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Eo1To R: Marcos Marcionilo 
CAPA e PROJETO GRAF1co: André/a Custódio 
CoNSELKO EDITORIAL: Ana Stah/ Zil/es {Unislnos) 
Carlos Alberto Foraco (UFPRJ 
Egon de Oliveira Rangel [PUCSP] 
Gilvan Müller de Oliveira [UFSC, lpol] 
Henrique Monteagvdo [Univ. de Santiago de Compostela] 
Kanavillíl 8ajogop-a/cm [Unlcamp] 
Marcos Bagno [UnB] 
Maria Marta Perefra Scherre [UFRJ, UnBI 
Rachel Gazolla de Andrade [PUC-SPJ 
Salma Tannus Muchail [PUC-SP) 
Stella Maris Bononi-Ricardo [UnB] 
CIP-BRASIL CATALOGAÇÃO NA FONTE 
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE UIIRO:S, RJ 
B134n 
A norm, 0<11 Ira: lingua & poder na 50àro.Jde brasileira I Marcos 
Bagno, - ~o Paulo: Parabola t.ditorial, 2001 
100p.; 17,3cm 
Inclui bibliografia 
ISBN: 978-BS-83456-12-9 
1. NofTlla ling Uistka, 2. lingua portvgue;a -Aspectos soáals - Brasil, 
llíngua ponuguesa -Português falada -S,asi l,◄.Soóolingülstlca 
COD 469.7 
Díreitos reservados à 
PARÁBOLA EDITORIAL 
CDU: 811.134.3'27 
Rua Sussuarana, 216 1 Alto do lpiranga 
pabx: 111] 5061-9262 1 fax: (1 1] 5061-8075 
www.parabolaeditorial.com.br 
e-mail: parabola@parabolaedltorlal.com.br 
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode 
ser reproduzida ou transmjtida por qualque,r forma e/ou quais-
quer meios (eletrônico ou me<:ânico, incluindo fotocópia e gra-
vação) ou arquivada em qualquer sistema -0u bane.o de dados 
sem permissão por escrito da Parábola Edil orial L_td_a __ _ 
ISBN: 978-85-884S6-12-9 
s• edição: j aneiro de 2009 
© do texto: Marcos Bagno, 2003 
© desta edição: Parábola Editorial, São Paulo, junho 2003 
I 
Indice 
Prirnciras Palav1·as ........ ......... . ........... .. 11 
Prólogo: Midia, p1·econe-eito e rc,,oluçâo J ;~ 
P . 1· .. , . . J? reconce1 to m gm s11co ou soem ....... .. 
PaTa quem valem as regras de 
d" . <· c,oncor ancia ( .... ......... .... .... ... ........... . 
Por que há erros mais c1Tados que outros? 
l T f h' ,, . ii , . 1m ato 1stonco extraorc nan o ........ . 
A esixa.1.égia da apropria~.ão ............... . 
1. Por que "nornia"? por que "culta'!? 
Nonna cuha: um preconceito miJenar. 
l\onna culta: um lermo técnic,o ......... .. 
Quem vai ficar r-om a fai.-x:a? ........ ...... . 
(·, 1 ,, A • l l ? .,u lo e o antonin10 e e popu ar. ... ...... . 
15 
21 
27 
30 
'),.. ,),J 
Pa<lrão, prr,stígio e estigma: que tal 
assin1? ... ....... ... .... ...... ... . ....... ... ..... ...... ô3 
2. Um pouco de história: o fantasma 
colonial & a mudança 1ingfüstiea ... 71 
• 
~onna-pach-ão brasileira ... brasileira? 77 
Toda língua muda com o tempo ......... . 11 O 
F or◄;:o.-; cen1.ríf11gas e forças centrípetas 122 
Os difen~ntes rimws da mudança ...... .. 129 
]h1~:os descontínuos e 1Taç.os graduais. 140 
O pape.] político dos liugiiistas .. .. ........ 151 
3. Pot· uma gramática do português 
brasil.eiro ......... .. ......... ... .......... ......... 155 
Qual o problema com as grarnáücas 
normativas? .. . .. . .. .. .. . . . .. . . . . . .. . .. .. . .. . .. .. . .. 1 .16 
Eu r,onheço d e, sim, e daí? ............... .. 164 
Também q11cro uma gramática assirn! 174 
E o q,rn fazer com a norma-padrão? ... 182 
Epílogo: Norma (o)culta, a gramátiea 
não-escrita ...... .. ... ..... ..... ... ....... ... ...... 191 
Bibliografia ..... : .. .. .. . .. . . .. . .. .. . .. . .. . .. .. . . . . . . .. 19S 
''J\Ielius cst reprehend11nJ nos granmwtiá 
quam wm intell(f{an.l populi" ("M<'llhor 
sermos rnpreendiJ.us pdos gramáticos rio 
que n ão sermos entendidos pelo povo") 
SA_\l'f() ACOSTll\110 (.354-4~~0} 
'''-(. .. ] nu vida dos indivíd110s e das 
sociedades, a linguagem constitui foto!' 
mais imp ortante que qualquer ontrn . Seria 
inadm i:.iiível que seu estudo se torn a::;::;e 
exclusivo de alguns especialistas; de fato. 
to<lu u genLc dela se ocupa pouco ou 
m uito; mas - con.seqüênón paradoxal do 
interesse c3uc su~cita - não hú dumúlio 
onde tenham germinado idéia,, tão aJJsur-
dns, preconceitos, m:iragens, ficções''· . 
F t<:HDl'JA.'-JD DE SAt:SSUfil,, 
Curso de hngii.ísHca geral (1916) 
''llá toda sorte de precoru:eúos soc,ats e 
nacionalistas associados com a língua, e 
mt.úlas falsas coru:qJções populares, 
estimuladas p ela versào deformada da 
gramática tradicional que é c01m.1,mcr1te 
ensinada nas escola.~. E é re<.Llmcnte difícil 
liberlarmos nossa mente desses preconcei-
to.ç e dessas falsas cor1cepções: mas e.~se 
primeiro pn.s.rn é rwcc:ssário e 
compensador" . 
.IOID LYOl\S, 
lntroduçiio à lingii.fsl.ica teórica (1968) 
Primeiras palavras 
1 
Ü trabalho de c{li tar dois livros sobre o. 
temá tica da norma - Norma lingüística 
(2001) e Lingüística ela normu (2002) - rne 
levou a r c:fletir m ni.s dcmora<lamcnte sobre o 
assunto e, por f'im, a teutar organizar essas 
reflr.xões 1111 forma de mn texto. Ao mesmo 
tempo, a eleição de Luiz í ná cio Lula do Sih-a 
à prc:sidênr.in da rc:públi<~a em 2002 foz rcs-
smgi r, soLrr.1 udo uo nú<.Üa impressa , o::. velho. 
alanues apocalípticos sobre- a ·'arneaçu" que 
reprcscnLari.a pa ra a própria "sobr evivência:' 
da língua a ascea;;ão ao poder lk um folante 
da~ varic:rfnde.s lingüístic:11s tipicn mente 1~stig-
matizadas pelos o<.:upantes das c;amadas so-
ciais de prestígio. Esle peq11eno livro proC11ra, 
por meio de um exame sohl'e a1; rclaçõt'.s cn1 re 
1 :2 
5 
língun r. poder~ reagir a ~SflS profecia:; dr-rrotis-
tas:, mostnmdo por que ehtc; não devem ser 
lrva<las a sfrio por q uem livPr um mínimo 
enl r.nd.irnento da Listó rin do Ilrasi l r. de sua 
rnalidadc sue-iolingJiísrÜ;a. 
A exprcs.são :.norma oculLíl ·~ 
1 
<"Olll sun oportu-
na ironia~ me foi aprcsentadri l1á alguns fillüS, 
cm conversa informa l, pelo li ngiiista Ataliba 
ele Castilho. Aproveito aqui u t rocadilho; aler-
la nrlo dei,de logo lJUe são de rn inha inteira 
responsabilidade os <lcs<lobrnrncutos concei-
tuai:; que faço nes te livro, a partir desse jogo 
d r. pah1vras. 
As primeiras versões rio texto pnssaram p ela 
lei111ra atentar. rigorosa dr .VI.moei Luiz Gon-
~·.ahes Corrêa, Sonin Alcxandrr. e Maria Marta 
Pereira Schcrre~ a g ucrn a grndr.ço pela lur.idcz 
dns ob ser vações e pela crítica gr.ncrosa. Sou 
gra t.o também à pcrsistênrin dos meus edito-
res Marcos ~Iarcionilo e Andréia Cm,tódio, que 
enfatizaram a pertinrncia de levar a púhlko 
estas reflexões neste momento importante da 
história sociolingiiístic:a do Brasil. 
.\L\RCOS BAG::\ü 
h llp:/ /pagiiws. lcrTa. cou1.or/ cci11cacau/marr.osbagno/ 
prâlogo 
l\1ídia, p1·econceito e re,1olu~~ão 
1 
Num Ji\'l'O puJJhcado na Tnglate1Ta ew 
1998 .. o l..itlf,rüista b1itânko James ::\-Iilroy cscn'-
veu (pp. 64-65): ·'Numa ~pocu em que a dúr.ri-
màwçúu em l<>rmos de rnçu, c01: r<'ligiôo ou 
sc:ro não é publicamente ac:eitâl'el. o último ba-
luarte da discriminação social e.--cplicita conti-
nuar<Í a .wr o uso qt.u:t uma p<'ssoa faz da lí.11-
guff•J. Essas palavra~ me voltaram à lernhrauçu 
quanc.lo I i, no ]orna l do Brasil do dia 10/11 / 
2002, o seguiute n·cd10 fia cohma ;'Coisas dP 
política", assiua<la pela jornalista Dora Kramr.r: 
Castiço 
Dúvida pcrtiiit-lltl': at; quando será consirlf'-
rado politicamt!11tr correto ignunu- que o p ro-
.-,idcme eleito do Bra:'lil r.omcle crassos e rons-
tantes erro,.:; de português? 
-
~ 
()ueira Dcm que., cm breve.. o a;;q1nro já 
pos~a ser abordado sem provocar 1Jr:t11de:; 
tra11.11rn~;, poffp1e, daqui a pmwo, será prec.i-
so rever os currículo:'l das escola;; do eusiHo 
bá:;íco, a firn de adaptar a_; liç.õcs solrrr p lurnl 
e com~ordância• ao iclioma qu1: as rTiauç.m; 
ouvem o presidente falar na tr.l<wisãu. 
Evidentemente, não era a primeira vez que cu 
lia e.,;se tipo de af'irrnaçiio preconccittwsa so-
bre o modo <lc falar df. Luiz Inácio Lula da 
S.ilva - todos sabemos q11c e.,;.se fo i um dos 
ÜL-sh·ur1ir.mos de diínmação la nçadm.; por seus 
opo11enle::; nas disputas eleitora.is rlc 1989~ 1994 
e 1998. O íp1c me chamou a atenção foi a so-
brc\.ivência fk~'lscs argumcntoo ... com a mesma 
intensidade, mais de unu1 <lfrada depois. 
Duas semanasmais lar<lc, o jornalista Daniel 
Piza escreveu; no Caderno 2 du jornal O Es-
tado d~ S . Pa(l/o (24/11/2002): 
Por que m'io me ufano: Ltda , sc u5 compa -
nheiros d~ PT e grande parte da população 
maltratam o idioma cortan do o ·'s" final das 
palavras e· wrlas as conconlârn:ias q1.1c a ló-
gica sinti'ttic.=i pede. Que nií.o seja a morte do 
plural, em n~nhmu do:; Rf' rrtido:-. 
lisse é um comeutário baseado em crern,:as tiio 
primitivas e. ultrapassa<las pela cif,nda há tan -
to tempo que acaba depondo contra a inteli-
gên c ia de quem se arrisca a imprimi-lo nW11 
jornal de, grande cü-culaçiío. Seria algo a ssim 
corno aconselhar os pais a níio dei.-x:.1.u- que os 
filhos apontem para as cslrelas à nojte porque 
isso faz nascer ve1ruga na p onta dos d ed os . .. 
1\-fa.s, afinal, por que eu deveria m e espant ar. 
se _já tinha lido aquela afirnrn.ç.ão de !Vli lroy, 
que rfo.screve com precisão as relações entre 
língua e poder, e se sempre tive consciência de 
que csstis relações são fac ilmente cornpreensí-
veis para fluem est11da a histó ria da formação 
social e culturn I do Brns i 1? 
Seiia muita ilusão supor que 1m111 vitén-ia como 
foi a rle Lula 1HL5 eleiçõe.s d e 2002. bastaria 
pa ra que o precouc,'.ilo liugií ísLico (.lc.snpare-
cestie de vez da nossa sociedade. A l'i nal., de 
todos os con j u ntos de s upers1ições infundadas 
que compõem a cultura brasileira , nenhmn é 
tão resistente: ptrn~ce~ y:ua1J1.0 o das idéias 
preconcebidas que irnp regnam umso imaginá-
1;0 a respr-ito de línguas em ge ral e, mais es-
rwcificarnr.nt.e-.. <la JínglLa que falamos. 
P n,-:co~CEITO 1.1:w;fiSTICO Ol SOCIAL? 
Faz algum tempo que venho me dcdicau<lo ao 
estudo fio preconceito lingüístico nn sociedade 
-~ 
11, J,rasiJcira . A principa l conclusão que tirei d es-
sa irn·estigoção é q11t•, s impl <'srne n1 t'. o pre-
cuncn ·to hngii.íst.ico nâo eústc. O f{lle ~xi~le, 
de foto, é- tun µrofuudo e entra nhado preron-
ceito social. Se ctiscr irniIHH' alp;uérn por ser 
negro. íudio, pobre, uorde;,tino. nrnJhr r, ddi-
cicute físico. homossc:x.uol t'tc. já cou1eça a ser 
considrraclo ··publicament r inaceilâver · (o que 
uão sign.ifka que essas di::.n-i.rn iuaç·i"H'.S tenham 
deixado de exi~lir) e ··polj1 ica11wnte itH.:orreto ~ 
(lembrando qne o discm so do '' poli f icamcute 
corn.>10:~ é quase sempre pura hipocrisia ) .. fa-
zer essa mesm a di~nimiuaç:ão corn base nu 
modu de. folar da pes!iua r. algo que passa com 
rnuita "'na luraJida<le·', e a acusaçiio <le ·' fa lar 
d l ,, ,, 1 , . ,. ' -tu o erra, u ., ··atrope ar a. grarnau ca ou · nao 
sabl'r port ngur.s ·· pode ser profPrida por gP-ute 
rlc t0dos os esp<'ctro:; ideológicos, desde. o ron-
6ervador mais empeder11idu ai(! o r<'volucioná-
11.0 111a is radical. P o r qu<' sení qu<' é a s:;irn? 
É q1.1e a linguagem .. de 1o<los os inst rumentos 
üe cuJH role e cocrç.â.o !:lOCial1 talvez st_ja o mai:, 
curnplexo e sut il , ~obret11du depois 91w, ao 
menos no rnuullo ocidental, a rdigiiio p erdeu 
sua forçn de rq>ressão e de conr role ofic inl dai'> 
atitudes socú1 ic.; e da vida psicológica mú, 
Ínfima dos ciJadãos. E f nJo is.:;o é <1in<la mais 
pernicioso porque a língua é parte c:onstitutiva 
<la i.dcm idaJ e ü1clividual <' social de cada ser 
hunrnno - cm boa med idn. nós somos a lín-
gua que falamos, e acusar alguém de não sal1cr 
falar a sna própria líng11a mafrrna f. tão ab-
tim·d1J qua nto n<·.usar e.s:sa pessoa de não suher 
' '·usar'' corretanwntc a visão (i~to é. ofi rmar o 
absurdo <le que algut~m ú capaz de e1uerga1":, 
mas não f r.apuz de ,·er) ou n olfato (i<;to é, 
afirmar o absu nfo d<~ que alguém é capnz d<' 
sentir o l'lieiro. rn,B níio <le aspirá-lo) . . ós 
!:i(unoA m uito ruais do que meros ' 'u suários'" da 
lú1gua: a noção de ··usuário'·· fa;,; p<' nsar em 
nlgo que está fora de nós, mua esp écie de 
fer,·nmcnta que a genLe pod<' retirar J e uma 
caixa. usar r. rlcpoi~ devolver À caixn.1 . • \Jossa 
relação com a l ing11ngcru é muito mais pro-
f, rndrt <' complexa do que 11 m si mpl<-:--o :.uso·, -
até porque es-,a rclaç.ão se fal c.:orn ::i própria 
linguagem~ Aliei:,. a própria pal~wra "relação'' .. 
nqui. não dt{ couta dessa cornplcxida<le. 
lnfeli'.Zment e, mun longo proce!'iiio histórico., o 
que passou a ser d1arnado de língua é mua 
1 8 u idéia yue orienta :i :,t>g-i1imc :ifinuação do 
jornali~ta L1ús An16uio Ciron 11a rc~iíitri C1i/J, 11" 38 , 
jnn.hu de 2002., p . :37: -o fato é lfl.lC a a u~eia dP 
pcrnpc,t:tiva e a prl'g;uiçn d,~ lcirnr a :.e reíle1e.m na vidn 
do us11ârio bmsilf'im da línguu. Ele l' 1.1U1ete eno.,, im-
propril·<lade,;, idioli;-mo,, ~olccirnw~, b,u·bari:,mos e, prin -
<'ipa1nente. h.irh:ni dnde~" (~•rifo meu). 
..; 
17 
[/.coisa." que é vista como e:xterior a 11ós, algo 
'-• 
que estaria acima e fora de q ualquer i11cüví-
duo. ex 1 r.rno à própria sociedade: uma espécie 
d r. cutidarlc uús tica :iobrcnanu·al, que existe 
muna dimen são P.ctérca ser.reta, im r r.n:ept ív<'I 
aos nossos sentidos. r à qual :.Ó uns poucos 
inicia dos t êm acesso. f: µor acreditar nisso que 
Danje l Piza pôde escrever que ''-Lula. seus 
companheiros rlí' PT e ~rande p~rte da popu-
lação maltratam o idioma'~ . É como se n lín-
gua não perten cesse a cada mn de uús:, não 
fizesse panr da nossa próp1ia mal r.1ialidark 
fis ica: não esjivesse inscrita d r.utro de nós -
por isso ela pode ser '"maltrata da :~_ r.:p isot'<Ai.da·-:, 
..:atropelada ,. : a língua f vista como mn Outro. 
É como se uosso modo de fa lar fos:::;e uma 
imagem defeituosa, tosca e mal-acabada de 
uma '"língua :, inacr.s:;ível aos olhos e aos ou-... 
vi.cios dos mortais comuns. Por i~so, a ~:língua 
é difícil'~ - e não poderia ser difen:llllC, já que 
é urna "ciêu ci:i oculta·'., lllil saber hermético. 
quase esotérico. 
Ora, :,a língua '~ como uma "e -sência" não exis-
te: o que cxiste são .seres humcuws que fa lam 
línguas. A líugua não é uma abstração: muito 
pelo conl rá.rio, eJa i- tão coucreta quanto os 
Ill<'Smos scr r,., lnunano8 de cnn1e e osso que s<' 
servem dela P. dos qua is ela é parte inl.<'.gnmte. 
Se tivermos isso sernprr. r.m mente, podr.remos 
deslocar nossas reflexões de um pla no abstra-
to - ·'a língua .. - pan1 um plauo concreto -
os falantes da lí11gua. 
foso significa o qu~, na prá1 ica? Sig:r.ri.fica olhar 
pa ra a líugua d r.ntro da realida dr. históri ·a, 
cultt.m1I.. social em que r. la se eucontra, i::;1.0 é, 
<'nl que se encontram os seres hnmcrnos que a 
falam e r,scn·vem. , ignHir a cousiclerar a lín-
gua cnruo tuna al.ividadli' social, como mn tra-
Lalho r.mpreentlido r.onjuntameutc pelos falan-
tes rn<la vez que se põem a in1e ragir verba l-
mente, se_ja p or meio da fa la, seja por meio e.la 
escrita . Por r.stnr sujeita à s drcunslâncias do 
momento, às i.i1;:;tabilidades p sicol6gicas, às 
flu tua\.õcs do sentido., a língua em granrlc 
m edida f,; opaca. aão é trnr 1sparentc. isso faz e.la 
prálica Lla interpretação mrn1 ati idade ftm<la-
mcntal d a vida humana, da interação social. 
Em coutrnposiçifo a e-s::.a concepção dinâmica 
de lÍilgtrn: a con cepção t radicioual., operando 
com uma abstração-redução - a farnosa .✓,nor­
ma cuh n ,. - : t euta nos apre&ent::u· <'ssa norma 
(em siuo11ínria c-o m ;. a língua") como se fosse 
um c:orpo estávd1 homogêneo~ u111 produto 
acabado. pronto para cousumo, uma cai_~a de 
fcrram r. nlas já t1:::, ta(lus e aprovadas. que de-
vem ser u sarl ns para ,se ohler detenninnrlo 
" ,, 
19 
:.w 
;_ 
o:, 
l 
" ! 
--
rcsuh ado e u.evolvidas parn a caixa no lllf's tnu 
r-sta<lo r..m lfUe as encontramos. E nisso rr,.,ide 
uma das mais notáveis contradii;ões da con-
cepção trarlicional d e. "norma , nlr;:t"'' : rruerer 
ernpr"ga.r e ··sa u01~rna ( que não p11ssa de mua 
ab.:;1racão. iml'Jossívd de ser exa11:.;tiva111cute • . r 
descri/a ) como se fosse urn ronjm11 0 de rrgras 
dr. aplicação prática, co11crr:la. Ora .. hoje já 
sa.hcrnos que a língua ("utendida como uma 
alividacle social) não é apcuas uma ferramen-
ta q uc devemos us0.t· para obter resultados:ela 
é a ferramenla e ao mesmo 1empo o re.sultodo, 
ela é o processo e o produto. E. não é: uma írr-
ramenta prnJlla: é uma ferramenta que uós cria-
mos exata.w ente CUlfUan to vam os usando ela. 
Essi:I concepçã.o tradicional opera rom uma 
snces&ão rle re.dnçÕe6: p1·iu1eim, n ·th,z " lfugua"" 
a ,:norma ( cuha)'1: ern seguiria., reduz es ta 
,:norma culj a ,: a '·g ran1áticu" - mais prrcisa-
rnenlc, a urna gramática na fra:se isolada, que 
despreza o 1ex.to ern 5ua 101alidadr., as a rficu -
laçõt!s- rdaçües de l'a<la frase com aR delllais. e 
o coutexlo cxo:alingi.üslic:o em que o texto (fa-
lado ou escrito) ornne -. ~rarrnifo.:a entendi-
da rnwu uma ,;é1·i(' <ie regra,; de f,uwioname11-
to mccâuic,0 que <levem s<:r seguidas à rbca 
para dai· um rcsu1111do perf citu e a rhuiss ível. 
Essa concep çã.o aLsLrata e rcc.lucionil:ita de 
lírt{!J1a>norma>grw1uíticn r. tão antiga que Jª 
se 1·omou pa rte iutep-an1<' dM creHças e su-
-pcrs t ições que c:irr.11lam na -,ocie<laclc. É essa 
cadeia siuouímka equiv0t.:ada qnc pf'.rmiLe a 
muita gcntr acreditar que o man 11 al de gra-
m á.tica e o dicionário wntêtn as únicas pos::;ibi-
lidadrs di> uso da líugua, corno se fo::,se possívrl 
cnr.crrar em livro too.a a cornplexi<lade que go-
verna as relações dos seres huma1101; ent re si e 
con igo mesmos por meio da liuguagcm. 
P AR.A Qt:J-:.\1 \ .\I.DI .\S REGRAS DE <:O'ICOJW,t'\CIA? 
A dcmons1ra1:ão mais nítido. que se pode ofo-
reCC!r <lo caTÓ I cr em i nentem eutc .wrird do pre-
conceito lingüístico é-. que a no1;âo de Nro, 
sobrc•tudo df' ~·erro /'rasso" - c.omo escr<'vcu 
Dora Krarner no texto ciiado - , não é ahso-
l uLa uem estática: a noção de erro varia e ilu-
tua 1ic acordo com tfncm usa e con11·a qn<'rn. 
~o caso em questão, é a lguém <la!! c~'1rnadas 
privHegiada~ da pop1ilação que vê rrro na lí11-
gua dos cidadãos das oun·a;:; camada~. a.::, m enos 
favorecidas (crne, no Rrasil: um pafa que os-
teuta írnhcc::; de injustiça social cnl re os piure;:; 
do nuwdo. constinlem a ampla n1aioria da 
nossa pop lLla~~o) . F ,·r.qijentemente. esses s:i cu-
sador1-:.-;, pof' a tribufreru a s i 111esr110s uru co-
n hecimt'nto 1ingiús tico -,uperior, a c ima da 
-
... 
:! 1 
:n rné(ba. dernmciam Prros tam!Jéru na fala dos 
membros <lt:', sua própria cla sse sor.ia l e lamen-
tam o "'desr.aso:,, até mrsmo dos falant es "cul-
tos'': pela '' lí ng11a de Camões" . 
.\'las vamos exami~ar uovamente o caso Dora 
Krarner. Algm1s meses antes de escrr:ver o tre-
cho citado acima , ela já tinha publicado, no 
m esmo jomaL cm :3/7 /2002 , outros coruentá -
rios sobre o modo de fo1ar <ln endio candidato 
L1úz Inácio L ula da Silva: 
Lula não vê contra.diçãu em discursar p elo 
incrernento da " Edncaç.J.1o uc~te país\ sem 
fazer urna única homenagem a um simplP.:::. 
plural. Sohrc a roocordância ve rbnl, cmão, 
melhor não desec1· a m iuudências. 
b-lais uma vez., a jonrnlista se preocupa com a 
concordâ.ucia verbal e cow a conéordância 
nominal. Em amb as a:; colunas, Dora K.ramer 
deixa Lem daro seu tolal despreparo _para tra-
têl r dest es assu11tos, 1W1a vez que fa la de "'plu-
ral f' concordânria verbaP1 e de ,,.lições de p lurnl 
e concordâucia !"' como se fossem duas coisas 
distintas, como se as regras de plural não fi-
zessem parte da5 regras de co.ncordância ( ver-
bal e nomiDal). como de foto fazem. 
Suas ohservaçÕM sobre a escola também são, 
no mínimo, u ln·apassadas, e revelam uma óhvia 
desinformação, já ()Ue de um bom Lempo para 
cá tem hav ido urna radir.al mudarn;a nas con-
<.'epções pedagógicas obre ensino de lfugua, 
concepçõe~ ciue já foram incorporadas indusi-
ve nas próprias dirc1Iiz<'s oficia.is de cducaç,ão. 
Basta ler o que dizem sohrc ensino de língua 
os Parâmetros Curriculares Nacionni<;, p11bli-
cados pelo ~1:inistfrio do. Edur.açã.o cm 1998. 
As observações da jomali:;1a, po1tan10 .. rlcmons-
tram a atitu<le autoritária de qncm se acha r,om 
o direito de opimu- e propor legislaç.iío oobrc o 
t{lle desconhece, apenas por rcvcrcndo.r o senso 
comuu1, sem criticá-lo COlll insnumcntal trórim 
adequado: não sendo lingiüsta uem peJagoga, 
com que fondamcntaçào ela pode susteotar .suas 
propo, tas de revisão dm; currículos escolares? 
A ·sim, seu rec1u ·o estilístico à fremia rc-vcla 
apenas ttma patética ignor·â11cia:, que rima com 
nma antiética arrogância. 
O mau, .sintomático, porrm, no que diz respei -
to à relaç,ão prec011ceito lint:,rüístico/ preconcci-
t.o socioJ, é que, no lrecho final da coluna de 
julho, a jornalisLa escreveu o -,eguinte: 
l la,ia reeeio e1m·e os petist as reunidos ::;áha-
clu pas1mdo, no Panp1e do An hemhi em Si'ío 
Paulo, c·om a possihili<laol' rle vir a p1íhlico 
gravaçÕe!> re:mltames de grampos cm Lclcfo-
nes de altas figuras do partido. 
Como já afmnei, o "'erros crnssos:' de ~·coucor-
dância e ph u-al:' só são crassos quando cometi-
do~ pel.os outros: pelos que uào pertencem ao 
rnr.io social du ar,usadora, pelos que 11ão üveram 
o mesmo acesso· que ela a uma cultm-o. letrada, 
pretensam ente sllperior ... Afinal. nesse trecho da 
coluna aparece algo que qualquer grrunátjco 
conservador acusaria, sem pestanejai\ de ~erro 
crasso"'. e justruncu1c um erru de coucordância 
verbal - de vir a p úblico [. . .]gravações! ' e são 
gravações} no p ltu·al.> o verbo l'ir, pelas regras da 
concordância que a jonw..lista tanto preza, deve-
ria vir também no pl1tral: virem. Então, ''de vjre.m 
a p úblico [. .] gravações". 
Como esse é nm fenôm eno ]iugiiístico muito 
Íll tercssante. vnm os cuidar rua is 11 trut am ente 
dele - e fing ir que não vimos ou Lro ,.·erro 
crasso'\ desta vez de regência, qu a.ndo a _jor-
ualista usou a p reposição com vinculada ao 
substantivo rPceio: "h.aá a r('ceio [. .. ] com a 
p us.'iibilidade '. ~.Heceio coru·~? . 'ão seria re-
ceio quanto à possihilidade ... ? • ão 1,>ocleriaru 
os leitores, segu u<lo os critérios da µrópria jor-
nahsta: 1 cr rer,e,;o com ficar de dor de ouvido 
diantt de to11tos "e rros crassos,: r E u qtie fa-
zer com o::; "carréculus das escolas elo ensino 
básico"? Teríamos de adaptá-los ''às liçõ~s 
sobre plural e concordância" (e de regêi1c.ia) 
que os leil ore de Dora l(rarucr crn:ontrrun em 
suas coluna,:,? ·ão seria ~sa também uma .... dú-
vida pertinente"? Mas de nada :;er,;e rebaler prc-
conceilo com preconceito: vamos. isto sim, ten-
tar analisar os fatos com rigor cieutífico. 
Por que escrevi mais acimn qnc a construção 
:'de lJÚ- a público gravaçõe;5 ·'' era um fenômeno 
lingüísfjco :interessante? Porque ele revela~ com 
toda niti<lez, o quanto é relativo o conceito de 
erro qu4' rrgc n mentalidade rlos nossas classes 
letradas. As pesquisas científicas sobl'e a nossa 
língua têm mostrado que _já se tornou uma 
regra gramaliea] do portnguês Lrasileiro man-
ter o verho no singular quando ele antecede o 
sujeito, isto é~ quando vem antes do snjcito na 
frase. \1csruo os brasileiros classifkados de 
' ·cultm,·1 , moradores das zoua:; urbanas, com 
escolaridade superior com ple(a e alto grau de 
letrameuto., a.p licam o tempo todo essa. regra e 
dj:zem~ com nat1u·alidade: r;hegou os livros que 
eu encomendei, ou sempre cai umas golas de 
azeite na toalha, ou l'a; todas as c1ianças pro 
quintal, ou foi feiro já toclus us aL!erações que 
você pf>diu, ou é todos essf>s ovos que ela 11a; 
pôr 110 bolo ... E não só falain assim: também 
escrevem, como podemos ve l' nestes exemplos 
da imprensa brasjlei.ra.2: 
:? Exemplos gentilrueute fornec idos pela 
socioliugi.üsta :\ilaria Mana Pereira Scherre de seu hanco 
de dados paJ-ticu lnr. 
~-
-
5 
; 
~ 
:! 
" .. 
2:; 
26 
...,, 
(1) '·:'{ão [MPOflTA AS :;iUCF:s..·mi1S DfX'fSÔf:S Jl,7)/-
CJAr FAl 'OJIÁf'J-1S ao pai;tarnento" ( Correio 
lJraziliert$e, 28/1 1/2001, p. :3, e. 3). 
(2) ·'FAi,TA ao governo FH Df:CJSOJ~ COIUJOSAS 
1-: Fl!Wt:...~, p,incipalmentc- contra o::; par-
tidos que o apóiam,, ( O Es1ado de S. 
Paulo, 17/9/199,\ A-2. e. 2) 
(3) "Ain<la não se sabe c.01-uo 'fllÁ COXJ>UZlDA 
AS /VECOCJAÇliES sobre o <lcstin.o Ja política 
saJarialu a reuuião que o presidente 
ltaruA1· Franco convocou pm·a amanhã ii 
tanlc oo Palácio do P lan.aJto" ( Correio 
lJraziliensP, 1817/1993, p. 3, e. 2). 
(4) "'M11s se a população de Jua 11.,.io for tetira-
da, Jc nada ADIIINTARtí ,11J:fJIJ)/i:, de seguran-
ça" (Jomal do Braç,1, 13/1 1/92, p. 13). 
(5) ~cn1::scr.· de importância os Pf1lCE.•vnws 
dos candidaws pe1if~.ricos" (Jornal do 
Brasil, 03/10/94. p. 3). 
(6) ''Em todo canto svnaE SJNJIJ,-; de alarme 
qui> deveriru11 nos i.i1tJuieau·'' (MrmchP-
te, 18/6/91, p . 92). 
(?) "'B il.'iT.4 10 11 15 MINUTOS de aplk,açúo 
diúria gue1 em poucos dias, vor.ê eürn.i-
na aquela gordminha localizada que 
enfeia a sna bar.ri.ga"' [ .. . ) ( Folha de 
S. Paulo, 1109196, TvFolha, p .. ; , e. 1). 
E, é claro~ podemos acrf'sccntar " possiLilidade 
de vir a plÜ:>lico gravações ... ,~ (]ornai do Bta-
sil, 31? /2002, p. 2). 
&--<is1cm propostas de explicação cieutffica para 
esse fenômeno. Uma delas é que o porl.llguês 
hrasiJeiro, corno graude número de línguas do 
mundo, é class:i.fiCBdo corno uma língua svo, 
isto é, unrn língua em que a ordem mais fre-
qüeute de ocorrênria das palavras no enw1cia-
do simples é SUJ~:ITO-VE.1-:BO-OBJETO: [lvu] -[ viu]-
(a uva) - oulras 1íng11as apresrntam a ordem 
vso ou sov, por exemplo. Assjm , no português 
brasileiro, tudo o que se colocar depois do verbo 
é iiuui1ivarnen1c analisado p elo folaute como 
objeto e, dessf' modo: mantido fora da esfera 
da c:oncordância verbal. A regra de não-con-
cordância com o sujeito posposto já se esla.he-
leceu na língua. falada pelos brasileiros, de 
todas as classes sociais e ele lodos os níveis 
de escolarização, sobretudo ew siwaçõe. de 
interação lingüística menos monitoradas. E 
pelo visto começa a se estahelecer 1ambé01 na 
língua escrita mais u10nitorada. 
Pon QUE H;\ EIIKOS ~MIS EllRADO QUE OUTRO~? 
1cu ohjet ivo aqui é ruoslrnr que quando o 
''·crro1' já se tornou nma regra 11a língua fala -
da pelos cidadãos mais letrados, de passa 
despr.n:ebido e já nõ.o provocD anep ios nem 
dores de ouvido - muito embora conn:arie a:3 
regras da gramática normativa, aquelas que, 27 
teoricam1:mte1 deveriam ser seguidas pelas r es-
soas "cu ltas''., sobretudo qunndo escrevem tex-
tos que exigem mais '·cuidado·'. As!>im. há erros 
mais "errados" (ou mais "crasso~") do q ue 
ontros - a escala de "crassidade'' é inversa-
mente proporcional õ escala do p restígio so-
cial: quanto menos prestigiado socíalrncn lc é 
nm indivídno. quanto ma js ba.ix.o el<' esti ver 
na pirâmide das classes sociais, mois erros ( e 
erros mais ·' crassos") os membros das classes 
priv ilegiadas e11co11u·am n.a língua dele. 
prestigio 
~"""-"~ 
Os falantes urhano5 letrados detecta m menos 
"erros crassos e constantes'' na fala de pcs oas 
de sua m esma o rigem so<;ial noto ria meute 
privilegiada. Qualquer análise científica mais 
criteriosa é capaz de mostrar que as regras 
variáveis de concordância seguirias por Lula 
comparecem, com freqiiência mais ou menos 
igual, na fala de outros p0Jí1 icos, de iutelec-
ruais, ""· empresários. de j"uristas, de professores 
ele português. de jornalistas etc. No enl"anto., 
essas regr~1s ficam mais cvidenlcs e chfilllru11 
mais a a1cnção quando são usadas por alguém. 
com antecedentes biográficos rurais, de ori-
gem operário., vindo de uma região geográfica 
<lesprcstigiadu, e sem fo l'rnação universitária . 
• ·a fala de tun membro da elite letrada,. ess<',.s 
erros são algo as.-;im como ""descuidos>" ou " lap-
sos '", justificados por aqi,eJe chavão mais do 
que batido de que ""essas pessoas podem até se 
permitir cn-à!• porque sabem a forma certa:• 
- que é como alguns professores tentam { sem 
sucesso) explicar a seus a ltmos as ocorrências 
de regras não-uormativas na obra de grandes 
escritores ou na fala de pessoas '•importan-
tes:• . Essa mesma eonrlescenrlência, no entan-
to, não é usada para classiGcar a fula dos ci-
dadã.os menos leLro.dos: o mesmo fenômeno, 
agora, é, tachado de "'etTo crasso" e ponto fi-
nal. Se você pensou na expressão "dois p<'sos 
e dnas medidas-'\ é porque captou bem os 
critérios envolvidos nessas classificações. E isso 
tudo porque, como já men cionei, o que está 
sendo avo.liado não é apenas a língua tla pes-
soa, mas sim a própria pes:loa, na s ua 
integralidade físico .. iudjvidual e social. 29 
30 
.. 
3 
~ 
7 , 
< 
UM J'ATO UJSTÓRJCO EXTRAOtlOIX.\.RIO 
A eleiç..ão de Lnla à presidên, ia <la r r.púb}jca 
tem uma importância histórica inegãv,>l: pela 
primeira ve~, cksdc o início da histórjo. oficial 
do Brasil, ,una pessoa co111 .:ieus autrcedentes 
biográficos e sodais alcança o posto máximo 
do ro<ler político, tU.l1 posto até então reserva-
do com exclush,idadc a representantes de uma 
mesma oligarquia. 
Este mesmo evento tem uma importfuicia igual-
mente histórica no que diz r<'spcito às relações 
]i.ngiíís ticas dculro da socierladc brnsUeira: pela 
primeira vez) também, chega ao poder tUJl 
representante <la~ varfodades=1 Jingü.ís1icas ~po-
pulares"';. com suas regras gramaticais que 
caraclcri:t:am a língua falada µela maioria do 
nossa população e que, justarueute por isso -
~ :'.\este livro, ulilizo sistciuaticauwute o termo 
Pari<'dade de acordo com a definição já bem estuhdccida 
na sociolingüística. E-sre rcrmo dcsigtia as carnc::.tP.rísóc~ 
lingiüsticas (fouéticas, morfossinLáticas, lexicais etc.) dfl 
um dvdo conjunto de folantes , d elimitado por caract.e· 
rísricas sociais (zona de residência. da..;;se socioccouÔnuCll, 
grau de escoliuidadc, fu.ixa etár ia et<:.). Com rnrícdadt' 
é poRsivel subsrituir termos de uso 1111li:, tradicional como 
dialeto, falar. lir1guajar que não têm uma t'Onceituaçiio 
muito preci8a e que tendc·m a ser empregados com sc-u· 
ridos pejorativos. lJso unu.hém 11<t f'Í<'do.rle para substituir 
''norma", conforme proposta ten1ti11ulógica que apresen• 
to uo cttpín1lo :;eguinte. 
por scn:m majoritáiiaci num país onde só se 
valorizD o que vem da minoria dominante - , 
sem pre foram alvo de preconceito explícito da 
parte dos falantes das variedades lingiiísticas 
de prestígio. Ora, como escr eveu minha aluna 
Sandra de Castro, da Universida rle de Brasília., 
é muito rnais fác;il _rara a maioria do povo 
brasileiro ident(ficar-se com a fa la de L ulu do 
que ulenlificá-/,a como «errada '' . 
Como analisai· esse ac.:onlccimenlO? É possível 
fazer previsões sol.ire o futuro das reJaçõeo lü1-
güís t.icas no Brasil depois dessa ek ição? crá 
que o temor de pessoas como Dora Kramer e 
Dan iel Piza se confirmará, e os ~'enos crassos 
e colliitantesr. do presidente serão transfonna-
dos em modelo do " hem falar" e do t:portu-
guês certo", iucl11sive mi. escola? 
Eu já adiantei, mais acima, que seria uma 
ilusão pensar que ra eleição de Lula i.Jldicaria 
uma mudança radical nas relações ]ingüísticas 
no Brasil. Essa a finnação precisa ser justifi-
cada. história das línguas e elas sociedades 
I10s conta qur para haver a lguma grande mu -
dança nos conceitos de l'mgua :,certa" e língua 
··errada" é preciso q ue também haja: ao mes-
mo tempo, mna grande e radical transforma-
t;ão das relações sodais. 3 1 
Foi assim., por exemplo, 1m Fi·at1ça: depois da 
Revo.lução francesa, as clttiises sociais domi-
nantes - a nobreza e o alto clero, essencia]-
mcnte latifundiárias - foram derrubadas, e 
IlO lugm· delas se instalou a burguesia. Essa 
mudança de classe social no poder fez as re-
lações eutJ:e a sociedade e a lúigua francesa 
sofrerem wna transforrnaç.ão radical. A fala 
dos hu rgueses, que era desprezada pelos aris-
tocratas do antigo regime; passou a gozar de 
presúgio e a servir ele modeJo pru:a todas as 
demais camadas da sociedade. Aliás, de ma-
neira sistemática1 os governos revolucionários 
impuseram este "-novo francês" como língua 
oficial de toda a França, desestimulando e até 
rep rimindo o uso das muitas outras línguas e 
variedades empregadas nas cliícrentes regiões 
do país por comunidades numerosas". Os bis-
• "A imposição da língua le.gítíma contra os idio-m as e m; dialetos fa2 parte das cstrat P-gias políticas clcs-
tinadas a assegurar a eternização das concfllÍStni; da 
Revolução pela produção e rcprodrn_:ii.o do homem novo. 
[ ... ] reformar a língua, expurgá -la do;;; 11sos ligados à 
antiga sociedade e impô-lo assim purificada é o m esmo 
(fU.e impor 11111 pensamento igualmente c:fopu raclo e pu -
rificado. [ ... ] O conflito cuu·e o francês <la intclligentzia 
rcvoluciouária r.. os íoiomas ou d.ialr.tos constitui uru 
conflito pelo poder simbólico cujo móvel é a fnrrnaçn.o e. 
a re-formação das esn·uttu·m:, mentais .... Pienc Bom·dic.u 
( '1996: 34) . 
toriadores contam que o processo de ··'fran-
cizaç.ão" da França se deu, logo após a Revo-
luç.ão, num período extremamente curto: em 
m enos de cinqüenta anos, o franGês de Paris 
se impôs como "a língua'\ cornando todas as 
demais extremamente minoritárias, verdadei-
ros fósseis de eras passadas, reduzidas ao status 
depreciativo de ·'dialeto'\ :'jargão" ou "patoá" . 
Estudando a h islória llo francês, percebemos 
que é justamente a p:.utir do final do século 
XVIll ( a Revoluç.ão <~ de 1789) que t.ertas 
formas l.i:ngüísticas desaparecem do francês-
padrão e cedem seu lugar a formas novas: 
al~-:adas ao pos to de modelo pela ascensão da 
burgur,sia crue as empregava. :Mas essas mu-
danças lingiiísticas radicais, essa ('-subversão 
herético~' (como escreve Pierre Bourdieu) do 
conceito de ,,.bom", ''ceno" e "elegante': só foi 
possível porque uma grande revolução va rreu 
a França <lc ponta a ponta, com tudo o que 
isso significa de conflito, violência, derrama-
m ento de sangue) incêndios, massacres, além 
de toda urna subversão de valores, símbolos, 
con cP-i1 os .. crenças c1.c. 
Com intensidade bem menor., mas igualmente 
marcada por uma história revolucionáúa, foi 
o estabelecirnento do '•'inglês americano". Ao 
·onlrário do que ocorreu no Brasil - onde a 
iudependênr.ia foi tsam1:1da uc cima para hai-
x.o e proclamada pelo próp1io repre. eutante 
da Coroa portuguc ·a - , os arne,ricanos se Ji-
hertaram qo <lomíwo britâuico pegando cm 
armas e arriscando suas vidas p ela criação de 
uma nação soherana. A guerra pela u,depen-
dênc:ia das colônias i uglesas na América elo 
Norte é chamada p recisamente de Rí'volução 
Americana {1775-178~), e. foi uel.a , a liás, que 
se inspiranim os ideólogos fnrnccses que in-
centivaram, em seu próprio paí : a derruuada 
do antigo regjmc íeudal e aristocrático. Um 
dos movimentos intelecttutis mais importan-
tes, µostcrior à rcvoh1ção ameticana. foi e~a-
tameule a couotitnição de unia ~-linguay que 
represent asse ,1 ideu( idade da uova nação 
surgida da gueua de iudepeudêncja. Este 
movimento será cuca:ruado pelo célebre filólogo 
arncrirauo Noah Wcbstcr (1758-1843): 
L1teiramcnte couquislado pela causa da. indc-
pcnrlência nacional, Web,;tcr vê um nexo ünc-
cliato entrn a ruptura <:om a ,lominação polí-
tica e cconôrnicu da ínglmerm e a rnptura 
com a h<'gemon.ia de urnu norma li.ngüíslica 
britârúca. A jovi::m n.aç.iio nascida ela nwolu-
çiio precisará de sua própria língua5• 
; Srcphcn Aléoug (2001. pp. 167-H18). 
W'ehstcr vai. cousagrar toda a sua \ida a criar 
uma gramática nacional americana, uma 0 1·10-
grafia a:merica11a e, sobtet 11do, um dicionário do 
inglê.s amc1icano, sna obra maior e pela qual alé 
hoje é famoso, a pomo de eu nome ter se toruà-
do. na língua inglesa, sinônimo de d:irionário6. 
A ESTIUTl::CIA D . .\ Al'ROPR!AÇ/\0 
~ada d isso aconteceu no Brasa nem cm 1822 
nem., rnuüo menos, em 2002. ;\ rl<~ição de Lula 
- pelo fato mesmo de 1.cr sido uma eleíçcio -
não foi urn processo r evolnciouário. no senLido 
h.isLÓlico-sociológü:o do termo. Ele chegou à 
presidência de acordo com os mecanismos elei-
torais previstos na lei: ele se iiubmeleu ao jogo 
previsto, cumpriu lodos o rituais de um can-
clidato rnnvencional. Quanto à sua ling uagem> 
basta comparar a fa la do lídrr sindica l do fi -
nal dos anos 1970 com a retórica elo presidente 
empossado em 2003 para verificar a c.spelac11-
6 É basta11te si.utomátfoo que os rliciouário.;; de 
língua i11gle.5a trng:un tllll verhctc A A111e1iciui Engli.;h" e 
... Br itish English ... e wua de.füú (."ão para o primeiro tenuu 
('·n liugua inglesu tal como fahtda e escrirn uos E .-tadus 
U11i<los " - Hcmdom House Websters Unabridgecl 
1Jir 1iono1y). uo passo que os diciornh ios bra,5iJeiros. w e~-
mo os mnis l'Ccentes. nc:111 sequer mmu:ionam a t~xpres-
i.iiu "porru:,ruês b rasilr-iro''. dando a mucnder que o por-
tuguês rlaqui e o de Portugal siio 1uua coisa só... - :l5 
.. 
" 
lar apropriaç,ão, por pa rte ele l Aurt, dns l'ón1l ttlas 
lingüísticas consagradas, das expressõcci icliomá-
ticas c:arncteríslicas <los m eios i:ntel<.ctuahllcutc 
privilegiados1 rodo um discurso h abilmente 
comnTtúdo pa;a se adartar à expectativas tanto 
dus amplas caruadas ruenos favorecidas quanto 
dos setores mui conservadores da popnlaç.ão. 
Embora pessoas como Dora Kramer e Da niel 
Piza pareçam não te r sensibilidade para ver 
isso, é indiscutível <.JUC a lfogua falada por 
Ln.la está hoje muito mais próxima daquela 
que n·arucionalmcntc se exige <le um m embro 
da elite política e inteleclual. Com g r!illde 
hábilidade também . ele não abandonou os 
elem entos caracterísi icos das variedades lin-
giüsticas ·'pop,tlares·•, e saoe se servir muito 
bem deles quando fala de improvi so p ttrn gran-
des rnu ltidões~ recusaudo-sc a usar ltrua retó-
rica balofo e orntunentada d<' qn.inqu iUJa1ias 
sintáticas e lexica is., que é a carac teristica 
priuripa l do ;' fala r difícil\ quase sempre pa ra 
não dizer uada de suhstaucial. Lnla é 11m 
usuário extremamente competente dos m últi-
plos gên eros discttrsivos que tem à sua Jispo-
siç.ã.o - e este é o verdadeiro si~ficado de 
saber 4·falar bem'' uma língua. 
A lingüista e educadora brasileira Stelia 'tv·luris 
Bortonj-Ricardo, num colÓ<.JUÍO sobre lfogua 
portuguesa realizado na Ale manha em jo.ncu·o 
de 200:3, ao rctTaç.ar a trajetórfa de L uiz lnár.io 
Lula da Silva, assim falou: 
\1s (;Uilll,>anlrns em que foj de1Totado [Lula) 
so&ia muita · cdlicas por nã.o ter um bom 
donúnio da chamada língua cu lta. É notável 
o ~eu esforço de monitoraçiio [ .. . ] priucipaJ-
mentc nessa última campanha vitoriosa e 
nas suas elocuções formais já na condiç.ão 
<.le presidellle da rcp(1blica. 
A eleição de Lula não vai representar; como 
Dora Kra mcr receia (ou finge recear), uma 
mudança radiral dos conceitos rle língua "C(',r-
ta-» e ''-bom português" nas cscoJas brasileiras e, 
sobretudo, no ünagináiio de uossa sociedade: no 
nosso senso comum. Este imaginário .. este senso 
comum só poderja.m ser radicalmente desman-
telados e substitufrlos por outros se todas as 
demais relações sociais sofressem ttma ruptura 
iguaJmcntc radical e revolucionária. 
a conclusão de sua fala, Ilortorú-Ricardo 
nccrtnrlamcntc declarou: 
Numa sor.iedade r.omo a brasileira. em que 
u líugua-pad rão 45 claramr.nte asRociacla a 
classe social [ ... ], 11m'a criança p obre, de an-
tecedente::; rurais só poderá ter algwna opor-
tunidade se for introduzida à cultura letrada 
por meio do processo e.s<.:ohu·. u menos que. 
,,. 
:,: 
37 
38 por uma conjuução q tlase ruágicu de talen-
to, esforço pessoal e órcuustâncias políticas, 
o le truntcnlo vá até ela e da se rorne uru 
brasHeiro ou urna hrasilei:ra que• alcance a 
cidadu.nia•dowiua.udo 01, ruo<los prestigio ·os 
<lc falar. Assito, pode St> ... r até que esi,a crian-
ça chegue a ser pre idemr da república . 
Qur ninguém , cnt·ão, fique em pânico: as esco-
la ~ brasileiras vão conti rmai· tendo como nlis -
são principa l e incontornável a de pmmit i.r a 
seus alun os uma integração cada vez mruor e 
melhor 11a cultura. letrada, o que signiÍjca ( entre 
nma porção de 011tras coisas~ m,rito mais impor-
tantes até) o ensino das formas lingiiísticas mais 
valorizadas pelas camadas dominante.e; da socie-
dade. a.inda que estas mesmas camadas não 
empreguem quase uu11ca essas formas antigas e 
em óbvio processo de falecimento.A história pessoal de Lula é~ sem dúvida, uma 
revolução é.quase mágica '\ mas é uma r<wolu-
ção indivíclual: µarticular, cügna de assombro, 
é clarn, uurn ptús tão injusto qua1110 o nosso. 
E, jrll:it amente por isso, ela f a famosa ,:cxce-
çào que confinna a regra·~. Todos os tn.ilhões 
de cidadãos pohres que, hoje, não têm acesso 
p1r.no à cultura letrada e às formas lio.gii.ístí-
cas prest igjadas contfo uarã.o sendo estigmati-
zados e mantidos bem distantes <las vias de 
acesso à. mobilidade i;ocial pm a o alto. 
Ufll 
Por que ~'norma"? Por que "culta"? 
1 
Nn que diz respeito às questões lingüís-
ticas, o r.<mceito de norma dá margem a muita 
discussão teórica1. No f)iá onán:o Houai.çs da 
l[ngua Portuguesa fica evitltntc a duplicirlade 
de noções co111ida na palavra norma quando 
·e trala ele líugua: 
4 Rubrica: lingiifslica, grarn<Í.l.ica 
conjm110 dus preceitos estabelecidos na selc-
ç~o do <Jue d eve ou não ser usado uuma 
certa líugua, levando em conta fatures lin-
1 Btt:;ta vP.r, por exemplo. as diversa;; e difn emes 
propostas de análise do concP.ito de -norma" que upa.re-
1'<'111 nos ensaios dos muitos aurore~ (1,-st.rongei.ros e bra-
i,il1~iros) remúdos nos livros Nonna lingiií.stú;a (1001 ) e 
l ,ingüística da nonna (2002) (v1~r referência.e; completas 
1111 Bibliografia). 
40 
i 
7. 
< 
giiísticos e não lingüísticos, como tradição e 
valores sociocnllurais (pl'<",Slígio, clegâ:ucia, 
e tética etc. ) • 
5 Rubri,·a: lingiií..~tica 
t urlo o que é de uso correme numa lfogua 
relativamente estabilizada pelas iustituições 
sor:i.a is . 
Como é possível, num mesmo campo de inves-
tigação) usar um ú.nico termo para o que é 
"·preceüo estabelecido.,., e pm·a o que é "uso 
corrente"? Diversos autores~ realmente, desta-
cam o fato de que do mesmo s1.1bstar1tivo nor-
ma derivam dois adjetivos - normal e norma-
tivo - usados com se111i<los bem distintos. O 
normal é o que descreve a acepç;,ão 5 do dicio-
nário de Houaiss, enquanto a acepção 4 se re-
fere ao normativo. O antrnpólogo canadense S. 
Aléong assim define cada um deles (2001: 148): 
Se se emende por normativo 1UJ1 ideal defi-
nirlo por juízos de valor e pelu presença. de 
1un elemento de reflexão con sciente da pmi:c 
da.s pessoas concernidas, o normal pode ser 
rtefiuiclo no sentido maremático de freqüên-
cia real dos r.omportamentos observados 
[g1ifos meus]. 
Des<-..1ição semelhante se encontra na-, refle-
xões Jo lingiii ta fra.ncês A. Rey (2001: 116): 
Antes de toda tentativa de definir· a "'nor-
mu ", a consideração lexicológica 01 ínima 
descobre por t.rás do termo dois conceito , 
um atinente à obsen1ação, o outro à elabo-
ração de. u.m sistema de valores; um corrcs-
poudeutc a mm, sírua~:ão objetiva e esLatís-
Lica, o ou1ro a um feixe de inlcnçi>e · suhjc-
liva,c;. A mesma palavra. utilizada sem pre-
caução, corresponde ao mesmo tempo à idéia 
de mécliu, de freqüência. de tendência geral-
wentc e hnbiLuaJmenLc realizada. e à de 
co1úon11.ida<le a uma regra, de jtúzo de vu-
lor, de finalidade designada. 
Essas oposições ficaUJ muito clarns quando a.pa-
recem disposta:; la<lo a lodo: 
nonnal normativo 
• USO C-OU'CO[e • prer,eiros 
• real • i<leal 
• comportamento • reflexão conscientr• 
• observação • clabornção 
• situ11.ção objf'riv11. • intrnçÕt:8 subjeth-us 
• médin e~tatístic~, • collformiclodc 
• freqüência • juízos de valor 
• tendênciu geral e habitual • finalidade designada 
~ 
' 6 ... .-
~ 
~ 
• lt 
_,_ ,_ 
:: ; 
J 
5 
:: 
.:: 
:5 
41 
42 
-
"' " 
Essa duplicidade de sentidos registrada no 
diciouá1io, e detec1a cla por Aléong e Rey .. apa-
rece muito claramente no discurso das pe:;soas 
gue falam sobr~ a língua~ seja no campo da 
ii1vestigaç.ão cien.tífica ou na abordagem leiga 
e.lo tema. Para p ior ar a simação~ a palavra. 
norma quase nuuca anda soziuhn. Dona ~ or-
ma, n a maioria das vezes: é citada com nome 
e sobrenom e, _isto é~ vem seguida de algum 
qua lificativo que teuta defini- la mais cspcciJi-
carncute. Dos d iversos adjetivos usados para 
qualificar a n.01·ma, o mais cornmn, certamen-
te, {; o tHl_jctivo culta ) e a expressão nnrma cul-
ta circula livremente nos jornais. na te]c"isão, 
na iuternet, nos livros didáticos, na fala dos 
professores, nos manuais de redação das gran-
des empresas jo ruaJísticas:. nas gramáticas, nos 
tc:A.ios científicos sobre língua etc. Mas o tfUe 
é, afinal. essa normn cuúa? E la se refere ao 
que é (ao normal, ao freqüente, ao ha bitual) 
ou ao que deveria ser (ao normativo., ao ela-
boro.do, à regra imposta )? 
A maior dificuldade em lidar com a norma culta 
é-, precisamente o fato dela ter dupla persouali-
dadc, o fato de por trás dcss~ rÓtHlo - norma 
r,u/J.<1. - se cscondcn!m dois conceitos opostos 
no que diz respeito à língua que falamos e es-
crcv~mos. Vamos ver do que se trata. 
NomL\ CULTA: CM PI\ECONCEJTO MJLEN . .\11 
O primeiro desses cuuceitos é u que podería-
mos chamar de do senso comum, tradicional 
mJ ideológico, e r. aqud r, q1rn tem m ais ampla 
cfrculação na sociedade. a verdade, 1ra1a-se 
m uito mais de um preconceito do que de u rn 
conceito propriamente dito. E que preconceilO 
seria esse? É o pret;Ollceito de que existe uma 
única maneira :, certa,; de falar a língua, e que 
seria aquele coujtwto de regras e preceitos que 
aparece estampa.do nos livros chamados gramá-
ucas. Por sua vez;., essas gramó.1icas se ho.sr.a-
riau1, supostruncute, nwn tipo peculiar de ativi-
dade lingüística - exclusjvameule escriJ,a, - de 
um grupo muito especial e sdcto de cidadãos, os 
grandes estilistas da língua, CfllC também costu-
mam ser chaniados de '' os clássicos,; . h IBpi.radus 
no usos que aparecem nas grandes obras li te-
rárias. sobretudo do passa<lo, os gramáticos ten-
tam preservar ('$Ses usos compondo com dcs 
um modelo de ling,m, um pa.drõ.o n ser obser va-
do por todo e qualquer folan1c que deseje usar 
0 língua de maneira "correta'", "•civilizo.ria", 
'
1elegaute" etc. É esse modelo que recebe~ t1·a-
djcionahnentc~ o uorne de norma culta. Vamm, 
ver, por exem[Jlo, como alguus importantes 
11ramáticos definem o seu trabalho e, <leutro 
dele, como 11sa.m o adjetivo culta . 
-. 
+4 
!-
Os fi lólogos Celso Cunha (hrasiliiro) e Lindley 
Cintra (português), ao o-pr<'scntttrnm sua Nova 
gramática do português contemporâneo (1985: 
xiv ), assim escrevem: 
Trata -se de uma 11>uUl1ivu de dc-,5criçào do 
português atual na sua for111a rnlta, isto é, 
<la lín~rua como a IP-Ul urilizado os esr.ritores ... 
port.uguesrs, brasil()iros e africanos rio Ho-
manl ismo para cú. 
Já Rocha Lima, r ... rn sua Oramâtica normatil'a 
du Língua portuE,·uesa (1989: p . 6), dcd arn: 
Fu.ndarn()uto.m-se a1:- regra.,-; J a Cl'a mútica 
Normativa nas ohnu; dos grandes escritores~ 
P.lll cuja liuguagem as rla;;sc..:; ilusn-adas põem 
o seu it.k~l dr perfoição: porqu <" uelA é que 
se espelha o que o uso idiornút ico l"Stabili.-
zou <' consagrou. 
Evanildo Decha.ra não usa o a<ljetivo cuüa -
pref cre um eufemismo: '·' lfugua exemplar.,,, que 
defin e de mo<lo confuso e pouco consistente 
-, 111a:; também se refere à literatura . Ass i.m, na 
mah; rccen1e edi<_~o de :ma ,11odema gramática 
da WlfrUO µortuguesa (1999: 52)~ de e.>q:lljca: 
,\ gramática normativa recomenda como se 
eleve fala r e es~revcr scguudo o uso e a atl-
tor ida de dus escritons corretos e <los 
g raw ático ~ clicionarbt.as csdm·cóJos. 
Mas q uem é q ue diz se m11 detei-nrinado escri -
tor é ou uão é correto< E, pior o.inda. quem 
<lefi.ue se este 0 11 aq1wle gramático é ou não 
esclareddo? O a utor n ão explica, o q 11e pod" 
Jevar a gente a p (~n sar que é ele p rópr io qu em 
vai au -iliu.i.r a 8Í mr~smo a utoridade hastaute para 
<\S1.a.brlecer esses critérios de clas .. sificaçlío .. . 
Evitando falar de literattu-a, o con hecido com-
pêndio gramati cu.1 de Domingos Pasdwal 
Cegalla, Noufssim(1 granuilicn da língua por-
tuguesa (1990: xix), é apresentado do seguin-
te rno<lo: 
E.,;t c livro prNc.:11dc ser l illla Cnunárica or-
ma1iva da Llngun .Portugues~ confonn<' 11 fa-
lam e escrevem us pessom, c1iJr.as na. época 
awol. 
YÍuito bem. :\fas <J11Cm são ci\sas pessoas cul-
tas'? Que critérios o autor utilizou para clas:;i-
ficá-las nss im : o nde, quando e com que 
metodologia científica? EJc niio esclarece, e o 
~ . 
que vemos, c.ons111fando o livr o: é C{Ue os exem-
plos são tirado · ou de s1rn própria imaginação 
0 11 , ma is tuna vez, de obras lit erá rias. 
Tclllos esses a Ll1"01·<'s., portanto. ao ddüúr assim. 
u língua r..1Llla. ou forrna culta. ou norma r.1d-
la, ocupam o lugar que Uies cabe numa lon -
g11í sima fila de estuiliosos da 1ín~11a ciue. há 
-
5 
_,, . 
i , 
' 
-t5 
4ú quase 2.500 anos, associam língfla cu.lla com 
escritn Ülerária. Essa ú urna 1Tarlição que co-
meçou por ,rolta do século UI o.C., eutrc os 
filósofos e filólogos gregos, quando fol criada 
a própria dii:;cip.!iua batizada de gramática. 
Aliás, sintoruaücaruente. a µa lavra gramá-
tica, cm grego, significava. na origem, 1.ia arte 
de escrever'' . Ao se in1eressar exclusiva mente 
pela língua dos grandes escritores do p<1 s:;ado, 
ao desprezar completamente a língua falada 
(considerada " caótica'', -i lógica", "estropia-
da''), e também ao classiíicarern a mudança 
da língua ao longo do tempo de "núnaº' ou 
"deca<lêucia ,. , os fm1dadores da <l.iscipliua gra-
matical cometeram um cqtúvoco que podería-
m os chamar de "pecado otiginar' dos estudos 
tradicionais sobre o. língua. Foram eles e sew, 
seguidores, de fa to) que plautoram as sr-rnen-
rcs do preconceito lingüístico, que ia m dar 
ra11tos e tão amargos frutos ao longo doil sér.u-
los seguimes. Foram eles que sacralizaram na 
cultura or.idf:n1a1 o mito de que ~"'< iste "e1To" 
na língua, principahnenl:e na língua falada. 
Por is;;o, até-hoje. as pessoas jttlgam n língua 
f ulada u sando coruo i.ustrumento de medição 
a líugua escrita literária mais consagrada: qual-
quer regra lingüística que não esteja prescmc 
na gra nde literatiu·a ( e coroo são uU10erosas 
essas regras!) é imcd iatamente tachada de 
"
1eno". É essa doutrina milenar qne orienta a.s 
observoçõcs de Dora Krruuer1 Danjd Piza e n1ui1"a 
gente ma is: uma crençn que teve t auto tempo 
para se cristalizar, para . e petrificai.\ que é pra-
tica.mcute impoi;sível convenr.cr as pessoas <lo 
confTário - afinal, é uma crença mais an1 iga elo 
que os dogmas da própria religião cris tã! 
O uso da linguagem literá ria como matciial 
ele investigação pai-a a <lescriçõ.o/prez;c1·ição de 
uma norma ( de um conjunto de regras) podia 
se jus ti ficar, n a Antiguidade e na ldade Ylédin, 
pelo fato da litcratma ser praticamente a única 
forma de expressão da lfogua escrita mais 
monitorada d1u·ru1te aqueles pc1íodos histfoicos. 
Naquela época não tinha jomal nem revista, não 
e)cistiam 1neios de comrn1ic.1ç.ão de massa, nem 
telefone, nem rá1.lio.. nem fax, nem imen1et .. .. 
Tarnhérn n ão tinl1a jeito de registrar a língua 
fala<la pa ra que fosse usada como material de 
estudo (isso só acon teceu dcpoib da inven ção uo 
crravador~ no século X). O único modo de es-
1 udnr a língua era p or meio da cscri~ e a. únic.a 
escrita à qual se Linha acesso em a literária .. qne 
iJl<iluía não só as obras <le ficção, mas também 
as de filosofia e teologia. Me;:,mo as c.:arlo;:; 
pessoais eram escritas sob a i11 íl ur.ncia <las re-
gras <la retórica clássica, que exigiam floreios 
t.l in1áticos e vocabulário req u.iuta<lo. 
-
5 
.~ 
47 
't8 Hoje, no sécnlo X.XI, a op<;ão pela liternttu-a 
v0rno "modelo" dP língua a ser ~imitado;, é, 
no míuiu10, absurda. O impacto da li11guagcm 
literária soLrc urua soc:iedallc como a brasilei-
ra, por e:xem~51u. _é ínfimo. Tradicionalmente. 
somos um povo que Jê ponco: nossas práticas 
sociais, ruesmo entre as classes aLa tadas, sem-
pre fonun mnito mais guiadas pela oralidade 
do que pela cultura livresca. Por oul.ro Ja<lo .. a 
litrralurn que, de fato, exerce poderosa infln-
ência sobre a maioria dos brasileiros é a poe-
sia <la nossa rica música popular. 011 seja, llma 
poesia oralizada. Somos mnito mais influen-
ciados pelas '-·moelas,. lingüí:;ticas da televisão 
e do r á dio e. em mcuor escala, da impren;:,a 
escrita <lo que pelo trahalbo estiJístir.o dos 
autores ele ficção. Estes, por ;:; ua vez, no · úl-
timos cem anos, vêm se csforçaudo por iucor-
porar em suas obras traços caract.crístieos da 
líugua falada no dia-a-dia da sociedade - é 
a a rte irrutaudo a vfrla~ e não o coutrru:io, como 
sempre se p ostulou cm qucstõcti de Língna du-
rante o longo prerlornínio da t eutativa de "'i.m:i-
tn.ção dos clássico::;;~. Além disso, diante da ine-
gável evidência de que o porn,~uês brasileiro e 
o portup1~s europe u já são duas línguas 
rnarcadamcute distintas, não tem jttstjfü:ativn 
nenhwua, como fazem os dicionários e a gTa-
mática;;, dar ex<·mplos de autores portugueRcs 
(na maioria antigos!) cumo modelos para a ati-
vida de lingüística dos Lras ilriros de hoje2• 
Ta1nbém foi a pari.ir <lo 1ra.ba.lbo dos gramá-
Lir,os da Antiguidade que surgiL1 aquele con-
ceito de ··líugua,.. com a definição que: no Pró-
logo: chamei de sobrenatm·al e quase esorfa-ica. 
Ao longo dos séculos, os defensores <lessa con-
ceJ_J(ão tra(Ücional isolaram a Língua, rC'tira-
r am ela <la v ida i;ocinL colocarnm 11 111'.ua re-
doma, onde deveria ser manlida intacta , ~pu-
ra · 1 e preser vada J.a ·',ontaminaç.ão" dos ~ig-
norante:/'. P or Cl:l usa dessa atitude é que, até 
hoje, u p rofessor de portug uês uu . mais espc-
cia lmellle, o gramático é visto como urna es -
p écie de crio111ra incomum, um mislo de sábio 
e mágico, qur d etém o conhecimento dos m.is-
1 E mbora eu tenL11 escritn lflle se Trata de uma 
"'inegáve l 1wiJfocia". é Lum sa licmar cr-w d a séi é iuc.-
gávcl paro os lingiiisrus que, como eu, acrr uitam que o 
pon uguês hrasileirn r o por rug11ês ew·opru t!âo ele fato 
duns línguas di ferrMtes. Exi.,tcru atttorrs que não susteú• 
tam P.ssa. opiniõo. No fundo, tudo dP.pcude cio riuc cada 
pessoa entende por ··líng1111". Como miuLa conrq>çào de 
I ÍJ1gna vai a lérn J o excln.~ivainente lingüístico e. Jefine n 
língua como mua a tividade socia l. incorporMdo concei -
10 5 ligados à identidade indivichwl ~ coletiva. fica difícil 
pura mim (e para muito-, estudiusos bra ,;ilriros e esrran-
g<'iros} mio considemr u portug11ês b rnsil11fru e o pm-ru-
guês europeu como duas l.úlgu:is <lisliruns - m uiro np a-
n ·nradas, {: verdade. mas dii:;ti11t1:1.:;. 
... 
', 
49 
50 térios dessa ~:língua"', que existe fora elo tem-
po e do espaço - e é esse ··saber m isterfoso" 
que gosto de chamar de ~norma oculta"3 ••• 
Ei=ise é, então: <f prirne·i ro conjunto ele idéias 
que oe esconde debaixo do rótulo norma culta: 
urna língua ideal; baseada (sllpostan1eritc) no 
uso dos gran<les escritores ( do passado: de 
prcferênda), um modelo abstrato (que não 
co,-resporide a uenhum conj u mo real das re-
gras que govel'nam a atividade lingü[stica por 
parte dos falantes de carne e osso). E.sse mo-
<lelo de língua ideal acaha cliando uma grade 
<le c1itérios dicocômjcos empregada para qua-
lificar as variaHles }jngüí ücas: certo vs. erra-
<lo7 b011j to vs. Ceio, elegante vs. grosseiro, civi-
lizado os. selvagem e, é claro) cullo vs. i.guo-
rante. Assim: o que não est5 uas gramáticas 
- , l , "' ·i, , (.1 I' nao e norma çu /.a: e "erro cra~so I e ·· mgua 
de íncL01', ~portugnêti estropiado" ott., simples-
mente, 'tnão é português1' . O próprio nome do 
idioma - p ortuguês-, eutão, deixa de de~ig-
na.r toda e qual quer man i fcstação falada e 
r.scrita da língua por prute de todo e qualquer 
folante nativo, e passa a designar exclusiva-
meute e::;se ideal a bstralo de Jíugt_La cer ta. essa 
Li • 
'1 Tomo atflli empresruda a f>.:tpre.;,siio ~norma oc11l-
ta '' que me foi aprc.sentndu pelo profi>Aa;sor Atal.ibo de 
Camlho e m COllVf'l'l,a jnfonnal. 
''u orwa oculta,. que só u.11;; poucos iluminados 
coueeguern apretm<ler e dominar intef,'I'almen-
tc. 'ão é o toa, portanto, que t anta geute diga 
que "não sabe português'' 01Jque "portuguê., 
é (muito) diFíciP' . 
NOIUIA c u, :rA: D1 TlmMO Tf.U'\IU:O 
Mas eu disse que ha-via urn outro conjunto de 
noções contido no rótulo norma cuúa. E qual 
é ele? A ouLra defin ição q ue se -dá ao rMulo 
norma culta se refere à linguagem concre1a-
me11te, empregada p elos c.idarl?io~ que per1 en-
cem aos scg111cn1os ma is favorecidos da nossa 
população. Esta é a noção de norma culta que 
vem sendo empregada cm djvcrsos empreen-
dimentos científicos como, por exemplo~ o P ro-
jeto NURC (Norma Urbana Culta), que desde 
o ir.údo dos auos 1970 vem documentando e 
anaUsando a Linguagem eíetivamcntc usada 
pelos falantes cultos de cinco grandes cidades 
brasileira.~ (Re.ciíc, SaJ adm, Rio de Janeiro: 
São Paulo e Porto Alegre); sendo estes falan-
tes cnL!os definidos por dois cri1érios de base: 
escolaridade superior completa e antecedentes 
biográfico-culLU ra is urbanos. Trom-sc, portan-
to: de um conceito de nurma culta, tw 1 termo 
técufoo estabelecido com c1itérios rela Lj vam e1He 
mais objetivos e <le base empfrica. 51 
- .-, .,_ O que as pc ·t1ujsas cieulfficas feitas no Brasil 
uus últimos trinta llllüo lêm r cvc:,lado é o se-
guiute: exis lc uma difrrcw;a muilo grande rntt·e 
o que as pes:;oas em geral chamam de! norma 
culra, inspiradasJ1a longa tradição grnmaticnl 
u onnarivo-prescritiva , e o que os pesquisado-
res profissionais chamam de norma culta. um 
1cn110 téc:nico parn rlc.;ignar forma::; lingüísti-
ca,;; que existem n a realidade social. Essa ch-
fcrc.nça se reflete tamhém na postura CJ UC a 
pessoa assume diante dos fatos Ungjjí:sticos. As 
pessoas ff1le usam a <'~'-'Pressão norma calt.a como 
1.m1 pré-conceito tentruu euconm.11' tim todas as 
111auifestaçfw · lingiústicas: falada. e escritas, esse 
idc,al de língua., esse pmh·ão preestabelecido qnc, 
como uma espécie de l~i, 1oclos terirun obrigação 
de co1ll1ccer e de respeüa r. Como é virt ualrnentc 
impossível encontrar esse modelo abstrato na 
rnalidadr: da vida social, os defensores des a 
noção de norma cu.lln. co11sjdcnuu que prati-
ca.mente to, la,; as pes:a;oas., de t.odns .is claf;s~s 
sociais, faJam '{en ado"'. 
As p essoas c:inc, por ontro lado, nsarn a ex-
pressão norma culta como um conceito, como 
um termo té.cnico, agem e:xatain eute ao cou -
trário: ela · primeiro iovestigaw a atividade 
lingüística dos falantes em suas .interações 
sociais, para depois diicr o que é essa ativido.-
de, por meio dP. ins j rumental teórico consis-
tente. Com hase nessa investigação e nessa 
análise é que os lingüista · podem afirmar, por 
cxemp]o, que o pronome cujo praticameote 
d esapareceu <la língua fa lada no Brasil , inclu-
sive da língua falada pelos brasi leiros classifi-
cados de cultos; que o futuro simples do 
indicativo (eu cantarei) também sobrevive 
apcuas na escrita mais formal; que as regras 
tradicionais de colocação pronominal são de 
uma tolice sem tamauho, e assim por diante. 
Q UEM VAI FICAH COM A FAIXA? 
Portauto, como é fácil perceber; estamos dian-
te de um prohlerna. Ternos um t'.'ulico nome 
para designa r coisas completamente diferen-
t es. Se qu iser1110s resuru.ir bem claramente es-
sas diíerenças con:flitant~, podemos montar a 
seguinte tabela: .. 
r 
53 
54 
l NOK\1A C1..,Tf..:fA. ? (., NOR.\·IA cm;[!\. ? 
• pro.,4·fitiv11 (nonnotiva) • descriti\'a (noema!} 
• "lú 1gun •., pt'escríta• nas • ativid0d1~ Ungüír.tict1 rios 
grru11f1ticas normativas, "fal:mtt~ cultos", 1.:om 
irupir11das ua liccrahrra esculnrid11de supt>rior 
"clássit~• ~ r.omplP.rn l~ vi,,ên,·in 
11rhrutt1 
< 
• preconceito (basria-se • ,·onc.ci10 (tenno ti1:i1ico 
em milO,i sem .funda- usndo em irwr..uigar-0es 
111er1taçcio na realidade empí.ric:as sobni a 
da língua rim, língunl, ço-relacin11ado.s 
impimdos em TIW<lrfos mm fi,tores saciai,) 
w-r:aico,ç de organização 
social) 
• doutriuií.ria (compüe-se • científica (brueia-.,r. em 
de e111mciados hip6rese~ e teorias que 
categ,íricus, dogmnticos, de11t·m ser fest(ldns 
que mio admitem pam, em .,eguida. ser 
ronteslnção} oalidadas 011 in,-rJicla-
cla.f) 
• pretensamente • e:1~ertd almc.n11\ 
Lomog~nea hct,rogênf'.a 
• P-litista • ~nriahflf'ntc vari!Ível 
• prc:.8 ô escrita liteníria. • ~ llllUI ÍÍesta l(lDtú na 
sep91•a 1igida.mm le a fol11 qua.nt.o u11 eM;tita 
fala da e.scritll 
• vf'nerttrln como \u11a • :tiujritti a tntn~fomiações 
verdade eterun e ao lo.11go do 1empo 
im111ávcl (t.ulnw la) 
~o meio desse tiroteio, como é que a gente 
fica? A quem vamos atrihufr a faixa de i11iss 
Norma Culta? A situação é tão complfoada, o 
terreno é tão movediço que, muitas vezes, até 
mesmo os próprios lingiiistas, que geraJmente 
procuram ser o mais criteriosos possível, es-
corregam no chão pantanoso e se dei, am le-
var pelas am.bigüidades contidas na expressão 
norma culta (ou por se11s próp,ios preconcei-
tos incouscientcs) e passam sem perceber de 
um coujunto de idéias para o outro1 do nor-
mal para o normativo e vice-versa, deixando o 
leitor cm dúvida sobre qual é, de fato, o fenô-
meno que está sendo Lratado rui. Isso ocorre 
ainda mais íreqüentemcnte quando estudiosos 
de outras áreas de conhecimento (história, 
sociologia, a.nlropologia, educação, comunica-
ção, filosofia etc.) csc1'evem sobre questões 
relacionadas à língua. 
Exemplos dessa confusão generalizada podem 
ser encontrados nos materiais que o Ministério 
da Educação distribui pai-a os candidatos do 
E ;EM (Exame Nacional do Ensino Médio) e 
do Provão (Sistema Nacional de Avaliação do 
Ensino Superior). 
Na "Cartilha" do ENEM 2003, que dá infor-
mações práticas às pessoas que vão se subme- 55 
fi6 
ê 
ter ao exame, a parece a segumte pergunta: "O 
que o E)IB.M avaJ ia?'' egundo a resposla 
oferecida: o E)JEM avalia ·~·dnco competên-
cias\ e a prirnefra delas é: '·Dominn.T a norma 
culta da Língua Por111g11~a" - sem que seja 
dado. nenhuma definição do que se entende por 
('norma cult1:1'1 • Esse modo de enunciar os obje-
tivos e.lo exame me parece particularmente de-
sastroso, pm·quc contradiz frontalmente as pro-
postas mais progressistas da educaç,ão lingüfati-
ca: e&'t:imular o o:abaJho com a rnult.iplicidade 
de gêneros cliscm-sivos, conscientizar o a1uno ela 
rique;r.a da variação lingüística inerente a qual-
quer língua viva, fazê-lo reconhecer as instân-
cias adequadas de uso desta ou daquela varie-
dade, mostrar que as formas 1-<cerLas" são o pro-
cluto de uma seleção-exclusão que co11.-espo.ndc 
às seleções-cxclusõe.s que vigoram na organiza-
ção da soci edade etc. - r roposta:. que o m r~'illlO 
Ministério estampa uos seu s Parâmetros 
Curriculares Nacionais ... Limitar o E>Jl::M à 
avaliaç.ão do 14<lomínio da nonna c1tlta" é recair 
no preconceito milenar de que só existe uma 
forma "cerra:, de falar e de escrever4• 
No caso do Provão, o candidato à avaliação 
do curso de Letras deve respon<ler um ques-
-1 Acerca do Ei.\El.\'l. ver a cUscussão feita por C. 
,\. Faraco (200:l: 55-58). 
tionário que servirá ao Ministério de material 
para a elaboração de estatísticas e perfis socioe-
conómicos. Ora, a pergunta de uÚJ:nero 60 está 
assim redigida: c:o sr.11 de-sempenl10 ora} foi 
a valia do do ponto de vista do dialeto culto 
padrão?,, Desastre dos desastres ! Aparece aqui 
a falsa sinonúnia culto = padrão e, para pio-
rar tudo, o 1iso da palavra dialeto ... Como vou 
tentar mo::;trar mais adiante, pode até existir 
1.llll dialet,0 culto (na verdade; existem vários)., 
mas nunca um ~-dialeto padrão ': . 
erá que tem algum jeito da gente resolver 
isso? Felizmente, me pnrece guc sim. \fas autes 
de propor uma solução. vamos discutir ainda 
um pouco mais o adjetivo cuL!a .. . 
Ct.LTO É O Al\"TÔ IMO DE POl'UL \R? 
Por mais que seja difícil para os estudiosos sé-
rios das questões liugüísticas, é preciso reco-
nhecer qu~ me&mo como termo técnico, como fer-
ramenta de investigação cicntí.6.~ a expressão 
no,ma cult.a revela um longo processo de impre.g-
noção ideológica que teru de ser critir,a.do. 
Para começar~ quando alguém diz que uma 
determinada !,norma",que uma determinada 
maneira de falar e de escrever é culta~ auto-
maticamente está dejxando entender que to-
"'· ·-~ 
"' ,-
s 
- -, ·>. 
58 
E 
das as demais maneiras tlc f aJar e tle escrever 
não seriam cultas - . e1ia m, portanto, incul-
tas. Esso. postura é assmnida sern rodeios por 
C. P. Luft em sua Afoderna gramática brasi-
leira, ao d,j.zer que a língua apresenla doi:11 1.-:ní-
veis ~', o cullo e o ,:nculto, vi nculando o a.djc-
tivo culto à pre..sença da '-llcil w·ar. n uma comu-
nidade (2002: 19). Esse par de antôuimos aca-
ba provocando a illevitttvel associação com 1 o-
dos os sentidos possíveis capazes de se abrigar, 
no senso comum, por trás da palavra inculto: 
" rude:\ "tosco'\ "grosseiro''. "bronco\ '~selva-
gem", "inci ,rilizado ,~, "c1u ~,, \4igna ro ,... , " igno-
,, ., . . I rante e por ai vai~ e vru onge ... 
Ora, do ponto de vista sociológico e antropo-
lógico. ·implesmente não existe nenhum s<'r 
humano que não est;eja vinculado a uma cul-
tura, que não tenha nasci<lo denno de um 
grupo social com seus valores, suas crenças: 
seus h ábitos, seus preconceitos, sens costu roes, 
sua arte, suas técnicas. sua lí aguo. .. . A ques-
tão, como bem sabemos: é que no senso co-
mum só se considera culto aquilo que vem de 
determina.das cla.;ses sociais1 as classes sociais 
privilegindas. Quaudo dizemos que uma pes-
soa é muito " culta'\ que lern muita •~cultura;': 
estamos dizendo que ela acumulou con heci-
m entos de uma determinada modab:dade de 
cultura, urna cno:c muitas: no caso, a cultura 
ba..,cada unma escrita r..anouizada, a cultu-
ra. lhrrcsca, a cullU ra que é fruto da produção 
jntelect.ual e arLÍSLica valorizada pelas classes 
sociais favorecjdas, deteutoras do poder polí-
tiw e ecouômfoo:;. 
E aqueles pesquisadores que tê111 utilizado o 
termo culto para qualificar um determinado 
gn1po de falantci; se deixaram levar po.r esses 
mesmos deslizamentos que nos fazem passar, 
ciclicameute, de mn sentido v.nonnati.vo" de 
culto ( = cultuado por um determinado seg-
mento social) pru·a um sentido «nonnal" de 
culto (= inserido numa daua cultura). 
Por oul ro lado, para lentar designar as varie-
dades lingüísticas relacionadas a falantes sem 
escolaridade superior completa, com pouca ou 
nenhuma escolarização; moradores da zona 
ruraJ ou das periferias empobrecidas das gran-
des cidades, aparece frcqiicntcmente na litera-
tura liugüística a classificação língua p opula,; 
norma popular, variedades populares etc. Cria-
se com isso uma dislinção o'ítida entre norma 
<;ttlla e norma popular'. 
;, Ver lt propósito a discussii.o feita por e. A. Faroco 
(2002: 39). 
t. É o caso, por exemplo, ti.e Lucchcsi (2002). · 
,.. 
õ 
60 Novamente, podemos perguntar: cuüo e po-
pular são antônimos? Ou., mais grave ainda, 
popular e inculto são sinônirnos? Do ponto de 
vis ta da teoria lingüística, não - são apenas 
domínios de saber di f ereu1 cs. Mas, do ponto 
de vista do se~so comum. sim - são vistos 
como antônimos. a definição <lc povo só 
entram a.s pessoas que não pcnern;em às clas-
ses sociais privilegiadas? O povo brasileiro são 
todos os 175 milhões de pessoas que vivem 
aqui, ou 1.1somente '' os 1~15 .milhões que têm 
pouco ou nenhum acesso aos bens sociais, à 
educação, à moradia, ao lazer, ao consumo, a 
uma alimentação digna etc. ?7 Existe cultura 
sem povo? Existe p ovo inculto 7 .T .. t. vimos que 
não. Mas numa sociedade ex.·trcmamcnte ( e 
desiguaÍrnentc) cüvidida oomo a nossa~ o adje-
' Segundo dados do illCE (www.ibge.n<'t), 78.4% 
do~ hrasileiroi; recebiam, em 1999. menos de 10 salário;, 
mfrrimo:;. Isso perfazia um totul de mu.is de 133 millLôcs 
de pessoas. Como a população resltllltc, de aproximada-
mente 35 milhões, já constitui um me1·cado interno ca-
paz de altos úidices de constUllU. não panice necessário, 
pela lógica do capitafumo neoliberal 81.fUÍ implanrndo a 
panir <lc 1994 ( e que leva adiante as estrunrras de ex-
clusão ünplanta<lru. de:;de a época coloni.al), ampliar esse 
mercado interno, pois o já cxisLeutc, maior que a popu-
la~:.io touu do Can a.dá, por c .. ,emplo, <la.va con ta de ab-
sorver a ofcrra da in rhíst:ria, do co,uércio e dos serviços. 
Ess11 política só tem :.;ervi.do para a umcntru· os índices de 
coucenu·açií.o de reuda no país. 
ti.vo popular é nrnitns vezes usado com conota-
ções pejorativas; Jepreciativas, parn inclic1u olgo 
de menor impor1ância~ de menor valor ua e::;<.;fila 
de prestígio social. Tauto é assim q11c muilns 
palavras .. quando vêru sozinhas: já iudica.m. 
autoruaticarueute, alguma coisa que não tem a 
ver com o "'" povo'·: art.e. literaturu, música ... 
Assim, sem qualificm ivo.~, ela::; já di:1.em o gue 
são: '{alta cultw·a , .. O m eslllo não acoutec.c r.om 
arw pop11,La,~ literatura popu.la,; m,.í.síca popu-
lar; que precisam do qualificativo popular. 
Essa visão extrelliarueute preconccinwso. ck 
povo a:parece Leru estampada na rcporlagcrn 
de capa da revh;ra /·'pja (nº 172'.), de 7 / 11 / 
2001), assinaria por João Gabriel de Lima. 
Ali._ depois ele elogiar os atuais defensores do 
dpgmaüsmo gn:unutic.:al que invadiram a mídia 
bra,s ile ira contemporâuea, o autor passa a ato-
car as novas c.:orwepçõc;; de ensino de lí'ngua 
propostas por lil1giüstas e educadores profissio-
nais e baseadas no reconhecimento da varia-
~ão lingiiísrira romo 1101 dos eixos da práti~s 
pedagógicas: 
Tratu-se de tWl raciocínio torto .. baseado num 
esquerdislllo de me.ia-pataca, que idcali:a 1 
tudo u que é popular - inclusive a ignorân-
cia, como S<-' 1-\ht foRR~ atributo, e não proble-
ma, do ''povo" . 
" · : 
61 
62 Um pouco antes, no mesmo parágrafo. o re-
pórter llltmciona as críticas fr itas pcJos lingilis-
tas e educo.dores a.o txabal110 dos hoje Lem co-
nhecidos "' cousuJtores grruna rica.is"' ( que c1.1 cha-
mo de comq.ndos paragramaticais) e escreve: 
Efo::. ecoam o pensau1e11rn de urua cena cor-
rente miau.vista .. que acha que os g ramáticos 
preocupados com aí:i r~gras da nonua culta 
prestam mn dcsscrvi.ço à língua. 
'Temos a s iw , num só paTágrafo, o uso 
precon ceituoso, nã.o-cicn tífü.:o e dognuí t ico de 
''norma culta", _juuto com a a1riblúçíio reacio-
.oáiia de "ignorância'' ao povo, ou seja, o não-
reconheciincn to de uma cultura <lo povo: que 
se cxp1·esso. também oa língua. Mais mna vez, 
l'cmos de louvar a coragem de uma pessoa que 
não tem o rneuor pudor cfo exibir nm:na revis -
ta de grau<lc tiragem sua ahsoluta df>sinfor-
mação acerca <lo assllllto tratado, apoiando-se 
na suposta ,:autoridade,: de pessoas tota lrneu-
te dcs v:i.neuJadas da pe:3<.p.risa científica e d a 
rcílexão pedagógica criteriosa. 
Chamar a língua dos fo lantes pleuamcn te 
escolarizauus de norma culta é tão problemá-
tico quauto usar esse rótuJo para designar 
aquele ideal de língua ahs1ratu, inspirado na 
Jiteratura do passado e nas presc1·içõcs ela 
gramática normativa. O que faz~r eu lão rara 
cvü ar que esses problemas <le t erminologia 
passem do sem,o comum rara as pesq uisa~ 
cien Líficas? 
P Amüo. PREsr.lCl O E ESTIG!\IA: QlJE TAL ASSIM? 
Ylesrno usaodo tcnuinologias que apresentam 
algumas diferenças cnue si, as pessoas que se 
dedicam a esludar a no1:,sa r ealidad e 
sociolingüístic.:a concordam cm identifica r, nas 
relações entre líugua e sociedade 110 Brasil.. 
11·ês 14coisas'' hem disti11tas. Va mos ver que 
''·coisas" serão essa.:;: 
1. A primeira é a ~norma cuh.a" dos prescriti-
visws, ligada à. tradição gruuwtical norma-
tiva, que tema preservm um modelo de lí11 -
gua ide.al, i.nspirndo na gran<fo literatura do 
passado. 
2. A segunda é a "nonnn culta" dos pesqui-
sadores, a língua realmcn1 e empregada 110 
dia-a-dia ]>elos fa1anLes que têm escolm·i<lu-
dc supetim· .completa, nasceram, crescenun 
e sem pre \liveram em ambicmc urbano. 
3. A tercei.ru G a "norma popular ", expres-
são usada cunto pelos tradidonalistas 4uan-
Lo pelos p esquisadores para df'~'>igrLai· uru 
conjum o de vm-iedades lingüísricas que apre-
-
' 
64 
s 
sentam dclerrni11udas caraclcrfaticas fooéti-<.:as, morfológicas. s i ntáticns, scmântkus, 
lexicnis ct.c. que nunca ou ,uuito rur arneute 
aparecem na falu { e nu escriLa) dos falruict-.s 
''cultm,". Esta "nor11w popular", r.otUu já 
, ·imo..;, prc!domiua no& urnbiemes rurais, oude 
o grnu de escolurização é nulo m1 m ui10 
haixo. Pre<lomim1 tamhrm uas pe1i ferias das 
cidades, para onclr acorrem os moradores 
do campo expulso µe la crim iuosa 1 rudição 
lalifnndiúria deste puís, reRponsá.vel pelo 
surgimento das favelas e dos <---inturõe.c; de 
miséria que envolvem to<las as zonas urba-
nas brasileiras (onde ~e rorLcentru hoje a 
maior µarte da. nossa população'. ). 
A pruncira e a scgm1da ''"<..:oisa'', já sabemo.;, 
recebem mTI m esmo nome mas são. c-:;sencial-
me111~, iJ11l'iusccam cnte, diferentes uma da 
outra. Se (Juiscnuos levar adiante nossa d is-
cussão, t eremos de dar a cada uma delas tun 
nome dif ernntc. 
Assim, para designar o modelo ideal de lfogua 
"cer1a", muitos lingüistas têm proposto o ter-
rno norma-padrão. Ele serve muito bem, m e 
parece, para designar algo C.JUe está fora e aci-
ma da atividade lingüística dos falaHtes . Em-
bora algumas pessoas também usem as e.,\'.-
prcssões língua-padnio. dia/elo-padrão e va-
riedade-padrão, eu prefiro ficar corn norma-
padrão, porque, se é ideal, se não corresponde 
integralmente a nenhum conjunto concreto de 
manifestações Hngüísticas regulares e freqüen-
tes, não pode ser chamada de "-língua", nem 
de «dialeto'\ nem de ,:variedadc1~ . É uma 
norma, no sentido mais jmidico do t em10: "lei'\ 
"·ditame", "regra compulsória" imposta de ci-
ma para baixo, decretado. por p essoas e insti-
tuições que tentam regrar, regulai· e reb'1.tla-
mentar o uso da língua. E é tamJ)ém um 
padrão: um modcJo artific ial. a rbitrário, 
constnúdo segLmdo ctitérios de bom-gosto vin-
culados a uma de1erminada classe social, a 
um detenninado período histórico e num de-
i erminado lugar. 
Quanto à segunda ''coisa'\ que os pesquisa <lo-
res chamam de "norma culta" , tambérn já 
discutimos o problema da contami.t1aç.~o de 
sentido a partir do senso cornmu. Se quiser-
mos evitar a intervenção dessa noção estereo-
1 ipada e excludente de "'cul tura ;', precisamos 
tmcontrar um modo alternativo de designar as 
vlll·iedades lingüísticas faladas pelos cidadãos 
t·om alta escolarização e vivência u rbana. Eu 
prnponho aqui a palavra prest[gio, rnnito 
c•inpregadn na literatura sociológica. Afinal, 
l '.Otno nessa problemática toda o que está re-
u l mente em jogo não é a língua, propriamente 65 
66 elita, mas sim o prestigio social dos f o.lantes, 
ueixo aqui a sugestão para que a gente passe 
a tratar de vari:eda.des de prestígio ou varieda-
, . 
des prestigiadas. E bom ressalLas, desde logo1 
qLic o pr.·cstígio ~ocial do.s variedndcs lingüísti -
cas das d asscs favorecidas, dominantes, não 
tem nada a ver com qualida<.les intrínsecas, 
com algum tipo de "beleza'1 ~ '!lógica" 011 ci:ele-
gância." inerente e natural a essas mane.iras d~ 
falar a língua. Esse preslígio social é uma 
construção ideológica: por razões históricas, 
políticas, econômicas é que determinadas clas-
ses sociais - e não outras - assumiram o 
poder, ganharam prestígio ou, melhor, atribuí-
ram µrestígio a si m esmas. É aquilo que o 
sociólogo francr.s Pierre Bom·dicu chama de 
:,ato de magifl . ocial" . Num passe de mágica. 
as origeus históricas desse prestígio são esque-
cidas (Bourdieu chama isso de ~-amnésia da 
gênese)·) e aquilo que vem do alto, das classes 
dominautes, é considerado indiscurivclmentc 
bom, Lonito, digno de ser imitado;, e passa a 
er considerado como um valor natural, in-
contestável, como se suas qualidades brotas-
sem da própria natureza das coisas desde o 
início das eras... o mesmo m ovimeuto1 tudo 
o que não se encaixa nesse modelo é conside-
rado ~'feio\ '"indigno". ''corrompido'', :..jncul-
to" . Aliás. a palavra prestigio, em latim, sig-
nificava exatamente is o: "•ilusão atribuída a 
causas sobrenaturais ou a sortilégios~ magia; 
artifício usado para seduzir, para encantar; 
fascinação, atração, encanto1 magia i~ . 
Por fim, como designar a '1r1orma populaJ"'', 
em jocorrer no perigo de iden tificar popular 
com inculto, errado, estropiado ... ? Na Jj tera-
hlra socjolingüí stic:a~ é r.omum opor pr<>stigio 
a estigma. O estigma, cm termos sociológicos, 
é wn julgamento e.xiTemruncnle negativo lanç.a-
do pelos grupos sociais dominantes sobre os 
g1upos snhaltcrnos e oprimidos e, por extensão, 
sobre t:udo o que ca.ractmiza seu modo de ser, 
ua cult ura e. ob"'ia:Jneutc .. sua língua ... Assim, 
para designar as vrufodades lingüísticas que 
caracterizam os grupos sociais desprestigiados 
do Brasil ( ou seja, a maioria da nossa populo-
ção), sugiro que a. gente passe a empregar a 
expressão variedades estigmatiz adas. 
Acredito, sinceramente\ que com cAta nova 
ten runologia podemos designar com mais pre-
cisão os t rês fenômenos lingiiísti<.:os que que-
remos estudar\ sem perigo de confusãoª: 
~ Evidcnt.emcnte, trota -se de uma p1·opost1.1 
t,•nninológica, scmpn: sujeit11 n crítica e reforum laç.ão. 
Pode ser qne a.4,•uém veja no~ adjetivos "presti0•ü1das'' e 
"cstigmatizndas" os rucsmos problcrnns de imprognação 
.. ,-
( 
. .., 
) , 
68 1. nonna-padrão 
2. variedades prestigiadas 
3. varicdacies cs1 igma t izadas 
Norma-padrão 
e:, 
e, 
e> 
VA.RJEl>ADES 
l'KESTIGIADAS 
VARffiOAOF.S 
F.STfGMATIZADAS 
Como é possível notar pelo desenho, o prestí-
gio ou o estigma atribtúdos a uma variedade 
Jiogiiística é uma questão de mais e de menos. 
Entre ru; variedades mais prestigiadas e as varie-
dades mais estigmatizadas, há toda uma zona 
ideológica que tento denunciar 110 uso de "cult_a" e '·pu-
pulw-"'. :-.lo momento, por~ não me ocon·cui adjetivos 
que possam dcsii,rnar de modo u1ais ''neutro'' a opobição 
<mtrc c;;tc.;; dois conjuu tos de vliliedadcs. As sugestões 
serão muito hcw-vimlasl 
interme<liáiia, onde as influências de wnas so-
bre ac, outras são intc11sm; e constantes. Isso é 
mais do que natural numa sociedade comple-
xa como a brasileiro. couternporânea. 
Quant o à nonna-padrão, ela fim lá no alto, 
na estratosfera. É verdade que ela exerce u111a 
influên cia sjmbólica muit o forte sobre o iina-
ginárjo de todos os brasileiros, maF> é uma 
influên cia que vai diminuiI1do progressivamen-
te, qua11to mais a gente se afasta das camadas 
sociais privilcgjadas. A norma-pad1·ão está 
estreitamente ligada à escola, ao ensino for-
mal, e como no Brasil o acesso à educaç,ão é 
mais um demento que contrihu:i para a nossa 
triste posição de c.arnpcões da c-Jesjgualdade so-
c:iaJ, é fácil imaginar que a norma-padrão tradi-
cional ;tem poder de in111Jência praticame11te nulo 
sobre os falantes das ariedades 111ais estigma-
üzadas. Assim, mais uma vez .. somos obrigados 
11 reconhecer o caráter esotérico da no1ma-pa-
drão: só se aproximam deJa (mas nem por isso 
fl usam integralmente) os brasileiros que con-
11cg11iram passar pelo funil da educação for-
ma] e conseguiram percorrer até o fim todo o 
1 rajeto de sua fonnação esl~Jar. 
l~mbor.a a classificação das variedndcs seja im-
portante para a análise e o entendimemo da 
l'Omplexidade socioJingiüstica do Brasil. nun-
" ' ,. 
~ 
69 
70 
< 
ca é demais repetir que nas rdoções eutre lín-
gua e poder o que realmente pesa é o prestigio 
ou a fnh a ele prestígio soei a I do fal~te, e que 
esse critério muitas vezes prepoudcra sobre os 
ele1 neutos cs1..tiLame11te lingüísticos presentes 
em cieu modo de falar. Assim é- que as fo1mas 
tu falas/tu falaste, tal como preconizadas pela 
norma-padrão, oconem na a tividade lingüís-
tica dp, falantes sociaLncnte de&prestigiados, 
gente pobre e sem muila escolarização, da 
região Norte, por exemplo. Já a :=, formas tu 
fala/tu falou, sem as marcas morfológicas pres-
critas pela gramática normati vo., ocorrem far-
tamente- na a tividade lingüística de falantes de 
classe média e alta da região 'ul, com escola -
ridade superior completa e plenarncntc inseri-
dos n a cultm·a letrada.fal:lo mostra que as 
relações eutrc língua e sociedade são muito 
maio complexas do que a maioria das pesl:loas 
peu sa e que é extrernamcn1e redutor (além de 
inútil e injusto) tentar comp,·eeu<lê-las usando 
como critérios únicos os rótulos tradicionais 
de "cerLo" e "'errado'~ ou os conceitos pouco 
consistentes de «culto" e '\wpular" . 
doi."' 
Um pouco de história: o fantasma 
colonial & a mudança IDl.oaüística 
1 
Urna roisa que sempre surprceude as 
pessoas que investigam a realidade lingüística 
tio Brnsil é a grande diferença que existe emre 
a norma-padrão e o português brasileiro, isto 
é, entre o ideal de l ingua "certa", que vigora 
nn mentalidade das dasses sociais privilegia-
das que têm acesso à cultura letrada , e a a1i-
vidade lingüíst icn efel iva~ ernpir:icainenl.e 
ob er-vávcl~ falada e escrita, dos cidadãos hra-
,-;ileiros de qualquer ponto do país. 
Muitas pessoas se ihldcrn ao acreditor <JUC 11 
vt~rdadeira difoi"t::nça é outra. não en1 re a nor-
111u-padrão e o ponug11ês brasileiro de modo 
gc.ral, mas entre as variedades prcsti€,riadas e 
o:; variedades estigmatizadas. Muitos falantes 
:,.cultos" supõem que seu m odo de falar está 
ma is próximo da norma-padrão tradicional e 
que a língua .dos v.incultos" é que é cheia de 
soltx..--ismos, bru·bar:ibmos, víci.os e e1ros ... É clarn 
que essa suposição está impregnada de precon-
ceito social e não se sustenta numa análise lin-
giiÍRtica mais acurada, porque as pesquisas ci-
entíficas revelam que cada vez mais as varieda-
des prestigiadas e as variedades estigmatizadas 
tendem a se nivelar, graças aos movimentos ,: de 
baixo para cima" ( erp que os falantes das varie-
dades estigmatizadas procuram adquirir traços 
lingüísticos das camadas sociais privilegiadas) e 
"'de cima para baixo r- ( em que os falantes das 
ariedadcs prestigiadas incorporam à sua ativi-
dade lingüística formas não aceitas pela norma-
padrão, mas já plenamente incorporadas na lín-
gua de todos os brasileiros) 1 . Como bem ana-
lisa Sírio Possenti (2002: 321 ), 
1 "As contradições da realidade social refletem-se 
uo plauo das nmmas lingüísticns, pois, ao tempo em que 
se ob:serva. no plano objetivo dos padrões coleti\•on de 
compo1tnmcntu verbal, urna tendência ao nivelamento 
da~ duil.', normas ]iogiiístfoas hrasileirnn [ a 'culta' e a 
'popular'. segundo a tenninologia do amor], 110 plano 
suhjetivo da avaliação das variantes lingiifatic.as, o estig-
ma ainda recai pesadamente .sobre as variantes mai;; 
ao contnirio das afu,naçõcs sem base e mlúto 
prcconceimosas do tipo "eles falam rudo er-
rado", uma êmálise cuidadosa revelada que, 
em relação a um padrão desejável, hú muita 
coi.ncidência entre qualquer fala popular e a 
fala erndita - por exemplo, a 1·egência da 
maior ia ab:;oluta doi, verbos é a mesma, 
havendo discordância em um número muito 
reduzido, provavelmente menos ele ,50. 
em dúvida, as semelhanças lingüísticas entre 
as vaii edades prestigiadas e as variedades es-
1 igmatizadas são muito mais numerosas do que 
as diferenças. No entauto, são justamente cs-
' US poucas diferenças que atraem a maior carga 
de estigma, preconceito e discriminaçã.o sodal. 
Os falantes urbanos mais escolariza<los e <le 
maior poder aquisitivo usam esi:;as diferenças 
para dcn:larcar as frontej ras ent re quem fala 
1-ccrtoT, e quem fala " eITado'\ usando os fenô-
menos Lingi.üsticos para definir, de fato, os li-
mites da a5censão social, que fica (imagina ri -
oment.e) reservada aos que estão " do lado de 
cú" do terreno do "bem falar". 
Em todo e q11alquer país do mundo, é J-)Ossível 
1 •erceber diferenças entre os modos de fafar 
das classes urbanas mais letrndas, e econ omi-
1·11rocterísticas da norma popular" (Lucd:uisi. 2002: 88). 
lima análise interessante desses movimentos se encontra 
11111 Karo & Scherre (1991). 73 
camente mais abastadas~ e os modos de falar 
das outras classes sociais. Isso ocmTe de rna-
nei ra mais evidente nos países como o Brasil, 
que têm urna língua nacional rnajotit.ária, que 
é a língna nJaterna da grande maioria da 
população. Assim, embora o Brasil abrigue 
falantes de pelo m enos outra5 200 línguas ma-
ternas ( entre línguas indígenas e línguas t1·azi -
das para cá pelos imig.raotes europeus e asiá-
ticos a. partir do século XlX, o que é uma 
grande riqueza cultun1I do nosso país), todos 
esses falan tes reunidos não chegam a repre-
sentar nem sequer um por· cento da popula~:ão 
total2. Além disso'.. mesmo dentro dessa pec~ ue-
n a porcentagem, é reduzido o nú mero daque-
les q ue falam exclusivaü1ente a sua língua 
materna. O português brasileiro é:, indiscuti-
vclm enle., a língua hegemónica em todo o ter-
ritório nacional, e hoje constitu i, indiscutivel-
mente, a nossa identidade liugfüstica mrus 
íntima. Essa hegemonia, corno vamos ver mais 
adiante, foi conseguida, historicamente, a fer-
ro e fogo: com decretos e proibições, expu lsões 
e p1isõcs, perseguições e massacres·1. 
2 Um dado imeressantc: a sP,gunda língua mais 
falada no Brasil é o japonês, com t:erca de -Hl0.000 fa -
hwtes (cf. Aryon D. Rod!"igue .. ,, '·'As outras línguas da 
colonizaç,.io do Brnsil", no prelo). 
~ A esse re~~peito. ver o :insmnivo aitigo de Gilvtm 
Müller de Oliveira, "Brnsíleiro fala português: monolin-
A constatação das diferenças - estas, sim, 
importantes - entre a norma-pa<l.rão e o 
português brasileiro leva a gente a querer 
entender a origem dessas discrepâncias, res-
ponsáveis pelo que venho chamando de baixa 
auto-estima lingü.ística dos brasileiros. Em 
praticamente toda so6edade humana, os gru-
pos dominantes da comunidade - os grúpos 
detcmores dos bens políticos e econômicos e 
da cultura prestigiada - acreditam que são 
1 amhém os detentores de uma língua mais 
correta, mais bonita, ma is cultivada. Isso se 
ver ifica em quase todo lugax, como as pala-
vras de Jumcs ivlilroy, rcfeei_ndo-se à lngJaterra 
e que usei para abrir este livTo, deixam hem 
claro. E no Brasil não é. diferente: as pessoas 
excltiídas do poder político e do poder aquisi-
1 ivo também são exchúdas do poder falar. 
~ o entanto,. a situação lingüística do Brasil é 
uinda mais dramática. Os brasileiros urbanos 
letrados não só discriminam o modo de faliu 
de seus compatriotas a11a.lfabetos, semi-anal-
fabetos, pobres e exchúdos, como também 
discriminam o seu próprio modo de falar, as 
suas próprias variedades Lngüísticas. Podemos 
güismo e preconceito linf,rüístjco;•, Íll Silva, E L. & );loura. 
11. M. M. (orgs.). O direito à fofa: a questão do precon-
t·r.ito üngüútirn, Florianópolis, Jnsular (2000) . 
ª ·2 
·r 
""75 
76 dizer\ portanto .. que o preconceito lingüístico 
no Rrasil se exerce em duas düeções: de den-
tro da elite para fora dela; contra os que não 
perten cem às camadas sociais p1i.vilegiadas; e 
de dentro. da ehte para ao redm· de si mesma, 
contra seus próprios membros. Existe na men-
tal idade dos brasileiros em geral, e dos falan-
tes urbanos escolarizados em particular, a 
convicção muito arraigada de que no Brasil 
ninguém fala b em o português,. a convicção de 
que só os portugueses é que sabem a língua. 
No plano individual, é muito comum ouvir a 
afirmação absurda, pro.ferida por pessoas in-
teligentes; com escol.aúdade supeúor comple-
ta: '"eu não sei português '1 • E a tradiç,ão pres-
critivo-normativa tem dado sua ampla contri-
buição para a manutenção dessa crenç,a infun-
dada, crença sintetizada nesta afirmação de 
Napo1cão Mendes de Almeida (1994: 591) e 
amparada em sua suposta autoridade de gran-
de conhecedor da língua: "É português estro-
piado que no Brasil se fala". Se tais palanas 
provêm de mn autoproclamado esp ecialista, 
que mais resta ao leigo senão acreditar na 
suposta. verdade que elas contfan? 
Por que é tão forte entre nós esse sentimento 
que poderíamos chamar de "auto-aversão lin-
güística'·'? Por que o brasileiro deprecia tanto 
o seu modo de falar? A resposta talvez esteja 
naquilo que costumo chamar de "fantasma 
colonial'' ... 
NoR.\.IA-PAUIÜO Bl{ASll .. EIRA... BRASILEIR.\? 
Evidentemente, alé a independência. política 
do Brasil, em 1822 : não havia dúvidas quaJ1t.o 
a.o pacfrão lingiiístico que deveria ser considera-
do modelar. Afinal, o Brasil era uma extensão 
territorial traJ1satlântica de Portugal e, nessa 
qualidade., seus habitantes estavain cm tudo 
sujeitos às decisões oficiais da metrópole, incJu-
sive às decisões que diziam respeito à língua. 
Um fato marcante da nossa .história colonial, 
no C8lllpo da política lingüística, foi a decisão 
do priineiro-mjnistro português Marquês de 
Pombal, em 175 7, de proibir o ensino de 
qualquer outra língua em tenitório brasiJei ro 
que não fosse a portugu esa. Embora não se 
aprenda isso na escola ( o que é bastante sin-
tomático) , durante a maior pmic do período 
colonial no Brasil a língua porwguesa foi de 
uso minoritário: as línguas realmente majs 
empregadas por toda a população1 inclusive 
descendentes de portugueses, eram o tupi -
no aLual estado de São Paulo ( capitania de 
São Vicente) - e o tupinambá. - cm toda a 77 
li t•o5t a brasileira, do litoral pauLisLa até o litoral 
ru nazôuico. Eram duas I ú1guas rnuito aparen -
tadas entre si. A medida do Marquês de Pom-
bal queria atingir sobretudo a prátita pedagó-
gica dos pad1~es jesuítas, que uti1br.avam o lín-
gua gerai amazônica, de base tupinambá-1, 
para catequizar os ú1dios brasileiros. O padre 
José de Anchieta, por exemplo, escreveu e 
publicou ( em 1595) n obra Artes de gramáli-
r;a da língua mais usada na costa do BrasiL, 
um estudo muito valioso da língua tupínambá. 
O decreto de Pombal consütui o p rin1eiro exem-
plo dos p1'ocedimentos autoritários que carac-
terizarão as políticas lingüísticas no Brasil a 
partir de então. O português só se tomou a 
língua majo1itária do nosso povo depois de 
um longo processo de repressão sistemática , 
incluindo o extermínio físico de falantes de 
outra5 línguas. A notável repulsa da elite bra-
sileira por seu próprio modo de falar o portu -
guês encarna, sem dúvida, a continuação no 
tempo desse espírjto colonialista, que se recu-
➔ lnfon nac;.ões mais rlet.alhadns dessa históriu se 
enc:ontra.111 110 artigo '·A vitória da lírigua portuguesu rio 
Brasa colon inl". de José Honório Rorlrig ues. publl<.:u.do 
na r1~nsta llumanidudcs. dá Universidnde de Brnsíli~ 
em seu número 14 (1983) e uo r-eXLo (ufada inédito) de 
A.ryon D. Rodtigues. " A~ outra;; línguas da colonização 
elo Brasil". 
sa a atühuir qunlqur.r valor ao que é próprio 
da terra, sempre v is to como primitivo e 
incivilizado, além de.refletir n osso fascínio por 
1 udo o que vem de fora , considerado intrim,e-
camente bom e digno de imitação. 
Em seguida à indept:m<lêucia, nossa minúscula 
eli te intd ectual p assará a se cüvertir coIU a 
questãq da '~ língua brasileira~' . A polê.rnir.a se 
aJ.Tastará por longo tempo, e não se pode dizei' 
que tenha terminado. muito eruLora se proccs e 
hoje em dia com base em teorias científicas mais 
consistentes\ ao conn·ário do que sucedeu ao 
longo do século XIX e boa parte do século XX, 
quando a discussão foi empreendida em gran-
de parte por não-cspecia listas6 • 
~. Ver, por exemplo: F. Tarallo, <-''Diagnrutirando 
uma gramática. brasileira: o ponuguês d" aquém e d'além-
mar no .fiual do século xix·· in Roberts. 1. & Kato, M. 
(orgs. ) (1993): Português hmsileiro: uma l'Íagem 
diacrôní.ca. Campinas, l'nicw:np; Chlu-lo11e Calves. ''·A 
gramática do port uguês brasileiro", 1iu rf'vista Lingua e 
Jn.çtromcnJ.os Lingüísticos 1: 79-96 (1998); Stefan Banue, 
"Jl-mte uma lmgu.a brasileira? Uma pcrsp<'<"rivn. tipológica·', 
nu revista lbcromania (Briesemeistcr, 1-L V. D et al (eds.), 
Tiibingen, Mn..x Nic1neyer Ve,rlag} 51: 1-29 (2001). 
. " É o caso por exemplo do livro A língua portu-
guesa eu uni.cinde do Brmi}. de Barbosa Lima Sobrinho. 
publicado cm 1958 (e rP.pu blícado em 2000), muito 
agradável do ler, ;., verdade, rnns que não resiste ao con-
fro.nto com os postulados dn teoúa e da metodolop;in 
-T. 
i3 
79 
80 
!! 
Convém destacar que, cm suns &ferentes fases, 
essas discussões sobre a "língua brru,'lleira'' se 
processaram todas dentro de um pequeno cfrcu-
lo de letrados - esscnciaJmente masculino, bran-
co e oligárquico -~ de dimensões ínfimas em 
relação ao resta:nle da população, constituída de 
muJheres: que tinham acesso nulo ou restrito a 
uma educa~:ão formal, de milhões de escravos 
uegros desütuídos de seu estatuto de seres hu-
manos, e dos mrrnerusos grupos étnicos e estra-
tos sociais desprestigiado8 que desde sempre têm 
sido a grande maioria do povo brasileiro. Assim, 
os apelos mflamados em favor da "'língua bra-
sileira" compartilhavam~ no fundo, o mesmo 
espírito elitistA e conservador de seus supostos 
adversários, os defensores intransigentes da idéia 
de que hrasiJeitos e portugnc, cs falam a ~mes-
ma" língua. Como bem analisa Sérgio Buarque 
de I Iolanda no seu dássico Raízes do Brasil 
(1998 [1936]: 86): 
Tradicionalistas e i<.:onoclastas movem-se, em 
realidade, na rneswu órbita de idéias. Estes, 
não menos do que aqueles, mostram-se-fiéis 
preservador~ do legado colonial, e as dife-
renças que os separam entre si são unica-
mente de forma e superfície. 
sociolingüísticas modernas, (JUt' ,ririam a se estabelecer 
um pouco depois, a partir rin dP-r.odo de 1960. 
Assim é que nnnca se far á a defesa das carac-
terísticas lingüísticas do.s variedades estigma-
tizadas, usadas pela maioria não-branca da 
população. 
O que se reivindicava era a legitimação de um 
escasso número d e aspectos, sobretudo 
morfossintáticos (além de alguns :(exotismos" 
lexicais) , que, eml10i-a divergentes da norma-
padrão lusitana, compareciam na língua fala-
da dos brasileiros das classes privilegiadas. 
Realizações fonéticas como 14prua" para o que 
se escreve palha, ou '1pranta" para o que se 
éScreve planta, ou ainda rcg1·as de concordân-
cia verbal do tipo " nós faz» ou de regência do 
tipo "para mim fazerr- 11U11ca foram objeto 
dessas teivindicações por serem identificadas, 
nutcs de tudo, com classes sociais extrema -
mente desprestigiadas, e até hoje constituem 
us variantes sociolingüfalicas mais estigmati-
i udas pelas classes sociais dominantes. 
O caso de José de Alenca r (1829-1877) n oo 
nícrece um exemplo perfeito de tudo isso. A lín-
µ11a que nosso mais importante esClitor do pe-
ríodo român1 ico defonde é, no fim das contas, 
1,io ""brasileimy, quamo o "-índio"' que ele retrata 
om eus romances - um índio idealizado, de 
1·Hpírito nobre~ puro, o protótipo do c;hom sel-
v11gem". )Jão estranha, portanto, que ele tenha 81 
82 esc1ito que "não se pretende que t.oda in.ooaç<io 
s~ia boa: defende-se a idéia do progresso da 
língua, nã.o o abuso que a acompanfro. ". Eutão, 
pela tcnuinolo,gia que estou tentando sugerir 
neste livro1 o que Alencar defendia não e:ra mna 
li.língua urasilejra:', mas, sim, o uso, na literatu-
ra, dos tra\'.OS lingüísticos que já caracterizavam 
as vru·iedadcs prestigiadas: usadas por ele e pelas 
pessoas de sua classe social. O ,:ohru;o'~- que ele 
rejeita, evidentemente, são as caracteristic.as lin-
güística::; das variedades cstigmaUzadas. 
A luta cfo Alencar e de outrrn; que v i,viam de-
pois dele })ela validação de pelo menos algu-
mas características da língua portuguesa aqui 
falada não teve repercussão no ensLno. Como 
escreve Magda Soares (2002: 162) , 
embora a polêtrtica sobre urna possíve] lín-
gua brasileira tenha surgido já em meados 
do século XIX, o ensino da Gramática man-
teve-se alheio a essa polêmica e foi sempre. 
chmwte Lodo esse século, o ensino da gra-
mática da língua portuguesa. 
'É por isso que me referi a essa polêmica como 
um divertimento da nossa elite intelectual. ·o 
círculo mais amplo das relações sociais~ indu-
sive educaciooais, mmca foi abalado o prest í-
gio de fato da norma-padrão portuguesa. 
Essa manutenção do stalus p1ivilegiado de uma. 
norma lusitanizante e111r e nós é coerente com 
o quadro geral da formação histórica de 11ossa 
ociedade. Conforme escreve Carlos AlbertoFaraco (2002a: ,34), 
a Jusitanização progressiva da norma escri-
ta, num período de 65 a 70 anos [1824-
1892), se encaixa 1>erfeilameme no projeto 
político da elite brasileira pós-independên-
cia -de construir uma nação branca e 
europeizada, o que !'lign.ificava, eucre oulros 
mujtos aspcclos, cüstanciar-se e Jiferenciur-
se do vulgo [ ... ], isto é, da população cllll-
c..a.mente misLa e naquela de ascendência 
africana, que constituíam, sem <l1ívida, um 
estorvo gran<le àquele projeto. 
De fato, ainda hoje, pas.sados quase dois sécu-
los de ü1dependência política, a sociedade bra-
Kilcira conserva muito de sua estrutura colo-
niul anterior a. 1822. A independência., afinal, 
foi tramada de cima pa ra baixo, num movi-
Ili ·nlo que 1em ctu-acte:rizado muitos dos prin-
l'ipnis eventos políticos da nossa história. Bas-
f II lembrar que o mesmo homem que até então 
1·ra o regente ria coroa portuguesa , da metró-
po.lc colorual, foi quem p roclamou a indepen-
dfü1cia e se autonomeou em seguida impera-
dor do Brasil - caso úruco ua história moder-
e 
::, 
84 
rl 
"' 
na~ em que um país, ao tornar-se independen-
te da metrópole, se consriruiu num império 
monárquico absolutista e oão numa república 
presidencialista, regime político qne, por ba-
sear-se em cargos elelivos, é consjderado mais 
democrático. Esse mesmo homem, mnis tarde'.. 
voltaria para Portugal para defender o trono 
português contra um suposto usurpador -
assim, D. Pedro L, imperado,· do Brasil. se 
tornou D. Pedro l V, rei de Portugal... Que 
independência en tão foi essa ? 
O império brasileiro, do ponto de vista sodal, 
político e econômico, não era muito diferente 
do Brasil colonial: a econorrúa permaneceu 
essencialmente agrária, o trabalho escravo 
continuou em vigor por mais de meio século, 
a estrutura latifundiária não sofreu alteração, 
a economia e os negócios permalleceram nas 
mãos de uma pequena elite branca, não houve 
verdadeira democratização das relações de 
poder e exploração. O mesmo se pode dizer da 
passagem do regime monárquico para o repu-
hlicano. A proclamação da rep{1hlica em 1889 
foi na verdade um golpe militar praticado pela 
ah a cúpula do exército, e não um movimento 
social a favor da democratização rla. sociedade 
- muito pelo contrário, todos os levantes 
populares em favor da república tinham sido, 
até em ão, duramente reprimidos, como ocor-
reu com o. Confederação do Equador cm 
Pernambuco (1824), com a Guerra dos Farra-
pos no Rio Grande do Sul (1835-1845) e a 
Cabanagem no Pará (183.5-1841). Mais re-
centem ente, a coisa se repetiu: o processo de 
n·ansição da ditadura rniUtar para um regime 
mais liberal; em 19841 foi todo trainado e posto 
em prática nn.s altas esferas políticas do país, 
tendo se aproveitacfo inclusive de um meca-
nismo de controle da vida poliüca, o Colégio 
Eleit0Tal1 inventado pelo regime autoritário. 
Não deve causar estranheza, portanto., que o 
primeiro vice-presidente do regime :.;democrá-
tico~; e que acabou se tornando o presideutc 
de fato, tellha sido José Sarney1 que apoiou o. 
ditadlHO. Utilitar desde seu primeiro momento 
e obteve amplos benefícios com ela. Menos 
estranho ainda é que de 1994 a 2002 tenha 
ocupado a vice-presidência da república um 
outro político. Marco Maciel, que não tardou 
Plll aderir ao reo-unt: aut0ritário com lépida o 
subserviência. 
'folvez possamos ver nisso tudo algumas das 
1'xplicações para as três grandes carncterístí-
1·as da sociedade brasileira: praticamente 
inu.Jteradas desde a época colonial: autorita-
1·i1Hno, oligarquismo e elitismo - poli ticamen- 85 
86 te a utmitfuia, economicamente oJigárquica e 
cuhuralmente elitista. É como escreve Mori.lena 
Chaw (2000: 89): 
• 
Conservando as marc:as da sociedade colo-
nfal es~ravisui. ou a<.JUilo que alguns csm-
diosos designam como "cnltttra senhorial" , 
a sociedade brasileira é marcada pela estrn-
rurn lúenfrquica elo c.<ipuço social q ue deter-
mina a forma de uma sociedade forLcmern~ 
verticalizada ern todos o~ seus aspectos: uela, 
as relações sociajs e lnt ersubjeti as são sem-
pre realizadas corno relação entre um supe-
rior, que maneia, e 1urt inferior, que obcnece. 
A ausênóa da participação popular naqueles 
momcutos históricos reveta o abismo que sem-
pre cxisl iu entre a imensa maioria do povo e 
a pequena eLite dominante .. aLismo qne se per-
petua até hoje no país que apresenta alguns 
dos maü; graves índices de injrn;tiça social de 
t od o o p ia.neto., ao ludo de uma ccouomiu clus-
sifkada entre as quinze maiores elo mm1do. 
Essa pesada herança colonial, evidentemente, 
tatnbém tem seus efeitos sobre a definição da 
norma-padrão b1·asileira e dos demais proble-
mas que envolvem a língua pmtugnesa e to-
das as oun·as muitas línguas faladas no país. 
Nas n ossas rclaçõe6 ling üís1icas é fácil detec-
tar a mesma aguda verticalização a pontada 
por Chau í nas demais forntas de interação 
social no Brasil. 
A idéia mesma, amplamente diíumlida. e aceita, 
de que o Brasil é 1una uação monolíngüe (uma 
°'UDÍdade na <liversidade" ) também se enquadra 
comodamente num projeto de negar. pma e sim-
plesmente, a existência daquilo que não pe1ten-
ce às elites, rnLm processo idcofógi<.:o de oculta-
mento e apagamento dos conflitos sociais provo-
cados pela real idade das inúmeras situações 
passadas ~ presentes de rnultilingiiismo. 
Todos esses fenômenos caractcrísijcos da nos-
a formac;)io histórica e socjaJ oferecem 11m 
quadro explicativo pa.rn a nítida situação de 
rnnflito lingüístico 'l ue se verjfica cn tre nós no 
que diz n~spdto à lingua das cama.das privile-
giadas da população - de um lado, ternos a 
norma-padrão lu sitaoizantr., ideal de lúig1m 
uhslrato. usado como verdadeiro instnunen1o 
de· repressão e policiamento dos usos lingüísti-
c·o ; do ,ou1ro, temos a · diversas variedades 
prestigiadas, usos reais da ,língua por parte 
dns classes sociais urbauas com escolaridade 
l\1tpcrior compl~ta7 • 
7 .Essa esqu.izofrenia uporece niridament<:, por 
1•\11111plo, 1111m dos vrogramas Jp televisão da série Not1sa 
lif11g11a Portuguesa, idealizo.da e áprMentadu por 
: 
88 
i 
J. 
Sabemos que o português brasileiro falado 
( i11 cl usive em suas vari~dades prestigiadas) 
preserva, em suas grandes linhas, traços gra-
maticais (fon ét icos, morfossintáticos, le10cais) 
característicos. do chamado português clássi-
co, designação que os h istoriadores da lfogua 
aplicam ao período compreendido entr e os 
séculos XVI e Vlll8. Em Portugal, no entan-
Pasquale Cipro . cto: "Aqui no Bra.~il , rnu.itas vezes o 
professor diz ao al~o: '·l\"ão é' possível começar a frase 
com o pronome mo·. E. sr. o ttluno escreve na redação: 
•~fo disseram que ... ', leva uma bronca <lo professor, que 
não c.~--plica ao aluno de onde vem e-,su história. [ ... ] O 
que aconte.cc é que n lín6'Ua pon:ubruesa 'o ficial' , isLo €-,, 
o portuguê.s de Portugal, não aceit a o pronome no início 
du frase. [ ... ] É importante lembrar que o nossa formn 
de usar os prouome5, no começo da frase, está oficial-
mc.n te ç,1,·u.du. >lo cotiJiono, nnm os amigos, no vid11 
diário, podemos folar à nossa maneira. Mas uwna prova 
de portlJ¾,ruês. num vestihul:u-_ uum concun,o. devamu::.-
escrevcr o pronome sempre <lnpois do verbo. Console-se, 
são coüms da nossa língua portugue$a ... " (tcÃ'iO dCl pro-
grnma <lisponívt-1 nu silR www.tvculwm.,;mn.br/alo<>scolal 
linguaporútguesu). 
R A bii.tória da líllgua portll!,'Uesa cosn11ua ser 
dividida nos segtúntes períodos: 1) p ortuguês arcaico: 
do éculo Xll ao inícío do XV]; 2) purtuguê.s clássico: rio 
final elo sP.culo X\ 11 ao início do XVID; :i) portugnfis 
modemo: do início <lo sécu lo X VIII aos dia;; de hoje. 
Essa rlivisão, no entanto, só i;e aplica ao português eu-
ropeu , cmbo1·a isso não fique evidente nos trat 1ul.us 
filológicos que oferecem essas classific:ações. Afinal, a 
partir do momento em que uma língua é transplantada 
to, cm meados do século XVJII , ocon e11 uma 
grande transfonnaçã.o social: a ascensão da 
blll'guesia9.Como é normal em situações his-
i·óricas semelhantes. a. nova classe social de 
prestígio também impôs a sua maneira de folar 
às demais classes: transformando-se em mo-
delo de comportamento. Ora, justamcnl e na 
língua falada pelos membros dessa classe so-
cial estavam ocon cndo <letcnninadas mu<lan-
ças Jingüíst.icas que viriam a ca1·acte1i.zat o por-
t ugnês ,nademo, falado até hoje cm Portugal 
- um dos aspectos lllllis salientes desse por-
tuguês europeu moderno é a redução extrema 
( e eve,ntual colapso) das vogais átonas. que 
serve de traço de distinção imediata entre por-
1 ugueses e brasileiros: mna palavra como de-
1,:berar, por exempJo: é prommciada:, em P or-
1 ugal, como "dlibrar". isto é: com metade das 
de seu território original pu.ro ourro, efo passa p or pro-
r.essos de variaçiio e m udauço que se Teolizam em dire-
<:ÕCS diferentes da variação e mudança que ocorrem no 
1crritório original. devido à uova realidade l'cológica, ét-
nica, culturnJ e social 11m que passa a ser falada. A.ssim, 
1) português europeu modem.o que oomeç1:1 a ser falado 
cm Portugal no início fio século XVlII é radicalmente 
distinto do português bra.~ileiro moderno. 
9 C"ma C.."tc:elente análise dessa situação histórico-
lit1hrüística se enconn·a no texto de Emilio G. lJagotto, 
'' Norma. e condescendência: ciência e JJureza.,,, na mvista 
Ungua e Instrumentos Lingülçti.cos, 2: 49-68 (1998). 89 
90 sílabas que ai.n·esenta sua p ronúncia no po1tu-
g uês brasileiro. Essas tra.nsíormaç.ões fonéti-
cas, evidentemente, tiv<'.ram efeiro ua inraxe e 
ua morfologia, mrmenlando a distância entre 
11 língua dos porl ugueses e a dos b rusileiros . 
. A.ssim, não devemos perguntar por q ue os 
hrasileiros falam de modo tão c)j ferente dos 
portugueses, mas sim o contrário: por f1Ue, em 
tão breve espaço de tempo, os portugueses 
abandonaram seu idioma clássico e passaram 
a empregar novas formas lingii ístieas? A res-
pm;ta se cncontrn, como j á vim.os, na história 
da sociedade porl uguesa. Outra pe1·gunta que 
poderia.mos fazer~ então, é: por que a nonna-
padrão lingüística brasileira não se baseia no 
português clássico, q11c tem mais a ver com 
ela, e se iJ1spira, uo contárfo~ no 1.>0rtuguê,':l 
moderno, que é a líng ua dos portugueses? A 
resposta se enconü·a 110 já mencionado pro_jeto 
curopeizant-e da nossa elite - sua ônsia de se 
afastar de Ludo o que viesse do :.vulgo,: e de 
se ap1·oximar ao máximo do ideal cnropeu 
levou ela a negar sua própria língua materna 
e a huscar mna identidade liugüísl i<:a do outro 
lado do Atlântico. A paranóia da colocaçiio 
pronominal é um sintoma nílido dessa 
esquizofrenia gramatical dos brasileiros mais 
letrados, que negam sua língua materna para 
tentar se expressar numa lfogua que não lhes 
perlence. 
Passada sua fase romôntica inicial, o ímpelo 
de oacionalismo eliti.sta no que diz respeito à 
língua acab ou ven cido pelo projeto etu-opeiza-
dor maior da oligarquia; sobretudo com a 
ascensão intdectual do Pornasianisrno, mar-
cado pelo p reciosismo sintático e lexical, uma 
vez 911c nessa escola literária , mais que nunca, 
qualquer elemento ~popular'? deveria ser e 1-
1ado no mú.ximo. 
O apogeu dessa fase de culto a wna norma 
lusitauizante se concretiza, fisicamente. inclu-
sive, na c1·iação da Academi::i Rn1.sileira ele 
Len·as (ABL) em 1896, que teve entre seus 
fundadores vários dos mais tlestacados repre-
sentantes da escola parnasiana enn·c nós. Como 
Ioda ir1slitt1ição de seu gênero,. imitação do 
m,odcJo a1istocrático-feuda l da Academfa .Frru1-
cc a (fundada em 1635, no apogeu do regime 
que :.cria deposto pela Revoluç.ão em 1789), a 
ABL pe1petua até hoje aquele espírito de ,:de-
fesa" da ''-.língua'; (isto é1 da norrna-pndríio 
lradicional lusitanizada) contra toda '\:onup-
\~ão" provocada pelo ( aL )uso do idioma por 
parte do "vulgo". Basto. vr.r o título da repor-
tugem p1lhlicada no Jornal do Brasil de 1u; 
12/2002-: "A imortal defesa ela língua". O mais 91 
92 absUTdo no uso da palavrn "defesa .., é que se 
trata de urna tentativa de defender a língua 
contra os supostos '1ataques ') de seus próprios 
folantes nativps, corno se cada brasileiro nii.o 
tiv·essc o direito de falar sua língua. mat.crm1 
do modo que melhor llle parecer, corno bem 
quiser ou como conseguir diame das coerções 
do contexto de j nteração verbal .. . A Academia 
Brasileira de Letras quer preservar ad 
immortalitatem uma atitude entranhadamente 
elitista diante dos fatos lingüísticos, uma vez 
que seus 40 membros ( quase todos alheios aos 
desdobramentos da pesquisa e da t eorização 
científica acerca da língua e de seu ensino) se 
autoprodamam capazes de tomar decisões ~ 
decretar escolhas cm detr.irncnto das opções 
Jingüfaücas dos ou1ros 175 milhões de falantes 
da língua majoritária do Brasil, inclusive dos 
mais letrados. 
No início do século XX~ volta a se acender a 
polêmica em torno da "Irngua brasileira'"'. 
novamente encampada por um movimento 
estético-literário, o Modernismo. Assim como 
no pcrfodo romântico, a defesa do ,:..brasileiro" 
será feila em grande parte por pessoas 
desvinculadas da pesquisa J.ingüísúca sistemá-
tica e da prática docente e bem mais interes-
sadas em questões de vanguardismo estético, 
de definição de uma identidade nacional. de 
aproveita.nrnnto do fo lclore (sobretndo o fol-
clore de rniz indígena e africana) etc. A defesa 
da "lfogua brasileira.,,, mais urna vez, penna-
necerá circunscrita às esferas da in1.clectuali-
dadc e sem praticamente nenhu.ma influência 
na vida dos cidadãos comuns e dos poucos 
ffUe tinham acesso à escola que, corno já se 
mencionou) só se preocupava em inculcar uma 
nonna lingüística conservadora, ensinada com 
os mesmos procedimentos filológicos e com a 
mesma didática com que se ensinou, durante 
séculos, a lfog11a latina no Ocid(mte: o portu-
guês era analisado, dissecado e "reconstituído" 
como se fosse uma. lfogua morta, preservada 
upenas em textos "clássicos" , examinados fra-
se µor frase - procedimentos didáticos que~ 
i,úclizmentc, ainda perduram em muitas esco-
las brasilcil'as em pleno século XXl... 
Es e reduzido acesso à escola explica por que 
o conhecimento/uso da :tnor.ma culta."'. islo é, 
cio. norma-padrão (rotulada, no nosso frnagi-
llLhio nacional, com o próprio nome da língua: 
"portuguêsn), não se propagou de maneiro. 
i 111 cnsa e extensa por nossa sociedade. Além 
ele soar como uma "língua estrangeira'' para a 
111oioria dos brasileiros (e mais ainda para os 
l,rnsileiros oriundos das classes sociais desfavo-
o 
3 
" 
~ 
93 
94 
< 
recidas), esse padrão sempre esleve intima-
mente associado com a escrita mais 
monitorada, usada para fins estetizantes e 
retóricos. CQUlO o acesso à escrita se faz pri-
mordialmente na escolarização formal, só aque-
le contingente mínimo de brasilei ros que po-
dia freqüentar a sala de aula cntn1va em con-
tato com essa norma cultuada. ~ossa sociedade, 
por isso, desde sempre tem se caracterizado por 
exibir uma cultura muito mais centrada nas 
prátir.as orais do que nas práticas livrescas que 
giram em tomo dos gêneros textuais cscriLOs mais 
prestigiados. O Brasil apresenta algnns dos mais 
elevados índices mundiais de analfobelismo ple-
no e funcional, além de índices ba.i.xíssirnos de 
escolarização formal1º. Até bo_je, mesmo entre as 
classes abastadas, o hábito de comprar ( e k.1· ! ) 
livros é extremamente rnstrito. 
1<1 Segundo reportagem da Folha ri<' S. Paulo de 
17/3/2003 (caderno Folho.reen), '"o Brasil aind11 tem pelo 
menos 16 milhões de ai.wlfabetos, o que repn,'Senta. 13,6% 
das pessoos com 15 imos ou mais. Além dfaso, de cada 
cem tthmos que entnuu u1:1 escola, i 1 não terminam n 8" 
série". Basermdo-se em dados do governo fedcru.l, o tex-
to da reportagem (assiuado por Lucinna Constantino) 
prossegue:"39. de cadn cem estudantes do ensino funda-
mental estão acima dn idade para a série que cursam, e 
2 1,7% repetem de :mo. Cur5a.i· a uuiversidnde é quase 
um sonho: só 6, 1 % da população de 25 u. 64 n nos tinlrnu.:vcl superior completo cm 1 999." 
Além disso, nUI:n pais com distribuição de renda 
(e de educação formal) 1ão desequilibrada, a 
norma-pach-ão representa LUil bem cultural vir-
tualmen Le inacessível à imern;a maioria da po-
pulação, deixada à margem da escola e da cn1-
1ura livresca. Na análise do lingüista non1eguês-
america110 Einar Haugen (2001 [1966]: 114), 
o doccúnio da língua-padrão terá natural-
mente um valor mai.s alto se ele permitir à 
pessoa ingressar no concílio dos poderosos. 
Do contrário, o estímulo para a.pren<lê-la~ 
exceto tal vez passi vUJ.nentc, pode ser m11iro 
baL\'.o. Se o stntl.Ls social for fixado por ourros 
critérios~ é compreensível que transcorram 
sé(,-u.Jos sem que uma população a adote. 
Ora, os r,1·itérios que fixam o stalu.s social no 
Brasil são extremamente rígidos: quase infie-
,,íveis: e a mobilidade social é mtúto restrita, 
11 começai· dn própria cor da pele do cidadão: 
011 negros hrnsileiros, se fossem considerados 
1·01110 um país independente~ constituiriam uma 
dns nações mais pobres do mw1do, com níveis 
d1· desenvolvimento humano inferior ao de 
11111i tos países miseráveis da África. O destino 
dr muitas r,nmadas sociais ele brasileiros se 
11proxima de um quase-fatalismo: é altíssima 
11 probttbil idade de pessoas nascidas em clas-
1wH sociais pobres ou miseráveis permane<.ie-
::, 
96 rem por toda a exis1ência <lcnt ro dessas cama-
das desfa. orecidas. 
A história da educação no Brasil é m ais um 
fator que e plica por que é 1ão rêstrita a apro-
priação da. norma-padrão por cada vez ma.is 
cidadãos. \1esmo as oligai-(Juias nacionais de-
moraram a. ter um acesso fácil e amplo à 
cultma letrada mais chtizada. Basta lembrar 
que a primeira instituição br asileira de ensiuo 
superior, a Facu]dadc de Direito de São Paulo, 
foi criada somente em 1827, num contrnstc 
agudo com a América de colonização espa-
nhola, que já em 1538 contava com a Univer-
sidade de Santo Domingo, em 1551 com a 
Universidade São larcos no Peru e .. dois anos 
mais tarde, a do México. Ko·término do perío-
do colonial1 tinha 23 universidades cm fWlci-
onamento nas antigas possessões espanholas. 
Outro fato que merece destaque: somente cm 
18080 data de fundação da Impressão Régia 
no Rio de Janeiro1 t em início a indústria grá-
fica no país, depois de séculos de proibição 
explícita, por parte do governo de .Por tugal, 
de se imprimir o q ue quer que fosse na colô-
nia . Ainda assim, levará quase um sécu1o e 
meio para se transformar muna verdadeiro. 
indí1strin. editorial . É fáci] deduziT que duran-
te três séculos havia m uito pouco mate rial 
escrito para ser lido, além de muito pouca gente 
capaz de ler. 
o decoi:Ter do século X , apesa1· da tenta1iva. 
(amplruucntc fru strada.) da escola e de outras 
instituições de incutir e preserva r um padrão 
de líugua extremamente lusitauizado, fica ní-
iido e ev idente que a língua que r eahnente 
serve cfo instrumcuto tlc intera«,:ão sot:ial dos 
brasileiros, inclu sive dos que p ertencem às 
camadas médias e altas da populac,.~o., a Jw.-
gua que de foto pode ser classificada de ma-
terna, é um português brasileiro mui.10 dife-
rcute do português fala.do em Portugal e, mais 
uinda, da non11a-padrão tradfoional. É um 
português brasileiro vivo e diwlmi.co que par-
i icipa, interfere, in f1w ua constrnção e cousti-
111 ição <lo nossa sociedade~ cada vez mais com-
plexa e multifacetada. Esse por1 uguês brasi-
11:iro - já com esta designação técnica - é 
que se1·á objeto, a partir da década de 1970, 
cln pesquisa cie111ifica sisttm1ática suscitnda pela 
11<-'Dlhida nos nossos meios universitários das 
h'orias e metodologias da ciência lingüística 
111odem a. Uma das maiores comribuições da 
1wsqwsa científico. foi 1 sem dúvida, revela r a 
~rnnde distância que existe entre a nonna-
p,ulrão, que povoo o :imoginário 11acional como 
t·•~presentação idealizada de urna língua '-'ccr- 97 
98 ta'\ e a líng11a tal como realmente emprega-
da-r~c1faua pela nossa pop11lação. 
O qne a pesquisa lingüística vêm d.emonsu·an-
clo sobrch ,do é que se verifica no Brasil de 
hoje uma j nterpcnctraç,ão cada vez maior en -
tre a s diferentes varie<la<lc regionai s: 
cstilisticas, sociais etc. O trânsito intenso dos 
brasileiros dcnu-o do paí:s cüficulta cada vez 
ma is a identificação de :'diaJctos.,' marcada-
me11te rcg.ionais: as UJ igi·ações populaóonais 
entre as diversas regiões têm levado à difusão 
e interp<'11etração dos falares ü]enlificados gco-
graficameute p ela dialetologia brasileira clás-
sica ( o que niío significa, porém, que tenham 
deixado de existir) . De igual modo. traços que 
antigamente caracterizavnm os falares nrrrus 
são eu conu·ados hoje cm dia corn grande fre-
qíiência também na zona u rbaua, devido ao 
processo ininterrupto e maciço de urbanjzaç.ão 
da no sa popul ação. 
A cx,ruuoicação eletrônica ia lntcrnct vem toman-
do cada vez mais dificil a delimita~;ão entre o que, 
tmdicionalmente, só em admiüc.lo na língua falada 
e o que era cobrado 11a língua escrita: existe lmlli 
mesda cada vez maior entre os gêneros textuais .. 
aJfan <la pmliferaç:ão de novos gêueros típicos desse 
novo meio de comunic.ac_:ão. 
~o que <liz l'Cspcito à literatura, sabemos q ue 
os escritores modernos e contemporâneos cada 
vez mcuos servi.J:ã.o de modelos e cx<m1plos do 
uso "corrcto~1 das regra..:; da normo -pa<h-ão 
tradicional: as obras )iterárias do~ últimos cem 
anos se caracterizam pelo esforço de incorpo-
ração ( e de eventual esti1i1/.açâo) das regras 
liogiiísticas ''populares" e/ou por· um emprego 
bem particula:r dos rccursm; da lín~na e de 
suas muitas variedades. 
A televisão taml)ém já se tornou um mostru á-
rio da pluralidade lingüística, e os programas 
e distribuem ao longo de um conti,wwn de 
u 
gêneros que de acordo com o público-alvo, se 
servem de var iedades e.stilislica.s e de socioletos 
tlcterllLÍliado . A illfluência da l deviõâo na 
sociedade brasileira é gigantesca, 1m1a vez que 
o Brasil é tur1 dos países com maior cobcrttu·a 
lclevisiva cm todo o m undo. Essa influência se 
•~xerce em 1odos m; aspecloíi da vida diária dos 
lirasileirns, incluõive no que cliz respeüo aos 
fotos de ]íngua. As telenove]as contribuem: por 
.-xemplo, para a difusão nacional da. gúias m ais 
1·1-cenlcs urgidas nos grandes centro. urbllilos e 
pura a propagação de palavras e conso-uções 
Mi11t.áti.cas mw.·cadamente regionais) que passarr1 
11 Hcr empregadas por brasileiros de todos os 
1·111110s do país. E mesmo a imprensa ruais cõn-
e 
. ::! 
99 
100 ceituada.. que tenta ocuprur o lugar deixado vago 
pela literatura como depositária da norma-pa-
drão n·adicional, só consegue fazer jsso como 
discurso, pois na práticu a noprensa escrit a se 
revela• também muito pe11ncávd a muitas das 
form as liugiiísticas que caracterizam o verda-
deiro português brasileiro prestigiado escriro con-
temporâneo, no qual se verifica forte influência 
da língua falada urbana 11 . 
Com tudo isso: a norma-pa drão, que mmca 
conseguiu transpor os limites de umo. restrita 
parce1a da elite intclectnal ruais conservadora 
no tocante à língua, vê seu uso cada vez mais 
reduzido e limitado a ma,iifestações sociais 
extl'emamentc fonnalizad.as, quase rituais. 
Quanto à difusão desse padrão conservador 
por part<' da escola: ela não pôde contar com 
o auxilio da chamada "'democratiza<;ão '' do 
ensino~ ocouidn no Brasil a pmiir da segrmda 
m etade do século XX. Essa "democratização.,, 
significou, basicamente: mna radical mudança 
quantitatt'.va no sistem a educacional brasilei-
11 Ver os Ccnômcuos lingüísticos ana lisados no 
livro PorfzifJUês ou brasileim.;, Uru convite à prsqui..m, de 
M. Bagno (São Pnnlo. Parábola, 2001 ). cp1c dó exemplo;; 
de usos não-normativos em te:xros ela graudr. imprensa 
b,·asileira. 
ro, acompanhada de uma ignahncnte radical 
piora qualitativa das uossas escolas púhlic.as. 
Dm·antc muito tempo reservada aos filhos das 
classes piivilegiadas rn·hanas .. a pressão socjul 
fez a escola púbUcase abrir para acolher os 
filhos de pais analfabetos e pobres~ oriundos 
da zona rural, que se iustalavam sobretudo 
nas perjfcrias das cidades. Essa incorporação 
do alnnado pohre às cscol~s públicas levou as 
classes médias e altas, receosas do contato com 
o ''"vulgo:\ a transferir seus fjlhos para a~ ins-
tituições porticulai·es de ensino. A escola pú-
blica íi.cou literalmen1c relPgada às camadas 
desprestigiadas da população, desprestígio que 
se transferiu ignalmem e para a própria ativi-
dade docente. Nuru país: como já vimos, de 
tradiç.ão culn1ral marcadamente elit ista., isso 
repre entou 1 ambfan, da parte dos diferentes 
governos, comprometidos (pelo menos até ago-
ra) com os interc8ses das camadas dominan-
tes, um rcso]uto desr.a.:.o pelas questões mais 
sérias da educação pública. 
A esrola pública brasileiro, neste Jimiar do 
século XXI, arresenta um quadrn de notável 
deterioração, desde o ensino fundamental até 
as universidades, que atravessam aguda crise. 
A prnpaganda do governo de Fern8:11do Henri-
que Cardoso alru·deava que mais de 90% das 
,, 
101 
102 
i 
7 , 
crianças de 7 a 10 anos estavam matdculadas 
n a escola. Ko culanto, oão . e divulgava a quali-
dade dessa escola: péssimas• condições físicas, 
materral didático ultrapassado, tecnologias 
obsoletas, condições de rraball1o degradantes, 
salas superlotarias, professores extremamente 
mal remunerados e mal formados ele. - sem 
esquecer também que as escolas públicas bra-
sileirac;, sobretudo nas grandes cidades, vêm 
se tomando palco de pl'obJcmas sociais extre-
mamente gra.vcs como a delinqüência infanül 
e juvenil, o tráfico de drogas e a violência 
urbana generalizada. 
Além disso, nem mesmo no mero plano quan -
titativo as polí ficas educacionais têm I ido su-
cesso. Esta1Ísticas ofi ciais (IBGE) reportam 
que: em 1991: apenas 55.3% dos joven s entre 
15 e 17 anos estavam freqüentando a escola. 
Quanto m a.is alta a faixo. etária, menor a pre-
sença dos brasileiros no 1:;jstema educacional: 
no ano 2000; dos jovens de 18-19 anos ape-
nas 50.3% estavam na esr..ol~ de 20 a 24 anos. 
26.5%. O accs o ao ensino superior, então, é 
ainda mais rest rito: apenas 5% dos brasileiros 
matriculados em irn,titujçõe.s de ensino em 
1999 freqiientavam um curso superior. Esses 
mesmos dados mostram que somente 15% dos 
hrasileiros têm de 8 a 1 O anos de est udo, ist o 
é, concluírom a escolaridade básica. Veja-se 
também que o Censo 2000 revelou haver só 
na cidade de São Paulo~ a mais rica e i.ndus-
lrializada do pafa, cerca de ~m6.000 pessoas 
analfabetas com mais de 14 anos de idade. 
f essa escola pública <lcteriorada trabalham 
professores mal formados e maJ pagos, intimi-
dados pela violência. urhtuia e obrigados a se 
desdobraT em m,ütiplas jornadas de t1·aJ)alho . 
. o tocante à língua, a maioria desses docentes 
não tiveram conta to, em seu ambieute fami-
li.a r e escolar, com a norma-padrão traclicio□al 
uem com a cult.w·a li"Te,.sca. Pesqtúsas do pró-
prio Minislél'io da Educação mostram que os 
estudantes <le Letras (e dos demais cursos que 
formam tipicruncntc professores do ensiuo fm1-
damental e médio) provêm, em grande maio-
ri u, de classes socia is pobres~ que vêem na 
profissão docente wna oportunidade de ru ccn -
süo social. São, portanto, pessoas orin11das de 
os-tratos socia is médio-baixos sem muiüJ!l con-
di~:ões de letramento: lêem muito pouco e ra-
l'llmente escrevem. Em reportagem da Folha 
rle . Paulo de 30/12/2001, baseada uos da-
e los do Mnrist ério da Educação, se lê: "O pro-
.fc•ssor formado pe/.a._ç universidades brasileiras 
,1 filho de pais que nunca foram à escola on 
11rm seqner completaram os quatro primgiros 
ft 11os do ensino fundamental". l O:l 
104 Dirulte dcsRa acelerada re1:ra\:âO do já exíguo 
espaço soc:ial resetvado à inr ulcaçã.o e manu-
tenção cm uso da uorma-pa<lrão, e <liam e 
tam.Lém da sempre renovada crítica à doutri-
na gramatical tradicjonal pOl' µart e das teorias 
lingiiísticas modernas~ era fácil prever "que os 
setores mais reacionários da intelectualidade 
saissem cm defesa do estereótipo ameaçado 
[ ... ] apontando o perfodo de predomínio do 
eusino gramatical corno uma espécie de pal'aí-
so perdido"· (Ilari, 1985: 15). 
O fantasma do Marquês de Pombal volta a 
nos assombrar: nos últimos anos lemos pre-
senciado, no Brasil, um recrudescimento de 
a titudes de purismo lingi.ifa tico ultwco11se1va-
dor, que enconn-am seu lugar privilegiado nos 
meio:; de comunicação. Realment~, e infeliz-
m ente, a núdia brasilei ra é hoje a principal 
responsável pela preservação e divulgaç,ão do 
preconccito lingüístico {isto é, social) mais ex-
plícito. Mais rcccntemcme ainda, vohou a ser 
empunhada a velha handei ra do nacioualismo 
xe11ófobo contra a suposta "'invasão': das pa-
lavras de 01igem estrangeira ( de origem i11gle-
sa: na verdade), às quais se atribui o poder de 
destruir a Hugua ponnguesa eru suas próprias 
esln1tta-a<~ gromut.icais internas. Esse c.omLnte 
aos ang lic is mos se consubstanciou num 
destrambelhado projeto de lei federal, r.ontrn 
o qual se insurgiu a comunjdade científica11 . 
A tentativa de aq1Lisição da uorma-pathão 
como trm "hem de conswno" enco11t1·a antpla 
acolhida em detenninadas camadas sociais que 
vêem no domínio desses estereótipos lingüísti-
co um p retenso ii1sn·u mento de 'ºascensão 
social"" e de "'inserção no mercado~' . A "·IÚlgua 
certa» se torna, assim, um objeto de desejo 
para esses grupos, demanda que é atendida 
peJo comércio com a transformação dessa "lí11-
g ua,, 11un1 bem de consumo s uposlamente 
acessível a todos e dispo1úvel ::;ob as mais di-
ferentes embalagem, e modelos (programas de 
televisão e de rádio. colunas ele jornal e de 
revista, prngramas para computador, Cl>-roms, 
livros, 1·evistas, fascículos, sites na Internet~ 
<:ur os, tira-dúvidas por telefone, rnanuai de 
l'Cdação das grandes einpre!las jornalísti cl:IS 
t>lc.). Ora .. a estratégia puhlicitária clássica µara 
11 venda de qualquer produto é convencer o 
potencial consumidor da necessidade de prc-
1·11cher alguma carência esscnciaJ. Assim, num 
puís em que o acesso à educac;ão formal scrn-
p,·1• foi rcsn ·j to e em que se crista lizou na rncu-
.i 
~ = 
11 VeJ· o livro Estrongeiri.mws: guerra.~ em tomo j 
t/(1 língua, org. de Carlos Alberto Faraco (São Pau.lo. 
P11níhola. 2001). 10;:. 
106 talidade comum o mito de que ~brasileiro não 
sabe portugnês'·. nada é mais fácil do que con-
quistar cscia clientela i vida p ol' uma ~língua;, 
boa, segtu·a e com selo de qualidade conferido 
por supostos especialistas na matéria. 
Estamos aqui, mais uma vez, diante de U01 
fenômeno ca:ractcrístico da cultura. brasileira: a 
educação não é, de fato, um direito do cidadão 
e wn dever do E:st.ado - ela é um mero adorno 
social, UJll passaporte para a admissão de seu 
portador ern determinados cfrcatlos de poder 
ecooônrico e/011 político. Já tinha sido assim em 
fases hist6rica anteriores, quando os filhos da 
oligarquia bronca nacional iaiu estudar Direito, 
primeiro cm Coimbra e depoi., ein ão Paulo e 
110 Recife, não para exercer a profissão, mas 
como mero rito de passagem prévfo à ocupa-
ção dos cargos mais importantes do funciona-
l ismo públic:o e da esfera politica'13. 
É o que se crifica hoje, com a p1·oli f eração 
dos Cluoos wrive rsitáTios particular·cs, que pro-
metem, não uma educação de qualidade~ mas 
1
~ Algu.as reflexos dessn n·atlição bnduu-elesca. po-
dem sr-r cucontrndus ainda hoje. Enm~ os 514 deputa-
do(a )s federais <JlH' tomaram posse em ~002. a profissão 
mais comum é justamente a de advoguuo(a} (119 pa.r-
lamentttres). · r~clo danos <lisponivcis 110 s,i:P da Câ-
marn dos T)i>pnn,Jos na imcruet. 
garanti]: a seus clien1.es a lcauçar m ve1s de 
"competitividade~' que lhes penuitam º\,enccr~' 
nas disputas dlo ''mercado\ bastando para 
tanto '' ter um diploma'\ não importa muito 
de que cspccio.lido.de. Esse Lorbulhar de fac ul-
dades particulares Brasil afora foi uma <las 
facetas mo.is escandalosas <la poJíticade 
privatização oL.sessiva promovida pelo govcr-
uo duplo de Fernando Henriq1u~ Cardoso:, com 
seu ministro da ~duca.ção, P aulo Renato Sou-
za, à frente do loteamento do ensino superior. 
Segundo a Folha de S. Paulo (21/11/2002; p. 
C-7). entre 1995 e 2001 ocon eu um cresci-
mento de 96 por cento no uítmcro rlc faculda-
des particulares! Se é evidente que as univcr-
idades públicas não conscg11cm absorver toda 
a demanda e q uc é i nsensatu demonizar o 
ensino privado, mn índice 1õ.o elevado e em 
tão pouco tempo deixa evidente a absoluta 
ausência de rigor e seriedade por parte dos 
órgãos oficiais quanto à concessão do direito 
de explorar o mercado da educação superior. 
Como hem analisa a crítjca U1 erária Walnice 
Nogu eira Galvão, • em ensaio publicado na 
Folha de S. Paulo (17/,3/2002): 
a privatfaaçãu do ensino integra o projeto d.e 
de mru.H.:he do Estaclo n-azido pelo 11eolibera-
lismo e comandado pelo 1-' 11. Ois governos 
:: 
·..: 
Q 
10-:' 
108 <lemocráticos deram contiuuidudc à política 
educacional da ditadura, sonegando verbas 
ao ensi.n.o publico e promovendo o ensino 
pago, só o atual jsÍ umdo cre<lenciado mais 
de 3.000 cursos superiores. ( ... ] A infei-êacia 
é que o eru;wo já csf á p rivatizado. só que o 
golpe não foi desferido publicamente, mas à 
socapa. O feito se inscreve no assalto plane-
tário do neoliberalismo aos direitos civis. 
~ o entanto, apesar do empenho da mídia e <le 
alguns setore.s mais conservadores de preser-
var a todo custo a norma-padrão traclicio11aL 
é impossível r ealizar o projeto de transformar 
essa ·'língua)"') idealizada no verdadeiro modelo 
de referência para as camadas privilegiadas 
da populaç.ão. A história dos povos e das líu-
guas demonstra claramente que não há como 
impedir o desaparecimento de fo rmas lingüís-
t icas antigas e sua substituição por uovas ma-
neiras de falar. É i ncvitável que cada vez mais 
se aprof undc e se alargue a distância entre a 
língua dos brasileiros e a língua dos portugue-
ses e, também~ enl re uma nonna-pad1·ão ar1j-
fjcial e arbitrária e a Jíngua efetivamenle em-
pregada pelos brasileiros. 
Por mais que os defensores da norma-paclrõ.o 
tradicional recusem esla verdade; n ão são as 
gramáticas normativas que definem o que é 
:~certo)l ou ···errado', na lú1gua, o que é ~: acei-
to'~ ou ··'rejeitado" pelos falantes. l\o llJ Con-
gresso Im ernacional da Ahralin ( Associação 
Brasileira de Lingüística), r ealizado na Uni-
versidade F cdernl do Rio de Janeiro em març,0 
de 2003, a lingüista canadense Shana Poplack 
apresentou dados interessantíssimos de sua 
pesquisa sobre a relação entre realidade lin-
güística e a1ivülade dos gramáticos. Apoiada 
na análise de 300 gramáticas normativas da 
lúigua fram~esa publicadas ao longo de 100 
anos (entre os séculos À.\1'1 e XX), Poplack 
mostrou qne as tea.tati vas dos gramáticos de 
domar a lí:ngua se revelam ampJamen1e frus -
tradas: por mais que os gramáticos criem re-
gras pa ra controla r a atividade lingüística dos 
falantes. este dão pouca ou nenhuma impor-
1 ância efo1 iva a tais regulamentações, e conti -
nuam a moldar a língua segundo suas pró-
prias intuições e necessidades~ "atropelando"· 
a gramática normativa e "enando" à vonta-
de. Assim, construções lingüísticas que até hoje 
, ão condeuadas como erro pelos normativistas 
já eram empregadas pelos falan tes do francês 
400 anos a1-rás1 conforme testemunham a.s 
prescrições dos gramáticos antigos I isso prova 
q11c~ <le fato, é a atúiidade lingüística dos pró-
pl'ios fa lantes em suas interações sociais e em 
1,nas relações de poder que, em cada época, 
; 
109 
110 
-. 
moldam os critério de rejeição e de aceitabili-
dade. • 
TODA LINC:l:A MUDA CO)J O T l!MPO 
Se tentarmos ler um 1cxto escrito eru porlll-
gnês na Idade ~1Iédia~ lá p01· volta elo séc,Tuo 
XIL é mais do q ne provável q ne a gen te tenha 
muita dificuldade de entender esse texto. Va-
mos fo2er tun reste? 
Perdud'ei, madre, c1ticl'eu, meu amigo; 
macar m 'ei viu, sol non quis falar migo, 
e mia $Oben1ia mi-o tolheu, 
qtte f,;;, o que m 'e/ defendeu. 
Jf acar m ·et viu, sol non qui,S fafor migo 
e eu mi-o .[r.=., que non prí:r, seu castigo, 
e mia soberl'ia mi-o lol/1eu, 
qw1 .fi::; o que m 'e/ cli::f0ndt•u. 
(Cunrigu d'amigo, séc.:uJo XII ) 
É mesmo diíicil, não é? Para compreender um 
tei'to como es1c, que é uma cantiga de amigo~ 
gên~ro de poesia praticado na Idade Média 
portuguesa, a pessoa tem de estudar muito , 
tem de se tornar um especialista em histório 
da língua e em literatura arcaica . ... 
Se nós a vauç,annos um pouco mais no tempo. 
digamos a í uos trezculos anos: r começannos 
a ler o início da famosa cana dr Pero Vaz de 
Caminha, escrita em 1500~ romo é que vamos 
reagir? 
Seuhor, 
posto <1ueo capi!.am moor desra vossa frow 
e asy os out.i:os capitfüi.eA<; scrcpua.m avu:;sa 
alte?:11 anoua do achamento rlcsta vossa ter-
ra n o11 a qur ora neesta 11a11rgaçom achou, 
nom lc ixru·ey rarn bem <l~ dar disso minha 
comta a vo:;sa alteza asy como eu milhor 
poder a jmda que perao bem contar e fala r o 
saiba pior t{Ue todos fa:r.cr [ ... ] 
Aqui a dificuldade já dimimú. A principal dife-
ren ça está mais na ortografia e no es tilo m eio 
rebuscado do que propriarneutc no significado 
do texto. 
, e cornparnrmos esses dois tcx1 o~ a n Ligos c.om 
qualquer texLo escrito e puhlicado hoje, vam os 
chegar a wna conclusão muito simples e aLé 
mesmo óbvia: a língua portuguesa rrwdou. O 
poema do século XII, a car1a do século X V 1 e 
qualquer texto csuito no século XXI são pro-
vas mais do que evidentes dr c:p1e o rótulo 
' ·língua portuguesa': vem sendo aplicado a 
'
1coisas ~, ba.:;taute diferentes. O pocmn do sé-
rnlo Xll foi csr.ri to e-m português. a car ta de 
P<'rO Vaz de Caminha também foi esni ta em 
port uguês e tu; manchetes q ue estão hoje nas 
; 
111 
112 bancas de jornal também estão escritas cm 
português. Por que será, então, que estes textos 
apreseutam tantas diferenç,as • entre si ., a ponto 
de wn falante brasilr.iro de hoje senti.i: uma di-
ficuldade cada vez maior à medida que vai re-
cuando no tempo? A explicação é muito sim-
pk~s: o português, como qualquer Língua viva do 
mundo, sofreu muda11ças com a passagem do 
tempo . .\.ias por que as línguas m11darn~ 
Segundo a lingüista britânica Jean 1\itd:uson, 
autora de mna obra minuciosa e bem docu-
mentada sobre mudança lingiüstica (Aitchison:, 
2001) , as causas dessa :mudança se apresen-
tam numa cmnada dupla. Na camada supe-
rior, estão os 1'gatilhos socjais" - a 1noda, a 
influência estrangeira, as necessidades sociais 
etc. - , que disparam ou aceleram causas mais 
prof undaB, tendências escondidas que podem 
estar adormecidas, latentes, dentro da língua. 
Como diz a autora (p. 1 53), ,,. o canhão da 
mudança foi carregado e threciouado num 
estágio anterior:' . Esse :'caiihão" pode vir a 
ser detonado, por exemplo, quando a comuni-
dade dos falantes passa por algum processo 
social muito convulsivo. 
Entretanto, para que a mudança lingüística 
aconteça é preciso que existam~ dentro do 
próprio sistema lingüístico, aquelas tendências 
latentes mais pn)fundas. Por exemplo, para 
que o ditongo latino AU se transformasse, numa 
primeira fase da língua portuguesa , em ou e, 
mais adiante (corno é a pronúncia corrente 
atual), em o - como na seqüência auru- > 
ouro > [ôru] -, foi necessário que existisse,. 
no próprio conjunto de combinações de sons 
da língua, essa possibilidade de mudança. E o 
fato de nmda.nças desse tipo tei-em ocorrjdo 
em outras línguas pode ser run indfoio de que 
as líng,ms mudam., também, cm parte, devido 
a ~<tendências inevitavelmente embu1jdas na 
língua por causa da constituição a11atônrica , 
(isiológica e psicológica dos seres hmnanos'·· (p. 
1.54). A monot.ongação de Al em o se evidencia 
uo t>,5panJ1 ol e no itabano ( orm). Em francês 
lanih~m temos OR ("ow•o" )~ aJém das incontáveis 
palanas ainda escritas com o ditongo AU, que 
todavia é sempre pronundado ''ôT! : jàux ("fal-
so'' ), clwud(':quente.,,), haul ("alto"), promm-
ciadas '-' fô;\ '1xô" e 1·'ô~', respectivamente. Isso 
ocone também cm línguas de fora do grupo 
românico, como atestam as muitas palavras 
do inglês em que o que se escreve .u: é pro-
11 nnciado como O: aathor ("autor;'), cause 
("causa"), pause ("pausa'\) etc. Não foi por 
ocaso que Al! veio a ser pronunciado o 11('~5.sas 
11 em tantas outras línguas mundo afora: e§sa 
111udança está relacionada à própria fisiologja 113 
114 
< 
dos órgãos que os sereg hmna.nos empregam 
11a prod u◄;ão dos !=IOUS da fala. 
A6 pesquisas empreendida.,; sobre tuu n úmero 
cada vez pia:ior de líuguas hurn:mas têm de-
monstrado uma certa universalidade dos fato-
res inerentes que provocam a mudanc,;a lin-
giií::;tica. EviJcntc mente, co mo expl ica 
Aitch ison (2001 : 161), ''-as difernutes línguas 
não implementam toda6 as tendências possí-
veis de Ullia só vez, e línguas diferentes serão 
afetadas de modos difcrentesn .. i\.lém disso, as 
mudanças tarnbém ocon em de modo diverso 
e em ri1mo difercn1<' dentro das muitas va-
riedo<les de um.a mesma língua . A mudança 
au > o. por exemplo, prossegue elll cc11os va-
riedades <lo porLuguê · hrosileirn, t:0100 rlemons-
1.rn a pronúncia •'-sodadr:".1 para o qnc se escre-
ve SAL'DAl>E. 
O fatores sociais - que por estarem ruais à 
vista e que. por isso, podem parocer <lecisivo.s 
na m11rlança lingüfatica - , sã·o ''sirnplesmcn1c 
ag<'ntes aceleradores que 11ti1izaraxn e cnr,ora-
jaram tendências já e.xistcnles na língua" (p . 
1 !) 1 ) . A au1ora explica c.sse fe11ômc110 valen-
do-se <la .s<'guinte comparação (p . 151): 
Qunu<lo um vondavuJ de1Tuba um olmo, mas 
deixa int.acto 11m carvulho, não acreditamos que 
o vendaval sozinho causou a queda do oJmu. O 
vendaval simplesmemc adiantou LUH uconteci-
we nto que prov:wdmente teria oconido. de 
qualquer jeito, ttlgwL'i niescs ou anos nuús run:le . 
. o entanto .. o vrn<laval rlirou a ciireç.üo t"ro que 
o olmo ca.iu, o que, por sua vez, podt: di.:,parur 
umu cadeia de evcuios po:oteríorcs. 
Po1· esse motivo é que os socioliugiüsLas .. ao 
est 11<la reru os fenômenos da mudança lingüís-
tica., procw·am analisa1·, simult.ancaine111e, os 
fatores sociais (extemos) e os fatores liugüísti-
cos (iutcn10s) que podem cx:phcar a mudança 
já ocorriJa ou em processo. Quando ornrre 
alguma nmdanç:a ahn1pla. é pro áYel que es-
teja a 'SOciada à irrupção de algum fenômeno 
ocja} ignalmen1e abrupto 
Estou discutindo o feuômcno da mudança lin-
güística porque é eJe que provoca, elll gn:mde 
parte. as reações exal tadas daqueles que ar.re-
düarn que essa mm.lança - inevitável - é 
um sinal da ' ·corrupção'', da "decadência'\ da 
~' ruú:1.n '\ nã.o só da Jíngua, mas lambéru da 
Hociedade corno rnn todo, sobretudo dos vo.lo-
rcs morais <leasa sociedade. Quando muita 
Hcnte compara o português brasileiro e a n or-
111a-parl rão tradicional, o sen1imento mais co-
111Lun é achax que o português brasileiro é w11a 
forma dctm·pada da "' língua de Camões'' ... 
:: 
11!i 
116 Que a língua murlou no passado, é urna coisa 
q11e a gente entende e aceita de maneira bern 
fádl: as p rovas histórica · es~o aí. Ma is difícil 
é as p~ssoas perceberem que esse processo de 
mudança não parou. Nú::.- temos o hábito de 
.imagina r <.ruc a nossa língua, essa língua que 
é tão importante, que é fundamcn'Ull para a 
nos ·a vida, para tudo o que diz respeito à 
nossa vida: jmaginamos que essa Jíngua já 
terminou seu processo de mudança, j á está 
pronta e acabada para todo o sempre: amém. 
É muito mais confortável, não é? Mas pcllSar 
que a nossa língua continua mudando, que ela 
não está paradai que não está pronta e que 
daquj a 500 anos alguém pode ter dil'iculdade 
em en lcudcr complctamenlc os te.x i.os q1ie nós 
deixal'mos gravados ou escritos .. . é ,,una coisa 
meio t riste, me,io difü;j l de aceitar. Afjnal, a 
nossa língua é lÕ.o perfeita, ela dá c:.onla d<' 
todas as nossas Jlccessi<lades. ela atende tão 
br m as nossas exigências de comunicação e <le 
interação social, não é? Por que q ue ela pre-
cisa mudw: mais? 
Ylas essa impressão de f[llt a língua está pron-
ta e acalJada é falsa. Nes1c exato momemo. 
aqui e agora, convivem difo.rentes idades da 
língua, e isso aparece claramente na variac;ão 
lingüística e na dificu ldade que alguns falan-
tes Lêm de entender certos te ·tos falados ou 
escritos. A mudança lingüística oão ocoue toda 
de uma vez dentro de todos o grupos saciai 
que falam a língua. Assim com·o verHicamos a 
sobrevivência d e h ábitos~ comportamento e 
crenças ruais antigos em determinados grupos, 
ao passo que em outros esses hábitos, compor-
tamen I os e crenças já foram totalmente ou par-
cialmente abandonados, o m e1:1mo ocorre com os 
hábitos e com.portament'os lingüísticos. Hoje, uo 
Brasil, por excmplo1 convivem as corntruções 
sintáticas a moça com quem eu traballw / a 
moça que eu trabalho com ela/ a moça que P.u 
trabalho, cada uma delas representando uma 
etapa de mudança lingüística. 
No en1.a11to, por causa desse sent.imcnto de que 
a língua já está pronta e acabada (com a 
norma-pack ão tradic ional representando o 
apogeu: o ponto de perfeição dessa "evolu-
ção" ) é que, frcqüeutemente, aparecem pes-
soas tentando encontrar alguma maneirn ele 
.imobilizar a língua, de criar uma cerca de 
11rame farpado em torno dela, de obrigar os 
folantes a usar cami as-de-força lingüísticas ... 
Tais pessoas não percebem as diferentes histó-
rias das diferentes comunidades de falruues, 
11cm as clüerentcs camadas de história acwtlu-
lotlas no percurso da própria língua. 117 
118 As camisas-de-força são~ portanto, 11ma ilu-
são. Enquanto houver gente falando uma lín-
gua, essa lingua vai sofrer variação e, conse-
qüentemente, vai sofrer mudarfça. É verdade 
que os avós e os netos conseguer:n se entender 
mutuamente. Mas os netos percebem que seus 
avós úsam palavras engraçadas que ninguém 
da sua idade usa . pronunciam as palavras de 
maneira diferente, usam const ru <;i.>es sintáti-
cas que não parecem muito habüua is para a 
geração mais jovem. Os avós, por seu lado, 
acham que os netos faJ.arn tudo eu ado, que 
não dão importância à língua~ acham que os 
jovens t êm vocahulári.o muito pobre, que só 
querem usar gírias etc. etc. Essas atitudes são 
muito comuns em todas as sociedades .. em 
todas as línguas, ern todas as épocas. 
É que nós custamos a aceitar que as línguas 
mudam, junto com tudo o mais que existe na 
sociedade. Custamos a aceitar que aquilo que 
nos parece bom e verdadeiro. os nossos valores, 
que nos são tão r .. a ros e precioso , tStão sujeitos 
à transfonnn<;.ão, à crítica, à suhstituiç,iío por 
outros valores. É um tipo de m o1t c talvez tão 
cmcl quanLO a próp1ia mone física. Muitas pes-
soas costumam até declarar: "·Eu vou moner 
um dia~ mas o meu exemplo ficará~ os meus 
valores permanecerão.,, ... É uma fantfü,-ia de ctcr-
nidade que, iJúelizmcn1e, não passa de uma ilu-
são. E quando percebemos isôo, não gostamos 
mtúto. Confonnc escreve a lingüista francesa 
Marina Yagucllo (2001: 280), 
Tul como se deseja transmitir aoi, filhos os 
valores e a cultura do passado intactos, as-
sim também se espera transmitir-lhes a he-
rança da Língua. l\-fas, de um modo insupor-
tável pura o. purista, süo as gerações jovens 
<rue, apropriando-se du língua, a mudam. A 
línguu se encontra, assim, perpetuamente 
rejuvenescida e não envelhecida, ao passo 
que seus falantes, inexoravelmente, envelhe-
cem. Aceitar a mudanç-A é se sentir de certo 
modo dcspossuído, é perder um poder sobre 
e pp/a língua, ainda que o condenaç,ão sej11 
fom,ulada uo mais das vezes sob forma de 
juízos estéticos: a língua tão bela e tão pura 
de oulrora se tornou vulgar, feia, trivial , 
pobre e sem matizes. E é por isso <}lle a 
língua é um desafio tamanho no conflito das 
gerações tanto quanto no das classes sociais. 
Pois o juízo sobre a Língua se estende aos 
folantes que a falam. Cm homem distinto 
fiJa um francês a<lmfrávcl, um marginal só 
poderia falar um francês deplorável.De fato, a lgumas pessoas reagem tão negati-
vamente à mudança lingüística q ue, como já 
mencionei, chegam a associru:· esse fenômeno 119 
120 (natlll'al e inevitável) com algum tipo de de-
cadência moral da sociedade ... No Brasil, a 
figura mais representativa dessa. ideologia foi 
o célebre gramático Napoleão• :\fondes de 
Almeida (1.911-1998), já mencionado; e que 
hoje tem seus continuadores instalados sobre-
tudo nos meios de commricação de massa. \;fas 
todos eles só fazem ecoai· uma tendência muito 
antiga; que vem desde a Antiguidade greco-
romana. O erudito e religioso inglês Robert 
Chenevix T1·ench (1807-1886), arcebispo de 
Dublin, escreveu, por exemplo! as seguintes 
palavras bombásticas a respeito da mudanç,a 
do significado das palavras: 
A tendência das palavras a perder o contor-
no nítido e rigidamente definido do signifi-
cado que outrora posstúam; a tornar-se de 
aplica<;ão mnpln, vaga e fromGl em vez de 
fi~a, definida e precisa, a significru- quase 
qualquer coisa e, assim, na verdade; a sig-
nifica1· nada, é ... uma dessas tendências, e 
entt·e as mais fatalmente efetivas, que estão 
em ação para a ruína final de uma língua e, 
não receio acrescentar, para a desmoraliza-
ção daqueles que a falamH. 
Podem parecer idéias antigas de um moralismo 
ultrapassado, mas elas enconn·am lugar segu-
14 Cimdo por Jean Aitchison (2001: 120). 
ro ainda hoje. Manifestações patéticas como 
as dos ,:movimentos de defe..sa da língua,; que 
andam surgindo no Brasil recentemente -
movimentos que querem "defender" a lingua 
contra os ;'ataques.,, de seus próp1ios falantes 
nativos! - ou as bravatas de porta-vozes da 
extrema direjta mais retrógrada1 que se 
autodenominam "'filósofos 1' e repudiam tudo o 
que não t rouxer a marca registrada de uma 
atitude fascista diante do mtmdo, se apóiam 
grandemente nesses preconceitos antiqüíssimos 
que associam pureza lingüística a. mora lidade 
e mudança lingüística a imoralidade ... 
A todas essas manifestações puristas e mora-
listas, podemos sempre responder com as pa-
lavTas precisas do lingüist.a inglês David Crystal 
(1987: 328): 
As lingi1a~ estã.o 5empre num estado de flui-
dez. A mudança afeta o modo como as pes-
soas falam de fonna tão inevitável quanto 
afeta quakp1er outra área da vida humana. 
Os puristas da língua nã.o aceitam isso; mas 
pouco podem fazer a respeito. A língua só 
ficaria parada se a sociedade parasse. Um 
mundo de excelência lingüístic.,a imutável, 
basea.da no brilho das antigas formas literá-
rias, só existe na fantasia. 
o 
121 
122 f OR('.AS CENTRÍFUGAS E FORÇAS CE:"t/TRÍPETAS 
As forças internas da língua ceie impulsionam 
ela no rumo da mudança são forças centrifu-
gas, isto• é, forças que levam os elementos da 
língua a se afastar (a "fugjr~' ) de suas formas-
fonções atuais e caminhai· para formas-fun-
ções novas. Este é um movimento .inintenupto: 
qualquer língua v iva do m tmdo, neste exato 
momento, está em processo de mudança~ mes-
mo que isso seja imperceptível para os seus 
falantes, muito embora sejam eles mesmos os 
responsáveis pela mudança - aliás, afirmar 
que "'toda língua muda com o tempo;,, é uma 
inexatidão: na verdade, como é impossível 
separar a língua de quem a rala, os falantes é 
que mudam a fingua , é que moldam a língua, 
ainda que não tenham consciência disso. 
No que diz respeito ao ambiente social, pode-
mos notar que é comum existir, n a sociedadr. 
forças centripet.as que agem sobre a língua, 
isto é, forças que puxam a língua para o ccn-
n·o, que rnfrciam a lingua, que tentam comer 
seu impulso de mudança. Essas forças são 
exercidas pelas instituições sucêais que, de 
maneira explícita ou não, oficial ou n ão, ten-
tam. impor algum controle sobre os desünos 
do idioma. Que instituições são essas? A mais 
importante de todas:. evidentemente, é a esco-
la, o sistema formal de cm,i no que, em todos 
os seus rúvcis, tenta dar aos cidadãos ( ou a 
aJgmis deles, no caso de sociedades ma.rcada-
me.nte desiguais como a brasileira) uma edu-
cação sisterna1i zada, programada de acordo 
com currículos defuudos pelas Íll!:ltâncias ofi-
ciais. A escola tenta veicular uma cultura que, 
como já dis_cut.imos ao cxamiuar essa pala\Ta, 
está ge1·ahnente associaJa com a::,; cainadas 
sociais privilegiadas e, por conseguinte, trans-
mitida na roupagem de uma "língua'' conside-
rada ~;culta" ou '·'exemplar". Junto com a esco-
la, outJ.'as instituições também contiihucm para 
o esforço de refrear a mudança lingüística: 
• as academias de Iín6111a ( como a Acade-
mia Brasileira de Leu·as); 
• o peso, maior ou menm, da tradição lite-
rária ( qne elege alé:,11.ms e.scritores corno os 
~-clássicos" do idioma, modelos a serem 
,,. · ·ta-1os'') lIIll 11 . .. ; 
• o trabalho dos gramáticos e dicionaristas, 
empenhados em descrever e prescrever a 
língua "certa'\ 
• a huror.racia em geral, o sistema jurídico, 
o poder legislativo ( com suas fórmulas es-
tereotipadas e seu fraseado típico, em geral 
muito rebuscado e rep1eto de express~es 
obsoletas); 123 
12➔ 
< 
• toJo o aparato estatal com sua multiplici-
dade Je órgão~ e serviço~ público~; 
• as instituições religiosas que; em geral ; se 
apóiarn em textos• antigos, reverenciados, 
e que precisam ser mantidos no estado de 
máxima 1"ptu-eza" original, parn que não 
sejam "distorcidas" as verdades que foram 
reveladas aos fiéis pelas fon,:as divinas ( o 
pronome vós, por exemplo, só sobrevive, 
no português de boje, em textos religiosos); 
• e, mais recentemente na história da h1i-
manidade, os poderosíssimos meios de co-
municação, que necessitam de uma lingua-
gem mais ou menos uniformizada para 
exercer suas Junções de formação ( e sobre-
tudo de conformação) da opinião pública. 
lJm elem ento fundamental em tudo isso é, sem 
dúvida alguma, a presença da escrita. Tudo o 
que tem a ver com a u1stituiç,ào de uma lü1 -
guagern ,,. certa'', 1' oficial'', ~·•unifonne", ,., nor-
matizada" etc. também tem a ver com o uso 
intenso da escrita. Já vimos isso ao decifrai· os 
equívocos contidos no uso tradicional da ex-
pressão norma culta; identificada sempre com 
a linguagem escrita mais formal, ma is mon ito-
rada, de preferência com pretensões "literá-
rias:,. As .sociedades que são fortemente letra-
das, isto é, cm que a cultura escrita é onipre-
sente e supe,.vaJorizada, são também aquela:-; 
que ostentam instiilúç◄3es com graudc poder 
centrípew sobre as fo1·ças de mudança da lín-
gua'·' . O lingüista canaden se J. :M. Paquette 
(2001 : 244) explica de que maneira a norrna-
tização da língua se associou cs1J:eitamentP- à 
nonnatização jurídica dul'ante n período da 
história européia em 9ue os Estados nacionais 
se fortaleceram e se sentiu a necessidade de 
todo um co1po de institlúçõcs e de funcioná-
rios capazes de elaborai· normas, regulamen-
tos e leis, processo que exigiu; simultaneamen-
te, a uniformização das ortografias e a padro-
nização das regras gramaticais: 
1.anto quan lo possam.os apreender suas ori-
gens na história., o servif,:O da chancelaria 
real já pode ser percebido corno um 11niver-
.;o da. escn'ta Mtrcitumcnt<: l igado à atividu-
de jurídica. Kão há mais d(l\idas, a seguir, 
de que~ na história das diversas chancelarias 
it, Evidentemente, podemos imaginar que em so-
ciedadr.s desprovidas de escrita, de cultura letrada e. d.e 
escola formal também existem força;; centrípetas de 
regulação lingüística, como a disn'ibuiçi.ío do poder, as 
hierarquias ocupada8 pelos diferente:, membros da comu-
nidade, o:, papéis reservados a homeJlS e mulheres, o pres-
úgio dos idosos, reconhecidos como detentores de maior 
sabedoria etc. No entanto, o que nos interessa aqui é o 
papel das instituições cm culturas mais amplas e comple-
xas, em que existe uma cultura de prestígio fortemente 
influenciada pela escrita e pela escolarizaç.ão formal. 
-' ::, 
125 
da Europa, assim será até nas épocas mai:'I 
rcccolcs - mas é interessam:e ouservar que 
desde sua emergência. na história das i.nsti -
tuições, o conjunto das'funções da chuncc-
la.ria vinculam a escrita e o d,:reitn. 
~ão é por mern coincidência, cutão, que taru-
bém neste período tenham sido escritas as 
primeiras gramáticas uonnativas das línguas 
eul'opéias. Esse vínculo estreito enLre cscrila e 
direito é o que cÀ-phca por que as gramálicas 
nonuativas ~se apresentam a1 é os uossos ilias 
Roh a forma de um verdadeiro código de dirci-
10, com a regra, os parágrafos, os artigos, a;; 
exceções quanto aos exemplos tirados elo:; 
.. , d P ,, 1 aulores· - scg1m o aquette, ·e porque e a:,; 
têru mais ou menos uma função auáloga à dft 
jwisp1udênciar. (p. 246 ). 
Assirn, é fácil concl11ir que quanto menor íor 
a presença e a influência da escrita institu-
cionalizada ( o que sign:ific.:a menor prescnç,a/ 
influência da· e.scola, do poder do Estado, do" 
meios de comunicação etc.) , maior e mais 
rápida também iicrá a atuação das forças cen-
trifugas que favorecem a mudm1~;a dns líl1 -
guas. Vamos ver isso mais adiante, quand11 
analisarmos alglUlS processos de rnuda nc,:.i 
ocorridos no português brasileiro. 
Essas forças cen(rípetas~ no entamo, que par-
tem das instiluiç,Ões que tentam cercear a Jfu-
gua (reprc-Ac,entadas no desenho pelo perímetro 
tracejado) conseguem sumente r<'frear ou atra-
sar por nlgum tempo a mudança liugüística 
(por isso, no d~cnho, cJa., estão repreAc,eutadas 
como sc1as bem menores do que as forças 
centrÍÍlLgas inerentes à. lfogua). Elas jamais 
terão o poder de impedir totahnente llem (mui-
to meuos) para ::;empre essa mudança, porque 
ela é muito mais poderosa do que qualquer 
ontra forç,a social institucionalizada. 
,lá escrevia o poeta latino Horácio: '''l\laturarn 
<•xpellas furca, tamem usque recu.rret" (Epístola 
, 24) - você pode expulsar a natu l'eza com 
um forcado, mas ela sempre retornará ... Por mais 
que você limpe cuidadosamente seu jardim., por 
::: 
B 
:5 
127 
128 mais que eXJ->ulse a nanueza com um forcado, 
no dia seguinte ele estará novamente cheio de 
fo lhas caídas das árvores,.de coisos 1 razidas pelo 
veuto e pela chuva, de ervas que brotam do 
soM, de insetos r oulro · bichinhos ... O forcado. 
no noRso caso1 são as forças cenuípetas q11e ten-
ul J 
'
, 1., ,, • , 
tam exp sar < a mgua a natureza I isto e, suas 
forças internas rumo à rnudauça. 
A mudança lingüística é inevitável como a pró-
p1ia mudança de tudo o que existe no unjver-
so. Como já dizia o filósofo grego Heráclito, 
· 1 d C · " I .,, qum 1entos anos antes . e ,n sto, panta r tez 
- tudo flui1 tudo muda, e a língua não tem 
como (nem por quê) escapar dessa inevitabi-
lidade. Gostando ou não, mdo o que se pode 
fazer é reconhecer esse cará ter inevitávr.J da 
mudança lingüística. 
Ü S DIFERENTES RITMOS DA ~1UDMÇA 
Como já vimos mais acima, r~orrendo ao 
trabalho de Aitchison , a mudança lingüístku 
não oc:orre ao mesmo tempo em todas as lín-
gua e, dentro de uma mesma língua, uã11 
ocorre de modo idêntico nas diferentes varic--
dades sociolingüísticas. Isso pode explicar a:-. 
diferenças que encontra.mos eut re as varied.i -
des prestigiadas e as variedades esljgmatiza-
das do porruguês brasileiro. Em cada lUil des-
ses grandes conjuntos de variedades, ocorre-
ram mudauças ao longo do 1empo desde que 
os portugueses aqu i desembarcaram, trazendo 
para solo americano a heterogeneidade da lín-
gua falada cm Portugal no século XVI'6. 
o português brasileiro atual podemos encon-
trar, ao mesmo tempo, de,c;igua lmen te <listri-
buídos en1 re as variedades, traços conservado-
res - que refletem o estado da língua no 
período Wl. colonização - e traços inorndorcs 
- resultantes da atuação, na comunidade de 
fala brasileira, das fon;as internas e externas 
da mudança. 
11' F: bom chamar a ateuçiio para t!Ste fnto, 
freqüeme.11rnme esquecido: n língua que foi n-azida para 
o atual terrirório brasileiro não foi lllil português íuúco. 
homogêneo, iuvariávcl - não existe uenhumu. lÚl¾,>11a 
assim no w1111do ... As pessoas que 8C in.srnlarum aqui 
provi.nl1am de árcns gcográfir.as clifercm es, pPl'LCnciruu n 
dnsses sociais bem cfütintas, falavorn diversas vliI'ieda-
dcs lin(:,'liísticu.s regionais e sociai:i. Existe a cre.o~ wn 
tunto m.Ít:ica dr. que n l.í:np;ua que os colonizadores t.rou-
.xorum foi um port11guês "cen or. e "bonito,. e que nós, 
hrnsileiros. temos nos empenhado (:m " Jisto1'C("rr. e "es-
1ropi.ar" e,;sa '"língua orii,ri.nal\ e - o que é pior - que 
1·ssa "distorção" e ''estropiaç.ão" se devem ew grande 
p111to à nossa ·'misturo de n:1ças" e II in.Ouêucut (negati• 
v11, é claro} dos negros e cios fndio., na formação da 
110 sa sociedade. É o '-fruunsma colouial" mais uma vez 
nssombrando oossn imogiuoç .. fo ... 
2 .. 
3 
129 
l:JO 
' I'. 
~ -. 
~o que diz respeito, por exemplo, ao {é.t:ico, 
sobemos qne as vm·iedades estigmatizo.das, so-
bretudo as mais isoladas na zona rural, são mais • 
conservadoras que as variedadeti prestigiadas, 
urbanas. Nessas variedades estigma1izadas po-
demos encontrar.; ainda cm pleno uso, palav.ms 
que eram cmprngadas até mesmo cm textos 
escritos arcaicos e medievais e que caíram cm 
desuso ou f'ormu subs tituídas por formas novas. 
É ó caso de det>puis, anton.ce, oàttbro, fruita_. 
escuítar, trêição, me11hã e muitos outras pa la -
vras que, hoje, scn rcm como identificadores <la 
01iircm socia l de seus usuários. Considerndas , .. · 
"'·erradas» p e los fa.lan tes d ns variedades 
p restigia das urbanas~ essas pa lavras, no entm1-
'f0, reprcsen1am, isso sim, estágios rnai'> antigos 
(lo léxico da língua, fonnas qne: em épocas 
passadas~ eram as única consideradas "cc1t ns~' ... 
Por 0 1111'0 Jado, na .fimologin, as variedades C1;,-
tigmatizadal:> se m ostram, cm a lguns aspectos, 
bastante inovadoras. A pronüncia '·pma.,, para o 
que se esc1·cvc rALHA, pm· exemplo, repre..~-ntn 
urna etapu a mais nus rnudimçu.s do sistema 
l'onológico dr. língua. As variedadr,,s prestigiadi1:-
sc detiver am nas tra11sfor1naçõcs que fizcru111 
surgir n. con soante /Á/ - que escrevem os cn111 
u dígnúo LH - , ao passo que a.s varicda.d1~:-; 
es tigmatizadas levaram essas transform ac;õr-. 
rnais adiante., mudando o /JJ em /y/. Ora, 
essa mesma etapa foi cumprida pelo francês-
padrão atual, em que a consoante /1/1 presen-
te na língua a té meados do século XVIII, não 
existe mais1, tendo sido substituída por /y/. A 
nossa. palavra HILllETE se origina da pala,Ta fra11-
cesa BIT..LET1 que hoje é pronunciada "biyê" pelos 
franceses. Como ela foi tomada de empréstimo 
pelo português cnà:c os séculos XVI e XVH ( o 
registro mais antigo de Bill{E.TE na língua é de 
1611, segundo o dicionário Houaiss), a promin-
cia .francesa da época foi mantida em português, 
o que ~lica o LH da forma aportuguesada DI-
LHETE. :Quando uni falante brasileiro pronuncia 
BILm:nf. como ~bivete", ele está acompanhando 
' . 
urna i:µudan<i:a lingüística q·ue ocuneu na pró-
pria lingua de onde a pala\<Ta foi tomada de 
empréstimo... Já com ~Wl .LO'f a coisa foi dife-
rente: tomada de emprést uno no século XX, a 
grafia aportuguesada procm·ou manter a p ro-
niincia :francesa con(tlmporânea, o que explica 
escrevennos MAIÔ. O m esmo fenômeno ocorreu 
em 1nuitas variedades do espanhol, tanto na Eu-
ropa quanto na América, em que a palaVIa es-
crita CABAL1.o- e cuja pro11úncia em castelhano-
padrão é "cabalho" - é prommciada ~1cabaio,717• 
17 Em outras variede.rles do espa!l.1101 arnericano1 -
;; 
como no Uruguai e na Argtmtina (soLretudo em Bucnol:i 131 
132 
< 
Tsso mostra claramente que nossos falanles ru-
rais não são "ignorantes" nem '"'ü,capazes'' de 
falar "direito" - eles simplesmente estão dei-
xando agir mais livremente as forças i:nterrutS da 
língua,•sem se preocupar em n'f)u lsá-las com o 
forcado ... 
Em outras fu:·eas · da fonologia, as variedades 
estjgmati.zadas e as variedades prestigiad"à.s ~ão 
' igualmen te inovadoras. Em todas elas, o anti-
go ditongo El passou a ser pronunciado "ê" 
em determinados conte.xtos, o que leva todos 
os brasilejros a pronw1cia.r "pêxe1', 1'chêro1',"bêjo" etc., para .o que se escreve PEIXE, CHEI-
no, BEIJO - ao passo que em outros contextos 
o ditongo se ma ntém, com o nas palavras es-
cri Ias PErl 'O e PEIDO. 
As mudanças também seguem ri tmos distintos 
em regiões diferenfcs do Brasil. Na m a ioria 
das variedades faladas no Sudeste e no Sul; a 
Aires e região), as tTun~formaçõcs avançaram ainda mais. 
Depois dn mudan<:a de /Á / cm /y/, ocon·eu a tr:.msfor-
mação de /y/ na consoante /3/, que II nossa ortografia 
representa coru a leua J na palavra já, por (".xcmplo. 
Assim, naquelas variedades, a palavrn. CABAi.LO é pro-
nunciada como "caLajo". Uiua nova etapa parece e..star 
se proct',5füutdo atunhneme, em que a consoante está so-
frendo um cnst1.rdncimeoto, o que provoca a pr o11Cu1c:ia 
'' cahaxo" ... 
prcpos1çao a esLá caindo em desuso e sendo 
suhs1 ÍllÚda arnplamen1c pela preposição para, 
nas chamadas conslruções dativas, cm que 
ocorrem verbos como da,; en tregar. p edir, es-
creve,; lelefonm; dizer etc. Assim, nessas varie-
dades, é muito mais freqüente ruzer "'·dei [ en-
treguei] [pedi] [emprestei] o li vro para o 
Pedro.,, do que ~'ao Pedro:.-,. No ~ordcste, po-
rém, independentemente da classe social e do 
grau de cscolarizaç,ão, é muito freqüente o uso 
da preposição a com esses mesmos verbos, o 
que pode ser cal'acterizado corno um traço con-
servador. Nessa mesm a região, encoutrarnos o 
empl'ego do modo suhjLmtivo em correlação 
com não .,;aber: !(Eu aão sei o cp1e faça para 
te convencer disso", '"Maria não sabe o que 
peça de presente de auivcrsário:, . Esse uso do 
subjuntivo ocorre em textos literários dássicos 
e ruficilrnentc aparece na escrita mais moni-
torada contemporânea. ~o entanto, sohrevive 
na lú\,tTUa falada cm muitas áreas do Nordestc0 
inclusive por pessoas sem nenlnun grau de 
instrução formal 
Variedades estiginatizad~s e vo.1·Ledadcs 
prestigiadas são ig11ahnentc COllilervo..doras ao 
c•mprcgar a prcposi~o Pm com verbos de di-
n·\~º como i,~ vir, chegar - '\mu 110 cinema"", 
"cheguei em Brasília" -, como jó oconia~no 
13-t português anti~o. Por outro lado, são igual-
mente inova<lora ao ampliarem o uso da pre-
posiçJío para com o verbo ir - "vou para o 
cinema com vocês" - , sem se preocupa r com 
a distiuçã9 imposta pela tTadição normativa., 
segundo a qual se deve usar para se for tuna· 
permanência ''definitiva:,, e a preposição a para 
uma permanência '~temporária" . O uso da 
preposição a. com verbos de movimento-dire-
ção está cada vez mais restrito a gêneros tex-
tua is escritos mais monitorados. 
Em todas as variedades do português brasilei-
ro, os pronomes 1·etos suhstituíram os prono-
mes oblíquos em co11S1J.·uções corno "-deixa eu 
ver'", ~mande ele entrar". "ouvi ela chorando'' 
etc., em <~ uc a norma-padrão prescreve cr.deixa-
me ver'", ''mau.de-o entrar '\ '1ouvi-a chorando'.' 
etc .. uma inovo.ç,iio morfossintática que já se 
apoderou completamente da língua fa lo.da e já 
dá sinais de grw:1cle presença também na lfugua 
ei:;cr it a , mcsnw em textos mais monitorados18. 
Como -vimos, us inovações µresentes nns varie-
dades e.si igmatizadas representa m um avanço 
das forças centrifugas qne levam a mudanç.a 
li11giüslica _a assumi r um ritmo mais acelera-
18 \'cr discussão sobre esse fenômeno em Bogno 
(2000) e (2001 }. 
do. lsso ocorn~ porque, rrns cormmidadcs de 
falantes cm q11c cs as inovações se processam , 
as forças cenll'Í.petus têm pouca ou nenhuma 
inf l11ência sobre a atividade li ngüística das 
pessoas. As irtslitJ.úções que contribuem IJtlTª 
represar a.s fort,:as centrífugas - sobretudo a 
cscolarizaç.,~o e a escrita no11natizada - estão 
ausen tes 011 têm uma prescuça muito limita-
da., incapaz de servir de 4'.l'on.:ttdo" parn «ex-
pulsar a naturezn", como escreveu o pneta 
Horácio. Os falantes das variedades p restigia-
das, por outro lado, sofrendo um. p oliciam ento 
muito maior por pn.rtc do si.stcma cscolnr, dos 
gêneros escritos mais prf'stigiados, dos meios 
de comunicação e das demais instituições, re-
primem a q11clas forças centrífugas. 
A!:iSÍm, os "en o::;" q11e rnnis chamam a atcm-
çno dos fala nLes urbauos escolarizados são pre-
tisam cnte aqueles que represen tam inovações 
ma is avançadas - mais crntrífLLgas - no 
processo de mudança lingiiís1ica: 
a m 1.11lun~'.ll da co11soautc / Á / c111 /y/ : palha 
> p<Ún; 
a m 11Jt1ni.-a ilos cnronLros c:onsonantais com / 
l/ cm encontros consonanla.is com /r/: plantn 
> j)l'Cll//(1; 
a dcs11ust1liza~:ãu das vog1li:;; átonas firntis: lw-
mcm > liome; .fàl.t11w11 > fo. lnro; 
n síncope das síla bus pos1ônicn.s cm palavras 
proparoxitonas: córrogo > r.orgo; bêbado > 
bebo; 11nssaro > passo: 
o 
1;15 
136 a eliminação das marcas d~ plural redw1dau-
tes: os numinos todos vieram > os menino tudo 
veío19 etc. 
Os falantes das variedades estigmatizadas sim-
p lcsn~cnte levam acliante processos de mudan-
ça que foram represados no processo de norma-
lização "jurídica'' da língua . 
Podemos comparar o surgjmcnto deS$aS inova-
ções mais radicais nas variedades estigmatiza-
das do português brasileiro com o que oconeu 
- em escala muito maior e muito mais radi-
cal, é claro - no processo de formação da 
própria língua po1tuguesa e das demais lín-
guas derivadas do latim: como o frarn~ês, o 
espanhol, o italiano: o romeno etc. Quando o 
império romano se esfacelou, a partir do século 
V, a unidade lingüística também se dissolveu, 
uma vez que oão existia mais a pressão das 
forças centrípetas: normatizadoras, exercidas 
pelas instituições imperiais durante muito tem-
po: Roma já não enviava prefeitos, cônsules, 
questores, prctorcs e outros funcionários, sol-
dados e colonos para administra r, controlar e 
explomr as pmvíncias. Os membros das classes 
1" E.;se;; e outros fenômenos que car acte1izrun H, 
val'iedades flstigmatizadas do português brasileiro siio 
analisados em ,fotallw 110 meu l iv1·0 A língua dr. L1Llália 
(1997). 
aristocráticas nascidos nas províncias Jª uao 
iam para a capital estudar com os grandes 
mestres da retórica, da dialétiea e da gramáti-
ca. Com o desaparecimento do império enquan-
to 1midade política, surgiram pequenos reillos 
menores, isolados uão só da ao Liga capital, mus 
também uns dos outros. Como se sabe, boa 
parte da Idade Média foi um período em que 
a cultu..ra letrada praticamente smJ1iu, sobrevi-
vendo quase que só nos mosteiros. As grandes 
cidades se despovoarnm, e a maioria da popu-
lação .. sujeita ao regime feudal, vivia cm núcle-
os rurais praticamente auto-suficientes e sem 
comunicação uns com os outros. l\o lugar dos 
generais e imperadores que escreveram monu-
mentos literários da lfogua latina até hoje apre-
ciados por sua elegânc ia de estilo ( como Júlio 
César e :Marco Aurélio), aparcr.eram reis e 
nobres totalmente iletrados ( o imperador Carlos 
Magno, por exemplo, nunca apn~ndcu a escre-
ver ). Entregue às suas próprias forças internas 
de mudança, e sem o freio das instituições re-
gula.doras, o latim se transformou radfoalmen-
t e, o que deu OTigem às difercnte,5 línguas ro-
mânicas faladas hoje em dia. 
Ora, o Brasil permaneceu um país en.Li.nentc-
mente mral por mais de 450 anos de sua histó-
ria. Somente a partir da seg1.mda metade do 
;;. 
137 
século XX é que a rclaçiio cnn-c popuJaç5.o run1I 
e pop11lação urbana começa um rápido processo 
de inversão, em 41-1c a segunda raminbnrá 11 
passo:'> largos até suplanlar ldtalmente a primei-
ra. E wesmo hoje, ap ar das estatísticas ofidais 
assegui1lll!m que somente 19% da população 
brasileira é r.:ntral'\ muitos cientistas sociai8 
brasileiros - além de contestarem os critérios 
de classificação em ,..,ruTal" e '\ubano'., empre-
gado pelos organismo!, oficiais (IBGE) -
enfatizam a pP.rmo.nência de Lraços cultlll·ais tí-
picos do ambiente rural mesmo nas zonas mais 
w:banizadas do prus20 . A inserção dos migrantes 
rurais na cullura propriamente w·bana é depeu-
dente do grau de :i11serç·ão dessa populaç.ão na 
cultura lcn·ada, característica da sociedade ur-
bana. Muilos moradore::i dasfavelas ou das pe-
tu ' ' A sociologio trn.d icionol no Brasil enfatiza as 
caracter ísticas rur a is dn sodednrle brasiJei.ra e nossa w·-
b arúzação tardia e dci.ordcnacfa. Para citar apenas al-
guns exemplo~. lembremos Antônio Cfmdido, 19Ci4, o.~ 
Parceiros elo Rio lJonilo; S&·hr:io Duar<-fUt' de Holanda. 
1936, Raízes do Brasil, eru especial o capítulo 'Herança 
rural\ Da.rcy Ribeiro. 1995, O Puvo Bro~ileiro, cm cspc·-
cial ;i seçi.io 'O Brasil caipira'; Ru1eu Oliveu, 1982, Ur-
banizaç.ão e Mudança 'ocial no Brasil, entre outros·• 
(Stella Maris Bortoni-Ricardo, "Revisitando os contínuos 
de ur haniz:içiio, letrnmento e monitoração estilística nu 
análise do port ugufü; <lo Brm,il'', 2003 , inédito}. 
ri ferias das nossas grandes cidades pe1maneccm, 
de ce1to m odo, ilncrsos numa c;ultura rural, na 
medida cm que niio estabdecem redes de rdo.-
ções sociais mais amplas com .instituições capa-
zes de promover aquela inscrç,ão: o simples fo10 
de serem analfabetos e estarem exd11íd0:., <lo 
sistema ed11cacional favorece essa pcrmanêu-
cia na cultura nm:i l21 • 
O interessante é ver que quando as fol'ças 
centrípetas agem de forma mais diluída ou 
dispersa: em situa~õcs de interação menos ten-
sas e que exigem menor monitoramento, os J)rÓ-
p1ios falantes mbanos escolarizados deixam de 
lado o "forcado" e se cs(Juecem de "'expulsar a 
uarureza" . Isso se nota, pot exemplo, ua arja-
ção de freqüêucia de uso das regras µalkoniza-
das de concordância verbal e nom i ual - f re-
qüência que é tanto mais baixa quanto mais 
baixo for o gra u de monitoramento da fo la . 
~, Essa~ q ues tões têm sido ampla mente 
investigadas por S. "1. Bortoui-Rica1·do e registradas cm 
muitos de st>US 1raLulhoc;, dentre os qllais se <!estaca 'J'lw 
Urbanization of Rurol Dialecl Speakers: a Sociolinguistir 
StLLd_Y in Brazil (CanJnirlge Univcrsity Ptt.ss. 1983}. É 
neste rrahal110 <pie me inspiro para delimitar. no. seção 
aeguiore. os traços desconónuos e O:, traç,0s graJm1is qllc 
podemos detecnir no continuwn das variedades lingüís-
1 icas do portugur.s brnsileirn. 
e 
:, 
6 
139 
T nAÇOS Ul!SCOl\"TÍI\UOS E TRAÇOS GRADUAI!; 
1Jrna coii:,a que devemos evitar sempre, no t1._imll" 
dn reali<lade liugüíst ica tlo porl!4fllêS brasileiro. 
é a pe1igosa tcntr,ição de diviilir c;,sa reali
1
dade 
ern dois blocos bem delimitados, hem d.isLintos 
eun,c si: de um lado, a;-; variedades prestigiadas; 
<lo outro, as variedades estigmati;,;adas. Corno já 
afortei mais acima, o prestígio ou o estigma atri-
buídos a uma variedade lingi.iística é 11rna lfUCS-
tão J e mais e de meuos. Entre as variedades 
mais prestigiadas e as va riedades mais es1jgma-
tizadas existe um amplo espectro intenncdiá1io. 
Além disso, elas m antêm intensa. inter-relação, 
influenciando-se rn11 tuameutc. 
É muito r.ommn, na liter atm u sociolingüística, 
faJannos do conlinuwn das Yaricclades, q uP 
te1ltei representar. uo eapítulo anterior, rnm n 
figura de UIIHl pú:âmidc: 
V,\RlEDADl•:S 
+ Pl1F.5TIGIAIJAH 
VARIEDADES 
- 1-"<;TICMATIZAD.~S 
O que vai caracterizar uma vati.edade lingüts-
tica como mais ou m enos prestigiada ou como 
ma is ou menos estigmatizaria é o grau de fre-
qüência de determinadas regras lingiiísticas 
variáveis (o que as pessoas em geral chamam 
de "'erros") que, na nossa socicrlade, gozam de 
prestígio uu sofrem tliscrill'.lÍDavão por parte 
dos falantes das variedades prestigiadas (aqLLe-
lcs que 1 radicionalmente são chamado de 
"cul tos") . 
Como já discutimos no Prólogo do livro, exis-
tem "erros" mais «errados" do que out1:us, e 
aqui voltamos ao iiúcio da nossa conversa: o 
que vai determinar a gravidade desses "enos" 
não são as caracterísli.cas estritamente 1.i.ngjjís-
t icas prescn1es na fala do · indivíduos, mas, 
sim, m uito mais, n.s características sociais dos 
falan1es que cometem tais "cuos". Quando tais 
regras variáveis, mesmo em desacordo com as 
prescrições das gramáticas normativas, pas -
sam a ser amplamente encontrodas na ativi-
dade lingüística dos falan tes prestigiados, elas 
deixam de ser percebidas como "erros". lsso 
ocorre, como vimos, quaudo a ordem rua.is 
<:omum sujeito-verbo ("coisas estranhas acon-
teceram"' ) é invertida ("'aconteceu coisas cs-
t raohas ,; - verbo-sujeito} e o verbo não é 
flexionado no plural. Quando essas formas 
, 
e 
::: .. 
0 
H1 
142 
< 
condenadas pela norma-padrão tradicional se 
incorporam definitivamente à gramática in-
t,uiliva dos falantes tuLanos mais escolarizados, 
e sohrctudo quando elas começam a ser am-
plamente empregadas na prá t ica <la língua 
escrüa. mais monitorada, a noção de eiTo che-
ga mesmo a se inverf'cr: aquilo que a norma.-
padrão prescreve soa tão pouco familiar para 
essCb falantes que eles passam a rejeila r a forma 
tradicional quando topam com ela. É típico~ 
nesses casos, ouvir comentários como "pode 
até estar ceito~ mas 6 muito estranho [ ou pe-
dante, ou artificial.. .]". É o caso) por exemplo, 
da supost a obrigaç.ão da presença da preposi-
ção a numa constrnção como: "Esse é o filme 
mais bonito a que eu já assisti~ - o grau de 
freqiiêucia deste uso <la preposição a, mesmo 
ern text os escri to1, mais rnonit:or ados) é 
baixíssimo, quase nuJo, e seu emprego certa-
meni r causa esLTa nhcza até rnesmo aos falan-
tes mais escolarizados. 
Os fenômenos tradicionahnente tot ulados de 
"-c1Tos" podem ser <livicLidos cm dois grandes 
tipos, CJUC recebem na literatura técrúca os 
nomes de traços graduais e traços desconú-
nu.os. Os 1 raços graduais são aqueles <pie, como 
o próprio nome indica, or.on-em ao longo de 
todo o conl,int.L11.m das variedades em grau 
maior ou menor de freqüência ( daí seu nome: 
graduais) . Os traços descontínuos são aque.les 
que aparecem com maior freqüência. nas vari-
edades mais estigmatizadas e drixarn de apa-
recer fJUanto mais subimos na escala social, 
isto é, quanto mais nos aprox_imamos das va-
riedndcs mais prestigia.das. Retomando a n os-
sa pirâmide, poderíamos representar tudo isso 
conforme gráfico da página seguinte. 
VARIBDADCS PllF.~n'lt.lAOAS 
VA.HllmADES ESTIC:\'L\TIZAOJ\S 
m t raço gradual, no que diz respeito à pro-
mÍ.ncia dac; palavras seria, como já vimos; a 
redução do d i1 ongo csc.Tito OL numa única vogal 
fcchatla pronunciada '\ô" : esse fenômeno não 
Hofre estigma na sociedade porque ocorre em 14:\ 
1H todas as variedades li.ngüfaticas do português 
brasileiro. Em qualquer região do país, em 
quaJquer classe social , seja qual for o nível de 
escolaridade do io<livíduo, palàvras escritas 
OURO, POlJÇO, CHEGOU etc. são ll.ormalmentc 
pronunciadas corno se fossem escritas '•ôro", 
"pôco" ., ~'chegô" etc. Por OLltro lado, a pro-
n úucia l,'traba.io ,, ; ''teia :~ ou "prua ,., para o que 
se cscrnve TRABALllO, TELHA e l'ALI Ll\ é um traço 
dcscon1Írmo porque virLua1mentc não compa-
rece nas variedades prestjgiadas: 411auto ruais 
escolarizado é o fal.antc, quanto mais inserido 
na cult ura lelrada e nas rcJaçõcs sociais mais 
monitoradas da Yitfa urha.,1.a, baixíssima é a 
probabilidade de ouvirmos aquelas pron(111cias 
em sua produ"ão lingiiística espontânea. 
_ o que diz respeito à morfossínt:a:re, um traço 
gradual é a substituição do pronome relativo 
CliJO por cons1 ruções sintáticas analíticas. Os 
brasileiros de todas as regiões, classes sociais 
e 1úvcis <lc escolaridade dizem t rnnq üilamente 
-... A moça que o pai dela é médico" ou '1 A moço 
CfU P- o pai é médico\ sendo bai'Óssima a pro-
babilidade, mesrno entre falantes altamente 
escolarizados, de ouvirmos algo w mo "A moça 
caio pai é médicoY,22• O pronome CUJO !'IÓ so-
22 TI·ahalhos pioneiros a c-.e1·ca das Orll_ÇÕes relali-
Yu'i (e do uso do pronome cujo) sii.o os de :vlollica (1977), 
brcvivc hoje, uo Brasi l, cm textos cscri1os com 
elevado grau de monitoramento e em shua-
ções de interação verbal fa lada extremamente 
for mais (quando o falante, por questões de 
atitude lingiüs1.i~a, faz questão de "mostrar que 
sabe'') . Por sc11 tun10, conjugações vedJo..is do 
tipo nós t1ai ou elesfez são traços descem túmos 
que os fa lantes das variedades prestigiadas 
teutam evitar ao nuíximo em sun atividade 
liugüística, por considerá-las caracte!Ísticas de 
falantes menos escolarizados, de dasse social 
inferior ou oriundos da zona rnral. 
Traços dcswn1Ílluos ta.tnbém pode:rn ser en-
con1rados no léxico, isto é, uas palavras usa-
das prJas diferentes comunidades de folan1es. 
Já vimos que exis1em palavras que, qua ndo 
u adas, deixam transparecer claramente a ori-
gem social do falan te. É o <.;aso, jó citado, de 
despois, antonr:e, oitabro, fmita, escuilar, trei-
ção, menhã etc. - todas essas palavras fonm1 
usadas em fases mais anügas da língua e po-
dem ser cnco111 radas, por exempJo\ em <locu-
mentos cscri1os medievais. Com o passar do 
1 ·mpo, no eu tanto. elas foram :mbst inúdas por 
for mas novas. que se ünpuseram ua falo das 
ramadas sociais priYi legiada:;. Hoje, sobrevj-
Lemle (19'78) e Tarnllo (1983, 1985). Vertnm.bém Corrêa_ 
:: 
( 1998). 145 
li:6 vem principalmente nas varicrlades estigmati-
zadas dos fala111es rnrais, qt1e têm oomo uma 
de suas co ractcú sticas o conservadorismo 
lexical. E justamente por serem usadas por 
falant.ei' despresLigiados socialmente, essas 
palavras não aparecem na atividade lir1güísti-
ca dos falani-es mais prestigiados ou tlos que 
bllscam obter prestigio social. 
Como é fácil deduzi e-, são justamente os traços 
de.,;r,ontínuos as fon:nas lingüísticas mais estig-
01ati2adas (e mais riruculaiizadas) pelos fa-
lan1es das variedades prcs ligi.adas. Esses tra-
ços descontfouos sofrem, no processo de 
escolruiza.ção, uma pressão muito grande por 
parte dos professores, ciue tentam eliminá -los 
da fala (e da escrita) dos alunos que chegam 
na escola fa lando variedades estigmatizadas. 
Por sua vc:-: .. os traços graduais, sobretudo os 
que já foram asswnidos plenamente pelos f a-
lantes das variedades prestigiadas, são com-
balidos de forma mais branda ou simplesmea-
te deixam de ser cornha.tidos. Como a força do 
mudança hngtüstica é muito grru1de, muitos 
<lesses traços gra<luais dei..."'\'.aru de ser conside-
rados como "-erros" no espaço de pollcas gera-
ções - muitos brasileiros urbanos e 
escolarizados de hoje nsam sem o menor re-
ceio, inclusive na escrita forrnol, construções 
gramaticais que deixariam seus avós m ais Jc-
tTados de cabei.o em pé. O uso do pronome 
reto eu depois da preposição enfl'e é um bom 
exemplo disso: entre eu e X ocorre com fre-
qüência cada vez ma ior ua escrita mais 
monitorada, superando entre mim e X: uso mais 
conservador. E ssa mudança já foi registrada 
oté m esmo cm gramáticas normat ivas2:1. Exem -
plos tira.dos do jornal Folha de 8. Paulo: 
(1) "Não é vet"clode que a relação tNTRE D , e 
W1oody era tão dara que n ão ner.e.ssiwsse 
explicações uo sct de filmagem." (11/5/94) 
(2) "O que se f"Rtabelece é uma espécie de 
d uelo L'mu-.: EU e cada per-souagem, cujo 
estilo um pouco eu aceito e um pouro eu 
recuso." ( 1 0/10/94) 
(3) ·'Jack:ie não supmtou u im:imidarle q11e c>.xis-
tia FJ\•'11/E EJJ e Joaune cltmmte as fih11agcns e 
acabou pedindo o divórcio."·· ( 19/3/95) 
( 4) "Há muitos outros que não podem, mas: 
para chegar u um acordo t:!VTRE f.'l.i e um 
esquimó ou um argcli.110: provave1men-
2-1 Cunha. & Cintra (198S: 291-292): "A tradi~o 
grrunatical aconselha o emprego das formas oblíquas 
t·ô11icru; depois du prepoi;içôo entrn. ( ... ) .\Jn linguugem 
coloquial predor.uino, porém, a com,trução com as for-
mos retas, conslniçiio que se vai il1sinu0J1tlo na lir1giw· 
/{<'lll literária [ ... ]". Observaçõe.s scineJha.urns aparc:(:l"lll 
l'tll Becharu (1999: 173). 
e 
= 
147 
te, se começ,armos por nosso direito de 
u a1· o corpo, encunn-arcmos alguns va-
lores universais. " (15/,5/95) 
(5) "Toda a questão da ,vida interior, seu l tll'-
Lilhão, multiplicaç,ào, a divisão-cru-duus 
(consciência), o fato curioso de que só 
sou Uma com o outro, a importância ou 
não-impo.rtuncia que esses dados Lêm pum 
o processo de pensar, o \ liáJogo silencioso 
t:,\'rnF: EU e eu mesma' etc.'' (18/6/95) 
(6) "E é verdade rruc a dança para mim 
c!evia ser uma coisa lógica, pois como e11 
clcsc.nhava corpos, ha"ia algo orgânico 
&VTRE EU e a dançu. "' (28/10/97) 
Retomando a discussão iniciada no Prólogo do 
livro, fica cada vez mais da ro que o conceito 
de '~erro:', do ponto de vista sociológico e- onlro-
pológico, se baseia numa avaliação negativa 
que nnda tem de lingüística: é uma avaliação 
estritamente baseada no valor social aa:ibtúdo 
ao fala nte, em seu poder aqtusitivo, cm Reu grau 
de escola.rizac,;--<10, em sua renda mensal, em sna 
origem geográfica, nos postoR de comancfo que 
lhe são permitidos ou proibidos e outros c.r i1 r.-
rios e p reconceitos estritamente socioeconô111ieo1,; 
e cul I urais. Por isso. insisto, quando uma forma 
lingüística nova se incorpora à atividade lin-
giüstica dos falantes prestigiados, ela deixa <.11· 
ser çonsidcrada como "'erro". 
Do ponto de vis ta e..str itameutc lingüís1 ico~ uão 
existe diferença f uncionaJ (uem) 1111úro meuos, 
euo) eun·c dizer ele ponhava ~ ele punha. Mns 
do ponto de vista social, n Leudência (rnu.ito 
antiga na língua) à rcgularizaçõo das formas 
.i1Tegulares - a mesma que foz StLtgir o verbo 
fritar com Lase 110 pa rlicípio passad o Ui·ito ) 
do verbo irregular frigir - , é avaliada 11cga-
tivamen1e e rotulac:la de '··erro·' . Assi.m) o mes-
mo fenômeno ling üístico recebe avaliações di-
ferentes quando se apresenta como um lraço 
desr,0nt:íuuo (ele ponhaoa. e não ele p1Lnha) e 
quando se ap1·esent.a como um n·aço gradual 
(ele frita, e uão ele frege). 
A estigmatização se 1oma um problema ·ocinJ 
ainda mais grave q11ando ô rótulo de '"cno -i 
passa a ser automaticam ente aplicndo a todas 
as demais características fisicns e psi,r.o.lógicos 
hem como a todos os ou tros comportamentos 
sociais do falante que se serve da forma lin-
güís1jca desprestigiada. De fato, o snpos1 o erro 
lingüístico parece <lesem;adcor urno. série de 
avaliações negativas lanrado.s sobre o indiví-
üuo, nu ,na cadeia de causas e conseqiiênr.ias 
que, por ser essenciahnente ideológica, só pode 
ser fa lsa: aJ1ué01 fala erratlo porque pensa 
1•1-rado, porq11e age errado, porq11e é crratlo ... 
O outro Jado da m esma moeda ideológica é 
:; 
1i9 
150 fó.c il de imaginar: quem fala ccrlO pensa cer-
to. age certo. é certo ... Esse preconceito social 
é milenar e já existia, po\ exemplo, na socie-
dade romana antiga: onde se falava do consen-
su.s 1,onorum identificado c.;om o consen.w s 
eruditorum: as pessoa~ cultas, educadas e po-
lidos tinham de ser, por conseqiiêncía nalural, 
pessoas boas~ honesta , idônea . .. _ ão é de 
espantai' que no sern;o com tUll das classes 
favorecidas exista o preconceito muito an-ni-
gado de que todos os pobres são propensos ao 
vício, à desonestidade, à preguiça~ à corrttp-
ção moral e õ. violêncin., além., é claro, de ,: ra_ 
lnr•p,m tilflo err;:ido1' •.• 
Uma das tarefas do ensino de língua na escola 
seria, entiio, discutir os valores sociais atribuí-
dos a cada oariante lingüística, eufati.zando a 
carga de di ci·úninaç,ão que pesa sobre deter-
rniuados usos da lingua, de modo a conscien-
tizw· o aluuo de que sua produção lingüístjca, 
oral ou escrita, estaI·ó. sempre sujeita a uma 
ava.Jiação sodal, positiva ou negativa . .É mais 
do que justo que o professor explique, com 
base em teorias lingwstica.s cousistcn tes, a 
origem e o funcionamento das variantes lin-
giiísticas estigrnatiz;adas, cwe mos1rn as regrn.s 
gramaticais qtLe governam cada uma delas. lsi;o 
Jeixa.rá claro que as íonnas allernativas à 
regra-padrão tradicional não são caó6cas nem 
confusas nem incoerentes: nmito pelo contl.'á-
rio, obedecem regras tão lógicas e consistentes 
quanto as que governam a opção-padrão e por 
isso podem ser explicadas cientificamente. 
Podemos, por exemplo, ao e11con1 rar formas 
est igm.atiza rlas na produção escrita rle nossos 
alunos, oferecer a eles a opção de "·tradt12ú.·r. 
seus euuuciados na norma-padrão.,para que 
eles se conscientizem da exis1 ência dessas re-
gras. A consciência gera responsabilidade. E é 
ao faJante/escrevcnte bom conhecedor das 
opçõeft oforcc.idas pelo idioma que caberá f azcr 
a escolha dele, eleger as opções dele, w.csrno que 
elas sejam me.nos acciláveis por parte de rucm-
bros de ouo·as camadas . ociais rliferen1es da dele. 
O que não podemos é negro· a ele o conhccimen-
Lo de todas as opções possíveis. 
Ü PAPEL POI.ÍTJtO DOS U I\CCISTAS 
Para desatar esseil wuitos nós é uccessár io q ue 
os resultados das i11 vestigações lingüíst.icas 
ultrapassem a esfern acadêrn ica e se lomern 
instrumentos sociais efetivos para a mudança 
das concepççíes de língua que vjgoram em uossa 
sociedade. Cabe, portanto: aos lingüistas assu-
mir o papel político que têm ( ou deveriaw ter ) 
na transformação do senso comum ffi¾:,oÜÍstico, 
:; 
151 
.. 
i! 
trans.forir parn a coletividade mais ampla o 
conhecimentos adqunidos em suas iuvesLigações 
científicas; devolver aos demais cidadãos o sa-
ber q11e, 0omo cont1wuir1tes,• eles ajudaram a 
acumula r. Os lingi,iisms profissionais preci.snm 
se afirmar corno uma comunidade científica cs-
pccíaLizuda, fazer valer sua voz acima da Lal-
búrdio. de discussões clispara(a.das sobre língua t, 
li11guagcm, empreendidas quase sempre por pes-
soa::; totalmente clespreparada.s para tra ta r do 
assw110. Algmis passos têm sido dados, mas ainda 
são muito tímidos, sobretudo diante da eIU.'lir.ra-
da de opi.J1 iões precoucei1 uosas sobre fenôm enos 
Lingüísticos que enconlramos todos os <lias nos 
meios <le comunicação. 
lt óbvio q ue a discussão sobre questões lin-
giií. ricas - como o ensino de língua na e ·co-
la , o u cio de palavras estrangeiras, os progra-
mas de alfabetização, as refmmas ortográfi-
cas, as políticas ljngüísticas de modo maifi 
amplo etc. - não pode ficar restJ.·ita aos espe-
cia listas: ela tem de envolver toda a sociedade. 
Mais ób vio, no entanto, é que e la não pode ficr 
empreendida sem os especialistas ou - pior 
ainda - com a participaçõ.o exclusiva de iu-
d.ivíduos <rue se a utoproclamam especia listaÍ'> 
roas que) de fato, estão totahnen1e desvincula-
dos da pesquisa científica mais rigorosa , da 
investigação teórica consistente. 
Como escreveu o lingüista Carlos Albe rto 
Fa raco. é preciso "travar m:na ~ 1tc 1Ta ideoló-
gica ao normativisrno'·· (2002b: ~9). Porque é 
disso mesmo que se tTata: de ir!Mlogia. A 
norma-padrão que paira acima de nós como 
uma espada pronta para det:epar nossas <;ru)c-
ças jó. deLxou há. muito tempo de ser nm im,-
umento de regulação merarneute lingiiístka,: 
é; sim, um instrumento de oµrest'ião ideológi-
ca, de 1>crscguição, de patrulha social, de <l.is-
crirninaçiio e preconceito. Refo1111ar o padrão, 
admitir como vál idas as regra liugiiísti.c.:as que 
já fazem parte da língua de Louo::; os bra:;ileí-
ros, é UIIla obrigação política de todas as pes-
soas realmente comprometida coru a plena 
democratização deste país . . as palavra~ <le 
Faraco (2002b: 59 ), 
ConLrapo1·-se a esse <.[1.11Hh-o não r, tarnfa fácil. 
embora f UJ1damental se considerarmos a r e-
levância , numa sociedade no porte da J10SSU, 
da ampla difusão socia l rim, pad rÕel:> n·uli!S-
las de língua, junto com R. dcmocrnlizu<;íiu 
dos bens da cultura e:scrita. O dcsnfio é criar 
condições para uma c,ríticu du ut itude 
normarivisr.a, de modo a fovort>cer u criução 
de um novo patamar conccitUlll l JUe pe!uútu 
o rompimento, no ensino e no m,o do pa-
drão, di=is amarras que hoje imperlem sua 
apropriaç.ão como bem culnu·aJ pelo ronjun-
to <la populução. E essa não é mna tarefo 
apenas para esp ecialistas .. porque ela é, de 
foto, de namreza poJícica. Só um debate 
público, amplo e irrestJ;to, poderá descnca-
•dear o processo <lc neccssltrio redesenho do 
JJadruo e <la cultura lingüística do país. 
Enquanto os lingüistas uã.o tornarem para si 
esta tarefa, seremos obriga.dos n conviver com 
os comandos paragramaticais - que é come 
venho chamando os falsos especialistas que -se 
apoderaram dos meios de comurucaçõ.o - e 
outras manifestações ainda mais autoritáras 
de dcf esa não só do p3drão liugiiístico tradi-
cional como de todos os também tradicionais 
mccanisn:10s d~ exclusão social. 
três 
Por uma gramática do 
português brasileiro 
1 
Por que é necessan o que se produia 
uma gramática do português brasileiro, pre-
parnda pelos pesquisadores engajados na in-
vestigação çritc.riosa da nossa realidade lin-
!!ÜÍStica? Porque, gostemos ou n ão,,. ex iste urna 
demanda. social por regras, por normas. As 
iressoas têm dúvidas, sim, na hora de escreven 
nm texto mais moui1ora<lo. E o que elas po-
dem fazer - hoje - para resolver e-ôsas d{1-
vidas ? Recorrer aos compêndios grama ticais 
de perfil tradicional, rep1etos de problemas, 
Olt então - o que é, de longe, mui10 pior -
15ó 
i .. 
7 
a ohras quP excc1tlaiu um empobrccin1enlo clrás-
tieo Ja rcn liJade da lí11gua, que tentam presr.r-
var a ferro <' fogo regras gnunat icais há mui to 
<lesapar&i.cfas da a1 ivi<lade lingüístiça efetiva dos 
hht:iilr. iros, inclusi e dos classificados de "cul-
tml" e. ao me.:;mo tempo. condenarn regras gra-
rna1icais já definitivameute <'cStaLclecidas na gra-
mática real do português brn.sileiro. 
Q UAL O l'IIOBU:.,1A COM AS GKAMi\ TICAS J\Olt.\llATJVAS? 
Por que não podemos recorrer àti g ramá( icas 
nonuativao ou àb demais obras que cncania,H 
o (pre)conceito multissecula r de '·norma cu] -
ra ''? É claro que ninguém está propoudo -
t,;OJnO acham aJguus - qnr. lemos de jogar no 
lixo as gramáticas nonna Liva~! Sempre temos 
o que aprender na lcit1rra de uma obra esGrita 
por um gramático, <lcsde que e.stcjarnos bem 
conscientes óe que se trata de mo Lrabalho 
eruprPendicfo sem mna rneiodologio cieJJLifica 
rigorosa, o que impede, logo de saíJa, seu 11so 
como material d idárico (um uso que, inleliz-
meutc, tem vigorado na ed1Jcação brasileira 
há l'anto tempo!). Além rlistio, pelo sirnpfo~ 
fa lo <le serrm normativas, dns já trazem tuu 
1wohlcma c:ongêni10: sobretudo por causa do 
co11c<'ilo d~ norma <.prn nelas vigora. e que jú 
discutimos mais am5s. O mai grave é qur 
.essas obras impJe ·m eme não fazem uma deiv 
crição criteriosa nem mesmo do que elas cha-
mam de '·n01ma culta"' . Se ' ·norma cuJLao/1 é a 
língua LIBada na liter:ll"tffa, por que emã.o cou-
denar usos que a gente eucon1ra fartamente 
na produç,ão de autores co.nsagrado$7 
A verdade f que o uso que os gra.111á1 icos fo.-
zcm dos escritores é conduzido pela· conr,ep-
ções de correção e iucorreção que o gramático 
j á traz corno crença p révia a seu t rahalho. 
Em.hora, inevitavelmente._ contenha em JJOà 
m edida uma descrição dos fatos lingüísticos 
dewct_.ávds muna vai.iedade m uito específica 
aa língua (a "escrita literária·'), a gramática 
normativa é, untes de tudo, p rescrição. Em 
vez <lc deduzir suas n~gras do uso feito pelos 
e.scritores; os grarnátjcos colhem apenas, ua 
ob ra dos grandes ficcionistas, aquefa .s opções 
lingiiíslicas que eles, gramáticos; já de,. ante-
mão consideram as boas, as bonitas, as corre-
tas -- isto f ., a.qiicl as em t fl.l e supostamente 
não se detecta nenhuma '•interferência da lín-
gua falada". Isso fica patemr lpJando Becbaro 
diz que a língua "'exemplar ~' se baseia no uso 
dos '~escritores corretos'' - poderíamos então 
im erpretar a ausêncin .. cru s ua gramóticn, de 
autores como José de Alencar, Jorge Amado, 
Clarice Lispcclor, Cecília feireles como um 
juJgaineuto de yue ele.; não bã.o :'corretos';? 157 
158 Analisando o uso que os gramáticos fazem das 
citações literárias, fica claro que não se trata 
de uma coleta de dados segundo critérios cien-
tíficos, isto ê, recolher ~do o que se encontra 
para, em seguida, praticar a análise. Os 
gramáticos norma1 ivistas já analisam, no pró-
prio processo â.e coleta, à luz de suas crenças 
prévias numa escrita ideahnente pura, aquilo 
qi_.ae vai servir ou não a seus.intentos. A forma 
de insuumentalização das citações pode levar 
o leitora crer que aqueles escritores só escre-
veram de acordo com a lradíçâo gramatical, 
que suas obras consli luem modefos perleitos e 
acabados de '-' bom português"~ que em seu 
trahnllio jamais se desviaram dos preceitos da 
gramá tica normativa, muito pelo contrário: o 
uso que fazem da língua é tão bom/ coneto 
que eles servem de modelo para todos os de-
mais falantes-escreventes do idioma ... Trata-
se, porém, de uma ilusão, e vamos ver por quê 
consultando a já mencionada gramática de C. 
Cunha & L. F. Llndley Cintra (1985). 
O autor ma.is citado nessa gramática é Yfocha-
do de Assis, com 134 ocorrências. Embora 
tenJ1a mo1Tido em 1908, o genial autor de Dom 
Casmurro ainda é cousiderado pelos norma-
tivistas corno ideal máximo de correção de lín-
gua, mesmo pnm os dias atuais, em que várias 
das regras morfossintáticas por ele usadas já 
se tomaram obsoletas, passado mais de um 
século da publicação de suas obras mais im-
por tantes, sem mencionar as palavras que 
desde então sofreram modificações semânticas 
ou simplesmente deixaram de ser usadas1. Tal-
vez possamos detectar aqui uma confusão de 
critérios: para muitos estudiosos da nossa lite-
ratura, Machado de Assis pode ser classificado 
corno o maior escritor brasileiro de todos os 
tempos. Isso, no entanto, não nos obriga a 
considerá-]o também como wna fonte de op-
ções gramaticais a serem seguidas à risca como 
modelo para quem quiser escrevei· nos dias de 
hoje. Confunde-se~ portanto, o valor literário, 
artístico, estético da obra de Machado de As-
sis com suas características especificamente 
lifl/güísticas. Para limpar um pouco esse tefl'e-
1 Por outro lado, é interessante notar que na obra 
de Machado também comparecem divel'SOS usos lingüís-
ticos característicos do português brasileiro contemporâ-
neo culto (faJãdo e esCJ.ito) que, todavia, continuam. a, 
Ser condenados_com<l "e.rros" pelo prescritivismo grama-
tical mais estreito. Machado, por exemplo, em diversas 
ocasiões usa indiferentelllcnte 01\DE e AO~E, e não faz 
correlação temporal com o vel'ho HAVER, mrummdo-o no 
prestmt.e me.;mo qu1U1do indica ação pnssatla (" Qui,s 
passear ao quintal , mas as pernas H,l. pouco tão 
andtt.ri lhas, pareciam ~gora presas ao chão", escreve Ma-
chado em Dom Casmw1'o). 159 
160 no, podemos citai· o exemplo de outro grande 
nome ria literatura de língua portuguesa: Luts 
de Camões (e. 1525-1580). Ninguém ousaria 
negar a Camões o título de ru:n do. maiorci> 
poetas d~ toda a história literái·ia do Ocidente; 
mas 11cm por isso teremos de scgu.u· suas op-
ções lingüísticas, pois, do contrário, ningu_ém 
estraoJ1aria se falássemos e escrevêssemo 
ingrês, pranta, frauta, despoi.s, dereilo e ou-
tras formas arcaica que, hoje, são mui.to es-
tigmatizadas pelo falante urbano escolarizado, 
formas ident.i.f:icadas com variedades lingüís1 i.-
cas sem prestígio oa sociedade (as de faJantes 
de 01igem rural e de ponca ou nenhuma 
escolarização). 
Vemos, portanto, que os aut"ores d.a gramát ica 
que examinamos, ao darem awpla preferência 
a Mad1ado de Assis, não cmn.prcni o que eles 
mesmos prometeram na apresentação da obra, 
ao dizerem que dariam "natmalmente uma 
situação privilegiada aos autores de nossos 
dias" (p. xiv). Os uomes dos líderes maiores 
da escola mode1nista, por exemplo, têm pouco 
espaço nesta gramát ica: Mário de Andrade 
( 1893-1945) é citado apeuas 8 vcze , e OswaJd 
de Audrade (1890-1954), uma única vez, e 
eles já estão longe de ser em '·' autores de nosso8 
dias" ., emborn bem waic, p róximos de nós <lo 
que Machado de Assis (1839-1908 ). Já Coe-
lho l\eto (1864-1934), hoje quase totalmente 
esquecido~ o.parece 15 vezes, t:onlrastando com 
as 12 citações de Guima rãcs Rosa ( 1908-
1967),. interw1ciom1lmentc reconhecido corno 
urn dos nomes maio importantes da li teraLura 
do século · . Autores realmente contemporâ-
neos (ou vivos e produtivos na época de pre-
pru:ação da grnmá.t.ica) têm pouco espaço na 
obra: Pedro ,. ava é citado 5 vezes; Antônio 
Calado, 4 ; João Cabral de Melo Neto, 3; Ru-
bem Fonseca, 3 ; Raquel de Queiroz, 3. 
hnaginemos qtLe um biólogo leia muna obra 
antiga de seu campo científico que detennina-
da espécie de ave mjgra todos os anos para o 
hemisfério sul no início do inverno. De posse 
desse dado, ele se instala no ambiente natu ral 
dessas aves e passa a investigá-las. Vai que o 
inverno já começou, já está para lá do meio, 
e a grande maioria das aves daqueJa espécie 
permanece alegremente no Jot:al, sem migrar. 
Só uns poucos indivíduos bateram asas e se 
foram rumo ao sul. Qual a conclusão do cien-
tista? A maioria das aves que não "obedece-
ram" o que estava previsto no livro estão "er-
radas", precisuru ser "corrigidas:' ? É claro que 
não. O biólogo tentará investigar os eventuai 
motivos que estão causando a permanência elas 161 
16'.l aves no lugar, tentará explicar o fenômeno e 
conhecer o comportamento atual da espécie. 
Assim, ele poderá empreender uma revisão do 
§ que se conhece sof>re ela, reconhecendo que 
" • houve mudanças ao longo do tempo. 
~ 
~ 
Os gramáticos prescritivistas, · porém, não s -
ruem uma l_lletodoJogia científica. Do ac~:r.Yo 
literário que selecionarn., eles pinçam somente 
as ocorrências que corroboram sua próp1'.ia 
isão tradicional do que é uso '-•certo" e 
'-'recomendável" (e o uso do adjetivo 11.corre-
tos" por Bcchara é exemplo ciistalino dessa 
atitude). Não importa se um mesmo grande 
escritor, se um mesmo clássico, usou ;3 vezes 
uma forma "ceita" e 30 vezes 'lllll.a forma "er-
rada". Somente as ocorrências que o gramático, 
de antemão, classifica de certas é que serão 
estampadas em sua obra como modeloll, como 
ideal de perfeição idiomática, como "norma 
culta" . Efü[Uanto houver uma única ave soli-
tária migrando para o sul no i1rverno, ela será 
considerada a que agiu certo, apesar de mi-
lhares de oun·as se comportarem de modo dife-
rente ... Fica: e-vidente, assim, que os gramáticos 
não deduzem nem depreendem da grande lite-
ratura as regras de ftu1cionamento real da lín-
gua: eles simplesmente buscam , nos gnmdes 
autores, pelo menos um exemplo que possa 
justificar a imposição da doutr.ína presori.tivísta 
que, ao fim e ao cabo~ é o grande objetivo \lo 
empreendimento gramatical normativo. 
Para além de toda a inconsistência metodoló-
gica dos grru:nát:icos normativos~ no entanto, o 
que temos de suhliohru· é que os e.scritores não 
p@dem servir de modelo de uso certo da lín-
gua. As obras dos grandes poetas e ficcionistas 
reprcser1tam produções lingüísticas em gêne-
ros escritos bastante particulares, produções 
lingüísticas extremamente singulares - usar 
essas produções como modelo a ser descrito e/ 
~ou prescrito implica ria na omissão e 
-desconsideração de todos os demais u sos" da 
lú1gua. Assim, se os gramáticos podem collier, 
nas obras literárias, exemplos de empregos 
" corretos" das estruturas grru:naticais do idio-
ma, também seria possí:vel coletar, nessas 
mesmas obrnsl exemplos contrários, isto é, de 
usos n ão "exemplares" , de usos -que contra-
riam precisamente as regras prescritas como 
"melbures" ou "mais recomendáveis" pelos 
mesmos gramát:J.cos. As duas práticas são 
injustificáveis, uma vez que ambas traem o 
objeüvo do escritor, que não é transformar-se 
em régua para medir os usos lingüísticos de 
todos os demais usuários da língua, mas, sim, 
construir obras de arte que lhe permitam dar 163 
164 vazão ã sua necessidade de expressão, a seu 
dc-.scjo de comwricação, à sua â nsia de (aiação . 
• 
Et: CONHEÇO EI.F.1 S IM, E DAÍ? 
Muitas ohras gramaticais de perfil normativo 
trazem interessantes observações sobre fenô-
menos crue representam mudanças na nornla-
padrão e que já caracterizam o por:luguês 
brasileiro escri to mais monitorado. Essas ob-
servações, no eotanto, aparecem quase semp re 
tle fonna muito tímida, em notas de rodapé, 
sem que o gramático ouse aphcar a elas os 
mesmos adjcti os ele "recomendável'\ "corl'e-
to·' ou "exempla r" que usam para qualificar 
as regras padronizadasque descrcwcm e pres-
crevem. Ora, é preciso ahandonar tais pniri -
<los e escancarai· o portuguê..s brasileiro: cJjzer 
que as 1·cgrns do nosso vernácttlo são certas e 
válidas, de modo claro e eÃ1)1ícito, e não com 
observações ~m letra pequena ou em notas de 
rndapé. É preciso escrever, preto no hra11co; 
por exemplo, que o uso do pronome ele oomo 
objeto direto não é crime, não é pecado, não 
é imoralidade - é simplei:;rne11te uma regra 
gramatical. da língua falada no Brasil por mais 
de 175 milhões cJe pessoa5 e que também com-
parece em texlos escritos mais monitorados ! 
O caso do uso do p ronome elr como obje to 
di reto é um ótimo e:xeruplo ria otit11de metodo-
logicamente in consist en1 e dos grn niút icos 
non n ativos. Que esse uso apn rer.c 110 litcn:1.tu-
ra f,; fácil verificar. Alguns pouco~ exem plos: 
(1) "Antônio Ba.ldníno, que antes est avtt corn 
pena e achava f.L1I honi1a, fico11 com rui-
va'? (Jorge Amado1 Jllf n.r morto) 
(2) "Levava t'f.E pnt sala / pra os Jngar r.s 
mais bon it m;, mais limpi.nhos / E le r1i:io 
se irnportava" (~1anuel Bandeira, Rstre-
la da vida inteira) 
(3) ·'Se sei quase tudo de YlacaLP.a é que já 
peguei urna vez de relaucc o olbar rlc 
uma nordestina amarelada. Esse rd,u1ce 
me deu fl.1 ck corµo in teiro" (Cfal'ice 
Lispector, ;1 hora da estrela). 
Também Illl grande iruprensa encontramos rste uso: 
(4) ·'Esse filão - a comr.dia - cru o que 
vinha se mostrando mais proveitoso. L1rn 
sin al de que De i\:irn pode ter lcv;;1do 
rnl 
, , 
t a )Cm ELE ao Côgotmnento esLu nos 
conu·atos que assinou pura u com.i.nua-
ção desses dois úhjmos filmes [ ... ]"' (Vcju, 
29/5/2002, oº 17.53, p. 132) . 
(5) "Vendi.do por US$ 4 milhões pura o Va-
lcncia, o a tacam.e Viola apr r.seura-sl' com 
a camisa do rime nu estádio du equipe, 16i> 
161> na Espanha (foto}. O time espanhol quer 
que o jogador inicie treinos já no próxi-
mo dia 25. :\fas o Corinuúa.us tp.1er EU: 
no Brnsiloaté 10 de agosto, pura as finais 
tlo Paulista no caso de clusfiific11ção da 
equipe" (Folha de S. Paulu, 5/7/1995. 
p. 4-4). 
(6) ·'Fleury aposta na popularidade do se-
nador eleito Romeu Twua (PL) para en-
gordar sua candidaturn. Quer M,t.· como 
vice em sua· chapa e até j á rnservou uma 
sa.la pa ra Twna no escritór io polít.ico que 
montou em São Paulo" (Folha de S. 
P011.lo , 15/111995, p. 1-15). 
(7) "~o final da reunião, o governador mu-
dou seu discurso reticente sobre a pro-
posta e pratica.mente admiliu concorrer 
a um novo mandato. Disse que um 
embate com o ex-prefoiw Paulo i\faluf 
dcixn ELE 'estimulado' a aceitar uma nova 
disputa pelo governo" (Foi/ta de S. Pau-
lo, 2/9/1997, p. 1-10). 
(8 ) ~Cru:wen foi urna inoccmc brasileira alta-
meute criativa u·iturada pela indústria do 
show businr.ss amc_ric.ano, que pegou 1-JA lin-
da, uova e devolveu m uu urixão, inchada de 
injeção, de pílula parn .ficur espena." (F'ollw 
de S. Pw.l.o, 14/2./1998, p. 4-4 }. 
(9) "Valdir promete reforçar !>Ua tf'~'ie de que si, 
falta 15u; na seleção: 'Tenho cencza de qui· 
ainda irei à Copa do ylundo este. ano' ." 
(Folha de S. Paulo, 6/3/1994, p. 5-6). 
( 10) "Quando a gente vê EU: ali parado perto 
do meio de campo, un<la.ndo de um lado 
pro outro, cu e a minho turma ficamos 
até cotn raiva: ' pô. r lc uão vru fazer 
nadai ' '·' (Folha de . Puulo, 5/7/1997, 
f olhi.uha) 
Quanto à lfogua falada diariamente, por todas 
as classes sociais, em todas as regiões do Brasil, 
niío é preáso se c:sforçar an:iis de exemplos A1 
fonção tlc ele como objeto direto é parte inte-; 
filante da uossa vida diária, soja quaJ for a nossa 
profissão, a nossa ocupação. o nosso grau de 
esc-0larizaçiio., a nossa Tenda familiar.. . Além 
disso, basla ouvir o rádio, bas1a ligar a televisão 
e assis( ir as novelas, os programas de entrcv.is-
tas, as mesas-redondas sobre fu1 eLol, os dese-
nhos animados ... Quase cinqüenta anos atrú.s, 
o filólogo Silveira Bueuo escrevia: 
De tal modo está e.nu. mhadu tal uso cm nos-
sos hábitos lingiiísticos que, embora formados 
por escolas até superiores: C.'terccndo carreiras 
libera.is oude o excrdc-io intelectual é contí-
nuo, a inda a.ssirn., eU1pregumos as fmmas re-
1,(li, objetivamente. No Brasil, pelo menos, so-
mente o esforço da escola e o policiamento 
contÍlmo da gramática conseguem diminuir 
us casos desse emprego, mono.ente quando se 167 
168 tralu de documento esc1ito. Parecc-rms, por-
tanto, que seja emprego rn<licalmcnte portu-
guês, cruc esteja 110 e.unho mesmo do idioma, 
ei;pontaneida<lc que a forçu inegável da .i.u.s-
truç;io tem clomimufo cow dificu.ldadc.i 
_ o entaoto, apesar desse uso amplamen1e 
docmnenrado e que faz par1e da nossa intui-
ção lingüística ruais íntima e mais carn, que 
faz parte da nosso língua materna, a língua 
que é pari e integrante de uosso próprio 5er 
social e individ1Jal , como é que as ohras de 
caráter tracücional abordam essa questão? 
1~a Nova gramática do portuguê,ç contempo-
râneo, de Celso Cunha & Lindley Cintra (p . 
281), cucoutrmnos: 
_ a fala vulgar e familiar do Brasil é muito 
freqüen te u u so du pronome ele(s), ela(s) 
corno objeto direto em frases do tipo: 
Vi ele . Eucontrei ela. 
Emhora estll. construção tenha núzrs anti-
ga:, no idioma, pois se documenta. em escri-
tores porr:ugue..es dos séculos XIII e X1 V, deve 
SCl' hoje cvituda. 
i Francisco da Silveira Bueno, A fo,mnçã.o hút6-
1·ica da língua portup:u~su (Rio de J1meiro, Acadêmic11. 
1953, p. 210-211). 
:\'las por que ···deve ser hoje r vitn<la "? Que 
razões são dadas para essa presc1;ção? Ne-
nhuma. A única razão é o apego ob sessivo a 
um ideal de líagua que se justifica por si 
mesmo, pelo simples fato de ser idr.al. O r r.n-
prego do adje1 ivo ''vulgar" é Lastantc revelador, 
nesse cai;o. Análise scrndhan te é n que se 
encontra no Dicionário eletrônico Auréüo do 
Século )(XI: 
ele: Deiiigua a ;f pess. do masc. sing. '\Ja 
fase arcaica. da üngua. ~ruprcgou-sc como 
objeto direro, u so que pcn:;iste nu Rru;;il, «"ll!Tt' 
p essoas inculcas e nu fala de pei,soas <;nltas 
desr.uidaJaB: Vi ele. I\o portuguflS mo<leruo, 
a.iJl()a pode ser uM<lo com e:,su f W1ção, de!'>-
<le que autc<:edido da prcµ . a. cous1it11iudn. 
com ela , o objeto direto prepusicionndo 
( <l . 1 . , , , ) ,, " ' como succ e, mia:;, conl nos e vos : , , em 
ele cnteudc a nós, nem uós u ele"' (Luís de 
Can:iõcs, Os Lusiuclas, V. 28 )" . 
Aqui, o uso é atrih1ú<lo a pessoas ·~incultas·, 
ou " r.ultns desc:11idadas.,,, classificações que niio 
se susteu tam em n enhum critério rigoroso a 
não ser os precouceitos do o utor do verbete. 
Mais surpreendente oiuda é dar como exemplo 
de '"português moderno,. um verso ele Cam ões, 
que morreu cm ·J;'.)HO ! Como mosh·a m clara-
mente os exemplos literários e ,:ião-lilerá.rios 169 
170 
a 
5 
L 
< 
acima. usa-se lranqiülamcnte o pronome el,e 
c.;omu obje1o direto sem que esteja '1aotcced:i<lo 
da preposição a·,,_ O chama(lo "-objeto direto 
• prcposkionadoy, é de uso raríssimo atualmt:n-
tc,.m r,.smo na língua escrita mais n1onitorada. 
O c.;onte1ído desse verbete c.;ontradiz o ·•do sé-
culo XXI" que aparece no nome do dicionário. 
E vaniluo Becha.ra, por bua vc'l., cm sua 1Woder-
na gramática portuguesa (p . 175 ), assim abor-
da o tema: 
t'le como objcLO direto - O pronome ele, uo 
português moderno; s6 aparece (.;Oll'lO ohícto 
direto quando precedido de todo ou só (ad-
jetivo) ou se dotado de accuruação cufática, 
em prosu ou v~rso. 
~ovamcutc cabe perguntar o que o autol' en-
t cndc por 14português moderno", uma vez que 
o pronome ele co1110 objeto direto é emprego.-
do em situações muito mais diversificadas do 
que as que ele define. Basta ver que em ne-
rtlmm dos exemplos citados aparece o todo ou 
o só que, segu ndo o g ramático. auLorizaria,:u 
esse emprego. 
Situação pior é a da 1vfodema gramática bra-
sileira, de Celso Pedro Lufl (2002): em sc11 
capítulo sobre os pronomes, não aparece n e-
nhwno m enção ao uso de el<> como objeto 
diTeto, nem seqncr em 11ota de rodapé. Como 
chamar, então, de"'moderna" 1' -~brasileü·a" 
uma gramáfo:.a que simplesmente não aborda 
uma. regra gramaticnl tão cara.cteris1.iGarnente 
nossa, como se ela não cx:istfasc? 
Por Cim, o Dicionário eletrônico HouaÚJ',ç da 
língua portuguesa dá a segtú nte informação: 
Ele: pronorue pessoal. Aparece espora.dk .. a -
mcutc, em tenos arcaicos, rnonneme c:om 
valor enfático, na fonç:ão de objero direto: 
n o pon. do Bra8il, tul u so é rxtren1a111cute 
uormal na variante infonmJ do idioma, ta.mo 
d e pessoas uão escolarizadas como das 
escolarizadas. cmJ>on1. co11denado pela gra-
m úrica 11onnaúva. Ex.: <eu vi de> < \1ru;a 
arna ele anloros6cncutc>. 
Até que enfim l Embora possnmos questionar 
o uso pouco consistente da expressão ·"varian-
te informal'\ está daro que se trata de uma 
descri'5:âo muito mn.is honesta ria real siütação 
do uso do prouome efr• como objeto direto no 
portuguê~ brasileiro. 
O próx:in10 passo, saudável, seria este uso "cx-
tTemarncn1e no11nal" vir J escrito e expücado 
numa gramática do portuguê8 brasileiro que 
não só ap resenta&:,c o fonôrneno mas tàrnhém 
decla..rastic, sem rodeios, que este uso tem ra- 171 
zão de Sei\ t.em cabimento, é certo:. bonito, 
elegante etc. Que mostrasse exemplos desse uso 
ptu·a que o leitor se de~se conta de como é 
poss-ívr.l construir um tr.x1"o coc~so e cor.rente 
usaiido o de-objc l.o direto cm equilíbrio com 
os pronomes obliquos o, a, os, as - como faz 
rnahristrahnente:. por exemplo, Luís Fernando 
'
T • • 1 , • " 'en ssrrno, que escreve em egitrmo portugues 
brasileiro contem porân eo. Uma gramática que 
levasse~ cm eonsidcração, como eu já disse, os 
ovorn~os ob1idos pela investigaç,iio lingiiístico 
rigorosa que tem sido feita neste país há bem 
nus trinta a110s ! Diversos pesquisadores vêrn 
estudando esse fenômeno: já está mais do que 
na hora de reunir essas descobertas, sintetizá-
las e com 11 n icá- los a um p1íhlic.o maior do qnc 
os le itores de Leses e de ariigos de revis ta::; 
acadêruicas praticamente inacessíveis. 
Precisamos, urgentemente, produzir dois lipos 
bem específicos de gramáticas. Gramáticas 
descritivas, a maior rprnn1ida,k possível delas, 
descrevendo as múltiplas varierlades específi-
~as do português brasileiro: m·bana,. nll'al, 
prnstigadas , cstigrnatizadas, do Norte, do SuL 
do i\ordeste: de cada estado, de coda gra nde 
cidade,. de todas as classes sociais, das divcr-
sn.,i foixas etárias etc. etc. Mas não podemos 
ficar só nisso. Precisamos também de gramáti-
cas de n!jerência, obras q,1e .sirvam de mate-
rial prático de consu I ta para as pessoas quan-
do ti verem dúvidas ua hora de escrever tr.xtos 
mais monitorados (porq11e é somente nessas 
situaçõe.s que as pessoas cornmltarn as grarná-
tÍ<.:i-tS ~ ). Gramáticas que mostrem que._ ao Jado 
da opção padroniza da J racliciona 1, ex istcm 
outras opçõ&i, igualmente válidas._ e que cabe-
d. ao fola11tc fazer a sua própria escolha; e 
não depender de alguém que lhe rüga ''isso 
pode'", ···ü,so não pode:·'! 
O dc:safio aos Ji ngiüstas estt'.í. tnLúto bem fornm-
lado nestas palavras de D. Lucchesi (2002: 89): 
O embate que ,.;e trava hoje na sociedade 
brasileira entre nm projeto político qnc vii;a 
a manter a estabilidade e o desenvolviruento 
de um modelo e .. 011ômico ele acumulação e 
concent.ração de riy:uew e UJ11 outro prnjeto 
de recstrnuu-ação do modelo econômico vi-
gente visando à distribuição de rerida e à 
prnmoçiio do verdadeiro desenvolvimento 
social do p1.ús se refletirá incxora.vel.rncnte 
no campo dns c:;tndoii ela lingLLagcm. CaLe 
aos lingiüsta.s que se idemiíicam c.om e:;w 
segundo projeto niio apenas fornecer [ ... ] o:i 
fm1dumr-ntos teórie,os e empíricos pura um 
efetivo quest:ionameuto dos 111ocldus aluais 
da norma-padrão no Brasil, mas ousar ir 
além e, desa fiaudo oil rea .. ionários comun- 17;1 
dos paragramauCàÍ.s, que hoje, aboletados uos 
meios de m murt.iraç,ão <le massa, <lã.o o tom 
do discurso sobni a língua na socienade, pro-
par lUilll atua.lizaç,ão <la notmu-paclrão rom 
base 110s padrõe.~ rcail; cic uso q11c verifir,amos 
nas •nu1111as liugiifoticas b rasileiras, condição 
necessária pm, L II ver dadci_ra df"mocratizaç,.fo 
do eusino da língua malcma no ptús. 
T~mt,1 QUEllO UMA GIUM.,\TIGA .\ S1.\II 
Eru 2002, so..iu publicada nos Estados Cnidos 
uma obra de mais rle 620 páginas intitu lada 
1'-f odem Portugucse: a Referencc Grammar. Seu 
autor é ninguém meuos que o lingiii:.ta bra:;i-
leiro 1Iário A. Pcriui, bastante cou.hccido en-
trn nós por seus livros Para uma nouu p;ra111â-
tica do português ( 1985), Oramática descriti-
va do portugu fls ( 1996) e .. nfrendo a gramá-
tica (1997). A obra é di rigida especificamente 
a folantes ele língua inglesa imeressados cm 
cM udar o portugu& hrasileiro ... mas que ilw e-
ja dá. na gm, te! Digo isso ponp1c, para cwu-
prir seu objetivo, P erini faz a bsoluta questão 
de expor do moJo mais realista possível o 
português bratiilci ro conlelllporâneo, dando 
ên íase às regras mais usuais das vo rie<lad('S 
dos fo lantes w·La1..1os escolarizados. Logo na 
apresentação da obro, ele <iiz {p. xxi): 
a ruaioiia das gramátic:::is do português es<:ou-
dem diversos aspectos du lmgna porque niio 
&io considerado;; cmTctos. isto é. não r stão 
preseutr.s no puclrào fonnal usado cm rcxtos 
escritoA. Por causa disso, u es1 u<lante estran-
geiro fica com uma visão rlistorcida da língua 
e termina falando ... como um livro·'3• 
P oderíamos ncresct'nlar: e::;sa m esma visao 
dis LOrcida é ti-ansmiticia aos estudantes brnsi-
leiros (falautes nativos da lú1gua! ) p elo ensino 
trndicionalista, que se apóia nas <lescriçõcs 
incousistente., das gramática norma tivas. Isso 
gera o problema da it1i:lcgm o.nça lingüística tiio 
presen te entre nós - se o ce1io é o q,1e apa-
rece nas gramáticas, então como classificar o 
língua rcahncntc empregada no dia-a- dia pc-
lm, brasileiros cm geral, inclusi,·e os mais 
escolarizados, mna vez que e la aprei.euta i111í -
mcros aspec tos divcl'gcntes da norma-padrão? 
:_\Tuma atitude opos18 à das prá1jcas pedagógi-
cas que tentam ernrina.r aos falantes nativos do 
português brasileiro a norma-padrão tradic io-
nal como se ela fosse urna língua esua11geira 
(de1.:;prezaudo o vasto con hecimeHto q-ue to<lo 
brasileirn tem de sua própria lrngua materna), 
~ Todos o~ trechos ritados foram o-aduzidos por 
mim. l?;i 
176 a g raruat,ca de P eri nj ~e prorõ • e.o si nar aos 
eslrangeiros n língua que realmcute se fala no 
Brasil de hoje! Para tanto. o alJIOr assttmc o 
scguillle compromisso (p. !) ): 
Qual<p1er referência a fatos gramaticais que 
estti_o confinados a te."\.1.0 S csc:rito · muito for-
m ai será devidamente a,; inalada, para 4ue 
as formas em questão possam er evitadas 
na fo la r , se possív~l, no escrita. Para <lm· 
um exemplo, o p1'ct:érito mais-que-perfeito 
simples (com o em en forCl) nun ca é usa.do 
na fala e nunca é neccssítriu nem se4uer na 
escr it a. sendo suLsLitu ível µela íormn com-
pos1a cu tinha ido. 
Como se Yê, não se lrara <le ncgur a existêucia 
uas fonua,:; parh-uuizadas u-ad ir iouais; mas ele 
descrevê-las com honesrida<le. mostraJJdo sua 
obsolescüncia e o lugar resl fi.to que wbe a elas 
ua IÍJ1gua1 c nqua11to não desar tu·ecem de vez ... 
Cumprimlo sua promessa de v.ofereccr wn 
retraio fidedigno da língtta·· (r. xxi), Pcriui 
apresento (p. 98) urn qua(k o dos pronomes 
pessoail:; em que não apaJ"ecc a forma tu n em 
a forma vós: substituídas n :spec1ivamenlc por 
l)OCP e uoâk O texto csd are~c que o pronome 
tu , uu Brnsü, é de uso reslrito a de lcrminadas 
regiões e que a verdadeira segunda pe.:;soa do 
<l.isc11rso, ua. maioria das variedades lingiiísti -
cas do português brasileiro. é rcalrneute você . 
.Vfai intcr<'!iSaute aincia, o :.1111or não esconde 
o rato úh io de que o prouornr 11ocê, no. nossa 
língua atual, é usado em co-relaç:ão com a 
fo1·ma te, riua.ndo se trata de objeto direto ou 
indire to: "E11 te chamei., mad vor~ não rcspon-
de 11 '' (p. 38:3). Para ele. p ortaJ11o, não cxi ' Le 
pecadoalgum na tão condeuada ·•nústtu-a de 
uarnmento'' - até porque. como li ngiüsta, ele 
está hem co11scicnLe de riue n~o se trata de 
"n.List1 1rn" u e11h11ma~ uias sim de uma reorga-
nizaçiio do quadro prouomi nal <la língua. 
O mesmo cspítito rea lista courlub o aulor a 
declarar qur os pronomes oblíquos o, a, os, as 
---r~c, tâo amplamente confinados õ língua escri-
ta. sendo suhstituídos na fala por forma não-
cli1jcas. rc pcclivarncnte d e ela, eles, elas'· 
(p . .384), e dá como exemplo a construção: 
.:,Encontrei eia no supcrn1en:ado" . Evidente-
men te, como já assinalei .. Pcrillj nã o cai na 
armadiU1a opos ta , a de escou<lcr as formas 
padroni:r.adas, como se elas também não tives-
sem seu uso, ainda que restrito 110 · dia att1ais 
a algtms gênero . OiSClU'ciÍ VOi,. 
Ao abordar n velhíssimo qnesrõo da :.coloca-
ção pro nomirn:i I"'': P e1i11 i aJir111u ( p . 3 83): 
J\,hi it:;is ~nunáticas do porrnguê::i uprescnu:.!m 
11 posição <los prouomt'-" r lítico~ dPmro du 
... 
i 
i 
177 
178 sentenç.a como mo fenômeno cx:t:remamenü• 
complt-~~o; no entanto, quando leva.ruas em 
cou ta o uso hrasileil'o correrie ( fala<lo e 
csu·iro ), esre não é um ponto pmticulurmcntc 
dü'íciJ ;, pode ser de~cri Lo com o auxílio de 
algumas rcg1'3s simples. A real cüfü:uldarle 
reside, uão nas regras cnvolvidus, mas ua 
interferência <lo padrão escrito europeu, que 
ainda é t>JJSinadu (em.hora não cousü;te111c-
meu te seguido). O rt-lsultado é cp1e os folau-
res tendem a fü:ar m enm; seg1ll'os do que 
deveriam em seu julgam<-mco, cooi,iderando-
sc a relntiva simpli cidarle do sis rex:na brasi-
leiro moderno. 
Quanto tempo e quanto desgaste psicológico 
poderiam ser poupados, quanta il1seguranc;a 
se evita.ria; ~e na::i escolas brasileiras ( e nas 
gramáticas brasileiras!) tona aquela paraferná-
lia ele regra::; inconsistcn1.cs e incompatíveis com 
a nos.;a intuição ]ingiiística fosse substituída 
pela única regra que de fato vigora entre nós: 
Os pro1101ue5 dítico1> no porrugn&s l>rasHeirn 
falado são srmpre colocados unte..:; do verbo 
prulcipal (p. 387). 
fvlE e.mpresta es~e- livro, por favor. 
Ele vai :\OS levar até o aeroporto. 
eu filho tem ::il•: s~ntido mal. 
O médico ~IE receitou esses oomprirnidos. (p. 388) 
Como se vf, Per ini não tem o menor consu·an-
girncnto cm e nsinai· para estrangeiros que é 
pcrfeilaruentc possível i.J1icirn: orações r.om pro-
nome ob líquo, ao contrá rio d o disr1u.so 
anquiloso.do de tantos profossores, gramáticos e 
pseudogramáticos ( esseA-; que infestam os meios 
de comunicaç.ão hoje cm dia) que illsistcrn ,em 
classificar esse uso com o pecado ~em pel'dãot 
A Jescrição que se faz, nesta gram áüca: das 
orações relativas (p. 513 ), é extTemamente 
cler.alilada. e mostra de que modo., no portu-
guês brasileiro contemporâneo, exist e a tcu -
dêucia muito nceutuada de evit01· a seqü ência 
preposição + pronome relativo - tendênc,-ia 
que o a utor diz existir taml►érn oa língua jn-
gfosa. É uma p en a que o cusino tradicionalista 
uão ofercç,a essa descrição sem lan<,:ftr sobre 
ela urna forl.c carga de ccnsu ra, uomo cle cous-
truç.ões do tipo "O médico que eu tmbulho 
para efo ~· (relativa copiadora) ou "Esta é a rtla 
que eu m oro" (relativa cortadora) fossem a ber-
rações liugüísticas, qu.a ndo no verdade são 
provas eloqüemcs de um processo de n11Ldan-
ça, não só do português, mas de out.ras lín-
guas 1.ambfan. 
Ao trotar da co1islrução (supostamente) passi-
va com o pronome se, Perini declaro, sem 
rodeios (p. 267): 179 
180 
.... 
" 
Na Índia se falam muitas línguas. 
Os grarnútiws trnclicionais e alguns profo,.:; -
sores aimla insistem nessa co11stn1ç-ão. que 
, .l l • , todavia esta pr.ruenc o terreno ate mesmo na 
linglla escrita . Hoje cm dia, a consb:u1;ão 
mais usual é sem concordância, islo é, o 
verbo permanece na tcrcci.n.l pessoa do sin-
gular cm iodos os casos: Na Íruúu se fala 
,nuilas lfnguas . 
:\!ovamente., quanto esforço seria poupado no 
ensino rla suposta necessidade de .,,concordân-
cia;', 1m1a regra que soa absolutamente estra-
n}1a para qualquer brasileiro, uma vez c.iue 
nossa intuição gramatical analisa cliffamentc 
o pronome se como sujeito indeterminado. 
Quanta gente poderia se dedicar a coisas muito 
mais 1íteis e m sala de aula do tine à tentativa 
(infrutífera) de corrigir o que não está errado, 
corno se "Aluga-se salas'' não fosse uma cons-
1n1ção ahsolutarnenLe correta. 
Escrevi, mais acima, que a geme poderia ler 
inveja dos leitores de Língua inglesa que forem 
r.ousultar a gramática de Pcrini. Por quê? Por-
que eles têm ac.:esso, nessa obra, a uma rl<'R'lr.ri-
ç110 muito mais fiel e atualizada da realidade 
lingü.istir.a do português brasileiro do que as que 
temos à nossa clisposição por at{lll1 escritas em 
português~ Uma descrição que é honesta, prcci-
sarnenle, por escancarar a nossa língua e exibir 
toda a sua complexidade, a sua multiplicidade 
de opções de uso} sem receio: sem preconceiro 
contra a mudruiça liugiiística e sem cornprom is-
so com. a u·adição guunati.cal normativa que 
ainda vigora entre nós e que iufluencia até mesmo 
ohrns cientificam ente en1basadas, produzidas P°" 
lingii istas pro Ci~sionais. 
Embora., eviden1eÍncnte, haja aspectos criticáveis 
no n·abalho de Pcrjni. - como a scpnxaç..lio rígi-
da entre ··' língua falada" e "lfogna escri.ta':•1 
- , ele representa um avru1ço considerável nas 
•
1 Puderfamos criticar ii disrinção 111Lúro rígida que 
'Peri:ni faz entrn "língua falada" e " língua escrita". por 
não deixar 1mtil0 cl arn n qui; gêneros tc:tluai.s .falados e 
a que gêneros te:r:tuuis cscrit,os ele 6e rnfe1·c, Uilla vez que 
a3 análise;; .nutii'> atunis Jn3 relações enm~ fab e esf'.rita 
rcjeitAm a v:isiio dicntôrnica convencional que opõe ess.:1s 
duas mo1falidadcs corno se fo.s~mn universos ab.~olura -
m eure distintos e est anque$, Es;;a distLnçào couvencional 
toma como sinônimo de ~-fala" a conversa~iio espom~-
nea e pouco monitorada, e coruo siuônimo de ··escrita ., 
as produções c.scrin.1..<; mai.~ fu1111aliza.das, rnai.; L·igicla-
mem e nmnitoradas (corno, por exernplo1 u m ensaio aca-
di':mico ou o rexto de uma foi). 1\a verdade, o que existe 
é w n continuum de gêneros m.xruais que vai rio mais 
falado para o: mais e.~erito, atravessa<lo por um outro 
cuntinmun dr monitorameuro. Enne o;; dois pólos, Luua 
vasta <' muJt iCorme zona intermediária, onde ocorrem 
inclusive gêneros lúhridos, em que é q,rnse impossível 
disting uir o fal ado do <-'SC1ito (corno o,; bate-papos <ln 
lnternet , por exemplo). A (:'SSC respeito, v,~r Ma rcusd ti 
(200 1, 2002), 
-~ 
:-
181 
182 
• 
tentativas de dcsc1ição da nossa lfoguo .. Quem 
sabe alguém se rl..isponha a escrever urna gramá-
tica m,sim pai-a uso dos próprios brasileiros! 
• 
E O QCE FAZl:K CO.M A ~ORMA-PAUI\ÃO? 
É curioso como as pr:ssoas, no que diz resp eito 
à língua, 1endem aos pensamentos dicut.ômicos:, 
do tipo "isso é certo,., / "-isso é errado,.,, "isso 
pode:' / " isso não pode'\ "isso é português~ / 
"' is.so n ão é pol'tuguês". Por causa dessa rigj -
dez de critérios é que nmita gente acredita -
sem nenhum pingo dr: razão - que os lingü is-
tas querem abolir ns regras padronizadas, que 
não é mais preciso conjgir os textos escritos 
dos alunos, que ninguém mais vai precjsa1· se 
in1portnr com ortografi.a, e ou1Tas idéias igual-
mcute estapafúrdias. 
Essas tolices sem 1 amanho aparecem, por 
exemplo: .nas colunas de jornal e de revisras 
assinadas por Pasquale Cipro Neto. -a .Folha 
de S. Paulo de 28/5/1998 ele fa la de " l ingfüs-
10.s defensores do vale- tudo:~ (nomes1 por fa-
vor!) . Bobagem (1Ue repetiu em seu depoimen-
to o L. A. c ·irou na reportagem da revista Cult 
11° 58 (maio de 2002, p . 40): 
[Pastrua1c] tacha os lingü.istas de negligen-
lcs: ''"Pura eles, a língua é um vale-tudo ... 
portanLo, estamus errado:; em q uerer coni-
gir erros com lUlS '~ . 
E ua reportagem <lo Jornal do Brasil <le 1º/ 
12/2002, assinada por Elia ne Azevedo, a gen-
te cnt:ontra a definição degramáticos como 
'•' guardiães da linguagem formal " e a de lin-
giiistas como " rlefensores dos regionoJismos, 
coloqujali.smos e esponlaneísmos lin[!ÜÍsti<.:os~, 
defiruções que revelam, mais uma vez. a den-
sa ignorância que impera nos meios de com u-
nic:ação sobre tudo o que diz respeito aos fe-
nômenos da linguagem. 
-e ·sa mesma repo1togem, n o1jciau<lo o projeto 
da Academia Brasileira de Letr·as de produzir 
um do<,1.1mento sobre em;jno de portttgur~-, a ser 
ena.·egue ao ministro da Educação1 a gente lê: 
O gramático [fü,~charn] criticou du ramente a 
política para o português nus «>nsinos m édio 
e fondrunental dita da pelo iEC. P ara 
Bechara, no r,anipo oficial, os lingifücas YC1l-
ceram os grnmátit:os - e o que vigora nas 
escolas é a idéia r.le que a IÍJlJ(tUI culta é 
elitista e cocl'citiva, e que o objeto do estudo 
deve ser a lfogua f a luda. 
ão sabemos até que ponto a reportagem re-
produz com fidelirlade o depoimento do gramá-
1foo e ar.adêmico, mas rle todo modo csLá ah 18:J 
184 
:, 
~ 
= 
irnprrssa uma das falóciu:; mais r.ormms e per-
rrieios11s que ci rculain r.n1Te os q nc se põem a 
disct1Lir questões de lfogua e de cnsi.uo. Se é 
verdade que os lingüistas advogam o estudo da 
..... • língua foloda ua e~c;cola e o dever de rccouheccr 
o va1or de todas as va1iedades li.ng(iÍi,tieas. 
issu não significa que estamos dizendo que 
as pessoas não têm direito a uprender a 
norma-padrão ou que não p_rerisUIJ.l apren-
der u escrever ~cgunrlo as convenções de seu 
tc-mpo. Este é um direito de todos. Ensinar 
a, norma-padrão e ensinar a escrever de for-
ma diciente é um dever do Estado (Schcrre; 
2002: 2➔7 ). 
Portanto, é absur do e fal!>o afirmar que os lin-
güis tas não se preocupam também com o en-
sino da língua faladü e escrita mais mon i-
to radas. Além disso, embora seja.mos ohriga-
clos a reconhecer, 11uiua retrospectiva históri-
ca, qu<' a uonna-padrão tem uma origem, sim~ 
"elitista e coercüiva '\ também sabemos que 
esta 1iur111a-pach-ão é objeto de de::;ejo e tem 
1m1 valor sirnh óljr,o muilo graude na socjerla-
de. E os lingüistas são os primeiríssimos a reco-
nhecer isso. l uma entrevista à revis ta Ciência 
/lo)<' (vol. 31, nn 182, maio de 2002) .. o lin-
güitit a AI nlilia de Custil ho - coorcfonador do 
grandr. projeto cienlífico da Cramá tir.a do 
Por1u~ufü; r◄ aJado - <kixa he m darn a "nossa 
i11arredável obrigação de p assar aos nossos 
alunos o modo r,11.llo, prest:igiado, de falar e 
c,çcreoer". )io cntru1to, como ]ing iü ta, de tem 
a nítida consciência de que "'reduzir a i.sso a 
/,arcfa do ensúw é de uma pobreza desola -
doru ". E prnl)i,egue: 
A norma cuJrn não cleriva de nada int:Iínse-
<:u ao portugllfü;. -ão há forruus ou <:onsm1-
çÕe.5 inn-insf'camente erradas ou certas [ ... ] 
Assim, o <'RITO ou errado deriva apenas ele 
uma comingência social. Ew todas as co-
munidades sempre se atribui a determinada 
classe uma asceudêucia sobre 8!; ,lemais. A 
cla;;se de prest.ígio dita as uonuas de com-
portainenlo, a moda, o gosto por certo t ipo 
de mí'1sicn .. . A8sw1 também a escolha das 
vtui~dacles Liugiiísti.r.as entre as que csufo à 
djspo,;iç:ão dos fu.luntes. Ao n;:Jcolhcr uma, 
essa dasse condena as outTas variedades. 
Observe-se que to<la essa explicação que 
Castilho dá sobre a formação histórica e social 
do norma-padrão ( que ele designa com o ter-
mo I rac.l icional de ''·uorma culta '~ ) é a ntecedi-
do ria defesa do ensi.110 das formas prestigiadas 
rle falar e escrever. É o m esmo q uc já se podia 
ler num dos teÃ.°1:OS clássicos da cducaç.i.o brasi-
le ira , o Ü\-To Linguagem e escol.a: uma perspec-
ti1 n soâa( de :Magda Soares, puhlicllCfo em 1986. 
. . .., 
:: 
186 Lá, depois de discutjr longamente a sacralização 
da norma-padrão por um processo~ sim~ •'-elitista 
e coercitivo" como modelo de língua legítima, a 
autora f a.z questão de afinnar: 
Um ensino de illloCT\.la materna eompromeli-
do com a lllla contru as desigualdades sociais 
e econômicas recouhece, no quadro dessas re-
lações enrre a escola e a sociedade, o d.ireilo 
que têm as camadas populares de apropriar-
se do•dialeto de prestigio, e fn:a.-se como ob-
jetiYo levar os aluno::; pertencentes a es!'.as 
camadas a dominá-lo, não para que se adap-
tem às exigênci,as d.e uma sociedade que di-
vide e discrimúta, mas pura que adquiram 
wn ínslrumerúo fundamental para a parti-
cipação política e a luta contra as desigual-
dades .sociais (p. 78) [grifos meus]. 
O q-ue Castilho e oares deixam bem cJaro, 
µortanto, é que~ se cabe à escola ensinar as 
f ol.'mas lingüísticas padrouizacfos, nonnatiza-
das, isso não deve sei' visto nem como a tarefa 
única do crnri no, nem como mn instrumento 
para a adequação ou inco,poração do indiví-
duo oriundo de dassc sociois desprestigiadas 
ao tipo de socjedade excludente que é a nossa. 
Como já afumei em outros 1l:aballios, é neces-
sário empreender um en.únn r,rílico da nonna-
padrão, escancarar sua origem ,.~elitista e coer-
citiva'', e mostrar que a. necessidade de dorni-
ná-la se prende à. necessidade de que os alu-
nos oriundos das camadas sociais desfavore-
cidas (ou seja1 a imensa maioria da população 
brasilejra) possam <lispor dos mesmos instru-
mentos de lula dos alunos provindos das ca-
1nadas privilegiada . 
A ncccssi<l.ade de ensinar a norma-padrão no 
escola - ensinar no senLido mais óbvio do 
tem10: levar a lguém a dominar algo que lhe é 
desc.:onhecido - i,c prende também ao fato 
m uito evidente de q ue as regras gramaticais 
padronizadas1 presentes na literatura "clássi-
ca~', só podem~ cm sua maioria~ ser apren<li-
das na escola. Assi_m, o conhecimento e o even-
tual emprego Jessas formas padronizadas de-
pende exclusivamente da escola, porque elas 
só sobrevivem hoje na língua escrito mais 
monitorada. Como a prática da l eitura iuexiste 
nos meios familiares da maioria da nossa po-
pulação1 é ua escola guc ela deverá ser prati-
cada como umn 'do.s atividades prindpais do 
p1·ocesso de educação liugüística, ao lado de 
outras ativi.tlades igualmente importantes. 
A norma-padrão: corno já clisse, é um elemen -
to importante da nossa cultura e não pode sr.r 
desprezada simplesmente porque con s lif tú mn 
conjunto de formas li.ngiiísticas em grau<le par-
te obsoletas. Essas formas estão restritas à lin-
gua escrita mo.is mouitorada; é v~rdade, mas 187 
1H8 
< 
também é verdade que são justamente os gê-
neros textuais escrito.s mais monitorados os que 
gozrun de maior prestígio soc;ial. E struturas 
textuais características da lfugua escrita mais 
monitorada só podem ser apreendidas e apren-
didas se• a pessoa tiver contato com elas, e este 
contato se faz por meio da leitw·a e da e,~cr iLa. 
Por isso, não adianta entupir a cabeça das 
pessoas com regras, exceções, nornendatm·as e 
definições. ~ão é assim que alguém vai apren-
der a ler e a escrever. Isso nõ.o é "ensinar 
"''' . 1 t i ' portugues· , e srmp esmen .e e ecorar a grama-
rica normativa, e há muito tempo os lingüistas 
e educadores vêm demonstrando a inutilidade 
dessa prática secular. Só se aprende a ler e a 
escrever) por mais incrível que pareça, lendo e 
escrevendo. A jdéia de que a hoa lcitu rn e a 
boa produção de textos depende do conheci -
mento pormenorizado da gramática normativa 
é uma falácia que precisa ser combatida. 
Tem sido grande a procluç..".io de obras teóricas 
( e a implementação de práticas pedagógicas 
efeUvas) que propõem uma r.onccpc;:,ão de edu-
cação lingüística sintonizada com as reais ne-
cessidades do alunado brasileiro coruemporâ-
n eo. O próprio surgimento dos Parâmetros 
Curriculares Nacionais em 1998 repref:ienta turl 
avanço importante nesta direção,. apesar dos 
aLsm·dos protestos da Aca demia Brasileira de 
Letras. O g rande problema. no entanto~ é que 
a ideologia perniciosa do '·' certo'~ e do ''erra-
do" cormunilla tudo o que se diz sobre língua 
fora dos meios especializados. Em sua entre-
vista, Castilho lamem a.: 
Corno temos sido eficientes ner,.:;e estéril ofício 
de ceusorcs ! (~ramosna consciência do outro 
unia couvicção tão moustruosa sobre. a possi-
hilidaue de redu zir a l.ínbri.w a uma. rpiestüo de 
certo ou errado, que hoje o q ue a.5 pe;;soas 
querem ouvir tlo professor de português é um 
venxlicto parn elas m 1!smas. Estou certo? Es-
tou errado? Serei condena do ou terei a. ah -
~olviçã.o? É uma lástima que a concepção 
costwneira sobre o que sej a estudar uma. 
líng ua tenha chegado a 11ívcl tão baixo! 
-~ 
189 
epílogo 
Norma [o]culta, a gramática 
não-escrita 
A norma oculta do título deste livro se 
refere ao jogo ideológico que está por ·n·ás da 
defesa de um conjunto pach-oniz.aílo de regras 
lingi:i.ísticas. Essa defesa se faz apoiada no mito 
<le que o c.:onhecimcnto da ''n orma cultay, é 
garantia suficiente para a inserção do indiví-
duo na caf cgoria dos que podem falar) dos 
que sabem falar, do que têm direito à pala,Ta. 
Mas a rcstrii;ão imposta ao acesso dos falantes 
das vaL"iedades esügmatizadas ao sistema edu-
cacional - {nrico meio de aq u isiç.ã.o da Jeitu-
r a. da csclitit e das funnas liDnoüísticas presti-
giadas - já gru·antc que essa '·ascensão so-
192 
-
'! 
dar' não ocorrerá e presr n·a o conliecimcmo-
uso da ·\10,.ma culta·' a urna parcela ínfima 
da sociedade. • 
Com iss~, a discriminaç.ão explícita c:oun·a os 
que ''uão sahem português·' ou contra os que 
~atrOJld am a g.rarná l ic·a'·· - d iscr imituH.;ão 
<.. > 
estamp ada e difunllida. quase <liar ia mentc u os 
meios <le r,omunicação - é simpfosmen1e a 
face visível de um mecanis mo de exdusão f] UC 
atua n uru uível hem 1m1is s util <' insidioso. 
E m sua superficialidade, a 1'·norma r:ulta ,. pare-
ce s<!r uma entidade de natureza <'Xdmlivamen-
te ]ingiit. tica: t1.1clo S<' resumiria o uma qucs-
u'tu tle pron(wcia ··con '<' la"' das palavras. de 
ortografia e pontuação, de l'egras de concordân-
cia e regência, de organização elegante da1-
palavras uos eriunciado,,. Essa "'norma culta ·,, 
estaria Lem rlocumeu1ada nas gramáf icas 
normativas e, b oje, po<leria ser a rlcpúrüla f a-
cilmcutc corno bem ele consumo uus formas 
oferecidas µelo mercado (livros) m1111nais, co-
lunas ele j01ual e re i~1a , c<l-rom s., sites da 
internet, vírlcos etc.). 1 o entanto, como <!Scre-
ve Ma ur izzio Cnerre (198~: 22-23): 
/\ gnuuálica n ormativa {: um r,ódigo incom-
pleto que, como tal, uhre o cspAço ptU'll a 
1trhitrmi.e<ladc de um jogo já marC'ado: ga-
nha quem de aída dispõe dos instru.wcntos 
para guohal'. Temos asRiLU pelo m cno · dois 
1úvci!i de d iHcrirninação li1tgüí.;;rica: o <Ülo nu 
explícito e o não dito ou implícito. 
t.i:;i:;a discrim.iua,.ão uão dita on implícita é t [lte 
configma a nomiu owlta, o disfarce lingüístico 
de uma discriminação que é, de fato, sociul. O 
conlwcimento plcu o e eficaz do "bum portu-
guês'\ o domínio tias regras padronizadas uão 
vai garfilltir tJUe nrn indivíduo deixe dr ·eJ 
cUscrirninado por outros critérios de avaliação, 
q 11e compõem nma ''-gramática uurrnativa nãu-
escrita'"':, como sugere G11erre: a cor da pelt>, o 
sexo ou a oricutaçiio sexual (assumida ou pre-
stunida), o modo de se vestir. a compleição 
física. a µro<'c-dência geogntfic.'l ( exp licitado.. ou 
s uposta) , a zona de residência, u opção religio-
so, a imposiação da voz em sua correlaç..ão 
com os papéi sociais atrib1ú<los aos gêueros 
ma:;cu lino e feminino ( ao h omem cabe falar 
~·g,rosso" e impos iüvamente; à m ulher. :;er 
1.~ dchcada ·,, e conclesce11clen 1.0), os :;inais exterio-
res de filiação do falante a coujuntos de atitu-
des não-con vencionais (e, porta11Lo., não ·'cul-
ro:;' : m1útos brinr.os na orelha, barba compri-
da, pi<>rcings, taluagens, ca.bcç:a raspada, ca-
belos e/ou 1H.u.1as pintadas de cores ••:ext.rn.va-
ga11tes" etc.) , o ter ou uão ter automóvel (e a 
marca do a uto10óvcl), entre 1ru1tas oun·as <'oi- 193 
• 
< 
sas ... Conhecer a "'nom1a culta \) não poupará 
o/a falante de ser avaliado/a também (e às 
vezes até principalmente) por essa gTade de 
critérios quando ele/ela se <enr.ontrar em situa-
ção de assimc1Tia. de poder social, cultural e 
l . 
econom1co. 
Por isso é q,1c a defesa dessa gTamaL1ca 
normativa não-escrita - vasto conjunto de 
preconceitos sociais - é ião iutransjgente que, 
às vezes, a norma oculta que a prcsi de se tor-
na explícüa e visívc1 atl'avés do uso de expres-
sões como ''pronúncia de jacu\ '1caipirê-s\ 
~língua de índio'\ ~1gi-amática uai~a e elemen-
tar dominada intuitivamente por q ualquer 
falante''1 en1re outras do mesmo cspfrito. A 
própria negação da cx.islência do precouceito 
lingüístico - que q uakp.ier crürnçu pohre sen-
te na pele e ua alma ao abrir a boca numa 
sala de aula - , é a prova mais do que elo-
qiiente de· qt1c .. para tais pessoas~ as r.o.isas têm 
de UC8T m<'-cimo como e,stão. 
1 Expressões usadas, respf'c::tiva,ucmc, pm L. A. 
Sacconi (em seu livro Nii,o erre mai.~I) : Oad Squ aiisi (no 
CoJTein Rraziliense. ~2/611996). Edunrdo Martim; (em 
depoimento à .revista J.~toÉ de 20/8/ '1 997) e Josué Ma-
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µ~r<1111's<1. São Paulo, Parábol11. 
	Capa
	Créditos
	Índice
	Primeiras palavras
	Prólogo
	1 Por que "norma"? Por que "culta" ?
	2 Um pouco de história: o fantasma colonial & mudança linguística
	3 Por uma gramática do portugûes brasileiro
	epílogo
	Bibliografia

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