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Ex.1
264535 Ac 445K22
ISBN 85-7396-381-6 organizado por
Monica M. Kother Macedo
N.Cham. 159.993 C761 2005
Titulo: (Con)textos de entrcvista olharcs
diversos sobre a interacao humana,
111111111111111111111111111111111111111111111111111111111I11
Olhares diversos sobre a interacao humana
(CON)TEXTOS DE ENTREVISTA
.t~1",nuo lIn""",taflo RlItw00\ It'
~y Biblloteca
~~~~~;:1
~~
Casa do Psic6logo®
Adriana Ampessan
Angela Cristina Barrios Pratini Seger
Blanca Susana Guevara Werlang
'Carolina Neumann de Barros Falcao
Denise da Costa Hausen
Dulce Helena Aguilar Baldo
Fabrlcia Ramos
Irani de Lima Argimon
Jacqueline Poersch Moreira
Janke de Oliveira Castilhos Vitola
Juliana Rausch Potter
Kelly Cardoso Paim
Leanira Kesseli Carrasco (org.)
Maria Lucia Tiellet Nunes
Marta Cemin
Moruca Medeiros Kother Macedo (org.)
Nadia Maria Marques
Nadir Helena Sanchotene de Souza
Nelson Asnis
Neri Mauricio Piccolo to
Ricardo Wainer
Sissi Vigil Castiel
'Ierezinha Rech
Autores:
Olhares diversos sobre a interacao humana
(CON)TEXTOS DE ENTREVISTA
Monica Medeiros Kother Macedo
Leanira Kesseli Carrasco
(ORGS.)
1 "[As pedras falam!)
2 FREUD, Sigmund - Eriologia da Histeria (1896). AE. Vol HI. P.192
Considerando a Psicanalise como teoria que sustenta a corn-
preensao do Hornern em urn espaco de investigacao, vitalizado
pela curiosidade entre 0 desconhecido e 0 conhecido, e 0 tran-
sito entre 0 sinistro e 0 familiar, e possivel acompanhar os fei-
tos dessas duaJidades na via da repeticao, Por rneio da psicana-
lise podernos adentrar urn labirinto caracterizando um caminho
"Imagine-se que urn explorador chega a uma regiao pouco
conhecida onde seu interesse e despertado por extensa area
de rufnas com restos de paredes, fragmentos de colunas e
lapides com inscricoes meio apagadas e ilegfveis. Pode
contentar-se em inspecionar 0que esta visivel, em interrogar
os habitantes que vivam nas vizinhancas - talvez uma
populacao semibarbara - sobre 0 que a tradicao lhes fala da
hist6ria e do significado desses resfduos arqueol6gicos,
anotando 0 que the foi dito - e entao seguir viagem. Mas
pode agir diferentemente. Pode levar consigo picaretas, pas
e enxadas e colocar os habitantes para trabalhar com esses
instrumentos. Junto com eles, pode atacar as minas, remover
o lixo e, cornecando dos resfduos visfveis, descobrir 0 que
esta enterrado. Se seu trabalho for coroado de sucesso as
descobertas sao "auto-explicativas": as paredes arruinadas
sao parte das muralhas de urn palacio ou de uma tesouraria;
os fragmentos de colunas podem reconstituir um templo;
as numerosas inscricoes, que por um lance de sorte podem
ser bilingiies, revelam urn alfabeto e uma linguagem que,
uma vez decifrados e traduzidos, fornecem informacao nem
sonhada sobre eventos do mais remoto passado, para cuja
comernoracao os monumentos foram construidos. Saxa
loquuntur!""! c 2
APRESENTA~Ao
a Editora e Grdfica Ltda
coral ou parcial desta obra para
os direi cos reservados,
o - [d. Mexico - lratibaiSP - Brasil
...::....;.-=----=-::=:.0.__ ..- .... (11) 4524.6997 - www.casadopsicologo.com.br
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
fndices para canilogo sistematico:
I. Entrevisra: Psicologia aplicada 158.3
CDD-158.305-4072
1. Enrrevisra 2. Inreracao Social 3. Psicanalise
l. Macedo, Monica Medeiros Korher, II. Carrasco, Leanira
Kessell. III. Tlculo: Olhares diversos sobre a inreracso humana.
Vdrios aurores.
Bibliografia.
ISBN 85-7396-381-6
(Con)rcxtos de entrevista: olhares diversos sobre a interacfio
hurnana I Monica Medeiros Kother Macedo, Leanira Kesseli Carrasco,
(organizadoras). - - S50 Paulo: Cas a do Psicologo®, 2005.
Dados Internacionais de Cataloga~5.o na Publica~ao (CIP)
(Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Cap a
Andre Petry
Revisao Ortogrdflca
StlZII7IfI Rehmenkla« & Adrian» Schirmer
£ditores
1l1go Bernd Giinter: e Siilsifl Delphina Tosi
Produ~5.o Grafoca e Editoracao Elerrenica
Al1dr! Cipriano
1·edi~o
2005
© 2005 Casapsi Livraria Editora e Gdfica Ltda
~ proibida a r~prodll~ao total ou parcial desra publicacao, para qualquer
finalidade, scm aurorizacao por escriro dos editores.
tarnbem servir a pluralizacao de vozes e a distribuicao demo-
cratica da informacao". Marcam com a flexibilidade do pensa-
mento academico voltado para a investigacao urn. espaco para
que outros colegas se pronunciem tambem 0 que pensam sobre
o que fazem.
Passo a apresentacao de cada capitulo, antecipo minhas des-
culpas aos pr6ximos leitores deste livro, por cometer 0 deslize
de permanecer, por mais tempo, nas paginas, com aqueles au-
tores com quem tenho "comemorado" as descobertas valiosas
na construcao legada por Sigmund Freud.
Per via de porre, uma intervenciio psicanalitica? Capitulo
escrito por Denise Hausen evidencia 0 lugar de compromisso
que ocupa em relacao a psicanalise, Leva-nos a pensar sobre as
diferencas das producoes psfquicas e as consequencias nas inter-
vencoesdo analista.Recuperaa propostafreudiana,napedra bruta
escultura-se 0 conflito, e per via de levare encontra a terapeuti-
ca de acesso ao conteiido recalcado: aqui, propoe que pensemos
em intervencoes per via de porre considerando suas inquieta-
90es com as patologias que caracterizam a clfnica atual.
A escuta na Psicandlise e a Psicandlise da escuta, assina-
do por Monica Medeiros Kother Macedo e Carolina Neumann
de Barros Falcao, e uma reflexao. Os questionamentos, entre
linhas, sobre: Em que consistem a originalidade e a singulari-
dade da experiencia analftica? 0 que se transmite na Psicanali-
se?, Como se transmite? levam-nos a pensar que a experiencia
em psicanalise nao tern outro sentido: e a experiencia que cada
urn retira de sua pr6pria analise. Urna escolha que nao pode ser
por fidelidade, nem por prescricao, nem por reproducao; "0que
visa ser escutado na psicanalise resulta em uma psicanalise da
escuta".
Sissi Vigil Castiel e Carolina N. de Barros Falcao escre-
vem A implicaciio do Lugardo analista no destino do processo
analitico. Como as autoras, tambem penso que 0 campo
7MOnicaMedeiros Kother Macedo & Lcanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
a ser descoberto, urn enigma a ser decifrado, 11111l'SJI'II,O no qual
a hospitalidade se faz necessaria. 0 estrangcuu cit!IIt H) de cada
urn nao deve inviabilizar os diferentes e dive: os sentidos da
palavra hospitalidade. Hospitalidade remote II IIIIlH utitudc in-
trfnseca ao processo de desvendar 0 si ni.,1ro de nossos
analisandos na clinica psicanalitica, mas tarnhem ru~alusao a
capacidade de escuta entre os pares.
A leitura de (Con)textos de Entrevista e 1I11lU oportunidade
privilegiada para testar a capacidade de convivcr com as dife-
rencas, nos referenciais te6ricos, que sustentam a escuta dos
autores que se apresentam nestas paginas. 0 territ6rio comum
entre eles sao as inquietacoes que provocam 0 encontro com 0
outro: como ouvi-lo, pensa-lo, responder a isso? A partir de
diferentes concepcoes te6ricas de como responder a demanda
que 0 outro formula, os autores deste livro construiram diver-
sas posicoes de escuta.
Penso que e necessario situar-se em uma certa posicao em
relacao a descoberta na arqueologia do outro, posicao que,
independe das diferencas, porquc c etica.
(Con)textos de Entrevista e urn livro escrito a partir de ex-
periencias em diversos campos profissionais, mas 0 que chama
a atencao, porque nao e comum em nosso meio, e que os auto-
res nao trataram a teoria como dogma e se colocaram distantes
da pratica viabilizada como receita. Todos, cada urn em sua
perspectiva, propoem que pensemos a entrevista como 0 recur-
so de "escutar" 0 outro, tanto na especificidade como na finali-
dade de cada encontro. A complexidade de urn sistema aberto
preve a fecundidade no intercambio.
As organizadoras deste livro, Leanira Kesseli Carrasco e
Monica Medeiros Kother Macedo, no capitulo de abertura, sus-
tentam que "a entrevista, nas suas diferentes aplicacoes, e uma
tecnica de interacao social, de interpenetracao informativa que-
brando, assim, isolamento grupais, individuais, sociais; pode
(Con) eexeosdeenerevisea: olhares dlvcrsoa I6
dizem respeito a totalidade, a organizacao e a padronizacao. Os
eventos sao examinados dentro do contexto no qual ocorrem,
ou seja, na fanulia, e a atencao do terapeuta e centrada nas co-
nexoes e nas relacoes entre os membros, mais do que nas ca-
racterfsticas individuais".
Em A circularidade sistemica na escuta clinica, Terezinha
Rech afmna "a entrevista, primordialmente as primeiras, con-
siste em lidar com situacoes complexas e ansiogenicas pela
natureza da tarefa. Por urn lado, exige do profissional urn gran-
de esforco interpretativo e, por outro, de seus integrantes urn
esforco para estabelecer a comunicacao. Ambas as partes man-
tem-se sob a efeito de uma forte carga cmocional, dificultando
o seguimento de urn padrao determinado".
Entrevista de Triagem: espaco de acolhimento, escuta e
ajuda terapeutica, de Nadia Marques, autora com long a expe-
riencia em atendimento institucional que contribui com suas
observacoes acerca do valor das entrevistas de triagem. Neste
modelo, 0 entrevistador e 0 entrevistado tern objetivos especf-
ficos e papeis difercnciados. Escreve a autora que as entrevis-
tas de triagem sao realizadas dentro do enfoque psicodinamico
e tern como objetivos elaborar uma historia clfnica, definir hi-
poteses de diagnostico e a indicacao terapeutica.
Psicodiagnostico: recurso de compreensiio, no trabalho do
psicologo de Leanira Kesseli Carrasco e Juliana Rausch Potter,
em urn momento de discussao em torno da utilizacao dos testes
na psicologia, as autoras procuram contextualizar a aplicacao
no processo de psicodiagnostico e, fazem, inclusive, uma rela-
traOinteressante com a identidade do psicologo,
Entrevistas retrospectivas: autopsia psicologica de Blanca
Suzana Guevara Werlang, Monica Medeiros Kother Macedo e
Nelson Asnis. Por meio deste capitulo os autores entram no
campo do inedito: a entrevista em que 0 outro efetivamente
esta ausente, nao do lugar, mas, sim, da vida. Na seriedade que
MOnica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Olll~.) 9
transferencial e, por excelencia, 0 campo de atrao da Psicanali-
se. Assim, analista e analisando, no jogo de dupla escuta, po-
dem construir destinos "para as forcas pulsionais e inscreve-las
no universe da sirnbolizacao. Dentro desse contexto, a subli-
macae seria 0 destino pulsional que se relacionaria a formas
alternativas de satisfacao de desejo". E urn desafio a capacida-
de do analista de colocar-se como objeto da pulsao e sujeito da
atrao transformadora.
Adriana Ampessan historiza urn percurso teorico-clfnico
muito peculiar para definir-se na escuta do padecer infantil. A
singularidade da psicanalise in/anti! leva 0 leitor a aproxi-
mar-se de aportes que sustentam a escuta no processo de ana-
lise da crianca. As entrevistas iniciais, as hip6teses, a inclu-
sao dos pais fazem parte de urn circuito dinamico que funda-
menta a terapeutica.
Irani de Lima Argimon e Kelly Cardoso Paim relatam, em
A entrevista motivacional, a experiencia com pacientes em uma
unidade de dependencia qufrnica para apresentarem as inter-
vencoes que consideram terapeuticas.
Em Entrevista em psicoterapia cognitiva, Ricardo Wainer
e Neri Maurfcio Piccoloto apresentam os aspectos que conside-
ram importantes no desenvolvimento das entrevistas nesta mo-
dalidade terapeutica.
Janice Castilhos Vitola e Marta Regina Cemin movirnen-
tam-se no contexto de entrevista a partir da afirmacao de que
"0 psicoterapeuta e uma caixa de ressonancia e urn arnplifica-
dor da experiencia do cliente. Percebe-se como urn todo, nao
julga, nao interroga, nao tranquiliza nem interpreta. Seu objeti-
vo e acompanhar as descobertas do cliente na forma como ele
as vai experienciando."
Nadir Helena Sanchotene de Souza apresenta 0 eixo que
sustenta a modalidade de sua escuta na Terapia Familiar ao
escrever que "os conceitos-chave do pensamento sistemico
(Con)textos de entrevista: olhares diversos sobrc a Intcr.1~nOluunana8
J Psic6loga. Psicanalisra. Douroranda em Psican:Uiseda Universidade Auronoma de M~drid.
Membro Pleno do Nucleo de Escudos Sigmund Freud (Porro Alegre) e da Sociedad
Psicoanallricadel Sur de Buenos Aires.
Eurema Gallo de Moraes'
Angela c. B. Pratini Seger, em Entrevista clinica no con-
texto hospitalar: revisiies e reflexoes, afirma que a interven-
9ao terapeutica, baseada na psicoterapia breve ~ocal, atend~ 0
paciente, considerando seu momenta atual de cns~, seu funcio-
namento eg6ico e, em especial, os recursos defensivos que pos-
sui para enfrentar este momento.
A entrevista na empresa visa obter inforrnacoes a respeito
das pessoas que estao se candidatando a uma opo~nidade de
trabalho. Para conduzi-la de forma estruturada, e preciso conhe-
cer os requisitos da funcao e da organizacao da empresa e, tam-
bern, avaliar as condicoes do candidato escreve Fabrfcia Ra-
mos, em Entrevista na empresa: entrevista de selecdo.
Assim fui percorrendo cada capitulo de (Con)textos de
Entrevista. Penso que os diversos leitores desde alunos de
gradua9ao, que podem encontrar em suas p.aginas sub~i~ios
para pensar as intervencoes que cada entrevista pote~claliza,
ate os profissionais, na especificidade de suas pratl~as, en-
contrarao sintonia nas reflexoes dos autores. A leitura do
livro e urn encontro com interlocutores que fazem da escuta
um exercicio etico.
11Monica Medeiros Kother Macedo & Lcanira KcsseliCarrasco (Orgs.)
norteia 0 trabalho destes autores, encontramos na pesquisa que
realizam a maneira cientffica deste procedimento - as entre-
vistas retrospectivas. Tal instrumento viabiliza a cornpreensao
da morte por suicidio, no qual, segundo os autores, 0 "interesse
e de organizar aquilo que e lembrado quanta a vida do objeto
de estudo". A complexidade desta "entrevista" exige do
entrevistador urn treinamento e uma formacao especial, alem
de indispensavel qualificacao e experiencia clinica. E escutar
"sobre" quem escolheu sair da vida; sao hip6teses atravessadas
pelos efeitos assustadores do ato.
Entrevista como instrumento de pesquisa, capitulo assi-
nado por Maria Lucia Tiellet Nunes leva-nos a refletir sobre
a entrevista como metodo atrativo ao pesquisador no qual a
habilidade de conduzir uma conversacao se faz necessaria.
A autora aborda de forma clara e didatica a entrevista semi-
estruturada como procedimento de coleta de dados assim
como, discorre sobre a analise de conteudo como metoda de
analise das entrevistas. 0 capitulo encerra com considera-
coes eticas em relacao a entrevista no contexto da pesquisa.
Jacqueline Poersch Moreira, respaldada na sua experien-
cia em Psicologia Escolar apresenta, de forma cuidadosa, urn
roteiro relevante para a entrevista realizada na escola. 0 psi-
c6Iogo, no contexto da escola, circula nos divers os lugares e
nas inurneras situacoes, em que encontra, interagindo, seus
possfveis entrevistados. Neste intercambio de atitudes reti-
ram a tematica das entrevistas: a "queixa". A intervencao e
transformar a "queixa" em uma intencao de trabalho.
A entrevista institucional,pensada porDulce HelenaAguilar
Baldo, sugere que ha peculiaridades neste contexto - a obser-
va9ao da instituicao, 0 diagn6stico institucional e a assessoria
individual e/ou em grupos - e, portanto, exigem que 0psicologo
estabeleca urn contrato explicito e claro. A a9ao do profissional
deve facilitar que os impedimentos, as demandas e as expecta-
tivas aparecam e mobilizem mudanca,
(Con)textos de cntrevista: olhares diversos sobre a interacao humana10
PARTE 4 - (CON )TEXTO HUMANlSTA-
FENOMENOL6GICO-EXlSTENCIAL 113
A Entrevista Humanista-fenomeno16gieo-existeneial 115
JANICE CASTILHOS VITOLA
MARTA REGINA CEMIN
PARTE 3 - (CON )TEXTO COGNITIVO-
COMPORTAMENTAL 85
A entrevista motivaeional: importancia do acolhimento
a dependentes quimicos 87
IRANI DE LIMA ARGIMON
KELLy CARDOSO PAIM
Entrevista em Psieoterapia Cognitiva 99
RICARDO WAINER
NERI MAURfCIO PICCOLOTO
PARTE 2 - (CON)TEXTO PSlCANALlTICO 33
n . J • -' all ~ 35rer tna aeporre, uma mtervencao pSlean mea. . .
DENISE HAUSEN
A escuta na Psicanalisee a Psicanalise da eseuta 49
MONICA MEDEIROS KOTHER MACEDO
CAROLINA NEUMANN DE BARROS FALcAO
~~::tht~':~.~~.~~.~.~~~.~.~..~~~~~~.~~.~~~.t.i.~~..~~.:.~~~~.~~.. 63
SISSI VIGIL CASTIEL
CAROLINA NEUMANN DE BARROS FALcAo
A Singularidade da Psicanalise Infantil 73
ADRIANA AMpESSAN
A Entrevista Clinica: urn espas:ode intersubjetividade 19
MONICA MEDEIROS KOTHER MACEDO
LEANlRA KEsSEll CARRASCO
PARTE 1 17
AJ>RESENTA<;AO 5
PREFAclO 15
SuMARIO
Nosso ponto de partida para elaborar (Con)textos de Entre-
vista - olhares diversos sobre a interaciio humana foram as
vivencias de compartilhar, como professoras, uma clisciplina
ministrada no curso de graduacao da Faculdade de Psicologia
da PUCRS. A disciplina de Fundamentos de Tecnica de Entre-
vista permitiu-nos criar, em urn espaco de sala de aula, a possi-
bilidade de elaborar urn program a dinamico e atual para tratar
do tema Entrevista.
Eramos duas professoras, cada uma com sua turrna de alunos,
mas com urn desejo comum: 0 de promover trocas entre a Univer-
sidade e os contextos extramuros nos quais 0 psicologo esta inse-
rido. Este desejo foi ampliando-se e passou a contemplar, tam-
bern, a vontade de reproduzir em forma de textos as ricas situacoes
que vivenciamos durante os semestres, com os alunos e outros
colegas, de modo que estas igualmente pudessem alcancar espa-
cos mais arnplos do que 0 da sala de aula.
Acreditamos ser a Universidade, por excelencia, urn lugar de
producao e aquisicao de conhecimento. E fundamental que esse
conhecimento produzido estabeleca sernpre pontos de conexao corn
a realidade social na qual a Universidade se insere. Tal conexao
traduz sua fecunclidade nao apenas quando os conhecimentos cir-
culam de forma a transformarem a realidade, mas tambem de se
transformarern e criarem novas sinteses. 0 processo de aprendiza-
gem esta intimamente vinculado a essa ideia de movimento e trans-
formacao. Na sala de aula, os papeis de rnestre e aprendiz nao sao
rigidamente determinados. Acreditamos que, nas trocas
intersubjetivas inerentes a relacao de ensino-aprendizagem, os pa-
peis podem se altemar e promover ganhos em ambos os partici-
pantes do processo. Uma das dimens6es do percorrido de forma-
c;ao de psicologos diz respeito as reflexoes sobre 0 exercfcio da
PREFAcIO
SOBRE OS(AS) AUTORES(AS) 281
PARTE 8 - (CON)TEXTOS DE INSTITU1<;6ES 223
Entrevista na Escola 225
JACQUEUNEPOERSCHMOREIRA
A Entrevista Institucional 237
DULCE HELENAAGUIIAR BALDO
Entrevista cllnica no contexto hospitalar: revis6es
e reflex6es 247
ANGELAc.B. PRATlNI SEGER
Entrevista na empresa: Entrevisra de selecao 261
FABRfCIARAMos
PARTE 7 - (CON)TEXTOS ESPECIAIS 193
Entrevistas Retrospectivas: Autopsia Psico16gica 195
BLANCASUSANAGUEVARAWERLANG
MDNICA MEDEIROS KOTHER MACEDO
NELSON AsNIS
Entrevista como Instrumento de Pesquisa 207
MARIA LUCIA TIELLET NUNES
PARTE 6 - (CON)TEXTOS DE AVALJA<::AO 159
Entrevista de ~riagem: espas;ode acolhimento, escuta
e ajuda terapeutlca 161
NADIA MARQUES
Psicodiagn6stico: recurso de cornpreensao 181
LEANIRAKEsSEll CARRASCO
JULIANARAUSCH POTTER
PARTE 5 - (CON)TEXTO FAMILIAR STST~MICO ••••••••••• 127
AF!l" .am ia em terapia 129
NADIR HELENA SANCHOTENEDE SOUZA
A circularidade sisternica na escuta cllnica 145
TEREZINHA RECH
WI (entroUnlYmcUrio IlitIa dill lID
'!Y Bibliotea
PARTE 1
MONICA MEDEIROS KOTHER MACEDO
LEANIRA KESSELl CARRASCO
profissao, 0 contato com 0 profissional possibilita ao aluno a pro-
ximidade com situacoes para as quais ainda nao esta habilitado,
mas que estao no ceme de seu projeto de vida academica, Escutar
relatos de vivencias, nas quais se evidencia a importancia de urn
embasamento te6rico e tecnico qualificado, promove ainda maior
conscientizacao de nossa responsabilidade diante da profissao que
escolhemos.
Dessa forma, durante 0decorrer dos semestres tivemos 0 pra-
zer de, juntamente com os alunos, partilhar de ricos depoimentos
profissionais sobre diferentes possibilidades de intervencao do psi-
c6logo. Percorremos os contextos da clinica privada nos enfoques
psicanalftico, humanista-existencial, cognitivo-comportarnental e
sistemico. Adentramos instituicoes como hospitais, escolas e em-
presas. No aceite de nossos convites, psicologos e psiquiatras,
pertencentes ou nao ao corpo docente da Faculdade, dispuseram-
se a estabelecer intercambios e contar suas experiencias profissio-
nais relativas a tematica da referida disciplina. Nosso criterio de
escolha dos nomes dos profissionais convidados para a disciplina
e, agora tambem como autores desse Iivro, sempre foi 0 da com-
petencia e do dominic em sua area de conhecimento e atuacao. Te-
mos muita gratidao a esses profissionais pelas parcerias estabelecidas
e pela possibilidade em compartilhar suas experiencias,
Foram, entao, criando-se ricas e criativas situacoes de inter-
cambios que tiveram como palco as salas de aula em nossa Facul-
dade. Atraves de olhares diversos sobre a utilizacao da entrevista
como instrumento imprescindfvel da pratica do psicologo, surgiu
a ideia de urn registro em forma de livro.
Aqui esta, entao, (Con)textos de Entrevista: olhares diver-
sos sobre a interaciio humana, urn convite a percorrer os fecun-
dos caminhos da diversidade presente nas possibilidades de nos-
sa atuacao profissionaL
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana16
A entrevista e urn importante e fundamental recurso que 0
psicologo utiliza em seu trabalho.Emulto comum associarmos
a entrevista a clinica psico16gica,porem, do mesmo modo que
nao e um instrumento exclusivo do trabalho do psic61ogo, a
entrevista tambem nao limita sua aplicabilidade a uma area de
atuacao deste profissional. Ela se faz presente como recurso na
escola, no hospital, nas empresas, no campo juridico, no cam-
po esportivo, alern da propria clfnica, onde tambem podera ser
usada de diferentes formas.
Assim, consideramos importante e fecundo abrir urn espa-
90 de reflexao sobre a entrevista como "tecnica de conversa-
cao" que tern como objetivo fundamental possibilitar ao psico-
logo buscar informacoes ou dados a respeito de seu cliente,
paciente, aluno, candidato, instituicao, etc. Pensamos que, de
modo geral, e necessario enfatizar a adequacao de estudar a
entrevista e nao somente priorizar sua aplicabilidade nos diver-
sos campos da Psicologia.
A amplitude da definicao e da aplicabilidade da entrevista
e evidenciada tarnbem fora do ambito da Psicologia. Por exem-
plo, no campo da comunicacao, Medina (1995) considera que a
entrevista e uma forma de se alcancar 0 inter-relacionamento
humano, uma vez que e uma tecnica de interacao. Na comuni-
cacao tern uma interpenetracao informativa que rompe com iso-
lamentos individuais, grupais e sociais, pois distribui democra-
ticamente a informacao.
MONICA MEDEIROS KOTHER MACEDO
LEANlRA KEsSELl CARRASCO
,
UM ESPAc;O DE INTERSUBJETMDADE
A ENTREVISTA CLfNlCA:
e uma teoria que Ibe de sustentacao, administrar tais situacoes.
Bleger (1976) ja referia a entrevista como urn campo, no qual
muitos fenomenos acontecem.
A propria dinamicidade que caracteriza as relacoes huma-
nas se faz presente na relacao estabelecida entre entrevistador-
entrevistado. A partir disso, abre-se urn espaco para que muitos
fenornenos relacionais acontecarn. Tavares (2000) destaca que
a enlrevista clfnica e um procedimento poderoso e pelas
suas caracteristicas e 0 iinico capaz de adaptar-se a
diversidadc de situacoes clinicas relevantes e de fazer
explicitar particularidades que escapam a outros
procedimentos, principalmente aos padronizados (p. 46).
Basicamente a entrevista e urn procedimento utilizado pelo psi-
c6logo com 0objetivo de conhecer, de buscar dados para intervir em
uma dada sitnacao, entendendo-se esta intervencao sempre determi-
nada pela especificidade de cada situacao. A entrevista tern por fi-
nalidade fazer urn levantamento de informacoes que possibilite
relacionar eventos e experiencias, fazer inferencias, estabelecer con-
clusoes e tomar decisoes (TAVARES, 2000 & CRAIG, 1991).
A entrevista e uma situacaode encontro entre duas ou mais
pessoas. Nela nao havera participante de maior ou menor im-
portancia. Os espacos e funcoes de cada urn sao diferenciados
e, ao mesmo tempo, interdependentes.Esta situacao de interacao
humana que OCOlTena entrevista psicol6gica e assinalada por
Bohoslavsky (1977, p. 120) ao defini-la como uma situacao
interhumana.
Muito se tern escrito sobre a entrevista clfnica dentro de
diferentes abordagens te6ricas. Nosso objetivo neste capitulo
nao eenfocar a entrevista a partir de urn determinado referencial
te6rico, mas, sim, refletir sobre aspectos que se fazem presen-
tes em situacoes da clfnica nas quais a entrevista parece-nos ser
o principal instrumento de trabalho do psicologo, Entretanto,
tomaremos algumas consideracoes do referencial psicanalftico
21Monica Medeiros Kocher Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Na proposta de explicitar a ampliacao do ambito da entre-
vista como uma pratica humana, Garrett (1981) destaca que
todas as pessoas, de uma maneira ou outra, sao envolvidas na
entrevista na medida em que ora entrevistam, ora sao entrevis-
tados. Em qualquer uma destas situacoes estarao presentes as-
pectos objetivos e subjetivos, A autora tern como ponto basico
de sua teorizacao a enfase no uso da tecnica para a arte de en-
trevistar, sendo essa a arte de ouvir, perguntar e conversar. Con-
sidera que Arte requer habilidade e aptidao do entrevistador,
sendo 0 treinamento uma parte essencial que nao dispensa, con-
tudo 0 cuidado que ele precisa ter com sua qualificacao e sensi-
bilidade no uso do recurso tecnico.
Uma caracterfstica enfatizada por autores como
Bohoslavsky (1977), Ribeiro (1986), Bleger (1976) e Vallejo-
Nagera (2001) e que em qualquer tipo de entrevista havera uma
demanda de algo a quem se supoe que possa corresponder a
ela. Esta demanda pode ser por uma informacao sobre algo ocor-
rido, uma simples opiniao sobre uma situacao qualquer ou a
solicitacao de uma ajuda especializada diante da constatacao
de urn sofrimento fisico ou psiquico.
Para fins deste capitulo pens amos trazer a discussao os as-
pectos relativos a entrevista clinica, uma vez que, neste campo,
entendemos ser a entrevista uma condicao sine qua non para a
compreensao do sofrimento daquele que busca ajuda. No que
diz respeito, portanto, a dimensao psfquica, pensamos que a
entrevista clfnica sempre contempla dificuldades e complexi-
dades pelo fato de que 0 ser humano e surpreendente e incapaz
de ser conti do ou avaliado dentro de urn sistema predetermina-
do. Dificilmente podera 0 profissional prever 0 que se sucedera
em uma entrevista em actio, mesmo em referenciais que pres-
supoem uma certa padronizacao de etapas. Ate mesmo nestas
situacoes "previstas e planejadas" 0 entrevistador podera se
deparar com 0 inesperado: urn questionamento, uma desisten-
cia, uma nova descoberta, cabendo a ele, munido de uma tecnica
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana20
EPISTEMOLOGIA
CORPOTE6RICO
TECNlCA
CAMPODACLiNICA
PRAnCA
As afirmativas da autora permitem-nos reafirrnar a impor-
tancia da teoria como uma forma de "mediacao" entre 0 que e
dito pelo entrevistado e 0 efeito que gera a partir da escuta por
parte do entrevistador.
Cada corpo conceitual encontra na entrevista uma rica for-
ma de expressao de seus recursos tecnicos. Nesse sentido, inde-
pendente do referencial te6rico que a sustente, toma-se impor-
tante mencionar e salientar a necessidade de que a entrevista elf-
nica esteja de acordo com 0 objetivo especffico a que se propoe e
a orientacao teorico-tecnica do entrevistador. Tal ideia e corro-
borada pOl'Hornstein (1989) ao afrrmar que
uma tecnica nao pode ser compreendida nem, portanto,
aplicada se se desconhecerem os conceitos que a
fundamentam. Toda a pratica tem um efeito que the e
especffico. (...) Uma tecnica que nao esteja baseada em um
conhecimento teorico daquilo que pretende transformar gera
uma pratica cega que se esteriliza (p.23).
A pratica da clfnica possibilita a experiencia de confronta-
9aoda teoriaviabilizandoreformulacoes,transformacoesquecon-
figuram uma situacao de interdependencia e retroalimentacao
entre elas. Esse movimento caracteriza a dinamicidade existente
entre teoria, metoda e tecnica.
23Monica Medeiros Kother Macedo & Lcanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
que nos parecem pertinentes quando enfocamos a cntrcvista na
clfnica. Tais contribuicoes nos permitem ilustrar situayocs que
aprofundam os t6picos abordados.
Acreditamos que na medida em que a entrevista configura
uma situacao de dialogo pode ser pensada como um meio pri-
vilegiado de acesso ao outro, urn instrumento que nos permite,
por meio da palavra, estabelecer as condicoes necessarias para
que se constitua uma relacao de ajuda. Nessa situacao, a entre-
vista, ao outorgar diferentes papeis ao entrevistado e ao
entrevistador, cria condicoes para que, mediante a criacao de
urn espaco de dialogo, se tenha acesso a subjetividade em for-
ma de discurso, seja ele verbal ou nao-verbal.
Entendemos por discurso algo que vai alem das palavras,
refere-se a uma situacao de comunicaciio de algo, modos pelos
quais a pessoa comunica algo a alguem, Atrasos, esquecimen-
tos, mudancas bruscas de assunto, posicoes do corpo, gestos e
ate mesmo silencios fazem parte deste rol de imimeras possibi-
lidades de cornunicacao. Nesse sentido cabe ressaltar a dife-
renca existente entre a entrevista tal qual descrevemos e uma
conversa social tambern sustentada no dialogo. A segunda nao
tern compromisso algum com tecnica ou teoria. Ja no que se
refere a entrevista clmica, consideramos que e fundamental a
interdependencia e a articulacao existentes entre a teoria e a
pratica clfnica. Acreditamos que a toda pratica deve
corresponder uma teoria que a sustente e que the indique
parametres de aplicabilidade. Em seu livro sobre epistemologia
e metodologia de pesquisa, Minayo (2002) afirma que
Ciencia se faz com teoria e metodo. Teoria e uma especie
de grade ou janela atraves da qual 0 cientista olha para a
realidade que investiga. Isto quer dizer que ninguern
consegue investigar urn problema olhando-o diretamente,
como se houvesse possibilidade de cornpreende-lo e explica-
10 em si mesmo. A compreensao da realidade e sempre
mediada: por teorias, por crencas, por representacoes (p.l7).
(Con)textos de entrevista: olhares divcrsos roIm' II 11111",\1\1) humana22
a entrevista clfnica e urn conjunto de tecnicas de
investigacao, de tempo delirnitado, dirigido por urn
entrevistador treinado, que utiliza conhecirnentos
psico16gicos, em uma relacao profissional com 0 objetivo
de descrever e avaliar aspectos pessoais, relacionais ou
sistemicos (indivfduo, casal, farru1ia,rede social), em urn
processo que visa a fazer recomendacoes, encaminhamentos
ou prop~r algum tipo de intervencao em beneficia das
pessoas entrevistadas (p. 45).
Evidenciar 0 aspecto de singularidade permite a interroga-
c;:aosobre 0 complexo processo de constituicao da subjetivida-
de ao mesmo tempo em que se resgata a importancia das trocas
intersubjetivas na construcao do ser humano. Ao optarmos por
uma concepcao de sujeito proxima a ideia de urn sistema aber-
to que recebe e sofre influencia do que esta fora dele, a dimen-
sao social deixa de se referir apenas a noc;:aode sociedade ou de
outras pessoas para incluir "relacoes situadas no tempo histori-
co, em condicoes determinantes de vida, permeadas de signifi-
cacoes e linguagens especfficas ..." (BOCK, 1997, p.39). Res-
gatar ou abrir espaco para a singularidade do entrevistado em
relacao a sua historia e tambern abrir espaco para a singularida-
de que marcara a situacao de encontro entre aquele entrevistador
e aquele entrevistado.
A nocao de investigacao intrfnseca ao conceito de entre-
vista Ievara sempre em consideracao a capacitacao e a qualifi-
cayao de quem a conduz. A existencia de dogmas por parte do
entrevistador exclui a existencia de uma efetiva e qualificada
escuta do outro. A existencia de urn pre-saber inviabiliza 0 ver-
dadeiro processo de investigacaoe transforma a situacao de
entrevista em urn esteril espaco de confirmacao que empobrece
a relacao e a propria entrevista como instrumento tecnico.
Tavares (2000), buscando uma definicao de entrevista clfnica,
propoe 0 seguinte:
25Meniea Medeiros Kocher Macedo & Lcanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Ao referir 0 termo epistemologia na figura 1, procuramos
caracterizar os construtos teoricos como evidencia a origem do
termo episteme: colocar-se em boaposiciio. Colocar-se em boa
posicao para apropriar-se de urn saber, que, mediado pelos re-
cursos da tecnica, resulta em uma pratica clfnica,
Tavares (2000) ressalta que as tecnicas de entrevista devem
potencializar 0 aparecimento das particularidades de uma pessoa e
constituem-se em lim meio de acesso amplo e profundo ao outro.
Contextualiza-se nas situacoes de entrevista 0que refere Hornstein
(1989) sobre a relacao entre 0objeto teorico e sua objetivacao como
metodo e determinacao como tecnica, permitindo transformacoes
e articulacoes sobre a realidade. No caso da entrevista c1fnica, 0
paciente e sua realidade sao 0 que precisam ser conhecidos. A
teoria e mediada pela tecnica na intervencao clinica.
Pelo fato de a entrevista clfnica nao ser uma tecnica unica,
ela estara sempre intimamente relacionada corn a forma do
entrevistador compreender os fen6menos humanos, alem do que
os diferentes objetivos de cada tipo de entrevista serao
determinantes em suas estrategias, possibilidades e limites. Pen-
samos que teoria e pratica devem estar sernpre inter-relaciona-
das. E necessaria uma constante vigilancia para que nao se erie
uma dissociacao entre 0 ser clfnico e 0 ser teorico. a risco de
privilegiar a teoria resulta em urn distanciamento da relacao com
a clfnica e, da mesma maneira, privilegiar a clfnica faz com que a
pratica se converta em urn fazer sem saber.
Hornstein (1990) destaca que estas situacoes de distorcao
trazem 0 risco de que toda a teoria se formalize como "dogma e
toda a pratica ritualize-se como receita" (p.106). Dessa forma
pensamos que a interdependencia entre teoria e pratica e 0 que
viabiliza a rnanutencao da caracteristica investigativa que deve
predominar na situacao de entre vista. Preserva-se assim a pos-
sibilidade de nunca perder de vista a singularidade dos encon-
tros humanos.
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interagao human a24
A observancia aos aspectos eticos, sornada a experiencia,
ao conhecimento e a cornpetencia do terapeuta, contribuira de
forma significativa para a adequacao na conducao do proces-
so no qual ambos estao inseridos. A interdependencia existente
ETICA
reconhecimento desta assimetria deve servir de reforco a res-
ponsabilidade etica e tecnica que cabe ao terapeuta, uma vez
que de seu lade os saberes vao, como bern assinala Bueno
(2002), "desde 0 que pode estar sob seu dominic - tecnica, ob-
jetivos, fins, conhecimentos te6ricos - ate 0 que the e atribufdo
pelo contexte ou pelo interlocutor" (p.13).
A observacao dos aspectos eticos sera fundamental na de-
finicao dessas responsabilidades para corn 0 paciente, assirn
como os aspectos relativos a sua competencia profissional.
Como observado na figura 2, os aspectos eticos, responsabili-
dade do terapeuta, perpassam sua teoria, tecnica e pratica em
beneffcio do outro e de si mesmo.
27MOnicaMedeiros Kother Macedo & Lcanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
A qualidade da relacao que se estabelecera entre 0paciente
e 0 terapeuta dara a entrevista, seja no inicio, no desenvolvi-
mento ou na conclusao do processo, uma determinada configu-
racao. E a entrevista um instrumento fundamental para 0 esta-
belecimento, desenvolvimento e manutencao de uma relacao
de ajuda. Cabe ressaltar a importancia que tera 0 terapeuta, con-
siderando nao apenas seu conhecimento teorico e suas habili-
dades profissionais, mas tambem tendo presente sua responsa-
bilidade na conducao do processo.
As funcoes e os papeis desempenhados por paciente e
terapeuta sao diferenciados. 0 paciente busca uma ajuda e atri-
bui ao terapeuta a capacidade de auxilia-lo em suas dificulda-
des. No que se refere ao terapeuta cabe-lhe situar a entrevista
clinica no dominic de uma relacao profissional. Se por urn lade
ao assumir as responsabilidades profissionais que tern com 0
paciente implica reconhecer a assimetria presente na relacao
terapeutica, por outro essa constatacao confere ao terapeuta a
responsabilidade sobre a conducao do processo.
Tanto 0 entrevistado quanta 0 entrevistador sao portadores
de determinados conhecimentos que os caracterizam em suas
diferencas. Por urn lado, 0 entrevistado possui os dados de sua
historia, suas lamentacoes, seus sintomas, seus motivos e, por
outro, 0 entrevistador e detentor de subsidios te6ricos e tecni-
cos que 0 habilitam na ajuda ao primeiro. Bueno (2002) desta-
ca 0 quanto esta assimetria e uma regularidade que faz parte de
entrevistas, independente de serem entrevistas clinicas. Para a
autora, a funcao de entrevistador e entrevistado no campo da
entrevista sao diferentes e vao ser definidos de acordo com a
funcao e 0 lugar de cada urn. Em relacao a entrevista clfnica,
nem sempre a explicitacao dessa condicao inerente de assimetria
e bern entendida. Por vezes e tomada desde urn ponto de vista
que nos parece equivocado, uma vez que nao faz alusao nem
justifica, portanto, uma leitura que atribua ao terapeuta uma
especie de poder em relacao ao paciente. Ao contrario, 0
(Con) textos de entrevista: olharcs diversos sobre a interacfio humana26
uso deste termo transcende uma relacao especffica com a
psicanalise, podendo ser aplicado as outras modalidades de in-
tervencao terapeutica. 0 que se escuta (inconsciente,
potencialidade ou crencas cognitivas) pode ser 0 elemento mais
estreitamente vinculado a urn campo teorico, mas a condicao
de escuta e fundamental ao terapeuta. Ela nos convoca a utili-
zar nossos conhecimentos e habilidades profissionais e pes-
soais a service de uma demand a de ajuda. Escutar e buscar nas
palavras de quem sofre urn significado proprio e singular. A
verdadeira escuta precis a estar desprovida de preconceitos
e, principalmente, excluir qualquer possibilidade de urn pre-
conhecimento a respeito daquele que chega e, agora, fala. 0
terapeuta, para realmente poder escutar, precis a reconhecer que
nao sabe a respeito do paciente. Sera na relacao, a partir de urn
processo de construcao, que 0 enigmatico sera desvelado, 0
sofrimento sera nomeado e a ajuda ~e concretizara.
Na area clfnica, quanta mais qualificado for 0 terapeuta,
rnais a entrevista psicologica - como instrumento - atendera a
seus objetivos e demonstrara sua eficacia. Por exemplo, cabera
ao paciente contar a sua historia, falar do que lhe aflige, mas,
muitas vezes, acredita nao saber 0 que se passa com ele. Sera
na relacao com 0 terapeuta que este desconhecido conhecido
podera ser cada vez mais explorado, que serao abertas novas
possibilidades de atribuicao de sentidos, desde que 0 paciente
sinta-se acolhido e a vontade na relacao com 0 terapeuta. Com
isso, queremos demonstrar que, se a entrevista for pensada como
urn instrumento impessoal e de distanciamento, ficara restrita
e, ate mesmo, prejudicada na sua aplicabilidade. A necessidade
de urn treinamento na utilizacao da entrevista visando a uma
maior competencia tecnica nunca podera estar dissociada do
cuidado com os aspectos afetivos e subjetivos que se fazem
presentes. Conforme afirma Tavares (2000):
29Monica Medeiros Kothcr Macedo & Lcanira Kessell Carrasco (Orgs.)
entre as habilidades interpessoais e 0 usa da tecnica exige algu-
mas caracterfsticas especificas do terapeuta. Para Tavares (2000),
e necessario que 0 entrevistador tenha a capacidade de estar
realmente disponivel para 0 outro de forma a escuta-lo sem a
interferencia de questoes pessoais. Isso possibilita facilitar a
construcao de uma adequada alianca de trabalho, assim como 0
conhecimento dos motivos que 0 levaram a buscar ajuda.
o terapeuta deve estar capacitado a buscar esclarecimen-
tos, perceber contradicoes, tolerar situacoesde ansiedade rela-
cionada a temas presentes na entrevista e tambem estar habili-
tado a reconhecer as defesas e os modos de estruturacao do
paciente. A compreensao de seus proprios process os psiquicos
facilitara a comunicacao e a relacao terapeuta-paciente. 0 do-
mfnio das tecnicas utilizadas, baseadas em uma teoria que as
sustente, possibilitara ao terapeuta mobilizar recursos adequa-
dos frente a situacoes diffceis e inesperadas.
Os aspectos mencionados referentes a capacitacao do
terapeuta sao igualmente destacados por outros autores, que se
preocupam com a existencia de uma solida fundamentacao teo-
rica e tecnica que resu1te em uma eficaz utilizacao da entrevista
como instrumento de trabalho na clfnica. Ribeiro (1986) e
Zimerman (1999) destacam a importancia de que haja respeito
pelo sofrimento do paciente; que, alem da tecnica, 0 terapeuta
possa ser pessoa e assuma com senso de responsabilidade 0
processo terapeutico, Na conducao da relacao com 0 paciente e
imprescindfvel que 0 terapeuta possa efetivamente nao apenas
ouvir, mas saber escutar.
Entendemos que ouvir corresponde muito mais a uma con-
dicao fisiologica relacionada aos orgaos sensoriais. Ja a capaci-
dade de escuta coloca-nos em uma outra posicao em relacao
aquele que fala. 0 termo escuta e muito utilizado na psicanali-
se, mas, se 0 pensarmos relacionando-o a exigencia de uma
genufna atencao aquele que fala de sua dor, acreditamos que 0
(Con)textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana28
OJI CentrO ulllVmnario 1IIlI2f ••
\..W Biblioteca
BOCK, A. M. B. Formacao do Psicologo: urn debate a partir do
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Referencias bibliograficas
Urn instrumento tecnico seja ele qual for, por si s6, nao da
conta da pratica profissional. A entrevista e urn instrumento
tecnico, a competencia na adequacao de seu uso esta direta-
mente ligada as condiciies do terapeuta. Tal afirmativa por urn
lado reforca 0 aspecto de autonomia da pratica clfnica, mas,
por outro lado, evidencia a responsabilidade que 0 terapeuta
tern na conducao etica do processo terapeutico.
Acreditamos que a entrevista poe em questao a necessida-
de da pessoa do terapeuta estar sempre a frente da tecnica utili-
zada, ou seja, acima da tecnica esta a pessoa que a utiliza. Esta
pessoa com sua escuta qualificada e sustentada em urn saber
teorico-tecnico, sua atencao aos cuidados eticos e seu senso de
implicacao e responsabilidade assume efetivamente uma con-
di~ao de ajudar quem sofre.
31Monica Medeiros Kother Macedo & Lcanira Kessell Carrasco (Orgs.)
Com a pratica e a experiencia, os aspectos mecanicos da
tecnica tornam-se secundarios, eo sujeito e a relacao passam
a se destacar. Torna-se evidente uma integracao natural dos
aspectos tecnicos e a valorizacao da relacao com 0 sujeito.
Assim, a entrevista flui e a atuacao refinada do profissional
transforrna a tecnica em al1e (p.55).
Diante da complexidade de uma situacao de entrevista,
cria-se geralmente a expectativa de encontrar urn modele
pronto e aparentemente correto a ser seguido, como urn ma-
nual de instrucoes que desconsidera as especificidades e sub-
jetividades tanto do paciente como do terapeuta. Tal expecta-
tiva por si s6 cria urn paradoxo: como pensar em uma situa-
~ao especialmente dinamica como a entrevista clfnica, de
uma forma rigida, estereotipada, inflexfvel? Acreditamos que
a entrevista ocorre na sua pr6pria dinamica e, nesse sentido,
sera sempre unica e irrepetivel. Tomemos como exemplo uma
situacao de supervisao. Caso 0 supervisionando fique com
uma ideia de que deve apenas repetir as orientacoes e/ou
palavras do supervisor com seu paciente, perde-se a verda-
deira possibilidade de aprendizagem. Limitar-se-ia, assim, a
supervisao, a uma mera repeticao e nao a urn verdadeiro
treinamento que qualifique 0 trabalho clfnico e, como con-
sequencia, prejudicaria tambem a construcao de uma identi-
dade profissional singular.
Evidencia-se que a dinamica da entrevista aporta sempre
complexidades e dificuldades ao trabalho clinico, porern sera
com 0 reconhecimento, 0 enfrentamento e a busca de alternati-
vas para essas que se dara a verdadeira qualificacao profissio-
nal. Diante da irnposicao da complexidade da entrevista como
urn importante instrumento utilizado na clinica, e necessario
produzir reflexoes que a problematizem com 0 objetivo de
aprimora-la como recurso de mediacao terapeutica no encontro
com 0 outro.
(Conltextos de entrevista: olhares diversos sobre a intera~lio humana30
(CON)TEXTO PSICANALITICO
PARTE 2
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(Con)rcxtos de entrcvista: olhares diversos sobre a interacao humanaJ2
* Agradcs;oaosacadcrnicosde PsicologiaRoberta Via!Giacobone e Danichi Hausen Mizoguchi
a disponibilidade com que me auxiliaram, respectivarnente, na revisao merodo16gica e de
portugues,
Ao longo dos tempos e, mais especialmente no decorrer do
ultimo seculo, 0 mundo e a humanidade vern experimentando
as mais diversas formas de transformacoes: nos valores, nos
padroes observados com referencia aos distintos relacionamen-
tos estabelecidos, na forma de composicao das famflias, no tra-
to das quest6es relativas ao corpo, ao tempo, ao espaco.
As grandes transformacoes politicas, sociais e culturais
ocorridas logo ap6s a Segunda Grande Guerra inseriram mu-
dancas no cotidiano de uma grande parte do mundo e inaugura-
ram urn tempo que traz no seu bojo lima intencao de nao negar
e substituir os movimentos anteriores, mas, sim, de incorpora-
los, critica-los e, mesmo, de transforma-los, em uma mescla de
antigo e novo (OLIVEIRA, 2003).
A psicanalise tambem foi se transformando. Do ponto de
vista da teoria, as neuroses de transferencias se agregam outras
demandas. Teoriza-se acerca de manifestacoes psfquicas que
fieam aquem do simb61ico do sintoma psiquico e que se des-
carregam de forma direta no corpo e no ato. Ao lado dessas
demandas, tambem a exclusividade da interpretacao como for-
ma de intervencao em psicanalise e polemizada. E relevante
ressaltar, entretanto, 0 fato de as neuroses de transferencia e da
interpretacao como intervencao classica e paradigmatica da
DENISE HAUSEN
PER VIA DE PORRE, UMA
INTERVEN<::Ao PSICANALfTICA?*
o seculo dezenove corneca a se despedir para abrir espa-
90 para aquele que seria 0 seculo da chamada modernidade. A
psicanalise surge no contexto cientffico e cultural daquele fim
de seculo emergindo dessa conjuntura, ao mesmo tempo em
que nela vai fazendo registros. Faz parte, portanto, de uma re-
viravolta, de uma forma de rebeliao que se instala nos varies
campos da cultura. Desde uma perspectiva freudiana, rebela-
se com 0 segmento do proibido vincu1ado a sexualidade, des-
nudando uma sexualidade descolada da geni talidade
reprodutiva. Nesse momento, anuncia urn inconsciente mar-
cado por uma hist6ria infantil, singular, portanto, e ativo no
cotidiano de cada sujeito. A imagem que 0 homem ocidental
faziade si e, com isso, abalada.
A catarse, ab-reagindo 0 traumatico
principal ferrarnenta de trabalho do analista, que vai operar na
busca da estatua oculta, do conteudo reca1cado.Caracteriza-o,
per conseguinte, como 0 tratamento que deve se apoiar na ques-
lao do conflito intrapsfquico: vai utilizar-se de Leonardo Da
Vinci para propor que a terapeutica deve se sustentar no pres-
suposto da escultura, ou seja, per via de levare.
o perfil dos ana1isandos que buscam atendimento tern se
ampliado, salientando-se urn incremento de situacoes em que
a queixa vern por intermedio de transtornos relacionados ao
corpo, a impossibilidade de ser identificada uma dor psfqui-
ca, em que 0 indicativo psicopato16gico deixa de ser 0 deriva-
do de um excesso de repressao, mas que, com muita frequen-
cia, vern por decorrencia de uma impossibilidade do fazer sin-
toma por conta de urn excesso que deve ser retirado. Algo
deve ser posto. Podemos falar, entao, de uma intervencao que
venha per via de porre?
37Mllnica Medeiros Kocher Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
psicanalise continuarern ocupando 0 lugar de destaque no coti-
diana dos analistas. No entanto, impoe-se uma discussao acer-
ca de intervencoes que possam ir aquem ou alem da interpreta-
9ao e que se fazem presente nesse mesrno cotidiano.
A proposta que faco e que sc possa ampliar, mais alem das
neuroses de transferencia, 0modo como se da 0 trabalho do psi-
canalista,demandado que epor patologiasque transcendemaque-
las que se visibilizampormeio do retorno do conteudorecalcado.
Trata-se de questoes que circundam 0 tema das identidades, da
angustia livre descarregada no corpo, das drogadi90es, das
somatizacoes, das chamadas patologias do vazio.
Dessa forma, sigo 0 proposto por Freud (190411976), quan-
do afirma haver muitas especies de psicoterapia e muitos meios
de pratica-Ia, propondo a eficiencia de cada um a partir de sua
eflcacia: "Todos os que levam a meta da recuperacao sao bons.
Nao menosprezo nenhum de1ese utilizaria todas em condicoes
apropriadas". Afirrna ser 0 destine da psicanalise a destinacao
que puder ser dada pelos jovens analistas, buscando respostas a
singularidades que marcam cada paciente e cada tempo.
E por essa epoca que Freud cita Leonardo Da Vinci (14521
1519), pintor italiano, que, em meio a seus trabalhos de dese-
nho e escultura, escreveu os manuscritos de sua obra Trattato
della pintura, cuja primeira edicao, p6stuma, e de 1651. Postu-
la Leonardo, referindo-se as artes, que a pintura se daper via de
porre enquanto que a escultura funciona per via de levare. Vai
explicar sua proposta, dizendo que a pintura se faz por meio de
se colocar no papel, na tela vazia, as tintas que ocuparao esse
espaco com suas cores; enquanto que a escultura se processa
mediante a retirada de urn excesso, tirando-se material da pe-
dra bruta para que emerja a estatua nela contida.
Freud usara essa metafora, teorizando a sugestao como uma
intervencao que nao faz caso da origem do que esta escondido
dando forca ao sintoma, priorizando, entao, a interpretacao como
(Conltexros de entrcvisra- olhares divcrsos sobre a intera~ao hurnana36
Nesse mesmo texto, Freud afirma a quase impossibilidade
de se alcancar a origem da patologia somente por meio da in-
tcrrogacao ao paciente, sobretudo porque ele n~o quer ou n~o
pode lembrar, ou seja, nao tern nenhuma suspeita da conexao
causal entre 0 evento desencadeador e 0 fenomeno patologico.
Sao experiencias ausentes ou sumariamente presentes na me-
moria dos pacientes quando em estado psfquico normal. Pro-
poe a hipnose como metodo de provocar as lemb~an?asda epo-
ca em que 0 sintoma surgiu pela primeira vez; feito IS~O, torna-
se possivel demonstrar a conexao causal da forma mars c~arae
convincente. Apenas quando 0 paciente e inquirido sob hipno-
se e que essas lembrancas emergem, desaparecendo 0 sintoma
quando e possfvel fazer essa conexao e 0 af~to e desp~rtado e
traduzido em palavras. Freud (1893/1976) afirma 0 efeito cura-
tivo do metodo psicoterapico descrito, uma vez que "poe termo
a forca atuante da representacao que nao fora ab-reagida no
primeiro momento, ao permitir que seu afeto estrangulado en-
contre uma safda".
o metodo da cura proposto por Breuer e Freud gerava re-
sistencia nos medicos da epoca, acostumados que estavam aos
pressupostos da fisiologia. Para eles, 0meto~o .t~rapeutico afi-
gurava-se como acientifico e tendendo ao rrusncismo.
Derivado do metodo hipnotico, a catarse fez 0 ritual de pas-
sagem para que a psicanalise chegasse a meto.doclassico ~sic~-
nalftico da proposta da cura pela palavra mediante a associacao
livre; mediante, portanto, 0 trabalho psfquico que 0 proprio
paciente faz no sentido da busca do elemento original para liga-
10, entao, ao afeto.
Com 0 tratamento de Dora, sua jovem paciente descrita em
Fragmento da Analise de um Caso de Histeria (1905/1976),
Freud esclarece uma mudanca na tecnica que, ao longo dos anos,
vinha introduzindo. Em Estudos sobre a Histeria, propunha
partir dos sintomas evidenciados para chegar ao esclarecimento
39MtUlicllMedeiros Kother Macedo & Lcanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
o ana de 1904 transcorria quando Freud, 0 inventor da Psi-
canalise, foi chamado para proferir, diante do Colegio de Me-
dicina de Viena, a conferencia Sobre a Psicoterapia. Nela, se
propunha a discorrer sobre 0 progresso que sua teoria sofrera
desde que comecara a scr pensada, nos idos de 1895, com as
cartas e rascunhos enviados a Fliess, entre os quais 0 Projeto
para uma Psicologia Cient(fica.Da mesma forma, como ocor-
rera com 0 texto Estudos sobre a Histeria, escrito em parceria
com Breuer, seu mentor e colega, a quem atribufa 0 lugar de pai
da psicanalise, pois insistia no fato de que esta nascera com 0
tratamento de Berta Papenheim, a mitica Anna O. Breuer era
seu analista, e Anna a primeira paciente a se submeter a cura
pela palavra, expressao criada por ela mesma para nomear a
forma como definia seu tratamento. A tecnica foi nomeada por
Breuer e Freud como 0 metoda catdrtico.
Talmetoda buscava alcancar a ab-reacao por meio da pos-
sibilidade de 0 paciente, em tratamento, eliminar afetos
patogenicos por conta da descarga e da Iembranca dos fatos
traumaticos que originaram seus sintomas. A catarse e a ab-
reacao ofereciam-se como tecnica de cura sob a egide do postu-
lade freudiano da teoria do trauma. Propunha suas ideias acer-
ca dos efeitos causados pelos traumas psiquicos pela retencao
do afeto, bern como a concepcao dos sintomas histericos como
o resultado de uma excitacao transposta do animico para 0 cor-
poral (FREUD, 1904/1976).
Quase dez anos antes, ao escrever a chamada Comunicaciio
Preliminar (FREUD, 1893/1976)usara pela primeira vez os ter-
mos catarse e ab-reacao de forma impressa, postulando que
a reacao ao trauma somente exerce efeito inteiramente
catartico se for uma reacao adequada como, por exemplo, a
vinganca, Mas a linguagem serve de substituto para a acao;
com sua ajuda, uma emocao pode ser "ab-reagida", quase
que com a mesma eficacia (p 49).
(Con) textos de cntrcvista: olhares diversos sobre a interacao humana38
Ao desenvolver a tecnica da sugestao hipn6tica, Freud
atinha-se ao metodo catartico, procedirnento inaugurado por
Breuer no seu atendirnento a Anna O. Dedica-se a explora-lo e
a construir sua tecnica. Em Sobre a Psicoterapia (1904/1976),
assevera que 0metoda analitico de psicoterapia e 0 rnais pene-
trante, 0 que chega mais longe, aquele pelo qual se consegue a
transformacao mais ampla do doente.
Pondo de lado, por um momento, 0 ponto de vis~a
terapeutico, tambern posso dizer dele que e metodo mats
interessante, 0 iinico que nos ensina algo sobre a genese e a
interacao dos fenomenos pato16gicos. Gracas ao
discernimento do mecanisme das doencas anfrnicas que ele
nos faculta, somente ele deve ser capaz de ultrapassar a si
mesmo e de DOS apontar 0 caminho para outras formas de
influencia terapeutica (FREUD, 190411976, p.270).
Freud vai construindo sua teoria sempre permeada pela
relacao com a clinica: a nocao d~ tr~urnati~rn~psiquico v_ai
cedendo espaco a nocao do conflito mtrapslqmco. Da n.o~ao
de que a recuperacao da cena traumatica efetiv~m~nte vl~Jda
proporcionaria a cura sintomatica (met~d? catartIc~), val se
aproximando de urn outro pressuposto teonco.: a n~?ao d~ ~an-
tasia. Dessa forma, recuperar a cena traumatica e insuficien-
te, ate porque a cena traumatic a como tal deix~ de ser c,o~si-
derada a origem exclusiva do sintoma. 0 metodo catartico
cede espaco para a necessidade de elaboracao do conteiido
ernergido.
Per via de levare, Falando da Interpretacao
e da Construcao
Novamente e a clinica, e uma paciente que alerta Freud
acerca do fato de que era preciso um espaco para a producao
singular de cada paciente.
41Mllllica Medeiros Kothcr Macedo & Leanira Kesscli Carrasco (Orgs.)
Em face da imperfeicao de meus resultados analiticos, nao
me restou senao seguir 0 exemplo daqueJes descobridores
cuja boa fortuna e trazer a luz do dia, ap6s longo
sepultamento, as inestimaveis embora mutiladas relfquias
da antiguidade. Restaurei 0 que faltava, valendo-rne dos
melhores modelos obtidos por mim em outras analises; mas,
como urn arque6logo consciencioso, nao deixei de
mencionar ern cada caso 0 ponto onde terminam as partes
autenticas e comeca meu trabalho de restauracao (FREUD,
1905/1976, p.lO).
Da mesma forma como fora com Bertha Papenheim, que
ensinara a Breuer a qualidade de cura pela palavra, atribuida
ao metodo terapeutico com que era tratada, Freud, em seus re-
latos clfnicos, reporta-se ao fato de ser essa mesma cura pela
palavra urn tratamento conjunto entre paciente e analista
(APPIGNANESI,1992).
Ao relatar 0 caso da Senhora Emmy von N, nome atribufdo
a sua paciente Fanny Moser, explicita 0 quanto ela 0 ensinou
acerca da associacao livre, metoda ate entao escondido arras da
hipnose. Fanny pediu-lhe que a poupasse das perguntas e da
busca de detalhes que a ele, 0 medico, pareciam importantes.
Logo disse corn urn torn decididamente queixoso que eu
deixasse de perguntar de onde provinha este ou aquele sinal;
ao contrario, que eu Thepermitisse dizer-me 0 que ela tinha
a dizer. Acedi (FREUD, ]893/1976, p. 107).
de cada um deles, de forma direta, buscando uma origem, urn
fato, que desse conta da razao de ser da rnanifestacao sinto-
matica. Ao tratar Dora, abandona essa tecnica, deixando ao
paciente a tarefa de escolher 0 tema com que, em cada ses-
sao, paciente e analista vao se ocupar. 0 que tern a ver com
cada sintorna vai emergir pouco a pouco e, tambern
gradativamente, vai podendo se enlacar com uma rnultifacetada
origem.
(Can) textos de entrevista: olhares diversos sabre a intcracao humane40
unalise, diferenciando-se, no entanto, do trabalho do arqueolo-
go. Este trabalha com evidencias mortas, enquanto que, na ana-
lise, 0 material que se evidencia, embora date de tenra idade,
ntualiza-se, torna-se vivo, por repeticao, pela transferencia. 0
material esquecido, no entanto, nunca 6 vftima da destruicao
total. Depende exclusivamente do trabalho analftico 0 sucesso
em trazer a luz 0 que esta completamente oculto. Ao trazer a
luz 0material oculto, constitui-se urn trabalho que Freud cha-
mou preliminar, pois ao paciente compete dar seguimento ao
material apresentado pelo analista.
o analista completa urn fragmento da construcao e 0
comunicaao sujeitoda analise,de maneiraque possa agir
sobre ele; constr6i entao urn outro fragmento a partir do
novomaterialque sobre ele se derrama, lida com este da
mesmamaneira e prossegue,desse modo alternado,ate 0
fim (p. 295).
o trajeto que se processa parte, entao, da construcao elabo-
rada pelo analista para terminar acessando a recordacao do pa-
ciente ou gerando nele uma conviccao da verdade da constru-
9ao. Este convencimento gera 0 mesmo resultado de uma me-
m6ria resgatada.
Finalizando, neste texto Freud tematiza acerca de a inter-
pretacao aplicar-se a urn elemento isolado, a urn corte transver-
sal no material, exemplificando com 0 surgimento dos chama-
dos atos falhos, enquanto salienta que a construcao oferece urn
fragmento da hist6ria infantil esquecida; trabalhando assim, de
forma longitudinal, revela as conexoes existentes entre 0 fato
atual e a hist6ria infantil.
Em seu livro Um interprete em busca de sentido (1990),
Aulagnier descarta a ideia de uma hierarquizacao entre os dois
modos de trabalho do analista propostos por Freud, ressaltando
ser a construcao uma forma de intervencao que viabiliza ao
analisando interpretar elementos da sua hist6ria, permitindo-lhe,
43Mf'lnicaMedeiros Kocher Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Acerca desse momenta te6rico, 0 questionamento a res-
peito da chamada teoria do trauma, Hornstein (1989) assim
comenta:
Rompendocomaconcepcaodeumasingularidadecompacta
retida dentro de urn aparelho psfquico, que tern se
descarregado, passando a visualizar aquilo que produz
sintomascomouma intrincadaredede significacoesque se
juntam nos n6dulospat6genos(p.60).
Em 1937, Freud escreve aquele que sera seu ultimo texto
tecnico. Texto em que discute as formas de intervencao que
constituem 0 dia-a-dia do psicanalista. Construciies em Ana-
lise e 0 nome dado a este texto e nele retoma a questao de que
o paciente deve ser levado a recordar experiencias e os impul-
sos afetivos por elas invocados e que, por forca da repressao,
esqueceu. Reafirma a questao de 0 sintoma ser uma forma de
atualizar as experiencias reprimidas: fragmentos fornecidos
pelo paciente quer seja pelos sonhos, pela associacao livre,
pela transferencia:
Nossa experiencia dernonstrou que a relacao de
transferencia, que se estabelece com 0 analista, e
especiflcamentecalculadapara favorecer0 retornodessas
conexoesernocionais.E dessamateria-prima- se assim
podemosdescreve-la- que temosde reuniraquilode que
estamosa procura(p. 292).
Ao paciente cabe recordar 0 contetido esquecido, ao ana-
lista compete completar 0 que foi esquecido, a partir dos traces
que 0 paciente deixou para tras ou, dira Freud, construi-lo. E
por afque se faz 0 vinculo entre 0paciente e 0 analista. 0 traba-
lho deste, propoe Freud, assemelha-se ao do arqueologo, que
escava em busca de indicativos de uma hist6ria enterrada - 0
soterramento pela repressao, a escavacao pel a analise
(FREUD, 190711976). 0 analista busca fragmentos das lem-
brancas, das associacces e do comportamento do sujeito da
(Con)textos de entrevista: olharcs diversos sobre a interacfio hurnana42
podem oferecer e urn vazio de representacoes? Podem eles ser
cscutados via associacao livre e trabalhados a luz da interpreta-
~ao e/ou da construcao? Per via de levare e a indicacao? Nova-
mente seguimos Freud, e por intermedio da clfnica que os ana-
listas propoem as revisoes conceituais e, com elas, a questao de
como se trabalhar em analise.
Tem-se constatado uma ampliacao no dia-a-dia da cIfnica
psicanalftica, Alern dos pacientes das neuroses de transfercn-
cias, que acodem ao tratamento com urn relato, com uma histo-
ria, com 0 registro de urn outro, mesmo que fragil, em seu apa-
relho psiquico, chegam analisandos com novas apresentacoes:
o ato, mais do que 0 relato; 0 corpo sofrendo diretamente pOl'
meio das anorexias, bulimias, adicoes de toda especie, das
psicossornatizacoes, da impossibilidade de urn livre associar.
o vazio que aponta para areas do aparelbo que nao foram
ainda esbocadas nem construfdas e clamam em silencio, na
ausencia de uma cadeia associativa, aprisionando 0 sujeito em
lima historia sem nome (PAlM & BORGES, 2003).
Se, no processo de avaliacao e no processo analitico,
depararno-nos com pacientes em que rnais do que historias mal
vividas nos oferecern fendas psfquicas, encontramo-nos, entao,
diante da demanda de "preencher a fenda aberta pela inexistencia
inconcebfvel de urn outro" (MCDOUGALL, 1982).
Aulagnier (1990) tambem contribui com a questao da pra-
tica analitica nos tempos atuais quando enfatiza ser ut6pica a
ideia de perenidade do modelo do qual somos herdeiros. Refe-
re, assim, a dois desvios: "aquele que nos separa de Freud e
aquele que separa Anna 0 de uma parte dos analisandos de
hoje"(p. 103).
Ana1isandos de hoje que, na observacao de Green (1990),
nao trazem a representacao como algo evidente, pois se apre-
sentam com uma pobreza na capacidade de associar, com uma
inibicao fantasmatica.
45t('lIlicaMedeiros Kother Macedo & Lcanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Ate agora transitamos por urn terreno conhecido, terreno
que oferece como materia-prima urn inconsciente recalcado e
como instrumento de trabalho a interpretacao e a construcao
(ou reconstrucao). Cabe ao paciente associar livremente para
que, em conjunto com 0 analista, desvanecam-se as repressoes
e emerja urn material com 0 qual 0 paciente vai poder Iidar de
uma forma mais madura. Os sintomas, substitutos do conteudo
recalcado, VaG poder ceder espaco a medida que 0 material re-
cordado puder ser elaborado. Pela a~ao da transferencia, e pos-
sivel atualizar-se 0 que foi mal vivido, gerador das fixacoes.
U~ dialogo entre 0 paciente e 0 analista estabelece-se para que
surja 0 representado por deslocamento no sintoma, enquistado
que esta na queixa objetiva trazida pelo primeiro. Possibilita-se
o retorno das conexoes emocionais. Para que is so ocorra, a as-
sociacao entre paciente e analista e basica. A sustentacao da
demanda e 0motor do trabalho. Fernandes (2003) afirma ser
(...] esta demanda que levara a uma pesquisa do material
inconsciente, dando acesso ao infantil e estabelecendo assim
uma especie de continuidade capaz de construir elos entre
a historia do paciente e a sua vida atual. Trata-se de recontar
velhas historias que, na novidade da repeticao instaurada
pela transferencia, permitem a criacao de outras hist6rias.
opaciente oferece seu inconsciente recalcado. E os pacientes
que acorrem sem poderem oferecer esse simb6lico? Que nao
trazem uma historia para contar, que nao se utilizam da transfe-
rencia para recontar e construir outras hist6rias? Podem eles
ser parceiros na viagem de urn desvendamento quando 0 que
Per via de porre, falando da falta
assim, recontar sua hist6ria infantiL Pode-se, entao, reafirmar a
et~rna colaboracao, no processo analftico, entre a construcao e
a interpretacao.
(Con) rextos de entrcvisra: olhares diversos sobre a interncao humana44
APIGNANESI, L. F.Las Mujeres de Freud. Buenos Aires: Edi-
lora Planeta, 1996.
AULAGNIER, P. Um interprete em busca de sentido (v. 1).
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!lOTELLA, C. & Botella, S. 0 Irrepresentavel: mais alem da
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I''REUD, S. Delfrios e Sonhos na Gradiva de Jensen. Edicdo
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____ Construcoes em Analise. Edidio StandardBrasileira
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____ Estudo sobre a Histeria. Edicdo Standard Brasileira
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_____ Fragmento da Analise de urn caso de Histeria.
Ediciio Standard Brasileira das Obras Psicologicas Comple-
tas de Sigmund Freud: (Vol.7). Rio de Janeiro: Imago. (Publi-
cacao Original em 1905), 1976.
_____ Projeto para uma Psicologia Cientffica. Ediciio
Standard Brasileira das Obras Psicologicas Completas de
Sigmund Freud: (Vol. 1). Rio de Janeiro: Imago. (Publicacao
Original em 1.923), 1976.
Referencias bibliograficas
471""lea Medeiros Kother Macedo & Lcanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Todo 0 trabalho analitico esta ai... 0 que distingue os
chamados casos neur6ticosdos casos denominados dificeis
e, precisamente, que nos casos chamados dificeis 0 analista
deve, ele mesmo, fazer urn esforco consideravel de
representacao daquilo que 0 paciente nao pode representar,
isto e, 0 analista deve fazer como se colocasse seu pr6prio
aparelho mental em a~ao, como auxiliar do aparelho mental
do paciente (p. 65).
Pode-se pensar que, dessa forma, 0 lugar do analista corre
per via de porre, nao no sentido da sugestao, mas na acepcao
de preenchimento de urn aparelho que se encontra empobreci-
do de representacoes.
Botella (2002), teorizando acerca da questao da irrepresen-
tabilidade, enfatiza que, diante da perda da figurabilidade, mote
para que a interpretacao se faca, 0 analista perde seu enquadre.
Aulagnier (1990) vai prop or "urn sujeito tributario da me-
m6ria e de urn saber materno", ao referir-se ao emprestimo ne-
cessario que 0 sujeito psiquico faz de urn discurso familiar, uma
vez que, pela precocidade, uma lernbranca pessoal nao se faz
passfvel de rememoracao. E urn branco na hist6ria que sera
passfvel reconstruir a partir de urn a posteriori.
Quando representacao e passado se afastam da centralidade
em nossa clinica, e preciso que 0 analista se presentifique nao
como urn objeto da transferencia no senti do da atualizacao e
rememoracao, mas como aquele que pode jogar tintas, per via
de porre, na tela carente de representacoes a serem recordadas
e ressignificadas.
(Con}textos de entrevista: olhares cliversos sobre a intera~ao humana46
• Esre capitulo foi publicado originalmente como arcigo,com 0 mesmo titulo, em Psyche Revisra
de Psicanalise- (ISSN 1415- 1138) ano IX, n 15, jan/juntOS.
Freud inaugura novos tempos: 0 tempo da palavra como
lonna de acesso por parte do homem ao desconhecido em si
mcsrno e 0 tempo da escuta que ressalta a singularidade de sen-
t idos da paIavra enunciada. Ocupa-se, em suas producoes teo-
Iicas e em seu trabalho clinico, de palavras que desvelam e ve-
IUI11, que produzem primeiro descargas; depois, associacoes,
l'alavras que evidenciam a existencia de urn outro-interno, mas
que tambern proporcionarn vias decontato com urn outro-ex-
(erno quando qualificado na sua escuta. Estes tempos em Freud
inauguram a singularidade de uma situacao de "comunicacao"
entre paciente e analista. Urn chega com palavras que deman-
dam urn desejo de ser compreendido em sua dor, 0 outro escuta
us palavras por ver nestas as vias de acesso ao desconhecido
que habita 0 paciente. A situacao analitica e, por excelencia,
lima situaciio de comunicaciio: nela circulam demandas, nem
sernpre logicas ou de facil decifrarnento, mas as quais, em seu
cerne, comunicam 0 desejo e a necessidade de ser escutadas.
A capacidade de ir alern da ciencia de sua epoca esta inti-
mamente ligada a possibilidade de Freud de buscar nas pala-
vras de seus pacientes e em suas proprias, mais do que padroes
de adaptacaoamoral e costumesvigentes,e sim uma fala atraves-
sada pelo inconsciente e peia sexualidade:mensagens cifradas e
MONICA MEDEIROS KOTHER MACEDO
CAROLINA NEUMANN DE BARROSFALcAo
A ESCUTA NA PSICANALISE E A
PSICANALISE DA ESCUTA4
. Sobre 0mecanisme psiquico dos fenornenos his-
tericos: comunicacao preliminar. Edicdo Standard Brasileira
d~s Obras ~sicol6gicas Completas de Sigmund Freud: (Vo1.2).
RIOde Janeiro: Imago. (Publica~ao Original em 1893), 1976.
----- Sobre a Psicoterapia. Ediciio Standard Brasileira
d~s Obras ~sicol6gicas Completas de Sigmund Freud: (Vol.7).
RIOde Janeiro: Imago. (Publica~ao Original em 1905), 1976.
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catlaohvelra2.htm. acesso em dezernbro de 2003.
(Con) tcxtos de entrevista: olhares divcrsos sobre a lnteracao humana48
terapeutica sobre ele. Ao abrir caminhos para que 0 homem
repense sua historia, a propria psicanalise escrevesua his tori a
de transforrnacoes e ampliacoes.
as tempos iniciais sao os de emprego da hipnose. Em esta-
do hipnotico, 0 paciente descreve cenas, conecta-se com 0 ma-
terial traumatico. Cabe ao medico, entao, comunicar-lhe 0 que
havia side dito e descrito, uma vez que retornando do transe, 0
paciente de nada se lembra. as sintomas sao esbatidos pelo usa
deste metodo, mas 0 sujeito nao se apropria ativamente de sua
hist6ria. Entao, no decorrer de seus trabalhos, Freud vai aban-
donando a hipnose e direcionando-se a necessidade de criar outra
forma de escutar. Surge a associacao livre.
Tambern neste trabalho de desconstrucao e construcao, a
palavra do paciente tern urn efeito na teoria e na tecnica. Emmy
Von N. lhe pediu, certa vez, que nao a tocasse, nao a olhasse e
nada falasse; queria apenas ser escutada. A palavra irnpoe-se,
apontando uma rnudanca no caminho de Freud: a cura viria por
ela, mas nao mais a palavra de urn sujeito ausente que delegava
ao terapeuta uma funcao de memoria de seus conteudos trau-
maticos e que colocava em a~ao urn recurso que priorizava a
sugestao. Agora, e por meio das narrativas ativas de urn sujeito
acordado, de seu discurso cheios de lacunas, da presenca e au-
senoia da palavra que 0 paciente pass a a ser escutado. Ao reti-
rar a palavra do que a nosografia diz sobre 0 paciente, Freud
entrega a palavra ao paciente, para que ele fale sobre si mesmo.
Surge, entao, a psicanalise, marcada pelo convite a que 0 anali-
sando, em uma posicao ativa diante do seu processo de cura,
comunique-se e associe livremente.
Introduzindo 0 conceito de inconsciente, Freud desloca a
fala ate urn outro lugar, muito alern da intencao consciente de
comunicar algo: ao falar, 0 sujeito comunica muito mais do que
aquilo que inicialmente se propos. 0 inconsciente busca SCI'
escutado e ter seus desejos satisfeitos, comunicando-sc pOI III
termedio de complexas formacoes: sonhos, sintomu .... 1111 n
tJJI (cftllllUMfnolMll
~BlblkMtu
51Mllnica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
A Psicanalise surge em reacao ao niilismo terapeutico do-
minante na psiquiatria alema do fim do seculo XIX, 0 qual pre-
conizava a observacao do enfermo sem escuta-lo e a classifica-
~ao da patologia sem 0 intuito de oferecer-lhe tratamento
(ROUDINESCO & PLaN, 1998). Freud inquieta-se com tal
conduta. Mesmo tendo uma formacao medica, e, estando imerso
em urn contexto cientffico de carater positivista, a conduta psi-
quiatrica da epoca nao 0 satisfaz. Freud propoe a todo tempo -
e desde 0 inicio de sua experiencia clfnica no Hospital Salpetriere
com Charcot - que 0 paciente fosse escutado. Embora ainda
distante de fundar a Psicanalise, Freud ja corneca a demarcar 0
importante papel que atribuiria a palavra.
Cabe ressaltar que estamos falando de uma palavra que lhe
abriria novas possibilidades de cornpreensao do sofrimento hu-
mano. Desta forma, dois trabalhos impoem-se: 0 de escutar a
palavra do outro, bern como 0 de produzir palavras que vies-
sem ao encontro dessa demanda de ajuda. Talvez se demarque,
desde estes tempos iniciais, uma caracterfstica essencial da psi-
canalise como metoda e tecnica: estar aberta a singularidade deste
outro que fala, seja na dimensao referente a seu sofrimento e
pedido de ajuda, seja no que diz respeito ao efeito de sua a~ao
A palavra que se impoe
enigrnaticas que demandaram outra qualidade de escuta para ser
compreendidas. Ao se deparar com 0 sofrimento histerico, Freud
se pos a escutar urn corpo que falava; nos sonhos, descobre a
capacidade dos elementos se condensarem e se deslocarem, crian-
do uma outra cena; nos lapsos, percebe a expressao de algo via
uma inesperada inabilidade na execucao de atos ou falas, ate en-
tao exitosas. Ao dar cada vez mais espaco para 0 que "escutava"
de forma diferente, no contato com seus pacientes, Freud pode
construir "tanto urn novo ramo do conhecimento quanto urn
metoda terapeutico" (FREUD, 1940 [1938], p.9J).
(Con) textos de entrevista: olharcs diversos sobre a interacflo humana50
vergonhoso ou doloroso, enquanto que ao analista eabe escutar
o paeiente sem 0 privilegio, a priori, de qualquer elemento do
seu discurso. Na efetivacao desta regra fundamental, instaura-
se a situacao analftiea, abrindo possibilidades do desvelamento
da palavra:
No seio da associacao livre vai-se produzindo um
deslocamento da imagem, do fato como fixo, e este val-se
incluindo em rmiltiplas imagens caleidosc6picas cujns
combinacoes possiveis se multiplicam e onde 0 ritrno, a
cadencia, a intensidade maior de alguns fonemas, a
excitacao explfcita no gaguejar de lima palavra, 0 sentido
duvidoso de lima frase mal construfda, tudo isso vai dando
tonalidades diferentes a estas figuras que nao passam
desapercebidas a escuta sutil da atencao fiutuante. Ao
mesmo tempo, ao ser escutado pelo analista, 0 proprio
sujeito que fala se escuta (ALONSO, 1988, p.2).
Assoeiando, 0 paciente fala de-urn outro _ 0 inconscienre=-
que the e deseonheeido e que irrompe em sua fala, quando a
l6gica consciente se rompe. Toma-se, entao, presente, em al-
gum determinado momenta da fala do paeiente, a 16gica do in-
consciente, do processo primario. A partir de sonhos, atos-fa-
lhos, chistes, esquecimentos, arnbiguidades, contradicoes, esta
logica vai se desvelando e os conteudos VaG sendo signifieados
com a ajuda da interpretacao,
Nestes primeiros tempos da psicanalise, Freud apresenta 0
aparelho psfquico dentro de urn modelo topico, composto de
tres "Iugares" _ consciente, pre-consciente e inconsciente _ que
se organizam em dois sistemas com princfpios reguladores e de
funeionamento completamente distintos. Estes eonstrutos te6-
ricos sustentam uma tecnica psicanalftica, a qual designa ao ana-
lista 0 trabalho de tornar consciente 0 inconsciente. 0 analista
atua como um decifrador, 0 qual, com seus reeursos tecnicos, e
capaz de traduzir e revelar ao sujeito os seus desejos, forne-
cendo-lhe sentido desconhecido. A escuta analftica sob este
53MCmicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
chistes, atos-falhos; fenomenos que apontam para este "desco-
nhecido" que habita 0 sujeito. E assim, abre-se na palavra a
dimensao do que escapa ao pr6prio enunciante.
Ocampo da patologia e 0 prirneiro espaco no qual Freud
observa a existencia do inconsciente, ao focal' 0 seu olhar sobre
os sintomas durante os seus trabalhos com as histericas. Anos
depois, esta observacao se amplia, abrangendo tambem 0 que e
da ordem dos processos psico16gicos normais: os sonhos apon-
tam para a existencia universal do inconsciente. POI' meio des-
tes, Freud depara-se com a imperiosa necessidade da escuta na
pratica clfnica: sao as associacoes do paciente que possibilitarn
o acesso aos significados de seus sonhos. Distancia-se, assim,
a psicanalise de uma ideia de "c6digo universal de deciframento",
uma vez que, no processo de compreensao das producoes do in-
consciente, a palavra tera de ser dada ao paciente.
Ao tratar da psicopatologia da vida cotidiana, Freud escre-
ve a respeito de "falhas" que se operam no discurso: palavras
esquecidas, paJavras trocadas, palavras suprimidas, palavras
equivocadas. Eo inconsciente mostra-se operante nao apenas
no dormir, mas tarnbem na vida de vigflia. Ao tratar dos chistes,
Freud detem-se em trocadilhos, piadas, aforismos: palavras que,
sob a egide da cornedia, podem ser ditas. E 0 inconsciente mos-
tra-se operante na vida de vigflia, nao somente por meio da
falha, mas tarnbern como "criador de novidade" (HORNSTEIN,
2003, p.lSl). Os textos freudian os desta primeira decada da
psicanalise retratam, em ultima analise, 0 domfnio permanente
do inconsciente sobre a totalidade da vida consciente.
E assim, a associaciio livre ganha destaque fundamental.
De fato, a analise dos fenomenos psico16gicos normais e pato-
J6gicos s6 se mostra possfvel por interrnedio dela, e, como
contrapartida, exige-se do analista uma capacidade de escuta
que nao reduza os espacos simb61icos que a associacao livre
viabilizou. Ao paciente cabe comunicar tudo 0 que lhe ocor-re, sem deixar de revelar algo que lhe pareca insignificante,
(Con)textos de enrrevista: olhares diversos sobre a intcracao humana52
jA psicanaliseaplicadarefere-se11utilizacaodos aportespsicanallricoscomo meio de comprecnsao
e interpreracao em diversoscampos do saber. podendo abranger, por exernplo, a iuterpretacao
de obras em fun<;iioda vida do autor, ou urna inrerpretacao psicanalfricade rexros lirerarios.
o objerivo primordial de Freud no emprego da psicanilise aplicada era impedir a restricao da
psicanalise ao campo medico. ao procedirncnto terapeurico, "Ern todos os seus trabalhos
considerados da esfcrada psicanalise aplicada, com efeiro, podemos consrarar a existencia de
urn segundo objerivo, este puramenre te6rico [...J. Assim, 0 esrudo sobre Leonardo Da Vinci
afasta-se das psicobiografias habituais, marcando urn passo adiante na teoria da sexualidade
[... J. Do mesmo modo, Totem e Tabu ultrapassa os limites de suas rcferencias etnologicas"
(ROUDINESCO & PLON. 1998. p. 607-608).
Sao as aventuras clfnicas, com seus fracassos e sucessos
terapeuticos, e as aventuras da psicanalise aplicada", que VaG
conduzindo Freud a importantes formulacoes te6ricas. A intro-
ducao de conceitos como narcisismo e transferencia, bern como
a constatacao do fenomeno da repeticao, e decisiva para evolu-
9ao ate urn novo tempo da tecnica psicanalftica. Em Alem do
Principio do Prazer (1920), Freud analisa esta evolucao, sa-
lientando que, no principio, a psicanalise era, acima de tudo,
uma arte interpretativa. Isto e, 0 intento do psicanalista redu-
zia-se em descobrir, decifrar, reunir e comunicar 0 material
inconsciente do paciente, combatendo permanentemente as re-
sistencias imbufdas a este processo.
Tornou-se cada vez mais claro que 0 objetivo que fora
estabelecido - que 0 inconsciente deve tornar-se consciente
- nao era completamente atingfvel atraves desse metodo. 0
paciente nao pode recordar a totalidade do que nele se acha
recalcado, e 0 que nao e possfvel recordar pode sel'
exatamente a parte essencial (p.31).
A conceitualizacao da pulsao de morte e da compulsao a
repeticao como sua rnanifestacao clinica impuseram uma nova
De uma arte interpretativa a escuta da repeticao
como condicao sine qua non para a possibilidade de exercer
uma escuta em relacao ao outro.
55MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
preceito tecnico de tornar consciente 0 inconsciente fica
revestida de urn saber e de urn poder, ou, utilizando a expressao
lacaniana, 0 analista fica em urn lugar de sujeito do suposto
saber. Lugar este que quando delegado pelo paciente pode, nos
momentos iniciais da analise, auxiliar que palavras sejam enun-
ciadas a este outro, visto pelo paciente como possuidor de urn
saber pleno e absoluto. Entretanto, a medida que 0 processo
avanca, cabe ao analista a recusa da ocupacao deste lugar. A
conducao do processo analltico deve possibilitar a descoberta,
por parte do paciente, de que ele e quem sabe de si: urn saber
que e patrimonio de urn territ6rio desconhecido de si mesmo.
Para alcanca-lo, alem de ser escutado, 0 paciente devera escu-
tar-se, E somente ao assumir a posicao de que nao sabe a res-
peito de quem chega com uma demanda de ajuda, que 0 analis-
ta podera efetivamente exercitar a escuta analftica.
A proporcao que avanca em suas forrnulacoes te6ricas,
Freud vai construindo, modificando e reconstruindo concep-
90es tecnicas, de forma a garantir a validade da psicanalise como
metoda terapeutico, Em seus artigos sobre a tecnica psicanali-
tica podemos acompanhar os dilemas de Freud. Como pensar
"regras" para os procedimentos psicanalfticos sem cair em uma
esterilizacao da tecnica; como construir um metoda - carninho
a seguir - sem perder de vista a singularidade do encontro entre
paciente e analista. 0 risco era 0 de propor regras que passas-
sem a ser tomadas como verdades absolutas - as quais nao
caberia nenhum questionamento - levando, entao, a urn
distanciamento dos preceitos de autonomia, liberdade e sin-
gularidade da psicanalise. De fato, Freud sempre salienta que
o domfnio da tecnica e alcancado, principalmente, pela ex-
periencia clinica. Experiencia clinica que nao diz respeito
apenas ao atendimento de pacientes, mas tambem, e funda-
mentalmente, a experiencia clfnica da analise pessoal. 0 cui-
dado com a escuta de si mesmo aparece no texto freudiano
(Con) tcxtos de entrevista: olhares diversos sobre a intera~ao humana54
A ciencia, em urn primeiro momento, preconiza a possibi-
lidade de predizer toda a realidade do mundo, a medida que
fossem estabelecidas as leis gerais de funcionamento da natu-
reza. Entretanto, a ffsica - ciencia da qual Freud vale-se de
muitas nocoes para as suas formulacoes sobre 0 funcionamento
do aparelhopsfquico - passa, desde a epoca freudiana, por trans-
formacoes radicais em muitos de seus construtos, abrindo cs-
pace para 0 quantico, 0 relativo, 0 complexo, 0 instavel, 0 cria-
tivo. Transformacoes que levam ao questionarnento da visao
deterrninista do mundo, ao renascimento da nocao de impre-
visto e a incorporacao, pela ciencia, da nocao de probabilidade.
Transforrnacoes que levam a quebra do paradigma do
deterrninismo, 0 qual rninirniza a criacao e a liberdade. Condu-
zindo tais transformacoes e suas implicacoes ao terreno psica-
nalftico, e possfvel compreender 0 psiquismo como urn sistema
aberto, que tern uma organizacao determinada, mas que pode
modificar-se e adquirir novas propriedades. "Pensar 0 sujeito
como urn sistema aberto a intersubjetividade, nao somente no
passado, senao na atualidade, exige refletir sobre as tramas
relacionais e seus efeitos constitutivos da subjetividade"
(HORNSTEIN, 2003, p.97). 0 que e da ordem da relacao ga-
nha destaque, acima de tudo a partir dos seus efeitos sobre 0
sujeito, uma vez que esta concepcao de psiquismo como siste-
ma aberto pressupoe urn permanente intercambio e uma com-
plexa rede de inter-relacoes entre sujeito e objeto.
A busca pela historizacao do individuo torna-se imprescin-
divel. Freud sempre manteve a aspiracao de recuperar a verda-
de hist6rica a partir da hist6ria narrativa do paciente. Hornstein
(2003) aponta para a possibilidade de articulacao dos aconteci-
mentos hist6ricos significativos com as montagens
fantasmaticas que acornpanham suas representacoes psfquicas.
Encontrar relacoes entre circunstancias reais e fantasmaticas e
articula-las, ainda, com a interpretacao que 0 sujeito elabo-
rou acerca do vivenciado. Historizar implica considerar que
57MOnica Medeiros Kother Macedo & Leanira KesseliCarrasco (Orgs.)
Luis Hornstein (2003), psicanalista argentino, ao trabalhar
as relacoes entre intersubjetividade e clinica psicanalftica, res-
salta 0 quae importante sao os suportes te6ricos do analista,
uma que vez que sao eles que caracterizam e sustentam a praxis.
E desde os seus preceitos te6ricos que 0 analista enxerga 0
paciente como ser psfquico e sustenta a sua escuta diante dele.
o encontro na clinica psicanalftica
demanda tecnica: alem de ter alcance sobre 0 que nso e acessivel
por causa do recalcamento, e preciso alcancar tambem 0 que e
inacessfvel por ser desligado, nao representado. E, assim, a escu-
ta psicanalftica transforma-se e amplia-se radicalmente: a tarefa
do psicanalista nao mais consiste somente em recuperar uma his-
t6ria, senao em possibilitar simbolizacoes estruturantes.
Neste sentido, a transferencia ganha forca como espaco pri-
vilegiado do trabalho analftico. Na transferencia, a palavra
dirigida ao analista tera de ser remetida as suas originais deter-
rninacoes, evidenciando 0 valor de uma hist6ria sempre iinica e
singular. Talvez af se faca presente commais clareza 0 que esta
alern da palavra escutada no processo analftico: a transferencia
como ferramenta tecnica fundamental s6 e possfvel na medida
em que Freud vai valorizando 0 complexo encontro que ocorre
entre 0 paciente e 0 analista. Fora do papel de decifrador, 0
analista depara-se com urn psiquismo aberto, que produz e re-
produz continuamente efeitos de uma hist6ria.
EmAnaliseIermindvel e Interminavel, Freud (1937) aponta
o efeito da escuta no campo analitico: a analise e urn processo
"terminavel", enquanto se refere "uso" da capacidade de escuta
do analista, mas interminavel enquanto se refere a capacidade
adquiridapelo pacientede escutar-se.0processoanalitico,apartir
da escuta do psicanalista, envolve, assim, a instrumentalizacao
da escuta do paciente em relacao a si mesmo.
(Con) textos de entrcvista: olhares diversos sobre a interacao humana56
A importancia da escuta na psicanalise vai se evidenciando
na medida em que percorremos os textos freudianos. As reco-
mendacoes da tecnica, assim como os desenvolvimentos teori-
cos, apontam sempre para a preocupacao de Freud de que a
psicanalise nao perea 0 que a diferenciava das demais possibi-
lidades terapeuticas: 0 valor dado ao autoconhecimento e, tam-
bern, a liberdade pessoal. 0 que visa ser escutado na psicanali-
se resulta em uma psicanalise da escuta. Os lapsos, os sonhos,
as repeticoes, os sintomas; enfim, as formas de subjetividade -
livres de uma classificacao ou de r6tulos - abrem espacos de
singularidade.
A teoria psicanalftica nao pode ocupar 0 lugar da hist6ria
de vida do paciente. Os fantasmas do analista nao podern,
ensurdece-lo no encontro com 0 paciente, Desta forma, 0 fa-
moso tripe - formacao te6rica, atividade de supervisionar-se e
analise pessoal - passam a ser recursos na qualificacao do pro-
cesso de escutar 0 outro. A pr6pria historia da psicanalise, nos
relatos clfnicos de Anna O. e de Dora, atestam os riscos da
"surdez" do analista. Como bern assinala Hornstein (2003):
E possfvel pretender que f6rmulas simples permitam
compreender 0 processo analitico? Nao, analisar e
hipercomplexo: escutar com atencao flutuante, representar,
fantasiar, experimentar afetos, identificar-se, recordar, auto-
analisar-se, conter, assinalar, interpretar e construir (p.l 05).
De fato, a preocupacao com a formacao do analista esta
presente desde os tempos iniciais. Quando Jung, a partir de seu
trabalho em parceria com Bleuer na Clinica do Burgholzli,
tern a idei a de "tratar os alunos como pacientes"
(ROUDINESCO & PLON, 1998, p.17) esta lancada a se-
mente para 0 que depois tornar-se-ia a exigencia da analise
Analise: interjogo de possibilidades
e limites da escuta
59Monica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kcsscli Carrasco (Orgs.)
a hist6ria nao e uma estrutura invariavel, nem urn conjunto de
acontecimentos imprevisfveis.
Desde a primeira sessao a "historia oficial" e confrontada
com aquela que 0 analista ajuda a construir, analisando as
formacoes de compromisso. Os testemunhos do passado sao
os sintomas, as transferencias, as repeticoes, as forrnacoes
de carater, os sonhos e tambern as recordacoes
(HORNSTEIN, 2003, p.102).
Justifica-se, entao, a analise dos suportes teoricos que sus-
tentam a praxis do analista. Considerar 0 psiquismo como urn
sistema aberto, levar em conta que 0 psiquismo produz e repro-
duz continuamente efeitos de uma hist6ria, implica colocar a
escuta em urn campo intersubjetivo, ou seja, no campo da trans-
ferencia, Entretanto, ainda que analista e analisando estejam
inclufdos no mesmo campo, nao ha entre eles uma relacao de
simetria. E a capacidade de escuta do analista que garante a
assimetria necessaria ao processo. Escuta da pulsao que insiste
no alicerce de cada palavra. Escuta da pulsao evocada por cada
palavra. Vivencia pulsional reatualizada, repetida, insistente na
busca por satisfacao.
Escuta que mantem a transferencia, mas nao se confunde
com ela, nao cede a convocat6ria constante do paciente:
o analisando se dirige ao analista como sendo 0 unico des-
tinatario de sua palavra, 0 que nao e mais que a tentativa que 0
analisando faz de articular seu desejo a uma presenca concreta.
De atribuir ao desejo urn objeto para nao reconhecer que 0 de-
sejo, em sua impossibilidade de satisfazer-se, implica em uma
falta, em uma ausencia (ALONSO, 1988, p.3).
Escuta que pressup5e a abstinencia do analista, impedindo
uma satisfacao substituta do desejo e remetendo, assim, 0 su-
jeito as origens infantis do seu arnor. Desejos que, ao nao se-
rem satisfeitos, abrem a possibilidade de ressignificacao.
(Con) textos de entrevista: olhares divcrsos sobre a intera~ao humana58
hist6ria e a atualidade do movimento psicanalitico. Escutar-se
de fate em sua analise pessoal permite a instrumentalizacao do
analista e oferece, conseqtientemente, a possibilidade de utili-
zaryaode todos estes fatores como recursos que incrementam a
sua capacidade de escuta e de verdadeira sustentacao do seu
lugar. Em contrapartida, a adesao dogmatica e a conversao em
urn estere6tipo de psicanalista provocam, inevitavelmente, a
Iimitacao: 0 "fantasma torna-se limite para a escuta nos pontes
cegos. A teoria passa a ser limitadora da escuta quando entra na
sessao para ser aplicada ou confirmada" (p.5).
Assim, 0 aLcanceda escuta do analista tambern esta intrinse-
camente vinculado a urn processo de historizacao. Historizacao
que implica a apropriacao de urn fazer-se psicanalista, a compre-
ensao que este e urn processo complexo, continuo e intermina-
vel. E 0 reconhecimento que "a possibilidade de escuta esta no
pr6prio desejo do analista,recuperado a cadamomenta pelo tran-
sito das associacoes que Ihepermitern reconhecer seu desejo pes-
soal em jogo para poder a ele renunciar, levando-o a nao ter a
necessidade de querer assegurar seu lugar - nem pela rigidez do
setting, nem pela rigidez do gesto" (ALONSO, 1988, p.4).
Ao propormos percorrer a hist6ria da escuta na psicanali-
se, chegamos a escuta da psicanalise, Ao lancarrnos nosso olhar
para a importancia dada pelo analista as palavras de seu anali-
sando, demarcou-se 0 fundamental papel da escuta do analista
em relacao a si pr6prio, em sua analise pessoal. De fato, a escu-
ta daPsicanalise encontra sua vitalidade na capacidade do analis-
ta reconhecer 0 valor e a necessidade de ser ele pr6prio es-
cutado, promovendo em si uma capacidade que esta fora do
domfnio da rigidez ou da padronizacao e que, por isto, abre
vias de acesso a escuta do outro. Assim recupera-se no tempo
de cada analista, a criatividade e a vitalidade dos novos tempos
inaugurados por Freud: 0 reconhecimento do inconsciente e dos
recursos de acesso a compreensao de seus efeitos.
61Monica Medeiros Koiher Macedo & Lcanira Kcsseli Carrasco (Orgs.)
didatica na formacao de futuros analistas. Efundamental des-
tacar, porem, que em 1925, quando foi institufda na Associ-
aryaoPsicanalftica Internacional (IPA), a obrigatoriedade da
analise pessoal para a formacao psicanalftica visava a socia-
lizacao entre professor e aluno e 0 afastamento das praticas
de idolatria e imitacao a Freud. Parece que, todavia, 0 intui-
to inicial distorceu-se, pois
ao longo dos anos, a IPA se havia transforrnado num vasto
aparelho atormentado pelo culto da personalidade [...J.
Reencontrou-se, assim, na analise didatica, 0 poder da
sugestao que Freud havia banido cIapratica da psicanalise,
Em consequencia disso, seus herdeiros passaram a correr 0
risco de se transformar em discipulos devotos de mestres
medfocres, quer por se tomarem por novos profetas, quer
por aceitarem em silencio a esclerose institucional
(ROUDINESCO & PLON, 1998, p.18).
Talvez af tenha se perdido 0 que deveria ser 0 ponto maior
de identificacao com Freud: a liberdade de pensamento. Perce-
be-se, assim, que na intencao de criar regras de qualificacao do
analista em sua escuta clfnica, outros temas foram se interpon-
do entre 0 processo de ser escutado para ser urn psicanalista e
o cumprimento das exigencias para ter autorizaciio de ser urn
psicanalista. Mas criarn-se sombras diante dos temas que alu-
dem a questao da analise pessoal, e que tentam permanecer
disfarcadas atras dela. Sombras que, uma vez existentes, pare-
cern transforma-la muito mais em uma busca em atender ex-
pectativas preestabelecidas e institucionais, do que em uma
busca em cuidar de si proprio como condiciioJundante da pro-
pria capacidade analitica.
Alonso (1988) demarca com propriedadeque os mesmos
fatores que podem oferecer possibilidades ao analista em rela-
<;aoa sua escuta tambem podem limita-Ia. Em torno do analista
estao 0 seu fantasma, sua hist6ria pessoal, sua teoria e, ainda, a
(Conltcxtos de entrevista: olhares diversos sobre a intcracno humana60
Na cultura atual, a teoria e a tecnica psicanalitica ja nao
ocupam 0 lugar de ideal de ego de outrora. As caracteristicas da
modernidade sao raz5es justas para tal acontecimento. Na ver-
dade, observa-se uma resistencia da cultura a psicanalise. Con-
tudo, entender isto apenas como urn fenomeno extramuros e
nao considerar a crise em sua totalidade, eximindo os psicana-
listas de suas responsabilidades.
Jacques Derrida (2001), em Estados-da-alma da Psicand-
lise, aponta para a existencia, nao de uma, mas de uma dupla
resistencia em curso: uma, do mundo a psicanalise e outra, da
psicanalise a ela mesma bern como ao mundo, ou seja, da psi-
canalise a psicanalise como ser-no-mundo.
Para alem das resistencias da psicanalise ao mundo e vice-
versa, vamos nos deter, a partir da afirmacao de Derrida, na
questao de que a psicanalise resiste a e1amesrna. Dentro do
contexto metapsicol6gico e clfnico, em que se insere essa afir-
macae? °autor afirma que e em seu poder de por em crise que
a psicanalise esta ameacada e entra, portanto, em sua pr6pria
crise. Para ele 0 que deveria acontecer em cada sessao de anali-
se seria uma especie de microrevolucao, e, portanto, a psicana-
lise deveria ser urn processo de parte a parte revolucionario
(DERRIDA, 2001).
SISSI VIGIL CASTIEL
CAROLINA NEUMANN DE BARROS FALcAo
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Referencias bibliograficas
(Con)textos de entrevista: olhares diversos sobre a intera~ao humana62
da verdade do seu desejo, 0 sujeito deveria abdicar dele, por
mcio do jufzo de condenacao (FREUD, 1909).
A concepcao da etica que perpassa essa concepcao da tee-
nica e a de que seria necessaria uma rernincia ao desejo por
parte do sujeito, na medida em que a satisfacao deste colocaria
ern risco a sua conservacao. Portanto, 0 objetivo da tecnica ana-
Iftica relacionava-se ao deciframento das verdades inconscien-
tcs para que pelo usa da razao 0 sujeito pudesse renunciar a
clas. Nesse processo, entao, estavam em evidencia 0 ego, a ra-
zao e a ren ticia.
Que lugar ocupa 0 analista dentro dessa concepcao tecni-
ca? 0 de interprete de uma verdade que esta inconsciente, e,
nesse sentido, 0 analista contaria com 0 ego do paciente como
aliado para poder decifrar tais verdades. 0 Lugar do analista
teria relacao com uma posicao intelectual diante do paciente:
aquele que saberia decifrar as verdad~s do sujeito .
No entanto, Freud comeca a dar-se conta da intensidade da
repeticao na analise, passando a apontar como questao basica
da transfercncia 0 que e possfvel ser vivido por intermedio dela
(FREUD, 1914a). De fato, a repeticao feita pelo paciente deter-
mina que, quanta mais 0 processo analftico se aprofunda, mais
a resistencia por meio da regressao busca satisfacao das pulsoes
no campo da transferencia, A verdade revela-se pOl' meio da
repeticao, denunciando a realidade psfquica do sujeito. Por ou-
tro lado, a neurose buscada em urn passado longfnquo torna-se
tambem atual. Desta forma, as patologias psiquicas se expres-
sariam na clinica, sobretudo, pela repeticao e no marco da rela-
9ao analitica acharao sua possibilidade de resolucao. Repetem-
se fragmentos do edipo organizados sob 0 signo da neurose de
transferencia. Esta repeticao permite a expressao da neurose
hist6rica como potencia atual.
Quando 0 paciente repete na transferencia, nao esta empe-
nhado em recordar, pois 0 ego obtem satisfacao a partir da re-
65II'IIIIC,I Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Se nao nos cabe diivida de que a psicanalise foi, e continua
sendo, a pratica clfnica capaz de transformar 0 sofrimento hu-
mano, de que forma ela acaba impedindo sua propria vigencia
quando resiste a si mesma? Estariam os pr6prios psicanalistas
de hoje resistindo a analise? A afirmativa de Derrida introduz a
questao do lugar do anaJista na clinica, no sentido do que cabe-
ria ao psicanalista para que cada sessao tivesse efetivamente
urn carater revolucionario,
A tecnica analftica foi elaborada a partir da teoria e vice-
versa. Dessa forma as observacoes clinicas implicaram em no-
vos aportes metapsico16gicos que por sua vez se desdobraram
em novas perspectivas para a terapia analftica. Tendo isso em
vista, tentamos recuperar nesse estudo como as ampliacoes fei-
tas na metapsicologia e na teoria da tecnica freudiana possibili-
tam repensar 0 lugar do analista de forma que 0 processo analt-
tico seja transformador.
. Retomando 0 discurso freudiano, temos que, em urn pri-
merro momento, a tecnica analftica objetivava tornar conscien-
te 0 inconsciente: 0 sujeito deveria conhecer suas representa-
<;oes recalcadas. Na clinica, por meio da interpreta<;ao, seria
possivel realizar 0 deciframento do inconsciente, de maneira a
revelar ao sujeito a verdade e 0 sentido de seu desejo. Neste
procedimento tecnico, a interpreta<;ao apresentava urn modelo
t6pico (FREUD, 1893-95).
No quadro da primeira teoria das pulsoes, suporte
metapsicol6gico da tecnica deste perfodo inicial, 0 discurso
freudiano apresentava as pulsoes sexuais reguladas pelo prin-
cfpio do prazer, enquanto que as pulsoes autoconservativas es-
tavam reguladas pelo principio da realidade. No campo da ex-
periencia clinica, esta formulacao seria transformar 0 processo
primario em processo secundario, de forma que 0 ego passaria
a defender-se da sexualidade (FREUD, 1911). Assim, podena-
mos formular que, neste tempo da tecnica, ante a constatacao
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interaltao humana64
EmAlem do Principio do Prazer, quando Freud (1920~f~r-
mula a segunda teoria das pulsoes, retoma 0 tema da repencao.
Dcscreve as repeticoes que se estabelecem como uma
eompulsao, ou seja, se repetem experi.encias do passado q~e
nao tern nenhuma ligacao com 0 desejo de prazer e que_nao
Ioram representadas. A experiencia analiti~a passa, ent~o~a
suceder-se cada vez mais a partir do automatismo da r,e~etl9aO,
o que consistiria a neurose de trans,ferenc~a~Seu p~OPOSltO.pas-
sa a ser 0 de colocar a compulsao a repencao ~o e~xoda trans-
terencia, buscando, deste modo, a sua simbolizacao,
Ocampo da analise, entao, refere-se a dialetica entr~~ for-
ca pulsional e sua simbolizacao, de modo que :- c?ndwao de
possibilidade da segunda esta dada pela transferencia. A .:xp~-
riencia analitica passa a ser, cada vez mais, uma ex_p~r~en~la
intersubjetiva. Assim, 0 "outro-analista'~e que~ P?SSI~ll1tara.a
simbolizacao do repetido. Esta conc~P9aoda tecmcafica mars
cnfatizada, amedida em que e possfvel colocar de urnl~~oEros,
como possibilidade de ligacao - repre.sentada na an~hs~ pelo
espaco de intersubjetividade por mew da transferencia _- ~
de outro, a pulsao de morte - representada pela compulsao a
repeticao. .
Assim, as elaboracoes teoricas e tecnicas feita~ a partir de
1915 permitem pensar que a analise passa a refenr-se a dua~
classes de atos psiquicos: ao conteiido representado e ~ue, P~l
isto, pode transformar-se em palavra ~ a u~a outra dimensao
de atos psfquicos que nao se acham mscntos e que somen~e
poderao articular-se como palavra, per:en~entes a uma ~~de~a
simb61ica, pelo caminho da transferencia e da cxpcnencia
intersubjetiva com 0 analista.
Na medida em que existem experiencias que nao est~o re-
presentadas e que, portanto, nao_pode~ s~r recordadas, ~ ~nter-
vencao do analista nao pode mats restnngir-se somente a mter-
pretacao. Diante desta constatacao, Freud (1937b) formula 0
67t'L'!lllw Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
peticao, posto que esta investido de sexualidade (FREUD,
1914b). Esta constatacao de Freud, feita em 1914, parece moti-
var a pergunta sobre qual e 0 papel do ego no processo analiti-
co. Em outras palavras, poderia 0 analista contar com 0 ego no
intento de recuperar a representa9ao recalcada, uma vez que
este e parte interessada na repeticao? Assim, fica questionado 0
ego como Iugar de retificacao das fantasias sexuais. Desde 0
ponto de vista terapeutico, de nada serviria 0 conhecimento pelo
ego da representacao recalcada, na medida em que este se en-
contra implicado neste processo (CASTIEL, 2003).
Por outro lado, emAs Pulsiies e seus Destinos, Freud (1915)
retoma 0 conceito de pulsao, definindo uma quarta caractensn-
ca para esta - pressao (Drang). Joel Birman (1991) salienta esse
aspecto, afirmando que neste texto a pulsao e pens ada por
Freud, primordialmente pOI'seu aspecto economico, como uma
forca que impoe ao psiquismo urn trabalho. A irrupcao
pulsional seria justamente 0 que obrigaria 0 sujeito a tel' de
realizar urn trabalho sobre as excitacoes para que fosse possi-
vel dominar a forca da pulsao como irrupcao. Assim, seria
preciso urn campo de objetos por meio dos quais existisse a
satisfacao e, a partir disto, a inscricao destas experiencias em
urn campo de representacoes.
Esta constatacao tern uma repercussao tecnica. Se nao e
possivel contar com 0 ego como aliado na tentativa de recupe-
rar a representacao recalcada, e se 0 analista pode se constituir
em urn objeto para a pulsao, isto quer dizer que 0 que se repete
na analise e 0 circuito pulsional. Dessa forma, os representan-
tes pulsionais podem se tornar conhecidos, pela experiencia
intersubjetiva com 0 analista. Isto implica dizer que 0 analista
interpreta as vicissitudes desta neurose historica feita neurose
de transferencia em sua relacao com 0 complexo de castracao.
Por outro lado, a potencia atual da neurose implica que 0 fator
quantitativo tambern esteja em jogo, colocando, desta forma, 0
econornico em pauta e nao mais somente 0 topico.
(Con) textos de entrevista: olharcs diversos sobre a interacao hurnana66
0)1Centro unlVtrSlUrio IlItI£r dIIS1m
~Biblioteca
Este segundo momenta da tecnica analftica faz pensar em
lima outra concepcao etica da analise, tendo em vista que nao
csta mais em pauta a rernincia aopulsional. Assim, a problema-
tica que se estabelece para a experiencia analftica e a de como
construir caminhos alternativos para que as forcas puLsionais
possam ter satisfacao no universo psfquico e no campo da
ulteridade de acordo com a castracao, Essa seria uma outra con-
cepcao etica da analise, segundo a consideracao do desejo c
Iormas sublimat6rias de satisfacao deste.
De fato, essa virada da tecnica em Freud possibilita uma
outra dimensao do lugar do analista. Este ent:racom sua presen-
ya, oferece-se como um objeto para a pulsao - nao no sentido
da satisfacao,mas, sim, criando uma circularidade. Freud (1937)
afirma que a analise deve ser levada a cabo num estado de
frustacao, destacando, com isto, que a circularidade pulsional
na analise e dada pela posicao de abstinencia do analista. Isto
dito nas palavras de Lacan: sustentar a demanda para que 0
desejo possa se manifestar (LACAN: 1958). E ao nao respon-
der a convocat6ria de satisfacao vinda do paciente que 0 analis-
ta abre espaco a manifestacao do pulsional.
Nesse processo, 0 analista esta implicado como pessoa,
exilando-se do pr6prio ego e, portanto, em certo sentido ausen-
te, mas presente com seu inconsciente. 0 processo analitico s6
verdadeiramente ocorrera a partir da condicao do analista de
conseguir ocupar esse lugar de objeto - por meio do qual a
pulsao tenta se satisfazer - e de sujeito da ayao terapeutica.
Essa nao e uma posicao facil de se aceder, e neste sentido pode-
se compreender a afirmacao lacaniana de que toda a resistencia
6, na verdade, do analista (LACAN, 1958). Dentro desse con-
texto, Derrida (2001) diz que 0 lugar do analista e "sem alibi",
o que parece caracterizar bern a radicalidade desta posicao de
se oferecer como objeto, ao mesmo tempo, sustentar a deman-
da, estar e niio estar.
69MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
" '" "
I'" 11,:. .:
conceito de construcao, referindo-se a elaboracao que 0 analis-
ta deve realizar na analise "essencialmente destin ada a
reconstituir nos seus aspectos reais e fantasisticos uma parte da
hist6ria infantil do sujeito" (Laplanche e Pontalis, 1994, p.97).
Ou seja, construcao e a soma da transferencia com a historia.
As intervencoes do analista - construcoes e interpretacoes -
levam a perlaboracao, que seria a passagem de uma aceitacao
puramente intelectual do conteudo inconsciente a uma convic-
yao baseada na vivencia do pulsional, via transferencia, e sua
vinculacao com a hist6ria. A perlaboracao seria, deste modo, a
maneira pela qual a repeticao vai determinando 0 registro da
simbolizacao.Pormeio do trabalho perlaborativo, e possfvel ces-
sal' a insistencia da repeticao do inconsciente (FREUD, 1914a).
A partir deAnalise Termindvel e Intermindvel (1937a), e no
Esboco de Psicandlise (1940), Freud apresenta a pulsao de mor-
te como 0 elemento mais poderoso no que se refere ao exito da
analise.Com istoesta colocandoem evidenciaque a sirnbolizacao
da forca pulsional, ou seja, a transformacao da pulsao de morte
em Eros, pela transferencia, nao e sernpre possiveL
Assim, de acordo com estes pressupostos, a analise passa a
ser urn espaco de intersubjetividade, circulacao e representa-
yao do pulsional cujo objetivo e sua transformacao no sentido
do desejo. A analise implica que analista e analisando possam,
juntos, construir destinos para as forcas pulsionais e inscreve-
las no universo da simbolizacao. Dentro deste contexto, a su-
blimacao seria 0 destino pulsional que se relacionaria a formas
alternativas de satisfacao do desejo.
Efetivamente, Freud indicou em urn momenta mais tardio
de suas formulacoes te6ricas e tecnicas que 0 rumo do trabalho
analitico estaria, de algum modo, relacionado a sublirnacao
(FREUD, 1940).Esta constatacao de Freud e possfveljustamen-
te pelas modificacoes de enfase na tecnica, na qual a circulacao
do pulsional e a transferencia assumem a prioridade na c1fnica.
(Con) textos de entrevista: olhares divcrsos sobre a inreracfio humana68
BIRMAN, J. Freud e a interpretaciio psicanalitica. Rio de Ja-
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Referencias bibliograficas
lado, depende tambem da capacidade do analista de colocar-se
como objeto da pulsao e como sujeito da a<;:aoterapeutica, com
todas as implicacoes que advem deste fato. Se 0 analista nao
ultrapassa a perspectiva intelectualizante do deciframento, a
analise nao adquire uma dimensao terapeutica, 0 que pode re-
dundar em uma RTN.
A RTN, entendida desde a perspecti va do lugar do analista,
e, em nosso entender, a resistencia da psicanalise a ela mesma,
isto e, a psicanalise resiste a ela mesma quando 0 analista nao
esta em seu Iugar. No entanto, e a radicalidade do lugar do ana-
lista 0 que possibilita a psicanalise 0 estatuto de ser a forma
terapeutica vigente, na qual e possivel dar conta da transforma-
<;:aoda economia libidinal. Transformacao esta que resulta em
modificacoes significativas e singulares no que diz respeito a
apropriacao, por parte do sujeito, de seu desejo.
71MOnicaMedeiros Kocher Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
ha pessoas que se conduzem muito singularmente no
processo analitico. Quando lhcs damos esperancas enos
mostramos satisfeitospela marcha do tratamento se mostram
descontentes e pioram marcadamente (p.SO).
E~ Analise Termindvel e Intermindvel (1937a), remonta a
RTN a pulsao de morte.
. Ainda que a RTN seja definida como uma resposta do pa-
ciente ao destino da analise, parece-nos que ela esta diretarnen-
t~ relacionada ao lugar que ocupa 0 analista no processo anali-
nco. Se 0 exito da analise depende da simbolizacao da pulsao
de morte, ocorre uma RTN quando isto nao e possfvel. E verda-
de que esta simbolizacao depende do paciente, mas, por outro
E ao tratar da hospitalidade que Derrida (2003) aponta a
ne~essidade de, diante do que chega - ao Chegante ou Estran-
geiro - ."~ue 0 ~eixe vir, que Ihe ceda lugar, que 0 deixe chegar,
sem /exlgrr reciprocidade, nem mesmo 0 seu nome" (p. 28). E
pos.slvel rel~clOnar 0 posicionamento do autor com este lugar
radical de vrver 0 processo analitico, de estar inteiro e ao rnes-
mo tempo, exilado de si mesmo.
. Assim, percebe-se uma marc ante diferenca no que diz res-
peito ao lugar do analista nestas duas perspectivas tecnicas em
~reud. Na ~rimeira delas, esta presente a razao, 0 ego do ana-
h~ta, ~eve~tI~o de urn poder, sujeito suposto saber. A implica-
<;:~odisto e a intelectualizaeao do paciente a respeito do conhe-
c]m~nto de si proprio, 0 que nao quer dizer transformacao
pulslOna~. A seg~nd~, ao contrario, e uma posicao do analista
que precisa ser atingida, no sentido da transforrnacao dos desti-
nos pulsionais, muito alem da intelectualizacao.
Considerar estas duas perspectivas do lugar do analista
abre espaco para 0 questionarnento do fenomeno da Reacao
Terapeutica Negativa. Freud (1923) define a RTN em 0Ego
eoId:
(Conlrexros de entrevista: olhares diversos sobre a tnreracso humana70
Ha quinze anos, quando terminei 0 curso de graduacao em
Psicologia e recem- ingressava na formacao analitica, encontra-
va-me em um momento em que 0 tema que este capitulo propoe,
no que diz respeito a Psicanalise Infantil, ocupava uma posicao
secundaria em nosso meio, e tarnbem no meu interesse.
Na nossa cidade, Porto Alegre, naquela epoca, a iinica for-
macae psicanalftica existente, com reconhecimento internacio-
nal nao permitia 0 ingresso de psicologos. Estavam surgindo
novos grupos de formacao, do qual fiz parte, que permanece-
ram gracas ao reconhecimento de sua profunda seriedade em
nosso meio. Forarn cursos quase que exc1usivamente voltados
ao atenclimento de pacientes adultos. (.
Produzia-se uma valorizacao crescente ao retorno a Freud
e sua Metapsicologia, por urn lado, e a Lacan por outro. A es-
cola inglesa da corrente de Melanie Klein (1981), que havia
predominado no trabalho clinico infantil, ate entao, e inclufa na
sua proposta a tecnica do brinquedo como recurso anahtico (cria-
da entre 1920 e 1940), perdia espaco,
A posicao primeira era sobre a clfnica da linguagem, em
detrimento daqueles que desejassem trabalhar com uma popu-
lacao que se encontrava num momenta evolutivo em que a pala-
vra, somente, nao era 0 instrumento possfvel de analise.
As dificuldades na busca daqueles psicanalistas que dese-
javam iniciar-se, em algum momento, na pratica analftica in-
fantil, nao eram poucas. As contribuicoes da senhora Klein e
ADRIANA AMpESSAN
A SINGULARIDADE DA
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V.l0. " . v.
(Con)tcxtos de cntrevisra. olhares divcrsos sobrc a intcras;ao humana
72
Iniciar urn processo no campo da psicanalise com criancas,
criando as melhores condicoes de entrada, resulta em dtividas
as quais todo analista ja deve ter vivenciado no seu trabalho
cotidiano.
Receber os pais antes da crianca, a crianca antes dos pais,
deixar a escolha a criterio dos pais ~ receber quem vier, ou se
posicionar de inicio a respeito de quem deve comparecer ao
primeiro encontro? Como lidar com situacoes cada vez mais
frequentes de casais separados ou da inclusao de OUtrOSparcei-
ros ou, ainda, como receber as novas composicoes familiares
que surgem nos tempos atuais? Como nao acredito ser possfvel
urn "procedimento padrao" penso que todas as OP90es devem
ter como escolha a metapsicologia implicita nos atos de cada
psicanalista.
Quando os pais decidem consultar, por algum motivo,
normalmente 0 primeiro passo em direcao ao analista e por
intermedio de urn contato telefonico e, na maioria das ve-
zes, e a mae quem 0 faz. Porern, mais importante do que 0
comparecimento de determinada pessoa sera a sustentacao
da posicao analftica (tarefa nada facill) de "escuta". Escutar
com quem a mae, se for ela quem ligou, pensou em vir, com
quem ela estabelece vfnculos e 0 que propoe neste primeiro
contato.
Entrevista com os pais
Trilhando entao esse caminho dentro da proposta freudian a
desenvolvida nos textos de Freud (1915) da Metapsicologia e
redefinindo novos parametres tecnicos, chegamos a clfnica com
criancas. Trata-se de campo privilegiado de descobertas, mas,
tarnbem, 0 lugar ondc as dificuldades tecnicas se fazem mais
presentes. Pensemos urn pouco em como se da 0 processo das
entrevistas iniciais na clfnica infantil.
75MOnicaMedeiros Korber Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
seus guias tecnicos estavam sendo postas a prova por nao res-
p~nder aos obstaculos que surgiam na clinica psicanalitica de
cnan9as. daquele momento. Como trabalhar entao com outros
refere~clals que dessem conta da singularidade te6rico-tecnica
d~ p~cl.ente.ne~te momento evolutivo, se nao contavamoj, com
pnncipios d~etIvos ~l~os nem com guias tecnicos para dar conta
do que surgia na clfnica com criancas?
A situacao era a seguinte: alguem que se aventurasse a tra-
bal?~' na clinica infantil, com outros referenciais, que nao 0
kleiniano, d~parava-s~ com urn"mix" te6rico e tecnico que le-
vava os analistas, muitas vezes, a interven90es mais psiquiatri,
cas do que psicanaliticas.
No meu caso, em particular, nao escapei de uma
pera~bula9ao te6rico-t6cnica na busca de profissionais mais
expenentes pa;~ a pratica supervisionada. Procurava integrar
meu estudo teonco, que era transmitido no curso de formacao
(urn estudo profundo da obra de Freud e com 0 qual me identi-
ficava), com 0 encontro de uma tecnica infantil coerente dentro
dessa mesma linha te6rica.
A busca foi longa, mas nela tive a oportunidade de encon-
tra~ grandes profissionais entre eles, a psicanalista Silvia
Bleichmar, que ajudou a nortear minha pratica clinica com crian-
cas. Essa autora parte de urn eixo te6rico dentro da obra de
Freu~ que entende 0 inconsciente sendo formado por meio da
relacjio co~ 0 ~emeI?ante. Refere que essa vivencia sera regis-
trada no psiquismo incipiente e sofrera os efeitos dos movi-
mentos pUlsionais que the sao inerentes (BLEICHMAR, 1993).
Silv~a Bleichmar viabiliza a coerencia que buscava entre 0
referencial psicanalitico freudiano e a clinica infantil, Inicia seu
tra~alho em Freud, ~aba~~ suas ideias e define seus proprios
p~ametros para a psicanalise, Encontrei em suas ricas contri-
buicoes te6rico-clinicas aportes para pensar, a partir do motivo
d: c?nsulta, com sua producao de sintomas, urn modelo diag-
nosnco e urn modo de trabalha.Io,
(Con)textos de entrevista: ofhares diversos sobre a intera\;ao humana
74
construcao de urn espaco de diferenciacao para ver como se
segue 0 processo a partir de entao. ,
Outro aspecto no qual, propositalmente, nao me dete~o
inicialmente, neste primeiro ou segundo encontro com os pal.s,
e na hist6ria da crianca. A hist6ria, como adverte SILvia
Bleichmar (1994), pode fascinar a escuta analitica ou produzir
uma saturacao de sentido, impedindo 0 analista de co~hecer 0
que deve encontrar. Esta entrevista e a ultima que realizo antes
da devolucao.
A partir dai, detenho-me a entender 0 motivo da consult~
tratando de diferenciar 0 que e da ordem do sintoma e 0 que e
da ordem do posicionamento desejante dos pais. Exemplifico:
uma criancinha encaminhada pelo colegio apresentava certa
dificuldade de concentrar-se e apreender os contendos, mas, na
entrevista com os pais, estes a descreviam como inteligent~,
porem, distrafda - devemos ter c~aro 0 que faz parte do. des~Jo
dos pais e 0 que e da realidade. Uma crianca pOd.eestar distraida
porque nao pode parar de pensar no nascimento ~e .um
irmaozinho recem-chegado, por exemplo; ou porque esta dian-
te da intensidade de representantes pulsionais que invadem seu
ego sem que este possa exercer seu papel de filtrar estimulos
(FREUD,1895).
o diagnostico diferencial e importantissimo, mais ainda na
clfnica da infancia, para estabelecer a estrategia adotada pelo
analista e a escolha de intervencoes adequadas, elementos, .
determinantes no processo da cum analitica. 0 mouvo de con-
" do recalcado"sulta deve responder, por urn sintoma - retorno 0 reca ca 0
como no modele da neurose do adulto, ou, por urn destino
pulsional anterior ao do recalcado, vicissitudes de patologias
mais serias. Cabe ao analista estar capacitado para dar conta do
diagnostico diferencial de forma clara.
A entrevista com os pais e 0 que eles puderem nos trans-
mitir consciente e inconscientemente, por meio do motivo de
77
MOnicaMedeiros Korber Macedo & Lcanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Certa ocasiao, ao perguntar a uma mae com quem pensara
vir a consulta, ela respondeu, sem he sitar, que com a crianca
porque as duas compartilhavam todas as situacoes de vida. Essa
senhora, que ja tinha uma experiencia analftica anterior, ao en-
trar no meu consult6rio, sentou-sc inicialmente na minha pol-
trona e depois me contou que 0 motivo da consulta era a difi-
culdade do filho em aceitar qualquer regra do colegio no qual
recem- ingressara. A mulher nao carregava a ideia de espacos
diferenciados entre eLae 0 filho, e 0 pai da crianca nao era cita-
do em nenhum relata a nao ser quando se fizesse alguma per-
gunta sobre ele.
Pergunto no telefonema pelo pai, nao pelo marido, porque
nao sei, a princfpio, se uma mulher que tern urn filho tem urn
marido. E tampouco me importa a realidade conjugal dela. N6s,
analistas, nao ocupamos uma posicao religiosa ou pedag6gica;
o modelo do pensamento psicanalftico e outro, nao sendo eu
quem deva decidir que relacao ha entre sexualidade, materni-
dade ou matrimonio. Normalmente pergunto, se 0 pai nao for
mencionado, se ele sabe, se esta interessado em comparecer e
me posiciono (somente depois de ter ouvido a posicao de quem
fez 0 contato), assinalando que prefiro uma primeira entrevista
sem a presenca da crianca. Pais que contam no consultorio tudo
diante de seus filhos, ou, 0 que e muito comum, que baixam
seu tom de voz para con tar algo que os fiThos nao deveriam
ouvir, agindo na presenca deles como se estes nao estivessem
presentes; sao pais que contam tudo em todos os lugares. Estes
pais nao tern claro 0 efeito que 0 que contam causa nos fiThos.
Sao pais que nao podem criar espacos de diferenciacao e de
discriminacao de papeis e lugares.
Adotar uma escuta do modo como se posicionam os pais
que nos ligam ap6s a primeira consulta e receber 0 que puderem
nos contar e trabalho do analista. Trata-se de, posteriormente,
auxiliar na demarcacao dos espacos e tratar de auxilia-los na
(Con) rextos de cntrevista: olhares diversos sobre a interacfio humana76
Desde sempre associamos brincadeiras e brinquedos com
as criancas, Eles tern uma funcao simbolica e de prazer, e para
nos, analistas, mais do que isto, constituem 0 meio de acesso
ao seu inconsciente. Sao formas de viabilizar trocas, de promo-
ver intercambios humanos.
Entrevista com a crianca
Antes do encontro corn a crianca, solicito aos pais que me
telefonem, para me colocarem a par do que disser~~ a cri~n~a,
quando contaram da sua vinda ao m~u consultofl? Verifico
assim, como se posicionou transferencialmente a cnanc;~,pa~a
saber com que transferencia YOU me deparar de entrada. E mu~-
to importante 0modo como as criancas sao col~cadas em an~-
lise e como esta centrada a resistencia, Tento cnar boas condi-
<;:oesde chegada.
Sabemos que nenhuma crianca se recusa a vir a consulta se
os pais acreditam na Psicanalise. As ~rian~as nao .pedem aos
pais para ir a escola, VaGporque os pais estao convlcto~ da ~e-
cessidade. Algumas pessoas rezarn porque sofrem, outla~ pro-
curam urn psicanalista. 0 que faz os pai~~us~are~ atendimen-
to e a conviccao de que a analise beneficia; ISSO e uma crenca
cultural, e, se os pais a tern, transmitem a crianca.
Torno 0 cuidado de so receber uma crianca se existe a pos-
sibilidade de trabalhar com ela, porque qualquer passagem pelo
consultorio tern urn efeito importante.
Telefonema dos pais
e, assim, lhes forneco umaestimativa do tempo que levru:a.Com-
binamos tambem como falar com a crianea sobre a vinda em
meu consultorio. Proponho urn projeto de trabalho.
79MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
consuIta da crianca, ajudam a conceber a realidade do incons-
ciente infantil. Inconsciente este marcado pelo encontro com a
figura materna, e mais tarde paterna, causando urn efeito na
estruturacao da sexualidade infantil.
Ao escutar os pais, YOU levantando hipoteses que VaGou
nao sendo confirmadas ao longo da entrevista, com respostas
as perguntas que YOU formulando. Eu testo rninhas proprias hi-
poteses para chegar a urn possivel diagnostico, que so e impor-
tante na medida em que define uma estrutura e resulta na esco-
Iha de uma estrategia terapeutica eficaz.
Os pais vao nos dando elementos, a partir do que relatam e,
com eles, vamos buscando entender como e constitufdo 0 in-
consciente infantil. 0 objeto da Psicanalise de criancas eo in-
consciente, nao dos pais, nem da familia, mas da propria crian-
ca e a Psicanalise e urn metoda de indagacdo dos processos
psfquicos. As perguntas formuladas aos pais devem ter uma
direcao, inquire-se a realidade sobre certos elementos paradar
conta de uma hipotese.
Ha urn tempo, questionava uma supervisionanda sobre 0
porque de perguntar tal coisa aos pais, e ela me respondeu: "Para
saber urn pouco mais", Urn pouco mais do que? Temos que
saber 0 que buscamos, 0 que estamos querendo saber e, tam-
bern, depois poder ouvir outras coisas que VaGsurgindo.
Perguntar aos pais se a crianca se interessa pelo movimen-
to do liqiiidificador, na cozinha, pode parecer absurdo ou bizar-
ro, mas nao se a hipotese diagnostica que estou formulando for
de Autismo. A pergunta deve ter como meta a delimitacao de
urn campo, para armarmos 0 metodo,
Por fim, neste primeiro ou segundo encontro, esclareco todo
o processo diagnostico aos pais. Cabe destacar que esses mo-
mentos de entrevistas com os pais costumam ter uma duracao
maior do que 0 habitual. Falamos de como se dara todo processo
(Con)textos de entrevisra: olhares diversos sobre a interacao humana78
Procuro nao usar jogos prontos, pelo menos, nao os ofe-
reco a crianca. Posso ate jogar por urn tempo, mas nao 0 faco
como habito. 0 jogo, as vezes, nao produz criacao e pode au-
rnentar a resistencia, mas deve-se respeitar a singularidade de
cada crianca. 0 hidico em psicanalise nao e jogar - 0modo de
posicionar-se diante das coisas.
Recebo a crianca, nao como a professora da escolinha Oll
como urn "bebe oligofrenico", Devemos ter 0 cuidado para
nao tornar pueril a analise com criancas, Somos analistas e
estamos para ajudar a pensar, entender 0motivo de consulta e
depois, caso fique em tratamento conosco, analisar.
A primeira entrevista com a crianca e para nos conhecer-
mos. Nela me apresento, digo quem eu sou e 0 que faco, Con-
versamos sobre por que veio, 0 que pensa sobre isso, explora-
mos os brinquedos e falamos. No termino, posso pedir urn
desenho se a entrevista foi pobre de conteudo para que a crian-
ca nao saia com a sensacao de vazio.
Na segunda e terceira entrevistas, caso a crianca esteja
falando e brincando, seguimos 0 ritmo do encontro, senao,
posso pedir urn desenho livre e outro da familia. Sao alterna-
tivas que me ajudam a pensar no inconsciente infantil, princi-
palmente se tenho diividas diagn6sticas.
Realizo tambem, em algumas situacoes, testes como 0
TAT,dependendo da faixa etaria e do nlvel intelectual. Testes
como esses exploram 0 mundo fantasmatico infantil, penni-
tem ver como esta organizada a estrutura edipica. Nao realize
testes que tenham urn carater pedag6gico. Se existir a neces-
sidade de realizar urn WISC, encaminho a urn colega. Geral-
mente 0 face se tenho serias dtividas com diagn6sticos dife-
renciais envolvendo suspeita de psicose. Se a suspeita for de
algo organico, encaminho a urn neurologista.
81MI1nicaMedeiros Kocher Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
o importante na escolha dos brinquedos do consult6rio e
que eles sejam capazes de expressar fantasias para serem anali-
sadas. Escolho objetos que permitam as criancas pensarem. E
por meio dos brinquedos que expressam suas fantasias e cabe
ao analista ir dando-lhes urn sentido. A interpretacao 6 ofereci-
da por interrnedio do que for surgindo na brincadeira.
o analista de criancas tern 0 direito de recuperar seus
aspectos hidicos e trabalhar com 0 humor. 0 material e ape-
nas 0 ponto de partida, nao e 0 objeto da analise, mas deve
ser prazeroso para ambos, analista e paciente. Em meu con-
sultorio ha uma mesinha baixa com duas cadeiras, varies
tipos de material grafico a disposicao e comum a todas as
criancas (blocos de papel, lapis de cor, giz de cera,
marc adores coloridos, cola, tesoura, durex, cordao, massa
de modelar ...); alem disso, tenho uma casinha de boneca
"Fische-Price" com todo 0 mobiliario e distintos persona-
gens representados com faixas etarias distintas. Posso tam-
bern perguntar aos pais, durante a primeira entre vista, com 0
que a crianca gosta de brincar em casa e incluir esse material
em sua caixa individual.
Possuo uma comoda com varias gavetas chaveadas, que e
de usa individual de cada crianca, La dentro nao coloco nada
que estrague facil ou que precise ser substitufdo - esse mate-
rial fica disponfvel sobre a mesa. Coloco na gaveta jogo de
cha, animais de fazenda, pequenos bonecos, paninhos, trens,
carros, avioes e outros materiais que julgo interessantes de-
pendendo da faixa etaria e do sexo da crianca, todos como
instrumentos de facilitacao da expressao de seus desejos e
fantasias.
M6veis, brinquedos e material grafico, no meu consult6rio
estao colocados de uma maneira tal, que, ao entrar, a crianca
tern uma visao do que ofereco para comunicar-se comigo, sem
precisar ser dito. Em geral, dirigem-se diretamente para la.
(Can) textos de entrevista: olhares diversos sobre a intcrtu;ao humana80
1981.
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Referencias bibliograficas
83Monica Medeiros Kocher Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Depois de todo processo conclufdo, convido os pais nova-
mente para sentarmos e conversarmos sobre tudo 0 que pensei
durante as entrevistas iniciais. Conversamos sobre 0 entendi-
mento do motivo da consulta, tudo que puder ser contado, res-
peitando 0 sigilo com a crianca, 0 sigilo nunca e 0 que a crian-
ca desenha ou brinca - sao sempre os fantasmas que ela expres-
sa. E isto nao tern por que ser dito.
Caso se decida iniciar urn tratamento, fechamos 0 contrato.
Mas nunca se faz contrato com pais que nao estejam claramente
decididos a iniciar a crianca em tratamento. 0 contrato envolve
combinacoes de frequencia, horarios, honorarios e sigilo. A par-
tir desse momenta abrem-se novos caminhos com a crianca.
Propus-rne a expor, neste capitulo, 0 meu modo de traba-
lhar nas entrevistas iniciais em Psicanalise Infantil. Ou seja,
face urn convite a pensar como se determina 0 infcio de urn
tratamento com criancas.
A seriedade que envolve 0 tema destas primeiras entrevis-
tas diz respeito a estabelecer urn diagnostico preciso para al-
cancar exito no futuro tratamento, ou seja, visa a precisao
diagnostica para gerar novas condicoes de simbolizacao, abrin-
do novas possibilidades de vida para os nossos pacientes.
Entrevista de devolucao
Esta entrevista e a ultima que realizo antes da devolucao com
os pais. Convido a mae e a crianca a comparecerem, pedindo per-
missao ao pai para representa-lo como 0 terceiro na estruturacao
familiar. Interessa-me os dados da historia, como sao contados,
como ocorreram e a resposta emocional do que contam, mas, so-
bretudo, rninha atencao esta voltada para 0modo de funcionarnen-
to desta dupla (mae e filho) diante de urn terceiro.
Entrevista da historia da crianca
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a inreracao humana82
PARTE 3
(CON)TEXTO
COGNITIVO-COM-PORTAMENTAL
Considerando a importancia do primeiro contato com 0
paciente, nos centraremos no acolhimento ao paciente depen-
dente qufrnico, quando da sua internacao em uma unidade de
tratamento para dependencia qufmica.
o principal objetivode urn trabalho terapeutico e facilitar
mudancas comportamentais que diminuam 0 sofrimento e au-
mentem as contingencias reforcadoras; para que isso aconteca
e necessario pensar na relacao terapeutica, Range (2001) afir-
rna que 0 paciente que esta buscando ajuda e privilegiado pelo
trabalho do terapeuta capacitado em tecnicas e procedimentos
especfficos ao mesmo tempo em que utiliza habilidades sociais
importantes como a empatia.
Urn primeiro objetivo esta relacionado a construir a reIa-
9ao favorecendo a confianca e cooperacao do paciente, mobi-
lizando-o na busca de ajuda e possibilidade de alivio de seu
sofrimento.
Urn acolhimento afetuoso, sem risco de censura, servira
como urn facilitador e como urn instrumento para auxiliar na
mudanca do comportamento e das crencas disfuncionais do
paciente. A alianca passa a ser colaborativa e nao impositiva
permitindo que 0 paciente possa se sentir seguro para compar-
tilhar suas dificuldades. E importante que 0 terapeuta mostre
IRANI DE LIMA ARGIMON
KELLY CARDOSO PAIM
A ENTREVISTA MOTNACIONAL:
IMPORTANCIA DO ACOLHIMENTO
A DEPENDENTES QUfMICOS
A Entrevista Motivacional e uma intervencao estruturada
que tern side muito utilizada atualmente no tratamento de com-
portamentos dependentes (MILLER&ROLLNICK, 2001; OLI-
VEIRA, 2001). Para Knapp (2000), 0ponto principal no mode-
10cognitivo e auxiliar 0 paciente a identificar a forma como ele
constr6i e entende seu mundo e facilitar de forma colaborativa
experimentar novos jeitos de se relacionar com diferentes as-
pectos de sua vida. Portanto aEntrevistaMotivacional terncomo
objetivo aumentar a motivacao do paciente, fazendo com que a
mudanca venha de dentro, em vez de ser imposta de fora.
Podemos dizer que a rnotivacao e 0 ponto-chave na tomada
de decisao entre abandonar ou continuar com 0 padrao de uso
problematico de substancia. Quando 0 paciente percebe que esta
tendo problemas e que isso tern de ser mudado, ele pr6prio pode
identificar as habilidades e os recursos necessaries para realizar
essamudanca ou procurar ajuda especializada e comprometer-se
com urn tratamento (MILLER& ROLLNICK, 2001).
Entrevista Motivacional
agir enos movimentarmos em direcao as rnudancas positivas
nccessarias para a nossa vida, ou seja, e urn estado de prontidao
ou vontade de mudar.
Em nossa experiencia, os pacientes, que se internam em
uma Unidade de Dependencia Qufmica, expressam sentimento
de ambivalencia em relacao a decisao de mudar.Uns, em rnaior
intensidade, como no caso de internacoes involuntarias e ou-
tros mais amenamente quando ja se conscientizaram de que a
mudanca e necessaria, mas que, mesmo assim, questionam-se
sobre a necessidade do tratamento, sentindo medo ou vontade
de desistir. Por essa razao, 0 nosso papel e estimular a motiva-
<;aopara a mudanca com 0 objetivo de facilitar a superacao das
dificuldades de permanecer em abstinencia.
89Ml'lnicaMedeiros Korber Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Entendemos a dependencia qufrnica como uma relacao
disfuncional entre uma pessoa e seu modo de usar (consumir)
uma determinada substancia psicoativa. Segundo Laranjeiras
(2002) as substancias utilizadas possuem potencial de abuso
podendo vir a desencadear a auto-administracao repetida, que
geralmente resulta em tolerfincia, abstinencia e comportamen-
to compulsivo de consumo.
A dependencia qufrnica implica uma "necessidade" psico-
logica e/ou ffsica a droga; centra-se na necessidade do uso para
atingir urn nfvel maximo de sentimento de bem-estar e a adap-
tacao fisiol6gica ao uso cronico da substancia, com
envolvimento de sintomas quando a droga e interrompida ou
retirada.
Por esses fatores compreendemos que deixar de usar uma
substancia, da qual a pes soa e dependente ffsica e/ou psico-
logicamente, nao e uma decisao facil de ser tomada. Pelo
contrario, e necessario que esteja disposta a enfrentar mui-
tas dificuldades, entre elas, a sfndrome de privacao da dro-
ga, com seus sintomas desconfortaveis, e 0 vazio deixado
pela falta de uma "companheira", como muitos pacientes se
referem a droga utilizada, que antes era tao presente na sua
rotina.
Dessa forma, para mudar e permanecer abstinente, e preci-
so motivacao para a mudanca, Miller & Rollnick (2001) refe-
rem que motivacao e 0 interesse e 0 entusiasmo que temos para
Falando sobre a dependencia qufmica
uma atitude flexfvel, porque, neste momento, 0 paciente inter-
nado necessita de empatia, naturalidade por meio da forma do
terapeuta olhar, falar, apertar a mao, expressar uma postura
arnigavel, tel' firmeza quando necessario, usar uma linguagem
compreensiva para 0 paciente, atencao, aceitacao,
(Con) textos de entrcvisra: olhares diversos sobre a intcra~ao humana88
o caminho entre os estagios motivacionais pode ser
evolutivo ou regressivo, nos quais a ambivalencia eo principal
obstaculo para uma boa evolucao.
Entre os principios que estruturam a Entrevista
Motivacional, Miller & Rollnick (2001) descrevem cinco prin-
cfpios clfnicos a seguir descritos:
Expressar empatia: Este principio sugere que 0 terapeuta de-
senvolva urn estilo terapeutico empatico durante todo 0 processo.
Desenvolver discreptincia: Eajudar 0 paciente aver e sen-
tir seu comportamento problematico e 0 quanta este 0 impede
de alcancar suas metas, evidenciando onde a pessoa esta e aon-
de ela quer chegar.
Evitar argumentaciio: Pressup6e que a resistencia do pa-
ciente e fortemente influenciada pel a forma como 0 terapeuta
se dirige a ele. A confrontacao gera resistencia e e 0 sinal para
Determinaciio: Nesta etapa ha a percepcao do problema,
bern como da necessidade de promover mudancas, 0 papel do
terapeuta e de ajudar 0 paciente a determinar a melhor linha de
acao a ser seguida na busca da mudanca,
Ar;ao: 0 paciente esta pronto para transformar-se. 0
terapeuta ajuda 0 paciente a dar passos rumo a rnudanca.
Manutenciio: Existe a incorporacao da mudanca no sell
estilo de vida. 0 terapeuta deve reforcar 0 sucesso, ajudar 0
paciente a identificar e a utilizar estrategias de prevencao de
recafda.
Recaida: Se a rnudanca nao se mantern, 0 estagio e 0 de
recafda no qual 0 paciente retorna aos comportamentos ante-
riores precisando novamente evoluir nos estagios motivacionais.
o terapeuta ajuda 0 paciente a renovar os processos de con tem-
placao, determinacao e acao, sem que este fique imobilizado
ou desmoralizado em consequencia da recafda.
9LMonica Medeiros Korber Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Quando 0 paciente esta diante de uma decisao de abando-
nar 0 comportamento de dependencia, passa por urn perfodo de
arnbivalencia entre manter 0 comportamento dependente ou
abandona-Io, surgem questionamentos tais como: "Por que
mudar? Para que mudar? 0 que ira acontecer se eu mudar?". A
resolucao dessa ambivalencia diante da mudanca do comporta-
mento-problema e uma das principais metas da Entrevista
Motivacional (OLIVEIRA, 2001).
A fundamentacao teorica da Entrevista Motivacional quanta
ao processo de mudanca esta baseada no modelo transteorico
da mudanca proposto por Prochaska e DiClemente (1982) pelo
qual se pode identificar os estagios motivacionais em que se
encontram os pacientes. Estes autores propuseram seis esta-
gios, que se inserem em uma "espiral de mudanca" pela qual 0
paciente usual mente circula varias vezes antes de alcancar a
mudanca estavel.
Os pacientes diferenciam-se no grau em que reconhecem 0
seu consumo de substancia psicoativa como problernatica e na
sua prontidao pessoaJ para mudar. Os estagios motivacionais
identificados por Prochaska & DiClemente sao os seguintes:
Pre-contemplacao: 0 paciente nao percebe que tern urn
problema e precisa de ajuda, por isso nao considera a possibili-
dade de mudanca em seu comportamento. Assim, nao se da
conta e nao tern pianos de mudanca. A postura do terapeuta
nesse estagio e flexibilizar sobre a evidencia da dependencia,
levantar diividas, estimular a percepcao do paciente sobre os
riscos e problemas do comportamento atual.
Contemplaciio: 0 paciente passa a ter alguma consciencia
de que existe problema,mas encontra-se ambivalente em pro-
mover a mudanca. Nesse estagio, 0 terapeuta deve inclinar a
balanca, ou seja, evocar as razoes para a rnudanca, os riscos de
nao mudar, fortalecer a auto-suficiencia do paciente para a
mudanca do comportamento atual.
(Con)textos de entrevista: olharcs diversos sobre a interac;1iohumans90
preparar 0 caminho a mudanca natural: empatia, aceitacao
incondicional e autenticidade. Na Entrevista Motivacional,
o elemento empatia e urn ponto determinante na moti vacao
para mudanca do paciente e consiste na capacidade do
terapeuta de se colocar de maneira efetiva no lugar de seu
paciente compreendendo a sua perspectiva e os seus senti-
mentos, demonstrando, que apesar de nao necessariarnente
concordar com eles, aceita-os e os considera legftimos
(MILLER & ROLLNICK, 2001).
Muitos pacientes iniciam 0 tratamento no estagio de moti-
vacao para mudanca "Pre-contemplacao", quando nao perce-
bern a necessidade daquele, pois acreditam nao terem proble-
mas com 0 usa de substancias. Como nesses casos ha urn inten-
so conflito psicologico que gera muito sofrimento, 0 acolhi-
mento e uma poderosa intervencao terapeutica, Trazemos como
exemplo 0 caso de uma jovem de 20 anos que chamaremos de
Virginia. Foi levada a Unidade de Dependencia Qufrnica por
seus pais que solicitaram a intemacao por causa do uso exces-
sivo de alcool e maconha. Apos a avaliacao medica e quando
confirmada a necessidade de intemacao, ela ingressou na Uni-
dade de desintoxicacao, Virginia, muito contrafda, nao enten-
dia 0 motivo da internacao e mostrava-se muito agressiva corn
a equipe, necessitando permanecer restrita ern seu quarto. Fo-
mos ate ela enos apresentamos. Virginia manifestou seus sen-
timentos sobre a situacao. Disse ela: "Eu nao preciso estar aqui.
Sou uma pessoa normal e nao tenho que ficar trancada aqui.
Meus pais estao fazendo isto de proposito, eles nao entendem
que qualquer guria na minha idade bebe e fuma maconha". Nesse
momenta nossa intervencao foi a de que realmente sua situa-
<;aoera rnuito angustiante por estar em um lugar estranho, Ion-
ge da sua familia e corn vontade de ir embora. Mas que estava-
mos ali para ajuda-la e farfamos 0 possfvel para isso, que podia
contar conosco.
93MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Toda e qualquer internacao hospitalar tern urn carater
c:nsiogenico. Permanecer em urn lugar estranho, longe da famf-
Iia e de sua casa e uma situacao estressante. Em uma internacao
por causa do uso abusivo de substancia psicoativa se somam os
sentimentos de culpa, vergonha, me do do desconhecido e
ambivalencia alem de sintomas fisiologicos decorrentes da
sfndrorne de abstinencia,
,A_ ch~gada do paciente a uma Unidade de Dependencia
Qufrnica e urn momento de sofrimento e intensa ambivalencia.
Portanto e de extrema importancia 0 acolhimento deste pacien-
te com empatia e aceitacao incondicional como forma de ate-
nuar tais s~ntimentos e proporcionar uma atmosfera de segu-
ranca, Assim, estarernos intervindo em sua motivacao para
mudanca. Urn ambiente em que 0 paciente receba apoio favo-
rece que ele possa ser capaz de explorar suas experiencias de
forma aberta e identificar estrategias para resolucao de seus
problemas.
o papel do terapeuta nao e diretivo no sentido de fornecer
solucoes; em vez disso, ele precis a oferecer tres condicdes para
o Acolhimento
o_terapeuta mudar as estrategias. Assim, ao evitar a argumenta-
9a~, 0 terapeuta estara evitando que 0 paciente fique ainda mais
resistente.
Acompanhar a resistencia: A relutancia e a ambivalencia
sao reconhecidos como naturais e compreensiveis pelo terapeuta.
Acompanhar a resistencia inclui 0 envolvimento ativo do
terapeuta no processo de solucao de problemas.
Estimular a auto-eficdcia: Uma das principais metas e au-
~entar a percepcao do paciente no que diz respeito a sua capa-
cidade de enfrentar os obstaculos que se apresentam ao longo
do caminho da rnudanca,
(Conrtextos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana92
Um outro exemplo foi 0 de Eduardo, 56 anos, casado, em-
presario. Chegou para internacao trazido peJos filhos, em con-
sequencia de uma recafda, tendo voltado a consumir excessiva-
mente bebidas alcoolicas. No primeiro dia de internacao, Eduar-
do apresentava fortes sintomas de abstinencia, tais como, tre-
mores, insonia, agitacao, sudorese e maI-estar geraI. Com mui-
ta ansiedade e humor deprimido, chorava e dizia: "Eu estou
sofrendo muito. Quero ir para casa. Nao YOU conseguir ficar
aqui, eu estou muito ansioso". Nossa intervencao foi: "Enten-
demos que esta sendo muito dificil para ti, mas lembras que
estas em urn local onde estas sendo cuidado e toda a equipe
esta aqui para te ajudar neste momenta diffcil". Colocamos a
mao em seu ombro e permanecemos ao seu lado. Percebemos
que 0 acolhimento com empatia e a aceitacao incondicional
foram de extrema importancia para a superacao daquele mo-
mento de grande sofrimento. 0 fato de estar ao seu lado e lhe
oferecer seguranca 0 deixaram mais calmo e decidido a conti-
nual' 0 tratamento.
Range (2001) menciona a importancia de encorajar 0 pa-
ciente de forma clara e direta durante 0 processo do tratamento.
No caso de Eduardo, explicar que os sintomas sentidos faziam
parte de uma sfndrome de abstinencia e 0 encorajar a superar
tais dificuldades foram essenciais naquele momenta para sua
permanencia na Unidade. Dias depois quando ja nao sentia os
desconfortos pr6prios de uma desintoxicacao, isso era lembra-
do ressaltando seus esforcos em superar momentos diffceis e
sua capacidade de mudar.
o relacionamento entre paciente e terapeuta comeca a ser
construfdo no primeiro momenta do contato entre os dois.
Edwards (1999)ressalta a importancia do terapeutamostrar afeto
e empatia pelo paciente.
No caso de Juliano, 42 anos, que buscou tratamento por
iniciativa propria, ja vinha em acompanhamento psiquiatrico e
S.i'J's (entro Un· .'Q.Y 8ibliot;:::TSltallo Rlrr.r_ R,
95Monica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
Nessa intervencao, fomos empaticos e explicitamos nossa
possibilidade de ajuda, pois entendiamos que estava sofren-
do ~~!to. Essa atitude pode ser definida pela palavra "acei-
tacao e requer escuta reflexiva habiIidosa pela qual 0
terapeuta procura colocar-se no Iugar do paciente, aceitando
sua perspectiva e seus sentimentos, sem julgar ou critica-
I?As. ~ ambivalencia e aceita como parte normal da expe-
r~encla humana diante de rnudancas e e esperado que 0 pa-
ciente apresente relutancia em abandonar 0 comportamento
dependente.
Virginia estava irritada, gritava e chorava muito deixando
o ambiente extremamente tenso. Percebemos que, ~esse mo-
m~~to, seria importante a nossa aproximacao propondo uma
atividade que pudesse distrai-la e a deixasse mais a vontade no
~mbiente. Foi af que a convidamos para jogar dama: "Sabes
jogar dama? Gostarias de jogar uma partida comigo?". Ela res-
pondeu: "Vamos jogar, entao, talvez assim 0 tempo passe mais
rapido",
No decorrer do jogo, percebemos 0 quanta tal atividade foi
terapeutica, pois Virginia foi se tranquilizando e se
descontraindo, quando ate mesmo passou a aceitar 0 contato
com a equipe.
.Com essa intervencao, facilitamos dois princfpios da En-
treVIS!aM~tivacional descritos por Miller e Rollnick (2001)
q~e sao: evitar a argumentacao e acompanhar a resistencia, ou
s~Ja,nao afirmar ao paciente que ele tern urn problema que pre-
cisa S~l:mudado, p.ois isso faz com que ele defenda a posicao
co~trana. Ao convidarmos Virginia para jogar, estavamos res-
peitando sua resistencia, pois ela estava com muitas dificulda-
des para faJar sobre seu consumo de drogas, entao, evitamos a
confron.ta9ao e acompanhamos sua resistencia. Jogar naquela
hor.a foi .0 :no~oque encontramos para evitar a producao de
mars resistencia.
(Con) texros de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana94
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Referencias hihliograficas
97
MfllliL.l Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
entendia a necessidade de buscar ajuda especializada para a
dependencia do alcool. 0 paciente encontrava-se em urn es-
tagio de motivacao para mudanca "determinacao", pois es-
tava decidido a realiza-la. Em uma entrevista inicial, em que
conversamos sobre 0 consumo de substancia, JuJiano, rnes-
mo determinado a mudar, manifestou arnbivalenci a,
explicitando diividas sobre se realmente estava a fim de in-
ternar-se, dizendo: "Nao sei se devo abandonar tudo la fora
para ficar aqui, deixar minha familia e meu trabalho. Alern
disso, me sinto culpado por fazer minha esposa sofrer, todos
vaG olhar para ela e vao dizer aquela e a esposa de urn
a1coolista" .
No momenta da internacao, a ambivalencia esta presen-
te em todos os pacientes, pois a tomada de decisao para fa-
zer uma grande mudanca no seu estilo de vida, inevitavel-
mente, gem diividas. POl'isso a importancia do terapeuta ser
ernpatico em re lacao a seu paciente, aceitando sua
ambivalencia sempre com urn olhar reflexivo. Sendo assim,
nossa intervencao foi a seguinte: "Entendemos que voce te-
nha duvidas em relacao a esta mudanca que certamente po-
dera ser importante na sua vida, a possibilidade de mudan-
cas leva a pensar sobre custos e beneffcios e se realmente
vale a pena mudar. No entanto, voce referiu nao querer mais
"fazer sua esposa sofrer" entao quem sabe agora esta e uma
oportunidade, nao e?".
Essas e outras intervencoes tern 0 objetivo de estabele-
cer 0 vinculo e favorecer que 0 paciente possa confiar no
terapeuta para entender e atender as suas necessidades e
dificuldades.
A qualidade da relacao terapeutica, que pode ser
estabelecida desde 0 infcio da intervencao, e fundamental para
a continuidade do acompanhamento psicol6gico.
(Conltextos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao human a96
No contexto das psicoterapias, as Terapias Cognitivo-
Comportamentais (TCC) apresentaram, desde 0 fim da decada
de 1950 (KELLY, 1955; ELLIS, 1962) ate os dias atuais, uma
vasta gama de abordagens e de tecnicas para 0 tratarnento dos
mais distintos transtornos mentais. As psicoterapias engloba-
das pelo tftulo de Terapias Cognitivas, apesar de suas diferen-
cas, possuem em comum 0 fato de considerarem a mediacao
cognitiva responsavel pete gerenciamento do comportamento
humane e, dessa forma, como ponto a ser trabalhado para a
obtencao da rnudanca terapeutica. Como se percebe, nessa abor-
dagem psicoterapeutica, a elucidacao das psicopatologias nao
se reduz ao efeito de contingencias arnbientais ou a explica-
90es via inconsciente positivo, do Behaviorismo e da Psicana-
lise, respectivamente. Assume, porem, que 0 transtorno mental
eo resultado das estruturas e/ou dos processos cognitivos que
se encont:ramdisfuncionais em determinado momento da vida
dos sujeitos (WAINER, 1997).
Grandes avances ocorreram desde 0 infcio das TCCs ate os
dias atuais. as modelos te6ricos, bern como as tecnicas em-
pregadas, alcancaram maior eficacia e abrangencia, sendo que
atualmente as TCCs sao aplicadas por urn mimero cada vez
maior de terapeutas e em praticamente todos os transtornos
psicopato16gicos conhecidos.
Introducao
RICARDO WAINER
NERI MAuRICIO PICCOLOTO
ENTREVISTA EM PSICOTERAPIA
COGNITNA
-----:~~~------- .. --- ..
ou seja, 0 desenvolvimento de urn acordo ou combinacao
terapeuta-paciente em torno dos objetivos e parametres da te-
rapia (forma, frequencia, tempo), levando-se em conta a
rnensuracao das dificuldades do paciente. Cabe salientar que
essas demandas sao baseadas em evidencias iniciais, passiveis
de aj uste ao longo da psicoterapia, nao sendo, portanto, absolu-
tas e inflexfveis (BECK, 1997).
As combinacoes a respeito da conducao da psicoterapia
cognitiva, tao importantes para adesao e progresso do tr~-
tarnento, necessitarn de urn dado fundamental: a concei-
tualizacao dos problemas do paciente. Somente diante des-
ses dados e que se pode estimar as informacoes a serem
transmitidas ao paeiente sobre aspectos basicos do seu tra-
tamento e utilizar 0 seu pr6prio exemplo para a compreen-
sao dos principios da abordagem cognitivo-comportamental
(FREEMAN, 1998). Nesse contexto, a avaliacao diagn6s-
tica segundo a psicopatologia deseritiva (ate6rica) faz-~e
fundamental, tendo como base de conhecimento os manuais
diagn6sticos de maior referencia na atualidade .(DS~-I~-
TR e/ou CID 10). As sess6es inieiais, portanto, irnplicarao
uma avaliacao diagn6stica descritiva, que embasara 0 fu-
turo entendirnento cognitivo e a construcao do modele teo-
rieo-explicativo referente ao caso em questao, 0 qu~ ~or
sua vez servira de alicerce para a escolha das estrategias
terapeuticas (Figura 1). 0 estudo psico-patologico descri-
tivo, aplicado ao longo da psicoterapia e mais enfaticamente
nas sess6es iniciais, e, portanto, fundamental para 0
terapeuta cognitivo, fornecendo-Ihe preditores de curso,
prognostico e riscos associados ao quadro c~inico d? pa-
ciente e substancia a elaboracao de expectativas mars re-
alistas que envolvem a evolucao do referido quadro
(WAINER, 1997).
101Munica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Urn dos objetivos fundamentais da Terapia Cognitiva e
possibilitar ao paciente a compreensao do processo terapeuticn,
\ .. ;:' ..-:,.
Entrevistas iniciais
Estrutura das Entrevistas
Importante salientar que as TCCs sao utilizadas como op-
~ao primeira para rnuitos tipos de psicopatologias, posto ter side
confirmado em diversas pesquisas comparativas 0 poder
terapeutico desse modelo psicoterapico (disnirbios de ansieda-
de, transtornos alimentares, etc.) em rclacao a outros modelos
clfnicos anteriores (APA, 1998; BARLOW, 1999).
Os pressupostos fundamentais que unificam as TCCs sao,
segundo Dobson (1988): "1. a atividade cognitiva afeta 0 com-
portamento; 2. a atividade cognitiva pode ser monitorizada e
alterada; 3. as modificacoes compol'tamentais desejadas podem
ser conseguidas por meio de rnudancas cognitivas" (p. 4).
Na avaliacao das convergencias entre os diversos modelos
terapeuticos das TCCs, ha ainda, em urn ambito mais 6bvio a,
preocupacao em desvendar a genese do sofrimento psfquico,
de forma a obtencao de rnetodos psicoterapicos mais proficuos
e mais rapidos (WAINER; MADEIRA & PICCOLOTO, 1999).
Pode-se citar a enfase dada ao metodo cientifico em todos os
modelos psicoterapeuticos, nos quais tanto 0 terapeuta quanto
o paciente comprornetem-se na busca da reducao do sofrimen-
to em questao.
Por fim, outra concepcao basica das TCCs e a crenca de
urn ser humane agente sobre seus pensamentos, suas emocoes
e seus comportamentos. Urn sujeito que, amedida que monitora,
gerencia e reorganiza seus pensamentos, consegue modificar
seus comportarnentos de uma forma mais adaptada ao meio
biopsicossocial que 0 cerca.
(Con) textos de entre vista: olhares diversos sobre :J intera~iio humana
100
OsModelos Cognitivos envolvem Transtomos de Eixos I
e II, apresentando-se como construtos te6ricos que buscarn
explicar 0 funcionamento cognitivo associado a
psicopatologia.tsendo apresentados ao paciente de uma forma
esquernaticae acessfvel, para que ele possa compreender as
distorcoes na interpretacao dos eventos associadas as suas di-
ficuldades e ao seu sofrimento, bern como 0 entendimento
das tecnicas que serao utilizadas durante 0 tratamento. Nesse
sentido, busca-se urn favorecimento da adesao do paciente e
da sua autopercepcao como integrante do processo terapeutico.
Ap6s a avaliacao psicopato16gica ate6rica, 0 terapeuta podera
reunir as condicoes necessarias para a elaboracao deste mo-
delo explicativo (psicopatologia explicativa ou te6rica), ain-
da nas sessoes iniciais, mantendo em aberto a possibilidade
de reavaliacoes em qualquer etapa do processo.
Outro aspecto inerente ao infcio da psicoterapia e 0 es-
tabelecimento de uma Alianca Terapeuticasatisfatoria, 0 que
ocorre de forma crucial durante as sessoes ditas iniciais (CA-
MINHA & HABIGZANG, 2003). Nesse ambito, a postura
do terapeuta, envolvendo sua busca de entendimento e
empatia, tom de voz e expressao corporal, alem de interven-
90es c1aras e nao-impositivas, visam proporcionar ao pa-
ciente urn ambiente seguro, cordial, compreensi vo e
colaborativo. Nao obstante os pacientes com diagn6sticos
de Eixo IIpodem requerer uma maior demanda para 0 esta-
belecimento da alianca terapeutica, fato esse que nao sur-
preendera 0 profissional com adequado embasamento
psicopatol6gico.
A partir das informacoes recolhidas nos varies ambitos
descritos, as sessoes iniciais atingem 0 seu limiar na elabo-
racao das _!l1etas terapeuticas, embasadas em dados
abrangentes e clarificados, referenciais te6ricos concisos e
expectativas realistas, no limite das possibilidades.
103MOnicaMedeiros Kocher Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
M - ~ avalia~ao diagn6stica deve envolver itens Como o(s)
O:lVO(S)da Busca "d~Atendimento, segundo a avalia~a"odo
paciente e dos famlhares, isto e, os aspectos motivadores
p~ra /a ?roc~ra ?/o tratamento, seja deque natureza forem" a
Hlstona PSlQulatricaiPsicoZ6gica AtuaZ que inclui E '
me do E t d M "" ' ui 0 xa-
d d .. sao entaZ, Com~smalse sintomas proeminentes ea os relevantes do epis6di . .f " " 0 plesente" como os prejufzos
unclOnaIs, as condutas de risco e 0 usa de rnedi -H" /" rcamenros a
"l~tona Pregressa, que envolve epis6dios ou eventos an;e-
~~~Je:i:elaclO~adosa sintomatologia psiqui,ltrica e tratamen-
p oterapicos e/ou farmacotenipicos J"a/utili dos: "t / " P " " 1 lza os, a HIS-
on~ SlCOSSOCzaZ,relacionada ao contexte sociat n 1pacre t /"" - 0 qua 0n e esta mserido e a Historia F "Z" .""di / " ami tar, que avalia
pre itores genetlcos e aspectos importantes do f "
to da famO" unClOnamen-11a"
C
FigU~~ 1 - Esquema da intera9ao entre as Psieopatologias Ateo "
ogrutiva nea e
Tecnicas---
Estrategia
TerapCutica
Expllca~io da
Gllnese e
Desenvolvlmento
dos Transtornos
Mentals
lPslcopatologla
Cognltiva
Blol6glca
Behaviorlsta
Social
E
X
P
L
I
C
A
f
o
-~- - .
Pskopnlologia
I Atc()'"ica
(Con)rcxtos de entrevista: olhares diversos sobre a inrera!Waohurnana
102
Aepsiceterapia -atinge 0 ponto intermediario apos conside-
ravel avanco-na elaborac;ao-dos--diagnosticos ateori~o e teoric.?, .
ja tendo possibilitado, ate mesmo, 0-precAe-s~ode...p~Icoeducac;ao
do paciente-quanto ao seguimento terapeutico ttpico das TCCs
(para que tenhamos 0 empirismo colaborat~vo).e~uanto ao fun:
cionamento pSlf_lltice---e-Gomportamentaldisfuncional que esta
acarretando 0 sofriniento.
A partir desse ponto do tratamento, a abordag~~ do
psicoterapeuta para com 0 paciente.se.transforma, consl~tl~do
e-m-seguir-umires-trategia especffica, de acordo com 0 objetivo
terapeutico .mais-apropriado para 0 caso e, conseqiientem~n.te,
para a estrutura .dia~n.ostica hiPote:iza~r- ~e~tre as..estrategias
terapeuticas mats utilizadas+:citar:
Entrevistas Interrnediarias e Finais
•
•
combinaciio sobre Tarefa de Casa, quando conveniente. Nas
sessoes iniciais as tarefas de cas a podem envolver temas
como a identificacao de expectativas e a reflexao sobre 0
modele cognitivo; .
elaboraciio de Resumo da Sessiio, considerada uma pratica
importante da entrevista cognitiva, objetivando urn reforco
sobre os topicos mais importantes da sessao e sobre a(s)
tarefa(s) combinada(s) ate 0 proximo encontro. 0 terapeuta
e mais ativo nas sessoes iniciais, encorajando 0 paciente a
elaborar os resumos das entrevistas a medida que 0 trata-
mento avanca;
obtenciio do Feedback, que consiste na verificacao dos pen-
samentos do paciente a respeito da terapia e do terapeuta.
Essas cognicoes, apesar de nao se constitufrem na.essencia
da abordagem cognitiva, devem ser momtoradas
frequentemente, evitando-se dessa forma urn prejufzo ve-
lade ao andamento do processo terapeutico;
•
105MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)-,
•
•
•
atualizaciio sobre a situaciio do paciente, incluindo even-
tos importantes desde a sessao anterior e checagem de hu-
mor com escores objetivos;
estabelecimento de agenda para a sessdo atual, elaborada
pelo terapeuta e pelo paciente de forma conjunta (inicial-
mente, a tendencia e de que 0 terapeuta tenha maior parti-
cipacao, havendo urn gradual equilfbrio ao longo do trata-
mento). Os topicos listados devem ser discutidos em or-
-dem de prioridade, verificados pel a dupla terapeutica, Os
temas nao-avaliados porescassez de tempo serao acresGi--
dos na agenda da sessao seguinte, de acordo com 0 grau de
importiincia daqueles. Nas sessoes iniciais, os itens
agendados podem incluir aspectos descritos abaixo, por
sugestao do terapeuta;
educacdo do paciente sobre 0Modelo Cognitivo, por meio
de exemplos que envolvam situacoes vivenciadas pelo pro-
prio paciente, relacionando suas experiencias, seus pensa-
mentos automaticos disfuncionais, suas emocoes e os com-
portamentos resultantes;
identificaciio das perspectivas do paciente em relacdo a
terapia, com 0 questionamento da validade de expectati-
vas irreais, exageradamente positivas ou negativas;
•
As sessoes iniciais, como todas as sessoes de Terapia
Cognitiva, seguem uma estruturacao basica na sua forma. Os
terapeutas em formacao ao geralmente orientados a seguirem
mais fidedignamente a estrutura de topicos preestabelecid..Qs,
para aumentarem a efetividade da sessao. Ja os profissionais
experientes podem eventualmente desviarem-se desse forma-
to, pois tendem a desenvolver uma sistematica de atendimento
que engloba automaticamente os itens da sessao, de forma me-
nos rfgida. Jt
A estrutura basica de uma Sessao de Fase Inicial, poste-
rior as sessoes de.avaliacao diagnostica ateorica, envolve basi-
camente os itens listados a seguir:
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humans104
As estrategias que foram apresentadas anteriormente sao
utilizadas de forma prioritaria conforme a c1asse diagn6stica
do paciente, pois para cada psicopatologia tem-se obje~vos mais
ou menos compativeis com cada uma destas estrategias. A se-
guir, pode-se visualizar as estrategias mais utilizadas para cada
tipo de classe nosografica:
• Transtornos de Humor: 1, 2 e 3;
• Transtomos de Ansiedade: 4, 2 e 3;
• Transtornos de Personalidade: 1, 2;
• Transtomos Alimentares: 2, 3, 1 e 4;
• Transtornos Psic6ticos: sintomas negativos: 6; sintomas
positivos: 2 e 5;
• Disfuns6es Sexuais: 4, 3 e 1.
boa parte de suas ideias e, portanto, busque tomar ~ua~ ~e-
cisoes, bern como se comportar de acordo com pnncrpios
mais racionais.
6) Treino de Habilidades Sociais: Esta estrategia e muito uti-
lizada em pacientes que apresentam ausencia ou perda de
repertories comportamentais, como, por exemplo, pacien-
tes com esquizofrenia que comecam a apresentar forte de-
crescimo de funcoes mentais (sintomas negativos) e,
entao, necessitam ser treinados a reaprenderem rotinas
comportamentais diarias cruciais para suas vidas.
7) Prevenciio de Recaida: Estrategia surgida inicialmente no
tratamento das adicoes, mas que avancou e hoje e utilizada
para espectro maior de psicopatologias. Pressupoe urn au-
mento da capacidade de autoconhecimento do paciente a
fim de evitar situacoes de risco em que possa nao apresen-tar estrategias de enfrentamento adequadas para suportar a
dificuldade. 0 terapeuta tambem trabalha nas entrevistas
no sentido de melhorar as estrategias de enfrentamento para
situacoes estressoras (copping skills).
107MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
1) R.ees~ruturafii~ Cognitiva: Nesta estrategia, 0 terapeuta
drrecl.ona ~u.asmterven~6es a fim de levar 0 paciente a re-
v:r e idennficar pensamentos automaticos que geram emo-
~?es ~ condutas disfuncionais. Alern disso, as entrevistas
dlfeclOnam-se a auxiliar 0 c1iente a checar evidencias
ernpfricas para ter indfcios mais realistas (racionais) sobre
suas crencas sobre si mesmo, 0 mundo e 0 futuro. Resu-
~ndo, com essa estrategia, busca-se que 0 paciente modi-
fique a valencia de seus esquemas mentais, para que es-
quemas mais funcionais sejam ativados em momentos em
q~e, normalmente, esquemas disfuncionais, estao tendo
ativacao automatica.
2) Automonitoramento: 0 objetivo terapeutico na estrategia
de automonitoramento e 0 aumento da habilidade cognitiva
de metacogni~ao, que se mostra diminuida ou ineficaz.
Den~o. dos estudos da Psicologia Experimental Cognitiva,
e noto~o .que a elevada capacidade metacognitiva epreditora
de eficacia em qualquer tarefa cognitiva. Assim sendo con-
sidera-se que esta habilidade e crucial para 0 estado de
eutimia.
3) Resolu.fiio .d~Problemas: 0 terapeuta auxilia 0 paciente a
ser mats eficiente na resolucao de problemas, direcionando
a entrevista rumo a identificacao da(s) etapa(s) de resolu-
~ao de problemas em que estao ocorrendo as dificuldades
de resolucao e tambem simulando estrategias alternativas
de resolucao.
4) Inoculafiio de Estresse: 0 proposito das entrevistas nesta
estrat~gia e gerar aproximacoas gradativas do paciente com
os obieroszeventos estressores a tim de que ocorra uma
~essen~i~i1iza~ao do sujeito para com esses estimulos por
intermedio do pressuposto da inibicao reciproca.
5) Disputa Racional: 0 terapeuta conduz as entrevistas de for-
ma a fazer com que 0paciente perceba a irracionalidade de
(Conlrexros de entrevista: olhares diversos sobre a interas:ao humana
106
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Referencias bibliograficas
as percepcoes que 0 paciente teve da sessao com as que 0
terapeuta teve. Caso ocorra urn descompasso rnuito evi-
dente entre ambos, a sessao nao deve ser finalizada sem
uma minima harmonizacao.
109M6nica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
•
•
•
•
•
•
Checagem do humor do paciente durante a semana.
Agenda da Sessiio, na qual sao avaliados os assuntos que
serao tratados naquele encontro. Tanto 0 paciente quanta 0
terapeuta definem t6picos. Urn aspecto irnportante desse
ponto da entrevista e 0 estfrnulo para que 0 paciente anote,
durante a semana os assuntos que julgar relevantes para 0
tratarnento, buscando a otimizacao do tempo da sessao. Di-
ferentemente de outras modalidades terapeuticas, aqui 0
terapeuta e bastante diretivo, nao permitindo uma defini-
9ao de t6picos por associacao livre ou por tematica do clia.
Checagem da Tarefa de Casa. Baseadas no princfpio de
que, nas TCCs, a psicoterapia ocorre nos 365 dias do ano,
durante as 24 horas do dia, as tarefas de casa sao muito
importantes para 0 paciente absorver a tecnologia do tra-
tarnento e poder vir a se transformar em seu pr6prio
terapeuta. Assim sendo, as tarefas de casa sao cruciais
e devem ser sempre verificadas a cada sessao, Muitas
vezes, a nao- realizacao de tais atividades pode indicar di-
ficuldades do paciente ou mesmo resistencias, as quais de-
verao ser trabalhadas na sessao.
Trabalhonos Topicosda Sessiio:Conforme as tecnicas con-
tidas nas estrategias psicoterapicas adequadas para 0 caso.
Combinacties da Tarefa de Casa da semana.
Resumo da Sessiio pelo terapeuta, ja descrito no ambito
das sessoes iniciais.
Feedback da sessao pelo paciente: nas TCCs, a relacao de
poder entre paciente e terapeuta e muito simetrica; portan-
to, torna-se muito importante que sejam checadas as
decodificacoesque ambos fizeram do que foi tratado na ses-
sao. Assim sendo, e nesse momento que serao comparadas
•
Em consonancia com 0 procedimento relativamente
estruturado das sessoes iniciais, as sessoes intermediarias e fi-
nais das TCCs apresentam uma sequencia de passos logicos,
que consiste em:
(Con)texros de entrcvista: olhares diversos sobre a interacao humana108
WAINER, R.; MADEIRA, M. J. P. &:- PIC~OL~T<?, N. M.
Psicoterapias cognitivas: Convergencias e dlvergenc~as entre
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(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a intcra~ao humana
110
PARTE 4
(CON)TEXTO HUMANISTA-
FENOMENOL6GICO- EXISTENCIAL
Abordar 0 tema em questao - a entrevista - implica
esclarecer de forma breve a visao de homem e os funda-
mentos filos6ficos norteadores do referencial humanista-
fenomenoI6gico-existencial, uma vez que estes irao
permear todo 0 trabalho realizado por interrnedio das en-
trevistas em psicoterapia, sendo de suma irnportancia para
compreender as atitudes do entrevistador e as intervencoes
por ele utilizadas.
o humanismo compreende a pessoa saudavel como uma
gestalt integrada: urn ser tinico, voltado para a consciencia, digno
de confianca, auto-regulado e auto-apoiado num constante vir-
a-ser integrado ao contexto. Na psicoterapia, seu prop6sito e 0
de facilitar a auto-realizacao, reconhecendo 0 poder do homem
sobre si e usando como metoda abordagens compreensivas no
lugar de abordagens explicativasou interpretativas (MATSON,
1985; RIBEIRO, 1999).
Os alicerces filos6ficos da abordagem encontram-se
sedimentados nas perspectivas fenomeno16gica e existencial.
A fenomenologia, sistematizada no infcio do seculo xx por
Edmund Husserl, autor de grande influencia na filosofia con-
ternporanea, valida 0 estudo da experiencia humana, por meio
da observacao dos dados trazidos pela consciencia no "aqui e
agora", consistindo num exame disciplinado da experiencia
subjetiva (SHULTZ & SHULTZ 2002; TRIVINOS,1987;
CAPRA,2003).
JANICE CASTILHOS VITOLA
MARTA REGINA CEMIN
A ENTREVISTA H UMANISTA-
FENOMENOL6GICO-EXISTENCIAL
A partir dessa visao, e indispensavel que 0 psicoterapeuta
tenha tais atitudes e saiba transmiti-las ao cliente, impregnando
a estrutura e 0 contetido de suas respostas. 0 psicoterapeuta e
uma caixa de ressonancia e urn amplificador da experiencia do
c1iente.Percebe-o como urn todo, nao julga, nao interroga, nao
tranquiliza nem interpreta, Seu objetivo e acompanhar as des-
cobertas do cliente na forma como ele as vai experienciando.
A intervencao caracteristica da Terapia Centrada na Pessoa
e conhecida como Resposta-Reflexo, consistindo esta em acen-
tuar a comunicacao manifesta pelo cliente. Este tipo de interven-
9aopode parecer simples,mas nao e,pois exige dopsicoterapeuta
grande habilidade em acompanhar 0 cliente sem apressa-lo, ou,
entao, abandona-Io. E urn exercfcio de sintonia ernpatica e pre-
sen~apermanente, com 0 objetivo de ampliar a consciencia.
desenvolvimento e do fortalecimento da TendenciaAtualizante,
com abordagens compreensivas baseada no metodo
fenomenol6gico. Este tipo de psicoterapia requer 0desenvolvi-
mento de algumas atitudes essenciais ao psicoterapeuta:
• empatia: e a capacidade de perceber 0 outro tal qual ele se
percebe. Requer abertura a experiencia, capacidade de
sintonia e sensibilidade do psicoterapeuta, para ser per-
meavel aos sinais enviados pelo cliente, deixando-se "en-
"t "tre paren eses .
• aceitaciiopositiva incondicional: significa considerar, aco-
lher, atentar para 0 fluxo da energia que ha no c1ientee em
si mesmo semj ulgar. Nao e concordar com tudo que a pes-
soa faz, mas acolhe-la na sua experiencia.
• congruencia: e a capacidade de estar totalmente presente e
ser autentico, verdadeiro e honesto na relacao. Para isso e
importante que 0 psicoterapeuta perceba-se, sinta-se na re-
lacao e permita-se comunicar ao cliente seus sentimentos,
quando pertinentes ao contexto.
117Monica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesscli Carrasco (Orgs.)
6 A Abordagem Ccntrada na l'essoa lisa a rerminologia clienre para referir-se a pessoa em
psicorerapia, no lugar de usar pacienrena forma rradicional baseada na relacaomedico-pacienre
(ROGERS,1987).
Carl Rogers foi, sem diivida, uma das maiores expressoes
da Psicologia Humanista. Desenvolveu sua teoria sob a nocao
central da tendencia a atualizacao, ou seja, a ideia de que as
pessoas van se mover no sentido da saude, quando as condi-
96es para 0 crescimento sao criadas e restauradas.
A Psicoterapia Centrada na Pessoa devolve ao homem 0
poder sobre si mesmo, recriando, por intermedio da relacao
terapeuta-cliente", as condicoes necessarias para a retomada do
A entrevista cHnica na Abordagem
Centrada na Pessoa
Ja a filosofia existencialista concebe a pessoa como capaz
de escolher seu destino, Para ela, 0 homem saudavel 6 singular,
livre e consciente. Na psicoterapia, sua influencia se da no sen-
tide de resgatar a questao antropo16gica,situando a pessoa exis-
tencialmente no curso de sua historia. Seu originador foi
Kierkegaard. Martin Burber, Gabriel Marcel e Merleau-Ponty
tiveram especial influencia, dada sua visao positiva do homem;
Sartre e Nietzsche, pensadores que escreveram no pos-guerra e
que tinham uma visao menos otimista da existencia humana,
compareceram com menor peso.
As principais teorias psicol6gicas surgidas a partir da Psi-
cologia Humanista, nas decadas de 1940 e 50, foram a
Logoterapia (Victor Frankl), a Abordagem Centrada na Pessoa
(Carl Rogers) e a Gestaltterapia (Fritz & Laura Peds). Em que
pese cada uma dessas escolas possuir teorias pr6prias e
especificidades quanta aos procedimentos psicoterapicos, to-
das elas estao alicercadas nas bases filos6ficas ja referidas.
Nosso prop6sito neste capftulo e enfocar a entrevista clinica a
partir da Abordagem Centrada na Pessoa e da Gestalt-terapia.
(Con)textos de entrevista: olharcs diversos sobre a intcracao humana116
7 Termo aware e conservado para melhor precisao de senrido. Aware: cienre, sabedor, censcio,
conhecedor, inreirado (Collins Dictionary, p. 38, 1979).
o termo Gestalt-terapia foi utilizado pela primeira vez por
Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman em 1951, sendo estes
considerados co-fundadores desta abordagem. E urn tipo de
abordagem que ensina aos pacientes 0 metoda de exploracao
fenomenol6gica pelo uso da awareness.' ou seja, 0 paciente
usa seus sentidos para se tomar consciente (aware) do que esta
fazendo e de como pode transformar-se (YONTEF, 1998). Seus
pressupostos filos6ficos sao, como na Abordagem Centrada na
Pessoa, humanistas-fenomenoI6gicas-existenciais. Como teo-
rias de fundo, utiliza-se da Psicologia da Gestalt, a Teoria de
Campo de Kurt Lewin e a Teoria Holfstica de Kurt Goldstein
(RIBEIRO,1985). Destacando-se que a visao dos fenomenos
A entrevista clinica na abordagem
da Gestalt-terapia
"Deixe-me ver se compreendo ...", "Fale-me se eu estiver
enganado ...", "Parece-me que 0 que tu estas me dizendo
e...", pois estas asseguram ao cJiente que 0 seu discurso
sera entendido sob 0 seu ponto de vista, e nao sob 0 do
terapeuta.
Impressiio Integrativa: E urn tipo de resposta intuitiva,
que reflete sentimentos e que visa integrar informacoes,
fragmentos da experiencia do cliente e devolve-las a
ele de forma que 0 ajude a organizar sua experiencia
num novo nivel de consciencia. Esta modalidade de
resposta foi mencionada por Rogers mais tarde na sua
teoria, no que ele denominou primeiramente de
"empatia sensitiva" (ROGERS,1987); portanto, nao esta
descrita no rol das intervencoes publicadas nos seus
primeiros trabalhos.
•
119MOnicaMedeiros Korber Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
• Reiteraciio ou rejlexo simples: Refere-se apenas ao con-
teiido da comunicacao, devendo ser feita de forma breve,
resumida e nao necessariamente com as palavras da pes-
soa, desde que nao se introduzam elementos novos ao cam-
po. Este tipo de intervencao vai preparando 0 terreno para
que 0 proprio cliente tome consciencia cada vez maior de
si. Segundo as palavras de Rogers:
o reflexo simples se emprega principalmente quando a
atividade do cliente e descritiva, isto e, quando carece de
substancia emocional ou quando 0 sentimento esta a tal
ponto inerente ao conteiido material que 0 terapeuta
demonstre uma atitude investigadora, analftica, contraria
as suas intencoes, se procurasse deduzir daf alguma
significacao implfcita (ROGERS & KINGET, p. 64,1977).
E por meio da reinteracao que se estabelece no campo
terapeutico urn clima de seguranca emocional, de forma que a
pessoa se sinta compreendida e respeitada.
• Rejlexo de sentimento: Procura apreender 0 que esta implf-
cito ao discurso, 0 que esta por tras das palavras. Oobjeti-
vo e a tomada de consciencia dos sentimentos subjacentes
na verbalizacao. "Enquanto 0 reflexo simples estabiliza a
figura, 0 reflexo do sentimento a amplia" (LERNER, p. 79,
1974).
• Elucidaciio: Capta e cristaliza certos elementos que nao
estao fazendo parte do campo fenomenologico, ou seja,
sentimentos e/ou atitudes que nao foram explicitados pelo
cliente,mas que estao impregnando 0 seu campo perceptual.
E urn tipo de resposta mais intelectualizada, que parte de
uma deducao do terapeuta, sendo assim mais suscetivel de
conter elementos estranhos ao cliente e podendo nao ser
reconhecida por ele. Aconselha-se, ao formular tal inter-
vencao, que esta seja acompanhada de expressoes como
As respostas-reflexos podem ser:
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interal;3o hurnanaliB
8 SelfFuncao do organismo em se perceber de forma harmonica. diferenciada e porencialmenre
intencional, charuada consciencia (BUARQUE.1998).
natura] para integrar-se. Todo e qualquer sintoma devera, assim,
ser entendido no contexto: holisticamente. Tom de voz, cor da
pele, postura corporal, incongruencias verbais sao essenciais
na observacao do psicoterapeuta, constituindo, assim, informa-
90es da totalidade/organismo do cliente, 0 pr6prio self em
contato, ou seja a psicoterapia ocorre na fronteira do contato
paciente/psicoterapeuta; no dialogo verdadeiro.
o dialogo genufno explorando 0 "entre" Eu-Tu e a base
da psicoterapia na abordagem gestaltica. Cura, desta forma, e a
restauracao da totalidade pela relacao pessoa-a-pessoa, e quais-
quer propostas do psicoterapeuta devem partir do contexto
dial6gico, incluindo 0 campo total e suas conexoes figura/fun-
do. Por exemplo, no caso de urn processo saudavel, a conexao
figuralfundo ocorre da seguinte maneira: do fundo surgem fi-
guras singulares a cada pessoa; estas figuras sao gestalten
abertas que, no contato, no entre, na relacao, se fecham e
retornam ao fundo integrando-se ao organismo. 0 encontro
psicoterapeutalpaciente propoe-se restaurar 0 contato figural
fundo da pessoa consigo mesma e com 0 mundo. Portanto, as
intervencoes terapeuticas serao no sentido de facilitar/ampliar
a consciencia dos bloqueios ou interrupcoes no contato,
awareness de si e do outro, por meio da vivencia da propria
relacao psicoterapica.
o foco sera direcionado ao processo dialogico singular
"aqui e agora", incluindo 0 passado expresso "aqui" e exigin-
do respostas unicas para perguntas unicas, sempre tendo a pers-
pectiva do todo/organismo, Nao havera, desta forma, regras
rfgidas. No entanto, e essencial a postura dialogica de respei-
to ao outro na sua totalidade e alteridade. A entrevista, 0 pro-
cesso, a abordagem e 0 objetivo sao dialogicos no seu enfoque
global.
121MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Os gestalt-terapeutas acreditam que 0 ser humane tern urn
impulso natural para saude. Em Gestalt-terapia, 0 paciente apre-
ende por meio de seus sentidos, experimentando-se na relacao.
Euma psicoterapia abrangente, integrativa e multidimensional,
na qual 0 fundamental e 0 processo.
Todas as entrevistas - individuais, familiares ou grupais -
sao fenomenologico-cxistenciais, ou seja, possuem seu foco na
analise da experiencia imediata e buscam retomar 0 poder auto-
responsavel da pessoa sobre si mesma. A cada entrevista, 0
psicoterapeuta observa cuidadosamente 0 fenomeno no aqui e
agora, como manifestacao holfstica do cliente em urn impulso
A entrevista dial6gica
como totalidade, princlpio da Psicologia da Gestalt, surgida na
Alemanha, no infcio do seculo XIX em oposicao ao elemen-
tarismo e urn dos alicerces para 0 pensamento ecol6gico
sistemico contemporaneo (CAPRA, 2003; ENGELMANN,
2002).
Os primeiros trabalhos de Perls revelararn uma aborda-
gem, urn tanto mais diretiva, digamos assim, uma vez que focada
em experimentos, chamados frequenternente de tecnicas. Na
atualidade, alguns Gestalt-terapeutas mantem-se trabalhando
com enfase neste tipo de abordagem mais tecnicista, enquanto
outros valorizam fortemente uma psicoterapia fenomenol6gica-
existencial baseada na relacao dialogic a Eu- Tu (BUBER,1977)
enfatizada por Laura Peds desde os prirnordios da Gestalt-tera-
pia (YONTEF, 1998). A partir deste olhar, toda a experiencia
na busca de consciencia se da por meio da relacao paciente/
psicoterapeuta aqui e agora, ou seja, nao ha a utilizacao de tee-
nicas escolhidas apriori. Neste capitulo, a enfase e posta neste
tipo de entrevista: uma psicoterapia na qual a awareness, 0 en-
contro e 0 dialogo sao a essencia.
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana120
P: (VOZ chorosa,reclamante)Eu nao sei 0 que fazer hoje.
T: (Olha, mas niiofala nada).
P: Eu poderia falar sobre minha semana. (Olha inquisi-
doramente para 0 psicoterapeuta).
T: Estou me sentindo arrastado por voce neste exato mo-
mento. Eu imagino que voce quer que eu 0 conduza.
P: Sim. 0 que ha de errado nisto?
T: Nada. Eu prefiro nao direciona-lo neste exato momento.
P: Por que nao?
T: Voce e capaz de dirigir-se ...
Dito de outra forma, 0 gestalt-terapeuta "rastreia"
(HYCNNER, 1997) 0 paciente, acompanha~?o ~odas as resso-
nancias do vivido na relacao, pois a expenencia ocorr~ num
f1uxo continuo, e os seus caminhos sempre sao uma novidade.
E nesse movimento de sintonia, aqui e agora, pode pr.o~or f~~-
tasias dirigidas, dramatizac;ao e exercfcios com matenais grafi-
<.:os.Neste sentido, a Gestalt-terapia difere da Abordagem
Centrada na Pessoa, uma vez que esta opta por nao .utlhzru· ~x-
perimentos, por entender que estes pod~m interfenr demasia-
damente no campo experiencial do paciente. Na Gestalt-tera-
pia ha uma postura ativa do psicoterapeuta no dialogo no cam-
po fenomeno16gico do paciente.
o dialogo proposto neste tipo de psicoterapia, p01:tanto, e
vivido na ideia do organismo sem dicotomias e amph~-se na
totalidade do possivel a cada momento, sendo algo feito por
ambos, paciente/psicoterapeuta, durante todo 0 process_o. Tra-
la-se de urn contato com possibilidade de transformacao, que
tcnde a se ampliar ate 0 infinito, pela possibilidade de a cada
momento adquirir novas propriedades (RIBEIRO, 1999). E~
outras palavras, a psicoterapia e func;ao de contato, e a totali-
dade, a consciencia e 0 contato sao 0 tripe da mudanca.
123MOllicaMedeiros Kocher Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
o gestalt-terapeuta acompanha 0 paciente nas suas desco-
bertas, em lugar de interpretar e modificar atitudes preexistentes.
Ele pr6prio, paciente, vai dando a direcao de suas mudancas
reguladas organismicamente e 0 psicoterapeuta acompanha,
confirmando-o. 0 psicoterapeuta inteiro volta-se para 0 pa-
ciente, e presente no contato, suspendendo temporariamente seus
preconceitos e pressupostos para de fato estar acompanhando a
experiencia do outro. E consciente de si no momento da entre-
vista, percebendo-se ate mesmo nas limitacoes. Sua perspecti-
va e horizontal, na medida em que considera 0 paciente partici-
pante ativo em interacao consciente na busca de consciencia de
si (awareness), sem com isso querer dizer que terapeuta e pa-
ciente estejam indefinidos em seus papeis, Quando entender
necessario para 0 aumento da awareness do paciente, 0 gestalt-
terapeuta, compartilha com este sua perspectiva, criteriosamente
e com discriminacao, Inclui-se e posiciona-se 0 tanto quanto
possivel na experiencia do outro, sem analisar/interpretar e, ao
mesmo tempo, resguarda 0 sentido de sua pr6pria presenca dis-
tinta. Nesse sentido, ha clareza de fronteiras, e tanto urn como
outro tern responsabilidade sobre 0 processo.
Com 0 objetivo de criar condicoes para que 0 fluxo da cons-
ciencia seja cada vez mais intenso podera utilizar-se de pergun-
tas fenomeno16gicas como, por exemplo: "Como voce pensa
que eu iria reagir?", "0 que aconteceu quando voce sorriu?",
"0 que deu certo para voce sentir-se melhor?". Este tipo de
intervencao - as perguntas - trazem gradualmente para 0 pa-
ciente/cliente clareza de seu campo fenomenol6gico, definin-
do, assim, a figura. Outro caminho possfvel na entrevista e fa-
cilitar a focalizacao do paciente na relacao pessoa-pessoa, usan-
do afirmacoes como estas: "estou como voce", "me ajude a
entender", "deixe a mente vagar", "permaneca com isso". A
psicoterapia e construfda por ambos, paciente/psicoterapeuta,
como se exemplifica no seguinte dialogo:
(Con)textos de entrevista: olhares diversos sobre a intera~ao hurnanaL22
BUARQUE, Sergio. Corpo e Organisrno. Revista do IV Encon-
tro Goiano da Abordagem Gestaltica, 4, 1998.
BUBER, Martin. Eu e tu. Sao Paulo: Cortez e Moraes, 1977.
CAPRA, Fritjof. As conexiies ocultas. Sao Paulo: Cultrix, 2003.
ENGELMANN, Arno. A psicologia da gestalt e a ciencia
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2002, vol.18, n.1, p. 1-16. ISSN 0102-3772.
GOBBI, Sergio Leonardo & MISSEL,Sinara Tozzi Missel.
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Tubarao. Ed. Universitaria UNISUL,1998.
Referencias bibliograficas
As psicoterapeutas Virginia Axline (Abordagem
Centrada na Pessoa) e Violet Oaklander (Gestalt-terapia)
Coram os maiores expoentes da ludoterapia nas suas aborda-
gens. Diseorreram sobre princfpios e tecnicas, que norteiam a
psicoterapia infantil que nao foram explanados neste capitulo;
para estes, sugerimos consultar bibliografia especffica.
Desenvolvemos neste capitulo 0 que consideramos essen-
cial para qualquer entrevista neste referencial. Uma entrevista
que privilegia 0 contato Eu- Tu, uma entrevista permeavel a to-
dos os estfrnulos do "aqui e agora", uma entrevista que privile-
gia 0 homem na sua saude e na sua capacidade de se tornar
cada vez mais complexo e dirigido por ele mesmo no processo
psicoterapico, Urn homem consciente, capaz de transformar-
se, por meio da facilitacao e fortalecimento de seus recursos
proprios. E, como nao poderia deixar de ser, urn psicoterapeuta
humano, que tambem se transforma a cada sessao.
125Mllnica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Tanto em Gestalt-terapia quanta na Abordagem Centrada
na Pessoa, a entrevista nao se resume ao funbito da c1fnica. Sua
aplicabilidade se expande a varias outras areas, como, escolas,
hospitais, instituicoes em geral, bern como a atividades especf-
ficas, como a entrevista de triagem e 0 psicodiagnostico.
o trabalho com criancas requer, alem das atitudes basicas e
intervencoes caracterfsticas, uma linguagem adequada a sua
faixa etaria, bern como a disponibilizacao de recursos Iudicos
que facilitem a expressao infantil. Existe consideravel biblio-
grafia a respeito.
Consideracoes finais
A utilizaeao de tecnicas em Gestalt-terapia foi alvo de
crfticas, porem estas crfticas se referiam ao seu uso sem crite-
rios, ou seja, de forma indiscriminada que nao considerava 0
contexto psicoterapico. Nao ha como pensar em tecnicas sem
pensar no "aqui e agora", aqui e agora da psicoterapia; seu
campo fenomenologico. Caso contrario, 0psicoterapeuta corre
o risco de ser intrusivo e desconsiderar 0 fato de que todo
experimento deve estar a service do paciente, facilitando sua
livre expressao e a desobstrucao do fluxo de energia
bloqueadora da awareness.
o gestalt-terapeuta usa a S1 mesmo na situacao psicoterapica
para, na relacao, perceber 0momento propfcio para urn experi-
mento a partir de toda sua experiencia de vida acumulada e
integrada. As tecnicas, portanto, sao sempre urn ato de criacao,
eo gestaltista pode dar asas a sua imaginacao, dentro de uma
postura holfstica contextualizada que integre corpo-mente, fan-
tasia e realidade (RIBEIRO, 1994).
o uso das tecnicas em Gestalt-terapia
(Con) rcxtos de entrevista: olhares divcrsos sobre a intcra~ao humana124
(CON)TEXTO FAMILIAR
SISTEMICO
PARTE 5
HYCNER, Richard & JACOBS, Lynne. Relacdo e cura em
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(Con)tcxros de entrevista: olhares diversos sobrc a intera~ao humana126
OJ. Centro Un~ RlllermslZD
~Biblioleca
o movimento da Terapia Familiar teve sua origem na de-
cada de 1950, num contexto entice p6s-guerra, carente de mu-
dancas e de novas acomodacoes. A partir dessa crise, surgiram
importantes movimentos sociais, como 0 anti-racista, 0 movi-
mento feminista eo movimento ecol6gico (CORDIOLI, 1998).
ATerapia Familiar tern como premissa fundamental a con-
cepcao da famflia como urn sistema, inserido em outros siste-
mas, influenciando e sendo influenciado. Seu conceito pro-
vern da Teoria Geral dos Sistemas, cujo desenvolvimento se
deve ao bi6logo alemao Ludwig Von Bertalanffy. Ele contri-
buiu significamente com suas publicacoes para as Ciencias
Sociais, mesmo sendo de outra area do conhecimento. Porem
foram Gregory Bateson e Nathan Ackerman os pioneiros na
concepcao das fanu1ias como sistemas. Alem desses, muitos
outros marcaram 0 modelo sistemico, destacando-se entre
outros Salvador Minuchin, Charles Fishman, Jay Haley, Carl
Whitaker e Virginia Satir (PAPP, 1992; NICHOLS &
SCHWARTZ, 1998).
Esses pioneiros da Terapia Familiar, respaldados em sua
experiencia clinica com criancas, esquizofrenicos e delinquen-
tes, passaram a questionar 0 modele psicanalitico vigente e se
aventuraram a incluir a familia nos atendimentos a esses pa-
cientes. Surgiu daf 0 novo paradigma que sustenta a ideia de
que os dinamismos farniliares estao associados a preservacao
da saiide e a instauracao da patologia.
Compreensao da familia como um sistema
NADIR HELENA SANCHOTENE DE SOUZA
A FAMILIA EM TERAPIA
Neste capitulo nao e possivel aprofundar cada escola tera-
peutica, Assim sendo, serao descritos os fundamentos basicos
da Terapia Familiar Estrutural, cujo maior expoente e Salvador
Minuchin. Essa escola apresenta uma tormulacao teorica que
serve como urn mapa para an alis ar, diagnosticar e tratar as
mteracoes familiares. Seus conceitos basicos tern sido funda-
mentais no trabalho com fanu1ias ate hoje.
Sao tres os componentes essenciais da Teoria Estrutural da
Farnilia: estrutura, subsistemas e fronteiras.
Dentro do sistema familiar, existe sempre uma estrutura.
descrita por Minuchin (1982, p. 57) como "urn conjunto invisi-
vel de exigencies funcionais que organiza as maneiras pelas
quais os membros da familia interagem". Assim, a estrutura
familiar e composta por urn conjunto de regras que governam
as transacoes da familia. Quando essas transa<;oes sao
repetitivas, revelam padroes duradouros de interacao, que, por
sua vez, reforcarn a unidade do sistema.
A familia desde a perspectiva estrutural
I' a outra, de cunho externo, que revel a a necessidade de
lIt:omoda9ao a uma cultura e da transmissao dela para seus
mcrnbros.
Como conseqtiencia do modelo sistemico, varias escolas
de Terapia Familiar desenvolveram-se. Nichols ~ Schw~tz,
1998 citam as seguintes principais linhas de Terapla Famlhar:
'I'era~ia Familiar Estrutrural, Terapia Familar PsicanaHtica, Te-
rupia Familiar Experiencial, Terapia Familiar Comportam~ntal,
Tcrapia Familiar Boweniana, Terapia Familiar Estrate.glca e
Modelos Emergentes dos anos 90. Apesar de algumas dlfere.n-
cas, todas essas escolas de Terapia Familiar tern 0 compl~~nus-
so teorico de trabalhar com 0 processo de interacrao fatmhar.
131
11""len Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
A Teoria esta fundamentada no fato de que 0 homem nao e
urn ser isolado, ele sobrevive em grupos. Considerado urn mem-
bra ativo e reativo, sua experiencia e determinada pela troca
com 0 meio ambiente, 0 qual ele tarnbem inf1uencia
(MINUCHIN & FISHMAN, 1990 & MINUCHIN,1982). Es-
ses conceitos nao sao novos; porem, ao fundamentarem tecni-
cas psicoterapicas, constituiram-se numa nova abordagem.
Os conceitos-chave do pensamento sistemico dizem res-
peito a totalidade, a organizacao e a padronizacao.Os even-
tos sao examinados dentro do contexto no qual ocorrem,
ou seja, na familia, e a atencao do terapeuta e centrad a nas
conexoes e nas relacces entre os membros, mais do que
nas caracteristicas individuais. As ideias centrais dessa teo-
ria sao as de que 0 to do e considerado mais do que a soma
das partes, na medida em que cada parte s6 pode ser enten-
dida no contexto do todo, de tal forma que uma mudanca
em qualquer uma das partes, afeta todas as outras partes, e
o todo se regula por intermedio de uma corrente de
feedback.
. A troca do individuo com 0meio ambiente ocorre, primor-
dialmente, na familia, na qual se desenvolve urn sentido de
pertencimento e urn sentido de individuacao, 0 primeiro da-se
com a acomodacao da crianca ao grupo familiar dentro de uma
~e~ermi_nadaes~tura; 0 segundo, por sua vez, decorre da par-
ticipacao em diferentes contextos familiares e em grupos
extrafamiliares. 0 aprendizado desses componentes acontece
na familia, considerada a matriz do desenvolvimento
psi~ossocial de seus membros. Dentro dessa perspectiva, a fa-
milia deve acomodar-se a uma sociedade e assegurar-se de sua
continuidade (MINUCHIN, 1982).
A f~ila, como unidade da sociedade, vive as mudancas
pelas quais esta atravessa. Ela tern duas funcoes primordiais:
uma de cunho interno, a protecao psicossocial de seus mernbros: ,
(Con)textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana130
A abordagem da Terapia Familiar Estrutural sustent~ q~e a
I huvc para mudar 0 indivlduo e mudar seu :ontexto, nao Im-
porta 0 quao patologico urn membr~ da famflia pareca .ser. Se a
""[l'utllra familiar for melhorada, val despertar uma ~ruo~ com-
Iwtcncia nesse membro, que, por sua vez, vai contribuir para
rclorcar a mudanca na familia.
Na estrutura da familia, ha sempre algum tipo de hierar-
quia, com pais e filhos em diferentes gr~us de poder. N_ela,tal~-
hem ha reciprocidade e complementandade de funcoes entre
scus membros.
o sistema familiar global e composto por diferentes partes
ou grupos, que sao chamados de subsistemas. Cada indivfduo e
urn subsistema, e diades ou grupos maiores formam out:os
subsistemas, agrupados pOI' diferentes criterios como: geracao,
genero, interesse ou funcoes. Assim sendo, c~da me~bro da f~-
mflia pertence a diferentes subsistemas, poss~do diferentes 01-
veis de poder, em que aprendem divers as habilidades.
Entre os subsistemas, existem barreiras invisfveis, defini-
das nessa teoria como fronteiras (NICHOLS & SCll':'" ~TZ,
1998). Elas servem para proteger a autonomia da fa~~a diante
da sociedade e de seus subsistemas, sugerindo proxirnidade ou
isolamento e hierarquia.
Os subsistemas que nao sao protegidos adequadamente p~r
fronteiras tendem a restringir 0 desenvolvimento de suas habi-
lidades, prejudicando 0 relacionamento de seus memb~'os, pOl'
exemplo: quando os pais sempre Ajnterfer~m nos conflitos dos
filhos, esses tendem a nao resolve-los sozinhos.
As familias podem apresentar fronteiras rigidas,. ~itidas ou
difusas. As fronteiras rigidas, por urn lado, sao restnnvas, por-
que dificultam 0 acesso entre os subsistemas, res~ltan~o em
isolamento e distanciamento. Por outro lado, as fronteiras difusas
revelam intromissao, pouco distanciamento, dificultand.o a
independencia e a autonomia dos membros. As fronteiras
133III, I Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
A estrutura familiar e seus padroes de funcionamento nao
sao facilmente percebidos. Para entende-Ios, e necessaria a ob-
serva9ao da farnflia em interacao (NICHOLS & SCHWARTZ,
1998).
As estruturas farniliares sao tidas como conservadoras, po-
rem modificaveis pois devem ser capazes de se adaptar, quan-
do as circunstancias se modificam. A sobrevivencia da farnflia
ao longo do seu ciclo vital como urn sistema depende de uma
garna extensa de padroes, que incluem os transacionais alterna-
tivos e a flexibilidade para aciona-los, quando necessario.
Dessa forma, 0 padrao de organizacao familiar nao e estati-
co nem sagrado. A familia 6 uma unidade flexivel, que se adap-
ta gradativamente as influencias sociais e economicas, agindo
sobre elas tanto de fora quanta de dentro.
Uma questao importante, enfatizada pelos autores que se
baseiam na Perspectiva Estrutural, e que a familia funcional
nao pode ser diferenciada da familia disfuncional pela ausencia
de problemas, mas, sim, pela maneira como os administra. Nesse
sentido, para analisar a famflia, 0 pesquisador, ou 0 terapeuta,
deve tel' urn esquema conceitual do funcionamemo familiar ,
esquema esse que revela tres componentes: a estrutura da fami-
lia e urn sistema sociocultural aberto e em transforma9ao; a
familia passa pOl' estagios de desenvolvimento que requerem
adaptacao; a familia adapta-se a circunstancias, a fim de man-
ter a propria continuidade e de favorecer 0 desenvolvimento
psicossocial de cad a membro (MINUCHIN, 1982).
Dentro dessa perspectiva, as famflias disfuncionais sao
aquelas presas a padroes ineficazes, mas que transmitem uma
certa seguranea por serem habituais. Essas famflias, geral-
mente, temem mudar e tambem nao sabem como faze-Io. 0
trabalho do clfnico frente a uma familia disfuncional e com-
preender seus padroes, redefini-Ios e explorar novos cami-
nhos com eles.
(Con)textos de entrcvista: olhares divcrsos sobre a Intcracao humana
132
d & LeaninlKessell Carrasco (Orgs.)
I ,nit ,I Medeiros Kother Mace 0
. 1 nte as expectati vas diferem, e os
I III suas fanu1las. Gera med 'ser de dificil superas;ao.
I \)ol'litos dai resultantes po em funci como urn refugio
, 1 deve ncionaro subsistema conJuga matriz para relaciona-
,,,, , d vida e como uma
para as eXlgenciaS a " podendo favorecer a apren-. temas SOCIalS,
mentes com outros SIS irnento Os conJ'uges, no pro-, ' id de e 0 creSCI· , '
dizagem, a criativi ~ , ua odem valorizar aspectos criau-
ccsso de acomoda~ao mut e~t;varn latentes e, assim, apoiar e
vos de seus parcerros que , t' um do outre Entretanto, os
lh araetens leas '
rcvelar as me ore~ c 'ular aspectos negativos mutuamente
casais podem tambem estim
(MINUCHIN, 1982)" or sua vez, diz respeito as caracte-
A cornplementandade, ~tencia de cada conjuge, que, na
rtsticas. as areas de cornp todo. Cada urn deve estar na
interas;ao com 0 outro, formam umuncI'ou a sua individualidade,
- ao de que renrelas;ao sem a sensac nceder partes de si para for-
Ambos, marido e mulhet devem co
mar a unidade conjugal. d afetar 0 desen-
ei omplementares po e (u'o exagero de pap ~s c , 1 A complementaridade mo-
volvimento ~ a int~r~s:~o~~ni~~~s e de funs:6es pelos conju-
derada perffilte a d~vlsao, nriquecimento individual, 0 de-
ges, alern de sugenr ap~lo e de ados de complementaridade
, d adroes a equ
senvolvlmento e P tregue ao vinculo conjugal sern, d "'nJ'ugese enperrmte que ca a co , MINUCHIN 1982),
erder sua individuahdade ( , ir I d
P f re a complementaridade, Satir apu
Tambem, no que se re e t to homens como mulheres tern
ANDOLFl, 1995) afrrn~a,que pana 0 melhor funeionamento do
, 'u' e cogmtlvas, ar
partes intut vas ser desenvolvidas e integradas, 0 re-
casal, essas partes, devem dio ressup6e que as duas pessoas se
lacionamento conjugal sa P I -ao>. outra ruos-Gonzalez
, 1 I umaemre as: i1 '
sin tam com igua va or _ a complementaridade reciproea
(1998), por sua vez, refere se'l'S diretivos e de submissao se
1 m que os papecomo aque a e "d de e fluidez, Por outro lado, a
intercalam com assldu1 a
l35
nitidas, por sua vez, demarcam a unidade dos subsistemas, si-
nalizando a diferenciacao e, ao mesmo tempo, permitindo 0
contato e a troca entre os subsistemas (MINUCHIN, 1982,
RlOS-GONZALEZ, 1994 e NICHOLS & SCHWARTZ, 1998).
A avaliacao dos subsistemas e do funcionamento das fron-
teiras e aliancas propicia aos terapeutas familiares urn diag-
n6stico, orientando, a partir dai, suas intervencoes terapeuti-
cas. Muitas vezes, os terapeutas de familia funcionam como
criadores de fronteiras entre os subsistemas, transformando
as difusas em nftidas e flexibilizando aquelas inadequadamente
rigidas.
Sao tres os subsistemasdescritos por Minuchin (1982) como
componentes da estrutura familiar: 0 subsistema conjugal, 0
subsistema parental e 0 subsistema fraternal.
o subsistema conjugal eformado por rnarido e rnulher, que,
a partir de urn vinculo afetivo, unem-se a fim de compartilhar
interesses, rnetas, objetivos e aspiracoes. Esse subsistema, como
os demais, tern tarefas e funcoes especfficas. A cornple-
mentaridade e a acornodacao mutua sao habilidades fundamen-
tais para 0 subsistema conjugal e vital para 0 funcionamento da
familia.
A primeira tarefa do casal e a adaptacao mutua, que requer
realinhamento das relacoes com a famflia de origem, corn grupos
sociais e de trabalho. Outras quest6es cotidianas de vida pratica
tarnbem devem ser negociadas, ajustando expectativas e desejos
de cada conjuge, sendo, muitas vezes, essas quest6es menores do
cotidiano as que mais provocam conflitos entre os casais (Rfos-
GONZALEZ 1994 e NICHOLS & SCHWARTZ 1998).
No processo de adaptacao de urn ao outro, 0 casal deve
negociar as fronteiras entre si e com 0 mundo externo, princi-
palmente com as famflias de origem. Os conjuges, geralrnente,
pro vern de fanu1ias com diferentes estruturas, trazendo para 0
seu casamento expectativas do tipo de proximidade que existia
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana134
Desenvolvimento, mudanca e saude na familia
A familia e urn sistema vivo, aberto, em continuo pro~esso
de mudan<;a. Ela esta sujeita as demand as internes. qu~ dizem
respeito as mudan~as evolutivas de seu~~e~bros e s~bs~stemas,
e a pressao extern a, decorrente das exigencias econorrucas, so-
ciais e culturais.
o desenvolvimento da familia transcorre ern etapas ~u:
denotam uma complexidade crescente. Ha pe~odos d~ e~ull~-
brio e de desequilibrio, que ocorrem tanto no CIcIode Vida indi-
vidual como no ciclo de vida familiar (MINUCHIN &
FISHMAN, 1990; CARTER & MCGOLDRICK, ~9_95).Os pe-
nodes de equilibrio sao caracterizados pel.o d~mlmo da.s t~~-
fas e das atitudes. Os perlodos de deseqUllfb~O, :a~to md~vI-
dual como familiar, sao mais estressantes, anSlOg~mcos e im-
pulsionam para 0 avanco de urn novo estagio mars complexo,
com novas tarefas e habilidades.
o stress familiar e geralrnente maier nos pontos, de transi-
~ao de um estagio do cielo de vida para 0 outro. ~a uma te~-
dencia de os sintomas aparecerem quando ha uma mterrup<;ao
do ciclo de vida familiar, por exemplo, no nascimento, n~ caso
de doenca debilitadora, na morte de urn mem~r~ da. f~11~, ~m
situa~ao de desemprego, de mudanca de resldenc~a, divorcl~,
dentre outros. As estrategias do terapeuta de familia, nessa~ S1-
tua~6es, sao de auxflio aos membros da familia na sua reor~amza-
~ao, a fim de prosseguirem no seu processo de desenvolvlmento
(CARTER & MCGOLDRICK, 1995).
er significativamente marc antes e carregados ao Ion go da vida
(MINUCHIN, 1982; MINUCHIN & FISHMAN, 1990).. .
A estrutura familiar, com seus subsistemas,. opera dlll.ann-
camente e responde as exigencias externas do SIstema maior, a
sociedade.
137
IIIIItcaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
complementaridade rfgida pressupoe papeis estanques, com urn
dos conjuges na posicao diretiva, eo outro, submetido.
o segundo subsisterna que cornp6e a estrutura familiar e 0
parental, inaugurado com 0 nascimento do primeiro filho. Esse
subsisterna tern as tarefas de nutrir, guiar e controlar 0 filho,
desse modo, exigindo do subsistema conjugal apoio rmituo. E
tambem de fundamental importancia uma certa flexibilidade,
que permita a crianca acesso a ambos os pais, mantendo, no
entanto, 0 espaco conjugal preservado.
o estilo de parentalidade depende da idade dos filhos. Os
bebes necessitam de cuidados, atencao e protecao (MICHAEL
& SCHWARTZ, 1998). Os filhos em idade escolar requerern
supervisao nas tarefas escolares, orientacoes, controle e
envolvimento em divers as atividades (SOUZA, 2001). Os ado-
lescentes precisam do estabelecimento de regras, de dialogo e
do entendirnento da necessidade gradativa de autonomia e de
responsabilidade (MINUCHIN & FISHMAN, 1990; CARTER
& MCGOLDRICK, 1995).
o grupo familiar necessita de lideranca. E 0 subsistema
parental que deve assumir a lideranca, revelando autoridade e
poder diferentes dos filhos. Essa lideranca deve ser diferencia-
da, dependendo da idade dos filhos, e tambern democratica,
podendo scr questionada ou assumida por uma ou outra figura
parental, a fim de promover 0 crescimento emocional dos mem-
bros da familia (FERES-CARNEIRO, 1992).
Complementando a estrutura basic a da familia, 0 subsistema
fraternal, constituido por irmaos, pode ser considerado 0 pri-
meiro laborat6rio social, em que as criancas aprendem a se re-
lacionar com os iguais. Entre si, as criancas aprendem a nego-
ciar, a cooperar e a competir. Podem assumir diferentes postu-
ras, ter presngio, fazer amigos, aliados, ou se colocarem como
bodes expiat6rios. Os papeis experienciados pelos mernbros
nesse subsistema e no sistema familiar mais amplo tendem a
(Conltexros de entrevista: olhares diversos sobre a inreracao humana136
A terapia
A busca do atendimento psicoterapico pode ocorrer a partir
de um encaminhamento da escola, ou de algurn profissional da
saude. Outras vezes se da por intermedio de urn membro da fa-
milia que pede ajuda para si ou que esta sensibilizad~p~lo pro-
blema de um familiar, como, por exemplo: filho ou conjuge.
Nesse primeiro contato, geralmente telefOn~co,0 terapeuta
deve buscar algumas informa90es sobre 0 motive da procura.
Com as informa90es obtidas, 0 terapeuta avalia quem deve cha-
mar para a primeira consulta, se toda a familia ou algum
subsistema, propondo isso para 0 solicitador.
Na primeira entrevista diante d~ pacient~ identificado
e a sua familia, inicia-se 0 diagn6stlco que, megave~men-
te, e urn processo dinamico e longitudinal. A anause de
que inclui nossa familia atual, as relacoes amorosas, ~ociais e
profissionais.0 autor enfatiza que as rela90es estabe~eCldasco~
a familia de origem sao as mais importantes da VIda,consn-
uundo-se como uma base do comportamento futuro.
o desenvolvimento sadio da familia depende, iminentemen-
le, do cumprimento de suas tuncoes essenciais, a~quai~ ?izem
respeito a reciprocidade de relacoes entre os p~pels fan~h~'es e
a busca de carninhos para a solu9ao de confhtos. Os mveis de
adapta9ao familiar dependem dos graus de exito ou de fracas-
sos das fun90es familiares. 0 maior ou 0menor grau de adapta-
c;aofamiliar resulta do modo como seus membro~enfrentam os
problemas, delimitando-os e encontrando, ou nao, uma solu-
9ao adequada para eles (ACKERMAN, 1986). .'
Cabe ressaltar que, em todas as famflias, ha a pr~disposl-
9ao tanto para a saude emocional como para a enfefffil,dade.~
que faz com que uma dessas tendencias se sobreponha a outra e
a maneira como se processa a intera9ao entre os seus membros.
l39
MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
. Quando as farnflias buscam a terapia, 0 objetivo e eliminar
o smtoma, sem mudar 0 sistema. Partindo-se do principio de
que urn sistema familiar busca a estabilidade a fim de manter 0
equilfbrio, e que, muitas vezes, esse equilfbrio inclui urn sinto-
~a que impede a farmlia de seguir 0 seu processo de desenvol-
vrmento, cabe ao terapeuta conectar 0 sintoma ao sistema e
mostrar a familia que eles estao interligados e que urn nao pode
mudar sem mudar 0 outro. Desta feita, 0 terapeuta familiar
coloca a famflia diante do dilema da mudanca.
~a~ner e ~eres-Carneiro (1998) afirrnam que a familia
consutui ~ ~bJente social mais Intimo, 0 que faz com que seja
a fonte principal de stress quando as coisas nao vao bern. Po-
rem, se existe urn born funcionamento familiar, esse se conver-
te no principal nucleo de apoio social.
. ?ciclodevidafamiliar,segundoCartereMcGoldrick (1995),
mc1U1_todo 0 sistema emocional de pelo menos tres ou quatro
geracoes, Embora as famflias vivarn em uma determinada estru-
turadomestica,delimitadaspelo aqui e agora,elas sao subsistemas
emo~ion~s, ~ue ~arregamrelacionamentos passadose que exer-
cern influencias importantes no funcionamento global do siste-
~~'.0 ciclo de vida familiar e por eia definido em fases, que se
iruciam com a safda de casa do jovem solteiro, passando pelo
casamento, pela familia com filhos pequenos, pela famflia com
filhos adolescentes, lancando os filhos e seguindo em frente ter-
rninando com 0 estagio tardio de vida da familia. '
Complementando esses postulados, Groisman (2000, p.19)
refere que a familia carrega 0 passado corn 0 presente. Afirma
que, querendo?u nao, somos "atravessados por uma cruz", em
que a parte vertical representa 0 que vivemos e compartilhamos,
o que foi transmitido por nossos pais, av6s, bisav6s, que
corresponde aos tabus, aos mitos, aos segredos, as Iealdades,
aos. valores e as crencas de nossa farmlia de origem. A parte
honzontal refere-se a historia atual que estamos construindo ,
(Con) textos de cntrevista: olhares divcrsos sabre a interacao humana138
o Terapeuta de Familia deve ser flexfvel e ativo e pode
utilizar-se de varias tecnicas a fim de promover a saude da fa-
milia. Ele pode priorizar 0 trabalho com os subsistemas como,
por exemplo: auxiliar 0 subsistema conjugal a restringir a in-
terferencia das famflias de origem ou trabalhar com 0 subsistema
parental para fortalece-lo ou com 0 subsistema fraternal a fim
de propiciar sua maior integracao,
Varias tecnicas podem ser utilizadas para 0 enfrentamento das
dificuldades a serem trabalhadas, tais como dramatizacoes, escul-
turas, focalizacao e intensidade. Freqiientemente, sao prescritas
tarefas e/ou rituais para algurn membro ou para toda a famflia.
Outras tecnicas mais diretivas tarnbem sao utilizadas na Terapia
Familiar, como orientacoes, apoio e recursos comportamentais.
o encaminhamento para especialistas, quando necessario,
eo contato com escolas e outras instituicoes possibilitam a ex-
pansao da rede de promocao da saiide da familia.
Quando houver necessidade e condicoes da familia, 0
terapeuta pode solicitar a inclusao, no processo, de urn co-
terapeuta, que auxiliara no entendimento da familia e nas estra-
tegias de tratamento.
As consultas geralmente ocorrem uma vez por semana, mas
podem sofrer intervalos quinzenais ou mensais, dependendo
do foco e das estrategias eleitas. Algumas vezes, a prescricao
feita pelo terapeuta a familia demanda rnais esforcos, como no
caso da importancia de urn ritual no cemiterio, ou da reuniao
com a famflia extensa, ou a busca de informacoes em alguma
outra cidade. Nessas circunstancias devem ser dadas condicoes e
tempo para a familia cumpri-Ia. As consultas geralmente tern du-
ra9ao aproximada de uma hora, e 0 tempo do tratamento depende
do grau de disfuncionalidade da familia.
Nao e raro que urn terapeuta sistemico atenda tambem in-
dividualmente. Porem seu referencial te6rico e pratico permite
que, quando necessario, inclua a familia ou algum subsistema,
para auxiliar no tratamento do indivfduo em questao.
[4[Mlmica Medeiros Kother Macedo & Learura KessellCarrasco (Orgs.)
alguns aspectos e fundam.ental para 0 diagn6stico, segun-
do Falceto, apud Co rd io l] (1998) t . ~. " als como fl1vel
soclOcult~ral: .caracteristica etnica; estagio do ciclo vital
em que a famflia se encontra sua adequacao ou -
, l' , nao, a esse·
map~amento da estrutura familiar, incJuindo a avalia9ao do~
subsJstemas, das fronteiras e alian('as· estilo de f .
m t f ·1· . l' , unClOna-
en 0 arru iar e analise do papel e da relevancia do si t _
rna para a familia. III 0
Nas sess~es, 0 terapeuta deve procurar estabelecer urn cli-
rna ~e :mpaua ~ confianca que possibiJite a manifesta9ao da
expressao emocional da famflia,
~a ?~serva~ao da familia em inlera~ao, 0 terapeuta recebe
urna infinidade de dados de seu funcionamento das fronteiras
a ~er~m tl'ansformadas.em nftidas, das aliancas ~ue devem ser
re orcadas, ~as coalizoes que devem ser atenuadas, da
complementandade que deve ser trabalhada etc E
tr d d d ' . sses e ou-
lOS a ~s evem ser selecionados e organizados de tal forma
que ~onflgure~ urn esquema no qual 0 terapeuta devera basear
sua mtervencao.
Nos encontros de familia, e importante que 0 sintoma apre-
sentado ~or urn dos seus membros seja redefinido pelo terapeuta
e devol vido p~~ a famflia como afetando a todos. A mobilizacao
~~ grupo familiar na busca de saidas satisfat6rias para 0 pro-
. e~~ depende do e~tendimento sisternico desses, ou seja, da
mteIllga~ao entre 0 smtoma e 0 sistema familiar.
o foco ~o traba,lho epossibilitar a atual expressao emocio-
nal da famflia. Porem, freqiientemente, os contetidos trazidos
no pres~nte estao vin~ulados a cxperiencias passadas, como:
perdas, rupturas ~u mIt?~ familiares, que, muitas vezes, apre-
sentam-se como Impedluvas do desenvolvimento da famfli
~sses con~e.udos devem ser trabalhados para libertarem a fa:;~
hald? apnslOnamento em alguma etapa anterior do seu desen-
vo vimento.
(Con)textos de enrrevista. olhares diversos sobre a intera!;aO humana
[40
SOUZA, Nadir Helena Sanchotene de. A estrut~ra efuncio::
t de iamilias com casais de dupla carreira e filhosmen 0 .I' _ d P . 010-
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142
Magalhães
Realce
A circularidade da escuta e urn metodo clinico, fundamen-
tado na epistemologia cibernetica e na Teoria Geral dos Siste-
mas. Os pressupostos te6ricos, que embasam a abordagem da
terapia familiar, estao ancorados pelos conceitos-chave, expres-
sos sobre tres pilares: "a totalidade, a organizacao e a padroni-
zacao" (PAPP,1992, p. 22). Os acontecirnentos sao entendidos
dentro do contexto no qual ocorrem, focalizando as conex6es
vinculares mais do que as caracterfsticas individualizadas dos
componentes de urn sistema familiar. 0 todo, a fanulia, e maior
do que a soma das partes, isto e, cada elemento s6 pode ser
entendido no contexto do grupo. A familia e mais do que 0
conjunto de seus membros, em funcao das interconex6es. Por
esse prisma, 0 conceito de padronizacao e organizacao sao per-
cebidos como movimentos circulares e nao lineares.
Uma alteracao numa das partes atinge 0 todo e vice-versa,
proporcionado pelo movimento dos circuitos integros, respon-
saveis pelo transite defeedback, com a finalidade de equilibrar
o sistema por meio das partes conectadas (BATESON, 1977).
o sistema mental sugere ser urn modele utilpara estudar a fa-
rrulia, a sociedade e os ecossistemas. Nessa perspectiva, a fa-
milia, imbricada em seus processos e atividades mentais cons-
cientes e/ou inconscientes, interatua indo e vindo com retorno
a origem (BEBCHUK, 1991, TOMM, 1985). Por isso, 0
entrevistador, que pode ser tanto urn pesquisador como urn
A familia sob a otica sisternica
TEREZINHA RECH
A CIRCULARIDADE SISTEMlCA NA
ESCUTA CLfNlCA
Patricia Minuchin, Colapinto e Minuchin (1999) entendem
por padroes de interacao os reincidentes que refletem as
filiacoes, tensoes e hierarquias, contendo significados tanto para
o comportamento quanto para os relacionamentos. Esses pres-
supostos fundamentais balizam 0 entendimento nao s6 da fa-
mflia como tam bern dos sistemas sociais amplos e
ecossistemicos.
Na famflia, alem de existir multiples padroes de alianca e
de proximidade para que seus membros desfrutem juntos do
prazer e do lazer, hi tambem aliancas pela oposicao, denomi-
nadas de coalizao ou uniao para urn determinado tim. E esta
pode ser transit6ria e benigna, se usada para a construcao do
grupo ou tornar-se malevola quando causa mal-estar, incidindo
em aspectos auto e heterodestrutivos.
No entanto, a organizacao hierarquica do poder e a instan-
cia que define a forma de tomar decisoes e de controlar 0 com-
portamento do grupo familiar. Subliminarmente nos padroes
de autoridade, estao latentes os opostos: harmonia versus con-
flito. Quando estes estao organizados, com clareza e flexibili-
dade sao expressos por regras implfcitas e explfcitas e tendem a
harmonizar a convivencia, possibilitar 0 crescimento e autono-
mia dos membros, orientando 0 que e permitido, ou nao, falar
ou fazer, Nas famflias com padroes disfuncionais, as regras ten-
dem a ser rigidas e as mensagens obscuras, sendo frequentes os
conflitos familiares.
A estrutura familiar e urn termo usado (MINUCHlN, 1974)
para designar a rede de exigencias no direcionamento da orga-
nizacao interativa, das atribuicoes de papeis implicitos e explf-
citos que funcionam conforme os padroes transacionais de ge-
ra9ao em geracao. Estao presentes nas transacoes familiares tres
dimensoes estruturais: a no~ao de fronteiras, os alinhamentos e
o poder. Ela tern a propriedade de flexibilizacao, 0 que possi-
bilita a busca de padroes transacionais alternativos, diante da
147Mentes Medeiros Kothcr Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
terapeuta familiar, acompanha esse movimento circular, man-
tendo inseparaveis a indagacao, 0 foco clfnico e a conexao
interativa que, possufdo de reflexividade confere 0 sentido a
tarefade co-construtor com 0 sistemafamiliar (VARELA,2000).
A relacao faz do "eu" urn "n6s" e a a~ao interativa com a
familia nao e uma verdade evidente, necessita ser experienciada
empiricamente. Os acontecimentos nada sao em simesmos, mas
adquirem significados de acordo com a sua natureza por de-
pendencia mutua, na visao de Nagarjuna, apud Capra (1983).
A famflia e urn tipo especial de sistema que se insere na
ordem das relacoes interpessoais mais prirnitivas e mais con-
sistentes, nas dirnensoes do tempo psicol6gico de cada urn, no
tempo social, hist6rico e contextual (MARQUES, 1999). Ela e
delimitada por uma estrutura, com padroes e propriedades que
proporcionam as bases tanto para a estabilidade quanta para as
rnudancas.
Como uma pequena sociedade humana, seus membros pos-
suem vfnculos diretos, lacos emocionais e uma historia com-
partilhada. E urn sistema vivo, aberto, assim como sao os orga-
nicos, que por sua natureza nutrem-se da materia, da informa-
~ao e da energia, mantendo transacoes decisivas com 0 meio.
Realiza trocas pelo movimento de entrada e safda, decomposi-
~ao e constru~ao/reconstru~ao. Esse grupo em sua dimensao
psicossocial forma urn sistema cujos elementos, as pessoas,
possuem atitudes, valores, crencas, sentimentos, normas e se
comunicam principalmente pela linguagem, auto-organizando-
se e interagindo uns com os outros (L6PEZ, 2000).
Compreender a fanu1ia sistemicamente e entender a com-
plexidade das relacoes que dela emergem (WAGNER &
SARRIERA, 1999), bern como suas conexoes, relacoes, signi-
ficados, movimentos circulares, interdependencia, padroes
repetitivos, presenca de partes atuantes ou subsistemas e 0 as-
pecto da transgeracionalidade.
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a inreracao humana146
em diferentes angulos, considerando validas as diferentes for-
mas de percepcao.
Boszormenyi-Nagy (1973) evidencia as questoes de leal-
dades transgeracionais, Minuchin (1974) observa a organiza-
~ao hierarquica e as fronteiras, Bowen (1979) aponta 0 con-
ceito de tnangulacao que e a menor configuracao emocional
cnvolvendo tres pessoas e graus de diferenciacao dos mem-
bros de urn sistema familiar, Haley (1979) e Madanes (1983)
percebem 0 sistema, concentrando-se na estrutura de poder,
visando a mudancas e Selvini-Palazzoli (1986) centra sua a9ao
em paradoxos sistemicos, que e uma forma de comunicacao
cuja afirmacao e contradit6ria ao senso comum. E os evolutivos
dentro dessa 6tica trabalham 0 sistema familiar, observando
as etapas previsiveis e imprevisiveis de organizacao e desen-
volvimento por meio do processo de mudanca descontinua do
ciclo vital.
Os profissionais desta area observam 0 foco, no atendi-
mento a familia que mais se identificam, significando que 0
sistema familiar pode ser visualizado por urn prisma e, em
t01110dele, realizar imimeras conexoes, comparando-as a urn
caleidosc6pio.
o conceito de circularidade significa que urn evento ou parte
de urn comportamento nao causa outro, porem esta conectado
de forma circular a muitos outros, com tendencia a constantes
repeticoes.
Na escuta clinica e possivel perceber 0 movimento de co-
municacao da familia como circuitos interati vos, num contexto
alern do micros sistema. Abarca 0 territorio relacional e 0 das
diferencas. Esta ultima nao e materializada e se constitui numa
dimensao invisfvel, porem perceptfvel na forma como a fami-
lia age e reage por intermedio da comunicacao. Ela e percebi-
da, pela 6tica de cada urn dos membros, estando conectada ao
passado, presente e futuro.
149Ml'InicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
A complexidade das interacoes familiares, quer as funcio-
nais e/ou as disfuncionais, transversam-se e se tornam operantes,
tanto de forma latente quanto explfcita no encontro com a fa-
milia no setting terapeutico. 0 olhar cibernetico percebe 0 sis-
tema familiar homeostatico que se auto-regula e se retroalimenta
a fim de manter seu equilfbrio,
Diante de tal fenomeno as leituras demonstram urn leque
de diferentes maneiras de ouvir, interagir e atender 0 sistema
familiar. Cada terapeuta se torna urn expert das relacoes
interpessoais embasado na teoria, na pratica e na experiencia
armazenadas no self, como auto-referencia (RECH, 2000). Esta
taticidade possibilita a distincao entre 0 sujeito e 0 objeto no
foco de observacao, avaliacao e intervencao da realidade. A
priori essa experiencia provern da pratica e nao do
academicismo. Papp (1992) mostra como alguns pensadores
sistemicos trabalham com as famflias ao focar a escuta clinica
A circularidade da escuta: urn metodo clinico
demanda de mudancas internas, externas e circunstanciais. 0
objetivo emanter e assegurar a continuidade de seus parametres.
Os padroes transacionais operam de forma repetitiva e se
sustentam por dois sistemas de repressao (MlNUCHIN, 1990):
urn e generico, contendo as normas uni versais que estabelecem a
hierarquia de poder e outro e idiossincrasico, formado pelos con-
tratos secretos, implicitos e originais, que nunca foram
verbalizados, dando origem as lealdades. Estas sao provenientes
da rede invisivel dos relacionamentos, podendo ser explicitadas
pelas reivindicacoes, acusacoes, manobras e outras.
Ap6s fundamentar brevemente a familia sob a 6tica
sistemica, faz-se necessario 0 embasamento da circularidade,
usando-a como instrumento no atendimento familiar.
(Con)textos de entrcvista: olhares diversos sobre a interacao humana148Valoriza-se a postura de tomar as queixas que mobilizam a
familia a buscar tratamento psicol6gico e tornea-Ias,
aprofundando-as amplamente, ate formar uma representacao
mais completa dos relatos verbalizados por meio de cada mem-
bro.Isso proporciona identificar e entender os significados,pelos
significantes.
Exercitar a escuta circular como metodo clinico e fruto de
urn longo aprendizado principalmente par~ 0 profissional pro-
veniente de uma epistemologia linear. E uma mudanca de
paradigma, exigindo uma transicao do pensamento linear para
o circular.
o pr6prio sistema especifica quem pode falar, que opi-
nioes pode expressar e quem esta delegado ao silencio, As
intervencoes circulares no atendimento respeitam 0 ritmo do
sistema, sua autonomia e sua forma de construir auto-
organizadamente.
Essa modalidade de escuta alicerca 0 profissional na cons-
trucao de novas possibilidades, na busca de solucoes desafia-
doras com a familia, que resultam em crescimento para ambas
as partes. A inteireza do self psiquico designa 0 que define 0
terapeuta na sua individualidade como representacao de si mes-
rno com auto-referencia, diferenciando-se dos demais membros
do sistema familiar (DORON & PAROT, 1998).
o pensamento sistemico orientado pela terceira ciberneti-
ca apropria-se de uma metodologia circular capaz de integral'
acao e pensamento, 0 saber e 0 saber fazer, a arte e a ciencia.
1ntemamente, 0 terapeuta faz uso de urn duplo movimento, 0
de entrada e safda do sistema familiar, ocorrendo a co-constru-
~ao terapeutica ao processar sua escuta clfnica. Rech (2000)
afirma que 0 melhor recurso do terapeuta e ele mesmo como
urn timoneiro eficiente e eficaz em manter fluente a comunica-
~ao circular entre ambas as partes durante todo 0 processo da
intervencao. Neste contexto em que 0 vinculo se estabelece, a
151MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
o terapeuta capta a mensagem, a comunicacao, a infor-
macae e 0 relato. Dessa forma observam-se as informacoes
em torno do objetivo da demanda, construindo uma realida-
de de interacao com a familia. Cabe a ele a tarefa de integrar
os aspectos inseparaveis de perguntar, focalizar e identificar
a rede vincular dos participantes, usando a circularidade no
foco, abstraindo-se da linearidade (causa - efeito).
Entretanto, ha limitacoes na aplicacao da entrevista cir-
cular (BEBCHUCK, 1991) como 0 usa de explicacoes com
terminologia cientfficas. Estas, quando ocorrem, se tornam
vazias, superficializando 0 foco das relacoes, pois a lingua-
gem natural se baseia numa causalidade linear. 0 terapeuta
precisa manter-se atento ao expressar-se de forma circular,
identificando as condutas como imanentes das relacoes e do
contexto e nao como inerentes ao indivfduo,
Outro aspecto a considerar e a auto-referencia tanto do
profissional quanta da familia, analisando e confeccionando
a interacao sem deixar-se enredar pela trama vincular
estabelecida pelo sistema. Assim, evita-se 0 perigo de guiar-
se pelas hip6teses de controle numa perspectiva unidirecional
e linear. E importante ressaltar que as pontuacoes problema-
ticas inadequadamente assinaladas como verdades
inquestionaveis dificultam 0 entendimento dinamico da con-
duta sintomatica de urn membro da familia.
o mais importante e 0 compromisso afetivo, 0 vinculo
e 0 elo que pode adoecer entre as pessoas e nao tanto os
porques e os comos. Adentrar-se no significado e urn ca-
minho por excelencia para melhor compreender a demand a
familiar. Outra questao limitante consiste no risco de foca-
lizar pouco a circularidade, excluindo-se dela, ao exami-
nar 0 contexto em que interatua, usando uma epistemologia
linear que identifica a conduta de urn membro como causa
de outro.
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sabre a interacao humana150
Conforme se detecta 0 emergente familiar, sugerem-se no-
VDS agrupamentos, podendo alternar com alguns membros na
sula de atendimento e solicitar a outras que aguardem na sala
de espera.
Organizam-se durante 0 encontro diferentes arranjos com
os membros da familia em momentos diferenciados, conforme
a genese do problema. Tomemos como exemplo a famflia B: a
maeprocurou 0 atendimento e nao aceitou inicialmente vir com
outros membros da familia, porque 0 objetivo explfcito era re-
velar urn segredo para 0 seu filho.
No entanto a escuta circular como modele clfnico esta sem-
pre presente, pois 0 que faz com que 0 atendimento seja
sistemico nao e 0mimero de pessoas presentes, mas 0 enfoque
dado pelo terapeuta.
Este funciona como urn anfitriao e, ap6s os cumprimentos
e apresentacoes miituas, a escuta inicia pelas queixas, focali-
zando os motivos da busca do recurso especializado. Ouve-se
todos os membros, cada urn por sua vez. Indaga-se a forma
como cada um da famflia localiza 0 problema, 0 grau de com-
prometimento e os movimentos na busca de solucoes da pro-
blematica, permanecendo com 0 profissional a dinamica do
processo no aprofundamento do foco.
ofeedback ou a retroalimentacao que a familia fomece no
fim de cada escuta clfnica possibilita a co-construcao do pro-
cesso terapeutico e 0 planejamento para os pr6ximos encon-
tros. Ha diferentes formas verbais e nao-verbais, por atitudes
provindas das interacoes do sistema familiar em que as crian-
cas demonstram pelo simbolismo desenhado e/ou pelo brinque-
do na sessao a dor insuportavel que aflige 0 grupo. A famflia
, parte de urn subsistema em conjunto com outro;
• membros da familia abrangendo tres geracoes, integrando
eventualmente alguma pessoa significativa da comunidade.
153I tlll,1 Medeiros KotheI' Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
•
•
•
•
vida se reporta tal qual, cheia de pulsoes de vida e morte com
diferentes matizes.
E imprescindfvel manter a vigilancia sobre 0 mundo de
valores e de preconceitos que possam interferir no processo
terapeutico. ~ condicao primaria conectar-se com os pr6prios
sentirnentos, impulsos e associacoes para penetrar na armadura
das teorias, das tecnicas e da praxis. Esses sao usados como
~'ecursosAde.prote9ao nas diversas circunstancias e possfveis
intercorrencias. Em todas elas, segue-se a etica como btissola. 'respeitando as famflias em seus contextos.
Tres dimensoes distintas balizam a escuta sistemica: os pres-
supostos te6ricos, a construcao relacional e 0 desconhecido
em~rgenci~. Em ~itua9oesadversas e imprescindfvel que 0 pro-
fissional seja contmente ao deparar-se com 0 bau familiar do qual
emergem os segredos herdados, os mandatos, as triangulacoes e
as l~aldadesmal resolvidas. Tais conteudos podem advir de ge-
racoes passadas, tornando-se operantes por meio de vivencias de
traicoes, perdas, vingancas, mortes e outras.
Na escuta clfnica integram-se perguntas abertas e
semifechadas, circunspectando a demanda pelo dialogo com 0
objetivo de construir cfrculos intersubjetivos com os partici-
pantes (ANDERSON & GOOLISIDAN, 1988).0 conhecimen-
to e construfdo no espaco relacional entre as pessoas num reino
comum. Esse campo por vezes se aproxima a uma arena na
~ua.l~aoexplicitados os conflitos e as contradicoes: a palavra
individual de cada membro, a interacao entre a familia e a
interrnediacao do terapeuta.
Hamuitasmodalidadesde realizar a entrevista.Pode ser com:
toda a familia (que habita sob 0 mesmo teto);
s6 com 0 subsistema conjugal;
o subsistema parental integrando filho (os);
o subsistema fraternal;
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a intcracao human a152
lOll. teniro UII~ K1ttCrGlSiICD
\!y Blblloteea
trans geracionais.
J'l por meio desse metodo que se entendem as condicoes
I uuturais da familia, suas fronteiras, sua cultura, seu sistema
cll' valores, suas crencas, suas regras explicitas e implfcitas,
I III irn, a dinamica de seu funcionamento ..
Tarnbem em relacao a escolha do setting da escuta clinica,
11(1diferentes posicionamentos. Stierlin et al. (1981) apontam a
Itcterogeneidade, afirmando que ha profissionais que realizam
as entrevistas em domicflio, no local de trabalho ou na escola.
Imtretanto, observa-se na pratica,que a maioria dos profissio-
nais da area opta pelo seu local de trabalho, 0 consult6rio. Inde-
pendentemente do local, considera-se que e imprescindivel as-
sumir uma postura euca-tecricc-pratice, acima de tudo.
A eficacia de urn atendimento principia peJa negociacao de
um problema capaz de ser solucionado pela descoberta da si-
tuacao sociofamiliar que se prop6e amudanca. Cabe ao terapeuta
estar atento a demanda que se apresenta, em relacao a encami-
nharnentos de diferentes funbitos e a alguns membros do gru-
po, de acordo com a natureza da problematica explicitada. Ex:
a valiacao neurol6 gica, psicopedag6 gica, psiq uiatrica,
oftalmol6gica, fonoaudio16gica e outras.
No primeiro encontro seguem-se quatro objetivos primaries:
integrar-se ao estilo do sistema familiar, utilizando a mesma lin-
guagem; estabelecer a confianca e manter a Iideranca; focalizar 0
problema e obter informacoes e negociar pontos basicos funcio-
nais de ordem pratica para 0 andarnento do tratamento.
Outro aspecto desse metodo consiste na passagem do indi-
viduo ao sistema; dos conteiidos aos processos; da interpret a-
<;ao para a prescricao; da busca nao s6 das origens, mas tam-
bern da cornpreensao das condutas; da analise dos sintomas
para analise das mensagens implicitas; da indagacao casual
para a circular a fim de reestruturar os modelos de interacao,
que se apresentam disfuncionais e, quando necessario, os
155
II IMedeiros Korber Macedo & Leanira KesseliCarrasco (Orgs.)
.- '., .
quer livrar-se do sofrimento, mas nao sabe 0 carninho e a tarefa
de cicerone que se atribui ao terapeuta.
A palavra e guia e sfrnbolo de comunicacao interativa. Ela
tambern e corpo que expressa uma intencao. AMm de ser urn
automatismo a service do pensamento, e 0 pr6prio instrumento
de atualizacao, escondendo urn significado que pode ser alcan-
cado pela escuta circular. Por exemplo, ao atender urn casal, 0
terapeuta com uma simples intervencao, solicitando que eles
relatem com detalhes, cada urn por sua vez, como se conhece-
ram e como foi 0 seu primeiro encontro, oportuniza identificar
algumas raz6es conscientes e inconscientes do contrato secrete
da relacao conjugal.
A entrevista familiar, primordialmente as primeiras, con-
siste em lidar com situacoes complexas e ansiogenicas, pela
natureza da tarefa. Por urn lado, exige do profissional urn gran-
de esforco interpretativo e, por outro lado, de seus integrantes
urn esforco para estabelecer a cornunicacao. Ambas as partes
mantern-se sob 0 efeito de uma forte carga emocional, urn
estresse situacional, dificultando 0 seguimento de urn padrao
predeterminado.
A relacao intersubjetiva e construfda durante a escuta cir-
cular, contemplando 0 afetivo, 0 existencial, 0 cotidiano, as
experiencias e a linguagem do senso comum. 0 terapeuta pode,
por exemplo, solicitar que cada membro relate a experiencia
mais significativa vivenciada no seio da familia. Essa interven-
~ao possibilita assinalar as diferencas individuais e as percep-
~6es singulares de cada membro do grupo, uma vez que cada
urn vivencia os eventos de forma unica no seu contexto. A fa-
rru1ia, ao relatar experiencias, evoca novos insights sobre si-
tuacoes traumatic as que eram percebidas de forma unilateral,
passando a uma percepcao circular sobre os mesmos fatos. Isso
favorece mudancas relacionais e estruturais entre os membros
da geracao atual e, tambem, em nivel transgeracional.
(Con)textos de entrevista: olhares diversos sobre a Inreracao humana154
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Referencias bibliograficas
Dentro dessa perspectiva, utilizam-se OS criterios praticos
de como os membros da familia sustentam as triangulacoes, as
aliancas, a cornunicacao verbal e nao-verbal, 0 monop61io da
palavra, a distribuicao ou concentracao da forma de lideranca.
Essas foram algumas das ideias apresentadas em torno da
aplicacao da escuta clfnica como metodo, sem pretensao de
esgota-Ias. Certamente ha muitas outras modalidades de exer-
citar a cireularidade sisternica no setting terapeutico, exigindo
mais pesquisas com profundidade aeerca da ternatica.
(Con)textos de entrcvista: olhares diversos sobre a intera~ao humane156
(CON)TEXTOS DE AVALIA<:::Ao
PARTE 6
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(Con}textos de entrevista: olhares divcrsos sobre a inreracao humana158
A realidade complexa e as exigencias da vida atual tern
contribufdopara uma procura cada vez maior de parte de diver-
sas pessoas por atendimento psicologico. As instituicoes priva-
das, os centros de saiide e os hospitais recebem uma significa-
tiva demanda de pacientes que trazem suas queixas, seus trau-
mas e seus sofrimentos com 0 intuito de livrarem-se dos sinto-
mas que os atormentam. Essas pessoas, muitas vezes, nao tern
a menor ideia do tipo de tratamento de que necessitam. Elas
vern em busca, neste primeiro momento, de urn espaco no qual
possam ser acolhidas, aceitas e respeitadas em sua dor psiqui-
ca. Necessitam do olhar e da escuta de uma outra pessoa que se
disponha a auxilia-las a compreender algo do que se passa com
elas, ajudando-as a encontrar uma safda para sua situacao atual.
Este e urn momenta particular na vida de quem busca atendi-
mento emocional, por isso a entrevista de triagem pode repre-
sentar para a pessoa 0 lugar de continencia de que ela precisa.
A interacao que se estabelecera entre 0 entrevistador e 0
paciente definira urn campo propfcio para que as sensacoes e
os sentimentospossam ser pensados de forma compartilhada.
Ocampo da entrevista estrutura-se a partir da relacao
intersubjetiva entre entrevistador e entrevistado, determinando
urn processo dinamico e criativo. "0 campo e uma estrutura
distinta da soma de seus componentes, como uma melodia e
distintadasomadas notasmusicais" (KANCYER, 1997,p.llS).
NADIA MARQUES
ESPA~O DE ACOLHIMENTO,
ESCUTA E AJUDA TERAPEUTICA
ENTREVISTA DE TRIAGEM:
As entrevistas de triagem compreendem uma interacao, face
a face, entre duas pessoas, em urn tempo delimitado, com obje-
tivos especfficos e com papeis diferenciados.°entrevistador tern a funcao de conduzir 0 processo de
triagem, dirigindo os diversos momentos das entrevistas em
Os papeis
Tavares (2002, p.46) salienta que
a entrevista clfnica e urn procedirnento poderoso e, pelas
suas caracterfsticas e 0 unico capaz de adaptar-se a
diversidade de situa90es relevantes e de fazer explicitar
particularidades que escapam a outros procedimentos,
principalmente aos padronizados.
Kernberg (1975) explica que a configuracao das entrevis-
tas clfnicas favorece a emergencia da organizacao estrutural do
funcionamento mental, pois contraria a classica entrevi~ta ~e
avaliacao das funcoes mentais ~om u~a avaliacao
psicodinamica dirigida a interacao dos intervenientes.
Nas entrevistas semi-estruturadas, 0 entrevistador tern c~a-
reza de seus objetivos e do tipo de informacao de que necessita
para atingi-los; do tipo de intervencao ~ue f~cil~taa coleta dos
dados e dos temas que sao relevantes a avaliacao. Es~a forma
de entrevista aumenta a confiabilidade dos dados obtidos, fa-
vorecendo 0 trabalho de pesquisa e 0 estabelecimento de .um
planejamento de acoes de saiide e de orie~ta<;ao~~rapeutlca.
Por isso, as entrevistas semi-estruturadas sao frequentem;~te
empregadas em locais como clfnicas sociais, ~os a~b~latonas
de psicologia dos hospitais, nos postos de saude pubh~a, etc.
(CUNHA, 2002). Gabbard (1992) ensina que 0 entrevlstador
deve manter urn estilo de entrevista flexfvel, passando da bus-
ca estruturada de fatos a uma atitude nao-estruturada de escuta
das associacoes do pensarnento do entrevistado.
163Monica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
A entrevista de triagem, baseada no referencial te6rico psi-
canalitico, envolve urn processo de avaliacao que nao se refere
necessariarnente a uma unica entrevista. Em varias ocasioes, a
avaliacao inicial pode demandar urnperiodo rnais longo de tem-
po, incluindo urn ruimero maior de entrevistas. As entrevistas
de triagem sao entrevistas clinicas semi-estruturadas.
As caracteristicas
Bion (apud FERRO, 1995, p. 27) destacou a importancia
do terapeuta assumir, desde 0 infcio de seu contato com 0 pa-
ciente, uma atitude "sem mem6ria e sem desejo", em que a
capacidade de tolerar 0 desconhecido se ligue a confianca em
algo que vai desenvolver-se por meio do contato emocional com
o paciente. Nessa oportunidade, 0 par podera obter uma com-
preensao mais clara e profunda dos motivos que levaram 0 pa-
ciente a buscar ajuda.
Faimberg (2001, p. 63), a esse respeito, menciona a im-
portancia da "escuta da escuta", ou seja, 0 entrevistador deve
ocupar-se de tambern escutar como 0 paciente ouviu os seus
silencios e as suas intervencoes. Dessa forma, 0 entrevistador
podera ouvir 0 inaudivel que e comunicado por meio da trans-
ferencia e da contratransferencia, constituindo-se em instru-
mento indispensavel na descoberta do psiquismo do paciente.
A autora comenta, ainda, que 0 paciente, ao escutar como 0
terapeuta 0 escutou, encontrara a oportunidade de poder ouvir
a si mesmo.
Considerando esses pressupostos, entende-se que a entre-
vista de triagem se constitui em urn importante espaco de aco-
Ihida e de escuta para a pessoa que se encontra em sofrimento
psfquico. A tarefa de procurar urn significado para as perturba-
coes trazidas pelo paciente e de ajuda-lo a descobrir recursos
que 0 aliviem possui valioso cunho terapeutico.
(Con) textos dc entrevista: olhares diversos sobre a intcracao humana162
umu participacao ativa e cooperative, informa~do e comuni-
cundo a respeito de suas dificuldades, seus senttmentos e con-
llitos. Ainda, se faz necessario, que 0 paciente possa trazer a
pcrcepcao que tern de seu problema, bern como as expectanvas
que faz em rela<;aoa urn atendimento e suas fantasias assoct a-
lias a forma como deseja ser ajudado.
o encontro, delineado em funcao desses papeis descritos,
define urn campo relacional, construtdo pela comunicacao que
sc estabelece a partir dos sentimentos que circulam na transfe-
rencia e na contratransferencia. A transferencia e a repencao
dos sentimentos relacionados a figuras do passado que sao re-
petidos com 0 entrevistador na situacao a~ual.A transferenc~ae
uma dimensao vital da avaliacao, na medida em que afeta dire-
tamente a eooperacso entre 0 paciente e 0 terapeuta. Padr?es.d.e
transferencia fomecem vislumbres de relacionamentos signifi-
cativos do presente e do passado do paciente. Gabbard (19:~)
recomenda que sejam abordadas as distor<;oestransferenclals
precocemente, para que sejam removidos possiveis obstaculos
a uma efetiva coleta da hist6ria. 0 autor alerta, entretanto, que 0
entrevistador deve ter presente que a relacao entrevistador-pa-
ciente e sempre uma mistura de transferencia e de relacao real.
o entrevistador desenvolvenl reacoes de contratrans-
ferencia em relacao ao paciente. Ele experimentara algumas
respostas emocionais diante do paciente se~elhante a~desper-
tadas por este em outras pessoas. Mas, tambem, po~er~ tel' sen-
sacoes originadas de figuras importantes de seu prop:lO passa-
do. Por isso, e fundamental que 0 entrevistador momtore suas
reacoes de forma a nao atua-las, mas utiliza-las como uma fon-
te de informacoes a respeito do paciente. Assim, tambem esta-
reimais capacitado a tolerar as intensas ansiedades despertadas
par temas relacionados a experiencias dolorosas ou fatos que
envergonham 0 paciente, podendo, de forma segura, falar aber-
tamente sobre eles.
165
loull,1 Medeiros Kother Macedo & Leanira KesseliCarrasco (Orgs.)
funcao de seus objetivos primordiais de diagn6stico e de indi-
cacao terapeutica. Cabe a ele, ainda, garantir urn ambiente de
sigilo, confortavel e livre de interrupcoes a fim de que 0 entre-
vistado sinta-se a vontade para falar sobre seus problemas. Sua
primeira tarefa e a de transmitir que 0 entrevistado e aceito e
valorizado como uma pessoa tinica. 0 profissional, baseado em
seus conhecimentos teorico-tecnicos e em seus recursos emo-
cionais, ira avaliar os aspectos pessoais, relacionais e internos
do paciente com 0 intuito de conhece-lo 0mais profundamente
possivel. 0 entrevistador, partindo das associacoes do pacien-
te, busca, de forma ativa, as informacoes necessarias para com-
preender seu estado atual. Ele deve ser capaz de mover-se com
espontaneidade ao longo dos temas trazidos pelo paciente nas
entrevistas. No entanto, nao deve perder de vista a sua funcao
de observar as comunicacoes nao-verbais e as diversas outras
formas de apresentacao do paciente como sua postura, forma
de vestir, maneira de falar, entre outros.
Cordioli (1998) sugere que 0 entrevistador faca perguntas
para auxiliar 0 pacicnte a iniciar 0 seu relato, expressar suas
opinioes e seus comentarios, fazendo, ainda, ligacoes entre os
temas abordados e resumos do que compreendeu no momenta
final da entrevista. Braier (1986) acrescenta que 0 entrevistador
pode utilizar-se de intervencoes como: perguntas, cornentarios,
confrontacoes, esclarecimentos, explicacoes, assinalamentos e
interpretacoes de ensaio, a fim de reunir os dados necessaries ,
nao s6 para 0 seu entendimento da situacao da pessoa, mas tam-
bern para auxilia-la a obter uma consciencia maior de seu pro-
blema e uma maior motivacao para aderir ao tratamento reco-
mendado.
o paciente, em principio, e quem, por estar em sofrimento,
vern em busca de algum tipo de ajuda. Nesse processo, ele nao
deve ficar na posicao de colaborador passivo, que apenas res-
ponde as perguntas do terapeuta.Ele deve ser convidado a ter
(Con)tcxtos de entrevista: olharcs diversos sobre a intcra~ao humana164
o diagn6stico descritivo (baseado nos criterios de
DSM-IV TR), embora insuficiente para uma compreensao
profunda da problematica da pessoa e para a formulacao
do progn6stico, constitui-se em uma informacao essencial
para orientar, num primeiro momento, 0 raciocinio clini-
co do entrevistador quanta a escolha de tratamento mais
Hip6tese de Diagn6stico Descritivo
lcmbrancas, interesses, preocupacoes e outros contetidos, pois
nssim obtera pistas para as conexoes inconscientes do entrevis-
tado. 0 entrevistador ira registrando nao s6 0 que 0 paciente
verbalizou, mas tambem 0 momento da entrevista e os senti-
mentes que acompanharam as informacoes,
A hist6ria atual contempla 0 esclarecimento dos sinto-
mas do entrevistado e as circunstancias em que surgiram,
cvidenciando a presenca de estressores que desencadearam
ou agravaram 0 quadro. E indispensavel averiguar como
cssa situacao influencia as relacoes sociais, sexuais, fami-
liares e profissionais do paciente, assim como 0 grau de
desconforto e de desadaptacao que geram em sua vida fun-
cional.
A hist6ria pregressa ira complementar esses dados, na
medida em que oportuniza uma visao do desenvolvimento
evolutivo da pessoa. Nesta fase da coleta de dados e impor-
tante que 0 entrevistado seja envolvido numa revisao de seu
passado, por meio das possiveis Iigacoes entre os aconteci-
mentos e sentimentos atuais e os de sua infancia e adoles-
cencia. Convern que 0 entrevistador adote urn modele de
anamnese que 0 oriente, de forma flexivel, a buscar as infor-
macoes necessarias ao seu trabalho, respeitando as possibi-
lidades do paciente e os limites dos objetivos das entrevistas
de triagem.
167M(lnica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kcsseli Carrasco (Orgs.)
Cunha (20?2,,P: 59) r~fere que a hist6ria do paciente com-
preen~,e~sua h~stonade vida pessoal e a hist6ria de sua doenca
atual. Pressupos uma reconstitui9ao global da vida do pacien-
te, como urn marco referencial em que a problematica atual se
enquadra e ganha significado".
. A hist6ria de vida do paciente oferece os dados necessa-
fl.OSpar~ que 0 e?~revistador possa chegar as hip6teses de
diagnostico descritivo e psicodinamico. 0 entrevistador co-
loca sua escuta e sua atencao a disposicao do paciente para
acompanhar a ordem em que sao relatados acontecimentos ,
Hist6ria CHnica
A entrevista clfnica e uma tecnica que pode ser estruturada
de.ac.ordocom ,f~rmas diferentes de abordagem, conforme os
~bjetlvos especfficos do entrevistador e de seu referencial te6-
I1CO.OSO?j~tIV~Sde cada tipo de entrevista e que irao determi-
nar estrategias, mterven90es, alcances e Iimites,
. As. e~tr~vistas. d~ triagem, realizadas dentro do enfoque
P~l~odl?~mlCO,objetivarn primordialmente elaborar uma his-
t~na ch~lca, definir hip6teses de diagn6stico descritivo de
dlagn6stlco psicodinamico, de progn6stico e de indi '-
t ~. Ica9aoerapeunca.
Os objetivos
~ssa comu?ica9~~ particular inclui ainda as reacoes
adVln?aS das IdentIflca90es-projetivas cruzadas entre
:ntrevlstador e entrevistado no aqui-agora da entrevista. Esse
angulo ~ferece uma valorizada fonte de informa90es a respeito
d?s sentimentos e dos modelos relacionais prirnitivos do entre-
vistado (ZIMERMAN, 1995).
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a intcralj:ao humana
166
A triagem, como um primeiro filtro, tem a funcao de bus-
car as [nformacoes basicas sobre 0 paciente com 0 objetivo de
Iormular recomenda90es diagn6sticas e terapeutica. Esta tarefa
exige do entrevistador 0 conhecimento das possfveis a~orda-
gens psicotenipicas, bem como de outras formas de atendlmen-
to que possam ser necessarias ao paciente.
a profissional ira emitir sua opiniao acerca da aborda-
gem terapeutica que considera a mai~ adeq~ad~ a ~tua9a.o d~
paciente. Pocera esclarecer a este 0 upo da indicacao: se indi-
vidual, familiar, ambulatorial, consult6rio privado ou em am-
biente hospitalar.
Indica<;ao Terapeutica
Progn6stico
Miranda-Sa Junior (2001) afirma que conhecer epoder pre-
V!.'I'. au seja, ele explica que todo 0 conhecimento presume al-
Ulimaprevisibilidade e explicabilidade, 0 diag.n6stico.e tam-
hem um progn6stico. a autor salienta que os diagn6sticoS de-
vern ser elaborados de maneira a se referirem aos aspectos
1l'llomenicosatuais da enfermidade, incluindo sua etiopatologia
l' (Intecipandoa previsao de sua evolucao-
Ap6s a realizacao do trabalho avaliativo da triagem, e possi-
vel efetuar uma avaliacao progn6stica relativa ao quadro atual
que motivou a busca de atendimento. Braier (1984) menciona
SCI' importante analisar as diversas condicoes diagn6sticas do
paciente (inicio da doenca, tipo de psicopatologia, contexto
sociofamiliar, recursos de ego, grau de motiva~ao e de insight)
para se considerar urn progn6stico como favoravel ou desfavo-
ravel. Acrescenta que e preciso, tambem, verificar 0 contexto
asslstencial quanta as possibilidades terapeuticas que oferece
em seus aspectos temporais, espaciais, equipe de trabalho, etc.
169
h\lItl.1 Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
. A hip6tese psicodinamica refere-se ao diagn6stico que
VIsaentender 0 quanto e como 0 paciente esta doente, como
a~oeceu ~ como a sua doenca 0 serve. Braier (1986) deno-
mma 0 diagnostico dinarnico, realizado a partir de entre-
vistas preliminares, de hip6tese psicodindmica minima ou
precoce. a autor entende que essa hip6tese inicial e urn
esb09? reconstrutivo da hist6ria dinamica do paciente, uma
tentatlv~ de ~ompreensao global de sua psicopatologia que
tende a incluir todas as perturbacoes e potenciais conheci-
dos. A hip6tese dinamica visa explicar os sintomas e os
problemas referidos pelo paciente a luz da teoria. Na ela-
boracao d~ssa hip6tese dinamica breve, 0 entrevistador pro-
cura explicar os conflitos subjacentes ao problema atual
do paciente, especificando as forcas em jogo, as ansieda-
des daf decorrentes, os mecanismos de defesa mobilizados
e os resultantes expressos pelos sintomas. Essa integracao,
no. formato d.e uma compreensao logica e abrangente da
pSlcop.atoiogla do paciente, e indispensavel para que 0
entre~ls~ador tenha condicoes de definir urn progn6stico e
uma indicacao terapeutica com maior precisao e tranquili-
dade. Alern disso, permite que 0 entrevistador possa fazer
uma devolucao diagn6stica, baseado em urn conhecimento
consistente do paciente.
Hip6tese Psicodinamica
adequado. Cordioli (1998) lembra que, para algumas situa-
90es, a psicoterapia pode ser a opcao terapeutica adequa-
da, e~qua~to que para outras e a psicofarmacoterapia, ou a
terapia psicossocial, ou outras formas de tratamento. Ele
adverte ~ue .a indicacao inadequada de uma psicoterapia
pode ser me~lcaz em certas condicoes e eventual mente pode
agravar os smtomas do paciente.
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a intcracao humana168
o nivel de funcionamento corresponde ao grau de contato
que 0 entrevistado rnantem com a realidade em geral. Segundo
Kernberg (1980), 0 exame da realidade po de ser observado pela
capacidade do entrevistado em distinguir os sentimentos como
provenientes de seu mundo interno ou como prove~!en~e de
fora (alucinacoes, ilusoes); pela preservacao da conSClenCla re-
flexiva e do jufzo enrico: pela presenca de pensamentos e afe-
tos apropriados ou nao, bern como pela sua capacidade de
empatizar com 0 entrevistador.
N fvel de Funcionamento
ser observada no contato com 0 paciente pOl'meio da ide~ti-
ficacao de alguns indicadores. Assim, suas respostas as l~-
tervencoes do entrevistador, a consciencia de sua enfe:ffil-
dade, a capacidade de criticar sua situacao de modo flexlvel,
sua possibilidade de trabalhar com varies nfveis de e~p:es-
sao simb6lica, realizando conexoes entre situacoes VIVldas
""'nno passado e os afetos a elas associados e suas conseque -
cias na vida real, a honestidade consigo mesmo, para encon-
trar a verdade sobre sua pr6pria pessoa, a capacida~e de
reviver situacoes dolorosas e cornunica-Iase sua capacldade
de auto-observacao demonstrarao seu grau de insight e de
motivacao.
o entrevistador deve ter em mente que a decisao de procu-
rar urn atendimento, frequentemente, e ambivalente. Ao mes-
mo tempo em que 0 paciente expressa seu desejo de enco~trar
alfvio para 0 seu sofrimento, aparecem oposicoes inconsclen-
tes que dificultam 0 encontro de solucoes mais realistas: ?s
aspectos mais maduros e saudaveis da personalidade do sUJelto
buscarao aliar-se ao entrevistador para se contatar com a doen-
ca. Em contrapartida, as resistencias se opoem a esta alianya,
reforcando a doenca (SANDLER, 1977).
171MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Refere-se a disposicao da pessoa em reconhecer as difi-
culdades psfquicas que prejudicarn seu desenvolvirnento e
suas rela90es, mostrando clara desconformidade diante de-
las. 0 paciente explicita 0 desejo consciente de engajar-se
em urn processo que possa aiuda-lo a fazer mudanr;as em
sua vida, mediante a solucao efetiva de seus problemas. A
disponibilidade em compreender e superar impasses pode
Grau de Motivas:ao e de Insight
Deve ser lembrado de que existern doencas ffsicas que se
fazem acompanhar de sintomas psiquiatricos diffceis de serem
diferenciados de alguns transtomos emocionais. Dessa forma
e indispensavel a busca de esclarecimentos da presenca ou nao
de causas ffsicas, bern como da utilizacao de medicamentos
que possam confundir 0 diagn6stico.
o entre:ist~dor precisa considerar outros aspectos para for-
mular a sua indicacao terapeutica. Ele devera levar em conta as
condir;oes de vida do paciente como seus recursos financeiros
sua disponibilidade de horario, acesso ffsico e apoio familiar:
enfim, levar em conta as necessidades e as possibilidades da
pessoa para que a esta nao seja recomendado urn tipo de atendi-
mento ideal, mas irnpraticavel.
Os elementos necessaries a definicao destas conclusoes
diagn6sticas e terapeuticas sao obtidos pela avaliacao de varies
aspectos do funcionamento do sujeito. 0entrevistador tern, tam-
bern, como objetivo examinar 0 grau de rnotivacao e de insight
o n.fvel ~.~ funcionamenm, os recursos de ego e 0 padra~
soclOfaffilhar. E irnportante assinalar que esta avaliacao e feita
com 0 proposito especffico de conhecer 0 suficiente da situa-
r;~oda pessoa para poder lhe dar urn encaminhamento. Por isso,
tms. aspectos. deverao ser aprofundados no atendimento psico-
16g1COpropnamente dito.
(Con)textos de enrrcvisra. olhares diversos sobre a interacao humana
170
•
•
maneira como 0 entrevistado relaciona-se consigo mesmo e
com suas coisas (normas ngidas, intransigencia, flexibilida-
de ideais realistas ou fantasticos, etc). Zimerman (1999)
enfatiza a importancia dos mandamentos supereg6icos no
psiquismo do paciente, uma vez que com frequencia se apre-
sentam na vida da pessoa em forma de culpa, auto-acusa-
coes, busca inconsciente de punicao, desvalia, etc. .
os mecanismos de defesa principais utilizados pelo pacientc
para fazer [rente as suas ansiedades e aos seus impuls~s.
Deve-se identificar se existe predomfnio do uso de mecarns-
mos mais maduros ou mais regressivos. Estes mecanismos
de defesa pod em ser de dois tipos: as defesas adaptativas
como a repressao, a racionalizacao, anulacao, formacao
reativa, sem distorcaoda realidade e as defesas prirnitivas como
dissociacao, identificacao projetiva, controle, idealizacao, ne-
gacao, com distorcao da realidade (CORDIOLI, 1998); .
a regulacao e as caracteristicas da auto-imagern (desvalori-
zada, grandiosa, hipervalorizada, etc.); .
as relacoes objetais, ou seja, a maneira habitual do entrevista-
do interagir com as pessoas significativas de sua vida. Bellak
e Small (1969) comentam que 0modele de relacao objetal do
paciente sera examinado no que diz respeito a sua qualid~de e
intensidade e aos aspectos manifestos e latentes, a partir da
conduta evidenciada pelo paciente durante as entrevistas elf-
nicas, da hist6ria de suas relacoes interpessoais, de suas fanta-
sias, recordacoes e da contratransferencia. Esse exame f~rne-
ce ao entrevistador informacoes acerca da posicao do paciente
na famflia e nos sistemas sociais, do myel de maturidade das
relacoes objetais, bern como da natureza de suas relacoes
objetais internas. 0 entrevistador obtera urna ideia do tipo de
padrao que 0 entrevistado repete em suas relac;6~s,q~e podera
ser, entre outros, de dependencia, de simbiose, de
sadomasoquismo, de evitacao, de triunfo ou de distanciamento.
•
173M,)nica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Braier (1986) destaca a necessidade de 0 entrevistador ob-
ter uma visao das condicoes eg6icas do paciente. Para tal, bus-
ca avaliar os recursos de ego (aspectos maduros e sadios) que
ele dispoe para fazer frente a sua realidade intema e extema.
No momento da triagem interessa que se indague sobre:
• as funcoes basicas do ego como orientacao, percepcao,
cogmcao, linguagem, afeto e conduta;
• a tolerancia a ansiedade e a frustracao, ou seja, a capaci-
dade de 0paciente enfrentar dificuldades, tolerar perdas e
separacoes;
• a eficacia ou nao no controle e na expressao dos impulsos e
dos afetos, como agressao, sexualidade e ansiedade (pode ser
excessivo ou estar diminufdo);
• a relacao do ego com 0 superego. Interessa ao entrevistador
avaliar a rigidez ou a ineficiencia do superego pOl'meio da
Recursos de Ego
o autor, considerando esses criterios, classifica 0 funcio-
namento psfquico em tres nfveis: neurotico, borderline e
psic6tico. 0 nivel neur6tico caracteriza-se por uma imagem de
si mes~o integrada, adequada diferenciacao de si e do outro,
mecamsmos de defesa maduros, teste da realidade preservado
e sintomas egodist6nicos. No funcionamento borderline nao
ha constancia objetal, encontra-se difusao de identidade, as
imagens do self e dos outros estao dissociadas e nao integradas,
ha falta de capacidade ernpatica, as relacoes de objeto sao cao-
ticas, ha ausencia de controle dos impulsos, baixa tolerancia as
frustrac;:oes, a personalidade e instavel e 0 superego, rfgido. No
funcionamento psic6tico, as imagens do self e dos objetos es-
tao fundidas, predominam a projecao e a identificacao projetiva
como mecanismos de defesa, 0 exarne da realidade esta grave-
mente comprometido e os sintomas sao egosintonicos.
(Con)texcos de cntrevista: olhares diversos sobre a intera~ao humana172
Na fase inicial, a principal funcao do entrevistador e 0 esta-
belecimento da relacao e do contrato de trabalho, que inclui a
coleta dos dados sociodemograficos (nome, idade, profissao,
escolaridade, etc) do entrevistado e as combinacoes acerca dos
encontros, como: objetivos, limites, horarios, duracao aproxi-
mada do processo de triagem e honorarios.
o primeiro contato com 0 entrevistador desempenha um
papel fundamental no tipo de vivencia que 0 pacient~ tera e do
seguimento de seu encaminhamento. Cabe ao entrevlstad?r fa-
cilitar 0 desenvolvimento de urn clima de confianca, por inter-
medic de sua disponibilidade emocional, em receber a deman-
da do paciente, mostrando-se interessado per seus probl~mas e
disposto a the oferecer ajuda. Tambem e tarefa do entrevistador
estar atento para as ansiedades, fantasias e defesas que acom-
panham 0 paciente nesse primeiro momento. 0 paciente, para
fazer frente as ansiedades mobilizadas pelo infcio da entre-
vista, podera utilizar-se de defesas expressas por meio de si-
lencios, ou de perguntas relativas a vida do entrevistador, ou de
comentarios inadequados, ou expressoes de desconfian9a, etc.
Tais manifestacoes se constituem em estrategias utilizadas pelo
entrevistado para enfrentar esse momento e para evitar 0 conta-
to com seus sentimentos e com os fatos a eles associados. 0
entrevistador, considerando as particularidades de cada entre-
vistado, precisara encontrar 0 tipo de intervencao que facilite 0
enfrentamento do paciente destas ansiedades e, assim, prosse-
guir com a entrevista. Evitar pausas e silencios prolongados,
que podem aumentar 0 nivel de ansiedade e de tensao do pacien-
te, pode ser umaestrategia produtiva nesta primeira fase.
A fase intermediaria caracteriza-se por urn periodo de maior
aprofundamento da problematica do paciente. Sullivan (1983)
refere que, primeiramente, ha urn reconhecimento por parte do
entrevistador e do entrevistado da necessidade de identificar
experiencias e formas de sentir que teriam participado da
175
MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
As entrevistas de triagem desencadeiam urn processo cuja
evolucao pode ser observada por meio de fases que apresentam
caracterfsticas e funcoes particulares. Sullivan (1983) cornenta
sobre a existencia de quatro possfveis fases que acompanham
as entrevistas.
A fase inicial e aquela em que habitualmente 0 entrevistador
analisa e discute com 0 paciente as razoes que 0 levaram a pro-
curar atendimento. Nesse momento, e importante que 0 profis-
sional estabeleca urn rapport rapido e claro, explicando ao en-
trevistado os objetivos do encontro. Assim faz com que ele se
sinta valorizado e aceito, favorecendo a construcao de urn vfn-
culo de confianca. Gabbard (1992) sugere que 0 entrevistador
adote uma atitude receptiva de escuta a fim de compreender 0
ponto de vista do paciente de uma forma efetiva e empatica,
participando ativamente da relacao que se estabelece. Sullivan
(1983) enfatiza que os dados essenciais da psicopatologia erner-
gem de uma observacao participativa resultante da interacao
intensa entre entrevistador e paciente.
o processo
A realizacao de uma hlp6tese diagnostica do funcionamento
familiar do paciente e de seu meio ambiente permite que 0
entrevistador verifique como essas situacoes incidem e in-
fluenciam a sua problematica atual. A natureza da dinamica
das relacoes indicara as condicoes da rede de apoio que 0 entre-
vistado conta para sua recuperacao.
Com essas informacoes, 0 entrevistador tera adquirido uma
visao das caracterfsticas de personalidade do paciente, poden-
do considerar a existencia ou nao de patologias de carater.
Padrao Sociofamiliar
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacjio humana174
autor ensina que esse procedimento objetiva fazer 0 paciente
sentir que as suas verbalizacoes foram valorizadas e compreen-
didas; reforca sua motivacao para entender e resolver Sllasdifi-
culdades por meio do tratamento indicado.
A devolucao, alerndos aspectos diagnosticos, precisa con-
templar uma hip6tese progn6stica capaz de tranquilizar 0 pa-
ciente a medida que the e mostrado que existem recursos
terapeuticos capazes de resolver seus sofrimentos ou, pelo me-
nos, ameniza-los.
E importante que 0 entrevistador forneca e explique os pas-
sos futuros ao paciente como marcacao de novas consultas para
iniciar urn processo psicoterapico, encaminhamento para outro
profissional ou outra medida que deva ser tomada.
Na etapa final e dada a oportunidade de a pessoa expressar
seus sentimentos e pensamentos em relacao a experiencia vivi-
da por meio das entrevistas de triagem. 0 entrevistado pode
expressar sua opiniao e seus sentimentos em relacao as conclu-
sees e as recomendacoes do entrevistador.E oportuno ajudar 0
paciente a compreende-las, removendo distorcoes ou fantasias
contraproducentes quanta a elas ou as referentes as suas difi-
culdades e as suas necessidades.
A devolucao dosresultados requer flexibilidade, pois, alem
de transmitir 0 que entendeu do paciente e de sua demanda, 0
entrevistador deve ser capaz de expor alternativas de tratamen-
to. Quando se faz necessario urn encaminhamento, 0
entrevistador deve conhecer os alcances e lirnites dos tratamen-
tos psicoterapicos existentes disponiveis e acessfveis as reais
condicoes do paciente.
Malan (1983) conclui que 0 trabalho do profissional, ao
longo de entrevistas que objetivam avaliar as condicoes do pa-
ciente com vistas a the fazer uma indicacao terapeutica, e com-
plexo e exige algumas maneiras de pensar e de comportar-se.
177MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
formacao de sua personalidade e influenciado em seus compor-
tamentos e relacionamentos. Esta fase e seguida de outra que
visa a investigacao detalhada daquilo que constitui as zonas de
conflito da pessoa, encontrando elos entre as situacoes atuais de
desajuste com outras experiencias que envolvem a historia de
vidapassada do entrevistado.Dessa maneira, a dupla terna opor-
tunidade de esclarecer e aprofundar 0 conhecimento a respeito
da problematica que motivou a consulta e sua repercussao nas
diversas areas da vida atual do paciente. Essa etapa da avaliacao,
alernde oportunizar a coleta de dadosnecessarios para a elabora-
c;:aode hipoteses diagnosticas e para a indicacao terapeutica, co-
labora para que 0 paciente amplie 0 conhecimento de sua aflicao
e obtenha maior consciencia de suas dificuldades.
o entrevistador, porem, nessa fase de investigacao rnais
profunda, nao pode se descuidar da manutencao da alianca te-
rapeutica. Para tal, e irnportante que ele lance mao de algumas
estrategias na tentativa de facilitar a conducao das entrevistas.
A utilizacao, por exemplo, de perguntas abertas, clarificacoes e
recapitulacoes favorecem a fluidez da entrevista e incrementam
a interacao entre 0 entrevistado e 0 entrevistador na tarefa de
analise e investigacao dos conflitos.
A fase final remete a uma retomada do processo de avalia-
c;:aocom 0 intuito de se chegar a urn fecharnento e a uma devo-
Iucao, No momento do encerramento e fundamental que 0 pa-
ciente sinta que 0 encontro foi produtivo e importante. A entre-
vista de devolucao deve ser realizada apos 0 estudo da situacao
do paciente.
Braier (1986) recomenda que 0 entrevistador transmita oral-
mente ao paciente, numa linguagem simples e clara, as impres-
sees gerais a respeito de sua problematica, sem se aprofundar
em demasia. Ele sugere que 0 entrevistador use as interpretacoes
denominadas panorfunicas, pois permitem esbocar de maneira
global, psicodinarnismos subjacentes a situac;:ao-problema.0
(Con) textos de entre vista: olhares diversos sobre a inrera!tao humana176
BELLAK, L. & SMALL, L. Psicoterapia breve y de emergen-
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Referencias bibliograficas
dos tratamentos. A entrevista, diz Tavares (2002), tern 0 poten-
cial de modificar a maneira como 0 paciente percebe sua auto-
estima, seus desejos, seus projetos de vida e suas relacoes sig-
nificativas. Por isso, 0 profissional precisa desenvolver habili-
dades especfficas para realizar essa tarefa. Greenspan e
Greenspan (1983) recomendam que 0 entrevistador treine sua
capacidade de observar, procurando, por meio de uma aprendi-
zagem continuada, aprofundar seus conhecimentos da teoria
psicanalitica e da tecnica de entrevista, desenvolver atitudes
eticas e aprimorar seu autoconhecimento, uma vez que sua per-
sonalidade sera seu principal instrumento de trabalho.
179MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
A entrevista de triagem pode ser considerada urn momento
crucial no diagnostico e no encaminhamento terapeutico em
saiide mental.
Esse primeiro encontro, quando conduzido com competen-
cia e sensibilidade pelo entrevistador, oferece ao entrevistado a
experiencia de ser respeitado, despertando-lhe sentimentos de
confianca e de esperanca de encontrar alfvio para as suas difi-
culdades e sofrimentos. Dalgalarrondo (2000) registra os fre-
qucntes abandonos de muitos services ambulatoriais, ocasio-
nados, algumas vezes, pelas atitudes pouco receptivas ou ne-
gligentesdos profissionais.
Sendo assim, a entrevista de triagem mostra-se iitil, nao s6
pelos fins diagnosticos e de indicacao terapeutica que almeja
alcancar, mas tarnbern pelos efeitos terapeuticos que exerce
sobre os pacientes que se encontram fragilizados e mais favo-
ravels a serem influenciados por uma ajuda. Fiorini (1979) ates-
ta, baseado em sua experiencia clinica, que essa entrevista quan-
do adequadamente conduzida pode desempenhar importante
papel terapeutico, reduzindo 0 grau de desercao no seguimento
A ajuda terapeutica
°autor expoe que 0 entrevistador deve realizar uma avaliacao
clfnica (0 diagn6stico clfnico influenciara 0 progn6stico), deve
pensar psicodinamicamente (identificar as forcas em conflito
no interior do paciente e entre este e 0 seu meio, no presente e
no passado), deve pensar praticamente (os recursos reais e via-
veis do paciente), deve estar atento a entrevista para, por meio
de urn rapport rapido, buscar os dados de que necessita para 0
encaminhamento correto e deve ser sensfvel e habil para trazer
a superffcie as expectativas e apreensoes com que 0 paciente
reage a entrevista e as suas intervencoes,
(Con)textos de cntrevista: olhares diversos sobre a interacao human a178
Entendemos que 0 processo de psicodiagnostico e, sem
diivida, urn dos mais irnportantes diferenciais do trabalho do
psicologo em relacao a outros profissionais. Isso porque, quan-
do bern realizado, pode ser tao terapeutico e esclarecedor para
o paciente quanta 0 pr6prio processo psicoterapico.
A importancia de urn diagn6stico correto e destacado por
Freud (1981) em seu texto 0 Inicio do Tratamento, de 1913.
Nele, 0 autor afirrna que urn erro diagn6stico impoe ao pacien-
te urn esforco imitil no sentido de que ele nos expoe seu rnundo
interno, falando de seus sofrimentos e angiistias e, ao final, dian-
te do erro, podera nao rnais confiar em urn processo psicotera-
peutico que, se levado a cabo, nao alcancara seu objetivo, que e
o da cura.
No mundo atual, em que cada vez mais as pessoas tern side
compreendidas de Lima forma global e nao mais dentro da
dicotomia corpo/mente, fica diffcil para 0 psicologo a tarefa de
chegar a urn diagn6stico que, rnuitas vezes, pode ser rotulante e
avassalador para quem 0 recebe. A questao e que as exigencias
de convenios de saude, locais de trabalho e instituicoes de ensi-
no nos levam a obrigatoriedade de apresentar urn diagn6stico
fechado, preferencialmente com mirnero de registro em c1assi-
ficacoes diagn6sticas intemacionais.
Nao podemos negar que, especialrnente em locais onde 0
trabalho e realizado em equipes multidisciplinares, a necessi-
dade de urn diagn6stico bern especificado se faz necessario ate
LEANlRA KEsSEll CARRASCO
JULlANA RAUSCH POTTER
PSICODIAGN6STICO: RECURSO
DE COMPREENSAo
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(Con) tcxtos de cntrevisra: olhares diversos sobre a intera~llo humana180
A escolha por este tipo de entrevista no psicodiagnostico
se da em funcao do restrito tempo contratado com 0 pacien-
te, seus familiares ou responsaveis tendo infcio, meio e fim
bern delimitados. Por meio dela, os contetidos que seriam
explorados lentamente em urn processo psicoterapico, no
psicodiagn6stico, sao abordados de modo mais contundente e
pontual.
A entrevista sernidirigida e aquela na qual 0 paciente
define 0 palco em que serao apresentadas as cenas de sua
vida, tanto as que evidenciam seus dramas quanto, e prin-
cipalmente, as que evidenciam suas potencialidades. 0 pa-
pel do entrevistador e manter uma escuta apurada, sem que
perea de vista 0 foco de investigacao que leva ao esclareci-
mento da origem da queixa ou sin to rna. Assirn, e 0 pacien-
te, ou seus responsaveis no caso de criancas, que define 0
assunto que deseja falar, e nosso papel e 0 de intervir com
o objetivo de manter a atencao nos pontos que considera-
mos imprescindiveis para esclarecimento e cornpreensao
do paciente.
Por que a entrevista semidirigida?
Na tentativa de caracterizar e diferenciar 0 psicodiagnostico
II, psicoterapia, passamos a utilizar a entrevista semidirigida
ullada com os resultados de aplicacoes de testes psico16gicos-
(''lIes ultimos, ferramentas exclusivas do psicologo. E evidente
que a entre vista sempre e proeminente durante todo 0 processo.
'Irinca (1984) diz que a entrevista ocupa lugar de relevo junta-
mente com a observacao clfnica e a aplicacao de testes psicolo-
gicos. Podemos ate abrir mao dos testes psicologicos, que sem-
pre sao utilizados como formas auxiliarcs das entrevistas e de-
mais tecnicas de investigacao clfnica da personalidade, porem
a entrevista e insubstituivel.
183I "Il.t Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
mesmo por permitir a existencia de uma cornunicacao que ul-
trapassa as diferencas entre as teorias e areas de atuacao de uma
linguagem universal.
Essa situacao ilustra a imensa responsabilidade que temos
ao realizar urn processo psicodiagnostico em uma pessoa. Ao
buscar ajuda, seja encaminhada por outro profissional ou insti-
tuicao, 0 paciente nos delega a responsabilidade de compreen-
der 0 que esta acontecendo e, principalmente, 0 que levou ate a
situacao atual. Para atender essa demanda, e imprescindfvel que
estejamos preparados para tal. Isso exige que devemos buscar
nos instrumentalizar, para que possamos atender, da melhor
forma possfvel, 0 paciente.
lnicialmente 0 papel do psicologo no psicodiagn6stico era
o de satisfazer a demand a de outro profissional, que solicitava
a aplicacao de testes, sem se comprometer no vinculo com 0
paciente. A partir da maior valorizacao da Teoria Psicanalitica
de Freud, a atitude do psicologo mudou. Antes disso, somente
os testes eram valorizados, depois, houve a tentativa de levar
para 0 psicodiagnostico as caracterfsticas do processo psicana-
litico. A entrevista livre se tornou supervalorizada. Em conse-
quencia disso, aconteceu uma aproximacao afetiva e efetiva
entre 0 paciente e 0 psicologo, bern como urn enriquecimento
da compreensao do paciente.
Ao longo do tempo se percebeu que a utilizacao de tes-
tes como unico recurso para 0 psicodiagn6stico nao permi-
tiam urn completo entendimento do indivfduo e nem
tampouco urn vinculo ativo com ele. A entrevista livre tam-
bern descaracterizava 0 proeesso psicodiagnostico, uma vez
que esse metoda nao permite urn limite de tempo. Diante des-
se impasse, houve a necessidade de 0 psicologo repensar sua
posicao quanta ao processo. Podemos notar que essa evolu-
r;ao historica esteve sempre vinculada a uma busca de identi-
dade profissional.
(Con) textos de entrevista:olhares diversos sobre a interacao humana182
Ocampo e Arzeno (1981) caracterizam a entrevista inicial
como uma entrevista semidirigida, uma vez que leva em conta
que esta e uma tecnica que nos permite conhecer exaustiva-
mente 0 paciente ao mesmo tempo ern que nos fornece dados
para 0 levantamento de hip6teses diagn6sticas, como exposto
anteriormente. Porem,nos momentos iniciais da primeira en-
trevista do psicodiagn6stico, estas autoras recomendam a utili-
zacao de uma tecnica diretiva a fim de que possa ocorrer a apre-
sentacao mutua e a realizacao do contrato do psicodiagnostico.
OJU Centro UruvetlltMo KlltCfa II:D
~ Biblioteca
Primeira Entrevista
dificuldade escolar, que aparentemente parece urn sintoma sim-
ples, pode estar encobrindo segredos farniliares como 0 de uma
adccao nao-revelada ou ate mesmo de urn abuso sexual
transgeracional.
Devemos ter sempre em mente que, nos poucos encontros
que temos, sao explorados pontos cruciais das vidas das pessoas,
sem que, necessariamente, elas estejam preparadas para tanto.
Assim, nosso cuidado, sensibilidade e etica devem estar sern-
pre presentes. AMm disso, outro fator que nao pode ser esque-
cido e 0 fato de que somos pessoas completamente estranhas
para aqueles que vern solicitar nossa ajuda. Assim, pode nao
ser tao simples expor sentimentos, situacoes e vivencias tao
intimas para alguern que nao se conhece, mas no qual tern de
confiar. Diante dis so, fica evidente, mais uma vez, nossa res-
ponsabilidade com 0 que escutamos e observamos, alem, e cla-
ro, do preparo tecnico que devemos ter para atender as divers as
demandas.
Nesse sentido, e preciso ter em mente que, no decorrer de
todo 0 processo, somos depositaries de tudo 0 que 0 paciente
trouxer, tanto no que diz respeito a palavra quanto a observa-
<;oese resultados de testes, quando estes forem utilizados.
185Monica Medeiros Korber Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
• '1,-
No entanto, essa entrevista nao deve ser entendida como
fria, distante ou como simplesmente explorat6ria. 0 paciente
deve se sentir atendido ern sua demanda e, ao mesmo tempo,
nao pode se sentir invadido nem desviar processo de seus obje-
tivos iniciais. Cabe ao entrevistador ter 0 cuidado para que a
entrevista tenha sucesso e atinja os resultados esperados dentro
do tempo previsto.
Durante todo 0 procedimento e fundamental a extrema sen-
sibilidade do terapeuta, bern como uma visao que lhe permita
ampliar 0 foco, tirando daquele que foi encaminhado para 0
processo de psicodiagn6stico 0 peso da total responsabilidade
pOI' seu sintoma. A necessidade de ampliacao do foco se faz
ainda mais presente quando tratamos de criancas que estao vin-
do aos consult6rios com cada vez menos idade, em torno de 2 e
3 anos, tendo sobre si 0 peso da responsabilidade pOI' toda a
disfuncionalidade de uma familia.
E importante ressaltar que, ao recebermos 0 paciente para
a realizacao do psicodiagn6stico, os motivos de encaminhamen-
to podem ser similares em sua descricao. POI' exemplo, e co-
mum uma crianca ser encaminhada pOI'problemas de aprendi-
zagem ou ainda, dificuldades de relacionamento, porem, du-
rante a entrevista, ao aprofundarmos tais questoes, observamos
que uma infinidade de possibilidades se revela para auxiliar na
cornpreensao da queixa inicial. Ao examinarrnos atentamente
tais motivos, verificamos que, por tras do motive manifesto,
existe uma diversidade de motivos latentes, que sao impossi-
veis de ser generalizados, uma vez que pertencem a uma pes-
soa que se constitui unica em sua diversidade de processos
psiquicos.
Apesar de, no psicodiagnostico, podermos lancar mao de
tecnicas e recursos das mais divers as teorias, 0 exercfcio de
compreender 0 individuo dentro de seu contexto familiar e
social nao s6 pode, como deve estar sempre presente. Uma
(Con) textos de entrevista: olharcs diversos sobre a interacao humana184
As entrevistas de anamnese podem ser realizadas com 0
pr6prio paciente ou com aqueles que puderem trazer mais in-
formacoes sobre sua hist6ria de vida. Dependendo do caso,
podem ser realizadas entrevistas apenas com os pais e, ainda,
com urn ou outro separadamente. E importante deixar claro que,
no psicodiagn6stico, todas as entrevistas podem ser considera-
das, de alguma forma, anamnese. Isso porque os dados referen-
tes a hist6ria de vida do paciente sao coletados desde a entre-
vista inicial ate a entrevista de devolucao.
Acreditamos que, no decorrer do psicodiagn6stico, as in-
forrnacoes cole tadas nao podem se restringir ao processo
evolutivo do paciente. E imprescindfvel contextualiza-lo em
seu sistema familiar e tarnbem investigar para alem deste. De-
vemos levar em consideracao os contextos social, cullural e
financeiro em que este paciente esta inserido.
Em casos de atendimento a criancas e adolescentes, acredi-
tamos que, antes mesmo da busca de informacoes sobre a his-
t6ria individual do paciente, e necessario conhecermos a histo-
ria da uniao dos pais deste. As informacoes revelam 0 clima
familiar a epoca de seu nascimento e que irao refletir em seu
desenvolvimento biopsicossocial.
Em casos nos quais percebemos a repeticao de situacoes
atraves das geracoes, ou quando ha dificuldade em ativar lem-
brancas ou, ainda, com pessoas extremamente concretas e ate
Entrevistas de anamnese
E importante ter cuidado com 0 esclarecimento do proces-
so para 0 sujeito, explicando-lhe os motivos pelos quais seus
pais ou responsaveis buscararn ajuda. Esses cuidados fazem
com que 0 paciente tenha confianca no psic6Iogo, podendo,
mesmo em urn curto processo, deixar transparecer os motivos
de seu sofrimento psiquico.
187MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Geralmente, 0 primeiro contato e que norteia 0 psicologo
no que se refere a escolha de testes e tecnicas a serem utiliza-
dos com 0 paciente. Tambern e importante que 0 contrato ocu-
pe urn lugar de destaque, pois deve ficar claro para 0 paciente e
seus responsaveis qual sera 0 objetivo do processo. Este con-
trato, ou enquadre, alern do objetivo, deve contemplar 0 mime-
ro de sessoes, seu tempo de duracao, inforrnacoes a respeito de
tecnicas e testes que possam ser utilizados, a questao do sigilo
e, essencialmente, 0 motive pelo qual 0 paciente e/ou seus res-
ponsaveis buscam ajuda.
No caso de criancas e ate mesmo de adolescentes ou adul-
tos que nao possuam condicoes de se responsabilizar por si
proprios, e mais dificil ocorrer uma demanda espontanea do
paciente. Geralmente, sao os pais ou responsaveis que procu-
ram 0 atendimento. Podemos realizar uma entrevista inicial com
aqueles que procuram 0 psicologo para, em urn momento pos-
terior, virmos a conhecer 0 paciente.
Em casos de pais separados, podern ser realizadas entre-
vistas individuais com cada urn, porem com cuidado para que
nao seja demonstrada, por parte do psicologo, preferencia por
este ou aquele, mesmo nos casos em que houve maior empatia
com 0pai ou com a mae. Tambem, devemos deixar elaros, para
ambos e para 0 fiIho, os motivos das entrevistas individuais
para que nao se criem fantasias de possiveis aliancas do avalia-
dol' com urn ou outro.
Para Aberastury (1992), e comum que, nessa entrevista, os
pais esquecam alguns detalhes importantes, sejam muito su-
perficiais e nao falem de algumas informacoes com muita exa-
tidao. Muitos nao conseguem eleger os aspectos que seriam
mais importantes para que 0 psicologo tome conhecimento ou,
ainda, ficam muito angustiados irnaginando que estao sendo
observados e avaliados.
(Con)textos de entrevista: olhares diversos sobre a inreracao humana186
Partindo da definicao de entrevista de devolucao de Ocampo
e Arzeno (1981) que referem ser essa uma "cornunicacao ver-
bal discriminada e dosificada dos resultados do processo"
(p.315), 0 psicologo deve ter a sensibilidade necessaria para
determinar 0 que pode e 0 que nao pode ser dito. Pensamos que
o profissional deve devolver tudo 0 que e possivel aos pacien-
tes que se submeteram ao psicodiagn6stico - bern como a seus
responsaveis, quando for 0 caso - e que venha em beneffcio
deles.
A entrevista dedevolucao e aquela na qual 0 psicologo trans-
mite as pessoas envolvidas no psicodiagn6stico a compreensao
obtida durante 0 processo. Nos casos de criancas, adolescentes
ou aduJtosque nao estejam em condicoes de responder por sell
Devolus:ao
com nossa observacao, sera 0 mais ansiogenico para 0 pacien-
teoDessaforma, nao havera contaminacao da elevacao da ansie-
dade para outras tecnicas,
As entrevistas especfficas para aplicacao de testes nao de-
vern se prolongar, uma vez que isso pode acarretar 0 incremen;
to de ansiedade e fantasias de incurabilidade, por exemplo. E
importante ressaltar que cada paciente, em funcao da queixa
inicial, de sua hist6ria e de suas caractensticas, exige uma bate-
ria de testes adequada. Quando se trata de crianca, pensamos
que, na maior parte dos casos, e melhor utilizar como primeiro
instrumento, a hora de jogo. Essa possibilita 0 incremento da
alianca com tal paciente, e tambem, uma provavel diminuicao
de sua ansiedade, especialmente no caso de ser nosso primeiro
contato com ela.
Ap6s as entrevistas realizadas e os testes aplicados devida-
mente interpretados, poderemos, de posse das informacoes, fi-
nalizar 0 processo com a entrevista de devolucao,
189Monica Medeiros Kother Macedo & Lcanira KesseliCarrasco (Orgs.)
A bateria de testes em urn psicodiagn6stico clfnico e utili-
zada, de acordo com Cunha (2000), por dois motivos: 0 primei-
ro deles refere-se ao fato de que a utilizacao isolada de urn teste
ou uma tecnica nao permite uma avaliacao abrangente e pro-
funda do paciente; 0 segundo motive e que a utilizacao de
varies instrumentos possibilita a intervalidacao dos referidos,
o que resulta em uma menor possibilidade de erro em nossas
inferencias clfnicas.
Assim, em urn processo psicodiagn6stico, a escolha da ba-
teria de testes deve atender as necessidades especfficas de cada
caso, obedecendo a criterios bern definidos. A escolha deve
considerar a idade, 0 sexo, a escolaridade e, especialmente, 0
objetivo do que se quer avaliar. Assim, tambem, devemos res-
peitar as instrucoes para aplicacao, levantamento e interpreta-
~ao constantes no manual dos testes utilizados.
Levando em conta esses princfpios e definida a bateria de
testes, ha que se considerar a ordem de aplicacao dela. Ocampo
e Arzeno (1981) e Cunha (2000) referem a questao da presenca
de ansiedade no paciente que vai ser sujeito de aplicacao des-
ses instrumentos. Na tentativa de minimizar a ansiedade, as
autoras recomendam que a bateria seja iniciada pelos testes grafi-
cos, uma vez que 0material utilizado (papel e lapis) e familiar ao
paciente, intercalando estes com os psicometricos (caso haja
indicacao). Por ultimo deve ser aplicado 0 teste que, de acordo
Entrevistas para aplicacao de testes
mesmo lirnitadas intelectualmente, podemos utilizar 0
genograma como recurso de busca de informacoes. Esse ins-
trumento vern sendo explorado como urn elemento bastante
eficiente em casos de psicodiagn6stico, uma vez que pode pos-
sibilitar urn aprofundamento das informacoes da hist6ria de vida
e tambem das complexas interacoes de seu sistema familiar.
(Conltextos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana188
ABERASTURY, A. Psicanalise da crianca - teoria e tecnica.
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Referencias bibliograficas
com os menos saudaveis. Ao termino desta entrevista, 0 psico-
logo deve dar 0 encaminhamento necessario ao caso.
A entrevista de devolucao configura a tinalizacao de todo
urn processo no qual muitos conteudos foram abordados. Como
psicologos somos depositaries de historias de vida complexas
e sofridas. Muitas vezes passamos a ser guardioes de segredos
que, caso sejam revelados, podem tirar uma farru1ia de sua fun-
cionalidade. Isso evidencia nossa imensa responsabilidade ao
aceitar 0 papeJ de aj uda a uma pessoa ao realizar 0
psicodiagn6stico.
191
Mtillica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
processo, a devolucao deve acontecer em, no maximo, dois
encontros. Quando se tratar de urn adulto que contratou seu
proprio psicodiagn6stico, a entrevista de devolucao e realizada
apenas para ele, de forma individual.
De acordo com 0 momenta de vida do paciente, a devolu-
ctaodeve ser feita de forma diferente. No caso de adolescentes,
pens amos que eles devam receber a devolucao antes de seus
pais, os quais receberao logo ap6s. Entendemos que 0 adoles-
cente merece esta especial atencao justamente considerando 0
momento de vida pelo qual esta passando. Sua presenca na de-
volucao a seus pais e importante para que minimize a possibili-
dade de haver uma dissociacao no sistema familiar. Pelo mes-
mo motivo, entendemos que a crianca deve receber a devolu-
ctao com seus pais.
Para que a entrevista de devolucao seja bem-sucedida, e
imprescindivel que tenhamos urn conhecimento profundo do
caso, uma vez que, sendo esta a ultima entrevista do processo,
devemos ter as respostas para as perguntas iniciais (motivo da
busca) do psicodiagn6stico.
Para a realizacao da entrevista de devolucao e preciso ter
urn roteiro previamente definido, mas que deve ser flexfvel para
atender a demanda das pessoas envolvidas. Devemos inicia-la
retomando 0 motivo do psicodiagn6stico e, a partir dai, paula-
tinamente informar os aspectos adaptativos do paciente e, pos-
teriormente, os menos adaptativos - ou ate pato16gicos, sem-
pre sendo sensiveis a tolerancia das pessoas envolvidas em ou-
vir 0 que esta sendo dito. Ao psicologo cabe fazer a discrimina-
9ao dos aspectos sadios e dos menos sadios do paciente e, de
posse das informacoes de cada situacao, e dele a responsabili-
dade do que pode ou nao ser comunicado.
Entendemos que os aspectos sadios devem ser retomados ao
longo da devolucao uma vez que isto possibilita ao paciente e
seus responsaveis identificar seus aspectos saudaveis para lidar
(Con) tcxtos de entrevlsta: olhares diversos sobre a interacao humana190
PARTE 7
(CON)TEXTOS ESPECIAIS
o profissional da area da Saiide Mental, quando entrevista
uma pessoa, deve ter em mente que esta diante de urn indivfduo
semelhante a ele, mas tambem esta diante de um sujeito dife-
rente com caracterfsticas, peculiaridades e contexto situacional
pr6prio. A sua formacao profissional e a bagagem te6rica serao
fundamentais para nortea-lo a alcancar uma compreensao da
situacao que se apresenta. A procura direta ou indireta de auxf-
lio mostra que ha, de alguma forma, um sofrimento ou uma
situacao mal resolvida que exige do profissional uma acao de
acolhimento, ajuda, compreensao e/ou orientacao que possibi-
lite ao entrevistado encontrar forcas e condicoes para enfrentar
sua problematica.
Entrevistar, indagar, coletar dados, interagir, intervir, escu-
tar nao sao tarefas faceis. Investigar e ouvir hist6rias pessoais
que se expressam na maior parte das vezes por meio de pala-
vras carregadas de dor certamente e urn trabalho arduo que exi-
ge do profissional, alern de cornpetencia, uma atitude de cuida-
do, preocupacao e respeito para com 0 entrevistado.
Na atividadeclfnica,sem dtivida,urn dos principais desafios
e realizar julgamentos clfnicos, de forma segura e profunda, a
respeito do sujeito que se esta avaliando. Entretanto, a verdade
absoluta e algo inatingfvel, principalmente quando se trata da
compreensao do ser humano. Pode-se dizer, entao, que 0julga-
mento clfnico e compatfvel com uma probabilidade alicercada
BLANCA SUSANAGUEVARAWERLANG
MONICA MEDEIROS KOTHER MACEDO
NELSON ASNIS
ENTREVISTAS RETROSPECTIVAS:
AUT6pSIA PSICOL6GICA
E possivel, entao, chegar a compreensae de uma morte por
suicfdio, pOI'rneio de entrevistas ou exames retrospectivos. E~se
tipo de avaliacao tern permitido identificar pistas diretas ou l~-
diretas relacionadas ao comportamento letal que estava por vir,
Pela "aut6psia psico16gica", pode-se compreender os aspectos
psico16gicos de uma morte especffica. Esse recurso, ~ue tern
como finalidade reconstruir a biografia da pessoa falecida, tern
auxiliado legistas (CURPEY, 1969; SHNEIDMAN &FARBEROW, 1969; SELKIN & LOYA, 1979; CLINE &
WILLCOX, 1988) e profissionais da area do direito penal e
clvel (BERMAN, 1993; LITMAN, 1987, 1989; SELKIN, 1994;
JACOBS & KLEIN, 1993; JACOBS & KLEIN-
BENHEIN,1995; ANNON, 1995; SHNEIDM AN , 1999), po-
dendo contribuir tambem para a identificacao de fatores de ris-
co e correlatos sociodemograficos do suicidio.
Talvez seja oportuno lembrar algumas consideracoes de
Freud (1969a), em seu artigo de 1937 - "Construcoes em ana-
lise" -, em que discutiu a tecnica analftica quanta as vicissitu-
des para alcancar uma "verdade" ou para a transforrnacao de
urna conjetura em conviccao. Para isso, comparou 0 trabalho
do arque6logo nas suas escavacfies com 0 do analista, in.ter~r~-
tando 0 paciente em tratarnento. De certa forma, o raciocmto
implfcito pareceria poder se aplicar tambem as di~eren~as ob-
servadas entre as avaliacoes diretas e as retrospectrvas. Segun-
do Freud (1969a), 0 processo de reconstrucrao do analista e pa-
recido com a escavacao do arqueologo. Ambos reconstroem
pOl' meio da "suplementa~ao e da cornbinacao dos restos que
sobreviveram", e os dois "estao sujeitos a muitas das mesmas
dificuldades e fontes de erro" (p.293). Contudo, a diferenca
fundamental e de que 0 material a disposicao do analista "nao e
algo destrufdo, mas algo que ainda esta vivo" (p.293). ~este
sentido, 0 arque6logo trabalha na reconstrucao de objetos,
dos quais, salvo circunstancias especiais, grandes e impor-
tantes partes se perderam. Entretanto, 0 "objeto psfquico",
197
Munica Medeiros Kotber Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
em parametres cientfficos, baseado nos pilares te6ricos, funda-
dos ern hipoteses e observacoes sobre urn determinado mimero
de pessoas, sem esquecer que cada nova demand a desvenda,
tambern, urn novo funcionamento especffico para esse indivi-
duo. No julgarnento clfnico e imprescindfvel constatar 0 que
esta errado ou certo, 0 que esta funcional ou disfuncional, os
sucessos ou insucessos, mas sernpre levando ern conta a indivi-
dualidade, os valores culturais e a liberdade de escolha do su-
jeito em questao. Esse e urn cuidado fundamental que 0 profis-
sional deve ter: saber equilibrar a sua capacidade para detectar
e identificar sinais e sintomas de representatividade clinica sem
perder de vista a sensibilidade de cornpreender 0 que significa
aquele sintorna para quem 0 vive e experiencia. Desta rnaneira,
se a avaliacao direta de urn sujeito ja e uma atividade comple-
xa, 0 que dizer da avaliacao baseada na analise de dados e fatos
circunstanciais (emitidos por terceiros) relacionados a urn de-
terminado individuo, que nao pode se subrneter ao exame dire-
to, pOI' falecimento?
Uma vez que a pessoa morre, enfrentamos a impossibilida-
de concreta de estabelecer urn dialogo com ela. Entretanto, ha
uma maneira cientffica de colher inforrnacoes da vida de urn
falecido, pOI' intermedio de entrevistas retrospectivas. No fim
dos anos cinqiientas, nos Estados Unidos, 0 medico forense
Theodore Curphey, na epoca, chefe do condado de Los Angeles
enfrentou dificuldades em distinguir mortes acidentais das
mortes por suicfdio. Em funcao disso solicitou aos tecnicos do
Centro de Prevencao do Suicidio (CPS) dessa cidade ajuda es-
pecializada para investigar casos de morte duvidosa. Shneidrnan,
Farberow e Litman (1969), como integrantes desse Centro, pas-
saram, a prestar assessoramento aos medicos forenses e em ca-
sos duvidosos realizavam 0 metodo de aut6psia psicologica,
para obter inforrnacoes psicol6gicas valiosas e poder classifi-
car com maior precisao 0 registro de suicidio no certificado de
obito.
(Con)textos de entrcvista: olhares diversos sobre a inreracao humana196
precisando, muitas vezes, explicar 0 fato a sociedade, repre-
sentada, no momento, pelo entrevistador.
A aut6psia psicol6gica e urn procedimento complexo que
tern como finalidade reconstruir a biografia da pessoa falecida
(hist6ria clfnica completa) por meio de entrevistas com tercei-
ros, comumente chamados de inform antes (conjuge, filhos, pais,
amigos, professores, medicos, etc.) e da analise de documentos
(pessoais, policiais, academicos, hospitalares, auto de necropsia,
etc.). Jacobs & Klein (1993) enfatizam que 0 metodo de autop-
sia psicol6gica esta baseado e/ou enfoca 0 elemento que esta
faltando: a intencao do morto em relacao a sua pr6pria morte.
Shneidman, Farberow e Litman (1969) enfatizam que 0 sine
qua non do suicfdio e a intencao de autodestruir-se, e essa in-
tencao pertence ao dominio psicol6gico. As avaliacoes retros-
pectivas possibilitam identificar comunicacoes previas da in-
tencao de se matar do falecido. Assim, sabe-se que 75%
(LITMAN, 1996) ou 90% (SHNEIDMAN, 1994) dos casos
comunicam previamente a intencao suicida a familiares e ami-
gos. Para os estudiosos do suicfdio a intencionalidade parece
ser 0 elemento decis6rio para determinar esse modo de morte.
E necessario, entao, que haja uma pressuposicao ou urn julga-
mento da intencao, que reflita 0 papel do morto na sua pr6pria
morte (WERLANG & BOTEGA, 2002).
Litman (1987,1988) considera, tambern, que 0 essencial
para determinar se uma morte foi por suicidio ou nao e clare~
a intencao da vitima, identificando se a pessoa compreendia
(tinha em mente) que, por meio de seu ate autodestrutivo, aca-
baria com sua existencia ffsica. Afirma que, quando a pr6pria
morte esta sendo usada instrumentalmente para resolver pro-
blemas de vida, estamos diante de urn suicfdio.
A aut6psia psicol6gica busca entao, retrospectivamente,
fazer uma reconstrucao da hist6ria do individuo. A hist6ria,
no seu sentido mais amplo, engloba a hist6ria de morte de
199MOnicaMedeiros Kother Macedo & Lcanira Kesscli Carrasco (Orgs.)
que 0 anaJista busca recuperar, esta com os "elementos essen-
ciais preservados; mesmo coisas que aparentemente estao es-
q.uecidas estao presentes, de alguma maneira em algum lugar, e
simplesrnente foram enterradas e tornadas inacessiveis ao indi-
vfduo " (p.294). Em outras palavras, enquanto a reconstrucao,
para. 0 arqueologo, e 0 objetivo final de seus esforcos, para 0
anahsta e apenas urn trabalho preliminar. Torna-se fundamen-
tal neste processo, a forma como 0 paciente agira sobre 0 ma-
terial recuperado e oferecido a ele a partir da analise. Para Freud
(19?9a), reacoes de piora da sintomatologia do paciente, ao con-
trario do que poderfamos imaginal', estariam a sugerir a adequacao
das construcoes e, ao contrario, a falta de mudanca dele poderia
demonstrar uma possfvel incorrecao da construcao obtida.
No trabalho retrospectivo, a abordagem e urn pouco diver-
sa, porque 0 interesse e de reorganizar aquilo que e lembrado
quanta a vida do objeto de estudo. Da mesma maneira que, no
caso do arque6logo e do analista, existe uma margem de erro
tanto na avaliacao direta como na retrospectiva. Entao, no caso
da avaliacao retrospectiva, a precisao dos dados ainda e mais
duvidosa pela possfvel vulnerabilidade a tendenciosidade tanto
do/s informante/s quanta do entrevistador. Neste ultimo caso
(entrevistador), essa vulnerabilidade sera tanto maior, quanta
men or for a familiaridade do profissional com 0 funcionamen-
to psico16gico normal e pato16gico e a sua sensibilidade a si-
tuacoes clfnicas.
Em funcao disso, varies estudos (RUDESTAM, 1979;
BESKOW et al., 1990; CLARK & HORTON-DEUTSCH
1992; HAWTON et al., 1998) apontam para a necessidade d~
t~'ei?am~nto ~ formacao especial para os entrevistadores (pro-
fissionais da area da satide mental), alern da indispensavel qua-
lificacao e experiencia clinic a, considerando que os informan-
t~s (familiares, amigos ou conhecidos) certamente estao angus-
tiados, culpados, bravos e/ou perplexos a respeito da morte,
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana198
extrema importancia para 0 profissional que precisa emitir urn
parecer e/ou convencer especialmente jufzes e/ou juris de que
o falecido tinha motivo/s para morrer e para faze-lo intencio-
nalmente. Sem a identificacao do/s motivo/s psicossociais, pou-
cas defesas sobre mortes porsuicfdio terao sucesso.
Alern disso, e necessaria a Investigacao de fatores
predisponentes recentes (imediatos), que vao revelar, certamen-
te, fatores estressantes e precipitantes, que permitirao respon-
der a pergunta "0 que aconteceu antes da morte que pode tel'
alguma relacao com 0 fato?" (WERLANG, 2001).
Shneidman (1969, 1981, 1999) sugere, ainda, ser necessa-
rio identificar 0 grau de letalidade (de que a pessoa morreu"),
que e sinonimo de suicidalidade e que e alimentado por urn
estado mental perturbado, por uma dol' psiquica que a vitima
considerou intoleravel. Letalidade seria a possibilidade de urn
indivfduo especffico se matar, ou seja, acabar morto num futu-
ro imediato, hoje, amanha, no proximo dia, mas nao no proxi-
mo mesoE possivel classificar a letalidade como alta quando 0
morto definitivamente queria monel' (intencionalidade) e quan-
do desempenhou urn papel consciente direto em sua propria
morte (letalidade). A morte, entao, e devida ao desejo ou von-
tade abertamente consciente do sujeito de estar morto, concre-
tizado por suas acoes de levar adiante aquele desejo. No grau
de letalidade media, 0morto desempenhou urn papel importan-
te ern efetuar ou apressar sua propria morte, a morte foi devida
em parte a acoes (negligencia consigo mesmo, imprudencia,
descumprimento de regime medico) do morto, nas quais ele
desempenhou algumpapel parcial, coberto ou inconsciente, para
apressar sua propria morte. No grau de letalidade baixa, 0 su-
jeito desempenhou urn papel pequeno, mas nao insignificante,
em efetuar ou apressar sua propria morte; de certa forma e 0
mesmo que a letalidade media, mas num grau muito menor. Ja
na letalidade ausente, 0 sujeito nao desempenhou nenhum
201MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira KesseliCarrasco (Orgs.)
farniliares, eventos psicossociais, ambientais, medicos, psi-
quiatricos, psicol6gicos do sujeito, sua personalidade e estilo
de vida, alem de conteiidos ou indicios psicodinamicos que se
associam com morte (WERLANG, 2001; WERLANG &
BOTEGA, 2002). Informacoes dessa natureza vao dar subsf-
dios para responder a pergunta "Por que?", ou seja, quais erarn
os seus motivos para desejar morrer? Shneidman, ja em 1969,
afirmava que "a aut6psia psicologica nao e nada mais que uma
reconstrucao das motivacoes, da filosofia, da psicodinamica e
das crises existenciais de urn indivfduo " (p.240). Nesse caso,
poderfamos entender motivacao como uma "forca que impul-
siona a pessoa a agir para satisfazer uma necessidade. Implica
urn incentivo ou desejo que influencia a vontade e causa da
a9ao da pessoa" (FREEDMAN, KAPLAN & SADOCK, 1975,
p.2.596).
Motivacao para Werlang e Botega (2002) e urn construto,
explorado exaustivamente pela escola psicanalitica, ainda que
nao exclusiva dessa corrente de pensamento. Trata-se de uma
forca hipotetica, que 6 rcpresentada, "subjetivamente, por pen-
samentos e sentimentos e, objetivarnente, por uma tendencia
para certos tipos de acao" (MACKINNON &MICHELS, 1981
p.64). Uma vez que as motivacoes resultam da interacao de
varies fatores, tanto intrapsfquicos, como familiares e
socioculturais, constituem uma area de diffcil avaliacao, ainda
que de importancia fundamental para uma autopsia psicol6gica.
Cline &Willcox (1988) salientarn que, quando ha 0 encar-
go de provar se uma morte foi por suicidio, alem de demonstrar
a intencao (consciente) do falecido, e fundamental tambem ana-
lisar as caracteristicas psicossociais da vitima, para identificar
o/s motivo/s que, ao longo da vida, auxiliaram a estruturar a
saida suicida. A autopsia psicologica possibilita reconstruir 0
estilo e a historia do falecido, permitindo ao expert determinar
por que a vitima fez 0 que fez. Este aspecto (rnotivacao) e de
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Referencias bibliograficas
Neste sentido evidencia-se 0 aspecto terapeutico da entre-
vista com os familiares ou pessoas pr6ximas ao falecido. Ao
proporcionar que se fale de aspectos referentes a quem morreu,
abre-se, tambem, urn espaco de acolhimento para sentimentos
de dor e, como OCOlTecom frequencia, para escutar e respeitar
sentimentos de raiva ou vergonha daquele que esta vivo.
A entrevista em retrospectiva, alem de possibilitar 0 co-
nhecimento de aspectos fundamentais na compreensao do que
ocorreu com aquele que ja nao esta, quando conduzida por urn
profissional capacitado na tecnica de escutar, abre reais possi-
bilidades terapeuticas e preventivas de novas situacoes de dol'
psiquica, podendo tambem, colaborar para uma melhor elabo-
racao do arduo processo de luto dos que ficaram.
tenham sido, de algum modo, "anunciados" por pistas re-
conhecidas e frequentemente negadas, a mode impoe sua
presenca violenta, drastica, provocando choque e "descren-
ca", gradualmente substitufdas por sentimentos de culpa,
raiva, rejeicao, confusao, que aparecem em graus variados.
203MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
papel em efetuar a sua pr6pria morte. Esta foi devida inteira-
mente a urn ataque de fora do corpo ou a uma falha dentro do
corpo (em urn morto que desejava continuar vivo).
Ha quatro constructos subjacentes a estrategia da aut6psia
psico16gica: fatores estressantes e/ou precipitadores, motiva-
9ao, letalidade e intencionalidade. A motivacao podera ser com-
preendida pela identificacao das razoes psico16gicas para mor-
rer, enraizadas na conduta, no pensamento, no estilo de vida e
na personalidade como urn todo. A avaliacao do grau de luci-
dez, ou seja, do papel consciente do pr6prio indivfduo, no pla-
nejamento, na preparacao e objetivacao da a9ao autodestrutiva,
estabelecera a intencao do sujeito. 0 grau de letalidade sera
medido pela identificacao da escolha do rnetodo. Os fatores
estressantes e/ou precipitadores sao os fatos ou circunstancias
que acionariam 0 ultimo empurrao para 0 suicfdio.
Certamente com a exploracao desses quatro aspectos ou
construtos e possfvel desenvolver uma avaliacao retrospectiva.
A importancia ou contribuicao de estrategia clfnica pode ser
sintetizada em dois nfveis:
a) as entrevistas retrospectivas possibilitam determinar as ca-
racterfsticas psico16gicas do falecido, permitindo nao s6
clarear 0 pr6prio ate do sujeito, distinguindo-o de uma si-
tuacao de hornicfdio ou acidente, mas tambem permitem
contribuir para a identificacao de fatores de risco e correlatos
sociodemograficos do suicfdio e,
b) do ponto de vista clinico, fornece apoio psico16gico com
efeito terapeutico aos sobrevi ventes, em especial, aos fa-
miliares do suicida, auxiliando-os a lidar com uma fase de
grande instabilidade emocional, em funcao do impacto emo-
cional provocado pelo inesperado do acontecimento, pela
mudanca brusca do real cotidiano, posteriormente compli-
cado por tabus socioculturais da rede de apoio social e da
sociedade mais ampla. E, mesmo que alguns suicidios
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(Conltcxtos de entrevista: olhares diversos sobre a tnteracao hurnana204
HA 3.500 anos, a escrita chinesa nasceu como se tivesse
side oriunda de entrevistas com os deuses. 0 rei escrevia suas
perguntas aos deuses sobre urn os so plano por meio do qual
passava urn ferro incandescente cujas ranhuras, produzidas pelo
calor, eram lidas como respostas as questoes (TERZANI, 2005).
Hoje e dito que a nossa e uma "sociedade da entrevista", pois
essa e forma mais usual de se obter informacoes (ATKINSON
& SILVERMAN, 1997). A entrevista e urn metoda atrativo ao
pesquisador, como Denscombe (2003) 0 ve: nao envolve com-
plicado instrumental tecnico e a tecnica basica repousa numa
habilidade que a maior parte dos pesquisadores possuem: a ap-
tidao de conduzir uma conversacao. Entretanto, alerta 0 autor,
a coisa nao e tao simples assim.
A entrevista tern por base a conversacao e como tal e urn
even to social (BLAXTER, HUGHES & TIGHT, 2001), envol-
venda perguntar ou discutir temas com os entrevistados, tecni-
ca mais acessfvel que a observacao ou 0 usc de questionarios; e
e 0 instrumento metodol6gico favorito dos pesquisadores que
utilizam a abordagem qualitativa de coleta e analise de dados
(DENZIN & LINCOLN, 1994), mesmo nao sendo prerrogativa
ou exclusividade destes. Kerlinger (1980), em seu manual de
pesquisa quantitativa, apresenta a entrevista como a maneira
direta de se perguntar a alguem aquilo que se deseja saber.
Introducao
MARIA LUCIA TIELLET NUNES
ENTREVISTA COMO
INSTRUMENTO DE PESQUISA
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(Con}textos de enrrevista: olhares diversos sobre a interacao humana206
Por entrevista semi-estruturada define-se urn conjunto de
temas preparado antes da entrevista para vir a ser explorado
com cada entrevistado. Tal roteiro serve como uma lista basica
de questoes a serem cobertas ao longo da entrevista de modo a
garantir que todos os temas relevantes sejam trabalhados (BELL,
2003). Durante a entrevista, 0 entrevistador adapta tanto a for-
ma de frasear as questoes como a sequencia a formular com
cada entrevistado. Isto e, 0 roteiro de entrevista serve para
orientar 0 entrevistador que, entretanto, tern liberdade de ex-
plorar, experimentar, formular questoes para elucidar, clarear
algum tema ao longo da tarefa que tern a realizar com 0 entre-
vistado (PATTON, 1986).
Essa liberdade perrnite ao entrevistado falar daquilo que
lhe e de significado central, mas em uma estrutura flexfvel que
assegure ao entrevistador que os t6picos considerados
cruciais para 0 estudo sejam cobertos, 0 que se constitui no
Entrevista Semi- Estruturada
reativa e dinamica, tendo em vista que 0pesquisado forma uma
representacao da situacao da pesquisa e das intencoes do pes-
quisador; 0 que ocorre entre ambos e de carater interacional no
sentido de que os comportamentos de ambos guiam a pr6pria
pesquisa, de modo que nao e tao facil separar claramente a con-
tribuicao de urn e de outro; a troca entre eles ocorre numa se-
quencia que nao e estritamente planejada. Segundo, 0 veiculo
pelo qual se comunicam e a linguagem falada, mas as questoes
e respostas nao sao neutras, no sentido de que estao
contextualizadas por urn roteiro de questoes. Terceiro, a entre-
vista mobiliza, em sua concepcao e aplicacao, tecnicas codifi-
cadas e uma forma de relacao social comum a outras atividades
sociais banais, por isso 0 seu carater de conversacao semelhante
- mas distinto - das conversas entre seres humanos, em geral.
209Monica Medeiros Kocher Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
Consoante com a perspectiva do livro, este capitulo discu-
te a entrevista serni-estruturada como procedimento de coleta
de dados. Alem disso, trata tambem da analise de contetido como
metoda de analise de entrevistas. Finaliza com consideracoes
eticas,
A conversacao e a forma mais universal de troca social que,
entretanto, difere da entrevista de pesquisa porque esta se torna
uma conversa mais formalizada e passa a ser mais ancorada em
papeis sociais, tendo como foco 0 interesse da pesquisa. Oob-
jetivo do pesquisador e conhecido: obter falas daqueles que ele
pressupoe capazes de ter 0 que dizer sobre 0 tema de seu proje-
to; do pesquisado, 0 objetivo e menos conhecido: mostrar-se
bem, aprender algo sobre si mesmo, acabar logo com a tarefa.
Tais objetivos distintos levam a uma falta de simetria entre os
envolvidos, tfpica da entrevista de pesquisa (DELHOMME &
MEYER,2002).
Para efeitos de pesquisa, a entrevista serni-estruturada, en-
tao, e uma conversacao - cujas condicoes sao a priori
explicitadase aceitas - com urn interlocutor do pesquisador
que aceita esse principio; 0 pesquisador pergunta e retem seu
pr6prio ponto de vista, e deixa 0 pesquisado livre para organi-
zar sua resposta (DELHOMME &MEYER, 2002).
A entrevista e uma possibilidade de acessar aquilo que uma
pessoa tem em sua mente e que nao e passivel de observacao
direta: pensamentos, sentimentos, intencoes, comportamentos
que ocorreram no passado; ou seja, e possivel, acessar a pers-
pectiva de outra pessoa sobre diversos temas, com 0 pressupos-
to de que essa perspectiva e significativa, passivel de ser co-
nhecida e explicitada (PATTON, 1986).
Para Delhomme e Meyer (2002), a entrevista semi-
estruturada e uma forma de comunicacao direta entre pesquisa-
dor e pesquisado que se mantern ligados ao longo da entrevista
por tres elementos em comum. Primeiro, a comunicacao e
(Con)cexcos de enrrevista. olhares diversos sobre a incera~ao humana208
Para poder conduzir com sucesso a entrevista, Denscombe
(2003) elenca uma serie de atividades. Sao elas; preparar 0 gra-
vador; preparar a colocacao de cadeiras ou poltronas com dis-
tancia 6tima - nem muito perto nem longe demais; iniciar com
uma questao sobre a propria entrevista, de modo a recolocar 0
entrevistado no foco do trabalho e estimular de forma con creta
para a tarefa. Para se certificar que a entrevista esta ocorrendo
no tempo e cobrindo os temas necessaries, 0 entrevistador deve:
estar atento para os pontos trazidos pelo entrevistado, manter-
se capaz de ler nas entrelinhas, cuidar das incoerencias, avaliar
se as respostas estao em tom de desejabilidade social. E, para
finalizar a entrevista, e conveniente perguntar ao entrevistado
se ele deseja tratar mais alguma coisa que pense nao tenha sido
trabalhada; como a entrevista e uma forma de conversacao so-
cial, e uma cortesia de parte do entrevistador agradecer ao en-
trevistado sua participacao.
A conducao da Entrevista
Ainda Delhomme &Meyer (2002) orientam para que a for-
mulacao das questoes envolva frases curtas, claras, simples com
vocabulario preciso e adaptado ao nivel de compreensao do
entrevistado. Alertam para que se formule uma questao de cada
vez - mais de uma deixa 0 entrevistado sem saber a qual res-
ponder; 0 pesquisado deve cuidar para que a questao nao seja
tendenciosa, pois a resposta nao permite que, de fato, se conhe-
ca a percepcao, os pressupostos do entrevistado; 0 uso de exem-
plos pode dificultar ao entrevistado que responda sem ficar preso
ao conteudo do exemplo.
Deve-se evitar 0 uso de termos tecnicos, verbos negativos
ou positivos, pois isso pode orientar a resposta; tambem deve
ser cuidado tanto 0 usc de palavras muito carregadas emocio-
nalmente ou aquelas extremas como nunca, sempre, ninguem.
211MOnica Medeiros Korher Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Perguntar e a maneira mais universal e direta de obter in-
formacoes para compreender 0 que se deseja saber de parte do
pesquisado.
Isso, segundo Delhomme & Meyer (2002), exige que cer-
tas condicoes sejam cumpridas: 0 pesquisado aceita responder
as questoes; compreende as questoes; possui as informacoes
ou e capaz de acessar a memoria para obte-las e esta motivado;
aceita responder sinceramente, e capaz de responder no enqua-
dre previsto pelo pesquisador.
Para que possa responder, 0 pesquisado busca auxflio no
conteiido das questoes, na sequencia com que sao formuladas,
com que vocabulario 0 pesquisador as apresenta, que verbos
emprega; tudo isso sao indicativos que auxiliam 0 pesquisado a
construir uma representacao dos objetivos da pesquisa a qual res-
ponde - daf a importancia da construcao do roteiro da entrevista.
E necessario que 0 pesquisador se ponha atento tanto para
o conteiido das questoes como para sua formulacao. Para que 0
pesquisado tenha condicoes de responder, as questoes preci-
sam ser livres de julgamento de valor ou de atribuicao de cau-
salidade, responsabilidade; as questoes devem conter elemen-
tos que 0 pesquisado conheca ou se dirigir as suas opinioes,
crencas, intencoes comportamentais, ou ainda a declaracao de
comportamentos passados e atuais; podem propiciar ao entre-
vistado uma autodescricao ou a recordacoes de fatos.
A forrnulacao de questoes
ponto 6timo entre 0 continuun de formalidade ou estrutura da
entrevista (completamente estruturada, tipo questionario ou
forrnulario que deve ser respondido verbalmente ou preenchi-
do por escrito) ate entrevista completamente informal ou livre
ou, ainda, nao estruturada (PATrON, 1986; DELHOMME &
MEYER, 2002; BELL, 2003).
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a intcracao humana210
meio de urn processo complexo de passos para alern de uma
leitura superficial. 0 metodo e iitil para processar informacoes
de documentos de comunicacao - verbais e/ou nao verbais -
sejam elas derivadas de entrevistas, gravacoes, videos, depoi-
mentos, entre outros.
Por intermedio de procedimentos de descricao exaustiva e
intensa do conteiido das entrevistas, e possfvel organizar 0 ma-
terial produzido com todo 0 rigor cientffico, transforrnando-o
de material verbalizado em categorias ternaticas, passfveis de
analise e interpretacao. Deste modo, sob 0 esforco da interpre-
tacao, a analise de comeudo pode oscilar entre 0 rigor da obje-
tividade e a fecundidade da subjetividade, como acentua Bardin
(1977), pois 0 pesquisador produz uma especie de
desmascaramento do que e dito, ou 0 que esta subjacente a
mensagem, mesmo nao dito.
o processo permite obter indicadores quantitativos, se isso
for de interesse do pesquisador. Entretanto, na pesquisa de
cunho qualitativo, 0 pesquisador trabalha somente com a or-
ganizacao ternatica do material, quando seu interesse se volta
para 0 estudo das caracterfsticas da mensagem propriamente
dita, seu valor como inforrnacao, as palavras, ideias e os afe-
tos nela expressos, 0 que se denomina de analise tematica
(MORAES, 1998).
A escolha do metodo de analise de contetido se constitui,
juntamente com a analise etnografica, nas abordagens mais re-
conhecidas para trabalhar e analisar dados obtidos a partir de
metodos qualitativos (MORGAN, 1988).
Para realizar uma analise de conteudo, seguindo 0metoda
proposto por Bardin (1977), e necessario organizar 0 material
oriundo das entrevistas por meio de atividades seqiienciais que
se constituem em: pre-analise, exploracao do material, trata-
mento dos resultados, inferencia e interpretacao.
213Monica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
Bardin (1977) desenvolveu urn metoda para a analise dos
contetidos da comunicacao de modo a descreve-los e interpreta-
los em nfvel de apreensao e entendimento dos significados, por
Analise de Conteiido
Valles (2003) lista uma serie de taticas que 0 entrevistador
utiliza para conduzir 0 entrevistado a se manifestar de forma
motivada. Dentre elas e interessante destacar: animar por ges-
tos ou expressoes - hum, hum, sim ... - e auxiliar a elaborar a
verbalizacao - "E entao? ou Ha algo mais que voce gostaria
de dizer sobre isso?". Ou ainda, repetir, sem formular uma
pergunta direta, expressoes do entrevistado, de modo a faze-
10 continuar em sua narrativa. Muitas vezes, 0 entrevistado
precisa recapitular parte do que 0 entrevistado ja falou, bus-
car esclarecimento sobre algo que nao compreendeu ou que
parece contradit6rio. Tambem e necessario saber quando mu-
dar de tema.
Todas essas maneiras de conduzir a entrevista dependem
da capacidade ernpatica do pr6prio entrevistador. Conforme
Denscombe (2003), para obter um born clirna de trabalho numa
entrevista, 0 entrevistador precisa estar atento ao entrevistado,
sensfvel aos seus sentimentos, de modo a forrnular as questoes
e pergunta-Ias sem mobilizar demais 0 entrevistado. Tolera si-
lencios e procede em seu roteiro de temas de forma sutil, sem
que a entrevista se transforme em um interrogatorio. Precisa
tambern usar de sutileza para checar incongruencias e precisa
manter-se livre de fazer julgamentos sobre 0 entrevistado e 0
que ele veicula.
Na realidade, desde seus trabalhos iniciais,vale para 0 tra-
balho de entrevistar 0 que Rogers (1942) propunha para 0
aconselhamento, isto e ser congruente, mostrar aceitacao in-
condicional e empatia.
(Conltextos de entrevista: olharcs diversos sobre a interacao hurnana212
Regra da exaustividade: todos OS elementos do corpus per-
tencem ao conjunto dos materiais a serem analisados e a regra
de nao-seletividade complementa ada exaustividade: nada pode
ficar de fora.
Regra cia representativiclade:na pesquisa qualitativa nao se
trata da representatividade estatistica, mas analitica. A analise
pode se efetuar com poucos participantes, desde que sejam os
sujeitos que possam tratar do tema de interesse da pesquisa; ou
seja, sao buscadas intencionalmente aquelas pessoas cuja inf?r-
macae e necessaria para a compreensao daquilo que a pesquisa
investiga. Quando se trabalha com analise de conteiidoquantita-
tiva, entao, e necessaria a condicao que 0 tratamento estatistico
exige para estabelecer a representatividade estatistica.
Regra da homogeneidade: os materiais devem ser homo-
geneos, isto e, devem ser mantidos criterios precisos de esco-
lha dos materiais; tal regra e necessaria, em especial, quando 0
interesse do pesquisador esta em obter resultados globais ou
comparar entre si os resultados individuais.
Regra de pertinencia: as entrevistas precisam ser adequa-
das como fonte de informacao para que possam dar conta do
objetivo da pesquisa.
Tendo sido trabalhados, e possivelformular hipoteses como
afirmacoes provis6rias a verificar, recorrendo aos procedimen-
tos de analise. Nem sempre as hip6teses sao estabelecidas quan-
do da pre-analise. Tambem nao e obrigat6rio construir hip6te-
ses a priori para se proceder a analise. Algumas analises sao
realizadas sem hip6teses aprioristicas, mas derivam do que vai
surgindo no material.
Com os materiais escolhidos e hip6teses formuladas - ou
na espera de constituir hip6teses a medida que a analise do
material se desenvolve - e tempo de buscar as unidades de con-
tendo. Trata-se de trabalhar 0 texto em recorte, agregacao e
enumeracao das verbalizacoes, por meio do que e possivel
215Monica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
A pre-analise e 0momento de organizacao do material, rea-
lizada por processo aberto e flexfvel composto por atividades
nao estruturadas, nas quais 0 pesquisador tern liberdade no exa-
me das entrevistas, deixando-se invadir por impressoes, por sua
intuicao, de modo a tomar contato, conhecimento das
verbalizacoes dos pesquisados. Entretanto, esse contato deve
levar a tornar operacionais as ideias iniciais, de maneira a
sistematiza-las, conduzi-las a um quadro de referencia que, ainda
que flexfvel,necessita serpreciso. A leituraflutuante (BARDIN,
1977, p. 96), por analogia com a atencao flutuante da Psicana-
lise, permite 0 contato intuitivo e impressionista com as entre-
vistas nesse primeiro momento.
A escolha dos documentos significa que, pela leitura flu-
tuante, pesquisador se dirige para uma ac;aocondutora da cons-
tituicao de urn corpus - 0 conjunto dos documentos para serem
submetidos aos procedimentos da analise de conteiido, obede-
cendo as seguintes regras:
A pre-analise
Para que essas sequencias de tarefas sejam viaveis, as
entrevistas gravadas sao transcritas na integra e as grava-
coes conservadas para manter intacta toda a inforrnacao. 0
pr6prio processo de transcrever as entrevistas, ainda que
demande tempo, possibilita ao pesquisador penetrar nos con-
tetidos daquilo que os entrevistados verbalizaram. Se nao e
o pesquisador que realiza a transcricao, deve conferi-la. E
necessario identificar cada entrevista, de preferencia por
mimero ou pelo nome fictfcio do entrevistado, de modo a
preservar 0 sigilo sobre sua identidade. A partir da escolha
das entrevistas que nao apresentaram problemas tecnicos,
no sentido da gravacao, 0 pesquisador passa a percorrer os
passos preconizados por Bardin (1977).
(Con) texros de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana214
Psiquiatras de Pratica Integrada: Quadro de Categorias Iniciais, Interme-
diarias eFinais sobre Doencas Mentais
CATEGORIA CATEGORIACATEGORIA INICIAL INTERMEDIARIA FINIAL
E um claro continuul1lklmalgama Diferenya entre saude e
E preclso avaliar varlos fatores ccenca mental
Deve-se avatar queixas e sintomas por
criterlos objetivos e subjetivos
E uma questao pluridimensional
E necessario avaliar a intensidade das
exiglincias da vida e a adaptacao do
paciente ao mundo em que vive
Ausencla de sintomas nao Conceito de saude DOENQA MENTAL
necessariamente significa saude mental
o conceito de saude varia nas
diferentes etapas da vida
Saude mental resiste ate certo grau de
exigencias da vida
A doenca tarnbern e um continuum Doenya mental
Quanto mais sintomatologia e queixas,
mais doente
Quanto mais grave a doenca, menor 0
efeito placebo
o esforco da analise e 0 de condensar, e assim obter as cate-
gorias interrnediarias, com 0mesmo processo de buscar ele-
mentos comuns. Mais uma vez, agora as categorias interrne-
diarias sao lidas, relidas e reordenadas, na tentativa de se
conseguir dar origem as categorias finais, conforme a pro-
posta de Bardin (1977).
Para exemplificar, observe-se 0 quadro abaixo desenvolvi-
do por Abuchaim (2000) para os resultados de suas entrevistas
com psiquiatras sobre tratamentos combinados; 0 material e
derivado das entrevistas com aqueles psiquiatras que trabalha-
yam com a perspectiva psicodinamica e que, se necessario,
medicavam 0paciente.
217Monica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Com os recortes efetuados por unidades de registro (ou
unidades de significado ou ainda unidades de sentido), seguin-
do a orientacao de Bardin (1977), e possfvel explorar 0mate-
rial: procedendo a analise propriamente dita, ou seja, transfor-
mando os recortes, pOl'urn processo de agrupamento por seme-
lhanca de significados, em porcoes agrupadas em categorias
iniciais as quais se pode dar urn titulo, caracterizando os ele-
mentos comuns. Ou seja, as unidades sao lidas imimeras vezes
e juntadas aquelas que se aproximam em seu significado. E
necessario agrupar dados considerando a parte comum existen-
te entre eles.
Assim, com urn titulo provisorio estao reunidas unidades
que correspondem a categoria inicial. Para organizar as catego-
rias, 0 criterio pode ser semantico (categorias tematicas, por
exemplo: todos os temas relativos a transferenciai, sintatico
(substantivos e verbos, por exemplo), lexico (por exemplo: si-
nonimos e dos sentidos proxirnos) e/ou expressivo (categorias
que classificam perturbacoes de comportamento, por exemplo).
Desse modo, a categorizacao isola os elementos e os c1assifica,
fornecendo certa organizacao aos materiais.
omaterial de cada categoria inicial e lido e relido de modo
que possa ser reagrupado em categorias mais abrangentes, pois
A Exploracao do Material
obter uma representacao do conteudo do que os entrevistados
verbalizaram. Isso exige "a imersao do pesquisador no corpus
do texto" (GASKELL, 2002, p. 85).
Ao trabalhar com as entrevistas, todo 0material e lido e reli-
do inurneras vezes, sendo necessario marcar 0 texto, escrever
comentarios a rnargem, cortar porcoes do texto e colar em certa
ordem (no computador ou em cartoes ou fichas). Com isso 0
material e preparado para a etapa seguinte - de exploracao.
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a inreracso humans216
As consideracoes eticas envoI vern 0 consentimento infor-
mado, 0 direito a pri vacidade e a protecao contra danos
(DENZIN & LINCOLN, 2003). Embora 0 termo de consenti-
mento nao seja a unica preocupacao etica que 0 pesquisador
deva tel' com sua atividade, no contexto desse capitulo, esse
terna sera privilegiado.
Corn raras excecoes, "a divulgacao de escritos, a transmis-
sao da palavra, ou a publicacao, a exposicao ou a utilizacao da
imagern de uma pessoa ..." (p. 20) necessitam de sua autoriza-
~ao, conforme consta Dos Direitos da Personalidade no C6di-
Consideracoes Eticas
Todo 0 trabalho anterior possibilita que0 pesquisador pos-
sa executar a fase de interpretar os achados. Ao final as catego-
rias construidas sao tratadas sob a perspectiva de inferencia c
interpretacao dos achados, usando-se por base a teoria de esco-
lha. 0 que se busca sao explicacoes para 0 objeto de estudo
investigado. Esse tratamento permite que uma sfntese das en-
trevistas depuradas ern categorias seja apresentada de forma
coerente com 0 referencial te6rico adotado.
Por exernplo, a psicanalise pode ser a teoria de escolha para
explicar os achados de urna pesquisa que usou a analise de con-
teiido como forma de exarninar entrevistas semi-estruturadas.
Essa teoria e vista por Stoller (1993) como excelente ferramen-
ta: "para estudar a subjetividade, n6s ainda nao temos nenhum
instrurnento tao poderoso quanta a psicanalise, a tecnica mais
delicada e incerta, na qual a subjetividade de uma pessoa e
rnedida pela de outra" (p. 9).
o Tratamento dos achados, a inferencia e a. ,..,interpretacao
219Monica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kessell Carrasco (Orgs.)
.... "
~ • " 'V.' I .....';..
Outro exemplo e oriundo da pesquisa de Turkienicz (2003)
sobre como os pais vivenciam a experiencia de ter urn filho
na lista de espera aguardando a possibilidade de ser submeti-
do a transplante hepatico. As entrevistas examinadas por ana-
lise de conteudo possibilitaram a organizacao das seguintes
categorias.
Como categorias finais foram consteladas quatro: os pais e
o transplante do filho; a crianca pre-transplante; 0 hospital e a
equipe medica; a famflia e a rede de apoio. A categoria Os pais
e 0 transplante dofilho foi composta pelas categorias interme-
diarias: ser doador; ter 0 filho na lista de espera; sofrimento
emocional; abandono da vida pessoal dos pais; pai assume os
cuidados; relacao conjugal; relacao dos pais com 0 trabalho;
sobrecarga financeira. A categoria interrnediaria Sofrimento
emocional foi composta pelas categorias iniciais: ter medosl
nao ter medos, susto, inseguranca, preocupacoes, tensao, triste-
za, confusao, dor psfquica, desgaste emocional, agonia, mani-
festacoes ffsicas,
Na analise de conteudo de entrevistas, uma vez que as ca-
tegorias finais tenham side geradas, a partir dos movimentos
aqui explicitados, pode-se produzir urn texto sfntese, descriti-
vo, que diga do conjunto de significados oriundos das divers as
unidades de significado componentes das categorias finais.
Muitas vezes e iitil, em todas as etapas do processo de ana-
lise de conteiido, que 0 pesquisador possa ser acompanhado
por jufzes: de forma simultanea e independente, outros pesqui-
sadores tambem fazem os recortes e buscam as categorias, com
posterior conferencia entre pesquisador e jufzes. Outras vezes,
o pesquisador s6 solicita 0 trabalho de jufzes quando em duvi-
das sobre os recortes ou a alocacao deles em categorias. Com
isso, busca-se a validade da pesquisa e de seus achados, apli-
cando de forma rigorosa as regras de exaustividade,
representatividade, homogeneidade e pertinencia,
(Con) textos de enrrevista: olhares diversos sobre a intera~ao humana218
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rantido pelo C6digo Penal, em seu artigo 154 (Souza, 2003).
Assim, para a realizacao de entrevistas de pesquisa, e impres-
cindfvel 0 consentimento do entrevistado.
o consentimento informado tern por base 0 principio
bioetico do respeito pela pessoa nos seus valores fundamen-
tais, reconhecendo a autonomia do entrevistado (Relat6rio
Belmont, 1978, citado por REICH, 1995).
o uso do termo de consentimento e obrigat6rio na pesqui-
sa e esta regulamentado pelo Ministerio da Saude (BRASIL,
1996) e pelo Conselho Federal de Psicologia (2000).0 uso do
termo de consentimento e para Clotet, Goldim e Francisconi
(2000) uma condicao indispensavel da relacao pesquisador-
pesquisado, explicitando, portanto, atitude eticamente correta.
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interac;ao humana220
(CON)TEXTOS DE INSTITUI~6ES
PARTE 8
MORAES, R. Uma experiencia de pesquisa coletiva: introdu-
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(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana222
Desenvolver 0 tema entrevista psico16gicano ambito esco-
lar leva-nos a pensar na tecnica para cujos aspectos 0 psicologo
precisa estar atento a fim de atingir seus objetivos. No entanto
gostaria de salientar que 0 usc desse importante instrumento de
trabalho do psicologo sofrera profunda influencia da visao que
esse profissional possui do trabalho em escola, do entendimen-
to te6rico que ele faz dessa realidade.
Quero dizer com isso que os pontos que escolherei para
discorrer e as ideias que desenvolverei sobre cada urn deles,
estao impregnados de uma visao em psicologia escolar e uma
pratica, que privilegiou urn entendimento institucional, ou seja,
sempre por meio de cada intervencao, 0 olhar e para 0 todo - as
relacoes que se estabelecem desde direcao, professores,fun-
cionarios, alunos, pais e profissionais da comunidade escolar.
Segundo Fe & Bethencourt (1992),0 objetivo e criar am-
bientes de ensino-aprendizagem mais sadios, com estrategias
que permitam ajustar variaveis do aluno, do professor, da tare-
fa, da farru1iae da escola. Essa perspectiva substitui 0 modelo
de mudancas do sujeito (quase sempre 0 aluno) por outro de
olhar e mudanca sistemicos. Comeco apontando aspectos mais
gerais da entrevista na escola, que fazem parte dos cuidados
que devemos ter no uso da tecnica.
A sala onde sera realizada deve preservar 0 sigilo, ou, no
mfnimo, em funcao da precariedade de alguns ambientes esco-
lares, ser urn lugar reservado, no qual 0 que for conversado nao
seja cornpartilhado. Poltronas ou cadeiras confortaveis, ilumi-
nacao adequada e espaco cornpativel para 0 conforto do
JACQUELINE POERSCH MOREIRA
ENTREVISTA NA ESCOLA
1. Assessoria sistematica ao professor
o psicologo utiliza-se da observacao em todos os contex-
tos pOI'onde 0 aluno circula: a sala de aula, 0 patio, a entrada e
saida da escola, as aulas especializadas (Miisica, Educacao Fi-
sica ...). Com frequencia combinada com 0 professor, reiinem-
se ele e 0 psicologo escolar. E uma entrevista cujo objetivo e
A entrevista psicol6gica no contexto escolar, entao, torna-se
urn dos instrumentos importantes por meio do qual vamos reco-
lher dados fundamentais para 0 entendimento e encarninhamentos
necessaries. Essa intervencao e urna rotina do trabalho do psicolo-
go que acompanha 0 processo de ensino-aprendizagem. A rotina a
qual me refiro e aquela que passa pela formulacao de uma "quei-
xa", termo que coloco entre aspas, e que nada mais e do que uma
preocupacao referida por um professor a respeito do processo de
um aluno considerando sua aprendizagem e/ou relacionamento com
colegas e professores.
o psicologo que recebe esta "queixa" e aquele que circula
entre os alunos e professores, fazendo suas observacoes atentas e
que nesse momenta tambem utilizara a entrevista para compor seu
entendimento e planejamento da continuidade do processo.
A entrevista psicol6gica, propriamente dita, sera realizada com
quem esta diretamente implicado na "queixa" - 0 aluno. Confonne
a faixa etaria dele a conducao do processo e os recursos utilizados
poderao variar atendendo as particularidades de cada situacao.
Na educacao infantil (2 a 6 anos) uma caracterfstica observada
refere-se ao fato de as criancas dificilmente solicitarem algum mo-
menta com 0 psicologo. Ja no ensino fundamental (7 a 14 anos), 0
aluno pode alem de ser chamado pelos professores, procurar espon-
tanearnente por ajuda. 0 processo de diagn6stico implicara momen-
tos com os pais e professores, bern como com profissionais de fora
da escola, quando necessario. Podemos ressaltar aqui uma linha para
a intervencao, ordenada propositalmente da seguinte forma:
227MOnicaMedeiros Kocher Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
o trabalho do psicologo escolar mais do que proporcio-
nar mudancas pessoais aspira influir sobre a estrutura, 0 con-
texto e 0 desenvolvimento de professores e alunos, bern como
de administradores, pais e outros profissionais da comuni-
dade educativa, otimizando 0 processo e os resultados do
ensino-aprendizagem (FE & BETHENCOURT, 1992);
entrevistador e entrevistado(s) seria 0 ideal. Os recursos a dis-
posicao podem incluir brinquedos, material para desenho e
sucata.
A conducao mais adequada em escola, tendo em vista os
objeti vos do trabalho preventivo e pontual e a semidirigida, re-
ceptiva e participativa, ou seja, quem e chamado ou procura 0
psicologo escolar, traz ansiedade, nao esta procurando trata-
mento emocional e, muitas vezes, tera somente aquele momen-
to com 0 profissional de saiide. Por isso, a atitude de recep-
tividade, empatia e fundamental para que possamos atingir os
objetivos. Epreciso proporcionar momentos de livre expressao
de sentimentos e situacoes, direcionando tambern para 0 foco e
objetivo do encontro.
Ha urn roteiro que sempre orienta a entrevista na escola:
1) Esclarecer objetivos e tempo de duracao do encontro, bern
como quem e 0 entrevistador.
2) Collier dados, incentivar a expressao de sentimentos e per-
cepcoes.
3) Fornecer informacoes e observacoes que a escola possui.
4) Dar orientacoes (aconselhamento).
5) Encaminhar para atendimento com profissionais de fora da
escola (psicologo clfnico, medicos de varias especialida-
des - psiquiatra, pediatra, neuro]ogista (citando os mais fre-
quentes), fonoaudiologo, psicopedagogo). Claro que esta
etapa pode ou nao ocorrer, conforme a necessidade.
6) Planejar a continuidade do processo de acompanhamento
da situacao escolar especffica,
(Con)textos de entrevista: olhares diversos sobre a inreracao humana226
Psicologa Professora
Atcnciosamente
Solicitamos seu comparecimento para uma
entrevista dia as h, 11asala ..
Srs. Pais ou Responsaveis
2. Entrevista com os pais ou responsaveis
o convite para comparecimento deve ser claro e objetivo,
dentro do seguinte formato:
Na entrevista com os pais, a psicologa pede ouvir a hist6-
ria do aluno. Essa professora se mobilizou e entendeu aspectos
do comportamento dele, passando a aproxirnar-se de forma
menos resistente e mais receptiva (Processo "Volte"). A ideia
desenvolvida, aqui, tenta indicar que as entrevistas psico16gi-
cas estao inseridas num movimento muito dinamico e circular
e nao estatico e linear.
A questao preventiva e de trabalho com os recursos inter-
nos do professor promove a confianca pessoal e profissionai,
ajudando-o a identificar as fontes de conflito e oferecendo-lhe
apoio (FE & BETHENCOURT, 1992).
A assessoria tambem e utilizada com os dirigentes da insti-
tuicao de ensino com 0 mesmo enfoque: pensar a pratica no pa-
pel desempenbado e manter-se nele com mais satide emocional.
o processo de assessoria muitas vezes encaminha-se para
a necessidade de que 0profissional professor e/ou direcao pro-
cure psicoterapia individual, 0 que e discutido com 0 psic61ogo
escolar que pode ajudar muito nos argumentos que utiliza para
o encaminhamento.
229MOnica Medeiros Kother Macedo & Leanira KessellCarrasco (Orgs.)
acompanhar 0 trabalho deste professor. Segundo Fe e
Bethencourt (1992), e urn processo colaborativo de resolucao
de problemas entre urn especialista em saiide mental e outra
pessoa que tambem e responsavel por algum tipo de ajuda. Tra-
ta-se de uma relacao voluntaria entre profissionais de campos
diversos que se ajudam em seu exercfcio profissional.
Aqui se salientam aspectos compreensivos para com 0 pro-
fessor e para com 0 grupo e tracam-se caminhos.
E 0 processo de "Pense e volte" que Terezinha L. de
Albuquerque (1986) desenvolveu e relatou em seu trabalho de
acompanharnento psicologico a professores, ou seja, 0 profis-
sional da sala de aula reflete na assessoria e retorna ao contato
com os seus alunos.
Sugiro que essa entrevista parta sempre da visao que 0pro-
fessor possui do grupo de alunos, passando a seguir, para a ob-
servacao mais individual com relacao aos que chamam a aten-
<;aoou preocupam. Geralmente 0 psicologo examina com 0 pro-
fessor os alunos no que se refere a relacionamento com colegas
e adultos, aspectos de compreensao geral, tolerancia a frustra-
cao, atitudes com relacao a limites e desafios lancados e
potencialidades. Enfoca-se, nesses momentos, 0 processo de
auto-avaliacao do professor e a capacidade de reflexao, critica
e acao diante das situacoes da rotina em aula.
Assim 0 professor retorna da assessorla, tendo discutido
sua relacao com 0 grupo e pensado estrategias de intervencao,
bern como tendo se preparado para elas.
Como exemplo, cito 0 caso de urn aluno de 7 anos (111 serie
do Ensino Fundamental) que se apresentava muito agressivo e
agitado em aula. A professora "nao sabia mais 0 que fazer". Na
assessoria discutiu com a psicologa, 0 que ja havia tentado e
seus sentimentos com relacao ao aluno - sua tolerancia estava
muitopequena, com capacidade diminuida de aproximacaomais
afetiva (Processo "Pense").
(Con)textos de entrevista: olharcsdiversos sobre a interacao human a228
Uma conducao segura e adequada para 0 encaminhamento
e fator altamente necessario e importante em termos de preven-
~ao. Para quem enearninhar? 0 psicologo deve construir urn
material em que possa buscar a cada caso 0 profissional mais
indieado, em termos de eonduta eticarnente adequada e compe-
tencia te6rica e de relacionarnento, ate mesmo com a escola. A
responsabilidade do encaminhamento tambern e do profissio-
nal da escola.
Pode oeorrer que a familia demonstre resistencra na aceita-
~ao da necessidade de procura por urn profissional. 0 tema,
entao, deve continuar a ser trabalhado em novas entrevistas,
sempre com argumentos bern fundamentados na observas:ao e
no aeompanhamento que 0 psicologo escolar faz.
Concluindo, quanta mais 0 psicologo eseolar e observado
e sentido como profissional de apoio e esclarecimento nas ques-
toes de desenvolvimento pessoal, mais sera eonsultado pol' pais
Benjamin (1978) & Scheffer (1976) desenvolvem a ideia
de aconselhamento como urn momento preventivo, de apoio,
voltado para a solucao de problemas.
• 0 carninho, a partir do processo de aconselhamento aos
pais, sera 0 de combinar urna continuidade de acompanha-
mento das situacoes levantadas, e 0 de manter um canal
aberto de comunicacao entre professor, psicologo, pais,para
que 0 trabalho continue integrado. Tanto pais podem soli-
citar entrevistas posteriores como a escola pode chama-los
novamente.
• Ao longo dessa entrevista psicol6gica, pode ficar clara a
necessidade de uma avalia9aomais especializadae profunda
com profissional medico ou psicologo clfnico ou
psicopedagogo ou fonoaudiologo conforme sintomas que
sejam observados na escola e em casa e que nao caracteri-
zem mais crises situacionais.
23 L
MOnicaMedeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
•
•
•
Os pais ou responsaveis costumam chegar ansiosos e ques-
tionando qual e a "queixa" que temos do filho. 0 objetivo e
trabalhar no sentido de criar urn ambiente de conforto e
compreensao, evitando 0 relate de caractensticas ou pro-
blemas do aluno, no infcio da entrevista.
E uma oportunidade de ouvir e conhecer a realidade da fa-
milia desse aluno e, portanto, conhece-Io bern mais.
Deixar que eles falem e, ap6s, t:razer0 que observamos na
escoJa.Aqui,0psicologo,que acompanhaa :rotinadesse aluno
em varies contextos, e 0 professor fazem suas colocacoes,
valorizando sempre as comperencias e potencialidades apro-
veitando, ainda, para relatar as preocupacoes.
Essa entrevista tambem ternurn enfoque de aconselhamento
e entendimento sistemico. Podemos observar urn funcio-
namento familiar que sugira pontos entices do processo de
desenvolvirnento que requeiram orientacoes objetivas, ba-
seadas em questoes mais conscientes, de manejo dos pais e
oportunidade de faze-los pensar sobre 0 filho e avaliarem-
se no papel que desempenham.
•
Conforme 0 enfoque de trabalho do psicologo, esse convi-
te sera elaborado e a entrevista sera conduzida. Parece bastante
apropriado e produtivo que urn professor que participa de urn
processo de assessoria sistematica possa estar presente na en-
trevista. Ele sera trabalhado em termos de postura, sigilo e tera
condicoes de acompanhar 0 momento conduzido pelo psicolo-
go, com chances de observar, ouvir e participar do processo de
diagn6stico e manejo da situacao tratada ali. Uma das vanta-
gens e a compreensao maior e a possibilidade de ir ampliando
sua visao, tanto com 0 aluno em questao, como para todos os
outros desafios de seu papel. E uma entrevista conduzida con-
forme 0 roteiro sugestao descrito anteriormcntc.
Podemos ressaltar, no entanto, alguns pontos de atencao
do psicologo nessa entrevista:
(Conjtextos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana230
s. Outras entrevistas em escola
Profissionais que exereem papel importante no funcio-
namento das eseolas - auxiliares de limpeza, segurancas,
4. Entrevista com profissionais que acompanham alunos
fora da escoIa
Cada vez mais os recursos para avaliar e intervir em ques-
toes de desenvolvimento individual e/ou familiar auxiliam no
processo de crescimento de nossos alunos.
Em muitas ocasioes, famflias procuram por conta propria
a avaliacao de profissionais para tratamento e alfvio de difi-
culdades, ansiedades e acompanhamento de situacoes que
podem fazer parte do cicIo vital (separacao, motte, doencas
graves, etc).
A escola, atenta a isso, tanto estara aberta ao contato com
estes profissionais como sera 0 palco de explicitacao de difi-
culdades que muitas vezes a farru1iaainda nao percebeu. Nesse
sentido, como ja tratado anteriormente, fara 0 encatninhamen-
to responsavel e consequentemente recebera 0 profissional para
entrevista.
Esse momento sera considerado uma discussao, uma
integracao e urn acompanhamento com sugestoes de manejo
por parte do profissional e explicitacao de tudo 0 que oeorre na
escola, por parte do psicologo escolar. 0 professor podera ser
eonvidado para a entrevista, 0 que mais uma vez possibilitara a
explanacao de preocupacoes e principalmente de compreensao
mais aprofundada da situacao do aluno/familia.
Cada situacao, apesar de seguir questoes de manejo que
estao sendo levantadas para a entrevista psicologica, sera ava-
liada conforme as percepcoes do psicologo escolar em contato
com 0 caso.
233Monica Medeiros Kocher Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
3. Entrevista com 0 aluno
A entrevista podera ocorrer em momentos variados do pro-
cesso de acompanhamento psicopedagogico e, tambern, utili-
zar recursos conforme a idade do aluno. Com os menores
brinquedos e desenho livre revel am elementos que compoem
o diagnostico. A conducao e semidirigida com 0 objetivo de
colher inforrnacoes, observar mais de perto e fazer 0
aconselhamento. 0 papel do entrevistador e ativo no sentido de
trabalhar com aspectos mais conscientes do aluno e centraliza-
se nas potencialidades e na saiide emocional do entrevistado.
Saber ouvir, numa atitude de compreensao e aceitacao plena, e
a conduta mais preventiva.
Os alunos da educacao infantil dificilmente procuram 0
psicologo para entrevistas. Ja os de ensino fundamental e me-
dio utilizam a sala do psicologo para "desabafar", reclamar de
colegas e/ou professores e comportam-se necessitando de ali-
via imediato pat'a suas duvidas e dores. Se 0 profissional costu-
rna circular entre os alunos, e mais conhecido, sera acionado
com maior facilidade para participar do processo; do contrario,
seraprocurado ou indicado como solucionador de conflitos mais
graves, 0 que nao e considerado ideal em termos de trabalho
em escola.
Muitos alunos transformam em rotina, pOI'breve perfodo,
encontros com 0 psicologo. Quando e percebido que ha maior
necessidade em ser ouvido e/ou orientado em algumas ques-
toes pessoais, faz-se 0 encaminhamento para psicoterapia, 0
que pode implicar entrevistas com pais.
que espontaneamente 0 procuram, no sentido de minimizar an-
siedades pertinentes ao papel que exercem. A conducao da en-
trevista psicologica nestes casos e ouvir 0motivo da procura e
orientar os pais (Aconselhamento).
(Con) textos de enrrevista: olhares diversos sobre a intera~ao humana232
ALBUQUERQUE. T. L.Psicologia e Educacdo - acompanha-
mento psicol6gico a professora. Artmed, 1986.
BASSEDAS, Eulalia e cols. Intervencdo educativa e diagnos-
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Bibliografia consultada
235Monica Medeiros Kother Macedo & Leanira KesseliCarrasco (Orgs.)
FE & BETTENCOURT. Psicologia Escolar. Espanha. Ed.
Civicel, 1992.
Referenda bibliografica
funcionarios de secretaria, portaria, telefonia, xerox, biblioteca
e disciplina - participam quando chamados ou por procura es-
pontanea, de entrevistas psicologicas. 0 psic61ogo escolar com
nfvel de intervencao preventivo acompanhara 0 exercicio de
cada urn desses profissionais em suas funcoes, 0 que implica
questoes ligadas ao trabalho e a acontecimentos e vivencias
particulares. Tais entrevistas sao conduzidas de forma a ouvir
as colocacoes e orientar no sentido de maior emelhor adapta-
c;aodesse funcionario a seu trabalho.
Muitos psic61ogos escolares participam dos processos de
selecao destes funcionarios e professores. A entrevista, nesses
casos, sera norteada como em empresa, capitulo que faz parte
deste livro.
Concluindo, chama a atencao para a amplitude de visao,
com consequente intervencao, que 0 psicologo escolar preci-
sa ter. E 0 uso de uma tecnica a service de urn trabalho dina-
mico, cuidadoso, responsavel, conduzido com atitudes etica-
mente adequadas, que atinge pessoas em desenvolvimento e
que talvez tenham, na sua vivencia em escola, a iinica oportu-
nidade de troca com urn profissional de saude mental, que
podera auxilia-Io em questoes fundamentais de sua vida pes-
soal e profissional.
o maior reconhecimento que urn psic6logo escolar pode
ter, mesmo nao atuando como clfnico, e a avaliacao por parte
de aluno, professor, farru1iaou funcionario de que uma atitude,
palavra ou encaminhamento seu fez a diferenca para uma des-
coberta, rnudanca ou para 0 crescimento pessoal significativo.
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana234
Para 0 entendimento da tecnica de entrevista institucional
sao necessarias algumas consideracoes sobre Instituicao, sobre
PsicologiaInstitucional c sobre 0 papel do profissional nessa {u·ea.
Instituicoes sao normas e valores (nao-fixos, transformam-
se ao longo da hist6ria e definem os padroes de comportamento
aceitos socialmente) que caracterizam 0 funcionamento da so-
ciedade e garantem sua reproducao. Ex.: familia, educacao, tra-
balho, religiao ....
Isabel Menzies Lyth (1991 in Spillius, 1990), no seu traba-
lho "Uma perspectiva psicanalitica nas instituicoes sociais", diz
que as instituicoes sociais surgem atraves dos esforcos dos se-
res humanos em satisfazerem suas necessidades, mas, a partir
dai, tornam-se realidades extemas - relativamente independen-
tes dos indivfduos - que afetam a estrutura deles.
A instituicao e a manifestacao e concretizacao da realidade
da vida em sociedade. Nao precis a de estabelecimento para
existir, mas sempre se estabelece, cria regras, c6digoS,
ideologias, imp6e costumes, premios e punicoes, transmite
valores e estabelece limites. Produz coisas ou pessoas, mas
tambem protege, da garantias, alimenta egos e ilus6es e serve
como projecao para as fraquezas e anseios da alma human=
Eo espac;:ode mediacao entre a vida individual e a coletiva
(NASCIUTII 2000 in CAMPOS, 2000 p. 110)
Na instituicao, 0 individuo depara-se com normas, tarefas
e exigencias a cumprir, papeis e funcoes determinadas; e urn
encontro com urn "pequeno mundo pronto", no qual precis ani
viver e conviver. .. e, ao mesmo tempo, uma necessidade de re-
conhecimento por sua singularidade, uma busca de realizayao
DULCE HELENA AGUILAR BALDO
A ENTREVISTA INSTITUCIONAL
mantidos juntos de uma maneira muitas vezes inextricavel. A
execucao dessa tarefa e deduzida a partir do diagn6stico que
busca entender dinamicamente a instituicao, detectar suas ne-
cessidades para estabelecer as prioridades de a9ao. Nesse con-
texto, e importante 0 psicologo ter urn papel de assessor, con-
sultor da instituicao para, a partir de uma demanda, poder de-
duzir sua tarefa de avaliacao propria e de sua tecnica na insti-
tuicao. Como assessor ou consultor e possivel uma distancia
otima, com independencia econornica e profissional, que e ba-
sica no manejo tecnico das msutuicoes.
o trabalho da psicologia institucional fundamenta-se den-
tro do exposto e com alguns objetivos especificos. Em relacao
a instituicao busca-se:
• realizar urn trabalhopreventivo, visando amelhoria da saude
mental de seus integrantes;
• auxiliar a instituicao na ampliacao da percepcao de seus
esquemas de a9ao, levando a revisao e modificacao de con-
dutas e pautas de funcionamento esteriotipadas;
• propiciar momentos de reflexao aos integrantes da institui-
9ao de diferentes niveis hierarquicos, ampliando sua cons-
ciencia dentro da realidade na qual estao inseridos, bern
como dos papeis par eles desempenhados neste contexte;
• promover 0 desenvolvimento e enriquecimento da perso-
nalidade, por meio de aspectos sadios do ego;
• colaborar para baixar 0 nivel de ansiedade despertada pela
tarefa a fim de que as equipes de trabalho possam ligar-se
adequadamente a rotina diaria ampliando seus esquemas
de pensar, sentir e agir;
• desenvolver com os integrantes da instituicao a capacidade
de efetuar vinculos sadios nos diferentes momentos e pa-
peis vivenciados;
• trabalhar com asdiversas areas e/ou setores,visando amaior
integracao entre as partes e com a totalidade da instituicao,
239Monica Medeiros Korber Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
dos objetivos individuais. Eo encontro do coletivo social (re-
gras, leis, papeis) com os diferentes indivfduos (diferentes ne-
cessidades e desejos - conscientes e/ou inconscientes). Portan-
to viver coletivamente implica instituir-se em grupos e institui-
coes, dividir papeis, trabalho e conviver com diferencas, hie-
rarquias e relacoes de poder e, nesse contexto, os processos
individuais (conscientes e inconscientes) sao considerados ten-
do 0 mesmo grau de importancia que os processos sociais.
Os indivfduos organizam-se nas instituicoes, buscando sa-
tisfazer suas necessidades de gratificacao psico16gicae social e
se defender das ansiedades.As relacoes que se estabelecem entre
indivfduo-organizacao, indivfduo-indivfduo, individuo-grupo,
grupo-instituicao propiciam a instituicao se constituir num sis-
tema de defesa social contra as ansiedades primitivas. E 0 am-
bito que contem a dinamica dessas relacoes e 0 institucional.
A Psicologia Institucional, entao,
abarca 0 conjunto de organisrnos de existencia ffsica e
concreta,que ternurncertograude permanenciaem algurn
campo ou setor especfficoda atividadeou vida hurnana,
para estudarnelestodosos fenomenoshurnanosque se dao
em relacao a estrutura, dinamica, funcoes e objetivos da
instituicao (BLEGER, 2000. p. 37).
ometoda de trabalho e 0 clinico no enquadramento psica-
nalitico de acordo com as necessidades da instituicao e seus
problemas; esta caracterizado por dois principios inter-relacio-
nados: a tarefa empreendida e compreendida em funcao da uni-
dade e totalidade da instituicao e 0 psicologo deve diferenciar a
psicologia institucional e 0 trabalho psicologico.
No trabalho institucional, 0 foco e a instituicao como urn
todo; mesmo que intervindo em uma parte dela, a a9ao sempre
se da em funcao da totalidade, da relacao entre as partes para 0
bornrelacionamento do todo.Deve ser entendida como urn "todo
vivo", como uma multiplicidade de varies espacos heterogeneos
(Con) texros de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana238
Para a execucao desse trabalho, 0 primeiro passo do psic6-
logo e a formacao de vfnculos com as equipes eo estabeleci-
mento do enquadre do trabalho, porern, nessa construcao, se-
guidas vezes surgem algumas resistencias e ansiedades mobili-
zadas pela entrada do profissional. As vezes, 0 psic6logo e vis-
to como ameacador e invasivo, e os funcionarios resistem a
falar ou a se aproximar, fantasiando que a psicologia tern uma
funcao de controle ou e urn canal de coleta de informacoes a
service de nfveis hierarquicos superiores. Tambem se percebe
no processo de insercao, pela observacao participativa, que pode
existir uma certa ambivalencia da instituicao em relacao a Psi-
cologia, pois, ao mesmo tempo em que solicita 0 acompanha-
mento, quando esse inicia, resguarda-se, parecendo querer se
afastar de pensar e comprometer-se com 0 processo de cresci-
mento e possiveis mudancas,
No papel de assessor, busca-se tambem facilitar 0 proces-
so de tomada de consciencia, em que os funcionarios possam
ser seus pr6prios agentes de mudancas; para isso, procura-se
nao dar respostas prontas aos questionamentos e ansiedades e,
sim, ser continentes com tais sentimentos e "pensar junto" com
o funcionario, deixando claro que 0 objetivo e facilitar a tarefa
e todas as mobilizacoes causadas por ela (sentimentos, rela-90es, mudancas ...), sem tomar partido ou ficar ao lado de algu-
rna instancia ou nfvel hierarquico, assim como tambem nao
participar dos processos decis6rios de admissao ou demissao
de funcionarios.
Em virtude dis so, e preciso "retomar" sempre 0 enqua-
dre, a relacao de confianca e, a partir de pressupostos eticos
e do trabalho sigiloso, 0 objetivo principal, como ja foi ex-
posto, e procurar facilitar ao maximo as relacoes das equi-
pes, nos diferentes papeis que exercem, com a tarefa e com
a instituicao, para que esta atinja seus objetivos da melhor
forma possivel.
241Monica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Por intermedio desses momentos, com enfoque basica-
mente grupal, e possfvel compreender os objetivos e senti-
mentos das diferentes "partes" e encaminhar os conteiidos
surgidos aos canais competentes, objetivando promover mu-
dancas na instituicao e romper com as estruturas estereotipa-
das e pouco criativas.
•
•
observaciio geral da instituiciio como tecnica basica para
o entendimento da realidade na qual se esta inserido que
consiste em contatos continuos com os diferentes seto-
res e/ou areas conforme a demand a, visando perceber e
assessorar os grupos no seu funcionamento rotineiro, em
seu pr6prio local de trabalho; ao mesmo tempo, pela ob-
servacao participativa, e possfvel efetuar vfnculos e aten-
der a demanda da instituicao no "aqui e agora" de seus
integrantes;
diagnostico institucional que permite conhecer e identifi-
car 0 funcionamento global da instituicao, da area e/ou se-
tor em questao, em nfvel objetivo e subjetivo, centrando 0
foco nas ansiedades mobilizadas pela tarefa, bern como nas
defesas e estrategias que 0 grupo utiliza para enfrentar sua
realidade cotidiana; 0 diagn6stico e realizado por meio de
observacao, entrevistas individuais, grupais e em todas as
tarefas realizadas e, constantemente atualizado e devolvi-
do a instituicao;
assessorias individuais e/ou grupais que se caracterizam
por entrevistas peri6dicas sistematicas e/ou assistematicas,
com a finalidade de ajudar a pensar, refletir, examinar e
encontrar possiveis solucoes para as dificuldades relacio-
nadas com os papeis assumidos pelas pessoas da institui-
9ao nos diferentes nfveis hierarquicos.
•
As atividades basicas desenvolvidas para a obtencao dos
objetivos propostos sao:
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana240
Dessa forma inicia-se urn novo processo, integrando sem-
pre indagacao, reflexao, observacao, compreensao e a~ao e, no
qual e preciso estar bern centrado na tarefa de assessor, cum-
prindo a atitude clfnica, ou seja, fazer uso da dissociacao ins-
trumental que permite, por urn lado, a identificacao com os fa-
tos, conteiidos e/ou pessoas, mas que, por outro lado, possibi-
lita manter uma distancia a fim de nao haver envolvimento
pessoal para 0 cumprimento adequado do papel do profissional.
praxis. Isto nao constitui uma manifestacao de desejos e sirn
uma condicao fundamental para operar corretamente. A ac;:ao
deve ser precedida de uma investigacao; mas a investigacao
mesmo ja e uma atuacao sobre 0 objeto que se indaga.
Isso deixa claro que 0 psicologo, na entrevista institucional,
ao coletar dados, buscar a compreensao dos sentimentos, per-
cepcoes da tarefa institucionaI, formular hip6teses e/ou explicitar
aspectos inconscientes, deve utilizar a indagacao operativa, que
busca os dinamismos e aspectos motivacionais implfcitos, mas
utiliza tal indagacao para conseguir modificacoes pela compre-
ensao do que esta ocorrendo e por que. A medida que 0 inte-
grante da instituicao e questionado sobre algum aspecto rela-
cionado a sua tarefa, ele ja esta sendo mobilizado em urn pro-
cesso de mudanca pela reflexao que tal questao provoca.
Bleger (2000) menciona que por meio da indagacao
operativa trabalhamos a tecnica psicanalftica na instituicao com:
• observacao detalhada dos fatos com continuidade;
• entendimento do significado de tais fatos e da relacao ou
integracao entre si;
• inclusao dos resultados de tal compreensao pela interpreta-
~ao, assinalamento e/ou reflexao;
• consideracao de cada momento como hip6tese que condu-
zira a nova observacao, buscando verificar, ratificar, corri-
gir e/ou enriquecer a hip6tese.
243MOnica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Com a assirnilacao dos fatos ocorridos, das elaboracoes dos
grupos, a equipe como urn grupo torna-se mais fortalecida,
menos idealizada, e comeca a perceber que algumas pessoas
encaixam-se melbor em urn grupo de atividades do que
outras. Cada tarefa, cada grupo e urn desafio.
(FERNANDES, B., 2003 In FERNANDES, W. et al. 2003,
p.266).
Dentro dos aspectos mencionados, fica evidente a impor-
tancia da entrevista, como instrumento fundamental do metoda
clfnico e como tecnica de investigacao cientffica na metodologia
de trabalho institucional, por meio da qual busca-se a obtencao
dos objetivos e operacionalizacao de todo 0 trabalho exposto
ate aqui. E basica nos diferentes momentos na instituicao, indi-
vidual e/ou grupal, formal e/ou informal e, em atividades do
psicologo, como: observacao, diagn6stico, assessorias. E pre-
ciso ouvir 0 que contam as pessoas, os grupos, os formularies,
os arquivos, os memorandos, as certidoes, os funcionarios e os
visitantes.
o psicologo deve sempre realizar urn contrato explicito e
claro, quanto ao tempo de duracao da entre vista, de como tra-
balhara e encaminhara as informacoes e os dados institucionais
surgidos, evidenciando a postura etica e tecnica em relacao ao
sigilo. Deve tambem utilizar urn espaco fisico adequado que
preserve a privacidade does) entrevistado(s).
Bleger (2000. p. 24) diz que:
opsicologo clinicodeve, no campo dahigiene mental,aplicar
o princfpio de que indagacao e ac;:aosao inseparaveis e que
ambas se enriquecem reciprocamente no processo de uma
Dai a importancia do trabalho grupal que e 0 enfoque do
trabalho institucional, pois quanto mais as equipes se fortalece-
rem como grupo melhor desernpenharao 0 trabalho e 0 reflexo
e direto no objetivo final da instituicao: 0 born atenclimento ao
c1iente.
(Con}textos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana242
______ .Temasde Psicologia -Entrevista e Grupos -Sao
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BLEGER, Jose. Psico-higiene ePsicologia Instituciona/ - Porto
Alegre: Artes Medicas, 2000.
______ .Psicologia da Conduta. P.A. Artes Medicas,
Referencias bibliograficas:
E importante registrar cuidadosamente todos os detalhes
desde os primeiros contatos e das primeiras entrevistas para
possibilitar a reflexao sobre os fatos significativos, sobre a pos-
tura e intervencao do profissional, 0 que contribuira para 0
melhor entendimento e organizacao dos passos a serem dados.
Percebe-se que a instituicao, que busca efetivamente 0 tra-
balho institucional, e que as equipes, mesrno no "corre-corre
estressante" diario, que conseguem priorizar urn momento para,
pela entrevista, refletir sobre tarefas, tensoes, relacoes, mudan-
cas, integrarn-se mais, relacionam-se melhor entre si e com os
niveis hierarquicos superiores e estabelecem estrategias, for-
mas de agir e arnenizar as dificuldades encontradas.
245Munica Medeiros Kocher Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
A ent:revista institucional com referencial psicanalftico pos-
sibilita 0 entendimento dos processos dinamicos conscientes e
inconscientes que ocorrem nas instituicoes, a compreensao
dos insigths e 0 conhecimento das defesas desenvoLvidas para
lidar com conteiidos provocadores de ansiedade. Objetiva
que os integrantes da instituicao, semelhante aassociacao
livre, falem livremente sobre seus sentimentos, relaciona-
mentos, percepcces e experiencias no contexto em que se
encontram.
Segundo Lyth (in SPILLIUS, 1990), a entrevista
institucional de orientacao psicanalftica caminha paralelarnen-
te a psicanalise. A responsabilidade do assessor esta em ajudar
que os insights se desenvolvam, liberando 0 pensar sobre os
conflitos e facilitando a evolucao de ideias no sentido de mu-
danca. A preocupacao e com 0 mundo interno da instituicao,
Ainda para a referida autora, 0 entrevistador deve ter "ig-
norancia cultivada com atencao flutuante", ou seja, deixar de
lade modos habituais de olhar a instituicao para lancar urn novo
foco para as situacoes e nao voltar sua atencao para algo espe-
cffico ou fazer julgamentos; deve ter, portanto, abertura para
buscar os diferentes focos, olhares e sentimentos que aparecem
no universo institucional.
No trabalho institucional e preciso atencao cuidadosa a
transferencia e contratransferencia. A transferencia pode
ser compreendida como a repeticao de modelos primitivos
de relacao que, como processo inconsciente, nega 0 tempo
e 0 espaco como presentes, reproduzindo em vfnculos atuais
posicoes vividas em vinculos passados. (GUIRADO, 1987
p.74).
Na transferencia institucional, destacando 0 lugar que os
individuos e grupos ocupam no seu fazer na relacao com os
outros e com os grupos da instituicao e que se da a intervencao
do psicologo.
(Con) textos de cntrevista: olhares diversos sobre a intera($aohumana244
A Psicologia, historicamente, iniciou-se no hospital, pelas
rnaos da clfnica e posteriormente foi assumindo outras areas de
atuacao como a area de trabalho e de Institucional, ate configu-
rar-se dentro de uma perspectiva mais ampla denominada: Psi-
cologia Hospitalar. Dentro dessa configuracao, entende-se que
a compreensao e consequente a~ao do psicologo torna-se mais
abrangente e complexa, integrando as diferentes visoes, mes-
mo que sua atuacao esteja centrada em uma area especfficacomo
aqui sera abordada.
A proposta deste capitulo e focalizar a entrevista clfnica no
contexto hospitalar, ressaltando que 0 referencial psicanalftico
sera 0 pano de fundo e a tecnica da psicoterapia breve focal e
de apoio 0 instrumento utilizado.
Para abordar esse tema, faz-se necessario instigar a refle-
xao do que, de fato, significa: "ir a urn hospital". Essa ida mo-
biliza nas pessoas diversos sentimentos, desde 0 alfvio de suas
preocupacoes com a saiide, a alegria da chegada de urn bebe,
desde os exames de rotina, ate as "sentencas" associadas aos
diagnosticos e suas consequencias. Quem realmente entra tran-
quilo em urn hospital? Esse e 0 espaco onde se desenrolam
muitas hist6rias, nesse local muitas vezes 0 tempo nao e medi-
do em horas ou dias, mas em procedirnentos, intervencoes,
notfcias, resultados, na espera do medico que de respostas e
de alguem que escute. Aqui, nao se trata da escuta passiva,
ausente, mas a escuta ativa, que auxilia.
ANGELA C. B. PRATINI SEGER
ENTREVISTA CLINlCA NO CONTEXTO
HOSPITALAR: REVlS6ES E REFLEX6ES
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(Con)tcxtos de entrevista: olhares diversos sobre a interacao humana246
Na nossa perspectiva, 0 trabalho do psicologo situa-se en;
tres nfveis: a) Observacao. B) Diagn6stico e c) Intervencao. E
necessario salientar que esses recurs os serao utilizados seja no
atendimento do paciente, seja na compreensao de sua interacao
com equipe e instituicao maior, seja no contato com a familia,
abrindo uma ampla rede de informacoes a serem integradas,
em beneficia da compreensao da situacao como urn todo.
Cabe entao ao psicologo, quando solicitado a atcnder urn
paciente, avaliar nao somente este, mas todo 0 contexto no qual
este pedido esta inserido. Primeiramente deve-se consider~r a
origem da sollcitacao: quem solicitou? qual 0 motive
explicitado? E, quando possfvel, avaliar a demanda. d.o
solicitante. Compreender esses aspectos nao tern como objeti-
VOfocalizar 0 solicitante, mas entender 0 caminho percorrido
ate a chegada ao psicologo. Foi 0 medico, a familia, 0 pr6prio
paciente, outro membro da equipe? Todos? Alem de essa pes-
soa nos fornecer mais detalhadamente os motivos do encami-
nhamento, podera, tambem, explicitar as suas preocupacoes no
caso especffico,
Esse aspecto leva-nos ao pr6ximo passo - 0 motive - eo
quanto 0 motive explicitado esta, de fato, relacionado com as
necessidades do paciente ou e uma forma do solicitante "resol-
ver" urn inc6modo seu com relacao ao caso. Por exemplo, al-
gumas solicitacoes trazem esta mensagem: "Nao aguento aten-
der mais 0 fulano, ele e muito repetitivo, faz sempre as mesmas
perguntas". Com certeza, 0 fato de 0 paciente perguntar muitas
vezes gera urn desconforto, mas precis amos ir alem, se ele per-
gunta muito deve ter seus motivos. Inicialmente devemos nos
questionar: se a linguagem utilizada pela equipe e acessfvel a
pessoa, como as informacoes sao passadas, se e permitido a?
paciente fazer perguntas, e se ele esta em condicoes de OUVlr
as respostas, sua ansiedade permite que compreenda 0 que
esta sendo dito, ele nao esta sozinho, sem visitas, carente e
249Munica Medeiros Kother Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
o psicologo que trabalha em hospital logo percebe que
a escuta e urn dos nossos principais instrumentos. Mas, pri-
meiro, precisamos escutar sobre: 0 que, de fato, fala nosso
paciente? Da rotina, dos mesmos exames, procedimentos,
das faltas, da famflia, da equipe, das visitas, do futuro ... para
que, a seguir, possamos entrar, e principalmente facilitar e
perrnitir, que os pacientes entrem nos seus sentimentos. Fa-
lem de seus medos: de viver com sequelas, de nao viver, de
depender, ou de nao ter com quem contar e todas as contra-
dicoes possiveis da vida e com isso possam reorganizar-se
diante dessa realidade.
Esse e urn momenta entendido como "de crise" que pro-
move uma serie de modificacoes na vida daquela pessoa que
necessita dos cuidados hospitalares. Na realidade, coloca-a em
uma posicao ambivalente, pois esta numa "casa de satide" que,
em sua essencia, ocupa-se da doenca. Alem disso, a funcao "cu-
rativa", bern como 0 cuidado exercido, a recuperacao esperada
e a estrutura e funcionamento do hospital tend em a colocar 0
paciente no papel de espectador do processo, afinal ele e
paciente e deve ter "paciencia", segundo algumas visoes.
As equipes cabe a excelencia no atendimento, manejando
ao mesmo tempo com tecnica e tecnologia a seu service e com
as limitacoes impostas pela realidade (economicas e sociais).
o somat6rio destes elementos, paciente (com seu sofrimento),
equipes (com seus trabalhos), familiares (com suas angustias),
e tudo que e mobilizado na interacao desses fatores surge, mui-
tas vezes, a necessidade de intervencao da psicologia,
Diante de tudo isso, a pessoa, que vern ao hospital por urn
problema de saude, potencialmente pode ser "invadido" por
diversos outros aspectos, associados a doenca, ou muito mais
amplos, que necessitam ser trabalhados para que nao se some
ao sofrimento psfquico produzido pela doenca outro produzido
pela Instituicao e sell (des)cuidado.
(Con) textos de entrevista: olhares diversos sobre a tnteracao humana248
setting sejacriado, quando possfvel, com biombos, mas que,
sabemos, nao isolam acusticamente. Quando nao for possfvel,
sugerimos que a configuracao se estabeleca por meio da
criatividade e disponibilidade psfquica tanto do terapeuta quanto
do paciente para dedicarem-se a essa tarefa minimizando os
efeitos do ambiente inadequado. A reducao do tom de voz, a
proximidade com 0paciente, a atencao seletiva, focalizada nele,
mesmo que outros procurem interferir, produzem a delimita-
c;ao de urn "espaco potencial". Esse fenomeno, segundo
Winnicott (1975 ) se instala originalmente na relacao da mae
com 0 bebe e visa permitir a este a "capacidade de ser". Consi-
deramos que pode ser recriado em outros momentos, como no
setting citado, favorecendo 0 enfrentamento da situacao atual
de crise.
Por meio do treinamento de estagiarios na pratica clfnica,
podemos perceber que inicialmente essa situacao e geradora de
ansiedade e intensa preocupacao, porern, no momenta que se
instala e avaliam-se os beneffcios alcancados pelo paciente, ten-
dem a superar as questoes iniciais. Contudo, deve-se salientar
que esse recurso so e indicado nas situacoes de total impossibi-
lidade de atendimento num ambiente proplcio como em uma
sala com privacidade.
Ern alguns casos, as entrevistas incluem a participacao
de familiares ou acompanhantes, ou entao, sao realizadas
exclusivamente com estes, principal mente nas situacoes em
que se encontram num estado de mobilizacao maior do que
o paciente, dificultando a interacao deste com a equipe, sua
aderencia ao tratamento ou alterando seu estado emocional
quando de sua presenca ou ausencia prolongada. 0 foco
sempre estara direcionado a situacao do paciente, e, caso
sejam identificadas necessidades proprias deste familiar,
sugere-se 0 encaminhamento a outros services de psicolo-
gia da comunidade.
251MOnicaMedeiros Kocher Macedo & Leanira Kesscli Carrasco (Orgs.)
assustado? E dessa forma a solicitacao excessiva ser uma ma-
nobra para manter a equipe mais perto de si? Essa entre muitas
outras possibilidades.
Quando a intervencao, nesse sentido, obtem exito, muitas
vezes 0 atendimento pode centrar-se em outros aspectos mais
prementes, que ficavam encobertos pela queixa mais "concreta".
Outra questao recorrente trazida pela equipe: "A paciente
esta sempre chorando, mas quando you atende-la dou urn jeito
de alegra-la e digo para ela parar com isto e colocar urn soniso
no rosto". Sabemos que 0 choro tende a mobilizar as pessoas,
pois se tern a impressao de que, se a pessoa parar de chorar, ja
estara bern; porem raramente tanto familiares quanto as equi-
pes conseguem, de fato, escutar os motivos do choro. Enten-
dem que e medo de urn procedimento, da morte, saudade de
urn fi1ho, da casa ... Entao, quando 0 psicologo chega no quarto
e "permite" que 0 paciente chore, fale de seus temores e angus-
tias, e muitas vezes questionado por familiares ou colegas de
quarto, pois "esta deixando ela mais triste ainda" quando, de
fato, esta permitindo que esses sentimentos tenham canais de
expressao mais adequados.
Quando a demanda maior for da equipe, ela deve ser orien-
tada quanta ao estado emocional do paciente e as suas necessi-
dades, de forma a respeitar a privacidade deste, sugerindo for-
mas de manejo mais apropriadas para 0 momento.
No hospital, urn fato se faz presente de modo diana: a ques-
tao do setting terapeutico. Para Angerami-Camon (1995), a
Psicologia Hospitalar caracteriza-se tambem por nao possuir
urn setting tao definido e preciso como 0 desejavel, acrescen-
tando que se devera levar em conta todas as variaveis que pos-
sam intervir no processo.
Muitos pacientes nao se encontram em condicoes de sair
de seus leitos e necessitam ser atendidos ali mesmo, num quar-
to com outras pessoas. Como proceder? E necessario que 0
(Con) textos de entrevista. olhares diversos sobre a interacao humana250
253
com as ansiedades advindas das decisoes e opcoes que venha a
tomar. Caso evidencie bons recursos, a indicacao e a PB focal.
Caso contrario, a indicacao seria da PB na linha de apoio em
que as intervencoes adotam uma caracterfstica mais diretiva,
sugestiva e informativa.
Os esclarecimentos sao feitos quando algumas diividas per-
sistirem, desde que relacionados ao atendimento psico16gico
(motivos, objetivo, contrato), pois so podemos responder aos
aspectos pertinentes a nossa area de conhecimento. Nao pode-
mos discutir ou questionar tratamentos ou inforrnacoes
fornecidas por outras equipes, devemos estimular 0 paciente
para que resolva seus questionamentos diretarnente com estas;
porem, quando e evidenciada uma grande dificuldade por parte
deste e/ou equipe envolvida podemos nos colocar a disposicao
para estarmos presentes e sermos facilitadores deste processo.
o item seguinte refere-se a determinacao do diagn6stico
dinamico do paciente e da situacao. Mello Filho (1992) salien-
ta que, no contexte hospitalar, e esperado que 0 terapeuta con-
siga fazer: uma avaliacao rapida dos problemas mais evidentes
e de formular uma hipotese psicodinamica explfcita dos confli-
tos predominantes. Reforcamos a necessidade de envolver, alem
do paciente, todo 0 seu contexto atual, vfnculos familiares, rede
de apoio, recursos financeiros e pessoais e suas necessidades
atuais. POl'exemplo: urn paciente que recebe urn diagnostico
de HIV+ descobre que se infectou do parceiro, que ja sabia,
mas nao contou, pensa em separar-se, sugere ideacao suicida e
desejo de vinganca. A prioridade e investigar a ideacao e a pos-
sibilidade de vinganca, e proporcionar 0 encaminhamento da
situacao, mesmo que 0 paciente deseje somente falar sobre a
separacao. Precisa-se buscar auxflio na rede de apoio e, com a
vinda de urn responsavel, fazer 0 encaminhamento para urn aten-
dirnento psiquiatrico que responda as necessidades de
internacao.
Manica Medeiros Kocher Macedo & Leanira Kesseli Carrasco (Orgs.)
Com relacao a esses aspectos, Romano (1999) afirma que:
A hospitalizacaode urndosmembrosde uma familiae urn
evento que gera estresse.Como 0 equilfbrio do sistemae
interrornpidopelasnecessidadesinternasepeJassolicitacoes
externas, a hospitalizacaoe percebidacomo arneacadora.
Se 0 equilfbrionao e restaurado,tem-seurnaelise (p.73).
o contato com outros tecnicos, a respeito do paciente, deve
ocorrer exclusivamente com 0 intuito de receber e fornecer in-
formacoes relevantes para a adequada cornpreensao do quadro
clfnico e emocional deste, permitindo, assim, que favorecarn a
sequencia de seu atendimento.
Como foi referido anteriormente, 0 paciente, quando for
hospitalizado, e solicitar atendimento, esta passando por urn
momento de crise, de desajuste fisico, emocional e da necessi-
dade de novos reajustes, a curto e longo prazo. Decisoes preci-
sam ser tomadas, esperas sao diffceis, hospitalizacoes curtas
ou prolongadas sao vividas de diferentes maneiras peJas pes-
soas. A intervencao terapeutica, baseada na Psicoterapia Breve
Focal, atende 0 paciente, considerando seu momento atual de
crise, seu funcionamento egoico e em especial os recursos de-
fensivos que possui para enfrentar esse momento.
Entendemos que, em alguns casos, as intervcncoes de apoio
serao os principais elementos da tecnica a serem utilizados, na
busca de urn reforco na estrutura egoica e na sua capacidade
defensiva. A escolha faz-se a partir da avaliacao dos recursos
no paciente. Neste contexto, muitas vezes, 0 paciente e atendi-
do uma unica vez pelo psicologo, e, portanto, a entrevista deve,
dentro do possfvel, contemplar os seguintes elementos: avalia-
crao,esclarecimento, diagnostico da situacao, intervencao e/ou
encaminhamentos.
Segundo Lemgruber (1984), a avaliacao diagnostica do
paciente e fundamental, pois vai indicar quais os recursos de
ego que ele possui e, conseqiientemente, como consegue lidar
(Con)textos de entrevista: olhares diversos sobre a inreracao humana252
curto, atrelado ao periodo de internacao. Portanto, mobilizar
vivencias intensamente carregadas de emocao que nao poderao
ser trabalhadas e pior, a nosso vel', que a falta de atendimento

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