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H
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IA
 M
O
D
E
R
N
A
Lorena Z
om
er
Código Logístico
Fundação Biblioteca Nacional
ISBN 978-85-387-6363-5
IESDE BRASIL S/A
2018
História Moderna
Lorena Zomer
Todos os direitos reservados.
IESDE BRASIL S/A. 
Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 
Batel – Curitiba – PR 
0800 708 88 88 – www.iesde.com.br
Capa: IESDE BRASIL S/A.
Imagem da capa: 
MICHELANGELO. Davi. 1501-1504. Escultura em mármore. Acade-
mia de Belas Artes de Florença.
RAFAEL. A escola de Atenas. 1511. Afresco: color.; 5 m X 7,7 m. 
Museu do Vaticano.
BOTTICELLI, Sandro. Retrato de Simonetta Vespucci como Ninfa. 
C.1480. Têmpera em madeira: color.; 82 cm x 54 cm. Städel Museum, 
Frankfurt.
TONNELÉ & CO. Tesla in his laboratory. 1896. 1 fotografia, p/b. 
PRÉVOST, Benoît Louis. Gravura da Encyclopédie ou Dictionnaire 
raisonné des sciences, des arts et des métiers. 1764.
WEITSCH, Friedrich Georg. Retrato de Alexander von Humboldt. 1806. 
Óleo sobre tela: color.; 126 cm x 92,5 cm. Bode Museum, Berlim.
Capa da Encyclopédie, ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et 
des métiers. 
LECLERC, Sébastien. Louis XIV Visiting the Royal Academy of 
Sciences. 1671. Gravura; 41.9 cm x 30.8 cm. Metropolitan Museum of Art.
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO 
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
Z83h Zomer, Lorena
História moderna / Lorena Zomer. - [2. ed.] - Curitiba, PR : 
IESDE Brasil, 2018.
142 p. : il.
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-387-6363-5
1. História moderna. I. Título.
17-46163 CDD: 900CDU: 94
© 2018 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da 
autora e do detentor dos direitos autorais.
Apresentação
Este livro tem por objetivo trazer algumas das leituras possíveis acerca 
da História Moderna. Muitos acontecimentos também compreendidos como 
importantes estão mencionados, mas não serão aprofundados, pois nossas 
opções estão relacionadas às perspectivas historiográficas, que não são pou-
cas. Isso apenas demonstra como a História é uma disciplina das Ciências 
Humanas que dialoga com as demais e por isso apresenta mais perspectivas 
sobre os acontecimentos. Uma segunda escolha ocorre de acordo com tantas 
possibilidades oferecidas pela narrativa, entendendo que não é possível co-
locar todos os sujeitos sociais em uma mesma corrente historiográfica. Nesse 
caso, a crítica historiográfica nos oferece histórias diversas de um mesmo 
acontecimento, sem uma postura universal ou evolucional.
Neste volume de História Moderna vamos compreender características 
de algumas sociedades, no período entre os séculos XV a XVIII. As escolhas 
sobre os acontecimentos debatidos deram-se em busca de problemáticas que 
envolvem nossos contextos atuais. Entre eles estão a formação dos Estados 
modernos, a expansão europeia, as revoluções inglesas no século XVII, o 
Iluminismo, bem como as questões sociais e as culturais ocorridas nesse pe-
ríodo, fatos primordiais para a formação social, econômica, política e cul-
tural do mundo moderno e para os princípios do período contemporâneo. 
Concepções de nações, de nacionalismo, do capitalismo como forma de pro-
dução econômica e de Estados mais centralizadores são ideias construídas 
no período moderno, ao longo dos séculos XIII ao XVIII.
Foram muitos os movimentos sociais ou artísticos que influenciaram 
questionamentos e resistências às ordens políticas e sociais. Entre eles, pode-
mos citar o Renascimento e o Iluminismo, com suas influências sobre as ciên-
cias, inclusive em relação ao fazer historiográfico. Esses e outros temas foram 
escolhidos a fim de estudarmos uma possível construção sobre o mundo 
moderno. Desse modo, neste livro, buscamos incorporar os recentes debates 
historiográficos, procurando uma bibliografia atual e temas nem sempre evi-
denciados pela historiografia mais tradicional. 
Bons estudos!
Sobre a autora
Lorena Zomer
Doutora e mestre em História pela Universidade Federal de Santa 
Catarina (UFSC). Especialista em Educação Especial pela Escola Superior 
Aberta do Paraná (Esap) e licenciada em História pela Universidade 
Estadual de Ponta Grossa (UEPG-PR). Tem experiência como profes-
sora de História no ensino superior (presencial e EAD), bem como na 
Educação Básica.
6 História Moderna
SumárioSumário
1 Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo 9
1.1 Introdução à disciplina de História Moderna 9
1.2 Transição do mundo feudal para o capitalista 14
1.3 Mercantilismo 16
2 Renascimento cultural e o humanismo 25
2.1 Renascimento: conceitos e expectativas 26
2.2 Arte e cultura: as formas de representação simbólica no Renascimento 35
2.3 O Barroco de Caravaggio e o protestante 38
3 Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno 47
3.1 Características da sociedade cristã 48
3.2 Reformas religiosas 50
3.3 O capitalismo e o cristianismo 57
4 As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII 63
4.1 O absolutismo no Ocidente e teóricos do absolutismo 64
4.2 As revoluções burguesas dos séculos XVII e XVIII 68
4.3 Reordenação agrária 73
História Moderna 7
SumárioSumário
5 As bases do pensamento político moderno e o capitalismo 81
5.1 O Estado moderno e o nascimento do mundo capitalista 82
5.2 Revolução Industrial 85
5.3 A divisão social do trabalho e a experiência e condição operária 89
6 O Estado moderno e a representação política no Ocidente 97
6.1 Personagens do Estado moderno 98
6.2 Sociedade camponesa no Antigo Regime 102
6.3 A economia moral da multidão 105
7 O Iluminismo francês e a ideia de progresso 111
7.1 O Iluminismo francês e alemão 112
7.2 A ciência moderna 117
7.3 O individualismo burguês e as transformações do século XVIII 119
8 O florescer de uma nova política no século XVIII 125
8.1 Revolução Francesa e a ideia de igualdade 126
8.2 Nações e imperialismo 131
8.3 Uso de conceitos da História Moderna em sala de aula 134
História Moderna 9
1
Considerações sobre 
o mundo moderno e o 
mercantilismo
Neste primeiro capítulo veremos os princípios da disciplina de História Moderna, 
buscando perceber suas principais discussões políticas, econômicas, sociais e cultu-
rais, a fim de compreender como o período entre o século XV e o século XVIII foi um 
tempo de transição e de grandes mudanças no mundo ocidental.
1.1 Introdução à disciplina de História Moderna
A modernidade e o período ou mundo moderno (ocidental) são ideias que se cru-
zam e, por vezes, também são confundidas como sinônimos para compreender esse 
período histórico tão rico de descobrimentos, inovações e de novas relações sociais e 
culturais. A modernidade diz respeito às mudanças de pensamento ligadas à política, 
à cultura e a todos os setores de uma sociedade, ocorridas entre os séculos XV a XVIII. 
Período Moderno, História Moderna, Mundo Moderno e Idade Moderna são termos que se 
referem ao tempo entre 1453 (Queda de Constantinopla) a 1789 (Revolução Francesa).
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1
História Moderna10
Essas transformações alteraram a concepção de tempo e de vivência no mundo oci-
dental. A disciplina de História Moderna, por sua vez, trabalha com um tempo cronológico 
(século XV ao XVIII) e busca discutir sobre as mudanças sociais, políticas, econômicas e cul-
turais verificadas naquele período. Objetiva, ainda, perceber como o período moderno pode 
ser analisado como uma passagem entre o Medieval e o Contemporâneo.
Desse modo, o tempo do mundo moderno pode ser resumido de maneira rápida em 
uma palavra: transição. Um movimento, uma mudança – nem sempre consciente – de novos 
comportamentos sociais e culturais, mas ainda de novas perspectivas políticas e econômicas. 
De um cristianismo que influenciava a maior parte das instituições e organizações sociais, 
políticas e econômicas do Ocidente, caminhamos para novas ideias religiosas e performan-
ces culturais cuja cultura popular foi um dos destaques. De lançamento de grandes barcos a 
livros impressos da Biblioteca Azul1;de uma guilda medieval a um mundo a vapor em que 
camponeses foram transformados em operários, muitas vezes acelerando a urbanização – e 
com preocupações sanitárias – além do que as cidades poderiam suportar. Processo esse 
necessário tanto pelas mudanças econômicas, quanto pela sobrevivência, considerando a 
devastação sentida pela Europa no século XIV com a Peste Negra (Figura 1).
Figura 1 – Obra simbolizando diversas mortes durante a epidemia de peste negra no século XIV.
Fonte: BoukeAtema/iStockphoto.
O que apontamos aqui são grandes acontecimentos que diferenciam o período moder-
no em relação ao período medieval, entretanto, não deixam de ter relação entre si. No caso 
1 A expressão Biblioteca Azul refere-se a um conjunto de livros publicados com material mais rústico, e, 
apesar do nome, nem sempre de capa azul. As histórias eram variadas e mais populares e, apesar de se 
destinarem principalmente a camponeses, também chegaram aos núcleos urbanos (CHARTIER, 2004).
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo
História Moderna
1
11
da Peste Negra, o extermínio de boa parte da população permitiu que estudos sobre o corpo 
humano – e doenças – aumentassem de forma lenta a partir do século XVI.
Os historiadores Francisco José Calazans Falcon e Antônio Edmilson Rodrigues (2000) 
fazem a seguinte afirmação sobre as mudanças políticas e econômicas durante o período mo-
derno: “[...] atingiram praticamente todos os níveis da existência social dos povos europeus 
em geral e, em especial, os habitantes das regiões centro-ocidentais da Europa” (FALCON; 
RODRIGUES, 2000, p. 23). Mas, não obstante, essas mudanças apenas se acentuaram com o 
deslocamento de interesses econômicos e políticos da Ásia para a América, especialmente 
com o mercado e o comércio ultramarino do Atlântico.
No que diz respeito à diferença entre as expressões de Idade Moderna e Modernidade há 
ainda uma relação com os acontecimentos entre os dois períodos que se seguem. A primei-
ra diz respeito a uma divisão de tempo cronológico tradicional da própria história como 
disciplina, isto é, os chamados: Idade Antiga, Idade Medieval, Idade Moderna e Idade 
Contemporânea. Essa divisão é decorrente da historiografia francesa e organizada entre o 
fim do século XIX e o início do XX, período em que a História precisou demarcar seus obje-
tos, problemáticas, temas e metodologias a fim de ser considerada uma ciência. Essas con-
dições foram reafirmadas pelo historiador Jean Chesneaux: “O quadripartismo tem como 
resultado privilegiar o papel do Ocidente na história do mundo e reduzir quantitativa e 
qualitativamente o lugar dos povos não europeus na evolução universal” (CHESNEAUX, 
1995, p. 95).
Obviamente, a divisão é bastante discutida e objeto de muita polêmica, visto que as 
relações entre os períodos, mantendo muitas continuidades e sem rupturas tão bruscas, são 
vastas. O historiador holandês Johan Huizinga sugere tal ideia da seguinte forma:
É-nos difícil imaginar que o espírito pudesse cultivar as antigas formas de pen-
samento e de expressão medievais e aspirar ao mesmo tempo à visão antiga da 
razão e da beleza. Mas é assim mesmo que temos de conceber o que se passou. 
O classicismo não apareceu por súbita revelação; cresceu entre a vegetação luxu-
riante do pensamento medieval. Antes de ser uma inspiração o humanismo foi 
uma forma. E, por outro lado, os modos característicos do pensamento da Idade 
Média persistem por muito tempo durante o Renascimento. (HUIZINGA, 1924, 
p. 327)
O historiador torna evidente a ideia de continuidade ao afirmar que nada surgiu por 
súbita revelação, assim como preceitos medievais persistem nos séculos seguintes. Deste 
modo, as diferenças seriam apenas acontecimentos macros ocorridos nos tempos de que 
cada um, alguns deles representados em imagens logo na introdução do capítulo, porém, de 
forma alguma, para aqueles que viveram tal período, foram tão evidentes como divisores 
do tempo histórico daqueles sujeitos sociais. Nesse sentido, considerando as palavras do 
historiador holandês, é possível encontrar elementos de um mundo moderno no medieval, 
como também é possível perceber características medievais na Dinamarca do século XIX, 
visto que esse país foi um dos últimos a permitir a entrada de ideais iluministas, sobre os 
quais falaremos no Capítulo 7.
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1
História Moderna12
Outro aspecto importante seria a própria formação dos Estados Modernos, cujo objeti-
vo central era dar uma nova organização política. O sociólogo Zygmunt Bauman afirma o 
seguinte sobre uma característica da modernidade: “Certas entidades podem ser incluídas 
numa classe – tornar-se uma classe – apenas na medida em que outras entidades são excluí-
das, deixadas de fora” (BAUMAN, 1999, p. 11). Ou seja, para que houvesse uma nova ordem 
– política – todos que estivessem abaixo deveriam ser reorganizados. Porém, tal perspectiva 
apenas conseguiu se tornar mais comum, ou mesmo dominante, no fim do século XIX e, 
em especial, no XX. A nova ordem seria a burguesa, com direitos políticos e, na maior parte 
dos países, com o uso da política republicana. Tal perspectiva precisou minar as forças do 
Antigo Regime aos poucos e dos próprios reis absolutistas, um processo iniciado ainda an-
tes do século XIV cujo ápice foi a Revolução Francesa em 1789, século XVIII.
Portanto, os acontecimentos mencionados e intitulados de macros, como a Tomada 
de Constantinopla (1453), a Revolução de Gutemberg (Figura 2) em 1492, as Grandes 
Navegações, por Cristóvão Colombo (Figura 3) também em 1492, ou mesmo a Reforma 
(1517) e/ou a Contrarreforma, entre tantos, ocasionaram diferentes perspectivas sociais, 
políticas, econômicas e culturais, ao mesmo tempo em que ideias políticas estavam se for-
mando. Essa conjuntura proporcionou premissas básicas para que conflitos, negociações 
e formas novas de disputas surgissem e se tornassem mais complexas no decorrer dos 
séculos seguintes.
Figura 2 – Estátua de Johannes Gutemberg, o símbolo da Revolução da Imprensa, em Frankfurt.
Fonte: Meinzahn/iStockphoto. 
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo
História Moderna
1
13
Figura 3 – Estátua de Cristóvão Colombo, em Gênova, Itália.
Fonte: FooTToo/iStockphoto.
Sobre isso, Falcon e Rodrigues apontam o período moderno como um tempo em que 
o mundo se envolveu em um processo de modernização, ou seja, diversos acontecimentos, 
em especial o de transição entre o feudalismo e o capitalismo, ocorreram paulatinamente 
fazendo com que diversas regiões anteriormente feudais, aos poucos dessem lugar a uma 
política absolutista e, mais tarde, burguesa (FALCON; RODRIGUES, 2000). Esta última teria 
justamente na Revolução Francesa, seu maior marco, visto que a França era considerada um 
dos últimos países ainda com características feudais e quando sua monarquia foi substituída 
nos anos de 1790 pelos interesses burgueses (República), um novo tempo teria se iniciado, 
o período contemporâneo.
Dessa forma, um dos elementos que mais representa o que foi o período de formação 
do mundo moderno é justamente a transição do feudalismo para o capitalismo, o qual, por 
sua vez, permitiu diversas transformações sociais, políticas e culturais. Portanto, no que diz 
respeito à modernidade, o filósofo Marshall Berman considera que:
Existe um tipo de experiência vital de tempo e espaço, de si mesmo e dos ou-
tros, das possibilidades e perigos da vida — que é compartilhada por homens 
e mulheres em todo o mundo, hoje. Designarei esse conjunto de experiências 
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1
História Moderna14
como “modernidade”. Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que prome-
te aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das 
coisas em redor — mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo 
o que sabemos, tudo o que somos. (BERMAN, 2007, p. 24)
O que compreendemos é a sugestão de uma efemeridade em tudo quediz respeito à vida, 
em todos os âmbitos, contra uma ideia de eterna continuidade e com constantes transforma-
ções – nem sempre perceptíveis, palpáveis, mas sentidas em nossos comportamentos identitá-
rios, em nossa memória e em nossas tradições. O filósofo compreende a ideia de modernidade 
em três fases. A primeira fase teria ocorrido entre os séculos XVI e XVIII, quando se alterou 
a ideia do que é público e a perspectiva de comunidade moderna; na segunda, a sensação de 
mudança foi muito maior a partir do fim do século XVIII, visto que se tratava de mudanças 
nas esferas pessoais, sociais e políticas com um caráter mais revolucionário, cada vez mais 
urbano, e com a ideia de ciência e tecnologia mais comuns, ao mesmo tempo em que a arte, a 
literatura, as escolas e as universidades cresceram de modo expressivo; já na terceira fase, no 
século XX, tal perspectiva chegou a todo o mundo (BERMAN, 2007, p. 25-26).
Para Hannah Arendt, a modernidade deveria trazer a liberdade para aqueles que sem-
pre tiveram que trabalhar,
Mas, isto é assim apenas na aparência. A era moderna trouxe consigo a glori-
ficação teórica do trabalho, e resultou na transformação efetiva de toda socie-
dade em uma sociedade operária. Assim, a realização do desejo, como sucede 
nos contos de fadas, chega num instante em que só pode ser contraproducente. 
A sociedade que está para ser libertada dos grilhões do trabalho é uma sociedade 
de trabalhadores, uma sociedade que já não conhece aquelas outras atividades 
superiores. (ARENDT, 2007, p. 12)
A filósofa sugere a ideia de que o conhecimento ocasionado pelo progresso, assim como 
pelo uso da razão e da ciência do período moderno, modificou a ordem existente, reade-
quando as classes e transformando muitos plebeus em operários2;. Além disso, o período 
trouxe a ideia de trabalho como algo que traz prosperidade e dignidade, como também de 
que tempo é dinheiro, isto é, é possível vendê-lo. Entretanto, embora haja uma reformulação 
dos lugares ocupados por cada classe em um tempo em que a ideia de liberdade também é 
vendida, verifica-se a importância de análise e de consideração dos conflitos e negociações 
vividos nesse contexto.
Na sequência, debatemos sobre os elementos característicos de tal transformação.
1.2 Transição do mundo feudal para o capitalista
Para os historiadores Falcon e Rodrigues (2000), alguns acontecimentos foram marcan-
tes para a mudança de mentalidade e de concepção de vida no contexto entre o mundo 
2 Tema do quinto capítulo. Sobre essa mudança em relação a uma classe de servos/camponeses para 
operários, sugerimos o texto de THOMPSON, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio 
de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo
História Moderna
1
15
medieval e o moderno. Um deles seriam as grandes navegações e, consequentemente, os 
continentes descobertos nos séculos seguintes. Processo acentuado por inovações como a 
da bússola, da pólvora, o desenvolvimento da cartografia, entre outros; descobertas apenas 
possíveis em um período em que o desenvolvimento de novos conhecimentos e da razão tor-
naram-se mais comuns. Entretanto, não foram apenas esses elementos os responsáveis pelas 
descobertas e, consequentemente, pelas mudanças políticas e sociais. Falcon e Rodrigues 
(2000) apontam a diminuição do comércio do Mediterrâneo, especialmente liderado por 
italianos entre a segunda metade do século XV e o final do XVI, ao passo em que potências 
como a holandesa, a belga e a inglesa passaram a se dedicar ao comércio ultramarino.
Falcon e Rodrigues (2000) afirmam que o século seguinte ao XV ainda viveu diversas 
mudanças e, mesmo assim, não se afirmou de forma consciente como representante de uma 
modernidade. Enfim, a temporalidade das descobertas e a das modificações no campo do 
pensamento não têm o mesmo ritmo. O moderno estava se iniciando, visto que aqueles ho-
mens e mulheres percebiam a diferença do que haviam vivido antes. Porém, a perspectiva 
de que um novo tempo político/social/econômico e cultural estava se iniciando, com novos 
comportamentos, mentalidades e experiências se acentuou, de fato, no século XVII e XVIII, 
com a propagação dos ideais iluministas, como também da Revolução Industrial.
O advento do capitalismo seria um dos maiores responsáveis pelas mudanças do perío-
do moderno, em especial, por considerar que, a partir do século XVI, um novo sistema mun-
dial passou a ser forjado com as perspectivas capitalistas, em que todo o comércio mundial 
ocidental e os modos de produção passaram a ser definidos por objetivos finais de lucro. 
Os Estados modernos, com essa influência, passaram a organizar novos modos de produ-
ção, como escravidão, servidão, encomienda, parceria, arrendamento e o assalariamento e, 
longe de determinar uma sociedade apenas por seus aspectos econômicos, todas essas ma-
neiras de trabalho ocasionaram transformações sociais e culturais, ao mesmo tempo em que 
eram fortalecidas pelas próprias tradições e costumes, como a cultura popular.
Alterações estruturais que sucederam aos poucos e não de forma homogênea, assim 
como o mercantilismo (tema que veremos na sequência) também alterou o modo como o 
mundo ocidental estava organizado, visto que uniu em relações culturais, sociais e econô-
micas partes geográficas até então desconhecidas entre si.
1.2.1 Fontes para o fazer historiográfico 
do período moderno
Entre tantas pinturas renascentistas, escritos iluministas (de Voltaire, Rousseau, 
Montesquieu, Diderot), ainda existem as fontes manuscritas e copiadas, em muitos casos, 
pelas organizações diversas da Igreja católica. Fontes que permitem compreensões sobre 
as relações entre o período clássico, medieval e moderno, mesmo que esta seja uma divi-
são do século XIX, buscando perceber as expectativas comuns aos homens e às mulheres 
daqueles contextos.
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1
História Moderna16
O historiador inglês Peter Burke, em seu livro Cultura popular na Idade Moderna, lan-
çado em 1978 e reeditado diversas vezes, ao debater sobre o conceito de cultura popular 
(tema do quinto capítulo), destaca o estudo de santuários, relíquias e votos, porém há 
ausência de estudos sobre sexo, casamento e a vida familiar (BURKE, 1989). Obviamente 
é preciso considerar o período de quase 30 anos de lançamento da segunda versão, po-
rém, o livro de Peter Burke continua sendo uma referência no que diz respeito ao tema 
proposto. Portanto, afirma-se que as fontes trazidas em qualquer estudo historiográfico 
sempre permitem uma nova interpretação, talvez com as mesmas indagações, mas, com 
respostas diversas devido às mudanças sociais e culturais daqueles que escrevem e fazem 
a historiografia.
O mesmo autor, ao debater sobre a diferença entre sociedade e cultura no período 
moderno, salienta a importância das práticas funerárias, do consumo de alimentos, da 
organização do espaço (de casa, do trabalho, da rua), como podemos perceber na se-
guinte citação:
O consumo conspícuo de alimentos e roupas “funcionava como um veículo da 
autoconsciência plebeia” no século XVIII. O trabalho recente de arqueólogos e 
antropólogos ilustrou os diferentes modos pelos quais o estudo da “vida social 
das coisas” pode revelar os valores de indivíduos, grupos e sociedade inteiras. 
No caso da América do Norte de meados do século XVIII, por exemplo, argu-
mentou-se que as mudanças nas práticas funerárias, no modo de consumo dos 
alimentos e na organização do espaço vital sugerem todas uma mudança em 
valores que pode ser descrita como o nascimento do individualismo e da priva-
cidade. (BURKE, 1989, p. 22-23)
Tal citação deixa evidente a ideia de que as transformações sociais ocasionadas pelo 
mundo moderno também proporcionaram alterações nos modos de vida, incluindo uma 
perspectiva de individualidade e de privacidade – ideias bastante desenvolvidas e percebi-
das em fontes do XIX. De modo evidente, as fontes sempre devem ser analisadasde forma 
crítica, em confronto com outras, visto que muitas delas podem ter uma visão unilateral 
sobre um ou outro ponto de vista. É tarefa da historiografia expor diferentes possibilidade 
de análise de versões sobre um mesmo acontecimento.
1.3 Mercantilismo
Quando a rota da seda para o Oriente começou a ser limitada devido aos interesses de 
turcos e outros orientais, europeus passaram a procurar novos caminhos. Além disso, a tec-
nologia do período havia inovado com alguns artefatos, o que possibilitava se distanciarem 
mais das margens mais seguras do Mediterrâneo, às quais estavam habituados. O mapa a 
seguir revela o que o século XVI trouxe aos mercadores, capitães, oportunistas, marinheiros 
e piratas, um mundo a desbravar e a dominar.
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo
História Moderna
1
17
Figura 4 – Munster, Sebastian. Typus orbis universalis. 1552. Mapa, 26 x 38 cm. Biblioteca Digital 
Luso-Brasileira.
O mapa ainda afirma à historiografia que o mercantilismo não pode ser dissociado das 
milhares de navegações ocorridas nos séculos do período moderno. Isso se deve pelo fato 
de as colônias, além de proporcionarem o acúmulo de metais, também gerarem mão de 
obra barata ou de graça, matéria-prima e mercado consumidor, ainda que mais restrito este 
último. Aliás, as colônias se tornaram o objetivo principal das navegações e de disputa entre 
os países.
O acontecimento motivador, de várias viagens e projetos europeus, foi a tomada de 
Ceuta, no ano de 1415. Isso foi importante porque fundou uma colônia, um entreposto e deu 
domínio aos europeus em um novo território. Ressaltamos ainda que tomar um lugar além 
do espaço anteriormente dominado só foi possível devido à tecnologia do período, como 
podemos observar:
Servindo de ligação, correio e abastecimento nas armadas da Índia, as caravelas 
eram os navios que melhor podiam aproveitar os ventos contrários, ofereciam 
pequeno alvo aos inimigos, eram ligeiras e fáceis de manobrar, adaptando-se 
perfeitamente às viagens de descobrimento, pois ‘demandavam pouco fundo, 
podendo chegar-se bem à terra’, acompanhando com certa facilidade a sinuo-
sidade das costas e sofrendo menos com o entra e sai nas enseadas e costas dos 
rios. (MICELI, 1994, p. 74)
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1
História Moderna18
Portanto, tecnologia, novas rotas, mundos até então desconhecidos e, principalmente, 
seus produtos, fez com que o mercantilismo ganhasse mais do que notoriedade. Passou a ser 
o lema de todos aqueles países que já estavam sofrendo diversas mudanças sociais, políticas 
e econômicas. Estas, no decorrer dos séculos seguintes, formaram o período moderno e as 
alterações no modo de pensar, de ser e de se comportar em todos os aspectos da vida de uma 
sociedade pode ser chamado de modernidade.
No entanto, antes da nobreza e, em especial, da burguesia chegar a níveis altos de acú-
mulo ou mesmo de exploração, a entrada do capitalismo (e do mercantilismo) foi lenta. De 
acordo com o historiador francês Jacques Le Goff (2005), o período medieval era o tempo 
das catedrais, um tempo em que a Igreja condenava o lucro, defendia a eternidade como o 
único objetivo do homem na terra, assim como controlava a razão e o conhecimento de acor-
do com os seus interesses, ou, nas palavras do historiador Georges Duby: “[...] somente os 
servidores de Deus sabiam escrever e ler, e consideravam como seu dever explicar a história, 
de maneira a nela detectar os sinais de Deus” (DUBY, 1999, p. 17).
Por essas razões os homens não deveriam se preocupar com a ideia de progresso prega-
da pelos hereges. Como podemos perceber,
O impulso e a difusão da economia monetária ameaçam os velhos valores cris-
tãos. Um novo sistema econômico está prestes a se formar, o capitalismo, que 
para se desenvolver necessita senão de novas técnicas, ao menosdo uso massivo 
de práticas condenadas desde sempre pela Igreja. Uma luta encarniçada, coti-
diana, assinalada por proibições repetidas, articuladas a valores e mentalidades, 
tem por objetivo a legitimação do lucro lícito que é preciso distinguir da usura 
ilícita. (LE GOFF, 1989, p. 10)
Desse modo, segundo Le Goff, é a partir do século XI que alguns países passam a ver 
em seus cotidianos um tímido renascimento cultural e comercial, cujo destaque para o his-
toriador é a circulação de moedas. Naquele contexto, comerciantes e banqueiros passaram a 
lançar a ideia de que tal objeto não era apenas um artefato para dar prestígio social, porém 
também poderia ser usado para fazer trocas, ou seja, representava um possível aumento da 
prática do comércio. Este, além de não ser tão aceito pela Igreja e pela nobreza no início, foi 
muitas vezes confundido com o trabalho dos usurários, aqueles que emprestam dinheiro e 
ganham juros com base no empréstimo. Tal equívoco é possível perceber na citação de Le 
Goff, uma postura confirmada também no seguinte trecho: “De todos os mercadores, o mais 
maldito é o usurário, pois este vende uma coisa dada por Deus, não adquirida pelos homens 
(ao contrário do mercador) e, após a usura, retoma a coisa, juntamente com o bem alheio, o 
que não faz o mercador” (LE GOFF, 2005, p. 28-29).
Assim, o tempo, um direito que seria natural, ou mesmo celestial, seria o elemento 
vendido pelo mercador, prática condenada pela Igreja. Essa ideia faz parte da usura, ou 
seja, o empréstimo ou renda sobre algo ou o trabalho de alguém. Além disso, mercadores 
e burgueses, os que mais realizavam essa prática, não enviavam partes significativas de 
seus ganhos à Igreja católica. Apesar das relutâncias, alguns acontecimentos como a peste 
negra, a crise agrária (em que a fertilidade da terra passou a ser questionada), as Cruzadas, 
o monopólio italiano e depois o domínio turco do Mediterrâneo e a Guerra dos Cem Anos, 
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo
História Moderna
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19
cujo desgaste gerou questionamentos da população, deram ao mesmo contexto iniciativas e 
ideias sobre possíveis inovações. Ações como buscar outros territórios e alternativas de rotas 
marítimas foram estimulados.
De acordo com Falcon e Rodrigues (2009), existem (três) características importantes so-
bre o mercantilismo no que diz respeito às mudanças estruturais. A primeira seria a relação 
do seu desenvolvimento concomitante ao período do fim do feudalismo; seu exercício oca-
sionou um processo de ramificações e conexões unindo partes distantes envoltas ao Oceano 
Atlântico, além de, um dos aspectos mais importantes, a acumulação de metais preciosos 
para a promoção da primeira fase da Revolução Industrial. Nesse contexto, o Brasil Colônia 
também foi envolvido e de forma sucinta o próximo subtítulo trata-se sobre isso.
1.3.1 Brasil Colônia
O comércio ultramarino colocou o Brasil Colônia dentro das rotas como um território 
exportador de matérias-primas e receptor de mão de obra escrava. O historiador Antônio 
Carlos Jucá de Sampaio (2010), ao analisar contratos de arrematação da dízima da alfânde-
ga, percebe que o movimento das regiões auríferas a partir do século XVIII era proporcional 
a um mercado interno, isto é, havia comércio para além de mandioca, ouro, escravos e ou-
tros itens básicos.
Tal perspectiva é reafirmada por João Fragoso e Manoel Florentino, historiadores do 
Brasil Colônia/Império, os quais são lembrados por Jucá no que se refere a sua ideia de 
homens de negócio ou de grosso trato (expressão de João Fragoso), aqueles portugueses radica-
dos ou até mesmo nascidos no Brasil Colônia que formavam a elite brasileira, em especial 
fluminense (devido à proximidade com Minas Gerais e o Centro Sul), comprando produtos 
vindos da África, da Bahia (tabaco) da Cisplatina (couro e prata) e da Europa e revendiam 
a terceiros no Brasil. Essa rede se dava por meio de crédito, fortalecendo uma rede de endi-
vidamento, financiada muitas vezes por Associações com sede em Lisboa e com seus repre-
sentantes em cada um dos lugares mencionados.
Tanto o tráfico de escravosquanto o envio de matérias-primas do Brasil – e da América 
Latina – permitiram o crescimento econômico e as mudanças políticas em território euro-
peu. Entretanto, se se considera as ideias do historiador Antônio Jucá Sampaio podemos 
afirmar que o Brasil Colônia, apesar do regime escravista e dos efeitos também de latifún-
dios, obteve a partir do século XVII alguns benefícios do comércio ultramarino liderado pela 
burguesia europeia.
Conclusão
No decorrer dos capítulos deste livro, muitos temas aqui mencionados voltarão a ser 
debatidos sob outros ângulos. Até a discussão realizada objetivamos analisar o período mo-
derno como um momento de transição do feudalismo ao capitalismo – e ao mercantilismo 
– ao mesmo tempo em que rumava à modernidade. Esse contexto proporcionou e gerou 
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1
História Moderna20
aspectos econômicos determinados e determinantes de características culturais e de diver-
sos conflitos sociais que analisaremos nos capítulos seguintes. Conforme afirmamos logo 
no início, longe de uma postura marxista tradicional, mesmo que o contexto econômico seja 
extremamente marcante desse período até ao século XXI, questões culturais foram intensas 
e imprescindíveis para compreender o período moderno como um todo. Desse modo, con-
sideramos importantes as questões econômicas, entretanto, práticas culturais também são 
imprescindíveis para a compreensão das mudanças da Modernidade até o presente século.
 Ampliando seus conhecimentos
Alguns sentimentos do que aguardava os desbravadores do período moderno 
pode ser percebido no texto a seguir, em que o pesquisador Vinícius Silva de 
Souza faz algumas reflexões acerca do pensamento da filósofa Hannah Arendt. 
Segundo ela, existem alguns acontecimentos centrais que mudaram a perspec-
tiva de tempo, sociedade e cultura.
O início da era moderna: reflexões 
arendtianas
(SOUZA, 2006, p. 1-2)
[...]
O marco da Modernidade para Hannah Arendt está em três acontecimen-
tos decisivos na formação desse período, que inauguram o novo tempo. 
São eles: a descoberta da América, a reforma protestante e a invenção do 
telescópio. Esses eventos estão ligados aos respectivos nomes: grandes 
navegadores, Martin Lutero e Galileu Galilei. A descoberta de um novo 
continente e a ameaça da tranquilidade religiosa pela reforma demons-
tram dois acontecimentos fortemente espetaculares perante uma discreta 
invenção de um telescópio para ver as estrelas. No entanto, esse simples 
instrumento passaria a ser o primeiro aparato puramente científico que 
causaria um grande impacto para a modernidade: o de tornar viável a 
expansão dos limites territoriais para além de uma Terra habitada.
A Terra, através das grandes navegações, tornou-se pequena e conhe-
cida como a palma da mão numa velocidade que eliminou a importân-
cia da distância e, com a melhoria dos meios de locomoção, possibilitou 
uma compreensão do homem como pertencente de um todo terreno. 
O aprimoramento do conhecimento geográfico trouxe como conse-
quência imediata o sentimento de distanciamento do homem com a 
Terra, ou seja, separado de seu ambiente terreno, o homem tem um 
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo
História Moderna
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21
preço a pagar. Dá-se aquilo que Hannah Arendt entende como a alie-
nação do homem com o mundo.
A alienação é compreendida aqui como um afastamento, sentido que tem 
origem na palavra Entfremdung que exprime a ideia de algo que está 
separado de outra coisa ou que é estranho a essa coisa, como por exem-
plo, o rompimento de mim na medida em que não posso compreender 
ou aceitar a mim mesmo, ou o não reconhecimento do pensamento em 
relação à realidade.
A alienação é fundamental para compreender a Era Moderna. Essa 
afirmação se justifica em virtude da natureza secular da alienação, que 
não se confunde com a mundanidade, a qual diz respeito ao enfático 
interesse das coisas do mundo ou a uma perda de fé. Esta seculari-
zação vincula-se à atitude dos antigos cristãos, a qual é demonstrada 
nos escritos bíblicos, “dar a César o que é de César e a Deus o que é de 
Deus”, tendo aqui uma separação entre Igreja e Estado, entre Religião 
e Política. A história moderna apresenta um homem voltado para den-
tro de si mesmo, inaugurando a alienação como forma de se relacionar 
com o mundo, ressalta Arendt.
[...]
 Atividades
1. Logo no início do capítulo é debatida a diferença entre a ideia de modernidade e o 
período moderno. Faça um texto argumentando sobre tal perspectiva, ao mesmo 
tempo exponha as consequências disso para a nossa visão sobre o período moderno.
2. Elabore um texto elencando as principais transformações do período moderno, con-
siderando ainda as mudanças sociais e culturais sobre a vida de homens e mulheres. 
Para tanto, utilize o texto da seção “Ampliando seus conhecimentos”.
3. Comente sobre a importância do comércio ultramarino no Atlântico e em que essa 
perspectiva é importante para o período moderno europeu e para o Brasil Colônia.
4. O capítulo traz algumas possibilidades de fontes sobre os temas propostos do pe-
ríodo moderno. Mencione quais seriam e quais os cuidados que devemos ter como 
historiadores(as) para questioná-los.
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo1
História Moderna22
 Referências
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THOMPSON, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 
1987.
 Resolução
1. Nesse exercício o objetivo central é diferenciar o período moderno da ideia de mo-
dernidade. Ambos são bastante diferentes, mas têm uma relação recíproca, ou seja, 
o período moderno diz respeito à divisão do tempo cronológico utilizada pela his-
toriografia a partir do século XIX. É uma metodologia para poder analisar aconteci-
mentos importantes (Grandes Navegações, Mercantilismo, Peste Negra, Tomada do 
Império Romano do Oriente, entre outros). A modernidade é o sentimento, as conse-
quências que esses acontecimentos causaramna medida em que os séculos seguintes 
passaram, alterando os comportamentos sociais, econômicos, políticos e culturais. 
A segunda parte da pergunta está relacionada com essas mudanças, como a forma-
ção dos Estados modernos, a crise do sistema absolutista, entre outros.
Considerações sobre o mundo moderno e o mercantilismo
História Moderna
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2. Nesse tópico a resposta deve se concentrar nas mudanças culturais e sociais que 
podem ser percebidas no período. O texto sobre Hannah Arendt é fundamental para 
perceber como a concepção de vida e de tempo é transformada. As três mudanças 
mais essenciais são: a descoberta da América, a Reforma Protestante e a invenção 
do telescópio. Com a primeira, o limite territorial foi ampliado, assim como com a 
terceira, que permitiu que se visse muito além da própria Terra, ou seja, indivíduos 
passaram a se perceber como pertencentes à Terra. Tal perspectiva leva à ideia de alie-
nação de Arendt, em que o homem se sente afastado de seu espaço, um mundo se-
cularizado, moderno. Esse princípio é aprimorado pela Reforma, em que nada per-
tence às pessoas, mas a Deus, cujos escolhidos poderiam ter o trabalho daqueles que 
não tinham nada, os que sofreram o êxodo rural no processo capitalista industrial.
3. O comércio ultramarino foi importante na medida em que abriu possibilidades de 
conhecer e dominar novos territórios. Tais descobertas alteraram tanto a economia 
europeia quanto permitiram que o capitalismo se transformasse no principal meio 
econômico mundial no decorrer dos séculos seguintes. De maneira evidente, os pa-
noramas social e cultural também foi alterado. Quanto ao Brasil Colônia, é possível 
perceber que ele serviu de fornecedor de matérias-primas, mão de obra escrava, as-
sim como o próprio tráfico dela fez com que países europeus acumulassem moeda, 
ocasionando uma balança comercial favorável.
4. Pinturas, imagens e documentos da Grécia Clássica copiados por monges no período 
medieval, mapas e práticas sociais e culturais que colaboram no entendimento da 
vivência daquele período. Em relação às fontes copiadas no período medieval, lem-
bramos que é preciso considerar que os interesses da Igreja católica atravessavam o 
processo de cópia, ou seja, aquilo que deveria ou não permanecer, o que não quer 
dizer que todos os documentos sejam parciais ou foram manipulados. Os mapas, as 
pinturas e também os documentos produzidos no e sobre o período também carre-
gam os interesses daqueles que os produziram.
História Moderna 25
2
Renascimento cultural e o 
humanismo
Foram muitas as ideias que fervilharam as imaginações de tantos cientistas, pin-
tores e intelectuais da Europa, em especial, da Península Itálica a partir do século XV. 
Neste capítulo, nosso objetivo é trazer algumas delas, a fim de compreender de que 
modo o período moderno foi um contexto propício para o desenvolvimento das ciên-
cias e de um olhar mais profundo sobre o ser humano. Uma delas seria a centralidade 
tomada pelo estudo sobre o indivíduo, não apenas o homem/mulher da família, do 
burgo ou feudo, da Igreja ou da oficina, mas uma perspectiva de individualismo, de 
conhecimento científico sobre si e a natureza.
Renascimento cultural e o humanismo2
História Moderna26
2.1 Renascimento: conceitos e expectativas
Figura 1 – MICHELANGELO. A criação de Adão. 1511. Afresco, 480,1 x 230,1 cm. Capela Sistina, 
Vaticano.
A pintura é um dos quadros da trilogia: a criação de Adão, de Eva e da perdição desses 
dois e, certamente, um dos maiores símbolos do Renascimento italiano. Faz parte de um 
conjunto de pinturas bíblicas que ocupam toda a Capela Sistina. No primeiro quadro, Adão 
parece ter acabado de ser gerado por Deus; no segundo, Eva aparentemente sai da costela 
de Adão e, no terceiro, ambos são expulsos do paraíso. Aparentemente nada se sobressai ao 
que é esperado da própria narrativa bíblica. Mas, se o Renascimento é um processo questio-
nador da teologia e dos dogmas religiosos, por que o renascentista Michelangelo trabalhou 
por tantos anos para retratar passagens bíblicas?
Uma das respostas mais fáceis seria o fato de as imagens estarem na Capela Sistina, 
uma capela que foi propriedade particular dos papas no período moderno e que mantinha 
caminhos internos até a basílica de São Pedro. Além disso, essas pinturas também são enco-
mendas do próprio Vaticano, cuja sede é representante da arquitetura renascentista, o que 
não diminui o brilhantismo de Michelangelo em projetar toda a pintura, porém demonstra 
que eram também artistas contratados.
Entretanto, se olharmos novamente para a pintura veremos um aspecto que marca uma 
diferença para o que seria o esperado de uma narrativa bíblica: a imagem de um cérebro 
que está em volta de Deus. Seria a razão analisando a criação? Seria o conhecimento do 
corpo humano sendo ali exposto? Algo tão proibido e perseguido por séculos pela Igreja 
católica. Uma das possibilidades seria, de acordo com Fritz Baumgart (1999), a de que o 
Renascimento trouxe uma arte ainda inspirada pela fé, mas permeada pela razão. As respos-
tas sobre uma análise tão criteriosa cabem a um especialista em arte, porém, o que trazemos 
Renascimento cultural e o humanismo
História Moderna
2
27
para esse capítulo é justamente a relação de um conhecimento terreno e aquele que seria o 
bíblico, assim como a ideia de um Renascimento que deixa para trás todo o contexto medie-
val e aponta o novo, o moderno.
A pergunta nesse caso é: se algo renasce, outro deixa de existir? Eis a questão para se 
pensar o lugar que o Renascimento deveria ocupar na historiografia. Um tema visto como 
complexo desde o século XIX e que tem levantado questões a fim de perceber o que ele 
representa para o período moderno. Se o Renascimento for analisado sob o significado da 
palavra renascer, seria como assumir que os princípios vividos no período entre cerca de 
1300 a 1600, já existiram em outro tempo. Este não seria o medieval, mas o greco-clássico, ou 
seja, toda a influência e o pensamento desenvolvidos durante o Renascimento não estariam 
relacionados ao Medieval, mas ao ápice da história de Roma, ainda na Antiguidade. Nesse 
sentido, o Renascimento, em especial, o italiano, foi caracterizado pelo historiador suíço 
Jacob Burckhardt da seguinte maneira:
[...] o despertar da Antiguidade fez-se na Itália duma maneira muito diferente 
do Norte. Logo que cessa a barbárie na Península, o povo italiano, que é ainda 
meio antigo, vê claro no seu passado. Celebra-o e quer ressuscitá-lo. Em Itália, é 
simultaneamente o mundo e o povo que prestam homenagem à Antiguidade e 
querem fazê-la reviver porque recorda a todos a grandeza passada do seu país. 
(BURCKHARDT, 2013, p. 139)
O que o historiador salienta é a ideia de que havia uma possível consciência ou au-
toafirmação dos italianos, como representantes do modelo greco-clássico, seja pela herança 
cultural romana ou mesmo por estarem tão próximos ao território grego. Para além disso, o 
filósofo Eugênio Garin afirma que
[...] deve porém ter-se presente que aquilo que renasce, que se reafirma, que se 
exalta, não é apenas, nem é sobretudo, o mundo dos valores antigos, clássicos, 
gregos e romanos, a que se regressa progressivamente. O despertar cultural, que 
caracteriza desde o início o Renascimento é sobretudo uma afirmação renovada 
do homem, dos valores humanos nos vários domínios: desde as artes à vida diá-
ria. (GARIN, 1991, p. 9)
O que Garin apresenta é uma ideia de renascimento principalmente em relação ao ho-
mem como um indivíduo que pode ser analisado, pensado e que também pode conhecer 
o mundo que o cerca. Nesse contexto, o historiador da arte Ernst Gombrich cita Filippo 
Brunelleschi como um dos principais arquitetos responsáveis pelo início do Renascimento 
italiano (GOMBRICH, 2013). Ele seria o responsável pela conclusão da Catedral de Florença, 
uma construção gótica. Brunelleschi conseguiu finalizar a catedral utilizando uma nova téc-
nica, em que uma parede dupla com cordas prendiatijolos na diagonal e, após tal inovação 
(nunca mais repetida), reinventou práticas de construção, utilizando colunas e frontões com 
base nas medidas dos prédios antigos de Roma.
Renascimento cultural e o humanismo2
História Moderna28
Figura 2 – Catedral de Santa Maria del Fiori de Florença, construída no fim do século XIV.
Fonte: fisfra/iStockphoto.
A pintura do Juízo Final cobre o diâmetro de 54 metros da cúpula, assim como o re-
curso da perspectiva, também associado ao nome de Brunneleschi. Entretanto, segundo 
Gombrich, a resolução do problema da cúpula não teria sido alcançada se Brunneleschi não 
conhecesse as técnicas góticas (e medievais) de construção de cúpulas (GOMBRICH, 2013).
Nessa perspectiva, o Renascimento Científico (por volta do século XIV ao XVI) também 
ganha complexidade. Bem ao certo, Renascimento é um termo cunhado no século XIX na his-
toriografia, período de lançamento de uma das obras mais famosas sobre tal processo, em 
1860, A Civilização do Renascimento Italiano, do historiador Jacob Burckhardt. Este objetivou 
em partes compreender como o contexto do Renascimento propiciou o seu desenvolvimen-
to, ao mesmo tempo em que acabou por cunhar o conceito. Ainda sobre o processo de o 
Renascimento ter se desenvolvido na Itália, o historiador afirma o seguinte:
[...] na Idade Média, as duas faces da consciência, a face objetiva e a face subjeti-
va, estavam de alguma maneira veladas; a vida intelectual assemelhava-se a um 
meio sonho. O Véu que envolvia os espíritos era tecido de fé e de preconceitos, 
de ignorância e de ilusões; o mundo e a história apareciam com cores bizarras; 
quanto ao homem, apenas se conhecia como raça, povo, partido, corporação, fa-
mília ou sob uma outra forma geral coletiva. Foi a Itália a primeira a rasgar o véu 
Renascimento cultural e o humanismo
História Moderna
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29
e a dar o sinal para o estudo objetivo do Estado e de todas as coisas do mundo; 
mas, ao lado desta maneira de considerar os objetos, desenvolve-se o aspecto 
subjetivo; o homem torna-se indivíduo espiritual e tem consciência deste novo 
estado [...]. (BURCKHARDT, 2013, p. 106-107)
Dessa forma, o historiador aponta o período medieval como obscuro e sem ideias mais 
subjetivas (uma ideia contrária à de Ernst Gombrich), pois tanto o homem quanto as suas 
práticas sociais e culturais não teriam acrescentado coisa alguma às artes. Como afirma-
do, anteriormente, o indivíduo passa ser o objeto central de debate, compreensão e análise 
durante o Renascimento, em diversos países, porém, de forma especial, primeiramente na 
Itália. O historiador Jacob Burckardt traz a seguinte perspectiva: “A riqueza e a cultura, cuja 
exibição e rivalidade não eram proibidas; uma liberdade municipal considerável; uma Igreja 
que, diferindo daquela do mundo bizantino, ou do mundo maometano, não se identificava 
com o Estado – todas essas condições favoreciam o crescimento do pensamento individual” 
(BURCKHARDT, 1991, p. 82-83).
Características que se diferiam de boa parte da Europa, talvez pelo contato com o 
Oriente, por ser passagem de tantos povos, o que trouxe conhecimentos culturais. Mas, além 
do cosmopolitismo, Burckhardt destaca a distância da Igreja em relação ao Estado e a possi-
bilidade de enriquecimento comercial. No mesmo tom de exaltação, Burckhardt ainda frisa 
a ideia de que a Península Itálica foi o expoente que trouxe uma nova luz sobre um novo 
tempo, uma relação direta do Renascimento com o resultado do espírito histórico das cida-
des italianas. Como afirma o historiador,
[...] a coisa é totalmente diversa quando um povo inteiro ultrapassa outros po-
vos no estudo da natureza, quando aquele que descobre novas verdades não 
tem que recear o silêncio e o esquecimento e pode contar com a simpatia de 
espíritos curiosos como o seu. É verdade que foi o que aconteceu na Itália. 
(BURCKHARDT, 2013, p. 222)
Um povo inteiro teria tido a noção de que vivia um novo tempo e que este era o mo-
derno tão esperado, ou seja, a Itália teria renovado todo um saber de forma homogênea e 
concisa. A despeito de tal ideia, evidentemente, o período medieval demonstrou faces me-
nos toleráveis em relação à produção de conhecimento da natureza e dos próprios homens, 
porém isso não quer dizer que esse período não produziu características sociais e culturais 
que transformaram o seu tempo.
Homogeneidade também não é a palavra que define a Itália entre os séculos XIV a XVI. 
De acordo com o historiador Peter Burke (1999), o que hoje entendemos por Itália, naque-
le período eram apenas cidades-Estados em decadência, recém-dominadas pelo Império 
turco-otomano (em vista do fim do Império Romano do Oriente) e assombradas pela peste 
negra do século XIII. Uma maioria de camponeses era o que compunha a essência da po-
pulação, dos quais poucos tinham acesso à educação ou às correntes artísticas, o que não 
significa que a cultura popular não tinha força, ou mesmo de que não havia possibilidades 
de circularidade cultural (analisada na historiografia pelo historiador Carlo Ginzburg sobre 
Mennochio no Capítulo 6).
Renascimento cultural e o humanismo2
História Moderna30
O problema maior de Jacob Burckhardt para Peter Burke é justamente a relação direta 
estabelecida pelo primeiro entre o Renascimento e uma cultura moderna, ou seja, esta seria 
fruto direto do Renascimento. No século XIX, Burckhardt apontou o Renascimento como 
um eclipse total que, ao seu fim, gerou uma luz radiante sobre toda a Itália e depois sobre 
boa parte da Europa; em outras palavras, um espírito moderno, cujas características seriam: 
o individualismo – o estilo de cada artista (BURKE, 1999) –, a secularidade e o realismo, 
aspectos que finalmente teriam chegado ao velho continente medieval.
Para o historiador inglês, é preciso ver uma continuidade entre o medieval e o perío-
do moderno, perspectiva perceptível no contexto do Renascimento, do mesmo modo como 
Filippo Brunelleschi só conseguiu em um primeiro momento terminar a cúpula da Catedral 
de Florença porque tinha técnicas das construções góticas. Os escritores, os pintores e os 
escultores do Renascimento estavam muitas vezes estimulando ações individuais que, ao 
serem analisadas em conjunto e posteriormente, demonstram transformações daquela so-
ciedade, o que Burke chama de história social do movimento.
Outro motivo para que a Península Itálica cresse que era o berço do Renascimento era 
sua estranheza em relação ao gótico. Países como Alemanha, Inglaterra, França estiveram 
muito mais próximos dessa arte medieval, diferente da Itália que tinha outra realidade so-
cial e cultural.
2.1.1 Humanismo: de ideias a conceito
Humanismo – nomeado dessa forma no século XIX – foi um movimento intelectual 
ocorrido a partir do século XIV, cujas discussões centrais eram a defesa do conhecimento 
acerca dos seres humanos em todos os aspectos. Para o historiador Nicolau Sevcenko, 
o humanismo foi um programa de estudos sobre humanidades, no qual estavam inclu-
sos literatura, filosofia, medicina, história, matemática, direito, entre outros, com objetivo 
central em compreender o ser humano e tudo o que rodeia (SEVCENKO, 1985). O antro-
pocentrismo passa a ser o centro das discussões a despeito de uma perspectiva teológica 
para tudo. Mas, mesmo com essas influências, para Peter Burke, o Renascimento italiano 
não deixa de ter em seu humanismo resquícios profundos – mais do que era percebido na 
época – do período medieval:
A ascensão do humanismo não desbancou a filosofia escolástica medieval 
(apesar das observações depreciativas que os humanistas faziam sobre os 
scholastici). Na verdade, figuras exponenciais no movimento renascentista, 
como o neoplatônico Marsilio Ficino, eram bem lidos, tanto na filosofia medieval 
como na filosofia clássica. Lorenzo de´Medici, governantes da Florença, escreveu 
a Giovanni Bentivoglio, governante de Bolonha, pedindo que procurasse nas li-
vrarias locais uma cópia do comentário de Jean Buridan à Ética de Aristóteles, e 
Leonardoda Vinci estudou a obra de Alberto da Saxônia e de Alberto o Grande. 
(BURKE, 1999, p. 28)
Se o Renascimento na Península Itálica não foi algo vivido de forma homogênea ou 
recorrente em seu contexto, o que foi então o Renascimento italiano? Para Peter Burke foi 
Renascimento cultural e o humanismo
História Moderna
2
31
mesmo uma inovação das artes e não um grande florescimento das artes. Ou nas palavras 
do historiador da arte Ernst Gombrich: “uma coisa que realmente não existe é aquilo a que 
se dá o nome de Arte. Existem somente artistas [...]” (GOMBRICH, 1999, p. 16). Artistas ino-
vadores, que lançam ideias que acabam por influenciar outros artistas naquele tempo ou, até 
mesmo, em períodos posteriores. Além disso, a arte pode ser vista como um elemento que 
carrega características estéticas, como também intervenções intelectuais e sociais daqueles 
que a produzem. Um exemplo de inovação, ao mesmo tempo em que carrega elementos de 
influências medievais é Giotto di Bondone (1267-1336). O afresco que verificamos a seguir 
pertence a ele, considerado um dos precursores das técnicas renascentistas de pintura, como 
a perspectiva.
Figura 3 – BONDONE, Gioto di. Lenda de São Francisco – Cena Número 5: Renúncia de Bens 
Materiais. 1927. Afresco, 270 x 230 cm. Igreja de São Francisco de Assis, Itália.
O motivo pelo qual trazemos essa imagem é o fato de haver a presença da “mão de 
Deus” em cima, algo percebido por São Francisco de Assis, que, por sua vez, estende a sua. 
A nudez (ou em partes), embora levemente escondida, também se faz presente. Reiteramos 
que a nudez é associada à pureza, no que se refere aos princípios cristãos do Medievo.
O humanismo pode ser visto como um processo cultural que se iniciou de maneira mais 
velada até se tornar uma corrente mais claramente perceptível. Do século XIV ao XVI, o hu-
manismo se torna uma das bases do pensamento renascentista europeu para compreender a 
alma e a vida de homens e mulheres em todas as suas faces, e isso explica em partes a relação 
da providência com a razão.
Renascimento cultural e o humanismo2
História Moderna32
Francesco Petrarca (1304-1374) é considerado o humanista mais importante da Itália, 
por ter sido o primeiro a ecoar novas ideias, mas por diversas inovações como o estilo do 
soneto, com 14 versos (SEVCENKO, 1985). Os temas, tanto desse humanista, quanto de ou-
tros giravam em torno da Antiguidade, como o tempo ideal. Entretanto, como historiadores 
(as) sempre lembramos que ninguém se sobressai totalmente a seu tempo, o que explica a 
relação de alguns deles com princípios que muitas vezes tentaram negar em outros tempos.
Um dos maiores humanistas foi o inglês Thomas Morus (1478-1535), cujo escrito prin-
cipal foi Utopia1, de 1516, palavra também criada por ele. Thomas Morus era eclesiástico da 
Igreja anglicana, portanto, muito próximo ao Rei Henrique VIII, como também dos pró-
prios preceitos teológicos. Apesar dessas características, Thomas Morus era próximo a di-
versos humanistas na Inglaterra do fim do XV e início do XVI, como o neerlandês Erasmo 
de Roterdã. Este último foi um dos responsáveis por sua aproximação mais profunda com o 
grego – e os textos – o que consequentemente, afastou o latim de seus interesses. Ideia corro-
borada com o teor de seu livro Utopia, cuja base tem um Estado forte e centralizado, com res-
peito às diferenças e que sai em defesa da distribuição de renda. Thomas Morus acaba sendo 
condenado na segunda década do século XVI por não incentivar mais o latim em Oxford, 
disciplina que era justamente o centro de qualquer universidade com traços medievais.
O que percebemos trazendo um pouco da trajetória de Thomas Morus é que a Inglaterra 
demorou para ter mais discussões sobre o humanismo, prática que se deu a partir de inter-
câmbios de intelectuais, mas ao mesmo tempo, mostrou-se conservadora e não sem confli-
tos, como percebemos a seguir:
Voltemo-nos agora para a questão da educação humanista julgada laica. 
Ninguém jamais afirmou que um homem tenha necessidade de grego ou latim, 
ou, na verdade, de qualquer tipo de educação, para encontrar a salvação. No 
entanto, esse ensinamento que se qualifica de secular leva a alma à virtude [...]. 
Eu não desejo de modo algum me colocar como o único defensor da aprendiza-
gem do grego; pois sei quanto deve parecer evidente para os eruditos de Vossa 
Eminência que o grego é bom e verdadeiro. Para aqueles para quem isso não 
seria evidente, digamos que devemos ao grego toda a precisão das artes liberais 
em geral e da teologia em particular, pois os gregos ou fizeram grandes desco-
bertas eles mesmos, ou legaram-nas em herança em seguida. Tome a filosofia, 
por exemplo. Se você deixar de lado Cícero e Sêneca, os Romanos escreveram 
sua filosofia em grego ou traduziram-na do grego. Eu verdadeiramente não te-
nho necessidade de lembrar que o Novo Testamento foi escrito em grego, ou 
que os melhores exegetas do Novo Testamento foram gregos e escreveram em 
grego. [...] ora, mais da metade dos escritos gregos ainda não estão acessíveis ao 
Ocidente. (PHÉLIPPEAU, 2013, p. 165-166)
1 Para o filósofo Paul Ricoeur, o termo utopia inaugurou uma ideia de que é possível pensar, querer, 
sonhar, idealizar algo além do que se vive. Tal ideia permitiu que se pensasse, no mundo moderno, em 
novas práticas sociais e culturais. Dessa forma, fica subentendido que a realidade não era natural ou 
imutável (RICOEUR, 2015, p. 33).
Renascimento cultural e o humanismo
História Moderna
2
33
Em um tempo em que temos a facilidade de aprender mais de uma língua e ter acesso a 
ideias políticas e culturais mais diversas, parece-nos estranho a defesa de Morus apenas pelo 
direito de que o grego – e os escritos nessa língua – fossem divulgados. Mas é isso o que esse 
clérigo da Igreja anglicana fez ao expor sua vontade de trazer tais documentos. Muitas das 
ações de Thomas Morus eram de influência da amizade com Erasmo de Roterdã, cujo Elogio 
à loucura, de 1511, seria uma homenagem a Morus. O conteúdo do livro era de sátiras à Igreja 
católica, utilizando a ideia de loucura como despreocupada ou desprendida da realidade.
O holandês foi extremamente ativo no debate da Reforma e também em relação aos 
dogmas de Martinho Lutero, entretanto jamais deixou de lado sua postura humanista em 
detrimento às religiosas. Tanto Erasmo de Roterdã quanto Thomas Morus defenderam a 
dinamização de novos conhecimentos sobre o homem até mesmo criticando suas respec-
tivas igrejas, mas, sempre mantiveram uma fé em relação ao cristianismo. Indício disso foi 
a decapitação de Thomas Morus por ter-se negado a aprovar o casamento do rei Henrique 
VIII com Ana Bolena, a fim de justificar a criação da Igreja anglicana. Portanto, além de 
considerar que Thomas Morus representa um grupo que trouxe ideias gregas clássicas, mas 
que também manteve alguns de seus preceitos de uma forma mais tradicional, considera-
mos mais uma ideia de Peter Burke, segundo o qual o Renascimento – assim como as Letras 
– trouxe não apenas o clássico, mas fez novas leituras do que havia acabado de ocorrer, o 
Medieval (BURKE, 1999).
Os escritos mencionados até esse ponto não teriam sido divulgados ou mesmo reedi-
tados ainda no século XVI se não fosse a invenção da imprensa de Johannes Gutemberg. 
Porém, tal invenção vai além de simples reedições de obras. O período moderno foi marca-
do também por processos históricos como o Renascimento e o Humanismo e, nesse sentido, 
o que foi produzido de novidade não teria alcançado grande reconhecimento nos séculos 
seguintes e se desdobrado em novos acontecimentos, como o Iluminismo, a Reforma e a 
Contrarreforma, se não fosse a divulgação de novos ideais. Peter Burke aponta o seguinte 
sobre Gutemberg:
Os eclesiásticos, por sua vez, temiam que a imprensa estimulasse leigos comuns 
a estudar textos religiosos por conta própria em vez de acatar o que lhes disses-
sem as autoridades. Tinham razão. No século XVI, na Itália por exemplo, sapa-
teiros, tintureiros,pedreiros e donas de casa, todos reivindicavam o direito de in-
terpretar as escrituras [...] Na alta Idade Média o problema fora a escassez, a falta 
de livros. No século XVI o problema era o da superfluidade. Anton Francesco 
Doni, escritor italiano, em 1550 já se queixava da existência de “tantos livros que 
não temos tempo para sequer ler os títulos”. Livros eram uma “floresta” na qual 
os leitores poderiam se perder, segundo Jean Calvin2. (BURKE, 2002)
Se há dúvida sobre a disseminação de ideias parecer uma ameaça, basta lembrar do 
Concílio de Trento (1545-1563), no qual a Igreja católica, na organização da Contrarreforma, 
2 Jean Calvin, mais conhecido na língua portuguesa como João Calvino, foi um dos maiores teólogos 
da Reforma, criando e debatendo a teologia protestante. Mais informações em: GOMES, Antônio Más-
poli de Araújo. O pensamento de João Calvino e a ética protestante de Max Weber, aproximações e 
contrastes. Fides Reformata, São Paulo, v. 7, n. 2, 2002.
Renascimento cultural e o humanismo2
História Moderna34
fez o Index, uma lista de livros proibidos. Peter Burke deixa evidente o estranhamento causa-
do pela possibilidade de ter tantos livros (e conhecimento). A vontade de ler todos como se 
fosse algum tipo de obrigação é perceptível, porém, compreendo que se trata mais de uma 
questão social e cultural diante das novidades vindas do humanismo.
Não obstante, outro problema cercava aqueles que organizavam as bibliotecas ou de-
tinham acesso aos livros. Como organizá-los? Como saber quais livros o público queria e 
como catalogá-los? Não tardaram a saírem os primeiros catálogos e, posteriormente, sumá-
rios, índices em ordem alfabética, resenhas publicadas em revistas e, finalmente, as enciclo-
pédias – estas últimas, apenas cem ou duzentos anos depois (BURKE, 2002). Era um mundo 
novo sendo descoberto – o mundo dos livros –, causando seus conflitos, como fica evidente 
na leitura de Burke:
Os eclesiásticos temiam que a imprensa estimulasse leigos comuns a estudar 
textos religiosos por conta própria em vez de acatar o que lhes dissessem as 
autoridades. Tinham razão. No século XVI, na Itália por exemplo, sapateiros, 
tintureiros, pedreiros e donas-de-casa, todos reivindicavam o direito de inter-
pretar as escrituras [...]. Os estudiosos, ou mais genericamente os que buscassem 
o conhecimento, também enfrentavam problemas. Observemos deste ponto de 
vista a assim-chamada “explosão” da informação - uma metáfora desconfortável 
que faz lembrar a pólvora - subsequente à invenção da imprensa. A informação 
se alastrou “em quantidades nunca vistas e numa velocidade inaudita”. Alguns 
estudiosos logo notaram as desvantagens do novo sistema. O astrônomo huma-
nista Johann Regiomontanus observou, por volta de 1464, que os tipógrafos ne-
gligentes multiplicariam os erros. Outro humanista, Niccolò Perotti, propôs em 
1470 um projeto defendendo a censura erudita. (BURKE, 2002, p.174)
O que se percebe é que ler e ter conhecimento mostrava-se também como um perigo às 
instituições do fim do medieval e início do período moderno. Um exemplo claro é a Igreja 
afirmar o receio sentido em ver seus fiéis podendo fazer as próprias interpretações bíblicas, 
ou mesmo a complexa ideia de um humanista em afirmar a possibilidade de selecionar o 
que poderia ou não ser lido pelo público em geral, o que não é nada além de uma censura. 
Obviamente, todo tipo de estranhamento, de receio e até mesmo de disputa é comum em 
situações novas, especialmente quando os poderes institucionais mais importantes de uma 
sociedade podem ser questionados dentro das relações de poder.
Nesse sentido, apontamos o porquê de fazer essa discussão sobre as consequências 
do humanismo em tempos de Renascimento. Essas mudanças foram graduais, isoladas 
e, em algumas cidades, mais intensas. Entretanto, o que se segue nos séculos seguintes é 
a mudança da mentalidade de um público que antes não contestava, por não ter direito 
de o fazer, e que, por meio de leituras, de novos conhecimentos e organizações, passa 
a subverter a organização social em que estava amparado e promove revoluções (como 
são as vividas na Inglaterra e na França). Sobre isso, Peter Burke traz a seguinte ideia: 
“Todavia, a comercialização deu um grande passo para a frente no século XVIII, partici-
pando do surgimento da ‘sociedade de consumo’ na Inglaterra, na França, na Alemanha 
e em outros países por volta de 1750” (BURKE, 2002, p. 179). Como será analisada em 
Renascimento cultural e o humanismo
História Moderna
2
35
outras disciplinas, a sociedade do século XIX na França produziu grandes criações li-
terárias, influenciando a política, a arte e a cultura daquele período, tendo por base as 
mudanças paulatinas na história do período moderno.
Reiteramos que o humanismo não se deu com o mesmo fôlego e intensidade pela 
Europa. Foram apropriações, debates, intercâmbios que, ao longo do tempo, formaram o 
que chamamos hoje de humanismo. O historiador Sevcenko afirma o seguinte sobre isso: “É 
inútil querer procurar uma diretriz única no humanismo ou mesmo em todo o movimento 
renascentista: a diversidade é o que conta” (SEVCENKO, 1985, p. 23). O intuito de trazer 
ideias de Thomas Morus, Erasmo de Roterdã e Johannes Gutemberg (mesmo que poucas) 
é compreender a importância da atuação de um ou outro, mesmo que de forma isolada em 
uma noção de espaço-tempo.
Com base nas considerações feitas sobre a importância do Renascimento e do 
Humanismo para a História Moderna, o próximo item tem como objetivo trazer ideias sobre 
obras e a história do Renascimento.
2.2 Arte e cultura: as formas de 
representação simbólica no Renascimento
2.2.1 Renascimento italiano
Por que Península Itálica? O local era o ponto de encontro de mercadores para o Oriente. 
Ali se desenvolveram bancos ao longo dos anos, que movimentavam empréstimos, geravam 
juros e junto aos lucros das navegações, proporcionavam mais lucros. Duas famílias impor-
tantes e representantes desse período são os Médici e os Visconti; os primeiros formaram o 
maior acervo de obras encomendadas por grandes nomes, como Giotto e Boticelli.
Nesse mesmo tempo, é diferente se pensarmos em boa parte do restante da Europa dos 
séculos XIV e XV. Muitos ainda não eram Estados Nações, como a Península Itálica, ou, se 
eram, não tinham centralidade política, organizando sua sociedade muitas vezes por meio 
de feudos e pequenas vilas. De forma alguma isso significa que a Itália era moderna e o res-
tante, atrasado (BURKE, 1999).
Nesse sentido, é importante considerar que as artes foram inovadas de diferentes for-
mas e com interesses diversos. Em geral tinham em comum o corpo humano exposto na-
turalmente, tanto no que se refere ao tamanho no caso das esculturas e bustos, quanto no 
modo como eram pintados. Simetria, proporção, equilíbrio, realidade eram objetivos das 
esculturas. A ideia de movimento também é comum a muitas delas. No caso das pinturas, 
houve o uso da perspectiva como técnica e a tinta a óleo, tornando a pintura mais realis-
ta. A imagem a seguir (Figura 4) é uma pintura românica considerada uma representan-
te do período medieval, enquanto a segunda (Figura 5) está entre os maiores símbolos do 
Renascimento italiano.
Renascimento cultural e o humanismo2
História Moderna36
Figura 4 – Anunciación a los pastores. ca. 1180. Panteón de los Reyes, Colegiata de San Isidro, León.
Figura 5 – BOTICELLI, Sandro. A Primavera. 1492. Têmpera, 203 x 314 cm. Uffizi Gallery, Itália.
Renascimento cultural e o humanismo
História Moderna
2
37
As imagens demonstram, em especial, a diferença de sombras e de perspectiva. 
A primeira dá a impressão de que todas as pessoas e animais parecem estar no mesmo 
ângulo; já na segunda, é possível visualizar o lugar que cada um ocupa, com pessoas em 
lugares e profundidades diversas, isto é, é possível compreender toda a cena por meio 
do recurso da perspectiva. Boticelli foi um pintor do período do Renascimento e um dos 
maiores destaques do Quattrocentoitaliano, justamente pelo uso da perspectiva em suas 
obras. As inovações nesse campo da arte desejavam trazer para as obras a realidade, as 
nuances, os detalhes.
A perspectiva realista não é diferente quando analisadas as esculturas de 
Michelangelo. Expor os detalhes do corpo, dominar, conhecer todas as suas funções, a 
sua beleza tornou-se um objetivo, o que demonstra uma mudança na visão sobre a vida 
e o cotidiano no período moderno.
Figura 6 – MICHELANGELO. Pietà. 1499. Escultura. Vaticano.
Renascimento cultural e o humanismo2
História Moderna38
Figura 7 – MICHELANGELO. Davi. 1504. Escultura. Florença, Itália.
2.3 O Barroco de Caravaggio e o protestante
O Barroco é do século XVII e tem sua origem também na Itália. Guilherme Gomes Júnior 
traz a ideia de Afrânio Coutinho, que define o homem do Barroco como “[...] um saudoso 
da religiosidade medieval e, ao mesmo tempo, um seduzido pelas solicitações terrenas e 
valores mundanos, amor, dinheiro, luxo, posição que a renascença e o humanismo puseram 
em relevo. Desse dualismo nasceu a arte barroca” (GOMES JÚNIOR, 1998, p. 104). A ideia 
de saudade serve como símbolo para afirmar que alguns preceitos medievais voltam a ter 
ênfase. O uso da razão de forma separada da arte já não é tão evidente, assim como as emo-
ções voltam a ser expostas nas artes.
As acusações de paganismo continuam, mas com o Barroco houve diversas tentativas 
de reconciliação com o cristianismo. É nesse sentido que a frase de Afrânio Coutinho deve 
Renascimento cultural e o humanismo
História Moderna
2
39
ser entendida: o homem continua sendo o foco, porém nele (e em suas representações) há 
um conflito entre bem e mal, razão e emoção, Deus e Diabo. As pinturas nem sempre são em 
perspectiva, mas acentuam partes claras/escuras, ou seja, duas perspectivas contraditórias, 
como também são o sagrado e o profano. Além disso, focam em emoções, sombras e temas 
mitológicos/religiosos.
2.3.1 Barroco Italiano e holandês
As pinturas de Caravaggio, apelido de Michelangelo Merissi (1574-1610), diferenciam-
-se por utilizar imagens de pessoas simples, como vendedores ambulantes e prostitutas em 
seus cotidianos, e também por criar sua própria luz nos quadros, a fim de direcionar o olhar 
de quem vê. Portanto, as pessoas retratadas tinham o rosto de outras comuns, porém o foco 
era pintar santos e santas, como São Mateus (Figura 8) e Santa Catarina (Figura 9). Nesta 
última, Santa Catarina de Alexandria fazia parte das encomendas de diversas pinturas feitas 
ao artista, com intuito de renovar a iconografia da Igreja católica, durante a Contrarreforma. 
Uma estratégia para que a Igreja tivesse destaque, frente ao sucesso do Renascimento.
Figura 8 – CARAVAGGIO. A inspiração de São Mateus. 1602. Óleo sobre tela, 292 x 186 cm. Igreja 
de São Luís dos Franceses, Roma, Itália.
Renascimento cultural e o humanismo2
História Moderna40
Já a Figura 10 refere-se ao Barroco holandês, uma pintura de Johannes Veermer, ape-
lidada de “Monalisa Holandesa”. Os temas do Barroco holandês se diferenciam dos ita-
lianos, devido às questões religiosas, pois, como veremos no próximo capítulo, a Reforma 
Protestante ocorreu de acordo com interesses burgueses, o que certamente diminuiu a cen-
sura ao mesmo tempo em que tinha também por objetivo reproduzir o estilo de vida e o 
cotidiano burguês.
Figura 9 – CARAVAGGIO. Santa Catarina de Alexandria. 1595-1596. Óleo sobre tela, 173 x 133 cm. 
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid, Espanha.
Renascimento cultural e o humanismo
História Moderna
2
41
Figura 10 – VERMEER, Johannes. Moça com brinco de pérola. 1665. Óleo sobre tela, 46,5 x 40 cm. 
Mauritshuis, Haia, Holanda.
A seguir uma última imagem, A Ronda Noturna (Figura 11), cujo título inicial era A 
Companhia do capitão Frans Banning Cocq e do tenente Willem van Ruytenburch a preparar-se 
para avançar, de Rembrandt Harmenszoon van Rijn. A obra retrata a inauguração de uma 
Companhia de Aracabuzeiros. Retratar inaugurações comerciais e destacar pessoas (alguns 
pagaram para ter mais ou menos destaque na obra) sem uma conotação religiosa é uma 
perspectiva bastante diferente do que era esperado na Itália. Nessa obra há uso de luz e 
sombra, uma influência de Caravaggio, com destaque para os tenentes da frente (que teriam 
pago a mais) e a menina em branco e dourado (que seria a mulher do pintor).
Renascimento cultural e o humanismo2
História Moderna42
Figura 11 – REMBRANDT. Ronda noturna. 1642. Óleo sobre tela, 379,5 x 453,5 cm. Rijksmuseum, 
Haia, Holanda.
Com cenas do cotidiano e de organizações sociais e econômicas, a arte desse período 
não estava dissociada dos interesses burgueses ou mesmo da nobreza. O período moderno 
estava em disputa, lançando novos valores para um novo tempo.
Conclusão
As artes representam muito mais que questões estéticas, pois seus recursos e suas estra-
tégias revelam angústias, interesses e disputas políticas que uma sociedade ou outra podem 
ter. As ideias simbólicas presentes nas obras de arte demonstram aquilo que os grupos que 
as encomendaram gostariam que estivessem nelas representado. A História direciona seu 
olhar para essas produções não como meras figuras, mas como elementos que trazem ca-
racterísticas do que seria uma boa religião, moral, sociedade, ética, enfim, os valores e o que 
movia as pessoas naquele contexto.
Neste capítulo, nosso objetivo foi compreender o Renascimento como um processo que 
desencadeou aos poucos novos afloramentos culturais e políticos. Além disso, o Barroco foi 
na Europa uma resposta ao Renascimento, ao mesmo tempo em que esteve relacionado às 
reformas religiosas e ao capitalismo.
Renascimento cultural e o humanismo
História Moderna
2
43
 Ampliando seus conhecimentos
William Shakespeare foi um grande escritor e dramaturgo da Inglaterra vito-
riana. Em sua literatura, muito além de ideias vagas e efêmeras, vulgarmente 
relacionadas à arte, estão presentes questões políticas e sociais. O texto a seguir 
explora essa dimensão shakespeariana.
A dimensão política em William Shakespeare
(CHAIA, 2006)
A política é um conceito polissêmico e William Shakespeare foi um 
autor que contribuiu significativamente para delinear uma específica 
concepção de política. A simples leitura das peças, sua pesquisa e ence-
nação sempre encontraram inúmeras entradas para um mergulho na 
obra deste dramaturgo. Entre tantas possibilidades, ele propicia uma 
abordagem política que pode ser construída a partir da seguinte fala 
de Hamlet: “The time is out of the joint/ O tempo está fora dos eixos”. 
Não se trata de uma política institucional, pois mesmo que Shakespeare 
desenvolva seus temas em volta do trono, com personagens envolvi-
dos num embate com o poder, ele nos fala de uma política atravessada 
pela gravidade e pela disjunção, imprimindo significados distintos à 
história de uma cidade e de uma nação.
Em movimentos pendulares perpétuos, constituem-se dois caminhos 
que estruturam e desestruturam as relações de poder nas peças de 
Shakespeare. O primeiro é delineado pelo par de opostos legitimidade-
-usurpação, e o segundo pela dupla estabilidade-guerra. A peça Ricardo 
III é emblemática desses dois movimentos ao compor uma sangrenta tra-
jetória política devido ao desejo e projeto de ruptura institucional e ao 
apresentar um astuto personagem que se encontra envolvido na Guerra 
das Duas Rosas [...].
Ao final da peça, com a Batalha de Bosworth Field, que encerra a Idade 
Média e a Guerra entre as duas casas, tem início uma nova era com 
Henrique de Richmond, futuro Henrique VII. Este personagem, ao vencer 
Ricardo III, comemora proferindo um monólogo, no qual aponta para a 
paz e estabilidade futura da Inglaterra: “Proclamai meu perdão para os 
soldados / ... / Uniremos as rosas branca e rubra. / Que o céu sorria sobre 
essa união, / Depois de ter chorado a inimizade. / ... / Curada a chaga, a paz 
é o nosso bem; / Pra quem a preservar, Deus diga ‘Amém’”. A quebra da 
ordem, seja pelo golpe ou pela guerra, desestabilizaa política, retirando-a 
Renascimento cultural e o humanismo2
História Moderna44
de seu curso normal, abrindo espaços para os mais diferentes tipos de vio-
lência. Neste sentido, tem-se em Shakespeare a aproximação entre política 
e vida, à medida em que nada separa as duas esferas, uma vez que todos 
os indivíduos sofrem, direta ou indiretamente, os efeitos das ações políti-
cas, sejam eles os filhos de Henrique IV, Ofélia, Romeu e Julieta, soldados 
e tantos outros. Esta interrupção da legitimidade não gera medo apenas 
no governante, mas também amedronta familiares, súditos e governados.
[...]
Pode-se dizer que a obra de Shakespeare, enquanto equivalência dra-
mática, permite encenar autores da filosofia política como Maquiavel, 
La Boètie, Hobbes e Marx, até chegar em Nietzsche. Este dramaturgo 
faz parte desta família de pensadores que compreende a política como 
uma forma moderna de tragédia, ao colocar no palco os agônicos e 
infindáveis conflitos dos indivíduos e das sociedades. Em Shakespeare, 
enquanto houver ser humano, vida e sociedade, a política se desenvol-
verá como tragédia.
 Atividades
1. Os historiadores Peter Burke e Jacob Burckhardt dão bastante importância ao Renas-
cimento italiano e ao que esse processo histórico representa para a historiografia e o 
período moderno. Entretanto, esses historiadores têm posturas diferentes sobre tal 
ideia. Diferencie brevemente a postura de cada umdeles.
2. Discorra sobre as diferenças entre o Barroco italiano e o holandês.
3. Estabeleça uma relação entre o Renascimento e o período moderno. Não se esqueça 
de considerar o modo como a historiografia narra e constrói esses conceitos.
4. Na seção “Ampliando seus Conhecimentos”, o texto sobre Shakespeare discute 
uma inserção da literatura no mundo da política. Comente sobre isso, estabelecen-
do uma relação entre a arte e as sociedades.
 Referências
BAUMGART, Fritz. Breve história da arte. São Paulo: M. Fontes, 1999.
BURCKHARDT, Jacob. A cultura do Renascimento na Itália. Brasília: Ed. UnB, 1991.
______. A civilização do Renascimento Italiano. Lisboa: Editorial Presença, 2013.
Renascimento cultural e o humanismo
História Moderna
2
45
BURKE, Peter. O Renascimento italiano: cultura e sociedade na Itália. São Paulo: Nova Alexandria, 1999.
________. Problemas causados por Gutenberg: a explosão da informação nos primórdios da Europa 
moderna. Estudos Avançados, São Paulo, v. 16, n. 44, jan./abr. 2002.
CHAIA, Miguel. O palco do poder. São Paulo, 2006. In: PUC-SP. Programa de Pós-Graduação em 
Ciências Sociais. A dimensão política em Shakespeare. Disponível em: <http://www.pucsp.br/neamp/
artigos/artigo_56.html>. Acesso em: 19 out. 2017.
GARIN, Eugênio. O homem renascentista. Lisboa: Editorial Presença, 1991.
GOMBRICH, Ernst Hans. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999.
GOMES, Antônio Máspoli de Araújo. O pensamento de João Calvino e a ética protestante de Max 
Weber, aproximações e contrastes. Fides Reformata, São Paulo, v. 7, n. 2, 2002.
GOMES JÚNIOR, Guilherme Simões. Palavra peregrina: o barroco e o pensamento sobre artes e letras 
no Brasil. São Paulo: EdUSP, 1998.
PHÉLIPPEAU, Marie-Claire. Thomas Morus e a abertura humanista. Morus – Utopia e Renascimento, 
Campinas, v. 9, 2013.
RICOEUR, Paul. A ideologia e a utopia. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento, os humanistas, uma nova visão de mundo: a criação das 
línguas nacionais e a cultura renascentista na Itália. São Paulo: Atual, 1985.
 Resolução
1. De uma forma breve, a diferença essencial é o fato de o historiador Burckhardt, no 
século XIX, construir a ideia do Renascimento como algo totalmente diferente do 
período medieval, como também isento de qualquer influência. É certo que o Renas-
cimento foi uma resposta a vários problemas e inquietações acerca da Idade Média, 
entretanto, aqueles que o promoveram inicialmente eram pessoas que viviam em 
organizações ainda com elementos do período medieval. É justamente esta a postura 
do historiador inglês Peter Burke: defender que há rupturas, porém também conti-
nuidades entre os dois tempos históricos.
2. A diferença mais contundente entre o Barroco holandês e o Barroco italiano é a in-
fluência religiosa/econômica. Na Itália houve uma resposta daqueles que tinham 
presenciado a secularização, enquanto nos Países Baixos, com a Reforma, a Igreja 
católica perdeu seu espaço e aqueles que tinham promovido tal mudança trouxeram 
seus valores burgueses. Portanto, o Barroco italiano debatia questões religiosas e 
pagãs, enquanto o holandês trazia cenas do cotidiano burguês.
3. O Renascimento não teria ocorrido se o humanismo não tivesse sido propagado pela 
Europa, isto é, a disseminação de ideias acerca do ser humano em suas organizações 
políticas, econômicas, sociais e culturais é fundamental para que novas perspectivas 
aconteçam. Elas, aos poucos, ocasionaram oportunidades de debate para mudanças 
políticas, de crítica social etc., elementos que permitiram novas vivências, diferentes 
do período medieval.
Renascimento cultural e o humanismo2
História Moderna46
4. Essa resposta é um tanto pessoal, porém é preciso considerar que a arte representa 
o contexto em que está inserida. Não o tempo todo, em qualquer elemento, mas, a 
partir do momento em que a arte emerge de um período, resquícios daquela socie-
dade também transparecem. Mais ainda, as obras não são meras representações, mas 
“ordens”, “desejos” de dizer o que algo é ou o que deveria ser.
História Moderna 47
3
Reformas religiosas e a nova 
ordem do Estado moderno
A ideia de reformar deixa evidente que há um princípio de fazer algo novo ou de 
transformar algo velho. O contexto a se reformar. Portanto, reformar é dar uma nova 
face a algo, dar lugar a coisas novas. Nesse sentido, a Reforma, a Contrarreforma e 
os aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos para que ocorressem são o tema 
deste capítulo. Mas o que seria reformado no período moderno em relação à religiosi-
dade e ao domínio tão forte da Igreja católica? É sobre a sociedade do século XVI que 
estudaremos na próxima seção.
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3
História Moderna48
3.1 Características da sociedade cristã
A Igreja já não tinha o controle sobre a sociedade como antes do século XVI. 
Acontecimentos marcados por epidemias e guerras já não eram explicados de modo tão 
aceitável e compreensível. A chamada vontade de Deus também podia ser escolha de homens, 
disputas por territórios, isto é, justificativas que apenas legitimavam as hierarquias sociais e 
políticas. Consequentemente, a Igreja católica começava a perder sua hegemonia religiosa.
Houve uma grande inquietação causada pela Peste Negra e algumas questões foram 
enfatizadas a partir da epidemia do século XIV, já no fim da Baixa Idade Média, como a de 
que os homens deveriam ter conhecimento sobre o corpo humano, a fim de sanar as doenças 
e evitar acontecimentos como aquele. Desse modo, a própria credibilidade da Igreja católica 
diminuiu, visto que suas explicações divinas já não seriam suficientes.
Algo semelhante ocorreu com o resultado das Cruzadas (entre os séculos XI e XIV). 
Estas foram incursões europeias a Jerusalém, com intuito de dominar a Ásia e o caminho ao 
Oriente. Apesar das constantes derrotas até o século XIV (data da última cruzada), houve a 
troca de muitas influências e ideias, como conhecimentos sobre o mundo agrário, da ciência 
e a própria criação de entrepostos nas rotas, os quais acabaram se tornando redutos comer-
ciais prósperos, alterando o cenário feudal tão peculiar ao mundo europeu. 
Bancos, vilarejos, novos costumes, outras religiões, tudo isso ocasionou novos olhares e 
inspirações a alguns europeus. Isso, pode-se afirmar, diz respeito a um novo modo de vida 
que estava nascendo, bastante diverso ao mundo feudal. Ao mesmo tempo, portugueses e 
espanhóis se lançavam ao mar, conquistando um novo mundo. Este já não se comportaria 
mais nos velhos princípios da Europa.Surgia um novo modo de ganhar dinheiro, de obter 
lucro, um gesto malvisto e condenado pela Igreja católica no período medieval.Tal mudança 
é grande, porém, paulatina, ou seja, a partir de 1500 são muitos os novos princípios de or-
ganização comercial, político, social e cultural que vão se dinamizar aos poucos. Sobre isso, 
Peter Burke ressalta a seguinte tese:
Uma das transformações mais evidentes foi o crescimento populacional. Em 
1500, havia cerca de 80 milhões de pessoas na Europa, número que, em 1800, foi 
para além do dobro, 190 milhões aproximadamente. O crescimento da popula-
ção levou à urbanização, pois havia menos espaço, e alguns camponeses foram 
obrigados a emigrar para as cidades, em busca de trabalho. Em 1500, existiam 
apenas quatro cidades na Europa com mais de 100 mil habitantes (Istambul, 
Nápoles, Paris e Veneza), mas em 1800 havia 23. Uma delas, Londres, tinha mais 
de 1 milhão de habitantes. (BURKE, 1989, p. 266)
Burke (1989) chama atenção para o número dobrado de pessoas e para a distribuição 
desse aumento. Isto é, se em 1500 eram quatro cidades desenvolvidas, em 1800, esse número 
aumentou para 23. Londres passou a ser um centro comercial e industrial, em virtude da 
Revolução Industrial e de sua faceta mais importante para o mundo ocidental moderno (e o 
contemporâneo): o capitalismo.
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno
História Moderna
3
49
É possível perceber que nestes 300 anos, as várias ideias lançadas no mundo religioso, 
social e político fizeram com que boa parte da Europa conhecesse uma organização mais 
urbana, embora isso não seja o mais comum, como o próprio Burke lembra
Não se deve exagerar a escala dessas transformações econômicas. Em 1800, me-
nos de 3% da população europeia viviam em cidades com 100 mil ou mais ha-
bitantes. A forma dominante da empresa industrial era a pequena oficina, não a 
fábrica, e a produção estava apenas começando a se mecanizar no final do século 
XVIII. Mas as transformações foram suficientemente grandes para trazer sérias 
consequências sociais. (BURKE, 1989, p. 267, grifos nossos)
O historiador inglês salienta: mesmo demorando cerca de três a quatro séculos para se 
compreender as mudanças entre o mundo feudal e o contemporâneo, as transformações já 
foram sentidas nos séculos anteriores.
Nesse tempo, a Igreja católica já não conseguia responder ou controlar todas as inquie-
tações, pois não tinha como sustentar argumentos suficientes para explicar as descobertas 
em outros continentes, as pragas, as epidemias, as mudanças do mundo urbano, ou seja, 
já não podia controlar tudo o que era pensado ou questionado. Não obstante, a Igreja não 
viveu seus próprios valores como eram pregados nos séculos anteriores, nos períodos mais 
conturbados do fim da Idade Média e início do período moderno, ou seja, em vez de pregar 
e praticar sobre humildade e caridade, passou a cobrar indulgências, a vender perdão por 
pecados, entre outras práticas bastante acentuadas no período da Inquisição.
Em relação às cobranças de impostos ou qualquer tipo de incentivo pecuniário, Lucien 
Febvre (1992, p. 87) lembra de outro entrave à Igreja do período: a formação dos Estados 
Modernos. À medida que cresciam seus problemas, a Igreja testemunhava reis formando 
nações, fortalecendo Estados e estabelecendo governos com base nas mudanças comerciais 
e geográficas. A Igreja católica, seus emissários e o papa nada mais eram do que cobradores 
de ofertas que vinham da Península Itálica, desconhecedores da realidade e, em especial, 
não preocupados com o povo.
Nesse contexto, os burgueses já se mostravam como uma classe forte em muitos lugares 
da Europa, embora nem sempre tivessem direitos políticos ou algum tipo de representati-
vidade social junto à monarquia. Ainda assim, o historiador francês Lucien Febvre afirma 
que em relação a eles já havia o “sentimento de importância social completamente novo, e 
também de dignidade, independência e autonomia” (FEBVRE, 1992, p. 88). Com base nessa 
frase, podemos afirmar que mudanças sociais nascem de uma nova experiência, seja ela 
em relação a uma vida material, seja de acordo com novos sentimentos. Se retomarmos a 
ideia de Peter Burke (1989), não importa se levaram 300 anos, a sociedade europeia mudou 
a história do Ocidente. Não obstante, burgueses tinham práticas econômicas diversas às 
permitidas pela Igreja católica, como empréstimos de dinheiro (a juros), objetivando obten-
ção de lucros e, principalmente, o acúmulo de riqueza, visto que isso também era pecado e, 
evidentemente, a Igreja católica deixava de ganhar suas ofertas.
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3
História Moderna50
As reformas religiosas não aconteceram apenas pelos interesses burgueses, tampouco 
todos os burgueses estavam envolvidos nessas mudanças. Entretanto, junto ao clima hostil 
que se criou em relação à Igreja católica, pelo seu comportamento dominador diante das 
mudanças e das descobertas, os burgueses também encontraram nas reformas um modo de 
não mais se deixarem controlar ou de criar outras estratégias de dominação. É importante 
considerar ainda a relação direta entre o absolutismo e a Igreja católica, seja pela legitima-
ção de um pelo outro, respectivamente, seja pelos cargos ocupados pela Igreja. A reação de 
diversos grupos sociais a despeito da Igreja católica e do que ela representava no mundo 
político e social é o tema da próxima seção.
3.2 Reformas religiosas
A melhor expressão para designar essas reformas seria Reforma Protestante, caso fosse 
homogênea e responsável por todas as mudanças em relação aos dogmas católicos. Sobre 
o período, Peter Burke afirma: “Em 1500, a Europa cristã já estava dividida entre católicos 
e ortodoxos1; logo, viria a se dividir ainda mais, com o surgimento do protestantismo [...] 
Havia os judeus [...] e havia os mulçumanos [...]” (BURKE, 1989, p. 74). O historiador segue 
comentando sobre as diferenças religiosas, as quais têm em comum o fato de existirem entre 
grupos étnicos e culturais diferentes, ou seja, para compreender a Reforma, é preciso situá-la 
no contexto social dos grupos que a lideraram, visto que a religiosidade também é prática 
cultural e faz parte da história social.
Luteranos, calvinistas, anglicanos, anabatistas, huguenotes, pietistas e metodistas não 
apenas têm em comum pontos contra os dogmas da Igreja católica, mas têm diferenças en-
tre eles. Elas ocorrem porque de esses grupos religiosos serem influenciados por diferentes 
aspectos de seu contexto, como também existem divergências teológicas. Tal perspectiva é 
evidente no trabalho de Peter Burke:
O padrão formado pela interação de todos esses contrastes pode ser muito gros-
seiramente resumido como uma distinção entre três Europas: noroeste, sul e les-
te. Assim, a Europa do Sul, a Europa mediterrânica falava o românico, era cató-
lica (com bolsões de huguenotes, mulçumanos etc.) com uma cultura ao ar livre, 
“a casa de pedra de quinhentas toneladas”, baixo grau de alfabetização (com 
bolsões de alto grau de alfabetização, na Itália do século XVI) e um sistema de 
valores com grande ênfase na honra e desonra. Contudo, para entender a cultura 
1 Existiam disputas entre os teólogos e sacerdotes da Igreja católica do Oriente e os do Ocidente. Para 
estes, Jesus teve uma existência divina; para aqueles, ele teve uma vida humana, além de acreditarem 
na Trindade. O controle do Mar Mediterrâneo também era disputado pelas igrejas. A separação delas 
ocorreu no ano de 1054. Para mais leituras: CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e re-
presentações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988.
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno
História Moderna
3
51
de uma comunidade particular, é preciso não só situá-la dentro de uma dessas 
europas, mas também relacioná-las aos eixos de contrastes que acabamos de 
descrever. A cultura, digamos, de uma vila de pescadores bretões precisa ser 
vista como parte, não de um, mas de váriosconjuntos: parte da cultura francesa, 
da cultura marítima, da cultura céltica, da cultura católica, e assim por diante [...] 
De fato, a Reforma pode ter exercido atração sobre alguns grupos étnicos ou 
profissionais por reforçar seu sentido de identidade coletiva; dificilmente terá 
sido por acaso que na Transilvânia, onde conviviam três grupos linguísticos, os 
alemães tenham adotado de modo geral as doutrinas do seu conterrâneo Lutero, 
os húngaros tenham virado calvinistas e os romenos tenham se mantido ortodo-
xos. (BURKE, 1989, p. 84, grifos nossos)
Peter Burke evidencia sua perspectiva de que assuntos religiosos ou econômicos tam-
bém fazem parte de práticas sociais e culturais e são influenciados por elas. Na citação ante-
rior, na primeira parte grifada, está a ideia de que alfabetização também deve ser considera-
da e, no caso citado por Burke (1989), a Península Itálica estava em evidência no século XVI. 
Ora, é este um dos mais importantes séculos do Renascimento, no qual mais se debateu o 
acesso e o direito que os homens deveriam ter de compreender a si e ao mundo que os cerca, 
por meio do raciocínio e da lógica. Estes confrontaram conhecimentos ou dogmas cerceados 
pela Igreja católica e, à medida que ela tentou controlá-los, por meio do acesso aos livros e 
às ideias, novas teorias e religiões surgiram a fim de suprir os questionamentos. Ao mesmo 
tempo, passaram a disputar dentro das relações de poder questões religiosas e culturais.
A intenção de trazer a ideia de que a cultura deve ser vista em seu conjunto é para 
afirmar que a Reforma não foi um acontecimento homogêneo, porém, um longo processo 
histórico, assim como a Europa é repleta de múltiplas manifestações culturais que foram 
determinantes no modo como ela ocorreu em lugares diferentes. Na última parte grifada, 
na citação anterior, Burke afirma: “[...] a Reforma pode ter exercido atração sobre alguns 
grupos étnicos ou profissionais por reforçar seu sentido de identidade coletiva”. Tal pers-
pectiva reforça a necessidade de uma história social sobre os costumes e a cultura popular, 
visto que estão estritamente relacionadas à economia, à política e a religiosidade que lhes 
são peculiares. 
No próximo subtítulo, teremos como objetivo perceber algumas nuances sobre as dife-
renças entre os grupos que participaram da Reforma Protestante.
3.2.1 Luteranos
A Eternidade nos céus viria pela justificação da fé, e não pelas obras doadas. Esse é 
um dos principais princípios da Igreja luterana, fundada pelo monge agostiniano e dou-
tor em teologia Martinho Lutero, em 1517, que teria contradito vários dogmas da Igreja 
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3
História Moderna52
Católica. Entre eles, estariam a crítica à venda de indulgências, a livre interpretação da Bíblia 
e sua tradução para outras línguas além do latim, e a salvação pela fé, não por obras, ideias 
bastante manipuladas pela Igreja católica. As 95 teses, propostas de mudanças de Lutero à 
Igreja católica, foram afixadas em 31 de outubro de 1517 na igreja de Wittenberg, data em 
que o Papa havia enviado um emissário para cobrar “doações”, a fim de terminar a igreja de 
São Pedro, no Vaticano. Seguem alguns exemplos:
32 Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que 
se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.
33 Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do 
papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada 
com Deus.
36 Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de 
pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência. (LUTERO, 1517)
As teses não foram escritas apenas a despeito da cobrança de dinheiro proveniente do 
Papa, mas por uma reformulação da fé proposta por Lutero: a salvação ocorre pela fé, não 
pelas obras ou indulgências pagas. Este é um ponto defendido por muitos especialistas e 
por aqueles que idealizam as ações dele. Tal ideia tornou-se mais inquietante em Martinho 
Lutero após uma viagem à Roma, onde ficou incomodado com diversas situações pautadas 
em corrupção e avareza. O historiador Earle E. Cairns afirma o seguinte sobre o retorno de 
Lutero de Roma: “A partir daí a doutrina da justificação pela fé e a sola scriptura (somente as 
Escrituras), a ideia segundo a qual as Escrituras são a única autoridade para o pecador pro-
curar a salvação, passaram a ser os pontos principais de seu sistema teológico” (CAIRNS, 
1990, p. 234). Tal postura trata-se de questionamentos direcionados diretamente à Igreja 
católica que, por sua vez, dominava toda interpretação bíblica e pregava qual seria o modo 
de conseguir a salvação.
Nessa época, a Alemanha ainda era um misto de reinos e regiões, cuja unificação ocor-
reu apenas em meados do século XIX. Lutero vivia na Saxônia e, em seu período, a casa de 
Habsburgo, com apoio da Igreja católica, queria a união do Império, diferente dos príncipes 
regionais. Estes, aproveitaram o período em que Lutero foi excomungado da Igreja, por não 
pedir perdão ao papa, dando apoio a ele. Este aceitou não necessariamente por questões 
financeiras, mas por proteção, visto que poderia acabar em uma fogueira considerado como 
herege. Além disso, entre os nobres e os burgueses, também havia diferenças religiosas, uns 
apoiando a Igreja católica, e outros faziam críticas severas a esta. Com a polêmica de Lutero 
e o apoio que ele recebeu de um grupo contestador à Igreja católica, um conflito armado se 
iniciou nos reinos germânicos.
O acordo da Paz de Augsburgo (1555), assinado na cidade de nome homônimo, permi-
tia que cada região do Sacro Império Romano-Germânico escolhesse sua religião. De acor-
do com a vontade do soberano de cada localidade, os súditos deveriam ou permanecer, 
acolhendo sua vontade, ou mudar-se de região. A Igreja luterana conquistou o seu espaço, 
tomando para si, nas regiões que escolheram tal religião, as terras católicas.
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno
História Moderna
3
53
O acordo, porém, não deu tanta segu-
rança aos anabatistas, grupos que professa-
vam uma fé diferente de luteranos e calvi-
nistas e que não tinham apoio algum dos 
Estados, visto que sempre se encontraram 
espalhados em diversos países da Europa e, 
depois, pela América. Esses grupos são os 
hutterites, menonitas, amishes, quakers, ba-
tistas (bastante diverso dos batistas atuais) 
e dunkers, os quais acabaram mais sujeitos a 
ataques, tanto da Igreja católica quanto das 
reformadas. A principal diferença desses 
grupos diz respeito ao batismo e à vida em 
comunidade. Quanto ao batismo, ele seria 
realizado apenas por opção do batizado(a), 
ou seja, em idade adulta, diferentemente 
da maioria das igrejas reformadas e das 
católicas, cujo batismo ocorre ainda com 
recém-nascidos.
A Reforma representa um período de 
reflexões, de debate na região germânica, 
não somente em termos religiosos, mas so-
ciais e econômicos, visto que seu contexto 
alterou e influenciou boa parte da Europa. Entretanto, segundo Ernest Troeltsch, nem o 
luteranismo nem o calvinismo (tema da próxima seção) foram os responsáveis de imediato 
pelo lançamento ou associação de suas ideias às modernistas. Isso porque ambos estavam 
ainda muito próximos do ambiente social e cultural medieval e, no decorrer dos dois séculos 
seguintes, foram influenciados pelas mudanças econômicas e políticas, muitas vezes decor-
rentes das ideias iluministas e anabatistas. Estas, por não estarem associadas a interesses 
de Estado, acabavam por ter posturas teológicas diferentes. Na citação seguinte, a ideia de 
conservadorismo na igreja de Lutero fica evidente:
O Luteranismo é mais emocional e idealisticamente, a partir de uma ação pura-
mente interna e espiritual da palavra divina. Ele prescinde de qualquer ordem 
eclesiástica por si só especial, particular e independente, destinada a assegurar 
a aplicação prática da palavra de Deus e a obrigar com todas as garantias a au-
toridade civil asegui-la. Seu objetivo é simplesmente colocar a pura palavra de 
Deus no castiçal, e, em relação a tal ofício, precisa apenas prover a pregação pura 
da palavra e a administração dos sacramentos [...] E se a autoridade secular se 
recusa a submeter-se à palavra, o luteranismo, então, sujeito à vontade de Deus, 
suporta pacientemente os cruéis ataques de Satanás, que está somente muito 
ávido a tentar funcionários públicos e políticos à cobiça e arrogância, ou à indi-
ferença. (TROELTSCH, 1951, p. 46)
Figura 1 – Imagem da capa do Tratado de 
Paz de Augsburgo.
Fonte: Wikimedia Commons.
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3
História Moderna54
Na citação, é perceptível a relação entre religião e política, diferentemente da perspecti-
va medieval, na qual o Estado e a Igreja estavam relacionados. Para o sociólogo Paul Freston, 
os reformadores dos séculos XVI e XVII defendiam que o Estado não fosse confessional, 
mesmo quando o governante professasse a fé cristã (FRESTON, 2006, p. 10). Porém, há ca-
racterísticas conservadoras, como a ideia dicotômica de Deus e o Diabo, a obediência que 
se deve a Deus, assim como à própria Igreja. O que almejamos ao trazer tal apontamento 
é assinalar que o protestantismo de Lutero (e de outros) carrega consigo velhos comporta-
mentos, embora os critique muitas vezes, junto a novos preceitos, que nos séculos seguintes 
alteraram o cotidiano de diversas regiões europeias.
O mapa a seguir demonstra como se espalharam os protestantes no século XVI, pouco an-
tes da formação de vários Estados Modernos. Evidentemente, isso afetava toda a estabilidade 
da Igreja católica e despertava nos reis e príncipes negociações e disputas pelo poder, visto que 
se associar ou se converter a uma nova religião poderia ser uma saída, tanto em termos religio-
sos quanto de administração. Na próxima seção, há mais algumas ideias sobre reformadores, 
os quais são responsáveis por mudanças políticas e religiosas na Europa moderna.
Figura 2 – Protestantes no século XVI.
Católicos RomanosMuçulmanosOrtodoxos
CalvinistasLuteranosAnglicanos
Protestantes:
OCEANO
ATLÂNTICO
MAR
NEGRO
MAR MEDITERRÂNEO
INGLATERRA
RÚSSIA
POLÔNIA
FRANÇA
Genebra.
Roma.
.
IMPÉRIO
OTOMANO
IMPÉRIO
OTOMANO
ÁFRICA
ITÁLIAESPANHA
PORTUGAL
Vitemberga
ALEMÃES
PRINCIPADOS
PROVÍNCIAS
UNIDAS
Vitemberga
ALEMÃES
PRINCIPADOS
PROVÍNCIAS
UNIDAS
SUÉCIASUÉCIA
O mapa da religião após
a Reforma Protestante
N
S
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Fonte: IESDE Brasil S/A.
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno
História Moderna
3
55
3.2.2 Outros “reformadores”
A livre interpretação da Bíblia e a ideia de predestinação são os dois pontos-chave do 
grupo liderado por João Calvino na Suíça.
Acha-se absolutamente interditado à razão humana conhecer as razões da divi-
na decisão de predestinar uma parcela da humanidade à vida eterna e outra à 
condenação eterna. O cristão deve se contentar, de acordo com Calvino, em saber 
que os desígnios de Deus fundam-se [sic] “sobre a gratuita misericórdia divina, 
sem qualquer consideração da dignidade do homem”. (LUIZETTO, 1989, p. 46)
Desse modo, Calvino confirma a premissa de que a fé garante a salvação no cristianis-
mo, diferentemente da perspectiva católica, que falava em obras, assim como tal citação 
evidencia a ideia de predestinação, a salvação como um dom de Deus. Isto é, o direito à 
eternidade é determinado antes do nascimento dos indivíduos, ideia diferente de Lutero, 
o qual afirmava que a fé era a única responsável pela salvação. Longe de objetivar chegar a 
uma discussão teológica, é perceptível a diferença de um dogma protestante em relação ao 
católico, mas também entre os próprios protestantes. 
Calvino estabelece diversas diretrizes de comportamento, o que chamou de ascese pro-
testante. Max Weber define como seria esse estilo de vida:
Ócio e prazer, não; só serve a ação, o agir conforme a vontade de Deus inequi-
vocamente revelada a fim de aumentar sua glória. A perda de tempo é, assim, o 
primeiro e em princípio o mais grave de todos os pecados. Nosso tempo de vida 
é infinitamente curto e precioso para “consolidar” a própria vocação. Perder 
tempo com sociabilidade, como “conversa mole”, com luxo, mesmo com o sono 
além do necessário à saúde – seis, no máximo oito horas – é absolutamente con-
denável em termos morais. (WEBER, 1982, p. 385)
O protestantismo se baseava na fé, no trabalho, na boa moral. Embora permitisse o acú-
mulo de bens, os prazeres mundanos (leituras de romance, danças, práticas populares de 
diversão) são alguns dos preceitos que não combinam com a moral protestante.
Para Weber (2004), as ideias de Lutero abalaram as certezas do Vaticano, porém, não 
teriam a mesma eficácia ou fôlego se não fossem as pregações de Calvino, visto que as ideias 
dele não ficaram apenas na Suíça, mas se alastraram por toda a Europa e, depois, América, 
com a imigração. Burgueses, comerciantes, aqueles que emprestavam dinheiro a juros e acu-
mulavam bens materiais, perceberam nessas novas religiões uma maneira de manter uma fé 
e enriquecer. Na Inglaterra, o oportunismo de Henrique VIII foi acentuado: o rei queria se 
casar com uma segunda mulher, mas não teve o divórcio consentido pelo papa e, por isso, 
rompeu com este e fundou a própria Igreja, cuja liderança máxima era o próprio rei, porém 
com rituais nos moldes católicos (organização clerical) e princípios calvinistas (batismo e eu-
caristia). É importante destacar que foi apenas no reinado de Elizabeth I que o anglicanismo 
foi estruturado e mais aceito, por meio dos 39 artigos, de 1563, documento que estabeleceu 
as diferenças e a relação entre o calvinismo e o catolicismo.
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3
História Moderna56
3.2.3 Contrarreforma
A Contrarreforma foi um movimento no qual várias teorias novas foram expostas, bus-
cando renovar dogmas e criar doutrinas diversas aos interesses da Igreja católica, que tomou 
atitudes, a fim de não perder os fiéis e o poder que isso representava politicamente.
Além de manter seus ritos, adoração às imagens e sacramentos, duas estratégias foram 
centrais nos resultados do Concílio de Trento, realizado entre 1545 e 1563. A primeira está 
relacionada à proibição de diversos livros, por meio do Index – lista atualizada de tempos 
em tempos até o século XIX –, isto é, apenas autoridades religiosas estariam permitidas a ler 
esses livros e a própria bíblia; um segundo ponto é o fato de terem criado a Companhia de 
Jesus (LUIZETTO, 1989, p. 82), a qual tinha por objetivo alcançar novos territórios, visto os 
muitos que tinha perdido para as igrejas anglicana, calvinista e luterana. 
A Companhia foi criada em 1534, por Inácio de Loyola, com o objetivo de evangelizar, 
catequizar e manter novos territórios no novo mundo. Tal direção se deu após o debate so-
bre o trabalho das Ordens que existiam até então, afirmando que elas talvez não estivessem 
fazendo a ação evangelizadora como deveriam. Embora as Ordens tenham permanecido, 
elas foram duramente criticadas, restando à Companhia de Jesus ganhar novos fiéis a qual-
quer custo, mesmo que fossem viver na América.
Outra prática foi a própria Inquisição, criada em Portugal para perseguir os judeus, 
primeiramente (NOVINSKY, 2004, p. 49), a qual julgava e condenava a castigos ou à morte 
todo aquele(a) que fosse considerado(a) um herege, ou seja, que descumprisse o esperado 
pelos dogmas da Igreja católica. Isso se dava tanto com fieis quanto com aqueles que viviam 
em regiões consideradas católicas. Práticas culturais comuns ao povo também foram per-
seguidas, qualquer festa da cultura popular2, dança ou ritual que parecesse mundano ou 
“diabólico”, como diriam os inquisidores, passou a ser julgado.
O Tribunal do Santo Ofício perseguiu, julgou e matou milhares de vítimas, de vizi-
nhos mal-intencionados a cientistas, como Giordano Bruno, ou mesmo mulheres guerreiras, 
como Joana d’Arc. A historiadora Michelle Perrot faz a seguinte afirmação sobre a caça às 
feiticeiras(acusação direcionada a Joana d’Arc) no fim do século XV:
Estima-se em 100 mil o número de vítimas, sendo 90% por cento mulheres. 
A onda de repressão da qual Joana d’Arc, de certo modo, foi vítima, exacerbou-se 
nos séculos XVI e XVII. Fato desconcertante, pois coincide com o Renascimento, 
o humanismo, a Reforma. Os protestantes concordavam com os católicos que as 
feiticeiras eram nocivas. (PERROT, 2007, p. 89)
A prática da Igreja católica não necessariamente é uma coincidência, mas uma resposta 
aos estudos, à arte e à direção do conhecimento ao ser humano do período renascentista e 
humanista. Michelle Perrot (2007) segue fazendo considerações importantes e que chamam 
a atenção, especialmente quando retoma ideias de Walter Benjamim para explicar o porquê 
de cientistas e feiticeiras serem considerados “perigosos”, uma perspectiva entre civilização 
2 O conceito de cultura popular será retomado e aprofundado no Capítulo 6.
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno
História Moderna
3
57
e barbárie, o progresso e a violência. Para a Inquisição e até mesmo para os protestantes, eles 
projetavam um futuro, estavam (in)diretamente ligados a uma ideia de progresso, de mo-
dernidade, como bodes expiatórios da modernidade. Joana d’Arc, por exemplo, teria sido 
entregue a ingleses que dominavam o leste da França já ao fim da Guerra dos Cem Anos e 
foi acusada de feiticeira por ter visões sobre a guerra. Ela também sentiu o preconceito ao 
cortar o cabelo e lutar em uma guerra ao lado de homens.
No outro lado das fogueiras, estiveram diversos cientistas, como Giordano Bruno, tam-
bém queimado vivo em praça pública, ao afirmar que o universo era infinito, desprezando 
a postura da Igreja católica. Na Alemanha, Suíça, França e Holanda aconteceram muitas 
mortes, porém, como eram Portugal e Espanha os responsáveis majoritários pela América, 
em seus respectivos países também foram árduas as caças àqueles que não professavam a fé 
católica. Judeus e muçulmanos que ainda restavam foram expulsos ou convertidos à força. 
No reino germânico, houve conflito promovido por aqueles que não aceitavam a Paz 
de Augsburgo, na chamada Guerra dos 30 anos (1618-1648) (CAIRNS, 1995). O luteranismo 
e o calvinismo foram aceitos como religiões oficiais pela Europa apenas a partir do Tratado 
de Westfália. Entretanto, de forma alguma a Igreja católica diminuiu suas investidas e per-
seguições aos protestantes, porém, em alguns momentos, ou em assuntos comuns, ambos 
concordavam, como é o caso das mulheres “histéricas e feiticeiras”. O que se percebe é que 
qualquer comportamento diferente do esperado da católica ou até mesmo da moral protes-
tante poderia ser condenado nesse período.
3.3 O capitalismo e o cristianismo
Max Weber (2004) preocupa-se em pensar a relação que proprietários do capital passam 
a estabelecer com o protestantismo, no qual os pertencentes às camadas sociais mais altas, 
e também os com as melhores qualificações, são notadamente burgueses. Para ele, uma das 
respostas está na ética protestante, como a vocação ao trabalho, algo apontado como dom 
de Deus, que eleva a moral dos homens e demonstra “amor ao próximo”. Dessa forma, os 
fiéis provavam sua fé por meio de seu comportamento também nas relações de trabalho 
(WEBER, 2004, p. 52-55). 
Porém, mediante a ideia de que o ser humano é salvo apenas pela graça de Deus, é pre-
ciso que ele tenha uma postura correta, de trabalho e de boa moral perante o cristianismo. 
Essa mesma postura deve ser mais estimulada ainda, diante do ócio e da procras-
tinação que não combinariam com o esperado de um protestante. Este, ao estar sempre 
atento ao trabalho, especializando-se cada vez mais e acumulando bens (o que nem sem-
pre era o caso), acabava aproximando-se dos ideais capitalistas e burgueses do perío-
do. Desde que não ostentasse, poderia acumular riqueza, diferentemente da promessa 
católica. Além disso, quando as premissas protestantes eram apropriadas pelos valores 
de mercado do mundo moderno, o julgo cristão era ignorado, ou seja, apenas o que in-
teressava ao capital era acatado.
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3
História Moderna58
 Ampliando seus conhecimentos
O texto a seguir, de autoria de Sabrina Magalhães Rocha, faz parte de uma 
resenha sobre o livro Martinho Lutero: um destino, escrito por Lucien 
Febvre, obra na qual o historiador lança algumas ideias diferentes da idea-
lização comum a Lutero.
O Lutero de Lucien Febvre: uma discussão 
sobre biografia e história da historiografia
(ROCHA, 2012, p. 283-284)
[...]
Febvre argumenta que a Alemanha era um território de contrastes em 
que a riqueza econômica se contrapunha a debilidades morais e políticas. 
Haveria lá grande disposição para mudanças, e várias vozes já as reclama-
vam. É esse terreno que a partir de 1525 será um campo fértil para a dis-
seminação do luteranismo, mas um luteranismo muito distinto daquele 
visado pelo próprio Lutero. A grande questão para Febvre é que, apesar 
de estar em um campo de efervescência de ideias políticas e sociais, Lutero 
não poderia ser visto como uma das vozes que clamavam por mudanças. 
Nota-se, então, que a interpretação febvreana promove efetivo distancia-
mento das interpretações que buscavam associar a Lutero o rótulo de um 
revolucionário, de um reformador social e político. A tese defendida por 
Febvre é a de que os protestos desencadeados por Lutero não teriam ori-
gem teológica ou social, mas sim psicológica.
Em sua argumentação, as teses de Lutero não seriam fruto de uma análise 
crítica do contexto alemão, nem de uma revolta contra as degradações 
institucionais da Igreja Católica. A revolução de Lutero seria pessoal, espi-
ritual, fruto de seu fervor religioso. Suas manifestações afirmariam antes 
o desejo de proclamar as “descobertas” advindas de seu contato íntimo 
com Deus. Para Febvre, Lutero era um profeta e não um lógico, motivo 
pelo qual não teria feito cálculos políticos ou ponderações. É interessante 
lembrar que, neste ponto, Febvre busca amparo na explicação oferecida 
por Nietzsche de que as ações de Lutero não se guiavam apenas por pro-
cessos de ordem doutrinal, mas também moral e psicológica.Ainda no 
que se refere à desconstrução da imagem de um reformador político, o 
historiador francês argumenta que a aproximação de Lutero com o nacio-
nalismo alemão só se dá a partir de 1520, momento em que ele faz seu pri-
meiro manifesto de cunho mais social. No entanto, ainda segundo Febvre, 
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno
História Moderna
3
59
mesmo nesse momento, não é a política que move Lutero. Febvre aponta 
que a visão política de Lutero era curta, “pouco maquiavélica”; em seus 
termos, ele permanecia magnífico e ingênuo, um idealista absoluto que 
se colocava acima das misérias do mundo real. Sobre o papel de Lutero 
como um teólogo reformador da Igreja, a desconstrução febvreana passa 
pela afirmação de que o episódio das indulgências, entre 1515 e 1517, 
teve um peso pequeno na trajetória de Lutero, mas foi superestimado 
pela literatura. As 95 teses não seriam uma declaração de guerra, e sim 
uma advertência, de forma que o cisma teria sido uma iniciativa da Igreja 
Romana e não propriamente de Lutero.
[...] O Lutero de Lucien Febvre é, por todos os aspectos (nas formas 
de pensar, sentir e agir), definido como um alemão, um homem 
plenamente inserido em sua “raça”, inserido em seu país. Febvre 
afirma que Lutero sentia e pensava como um alemão, como um ser 
marcado por profundo idealismo e introspecção.
Sugestão complementar
LUTERO. Direção de Eric Til. Los Angeles: MGM, 2004. 124 min.
O filme narra a trajetória de Martinho Lutero, líder e fundador da Igreja luterana. 
O foco está nas suas convicções de fé e também no repúdio sentido em relação à corrupção e 
à manipulação da Igreja católica no que diz respeito ao conhecimento bíblico.
 Atividades
1. Escolha três características entre sociais, culturais, econômicas ou políticas dofim do 
período medieval e do início da Idade Moderna que proporcionaram as condições 
ideais para a Reforma Protestante.
2. Estabeleça uma característica sobre os primeiros protestantes – Lutero e Calvino – 
que nos fazem perceber diferenças com o período medieval.
3. Quais são os dois aspectos mais importantes que se diferenciam dos dogmas da Igre-
ja católica em relação às propostas de Martinho Lutero e de João Calvino? E como 
isso afeta A Igreja católica?
4. Faça uma pequena análise sobre o modo como Lucien Febvre descreve Martinho 
Lutero e a sua identidade.
Reformas religiosas e a nova ordem do Estado moderno3
História Moderna60
 Referências
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história. São Paulo: Ática, 1992.
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História Moderna
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WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na história e na literatura. São Paulo: Companhia das 
Letras, 1990.
 Resolução
1. Existem várias circunstâncias que proporcionaram as condições ideais para a Refor-
ma Protestante: a desilusão com a Igreja católica, em relação à cobrança de impostos, 
venda de indulgências etc.; o esquecimento da propagação da fé em detrimento de 
questões financeiras, corrupção, avareza; um debate teológico diferente do esperado 
por alguns, como Martinho Lutero, após a leitura da Bíblia; a abertura do Renasci-
mento e os questionamentos direcionados à visão de mundo medieval (característica 
da Igreja).
2. Ambos os teólogos, no século XVI, defendiam a relação próxima entre religião e 
política, porém o Estado não poderia professar ou incentivar a fé cristã ou mesmo 
ser organizado com base em princípios cristãos. Desse modo, a postura política de 
alguém poderia ser confessional, mas o Estado, não.
3. A salvação viria pela fé, e não por obras, e a leitura da palavra seria independente. 
No primeiro ponto, a Igreja perderia muito do seu poder financeiro, visto que não 
receberia mais por “dar ou orientar” a salvação; no segundo ponto, a livre interpre-
tação daria autonomia ao fiel para que compreendesse e cresse da forma como lhe 
conviesse. Mesmo que nesse período uma maioria fosse analfabeta, a liberdade em 
poder fazer já acarretava em a Igreja perder seu domínio.
4. A postura do historiador Lucien Febvre se dá quando o teólogo Martinho Lutero 
começou a questionar as posturas da Igreja católica, nas regiões germânicas já ha-
via outras críticas ao domínio da Igreja, assim como em relação à corrupção interna 
presente na instituição. Lutero, portanto, encontrou um local profícuo para as suas 
ideias a partir de 1525, mas elas não foram somente revolucionárias por partirem do 
teólogo, e sim pelo encontro ocasionado com as circunstâncias germânicas. No Sacro 
Império Romano-Germânico havia questões econômicas, políticas e sociais impor-
tantes que encontraram em Lutero formas de criticarem o seu contexto, enquanto ele 
tinha no sentido espiritual sua força para impor suas ideias.
História Moderna 63
4
As revoluções burguesas nos 
séculos XVII e XVIII
O que os levava – perguntou Arthur Young – a abandonar o campo limpo e saudável em troca 
de uma região suja, fedorenta e “ruidosa”? (WILLIANS, 1989, p. 205)
De meio milhão de habitantes em 1660, entre 1700 a 1820, a Inglaterra passou a ter 
cerca de 1 milhão e 250 mil pessoas (WILLIAMS, 1990). Se estava tão povoada, o que 
fez com que se intensificassem as migrações naquele período? A Inglaterra do século 
XVII foi palco de muitas mudanças políticas e sociais, as quais interferiram significa-
tivamente na história do país, do absolutismo e, consequentemente, do mundo capi-
talista ocidental. Nesse período, havia uma relação direta entre sociedade, política e 
religião e compreender essa perspectiva permite-nos perceber como a Inglaterra teve 
a história alterada. Esse é o tema essencial do capítulo, porém, não o único, visto que, 
para compreender contra quem a burguesia travou tantos conflitos, é preciso entender 
o que é o absolutismo e como estava organizado. Em seguida, a intenção é trazer algu-
mas perspectivas sobre as questões agrárias da Europa no período moderno, relacio-
nando esse tema à própria perspectiva capitalista industrial.
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4
História Moderna64
4.1 O absolutismo no Ocidente e 
teóricos do absolutismo
No mundo medieval, predominava uma sociedade estamental, marcada por sobreno-
mes, berços e a descendência do sangue. A tríade clero, nobreza e servos seria mais co-
mum e, em geral, as distinções ocorriam pelo nascimento. O período moderno tinha sua 
hierarquia social e política, como sabemos, bastante limitada e controlada, entretanto, com 
um diferencial: o dinheiro ou o poder adquirido por herança ou por comércios até então 
desconhecidostambém permitiram ascensões sociais inesperadas. Isto é, o “sangue azul” 
nem sempre era o suficiente para delimitar lugares e status social, especialmente após às 
Revoluções Francesa e Industrial, como afirma Hobsbawm:
A realização crucial das duas revoluções foi, assim, o fato de que elas abriram 
carreiras para o talento ou, pelo menos, para a energia, a sagacidade, o trabalho 
duro e a ganância. Não para todas as carreiras nem até os últimos degraus supe-
riores do escalão. (HOBSBAWM, 2013, p. 298)
Dessa forma, o absolutismo é o poder político em que o rei controla tudo que está à 
sua volta junto à nobreza e à burguesia, desde a organização política de seu reino, até a 
resolução das questões sociais e do cotidiano. Para conseguir sobreviver com impostos 
e sem trabalhar, estabelece uma rede na qual pode confiar (na maioria das vezes), o que 
podemos chamar de sociedade de corte. Lembremos que, no período feudal, a maior parte 
das decisões políticas era restrita ao seu respectivo feudo, tendo o rei e a própria Igreja 
pouco poder fora deles. 
Com o período moderno, os reinos reorganizaram-se, concentraram sua população em 
vilas e cidades próximas e instituíram cargos para aqueles em que confiam. Isso gerou o 
que chamamos de sociedade de corte, a qual formou o Antigo Regime (período moderno e de 
transição do fim do medieval, no qual o caráter absolutista se torna uma prática em todos 
as áreas). Sobre esse último aspecto, o historiador Alexander Martins Vianna afirma que o 
termo absolutismo apenas foi utilizado no fim do século XVIII e no início do XIX, na medida 
em que Estados Nações se formavam e o Executivo formava-se de acordo com o contexto 
de seu tempo (VIANNA, 2008). Nesse caso, a fim de não ser marcado pela mesma política 
moderna, foi chamado de absolutista.Tal poder se configuraria, e é entendido neste capítu-
lo, da seguinte forma: “[...] a sua autoridade é ratificada e acionada no território através 
dos corpos de privilégios, cuja aceitação é construída e transformada ao longo do tempo 
conforme costumes, tradições ou conveniências conjunturais” (VIANNA, 2008, p. 3). Além 
disso, salientamos que qualquer perspectiva autoritária relacionada a esse tipo de poder, 
não era necessariamente sentida em tal período, visto que era o tipo de organização política 
reconhecida e legitimada por quem a vivia. Quando alguns grupos passaram a reivindicar 
outra organização política, econômica e social, promoveram as revoluções liberais, as quais 
encontraram meios e novos acordos de convivência social e de classe.
Essas novas normas formam o que chamamos de Estados Modernos que, nesse caso, têm 
como governo práticas absolutistas. Para sobreviver e comandar esses governos absolutistas, 
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII
História Moderna
4
65
reis e rainhas, que muitas vezes permaneciam em seus palácios, destinavam cargos admi-
nistrativos e terras que eram compensadas com impostos, especialmente dos burgueses. 
Consideremos ainda que nobres nem sempre pagavam impostos tão pesados quantos bur-
gueses, porém, ao mesmo tempo não compravam tantos títulos como estes, já que sua fonte 
de dinheiro era mais restrita em relação aos que praticavam o comércio e a indústria, de 
acordo com o mundo capitalista moderno. O historiador francês Emmanuel Le Roy Ladurie 
(1994) traz algumas ideias de como seriam as concessões, a fim de entender a sociedade de 
corte, sua sobrevivência, assim como suas relações com reis e rainhas. Importante conside-
rarmos que, em especial, na camada chamada nobreza togada, uma maioria era de burgueses 
compradores de título. Nesse sentido,
O cargo permite a seu detentor cumprir em defesa do rei, funções essencialmente 
ligadas às jurisdições e à administração destas. O cargo existe em virtude de um 
édito ou de “cartas de provisão”. Só pode ser criado pelo rei ou por seus agentes 
devidamente autorizados [...] O cargo confere honra e privilégios, aí incluídas 
eventualmente a nobreza e a isenção de impostos. O cargo é estável: o rei só pode 
destituir o funcionário muito dificilmente, e isso limita na mesma proporção a 
arbitrariedade da monarquia dita absoluta [...] Luís XIII a Luís XIV, ele cria e 
liquida sem cessar novos fragmentos de poder público. Lotei-os a candidatos 
compradores, a fim de encher seus cofres. (LADURIE, 1994, p. 26)
A venda e a troca de favores, em especial por parte daqueles que conseguem os novos 
títulos, ficam evidentes na citação de Ladurie. Eram cargos públicos, novos na maioria, po-
rém, caso fosse a vontade do rei, também podiam ser disponibilizados os cargos antigos. 
Desse modo, seu mundo torna-se organizado de acordo com a sua vontade, aliada à de 
nobres e burgueses. Entretanto, não sem conflito, como podemos perceber no trecho do 
sociólogo Nobert Elias:
[...] as vantagens do príncipe aumentam num campo social organizado em or-
dens, mesmo que o poder social efetivo que as funções sociais conferem na se-
quência do predomínio crescente da economia monetária aos grupos burgueses 
e aos grupos aristocráticos impeça que qualquer deles ganhe a luta pela prepon-
derância absoluta. O príncipe governa, seu governo é absoluto porque qualquer 
das camadas rivais precisa dele, porque se pode servir de qualquer delas contra 
a outra [...]. (ELIAS, 1987, p. 141, grifos nossos)
O poder social do rei se dava à medida que suas ordens sociais (o modo como coman-
dava a sociedade de corte) controlava seus interesses maiores e dava segurança àqueles que 
conviviam com ele. Suas inclinações eram corroboradas pelos interesses de uma burguesia 
e da nobreza, os quais formavam um corpo social junto à vontade do rei. Conforme Elias 
(1990), sua preponderância era absoluta, prática que existia não somente pela pretensa su-
perioridade do rei, mas pela necessidade de colocá-la em prática a fim de manipular suas 
predileções e daqueles que estavam sob seu governo.
A vivência no cotidiano da sociedade da corte também diz respeito ao que se espera de 
um governo absolutista – o comportamento, a distinção, aquilo que difere. Lembremos que 
no período medieval, o comportamento no ato de comer, vestir-se ou de portar-se, não era tão 
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4
História Moderna66
importante, tanto pelo peso das práticas religiosas quanto por questões culturais. As socieda-
des das cortes europeias do período moderno são diferentes. Segundo Norbert Elias, há
[...] um padrão moral e costumes, isto é, tato social, consideração pelo próximo, 
e numerosos complexos semelhantes. Nas mãos da classe média em ascensão, 
na boca dos membros do movimento reformista, é ampliada a ideia sobre o que 
é necessário para tornar civilizada uma sociedade. O processo de civilização do 
Estado, a Constituição, a educação e, por conseguinte, os segmentos mais nume-
rosos da população, a eliminação de tudo o que era ainda bárbaro ou irracional 
nas condições vigentes, fossem as penalidades legais, as restrições de classe à 
burguesia ou as barreiras que impediam o desenvolvimento do comércio – este 
processo civilizador devia seguir-se ao refinamento de maneiras e à pacifica-
ção interna do país pelos reis. (ELIAS apud MARQUES; BERUTTI; FARIA, 1999, 
p. 61-62)
Percebemos interesses estabelecidos em comum, com base em uma ideia de como ci-
vilizar uma sociedade moderna, ou seja, organizar e estabelecer preceitos que corroborem 
com interesses absolutistas, mas também de burgueses, de nobres e civilizados. Desde o 
comportamento à mesa, aos debates sobre o que era prudente ou não falar. Entretanto, o 
poder absolutista barrava mobilidades dos burgueses, impedindo leis ou debates maiores 
sobre indústria ou comércio, além de muitas vezes não dar direitos políticos. As classes mais 
simples eram também punidas naquilo que não apresentavam, tanto no comportamento 
quanto na falta de algum pagamento. A burguesia, por sua vez, não aceitou as limitações, 
embora isso tenha ocorrido em contextos diferentes na Europa.
A sociedade decorte determinava o modo como o seu Estado moderno deveria ser 
organizado, de acordo com sua preferência econômica e social. Elias (1990) ainda ressalta 
as diferenciações existentes entre os títulos, filhos legítimos ou ilegítimos, sagrados ou pro-
fanos, casamentos mais vantajosos financeira ou politicamente. A sociedade de corte foi se 
tornando civilizada, os valores das classes mais abastadas se transformaram nos valores 
universais, e a burguesia, que até o século XIII nem era vista como uma classe, passou a 
ter o direito de comprar o seu lugar, como também se habituou a ter discussões políticas. 
Tal perspectiva foi muito evidente tanto na Revolução Inglesa quanto na Francesa, na qual 
apenas compras de títulos ou uma leve participação política já não eram suficientes. Como 
afirma Elias (1990), o período anterior às revoluções foi de treinamento político.
Esse mundo social baseado em cargos e comissões também tinha o direito de explorar o 
reino, por meio de terras, concessões, postos de impostos etc. Ao mesmo tempo, quem tinha 
alguma vantagem no reino também estava presente na sociedade de corte, sendo controlado 
pelos demais e pelo rei. Porém, é importante lembrarmos a hostilidade que havia de nobres 
em relação aos burgueses – cada vez mais poderosos economicamente e exigindo lugares 
como os dos nobres. A burguesia passou a fazer parte do poder político por meio de cargos 
comprados ou indicados (como ocorre na Câmara dos Comuns e dos Lordes na Inglaterra). 
Contudo, conforme estudamos, os reis absolutistas na maioria das vezes faziam prevalecer 
sua vontade, ou seja, concediam direitos desde que não fossem confrontados, por meio de 
acordos ou, conforme Vianna, os grupos sociais viviam
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII
História Moderna
4
67
[...] num exercício de flexibilidade voltado para a conquista periódica do presen-
te, ou seja, uma abertura de mente para um horizonte expansivo de experiências, 
de modo que se possa dominar o imprevisto, empurrar o herdado – reconfigu-
rado – para frente e, assim, evitar qualquer atitude radicalmente ruptiva com o 
passado. (VIANNA, 2008, p. 12)
Por períodos variados, conforme o Estado moderno, a burguesia, como classe, buscou 
conquistar seu lugar político por meio de suas investidas econômicas, disputando lugares 
com a nobreza. Entretanto, a partir de 1600 na Inglaterra, isso já não era suficiente, visto 
que os nobres não produziam ou praticavam o comércio, que fazia parte da base industrial 
capitalista implantada no país. Mas, se a burguesia estava tão insatisfeita e os nobres produ-
ziam pouco, como o rei tinha tanta força? Muitas das ideias absolutistas estavam embasadas 
em teorias pensadas naquele período por filósofos como Jean Bodin, Nicolau Maquiavel, 
Thomas Hobbes e Jacques Bossuet.
Maquiavel defendia, em seu livro O Príncipe, que o soberano deveria ter um caráter do-
minador para que a ordem fosse e se mantivesse estabelecida, assim como a política estaria 
acima de qualquer preceito moral ou social. Embora tivesse tais perspectivas, vale ressaltar, 
no que se refere à política, o destaque e a preferência pela ideia de república, entre os concei-
tos sugeridos por Maquiavel nos contextos analisados (BIGNOTTO, 2003).
Jean Bodin, já em meados do século XVII, afirmou que o trono real era como algo divi-
no, isto é, reis eram representantes de Deus e, tal como este, não deveriam ser questionados. 
Tal perspectiva defendia a concessão ilimitada ao rei.
Nada havendo de maior sobre a terra, depois de Deus, que os príncipes sobera-
nos, e sendo por Ele estabelecidos como seus representantes para governarem os 
outros homens, é necessário lembrar-se de sua qualidade, a fim de respeitar-lhes 
e reverenciar-lhes a majestade com toda a obediência, a fim de sentir e falar deles 
com toda a honra, pois quem despreza seu príncipe soberano despreza a Deus, 
de Quem ele é imagem na terra. (BODIN, 1986)
Nota-se que essa teoria surgiu já quase finalizada a Revolução Burguesa, na Inglaterra, 
o que demonstra uma disputa entre o Antigo Regime e uma nova política, já baseada em al-
gumas ideias iluministas. Bodin (1986) deixa evidente a postura de total obediência exigida 
pelo absolutismo, retirando qualquer ideia de democracia ou, principalmente, de igualdade 
às classes.
Thomas Hobbes, em O Leviatã, defende que em nome do bem-estar de uma sociedade, a 
liberdade deve ser deixada de lado e conduzida por um representante maior. Para ele,
[...] o único caminho para criar semelhante poder comum, capaz de defendê-los 
contra a invasão dos estrangeiros […], assegurando-lhes de tal modo que por 
sua própria atividade e pelos frutos da terra poderão alimentar-se a si mesmos 
e viver satisfeitos, é conferir todo o seu poder e fortaleza a um homem ou a uma 
assembleia de homens. (HOBBES apud ARTOLA, 1973, p. 327)
Hobbes confirma a necessidade de se ter um representante ou representantes, mes-
mo que de maneira absoluta, visto que eles teriam o poder sobre os demais. O rei seria o 
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4
História Moderna68
responsável pela proteção, permitindo que todos produzissem e vivessem suas vidas de 
forma segura.
Nesse contexto, as reformas protestantes ocorridas na Europa do século XVI também 
expuseram as diversidades políticas, sociais e de interesses econômicos, isto é, fomentaram, 
por meio de discursos religiosos, diferentes posturas econômicas. Se na França a revolução 
que confrontou o absolutismo ocorreu no século XVIII, na Inglaterra tal discussão é do início 
do século XVII. É sobre esse tema que estudaremos na próxima seção.
4.2 As revoluções burguesas 
dos séculos XVII e XVIII
As revoluções burguesas que aconteceram na Inglaterra podem ser divididas em duas: 
a Revolução Puritana (1644) e a Revolução Gloriosa (1688). Entretanto, elas fazem parte de 
algo maior, com continuidades e mudanças, na qual a burguesia da gentry1 conseguiu o seu 
lugar no mundo sociopolítico inglês após as reformas da Igreja. Edward Palmer Thompson 
et al. (2001), da New Left Review2, salientam, sobre as revoluções burguesas inglesas, um 
diferencial: nesse caso, a participação majoritária política foi de burgueses, de fato, e não da 
plebe, um aspecto diverso ao dos séculos XVIII e XIX, em que o operariado manifestou-se 
buscando direitos sociais.
O historiador Christopher Hill (1987), também pertencente à New Left Review, afirma 
que as revoluções travaram uma guerra de classe e que seu desfecho foi a ascensão da bur-
guesia e a diminuição do poder absolutista. Entretanto, embora o caráter popular não faça 
parte das revoluções burguesas, isso não as diminui como um acontecimento social no qual 
diversos grupos participaram, tais como: as gentrys, a alta burguesia inglesa, os quakers, os 
levellers e os anabatistas.
No século XVII ainda havia a resistência de católicos e de agricultores mais conservado-
res, apoiadores do rei Carlos I. Entre eles, era comum haver camponeses pagando tributos 
em dinheiro ou por trabalho – a maioria. Isso sustentava os donos de terras. Muitas vezes, 
o trabalho era a moeda mais comum, de acordo com o historiador. O que Christopher Hill 
(1983) retoma sobre esse período é a ideia de que, desde os dois séculos anteriores, outros 
grupos sociais e religiosos, como os anabatistas, anglicanos etc., já se colocavam aos poucos 
em uma agricultura considerada mais progressista.
1 Pequena nobreza dona de terras e pertencente à religião anglicana ou às novas protestantes, a 
qual não tinha os mesmos poderes da alta nobreza, mas dispunha de cargos na Câmara dos Co-
muns do Parlamento.
2 Revista fundada no ano de 1960 por um grupo de debate marxista, composto por Christopher Hill, 
Edward Palmer Thompson, Eric Hobsbawm, Stuart Hall, Perry Anderson, entre outros. A principal 
discussão do grupo nesse período foi buscar uma nova perspectiva para analisar o marxismo oci-
dental diante dos acontecimentos do século XX – em especial, devido às apropriações do marxismo 
soviéticoe/ou ortodoxo – e a sua relação com as práticas culturais, postura que rompeu com o de-
terminismo econômico.
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII
História Moderna
4
69
Isso nada mais era do que uma economia voltada à indústria, longe de uma ideia de 
subsistência ou de troca, como eram os costumes mais feudais. Tal estímulo vinha de um 
contexto influenciado pela Lei dos Cercamentos, prática de cercar terras antes comunais (de 
servos do período feudal) a fim de estimular a criação de ovelhas e, consequentemente, a in-
dústria têxtil que estava se tornando mais intensa. O historiador Raymond Williams (1990), 
também da New Left Review, faz a seguinte observação sobre essa lei:
À medida que a economia se desenvolve, não se pode isolar completamente o 
processo de cercamento de melhoramentos que vão ocorrendo rotineiramente 
no campo, as transformações no método de produção, a oscilação dos preços 
e aquelas mudanças nas relações de propriedade de caráter mais geral que es-
tavam todas caminhando na mesma direção: o aumento da extensão de terras 
cultivadas, porém, ao mesmo tempo a concentração da propriedade nas mãos de 
uma minoria. (WILLIAMS, 1990, p. 138)
Essa determinação foi instituída por Elizabeth I e teve no reinado de Jaime I, a partir 
de 1603, sua legitimação. Tal postura mudou o cotidiano de ingleses tanto no campo quanto 
na cidade, visto que alterou o número de manufaturados, assim como o custo de vida, visto 
que poucos puderam continuar a produzir o próprio alimento. Destes, muitos passaram a 
formar a classe operária do período industrial, de 1650-1750. A lei também expropriou di-
versos camponeses, concentrado a terra nas mãos de poucos, como as gentrys, diminuindo 
as aldeias, ao mesmo tempo em que foi a causa de grandes êxodos rurais. Ainda sobre isso, 
Williams aponta o seguinte:
A importância social dos Cercamentos, pois, não é eles terem introduzido na 
estrutura social um elemento inteiramente novo, e sim o fato de, abolirem as úl-
timas aldeias onde vigorava o sistema de campo aberto e os direitos comuns, em 
algumas das regiões mais populosas e mais prósperas do país, complementarem 
a pressão econômica geral sentida pelos pequenos proprietários e, especialmen-
te, pelos pequenos arrendatários; em muitos casos, os cercamentos até foram 
causados por tais pressões. (WILLIAMS, 1990, p. 138-139)
A citação expõe o problema social ocasionado pela expulsão de camponeses que tinham 
práticas culturais de vida comuns, tradicionais e que não são reinseridas no contexto urbano 
ou rural de modo adequado. Além dos conflitos no campo e na cidade, é possível pensar 
sobre a ausência do direito de reconhecimento da terra e de uma lei (conforme estudaremos 
na próxima seção).
Williams (1990) segue falando sobre os cercamentos, principalmente salientando que, a 
partir do século XVIII, tais determinações foram realizadas por meio de decretos do próprio 
Parlamento, isto é, com uma documentação mais evidente, com um confisco legal e que não 
dava margem a dúvidas ou contestações. Essa prática significou a expulsão de camponeses 
e obrigatoriedade na inserção e efetivação de um novo sistema social capitalista industrial. 
Nesse caso, percebemos que a Lei dos Cercamentos favoreceu a burguesia na virada dos sé-
culos XVI a XVII em seus interesses de mercado, comércio e de acúmulo de dinheiro, mesmo 
que de modo menos intenso em relação ao século XVIII.
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4
História Moderna70
Se a Inglaterra já tinha um contexto marcado por novas ideias, como a progressista, por 
que foram necessárias duas revoluções e a decapitação de um rei? Estudaremos a respeito 
disso também na próxima seção.
4.2.1 A Revolução Puritana
Christopher Hill (1983) lembra-nos sobre os Tudor, poderosa dinastia inglesa que teve 
no rei Henrique VIII e na rainha Elizabeth I seus dois principais monarcas. O primeiro, pai 
de Elizabeth I, foi o responsável pelo rompimento com a Igreja católica sob o pretexto de 
divorciar-se da mãe de Elizabeth. Isso acabou dando a ele todo o poder sobre a instituição 
religiosa na Inglaterra, ou seja, sobre todas as terras, propriedades e, principalmente, o po-
der de controlar o que era dito nos cultos.
Não obstante, Elizabeth I continuou o legado de seu pai e retirou de vez qualquer in-
fluência católica do poder real e também controlou os conflitos civis sobre esse tema, com 
o apoio de puritanos ou calvinistas. Ela aliou aos seus interesses políticos uma religião – a 
anglicana – nem tão protestante, nem tão diferente da católica, especialmente com o apoio 
da pequena nobreza. Sabemos que ela tinha administradores dos rituais religiosos, incluin-
do pastores e leigos, os quais estavam em cada missa espiando, uma prática que significava 
defender “[...] a ordem vigente, e era importante que o governo mantivesse o seu controle 
sobre esta agência de publicidade e propaganda” (HILL, 1983, p. 20). Controlar a Igreja, os 
sermões realizados, a fim de não permitir qualquer intenção que fosse diversa à opinião da 
realeza, ou melhor, daqueles que também determinavam o que era ou significava a Igreja 
do momento.
Outra estratégia lançada pela rainha Elizabeth I – e já realizada por seu pai – foi a venda 
e a administração de bens, propriedades de terra e de regiões antes dominadas pela Igreja 
católica, pelos gentrys (STONE, 2000). Desse modo, a rainha conseguiu recursos financeiros 
e apoio dessa população que crescia em número e força econômica – afinal, eram burgueses 
e mercadores puritanos ou calvinistas – ao mesmo tempo em que diminuía o poder da no-
breza mais conservadora. Elisabeth I agradou a uma maioria (burguesia), ao mesmo tempo 
em que desagradou uma ala conservadora.
Entretanto, com o passar das gerações, o domínio da Igreja diminuiu, não em relação à 
quantidade de fiéis, mas às pregações da Reforma, nas quais a Bíblia passava a ser traduzida e 
interpretada por qualquer um que pudesse ler, assim como pela noção do direito divino dos 
reis, que passaria a ser cada vez mais condenado pela burguesia. Portanto, entre Elizabeth I 
e Carlos I (22 anos apenas), a Reforma, suas consequências e reflexões alcançaram todos os 
espaços sociais que poderiam. Desse modo, o poder dos Tudors sobre as classes em geral, 
significativo ao menos por três gerações (Henrique VII, Henrique VIII e Elisabeth I), já não 
era o mesmo no período do rei Carlos I. Segundo o historiador Hill,
Pela mesma razão pretendiam derrubar o estado feudal [e] tinham de atacar e 
de obter o controle da Igreja. É por isso que as teorias políticas tendiam a ser en-
volvidas em uma linguagem religiosa. Não é que os nossos antepassados do sé-
culo XVII fossem muito mais conscienciosos e santos do que nós... [...] Podemos 
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII
História Moderna
4
71
hoje ver nossos problemas em termos seculares, precisamente porque os nossos 
antepassados puseram fim ao uso da Igreja como um instrumento exclusivo e 
opressor do poder político [...]. (HILL, 1983, p. 21)
Hill (1983) aponta que qualquer um cujo objetivo fosse contestar a ordem política e 
social vigentes deveria conquistar seu espaço na Igreja, mesmo que fosse com palavras em 
tons cristãos, a fim de propagar novos ou outros ideais. O conteúdo religioso continuou a 
apresentar uma dimensão política, conforme podemos compreender na citação do histo-
riador inglês, porém, a Igreja torna-se também um palco de debate, no qual se refletem as 
questões sociais e políticas que incomodam aqueles que a frequentam.
Essa postura, segundo ele, deve-se à Revolução Puritana que, com mensagens utili-
zando palavras e expressões cristãs, levou à frente da Igreja anseios sociais e políticos. Ao 
trazer as ideias de Christopher Hill, visamos compreender como essa revolução foi social e 
política. Ainda, é a perspectiva religiosa tomada de acordo com as especificidades de cada 
classe, percebida já em 1603 (ano da morte de Elizabeth I):
A senhora Hutchinson, mulher deum dos coronéis de Cromwell, disse que eram 
considerados Puritanos todos os que se opunham aos pontos de vista dos corte-
sãos indigentes, dos sacerdotes orgulhosos e usurpadores, dos visionários deso-
nestos, da alta e da pequena nobreza lascivas... quem quer que pudesse tolerar 
um sermão, hábitos ou conversação modestos, ou qualquer coisa boa. (HILL, 
1983, p. 22)
Nas memórias autobiográficas do coronel Hutchinson, a percepção de sua mulher é 
tomada pelo historiador como um exemplo de que a religião puritana não estava dissociada 
de interesses e de conflitos de classe. O fato ocorrido em 1603 também demonstra o período 
conturbado que foi o vivido logo após a morte da Rainha Elizabeth I. Embora seu paren-
te distante, o Rei da Escócia Jaime I, tenha assumido o trono de modo pacífico, católicos 
desde então não aceitaram a confirmação de que a Igreja católica não voltaria a predomi-
nar. Desse modo, Jaime I fez acordos com representantes da alta nobreza, para diminuir os 
ânimos. Porém, os problemas não pararam nesse aspecto. Como afirmamos anteriormente, 
Henrique VIII e Elisabeth I haviam vendido diversas instituições católicas (compradas pelas 
gentrys), cujas arrecadações foram gastas sem grandes investimentos.
Nesse contexto, para que Jaime I conseguisse manter seu reinado de acordo com os tem-
pos mais áureos e ricos ingleses, deveria aliar seus interesses aos da Câmara dos Comuns 
(composta por uma maioria de gentrys puritanos) e aos do Parlamento (formado pela no-
breza católica) (STONE, 2000). Obviamente, havia uma disputa nas votações de leis entre a 
Câmara dos Comuns e o Parlamento; tal rivalidade tornou-se mais intensa quando Jaime I 
dissolveu o Parlamento por sete anos, quando não concordou com alguns impostos propos-
tos por ele.
No ano de 1625, após o falecimento de Jaime I, seu filho, o rei Carlos I assumiu o trono 
e logo entrou em uma guerra fracassada contra a França. Para resolver os problemas decor-
rentes dos gastos da guerra, emitiu novos impostos – postura rechaçada pelo parlamento. 
Este, em represália, foi fechado por Carlos I, em uma evidente ação absolutista, a qual foi 
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4
História Moderna72
ainda mais criticada quando passou a perseguir os puritanos. Entre idas e vindas com o par-
lamento nas duas décadas seguintes, Carlos I – casado com uma católica – obrigou a Escócia 
a aceitar o anglicanismo. Por isso, também foi criticado naquele país. No ano de 1642, após 
uma segunda negação de Carlos I em obedecer à Declaração de Direitos – documento emiti-
do primeiramente em 1628 –, o Parlamento contestou a postura absolutista do rei.
A partir dessa data, Carlos I passou a ter diversos conflitos, em especial, com a Câmara 
dos Comuns, na qual a maioria era de gentrys. Um deles era Oliver Cromwell. Porém, os 
grupos envolvidos no decorrer dos anos foram além das gentrys, pois para que ganhassem 
mais força, também incentivaram os interesses das plebes. Por meio de panfletos e discursos 
lidos ou propagados no cotidiano londrino, a plebe (ou suas reivindicações) conseguiu ser 
ouvida nos debates políticos. Ora, ao pensar sob uma perspectiva democrática, isso é bom, 
visto que mais uma nova classe social estava sendo ouvida. Entretanto, uma vez respeitada 
a voz de uma classe, pode ser que ela quisesse ser ouvida novamente (HILL, 1987).
Para a Revolução, Oliver Cromwell organizou um exército, chamado de Exército do Novo 
Tipo (New Model Army). Este era formado por civis, plebeus, gentrys, alta e pequena burgue-
sia, ou seja, não se tratava de algo oficial e nobre, também não era de facções ou grupos 
políticos. Tratava-se de um exército formado por soldados em tempo integral e que tinham 
autonomia para decidir estratégias de guerra em comitês, assim como tinham uma hierar-
quia independente do rei – eram conhecidos como cabeças redondas. Além disso, Carlos I 
não tinha um exército forte, devido aos problemas financeiros da Inglaterra. Em 1647, o cha-
mado Exército do Novo Tipo tinha dois líderes representantes por regimento, um Conselho 
de Exército, alistavam civis e, com destaque, tinha uma editora que propagava seus ideais 
políticos e militares. A editora pertencia a John Harris, um leveller (nivelador). Este grupo 
era formado por pequenos agricultores, cuja intenção era ganhar reconhecimento de classe 
e direitos políticos. Não conseguiram grande representação de classe, sofrendo uma dis-
solução. Alguns deles juntaram-se a outros artesãos e camponeses em 1649, formando um 
grupo chamado diggers (escavadores) que, por sua vez, eram representados por trabalha-
dores rurais pobres. O grupo tinha o intuito de formar cooperativas agrícolas, uma política 
anticlerical e incentivar a propriedade coletiva da terra. Diziam que eram os verdadeiros 
niveladores, visto que defendiam a igualdade na economia e na política. Nenhum desses 
movimentos pequenos surtiram efeitos isolados, todavia, em conjunto, demonstraram suas 
insatisfações (HILL, 1987).
Carlos I, até o ano de 1647, recusou-se a negociar com qualquer um dos grupos meno-
res. Acabou preso e, em uma noite, fugiu de Londres. Na Escócia, a população revoltada 
com sua imposição religiosa anglicana entregou-o a Oliver Cromwel – líder dos puritanos 
na Revolução homônima –, o qual, após o julgamento de Carlos I (que culminou em sua 
decapitação), liderou a Inglaterra por uma década.
O governo de Oliver Cromwell foi marcado por perseguições religiosas, em especial 
contra católicos, porém, foi um governo de cunho político burguês. Uma das principais 
ações de Cromwell foram os Atos de Navegação, cuja determinação era de que apenas na-
vios ingleses poderiam carregar ou descarregar em portos ingleses. Essa medida incentivou 
o que ainda restava para que a Inglaterra alcançasse o posto de rainha dos mares, mas, 
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII
História Moderna
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73
em especial, deu ao país destaque no mundo industrial e capitalista. Entretanto, Lawrence 
Stone alerta-nos que antes da tomada de Oliver Cromwell, quando a revolução ainda toma-
va seus primeiros rumos, ninguém esperava pela dissolução da monarquia ou como ocorre 
com a câmara dos Lordes.
Além disso, as gentrys também não esperavam grandes mudanças sociais, com exce-
ção daquelas que as beneficiavam. O que o historiador destaca é a ideia de que a ordem 
política/social, dada após a morte de Carlos I, não seria suficiente por muito tempo para 
as alas mais radicais dos puritanos (STONE, 2000). Apesar das práticas não democráticas 
de Oliver Cromwell, como o fechamento do Parlamento, ele chegou a elaborar uma cons-
tituição para o período, oferecendo ensino gratuito, voto censitário e a união dos países da 
Irlanda, Escócia e Inglaterra.
Todas as diferenças baseadas em grupos religiosos com relações sociais e econômicas, 
que foram fomentadas no período revolucionário, mas ficaram caladas durante a República 
Puritana, tornaram-se evidentes após a morte de Cromwell, no ano de 1657. O problema 
maior esteve em quem assumiu definitivamente o governo, o rei Carlos II, filho de Carlos 
I. Ele seguiu um governo de acordo com os interesses das Câmaras. Mas isso não ocorreu 
com o seu sucessor, Jaime II, visto que era absolutista, católico, apoiado por outros católi-
cos, mas também pelas gentrys presbiterianas (ala mais conservadora). Nesse contexto, o rei 
objetivava reacender os ânimos absolutistas em terras de burgueses mercadores, industriais 
e das gentrys puritanas e também não se preocupava em ouvir as plebes, que haviam se 
acostumado a debater ideais.
A conjuntura revolucionária só se confirmou quando a burguesia buscou o apoio do 
príncipe holandês Guilherme de Orange, casado com Maria, filha de Jaime II. Guilherme 
de Orange aceitou tomar a Inglaterra em uma revolução em que não houve derrama-
mento de sangue, por isso o nome Gloriosa. Ademais, comprometeu-se com a Declaração 
de Direitos, cuja cláusula principal afirmava que a Câmara dos Comuns era responsável 
pelos assuntosgovernamentais.
Portanto, o absolutismo deixou de imperar cem anos antes da Revolução Francesa. Para 
afirmar que a revolução inglesa é revolucionária, segundo o historiador Edward Thompson 
(1987), é preciso considerá-la dentro de seu contexto histórico, visto que muitas vezes os di-
versos grupos que participaram dela não alcançaram os objetivos ou não estiveram unidos, 
dentro de um conceito mais leninista tradicional de classe. Eram diversos grupos humanos 
que não se reconheciam como classe, que faziam parte de um mundo pré-capitalista, cujas 
ações mudaram o curso da história da Inglaterra.
4.3 Reordenação agrária
Durante a Revolução Industrial, a agricultura sofreu mudanças em relação ao modo 
como era praticada. Anteriormente de subsistência, ela passou a ser de troca de produtos. 
Nessa época, começou-se a pensar em latifúndios produzindo um só produto, em especial, a 
criação de ovelhas (lã para indústrias têxteis), o que podemos chamar de plantation à inglesa. 
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4
História Moderna74
Porém, para que algo semelhante a essa perspectiva fosse assim reconhecido, precisou-se 
mais do que as próprias revoluções burguesas.
Thompson (1987) afirma que nem as terras burguesas ou as comunais eram reconhecidas 
ou tinham documentos perante a lei. Uma das primeiras medidas foi a Lei dos Cercamentos 
que, por si só, já havia causado um êxodo rural. Porém, de acordo com Thompson (1987), 
apenas no século XVIII, especificamente no mês de maio de 1723, foi aprovado na Câmara 
dos Comuns um código florestal, chamado de Lei Negra de Waltman. O termo negra diz 
respeito aos caçadores clandestinos, arrendatários não legalizados que muitas vezes se pin-
tavam com fuligens em meio à floresta, a fim de contestar o código florestal. Este criou 50 
tipos de crimes que poderiam chegar a 250 interpretações, ou seja, variações de acordo com 
o criminoso e o contexto. 
A questão central de Thompson (1987) é afirmar que as florestas, antes um espaço pú-
blico utilizado por diversos grupos sociais, em busca de pesca, de caça, de moradia e de 
práticas culturais, tornou-se um espaço vigiado e controlado. Soldados, guardas e cabanas 
foram instaladas para o controle das florestas principais, como Windsor e Hampshire, as 
quais eram divididas em herdades. Os povos residentes das áreas limítrofes não poderiam 
passar sequer para buscar um cão. Havia conflitos com arrendatários consuetudinários, as-
sim como com grandes proprietários que diziam ter direitos a lagos ou pequenas florestas, 
por concessões antigas.
Caso qualquer cláusula fosse desrespeitada, haveria multa e este é o ponto debatido 
por Thompson:
A questão ficou na sombra da história jurídica porque o grande infrator – o fi-
dalgo ou grande agricultor que cercava suas terras contra os cervos e derrubava 
grande número de árvores sem autorização – podia se dar o luxo, sem grandes 
dificuldades, de pagar a caução e de prosseguir impunemente com seus delitos. 
(THOMPSON, 1987, p. 43)
O historiador deixa evidente que são diversos grupos que disputam esses espaços, seja 
por herança, seja por costume ou por usucapião. O que se torna um diferencial, é que bur-
gueses ou industriais poderiam pagar as multas do Tribunal Florestal e até mesmo conquis-
tar algumas concessões, pois, de acordo com Thompson, o magistrado “podia tomar para 
si uma certa quantidade anual de cervos e tinha o poder de conceder (ou vender) licenças 
e autorizações para derrubar madeira, cercar ou construir florestas” (THOMPSON, 1987, 
p. 43-44). Com esse apoio, os grandes apropriadores de terras ou de benefícios delas não 
tiveram suas vidas afetadas como aqueles que simplesmente caçavam um cervo ou eram 
pegos com uma flecha na mão. Além disso, em muitos casos, viviam há gerações nessas 
florestas. O sistema jurídico inglês setecentista, com apoio dos burgueses revolucionários, 
legitimou as diferenças sociais e patrimoniais.
Raymond Williams (1990) traz uma perspectiva interessante sobre as perdas dos peque-
nos proprietários e camponeses das florestas inglesas no século XVIII. Ao analisar a literatu-
ra do período, percebe como o mundo bucólico da natureza é substituído por sentimentos 
de agonia, de invasão e de sofrimento, como podemos perceber a seguir:
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII
História Moderna
4
75
Os poemas sobre arrendatários felizes, o eu idealizado e independente da tradi-
ção bucólica reflexiva são sucedidos por poemas sobre perda, mudança, pesar; 
aquela estrutura de sentimentos simultaneamente comovente e meditativa, de 
horror e retraimento captada com tanta exatidão [...] Neste exato momento julgo 
ver as virtudes do campo a morrer. (WILLIAMS, 1990, p. 97)
O campo que respeitava o tempo natural, o tempo do trabalhador e até mesmo o tem-
po religioso já não era o mais comum. Williams (1990) segue ao afirmar que burgueses, os 
quais anteriormente disputavam pequenas porções de terra e se transformaram em grandes 
proprietários, não percebiam que as transformações ocorridas com a natureza, a fim de in-
centivar o capitalismo, eram as mesmas que alimentavam milhares de bocas, mas também 
tratavam as pessoas apenas como produtores e consumidores. Dessa forma, entendemos 
que sobreviver sem se importar com a qualidade do que é consumido ou vivido tornou-se 
uma das premissas desse tempo, uma época na qual surgiram constituições e repúblicas, as 
quais deveriam projetar um sistema econômico que fizesse uso da natureza, mas pensando 
na igualdade social.
Conclusão
O objetivo deste capítulo foi pensar como o Antigo Regime estava organizado de acor-
do com os princípios absolutistas, política em que o rei controlava e negociava diversas de-
cisões sobre o cotidiano de seu reino, com nobres e burgueses – situações que muitas vezes 
entravam em conflito.O período moderno organizou o Antigo Regime e projetou o que seria 
um Estado moderno. Ao mesmo tempo, trouxe a burguesia como classe social que ascendeu 
a novos lugares que, aos poucos, foram insuficientes, especialmente porque com ela veio o 
capitalismo industrial e agrário. As propostas burguesas não cabiam dentro do protecionis-
mo e do mercantilismo tão comuns a um governo mais centralizador, como era o absolutis-
ta, ou seja, apenas ideias mais liberais tanto na economia quanto na política permitiriam a 
configuração de um horizonte mais burguês.
 Ampliando seus conhecimentos
Os dois trechos seguintes fazem parte de um artigo de Jecson Girão Lopes 
sobre a obra O Leviatã, de Thomas Hobbes. Como afirmamos logo no 
início deste capítulo, Hobbes foi um dos teóricos do absolutismo. Para ele, 
o homem em seu estado natural sempre está suscetível à corrupção. Com 
base nessa ideia, ele faz suas sugestões sobre a resolução dessa questão no 
período moderno.
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4
História Moderna76
Thomas Hobbes: a necessidade da criação 
do Estado
(LOPES, 2012, p. 171-173)
Em primeiro lugar, é importante sabermos que Hobbes mostra a condição 
na qual o homem se encontra, no estado natural, a fim de basilar a neces-
sidade da efetivação do Estado. Conforme Hobbes, o estado natural é a 
condição na qual todos os homens se encontram, nesse estágio todos são 
iguais, todos têm o mesmo direito, pois o homem, em tal estado, está sob 
a égide das paixões, guiado pelos instintos, pelo conatus, isto é, esforço 
natural de permanecer na existência, de sobrevivência. Nessa perspectiva, 
o homem está imerso na ausência de um poder estatal soberano. A con-
dição do homem nesse estágio, consequência natural das paixões, é de 
guerra, visto que não há um poder visível que seja capaz de mantê-los 
em respeito, haja vista que naturalmente os homens não são justos, pie-
dosos, bondosos, mas ao contrário, os homens são tendentes à parciali-
dade, orgulho e vingança. Na realidade, nessa condição o homem está em 
situação de “guerra de todos contra todos”, “o homem é lobo do homem”. 
Assim, seguindo Hobbes podemos dizer que, noEstado de natureza, a 
utilidade é a medida do direito. Nessa perspectiva, a inclinação geral do 
ser humano é constituída por um ininterrupto desejo de poder e de mais 
poder que só tem cabo com a morte.
[...]
Nosso autor parte da premissa de um Estado de Natureza pertencente 
a todos os homens. Nesse sentido, todos os homens são iguais e, assim, 
cada um tem o direito de utilizar seu poder e força para resguardar seus 
interesses particulares. Dessa forma, paira uma espécie luta para de todos 
contra todos para defender os direitos próprios. Para superar tal pers-
pectiva somente com o erigir do Estado, do Leviatã, que defenderá não 
apenas um ou um grupo, mas é o responsável pela tranquilidade, pela 
instauração da paz social, já que no primeiro caso o que reina é uma selva-
geria e uma degradação generalizada de todos contra todos. É, portanto, 
com a criação do Estado que experimentará a paz e a prosperidade, visto 
que todos entregam suas liberdades individuais nas mãos do soberano 
para que o mesmo em um poder unívoco administre e controle, corrija as 
posturas destoantes (do Estado de Natureza) e, assim, garanta o desenvol-
vimento sadio da vida em sociedade.
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII
História Moderna
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77
Sugestões complementares
CROMWELL, o homem de ferro. Direção de Ken Hughes. Los Angeles: Columbia Pictures, 1970. 145 min. 
Esse filme traz a trajetória política do puritano Oliver Cromwell em busca de represen-
tatividade política dos Comuns, especialmente após a dissolução do Parlamento. Tal atitude 
desencadeou uma Guerra Civil, liderada por Cromwell, transformando a história monár-
quica e feudal da Inglaterra.
HISTÓRIA Moderna em foco. Disponível em: <https://hmoderna.hypotheses.org>. Acesso em: 26 
out. 2017.
 Atividades
1. Estabeleça uma relação entre a sociedade de corte e o poder absolutista.
2. Na historiografia, comumente não é apontado ou afirmado que a origem de algo 
acontece em um exato momento. Também há a ideia que, entre acontecimentos dife-
rentes, há muitas continuidades, ou seja, para que algo seja considerado revolucio-
nário, é preciso mudanças e acontecimentos diversos ao longo de um determinado 
tempo. Considerando essas premissas, aponte as relações entre as revoluções Purita-
na e Gloriosa e argumente sobre o significado social desses processos históricos para 
a história inglesa (e Moderna).
3. A questão agrária está relacionada ao mundo da indústria na Inglaterra, assim como 
tem um peso social sobre os problemas urbanos encontrados nas cidades inglesas 
industriais. Faça um comentário sobre essa afirmação.
4. Na análise de Jecson Girão Lopes sobre Thomas Hobbes, quais seriam os problemas 
mais inatos aos seres humanos que os impedem de ter controle de si? Além disso, de 
que forma o absolutismo responde às inabilidades dos seres humanos e em que isso 
afeta nossos direitos?
 Referências
ARTOLA, Miguel. Textos fundamentales para la Historia. Madri: Alianza Editorial, 1973.
BIGNOTTO, Newton. Maquiavel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
BODIN, Jean. Os seis livros da República. Paris: Fayard, 1986.
ELIAS, Norbert. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 
Editor, 1990.
HILL, Christopher. A Revolução Inglesa de 1640. Lisboa: Presença, 1983.
______. O mundo de ponta cabeça: ideias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640. São Paulo: 
Companhia das Letras, 1987.
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII4
História Moderna78
HISTÓRIA Moderna em foco. Disponível em: <https://hmoderna.hbypotheses.org>. Acesso em: 26 
out. 2017.
HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções: 1789-1848. 32. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.
LADURIE, Emmanuel Le Roy. O Estado monárquico: França 1460-1610. São Paulo: Cia das Letras, 
1994.
LOPES, Jecson Girão. Thomas Hobbes: a necessidade da criação do estado. Griot – Revista de 
Filosofia, Amargosa, v. 6 n.2, p. 170-187, dez. 2012. Disponível em: <http://www2.ufrb.edu.br/griot/
images/vol6-n2/12-THOMAS_HOBBES_-_A_NECESSIDADE_DA_CRIACAO_DO_ESTADO-Jecson_
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STONE, Lawrence. Causas da revolução de 1529-1642 na Inglaterra. São Paulo: EDUSC, 2000.
THOMPSON, Edward Palmer. Senhores e caçadores: a origem da lei negra. Rio de Janeiro: Paz e 
Terra, 1987.
THOMPSON, Edward Palmer et al. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas: 
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VIANNA, Alexander Martins. ‘Absolutismo’: os limites de uso de um conceito liberal. Revista 
Urutágua, Maringá, n. 14, jan./mar. 2008. Disponível em: <http://www.urutagua.uem.br/014/14vianna.
PDF>. Acesso em: 26 out. 2017.
WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na história e na literatura. São Paulo: Companhia das 
Letras, 1990. 
 Resolução 
1. A partir de 1300 vários Estados-nações se formaram em uma nova ordem social e 
política. Grupos que até então eram isolados passaram a viver em cidades ou reinos 
centralizados, geralmente na figura de um rei. Esse aliou-se à burguesia e à antiga 
nobreza, ambos formando o que chamamos de sociedade de corte. Ela, legitimada por 
tradições, compra de títulos e descendências, agia de acordo com o rei e seus interes-
ses, tendo conflitos entre elas e estabelecendo normas e regras em todos os aspectos 
sociais, culturais e políticos, os quais passaram a ser aspectos de diferenciação social. 
Dessa forma, podemos entender que a expressão sociedade de corte funcionava como 
um corpo social, que entendia sua organização em uma concepção natural, cujo rei 
era o líder que mantinha a ordem e a paz entre seus membros.
2. Nessa questão, podem ser apontadas as reformas como processos que levaram bas-
tante tempo para se afirmar como mudanças sociais, políticas e econômicas, em um 
nível de estruturação de uma nova classe social (e religiosa): as gentrys, que também 
são puritanos calvinistas. Além disso, com a morte da rainha Elisabeth I e a coroação 
de Jaime I, ânimos católicos são reavivados, ao mesmo tempo em que o rei se alia aos 
católicos a fim de garantir seus interesses no Parlamento, desagradando à Câmara 
dos Comuns, de maioria puritana. No mesmo período, o rei Jaime I continuou a in-
centivar a Lei dos Cercamentos, prática que expulsava camponeses de terras comu-
nais. Eles aliaram-se às gentrys na Revolução Puritana, quando Jaime I não aceitou as 
determinações da Câmara Comum. Além disso, outros acontecimentos e questiona-
As revoluções burguesas nos séculos XVII e XVIII
História Moderna
4
79
mentos ao longo dos séculos XVI e XVII, relacionados aos diggers e aos levellers, acen-
tuaram o descontentamento social, econômico e político que se sentiu em relação 
aos governos centralizadores comuns no período moderno. No que se refere a esse, 
as diversas revoluções ocasionadas e manifestações determinaram outra política à 
Inglaterra, com uma presença mais forte do Legislativo (composto por novas classes 
sociais) e a diminuição dos poderes monárquicos. Desse modo, a política econômica 
pode ser estruturada de acordo com princípios capitalistas industriais, uma prática 
que mudou a história mundial no período contemporâneo.
3. O objetivo é traçar uma relação entre a industrialização, precisando de matéria-pri-
ma e de mão de obra, com o interesse da expulsão e do acúmulo de terras nas mãos 
de poucos. Muitos acabavam se mudando para a cidade, onde não tinham alternati-
vas senão aceitar os salários e empregos oferecidos.
4. Seres humanos teriam naturalmente o desejo de destruir o outro por meio de inte-
resses ambiciosos, egoístas, ou seja, jamais poderiam conviver sem se destruir, visto 
que o domínio é mais importante para qualquer um. Nesse caso, um rei, um ser 
humano especial, traria o equilíbrio necessário para a convivência na Terra. Isso é 
problemático, visto que justifica o direito universal que um tem sobre os demais, 
anulando qualquer perspectiva democrática.
História Moderna 81
5
As bases do pensamento 
político moderno 
e o capitalismo
Pela divisão de trabalho, supervisãodo trabalho, multas, sinos e relógios, incentivos em di-
nheiro, pregações e ensino, supressão das feiras e dos esportes – formaram-se novos hábitos 
de trabalho, impôs-se uma nova disciplina de tempo. (THOMPSON, 1998, p. 297)
Esse trecho é parte do texto Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial, do 
historiador Edward Palmer Thompson, e traz algumas nuances do que era o sentimento 
de mudança provocado na vida da população operária inglesa (mas não somente dela) 
a partir do século XVIII.
Nesse sentido, este capítulo discute relações entre o Estado moderno, as mudan-
ças que proporcionaram transformações econômicas no que diz respeito à Revolução 
Industrial e o crescimento da burguesia como classe. Do mesmo modo, analisamos as 
organizações sociais e culturais, em especial do mundo do operariado, ocasionadas 
pela Revolução no período moderno.
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5
História Moderna82
5.1 O Estado moderno e o nascimento 
do mundo capitalista
O Absolutismo trouxe a centralização do Estado, assim como grupos e classes que, 
com suas práticas sociais, definiram as características políticas de um período. Nesse 
caso, tomaremos o mundo político como forma de compreender a maneira pelas quais 
as sociedades do início do mundo Moderno se organizavam e como geravam estratégias 
sociais e econômicas.
Mas, muito além dessa questão, a historiografia ocidental toma para si um modelo de 
Estado, no qual o poder do rei tem a representação máxima e uma hierarquia estabelecida. 
Isso permitia estabelecer no território do reino critérios e acordos, ou seja, o rei indicava 
administradores que, por sua vez, mantinham o controle regional e local. Tal ideia fica evi-
dente com o historiador Emanuel Le Roy Ladurie:
No plano político, a boa cidade ou simplesmente a cidade clássica é um misto 
de poder real e de poder comunal, “uma sociedade mista”. Compromisso lógi-
co. Duas entidades coexistem, estatal e citadina: o rei nessas condições não po-
deria sufocar nem mesmo enfraquecer completamente os notáveis das cidades. 
(LADURIE, 1994, p. 22)
Dessa forma, a relação do rei com seus súditos, além do aspecto sagrado, era bastante 
distante. Essa ideia difere da concepção de Estado forjada com base na inserção política bur-
guesa após o século XVI. Isto é, o Estado era visto como um mantenedor e responsável pelo 
bem de seu povo, ainda que com diversas diferenças ao longo do tempo e em cada contexto. 
Porém, no período moderno, assim como o rei dava poder aos burgueses, por depender do 
poder econômico deles, a burguesia fazia alianças com os nobres, por meio de casamen-
tos, embora essa prática não tenha ocorrido sem resistência e conflitos, como esta citação 
transparece: “Bom casamento, meu filho. [...]. É preciso que busqueis esterco para fertilizar 
vossas terras” (LADURIE, 1994, p. 30).
Portanto, para que a burguesia pudesse questionar a hierarquia moderna, não bastou 
fazer alianças, pois, de uma forma ou de outra, estariam sempre limitadas. Por isso, teve 
de se perceber como uma nova classe, ou seja, tornar-se uma classe política e econômica. 
Entretanto, não foi somente a burguesia que surgiu como classe. Nesse contexto, e em fun-
ção dos interesses burgueses, sobretudo da Revolução Industrial, o operariado sofreu pro-
fundas transformações, o que lhes alterou o mundo social (tema que será estudado no fim 
deste capítulo).
Se retomarmos a ideia do capítulo anterior, de a burguesia inglesa do século XVII, 
por meio de questões religiosas e de conquista de títulos, chegar ao poder, ocupando pri-
meiramente a Câmara dos Comuns e, depois, a Câmara dos Lordes, compreendemos que 
esse processo aconteceu primeiramente por conta das mudanças econômicas e, mais tarde, 
políticas. Entretanto, para que uma revolução econômica – como a Revolução Industrial 
do fim do século XVII – se estruturasse e se tornasse a economia central do reino inglês 
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo
História Moderna
5
83
e, posteriormente, do mundo ocidental, a burguesia deveria tornar-se uma classe política. 
A partir disso, o panorama social, político e econômico do Ocidente, tanto no mundo mo-
derno quanto no contemporâneo, mudaria.
Mas, se o processo não foi rápido, também não foi igual em toda Europa. Para além 
de uma comparação entre países e contextos tão diversos, objetivamos mostrar como em 
alguns lugares, em especial, na Inglaterra, as condições foram ideias para o início do capita-
lismo em sua forma mais moderna. Acerca disso, o historiador Francisco Falcon traz algu-
mas ideias sobre as transformações do período moderno, demonstrando como elas foram 
paulatinas e em ritmos diferentes para cada contexto:
[...] nas sociedades ocidentais, foi havendo uma tomada de consciência quanto 
à modernidade nascente, em cujo seio já se vislumbra, indecisa, a teoria do pro-
gresso [...] são mudanças ocorridas, em ritmos e intensidades diversos, confor-
me a sociedade, que formam o núcleo básico dessa transição. (FALCON, 2000, 
p. 11-12)
Falcon (2000) explica como a noção de um novo tempo ou modus operandis não foi sem-
pre consciente, mas também não se sabia o que a relação do ideal de progresso com os 
interesses perseguidos pelos sujeitos medievais e modernos nos burgos (espaço de maior 
interação social no período medieval) ou as mudanças da modernidade trariam. Burgo é um 
dos termos mais importantes do fim do período medieval até o início do moderno, pois foi 
ali que se concentraram as mudanças sociais, econômicas, culturais e políticas precursoras 
do que se tornou a Europa Ocidental pós 1800, época que será analisada mais intensamente 
neste capítulo. Para o historiador Leo Huberman (1980), aqueles eram:
Lugares que os mercadores procuravam. Neles, além disso, havia geralmente 
uma igreja, ou uma zona fortificada chamada “burgo” que assegurava a prote-
ção em caso de ataque. Mercadores errantes descansando nos intervalos de suas 
longas viagens, esperando o degelo de um rio congelado, ou que uma estrada 
lamacenta se tornasse transitável outra vez, naturalmente se deteriam próximo 
dos muros de uma fortaleza, ou à sombra da catedral. E como um número cada 
vez maior de mercadores se reunia nesses locais, criou-se uma “faubourg” ou 
“burgo extramural”. E não demorou muito para que o arrabalde se tornasse mais 
importante do que o próprio burgo antigo. (HUBERMAN, 1980, p. 35-36)
Leo Humberman (1980) também nos sugere nessa citação uma ideia de causalidade: as 
vilas de origem medieval e, posteriormente, moderna tornaram-se espaços de encontro e 
de divulgação de um novo ideal ou estilo de vida. Faubourg podem ser apontadas como os 
subúrbios, aqueles espaços que crescem no caminho de algo considerado mais importante. 
Entre os séculos XV ao XVIII, junto a esse aspecto, ocorreram as viagens ao Oriente e ao 
Ocidente, alterando interesses de domínio territorial e de consumo, mas não somente isso, 
como Colin McEvedy nos lembra: “a prosperidade, a instrução e o conhecimento aumenta-
ram século após século no nosso período” (MCEVEDY, 2007, p. 8). Portanto, as cidades ou 
vilas não foram meros espaços urbanos que aumentaram significativamente nesse período, 
mas foi justamente nesses locais que se configuraram as maiores mudanças sociais e políti-
cas do mundo moderno para o contemporâneo.
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5
História Moderna84
Portanto, de um Renascimento (não só na Península Itálica) – nos séculos XV e XVI – ao 
questionamento religioso direcionado em especial à Igreja católica – que originou as dou-
trinas calvinistas e puritanas na Inglaterra –, podemos dizer que os subúrbios tornaram-se 
mais que anexos da vontade e interesses de reis e nobres. O Estado moderno absolutista, 
com sua sociedade de corte, presenciou o crescimento da burguesia, a qual foi limitada 
politicamente até a revolução burguesa na Inglaterra. Esta, embora tenha sido descontínua, 
em seu fim, proporcionou à burguesia lugarespolíticos e econômicos mais sólidos, configu-
rando-a como uma classe.
Para Edward Thompson (1998) há duas maneiras de se analisar a ideia de classe: a 
primeira é de acordo com o seu contexto histórico e se aqueles que reivindicam seus no-
vos lugares em relação a outros grupos se percebem como classe; a segunda refere-se a 
uma ideia mais geral, anterior ao mundo capitalista, segundo a qual os grupos disputa-
vam entre si “domínio sobre o outro”, porém, sem se verem como classes sociais e políticas 
(THOMPSON, 1998, p. 35-38).
Na Inglaterra do século XVII, as diferenças políticas de plebeus, como diggers e 
levellers – aqueles que não tinham grande representatividade nas câmaras, se comparados 
aos puritanos – também se davam por meio de posturas religiosas, com confrontos políticos 
tangenciados ou reunidos por essas questões.
Desse modo, qualquer questionamento feito à organização política dos Tudors e, pos-
teriormente, dos Stuarts vindo de um dos grupos religiosos como os calvinistas, puritanos, 
anabatistas, quakers e diggers estava alterando o espaço social e econômico, porém, por di-
ferenças religiosas e culturais, e não políticas necessariamente, visto que ainda não se iden-
tificavam como tal. Thompson (2001b) lembra que, apesar de não haver uma pauta mais 
organizada desses vários grupos antes da revolução burguesa, havia a “presença política da 
plebe, do ‘populacho’ ou da multidão. Ela pesava sobre a alta política em um certo número 
de ocasiões” (THOMPSON, 2001b, p. 219). Sobre esse processo no qual as classes adquirem 
sentidos às próprias lutas, Thompson (2001a) reitera:
Uma classe não pode existir sem um tipo qualquer de consciência de si mesma. 
De outro modo, não é, ou não é ainda, uma classe. Quer dizer, não é “algo” ain-
da, não tem espécie alguma de identidade histórica. Até aquela díspar e móbil 
entidade que é a multidão ou a plebe da Inglaterra do século XVIII possuía uma 
noção de seus direitos de legalidade e de respeito, que foram investigados pelos 
historiadores. (THOMPSON, 2001a, p. 6).
Assim, entendemos que Thompson (2001a) argumenta que, nesse período, embora os 
sujeitos começassem a se perceber como grupos com interesses de classe comuns, ainda não 
se autoafirmavam dessa maneira. Por isso, é importante lembrarmos que tanto os diggers 
quantos os levellers – que formavam a ala mais simples – foram duramente reprimidos pelo 
líder calvinista Oliver Cromwell após a revolução.
A burguesia, que nesse período passou a se ver como classe, é, portanto, a calvinista. 
E, para manter-se no poder, deveria aproveitar das condições naturais, políticas e sociais 
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo
História Moderna
5
85
encontradas no contexto inglês de meados do século XVII. As condições, aspectos sociais e 
mudanças na vida cotidiana burguesa, estudaremos na próxima seção.
5.2 Revolução Industrial
O mercantilismo foi um dos principais fatores que proporcionaram à Inglaterra acúmu-
lo e enriquecimento de metais, suficientes para promover uma Revolução Industrial. Além 
disso, a Inglaterra acumulou metais com a pirataria e possuía grandes reservas de carvão e 
malha fluvial para escoamento de produção, ao mesmo tempo em que expandiu territórios, 
conquistando colônias, matéria-prima (algodão) e mão de obra escrava. Entretanto, seria 
reducionismo dizer que ter poder econômico era o suficiente para promover tamanha re-
volução. Cabe lembrarmos que, até os séculos XVI e XVII, características absolutistas ainda 
eram muito comuns no cotidiano inglês. O historiador Eric Hobsbawm leva a Revolução 
Industrial para além de algo dependente apenas de uma economia rica e sólida, como era a 
inglesa. Ele sugere que:
se tivesse que haver uma disputa pelo pioneirismo da revolução industrial no 
século XVIII, só haveria de fato um concorrente a dar a largada: o grande avan-
ço comercial e industrial de Portugal à Rússia, fomentado pelos inteligentes e 
nem um pouco ingênuos ministros e servidores civis de todas as monarquias 
iluminadas da Europa, todo eles tão preocupados com o crescimento econômico 
quanto os administradores de hoje em dia. Alguns pequenos Estados e regiões 
de fato se industrializaram de maneira bem impressionante, como por exemplo 
a Saxônia e a diocese de Liège, embora seus complexos industriais fossem muito 
pequenos e localizados para exercer a mesma influência revolucionária mundial 
dos complexos britânicos. (HOBSBAWM, 2009, p. 45)
Com essas ideias, o historiador desmitifica alguns preceitos de que somente a Inglaterra 
estava se industrializando. Ele também deixa evidente em sua análise que a industrializa-
ção era uma preocupação de diversas regiões da Europa. Ainda no que se refere ao ter-
mo Revolução Industrial, o historiador sugere que esse apenas ganhou tal conotação após as 
primeiras consequências sociais e políticas da Revolução Francesa, visto que ela influen-
ciou o próprio entendimento do que é uma revolução, ou seja, acontecimentos que altera-
ram significativamente o contexto social, político e econômico de um período. No caso da 
Revolução Francesa, suas transformações são consideradas tão importantes que a historio-
grafia nomeou o seu pós como outro período da História (ao menos da Ocidental). Além 
disso, Hobsbawm continua sua reflexão e faz a seguinte afirmação:
Nas ciências naturais os franceses estavam seguramente à frente dos ingleses, 
vantagem que a Revolução Francesa veio acentuar de forma marcante, pelo me-
nos na matemática e na física, pois incentivou as ciências na França enquanto a 
reação suspeitava delas na Inglaterra. Até mesmo nas ciências sociais os britâni-
cos estavam muito longe daquela superioridade que fez – e em grande parte ain-
da faz – da economia um assunto eminentemente anglo-saxão [...]. O economista 
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5
História Moderna86
da década de 1780 lia Adam Smith, mas também – e talvez com mais proveito 
– os fisiocratas e os contabilistas fiscais franceses, Quesnay, Turgot, Dupont de 
Nemours, Lavoisier. (HOBSBAWM, 2009, p. 45-46)
O historiador segue argumentando sobre a existência de, naquele período, navios e 
teares franceses, técnicas de trabalho da Saxônia e contabilistas italianos. Ele frisa que as 
universidades de Oxford e Cambridge não iam intelectualmente além do mínimo esperado 
para aquele momento, especialmente se comparadas às universidades escocesas e à Escola 
Politécnica de Paris (HOBSBAWM, 2009). Uma estratégia inglesa importante, porém inicia-
da apenas no século XIX, foi a alfabetização em massa.
Então, o que tinha a Inglaterra de diferente para que ocorresse o início da Revolução 
Industrial de modo tão intenso em relação aos demais Estados e reinos? A capacidade e a 
técnica daqueles que trabalham nas primeiras décadas e também a tecnologia necessária 
para implementação dos primeiros processos, como o utilizado pela máquina a vapor de 
James Watt (em 1784) que não precisava de tantos conhecimentos da física ou da matemáti-
ca. Hobsbawm (2000) evidencia que o conhecimento científico não era necessariamente uma 
condição para que a Revolução Industrial ocorresse, isto é, técnicas simples eram suficientes 
para um primeiro desenvolvimento. Contudo, cabe ressaltarmos que esse período de 1780, 
no qual aconteceram algumas inovações tecnológicas, como a máquina a vapor, foi também 
um momento propício classificado como “crescimento autossustentável” (contexto em que 
a produção não era mais afetada diretamente por variações climáticas ou demográficas, de 
epidemias, ou intempéries) (HOBSBAWM, 2000).
Nesse sentido, o que chama atenção em relação ao contexto inglês nesse período é que 
ele já era marcado por uma intensa concentração de terras nas mãos de latifundiários, os 
quais, por meio de arrendamentos, aumentavam as criações de rebanhos ou lavouras, que 
objetivavam o mercado externo (HOBSBAWM, 2000). A nova estrutura social do campo foi 
cada vez mais ampliada, transformando a vida de servos e de pequenoscamponeses em 
uma total dependência econômica, visto que com poucas terras e meios de produção não 
conseguiam ter bons rendimentos, nem ao menos para sustentar as famílias. Tal perspectiva 
foi acentuada com a Lei dos Cercamentos (Enclousure Acts), de meados do século XVII, cujo 
objetivo era cercar as terras que eram comunais, ou seja, de comunidades. Essa ação teve 
três consequências essenciais: produção de alimentos para aqueles que estavam nas cidades; 
envio de significativa mão de obra às cidades; e o acúmulo de capital para o Estado e para o 
sistema fabril que estava se instalando (HOBSBAWM, 2009).
A Lei dos Cercamentos foi incentivada ainda mais no decorrer do século XVIII, porém, 
suas consequências não foram apenas a expulsão de camponeses para os núcleos urbanos 
em um processo de êxodo rural. Pontuamos também o fato de a terra ser apontada como 
mercadoria, uma característica importante para um período no qual terras passaram a ter 
mais que um valor de subsistência, transformando-se em lugares de geração de lã para in-
dústrias têxteis e com uma agricultura mais produtiva (com uso de maquinários, adubos e 
rotação de culturas) para o mercado externo.
O que restou aos camponeses mais simples foi vender suas terras, tornando-se empre-
gados dos grandes produtores ou novos operários das fábricas que começaram a surgir 
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo
História Moderna
5
87
na Inglaterra do fim do século XVII. Essa mudança cessou com as relações feudais par-
cialmente ainda persistentes. Ou seja, isso garantiu ao senhor a propriedade da terra, e 
não mais a simples concessão. O historiador Peter Burke (1989) ressalta: restaram os la-
tifundiários e os pequenos produtores, que trabalhavam em parceria com proprietários 
de latifúndio. Porém, o que Burke de fato traz sobre esse contexto são as mudanças que 
permaneceram no campo, em toda a Europa, visto que, devido ao crescimento da renta-
bilidade na agricultura, passaram a consumir objetos e produtos até então desconhecidos. 
Isso fica evidente na citação a seguir:
Na Inglaterra, foi a classe dos pequenos proprietários que lucrou com a co-
mercialização da agricultura, construindo novas casas e adquirindo “uma bela 
guarnição de estanho”. Na Alsácia, os vinicultores estavam encontrando novos 
mercado na época em que construíam e mobiliavam novas casas. Na França, o 
fim das guerras de Luís XIV e, na Suécia, o fim das guerras de Carlos XII prova-
velmente significaram um aumento da prosperidade. Na Noruega, o estrondoso 
aumento das exportações de madeira (para a Grã-Bretanha, entre outros países) 
levou a uma melhoria no padrão de vida rural. De modo geral, podemos dizer 
que a aristocracia camponesa, homens como Edme Rétif, agora tinham condi-
ções de comprar objetos que, antes, eles mesmos faziam. (BURKE, 1989, p. 269)
Com base em tal ideia, sugerimos que, além de uma expulsão camponesa para as cida-
des, aqueles que permaneceram, passaram a fazer parte de uma população que consumia 
produtos até então ou desconhecidos ou que anteriormente eram produzidos por ele. Essa 
ideia de mercado, de comércio, com produtores e consumidores começou a ganhar força na 
Inglaterra do século XVIII. Além disso, fica evidente uma troca comercial mais intensa entre 
países diferentes do território europeu. Para que esse comércio prosperasse, não bastou ape-
nas matéria-prima, operários ou consumidores. Peter Burke (1989) aponta que um padrão 
passou a ser cobrado dos produtos finais, descaracterizando as produções individuais, co-
muns até meados do período moderno:
A expansão do mercado significava uma maior demanda, e para atendê-la o pro-
cesso de produção foi padronizado. Não se poderia pensar em produzir objetos 
conforme as exigências específicas do cliente individual, tal como tradicional-
mente ocorria. Ao longo do século XVIII, os desenhos dos azulejos holandeses 
foram se simplificando até umas poucas pinceladas rápidas e, passou-se a usar 
métodos semimecânicos, como o emprego de matrizes. Era questão de apenas 
uma ou duas gerações antes que o objeto artesanal, feito à mão, começasse a ce-
der ao objeto padronizado, feito à máquina e produzido em massa. A expansão 
do mercado também destruiu a cultural material local. (BURKE, 1989, p. 269)
Além da mudança no modo de produção, que passou a ser mais impessoal e de maneira 
menos delicada, o espaço de artesãos e de oficinas caseiras diminuiu. Não obstante, a ideia 
de transformação da cultura material também deve ser considerada, visto que, embora mu-
danças tenham ocorrido, novas práticas culturais surgiram. Peter Burke (1989) demonstra 
por meio de várias fontes como as culturas populares são alteradas, mas também reagem 
a esse processo político e econômico (tema do próximo capítulo). Acerca dessas mudanças, 
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5
História Moderna88
Eric Hobsbawm (2000) afirma que no século XVIII houve um aumento de consumidores, um 
início da especialização da mão de obra, assim como um comércio já intenso com a presença 
de lojistas, compradores, vendedores e meios de transporte fluvial e ferroviário para assegu-
rar tanto o envio de produtos, quanto de matérias-primas. Ressaltamos que, na Inglaterra, 
os rios e o acesso ao mar facilitaram a logística necessária para aquele período.
A fim de adequar o movimento de grandes cidades como Londres, Thompson (1987) 
aponta que houve um processo de urbanização, mesmo que nesse período também tenham 
enfrentado diversas epidemias e proliferações de doenças devido às condições insalubres, 
em especial, das moradias do operariado. Além disso, a despeito da mortalidade infantil, 
Thompson relata um aumento significativo da população.
Hobsbawm (2009) classifica esse período como uma Revolução Industrial de pioneiros, 
algo que estava começando, cujas características se diferem significativamente do século 
XIX. Para o historiador, a produção em massa mais barata e a garantia do lucro são pre-
missas diferentes em relação ao primeiro tempo das mudanças industriais. Nesse caso, a 
Inglaterra tinha diversos fatores que motivavam um novo processo comercial e fabril, da 
mesma forma que outros países também poderiam ter. Entretanto, a historiografia conside-
rou tais práticas em uma Revolução Industrial porque o modelo inglês sofreu adaptações 
por outras realidades, em especial, buscando uma demanda muito maior de consumo e de 
estratégias de produção e de venda.
Esses aspectos fizeram com que a Inglaterra fosse a pioneira de um modelo econômico 
capitalista tomado pelo mundo ocidental ainda no século XIX, como podemos perceber pela 
citação a seguir:
Uma indústria que já oferecesse recompensas excepcionais para o fabricante que 
pudesse expandir sua produção rapidamente, se necessário através de inovações 
simples e razoavelmente baratas, e, segundo, um mercado mundial amplamente 
monopolizado por uma única nação produtora. Estas considerações se aplicam 
em certos aspectos a todos os países nessa época. Por exemplo, em todos eles a 
dianteira no crescimento industrial foi tomada por fabricantes de mercadorias de 
consumo de massa [...] O sucesso britânico provou o que se podia conseguir com 
ela, a técnica britânica podia ser imitada, o capital e a habilidade britânica podiam 
ser importados. A indústria têxtil saxônica, incapaz de criar seus próprios inven-
tos, copiou os modelos ingleses, às vezes com a supervisão de mecânicos ingleses 
[...] Entre 1789 e 1848, a Europa e a América foram inundadas por especialistas, 
máquinas a vapor, maquinaria para (processamento e transformação do) algodão 
e investimentos britânicos. (HOBSBAWM, 2009, p. 48-49, grifo do original)
A ideia afirmada anteriormente – de que não eram necessárias grandes invenções –, em 
um primeiro momento, é corroborada com a afirmação de que criações simples despertaram 
interesses de países que já viviam ou caminhavam para mudanças políticas importantes, 
mas também estavam se colocando já em uma expansãocolonial, a qual logo se configuraria 
em uma corrida imperialista.
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo
História Moderna
5
89
O que estamos considerando é: a matéria-prima, vinda das colônias, existia de forma 
abundante, ao tempo em que instalar ou copiar um modelo fabril não era tão difícil e ainda 
prometia ganhos rápidos. Saxônia, Itália, Holanda e Bélgica, entre outros países e reinos, 
buscaram trilhar os mesmos caminhos dos pioneiros ingleses. Ao estreitar relações comer-
ciais de compra, de venda e de concessão de territórios e sistemas de produção, novos tipos 
de negociações se consolidaram no início do século XIX no mundo ocidental.
5.3 A divisão social do trabalho e a 
experiência e condição operária
As figuras a seguir representam a inovação, a incoerência e a desigualdade social que a 
ideia de progresso trouxe consigo. Na Figura 1, é possível entender a grande inovação que 
foi a construção de ferrovias, pois levar matérias-primas e produtos prontos transformou o 
mundo do comércio inglês e do mundo. Entretanto, não foi somente essa a transformação 
causada, visto que muito além de carroças e barcos, mulheres e homens também passaram a 
utilizar os trens como meio de transporte, diminuindo as distâncias entre famílias, grandes 
centros e o interior, fazendo com que notícias, cartas e outras formas de comunicação che-
gassem mais rápido. Portanto, meios de transporte alteraram também o panorama econô-
mico, social e cultural de um contexto. Além disso, se observadas na figura as pessoas que 
estão prontas para entrar no trem, podemos afirmar que se tratava de um grupo escolhido e, 
certamente, não era o mesmo que carregava carvão em uma mina (Figura 2).
Figura1 – FRITH, William Powell. A estação de trem. 1866. Gravura, color.: 66 x 123 cm. 
Londres, Inglaterra. 
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5
História Moderna90
Figura 2 – Mine workers in Gary, West Virginia (1908).
Fonte: Lewis Hine/Library Of Congress.
As figuras representam um paradoxo criado e sustentado pela Revolução Industrial, 
que ocasionou mais problemas sociais entre as diversas camadas da sociedade e incentivou 
reações e resistências. Elas deixam evidente a ideia de que todas as transformações chega-
riam às diversas camadas sociais, mesmo com intensidades e significados diferentes.
Um dos pontos mais singulares do período industrial – comum a todas as classes – é 
a noção e percepção de tempo. Ela é diferente entre os mineradores que extraem o car-
vão (Figura 2) em relação àqueles que conhecem o novo sistema de transporte (Figura 1). 
Edward Thompson (1987) transmite bem essa transformação, na qual o tempo provoca sen-
sações diferentes, não apenas pelos sentimentos e dificuldades, mas também por sua venda:
A questão da orientação pelas tarefas se torna muito mais complexa na situação 
em que se emprega mão de obra. Toda a economia familiar do pequeno agricul-
tor pode ser orientada pelas tarefas, mas em seu interior pode haver divisão de 
trabalho, alocação de papeis e a disciplina de uma relação de empregador-em-
pregado, entre o agricultor e seus filhos. Mesmo nesse caso, o tempo está come-
çando a se transformar em dinheiro, o dinheiro do empregador. Assim que se 
contrata a mão de obra real, é visível a transformação da orientação pelas tarefas 
no trabalho de horário marcado. (THOMPSON, 1987, p. 272)
A citação é referente ainda às oficinas persistentes dos séculos XVII e XVIII, em que 
mestres gerenciavam e comandavam seus funcionários, quase em uma relação paternalista. 
Thompson (1987) explora esse contexto ao firmar que o tempo necessário para fazer o produto 
era o tempo do profissional, isto é, empregados não eram pagos por dia ou por hora, mas pe-
los produtos entregues e de caráter individual, perspectiva que se modifica quando o horário 
passou a ser marcado, controlado, e o funcionário deveria terminar a produção dentro desse 
período, obrigando-se a produzir mais para atender a uma massa, a qual já não permitia que 
fossem peças exclusivas ou com muitos detalhes. Aos poucos, para que o trabalho fosse feito 
de forma mais rápida, os funcionários dividiram as tarefas, a fim de se especializar.
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo
História Moderna
5
91
A medição do tempo no ambiente das fábricas era controlada pelos donos ou super-
visores e apenas eles detinham o controle do tempo. Empregados que antes controlavam 
seus trabalhos perderam totalmente a autonomia, transformando-se em elementos do pro-
cesso industrial.
Ainda no século XVIII, as associações de marceneiros e de alfaiates seriam proibi-
das, isto é, os funcionários que as compusessem teriam de se tornar operários das fábricas 
(COGGIOLA, 2007). Do mesmo modo, o conhecimento que anteriormente haviam adquiri-
do sobre alguns produtos, ou a tradição que mantinham para produzi-los, já não importava 
mais. Isso não acontecia somente na cidade: no campo, onde antes as boas colheitas eram 
comemoradas com festas, em rituais repletos de folclore e tradições, interessava apenas a 
quantidade produzida. (HOBSBAWM, 2001)
Na cidade, operários moravam em locais próximos às fábricas, a fim de chegarem cedo 
e conseguirem cumprir as 16 ou até 18 horas de jornada de trabalho diárias. Não obstante, 
muitos desses prédios pertenciam aos próprios donos dos meios de produção que, por sua 
vez, também pagavam os salários com produtos. O pouco que lhes restava mal dava para a 
comida. Por isso, não tinham recursos para comprar roupas ou sapatos. Nessas condições, 
a base alimentar era a batata (THOMPSON, 1987), visto que era mais barata que o trigo, 
alimento mais comum anteriormente e que dispunha de mais nutrientes.
Famílias de operários que, em totalidade, trabalhavam, poderiam comer carne todos os 
dias. Em outras, nas quais apenas um ou dois trabalhavam, poderiam comer carne uma vez 
na semana, mas não um alimento com muita qualidade (THOMPSON, 1987).
Sobre a interdependência nas casas dos operários e das operárias, a historiadora social 
Michelle Perrot (2007) traz a ideia de que não era somente nas indústrias que mulheres de 
operários trabalhavam ganhando dinheiro, mas em suas casas também, postura que colabo-
rou na autonomia de muitas delas, mesmo que de forma sugestiva e disfarçada:
Ela é o médico da família e antes de tudo, seu “ministro das Finanças”, pois 
gerencia o orçamento. O marido lhe entrega o pagamento da semana: prática 
frequente na França (muito menos na Inglaterra ou na Alemanha) e certamente 
resultado da pressão das mulheres. O dia de pagamento é um dia de contestação 
em muitos lares. Além disso, a mulher do carpinteiro ganha um pouco de dinhei-
ro fazendo compras e lavando a roupa para uma vizinha. Ela, assim como outras 
donas de casa se sente valorizada por essa contribuição ao orçamento doméstico 
[...] Vinte anos depois, ela teria alugado ou comprado uma máquina de costura, 
uma Singer [...]. (PERROT, 2007, p. 116)
A imagem de Perrot (2007) é de uma casa tradicional, visto que a mulher está em casa 
e almejando sua Singer, pois ali também está sua autonomia. Seu marido e, talvez, filhos e 
filhas, estão trabalhando, enquanto ela faz com que a casa e as finanças se mantenham em 
ordem e da maneira mais milagrosa, já que não era muito o dinheiro a administrar. A citação 
ainda menciona que essa independência das mulheres ao gerir o dinheiro era superior na 
França em relação à Inglaterra.
As famílias que não conseguiam manter sua alimentação de maneira adequada aca-
bavam sobrevivendo com restos de lixo e de feiras. Nessas condições, a desidratação e/
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5
História Moderna92
ou a desnutrição eram doenças comuns que acabavam aniquilando grupos inteiros. Para a 
indústria, isso não era um problema, visto que outras pessoas chegavam às cidades ou aque-
les que estavam vagando eram facilmente colocados no trabalho. Além disso, caso a perda 
maior fosse de homens, haveria mulheres ecrianças para realizar o trabalho pela metade do 
valor. Entretanto, os problemas eram as epidemias geradas pelos vírus que poderiam matar 
tantos, inclusive das camadas sociais mais abastadas.
Quanto à vestimenta, muitos tinham apenas uma roupa e usavam sacos de estopa. 
Os controles sanitários eram precários em relação à qualidade das moradias e às próprias 
instalações das fábricas, que não dispunham de ventilação adequada e eram apertadas e 
úmidas. Além disso, as ruas não tinham esgoto ou qualquer sistema que diminuísse os 
contágios. Esses problemas, somados às doenças já causadas pela falta de alimentos (e de 
qualidade deles), geravam problemas sociais e patológicos graves, assim como a própria 
criminalidade, visto que muitos passavam a roubar e até matar, em busca de sobrevivência. 
O que percebemos é que nesse período os donos dos meios de produção ocasionaram uma 
total dependência dos operários, que, além de todas as questões sociais e urbanas, acabavam 
por não receber grandes quantias, diminuindo significativamente sua autonomia. É preciso 
lembrar ainda sobre outros direitos ausentes, como os referentes às mulheres que voltavam 
ao trabalho pouco tempo após terem dado à luz, e às crianças, que eram contratadas por até 
48 horas semanais, prática regularizada pela lei Factory Act, em 1838 (COGGIOLA, 2007).
O sistema fabril inglês, em especial nos séculos XVII e XVIII, alterou a vida do campo-
nês, do operário, inserindo-os em meios de produção de larga escala, porém não criou leis 
que os protegessem, algo mais que necessário se consideramos a descoberta do lucro no 
mundo industrial. Foram muitas as alterações sociais nesse período, como a mudança cul-
tural alimentar, com a troca do trigo por uma base alimentar de batata, e a total exploração 
de sujeitos que chegaram às cidades, em sua maioria já expulsos de seus lugares de origem. 
Esses camponeses, que passaram a ser operários, embora já fossem pobres, eram mais res-
peitados no campo, sobretudo em suas tradições e práticas culturais. Esse era o panorama. 
E tais perspectivas passaram a ser debatidas já no século XIX, por Friedrich Engels (A si-
tuação da classe trabalhadora na Inglaterra, em 1845), Karl Marx (Manifesto Comunista, junto a 
Friedrich Engels, em 1848) e Émile Durkheim (Teoria do fato social, em 1895), marcando todo 
o século com a organização de uma nova classe: o proletariado.
Antes disso, aconteceram muitas revoltas, resistências e organizações do campo à cidade, 
como a de Ned Ludd. Ele foi o responsável por destruir máquinas em 1760. Posteriormente, 
foram cogitadas leis que punissem trabalhadores por destruírem os meios de produção. 
O episódio de Ludd e várias das insurgências do fim do século XVIII se deram em oficinas 
e fábricas menores.
Só quebraram as armações dos que tinham reduzido o valor dos salários dos 
empregados; os que não tinham abaixado o valor, ficaram com suas armações 
intactas; num estabelecimento, na noite passada, quebraram quatro entre seis ar-
mações; as outras duas, que pertenciam a mestres que não tinham abaixado seus 
salários, não mexeram nelas. (MERCURY apud THOMPSON, 1987, p. 126-133)
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo
História Moderna
5
93
Os ludistas (relacionado ao nome de Ned Ludd) foram apontados muitas vezes como 
responsáveis por simples quebras de máquinas, comparando suas ações com a de vândalos 
ou desordeiros. Entretanto, entendemos esses gestos como reivindicações trabalhistas ou 
como movimentos que não aceitavam a exploração, em especial, a redução de um salário 
pré-combinado. Movimentos maiores ocorreram no século XIX e, ao mesmo tempo em que 
eram herdeiros das primeiras resistências, também foram os fundadores de sindicatos mais 
sólidos, cujos debates chegariam aos acordos das primeiras leis trabalhistas e até mesmo 
das resistências armadas, como o Movimento de 1848, na França. Tanto o ludismo como o 
cartismo, movimentos do século XIX, são exemplos disso na Inglaterra.
Camponeses e camponesas que viviam em comunidades foram jogados às ruas. Ou 
seja, não poderiam viver mais da mesma forma de antes, pois estavam apenas sobrevivendo. 
A vida tornou-se especializada pelo trabalho desenvolvido ou vendido, ao mesmo tempo 
em que estavam totalmente dissociadas as ideias de vida e trabalho, como Thompson (1987) 
afirma sobre a produção no campo e na cidade anterior à Revolução Industrial. Mas, se 
para o campo não puderam voltar, é na cidade que eles iriam resistir. Nessa época, também 
organizaram sindicatos, que foram importantes para as conquistas de alguns direitos e me-
lhorias na vida dos operários.
Conclusão
A construção de um mundo capitalista industrial teve seu início no período moderno, 
marcado por ideias defendidas com base em uma perspectiva de progresso, do qual não se 
sabia exatamente o significado. Conhecimentos variados – e até razoavelmente simples – 
sobre ciências em geral, assim como o acúmulo de capital e as novas relações de classe, for-
maram novos princípios responsáveis pela alteração econômica e social da Europa durante 
os séculos XVII e XVIII. Esses aspectos demonstram como a chamada Revolução Industrial é 
um processo contínuo, com diversos marcos, como o lançamento da máquina a vapor, do 
petróleo, da eletricidade e da robótica, que ocorreram em contextos e intensidades diversas. 
As classes sociais surgidas ainda nos séculos XVII e XVIII, como a burguesia e o operariado, 
foram também responsáveis pelas revoluções sociais e políticas dos séculos seguintes, como 
o movimento dos operários e a Revolução Francesa. Entretanto, não podem ser compreen-
didas sem uma análise sobre o novo mundo social estabelecido nesse período. Sobre isso, 
veremos mais no próximo capítulo.
 Ampliando seus conhecimentos
O texto a seguir, de autoria de Ana Beatriz Ribeiro Barros Silva, utiliza a 
análise de Engels sobre a classe operária inglesa dos séculos XVIII e XIX. 
Leia alguns excertos sobre a situação desses trabalhadores(as) e reflita 
sobre a importância dos direitos trabalhistas.
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5
História Moderna94
Acidentes, adoecimento e morte no trabalho 
como tema de estudo da História
(SILVA, 2015, p. 224-225)
Em especial, a obra A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de 
Engels, diferia das análises de seus antecessores e contemporâneos por 
tratar a classe operária no âmbito da evolução do capitalismo industrial, 
com foco no impacto social causado pela industrialização. Engels foi 
um observador astuto e acompanhou o centro nevrálgico da Revolução 
Industrial de perto. Em seu livro, examinou as profundas transformações 
e a degradação do nível de vida da classe operária inglesa. Para Engels, 
a industrialização reduziu os trabalhadores “ao papel de simples máqui-
nas, arrebatando-lhes os últimos vestígios de atividade independente”.
Conforme a análise de Engels, os operários tinham de trabalhar diaria-
mente até a completa exaustão física e moral. Tais condições de vida e 
de trabalho, com pouca e péssima comida, trancafiados em lugares insa-
lubres, seja no trabalho ou em suas habitações, só podia levar a doen-
ças devastadoras, como a tuberculose e o tifo. Engels notava certo “ar 
tísico” nas pessoas, especialmente em Londres: extremamente magras, 
com o peito estreito, olhos escavados e rostos “inexpressíveis, incapazes 
da menor energia”. Devido à sua indigesta e parca alimentação, diversas 
doenças dos órgãos digestivos eram muito comuns, como as escrófulas e 
o raquitismo.
O trabalho em si era monótono, repetitivo e embrutecedor, pois não per-
mitia nenhuma tarefa intelectual ou criativa. A duração do trabalho podia 
chegar até 16 horas diárias, sem contar os intervalos para as refeições. 
As máquinas foram paulatinamente eliminando o operariado adulto das 
fábricas, que ia sendo substituído por mulheres e crianças que, além de 
mais hábeis na lida com a maquinaria, eram mais rentáveis, haja vista 
que, em decorrência da dominação masculinae patriarcal que imperava 
na sociedade inglesa, recebiam salários bem abaixo dos pagos ao operário 
adulto do sexo masculino. A violência era usada ocasionalmente contra 
os operários, sobretudo contra as crianças. Os capitalistas exploravam o 
trabalho ao máximo, criando jornadas noturnas, o que fazia com que algu-
mas fábricas funcionassem ininterruptamente. 
De acordo com o Factories Inquiry Commission, de 1833, analisado por 
Engels, entre os operários, havia um número elevado de enfermos, cuja 
doença provinha, além das péssimas condições de vida, das longas horas 
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo
História Moderna
5
95
de trabalho. Desvios da coluna vertebral e deformações nas pernas eram 
as mais comuns, provenientes, segundo a comissão, da sobrecarga física 
exigida pelo trabalho prolongado.
 Atividades
1. Sobre o período moderno e as condições criadas para que a Revolução Industrial 
ocorresse primeiramente na Inglaterra, explique o porquê de não podermos conside-
rar que a burguesia e a plebe teriam promovido tal processo como classe.
2. Explique quais foram as condições e como se caracterizou o início da Revolução 
Industrial na Inglaterra.
3. Descreva as principais características das condições de trabalho inglesas entre os 
séculos XVII e XVIII.
4. Considerando o texto de Ana Beatriz Ribeiro Barros Silva, estabeleça uma relação 
entre as condições de trabalho e de saúde dos operários.
 Referências
BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
COGGIOLA, Osvaldo Luis Angel. Da Revolução Industrial ao movimento operário: as origens do 
mundo contemporâneo. Porto Alegre: Editora Pradense, 2007.
FALCON, Francisco José Calazans, RODRIGUES, Antônio Edmilson M. Rodrigues. Tempos Modernos: 
ensaios de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
HOBSBAWM, Eric. Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo. Rio de Janeiro, Forense 
Universitária, 2000.
______. A Era das Revoluções: Europa 1789-1848. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2009.
HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1980.
LADURIE, Emmanuel Le Roy. O Estado monárquico: França 1460-1610. São Paulo: Cia das Letras, 
1994.
MCEVEDY, Colin. Atlas de História Moderna (até 1815). São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2007
SILVA, Ana Beatriz Ribeiro Barros. Acidentes, adoecimento e morte no trabalho como tema de estudo 
da História. In: OLIVEIRA, T. B. (Org.). Trabalho e trabalhadores no Nordeste: análises e perspectivas 
de pesquisas históricas em Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Campina Grande: EDUEPB, 2015. p. 215- 
240. Disponível em: <http://books.scielo.org/id/xvx85/pdf/oliveira-9788578793333-09.pdf>. Acesso em: 
27 out. 2017.
THOMPSON, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 
1987.
As bases do pensamento político moderno e o capitalismo5
História Moderna96
THOMPSON, Edward Palmer. Costumes em Comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
______. Algumas observações sobre classe e falsa consciência. In: SILVA, Sergio; NEGRO, Luigi (Orgs.). 
As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas: Unicamp, 2001a.
______. As peculiaridades dos ingleses. In: SILVA, Sergio; NEGRO, Luigi (Orgs.). As peculiaridades 
dos ingleses e outros artigos. Campinas: Unicamp, 2001b.
 Resolução
1. Historiadores como Edward Thompson defendem a ideia de classe não como algo 
estanque, pronto para rotular diferentes contextos, pelo contrário, para eles, o con-
texto de cada acontecimento deve ser considerado. No caso da revolução burguesa, 
calvinistas, diggers,levellers, anabatistas, entre outros fizeram parte do exército de 
Oliver Cromwell, entretanto seus interesses futuros não foram iguais. Considerando 
a questão religiosa, o que os motivou em um primeiro momento foi debater contra a 
Câmara dos Comuns e dos Lordes (em especial, os diggers e levellers) a fim de obter 
mais igualdade, ideia não apoiada por Cromwell após o fim da Revolução. Por isso, 
o interesse que os motivou a lutar juntos foram os conflitos comuns, porém, com 
exceção da questão religiosa, eram grupos diferentes.
2. A Lei dos Cercamentos foi um dos primeiros atos importantes para impulsionar a 
Revolução Industrial, visto que o excesso de sujeitos enviados dos campos às cida-
des proporcionou aos donos dos meios de produção a vantagem de manter salários 
baixos, produção de alimentos em larga escala e o acúmulo de capital para a ex-
pansão do sistema fabril. A Inglaterra também dispunha de uma boa malha fluvial, 
carvão para as máquinas a vapor e, sobretudo, tinha acumulado grandes riquezas 
com a prática de pirataria e com as colônias, que, por sua vez, também ofereciam 
matérias-primas e mão de obra escrava.
3. Insalubridade, pouco espaço e umidade tanto nas moradias quanto nas fábricas 
eram bastante comuns. A alimentação também era precária, visto que muitos salá-
rios eram recebidos em seu mínimo, já que eram descontados aluguéis, multas por 
faltas ao trabalho (já que folgas semanais eram pouco respeitadas), fazendo com que 
pouco restasse. Quanto mais pessoas de uma família trabalhassem, havia mais chan-
ce de terem uma alimentação básica. Isso não era o caso de muitos, visto que, caso 
houvesse mulheres ou crianças, os salários também eram mais baixos.
4. Problemas como desvios na coluna vertebral, deformações nas pernas, problemas 
digestivos e magreza exagerada eram comuns, provavelmente devido à sobrecarga 
física exigida pelo trabalho prolongado, pela falta de descanso e também pela ali-
mentação escassa em nutrientes.
História Moderna 97
6
O Estado moderno e a 
representação política 
no Ocidente
“A essência da história é a sua eterna mutabilidade.” (BURCKHARDT, 1961, p. 33)
Essa citação, do historiador Jacob Burckhardt, aborda a ideia de transitoriedade na 
História. Os acontecimentos que a permeiam são diversos, transformando as sociedades 
ao longo de horas e de séculos. Sabemos que o tempo em cada contexto pode ter signi-
ficados diferentes e, como historiadores(as), compreendemos que nada é para sempre.
Neste capítulo, nosso intuito é trazer algumas práticas sociais e culturais impor-
tantes do período moderno, visto que essas interações demonstram a complexidade 
da formação do Estado moderno e de seus personagens. Estes, por sua vez, são muito 
mais do que reis, papas ou nobres; são aqueles que pertencem à História “vista de 
baixo” e que estavam nas ruas fugindo de epidemias, mantendo suas tradições e fes-
tas – por meio de cantos, rituais e leituras –, mesmo com as mudanças do campo para 
a cidade que objetivavam diminuir suas práticas identitárias. Para isso, trazemos algu-
mas ideias do que seria essa História vista de baixo e a sociedade do Antigo Regime, 
por meio da perspectiva desses grupos subalternos. Também objetivamos finalizar o 
capítulo com a ideia da economia moral, termo analisado por Edward Thompson sobre 
os motins de operários e da população que passava fome, que foi muito além de uma 
manifestação confusa ou sem sentido.
O Estado moderno e a representação política no Ocidente6
História Moderna98
Os historiadores citados neste capítulo nem sempre estão inscritos na mesma vertente 
historiográfica, porém, eles fizeram uso de princípios e de ferramentas da virada cultural 
– ou cultural turn –, processo no qual as práticas culturais ganharam mais significado, espe-
cialmente com os olhares da antropologia.
6.1 Personagens do Estado moderno
Em um contexto de debate dos princípios e tradições marxistas no período da Guerra 
Fria, o historiador social Edward Palmer Thompson, junto a outros da Nova Esquerda 
Inglesa, fez novas análises sobre a historiografia a partir de 1950-1960, em especial, con-
siderando as práticas culturais e os sujeitos sociais que passaram despercebidos na escrita 
da História. No caso europeu, muitas vezes a história foi (e é) marcada poruma história de 
grandes nomes políticos, especialmente de reis – e, às vezes, de rainhas –, papas, senhores 
feudais e burgueses – a nova classe social.
Thompson buscou descontruir essa história oficial e política, a qual, por vezes, não con-
siderou aqueles que também construíram castelos e morreram em batalhas ou aqueles que 
estavam nos campos e nas indústrias lutando pela sobrevivência em um mundo baseado em 
classe, etnia e gênero. No livro Formação da classe operária inglesa, de 1963, o historiador traz 
as ações de grupos sociais durante os séculos XVII e XVIII, que estavam se tornando uma 
classe, especialmente no século XIX.
Não pretendemos aqui esmiuçar livros dos autores(as) citados(as) ao longo desta obra, 
porém, visamos compreender de que forma a ideia conhecida como a História vista de baixo 
colabora para o entendimento e conhecimento dos muitos personagens. Nesse sentido, se 
Thompson (1987) afirma que as categorias são históricas e contextuais, conforme citação 
a seguir, precisamos então analisar a ação de diversos grupos que buscaram, por meio de 
práticas culturais, participar de seu tempo:
Não vejo a classe como estrutura, nem mesmo como uma categoria, mas como 
algo que ocorre efetivamente e cuja ocorrência pode ser demonstrada nas rela-
ções humanas [...] a noção de classe traz consigo a noção de relação histórica 
[...] A classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências 
comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus in-
teresses diferem (e geralmente se opõem dos seus). (THOMPSON, 1987, p. 9-11)
Longe de diminuir as ações sociais do período moderno como algo apenas de operários 
e camponeses (grupo repleto de diferentes camadas sociais), que, na maioria das vezes, são 
o tema de Thompson, objetivamos trazer a diversidade cultural de um período para além de 
uma historiografia de reis e rainhas. A tradição e a cultura popular, assim como a sociedade 
em si, são os temas analisados pelo historiador.
A partir do momento em que nós, historiadores(as), consideramos a diversidade de 
objetos e suas trajetórias de lutas, podemos perceber como se configura a ideia de clas-
se, diferentemente de uma perspectiva de pensá-la como algo pronto ou homogêneo, ou, 
nas palavras de Thompson: “a consciência de classe é a forma como essas experiências são 
O Estado moderno e a representação política no Ocidente
História Moderna
6
99
tratadas em termos culturais, encarnadas em tradições, sistemas de valores, ideias e formas 
institucionais” (THOMPSON, 1987, p. 10).
No caso inglês, sabemos que diggers e levellers, os mais simples, além de perseguidos por 
Oliver Cromwell, não foram respeitados em suas reivindicações. Isso fez com que se orga-
nizassem em termos institucionais e religiosos durante o século XVIII e, especialmente, no 
século XIX. Nesse sentido, os grupos analisados por Thompson são os tecelões, luddistas, ar-
tesãos, operários etc., os quais resistiram ao defender interesses em comum (THOMPSON, 
1987, p. 13).
Nesse sentido, Michelle Perrot, historiadora cultural das mulheres, percorre um cami-
nho semelhante, porém enfatizando a ação de mulheres (na França) ao longo da historiogra-
fia contemporânea do século XIX (PEDRO, 2003), demonstrando que elas não foram passi-
vas, nem em casa, nem como operárias. Tanto Thompson quanto Perrot, apesar da diferença 
em seus objetos de estudos, trazem a ideia de que as experiências cotidianas comuns, as 
lutas e as resistências demonstram a complexidade de uma época e de uma classe que não 
seria determinada exclusivamente pela posição econômica, mas pelas disputas nas relações 
de poder estabelecidas em cada sociedade. Não obstante, demonstram que o período mo-
derno não foi determinado ou direcionado apenas de acordo com a vontade das classes mais 
abastadas ou com o poder político.
O historiador Emanuel Le Roy Ladurie, com base na Micro-História e na Nova História, 
traz algumas narrativas sobre o período moderno em História dos camponeses franceses. Antes 
de analisar uma delas, a Micro-História é uma perspectiva historiográfica na qual o historia-
dor se aproxima de um acontecimento ou fonte histórica a fim de compreender detalhes que 
muitas vezes não são observados (GINZBURG, 2007). Entretanto, o historiador amplia a sua 
análise para além do objeto, compreendendo o contexto no qual este está inserido. Portanto, 
uma comunidade não é estudada apenas pelo o que ela é, mas pelo que representa do con-
texto social em que está inserida, suas práticas sociais, as trajetórias de seus indivíduos, por 
meio de suas revoltas, julgamentos e histórias de vida.
O objetivo central é perceber, por meio da vida ou história de algo/alguém, como é 
possível compreender os problemas sociais, políticos e econômicos (GINZBURG, 2007). 
A Micro-História ganhou ainda mais espaço na historiografia quando passou a apresentar 
sujeitos com ações intrigantes – de acordo com os interesses de pesquisa –, mas, principal-
mente, ao desconstruir a ideia de que grupos mais simples não tinham – ou haviam perdi-
do – práticas culturais e sociais.
Desse modo, Ladurie (2007) traz uma narrativa muito mais complexa em relação à ideia 
de que camponeses (de várias camadas) eram aqueles que apenas obedeciam aos senhores 
do Antigo Regime em Sacy, atual região da Borgonha, em meados do século XVIII. O his-
toriador narra a história de Edme, um juiz ou intendente local, cujas funções e eleição se 
deram da seguinte forma:
Ao cabo de um cursus honorum que transformou Edme em notário, depois em 
procurador, depois juiz, o herói desse cursus assumiu o poder na aldeia: passou 
a ser, nas suas funções de preboste, realmente inamovível, como já era o seu an-
tecessor; Edme distribui justiça segundo sua consciência, e segundo sua cultura 
O Estado moderno e a representação política no Ocidente6
História Moderna100
de prático; a senhoria deixa em suas mãos as funções de juiz e de árbitro, desde 
que receba regularmente dele as receitas monetárias dos dízimos e direitos se-
nhoriais que o encarrega de cobrar dos devedores de Sacy. (LADURIE, 2007, 
p. 225, grifos do original)
Cursus honorum significa “caminho de honras”. Era a trajetória profissional das magis-
traturas romanas por meio de indicação. O trecho de Ladurie deixa evidente que a escolha 
de Edme foi por indicação e, talvez, possamos entendê-la como uma relação de interesses 
mútuos entre a senhoria e Edme. O caso é que Edme demonstra qualidades, as quais fize-
ram com que a senhoria confiasse nele, porém, para que se mantivesse no poder, precisava 
manter a organização na sociedade de Sacy. É justamente nesse ponto que podemos apontar 
uma relação de poder bastante complexa entre senhoria, Edme (ou o seu cargo) e o restan-
te dos camponeses de Sacy, responsáveis pela manutenção dos impostos. Afirmamos isso 
diante do que Ladurie aponta sobre Edme em seu cargo:
Edme, sabiamente, evita arrancar a pelo dos pagadores de foro de sua jurisdição 
e súditos dos donos de terras, a fim de manter a confiança deles. Agindo em 
parceria com o pároco, seu amigo e cúmplice, mete o nariz dos negócios das fa-
mílias; funciona, em seu pequeno tribunal, como árbitro entre a mãe e os filhos. 
Respeitando as estruturas do clã na terra de cultura, e especialmente as concen-
trações da mesma linhagem, compra aqui e ali (dispondo de informações sobre 
a fortuna de seus concidadãos, ou sobre sua insolvência) algum pedaço de terra 
a preço de ocasião. [...] Empresta dinheiro aos moradores da aldeia, e transforma 
esses pequenos empréstimos em meios de influência e de poder, mais do que em 
exercício de usura. (LADURIE, 2007, p. 226)
Na atuação do juiz local, é possível perceber como precisava agradar à senhoria, man-
tendo os impostos, ao mesmo tempo em que a cobrança não deveria ser radical, e contar com 
o apoio do clã local, da Igreja e também daqueles que seriam os menos favorecidos por toda 
essa política. Entretanto, os pequenos empréstimos feitos, conforme aponta Ladurie,sem ser 
usura, permitem-nos perceber que havia receios dos ânimos dos camponeses. Eles também 
poderiam ser uma ameaça aos interesses de Edme e de quem ele representava. Mas Edme 
sabia que deveria se precaver de problemas e manter uma relação menos acirrada, pois, 
apesar de ser o representante da senhoria, dividia em diversos momentos o poder com os 
chefes comunais eleitos pelos camponeses, como os escrivães, pastores e guardas do campo 
(LADURIE, 2007). Assim, embora sempre tivesse a palavra final – para que problemas maio-
res não ocorressem –, acordos locais e regionais deveriam ser realizados.
Compreender parte da dinâmica da sociedade camponesa do Antigo Regime é perceber 
que diversas transformações sociais já estavam ocorrendo muito antes da Revolução Francesa 
ou de uma divulgação maior das ideias iluministas. Principalmente, significa defender que 
o povo1 não é alienado de sua condição e dar o lugar de direito às revoluções conduzidas 
1 Jim Sharpe (1992, p. 44) alerta sobre a diversidade de grupos sociais que compunham a categoria 
“povo” no século XVI. Dessa forma, consideramos tal ideia complexa e, nesse caso, ele representa 
aqueles que de alguma forma estavam questionando a hierarquia social ou política na qual esta-
vam inseridos.
O Estado moderno e a representação política no Ocidente
História Moderna
6
101
por ele. Tal perspectiva só é perceptível quando casos como os motins de Thompson, como 
as relações complexas de poder entre mulheres de Perrot e as negociações intraclasses de 
Ladurie, são compreendidos.
Mas se a questão central desses(as) historiadores(as) é perceber como as práticas cul-
turais acontecem e como influenciam no mundo social, econômico e político europeu dos 
séculos XVII e XVIII, precisamos nos questionar: que práticas culturais são essas?
Primeiramente, é preciso desmitificar algumas características do mundo cultural do 
período. Peter Burke, historiador cultural, alerta-nos sobre vários aspectos da cultura po-
pular dessa época. Para tal, consideramos as transformações ocorridas no mundo rural e 
urbano decorrentes do processo industrial ou de diminuição das fabricações mais artesanais 
de qualquer produto. Nesse caso, a cultura popular – conceito complexo – pode ser definida 
da seguinte forma: todas as práticas cotidianas ligadas a folclore, danças, literatura, medi-
cina popular, literatura de cordel, enfim, elementos relacionados aos valores simbólicos de 
grupos sociais não letrados (BURKE, 2005).
Esses grupos utilizaram suas práticas para questionar ou se manifestar nos assuntos 
mais diversos, especialmente em relação àqueles que teriam a chamada cultura erudita – das 
classes mais abastadas. Ressaltamos que ambas (a cultura popular e a erudita) sempre esti-
veram ligadas diretamente, relacionando-se, ou seja, de forma alguma estão dissociadas. Tal 
perspectiva, para Burke, reafirma que elas são tão próximas que as próprias nomenclaturas 
poderiam ser compreendidas de modo diferente na historiografia (BURKE, 2005). Essa dis-
cussão é decorrente de estudos sobre o período moderno, tempo em que, apesar do aumento 
do consumo de produtos pelos camponeses, como casas mais repletas de móveis e objetos, 
foram eles que tiveram seu estilo de vida mais alterado, visto que o mundo urbano estava 
sendo construído. Portanto, analisar a cultura popular ou como viviam os camponeses é 
perceber como eles resistiram diante das mudanças e como também participaram ativamen-
te de seus processos sociais.
Sendo assim, para Burke, o livro e a alfabetização – mesmo que bastante longínqua do 
que consideramos ideal – foram, em maior intensidade, os modificadores desse período.
Entre 1500 e 1700, na França, publicaram-se mais de quatro mil títulos de livros (BURKE, 
1995). Deles, três mil apenas no século XVIII. Entre assinaturas de testamentos, contratos de 
casamento ou qualquer outro documento dos cartórios, historiadores têm buscado com-
preender quem eram os poucos leitores e qual é a relação entre a edição de livros e a pro-
pagação deles. Cerca de 65% dos artesãos (núcleos urbanos) eram letrados, contra 20% dos 
camponeses e, em geral, concentravam-se mais na Escandinávia, na Holanda e na Inglaterra. 
Esses números mudaram significativamente a partir de 1700.
Ao mesmo tempo, segundo Burke, reformadores objetivavam lapidar a cultura popular 
de acordo com os seus interesses políticos e econômicos do período pós-Reforma, porém, 
com restrições, pois
[...] temiam que a educação pudesse tornar os pobres descontentes com sua po-
sição na vida e estimular os camponeses a deixar a terra. Alguns, como Voltaire, 
achavam que a maioria das crianças simplesmente não devia aprender a ler e 
O Estado moderno e a representação política no Ocidente6
História Moderna102
escrever; outros, como Jovellanos, achavam que os camponeses deviam aprender 
os rudimentos de leitura, escrita, aritmética, mas só [...] (BURKE, 1995, p. 274)
Teóricos e monges deixam evidente a preocupação do contexto, a de que aquele que 
aprendesse a ler e a interpretar poderia transformar o seu lugar social, especialmente in-
vertendo as normas de sua classe. Esses homens e essas mulheres do Antigo Regime – de 
várias camadas e contextos sociais – estavam tendo acesso aos livros, em geral, folhetos, 
almanaques e livros de notícias de no máximo 32 páginas e em papéis de pouca qualidade 
(BURKE, 1995).
Em toda a Europa moderna se espalhavam esses livros, em maior ou menor intensida-
de. Porém, diferentemente do que consideramos ser um livro, Burke considera que
O conteúdo do material impresso popular não sugere nenhuma violenta ruptu-
ra da continuidade. Muito do que era impresso já fazia parte do repertório de 
apresentadores dentro da tradição oral, e traz as marcas dessa origem: baladas 
e diálogos, sermões simulados e peças de mistério [...] a continuidade pode ser 
devida aos usos do material impresso, que não se destinava tanto a uma leitura 
silenciosa e individual, mas a uma leitura em voz alta para vizinhos ou parentes 
menos letrados. (BURKE, 1995, p. 278)
Percebemos que a leitura era um acontecimento comum, mas em outro sentido: o de al-
guém lendo para muitos. Além disso, temos de considerar, conforme Burke (1995), que eram 
muitos os livretos, mas poucos os títulos e gêneros. Por isso, entendemos que as histórias 
que se perpetuavam no período moderno eram, senão iguais, muitos semelhantes àquelas 
da cultura popular perseguida pela Reforma e pela Contrarreforma. Portanto, apesar das 
limitações desses períodos, dos êxodos rurais e do processo industrial, a cultura popular era 
legitimada pela leitura desses livros e também pelos usos que a narrativa deles permitiu ao 
serem novamente ouvidos. Essas estratégias foram utilizadas e narradas de diversas manei-
ras pela cultura popular, não somente pelos livros, mas por várias tradições, que foram res-
ponsáveis pela defesa da cultura daqueles que, de uma forma ou de outra, eram excluídos 
ou manipulados pelos novos processos históricos.
6.2 Sociedade camponesa no Antigo Regime
O Antigo Regime foi um período de grandes mudanças na Europa, em especial, em 
algumas regiões dos Estados alemães, da Holanda, da Bélgica e da Inglaterra. Também foi 
marcado por um absolutismo justificado pelo cristianismo, até a busca de uma centralização 
administrativa, comandada pelo rei e pela nobreza.
Muitos camponeses e burgueses não aceitavam os impostos cobrados, bem como os 
privilégios dos nobres. Nesse sentido, foram inúmeras as revoltas no campo, contestando 
tais aspectos. Uma dela, a dos Pitauts, iniciada em 1548, objetivou acabar com a gabela (sal) – 
tributo criado pelo rei ainda naquela década e fiscalizado pelos cavaleiros do sal, os quais 
foram duramente perseguidos pelos rebeldes. O historiador Ladurie (2007) traz essa história 
ao afirmar que os pitauts eram padres que objetivavam manter a paz entre o rei e o grupo 
O Estado moderno e a representação política no Ocidente
História Moderna
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103
local, camponeses elavradores. Entretanto, não é o que ocorreu nessa revolta, visto que o 
padre defende os interesses dos grupos mais simples, em busca de uma justiça social.
Os grupos eram vários e dirigiram sua hostilidade aos comerciantes, os responsáveis 
pelo armazenamento do sal recolhido. Ladurie aponta que os pitauts acabaram não contes-
tando o senhorio, mas dirigindo seus olhares diretamente a esses comerciantes:
Diferentemente dos grandes e ricos lavradores das proximidades de Paris, os 
camponeses de Angoumois frequentemente são primitivos restritos à agricultura 
de subsistência. Tanto e de tal modo que, a despeito das fricções inevitáveis, sua 
agressividade maior não se volta contra seu senhor: proprietário, este realmente 
retirava previamente sua porção in natura pelo sistema a meia; isso não criava 
problemas altamente insolúveis para os camponeses. As verdadeiras dificulda-
des surgiam com o fisco, com o cobrador de gabelas. Porque a pequena porção 
dos produtos da terra que os camponeses de Angoumois, apenas ingressando na 
economia monetária, chegavam a converter em dinheiro (pela venda) era aboca-
nhada em boa parte pelo cobrador de gabela. (LADURIE, 2007, p. 33-34)
As ideias de Ladurie levam à compreensão de que os camponeses mais simples viam 
nos comerciantes seus inimigos diretos, por darem a eles, obrigatoriamente, seus últimos 
recursos. Tal postura não significa que não viam nos nobres e nos senhores grupos também 
opostos a eles, porém, como iriam ter força para combatê-los? Ladurie chama atenção in-
clusive para o fato de os comerciantes, ao serem defendidos pelos poderosos, enfrentarem a 
ira maior dos camponeses, ou seja, nas batalhas estes viam primeiramente os comerciantes 
como seus inimigos, mas nós, historiadores(as), sabemos que o senhorio era o representante 
maior nessa hierarquia administrativa.
A rebelião terminou em 1549, com o apoio dos senhores àqueles que haviam lutado, 
apenas para que não perdessem sua mão de obra para o encarceramento ou para a forca. 
Além disso, lavradores e padres não lutaram diretamente contra o poder feudal que ainda 
era comum na relação entre rei e Estado na França do século XVI (LADURIE, 2006). Para os 
revoltosos, além de terem lutado por seus interesses, conseguiram que naquelas regiões não 
fosse cobrada a gabela.
Assim, o acontecimento dos pitauts nos mostra uma realidade muito além de estagnada, 
isto é, uma sociedade demarcada socialmente por meio de camadas sociais, mas que tam-
bém sofre questionamentos, mesmo em um mundo repleto de características ora modernas, 
ora medievais.
Ladurie, com sua perspectiva fundamentada na Micro-História, analisa a vida de pes-
soas simples que contestam a ordem econômica de centralização administrativa posta pelo 
absolutismo francês. Ressaltamos ainda que, apesar do silêncio de mais de um ano após o 
fim da revolta dos pitauts, outros levantes camponeses ocorreram na França e na Inglaterra 
(tema da próxima seção).
Ainda no século XVI, o moleiro camponês Domenico Scandella, o Mennochio, objeto 
de análise do historiador italiano Carlo Ginzburg, circulava por um mundo que não era o 
seu. Ao ler livros e folhetos condenados pela Inquisição, Mennochio demonstrou que o seu 
O Estado moderno e a representação política no Ocidente6
História Moderna104
lugar social não o definia e, além disso, desafiava as ordens da Igreja católica. Por meio da 
circularidade cultural, perspectiva na qual a cultura é vista de maneira plural, complexa, 
negando as hierarquizações entre “alta e baixa cultura” (GINZBURG, 2006, p. 10), que en-
volvem diversos grupos sociais (BAKHTIN, 1985) e com base na antropologia, o historiador 
Ginzburg percebe todos os detalhes das fontes, analisando a trajetória do moleiro. Desse 
modo, considerando o período pré-industrial europeu, as práticas culturais que se movem 
de “baixo para cima”, e vice-versa, tornam-se o principal objeto analisado.
No caso do moleiro, ele era alfabetizado, possuía livros como o Alcorão e tinha uma 
postura diversa da esperada de um cristão camponês do período, bem como em suas falas 
durante os julgamentos, visto que mencionou aspectos pagãos da cultura popular – alvo de 
investigação dos inquisidores. Estes, ainda em um processo de início da Contrarreforma, de-
pendiam do que escutavam, de seus interesses e das pressões sofridas para julgarem. Nesse 
contexto, o moleiro, ao defender seus princípios, afirmou o seguinte:
A gema seria a terra, a clara o ar, a pele fina entre a clara e a casca seria a água, 
e a casca o fogo. Dessa mesma forma estão juntos o frio e o calor, e o seco com o 
úmido se temperam. Nossos corpos são feitos e compostos por esses quatro ele-
mentos: a carne e os ossos seriam a terra, o sangue a água, a respiração o ar, e o 
calor o fogo [...]. O nosso corpo está sujeito às coisas do mundo, mas a alma está 
sujeita só a Deus, porque ela é a imagem dele [...] E me parece que na nossa lei o 
papa, os cardeais, os padres são tão grandes e ricos, que tudo pertence à Igreja e 
aos padres. Eles arruínam os pobres. Se têm dois campos arrendados, esses são 
da Igreja, de tal bispo ou de tal cardeal [...]. (GINZBURG, 1987, p. 287)
Considerando o contexto inquisidor, bem como os elementos que compõem um conhe-
cimento mais científico ou natural, é perceptível em quais aspectos um moleiro camponês – 
por mais que fosse respeitado em sua localidade – cometeu diversas heresias. Ao questionar 
os bens do clero, sugerindo as práticas econômicas que destoavam das realidades sociais, o 
moleiro despertou a fúria dos inquisidores, porém, não mais do que quando afirmou que 
apenas Deus poderia julgar a todos (e a ele). Não obstante, ele tinha leituras e práticas cul-
turais que escapavam à ortodoxia cristã. Esse tipo de comportamento fugia ao estabelecido 
aos camponeses e aos preceitos da Contrarreforma. Apesar do receio, o moleiro, em seu pri-
meiro julgamento, não negou suas ideias e reafirmou o seu raciocínio. Para confirmar parte 
do seu conhecimento, o moleiro é descrito da seguinte forma:
[...] ele projetava sobre a página impressa elementos tirados da tradição oral. 
É essa tradição, profundamente radicada nos campos europeus, que explica 
a persistência tenaz de uma religião camponesa, intolerante quanto aos dog-
mas e cerimônias, ligada aos ciclos da natureza, fundamentalmente pré-cristã. 
(GINZBURG, 1987, p. 209)
Ginzburg evidencia a resistência das culturas populares, especialmente em um tempo 
em que a Igreja católica e as protestantes disputavam o comando do mundo político e do 
econômico. No caso italiano, a Igreja católica era mais relutante ainda no que diz respeito 
a qualquer tipo de conhecimento científico que não fosse controlado por ela. É importante 
lembrarmos que o século XVI não é só o tempo da Reforma (1517) e da Contrarreforma 
O Estado moderno e a representação política no Ocidente
História Moderna
6
105
(meados do XVI), mas do Renascimento – ideias que parecem ter chegado ao mundo do 
camponês Menocchio. Inquisidores do período não chegaram a uma constatação sobre a 
religião do moleiro, pois o seu período ainda era o de transição para a Reforma, ou, como 
afirma Ginzburg: “muito mais antigo do que a Reforma” (GINZBURG, 1987, p. 70). Além 
disso, ao verbalizar ideias pagãs em seus discursos, o moleiro não indicou qual era oficial-
mente sua religião, confundindo a sentença dos inquisidores que ainda não tinham códigos 
tão evidentes de julgamento, considerando que a Contrarreforma não estava em seu auge.
As ideias do moleiro não corroboravam de qualquer forma com as posturas do cristia-
nismo. Ele acabou condenado à fogueira em 1599, após o seu segundo julgamento, por não 
ter respeitado o compromisso de permanecer em silêncio no que diz respeito às suas ideias 
sobre alma/espírito/corpo. A resistência camponesa ao estabelecido pelo Antigo Regime fica 
evidente tanto na história de Carlo Ginzburg quanto na de Emmanuel Le Roy Ladurie.
Na próxima seção, nosso objetivo é trazer algumas ideias sobre a realidadeinglesa 
do período, porém, com enfoque no mundo industrial ou na produção em larga escala 
da agricultura.
6.3 A economia moral da multidão 
Edward Thompson (1987) busca nas reações e motins da multidão do século XVIII os 
elementos indicadores de que tais revoltas não eram espontâneas ou sem sentido. O preço 
do trigo (e do pão) não deveria ser alto, caso houvesse necessidade dos mais pobres. Com 
o crescimento do mercado agrícola inglês, houve abuso de comerciantes, produtores e atra-
vessadores. Nesse caso, grupos populares afirmavam que havia uma tradição em manter 
um preço em relação a produtos de subsistência. Além disso, esses grupos também acusa-
vam produtores e comerciantes de venderem farinha de qualidade ruim àqueles que menos 
podiam pagar, tutelados pelo “Estado”, em uma prática paternalista, causando problemas 
de saúde e doenças.
Nesse contexto, esses grupos populares organizavam-se devido ao desrespeito tanto 
quanto às suas necessidades como pelos problemas já causados. Ações comuns tomadas 
nesse período eram conhecidas como motins, cuja definição seria:
O motim da fome na Inglaterra do séc. XVIII era uma forma altamente complexa 
de ação popular direta, disciplinada e com objetivos claros [...] É certamente ver-
dade que os motins eram provocados pelo aumento dos preços, por maus pro-
cedimentos dos comerciantes ou pela fome. Mas essas queixas operavam dentro 
de um consenso popular a respeito do que eram práticas legítimas e ilegítimas 
na atividade do mercado, dos moleiros, dos que faziam o pão etc. [...] Contra 
essa visão espasmódica, oponho minha própria visão. É possível detectar em 
quase toda ação popular do século XVIII uma noção legitimadora. Por noção 
de legitimação, entendo que os homens e as mulheres da multidão estavam im-
buídos da crença de que estavam defendendo direitos ou costumes tradicionais. 
(THOMPSON, 1998, p. 152)
O Estado moderno e a representação política no Ocidente6
História Moderna106
Thompson retoma o termo motim e afirma que não é algo simples, mas complexo. 
É uma ação popular organizada e sobre o cotidiano daquela sociedade, ou seja, envolvida 
com negociações entre as camadas sociais, tanto por interesses econômicos quanto por prá-
ticas culturais.
Entre diversos interesses, um deles seria a defesa de direitos com base em tradições, isto 
é, a multidão, diante das mudanças econômicas com base no acúmulo e no lucro, alegava 
que suas tradições nas negociações do trigo e do pão deveriam ser mantidas. É nesse sentido 
que o historiador sugere o termo economia moral, pois está mais relacionado a um contexto 
de disputas de classe dentro de um novo modelo econômico, no qual os produtores, visan-
do ao lucro, vendem a preço de mercado, que nem sempre é justo. Ideias de reciprocidade, 
de valores comunais e de subsistência tangenciam a organização de uma economia moral. 
Portanto, esta pode ser resumida da seguinte forma:
Tinha como fundamento uma visão consistente tradicional das normas e obri-
gações sociais, das funções econômicas peculiares e vários grupos sociais na co-
munidade, as quais, consideradas em conjunto, podem dizer que constituem a 
economia moral dos pobres. O desrespeito a esses pressupostos morais tanto 
quanto a privação real, era o motivo habitual para a ação direta. (THOMPSON, 
1998, p. 152)
Em Economia moral da multidão, Thompson preocupa-se em debater a cultura popular, 
com enfoque nas tradições e formas de manifestação, cujo objetivo final é dar voz e lugar 
àqueles que são da História vista de baixo. Além disso, o que o historiador traz é um debate 
entre o individualismo burguês que estava sendo construindo em um mundo capitalista 
industrial, ao mesmo tempo em que práticas culturais de grupos comunitários começaram a 
ser condenadas. Esses motins não se tratavam apenas de invasão a fazendas, aos estabeleci-
mentos, ou, menos ainda, a roubos, como se fossem criminosos, tratavam-se de uma reação 
ancorada pela fome e pelas imposições que seus estilos de vida – e de muitas gerações – es-
tavam sofrendo em nome do lucro de poucos.
Os grupos também se opunham a qualquer iniciativa paternalista ao defender suas 
tradições e seus direitos costumeiros, afinal, se permitissem que práticas paternalistas do 
“Estado” fossem comuns, além de perder direitos, teriam de aceitar menos do que seus 
costumes de subsistência.
Conclusão
Com este capítulo objetivamos trazer algumas ideias que nos permitem pensar a Europa 
do período moderno além de uma perspectiva homogênea e hierarquizante. Foram muitos 
os grupos que colaboraram na construção de princípios políticos, econômicos e sociais, tan-
to para aquela época como para o mundo contemporâneo. Muito além de uma perspectiva 
dividida em três grupos essenciais, como é muito comum ao Antigo Regime (reis; clero e no-
breza; burguesia/plebe), a historiografia apresentada no capítulo demonstra que os grupos 
são heterogêneos, que as suas relações são tangenciadas por questões de poder e de disputa 
O Estado moderno e a representação política no Ocidente
História Moderna
6
107
por ele, e, nesse sentido, resistências e negociações são comuns, especialmente quando ana-
lisadas sob o viés das práticas da cultura popular daqueles que pertencem à “História vista 
de baixo”.
 Ampliando seus conhecimentos
O texto de Dominick LaCapra a seguir, em conjunto ao que estudamos neste 
capítulo, estabelece uma relação mais estreita entre a cultura camponesa e a 
ideia de cultura popular. Convidamos para uma leitura que envolve as práticas 
culturais e as resistências de quem as conduz.
O queijo e os vermes: o cosmo de um 
historiador do século XX
(LACAPRA, 2015, p. 307-308)
[...] A cultura popular oral, da qual a cultura camponesa é um compo-
nente, pode ser reconstituída apenas de uma forma bastante incerta, dada 
a natureza da evidência. E, como indica Ginzburg, as forças de resistência 
à cultura hegemônica encontram-se amiúde entre os silêncios do passado, 
os quais devem ser considerados pelo historiador. Todavia, esse esforço 
não implica que a “voz” do historiador domine completamente o pas-
sado. Tampouco exclui a necessidade de investigar os modos de acomo-
dação às forças dominantes, pois esses oferecem um contexto realista para 
a apreciação da natureza – mais ou menos excepcional ou disseminada – 
da própria resistência. Com efeito, o historiador deve estar alerta para a 
possibilidade de tensões e contradições no interior de uma cultura tanto 
quanto entre os seus níveis, incluindo a cultura popular. Ginzburg critica 
a história das mentalidades por sua “insistência nos elementos inertes, 
obscuros, inconscientes de uma determinada visão de mundo” e por sua 
“conotação terminantemente interclassista” (p. 23-24). Entretanto, ele não 
apenas ameaça reproduzir em um outro nível a insistência no incons-
ciente estrutural, como também tende a deslocar a suposição de uniformi-
dade cultural da sociedade como um todo para as relações dentro de uma 
classe ou de um nível de cultura.
A própria cultura hegemônica não é um todo homogêneo; ela varia ao 
longo do tempo, e as suas fissuras ou incertezas, em qualquer momento 
dado, oferecem espaços nos quais a resistência pode se manifestar. Em 
certos períodos, pode ser até difícil discernir o que é hegemônico ou 
O Estado moderno e a representação política no Ocidente6
História Moderna108
ortodoxo. Por meio do conflito, a Reforma e a Contrarreforma intensi-
ficaram a unidade no interior dos grupos antagônicos, e é possível que 
tenha havido “uma distinção cada vez mais rígida entre cultura das clas-
ses dominantes e cultura artesanal e camponesa” (p. 190). Contudo, o 
século XVI em geral foi um período em que a própria hegemonia estava 
em questão, e as linhas de comunicação não estavam completamente par-
tidas, notadamente (como assinala Ginzburg) entre segmentos da cultura 
popular e da alta cultura. A Igreja pré-Reforma podia se dar ao luxo de 
ser relativamente tolerante, na medida em que os desafios a ela não sehaviam cristalizado em movimentos organizados em grande escala e em 
instituições alternativas. Quando do aparecimento da Reforma, a crosta 
não estava simplesmente partida de maneira a permitir a emergência de 
heterodoxias. Tal como nos primeiros séculos do cristianismo, a própria 
natureza da ortodoxia tinha de ser definida (ou redefinida), e a extensão 
dos desafios, tanto da parte de protestantes de várias confissões quanto 
da parte de heterodoxias relativamente não cristãs (bem como de diversas 
misturas), ajudou a gerar ansiedade e intolerância dogmática. A própria 
Igreja Católica exibiu alguns dos traços espiritualmente mais “rigoro-
sos” dos seus críticos reformados – incluindo a sua “seriedade” e ímpeto 
anticarnavalesco –, não apenas para combatê-los de maneira mais efetiva 
como também devido aos elementos internamente persuasivos das for-
mas mais recentes.
[...]
 Atividades
1. O mundo camponês foi o mais afetado pela industrialização da Europa, tanto pela 
necessidade de mão de obra nas fábricas quanto de terras para que o campo produ-
zisse mais, em larga escala e com boa qualidade. Explique de que modo isso afetou a 
vida cotidiana dos camponeses e traga ideias de como alguns reagiram, desafiando 
a ordem católica e econômica.
2. Analise a relação entre a cultura popular e os estudos do período moderno, explican-
do de que modo tal conceito pode colaborar com a historiografia no entendimento 
das relações de poder daquela época.
3. Explique a diferença entre economia moral e a ideia de motins, visto que am-
bas têm uma relação estreita, porém são analisadas de formas diferentes por 
Edward Thompson.
O Estado moderno e a representação política no Ocidente
História Moderna
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109
4. O historiador Dominick LaCapra debate sobre o momento em que emerge a Refor-
ma, afirmando que os dogmas ortodoxos demoraram para ser definidos, justamente 
por ser a Igreja reformada muito nova naquele período. Ao reler o texto de LaCapra, 
quais são as relações que podemos estabelecer com o processo em que o moleiro 
Menocchio foi julgado?
 Referências
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Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1985.
BUCKHARDT, Jacob. Reflexões sobre a História. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1961.
BURKE, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editora Unesp, 1992.
______. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
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GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela 
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LACAPRA, Dominick. O queijo e os vermes: o cosmo de um historiador do século XX. Topoi, Rio 
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LADURIE, Emmanuel Le Roy. História dos Camponeses Franceses: da peste negra à revolução. Rio 
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PEDRO, Joana. Um diálogo sobre mulheres e história. Michele Perrot: a grande mestra da História 
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out 2017.
THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. v.3.
______. A economia moral revisitada. In: ______. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popu-
lar tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
 Resolução
1. Camponeses, em suas várias camadas sociais, ou foram expulsos de suas terras – 
passando a trabalhar para outros camponeses ou nas cidades –, ou eram calados de 
acordo com os interesses administrativos e econômicos de nobres e de reis. De forma 
alguma poderiam querer inverter ou causar transformações sociais. Para isso, não 
poderiam ler ou ter acesso a novas ideias, práticas bastante limitadas pela Reforma e 
Contrarreforma. Nesse caso, as resistências se davam no campo, contra impostos, em 
saques e motins contra aqueles que controlavam o que poderiam ter ou não. Outro 
caso foi o de Menocchio, que contestou a Igreja católica e também seu lugar social, já 
que era apenas um moleiro camponês.
O Estado moderno e a representação política no Ocidente6
História Moderna110
2. A ideia de cultura popular diz respeito às tradições de um grupo social. Elas podem 
ser na literatura, na música, no folclore, em festas, ou seja, em qualquer costume ou 
prática que seja comum àquele grupo e que faça parte de sua identidade e de suas 
expressões sociais. Ao analisar motins, julgamentos como o de Menocchio, histórias 
de vida, revoltas etc., podemos perceber como pequenos detalhes trazem a (sobre)
vivência de indivíduos simples, da chamada História vista de baixo, algumas vezes es-
quecidos ou não notados pela historiografia mais tradicional. Ao compreendermos 
tal perspectiva, é possível perceber que muitas tradições de cunho popular se man-
tiveram em novas formas de organização e que trazem as resistências e negociações 
que grupos mais simples lideraram, não aceitando de forma alienada a nova ordem 
econômica e política vivida em diversos lugares da Europa a partir do século XVI.
3. Para o historiador Edward Thompson, os motins causados por grupos populares e 
de vivência comunal na Inglaterra do século XVIII não eram simples confusões cau-
sadas por interesses dispersos. Eram motins, porém organizados com base em tradi-
ções de camponeses ou daqueles que vinham do campo e estavam habituados a ter o 
seu pão e a negociar o seu preço. As bases da alimentação eram o pão e o trigo – este, 
um elemento essencial. No processo industrial, em que a agricultura também passou 
a produzir mais tanto para si quanto para outros mercados, aqueles que pagassem 
mais tinham os melhores produtos. Não obstante, em tempos de crise e de seca, mais 
ainda se valorizava o produto. Nesse contexto de fome ou de elevação e negociação 
dos preços sem considerar as tradições, os motins aconteciam, mas eram repletos de 
práticas culturais costumeiras.
4. O moleiro Menocchio misturava em seus discursos ideias pagãs da cultura popular 
grega e também princípios cristãos. Seu período ainda não era o efetivo da Reforma, 
ou seja, era o da pré-Reforma, que muito menos havia estabelecido novos princí-
pios. Ao mesmo tempo, obviamente, a Contrarreforma, embora fizesse inquisições 
há séculos, também não havia se estabelecido. Dessa forma, ao analisar o processo, 
Carlo Ginzburg afirma que os inquisidores não sabiam exatamente como julgar Me-
nocchio, por obedecerem a códigos preestabelecidos, ao tempo em que o moleiro 
se aproveitou desse contexto. Estratégia que não teve a mesma vitória no segundo 
julgamento, quando foi condenado à fogueira.
História Moderna 111
7
O Iluminismo francês e a 
ideia de progresso
Ele combateu ateus e fanáticos.
Ele exigiu os direitos do homem contra servidão do feudalismo.
Poeta Historiador Filósofo.
Ele ampliou o espírito humano e ensinou que ele deve ser livre. (CHARTIER, 2009, p. 141)
Teóricos iluministas franceses ganharam importância na política moderna e no 
modo como o mundo ocidental foi influenciado. As frases acima se referem ao que está 
escrito na lápide de François Marie Arouet, conhecido como Voltaire. É possível notar-
mos a crítica contra o feudalismo e o próprio domínio da Igreja católica. No segundo 
verso do epitáfio, é evidente a lembrança sobre o espírito humano de ser livre. Essas 
são as premissas do Iluminismo, corrente filosófica muito peculiar aos franceses dos 
séculos XVII e XVIII, sobre o qual estudaremos na primeira parte deste capítulo.
O Iluminismofrancês e a ideia de progresso7
História Moderna112
Entretanto, salientamos: as concepções de ciência e de homem moderno relacionadas 
ao Iluminismo não são iguais às que temos visto. E, se assim considerássemos, estaríamos 
dizendo que todas as sociedades anteriores eram atrasadas e nós, as mais evoluídas. Essa 
é a ideia de uma historiografia mais tradicional, linear e com a perspectiva evolucionista 
do século XIX. Por isso, objetivamos trazer algumas ideias que fazem parte da concepção 
filosófica e da ciência daquele período, as quais também foram responsáveis por mudanças 
sofridas no mundo político, social, econômico e cultural. 
Nas últimas seções, o intuito é trazer a concepção do que seria a ciência moderna, ou 
seja, aquela desenvolvida no período moderno, tanto pela influência de iluministas quanto 
pela própria revolução científica do século XVII e do Renascimento. Também objetivamos 
relacionar os dois primeiros pontos com o contexto do fim do século XVIII na França, perío-
do que podemos intitular de “pré-Revolução Francesa”.
7.1 O Iluminismo francês e alemão
O Iluminismo foi um movimento intelectual que questionava as premissas absolutistas, 
a própria hierarquia e os privilégios sociais, em especial, no que diz respeito às posições do 
clero. Uma de suas influências veio do século XVII, da revolução científica, na qual a razão 
ou a busca dela em qualquer método de experimentação e observação passou a ser estimu-
lada. Um dos exemplos é o de René Descartes (1596-1650), que escreveu o livro Discurso do 
Método, em 1639, cuja matriz é o uso da razão, da experimentação e da dúvida. Com isso, 
a ciência moderna seria o resultado do raciocínio e da observação das matérias naturais, as 
quais poderiam ser utilizadas e dominadas pelos indivíduos.
John Locke (1632-1704), por sua vez, defendia a propriedade privada, o liberalismo po-
lítico e a defesa contra poderes absolutistas, assim como a relação entre sociedade e política, 
mediada por um contrato, ao passo que tudo isso só faria sentido se houvesse liberdade para 
todos. Já Isaac Newton (1642--1727), na esteira de Nicolau Copérnico, de Johannes Kepler e 
de Galileu Galilei, fez com que se ampliassem os estudos sobre a física e a matemática, trans-
formando os princípios da História da Ciência. Esses cientistas chegaram a respostas bus-
cadas desde a época dos filósofos gregos, como Aristóteles, que discutiam sobre a possibili-
dade de se pensar de maneira lógica e racional o funcionamento do cosmos e do universo.
Mas os homens que se preocupavam com números, corpos celestes e circunferências 
não foram apenas os responsáveis por uma revolução nas ideias. Os filósofos (ou philosophes) 
eram os homens das letras, ou seja, os intelectuais do período. Em sua maioria, eram da 
elite e objetivavam mudar a sociedade “de cima para baixo”, isto é, influenciar aqueles que 
comandavam ou poderiam fazer essas mudanças.
Esses homens publicaram também a Enciclopédia, um conjunto de tudo o que era con-
siderado o conhecimento mais importante já produzido nas diversas ciências. Tal conjunto, 
O Iluminismo francês e a ideia de progresso
História Moderna
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113
organizado pelos iluministas Denis Diderot e Jean Le Rond d´Alembert e publicado em 
17511, foi escrito por cerca de 130 colaboradores.
Figura 1 – Imagem do lançamento da Enciclopédia, de 1751.
Fonte: Wikimedia Commons.
Esses intelectuais faziam parte da sociedade francesa em geral, disseminando muitas 
ideias em reuniões políticas e festivas. Sobre isso, Chartier afirma o seguinte:
A condição de homem de letras é incompatível com o retiro, a solidão, o afasta-
mento da capital da república das letras. Pressupõe, pelo contrário, a convivência 
em que assentam as pequenas sociedades onde os letrados adoram conversar 
e discutir. O salão é a expansão fundamental destas sociedades que a Europa 
inteira inveja a Paris [...], o salão distingue-se de todas as outras formas de en-
contro intelectual pela posição dominante, diretiva, que as mulheres ocupam. Se, 
por outro lado, ocupam um lugar modesto nos recenseamentos de autores [...], 
o seu papel é decisivo na sociedade literária que reúne letrados e gente mun-
dana. Inúmeros frequentadores dos salões parisienses recordam, nas memórias 
que escreveram após a Revolução, como era exercido esse predomínio feminino. 
(CHARTIER, 1997, p. 129-130)
1 Em 2015, foi lançada uma edição em cinco volumes da Enciclopédia, divididos nos seguintes títulos: 
Discurso preliminar e outros textos; O sistema dos conhecimentos; Ciências da natureza; Política; Sociedade e 
Arte (D’ALEMBERT; DIDEROT, 2015).
O Iluminismo francês e a ideia de progresso7
História Moderna114
De acordo com o historiador, é possível perceber que esses filósofos não evitavam falar 
sobre suas ideias. Isso está relacionado ao espírito do Iluminismo com a Revolução Francesa. 
Porém, é preciso pontuarmos que a aceitação dessas ideias por alguns nobres, aristocratas 
e burguesia dava respaldo e proteção aos filósofos ao questionarem o modo como estava 
organizado o sistema político em que estavam inseridos e ao qual eram submetidos.
Nobres desejavam apoiar as ideias iluministas – para ganharem poder e destaque – em 
um período no qual havia uma concorrência política e econômica com a burguesia que, por 
sua vez, desejava dar e ter o mesmo apoio. Só reorganizar o Antigo Regime não seria sufi-
ciente, era preciso transformar mais profundamente o ambiente social e político. Logo que 
houve a Revolução Francesa, os túmulos de Voltaire e de Rousseau foram transferidos ao 
Panteão de seus heróis, cujas lápides2 deixam evidente uma relação entre ideias iluministas 
e Revolução Francesa, no que diz respeito aos interesses burgueses.
O fato é que os iluministas não fizeram a Revolução Francesa, não lutaram ou incenti-
varam suas lutas. O objetivo de uma maioria era pensar o mundo e organizá-lo por meio da 
razão. Desse modo, por que os filósofos que não fizeram ou participaram da Revolução têm 
suas ideias relacionadas a ela?
Roger Chartier e Robert Darnton são dois historiadores interessados na História da 
Leitura. Nesse sentido, pesquisar inventários, listas de edição, publicação e de vendas de 
livros, especialmente desde a Revolução de Johannes Gutemberg (em 1492), permitiu a eles 
entenderem como tal relação foi construída. Segundo Chartier,
[...] o autor que domina o catálogo é Voltaire, com 31 títulos que vão desde Letras 
Filosóficas de 1734 até Romances e contos filosóficos e as Questões da Enciclopédia, 
publicado no início dos anos 1770. Voltaire também é o autor mais bem represen-
tado no segundo documento que cito aqui: um catálogo elaborado entre junho 
e setembro de 1790 pelo livreiro parisiense a quem foi dada a responsabilidade 
de inventariar os livros confiscados armazenados na Bastilha em 1785 na última 
campanha do Antigo Regime para destruição dos livros perigosos. (CHARTIER, 
2009, p. 128-129)
Chartier, historiador francês, faz uma antologia sobre os livros produzidos e mais ven-
didos no século XVIII na França. A citação refere-se aos resultados que ele encontra. Porém 
os intelectuais que chamamos de iluministas estão relacionados ao contexto da Revolução, 
assim como o Antigo Regime tinha receios quanto à leitura de tais ideias, pois elas poderiam 
fazer com que o povo questionasse o poder político do período – o que de fato ocorreu.
Tal apropriação não é despropositada ou sem sentido. Se analisarmos o romance Júlia 
ou A nova Heloísa, de Jean-Jacques Rousseau, é possível perceber o uso da razão em aspectos 
que até anteriormente não eram questionados ou cogitados. O romance de seis volumes foi 
escrito ao decorrer de vários anos, ao mesmo tempo em que Rousseau recebia cartas de seus 
leitores. Essas trocas influenciavam no destino de Heloísa.
2 Os epitáfios das lápides de Voltaire e Rousseau eram, respectivamente: “Ele combateu ateus e faná-
ticos/Ele exigiu os direitos do homem contra servidão do feudalismo” e “Poeta Historiador Filósofo/
Ele ampliouo espírito humano e ensinou que ele deve ser livre”.
O Iluminismo francês e a ideia de progresso
História Moderna
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115
[...] Sim, em vão quis abafar o primeiro sentimento que me fez viver, ele se con-
centrou em meu coração. Meu amigo, faço essa confissão sem vergonha, e este 
sentimento que permaneceu apesar de mim foi involuntário, ele nada custou à 
minha inocência, tudo o que depende de minha vontade escolheu meu dever. Se 
o coração, que dela não depende, vos escolheu, isso foi meu tormento e não meu 
crime. Fiz o que tive de fazer, fica-me a virtude sem mácula e ficou-me o amor 
sem remorsos. (ROUSSEAU, 1994, p. 634)
Decisões tomadas no decorrer de uma narrativa e com base na razão podem ser notadas 
em diversos momentos da citação, por exemplo: “tudo o que depende de minha vontade 
escolheu meu dever ou fiz o que tive de fazer”. A literatura é simples e permeada por trocas 
de cartas com críticas sociais e políticas, cujo fim é decidido pela razão e não pela emoção. 
Tal coleção foi escrita ainda no processo de ruptura de Rousseau com os outros filósofos 
(DARNTON, 2006, p. 295-297), pois ele defendia que a literatura era representante da socie-
dade do Antigo Regime, por isso, os livros mais vendidos – que atualmente chamamos de 
best-sellers – não deveriam ser considerados.
Júlia ou A nova Heloísa acabou se tornando a literatura mais vendida do século XVIII, di-
ferente de O Contrato Social (1762), cujo destaque é a sugestão da relação entre a sociedade e 
a política permeada sempre por um documento, um regimento, ou seja, aquilo que podería-
mos chamar atualmente de Constituição. Esse romance não teria tanto destaque nos tempos 
atuais, haja vista seu tipo de escrita e de organização, afinal, os hábitos de leitura também se 
modificam ao longo da história.
Por isso, podemos admitir que as ideias iluministas não tinham por intenção substituir 
ou acabar com o Antigo Regime, mas transformar o ambiente social e político. Tal conceito 
pode ser entendido da seguinte forma: 
[...] apropriação, a nosso ver, visa uma história social dos usos e das interpreta-
ções, referidas a suas determinações fundamentais e inscritas nas práticas especí-
ficas que as produzem. Assim, voltar a atenção para as condições e os processos 
que, muito concretamente, sustentam as operações de produção do sentido (na 
relação de leitura, mas em tantos outros também) é reconhecer, contra a antiga 
história intelectual, que nem as inteligências nem as ideias são desencarnadas, e, 
contra os pensamentos do universal, que as categorias dadas como invariantes, 
sejam elas filosóficas ou fenomenológicas, devem ser construídas na desconti-
nuidade das trajetórias históricas. (CHARTIER, 2002, p. 67)
Isso também ocorreu com a burguesia, após a Revolução Francesa, quando adaptaram as 
ideias que lhe eram convenientes, trazendo os restos mortais de Voltaire para o Panteão. Do 
mesmo modo de Voltaire, Rousseau é lembrado por Robespierre, conforme Chartier explica:
Entre aqueles que, nas épocas às quais me refiro se sobressaíram nas letras e na 
filosofia, um homem [Rousseau], pela elevação de sua alma e pela grandeza de 
seu caráter, mostrou-se digno do ministério como preceptor da humanidade... 
Ah! Se ele tivesse testemunhado esta revolução da qual foi precursor e que o 
conduziu ao Panthéon [em 12 de outubro de 1793], quem duvidaria de que sua 
O Iluminismo francês e a ideia de progresso7
História Moderna116
alma generosa abraçaria com determinação a causa da justiça e da igualdade! 
(CHARTIER, 2009, p. 141-142)
O que apontamos é a relação estabelecida por um dos líderes de um período sangrento 
da Revolução Francesa. Robespierre traz as ideias de Rousseau como motivadoras ou res-
ponsáveis pelas mudanças. Ou seja, o Iluminismo não causou a Revolução Francesa, mas a 
disseminação de ideias sobre razão, ciência ou igualdade. No caso das de Rousseau, foram 
apropriadas pelas classes dirigentes do processo revolucionário.
Voltaire, por sua vez, defendia a ciência universal, em que o intelectual caminha por 
todos os ramos do conhecimento científico sem ter uma especialidade. Desse modo, “[...] a 
definição do homem de letras apresentada na Enciclopédia é, então, a de um enciclopedista: 
não é um erudito que adquiriu saber profundo sobre uma determinada disciplina, mas um 
homem que possui conhecimentos em todas as áreas do saber” (CHARTIER, 1997, p. 119).
Chartier também aponta que os verdadeiros letrados eram os que caminhavam por 
todo conhecimento, embora não pudessem desenvolver de modo adequado a todos. Por 
fim, o homem letrado, que concebia a ciência desse período,
[...] representa a figura moderna do gramático antigo que era não só um homem 
versado na gramática propriamente dita, que é a base de todos os conhecimen-
tos, mas um homem a quem a geometria, a filosofia, a história geral e particular 
não eram estranhas; que fazia sobretudo da poesia e da eloquência o seu estudo 
[...]. (CHARTIER, 1997, p. 119)
Iluministas – também responsáveis pela ciência do período – eram aqueles que sa-
biam conversar e debater sobre todos os assuntos. Mas, em especial, eram aqueles que 
defendiam o uso da razão e da liberdade. Nesse sentido, entendemos que o Iluminismo 
tomou por base ideias e debates de dois séculos e influenciou novas perspectivas políti-
cas e de organização social.
Um dos exemplos é o de Charles-Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu. 
Apesar de ter um título ligado à estrutura social do Antigo Regime, ele publicou (em 
1748) o livro Em defesa do espírito das leis, em dois volumes, com grande impacto na for-
mação das Repúblicas do período contemporâneo. Ele propôs a divisão do poder em 
três: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Com essa organização, além de os três po-
deres limitarem um ao outro e estabelecerem um equilíbrio político, negavam um poder 
hegemônico, como era o absolutista.
Essas ideias podem ser resumidas em alguns aspectos: a valorização da investigação e 
da experiência em busca do conhecimento em qualquer área que se relacione com a vivência 
de seres humanos; a razão acima de qualquer crença ou princípio; qualquer conhecimento 
não deve ser subordinado à religião, em especial à Igreja católica; crítica ao absolutismo e 
todas as características institucionais do Antigo Regime; o direito à liberdade política, eco-
nômica e a igualdade perante a lei; e o direito à vida e à propriedade.
Para os iluministas dos Estados germânicos no século XVIII, todo problema filosófico 
deveria ser analisado de maneira racional e lógica, especialmente no que se refere aos con-
ceitos, como é possível perceber na citação a seguir:
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[...] não se deve admitir como verdadeiro aquilo que não tenha sido suficiente-
mente demonstrado; nas proposições, é preciso determinar com a mesma agu-
deza o sujeito e o predicado e tudo deve estar ordenado de tal modo que sejam 
premissas as coisas por força das quais são compreendidas e justificadas as que 
se seguem. (WOLFF apud REALE; ANTISERI, 1990, p. 824)
Essa citação deixa evidente a insistência para o uso da razão, da experimentação para 
que se justifique um conhecimento e o que ele diz. Na região germânica, o termo que de-
signava algo semelhante ao Iluminismo francês era Aufklärung (traduzido como esclareci-
mento), e um dos mais importantes representantes foi Immanuel Kant (1724-1804). Para ele, 
esclarecimento é “[...] a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. 
A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro 
indivíduo” (KANT, 1783). Ou seja, se os indivíduos passassem a utilizar a sua capacidade de 
produção e reflexão sobre qualquer conhecimento não seriam mais manipulados por outros.
O filósofo defendeu em seu texto Crítica da razão pura a escolha de que todo indivíduo 
deveria ter sobre a sua própria vida, sem ser determinada por tradições, dogmas, entre ou-
tros. Para ele, o tempo iluministaé simbolizado pela tomada de consciência e pela defesa do 
uso da razão para a vida e para a organização social de qualquer contexto.
Para Kant, só conhecemos um objeto, conceito ou uma teoria à medida que nos relacio-
namos com ela, isto é, de acordo com a nossa experiência. Dessa forma, o conhecimento é 
gerado na relação estabelecida entre sujeito e objeto, mediados ou não pela experiência – ou 
seja, não dependem dela.
A moral humana também deve ser pautada na razão, e não em perspectivas divinas que 
não podem ser tocadas, isto é, se não temos uma relação direta com esses objetos, não temos 
o conhecimento. E, sem ele, a moral da sociedade deve ser outra.
Desse modo, podemos entender que “a razão pura pode ser prática; isto é, pode, por 
si, determinar a vontade, independentemente de qualquer coisa empírica” (KANT, 2003, 
p. 31). Portanto, a razão é o modo como se organiza a sociedade e ela ocorre à medida que 
a autonomia do indivíduo é desenvolvida pela sua existência e sua educação. Entretanto, o 
indivíduo deve observar se seus atos são bons para si e para os outros. Nesse sentido, a li-
berdade, conduzida pela razão, é o conceito primário, visto que por meio dela o ser humano 
poderia escolher (bem) e influenciar os próprios atos.
O Iluminismo, com base no modo como as sociedades estavam organizadas, influen-
ciou por meio de novas determinações e sugestões políticas e sociais. Assim, novos cami-
nhos foram percorridos também nos campos científicos, tema da próxima seção.
7.2 A ciência moderna
Mencionamos anteriormente algumas noções sobre a ciência moderna no âmbito ilu-
minista. Isso se deve porque a noção de ciência moderna é contemporânea ao nascimento 
da ideia de progresso, isto é, ambas são próximas do século XVIII. Nesse período, o conhe-
cimento científico foi influenciado por uma perspectiva iluminista, na qual todos poderiam 
O Iluminismo francês e a ideia de progresso7
História Moderna118
cooperar com o conhecimento e com o fazer científico, buscando uma perspectiva positivista 
evolucionista. Assim, desde que todos cooperassem, o progresso daquela sociedade chega-
ria e afetaria a todos de modo positivo. Entretanto, as faculdades medievais e o renascimen-
to cultural e científico foram determinantes para que o conhecimento fosse sempre buscado 
ou renovado, a depender do período, da intensidade e de quem o detinha. Afirmamos isso 
diante do que Paolo Rossi ressalta:
A ciência moderna nasceu fora das universidades, muitas vezes em polêmica 
com elas e, no decorrer do século XVII e mais ainda nos dois séculos sucessivos, 
transformou-se em uma atividade social organizada capaz de criar as suas pró-
prias instituições. (ROSSI, 2001, p. 10)
Frisamos: o período medieval foi marcado pela manipulação e domínio da Igreja ca-
tólica. Porém, isso não tira a legitimidade daquilo que foi produzido nesse período. O que 
se modifica no século XVIII é a ideia do que é ciência e para que ela serve, considerando 
especialmente a Revolução Industrial, que necessitava de mais tecnologias para que se pro-
duzisse mais e com novas matérias-primas.
Do mesmo modo, para que o conhecimento não se perdesse era preciso reuni-lo e dis-
cuti-lo. Muitas academias e organizações tiveram início nesse período. De curiosos, parti-
cipantes novos e pesquisadores, os clubes, as associações e as academias passaram a ser 
laboratórios, centros de pesquisa que, futuramente, quando descobriram um objeto e uma 
metodologia própria, acabaram tornando-se as primeiras faculdades. Áreas como antro-
pologia, história, geografia, sociologia, química quântica, anatomia, biologia, entre muitas 
outras foram descobertas e, aos poucos, tornaram-se cursos superiores.
Figura 2 – REMBRANDT. Lição de anatomia do Dr. Tulp. 1632. Óleo sobre tela, color.: 169,5 cm × 
216,5 cm. Museu Mauritshuis, Haia, Holanda.
O Iluminismo francês e a ideia de progresso
História Moderna
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119
A pintura de Rembrandt Harmenszoon van Rijn traz a ideia do quanto era novo no 
século XVII o conhecimento do corpo humano. A ciência dos séculos XVII e XVIII era vista 
apenas como um conjunto de saberes. Sobre a obra de arte, podemos perceber a sobriedade 
dos retratados, com vestimentas pretas, como uma solenidade. Além disso, o foco da pintu-
ra é o centro, o qual parece estar mais iluminado em relação às outras áreas. 
Alguns renascentistas, como Leonardo da Vinci, eram apontados como intelectuais, 
pintores, inventores etc. Tratava-se de um costume, o qual podemos entender pela citação 
a seguir:
Sabe-se que o quadrivium medieval continha a aritmética, a geometria, a música 
e a astronomia. As discussões relativas à mathesis universalis concerniam, des-
de a origem, à unificação desses domínios assim que a sua extensão eventual 
a outros. A riqueza da noção é grande durante todo o século XVII e, a despeito 
das transformações importantes, sempre tende a permitir pensar a unidade das 
matemáticas associadas à filosofia. (BLAY, 1998, p. 610)
Dessa forma, o conhecimento poderia alcançar qualquer perspectiva ou assunto, visto 
que era unificado. O conhecimento é total, reunido e não é dividido em partes.
A Enciclopédia – projeto iluminista – é um exemplo disso. Seus responsáveis poderiam 
versar a respeito de diversos assuntos. No conjunto de livros, o indivíduo poderia ter acesso 
às soluções de diversas inquietações. Um cientista não poderia ser conhecido como tal se ti-
vesse apenas um tipo de conhecimento, ou seja, deveria compreender e circular por diversas 
áreas (CHARTIER, 1997).
O conhecimento sobre o ser humano e a independência deste tornaram-se pauta das 
principais discussões do período, também por alterar o modo como os indivíduos se perce-
biam e viviam.
7.3 O individualismo burguês e as 
transformações do século XVIII
O que observamos ao fim do século XVIII, e que, certamente, inaugurou uma nova fase 
no século XIX, é o rompimento das classes menos abastadas ou com menos reconhecimento 
político, mesmo que ainda não se vissem como classe.
Em geral, as ideias iluministas, as resistências de camponeses, as guerras civis (espe-
cialmente na Inglaterra) não estavam em luta como um todo, mas, juntas, colaboraram com 
o fim do Antigo Regime. Junto a esse contexto estava o individualismo, cujo antecessor, o 
antropocentrismo (o homem como o centro do conhecimento) do Renascimento já havia 
dado centralidade ao estudo e à compreensão do homem.
Dessa forma, entendemos que o homem moderno trouxe consigo o individualismo, 
na medida em que diminuíram os laços de servidão do Antigo Regime, de proteção dos 
donos das guildas em relação a seus aprendizes, bem como das relações comunais de cam-
poneses. A privacidade e a intimidade que passaram a ser comuns também permitiam que 
O Iluminismo francês e a ideia de progresso7
História Moderna120
o indivíduo cada vez se recolhesse mais. Porém, não se trata exatamente desse tipo de in-
dividualidade, mas de dominar a ideia de liberdade como algo natural e que, no decorrer 
da vida, o indivíduo tem o seu destino determinado por suas escolhas, sem considerarmos 
questões de classe, econômicas ou políticas. Ao escolher novos regimes políticos que defen-
diam – mesmo que em parte – a liberdade e a igualdade para todos, o mundo ocidental pôde 
ver surgir a democracia, ou um ideal democrático.
O que objetivamos afirmar é que as transformações ocorridas até aquele tempo ainda 
eram apenas as primeiras de um período bastante revolucionário. Se o indivíduo já era o 
centro dessas discussões, assim como a ciência e o progresso, o Estado, que daria a liberdade 
de mercado tão almejada pelos liberais do século XIX, também seria questionado pela resis-
tência dos operários e dos movimentos destes. 
Eric Hobsbawm faz a seguinte afirmação sobre essa época:
O velho mestre-artesão, ou algum grupo especial de ofícios ou mesmo de inter-
mediários locais poderiam se transformar em algo parecido com empregadores 
ou subcontratados. Mas o controlador-chefe destas formas descentralizadas de 
produção,aquele que ligava a mão de obra de vilarejos perdidos ou de ruelas 
afastadas com o mercado mundial, era uma espécie de mercador. E os industriais 
[...] em comparação a eles eram ínfimos operadores [...] era nesta época um pobre 
gerente e não um capitão de indústria. (HOBSBAWM, 2010, v. 1, p. 46-47)
O historiador afirma que na década de 1780 diversos princípios que regeriam o século 
XVIII já eram perceptíveis. A Inglaterra e os países que a seguiam já investiam no mundo 
industrial, mesmo que de forma variável. Porém, entre Inglaterra e França havia algo em 
comum, além de serem protagonistas de grandes revoluções: o Iluminismo. 
Hobsbawm, acerca do panorama social, político e econômico do fim do século XVIII, 
traz a seguinte perspectiva:
Um individualismo secular, racionalista, progressista dominava o pensamento 
“esclarecido”. Libertar o indivíduo das algemas que o agrilhoavam era o seu 
principal objetivo: do tradicionalismo ignorante da Idade Média, que ainda lan-
çava sua sombra pelo mundo, da superstição das Igrejas [...] Não é propriamente 
correto chamarmos o “iluminismo” de uma ideologia da classe média, embora 
houvesse muitos iluministas – e foram eles os politicamente decisivos – que as-
sumiram como verdadeira a proposição de que a sociedade livre seria uma so-
ciedade capitalista. Em teoria, seu objetivo era libertar todos os seres humanos. 
Todas as ideologias humanistas, racionalistas e progressistas estão implícitas 
nele, e de fato, surgiram dele. Embora na prática os líderes da emancipação exi-
gida pelo Iluminismo fossem provavelmente membros dos escalões médios da 
sociedade, embora os novos homens racionais o fossem por habilidade e mérito 
e não por nascimento, e embora a ordem social que surgiria de suas atividades 
tenha sido uma ordem capitalista e “burguesa”. (HOBSBAWM, 2010, p. 48-49)
O Iluminismo francês e a ideia de progresso
História Moderna
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121
Portanto, todos os acontecimentos do século XVIII foram importantes para que mudan-
ças ocorressem; entretanto, as ideias iluministas, ao serem apropriadas, acabaram impul-
sionando a Revolução Francesa. Uma revolução que duraria ao menos 10 anos, haja vista 
que até 1780 muitos ainda defendiam o despotismo esclarecido, pois o Iluminismo exigia 
uma mudança na ordem política e social. Das resistências camponesas, da Enciclopédia de 
Alembert e Diderot, a Revolução Francesa (e outras) trouxe, no fim daquele século, um novo 
tempo político e social para a nação, para a Europa e para o mundo ocidental. 
Conclusão
Objetivamos neste capítulo discutir sobre algumas ideias iluministas e a importância 
desse processo na construção de ideais que nortearam a formação dos Estados modernos, 
especialmente no que se refere às repúblicas e às noções de liberdade e igualdade. O uso 
da razão, sobretudo, significa permitir que o nosso conhecimento seja questionado – não 
apenas o saber científico, mas também o referente ao senso comum, organizador de nosso 
cotidiano, do mundo social-político. É o mesmo que dar às tradições e aos dogmas os seus 
lugares, que, por sua vez, são inferiores ao conhecimento crítico conduzido pela razão. 
 Ampliando seus conhecimentos
O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos traz algumas perspec-
tivas sobre a ciência do século XVIII e as que a precederam. Leia e reflita 
sobre o fazer científico e as influências deste em sua vida. 
(SANTOS, 1988, p. 48-49)
O modelo de racionalidade que preside à ciência moderna constituiu-se a 
partir da revolução científica do século XVI e foi desenvolvido nos séculos 
seguintes basicamente no domínio das ciências naturais. Ainda que com 
alguns prenúncios no século XVIII, é só no século XIX que este modelo 
de racionalidade se estende às ciências sociais emergentes. A partir de 
então pode falar-se de um modelo global de racionalidade científica que 
admite variedade interna, mas que se distingue e defende, por via de fron-
teiras ostensivas e ostensivamente policiadas, de duas formas de conhe-
cimento não-científico (e, portanto, irracional) potencialmente perturba-
doras e intrusas: o senso comum e as chamadas humanidades ou estudos 
humanísticos (em que se incluíram, entre outros, os estudos históricos, 
filológicos, jurídicos, literários, filosóficos e teológicos).
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História Moderna122
Sendo um modelo global, a nova racionalidade científica é também um 
modelo totalitário, na medida em que nega o caráter racional a todas as 
formas de conhecimento que se não pautarem pelos seus princípios epis-
temológicos e pelas suas regras metodológicas. É esta a sua característica 
fundamental e a que melhor simboliza a ruptura do novo paradigma cien-
tífico com os que o precedem. Está consubstanciada, com crescente defi-
nição, na teoria heliocêntrica do movimento dos planetas de Copérnico, 
nas leis de Kepler sobre as órbitas dos planetas, nas leis de Galileu sobre 
a queda dos corpos, na grande síntese da ordem cósmica de Newton e 
finalmente na consciência filosófica que lhe conferem Bacon e sobretudo 
Descartes. Esta preocupação em testemunhar uma ruptura fundante que 
possibilita uma e só uma forma de conhecimento verdadeiro está bem 
patente na atitude mental dos protagonistas, no seu espanto perante as 
próprias descobertas e a extrema e ao mesmo tempo serena arrogância 
com que se medem com os seus contemporâneos. 
Para citar apenas dois exemplos, Kepler escreve no seu livro sobre a 
Harmonia do Mundo publicado em 1619, a propósito das harmonias natu-
rais que descobrira nos movimentos celestiais: “Perdoai-me mas estou 
feliz; se vos zangardes eu perseverarei; [...] O meu livro pode esperar mui-
tos séculos pelo seu leitor. Mas mesmo Deus teve de esperar seis mil anos 
por aqueles que pudessem contemplar o seu trabalho”. Por outro lado, 
Descartes, nessa maravilhosa autobiografia espiritual que é o Discurso 
do Método e a que voltarei mais tarde, diz, referindo-se ao método por 
si encontrado: “Porque já colhi dele tais frutos que embora no juízo que 
faço de mim próprio procure sempre inclinar-me mais para o lado da des-
confiança do que para o da presunção, e embora, olhando com olhar de 
filósofo as diversas ações e empreendimentos de todos os homens, não 
haja quase nenhuma que não me pareça vã e inútil, não deixo de receber 
uma extrema satisfação com o progresso que julgo ter feito em busca da 
verdade e de conceber tais esperanças para o futuro que, se entre as ocu-
pações dos homens, puramente homens, alguma há que seja solidamente 
boa e importante, ouso crer que é aquela que escolhi”.
Sugestão de leitura
KANT, Immanuel. O que é o esclarecimento? 1783. Disponível em: <http://coral.ufsm.br/gpforma/
2senafe/PDF/b47.pdf>. Acesso em: 12 out. 2017.
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123
 Atividades
1. Se o Iluminismo não é responsável sozinho pelas mudanças políticas contemporâ-
neas e ocasionadas pela Revolução Francesa, especifique quais as relações que po-
demos estabelecer entre a política contemporânea e aquele acontecimento político e 
social. 
2. Explique as principais concepções sobre a ideia de ciência do período moderno e a 
relação desta com o progresso.
3. Estabeleça uma relação entre liberdade e razão, com base nas ideias de Immanuel 
Kant. 
4. Considerando as ideias do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, explique quais 
seriam as principais influências sentidas pela ciência moderna e as consequências 
disso para as especialidades nas concepções científicas.
 Referências
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ria entre incertezas e inquietude. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2002.
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HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções: 1789-1848. São Paulo: Editora Paz e Terra, v. 1, 2010.
O Iluminismo francês e a ideia de progresso7
História Moderna124
 Resolução
1. Um dos objetivos é pensar em um governo com uma hierarquia não tão engessada 
como era o absolutismo, considerando o tempo iluminista, além da participação de 
mais grupos e o poder dividido em setores, para que não ficasse apenas na mão de 
uma pessoa. Dessa forma, o Iluminismo não causou a ideia de república ou de demo-
cracia como as conhecemos, porém lançou possibilidades que, ao serem adaptadas 
em cada realidade política, tornaram-se propostas mais próximas do que conhece-
mos. Do mesmo modo, o Iluminismo não causou a Revolução Francesa, mas quem a 
promoveu apropriou-se ou foi influenciado por alguns de seus ideais.
2. A ideia de ciência pensada a partir do século XVII é uma concepção que reúne um 
todo em que diversos saberes são debatidos, conduzidos e compreendidos por um 
mesmo filósofo. Dessa forma, um filósofo era capaz de discutir sobre qualquer as-
sunto, embora não fosse especialista em vários deles. O tópico mais especial diz res-
peito ao uso da razão e da experimentação, ou seja, tudo o que pudesse ser pensado, 
conceituado e “provado” seria considerado verdadeiro. Ao mesmo tempo, essa ciên-
cia sofreu mudanças após o século XVII com as transformações do mundo econômi-
co e do trabalho, visto as profundas trasnformações na industrialização. A ciência 
cada vez mais se tornou ligada à ideia de progresso, ou seja, quanto mais avançasse 
no desenvolvimento de novas tecnologias, mais avançada seria considerada uma 
nação. Além disso, havia uma visão “positivista”, em que o nível político de uma 
sociedade era medido por seu conhecimento industrial capitalista e que o que havia 
ocorrido anteriormente era considerado atrasado, em uma perspectiva evolucional.
3. Para o filósofo alemão Immanuel Kant, um conceito só pode ser considerado como 
tal quando testado, conhecido e teorizado. Para isso, o conhecimento deve ser tecido 
na relação entre o objeto e o sujeito. A partir disso, o mundo dos indivíduos pode ser 
debatido e questionado de acordo com a moral, que é o resultado de todo conheci-
mento desenvolvido. Para que isso ocorra, é preciso que o sujeito tenha liberdade e 
que a use de modo racional, ou seja, a razão é o ponto pelo qual uma sociedade deve 
se organizar, estabelecendo sua moral, educação e autonomia.
4. O modelo constituído a partir do século XVI é basicamente das Ciências Naturais. 
Todo aspecto que caracteriza a ciência é visto como algo racional e dele também 
vieram os aspectos norteadores das humanidades (os estudos históricos, filológi-
cos, jurídicos, literários, filosóficos e teológicos). Com esse modelo global, poucas 
variedades se aceitam no fazer científico, permitindo que haja uma hierarquia entre 
as ciências e, em especial, intitulando algumas de “não científicas”. Dessa forma, o 
sociólogo Boaventura de Sousa Santos classifica tal modelo como uma perspectiva 
totalitária, visto que nega o caráter racional próprio a todas as formas de produção 
de conhecimento que não utilizarem as mesmas regras metodológicas das Exatas.
História Moderna 125
8
O florescer de uma nova 
política no século XVIII
Neste capítulo nos dedicamos a pensar as relações possíveis entre o que seria o 
período moderno e o contemporâneo. Sabemos que o evento da Tomada da Bastilha, 
em 14 de julho de 1789, em Paris – local onde eram presos todos que questionavam 
o regime absolutista francês –, não revolucionou tudo o que havia anteriormente. 
O que afirmamos é que, além das mudanças, há diversas continuidades de processos 
sociais, políticos, econômicos e culturais peculiares ao mundo moderno naquele que 
seria o contemporâneo. Desse modo, este capítulo tem o objetivo de estabelecer algu-
mas relações entre as resistências já percebidas no século XVIII, as quais impulsiona-
ram a Revolução Francesa, com os novos direitos e reivindicações no que se refere aos 
direitos humanos e de igualdade, posteriores à revolução. Esse novo panorama social, 
econômico e político só foi possível pelo desenvolvimento de novos tipos de governo, 
como as repúblicas e os impérios, nos quais muitas vezes houve a presença de cons-
tituições ou de parlamentos. Esse tema é abordado no segundo tópico deste capítulo, 
visto que, para compreender o imperialismo comum a partir de meados do século XIX 
no mundo ocidental (e centralizado pela Europa), precisamos refletir sobre como na 
virada do século – e como consequência também da Revolução Francesa – criam-se 
condições ideais para essa transformação política. Por último, o que podemos perceber 
desses processos de transição, entre tantas mudanças e continuidades, são dezenas de 
novos conceitos que formam o mundo contemporâneo e que geram, por sua vez, difi-
culdades no âmbito escolar. Desse modo, a intenção é trazer algumas possibilidades 
de como nós, professoras e professores, podemos trabalhar em nosso cotidiano em sala 
de aula, buscando uma adequada relação entre ensino e aprendizagem.
O florescer de uma nova política no século XVIII8
História Moderna126
8.1 Revolução Francesa e a ideia de igualdade
A Revolução Francesa ocasionou diversas mudanças sociais, econômicas e políticas que 
transformaram completamente o mundo ocidental nos dois séculos seguintes. Como todo 
acontecimento histórico, ou mesmo como toda revolução, não foi um processo homogêneo 
e rápido. Como afirma Hannah Arendt, 
O conceito moderno de revolução, inextricavelmente ligado à noção de que o 
curso da História começa subitamente de um novo rumo, de que uma História 
inteiramente nova, uma História nunca antes conhecida ou narrada está para 
se desenrolar, era desconhecido antes das duas grandes revoluções no final do 
século XVIII. (ARENDT, 1988, p. 23)
O período revolucionário durou 10 anos (1789-1799)1, com várias tentativas de novas 
políticas, como também de golpes e traições. Porém, como uma proposta até então desco-
nhecida, uma política mais democrática, seria aceita de modo geral, em um contexto tão 
absolutista como era o Antigo Regime? Os historiadores Kalina Silva e Maciel Silva definem 
o processo dessa forma:
No geral, a Revolução Francesa é reconhecida como o nascimento da democracia 
moderna, pois enquanto a sociedade do Antigo Regime se fundamentava na de-
sigualdade entre os homens, surgiu pela primeira vez na história uma revolução 
que tinha como bandeira a igualdade, a soberania do povo, a liberdade, a ideia 
de Direitos do Homem. Segundo François Furet e Mona Ozouf, essa ruptura já 
exprime a natureza ao mesmo tempo política e filosófica do movimento. E não é 
por acaso que a Revolução Francesa é considerada o marco da transição da Idade 
Moderna para a Idade Contemporânea. (SILVA; SILVA, 2009, p. 366)
Embora a Revolução Francesa seja vista como um todo, seu processo foi lento (1789-
1799) e passou por diversas fases, incluindo o “período do Terror”, liderado por jacobinos. 
Os jacobinos foram o grupo mais radical do movimento e se reuniam no mosteiro de São 
Tiago – em latim, Jacobus, por isso o nome. Sentavam-se mais à esquerda da Assembleia 
francesa e, por isso, sua relação política mais radical foi considerada “de esquerda” 
(HOBSBAWM, 2010). Emboratenham tido apoio popular e defendido em alguns momentos 
preceitos de ordem mais coletiva, acabaram por instaurar uma política que executava ou 
prendia os opositores às suas ideias. Dessa forma, o período da Revolução Francesa, mesmo 
guiado em diversos momentos por ideais democráticos, não foi homogêneo.
Portanto, o que podemos salientar desse processo não é somente os vários debates po-
líticos, mas o peso que a ideia de liberdade, de igualdade e de fraternidade, lema da Revolução 
Francesa, ocasionou ao mundo contemporâneo. Nesse contexto, a liberdade foi defendi-
da apenas nos meses iniciais da Revolução Francesa, sendo logo substituída pelo conceito 
de igualdade. Seu significado, para Ozouf, pode ser compreendido em dois sentidos, o da 
1 A Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) 
demonstra, por meio de um quadro geral, uma cronologia dos acontecimentos da Revolução Francesa. 
Optamos por ele devido à complexidade do estudo da Revolução Francesa. Disponível em: <http://
www.fafich.ufmg.br/~luarnaut/crnlgrf.pdf>. Acesso em: 25 out. 2017. 
O florescer de uma nova política no século XVIII
História Moderna
8
127
“liberdade negativa” e o da “liberdade positiva”. Em relação à primeira, “[...] ser livre reside 
em não ser impedido de atuar segundo os objetivos que se escolheram e não sofrer constran-
gimentos [...]” (FURET; OZOUF, 1989, p. 778), ou seja, é a garantia de uma liberdade indi-
vidual. No que diz respeito à segunda, ela “consistia em entrar nos negócios públicos, par-
ticipar constante, direta e intensamente da vida do Estado” (FURET; OZOUF, 1989, p. 779), 
isto é, trata-se da possibilidade de participação política de todos. Por sua vez, a igualdade, 
para Ozouf, era dividida em duas: a “formal” e a “igualdade de fato”. A primeira, também 
conhecida como igualdade meritocrática, era a afirmação de que todos eram iguais perante a 
lei, porém se torna complexa a partir da seguinte consideração, visto que nem todos têm 
as mesmas oportunidades: “A igualdade meritocrática veicula uma crítica devastadora do 
privilégio, a desqualificação sem apelo da transmissão hereditária [...] A igualdade devida 
aos méritos e aos talentos varre as prerrogativas de nascimento” (FURET; OZOUF, 1989, 
p. 741). Já a “igualdade de fato” estava relacionada aos sans-cullotes, como um coletivo. Essa 
ideia foi uma das bases de influência para a Conjuração dos Iguais, responsável por definir 
a igualdade como: “a cada um o que lhe bastasse, mas não mais do que isso; abolição da 
propriedade individual da terra, repartição rigorosa dos bens no domicílio de cada um” 
(FURET; OZOUF, 1989, p. 750). 
Ainda para Ozouf, o conceito de fraternidade foi o menos influente no processo revolu-
cionário. Diferentemente da igualdade e da liberdade, que eram entendidas como direitos 
políticos, a fraternidade era vista como uma obrigação moral. Apenas na Constituição de 
1848 ela passou a ter o mesmo lugar das demais, tanto pela dificuldade em se compreender 
o seu significado, como também por ser associada às ideias políticas de “esquerda” (FURET; 
OZOUF, 1989). Nesse aspecto, os significados desses termos demonstram a complexidade 
do momento e como essas ideias foram motivos de disputas nas relações de poder. Além 
disso, reside uma noção de que a história é um conjunto de muitos acontecimentos que não 
se sobrepõem um ao outro, mas que provoca tensões entre eles, no qual percebemos perma-
nências e continuidades. 
A Revolução Francesa, notadamente mais influenciada pela burguesia, embora não so-
mente por ela, abalou os alicerces absolutistas e os remanescentes do feudalismo, os quais 
deixaram de existir nas décadas seguintes. Ao instituir uma economia mais capitalista e in-
dustrial, com incentivo do liberalismo, desencadeou o fortalecimento da própria burguesia. 
Em função do mundo do trabalho, houve ainda o surgimento de um novo grupo, que, com 
as influências dos princípios de igualdade desdobradas nas décadas seguintes, torna-se-ia, 
a partir de 1830, uma nova classe: a dos trabalhadores. Esta é pensada pelo historiador Eric 
Hobsbawm como o futuro operariado do pós-movimento de 1848, quando passou a se ver 
como classe, do seguinte modo:
Homens independentes se transformassem em dependentes, e que pessoas se 
transformassem em “mãos”. Na pior das hipóteses, e a mais frequente, criava 
multidões de desclassificados, empobrecidos e famintos tecelões manuais, tece-
lões mecânicos e etc., cuja miséria gelava o sangue do economista mais insensível 
[...] à medida que eles se afundavam no pantanal das úmidas oficinas, os artífi-
ces do continente que se transformaram em proletários itinerantes, os artesãos 
O florescer de uma nova política no século XVIII8
História Moderna128
que perderam sua independência, haviam sido estes os mais habilitados, os 
mais instruídos, os mais autoconfiantes, em suma, a flor da classe trabalhadora. 
(HOBSBAWM, 2010, v. 1, p. 330)
O que apontamos é que, ao mesmo tempo em que o capitalismo se tornava o principal 
modo econômico, especialmente por meio do processo de industrialização, outro aspecto 
também crescia, o do crescimento de um grupo (ou classe) explorado pelo primeiro. Se a 
Revolução Francesa havia prometido ideais como o de igualdade, o capitalismo de forma 
alguma era um defensor desse conceito, visto que precisava explorar a mão de obra dos 
trabalhadores em seus meios de produção, a fim de obter lucro. Assim, o que ocorreu é pa-
radoxal, especialmente se consideramos a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão (1789), 
como podemos perceber nos seguintes artigos:
Art. 6º. A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de 
concorrer, pessoalmente ou através de mandatários, para a sua formação. Ela 
deve ser a mesma para todos, seja para proteger, seja para punir. Todos os ci-
dadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a todas as dignidades, 
lugares e empregos públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção 
que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos.
Art. 7º. Ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determi-
nados pela lei e de acordo com as formas por esta prescritas. Os que solicitam, 
expedem, executam ou mandam executar ordens arbitrárias devem ser punidos; 
mas qualquer cidadão convocado ou detido em virtude da lei deve obedecer 
imediatamente, caso contrário torna-se culpado de resistência.
[...]
Art. 12. A garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força 
pública. Esta força é, pois, instituída para fruição por todos, e não para utilidade 
particular daqueles a quem é confiada2.
O que percebemos é que a lei, em qualquer caso, era igual para a proteção de todos. 
O próprio artigo 7º demonstra que punições não poderiam ser impostas sem a proteção, 
antes, de uma força pública (artigo 12). Podemos entender que diversas leis trabalhistas, 
sociais, políticas que nasceriam nos séculos posteriores seriam forjadas com base nesses ar-
tigos, o que causaria resistências e conflitos. Portanto, havia um documento que instigava 
o questionamento das desigualdades que cresciam no regime trabalhista capitalista, uma 
nova hierarquia social em um tempo em que o absolutismo já decaía significativamente. 
A historiadora Lynn Hunt (2009) afirma que a ideia de direitos humanos e a de igualdade 
foram forjadas com base no que se entendia como direitos do homem. Segundo Hunt, a lei 
deveria ser a mesma para todos, não deveria permitir castigos nem suplícios públicos, e o 
réu seria visto como inocente até o julgamento. Direitos tradicionais ou de costume estavam 
abolidos. Apesar das mudanças, permaneceram os valores de honra, de acordo com as ações 
2 Para conhecer mais artigos da Declaração, acesse o link da Biblioteca Virtual de Direitos Humanos, 
disponível em: <http://www.direitoshumanos.usp. br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A-
0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/declaracao-de-
-direitos-do-homem-e-do-cidadao-1789.html>.Acesso em: 25 out. 2017. 
O florescer de uma nova política no século XVIII
História Moderna
8
129
e não mais com o nascimento. Para os homens, a honra pública e os direitos políticos eram 
as características mais importantes, enquanto para as mulheres eram destinados o mundo 
privado e o doméstico.
Os direitos humanos ainda são entendidos de acordo com três perspectivas: devem ser 
naturais, visto que todo ser humano tem direitos a partir de seu nascimento, iguais (permi-
tidos a todos) e universais (aplicáveis em qualquer lugar). Nesse caso, o status de “humano” 
é a condição necessária para se ter o direito. 
Os direitos do homem forneciam os princípios para uma visão alternativa de 
governo. Como os americanos haviam feito antes, os franceses declararam os 
direitos como parte de uma crescente ruptura com a autoridade estabelecida [...] 
Os deputados franceses declaravam que “todos os homens” e não só os fran-
ceses, “nascem e permanecem livres e iguais em direitos” (artigo 1º). Entre os 
“direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem” estavam a liberdade, a 
propriedade, a segurança e a resistência à opressão (artigo 2º). Concretamente, 
isso significava que quaisquer limites aos direitos tinham de ser estabelecidos na 
lei (artigo 4º). “Todos os cidadãos” tinham o direito de participar na formação da 
lei, que deveria ser a mesma para todos (artigo 6º) [...] (HUNT, 2009, p. 131-132) 
Hunt salienta o fato de não haver menção ao rei ou à Igreja católica e, mesmo que 
fossem considerados sagrados, não era atribuída a eles uma origem sobrenatural. Nessa 
declaração foram considerados os direitos do homem, da nação e dos cidadãos, porém não 
foi qualificada a cidadania (HUNT, 2009). Assim, questões urgentes foram resolvidas e abri-
ram-se possibilidades de autonomia individual, de integridade corporal e de questionamen-
tos, por exemplo, de mulheres e escravos, os quais antes nunca haviam tido uma posição 
política sobre esses assuntos. 
Além disso, é preciso lembrar que, embora a Revolução Francesa seja apontada em ge-
ral como burguesa, havia muitos que sequer tinham propriedades. O historiador Emmanuel 
Le Roy Ladurie (2007) expõe uma trajetória de revoltas camponesas no século XVIII, as 
quais muitas vezes acabaram em negociações, mas também em mortes e torturas. Fato é que 
a Revolução Francesa foi o ápice de um contexto em que parte de uma massa, anteriormente 
excluída, tomou o poder. 
Embora a tradição camponesa seja reconhecida na França, trabalhadores urbanos, ain-
da no século XVIII, também fizeram manifestações. Uma delas, narrada pelo historiador 
Robert Darnton, ocorreu na seguinte situação: 
O operário Nicolas Contat contou a história numa narrativa que fez sobre seu 
estágio na gráfica, na rua Saint-Séverin, Paris, durante o fim da década de 1750. 
A vida de aprendiz era dura, ele explicou. Havia dois aprendizes [...] dormiam 
num quarto sujo e gelado, levantavam-se antes do amanhecer, saíam para execu-
tar tarefas o dia inteiro, tentando furtar-se dos insultos dos oficiais (assalariados) 
e os maus-tratos do patrão (mestre) e nada recebiam para comer [...] pior ainda, 
o cozinheiro vendia, secretamente, as sobras, e dava aos rapazes comida de gato 
– velhos pedaços de carne podre que não conseguiam tragar, e, então, passavam 
para os gatos, que os recusavam. (DARNTON, 2006, p. 103-104)
O florescer de uma nova política no século XVIII8
História Moderna130
O episódio é conhecido na historiografia, visto que, devido às condições de trabalho e ao 
fato de terem de conviver com gatos, que eram mais bem tratados do que alguns operários 
da gráfica, os trabalhadores fizeram uma manifestação matando esses animais. Os bichanos 
também foram apontados em uma imagem simbólica de feitiçaria, devido aos barulhos e 
gritos noturnos. No que se refere ao mundo do trabalho, a história da gráfica apresenta um 
panorama dos trabalhos artesanais não mais como algo que privilegiava a experiência, mas 
como representação de um período em que se contratava quem menos recebia e no qual os 
funcionários já não eram vistos como a família do mestre (DARTON, 2006). Ainda de acordo 
com Darnton, a partir de 1740, “as grandes gráficas, apoiadas pelo governo, eliminaram a 
maioria das oficinas menores e uma oligarquia de mestres assumiu o controle da indústria” 
(DARNTON, 2006, p. 108-109).
A substituição da mão de obra por uma menos especializada e artesanal, como também 
a eliminação de pequenas unidades em meados do século XVIII ainda absolutista, demons-
tra como o processo econômico-industrial não é algo peculiar à Inglaterra ou ao século XIX 
(no caso francês). Porém, também sugere que seus trabalhadores não eram tão pacíficos, e 
muito menos seriam quando estivessem vivendo um novo período político, liberal, mas de 
promessas de igualdade. Importante ressaltarmos que, com as manifestações trabalhistas 
de 1848-1860, foram conquistados os primeiros direitos trabalhistas e exigidos também os 
direitos civis.
Percebemos, assim, que o período da Revolução Francesa, seguindo o posicionamento 
de Hobsbawn:
[...] não foi apenas mais um evento que abalou as estruturas do Antigo Regime, 
mas um fato de consequências mais fundamentais para a contemporaneidade do 
que qualquer outro, visto que foi uma revolução social de massa. Para esse historia-
dor, se a Revolução Industrial inglesa moldou a economia do mundo no século 
XIX, foi a França, por sua vez, a Nação que deu às transformações econômico-
-sociais do período uma linguagem política, com o liberalismo e a democracia. 
O próprio conceito de nacionalismo é resultado da Revolução Francesa. (SILVA; 
SILVA, 2006, p. 367)
Portanto, apreendemos que a Revolução Francesa teve como premissa política tradu-
zir transformações sociais e econômicas. Com a inserção dos direitos humanos em âmbito 
político, o século XIX viu se intensificar essa perspectiva. Para a historiadora Lynn Hunt, 
os direitos humanos só puderam florescer quando os cidadãos passaram a sentir que eram 
iguais uns aos outros, ou seja, foi um processo lento e, embora tenha sido muito incentivado 
a partir da Revolução Francesa, “é possível perceber uma forte corrente a favor da proibição 
das torturas a partir de 1760 na Europa. Outras críticas feitas à prática da tortura era a de 
selvageria e barbárie, inadmissíveis em uma sociedade que se pretendia civilizada e moder-
na” (HUNT, 2009, p. 102). 
Para que se construíssem os ideais de direitos humanos de uma forma um tanto mais 
evidente, a historiadora aponta que houve uma lacuna temporal entre a “formulação das 
declarações francesa e estadunidense” até a Declaração Universal das Nações Unidas, em 1948 
O florescer de uma nova política no século XVIII
História Moderna
8
131
(HUNT, 2009, p. 177). Nesse período, os direitos humanos ficaram submetidos às nações e 
às suas estruturas. 
A Revolução Francesa deu mais cidadania à população do que se havia conhecido até 
então. O conceito de cidadania pôde ser entendido a partir do século XIX, de acordo com o 
historiador José Murilo de Carvalho (2009), sob três perspectivas: os direitos civis correspon-
dem ao direito à liberdade, à propriedade e à igualdade perante a lei; os direitos políticos 
dizem respeito à participação do cidadão no governo da sociedade – pelo voto; e os direitos 
sociais são os direitos à educação, ao trabalho, ao salário justo, à saúde e à aposentadoria. 
Carvalho ainda aponta que o modo como é construída a cidadania é
[...] de baixo para cima ou de cima para baixo. Exemplos de cidadania construída 
de baixo para cima são as experiências históricas marcadas pela luta por direitos 
civis e políticos, afinal conquistados ao Estado absolutista. Exemplos de movi-
mentação na direção oposta são os países em que o Estado manteve a iniciativa 
da mudança e foi incorporando aos poucos os cidadãos à medida em que ia 
abrindo o guarda-chuva de direitos. O outro eixo proposto por Turner tem a 
ver com a dicotomia público-privado. A cidadania pode seradquirida dentro do 
espaço público, mediante a conquista do Estado, ou dentro do espaço privado, 
mediante a afirmação dos direitos individuais, em parte sustentados por orga-
nizações voluntárias que constituem barreiras à ação do Estado. (CARVALHO, 
1996, p. 338)
Percebemos, portanto, que a cidadania, os direitos humanos e os princípios de igual-
dade prometidos com a Revolução Francesa foram influenciados e/ou manipulados pelos 
interesses capitalistas e liberais do século XIX. Mas também é possível perceber que havia 
uma trajetória de resistências na França (e em outros países). Essas resistências, além de alte-
rarem o panorama social e político da Europa (Ocidental, em especial), também foram além 
dos mares, visto que sua concepção de república estendeu-se a uma ideia de império, for-
mando a prática política chamada de imperialismo, sobre a qual trataremos na próxima seção. 
8.2 Nações e imperialismo 
A formação dos Estados modernos, no Antigo Regime, causou a centralização da po-
lítica na figura do rei no período moderno. Porém, nada mais alterou o panorama político, 
em tão pouco tempo, quanto a própria Revolução Francesa. Eric Hobsbawm resume esse 
contexto de profundas mudanças do seguinte modo:
Sobreviventes formais de uma era anterior, tais como o Sagrado Império Romano 
e a maioria das cidades-Estados e cidades-impérios, desapareceram. [...] as anti-
gas repúblicas de Génova e Veneza desapareceram em 1797 e, ao final da guerra, 
as cidades alemãs livres tinham sido reduzidas a quatro. [...] Fora da Europa, é 
claro, as mudanças territoriais das guerras foram consequência da total anexação 
britânica das colônias de outros povos, assim como dos movimentos de liberta-
ção colonial inspirados pela Revolução Francesa (p. ex. em São Domingos) ou 
O florescer de uma nova política no século XVIII8
História Moderna132
que se tornaram possíveis ou impostos pela separação temporária das colônias 
de suas metrópoles (como na América espanhola e portuguesa). [...] o feudalis-
mo foi formalmente abolido, os códigos legais franceses foram aplicados e assim 
por diante. [...] Uma vez oficialmente abolido, o feudalismo não mais se restabe-
leceu em parte alguma. (HOBSBAWM, 2010, v. 3, p. 107-108)
Percebemos que as transformações ocasionadas no período moderno sofreram mudan-
ças ainda maiores entre o fim do século XVIII e o início do XX. O Estado centralizado nas 
mãos dos reis, em regime muitas vezes feudal, foi extinto em poucas décadas. Entretanto, 
para que novas políticas fossem definidas ou discutidas, o próprio conceito de Estado, do 
Antigo Regime, foi usado como base política. A ideia de Lynn Hunt, sobre o Antigo Regime 
ser o responsável pelo conceito de nação como um sinônimo de união de características eco-
nômicas, étnicas, linguísticas e sociais (HUNT, 2009, p. 182-185), foi determinante para que 
surgissem os nacionalismos a partir da Revolução Francesa. Tais práticas tinham como base 
a prioridade e a individualidade de cada nação, mesmo que às vezes houvesse limites lin-
guísticos e étnicos. Junto a esses conceitos vieram a democracia, em forma de república ou 
de monarquia constitucional, e o liberalismo, geralmente conduzido pela burguesia. Com 
essas perspectivas, o século XIX reorganizou o mundo político europeu, formando ações 
nacionalistas concentradas no Estado e novas definições de espaço e de território. 
Os Estados na Europa, nesse período, passaram a ser organizados e disputados por 
grupos que buscavam definir suas fronteiras, com base em aspectos raciais, étnicos e linguís-
ticos. Hobsbawm, ao debater sobre diversos casos de independência ou de demarcação de 
fronteiras na Europa na virada do século XIX, afirma que junto às ações das vitoriosas mas-
sas revolucionárias da Revolução Francesa, das revoltas regionais, houve “[...] o progresso 
das escolas e das universidades [o qual] dava a dimensão do nacionalismo, na mesma me-
dida em que as escolas e especialmente as universidades se tornavam seus defensores mais 
conscientes” (HOBSBAWM, 2010, p. 221-223). Além disso, o número de edições e de gráficas 
cresceu, em regiões que ainda não eram países, como a Alemanha, ou mesmo em outros 
que já tinham mais estrutura política, como Grã-Bretanha (com exceção da Irlanda), França 
ou Estados Unidos. Do mesmo modo, Hobsbawm aponta que o analfabetismo também era 
uma arma utilizada com intenções políticas.
É ainda desse período o aumento duplicado de liceus franceses entre 1809-1842, embora 
o número de pessoas que os acessassem ainda fosse restrito. Hobsbawm sugere que em toda 
a Europa Ocidental, com maior presença da burguesia, alterou-se a política econômica nesse 
período com base em ideias nacionalistas diversas3.
Dessa forma, e de acordo com a ideia de Walter Themier, segundo a qual “[...] só nos 
tempos modernos é que o sentimento nacional tenta tornar-se o supremo valor e penetrar 
em todos os âmbitos do pensamento e do procedimento humanos, até mesmo na ciência” 
(1997, p. 249), consideramos que os ideais de igualdade, de liberdade e de fraternidade 
defendidos pela Revolução Francesa tiveram mais consequências que as objetivadas por 
3 O historiador traz de modo detalhado os diversos casos europeus, diferenciados por seus respectivos 
contextos. Para mais informações, veja: HOBSBAWM, Eric. O nacionalismo. In: ______. A era das revo-
luções: 1789-1848. São Paulo: Paz e Terra, 2010. p. 217-237.
O florescer de uma nova política no século XVIII
História Moderna
8
133
aqueles que a defenderam. Para Hobsbawm, após a Revolução Francesa, com a comunica-
ção e a manifestação em massa (considerando o período), um sentimento de união ligado às 
ideias de pátria e nação foi forjado e, em decorrência disso, o século XIX viveu uma completa 
transformação social e política. Na primeira metade do século XIX, portanto, o que houve, 
para Hobsbawm, foi um “protonacionalismo popular”, que poderia ser entendido como 
o resultado de uma língua, da religião, dos meios de comunicação e de uma legitimidade 
emocional, porém diferentes do nacionalismo moderno (HOBSBAWM, 1990, p. 64). 
A livre concorrência, tão defendida pelos liberais, perdeu a predominância na medida 
em que os Estados eram fortalecidos pelos sentimentos nacionalistas, e, com o crescimento 
industrial de meados do século XIX, passaram a disputar, entre eles, novos territórios e zo-
nas de influência. Essa nova política foi chamada de imperialista e definida como:
[...] um período histórico específico, que abrange de 1875 a 1914, quando a 
Europa Ocidental passou a exercer intensa influência sobre o restante do mundo. 
O conceito designa também o conjunto de práticas e teorias que um centro me-
tropolitano elabora para controlar um território distante [...] Foi o momento do 
surgimento do Capitalismo monopolista, em que a livre concorrência entre dife-
rentes empresas gerou concentração da produção nas mãos das mais bem-suce-
didas, levando à formação de monopólio. Rapidamente, os bancos passaram a 
dominar o mercado financeiro, exportando capital, influenciando as decisões de 
seus Estados e impelindo-os para a busca de novos mercados. Nascido, assim, 
da formação dos monopólios, o imperialismo promoveu disputas por fontes de 
matérias-primas entre trustes e cartéis que, já tendo dominado o mercado inter-
no em seus países de origem, precisavam se expandir para além de suas frontei-
ras, defrontando-se com cartéis e trustes de países concorrentes. (SILVA; SILVA, 
2009, p. 218)
Essa perspectiva do conceito, apresentada por Kalina Silva e Maciel Silva, mostra como 
de uma política absolutista passamos a um Estado centralizado com base em ideais mais de-
mocráticos e de liberdade de comércio, até chegar à formação política e econômica peculiar 
dos séculos XX e XXI. Ainda assim, é preciso frisar que as ideias de democracia, de liberdade 
e de igualdade continuam sendo forjadas em cada contexto nacional, de acordo com a polí-
tica econômica. Ainda sobre o termo imperialismo, Eric Hobsbawm afirma queele só viria a 
ter um significado no fim do século XIX,
Pois não há dúvida de que a palavra “imperialismo” passou a fazer parte do vo-
cabulário político e jornalístico nos anos 1890, no decorrer das discussões sobre a 
conquista colonial. Ademais, foi então que adquiriu a dimensão econômica que, 
como conceito, nunca mais perdeu [...] [e] a própria palavra adquiriu gradual-
mente, e agora é improvável que perca, uma conotação pejorativa. Ao contrário 
da “democracia” que, devido a suas conotações favoráveis, mesmo seus inimi-
gos gostam de reivindicar, o ”imperialismo” normalmente é algo reprovado e, 
portanto, feito por outros. Em 1914, inúmeros políticos orgulhavam-se de se de-
nominarem imperialistas, mas no transcorrer de nosso século eles praticamente 
desapareceram de vista. (HOBSBAWM, 2010, p. 98-100)
O florescer de uma nova política no século XVIII8
História Moderna134
Porém, para que chegassem a essa fase de englobar mais territórios ou zonas de in-
fluência, as nações deveriam estar bem formadas e fortalecidas em seus aspectos políticos 
e identitários, a fim de justificar o seu domínio sobre outras, como foi o caso da Partilha da 
África, realizada na segunda metade do século XX.
8.3 Uso de conceitos da História 
Moderna em sala de aula
O ensino de História deve priorizar a experiência e o conhecimento prévio dos(as) alu-
nos(as), buscando estabelecer uma relação entre o modo como os conceitos são pensados no 
âmbito científico e o que vem do senso comum – e daquilo que é comum aos(às) alunos(as). 
Nesse sentido, deixar de lado qualquer iniciativa factual ou processos de ensino-aprendi-
zagem mecânicos é essencial, visto que uma perspectiva de ensino que utilize os conceitos 
como elementos-chave de qualquer conteúdo histórico evita alguns erros, como nos lembra 
a historiadora Circe Bittencourt:
O risco maior de utilizar um conceito do senso comum ou proveniente de outros 
campos de estudos é perder o seu sentido histórico e empregá-lo de forma atem-
poral. A utilização de conceitos em sentido atemporal conduz a um dos grandes 
pecados abominados por todos que se dedicam à História: cometer anacronismo. 
Advertem os historiadores que, ao fazer uso de noções “emprestadas” de outros 
domínios científicos ou do senso comum, é necessário desconfiar das impreci-
sões dos termos e ser cauteloso com a leitura das fontes que eles se encontram; 
ou seja, deve-se ter um domínio metodológico para o emprego correto do concei-
to. (BITTENCOURT, 2005, p. 194)
Na citação podemos observar uma crítica no que se refere a uma postura de “uso co-
mum” dos conceitos de História, no caso desse debate, como algo universal, pois cada acon-
tecimento histórico (em qualquer contexto) só pode ser bem compreendido se for consi-
derado o modo como tal grupo ou sociedade o compreendia. Além disso, a historiadora 
também ressalta, em outra leitura, que essa noção era (ou é) muito comum em livros didá-
ticos, em um modelo referente aos séculos XIX e XX, organizado de maneira linear, carte-
siana e cronológica, sem ponderar a ideia de permanências e mudanças (BITTENCOURT, 
2005). Bittencourt cita um dos conceitos centrais para que nós, professores(as) de História, 
possamos iniciar o desenvolvimento do ensino-aprendizagem: a noção de tempo. Para isso, 
é preciso considerar não somente o acontecimento nos seus respectivos tempo e espaço, mas 
também documentos que comprovem sua existência. Ao fazermos essa relação com sujeitos 
e temas daquele contexto, podemos encontrar explicações que colaboram na interpretação e 
na análise de fatos, tornando estes inteligíveis (BITTENCOURT, 2005).
No que diz respeito ao período moderno, retomamos uma ideia presente no primeiro 
capítulo, em que os historiadores Francisco Falcon e Antônio Rodrigues definem o conceito 
de moderno do seguinte modo:
O florescer de uma nova política no século XVIII
História Moderna
8
135
A noção de “moderno” não basta por si só para dizer algo de concreto ou defi-
nitivo sobre o período que queremos analisar. [...] Só aos poucos, nas sociedades 
ocidentais, foi havendo uma tomada de consciência quanto à modernidade nas-
cente, em cujo seio já se vislumbra, indecisa, a teoria do progresso. (FALCON; 
RODRIGUES, 2000, p. 10-11)
O processo moderno ou a ideia de mudança decorrente de alguns acontecimentos ou 
conceitos históricos, como Renascimento, grandes navegações, Iluminismo, capitalismo, in-
dustrialização, liberalismo, já podem ser observados, segundo Falcon e Rodrigues, a partir 
do século XV. Porém, apenas nos séculos seguintes é que alguns grupos sociais e políticos 
perceberam ou afirmaram estar vivendo em mundo moderno, no que se refere aos princí-
pios que regiam a organização do mundo ocidental conhecido. 
Tal perspectiva é perceptível ou viável quando consideramos que, em um processo 
de modernização, em que diversos acontecimentos ocorrem, há transições com intensi-
dades diferentes e em contextos diversos. No caso do feudalismo, alguns países, como a 
Inglaterra, já viviam no século XVIII mudanças políticas e econômicas que derrubaram os 
alicerces feudais, enquanto na maior parte da Europa elas não eram tão intensas (FALCON; 
RODRIGUES, 2000). 
Entretanto, mostrar durante o ensino a complexidade desse período é ainda mais de-
safiador quando nos referimos ao conceito de modernidade. Este é apresentado da seguinte 
forma por Silva e Silva:
A ideia de modernidade surge, segundo Jacques Le Goff, quando há um sentimen-
to de ruptura com o passado. Nesse sentido, um dos primeiros pensadores a utilizar 
a ideia de modernidade foi Charles Baudelaire, escritor francês da segunda me-
tade do século XIX, autor de As flores do mal, que pensava a modernidade como 
as mudanças que iam se operando em seu presente, utilizando a palavra sobre-
tudo para a observação dos costumes, da arte e da moda. Etimologicamente, en-
tretanto, Andrew Edgar apresenta a modernidade como um termo derivado do 
latim modernus (significando recentemente), que desde o século V, com os escritos 
de Santo Agostinho, passou a ter diversos significados. Na origem, opunha-se 
ao passado pagão; a partir do século XVI, todavia, quando os eruditos revalori-
zaram a cultura pagã, ser moderno era se opor ao medieval e não ao antigo ou à 
Antiguidade. (SILVA; SILVA, 2009, p. 297, grifos do original)
Observamos que, primeiramente, o termo moderno é sinônimo de ruptura, de algo que 
se inova, assim como Charles Baudelaire, com suas análises do termo com base no cotidia-
no, escreveu no século XIX. Porém, o mesmo termo, etimologicamente latino, já teria sido 
apropriado por Santo Agostinho entre os séculos IV a V d.C., fazendo um contraponto aos 
preceitos pagãos combatidos pela Igreja medieval. Esses mesmos preceitos, no entanto, fo-
ram valorizados posteriormente no século XVI, período do Renascimento e das navegações. 
Dessa forma, podemos entender que o conceito tem diversas interpretações e aplicações, de-
pendendo do contexto. Nesse sentido, os autores seguem com mais algumas considerações 
sobre a ideia de modernidade:
O florescer de uma nova política no século XVIII8
História Moderna136
Os homens do século XVI julgavam estar vivendo em um mundo novo (moder-
no), embora o passado greco-romano devesse ser respeitado na construção desse 
novo mundo e do novo homem, liberto do “obscurantismo” medieval. Nesse 
sentido, a Era Moderna é de fato moderna, ao menos para os que nela viveram. 
Mas não se pode esquecer que o termo modernidade (modernitas) propriamente 
dito já aparece no século XII, referindo-se aos últimos cem anos então vividos e 
ainda presentes na memória dos contemporâneos. Apesar disso, modernidade é 
um conceito histórico que difere do sentido original da palavra e surgido com o 
Iluminismo, tendo seu ápice nos séculos XIX e XX. (SILVA; SILVA, 2009, p. 297)
A apropriação do século XVI era, portanto, contrária aos preceitos medievais, ao mes-
mo tempo em que defendia ideias e uma cultura anterior ao próprio período medieval. 
Além disso, jáhavia sido ressaltada no século XII – período de decadência do feudalismo 
em algumas regiões, bem como do incentivo de mercadores e das Cruzadas. Ainda assim, 
o conceito na versão iluminista, do sujeito universal e racional, é diverso daquele do século 
XVI. Nesse sentido, os autores nomeiam o termo como “[...] um conceito estritamente vin-
culado ao pensamento ocidental, sendo um processo de racionalização que atinge as esferas 
da economia, da política e da cultura [...]” (SILVA; SILVA, 2009, p. 298).
Desse modo, o que temos é um desafio em relação a como trazer termos tão complexos 
para o ensino escolar, produzindo conhecimento e aprendizagem em uma relação dialética. 
Nesse sentido,
Em relação à transposição didática do procedimento histórico, o que se procura 
é algo diferente, ou seja, a realização na sala de aula da própria atividade do 
historiador, a articulação entre elementos constitutivos do fazer histórico e do 
fazer pedagógico. Assim, o objetivo é fazer com que o conhecimento histórico 
seja ensinado de tal forma que dê ao aluno condições de participar do processo 
do fazer, do construir a História. Que o aluno possa entender que a apropriação 
do conhecimento é uma atividade em que se retorna ao próprio processo de ela-
boração do conhecimento. (SCHMIDT, 1999, p. 59)
O que a citação está evidenciando é a forma como nós, professores(as), devemos levar 
os acontecimentos históricos às salas de aula, a fim de construir o conhecimento histórico 
em um processo dialético. Para isso, Schmidt sugere que o processo pode ser organizado 
de acordo com alguns preceitos, pois “[...] o trabalho com conceitos no ensino de História 
envolve algumas atividades básicas, como as atividades de classificação dos conceitos, de 
definição, de aplicação em determinadas situações, de programação e de comunicação” 
(SCHMIDT, 1999, p. 153). A primeira atividade, de classificação, seria o momento em que 
conceitos como cultura, poder, sociedade, civilização e economia são identificados em seus 
significados mais amplos, assim como nos mais específicos. A segunda, a de definição, diz 
respeito à diferenciação – que deve ser evidente para os alunos – entre os conceitos. Nesse 
caso podem ser: nominais (de acordo com a etimologia); reais (seu significado no contexto 
O florescer de uma nova política no século XVIII
História Moderna
8
137
estudado); essenciais (listar os significados); antônimos ou sinônimos (a fim de diferenciar 
os conceitos); descritivas (com detalhes); e de séries (diferenciação com contextos diferentes). 
Com essas perspectivas é possível demonstrar aos alunos que conceitos têm significa-
dos diferentes em cada contexto e com aplicações diversas, o que seria a terceira forma de 
trabalhá-los em sala de aula. Esse trabalho é marcado pelas diferentes apropriações, de-
pendendo do período em que os(as) alunos(as) se encontram (programação) e das diferentes 
estratégias de ensino (comunicação) (SCHMIDT, 1999).
Desse modo, nós, professores e professoras, trabalhamos com temas polêmicos e 
complexos em nosso cotidiano. No caso da História Moderna, Silva e Silva sugerem 
algumas posturas:
O desafio é como associar temas como cidadania, ética, ciência, política, demo-
cracia, felicidade, liberdade em sua relação com a modernidade entendida como 
um momento histórico que, para alguns autores ainda não acabou, mas também 
como um projeto universalista de libertação da humanidade. Podemos trabalhar 
com os alunos a modernidade real, presente nas instituições políticas que nos re-
gem, na nossa vida pessoal, nos valores que defendemos, nas utopias que ainda 
pairam no ar, no ceticismo de muitos, no bombardeio de informações dos meios 
de comunicação de massa etc. Além disso, para discutir a modernidade há um 
leque bastante amplo de possibilidades de pesquisa: podemos trabalhar a ética, 
a ecologia, a industrialização, as tradições populares e a resistência cultural e o 
choque de culturas. (SILVA; SILVA, 2009, p. 300)
Os autores trazem a complexidade do termo modernidade e as diferentes aplicações e 
relações que podemos fazer com ele, com base no conhecimento prévio ou no senso comum 
trazido à sala de aula pelos alunos. Perspectivas econômicas, culturais, sociais e políticas são 
opções de abordagem para que o conceito possa ser compreendido. Portanto, de um concei-
to simples ou complexo, há um longo caminho para a construção do conhecimento histórico, 
no qual a participação dos(as) alunos(as) não pode se dar de modo passivo. 
Conclusão
O objetivo deste capítulo foi trazer algumas perspectivas sobre o fim do período mo-
derno e o início do contemporâneo, demonstrando que, entre eles, houve diversas trans-
formações políticas, sociais e econômicas que nem sempre assinalam uma divisão nítida. 
Entre permanências e mudanças, continuamos a buscar ideais de democracia, de liberdade 
e, principalmente, de igualdade. Importante, também, é considerarmos que são conceitos e 
ideias contextuais, ou seja, a concepção de direitos humanos de 1789, por exemplo, não é a 
mesma do século XXI, e por isso é preciso compreendê-las em suas especificidades e levá-las 
para a relação que estabelecemos no processo de ensino-aprendizagem. 
O florescer de uma nova política no século XVIII8
História Moderna138
 Ampliando seus conhecimentos
Apresentamos, a seguir, dois processos que fazem parte das sugestões da historiadora 
Maria Auxiliadora Schmidt sobre como proceder no ensino, considerando a complexidade 
do trabalho com os conceitos em sala de aula, a fim de evitar o anacronismo. Assim, convi-
damos à leitura, desejando que esta colabore em sua formação como professora ou profes-
sor, porém, antes de tudo, como alguém que aprende e ensina. 
Construindo conceitos no ensino de História: 
“a captura lógica” da realidade social
(SCHMIDT, 1999, p. 157, 159-160)
Sequência de aplicação de conceitos históricos:
1. O aluno deve identificar os conceitos em fontes primárias ou secundárias. 
2. Organização dos conceitos identificados, de acordo com algum crité-
rio de classificação. 
3. Comparação do conceito identificado em uma fonte com o mesmo 
conceito utilizado em situações anteriores, observando semelhanças 
e diferenças. 
4. Comunicação dos conhecimentos históricos através do uso dos concei-
tos, em contexto corretos, como frases, parágrafos, temas ou trabalhos.
[...]
O primeiro tema tem uma perspectiva panorâmica, abrangendo questões 
de análise conjuntural, de um momento concreto em um espaço concreto 
do passado [...]. O tema evolutivo prende-se mais a uma contextualiza-
ção temporal com o objetivo de reconstruir as etapas de evolução de um 
determinado tema em seus momentos fundamentais. Exige a organização 
de determinados conceitos de tempo, como cronologia, duração, suces-
são. Neste caso, a cronologia é um dos conceitos fundamentais, elegen-
do-se um momento como ponto de partida, descrevendo-se a evolução e 
apontando-se um momento como ponto de chegada. 
O tema comparativo exige, muitas vezes, a construção de um conceito 
que será o ponto principal da comparação. Neste caso trata-se do conceito 
de independência. A comparação pode ser feita a partir de dois momen-
tos diferentes ou fazendo-se a comparação a partir de dois aspectos do 
mesmo momento histórico, por exemplo, o movimento de independência 
O florescer de uma nova política no século XVIII
História Moderna
8
139
no Ceará e no Rio de Janeiro. O tema biográfico, por sua vez, exige conhe-
cimentos mais precisos e detalhados acerca das realizações e modo de 
existir de determinado momento referente a um personagem histórico. 
Os temas analíticos valorizam alguns aspectos de determinado período 
histórico. Neste caso, a cronologia deve ser respeitada e deve-se partir 
do que se considera historicamente mais importante para o que se consi-
dera menos importante; ir do tempo mais longo para o tempo mais curto. 
Os temas tipológicos podem ser considerados como uma variante dos 
temas analíticos. Por exemplo, Imigrações.Este tema é diferente do tema 
analítico Imigração, pois Imigrações poderiam ser analisadas em vários 
aspectos: As imigrações do século XIX, as imigrações alemãs. 
Por último, os temas relacionais. Estes não indicam somatória ou adição 
de ideias, mas uma hierarquia de enfoque, onde o primeiro termo é mais 
importante do que o segundo. Não se trata de estabelecer reciprocidades, 
mas de analisar como o primeiro influi no segundo.
Para consulta sobre fontes e análises históricas, sugerimos o site de História 
Contemporânea I, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia 
e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 
Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/hist_discip_grad/contemporanea1. 
html>. Acesso em: 3 nov. 2017.
 Atividades
1. A ideia de igualdade no mundo contemporâneo veio com a Declaração dos Direitos do 
Homem e do Cidadão durante o processo revolucionário francês. Com base no texto do 
capítulo, indique relações possíveis entre a política pós-Revolução Francesa, a ideia 
de igualdade e os direitos humanos.
2. Estabeleça uma relação entre Revolução Francesa e a ideia de nação e nacionalismo.
3. De acordo com as ideias de Kalina Silva e Maciel Silva (2009), qual a relação que 
podemos estabelecer entre o ensino de História Moderna e a complexidade própria 
ao termo modernidade?
4. Com base nos trechos citados do artigo da historiadora Maria Auxiliadora Schmidt 
(1999), faça uma análise sucinta sobre como aplicar conceitos em sala de aula, consi-
derando sua complexidade.
O florescer de uma nova política no século XVIII8
História Moderna140
 Referências
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Contexto, 2009.
THEIMER, Walter. História das ideias políticas. Lisboa: Círculo dos Leitores, 1977.
 Resolução
1. A Revolução Francesa tinha como princípios a igualdade, fraternidade e liberdade. 
Os três fomentaram as reivindicações da massa revolucionária, que buscava em par-
te a igualdade política e em outra a social e civil. Essas premissas foram sendo orga-
nizadas em pautas de manifestações no decorrer do século XIX, na medida em que 
diversas classes ou grupos sociais reivindicaram direitos sociais, civis, trabalhistas, 
entre outros. Do mesmo modo, a ideia de Direitos Humanos, ou daquele que é visto 
e deve ser considerado um ser humano, também foi organizada, de acordo com os 
preceitos de cada contexto, como é até hoje. A Revolução Francesa trouxe a ideia 
de igualdade, sugerindo que todo ser humano poderia ser considerado igual. Esse 
princípio foi buscado e disputado por diversos sujeitos, nas mais diversas esferas de 
poder.
O florescer de uma nova política no século XVIII
História Moderna
8
141
2. Após a Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte instituiu um período de busca 
por delimitação do territórios francês, bem como da influência e domínio de ou-
tros. Além disso, o próprio exemplo francês, da Revolução Francesa junto aos ideais 
iluministas, fez com que diversos países do período moderno ou modificassem seu 
regime político, ou o pedido de independência de algumas regiões. Para incentivar 
esses processos, ideais nacionalistas, de pertencimento e de identidade foram incen-
tivados no ensino escolar, com o estímulo ou a definição de uma língua oficial ou 
mesmo por tradições e práticas culturais.
3. É preciso considerar o conhecimento prévio dos alunos para estabelecer uma rela-
ção de ensino-aprendizagem e ir além de uma perspectiva dicotômica. Nesse caso, 
identificar primeiramente, depois diferenciar conceitos simples e complexos, assim 
como as suas diferentes aplicações, demonstrando que são contextuais e que estão 
em constante “construção”, são algumas das estratégias de ensino. Além disso, pre-
cisamos trazer diferentes metodologias de trabalho, a fim de atingir uma maioria 
de alunos(as), visto que eles(as) têm suportes de aprendizagem também diferentes 
entre eles. Uma última estratégia diz respeito ao modo como relacionamos conceitos 
diferentes, mas que estão ligados a um mesmo período histórico, isto é, ao relacio-
ná-los podemos levar à sala de aula a ideia de que os conceitos constituem ou fazem 
parte uns dos outros, dos significados que acabam tendo. E, se retirado e colocado 
outro conceito, podemos ter outra trajetória na história.
4. O ensino de História Moderna, nesse caso, deve demonstrar que o termo foi visto 
como um sentimento, um modo de viver diferente muitos séculos antes do início do 
período moderno. Este, e logo nos primeiros séculos, já era apontado por seus sujei-
tos sociais como tempos “modernos”, diferentes, inovadores. Entretanto, a moder-
nidade é um conceito vinculado ao pensamento Ocidental, que atingiu a economia, 
a política e a cultura gerando boa parte dos princípios que organizaram o mundo 
político-social dos séculos XX e XXI.
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Código Logístico
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ISBN 978-85-387-6363-5

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