEC URBANO E RURAL). Como vimos, as ações naquele momento tentavam dar conta da precariedade das escolas e de questões macro-sociais, como o empobrecimento da população, o analfabetismo e o enfraquecimento cultural. No fi nal dos anos oitenta e início dos anos noventa, o avanço do capitalismo em escala mundial e a nova ordenação da economia baseada no desenvolvimento técnico e científi co impulsionaram os governos a continuarem com as ações educativas em Aula 9 Fundamentos da Educação 143 caráter emergencial. Nesse sentido, as ações sob a forma de projetos se consolidaram como um modo especial de implementar políticas públicas de educação. Assim, surgem os programas e/ou projetos que dotam as escolas com aparelhos da comunicação de massa para fi ns de educação e ensino. Outros projetos tratavam da capacitação de professores. Dentre esses programas, encontram-se os de educação a distância que tinham sido criados na década de setenta. O telecurso de 2º grau se revitalizou e se ampliou dando origem ao telecurso de 1º grau, consolidado como modalidade de educação a distância no Brasil. Nos anos noventa, dando prosseguimento à política de inclusão das escolas no mundo tecnológico, o governo lança o programa TV escola, cuja fi nalidade era a capacitação de professores e o uso didático em sala de aula da Educação Básica. Já o Programa Nacional de Informática (Proinfo) foi criado como alternativa para introduzir novas tecnologias de informação e comunicação nas escolas públicas e para atualizar os professores frente à realidade tecnológica dos tempos modernos. Como vemos, o Estado numa certa medida tem feito a sua parte para dotar as escolas com equipamentos da modernidade da comunicação e qualifi car docentes para o uso racional da tecnologia deensino em ambiente escolar. Resta saber se o que tem sido feito é sufi ciente para oferecer aos professores competência técnica e científi ca no trato com as novas tecnologias na educação. Leituras complementares PIRES, João Maria. Do mito à realidade: da gênese da modernidade a gênese da informatização da educação no Rio Grande do Norte. Dissertação (mestrado em educação) – Programa de Pós-graduação em Educação, UFRN, Natal, 2000. O autor faz um levantamento do processo de informatização nas escolas públicas do RN para, em seguida, construir uma análise crítico-refl exiva dos componentes políticos, econômicos e sociais que se articulam, na forma de mito-tecno-lógico, na fundamentação do projeto de modernização da educação brasileira. TRINDADE, Liane Ferreira. Educação e informática: da discussão de conceitos a relações que o computador estabelece na escola. Dissertação (mestrado em educação) – Programa de Pós-graduação em Educação, UFRN, Natal, 2003. A autora trata dos processos informais na escola e suas conseqüências no processo de ensino. Discute também os novos conceitos que chegam às escolas e as relações estabelecidas entre os professores, no que diz respeito à mediação dos processos tecnológicos no contexto da aprendizagem dos alunos. Resumo Aula 9 Fundamentos da Educação144 Você observou que a educação não pode deixar de lado a implementação e o crescente avanço da racionalidade tecnológica implícitos nos recursos tecnológicos e nas inovações advindas com o computador, com a Internet e com a expansão da telefonia móvel. As exigências do mercado de trabalho apontam para uma formação do indivíduo contemporâneo pautada em valores que compreendam as conseqüências da nova racionalidade tecnológica e também atenda as necessidades de desenvolvimento da economia. Ressaltamos que os sistemas tecnológicos são historicamente determinados e devem ser vistos como parte intrínseca do desenvolvimento econômico. Mostramos, também, que no passado recente, mais precisamente nos anos sessenta e setenta, aqui no Brasil negava-se a importância do uso dos meios e dos recursos tecnológicos no ensino-aprendizagem. Por outro lado, você percebeu que a questão colocada, hoje, não é mais a da aceitação, ou não, da razão sistêmica, científi ca e tecnológica como organização dos sistemas, mas sim as implicações de uma revolução ocorrida no mundo do trabalho e que infl uencia diretamente as mudanças no sistema de ensino e de educação. Autoavaliação Pesquise e comente com os colegas, ou com os professores, como se deu no passado e como ocorre no presente os modos de ensinar e aprender. Em seguida, enumere e descreva vantagens e desvantagens de alguns recursos tecnológicos que você conhece e que são aplicados na educação. Anotações Aula 9 Fundamentos da Educação 145 Referências ARGUIRI, Emanuel. Technologie appropriée ou sous-développé? discussão com Celso Furtado e Hartmut Elsenhans. Paris: PUF/ IRM, 1981. GELLEC, Dominique; RALLE, Pierre. Nouvelles theories de la croissance. Jornal Le Monde, Paris, p. 15, 07 mar. 1995. PAULA JUNIOR, René de. Design em revista. Revista Webdesign, Rio de Janeiro, n. 24, p. 60, dez. 2005. p. 60. SCHWARTZMAN, Michel Lent. A hora da sofi sticação. Revista Webdesign, Rio de Janeiro, n. 24, dez. 2005. p. 58. SIMODON, Gilbert de. Du mode d´existence des objects techniques. Paris: Aubier – Montaigne, 1969. Anotações Aula 9 Fundamentos da Educação146 A racionalidade contemporânea e a prática pedagógica 10 Aula 1 2 Aula 10 Fundamentos da Educação 149 Apresentação Esta disciplina ao longo das aulas, vem tratando de aspectos superestruturais, conjunturais, políticos, históricos, fi losófi cos e sociológicos que fundamentam a e/ou infl uenciam a educação e o ensino no Brasil. Tenta-se, assim, identifi car suas defi nições, natureza, normas e regulação e o que orienta suas ações no âmbito escolar e sociocultural. Nesta aula, veremos que apesar das críticas feitas à precarização da escola pública, à sua objetivação metodológica e à tecnização do ensino no país, a escola constitui-se numa instituição necessária ao emblemático mercado de trabalho, assim como à elevação da capacidade técnica e de socialização dos indivíduos. Essa compreensão nos coloca numa posição de alerta para fazer avançar a universalização da escola pública – ampliação física e qualitativa das escolas, melhoria didático-pedagógica e elevação da capacidade ténico-pedagógica dos professores –, atentando para o respeito à diversidade socioeconômica e cultural da população, à pluralidade metodológica e à diversidade do pensamento que fundamenta a educação hoje. Objetivos Diferenciar educação idealista e realidade educacional. Identifi car meios de adequar o ideal educativo à prática pedagógica cotidiana. Aula 10 Fundamentos da Educação150 Em busca do tesouro perdido Para iniciar nossa caminhada investigativa, partiremos do princípio de que não existe um país que tenha atingido bons níveis de crescimento econômico e desenvolvimento social sem o aumento dos níveis de escolaridade e das capacidades técnicas dos indivíduos. Acrescentemos a esse princípio o fato de que não se atinge níveis de bem-estar social, moral e ético, sem que uma parcela signifi cativa da população tenha acesso aos bens socialmente construídos. Como vemos, o nível de escolaridade e a capacidade técnica dos indivíduos são dois aspectos mais do que sufi cientes para percebermos o que ainda precisa ser feito em nosso país a fi m de que a escola cumpra seu papel de fomentadora do desenvolvimento. Dessa forma, são evidentes a importância e o papel desempenhado pela educação para o crescimento econômico e desenvolvimento social dos países. Basta ver que quase não há divergências entre teóricos das áreas de Economia, Filosofi a, Sociologia, em âmbito nacional e internacional, sobre essa questão. Na sua grande maioria, todos eles defendem a tese de que: crescimento econômico sem desenvolvimento social é voltar à barbárie. Por outro lado, observamos também que alguns países fi zeram opção por esse tipo de crescimento econômico através de caminhos “tortuosos”, ou seja, impondo sacrifícios à sociedade e à natureza. Na tentativa de melhor compreender o que significa essa via de crescimento e desenvolvimento, nos reportaremos a exemplos já conhecidos, como os dados e as referências acerca de alguns países da Europa, da América do Norte e da Ásia, destacando os níveis de desenvolvimento econômico atingidos por tais países. Entretanto, veremos Aula 10 Fundamentos da Educação 151 que, associada a esse desenvolvimento, emergiu também uma realidade social nem sempre favorável. Tal contraponto permitiu a emergência de um debate em torno das reais condições de vida, tanto do planeta quanto da população que nele habita. Esse debate deixou de ser tomado como um ponto localizado, regionalizado, nacionalizado e ganhou destaque em esfera global. Algumas regiões como a América Latina, por exemplo, foram benefi ciadas com esse debate, pois os indicadores negativos do crescimento econômico em países mais desenvolvidos serviram de alerta para evitar os mesmos erros e problemas com o crescimento econômico de outros países. Recentemente, a China e a Índia se destacaram por terem atingindo patamares de crescimento econômico surpreendentes. Dentre os fatores para esse crescimento, citados por alguns especialistas, encontra-se uma planifi cação a longo prazo do aumento das capacidades individuais, combinando programas e reformas educacionais com investimentos em infra-estrutura. A referência aos tigres asiáticos não foi feita por acaso. Trata-se de dois países, a China e a Índia, tão populosos como o Brasil, e igualmente recebedores de direcionamentos e fi nanciamentos de organismos internacionais, como o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial, que visam implementar políticas de desenvolvimento em diferentes áreas (habitação, transporte, saúde, saneamentoe educação). O que estamos querendo destacar nessa questão é que, diferentemente do Brasil, a China e a Índia vêm desafi ando os gigantes mundiais. Enquanto o crescimento global, em 2006, atingiu 4,3%, a China cresceu 8,2% e a Índia 6,3%, ultrapassando os EUA, com 3,3%, a União Européia, com 1,8% e Brasil, com 3,5% (PINHEIRO, 2006, p. 12). A pergunta vem naturalmente: qual o segredo desses países para atingir níveis tão expressivos de crescimento? A resposta poderá estar relacionada ao fato de que a planifi cação pensada e executada por esses países focaliza a combinação de investimentos em infra-estrutura e educação (investimento em mão-de-obra), fatores necessários ao sucesso do desenvolvimento e do crescimento econômico. A repórter Márcia Pinheiro, da revista Carta Capital, cita em sua reportagem o economista Gustavo Ioschpe. Segundo a repórter, o economista afi rmou que “41% dos alunos que freqüentam o nível secundário na China estão em programas de formação profi ssional”. Ainda segundo Ioschpe, “as universidades desse país dividem-se em três tipos: as abrangentes (destinadas à carreira acadêmica), as politécnicas e as profi ssionalizantes de nível básico”. Assim, a partir dessas informações, identifi camos no conjunto das ações desenvolvidas por esses países uma visão desenvolvimentista que se preocupa ao mesmo tempo com as questões econômicas e com as questões sociais, por isso, talvez, colhem agora os benefícios. Gustavo Ioschpe complementa seu pensamento dizendo que: [...] Isso ocorre porque há clareza das autoridades: a educação não pode estar dissociada do processo de desenvolvimento. China e Índia pensaram as grades curriculares para atingir uma meta de crescimento de longo prazo. E não é apenas uma questão de recursos [...] a China gasta 2% do PIB com educação, ante o dispêndio do Brasil 4,5% [...] O nosso país tem uma taxa de repetência de 32% na primeira série do primeiro grau. Simplesmente Aula 10 Fundamentos da Educação152 as crianças não são alfabetizadas. Um terço desses meninos, portanto, está condenado à exclusão, e à baixa auto-estima [...]. (PINHEIRO, 2006, p. 12). Faremos agora uma pequena pausa refl exiva para aguçar o instinto investigativo e ampliar a compreensão em torno dos novos e possíveis rumos que a contemporaneidade reserva para a educação. Tomaremos, pois, como ponto de refl exão e instrumento de análise a música Cidadão, de Lúcio Barbosa (atenção à letra com grafi a coloquial). Leia atentamente a letra e depois responda às questões que seguem. Cidadão Letra: Lúcio Barbosa 1 Criança de pé no chão Tá vendo aquele edifício moço? Aqui não pode estudar Ajudei a levantar Esta dor doeu mais forte Foi um tempo de afl ição Porque eu deixei o norte Eram quatro condução Eu me pus a me dizer Duas pra ir, duas pra voltar. Lá a seca castigava, Hoje depois dele pronto Mas, o pouco que eu plantava Olho pra cima e fi co tonto Tinha direito a comer. Mas me chega um cidadão E me diz desconfi ado, 3 tu tá aí admirado Tá vendo aquela igreja moço? Ou tá querendo roubar? Onde o Padre diz amém Meu domingo tá perdido Pus o sino e o badalo Vou pra casa entristecido Enchi minha mão de calo Dá vontade de beber Lá eu trabalhei também E pra aumentar o meu tédio Lá sim valeu a pena Eu nem posso olhar pro prédio Tem quermesse, tem novena Que eu ajudei a fazer. E o padre me deixa entrar Foi lá que Cristo me disse 2 Rapaz deixe de tolice Tá vendo aquele colégio moço? Não se deixe amedrontar. Eu também trabalhei lá Fui eu quem criou a terra Lá eu quase me arrebento Enchi o rio fi z a serra Pus a massa fi z cimento Não deixei nada faltar Ajudei a rebocar Hoje o homem criou asas Minha fi lha inocente E na maioria das casas Vem pra mim toda contente Eu também não posso entrar. Pai vou me matricular Mas me diz um cidadão Atividade 1 2 3 1 Aula 10 Fundamentos da Educação 153 Com base na leitura atenta da letra da música Cidadão, qual a informação mais importante, na sua opinião, presente na primeira estrofe? Explique fazendo relação com o contexto da sociedade contemporânea. A partir da interpretação da segunda estrofe, faça uma relação com a situação da educação no Brasil de hoje? Com base na compreensão da terceira estrofe, que outras forças, além da força da religião, podem ajudar o homem a superar as difi culdades de sua existência? Ao responder, faça referências também a possíveis “asas” que o homem criou para voar, sem ter que sair do chão. Aula 10 Fundamentos da Educação154 Elementos para discutir a educação que queremos Como vimos até o momento, os investimentos em educação propiciam o aumento da capacidade técnica e tecnológica dos indivíduos e, conseqüentemente, da produção do conhecimento. Por sua vez, o encadeamento dessas ações infl uencia positivamente na produção dos bens materiais e na economia em geral. Ora, notamos também que esses fatores se refl etem diretamente na melhoria das condições de trabalho e de vida da população. Basta ver os indicadores que mostram que o deslocamento das grandes empresas para a Índia e para a China estão ligados ao fato da Índia ser o país com maior número de profi ssionais PhD (doutorado) per capita do mundo. [...] existem nesses países algumas variáveis fundamentais que atraem capitais. As suas dimensões certamente são um ponto forte, aliado às enormes populações. Isto porque as companhias visam se estabelecer em um lugar com mercado interno consumidor pujante. (PINHEIRO, 2006, p. 12). É importante destacar que essas variáveis citadas são idênticas às existentes aqui no Brasil. Mais uma vez, a pergunta vem naturalmente: por que será que a Índia se concentra na terceirização e no domínio da tecnologia da informação e de softwares? Márcia Pinheiro, autora Aula 10 Fundamentos da Educação 155 da matéria, afi rma que isso se dá devido à formação dos profi ssionais nas 259 universidades, que abrigam institutos tecnológicos de ponta, comparáveis aos norte-americanos. No Brasil, os discursos sobre o desenvolvimento e a prioridade da educação, assunto já abordado nas aulas anteriores, continuam vigentes, embora os implementos e os resultados sejam tímidos, “a esperança de reversão do quadro de estagnação dos investimentos brasileiros é sepultada pela lentidão” (PINHEIRO, 2006, p. 14). Nas últimas quatro décadas, no Brasil, os governantes, sejam eles de direita ou de esquerda, colocaram, pelo menos no discurso, a educação como motor do desenvolvimento e prioridade nacional. Mas, diferentemente da China e da Índia, o Brasil optou por desenvolver projetos educacionais de curta duração em detrimento de políticas educacionais de longo prazo. Na verdade, o que percebemos é que, historicamente, a educação nacional transformou-se em objeto de justifi cativas para solicitar recursos aos organismos externos (Aliança para o Progresso, USAID – Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional –, BIRD – Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento –, Banco Mundial), sem, contudo, possibilitar efetivamente a elevação dos níveis de escolaridade da população infanto-juvenil. Para encontrar evidências desse argumento, basta ver que parte dos recursos destinados à educação é gasto com projetos de suplência. Tais projetos, por sua vez, servem para suprir as lacunas deixadas naqueles que não tiveram acesso ao sistema de ensino, ou naqueles que entraram nesse sistema e depois o abandonaram, seja por repetência ou necessidade de sobrevivência. Para nós, a educação talvez tenha servido mais como elemento de manipulação político-ideólogico do que como meio fundamental para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. Com um pouco mais de informação, facilmente chegaremos à conclusão de que elementos característicos da educação nacional, como o elitismo dominante, a privatização do ensino, e as precárias condições das escolas públicas, nos colocam na contramão da história recente, sobretudo no que diz respeito aos avanços tecnológicos e ao aumentodas competências técnicas. Isso porque são competências exigidas pela sociedade contemporânea, a qual se encontra regida por elevados padrões de racionalidade técnica e tecnológica. Nesse contexto, a especialização tem papel decisivo. Desse modo, entendemos que é impossível ingressar nessa sociedade sem formação acadêmica, técnica e profi ssional, em níveis elevados, pela própria competição que o mercado econômico e fi nanceiro oferece como parâmetro regulador das relações nacionais e internacionais, se tomarmos como base o nível dos países produtores de conhecimento e tecnologia. Ora, sabe-se que o Brasil conseguiu saltar da octogésima economia mundial para a oitava, graças à importação de tecnologia. Com isso, aceleram-se setores produtivos, comerciais e fi nanceiros, enquanto no campo educacional a formação básica e profi ssional foi colocada em segundo plano para privilegiar o Ensino Superior. Noutro momento, foram adotadas políticas compensatórias para a educação, visando minimizar o problema do analfabetismo, da repetência e da evasão escolar. Aula 10 Fundamentos da Educação156 O que se verifi cou posteriormente é que os governantes, as elites econômicas, políticas e os setores da intelectualidade não contavam com o rápido desenvolvimento do capitalismo em escala global, submetendo o desenvolvimento das nações aos princípios do liberalismo. Nesse sentido, o que estamos querendo destacar é o fato do desenvolvimento ser alimentado e processado sob os aspectos técnicos, tecnológicos e científi cos, em ritmos cada vez mais acelerados; e exigir como pressuposto para ser implementado uma base sólida advinda de uma formação em todos os níveis do ensino. Você percebe agora que, nessa nova fase, o capitalismo revoluciona o processo produtivo ao integrar conhecimento e inteligência às máquinas. Basta ver que os processos de automação dispensam a força bruta dos homens, desloca-os para atividades de programação, gestão e controle dos processos operacionais, o que requer dos profi ssionais não só destreza motora, mas, fundamentalmente, conhecimento da área de atuação. Essa reviravolta no processo produtivo tem implicações diretas no processo de formação da mão-de-obra em todos os níveis. Então, afi rmarmos que no atual estágio em que se encontra a sociedade contemporânea encontra-se, também, o maior desafi o para a educação nacional. A conjuntura e a estrutura dos novos tempos requerem dos profi ssionais habilidades de pensar e agir criativamente; uma ativa interação com os processos e recursos da tecnologia que incorporam sistemas simples e complexos de dados; uma boa competência para operar e sistematizar conhecimento, utilizando os recursos disponíveis em sociedade. Por fi m, podemos dizer que toda a mediação do conhecimento, imposta pela sociedade dos objetos técnicos, imprime mecanismos metodológicos que transformam e ao mesmo tempo exigem uma transformação do ambiente escolar, bem como da própria relação de ensino- aprendizagem e da educação em geral. Os alunos são submetidos a processos de aprender, participando do processo de ensino em ambiente descontraído de jogos e brincadeiras. Na verdade, o que constatamos é a emergência de uma nova formação, potencializada pela relação lúdica com os jogos eletrônicos, manipulados cada vez mais cedo no ambiente social. Nesse sentido, o ensino, hoje, não pode prescindir da mediação dos conhecimentos que foram integrados à maquinaria disponível para fi ns educacionais, notadamente os advindos dos recursos midiáticos.e complexos de dados; uma boa competência para operar e sistematizar conhecimento, utilizando os recursos disponíveis em sociedade. Por fi m, podemos dizer que toda a mediação do conhecimento, imposta pela sociedade dos objetos técnicos, imprime mecanismos metodológicos que transformam e ao mesmo tempo exigem uma transformação do ambiente escolar, bem como da própria relação de ensino-aprendizagem e da educação em geral. Os alunos são submetidos a processos de aprender, participando do processo de ensino em ambiente descontraído de jogos e brincadeiras. Na verdade, o que constatamos é a emergência de uma nova formação, potencializada pela relação lúdica com os jogos eletrônicos, manipulados cada vez mais cedo no ambiente social. Nesse sentido, o ensino, hoje, não pode prescindir da mediação dos conhecimentos que foram integrados à maquinaria disponível para fi ns educacionais, notadamente os advindos dos recursos midiáticos. Atividade 2 Aula 10 Fundamentos da Educação 157 Faremos agora mais uma pausa para reforçar nossas reflexões. Após as informações apresentadas sobre as transformações geradas pelos processos de desenvolvimento técnico, científi co e tecnológico e as possíveis infl uências na educação e no sistema de ensino brasileiro, você acha que, hoje, os professores brasileiros estão sendo bem preparados para enfrentar um ensino mediado por processos tecnológicos? Aula 10 Fundamentos da Educação158 Caminhos e adequações para a educação que queremos A noção de que educação e desenvolvimento devem caminhar juntos é um fato. Mas, muitas vezes, confundimos crescimento, principalmente o econômico, com desenvolvimento. É verdade, também, que é possível crescer, progredir sem que isso se caracterize como desenvolvimento. Mas, o que entendemos por desenvolvimento? Na nossa compreensão, para que o desenvolvimento aconteça, é necessário se observar alguns parâmetros universalmente estabelecidos. Entre eles, podemos citar o crescimento econômico, a concentração de renda na classe produtiva, a redistribuição de renda etc. Veja bem, é claro que a discussão conceitual envolvendo a idéia de desenvolvimento é muito mais ampla do que podemos imaginar, assim, não cabe, neste momento, alimentá- la. Nossa preocupação, aqui, é apenas levar até você elementos para compreender que as interpretações e as próprias ações e investimentos em prol do desenvolvimento estão ligadas a interesses específi cos que poderão, ou não, estar associados ao bem e às necessidades de uma maioria. Nesse sentido, em alguns casos, encontramos a idéia de desenvolvimento com o signifi cado de condenação da sociedade, a qual tem o dever de produzir para alimentar a riqueza de alguns poucos afortunados. Aula 10 Fundamentos da Educação 159 No Brasil, o segmento que estamos descrevendo como “afortunados” gira em torno dos 10%. Percebemos, portanto, que se trata de um país economicamente rico, mas sem a preocupação de canalizar boa parte dos investimentos para reforçar e ampliar a infra-estrutura e as políticas sociais já existentes. Nesse caso, o contexto social brasileiro é denunciador da barbárie existente sob a forma da concentração de renda, reforçando as desigualdades sociais. O Brasil, historicamente, adotou modelos de desenvolvimento associado ao capital internacional, submetendo-se às regras do jogo em detrimento das necessidades da nação. Nesse sentido, a urgência que destacamos como caminho viável para a educação brasileira, na contemporaneidade, é a implementação de um programa de ensino que aumente a capacidade produtiva tanto dos indivíduos quanto das corporações. Ora, sabemos que desde os anos cinqüenta, necessidades, e, até mesmo alternativas, para o sistema de ensino brasileiro, vêm sendo colocadas por todos os governantes, diante do precário quadro educacional do país. A esse respeito, constatamos que as difi culdades são atribuídas a vários fatores, quais sejam: [...] a falta de autonomia para gerir o desenvolvimento; adoção de um modelo de desenvolvimento associado ao capital internacional; falta de defi nições claras dos matizes do desenvolvimento nacional. [...] não existe discussão nem da parte dos cientistas, nem dos técnicos em economia sobre o signifi cado do desenvolvimento, eles aceitam simplesmente que este seja um fenômeno universal, o que parece ser algo inquestionável. (CRUZ, 1998, p. 229). De outro modo, apesar das críticas que se faça ao crescimentoeconômico no continente asiático, no que diz respeito ao meio ambiente e às questões referentes aos direitos humanos, observa-se que uma das fórmulas adotadas pelas autoridades, para o crescimento da nação, foi a de “tomar partido da globalização sem a submissão a arcabouços desfavoráveis a um projeto de construção nacional”. Dando continuidade ao seu pensamento, pontua o professor da UFRJ, João Sicsu: “[...] os países em desenvolvimento que têm alto grau de sucesso, como a China e a Índia, fi zeram uma total inserção no comércio global sem se render à voracidade dos capitais fi nanceiros” (PINHEIRO, 2006, p. 16). Voltando, portanto, ao que podemos denominar por saídas para a educação nacional, não podemos perder de vista a dimensão interna do sistema. Estamos chamando a atenção para os aspectos da autonomia e da liberdade, que deverão ser aplicados em todos os níveis da administração pública, a fi m de corrigir problemas estruturais que impedem a educação de melhor responder às exigências da atual conjuntura. Entendemos, pois, que assim permitiremos aos indivíduos desenvolverem capacidades necessárias para uma melhor colocação no mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que estaremos dotando as empresas e a sociedade de competências para suprir suas necessidades. Certamente, o caminho do planejamento, principalmente a longo prazo, tanto para a economia quanto para a sociedade, permitirá ao país ingressar com mais competência no concorrido mercado internacional e oferecer respostas positivas para a macro e para a pequena economia, bem como ao próprio desenvolvimento do país. Aula 10 Fundamentos da Educação160 Em relação à perspectiva de um planejamento a curto prazo, a maioria dos teóricos defendem que o caminho seria viabilizar uma política de reforma do sistema educacional que contemple o acesso da população menos favorecida ao sistema de ensino em todos os níveis. Ainda como base de sustentação para essa reforma do sistema educacional, é necessário se pensar a ampliação quantitativa e qualitativa do sistema dentro de uma política de gestão democrática e menos burocratizada em todos os níveis da esfera educacional no país. Por fi m, uma política de formação permanente e continuada dos docentes e dos técnicos do setor educacional condizente com as exigências dos tempos modernos, ou pós-modernos como defendem alguns. Leitura Complementar RIBEIRO, Vitória Maria Brant. A questão da qualidade do ensino nos planos para o desenvolvimento da educação: 1955/1980. Revista em aberto, Brasília, n. 44, out./dez.1989. Ribeiro analisa a relação da qualidade e quantidade no desenvolvimento da educação nacional dos anos cinqüenta aos oitenta. A abordagem do autor nos permite identifi car as prioridades governamentais e os rumos tomados pela educação brasileira nesse período. Resumo Aula 10 Fundamentos da Educação 161 Nesta aula, você estudou a relação existente entre crescimento econômico, desenvolvimento social e escolaridade dos indivíduos, tomada na forma da potencialização das suas capacidades técnicas. Demonstramos o papel que tem a educação no crescimento econômico e no desenvolvimento social dos países. Vimos, também, que os investimentos em educação propiciam um aumento na capacidade técnica e tecnológica dos indivíduos, e, conseqüentemente, na produção do conhecimento. Por outro lado, você observou que no Brasil os discursos sobre o desenvolvimento e a prioridade da educação, apesar de serem destacados pela maioria dos nossos governantes e das elites empresarial e fi nanceira, oferecem resultados muito tímidos. O fato é que a educação tem servido mais como elemento de manipulação político-ideólogico do que como meio fundamental para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. Nesse sentido, você teve contato com informações que mostram discussões e caminhos para a educação nacional pautada no elitismo dominante, na privatização do ensino, colocando-a na contramão da história recente. Noutro momento, mostramos que toda a mediação do conhecimento, imposta pela sociedade dos objetos técnicos, imprime mecanismos metodológicos que transformam e ao mesmo tempo exigem uma transformação do ambiente escolar, bem como da própria relação de ensino-aprendizagem, e da educação em geral. Você percebeu como caminhos para o ensino, a necessidade de um olhar crítico e refl exivo sobre o conhecimento integrado às máquinas, imprescindível para as novas relações sociais, o qual já se encontra disponível para fi ns educacionais, notadamente os advindos dos recursos midiáticos. Autoavaliação Para complementar as informações sobre os diferentes níveis e interpretações de educação que foram apresentados, sugerimos que você navegue pelos sites do MEC/INEP, IBGE, DIEESE, BIRD, UNESCO e Banco Mundial. Como atividade específica, construa um quadro da situação educacional do seu município, destacando os níveis de formação, qualificação e remuneração dos docentes no seu município. Se possível, compare-os com dados nacionais e até mesmo internacionais. Anotações Aula 10 Fundamentos da Educação162 Referências ARAPIRACA, José Oliveiro. A USAID e a educação brasileira. São Paulo: Cortez, 1982. BARBOSA, Lúcio. Cidadão. Intérprete: Zé Geraldo. In: ZÉ GERALDO. Zé Geraldo acústico. São Paulo: Paradoxx music, 1996. Faixa 7. Disponível em: <http://www.zegeraldo.com/disc/ disc_m.asp?DiscoID=12#cidadao>. Acesso em: 19 abr. 2006. CANO, Wilson. Refl exões sobre o Brasil e a nova (des)ordem internacional. São Paulo: Editora da UNICAMP, 1993. CRUZ, Vilma Vitor. Racionalidade tecnológica e educação e educação. Caen: Universidade de Caen/França, 1998. (Tese de doutorado). CUNHA, Luis Antônio. Política educacional no Brasil: a profi ssionalização do ensino médio. Rio de Janeiro: Eldorado, 1977. GARCIA, Pedro Benjamim. Educação, modernização ou dependência. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977. SANTOS, Laymer Garcia. Desregulagens: Educação, planejamento e tecnologia como ferramenta social. São Paulo: Brasiliense, 1981. PINHEIRO, Márcia. Expresso oriente. Carta Capital, São Paulo, ano XII, n. 337, p. 10-16, 25 jan. 2006. Anotações Aula 10 Fundamentos da Educação 163 Anotações Aula 10 Fundamentos da Educação164 A elitização e a universalização da Educação no Brasil 11 Aula 2 1 Aula 11 Fundamentos da Educação 167 Apresentação A questão da universalização da educação só poderá ser discutida se nos voltarmos para a análise da mentalidade das elites, de um lado, e da população em geral, de outro, a fi m de compreender as relações de classe social, assim como o papel da educação no desenvolvimento econômico e social. Nas aulas anteriores, tratamos um pouco da difi culdade que tem a elite brasileira em admitir que a educação é um bem social e, como tal, é um direito ao qual todos, independentemente de classe, raça, sexo e credo religioso, devem ter acesso gratuitamente. Essa concepção sobre o direito à educação é universal, mas é implementada pelos países de maneira diferenciada, o que signifi ca dizer que em algumas nações ela é ignorada; em outras, parte da população tem acesso a um ensino de qualidade duvidosa, enquanto outra parcela signifi cativa fi ca de fora do sistema, já os que podem pagar, estes sim, têm acesso a uma educação de qualidade. Como vemos, a universalização no âmbito educacional está ligada à discussão da elitização. Vejamos então como se dá essa dinâmica na educação nacional. Objetivos Identifi car a relação existente entre universalização e elitização da educação nacional. Estabelecer relações entre a universalização da educação e do ensino e mudanças econômicas, políticas e socioculturais. Aula 11 Fundamentos da Educação168 Componentes políticos, econômicos e sociais da elitização do ensino brasileiro Historicamente, a discussão sobre a elitização da educação nacional remonta às origens da nossa formação econômica e social. Desde o período colonial, a história da educação nacional foi marcadapor fatos que evidenciam a luta da população mais pobre para ingressar no sistema formal de ensino. Essa mobilização nacional traduz-se como a luta pela democratização da educação e do ensino no Brasil. Em meados dos anos noventa, Manoel Cardoso de Melo, professor de economia da Universidade de Campinas, São Paulo, em conferência sobre o capitalismo tardio e o neoliberalismo, disse que “A sociedade brasileira nos últimos quinze anos, assistiu à liquidação de seu mecanismo fundamental de integração social” (CRUZ, 1998, p. 90). Ora, diante de uma afi rmação dessa natureza, a primeira coisa a fazer é nos perguntarmos sobre que mecanismo seria esse e o que teria causado tal processo de “liquidação” da integração social na sociedade brasileira. Para não perdermos a seqüência lógica do nosso tema, diremos que o conferencista, ao fazer tal afirmação, questionava o contexto e os conflitos políticos e sociais que predominavam no Brasil do séc. XIX, os quais passavam a ser temas das discussões que buscavam orientações para o novo, ou seja, o século XX. O teor dessas questões era a crescente mobilidade social como conseqüência das altas taxas de crescimento e das modifi cações na estrutura de emprego. Aula 11 Fundamentos da Educação 169 Na verdade, com essa breve referência contextual, queremos chamar a atenção para o fato de que os aspectos políticos e econômicos dessa questão encontram eco nas políticas sociais, dentro do que convencionamos chamar de universalização da educação e do ensino. Desse modo, fi ca claro que as discussões na Educação não são tão simples como se costuma pensar. Elas refl etem ações que ocorrem principalmente na estrutura do trabalho e no ambiente social como um todo. De certo modo, é pela via da educação que se defi ne o lugar que as pessoas vão ocupar nas estruturas econômica e social. Para Manoel Cardoso de Melo, na conferência anteriormente citada, Quando se observa como é que uma sociedade tão desigual como a brasileira pode fazer isso, é porque ela se movia inteira, ela se mexia! se mexia! Em uma época, você tinha uma geração, um indivíduo na zona rural, noutra geração o sujeito era operário da construção civil, noutra seu fi lho é médico. Este mecanismo é na realidade o grande mecanismo e que não existe mais. Quando nos viramos para os anos 80, evidentemente, com a estagnação teria ocorrido mobilidade social? Bem, claro que houve mobilidade social, mas para baixo, mobilidade social descendente (CRUZ, 1998, p. 90). Reforçando a tese de Melo, podemos dizer que a realidade brasileira vem se alterando aos poucos, timidamente, com as políticas afi rmativas do governo de inclusão social dos portadores de necessidades especiais, dos negros e dos índios, que são as chamadas minorias. São esses e muitos outros os confl itos que se encontram por trás da universalização da educação e, conseqüentemente, da sua perspectiva de elitização do ensino. Agora, para que você se situe melhor na questão da elitização do ensino brasileiro, iremos nos reportar às teses que tratam sobre a desigualdade social, que se encontra na raiz da exclusão de parcela signifi cativa da população do mundo do trabalho, do sistema de educação e ensino e do acesso aos bens sociais em geral. Para atender nosso objetivo, faremos referência ao estudo de Willington Germano (2000) sobre Estado Militar e a Educação no Brasil, no qual encontramos mostras de que o desenvolvimento econômico associado à concentração de renda e aos baixos níveis educacionais é excludente e elitista. Segundo Germano, Praticamente a metade, 48,5%, da força de trabalho ainda se encontra no exército de reserva, ou seja, ganha tão pouco que não consegue o sufi ciente para se manter acima da linha de pobreza absoluta [...] Com efeito, isso signifi ca que o desenvolvimento do capitalismo no País assumiu uma confi guração altamente excludente e concentradora de renda, o que dá conta de uma relação desigual entre capital e trabalho, para a qual concorreu decisivamente a ação do Estado. (GERMANO, 2000, p. 89). Como visto anteriormente, muitos programas educacionais foram desenvolvidos com o apoio de organismos internacionais, como a USAID – Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional –, o BIRD – Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento –, o Banco Mundial, dentre outros. Nada disso, porém, resultou em melhoria efetiva da educação para a maioria da população brasileira, pois, para Germano, apesar dos programas e projetos desenvolvidos, Atividade 1 2 3 1 Aula 11 Fundamentos da Educação170 [...] a política educacional é, primeiramente, um resultado do desenvolvimento histórico da formação social brasileira: da forma como tem ocorrido, entre nós, a dominação de classe, como uma ‘elite’ despótica e senhorial, que tem sempre gerido o estado em seu proveito, com a conseqüente exclusão das classes subalternas do acesso a conquistas sociais básicas – como a educação escolar – inerente ao próprio capitalismo. (GERMANO, 2000, p. 126). Essa questão ainda é vigente, apesar de alguns esforços institucionais para vencer as barreiras impostas pelas elites econômicas, políticas e intelectuais que ainda pensam em educação como privilégio de poucos abastados economicamente. Para termos uma idéia de como essa questão está presente na nossa realidade, sugerimos que responda às questões da nossa primeira atividade, a seguir. Faça uma pequena amostra da situação educacional do seu bairro a partir de uma breve pesquisa com seus vizinhos. Sugerimos que você elabore um questionário para recolher informações por família, contemplando as questões seguintes. a) Quantas pessoas da família freqüentaram a escola? b) Quantos concluíram os estudos? c) Em que nível escolar deixaram de estudar? d) Que tipo de ocupação predomina no grupo familiar? e) Quantas pessoas da casa têm carteira de trabalho assinada? f) Qual a média da renda dos que trabalham? Faça uma análise das informações coletadas e identifi que a partir do grupo familiar pesquisado, que tipo de mobilidade social ocorreu. Foi ascendente ou descendente? Comente sua análise. Comente a relação existente entre educação, inserção no ambiente de trabalho e remuneração, a partir dos dados que você coletou. Aula 11 Fundamentos da Educação 171 O sentido da universalização da educação A questão das classes sociais e o acesso desigual aos bens físicos e materiais socialmente produzidos estão na raiz do problema da universalização da educação e do ensino. A natureza e as riquezas que nela se encontram, por defi nição, existem para todos. Ocorre que a apropriação e a privatização dessas riquezas pelo homem provocam a exclusão da população mais pobre da terra, da moradia, da assistência à saúde e da educação, ou melhor, suprime-se o direito a uma vida digna. Qual seria, então, o papel da Educação nesse processo? Ora, por defi nição, a educação é um direito dos indivíduos e a responsabilidade de provê- la é do Estado. Mas, quem vai fi nanciar a manutenção desse direito? A responsabilidade é do Estado. Como o Estado vai garantir então esse direito? Com a arrecadação de impostos em todos os níveis, federal, estadual e municipal. Assim, quem fi nancia a educação é a própria sociedade. Desse modo, quanto mais desenvolvida a sociedade maior a demanda por qualifi cação e maior o número de pessoas a ingressar no sistema formal de educação e de ensino. Cruz, em seu estudo sobre a racionalidade tecnológica e a modernização da educação no Brasil, diz que “O ponto de partida para essa discussão se encontra nos mecanismos de ligação entre educação e desenvolvimento” (CRUZ, 1988, p. 235). Portanto, acreditamos que a questão deva ser colocada noutro plano, o plano das prioridades governamentais. Aula 11 Fundamentos da Educação172 Lembramos aqui uma questão mencionada em aulas anteriores: a opção do Brasil por um modelo de desenvolvimento dependente do papel que a educação venha a assumir e da conotaçãoideológica aplicada em busca da hegemonia e do consenso político. Uma dimensão maior do que a preparação da população para engajar-se no desenvolvimento nacional. Daí, Cruz dizer que: [...] Nós voltamos às análises das estruturas passadas, onde foi observada a inserção do conceito de inovação nas políticas públicas, como meio de fazer avançar o projeto de desenvolvimento, e ao mesmo tempo como meio de fazer retroceder as forças de resistências que se opunham ao modelo de desenvolvimento (CRUZ, 1988, p. 235). O que não podemos esquecer é a difi culdade de compreender a necessidade imposta pelo progresso, pela inovação, sem, contudo, elevar a capacidade produtiva e criativa dos indivíduos e da sociedade como um todo. Nesse sentido, devemos nos questionar sobre o que isso tem a ver com a universalização da educação e do ensino. Ora, basta observar que quanto maior o ingresso da população no sistema formal de ensino, menor o número de pessoas circulando na sociedade com baixo grau de escolaridade. Esse fato tem repercussão direta na economia, pois reduz a capacidade produtiva pela ausência de profi ssionais preparados, com conhecimento e competência para produzir mais e melhor. Por sua vez, se formos analisar pelo lado do grau de exigência e refi namento social, veremos que o não acesso à instrução formal repercute na renda da população, no poder aquisitivo e conseqüentemente na capacidade de escolhas dos indivíduos, o que implica a produção de mercadorias diferenciadas. De um lado, mercadorias e produtos de qualidade elevada politicamente e, ecologicamente, corretos; do outro, produtos de baixa qualidade. Nesse movimento, a educação desempenha papel importante; tanto o é que, diante da escassez de oportunidades educacionais, uma vez que, historicamente, o Brasil não desenvolveu políticas de universalização da educação para a classe trabalhadora, foram criados programas de compensação para corrigir desvios e regras de boa convivência social. Disso decorre o velho dito popular “só a educação salva”. Para Cruz, a questão da universalização pode ser compreendida com base no seguinte entendimento: [...] O problema do acesso das crianças em idade escolar à escola fundamental brasileira está na origem do problema, isto signifi ca dizer que existe um fosso entre o caráter obrigatório da constituição federal de escolaridade das crianças em idade escolar (dos 07 aos 14 anos), de democratização do ensino e as verdadeiras oportunidades de acesso à escola. (CRUZ, 1988, p. 235). Atividade 2 Aula 11 Fundamentos da Educação 173 Para refletirmos um pouco mais sobre o sentido e as implicações da universalização da educação e do ensino no Brasil, tomaremos como referência o conteúdo da letra da música Brasis. Leia-a atentamente e procure identifi car e correlacionar a elitização e a universalização da educação brasileira. Sugerimos que, após a leitura, identifi que o que a música ressalta como positivo e negativo do ponto de vista físico, econômico, social e educacional. Em seguida, analise os contrastes identifi cados, relacionando-os com as conseqüências socioeducativas no Brasil de hoje. Aula 11 Fundamentos da Educação174 Brasis Letra: Gabriel Moura, Seu Jorge, Jovi Joviniano 1. Tem um Brasil que é próspero 4. Tem um Brasil que soca Outro não muda outro que apanha Tem um Brasil que investe um Brasil que soca Outro que suga outro que saca Um de sunga, outro de gravata outro que chuta Um que faz amor perde e ganha Outro que mata. sobe e desce vai à luta, bate bola 2. Brasil do ouro porém não vai à escola. Brasil da prata Brasil do baile a cochê 5. Brasil de cobre Brasil da mulata Brasil de lata, É negro, é branco 3. Tem um Brasil que é lindo É nisei, é verde outro que fede É índio peladão, O Brasil que dá É cafuzo, é confusão. É igualzinho ao que pede Pede paz, saúde, trabalho e dinheiro 6. Oh! Pindorama Pede pelas crianças do País inteiro eu quero seu porto seguro Lá ra, lá ra, lá ra suas palmeiras, suas feiras seu café, suas riquezas, praias, cachoeiras quero ver o seu povo de cabeça em pé. Leituras Complementares CANO, Wilson. Refl exões sobre o Brasil e a nova (des) ordem internacional. São Paulo: Editora da Unicamp, 1993. O autor trata da evolução da economia e das políticas de desenvolvimento no Brasil, situando o nosso descompasso em relação ao desenvolvimento da economia mundial. Ainda nessa abordagem, o autor demonstra nossa difi culdade de inserção na economia global, enfatizando, dentre outras coisas, o fator educacional. CUNHA, Luis Antônio. Política educacional no Brasil: a profi ssionalização do ensino médio. Rio de Janeiro: Eldorado, 1997. Esse autor analisa o quadro do Ensino Médio e a qualifi cação nesse nível de ensino em um país que historicamente fez opção por privilegiar o Ensino Superior. Resumo Aula 11 Fundamentos da Educação 175 Você percebeu nesta aula que a discussão sobre a universalização da educação não pode ser feita sem articular questões econômicas, políticas e socioculturais. Isso porque essas áreas de estudo formam o arcabouço teórico que nos auxilia na compreensão dos fatos que impedem a democratização e o caráter elitista da educação nacional. Desse modo, fi ca claro que a questão da universalização da educação só poderá ser abordada dentro de uma análise envolvendo, de um lado, a mentalidade das elites e, do lado, os anseios da população em geral. Nossa proposta de abordagem visou proporcionar uma compreensão dos movimentos de mobilização e confl itos, envolvendo as relações de classes sociais, bem como o papel da educação no desenvolvimento econômico e social. Nesse sentido, acreditamos que a discussão da elitização do ensino brasileiro está ligada à dinâmica da universalização da educação. Autoavaliação Para verifi car o seu aprendizado nesta aula, identifi que como o seu grupo familiar, amigos de rua, de escola ou do trabalho foram incorporados ao sistema formal de ensino. Após uma análise, aponte algumas chances de ascensão social, sua e deles, frente àqueles que não tiveram oportunidade de ingressar nesse sistema, ou mesmo tendo ingressado não conseguiram concluir seus estudos. Anotações Aula 11 Fundamentos da Educação176 Referências CRUZ, Vilma Vitor. Racionalidade tecnológica e educação e educação. Caen: Universidade de Caen/França, 1998. (Tese de doutorado). GATTI, Bernadete A. Democracia de Ensino: oma refl exão sobre a realidade atual. Revista em aberto, Brasília: MEC/INEP, n. 44, out./dez. 1989. GERMANO, José Willington. Estado militar e educação no Brasil (1964/1985). São Paulo: Cortez, 1993. MELO, Guiomar Namo de; SILVA, Rose Neubaeur da. O que pensar da atual política educacional. Revista em aberto, Brasília: MEC/INEP, n. 50/51, 1992. MOURA, Gabriel; JOVINIANO, Jovi; JORGE, Seu. Brasis. Intérprete: Seu Jorge. In: Seu Jorge e Ana Carolina. São Paulo: Sony/BMG, 2005. DVD gravado ao vivo. Anotações Aula 11 Fundamentos da Educação 177 Anotações Aula 11 Fundamentos da Educação178 O analfabetismo entre jovens e adultos 12 Aula 3 2 1 Aula 12 Fundamentos da Educação 181 Apresentação Afi rmar que o analfabetismo no Brasil é estrutural é considerá-lo como resultado de políticas públicas que historicamente não privilegiaram o segmento mais pobre da população. Apesar de nas duas últimas décadas observarmos um esforço institucional em desenvolver políticas compensatórias para atender a população de jovens e adultos à margem do sistema educacional, essa distorção nos revela que o quadro ainda é preocupante. Mesmo assim, devemos ainda nos preocupar com a questão do analfabetismo? Por acreditar que a sua resposta será igual a nossa, ou seja, afi rmativa, faremos juntos um desdobramento dessa pergunta. Nossa primeira preocupação será retomarmos o caminho teórico interpretativo das aulas anteriores e canalizar o conteúdo desta aula para uma nova investigação, a fi m de compreender as políticas, ações e programas educacionais que são referências parao combate ao analfabetismo. Este é, portanto, nosso esquema de abordagem para esta aula: traçaremos os fatores e motivos que infl uenciam indivíduos a se colocarem à margem da educação formal, visando lhe oferecer conteúdo teórico para uma melhor compreensão da questão do analfabetismo no Brasil. Objetivos Identificar caminhos e causas que levam os indivíduos ao analfabetismo. Compreender a relação entre ofertas educacionais e idade escolar. Refl etir sobre o papel dos programas educativos voltados para jovens e adultos. Aula 12 Fundamentos da Educação182 Compreendendo a questão Nosso foco inicial é a busca de explicações para os motivos que levam um indivíduo a não ter acesso ao aprendizado da leitura e da escrita, principalmente em um mundo como o nosso, que é fundamentalmente regido por linguagens de códigos e letras. A pergunta que fazemos como base de apoio investigativo visa identifi car os problemas enfrentados por esses indivíduos que não têm acesso, voluntária ou involuntariamente, à cultura das letras, ou seja, à alfabetização. Quais seriam, pois, os refl exos desse fato na estrutura social na qual esses indivíduos estão inseridos? Em busca da resposta para essa e outras questões, veremos o quanto o analfabetismo é nocivo ao indivíduo, ao progresso da economia e da sociedade como um todo. No capítulo III, seção I, art. 205, da Constituição do Brasil, encontramos a seguinte afi rmação: A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualifi cação para o trabalho. (CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL, 1989, p. 92). Com isso, fica assegurado o direito constitucional à educação para todo cidadão brasileiro, o que signifi ca dizer que o Estado é o responsável direto pela oferta de ensino em todos os níveis. Entretanto, observamos que apesar da Constituição expressar claramente na Aula 12 Fundamentos da Educação 183 seção I, artigo 206, que o ensino será ministrado com base em vários princípios, dentre os quais destacamos “Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento. A arte e o saber; gratuidade do ensino e valorização dos profi ssionais do ensino”, essa garantia não se aplica na prática. Teremos, portanto, que investigar as razões que levam ao descumprimento dessa lei. Esse será nosso próximo passo. Tomaremos como pressuposto o fato de que o analfabetismo entre jovens e adultos no Brasil, nas quatro últimas décadas, é decorrente de fatores como a ausência de um programa de universalização do ensino que permitisse à maioria da população ter acesso à escola formal. Em aulas anteriores, tivemos a oportunidade de analisar a elitização e a privatização do ensino como decorrente da ausência de políticas públicas de democratização do ensino. Vimos também o descompasso entre política de desenvolvimento e baixos níveis de instrução formal. Agora, acrescentamos a toda essa discussão a falta de universalização do ensino como razão estrutural para o problema do analfabetismo. A Lei 5540/68, que reformulou o ensino superior, e a Lei 5.692/71, que reformulou o ensino de 1º e 2º graus em plena ditadura militar, não foram capazes de atender a demanda da população por mais vaga e melhoria das condições de ensino. Assim, nas décadas de oitenta e noventa, houve um aumento signifi cativo da oferta de vagas no setor privado, caracterizando o que se convencionou chamar de privatização do ensino. Esse movimento impulsionou a sociedade civil, sobretudo o segmento dos profi ssionais da educação, a discutir os rumos da educação nacional e propor mudanças no sistema, a fi m de garantir o acesso da população mais pobre ao sistema formal de ensino. O amplo debate entre os educadores e a comunidade em geral possibilitou que algumas medidas fossem implementadas depois da derrocada dos militares em 1985 e o início do governo civil. Para evidenciar o quadro em que se encontrava a educação no fi nal da ditadura militar, nos reportaremos ao estudo realizado por Willington Germano sobre o Estado Militar e Educação no Brasil. Nesse estudo, o autor afi rma que o fracasso da escola no Brasil e particularmente a profi ssionalização se dão “pelo limite de recursos” (GERMANO, 1993, p. 185). Dessa simples afi rmação pode surgir uma pergunta aparentemente boba, do tipo: o que tem isso a ver com o analfabetismo de jovens e adultos no Brasil? Veremos o quanto essa questão é fundamental. A exemplo, Demerval Saviani, ao abordar o tema Escola e Democracia, nos oferece algumas pistas para entender esse analfabetismo. O autor toma por base dados sobre a América Latina e estatísticas relativas aos anos setenta para afi rmar que “[...] Cerca de 50% dos alunos das escolas primárias desertavam em condições de semi-analfabetismo ou de analfabetismo potencial na maioria dos países da América Latina” (SAVIANI, 1978, p. 07). A partir dos dados oferecidos por Saviani, evidencia-se a questão do acesso à escola pública no Brasil subordinado a uma política para o continente, embora cada país tenha reagido de maneira diferente às políticas orientadas pelos organismos desenvolvimentistas norte-americanos para o continente Latino-Americano. Lembramos que esse assunto foi tratado em aulas anteriores e, no momento, estamos apenas aproveitando o espaço para Aula 12 Fundamentos da Educação184 fazer você perceber pelo menos duas coisas: a primeira é que o fenômeno do analfabetismo não é algo isolado; a segunda é que o comportamento das autoridades tem papel decisivo nas políticas educacionais implementadas em território brasileiro. Segundo Germano: O Estado não investiu de forma sufi ciente na expansão e equipamento da rede escolar. O Estado, portanto, gastou pouco. Em 1980, por exemplo, a percentagem das verbas de educação destinadas ao 2º grau era de apenas 8,4%, enquanto na América Latina girava em torno de 25,6%. (GERMANO, 1993, p. 185). Vemos, pois, que, apesar dos incentivos, a democratização do ensino no continente e a permanência dos alunos no Ensino Fundamental é precária. Dados da Unesco de 1990, citados por Maria Beatriz Moreira Luce, em estudo sobre a educação no debate da integração Latino- Americana, dão conta de que “de cada 10 alunos que ingressam no sistema educacional, 07 chegam à segunda-série, 06 chegam à terceira-série e cinco à quarta-série” (LUCE, 1993, p. 21). Essa evidência aproxima-se do que afi rma Saviani: “[...] Isto sem levar em conta o contingente de crianças em idade escolar que sequer têm acesso à escola e que, portanto, já se encontram a priori marginalizadas dela” (SAVIANI, 1986, p. 07). Ao que nos parece, esta é outra vertente do problema do analfabetismo entre os jovens e adultos: o não acesso ao sistema educacional como garantia de direito constitucional. Para Saviani, é “[...] a realidade da marginalidade relativamente ao fenômeno da educação” (SAVIANI, 1986, p. 07). Assim, identifi camos que o analfabetismo antes de ser uma escolha individual é fruto das relações estabelecidas na estrutura social. E a sua dinâmica determina quem está apto a ingressar no sistema e nele permanecer; quem nele ingressa e não permanece. Por fi m, a dinâmica das relações sociais determina quem consegue passar no funil da elitização imposta pelo próprio sistema. Para fechar esta primeira parte, ressaltamos que historicamente o acesso à educação no Brasil foi representado como a passagem por um funil, no qual nem todos que entram no sistema educacional conseguem completá-lo, ou seja, a entrada é sempre maior do que a saída. Atividade 1 2 1 Aula 12 Fundamentos da Educação 185 Procure dados, gráfi cos e documentos ofi ciais sobre o analfabetismo no seu estado e no Brasil e, a partir da leitura e análise, construa um pequeno texto crítico-refl exivo, comparando dados e conteúdosdos principais programas de alfabetização de jovens e de adultos na última década, apresentados como política de combate ao analfabetismo. Complemente o texto que você escreveu na questão anterior com índices de analfabetismo da população jovem e adulta do seu estado na última década e compare-os com índices que revelam a situação do analfabetismo em outros estados brasileiros. Faça um esforço refl exivo para projetar um possível período de erradicação ou controle desse problema em seu estado. Para esta pesquisa, sugerimos uma consulta aos sites do IBGE, do DIEESE, do MEC / INEP / FINEP e da Fundação Getúlio Vargas. Aula 12 Fundamentos da Educação186 Um pouco mais de refl exões sobre o analfabetismo A realidade educacional brasileira vem sofrendo ao longo do tempo com problemas de ordem estrutural, dentre eles, destacamos a escassez de recursos para prover o ensino público. Este, por força constitucional, deveria ser oferecido gratuitamente em todos os níveis. Nesse contexto, cabem algumas perguntas: sabe-se que compete ao Estado prover o ensino básico, então, por que o segmento menos favorecido da população não consegue nele entrar? Ou ainda, o que dizer daqueles que entram, mas não conseguem permanecer até completar a escolaridade obrigatória? Que relação existe entre faixa etária e níveis de escolaridade? Como vemos, existem várias questões a serem analisadas e aprofundadas para se compreender com mais clareza o funil que representa o sistema de ensino brasileiro, o qual, ao que parece, não depende simplesmente do sujeito passar, ou não, pelas etapas necessárias e exigidas como estágios obrigatórios de formação. Assim, as políticas públicas e o caráter elitista da educação estão na raiz do problema do analfabetismo de jovens e adultos e interferem diretamente nos resultados apresentados. Esses indicadores como base do problema que estamos investigando reaparecem continuamente nos debates entre os teóricos da educação como questões mal resolvidas. Nesse sentido, perguntamos: quais são as saídas possíveis? Desenvolver uma política de Aula 12 Fundamentos da Educação 187 universalização do ensino básico? A ampliação da rede? A melhoria das condições físicas e ambientais das escolas? A qualifi cação dos professores? Ora, sabemos que um dos pontos fundamentais na questão do analfabetismo diz respeito à melhoria das condições de emprego e renda da população, no sentido de possibilitar aos indivíduos condições materiais mínimas capazes de não obrigá-los ao ingresso no mercado de trabalho antes de completarem a escolarização mínima exigida. Outrossim, vemos que a questão da alfabetização de adultos assume uma conotação ampla e diversifi cada, com linhas de infl uência da política, da economia e do desenvolvimento. Desse modo, não podemos focalizar a dinâmica e as conseqüências do analfabetismo, principalmente entre os jovens e os adultos, simplesmente como uma questão meramente pedagógica ou, ainda, como conseqüência fundamental da (in)competência individual. Desse modo, defendemos a importância dos incentivos ao ensino em sua dimensão mais ampla possível, mas fundamentalmente direcionada à permanência dos alunos no Ensino Fundamental. Nosso desejo é de superação das metas previstas para os alunos que ingressam no sistema educacional, através da canalização de esforços para que ele permaneça na escola em tempo integral e complete o ciclo básico necessário e obrigatório, construindo, assim, pelo menos o mínimo de formação exigida ao exercício pleno da cidadania. Temos a intenção de reforçar o que já existe previsto em lei, visando salvaguardar o acesso ao sistema educacional como garantia de direito constitucional a todo o indivíduo, independentemente de cor, raça ou condição fi nanceira. Temos que mudar a realidade do ensino brasileiro, principalmente no que diz respeito à marginalidade da educação, confi gurada como analfabetismo em todos os níveis possíveis. Destacamos aqui, mais uma vez, a tese de que o analfabetismo não pode ser tratado como uma escolha individual; ele deve ser, na verdade, compreendido como fruto das relações sociais, dentro de um contexto de elitização imposta pelo próprio sistema. Por fi m, lembramos que a inserção histórica dos indivíduos na educação, no Brasil, foi sempre destacada como uma mudança de nível ou passagem de estágios em que nem sempre prevaleciam os saberes formais constituídos, mas sim os interesses predominantes das elites econômicas e fi nanceiras. Daí, talvez a referência ao funil para signifi car e justifi car, como critérios educacional e cultural, o fato de que nem todos os que entram no sistema educacional conseguem completar seus estudos. O fato de a entrada ser maior do que a saída reforça o desnível cultural e social no sistema de ensino formal. É nesse contexto que cabe a análise do analfabetismo. Atividade 2 2 1 Aula 12 Fundamentos da Educação188 Aprofunde sua pesquisa sobre a questão do analfabetismo no seu estado, procurando identifi car como ocorre a relação entre a entrada e a saída dos estudantes no Ensino Fundamental. Busque em documentos e sites ofi ciais, como o IBGE, DIEESE, MEC/ INEP, estudos que fazem referência à matrícula no Ensino Fundamental e construa um pequeno texto identifi cando e discutindo a questão do analfabetismo, no seu estado, a partir do percentual dos que estão fora do sistema de ensino. Leituras Complementares CUNHA, Luis Antônio. O golpe na educação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. O autor aborda os caminhos e descaminhos da educação, destacando as investidas da elite brasileira nos projetos de reorganização da educação no Brasil. SAVIANI, Dermeval. Análise crítica da organização escolar brasileira através das Leis 5540/68 e 5.592/71. In: GARCIA, W. E. (Org.). Educação brasileira contemporânea: organização e funcionamento. São Paulo: McGraw Hill do Brasil, 1976. O autor trata dos movimentos educacionais focalizando o discurso da modernização e a convivência com o atraso na organização do Ensino Fundamental e Médio. GOVERNO DO ESTADO DO RN. Coordenadoria de Desenvolvimento Escolar. Sub-Coordenadoria de Educação de Jovens e Adultos. Diário de Natal. Projeto Ler, Natal, v. 01-12, 2005. Coleção sobre a modalidade de ensino de jovens e adultos. Os fascículos desse projeto abordam especifi camente a modalidade de educação de jovens e adultos sob diferentes óticas: da política, da organização curricular, da educação a distância e dos movimentos populares em prol da educação de base. Resumo Aula 12 Fundamentos da Educação 189 Nesta aula, buscamos trabalhar o contexto do analfabetismo a partir do conteúdo das políticas públicas de educação, traduzido em diretriz de diagnóstico e combate aos novos e velhos problemas que se misturam nas novas orientações para a educação. Desse modo, enfocamos o problema da alfabetização de jovens e adultos no Brasil, evitando a discussão sobre as competências individuais, a qual, historicamente, tem atribuído ao cidadão comum a responsabilidade sobre a sua não inclusão ao sistema formal de ensino. Autoavaliação Identifi que na sua comunidade, entre seus familiares e amigos próximos, aqueles que não freqüentaram a escola e descubra os motivos pelos quais eles não buscaram o sistema formal de ensino para sua alfabetização. Depois converse com algumas pessoas que tiveram a oportunidade de ingressar nesse sistema, mas não conseguiram completar a escolaridade mínima. Conheça os motivos que os levaram a abandonar a escola antes do tempo e, com esses dados, construa um pequeno texto que mostre sua análise crítico-refl exiva. Referências BUARQUE, Cristóvão. O colapso da modernidade brasileira: uma proposta alternativa. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1991. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais Ltda, 1989. CUNHA, Luis Antônio. O golpe na educação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. GERMANO, José Willington. Estado militare educação no Brasil (1964/1985). São Paulo: Cortez, 1993. LUCE, Maria Beatriz Moreira. Sobre a educação no debate da integração latino-americana: alguns pontos para refl exão. Cadernos do Cedes, Campinas: Papiurus – Unicamp, n. 31, 1993. SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. São Paulo: Cortez, 1986. _______. Educação brasileira: estrutura e sistema. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 1978. Anotações Aula 12 Fundamentos da Educação190 Educação, tradição e modernidade 13 Aula 2 1 Aula 13 Fundamentos da Educação 193 Apresentação Nesta aula, como o próprio título indica, trataremos de três temas: a educação, a tradição e a modernidade. Nossa abordagem pretende articular as três áreas sugeridas, identifi cando o grau de pertinência de uma relacionada a outra. O referencial teórico tomará como pressuposto o fato de que uma educação de qualidade coloca estrategicamente o país na condição elevada de desenvolvimento econômico, tecnológico e social. Essa condição permite que os indivíduos possam estudar o passado, compreender o presente e projetar o futuro. Desse modo, a linha de raciocínio que tentaremos desenvolver nesta aula seguirá na tentativa de demonstrar que é no passado que se encontra a fonte das transformações vivenciadas no presente, e delas dependerá o futuro da humanidade expresso no progresso e na modernidade. Objetivos Identifi car o processo educativo como movimento social dinâmico e fomentador da formação moral e ética dos indivíduos. Analisar as articulações existentes entre a educação, a tradição e a modernidade. Aula 13 Fundamentos da Educação194 A educação “A Escola é assunto de todos os cidadãos, pois ela é a imagem projetada da República” (Charles Coutel). Em aulas anteriores, consideramos importante tratar da educação e do que lhe dá suporte: a tradição e a modernidade. Agora, ampliando um pouco mais essa discussão, veremos que a articulação entre essas três áreas faz-se necessária pelo fato delas formarem um tripé que sustenta as seguintes dimensões das relações humanas e sociais: a) a compreensão do homem; b) sua concepção de mundo; c) sua articulação com a natureza física e social; d) sua organização coletiva; e) os comportamentos e os valores observados nas relações sociais; f) e o modo de produzir a existência. Todas essas relações nos ajudam a compreender o que é o viver e como o homem se organiza no ambiente físico e social. Portanto, não podemos tratar separadamente essas áreas a não ser para efeito de estudo, pois é do nosso conhecimento que do saber inscrito Aula 13 Fundamentos da Educação 195 na tradição se alimentam as pesquisas sobre os indivíduos e os comportamentos sociais (comportamentos, hábitos, costumes e a formação cultural dos povos). Nesse sentido, nossa compreensão é de que a educação cumpre papel preponderante não só de sistematização, mas de produção de novos saberes, de formulação e difusão dos velhos e novos conhecimentos, permitindo que idéias afl orem e que conceitos sejam reformulados, ou mesmo transformados, e o conhecimento surgido possa ser difundido. A importância desse movimento para o processo educativo consiste em formar indivíduos capazes de produzir conhecimento e atingir compreensão de como o homem se relaciona com o meio ambiente, com a produção de bens, materiais e simbólicos, que circulam no ambiente social. Desse modo, dada a complexidade dessas relações, justifi ca-se a compreensão do passado, da origem da natureza das coisas, da vida e do comportamento dos animais e dos seres humanos. Esse caminho investigativo e compreensivo deve ser realizado em ambiente de educação formal, de maneira organizada e sistemática. Com isso, queremos chamar sua atenção para o fato de que é através da educação formal que nos preparamos para enfrentar a vida de maneira mais organizada e sistemática. Por esse caminho formativo, deveremos aprender a lançar mão do conhecimento acumulado para progredir individualmente e coletivamente. Como podemos ver, o tema educação deve ser assunto importante para todos os cidadãos, pois dela depende o grau de integração dos indivíduos às estruturas econômica e social. Alguns teóricos chegam a considerar a educação tão importante para o homem como o ar que ele respira. Obviamente, o ser humano viverá sem ser alfabetizado, sem educação formal nenhuma, a questão é saber como. O exagero nessa afi rmação é para chamar mais uma vez sua atenção para a importância que tem a educação na vida de cada um e na harmonização social. Ora, se podemos dizer que o homem é um animal racional, podemos então admitir que ele não poderá fi car entregue a sua natureza como os outros animais. Em linhas gerais, o que nos diferencia dos outros animais pode ser a necessidade da domesticação, de alinhamento, ordenação, ou seja, regras para não deixar o homem livre para fazer o que bem entenda. Ao que nos parece, aqui surge um problema: a necessidade das regras. Você já imaginou como seria o mundo sem regras, sem normas, todos dividindo o mesmo espaço sem haver respeito? Podemos até ter uma opinião formada sobre o que seja educação e a sua fi nalidade, mas não podemos nos furtar dessa discussão, pois desde os tempos antigos ela é discutida, reformulada, transformada e adequada a cada forma de governo ou regime político. Isso signifi ca dizer que dos tiranos aos democratas todos se preocupam com a educação do seu povo. Entretanto, cabe perguntar: por que a instituição educativa causa tanta preocupação? Philippe Meirieu (2002), reportando-se ao projeto de Decreto da Organização Geral da Instrução Pública, apresentado à Assembléia Nacional Francesa e lido por Condorcet em 1792, diz que: Condorcet revela uma confi ança absoluta nos processos de conhecimento humano pela razão e pretende fundar uma ‘instrução pública’, colocada sob a responsabilidade exclusiva do legislador. Nesta perspectiva, a escola deve ser particularmente ambiciosa no que diz respeito à transmissão mais ampla do conhecimento científi co. (MEIRIEU, 2002, p. 41). Aula 13 Fundamentos da Educação196 Como vemos, regular a “instrução pública” é exigência da própria universalização do conhecimento em bases científi cas, o que por defi nição e por práticas complexas não pode ocorrer de maneira informal e despretensiosa fora do ambiente formal da academia. Meirieu (2002) complementa sua análise, reportando-se ao documento do comitê, citado anteriormente, dizendo que: A finalidade que Condorcet atribui à ‘instrução pública’ é clara: oferecer a todos os indivíduos da espécie humana os meios de prover suas necessidades de assegurar o seu bem- estar, de conhecer e de exercer seus direitos, de entender e de cumprir seus deveres [...] Mas, sobretudo, esclarecer a razão dos homens para libertá-los de toda forma de opressão sobre sua consciência e de fazer deles verdadeiros cidadãos: enquanto houver homens que não obedeçam apenas à sua razão, que recebam suas opiniões de uma opinião estranha, em vão todas as correntes terão sido rompidas, [...] o gênero humano continuaria dividido em duas classes: a dos homens que pensam e a dos homens que crêem, a dos senhores e a dos escravos. (MEIRIEU, 2002, p. 41) . Não discutiremos aqui as idéias de Condorcet do ponto de vista político e ideológico, mas chamaremos a atenção para alguns pontos que são colocados embrionariamente na proposta do comitê sobre a ‘instrução pública’ que tem valor universal, como a universalização da educação como garantia de bem-estar; de exercício de cidadania, exigindo direitos e cumprindo seus deveres; meio de libertação da opressão. Assuntos ainda discutidos hoje no Brasil e, conforme estudos anteriores, ainda não plenamente satisfeitos. Eis então o papel da educação: preparar os indivíduos para viverem em sociedade de forma ativa. Aula 13 Fundamentos da Educação 197 A tradição A rapadura, o trovar a vida ‘um pouquinho dura’, a moringa e o pote de barro, a barriga e o cigarro, a rede de palha,a incelença para o morto na mortalha, a colcha de fi andeira, o rezar em latim da rezadeira, as estórias meninas do trancoso, o cantorio de Santos Reis na casa do pouso, o aboio do berrante e do vaqueiro, as artes de feitiçaria do moçambiqueiro, a encomenda de almas, a dança de catira entre canto e palmas, o cordel que vê o mundo e quer pensá-lo, a fé e a festa de uma Fundação de São Gonçalo. (BRANDÃO, 1982, p.48). O conhecimento não surge do nada, do vazio, surge da necessidade do homem de compreender sua existência, o que signifi ca dizer sua relação com a natureza e com os seus semelhantes. Assim, os estudos culturais assumem um papel importante na produção do conhecimento, que, por defi nição, consiste numa das funções da educação sistematizada. Por isso, a tradição faz parte desse universo cultural como forma de entendermos como os homens produzem sua existência e, assim, avançarmos na melhoria das condições de existência. Definir cultura, onde encontramos a tradição, torna-se necessário para melhor compreender o papel desta no processo de ensino e na educação como um todo. No estudo sobre conformismo e resistência, Marilena Chauí (1994) diz que Aula 13 Fundamentos da Educação198 Vinda do verbo latino colere, cultura era o cultivo e o cuidado com as plantas, os animais e tudo que se relacionava com a terra; donde, agricultura. Por extensão, era usada para referir-se ao cuidado com as crianças e sua educação para o desenvolvimento de suas qualidades e faculdades naturais; donde, puericultura. O vocabulário estendia-se, ainda, ao cuidado com os deuses; donde, culto. A cultura, escreve Hanna Arent, era o cuidado com a terra para torná-la habitável e agradável aos homens, era também o cuidado com os deuses, os ancestrais e seus monumentos, ligando-se à memória e, por ser o cuidado com a educação, referia-se ao cultivo do espírito. (CHAUÍ, 1994, p. 11). Vemos a importância da tradição para os estudos culturais e conseqüentemente para a educação. Isso se justifi ca porque o processo de educação destituído da memória e da cultura, que está na raiz da formação de um povo, constitui um processo mecânico de aprendizado de regras e técnicas produtivas descontextualizadas. Portanto, um aprendizado inútil. Um pouco de provocação para estimular a refl exão crítica: por que a educação, sobretudo a Educação Básica, deve ser praticada de modo a relacionar o presente com o passado? Façamos, juntos com Marilena Chauí, um esforço para entender essa vinculação entre passado e presente na educação. Arriscamo-nos a dizer que tem relação com o conceito de cultura, você concorda? Pois bem, sabemos que a cultura se relaciona com o processo civilizatório, ou seja, com as noções de “civil, de homem educado, polido e a ordem social” (CHAUÍ, 1994, p. 12). A autora diz também que cultura não pode ser compreendida a partir dessa defi nição restrita, mas no sentido mais amplo do termo. Para Chauí, não existe consenso para a defi nição de cultura. Segundo Chauí (1994, p.13), em alguns contextos, o conceito de cultura confunde-se com “civilização, com convenções e instituição sociopolíticas”, em outros, ela é “processo de aperfeiçoamento moral e racional, o desenvolvimento das luzes na sociedade e na história”. Por fi m, a autora conclui que o termo cultura segue duas direções: “uma que se refere ao processo interior dos indivíduos [...] outra que trata das relações com a História [...] concebida ora como modo de vida de uma sociedade determinada, e ora como trabalho do Espírito Mundial”. Percebe-se, portanto, que os dois caminhos apontados por Chauí vinculam-se ao aprendizado de regras e normas da boa convivência. Assim, diz ela: “[...] a cultura irá, pouco a pouco, designando os indivíduos educados intelectual e artisticamente, constituindo as ‘humanidades’, apanágio do homem ‘culto’, em contraposição ao homem ‘inculto’” (CHAUÍ, 1994, p. 13). Eis, pois, a importância de se compreender a tradição no quadro da cultura e do processo civilizatório, como patamar para as transformações culturais, evolução do homem e, conseqüentemente, da sociedade. Atividade 1 2 1 Aula 13 Fundamentos da Educação 199 Faça um exercício crítico-refl exivo em busca de informações que revelem como seria seu mundo sem a aceitação de regras sociais que lhe são impostas. Depois da refl exão, construa um texto descrevendo situações imaginárias a partir das questões que se seguem. g) Como seria uma cidade sem nomes de rua, sem numeração, sem regras de trânsito, sem normas e sem lei? h) Onde e como aprendemos a respeitar as regras? Hoje, nos parece óbvio admitir que é através da convivência que aprendemos as boas regras do convívio social. Assim, é possível que tomemos por natural o fato de não ser necessário nenhuma instituição social regular a escola e a justiça, por exemplo. Mas, a propósito das regras, se alguém lhe perguntasse por que ou para que elas existem, o que responderia? Refl ita sobre a questão com colegas e professores, fundamente sua opinião e depois faça uma pequena composição textual, destacando a importância, ou não, das regras na sociedade contemporânea. Aula 13 Fundamentos da Educação200 Aula 13 Fundamentos da Educação 201 A modernidade Há cem anos a economia brasileira vem crescendo. Com exceção de alguns anos, o país manteve taxas de crescimento entre as maiores do mundo. Isto signifi ca que, durante um século, o Brasil percorreu o caminho da modernização com velocidade superior aos demais países. (BUARQUE, 1994, p.15). Abordar ou fazer referência ao desenvolvimento ou progresso de uma nação é discorrer acerca do processo de modernização das estruturas que a compõem. Nesse sentido, podemos fazer algumas questões provocativas que deverão servir de apoio estratégico para desenvolver o tema da modernidade: como falar de desenvolvimento econômico com atraso educacional e baixa remuneração salarial? Como falar de desenvolvimento social sem que a população tenha acesso à educação, saúde e moradia, por exemplo? O contra-senso dessas questões demonstra que é impossível tratar da modernidade sem tratar do atraso em seus vários níveis de manifestação. Ao que nos parece, o contra-senso do crescimento brasileiro está ligado ao fato de que a modernização do país não conseguiu alterar uma realidade que se acumulou historicamente: [...] em cada mil brasileiros que nascem vivos, cerca de noventa morrem antes de cinco anos de idade, por fome ou doenças endêmicas. Dos sobreviventes, quase cento e vinte são excluídos desde a infância, sobreviverão marginalizados nas ruas, jamais entrarão em uma escola, não serão benefi ciados nem úteis socialmente. Dos setecentos e noventa que restam, quinhentos não concluirão as quatro primeiras séries de estudo. Cento e cinqüenta não concluirão as quatro séries seguintes do primeiro grau. Apenas cento e quarenta conseguirão passar para o segundo grau. Cem anos depois de um contínuo e intenso processo de crescimento econômico, em cada mil brasileiros que nascem, apenas noventa atravessam as difi culdades de sobreviver e são educados até o fi nal do segundo grau. (BUARQUE, 1994, p. 15). Aula 13 Fundamentos da Educação202 Buarque (1994) nos apresenta de modo sucinto a desigualdade que provoca a pirâmide educacional. Essa discussão já foi tratada em aulas anteriores e vimos que tal desigualdade produz efeitos drásticos do ponto de vista do bem-estar da população e, sem dúvida, compromete o quadro de desenvolvimento de qualquer país. Ainda segundo esse autor, Quase cem milhões de pessoas vivem na pobreza. Destas, quase 60 milhões sobrevivem em condições de miséria, e nada menos do que 20 milhões em total indigência. A quase totalidade dessa população sofrerá de doenças abolidas em quase todo o mundo, lepra, dengue, esquistossomose, tuberculose, chagas, e outras produzidas por falta de higiene, de atendimento médico ou do mínimo nutricional. (BUARQUE, 1994, p.15-16). A ausência de políticas públicasna perspectiva do desenvolvimento empurra a população para o atraso econômico e social. Na verdade, o que se vislumbra nos dados oferecidos por Buarque é o resultado da falência do Estado, enquanto responsável por prover o bem- estar social. Nesse ponto, torna-se necessário estabelecermos uma diferença entre progresso econômico e desenvolvimento social, visto que o avanço da economia nem sempre é sinônimo de desenvolvimento social, tanto não o é que Cristovam Buarque diz que: Nunca o Brasil, e raramente um outro país, esteve submetido a tal desprezo e desconfi ança das demais nações: pela destruição do meio ambiente, pelo assassinato de crianças, pelo acinte da riqueza ao lado da pobreza, pela corrupção dos quadros dirigentes, pela manipulação política, pela violência generalizada. [...] Um século de êxito no caminho do progresso foram cem anos de agravamento da miséria e de enfrentamento do tecido social brasileiro. (BUARQUE, 1994, p.17). A modernidade de fato requer mudanças radicais na forma de pensar e dividir as riquezas do país. Mas, de que adianta o país estar incorporado a uma lógica de produção de bens materiais e de mercado de consumo globalizado, se isso benefi cia apenas a um número reduzido da população? Isso é apenas um indicador de que, ao contrário do que muitos imaginam, o tema da modernidade é muito mais complexo do que aparenta. Ela está ligada a impactos de grandes magnitudes sociais e culturais que interferem diretamente nas relações e estruturas de qualquer sociedade. A modernidade vai além da simples incorporação dos novos instrumentos técnicos e científi cos que se apresentam na composição de um novo cenário. Ela está ligada a um contexto e a uma textura sociocultural compacta e consistente que projetam uma dinâmica de mudanças políticas e econômicas que saem da tradicional condição de estável e duradoura. Com isso, estamos querendo dizer que a mudança em nome da modernidade tem raízes profundas e ainda pouco conhecidas pela maioria da população. A imagem da sociedade que se mostra ligada à modernidade e ao que dela se projeta como mudanças, ou seja, com o próprio selo da modernização, exige alterações valorativas que têm refl exos diretos na educação. Isso porque está relacionado às exigências da nova interpretação valorativa, que se manifesta como um repensar da produção do conhecimento até então conhecida. É a aplicação da razão como instrumento de organização e interpretação Atividade 2 2 1 Aula 13 Fundamentos da Educação 203 do conhecimento e da cultura produzidos pelas gerações anteriores, sem a preocupação e as discussões sobre as implicações e a dimensão das mudanças que abriram caminho para o acelerado desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Por fi m, podemos dizer que temas como a tradição, a educação e a modernidade contrastam e se ligam entre si pelos impactos sociais causados pela política e pela economia, principalmente quando associados ao desenvolvimento técnico e científi co que orientam as mudanças na sociedade contemporânea. Quanto aos processos educativos, acreditamos que por meio deles podemos identifi car o fosso entre os que se apropriam dos fundamentos técnico-científi cos, com sentido de acumulação de capital, e os outros que se apropriam da linguagem e dos instrumentos técnicos, com a simples fi nalidade de acompanhar a evolução tecnológica em direção à modernização social. Para fi nalizar esta aula, podemos dizer que as três áreas de estudo das quais tratamos aqui, a educação, a tradição e a modernidade, encontram-se muito imbricadas nas várias formas que seus problemas e as possíveis soluções se manifestam nas relações sociais, culturais e econômicas que perpassam o eixo do desenvolvimento científi co e tecnológico. A universalização do conhecimento e as práticas complexas de organização e reorientação valorativas da sociedade contemporânea retomam as discussões sobre o papel da educação na preparação dos indivíduos a fi m de que revejam e revivam os papéis que a sociedade atual indica para a mediação e o gerenciamento das novas relações. Desse modo, o conhecimento exigido para compreender a transição entre os valores tradicionais e os novos valores surge da Selecione algumas pessoas do seu círculo de amizade para conversar livremente sobre a educação e sua fi nalidade no contexto da sociedade contemporânea. Após essa conversa descontraída, construa um texto no qual você desenvolva o tema: “O papel da educação no país do futebol”. Reforce e aprofunde o conteúdo desenvolvido no texto da questão anterior, conversando com profi ssionais de diferentes áreas e diferentes níveis de formação e ensino sobre o signifi cado e a representação conceitual da tradição para a educação na sociedade contemporânea. De posse dessas informações, você poderá expandir suas idéias e produzir um pequeno texto expondo e comentando as idéias coletadas, incluindo a sua percepção. Resumo Aula 13 Fundamentos da Educação204 própria necessidade que o homem tem para signifi car e expressar sua atual relação com a natureza e com os seus semelhantes. Podemos dizer ainda, que a modernidade pressupõe mudanças diretamente associadas ao modo de pensar e fazer dos indivíduos em suas relações sociais e culturais, que vão além da simples assimilação, aceitação e acomodação aos produtos da técnica, da ciência e da tecnologia que se apresentam como novo cenário para as gerações atuais. Como conseqüências e demonstração do que dissemos anteriormente, podemos concluir que a modernidade e suas respectivas mudanças têm refl exo direto na educação e nos conteúdos geradores de conhecimento para compreender o difícil caminho de transformação dos valores tradicionais em valores contemporâneos. Desse modo, podemos dizer que os temas desta aula encontram-se ligados pela necessidade de projeção da racionalidade como instrumento de organização do conhecimento para interpretar culturas, passada e presente, e abrir para discussões sobre as implicações que as mudanças atuais trazem para a educação, ao redirecionar conceitos e valores da formação tradicional para o contexto da modernização na sociedade contemporânea. Leituras Complementares GATTI, Bernadete A. Democracia de ensino: uma refl exão sobre a realidade atual. Revista Em Aberto, Brasília: MEC/INEP, n. 44, out./dez. 1989. MELO, Guiomar Namo de; SILVA, Rose Neubaeur da. O que pensar da atual política educacional. Revista Em Aberto, Brasília: MEC/INEP, n. 50/51, 1992. GARCIA, Pedro Bejamin. Educação, modernização ou dependência? Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977. Nesta aula, tratamos de pontos fundamentais para uma melhor compreensão da articulação que deve existir entre educação, tradição cultural e modernidade. Tentamos rever algumas questões trabalhadas isoladamente ao longo da disciplina, como desigualdade social e seletividade do ensino, que evidenciam o descaso em relação à educação pública e o fortalecimento da distância entre as classes sociais. Aula 13 Fundamentos da Educação 205 Autoavaliação Faça uma refl exão e uma comparação entre as disparidades da modernização e a condição de sobrevivência da população. Destaque o papel que a educação poderá ter na sociedade contemporânea, relacionando conceitos e valores da formação tradicional no contexto da modernização. Articule suas idéias em um pequeno texto, tecendo comentários sobre conceitos e signifi cados de educação, tradição e modernidade. Descreva os pontos favoráveis e contrários a essa questão e justifi que sua posição. Referências BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Lutar com a palavra: escritos sobre o trabalho do educador. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982. BUARQUE, Cristovam. O colapso da modernidade brasileira e uma proposta alternativa. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1991. CANO, Wilson. Refl exões sobre o Brasil e a nova (des)ordem internacional. São Paulo: Editora da UNICAMP, 1993. CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil.6.ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. COSTA, Américo de Oliveira. Viagem ao universo de Câmara Cascudo. Natal: Fundação José Augusto, 1969. MEIRIEU, Philippe. A pedagogia entre o dizer e o fazer: a coragem de começar. Porto Alegre: Artmed, 2002. SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura? 15.ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. VALLE, José Edênio (Org.). A cultura do povo. São Paulo: Cortez & Moraes / EDUC, 1979. Anotações Aula 13 Fundamentos da Educação206 A institucionalização da modernização na Educação 14 Aula 1 3 2 Aula 14 Fundamentos da Educação 209 Apresentação Apresentaremos nesta aula o processo de institucionalização da educação em relação direta com o desenvolvimento técnico-científi co no contexto da modernização. Veremos nessa abordagem que a modernização exigiu o repensar do conhecimento técnico e científi co para projetar-se como racionalização do mundo. Partindo do contexto da expansão do pensamento moderno, a qual ocorreu com a fusão dos conhecimentos científicos- tecnológicos com o capital econômico e fi nanceiro, chegaremos às bases e aos pressupostos da institucionalização do ensino. Na seqüência, mostraremos que na história da Educação a institucionalização do ensino na verdade ocorreu em função do desenvolvimento industrial e econômico impulsionado pelo acúmulo dos grandes capitais, constituídos, principalmente, com a exploração dos novos continentes. Assim, a escola, em grande parte, serviu para acomodar as mudanças ocorridas no âmbito das políticas econômicas assumidas como exigências sociais. Objetivos Apresentar o processo de institucionalização da educação e sua relação com o desenvolvimento técnico-científi co e a modernização. Abordar questões inerentes à formação como conseqüência de uma exigência do desenvolvimento econômico e tecnológico. Destacar questões específi cas da cultura tecnológica, interferindo nos processos educativos. Aula 14 Fundamentos da Educação210 Modernização e educação Otema modernização, em aulas anteriores, foi tratado como uma questão que está imbricada, ou relacionada, com vários outros temas que se constituem como instrumentos de mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais. Assim, ao contrário do que muitos imaginam, a modernização vai além do impacto causado pelos novos instrumentos técnicos e científi cos sobre o mundo. Ela projeta-se em um contexto sociocultural de mudanças fora do modelo social organizado em torno de valores compactos e consistentes, ou de uma dinâmica política e econômica aparentemente estável e duradoura. Com isso, estamos querendo mostrar que as mudanças que decorreram do processo de modernização são profundas e ainda pouco conhecidas pela maioria da população. A nova imagem do universo ligada à modernização (a partir do séc. XVI) exigiu que toda a produção do conhecimento até então conhecida fosse repensada. A base teórica e prática que surgiu foi organizada em torno das preocupações com a utilização da razão na organização e interpretação dos dados sensíveis da experiência. Tais preocupações reforçaram as teses de duas grandes correntes fi losófi cas: o Empirismo e o Racionalismo. As discussões saíram do nível de abordagem pautado na relação Deus-homem para a relação homem-natureza. Esse fator foi importante porque abriu caminho para o acelerado desenvolvimento da Ciência nos períodos seguintes. Inculturação ou aculturação Para Manacorda, a inculturação é o processo de internalização, pelo indivíduo, das tradições e costumes de uma civilização. Quando o processo ocorre externamente apresentado, oferecido ou imposto por outra classe, através de entidades ou mesmo indivíduos específi cos, como escriba, por exemplo, o autor chama de aculturação (MANACORDA, 1997, p. 6). Aula 14 Fundamentos da Educação 211 Podemos notar que, seguindo as origens da formação do pensamento moderno e o que convencionamos chamar de modernização, encontraremos uma dimensão crítico-criativa vinculada ao processo de institucionalização do modelo educativo e à difusão da instrução intelectual. Ora, assumindo esse pressuposto, teremos as origens da institucionalização do saber, organizado e desenvolvido como racionalização e modernização e, conseqüentemente, os pressupostos básicos da institucionalização do ensino. Ao que nos parece, a história da Educação nos mostra que a institucionalização do ensino na verdade ocorreu a partir do aspecto formal-instrumental dos atos de ler, escrever e contar, tratados articuladamente como conhecimento e aprendizagem do trabalho. Essa dimensão conceitual foi assumida como forma específi ca de aprendizagem e derivada dos ofícios desenvolvidos nos ambientes de trabalho. Encontramos em Manacorda informações que nos levam a acreditar que o aprendizado é focalizado intimamente relacionado ao trabalho e com todo o desenvolvimento, não somente das forças produtivas, mas também das relações sociais nas quais elas se organizam. No que diz respeito à formação intelectual, o autor destaca a aprendizagem das técnicas culturais ou dos aspectos formais e instrumentais da instrução, defi nidos pelos atos de ler, escrever e calcular (MANACORDA, 1997). Continuaremos nossa refl exão a partir das informações que Manacorda (1997) nos oferece sobre a caracterização do ambiente no qual germinaram e evoluíram as principais idéias pedagógicas que impulsionaram a modernização da educação. O autor em questão, em seu levantamento histórico-evolutivo da Educação, nos ofereceu aspectos da racionalização técnica e científi ca no campo social e político, com impactos também no processo educativo. As mudanças geradas pela mecanização do novo modo de produção provocaram o deslocamento da população, das ofi cinas artesanais para as fábricas. No conjunto dessas mudanças que se evidenciaram na direção da modernização, Manacorda ressalta que o esvaziamento das ofi cinas, o qual ocorreu com o deslocamento da população do campo para a cidade, resultou em transformações culturais e revoluções morais signifi cativas. [...] assiste-se ao desenvolvimento da fábrica e, contextualmente, à supressão de fato e de direito, das corporações de artes e ofícios, e também da aprendizagem artesanal como única forma popular de instrução. Este duplo processo, de morte da antiga produção artesanal e de renascimento da nova produção de fábrica, gera o espaço para o surgimento da moderna instituição escolar pública. Fábrica e Escola nascem juntas: as leis que criam a Escola de Estado vêm juntas com as leis que suprimem a aprendizagem corporativa. (MANACORDA, 1997, p. 270). Ao analisar os impactos das mudanças políticas e econômicas nas relações de produção e no processo de formação dos indivíduos, Manacorda concluiu que havia elementos comuns às várias sociedades, desenvolvidos ao longo da história da educação. Tais elementos, em alguns momentos, até poderiam aparecer camufl ados, mas na origem e sentido conservam as mesmas características: a inculturação ou aculturação. Atividade 1 1 2 Aula 14 Fundamentos da Educação212 A educação, segundo Manacorda, ganhou impulso para a modernização no início do século XVIII, período no qual a educação esteve mais voltada para a dimensão materialista, pautada na técnica como base da formação dos jovens que desejavam aprender um ofício. Assim como o autor em questão, acreditamos que a modernização da educação tem suas origens no aprendizado das técnicas artesanais e mercantis. A partir do momento em que nasce e se define a ciência moderna é criticado o humanismo livresco gramatical e escolástico da cultura. A preocupação da educação moderna passa a ser com as várias maneiras e as diferentes iniciativas que deveriam fazer parte do processo de educar humanamente todos os homens. [...] A educação estava na moda: dela se ocupavam os soberanos, os fi lósofos, os utopistas e os romancistas. (MANACORDA, 1997, p. 232). Os interesses e os ideais que operavam as mudanças e a divisão social rumo à institucionalizaçãodo saber e da modernização da educação fi carão mais evidentes quando vistos sob a ótica dos modelos nos quais foram sistematizados os princípios da formação individual: o artesão, voltado para a mão- de-obra, o acadêmico, para cultivar e defi nir o rumo das luzes, e o homem rico, para cuidar do custeio das maquinarias e dirigir seus lucros (MANACORDA, 1997, p. 241). Delimitada, pois, a perspectiva de modernização para a educação, Manacorda afi rmou que a pedagogia moderna passou a trabalhar com o tema das relações instrução-trabalho ou instrução técnico-profi ssional. Desse modo, a sistematização do ensino seguiu na esteira do conhecimento técnico-científi co, com uma nova orientação que pressupunha planejamento e estratégias para alcançar resultados mais consistentes. Daí justifi carem-se as preocupações com o método. A referência da educação nesse contexto foi a Escola Nova, cujo critério metodológico estava centrado no aprender fazendo. Refl ita e escreva sobre sua trajetória escolar procurando identifi car mudanças nos métodos e nos conteúdos que fi zeram diferença na sua formação. O que você entende por processo de modernização da educação? Destaque, a partir das mudanças que ocorreram na sua trajetória escolar (item anterior), o que você considera resultado desse processo. Aula 14 Fundamentos da Educação 213 Aula 14 Fundamentos da Educação214 A institucionalização do saber e o movimento da modernização No que se refere à formação acadêmica do indivíduo moderno, faremos uma breve referência aos acontecimentos da Europa moderna, principalmente depois da invenção da prensa tipográfi ca. Nessa abordagem, daremos ênfase aos processos de produção e aplicação do conhecimento ao ensino. Ao longo da história, historiadores, sociólogos e fi lósofos, preocupados em compreender a estrutura lógica e epistemológica do conhecimento, mostraram que o saber acadêmico esteve fortemente vinculado às formas de pensar das elites dominantes. As universidades, a partir da Idade Média, apresentaram-se como espaço formal de produção e difusão dos saberes acadêmicos, e durante séculos foram organizadas em torno das diretrizes religiosas. Em Burke (2003), encontraremos informações sobre a grande efervescência na discussão dos saberes, nos períodos que vão do séc. XV ao XVIII, com destaque para o Renascimento e o Iluminismo. As idéias postas em debate geravam confl itos entre grupos de pensadores organizados por instituições ou corporações. Por outro lado, os debates Humanistas “Os Humanistas estão associados ao Renascimento enquanto movimento de oposição ao saber convencional dos escolásticos, ou seja, dos fi lósofos e teólogos que dominavam as universidades” (BURKE, 2003, p.40). Aula 14 Fundamentos da Educação 215 também ocorriam fora das universidades, onde os humanistas divergiam dos grupos que se organizavam e se estabilizavam nas instituições como formadores de opinião. De uma forma ou de outra, o que estava em jogo era o nascimento da institucionalização do saber. De um ponto de vista institucional, o século XVII marca um ponto de infl exão na história do conhecimento europeu em diversos aspectos. Em primeiro lugar, o monopólio virtual da educação superior desfrutado pelas universidades foi posto à prova nesse momento. Em segundo lugar, assistimos ao surgimento do instituto de pesquisas, do pesquisador profi ssional e, de fato, da própria idéia de “pesquisa”. Em terceiro lugar, os letrados, especialmente na França, estavam mais profundamente envolvidos com projetos de reforma econômica, social e política, em outras palavras, com o Iluminismo. [...] Esse conjunto de termos sugere uma consciência crescente, em certos círculos, da necessidade de buscas para que o conhecimento fosse sistemático, profi ssional, útil e cooperativo. [...] Por essas razões podemos falar de um deslocamento, em torno do ano 1700, da “curiosidade” para a “pesquisa”. (BURKE, 2003, p.47-49). A breve caracterização da produção intelectual do conhecimento, feita anteriormente, contrasta com os impactos sociais causados pela distorção política e econômica do desenvolvimento técnico e científi co. Entre os processos educativos, identifi camos um fosso. De um lado, os que se apropriam dos fundamentos técnico-científi cos visando ao lucro e à acumulação de riquezas; do outro, os que se apropriam da linguagem e dos instrumentos técnicos com a fi nalidade burocrática de acompanhar a evolução tecnológica e instrumentalizar o pensamento em favor da modernização social. Acreditamos que atualmente existe uma ponte que liga os estreitos caminhos da educação (passado-presente). A ponte, por sua vez, encontra-se corrompida na sua essência (interpretativa) e comprometida no seu conteúdo (criticidade), desse modo não oferece segurança no que entendemos ser o papel principal da instituição escola: propiciar o rito de passagem do teórico-instrutivo, para a prática crítico-criativa. O fosso ao qual nos referimos, quando visto sob as contradições geradas nas relações dicotômicas entre o econômico e o social, a indústria e a escola, o trabalho e a instrução reforçam a importância da educação para a compreensão das transformações atuais. Essa compreensão ocorre por meio da educação formalizada, que cultiva a criticidade e assume estratégias de discernimento dos conteúdos educativos difundidos pelo estreito canal de ligação entre a ideologia e a pedagogia. Nos séculos XVII e XVIII, a assimilação da modernidade pela educação ocorreu por força do desenvolvimento industrial e econômico impulsionado pelo acúmulo dos grandes capitais, constituídos, principalmente, com a exploração dos novos continentes. Com a modernização das fábricas, ocorre a saída da fase técnica para a fase tecnológica. Aula 14 Fundamentos da Educação216 Ao entrar na fábrica, que tem na ciência moderna sua maior força produtiva, ele [o ex- artesão] fi ca expropriado também de sua pequena ciência, inerente ao seu trabalho; esta pertence a outros e não lhe serve para mais nada e com ela perdeu, apesar de tê-lo defendido até o fi m, aquele treinamento teórico-prático que, anteriormente, o levava ao domínio de todas as suas capacidades produtivas: o aprendizado.[...] os trabalhadores perdem sua antiga instrução e na fábrica só adquirem ignorância. Em seguida, a evolução da “moderníssima ciência da tecnologia” leva a uma substituição cada vez mais rápida dos instrumentos e dos processos produtivos [...] Em vista disso, fi lantropos, utopistas e até os próprios industriais são obrigados, pela realidade, a se colocarem o problema da instrução das massas operárias para atender às novas necessidades da moderna produção de fábrica: em outros termos, o problema das relações instrução-trabalho ou da instrução técnico-profi ssional será o tema dominante da pedagogia moderna. (MANACORDA, 1997, p.271-72). Vemos, portanto, que no processo de institucionalização do saber, a escola, através do conjunto dos processos educativos, em parte, serviu para acomodar as mudanças ocorridas no âmbito das políticas econômicas assumidas como exigências sociais. Nesse sentido, a escola procurou acompanhar historicamente as transformações sociais incorporando os fundamentos ideológicos da política econômica e das elites dominantes, a fi m de se tornar importante instrumento teórico e prático na adequação das mudanças sociais aos novos apelos do mercado fi nanceiro internacional. Procuramos mostrar com essa incursão pelo contexto dos séculos XVII e XVIII que o desenvolvimento cultural idealizado em nome da modernidade foi conduzido pelas inovações técnicas, o que exigiu uma organização política e social para gerar, decodifi car, assimilar e consumir novas necessidades. Na verdade, as mudanças econômicas passaram a ocorrer em ritmo forte e rápido e a formação social e cultural, em um ritmo frágil e lento. O progresso técnico-científi co e a modernização das indústrias provocaram o êxodo rural. Como conseqüência,a superpopulação nas cidades agregou a pobreza material e intelectual, forçando a aplicação de medidas de controle no âmbito social. Para as autoridades, a delinqüência cada vez maior entre os jovens desempregados mostrava uma clara necessidade de mais supervisão e disciplina. Por isso, foram criadas escolas declaradamente destinadas à educação, mas na prática apenas ao treinamento das crianças na disciplina fabril. [...] Desse modo o processo de educação foi reduzido a uma espécie de linha de produção. [...] Não era considerado socialmente seguro que os meninos da classe operária se envolvessem com teoria matemática, por isso somente as tabuadas eram ensinadas.[...] Era de particular importância para as autoridades que a escrita não fosse ensinada a crianças pequenas: podia incitar pensamentos radicais. Sem a escrita, eles não podiam ser expressos adequadamente. (BURKE, 1998, p. 213-216). Atividade 2 2 1 Aula 14 Fundamentos da Educação 217 Seguiu-se, portanto, ao longo dos séculos, o processo de institucionalização da ideologia como instrumento de controle social. Ampliou-se o fosso que separava as classes que dominavam das classes que são dominadas. E, como foi visto anteriormente, o espaço estratégico para a utilização mais efi caz desse instrumento encontrava-se na educação, pois, ao mesmo tempo em que ela institucionalizou o saber no campo pedagógico, o fez também no campo ideológico. A educação desenvolveu-se em função da idéia de institucionalização do saber, pautando- se na tentativa de acomodar o indivíduo às mudanças sociais e assumindo, ideologicamente, o papel de detentora das letras e das luzes. Em parte, alimentando-se dos desejos de superação do indivíduo, no campo teórico-especulativo. Por outro lado, projetando os interesses coletivos, adequou-se a estratégias de exploração e acumulação de riquezas, pelas elites dominantes, ao traduzir impulsos e desejos individuais em modelos de crença e consumo coletivos, orientados para uma ascensão social. Refl ita sobre a organização dos saberes escolares (os conteúdos e as várias áreas do conhecimento; incorporados às disciplinas). Em algum momento, você questionou ou apoiou a organização e a infl uência da estrutura curricular dos conteúdos escolares na sua formação? Será que a forma como estão organizados os conteúdos atendem seus desejos e suas necessidades de indivíduo em formação? O nível de formação que você tem hoje lhe dá condições para compreender criticamente seu papel de “sujeito moderno” na sociedade contemporânea? Escreva sua opinião sobre essas questões e depois procure ouvir e comentar as opiniões dos colegas. Você usa e compreende criticamente os recursos tecnológicos da comunicação e da informação aplicados no ambiente escolar? Faça um comentário a respeito disso. Aula 14 Fundamentos da Educação218 Aula 14 Fundamentos da Educação 219 Modernização da educação como exigência da racionalidade tecnológica A implementação da racionalização econômica, a capitalização e a gestação da modernização não poderiam deixar de fora o espaço institucional da educação formal. Nesse contexto, o espaço institucional da escola constituiu-se num ambiente ideal para a fertilização e crescimento das idéias e dos ideais que iriam dar suporte, lógico, ideológico e mitológico, para a modernização. Esse ambiente foi constituído ao longo dos anos. Basta ver o descredenciamento atual da instituição escolar na formação integral do indivíduo e o direcionamento das ações educativas voltadas para atender as exigências das políticas externas que amparam o desenvolvimento econômico. Com isso, aprofundam-se a descaracterização e o desprestígio das instituições públicas de ensino, em nome das políticas de incentivo à privatização da educação em seus vários níveis e áreas de conhecimento. Some-se a esse contexto o aumento do defi cit de pessoal qualifi cado, os baixos salários e o não compromisso com a reposição do material básico para garantir condições mínimas à boa aprendizagem. Todos esses pontos tornaram-se apelos rotineiros por parte dos profi ssionais da educação aos governos eleitos. Desse modo, associou-se principalmente à escola pública a imagem de um ambiente desfavorável ao ensino-aprendizagem com amplo signifi cado. Aula 14 Fundamentos da Educação220 O contexto da escola parece constituir-se num espaço ideal para a apresentação e assimilação das marcas. Um ambiente desacreditado, atrasado, convencional, tradicional e conservador nas suas regras comunicativas, o qual precisa urgentemente ser redescoberto, ou reinventado, como moderna alternativa de projeção individual e coletiva no universo “descompromissado” da modernização. Assim, as marcas chegam às escolas como parceiras sociais, no amplo projeto de formação do jovem para o “novo”, para o “moderno”. No tratamento da questão social, podemos dizer que, no conjunto da sociedade, as ações do sistema educacional costumam ganhar destaque nos programas eleitorais, seja porque oferecem condições ideais para acomodar novas idéias a velhos sistemas, ou velhas idéias a novos sistemas, seja porque contribuem como instrumento, político e ideológico, para executar as transformações prometidas. De um modo ou de outro, ao que nos parece, o sistema educacional, especifi camente o brasileiro, deixa de atuar sob uma perspectiva autônoma e crítica, em relação à formação social do indivíduo para o exercício da cidadania, para atuar junto aos interesses particulares. Assim, a educação tem sido vista como base de apoio estratégico para acomodar interesses políticos e ideológicos das elites dominantes. Com isso, a escola, espaço formal de institucionalização do saber, ao longo dos anos tem abdicado das suas prerrogativas, a autonomia e a criticidade, em nome da lógica da economia de mercado que os governos assumem em suas propostas eleitorais. Nesse sentido, podemos facilmente nos deparar com políticas implementadas em prol da educação, mas que visam apenas adequar a formação dos indivíduos aos interesses políticos e econômicos. Tais políticas podem chegar às escolas camufl adas sob o disfarce de “programas inovadores”, fi xando diretrizes como urgentes e necessárias aos novos parâmetros civilizatórios. Em Gómez, por exemplo, encontramos uma descrição dos impactos possíveis para tal situação. Um dos sentimentos mais constantes do professorado na atualidade é sua sensação de sufocação, de saturação de tarefas e responsabilidades, para fazer frente às novas exigências curriculares e sociais que pressionam a vida diária da escola. [...] a introdução de novas áreas e orientações curriculares; novas tecnologias; os contínuos projetos de reforma e mudança impostos pela Administração, nos quais se modifi cam não apenas os conteúdos do currículo, como também os métodos didáticos e os papéis profi ssionais dos docentes, que agora são pressionados a assumir a responsabilidade de uma certa autonomia na confi guração de seu trabalho; as exigências sociais de efi ciência observável para satisfazer as exigências do mercado. (GÓMEZ, 2001, p.175). Queremos deixar claro que não estamos, aqui, defendendo um sistema educacional que aplique e siga políticas uniformes e imutáveis, traçadas para justifi car social e culturalmente um desenvolvimento linear e inalterável. Por outro lado, não podemos deixar de ressaltar a distorção que se apresenta entre os conteúdos desenvolvidos nas escolas e o processo assumido como necessário e urgente às rápidas mudanças que ocorrem na esfera econômica. Por fi m, é visível que os interesses da elite empresarial encontram-se canalizados para o sistema educacional como estratégia política para assegurar o processo de modernização Resumo Aula 14 Fundamentos da Educação 221 tecnológica que o país começou a modelar principalmente nos anos 60. Desse modo, a sistematização do conhecimento, imposta à escola, poderá estar simplesmente assumindo o papel de instrumento auxiliar dos interessespolíticos e econômicos de uma elite que buscou e ainda hoje busca sua sustentação e legitimação, através da aplicação de um modelo nacional de desenvolvimento econômico atrelado aos grandes investidores internacionais. Leituras Complementares CANO, Wilson. Refl exões sobre o Brasil e a nova (des) ordem internacional. São Paulo: Editora da Unicamp/Fapesp, 1995. O autor nos oferece uma discussão das relações estabelecidas nos campos da política e da economia que infl uenciam diretamente as decisões tomadas no campo social e cultural, com refl exo nas políticas educacionais que chegam às escolas. PIRES, João Maria. Tramas da (ir)racionalidade contemporânea para a composição do mito-tecnológico. Tese (doutorado em educação) – Programa de Pós-graduação em Educação. UFRN, 2004. O autor faz uma análise dos caminhos da modernização para captar os componentes políticos, econômicos e sociais que se articulam, na forma de mito-tecno-lógico, e acabam por infl uenciar o projeto de modernização da educação brasileira. Vimos nesta aula que a modernização está ligada aos impactos dos novos instrumentos técnicos e científi cos sobre o mundo. Ela exigiu que toda a produção do conhecimento fosse repensada. Mostramos que as origens da institucionalização do saber organizado e desenvolvido como racionalização e modernização foram os pressupostos básicos da institucionalização do ensino. Você percebeu que tal institucionalização, na verdade, ocorreu a partir do aspecto formal-instrumental dos atos de ler, escrever e contar, tratados articuladamente como conhecimento e aprendizagem do trabalho. Fizemos uma breve caracterização da produção intelectual do conhecimento, contrastando com os impactos sociais causados pela distorção política e econômica do desenvolvimento técnico e científi co. Por fi m, ressaltamos que no processo de institucionalização do saber a escola, em grande parte, serviu para acomodar as mudanças ocorridas no âmbito das políticas econômicas, assumidas como exigências sociais. Aula 14 Fundamentos da Educação222 Autoavaliação Escreva em uma folha de papel palavras e idéias que você considera diretamente associadas ao conceito de modernização. Em seguida, escolha um tema que associe modernização à educação. Agora, de forma criativa, disserte sobre seu tema, refl etindo criticamente acerca da infl uência das idéias incorporadas ao processo de modernização que mudaram de alguma forma a educação. Referências BURKE, James; ORNSTEIN, Robert. O presente do fazedor de machados. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. CRUZ, Vilma Vitor. Rationalité technologique et modernisation de l’éducation: le cas du Brésil (1964/1984). Caen: Universidade de Caen/França, 1998. (Tese de doutorado). GÓMEZ, A. I. P. A cultura escolar na sociedade neoliberal. Porto Alegre: ArtMed, 2001 MANACORDA, Mario Alighiero. História da educação: da antiguidade aos nossos dias. São Paulo: Cortez, 1997. MORAES, Maria Cândida. O paradigma educacional emergente. Campinas: Papirus, 1997. MORAES, Raquel de Almeida. Informática na educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. Anotações Aula 14 Fundamentos da Educação 223 Anotações Aula 14 Fundamentos da Educação224 Desenvolvimento e Educação: sonho e realidade 15 Aula 3 2 1 Aula 15 Fundamentos da Educação 227 Nesta aula, daremos continuidade à discussão sobre os fatores que se entrelaçam na composição das políticas sociais, nas quais se inclui a educação, com origens no desenvolvimento econômico, científi co e tecnológico que vem ocorrendo em todo o mundo, com o nome de modernização. A compreensão dos modernos instrumentos e processos do desenvolvimento e da produção na sociedade contemporânea é fundamental para se entender o sentido atual da educação e os seus parâmetros interativos e intersubjetivos que ganham espaço nos meios de comunicação como instrumentos de formação. Veremos que essa discussão nos remete para as alterações nas relações dos indivíduos no seu cotidiano e se projeta como característica transitória das sociedades modernas. Nossa idéia é apresentar os fundamentos explicativos para a questão do desenvolvimento econômico e social em sintonia com os desejos e perspectivas de entendimentos e participação dos indivíduos no contexto do novo modelo de sociedade que se projeta. Nesse sentido, mostraremos que o direcionamento do desenvolvimento econômico provocou e impulsionou a ruptura da visão dicotômica homem-mundo e modifi cou o conteúdo dos sonhos a partir da comunicação que se oferece como instrumento de validade para as novas regras interativas e normativas da realidade social. Apresentação Objetivos Apresentar caminhos assumidos pela educação no desenvolvimento econômico, técnico e científi co como projeto básico da modernização. Discutir questões inerentes às expectativas com a formação escolar e as exigências do perfi l profissional que emerge do desenvolvimento econômico e tecnológico. Destacar as inovações da cultura tecnológica projetadas como sonho de consumo e formação nas sociedades contemporâneas. Aula 15 Fundamentos da Educação228 Articulações da modernização com a comunicação contemporânea A preocupação atual da maioria dos teóricos é identifi car o que se confi gura como dimensão necessária na dinâmica das novas tendências do conhecimento contemporâneo que despontaram principalmente entre os séculos XIX e XX, como alternativas de interpretação para os fenômenos relacionados ao indivíduo e à sociedade. Vimos em aulas anteriores que a análise reflexiva dos processos evolutivos do desenvolvimento econômico são fundamentais para compreendermos os parâmetros interativos sociais da sociedade contemporânea. Estes, por sua vez, nos revelam alterações de comportamento implícitas nas relações dos indivíduos que se confi guram como características transitórias das sociedades modernas. O processo transitório da modernização de modo geral envolve uma intrincada cadeia de discussões e transformações que aos poucos minaram a estrutura tradicional dos modos de conhecimento e relacionamento entre os indivíduos, no conjunto das regras e normas sociais. A complexidade do desenvolvimento das sociedades contemporâneas, ao nosso modo de ver, esconde um conteúdo substancial que respalda a lógica componente das relações de comunicação entre os sujeitos sociais. Mostraremos alguns caminhos da racionalização contemporânea que apontam para essa direção. No geral, são alternativas que visam compreender Aula 15 Fundamentos da Educação 229 padrões e normas necessárias ao bom desenvolvimento das relações sociais, baseando-se na interação que serve de mediadora nos discursos da sociedade atual. Um dos caminhos de ligação entre o desenvolvimento e a educação é proporcionado pela tecnologia que possibilita a comunicação em rede, através da Internet, e de vários outros instrumentos tecnológicos em todo o planeta. Nesse contexto, estão inseridas as várias linguagens discursivas decorrentes do uso desses instrumentos, com destaque para a linguagem audiovisual. Nesse campo discursivo, mediado pela linguagem e pelos instrumentos tecnológicos, a educação aparece como um espaço ideal para criar, produzir e ampliar positivamente ações em várias áreas do conhecimento, ao articular o saber (o conhecimento) e o saber fazer (a técnica) como instrumento de formação e compreensão das complexas relações entre os sujeitos contemporâneos. Desse modo, acreditamos que analisando os caminhos de manifestação dos processos comunicativos, entenderemos boa parte das transformações que ocorrem na atual sociedade. Os processos comunicativos aos quais nos referimos, grosso modo, são componentes básicos da nossa representação simbólica do mundo que se articulam racionalmente na forma de linguagens visual, oral e escrita, visando compor uma prática intercomunicativa, resultado de ações discursivas entre váriossujeitos. Sabemos que essa ação discursiva ou comunicativa é regulada por normas e ocorre em sintonia com estratégias de interesses, vivências e articulações necessárias à vida diária dos indivíduos. A conexão comunicativa pode surgir também como alternativa de superação das necessidades dos indivíduos na sociedade, na forma de construção dialógica geradora de formação do caráter destes. Desse modo, a ação formadora implícita no caráter dos sujeitos deverá servir de ação mediadora nas relações comunicativas. Ora, o que não podemos esquecer é que a construção desse aspecto mediador ocorre, principalmente, através dos sistemas de aprendizagem formal, como resultado da sistematização do cotidiano das pessoas envolvidas. Assim, as relações comunicativas não podem ser entendidas como reflexo da interpretação unilateral dos indivíduos, mas como ação e produção de conhecimento coletivo. Sabemos que o conhecimento começa a ser sistematizado formalmente na escola, responsável direta pela decodifi cação dos símbolos lingüísticos que medeiam as relações culturais e sociais. Com isso, a escola ocupa papel fundamental na tarefa de oferecer-se como mediadora da linguagem e do discurso incorporado pelos sujeitos. Ela se oferece como espaço ideal de decodifi cação dos atos lingüísticos e da formação crítica que melhor modela e organiza a compreensão do mundo e da vida. Nesse sentido, talvez possamos arriscar um primeiro entendimento dos modos contemporâneos de processar as articulações entre educação, comunicação, desenvolvimento e modernização como complexos conjuntos de interesses, conhecimentos e informações que movimentam o desenvolvimento e as transformações impulsionadas pelos saberes de cada geração. É nessa perspectiva que identifi camos a sintonia do Atividade 1 2 1 Aula 15 Fundamentos da Educação230 conhecimento contemporâneo com os modos de comunicação que se estabelecem hoje por meio das complexas redes de conexões informatizadas. Assim, uma possível confi guração da sociedade atual pode apresentar-se como etapa gloriosa da evolução da racionalidade humana ao mesmo tempo em que transmite ao indivíduo contemporâneo sensações de vazio e perda de valores tradicionais. Nesse contexto, percebemos a fragilidade de conceitos como os de verdade, tempo, espaço, matéria, amor, felicidade, existência, realidade etc. Sólidos durante um certo período, precisam, por força das transformações, ser revistos por não delimitarem mais a fronteira entre a imaginação e a realidade. Aqui, faremos uma breve pausa para refl etirmos sobre essa relação entre educação e comunicação e o que dela se projeta como parâmetros interpretativos para a nova realidade da sociedade contemporânea. O que você aponta como maior mudança na educação de hoje a partir da chegada dos novos produtos tecnológicos e a informatização das escolas? A partir do seu conhecimento sobre a infl uência da tecnologia na educação, o que a escola perdeu, ou deixou de aprimorar, no espaço ensino-aprendizagem, que o professor utilizando os recursos tecnológicos disponíveis poderia fazer melhor? Aula 15 Fundamentos da Educação 231 Educação e comunicação: sonho e realidade Omovimento das mudanças que ocorrem em todos os níveis do conhecimento em nome do “novo” nos passa a impressão de que parece não haver mais sentido em pensar, ver e viver de acordo com perspectivas unidimensionais, ou mesmo bidimensionais. Isso porque o modelo de apreensão das relações entre os indivíduos e a própria realidade que os envolve é repensado e revisto em função da abertura conceitual que serve de parâmetro normativo e comunicativo para as novas relações. Visto por esse ângulo, a contemporaneidade parece erguer-se sob novas bases de relações e de comunicações impondo a todos nós a difícil tarefa de reconhecermos nossa realidade e identidade de sujeitos históricos. A comunicação contemporânea, portanto, ultrapassa as fronteiras do tempo e do espaço e difi culta a volta às origens sociais e culturais. Desse modo, ela passa a ser vista em uma dimensão fora do real e das relações de produção, em que as Aula 15 Fundamentos da Educação232 informações ocorrem em perspectivas extremamente variadas e interativas, nos fazendo esquecer sutis manifestações de apelos reivindicatórios por direito, justiça e cidadania. Aonde estamos querendo chegar com essas informações? Não muito longe, ou melhor, muito mais perto do que você imagina. Apenas desejamos chamar sua atenção para o desmantelamento que vem acontecendo com as estruturas conceituais e valorativas tradicionais, como a escola, a família e as instituições de classes. Elas se encontram diluídas pela dinâmica das estratégias do sistema econômico e nos deixa na difícil situação de saber o papel e o rumo a tomar como sujeitos históricos que somos. Toda essa desmobilização acaba difi cultando o olhar e a formação crítica necessária para acompanharmos as mudanças implementadas em nome da modernização. Vemos então projetarem-se na sociedade contemporânea ações normativas pautadas nos princípios do sistema econômico, conservador nos seus ideais de exploração e acumulação de riquezas, mas avançado na sua dinâmica de investimento compulsivo. Essa dinâmica visa alcançar um estado de permanente alerta para renovar as estratégias de consumo. Nesse sentido, a contemporaneidade esbanja criatividade e sedução na invenção e reinvenção de sonhos e valores modeladores de comportamentos. A linguagem visual e oral, principalmente na educação, apresenta-se na maioria das vezes caracterizada por um conteúdo vazio de signifi cados explicativos, mas repleto de apelos sensuais imaginativos. Sua expressão comunicativa assume dinâmica próxima das representações míticas. Para nós, fi ca a imagem de uma conexão de conceitos, símbolos e codifi cações que fl uem velozmente através das linguagens visuais e das redes de comunicação por todo o planeta, unindo e desunindo culturas, valores e povos. A velocidade na comunicação é acompanhada de perto pela efi ciência e pelo apoio direto do sistema econômico. Esses fatores, por sua vez, geram uma dinâmica que incide fortemente na estrutura educacional que se esforça para acompanhar as várias formas de manifestação das relações comunicativas em rede e em tempo real. Desse modo, as questões contemporâneas entre a educação e a comunicação nos forçam a perceber que estamos diante de um novo processo comunicativo, o qual exige novos parâmetros de ensino aprendizagem. Você sabe que dentro dos objetivos da modernização econômica os instrumentos tecnológicos ganham status de científi co por traçar e projetar interfaces e confi gurações possíveis para a realidade social e cultural contemporânea. Basta ver os vários modelos e simuladores que existem no mercado, nos parques de diversões, nos veículos de comunicação e nos próprios programas para computadores que chegam às escolas, recheados de informações que visam reconstituir e explicar situações da nossa realidade externa e interna. No curso da Tecnologia em Educação, cabe-nos perguntar, por exemplo: a quem interessam os conteúdos sistematizados? Que benefícios poderão ser contabilizados para a educação e para os que dela participam com a modernização e todos os seus recursos científi cos e tecnológicos? Levando em conta o que abordamos até o momento, talvez possamos dizer que o conhecimento formal veiculado pela escola pode e deve ser tratado como linguagem Aula 15 Fundamentos da Educação 233 sedutora e estimulante, mas também como conteúdo crítico-refl exivo que favorece a comunicação responsável. Assim, podemos dizer que a estrutura básica da comunicação contemporânea poderá ser alimentada por elementos simbólicos carregados da irracionalidade ideológica que interfere nas ações comunicativas modeladoras do “novo” perfil de indivíduo, mas também poderá ser identifi cada com as necessidades urgentes da maioria da população. Nesse último caso, essa identifi caçãoocorre quando tais necessidades sofrerem a mediação de um conteúdo crítico, refl exivo e interativo projetado na perspectiva de favorecer aos indivíduos a compreensão necessária para situar-se ética e responsavelmente nas relações e nas transformações que se processam dentro da modernização. Por fi m, acreditamos que o movimento de articulação e projeção da modernização científica e tecnológica, na educação, poderá ser assumido como estratégia metodológica de compreensão da realidade. O conhecimento apreendido na perspectiva crítico-refl exiva deverá tornar os indivíduos seres mais ativos, dinâmicos e capazes de avançar no entendimento das mudanças que modelam o processo civilizatório contemporâneo. Essa estratégia metodológica aponta para um caminho alternativo e menos traumático entre a educação e a comunicação. Um caminho que, ao mesmo tempo, faça uso da ampla e complexa rede tecnológica associada aos meios de comunicação e possa estar em sintonia com as necessidades de uma educação que se esforça para superar suas difi culdades institucionais e gerar um novo campo de interações que respaldem as intenções do coletivo. Atividade 2 2 1 Aula 15 Fundamentos da Educação234 Pare, pense e anote nas linhas seguintes 10 (dez) componentes tecnológicos que você considera como imprescindíveis para a educação (em todos os níveis de ensino) dos seus sonhos. Faça uma análise crítico-refl exiva projetando a educação dos seus sonhos na escola que temos hoje (que você conhece e da qual participa). Aponte confl itos e caminhos alternativos para adequar a educação que queremos à escola que temos. Aula 15 Fundamentos da Educação 235 Da modernização que temos para a educação que queremos Procuramos mostrar ao longo desta aula que as encruzilhadas da modernização conduzem inevitavelmente aos caminhos da educação, identifi cando referenciais teórico-discursivos alternativos para compreender a dimensão da educação no contexto da modernização brasileira e tendo clareza de que os processos educativos deverão ser canalizados para constituir a dimensão crítico-refl exiva da racionalidade. Dessa forma, entendemos o papel da educação que queremos hoje, indo além da simples formação instrumental implícita no projeto de informatização destinado às escolas, públicas e privadas. Hoje, mais do que nunca, a escola e os que fazem a educação de modo direto ou indireto buscam compreender os elementos técnicos e pedagógicos que orientam os modelos de organização e as principais implicações da modernização social. Assim, as escolas, de acordo com seu papel institucional, seja de centros de formação de personalidade, de difusão do conhecimento, seja de entidades normativas, controladoras do comportamento social, não deverão ter seus conteúdos formadores restritos e apoiados apenas nas mudanças estruturais e tecnológicas das sociedades. Deverão investir fortemente na formação do caráter ético, crítico e refl exivo dos envolvidos. Aula 15 Fundamentos da Educação236 Na análise que fizemos sobre a educação e os impactos sofridos no contexto da modernização, mostramos que a racionalidade crítico-refl exiva aparece ainda de forma tímida e retraída no que diz respeito ao tratamento das questões sociais. Nesse contexto, cabe reforçar a importante luta dos educadores e da sociedade civil organizada, no sentido de buscar as mínimas condições materiais para garantir a educação que queremos para a grande massa dos indivíduos analfabetos à margem do desenvolvimento econômico e social. Em linhas gerais, podemos dizer que nosso objetivo foi entre outras coisas desenvolver idéias na forma de conteúdos e fundamentos relacionados a dimensões conceituais amplas de educação, de desenvolvimento, de técnica, de ciência, de tecnologia, de ideologia e de cultura. Todos compõem o intricado campo das relações sociais nas quais se insere a educação. Através desses conceitos, destacamos parcerias historicamente constituídas pelo jogo dos interesses políticos e econômicos como resultado do desenvolvimento da idéia de modernização. Evidenciamos com o movimento das mudanças contemporâneas a idéia do presente como transição que se consome na consciência da aceleração e da expectativa do que há de diferente. Por isso, combatemos o mero processo de instrumentalização do conhecimento apresentado à sociedade e, principalmente, à educação como caminho fácil e seguro para alcançarmos os objetivos da modernização. Atrelada a essa instrumentalização do conhecimento, encontramos uma intenção castradora do cultivo da postura crítica dos indivíduos, camufl ada nos bens de consumo e nos recursos que servem de enaltecimento da racionalidade científi ca e tecnológica. Tal intenção manifesta-se em sintonia com a comunicação contemporânea. Por fi m, queremos dizer que a modernização nos parece inevitável no contexto atual. Todavia, devemos evitar que ela avance pautada em papéis sociais e culturais pré-defi nidos por princípios que se traduzem numa visão “purifi cadora”, como proposta unilateral que visa forçar a modernização de valores sólidos e posturas conscientes somente por se encaixarem como não-modernos. As incertezas da sociedade contemporânea não deverão contaminar nossas expectativas em torno das ações crítico-refl exivas geradas no seio da educação como respostas ao resgate da nossa identidade cultural e ao nosso papel ético social no contexto da modernização. Resumo Aula 15 Fundamentos da Educação 237 Leituras Complementares PIRES, João Maria. Tramas da (ir)racionalidade contemporânea para a composição do mito- tecno-lógico. Tese (doutorado em educação) – Programa de Pós-graduação em Educação, UFRN - Natal, 2004. O autor faz uma análise dos caminhos de implementação da modernização para captar os componentes políticos, econômicos e sociais que se articulam na forma de mito-tecno-lógico. Na seqüência, o autor mostra como essas questões infl uenciaram no projeto de modernização da educação adotado no Brasil. GÓMEZ, A. I. P. A cultura escolar na sociedade neoliberal. Porto Alegre: ArtMed, 2001. O autor aborda, entre outras coisas, o sentido e a função social da escola no atual contexto das transformações econômicas, políticas e sociais. Seu estudo ressalta a dimensão da escola como instância de mediação cultural entre os signifi cados, os sentimentos e condutas da comunidade no desenvolvimento das novas gerações. Nesta aula, você viu que os confl itos da modernização conduzem, inevitavelmente, à educação. A partir desse pressuposto, procuramos mostrar relações entre a racionalidade dos instrumentos tecnológicos e a irracionalidade das políticas educacionais. Você deve ter observado que para reforçamos o papel da educação no contexto da modernização brasileira, como conteúdo crítico-reflexivo, educadores e educandos, como também a sociedade civil organizada, estão permanentemente em luta pelas mínimas condições materiais que garantam à educação chegar à grande massa dos indivíduos analfabetos encontrados à margem do desenvolvimento econômico e social. Ainda nessa direção, procuramos mostrar que, nas mudanças contemporâneas, o novo modelo de sociedade está pautado fundamentalmente nas incertezas. Dessa forma, o seu, o meu, o nosso papel na sociedade atual, principalmente no que diz respeito à educação, pauta-se no que poderemos resgatar da nossa identidade cultural para compor o novo contexto da modernização. Aula 15 Fundamentos da Educação238 Autoavaliação Reflita, pesquise e comente com seus colegas e professores sobre o futuro da educação e da escola, imaginando os novos conteúdos e os novos recursos tecnológicos nas atividades escolares. Identifique vantagens e desvantagens nas mudanças que possam ocorrer na relação ensino- aprendizagem e elabore argumentos para justificar a educação que você imagina e deseja para a escola do futuro. Referências ARAPIRACA, José Oliveiro. A USAID e a educação brasileira. São Paulo: Cortez, 1982. CANO, Wilson.Refl exões sobre o Brasil e a nova (des)ordem internacional. São Paulo: Editora da UNICAMP, 1993. CRUZ, Vilma Vitor. Rationalité technologique et modernisation de l’éducation: le cas du Brésil (1964/1984). Caen: Universidade de Caen/França, 1998. (Tese de doutorado). GÓMEZ, A. I. P. A Cultura escolar na sociedade neoliberal. Porto Alegre: ArtMed, 2001. MANACORDA, Mario Alighiero. História da educação: da antiguidade aos nossos dias. São Paulo: Cortez, 1997. MORAES, Maria Cândida. O paradigma educacional emergente. Campinas: Papirus, 1997. MORAES, Raquel de Almeida. Informática na educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. Anotações Aula 15 Fundamentos da Educação 239 Anotações Aula 15 Fundamentos da Educação240 Anotações Aula 15 Fundamentos da Educação 241 Anotações Aula 15 Fundamentos da Educação242 Esta edição foi produzida em mês de 2012 no Rio Grande do Norte, pela Secretaria de Educação a Distância da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (SEDIS/UFRN). Utilizando-se Helvetica Lt Std Condensed para corpo do texto e Helvetica Lt Std Condensed Black títulos e subtítulos sobre papel offset 90 g/m2. Impresso na nome da gráfi ca Foram impressos 1.000 exemplares desta edição. SEDIS Secretaria de Educação a Distância – UFRN | Campus Universitário Praça Cívica | Natal/RN | CEP 59.078-970 | sedis@sedis.ufrn.br | www.sedis.ufrn.br << /ASCII85EncodePages false /AllowTransparency false /AutoPositionEPSFiles false /AutoRotatePages /None /Binding /Left /CalGrayProfile (None) /CalRGBProfile (Apple RGB) /CalCMYKProfile (None) /sRGBProfile (sRGB IEC61966-2.1) /CannotEmbedFontPolicy /Error /CompatibilityLevel 1.3 /CompressObjects /Off /CompressPages true /ConvertImagesToIndexed true /PassThroughJPEGImages true /CreateJobTicket true /DefaultRenderingIntent /Default /DetectBlends false /DetectCurves 0.0000 /ColorConversionStrategy /LeaveColorUnchanged /DoThumbnails false /EmbedAllFonts true /EmbedOpenType false /ParseICCProfilesInComments true /EmbedJobOptions true /DSCReportingLevel 0 /EmitDSCWarnings false /EndPage -1 /ImageMemory 524288 /LockDistillerParams true /MaxSubsetPct 5 /Optimize false /OPM 1 /ParseDSCComments true /ParseDSCCommentsForDocInfo false /PreserveCopyPage true /PreserveDICMYKValues true /PreserveEPSInfo true /PreserveFlatness true /PreserveHalftoneInfo false /PreserveOPIComments false /PreserveOverprintSettings true /StartPage 1 /SubsetFonts true /TransferFunctionInfo /Remove /UCRandBGInfo /Remove /UsePrologue false /ColorSettingsFile (None) /AlwaysEmbed [ true ] /NeverEmbed [ true ] /AntiAliasColorImages false /CropColorImages true /ColorImageMinResolution 150 /ColorImageMinResolutionPolicy /OK /DownsampleColorImages true /ColorImageDownsampleType /Bicubic /ColorImageResolution 180 /ColorImageDepth -1 /ColorImageMinDownsampleDepth 1 /ColorImageDownsampleThreshold 1.50000 /EncodeColorImages true /ColorImageFilter /DCTEncode /AutoFilterColorImages true /ColorImageAutoFilterStrategy /JPEG /ColorACSImageDict << /QFactor 0.76 /HSamples [2 1 1 2] /VSamples [2 1 1 2] >> /ColorImageDict << /QFactor 0.15 /HSamples [1 1 1 1] /VSamples [1 1 1 1] >> /JPEG2000ColorACSImageDict << /TileWidth 256 /TileHeight 256 /Quality 30 >> /JPEG2000ColorImageDict << /TileWidth 256 /TileHeight 256 /Quality 30 >> /AntiAliasGrayImages false /CropGrayImages true /GrayImageMinResolution 150 /GrayImageMinResolutionPolicy /OK /DownsampleGrayImages true /GrayImageDownsampleType /Bicubic /GrayImageResolution 180 /GrayImageDepth -1 /GrayImageMinDownsampleDepth 2 /GrayImageDownsampleThreshold 1.50000 /EncodeGrayImages true /GrayImageFilter /DCTEncode /AutoFilterGrayImages true /GrayImageAutoFilterStrategy /JPEG /GrayACSImageDict << /QFactor 0.76 /HSamples [2 1 1 2] /VSamples [2 1 1 2] >> /GrayImageDict << /QFactor 0.15 /HSamples [1 1 1 1] /VSamples [1 1 1 1] >> /JPEG2000GrayACSImageDict << /TileWidth 256 /TileHeight 256 /Quality 30 >> /JPEG2000GrayImageDict << /TileWidth 256 /TileHeight 256 /Quality 30 >> /AntiAliasMonoImages false /CropMonoImages true /MonoImageMinResolution 1200 /MonoImageMinResolutionPolicy /OK /DownsampleMonoImages true /MonoImageDownsampleType /Bicubic /MonoImageResolution 1200 /MonoImageDepth -1 /MonoImageDownsampleThreshold 1.50000 /EncodeMonoImages true /MonoImageFilter /CCITTFaxEncode /MonoImageDict << /K -1 >> /AllowPSXObjects false /CheckCompliance [ /None ] /PDFX1aCheck false /PDFX3Check false /PDFXCompliantPDFOnly true /PDFXNoTrimBoxError false /PDFXTrimBoxToMediaBoxOffset [ 0.00000 0.00000 0.00000 0.00000 ] /PDFXSetBleedBoxToMediaBox true /PDFXBleedBoxToTrimBoxOffset [ 0.00000 0.00000 0.00000 0.00000 ] /PDFXOutputIntentProfile (None) /PDFXOutputConditionIdentifier () /PDFXOutputCondition () /PDFXRegistryName () /PDFXTrapped /False >> setdistillerparams << /HWResolution [2400 2400] /PageSize [1700.700 1133.800] >> setpagedevice