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H IST Ó R IA M O D E R N A Lorena Z om er Código Logístico Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6363-5 IESDE BRASIL S/A 2018 História Moderna Lorena Zomer Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: MICHELANGELO. Davi. 1501-1504. Escultura em mármore. Acade- mia de Belas Artes de Florença. RAFAEL. A escola de Atenas. 1511. Afresco: color.; 5 m X 7,7 m. Museu do Vaticano. BOTTICELLI, Sandro. Retrato de Simonetta Vespucci como Ninfa. C.1480. Têmpera em madeira: color.; 82 cm x 54 cm. Städel Museum, Frankfurt. TONNELÉ & CO. Tesla in his laboratory. 1896. 1 fotografia, p/b. PRÉVOST, Benoît Louis. Gravura da Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers. 1764. WEITSCH, Friedrich Georg. Retrato de Alexander von Humboldt. 1806. Óleo sobre tela: color.; 126 cm x 92,5 cm. Bode Museum, Berlim. Capa da Encyclopédie, ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers. LECLERC, Sébastien. Louis XIV Visiting the Royal Academy of Sciences. 1671. Gravura; 41.9 cm x 30.8 cm. Metropolitan Museum of Art. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ Z83h Zomer, Lorena História moderna / Lorena Zomer. - [2. ed.] - Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2018. 142 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-6363-5 1. História moderna. I. Título. 17-46163 CDD: 900CDU: 94 © 2018 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Apresentação Este livro tem por objetivo trazer algumas das leituras possíveis acerca da História Moderna. Muitos acontecimentos também compreendidos como importantes estão mencionados, mas não serão aprofundados, pois nossas opções estão relacionadas às perspectivas historiográficas, que não são pou- cas. Isso apenas demonstra como a História é uma disciplina das Ciências Humanas que dialoga com as demais e por isso apresenta mais perspectivas sobre os acontecimentos. Uma segunda escolha ocorre de acordo com tantas possibilidades oferecidas pela narrativa, entendendo que não é possível co- locar todos os sujeitos sociais em uma mesma corrente historiográfica. Nesse caso, a crítica historiográfica nos oferece histórias diversas de um mesmo acontecimento, sem uma postura universal ou evolucional. Neste volume de História Moderna vamos compreender características de algumas sociedades, no período entre os séculos XV a XVIII. As escolhas sobre os acontecimentos debatidos deram-se em busca de problemáticas que envolvem nossos contextos atuais. Entre eles estão a formação dos Estados modernos, a expansão europeia, as revoluções inglesas no século XVII, o Iluminismo, bem como as questões sociais e as culturais ocorridas nesse pe- ríodo, fatos primordiais para a formação social, econômica, política e cul- tural do mundo moderno e para os princípios do período contemporâneo. Concepções de nações, de nacionalismo, do capitalismo como forma de pro- dução econômica e de Estados mais centralizadores são ideias construídas no período moderno, ao longo dos séculos XIII ao XVIII. Foram muitos os movimentos sociais ou artísticos que influenciaram questionamentos e resistências às ordens políticas e sociais. Entre eles, pode- mos citar o Renascimento e o Iluminismo, com suas influências sobre as ciên- cias, inclusive em relação ao fazer historiográfico. Esses e outros temas foram escolhidos a fim de estudarmos uma possível construção sobre o mundo moderno. Desse modo, neste livro, buscamos incorporar os recentes debates historiográficos, procurando uma bibliografia atual e temas nem sempre evi- denciados pela historiografia mais tradicional. Bons estudos! Sobre a autora Lorena Zomer Doutora e mestre em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Educação Especial pela Escola Superior Aberta do Paraná (Esap) e licenciada em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG-PR). Tem experiência como profes- sora de História no ensino superior (presencial e EAD), bem como na Educação Básica. 6 História Moderna SumárioSumário 1 Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo 9 1.1 Introdução à disciplina de História Moderna 9 1.2 Transição do mundo feudal para o capitalista 14 1.3 Mercantilismo 16 2 Renascimento cultural e o humanismo 25 2.1 Renascimento: conceitos e expectativas 26 2.2 Arte e cultura: as formas de representação simbólica no Renascimento 35 2.3 O Barroco de Caravaggio e o protestante 38 3 Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno 47 3.1 Características da sociedade cristã 48 3.2 Reformas religiosas 50 3.3 O capitalismo e o cristianismo 57 4 As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII 63 4.1 O absolutismo no Ocidente e teóricos do absolutismo 64 4.2 As revoluções burguesas dos séculos XVII e XVIII 68 4.3 Reordenação agrária 73 História Moderna 7 SumárioSumário 5 As bases do pensamento político moderno e o capitalismo 81 5.1 O Estado moderno e o nascimento do mundo capitalista 82 5.2 Revolução Industrial 85 5.3 A divisão social do trabalho e a experiência e condição operária 89 6 O Estado moderno e a representação política no Ocidente 97 6.1 Personagens do Estado moderno 98 6.2 Sociedade camponesa no Antigo Regime 102 6.3 A economia moral da multidão 105 7 O Iluminismo francês e a ideia de progresso 111 7.1 O Iluminismo francês e alemão 112 7.2 A ciência moderna 117 7.3 O individualismo burguês e as transformações do século XVIII 119 8 O florescer de uma nova política no século XVIII 125 8.1 Revolução Francesa e a ideia de igualdade 126 8.2 Nações e imperialismo 131 8.3 Uso de conceitos da História Moderna em sala de aula 134 História Moderna 9 1 Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo Neste primeiro capítulo veremos os princípios da disciplina de História Moderna, buscando perceber suas principais discussões políticas, econômicas, sociais e cultu- rais, a fim de compreender como o período entre o século XV e o século XVIII foi um tempo de transição e de grandes mudanças no mundo ocidental. 1.1 Introdução à disciplina de História Moderna A modernidade e o período ou mundo moderno (ocidental) são ideias que se cru- zam e, por vezes, também são confundidas como sinônimos para compreender esse período histórico tão rico de descobrimentos, inovações e de novas relações sociais e culturais. A modernidade diz respeito às mudanças de pensamento ligadas à política, à cultura e a todos os setores de uma sociedade, ocorridas entre os séculos XV a XVIII. Período Moderno, História Moderna, Mundo Moderno e Idade Moderna são termos que se referem ao tempo entre 1453 (Queda de Constantinopla) a 1789 (Revolução Francesa). Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1 História Moderna10 Essas transformações alteraram a concepção de tempo e de vivência no mundo oci- dental. A disciplina de História Moderna, por sua vez, trabalha com um tempo cronológico (século XV ao XVIII) e busca discutir sobre as mudanças sociais, políticas, econômicas e cul- turais verificadas naquele período. Objetiva, ainda, perceber como o período moderno pode ser analisado como uma passagem entre o Medieval e o Contemporâneo. Desse modo, o tempo do mundo moderno pode ser resumido de maneira rápida em uma palavra: transição. Um movimento, uma mudança – nem sempre consciente – de novos comportamentos sociais e culturais, mas ainda de novas perspectivas políticas e econômicas. De um cristianismo que influenciava a maior parte das instituições e organizações sociais, políticas e econômicas do Ocidente, caminhamos para novas ideias religiosas e performan- ces culturais cuja cultura popular foi um dos destaques. De lançamento de grandes barcos a livros impressos da Biblioteca Azul1;de uma guilda medieval a um mundo a vapor em que camponeses foram transformados em operários, muitas vezes acelerando a urbanização – e com preocupações sanitárias – além do que as cidades poderiam suportar. Processo esse necessário tanto pelas mudanças econômicas, quanto pela sobrevivência, considerando a devastação sentida pela Europa no século XIV com a Peste Negra (Figura 1). Figura 1 – Obra simbolizando diversas mortes durante a epidemia de peste negra no século XIV. Fonte: BoukeAtema/iStockphoto. O que apontamos aqui são grandes acontecimentos que diferenciam o período moder- no em relação ao período medieval, entretanto, não deixam de ter relação entre si. No caso 1 A expressão Biblioteca Azul refere-se a um conjunto de livros publicados com material mais rústico, e, apesar do nome, nem sempre de capa azul. As histórias eram variadas e mais populares e, apesar de se destinarem principalmente a camponeses, também chegaram aos núcleos urbanos (CHARTIER, 2004). Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo História Moderna 1 11 da Peste Negra, o extermínio de boa parte da população permitiu que estudos sobre o corpo humano – e doenças – aumentassem de forma lenta a partir do século XVI. Os historiadores Francisco José Calazans Falcon e Antônio Edmilson Rodrigues (2000) fazem a seguinte afirmação sobre as mudanças políticas e econômicas durante o período mo- derno: “[...] atingiram praticamente todos os níveis da existência social dos povos europeus em geral e, em especial, os habitantes das regiões centro-ocidentais da Europa” (FALCON; RODRIGUES, 2000, p. 23). Mas, não obstante, essas mudanças apenas se acentuaram com o deslocamento de interesses econômicos e políticos da Ásia para a América, especialmente com o mercado e o comércio ultramarino do Atlântico. No que diz respeito à diferença entre as expressões de Idade Moderna e Modernidade há ainda uma relação com os acontecimentos entre os dois períodos que se seguem. A primei- ra diz respeito a uma divisão de tempo cronológico tradicional da própria história como disciplina, isto é, os chamados: Idade Antiga, Idade Medieval, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Essa divisão é decorrente da historiografia francesa e organizada entre o fim do século XIX e o início do XX, período em que a História precisou demarcar seus obje- tos, problemáticas, temas e metodologias a fim de ser considerada uma ciência. Essas con- dições foram reafirmadas pelo historiador Jean Chesneaux: “O quadripartismo tem como resultado privilegiar o papel do Ocidente na história do mundo e reduzir quantitativa e qualitativamente o lugar dos povos não europeus na evolução universal” (CHESNEAUX, 1995, p. 95). Obviamente, a divisão é bastante discutida e objeto de muita polêmica, visto que as relações entre os períodos, mantendo muitas continuidades e sem rupturas tão bruscas, são vastas. O historiador holandês Johan Huizinga sugere tal ideia da seguinte forma: É-nos difícil imaginar que o espírito pudesse cultivar as antigas formas de pen- samento e de expressão medievais e aspirar ao mesmo tempo à visão antiga da razão e da beleza. Mas é assim mesmo que temos de conceber o que se passou. O classicismo não apareceu por súbita revelação; cresceu entre a vegetação luxu- riante do pensamento medieval. Antes de ser uma inspiração o humanismo foi uma forma. E, por outro lado, os modos característicos do pensamento da Idade Média persistem por muito tempo durante o Renascimento. (HUIZINGA, 1924, p. 327) O historiador torna evidente a ideia de continuidade ao afirmar que nada surgiu por súbita revelação, assim como preceitos medievais persistem nos séculos seguintes. Deste modo, as diferenças seriam apenas acontecimentos macros ocorridos nos tempos de que cada um, alguns deles representados em imagens logo na introdução do capítulo, porém, de forma alguma, para aqueles que viveram tal período, foram tão evidentes como divisores do tempo histórico daqueles sujeitos sociais. Nesse sentido, considerando as palavras do historiador holandês, é possível encontrar elementos de um mundo moderno no medieval, como também é possível perceber características medievais na Dinamarca do século XIX, visto que esse país foi um dos últimos a permitir a entrada de ideais iluministas, sobre os quais falaremos no Capítulo 7. Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1 História Moderna12 Outro aspecto importante seria a própria formação dos Estados Modernos, cujo objeti- vo central era dar uma nova organização política. O sociólogo Zygmunt Bauman afirma o seguinte sobre uma característica da modernidade: “Certas entidades podem ser incluídas numa classe – tornar-se uma classe – apenas na medida em que outras entidades são excluí- das, deixadas de fora” (BAUMAN, 1999, p. 11). Ou seja, para que houvesse uma nova ordem – política – todos que estivessem abaixo deveriam ser reorganizados. Porém, tal perspectiva apenas conseguiu se tornar mais comum, ou mesmo dominante, no fim do século XIX e, em especial, no XX. A nova ordem seria a burguesa, com direitos políticos e, na maior parte dos países, com o uso da política republicana. Tal perspectiva precisou minar as forças do Antigo Regime aos poucos e dos próprios reis absolutistas, um processo iniciado ainda an- tes do século XIV cujo ápice foi a Revolução Francesa em 1789, século XVIII. Portanto, os acontecimentos mencionados e intitulados de macros, como a Tomada de Constantinopla (1453), a Revolução de Gutemberg (Figura 2) em 1492, as Grandes Navegações, por Cristóvão Colombo (Figura 3) também em 1492, ou mesmo a Reforma (1517) e/ou a Contrarreforma, entre tantos, ocasionaram diferentes perspectivas sociais, políticas, econômicas e culturais, ao mesmo tempo em que ideias políticas estavam se for- mando. Essa conjuntura proporcionou premissas básicas para que conflitos, negociações e formas novas de disputas surgissem e se tornassem mais complexas no decorrer dos séculos seguintes. Figura 2 – Estátua de Johannes Gutemberg, o símbolo da Revolução da Imprensa, em Frankfurt. Fonte: Meinzahn/iStockphoto. Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo História Moderna 1 13 Figura 3 – Estátua de Cristóvão Colombo, em Gênova, Itália. Fonte: FooTToo/iStockphoto. Sobre isso, Falcon e Rodrigues apontam o período moderno como um tempo em que o mundo se envolveu em um processo de modernização, ou seja, diversos acontecimentos, em especial o de transição entre o feudalismo e o capitalismo, ocorreram paulatinamente fazendo com que diversas regiões anteriormente feudais, aos poucos dessem lugar a uma política absolutista e, mais tarde, burguesa (FALCON; RODRIGUES, 2000). Esta última teria justamente na Revolução Francesa, seu maior marco, visto que a França era considerada um dos últimos países ainda com características feudais e quando sua monarquia foi substituída nos anos de 1790 pelos interesses burgueses (República), um novo tempo teria se iniciado, o período contemporâneo. Dessa forma, um dos elementos que mais representa o que foi o período de formação do mundo moderno é justamente a transição do feudalismo para o capitalismo, o qual, por sua vez, permitiu diversas transformações sociais, políticas e culturais. Portanto, no que diz respeito à modernidade, o filósofo Marshall Berman considera que: Existe um tipo de experiência vital de tempo e espaço, de si mesmo e dos ou- tros, das possibilidades e perigos da vida — que é compartilhada por homens e mulheres em todo o mundo, hoje. Designarei esse conjunto de experiências Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1 História Moderna14 como “modernidade”. Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que prome- te aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor — mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. (BERMAN, 2007, p. 24) O que compreendemos é a sugestão de uma efemeridade em tudo quediz respeito à vida, em todos os âmbitos, contra uma ideia de eterna continuidade e com constantes transforma- ções – nem sempre perceptíveis, palpáveis, mas sentidas em nossos comportamentos identitá- rios, em nossa memória e em nossas tradições. O filósofo compreende a ideia de modernidade em três fases. A primeira fase teria ocorrido entre os séculos XVI e XVIII, quando se alterou a ideia do que é público e a perspectiva de comunidade moderna; na segunda, a sensação de mudança foi muito maior a partir do fim do século XVIII, visto que se tratava de mudanças nas esferas pessoais, sociais e políticas com um caráter mais revolucionário, cada vez mais urbano, e com a ideia de ciência e tecnologia mais comuns, ao mesmo tempo em que a arte, a literatura, as escolas e as universidades cresceram de modo expressivo; já na terceira fase, no século XX, tal perspectiva chegou a todo o mundo (BERMAN, 2007, p. 25-26). Para Hannah Arendt, a modernidade deveria trazer a liberdade para aqueles que sem- pre tiveram que trabalhar, Mas, isto é assim apenas na aparência. A era moderna trouxe consigo a glori- ficação teórica do trabalho, e resultou na transformação efetiva de toda socie- dade em uma sociedade operária. Assim, a realização do desejo, como sucede nos contos de fadas, chega num instante em que só pode ser contraproducente. A sociedade que está para ser libertada dos grilhões do trabalho é uma sociedade de trabalhadores, uma sociedade que já não conhece aquelas outras atividades superiores. (ARENDT, 2007, p. 12) A filósofa sugere a ideia de que o conhecimento ocasionado pelo progresso, assim como pelo uso da razão e da ciência do período moderno, modificou a ordem existente, reade- quando as classes e transformando muitos plebeus em operários2;. Além disso, o período trouxe a ideia de trabalho como algo que traz prosperidade e dignidade, como também de que tempo é dinheiro, isto é, é possível vendê-lo. Entretanto, embora haja uma reformulação dos lugares ocupados por cada classe em um tempo em que a ideia de liberdade também é vendida, verifica-se a importância de análise e de consideração dos conflitos e negociações vividos nesse contexto. Na sequência, debatemos sobre os elementos característicos de tal transformação. 1.2 Transição do mundo feudal para o capitalista Para os historiadores Falcon e Rodrigues (2000), alguns acontecimentos foram marcan- tes para a mudança de mentalidade e de concepção de vida no contexto entre o mundo 2 Tema do quinto capítulo. Sobre essa mudança em relação a uma classe de servos/camponeses para operários, sugerimos o texto de THOMPSON, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo História Moderna 1 15 medieval e o moderno. Um deles seriam as grandes navegações e, consequentemente, os continentes descobertos nos séculos seguintes. Processo acentuado por inovações como a da bússola, da pólvora, o desenvolvimento da cartografia, entre outros; descobertas apenas possíveis em um período em que o desenvolvimento de novos conhecimentos e da razão tor- naram-se mais comuns. Entretanto, não foram apenas esses elementos os responsáveis pelas descobertas e, consequentemente, pelas mudanças políticas e sociais. Falcon e Rodrigues (2000) apontam a diminuição do comércio do Mediterrâneo, especialmente liderado por italianos entre a segunda metade do século XV e o final do XVI, ao passo em que potências como a holandesa, a belga e a inglesa passaram a se dedicar ao comércio ultramarino. Falcon e Rodrigues (2000) afirmam que o século seguinte ao XV ainda viveu diversas mudanças e, mesmo assim, não se afirmou de forma consciente como representante de uma modernidade. Enfim, a temporalidade das descobertas e a das modificações no campo do pensamento não têm o mesmo ritmo. O moderno estava se iniciando, visto que aqueles ho- mens e mulheres percebiam a diferença do que haviam vivido antes. Porém, a perspectiva de que um novo tempo político/social/econômico e cultural estava se iniciando, com novos comportamentos, mentalidades e experiências se acentuou, de fato, no século XVII e XVIII, com a propagação dos ideais iluministas, como também da Revolução Industrial. O advento do capitalismo seria um dos maiores responsáveis pelas mudanças do perío- do moderno, em especial, por considerar que, a partir do século XVI, um novo sistema mun- dial passou a ser forjado com as perspectivas capitalistas, em que todo o comércio mundial ocidental e os modos de produção passaram a ser definidos por objetivos finais de lucro. Os Estados modernos, com essa influência, passaram a organizar novos modos de produ- ção, como escravidão, servidão, encomienda, parceria, arrendamento e o assalariamento e, longe de determinar uma sociedade apenas por seus aspectos econômicos, todas essas ma- neiras de trabalho ocasionaram transformações sociais e culturais, ao mesmo tempo em que eram fortalecidas pelas próprias tradições e costumes, como a cultura popular. Alterações estruturais que sucederam aos poucos e não de forma homogênea, assim como o mercantilismo (tema que veremos na sequência) também alterou o modo como o mundo ocidental estava organizado, visto que uniu em relações culturais, sociais e econô- micas partes geográficas até então desconhecidas entre si. 1.2.1 Fontes para o fazer historiográfico do período moderno Entre tantas pinturas renascentistas, escritos iluministas (de Voltaire, Rousseau, Montesquieu, Diderot), ainda existem as fontes manuscritas e copiadas, em muitos casos, pelas organizações diversas da Igreja católica. Fontes que permitem compreensões sobre as relações entre o período clássico, medieval e moderno, mesmo que esta seja uma divi- são do século XIX, buscando perceber as expectativas comuns aos homens e às mulheres daqueles contextos. Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1 História Moderna16 O historiador inglês Peter Burke, em seu livro Cultura popular na Idade Moderna, lan- çado em 1978 e reeditado diversas vezes, ao debater sobre o conceito de cultura popular (tema do quinto capítulo), destaca o estudo de santuários, relíquias e votos, porém há ausência de estudos sobre sexo, casamento e a vida familiar (BURKE, 1989). Obviamente é preciso considerar o período de quase 30 anos de lançamento da segunda versão, po- rém, o livro de Peter Burke continua sendo uma referência no que diz respeito ao tema proposto. Portanto, afirma-se que as fontes trazidas em qualquer estudo historiográfico sempre permitem uma nova interpretação, talvez com as mesmas indagações, mas, com respostas diversas devido às mudanças sociais e culturais daqueles que escrevem e fazem a historiografia. O mesmo autor, ao debater sobre a diferença entre sociedade e cultura no período moderno, salienta a importância das práticas funerárias, do consumo de alimentos, da organização do espaço (de casa, do trabalho, da rua), como podemos perceber na se- guinte citação: O consumo conspícuo de alimentos e roupas “funcionava como um veículo da autoconsciência plebeia” no século XVIII. O trabalho recente de arqueólogos e antropólogos ilustrou os diferentes modos pelos quais o estudo da “vida social das coisas” pode revelar os valores de indivíduos, grupos e sociedade inteiras. No caso da América do Norte de meados do século XVIII, por exemplo, argu- mentou-se que as mudanças nas práticas funerárias, no modo de consumo dos alimentos e na organização do espaço vital sugerem todas uma mudança em valores que pode ser descrita como o nascimento do individualismo e da priva- cidade. (BURKE, 1989, p. 22-23) Tal citação deixa evidente a ideia de que as transformações sociais ocasionadas pelo mundo moderno também proporcionaram alterações nos modos de vida, incluindo uma perspectiva de individualidade e de privacidade – ideias bastante desenvolvidas e percebi- das em fontes do XIX. De modo evidente, as fontes sempre devem ser analisadasde forma crítica, em confronto com outras, visto que muitas delas podem ter uma visão unilateral sobre um ou outro ponto de vista. É tarefa da historiografia expor diferentes possibilidade de análise de versões sobre um mesmo acontecimento. 1.3 Mercantilismo Quando a rota da seda para o Oriente começou a ser limitada devido aos interesses de turcos e outros orientais, europeus passaram a procurar novos caminhos. Além disso, a tec- nologia do período havia inovado com alguns artefatos, o que possibilitava se distanciarem mais das margens mais seguras do Mediterrâneo, às quais estavam habituados. O mapa a seguir revela o que o século XVI trouxe aos mercadores, capitães, oportunistas, marinheiros e piratas, um mundo a desbravar e a dominar. Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo História Moderna 1 17 Figura 4 – Munster, Sebastian. Typus orbis universalis. 1552. Mapa, 26 x 38 cm. Biblioteca Digital Luso-Brasileira. O mapa ainda afirma à historiografia que o mercantilismo não pode ser dissociado das milhares de navegações ocorridas nos séculos do período moderno. Isso se deve pelo fato de as colônias, além de proporcionarem o acúmulo de metais, também gerarem mão de obra barata ou de graça, matéria-prima e mercado consumidor, ainda que mais restrito este último. Aliás, as colônias se tornaram o objetivo principal das navegações e de disputa entre os países. O acontecimento motivador, de várias viagens e projetos europeus, foi a tomada de Ceuta, no ano de 1415. Isso foi importante porque fundou uma colônia, um entreposto e deu domínio aos europeus em um novo território. Ressaltamos ainda que tomar um lugar além do espaço anteriormente dominado só foi possível devido à tecnologia do período, como podemos observar: Servindo de ligação, correio e abastecimento nas armadas da Índia, as caravelas eram os navios que melhor podiam aproveitar os ventos contrários, ofereciam pequeno alvo aos inimigos, eram ligeiras e fáceis de manobrar, adaptando-se perfeitamente às viagens de descobrimento, pois ‘demandavam pouco fundo, podendo chegar-se bem à terra’, acompanhando com certa facilidade a sinuo- sidade das costas e sofrendo menos com o entra e sai nas enseadas e costas dos rios. (MICELI, 1994, p. 74) Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1 História Moderna18 Portanto, tecnologia, novas rotas, mundos até então desconhecidos e, principalmente, seus produtos, fez com que o mercantilismo ganhasse mais do que notoriedade. Passou a ser o lema de todos aqueles países que já estavam sofrendo diversas mudanças sociais, políticas e econômicas. Estas, no decorrer dos séculos seguintes, formaram o período moderno e as alterações no modo de pensar, de ser e de se comportar em todos os aspectos da vida de uma sociedade pode ser chamado de modernidade. No entanto, antes da nobreza e, em especial, da burguesia chegar a níveis altos de acú- mulo ou mesmo de exploração, a entrada do capitalismo (e do mercantilismo) foi lenta. De acordo com o historiador francês Jacques Le Goff (2005), o período medieval era o tempo das catedrais, um tempo em que a Igreja condenava o lucro, defendia a eternidade como o único objetivo do homem na terra, assim como controlava a razão e o conhecimento de acor- do com os seus interesses, ou, nas palavras do historiador Georges Duby: “[...] somente os servidores de Deus sabiam escrever e ler, e consideravam como seu dever explicar a história, de maneira a nela detectar os sinais de Deus” (DUBY, 1999, p. 17). Por essas razões os homens não deveriam se preocupar com a ideia de progresso prega- da pelos hereges. Como podemos perceber, O impulso e a difusão da economia monetária ameaçam os velhos valores cris- tãos. Um novo sistema econômico está prestes a se formar, o capitalismo, que para se desenvolver necessita senão de novas técnicas, ao menosdo uso massivo de práticas condenadas desde sempre pela Igreja. Uma luta encarniçada, coti- diana, assinalada por proibições repetidas, articuladas a valores e mentalidades, tem por objetivo a legitimação do lucro lícito que é preciso distinguir da usura ilícita. (LE GOFF, 1989, p. 10) Desse modo, segundo Le Goff, é a partir do século XI que alguns países passam a ver em seus cotidianos um tímido renascimento cultural e comercial, cujo destaque para o his- toriador é a circulação de moedas. Naquele contexto, comerciantes e banqueiros passaram a lançar a ideia de que tal objeto não era apenas um artefato para dar prestígio social, porém também poderia ser usado para fazer trocas, ou seja, representava um possível aumento da prática do comércio. Este, além de não ser tão aceito pela Igreja e pela nobreza no início, foi muitas vezes confundido com o trabalho dos usurários, aqueles que emprestam dinheiro e ganham juros com base no empréstimo. Tal equívoco é possível perceber na citação de Le Goff, uma postura confirmada também no seguinte trecho: “De todos os mercadores, o mais maldito é o usurário, pois este vende uma coisa dada por Deus, não adquirida pelos homens (ao contrário do mercador) e, após a usura, retoma a coisa, juntamente com o bem alheio, o que não faz o mercador” (LE GOFF, 2005, p. 28-29). Assim, o tempo, um direito que seria natural, ou mesmo celestial, seria o elemento vendido pelo mercador, prática condenada pela Igreja. Essa ideia faz parte da usura, ou seja, o empréstimo ou renda sobre algo ou o trabalho de alguém. Além disso, mercadores e burgueses, os que mais realizavam essa prática, não enviavam partes significativas de seus ganhos à Igreja católica. Apesar das relutâncias, alguns acontecimentos como a peste negra, a crise agrária (em que a fertilidade da terra passou a ser questionada), as Cruzadas, o monopólio italiano e depois o domínio turco do Mediterrâneo e a Guerra dos Cem Anos, Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo História Moderna 1 19 cujo desgaste gerou questionamentos da população, deram ao mesmo contexto iniciativas e ideias sobre possíveis inovações. Ações como buscar outros territórios e alternativas de rotas marítimas foram estimulados. De acordo com Falcon e Rodrigues (2009), existem (três) características importantes so- bre o mercantilismo no que diz respeito às mudanças estruturais. A primeira seria a relação do seu desenvolvimento concomitante ao período do fim do feudalismo; seu exercício oca- sionou um processo de ramificações e conexões unindo partes distantes envoltas ao Oceano Atlântico, além de, um dos aspectos mais importantes, a acumulação de metais preciosos para a promoção da primeira fase da Revolução Industrial. Nesse contexto, o Brasil Colônia também foi envolvido e de forma sucinta o próximo subtítulo trata-se sobre isso. 1.3.1 Brasil Colônia O comércio ultramarino colocou o Brasil Colônia dentro das rotas como um território exportador de matérias-primas e receptor de mão de obra escrava. O historiador Antônio Carlos Jucá de Sampaio (2010), ao analisar contratos de arrematação da dízima da alfânde- ga, percebe que o movimento das regiões auríferas a partir do século XVIII era proporcional a um mercado interno, isto é, havia comércio para além de mandioca, ouro, escravos e ou- tros itens básicos. Tal perspectiva é reafirmada por João Fragoso e Manoel Florentino, historiadores do Brasil Colônia/Império, os quais são lembrados por Jucá no que se refere a sua ideia de homens de negócio ou de grosso trato (expressão de João Fragoso), aqueles portugueses radica- dos ou até mesmo nascidos no Brasil Colônia que formavam a elite brasileira, em especial fluminense (devido à proximidade com Minas Gerais e o Centro Sul), comprando produtos vindos da África, da Bahia (tabaco) da Cisplatina (couro e prata) e da Europa e revendiam a terceiros no Brasil. Essa rede se dava por meio de crédito, fortalecendo uma rede de endi- vidamento, financiada muitas vezes por Associações com sede em Lisboa e com seus repre- sentantes em cada um dos lugares mencionados. Tanto o tráfico de escravosquanto o envio de matérias-primas do Brasil – e da América Latina – permitiram o crescimento econômico e as mudanças políticas em território euro- peu. Entretanto, se se considera as ideias do historiador Antônio Jucá Sampaio podemos afirmar que o Brasil Colônia, apesar do regime escravista e dos efeitos também de latifún- dios, obteve a partir do século XVII alguns benefícios do comércio ultramarino liderado pela burguesia europeia. Conclusão No decorrer dos capítulos deste livro, muitos temas aqui mencionados voltarão a ser debatidos sob outros ângulos. Até a discussão realizada objetivamos analisar o período mo- derno como um momento de transição do feudalismo ao capitalismo – e ao mercantilismo – ao mesmo tempo em que rumava à modernidade. Esse contexto proporcionou e gerou Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1 História Moderna20 aspectos econômicos determinados e determinantes de características culturais e de diver- sos conflitos sociais que analisaremos nos capítulos seguintes. Conforme afirmamos logo no início, longe de uma postura marxista tradicional, mesmo que o contexto econômico seja extremamente marcante desse período até ao século XXI, questões culturais foram intensas e imprescindíveis para compreender o período moderno como um todo. Desse modo, con- sideramos importantes as questões econômicas, entretanto, práticas culturais também são imprescindíveis para a compreensão das mudanças da Modernidade até o presente século. Ampliando seus conhecimentos Alguns sentimentos do que aguardava os desbravadores do período moderno pode ser percebido no texto a seguir, em que o pesquisador Vinícius Silva de Souza faz algumas reflexões acerca do pensamento da filósofa Hannah Arendt. Segundo ela, existem alguns acontecimentos centrais que mudaram a perspec- tiva de tempo, sociedade e cultura. O início da era moderna: reflexões arendtianas (SOUZA, 2006, p. 1-2) [...] O marco da Modernidade para Hannah Arendt está em três acontecimen- tos decisivos na formação desse período, que inauguram o novo tempo. São eles: a descoberta da América, a reforma protestante e a invenção do telescópio. Esses eventos estão ligados aos respectivos nomes: grandes navegadores, Martin Lutero e Galileu Galilei. A descoberta de um novo continente e a ameaça da tranquilidade religiosa pela reforma demons- tram dois acontecimentos fortemente espetaculares perante uma discreta invenção de um telescópio para ver as estrelas. No entanto, esse simples instrumento passaria a ser o primeiro aparato puramente científico que causaria um grande impacto para a modernidade: o de tornar viável a expansão dos limites territoriais para além de uma Terra habitada. A Terra, através das grandes navegações, tornou-se pequena e conhe- cida como a palma da mão numa velocidade que eliminou a importân- cia da distância e, com a melhoria dos meios de locomoção, possibilitou uma compreensão do homem como pertencente de um todo terreno. O aprimoramento do conhecimento geográfico trouxe como conse- quência imediata o sentimento de distanciamento do homem com a Terra, ou seja, separado de seu ambiente terreno, o homem tem um Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo História Moderna 1 21 preço a pagar. Dá-se aquilo que Hannah Arendt entende como a alie- nação do homem com o mundo. A alienação é compreendida aqui como um afastamento, sentido que tem origem na palavra Entfremdung que exprime a ideia de algo que está separado de outra coisa ou que é estranho a essa coisa, como por exem- plo, o rompimento de mim na medida em que não posso compreender ou aceitar a mim mesmo, ou o não reconhecimento do pensamento em relação à realidade. A alienação é fundamental para compreender a Era Moderna. Essa afirmação se justifica em virtude da natureza secular da alienação, que não se confunde com a mundanidade, a qual diz respeito ao enfático interesse das coisas do mundo ou a uma perda de fé. Esta seculari- zação vincula-se à atitude dos antigos cristãos, a qual é demonstrada nos escritos bíblicos, “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, tendo aqui uma separação entre Igreja e Estado, entre Religião e Política. A história moderna apresenta um homem voltado para den- tro de si mesmo, inaugurando a alienação como forma de se relacionar com o mundo, ressalta Arendt. [...] Atividades 1. Logo no início do capítulo é debatida a diferença entre a ideia de modernidade e o período moderno. Faça um texto argumentando sobre tal perspectiva, ao mesmo tempo exponha as consequências disso para a nossa visão sobre o período moderno. 2. Elabore um texto elencando as principais transformações do período moderno, con- siderando ainda as mudanças sociais e culturais sobre a vida de homens e mulheres. Para tanto, utilize o texto da seção “Ampliando seus conhecimentos”. 3. Comente sobre a importância do comércio ultramarino no Atlântico e em que essa perspectiva é importante para o período moderno europeu e para o Brasil Colônia. 4. O capítulo traz algumas possibilidades de fontes sobre os temas propostos do pe- ríodo moderno. Mencione quais seriam e quais os cuidados que devemos ter como historiadores(as) para questioná-los. Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1 História Moderna22 Referências ARENDT, HANNAH. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999. BERMAN, Marshall. Tudo o que é sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. BURKE, Peter. 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Nesse exercício o objetivo central é diferenciar o período moderno da ideia de mo- dernidade. Ambos são bastante diferentes, mas têm uma relação recíproca, ou seja, o período moderno diz respeito à divisão do tempo cronológico utilizada pela his- toriografia a partir do século XIX. É uma metodologia para poder analisar aconteci- mentos importantes (Grandes Navegações, Mercantilismo, Peste Negra, Tomada do Império Romano do Oriente, entre outros). A modernidade é o sentimento, as conse- quências que esses acontecimentos causaramna medida em que os séculos seguintes passaram, alterando os comportamentos sociais, econômicos, políticos e culturais. A segunda parte da pergunta está relacionada com essas mudanças, como a forma- ção dos Estados modernos, a crise do sistema absolutista, entre outros. Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo História Moderna 1 23 2. Nesse tópico a resposta deve se concentrar nas mudanças culturais e sociais que podem ser percebidas no período. O texto sobre Hannah Arendt é fundamental para perceber como a concepção de vida e de tempo é transformada. As três mudanças mais essenciais são: a descoberta da América, a Reforma Protestante e a invenção do telescópio. Com a primeira, o limite territorial foi ampliado, assim como com a terceira, que permitiu que se visse muito além da própria Terra, ou seja, indivíduos passaram a se perceber como pertencentes à Terra. Tal perspectiva leva à ideia de alie- nação de Arendt, em que o homem se sente afastado de seu espaço, um mundo se- cularizado, moderno. Esse princípio é aprimorado pela Reforma, em que nada per- tence às pessoas, mas a Deus, cujos escolhidos poderiam ter o trabalho daqueles que não tinham nada, os que sofreram o êxodo rural no processo capitalista industrial. 3. O comércio ultramarino foi importante na medida em que abriu possibilidades de conhecer e dominar novos territórios. Tais descobertas alteraram tanto a economia europeia quanto permitiram que o capitalismo se transformasse no principal meio econômico mundial no decorrer dos séculos seguintes. De maneira evidente, os pa- noramas social e cultural também foi alterado. Quanto ao Brasil Colônia, é possível perceber que ele serviu de fornecedor de matérias-primas, mão de obra escrava, as- sim como o próprio tráfico dela fez com que países europeus acumulassem moeda, ocasionando uma balança comercial favorável. 4. Pinturas, imagens e documentos da Grécia Clássica copiados por monges no período medieval, mapas e práticas sociais e culturais que colaboram no entendimento da vivência daquele período. Em relação às fontes copiadas no período medieval, lem- bramos que é preciso considerar que os interesses da Igreja católica atravessavam o processo de cópia, ou seja, aquilo que deveria ou não permanecer, o que não quer dizer que todos os documentos sejam parciais ou foram manipulados. Os mapas, as pinturas e também os documentos produzidos no e sobre o período também carre- gam os interesses daqueles que os produziram. História Moderna 25 2 Renascimento cultural e o humanismo Foram muitas as ideias que fervilharam as imaginações de tantos cientistas, pin- tores e intelectuais da Europa, em especial, da Península Itálica a partir do século XV. Neste capítulo, nosso objetivo é trazer algumas delas, a fim de compreender de que modo o período moderno foi um contexto propício para o desenvolvimento das ciên- cias e de um olhar mais profundo sobre o ser humano. Uma delas seria a centralidade tomada pelo estudo sobre o indivíduo, não apenas o homem/mulher da família, do burgo ou feudo, da Igreja ou da oficina, mas uma perspectiva de individualismo, de conhecimento científico sobre si e a natureza. Renascimento cultural e o humanismo2 História Moderna26 2.1 Renascimento: conceitos e expectativas Figura 1 – MICHELANGELO. A criação de Adão. 1511. Afresco, 480,1 x 230,1 cm. Capela Sistina, Vaticano. A pintura é um dos quadros da trilogia: a criação de Adão, de Eva e da perdição desses dois e, certamente, um dos maiores símbolos do Renascimento italiano. Faz parte de um conjunto de pinturas bíblicas que ocupam toda a Capela Sistina. No primeiro quadro, Adão parece ter acabado de ser gerado por Deus; no segundo, Eva aparentemente sai da costela de Adão e, no terceiro, ambos são expulsos do paraíso. Aparentemente nada se sobressai ao que é esperado da própria narrativa bíblica. Mas, se o Renascimento é um processo questio- nador da teologia e dos dogmas religiosos, por que o renascentista Michelangelo trabalhou por tantos anos para retratar passagens bíblicas? Uma das respostas mais fáceis seria o fato de as imagens estarem na Capela Sistina, uma capela que foi propriedade particular dos papas no período moderno e que mantinha caminhos internos até a basílica de São Pedro. Além disso, essas pinturas também são enco- mendas do próprio Vaticano, cuja sede é representante da arquitetura renascentista, o que não diminui o brilhantismo de Michelangelo em projetar toda a pintura, porém demonstra que eram também artistas contratados. Entretanto, se olharmos novamente para a pintura veremos um aspecto que marca uma diferença para o que seria o esperado de uma narrativa bíblica: a imagem de um cérebro que está em volta de Deus. Seria a razão analisando a criação? Seria o conhecimento do corpo humano sendo ali exposto? Algo tão proibido e perseguido por séculos pela Igreja católica. Uma das possibilidades seria, de acordo com Fritz Baumgart (1999), a de que o Renascimento trouxe uma arte ainda inspirada pela fé, mas permeada pela razão. As respos- tas sobre uma análise tão criteriosa cabem a um especialista em arte, porém, o que trazemos Renascimento cultural e o humanismo História Moderna 2 27 para esse capítulo é justamente a relação de um conhecimento terreno e aquele que seria o bíblico, assim como a ideia de um Renascimento que deixa para trás todo o contexto medie- val e aponta o novo, o moderno. A pergunta nesse caso é: se algo renasce, outro deixa de existir? Eis a questão para se pensar o lugar que o Renascimento deveria ocupar na historiografia. Um tema visto como complexo desde o século XIX e que tem levantado questões a fim de perceber o que ele representa para o período moderno. Se o Renascimento for analisado sob o significado da palavra renascer, seria como assumir que os princípios vividos no período entre cerca de 1300 a 1600, já existiram em outro tempo. Este não seria o medieval, mas o greco-clássico, ou seja, toda a influência e o pensamento desenvolvidos durante o Renascimento não estariam relacionados ao Medieval, mas ao ápice da história de Roma, ainda na Antiguidade. Nesse sentido, o Renascimento, em especial, o italiano, foi caracterizado pelo historiador suíço Jacob Burckhardt da seguinte maneira: [...] o despertar da Antiguidade fez-se na Itália duma maneira muito diferente do Norte. Logo que cessa a barbárie na Península, o povo italiano, que é ainda meio antigo, vê claro no seu passado. Celebra-o e quer ressuscitá-lo. Em Itália, é simultaneamente o mundo e o povo que prestam homenagem à Antiguidade e querem fazê-la reviver porque recorda a todos a grandeza passada do seu país. (BURCKHARDT, 2013, p. 139) O que o historiador salienta é a ideia de que havia uma possível consciência ou au- toafirmação dos italianos, como representantes do modelo greco-clássico, seja pela herança cultural romana ou mesmo por estarem tão próximos ao território grego. Para além disso, o filósofo Eugênio Garin afirma que [...] deve porém ter-se presente que aquilo que renasce, que se reafirma, que se exalta, não é apenas, nem é sobretudo, o mundo dos valores antigos, clássicos, gregos e romanos, a que se regressa progressivamente. O despertar cultural, que caracteriza desde o início o Renascimento é sobretudo uma afirmação renovada do homem, dos valores humanos nos vários domínios: desde as artes à vida diá- ria. (GARIN, 1991, p. 9) O que Garin apresenta é uma ideia de renascimento principalmente em relação ao ho- mem como um indivíduo que pode ser analisado, pensado e que também pode conhecer o mundo que o cerca. Nesse contexto, o historiador da arte Ernst Gombrich cita Filippo Brunelleschi como um dos principais arquitetos responsáveis pelo início do Renascimento italiano (GOMBRICH, 2013). Ele seria o responsável pela conclusão da Catedral de Florença, uma construção gótica. Brunelleschi conseguiu finalizar a catedral utilizando uma nova téc- nica, em que uma parede dupla com cordas prendiatijolos na diagonal e, após tal inovação (nunca mais repetida), reinventou práticas de construção, utilizando colunas e frontões com base nas medidas dos prédios antigos de Roma. Renascimento cultural e o humanismo2 História Moderna28 Figura 2 – Catedral de Santa Maria del Fiori de Florença, construída no fim do século XIV. Fonte: fisfra/iStockphoto. A pintura do Juízo Final cobre o diâmetro de 54 metros da cúpula, assim como o re- curso da perspectiva, também associado ao nome de Brunneleschi. Entretanto, segundo Gombrich, a resolução do problema da cúpula não teria sido alcançada se Brunneleschi não conhecesse as técnicas góticas (e medievais) de construção de cúpulas (GOMBRICH, 2013). Nessa perspectiva, o Renascimento Científico (por volta do século XIV ao XVI) também ganha complexidade. Bem ao certo, Renascimento é um termo cunhado no século XIX na his- toriografia, período de lançamento de uma das obras mais famosas sobre tal processo, em 1860, A Civilização do Renascimento Italiano, do historiador Jacob Burckhardt. Este objetivou em partes compreender como o contexto do Renascimento propiciou o seu desenvolvimen- to, ao mesmo tempo em que acabou por cunhar o conceito. Ainda sobre o processo de o Renascimento ter se desenvolvido na Itália, o historiador afirma o seguinte: [...] na Idade Média, as duas faces da consciência, a face objetiva e a face subjeti- va, estavam de alguma maneira veladas; a vida intelectual assemelhava-se a um meio sonho. O Véu que envolvia os espíritos era tecido de fé e de preconceitos, de ignorância e de ilusões; o mundo e a história apareciam com cores bizarras; quanto ao homem, apenas se conhecia como raça, povo, partido, corporação, fa- mília ou sob uma outra forma geral coletiva. Foi a Itália a primeira a rasgar o véu Renascimento cultural e o humanismo História Moderna 2 29 e a dar o sinal para o estudo objetivo do Estado e de todas as coisas do mundo; mas, ao lado desta maneira de considerar os objetos, desenvolve-se o aspecto subjetivo; o homem torna-se indivíduo espiritual e tem consciência deste novo estado [...]. (BURCKHARDT, 2013, p. 106-107) Dessa forma, o historiador aponta o período medieval como obscuro e sem ideias mais subjetivas (uma ideia contrária à de Ernst Gombrich), pois tanto o homem quanto as suas práticas sociais e culturais não teriam acrescentado coisa alguma às artes. Como afirma- do, anteriormente, o indivíduo passa ser o objeto central de debate, compreensão e análise durante o Renascimento, em diversos países, porém, de forma especial, primeiramente na Itália. O historiador Jacob Burckardt traz a seguinte perspectiva: “A riqueza e a cultura, cuja exibição e rivalidade não eram proibidas; uma liberdade municipal considerável; uma Igreja que, diferindo daquela do mundo bizantino, ou do mundo maometano, não se identificava com o Estado – todas essas condições favoreciam o crescimento do pensamento individual” (BURCKHARDT, 1991, p. 82-83). Características que se diferiam de boa parte da Europa, talvez pelo contato com o Oriente, por ser passagem de tantos povos, o que trouxe conhecimentos culturais. Mas, além do cosmopolitismo, Burckhardt destaca a distância da Igreja em relação ao Estado e a possi- bilidade de enriquecimento comercial. No mesmo tom de exaltação, Burckhardt ainda frisa a ideia de que a Península Itálica foi o expoente que trouxe uma nova luz sobre um novo tempo, uma relação direta do Renascimento com o resultado do espírito histórico das cida- des italianas. Como afirma o historiador, [...] a coisa é totalmente diversa quando um povo inteiro ultrapassa outros po- vos no estudo da natureza, quando aquele que descobre novas verdades não tem que recear o silêncio e o esquecimento e pode contar com a simpatia de espíritos curiosos como o seu. É verdade que foi o que aconteceu na Itália. (BURCKHARDT, 2013, p. 222) Um povo inteiro teria tido a noção de que vivia um novo tempo e que este era o mo- derno tão esperado, ou seja, a Itália teria renovado todo um saber de forma homogênea e concisa. A despeito de tal ideia, evidentemente, o período medieval demonstrou faces me- nos toleráveis em relação à produção de conhecimento da natureza e dos próprios homens, porém isso não quer dizer que esse período não produziu características sociais e culturais que transformaram o seu tempo. Homogeneidade também não é a palavra que define a Itália entre os séculos XIV a XVI. De acordo com o historiador Peter Burke (1999), o que hoje entendemos por Itália, naque- le período eram apenas cidades-Estados em decadência, recém-dominadas pelo Império turco-otomano (em vista do fim do Império Romano do Oriente) e assombradas pela peste negra do século XIII. Uma maioria de camponeses era o que compunha a essência da po- pulação, dos quais poucos tinham acesso à educação ou às correntes artísticas, o que não significa que a cultura popular não tinha força, ou mesmo de que não havia possibilidades de circularidade cultural (analisada na historiografia pelo historiador Carlo Ginzburg sobre Mennochio no Capítulo 6). Renascimento cultural e o humanismo2 História Moderna30 O problema maior de Jacob Burckhardt para Peter Burke é justamente a relação direta estabelecida pelo primeiro entre o Renascimento e uma cultura moderna, ou seja, esta seria fruto direto do Renascimento. No século XIX, Burckhardt apontou o Renascimento como um eclipse total que, ao seu fim, gerou uma luz radiante sobre toda a Itália e depois sobre boa parte da Europa; em outras palavras, um espírito moderno, cujas características seriam: o individualismo – o estilo de cada artista (BURKE, 1999) –, a secularidade e o realismo, aspectos que finalmente teriam chegado ao velho continente medieval. Para o historiador inglês, é preciso ver uma continuidade entre o medieval e o perío- do moderno, perspectiva perceptível no contexto do Renascimento, do mesmo modo como Filippo Brunelleschi só conseguiu em um primeiro momento terminar a cúpula da Catedral de Florença porque tinha técnicas das construções góticas. Os escritores, os pintores e os escultores do Renascimento estavam muitas vezes estimulando ações individuais que, ao serem analisadas em conjunto e posteriormente, demonstram transformações daquela so- ciedade, o que Burke chama de história social do movimento. Outro motivo para que a Península Itálica cresse que era o berço do Renascimento era sua estranheza em relação ao gótico. Países como Alemanha, Inglaterra, França estiveram muito mais próximos dessa arte medieval, diferente da Itália que tinha outra realidade so- cial e cultural. 2.1.1 Humanismo: de ideias a conceito Humanismo – nomeado dessa forma no século XIX – foi um movimento intelectual ocorrido a partir do século XIV, cujas discussões centrais eram a defesa do conhecimento acerca dos seres humanos em todos os aspectos. Para o historiador Nicolau Sevcenko, o humanismo foi um programa de estudos sobre humanidades, no qual estavam inclu- sos literatura, filosofia, medicina, história, matemática, direito, entre outros, com objetivo central em compreender o ser humano e tudo o que rodeia (SEVCENKO, 1985). O antro- pocentrismo passa a ser o centro das discussões a despeito de uma perspectiva teológica para tudo. Mas, mesmo com essas influências, para Peter Burke, o Renascimento italiano não deixa de ter em seu humanismo resquícios profundos – mais do que era percebido na época – do período medieval: A ascensão do humanismo não desbancou a filosofia escolástica medieval (apesar das observações depreciativas que os humanistas faziam sobre os scholastici). Na verdade, figuras exponenciais no movimento renascentista, como o neoplatônico Marsilio Ficino, eram bem lidos, tanto na filosofia medieval como na filosofia clássica. Lorenzo de´Medici, governantes da Florença, escreveu a Giovanni Bentivoglio, governante de Bolonha, pedindo que procurasse nas li- vrarias locais uma cópia do comentário de Jean Buridan à Ética de Aristóteles, e Leonardoda Vinci estudou a obra de Alberto da Saxônia e de Alberto o Grande. (BURKE, 1999, p. 28) Se o Renascimento na Península Itálica não foi algo vivido de forma homogênea ou recorrente em seu contexto, o que foi então o Renascimento italiano? Para Peter Burke foi Renascimento cultural e o humanismo História Moderna 2 31 mesmo uma inovação das artes e não um grande florescimento das artes. Ou nas palavras do historiador da arte Ernst Gombrich: “uma coisa que realmente não existe é aquilo a que se dá o nome de Arte. Existem somente artistas [...]” (GOMBRICH, 1999, p. 16). Artistas ino- vadores, que lançam ideias que acabam por influenciar outros artistas naquele tempo ou, até mesmo, em períodos posteriores. Além disso, a arte pode ser vista como um elemento que carrega características estéticas, como também intervenções intelectuais e sociais daqueles que a produzem. Um exemplo de inovação, ao mesmo tempo em que carrega elementos de influências medievais é Giotto di Bondone (1267-1336). O afresco que verificamos a seguir pertence a ele, considerado um dos precursores das técnicas renascentistas de pintura, como a perspectiva. Figura 3 – BONDONE, Gioto di. Lenda de São Francisco – Cena Número 5: Renúncia de Bens Materiais. 1927. Afresco, 270 x 230 cm. Igreja de São Francisco de Assis, Itália. O motivo pelo qual trazemos essa imagem é o fato de haver a presença da “mão de Deus” em cima, algo percebido por São Francisco de Assis, que, por sua vez, estende a sua. A nudez (ou em partes), embora levemente escondida, também se faz presente. Reiteramos que a nudez é associada à pureza, no que se refere aos princípios cristãos do Medievo. O humanismo pode ser visto como um processo cultural que se iniciou de maneira mais velada até se tornar uma corrente mais claramente perceptível. Do século XIV ao XVI, o hu- manismo se torna uma das bases do pensamento renascentista europeu para compreender a alma e a vida de homens e mulheres em todas as suas faces, e isso explica em partes a relação da providência com a razão. Renascimento cultural e o humanismo2 História Moderna32 Francesco Petrarca (1304-1374) é considerado o humanista mais importante da Itália, por ter sido o primeiro a ecoar novas ideias, mas por diversas inovações como o estilo do soneto, com 14 versos (SEVCENKO, 1985). Os temas, tanto desse humanista, quanto de ou- tros giravam em torno da Antiguidade, como o tempo ideal. Entretanto, como historiadores (as) sempre lembramos que ninguém se sobressai totalmente a seu tempo, o que explica a relação de alguns deles com princípios que muitas vezes tentaram negar em outros tempos. Um dos maiores humanistas foi o inglês Thomas Morus (1478-1535), cujo escrito prin- cipal foi Utopia1, de 1516, palavra também criada por ele. Thomas Morus era eclesiástico da Igreja anglicana, portanto, muito próximo ao Rei Henrique VIII, como também dos pró- prios preceitos teológicos. Apesar dessas características, Thomas Morus era próximo a di- versos humanistas na Inglaterra do fim do XV e início do XVI, como o neerlandês Erasmo de Roterdã. Este último foi um dos responsáveis por sua aproximação mais profunda com o grego – e os textos – o que consequentemente, afastou o latim de seus interesses. Ideia corro- borada com o teor de seu livro Utopia, cuja base tem um Estado forte e centralizado, com res- peito às diferenças e que sai em defesa da distribuição de renda. Thomas Morus acaba sendo condenado na segunda década do século XVI por não incentivar mais o latim em Oxford, disciplina que era justamente o centro de qualquer universidade com traços medievais. O que percebemos trazendo um pouco da trajetória de Thomas Morus é que a Inglaterra demorou para ter mais discussões sobre o humanismo, prática que se deu a partir de inter- câmbios de intelectuais, mas ao mesmo tempo, mostrou-se conservadora e não sem confli- tos, como percebemos a seguir: Voltemo-nos agora para a questão da educação humanista julgada laica. Ninguém jamais afirmou que um homem tenha necessidade de grego ou latim, ou, na verdade, de qualquer tipo de educação, para encontrar a salvação. No entanto, esse ensinamento que se qualifica de secular leva a alma à virtude [...]. Eu não desejo de modo algum me colocar como o único defensor da aprendiza- gem do grego; pois sei quanto deve parecer evidente para os eruditos de Vossa Eminência que o grego é bom e verdadeiro. Para aqueles para quem isso não seria evidente, digamos que devemos ao grego toda a precisão das artes liberais em geral e da teologia em particular, pois os gregos ou fizeram grandes desco- bertas eles mesmos, ou legaram-nas em herança em seguida. Tome a filosofia, por exemplo. Se você deixar de lado Cícero e Sêneca, os Romanos escreveram sua filosofia em grego ou traduziram-na do grego. Eu verdadeiramente não te- nho necessidade de lembrar que o Novo Testamento foi escrito em grego, ou que os melhores exegetas do Novo Testamento foram gregos e escreveram em grego. [...] ora, mais da metade dos escritos gregos ainda não estão acessíveis ao Ocidente. (PHÉLIPPEAU, 2013, p. 165-166) 1 Para o filósofo Paul Ricoeur, o termo utopia inaugurou uma ideia de que é possível pensar, querer, sonhar, idealizar algo além do que se vive. Tal ideia permitiu que se pensasse, no mundo moderno, em novas práticas sociais e culturais. Dessa forma, fica subentendido que a realidade não era natural ou imutável (RICOEUR, 2015, p. 33). Renascimento cultural e o humanismo História Moderna 2 33 Em um tempo em que temos a facilidade de aprender mais de uma língua e ter acesso a ideias políticas e culturais mais diversas, parece-nos estranho a defesa de Morus apenas pelo direito de que o grego – e os escritos nessa língua – fossem divulgados. Mas é isso o que esse clérigo da Igreja anglicana fez ao expor sua vontade de trazer tais documentos. Muitas das ações de Thomas Morus eram de influência da amizade com Erasmo de Roterdã, cujo Elogio à loucura, de 1511, seria uma homenagem a Morus. O conteúdo do livro era de sátiras à Igreja católica, utilizando a ideia de loucura como despreocupada ou desprendida da realidade. O holandês foi extremamente ativo no debate da Reforma e também em relação aos dogmas de Martinho Lutero, entretanto jamais deixou de lado sua postura humanista em detrimento às religiosas. Tanto Erasmo de Roterdã quanto Thomas Morus defenderam a dinamização de novos conhecimentos sobre o homem até mesmo criticando suas respec- tivas igrejas, mas, sempre mantiveram uma fé em relação ao cristianismo. Indício disso foi a decapitação de Thomas Morus por ter-se negado a aprovar o casamento do rei Henrique VIII com Ana Bolena, a fim de justificar a criação da Igreja anglicana. Portanto, além de considerar que Thomas Morus representa um grupo que trouxe ideias gregas clássicas, mas que também manteve alguns de seus preceitos de uma forma mais tradicional, considera- mos mais uma ideia de Peter Burke, segundo o qual o Renascimento – assim como as Letras – trouxe não apenas o clássico, mas fez novas leituras do que havia acabado de ocorrer, o Medieval (BURKE, 1999). Os escritos mencionados até esse ponto não teriam sido divulgados ou mesmo reedi- tados ainda no século XVI se não fosse a invenção da imprensa de Johannes Gutemberg. Porém, tal invenção vai além de simples reedições de obras. O período moderno foi marca- do também por processos históricos como o Renascimento e o Humanismo e, nesse sentido, o que foi produzido de novidade não teria alcançado grande reconhecimento nos séculos seguintes e se desdobrado em novos acontecimentos, como o Iluminismo, a Reforma e a Contrarreforma, se não fosse a divulgação de novos ideais. Peter Burke aponta o seguinte sobre Gutemberg: Os eclesiásticos, por sua vez, temiam que a imprensa estimulasse leigos comuns a estudar textos religiosos por conta própria em vez de acatar o que lhes disses- sem as autoridades. Tinham razão. No século XVI, na Itália por exemplo, sapa- teiros, tintureiros,pedreiros e donas de casa, todos reivindicavam o direito de in- terpretar as escrituras [...] Na alta Idade Média o problema fora a escassez, a falta de livros. No século XVI o problema era o da superfluidade. Anton Francesco Doni, escritor italiano, em 1550 já se queixava da existência de “tantos livros que não temos tempo para sequer ler os títulos”. Livros eram uma “floresta” na qual os leitores poderiam se perder, segundo Jean Calvin2. (BURKE, 2002) Se há dúvida sobre a disseminação de ideias parecer uma ameaça, basta lembrar do Concílio de Trento (1545-1563), no qual a Igreja católica, na organização da Contrarreforma, 2 Jean Calvin, mais conhecido na língua portuguesa como João Calvino, foi um dos maiores teólogos da Reforma, criando e debatendo a teologia protestante. Mais informações em: GOMES, Antônio Más- poli de Araújo. O pensamento de João Calvino e a ética protestante de Max Weber, aproximações e contrastes. Fides Reformata, São Paulo, v. 7, n. 2, 2002. Renascimento cultural e o humanismo2 História Moderna34 fez o Index, uma lista de livros proibidos. Peter Burke deixa evidente o estranhamento causa- do pela possibilidade de ter tantos livros (e conhecimento). A vontade de ler todos como se fosse algum tipo de obrigação é perceptível, porém, compreendo que se trata mais de uma questão social e cultural diante das novidades vindas do humanismo. Não obstante, outro problema cercava aqueles que organizavam as bibliotecas ou de- tinham acesso aos livros. Como organizá-los? Como saber quais livros o público queria e como catalogá-los? Não tardaram a saírem os primeiros catálogos e, posteriormente, sumá- rios, índices em ordem alfabética, resenhas publicadas em revistas e, finalmente, as enciclo- pédias – estas últimas, apenas cem ou duzentos anos depois (BURKE, 2002). Era um mundo novo sendo descoberto – o mundo dos livros –, causando seus conflitos, como fica evidente na leitura de Burke: Os eclesiásticos temiam que a imprensa estimulasse leigos comuns a estudar textos religiosos por conta própria em vez de acatar o que lhes dissessem as autoridades. Tinham razão. No século XVI, na Itália por exemplo, sapateiros, tintureiros, pedreiros e donas-de-casa, todos reivindicavam o direito de inter- pretar as escrituras [...]. Os estudiosos, ou mais genericamente os que buscassem o conhecimento, também enfrentavam problemas. Observemos deste ponto de vista a assim-chamada “explosão” da informação - uma metáfora desconfortável que faz lembrar a pólvora - subsequente à invenção da imprensa. A informação se alastrou “em quantidades nunca vistas e numa velocidade inaudita”. Alguns estudiosos logo notaram as desvantagens do novo sistema. O astrônomo huma- nista Johann Regiomontanus observou, por volta de 1464, que os tipógrafos ne- gligentes multiplicariam os erros. Outro humanista, Niccolò Perotti, propôs em 1470 um projeto defendendo a censura erudita. (BURKE, 2002, p.174) O que se percebe é que ler e ter conhecimento mostrava-se também como um perigo às instituições do fim do medieval e início do período moderno. Um exemplo claro é a Igreja afirmar o receio sentido em ver seus fiéis podendo fazer as próprias interpretações bíblicas, ou mesmo a complexa ideia de um humanista em afirmar a possibilidade de selecionar o que poderia ou não ser lido pelo público em geral, o que não é nada além de uma censura. Obviamente, todo tipo de estranhamento, de receio e até mesmo de disputa é comum em situações novas, especialmente quando os poderes institucionais mais importantes de uma sociedade podem ser questionados dentro das relações de poder. Nesse sentido, apontamos o porquê de fazer essa discussão sobre as consequências do humanismo em tempos de Renascimento. Essas mudanças foram graduais, isoladas e, em algumas cidades, mais intensas. Entretanto, o que se segue nos séculos seguintes é a mudança da mentalidade de um público que antes não contestava, por não ter direito de o fazer, e que, por meio de leituras, de novos conhecimentos e organizações, passa a subverter a organização social em que estava amparado e promove revoluções (como são as vividas na Inglaterra e na França). Sobre isso, Peter Burke traz a seguinte ideia: “Todavia, a comercialização deu um grande passo para a frente no século XVIII, partici- pando do surgimento da ‘sociedade de consumo’ na Inglaterra, na França, na Alemanha e em outros países por volta de 1750” (BURKE, 2002, p. 179). Como será analisada em Renascimento cultural e o humanismo História Moderna 2 35 outras disciplinas, a sociedade do século XIX na França produziu grandes criações li- terárias, influenciando a política, a arte e a cultura daquele período, tendo por base as mudanças paulatinas na história do período moderno. Reiteramos que o humanismo não se deu com o mesmo fôlego e intensidade pela Europa. Foram apropriações, debates, intercâmbios que, ao longo do tempo, formaram o que chamamos hoje de humanismo. O historiador Sevcenko afirma o seguinte sobre isso: “É inútil querer procurar uma diretriz única no humanismo ou mesmo em todo o movimento renascentista: a diversidade é o que conta” (SEVCENKO, 1985, p. 23). O intuito de trazer ideias de Thomas Morus, Erasmo de Roterdã e Johannes Gutemberg (mesmo que poucas) é compreender a importância da atuação de um ou outro, mesmo que de forma isolada em uma noção de espaço-tempo. Com base nas considerações feitas sobre a importância do Renascimento e do Humanismo para a História Moderna, o próximo item tem como objetivo trazer ideias sobre obras e a história do Renascimento. 2.2 Arte e cultura: as formas de representação simbólica no Renascimento 2.2.1 Renascimento italiano Por que Península Itálica? O local era o ponto de encontro de mercadores para o Oriente. Ali se desenvolveram bancos ao longo dos anos, que movimentavam empréstimos, geravam juros e junto aos lucros das navegações, proporcionavam mais lucros. Duas famílias impor- tantes e representantes desse período são os Médici e os Visconti; os primeiros formaram o maior acervo de obras encomendadas por grandes nomes, como Giotto e Boticelli. Nesse mesmo tempo, é diferente se pensarmos em boa parte do restante da Europa dos séculos XIV e XV. Muitos ainda não eram Estados Nações, como a Península Itálica, ou, se eram, não tinham centralidade política, organizando sua sociedade muitas vezes por meio de feudos e pequenas vilas. De forma alguma isso significa que a Itália era moderna e o res- tante, atrasado (BURKE, 1999). Nesse sentido, é importante considerar que as artes foram inovadas de diferentes for- mas e com interesses diversos. Em geral tinham em comum o corpo humano exposto na- turalmente, tanto no que se refere ao tamanho no caso das esculturas e bustos, quanto no modo como eram pintados. Simetria, proporção, equilíbrio, realidade eram objetivos das esculturas. A ideia de movimento também é comum a muitas delas. No caso das pinturas, houve o uso da perspectiva como técnica e a tinta a óleo, tornando a pintura mais realis- ta. A imagem a seguir (Figura 4) é uma pintura românica considerada uma representan- te do período medieval, enquanto a segunda (Figura 5) está entre os maiores símbolos do Renascimento italiano. Renascimento cultural e o humanismo2 História Moderna36 Figura 4 – Anunciación a los pastores. ca. 1180. Panteón de los Reyes, Colegiata de San Isidro, León. Figura 5 – BOTICELLI, Sandro. A Primavera. 1492. Têmpera, 203 x 314 cm. Uffizi Gallery, Itália. Renascimento cultural e o humanismo História Moderna 2 37 As imagens demonstram, em especial, a diferença de sombras e de perspectiva. A primeira dá a impressão de que todas as pessoas e animais parecem estar no mesmo ângulo; já na segunda, é possível visualizar o lugar que cada um ocupa, com pessoas em lugares e profundidades diversas, isto é, é possível compreender toda a cena por meio do recurso da perspectiva. Boticelli foi um pintor do período do Renascimento e um dos maiores destaques do Quattrocentoitaliano, justamente pelo uso da perspectiva em suas obras. As inovações nesse campo da arte desejavam trazer para as obras a realidade, as nuances, os detalhes. A perspectiva realista não é diferente quando analisadas as esculturas de Michelangelo. Expor os detalhes do corpo, dominar, conhecer todas as suas funções, a sua beleza tornou-se um objetivo, o que demonstra uma mudança na visão sobre a vida e o cotidiano no período moderno. Figura 6 – MICHELANGELO. Pietà. 1499. Escultura. Vaticano. Renascimento cultural e o humanismo2 História Moderna38 Figura 7 – MICHELANGELO. Davi. 1504. Escultura. Florença, Itália. 2.3 O Barroco de Caravaggio e o protestante O Barroco é do século XVII e tem sua origem também na Itália. Guilherme Gomes Júnior traz a ideia de Afrânio Coutinho, que define o homem do Barroco como “[...] um saudoso da religiosidade medieval e, ao mesmo tempo, um seduzido pelas solicitações terrenas e valores mundanos, amor, dinheiro, luxo, posição que a renascença e o humanismo puseram em relevo. Desse dualismo nasceu a arte barroca” (GOMES JÚNIOR, 1998, p. 104). A ideia de saudade serve como símbolo para afirmar que alguns preceitos medievais voltam a ter ênfase. O uso da razão de forma separada da arte já não é tão evidente, assim como as emo- ções voltam a ser expostas nas artes. As acusações de paganismo continuam, mas com o Barroco houve diversas tentativas de reconciliação com o cristianismo. É nesse sentido que a frase de Afrânio Coutinho deve Renascimento cultural e o humanismo História Moderna 2 39 ser entendida: o homem continua sendo o foco, porém nele (e em suas representações) há um conflito entre bem e mal, razão e emoção, Deus e Diabo. As pinturas nem sempre são em perspectiva, mas acentuam partes claras/escuras, ou seja, duas perspectivas contraditórias, como também são o sagrado e o profano. Além disso, focam em emoções, sombras e temas mitológicos/religiosos. 2.3.1 Barroco Italiano e holandês As pinturas de Caravaggio, apelido de Michelangelo Merissi (1574-1610), diferenciam- -se por utilizar imagens de pessoas simples, como vendedores ambulantes e prostitutas em seus cotidianos, e também por criar sua própria luz nos quadros, a fim de direcionar o olhar de quem vê. Portanto, as pessoas retratadas tinham o rosto de outras comuns, porém o foco era pintar santos e santas, como São Mateus (Figura 8) e Santa Catarina (Figura 9). Nesta última, Santa Catarina de Alexandria fazia parte das encomendas de diversas pinturas feitas ao artista, com intuito de renovar a iconografia da Igreja católica, durante a Contrarreforma. Uma estratégia para que a Igreja tivesse destaque, frente ao sucesso do Renascimento. Figura 8 – CARAVAGGIO. A inspiração de São Mateus. 1602. Óleo sobre tela, 292 x 186 cm. Igreja de São Luís dos Franceses, Roma, Itália. Renascimento cultural e o humanismo2 História Moderna40 Já a Figura 10 refere-se ao Barroco holandês, uma pintura de Johannes Veermer, ape- lidada de “Monalisa Holandesa”. Os temas do Barroco holandês se diferenciam dos ita- lianos, devido às questões religiosas, pois, como veremos no próximo capítulo, a Reforma Protestante ocorreu de acordo com interesses burgueses, o que certamente diminuiu a cen- sura ao mesmo tempo em que tinha também por objetivo reproduzir o estilo de vida e o cotidiano burguês. Figura 9 – CARAVAGGIO. Santa Catarina de Alexandria. 1595-1596. Óleo sobre tela, 173 x 133 cm. Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid, Espanha. Renascimento cultural e o humanismo História Moderna 2 41 Figura 10 – VERMEER, Johannes. Moça com brinco de pérola. 1665. Óleo sobre tela, 46,5 x 40 cm. Mauritshuis, Haia, Holanda. A seguir uma última imagem, A Ronda Noturna (Figura 11), cujo título inicial era A Companhia do capitão Frans Banning Cocq e do tenente Willem van Ruytenburch a preparar-se para avançar, de Rembrandt Harmenszoon van Rijn. A obra retrata a inauguração de uma Companhia de Aracabuzeiros. Retratar inaugurações comerciais e destacar pessoas (alguns pagaram para ter mais ou menos destaque na obra) sem uma conotação religiosa é uma perspectiva bastante diferente do que era esperado na Itália. Nessa obra há uso de luz e sombra, uma influência de Caravaggio, com destaque para os tenentes da frente (que teriam pago a mais) e a menina em branco e dourado (que seria a mulher do pintor). Renascimento cultural e o humanismo2 História Moderna42 Figura 11 – REMBRANDT. Ronda noturna. 1642. Óleo sobre tela, 379,5 x 453,5 cm. Rijksmuseum, Haia, Holanda. Com cenas do cotidiano e de organizações sociais e econômicas, a arte desse período não estava dissociada dos interesses burgueses ou mesmo da nobreza. O período moderno estava em disputa, lançando novos valores para um novo tempo. Conclusão As artes representam muito mais que questões estéticas, pois seus recursos e suas estra- tégias revelam angústias, interesses e disputas políticas que uma sociedade ou outra podem ter. As ideias simbólicas presentes nas obras de arte demonstram aquilo que os grupos que as encomendaram gostariam que estivessem nelas representado. A História direciona seu olhar para essas produções não como meras figuras, mas como elementos que trazem ca- racterísticas do que seria uma boa religião, moral, sociedade, ética, enfim, os valores e o que movia as pessoas naquele contexto. Neste capítulo, nosso objetivo foi compreender o Renascimento como um processo que desencadeou aos poucos novos afloramentos culturais e políticos. Além disso, o Barroco foi na Europa uma resposta ao Renascimento, ao mesmo tempo em que esteve relacionado às reformas religiosas e ao capitalismo. Renascimento cultural e o humanismo História Moderna 2 43 Ampliando seus conhecimentos William Shakespeare foi um grande escritor e dramaturgo da Inglaterra vito- riana. Em sua literatura, muito além de ideias vagas e efêmeras, vulgarmente relacionadas à arte, estão presentes questões políticas e sociais. O texto a seguir explora essa dimensão shakespeariana. A dimensão política em William Shakespeare (CHAIA, 2006) A política é um conceito polissêmico e William Shakespeare foi um autor que contribuiu significativamente para delinear uma específica concepção de política. A simples leitura das peças, sua pesquisa e ence- nação sempre encontraram inúmeras entradas para um mergulho na obra deste dramaturgo. Entre tantas possibilidades, ele propicia uma abordagem política que pode ser construída a partir da seguinte fala de Hamlet: “The time is out of the joint/ O tempo está fora dos eixos”. Não se trata de uma política institucional, pois mesmo que Shakespeare desenvolva seus temas em volta do trono, com personagens envolvi- dos num embate com o poder, ele nos fala de uma política atravessada pela gravidade e pela disjunção, imprimindo significados distintos à história de uma cidade e de uma nação. Em movimentos pendulares perpétuos, constituem-se dois caminhos que estruturam e desestruturam as relações de poder nas peças de Shakespeare. O primeiro é delineado pelo par de opostos legitimidade- -usurpação, e o segundo pela dupla estabilidade-guerra. A peça Ricardo III é emblemática desses dois movimentos ao compor uma sangrenta tra- jetória política devido ao desejo e projeto de ruptura institucional e ao apresentar um astuto personagem que se encontra envolvido na Guerra das Duas Rosas [...]. Ao final da peça, com a Batalha de Bosworth Field, que encerra a Idade Média e a Guerra entre as duas casas, tem início uma nova era com Henrique de Richmond, futuro Henrique VII. Este personagem, ao vencer Ricardo III, comemora proferindo um monólogo, no qual aponta para a paz e estabilidade futura da Inglaterra: “Proclamai meu perdão para os soldados / ... / Uniremos as rosas branca e rubra. / Que o céu sorria sobre essa união, / Depois de ter chorado a inimizade. / ... / Curada a chaga, a paz é o nosso bem; / Pra quem a preservar, Deus diga ‘Amém’”. A quebra da ordem, seja pelo golpe ou pela guerra, desestabilizaa política, retirando-a Renascimento cultural e o humanismo2 História Moderna44 de seu curso normal, abrindo espaços para os mais diferentes tipos de vio- lência. Neste sentido, tem-se em Shakespeare a aproximação entre política e vida, à medida em que nada separa as duas esferas, uma vez que todos os indivíduos sofrem, direta ou indiretamente, os efeitos das ações políti- cas, sejam eles os filhos de Henrique IV, Ofélia, Romeu e Julieta, soldados e tantos outros. Esta interrupção da legitimidade não gera medo apenas no governante, mas também amedronta familiares, súditos e governados. [...] Pode-se dizer que a obra de Shakespeare, enquanto equivalência dra- mática, permite encenar autores da filosofia política como Maquiavel, La Boètie, Hobbes e Marx, até chegar em Nietzsche. Este dramaturgo faz parte desta família de pensadores que compreende a política como uma forma moderna de tragédia, ao colocar no palco os agônicos e infindáveis conflitos dos indivíduos e das sociedades. Em Shakespeare, enquanto houver ser humano, vida e sociedade, a política se desenvol- verá como tragédia. Atividades 1. Os historiadores Peter Burke e Jacob Burckhardt dão bastante importância ao Renas- cimento italiano e ao que esse processo histórico representa para a historiografia e o período moderno. Entretanto, esses historiadores têm posturas diferentes sobre tal ideia. Diferencie brevemente a postura de cada umdeles. 2. Discorra sobre as diferenças entre o Barroco italiano e o holandês. 3. Estabeleça uma relação entre o Renascimento e o período moderno. Não se esqueça de considerar o modo como a historiografia narra e constrói esses conceitos. 4. Na seção “Ampliando seus Conhecimentos”, o texto sobre Shakespeare discute uma inserção da literatura no mundo da política. Comente sobre isso, estabelecen- do uma relação entre a arte e as sociedades. Referências BAUMGART, Fritz. Breve história da arte. São Paulo: M. Fontes, 1999. BURCKHARDT, Jacob. A cultura do Renascimento na Itália. Brasília: Ed. UnB, 1991. ______. A civilização do Renascimento Italiano. Lisboa: Editorial Presença, 2013. Renascimento cultural e o humanismo História Moderna 2 45 BURKE, Peter. O Renascimento italiano: cultura e sociedade na Itália. São Paulo: Nova Alexandria, 1999. ________. Problemas causados por Gutenberg: a explosão da informação nos primórdios da Europa moderna. Estudos Avançados, São Paulo, v. 16, n. 44, jan./abr. 2002. CHAIA, Miguel. O palco do poder. São Paulo, 2006. In: PUC-SP. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. A dimensão política em Shakespeare. Disponível em: <http://www.pucsp.br/neamp/ artigos/artigo_56.html>. Acesso em: 19 out. 2017. GARIN, Eugênio. O homem renascentista. Lisboa: Editorial Presença, 1991. GOMBRICH, Ernst Hans. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999. GOMES, Antônio Máspoli de Araújo. O pensamento de João Calvino e a ética protestante de Max Weber, aproximações e contrastes. Fides Reformata, São Paulo, v. 7, n. 2, 2002. GOMES JÚNIOR, Guilherme Simões. Palavra peregrina: o barroco e o pensamento sobre artes e letras no Brasil. São Paulo: EdUSP, 1998. PHÉLIPPEAU, Marie-Claire. Thomas Morus e a abertura humanista. Morus – Utopia e Renascimento, Campinas, v. 9, 2013. RICOEUR, Paul. A ideologia e a utopia. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento, os humanistas, uma nova visão de mundo: a criação das línguas nacionais e a cultura renascentista na Itália. São Paulo: Atual, 1985. Resolução 1. De uma forma breve, a diferença essencial é o fato de o historiador Burckhardt, no século XIX, construir a ideia do Renascimento como algo totalmente diferente do período medieval, como também isento de qualquer influência. É certo que o Renas- cimento foi uma resposta a vários problemas e inquietações acerca da Idade Média, entretanto, aqueles que o promoveram inicialmente eram pessoas que viviam em organizações ainda com elementos do período medieval. É justamente esta a postura do historiador inglês Peter Burke: defender que há rupturas, porém também conti- nuidades entre os dois tempos históricos. 2. A diferença mais contundente entre o Barroco holandês e o Barroco italiano é a in- fluência religiosa/econômica. Na Itália houve uma resposta daqueles que tinham presenciado a secularização, enquanto nos Países Baixos, com a Reforma, a Igreja católica perdeu seu espaço e aqueles que tinham promovido tal mudança trouxeram seus valores burgueses. Portanto, o Barroco italiano debatia questões religiosas e pagãs, enquanto o holandês trazia cenas do cotidiano burguês. 3. O Renascimento não teria ocorrido se o humanismo não tivesse sido propagado pela Europa, isto é, a disseminação de ideias acerca do ser humano em suas organizações políticas, econômicas, sociais e culturais é fundamental para que novas perspectivas aconteçam. Elas, aos poucos, ocasionaram oportunidades de debate para mudanças políticas, de crítica social etc., elementos que permitiram novas vivências, diferentes do período medieval. Renascimento cultural e o humanismo2 História Moderna46 4. Essa resposta é um tanto pessoal, porém é preciso considerar que a arte representa o contexto em que está inserida. Não o tempo todo, em qualquer elemento, mas, a partir do momento em que a arte emerge de um período, resquícios daquela socie- dade também transparecem. Mais ainda, as obras não são meras representações, mas “ordens”, “desejos” de dizer o que algo é ou o que deveria ser. História Moderna 47 3 Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno A ideia de reformar deixa evidente que há um princípio de fazer algo novo ou de transformar algo velho. O contexto a se reformar. Portanto, reformar é dar uma nova face a algo, dar lugar a coisas novas. Nesse sentido, a Reforma, a Contrarreforma e os aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos para que ocorressem são o tema deste capítulo. Mas o que seria reformado no período moderno em relação à religiosi- dade e ao domínio tão forte da Igreja católica? É sobre a sociedade do século XVI que estudaremos na próxima seção. Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3 História Moderna48 3.1 Características da sociedade cristã A Igreja já não tinha o controle sobre a sociedade como antes do século XVI. Acontecimentos marcados por epidemias e guerras já não eram explicados de modo tão aceitável e compreensível. A chamada vontade de Deus também podia ser escolha de homens, disputas por territórios, isto é, justificativas que apenas legitimavam as hierarquias sociais e políticas. Consequentemente, a Igreja católica começava a perder sua hegemonia religiosa. Houve uma grande inquietação causada pela Peste Negra e algumas questões foram enfatizadas a partir da epidemia do século XIV, já no fim da Baixa Idade Média, como a de que os homens deveriam ter conhecimento sobre o corpo humano, a fim de sanar as doenças e evitar acontecimentos como aquele. Desse modo, a própria credibilidade da Igreja católica diminuiu, visto que suas explicações divinas já não seriam suficientes. Algo semelhante ocorreu com o resultado das Cruzadas (entre os séculos XI e XIV). Estas foram incursões europeias a Jerusalém, com intuito de dominar a Ásia e o caminho ao Oriente. Apesar das constantes derrotas até o século XIV (data da última cruzada), houve a troca de muitas influências e ideias, como conhecimentos sobre o mundo agrário, da ciência e a própria criação de entrepostos nas rotas, os quais acabaram se tornando redutos comer- ciais prósperos, alterando o cenário feudal tão peculiar ao mundo europeu. Bancos, vilarejos, novos costumes, outras religiões, tudo isso ocasionou novos olhares e inspirações a alguns europeus. Isso, pode-se afirmar, diz respeito a um novo modo de vida que estava nascendo, bastante diverso ao mundo feudal. Ao mesmo tempo, portugueses e espanhóis se lançavam ao mar, conquistando um novo mundo. Este já não se comportaria mais nos velhos princípios da Europa.Surgia um novo modo de ganhar dinheiro, de obter lucro, um gesto malvisto e condenado pela Igreja católica no período medieval.Tal mudança é grande, porém, paulatina, ou seja, a partir de 1500 são muitos os novos princípios de or- ganização comercial, político, social e cultural que vão se dinamizar aos poucos. Sobre isso, Peter Burke ressalta a seguinte tese: Uma das transformações mais evidentes foi o crescimento populacional. Em 1500, havia cerca de 80 milhões de pessoas na Europa, número que, em 1800, foi para além do dobro, 190 milhões aproximadamente. O crescimento da popula- ção levou à urbanização, pois havia menos espaço, e alguns camponeses foram obrigados a emigrar para as cidades, em busca de trabalho. Em 1500, existiam apenas quatro cidades na Europa com mais de 100 mil habitantes (Istambul, Nápoles, Paris e Veneza), mas em 1800 havia 23. Uma delas, Londres, tinha mais de 1 milhão de habitantes. (BURKE, 1989, p. 266) Burke (1989) chama atenção para o número dobrado de pessoas e para a distribuição desse aumento. Isto é, se em 1500 eram quatro cidades desenvolvidas, em 1800, esse número aumentou para 23. Londres passou a ser um centro comercial e industrial, em virtude da Revolução Industrial e de sua faceta mais importante para o mundo ocidental moderno (e o contemporâneo): o capitalismo. Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno História Moderna 3 49 É possível perceber que nestes 300 anos, as várias ideias lançadas no mundo religioso, social e político fizeram com que boa parte da Europa conhecesse uma organização mais urbana, embora isso não seja o mais comum, como o próprio Burke lembra Não se deve exagerar a escala dessas transformações econômicas. Em 1800, me- nos de 3% da população europeia viviam em cidades com 100 mil ou mais ha- bitantes. A forma dominante da empresa industrial era a pequena oficina, não a fábrica, e a produção estava apenas começando a se mecanizar no final do século XVIII. Mas as transformações foram suficientemente grandes para trazer sérias consequências sociais. (BURKE, 1989, p. 267, grifos nossos) O historiador inglês salienta: mesmo demorando cerca de três a quatro séculos para se compreender as mudanças entre o mundo feudal e o contemporâneo, as transformações já foram sentidas nos séculos anteriores. Nesse tempo, a Igreja católica já não conseguia responder ou controlar todas as inquie- tações, pois não tinha como sustentar argumentos suficientes para explicar as descobertas em outros continentes, as pragas, as epidemias, as mudanças do mundo urbano, ou seja, já não podia controlar tudo o que era pensado ou questionado. Não obstante, a Igreja não viveu seus próprios valores como eram pregados nos séculos anteriores, nos períodos mais conturbados do fim da Idade Média e início do período moderno, ou seja, em vez de pregar e praticar sobre humildade e caridade, passou a cobrar indulgências, a vender perdão por pecados, entre outras práticas bastante acentuadas no período da Inquisição. Em relação às cobranças de impostos ou qualquer tipo de incentivo pecuniário, Lucien Febvre (1992, p. 87) lembra de outro entrave à Igreja do período: a formação dos Estados Modernos. À medida que cresciam seus problemas, a Igreja testemunhava reis formando nações, fortalecendo Estados e estabelecendo governos com base nas mudanças comerciais e geográficas. A Igreja católica, seus emissários e o papa nada mais eram do que cobradores de ofertas que vinham da Península Itálica, desconhecedores da realidade e, em especial, não preocupados com o povo. Nesse contexto, os burgueses já se mostravam como uma classe forte em muitos lugares da Europa, embora nem sempre tivessem direitos políticos ou algum tipo de representati- vidade social junto à monarquia. Ainda assim, o historiador francês Lucien Febvre afirma que em relação a eles já havia o “sentimento de importância social completamente novo, e também de dignidade, independência e autonomia” (FEBVRE, 1992, p. 88). Com base nessa frase, podemos afirmar que mudanças sociais nascem de uma nova experiência, seja ela em relação a uma vida material, seja de acordo com novos sentimentos. Se retomarmos a ideia de Peter Burke (1989), não importa se levaram 300 anos, a sociedade europeia mudou a história do Ocidente. Não obstante, burgueses tinham práticas econômicas diversas às permitidas pela Igreja católica, como empréstimos de dinheiro (a juros), objetivando obten- ção de lucros e, principalmente, o acúmulo de riqueza, visto que isso também era pecado e, evidentemente, a Igreja católica deixava de ganhar suas ofertas. Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3 História Moderna50 As reformas religiosas não aconteceram apenas pelos interesses burgueses, tampouco todos os burgueses estavam envolvidos nessas mudanças. Entretanto, junto ao clima hostil que se criou em relação à Igreja católica, pelo seu comportamento dominador diante das mudanças e das descobertas, os burgueses também encontraram nas reformas um modo de não mais se deixarem controlar ou de criar outras estratégias de dominação. É importante considerar ainda a relação direta entre o absolutismo e a Igreja católica, seja pela legitima- ção de um pelo outro, respectivamente, seja pelos cargos ocupados pela Igreja. A reação de diversos grupos sociais a despeito da Igreja católica e do que ela representava no mundo político e social é o tema da próxima seção. 3.2 Reformas religiosas A melhor expressão para designar essas reformas seria Reforma Protestante, caso fosse homogênea e responsável por todas as mudanças em relação aos dogmas católicos. Sobre o período, Peter Burke afirma: “Em 1500, a Europa cristã já estava dividida entre católicos e ortodoxos1; logo, viria a se dividir ainda mais, com o surgimento do protestantismo [...] Havia os judeus [...] e havia os mulçumanos [...]” (BURKE, 1989, p. 74). O historiador segue comentando sobre as diferenças religiosas, as quais têm em comum o fato de existirem entre grupos étnicos e culturais diferentes, ou seja, para compreender a Reforma, é preciso situá-la no contexto social dos grupos que a lideraram, visto que a religiosidade também é prática cultural e faz parte da história social. Luteranos, calvinistas, anglicanos, anabatistas, huguenotes, pietistas e metodistas não apenas têm em comum pontos contra os dogmas da Igreja católica, mas têm diferenças en- tre eles. Elas ocorrem porque de esses grupos religiosos serem influenciados por diferentes aspectos de seu contexto, como também existem divergências teológicas. Tal perspectiva é evidente no trabalho de Peter Burke: O padrão formado pela interação de todos esses contrastes pode ser muito gros- seiramente resumido como uma distinção entre três Europas: noroeste, sul e les- te. Assim, a Europa do Sul, a Europa mediterrânica falava o românico, era cató- lica (com bolsões de huguenotes, mulçumanos etc.) com uma cultura ao ar livre, “a casa de pedra de quinhentas toneladas”, baixo grau de alfabetização (com bolsões de alto grau de alfabetização, na Itália do século XVI) e um sistema de valores com grande ênfase na honra e desonra. Contudo, para entender a cultura 1 Existiam disputas entre os teólogos e sacerdotes da Igreja católica do Oriente e os do Ocidente. Para estes, Jesus teve uma existência divina; para aqueles, ele teve uma vida humana, além de acreditarem na Trindade. O controle do Mar Mediterrâneo também era disputado pelas igrejas. A separação delas ocorreu no ano de 1054. Para mais leituras: CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e re- presentações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988. Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno História Moderna 3 51 de uma comunidade particular, é preciso não só situá-la dentro de uma dessas europas, mas também relacioná-las aos eixos de contrastes que acabamos de descrever. A cultura, digamos, de uma vila de pescadores bretões precisa ser vista como parte, não de um, mas de váriosconjuntos: parte da cultura francesa, da cultura marítima, da cultura céltica, da cultura católica, e assim por diante [...] De fato, a Reforma pode ter exercido atração sobre alguns grupos étnicos ou profissionais por reforçar seu sentido de identidade coletiva; dificilmente terá sido por acaso que na Transilvânia, onde conviviam três grupos linguísticos, os alemães tenham adotado de modo geral as doutrinas do seu conterrâneo Lutero, os húngaros tenham virado calvinistas e os romenos tenham se mantido ortodo- xos. (BURKE, 1989, p. 84, grifos nossos) Peter Burke evidencia sua perspectiva de que assuntos religiosos ou econômicos tam- bém fazem parte de práticas sociais e culturais e são influenciados por elas. Na citação ante- rior, na primeira parte grifada, está a ideia de que alfabetização também deve ser considera- da e, no caso citado por Burke (1989), a Península Itálica estava em evidência no século XVI. Ora, é este um dos mais importantes séculos do Renascimento, no qual mais se debateu o acesso e o direito que os homens deveriam ter de compreender a si e ao mundo que os cerca, por meio do raciocínio e da lógica. Estes confrontaram conhecimentos ou dogmas cerceados pela Igreja católica e, à medida que ela tentou controlá-los, por meio do acesso aos livros e às ideias, novas teorias e religiões surgiram a fim de suprir os questionamentos. Ao mesmo tempo, passaram a disputar dentro das relações de poder questões religiosas e culturais. A intenção de trazer a ideia de que a cultura deve ser vista em seu conjunto é para afirmar que a Reforma não foi um acontecimento homogêneo, porém, um longo processo histórico, assim como a Europa é repleta de múltiplas manifestações culturais que foram determinantes no modo como ela ocorreu em lugares diferentes. Na última parte grifada, na citação anterior, Burke afirma: “[...] a Reforma pode ter exercido atração sobre alguns grupos étnicos ou profissionais por reforçar seu sentido de identidade coletiva”. Tal pers- pectiva reforça a necessidade de uma história social sobre os costumes e a cultura popular, visto que estão estritamente relacionadas à economia, à política e a religiosidade que lhes são peculiares. No próximo subtítulo, teremos como objetivo perceber algumas nuances sobre as dife- renças entre os grupos que participaram da Reforma Protestante. 3.2.1 Luteranos A Eternidade nos céus viria pela justificação da fé, e não pelas obras doadas. Esse é um dos principais princípios da Igreja luterana, fundada pelo monge agostiniano e dou- tor em teologia Martinho Lutero, em 1517, que teria contradito vários dogmas da Igreja Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3 História Moderna52 Católica. Entre eles, estariam a crítica à venda de indulgências, a livre interpretação da Bíblia e sua tradução para outras línguas além do latim, e a salvação pela fé, não por obras, ideias bastante manipuladas pela Igreja católica. As 95 teses, propostas de mudanças de Lutero à Igreja católica, foram afixadas em 31 de outubro de 1517 na igreja de Wittenberg, data em que o Papa havia enviado um emissário para cobrar “doações”, a fim de terminar a igreja de São Pedro, no Vaticano. Seguem alguns exemplos: 32 Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência. 33 Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Deus. 36 Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência. (LUTERO, 1517) As teses não foram escritas apenas a despeito da cobrança de dinheiro proveniente do Papa, mas por uma reformulação da fé proposta por Lutero: a salvação ocorre pela fé, não pelas obras ou indulgências pagas. Este é um ponto defendido por muitos especialistas e por aqueles que idealizam as ações dele. Tal ideia tornou-se mais inquietante em Martinho Lutero após uma viagem à Roma, onde ficou incomodado com diversas situações pautadas em corrupção e avareza. O historiador Earle E. Cairns afirma o seguinte sobre o retorno de Lutero de Roma: “A partir daí a doutrina da justificação pela fé e a sola scriptura (somente as Escrituras), a ideia segundo a qual as Escrituras são a única autoridade para o pecador pro- curar a salvação, passaram a ser os pontos principais de seu sistema teológico” (CAIRNS, 1990, p. 234). Tal postura trata-se de questionamentos direcionados diretamente à Igreja católica que, por sua vez, dominava toda interpretação bíblica e pregava qual seria o modo de conseguir a salvação. Nessa época, a Alemanha ainda era um misto de reinos e regiões, cuja unificação ocor- reu apenas em meados do século XIX. Lutero vivia na Saxônia e, em seu período, a casa de Habsburgo, com apoio da Igreja católica, queria a união do Império, diferente dos príncipes regionais. Estes, aproveitaram o período em que Lutero foi excomungado da Igreja, por não pedir perdão ao papa, dando apoio a ele. Este aceitou não necessariamente por questões financeiras, mas por proteção, visto que poderia acabar em uma fogueira considerado como herege. Além disso, entre os nobres e os burgueses, também havia diferenças religiosas, uns apoiando a Igreja católica, e outros faziam críticas severas a esta. Com a polêmica de Lutero e o apoio que ele recebeu de um grupo contestador à Igreja católica, um conflito armado se iniciou nos reinos germânicos. O acordo da Paz de Augsburgo (1555), assinado na cidade de nome homônimo, permi- tia que cada região do Sacro Império Romano-Germânico escolhesse sua religião. De acor- do com a vontade do soberano de cada localidade, os súditos deveriam ou permanecer, acolhendo sua vontade, ou mudar-se de região. A Igreja luterana conquistou o seu espaço, tomando para si, nas regiões que escolheram tal religião, as terras católicas. Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno História Moderna 3 53 O acordo, porém, não deu tanta segu- rança aos anabatistas, grupos que professa- vam uma fé diferente de luteranos e calvi- nistas e que não tinham apoio algum dos Estados, visto que sempre se encontraram espalhados em diversos países da Europa e, depois, pela América. Esses grupos são os hutterites, menonitas, amishes, quakers, ba- tistas (bastante diverso dos batistas atuais) e dunkers, os quais acabaram mais sujeitos a ataques, tanto da Igreja católica quanto das reformadas. A principal diferença desses grupos diz respeito ao batismo e à vida em comunidade. Quanto ao batismo, ele seria realizado apenas por opção do batizado(a), ou seja, em idade adulta, diferentemente da maioria das igrejas reformadas e das católicas, cujo batismo ocorre ainda com recém-nascidos. A Reforma representa um período de reflexões, de debate na região germânica, não somente em termos religiosos, mas so- ciais e econômicos, visto que seu contexto alterou e influenciou boa parte da Europa. Entretanto, segundo Ernest Troeltsch, nem o luteranismo nem o calvinismo (tema da próxima seção) foram os responsáveis de imediato pelo lançamento ou associação de suas ideias às modernistas. Isso porque ambos estavam ainda muito próximos do ambiente social e cultural medieval e, no decorrer dos dois séculos seguintes, foram influenciados pelas mudanças econômicas e políticas, muitas vezes decor- rentes das ideias iluministas e anabatistas. Estas, por não estarem associadas a interesses de Estado, acabavam por ter posturas teológicas diferentes. Na citação seguinte, a ideia de conservadorismo na igreja de Lutero fica evidente: O Luteranismo é mais emocional e idealisticamente, a partir de uma ação pura- mente interna e espiritual da palavra divina. Ele prescinde de qualquer ordem eclesiástica por si só especial, particular e independente, destinada a assegurar a aplicação prática da palavra de Deus e a obrigar com todas as garantias a au- toridade civil asegui-la. Seu objetivo é simplesmente colocar a pura palavra de Deus no castiçal, e, em relação a tal ofício, precisa apenas prover a pregação pura da palavra e a administração dos sacramentos [...] E se a autoridade secular se recusa a submeter-se à palavra, o luteranismo, então, sujeito à vontade de Deus, suporta pacientemente os cruéis ataques de Satanás, que está somente muito ávido a tentar funcionários públicos e políticos à cobiça e arrogância, ou à indi- ferença. (TROELTSCH, 1951, p. 46) Figura 1 – Imagem da capa do Tratado de Paz de Augsburgo. Fonte: Wikimedia Commons. Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3 História Moderna54 Na citação, é perceptível a relação entre religião e política, diferentemente da perspecti- va medieval, na qual o Estado e a Igreja estavam relacionados. Para o sociólogo Paul Freston, os reformadores dos séculos XVI e XVII defendiam que o Estado não fosse confessional, mesmo quando o governante professasse a fé cristã (FRESTON, 2006, p. 10). Porém, há ca- racterísticas conservadoras, como a ideia dicotômica de Deus e o Diabo, a obediência que se deve a Deus, assim como à própria Igreja. O que almejamos ao trazer tal apontamento é assinalar que o protestantismo de Lutero (e de outros) carrega consigo velhos comporta- mentos, embora os critique muitas vezes, junto a novos preceitos, que nos séculos seguintes alteraram o cotidiano de diversas regiões europeias. O mapa a seguir demonstra como se espalharam os protestantes no século XVI, pouco an- tes da formação de vários Estados Modernos. Evidentemente, isso afetava toda a estabilidade da Igreja católica e despertava nos reis e príncipes negociações e disputas pelo poder, visto que se associar ou se converter a uma nova religião poderia ser uma saída, tanto em termos religio- sos quanto de administração. Na próxima seção, há mais algumas ideias sobre reformadores, os quais são responsáveis por mudanças políticas e religiosas na Europa moderna. Figura 2 – Protestantes no século XVI. Católicos RomanosMuçulmanosOrtodoxos CalvinistasLuteranosAnglicanos Protestantes: OCEANO ATLÂNTICO MAR NEGRO MAR MEDITERRÂNEO INGLATERRA RÚSSIA POLÔNIA FRANÇA Genebra. Roma. . IMPÉRIO OTOMANO IMPÉRIO OTOMANO ÁFRICA ITÁLIAESPANHA PORTUGAL Vitemberga ALEMÃES PRINCIPADOS PROVÍNCIAS UNIDAS Vitemberga ALEMÃES PRINCIPADOS PROVÍNCIAS UNIDAS SUÉCIASUÉCIA O mapa da religião após a Reforma Protestante N S LO Fonte: IESDE Brasil S/A. Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno História Moderna 3 55 3.2.2 Outros “reformadores” A livre interpretação da Bíblia e a ideia de predestinação são os dois pontos-chave do grupo liderado por João Calvino na Suíça. Acha-se absolutamente interditado à razão humana conhecer as razões da divi- na decisão de predestinar uma parcela da humanidade à vida eterna e outra à condenação eterna. O cristão deve se contentar, de acordo com Calvino, em saber que os desígnios de Deus fundam-se [sic] “sobre a gratuita misericórdia divina, sem qualquer consideração da dignidade do homem”. (LUIZETTO, 1989, p. 46) Desse modo, Calvino confirma a premissa de que a fé garante a salvação no cristianis- mo, diferentemente da perspectiva católica, que falava em obras, assim como tal citação evidencia a ideia de predestinação, a salvação como um dom de Deus. Isto é, o direito à eternidade é determinado antes do nascimento dos indivíduos, ideia diferente de Lutero, o qual afirmava que a fé era a única responsável pela salvação. Longe de objetivar chegar a uma discussão teológica, é perceptível a diferença de um dogma protestante em relação ao católico, mas também entre os próprios protestantes. Calvino estabelece diversas diretrizes de comportamento, o que chamou de ascese pro- testante. Max Weber define como seria esse estilo de vida: Ócio e prazer, não; só serve a ação, o agir conforme a vontade de Deus inequi- vocamente revelada a fim de aumentar sua glória. A perda de tempo é, assim, o primeiro e em princípio o mais grave de todos os pecados. Nosso tempo de vida é infinitamente curto e precioso para “consolidar” a própria vocação. Perder tempo com sociabilidade, como “conversa mole”, com luxo, mesmo com o sono além do necessário à saúde – seis, no máximo oito horas – é absolutamente con- denável em termos morais. (WEBER, 1982, p. 385) O protestantismo se baseava na fé, no trabalho, na boa moral. Embora permitisse o acú- mulo de bens, os prazeres mundanos (leituras de romance, danças, práticas populares de diversão) são alguns dos preceitos que não combinam com a moral protestante. Para Weber (2004), as ideias de Lutero abalaram as certezas do Vaticano, porém, não teriam a mesma eficácia ou fôlego se não fossem as pregações de Calvino, visto que as ideias dele não ficaram apenas na Suíça, mas se alastraram por toda a Europa e, depois, América, com a imigração. Burgueses, comerciantes, aqueles que emprestavam dinheiro a juros e acu- mulavam bens materiais, perceberam nessas novas religiões uma maneira de manter uma fé e enriquecer. Na Inglaterra, o oportunismo de Henrique VIII foi acentuado: o rei queria se casar com uma segunda mulher, mas não teve o divórcio consentido pelo papa e, por isso, rompeu com este e fundou a própria Igreja, cuja liderança máxima era o próprio rei, porém com rituais nos moldes católicos (organização clerical) e princípios calvinistas (batismo e eu- caristia). É importante destacar que foi apenas no reinado de Elizabeth I que o anglicanismo foi estruturado e mais aceito, por meio dos 39 artigos, de 1563, documento que estabeleceu as diferenças e a relação entre o calvinismo e o catolicismo. Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3 História Moderna56 3.2.3 Contrarreforma A Contrarreforma foi um movimento no qual várias teorias novas foram expostas, bus- cando renovar dogmas e criar doutrinas diversas aos interesses da Igreja católica, que tomou atitudes, a fim de não perder os fiéis e o poder que isso representava politicamente. Além de manter seus ritos, adoração às imagens e sacramentos, duas estratégias foram centrais nos resultados do Concílio de Trento, realizado entre 1545 e 1563. A primeira está relacionada à proibição de diversos livros, por meio do Index – lista atualizada de tempos em tempos até o século XIX –, isto é, apenas autoridades religiosas estariam permitidas a ler esses livros e a própria bíblia; um segundo ponto é o fato de terem criado a Companhia de Jesus (LUIZETTO, 1989, p. 82), a qual tinha por objetivo alcançar novos territórios, visto os muitos que tinha perdido para as igrejas anglicana, calvinista e luterana. A Companhia foi criada em 1534, por Inácio de Loyola, com o objetivo de evangelizar, catequizar e manter novos territórios no novo mundo. Tal direção se deu após o debate so- bre o trabalho das Ordens que existiam até então, afirmando que elas talvez não estivessem fazendo a ação evangelizadora como deveriam. Embora as Ordens tenham permanecido, elas foram duramente criticadas, restando à Companhia de Jesus ganhar novos fiéis a qual- quer custo, mesmo que fossem viver na América. Outra prática foi a própria Inquisição, criada em Portugal para perseguir os judeus, primeiramente (NOVINSKY, 2004, p. 49), a qual julgava e condenava a castigos ou à morte todo aquele(a) que fosse considerado(a) um herege, ou seja, que descumprisse o esperado pelos dogmas da Igreja católica. Isso se dava tanto com fieis quanto com aqueles que viviam em regiões consideradas católicas. Práticas culturais comuns ao povo também foram per- seguidas, qualquer festa da cultura popular2, dança ou ritual que parecesse mundano ou “diabólico”, como diriam os inquisidores, passou a ser julgado. O Tribunal do Santo Ofício perseguiu, julgou e matou milhares de vítimas, de vizi- nhos mal-intencionados a cientistas, como Giordano Bruno, ou mesmo mulheres guerreiras, como Joana d’Arc. A historiadora Michelle Perrot faz a seguinte afirmação sobre a caça às feiticeiras(acusação direcionada a Joana d’Arc) no fim do século XV: Estima-se em 100 mil o número de vítimas, sendo 90% por cento mulheres. A onda de repressão da qual Joana d’Arc, de certo modo, foi vítima, exacerbou-se nos séculos XVI e XVII. Fato desconcertante, pois coincide com o Renascimento, o humanismo, a Reforma. Os protestantes concordavam com os católicos que as feiticeiras eram nocivas. (PERROT, 2007, p. 89) A prática da Igreja católica não necessariamente é uma coincidência, mas uma resposta aos estudos, à arte e à direção do conhecimento ao ser humano do período renascentista e humanista. Michelle Perrot (2007) segue fazendo considerações importantes e que chamam a atenção, especialmente quando retoma ideias de Walter Benjamim para explicar o porquê de cientistas e feiticeiras serem considerados “perigosos”, uma perspectiva entre civilização 2 O conceito de cultura popular será retomado e aprofundado no Capítulo 6. Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno História Moderna 3 57 e barbárie, o progresso e a violência. Para a Inquisição e até mesmo para os protestantes, eles projetavam um futuro, estavam (in)diretamente ligados a uma ideia de progresso, de mo- dernidade, como bodes expiatórios da modernidade. Joana d’Arc, por exemplo, teria sido entregue a ingleses que dominavam o leste da França já ao fim da Guerra dos Cem Anos e foi acusada de feiticeira por ter visões sobre a guerra. Ela também sentiu o preconceito ao cortar o cabelo e lutar em uma guerra ao lado de homens. No outro lado das fogueiras, estiveram diversos cientistas, como Giordano Bruno, tam- bém queimado vivo em praça pública, ao afirmar que o universo era infinito, desprezando a postura da Igreja católica. Na Alemanha, Suíça, França e Holanda aconteceram muitas mortes, porém, como eram Portugal e Espanha os responsáveis majoritários pela América, em seus respectivos países também foram árduas as caças àqueles que não professavam a fé católica. Judeus e muçulmanos que ainda restavam foram expulsos ou convertidos à força. No reino germânico, houve conflito promovido por aqueles que não aceitavam a Paz de Augsburgo, na chamada Guerra dos 30 anos (1618-1648) (CAIRNS, 1995). O luteranismo e o calvinismo foram aceitos como religiões oficiais pela Europa apenas a partir do Tratado de Westfália. Entretanto, de forma alguma a Igreja católica diminuiu suas investidas e per- seguições aos protestantes, porém, em alguns momentos, ou em assuntos comuns, ambos concordavam, como é o caso das mulheres “histéricas e feiticeiras”. O que se percebe é que qualquer comportamento diferente do esperado da católica ou até mesmo da moral protes- tante poderia ser condenado nesse período. 3.3 O capitalismo e o cristianismo Max Weber (2004) preocupa-se em pensar a relação que proprietários do capital passam a estabelecer com o protestantismo, no qual os pertencentes às camadas sociais mais altas, e também os com as melhores qualificações, são notadamente burgueses. Para ele, uma das respostas está na ética protestante, como a vocação ao trabalho, algo apontado como dom de Deus, que eleva a moral dos homens e demonstra “amor ao próximo”. Dessa forma, os fiéis provavam sua fé por meio de seu comportamento também nas relações de trabalho (WEBER, 2004, p. 52-55). Porém, mediante a ideia de que o ser humano é salvo apenas pela graça de Deus, é pre- ciso que ele tenha uma postura correta, de trabalho e de boa moral perante o cristianismo. Essa mesma postura deve ser mais estimulada ainda, diante do ócio e da procras- tinação que não combinariam com o esperado de um protestante. Este, ao estar sempre atento ao trabalho, especializando-se cada vez mais e acumulando bens (o que nem sem- pre era o caso), acabava aproximando-se dos ideais capitalistas e burgueses do perío- do. Desde que não ostentasse, poderia acumular riqueza, diferentemente da promessa católica. Além disso, quando as premissas protestantes eram apropriadas pelos valores de mercado do mundo moderno, o julgo cristão era ignorado, ou seja, apenas o que in- teressava ao capital era acatado. Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3 História Moderna58 Ampliando seus conhecimentos O texto a seguir, de autoria de Sabrina Magalhães Rocha, faz parte de uma resenha sobre o livro Martinho Lutero: um destino, escrito por Lucien Febvre, obra na qual o historiador lança algumas ideias diferentes da idea- lização comum a Lutero. O Lutero de Lucien Febvre: uma discussão sobre biografia e história da historiografia (ROCHA, 2012, p. 283-284) [...] Febvre argumenta que a Alemanha era um território de contrastes em que a riqueza econômica se contrapunha a debilidades morais e políticas. Haveria lá grande disposição para mudanças, e várias vozes já as reclama- vam. É esse terreno que a partir de 1525 será um campo fértil para a dis- seminação do luteranismo, mas um luteranismo muito distinto daquele visado pelo próprio Lutero. A grande questão para Febvre é que, apesar de estar em um campo de efervescência de ideias políticas e sociais, Lutero não poderia ser visto como uma das vozes que clamavam por mudanças. Nota-se, então, que a interpretação febvreana promove efetivo distancia- mento das interpretações que buscavam associar a Lutero o rótulo de um revolucionário, de um reformador social e político. A tese defendida por Febvre é a de que os protestos desencadeados por Lutero não teriam ori- gem teológica ou social, mas sim psicológica. Em sua argumentação, as teses de Lutero não seriam fruto de uma análise crítica do contexto alemão, nem de uma revolta contra as degradações institucionais da Igreja Católica. A revolução de Lutero seria pessoal, espi- ritual, fruto de seu fervor religioso. Suas manifestações afirmariam antes o desejo de proclamar as “descobertas” advindas de seu contato íntimo com Deus. Para Febvre, Lutero era um profeta e não um lógico, motivo pelo qual não teria feito cálculos políticos ou ponderações. É interessante lembrar que, neste ponto, Febvre busca amparo na explicação oferecida por Nietzsche de que as ações de Lutero não se guiavam apenas por pro- cessos de ordem doutrinal, mas também moral e psicológica.Ainda no que se refere à desconstrução da imagem de um reformador político, o historiador francês argumenta que a aproximação de Lutero com o nacio- nalismo alemão só se dá a partir de 1520, momento em que ele faz seu pri- meiro manifesto de cunho mais social. No entanto, ainda segundo Febvre, Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno História Moderna 3 59 mesmo nesse momento, não é a política que move Lutero. Febvre aponta que a visão política de Lutero era curta, “pouco maquiavélica”; em seus termos, ele permanecia magnífico e ingênuo, um idealista absoluto que se colocava acima das misérias do mundo real. Sobre o papel de Lutero como um teólogo reformador da Igreja, a desconstrução febvreana passa pela afirmação de que o episódio das indulgências, entre 1515 e 1517, teve um peso pequeno na trajetória de Lutero, mas foi superestimado pela literatura. As 95 teses não seriam uma declaração de guerra, e sim uma advertência, de forma que o cisma teria sido uma iniciativa da Igreja Romana e não propriamente de Lutero. [...] O Lutero de Lucien Febvre é, por todos os aspectos (nas formas de pensar, sentir e agir), definido como um alemão, um homem plenamente inserido em sua “raça”, inserido em seu país. Febvre afirma que Lutero sentia e pensava como um alemão, como um ser marcado por profundo idealismo e introspecção. Sugestão complementar LUTERO. Direção de Eric Til. Los Angeles: MGM, 2004. 124 min. O filme narra a trajetória de Martinho Lutero, líder e fundador da Igreja luterana. O foco está nas suas convicções de fé e também no repúdio sentido em relação à corrupção e à manipulação da Igreja católica no que diz respeito ao conhecimento bíblico. Atividades 1. Escolha três características entre sociais, culturais, econômicas ou políticas dofim do período medieval e do início da Idade Moderna que proporcionaram as condições ideais para a Reforma Protestante. 2. Estabeleça uma característica sobre os primeiros protestantes – Lutero e Calvino – que nos fazem perceber diferenças com o período medieval. 3. Quais são os dois aspectos mais importantes que se diferenciam dos dogmas da Igre- ja católica em relação às propostas de Martinho Lutero e de João Calvino? E como isso afeta A Igreja católica? 4. Faça uma pequena análise sobre o modo como Lucien Febvre descreve Martinho Lutero e a sua identidade. Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3 História Moderna60 Referências BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna: Europa, 1500-1800. 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Existem várias circunstâncias que proporcionaram as condições ideais para a Refor- ma Protestante: a desilusão com a Igreja católica, em relação à cobrança de impostos, venda de indulgências etc.; o esquecimento da propagação da fé em detrimento de questões financeiras, corrupção, avareza; um debate teológico diferente do esperado por alguns, como Martinho Lutero, após a leitura da Bíblia; a abertura do Renasci- mento e os questionamentos direcionados à visão de mundo medieval (característica da Igreja). 2. Ambos os teólogos, no século XVI, defendiam a relação próxima entre religião e política, porém o Estado não poderia professar ou incentivar a fé cristã ou mesmo ser organizado com base em princípios cristãos. Desse modo, a postura política de alguém poderia ser confessional, mas o Estado, não. 3. A salvação viria pela fé, e não por obras, e a leitura da palavra seria independente. No primeiro ponto, a Igreja perderia muito do seu poder financeiro, visto que não receberia mais por “dar ou orientar” a salvação; no segundo ponto, a livre interpre- tação daria autonomia ao fiel para que compreendesse e cresse da forma como lhe conviesse. Mesmo que nesse período uma maioria fosse analfabeta, a liberdade em poder fazer já acarretava em a Igreja perder seu domínio. 4. A postura do historiador Lucien Febvre se dá quando o teólogo Martinho Lutero começou a questionar as posturas da Igreja católica, nas regiões germânicas já ha- via outras críticas ao domínio da Igreja, assim como em relação à corrupção interna presente na instituição. Lutero, portanto, encontrou um local profícuo para as suas ideias a partir de 1525, mas elas não foram somente revolucionárias por partirem do teólogo, e sim pelo encontro ocasionado com as circunstâncias germânicas. No Sacro Império Romano-Germânico havia questões econômicas, políticas e sociais impor- tantes que encontraram em Lutero formas de criticarem o seu contexto, enquanto ele tinha no sentido espiritual sua força para impor suas ideias. História Moderna 63 4 As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII O que os levava – perguntou Arthur Young – a abandonar o campo limpo e saudável em troca de uma região suja, fedorenta e “ruidosa”? (WILLIANS, 1989, p. 205) De meio milhão de habitantes em 1660, entre 1700 a 1820, a Inglaterra passou a ter cerca de 1 milhão e 250 mil pessoas (WILLIAMS, 1990). Se estava tão povoada, o que fez com que se intensificassem as migrações naquele período? A Inglaterra do século XVII foi palco de muitas mudanças políticas e sociais, as quais interferiram significa- tivamente na história do país, do absolutismo e, consequentemente, do mundo capi- talista ocidental. Nesse período, havia uma relação direta entre sociedade, política e religião e compreender essa perspectiva permite-nos perceber como a Inglaterra teve a história alterada. Esse é o tema essencial do capítulo, porém, não o único, visto que, para compreender contra quem a burguesia travou tantos conflitos, é preciso entender o que é o absolutismo e como estava organizado. Em seguida, a intenção é trazer algu- mas perspectivas sobre as questões agrárias da Europa no período moderno, relacio- nando esse tema à própria perspectiva capitalista industrial. As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4 História Moderna64 4.1 O absolutismo no Ocidente e teóricos do absolutismo No mundo medieval, predominava uma sociedade estamental, marcada por sobreno- mes, berços e a descendência do sangue. A tríade clero, nobreza e servos seria mais co- mum e, em geral, as distinções ocorriam pelo nascimento. O período moderno tinha sua hierarquia social e política, como sabemos, bastante limitada e controlada, entretanto, com um diferencial: o dinheiro ou o poder adquirido por herança ou por comércios até então desconhecidostambém permitiram ascensões sociais inesperadas. Isto é, o “sangue azul” nem sempre era o suficiente para delimitar lugares e status social, especialmente após às Revoluções Francesa e Industrial, como afirma Hobsbawm: A realização crucial das duas revoluções foi, assim, o fato de que elas abriram carreiras para o talento ou, pelo menos, para a energia, a sagacidade, o trabalho duro e a ganância. Não para todas as carreiras nem até os últimos degraus supe- riores do escalão. (HOBSBAWM, 2013, p. 298) Dessa forma, o absolutismo é o poder político em que o rei controla tudo que está à sua volta junto à nobreza e à burguesia, desde a organização política de seu reino, até a resolução das questões sociais e do cotidiano. Para conseguir sobreviver com impostos e sem trabalhar, estabelece uma rede na qual pode confiar (na maioria das vezes), o que podemos chamar de sociedade de corte. Lembremos que, no período feudal, a maior parte das decisões políticas era restrita ao seu respectivo feudo, tendo o rei e a própria Igreja pouco poder fora deles. Com o período moderno, os reinos reorganizaram-se, concentraram sua população em vilas e cidades próximas e instituíram cargos para aqueles em que confiam. Isso gerou o que chamamos de sociedade de corte, a qual formou o Antigo Regime (período moderno e de transição do fim do medieval, no qual o caráter absolutista se torna uma prática em todos as áreas). Sobre esse último aspecto, o historiador Alexander Martins Vianna afirma que o termo absolutismo apenas foi utilizado no fim do século XVIII e no início do XIX, na medida em que Estados Nações se formavam e o Executivo formava-se de acordo com o contexto de seu tempo (VIANNA, 2008). Nesse caso, a fim de não ser marcado pela mesma política moderna, foi chamado de absolutista.Tal poder se configuraria, e é entendido neste capítu- lo, da seguinte forma: “[...] a sua autoridade é ratificada e acionada no território através dos corpos de privilégios, cuja aceitação é construída e transformada ao longo do tempo conforme costumes, tradições ou conveniências conjunturais” (VIANNA, 2008, p. 3). Além disso, salientamos que qualquer perspectiva autoritária relacionada a esse tipo de poder, não era necessariamente sentida em tal período, visto que era o tipo de organização política reconhecida e legitimada por quem a vivia. Quando alguns grupos passaram a reivindicar outra organização política, econômica e social, promoveram as revoluções liberais, as quais encontraram meios e novos acordos de convivência social e de classe. Essas novas normas formam o que chamamos de Estados Modernos que, nesse caso, têm como governo práticas absolutistas. Para sobreviver e comandar esses governos absolutistas, As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII História Moderna 4 65 reis e rainhas, que muitas vezes permaneciam em seus palácios, destinavam cargos admi- nistrativos e terras que eram compensadas com impostos, especialmente dos burgueses. Consideremos ainda que nobres nem sempre pagavam impostos tão pesados quantos bur- gueses, porém, ao mesmo tempo não compravam tantos títulos como estes, já que sua fonte de dinheiro era mais restrita em relação aos que praticavam o comércio e a indústria, de acordo com o mundo capitalista moderno. O historiador francês Emmanuel Le Roy Ladurie (1994) traz algumas ideias de como seriam as concessões, a fim de entender a sociedade de corte, sua sobrevivência, assim como suas relações com reis e rainhas. Importante conside- rarmos que, em especial, na camada chamada nobreza togada, uma maioria era de burgueses compradores de título. Nesse sentido, O cargo permite a seu detentor cumprir em defesa do rei, funções essencialmente ligadas às jurisdições e à administração destas. O cargo existe em virtude de um édito ou de “cartas de provisão”. Só pode ser criado pelo rei ou por seus agentes devidamente autorizados [...] O cargo confere honra e privilégios, aí incluídas eventualmente a nobreza e a isenção de impostos. O cargo é estável: o rei só pode destituir o funcionário muito dificilmente, e isso limita na mesma proporção a arbitrariedade da monarquia dita absoluta [...] Luís XIII a Luís XIV, ele cria e liquida sem cessar novos fragmentos de poder público. Lotei-os a candidatos compradores, a fim de encher seus cofres. (LADURIE, 1994, p. 26) A venda e a troca de favores, em especial por parte daqueles que conseguem os novos títulos, ficam evidentes na citação de Ladurie. Eram cargos públicos, novos na maioria, po- rém, caso fosse a vontade do rei, também podiam ser disponibilizados os cargos antigos. Desse modo, seu mundo torna-se organizado de acordo com a sua vontade, aliada à de nobres e burgueses. Entretanto, não sem conflito, como podemos perceber no trecho do sociólogo Nobert Elias: [...] as vantagens do príncipe aumentam num campo social organizado em or- dens, mesmo que o poder social efetivo que as funções sociais conferem na se- quência do predomínio crescente da economia monetária aos grupos burgueses e aos grupos aristocráticos impeça que qualquer deles ganhe a luta pela prepon- derância absoluta. O príncipe governa, seu governo é absoluto porque qualquer das camadas rivais precisa dele, porque se pode servir de qualquer delas contra a outra [...]. (ELIAS, 1987, p. 141, grifos nossos) O poder social do rei se dava à medida que suas ordens sociais (o modo como coman- dava a sociedade de corte) controlava seus interesses maiores e dava segurança àqueles que conviviam com ele. Suas inclinações eram corroboradas pelos interesses de uma burguesia e da nobreza, os quais formavam um corpo social junto à vontade do rei. Conforme Elias (1990), sua preponderância era absoluta, prática que existia não somente pela pretensa su- perioridade do rei, mas pela necessidade de colocá-la em prática a fim de manipular suas predileções e daqueles que estavam sob seu governo. A vivência no cotidiano da sociedade da corte também diz respeito ao que se espera de um governo absolutista – o comportamento, a distinção, aquilo que difere. Lembremos que no período medieval, o comportamento no ato de comer, vestir-se ou de portar-se, não era tão As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4 História Moderna66 importante, tanto pelo peso das práticas religiosas quanto por questões culturais. As socieda- des das cortes europeias do período moderno são diferentes. Segundo Norbert Elias, há [...] um padrão moral e costumes, isto é, tato social, consideração pelo próximo, e numerosos complexos semelhantes. Nas mãos da classe média em ascensão, na boca dos membros do movimento reformista, é ampliada a ideia sobre o que é necessário para tornar civilizada uma sociedade. O processo de civilização do Estado, a Constituição, a educação e, por conseguinte, os segmentos mais nume- rosos da população, a eliminação de tudo o que era ainda bárbaro ou irracional nas condições vigentes, fossem as penalidades legais, as restrições de classe à burguesia ou as barreiras que impediam o desenvolvimento do comércio – este processo civilizador devia seguir-se ao refinamento de maneiras e à pacifica- ção interna do país pelos reis. (ELIAS apud MARQUES; BERUTTI; FARIA, 1999, p. 61-62) Percebemos interesses estabelecidos em comum, com base em uma ideia de como ci- vilizar uma sociedade moderna, ou seja, organizar e estabelecer preceitos que corroborem com interesses absolutistas, mas também de burgueses, de nobres e civilizados. Desde o comportamento à mesa, aos debates sobre o que era prudente ou não falar. Entretanto, o poder absolutista barrava mobilidades dos burgueses, impedindo leis ou debates maiores sobre indústria ou comércio, além de muitas vezes não dar direitos políticos. As classes mais simples eram também punidas naquilo que não apresentavam, tanto no comportamento quanto na falta de algum pagamento. A burguesia, por sua vez, não aceitou as limitações, embora isso tenha ocorrido em contextos diferentes na Europa. A sociedade decorte determinava o modo como o seu Estado moderno deveria ser organizado, de acordo com sua preferência econômica e social. Elias (1990) ainda ressalta as diferenciações existentes entre os títulos, filhos legítimos ou ilegítimos, sagrados ou pro- fanos, casamentos mais vantajosos financeira ou politicamente. A sociedade de corte foi se tornando civilizada, os valores das classes mais abastadas se transformaram nos valores universais, e a burguesia, que até o século XIII nem era vista como uma classe, passou a ter o direito de comprar o seu lugar, como também se habituou a ter discussões políticas. Tal perspectiva foi muito evidente tanto na Revolução Inglesa quanto na Francesa, na qual apenas compras de títulos ou uma leve participação política já não eram suficientes. Como afirma Elias (1990), o período anterior às revoluções foi de treinamento político. Esse mundo social baseado em cargos e comissões também tinha o direito de explorar o reino, por meio de terras, concessões, postos de impostos etc. Ao mesmo tempo, quem tinha alguma vantagem no reino também estava presente na sociedade de corte, sendo controlado pelos demais e pelo rei. Porém, é importante lembrarmos a hostilidade que havia de nobres em relação aos burgueses – cada vez mais poderosos economicamente e exigindo lugares como os dos nobres. A burguesia passou a fazer parte do poder político por meio de cargos comprados ou indicados (como ocorre na Câmara dos Comuns e dos Lordes na Inglaterra). Contudo, conforme estudamos, os reis absolutistas na maioria das vezes faziam prevalecer sua vontade, ou seja, concediam direitos desde que não fossem confrontados, por meio de acordos ou, conforme Vianna, os grupos sociais viviam As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII História Moderna 4 67 [...] num exercício de flexibilidade voltado para a conquista periódica do presen- te, ou seja, uma abertura de mente para um horizonte expansivo de experiências, de modo que se possa dominar o imprevisto, empurrar o herdado – reconfigu- rado – para frente e, assim, evitar qualquer atitude radicalmente ruptiva com o passado. (VIANNA, 2008, p. 12) Por períodos variados, conforme o Estado moderno, a burguesia, como classe, buscou conquistar seu lugar político por meio de suas investidas econômicas, disputando lugares com a nobreza. Entretanto, a partir de 1600 na Inglaterra, isso já não era suficiente, visto que os nobres não produziam ou praticavam o comércio, que fazia parte da base industrial capitalista implantada no país. Mas, se a burguesia estava tão insatisfeita e os nobres produ- ziam pouco, como o rei tinha tanta força? Muitas das ideias absolutistas estavam embasadas em teorias pensadas naquele período por filósofos como Jean Bodin, Nicolau Maquiavel, Thomas Hobbes e Jacques Bossuet. Maquiavel defendia, em seu livro O Príncipe, que o soberano deveria ter um caráter do- minador para que a ordem fosse e se mantivesse estabelecida, assim como a política estaria acima de qualquer preceito moral ou social. Embora tivesse tais perspectivas, vale ressaltar, no que se refere à política, o destaque e a preferência pela ideia de república, entre os concei- tos sugeridos por Maquiavel nos contextos analisados (BIGNOTTO, 2003). Jean Bodin, já em meados do século XVII, afirmou que o trono real era como algo divi- no, isto é, reis eram representantes de Deus e, tal como este, não deveriam ser questionados. Tal perspectiva defendia a concessão ilimitada ao rei. Nada havendo de maior sobre a terra, depois de Deus, que os príncipes sobera- nos, e sendo por Ele estabelecidos como seus representantes para governarem os outros homens, é necessário lembrar-se de sua qualidade, a fim de respeitar-lhes e reverenciar-lhes a majestade com toda a obediência, a fim de sentir e falar deles com toda a honra, pois quem despreza seu príncipe soberano despreza a Deus, de Quem ele é imagem na terra. (BODIN, 1986) Nota-se que essa teoria surgiu já quase finalizada a Revolução Burguesa, na Inglaterra, o que demonstra uma disputa entre o Antigo Regime e uma nova política, já baseada em al- gumas ideias iluministas. Bodin (1986) deixa evidente a postura de total obediência exigida pelo absolutismo, retirando qualquer ideia de democracia ou, principalmente, de igualdade às classes. Thomas Hobbes, em O Leviatã, defende que em nome do bem-estar de uma sociedade, a liberdade deve ser deixada de lado e conduzida por um representante maior. Para ele, [...] o único caminho para criar semelhante poder comum, capaz de defendê-los contra a invasão dos estrangeiros […], assegurando-lhes de tal modo que por sua própria atividade e pelos frutos da terra poderão alimentar-se a si mesmos e viver satisfeitos, é conferir todo o seu poder e fortaleza a um homem ou a uma assembleia de homens. (HOBBES apud ARTOLA, 1973, p. 327) Hobbes confirma a necessidade de se ter um representante ou representantes, mes- mo que de maneira absoluta, visto que eles teriam o poder sobre os demais. O rei seria o As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4 História Moderna68 responsável pela proteção, permitindo que todos produzissem e vivessem suas vidas de forma segura. Nesse contexto, as reformas protestantes ocorridas na Europa do século XVI também expuseram as diversidades políticas, sociais e de interesses econômicos, isto é, fomentaram, por meio de discursos religiosos, diferentes posturas econômicas. Se na França a revolução que confrontou o absolutismo ocorreu no século XVIII, na Inglaterra tal discussão é do início do século XVII. É sobre esse tema que estudaremos na próxima seção. 4.2 As revoluções burguesas dos séculos XVII e XVIII As revoluções burguesas que aconteceram na Inglaterra podem ser divididas em duas: a Revolução Puritana (1644) e a Revolução Gloriosa (1688). Entretanto, elas fazem parte de algo maior, com continuidades e mudanças, na qual a burguesia da gentry1 conseguiu o seu lugar no mundo sociopolítico inglês após as reformas da Igreja. Edward Palmer Thompson et al. (2001), da New Left Review2, salientam, sobre as revoluções burguesas inglesas, um diferencial: nesse caso, a participação majoritária política foi de burgueses, de fato, e não da plebe, um aspecto diverso ao dos séculos XVIII e XIX, em que o operariado manifestou-se buscando direitos sociais. O historiador Christopher Hill (1987), também pertencente à New Left Review, afirma que as revoluções travaram uma guerra de classe e que seu desfecho foi a ascensão da bur- guesia e a diminuição do poder absolutista. Entretanto, embora o caráter popular não faça parte das revoluções burguesas, isso não as diminui como um acontecimento social no qual diversos grupos participaram, tais como: as gentrys, a alta burguesia inglesa, os quakers, os levellers e os anabatistas. No século XVII ainda havia a resistência de católicos e de agricultores mais conservado- res, apoiadores do rei Carlos I. Entre eles, era comum haver camponeses pagando tributos em dinheiro ou por trabalho – a maioria. Isso sustentava os donos de terras. Muitas vezes, o trabalho era a moeda mais comum, de acordo com o historiador. O que Christopher Hill (1983) retoma sobre esse período é a ideia de que, desde os dois séculos anteriores, outros grupos sociais e religiosos, como os anabatistas, anglicanos etc., já se colocavam aos poucos em uma agricultura considerada mais progressista. 1 Pequena nobreza dona de terras e pertencente à religião anglicana ou às novas protestantes, a qual não tinha os mesmos poderes da alta nobreza, mas dispunha de cargos na Câmara dos Co- muns do Parlamento. 2 Revista fundada no ano de 1960 por um grupo de debate marxista, composto por Christopher Hill, Edward Palmer Thompson, Eric Hobsbawm, Stuart Hall, Perry Anderson, entre outros. A principal discussão do grupo nesse período foi buscar uma nova perspectiva para analisar o marxismo oci- dental diante dos acontecimentos do século XX – em especial, devido às apropriações do marxismo soviéticoe/ou ortodoxo – e a sua relação com as práticas culturais, postura que rompeu com o de- terminismo econômico. As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII História Moderna 4 69 Isso nada mais era do que uma economia voltada à indústria, longe de uma ideia de subsistência ou de troca, como eram os costumes mais feudais. Tal estímulo vinha de um contexto influenciado pela Lei dos Cercamentos, prática de cercar terras antes comunais (de servos do período feudal) a fim de estimular a criação de ovelhas e, consequentemente, a in- dústria têxtil que estava se tornando mais intensa. O historiador Raymond Williams (1990), também da New Left Review, faz a seguinte observação sobre essa lei: À medida que a economia se desenvolve, não se pode isolar completamente o processo de cercamento de melhoramentos que vão ocorrendo rotineiramente no campo, as transformações no método de produção, a oscilação dos preços e aquelas mudanças nas relações de propriedade de caráter mais geral que es- tavam todas caminhando na mesma direção: o aumento da extensão de terras cultivadas, porém, ao mesmo tempo a concentração da propriedade nas mãos de uma minoria. (WILLIAMS, 1990, p. 138) Essa determinação foi instituída por Elizabeth I e teve no reinado de Jaime I, a partir de 1603, sua legitimação. Tal postura mudou o cotidiano de ingleses tanto no campo quanto na cidade, visto que alterou o número de manufaturados, assim como o custo de vida, visto que poucos puderam continuar a produzir o próprio alimento. Destes, muitos passaram a formar a classe operária do período industrial, de 1650-1750. A lei também expropriou di- versos camponeses, concentrado a terra nas mãos de poucos, como as gentrys, diminuindo as aldeias, ao mesmo tempo em que foi a causa de grandes êxodos rurais. Ainda sobre isso, Williams aponta o seguinte: A importância social dos Cercamentos, pois, não é eles terem introduzido na estrutura social um elemento inteiramente novo, e sim o fato de, abolirem as úl- timas aldeias onde vigorava o sistema de campo aberto e os direitos comuns, em algumas das regiões mais populosas e mais prósperas do país, complementarem a pressão econômica geral sentida pelos pequenos proprietários e, especialmen- te, pelos pequenos arrendatários; em muitos casos, os cercamentos até foram causados por tais pressões. (WILLIAMS, 1990, p. 138-139) A citação expõe o problema social ocasionado pela expulsão de camponeses que tinham práticas culturais de vida comuns, tradicionais e que não são reinseridas no contexto urbano ou rural de modo adequado. Além dos conflitos no campo e na cidade, é possível pensar sobre a ausência do direito de reconhecimento da terra e de uma lei (conforme estudaremos na próxima seção). Williams (1990) segue falando sobre os cercamentos, principalmente salientando que, a partir do século XVIII, tais determinações foram realizadas por meio de decretos do próprio Parlamento, isto é, com uma documentação mais evidente, com um confisco legal e que não dava margem a dúvidas ou contestações. Essa prática significou a expulsão de camponeses e obrigatoriedade na inserção e efetivação de um novo sistema social capitalista industrial. Nesse caso, percebemos que a Lei dos Cercamentos favoreceu a burguesia na virada dos sé- culos XVI a XVII em seus interesses de mercado, comércio e de acúmulo de dinheiro, mesmo que de modo menos intenso em relação ao século XVIII. As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4 História Moderna70 Se a Inglaterra já tinha um contexto marcado por novas ideias, como a progressista, por que foram necessárias duas revoluções e a decapitação de um rei? Estudaremos a respeito disso também na próxima seção. 4.2.1 A Revolução Puritana Christopher Hill (1983) lembra-nos sobre os Tudor, poderosa dinastia inglesa que teve no rei Henrique VIII e na rainha Elizabeth I seus dois principais monarcas. O primeiro, pai de Elizabeth I, foi o responsável pelo rompimento com a Igreja católica sob o pretexto de divorciar-se da mãe de Elizabeth. Isso acabou dando a ele todo o poder sobre a instituição religiosa na Inglaterra, ou seja, sobre todas as terras, propriedades e, principalmente, o po- der de controlar o que era dito nos cultos. Não obstante, Elizabeth I continuou o legado de seu pai e retirou de vez qualquer in- fluência católica do poder real e também controlou os conflitos civis sobre esse tema, com o apoio de puritanos ou calvinistas. Ela aliou aos seus interesses políticos uma religião – a anglicana – nem tão protestante, nem tão diferente da católica, especialmente com o apoio da pequena nobreza. Sabemos que ela tinha administradores dos rituais religiosos, incluin- do pastores e leigos, os quais estavam em cada missa espiando, uma prática que significava defender “[...] a ordem vigente, e era importante que o governo mantivesse o seu controle sobre esta agência de publicidade e propaganda” (HILL, 1983, p. 20). Controlar a Igreja, os sermões realizados, a fim de não permitir qualquer intenção que fosse diversa à opinião da realeza, ou melhor, daqueles que também determinavam o que era ou significava a Igreja do momento. Outra estratégia lançada pela rainha Elizabeth I – e já realizada por seu pai – foi a venda e a administração de bens, propriedades de terra e de regiões antes dominadas pela Igreja católica, pelos gentrys (STONE, 2000). Desse modo, a rainha conseguiu recursos financeiros e apoio dessa população que crescia em número e força econômica – afinal, eram burgueses e mercadores puritanos ou calvinistas – ao mesmo tempo em que diminuía o poder da no- breza mais conservadora. Elisabeth I agradou a uma maioria (burguesia), ao mesmo tempo em que desagradou uma ala conservadora. Entretanto, com o passar das gerações, o domínio da Igreja diminuiu, não em relação à quantidade de fiéis, mas às pregações da Reforma, nas quais a Bíblia passava a ser traduzida e interpretada por qualquer um que pudesse ler, assim como pela noção do direito divino dos reis, que passaria a ser cada vez mais condenado pela burguesia. Portanto, entre Elizabeth I e Carlos I (22 anos apenas), a Reforma, suas consequências e reflexões alcançaram todos os espaços sociais que poderiam. Desse modo, o poder dos Tudors sobre as classes em geral, significativo ao menos por três gerações (Henrique VII, Henrique VIII e Elisabeth I), já não era o mesmo no período do rei Carlos I. Segundo o historiador Hill, Pela mesma razão pretendiam derrubar o estado feudal [e] tinham de atacar e de obter o controle da Igreja. É por isso que as teorias políticas tendiam a ser en- volvidas em uma linguagem religiosa. Não é que os nossos antepassados do sé- culo XVII fossem muito mais conscienciosos e santos do que nós... [...] Podemos As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII História Moderna 4 71 hoje ver nossos problemas em termos seculares, precisamente porque os nossos antepassados puseram fim ao uso da Igreja como um instrumento exclusivo e opressor do poder político [...]. (HILL, 1983, p. 21) Hill (1983) aponta que qualquer um cujo objetivo fosse contestar a ordem política e social vigentes deveria conquistar seu espaço na Igreja, mesmo que fosse com palavras em tons cristãos, a fim de propagar novos ou outros ideais. O conteúdo religioso continuou a apresentar uma dimensão política, conforme podemos compreender na citação do histo- riador inglês, porém, a Igreja torna-se também um palco de debate, no qual se refletem as questões sociais e políticas que incomodam aqueles que a frequentam. Essa postura, segundo ele, deve-se à Revolução Puritana que, com mensagens utili- zando palavras e expressões cristãs, levou à frente da Igreja anseios sociais e políticos. Ao trazer as ideias de Christopher Hill, visamos compreender como essa revolução foi social e política. Ainda, é a perspectiva religiosa tomada de acordo com as especificidades de cada classe, percebida já em 1603 (ano da morte de Elizabeth I): A senhora Hutchinson, mulher deum dos coronéis de Cromwell, disse que eram considerados Puritanos todos os que se opunham aos pontos de vista dos corte- sãos indigentes, dos sacerdotes orgulhosos e usurpadores, dos visionários deso- nestos, da alta e da pequena nobreza lascivas... quem quer que pudesse tolerar um sermão, hábitos ou conversação modestos, ou qualquer coisa boa. (HILL, 1983, p. 22) Nas memórias autobiográficas do coronel Hutchinson, a percepção de sua mulher é tomada pelo historiador como um exemplo de que a religião puritana não estava dissociada de interesses e de conflitos de classe. O fato ocorrido em 1603 também demonstra o período conturbado que foi o vivido logo após a morte da Rainha Elizabeth I. Embora seu paren- te distante, o Rei da Escócia Jaime I, tenha assumido o trono de modo pacífico, católicos desde então não aceitaram a confirmação de que a Igreja católica não voltaria a predomi- nar. Desse modo, Jaime I fez acordos com representantes da alta nobreza, para diminuir os ânimos. Porém, os problemas não pararam nesse aspecto. Como afirmamos anteriormente, Henrique VIII e Elisabeth I haviam vendido diversas instituições católicas (compradas pelas gentrys), cujas arrecadações foram gastas sem grandes investimentos. Nesse contexto, para que Jaime I conseguisse manter seu reinado de acordo com os tem- pos mais áureos e ricos ingleses, deveria aliar seus interesses aos da Câmara dos Comuns (composta por uma maioria de gentrys puritanos) e aos do Parlamento (formado pela no- breza católica) (STONE, 2000). Obviamente, havia uma disputa nas votações de leis entre a Câmara dos Comuns e o Parlamento; tal rivalidade tornou-se mais intensa quando Jaime I dissolveu o Parlamento por sete anos, quando não concordou com alguns impostos propos- tos por ele. No ano de 1625, após o falecimento de Jaime I, seu filho, o rei Carlos I assumiu o trono e logo entrou em uma guerra fracassada contra a França. Para resolver os problemas decor- rentes dos gastos da guerra, emitiu novos impostos – postura rechaçada pelo parlamento. Este, em represália, foi fechado por Carlos I, em uma evidente ação absolutista, a qual foi As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4 História Moderna72 ainda mais criticada quando passou a perseguir os puritanos. Entre idas e vindas com o par- lamento nas duas décadas seguintes, Carlos I – casado com uma católica – obrigou a Escócia a aceitar o anglicanismo. Por isso, também foi criticado naquele país. No ano de 1642, após uma segunda negação de Carlos I em obedecer à Declaração de Direitos – documento emiti- do primeiramente em 1628 –, o Parlamento contestou a postura absolutista do rei. A partir dessa data, Carlos I passou a ter diversos conflitos, em especial, com a Câmara dos Comuns, na qual a maioria era de gentrys. Um deles era Oliver Cromwell. Porém, os grupos envolvidos no decorrer dos anos foram além das gentrys, pois para que ganhassem mais força, também incentivaram os interesses das plebes. Por meio de panfletos e discursos lidos ou propagados no cotidiano londrino, a plebe (ou suas reivindicações) conseguiu ser ouvida nos debates políticos. Ora, ao pensar sob uma perspectiva democrática, isso é bom, visto que mais uma nova classe social estava sendo ouvida. Entretanto, uma vez respeitada a voz de uma classe, pode ser que ela quisesse ser ouvida novamente (HILL, 1987). Para a Revolução, Oliver Cromwell organizou um exército, chamado de Exército do Novo Tipo (New Model Army). Este era formado por civis, plebeus, gentrys, alta e pequena burgue- sia, ou seja, não se tratava de algo oficial e nobre, também não era de facções ou grupos políticos. Tratava-se de um exército formado por soldados em tempo integral e que tinham autonomia para decidir estratégias de guerra em comitês, assim como tinham uma hierar- quia independente do rei – eram conhecidos como cabeças redondas. Além disso, Carlos I não tinha um exército forte, devido aos problemas financeiros da Inglaterra. Em 1647, o cha- mado Exército do Novo Tipo tinha dois líderes representantes por regimento, um Conselho de Exército, alistavam civis e, com destaque, tinha uma editora que propagava seus ideais políticos e militares. A editora pertencia a John Harris, um leveller (nivelador). Este grupo era formado por pequenos agricultores, cuja intenção era ganhar reconhecimento de classe e direitos políticos. Não conseguiram grande representação de classe, sofrendo uma dis- solução. Alguns deles juntaram-se a outros artesãos e camponeses em 1649, formando um grupo chamado diggers (escavadores) que, por sua vez, eram representados por trabalha- dores rurais pobres. O grupo tinha o intuito de formar cooperativas agrícolas, uma política anticlerical e incentivar a propriedade coletiva da terra. Diziam que eram os verdadeiros niveladores, visto que defendiam a igualdade na economia e na política. Nenhum desses movimentos pequenos surtiram efeitos isolados, todavia, em conjunto, demonstraram suas insatisfações (HILL, 1987). Carlos I, até o ano de 1647, recusou-se a negociar com qualquer um dos grupos meno- res. Acabou preso e, em uma noite, fugiu de Londres. Na Escócia, a população revoltada com sua imposição religiosa anglicana entregou-o a Oliver Cromwel – líder dos puritanos na Revolução homônima –, o qual, após o julgamento de Carlos I (que culminou em sua decapitação), liderou a Inglaterra por uma década. O governo de Oliver Cromwell foi marcado por perseguições religiosas, em especial contra católicos, porém, foi um governo de cunho político burguês. Uma das principais ações de Cromwell foram os Atos de Navegação, cuja determinação era de que apenas na- vios ingleses poderiam carregar ou descarregar em portos ingleses. Essa medida incentivou o que ainda restava para que a Inglaterra alcançasse o posto de rainha dos mares, mas, As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII História Moderna 4 73 em especial, deu ao país destaque no mundo industrial e capitalista. Entretanto, Lawrence Stone alerta-nos que antes da tomada de Oliver Cromwell, quando a revolução ainda toma- va seus primeiros rumos, ninguém esperava pela dissolução da monarquia ou como ocorre com a câmara dos Lordes. Além disso, as gentrys também não esperavam grandes mudanças sociais, com exce- ção daquelas que as beneficiavam. O que o historiador destaca é a ideia de que a ordem política/social, dada após a morte de Carlos I, não seria suficiente por muito tempo para as alas mais radicais dos puritanos (STONE, 2000). Apesar das práticas não democráticas de Oliver Cromwell, como o fechamento do Parlamento, ele chegou a elaborar uma cons- tituição para o período, oferecendo ensino gratuito, voto censitário e a união dos países da Irlanda, Escócia e Inglaterra. Todas as diferenças baseadas em grupos religiosos com relações sociais e econômicas, que foram fomentadas no período revolucionário, mas ficaram caladas durante a República Puritana, tornaram-se evidentes após a morte de Cromwell, no ano de 1657. O problema maior esteve em quem assumiu definitivamente o governo, o rei Carlos II, filho de Carlos I. Ele seguiu um governo de acordo com os interesses das Câmaras. Mas isso não ocorreu com o seu sucessor, Jaime II, visto que era absolutista, católico, apoiado por outros católi- cos, mas também pelas gentrys presbiterianas (ala mais conservadora). Nesse contexto, o rei objetivava reacender os ânimos absolutistas em terras de burgueses mercadores, industriais e das gentrys puritanas e também não se preocupava em ouvir as plebes, que haviam se acostumado a debater ideais. A conjuntura revolucionária só se confirmou quando a burguesia buscou o apoio do príncipe holandês Guilherme de Orange, casado com Maria, filha de Jaime II. Guilherme de Orange aceitou tomar a Inglaterra em uma revolução em que não houve derrama- mento de sangue, por isso o nome Gloriosa. Ademais, comprometeu-se com a Declaração de Direitos, cuja cláusula principal afirmava que a Câmara dos Comuns era responsável pelos assuntosgovernamentais. Portanto, o absolutismo deixou de imperar cem anos antes da Revolução Francesa. Para afirmar que a revolução inglesa é revolucionária, segundo o historiador Edward Thompson (1987), é preciso considerá-la dentro de seu contexto histórico, visto que muitas vezes os di- versos grupos que participaram dela não alcançaram os objetivos ou não estiveram unidos, dentro de um conceito mais leninista tradicional de classe. Eram diversos grupos humanos que não se reconheciam como classe, que faziam parte de um mundo pré-capitalista, cujas ações mudaram o curso da história da Inglaterra. 4.3 Reordenação agrária Durante a Revolução Industrial, a agricultura sofreu mudanças em relação ao modo como era praticada. Anteriormente de subsistência, ela passou a ser de troca de produtos. Nessa época, começou-se a pensar em latifúndios produzindo um só produto, em especial, a criação de ovelhas (lã para indústrias têxteis), o que podemos chamar de plantation à inglesa. As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4 História Moderna74 Porém, para que algo semelhante a essa perspectiva fosse assim reconhecido, precisou-se mais do que as próprias revoluções burguesas. Thompson (1987) afirma que nem as terras burguesas ou as comunais eram reconhecidas ou tinham documentos perante a lei. Uma das primeiras medidas foi a Lei dos Cercamentos que, por si só, já havia causado um êxodo rural. Porém, de acordo com Thompson (1987), apenas no século XVIII, especificamente no mês de maio de 1723, foi aprovado na Câmara dos Comuns um código florestal, chamado de Lei Negra de Waltman. O termo negra diz respeito aos caçadores clandestinos, arrendatários não legalizados que muitas vezes se pin- tavam com fuligens em meio à floresta, a fim de contestar o código florestal. Este criou 50 tipos de crimes que poderiam chegar a 250 interpretações, ou seja, variações de acordo com o criminoso e o contexto. A questão central de Thompson (1987) é afirmar que as florestas, antes um espaço pú- blico utilizado por diversos grupos sociais, em busca de pesca, de caça, de moradia e de práticas culturais, tornou-se um espaço vigiado e controlado. Soldados, guardas e cabanas foram instaladas para o controle das florestas principais, como Windsor e Hampshire, as quais eram divididas em herdades. Os povos residentes das áreas limítrofes não poderiam passar sequer para buscar um cão. Havia conflitos com arrendatários consuetudinários, as- sim como com grandes proprietários que diziam ter direitos a lagos ou pequenas florestas, por concessões antigas. Caso qualquer cláusula fosse desrespeitada, haveria multa e este é o ponto debatido por Thompson: A questão ficou na sombra da história jurídica porque o grande infrator – o fi- dalgo ou grande agricultor que cercava suas terras contra os cervos e derrubava grande número de árvores sem autorização – podia se dar o luxo, sem grandes dificuldades, de pagar a caução e de prosseguir impunemente com seus delitos. (THOMPSON, 1987, p. 43) O historiador deixa evidente que são diversos grupos que disputam esses espaços, seja por herança, seja por costume ou por usucapião. O que se torna um diferencial, é que bur- gueses ou industriais poderiam pagar as multas do Tribunal Florestal e até mesmo conquis- tar algumas concessões, pois, de acordo com Thompson, o magistrado “podia tomar para si uma certa quantidade anual de cervos e tinha o poder de conceder (ou vender) licenças e autorizações para derrubar madeira, cercar ou construir florestas” (THOMPSON, 1987, p. 43-44). Com esse apoio, os grandes apropriadores de terras ou de benefícios delas não tiveram suas vidas afetadas como aqueles que simplesmente caçavam um cervo ou eram pegos com uma flecha na mão. Além disso, em muitos casos, viviam há gerações nessas florestas. O sistema jurídico inglês setecentista, com apoio dos burgueses revolucionários, legitimou as diferenças sociais e patrimoniais. Raymond Williams (1990) traz uma perspectiva interessante sobre as perdas dos peque- nos proprietários e camponeses das florestas inglesas no século XVIII. Ao analisar a literatu- ra do período, percebe como o mundo bucólico da natureza é substituído por sentimentos de agonia, de invasão e de sofrimento, como podemos perceber a seguir: As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII História Moderna 4 75 Os poemas sobre arrendatários felizes, o eu idealizado e independente da tradi- ção bucólica reflexiva são sucedidos por poemas sobre perda, mudança, pesar; aquela estrutura de sentimentos simultaneamente comovente e meditativa, de horror e retraimento captada com tanta exatidão [...] Neste exato momento julgo ver as virtudes do campo a morrer. (WILLIAMS, 1990, p. 97) O campo que respeitava o tempo natural, o tempo do trabalhador e até mesmo o tem- po religioso já não era o mais comum. Williams (1990) segue ao afirmar que burgueses, os quais anteriormente disputavam pequenas porções de terra e se transformaram em grandes proprietários, não percebiam que as transformações ocorridas com a natureza, a fim de in- centivar o capitalismo, eram as mesmas que alimentavam milhares de bocas, mas também tratavam as pessoas apenas como produtores e consumidores. Dessa forma, entendemos que sobreviver sem se importar com a qualidade do que é consumido ou vivido tornou-se uma das premissas desse tempo, uma época na qual surgiram constituições e repúblicas, as quais deveriam projetar um sistema econômico que fizesse uso da natureza, mas pensando na igualdade social. Conclusão O objetivo deste capítulo foi pensar como o Antigo Regime estava organizado de acor- do com os princípios absolutistas, política em que o rei controlava e negociava diversas de- cisões sobre o cotidiano de seu reino, com nobres e burgueses – situações que muitas vezes entravam em conflito.O período moderno organizou o Antigo Regime e projetou o que seria um Estado moderno. Ao mesmo tempo, trouxe a burguesia como classe social que ascendeu a novos lugares que, aos poucos, foram insuficientes, especialmente porque com ela veio o capitalismo industrial e agrário. As propostas burguesas não cabiam dentro do protecionis- mo e do mercantilismo tão comuns a um governo mais centralizador, como era o absolutis- ta, ou seja, apenas ideias mais liberais tanto na economia quanto na política permitiriam a configuração de um horizonte mais burguês. Ampliando seus conhecimentos Os dois trechos seguintes fazem parte de um artigo de Jecson Girão Lopes sobre a obra O Leviatã, de Thomas Hobbes. Como afirmamos logo no início deste capítulo, Hobbes foi um dos teóricos do absolutismo. Para ele, o homem em seu estado natural sempre está suscetível à corrupção. Com base nessa ideia, ele faz suas sugestões sobre a resolução dessa questão no período moderno. As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4 História Moderna76 Thomas Hobbes: a necessidade da criação do Estado (LOPES, 2012, p. 171-173) Em primeiro lugar, é importante sabermos que Hobbes mostra a condição na qual o homem se encontra, no estado natural, a fim de basilar a neces- sidade da efetivação do Estado. Conforme Hobbes, o estado natural é a condição na qual todos os homens se encontram, nesse estágio todos são iguais, todos têm o mesmo direito, pois o homem, em tal estado, está sob a égide das paixões, guiado pelos instintos, pelo conatus, isto é, esforço natural de permanecer na existência, de sobrevivência. Nessa perspectiva, o homem está imerso na ausência de um poder estatal soberano. A con- dição do homem nesse estágio, consequência natural das paixões, é de guerra, visto que não há um poder visível que seja capaz de mantê-los em respeito, haja vista que naturalmente os homens não são justos, pie- dosos, bondosos, mas ao contrário, os homens são tendentes à parciali- dade, orgulho e vingança. Na realidade, nessa condição o homem está em situação de “guerra de todos contra todos”, “o homem é lobo do homem”. Assim, seguindo Hobbes podemos dizer que, noEstado de natureza, a utilidade é a medida do direito. Nessa perspectiva, a inclinação geral do ser humano é constituída por um ininterrupto desejo de poder e de mais poder que só tem cabo com a morte. [...] Nosso autor parte da premissa de um Estado de Natureza pertencente a todos os homens. Nesse sentido, todos os homens são iguais e, assim, cada um tem o direito de utilizar seu poder e força para resguardar seus interesses particulares. Dessa forma, paira uma espécie luta para de todos contra todos para defender os direitos próprios. Para superar tal pers- pectiva somente com o erigir do Estado, do Leviatã, que defenderá não apenas um ou um grupo, mas é o responsável pela tranquilidade, pela instauração da paz social, já que no primeiro caso o que reina é uma selva- geria e uma degradação generalizada de todos contra todos. É, portanto, com a criação do Estado que experimentará a paz e a prosperidade, visto que todos entregam suas liberdades individuais nas mãos do soberano para que o mesmo em um poder unívoco administre e controle, corrija as posturas destoantes (do Estado de Natureza) e, assim, garanta o desenvol- vimento sadio da vida em sociedade. As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII História Moderna 4 77 Sugestões complementares CROMWELL, o homem de ferro. Direção de Ken Hughes. Los Angeles: Columbia Pictures, 1970. 145 min. Esse filme traz a trajetória política do puritano Oliver Cromwell em busca de represen- tatividade política dos Comuns, especialmente após a dissolução do Parlamento. Tal atitude desencadeou uma Guerra Civil, liderada por Cromwell, transformando a história monár- quica e feudal da Inglaterra. HISTÓRIA Moderna em foco. Disponível em: <https://hmoderna.hypotheses.org>. Acesso em: 26 out. 2017. Atividades 1. Estabeleça uma relação entre a sociedade de corte e o poder absolutista. 2. Na historiografia, comumente não é apontado ou afirmado que a origem de algo acontece em um exato momento. Também há a ideia que, entre acontecimentos dife- rentes, há muitas continuidades, ou seja, para que algo seja considerado revolucio- nário, é preciso mudanças e acontecimentos diversos ao longo de um determinado tempo. Considerando essas premissas, aponte as relações entre as revoluções Purita- na e Gloriosa e argumente sobre o significado social desses processos históricos para a história inglesa (e Moderna). 3. A questão agrária está relacionada ao mundo da indústria na Inglaterra, assim como tem um peso social sobre os problemas urbanos encontrados nas cidades inglesas industriais. Faça um comentário sobre essa afirmação. 4. Na análise de Jecson Girão Lopes sobre Thomas Hobbes, quais seriam os problemas mais inatos aos seres humanos que os impedem de ter controle de si? Além disso, de que forma o absolutismo responde às inabilidades dos seres humanos e em que isso afeta nossos direitos? Referências ARTOLA, Miguel. Textos fundamentales para la Historia. Madri: Alianza Editorial, 1973. BIGNOTTO, Newton. Maquiavel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. BODIN, Jean. Os seis livros da República. Paris: Fayard, 1986. ELIAS, Norbert. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. HILL, Christopher. A Revolução Inglesa de 1640. Lisboa: Presença, 1983. ______. O mundo de ponta cabeça: ideias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4 História Moderna78 HISTÓRIA Moderna em foco. Disponível em: <https://hmoderna.hbypotheses.org>. Acesso em: 26 out. 2017. HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções: 1789-1848. 32. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013. LADURIE, Emmanuel Le Roy. O Estado monárquico: França 1460-1610. 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A partir de 1300 vários Estados-nações se formaram em uma nova ordem social e política. Grupos que até então eram isolados passaram a viver em cidades ou reinos centralizados, geralmente na figura de um rei. Esse aliou-se à burguesia e à antiga nobreza, ambos formando o que chamamos de sociedade de corte. Ela, legitimada por tradições, compra de títulos e descendências, agia de acordo com o rei e seus interes- ses, tendo conflitos entre elas e estabelecendo normas e regras em todos os aspectos sociais, culturais e políticos, os quais passaram a ser aspectos de diferenciação social. Dessa forma, podemos entender que a expressão sociedade de corte funcionava como um corpo social, que entendia sua organização em uma concepção natural, cujo rei era o líder que mantinha a ordem e a paz entre seus membros. 2. Nessa questão, podem ser apontadas as reformas como processos que levaram bas- tante tempo para se afirmar como mudanças sociais, políticas e econômicas, em um nível de estruturação de uma nova classe social (e religiosa): as gentrys, que também são puritanos calvinistas. Além disso, com a morte da rainha Elisabeth I e a coroação de Jaime I, ânimos católicos são reavivados, ao mesmo tempo em que o rei se alia aos católicos a fim de garantir seus interesses no Parlamento, desagradando à Câmara dos Comuns, de maioria puritana. No mesmo período, o rei Jaime I continuou a in- centivar a Lei dos Cercamentos, prática que expulsava camponeses de terras comu- nais. Eles aliaram-se às gentrys na Revolução Puritana, quando Jaime I não aceitou as determinações da Câmara Comum. Além disso, outros acontecimentos e questiona- As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII História Moderna 4 79 mentos ao longo dos séculos XVI e XVII, relacionados aos diggers e aos levellers, acen- tuaram o descontentamento social, econômico e político que se sentiu em relação aos governos centralizadores comuns no período moderno. No que se refere a esse, as diversas revoluções ocasionadas e manifestações determinaram outra política à Inglaterra, com uma presença mais forte do Legislativo (composto por novas classes sociais) e a diminuição dos poderes monárquicos. Desse modo, a política econômica pode ser estruturada de acordo com princípios capitalistas industriais, uma prática que mudou a história mundial no período contemporâneo. 3. O objetivo é traçar uma relação entre a industrialização, precisando de matéria-pri- ma e de mão de obra, com o interesse da expulsão e do acúmulo de terras nas mãos de poucos. Muitos acabavam se mudando para a cidade, onde não tinham alternati- vas senão aceitar os salários e empregos oferecidos. 4. Seres humanos teriam naturalmente o desejo de destruir o outro por meio de inte- resses ambiciosos, egoístas, ou seja, jamais poderiam conviver sem se destruir, visto que o domínio é mais importante para qualquer um. Nesse caso, um rei, um ser humano especial, traria o equilíbrio necessário para a convivência na Terra. Isso é problemático, visto que justifica o direito universal que um tem sobre os demais, anulando qualquer perspectiva democrática. História Moderna 81 5 As bases do pensamento político moderno e o capitalismo Pela divisão de trabalho, supervisãodo trabalho, multas, sinos e relógios, incentivos em di- nheiro, pregações e ensino, supressão das feiras e dos esportes – formaram-se novos hábitos de trabalho, impôs-se uma nova disciplina de tempo. (THOMPSON, 1998, p. 297) Esse trecho é parte do texto Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial, do historiador Edward Palmer Thompson, e traz algumas nuances do que era o sentimento de mudança provocado na vida da população operária inglesa (mas não somente dela) a partir do século XVIII. Nesse sentido, este capítulo discute relações entre o Estado moderno, as mudan- ças que proporcionaram transformações econômicas no que diz respeito à Revolução Industrial e o crescimento da burguesia como classe. Do mesmo modo, analisamos as organizações sociais e culturais, em especial do mundo do operariado, ocasionadas pela Revolução no período moderno. As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5 História Moderna82 5.1 O Estado moderno e o nascimento do mundo capitalista O Absolutismo trouxe a centralização do Estado, assim como grupos e classes que, com suas práticas sociais, definiram as características políticas de um período. Nesse caso, tomaremos o mundo político como forma de compreender a maneira pelas quais as sociedades do início do mundo Moderno se organizavam e como geravam estratégias sociais e econômicas. Mas, muito além dessa questão, a historiografia ocidental toma para si um modelo de Estado, no qual o poder do rei tem a representação máxima e uma hierarquia estabelecida. Isso permitia estabelecer no território do reino critérios e acordos, ou seja, o rei indicava administradores que, por sua vez, mantinham o controle regional e local. Tal ideia fica evi- dente com o historiador Emanuel Le Roy Ladurie: No plano político, a boa cidade ou simplesmente a cidade clássica é um misto de poder real e de poder comunal, “uma sociedade mista”. Compromisso lógi- co. Duas entidades coexistem, estatal e citadina: o rei nessas condições não po- deria sufocar nem mesmo enfraquecer completamente os notáveis das cidades. (LADURIE, 1994, p. 22) Dessa forma, a relação do rei com seus súditos, além do aspecto sagrado, era bastante distante. Essa ideia difere da concepção de Estado forjada com base na inserção política bur- guesa após o século XVI. Isto é, o Estado era visto como um mantenedor e responsável pelo bem de seu povo, ainda que com diversas diferenças ao longo do tempo e em cada contexto. Porém, no período moderno, assim como o rei dava poder aos burgueses, por depender do poder econômico deles, a burguesia fazia alianças com os nobres, por meio de casamen- tos, embora essa prática não tenha ocorrido sem resistência e conflitos, como esta citação transparece: “Bom casamento, meu filho. [...]. É preciso que busqueis esterco para fertilizar vossas terras” (LADURIE, 1994, p. 30). Portanto, para que a burguesia pudesse questionar a hierarquia moderna, não bastou fazer alianças, pois, de uma forma ou de outra, estariam sempre limitadas. Por isso, teve de se perceber como uma nova classe, ou seja, tornar-se uma classe política e econômica. Entretanto, não foi somente a burguesia que surgiu como classe. Nesse contexto, e em fun- ção dos interesses burgueses, sobretudo da Revolução Industrial, o operariado sofreu pro- fundas transformações, o que lhes alterou o mundo social (tema que será estudado no fim deste capítulo). Se retomarmos a ideia do capítulo anterior, de a burguesia inglesa do século XVII, por meio de questões religiosas e de conquista de títulos, chegar ao poder, ocupando pri- meiramente a Câmara dos Comuns e, depois, a Câmara dos Lordes, compreendemos que esse processo aconteceu primeiramente por conta das mudanças econômicas e, mais tarde, políticas. Entretanto, para que uma revolução econômica – como a Revolução Industrial do fim do século XVII – se estruturasse e se tornasse a economia central do reino inglês As bases do pensamento político moderno e o capitalismo História Moderna 5 83 e, posteriormente, do mundo ocidental, a burguesia deveria tornar-se uma classe política. A partir disso, o panorama social, político e econômico do Ocidente, tanto no mundo mo- derno quanto no contemporâneo, mudaria. Mas, se o processo não foi rápido, também não foi igual em toda Europa. Para além de uma comparação entre países e contextos tão diversos, objetivamos mostrar como em alguns lugares, em especial, na Inglaterra, as condições foram ideias para o início do capita- lismo em sua forma mais moderna. Acerca disso, o historiador Francisco Falcon traz algu- mas ideias sobre as transformações do período moderno, demonstrando como elas foram paulatinas e em ritmos diferentes para cada contexto: [...] nas sociedades ocidentais, foi havendo uma tomada de consciência quanto à modernidade nascente, em cujo seio já se vislumbra, indecisa, a teoria do pro- gresso [...] são mudanças ocorridas, em ritmos e intensidades diversos, confor- me a sociedade, que formam o núcleo básico dessa transição. (FALCON, 2000, p. 11-12) Falcon (2000) explica como a noção de um novo tempo ou modus operandis não foi sem- pre consciente, mas também não se sabia o que a relação do ideal de progresso com os interesses perseguidos pelos sujeitos medievais e modernos nos burgos (espaço de maior interação social no período medieval) ou as mudanças da modernidade trariam. Burgo é um dos termos mais importantes do fim do período medieval até o início do moderno, pois foi ali que se concentraram as mudanças sociais, econômicas, culturais e políticas precursoras do que se tornou a Europa Ocidental pós 1800, época que será analisada mais intensamente neste capítulo. Para o historiador Leo Huberman (1980), aqueles eram: Lugares que os mercadores procuravam. Neles, além disso, havia geralmente uma igreja, ou uma zona fortificada chamada “burgo” que assegurava a prote- ção em caso de ataque. Mercadores errantes descansando nos intervalos de suas longas viagens, esperando o degelo de um rio congelado, ou que uma estrada lamacenta se tornasse transitável outra vez, naturalmente se deteriam próximo dos muros de uma fortaleza, ou à sombra da catedral. E como um número cada vez maior de mercadores se reunia nesses locais, criou-se uma “faubourg” ou “burgo extramural”. E não demorou muito para que o arrabalde se tornasse mais importante do que o próprio burgo antigo. (HUBERMAN, 1980, p. 35-36) Leo Humberman (1980) também nos sugere nessa citação uma ideia de causalidade: as vilas de origem medieval e, posteriormente, moderna tornaram-se espaços de encontro e de divulgação de um novo ideal ou estilo de vida. Faubourg podem ser apontadas como os subúrbios, aqueles espaços que crescem no caminho de algo considerado mais importante. Entre os séculos XV ao XVIII, junto a esse aspecto, ocorreram as viagens ao Oriente e ao Ocidente, alterando interesses de domínio territorial e de consumo, mas não somente isso, como Colin McEvedy nos lembra: “a prosperidade, a instrução e o conhecimento aumenta- ram século após século no nosso período” (MCEVEDY, 2007, p. 8). Portanto, as cidades ou vilas não foram meros espaços urbanos que aumentaram significativamente nesse período, mas foi justamente nesses locais que se configuraram as maiores mudanças sociais e políti- cas do mundo moderno para o contemporâneo. As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5 História Moderna84 Portanto, de um Renascimento (não só na Península Itálica) – nos séculos XV e XVI – ao questionamento religioso direcionado em especial à Igreja católica – que originou as dou- trinas calvinistas e puritanas na Inglaterra –, podemos dizer que os subúrbios tornaram-se mais que anexos da vontade e interesses de reis e nobres. O Estado moderno absolutista, com sua sociedade de corte, presenciou o crescimento da burguesia, a qual foi limitada politicamente até a revolução burguesa na Inglaterra. Esta, embora tenha sido descontínua, em seu fim, proporcionou à burguesia lugarespolíticos e econômicos mais sólidos, configu- rando-a como uma classe. Para Edward Thompson (1998) há duas maneiras de se analisar a ideia de classe: a primeira é de acordo com o seu contexto histórico e se aqueles que reivindicam seus no- vos lugares em relação a outros grupos se percebem como classe; a segunda refere-se a uma ideia mais geral, anterior ao mundo capitalista, segundo a qual os grupos disputa- vam entre si “domínio sobre o outro”, porém, sem se verem como classes sociais e políticas (THOMPSON, 1998, p. 35-38). Na Inglaterra do século XVII, as diferenças políticas de plebeus, como diggers e levellers – aqueles que não tinham grande representatividade nas câmaras, se comparados aos puritanos – também se davam por meio de posturas religiosas, com confrontos políticos tangenciados ou reunidos por essas questões. Desse modo, qualquer questionamento feito à organização política dos Tudors e, pos- teriormente, dos Stuarts vindo de um dos grupos religiosos como os calvinistas, puritanos, anabatistas, quakers e diggers estava alterando o espaço social e econômico, porém, por di- ferenças religiosas e culturais, e não políticas necessariamente, visto que ainda não se iden- tificavam como tal. Thompson (2001b) lembra que, apesar de não haver uma pauta mais organizada desses vários grupos antes da revolução burguesa, havia a “presença política da plebe, do ‘populacho’ ou da multidão. Ela pesava sobre a alta política em um certo número de ocasiões” (THOMPSON, 2001b, p. 219). Sobre esse processo no qual as classes adquirem sentidos às próprias lutas, Thompson (2001a) reitera: Uma classe não pode existir sem um tipo qualquer de consciência de si mesma. De outro modo, não é, ou não é ainda, uma classe. Quer dizer, não é “algo” ain- da, não tem espécie alguma de identidade histórica. Até aquela díspar e móbil entidade que é a multidão ou a plebe da Inglaterra do século XVIII possuía uma noção de seus direitos de legalidade e de respeito, que foram investigados pelos historiadores. (THOMPSON, 2001a, p. 6). Assim, entendemos que Thompson (2001a) argumenta que, nesse período, embora os sujeitos começassem a se perceber como grupos com interesses de classe comuns, ainda não se autoafirmavam dessa maneira. Por isso, é importante lembrarmos que tanto os diggers quantos os levellers – que formavam a ala mais simples – foram duramente reprimidos pelo líder calvinista Oliver Cromwell após a revolução. A burguesia, que nesse período passou a se ver como classe, é, portanto, a calvinista. E, para manter-se no poder, deveria aproveitar das condições naturais, políticas e sociais As bases do pensamento político moderno e o capitalismo História Moderna 5 85 encontradas no contexto inglês de meados do século XVII. As condições, aspectos sociais e mudanças na vida cotidiana burguesa, estudaremos na próxima seção. 5.2 Revolução Industrial O mercantilismo foi um dos principais fatores que proporcionaram à Inglaterra acúmu- lo e enriquecimento de metais, suficientes para promover uma Revolução Industrial. Além disso, a Inglaterra acumulou metais com a pirataria e possuía grandes reservas de carvão e malha fluvial para escoamento de produção, ao mesmo tempo em que expandiu territórios, conquistando colônias, matéria-prima (algodão) e mão de obra escrava. Entretanto, seria reducionismo dizer que ter poder econômico era o suficiente para promover tamanha re- volução. Cabe lembrarmos que, até os séculos XVI e XVII, características absolutistas ainda eram muito comuns no cotidiano inglês. O historiador Eric Hobsbawm leva a Revolução Industrial para além de algo dependente apenas de uma economia rica e sólida, como era a inglesa. Ele sugere que: se tivesse que haver uma disputa pelo pioneirismo da revolução industrial no século XVIII, só haveria de fato um concorrente a dar a largada: o grande avan- ço comercial e industrial de Portugal à Rússia, fomentado pelos inteligentes e nem um pouco ingênuos ministros e servidores civis de todas as monarquias iluminadas da Europa, todo eles tão preocupados com o crescimento econômico quanto os administradores de hoje em dia. Alguns pequenos Estados e regiões de fato se industrializaram de maneira bem impressionante, como por exemplo a Saxônia e a diocese de Liège, embora seus complexos industriais fossem muito pequenos e localizados para exercer a mesma influência revolucionária mundial dos complexos britânicos. (HOBSBAWM, 2009, p. 45) Com essas ideias, o historiador desmitifica alguns preceitos de que somente a Inglaterra estava se industrializando. Ele também deixa evidente em sua análise que a industrializa- ção era uma preocupação de diversas regiões da Europa. Ainda no que se refere ao ter- mo Revolução Industrial, o historiador sugere que esse apenas ganhou tal conotação após as primeiras consequências sociais e políticas da Revolução Francesa, visto que ela influen- ciou o próprio entendimento do que é uma revolução, ou seja, acontecimentos que altera- ram significativamente o contexto social, político e econômico de um período. No caso da Revolução Francesa, suas transformações são consideradas tão importantes que a historio- grafia nomeou o seu pós como outro período da História (ao menos da Ocidental). Além disso, Hobsbawm continua sua reflexão e faz a seguinte afirmação: Nas ciências naturais os franceses estavam seguramente à frente dos ingleses, vantagem que a Revolução Francesa veio acentuar de forma marcante, pelo me- nos na matemática e na física, pois incentivou as ciências na França enquanto a reação suspeitava delas na Inglaterra. Até mesmo nas ciências sociais os britâni- cos estavam muito longe daquela superioridade que fez – e em grande parte ain- da faz – da economia um assunto eminentemente anglo-saxão [...]. O economista As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5 História Moderna86 da década de 1780 lia Adam Smith, mas também – e talvez com mais proveito – os fisiocratas e os contabilistas fiscais franceses, Quesnay, Turgot, Dupont de Nemours, Lavoisier. (HOBSBAWM, 2009, p. 45-46) O historiador segue argumentando sobre a existência de, naquele período, navios e teares franceses, técnicas de trabalho da Saxônia e contabilistas italianos. Ele frisa que as universidades de Oxford e Cambridge não iam intelectualmente além do mínimo esperado para aquele momento, especialmente se comparadas às universidades escocesas e à Escola Politécnica de Paris (HOBSBAWM, 2009). Uma estratégia inglesa importante, porém inicia- da apenas no século XIX, foi a alfabetização em massa. Então, o que tinha a Inglaterra de diferente para que ocorresse o início da Revolução Industrial de modo tão intenso em relação aos demais Estados e reinos? A capacidade e a técnica daqueles que trabalham nas primeiras décadas e também a tecnologia necessária para implementação dos primeiros processos, como o utilizado pela máquina a vapor de James Watt (em 1784) que não precisava de tantos conhecimentos da física ou da matemáti- ca. Hobsbawm (2000) evidencia que o conhecimento científico não era necessariamente uma condição para que a Revolução Industrial ocorresse, isto é, técnicas simples eram suficientes para um primeiro desenvolvimento. Contudo, cabe ressaltarmos que esse período de 1780, no qual aconteceram algumas inovações tecnológicas, como a máquina a vapor, foi também um momento propício classificado como “crescimento autossustentável” (contexto em que a produção não era mais afetada diretamente por variações climáticas ou demográficas, de epidemias, ou intempéries) (HOBSBAWM, 2000). Nesse sentido, o que chama atenção em relação ao contexto inglês nesse período é que ele já era marcado por uma intensa concentração de terras nas mãos de latifundiários, os quais, por meio de arrendamentos, aumentavam as criações de rebanhos ou lavouras, que objetivavam o mercado externo (HOBSBAWM, 2000). A nova estrutura social do campo foi cada vez mais ampliada, transformando a vida de servos e de pequenoscamponeses em uma total dependência econômica, visto que com poucas terras e meios de produção não conseguiam ter bons rendimentos, nem ao menos para sustentar as famílias. Tal perspectiva foi acentuada com a Lei dos Cercamentos (Enclousure Acts), de meados do século XVII, cujo objetivo era cercar as terras que eram comunais, ou seja, de comunidades. Essa ação teve três consequências essenciais: produção de alimentos para aqueles que estavam nas cidades; envio de significativa mão de obra às cidades; e o acúmulo de capital para o Estado e para o sistema fabril que estava se instalando (HOBSBAWM, 2009). A Lei dos Cercamentos foi incentivada ainda mais no decorrer do século XVIII, porém, suas consequências não foram apenas a expulsão de camponeses para os núcleos urbanos em um processo de êxodo rural. Pontuamos também o fato de a terra ser apontada como mercadoria, uma característica importante para um período no qual terras passaram a ter mais que um valor de subsistência, transformando-se em lugares de geração de lã para in- dústrias têxteis e com uma agricultura mais produtiva (com uso de maquinários, adubos e rotação de culturas) para o mercado externo. O que restou aos camponeses mais simples foi vender suas terras, tornando-se empre- gados dos grandes produtores ou novos operários das fábricas que começaram a surgir As bases do pensamento político moderno e o capitalismo História Moderna 5 87 na Inglaterra do fim do século XVII. Essa mudança cessou com as relações feudais par- cialmente ainda persistentes. Ou seja, isso garantiu ao senhor a propriedade da terra, e não mais a simples concessão. O historiador Peter Burke (1989) ressalta: restaram os la- tifundiários e os pequenos produtores, que trabalhavam em parceria com proprietários de latifúndio. Porém, o que Burke de fato traz sobre esse contexto são as mudanças que permaneceram no campo, em toda a Europa, visto que, devido ao crescimento da renta- bilidade na agricultura, passaram a consumir objetos e produtos até então desconhecidos. Isso fica evidente na citação a seguir: Na Inglaterra, foi a classe dos pequenos proprietários que lucrou com a co- mercialização da agricultura, construindo novas casas e adquirindo “uma bela guarnição de estanho”. Na Alsácia, os vinicultores estavam encontrando novos mercado na época em que construíam e mobiliavam novas casas. Na França, o fim das guerras de Luís XIV e, na Suécia, o fim das guerras de Carlos XII prova- velmente significaram um aumento da prosperidade. Na Noruega, o estrondoso aumento das exportações de madeira (para a Grã-Bretanha, entre outros países) levou a uma melhoria no padrão de vida rural. De modo geral, podemos dizer que a aristocracia camponesa, homens como Edme Rétif, agora tinham condi- ções de comprar objetos que, antes, eles mesmos faziam. (BURKE, 1989, p. 269) Com base em tal ideia, sugerimos que, além de uma expulsão camponesa para as cida- des, aqueles que permaneceram, passaram a fazer parte de uma população que consumia produtos até então ou desconhecidos ou que anteriormente eram produzidos por ele. Essa ideia de mercado, de comércio, com produtores e consumidores começou a ganhar força na Inglaterra do século XVIII. Além disso, fica evidente uma troca comercial mais intensa entre países diferentes do território europeu. Para que esse comércio prosperasse, não bastou ape- nas matéria-prima, operários ou consumidores. Peter Burke (1989) aponta que um padrão passou a ser cobrado dos produtos finais, descaracterizando as produções individuais, co- muns até meados do período moderno: A expansão do mercado significava uma maior demanda, e para atendê-la o pro- cesso de produção foi padronizado. Não se poderia pensar em produzir objetos conforme as exigências específicas do cliente individual, tal como tradicional- mente ocorria. Ao longo do século XVIII, os desenhos dos azulejos holandeses foram se simplificando até umas poucas pinceladas rápidas e, passou-se a usar métodos semimecânicos, como o emprego de matrizes. Era questão de apenas uma ou duas gerações antes que o objeto artesanal, feito à mão, começasse a ce- der ao objeto padronizado, feito à máquina e produzido em massa. A expansão do mercado também destruiu a cultural material local. (BURKE, 1989, p. 269) Além da mudança no modo de produção, que passou a ser mais impessoal e de maneira menos delicada, o espaço de artesãos e de oficinas caseiras diminuiu. Não obstante, a ideia de transformação da cultura material também deve ser considerada, visto que, embora mu- danças tenham ocorrido, novas práticas culturais surgiram. Peter Burke (1989) demonstra por meio de várias fontes como as culturas populares são alteradas, mas também reagem a esse processo político e econômico (tema do próximo capítulo). Acerca dessas mudanças, As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5 História Moderna88 Eric Hobsbawm (2000) afirma que no século XVIII houve um aumento de consumidores, um início da especialização da mão de obra, assim como um comércio já intenso com a presença de lojistas, compradores, vendedores e meios de transporte fluvial e ferroviário para assegu- rar tanto o envio de produtos, quanto de matérias-primas. Ressaltamos que, na Inglaterra, os rios e o acesso ao mar facilitaram a logística necessária para aquele período. A fim de adequar o movimento de grandes cidades como Londres, Thompson (1987) aponta que houve um processo de urbanização, mesmo que nesse período também tenham enfrentado diversas epidemias e proliferações de doenças devido às condições insalubres, em especial, das moradias do operariado. Além disso, a despeito da mortalidade infantil, Thompson relata um aumento significativo da população. Hobsbawm (2009) classifica esse período como uma Revolução Industrial de pioneiros, algo que estava começando, cujas características se diferem significativamente do século XIX. Para o historiador, a produção em massa mais barata e a garantia do lucro são pre- missas diferentes em relação ao primeiro tempo das mudanças industriais. Nesse caso, a Inglaterra tinha diversos fatores que motivavam um novo processo comercial e fabril, da mesma forma que outros países também poderiam ter. Entretanto, a historiografia conside- rou tais práticas em uma Revolução Industrial porque o modelo inglês sofreu adaptações por outras realidades, em especial, buscando uma demanda muito maior de consumo e de estratégias de produção e de venda. Esses aspectos fizeram com que a Inglaterra fosse a pioneira de um modelo econômico capitalista tomado pelo mundo ocidental ainda no século XIX, como podemos perceber pela citação a seguir: Uma indústria que já oferecesse recompensas excepcionais para o fabricante que pudesse expandir sua produção rapidamente, se necessário através de inovações simples e razoavelmente baratas, e, segundo, um mercado mundial amplamente monopolizado por uma única nação produtora. Estas considerações se aplicam em certos aspectos a todos os países nessa época. Por exemplo, em todos eles a dianteira no crescimento industrial foi tomada por fabricantes de mercadorias de consumo de massa [...] O sucesso britânico provou o que se podia conseguir com ela, a técnica britânica podia ser imitada, o capital e a habilidade britânica podiam ser importados. A indústria têxtil saxônica, incapaz de criar seus próprios inven- tos, copiou os modelos ingleses, às vezes com a supervisão de mecânicos ingleses [...] Entre 1789 e 1848, a Europa e a América foram inundadas por especialistas, máquinas a vapor, maquinaria para (processamento e transformação do) algodão e investimentos britânicos. (HOBSBAWM, 2009, p. 48-49, grifo do original) A ideia afirmada anteriormente – de que não eram necessárias grandes invenções –, em um primeiro momento, é corroborada com a afirmação de que criações simples despertaram interesses de países que já viviam ou caminhavam para mudanças políticas importantes, mas também estavam se colocando já em uma expansãocolonial, a qual logo se configuraria em uma corrida imperialista. As bases do pensamento político moderno e o capitalismo História Moderna 5 89 O que estamos considerando é: a matéria-prima, vinda das colônias, existia de forma abundante, ao tempo em que instalar ou copiar um modelo fabril não era tão difícil e ainda prometia ganhos rápidos. Saxônia, Itália, Holanda e Bélgica, entre outros países e reinos, buscaram trilhar os mesmos caminhos dos pioneiros ingleses. Ao estreitar relações comer- ciais de compra, de venda e de concessão de territórios e sistemas de produção, novos tipos de negociações se consolidaram no início do século XIX no mundo ocidental. 5.3 A divisão social do trabalho e a experiência e condição operária As figuras a seguir representam a inovação, a incoerência e a desigualdade social que a ideia de progresso trouxe consigo. Na Figura 1, é possível entender a grande inovação que foi a construção de ferrovias, pois levar matérias-primas e produtos prontos transformou o mundo do comércio inglês e do mundo. Entretanto, não foi somente essa a transformação causada, visto que muito além de carroças e barcos, mulheres e homens também passaram a utilizar os trens como meio de transporte, diminuindo as distâncias entre famílias, grandes centros e o interior, fazendo com que notícias, cartas e outras formas de comunicação che- gassem mais rápido. Portanto, meios de transporte alteraram também o panorama econô- mico, social e cultural de um contexto. Além disso, se observadas na figura as pessoas que estão prontas para entrar no trem, podemos afirmar que se tratava de um grupo escolhido e, certamente, não era o mesmo que carregava carvão em uma mina (Figura 2). Figura1 – FRITH, William Powell. A estação de trem. 1866. Gravura, color.: 66 x 123 cm. Londres, Inglaterra. As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5 História Moderna90 Figura 2 – Mine workers in Gary, West Virginia (1908). Fonte: Lewis Hine/Library Of Congress. As figuras representam um paradoxo criado e sustentado pela Revolução Industrial, que ocasionou mais problemas sociais entre as diversas camadas da sociedade e incentivou reações e resistências. Elas deixam evidente a ideia de que todas as transformações chega- riam às diversas camadas sociais, mesmo com intensidades e significados diferentes. Um dos pontos mais singulares do período industrial – comum a todas as classes – é a noção e percepção de tempo. Ela é diferente entre os mineradores que extraem o car- vão (Figura 2) em relação àqueles que conhecem o novo sistema de transporte (Figura 1). Edward Thompson (1987) transmite bem essa transformação, na qual o tempo provoca sen- sações diferentes, não apenas pelos sentimentos e dificuldades, mas também por sua venda: A questão da orientação pelas tarefas se torna muito mais complexa na situação em que se emprega mão de obra. Toda a economia familiar do pequeno agricul- tor pode ser orientada pelas tarefas, mas em seu interior pode haver divisão de trabalho, alocação de papeis e a disciplina de uma relação de empregador-em- pregado, entre o agricultor e seus filhos. Mesmo nesse caso, o tempo está come- çando a se transformar em dinheiro, o dinheiro do empregador. Assim que se contrata a mão de obra real, é visível a transformação da orientação pelas tarefas no trabalho de horário marcado. (THOMPSON, 1987, p. 272) A citação é referente ainda às oficinas persistentes dos séculos XVII e XVIII, em que mestres gerenciavam e comandavam seus funcionários, quase em uma relação paternalista. Thompson (1987) explora esse contexto ao firmar que o tempo necessário para fazer o produto era o tempo do profissional, isto é, empregados não eram pagos por dia ou por hora, mas pe- los produtos entregues e de caráter individual, perspectiva que se modifica quando o horário passou a ser marcado, controlado, e o funcionário deveria terminar a produção dentro desse período, obrigando-se a produzir mais para atender a uma massa, a qual já não permitia que fossem peças exclusivas ou com muitos detalhes. Aos poucos, para que o trabalho fosse feito de forma mais rápida, os funcionários dividiram as tarefas, a fim de se especializar. As bases do pensamento político moderno e o capitalismo História Moderna 5 91 A medição do tempo no ambiente das fábricas era controlada pelos donos ou super- visores e apenas eles detinham o controle do tempo. Empregados que antes controlavam seus trabalhos perderam totalmente a autonomia, transformando-se em elementos do pro- cesso industrial. Ainda no século XVIII, as associações de marceneiros e de alfaiates seriam proibi- das, isto é, os funcionários que as compusessem teriam de se tornar operários das fábricas (COGGIOLA, 2007). Do mesmo modo, o conhecimento que anteriormente haviam adquiri- do sobre alguns produtos, ou a tradição que mantinham para produzi-los, já não importava mais. Isso não acontecia somente na cidade: no campo, onde antes as boas colheitas eram comemoradas com festas, em rituais repletos de folclore e tradições, interessava apenas a quantidade produzida. (HOBSBAWM, 2001) Na cidade, operários moravam em locais próximos às fábricas, a fim de chegarem cedo e conseguirem cumprir as 16 ou até 18 horas de jornada de trabalho diárias. Não obstante, muitos desses prédios pertenciam aos próprios donos dos meios de produção que, por sua vez, também pagavam os salários com produtos. O pouco que lhes restava mal dava para a comida. Por isso, não tinham recursos para comprar roupas ou sapatos. Nessas condições, a base alimentar era a batata (THOMPSON, 1987), visto que era mais barata que o trigo, alimento mais comum anteriormente e que dispunha de mais nutrientes. Famílias de operários que, em totalidade, trabalhavam, poderiam comer carne todos os dias. Em outras, nas quais apenas um ou dois trabalhavam, poderiam comer carne uma vez na semana, mas não um alimento com muita qualidade (THOMPSON, 1987). Sobre a interdependência nas casas dos operários e das operárias, a historiadora social Michelle Perrot (2007) traz a ideia de que não era somente nas indústrias que mulheres de operários trabalhavam ganhando dinheiro, mas em suas casas também, postura que colabo- rou na autonomia de muitas delas, mesmo que de forma sugestiva e disfarçada: Ela é o médico da família e antes de tudo, seu “ministro das Finanças”, pois gerencia o orçamento. O marido lhe entrega o pagamento da semana: prática frequente na França (muito menos na Inglaterra ou na Alemanha) e certamente resultado da pressão das mulheres. O dia de pagamento é um dia de contestação em muitos lares. Além disso, a mulher do carpinteiro ganha um pouco de dinhei- ro fazendo compras e lavando a roupa para uma vizinha. Ela, assim como outras donas de casa se sente valorizada por essa contribuição ao orçamento doméstico [...] Vinte anos depois, ela teria alugado ou comprado uma máquina de costura, uma Singer [...]. (PERROT, 2007, p. 116) A imagem de Perrot (2007) é de uma casa tradicional, visto que a mulher está em casa e almejando sua Singer, pois ali também está sua autonomia. Seu marido e, talvez, filhos e filhas, estão trabalhando, enquanto ela faz com que a casa e as finanças se mantenham em ordem e da maneira mais milagrosa, já que não era muito o dinheiro a administrar. A citação ainda menciona que essa independência das mulheres ao gerir o dinheiro era superior na França em relação à Inglaterra. As famílias que não conseguiam manter sua alimentação de maneira adequada aca- bavam sobrevivendo com restos de lixo e de feiras. Nessas condições, a desidratação e/ As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5 História Moderna92 ou a desnutrição eram doenças comuns que acabavam aniquilando grupos inteiros. Para a indústria, isso não era um problema, visto que outras pessoas chegavam às cidades ou aque- les que estavam vagando eram facilmente colocados no trabalho. Além disso, caso a perda maior fosse de homens, haveria mulheres ecrianças para realizar o trabalho pela metade do valor. Entretanto, os problemas eram as epidemias geradas pelos vírus que poderiam matar tantos, inclusive das camadas sociais mais abastadas. Quanto à vestimenta, muitos tinham apenas uma roupa e usavam sacos de estopa. Os controles sanitários eram precários em relação à qualidade das moradias e às próprias instalações das fábricas, que não dispunham de ventilação adequada e eram apertadas e úmidas. Além disso, as ruas não tinham esgoto ou qualquer sistema que diminuísse os contágios. Esses problemas, somados às doenças já causadas pela falta de alimentos (e de qualidade deles), geravam problemas sociais e patológicos graves, assim como a própria criminalidade, visto que muitos passavam a roubar e até matar, em busca de sobrevivência. O que percebemos é que nesse período os donos dos meios de produção ocasionaram uma total dependência dos operários, que, além de todas as questões sociais e urbanas, acabavam por não receber grandes quantias, diminuindo significativamente sua autonomia. É preciso lembrar ainda sobre outros direitos ausentes, como os referentes às mulheres que voltavam ao trabalho pouco tempo após terem dado à luz, e às crianças, que eram contratadas por até 48 horas semanais, prática regularizada pela lei Factory Act, em 1838 (COGGIOLA, 2007). O sistema fabril inglês, em especial nos séculos XVII e XVIII, alterou a vida do campo- nês, do operário, inserindo-os em meios de produção de larga escala, porém não criou leis que os protegessem, algo mais que necessário se consideramos a descoberta do lucro no mundo industrial. Foram muitas as alterações sociais nesse período, como a mudança cul- tural alimentar, com a troca do trigo por uma base alimentar de batata, e a total exploração de sujeitos que chegaram às cidades, em sua maioria já expulsos de seus lugares de origem. Esses camponeses, que passaram a ser operários, embora já fossem pobres, eram mais res- peitados no campo, sobretudo em suas tradições e práticas culturais. Esse era o panorama. E tais perspectivas passaram a ser debatidas já no século XIX, por Friedrich Engels (A si- tuação da classe trabalhadora na Inglaterra, em 1845), Karl Marx (Manifesto Comunista, junto a Friedrich Engels, em 1848) e Émile Durkheim (Teoria do fato social, em 1895), marcando todo o século com a organização de uma nova classe: o proletariado. Antes disso, aconteceram muitas revoltas, resistências e organizações do campo à cidade, como a de Ned Ludd. Ele foi o responsável por destruir máquinas em 1760. Posteriormente, foram cogitadas leis que punissem trabalhadores por destruírem os meios de produção. O episódio de Ludd e várias das insurgências do fim do século XVIII se deram em oficinas e fábricas menores. Só quebraram as armações dos que tinham reduzido o valor dos salários dos empregados; os que não tinham abaixado o valor, ficaram com suas armações intactas; num estabelecimento, na noite passada, quebraram quatro entre seis ar- mações; as outras duas, que pertenciam a mestres que não tinham abaixado seus salários, não mexeram nelas. (MERCURY apud THOMPSON, 1987, p. 126-133) As bases do pensamento político moderno e o capitalismo História Moderna 5 93 Os ludistas (relacionado ao nome de Ned Ludd) foram apontados muitas vezes como responsáveis por simples quebras de máquinas, comparando suas ações com a de vândalos ou desordeiros. Entretanto, entendemos esses gestos como reivindicações trabalhistas ou como movimentos que não aceitavam a exploração, em especial, a redução de um salário pré-combinado. Movimentos maiores ocorreram no século XIX e, ao mesmo tempo em que eram herdeiros das primeiras resistências, também foram os fundadores de sindicatos mais sólidos, cujos debates chegariam aos acordos das primeiras leis trabalhistas e até mesmo das resistências armadas, como o Movimento de 1848, na França. Tanto o ludismo como o cartismo, movimentos do século XIX, são exemplos disso na Inglaterra. Camponeses e camponesas que viviam em comunidades foram jogados às ruas. Ou seja, não poderiam viver mais da mesma forma de antes, pois estavam apenas sobrevivendo. A vida tornou-se especializada pelo trabalho desenvolvido ou vendido, ao mesmo tempo em que estavam totalmente dissociadas as ideias de vida e trabalho, como Thompson (1987) afirma sobre a produção no campo e na cidade anterior à Revolução Industrial. Mas, se para o campo não puderam voltar, é na cidade que eles iriam resistir. Nessa época, também organizaram sindicatos, que foram importantes para as conquistas de alguns direitos e me- lhorias na vida dos operários. Conclusão A construção de um mundo capitalista industrial teve seu início no período moderno, marcado por ideias defendidas com base em uma perspectiva de progresso, do qual não se sabia exatamente o significado. Conhecimentos variados – e até razoavelmente simples – sobre ciências em geral, assim como o acúmulo de capital e as novas relações de classe, for- maram novos princípios responsáveis pela alteração econômica e social da Europa durante os séculos XVII e XVIII. Esses aspectos demonstram como a chamada Revolução Industrial é um processo contínuo, com diversos marcos, como o lançamento da máquina a vapor, do petróleo, da eletricidade e da robótica, que ocorreram em contextos e intensidades diversas. As classes sociais surgidas ainda nos séculos XVII e XVIII, como a burguesia e o operariado, foram também responsáveis pelas revoluções sociais e políticas dos séculos seguintes, como o movimento dos operários e a Revolução Francesa. Entretanto, não podem ser compreen- didas sem uma análise sobre o novo mundo social estabelecido nesse período. Sobre isso, veremos mais no próximo capítulo. Ampliando seus conhecimentos O texto a seguir, de autoria de Ana Beatriz Ribeiro Barros Silva, utiliza a análise de Engels sobre a classe operária inglesa dos séculos XVIII e XIX. Leia alguns excertos sobre a situação desses trabalhadores(as) e reflita sobre a importância dos direitos trabalhistas. As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5 História Moderna94 Acidentes, adoecimento e morte no trabalho como tema de estudo da História (SILVA, 2015, p. 224-225) Em especial, a obra A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de Engels, diferia das análises de seus antecessores e contemporâneos por tratar a classe operária no âmbito da evolução do capitalismo industrial, com foco no impacto social causado pela industrialização. Engels foi um observador astuto e acompanhou o centro nevrálgico da Revolução Industrial de perto. Em seu livro, examinou as profundas transformações e a degradação do nível de vida da classe operária inglesa. Para Engels, a industrialização reduziu os trabalhadores “ao papel de simples máqui- nas, arrebatando-lhes os últimos vestígios de atividade independente”. Conforme a análise de Engels, os operários tinham de trabalhar diaria- mente até a completa exaustão física e moral. Tais condições de vida e de trabalho, com pouca e péssima comida, trancafiados em lugares insa- lubres, seja no trabalho ou em suas habitações, só podia levar a doen- ças devastadoras, como a tuberculose e o tifo. Engels notava certo “ar tísico” nas pessoas, especialmente em Londres: extremamente magras, com o peito estreito, olhos escavados e rostos “inexpressíveis, incapazes da menor energia”. Devido à sua indigesta e parca alimentação, diversas doenças dos órgãos digestivos eram muito comuns, como as escrófulas e o raquitismo. O trabalho em si era monótono, repetitivo e embrutecedor, pois não per- mitia nenhuma tarefa intelectual ou criativa. A duração do trabalho podia chegar até 16 horas diárias, sem contar os intervalos para as refeições. As máquinas foram paulatinamente eliminando o operariado adulto das fábricas, que ia sendo substituído por mulheres e crianças que, além de mais hábeis na lida com a maquinaria, eram mais rentáveis, haja vista que, em decorrência da dominação masculinae patriarcal que imperava na sociedade inglesa, recebiam salários bem abaixo dos pagos ao operário adulto do sexo masculino. A violência era usada ocasionalmente contra os operários, sobretudo contra as crianças. Os capitalistas exploravam o trabalho ao máximo, criando jornadas noturnas, o que fazia com que algu- mas fábricas funcionassem ininterruptamente. De acordo com o Factories Inquiry Commission, de 1833, analisado por Engels, entre os operários, havia um número elevado de enfermos, cuja doença provinha, além das péssimas condições de vida, das longas horas As bases do pensamento político moderno e o capitalismo História Moderna 5 95 de trabalho. Desvios da coluna vertebral e deformações nas pernas eram as mais comuns, provenientes, segundo a comissão, da sobrecarga física exigida pelo trabalho prolongado. Atividades 1. Sobre o período moderno e as condições criadas para que a Revolução Industrial ocorresse primeiramente na Inglaterra, explique o porquê de não podermos conside- rar que a burguesia e a plebe teriam promovido tal processo como classe. 2. Explique quais foram as condições e como se caracterizou o início da Revolução Industrial na Inglaterra. 3. Descreva as principais características das condições de trabalho inglesas entre os séculos XVII e XVIII. 4. Considerando o texto de Ana Beatriz Ribeiro Barros Silva, estabeleça uma relação entre as condições de trabalho e de saúde dos operários. Referências BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. COGGIOLA, Osvaldo Luis Angel. Da Revolução Industrial ao movimento operário: as origens do mundo contemporâneo. Porto Alegre: Editora Pradense, 2007. FALCON, Francisco José Calazans, RODRIGUES, Antônio Edmilson M. Rodrigues. Tempos Modernos: ensaios de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. HOBSBAWM, Eric. Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2000. ______. A Era das Revoluções: Europa 1789-1848. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2009. HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1980. LADURIE, Emmanuel Le Roy. O Estado monárquico: França 1460-1610. São Paulo: Cia das Letras, 1994. MCEVEDY, Colin. Atlas de História Moderna (até 1815). São Paulo: Companhia das Letras, 2007. PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2007 SILVA, Ana Beatriz Ribeiro Barros. Acidentes, adoecimento e morte no trabalho como tema de estudo da História. In: OLIVEIRA, T. B. (Org.). Trabalho e trabalhadores no Nordeste: análises e perspectivas de pesquisas históricas em Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Campina Grande: EDUEPB, 2015. p. 215- 240. Disponível em: <http://books.scielo.org/id/xvx85/pdf/oliveira-9788578793333-09.pdf>. Acesso em: 27 out. 2017. THOMPSON, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5 História Moderna96 THOMPSON, Edward Palmer. Costumes em Comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. ______. Algumas observações sobre classe e falsa consciência. In: SILVA, Sergio; NEGRO, Luigi (Orgs.). As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas: Unicamp, 2001a. ______. As peculiaridades dos ingleses. In: SILVA, Sergio; NEGRO, Luigi (Orgs.). As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas: Unicamp, 2001b. Resolução 1. Historiadores como Edward Thompson defendem a ideia de classe não como algo estanque, pronto para rotular diferentes contextos, pelo contrário, para eles, o con- texto de cada acontecimento deve ser considerado. No caso da revolução burguesa, calvinistas, diggers,levellers, anabatistas, entre outros fizeram parte do exército de Oliver Cromwell, entretanto seus interesses futuros não foram iguais. Considerando a questão religiosa, o que os motivou em um primeiro momento foi debater contra a Câmara dos Comuns e dos Lordes (em especial, os diggers e levellers) a fim de obter mais igualdade, ideia não apoiada por Cromwell após o fim da Revolução. Por isso, o interesse que os motivou a lutar juntos foram os conflitos comuns, porém, com exceção da questão religiosa, eram grupos diferentes. 2. A Lei dos Cercamentos foi um dos primeiros atos importantes para impulsionar a Revolução Industrial, visto que o excesso de sujeitos enviados dos campos às cida- des proporcionou aos donos dos meios de produção a vantagem de manter salários baixos, produção de alimentos em larga escala e o acúmulo de capital para a ex- pansão do sistema fabril. A Inglaterra também dispunha de uma boa malha fluvial, carvão para as máquinas a vapor e, sobretudo, tinha acumulado grandes riquezas com a prática de pirataria e com as colônias, que, por sua vez, também ofereciam matérias-primas e mão de obra escrava. 3. Insalubridade, pouco espaço e umidade tanto nas moradias quanto nas fábricas eram bastante comuns. A alimentação também era precária, visto que muitos salá- rios eram recebidos em seu mínimo, já que eram descontados aluguéis, multas por faltas ao trabalho (já que folgas semanais eram pouco respeitadas), fazendo com que pouco restasse. Quanto mais pessoas de uma família trabalhassem, havia mais chan- ce de terem uma alimentação básica. Isso não era o caso de muitos, visto que, caso houvesse mulheres ou crianças, os salários também eram mais baixos. 4. Problemas como desvios na coluna vertebral, deformações nas pernas, problemas digestivos e magreza exagerada eram comuns, provavelmente devido à sobrecarga física exigida pelo trabalho prolongado, pela falta de descanso e também pela ali- mentação escassa em nutrientes. História Moderna 97 6 O Estado moderno e a representação política no Ocidente “A essência da história é a sua eterna mutabilidade.” (BURCKHARDT, 1961, p. 33) Essa citação, do historiador Jacob Burckhardt, aborda a ideia de transitoriedade na História. Os acontecimentos que a permeiam são diversos, transformando as sociedades ao longo de horas e de séculos. Sabemos que o tempo em cada contexto pode ter signi- ficados diferentes e, como historiadores(as), compreendemos que nada é para sempre. Neste capítulo, nosso intuito é trazer algumas práticas sociais e culturais impor- tantes do período moderno, visto que essas interações demonstram a complexidade da formação do Estado moderno e de seus personagens. Estes, por sua vez, são muito mais do que reis, papas ou nobres; são aqueles que pertencem à História “vista de baixo” e que estavam nas ruas fugindo de epidemias, mantendo suas tradições e fes- tas – por meio de cantos, rituais e leituras –, mesmo com as mudanças do campo para a cidade que objetivavam diminuir suas práticas identitárias. Para isso, trazemos algu- mas ideias do que seria essa História vista de baixo e a sociedade do Antigo Regime, por meio da perspectiva desses grupos subalternos. Também objetivamos finalizar o capítulo com a ideia da economia moral, termo analisado por Edward Thompson sobre os motins de operários e da população que passava fome, que foi muito além de uma manifestação confusa ou sem sentido. O Estado moderno e a representação política no Ocidente6 História Moderna98 Os historiadores citados neste capítulo nem sempre estão inscritos na mesma vertente historiográfica, porém, eles fizeram uso de princípios e de ferramentas da virada cultural – ou cultural turn –, processo no qual as práticas culturais ganharam mais significado, espe- cialmente com os olhares da antropologia. 6.1 Personagens do Estado moderno Em um contexto de debate dos princípios e tradições marxistas no período da Guerra Fria, o historiador social Edward Palmer Thompson, junto a outros da Nova Esquerda Inglesa, fez novas análises sobre a historiografia a partir de 1950-1960, em especial, con- siderando as práticas culturais e os sujeitos sociais que passaram despercebidos na escrita da História. No caso europeu, muitas vezes a história foi (e é) marcada poruma história de grandes nomes políticos, especialmente de reis – e, às vezes, de rainhas –, papas, senhores feudais e burgueses – a nova classe social. Thompson buscou descontruir essa história oficial e política, a qual, por vezes, não con- siderou aqueles que também construíram castelos e morreram em batalhas ou aqueles que estavam nos campos e nas indústrias lutando pela sobrevivência em um mundo baseado em classe, etnia e gênero. No livro Formação da classe operária inglesa, de 1963, o historiador traz as ações de grupos sociais durante os séculos XVII e XVIII, que estavam se tornando uma classe, especialmente no século XIX. Não pretendemos aqui esmiuçar livros dos autores(as) citados(as) ao longo desta obra, porém, visamos compreender de que forma a ideia conhecida como a História vista de baixo colabora para o entendimento e conhecimento dos muitos personagens. Nesse sentido, se Thompson (1987) afirma que as categorias são históricas e contextuais, conforme citação a seguir, precisamos então analisar a ação de diversos grupos que buscaram, por meio de práticas culturais, participar de seu tempo: Não vejo a classe como estrutura, nem mesmo como uma categoria, mas como algo que ocorre efetivamente e cuja ocorrência pode ser demonstrada nas rela- ções humanas [...] a noção de classe traz consigo a noção de relação histórica [...] A classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus in- teresses diferem (e geralmente se opõem dos seus). (THOMPSON, 1987, p. 9-11) Longe de diminuir as ações sociais do período moderno como algo apenas de operários e camponeses (grupo repleto de diferentes camadas sociais), que, na maioria das vezes, são o tema de Thompson, objetivamos trazer a diversidade cultural de um período para além de uma historiografia de reis e rainhas. A tradição e a cultura popular, assim como a sociedade em si, são os temas analisados pelo historiador. A partir do momento em que nós, historiadores(as), consideramos a diversidade de objetos e suas trajetórias de lutas, podemos perceber como se configura a ideia de clas- se, diferentemente de uma perspectiva de pensá-la como algo pronto ou homogêneo, ou, nas palavras de Thompson: “a consciência de classe é a forma como essas experiências são O Estado moderno e a representação política no Ocidente História Moderna 6 99 tratadas em termos culturais, encarnadas em tradições, sistemas de valores, ideias e formas institucionais” (THOMPSON, 1987, p. 10). No caso inglês, sabemos que diggers e levellers, os mais simples, além de perseguidos por Oliver Cromwell, não foram respeitados em suas reivindicações. Isso fez com que se orga- nizassem em termos institucionais e religiosos durante o século XVIII e, especialmente, no século XIX. Nesse sentido, os grupos analisados por Thompson são os tecelões, luddistas, ar- tesãos, operários etc., os quais resistiram ao defender interesses em comum (THOMPSON, 1987, p. 13). Nesse sentido, Michelle Perrot, historiadora cultural das mulheres, percorre um cami- nho semelhante, porém enfatizando a ação de mulheres (na França) ao longo da historiogra- fia contemporânea do século XIX (PEDRO, 2003), demonstrando que elas não foram passi- vas, nem em casa, nem como operárias. Tanto Thompson quanto Perrot, apesar da diferença em seus objetos de estudos, trazem a ideia de que as experiências cotidianas comuns, as lutas e as resistências demonstram a complexidade de uma época e de uma classe que não seria determinada exclusivamente pela posição econômica, mas pelas disputas nas relações de poder estabelecidas em cada sociedade. Não obstante, demonstram que o período mo- derno não foi determinado ou direcionado apenas de acordo com a vontade das classes mais abastadas ou com o poder político. O historiador Emanuel Le Roy Ladurie, com base na Micro-História e na Nova História, traz algumas narrativas sobre o período moderno em História dos camponeses franceses. Antes de analisar uma delas, a Micro-História é uma perspectiva historiográfica na qual o historia- dor se aproxima de um acontecimento ou fonte histórica a fim de compreender detalhes que muitas vezes não são observados (GINZBURG, 2007). Entretanto, o historiador amplia a sua análise para além do objeto, compreendendo o contexto no qual este está inserido. Portanto, uma comunidade não é estudada apenas pelo o que ela é, mas pelo que representa do con- texto social em que está inserida, suas práticas sociais, as trajetórias de seus indivíduos, por meio de suas revoltas, julgamentos e histórias de vida. O objetivo central é perceber, por meio da vida ou história de algo/alguém, como é possível compreender os problemas sociais, políticos e econômicos (GINZBURG, 2007). A Micro-História ganhou ainda mais espaço na historiografia quando passou a apresentar sujeitos com ações intrigantes – de acordo com os interesses de pesquisa –, mas, principal- mente, ao desconstruir a ideia de que grupos mais simples não tinham – ou haviam perdi- do – práticas culturais e sociais. Desse modo, Ladurie (2007) traz uma narrativa muito mais complexa em relação à ideia de que camponeses (de várias camadas) eram aqueles que apenas obedeciam aos senhores do Antigo Regime em Sacy, atual região da Borgonha, em meados do século XVIII. O his- toriador narra a história de Edme, um juiz ou intendente local, cujas funções e eleição se deram da seguinte forma: Ao cabo de um cursus honorum que transformou Edme em notário, depois em procurador, depois juiz, o herói desse cursus assumiu o poder na aldeia: passou a ser, nas suas funções de preboste, realmente inamovível, como já era o seu an- tecessor; Edme distribui justiça segundo sua consciência, e segundo sua cultura O Estado moderno e a representação política no Ocidente6 História Moderna100 de prático; a senhoria deixa em suas mãos as funções de juiz e de árbitro, desde que receba regularmente dele as receitas monetárias dos dízimos e direitos se- nhoriais que o encarrega de cobrar dos devedores de Sacy. (LADURIE, 2007, p. 225, grifos do original) Cursus honorum significa “caminho de honras”. Era a trajetória profissional das magis- traturas romanas por meio de indicação. O trecho de Ladurie deixa evidente que a escolha de Edme foi por indicação e, talvez, possamos entendê-la como uma relação de interesses mútuos entre a senhoria e Edme. O caso é que Edme demonstra qualidades, as quais fize- ram com que a senhoria confiasse nele, porém, para que se mantivesse no poder, precisava manter a organização na sociedade de Sacy. É justamente nesse ponto que podemos apontar uma relação de poder bastante complexa entre senhoria, Edme (ou o seu cargo) e o restan- te dos camponeses de Sacy, responsáveis pela manutenção dos impostos. Afirmamos isso diante do que Ladurie aponta sobre Edme em seu cargo: Edme, sabiamente, evita arrancar a pelo dos pagadores de foro de sua jurisdição e súditos dos donos de terras, a fim de manter a confiança deles. Agindo em parceria com o pároco, seu amigo e cúmplice, mete o nariz dos negócios das fa- mílias; funciona, em seu pequeno tribunal, como árbitro entre a mãe e os filhos. Respeitando as estruturas do clã na terra de cultura, e especialmente as concen- trações da mesma linhagem, compra aqui e ali (dispondo de informações sobre a fortuna de seus concidadãos, ou sobre sua insolvência) algum pedaço de terra a preço de ocasião. [...] Empresta dinheiro aos moradores da aldeia, e transforma esses pequenos empréstimos em meios de influência e de poder, mais do que em exercício de usura. (LADURIE, 2007, p. 226) Na atuação do juiz local, é possível perceber como precisava agradar à senhoria, man- tendo os impostos, ao mesmo tempo em que a cobrança não deveria ser radical, e contar com o apoio do clã local, da Igreja e também daqueles que seriam os menos favorecidos por toda essa política. Entretanto, os pequenos empréstimos feitos, conforme aponta Ladurie,sem ser usura, permitem-nos perceber que havia receios dos ânimos dos camponeses. Eles também poderiam ser uma ameaça aos interesses de Edme e de quem ele representava. Mas Edme sabia que deveria se precaver de problemas e manter uma relação menos acirrada, pois, apesar de ser o representante da senhoria, dividia em diversos momentos o poder com os chefes comunais eleitos pelos camponeses, como os escrivães, pastores e guardas do campo (LADURIE, 2007). Assim, embora sempre tivesse a palavra final – para que problemas maio- res não ocorressem –, acordos locais e regionais deveriam ser realizados. Compreender parte da dinâmica da sociedade camponesa do Antigo Regime é perceber que diversas transformações sociais já estavam ocorrendo muito antes da Revolução Francesa ou de uma divulgação maior das ideias iluministas. Principalmente, significa defender que o povo1 não é alienado de sua condição e dar o lugar de direito às revoluções conduzidas 1 Jim Sharpe (1992, p. 44) alerta sobre a diversidade de grupos sociais que compunham a categoria “povo” no século XVI. Dessa forma, consideramos tal ideia complexa e, nesse caso, ele representa aqueles que de alguma forma estavam questionando a hierarquia social ou política na qual esta- vam inseridos. O Estado moderno e a representação política no Ocidente História Moderna 6 101 por ele. Tal perspectiva só é perceptível quando casos como os motins de Thompson, como as relações complexas de poder entre mulheres de Perrot e as negociações intraclasses de Ladurie, são compreendidos. Mas se a questão central desses(as) historiadores(as) é perceber como as práticas cul- turais acontecem e como influenciam no mundo social, econômico e político europeu dos séculos XVII e XVIII, precisamos nos questionar: que práticas culturais são essas? Primeiramente, é preciso desmitificar algumas características do mundo cultural do período. Peter Burke, historiador cultural, alerta-nos sobre vários aspectos da cultura po- pular dessa época. Para tal, consideramos as transformações ocorridas no mundo rural e urbano decorrentes do processo industrial ou de diminuição das fabricações mais artesanais de qualquer produto. Nesse caso, a cultura popular – conceito complexo – pode ser definida da seguinte forma: todas as práticas cotidianas ligadas a folclore, danças, literatura, medi- cina popular, literatura de cordel, enfim, elementos relacionados aos valores simbólicos de grupos sociais não letrados (BURKE, 2005). Esses grupos utilizaram suas práticas para questionar ou se manifestar nos assuntos mais diversos, especialmente em relação àqueles que teriam a chamada cultura erudita – das classes mais abastadas. Ressaltamos que ambas (a cultura popular e a erudita) sempre esti- veram ligadas diretamente, relacionando-se, ou seja, de forma alguma estão dissociadas. Tal perspectiva, para Burke, reafirma que elas são tão próximas que as próprias nomenclaturas poderiam ser compreendidas de modo diferente na historiografia (BURKE, 2005). Essa dis- cussão é decorrente de estudos sobre o período moderno, tempo em que, apesar do aumento do consumo de produtos pelos camponeses, como casas mais repletas de móveis e objetos, foram eles que tiveram seu estilo de vida mais alterado, visto que o mundo urbano estava sendo construído. Portanto, analisar a cultura popular ou como viviam os camponeses é perceber como eles resistiram diante das mudanças e como também participaram ativamen- te de seus processos sociais. Sendo assim, para Burke, o livro e a alfabetização – mesmo que bastante longínqua do que consideramos ideal – foram, em maior intensidade, os modificadores desse período. Entre 1500 e 1700, na França, publicaram-se mais de quatro mil títulos de livros (BURKE, 1995). Deles, três mil apenas no século XVIII. Entre assinaturas de testamentos, contratos de casamento ou qualquer outro documento dos cartórios, historiadores têm buscado com- preender quem eram os poucos leitores e qual é a relação entre a edição de livros e a pro- pagação deles. Cerca de 65% dos artesãos (núcleos urbanos) eram letrados, contra 20% dos camponeses e, em geral, concentravam-se mais na Escandinávia, na Holanda e na Inglaterra. Esses números mudaram significativamente a partir de 1700. Ao mesmo tempo, segundo Burke, reformadores objetivavam lapidar a cultura popular de acordo com os seus interesses políticos e econômicos do período pós-Reforma, porém, com restrições, pois [...] temiam que a educação pudesse tornar os pobres descontentes com sua po- sição na vida e estimular os camponeses a deixar a terra. Alguns, como Voltaire, achavam que a maioria das crianças simplesmente não devia aprender a ler e O Estado moderno e a representação política no Ocidente6 História Moderna102 escrever; outros, como Jovellanos, achavam que os camponeses deviam aprender os rudimentos de leitura, escrita, aritmética, mas só [...] (BURKE, 1995, p. 274) Teóricos e monges deixam evidente a preocupação do contexto, a de que aquele que aprendesse a ler e a interpretar poderia transformar o seu lugar social, especialmente in- vertendo as normas de sua classe. Esses homens e essas mulheres do Antigo Regime – de várias camadas e contextos sociais – estavam tendo acesso aos livros, em geral, folhetos, almanaques e livros de notícias de no máximo 32 páginas e em papéis de pouca qualidade (BURKE, 1995). Em toda a Europa moderna se espalhavam esses livros, em maior ou menor intensida- de. Porém, diferentemente do que consideramos ser um livro, Burke considera que O conteúdo do material impresso popular não sugere nenhuma violenta ruptu- ra da continuidade. Muito do que era impresso já fazia parte do repertório de apresentadores dentro da tradição oral, e traz as marcas dessa origem: baladas e diálogos, sermões simulados e peças de mistério [...] a continuidade pode ser devida aos usos do material impresso, que não se destinava tanto a uma leitura silenciosa e individual, mas a uma leitura em voz alta para vizinhos ou parentes menos letrados. (BURKE, 1995, p. 278) Percebemos que a leitura era um acontecimento comum, mas em outro sentido: o de al- guém lendo para muitos. Além disso, temos de considerar, conforme Burke (1995), que eram muitos os livretos, mas poucos os títulos e gêneros. Por isso, entendemos que as histórias que se perpetuavam no período moderno eram, senão iguais, muitos semelhantes àquelas da cultura popular perseguida pela Reforma e pela Contrarreforma. Portanto, apesar das limitações desses períodos, dos êxodos rurais e do processo industrial, a cultura popular era legitimada pela leitura desses livros e também pelos usos que a narrativa deles permitiu ao serem novamente ouvidos. Essas estratégias foram utilizadas e narradas de diversas manei- ras pela cultura popular, não somente pelos livros, mas por várias tradições, que foram res- ponsáveis pela defesa da cultura daqueles que, de uma forma ou de outra, eram excluídos ou manipulados pelos novos processos históricos. 6.2 Sociedade camponesa no Antigo Regime O Antigo Regime foi um período de grandes mudanças na Europa, em especial, em algumas regiões dos Estados alemães, da Holanda, da Bélgica e da Inglaterra. Também foi marcado por um absolutismo justificado pelo cristianismo, até a busca de uma centralização administrativa, comandada pelo rei e pela nobreza. Muitos camponeses e burgueses não aceitavam os impostos cobrados, bem como os privilégios dos nobres. Nesse sentido, foram inúmeras as revoltas no campo, contestando tais aspectos. Uma dela, a dos Pitauts, iniciada em 1548, objetivou acabar com a gabela (sal) – tributo criado pelo rei ainda naquela década e fiscalizado pelos cavaleiros do sal, os quais foram duramente perseguidos pelos rebeldes. O historiador Ladurie (2007) traz essa história ao afirmar que os pitauts eram padres que objetivavam manter a paz entre o rei e o grupo O Estado moderno e a representação política no Ocidente História Moderna 6 103 local, camponeses elavradores. Entretanto, não é o que ocorreu nessa revolta, visto que o padre defende os interesses dos grupos mais simples, em busca de uma justiça social. Os grupos eram vários e dirigiram sua hostilidade aos comerciantes, os responsáveis pelo armazenamento do sal recolhido. Ladurie aponta que os pitauts acabaram não contes- tando o senhorio, mas dirigindo seus olhares diretamente a esses comerciantes: Diferentemente dos grandes e ricos lavradores das proximidades de Paris, os camponeses de Angoumois frequentemente são primitivos restritos à agricultura de subsistência. Tanto e de tal modo que, a despeito das fricções inevitáveis, sua agressividade maior não se volta contra seu senhor: proprietário, este realmente retirava previamente sua porção in natura pelo sistema a meia; isso não criava problemas altamente insolúveis para os camponeses. As verdadeiras dificulda- des surgiam com o fisco, com o cobrador de gabelas. Porque a pequena porção dos produtos da terra que os camponeses de Angoumois, apenas ingressando na economia monetária, chegavam a converter em dinheiro (pela venda) era aboca- nhada em boa parte pelo cobrador de gabela. (LADURIE, 2007, p. 33-34) As ideias de Ladurie levam à compreensão de que os camponeses mais simples viam nos comerciantes seus inimigos diretos, por darem a eles, obrigatoriamente, seus últimos recursos. Tal postura não significa que não viam nos nobres e nos senhores grupos também opostos a eles, porém, como iriam ter força para combatê-los? Ladurie chama atenção in- clusive para o fato de os comerciantes, ao serem defendidos pelos poderosos, enfrentarem a ira maior dos camponeses, ou seja, nas batalhas estes viam primeiramente os comerciantes como seus inimigos, mas nós, historiadores(as), sabemos que o senhorio era o representante maior nessa hierarquia administrativa. A rebelião terminou em 1549, com o apoio dos senhores àqueles que haviam lutado, apenas para que não perdessem sua mão de obra para o encarceramento ou para a forca. Além disso, lavradores e padres não lutaram diretamente contra o poder feudal que ainda era comum na relação entre rei e Estado na França do século XVI (LADURIE, 2006). Para os revoltosos, além de terem lutado por seus interesses, conseguiram que naquelas regiões não fosse cobrada a gabela. Assim, o acontecimento dos pitauts nos mostra uma realidade muito além de estagnada, isto é, uma sociedade demarcada socialmente por meio de camadas sociais, mas que tam- bém sofre questionamentos, mesmo em um mundo repleto de características ora modernas, ora medievais. Ladurie, com sua perspectiva fundamentada na Micro-História, analisa a vida de pes- soas simples que contestam a ordem econômica de centralização administrativa posta pelo absolutismo francês. Ressaltamos ainda que, apesar do silêncio de mais de um ano após o fim da revolta dos pitauts, outros levantes camponeses ocorreram na França e na Inglaterra (tema da próxima seção). Ainda no século XVI, o moleiro camponês Domenico Scandella, o Mennochio, objeto de análise do historiador italiano Carlo Ginzburg, circulava por um mundo que não era o seu. Ao ler livros e folhetos condenados pela Inquisição, Mennochio demonstrou que o seu O Estado moderno e a representação política no Ocidente6 História Moderna104 lugar social não o definia e, além disso, desafiava as ordens da Igreja católica. Por meio da circularidade cultural, perspectiva na qual a cultura é vista de maneira plural, complexa, negando as hierarquizações entre “alta e baixa cultura” (GINZBURG, 2006, p. 10), que en- volvem diversos grupos sociais (BAKHTIN, 1985) e com base na antropologia, o historiador Ginzburg percebe todos os detalhes das fontes, analisando a trajetória do moleiro. Desse modo, considerando o período pré-industrial europeu, as práticas culturais que se movem de “baixo para cima”, e vice-versa, tornam-se o principal objeto analisado. No caso do moleiro, ele era alfabetizado, possuía livros como o Alcorão e tinha uma postura diversa da esperada de um cristão camponês do período, bem como em suas falas durante os julgamentos, visto que mencionou aspectos pagãos da cultura popular – alvo de investigação dos inquisidores. Estes, ainda em um processo de início da Contrarreforma, de- pendiam do que escutavam, de seus interesses e das pressões sofridas para julgarem. Nesse contexto, o moleiro, ao defender seus princípios, afirmou o seguinte: A gema seria a terra, a clara o ar, a pele fina entre a clara e a casca seria a água, e a casca o fogo. Dessa mesma forma estão juntos o frio e o calor, e o seco com o úmido se temperam. Nossos corpos são feitos e compostos por esses quatro ele- mentos: a carne e os ossos seriam a terra, o sangue a água, a respiração o ar, e o calor o fogo [...]. O nosso corpo está sujeito às coisas do mundo, mas a alma está sujeita só a Deus, porque ela é a imagem dele [...] E me parece que na nossa lei o papa, os cardeais, os padres são tão grandes e ricos, que tudo pertence à Igreja e aos padres. Eles arruínam os pobres. Se têm dois campos arrendados, esses são da Igreja, de tal bispo ou de tal cardeal [...]. (GINZBURG, 1987, p. 287) Considerando o contexto inquisidor, bem como os elementos que compõem um conhe- cimento mais científico ou natural, é perceptível em quais aspectos um moleiro camponês – por mais que fosse respeitado em sua localidade – cometeu diversas heresias. Ao questionar os bens do clero, sugerindo as práticas econômicas que destoavam das realidades sociais, o moleiro despertou a fúria dos inquisidores, porém, não mais do que quando afirmou que apenas Deus poderia julgar a todos (e a ele). Não obstante, ele tinha leituras e práticas cul- turais que escapavam à ortodoxia cristã. Esse tipo de comportamento fugia ao estabelecido aos camponeses e aos preceitos da Contrarreforma. Apesar do receio, o moleiro, em seu pri- meiro julgamento, não negou suas ideias e reafirmou o seu raciocínio. Para confirmar parte do seu conhecimento, o moleiro é descrito da seguinte forma: [...] ele projetava sobre a página impressa elementos tirados da tradição oral. É essa tradição, profundamente radicada nos campos europeus, que explica a persistência tenaz de uma religião camponesa, intolerante quanto aos dog- mas e cerimônias, ligada aos ciclos da natureza, fundamentalmente pré-cristã. (GINZBURG, 1987, p. 209) Ginzburg evidencia a resistência das culturas populares, especialmente em um tempo em que a Igreja católica e as protestantes disputavam o comando do mundo político e do econômico. No caso italiano, a Igreja católica era mais relutante ainda no que diz respeito a qualquer tipo de conhecimento científico que não fosse controlado por ela. É importante lembrarmos que o século XVI não é só o tempo da Reforma (1517) e da Contrarreforma O Estado moderno e a representação política no Ocidente História Moderna 6 105 (meados do XVI), mas do Renascimento – ideias que parecem ter chegado ao mundo do camponês Menocchio. Inquisidores do período não chegaram a uma constatação sobre a religião do moleiro, pois o seu período ainda era o de transição para a Reforma, ou, como afirma Ginzburg: “muito mais antigo do que a Reforma” (GINZBURG, 1987, p. 70). Além disso, ao verbalizar ideias pagãs em seus discursos, o moleiro não indicou qual era oficial- mente sua religião, confundindo a sentença dos inquisidores que ainda não tinham códigos tão evidentes de julgamento, considerando que a Contrarreforma não estava em seu auge. As ideias do moleiro não corroboravam de qualquer forma com as posturas do cristia- nismo. Ele acabou condenado à fogueira em 1599, após o seu segundo julgamento, por não ter respeitado o compromisso de permanecer em silêncio no que diz respeito às suas ideias sobre alma/espírito/corpo. A resistência camponesa ao estabelecido pelo Antigo Regime fica evidente tanto na história de Carlo Ginzburg quanto na de Emmanuel Le Roy Ladurie. Na próxima seção, nosso objetivo é trazer algumas ideias sobre a realidadeinglesa do período, porém, com enfoque no mundo industrial ou na produção em larga escala da agricultura. 6.3 A economia moral da multidão Edward Thompson (1987) busca nas reações e motins da multidão do século XVIII os elementos indicadores de que tais revoltas não eram espontâneas ou sem sentido. O preço do trigo (e do pão) não deveria ser alto, caso houvesse necessidade dos mais pobres. Com o crescimento do mercado agrícola inglês, houve abuso de comerciantes, produtores e atra- vessadores. Nesse caso, grupos populares afirmavam que havia uma tradição em manter um preço em relação a produtos de subsistência. Além disso, esses grupos também acusa- vam produtores e comerciantes de venderem farinha de qualidade ruim àqueles que menos podiam pagar, tutelados pelo “Estado”, em uma prática paternalista, causando problemas de saúde e doenças. Nesse contexto, esses grupos populares organizavam-se devido ao desrespeito tanto quanto às suas necessidades como pelos problemas já causados. Ações comuns tomadas nesse período eram conhecidas como motins, cuja definição seria: O motim da fome na Inglaterra do séc. XVIII era uma forma altamente complexa de ação popular direta, disciplinada e com objetivos claros [...] É certamente ver- dade que os motins eram provocados pelo aumento dos preços, por maus pro- cedimentos dos comerciantes ou pela fome. Mas essas queixas operavam dentro de um consenso popular a respeito do que eram práticas legítimas e ilegítimas na atividade do mercado, dos moleiros, dos que faziam o pão etc. [...] Contra essa visão espasmódica, oponho minha própria visão. É possível detectar em quase toda ação popular do século XVIII uma noção legitimadora. Por noção de legitimação, entendo que os homens e as mulheres da multidão estavam im- buídos da crença de que estavam defendendo direitos ou costumes tradicionais. (THOMPSON, 1998, p. 152) O Estado moderno e a representação política no Ocidente6 História Moderna106 Thompson retoma o termo motim e afirma que não é algo simples, mas complexo. É uma ação popular organizada e sobre o cotidiano daquela sociedade, ou seja, envolvida com negociações entre as camadas sociais, tanto por interesses econômicos quanto por prá- ticas culturais. Entre diversos interesses, um deles seria a defesa de direitos com base em tradições, isto é, a multidão, diante das mudanças econômicas com base no acúmulo e no lucro, alegava que suas tradições nas negociações do trigo e do pão deveriam ser mantidas. É nesse sentido que o historiador sugere o termo economia moral, pois está mais relacionado a um contexto de disputas de classe dentro de um novo modelo econômico, no qual os produtores, visan- do ao lucro, vendem a preço de mercado, que nem sempre é justo. Ideias de reciprocidade, de valores comunais e de subsistência tangenciam a organização de uma economia moral. Portanto, esta pode ser resumida da seguinte forma: Tinha como fundamento uma visão consistente tradicional das normas e obri- gações sociais, das funções econômicas peculiares e vários grupos sociais na co- munidade, as quais, consideradas em conjunto, podem dizer que constituem a economia moral dos pobres. O desrespeito a esses pressupostos morais tanto quanto a privação real, era o motivo habitual para a ação direta. (THOMPSON, 1998, p. 152) Em Economia moral da multidão, Thompson preocupa-se em debater a cultura popular, com enfoque nas tradições e formas de manifestação, cujo objetivo final é dar voz e lugar àqueles que são da História vista de baixo. Além disso, o que o historiador traz é um debate entre o individualismo burguês que estava sendo construindo em um mundo capitalista industrial, ao mesmo tempo em que práticas culturais de grupos comunitários começaram a ser condenadas. Esses motins não se tratavam apenas de invasão a fazendas, aos estabeleci- mentos, ou, menos ainda, a roubos, como se fossem criminosos, tratavam-se de uma reação ancorada pela fome e pelas imposições que seus estilos de vida – e de muitas gerações – es- tavam sofrendo em nome do lucro de poucos. Os grupos também se opunham a qualquer iniciativa paternalista ao defender suas tradições e seus direitos costumeiros, afinal, se permitissem que práticas paternalistas do “Estado” fossem comuns, além de perder direitos, teriam de aceitar menos do que seus costumes de subsistência. Conclusão Com este capítulo objetivamos trazer algumas ideias que nos permitem pensar a Europa do período moderno além de uma perspectiva homogênea e hierarquizante. Foram muitos os grupos que colaboraram na construção de princípios políticos, econômicos e sociais, tan- to para aquela época como para o mundo contemporâneo. Muito além de uma perspectiva dividida em três grupos essenciais, como é muito comum ao Antigo Regime (reis; clero e no- breza; burguesia/plebe), a historiografia apresentada no capítulo demonstra que os grupos são heterogêneos, que as suas relações são tangenciadas por questões de poder e de disputa O Estado moderno e a representação política no Ocidente História Moderna 6 107 por ele, e, nesse sentido, resistências e negociações são comuns, especialmente quando ana- lisadas sob o viés das práticas da cultura popular daqueles que pertencem à “História vista de baixo”. Ampliando seus conhecimentos O texto de Dominick LaCapra a seguir, em conjunto ao que estudamos neste capítulo, estabelece uma relação mais estreita entre a cultura camponesa e a ideia de cultura popular. Convidamos para uma leitura que envolve as práticas culturais e as resistências de quem as conduz. O queijo e os vermes: o cosmo de um historiador do século XX (LACAPRA, 2015, p. 307-308) [...] A cultura popular oral, da qual a cultura camponesa é um compo- nente, pode ser reconstituída apenas de uma forma bastante incerta, dada a natureza da evidência. E, como indica Ginzburg, as forças de resistência à cultura hegemônica encontram-se amiúde entre os silêncios do passado, os quais devem ser considerados pelo historiador. Todavia, esse esforço não implica que a “voz” do historiador domine completamente o pas- sado. Tampouco exclui a necessidade de investigar os modos de acomo- dação às forças dominantes, pois esses oferecem um contexto realista para a apreciação da natureza – mais ou menos excepcional ou disseminada – da própria resistência. Com efeito, o historiador deve estar alerta para a possibilidade de tensões e contradições no interior de uma cultura tanto quanto entre os seus níveis, incluindo a cultura popular. Ginzburg critica a história das mentalidades por sua “insistência nos elementos inertes, obscuros, inconscientes de uma determinada visão de mundo” e por sua “conotação terminantemente interclassista” (p. 23-24). Entretanto, ele não apenas ameaça reproduzir em um outro nível a insistência no incons- ciente estrutural, como também tende a deslocar a suposição de uniformi- dade cultural da sociedade como um todo para as relações dentro de uma classe ou de um nível de cultura. A própria cultura hegemônica não é um todo homogêneo; ela varia ao longo do tempo, e as suas fissuras ou incertezas, em qualquer momento dado, oferecem espaços nos quais a resistência pode se manifestar. Em certos períodos, pode ser até difícil discernir o que é hegemônico ou O Estado moderno e a representação política no Ocidente6 História Moderna108 ortodoxo. Por meio do conflito, a Reforma e a Contrarreforma intensi- ficaram a unidade no interior dos grupos antagônicos, e é possível que tenha havido “uma distinção cada vez mais rígida entre cultura das clas- ses dominantes e cultura artesanal e camponesa” (p. 190). Contudo, o século XVI em geral foi um período em que a própria hegemonia estava em questão, e as linhas de comunicação não estavam completamente par- tidas, notadamente (como assinala Ginzburg) entre segmentos da cultura popular e da alta cultura. A Igreja pré-Reforma podia se dar ao luxo de ser relativamente tolerante, na medida em que os desafios a ela não sehaviam cristalizado em movimentos organizados em grande escala e em instituições alternativas. Quando do aparecimento da Reforma, a crosta não estava simplesmente partida de maneira a permitir a emergência de heterodoxias. Tal como nos primeiros séculos do cristianismo, a própria natureza da ortodoxia tinha de ser definida (ou redefinida), e a extensão dos desafios, tanto da parte de protestantes de várias confissões quanto da parte de heterodoxias relativamente não cristãs (bem como de diversas misturas), ajudou a gerar ansiedade e intolerância dogmática. A própria Igreja Católica exibiu alguns dos traços espiritualmente mais “rigoro- sos” dos seus críticos reformados – incluindo a sua “seriedade” e ímpeto anticarnavalesco –, não apenas para combatê-los de maneira mais efetiva como também devido aos elementos internamente persuasivos das for- mas mais recentes. [...] Atividades 1. O mundo camponês foi o mais afetado pela industrialização da Europa, tanto pela necessidade de mão de obra nas fábricas quanto de terras para que o campo produ- zisse mais, em larga escala e com boa qualidade. Explique de que modo isso afetou a vida cotidiana dos camponeses e traga ideias de como alguns reagiram, desafiando a ordem católica e econômica. 2. Analise a relação entre a cultura popular e os estudos do período moderno, explican- do de que modo tal conceito pode colaborar com a historiografia no entendimento das relações de poder daquela época. 3. Explique a diferença entre economia moral e a ideia de motins, visto que am- bas têm uma relação estreita, porém são analisadas de formas diferentes por Edward Thompson. O Estado moderno e a representação política no Ocidente História Moderna 6 109 4. O historiador Dominick LaCapra debate sobre o momento em que emerge a Refor- ma, afirmando que os dogmas ortodoxos demoraram para ser definidos, justamente por ser a Igreja reformada muito nova naquele período. Ao reler o texto de LaCapra, quais são as relações que podemos estabelecer com o processo em que o moleiro Menocchio foi julgado? Referências BAKHTIN, Mikhail. 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Camponeses, em suas várias camadas sociais, ou foram expulsos de suas terras – passando a trabalhar para outros camponeses ou nas cidades –, ou eram calados de acordo com os interesses administrativos e econômicos de nobres e de reis. De forma alguma poderiam querer inverter ou causar transformações sociais. Para isso, não poderiam ler ou ter acesso a novas ideias, práticas bastante limitadas pela Reforma e Contrarreforma. Nesse caso, as resistências se davam no campo, contra impostos, em saques e motins contra aqueles que controlavam o que poderiam ter ou não. Outro caso foi o de Menocchio, que contestou a Igreja católica e também seu lugar social, já que era apenas um moleiro camponês. O Estado moderno e a representação política no Ocidente6 História Moderna110 2. A ideia de cultura popular diz respeito às tradições de um grupo social. Elas podem ser na literatura, na música, no folclore, em festas, ou seja, em qualquer costume ou prática que seja comum àquele grupo e que faça parte de sua identidade e de suas expressões sociais. Ao analisar motins, julgamentos como o de Menocchio, histórias de vida, revoltas etc., podemos perceber como pequenos detalhes trazem a (sobre) vivência de indivíduos simples, da chamada História vista de baixo, algumas vezes es- quecidos ou não notados pela historiografia mais tradicional. Ao compreendermos tal perspectiva, é possível perceber que muitas tradições de cunho popular se man- tiveram em novas formas de organização e que trazem as resistências e negociações que grupos mais simples lideraram, não aceitando de forma alienada a nova ordem econômica e política vivida em diversos lugares da Europa a partir do século XVI. 3. Para o historiador Edward Thompson, os motins causados por grupos populares e de vivência comunal na Inglaterra do século XVIII não eram simples confusões cau- sadas por interesses dispersos. Eram motins, porém organizados com base em tradi- ções de camponeses ou daqueles que vinham do campo e estavam habituados a ter o seu pão e a negociar o seu preço. As bases da alimentação eram o pão e o trigo – este, um elemento essencial. No processo industrial, em que a agricultura também passou a produzir mais tanto para si quanto para outros mercados, aqueles que pagassem mais tinham os melhores produtos. Não obstante, em tempos de crise e de seca, mais ainda se valorizava o produto. Nesse contexto de fome ou de elevação e negociação dos preços sem considerar as tradições, os motins aconteciam, mas eram repletos de práticas culturais costumeiras. 4. O moleiro Menocchio misturava em seus discursos ideias pagãs da cultura popular grega e também princípios cristãos. Seu período ainda não era o efetivo da Reforma, ou seja, era o da pré-Reforma, que muito menos havia estabelecido novos princí- pios. Ao mesmo tempo, obviamente, a Contrarreforma, embora fizesse inquisições há séculos, também não havia se estabelecido. Dessa forma, ao analisar o processo, Carlo Ginzburg afirma que os inquisidores não sabiam exatamente como julgar Me- nocchio, por obedecerem a códigos preestabelecidos, ao tempo em que o moleiro se aproveitou desse contexto. Estratégia que não teve a mesma vitória no segundo julgamento, quando foi condenado à fogueira. História Moderna 111 7 O Iluminismo francês e a ideia de progresso Ele combateu ateus e fanáticos. Ele exigiu os direitos do homem contra servidão do feudalismo. Poeta Historiador Filósofo. Ele ampliou o espírito humano e ensinou que ele deve ser livre. (CHARTIER, 2009, p. 141) Teóricos iluministas franceses ganharam importância na política moderna e no modo como o mundo ocidental foi influenciado. As frases acima se referem ao que está escrito na lápide de François Marie Arouet, conhecido como Voltaire. É possível notar- mos a crítica contra o feudalismo e o próprio domínio da Igreja católica. No segundo verso do epitáfio, é evidente a lembrança sobre o espírito humano de ser livre. Essas são as premissas do Iluminismo, corrente filosófica muito peculiar aos franceses dos séculos XVII e XVIII, sobre o qual estudaremos na primeira parte deste capítulo. O Iluminismofrancês e a ideia de progresso7 História Moderna112 Entretanto, salientamos: as concepções de ciência e de homem moderno relacionadas ao Iluminismo não são iguais às que temos visto. E, se assim considerássemos, estaríamos dizendo que todas as sociedades anteriores eram atrasadas e nós, as mais evoluídas. Essa é a ideia de uma historiografia mais tradicional, linear e com a perspectiva evolucionista do século XIX. Por isso, objetivamos trazer algumas ideias que fazem parte da concepção filosófica e da ciência daquele período, as quais também foram responsáveis por mudanças sofridas no mundo político, social, econômico e cultural. Nas últimas seções, o intuito é trazer a concepção do que seria a ciência moderna, ou seja, aquela desenvolvida no período moderno, tanto pela influência de iluministas quanto pela própria revolução científica do século XVII e do Renascimento. Também objetivamos relacionar os dois primeiros pontos com o contexto do fim do século XVIII na França, perío- do que podemos intitular de “pré-Revolução Francesa”. 7.1 O Iluminismo francês e alemão O Iluminismo foi um movimento intelectual que questionava as premissas absolutistas, a própria hierarquia e os privilégios sociais, em especial, no que diz respeito às posições do clero. Uma de suas influências veio do século XVII, da revolução científica, na qual a razão ou a busca dela em qualquer método de experimentação e observação passou a ser estimu- lada. Um dos exemplos é o de René Descartes (1596-1650), que escreveu o livro Discurso do Método, em 1639, cuja matriz é o uso da razão, da experimentação e da dúvida. Com isso, a ciência moderna seria o resultado do raciocínio e da observação das matérias naturais, as quais poderiam ser utilizadas e dominadas pelos indivíduos. John Locke (1632-1704), por sua vez, defendia a propriedade privada, o liberalismo po- lítico e a defesa contra poderes absolutistas, assim como a relação entre sociedade e política, mediada por um contrato, ao passo que tudo isso só faria sentido se houvesse liberdade para todos. Já Isaac Newton (1642--1727), na esteira de Nicolau Copérnico, de Johannes Kepler e de Galileu Galilei, fez com que se ampliassem os estudos sobre a física e a matemática, trans- formando os princípios da História da Ciência. Esses cientistas chegaram a respostas bus- cadas desde a época dos filósofos gregos, como Aristóteles, que discutiam sobre a possibili- dade de se pensar de maneira lógica e racional o funcionamento do cosmos e do universo. Mas os homens que se preocupavam com números, corpos celestes e circunferências não foram apenas os responsáveis por uma revolução nas ideias. Os filósofos (ou philosophes) eram os homens das letras, ou seja, os intelectuais do período. Em sua maioria, eram da elite e objetivavam mudar a sociedade “de cima para baixo”, isto é, influenciar aqueles que comandavam ou poderiam fazer essas mudanças. Esses homens publicaram também a Enciclopédia, um conjunto de tudo o que era con- siderado o conhecimento mais importante já produzido nas diversas ciências. Tal conjunto, O Iluminismo francês e a ideia de progresso História Moderna 7 113 organizado pelos iluministas Denis Diderot e Jean Le Rond d´Alembert e publicado em 17511, foi escrito por cerca de 130 colaboradores. Figura 1 – Imagem do lançamento da Enciclopédia, de 1751. Fonte: Wikimedia Commons. Esses intelectuais faziam parte da sociedade francesa em geral, disseminando muitas ideias em reuniões políticas e festivas. Sobre isso, Chartier afirma o seguinte: A condição de homem de letras é incompatível com o retiro, a solidão, o afasta- mento da capital da república das letras. Pressupõe, pelo contrário, a convivência em que assentam as pequenas sociedades onde os letrados adoram conversar e discutir. O salão é a expansão fundamental destas sociedades que a Europa inteira inveja a Paris [...], o salão distingue-se de todas as outras formas de en- contro intelectual pela posição dominante, diretiva, que as mulheres ocupam. Se, por outro lado, ocupam um lugar modesto nos recenseamentos de autores [...], o seu papel é decisivo na sociedade literária que reúne letrados e gente mun- dana. Inúmeros frequentadores dos salões parisienses recordam, nas memórias que escreveram após a Revolução, como era exercido esse predomínio feminino. (CHARTIER, 1997, p. 129-130) 1 Em 2015, foi lançada uma edição em cinco volumes da Enciclopédia, divididos nos seguintes títulos: Discurso preliminar e outros textos; O sistema dos conhecimentos; Ciências da natureza; Política; Sociedade e Arte (D’ALEMBERT; DIDEROT, 2015). O Iluminismo francês e a ideia de progresso7 História Moderna114 De acordo com o historiador, é possível perceber que esses filósofos não evitavam falar sobre suas ideias. Isso está relacionado ao espírito do Iluminismo com a Revolução Francesa. Porém, é preciso pontuarmos que a aceitação dessas ideias por alguns nobres, aristocratas e burguesia dava respaldo e proteção aos filósofos ao questionarem o modo como estava organizado o sistema político em que estavam inseridos e ao qual eram submetidos. Nobres desejavam apoiar as ideias iluministas – para ganharem poder e destaque – em um período no qual havia uma concorrência política e econômica com a burguesia que, por sua vez, desejava dar e ter o mesmo apoio. Só reorganizar o Antigo Regime não seria sufi- ciente, era preciso transformar mais profundamente o ambiente social e político. Logo que houve a Revolução Francesa, os túmulos de Voltaire e de Rousseau foram transferidos ao Panteão de seus heróis, cujas lápides2 deixam evidente uma relação entre ideias iluministas e Revolução Francesa, no que diz respeito aos interesses burgueses. O fato é que os iluministas não fizeram a Revolução Francesa, não lutaram ou incenti- varam suas lutas. O objetivo de uma maioria era pensar o mundo e organizá-lo por meio da razão. Desse modo, por que os filósofos que não fizeram ou participaram da Revolução têm suas ideias relacionadas a ela? Roger Chartier e Robert Darnton são dois historiadores interessados na História da Leitura. Nesse sentido, pesquisar inventários, listas de edição, publicação e de vendas de livros, especialmente desde a Revolução de Johannes Gutemberg (em 1492), permitiu a eles entenderem como tal relação foi construída. Segundo Chartier, [...] o autor que domina o catálogo é Voltaire, com 31 títulos que vão desde Letras Filosóficas de 1734 até Romances e contos filosóficos e as Questões da Enciclopédia, publicado no início dos anos 1770. Voltaire também é o autor mais bem represen- tado no segundo documento que cito aqui: um catálogo elaborado entre junho e setembro de 1790 pelo livreiro parisiense a quem foi dada a responsabilidade de inventariar os livros confiscados armazenados na Bastilha em 1785 na última campanha do Antigo Regime para destruição dos livros perigosos. (CHARTIER, 2009, p. 128-129) Chartier, historiador francês, faz uma antologia sobre os livros produzidos e mais ven- didos no século XVIII na França. A citação refere-se aos resultados que ele encontra. Porém os intelectuais que chamamos de iluministas estão relacionados ao contexto da Revolução, assim como o Antigo Regime tinha receios quanto à leitura de tais ideias, pois elas poderiam fazer com que o povo questionasse o poder político do período – o que de fato ocorreu. Tal apropriação não é despropositada ou sem sentido. Se analisarmos o romance Júlia ou A nova Heloísa, de Jean-Jacques Rousseau, é possível perceber o uso da razão em aspectos que até anteriormente não eram questionados ou cogitados. O romance de seis volumes foi escrito ao decorrer de vários anos, ao mesmo tempo em que Rousseau recebia cartas de seus leitores. Essas trocas influenciavam no destino de Heloísa. 2 Os epitáfios das lápides de Voltaire e Rousseau eram, respectivamente: “Ele combateu ateus e faná- ticos/Ele exigiu os direitos do homem contra servidão do feudalismo” e “Poeta Historiador Filósofo/ Ele ampliouo espírito humano e ensinou que ele deve ser livre”. O Iluminismo francês e a ideia de progresso História Moderna 7 115 [...] Sim, em vão quis abafar o primeiro sentimento que me fez viver, ele se con- centrou em meu coração. Meu amigo, faço essa confissão sem vergonha, e este sentimento que permaneceu apesar de mim foi involuntário, ele nada custou à minha inocência, tudo o que depende de minha vontade escolheu meu dever. Se o coração, que dela não depende, vos escolheu, isso foi meu tormento e não meu crime. Fiz o que tive de fazer, fica-me a virtude sem mácula e ficou-me o amor sem remorsos. (ROUSSEAU, 1994, p. 634) Decisões tomadas no decorrer de uma narrativa e com base na razão podem ser notadas em diversos momentos da citação, por exemplo: “tudo o que depende de minha vontade escolheu meu dever ou fiz o que tive de fazer”. A literatura é simples e permeada por trocas de cartas com críticas sociais e políticas, cujo fim é decidido pela razão e não pela emoção. Tal coleção foi escrita ainda no processo de ruptura de Rousseau com os outros filósofos (DARNTON, 2006, p. 295-297), pois ele defendia que a literatura era representante da socie- dade do Antigo Regime, por isso, os livros mais vendidos – que atualmente chamamos de best-sellers – não deveriam ser considerados. Júlia ou A nova Heloísa acabou se tornando a literatura mais vendida do século XVIII, di- ferente de O Contrato Social (1762), cujo destaque é a sugestão da relação entre a sociedade e a política permeada sempre por um documento, um regimento, ou seja, aquilo que podería- mos chamar atualmente de Constituição. Esse romance não teria tanto destaque nos tempos atuais, haja vista seu tipo de escrita e de organização, afinal, os hábitos de leitura também se modificam ao longo da história. Por isso, podemos admitir que as ideias iluministas não tinham por intenção substituir ou acabar com o Antigo Regime, mas transformar o ambiente social e político. Tal conceito pode ser entendido da seguinte forma: [...] apropriação, a nosso ver, visa uma história social dos usos e das interpreta- ções, referidas a suas determinações fundamentais e inscritas nas práticas especí- ficas que as produzem. Assim, voltar a atenção para as condições e os processos que, muito concretamente, sustentam as operações de produção do sentido (na relação de leitura, mas em tantos outros também) é reconhecer, contra a antiga história intelectual, que nem as inteligências nem as ideias são desencarnadas, e, contra os pensamentos do universal, que as categorias dadas como invariantes, sejam elas filosóficas ou fenomenológicas, devem ser construídas na desconti- nuidade das trajetórias históricas. (CHARTIER, 2002, p. 67) Isso também ocorreu com a burguesia, após a Revolução Francesa, quando adaptaram as ideias que lhe eram convenientes, trazendo os restos mortais de Voltaire para o Panteão. Do mesmo modo de Voltaire, Rousseau é lembrado por Robespierre, conforme Chartier explica: Entre aqueles que, nas épocas às quais me refiro se sobressaíram nas letras e na filosofia, um homem [Rousseau], pela elevação de sua alma e pela grandeza de seu caráter, mostrou-se digno do ministério como preceptor da humanidade... Ah! Se ele tivesse testemunhado esta revolução da qual foi precursor e que o conduziu ao Panthéon [em 12 de outubro de 1793], quem duvidaria de que sua O Iluminismo francês e a ideia de progresso7 História Moderna116 alma generosa abraçaria com determinação a causa da justiça e da igualdade! (CHARTIER, 2009, p. 141-142) O que apontamos é a relação estabelecida por um dos líderes de um período sangrento da Revolução Francesa. Robespierre traz as ideias de Rousseau como motivadoras ou res- ponsáveis pelas mudanças. Ou seja, o Iluminismo não causou a Revolução Francesa, mas a disseminação de ideias sobre razão, ciência ou igualdade. No caso das de Rousseau, foram apropriadas pelas classes dirigentes do processo revolucionário. Voltaire, por sua vez, defendia a ciência universal, em que o intelectual caminha por todos os ramos do conhecimento científico sem ter uma especialidade. Desse modo, “[...] a definição do homem de letras apresentada na Enciclopédia é, então, a de um enciclopedista: não é um erudito que adquiriu saber profundo sobre uma determinada disciplina, mas um homem que possui conhecimentos em todas as áreas do saber” (CHARTIER, 1997, p. 119). Chartier também aponta que os verdadeiros letrados eram os que caminhavam por todo conhecimento, embora não pudessem desenvolver de modo adequado a todos. Por fim, o homem letrado, que concebia a ciência desse período, [...] representa a figura moderna do gramático antigo que era não só um homem versado na gramática propriamente dita, que é a base de todos os conhecimen- tos, mas um homem a quem a geometria, a filosofia, a história geral e particular não eram estranhas; que fazia sobretudo da poesia e da eloquência o seu estudo [...]. (CHARTIER, 1997, p. 119) Iluministas – também responsáveis pela ciência do período – eram aqueles que sa- biam conversar e debater sobre todos os assuntos. Mas, em especial, eram aqueles que defendiam o uso da razão e da liberdade. Nesse sentido, entendemos que o Iluminismo tomou por base ideias e debates de dois séculos e influenciou novas perspectivas políti- cas e de organização social. Um dos exemplos é o de Charles-Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu. Apesar de ter um título ligado à estrutura social do Antigo Regime, ele publicou (em 1748) o livro Em defesa do espírito das leis, em dois volumes, com grande impacto na for- mação das Repúblicas do período contemporâneo. Ele propôs a divisão do poder em três: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Com essa organização, além de os três po- deres limitarem um ao outro e estabelecerem um equilíbrio político, negavam um poder hegemônico, como era o absolutista. Essas ideias podem ser resumidas em alguns aspectos: a valorização da investigação e da experiência em busca do conhecimento em qualquer área que se relacione com a vivência de seres humanos; a razão acima de qualquer crença ou princípio; qualquer conhecimento não deve ser subordinado à religião, em especial à Igreja católica; crítica ao absolutismo e todas as características institucionais do Antigo Regime; o direito à liberdade política, eco- nômica e a igualdade perante a lei; e o direito à vida e à propriedade. Para os iluministas dos Estados germânicos no século XVIII, todo problema filosófico deveria ser analisado de maneira racional e lógica, especialmente no que se refere aos con- ceitos, como é possível perceber na citação a seguir: O Iluminismo francês e a ideia de progresso História Moderna 7 117 [...] não se deve admitir como verdadeiro aquilo que não tenha sido suficiente- mente demonstrado; nas proposições, é preciso determinar com a mesma agu- deza o sujeito e o predicado e tudo deve estar ordenado de tal modo que sejam premissas as coisas por força das quais são compreendidas e justificadas as que se seguem. (WOLFF apud REALE; ANTISERI, 1990, p. 824) Essa citação deixa evidente a insistência para o uso da razão, da experimentação para que se justifique um conhecimento e o que ele diz. Na região germânica, o termo que de- signava algo semelhante ao Iluminismo francês era Aufklärung (traduzido como esclareci- mento), e um dos mais importantes representantes foi Immanuel Kant (1724-1804). Para ele, esclarecimento é “[...] a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo” (KANT, 1783). Ou seja, se os indivíduos passassem a utilizar a sua capacidade de produção e reflexão sobre qualquer conhecimento não seriam mais manipulados por outros. O filósofo defendeu em seu texto Crítica da razão pura a escolha de que todo indivíduo deveria ter sobre a sua própria vida, sem ser determinada por tradições, dogmas, entre ou- tros. Para ele, o tempo iluministaé simbolizado pela tomada de consciência e pela defesa do uso da razão para a vida e para a organização social de qualquer contexto. Para Kant, só conhecemos um objeto, conceito ou uma teoria à medida que nos relacio- namos com ela, isto é, de acordo com a nossa experiência. Dessa forma, o conhecimento é gerado na relação estabelecida entre sujeito e objeto, mediados ou não pela experiência – ou seja, não dependem dela. A moral humana também deve ser pautada na razão, e não em perspectivas divinas que não podem ser tocadas, isto é, se não temos uma relação direta com esses objetos, não temos o conhecimento. E, sem ele, a moral da sociedade deve ser outra. Desse modo, podemos entender que “a razão pura pode ser prática; isto é, pode, por si, determinar a vontade, independentemente de qualquer coisa empírica” (KANT, 2003, p. 31). Portanto, a razão é o modo como se organiza a sociedade e ela ocorre à medida que a autonomia do indivíduo é desenvolvida pela sua existência e sua educação. Entretanto, o indivíduo deve observar se seus atos são bons para si e para os outros. Nesse sentido, a li- berdade, conduzida pela razão, é o conceito primário, visto que por meio dela o ser humano poderia escolher (bem) e influenciar os próprios atos. O Iluminismo, com base no modo como as sociedades estavam organizadas, influen- ciou por meio de novas determinações e sugestões políticas e sociais. Assim, novos cami- nhos foram percorridos também nos campos científicos, tema da próxima seção. 7.2 A ciência moderna Mencionamos anteriormente algumas noções sobre a ciência moderna no âmbito ilu- minista. Isso se deve porque a noção de ciência moderna é contemporânea ao nascimento da ideia de progresso, isto é, ambas são próximas do século XVIII. Nesse período, o conhe- cimento científico foi influenciado por uma perspectiva iluminista, na qual todos poderiam O Iluminismo francês e a ideia de progresso7 História Moderna118 cooperar com o conhecimento e com o fazer científico, buscando uma perspectiva positivista evolucionista. Assim, desde que todos cooperassem, o progresso daquela sociedade chega- ria e afetaria a todos de modo positivo. Entretanto, as faculdades medievais e o renascimen- to cultural e científico foram determinantes para que o conhecimento fosse sempre buscado ou renovado, a depender do período, da intensidade e de quem o detinha. Afirmamos isso diante do que Paolo Rossi ressalta: A ciência moderna nasceu fora das universidades, muitas vezes em polêmica com elas e, no decorrer do século XVII e mais ainda nos dois séculos sucessivos, transformou-se em uma atividade social organizada capaz de criar as suas pró- prias instituições. (ROSSI, 2001, p. 10) Frisamos: o período medieval foi marcado pela manipulação e domínio da Igreja ca- tólica. Porém, isso não tira a legitimidade daquilo que foi produzido nesse período. O que se modifica no século XVIII é a ideia do que é ciência e para que ela serve, considerando especialmente a Revolução Industrial, que necessitava de mais tecnologias para que se pro- duzisse mais e com novas matérias-primas. Do mesmo modo, para que o conhecimento não se perdesse era preciso reuni-lo e dis- cuti-lo. Muitas academias e organizações tiveram início nesse período. De curiosos, parti- cipantes novos e pesquisadores, os clubes, as associações e as academias passaram a ser laboratórios, centros de pesquisa que, futuramente, quando descobriram um objeto e uma metodologia própria, acabaram tornando-se as primeiras faculdades. Áreas como antro- pologia, história, geografia, sociologia, química quântica, anatomia, biologia, entre muitas outras foram descobertas e, aos poucos, tornaram-se cursos superiores. Figura 2 – REMBRANDT. Lição de anatomia do Dr. Tulp. 1632. Óleo sobre tela, color.: 169,5 cm × 216,5 cm. Museu Mauritshuis, Haia, Holanda. O Iluminismo francês e a ideia de progresso História Moderna 7 119 A pintura de Rembrandt Harmenszoon van Rijn traz a ideia do quanto era novo no século XVII o conhecimento do corpo humano. A ciência dos séculos XVII e XVIII era vista apenas como um conjunto de saberes. Sobre a obra de arte, podemos perceber a sobriedade dos retratados, com vestimentas pretas, como uma solenidade. Além disso, o foco da pintu- ra é o centro, o qual parece estar mais iluminado em relação às outras áreas. Alguns renascentistas, como Leonardo da Vinci, eram apontados como intelectuais, pintores, inventores etc. Tratava-se de um costume, o qual podemos entender pela citação a seguir: Sabe-se que o quadrivium medieval continha a aritmética, a geometria, a música e a astronomia. As discussões relativas à mathesis universalis concerniam, des- de a origem, à unificação desses domínios assim que a sua extensão eventual a outros. A riqueza da noção é grande durante todo o século XVII e, a despeito das transformações importantes, sempre tende a permitir pensar a unidade das matemáticas associadas à filosofia. (BLAY, 1998, p. 610) Dessa forma, o conhecimento poderia alcançar qualquer perspectiva ou assunto, visto que era unificado. O conhecimento é total, reunido e não é dividido em partes. A Enciclopédia – projeto iluminista – é um exemplo disso. Seus responsáveis poderiam versar a respeito de diversos assuntos. No conjunto de livros, o indivíduo poderia ter acesso às soluções de diversas inquietações. Um cientista não poderia ser conhecido como tal se ti- vesse apenas um tipo de conhecimento, ou seja, deveria compreender e circular por diversas áreas (CHARTIER, 1997). O conhecimento sobre o ser humano e a independência deste tornaram-se pauta das principais discussões do período, também por alterar o modo como os indivíduos se perce- biam e viviam. 7.3 O individualismo burguês e as transformações do século XVIII O que observamos ao fim do século XVIII, e que, certamente, inaugurou uma nova fase no século XIX, é o rompimento das classes menos abastadas ou com menos reconhecimento político, mesmo que ainda não se vissem como classe. Em geral, as ideias iluministas, as resistências de camponeses, as guerras civis (espe- cialmente na Inglaterra) não estavam em luta como um todo, mas, juntas, colaboraram com o fim do Antigo Regime. Junto a esse contexto estava o individualismo, cujo antecessor, o antropocentrismo (o homem como o centro do conhecimento) do Renascimento já havia dado centralidade ao estudo e à compreensão do homem. Dessa forma, entendemos que o homem moderno trouxe consigo o individualismo, na medida em que diminuíram os laços de servidão do Antigo Regime, de proteção dos donos das guildas em relação a seus aprendizes, bem como das relações comunais de cam- poneses. A privacidade e a intimidade que passaram a ser comuns também permitiam que O Iluminismo francês e a ideia de progresso7 História Moderna120 o indivíduo cada vez se recolhesse mais. Porém, não se trata exatamente desse tipo de in- dividualidade, mas de dominar a ideia de liberdade como algo natural e que, no decorrer da vida, o indivíduo tem o seu destino determinado por suas escolhas, sem considerarmos questões de classe, econômicas ou políticas. Ao escolher novos regimes políticos que defen- diam – mesmo que em parte – a liberdade e a igualdade para todos, o mundo ocidental pôde ver surgir a democracia, ou um ideal democrático. O que objetivamos afirmar é que as transformações ocorridas até aquele tempo ainda eram apenas as primeiras de um período bastante revolucionário. Se o indivíduo já era o centro dessas discussões, assim como a ciência e o progresso, o Estado, que daria a liberdade de mercado tão almejada pelos liberais do século XIX, também seria questionado pela resis- tência dos operários e dos movimentos destes. Eric Hobsbawm faz a seguinte afirmação sobre essa época: O velho mestre-artesão, ou algum grupo especial de ofícios ou mesmo de inter- mediários locais poderiam se transformar em algo parecido com empregadores ou subcontratados. Mas o controlador-chefe destas formas descentralizadas de produção,aquele que ligava a mão de obra de vilarejos perdidos ou de ruelas afastadas com o mercado mundial, era uma espécie de mercador. E os industriais [...] em comparação a eles eram ínfimos operadores [...] era nesta época um pobre gerente e não um capitão de indústria. (HOBSBAWM, 2010, v. 1, p. 46-47) O historiador afirma que na década de 1780 diversos princípios que regeriam o século XVIII já eram perceptíveis. A Inglaterra e os países que a seguiam já investiam no mundo industrial, mesmo que de forma variável. Porém, entre Inglaterra e França havia algo em comum, além de serem protagonistas de grandes revoluções: o Iluminismo. Hobsbawm, acerca do panorama social, político e econômico do fim do século XVIII, traz a seguinte perspectiva: Um individualismo secular, racionalista, progressista dominava o pensamento “esclarecido”. Libertar o indivíduo das algemas que o agrilhoavam era o seu principal objetivo: do tradicionalismo ignorante da Idade Média, que ainda lan- çava sua sombra pelo mundo, da superstição das Igrejas [...] Não é propriamente correto chamarmos o “iluminismo” de uma ideologia da classe média, embora houvesse muitos iluministas – e foram eles os politicamente decisivos – que as- sumiram como verdadeira a proposição de que a sociedade livre seria uma so- ciedade capitalista. Em teoria, seu objetivo era libertar todos os seres humanos. Todas as ideologias humanistas, racionalistas e progressistas estão implícitas nele, e de fato, surgiram dele. Embora na prática os líderes da emancipação exi- gida pelo Iluminismo fossem provavelmente membros dos escalões médios da sociedade, embora os novos homens racionais o fossem por habilidade e mérito e não por nascimento, e embora a ordem social que surgiria de suas atividades tenha sido uma ordem capitalista e “burguesa”. (HOBSBAWM, 2010, p. 48-49) O Iluminismo francês e a ideia de progresso História Moderna 7 121 Portanto, todos os acontecimentos do século XVIII foram importantes para que mudan- ças ocorressem; entretanto, as ideias iluministas, ao serem apropriadas, acabaram impul- sionando a Revolução Francesa. Uma revolução que duraria ao menos 10 anos, haja vista que até 1780 muitos ainda defendiam o despotismo esclarecido, pois o Iluminismo exigia uma mudança na ordem política e social. Das resistências camponesas, da Enciclopédia de Alembert e Diderot, a Revolução Francesa (e outras) trouxe, no fim daquele século, um novo tempo político e social para a nação, para a Europa e para o mundo ocidental. Conclusão Objetivamos neste capítulo discutir sobre algumas ideias iluministas e a importância desse processo na construção de ideais que nortearam a formação dos Estados modernos, especialmente no que se refere às repúblicas e às noções de liberdade e igualdade. O uso da razão, sobretudo, significa permitir que o nosso conhecimento seja questionado – não apenas o saber científico, mas também o referente ao senso comum, organizador de nosso cotidiano, do mundo social-político. É o mesmo que dar às tradições e aos dogmas os seus lugares, que, por sua vez, são inferiores ao conhecimento crítico conduzido pela razão. Ampliando seus conhecimentos O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos traz algumas perspec- tivas sobre a ciência do século XVIII e as que a precederam. Leia e reflita sobre o fazer científico e as influências deste em sua vida. (SANTOS, 1988, p. 48-49) O modelo de racionalidade que preside à ciência moderna constituiu-se a partir da revolução científica do século XVI e foi desenvolvido nos séculos seguintes basicamente no domínio das ciências naturais. Ainda que com alguns prenúncios no século XVIII, é só no século XIX que este modelo de racionalidade se estende às ciências sociais emergentes. A partir de então pode falar-se de um modelo global de racionalidade científica que admite variedade interna, mas que se distingue e defende, por via de fron- teiras ostensivas e ostensivamente policiadas, de duas formas de conhe- cimento não-científico (e, portanto, irracional) potencialmente perturba- doras e intrusas: o senso comum e as chamadas humanidades ou estudos humanísticos (em que se incluíram, entre outros, os estudos históricos, filológicos, jurídicos, literários, filosóficos e teológicos). O Iluminismo francês e a ideia de progresso7 História Moderna122 Sendo um modelo global, a nova racionalidade científica é também um modelo totalitário, na medida em que nega o caráter racional a todas as formas de conhecimento que se não pautarem pelos seus princípios epis- temológicos e pelas suas regras metodológicas. É esta a sua característica fundamental e a que melhor simboliza a ruptura do novo paradigma cien- tífico com os que o precedem. Está consubstanciada, com crescente defi- nição, na teoria heliocêntrica do movimento dos planetas de Copérnico, nas leis de Kepler sobre as órbitas dos planetas, nas leis de Galileu sobre a queda dos corpos, na grande síntese da ordem cósmica de Newton e finalmente na consciência filosófica que lhe conferem Bacon e sobretudo Descartes. Esta preocupação em testemunhar uma ruptura fundante que possibilita uma e só uma forma de conhecimento verdadeiro está bem patente na atitude mental dos protagonistas, no seu espanto perante as próprias descobertas e a extrema e ao mesmo tempo serena arrogância com que se medem com os seus contemporâneos. Para citar apenas dois exemplos, Kepler escreve no seu livro sobre a Harmonia do Mundo publicado em 1619, a propósito das harmonias natu- rais que descobrira nos movimentos celestiais: “Perdoai-me mas estou feliz; se vos zangardes eu perseverarei; [...] O meu livro pode esperar mui- tos séculos pelo seu leitor. Mas mesmo Deus teve de esperar seis mil anos por aqueles que pudessem contemplar o seu trabalho”. Por outro lado, Descartes, nessa maravilhosa autobiografia espiritual que é o Discurso do Método e a que voltarei mais tarde, diz, referindo-se ao método por si encontrado: “Porque já colhi dele tais frutos que embora no juízo que faço de mim próprio procure sempre inclinar-me mais para o lado da des- confiança do que para o da presunção, e embora, olhando com olhar de filósofo as diversas ações e empreendimentos de todos os homens, não haja quase nenhuma que não me pareça vã e inútil, não deixo de receber uma extrema satisfação com o progresso que julgo ter feito em busca da verdade e de conceber tais esperanças para o futuro que, se entre as ocu- pações dos homens, puramente homens, alguma há que seja solidamente boa e importante, ouso crer que é aquela que escolhi”. Sugestão de leitura KANT, Immanuel. O que é o esclarecimento? 1783. Disponível em: <http://coral.ufsm.br/gpforma/ 2senafe/PDF/b47.pdf>. Acesso em: 12 out. 2017. O Iluminismo francês e a ideia de progresso História Moderna 7 123 Atividades 1. Se o Iluminismo não é responsável sozinho pelas mudanças políticas contemporâ- neas e ocasionadas pela Revolução Francesa, especifique quais as relações que po- demos estabelecer entre a política contemporânea e aquele acontecimento político e social. 2. Explique as principais concepções sobre a ideia de ciência do período moderno e a relação desta com o progresso. 3. Estabeleça uma relação entre liberdade e razão, com base nas ideias de Immanuel Kant. 4. Considerando as ideias do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, explique quais seriam as principais influências sentidas pela ciência moderna e as consequências disso para as especialidades nas concepções científicas. Referências CHARTIER, Roger. O mundo como representação. In.: CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a histó- ria entre incertezas e inquietude. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2002. CHARTIER, Roger. O homem de letras. In: VOLVELLE, Michel. O homem do Iluminismo. Lisboa: Presença, 1997. CHARTIER, Roger. Origens culturais da Revolução Francesa. Assis: Ed. da Unesp, 2009. DARNTON, Robert. Boemia literária e Revolução. São Paulo: Cia. das Letras, 1989. DARNTON, Robert. O grande massacrede gatos: e outros episódios da história cultural francesa. São Paulo: Graal, Rio de Janeiro. KANT, Immanuel. Crítica da razão prática. São Paulo: Martins Fontes, 2003. KANT, Immanuel. O que é o esclarecimento? (1783). Disponível em: <http://coral.ufsm.br/gpforma/ 2senafe/PDF/b47.pdf>. Acesso em: 12 out. 2017. REALE/ANTISERI. História da Filosofia. São Paulo: Ed. Paulus, Coleção Filosofia, 1991. ROSSI, Paolo. O nascimento da ciência moderna na Europa. Bauru: Edusc, 2001. ROUSSEAU, Jean Jacques. Júlia ou A nova Heloísa. Campinas: Ed. da Unicamp, 1994. SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-mo- derna. Estudos Avançados: São Paulo, v. 2, n. 2, maio/ago. 1988. HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções: 1789-1848. São Paulo: Editora Paz e Terra, v. 1, 2010. O Iluminismo francês e a ideia de progresso7 História Moderna124 Resolução 1. Um dos objetivos é pensar em um governo com uma hierarquia não tão engessada como era o absolutismo, considerando o tempo iluminista, além da participação de mais grupos e o poder dividido em setores, para que não ficasse apenas na mão de uma pessoa. Dessa forma, o Iluminismo não causou a ideia de república ou de demo- cracia como as conhecemos, porém lançou possibilidades que, ao serem adaptadas em cada realidade política, tornaram-se propostas mais próximas do que conhece- mos. Do mesmo modo, o Iluminismo não causou a Revolução Francesa, mas quem a promoveu apropriou-se ou foi influenciado por alguns de seus ideais. 2. A ideia de ciência pensada a partir do século XVII é uma concepção que reúne um todo em que diversos saberes são debatidos, conduzidos e compreendidos por um mesmo filósofo. Dessa forma, um filósofo era capaz de discutir sobre qualquer as- sunto, embora não fosse especialista em vários deles. O tópico mais especial diz res- peito ao uso da razão e da experimentação, ou seja, tudo o que pudesse ser pensado, conceituado e “provado” seria considerado verdadeiro. Ao mesmo tempo, essa ciên- cia sofreu mudanças após o século XVII com as transformações do mundo econômi- co e do trabalho, visto as profundas trasnformações na industrialização. A ciência cada vez mais se tornou ligada à ideia de progresso, ou seja, quanto mais avançasse no desenvolvimento de novas tecnologias, mais avançada seria considerada uma nação. Além disso, havia uma visão “positivista”, em que o nível político de uma sociedade era medido por seu conhecimento industrial capitalista e que o que havia ocorrido anteriormente era considerado atrasado, em uma perspectiva evolucional. 3. Para o filósofo alemão Immanuel Kant, um conceito só pode ser considerado como tal quando testado, conhecido e teorizado. Para isso, o conhecimento deve ser tecido na relação entre o objeto e o sujeito. A partir disso, o mundo dos indivíduos pode ser debatido e questionado de acordo com a moral, que é o resultado de todo conheci- mento desenvolvido. Para que isso ocorra, é preciso que o sujeito tenha liberdade e que a use de modo racional, ou seja, a razão é o ponto pelo qual uma sociedade deve se organizar, estabelecendo sua moral, educação e autonomia. 4. O modelo constituído a partir do século XVI é basicamente das Ciências Naturais. Todo aspecto que caracteriza a ciência é visto como algo racional e dele também vieram os aspectos norteadores das humanidades (os estudos históricos, filológi- cos, jurídicos, literários, filosóficos e teológicos). Com esse modelo global, poucas variedades se aceitam no fazer científico, permitindo que haja uma hierarquia entre as ciências e, em especial, intitulando algumas de “não científicas”. Dessa forma, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos classifica tal modelo como uma perspectiva totalitária, visto que nega o caráter racional próprio a todas as formas de produção de conhecimento que não utilizarem as mesmas regras metodológicas das Exatas. História Moderna 125 8 O florescer de uma nova política no século XVIII Neste capítulo nos dedicamos a pensar as relações possíveis entre o que seria o período moderno e o contemporâneo. Sabemos que o evento da Tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789, em Paris – local onde eram presos todos que questionavam o regime absolutista francês –, não revolucionou tudo o que havia anteriormente. O que afirmamos é que, além das mudanças, há diversas continuidades de processos sociais, políticos, econômicos e culturais peculiares ao mundo moderno naquele que seria o contemporâneo. Desse modo, este capítulo tem o objetivo de estabelecer algu- mas relações entre as resistências já percebidas no século XVIII, as quais impulsiona- ram a Revolução Francesa, com os novos direitos e reivindicações no que se refere aos direitos humanos e de igualdade, posteriores à revolução. Esse novo panorama social, econômico e político só foi possível pelo desenvolvimento de novos tipos de governo, como as repúblicas e os impérios, nos quais muitas vezes houve a presença de cons- tituições ou de parlamentos. Esse tema é abordado no segundo tópico deste capítulo, visto que, para compreender o imperialismo comum a partir de meados do século XIX no mundo ocidental (e centralizado pela Europa), precisamos refletir sobre como na virada do século – e como consequência também da Revolução Francesa – criam-se condições ideais para essa transformação política. Por último, o que podemos perceber desses processos de transição, entre tantas mudanças e continuidades, são dezenas de novos conceitos que formam o mundo contemporâneo e que geram, por sua vez, difi- culdades no âmbito escolar. Desse modo, a intenção é trazer algumas possibilidades de como nós, professoras e professores, podemos trabalhar em nosso cotidiano em sala de aula, buscando uma adequada relação entre ensino e aprendizagem. O florescer de uma nova política no século XVIII8 História Moderna126 8.1 Revolução Francesa e a ideia de igualdade A Revolução Francesa ocasionou diversas mudanças sociais, econômicas e políticas que transformaram completamente o mundo ocidental nos dois séculos seguintes. Como todo acontecimento histórico, ou mesmo como toda revolução, não foi um processo homogêneo e rápido. Como afirma Hannah Arendt, O conceito moderno de revolução, inextricavelmente ligado à noção de que o curso da História começa subitamente de um novo rumo, de que uma História inteiramente nova, uma História nunca antes conhecida ou narrada está para se desenrolar, era desconhecido antes das duas grandes revoluções no final do século XVIII. (ARENDT, 1988, p. 23) O período revolucionário durou 10 anos (1789-1799)1, com várias tentativas de novas políticas, como também de golpes e traições. Porém, como uma proposta até então desco- nhecida, uma política mais democrática, seria aceita de modo geral, em um contexto tão absolutista como era o Antigo Regime? Os historiadores Kalina Silva e Maciel Silva definem o processo dessa forma: No geral, a Revolução Francesa é reconhecida como o nascimento da democracia moderna, pois enquanto a sociedade do Antigo Regime se fundamentava na de- sigualdade entre os homens, surgiu pela primeira vez na história uma revolução que tinha como bandeira a igualdade, a soberania do povo, a liberdade, a ideia de Direitos do Homem. Segundo François Furet e Mona Ozouf, essa ruptura já exprime a natureza ao mesmo tempo política e filosófica do movimento. E não é por acaso que a Revolução Francesa é considerada o marco da transição da Idade Moderna para a Idade Contemporânea. (SILVA; SILVA, 2009, p. 366) Embora a Revolução Francesa seja vista como um todo, seu processo foi lento (1789- 1799) e passou por diversas fases, incluindo o “período do Terror”, liderado por jacobinos. Os jacobinos foram o grupo mais radical do movimento e se reuniam no mosteiro de São Tiago – em latim, Jacobus, por isso o nome. Sentavam-se mais à esquerda da Assembleia francesa e, por isso, sua relação política mais radical foi considerada “de esquerda” (HOBSBAWM, 2010). Emboratenham tido apoio popular e defendido em alguns momentos preceitos de ordem mais coletiva, acabaram por instaurar uma política que executava ou prendia os opositores às suas ideias. Dessa forma, o período da Revolução Francesa, mesmo guiado em diversos momentos por ideais democráticos, não foi homogêneo. Portanto, o que podemos salientar desse processo não é somente os vários debates po- líticos, mas o peso que a ideia de liberdade, de igualdade e de fraternidade, lema da Revolução Francesa, ocasionou ao mundo contemporâneo. Nesse contexto, a liberdade foi defendi- da apenas nos meses iniciais da Revolução Francesa, sendo logo substituída pelo conceito de igualdade. Seu significado, para Ozouf, pode ser compreendido em dois sentidos, o da 1 A Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) demonstra, por meio de um quadro geral, uma cronologia dos acontecimentos da Revolução Francesa. Optamos por ele devido à complexidade do estudo da Revolução Francesa. Disponível em: <http:// www.fafich.ufmg.br/~luarnaut/crnlgrf.pdf>. Acesso em: 25 out. 2017. O florescer de uma nova política no século XVIII História Moderna 8 127 “liberdade negativa” e o da “liberdade positiva”. Em relação à primeira, “[...] ser livre reside em não ser impedido de atuar segundo os objetivos que se escolheram e não sofrer constran- gimentos [...]” (FURET; OZOUF, 1989, p. 778), ou seja, é a garantia de uma liberdade indi- vidual. No que diz respeito à segunda, ela “consistia em entrar nos negócios públicos, par- ticipar constante, direta e intensamente da vida do Estado” (FURET; OZOUF, 1989, p. 779), isto é, trata-se da possibilidade de participação política de todos. Por sua vez, a igualdade, para Ozouf, era dividida em duas: a “formal” e a “igualdade de fato”. A primeira, também conhecida como igualdade meritocrática, era a afirmação de que todos eram iguais perante a lei, porém se torna complexa a partir da seguinte consideração, visto que nem todos têm as mesmas oportunidades: “A igualdade meritocrática veicula uma crítica devastadora do privilégio, a desqualificação sem apelo da transmissão hereditária [...] A igualdade devida aos méritos e aos talentos varre as prerrogativas de nascimento” (FURET; OZOUF, 1989, p. 741). Já a “igualdade de fato” estava relacionada aos sans-cullotes, como um coletivo. Essa ideia foi uma das bases de influência para a Conjuração dos Iguais, responsável por definir a igualdade como: “a cada um o que lhe bastasse, mas não mais do que isso; abolição da propriedade individual da terra, repartição rigorosa dos bens no domicílio de cada um” (FURET; OZOUF, 1989, p. 750). Ainda para Ozouf, o conceito de fraternidade foi o menos influente no processo revolu- cionário. Diferentemente da igualdade e da liberdade, que eram entendidas como direitos políticos, a fraternidade era vista como uma obrigação moral. Apenas na Constituição de 1848 ela passou a ter o mesmo lugar das demais, tanto pela dificuldade em se compreender o seu significado, como também por ser associada às ideias políticas de “esquerda” (FURET; OZOUF, 1989). Nesse aspecto, os significados desses termos demonstram a complexidade do momento e como essas ideias foram motivos de disputas nas relações de poder. Além disso, reside uma noção de que a história é um conjunto de muitos acontecimentos que não se sobrepõem um ao outro, mas que provoca tensões entre eles, no qual percebemos perma- nências e continuidades. A Revolução Francesa, notadamente mais influenciada pela burguesia, embora não so- mente por ela, abalou os alicerces absolutistas e os remanescentes do feudalismo, os quais deixaram de existir nas décadas seguintes. Ao instituir uma economia mais capitalista e in- dustrial, com incentivo do liberalismo, desencadeou o fortalecimento da própria burguesia. Em função do mundo do trabalho, houve ainda o surgimento de um novo grupo, que, com as influências dos princípios de igualdade desdobradas nas décadas seguintes, torna-se-ia, a partir de 1830, uma nova classe: a dos trabalhadores. Esta é pensada pelo historiador Eric Hobsbawm como o futuro operariado do pós-movimento de 1848, quando passou a se ver como classe, do seguinte modo: Homens independentes se transformassem em dependentes, e que pessoas se transformassem em “mãos”. Na pior das hipóteses, e a mais frequente, criava multidões de desclassificados, empobrecidos e famintos tecelões manuais, tece- lões mecânicos e etc., cuja miséria gelava o sangue do economista mais insensível [...] à medida que eles se afundavam no pantanal das úmidas oficinas, os artífi- ces do continente que se transformaram em proletários itinerantes, os artesãos O florescer de uma nova política no século XVIII8 História Moderna128 que perderam sua independência, haviam sido estes os mais habilitados, os mais instruídos, os mais autoconfiantes, em suma, a flor da classe trabalhadora. (HOBSBAWM, 2010, v. 1, p. 330) O que apontamos é que, ao mesmo tempo em que o capitalismo se tornava o principal modo econômico, especialmente por meio do processo de industrialização, outro aspecto também crescia, o do crescimento de um grupo (ou classe) explorado pelo primeiro. Se a Revolução Francesa havia prometido ideais como o de igualdade, o capitalismo de forma alguma era um defensor desse conceito, visto que precisava explorar a mão de obra dos trabalhadores em seus meios de produção, a fim de obter lucro. Assim, o que ocorreu é pa- radoxal, especialmente se consideramos a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão (1789), como podemos perceber nos seguintes artigos: Art. 6º. A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de concorrer, pessoalmente ou através de mandatários, para a sua formação. Ela deve ser a mesma para todos, seja para proteger, seja para punir. Todos os ci- dadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos. Art. 7º. Ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determi- nados pela lei e de acordo com as formas por esta prescritas. Os que solicitam, expedem, executam ou mandam executar ordens arbitrárias devem ser punidos; mas qualquer cidadão convocado ou detido em virtude da lei deve obedecer imediatamente, caso contrário torna-se culpado de resistência. [...] Art. 12. A garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força pública. Esta força é, pois, instituída para fruição por todos, e não para utilidade particular daqueles a quem é confiada2. O que percebemos é que a lei, em qualquer caso, era igual para a proteção de todos. O próprio artigo 7º demonstra que punições não poderiam ser impostas sem a proteção, antes, de uma força pública (artigo 12). Podemos entender que diversas leis trabalhistas, sociais, políticas que nasceriam nos séculos posteriores seriam forjadas com base nesses ar- tigos, o que causaria resistências e conflitos. Portanto, havia um documento que instigava o questionamento das desigualdades que cresciam no regime trabalhista capitalista, uma nova hierarquia social em um tempo em que o absolutismo já decaía significativamente. A historiadora Lynn Hunt (2009) afirma que a ideia de direitos humanos e a de igualdade foram forjadas com base no que se entendia como direitos do homem. Segundo Hunt, a lei deveria ser a mesma para todos, não deveria permitir castigos nem suplícios públicos, e o réu seria visto como inocente até o julgamento. Direitos tradicionais ou de costume estavam abolidos. Apesar das mudanças, permaneceram os valores de honra, de acordo com as ações 2 Para conhecer mais artigos da Declaração, acesse o link da Biblioteca Virtual de Direitos Humanos, disponível em: <http://www.direitoshumanos.usp. br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A- 0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/declaracao-de- -direitos-do-homem-e-do-cidadao-1789.html>.Acesso em: 25 out. 2017. O florescer de uma nova política no século XVIII História Moderna 8 129 e não mais com o nascimento. Para os homens, a honra pública e os direitos políticos eram as características mais importantes, enquanto para as mulheres eram destinados o mundo privado e o doméstico. Os direitos humanos ainda são entendidos de acordo com três perspectivas: devem ser naturais, visto que todo ser humano tem direitos a partir de seu nascimento, iguais (permi- tidos a todos) e universais (aplicáveis em qualquer lugar). Nesse caso, o status de “humano” é a condição necessária para se ter o direito. Os direitos do homem forneciam os princípios para uma visão alternativa de governo. Como os americanos haviam feito antes, os franceses declararam os direitos como parte de uma crescente ruptura com a autoridade estabelecida [...] Os deputados franceses declaravam que “todos os homens” e não só os fran- ceses, “nascem e permanecem livres e iguais em direitos” (artigo 1º). Entre os “direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem” estavam a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão (artigo 2º). Concretamente, isso significava que quaisquer limites aos direitos tinham de ser estabelecidos na lei (artigo 4º). “Todos os cidadãos” tinham o direito de participar na formação da lei, que deveria ser a mesma para todos (artigo 6º) [...] (HUNT, 2009, p. 131-132) Hunt salienta o fato de não haver menção ao rei ou à Igreja católica e, mesmo que fossem considerados sagrados, não era atribuída a eles uma origem sobrenatural. Nessa declaração foram considerados os direitos do homem, da nação e dos cidadãos, porém não foi qualificada a cidadania (HUNT, 2009). Assim, questões urgentes foram resolvidas e abri- ram-se possibilidades de autonomia individual, de integridade corporal e de questionamen- tos, por exemplo, de mulheres e escravos, os quais antes nunca haviam tido uma posição política sobre esses assuntos. Além disso, é preciso lembrar que, embora a Revolução Francesa seja apontada em ge- ral como burguesa, havia muitos que sequer tinham propriedades. O historiador Emmanuel Le Roy Ladurie (2007) expõe uma trajetória de revoltas camponesas no século XVIII, as quais muitas vezes acabaram em negociações, mas também em mortes e torturas. Fato é que a Revolução Francesa foi o ápice de um contexto em que parte de uma massa, anteriormente excluída, tomou o poder. Embora a tradição camponesa seja reconhecida na França, trabalhadores urbanos, ain- da no século XVIII, também fizeram manifestações. Uma delas, narrada pelo historiador Robert Darnton, ocorreu na seguinte situação: O operário Nicolas Contat contou a história numa narrativa que fez sobre seu estágio na gráfica, na rua Saint-Séverin, Paris, durante o fim da década de 1750. A vida de aprendiz era dura, ele explicou. Havia dois aprendizes [...] dormiam num quarto sujo e gelado, levantavam-se antes do amanhecer, saíam para execu- tar tarefas o dia inteiro, tentando furtar-se dos insultos dos oficiais (assalariados) e os maus-tratos do patrão (mestre) e nada recebiam para comer [...] pior ainda, o cozinheiro vendia, secretamente, as sobras, e dava aos rapazes comida de gato – velhos pedaços de carne podre que não conseguiam tragar, e, então, passavam para os gatos, que os recusavam. (DARNTON, 2006, p. 103-104) O florescer de uma nova política no século XVIII8 História Moderna130 O episódio é conhecido na historiografia, visto que, devido às condições de trabalho e ao fato de terem de conviver com gatos, que eram mais bem tratados do que alguns operários da gráfica, os trabalhadores fizeram uma manifestação matando esses animais. Os bichanos também foram apontados em uma imagem simbólica de feitiçaria, devido aos barulhos e gritos noturnos. No que se refere ao mundo do trabalho, a história da gráfica apresenta um panorama dos trabalhos artesanais não mais como algo que privilegiava a experiência, mas como representação de um período em que se contratava quem menos recebia e no qual os funcionários já não eram vistos como a família do mestre (DARTON, 2006). Ainda de acordo com Darnton, a partir de 1740, “as grandes gráficas, apoiadas pelo governo, eliminaram a maioria das oficinas menores e uma oligarquia de mestres assumiu o controle da indústria” (DARNTON, 2006, p. 108-109). A substituição da mão de obra por uma menos especializada e artesanal, como também a eliminação de pequenas unidades em meados do século XVIII ainda absolutista, demons- tra como o processo econômico-industrial não é algo peculiar à Inglaterra ou ao século XIX (no caso francês). Porém, também sugere que seus trabalhadores não eram tão pacíficos, e muito menos seriam quando estivessem vivendo um novo período político, liberal, mas de promessas de igualdade. Importante ressaltarmos que, com as manifestações trabalhistas de 1848-1860, foram conquistados os primeiros direitos trabalhistas e exigidos também os direitos civis. Percebemos, assim, que o período da Revolução Francesa, seguindo o posicionamento de Hobsbawn: [...] não foi apenas mais um evento que abalou as estruturas do Antigo Regime, mas um fato de consequências mais fundamentais para a contemporaneidade do que qualquer outro, visto que foi uma revolução social de massa. Para esse historia- dor, se a Revolução Industrial inglesa moldou a economia do mundo no século XIX, foi a França, por sua vez, a Nação que deu às transformações econômico- -sociais do período uma linguagem política, com o liberalismo e a democracia. O próprio conceito de nacionalismo é resultado da Revolução Francesa. (SILVA; SILVA, 2006, p. 367) Portanto, apreendemos que a Revolução Francesa teve como premissa política tradu- zir transformações sociais e econômicas. Com a inserção dos direitos humanos em âmbito político, o século XIX viu se intensificar essa perspectiva. Para a historiadora Lynn Hunt, os direitos humanos só puderam florescer quando os cidadãos passaram a sentir que eram iguais uns aos outros, ou seja, foi um processo lento e, embora tenha sido muito incentivado a partir da Revolução Francesa, “é possível perceber uma forte corrente a favor da proibição das torturas a partir de 1760 na Europa. Outras críticas feitas à prática da tortura era a de selvageria e barbárie, inadmissíveis em uma sociedade que se pretendia civilizada e moder- na” (HUNT, 2009, p. 102). Para que se construíssem os ideais de direitos humanos de uma forma um tanto mais evidente, a historiadora aponta que houve uma lacuna temporal entre a “formulação das declarações francesa e estadunidense” até a Declaração Universal das Nações Unidas, em 1948 O florescer de uma nova política no século XVIII História Moderna 8 131 (HUNT, 2009, p. 177). Nesse período, os direitos humanos ficaram submetidos às nações e às suas estruturas. A Revolução Francesa deu mais cidadania à população do que se havia conhecido até então. O conceito de cidadania pôde ser entendido a partir do século XIX, de acordo com o historiador José Murilo de Carvalho (2009), sob três perspectivas: os direitos civis correspon- dem ao direito à liberdade, à propriedade e à igualdade perante a lei; os direitos políticos dizem respeito à participação do cidadão no governo da sociedade – pelo voto; e os direitos sociais são os direitos à educação, ao trabalho, ao salário justo, à saúde e à aposentadoria. Carvalho ainda aponta que o modo como é construída a cidadania é [...] de baixo para cima ou de cima para baixo. Exemplos de cidadania construída de baixo para cima são as experiências históricas marcadas pela luta por direitos civis e políticos, afinal conquistados ao Estado absolutista. Exemplos de movi- mentação na direção oposta são os países em que o Estado manteve a iniciativa da mudança e foi incorporando aos poucos os cidadãos à medida em que ia abrindo o guarda-chuva de direitos. O outro eixo proposto por Turner tem a ver com a dicotomia público-privado. A cidadania pode seradquirida dentro do espaço público, mediante a conquista do Estado, ou dentro do espaço privado, mediante a afirmação dos direitos individuais, em parte sustentados por orga- nizações voluntárias que constituem barreiras à ação do Estado. (CARVALHO, 1996, p. 338) Percebemos, portanto, que a cidadania, os direitos humanos e os princípios de igual- dade prometidos com a Revolução Francesa foram influenciados e/ou manipulados pelos interesses capitalistas e liberais do século XIX. Mas também é possível perceber que havia uma trajetória de resistências na França (e em outros países). Essas resistências, além de alte- rarem o panorama social e político da Europa (Ocidental, em especial), também foram além dos mares, visto que sua concepção de república estendeu-se a uma ideia de império, for- mando a prática política chamada de imperialismo, sobre a qual trataremos na próxima seção. 8.2 Nações e imperialismo A formação dos Estados modernos, no Antigo Regime, causou a centralização da po- lítica na figura do rei no período moderno. Porém, nada mais alterou o panorama político, em tão pouco tempo, quanto a própria Revolução Francesa. Eric Hobsbawm resume esse contexto de profundas mudanças do seguinte modo: Sobreviventes formais de uma era anterior, tais como o Sagrado Império Romano e a maioria das cidades-Estados e cidades-impérios, desapareceram. [...] as anti- gas repúblicas de Génova e Veneza desapareceram em 1797 e, ao final da guerra, as cidades alemãs livres tinham sido reduzidas a quatro. [...] Fora da Europa, é claro, as mudanças territoriais das guerras foram consequência da total anexação britânica das colônias de outros povos, assim como dos movimentos de liberta- ção colonial inspirados pela Revolução Francesa (p. ex. em São Domingos) ou O florescer de uma nova política no século XVIII8 História Moderna132 que se tornaram possíveis ou impostos pela separação temporária das colônias de suas metrópoles (como na América espanhola e portuguesa). [...] o feudalis- mo foi formalmente abolido, os códigos legais franceses foram aplicados e assim por diante. [...] Uma vez oficialmente abolido, o feudalismo não mais se restabe- leceu em parte alguma. (HOBSBAWM, 2010, v. 3, p. 107-108) Percebemos que as transformações ocasionadas no período moderno sofreram mudan- ças ainda maiores entre o fim do século XVIII e o início do XX. O Estado centralizado nas mãos dos reis, em regime muitas vezes feudal, foi extinto em poucas décadas. Entretanto, para que novas políticas fossem definidas ou discutidas, o próprio conceito de Estado, do Antigo Regime, foi usado como base política. A ideia de Lynn Hunt, sobre o Antigo Regime ser o responsável pelo conceito de nação como um sinônimo de união de características eco- nômicas, étnicas, linguísticas e sociais (HUNT, 2009, p. 182-185), foi determinante para que surgissem os nacionalismos a partir da Revolução Francesa. Tais práticas tinham como base a prioridade e a individualidade de cada nação, mesmo que às vezes houvesse limites lin- guísticos e étnicos. Junto a esses conceitos vieram a democracia, em forma de república ou de monarquia constitucional, e o liberalismo, geralmente conduzido pela burguesia. Com essas perspectivas, o século XIX reorganizou o mundo político europeu, formando ações nacionalistas concentradas no Estado e novas definições de espaço e de território. Os Estados na Europa, nesse período, passaram a ser organizados e disputados por grupos que buscavam definir suas fronteiras, com base em aspectos raciais, étnicos e linguís- ticos. Hobsbawm, ao debater sobre diversos casos de independência ou de demarcação de fronteiras na Europa na virada do século XIX, afirma que junto às ações das vitoriosas mas- sas revolucionárias da Revolução Francesa, das revoltas regionais, houve “[...] o progresso das escolas e das universidades [o qual] dava a dimensão do nacionalismo, na mesma me- dida em que as escolas e especialmente as universidades se tornavam seus defensores mais conscientes” (HOBSBAWM, 2010, p. 221-223). Além disso, o número de edições e de gráficas cresceu, em regiões que ainda não eram países, como a Alemanha, ou mesmo em outros que já tinham mais estrutura política, como Grã-Bretanha (com exceção da Irlanda), França ou Estados Unidos. Do mesmo modo, Hobsbawm aponta que o analfabetismo também era uma arma utilizada com intenções políticas. É ainda desse período o aumento duplicado de liceus franceses entre 1809-1842, embora o número de pessoas que os acessassem ainda fosse restrito. Hobsbawm sugere que em toda a Europa Ocidental, com maior presença da burguesia, alterou-se a política econômica nesse período com base em ideias nacionalistas diversas3. Dessa forma, e de acordo com a ideia de Walter Themier, segundo a qual “[...] só nos tempos modernos é que o sentimento nacional tenta tornar-se o supremo valor e penetrar em todos os âmbitos do pensamento e do procedimento humanos, até mesmo na ciência” (1997, p. 249), consideramos que os ideais de igualdade, de liberdade e de fraternidade defendidos pela Revolução Francesa tiveram mais consequências que as objetivadas por 3 O historiador traz de modo detalhado os diversos casos europeus, diferenciados por seus respectivos contextos. Para mais informações, veja: HOBSBAWM, Eric. O nacionalismo. In: ______. A era das revo- luções: 1789-1848. São Paulo: Paz e Terra, 2010. p. 217-237. O florescer de uma nova política no século XVIII História Moderna 8 133 aqueles que a defenderam. Para Hobsbawm, após a Revolução Francesa, com a comunica- ção e a manifestação em massa (considerando o período), um sentimento de união ligado às ideias de pátria e nação foi forjado e, em decorrência disso, o século XIX viveu uma completa transformação social e política. Na primeira metade do século XIX, portanto, o que houve, para Hobsbawm, foi um “protonacionalismo popular”, que poderia ser entendido como o resultado de uma língua, da religião, dos meios de comunicação e de uma legitimidade emocional, porém diferentes do nacionalismo moderno (HOBSBAWM, 1990, p. 64). A livre concorrência, tão defendida pelos liberais, perdeu a predominância na medida em que os Estados eram fortalecidos pelos sentimentos nacionalistas, e, com o crescimento industrial de meados do século XIX, passaram a disputar, entre eles, novos territórios e zo- nas de influência. Essa nova política foi chamada de imperialista e definida como: [...] um período histórico específico, que abrange de 1875 a 1914, quando a Europa Ocidental passou a exercer intensa influência sobre o restante do mundo. O conceito designa também o conjunto de práticas e teorias que um centro me- tropolitano elabora para controlar um território distante [...] Foi o momento do surgimento do Capitalismo monopolista, em que a livre concorrência entre dife- rentes empresas gerou concentração da produção nas mãos das mais bem-suce- didas, levando à formação de monopólio. Rapidamente, os bancos passaram a dominar o mercado financeiro, exportando capital, influenciando as decisões de seus Estados e impelindo-os para a busca de novos mercados. Nascido, assim, da formação dos monopólios, o imperialismo promoveu disputas por fontes de matérias-primas entre trustes e cartéis que, já tendo dominado o mercado inter- no em seus países de origem, precisavam se expandir para além de suas frontei- ras, defrontando-se com cartéis e trustes de países concorrentes. (SILVA; SILVA, 2009, p. 218) Essa perspectiva do conceito, apresentada por Kalina Silva e Maciel Silva, mostra como de uma política absolutista passamos a um Estado centralizado com base em ideais mais de- mocráticos e de liberdade de comércio, até chegar à formação política e econômica peculiar dos séculos XX e XXI. Ainda assim, é preciso frisar que as ideias de democracia, de liberdade e de igualdade continuam sendo forjadas em cada contexto nacional, de acordo com a polí- tica econômica. Ainda sobre o termo imperialismo, Eric Hobsbawm afirma queele só viria a ter um significado no fim do século XIX, Pois não há dúvida de que a palavra “imperialismo” passou a fazer parte do vo- cabulário político e jornalístico nos anos 1890, no decorrer das discussões sobre a conquista colonial. Ademais, foi então que adquiriu a dimensão econômica que, como conceito, nunca mais perdeu [...] [e] a própria palavra adquiriu gradual- mente, e agora é improvável que perca, uma conotação pejorativa. Ao contrário da “democracia” que, devido a suas conotações favoráveis, mesmo seus inimi- gos gostam de reivindicar, o ”imperialismo” normalmente é algo reprovado e, portanto, feito por outros. Em 1914, inúmeros políticos orgulhavam-se de se de- nominarem imperialistas, mas no transcorrer de nosso século eles praticamente desapareceram de vista. (HOBSBAWM, 2010, p. 98-100) O florescer de uma nova política no século XVIII8 História Moderna134 Porém, para que chegassem a essa fase de englobar mais territórios ou zonas de in- fluência, as nações deveriam estar bem formadas e fortalecidas em seus aspectos políticos e identitários, a fim de justificar o seu domínio sobre outras, como foi o caso da Partilha da África, realizada na segunda metade do século XX. 8.3 Uso de conceitos da História Moderna em sala de aula O ensino de História deve priorizar a experiência e o conhecimento prévio dos(as) alu- nos(as), buscando estabelecer uma relação entre o modo como os conceitos são pensados no âmbito científico e o que vem do senso comum – e daquilo que é comum aos(às) alunos(as). Nesse sentido, deixar de lado qualquer iniciativa factual ou processos de ensino-aprendi- zagem mecânicos é essencial, visto que uma perspectiva de ensino que utilize os conceitos como elementos-chave de qualquer conteúdo histórico evita alguns erros, como nos lembra a historiadora Circe Bittencourt: O risco maior de utilizar um conceito do senso comum ou proveniente de outros campos de estudos é perder o seu sentido histórico e empregá-lo de forma atem- poral. A utilização de conceitos em sentido atemporal conduz a um dos grandes pecados abominados por todos que se dedicam à História: cometer anacronismo. Advertem os historiadores que, ao fazer uso de noções “emprestadas” de outros domínios científicos ou do senso comum, é necessário desconfiar das impreci- sões dos termos e ser cauteloso com a leitura das fontes que eles se encontram; ou seja, deve-se ter um domínio metodológico para o emprego correto do concei- to. (BITTENCOURT, 2005, p. 194) Na citação podemos observar uma crítica no que se refere a uma postura de “uso co- mum” dos conceitos de História, no caso desse debate, como algo universal, pois cada acon- tecimento histórico (em qualquer contexto) só pode ser bem compreendido se for consi- derado o modo como tal grupo ou sociedade o compreendia. Além disso, a historiadora também ressalta, em outra leitura, que essa noção era (ou é) muito comum em livros didá- ticos, em um modelo referente aos séculos XIX e XX, organizado de maneira linear, carte- siana e cronológica, sem ponderar a ideia de permanências e mudanças (BITTENCOURT, 2005). Bittencourt cita um dos conceitos centrais para que nós, professores(as) de História, possamos iniciar o desenvolvimento do ensino-aprendizagem: a noção de tempo. Para isso, é preciso considerar não somente o acontecimento nos seus respectivos tempo e espaço, mas também documentos que comprovem sua existência. Ao fazermos essa relação com sujeitos e temas daquele contexto, podemos encontrar explicações que colaboram na interpretação e na análise de fatos, tornando estes inteligíveis (BITTENCOURT, 2005). No que diz respeito ao período moderno, retomamos uma ideia presente no primeiro capítulo, em que os historiadores Francisco Falcon e Antônio Rodrigues definem o conceito de moderno do seguinte modo: O florescer de uma nova política no século XVIII História Moderna 8 135 A noção de “moderno” não basta por si só para dizer algo de concreto ou defi- nitivo sobre o período que queremos analisar. [...] Só aos poucos, nas sociedades ocidentais, foi havendo uma tomada de consciência quanto à modernidade nas- cente, em cujo seio já se vislumbra, indecisa, a teoria do progresso. (FALCON; RODRIGUES, 2000, p. 10-11) O processo moderno ou a ideia de mudança decorrente de alguns acontecimentos ou conceitos históricos, como Renascimento, grandes navegações, Iluminismo, capitalismo, in- dustrialização, liberalismo, já podem ser observados, segundo Falcon e Rodrigues, a partir do século XV. Porém, apenas nos séculos seguintes é que alguns grupos sociais e políticos perceberam ou afirmaram estar vivendo em mundo moderno, no que se refere aos princí- pios que regiam a organização do mundo ocidental conhecido. Tal perspectiva é perceptível ou viável quando consideramos que, em um processo de modernização, em que diversos acontecimentos ocorrem, há transições com intensi- dades diferentes e em contextos diversos. No caso do feudalismo, alguns países, como a Inglaterra, já viviam no século XVIII mudanças políticas e econômicas que derrubaram os alicerces feudais, enquanto na maior parte da Europa elas não eram tão intensas (FALCON; RODRIGUES, 2000). Entretanto, mostrar durante o ensino a complexidade desse período é ainda mais de- safiador quando nos referimos ao conceito de modernidade. Este é apresentado da seguinte forma por Silva e Silva: A ideia de modernidade surge, segundo Jacques Le Goff, quando há um sentimen- to de ruptura com o passado. Nesse sentido, um dos primeiros pensadores a utilizar a ideia de modernidade foi Charles Baudelaire, escritor francês da segunda me- tade do século XIX, autor de As flores do mal, que pensava a modernidade como as mudanças que iam se operando em seu presente, utilizando a palavra sobre- tudo para a observação dos costumes, da arte e da moda. Etimologicamente, en- tretanto, Andrew Edgar apresenta a modernidade como um termo derivado do latim modernus (significando recentemente), que desde o século V, com os escritos de Santo Agostinho, passou a ter diversos significados. Na origem, opunha-se ao passado pagão; a partir do século XVI, todavia, quando os eruditos revalori- zaram a cultura pagã, ser moderno era se opor ao medieval e não ao antigo ou à Antiguidade. (SILVA; SILVA, 2009, p. 297, grifos do original) Observamos que, primeiramente, o termo moderno é sinônimo de ruptura, de algo que se inova, assim como Charles Baudelaire, com suas análises do termo com base no cotidia- no, escreveu no século XIX. Porém, o mesmo termo, etimologicamente latino, já teria sido apropriado por Santo Agostinho entre os séculos IV a V d.C., fazendo um contraponto aos preceitos pagãos combatidos pela Igreja medieval. Esses mesmos preceitos, no entanto, fo- ram valorizados posteriormente no século XVI, período do Renascimento e das navegações. Dessa forma, podemos entender que o conceito tem diversas interpretações e aplicações, de- pendendo do contexto. Nesse sentido, os autores seguem com mais algumas considerações sobre a ideia de modernidade: O florescer de uma nova política no século XVIII8 História Moderna136 Os homens do século XVI julgavam estar vivendo em um mundo novo (moder- no), embora o passado greco-romano devesse ser respeitado na construção desse novo mundo e do novo homem, liberto do “obscurantismo” medieval. Nesse sentido, a Era Moderna é de fato moderna, ao menos para os que nela viveram. Mas não se pode esquecer que o termo modernidade (modernitas) propriamente dito já aparece no século XII, referindo-se aos últimos cem anos então vividos e ainda presentes na memória dos contemporâneos. Apesar disso, modernidade é um conceito histórico que difere do sentido original da palavra e surgido com o Iluminismo, tendo seu ápice nos séculos XIX e XX. (SILVA; SILVA, 2009, p. 297) A apropriação do século XVI era, portanto, contrária aos preceitos medievais, ao mes- mo tempo em que defendia ideias e uma cultura anterior ao próprio período medieval. Além disso, jáhavia sido ressaltada no século XII – período de decadência do feudalismo em algumas regiões, bem como do incentivo de mercadores e das Cruzadas. Ainda assim, o conceito na versão iluminista, do sujeito universal e racional, é diverso daquele do século XVI. Nesse sentido, os autores nomeiam o termo como “[...] um conceito estritamente vin- culado ao pensamento ocidental, sendo um processo de racionalização que atinge as esferas da economia, da política e da cultura [...]” (SILVA; SILVA, 2009, p. 298). Desse modo, o que temos é um desafio em relação a como trazer termos tão complexos para o ensino escolar, produzindo conhecimento e aprendizagem em uma relação dialética. Nesse sentido, Em relação à transposição didática do procedimento histórico, o que se procura é algo diferente, ou seja, a realização na sala de aula da própria atividade do historiador, a articulação entre elementos constitutivos do fazer histórico e do fazer pedagógico. Assim, o objetivo é fazer com que o conhecimento histórico seja ensinado de tal forma que dê ao aluno condições de participar do processo do fazer, do construir a História. Que o aluno possa entender que a apropriação do conhecimento é uma atividade em que se retorna ao próprio processo de ela- boração do conhecimento. (SCHMIDT, 1999, p. 59) O que a citação está evidenciando é a forma como nós, professores(as), devemos levar os acontecimentos históricos às salas de aula, a fim de construir o conhecimento histórico em um processo dialético. Para isso, Schmidt sugere que o processo pode ser organizado de acordo com alguns preceitos, pois “[...] o trabalho com conceitos no ensino de História envolve algumas atividades básicas, como as atividades de classificação dos conceitos, de definição, de aplicação em determinadas situações, de programação e de comunicação” (SCHMIDT, 1999, p. 153). A primeira atividade, de classificação, seria o momento em que conceitos como cultura, poder, sociedade, civilização e economia são identificados em seus significados mais amplos, assim como nos mais específicos. A segunda, a de definição, diz respeito à diferenciação – que deve ser evidente para os alunos – entre os conceitos. Nesse caso podem ser: nominais (de acordo com a etimologia); reais (seu significado no contexto O florescer de uma nova política no século XVIII História Moderna 8 137 estudado); essenciais (listar os significados); antônimos ou sinônimos (a fim de diferenciar os conceitos); descritivas (com detalhes); e de séries (diferenciação com contextos diferentes). Com essas perspectivas é possível demonstrar aos alunos que conceitos têm significa- dos diferentes em cada contexto e com aplicações diversas, o que seria a terceira forma de trabalhá-los em sala de aula. Esse trabalho é marcado pelas diferentes apropriações, de- pendendo do período em que os(as) alunos(as) se encontram (programação) e das diferentes estratégias de ensino (comunicação) (SCHMIDT, 1999). Desse modo, nós, professores e professoras, trabalhamos com temas polêmicos e complexos em nosso cotidiano. No caso da História Moderna, Silva e Silva sugerem algumas posturas: O desafio é como associar temas como cidadania, ética, ciência, política, demo- cracia, felicidade, liberdade em sua relação com a modernidade entendida como um momento histórico que, para alguns autores ainda não acabou, mas também como um projeto universalista de libertação da humanidade. Podemos trabalhar com os alunos a modernidade real, presente nas instituições políticas que nos re- gem, na nossa vida pessoal, nos valores que defendemos, nas utopias que ainda pairam no ar, no ceticismo de muitos, no bombardeio de informações dos meios de comunicação de massa etc. Além disso, para discutir a modernidade há um leque bastante amplo de possibilidades de pesquisa: podemos trabalhar a ética, a ecologia, a industrialização, as tradições populares e a resistência cultural e o choque de culturas. (SILVA; SILVA, 2009, p. 300) Os autores trazem a complexidade do termo modernidade e as diferentes aplicações e relações que podemos fazer com ele, com base no conhecimento prévio ou no senso comum trazido à sala de aula pelos alunos. Perspectivas econômicas, culturais, sociais e políticas são opções de abordagem para que o conceito possa ser compreendido. Portanto, de um concei- to simples ou complexo, há um longo caminho para a construção do conhecimento histórico, no qual a participação dos(as) alunos(as) não pode se dar de modo passivo. Conclusão O objetivo deste capítulo foi trazer algumas perspectivas sobre o fim do período mo- derno e o início do contemporâneo, demonstrando que, entre eles, houve diversas trans- formações políticas, sociais e econômicas que nem sempre assinalam uma divisão nítida. Entre permanências e mudanças, continuamos a buscar ideais de democracia, de liberdade e, principalmente, de igualdade. Importante, também, é considerarmos que são conceitos e ideias contextuais, ou seja, a concepção de direitos humanos de 1789, por exemplo, não é a mesma do século XXI, e por isso é preciso compreendê-las em suas especificidades e levá-las para a relação que estabelecemos no processo de ensino-aprendizagem. O florescer de uma nova política no século XVIII8 História Moderna138 Ampliando seus conhecimentos Apresentamos, a seguir, dois processos que fazem parte das sugestões da historiadora Maria Auxiliadora Schmidt sobre como proceder no ensino, considerando a complexidade do trabalho com os conceitos em sala de aula, a fim de evitar o anacronismo. Assim, convi- damos à leitura, desejando que esta colabore em sua formação como professora ou profes- sor, porém, antes de tudo, como alguém que aprende e ensina. Construindo conceitos no ensino de História: “a captura lógica” da realidade social (SCHMIDT, 1999, p. 157, 159-160) Sequência de aplicação de conceitos históricos: 1. O aluno deve identificar os conceitos em fontes primárias ou secundárias. 2. Organização dos conceitos identificados, de acordo com algum crité- rio de classificação. 3. Comparação do conceito identificado em uma fonte com o mesmo conceito utilizado em situações anteriores, observando semelhanças e diferenças. 4. Comunicação dos conhecimentos históricos através do uso dos concei- tos, em contexto corretos, como frases, parágrafos, temas ou trabalhos. [...] O primeiro tema tem uma perspectiva panorâmica, abrangendo questões de análise conjuntural, de um momento concreto em um espaço concreto do passado [...]. O tema evolutivo prende-se mais a uma contextualiza- ção temporal com o objetivo de reconstruir as etapas de evolução de um determinado tema em seus momentos fundamentais. Exige a organização de determinados conceitos de tempo, como cronologia, duração, suces- são. Neste caso, a cronologia é um dos conceitos fundamentais, elegen- do-se um momento como ponto de partida, descrevendo-se a evolução e apontando-se um momento como ponto de chegada. O tema comparativo exige, muitas vezes, a construção de um conceito que será o ponto principal da comparação. Neste caso trata-se do conceito de independência. A comparação pode ser feita a partir de dois momen- tos diferentes ou fazendo-se a comparação a partir de dois aspectos do mesmo momento histórico, por exemplo, o movimento de independência O florescer de uma nova política no século XVIII História Moderna 8 139 no Ceará e no Rio de Janeiro. O tema biográfico, por sua vez, exige conhe- cimentos mais precisos e detalhados acerca das realizações e modo de existir de determinado momento referente a um personagem histórico. Os temas analíticos valorizam alguns aspectos de determinado período histórico. Neste caso, a cronologia deve ser respeitada e deve-se partir do que se considera historicamente mais importante para o que se consi- dera menos importante; ir do tempo mais longo para o tempo mais curto. Os temas tipológicos podem ser considerados como uma variante dos temas analíticos. Por exemplo, Imigrações.Este tema é diferente do tema analítico Imigração, pois Imigrações poderiam ser analisadas em vários aspectos: As imigrações do século XIX, as imigrações alemãs. Por último, os temas relacionais. Estes não indicam somatória ou adição de ideias, mas uma hierarquia de enfoque, onde o primeiro termo é mais importante do que o segundo. Não se trata de estabelecer reciprocidades, mas de analisar como o primeiro influi no segundo. Para consulta sobre fontes e análises históricas, sugerimos o site de História Contemporânea I, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/hist_discip_grad/contemporanea1. html>. Acesso em: 3 nov. 2017. Atividades 1. A ideia de igualdade no mundo contemporâneo veio com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão durante o processo revolucionário francês. Com base no texto do capítulo, indique relações possíveis entre a política pós-Revolução Francesa, a ideia de igualdade e os direitos humanos. 2. Estabeleça uma relação entre Revolução Francesa e a ideia de nação e nacionalismo. 3. De acordo com as ideias de Kalina Silva e Maciel Silva (2009), qual a relação que podemos estabelecer entre o ensino de História Moderna e a complexidade própria ao termo modernidade? 4. Com base nos trechos citados do artigo da historiadora Maria Auxiliadora Schmidt (1999), faça uma análise sucinta sobre como aplicar conceitos em sala de aula, consi- derando sua complexidade. O florescer de uma nova política no século XVIII8 História Moderna140 Referências ARENDT, Hannah. Da revolução. São Paulo: Ática, 1988. BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2005. CARVALHO, José Murilo. Cidadania: tipos e percursos José Murilo de Carvalho. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 9, n. 18, 1996. ______. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. DARTON, Robert. O grande massacre de gatos: e outros episódios da História cultural francesa. São Paulo: Graal, 2006. FURET, François; OZOUF, Mona. Dicionário crítico da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. HOBSBAWM, Eric. Nações e nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. ______. A era do capital: 1848-1875. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010. ______. A era dos impérios: 1875-1914. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010. ______. A era das revoluções: 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010. LADURIE, Emanuel Le Roy. 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Essas premissas foram sendo orga- nizadas em pautas de manifestações no decorrer do século XIX, na medida em que diversas classes ou grupos sociais reivindicaram direitos sociais, civis, trabalhistas, entre outros. Do mesmo modo, a ideia de Direitos Humanos, ou daquele que é visto e deve ser considerado um ser humano, também foi organizada, de acordo com os preceitos de cada contexto, como é até hoje. A Revolução Francesa trouxe a ideia de igualdade, sugerindo que todo ser humano poderia ser considerado igual. Esse princípio foi buscado e disputado por diversos sujeitos, nas mais diversas esferas de poder. O florescer de uma nova política no século XVIII História Moderna 8 141 2. Após a Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte instituiu um período de busca por delimitação do territórios francês, bem como da influência e domínio de ou- tros. Além disso, o próprio exemplo francês, da Revolução Francesa junto aos ideais iluministas, fez com que diversos países do período moderno ou modificassem seu regime político, ou o pedido de independência de algumas regiões. Para incentivar esses processos, ideais nacionalistas, de pertencimento e de identidade foram incen- tivados no ensino escolar, com o estímulo ou a definição de uma língua oficial ou mesmo por tradições e práticas culturais. 3. É preciso considerar o conhecimento prévio dos alunos para estabelecer uma rela- ção de ensino-aprendizagem e ir além de uma perspectiva dicotômica. Nesse caso, identificar primeiramente, depois diferenciar conceitos simples e complexos, assim como as suas diferentes aplicações, demonstrando que são contextuais e que estão em constante “construção”, são algumas das estratégias de ensino. Além disso, pre- cisamos trazer diferentes metodologias de trabalho, a fim de atingir uma maioria de alunos(as), visto que eles(as) têm suportes de aprendizagem também diferentes entre eles. Uma última estratégia diz respeito ao modo como relacionamos conceitos diferentes, mas que estão ligados a um mesmo período histórico, isto é, ao relacio- ná-los podemos levar à sala de aula a ideia de que os conceitos constituem ou fazem parte uns dos outros, dos significados que acabam tendo. E, se retirado e colocado outro conceito, podemos ter outra trajetória na história. 4. O ensino de História Moderna, nesse caso, deve demonstrar que o termo foi visto como um sentimento, um modo de viver diferente muitos séculos antes do início do período moderno. Este, e logo nos primeiros séculos, já era apontado por seus sujei- tos sociais como tempos “modernos”, diferentes, inovadores. Entretanto, a moder- nidade é um conceito vinculado ao pensamento Ocidental, que atingiu a economia, a política e a cultura gerando boa parte dos princípios que organizaram o mundo político-social dos séculos XX e XXI. H IST Ó R IA M O D E R N A Lorena Z om er Código Logístico Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6363-5