Prévia do material em texto
Indaial – 2020 Produção em Artes VisuAis Prof.a Aline Sabbi Essenburg 1a Edição Copyright © UNIASSELVI 2020 Elaboração: Prof.a Aline Sabbi Essenburg Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: E78p Essenburg, Aline Sabbi Produção em artes visuais. / Aline Sabbi Essenburg. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 220 p.; il. ISBN 978-65-5663-075-5 1. Artes visuais. – Brasil. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 701.1 APresentAção Caro acadêmico! Seja bem-vindo à disciplina Produção em Artes Visuais. O estudo e a pesquisa em torno desta temática almejam proporcionar o conhecimento acerca de aspectos relevantes sobre a prática e a crítica do que é produzido no âmbito artístico contemporâneo. Para produzir ou conhecer em seus pormenores uma obra de arte, bem como seu universo contextual, é importante saber sobre as técnicas. Portanto, nossa primeira unidade versará justamente sobre elas, no que concerne ao desenho e à pintura, bem como seu entendimento na contemporaneidade, ou seja, com ênfase no conceito, o que amplia sua estética. Alguns elementos da linguagem serão visitados, afinal, para um bom compositor ou crítico de arte, conhecê-los é de grande valia para a interpretação da obra e do intento do artista. Outra questão relevante a verificarmos é a relação entre os designers e os artistas visuais, tendo em vista as imbricações das linguagens. A segunda unidade será dedicada à semiótica e ao simbólico, ou seja, como ocorre a simbolização de um trabalho e da sociedade imagética, e aqui enfatizamos Charles Peirce. Para finalizar nossos estudos, propomos um olhar crítico sobre as produções, em um viés político, de gênero, de raça, ético e ambiental, ou melhor, de direitos humanos, tão discutidos em nosso século. Desse modo, a criticidade, tão almejada no mundo atual, se fará presente. Sugerimos ao aluno proativo não olvidar dos textos complementares e as indicações de leitura e pesquisa sugeridas ao longo deste Livro Didático, que auxiliarão com o conteúdo para apontamentos questionadores e embasamentos consistentes, fazendo com que o conhecimento neste campo de estudos aumente progressivamente. Ao trabalho! Prof.a Aline Sabbi Essenburg Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novi- dades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagra- mação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilida- de de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assun- to em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complemen- tares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! LEMBRETE sumário UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO .................................................................................. 1 TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA......................................................... 3 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 3 2 O UNIVERSO DO DESENHO ......................................................................................................... 5 2.1 MATERIAIS ..................................................................................................................................... 8 2.1.1 Lápis....................................................................................................................................... 10 2.1.2 Carvão ................................................................................................................................... 11 2.1.3 Lápis de cor ........................................................................................................................... 11 2.1.4 Giz pastel............................................................................................................................... 12 2.1.5 Esfuminho ............................................................................................................................. 13 2.1.6 Borracha, apontador e estilete ............................................................................................ 14 2.1.7 Papel ...................................................................................................................................... 14 2.2 O DESENHO NA CONTEMPORANEIDADE: OUTROS SUPORTES ................................. 15 3 O UNIVERSO DA PINTURA.......................................................................................................... 17 3.1 TÉCNICAS E MATERIAIS .......................................................................................................... 20 3.1.1 Pintura mural ....................................................................................................................... 20 3.1.2 Encáustica ............................................................................................................................. 22 3.1.3 Têmpera ................................................................................................................................. 23 3.1.4 Aquarela ................................................................................................................................ 24 3.1.5 Guache ................................................................................................................................... 26 3.1.6 Pintura a óleo ........................................................................................................................ 27 3.1.7 Acrílica ................................................................................................................................... 29 3.2 A PINTURA NA CONTEMPORANEIDADE: A PREDOMINÂNCIA DO CONCEITO .......... 30 RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 33 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 34 TÓPICO 2 — A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM............................................................................. 35 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................35 2 CULTURA VISUAL ........................................................................................................................... 36 3 ELEMENTOS E COMPONENTES ESTÉTICOS DA LINGUAGEM VISUAL ..................... 40 3.1 PONTO ........................................................................................................................................... 41 3.2 LINHA ............................................................................................................................................ 41 3.3 FORMA .......................................................................................................................................... 42 3.4 DIREÇÃO ....................................................................................................................................... 43 3.5 TOM ................................................................................................................................................ 43 3.6 COR ................................................................................................................................................. 44 3.7 TEXTURA....................................................................................................................................... 46 3.8 ESCALA ......................................................................................................................................... 47 3.9 MOVIMENTO ............................................................................................................................... 47 4 COMPOSIÇÃO ARTÍSTICA........................................................................................................... 47 RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 50 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 51 TÓPICO 3 — ARTE E DESIGN .......................................................................................................... 53 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 53 2 PLANEJAMENTO VISUAL GRÁFICO ........................................................................................ 54 2.1 TINTA NANQUIM ....................................................................................................................... 55 2.1.1 Bico de Pena .......................................................................................................................... 55 2.1.2 Caneta Técnica ..................................................................................................................... 55 2.1.3 Caneta Descartável .............................................................................................................. 55 2.1.4 Pincel com Fibra de Nylon com Reservatório de Água ................................................. 56 2.2 ÂNGULO INFERIOR ESQUERDO ............................................................................................ 56 2.3 NIVELAMENTO E AGUÇAMENTO ........................................................................................ 57 3 OS DIVERSOS SUPORTES DA MENSAGEM ........................................................................... 58 4 ARTISTA/DESIGNER: CRIADORES DE IMAGENS ................................................................ 63 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 65 RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 68 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 69 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA ............................................................................... 71 TÓPICO 1 — SEMIÓTICA E A TEORIA DOS SIGNOS ...........................................................................73 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 73 2 CONCEITOS GERAIS DE SEMIÓTICA ...................................................................................... 74 2.1 PANORAMA HISTÓRICO .......................................................................................................... 75 2.2 SEMIÓTICA AVANT LA LETTRE: SIGNO NA ANTIGUIDADE .......................................... 75 2.3 SEMIÓTICA NA IDADE MÉDIA E MODERNIDADE ........................................................... 77 2.4 A SEMIÓTICA NA CONTEMPORANEIDADE ...................................................................... 79 3 ARTE, INTERPRETAÇÃO E EPISTEMOLOGIA NA SOCIEDADE IMAGÉTICA ............. 80 4 ESTÉTICA, A IDEIA DE REPRESENTAÇÃO E SUA PERSPECTIVA SÓCIO-HISTÓRICA .....84 RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 87 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 88 TÓPICO 2 — SEMIÓTICA PEIRCEANA ........................................................................................ 89 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 89 2 ÍCONE, ÍNDICE E SÍMBOLO ......................................................................................................... 90 3 PRIMEIRIDADE, SECUNDIDADE E TERCEIRIDADE ........................................................... 95 4 SIGNO EM PEIRCE........................................................................................................................... 96 4.1 SINAL ............................................................................................................................................. 99 4.1.1 Semelhança ......................................................................................................................... 101 4.1.2 Indicações ............................................................................................................................ 102 4.1.3 Símbolos .............................................................................................................................. 106 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 107 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 108 TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA .................................. 109 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 109 2 PALAVRA, SIGNIFICANTE E SIGNIFICADO......................................................................... 110 3 FENÔMENOS LINGUÍSTICOS, RELAÇÕES SINTAGMÁTICAS E ASSOCIATIVAS ... 113 4 OS ENIGMAS DA IMAGEM: TEATRO, POESIA, RELIGIÃO E ARTE .............................. 118 5 SISTEMAS SIMBÓLICOS, SEMISSIMBÓLICOS E A ARTE NA SOCIEDADE IMAGÉTICA .................................................................................................................................... 122 6 SOCIOSSEMIÓTICA ...................................................................................................................... 123 7 SOCIEDADE LITERÁRIA, CULTURA E SEMIÓTICA ........................................................... 125 7.1 LINGUAGEM E CULTURA ...................................................................................................... 125 7.2 CULTURA E SOCIEDADE........................................................................................................ 129 7.3 CULTURA, ANTROPOLOGIA E SEMIÓTICA ...................................................................... 131 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 141 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 143 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE ................................. 145 TÓPICO 1 — ARTE COMO POLÍTICA ......................................................................................... 147 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 147 2 LEITURA CRÍTICA DE IMAGEM ............................................................................................... 148 3 ARTE E CONFLITOS ...................................................................................................................... 153 4 QUESTÕES POLÍTICAS ................................................................................................................ 156 5 OS DIREITOS HUMANOS NA ARTE ........................................................................................ 161 5.1 BIENAL DE VENEZA ................................................................................................................ 164 RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 167 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 168 TÓPICO 2 — ARTE E CONFLITOS ................................................................................................ 169 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 169 2 GÊNERO E SEXUALIDADE ......................................................................................................... 169 3 DIREITOS DA MULHER ............................................................................................................... 171 4 QUESTÕES DE RAÇA .................................................................................................................... 175 5 A CENSURA NO BRASIL .............................................................................................................. 179 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 184 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 185 TÓPICO 3 — ÉTICA, MEIO AMBIENTE E ARTE ....................................................................... 187 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 187 2 MEIO AMBIENTE E O MUNDO DA ARTE: O INÍCIO DE UM ENCONTRO ................. 188 3 ARTE COMO ATIVISMO AMBIENTAL .................................................................................... 190 4 A APROPRIAÇÃO DOS RESÍDUOS ......................................................................................... 197 5 BIODIVERSIDADE ......................................................................................................................... 201 6 BIOGENÉTICA E ÉTICA ............................................................................................................... 203 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 210 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 211 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 213 1 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer o universo do desenho e da pintura, bem como sua prática na contemporaneidade; • refletir sobre a cultura visual, além de saber sobre os elementos e os pre- ceitos da composição de uma imagem; • discutir sobre a atuação do artista e do designer no mundo Pós-Revolu- ção Industrial; • verificar os recursos que a arte utiliza para dialogar no mundo imagético. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA TÓPICO 2 – A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM TÓPICO 3 – ARTE E DESIGN Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 3 TÓPICO 1 — UNIDADE 1 A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 1 INTRODUÇÃO Desde os primórdios, o homem se manifesta por meio de imagens; de fato, somos seres gráficos e a expressão visual é extremamente significativa, uma vez que abrange um grande número de sujeitos, mesmo os não letrados. O desenho configurava-se como forma de comunicação antes da escrita, assim, possui significados sociais, culturais e históricos. Ele também é a primeira imagem edificada antes de uma pintura figurativa, uma escultura, objetos de design, da arquitetura, ou seja, é a matriz da criação do homem. Somos cercados de imagens, sobretudo nas grandes cidades, e se apurarmos o olhar, inúmeras composições se configuram diante de nós. Um artista tem essa acuidade, e um desenho, por exemplo, se delineia mais pelo olhar do artista do que pela sua habilidade, ou seja, é preciso observar, estar atento às linhas, às formas, às proporções, edificar uma boa composição e se valer dos materiais adequados para o que se deseja elaborar. Uma boa obra passa pela visão, mesmo sendo ela abstrata. Assista ao documentário Janela da Alma, no qual dezenove pessoas discorrem sobre o olhar, dentre elas estão o escritor José Saramago (1922-2010), o cineasta Wim Wenders (1945-), o músico Hermeto Pascoal (1936-), o fotógrafo cego Eugen Bavcar (1946- ), entre outros que possuem alguma deficiência visual. link para o documentário: https:// www.youtube.com/watch?v=4F87sHz6y4s Janela da Alma, 2001. Direção de Walter Carvalho e João Jardim. DICAS Pintura e desenho são linguagens que se aprendem, como qualquer outro afazer, demandam disciplina, persistência, dedicação. Assim vemos agir inúmeras personalidades em seus incansáveis estudos e esboços, como Albrecht Dürer (1471-1528) em Seis Estudos de Travesseiros, de 1493. UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 4 FIGURA 1 – ALBRECHT DÜRER. SEIS ESTUDOS DE TRAVESSEIROS, 1493 FONTE: <http://warburg.chaa-unicamp.com.br/img/obras/mini/416_original.jpg>. Acesso em: 28 nov. 2019. É por isso que o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) já afirmava que não existe um gênio criador, o artista é um homem em seu ofício, que se dedica horas a seu trabalho. Só se aprende a admirar depois de ter-se compreendido que não há super-homens, homem algum que não tenha de viver humana vida, que o segredo da amada do escritor ou do pintor não está em alguma transcendência de sua vida empírica, mas tão somente misturado a medíocres experiências suas, tão pudicamente perfuso em sua percepção do mundo que não faria sentido procurar isolá-lo para com ele deslumbrar-se (MERLEAU-PONTY, 1960, p. 72). O artista nos mostra que criamos âmbitos de realidade, de modo a romper a cadeia das causalidades, diferenciando, assim, asobras dos meros objetos, e o faz transfigurando o real justamente para termos acesso a ele: desequilibra o estabelecido e desloca as formas do seu circundante familiar para a conhecermos de outro modo, assim, conhecemos o mundo. A ele não foi concebida uma causa superior, isso seria um determinismo, mas o filósofo sugere que o artista enfatiza que todos podem ser criadores, basta saber a técnica e, principalmente, olhar o mundo. É aqui que Merleau-Ponty dialoga com Nelson Brissac Peixoto (1952-), o qual versa sobre questões relativas à arte e ao urbanismo. O teórico inicia o texto O Olhar do Estrangeiro com a seguinte frase: “Nunca a questão do olhar esteve tão no centro do debate da cultura e das sociedades contemporâneas” (NOVAES, 1988, p. 361). Ele continua seu escrito discorrendo sobre o flaneur (personagem do final do século XIX) e sobre o estrangeiro. TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 5 Daí o recurso ao olhar do estrangeiro, tão recorrente nas narrativas e filmes americanos recentes: aquele que não é do lugar, que acabou de chegar, é capaz de ver aquilo que os que lá estão não podem mais perceber. Ele resgata o significado que tinha aquela mitologia. Ele é capaz de olhar as coisas como se fosse pela primeira vez e de viver histórias originais. Todo um programa se delineia aí: livrar a paisagem da representação que se faz dela, retratar sem pensar em nada já visto antes. Contar histórias, respeitando os detalhes, deixando as coisas aparecerem como são. O estrangeiro toma tudo como mitologia, como emblema. Reintroduz imaginação e linguagem onde tudo era vazio e mutismo. Para ele estes personagens e histórias ainda são capazes de mobilizar. Ele é o único que consegue ver através desta imagerie. Uma das encarnações mais recentes do estranho, do recém-chegado, é aquele que retorna. O cinema recente fez daquele que volta para casa o seu personagem principal. Depois de fugir deste mundo em que nada mais tem valor, ele volta para resgatar as figuras e paisagens banalizadas do nosso imaginário, para tirar dele uma identidade e um lugar [...] (NOVAES, 1988, p. 363). Destarte, saber ver o mundo e as coisas dele é fundamental para a arte, além de saber sobre os meios, as ferramentas, a linguagem para a produção visual. Aqui está o nosso propósito neste tópico, conhecer um pouco desse universo que nos acompanha desde a nossa existência. 2 O UNIVERSO DO DESENHO “O desenho é fundamento, uma maneira de pensar, e pensar, em arte, é desenhar porque, sem desenho, não há nada. Existem outros escultores que fazem esculturas sem desenhar. Eu não sei fazer nada sem desenhar” (CASTRO, 2000, p. 154). O desenho preconizou a linguagem escrita, a cartografia, a fotografia e tantas representações imagéticas. Ademais, ele acompanha a humanidade, constituindo-se parte da história, seja para comunicar, atestar acontecimentos ou conduzir os navegantes. Os mesopotâmios utilizaram o desenho para representar terras, rotas comerciais e domínios, que se avigoram com a ampliação do império romano. NOTA UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 6 Os pré-históricos se valiam dos registros nas paredes das rochas, peles de animais e cascas de árvores com fins ritualísticos relacionados ao cotidiano, ou seja, nesses suportes eles desenhavam o que estava a sua volta e também o que pretendiam caçar e suas futuras vitórias, para que pudessem acontecer. Seus traços simplificados já denotam a observação do meio circundante e a necessidade de expressão e de representação por meio de símbolos. Mesmo após a edificação da escrita, o desenho não perdeu sua importância, a exemplo do Egito, quando retratava a vida dos faraós em pirâmides e construções mortuárias. Cada povo o utilizou com traços peculiares, como a lei da frontalidade (representação frontal dos olhos e do tronco, enquanto perna, pés e cabeça de perfil). Materiais que facilitaram a linguagem do desenho foram os pergaminhos e as folhas de papiro, que possibilitavam uma escrita mais ágil e precisa do que as placas de argila, as quais vigoravam até então. Anteriormente, folhas de palmeira eram utilizadas na Índia, ossos de baleia e dentes de foca eram usados pelos esquimós, conchas e cascos de tartarugas na China e cascas de árvores pelos Maias e Astecas (CAMPOS, 1994). O desenho grego foi muito utilizado como elemento decorativo, sobretudo na cerâmica. Cabe observarmos que os artistas tinham liberdade de expressão e fundiam a racionalidade com o mítico, assim, as imagens surgiam a partir da observação rigorosa da natureza e do homem, mas representadas idealizadas, em busca da perfeição e do belo. Diferentemente dos romanos, que atestaram por meio da imagem os acontecimentos históricos, o cotidiano, naturezas-mortas e as pessoas de todas as classes, com suas reais características. No terceiro milênio a.C., os chineses se valiam do bambu para fabricar seus suportes e no ano de 105 d.C. o papel é por eles inventado, inicialmente utilizando a entrecasca da aroeira e fibras de vegetais. A invenção revolucionou a arte do desenho, mas a técnica ficou em segredo por 500 anos, uma vez que o material se tornara extremamente rentável. Vale destacar que no século XIX os trapos de seda para a sua confecção foram substituídos pela celulose (MANGUEL, 1997). TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 7 Veja algumas curiosidades: • Atualmente, a produção de papel industrial se dá a partir do pinheiro (Pinus sp.) e do eucalipto (Eucalyptus sp), ambos originários, respectivamente, da Europa e da Austrália. • Algodão e linho são utilizados na fabricação de papéis mais resistentes, como o papel- moeda e alguns papéis para pintura aquarela. • A maioria da produção (95%) é feita a partir do tronco; folhas e ramos raramente são aproveitados. • A deterioração dos papéis modernos decorre do uso dos ácidos, que quebram as fibras da celulose em micropartículas, enfraquecendo, assim, o produto. Isso vem acompanhado da coloração amarela proveniente da cola. IMPORTANT E Carlos Magno (742-814) criou a Academia da Literatura, quando proliferaram os manuscritos ilustrados; na época – arte românica –, Cristo era representado maior do que as outras figuras. Na Idade Média, o desenho foi considerado como “a arte de ilustrar” (MAZZAMATI, 2012, p. 15), tendo em vista o trabalho dos monges copistas, que inseriam nos manuscritos as iluminuras. A perspectiva aparece no Renascimento, acarretando em uma maior fidelidade ao real. É nesse momento que a proporção era respeitada e investigações acerca da anatomia humana se aprofundam, em um diálogo entre arte e ciência. Além de Leonardo da Vinci (1452-1519), Albrecht Dürer foi fiel à realidade em suas representações, conforme veremos no desenho a seguir. Salientamos que a partir de então os artistas passam a assinar os seus trabalhos. FIGURA 2 – ALBRECHT DURER. CABEÇA DE UM HOMEM VELHO, 1521 FONTE: <https://it.wikipedia.org/wiki/File:Durer,_study_of_a_man,_aged_93.jpg>. Acesso em: 28 nov. 2019. UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 8 Outra data notória para o desenho foi a prensa de Johannes Gutemberg (1400-1468) em 1445, e, em 1890, a publicação da primeira revista em quadrinhos: a Comic Cuts, por Alfred Harmsworth. Observamos que o Brasil sediou a Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, a qual se deu no Centro de Cultura e Progresso de São Paulo, em 18 de junho de 1951. No final do século XIX, a sociedade moderna e tecnológica liberta o artista para expressar-se de acordo com os seus preceitos, sem mais se pautar na realidade, afinal, a máquina fotográfica agora fazia esse papel. Sobretudo, a partir das duas Guerras Mundiais, caricaturas e desenhos se proliferaram em periódicos, também no formato de cartuns, charges, mangás, entre outros. Além de placas de argila, de pergaminhos, papirose papel, o corpo serviu (e ainda serve) de suporte para desenhos, tanto em pinturas corporais de indígenas quanto em tatuagens. Estas foram encontradas em múmias nos Alpes (5300 a.C.) e em corpos femininos no Egito (2160 a.C.). Foi utilizada com fins ritualísticos, identificação de comunidades e prisioneiros, ornamentação e camuflagem; entretanto, o cristianismo não aprovou a prática da tatuagem. NOTA 2.1 MATERIAIS Os primeiros elementos utilizados para o desenho foram o carvão e algumas sementes, seguidos de pedaços de madeira e ossos para a escrita cuneiforme. Após o suporte feito com o papiro, ferramentas foram edificadas, como as hastes molhadas em tinta. Estas passaram a ser fabricadas de metal no século XVIII e, em 1884, Lewis Watterman (1837-1901) fez a patente da caneta tinteira, que se transformaria, em 1938, na caneta esferográfica. Veja a seguir um dos trabalhos do espanhol Juan Francisco Casas (nascido em 1976). TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 9 FIGURA 3 – JUAN FRANCISCO CASAS FONTE: <http://carlosdamascenodesenhos.com.br/wp-content/uploads/2013/05/ballpoint-pen- -drawings4-550x733.jpg>. Acesso em: 28 nov. 2019. Entre os anos de 1192 e 1600, o desenho prosperou no Japão, afinal, os samurais deveriam saber sobre lutas, mas também sobre arte. É quando a tinta nanquim é criada, feita a partir de um pigmento negro constante em compostos de carbono queimado. Entretanto, a princípio, somente foi divulgada na China. Vemos esse material em trabalhos de Frans Kracjberg (1921-2017), que comunga com os orientais a reverência à natureza. FIGURA 4 – FRANS KRAJCBERG. RAÍZES, 1983 FONTE: <https://www.escritoriodearte.com/quadro/frans-krajcberg-raizes-nanquim-sobre- papel-4956g.jpg>. Acesso em: 28 nov. 2019. UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 10 A escolha do material a ser utilizado em um trabalho é fundamental para o resultado pretendido e para a mensagem que se quer dialogar. Assim, recomenda-se primar pela qualidade dos produtos e pela prática do desenho, ou seja, é necessário “fazer” para adquirir a destreza com o manejo das ferramentas. Agora, vamos conhecer os materiais básicos para um desenhista. 2.1.1 Lápis O lápis é composto de grafite moído com argila; dependendo da quantidade desses elementos, o tom será mais intenso ou suave. A classificação varia de H (Hard) até o B (Bland ou Black), este sendo mais macio, portanto, são os mais recomendados para o desenho artístico, uma vez que possibilitam traços escuros, grossos e sombreamentos. Já para o desenho técnico é utilizado um lápis com maior dureza, de modo que permite traços finos, claros e precisos. O tamanho padrão do lápis é 17,5 cm. NOTA Observe a classificação do lápis que você utiliza para a escrita, é provável que ele seja um HB, mediano na grade de classificação de tonalidades, próprio para esta finalidade. Há também o lápis F (Fine), que permite ter a ponta fina por um grande tempo. FIGURA 5 – ESCALA DE CINZA FONTE: <http://4.bp.blogspot.com/-9q1jZdQ1Zec/UUG2gVIDJnI/AAAAAAAADH0/2EZJ9nfEddw/ s640/tipos-de-lapis.jpg>. Acesso em: 28 nov. 2019. Existem ainda os grafites integrais, utilizados para grandes preenchimentos; são feitos somente com grafite e uma fina película protetora, isento da madeira envolta. Outra ferramenta que também pode ser utilizada é a lapiseira, cujas minas (a parte interna) são fabricadas em diferentes graduações. TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 11 A grafite foi descoberta na mina de Cumberland (noroeste da Inglaterra) e logo obteve alto valor, sendo, inclusive, vendida no mercado negro. Pedaços do material eram envoltos em pele de ovelha para a prática do desenho. Somente com os incentivos de Napoleão (1769-1821), em 1795 Nicolas-Jacques Conté (1755-1805) descobriu o método de misturar em alta temperatura argila com grafite amorfa, que se tornou a base dos lápis que conhecemos hoje (SMITH, 2003). NOTA 2.1.2 Carvão O carvão foi utilizado pelos homens das cavernas; atualmente pode ser encontrado em forma de lápis, barra ou em pó. É feito com madeira carbonizada (usualmente ramos de videira ou salgueiro) e não permite muitos detalhes, assim, é interessante para traços amplos e para grandes superfícies de sombras. Observe que ele não adere firmemente ao suporte, por isso é necessário colocar um spray sobre a imagem, que compreende em uma solução de álcool e goma laca ou goma-arábica. Justamente por essa facilidade de desprendimento, é muito usado para esboços em telas. 2.1.3 Lápis de cor O lápis de cor tem sua fabricação a partir de três variáveis: • À base de goma: são os solúveis em água (aquareláveis). • À base de óleo: conhecidos como giz. • À base de cera: são os tradicionais (escolares). Os lápis aquareláveis soltam mais pigmentos do que os demais, portanto, é recomendável para desenhos que demandam vivas tonalidades. Os gizes marcam por demasiado o papel, assim, é necessário se valer deles sempre na mesma direção e, de preferência, em grandes áreas. Os lápis escolares permitem a mescla de cores, para tanto, é preciso estar atento à pressão sobre o papel. Se bem apontados, possibilitam a dureza para executar detalhes, do contrário, permitem sombreamentos. São viáveis para as sobreposições de cores, mas para o bom êxito deve-se começar pelas mais claras. UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 12 2.1.4 Giz pastel O giz pastel é uma ótima alternativa para quem quer se valer de efeitos dos traços de lápis e dos efeitos de cor da pintura, afinal, possui características de ambas as técnicas. Ele nada mais é do que um médio com aglutinante e pigmento, moldado em forma de barras. Há duas variantes desse material: • Pastel seco: é utilizado diretamente sobre o suporte; proporciona uma gradação muito suave e natural entre uma cor e outra. • Pastel a óleo: também denominado de giz de cera, sendo, então, viável para poucos detalhes e grandes superfícies. São macios e não quebram com tanta facilidade, ao contrário do que ocorre com os secos. O traçado tem efeito pastoso e brilhante, sendo ótimo para fazer veladuras. Muitos artistas utilizaram o pastel em seus trabalhos, a exemplo de Eugène Delacroix (1798-1863), Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) e Pierre- Auguste Renoir (1841-1919). Outro que utilizou com maestria essa ferramenta foi Jean-Baptiste-Siméon Chardin (1699-1779), sobretudo com Autorretrato com Lunetas, feito poucos anos antes de falecer. FIGURA 6 – CHARDIN. AUTORRETRATO COM LUNETAS, 1771 FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Baptiste-Sim%C3%A9on_Chardin#/media/Ficheiro:- Chardin_pastel_selfportrait.jpg>. Acesso em: 12 dez. 2019. TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 13 Sanguínea refere-se a um desenho elaborado com giz feito a partir de caulim e hematita, resultando em cor de sangue seco, daí seu nome. É utilizado de maneira semelhante ao carvão e pastel seco, precisando, também, de um verniz fixador. Quando utilizado com carvão vegetal e giz branco, era chamado de Técnica dos Três Gizes (uma transição do desenho para a pintura). Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio (1483-1520), Peter Paul Rubens (1577-1640) e Jean Honoré Fragonard (1732-1806) foram exímios. IMPORTANT E FIGURA 7 – RUBENS. NICOLAAS RUBENS USANDO UM COLAR DE PÉROLAS, 1619 FONTE: <http://twixar.me/KxDm>. Acesso em: 28 nov. 2019. 2.1.5 Esfuminho Para intercalar tonalidades ou mesmo fazer um degradê tonal e sombreados, utiliza-se o esfuminho, que consiste em papel jornal enrolado no formato de um lápis. Como o próprio nome diz, serve para fazer esfumados, suavizando traços, tornando sutis as gradações de cor, cobrindo o branco do papel ou mesmo facilitando os volumes. Para utilizá-lo, basta fazer o desenho para, então, esfumar as áreas que se pretende suavizar. Esse procedimento também pode ser feito com o dedo,cotonete ou algodão, entretanto, o esfuminho garante uma maior precisão. A técnica do Sfumato é atribuída a Leonardo da Vinci e se deu a partir de desenhos a carvão e à sanguínea, tornando as imagens bidimensionais mais realistas e com bastante profundidade. Assim como os lápis, ele também tem diversas espessuras, geralmente de 1 a 6 (maior espessura). É preciso estar atento para que esteja limpo antes de passá-lo em uma área clara; para essa limpeza, pode ser usada uma lixa. UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 14 FIGURA 8 – DESENHO COM ESFUMINHO FONTE: <https://www.youtube.com/watch?v=ATcvyNHGoDU>. Acesso em: 28 nov. 2019. 2.1.6 Borracha, apontador e estilete Além de apagar riscos indesejados, a borracha também pode proporcionar efeitos interessantes no trabalho, a exemplo de um desenho em negativo (quando o fundo recebe o pigmento e as linhas são feitas com a retirada do material). A mais recomendada é a borracha limpa-tipo, uma vez que não borra e é maleável, absorvendo as menores partículas e traços fortes feitos com 6B. O apontador é utilizado para gerar pontas finas e uniformes, sobretudo nos lápis de cor. Já o estilete é o preferido pelos artistas em trabalhos em preto e branco, uma vez que não quebra a madeira e permite uma ponta alongada no lápis. 2.1.7 Papel O suporte para o desenho é o papel, por isso deve ser cuidadosamente escolhido, primando pelos livres de ácidos, para que não haja rápido amarelamento, conforme salientamos anteriormente. Uma possibilidade é a utilização de papéis de fibras de algodão, que possuem fibras mais longas e duráveis do que a celulose, entretanto, seu valor é muito maior. É importante verificar a gramatura do suporte (quanto mais alta, mais firme) e seu tamanho. Cabe observar que o tamanho A0 tem uma área de 1 metro quadrado. O tamanho dos papéis respeita o resultado obtido a partir da divisão do comprimento pela largura, que deve ser 1,4142, número já utilizado na Idade Média. NOTA TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 15 FIGURA 9 – TAMANHO DOS PAPÉIS FONTE: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/8a/A_size_illustration. svg/800px-A_size_illustration.svg.png>. Acesso em: 27 abr. 2020. 2.2 O DESENHO NA CONTEMPORANEIDADE: OUTROS SUPORTES Se pensarmos que a defi nição de desenho se confi gura em torno de linhas, na contemporaneidade, ela se expande para outros suportes. Tal ideia originou-se a partir da noção de escultura no campo ampliado, de Rosalind Krauss (nascido em 1941). Neste viés, vemos trabalhos como o de Franz Weissmann (1911-2005), o qual afi rma em entrevista ao crítico de arte Frederico Morais (nascido em 1936): FM – Certa vez, defi niu sua escultura como um desenho no espaço. É assim ainda que encara sua escultura? FW – Eu me referia às esculturas lineares, que realizo até hoje. O fi o é o limite do plano espacial, a concretização da linha, que é bidimensional. Por isso, minhas esculturas lineares determinam um espaço virtual, tornando-se como desenho no espaço. FIGURA 10 – FRANZ WEISSMAN. TRÊS CUBOS VIRTUAIS, 1957 FONTE: <https://d3swacfcujrr1g.cloudfront.net/img/uploads/2000/01/000940005013.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2019. UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 16 No livro A escultura no campo ampliado, Rosalind Krauss criou o termo a partir da junção da não paisagem e da não arquitetura. A autora discorre a respeito do que seria uma escultura, em oposição à crítica historicista e institucionalizante, desconstruindo genealogias categóricas, estendendo-a para o campo ampliado. FONTE: KRAUSS, R. A escultura no campo ampliado. Rio de Janeiro: Gávea, 1984. DICAS Preconizando a tridimensionalidade do desenho está Naum Gabo (1890-1977) com Cabeça de Mulher, em 1917. A partir de então, o desenho ganha espacialidade, a exemplo de Amélia Toledo (1926-2017), que propôs que as linhas estivessem no espaço com Medusa (1969), quando inseriu água, óleo e corantes em tubos de PVC. FIGURA 11 – AMÉLIA TOLEDO. MEDUSA, 1969 FONTE: <https://ameliatoledo.com/obra/escultura/#!lightbox/https://ameliatoledo.com/wp- -content/uploads/medusa-1969.jpg>. Acesso em: 28 nov. 2019. O tom poético aparece no belíssimo trabalho de Mira Schendel (1919- 1988), que desenha com perfurações. TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 17 FIGURA 12 – MIRA SCHENDEL. PERFURADOS, 1970 FONTE: <https://www.moma.org/collection/works/94752>. Acesso em: 28 nov. 2019. Para finalizar o universo do desenho, veja o que propôs Lygia Clark (1920- 1988) ao espectador em 1966: um desenho na água. Que tal experimentar? FIGURA 13 – LYGIA CLARK. DESENHE COM O DEDO, 1966 FONTE: <https://www.historiadasartes.com/prazer-em-conhecer/lygia-clark/#jp-carousel-10847>. Acesso em: 28 nov. 2019. 3 O UNIVERSO DA PINTURA Os homens expressam-se por meio de imagens desde a era primitiva e a Antiguidade, mesmo após o advento da escrita. Houve inúmeras temáticas de acordo com a sociedade vigente, porém, percebemos uma unificação no cristianismo, quando proliferaram pinturas narrativas e icônicas com o propósito de meditação e oração diante delas. No Renascimento, surgiram os gêneros pictóricos, ou seja, os temas peculiares, a saber: Pintura Histórica, Retrato, Paisagem, Natureza-morta e Pintura de Gênero. Tal tipologia auxiliou no desenvolvimento da prática e do pensamento acerca da arte, de modo que alguns artistas se especializaram em um motivo singular, como os que elaboram grandes quadros representando UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 18 feitos notáveis históricos, como batalhas e coroações. Outro exemplo é o retrato, desenvolvido tecnicamente no período em questão, mas já visto na arte egípcia, grega e romana. Sobre ele, Horst Waldemar Janson (1913-1982) indica: “o retrato permite-nos vislumbrar um sem fim de traços de caráter que os dados históricos não nos podem proporcionar. [...] capta não apenas a semelhança física, mas também a alma do retratado” (JANSON, 1998, p. 20). A pintura histórica era tida como a de maior relevância e valor, uma vez que era por ela que a história de um país se assentava. Jean Baptiste Debret (1768-1848) foi notório nesse feito como pintor na corte napoleônica. Constituinte da Missão Francesa, documentou o território e o povo brasileiro. NOTA FIGURA 14 – JEAN BAPTISTE DEBRET. CALCETEIROS, 1824, AQUARELA SOBRE PAPEL FONTE: <https://d3swacfcujrr1g.cloudfront.net/img/uploads/2000/01/006803001013.jpg>. Acesso em: 7 dez. 2019. Foi na era renascentista que alguns pintores se interessaram pelo o que circundava os protagonistas, ou seja, pela paisagem, a exemplo de Giovanni Bellini (1430-1516) e Giorgio Barbarelli da Castelfranco, conhecido como Giorgione (1478-1510). No entanto, ela só ganhou a devida atenção no Romantismo, com William Turner (1775-1851), John Constable (1776-1837) e Caspar David Friedrich (1844-1900), atestando a magnitude da natureza e a pequenez humana. Cabe observar que o quadro era estruturado no ateliê, após a observação da natureza, fato que mudou depois do aparecimento da tinta em bisnaga. Assim, artistas como Paul Cézanne (1839-1906), Oscar-Claude Monet (1840- 1926), Eugène-Henri-Paul Gauguin (1848-1903) e Vincent van Gogh (1853-1890) puderam estudar a luz e o cromatismo ao ar livre, fazendo in loco seus quadros. Deixando de lado os temas mitológicos e históricos, o artista registra o mundo a partir de seu próprio olhar. TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 19 Outro fator interessante que surge na área da representação é o alinhamento da pintura com a botânica, atribuindo valor artístico à pesquisa investigativa. Coelho (2008, s.p.) ratifica tal questão quando afirma que “a pintura (e a pintura de paisagens) já era uma atividade de síntese propondo a unidade entre as emoções (a estética), os atos (a moral) e o conhecimento (a lógica) – a unificação de todasas coisas”. Com procedência nas cenas religiosas feitas em ambientes populares, a natureza-morta se delineia nas mãos de Pieter Aertsen (1508-1575) e Jacopo Bassano (1510-1592). No entanto, é com Giuseppe Arcimboldo (1527-1593) que o simbólico adentra ao motivo. A seguir está Outono, de 1573, parte da série As Quatro Estações. FIGURA 15 – GIUSEPPE ARCIMBOLDO. OUTONO, 1573, ÓLEO SOBRE TELA FONTE: <https://www.historiadasartes.com/prazer-em-conhecer/giuseppe-arcimboldo/#jp-ca- rousel-4746>. Acesso em: 27 abr. 2020. As naturezas-mortas não tinham valor mercadológico no século XVII, com exceção das pertencentes às regiões da Reforma Protestante, onde registravam os bens das famílias burguesas que prosperavam. Nesse momento surge o termo pintura de gênero, que retratava a vida doméstica e cotidiana, distanciando-se dos temas religiosos (LICHTENSTEIN, 2006). Na primeira metade do século XX, mudanças substanciais na sociedade acarretaram em uma nova configuração no modo de vida e de pensamento dos sujeitos, afinal, duas guerras haviam se passado e um grande avanço tecnológico e científico. Surgiram questionamentos, rupturas e ressignificações também ocorreram na arte; afinal estética e pensamento acompanham o cenário mundial. Modernismo, globalização, arte contemporânea: a expressão dos artistas alavanca o pictórico na arte. Se por décadas vigorou a representação fiel do real (ou do divino), atualmente prima-se pela interpretação e pelo olhar particular, ou seja, pela poética e pelo pensamento. UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 20 Percebemos que questões sociais, econômicas, políticas e até religiosas influenciaram a produção pictórica, por isso, para um melhor entendimento acerca das obras, é importante dialogar com a produção artística com o circundante, com a sociedade na qual foi produzida. Além de observar o conceito e o simbólico das pinturas, é válido observarmos os materiais que os artistas dispunham para seus trabalhos, afinal, eles também são comunicantes. 3.1 TÉCNICAS E MATERIAIS A fim de conseguir expressar suas ideias, é preciso que o artista tenha acesso aos materiais e às técnicas mais adequadas para sua poética. São necessários uma boa prática e um constante aprendizado para que as ferramentas sejam facilitadoras do trabalho. O artista estuda seus materiais e métodos com a finalidade de adquirir o maior controle possível em suas manipulações, para que assim obtenha as melhores características da técnica que escolhe, expresse e transmita apropriadamente suas intenções e garanta a permanência de seus resultados. O eventual abandono de métodos já comprovados implicará um sacrifício de um desses objetivos. No entanto, aqueles que alcançam um domínio completo e inteligente dos princípios básicos são capazes de alterar com êxito os procedimentos estabelecidos, adaptando-os as suas necessidades individuais (MAYER, 2006, p. 5). Cada técnica e material possibilita uma gama de resultados, e ao artista se requer esse saber. Tal conhecimento também auxilia na decodificação de como as obras de outrora foram pintadas e quais as dificuldades encontradas no fazer, além de pensarmos em como tal quadro seria se se valesse dos materiais hoje existentes ou como ela seria se tivesse sido pintada com outra técnica. De todo modo, ao investigar e conhecer os materiais e as técnicas de pintura, o artista pode se valer do que melhor dialoga com o seu propósito. Veremos, então, algumas delas e suas principais características. 3.1.1 Pintura mural A pintura mural é tida como a primeira manifestação expressiva. Etruscos e romanos elaboraram inúmeros murais, muitos encontrados em Pompeia do século I d.C. Dos séculos XIII ao XVI, artistas italianos deram-na grande visibilidade, como Ambrogio Lorenzetti (1290-1348), Fra Angelico (1395-1455), Paolo Uccello (1397-1475), Masaccio (1401-1429), Piero dela Francesca (1416-1492), Andrea Mantegna (1431-1506), Sandro Botticelli (1445-1510), Domenico Ghirlandaio (1449-1494), Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, o Michelangelo (1475- 1564) e Rafael Sanzio (1483-1520). TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 21 É a era dos afrescos, técnica que consiste na aplicação de pigmentos (diluídos em água ou água e cal) à argamassa ainda fresca. Dessa maneira, se dá a unificação dos componentes, como se a tinta passasse a integrar a parede, não estando sobreposta a ela. Tal fato garante uma grande durabilidade à pintura. Cabe ressaltar que é recomendável a utilização de pincéis de cerdas naturais para esse trabalho. Pesquise os afrescos a seguir: Capela Scrovegni (1304-1306), de Giotto di Bondone (1267-1337); A Criação de Adão (teto da Capela Sistina – Vaticano – 1508), de Michelangelo; A Representação da Assunção de Nossa Senhora (teto da Igreja Nossa Senhora de Assis – Ouro Preto – 1800-1809), de Manuel da Costa Ataíde (1762-1830); La Trinchera (1926), de José Clemente Orozco (1883-1949); A História do México (1935), de Diego Rivera (1886-1957); Del Porfirismo a la Revolucion (1954), de David Alfaro Siqueiros (1896-1974). DICAS Os muralistas Orozco, Alfaro Siqueiros e Rivera, ao se depararem com a dificuldade dos tradicionais afrescos e da inconstância do óleo, pesquisaram em laboratórios uma solução industrial, ou seja, um material resistente para seus murais, e conseguiram desenvolver o acrílico. Observe como Diego Rivera retratou na imagem do mural a seguir como era o trabalho de construção de um afresco. FIGURA 16 – DIEGO RIVERA. A PINTURA DUM FRESCO, 1931 FONTE: <http://www.sfmuralarts.com/pics/699.jpg>. Acesso em: 12 dez. 2019. UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 22 Na pintura mural contemporânea, há o manejo a seco dos materiais, exemplificado pela obra O Espírito do Soho (1991), em que são retratadas várias personalidades históricas. Nele foi usado o mosaico, a cerâmica e o cimento. IMPORTANT E 3.1.2 Encáustica A encáustica foi desenvolvida pelos gregos no século V a.C., quando os pigmentos foram diluídos em cera de abelha derretida e aplicada ainda quente sobre o suporte. Além da Grécia, Roma e Egito também foram locais para trabalhos à encáustica, que aparecem na época medieval e ressurgem na Alemanha do século XIX. A pintura com essa técnica é muito duradoura e com aparência de fresca mesmo depois de séculos, afinal, o material resiste às mudanças atmosféricas (exceto quando exposto à alta temperatura), reflete bem a luz e garante brilho após lustrada. Alguns procedimentos devem ser observados, como manter o recipiente da tinta aquecido durante o processo. Assim que aplicada à superfície, ela seca imediatamente, por isso as pinceladas são mais curtas, mas podem ser retrabalhadas com instrumentos quentes, como espátulas, ou direcionando uma fonte de calor para o suporte, que pode ser uma placa de madeira. Quanto aos pincéis, recomendam-se os de pelo macio e de cerdas naturais. Vale observar que para fazer veladuras, basta agregar pouco pigmento à cera, e para que ela ganhe resistência, convém adicionar 10% de cera de carnaúba. Veja a obra Retrato de uma Menina, encontrada no início da era cristã na necrópole de Fayum. FIGURA 17 – RETRATO DE UMA MENINA. SÉCULO II FONTE: < https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f8/Portrait_du_ Fayoum_02.JPG/220px-Portrait_du_Fayoum_02.JPG>. Acesso em: 12 dez. 2019. TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 23 Em 1930, Jasper Johns (1930-) embebeu papéis em cera para fazer suas colagens, agregando também a elas a pintura a óleo. Assim, esta técnica tão antiga ganha espaço na contemporaneidade. Outras obras recentes que se valeram da encáustica foram: Napoleon: Shavingat Austerlitz (1996-1998), de Tony Scherman (1950-); Ghost Dance/Pedmarks (1998), de Lynda Benglis (1941-); Cosmos (2000), de Martin Kline (1961-); e The WallStreet 100 (2006), de José Maria Cano (1959-). 3.1.3 Têmpera Muito utilizada até o século XV, a têmpera possui a gema do ovo em sua composição. Além desse elemento, a tinta é composta de água e pigmentos. Teve origem no bizâncio e na arte cristã primitiva, e divulgada massivamente pela Itália. De acordo com Mayer (2006, p. 22), “a têmpera de ovo continuou a ser o médium principal utilizado para pintura de cavalete na Europa até o desenvolvimento da pintura artística a óleo”. Apesar da rápida secagem do produto, todo o processo da pintura é lento, tendo em vista que é preciso dar uma pincelada de cada vez, para que não danifique ou desintegre a anterior. Isso gera um efeito de limpidez e luminosidade. A têmpera requer um suporte rígido, para que não haja rachaduras na tinta após a secagem. O mais indicado é o gesso, que pode ser aplicado sobre a madeira antes de iniciar a pintura. Para intensificar o brilho e dar uma noção de envernizamento, basta polir a superfície, que é impermeável. Recomenda-se a utilização de pincéis com pelo de marta (ou sintéticos) compridos, redondos e pontiagudos. Veja a seguir como Boticelli utiliza com maestria essa tinta. FIGURA 18 – SANDRO BOTICELLI. VIRGEM COM O MENINO E SÃO JOÃO BATISTA CRIANÇA. 1470-1475 FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_pinturas_de_Sandro_Botticelli#/media/Fichei- ro:Botticelli_04_Louvre.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2020. UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 24 Procure pelas pinturas a seguir, feitas com têmpera: Díptico de Wilton (1395-1399), de um pintor anônimo; Retrato duma Jovem (1490), de Domenico Ghirlandaio (1449-1494); A Deposição de Cristo (1490), de Andrea Mantegna (1431- 1506); A Adoração dos Magos (1485-1486), de Sandro Boticelli; Sagrada Familia (1503), de Michelangelo Buonarroti (1475-1564); Jesus Cristo Crucificado (1515), de Matthias Grünewald (1470-1528); Mercúrio passando atrás do Sol (1914), de Giácomo Balla (1871-1958). DICAS 3.1.4 Aquarela A aquarela surgiu há mais de dois mil anos, na China, entretanto, sua paternidade foi dada ao artista e cartógrafo John White, que dela se valeu para retratar a vida na América do Norte no século XVI. Nesse momento, ela ainda era considerada apenas uma ferramenta para estudos/esboços (SMITH, 2003). A técnica se aflora e se desenvolve com leves pinceladas e com o aproveitamento do fundo branco do papel para áreas claras, gerando muita luminosidade. Podemos ver essas características nos trabalhos de Paul Sandby (1731-1809), John Robert Cozens (1752-1797), Thomas Girtin (1775-1802), Willian Turner (1775-1851), John Constable (1776-1837), John Sell Cotman (1782-1842) e David Cox (1783-1859). Para a pintura em aquarela recomendam-se pincéis macios e de pelo natural, como de marte e de esquilo, além de esponjas, panos e lixas, para as texturas. Para o suporte, os isentos de ácido são os mais adequados. Veja o que Ralph Mayer (1895-1979) fala sobre os papéis: Os manuscritos mais antigos na Europa eram feitos em um papel preparado a partir do papiro egípcio; durante a Idade Média, o pergaminho e o velino o substituíram; e o papel feito de fibras de linho entrou em uso por volta do século XIII. O melhor papel permanente para aquarelas é feito com extremo cuidado a partir de tiras (se possível, sem polpa de madeira) de linho e/ou algodão, [...] não se pode utilizar nenhum produto químico, com exceção do carbonato de cálcio e de tensoativos, dos quais o excesso é destruído e neutralizado por meios que deixem os resíduos menos danosos no papel. Os melhores papéis de aquarela não devem conter alvejantes. [...] Os bons papéis da Renascença italiana não continham alvejantes, eram feitos à mão com o maior cuidado e, segundo escritos póstumos, provavelmente alvejados pela exposição ao Sol e ao ar. A imensa indústria de papel moderna, com todos os seus refinamentos técnicos, é baseada na produção em massa, e mesmo na sua manufatura mais cuidadosa e de qualidade para os mais requintados propósitos comerciais, é completamente diversa da indústria relativamente menos aparatosa que produz papéis para os artistas (MAYER, 2006, p. 360). TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 25 Os pincéis sintéticos são feitos de monofilamentos de poliéster, que absorvem a tinta e a liberam mais rapidamente do que os naturais. NOTA Procure pelas aquarelas a seguir: Asa de Rolieiro (1512), de Albrecht Dürer; Castelo de Windsor (1760), de Paul Sandby; Lago Albano e Castelo Gandolfo ao Amanhecer (1777), de John Robert Cozens; Erupção do Vesúvio (1817), de Willian Turner; Greta Bridge (1806), de John Sell Cotman; Colhedor de Fruta (1923), de Georgina de Albuquerque. DICAS Dentre os aquarelistas contemporâneos estão Marcos Beccari (nascido em 1987), Joseph Zbukvic (nascido em 1952), Marcelo Daldoce (nascido em 1979), Júlia Barminova (s.d.), Blanca Alvarez (nascida em 1957), Stephanie Boechat (s.d.), Thierry Duval (s.d.), Pedro Varela (nascido em 1974), Ryohei Toyonaga (s.d.) e a têxtil designer Irina Kay (s.d.). Ganham destaque também as pinturas de gênero da estadunidense Mary Whyte (nascida em 1953). FIGURA 19 – MARY WHYTE. WINDOW WASHER, S.D. FONTE: <https://www.cbsnews.com/pictures/mary-whyte-we-the-people-portraits-of-veterans/>. Acesso em: 12 dez. 2019. UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 26 Úmido sobre úmido é uma técnica de aquarela que consiste em molhar o papel e secá-lo depois com um papel absorvente para, então, aplicar a tinta. Nesse intento, Emil Nolde (1867-1956) se valeu da neve que caía no inverno para criar efeitos sobre suas aquarelas. NOTA O “Dia Mundial da Aquarela” é comemorado em 23 de novembro, data sugerida pelo aquarelista mexicano Guati Rojo (1918-2003). INTERESSA NTE 3.1.5 Guache Guache provém da palavra italiana guazzo; surgiu no século XIV, no momento em que um monge adicionou branco à tinta aquarela, obtendo maior densidade, opacidade, fluidez e superfície mais lisa em suas iluminuras. Em sua produção, há mais pigmento e glicerina do que na aquarela, deixando-a mais espessa e solúvel (SMITH, 2003). Justamente pelo efeito uniforme, Henri-Émile-Benoît Matisse (1869- 1954) cobria a tela com guache antes de aplicar as colagens. Também pintava previamente papéis e elaborava suas colagens, com suas formas recortadas. A seguir está provavelmente a última produção do artista, em que se representa como rei, negro, com violão na mão, dando adeus à vida. FIGURA 20 – MATISSE. A TRISTEZA DO REI, 1952 FONTE: <https://s3-eu-west-2.amazonaws.com/pontosj/wp-content/uplo- ads/2018/08/31151628/42342-768x548.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2020. TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 27 Uma pintura a guache pode, se a pessoa assim o desejar, ser pintada em campos de cor deliberadamente aplicados, lisos e impecáveis, e com linhas precisas; porém o uso que normalmente se dá ao guache é o de uma pintura com efeitos livres, de fluidez espontânea, ou de pinceladas fortes e vistosas. Uma pintura a guache bem executada deste gênero não deve ter empastamento muito pesado ou espessura anormal de camadas de tinta, pois poderá rachar [...] (MAYER, 2006, p. 369). A pintura pode ser feita sobre madeira, tela ou papel com gramatura superior a 180 g/m², e este pode ser colorido, de modo a realçar tons claros e escuros. Quanto aos pincéis, são os mesmos para aquarela. 3.1.6 Pintura a óleo Apesar de a tinta a óleo ser atribuída aos irmãos Hubert (1366-1426) e Jan (1390-1441) Van Eyck, há registros do preparo de um óleo secante no Manuscrito de Estrasburgo e no Il Libro dell’Arte, de Cennino Cennini (1370-1440). Sua popularidade se deu no século XV, em Veneza, propagando-se por toda a Europa. As tintas para esta técnica são produzidas a partir de pigmentos moídos aglutinados a um óleo, como o de linhaça. Entretanto,para os de coloração branca, utiliza-se o óleo de papoula, girassol ou noz. É recorrente diluir essa mistura à terebintina, aguarrás ou óleo de rosmaninho. Demanda-se o cuidado intenso com a manufatura das tintas, tendo em vista que o excesso de óleo causa amarelamento e enrugamento, e quando escasso, as deixam secas e quebradiças. O que se intenta é um produto maleável e viscoso, que quando seca, mantém a tonalidade das cores. Para as pinturas com tinta a óleo, recomendam-se painéis de madeira ou de alumínio previamente preparados com uma camada de gesso, além de telas também preparadas com uma solução apropriada, geralmente óleo com branco de titânio. Paul Klee (1879-1940) pintou diretamente sobre a juta, mas antes, precisou acrescentar uma camada de goma. Procure pelas pinturas a seguir: Cristo Crucificado com a Virgem Maria, Santos e Anjos (1502-1503), de Rafael Sanzio; Senésio (1922), de Paul Klee; Anjos (1988), de Adriana Varejão (nascida em 1964). DICAS UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 28 Além de pincéis, a tinta a óleo permite a utilização da espátula, conferindo o empasto na tela, conforme o quadro de Alan Cotton (nascido em 1938). FIGURA 21 – ALAN COTTON. DEVON – CRAGGY ROCKS NEAR HARTLAND QUAY, 1980 FONTE: <https://wsimag.com/messums-gallery/artworks/51590>. Acesso em: 27 abr. 2020. Para a sua exposição Polvo, Adriana Varejão propôs a criação de tintas a óleo que abrangessem a tonalidade de pele dos brasileiros, saindo das predeterminações. A obra se iniciou a partir de uma pesquisa do IBGE de 1976, cuja pergunta era “qual a sua cor”. Polvo é o nome do conjunto de tintas idealizado e criado por Adriana. O ponto de partida para a criação deste trabalho foi uma pesquisa de campo elaborada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 1976. Normalmente, o censo oficial brasileiro classificaria as pessoas em cinco grupos diferentes de acordo com sua cor de pele: branco, preto, vermelho, amarelo e pardo. Naquele ano, no entanto, a pesquisa domiciliar introduziu uma questão em aberto: “Qual é a sua cor?”. O resultado foi 136 termos, alguns deles inusitados, cujos significados são muito mais figurativos do que literais. A artista selecionou os 33 termos mais exóticos, poéticos ou vinculados a uma interpretação especificamente brasileira de cor como suposto social, e a partir deles criou as suas próprias tintas a óleo baseadas em tons de pele. Assim, surgiram as cores ‘Fogoió’, ‘Enxofrada’, ‘Café com leite’, ‘Branquinha’, ‘Burro quando foge’, ‘Cor firme’, ‘Morenão’, ‘Encerada’, ‘Queimada de sol’, entre outras. O resultado mais imediato desse processo é um objeto de arte – uma caixa com 33 tubos de tinta e cuidadosa tecnologia industrial, em versão bilíngue (múltiplo com tiragem de 200 exemplares). Varejão também apresenta uma série de pinturas, intituladas Polvo Portraits (China Series), elaboradas a partir dessas tintas, montadas formando um grande painel. FONTE: <http://fdag.com.br/exposicoes/polvo/>. Acesso em: 10 abr. 2020. INTERESSA NTE TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 29 FIGURA 22 – ADRIANA VAREJÃO. TINTAS POLVO, 2013 FONTE: <http://fdag.com.br/app/uploads/exposicoes/61203595_big-380x256.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2020. 3.1.7 Acrílica Na procura por uma tinta resistente às intempéries e que secasse com rapidez, os muralistas mexicanos chegaram às tintas de polímero, conhecidas como acrílicas. Ao contrário dos óleos e da aquarela, os acrílicos são recentes, mas sua durabilidade e secagem rápida (aproximadamente 30 minutos), aliadas à possibilidade de simular os efeitos das aguadas e as camadas dos pigmentos a óleo, angariaram muitos adeptos, como David Hockney (nascido em 1937) na cena a seguir, em que não vemos qualquer figura humana no sol californiano, apenas sua indicação sob a água azul. FIGURA 23 – DAVID HOCKNEY. O GRANDE MERGULHO, 1967 FONTE: <https://2.bp.blogspot.com/-Fq2mG1KNTPM/VwFv4ArRuGI/AAAAAAAASPU/WN4IaIm- PMK82sj-f3BaWAyrn20rhZFUawCKgB/s320/3490.BMP>. Acesso em: 27 abr. 2020. A tinta foi divulgada em um curso de David Alfaro Siqueiros nos anos 1930, tendo Jackson Pollock (1912-1956) como um de seus participantes. O acrílico tornou-se ideal para seus drippings. UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 30 Muitos pintores estão agora trabalhando em estilos muito diversos daqueles do passado e em circunstâncias radicalmente diferentes daquelas que prevaleciam antigamente, e, para atender as suas novas exigências, procuram materiais novos dentre os inúmeros materiais industriais de revestimento baseados em resinas sintéticas (MAYER, 2006, p. 280). Uma grande vantagem da acrílica é a sua solubilidade em água, entretanto, depois de seca na tela, deixa de ser solúvel, permitindo sobreposições de tinta no mesmo dia, sem craquelar. Há médiuns, espessantes, vernizes, tanto para acelerar quanto para retardar a secagem ou mesmo para dar uma camada protetora à pintura. Para o suporte, pode-se utilizar algodão, linho ou poliéster e sobre o tecido aplica-se uma base acrílica transparente e um gesso acrílico. Veja a obra Campbell’s Soup Cans (1962), de Andy Warhol (1928-1987); Três Cadeiras com uma Sessão de um Mural de Picasso (1970), de David Hockney; e Número 13 (1958), de Mark Rothko (1903-1970), quando o artista une óleo e acrílico. DICAS 3.2 A PINTURA NA CONTEMPORANEIDADE: A PREDOMINÂNCIA DO CONCEITO Se no desenho predominam as linhas, na pintura a predominância é da cor. É a partir desse pensamento que artistas reconfiguram essa linguagem depois do surgimento da arte conceitual, das novas mídias e da arte neoconcreta. Assim, contrariando a morte da pintura, tão divulgada no início do século XX, aparece o pensamento pictórico nas poéticas dos artistas, ganhando nova visualidade, em novos suportes, seguindo as transformações de sua época. A presença da pintura é ressignificada, de modo que o conceito e as problemáticas dessa mídia ainda sobrevivem, conforme afirma Moraes (2005, p. 1): “a pintura é hoje um rico acervo de conceitos que passou a ser exercitado e expandido também em outros materiais e processos”. Ela se manifesta agora para além das tintas e pincéis, fato possível justamente porque há uma rica e calcada história da pintura: da prática e do pensamento acerca da obra de arte e da função do artista. Assim, ela se amplia na contemporaneidade, como no trabalho de Dan Flavin (1933-1996), que usa a luz para pintar. TÓPICO 1 — A PRÁTICA DO DESENHO E DA PINTURA 31 FIGURA 24 – DAN FLAVIN. A PRIMARY PICTURE, 1964 FONTE: <https://uploads3.wikiart.org/images/dan-flavin/a-primary-picture-1964.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2020. Abraham Palatnik (nascido em 1928) elabora o “Aparelho Cinecromático”, composto por uma tela de plástico na qual são projetadas cores e formas que se movimentam fluidamente. Isso é possível a partir da condução elétrica feita com 600 metros de fios. FIGURA 25 – ABRAHAM PALATNIK. APARELHO CINECROMÁTICO 2SE-18, 1955 FONTE: <https://i.pinimg.com/236x/c0/10/b8/c010b8736290f2b947ba9dc1053d4ff0--moholy- -nagy-first-time.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2020. Dando ênfase à matéria, vemos Elida Tessler (nascida em 1961), que pinta com as marcas de ferrugem na obra Fundo de Rumor mais macio que o silêncio. A paisagem se edifica ao longo da exposição, com a oxidação da palha de aço na altura dos olhos, ou seja, na linha do horizonte. Assim, ela deixa sua memória. UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 32 FIGURA 26 – ELIDA TESSLER. FUNDO DE RUMOR MAIS MACIO QUE O SILÊNCIO, 2003/2004 FONTE: <http://1.bp.blogspot.com/-EfMeHbYnk1c/UWNK_F4e0KI/AAAAAAAAChY/Zj9m1vl0R3k/ s320/elida_2.jpg>. Acesso em: 27 abr. 2020. De fato, as questões conceituais da pintura migram para a escultura, instalação, fotografia, vídeo, espaços híbridos. Na arte há uma imbricação de linguagens, sem mais categorizações definidas, surgindo inúmeros meios, recursos e mesmonovas terminologias, acompanhando o mundo circundante. 33 Neste tópico, você aprendeu que: • Vivemos em uma sociedade imagética e antes mesmo da escrita a imagem é um meio de comunicação. • Saber ver os objetos e o mundo é extremamente importante para o criador de imagens. • O desenho é utilizado desde a Antiguidade e não perdeu relevância após o surgimento da escrita. • O papel foi inventado pelos chineses. Deve-se escolher os livres de ácidos como suporte para o desenho. • A lei da perspectiva aparece no Renascimento, período em que os artistas passam a assinar seus trabalhos. • A escolha do material a ser utilizado em um trabalho é fundamental para o resultado pretendido e para a mensagem que se quer dialogar. • O lápis classifica-se entre H (Hard) até o B (Bland ou Black). • Carvão, lápis de cor, giz pastel e sanguínea também são muito utilizados para a expressão artística, além do nanquim e da caneta esferográfica, entre tantos outros materiais. • O esfuminho auxilia os sombreados, a técnica é atribuída a Leonardo da Vinci. • Os gêneros pictóricos são: Pintura Histórica, Retrato, Paisagem, Natureza- morta e Pintura de Gênero. • Pintura mural, encáustica, têmpera, aquarela, guache, óleo e acrílica são técnicas utilizadas até hoje, algumas reconfiguradas. • Na contemporaneidade, podemos ver desenhos e pinturas no campo expandido, ou seja, artistas se valendo de outros materiais, enfatizando o conceito dessas linguagens. RESUMO DO TÓPICO 1 34 1 O desenho nos acompanha desde o surgimento da humanidade. A respeito dele, indique a alternativa INCORRETA: a) ( ) Os Bizantinos foram os precursores na utilização do desenho para a cartografia. b) ( ) O papel era extremamente rentável, por isso a técnica de sua fabricação ficou em segredo por mais de 500 anos. c) ( ) Desenhos a carvão, giz pastel e sanguínea precisam de verniz fixador. d) ( ) Caneta esferográfica também pode ser um material expressivo, a exemplo dos trabalhos de Juan Francisco Casas. 2 A pintura é a grande representante das artes visuais. A respeito dessa linguagem, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Na técnica de encáustica utiliza-se a cera de abelha e ela deve ser posta fria no suporte. b) ( ) O guache foi descoberto diluindo-se a tinta a óleo. c) ( ) A tinta acrílica foi desenvolvida pelos muralistas mexicanos. d) ( ) A morte da pintura foi divulgada e atestada no século XIX. 3 Existem muitas técnicas de desenho, dentre elas a de observação. Para desenvolver esta técnica é necessário, antes de iniciar um desenho, visualizar um objeto. Portanto, ter uma memória visual é muito importante. Antes da fotografia, era ele quem fazia o registro do real e é utilizado até hoje em lugares que as câmeras não são permitidas, como em alguns tribunais. Assim, nosso terceiro exercício é uma proposta de desenho: primeiro, escolha um objeto e o coloque em sua frente. Observe atentamente todos os seus pormenores. Em seguida, vire-se de costas e tente desenhá-lo. É muito mais difícil elaborar um desenho ou uma pintura observando um objeto tridimensional do que uma imagem bidimensional. Para facilitar, tampe um dos olhos, assim, com um olho apenas, temos a visão plana do objeto. AUTOATIVIDADE 35 TÓPICO 2 — UNIDADE 1 A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM 1 INTRODUÇÃO Nossa tradição constitui-se de uma estreita relação com o mundo das imagens, em que criamos signos e símbolos, edificando uma cultura visual. O mundo imagético é denso de sentidos, de intencionalidade, possibilitando-nos descortinar hábitos e costumes de seus criadores, por isso tantos profissionais, como os antropólogos, adentram a sua análise. Atentamos para o fato de que após a fixação da palavra escrita, ela não substituiu a imagem, embora firmam um próximo convívio e diálogo, a exemplo dos hieróglifos e de inúmeros registros visuais que aparecem acompanhados dos escritos. Observamos também que a escrita se deu a partir de um domínio especializado, fato este ratificado pela existência dos escribas; assim o é com a leitura. Ambas ainda hoje são restritas socialmente. De todo modo, muitos grupos identificam-se com a expressão visual, sobretudo após o advento da fotografia cotidiana. A imagem, assim, mostra a diversidade social e a pluralidade. O mundo tornou-se imagético, mas não temos o hábito de pensarmos no processo de produção das imagens. Já os artistas se debruçaram por muitos séculos sobre essa questão e elaboraram teorias acerca dos elementos da linguagem visual e compositivos. Eles são larga e amplamente utilizados em várias mídias (até mesmo televisivas e cinematográficas), atestando que uma obra não é constituída somente por inspiração, mas por transpiração, e exige um árduo trabalho. Como nos diz Ernst Gombrich (1993, p. 17), “em última análise, nessas obras, os grandes mestres entregaram-se por inteiro, sofreram por elas, sobre elas suaram sangue e, no mínimo, têm o direito de nos pedir que tentemos compreender o que quiseram realizar”. Justamente para apreendermos melhor a intencionalidade dos criadores de imagem, debruçaremo-nos neste tópico sobre o que consiste a cultura visual e os elementos e preceitos utilizados na criação. Vamos iniciar? 36 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 2 CULTURA VISUAL O que você compreende quando se fala em imagem e em visual? Perceba que quando mencionamos essas palavras, já nos remetemos a tudo que é possível de ser visto, assim, o sentido da visão ganha realce, mesmo sabendo que é possível construir imagens em nosso pensamento. Como a cultura se relaciona com o visual? Historicamente, estamos imersos em uma sociedade, com suas produções culturais inseridas em um espaço e no tempo, assim, cultura e mundo das imagens estão amalgamados. Etimologicamente, o termo cultura vem de culturae, que significa tratar, cultivar tanto a terra quanto a psiché e os conhecimentos. NOTA O termo cultura visual pode englobar uma variedade de formas de representação, desde as artes visuais e o cinema, até a televisão e a propaganda, atingindo ainda áreas em que, em geral, não se tende a pensar em cultura visual – as ciências, a justiça, a medicina, por exemplo. A cultura visual se ocupa da diversidade do universo de imagens (MONTEIRO, 2008, p. 131). Cultura visual refere-se ao conjunto de imagens que participam de nosso cotidiano por meio da linguagem artística, publicitária, científica, tecnológica, criando um universo imagético que vai compondo a cultura. Por isso é interessante saber compreender/ler as imagens, pois elas nos acompanham secularmente e são acessadas por uma gama maior da população do que a linguagem verbal. O crítico de arte britânico John Berger (1926-2017) indica que “só vemos aquilo que olhamos. Olhar é um ato de escolha” (BERGER, 1999, p. 10). Ele é autor do livro Modos de Ver, edificado a partir de uma série televisiva produzida pela BBC, que aborda o diálogo entre a história da arte e a utilização das suas imagens pela sociedade do consumo. Não deixe de assistir: https://www.youtube.com/watch?v=dijaKEzXzD8. DICAS TÓPICO 2 — A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM 37 De fato, estamos imersos em imagens em todas as esferas da vida em sociedade, advindas de várias fontes: outdoors, letreiros luminosos, mundo virtual e televisivo, sejam estáticas ou em movimento, de modo que raramente estamos delas desconectados. Preocupamo-nos, inclusive e enfaticamente, com a nossa própria imagem e seus desdobramentos. Muitas vezes, vemos as pessoas mais interessadas em registrar a sua presença com um quadro em um museu do que em ver a própria pintura. Essas questões fazem parte dos questionamentos da cultura visual, que se propõe a contextualizar a vida cotidiana (LAMPERT, 2009). Nesse intento, sobre os conceitos de culturavisual: 1) uma condição cultural na qual a experiência humana é profundamente afetada por imagens, novas tecnologias do olhar e diversas práticas do ver, mostrar e retratar; 2) um conjunto inclusivo de imagens, objetos e aparatos; ou 3) um campo de estudo crítico que examina e interpreta díspares manifestações e experiências visuais em uma cultura (TAVIN, 2009, p. 226). A imagem tomou importância extrema na contemporaneidade, de modo que cada vez mais nosso imaginário é construído pelas novas tecnologias do olhar. O nosso mundo se tornou colorido. A maioria das superfícies que nos cercam é colorida. Paredes cobertas de cartazes, edifícios, vitrines, latas de legumes, cuecas, guarda-chuvas, revistas, fotografias, filmes, programas de TV, tudo está resplandecendo em tecnicolor. Tal modificação do mundo, se comparado com o cinzento passado, não pode ser explicada apenas esteticamente. As superfícies que nos cercam resplandecem em cor sobretudo porque irradiam mensagens. A maioria das mensagens que nos informam a respeito do mundo e da nossa situação nele é atualmente irradiada pelas superfícies que nos cercam. São as superfícies, e não mais as linhas textuais, que codificam preferencialmente o nosso mundo. No passado recente o mundo codificado era dominado pelos códigos lineares dos textos, e atualmente o é pelo código bidimensional das superfícies. Planos como fotografias, telas de cinema e da TV, vidros das vitrines, tornaram- se os portadores das informações que nos programam. São as imagens, e não mais os textos, que são os media dominantes. Poderosa contrarrevolução de imagens contra textos está se processando. No entanto: em tal contrarrevolução é preciso discernir que se trata de um tipo de imagem inteiramente novo, e jamais doravante existente. As imagens que nos programam são pós-alfabéticas, não pré-alfabéticas, como são as imagens do passado (FLUSSER, 2011, p. 113-114). Somos seres constituídos historicamente por imagens e sua presença aumenta a cada década, auxiliando a construção da nossa experiência com o meio social. A imagem também ocupa o lugar de uma presença, fazendo a memória presente, a exemplo dos retratos, fotografias, máscaras mortuárias. 38 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO A máscara é a invenção mais brilhante que já ocorreu na criação de imagens e encena uma narração a respeito de seu significado. Ela compendia belamente a simultaneidade, como também a oposição, entre ausência e presença que tanto tem caracterizado a maioria das imagens em uso humano. A máscara expõe uma face nova e permanente (porque não é perecível) ao esconder outra face, cuja ausência é necessária para criar essa nova presença. Mesmo a máscara com as órbitas vazias e um espaço de boca aberta já estava pronta para servir como imagem falante [...] Podemos ir um passo além e arriscar a visão de que toda a imagem, de uma maneira, poderia ser classificada como máscara, seja transformando um corpo em imagem, seja existindo como uma entidade separada, ao lado do corpo. Decoração facial e tatuagem podem transformar a face humana efetiva em máscara. Nesse ponto, a metamorfose como a origem da imagem é altamente relevante (BELTING, 2005, p. 70). Era costume, sobretudo na era medieval do ocidente, a produção de máscara de cera ou gesso e colocá-la no rosto de uma pessoa recém-falecida, para que a lembrança de suas feições fosse conservada. Tal prática não era destinada somente aos aristocratas, como também aos artistas, literatos, filósofos e cientistas. NOTA Ao longo dos anos, os homens passaram a se valer de imagens como valor de culto, atribuindo um significado ao universo imagético. Nessa prática são descortinadas as características de cada sociedade, ou seja, quais são seus valores e crenças, afinal, o mundo imagético se configura como um relevante campo do saber. Criador de imagens, o artista também é um etnógrafo, enquanto participante de uma cultura e investigador. Um exemplo é o trabalho da década de 1960 de Hélio Oiticica (1937-1980), quando fez uma inserção no Morro da Mangueira para estudar o samba e a relação da obra e do espectador, originando seus Parangolés, uma conexão entre cor e movimento. Toda a minha evolução artística caminha para o que eu chamo de “expressão mítica” essencial na arte. A Mangueira para mim é como se existisse há dois mil anos: como expressão o seu samba possui algo de arcaico, como se nascesse da terra: não me impressiona tanto a “tradição”, mas sim o arcaísmo que contém a sua expressão. Na sua maneira de ser, há algo que nos leva à origem das coisas [...] A criação do Parangolé nasce dessa necessidade do que chamo “nivelamento cultural”: é uma proximidade da arte com seu elemento mítico (OITICICA, 1965, s.p.). TÓPICO 2 — A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM 39 Saiba mais sobre os Parangolés, de Hélio Oiticica. Acesse o site: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa48/helio-oiticica. DICAS Sobre Oiticica, Pedrosa e Arantes (2004, p. 356) indicam: “Um dia deixa sua torre de marfim, seu estúdio, e integra-se na Estação Primeira, onde fez sua iniciação popular, dolorosa e grave, aos pés do Morro da Mangueira, mito carioca”. Tal afirmação estende-se ao artista moderno, o qual deixa de lado a contemplação e a mimese e adentra à política atuante. Merleau-Ponty e Oiticica comungam da ideia da imbricação da arte e da vida, atestada no texto Critério para o Julgamento das Obras de Arte Contemporâneas (MAM Rio) em 23 de maio de 1968: O mito do gênio, do modelo das morais dominantes, cai diante dessa aspiração maior de uma nova realidade que se constitui da soma dos esforços milenares na busca pelo homem de si mesmo – o processo criador, reservado ao gênio, ao sábio, tende a espraiar-se para fora do seu condicionamento, mantido a longo tempo cerrado por uma casta de ‘eleitos’, e a se incorporar, pelos esforços contínuos da humanidade que se transforma em cada indivíduo. Processo criador e vida se confundem. Quem poderá julgá-los? (OITICICA, 1968, p. 2). O uso de imagens é constante na construção subjetiva e social, possibilitando identificarmos as representações que participam de uma certa cultura. A cultura visual dialoga com inúmeros saberes e áreas do conhecimento, de modo a verificar e a pensar sobre as manifestações visuais cotidianas de diferentes povos. Se a arte e a vida se convergem, as imagens do cotidiano passam para o mundo da arte e vice-versa, por isso cada vez mais se requer um alfabetismo visual para transitar de maneira confortável na contemporaneidade. O dia do artista plástico é comemorado em 8 de maio. NOTA 40 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 3 ELEMENTOS E COMPONENTES ESTÉTICOS DA LINGUAGEM VISUAL “Do mesmo modo como a escrita é constituída por letras que formam palavras que, por sua vez, constituem frases, o desenho começa com uma sucessão de pontos que formam linhas, e estas se sobrepõem para criar formas, hachuras, grisês ou manchas” (ROIG, 2007, p. 6). Falamos anteriormente sobre a imensa quantidade de imagens que nos cercam; de fato, elas estão em todo o nosso circundante. Vamos, agora, pensar sobre os elementos e a sua composição, para podermos vê-las com acuidade e crítica. Donis A. Dondis (2007, p. 52) indica que “são muitos os pontos de vista a partir dos quais podemos analisar qualquer obra visual; um dos mais reveladores é decompô-la em seus elementos constitutivos, para melhor compreendermos o todo”. Todos esses elementos [...] constituem os ingredientes básicos com os quais contamos para o desenvolvimento do pensamento e da comunicação visual. Apresentam o dramático potencial detransmitir informações de forma fácil e direta, mensagens que podem ser apreendidas com naturalidade por qualquer pessoa capaz de ver (DONDIS, 2007, p. 82). A sua utilização se dá de acordo com o intento do produtor de imagem e da mídia. Por exemplo, a dimensão é recorrente em projetos arquitetônicos, enquanto a linha permeia os croquis de moda. Quanto mais se sabe sobre esses elementos e suas funções, melhor se dará a comunicação. Se conhecermos e soubermos interpretar os elementos de uma produção visual, ampliamos o nosso entendimento e o sentido se faz de maneira mais satisfatória; compreendemos também o que cada figura provoca em nós e a intenção do seu autor. O entendimento do mundo e da complexidade que nos cerca se dá mais rápida e abrangentemente. Saber se valer dos elementos da linguagem visual sustenta a edificação de uma obra. Ela é estruturada a partir do ponto, linha, forma, direção, tom, cor, textura, escala e movimento. Outros componentes importantes são ênfase, unidade, variedade, contraste, dimensão, volume e ritmo. Nesse intento, conheceremos e identificaremos a utilização de alguns desses elementos nas imagens visuais. TÓPICO 2 — A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM 41 3.1 PONTO O ponto é o menor e o mais simples elemento da linguagem visual, portanto, impassível de redução. Nosso olhar é fortemente atraído por ele, seja na natureza ou produzido artificialmente, por isso é utilizado como referência, indicando uma posição no espaço. A sua união pode formar linhas, texturas, planos e formas, ou seja, uma imagem. Sua justaposição acarreta em variações tonais, conforme o fez Georges-Pierre Seurat (1859-1891) em seus pontilhismos. O artista francês não misturava as cores na tela, mas propunha que o olho do espectador o fizesse, resultando na cor pretendida por Seurat. Isso é possível pela proximidade entre os pontos e pelo acirrado conhecimento das cores pelo artista, atestado pela pintura que fez de sua amante, Madeleine Knobloch. FIGURA 27 – GEORGES SEURAT. JEUNE FEMME SE POUDRANT, 1889 FONTE: <https://www.historiadasartes.com/wp-content/uploads/2016/03/jovem-p%C3%B3-arroz.jpg>. Acesso em: 14 dez. 2019. 3.2 LINHA “Desenhar é levar a linha pra passear” (KLEE, 1972, p. 16). Quando vários pontos estão demasiadamente próximos, uma linha é formada, sendo também caracterizada como a trajetória que um ponto faz ao mover-se no espaço. Valendo-se dela, o artista/designer cria formas e texturas, de modo a deixar visível o seu pensamento. Classificam-se como: • Geométricas: possuem somente o comprimento, sendo abstratas. • Físicas: quando estão no cotidiano, como os fios elétricos. • Gráficas: quando são feitas sobre uma superfície. 42 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO Veja como Pablo Picasso (1881-1973) levou sua linha para passear na forma de um cavalo. Agora propomos a você fazer o mesmo, ou seja, desenhar apenas com uma linha, sem tirar o lápis do papel. Que tal fazer agora? FIGURA 28 – PABLO PICASSO. CAVALO, S.D. FONTE: <https://i.ebayimg.com/images/g/Gd8AAOSwx5hbrwPE/s-l300.jpg>. Acesso em: 12 dez. 2019. 3.3 FORMA A partir de linhas podemos criar formas, as básicas são: círculo, quadrado e triângulo. De acordo com Dondis (2007, p. 58), as características associadas ao quadrado são: “enfado, honestidade, retidão e esmero; ao triângulo, ação, conflito, tensão; ao círculo, infinitude, calidez, proteção”. Cézanne produziu muitos quadros a partir dessas três formas, conforme o quadro a seguir. FIGURA 29 – PAUL CÉZANNE. MONTANHA DE SANTA VITÓRIA, 1904-1906 FONTE: <https://www.historiadasartes.com/wp-content/uploads/2017/11/m_CezanneMonta- nhaVitoria-560x450.jpg>. Acesso em: 14 dez. 2019. TÓPICO 2 — A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM 43 As formas dividem-se em duas classificações: • Geométricas: compreende as formas básicas e os polígonos; muito utilizadas pelo abstracionismo, a exemplo de Piet Mondrian (1872-1944). • Orgânicas: são as encontradas na natureza, como o formato das folhas ou de gotas. 3.4 DIREÇÃO A direção é extremamente relevante para a composição visual, pois cada uma delas condiciona a um significado para a mensagem, conforme a seguir: • Direção horizontal e vertical: refere-se ao bem-estar, ao equilíbrio, à calma e à estabilidade; ex.: quadrado. • Direção diagonal: refere-se à instabilidade e ao instável; ex.: triângulo. • Direção curva: refere-se à continuidade, à repetição e à amplitude; ex.: círculo. 3.5 TOM Tom caracteriza-se como a quantidade de luz que há em um objeto, imagem ou lugar no espaço. As cores mais claras refletem mais luz e possuem maior valor tonal, enquanto que as cores escuras absorvem mais luz, possuindo, assim, baixo valor. Em uma escala monocromática, quanto mais pigmento, mais escura a cor fica, quanto menos, aproxima-se ao branco. Por meio dos tons é possível observar o volume e a sombra dos objetos, bem como dar destaque para um ponto focal e auxiliar na perspectiva e identificação da distância entre os elementos. Tal recurso foi muito utilizado por Gustav Doré (1832- 1883) em suas ilustrações, conforme a elaborada para o conto de Charles Perrault (1628-1703). FIGURA 30 – GUSTAV DORÉ. CHAPEUZINHO VERMELHO NA CAMA COM O LOBO, 1862 FONTE: <https://commons.wikimedia.org/wiki/Les_Contes_de_Perrault#/media/File:GustaveDore_ She_was_astonished_to_see_how_her_grandmother_looked.jpg>. Acesso em: 9 dez. 2019. 44 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO Outro artista que também se valeu da escala tonal em suas pinturas foi Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio (1571-1610), sobretudo em Ceia em Emaús (1601), na qual permeiam as tonalidades dos marrons. Já Cildo Meireles (nascido em 1948) utilizou as tonalidades do vermelho para elaborar Desvio para o Vermelho, concebida em 1967 e em exposição permanente desde 2006 em Inhotim. Não deixe de pesquisar esses artistas! NOTA 3.6 COR “A cor é o lugar onde nosso cérebro e o universo se juntam” – Paul Cézanne (MERLEAU-PONTY, 2013, p. 43). A cor é um elemento primordial nas artes visuais, conferindo até mesmo significados e sensações à composição, a exemplo dos vermelhos (cores quentes e estimulantes) e dos azuis (cores frias e repousantes). Os veículos midiáticos, a publicidade, o marketing, o cinema, o design, todos as utilizam de maneira muito consciente, tendo em vista seu valor simbólico e sensitivo. Caracterizam-se como primárias as encontradas em seu estado natural, ou seja, impassíveis de serem conseguidas por meio de misturas; são elas que originam todas as demais. Assim, a partir de duas primárias chega-se a uma secundária; e a partir de duas secundárias, consegue-se uma terciária. Curioso observar que não existe a cor em si, afinal, é um fenômeno produzido pela incidência de luz em nossos olhos. Não há o verde em si, mas o verde da almofada, por exemplo. Assim, a palavra COR refere-se à percepção e o vocábulo MATIZ designa as radiações luminosas (o estímulo). Existem duas ordens de estímulos: os provindos das cores-pigmento e os das cores-luz. • Cor-pigmento: é a matéria que reage à incidência dos raios luminosos, de modo a absorver, refratar ou refleti-los. Algo aparece como amarelo quando, depois de absorver a luz branca, reflete essa tonalidade. A mistura de todas elas ocasiona cinza-escuro. Primárias opacas: azul, vermelho e amarelo. Secundárias opacas: violeta, laranja e verde. Nas artes gráficas e na pintura com tintas aguadas e transparentes, como a aquarela, utilizam-se as cores-pigmento transparentes. Primárias transparentes: ciano, magenta e amarelo. Secundárias transparentes: azul-violetado, vermelho e verde. TÓPICO 2 — A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM 45 • Cor-luz: é a radiação luminosa, ou seja, são as luzes coloridas. A união de todas elas resulta no branco. Primárias: vermelho, verdee azul-violetado. Secundárias: magenta, ciano e amarelo. Tradicionalmente, utilizam-se pigmentos para os trabalhos de arte, então, as cores referências são as cores-pigmento. Entretanto, na contemporaneidade, é possível pintar também com luz, conforme estudamos anteriormente. NOTA Os efeitos luminosos das cores são observados desde tempos antigos pelo homem. Todavia, foi Leon Battista Alberti (1404-1472) o precursor dos estudos artísticos com o seu Tratado sobre Arquitetura, Pintura e Escultura (1435). Em seguida, Leonardo da Vinci (1452-1519) discorreu sobre a composição da luz branca em seu Tratado da Pintura (impressão póstuma em 1651). Mais de um século depois, Isaac Newton (1643-1727) escreveu Óptica (1672), procurando explicar por meio da ciência como se dava a coloração dos objetos. A Doutrina das Cores (1810) foi elaborada por Johann Wolfgang Goethe (1749-1832) e, em 1911, Wassily Kandinsky (1866-1944) publica Do Espiritual na Arte e, em 1926, Ponto e Linha Sobre Plano. FIGURA 31 – CÍRCULO CROMÁTICO FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/519813981970231060/>. Acesso em: 12 dez. 2019. 46 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO Veja mais algumas classificações das cores: Cores Neutras: branco, preto e cinza. Cores Análogas: é a utilização de uma primária e duas terciárias, a fim de proporcionar harmonia na composição. Cores Complementares: é a combinação de duas cores opostas do círculo cromático, visando o contraste. NOTA Acreditava-se que a cor era um elemento agregado ao desenho e à composição, subordinada aos contornos. Contestando tal tradição clássica e já em busca da desconstrução de dicotomias e categorizações, Cézanne afirma: “O desenho e a cor não são distintos, tudo na natureza é colorido. Ao mesmo tempo em que se pinta, desenha-se” (BARNES, 1993, p. 24). 3.7 TEXTURA A propriedade tátil da superfície de um objeto é representada pela sua textura, que pode ser classificada como geométrica (repetição de formas geométricas) ou orgânica (aparência de algo natural, como casca de árvore, madeira, areia etc.). De todo modo, elas podem ser elaboradas por meio de inúmeras técnicas de representação. Max Ernst (1891-1976), por exemplo, se valeu da frotagem, enquanto outros se valeram dos próprios materiais texturizados para seus quadros, como Antoni Tàpies (1923-2012). FIGURA 32 – TÁPIES. COLLAGE A LA PAILLE, S.D. FONTE: <https://www.artsy.net/artwork/antoni-tapies-collage-a-la-paille>. Acesso em: 10 dez. 2019. TÓPICO 2 — A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM 47 3.8 ESCALA Muitos objetos são muito grandes ou demasiadamente pequenos para serem representados, seja no papel ou tela de computador. Por isso, artistas/ designers/arquitetos utilizam o recurso da escala, justamente para indicar qual a proporção real que tal objeto possui em relação a outro e ao espaço. 3.9 MOVIMENTO É possível indicar movimento em uma representação bidimensional, conforme fizeram os artistas da Op Art e do Futurismo. Giácomo Balla (1871-1958) enfatiza a velocidade do automóvel por meio de rápidas pinceladas sequenciais, conforme vemos na figura a seguir: FIGURA 33 – GIÁCOMO BALLA. VELOCIDADE DO AUTOMÓVEL, 1913 FONTE: <http://twixar.me/g2Dm>. Acesso em: 27 abr. 2020.. 4 COMPOSIÇÃO ARTÍSTICA Anterior à construção de uma imagem, é necessário ter conhecimento sobre os materiais mais adequados, sobre os elementos que compõem a linguagem visual e sua influência na leitura da obra, sobre a composição que dialogue com o espectador e esteja de acordo com o que se intenta. Observar o entorno (as ruas e os ângulos visuais, por exemplo) pode auxiliar sobremaneira em uma boa composição artística, que é a maneira de organizar os elementos no suporte. O desenho pode ser utilizado para os esboços e expressividade ao longo do processo criativo, afinal, ele é dialógico, de modo a haver uma conversa entre a obra e o artista. Isso é possível somente porque o bom artista se empenhou para elaboração de sua obra, ela possui uma materialidade. Conforme nos diz o pintor e escritor Maurice Denis (1870-1943), é preciso “lembrar-se de que um quadro – antes de ser um cavalo de batalha, uma mulher nua ou um fato pitoresco qualquer – é, essencialmente, uma superfície plana recoberta de cores dispostas em certa ordem” (LICHTENSTEIN, 2006, p. 138). 48 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO Assim, não basta somente escolher o motivo, mas é preciso estar atento aos esquemas compositivos, à organização dos elementos da linguagem visual, em busca do equilíbrio, da proporção e da harmonia, caso sejam essas as intenções do artista. Tais preceitos podem ser vistos no famoso quadro de Da Vinci, a Monalisa (1503), onde foi utilizada a proporção áurea. Ela consiste em uma constante real algébrica, que, apesar de ser um conceito matemático, é amplamente utilizado na arte desde a Antiguidade. O número é chamado de Phi (1,618) em homenagem à Phídeas (480 a.C. - 430 a.C.), que já o aplicou na construção do Phartenon. Leonardo Fibonacci (1170-1250) estudou a geometria concomitantemente à observação da natureza em busca de compreender o cosmos. Tal fato o fez chegar a uma sequência numeral em que um número resulta da soma dos seus dois anteriores, e esse mesmo número dividido pelo seu antecessor é Phi. Essa proporção não se dava somente na teoria, mas na prática, ou seja, estava na natureza: no formato das folhas de bromélias, na formação das conchas, por exemplo, até mesmo no corpo humano, conferindo-lhes harmonia visual. FIGURA 34 – PROPORÇÃO FONTE: <https://jornalggn.com.br/produtos-financeiros/economistas-decifram-bolsa-utilizando- -proporcao-divina/>. Acesso em: 10 dez. 2019. Algumas medidas são padronizadas, como o tamanho de mesas, cadeiras, automóveis, roupas e até mesmo de uma folha de papel, cartão de crédito, revistas e fotografias. Isso se deu a partir do estudo da proporção áurea. A técnica do terço consiste em uma simplificação desse preceito e auxilia sobremaneira na composição. Para esse método, o artista deve traçar duas linhas imaginárias verticais e duas horizontais, de modo a dividir a imagem em partes. Nos pontos de intersecção são colocados os elementos de maior interesse, fato que resulta na harmonia do quadro. Se o protagonista for posto no centro, vigorará também a simetria. TÓPICO 2 — A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM 49 FIGURA 35 – REGRA DOS TERÇOS FONTE: <http://agenciadelfi.com.br/wp-content/uploads/2019/02/190226.jpg>. Acesso em: 10 dez. 2019. As composições podem ser classificadas como: Centralizadas: quando o elemento principal está no centro. Descentralizada: quando o elemento principal está deslocado em relação ao centro. Distribuída: quando não há um elemento principal, mas vários distribuídos pela obra. Simétrico: quando há imagens igualmente distribuídas pelo plano. Assimétrico: quando há mais elementos em um dos lados da obra. NOTA Muitos fotógrafos e produtores de imagens ainda se valem dessa técnica. De fato, o diálogo e o alinhamento dos artistas configuram uma história da arte. 50 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Edificamos uma cultura visual, criando símbolos e signos. • As imagens deixam ver as características da sociedade na qual elas foram feitas, além de terem uma intencionalidade. Elas são um campo do saber. • Mesmo após a criação dos alfabetos, a linguagem imagética não perdeu sua importância. • As imagens cotidianas vão para o mundo da arte, o inverso também ocorre. • Os componentes da linguagem visual auxiliam na leitura e compreensão das imagens, consequentemente, do mundo circundante. • Dentre os elementos que compõem uma imagem visual estão: ponto, linha, forma, direção, cor, tom, textura, escala e movimento. • São também relevantes: ênfase, unidade, variedade, contraste, dimensão, volume e equilíbrio.• Como preceitos compositivos estão o equilíbrio, a proporção e a harmonia. • Muitas regras, a exemplo da proporção áurea e da regra do terço, são utilizadas na contemporaneidade. 51 1 Estamos imersos em uma cultura visual. A respeito da imagem, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) As imagens são mais acessadas do que a linguagem escrita. b) ( ) A imagem também auxilia na memória, tornando presente o passado. c) ( ) O artista, enquanto produtor de imagem, não se configura como um etnógrafo. d) ( ) O mito do gênio criador não tem lugar na contemporaneidade. 2 Para um bom alfabetismo visual, é adequado saber sobre os elementos compositivos. Assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) As formas classificam-se em geométricas e orgânicas. b) ( ) Utiliza-se a direção curva quando se intenta o irregular e a instabilidade. c) ( ) A utilização de cores análogas conferem harmonia à composição. d) ( ) A proporção áurea e a técnica do sfumato foram utilizadas no quadro Monalisa, de Leonardo da Vinci. 3 Os quadros a seguir foram construídos a partir de elementos da linguagem visual. Identifique o elemento utilizado em cada imagem: AUTOATIVIDADE Egon Schiele Athos Bulcão Beatriz Milhazes Escher Adriana Varejão Ron Muek 52 53 TÓPICO 3 — UNIDADE 1 ARTE E DESIGN 1 INTRODUÇÃO Com a Revolução Industrial (segunda metade do século XVIII e XIX), surge um desenho direcionado para a projeção de maquinário e equipamentos, desdobrando-se para o de produtos e de moda. Assim, a linguagem gráfica adentra a vida cotidiana e aparece o design. Com as primeiras fábricas, é necessária a presença de um projetista, de um criador de formas a serem reproduzidas. Alguém que, por meio de sua formação e talento criativo, geralmente um artista, conceba a partir de uma ideia um modelo utilizável para a reprodução em série (PIVETTI, 2006, p. 12). A área de atuação do designer cada vez mais se amplia no mundo contemporâneo, afinal, mais serviços e produtos são demandados, e tudo elaborado com saber, estética e conceito. A arte e o dia a dia imbricam-se constantemente e um se renova no outro, reaparecendo a frase vitruviana: scientia pluribus eruditiones ornata. Aqui aparenta ter findado o conflito entre técnica (utilitária) e arte (poiésis); agora o que vemos é a sua união e o mútuo enriquecimento. Se na arte existe o desenho, há também o desígnio: querer, elaborar, construir. Aqui o design se coloca fortemente dialogando com a criatividade e o sentimento, assim como Da Vinci o fez: mesmo dissecando cadáveres e registrando suas descobertas anatômicas, dizia que as lágrimas vêm do coração para os olhos. A intenção encontrou em meados do século XIX uma condição singular. Era necessário pensar na forma dos produtos utilizáveis. Afinal, nossa linguagem é muito visual, por isso o pintor italiano dizia que os olhos são a janela da alma e o espelho do mundo. Tendo em vista tais preceitos, saberemos alguns aspectos do planejamento visual, dos suportes utilizados pelo designer e o diálogo existente com o artista. 54 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO Lewis Mumford (1895-1990), com Technics and Civilization (1934), The Culture of Cities (1938) e Brown Decades (1931); e Siegfried Gideon (1888-1968), com Space, Time and Architecture (1941) e Mechanization Takes Command (1948), são autores que versam sobre a história da técnica, da máquina e das artes. Não podemos deixar de falar de Walter Benjamin, que acirra a discussão sobre a perda da aura das obras de arte em A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica, ensaio publicado pela primeira vez em 1936 e, posteriormente, em 1955. INTERESSA NTE A cultura escrita é inseparável dos gestos violentos que a reprimem. Antes mesmo que fosse reconhecido o direito do autor sobre sua obra, a primeira afirmação de sua identidade estava ligada à censura e à interdição dos textos tidos como subversivos pelas autoridades religiosas ou políticas (CHARTIER, 1999, p. 49). Atualmente há também o Copyleft, que defende e promove a garantia de liberdade para a reprodução de obras. 2 PLANEJAMENTO VISUAL GRÁFICO Artistas e designers partilham do mesmo conhecimento, embora com propósitos diferentes, ou seja, se valem da história da arte, da teoria das cores, dos elementos e componentes da linguagem visual, dos conceitos e da relação entre a sociedade de seu tempo. Ambos precisam de um planejamento para seus trabalhos e, para tanto, são necessários materiais adequados para exprimir da melhor maneira possível as suas ideias de acordo com a técnica e a linguagem escolhida. Assim, veremos aqui outra ferramenta – tinta nanquim – e dois preceitos compositivos primordiais e partilhados pelos profissionais da visualidade – ângulo inferior esquerdo e nivelamento/aguçamento. No século XVI, surgiu a necessidade de encontrar meios para proteger os investimentos destinados à produção de obras, ou seja, de se proteger a propriedade intelectual. Em um primeiro momento, apenas os editores de livros tinham o direito de reprodução. Os autores, tanto da área da literatura quanto das artes e das ciências só tiveram direito sobre suas criações em 1709 (na Inglaterra), mas somente em 1717 entrou efetivamente em vigor com o Estatuto Anne ou Copyright Act. IMPORTANT E TÓPICO 3 — ARTE E DESIGN 55 2.1 TINTA NANQUIM Originária da região de Nanjing, o nanquim já era utilizado nos manuscritos chineses por volta de 2000 a.C., aplicando-o sobre a seda com pincéis de madeira e bambu. Outrora, usava-se a tinta de moluscos octópodes para a sua fabricação, posteriormente o encontramos feito de uma mistura de gelatina, cânfora e um pó negro provindo do carvão, muito utilizado para a graxa de sapatos, pneus e tintas de impressão. Após William Henry Perkin (1838-1907) iniciar seus estudos à procura de corantes sintéticos, a partir de 1870 a cor preta passou a ser produzida por meio do Negro de Fumo. A tinta nanquim caracteriza-se pela sua precisão, pois uma vez posta no papel, torna-se irreversível depois da secagem. Assim, podem ser aplicados vários traços sem que o primeiro se altere. O material é opaco, de rápida secagem e é possível conseguir inúmeras cinzas com a adição de água. Atualmente, pode ser encontrado tanto na forma sólida quando líquida. Neste último caso, é preciso se valer de uma das ferramentas a seguir. 2.1.1 Bico de Pena Geralmente possui haste de madeira com uma ponta de metal, que ao imergir na solução, armazena uma pequena quantidade de tinta. Esta escorre pela ponta no momento em que é pressionada na superfície. De acordo com a força aplicada na pressão, ocasiona maior ou menor espessura da linha. 2.1.2 Caneta Técnica Possui um compartimento para colocar a tinta e é facilmente recarregável, mas é preciso estar atento para sua constante desmontagem, uma vez que a secagem rápida do nanquim pode entupir a ponta. A largura da linha depende da numeração da caneta. Cabe observar que era muito utilizada na engenharia e arquitetura, sendo substituída pelo Autocad. 2.1.3 Caneta Descartável Garante segurança para os trabalhos, uma vez que não pinga sobre o suporte, entretanto, não é recomendável para cobrir grandes áreas. Possui um filtro e não pode ser recarregada. Sua espessura varia de 0.1 a 0.8, por isso é interessante adquirir várias delas para traços diversos. 56 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO 2.1.4 Pincel com Fibra de Nylon com Reservatório de Água Foi edificada para o manejo de pigmentos sólidos ou em pó, mas pode ser utilizada com a tinta nanquim. Para sua utilização, aperta-se o corpo do pincel para que água desça para a fibra e se dilua com o material. 2.2 ÂNGULO INFERIOR ESQUERDO Saber sobre os elementos compositivos e a maneira de fazer um planejamento da imagem torna a comunicaçãomais ágil e assertiva, ou seja, o resultado das decisões compositivas impacta na significação da mensagem visual. “É preciso que os planejadores gráficos tenham consciência da importância dessa linguagem e o seu poder de manipulação” (SILVA, 1985, p. 40). Um recurso muito utilizado pelos artistas/designers é a utilização do ângulo inferior esquerdo, uma vez que o olho humano favorece esse local em qualquer campo visual. Tal fato se dá provavelmente em decorrência da direção com a qual escrevemos no mundo ocidental. Hás dois padrões de varredura do olhar, ou seja, o caminho que o olhar toma ao se deparar com uma imagem: • Primário: varredura do campo diante dos referentes verticais-horizontais. • Secundário: reage ao impulso perceptivo inferior-esquerdo. FIGURA 36 – PADRÕES DE VARREDURA DO OLHAR FONTE: Dondis (2007, p. 39) Observe como Nicolas Lancret (1690-1743) dá ênfase as suas figuras colocando-as no local onde o espectador se demora visualmente. Certamente, o cão e a fonte são os últimos elementos a receberem a atenção do olhar. TÓPICO 3 — ARTE E DESIGN 57 FIGURA 37 – NICOLAS LANCRET. SENHORA E CAVALHEIRO COM DUAS MENINAS E UM CERVO, 1742 FONTE: <https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/81fMggZlQDL._AC_SL1092_.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2019. 2.3 NIVELAMENTO E AGUÇAMENTO Ao traçar uma linha vertical, uma horizontal e uma diagonal na imagem, percebemos que os elementos que aguçam nosso interesse são os que estão fora dos referidos eixos. Essa é uma maneira valiosa para o produtor de imagem direcionar a atenção de quem está diante dela. FIGURA 38 – PONTO DE NIVELAMENTO E DE AGUÇAMENTO FONTE: Dondis (2007, p. 38) O coração de Juan Miró (1893-1983) chama por nós, e isso se dá pelo fato de ter sido colocado em um local estratégico, auxiliado pela cor vermelha. 58 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO FIGURA 39 – JUAN MIRÓ. A BAILARINA II, 1925 FONTE: <https://verdequetequerorosa.files.wordpress.com/2011/04/mirc3b31.jp- g?w=229&h=300>. Acesso em: 27 abr. 2020. 3 OS DIVERSOS SUPORTES DA MENSAGEM Ainda se discute sobre as diferenças e as conformidades entre arte e design, seja ele de produto, gráfico ou mesmo de moda. Dessarte, na contemporaneidade, diverso do que ocorria até o século XX, ocorre uma hibridização de linguagens, conforme vemos na imagem sugerida pelos preceitos da Bauhaus, fundada por Waler Gropius em 1919. TÓPICO 3 — ARTE E DESIGN 59 FIGURA 40 – AS ARTES DE ACORDO COM A BAUHAUS FONTE: Dondis (2007, p. 9) Marc Newson (1963-) é um dos protagonistas dessa imbricação de linguagens, assim como Gaetano Pesce (1939-), Philippe Starck (1949-), Zaha Hadid (1950-2016), Ron Arad (1951-), Karim Hashid (1960-) e Alessandro Mendini (1931-), cuja poltrona foi pintada à mão sobre a seda produzida artesanalmente na Coreia, a qual revisita a poltrona Proust, criada em 1978. 60 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO FIGURA 41 – ALESSANDRO MENDINI. PROUST KOREA, 2015 FONTE: <https://www.pinterest.de/pin/311452130465770895>. Acesso em: 14 dez. 2019. Objeto de design e de arte, de fato, se imbricam e um grande exemplo é o Juice Salif (1990), de Philippe Starck, que recebeu o status de escultura e angariou um alto valor de mercado. FIGURA 42 – PHILIPPE STARCK. JUICE SALIF, 1990 FONTE: <https://magazine.designbest.com/globalassets/blocks/speciali/speciale-salone-del-mo- bile/salone-del-mobile-2015/alessi/juicy-salif-arancia.jpg>. Acesso em: 14 dez. 2019. Paul Poiret (1879-1944), Giorgio Armani (nascido em 1934), Azzedine Alaïa (1940-2017), Marc Jacobs (nascido em 1963), Thierry Mugler (nascido em 1948) e Hussein Chalayan (nascido em 1970) são expoentes na união de suas peças à arte, conforme a estética assimétrica e concebida como instalação deste último. TÓPICO 3 — ARTE E DESIGN 61 FIGURA 43 – HUSSEIN CHALAYAN. BUBBLE DRESS, 2007 FONTE: <http://idata.over-blog.com/2/57/90/17/mai-2010/juillet-2010/bulle-huseyn-ca-layan.jpg>. Acesso em: 14 dez. 2019. Em consonância com a modernidade já estava Varvara Stiepânova (1894- 1958), deixando à vista nas roupas as marcas do processo, no caso, as costuras, e se valendo do geometrismo, de modo a influenciar Pierre Cardin (1922-). Não podemos deixar de mencionar Elsa Schiaparelli (1890-1973) e seu diálogo com os surrealistas, a exemplo de seu Sapato de Pelo de Macaco, de 1938. Em sua oposição estava Coco Chanel (1883-1971) com suas roupas funcionais. FIGURA 44 – ELSA SCHIAPARELLI. SAPATO COM PELO DE MACACO, 1938 FONTE: <http://4.bp.blogspot.com/_TK2YkCwTDkc/SjjwlhOfP3I/AAAAAAAACrw/I4aIsf1E-fQ/ s400/monkeyfurshoes.jpg>. Acesso em: 14 dez. 2019. 62 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO Schiaparelli inspirou Stefano Dolce & Domenico Gabbana e Rei Kawakubo. NOTA Adentrando ao questionamento sobre o acesso a obras de arte assinadas por grandes artistas, Damien Hirst (nascido em 1965) elaborou um cobertor de cashmere produzido à mão na Escócia, valendo-se de uma técnica utilizada 150 anos atrás, quando tecido e cor são construídos por camadas. Nesse mesmo intento está a arquiteta iraniana Zaha Hadid (nascida em 1950) e o designer de moda Karl Otto Lagerfeld (nascido em 1933) e suas parcerias com a marca Melissa. A proposta é inserir a arte no cotidiano e transformá-la em experiência estética. Para finalizar, não podemos deixar de mencionar os irmãos Humberto (nascido em 1953) e Fernando (nascido em 1961) Campana, com o olhar atento para a sustentabilidade. FIGURA 45 – IRMÃOS CAMPANA. POLTRONA FAVELA, 1990 FONTE: <https://media.mutualart.com/Images/2013_05/28/16/163150014/ebaffa75-f52c-49d- 7-9b56-65aec079e3ca_570.Jpeg>. Acesso em: 15 dez. 2019. Conheça o Instituto Campana. Acesse o site: https://www.institutocampana.org.br/. DICAS TÓPICO 3 — ARTE E DESIGN 63 Assim, os objetos ganham amplitude, atestando que campos não precisam ser desmembrados, mas há fluidez na contemporaneidade, sem hierarquias. Nas palavras de Bauman (2001, p. 1), “[...] os sólidos modernos estão se desintegrando. A separação total das áreas deixa de fazer sentido em um momento cada vez mais fronteiriço”. Muitas vezes você escutará o termo Visual Design. É uma terminologia que pretende abarcar as especializações do design aplicado na comunicação que se vale da visualidade. Isso se dá pelo fato de o termo interligar-se ao conceito de linguagem visual, não se limitando ao suporte de determinada mídia. NOTA 4 ARTISTA/DESIGNER: CRIADORES DE IMAGENS Existe um limiar muito tênue entre o designer e o artista, afinal, ambos caminham pelo mesmo território, de tal forma que frequentemente um produto de design é denominado de arte. Observemos, então, os objetivos e os propósitos de cada um deles. Anterior à criação de um objeto propriamente dito, o designer elabora um briefing, uma pesquisa de campo e verifica o público-alvo, ou seja, há um objetivo muito bem definido, um ponto a que se quer/deve chegar. Função e estética aparecem alinhadas para resolver problemas, e não vigoram apenas esses dois elementos, há também um terceiro: o conceito. É preciso uma justificativa para um produto existir. Ele surge a partir de uma necessidade, portanto, o seu êxito está diretamente ligado aos resultados e à eficiência. A arte não se prende à função ou à estética; ela existe, sem justificativa para tal. O cliente ou o espectador não ditará a obra, mas, claro, o artista propõe um diálogo. De todo modo, não podemos negar que há profissionais que permeiam ambos os caminhos, transferindo conhecimentos de uma área para outra, retomando a aura benjaminiana. Para além de nossos apontamentos, não deixe de pensar sobre a arte por encomenda ou mesmo sobre os ilustradores e a sua relação com o design. DICAS 64 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO Ao artista espera-se que ele seja um trabalhador de sua época e ao designer é almejado que não faça arte aplicada. Aqui surgem questões em tornode ambos os posicionamentos: o que modificou no processo criativo e de trabalho do artista para que ele se aproximasse de uma designer? O que há de artístico no designer? De fato, as atividades mudam de acordo com o passar dos séculos, seguindo os preceitos da sociedade e o momento histórico. Escultores, gravuristas, pintores, desenhistas, designers, todos se valem dos elementos da estética. Se o designer é motivado pela demanda, o artista o é pela sua falta. Aqui cabe um preceito da Escola da Bauhaus, fundada por Walter Gropius no ano de 1919: no momento em que os objetos cotidianos e os espaços em que o homem transita se configurarem como obras de arte, o equilíbrio da vida será alcançado (GROPIUS, 2019). Visite os dois sites indicados a seguir, certamente você se surpreenderá e se encantará com os trabalhos dos artistas/designers apresentados. https://www.canva.com/pt_br/aprenda/50-designers-famosos-e-incriveis/. https://www.canva.com/pt_br/aprenda/40-designers-graficos-brasileiros-voce- precisa-conhecer/. DICAS 65 ENTREVISTA: IRMÃOS CAMPANA Por Clara Cerioni à Revista Exame (out. 2017) Humberto e Fernando cresceram construindo seus próprios brinquedos e suas casas na árvore. Nascidos em Brotas, no interior de São Paulo, nenhum dos dois, hoje conhecidos como irmãos Campana, imaginaram que iriam conquistar o mundo com suas peças ousadas e seus objetos carregados de arte e funcionalidade. Há pouco mais de três décadas de trabalho em conjunto, os dois maiores designers de objetos do Brasil sempre desejaram revolucionar a criação de peças por meio de histórias de vida e recordação de suas raízes. A mais recente mostra da dupla, intitulada “Fernando and Humberto Campana: Hybridism”, que está em exibição na galeria Friedman Brenda, em Nova York, é um dos trabalhos mais autorais e esculturais dos irmãos. Em cartaz até o dia 14 de outubro, a exposição busca traduzir por meio dos objetos os tempos difíceis que o mundo enfrenta. “Hibridismo para nós significa se adaptar a momentos difíceis. Aqui vivemos uma crise política sem precedentes. No mundo, a crise de refugiados, o conflito na Coreia do Norte e a calamidade da Venezuela nos deixam em catarse. É sobre isso que a mostra fala: tudo o que nos magoa e nos desanima é representado por meio da arte”, conta Humberto, em entrevista a EXAME.com. Na conversa, o designer explora detalhes da carreira dos dois, diz que ambos questionam o nome de uma de suas obras mais famosas, a cadeira “Favela”, e fala sobre os próximos projetos da dupla. Como começou a trajetória no designer? Nunca planejamos seguir essa carreira. Eu me formei em direito e até cheguei a trabalhar em escritórios de advocacia. Meu irmão se enveredou pela arquitetura, mas ambos sabíamos desde crianças que éramos artistas. A infância no interior foi muito boa, porque nos fomentou o contato direto com a terra. Com 26 anos eu decidi fazer um mantra na minha vida: começaria minhas obras com as próprias mãos e foi isso o que fiz. Por que a escolha de trabalhar com objetos? Eu tinha um estúdio que fazia trabalhos em vime para lojas de departamento, em paralelo com cursos de esculturas. Teve um ano em que o Fernando foi me dar uma força para dar conta das entregas. Depois ele nunca mais saiu de lá. Nós somos muito amigos e a nossa junção é inteligente, porque ele dá funcionalidade para as minhas criações. LEITURA COMPLEMENTAR 66 UNIDADE 1 — VISUALIDADE E CRIAÇÃO Como é o trabalho em conjunto? Hoje em dia fazemos tudo juntos. Ou ele cria e eu melhoro a ideia ou o contrário. Eu particularmente adoro os processos de construção, tanto que o que eu mais gosto é de ficar com os artesãos. Acredito que nossa grande missão é recuperar tradições que estão em vias de desaparecer e quem faz isso são os artesãos. A manualidade pode, sim, dialogar com a alta tecnologia, mas não se pode esquecer a tradição. Qual a mensagem que as criações querem transmitir? Eu adoro contar história de paisagens e de lugares. O Brasil é muito rico e diversificado, com muitas culturas e povos. Isso me fascina. Procuramos sempre fazer um retrato do mundo todo, seja do Brasil, da Itália ou dos Estados Unidos. Como passar essas emoções aos objetos? Isso surge espontaneamente. Eu não sou racionalista, gosto de fazer o trabalho com o coração. Às vezes, estamos viajando e vem uma ideia na cabeça e pronto. Outras vezes eu durmo, sonho e no dia seguinte coloco em prática. Uma vez que você se descobre artista as criações vêm muito fácil, para mim é assim. Quais obras mais marcaram a carreira de vocês? A cadeira Vermelha, com certeza. Ela foi um clássico do design feito de 300 metros de corda trançados manualmente, e que é até hoje a nossa peça mais famosa. Foi essa criação que nos deslanchou como designers. Também tem a coleção de sapatilhas que desenvolvemos para a Melissa, um dos produtos mais acessíveis da nossa criação, que é comercializado em larga escala. Uma das criações mais conhecida de vocês é a cadeira Favela, de 1990. Como você vê uma peça que retrata a pobreza do Brasil sendo comprada por pessoas da classe mais alta? Antes de responder sobre isso, gostaria de fazer um esclarecimento dessa obra. Existe um ruído na minha cabeça e na do meu irmão, que só agora, que estamos mais próximos de comunidades carentes, percebemos. Na época em que a idealizamos vimos muita beleza na construção espontânea das casas, de preencher espaços vazios com pedaços de madeira, mas agora questionamos o nome da obra. Nós não entendíamos o ar pejorativo que a palavra “Favela” tem nas pessoas, mas respondendo sua questão, eu penso que quando um artista cria uma obra é como um colocar um filho no mundo. Você não sabe onde ela vai parar e não tem o mínimo controle sobre isso. TÓPICO 3 — ARTE E DESIGN 67 É possível comprar as peças que projetam? Nem todas, mas recentemente lançamos uma coleção pela Tok&Stok, direcionada a um público mais jovem, onde a coleção foi toda pensada visando o custo- benefício. Além disso, também temos uma coleção mais exclusiva que vendemos na Firma Casa, em São Paulo. Como você vê o reconhecimento desses trabalhos? As pessoas no Brasil são muito carinhosas conosco. Hoje nosso nome é respeitado, mesmo tendo demorado um pouco para compreenderem a nossa importância. Quais são os próximos passos da dupla? Temos muitos sonhos, mas o que mais temos nos dedicado é no Instituto Campana. Um espaço que tenha a concentração dos nossos 34 anos de estrada. Além disso, também planejamos investir mais nos projetos com crianças carentes – trazer pessoas de comunidades de São Paulo para ter workshops, entender o processo de criação e de construção das obras. Sabemos que a vida nos deu bastante e agora é hora de retribuir tudo isso. Quais outros nomes do design brasileiro têm se destacado? A cena do designer contemporâneo de hoje é muito diferente do que quando eu e meu irmão começamos há 30 anos. Tem muitos profissionais promissores, mas diria que Guilherme Wents e o Rodrigo Ohtake são dois nomes que chamam minha atenção. Primeiro pela leveza em suas criações, segundo pela pitada de arte que tem nas coleções. FONTE: CERIONI, C. Irmãos Campana questionam uma de suas obras mais conhecidas. 2017. Disponível em: https://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/irmaos-campana-os-craques-que- reinventaram-o-design-de-objetos/. Acesso em: 10 dez. 2019. 68 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • O designer prima pela estética e pela funcionalidade. • Vários teóricos escreveram sobre o impacto da tecnologia nas artes, a exemplo de Lewis Mumfort e Siegfried Gideon. • Walter Benjamin discorreu sobre a perda da aura de um objeto de arte perante a era da reprodutibilidade. • A tinta nanquim é um elemento partilhado de artistas e designers. Pode ser encontrado em forma de bico de pena, caneta técnica, caneta descartávele pincel de fibra de nylon com reservatório de água. • Ângulo Inferior Esquerdo e Nivelamento e Aguçamento são estratégias utilizadas para atrair a atenção do espectador. • A Bauhaus foi essencial para o desenvolvimento do design. • Artistas e designers partilham do mesmo conhecimento acerca da história da arte e de preceitos e elementos compositivos, mas ambos se valem dele com propósitos diferentes. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 69 1 A respeito do mundo pós-Revolução Industrial, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) Surgiu um desenho voltado para maquinário e equipamentos, desdobrando-se para o de produtos e de moda. b) ( ) O Copyright protege a propriedade intelectual. c) ( ) Walter Benjamin escreveu sobre o vigor da aura das obras de arte após o surgimento dos meios reprodutivos. d) ( ) O Copyleft é adepto à reprodutibilidade. 2 Sobre o planejamento visual, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) No Nivelamento/Aguçamento, os elementos que aguçam nosso interesse são os que estão sobre os referidos eixos. b) ( ) O olho humano favorece o ângulo inferior esquerdo. c) ( ) A tinta nanquim é irreversível após sua secagem. d) ( ) Os elementos compositivos têm um grande poder de manipulação. 3 O artista Daan Roosegarde resolveu o problema da falta de luminosidade em um caminho na cidade de Nuenem (Holanda), inspirando no quadro Noite Estrelada, de Vincent Van Gogh. Sua arte pública compreende em pequenas rochas pintadas que capturam a energia do sol durante o dia e iluminam à noite. AUTOATIVIDADE FIGURA – DAAN ROOSEGARDE. O CAMINHO DE VAN GOGH, S/S FONTE: <https://www.toptal.com/designers/creative-direction/art-vs-design>. Acesso em: 15 dez. 2019. A partir do exposto, discorra sobre a seguinte questão: É possível distinguir o trabalho do artista holandês Daan Roosegaarde do design? 70 71 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer teorias que permeiam a teoria dos signos; • ter noções da relação estética com a questão social e cultural; • apreender as principais concepções de Charles S. Peirce acerca da semiótica; • fundamentar com mais rigor reflexões que correlacionam a arte com a sociedade e sua cultura; • refletir acerca da sociedade imagética e as implicações dos signos na vida social cotidiana; • sintetizar a semiótica de Greimas e Saussure, bem como alguns conceitos importantes de Roland Barthes e Umberto Eco. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – SEMIÓTICA E A TEORIA DOS SIGNOS TÓPICO 2 – SEMIÓTICA PEIRCEANA TÓPICO 3 – IMAGEM DA PALAVRA E A SOCIEDADE IMAGÉTICA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 72 73 UNIDADE 2 TÓPICO 1 — SEMIÓTICA E A TEORIA DOS SIGNOS 1 INTRODUÇÃO Os signos possuem ligação direta com o cotidiano humano. Eles vão desde entender o olhar de intimidação de uma mãe como “chegou a hora de parar” quanto um sinal verde do semáforo como convenção de passagem e o vermelho como seu oposto, acidentes no trânsito; sendo, portanto, determinante na segurança de todos. Isso inclui convenções, como placas de velocidade, faixa de pedestres etc. Não é possível imaginar o mundo caótico em que viveríamos caso eles não existissem. Obviamente não para por aí, afinal, conforme Charles Peirce (1839-1914) indicava, tudo é signo, desde o dinheiro até a moda; de obras de arte a textos escritos. Tais funções textuais ficam especialmente a cargo da semiologia, cuja função também é interpretar signos de textos. A Semiótica, entendida por muitos como sinônimo da Semiologia, teve várias denominações ao longo da história da filosofia, desdobrando-se em diferentes formas de abordagens. Proveniente do grego semeîon (“signo”) e sêma (“sinal” ou “signo”), a Semiótica é a área de estudo do signo. Outras denominações ao termo foram propostas no passado, tal como semântica, semasiologia, sematologia, semologia e semiologia, porém cada uma seguiu seu curso de estudos (CAMPOS; ARAÚJO, 2017). Apesar de que tudo é signo, podemos considerar que o valor é dado de acordo com os preceitos de cada sujeito e sua sociedade, noção esta trabalhada por Immanuel Kant (1724-1804). Decerto não adentraremos em terrenos arenosos, como o problema dos universais ou até mesmo na estética kantiana, mas é preciso respaldar alguns elementos básicos da semiótica nesse primeiro momento, para, nos tópicos seguintes, vermos mais detalhes da semiótica de Peirce e, sequencialmente, adentrar a questões sociais e culturais que envolvem os signos. A semiótica caracteriza-se pelo estudo dos signos, e indica as formas que os sujeitos dão significados a tudo que os cerca. O estudo dos signos tem grande importância na área das artes e da comunicação. Os artistas/designers se valem deles para criar formas significativas e ler as imagens, potencializando a comunicação e o marketing, no caso de uma logo, por exemplo. NOTA UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA 74 Para fins de atendimento aos objetivos de nossa unidade, portanto, nosso foco se dará fundamentalmente na Semiótica e em suas ramificações, especialmente voltadas para questões relacionadas aos símbolos e suas correlações com a arte e a interpretação. Este tópico, com efeito, ficará responsável por delimitar algumas definições e trabalhar, a fim de nortear os estudos, questões do panorama histórico da semiótica. 2 CONCEITOS GERAIS DE SEMIÓTICA Conforme sinalizado, das diversas áreas que rivalizaram com a Semiótica – semântica, semasiologia, sematologia, semologia – a semiologia foi sua principal rival. Proveniente de meados do século XVII, o termo foi cunhado por Johannes Schulteus, mas apenas no século XX o vocábulo semiologia foi relacionado à tradição semiótica por parte Ferdinand de Saussure (1857-1913), seguido por Louis Hjelmslev (1899-1965) e Roland Barthes (1915-1980). Depois desse período e de o campo da semiologia já ter passado pelas mentes dos autores supracitados, ela passa a ser utilizada, especialmente, em países românicos; já os autores alemães e anglófonos deram maior preferência ao termo semiótica. Para distinguir a Semiótica da Semiologia, alguns semioticistas elaboraram alguns conceitos: A Semiótica é abordada como uma ciência mais ampla dos signos, incluindo os signos dos animais e da natureza; e a Semiologia se referiria apenas à teoria dos signos humanos, portanto, culturais, com foco textual. Uma distinção mais coerente foi proposta por Hjelmslev e seguida por Greimas. Os autores definiram a semiótica como um sistema de signos hierárquicos relacionados à linguagem, como a língua, o código de trânsito, a arte, a música, ou a literatura (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 12). A semiologia é compreendida como a teoria geral, isto é, a metassemiótica desses sistemas (metalíngua). Somente em 1969 é que se deu o fim da disputa entre os dois termos no campo científico; ocorreu ainda de modo oficial por meio da Associação Internacional de Semiótica, que “definiu o uso da denominação Semiótica como termo geral para o campo de investigação nas tradições da semiologia e da semiótica geral” (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 12). Com efeito, a semiótica, em seu contexto textual, estuda a significação, que é definida no conceito de texto. O plano de expressão, por sua vez, refere-se à manifestação de um plano de conteúdo, que se refere ao significado de algo e o que essealgo faz para dizer o que diz, em um sistema de significação verbal, não verbal ou sincrético (PIETROFORTE, 2004). Neste viés: • Sistemas verbais: são as línguas naturais e os não verbais, os demais sistemas, como a música e as artes plásticas. • Sistemas sincréticos: são aqueles que acionam várias linguagens de manifestação, como ocorre entre um sistema verbal e um não verbal nas canções e nas histórias em quadrinhos. TÓPICO 1 — SEMIÓTICA E A TEORIA DOS SIGNOS 75 Veja o livro de Lúcia Santaella. SANTAELLA, L. O que é Semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983. DICAS Deste modo, um mesmo conteúdo “pode ser expresso por meio de planos de expressão de ordens diferentes, ou seja, pode se manifestar em um plano de expressão de ordem verbal, não verbal ou sincrética”. Ele pode aparecer, por exemplo, no sistema verbal de um romance e com isto pode ser “adaptado para o cinema em um plano de expressão sincrético, ou inspirar uma sinfonia ou uma tela em planos de expressão não verbais” (PIETROFORTE, 2004, p. 11). A linguagem de sons, no Ocidente, recebeu uma tradução visual alfabética (a escrita), mas há também outras linguagens, como a dos surdos-mudos, o sistema da moda, da culinária, do vinho, das artes, entre outros sistemas de produção de sentido. Após a Revolução Industrial, o mundo foi povoado de imagens, que se estruturam como linguagem visual, desvelando significações. NOTA 2.1 PANORAMA HISTÓRICO A fim de verificarmos de modo holístico a questão semiótica, com o intuito também de saber “onde estamos pisando”, é interessante fazer uma breve passagem histórica pelos principais contextos da disciplina. 2.2 SEMIÓTICA AVANT LA LETTRE: SIGNO NA ANTIGUIDADE O processo de formação da ciência geral dos signos se deu por meio das reflexões provenientes do período greco-romano, especialmente nas figuras de maior expoente da filosofia universal, Platão e Aristóteles. Eles desenvolveram uma Semiótica avant la lettre (à frente da letra) ao estudar tanto os signos quanto a significação e a comunicação. Façamos agora um panorama histórico da Semiótica, com início na Antiguidade, elencando os principais pensadores e correntes que trabalharam o tema em suas mais variadas formas e entendimentos. UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA 76 QUADRO 1 – SEMIÓTICA NO PERÍODO ANTIGO Platão (427-347 a.C.) Investigou os signos a partir de vários aspectos, apontando que eles apresentavam elementos verbais e de significação. O modelo platônico do signo foi definido em três componentes: o nome (noma, nómos), a noção ou ideia (eîdos, lógos, dianóema) e a coisa (prágma, ousía). No diálogo Crátilo, Platão investigou a relação entre esses três componentes, a fim de apontar se a relação ocorria de forma natural, ou a partir das convenções sociais. Aristóteles (383- 322 a.C.) Propôs uma nova abordagem, uma vez que, em seus estudos, o filósofo elaborou uma teoria dos signos a partir da lógica e da retórica, definindo-o a partir de um modelo igualmente triádico: o convencional (symbolon), as afecções da alma (phathémata) e o retrato das coisas (prágmata). Também restringiu o signo ao sentido verbal, utilizando a indução para o processo de sua significação. Estoicos (300 a.C. - 200 d.C.) Criaram a teoria da significação, utilizando o modelo triádico, mais elaborada da Antiguidade. Consideraram que o signo é composto por três componentes: semaínon, que é o significante, a entidade percebida como signo; semainómenon, ou lékton, que corresponde à significação, ou significado; tygchánon, o evento ou o objeto ao qual o signo se refere. Referem-se ao semaínon e ao tygchánon como entidades e não como nomes, ou palavras, porque as consideram materiais, enquanto identificam o lékton como imaterial. Epicuristas (300 a.C.) Em oposição aos estoicos, desenvolveram um modelo diádico do signo, em que tratam apenas do significante (semaínon) e o objeto referido (tygchánon), definindo o signo como um fato perceptivo que representa algo não perceptível. O modelo segue uma epistemologia materialista. A maior contribuição dos epicuristas foi a zoossemiótica, estudos sobre a linguagem animal, a partir das suas formas primitivas de comunicação à base de sinais. Essa linha não pressupõe combinações lógicas, porque se utiliza de pistas para interpretação dos signos. Agostinho de Hipona (354-430 d.C.) Considerado o fundador da Semiótica, suas ideias sobre a semiótica foram abordadas nos tratados De Magistro (389), De Doctrina Christina (397) e Principia (c.a. 384). Não desconsiderou a teoria epicurista, mas seguiu mais os princípios estoicos, afirmando a interferência mental no processo de semiose. Também propôs distinguir os signos naturais dos convencionais. Os signos naturais significam involuntariamente algo. Um exemplo é a fumaça, que mostra sinal de fogo. Os convencionais são criados pelos homens, como as palavras e a lei. Agostinho deu continuidade dos estudos dos signos semióticos verbais e não verbais, de modo que suas investigações projetaram a abordagem escolástica que marcaria a Idade Média. FONTE: Campos e Araújo (2017, p. 13-14) Foi a partir do século II d.C. que os primeiros passos da semiótica médica passaram a vigorar, especialmente por meio de estudos voltados para os sinais ou sintomas desenvolvidos por Galeano Pérgamo (139-199), a partir do diagnóstico e o prognóstico. NOTA TÓPICO 1 — SEMIÓTICA E A TEORIA DOS SIGNOS 77 2.3 SEMIÓTICA NA IDADE MÉDIA E MODERNIDADE No período medieval, a Semiótica desenvolveu-se no campo da escolástica (teologia e filosofia) e do trivium das artes liberais (gramática, retórica e dialética/ lógica), sendo significativas as doutrinas do realismo e do nominalismo. A primeira premissa corresponde às suposições e a segunda aos modos de significação. Tanto uma quanto a outra estavam voltadas para a existência de universais. Foi nesse período que surgiu a distinção entre denotação e conotação, além da teoria da representação, com estudos voltados para a semiótica de signos, símbolos e imagens. Na Idade Média e mesmo na Renascença, eram utilizados vários modelos de semiótica para a interpretação de signos humanos, animais e naturais. Na Idade Média, eram calcados nos sentidos exegéticos, enquanto na Renascença baseavam-se nas assinaturas das coisas. O sentido exegético baseia-se na hermenêutica bíblica, que busca quatro níveis diferentes de explicação do mesmo texto, apresentados no nível literal ou histórico – tal como é; tropológico – refere-se à vida do homem; alegórico – propósito de Deus e da Igreja; e o anagógico – os mistérios celestes. A doutrina das assinaturas das coisas foi apresentada pelo médico suíço Paracelso (1493-1541), que apresentou um sistema de códigos para interpretação de todos os signos naturais. No sistema, Deus não está só como autor das mensagens. O homem, archaeus – o princípio interior do desenvolvimento – e astros também os produzem (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 13-14). Observe a seguir a continuidade ao panorama histórico acerca da Semiótica nas principais mentes e correntes de pensamentos. QUADRO 2 – SEMIÓTICA NO PERÍODO MEDIEVAL E MODERNO Escolástica Roger Bacon (1215- 1294) Voltado para a teoria geral dos signos, Bacon escreveu o tratado De Signis, no qual trata especificamente dos signos, buscando classificar todos os tipos existentes. Jean Poinsot (1589- 1644) Também voltado para a teoria geral dos signos, Poinsot escreveu o Tractatus de Signis (1632) em que apresentou seus estudos a partir do campo da lógica, definindo os instrumentos utilizados para cognição e para falar dos signos. A perspectiva da lógica do autor será importante para os estudos desenvolvidos a partir do século XVI. Racionalismo francês René Descartes (1596-1650) Desenvolveu sua teoria das ideias, propondoque o signo parte de três elementos mentais: as ideias adventícias, que chegam à mente a partir dos sentidos; as ideias fictícias, produzidas pela imaginação; e as ideias inatas, que existem por si só na mente e não precisam da experiência para se realizar. Em sua teoria, o signo não tem caráter referencial, porque não precisa existir a partir do contato com o mundo real. Dessa maneira, é a ideia da coisa que representa e da coisa representada. UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA 78 Empirismo inglês John Locke (1632- 1704) Considerado o principal pensador sobre a história da Semiótica, a partir de seus estudos definiu os signos como instrumentos de conhecimento e distinguiu-os em duas classes, das ideias e das palavras. As ideias são elaboradas a partir das sensações (experiências), seguidas de reflexão. As ideias complexas são construídas pela operação mental (pensamento), relacionadas com as ideias simples. Esse estudo foi abordado em An Essay on Human Understanding, de 1960 (Ensaio sobre o entendimento humano) quando utiliza o termo Semiótica. Thomas Hobbes (1588-1639), George Berkeley (1685-1753) e David Hume (1711-1776) também foram autores dessa corrente filosófica que se preocupou com a Semiótica. Pré-iluminismo Giambattista Vico (1668-1774) Contribuiu para os estudos de semiótica em sua obra Scienza Nuova, de 1875, abordando o estudo dos mitos, metáforas, língua e evolução dos signos da humanidade. Nessa última premissa, observou três etapas no desenvolvimento dos signos da humanidade: era divina, era heroica e era dos homens. Iluminismo Etienne de Condillac (1715- 1780) Aprofundou os estudos sobre a origem da linguagem, a partir dos signos aplicados na cognição humana. Na obra Essai sur l’origine des connaissances humaines (ensaio sobre a origem da consciência humana), apresenta a semiose como um processo genético que inicia em níveis primitivos, como a sensação, e vai até níveis mais complexos, como a reflexão. A partir disso, classificou três tipos de signos, os causais ou acidentais, os naturais e os convencionais. Denis Diderot (1713-1784) Nas obras Lettres sur les aveugles (1749) e Lettre sur les sourds et muets (1751), evidenciou os estudos genéticos de semiose humana, estabelecendo onde há diferença entre comunicação verbal e não verbal. A Semiótica do Iluminismo teve ainda os dois expoentes alemães: Christian Wolff (1679-1754) e Heinrich Lambert (1728-1777). Georg Hegel (1770-1831) Foi um dos principais filósofos que definiu as fronteiras semióticas, abordando a diferença entre signos e símbolos. Definindo o signo como representação de alguma coisa e o símbolo como a manifestação de algo. FONTE: Campos e Araújo (2017, p. 15-17) Os debates desde o racionalismo até o século XIX serviram para fundamentar a estruturação da Semiótica como ciência, que se dará somente do século XX em diante. TÓPICO 1 — SEMIÓTICA E A TEORIA DOS SIGNOS 79 2.4 A SEMIÓTICA NA CONTEMPORANEIDADE Sob os efeitos das diferentes abordagens, que foram vistas nos quadros anteriores, são engendradas noções discrepantes, como toda boa ciência, dos estudos voltados para o signo sob a ótica científica, ou seja, assim como há diferentes correntes de pensamento sobre um mesmo assunto, com a Semiótica o percurso é o mesmo. Charles Peirce – pensador central do Tópico 2 desta unidade –, o fundador da doutrina filosófica conhecida como pragmatismo (que mais tarde renomeou “pragmaticismo” para distingui-lo do pragmatismo desenvolvido por outros como William James (1842-1910)), definiu a semiose como ação ou influência, que é, ou envolve, uma cooperação de três sujeitos, como um sinal, seu objeto e seu interpretante. Essa influência tri-relativa não é, de forma alguma, resolvível em ações entre pares. Já quanto ao racionalismo, o linguista Ferdinand Saussure (1857-1915): [...] iniciará uma corrente pensando a partir das estruturas da linguagem [...]. A Semiologia saussureana investiga todos os sistemas de signos, a partir do contexto social, sendo a Linguística uma vertente. Parte da análise da linguagem natural para os outros sistemas de significação, com enfoque estruturalista. O sistema proposto por Saussure desvincula a língua e a linguagem, buscando a constituição de um modelo geral para o estudo de todas as linguagens (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 17-18). Por fim, ainda temos: • O estruturalismo, considerado uma das principais correntes de pensamento do século XX, visa extrair a estrutura do sistema a partir da análise das relações em todos os sentidos, sendo que um dos desdobramentos dessa proposição será a Semiótica discursiva, ou greimasiana, cujos estudos estão voltados para o discurso, baseando-se na estrutura narrativa que se manifesta em todos os tipos de texto. Aqui todas as manifestações do homem são consideradas textos e discursos. • A Semiótica da Cultura, ou Russa, teve como precursores Aleksandr Potiebniá (1835-1891) e Aleksandr Viesselovski (1838-1906). No entanto, vai se estruturar teoricamente na escola de Tártu-Moscou com a criação da disciplina Semiótica da Cultura, pois é quando se constitui enquanto um método, investigando as relações entre o sistema de signos a partir do contexto cultural. A cultura é vista como uma linguagem verbal e a comunicação desta como semiose; essas serão as matrizes que desencadearão as principais vertentes de estudo contemporâneo. UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA 80 Para saber mais sobre a Escola Semiótica de Tártu-Moscou (1960-1980) e a atuação de Iúri Lotman (1922-1993), um de seus exponenciais, acesse o link a seguir: https://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/view/20156. DICAS 3 ARTE, INTERPRETAÇÃO E EPISTEMOLOGIA NA SOCIEDADE IMAGÉTICA Ficará claro, especialmente na semiótica peirceana, que não há como existir razão para o signo sem que haja um interpretante, ou seja, é preciso levar epistemologia a um ramo que é considerado, em sua grande área, algo subjetivo. Embora Roger Scruton (1944-2020), em Beleza (2013), discorde desse ponto, atribuindo objetividade à arte, especialmente no que concerne a resíduos sólidos urbanos, por exemplo, ou ainda resíduos da construção civil, isto é, muito mais vale um patrimônio tombado do que edifícios que não passam de lixo em um futuro terminantemente próximo. Veja o livro Paisagens Urbanas, de Nelson Brissac Peixoto, que estuda a relação entre a arte e a cidade. PEIXOTO, N. B. Paisagens Urbanas. São Paulo: Senac, 1996. DICAS Epistemologia (do grego episteme: ciência/conhecimento, e logos: teoria) é a disciplina que toma as ciências como objeto de investigação, tentando reagrupar: a) a crítica do conhecimento científico (exame dos princípios, das hipóteses e das conclusões das diferentes ciências, tendo em vista determinar seu alcance e seu valor objetivo); b) a filosofia das ciências (empirismo, racionalismo etc.); c) a história das ciências. Em outras palavras, é a disciplina que se interessa pelo conhecimento científico (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2001). NOTA TÓPICO 1 — SEMIÓTICA E A TEORIA DOS SIGNOS 81 Como é possível inferir, a relação entre arte e epistemologia sempre foi tênue e repleta de muito debate. Desde os primórdios o homem se vale da arte para se beneficiar, entretanto, esses propósitos não são tão claros no decorrer da história, sobretudo quando vemos na arte algo que pode produzir conhecimento proposicional constituído pela verdadeira crença justificada – termos que regem a epistemologia como área do saber (LIN, 2019). A interpretação na arte, segundo Lin (2019), refere-se à atribuição de significado a uma obra. Um ponto em que as pessoas frequentemente discordam é se a intenção do artista/autor é relevante para a interpretação da obra. Na filosofia analítica anglo- americana da arte, as visões sobre a interpretação se dividem em dois campos principais: anti-intencionalistae intencionalismo, com foco inicial em uma arte, a saber, literatura. O autor prossegue nos informando acerca das diferenças: • Anti-intencionalista: sustenta que o significado de uma obra é inteiramente determinado por convenções linguísticas e literárias, rejeitando, assim, a relevância da intenção do autor. A suposição subjacente a essa posição é que um trabalho goza de autonomia com relação ao significado e outras propriedades esteticamente relevantes. Fatores extratextuais, como a intenção do autor, não são necessários nem suficientes para a determinação do significado. Essa posição inicial na tradição analítica é frequentemente chamada de convencionalismo por causa de sua forte ênfase na convenção. • Intencionalismo: gradualmente perdeu força no final do século XX, mas viu um renascimento na chamada teoria de maximização de valor, recomendando que o intérprete busque interpretações de maximização de valor restringidas pela convenção e, em contraste, a marca inicial de intencionalismo – intencionalismo real. Sustenta ainda que os intérpretes devem se preocupar com a intenção do autor, pois o significado de uma obra é afetado por ela. Ainda de acordo com Lin (2019), existem pelo menos três versões do intencionalismo real, quais sejam: I- Versão absoluta: identifica totalmente o significado de uma obra com a intenção do autor, permitindo, portanto, que o autor intente que sua obra signifique o que ele quer, tendo certo controle do caminho que ela tomará. II- Versão extrema: reconhece que os possíveis significados que uma obra pode sustentar precisam ser restringidos por convenção. De acordo com esta versão, a intenção do autor escolhe o significado correto da obra, desde que se encaixe em um dos possíveis significados; caso contrário, o trabalho acaba sem sentido. III- Versão moderada: afirma que quando a intenção do autor não corresponde a nenhum dos possíveis significados, uma segunda marca de intencionalismo, que encontra um meio-termo entre o intencionalismo real e o anti- intencionalismo, é o intencionalismo hipotético. De acordo com essa posição, o significado de uma obra é a melhor hipótese do público apropriado sobre a intenção do autor, com base em informações publicamente disponíveis sobre ele e seu trabalho no momento da produção da peça. UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA 82 Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) indica que o artista coloca na obra as suas intenções, como que indicando o caminho para o espectador seguir, entretanto, ele não tem mais controle se isso se dará de fato, pois a obra torna-se vivente e cada um fará a interpretação também de acordo com a sua vivência. NOTA Um objeto estético liga-se à percepção e à cognição. Tal fato nos leva a inferir que o envolvimento estético está associado a uma série de preocupações epistemológicas. Prova disso é que geralmente afirmamos saber sobre arte e respeitamos o que os críticos afirmam sobre ela, atestando o seu valor enquanto ciência do saber (WORTH, 2019). As pessoas geralmente afirmam que aprendem com a arte, que muda sua percepção e tem um impacto na maneira como veem e entendem o mundo. Também se acredita amplamente que obras de arte, especialmente boas obras de arte, podem gerar crenças sobre o mundo e, por sua vez, fornecer conhecimento sobre ele. O que exatamente podemos saber sobre arte? O que precisamente a arte pode nos ensinar? Existe algum tipo de conteúdo proposicional que a arte possa fornecer que se assemelhe ao conteúdo que afirmamos precisar para outros tipos de alegações de conhecimento? Esses são os tipos de perguntas que enquadram o debate sobre se, e em que sentido, a arte é cognitiva. Sem a intenção de entrar nos pormenores do conteúdo epistemológico da arte – embora esteja diretamente ligado ao nosso foco principal, que é o de pensar a arte como parte integral da sociedade, o que, por sua vez, gera a preocupação de estar fundamentado na razão ou somente em aspectos subjetivos da emoção – vejamos o que o quadro a seguir traz acerca da relação entre arte e epistemologia ao longo história. TÓPICO 1 — SEMIÓTICA E A TEORIA DOS SIGNOS 83 QUADRO 3 – PRINCIPAIS CORRENTES DE PENSAMENTOS ACERCA DA EPISTEMOLOGIA E ARTE Platão Advertia sobre os perigos de se entregar às representações miméticas e narrativas do mundo e das ações humanas. Platão aponta na República (595-601) que é possível fazer uma representação de algo sem ter conhecimento da coisa representada. Somente filósofos, amantes da sabedoria, e especialmente aqueles que se esforçam para intuir as formas e empregar raciocínio abstrato, podem realmente ter conhecimento dessas virtudes. Os artistas induzem seus espectadores a pensar que o conhecimento está no objeto representado (mimético). Aristóteles Concordou com Platão que a arte poderia realmente influenciar o desenvolvimento do caráter moral de alguém. Embora Platão pensasse que podemos aprender com a arte e que isso é perigoso, Aristóteles argumentou que se entregar às mesmas emoções miméticas que Platão nos alertou pode trazer benefícios ao caráter e produzir uma catarse emocional (Poética 1449b, 24-29). Racionalistas Rejeitaram a ideia de que a imaginação pudesse ser considerada uma fonte de conhecimento. Descartes chegou a ignorar o que ele chamou de “as construções errôneas da imaginação”. Voltando aos ideais de Platão, os racionalistas empregavam estritamente um requisito de conhecimento que envolvia crença verdadeira justificada. Empiristas A epistemologia empirista é particularmente inútil quando se trata de explicar como podemos obter conhecimento justificado a partir de situações ficcionais ou representacionais, uma vez que, para eles, parece impossível aprender coisas reais a partir de situações ficcionais. Românticos Forneceram o início real de um argumento contra os relatos passivos do conhecimento pelos quais os empiristas argumentavam. A epistemologia romântica enfatiza o papel da imaginação além da (ou sobre) razão. Isso permitiu a noção de que não existe apenas uma maneira correta de saber, ver, experimentar, entender e construir o mundo. FONTE: Adaptado de Worth (2019) Muitos estudiosos se debruçam sobre o propósito da existência das obras de arte e sua relação com o caráter imaginativo. Nossa sociedade é imagética porque existe arte ou é intrinsicamente artística e por isso é imagética? Reflita sobre isso... NOTA Livingston (2016) afirma que isso se dá não apenas no sentido de que algum artista deva imaginar que tipo de obra deseja fazer ou se uma obra de arte deve ser trazida à existência. Em vez disso, a reflexão que deve ser feita aqui é que mesmo quando uma obra de arte esteja concluída, se esta continua a depender da atividade imaginativa de seu criador ou se ela é independente. UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA 84 A imaginação desempenha um papel crucial para a arte e a natureza era um tema importante no século XVIII nas discussões estéticas. A descrição de Joseph Addison (1672-1719) dos “prazeres da imaginação” foi bastante influente à época, mas talvez não tão influente quanto a ideia de Immanuel Kant de que a ativação do poder ou faculdade da imaginação era essencial para julgamentos estéticos (LIVINGSTON, 2016). Kant descreve a imaginação e a compreensão de “jogo livre” (da imaginação) como livremente harmonizadoras, sem que a imaginação seja restringida pelo entendimento, pois está na cognição. A imaginação no jogo livre, diz ele, está em conformidade com as condições gerais para a aplicação de conceitos a objetos que são apresentados aos nossos sentidos, mas sem que nenhum conceito específico seja aplicado, de modo que a imaginação se adapta às condições de entendimento sem a restrição de conceitos particulares. Dada a visão de Kant de que os conceitos são, ou pelo menos correspondem, a regras pelas quais a imaginação“sintetiza” ou organiza os dados da percepção sensorial, isso significa dizer que a imaginação funciona de maneira governada por regras, mas sem ser governada, paradoxalmente (e Kant não responde isso) por nenhuma regra em particular. NOTA Nos séculos XIX e XX, vários pensadores sustentaram que a imaginação desempenha um papel crucial tanto na criação quanto na recepção/interpretação das obras de arte. Exemplos proeminentes de filósofos que enfatizaram a importância do Einbildungskraft ou Phantasie a esse respeito incluem Friedrich Theodor Vischer (1807-1887), Hermann Lotze (1817-1881), Karl Köstlin (1819- 1894), Robert Zimmermann (1824-1898), Eduard von Hartmann (1842-1906), Johannes Volkelt (1848-1930), Konrad von Lange (1855-1921) e Christian von Ehrenfels (1856-1932). 4 ESTÉTICA, A IDEIA DE REPRESENTAÇÃO E SUA PERSPECTIVA SÓCIO-HISTÓRICA Barry Slater (2019) define a estética como a teoria da beleza ou, de maneira mais ampla, juntamente à filosofia da arte. O interesse tradicional pela própria beleza ampliou-se, no século XVIII, para incluir o sublime, e desde 1950, aproximadamente, o número de conceitos estéticos puros discutidos se expandiu ainda mais. TÓPICO 1 — SEMIÓTICA E A TEORIA DOS SIGNOS 85 Veja o livro Introdução à Filosofia da Arte, de Benedito Nunes. NUNES, B. Introdução à Filosofia da Arte. São Paulo: Ática, 2000. DICAS Anterior a essa data – momento no qual a estética passou a ser considerada como disciplina, separada da Filosofia –, pensamentos de figuras notáveis fizeram algumas incursões nesse campo, por exemplo, na formulação de teorias gerais de proporção e harmonia, detalhadas mais especificamente em arquitetura e música. De todo modo, as ideias kantianas mostram-se sinalizantes da área enquanto autônoma. Kant, às vezes, é considerado um formalista na teoria da arte, isto é, alguém que pensa que o conteúdo de uma obra de arte não é de interesse estético. Ademais, Slater (2019) afirma que o filósofo visava ao puro prazer da natureza e, para ele, a maioria das artes era impura, porque envolvia um “conceito”. Se observarmos algo (o corpo de um animal, por exemplo) de modo a admirar sua perfeição, haverá conteúdo; se olharmos os padrões abstratos (de um pôr do sol), estará ausente de conceitos. Nesse caso, os poderes cognitivos estarão em jogo livre. À luz do contexto semiótico, Kant não entendia a beleza como um símbolo da moralidade. Aqui entra fortemente a questão social, pois para ele a moralidade está ligada diretamente àquilo que ‘se deve ser’ pelo simples fato de ‘ser’, ou seja, dar ou fazer algo para outrem, cuja intenção seja, em última instância, para seu próprio objetivo, não é, para ele, um ato moral. Não seria possível enxergar beleza em um ato falho, em que a intenção é egoísta, mesmo sendo bom, aparentemente, seu resultado. É porque a moralidade exige que nos elevemos acima de nós que tal exercício de atenção altruísta se torna obrigatório nas concepções kantianas. Julgamentos de pura beleza, por serem altruístas, iniciam alguém no ponto de vista moral. O gozo da natureza, para Kant, é a marca de uma boa alma. A representação é alvo de inúmeros estudos da arte, tanto em termos de cópia quanto nos que indicam que até mesmo em um ato de imitação há a interpretação. Ernst Gombrich (1909-2001) foi o primeiro a apontar que os modos de representação são, longe de um simples ato de copiar, convencionais e, portanto, têm uma base cultural e sócio-histórica. A perspectiva, por exemplo, é uma maneira recente de representar o espaço, e muitas fotografias distorcem o que consideramos realidade. Slater (2019) também reconheceu que a representação era convencional; Nelson Goodman (1906-1998), em Languages of Art (1968) a comparou à denotação, isto é, à relação existente entre uma palavra e o que ela representa. UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA 86 Em Goodman temos a concepção de que a semelhança, por si mesma, é um tipo de representação, ou seja, enquanto A se assemelha a B, então B se assemelha A – ainda que um cão não represente sua imagem, por exemplo. Em outras palavras, Goodman está dizendo que a semelhança implica uma relação simétrica, mas a representação não. Como resultado, o teórico afirmou que a representação não é uma construção, mas uma arte: criamos imagens das coisas, alcançando uma visão delas. O domínio da representação como conceito central na arte perdurou desde Platão até o final do século XVIII. O filósofo em questão foi o primeiro a formular a ideia afirmando que a arte é mimese – cópia ou imitação. Bateaux, por exemplo, no século XVIII o seguiu, acreditando que a poesia existe apenas por imitação. Isso vale para pintura, dança e música; nada é real em suas obras, tudo é imaginado, pintado, copiado. É o que faz seu caráter essencial em oposição à natureza (SLATER, 2019). Na contemporaneidade, o conceito de representação se alarga, de modo que o referente nem sempre é visível. Mesmo à época de Platão, Aristóteles preferia uma teoria da expressão: a arte como catarse das emoções. Edmund Burke (1729-1797), Francis Hutcheson (1694-1746) e David Hume (1711-1776) também promoveram a ideia de que o que era crucial na arte seriam as respostas do público. Na taxonomia dos termos de arte fornecidos por Scruton (2013), as teorias da resposta concentram-se em qualidades afetivas, como “mover”, “emocionante”, “enjoado”, “tedioso”, “melancólica”, inteligente”, e assim por diante, seguindo a ideia de foco no espectador. 87 Neste tópico, você aprendeu que: • Sistemas verbais são as línguas naturais e os não verbais, os demais sistemas, como a música e as artes plásticas. • Sistemas sincréticos são aqueles que acionam várias linguagens de manifestação, como ocorre entre um sistema verbal e um não verbal nas canções e nas histórias em quadrinhos. • No contexto semiótico na história: Antiguidade, Período Medieval, Modernidade e Contemporaneidade, os principais nomes são: ◦ Platão (427-347 a.C.). ◦ Aristóteles (383-322 a.C.). ◦ Estoicos (300 a.C. - 200 d.C.). ◦ Epicuristas (300 a.C.). ◦ Roger Bacon (1215-1294). ◦ John Locke (1632-1704). ◦ Giambattista Vico (1668-1774). ◦ Etienne de Condillac (1715-1780). ◦ Denis Diderot (1713-1784). • Há diferenças entre o anti-intencionalista e o anti-intencionalismo, na perspectiva do intencionalismo real, tanto no tocante à versão absoluta quanto extrema e moderada. • O Anti-intencionalista sustenta que o significado de uma obra é inteiramente determinado por convenções linguísticas e literárias, rejeitando, assim, a relevância da intenção do autor. • O Intencionalismo, gradualmente, perdeu força no final do século XX, mas viu um renascimento na chamada teoria de maximização de valor, recomendando que o intérprete busque interpretações de maximização de valor restringidas pela convenção e, em contraste, a marca inicial de intencionalismo – intencionalismo real. RESUMO DO TÓPICO 1 88 1 O anti-intencionalismo gradualmente perdeu força no final do século XX, mas viu um renascimento na chamada teoria de maximização de valor, a qual recomenda que o intérprete busque interpretações de maximização de valor restringidas pela convenção e, em contraste, a marca inicial de intencionalismo, o intencionalismo real. Acerca disso, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) Versão absoluta: identifica totalmente o significado de uma obra com a intenção do autor, permitindo, portanto, que o autor intente que sua obra signifique o que ele quer. b) ( ) Versão extrema: reconhece que os possíveis significados que uma obra pode sustentar precisam ser restringidos por convenção. De acordo com esta versão, a intenção do autor escolhe o significado correto da obra, desde que se encaixe em um dos possíveis significados; caso contrário,o trabalho acaba sem sentido. c) ( ) Versão alternativa: o significado de uma obra é a pior hipótese do público e a menos apropriada acerca da intenção do autor, com base em informações publicamente disponíveis sobre ele e seu trabalho no momento da produção da peça. d) ( ) Versão moderada: afirma que quando a intenção do autor não corresponde a nenhum dos possíveis significados, uma segunda marca de intencionalismo, que encontra um meio-termo entre o intencionalismo real e o anti-intencionalismo, é o intencionalismo hipotético. 2 Sobre as principais correntes de pensamentos acerca da relação existente entre epistemologia e arte, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Empiristas: forneceram o início real de um argumento contra os relatos passivos do conhecimento pelos quais os românticos argumentavam. b) ( ) Platão: concordou com Aristóteles, especialmente pelo fato de ser seu aluno, ou seja, que a arte poderia realmente influenciar o desenvolvimento do caráter moral de alguém. c) ( ) Racionalistas: rejeitaram a ideia de que a imaginação pudesse ser considerada uma fonte de conhecimento, com Descartes chegando a ignorar o que ele chamou de “as construções errôneas da imaginação”. d) ( ) Românticos: a epistemologia romântica não enfatiza o papel da imaginação além da (ou sobre) razão. Isso permitiu a noção de que exista apenas uma maneira correta de saber e que há apenas uma maneira correta de ver, experimentar, entender e construir o mundo. 3 Considerando as questões relacionadas à estética kantiana, discorra acerca dela, correlacionando-a com a abordagem semiótica. AUTOATIVIDADE 89 UNIDADE 2 TÓPICO 2 — SEMIÓTICA PEIRCEANA 1 INTRODUÇÃO Embora tenhamos na figura de Ferdinand de Saussure (1857-1913) o nascimento da semiologia propriamente dita, dedicamos este tópico a Charles S. Peirce (1839-1914) em detrimento de sua interessantíssima vertente de pensamento e proficuidade em nossos intentos. A Teoria dos Sinais, ou Semiótica, é um relato de significação, representação, referência e significado. Embora as teorias de signos tenham uma longa história, os relatos de Peirce são distintos e inovadores por sua abrangência e complexidade, bem como por capturar a importância da interpretação para a significação. A relevância da semiótica para Peirce é ampla; ele também tratou a teoria dos signos como central para seu trabalho sobre lógica – seu foco principal –, como meio de investigação e processo de descoberta científica e até como um meio possível para “provar” seu pragmatismo. Por uma questão de simplicidade, podemos pensar o signo peirciano como o significante (representamen), como exemplo, uma palavra escrita, um enunciado, a fumaça como um sinal de fogo etc. O objeto, por outro lado, é mais bem pensado como o que quer que seja o significado, por exemplo, o objeto ao qual a palavra escrita ou pronunciada se anexa ou o fogo representado pela fumaça. O interpretante, por sua vez, que é a característica mais inovadora e distintiva do relato de Peirce, é mais bem compreendido como o entendimento que temos da relação sinal/objeto. A importância do interpretante para Peirce é que a significação não é uma simples relação didática entre signo e objeto: um signo significa apenas ao ser interpretado. Isso torna o interpretante central para o conteúdo do sinal, pois o significado de um sinal é manifesto na interpretação que gera nos usuários do sinal (ATKIN, 2013). A teoria é, no entanto, um pouco mais complexa do que isso. Veremos, com efeito, tais pormenores ao longo do tópico. 90 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA 2 ÍCONE, ÍNDICE E SÍMBOLO Embora tenhamos um tópico exclusivo para falar de semiótica em Peirce, não é possível deixarmos de abordar os termos ícone, índice e símbolo. A despeito disto, vejamos primeiramente como estes três elementos são trabalhados em seu contexto geral para então nos aprofundarmos no rico e vasto pensamento acerca deles. O ícone, em geral, é compreendido a partir de sua origem etimológica grega eikón, que significa imagem, cuja conotação no ocidente é tida como religiosa, especialmente em função do cristianismo. É válido mencionar que mesmo neste tipo de compreensão, o ícone é diferente do ídolo sacro, seja ele santo ou outro objeto de veneração. Como as antigas relíquias da Idade Média, onde havia um comércio inteiro voltado para objetos que eram tidos como verdadeiros utensílios e artefatos sacros, tal como os pregos da crucificação de Jesus; no entanto, havia relatos de dezenas de pregos espalhados pelo mundo e cada comerciante afirmando que eram verdadeiros. Assim como inúmeros pedaços de madeira de cruz que, se somados, formariam dezenas ou centenas de cruzes, entre outros objetos. NOTA Ainda em tal contexto genérico do uso do termo, ele é a representação de outro objeto e, assim, o representa. Por isso é um símbolo, uma vez que “simboliza” por aproximação aquilo que de fato é, que é o outro. O índice, por sua vez, em semiótica, não é aquele que vemos nos livros, o qual muitas vezes é confundido com sumário pelo senso comum. Longe disso, proveniente de index, em latim, tal como o próprio termo latino instrui, ele é aquele que indica algo. Aqui as relações com a hermenêutica se entrelaçam. TÓPICO 2 — SEMIÓTICA PEIRCEANA 91 FIGURA 1 – ÍCONE, ÍNDICE E SÍMBOLO FONTE: <https://pribellafronte.com.br/wp-content/uploads/2017/10/i%CC%81conei%CC%81ndi- cesi%CC%81mbolo.jpg>. Acesso em: 13 jan. 2020. Hermes era o responsável por interpretar aquilo que os demais deuses gregos diziam e, com isto, repassava a mensagem para a humanidade; portanto, os interpretava. Proveniente de Hermes, a hermenêutica é a arte da interpretação. Embora ela seja vastíssima e muito maior do que um mero índice, ela o abarca. Veja como Rafael Sanzio (1483-1520) representou Hermes levando Psique para o Olimpo. FIGURA 2 – RAFAEL SANZIO. HERMES LEVA PSIQUE PARA O OLIMPO, 1517-1518 FONTE: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/ec/Raffael%2C_Loggia_ di_Psiche%2C_Villa_Farnesina%2C_Rome_06.jpg/800px-Raffael%2C_Loggia_di_Psiche%2C_ Villa_Farnesina%2C_Rome_06.jpg>. Acesso em: 13 jan. 2020. Com efeito, na conotação interpretante x interpretado, o índice serve para ser interpretado por aquele que o vê, o qual, a partir de suas experiências pessoais, o interpretará de acordo com sua cosmovisão. Dessarte, serve de sinal ou indicador a ser interpretado. 92 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Oriundo do alemão weltanschauung, a cosmovisão ou visão de mundo ou ainda mundividência, é algo que cada agente possui de acordo com suas subjetividades e maneiras de ler o mundo, ou seja, tudo o que está a sua volta. NOTA Por fim, o símbolo é a semiótica propriamente dita pelo fato de abarcar os demais, ou seja, a própria representação de algo que, por sua vez, é interpretado. É por isso que a disciplina é tão vasta e gera tanta curiosidade, pois ‘aquilo que a coisa representa para mim não é, necessariamente, aquilo que ela efetivamente é de fato’. Para não cairmos em debates fenomenológicos ou ontológicos em seus mais variados fins, basta comentar que Immanuel Kant (1724-1804) já afirmava, proficuamente, que a coisa em si, isto é, a coisa em si mesma, ou em outras palavras, aquilo que ela é de fato nela mesma, não é dada ao acesso humano e, portanto, não é possível de ser acessada. O que são fenomenologia e ontologia? A fenomenologia é uma corrente filosófica fundada por Edmund Husserl (1859- 1938), que objetiva o estabelecimento de um método científico e de cunho filosófico como ciência rigorosa. O projeto fenomenológico se define como uma volta às coisas mesmas, isto é, aos fenômenos, aquilo que aparece à consciência que se dá como seu objeto intencional. Aqui a própria consciência é intencional,voltada para o mundo, ou seja, toda consciência e consciência de alguma coisa. Já ontologia é o estudo da questão mais geral da metafísica, a do ser enquanto ser; isto é, do ser considerado independentemente de suas determinações particulares e naquilo que constitui sua inteligibilidade própria. Teoria do ser em geral, da essência do real. Distingue-se, ainda, ontológico, que se refere ao ser em geral, de ôntico, que se refere ao ser em particular (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2001). NOTA TÓPICO 2 — SEMIÓTICA PEIRCEANA 93 Por esses e outros motivos que Peirce – agora já estamos em condições de trabalhar ícone, índice e símbolo nele – equiparava a semiótica à lógica. Na verdade, o filósofo não distinguia semiótica de lógica (uma vez que para ele eram sinônimos) e, sem sombra de dúvidas, foi um dos maiores lógicos de todos os tempos. Podemos equipará-lo ao rol dos grandes nomes, como Gottlob Frege (1848-1925) e Gottfried W. Leibniz (1646-1716), e por qual motivo não faríamos, ao próprio criador da Lógica, Aristóteles. Muitos conferem realce ao contemporâneo Alfred Tarski (1901-1983) ou Bertrand Russell (1872-1970), ou ainda ao medieval Raimundo Lúlio (1232-1316). Iniciando novamente pelo ícone, baseando-nos na maior coleção de obras do autor, Collected Papers (CP), para Peirce (1958, p. 278), “toda asserção deve conter um ícone ou conjunto de ícones, ou ainda deve conter signos, cujo significado seja explicável apenas por meio de ícones. A ideia que o conjunto de ícones contido em uma asserção significa pode ser chamada o predicado da asserção”. Já o índice – que é uma relação existencial para ele – está fisicamente conectado ao seu objeto. Considere a frase “bater à porta”; bater é um índice, ou seja, não é algo criado para ele, não se trata também de nenhuma semelhança, é simplesmente o aqui e o agora acontecendo e em pleno desenvolvimento. O que há, de fato, é alguém que está batendo na porta, não necessariamente querendo entrar. Mesmo que se atribua ou não um buraco na argila como o símbolo da passagem ali de um pássaro, tal acontecimento não importa, assim como não importa o “como” as coisas funcionam para o funcionalismo, mas a evidência física e material percebida. Em filosofia da mente, o funcionalismo é compreendido como aquilo que se interessa na análise do comportamento e as funções das diferentes partes, sem se preocupar como funcionam. Já o funcionalismo estético é a perspectiva segundo a qual a arte tem uma função, servindo a algum propósito ou finalidade. NOTA O símbolo, por sua vez, não é diferente do que comentamos, pois, para Peirce (1958), sem a mente interpretante não há a interpretação de que há alguém querendo entrar (no caso da batida na porta). Não pode indicar alguma coisa em particular, mas denota uma classe de coisas – vale frisar, o símbolo nunca denota uma causa particular. Ele é sempre geral. Pensemos em um sorvete, o símbolo é o próprio sorvete, isto é, qualquer sorvete. Com efeito, o sorvete de uva, daquela lanchonete etc., é particular, portanto, não é um símbolo. Ele perderia a característica que o torna um signo se não houvesse um interpretante. 94 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Posto tudo isso, estamos prontos para mais exemplos. O ícone, para Peirce (1958), é o único que pode gerar algo novo, já o índice é a âncora da realidade e o símbolo, a generalização que permite e controla tal conduta. O ícone é um signo qualitativo (tem por base uma qualidade), ou seja, vermelho pode remeter a sangue, enquanto mapa, que também é um ícone, representa a forma de um país. Um exemplo de índice, segundo Peirce (1958), é a biruta (que serve para auxiliar na identificação da direção do vento), pois só transmite um sinal de que tem vento, e, portanto, trata-se de uma relação existencial. Já o símbolo tem uma relação convencional. A exemplo de um círculo, um losango, o verde etc., não têm relação direta com a coisa em si. O verde é um bom exemplo, pois ele pode representar a floresta na bandeira do Brasil, que por si só já é um signo, ou seja, é a representação da representação. Por isso que Platão não considerava a arte algo benéfico para a pólis grega em geral, uma vez que se o contexto real é uma cópia (imperfeita) do mundo ideal, representar objetos é a representação da representação, rejeitada por ele como algo bom ou produtivo. NOTA O famoso “mantra” da Programação Neurolinguística, a saber: “mapa não é território”, relaciona-se com nossa questão, de modo que um símbolo sempre será um símbolo e, portanto, uma representação daquilo que é de fato. Com efeito, o ícone, entendido como possibilidade de algo, é a semelhança que não tem uma conexão dinâmica com o objeto que ela representa – isto é, não tem conexão energética. Uma cor, por exemplo, é pura possibilidade. O ícone possui uma característica que o torna significativo. Qualquer objeto/elemento é candidato a ser um substituto a qualquer outro objeto/elemento se há certo grau de semelhança. O ícone só é ícone quando fica no lugar de alguma coisa segundo a qualidade do outro; isso não está na própria qualidade, mas é uma característica de generalidade. O fato de serem semelhantes não necessariamente representa o outro, como é o caso da cor, porém, é possível dizer que o azul de um mapa que representa a água tem um propósito. TÓPICO 2 — SEMIÓTICA PEIRCEANA 95 Há ainda o hipoícone, que poderia ser compreendido como a pintura de uma pessoa na parede, sem legenda ou rótulo. Nesse caso, a representação poderia ser do “fundador de uma empresa”. Hipoícones podem ser: • Imagens: ícones primeiramente, isto é, ícones que são ícones. • Diagramas: ícones que são índices. • Metáforas: paralelismo (ícones que são terceiros). Toda asserção, para Peirce (1958), deve contar com um ícone ou conjunto de ícones, ou deve conter um ícone cujo significado somente é explicado por ícones. A qualidade de ser vermelho é uma ideia, é algo que nós não temos acesso. Uma definição pura de ícone, portanto, seria entendê-lo como a possibilidade que representa a primeiridade nos escritos de Peirce. Sobre ela – e a secundidade e a terceiridade – falaremos mais a partir de agora. 3 PRIMEIRIDADE, SECUNDIDADE E TERCEIRIDADE Esses conceitos são demasiadamente complexos em Peirce (1958), e tangenciam a questão semiótica que mais nos interessa. Assim, seremos breves ao citar esses três pontos de nosso pensador, visto que requerem ainda outras temáticas correlacionadas a isto para as entender em seus pormenores, reclamando muitas outras abordagens que fugiriam ao nosso escopo. Primeiridade (sensação) seria aquilo que os comentadores de Peirce gostam de exemplificar como quando Adão abriu os olhos. Ali, ele e o mundo eram uma coisa só, ou seja, a sensação é uma só, não tem nome, não tem uma relação de dois, não é o sujeito que percebe, mas é uma dissociação do eu com a qualidade percebida. Simplesmente é. Para fazer sentido ao nosso contexto, uma definição pura de ícone seria a possibilidade que representa a primeiridade. Secundidade (reação) está relacionada ao contraste de qualidades; ação/reação; causa/efeito (estado de dois; resistência e ação). Secundidade é a possibilidade daquilo que se fez Universo, isto é, trata-se de um signo que vai se determinando com a lei. Essa parte da filosofia pierceana é bastante complexa, pois, para o autor, a Lei é um hábito, ou seja, não são regulares como está presente na ciência, mas ela varia de acordo com o tempo, uma vez que tem a ideia de continuidade para ele. O contínuo é um contínuo de possibilidades. O geral é a concentração do geral na generalidade. Terceiridade (pensamento), por fim, seria a ação como um meio para produzir o resultado. No segundo, está relacionado à força bruta (batida de um carro, por exemplo), já o terceiro, por uma regra geral. Nareação estão implicadas somente duas coisas, mas no estar governado há uma terceira coisa, que é um meio para um fim (pensamento, estado de uma relação de três). 96 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA O universo existe porque tem secundidade e é real porque tem uma terceiridade. Tempo, por exemplo, é uma terceiridade. Possibilidades que se realizaram é uma terceiridade, sendo que o tempo é uma possibilidade que se realizou. Tudo o que é expectativa é da ordem da terceiridade, quanto menos mediado por conceitos, mais próximo dela está. A experiência estética é quando se vivencia a primeiridade. O passado está na terceiridade, pois nela está incorporada a relação de dois, que é uma regra geral. Em suma, o Acaso (primeiridade), a Existência Bruta (secundidade) e as Leis (terceiridade) são exemplos máximos desses três conceitos. 4 SIGNO EM PEIRCE Em uma de suas muitas definições de signo, Peirce (1998, p. 478) o caracteriza como sendo qualquer coisa que é tão determinada por outra, chamada de Objeto, e assim “determina um efeito sobre uma pessoa, cujo efeito ele chama de interpretante, e que o último é desse modo mediado pelo primeiro”. Em A Atualidade do Belo, Hans-Georg Gadamer (1900-2002) indicava que uma obra de arte compreendia o jogo, o símbolo e a festa, em uma filosofia hermenêutica. Assim, ela tem um caráter iminentemente simbólico, como um pedaço de ser que completa algo; é jogo porque é uma estrutura aberta, está sempre em movimento (é assim que se conhece) e depende de mais do que uma pessoa; é festa, portanto, porque não isola o outro. “A volta ao jogo, a elaboração do conceito de símbolo, isto é, da possibilidade de reconhecimento de nós mesmos, e finalmente a festa, como a essência da comunicação recuperada de todos com todos” (GADAMER, 1985, p. 23). NOTA O espectador ganha grande relevância na filosofia merleau-pontyana e na arte neoconcreta. Um exemplo são os Bichos, de Lygia Clark (1920-1988), obra que somente funciona com a atuação enfática do outro. NOTA TÓPICO 2 — SEMIÓTICA PEIRCEANA 97 FIGURA 3 – LYGIA CLARK. SÉRIE BICHOS, 1960-1964 FONTE: <https://i.pinimg.com/236x/1d/32/d6/1d32d65d74babe700ba3d7ab2b6e3895--art-d-ar- t-sculptures.jpg>. Acesso em: 15 jan. 2020. A árvore também é um signo que está se mostrando, por exemplo. Enquanto houver tempo, o signo vai incorporando e desenvolvendo suas potencialidades. O signo é triádico, representamen, interpretante e objeto. A figura a seguir, que traz na explicação o exemplo do signo bandeira, nos ajuda a compreender esse conceito tricotômico dos signos em Peirce. FIGURA 4 – SIGNOS Representamen Objeto Interpretante FONTE: A autora Em que: Objeto = bandeira. Representamen = o que a bandeira representa. Interpretante = ideia da bandeira. Representamen é somente aquilo que representa algo para alguém, seja objeto ou uma qualidade do objeto. Ele endereça a alguém, isto é, cria na mente da pessoa um signo equivalente ou mais desenvolvido. Os signos têm vida própria. O importante é que no processo de semiose o representamen fique no lugar do objeto e dê a ideia de uma concepção desenvolvida. 98 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA O representamen também possui características triádicas: • Qualidade, característica e possibilidade. • Relação real existente, relação existente e fato. • Lei geral, interpretante e razão. Não adentraremos em pormenores nas características anteriores, pois somente objetivamos que você, caro acadêmico, saiba que elas existem. Assim como é importante mencionar as três qualidades do interpretante: • Qualisign: qualidade de um signo. • Sinsign: ser unicamente ele mesmo. • Legisign: lei de um signo. É a réplica do signo. Por fim, no que concerne ao objeto, temos: • Rheme: signo de qualidade, icônico, qualisign. Pura possibilidade, fluído. Relação de um, pois expressa uma qualidade. • Dicent Sign: é um signo de existência real. O que o constitui é uma relação de dois. Uma relação física. • Argument: é compreendido na medida em que ele é um signo propriamente dito. Relação geral, uma relação de três. Com efeito, o signo é aquilo que é em si mesmo, quando ele pode ficar no lugar do objeto, ou seja, o signo nele mesmo pode expressar também três características: • Qualidade (se tiver algo aqui, haverá uma relação com o objeto). • Relação real existente. • Lei geral. De acordo com a relação do signo com o seu objeto: por exemplo, a cor; a tinta vermelha no quadro tem a mesma característica do sangue, que é a cor; ou ainda pegadas na areia, que são indicativos da presença física do objeto. Quem torna a réplica significativa é a Lei: exemplo: a placa “Pare” não significa nada em si mesma, ela não pode parar ninguém, mas a convenção estabelecida pela Lei torna a placa “Pare” significativa. A placa de velocidade, da mesma forma, é um signo porque é uma Lei Geral. Só pode ser signo se o objeto, de fato, existir; mas não há uma relação direta entre a existência do objeto e o signo. Isso se dá somente em função da qualidade dele que o torna signo. Todos os signos, na medida em que são usados para representar o outro objeto, têm um caráter icônico em seu limite. O signo atua como um signo mesmo quando apresenta uma característica icônica. A qualidade não precisa de mais nada para existir. Não tem relação com nada, sempre é uma “qualidade para nós”, ela não é qualidade nela mesma. TÓPICO 2 — SEMIÓTICA PEIRCEANA 99 O índice, por sua vez, não é um ícone por conta da relação que partilha com o objeto, mas é um signo porque é modificado pelo objeto (como o cata-vento que é modificado pelo vento). Relembrando, portanto, o ícone é o único que pode gerar algo novo, o índice é compreendido como a âncora da realidade e o símbolo é a generalização que permite o controle de tal conduta. Com efeito, signos, em Peirce (1998), conquanto seja muito mais complexo, não difere em excesso do senso comum, uma vez que para ele é aquilo que consiste em interpretar, isto é, interpretar sinais de algum tipo, seja qual for. Ele diz em seu texto O que é um signo?, que é preciso reconhecer três estados mentais diferentes para iniciar a compreensão acerca do assunto. O tricotômico Peirce – adjetivo empregado por nós mesmos, pois Peirce faz uso excessivo de três elementos, sejam eles de qualquer tipo, em praticamente todo o seu pensamento – diz que existem três tipos de interesse que podemos ter em uma coisa. 1- Podemos ter um interesse primário na coisa por si só, ou seja, por ela mesma. 2- Podemos ter um interesse secundário nela por causa de suas reações a outras coisas. 3- Podemos ter um interesse mediador, enquanto transmitimos à mente uma ideia sobre uma coisa. Ao fazê-lo, é um sinal ou representação. Sinal este que para Peirce (1958) também é caracterizado em três diferentes tipos: 1- Semelhanças ou ícones: que servem para transmitir ideias das coisas que elas representam simplesmente imitando-as. 2- Indicações ou índices: que mostram algo sobre as coisas por estar fisicamente conectado a elas. Essa é uma placa de sinalização, que indica o caminho a seguir, ou um pronome relativo, localizado logo após o nome da coisa que pretende denotar, ou uma exclamação profissional, como “Ei! Ei!”, que atua sobre os nervos da pessoa a quem ele é direcionado e o força a prestar atenção. 3- Símbolos ou sinais gerais: que foram associados ao seu significado pelo uso. Constitui a maioria das palavras e frases, fala, livros e bibliotecas. Antes de trabalharmos esses três pontos pormenorizadamente, vale a pena compreender um pouco melhor o que Peirce (1958) deseja dizer com “sinal”. 4.1 SINAL A palavra Sinal é utilizada, em Peirce (1958), para denotar um objeto perceptível ou apenas imaginável. Inimaginável porque, exemplificando, a palavra “rosa” – que é um signo – não é imaginável,visto que essa palavra não é em si mesma aquilo que é possível de se colocar no papel ou até mesmo pronunciada. 100 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Parece estranho pensar assim em um primeiro momento, porém, rapidamente, conseguimos resolver pensando na abordagem a priori e a posteriori. Assim como banco (agência bancária, banco para sentar-se), manga (fruta, da camisa etc.) e tantas outras palavras possuem mais de um significado, rosa, em uma conotação a priori, pode ter como efeito tanto uma flor quanto uma cor ou ainda o nome da tia Rosa, que perdeu seu esposo tão amado há cerca de um mês em função de ataque fulminante do miocárdio. Para que algo seja um Signo, ele deve “representar”, como dizemos, algo diferente chamado Objeto. Embora a condição de que um signo seja algo diferente de seu Objeto possa ser arbitrária, uma exceção pode se dar no caso de um sinal que faz parte de um sinal. Em consequência, nada impede, segundo Peirce (1958), que um ator que represente um personagem de um drama histórico carregue como “propriedade” teatral a mesma relíquia que esse objeto supostamente deveria representar. Um sinal pode ter mais de um objeto. Portanto, a sentença “Caim matou Abel”, que é um Signo, refere-se ao menos a Abel e Caim, mesmo que não seja tomada como deveria, ou seja, tendo “assassinato” como um terceiro Objeto, mas o conjunto de objetos pode ser considerado como compondo um objeto complexo. No que se segue, e frequentemente em outros lugares, os Sinais serão tratados como tendo apenas um objeto cada um para eliminar as dificuldades de seu estudo (PEIRCE, 1958, p. 230). Se um signo representa outra coisa que não seu objeto, deve haver, em pensamento ou expressão, alguma explicação ou argumento ou ainda outro contexto que mostre como, em qual sistema ou por que motivo o signo representa o objeto ou o conjunto de objetos. O sinal pode representar apenas o objeto. Não pode oferecer um relacionamento ou reconhecimento de tal objeto, isto é, aquilo com que pressupõe conhecimento para poder fornecer algumas informações adicionais que o interessam. Não há dúvida de que haverá leitores que dirão que não conseguem entender isso. Eles acham que um Signo não precisa se relacionar com algo conhecido de outra forma e não veem pés nem cabeça para a afirmação de que cada Signo deve se relacionar com esse Objeto, porém, se houver algo que forneça informações e ainda não tenha nenhum relacionamento ou referência a algo com o qual a pessoa a quem ela fornece informações tenha, quando entender essas informações, adquirirá conhecimento (PEIRCE, 1958, p. 232). Finalizando esse ponto, Peirce (1958, p. 232) nos dá um exemplo: TÓPICO 2 — SEMIÓTICA PEIRCEANA 101 Dois homens estão em uma praia, olhando para o mar. Um diz ao outro: “Esse navio não tem carga, apenas passageiros”. Agora, se o outro por si só não vê o navio, as primeiras informações que ele extrai do comentário têm como objeto a parte do oceano que ele vê, o que informa que uma pessoa com olhos mais nítidos que os seus ou mais treinada para procurar essas coisas, consegue enxergar o navio; e então, tendo introduzido a existência de um navio desse tipo, o que enxerga menos passa a estar preparado para receber informações referentes ao navio que transporta exclusivamente passageiros, porém algo é certo, a frase como um todo não possui, para a pessoa que enxerga pouco, nenhum outro Objeto além daquele sobre o qual já possui algum conhecimento. Deixemos esse complexo e imbrincado setor da filosofia de Peirce e passemos aos detalhes triádicos dos sinais. 4.1.1 Semelhança Peirce (1958) atribui ao signo o caráter da semelhança a fotografias, especialmente as instantâneas. Isso se dá porque, em certos aspectos, são exatamente iguais ou correspondem aos objetos que elas representam, a exemplo da imagem de Joceli Borges, feita por Sebastião Salgado. Nesse sentido, elas pertencem à segunda classe de sinais, os da conexão física. FIGURA 5 – SEBASTIÃO SALGADO. ROSTO DE JOCELI BORGES, 1997 FONTE: <https://m.epochtimes.com.br/fotos-classicas-de-sebastiao-salgado-sao-expostas-em- -centro-cultural-de-bh/>. Acesso em: 13 jan. 2020. 102 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Seria diferente se: [...] eu supuser que as zebras provavelmente sejam animais obstinados ou desagradáveis de alguma outra maneira, porque parecem ter uma semelhança geral com burros e burros são teimosos. Aqui, o burro funciona exatamente como uma provável semelhança com a zebra. É verdade que assumimos que a semelhança tem uma causa física na herança; mas, então, essa afinidade herdada é, em si mesma, apenas uma inferência da semelhança entre os dois animais, e não temos (como no caso da fotografia) conhecimento independente das circunstâncias de produção das duas espécies (PEIRCE, 1958, p. 299). Outro exemplo que o autor emprega, o qual nos interessa ainda mais, é o que concerne ao uso de uma semelhança. Se trata, por exemplo, de um “desenho que um artista faz de uma estátua, de uma composição pictórica, de uma construção arquitetônica ou de uma peça de decoração e, ao contemplá-la, pode descobrir se o que ele propõe será bonito e satisfatório ou não” (PEIRCE, 1958, p. 281). A pergunta feita é respondida, então, quase certamente pelo fato de ter relação com a maneira como o próprio artista será afetado. O trompe l’oil e o hiper-realismo pretendem dar o efeito real para as representações. NOTA 4.1.2 Indicações No que concerne às indicações, Peirce (1958) diz que apenas desenhos – semelhanças puras – não podem transmitir a menor informação. Assim, a imagem que o filósofo traz sugere uma roda, porém deixa o espectador na incerteza sobre se é uma cópia de algo realmente existente ou um mero jogo de imaginação. FIGURA 6 – SIGNO: INDICAÇÕES FONTE: Pierce (1958, p. 302) TÓPICO 2 — SEMIÓTICA PEIRCEANA 103 A arte conceitual (surgida na década de 1960) questionava a natureza de uma obra de arte e as classificações demandadas por museus e galerias. Assim, muitas vezes se vale das indicações, a exemplo dos ready mades, de Marcel Duchamp, que preconizava o desafio da categorização. FIGURA 7 – MARCEL DUCHAMP. RODA DE BICICLETA, 1913 FONTE: <https://arteeartistas.com.br/wp-content/uploads/2017/07/DuchampRodadeBicicleta.jpg>. Acesso em: 13 jan. 2020. Peirce (1958) afirma que o mesmo se aplica à linguagem geral e a todos os símbolos. Nem uma combinação de palavras (excluindo nomes próprios e na ausência de gestos ou outros concomitantes indicativos de fala) pode transmitir a menor informação. Isso pode parecer paradoxal, mas o pequeno diálogo imaginário a seguir mostrará como é verdade: Dois homens, A e B, estão em uma estrada municipal quando ocorre a seguinte conversa: B- O dono dessa casa é o homem mais rico desses lugares. A- Que casa? B- Você não está vendo uma casa a sua direita, a cerca de sete quilômetros de distância, ali em uma colina? A- Sim, acho que posso vê-la. B- Muito bem, essa é a casa. Dessa maneira, o indivíduo “A” adquiriu informações, porém ao chegar em uma cidade distante e for dito “o dono de uma casa é o homem mais rico desses lugares”, a observação não se referirá a nada, segundo Peirce (1958), contanto que seja explicado ao interlocutor como proceder a partir de onde será encontrado o distrito e aquela casa. Sem tais informações não é possível indicar acerca do que ele está falando. 104 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Vamos à explicação que o próprio Peirce nos traz acerca desses conceitos importantes: Para identificar um objeto, geralmente indicamos seu lugar e determinamos uma hora; e, em qualquer caso, deve ser mostrado como uma experiência sua pode ser conectadaà experiência anterior do ouvinte. Para determinar um tempo, devemos calculá-lo a partir de um tempo conhecido – seja o momento presente, ou o suposto nascimento de Cristo, ou algo semelhante. Quando dizemos que o tempo deve ser conhecido, queremos dizer que ele deve estar conectado à experiência do ouvinte. Também temos que calcular em unidades de tempo; e não há como saber qual unidade pretendemos usar, a menos que apelemos para a experiência do ouvinte. Da mesma forma, nenhum lugar pode ser descrito, exceto por referência a um lugar conhecido; e a unidade de distância usada deve ser definida por referência a alguma barra ou objeto que as pessoas possam realmente usar, direta ou indiretamente, para medir (PEIRCE, 1958, p. 300). Peirce (1958, p. 300) comenta que o mapa é bastante útil para designar um local e, para ele, como o é para o senso comum, um mapa é uma espécie de desenho. Entretanto, “a menos que o mapa tenha a marca de uma localidade conhecida, a escala de milhas e os pontos da bússola, ele não mostraria melhor onde está um lugar do que o mapa mostra a situação de Brobdingnag nas Viagens de Gulliver”. Jorge Macchi (1963-) se vale dos mapas e territórios para discutir a questão simbólica. Neste viés, nos apresenta Ciudad Cansada, no qual apresenta o mapa do México sem estabilidade. FIGURA 8 – JORGE MACCHI. CIUDAD CANSADA, 2004 FONTE: <https://www.jorgemacchi.com/sites/default/files/ciudad_cansada_01.jpg>. Acesso em: 13 jan. 2020. TÓPICO 2 — SEMIÓTICA PEIRCEANA 105 Leia o artigo Jorge Macchi: cartografias para desorientar, disponível no link a seguir: www.ucs.br › etc › revistas › index.php › docorpo › article › download. DICAS Nosso filósofo nos convida a refletir sobre a possibilidade de ser encontrada uma nova ilha no Oceano Ártico, por exemplo. A situação poderia ser aproximada em um mapa que não tivesse letras, meridianos ou paralelos; desde os caminhos familiares da Islândia em terras árticas. Nesse caso, usaríamos nosso conhecimento de que não há outro lugar em que algum ser neste mundo seja capaz de mapear o que se traçou. Tal experiência do “mundo em que vivemos torna o mapa mais do que um mero ícone e fornece os caracteres adicionados de um índice. Desse modo, é verdade que um e o mesmo sinal pode ser tanto uma semelhança quanto uma indicação. Mesmo assim, as funções desses tipos de signos são totalmente diferentes” (PEIRCE, 1958, p. 301). Pode-se objetar que as semelhanças e os índices são baseados na experiência, que uma imagem de vermelho não tem sentido para uma pessoa cega, bem como a imagem da paixão erótica pela criança, mas essas são realmente objeções que ajudam na distinção; uma vez que não é a experiência, mas a capacidade da experiência, o que mostra que é um requisito para uma similaridade; e esse requisito não é para a semelhança ser interpretada, mas para ser apresentada aos sentidos. Muito diferente é o caso de uma pessoa sem uma experiência anterior e outra com uma experiência anterior, que encontram o mesmo homem e percebem as mesmas peculiaridades, as quais indicam uma história completa para o homem com experiência anterior, porém não revelam nada ao homem experiente (PEIRCE, 1958, p. 301). Com efeito, de acordo com o autor, tudo o que focaliza a atenção é uma indicação, isto é, “tudo o que nos surpreende é uma indicação, na medida em que marca a união de duas partes da experiência”. Dessarte, “um raio tremendo indica que algo considerável aconteceu, embora não possamos saber de maneira precisa qual foi o evento, mas você pode esperar se conectar com alguma outra experiência” (PEIRCE, 1958, p. 301). 106 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA 4.1.3 Símbolos A palavra símbolo tem tantos significados que, de acordo com Peirce (1958), seria uma ofensa para o idioma adicionar um novo. Ele afirma que não acredita que o significado que ele dá ao símbolo esteja no âmbito de um signo convencional ou o de um que dependa de um hábito (adquirido ou inato), seja um significado novo ou um retorno ao significado original. Peirce (1958, p. 302) busca na filosofia grega a terminologia: Costuma-se dizer que na palavra símbolo é necessário entender a união no sentido de conjectura; mas se fosse esse o caso, deveríamos descobrir que, às vezes, pelo menos, isso significava uma conjectura, um significado que pode ser pesquisado em vão na literatura, mas os gregos costumavam “unir” (sumballein) para significar fazer um contrato ou acordo. Então, encontramos o símbolo (sumbolon) usado no passado e geralmente significa um acordo ou contrato. Aristóteles chama o nome “símbolo”, isto é, signo convencional. Na Grécia, um relógio de fogo é um “símbolo”, isto é, um sinal acordado; uma bandeira é um “símbolo”, uma senha é um “símbolo”, um logotipo é um “símbolo”; o credo de uma igreja é chamado de símbolo, porque serve como distintivo ou lema; uma entrada de teatro é chamada de “símbolo”; todo bilhete ou cheque que dá direito a receber algo é um “símbolo”. Além disso, toda expressão de sentimento era chamada de “símbolo”. Toda palavra comum, para Peirce (1958), é um símbolo, como “dar”, “pássaro”, “casamento” etc. Com efeito, é aplicável a tudo o que pode ser encontrado que realiza a ideia conectada com a palavra; não identifica, por si só, essas coisas. É possível, portanto, a fim de reforçar aquilo que já trabalhamos anteriormente, observar uma progressão regular nos tipos de sinais, Semelhança, Índice e Símbolo. • Na semelhança não se tem uma conexão dinâmica com o objeto que representa; simplesmente acontece que suas qualidades se assemelham àquelas desse objeto e provoca sensações semelhantes na mente para as quais é uma semelhança, mas realmente se está desconectado a eles. • O índice está fisicamente conectado ao objeto que lhe é próprio; eles fazem um par orgânico, mas a mente que interpreta não tem nada a ver com essa conexão, exceto observá-la depois de estabelecida. • O símbolo está conectado ao seu objeto em virtude da ideia da mente que usa símbolos, sem a qual essa conexão não existiria. Por isso o estudo do símbolo, índice e semelhança são fulcrais à Semiótica, pois além de as compor, trata-se da própria Semiótica em essência, especialmente no tocante ao termo estudado como símbolo. 107 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Há diferenças entre ícone, índice e símbolo. No contexto geral e na semiótica de Peirce, tudo é signo, sendo a semiótica a própria Lógica. ◦ O ícone é um signo qualitativo (tem por base uma qualidade), ou seja, vermelho pode remeter a sangue, enquanto mapa, que também é um ícone, representa a forma de um país. ◦ O índice – que é uma relação existencial para ele – está fisicamente conectado ao seu objeto. ◦ O símbolo, por sua vez, é sempre geral, ou seja, não pode indicar nenhuma coisa em particular, mas denota uma classe de coisas. • O sinal peirceano pode ser uma semelhança, indicações e símbolos das mais variadas formas e estilos. Também é importante mencionar que a palavra símbolo tem muitos significados e ela é suficientemente ampla para fazer com que todo o entendimento humano seja semiótico, e, por isso, tais questões também foram abordadas. 108 1 A partir da Modernidade observamos uma profusão de imagens em nosso entorno, de modo que a faculdade perceptiva e de crítica ficou solapada em meio a tantas exigências, sobretudo na contemporaneidade. Assim sendo, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Na semelhança, não se tem uma conexão dinâmica com o objeto que representa; simplesmente as qualidades se assemelham àquelas do objeto e provocam sensações dessemelhantes na mente para as quais é uma semelhança. No entanto, realmente se está conectado a eles. b) ( ) O índice está fisicamente conectado ao seu objeto; eles fazem umpar orgânico. c) ( ) No índice, a mente que interpreta tem total relação com a conexão. d) ( ) O símbolo não está conectado ao seu objeto em virtude da ideia da mente que usa símbolos, sem a qual essa conexão existiria. 2 O signo em Peirce é constituído de três partes. Assinale a assertiva que trabalha de modo CORRETO uma delas: a) ( ) Objeto pode ser a ideia uma bandeira, por exemplo. b) ( ) Interpretante é aquele que enxerga a bandeira. c) ( ) Qualisign, sinsign e legisign são as partes do objeto. d) ( ) Representamen está relacionado ao que a bandeira representa. 3 Tendo em vista aquilo que vimos de signo em Peirce, diferencie semelhança, índice e símbolos. Aproveite para conhecer o trabalho do neozelandês Henry Hargreaves (1979-), que cria mapas com alimentos locais. Para a criação dos mapas, o fotógrafo contou com o auxílio de Caitilin Levin, estilista de alimentos. AUTOATIVIDADE FIGURA – HENRY HARGREAVES. MAPAS, S.D. FONTE: <https://www.hypeness.com.br/2014/03/mapa-de-continentes-feitos-com-comida- -locais-e-de-verdade/>. Acesso em: 13 jan. 2020. Veja mais trabalhos de Henry Hargreaves no site: https://henryhargreaves.com/. 109 UNIDADE 2 TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 1 INTRODUÇÃO “Pego a palavra e faço dela coisa” (LISPECTOR, 1978, s.p.). A sociedade, longe de ser somente positiva é também imagética. Positivista no sentido de Auguste Comte (1798-1857), o qual intentava uma sociedade meramente focada em fatos científicos, não metafísicos – visto que quanto mais dada à teologia e à metafísica, mais esta sociedade seria imatura aos olhos de Comte e infantil aos olhos de Sigmund Freud (1873-1881). As imagens representam o mundo, as pessoas e os eventos, e, portanto, sob a ótica da linguística sistêmico-funcional, possui uma metafunção ideacional, assim como elas também propõem formas de interação entre os participantes representados (pessoas, lugares e elementos que aparecem nas imagens) e participantes interativos (aqueles que entram em contato com as imagens), cuja categoria é a metafunção interpessoal. Ademais, as imagens fazem tudo isso e ainda organizam diversos elementos de forma coerente, sendo também compreendida sua metafunção textual (FERNANDES, 2014). Estética Relacional, conceito trabalhado por Nicolas Bourriaud (nascido em 1965), prima a construção poética a partir das relações humanas e sociais, a exemplo do trabalho de Hélio Oiticica. NOTA Isto não seria diferente para a imagem, originada e causada pela palavra. Algirdas Julius Greimas (1917-1992) entendia como semiótica tudo aquilo que um crítico, por exemplo, fala de um filme, de uma pintura, música etc. Tal metalinguagem abarca qualquer natureza que seja do significante ou estatuto hierárquico do conjunto significante considerado. 110 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Deste modo, no que concerne ao desenvolvimento teórico da semiótica, o objeto de estudo da relação entre significado e significante ganha força, pois confere ao fato uma relação na forma de expressão e uma forma de conteúdo. Com efeito, neste tópico focaremos em grande medida no significado e significante, bem como as implicações destes para questão geral da semiótica. Por fim, conceitos gerais de sociedade, imaginação e cultura serão trabalhados, incluindo a rica perspectiva antropológica de Clifford Geertz (1926-2006) e Umberto Eco (1932-2016). 2 PALAVRA, SIGNIFICANTE E SIGNIFICADO Importante mencionar que a semiótica não é uma teoria da literatura a despeito de poder ser aplicada na análise de textos literários. Sendo a letra uma imagem – destarte o nome do tópico – a palavra ganha contornos plásticos, foco da poesia concreta, a exemplo de Arnaldo Antunes (1960-). FIGURA 9 – ARNALDO ANTUNES. ÁTOMO DIVISÍVEL, 1997 FONTE: Pietroforte (2004, p. 151) Não deixe de ler: PIETROFORTE, A. V. O discurso da poesia concreta: uma abordagem semiótica. São Paulo: Annablume, 2011. DICAS TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 111 Ferdinand de Saussure (1857-1913), considerado o pai da semiologia, já explicava os conceitos de significante e significado, onde aquele, para o filósofo suíço, não é nada mais do que palavra e, significado, por sua vez, o mesmo que as “coisas” do mundo. Com efeito, é incorreto usar a palavra “árvore” na lousa, por exemplo, e ao mesmo tempo apontar para uma árvore fora do prédio, em que a primeira seria entendida como significante, enquanto a segunda como significado. Nesse sentido, o signo é uma relação entre um significante e um significado, e não entre uma palavra e uma coisa. Saussure, ao definir uma relação existente entre o significante, o significado e a imagem acústica do signo, indica que o sentido do signo passa a não mais depender de um referente fora da língua – como a árvore da paisagem supracitada – passando a ser determinado por uma relação entre dois pontos importantes da linguística, quais sejam: (i) uma imagem acústica, de ordem fonológica, e (ii) um conceito, cuja ordem é semântica (LOPES; HERNANDES, 2005). Na concepção de linguagem em que há uma relação entre palavras e “coisas”, o sentido está nas “coisas do mundo” e é refletido pela linguagem. Na proposta de Saussure, o sentido de um signo é determinado a partir das relações que ele contrai com os demais signos do sistema linguístico do qual ele faz parte, de modo que o sentido é construído não por referência a “coisas reais”, mas por meio dessas relações entre signos. Com isso, o sentido emana da língua e se projeta no mundo, invertendo o vetor da primeira concepção (LOPES; HERNANDES, 2005, p. 156). Essa concepção de língua como princípio de classificação, por meio do qual é construída uma visão de mundo, vai de encontro à noção de grau zero da linguagem, o qual, por sua vez, é suportado pela relação entre palavras e “coisas”. Veja o livro As Palavras e as Coisas, de Michel Foucault. FOUCULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes: 1999. DICAS A linguagem em estado de grau zero está relacionada às “coisas” com objetividade, isto é, por meio da chamada linguagem denotativa, de modo que há uma relação direta entre as palavras e elas, o que faz com que, nesse ponto de vista, a linguagem reflita o mundo objetivo. Com efeito, ao lado da ordem direta, existe uma utilização da linguagem denominada linguagem figurativa ou conotativa, onde existem desvios de tal ordem (LOPES; HERNANDES, 2005). 112 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Dessarte, é visto a existência de uma linguagem própria, que é usada fundamentalmente em discursos objetivos – como o científico. A linguagem figurada é usada naqueles discursos conhecidos como subjetivos, como o literário, de maneira que a linguagem própria ganha o estatuto de ‘verdadeira’ e a figurada de ‘inventada’. Nesse ponto de vista, contrário ao de Saussure, o grau zero retrata o mundo das coisas como um reflexo seu e o sentido emana delas. No entanto, se é da linguagem que emana o sentido, é a partir dos mecanismos de linguagem que se constroem tantos os efeitos de sentido de denotação quanto os de conotação (LOPES; HERNANDES, 2005, p. 157). Não é demais lembrar que os conceitos linguísticos saussurianos serviram de base para toda a teorização que há acerca da ciência dos signos. Tal modelo foi seguido e aprimorado por outros semiólogos, tal como Louis Hjelmslev (1899-1965) e Roland Barthes (1915-1980), que fizeram o redimensionamento para além da linguagem humana ao inserir os estudos de sistemas de imagens – cinema, fotografia, história em quadrinhos, publicidade –, bem como objetos – vestuário, alimentos. NOTA A concepção de Saussure acerca do significante/significado – que anteriormente eram tratados como acústica/conceitoem seu modo de pensar – propõe deixar a oposição mais clara e coerente, bem como a aplicação mais correta quando o signo não é vocalizado (falado). A Figura 11 representa essas duas faces dentro da elipse que representa o signo no todo; as setas, a associação psíquica entre conceito e imagem acústica; e as direções das setas, o processo de produção e recepção da fala na teoria saussuriano. Na elipse ao lado, a exemplificação do modelo saussuriano, com a “[...] palavra latina ‘arbor’ como uma sequência de sons referindo-se ao conceito ‘árvore’” (NÖTH, 1996 apud CAMPOS; ARAÚJO, 2017). FIGURA 10 – REPRESENTAÇÃO DO SIGNO LINGUÍSTICO SEGUNDO A TEORIA SAUSSURIANA FONTE: Campos e Araújo (2017, p. 23) TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 113 Saussure entende o significado como sendo o valor de um conceito dentro do sistema semiológico. Ele alega que na língua tudo é negativo pelo fato de significado ser construído pela diferença ou ainda oposição de outros significados. Por exemplo: ‘O azul só é azul porque não é vermelho’ (CAMPOS; ARAÚJO, 2017). Sobre a diferenciação, é possível exemplificarmos pelo poema cidade/city/ cité, de Augusto de Campos. FIGURA 11 – AUGUSTO DE CAMPOS. CIDADE/CITY/CITÉ, 1963 FONTE: <https://journals.openedition.org/bresils/docannexe/image/1342/img-2-small580.jpg>. Acesso em: 14 jan. 2020. 3 FENÔMENOS LINGUÍSTICOS, RELAÇÕES SINTAGMÁTICAS E ASSOCIATIVAS Saussure sistematizou dois modos distintos de investigação dos fenômenos linguísticos, a sincrônica e a diacrônica. Segundo Campos e Araújo (2017, p. 23, grifos do original): Sincrônica: analisa o estado da língua, o aspecto estático, ou seja, como ela existe naquele determinado momento. Parte apenas da perspectiva “dos falantes”. Diacrônica: analisa as mudanças na língua ao longo do tempo, utilizando-se conjuntamente da perspectiva prospectiva e da perspectiva retrospectiva. A partir dessa perspectiva, pode-se estudar uma língua a partir dos documentos mais antigos e constatar sua evolução ao longo do tempo. De acordo com os autores, a formação da língua portuguesa passou por diversas transformações, desde o latim vulgar até sua forma moderna padrão. A seguir, temos apenas um exemplo que melhor ilustra esse contexto, que é a transformação sofrida pela palavra telha: tégula > teg’la > tegla > teyla > telya > telha 114 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Em Saussure, aparecem também dois eixos da linguagem, quais sejam relações sintagmáticas e as associativas. • Relações sintagmáticas: são combinações de palavras ou grupos de palavras (palavras compostas, derivadas, membros de frases, frases inteiras) de maneira linear da língua e se alinham na fala. Ele é representado por frases transmitidas por meio da fala ou da escrita. • Relações associativas: são um conjunto de palavras formadas por uma associação mental que se ligam pelo radical, pelo sufixo, por analogia do significado ou ainda por imagens acústicas. FIGURA 12 – RELAÇÕES ASSOCIATIVAS FONTE: Campos e Araújo (2017, p. 25) Com efeito, ainda de acordo com os autores supracitados, a proposição teórica é composta por diferentes dicotomias: • Língua e fala. • Imagem acústica e conceito (significante/significado). • Sincronia e diacronia. • Relações sintagmáticas e associativas. Tais conceitos linguísticos foram estudados e trabalhados por outros semioticistas. Os mais importantes foram Louis Trolle Hjelmslev (1899-1965) e Roland Barthes (1915-1980), os quais aplicaram os princípios saussurianos em diversos outros sistemas sígnicos. Por fim, dentro do contexto ainda do significado/significante, vale mencionar brevemente as concepções de Barthes acerca do assunto. Estruturalista que seguiu com rigor a teoria saussuriana, “reconheceu que todos os sistemas de signos têm como objetivo a comunicação entre os homens, não só a linguagem”. Com efeito, ele definiu “como objeto semiológico qualquer sistema signos, imagens, gestos, os sons melódicos, os objetos e os complexos como os ritos, os protocolos ou os espetáculos, quando não são linguagens, são sistemas de significação” (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 29). TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 115 Seguem mais alguns pensamentos de Barthes sobre o assunto, categorizados em colunas pelo Quadro 4. Sobre seu modelo Sobre a fala Sobre a língua Sobre significado/significante Semiologia é parte da linguística, ao contrário de Saussure que via a linguística como um ramo da Semiologia. A fala é um ato individual de seleção, atualização e momentâneo de uso da língua. A língua é um conjunto de convenções da comunicação humana que faz parte de um corpo social. É um sistema preexistente, heterogêneo e de natureza concreta. O significado e o significante são de ordem linguística e unidos no nosso cérebro de forma associativa. É a união desses dois elementos que se forma o signo e esse processo é denominado significação. O modelo linguístico de Saussure foi utilizado por ele para a compreensão de outros sistemas de signos, como visuais e sonoros. A fala é a parte de uso da fonação, da realização das regras e das combinações contingentes de signos. A língua é um sistema de signos que expressa ideias, o indivíduo não pode criá-lo e muito menos modificá-lo sozinho, pois se trata de um contrato coletivo. O signo é tudo aquilo que representa alguma coisa, que tem um conceito e uma imagem. O significante é de natureza auditiva, a parte material no plano da expressão, p. ex.: c-a-d-e-i-r-a. Barthes, partindo de Saussure, estabeleceu em seu modelo elementos de Semiologia, os quais dividiu em quatro grandes grupos, quais sejam: (i) língua/ fala; (ii) significado/ significante; (iii) sintagma/sistema e (iv) denotação/ conotação, mantendo a lógica diádica. A fala é o momento em que o indivíduo coloca em prática os códigos da língua com intuito de expor o pensamento pessoal. A língua é a linguagem menos a fala, ou seja, a língua = linguagem - fala. O significado é a imagem mental que está relacionada ao significante. É o conteúdo do material no plano da expressão, não é a coisa em si, mas a imagem psíquica. QUADRO 4 – CONCEPÇÕES E MODELO DE ROLAND BARTHES FONTE: Campos e Araújo (2017, p. 29) 116 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA FIGURA 13 – REPRESENTAÇÃO DE SIGNO SEGUNDO BARTHES FONTE: Campos e Araújo (2017, p. 30). Lembramo-nos aqui, de René Magritte e Ceci n’est pas une Pipe, quando pensa no objeto em si e em sua representação. O belga nos indica que ali está um quadro, não um objeto para fumar, ou seja, não há o objeto, mas a imagem dele. FIGURA 14 – RENÉ MAGRITTE. CECI N’EST PAS UNE PIPE, 1929 FONTE: <https://arteeartistas.com.br/wp-content/uploads/2017/10/MagriteCachimbo_Capa.jpg>. Acesso em: 13 jan. 2020. Antes de finalizar esse ponto, é válido também mencionar que as terminologias significado e significação possuem diferentes entendimentos; conforme informam Campos e Araújo (2017), são eles: • Significado: é um conceito e está no domínio da língua. • Significação: é o processo, ou seja, é a união entre significado e significante, cujo resultado é o signo. TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 117 De acordo com os autores, para Barthes, essa distinção tem função classificatória e não fenomenológica. Quais sejam: • Sintagma: apresenta-se de uma forma encadeada, ou seja, contínuo entre grupos de signos funcionais e sempre binários numa relação recíproca na língua, na fala e outras linguagens, lembrando-se de Barthes nos aspectos não verbais. • Sistema: constitui-se a partir de campos associativos determinados por afinidade no nível da memória (lápis, caderno), no nível fônico (gato, pato) ou do sentido (educação, ensino), os quais tambémcontêm oposições bilaterais e múltiplas. O Quadro 5 apresenta esses diferentes tipos de relações. QUADRO 5 – SINTAGMA E SISTEMA Sistema Sintagma Vestuário Grupo de peças, encaixes ou pormenores que podemos usar ao mesmo tempo e em um mesmo ponto do corpo e cuja variação corresponde a uma mudança do sentido indumentário: touca/gorro/capelina etc. Justaposição num mesmo conjunto de elementos diferentes: saia-blusa-casaco. Comida Grupo de alimentos afins e dessemelhantes no qual escolhemos um prato em função de certo sentido: as variedades de entradas, assados ou sobremesas. Encadeamento real dos pratos escolhidos ao longo de refeição: é o cardápio. Mobiliário Grupo das variedades “estilísticas” de um mesmo móvel (uma cama). Justaposição dos móveis diferentes num mesmo espaço (cama-armário-mesa etc.). Arquitetura Variações de estilo de um mesmo elemento de um edifício, diferentes formas de telhados, sacadas, entradas etc. Encadeamento dos pormenores no nível do conjunto do edifício. FONTE: Campos e Araújo (2017, p. 31) Os estudos de Hjelmslev também foram de grande valia pelo fato de influenciar o desenvolvimento da Semiótica Geral e sua teoria de conotação, decorrente do modelo linguístico, sendo relevantes também para a teoria da literatura e da estética. NOTA 118 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA 4 OS ENIGMAS DA IMAGEM: TEATRO, POESIA, RELIGIÃO E ARTE “Ut pictura Poesis” (Como a pintura, é a poesia) (HORÁCIO, 1984, s.p.). Não é de hoje que a semiótica possui relação direta com a questão artística. Na verdade, muitos acreditam que é crédito da arte todo o nascimento do pensamento semiótico. Também não é difícil de remontar às tragédias gregas que serviam de símbolo e representavam o que se vivia à época, especialmente voltada ao mito. Logo ficou evidente que a materialidade do corpo do ator marcava um limite do que pode ser analisado na semiótica, em termos de signos e significados. Em algumas apresentações, os corpos parecem não significar algo, mas ser algo, a saber, eles próprios. Tratar as coisas materiais, tais como adereços, como “sinais” não só faz com que seja difícil dizer o que é e o que não é um objeto material, ele também torna inexplicável o prazer que os espectadores encontram em adereços e teatro conjuntos. O mesmo ocorre com os materiais nas produções culturais, uma vez que cada um tem as suas peculiaridades e informam uma mensagem: o algodão denota a sensibilidade, diferente da dureza do ferro. Maurice Merleau-Ponty (1996) indicava que, diante de um quadro, Paul Cézanne (1839-1906) pintava “leur odeur”. Para ele, a própria coisa representada lá estava, mas para isso se dar, o artista deveria se valer de sua percepção e de seu intelecto amalgamados. NOTA No entanto, a materialidade do corpo do artista e dos objetos, embora desafie a análise semiótica, não é um fato que apresenta uma barreira insuperável a uma teoria semiótica mais sofisticada. Um argumento padrão (embora parcial) aqui é que, uma vez que qualquer coisa pode funcionar como um suporte para qualquer outra coisa em uma performance teatral, qualquer coisa age como um "sinal" quando aparece em uma performance. Em um contexto poético, e em termos de poesia concreta, em sua proposta estética, segundo Pietroforte (2004, p. 142), intensifica-se e carrega-se de poeticidade uma relação entre palavra e imagem que existe em todo texto escrito. Com efeito, “fazer poesia com palavras coloca o concretismo entre os movimentos literários; por outro lado, fazer poesia com imagens o coloca entre as artes plásticas”. Contudo, ainda, as dimensões poéticas de um poema concreto não resultam da soma entre o literário e o plástico, mas de complexificação entre essas duas semióticas. TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 119 Para fazer a análise de um poema concreto, portanto, não basta somar análise literária e análise plástica, mas deve-se analisar a complexificação que combina literariedade e plasticidade na construção do texto. As relações semissimbólicas [...] podem ser articuladas entre categorias semânticas e categorias linguísticas e plásticas, próprias do plano de expressão da poesia concreta, o que faz da semiótica um bom instrumento para sua análise (PIETROFORTE, 2004, p. 143). Observe o poema Código, de Augusto de Campos (1931), no qual as letras C.O.D.I.G.O estão escritas sobre quatro círculos concêntricos. FIGURA 15 – AUGUSTO DE CAMPOS. CÓDIGO, 1973 FONTE: <http://www.augustodecampos.com.br/images/codigo.gif>. Acesso em: 13 jan. 2020. A respeito de como começou seu interesse por poesia, Augusto cita numa entrevista ao site Newcity Brazil: “Eu não manifestei nenhuma predisposição precoce para escrever quando criança; em vez disso meu irmão, Haroldo, sim. Eu gostava de desenhar. Haroldo escreveu pequenos contos. Vendemos nosso “opus” (obras) para nossas tias, irmãs de minha mãe, nossas “vítimas” de escolha. Meu pai, apreciando nossa iniciativa, fez um carimbo oval para nós escrito “Escritório Irmãos Campos”, com o qual carimbamos toda a nossa produção [...]. Ele era o intelectual da família, músico e pianista, que gostava de recitar poemas para nós, de Camões a Cesário Verde, um poeta particularmente tocante para mim, também muito querido por Fernando Pessoa. A voz do meu pai ainda ecoa em meus ouvidos, recitando o agora famoso "Contrariedades", um poema de Verde pouco conhecido na época. Eu só considerei escrever poesia por volta de dezesseis anos, influenciado pelo meu irmão Haroldo, um ano e meio mais velho que eu e também atraído por esse campo”. Podemos ver, por esse trecho, que o interesse de Augusto não se manifestou logo de início pela poesia, mas sim pelo desenho. É interessante pensar que um dos maiores poetas brasileiros poderia nem sequer ter escrito. Augusto, dos três grandes poetas do concretismo, sempre foi o menos verbal. Há alguns de seus desenhos guardados junto ao seu arquivo pessoal, em meio aos rascunhos de poemas, isso quando não compartilham a mesma página. Nem sempre são desenhos “legíveis” – e gosto dessa palavra por ela ressaltar que também lemos e interpretamos racionalmente as imagens. Costumam, aliás, ser traços indistintos, formando espécies de labirintos sem saída, ou formas geométricas que podem, ou não, ser ideias. [...]. NOTA 120 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Geometria que se transforma em alfabeto, quando menos se espera. A influência do desenho participa, em Augusto, desde a criação das fontes, das formas, do conteúdo, do dito, ou seja, do poema. É um estilo peculiar de se escrever e de se criar novas formas, ou mesmo de se estruturar um poema pensando em seu conteúdo ao mesmo tempo em que se pensa na visualidade do todo. Não é um desenho como consequência ao poema, mas como sua própria causa e razão de ser. As criações escritas no papel nem sempre são em forma de palavra, e as palavras nem sempre se leem como letras. Há uma relação incestuosa entre as duas instâncias que torna impossível distinguir onde começa uma e termina a outra. O visual e a escrita andam juntos. Ideogramicamente. O que isso nos diz sobre o processo criativo de Augusto é muito importante, pois nos leva a observar que a sua criação poética passa ao menos em algum momento do início de seu surgimento, pela instância visual. Quem sabe a sua criação das palavras e do conteúdo do poema ocorra simultaneamente à visualização destes – através de uma ou mais imagens, pensando, desde a sua origem, em cores, fontes, tamanhos, espaçamentos, simetria – e não depois, como é de se esperar, seguindo uma interpretação mais convencional. O vislumbre poético está contido, então, desde a semente de sua criação, em uma imagem, em um ícone. O poema é iconizado em sua origem através do visual, rompendo com as barreiras lógico-discursivas da língua e transformando-se na base para a criação”. FONTE: <https://www.newcitybrazil.com/2016/06/11/i-already-miss-the-future/?fbclid=IwAR2U-d80uEWPfoDTNRLk4romJCl1tZk4duNFOj94zVJ6MYJgMAUULNun LBU>. Acesso em: 14 abr. 2020. Veja mais trabalhos de Augusto de Campos no site: http://www.augustodecampos.com.br/. DICAS Ao trabalhar o contexto religioso, Pietroforte (2004, p. 157) nos informa que no passado “todo mito figurativizava o termo complexo ou neutro de uma categoria semântica”. O exemplo que o autor nos dá é do mito dos dez avatares de Vishnu presente no hinduísmo. Seu quarto avatar é Nara-Simha, o Homem-Leão. No mito, Hiranya-Kashipu, seu oponente, não pode ser morto por fera ou por homem, de dia ou de noite, dentro ou fora de seu palácio. Manifestando-se como o Homem-Leão, Vishnu matou Hiranya-Kashipu durante o crepúsculo e nas escadarias do palácio. Assim, o quarto avatar manifesta, além de Vishnu, a semântica complexa capaz de matar seu oponente: ele surge como homem e fera, complexificando a categoria animal vs. humano; em um momento quando não é dia e nem noite, neutralizando a categoria matutino vs. noturno; e luta em um lugar onde não se está dentro e nem fora dos domínios do palácio, neutralizando a categoria interioridade vs. exterioridade (PIETROFORTE, 2004, p. 157, grifos do original). TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 121 FIGURA 16 – OS DEZ AVATARES MÍSTICOS DE VISHNU SEGUNDO O HINDUISMO FONTE: <https://i.pinimg.com/originals/96/89/c6/9689c61aa54a6f1e72c72b35c102cafa.jpg>. Acesso em: 27 dez. 2019. Lembramo-nos de Fernando Baril (nascido em 1948), quando nos apresenta a obra Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva, na qual as inúmeras pernas e braços exibem objetos, muitos relacionados à história da arte e à cultura pop. FIGURA 17 – FERNANDO BARIL. CRUZANDO JESUS CRISTO COM DEUSA SHIVA, 1996 FONTE: <https://static.poder360.com.br/2017/09/queermuseu-fernando-baril-cruzando-jesus- -cristo-com-deusa-schiva-1996-720x644.jpg>. Acesso em 13 jan. 2020. 122 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Deste modo, é possível verificar que há um estatuto complexo do mito que coincide com o do poético, conforme ressalta Pietroforte (2004). O autor destaca que em uma das formas de projeção do eixo paradigmático no sintagmático, o texto poético realiza termos complexos. Tal identidade semiótica trabalha a questão tanto relacionada ao estatuto poético dos mitos quanto o estatuto mitológico da poesia. É possível afirmar, segundo o teórico, que tal “identidade é um dos modos pelos quais o estatuto semiótico do poema e do símbolo religioso podem ser aproximados” (PIETROFORTE, 2004, p. 158). 5 SISTEMAS SIMBÓLICOS, SEMISSIMBÓLICOS E A ARTE NA SOCIEDADE IMAGÉTICA Julius Greimas (1917-1992), outro importante estudioso da teoria semiótica e questões a esta correlacionada que convergem com a linguagem, distinguiu três tipos de signos convencionais. Vejamos alguns termos importantes de seu pensamento (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 73, grifos do autor): Signos linguísticos: seriam aqueles arbitrários, em que a relação entre o significante e o significado não possuem uma correlação imediata. Significante: não tem nenhum vínculo com o significado de casa, é uma relação arbitrária e imotivada. Ícones: são os signos totalmente motivados, pois mantêm uma relação de contiguidade com o objeto representado. A exemplo de um desenho de uma casa; este é um ícone, uma vez que representa graficamente aspectos visuais do objeto casa. Símbolos: são signos relativamente motivados e relativamente arbitrários. Diferentemente do ícone, o símbolo representa uma ideia genérica, como a pomba branca que representa a paz ou uma balança que representa a justiça. Não há uma semelhança absoluta, o que faz de o símbolo ser relativamente arbitrário, assim como não há uma arbitrariedade absoluta, pois iconicamente o símbolo representa alguns conceitos visualmente de seu significado. Símbolos são constituídos socialmente, juntando uma representação a um conceito genérico. Greimas ainda fez uso de três grandes sistemas para agrupar o modo como funcionam os signos dentro de suas respectivas capacidades representativas de conteúdo. São eles: Sistema Simbólico: nestes sistemas, um elemento do Plano de Expressão possui apenas um correspondente no Plano de Conteúdo. Como exemplo de sistemas simbólicos temos as linguagens científicas, como a matemática, por exemplo. Na linguagem matemática, um signo como “%” só pode representar uma única coisa, uma operação de porcentagem. Também são sistemas simbólicos códigos visuais de trânsito, como o semáforo, por exemplo. Sistemas Semióticos: há uma conformidade relativa entre os planos de expressão e conteúdo. Os signos nos sistemas semióticos não se relacionam necessariamente a apenas um elemento, mas sim a TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 123 universos semânticos distintos. O exemplo de sistemas semióticos são as línguas naturais, como o português ou o francês. As palavras ou significantes dessas línguas não são limitadas a apenas uma interpretação e seus planos podem ser separados para propósitos de análise. Sistema Semissimbólico: um tipo de articulação que diz respeito a uma homologação não entre elementos isolados do plano de expressão e de conteúdo, mas que relaciona categorias de ambos os planos. Os sistemas semissimbólicos são os sistemas da arte, da poesia, da música. Encontramos aqui um tipo de elaboração expressiva que corresponde a um tipo de categoria de conteúdo (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 74, grifos do autor). Ao direcionarmos nosso olhar para o último sistema, inferimos que existe uma relação no semissimbólico, a qual, no ambiente tipológico de Saussure, emerge entre o motivado do ícone e do símbolo e o arbitrário do signo. “Você já notou que em alguns filmes, quando a história se volta para o passado (um flashback), vemos a imagem em preto e branco? Isso é uma operação semiótica semissimbólica: o preto e branco, que não é mais que um uso expressivo de características da imagem, representa uma categoria de conteúdo, o passado. É uma relação ao mesmo tempo arbitrária e motivada: não há nenhuma conexão natural entre uma coloração preto e branco e o passado (arbitrário), entretanto reconhecemos automaticamente o seu conteúdo (motivado). Tirado de seu contexto, por exemplo, em uma gravura, o preto e branco perde essa relação com a categoria do conteúdo “passado” e assume outras possíveis significações” (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 75). “Os sistemas semissimbólicos são aqueles que elaboram as características da língua, das imagens, dos sons para produzir conteúdos que se relacionem com esses modos expressivos” (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 75). Com efeito, a descoberta de Greimas é a de que, de fato, há categorias gerais de expressão que se relacionam a categorias de conteúdo. A semiótica discursiva de Greimas contribui na análise de textos de cunho semissimbólico, utilizando as categorias do percurso gerativo de sentido. 6 SOCIOSSEMIÓTICA Dentro ainda das importantes contribuições de Greimas para a semiótica, temos sua semiótica discursiva, a qual já tinha por objetivo analisar o modo como o sentido se constrói no interior da sociedade. Greimas entendia que havia uma estrutura fundamental por trás de todo o discurso, mas os conteúdos que circulam por essa estrutura vão se transformando com a história. Em determinado momento de sua carreira, Greimas decidiu que não apenas os textos em sentido estrito eram passíveis de uma análise semiótica, mas sim toda a relação social. No livro Semiótica e Ciência Social, o autor propõe a utilização do termo “sociossemiótica” para designar a análise de práticas cotidianas, como a comunicação midiática e discursos políticos. Para Greimas, há uma “dimensão semiótica na sociedade”, que articula não apenas o modo como nos comunicamos, mas que também fundapráticas de interação e entendimento do mundo (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 77-78). 124 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA É possível inferir a valorização da arte urbana como expressão que ressignifica, que faz uma leitura do cotidiano das cidades. Neste viés, veja os livros indicados a seguir: PALLAMIN, V. M. Cidade e cultura: esfera pública e transformação urbana. São Paulo: Estação da Liberdade, 2000. ZUIN, A. L. A. Semiótica e arte. Os grafites da Vila Madalena: uma abordagem sociossemiótica. São Paulo: Appris, 2018. DICAS O aluno de Greimas que deu sequência aos seus pensamentos foi o conhecido professor francês Eric Landowski (1946-), que elaborou uma teoria geral para aquilo que estava apenas indicado por Greimas. São as principais contribuições de Landowski (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 78): • A semiótica não é um instrumento interpretativo de textos apenas, mas uma teoria que se volta para o modo como damos sentido à vida em sociedade. • Existe a necessidade de se atentar para as práticas de significação que existem em diferentes esferas, como os vocabulários de subculturas, o modo como agimos em diferentes situações, como ir ao banco ou sentar em um bar com amigos, o tipo de gesto que utilizamos no cotidiano. • Landowski desloca uma compreensão tradicional sobre a semiótica, a qual afirma que o sentido emerge das condições próprias do texto, de seu funcionamento interno. • Para Landowski, o objeto de estudo da semiótica não é o texto, mas sim o sentido. E, mais que isso, o sentido aparece como dado social, a partir da interação das pessoas entre si e com o mundo que as rodeia. Um dos locais privilegiados para a investigação dessa construção social do sentido é justamente os discursos que circulam pela mídia. • Para Landowski, a mídia exerce um papel ao mesmo tempo criativo e também regulador do modo como produzimos significações. Não se trata de saber apenas o que está dito, mas, sobretudo, entender quem diz como diz, em que contexto e com qual intenção. • A proposta de Landowski é retirar a semiótica do estudo interpretativo textual e colocá-la para interpretar as significações do mundo. • A semiótica discursiva de Greimas se propunha a analisar aquilo que estava aquém e além do signo em um discurso. Landowski apenas amplia a noção de discurso para práticas sociais diversas, aplicando as mesmas ferramentas do percurso gerativo de sentido. • Sua sociossemiótica parte da interação que esse sentido emerge. TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 125 Por fim, há ainda dois pontos elementares da sociossemiótica de Landowski (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 80). 1- Diz respeito ao fato de Landowski não considerar as práticas sociais resultado de uma representação de um sistema social estabelecido. Não há um conjunto de regras e estruturas que comandam a interação social. Pelo contrário, é justamente a partir das práticas de sentido que possíveis configurações sociais vão tomando forma. Para Landowski, é a comunicação e a interação que constroem o social, e não o contrário. O “social” em sua visão é um universo de sentido que é construído a partir de interações e negociações de sentido. 2- Landowski destaca o objetivo da sociossemiótica em abandonar as teorias totalizantes. Isso quer dizer que a sociossemiótica não está preocupada em descrever sistemas e elaborar modelos, mas sim mapear e descrever as práticas significantes que emergem a partir da interação e seus processos de elaboração de sentido. 7 SOCIEDADE LITERÁRIA, CULTURA E SEMIÓTICA A literatura é uma forma de expressão e tradicionalmente entendida como a aplicação das obras imaginativas de poesia e prosa, distinguidas pelas intenções de seus autores e pela excelência estética percebida de sua execução. A literatura pode ser classificada de acordo com uma variedade de sistemas, incluindo idioma, origem nacional, período histórico, gênero e assunto. Derivando do latim littera, “uma letra do alfabeto”, a literatura é, antes de tudo, o corpo inteiro da humanidade, por isso não é possível distanciar a sociedade imagética com a literatura, afinal, é o corpo da escrita pertencente a um determinado idioma ou povo; então são peças individuais de escrita. 7.1 LINGUAGEM E CULTURA A literatura é uma forma de expressão e tradicionalmente entendida como a aplicação das obras imaginativas de poesia e prosa, distinguidas pelas intenções de seus autores e pela excelência estética percebida de sua execução. A literatura pode ser classificada de acordo com uma variedade de sistemas, incluindo idioma, origem nacional, período histórico, gênero e assunto. Derivando do latim littera, “uma letra do alfabeto”, a literatura é, antes de tudo, o corpo inteiro da humanidade, por isso não é possível distanciar a sociedade imagética com a literatura, afinal, é o corpo da escrita pertencente a um determinado idioma ou povo; então são peças individuais de escrita. 126 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Já há um consenso de que designar o termo 'escrita' para descrever 'literatura' é incorreto, visto que é possível falar de “literatura oral” ou “literatura de povos preliterados”. A arte da literatura não é redutível às palavras da página; eles estão lá apenas por causa do ofício de escrever. Como arte, a literatura pode ser descrita como a organização das palavras para dar prazer. No entanto, através das palavras, a literatura eleva e transforma a experiência além do "mero" prazer. A literatura também funciona de maneira mais ampla na sociedade como um meio de criticar e afirmar valores culturais. Roland Barthes indica que o escrevente se vale das palavras somente como um meio (para testemunhar, explicar, ensinar etc.), enquanto o escritor trabalha com a palavra, em um alargamento da realidade através do encantamento; ele se absorve nesse intento da arte literária. Conceitos semelhantes são o de Merleau-Ponty, quando indica que a fala falada caracteriza-se como a fala corriqueira; enquanto a fala falante é o uso das palavras de maneira inédita e expressiva. NOTA Diante disso, é importante inserir o contexto literário pelo fato de tornar claro alguns conceitos que servem como uma fórmula matemática, em que variáveis são o tempo todo preenchidas por números concretos em cálculos complexos. Não seria diferente para metáfora ou metonímia, por exemplo, onde não passam de variáveis que serão preenchidas, a gosto do poeta, com sua experiência estética, o símbolo que mais lhe apraz ou ainda o conto oral que lhe faz mais sentido, servindo de sinal entre o que se quer passar e o interpretante. Veja o livro: LOTMAN, Y. La structure du texte artistique. Paris: Gallimard, 1973. DICAS Para isto, são válidas algumas definições propostas no quadro a seguir, as quais são fundamentais também todo o contexto de semiótica, aliançando nosso foco principal com nosso contexto passageiro. TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 127 QUADRO 6 – MECANISMOS DA LINGUAGEM Denotação Pode ser compreendida como um efeito de sentido construído pela linguagem, e não o contrário. O dicionário, longe de fornecer o sentido próprio das palavras, descreve a construção dos conceitos relacionados a elas, dotando-as de sentidos unívocos, que são interpretados como denotações. Comparação Ao lado da denotação, é caracterizada pela afirmação na concentração em um sentido unívoco, há um processo discursivo em que essa concentração pode ser negada. Quando dois ou mais significados são comparados em torno de uma relação de similaridade, o sentido denotado é negado e caminha para sua difusão em outros sentidos, gerando, assim, conotações. A figura da palavra que traduz esse efeito é chamada comparação (a conjunção como é um exemplo de comparação).Metáfora Aqui o sentido unívoco da denotação é negado e afirma-se a sua difusão em outros sentidos. Desse modo, a metáfora é a afirmação de um processo que decorre da negação da denotação, que implica a construção de comparações. Na metáfora, a comparação que constrói sentidos semelhantes não está mais separada em dois termos comparados, como a batalha e o degelo discursivizado no texto de Homero. Metonímia Estabelece relações de contiguidade, como as da parte com o todo ou da causa com a consequência, pode realizar a negação da difusão do sentido em direto à sua concentração. FONTE: Lopes e Hernandes (2005, p. 157-164) Com efeito, é possível notar um processo de construção de efeitos de sentido, que parte de sua concentração para a difusão. FIGURA 18 – PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE EFEITOS DE SENTIDO afirmação da concentração de sentido denotação negação da concentração de sentido comparação afirmação da difusão de sentido metáfora FONTE: A autora Faz-se possível perceber que a dedução de um processo que seguiria o caminho contrário é plausível desde que negue a difusão do sentido em direção a sua concentração. É possível também demonstrar que “tanto a denotação quanto as conotações comparativas, metáforas e metonímias são produtos de mecanismos do discurso que ora afirmam a concentração de sentido univocamente, ora sua difusão, de modo plurívoco” (LOPES; HERMANDES, 2005, p. 163). 128 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA FIGURA 19 – PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE EFEITOS DE SENTIDO concentração denotação Não concentração comparação difusão metonímiaNão difusão metonímia FONTE: A autora No percurso que vai da “não concentração para a difusão de sentido, ou seja, nos domínios da comparação e da metáfora, geram-se efeitos de sentido subjetivos, já que, por meio das semelhanças que orientam as comparações e as metáforas, transparecem as escolhas do enunciador” (LOPES; HERMANDES, 2005, p. 163). De fato, mesmo quando um fotógrafo faz o registro do real, ele escolhe o ângulo mais adequado. Quando José Rufino (nascido em 1965) reúne objetos para discorrer acerca da memória, o faz escolhendo os mais significativos para ele. Rufino é chamado de “o artista da memória”, justamente por suas obras fazerem referência ao passado, muitas vezes o seu. Assim, o retoma e o reconfigura, como em Cartas de Areia. NOTA Documentos antigos também foram usados em algumas obras de José Rufino, por exemplo, na série Cartas de areia (1991). Após a morte de seu avô, José Rufino herdou por volta de 5.000 cartas que pertenciam a ele. Nas cartas, Rufino teve contato com histórias que não conhecia sobre seus avós e sua família. Para entender e digerir um pouco daquelas histórias, ele fez desenhos e monotipias nas cartas e envelopes, como uma tentativa de reconstruir este passado, para que ele pudesse seguir adiante. O nome da série, segundo o artista, é uma metáfora que se relaciona com uma das características da areia, algo que não se pode reter (ARTE BRASILEIRA UTFPR, 2013, s.p.) . TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 129 FIGURA 20 – JOSÉ RUFINO. DA SÉRIE CARTAS DE AREIA, 1991 FONTE: <http://apcbrasil.org/wp-content/uploads/2015/04/5.CARTA-DE-AREIA-3-335x400.jpg>. Acesso em 13 jan. 2020. No percurso contrário, por sua vez, no que concerne aos domínios da metonímia e da denotação, geram-se efeitos de sentido objetivos, já que as escolhas do enunciador estão minimizadas pela concentração de sentido, seja ela restrita à definição de termos técnicos, seja relacionada ao discurso lexicográfico dos dicionários. Isso explicaria o frequente uso destes em discursos como os científicos e jurídicos. Considerando a metáfora e a metonímia figuras de palavra básicas na construção da linguagem [...], o uso estilístico da primeira em escolas literárias de enfoque subjetivo, como o Romantismo, e da segunda, em escolas de enfoque objetivo, como o Realismo e o Naturalismo. Desse modo, por meio de mecanismos discursivos, demonstra-se que tanto a denotação quanto a conotação podem ser descritas como produtos da linguagem, constituindo efeitos de sentido, e não reflexos e desvios de um mundo de coisas reais (LOPES; HERMANDES, 2005, p. 164). Por esse motivo é que se faz importante sua abordagem no contexto da linguagem e cultura, visto que ambas (metáfora e metonímia) estão diretamente ligadas à noção de denotação e conotação, sendo conceitos caros a estes últimos. 7.2 CULTURA E SOCIEDADE É bastante comum, mesmo na sociedade globalizada, falhar na comunicação com algum estrangeiro, seja em viagem, seja quando o recebemos. Comunicar-se das mais diferentes maneiras é o que nos é requisitado, mais do que nunca, atualmente. Sob a ótica da semiótica, podemos indagar: por que atribuímos significados distintos para práticas semelhantes? Seria possível respondê-la afirmando que a comunicação se trata de uma prática cultural. 130 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA [...] curiosamente, não é desde sempre que a palavra cultura circula na sociedade. Inclusive, podemos traçar sua gênese para um período bastante recente, em meados do século XVIII. O conceito de “cultura” começa a ser utilizado no período da revolução burguesa e do Iluminismo, na Europa Central. Se apropriando do sentido de cultivo (como em agricultura), a burguesia ascendente começou a tratar a palavra cultura como um conceito que denominaria um cultivo do espírito. Seria cultura tudo aquilo que escaparia ao mundano: o que não fosse trabalho ou da ordem das relações econômicas ou afetivas, estaria no universo da cultura. Nesse período, a cultura se torna um sinônimo da apreciação das belas artes: a pintura, a poesia, a música. Foi uma estratégia da classe burguesa de alcançar sua autonomia: por um lado, se distancia da nobreza que só se preocupava com disputas de poder; por outro, se diferencia do proletariado, acusados de brutos e incautos. Para se tornar um cidadão integrado à sociedade, era preciso ser cultivado: ter um conhecimento e uma sensibilidade que iam além dos meros afazeres cotidianos (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 110, grifos do autor). Atualmente, o que rege o conceito de cultura é o que foi comentado anteriormente, o qual vai desde entender alguém por culto até pensar em políticas públicas de incentivo à cultura, que se referem geralmente à produção artística. Considerando nosso escopo principal da sociedade imagética, ou seja, a sociedade com todas suas facetas sob a ótica do simbólico, por conseguinte, da semiótica, bem como da representação, sinal, signos etc., importante nos faz trazer um contexto um pouco mais detalhado sob o tom antropológico de cultura. Mello (2015, p. 49) faz uso do termo “forçoso” ao admitir o caráter social da cultura, quando pensa em hábitos e costumes de uma determinada sociedade. O autor indaga: “podemos pensar em hábitos, costumes, padronização de comportamento apenas em nível individual?”. Para ele, a resposta é simples: são processos sociais. Logo, é possível “fazer uma distinção entre sociedade e cultura, entre o fenômeno social e o cultural”. A sociedade e a cultura foram definidas como fenômenos que independem dos indivíduos. O primeiro a falar sobre a cultura dos indivíduos foi Herbert Spencer (1820-1903). Para ele, “a sociedade independe dos indivíduos”, sendo que, com este pensamento, representa o que há de “mais elevado na progressão evolucionista” (MELLO, 2015, p. 49). Dessarte, Mello (2015, p. 49) afirma que “não podemos negar que tanto a sociedade como a cultura, ambas obras humanas, não dependem dos indivíduos”, considerando ainda que não podemos olvidar que a cultura atual, que é transmitida aos indivíduos, uma vez que ela “representa uma conquista e um acúmulo de experiências humanas de centenas de séculos”. Ainda outro autor que empregou essa terminologia foiAlfred Louis Kroeber (1876-1960), para quem “o homem cultural é uma criação da cultura, ele é formado pela cultura e todo seu comportamento é pautado na cultura TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 131 interiorizada (cultura subjetiva)” (MELLO, 2015, p. 49). A realidade é que não existe indivíduo sem algum tipo de cultura, isso nunca fora visto antes, segundo o antropólogo. Desse modo, cultura e sociedade estão interlaçadas. É o que Mello (2015) chama de “caráter social da cultura”. Fichter (1972, p. 166 apud MELLO, 2015, p. 50, grifos nossos) entende o conceito de sociedade como sendo aquele que “é o maior número de seres humanos que agem conjuntamente para satisfazer suas necessidades sociais e compartilham uma cultura comum”. Já a posição do próprio autor, sobre a relação que há entre cultura e sociedade, é a que segue: Nossa posição com referência à relação entre cultura e sociedade, parte do princípio de que o fenômeno social animal é de natureza distinta daquele humano. Tal distinção, ao que parece, reside precisamente no fato de toda sociedade humana jamais prescindir do fenômeno da cultura. Por isso, podemos dizer que todo fato cultural é social, mas nem todo fato social é cultural. Em geral, a sociologia estuda o fenômeno social como a interação entre pessoas, isto é, a ação humana como regra de comportamento para os indivíduos. Já a cultura, que não deixa de ser também um processo de interação entre indivíduos, também supõe todas as maneiras possíveis de influência dos valores culturais sobre indivíduos (MELLO, 2015, 50-51, grifos nossos). Nessa perspectiva, portanto, “cultura é tudo aquilo produzido pela humanidade que vá além de seus instintos mais básicos de sobrevivência e preservação da espécie”, isto é, para os autores, cultura é “tudo aquilo que não pertence ao mundo natural” (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 110). 7.3 CULTURA, ANTROPOLOGIA E SEMIÓTICA Se ainda não está tão claro onde a questão imagética como um todo abarca o contexto sociocultural que estamos trabalhando, é interessante frisar que a semiótica estabelece para ela um conceito particular de cultura, visto que é ela quem organiza grandes sistemas simbólicos, ou seja, “a cultura funciona dentro do paradigma da significação e do sentido”, incluindo também que “grande parte dos processos de significação ocorrem em uma relação direta com o contexto imediato no qual estão inseridos” (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 112). Vejamos o exemplo que os autores nos trazem: 132 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA [...] pense num dos mais importantes símbolos da nossa cultura: uma cruz. Se pensarmos na ideia de policultura, de Morin (2002), identificamos que há um processo de significação específico da cruz no âmbito da cultura religiosa cristã: Jesus Cristo e todo o conjunto de crenças dessa religião. Agora, se transpormos o mesmo símbolo para outra cultura religiosa (a cultura hindu, por exemplo), não teremos o mesmo significado, ou até mesmo significado nenhum dentro do contexto religioso. Usando o vocabulário específico da semiótica, você pode observar que o mesmo significante pode assumir diferentes significados em diferentes culturas. Isso quer dizer que, para além da relação própria do signo, existe também um sistema que une determinados significantes a determinados significados a partir de uma convenção. A palavra convenção é importante nessa reflexão, por dois motivos: o primeiro, é o de reforçar o caráter arbitrário que o signo mantém entre significante e significado. O segundo, pois são justamente essas convenções, ou sistemas simbólicos que produzem uma significação específica, que a semiótica vai chamar de cultura. A cultura, portanto, é um sistema semiótico de convenções que articula relações específicas entre significantes e significados (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 112). É possível ainda empreender um estudo semiótico da cultura a partir de dois lados distintos (CAMPOS; ARAÚJO, 2017): a) Estudo de diferentes sistemas de signos no interior de uma cultura e o modo como contribuem para sua constituição mais geral. Exemplo: estudar a cultura religiosa do Brasil de forma a entender como ela contribui para a formação da cultural nacional. b) Estudar uma cultura como um sistema de signos para desvendar comportamentos e experiências individuais e/ou coletivas. Exemplo: o estudo semiótico de culturas indígenas ou culturas já extintas. Umberto Eco (1932-2016) se destacou no momento em que afirma que a semiótica é capaz de estudar todos os objetos culturais que vão desde práticas religiosas até filmes de Hollywood. Nada que faz parte da cultura escapa ao campo da imagética humana (CAMPOS; ARAÚJO, 2017). É difícil imaginar algo em nossa vida que não seja fruto de um processo cultural. Eco emprega um conceito interessante, o do “imperialismo” semiótico, visto que toda experiência humana está sob o domínio de uma única disciplina. Ele entende que qualquer objeto cultural tem a capacidade de ser estudado pela semiótica, porém é preciso deixar claro que há relações nesses objetos que não são da competência de uma análise sígnica. Veja o exemplo da moda: Nós, seres humanos, usamos roupas para nos abrigar do frio como necessidade fisiológica pelas limitações de nossos corpos. Entretanto, não usamos todos as mesmas roupas. Usamos casacos de diferentes cores, estilos e materiais. Alguns casacos, inclusive, são produzidos por grifes famosas e custam pequenas fortunas. A explicação semiótica para essa diversidade de casacos para além de sua função fisiológica, é que usar uma determinada peça de roupa também comunica algo. TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 133 Se uso um casaco rosa, estou dizendo algo com isso; se uso um casaco de pele, expresso um tipo de condição monetária elevada; se uso um casaco de uma marca famosa e em evidência, comunico que sou uma pessoa consciente das tendências do vestuário. Essa dimensão comunicacional que constitui o campo semiótico de Eco. O fato de as pessoas usarem casacos para se proteger do frio é um fato cultural, mas não semiótico. Essa relação faz parte da cultura, mas não recai num processo comunicativo que cabe a semiótica analisar (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 113-114). Partindo de tais premissas, Umberto Eco define “a semiótica como teoria da mentira”, ou seja, “tudo aquilo que pode ser usado para mentir é objeto de estudo da semiótica”. É possível, portanto, “comprar um casaco de pele para aparentar ser uma pessoa de status social elevado, apesar de ter gasto todas as minhas economias nessa peça de roupa”, porém não é possível “andar de camiseta em um dia frio, pois é inegável que nosso corpo possui uma necessidade fisiológica de proteção contra as intempéries do clima” (CAMPOS; ARAÚJO, 2017, p. 114). Muitas suposições da semiótica há muito se tornaram parte da sensibilidade antropológica moderna, em suas várias abordagens. Se a antropologia linguística desenvolveu especialmente a lição semiótica de C. S. Peirce, e a antropologia visual foi amplamente baseada na lição de Roland Barthes, podemos dizer que a lição semiótica de Umberto Eco foi absorvida principalmente pela antropologia interpretativa de Clifford Geertz (LORUSSO, 2015). Para Geertz (2014, p. 25), há diversos fatos que são verdadeiros na antropologia. Tais fatos se deram por meio da reconfiguração do pensamento social, quais sejam: Na vida intelectual destes últimos anos, houve uma grande mixagem de gêneros, e que esta indistinção de espécies continua a passo acelerado. Muitos cientistas sociais trocaram uma explicação ideal, que inclui leis e casos ilustrativos, por um tipo de explicação que envolve casos e interpretações,buscando, hoje, algo capaz de demonstrar a conexão entre crisântemos e espadas, mais do que um método que identifique a relação entre planetas e pêndulos. As analogias utilizadas pelas ciências humanas começam a ter um papel mais relevante para o entendimento sociológico do que o papel que as analogias relacionadas com o artesanato e a tecnologia desempenharam para o entendimento físico. Significados, redes e interpretações são para Geertz, portanto, pilares de seu pensamento antropológico. Isso dá consonância com os de Peirce e Umberto Eco. Tais conceitos, em particular, segundo Lorusso (2015), parecem constituir um terreno comum, quais sejam: 134 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA • a ideia de redes de significado; • o princípio diferencial; • o papel central da inferencialidade; • a ideia de que a cultura vive em uma dimensão "externalizada"; • o anti-intuicionismo; • o papel central da tradução. A ideia mais estruturalmente significativa dentre essas é a de redes de significado. Geertz está realmente convencido de que a organização da cultura é predominante e inerentemente baseada em rede, convergindo com alguns pensamentos de Eco. Não há isolamento de elementos que têm uma identidade em si mesmos, mas interdefinição e relações mútuas que dão sentido a cada elemento (LORUSSO, 2015). O significado, em outras palavras, não é uma essência nem uma característica inerente dos objetos, mas uma função que muda dependendo das relações das quais faz parte e que não pode, portanto, ser entendida se isolada: só pode ser entendida se colocamos essa expressão em vírgulas porque, para Geertz (e para a perspectiva semiótica como um todo), a categoria de "contexto" é factualmente inadequada. Não há separação possível entre um texto ou objeto presumido e um contexto, percebido como vizinhança. Os significados ocorrem apenas na interdefinição de objetos e de seus limites (LORUSSO, 2015). Geertz (2014, p. 28, grifos nossos) acredita que se representa “sociedade cada vez menos como uma máquina complicada ou como um quase organismo e, cada vez mais, como um jogo sério, um drama de rua, ou um texto sobre o comportamento”, sendo que, para ele, esse tipo de imagem da sociedade não é salutar. É por isso que todas essas movimentações nas propriedades de composição, bem como de investigação e explicação, significam “uma mudança radical na imaginação sociológica, impulsionando-a em direções que são tão difíceis como pouco conhecidas”, logo, com toda essa alteração de padrões mentais, pode- se incorrer em uma obscuridade, como também leva a ilusões como precisão e verdade (GEERTZ, 2014, p. 29, grifos nossos). Esse tipo de semiose – estruturalmente processual, público e, portanto, social – introduz uma dimensão-chave do sentido, que é igualmente cultural: a natureza negociável do sentido. Se o sentido fosse governado apenas pelas regras estritas de correlação – isto é, por códigos de significado não flexíveis – a comunicação e a interpretação seriam simplesmente uma questão de troca e decodificação. Em vez disso, os códigos são plurais e as associações entre expressões e conteúdo são variáveis e culturalmente sensíveis. Isso dá à significação uma “folga” que abre o caminho para os processos de negociação nos mais variados contextos culturais. Para Eco, a negociação é essencial nos níveis social e cultural, central no nível cognitivo e inevitável no nível da comunicação na tradução (GEERTZ, 2014). TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 135 Dessa forma, o campo da semiose se amplia e a pesquisa semiótica deve levar em conta uma gama muito maior de idiomas, práticas, formas de expressão em uma direção que se abre imediatamente à cultura como um todo (incluindo a cultura material, objeto de muitos trabalhos em antropologia contemporânea), e não apenas em textos como nós os tradicionalmente entendemos. A partir disso, é possível conceber quatro tipos de produção expressiva, de acordo com Lorusso (2015): 1- O reconhecimento (que é um tipo estranho de produção expressiva, na medida em que na verdade não produz uma expressão, mas assume uma expressão como significante de algo, tornando uma expressão funcional de uma função de sinal). 2- O trabalho de ostensão. 3- O trabalho de réplica. 4- O trabalho de invenção (de uma expressão que não existia antes; a pintura é um bom exemplo disso) – em uma articulação na qual o primeiro tipo do trabalho (reconhecimento) atua como uma premissa implícita para todos os outros trabalhos (que são, em qualquer caso, diferentes formas de complexificação e desenvolvimento). Se alguns desses trabalhos implicam de forma clara e imediata uma dimensão intersubjetiva, todos eles exigem uma espécie de background social de qualquer maneira, porque todos existem em uma dimensão que podemos definir como público, externo. Esse é um ponto importante para nossos estudos, pois os sinais não existem como artifícios mentais, termos da linguagem interna de um indivíduo; os signos circulam e se materializam, e ao fazê-lo, imediatamente adquirem status intersubjetivo (LORUSSO, 2015). A física dos signos, sendo substanciais e externos, em vez de mentais e internos, leva diretamente a serem compartilhados nos espaços públicos da sociedade e da cultura. Nesse espaço “público”, que é o espaço intersubjetivo da semiose, é difícil separar a dimensão da significação (a organização do significado) da dimensão da comunicação (a da troca efetiva de significado). Mesmo que pareça haver uma prioridade teórica na significação, que possibilita o estudo dos códigos sem levar em consideração seu uso, Eco declara rapidamente a inevitabilidade de uma dimensão pragmática em qualquer análise semiótica. Daí surge uma visão muito complexa e dinâmica da semiose, cuja teoria dos modos de produção de signos não marca uma passagem do plano de significação para o plano de comunicação, mas sim a passagem da consideração dos sistemas semióticos apenas para a consideração dos processos semióticos práticos e concretos de produção de sentido. 136 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Ao esboçar a tipologia dos modos de produção de signos, Eco tentou mapear as estratégias disponíveis para usar a matéria do mundo de maneira semiótica (como expressão do conteúdo que desejamos expressar), lidando com repetição, conformismo, invenção e originalidade. Ele não está interessado em definir como nos comunicamos, mas em como podemos criar sinais (por ostensão, réplica, invenção), se desejarmos nos comunicar (LORUSSO, 2015). Entre as possibilidades que o filósofo identifica, aponta primeiro o reconhecimento, porque mesmo quando assumimos que algo é significativo em relação à outra coisa (a reconhecemos como “sintomática” de outra coisa ou “indicando” outra coisa) produzimos sinais: ele é o nosso comportamento interpretativo que produz sinais, não há sinais separados e além dele. Baseando-se no quadro dos modos de produção de signos, e na base da enciclopédia (tema este muito caro à cultura, sociedade e semiótica de Eco, mas que não iremos nos aprofundar aqui), existe uma suposição semelhante: a natureza interpretativa da semiótica. O trabalho de produção de signos é interpretativo, porque é apenas com reconhecimento (e, portanto, de processos abdutivos de implicação, que são, como tais, interpretativos) que os signos podem ser produzidos. É por esses e outros motivos que a teoria semiótica de Eco é radicalmente cultural (LORUSSO, 2015). Em Semiótica e cognição na perspectiva histórico-cultural, disponível em http://bit.ly/36il9fI, é possível abstrair mais algumas informações não trabalhadas nesse tópico acerca da relação da semiótica e cultura.DICAS 137 LEITURA COMPLEMENTAR POESIA CONCRETA E VISUALIDADE DA ESCRITA Wilton Cardoso A última vanguarda e o primeiro pós-modernismo No Brasil, o concretismo foi, ao mesmo tempo, a última vanguarda modernista e o primeiro pós-modernismo. Na mesma São Paulo de Oswald e Mário de Andrade, o movimento da poesia concreta da década de 1950 fecha o ciclo da poesia modernista, iniciada com a Semana de Arte Moderna de 1922, mas também inicia uma nova era da poesia, que vamos chamar de pós-modernista, mais desgarrada de projetos nacionais ou existenciais. O que há de modernismo na poesia concreta? Grosso modo, pode-se dizer que a poesia (e também o romance) modernista se constitui como uma tensão entre a destruição e a reconstrução, seja como expressão do sujeito, representação social ou artefato formal. O modernismo rompe com a tradição poética do passado em busca do novo, vivendo de revoluções. Estas rupturas, no entanto, devem dar lugar a algo minimamente estruturado, seja esta estrutura um novo sujeito (mesmo que seja o homem desencantado drummondiano), uma nova sociedade (ou pelo menos a utopia por uma) ou uma nova forma. Portanto, apesar de seu furor crítico e revolucionário, fonte de brigas e intrigas entre correntes, escolas e poetas, a poesia modernista ambiciona alguma estabilidade em meio à profusão de metamorfoses que ele mesmo provoca. Pode-se dizer, daí, que na poesia modernista há, ainda, uma utopia da unidade ou da totalidade, seja ela subjetiva, social ou formal. O concretismo, na melhor “tradição” das vanguardas, surge como um movimento polêmico, ambicioso e com uma retórica de guerra, decretando a morte, por obsolescência, da poesia tradicional e anunciando a nova poesia do futuro. A abolição do verso, a recusa da sintaxe discursiva e negação da expressão subjetiva são as mortes anunciadas pelos concretistas. Em seu lugar, propõem a disposição espacial das palavras e letras na página, uma sintaxe visual e a primazia da forma poética, à qual devem se subordinar os conteúdos (subjetivos ou sociais) que ela exprime. Ruptura com a tradição do verso, da discursividade e da subjetividade e tentativa de construção de uma poesia visual radicalmente experimental, em constante revolução formal e que dá à grafia (o desenho da letra e o espaço da página) a mesma importância que os recursos verbais (sintaxe e sentido) e sonoros. 138 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA A primazia da voz Para além do desejo dos poetas concretos de fundar um movimento ou mesmo uma escola poética, com todas as disputas e melindres, muitas vezes pueris, característicos dos grupos literários, eles, pela primeira vez na história da literatura ocidental, liberaram uma potência até então ignorada na poesia: a da visualidade da escrita. Além de fonêmica, com cada letra representando aproximadamente um fonema da língua, a escrita alfabética é, por óbvio, visual. Ela necessita ser grafada numa superfície, estabelecendo com esta uma relação pictórica de forma e fundo, que embora tenha sido explorada poeticamente desde a Antiguidade, nunca foi levada a sério no meio literário ocidental. Este desprezo pela visualidade pode ser creditado ao caráter fonêmico da escrita alfabética, que acaba por privilegiar a ligação entre a letra e o som, deixando o aspecto gráfico em segundo plano. Todavia, pode haver uma razão mais profunda para o descaso ocidental com a visualidade da escrita, que é a desconfiança metafísica, que remonta a Platão, em relação à palavra escrita, principalmente por ela se separar da voz autoral e permitir, por meio da interpretação, uma diversidade de sentidos, muitos deles não autorizados pela voz, ou seja, pela origem. A escrita perpetua a voz, mas o preço cobrado é a duplicidade desta mesma voz: no sentido de duplo sentido (instabilidade do sentido), mas também de inautenticidade da interpretação que a distancia da origem, já que toda leitura é também uma reescrita do original. À poesia ocidental, principalmente na Modernidade, coube sempre um papel metafísico, quase religioso, de resgate ou preservação da origem, da totalidade da voz. Por mais que a conotação metafórica, tão cara à poesia, provocasse a instabilidade do sentido, a leitura que se fazia é que o “duplo sentido” nada mais era que um caminho para se atingir o sentido mais profundo do mundo e da alma humana. Mesmo a teoria psicanalítica, já em pleno século XX, reconheceria na poesia (na literatura em geral) uma antecipação da psicanálise, por conta da capacidade da conotação em descortinar os conteúdos inconscientes da mente humana. Para a visão metafísica da poesia, a instabilidade do sentido poético é relativa. Ela guarda, no fundo, a plenitude da origem, oculta sob as aparências móveis do mundo: a duplicidade da metáfora seria um caminho tortuoso para a unidade do ser, expressa pela voz poética. Não é de se admirar, portanto, a aliança da poesia ocidental com os aspectos sonoros da palavra escrita, relegando a grafia ao segundo plano poético (na retórica clássica, estuda-se apenas figuras de som e sentido). A sonoridade da poesia relembra e resgata a voz original: do poeta, da nação, do ser ou das musas. A grafia, embora seja a técnica responsável pela perpetuação da poesia, se identifica, por outro lado, com os demônios que corrompem da voz original: a duplicação incontrolada dos sentidos e a historicidade da leitura. Meio técnico de preservação da poesia, a grafia contesta a metafísica e relembra aos TÓPICO 3 — IMAGEM DA PALAVRA E SOCIEDADE IMAGÉTICA 139 poetas e intérpretes que a instabilidade do sentido pode ser absoluta e que “no fundo” talvez não haja voz original para se decifrar ou se identificar. A poesia passaria, de voz original e sagrada, para um jogo de ilusões, como já fora denunciada por Platão. A explosão da grafia O concretismo, pela primeira vez na história da literatura ocidental, ousa trazer a grafia e a visualidade da página para o primeiro plano poético, igualando sua importância com a manipulação do sentido e do som. O poema concreto seria, agora, verbivocovisual, um amálgama de sentido, sonoridade e visualidade, sem que haja hierarquia entre estas três dimensões da palavra escrita. O uso da visualidade não é novo na poesia ocidental, pois remonta à Antiguidade. No início do século XX, os dadaístas e futuristas intensificaram o uso da visualidade no poema, mas nada comparado com a fusão promovida pelos concretistas que, ao mesmo tempo que criavam poemas visuais, teorizavam sobre sua prática. O que permitiu que avançassem numa poética enxuta e despida de discursividade, suprida pela visualidade em simbiose com a semântica das palavras e até mesmo das sílabas e letras. Assim como os dadaístas e futuristas, os concretistas estavam incorporando na sua poesia a explosão gráfica e visual do século XX, com os letreiros, as logomarcas e as experiências gráficas da imprensa e da publicidade, sem falar na imagem-movimento do cinema e da TV [...]. Os concretistas abriram a caixa de pandora da poesia ocidental. Sua herança é riquíssima e, se a poesia não estivesse praticamente morta nos dias de hoje, o mundo estaria escrutinando e debatendo ferozmente (contra ou a favor) o poema visual, a fusão entre imagem e escrita, vídeo e poesia etc., tudo a partir das comportas abertas pela teoria e prática da dos poetas concretos, que sintetizaram e potencializaram o uso da visualidade na poesia na década de 1950. A contenção da grafia Ao mesmo tempo que liberaram a visualidade da poesia, os concretistas tentavam, principalmente por meio da teoria aprisioná-la numa outra totalidade, desta vez formal, muito próxima das teorias estruturalistas da linguística. A obsessão teórica pelo projeto, pelo “plano-piloto”, pela estrutura enfim,deslocava a unidade desejada de um passado original para o futuro a se construir. O movimento da forma poética, ao invés de revelar as origens da voz, seria a execução revolucionária do projeto de uma poesia total (verbivocovisual), em diálogo tenso com o mundo tecnológico do século XX. A grande narrativa não estava mais no passado (nas origens) do sujeito, da nação ou da humanidade e sim no futuro. Na verdade, o que se buscava não era mais uma narrativa e sim uma estrutura porvir, a ser constantemente revolucionada, como a ciência e a tecnologia. Se a poesia concreta liberou as potências da grafia e se libertou do jugo totalitário da voz original, ela tentou se impor uma outra coerção, a da estrutura formal, voltada para o futuro, mas ainda assim, em busca de uma totalidade. 140 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA Enfim O saldo da poesia concreta foi o da liberação da visualidade (desde sempre presente) da poesia escrita, para além das tentativas concretistas de enquadrar a explosão da grafia nas totalidades formais da estrutura. [...]. Se a poesia ainda causasse algum impacto nos dias de hoje, o concretismo brasileiro seria um divisor de águas da poesia ocidental, entre uma era quase que exclusivamente pré-visual, voltada para a voz original, e os tempos atuais, em que esta sacralidade poética fora abalada pela libertação das potências gráficas da escrita. No entanto, esta condicional é uma falácia, pois a crescente desimportância da poesia (da literatura em geral) na contemporaneidade decorre da mudança de sensibilidade que ocorreu ao longo do século XX, fato observado tanto pela Escola de Frankfurt, com seu conceito de indústria cultural quanto por Marshall Mcluhan e sua aldeia global. O século XX é a era da velocidade, da padronização industrial e das mídias elétricas (rádio, TV, cinema e, depois, internet), que privilegia a visualidade e a instantaneidade da mensagem, condenando o livro e a escrita exigente da literatura a um segundo plano. As pessoas da segunda metade do século XX e do XXI não têm mais a cultura de se aprofundar num livro de poemas, lendo, relendo e meditando sobre a obra poética. Nem mesmo a mudança de suporte para a tela do computador ou celular muda esta realidade, pois o poema ainda continua pedindo uma leitura lenta e imersiva, que o receptor atual não pode mais realizar. Ao liberar as potências da grafia, os concretistas absorvem esta nova era visual das mídias elétricas em seus poemas, mas estes continuam a ser artefatos literários da era da escrita, com a exigência de uma sensibilidade que os novos leitores não podem mais oferecer. O lirismo do século XX passa ser cada vez mais o da canção, assim como a narrativa se desloca do romance para o cinema e a TV. A escrita perde sua centralidade como mídia de base da lírica e da narrativa, que passam a ser veiculadas pela indústria cultural e suas mídias elétricas. As potências da visualidade liberadas pelo concretismo será a última revolução da poesia escrita ocidental, antes de sua decadência na cultura capitalista. FONTE: MOREIRA, W. Poesia concreta e visualidade da escrita. 2019. Disponível em: https://jor- nalggn.com.br/artigos/poesia-concreta-e-visualidade-da-escrita/. Acesso em: 14 jan. 2020. Como Leitura Complementar, sugerimos também A Imagem Escrita, de Marco Gianotti, de 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-53202003000100009. DICAS 141 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • A semiótica não é uma teoria da literatura, embora seja usada em textos literários, trabalhamos a concepção que Saussure propõe acerca do significante/ significado, que é deixar a oposição mais clara e coerente, bem como a aplicação mais correta quando o signo não é vocalizado (falado). • A ideia foi a de verificar a sistematização ou dois modos distintos de investigação dos fenômenos linguísticos, a saber, a sincrônica e a diacrônica; bem como dois eixos da linguagem, quais sejam, relações sintagmáticas e as associativas. Em detalhes, seria: ◦ Sincrônica: analisa o estado da língua, o aspecto estático, ou seja, como ela existe naquele determinado momento. Parte apenas da perspectiva “dos falantes”. ◦ Diacrônica: analisa as mudanças na língua ao longo do tempo, utilizando-se conjuntamente da perspectiva prospectiva e da perspectiva retrospectiva. A partir dessa perspectiva, pode-se estudar uma língua a partir dos documentos mais antigos e constatar sua evolução ao longo do tempo. ◦ Relações sintagmáticas: são combinações de palavras ou grupos de palavras (palavras compostas, derivadas, membros de frases, frases inteiras) de maneira linear da língua e se alinham na fala. Ele é representado por frases transmitidas por meio da fala ou da escrita. ◦ Relações associativas: são um conjunto de palavras formadas por uma associação mental que se ligam pelo radical, pelo sufixo, por analogia do significado ou ainda por imagens acústicas. ◦ Sintagma apresenta-se de uma forma encadeada, ou seja, contínuo entre grupos de signos funcionais e sempre binários numa relação recíproca na língua, na fala e outras linguagens, lembrando-se de Barthes nos aspectos não verbais. ◦ Sistema se constitui a partir de campos associativos determinados por afinidade no nível da memória (lápis, caderno), no nível fônico (gato, pato) ou do sentido (educação, ensino), os quais também contêm oposições bilaterais e múltiplas. ◦ Sistema Simbólico: nestes sistemas, um elemento do Plano de Expressão possui apenas um correspondente no Plano de Conteúdo. ◦ Sistemas Semióticos: há uma conformidade relativa entre os planos de expressão e conteúdo. Os signos nos sistemas semióticos não se relacionam necessariamente a apenas um elemento, mas sim a universos semânticos distintos. ◦ Sistema Semissimbólico: um tipo de articulação que diz respeito a uma homologação não entre elementos isolados do plano de expressão e de conteúdo, mas que relaciona categorias de ambos os planos. 142 Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA • É possível empreender um estudo semiótico da cultura a partir de dois lados distintos: ◦ Estudo de diferentes sistemas de signos no interior de uma cultura e o modo como contribuem para sua constituição mais geral. Exemplo: estudar a cultura religiosa do Brasil de forma a entender como ela contribui para a formação da cultura nacional. ◦ Estudar uma cultura como um sistema de signos para desvendar comportamentos e experiências individuais e/ou coletivas. Exemplo: o estudo semiótico de culturas indígenas ou culturas já extintas. • Acerca de Umberto Eco no contexto semiótico da cultura, entendemos que qualquer objeto cultural tem a capacidade de ser estudado pela semiótica, bem como abordagens sociais e antropológicas em Clifford Geertz, que tem por pilar de pensamento noções voltadas para os significados, redes e interpretações. 143 1 Saussure sistematizou dois modos distintos de investigação dos fenômenos linguísticos, a sincrônica e a diacrônica. Acerca disso, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) Sincrônica: analisa o estado da língua, o aspecto estático, ou seja, como ela existe naquele determinado momento. b) ( ) Sincrônica: parte apenas da perspectiva “dos falantes”. c) ( ) Diacrônica: analisa as mudanças na língua em um período de tempo específico e não ao longo dele. d) ( ) Diacrônica: faz uso da perspectiva prospectiva e da perspectiva retrospectiva. 2 Sobre as relações sintagmáticas e associativas em Saussure, assinalea alternativa INCORRETA: a) ( ) Relações sintagmáticas: são combinações de palavras ou grupos de palavras (palavras compostas, derivadas, membros de frases, frases inteiras) de maneira linear da língua e se alinham na fala. b) ( ) Relações sintagmáticas: é representado por frases transmitidas por meio da fala ou da escrita. c) ( ) Relações associativas: trata-se de um conjunto de palavras formadas por uma associação mental que se ligam pelo radical, pelo sufixo, por analogia do significado ou ainda por imagens acústicas. d) ( ) Relações associativas: é composta, no contexto da comunicação, de um radical, prefixo, dissimetria e imagem artística. 3 A sociedade e a cultura foram definidas como fenômenos que independem dos indivíduos. O primeiro a falar sobre a cultura dos indivíduos foi Herbert Spencer. Considerando esse contexto, bem como os pensamentos de Clifford Geertz, disserte sobre a sociedade imagética, cultural e simbólica. Para auxiliar em seus escritos, observe a obra Todos os Nomes, de Rosana Ricaldi (1971-). AUTOATIVIDADE FIGURA – ROSANA RICALDI. TODOS OS NOMES, 2006 FONTE: <https://blogdasubversos.wordpress.com/2013/03/26/o-artista-por-ele-mesmo-en- trevista-com-rosana-ricaldi/>. Acesso em: 15 jan. 2020. Pense também nos monumentos enquanto memória da cidade. 144 UNIDADE 2 — A SOCIEDADE IMAGÉTICA 145 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conceber a arte como ato político; • refletir sobre as manifestações culturais e identitárias; • compreender a arte como história da humanidade; • discutir sobre relação da arte com a sustentabilidade e crítica à sociedade do consumo, atestando-a como inerente aos debates contemporâneos. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – ARTE COMO POLÍTICA TÓPICO 2 – DIVERSIDADE E IDENTIDADE VISUAL TÓPICO 3 – ÉTICA, MEIO AMBIENTE E ARTE Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 146 147 UNIDADE 3 TÓPICO 1 — ARTE COMO POLÍTICA 1 INTRODUÇÃO Se a arte é simbólica, conforme abordado em especificidades na Unidade 2 do nosso Livro Didático, ela o é sobretudo quando está atenta ao mundo e aos direitos dos homens. No século XX, a concepção de Direitos Humanos conforme nosso entendimento atual começa a ser desenhada, de modo a desvincular-se da natureza e da religião e pautar-se no homem. Eles se definem como fundamentos que fomentam a plenitude da vida em termos biológicos, psicológicos, políticos e sociais, asseverando a igualdade, a liberdade e a dignidade. Os Direitos Humanos salvaguardam o ser humano. Veja algumas de suas propriedades: • imprescritibilidade: os direitos humanos fundamentais não se perdem pelo decurso do prazo; • inalienabilidade: não há possibilidade de transferência dos direitos humanos fundamentais, seja a título gratuito, seja a título oneroso; • irrenunciabilidade: os direitos humanos fundamentais não podem ser objeto de renúncia. Dessa característica surgem discussões importantes na doutrina e posteriormente analisadas, como a renúncia ao direito à vida e a eutanásia, o suicídio e o aborto; • inviolabilidade: impossibilidade de desrespeito por determinações infraconstitucionais ou por atos das autoridades públicas, sob pena de responsabilização civil, administrativa e criminal; • universalidade: a abrangência desses direitos engloba todos os indivíduos, independentemente de sua nacionalidade, sexo, raça, credo ou convicção político-filosófica; • efetividade: a atuação do poder público deve ser no sentido de garantir a efetivação dos direitos e garantias previstos, com mecanismos coercitivos para tanto, uma vez que a constituição federal não se satisfaz com o simples reconhecimento abstrato; • interdependência: as várias previsões constitucionais, apesar de autônomas, possuem diversas intersecções para atingirem suas finalidades. Assim, por exemplo, a liberdade de locomoção está intimamente ligada à garantia do habeas corpus, bem como a previsão de prisão somente por flagrante delito ou por ordem da autoridade judicial competente; • complementariedade: os direitos humanos fundamentais não devem ser interpretados isoladamente, mas de forma conjunta, com a finalidade de alcance dos objetivos previstos pelo legislador constituinte (MORAES, 2003, p. 163-164). A edificação dos Direitos ocorreu gradativamente, na medida em que surgiram questionamentos acerca de práticas sociais dominantes, por isso há gerações de direitos (BOBBIO, 1982). Mesmo após a edificação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, atrocidades não deixaram de existir. UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE 148 Muitos artistas deram o foco para a temática, apresentando, questionando e mesmo denunciando situações de violações dos Direitos. Tais abordagens atentam que a arte está em vigília diante de questões sociais e políticas que danificam o convívio pacífico, mesmo sendo alvo, algumas vezes, de censura e repressão. 2 LEITURA CRÍTICA DE IMAGEM A imagem pode ser lida por meio de seus elementos formais (iconografia), mas também pelo seu significado (iconologia), sendo esta uma ciência que se volta para a interpretação, para o caráter simbólico da arte, em seu contexto histórico e cultural. Ela também verifica como uma temática é abordada por diversos artistas, em sua visão de mundo. Erwin Panowsky (1892-1968) discorreu sobre iconografia e iconologia em seu artigo Iconografia e Iconologia: uma introdução ao estudo da arte da renascença, e as propôs como ferramentas para a análise de obras de arte. Assim, veremos como alguns artistas adentram poéticas que tangem aos direitos humanos. Não deixe de ler: PANOWSKY, E. Iconografia e Iconologia: uma introdução ao estudo da arte da renascença. In: PANOWSKY, E. Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 2011. DICAS Cândido Portinari (1903-1962) denunciou, por meio de seus trabalhos, a história sociocultural, sobretudo em O Mestiço (1934), cujas unhas mostram o árduo trabalho, seja ele no colonialismo, imperialismo ou mesmo na sociedade moderna, afinal, a escravidão ainda ocorre em localidades brasileiras e mundiais, às vezes no formato de irrisória remuneração. TÓPICO 1 — ARTE COMO POLÍTICA 149 FIGURA 1 – CÂNDIDO PORTINARI. O MESTIÇO, 1934 FONTE: <http://www.portinari.org.br/#/acervo/obra/2581>. Acesso em: 3 jan. 2020. Com o mesmo intento está Criança Morta (1944), que coloca diante dos nossos olhos a miséria e a calamidade. FIGURA 2 – CÂNDIDO PORTINARI. CRIANÇA MORTA, 1944 FONTE: <http://www.portinari.org.br/#/acervo/obra/2735>. Acesso em: 3 jan. 2020. Mesmo havendo inúmeros debates acerca dos Direitos Humanos, suas contravenções são patentes, seja em situações de mendicância pelas ruas de centros urbanos, na falta de saneamento ou na degradação de hospitais públicos. O documento muitas vezes permanece na teoria, e na prática a crueldade ganha realce, até mesmo nas esferas culturais e religiosas. Francisco Goya (1746-1828), Pablo Picasso (1881-1973) e Diego Rivera (1886-1957) já se ocuparam da questão e notamos que mudanças não foram substanciais na realidade social. A pintura a seguir mostra uma memorável imagem da desumanidade: o fuzilamento ocorrido em Madrid no dia 3 de maio de 1808. Anterior a esse episódio, houve o 2 de maio de 1808, também imortalizado UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE 150 por Goya, emque o general Murat e sua cavalaria foram atacados por populares armados enquanto atravessavam a Porta do Sol, em Madrid. No dia seguinte, os franceses revidaram e ordenaram o fuzilamento de inúmeros civis, que se deu no Convento de Jesus, na Casa de Campo, no Bom Retiro, em Santa Bárbara, na Porta de Segovia e na montanha do Príncipe Pio, além de outros locais. FIGURA 3 – FRANCISCO GOYA. EL TRES DE MAYO, 1814 FONTE: < https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/fd/El_Tres_de_Mayo%2C_ by_Francisco_de_Goya%2C_from_Prado_thin_black_margin.jpg/776px-El_Tres_de_Mayo%2C_ by_Francisco_de_Goya%2C_from_Prado_thin_black_margin.jpg>. Acesso em: 3 jan. 2020. Os quadros de Picasso como instrumento de denúncia vão além de Guernica (1937) que, inspirado em Goya, retrata o Massacre na Korea (1951). Ali expõe os crimes dos Estados Unidos na península coreana, que provocou a morte de 3 milhões de pessoas, dentre as quais 80% não eram combatentes. Assista ao filme sul-coreano The Front Line (2011), dirigido e escrito por Jang Hoon. DICAS TÓPICO 1 — ARTE COMO POLÍTICA 151 FIGURA 4 – PABLO PICASSO. MASSACRE NA KOREA, 1951 FONTE: <https://www.pablopicasso.org/massacre-in-korea.jsp>. Acesso em: 3 jan. 2020. A violência colonial surge no mural Exploração do México pelos Conquistadores Espanhóis (1929-1945). FIGURA 5 – DIEGO RIVERA. EXPLORAÇÃO DO MÉXICO PELOS CONQUISTADORES ESPANHÓIS, 1929-1945 FONTE: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Murales_Rivera_-_Ausbeutung_durch_die_ Spanier_1_perspective.jpg>. Acesso em: 3 jan. 2020. Adriana Varejão (nascida em 1964) possui um olhar crítico sobre a dominação cultural, especialmente sobre a ocorrida no Brasil e a manifestação do barroco, tendo seu brilho contrastado com a violência com a qual se deu o processo. Assim, padres, negros e índios aparecem em seus quadros, em cenários de açoitamentos e libertinagens, misturados às belas paisagens de floresta tropical. Em novas terras, a permissividade reina. UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE 152 FIGURA 6 – ADRIANA VAREJÃO. FILHO BASTARDO, 1992 FONTE: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra9053/filho-bastardo>. Acesso em: 7 jan. 2020. É no esmero dos azulejos com amplos rasgos que o símbolo de Portugal passa a atestar as atrocidades cometidas durante o período. FIGURA 7– ADRIANA VAREJÃO. AZULEJARIA EM CARNE VIVA, 1999 FONTE: <http://www.adrianavarejao.net/br/imagens/categoria/10/obras>. Acesso em: 7 jan. 2020. TÓPICO 1 — ARTE COMO POLÍTICA 153 O olhar crítico de Varejão e de tantos artistas diante da sociedade atesta que arte não negligencia a história da humanidade, mas a coloca como alvo justamente para reconfigurar suas práticas. Saiba mais sobre o trabalho da artista no site: www.adrianavarejao.net. DICAS 3 ARTE E CONFLITOS No decorrer da construção da Declaração dos Direitos Humanos, muitos debates se deram à procura de soluções para as atrocidades vigentes, a exemplo do Iluminismo Humanitário, o qual propôs que a pena de morte fosse substituída pelo cárcere. Entretanto, este também foi alvo de questionamentos, pelo fato de, além de suprimir a liberdade, privar o sujeito da sociabilidade, de sua identidade e da afetividade, incorrendo na perda total de sua humanidade. Graciliano Ramos (1892-1953) discutiu sobre tal questão em Memórias do Cárcere (publicação póstuma em 1953). Nelson Pereira dos Santos (1928-2018) aborda as migrações e o aparecimento das igrejas neopentecostais na película A Terceira Margem do Rio (1994), e o faz a partir de cinco contos de Guimarães Rosa (1908-1967). A crítica também se direciona às metrópoles e zonas periféricas, comumente desamparadas e violentas, mas onde reside considerável parte dos trabalhadores dos grandes centros. É nesse universo que o tráfico de drogas, o trabalho infantil, as instituições religiosas e a lavagem de dinheiro se conjugam na película. Assista ao filme Como era Gostoso meu Francês (1972) de Nelson Pereira, o qual faz uma crítica à colonização portuguesa e à história formal. DICAS UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE 154 Sérgio Bianchi (nascido em 1945) filma Quanto Vale ou é por Quilo? (2005), em uma adaptação de Pai contra Mãe, de Machado de Assis (1839-1908), para discorrer sobre a escravidão de outrora quanto à hodierna. O comércio de negros é colocado lado a lado com a exploração da miséria na sociedade contemporânea, velada sob a forma de projetos sociais. As imagens de comparativos são constantes no filme, a exemplo dos navios negreiros com as celas prisionais lotadas e a crueldade colonial com a marginalização dos indivíduos de baixa renda, fazendo notar que o comportamento de muitos cidadãos de hoje está enraizado no passado escravagista. Em Quanto Vale..., a sociedade brasileira está democraticamente representada no banco dos réus. Há socialites que se comprazem em mostrar aos quatro ventos suas obras assistenciais, fundadores de ONGs que vencem prêmios enquanto aplicam desfalques com dinheiro público, publicitários que fabricam imagens vencedoras para projetos sociais a fim de captar mais recursos, líderes comunitários mercenários, pobres que denunciam e matam pobres, mães adotivas que oferecem suas filhas como empregadas domésticas (MOTA, 2005 apud CEJ, 2009, s.p.). Muitas são as manifestações artísticas que abordam a temática criticamente, indicando que a opressão não deve regrar uma sociedade, mas aos cidadãos cabem os direitos e os deveres. Dessa maneira, é possível a convivência social harmônica, não direcionada apenas para os interesses pessoais (KANT, 1974). Os Direitos Humanos vinculam-se à ética e ao reconhecimento do outro. Assista ao documentário Edifício Máster (2002), de Eduardo Coutinho (1933-2014), o qual nos coloca diante dos moradores de um prédio de Copacabana. DICAS História para Ninar Gente Grande, esse foi o samba-enredo da escola campeã do carnaval do Brasil de 2019. O carnavalesco Leandro Vieira (nascido em 1983) pretendia questionar a história do Brasil contada pelos dominantes e a noção de herói que consta nos livros. A Mangueira chegou Com versos que o livro apagou Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento Tem sangue retinto pisado Atrás do herói emoldurado Mulheres, tamoios, mulatos Eu quero um país que não está no retrato. (VIEIRA, 2019, s.p.) TÓPICO 1 — ARTE COMO POLÍTICA 155 FIGURA 8 – BANDEIRA UTILIZADA NO DESFILE DA MANGUEIRA, 2019 FONTE: <https://carnaval.ig.com.br/rio/escolasdesamba/2019-03-05/carnaval-do-rio-desfiles.html>. Acesso em: 3 jan. 2020. A nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (nascida em 1977) indica o perigo de uma história única. De acordo com a escritora, “é impossível falar de uma única história sem falar sobre poder” (ADICHIE, 2009, s.p.). Tal apontamento é ratificado por Belting (2006, p. 11), quando afirma que “o pretenso universalismo da história da arte é um equívoco ocidental”. De fato, muitas histórias foram silenciadas e “não permitir que o outro conte sua própria história é destruir o outro enquanto sujeito” (ADICHIE, 2009, s.p.). Assim, em 2019, o sambódromo ficou repleto de memórias que formam o país, enfatizando que sua história começa bem antes da que está registrada nos meios oficiais. Assista à conferência que Chimamanda Ngozi Adichie apresentou na Comunidade Global de Tecnologia, Entretenimento e Design – TED, em 2009: https://is.gd/4RLB7B. DICAS A postura crítica e argumentadora denota que os artistas e cidadãos estão conscientes dos problemas sociais e políticos. Nesse desígnio, a arte fomenta a liberdade de expressão e a agir em prol do bem comum. UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE 156 4 QUESTÕES POLÍTICAS “Minha arte é política de libertação” (MELO, s.d., s.p.). Joseph Beuys (1921-1986) transformou seu caminhar artísticoem uma ação política, sobretudo a partir dos anos de 1970. O artista acreditava na arte como sendo um meio de mudança social, por isso lutava pelo direito de criar. Eu cheguei à conclusão de que não há nenhum modo de fazer qualquer coisa pelo ser humano que não seja através da arte, e devido a isto é necessário um conceito educacional [...]. Meu conceito educacional refere- se ao fato de que todo ser humano é um ser criativo e um ser livre. [...] e deseja passar a mensagem de que: Arte = Criatividade = Liberdade Humana. Hoje é preciso considerar a nossa realidade social e como esta realidade tem reprimido a maioria dos seres humanos, dos trabalhadores [...] todas estas coisas formam parte do meu conceito educacional, o qual se refere também a um sentido político (ROSENTHAL, 2011, p. 114). Seu trabalho na V Documenta de Kassel consistia em um “escritório de informação” para a Organização para a Democracia Direta, onde houve incansáveis debates sobre maneiras de reestruturar a sociedade por meio de atividades criativas. Durante os 100 dias da ação, uma rosa permaneceu em sua mesa. Findada a exposição, Beuys elaborou a escultura Luta de Boxe para a Democracia Direta, que compreendia duas luvas de boxe, dois capacetes protetores e cordas de uma ação conceitual: uma luta entre ele e seu aluno Abraham David Christian (1952-). O artista também confeccionou o cartaz que dizia: Não conseguiremos sem a rosa, no qual aparece sua imagem em diálogo com o público, com ênfase na flor como elemento simbólico, afirmando que não é possível o diálogo sem que haja amor, delicadeza e sutileza. FIGURA 9 – JOSEPH BEUYS. CARTAZ NÃO CONSEGUIREMOS SEM A ROSA, 1972 FONTE: <https://is.gd/88Bo2w>. Acesso em: 3 jan. 2020. TÓPICO 1 — ARTE COMO POLÍTICA 157 Joseph Beuys acreditava que “qualquer pessoa é artista”, seguindo o preceito de que, assim como ocorre com a política, a arte é algo do qual todas as pessoas participam. Por isso suas obras colocam em diálogo a arte, a política e a educação, em um campo ampliado, conforme vimos nas definições em nossa primeira unidade. Neste viés, os projetos de Beuys almejam a formação de uma sociedade em que os sujeitos sejam autônomos e operantes, com liberdade para pensar e criar. A arte como um lugar de questionamentos e ações políticas também adentra a obra da cubana Tania Bruguera (nascida em 1968), a exemplo da performance O Sussurro de Tatlin #6, apresentada na 10a Bienal de Havana (2009). Na sala do Instituto Wilfredo Lam, a artista dispôs um microfone para que o público se manifestasse sobre qualquer assunto durante um minuto. No momento em que a pessoa falava, dois atores fardados colocavam uma pomba em sua cabeça ou em seu ombro, aludindo à imagem de Fidel Castro de 1959 durante um discurso. FIGURA 10 – TÂNIA BRUGUERA. O SUSSURO DE TATLIN #6, 2009 FONTE: <https://www.14ymedio.com/nacional/Tania-Bruguera-Yo-Tambien-Exijo_0_1696030386.html>; <https://www.taniabruguera.com/cms/index.php?rex_resize=500a__fcr_02.jpg>. Acesso em: 7 jan. 2020. Quando Cuba e os Estados Unidos retomaram suas relações diplomáticas, Bruguera foi impedida pelo governo de repetir a performance na Praça da Revolução. Ademais, a artista foi presa com oitenta dissidentes, intelectuais e jornalistas, por resistência à autoridade e promoção da desordem pública. Veja a seguir a “carta aberta” que ela já havia escrito a Raúl Castro (nascido em 1931), Barack Obama (nascido em 1961) e ao Papa Francisco (nascido em 1936). Hoje, como artista, proponho a você, Raúl, expor a obra O Sussurro de Tatlin #6 na Plaza de la Revolución. Abramos todos os microfones e façamos com que todas as vozes sejam ouvidas; que não seja apenas o ressoar das moedas o que nos seja oferecido para preencher nossas vidas. [...] Hoje, gostaria de propor aos cubanos, onde quer que estejam, que saiam às ruas no próximo dia 30 de dezembro para comemorar não o fim de um bloqueio/embargo, mas sim o início de seus direitos civis (PRIMERA, 2015, s.p.). UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE 158 Diante das performances de Bruguera, o público é convidado a atuar enfaticamente, de modo que o contexto social e político é largamente questionado. Em 2018, ano em que Raúl Castro deixaria a presidência, Tânia Bruguera anunciou a sua candidatura por meio de um vídeo postado no YouTube. Tratava-se de uma ação artística, tendo em vista que as eleições presidenciais cubanas são submetidas ao Conselho de Estado. O apelo à democracia e à liberdade ficaram em foco, apontando a violação dos direitos civis e individuais nocivos em governos tanto de esquerda quanto de direita em qualquer país do mundo (NORBIATO, 2016). Veja o vídeo no link a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=dRtTH7fHjEk. NOTA Um olhar sobre a política e a defesa dos Direitos Humanos também aparece nas obras do chinês Ai Weiwei (1957-). Crítico e ativista, o artista expõe a corrupção policial e política na China, e por isso, no ano de 2011, seu estúdio em Pequim foi invadido e demolido por quarenta policiais e Weiwei preso, além de confiscarem os seus trabalhos. Após 81 dias em cárcere sem acusação formal e quatro anos detido na cidade, recuperou seu passaporte e migrou, levando sua família para Berlim. Em Straight (2008-2012), a denúncia se dá sobre as lesões causadas pela estrutura social, no caso, o padrão de qualidade e de segurança das chamadas “construções de tofu”, denominadas assim justamente pela sua fragilidade e iminência de desabamento. Nessa instalação foram utilizadas 164 toneladas de vergalhões de aço dos escombros de escolas de Sichuan, que desabaram após um terremoto em 2008 e a exposição da lista dos nomes de 5.385 vítimas. Salientamos que o governo não se dispôs a contabilizar esse número, entretanto, o artista, com o auxílio de voluntários, fez uma investigação e a compilação dos nomes. FIGURA 11 – AI WEIWEI. STRAIGHT, 2008-2012 FONTE: <https://newint.org/blog/2015/12/21/ai-weiwei-exhibition-london>. Acesso em: 7 jan. 2020. TÓPICO 1 — ARTE COMO POLÍTICA 159 Os movimentos dos refugiados na Europa e no Oriente Médio também ganham destaque em suas produções. Uma delas é Law of Journey (2017), quando um negro bote inflável surge carregando refugiados em escala bem maior do que a real, para enfatizar as violações dos Direitos e a crise anterior ao êxodo. FIGURA 12 – AI WEIWEI. LAW OF JOURNEY, 2017 FONTE: <https://www.flickr.com/photos/135398064@N02/41007033985>. Acesso em: 7 jan. 2020. No documentário Human Flow (2017), Weiwei transita por 23 países exteriorizando a situação de mais de 65 milhões de sujeitos forçados a saírem de suas residências fugindo da fome, da guerra e mesmo das mudanças climáticas, na angustiante busca pela segurança, abrigo e justiça. “A arte tem a liberdade e o direito de questionar e está na posição perfeita para fazer isso”, (WEIWEI, 2018, s.p.). Assista ao trailer do documentário Human Flow no link a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=_jO9DqVztLQ. DICAS A crise migratória acarretada pelos conflitos, perseguições e condições de vida precárias também é abordada pelo polonês Krzysztof Wodiczko (1943-) em If You See Something (2005) e Guests (2009), apresentadas na 53ª Bienal de Veneza. Ambas instalações apresentam silhuetas de imigrantes projetadas atrás de janelas translúcidas. Na primeira os personagens fazem uma denúncia sobre o abuso de poder, enquanto na segunda as figuras estão fazendo pequenos serviços (limpam janelas, cortam grama, varrem folhas), a fim de discutir sobre as dificuldades de os imigrantes ilegais encontrarem trabalho e recomeçarem suas vidas. Em uma entrevista ao canal SMAC: ScribeMedia Art and Culture, Wodiczko (CZUBAK, 2009, s.p.) faz uma reflexão sobre a conjuntura do estrangeiro em território europeu: “Quem é o europeu? Quem é o estrangeiro/estranho? Quem é o convidado?”.UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE 160 “Os refugiados fogem de país para país representando as vanguardas dos seus povos” (ARENDT, 1943, p. 12-13). A frase de Hannah Arendt (1906-1975) encontrava-se na entrada de Guests, e foi retirada do artigo We Refugees (Nós, os Refugiados), publicado originalmente no jornal The Menorah Journal (1943), durante a Segunda Guerra Mundial. No texto, a filósofa discorre sobre a condição de deslocamento e a recepção dos refugiados. Sobre as projeções de Wodiczko, Bozena Czubak (s.d.) indica que o pensamento recai sobre a visibilidade do invisível, uma vez que podemos ver as sombras dos imigrantes, entretanto, eles não conseguem nos ver (CZUBAK, 2009). O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) escreveu sobre a visibilidade do invisível. Não deixe de ler: MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 1971 DICAS FIGURA 13 – KRZYSZTOF WODICZKO. GUESTS, 2009 FONTE: <https://is.gd/PHNMDx>. Acesso em: 3 jan. 2020. Essa visão turva faz com que eles se sintam deslocados e vulneráveis, uma vez que não compreendem com clareza as regras sociais do novo lugar. Não veem, mas são vistos, como alvos. TÓPICO 1 — ARTE COMO POLÍTICA 161 5 OS DIREITOS HUMANOS NA ARTE A Declaração Universal dos Direitos Humanos completou 70 anos em 2018 (MELO, 2018). Em comemoração, o Sesc São Paulo, juntamente ao Instituto Vladimir Herzog e com apoio do Acervo Otávio Roth, edificou a exposição Para Respirar Liberdade – 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, no Sesc Bom Retiro e no Centro Cultural Correios do Rio de Janeiro, com o apoio da ONU Brasil. Nela foram apresentadas as xilogravuras que Otávio Roth (1952- 1993) imprimiu em 1978, ilustrando 30 artigos da DUDH. Ao transformar em imagem os escritos, Roth ampliou a visibilidade e o acesso a um documento burocrático. O trabalho gráfico do artista convidou os cidadãos à leitura em outro formato: da visualidade da forma, fazendo valer o que ele acreditava, ou seja, na importância de manter viva a Declaração e difundi-la para além dos integrantes das Relações Internacionais e do Direito. A figura a seguir nos convida a pensar sobre o quinto artigo: “Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante” (DUDH, 1948, s.p.). FIGURA 14 – OTÁVIO ROTH. ARTIGO 5º, 1978 FONTE: <https://is.gd/xqjuta>. Acesso em: 7 jan. 2020. FIGURA 15 – OTÁVIO ROTH. IMAGEM DA EXPOSIÇÃO COM TODOS OS ARTIGOS FONTE: <https://vladimirherzog.org/exposicao-para-respirar-liberdade-70-anos-da-dudh-e-pror- rogada-ate-21-de-abril/>. Acesso em: 7 jan. 2020. UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE 162 A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) foi edificada por representantes de diferentes origens jurídicas e culturais, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em Paris, no ano de 1948, e estabelece a proteção universal dos direitos humanos. Acesse: https://nacoesunidas.org/direitoshumanos/declaracao/. NOTA A frase de Vladimir Herzog (1937-1975) foi impressa por Otávio Roth e exposta em 2019 no Itaú Cultural, na ocasião em que versava sobre a trajetória do jornalista. Herzog foi atuante entre os anos de 1960 e 1970 e assassinado em 1975, quando foi depor no Destacamento de Operações de Informação (DOI – Codi/ SP). “Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados” (OLIVEIRA, 2012, s.p.), diz o escrito. FIGURA 16 – OTAVIO ROTH. VLADIMIR HERZOG, 2019 FONTE: <https://deskgram.co/explore/tags/respirarliberdade>. Acesso em: 7 jan. 2020. TÓPICO 1 — ARTE COMO POLÍTICA 163 A mostra Ocupação: Vladimir Herzog, em parceria com o Instituto Vladimir Herzog (IVH), apresentou também as realizações do jornalista na área do cinema, fotografia, documentos e artigos escritos. O caso Herzog tornou-se simbólico para o pensamento sobre a luta pela democracia e pelos Direitos Humanos no país, além de fomentar a denúncia de vítimas de torturas e assassinatos como sendo suicidas. Cildo Meireles (nascido em 1948), na ocasião da morte de Herzog, realizou Inserções em Circuitos Ideológicos: Projeto Cédula, quando carimbou a frase: Quem matou Herzog? em notas de um cruzeiro, moeda corrente da época, e as devolvia à circulação. Além de questionar as causas não divulgadas da morte do jornalista, detido pelos órgãos de repressão política, a mensagem colocava em questão o controle da informação e o lugar da arte, uma vez que a frase circulava implacavelmente. Inserções em Circuitos Ideológicos: Projeto Cédula colocava a arte enquanto ação. FIGURA 17 – CILDO MEIRELES. INSERÇÕES EM CIRCUITOS IDEOLÓGICOS: PROJETO CÉDULA, 1975 FONTE: <http://www.digestivo.com.br/upload/jardeldiascavalcanti/cildocedula.jpg>. Acesso em: 3 jan. 2020. Antonio Henrique Amaral (1935-2015) fez referência a Herzog nas pinturas “A Morte no Sábado – tributo a Vladiamir Herzog” (1975) e “Ainda a Morte no Sábado” (1976), aludindo à violência militar sobre presos políticos torturados. Os garfos perfurando a carne e suas vísceras expostas dialogam direta e explicitamente com os títulos. UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE 164 FIGURA 18 – ANTÔNIO HENRIQUE AMARAL. A MORTE NO SÁBADO – TRIBUTO A VLADIMIR HERZOG, 1975 FONTE: <https://d3swacfcujrr1g.cloudfront.net/img/uploads/2000/01/003805001019.jpg>. Acesso em: 3 jan. 2020. Apesar de ser uma temática delicada de ser abordada, a arte, com coragem e sem medo de censura, toca na ferida dos violadores quando discorre sobre as violações dos direitos humanos por parte de quem deveria defender a constituição. 5.1 BIENAL DE VENEZA A Bienal de Veneza caracteriza-se por uma das mais relevantes mostras de arte contemporânea do mundo e compreende vários pavilhões, um destinado a cada país. Para o belga Koen Vanmechelen (1965-), tal segregação não promove o intercâmbio, por isso propôs como obra para a 58ª edição da Bienal (2019), o Human Rights Pavillon, para unir, assim, todas as nacionalidades e discutirem juntos os direitos sob a temática May You Live in Interesting Times. Em parceria com o Campus Global de Direitos Humanos, a Fondazione Berengo e a Fundação MOUTH, o Pavilhão, então, foi criado. O trabalho de Vanmechelen segue vivo por meio do projeto Cosmocafes, disseminado pelo mundo. Consiste em espaços livres edificados para fomentar o debate sobre sustentabilidade na convivência entre a cultura humana e as outras espécies existentes no planeta. O artista afirma: “o global não existe sem a generosidade do local” (VANMECHELEN, 2019, s.p.). Todas as ideias e conversas ocorridas nos Cosmocafes serão levadas às próximas edições do Pavilhão dos Direitos Humanos. TÓPICO 1 — ARTE COMO POLÍTICA 165 O projeto para que a Bienal estabeleça o Pavilhão de Vanmechelen como permanente na Bienal de Veneza será encaminhado ao Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU e ao residente e curador da 59ª edição. NOTA Leia o texto constante na abertura do website do Pavilhão de Direitos Humanos: Acreditamos realmente que a arte tem um papel a desenvolver no atual debate sobre os direitos humanos. A arte como disparador. Arte como linguagem. O que as outras pessoas estão dizendo. FIGURA 19 – PAVILHÃO DOS DIREITOS HUMANOS FONTE: <http://www.humanrightspavilion.com/>. Acesso em: 3 jan. 2020. A escultura Building Bridges, do italiano Lorenzo Quinn (nascido em 1966), também ganha destaque na 58ª Bienal de Veneza, onde várias “mãos dadas” formam uma ponte sobre um canal no antigo estaleiro Arsenale. O artista, em entrevista à Associated Press, sugere que a humanidade não se desenvolve criando barreiras, mas no momento em que abre fronteiras e recebe novas culturas (QUINN, 2019). DICASUNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE 166 FIGURA 20 – LORENZO QUINN. BUILDING BRIDGES, 2019 FONTE: < https://www.telegraph.co.uk/content/dam/news/2019/05/03/TELEMMGL- PICT000195963557_trans_NvBQzQNjv4BqNJjoeBT78QIaYdkJdEY4CnGTJFJS74MYhNY6w3G- NbO8.jpeg?imwidth=1240>. Acesso em: 3 jan. 2020. É notório que as artes visuais, enquanto manifestações de uma sociedade que dialoga para e com os seus cidadãos, abordem temáticas relevantes e necessárias de serem discutidas em prol da humanidade, e o fazem de maneira poética e crítica ao mesmo tempo, cuja mensagem atende a uma gama da população maior do que seria por meio do texto escrito. 167 Neste tópico, você aprendeu que: • Imprescritibilidade, inalienabilidade, irrenunciabilidade, inviolabilidade e universabilidade são algumas propriedades dos Direitos Humanos. • A concepção atual dos Direitos Humanos iniciou-se no século XX. • A arte está atenta para as questões da sociedade. • Portinari, Goya, Picasso e Rivera se debruçaram na temática dos Direitos Humanos. • Adriana Varejão se destacou ao falar sobre a dominação cultural. • Nelson Pereira e Sérgio Bianchi também são expoentes sobre o passado escravagista, juntamente a Leandro Vieira e Chiamamanda Ngazi Adichie. • Joseph Beuys e Tânia Bruguera adentram à política. • A crise migratória é abordada por Ai Weiwei e Krzysztof Wodiczko. • Os Direitos Humanos se evidenciam com Otávio Orth, Cildo Meireles e Antônio Henrique Amaral. • A 58ª Bienal de Veneza ganhou o Human Rights Pavillon, criado por Koen Vanmechelen. RESUMO DO TÓPICO 1 168 1 Muitos artistas indicaram, por meio de suas obras, atrocidades cometidas ao longo da história. Indique, neste viés, a alternativa INCORRETA: a) ( ) A elaboração dos Direitos Humanos se deu de maneira gradual. b) ( ) Dentre os trabalhos de Goya, estão a denúncia do ocorrido em 2 e 3 de maio de 1808. c) ( ) Adriana Varejão utiliza um elemento ícone de Portugal em seus trabalhos. d) ( ) Nelson Pereira utiliza como referência para suas obras cinematográficas os escritos de Jorge Amado. 2 As ações/performances de alguns artistas colocaram em foco questões políticas. Assinale a alternativa CORRETA a respeito dessas manifestações: a) ( ) Joseph Beuys falava que sua arte constituía-se em uma política de libertação. b) ( ) Tânia Bruguera repetiu a performance O Sussurro de Tatlin #6 na Praça da Revolução. c) ( ) Ai Weiwei denunciou as “construções de tofu”. d) ( ) Hannah Arendt (1943) declarou: “Os refugiados fogem de país para país representando as vanguardas dos seus povos”. 3 A partir da imagem da obra SITUAÇÃO T/T1 (1970), de Arthur Barrio (1945-), discorra sobre alguns preceitos dos Direitos Humanos, de modo a fazer uma leitura da obra do artista. Saiba mais sobre suas instalações/ performances no link: http://arturbarrio-trabalhos.blogspot.com. AUTOATIVIDADE FIGURA – ARTHUR BARRIO. SITUAÇÃO T/T1, 1970 FONTE: <https://www.publico.pt/2017/02/12/culturaipsilon/noticia/artur-barrio-incomoda- me-profundamente-a-objectualidade-da-arte-1761148>. Acesso em: 7 jan. 2020. 169 UNIDADE 3 TÓPICO 2 — ARTE E CONFLITOS 1 INTRODUÇÃO Na tragédia de Sófocles (496-406 a.C.), Antígona contraria Creonte (o rei de Tebas) e sepulta seu irmão, mesmo sabendo que por esse fato seria condenada à morte. Nesse episódio, vemos o conflito existente entre os princípios da consciência e as leis do Estado, debate este que ainda vigora na contemporaneidade. Esse é um preceito dos artistas: revisitar o passado e colocá-lo sob a visibilidade dos sujeitos, mostrando o outro viés ou enaltecendo algo que por ventura não tenha sido focalizado ainda. A arte é fruto da história, mas também ferramenta para preservá-la. Atualiza a memória, e o faz por meio da estética e da política. Em um país em que as desigualdades parecem ser reafirmadas e a violência de outrora ainda se faz presente, obras de arte surgem para discutir problemáticas em torno de gênero e sexualidade, dos direitos da mulher, de raça e ainda sobre o que lhes acomete: a censura. 2 GÊNERO E SEXUALIDADE A mostra Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira (2017), fechada pela Instituição Cultural Banco Santander, reativou as discussões sobre a censura e a liberdade de expressão no Brasil. Quando se trata de questões de gênero e sexualidade, a resistência ainda é grande, e muitas vezes vemos comentários destilados com agressividade, sem conhecimento histórico. Quanto mais sabemos sobre a história da humanidade, na qual a arte está visceralmente ligada, mais compreendemos as expressões e os propósitos dos artistas, bem como a sua sociedade. Quem hoje poderia imaginar que os nus de Michelangelo (1475-1564) pintados para a Capela Sistina tenham sido sentenciados como imorais e, assim, encobertos? Após restaurações, as imagens originais foram recuperadas. 170 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE Sob a curadoria de Gaudêncio Fidelis (nascido em 1965), Queermuseu reuniu 270 trabalhos de 85 artistas, dentre os quais estavam Cândido Portinari (1903-1962), Hudinilson Jr. (1957-2013), Fernando Baril (nascido em 1948), Lygia Clark (1920-1988), Yuri Firmeza (1982-), Leonilson (1957-1993) e Adriana Varejão (nascida em 1964), cuja obra Cena de Interior II (1994) foi uma das que causou maior indignação. A artista compilou imagens de algumas práticas sexuais históricas, literárias e culturais, fazendo referência aos chungas (gravuras eróticas japonesas clássicas), às esculturas milenares que decoram os templos de Khajuraho (Índia) e outros trabalhos que participam da história da arte do Ocidente. No mesmo ano, o Museu de Arte de São Paulo inaugurou a exposição Histórias da Sexualidade, com mais de 300 trabalhos, que tratam do corpo da arte pré-colombiana à moderna; da popular à contemporânea; da sacra à conceitual, contidas na arte africana, asiática, europeia e nas Américas. Nicolas Poussin (1594- 1665), Jean-Auguste Dominique Ingres (1780-1867), Édouard Manet (1832-1883), Edgar Degas (1834-1917), Auguste Renoir (1841-1919), Paul Gauguin (1848-1903), Pablo Picasso (1881-1973), Egon Schiele (1890-1918), Letícia Parente (1930-1991), Valie Export (nascida em 1940), Marta Minujin (nascida em 1943), Ana Mendieta (1948-1985) e Adriana Varejão (nascida em 1964), com a mesma Cena de Interior II, se fizeram presente. Entretanto, o MASP estipulou a idade mínima de 18 anos para o público, de acordo com o guia de classificação do Ministério da Justiça. Michel Foucault (1926-1984) é autor dos três volumes de História da Sexualidade, escritos na década de 1970, nos quais discorre sobre o lugar da sexualidade na sociedade ocidental. O filósofo acredita que a sexualidade não é um determinante da natureza, mas um dispositivo histórico, ou seja, uma malha trançada por um composto de práticas, discursos, estimulações, intensificação de prazeres e formação de conhecimentos (FOUCAULT, 1980). Foucault se valeu da noção de biopolítica para estudar e problematizar as questões em torno da sexualidade e dos cidadãos ocidentais modernos, de modo a discutir também sobre a moralidade. Os três volumes de História da Sexualidade, de Michel Foucault, são: A Vontade do Saber; O Uso dos Prazeres e O Cuidado de Si. NOTA TÓPICO 2 — ARTE E CONFLITOS 171 A noção de identidade sexual está inclusa na política de gênero constante na contemporaneidade, e as manifestações artísticas dão foco a essa visibilidade discutindo sobre as reações que um novo corpo pode ocasionar. Nesse viés, a temática liga-se diretamente aos direitos humanos, sobretudo quando incitam as perguntas: “Por que corpos fora dos padrões normativos incomodam?”. A chilena-alemã Lorenza Böttner (1959-1994) discorre sobre a normalização do corpo e do gênero.A artista trans teve seus dois braços amputados na infância em decorrência de um acidente e pesquisa as possibilidades de vida de um corpo múltiplo, por meio da dança, fotografias, pinturas e desenhos. 3 DIREITOS DA MULHER “Ela era intensamente compreensiva. Ela era imensamente encantadora. Ela era absolutamente altruísta. Ela se destacava nas difíceis artes da vida em família. Ela se sacrificava diariamente” (WOOLF, 2019, p. 31). Tratando-se da cultura ocidental, por muito tempo as mulheres foram tidas como inferiores, inclusive, na Grécia Antiga, não eram consideradas como cidadãs, assim como ocorria com os escravos. A elas eram destinadas as tarefas de manutenção do lar e da família, as quais também foram consideradas de menor relevância. O papel social das mulheres estava atrelado à ideia de sacrifício juntamente a um ideal religioso, e se houvesse alguma desobediência, ao homem era direito o uso da violência. Em História da Inglaterra, o historiador George Macaulay Trevelyan (1876-1962) faz um relato de meados de 1470: [...] Bater na esposa era um direito reconhecido do homem, praticado sem embaraço tanto por ricos quanto por pobres [...] Da mesma forma, a filha que se recusasse a casar com o cavalheiro da escolha de seus pais estaria sujeita a ser presa, espancada e jogada de um lado para outro sem que isso chocasse a opinião pública” (WOOLF, 2014, p. 31). Transformações sociais, políticas e culturais se deram com a Revolução Francesa (1789), de modo que Olympe de Gouges (1748-1793), sob o pseudônimo Marie Gouze, elaborou a Déclaration des droits de la femme et de la ciyoyenne (1791), em Paris. No primeiro artigo consta: “a mulher nasce livre e permanece igual ao homem em [termos de] direitos. As distinções sociais [entre eles] não podem ser fundamentadas, a menos que haja interesse comum” (LEME, 2019, p. 18). Aos 45 anos, Gouges foi guilhotinada em praça pública por sua atuação política. A luta das mulheres pelos seus direitos permanece e caminha a passos lentos. Muitas foram cunhadas de loucas e internadas. Lima (2016, s.p.), em uma pesquisa sobre os manicômios brasileiros do século XX, investigou prontuários de algumas delas, os quais ratificam que inúmeros diagnósticos se davam sob 172 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE comportamentos tidos como desviantes dos estereótipos de gênero. “Gênio independente”, “não obedecia ao pai”, “separou-se do marido”, “escrevia livros”, “trabalhava muito”, “era preguiçosa”, “apaixonou-se por um rapaz”, “cantava o dia todo”, “desobedeceu ao patrão”, “reclamava do salário”, “inclinações políticas subversivas” eram condutas consideradas patológicas. Na série de gravuras Os Caprichos, de Francisco Goya, há imagens de mulheres tidas como bruxas. Nesses trabalhos, o artista faz uma crítica ao cotidiano, aos costumes e à cultura da Espanha do século XVIII. INTERESSA NTE Mesmo havendo o reconhecimento dos direitos das mulheres, que ora trabalham, votam, têm acesso à educação, integridade e autonomia de seus corpos, muitos permanecem na teoria, comprovado por taxas de feminicídio e discriminações no mercado de trabalho. Tal situação não é diferente na história da arte, uma vez que poucas artistas aparecem nos livros, na história oficial. Moreschi (2017) fez uma análise em onze livros de História da Arte e encontrou 2.443 artistas, dentre os quais, 215 (8,8%) são mulheres, 22 (0,9%) são negras/negros e 645 (26,3%) são não europeus; desses, somente 246 não são provenientes dos Estados Unidos. Quanto às técnicas utilizadas, 1.566 são pinturas. A partir desses números, 15 mil panfletos (13 mil em português e 2 mil em inglês) foram elaborados e distribuídos na entrada de museus e centros culturais de diversos países no ano de 2017. O material, com gráficos e tabelas, ratificava o caráter excludente da História da Arte Oficial. Assim, o autor conclui que “a História da Arte é a área das ciências humanas em que se constrói uma narrativa sobre a criação de objetos e experiências realizados, em sua maioria, por homens brancos, europeus, estadunidenses e pintores (alguns, gênios) [...]” (MORESCHI, 2019, p. 43). A pesquisa foi apresentada como obra de arte, e propõe a conscientização da discriminação de gênero e etnia presente na edificação do discurso da história. Neste viés, o autor provoca uma reflexão às instituições culturais: “o que diretores/diretoras e curadores/curadoras dos museus têm a dizer sobre o cenário aqui apresentado? Que ações concretas estão sendo tomadas para que os acervos que coordenam deixem de ignorar as produções artísticas de mulheres, negras e negros, indígenas e não europeus, por exemplo?” (MORESCHI, 2019, p. 40). TÓPICO 2 — ARTE E CONFLITOS 173 FIGURA – BRUNO MORESCHI. A HISTÓRIA DA_RTE, 2017 FONTE: <https://brunomoreschi.com/Historyof_rt>. Acesso em: 3 dez. 2020. Em 2019, o Museu de Arte de São Paulo – MASP, promoveu a exposição Histórias das Mulheres/Histórias Feministas, dando visibilidade às artistas esquecidas pela história anterior a 1900, além de mostrar a produção contemporânea posterior a 2000. NOTA As suecas Eva Marie Lindahl (nascida em 1976) e Ditte Ejlerskov (nascida em 1982) também enfatizaram o apagamento de artistas mulheres nos livros de História da Arte. Elas pesquisaram a coleção Basic Art, da editora Taschen; dos 97 livros publicados, apenas cinco eram de mulheres. Com essa informação, Lindahl e Ejlerskov elaboraram uma carta questionando os motivos da exclusão, juntamente ao nome de cem protagonistas que preenchem os requisitos básicos da editora para a publicação. Tal fato também resultou na obra About: The Blank Pages, na qual estão os designs de possíveis capas dessas cem artistas sugeridas, porém, as páginas internas estão em branco. A francesa Adrienne Grandpierre-Deverzy (1798-1869) também tem o foco para as condições diferentes para homens e mulheres, por isso coloca lado a lado a obra Atelier d’Abel de Pujol, de 1822 e Atelier d’Abel de Pujol, de 1836, ambas retratando cenas de ateliers de pintura do século XIX. Na época, Abel de Pujol aceitava tanto homens quanto mulheres como alunos, mas Deverzy denuncia o tratamento diferente dado a cada um deles. Na tela de 1822, o ateliê compreende jovens alunas que trabalham em telas em pequenos formatos (menor valor), enquanto que na de 1836 o ambiente é masculino, com apenas um artista pintando em grandes dimensões, além de um modelo vivo. Deverzy evidencia as condições de trabalho e a desvalorização das artistas mulheres. 174 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE FIGURA 22 – ADRIENNE GRANDPIERRE-DEVERZY. ATELIER D´ABEL DE PUJOL (1822) FONTE: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/78/Adrienne_Marie_Louise_Gran- dpierre-Deverzy%2C_The_Studio_of_Abel_de_Pujol%2C_Mus%C3%A9e_Marmottan_Monet.jpg>. Acesso em: 16 jan. 2020. FIGURA 23 – ADRIENNE GRANDPIERRE-DEVERZY. ATELIER D´ABEL DE PUJOL (1836) FONTE: <http://www.mheu.org/fr/chronologie/atelier-pujol.htm>. Acesso em: 16 jan. 2020. Para falar das mulheres que participam da história, a inglesa Carolina Cayedo (nascida em 1978) elaborou um painel com o retrato de muitas delas. Em My feminine Lineage of Environmental Struggle (2018-2019) estão mulheres ambientalistas; no primeiro conjunto estão militantes de diversos países, enquanto o segundo se concentra nas brasileiras: no verso, estão suas histórias de vida. São mulheres que foram assassinadas, violadas, ameaçadas ou criminalizadas, compondo uma genealogia de luta e consciência política. TÓPICO 2 — ARTE E CONFLITOS 175 Criada em 2010, a ONU Mulheres pretende garantir a proteção a meninas e mulheres, livre de discriminação, violência e pobreza, com o preceito da igualdade de gênero como substancial para o desenvolvimento da humanidade. Acesse: ONU Mulheres: http://www.onumulheres.org.br/.ONU Mulheres Brasil: http://www.onumulheres.org.br/onu-mulheres/sobre-a-onu-mulheres/. DICAS 4 QUESTÕES DE RAÇA A escritora e artista portuguesa Kilomba (2016, s.p.) coloca que “o racismo é uma problemática branca”, para dizer que o racismo se relaciona com o poder e com privilégios, os quais, historicamente, a população negra não obteve. Por isso, entende que a diferença depende do referencial. “Eu só me torno diferente se a pessoa branca se vê como ponto de referência, como a norma da qual eu difiro. Quando eu me coloco como a norma da qual os outros diferem de mim, aí os outros se tornam diferentes de mim. Então é preciso a desconstrução do que é diferença” (KILOMBA, 2016, s.p.). “Eu não sou discriminada porque eu sou diferente, eu me torno diferente através da discriminação” (KILOMBA, 2016, s.p.). Portanto, as diferenças muitas vezes são postas para aqueles que estão fora das estruturas de poder, tanto as institucionais quanto as cotidianas, ainda resquícios do período escravagista. No artigo A Máscara, Kilomba (2010, p. 172) discorre sobre as máscaras de silenciamento, objetos que constituíam o projeto colonial europeu. [...] A máscara era usada pelos senhores brancos para evitar que africanos/as escravizados/as comessem cana-de-açúcar ou cacau enquanto trabalhavam nas plantações, mas sua principal função era implementar um senso de nudez e de medo, visto que a boca era um lugar tanto de nudez quanto de tortura”. Tal objeto nos faz pensar sobre a política de silenciamento/esquecimento/ apagamento do outro, do diferente. Quem pode falar? O que acontece quando falamos? Sobre o que podemos falar? (KILOMBA, 2010). 176 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE FIGURA 24 – JACQUES ARAGO. ESCRAVA ANASTÁCIA, 1817-1818 FONTE: < https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f4/Escrava_Anastacia. jpg/526px-Escrava_Anastacia.jpg>. Acesso em: 3 dez. 2020. Escritora sobre o feminismo negro no Brasil, Djamila Ribeiro (nascida em 1980) sugere que a quebra do silêncio é essencial para a sobrevivência das mulheres negras que lutam para serem sujeitos políticos. Angela Davis (nascida em 1944), Audre Lorde (1934-1992) e Alice Walker (nascida em 1944) também debatem sobre questões contra-hegemônicas, sobre a “necessidade de não se calar sobre opressões como forma de manter uma suposta unidade entre grupos oprimidos, ou seja, alertam para a importância de que ser oprimido não pode ser utilizado como desculpa para legitimar a opressão” (RIBEIRO, s.d., s.p.). Assista à roda de conversa entre Grada Kilomba e Djamila Ribeiro, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ovSKrDLs9Ro. DICAS Na série Bastidores (1997), Rosana Paulino (1967-) imprime retratos de mulheres em tecidos; com a costura sobre os olhos e bocas indica justamente o emudecimento imposto. A artista coloca em debate os estigmas deixados pela escravidão e a violência sofrida pela população negra, trazendo à luz uma história escondida. Sempre pensei em arte como um sistema que devesse ser sincero. Para mim, a arte deve servir às necessidades profundas de quem a produz, senão corre o risco de tornar-se superficial [...]. No meu caso, tocaram-me sempre as questões referentes a minha condição de mulher e negra. Olhar no espelho e me localizar em um mundo que muitas vezes se mostra preconceituoso e hostil é um desafio diário. Aceitar as regras impostas por um padrão de beleza ou de comportamento que traz muito de preconceito, velado ou não, ou discutir esses padrões, eis a questão (PAULINO, 1997, s.p. apud PAULINO, 2009, s.p.). TÓPICO 2 — ARTE E CONFLITOS 177 FIGURA 25 – ROSANA PAULINO. DA SÉRIE BASTIDORES, 1997 FONTE: <http://amlatina.contemporaryand.com/wp-content/uploads/2019/02/rosana_paulino_ mam3@.jpg>. Acesso em: 16 jan. 2020. Em Amnésia (2015), de Flávio Cerqueira (nascido em 1981), uma criança negra derrama um balde de tinta branca sobre seu corpo, fazendo referência ao branqueamento da população, política europeia do século XIX que estimulava a mestiçagem. FIGURA 26 – FLÁVIO CERQUEIRA. AMNÉSIA, 2015 FONTE: <https://www.premiopipa.com/wp-content/uploads/2016/05/flavio-divulgacao- 752x490-752x480.jpg>. Acesso em: 16 jan. 2020. Nas pinturas de Dalton Paula (nascido em 1982), Zeferina e João de Deus Nascimento (2018), o artista também questiona os registros oficiais, uma vez que retrata personagens relevantes do Brasil que não tiveram suas imagens e suas histórias contadas nos livros. A angolana Zeferina veio para terras brasileiras como escrava, tornou- se uma líder abolicionista e uma das responsáveis pela criação do Quilombo do Urubu, no século XIX. Ao organizar um movimento em prol da liberdade na cidade de Salvador, foi presa e assassinada, tornando-se símbolo da resistência. 178 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE João de Deus Nascimento configura-se como um dos mártires da Conjuração Baiana (1798), movimento emancipacionista, separatista e popular. A coroa portuguesa sentenciou a morte de seus líderes, mas eles continuam vivos por meio da arte e da história divulgada por Paula. FIGURA 27 – DALTON PAULA. ZEFERINA E JOÃO DE DEUS NASCIMENTO, 2018 FONTE: < https://i0.wp.com/www.culturetype.com/wp-content/uploads/2018/12/dalton-paula- -zeferina-jo%C3%A3o-de-deus-2018.jpg?ssl=1>. Acesso em: 16 jan. 2020. Achille Mbembe (nascido em 1957) denomina necropolítica as mortes com a finalidade de controlar as populações. Tal conceito está presente em obras de muitos artistas, nas quais tangem temáticas de conflitos e barbáries sociais. Seguindo as ideias de biopolítica e biopoder, de Michel Foucault, Mbembe (2016, p. 123) questiona: “sob quais condições práticas se exerce o direito de matar, deixar viver ou expor à morte? Quem é o sujeito dessa lei?”. O biopoder foucaultiano dialoga com os conceitos de estado de exceção e estado de sítio, que verifica como se deu a base normativa do direito de matar. De todo modo, a compreensão de necropolítica é essencial para o entendimento das políticas que ferem os Direitos Humanos. A invisibilidade e a constante perseguição também está na videoarte Ymá Nhandehetama (2009), de Armando Queiroz (1968-), Marcelo Rodrigues (s.d.) e do guarani Almires Martins Machado (s.d.), cujo depoimento remete à memória indígena coletiva. O título da obra significa: “Antigamente fomos muitos”. Nós sempre fomos invisíveis. Os povos indígenas sempre foram invisíveis para o mundo. Aquele ser humano que passa fome, passa sede, que é massacrado, perseguido, morto lá na floresta, nas estradas, nas aldeias, este não existe. Para o mundo de fora existe aquele índio exótico que usa cocar, que dança, que canta, coisas para turista ver. Aquele INTERESSA NTE TÓPICO 2 — ARTE E CONFLITOS 179 que está lá na aldeia sofre da doença de ser invisível, de desaparecer. Ele quase não existe para o mundo do direito, principalmente para o mundo do direito, como ser humano. Como ser humano, ele desaparece. Se afoga no mar das palavras da burocracia, das teorias acadêmicas. Ele é afogado no meio das palavras quando a academia, os estudiosos entendem mais de índio que o próprio índio. Ele é invisibilizado pela própria academia. Ele perde a voz, perde o foco, perde a imagem. Ele volta novamente quando tem o conflito, quando a mídia procura a notícia para vender o jornal, mostra o índio morto, o índio bêbado, preguiçoso, como se vê nos livros. O índio que quer muita terra, o índio que tem muita terra, este aparece, e aquele índio como ser humano, aquele que tem direitos, este desaparece, este sempre desapareceu... vai sumindo aos poucos. É como um grito no silêncio da noite, ninguém sabe de onde veio, ninguém sabe onde encontrar. FONTE: <https://is.gd/CoSbpr>. Acesso em: 11 abr. 2020. Neste viés, as reflexões em torno da geografia, economiae identidade surgem no discurso de subjetividade. 5 A CENSURA NO BRASIL Conforme observamos o decorrer da história, constatamos que o direito de liberdade de expressão artística constantemente acarreta em tensões e conflitos. Mesmo havendo leis que legitimam esses direitos, discussões reacendem-se a cada manifestação. Quanto mais forte é o autoritarismo do governo, seja ele de direita ou de esquerda, mais calorosos são os embates, uma vez que estratégias de controle nem sempre são passivas. Na medida em que grupos políticos ou mesmo religiosos sentem-se alvo de alguma manifestação de arte, se valem de meios de poder para frear as expressões. Almeida (2017, s.p.) indica que “a liberdade de expressão é um pressuposto da dignidade humana (na aspiração das pessoas a expressar sua personalidade) e da democracia (na liberdade dos cidadãos para expressarem seus pensamentos)”. As frequentes retenções à liberdade de criação costumam gerar polêmicas que podem difundir mais amplamente o que pretendem conter. Queiroz (2017) enfatiza que a liberdade artística é decorrente da liberdade de expressão e caracteriza-se como direito humano fundamental, protegido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e pela Convenção Americana de Direitos Humanos. Assim, não compete ao Estado, por meio de qualquer órgão seu, nem mesmo o Judiciário, definir, previamente, o que pode ou não ser criado, produzido, encenado ou publicado como obra de arte. Nem sempre é assim que ocorre na prática. Expressões que denunciam ou questionam a moralidade, a ética, a sexualidade, a política e ideologias são frequentemente alvo daqueles que acreditam que detêm a verdade. 180 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE Para uma leitura mais aprofundada sobre os regimes de verdade, sugerimos A Ordem do Discurso, de Michel Foucault (publicado pela primeira vez em 1971). Acesse: http://www2.eca.usp.br/Ciencias.Linguagem/Foucault_OrdemDoDiscurso.pdf. DICAS Artistas, como Tania Bruguera e Ai Weiwei, enfrentam posicionamentos de censura com seus trabalhos. São tensões entre o controle e a liberdade que variam de acordo com a sociedade vigente e as leis de cada território. No Brasil, a Constituição indica: Art. 5º, inciso IX: É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença. Art. 220, parágrafo 2º: É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística (BRASIL, 1988, s.p.). Conforme salientamos, nem sempre a legislação é respeitada, a exemplo do filme Chico: um artista brasileiro, com direção de Miguel Faria Jr. (nascido em 1944), documentário que teve sua exibição proibida no Festival de Cinema Brasileiro de Montevidéu (Uruguai). Assista ao trailer do filme Chico: um artista brasileiro (2015). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tmX0SU_4hU4. DICAS No ano de 2017, o artista Maikon K. (s.d.) foi detido em decorrência da performance DNA de DAN, quando aparecia nu com um líquido sobre a pele que se ressecava até se quebrar, revelando sua pele. O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, protagonizada pela trans Renata Carvalho (s.d.) foi alvo de intensas manifestações. A performance La bete, do coreógrafo Wagner Schwartz (nascido em 1972), apresentada no Museu de Arte Moderna de São Paulo, a qual fazia referência à obra Bichos, de Lygia Clark (1920-1988), foi acusada de promover a pedofilia. Essas situações atestam que há resistência, ainda que velada, a algumas temáticas que se propõem debater, mesmo no século XXI. TÓPICO 2 — ARTE E CONFLITOS 181 Assista None of That (2015), vídeo de computação gráfica, de Isabela Pinho, Kriti Kaur e Anna Paddock, produzido pela Ringling College of Art + Design, o qual versa sobre a questão da censura na arte. Disponível em: https://vimeo.com/129934933. DICAS A argentina Marta Minujín (nascida em 1943) reuniu 25 mil livros que estavam em porões trancados pelos militares, durante o período da ditadura militar na Argentina, e construiu El Partenón de libros, no ano de 1983. Dentre os autores estavam G.W.F. Hegel (1770-1831), Adam Smith (1723-1790), Karl Marx (1818-1883), Sigmund Freud (1856-1939), Antonio Gramsci (1891-1937), Ernest Hemingway (1899-1961), Jorge Luis Borges (1899-1986), Marguerite Yourcenar (1903- 1987), Jean-Paul Sartre (1905-1980), Ernesto Sábato (1911-2011), Michel Foucault (1926- 1984) e até mesmo a Enciclopédia Salvat e exemplares da literatura infantil, como O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944). Na Documenta de Kassel 14 (2017), a artista repetiu a obra, mas desta vez com livros censurados em todo o mundo. FIGURA 28 – MARTA MINUJÍN. PHARTENON OF BOOKS, 2017 FONTE: <https://i.pinimg.com/236x/25/07/f2/2507f201d8fb2d212c4932b7b56d48e3.jpg>. Acesso em: 16 jan. 2020. 182 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE Dentre os livros censurados e que tiveram edições brasileiras estão: Aristophanes: Lysistrata (Lisístrata: a greve do sexo). Brown, Dan: The Da Vinci Code (O Código da Vinci). Carroll, Lewis: Alice’s Adventures in Wonderland (As aventuras de Alice no País das Maravilhas). Cervantes, Miguel de: The Ingenious Gentleman Don Quixote of La Mancha (O engenhoso cavaleiro Dom Quixote de La Mancha). Coelho, Paulo: The Alchemist (O Alquimista). Einstein, Albert: The Foundation of the General Theory of Relativity (A fundação da teoria geral da relatividade). Freud, Sigmund: Civilization and its Discontents (O mal estar na civilização). García Lorca, Federico: The Poet in New York (Um poeta em Nova York). Goethe, Johann Wolfgang von: The Sorrows of Young Werther (Os sofrimentos do Jovem Werther). Kafka, Franz: The Metamorphosis (A metamorfose). Kundera, Milan: The Unbearable Lightness of Being (A insustentável leveza do ser). Machiavelli, Niccolò: The Prince (O príncipe). Marx, Karl, und Friedrich Engels: Manifesto of the Communist Party (O manifesto comunista). Neruda, Pablo: Twenty Love Poems and a Song of Despair (Vinte poemas de amor e uma canção desesperada). Orwell, George: Animal Farm (A revolução dos bichos). Pasternak, Boris Leonidovich: Doctor Zhivago (Doutor Jivago). Remarque, Erich Maria: All Quiet on the Western Front (Nada de novo no front). Rushdie, Salman: The Satanic Verses (Os versos satânicos). Saint-Exupéry, Antoine de: The Little Prince (O pequeno príncipe). Salinger, J. D.: The Catcher in the Rye (O apanhador no campo de centeio). Swift, Jonathan: Gulliver’s Travels (Viagens de Gulliver). Twain, Mark: The Adventures of Tom Sawyer (As aventuras de Tom Sawyer). Voltaire: Candide or, All for the Best (Cândido, ou o otimismo). NOTA O Parthenon foi construído originalmente em Atenas entre 447 e 38 a.C., com dez metros de altura, setenta de comprimento e trinta de largura. O templo foi concebido para abrigar a estátua de ouro da deusa da sabedoria e das artes: Atena. Transformada em uma igreja cristã na Idade Média, depois em uma mesquita durante o Renascimento, o Parthenon tornou-se um símbolo da democracia e da supremacia cultural ocidental (BAL- BLANC, 2017). Saiba mais sobre Phaternon of Books no link: https://www.ufrgs.br/arteversa/?p=1102. NOTA TÓPICO 2 — ARTE E CONFLITOS 183 Para finalizar este tópico, sinalizamos mais um trabalho artístico censurado. Trata-se da peça teatral Roda Viva, escrita por Chico Buarque (nascido em 1944) e dirigida por José Martinez Correa (nascido em 1937). A Companhia de Teatro Oficina fez a montagem, que consistia em réplicas dos Parangolés de Hélio Oiticica, sendo usados pelos atores e atrizes enquanto cantavam a música que dá título à peça. Estreou pela primeira vez no ano de 1968, momento em que foi invadida e censurada pela polícia sob ordens do regime militar. Após 40 anos, a obra foi encenada novamente, fomentando a liberdade. 184 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico,você aprendeu que: • A arte está imbricada de política e coloca questões conflituosas diante dos sujeitos. • As mostras História da Sexualidade e Queermuseu discutiram sobre gênero e sexualidade, embora tenham sido censuradas. • Foucault discorreu sobre biopolítica. • Bruno Moreschi, Eva Marie Lindahl, Ditte Ejlerskov e Adrienne Grandpierre- Deverzy abordam os direitos da mulher. • Questões de raça são colocadas em foco por Jacques Arago, Rosana Paulino, Flávio Cerqueira e Dalton Paula. • Mesmo sendo, algumas vezes, alvo de repressão, a arte segue com liberdade expressiva. • Um exemplo de luta contra a censura está El Partenon de Libros, de Marta Minujin. 185 1 Muito se discute sobre gênero e sexualidade. Sobre a temática, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) Os nus da Capela Sistina foram cunhados de imorais e, consequentemente, encobertos. b) ( ) Michel Foucault escreveu História da Sexualidade em três volumes. c) ( ) A noção de identidade sexual está constante na política de gênero do século XIX. d) ( ) Cena interior II, de Adriana Varejão, fez parte de Queermuseu e de Histórias da Sexualidade, exposições de arte que ocorreram em 2017. 2 A censura é tema em vigora no Brasil e no mundo contemporâneo. Muitos artistas denunciaram tal prática. A esse respeito, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) A liberdade de expressão é protegida pelo DUDH, pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e pela Convenção Americana dos Direitos Humanos. b) ( ) A peça teatral Roda Viva foi censurada em 1968 e no ano de 2008. c) ( ) La Bete, de Wagner Schwartz, fazia referência aos Bichos, de Lygia Clarck. d) ( ) Dentre as obras utilizadas por Marta Minujín em Phartenon of Books, estavam livros que tiveram edições brasileiras. 3 Conheça o trabalho de Kara Walker e, a partir dele, discorra acerca da problemática que concerne aos direitos humanos a qual a artista toma como poética. Acesse: www.karawalkerstudio.com. AUTOATIVIDADE 186 187 UNIDADE 3 TÓPICO 3 — ÉTICA, MEIO AMBIENTE E ARTE 1 INTRODUÇÃO Uma propensão contemporânea é a conexão do universo da arte com a sustentabilidade. Há a busca por uma estética que amplie as reflexões acerca das alterações sofridas pelo meio ambiente e fomentadas pela sociedade do consumo. Muitos artistas almejam auxiliar na transformação de valores que beneficiem o mundo, é nesse viés que este tópico apresenta os trabalhos artísticos que versam sobre a natureza e a sustentabilidade, incentivando a preservação ambiental, pautados na ética. O desenvolvimento sustentável é, certamente, o foco da contemporaneidade, e abarca a degradação do meio ambiente, mudanças climáticas, perda da biodiversidade, além da relação entre a esfera social e a ecológica. Questionamentos sobre o modo de consumo, de produção e de vida são cada vez mais urgentes, afinal, “o processo de globalização, destituído de postura ética e moral perante a sociedade humana, tem fomentado o desequilíbrio cumulativo da natureza e o surgimento de graves problemas sociais, culturais e econômicos” (ONO, 2006, p. 27). Na busca por um desenvolvimento sustentável, os produtos precisam estar atrelados ao duradouro, à desaceleração do ciclo de substituição e, consequentemente, prevenindo a descartabilidade. Pesquisas em torno de novas maneiras de produção e de consumo, de fontes de energia renováveis, de bens coletivos, visam proteger os recursos naturais. A arte, enquanto comunicadora e amplificadora da visão e entendimento de mundo, beneficia a proteção ambiental e a reconfiguração de práticas na sociedade, afinal, o apelo hodierno para repensar questões ecológicas adentra os comportamentos dos indivíduos e da coletividade que respeitam os recursos naturais. Em 1987, o relatório de Brundtland (documento elaborado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento) empregou o termo “sustentabilidade” definindo-o como a “capacidade de atender às necessidades de recursos naturais da geração presente, sem comprometer a oferta às gerações futuras” (GADOTTI, 2001, p. 34). Apesar de outras conceituações estarem vigentes, todas primam pela convergência entre sujeito e meio ambiente em um dinâmico equilíbrio. 188 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE 2 MEIO AMBIENTE E O MUNDO DA ARTE: O INÍCIO DE UM ENCONTRO O termo sustentabilidade adentra o campo da arte somente em 1998, no momento em que, na Conferência sobre Políticas Culturais para o Desenvolvimento, realizada pela UNESCO (Estocolmo), é posto: “o desenvolvimento sustentável e progresso cultural dependem reciprocamente um do outro” (UNESCO, 1998). Com o Manifesto de Tutzinger, em 2001, evidencia-se o diálogo entre sustentabilidade e arte. “Se o sustentável deve fascinar e ser atrativo, deve despertar os sentidos e ser lógico, então a categoria beleza transforma-se em matéria construtiva elementar de um futuro, em um meio de vida acessível a todos os seres humanos” (SIQUEIRA, 2010, p. 90). O Manifesto de Tutzinger resulta do movimento artístico que se organiza na Conferência da Sociedade Alemã para a Política Cultural. NOTA Não obstante, apesar da oficialização dessa relação, a crítica já era constante nos trabalhos artísticos no decorrer da história, sendo que “uma das marcas da obra de Claude Monet (1840-1926) era o estudo da luz difusa, nessa busca se deparou com smog de Londres. Isso originou obras que mostram a fumaça de carvão cuspida pelas chaminés e trens na cidade” (CHIAPPETA, s.d.). Smog quer dizer nevoeiro (fog) contaminado por fumaça (smoke). NOTA TÓPICO 3 — ÉTICA, MEIO AMBIENTE E ARTE 189 FIGURA 29 – CLAUDE MONET. THE GARE SAINT-LAZARE, 1877 FONTE: <https://www.nationalgallery.org.uk/paintings/claude-monet-the-gare-st-lazare>. Acesso em: 23 jan. 2020. O desperdício e o descarte, tão comuns na era do consumo, acarretou o problema da acumulação de lixo principalmente nas áreas urbanas. Argan, em Arte Moderna (1992), já discorria em favor da arte com materiais descartados, atestando a urgência de se pensar em reconfigurar práticas cotidianas. Kurt Schwitters (1887-1948) é um dos artistas que se valia de elementos/objetos recolhidos e os reconfigurava (em uma colagem cubista) em seus trabalhos. Ele pretendia enfatizar que os objetos do real e o espaço artístico se intercambiam “de modo que as coisas da realidade podem passar para a pintura sem alterar sua substância” (ARGAN, 1992, p. 359). Não há nada de lastimável ou patético no gesto de recolhê- las, e não porque este venha a revelar alguma da sua beleza secreta e ignorada. Mas, por serem coisas ‘vividas’, comporão no quadro, com outras coisas igualmente ‘vividas’, uma relação que não é a consecutiva lógica de uma função organizada, e sim a trama intrincada e, no entanto, claramente legível da existência. Ou, talvez, do inconsciente que, como motivação profunda, determina o fluxo incoerente da vida cotidiana (ARGAN, 1992, p. 360). FIGURA 30 – KURT SCHWITTERS. MERZ KONSTRUCTION, 1921 FONTE: <https://d3swacfcujrr1g.cloudfront.net/img/uploads/2000/01/002670187013.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. 190 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE De todo modo, a arte tem papel relevante no mundo que vê a premência em direcionar seu olhar para a sustentabilidade. Enquanto promotora de reflexão acerca de questões ambientais, não fica restrita ao uso de materiais, mas ao seu simbolismo, tornando, eles próprios, a mensagem. Assim, ela questiona ações e incita mudanças de comportamento. 3 ARTE COMO ATIVISMO AMBIENTAL A arte representa e contesta práticas culturais, diante do que as sociedades vivem e pensam em cada período histórico. Ela pode ser uma ferramentade ativismo. Afinal, no momento em que confronta o espectador com informações desagradáveis, o faz unida à estética, de modo que tanto a racionalidade quanto as emoções são acessadas por ele. De fato, uma imagem é mais difícil de se ignorar do que gráficos estatísticos. No momento em que a arte mostra a relação danificada entre sociedade e natureza, a urgência em agir se explicita. Ela dá visibilidade a problemáticas pouco discutidas na mídia, como a exploração de animais, as mudanças climáticas, o ciclo de vida dos produtos, a produção de alimentos e vestuário, a infraestrutura e transporte, o aumento de epidemias, o esgotamento de espécies, as mutações genéticas, entre outras. Em meio à inquietude política e social da década de 1960 e começo de 1970, aparece a arte ambiental, impulsionada pela urbanização crescente, o prenúncio da perda de contato com a natureza e as atitudes cada vez mais hedonistas. Na época, a Arte Póvera, movimento italiano da década de 1960, trazia à tona a efemeridade da arte e o valor dado aos materiais “pobres”, simples e naturais. O termo foi cunhado por Germano Celant (nascido em 1940), no catálogo da exposição “Arte povera – Im Spazio”, em 1967, na cidade de Veneza. Dentre suas críticas estava o intenso consumismo, a industrialização e a comercialização da arte. São expoentes: Mário Merz (1925-2003), Marisa Merz (1926-2019), Michelangelo Pistoletto (nascido em 1933), Giovanni Anselmo (nascido em 1934) e Jennis Kounellis (nascida em 1936), entre outros. Arte ambiental” é um termo genérico que se refere a uma ampla gama de trabalhos que ajudam a melhorar a nossa relação com o mundo natural. Seja informando sobre as forças ambientais ou demonstrando problemas ambientais, e até com uma participação mais ativa, reaproveitando materiais e restaurando a vegetação local. Muitas práticas artísticas, como a land art, a eco arte e a arte na natureza, bem como os desenvolvimentos relacionados em prática social, ecologia acústica, slow food, slow fashion, eco-design, bio-art e outros podem ser considerados como parte desta mudança cultural maior (CHIAPETTA, s.d.). Art in Nature configura-se como a arte feita com materiais orgânicos encontrados e rearranjados, muitas vezes, no mesmo local. Como trata-se de uma arte efêmera, a documentação torna-se essencial. Grande expoente é Andy Golsworthy (nascido em 1956). NOTA TÓPICO 3 — ÉTICA, MEIO AMBIENTE E ARTE 191 Dentre os primeiros trabalhos ambientais está Time Landscape (1965- 1978), do norte-americano Alan Sonfist (nascido em 1946). A obra consistia na recriação da paisagem do Século XVII, com o plantio de árvores nativas. O terreno baldio transformou-se em uma ilha verde dentro de Nova York, uma metrópole que, assim como muitas, apresenta problemas ambientais em detrimento do desenvolvimento econômico e industrial. FIGURA 31 – ALAN SONFIST. TIME LANDSCAPE, 1965-1978 FONTE: <https://i.pinimg.com/236x/c9/77/30/c97730d7093703cdc06eb504abfd9e3e-- sustainability-creativity.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. O trabalho de Sonfist dialoga com a Land Art, a qual não discorre de maneira enfática sobre questões ambientais, entretanto, relaciona-se intimamente com a paisagem. Grandes arquiteturas surgem em lagos, desertos, cânions, de modo que há uma integração e transformação harmônica entre arte e natureza. São expoentes: Walter de Maria (1935-2013), James Turrell (nascido em 1943), Christo Javacheff (1935-) e Jeanne-Claude (1937-2009). Aqui devemos falar também da francesa Sylvain Meyer (s.d.), que cria obras na floresta com os materiais ali encontrados, e Jim Denevan (nascido em 1961), cujos trabalhos precisam de fotografias aéreas para a visualização e a compreensão total. NOTA De fato, a arte vincula-se com o seu entorno, em um diálogo com a sociedade, nada mais natural, portanto, que questões ambientais vigorem na produção contemporânea. “As artes estão muito bem equipadas para tocar os sentimentos e as emoções, podendo influenciar o comportamento humano, suas visões de mundo e estilos de vida” (DIELEMAN, 2006, p. 125). Por meio da expressão artística é possível redefinir significações do real, ultrapassar limites, ir além do institucionalizado, denunciar/mostrar/criticar as problemáticas do mundo por meio do símbolo e da estética. Assim, a arte pode atuar como um reflexo do que a sociedade e os sujeitos sentem, pensam e fazem. 192 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE “Cada vez mais, deveriam ser criados espaços no limiar entre a área artística e as diferentes esferas de vida, nas quais se realizassem, por longos períodos, e a um só tempo, trabalhos experimentais artísticos, científicos e sociais, em prol de uma modernidade sustentável” (KURT, 2006, p. 143). Em manifestação direta contra os problemas ambientais está o polonês Frans Krajcberg (1921-2017), que se radicou no Brasil após ter perdido sua família em um campo de concentração. Para suas obras, o artista recolhe troncos queimados e raízes de áreas desmatadas, em uma tentativa de conservar o que ainda existe. Ele também faz registros fotográficos com a finalidade de denúncia. “Meus trabalhos são meu manifesto. O fogo é a morte, o abismo. Ele me acompanha desde sempre. A destruição tem formas. Eu procuro imagens para meu grito de revolta”, afirma Krajcberg (LAMSABU, 2009). FIGURA 32 – FRANS KRAJCBERG. FLOR DO MANGUE, 1970 FONTE: <https://d3swacfcujrr1g.cloudfront.net/img/uploads/2000/01/000934014019.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. O Instituto Frans Krajcberg foi criado em 2003 no Jardim Botânico em Curitiba. Em 2008, durante uma exposição na Oca no Parque do Ibirapuera, o artista participou do debate Desafios Atuais da Arte e Ecologia, objetivando discutir sobre a capacidade das mobilizações culturais na contemporaneidade poderem mobilizar a sociedade diante das temáticas ambientais. NOTA Krajcberg adiciona pigmentos naturais ao que encontra, intentando conferir vida à natureza já destruída. Os elementos da natureza e os resíduos deixados pelo homem indicam uma nova narrativa: a urgência de um olhar e pensamento crítico sobre a sociedade do consumo. A arte como denúncia, como manifesto ou enquanto se vale do simbolismo dos objetos utilizados, de fato, contribuem para repensar a sustentabilidade e os desafios da contemporaneidade. TÓPICO 3 — ÉTICA, MEIO AMBIENTE E ARTE 193 A sustentabilidade é levada para o campo das artes cênicas. Para saber mais, veja o artigo “Arte e sustentabilidade: argumentos para a pesquisa ecopoética da cena”, disponível no link a seguir: https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/moringa/article/view/4800. DICAS Além de Krajcberg, vemos o ativismo em Joseph Beuys. O artista foi um dos fundadores do Green Party em 1982, plantou 7000 mudas de carvalho como proposta para a Documenta de Kassel. Já Aviva Rahmani (s.d.), com Blue Rocks, conferiu foco a um estuário degradado em Vinalhaven Island (Maine). Com a reverberação do trabalho, o departamento de agricultura dos Estados Unidos (USDA) investiu 500 mil dólares na restruturação da região. Em outras localidades, ela pinta de azul os troncos das árvores. FIGURA 33 – AVIVA RAHMANI, BLUE ROCKS, 2002 FONTE: <https://myhero.com/content/images/thumbs/0041122.jpeg>. Acesso em: 23 jan. 2020. O Campo de Trigo (1982), de Agnes Denes (nascida em 1931), levou seis meses para ser criado. Trata-se do plantio de um campo de trigo dourado em um aterro coberto de escombros, próximo do Wall Street e do World Trade Center, em Manhattan (agora o local do Battery Park City e do World Financial Center). Para tanto, a artista teve o apoio do Fundo de Arte Pública e questiona as possibilidades de produção de um terreno baldio. Após o trabalho, mais de dois mil quilos de trigoforam doados para 28 cidades pelo mundo. 194 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE FIGURA 34 – AGNES DENES. O CAMPO DE TRIGO, 1982 FONTE: <https://m4k2a8u2.stackpathcdn.com/wp-content/uploads/2019/04/trigo_nova_york_ capa.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. Wendy Oscher (s.d.) chamou atenção para a água contaminada e como ela é prejudicial às gerações vindouras, por meio do leite materno. A obra consistia na utilização do plástico para mamas de crochê, feitas por várias mulheres, de modo a também questionar a dependência do homem diante dos sacos plásticos. FIGURA 35 – WENDY OSCHER. PROJECT DESCRIPTION AND GUIDERLINES, 2011 FONTE: <http://3.bp.blogspot.com/-boGLLNwrbm8/TqoMV5RMaLI/AAAAAAAAAEY/ blYjKBEpYyM/s320/sl_shallow_19.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. Néle Azevedo (nascida em 1950) ficou conhecida pela intervenção pública Monumento Mínimo, na qual faz uma subversão dos monumentos convencionais: a escala se dá em centímetros, os personagens ilustres são substituídos por pessoas comuns e o material não é durável. Em Melting Men são usados milhões de bonequinhos de gelo, onde o foco também recaiu sobre outra questão: a ambiental. Em parceria com o World Wildlife Fund, em 2009, a artista levou mil deles para a Praça Gendarmenmarkt, em Berlim. Na ocasião, houve a divulgação do relatório do WWF sobre o aquecimento do Ártico. TÓPICO 3 — ÉTICA, MEIO AMBIENTE E ARTE 195 FIGURA 36 – NÉLE AZEVEDO. MELTING MEN, 2009 FONTE: <http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/foto/0,,21828436-EX,00.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. Patricia Johanson (nascida em 1940) prima por infraestruturas funcionais que intentam a recuperação de ecossistemas impactados. Seus projetos envolvem trilhas inusitadas e paisagismo, reintroduzindo espécies de animais e vegetais ameaçados de extinção, criando lagoas de oxidação natural para melhorar a qualidade da água etc. Johanson colabora com engenheiros, urbanistas, cientistas e grupos comunitários para criar sua arte fundindo as necessidades funcionais dos seres humanos com a nossa responsabilidade coletiva de manejo ecológico (eCYCLE, s.d., s.p.). FIGURA 37 – PATRÍCIA JOHANSON. FAIR PARK LAGON, 1985 FONTE: <https://i.pinimg.com/236x/0a/9f/3f/0a9f3f0e3099583541ed94844a5ebb50--texas-u- sa-dallas-texas.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. Ane-Katrin Spiess (s.d.) realiza instalações com o intuito de pensarmos sobre a reconexão do homem com o meio, uma vez que nossa existência não se desvincula da saúde planetária. 196 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE FIGURA 38 – ANE-KATRIN SPIESS. YUCCA PLANT UTAH, 2000 FONTE: <https://i.pinimg.com/236x/4e/d0/5f/4ed05f7922dac5135573a752897268e4--yucca- -plant-art-object.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. A arte sustentável tem em vista que qualquer atividade humana afeta o seu entorno. Assim, muitos artistas fazem uma análise do impacto ecológico de sua construção e exposição e muitas delas envolvem a restauração do lugar ou ficam a serviço dos ecossistemas e comunidades. O seu intento está nas mudanças estruturais a longo prazo em prol da natureza e frequentemente contam com a colaboração de arquitetos, engenheiros, educadores e ciência. Assista ao documentário Lixo Extraordinário, que mostra o trabalho do brasileiro Vik Muniz (nascido em 1961) e sua relação com a comunidade próxima de um aterro sanitário. https://www.youtube.com/watch?v=JLTY7t8c_x0. DICAS A Virada Sustentável – principal evento de sustentabilidade no Brasil –, na sua edição de 2014, procurou associar as artes visuais das organizações socioambientais, tornando o Parque Ibirapuera um museu a céu aberto, com cinco instalações que versavam sobre consumo consciente, resíduos sólidos, água, recursos naturais e direito da criança, provenientes das causas do Instituto Akatu, Afroreggae, PanoSocial e SOS Juventude, SOS Mata Atlântica, WWF- Brasil e Instituto Alana. TÓPICO 3 — ÉTICA, MEIO AMBIENTE E ARTE 197 Saiba mais no link: https://ciclovivo.com.br/vida-sustentavel/bem-estar/ instalacoes-artisticas-transformam-ibirapuera-em-museu-de-sustentabilidade/. DICAS 4 A APROPRIAÇÃO DOS RESÍDUOS “Os artistas descobrirão nas coisas ordinárias o sentido de ser ordinário. Não tentarão torná-las extraordinárias, mas apenas exprimir o seu significado real” (KAPROV, 1958, p. 7). Chiarelli (1999, p. 258) enfatiza que “é como resíduo que a arte neste século, em muitos casos, tem encontrado o seu sentido”. Renata de Andrade faz jus à fala do teórico quando se vale de resíduos para criticar o consumo. A artista coleciona objetos industrializados que já foram descartados e os coloca em outra disposição, afinal já foram desprovidos de sua função original. FIGURA 39 – RENATA ANDRADE. 2020 FONTE: <http://museuvictormeirelles.museus.gov.br/wp-content/uploads/2016/02/161.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. Note que, enquanto Renata Andrade não interfere na constituição dos objetos industrializados recolhidos, Krajcberg agrega pigmentos aos resíduos da natureza. NOTA 198 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE Tudo o que é esquecido ou mesmo abandonado pela sociedade é posto em realce por Andrade, como os catadores, muitas vezes invisíveis aos cidadãos, mas que fazem o trabalho de reintegrar o que não se decompõe (RESENDE, 2020). Ao resgatar os objetos nas ruas, a artista os eterniza no momento em que reorganiza os elementos em suas instalações. Veja o artigo O Estranho: Ensaio Sociológico sobre o Estranhamento Social (2009), disponível no link a seguir: https://oatd.org/oatd/record?record=oai%5C%3Awww.bdtd.ufjf.br%5C%3A675. DICAS Henrique de Oliveira também propõe que repensemos o descarte e o reaproveitamento, no momento em que dá ênfase a matérias-primas de baixo valor em seus Tapumes. Interessa a ele “explorar as possibilidades estéticas inerentes a este material, desgastado pela ação do tempo e da intempérie, e trazê- las à tona, para o lado de cá” (AMADO, 2006, p. 3). A invisibilidade do que está no cotidiano também é posto em questão, uma vez que os restos de tapumes utilizados em construções ratificam o desprezo do olhar para ele. “Olhar essas superfícies e vê-las sob o ponto de vista da arte quer dizer que elas podem ser ressignificadas pelo ato de pintar e ver pintura – um movimento que vai da arte para o mundo e vice-versa”, afirma o artista (OLIVEIRA, 2007, p. 21). Utilizando da matéria dos tapumes, ele o reorganiza, mas deixa evidente as suas origens: as lascas deterioradas e sua aspereza. FIGURA 40 – HENRIQUE OLIVEIRA. TAPUMES, 2009 FONTE: <https://www.artsy.net/artwork/henrique-oliveira-tapumes>. Acesso em: 23 jan. 2020. TÓPICO 3 — ÉTICA, MEIO AMBIENTE E ARTE 199 A seguir está a instalação Transarquitetônica, que: [...] tem como referência a rodovia transamazônica, construída para ligar o “nada a lugar nenhum”, é uma instalação que poeticamente discute a história da arquitetura racionalista criada no século passado, passando pelas construções precárias que aos olhos dos espectadores simulam uma “favela” até chegar aos primórdios abrigos dos homens das cavernas, ponto que obriga uma maior flexibilidade do espectador para chegar até o final. Para realizar toda essa transformação, o artista utilizou técnicas simples de construção como a alvenaria e a casa de barro, até chegar a estranha construção de tapumes, criando um labirinto que serpenteia as colunas da arquitetura original projetada por Oscar Niemeyer. Essa dicotomia entre Henrique Oliveira e Oscar Niemeyer leva o público a questionar todas as formas de ocupação do espaço a partir do épico e do grandioso (LISBOA, 2014, s.p.). FIGURA 41 – HENRIQUE OLIVEIRA. TRANSARQUITETÔNICA, 2014 FONTE: <https://vejasp.abril.com.br/atracao/henrique-oliveira-transarquitetonica/>. Acesso em: 23 jan. 2020. Embora Oliveira não discorra abertamentesobre sustentabilidade, ele o faz indiretamente quando fala: “[…] primeiro a aparência imediata da obra – uma instalação feita de retalhos, depois os compensados como produtos usados na construção civil e, por fim, as árvores que foram serradas e processadas pela indústria” (OLIVEIRA, 2007, p. 30). Enquanto Renata Andrade não modifica a sua matéria, Henrique de Oliveira a reinforma, mas ambos se apropriam de materiais industrializados, que foram consumidos e descartados, conferindo outra função a eles: símbolos da cidade, local de visibilidade e inseridos no circuito de arte. Não deixe de visitar o site do artista: http://www.henriqueoliveira.com/. DICAS 200 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE FIGURA 42 – SAYARA GANZ. S/T, S.D. FONTE: <https://sayakaganz.com/wp-content/uploads/2012/02/Emerg2013_VRwide960.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. Saiba mais sobre Sayara Ganz no site: https://sayakaganz.com/. DICAS Eduardo Srur (nascido em 1974) pretende uma arte bem-humorada, mas não isenta de crítica. Suas obras se inserem no cotidiano das cidades de maneira impactante, trazendo a reflexão também sobre o excesso de resíduos. Assim, o descarte não é utilizado enquanto matéria, como o fazem os artistas apresentados anteriormente, mas com simbolismo. FIGURA 43 – EDUARDO SRUR. PETS, 2008 FONTE: <http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/foto/0,,14321669,00.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. Se parte dos cidadãos não conhecem a real dimensão da problemática residual, Srur a coloca em seu caminho cotidiano, para que todos possam ver, assim, fomenta a mudança de hábito e não ficamos mais inertes. Inspiradas pela crença xintoísta de que todo objeto tem espírito (e os jogados fora choram à noite), Sayaka Ganz (nascida em 1976) edifica esculturas ecologicamente corretas com o uso do descarte. Se na natureza tudo é insumo de algo para completar um ciclo, na sociedade o descarte é produto humano. TÓPICO 3 — ÉTICA, MEIO AMBIENTE E ARTE 201 Veja a reportagem indicada no link a seguir, a qual atesta a quantidade de resíduos não degradáveis no ambiente. https://revistamarieclaire.globo.com/Noticias/noticia/2020/02/mulher-perde-fita-cassete- e-reencontra-25-anos-depois-em-exposicao-de-arte.html. DICAS 5 BIODIVERSIDADE Rodrigo Bueno (nascido em 1967) recupera resíduos da cidade e os transforma em ambientes que versam sobre a continuidade da vida e da cultura, em um incessante movimento da biodiversidade. Cabe observar que na instalação a seguir, os objetos e plantas são de Bruxelas, enfatizando as relações de simbiose entre ser artista e colecionador/antropólogo, ser criador e consumidor, e entre o ecossistema das cidades. FIGURA 44 – RODRIGO BUENO. COUVE DE BRUXELAS, 2014 FONTE: <https://catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2016/07/RODRIGO_ BUENO_obra_5-910x669.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. O coletivo BijaRi, formado por arquitetos, artistas, cenógrafos, planejadores, programadores, designers e diretores de vídeos, faz seus trabalhos questionando a utilização do espaço urbano e que é ali descartado. Ganham destaque os Carros-Verdes e as Praças Impossíveis. 202 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE FIGURA 45 – BIJARI. CARRO-VERDE, 2009 FONTE: <https://www.choquecultural.com.br/pt/2016/01/21/natureza-urbana-do-coletivo-bijari/>. Acesso em: 23 jan. 2020. Assim como nossa visão do espaço muda com Bueno e BijaRi, o britânico Andrew Goldsworthy (nascido em 1956) também faz com que o espectador perceba a natureza de modo diferente. FIGURA 46 – ANDREW GOLDSWORTHY. WOOD LINE, 2010 FONTE: <https://www.choquecultural.com.br/wp-content/uploads/2016/01/carro-verde-bija1.jpg>. Acesso em: 23 jan. 2020. O que olhamos todos os dias passa a não mais ser visto, mas com uma pequena mudança na configuração do espaço, a natureza, nesse caso, se sobressai diante de nós e clama por nossa ajuda. TÓPICO 3 — ÉTICA, MEIO AMBIENTE E ARTE 203 6 BIOGENÉTICA E ÉTICA Antes de adentrarmos à biogenética e à ética, pensemos que, se a sociedade e, consequentemente, a história estão em constante mudança, os Direitos Humanos também estão em permanente revisitação, com ampliações a partir de conflitos. Às vezes, positiva-se na lei um pacto extremamente opressivo, no qual se reconhece aos fracos, mal e mal, o direito de sobreviver, se possível, mas à medida que os fracos adquirem consciência de sua dignidade e da possibilidade de se tornarem fortes pela união e pela luta, pactos legais menos injustos podem ser conquistados. É dentro dessa dinâmica histórica que o Direito se constrói. Os Direitos Humanos não estão fora desse processo de criação contínua e conflitiva do Direito. [...] a exigência de uma ampliação de direitos, na Declaração Universal de Direitos Humanos, ao lado da busca de caminhos que efetivem, realmente, os direitos declarados, esteve bem presente durante a Conferência Mundial dos Direitos Humanos, que se reuniu em Viena, entre 13 e 25 de junho de 1993 (HERKENHOF, 1997, p. 179-180). Assim, há as chamadas gerações de Direitos, conforme sinalizado no primeiro tópico. Primeiramente surgiram os civis e políticos (na ocasião da Revolução Francesa e da Independência das Treze Colônias), depois os sociais, econômicos e culturais (época da Revolução Russa e após a Primeira Guerra Mundial), para, então, terem lugar os supraindividuais, que se referem à paz, à saúde e ao meio ambiente. O reconhecimento dos direitos sociais não pôs termo à ampliação do campo dos direitos fundamentais. Na verdade, a consciência de novos desafios, não mais à vida e à liberdade, mas especialmente à qualidade de vida e à solidariedade entre os seres humanos de todas as raças ou nações redundou no surgimento de uma nova geração – a terceira –, a dos direitos fundamentais. [...] Na verdade, não se cristalizou ainda a doutrina a seu respeito. Muita controvérsia existe quanto a sua natureza e a seu rol. Há mesmo quem os conteste como falsos direitos do Homem. Tal hesitação é natural, pois foi somente a partir de 1979 que se passou a falar desses novos direitos cabendo a primazia a Karel Vasak (HERKENHOF, 1997, p. 57-58). Sobre Karel Vasak, veja o artigo A Teoria Geracional dos Direitos Humanos, disponível em: http://www.theoria.com.br/edicao0310/a_teoria_geracional_dos_direitos_do_homem.pdf. DICAS 204 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE Somente após 1979 é que a ideia de não estabilização foi mais amplamente aceita. [...] útil é a noção de "três gerações de direitos humanos" elaborada pelo jurista francês Karel Vasak. Sob a inspiração dos três temas da Revolução Francesa, estas três gerações de direitos são as seguintes: a primeira geração se refere aos direitos civis e políticos (liberté); a segunda geração aos direitos econômicos, sociais e culturais (ègalité); e a terceira geração se refere aos novos direitos de solidariedade (fraternité) (PIOVESAN, 2000, p. 146-147). Há, de fato, uma interação entre os direitos, de modo que um fortalece o outro. Atualmente surgiram os de quarta e os de quinta geração, mas detenhamo- nos naqueles, os quais Paulo Bonavides (nascido em 1925) salienta que se dirigem à democracia, à informação e ao pluralismo. A esses ainda são acrescidos a mudança de sexo e a manipulação genética, de acordo com Ingo Sarlet (nascido em 1963) (HUMENHUK, 2004 apud NUNES, 2010). É nesse viés que atua Eduardo Kac (nascido em 1962), o qual utiliza a robótica, a engenharia genética e a biotecnologia em seus trabalhos, enfatizando que o artista dialoga com vários campos do saber, nesse caso, a botânica e a ciência. Inclusive, a arte digital e a transgênica foram por ele edificadas, além da holopoesia e da telepresença. Em Time Casule (1997), Kac implanta um microship em seucalcanhar esquerdo, para refletir acerca da ética na era digital e a relação entre memória artificial e identidade. Em GFP Bunny (2000), o artista nos apresenta uma coelha com Green Fluorescent Protein. FIGURA 47 – EDUARDO KAC. GFP BUNNY, 2000 FONTE: <http://www.ekac.org/albagreen.jpeg>. Acesso em: 23 jan. 2020. Paul Villinski (nascido em 1960), em parceria com o doutor Rudolph Mattoni, também pensa em manipulação, mas agora de ambiente, quando cria borboletas em uma estufa, com luz artificial. TÓPICO 3 — ÉTICA, MEIO AMBIENTE E ARTE 205 Saiba mais sobre o trabalho de Villinski com suas borboletas: https://vimeo.com/105715977. Aproveite e conheça suas obras, com forte apelo simbólico: http://www.paulvillinski.com/. https://youtu.be/vsIiEmonk6I. DICAS Para adentrar às discussões sobre ética/bioética, veja os trabalhos do iraniano Wafaa Bilal – sobretudo o 3rdi, de 2010 –, do australiano Stelarc – principalmente Ear on Arm, de 2006 –, e Orlan - A reencarnação da Santa Orlan, de 1991. Todos utilizam implantes em seus próprios corpos. NOTA Seguem sugestões de filmes que abarcam a sustentabilidade: O Sal da Terra (2014). Koyaanisqatsi (1982). Home (2009). Tome for Change (2010). Virunga (2014). Mission Blue (2014). Chasing Ice (2012). Mataram Irmã Doroty (2007). Cowspiracy (2014). Trashed – para onde vai nosso lixo (2012). In Transition 2.0 (2012). DICAS Ao longo do nosso Livro Didático, vimos os preceitos para realizar uma boa – e comunicativa – obra de arte ou mesmo objeto de design; como o simbólico adentra o universo imagético e é tão essencial a ele; e como o artista está em um forte diálogo com o mundo do seu tempo, ratificado pelos trabalhos de cunho ambiental e de denúncia dos Direitos Humanos. 206 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE Atrelado a tudo isso está a ética diante da arte e enquanto cidadão do mundo, em trabalhos de artistas como o multimídia John Felkner (s.d.), que denuncia o impacto antrópico sobre a natureza, por meio de stencils com símbolos e frases críticas pelas cidades da Suécia, Alemanha e Estados Unidos. Por que não lembrar do fotógrafo equatoriano Domingo Laso (1870-1927), que, no começo do século XIX, alterava os negativos das fotografias das paisagens, raspando placas de vidro as imagens dos indígenas que apareciam nas ruas de Quito. Sobre os borrões, inseria vestidos brancos e chapéus de amplas abas, fato que demonstra o olhar branco e elitizado das políticas higienistas. FIGURA 48 – JOSÉ DOMINGO LASO. TEATRO SUCRE, 1911 FONTE: <http://cadernos.festfoto.art.br/wp-content/uploads/2019/03/JOSE-DOMINGO-LASO- -EL-BORRON-001crop2.jpg>. Acesso em: 27 jan. 2020. Veja o livro: LASO, F. La huella invertida: antropologías del tiempo, la mirada y la memoria. La fotografía de José Domingo. Montevideo: Centro de Fotografia de Montevideo, 2017. DICAS De fato, em um mundo cada vez mais imagético do que textual, as artes visuais primam pela união do ético com o estético. 207 LEITURA COMPLEMENTAR A BELEZA DOS REJEITADOS NA OBRA DE RENATA ANDRADE Silvana Macêdo Grátis reúne esculturas, pinturas tridimensionais e fotografias de Renata de Andrade realizadas especificamente para o Museu Victor Meirelles. A palavra “grátis” muitas vezes é usada em propagandas para atrair consumidores, sempre ávidos para encontrar uma boa oferta. Talvez esta seja uma estratégia irônica usada pela artista para lembrar seu público de que os trabalhos apresentados lidam, em diversos níveis, com as questões postas pelo capitalismo global no qual estamos inseridos. Renata usa como ponto de partida objetos descartados, elevando o lixo ao status de arte, mas não o faz da maneira Duchampiana. É bom lembrar que os objetos que constituíam os ready-mades de Duchamp eram selecionados por um princípio de indiferença estética. Já na obra de Renata, seu critério é abertamente estético: ela rearranja o lixo de maneira harmoniosa em instalações, pinturas e esculturas, criando composições coloridas, vibrantes e sedutoras. Seu objetivo não é o de chocar ou agredir o público, mas parece querer reeducar seu olhar para encontrar beleza em situações inusitadas. Seu trabalho faz uma crítica aberta ao problema ambiental causado pela produção em massa de bens de consumo nas sociedades industriais. A artista comenta que se ocupa do “[...] imenso lixo produzido, abandonado, reciclado, revivido. As implicações da superprodução, as relações entre a riqueza e a extrema pobreza, o valor perdido, mas ainda existente, a beleza não reconhecida ou não vista” (Renata de Andrade em entrevista concedida por e-mail à revista Um ponto e outro). Portanto, sua atitude em relação ao lixo é ambígua: o lixo não é só um problema do qual queremos nos livrar, mas também pode ser substrato para contemplação estética. A artista parece querer seduzir seu público justamente com os rejeitos deste sistema de excessos, mas o contexto que suas intervenções se dão podem criar leituras distintas, às vezes de atração e repulsa ao mesmo tempo. Por exemplo, ver um pedaço de plástico em um rio ou numa praia muitas vezes causa revolta (especialmente pela preocupante quantidade de lixo que vai parar nos oceanos, gerando diversos problemas para a fauna marinha). Portanto, é justamente quando expostos no meio ambiente, seja em parques ou no contexto urbano, que as intervenções de Renata causam um certo desconforto, misturado com a atração pelas suas composições cuidadosamente construídas. 208 UNIDADE 3 — A CRÍTICA DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE Já dentro do espaço museológico, a obra parece apontar de uma outra maneira para o problema do lixo, que normalmente ninguém quer ver. Depois que o lixo sai da nossa casa, a tendência é não pensarmos mais onde vai parar tudo que jogamos fora. Renata nos traz de volta este material para nos fazer refletir. Ao expor o lixo do museu, é como se a artista expusesse ou quase constrangesse a instituição, criando uma situação de autocrítica. Renata nos lembra que todos nós estamos implicados nesta questão, pois mesmo aqueles que estão preocupados com a degradação ambiental, também poluem diariamente. As pinturas dos retratos em suportes diversos remetem novamente ao ambiente urbano, à linguagem visual das ruas, ao graffiti, aos desenhos de quadrinhos. Como na pintura de Philip Guston, Renata se apropria da linguagem dos quadrinhos, mas ao invés de usar o suporte tradicional de pintura, Renata explora os desenhos, cores, estampas florais de caixas encontradas ao acaso, ou seja, o imaginário de Renata se alimenta de resíduos da cidade, do contexto urbano e da cultura de massa. Outros artistas também se apropriaram de material proveniente da cultura de massa e questões relacionadas ao consumo, como artistas associados à Pop Art e posteriormente à crítica do mercado, mas o fizeram de maneira diferente de Renata. Haim Steinbach e Jeff Koons, por exemplo, na década de 1980 expunham objetos produzidos em massa (sonhos de consumo) em espaços museológicos, conferindo ainda mais “glamour” a eles, como obras de arte para contemplação estética. Esses artistas se dispuseram a evidenciar os mecanismos usados pela mídia que usualmente se fundamenta na criação de uma ilusão de individualidade, conferida ao consumidor, pelos bens que consome. Dessa forma, artistas críticos do mercado aproximaram a galeria e o museu de arte da loja de departamento. Essa atitude é ambígua, pois como na Pop Art, há uma celebração desta cultura ao reproduzi-la, mesmo que se proponha a criticá-la concomitantemente. No caso de Renata, sua obra se volta para o resultado indesejado desses jogos de prazer e consumo, focando no outro extremo deste sistema, os rejeitos. A temática abordada por Renata pode ser alinhada ao trabalho de outros artistas contemporâneosque também vêm se concentrando na questão do lixo, como os autorretratos dos colaboradores Tim Noble e Sue Webster, as instalações de Tomoko Takahashi feitas a partir de lixo tecnológico, e instalações de Mark Dion com pássaros empalhados montados em pilhas de lixo, entre outros. Laura Belém, em Paisagem do Leblon no Carnaval, 2002, também lida com a questão da poluição ambiental. A artista coletou na praia do Leblon objetos deixados pelos carnavalescos, criando depois uma espécie de “relicário” com alguns destes objetos. Anos atrás, Bené Fonteles fez uma performance recolhendo o lixo deixado em praias (de rio) e cachoeiras perto de Cuiabá, Mato Grosso, retornando-os em seguida para a população desta cidade. 209 Mais do que mudar a maneira com que se olha o lixo, o trabalho de Renata suscita algo mais urgente: a necessidade de se olhar para o lixo. Renata nos traz o lixo de volta para ser olhado, para pensarmos no resultado dos excessos desta sociedade do espetáculo. Ela interrompe a brincadeira divertida do consumo, o frenesi encantado da estética da ilusão multiplicada pela mídia comercial, pelo glamour das propagandas que nos levam a querer indefinidamente algo mais. Novas necessidades são inventadas a cada dia, e quando se resiste, ainda há o argumento de que afinal, consumir é bom para a economia, gera empregos e riquezas etc. Certamente a obra de Renata de Andrade é multifacetada e muito mais pode-se dizer da riqueza de sua sensibilidade pictórica, da radical hibridez de sua pintura, que explora diversos diálogos com a escultura, desenho e fotografia no seu processo pictórico. No entanto, esses aspectos podem ser o foco de uma infinidade de outros textos. Para encerrar, retorno ao nome da exposição, pois ele também pode nos remeter, paradoxalmente, à ideia amplamente difundida por ambientalistas de que não existe “lanche grátis” nas nossas trocas com o meio ambiente, ou seja, sempre há um preço, um impacto, uma pegada deixada. FONTE: MACÊDO, S. A beleza dos rejeitados na obra de Renata Andrade. 2020. Disponível em: https://museuvictormeirelles.museus.gov.br/um-ponto-e-outro/n-5-renata-de-andrade/n-5-tex- tos/a-beleza-dos-rejeitados-na-obra-de-renata-de-andrade/. Acesso em: 23 jan. 2020. 210 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • A sustentabilidade e o meio ambiente são foco de constantes discussões na contemporaneidade, inclusive na arte. • O termo sustentabilidade é utilizado na arte em 1998. • Os primeiros trabalhos ambientais surgem na década de 1960, a exemplo de Time Landscape, de Alan Sonfist. • Kurt Schwitters enfatizava que os objetos do real e o espaço artístico se intercambiam, assim, ele fazia colagens cubistas com materiais descartados. • É difícil ignoramos uma imagem. • A arte pode ser ativista, a exemplo de obras de Frans Krajcberg, Joseph Beuys, Aviva Rahmani, Agnes Denes, Wendy Oscher, Néle Azevedo, Patricia Johanson e Ane-Katrin Spiess. • Os resíduos são constantes nos trabalhos de Renata Andrade, Henrique de Oliveira e Sayaka Ganz. Já Eduardo Srur aborda o descarte de maneira simbólica. • Rodrigo Bueno, o coletivo BijaRi e Andrew Goldsworthy faz reconfigurar nossa percepção. • Na Declaração Universal dos Direitos Humanos constam os direitos relativos ao meio ambiente e à manipulação genética. • Eduardo Kac e Paul Villinski abordam as transformações intencionadas pelos seres humanos. • A ética e a bioética permeiam questões referentes ao meio ambiente e ao próprio homem. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 211 1 A respeito da arte e da sustentabilidade, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) O Manifesto de Tutzinger atesta o diálogo entre sustentabilidade e arte. b) ( ) Argan era favorável à arte com materiais descartados. c) ( ) Time Landscape é um dos primeiros trabalhos ambientais, o qual consistia na recriação da paisagem do século XVII. d) ( ) Frans Krajcberg foi um dos fundadores do Green Party. 2 Sobre os artistas e seus trabalhos, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) Após findado O Campo de Trigo, de Agnes Denes, dois mil quilos de trigo foram doados. b) ( ) Com Blue Rocks, Aviva Rahmani conseguiu com que o USDA investisse 500 mil dólares na reestruturação da região. c) ( ) Eduardo Kac se isenta das temáticas constantes na DUDH. d) ( ) Transarquitetônica, de Henrique Oliveira, tem como referência a Rodovia Transamazônica. 3 Finalizamos as atividades do nosso Livro Didático com a imagem de um trabalho de Eduardo Srur. A partir dela e de acordo com os questionamentos do atual Brasil, discorra sobre o papel da arte na sociedade. AUTOATIVIDADE FIGURA – EDUARDO SRUR. A ARTE SALVA, 2001 FONTE: <https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2015/10/1694875-capa-do-guia-do-m- ba-foi-inspirada-em-acao-com-boias-no-congresso.shtml>. Acesso em: 23 jan. 2020. 212 213 REFERÊNCIAS ADICHIE, C. N. Conferência: comunidade global de tecnologia, entretenimento e design. 2009. Disponível em: https://is.gd/4RLB7B. Acesso em: 20 jan. 2020. ALMEIDA, G. M. Liberdade de expressão artística. 2017. Disponível em: https:// www.select.art.br/liberdade-de-expressao-artistica/. Acesso em: 20 jan. 2020. AMADO, G. Tapumes ou uma poética do avesso. Programa de exposições do Centro Cultural. 2006. Disponível em: https://www.academia.edu/34330551/_ Tapumes_ou_Uma_po%C3%A9tica_do_avesso. Acesso em: 20 jan. 2020. ARENDT, H. Nós, os refugiados. Texto originalmente publicado no ano de 1943, no jornal The Menorah Journal. Disponível em: https://is.gd/Sqv7Xx. Acesso em: 20 jan. 2020. ARGAN, G. C. Arte moderna: do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução de Denise Bottmann e Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. ATKIN, A. Peirce's Theory of Signs. The Stanford Encyclopedia of Philosophy: Edward N. Zalta. 2013. Disponível em: https://plato.stanford.edu/archives/ spr2009/entries/peirce-semiotics/. Acesso em: 1º jan. 2020. BAL-BLANC, P. Documenta 14: Daybook. 2017. Disponível em: https://www. documenta14.de/en/artists/1063/marta-minujin. Acesso em: 20 jan. 2020. BARNES, R. (Org.) Os artistas falam de si próprios: Cézanne. Tradução Maria Celeste Guerra Nogueira. Lisboa: Dinalivro, 1993. BARROS, D. L. P. Teoria semiótica do texto. São Paulo: Ática, 2008. BARRY, Co. Artista italiano Lorenzo Quinn constrói pontes sobre Veneza. 2019. Disponível em: https://www.usnews.com/news/entertainment/ articles/2019-05-04/italian-artist-lorenzo-quinn-builds-bridges-over-venice. Acesso em: 30 abr. 2020. BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. BELTING, H. O fim da história da arte. São Paulo: Cosac Naify, 2006. BELTING, H. Por uma antropologia da imagem. Rio de Janeiro: KKYM, 2005. BERGER, J. Modos de ver. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. BOBBIO, N. O conceito de sociedade civil. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982. 214 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 1988. Disponível em: http://legis.senado.leg.br/norma/579494/publicacao/16434817. Acesso em: 12 mar. 2020. CAMPOS, A. Breve história do livro. Porto Alegre: Mercado aberto/ Instituto Estadual do Livro, 1994. CAMPOS, C. R. P.; ARAÚJO, A. C. S. Semiótica. Porto Alegre: SAGAH, 2017. CAMPOS, R. B. Entre vivas e vaias: a visualidade concreta de Augusto de Campos. Tese de Doutorado. 2019. Disponível em: https://repositorio.unb.br/ bitstream/10482/35067/1/2019_RaquelBernardesCampos.pdf. Acesso em: 14 jan. 2020. CARDOSO, J. Arte e sustentabilidade: uma reflexão sobre os problemas ambientais e sociais por meio da arte. 2010. Disponível em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ EspacoAcademico/article/view/10850/5965. Acesso em: 20 jan. 2020. CASTRO, A. de. Depoimento. In: KOSSOVITCH,