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O Último Ano de
MOZART
O esplendor da música na vida cultural da Europa
ao final do século XVUl
A
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
1791 — O ÚLTIMO ANO D E
MOZART
" F o i o melhor e o pior dos tempos, a
idade ^a razão e a da loucura, a época da
crença e a da descrença, o reinado da luz e o
das trevas..." O primeiro parágrafo do
romance de Charles Dickens sobre a Revo-
lução francesa adapta-se maravilhosamente à
conturbada Viena de 1791, dando-nos um
retrato de uma cidade convulsionada por uma
aristocracia empobrecida com a guerra contra
a Turquia, pelas crescentes vozes dos ilumi-
nistas e dos maçons que clamavam por jus-
tiça social e profundas modificações sócio-
políticas naquele fim de século caótico. E
nessa Viena que H.C. Robbins Landon situa
Mozart durante o último ano de vida do
"divino compositor". O espetacular sucesso
da peça teatral de Peter Shaffer, Amadeus, e o
do 'filme de Milos Forman reavivaram
internacionalmente o interesse pelo notável
compositor austríaco, falecido prematura-
mente aos 35 anos.
E m 1791 — O ÚLTIMO A N O D E
M O Z A R T , o Prof. Robbins Landon se
propõe desvendar as falsas teorias e os mitos
que há duzentos anos' vêm envolvendo o
músico. Através de um cuidadoso levanta-
mento de dados, incluindo cartas, relatos,
biografias e diários de estudiosos contempo-
râneos de Mozart, o autor nos transporta a
um contexto onde vemos o grande músico
como uma presa das intrigas palacianas; um
homem dedicado à família e aos filhos e um
artista incapaz de lidar com finanças, irreme-
diavelmente endividado e tomado por uma
profunda depressão maníaca que o levava a
acreditar ser vítima de envenenamento por
parte de seus inimigos.
Além disso, H .C . Robbins Landon nos
mostra, pela primeira vez, Mozart como
homem do seu tempo, um ativo participante
da maçonaria (uma das sociedades que ajuda-
ram a infundir na Europa o ideário que serviu
de base para a Declaração dos Direitos do
Homem), um compositor que soube usar sua
arte para defender a confraria perseguida poli-
ticamente, deixando um legado inesquecível
através da ópera " A Flauta Mágica", que
inovou os padrões do "bel-canto".
O livro aborda, também, com riqueza de
detalhes, as causas da morte de Mozart, escla-
H . C. ROBBINS LA NDON
1791
o último ano de
M O Z A R T
Tradução
N EW T O N G O LD M A N
Revisão da tradução
LA URA RÓ N A I
A
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
Título original: 1791 M O Z A RT ' S LA S T Y E A R
Publicado mediante acordo com Thames and Hudson, London
© 1988, H . C . Robbins Landon
Direitos de edição da obra em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela
ED I T O R A N O V A FR O N T EI R A S/ A .
Rua Bambina, 25 - C E P 22251 - Botafogo - Tel.: 286-7822
Endereço telegráfico: N EO FR O N T - Telex: 34695 EN FS BR
Rio de Janeiro, RJ
Revisão de originais
L A U R A R Ó N A I
Revisão tipográfica
A N D R É PIN H EIR O
T E R E Z A D E FÁ TIM A R O C H A
CIP-Brasil . Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
Landon, H . C . Robbins (Howard Chander Robbins), 1926 -
M 91M 1791 - O último ano de Mozart / H . C. Robbins Landon ;
tradução, Newton Goldman ; revisão da tradução, Laura Rónai.
— Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1990.
(Biografias, memórias, depoimentos e reportagens)
Tradução de : 1791 Mozart's last year.
1. Mozart, Wolfgang Amadeus, 1756-1791. 2. Compositores
— Áustria — Biografia. I . Título. I I . Série.
89-0944 C D D - 780.092
927.8
C D U - 78.071.1
92 M O Z A RT, W. A .
Para
ALBI ROSENTHAL
velho amigo e dedicado colega mozartiano
SUMÁRIO
Prefácio, 9
I - Coroação em Frankfurt, 13
II - A Viena de Mozart, 23
III - A vida musical na capital austríaca, 33
IV - Música de dança para a corte imperial, 43
V - Novos caminhos: uma nomeação para a catedral?, 49
V I - Crepúsculo para os maçons, 57
V II - Réquiem para uma casa de campo, 75
VIII - Uma viagem a Praga, 87
IX - Diário da coroação, 105
X - A flauta mágica, 125
o princípio, 125
a mensagem, 130
a estréia, 139
XI - A doença final, 149
XII - Mitos e teorias, 175
XIII - Constanze: uma defesa, 185
Apêndices, 203
Abreviaturas das fontes
bibliográficas, 215
Notas, 217
Bibliografia selecionada, 233
Relação das ilustrações, 235
Agradecimentos, 236
PREFÁCIO
Eu tinha treze anos e estudava na Asheville School, Carolina do Norte, quando descobri Mozart. Esta escola possuía um excelente professor
de música chamado Matthew Cooper; com ele estudei piano, e cantei no
coral de igreja por ele dirigido. Uma das primeiras obras que cantamos foi
Ave, verum corpus de Mozart, que me soava então misteriosamente bela.
Entretanto, naqueles dias de primavera de 1939, o maior incentivo exis-
tente para um apreciador de música, sem acesso à música de câmara, a uma
orquestra sinfónica ou mesmo à ópera, era o excepcional acervo de discos
— em sua maior parte europeus — que a Asheville School conservava em
um prédio, especialmente reservado para este fim, e franqueado aos alunos.
Encontravam-se lá inúmeras gravações raras de Mozart, inclusive Richard
Strauss regendo a Sinfonia em Sol menor (K.550) e uma raridade ainda
maior, que era Paul Sacher (que mais tarde se tornaria meu amigo) regendo
os coros do Idomeneo de Mozart, na época totalmente desconhecidos na
América. Havia também a Abertura, em uma gravação alemã, que para mim
era igualmente fantástica: foi a primeira vez que percebi que uma tonali-
dade brilhante como Ré maior podia soar tão sombria e escura.
Dois anos depois, em 1941, celebramos o sesquicentenário da morte de
Mozart e pela primeira vez em sua carreira a Sinfónica de Boston executou
em Tanglewood, na sua sede de verão, uma série completa de concertos
dedicados exclusivamente a este compositor. Serge Koussevitsky foi o re-
gente e fomos apresentados a obras como a Sinfonia em Dó (K.338) (então
quase desconhecida), que a Sinfónica executou com inigualável brilho. Fo i
durante esta série, em que a orquestra se exibiu em fraques brancos, que me
dei conta, pela primeira vez, que textualmente nada era tão simples assim
em relação a Mozart: Koussevitsky tocou o Concerto para dois pianos
(K.365) com partes de clarineta, trompa e tímpano que não existiam na
minha partitura (em miniatura) Eulénburg e quando, durante o intervalo,
me insinuei até o pódio, v i com espanto que estas partes também não cons-
tavam da partitura Breitkopf & Hãrtel do regente: de onde vinham então
estas lindas melodias? Eu tinha certeza, mesmo então, que eram de Mozart e
devo dizer, com alegria, que atualmente foram incluídas na partitura da
9
edição completa do Neue Mozart Ausgabe. Na realidade não existiam na
partitura original, mas Mozart as acrescentou mais tarde para um concerto
em Viena.
De certa maneira, em 1939, eu havia decidido dedicar minha vida a
Haydn que, naquela época, ainda não possuía uma edição compilada sobre
sua música; na verdade, apenas um décimo havia sido publicado. Entre-
tanto, sempre considerei Mozart um fenómeno único e além de qualquer
outro músico, inclusive Bach, Beethoven e Wagner. Devo mencionar que
este ponto de vista era então considerado não só excêntrico como quase
lunárico. Dificilmente eu atribuiria a um menino de treze anos uma pres-
ciência especial em relação a Mozart e ao fato de, no futuro, na Inglaterra,
este compositor se tornar o mais popular nas salas de concerto, sobrepu-
jando a proeminência de Beethoven que havia perdurado durante toda uma
geração. Porém, senti que existia uma curiosa e inquietante ambivalência
na linguagem musical de Mozart que, para mim, era ao mesmo tempo arre-
batadora e trazia uma enorme satisfação emocional.
Nesta época tinha eu em Lancaster (a oeste de Boston), onde moravam
meus pais, um amigo, Millard Gulick, que compartilhava meu profundo
entusiasmo por Mozart e especialmente pelos concertos de piano que eu
então tocava, além de colecionar em discos, disponíveis em um número
surpreendente,alguns em interpretações brilhantes (de Ed w in Fischer, Ro-
bert Casadesus e Artur Schnabel). Entretanto, naquela época, era muito di-
fícil ouvir-se tocar em público obras como o Concerto em Dó maior
(K.503), especialmente em Boston. Logo os discos em acetato se tornaram
uma necessidade para os mozartianos: pois onde nos Estados Unidos po-
der-se-ia ouvir Cosi fan futre?
Na nossa geração a espetacular ascensão à fama de Mozart tem sido um
processo contínuo desde as celebrações sesqúicentenárias em 1941, ano em
que, segundo me contou minha esposa (que tem também especial afinidade
com Mozart), houve magníficos desempenhos de todas as maiores óperas
de Mozart no Staatsoper de Viena aos quais ela assistiu.
Mais tarde,"em 1955, três fatos me levaram diretamente a Mozart e a sua
música. O primeiro foi que o falecido Karl Võtterle e o falecido Ernst Fritz
Schmid, proprietário do Bárenreiter-Verlag e editor geral do Neue Mozart
Ausgabe respectivamente, vieram a Viena (onde eu então morava) para pe-
dir que eu contribuísse com esta nova edição (na ocasião editei as últimas
três sinfonias e o Maurerische Trauermusik). O segundo projeto mozartia-
no era editar a Missa em Dó menor (K.427), uma nova edição académica
para C.F. Peters e Eulenburg; havíamos preparado a primeira gravação
completa da mesma em 1949, com Meinhard von Zallinger em Viena. E a
terceira proposta mozartiana era a edição, com Donald Mitchell, de um
10
simpósio sobre a música de Mozart que fora lançada para a celebração do
bicentenário do seu nascimento em 1956. Neste ínterim eu havia me tor-
nado membro do Zentralinsritut fiir Mozartforschung em Salzburg que se
ocupou basicamente com a nova edição. A música de Mozart começou a ser
difundida como nunca. Tenho sempre presente uma pequena recordação:
em janeiro de 1956 estávamos celebrando o nascimento de Mozart em Salz-
burg. Era a véspera do dia do seu nascimento e Salzburg estava sob uma
violenta tempestade de neve. Uma equipe radiofónica da BBC havia che-
gado e eu a conduzi para o outro lado do rio até Residenzplatz. Da torre,
cujo topo mal podia ser visto através da neve, a música começou a flutuar
por toda a cidade silenciosa, pelas ruas cujo tráfego havia desaparecido.
Tratava-se do arranjo de Mozart para a música de balé (K. 187 e 188) escrita
para duas flautas, cinco trompas e quatro tímpanos. A equipe da BBC, como
toda a cidade, ficou extasiada. Fo i uma cena mágica que pareceu nos situar
na Salzburg de 1776.
Em 1980 surgiu Amadeus de Peter Shaffer — a peça teatral e o filme —
mas especialmente o filme: um enorme sucesso internacional, cuja trilha
sonora foi, durante meses, o disco mais vendido nos Estados Unidos. De
repente passou-se a ouvir o nome de Mozart por toda a parte. Não nos cabe
aqui discutir os defeitos ou méritos de Amadeus que já se tornou uma espé-
cie de mito (na Itália, os jovens brincam de imitar a risada de Mozart no
filme). Como cinema, o filme mostrou ser uma diversão de alta qualidade,
embora, é claro, tivesse muito pouca relação com os acontecimentos reais
da vida do compositor. Durante a filmagem, meu falecido amigo Roland
Gelatt, da editora Thames & Hudson, tentou me convencer a escrever um
livro sobre a "ascensão e queda" de Mozart. A princípio hesitei, mas, após
muito considerar, achei que seria útil aos inúmeros admiradores e novos
amigos de Mozart se eu escrevesse um livro sobre o último ano da sua vida,
baseando o relato em documentos autênticos e contemporâneos à nossa
disposição: estes são muito mais numerosos do que ousaríamos imaginar e,
em sua totalidade, certamente nos aproximam muito mais de Mozart e de
sua esposa Constanze do que qualquer ficção, por mais inspirada que seja.
Neste livro fui obrigado, dada a natureza do projeto, a me ocupar da mú-
sica de forma bastante superficial, mas gostaria de dizer algumas palavras
sobre um assunto sobre o qual, admito, muita coisa — talvez até demais —
já foi escrita.
Haydn, o maior contemporâneo de Mozart, tem sido quase sempre com-
parado ao seu colega mais jovem, e geralmente de maneira desfavorável.
Isto se deve ao fato de ter a música de Haydn algo de autocontenção: ele não
nos convida a compartilhar seus problemas por tê-los reduzido a um tour
11
de force intelectualmente brilhante. Seus grandes quartetos, sinfonias e
músicas religiosas se desdobram diante de nós como um desfile que apre-
ciamos com fascínio, mas que não requerem necessariamente nossa partici-
pação pessoal ou nosso imediato envolvimento emocional. Por outro lado,
com Mozart, o relacionamento é inteiramente diferente: ele nos convida a
participar do seu mundo emocional, tomando-nos pela mão, por assim d i-
zer, nos conduzindo e por fim nos pedindo que o sigamos por onde quer
que vá. Destarte, suas alegrias são nossas alegrias, suas tristezas nossas tris-
tezas; e seu obsessivamente belo mundo outonal retratado na música escrita
em 1791, onde os raios de sol se inclinam rapidamente para logo se trans-
formarem em crepúsculo, se torna particularmente nosso mundo, talvez
em uma escala maciça, dada a atual situação contemporânea. É provável
que Mozart não tivesse retratado este quadro intencionalmente, mas o
mesmo parece se harmonizar melhor com nossa visão pessimista da vida do
que com o confortável otimismo autoconfinante de Haydn ou os dogmáti-
cos triunfos existenciais de Beethoven. Como o "Ciclo " de Wagner que se
torna mais importante para a humanidade com o passar dos anos, e cuja
verdade passa a ser cada vez mais arrebatad o ra, talvez p o rque o
Gotterdàmmerung seja mais do que nunca uma realidade palpável, a mú-
sica de Mozart vem se tornando mais e mais uma parte essencial das nossas
vidas. O drama contido em suas óperas, sua revelação sobre a verdade e a
beleza, sempre foi sentido em Fígaro e Don Giovanni, porém, agora é mais
fortemente vivido em Cosi fan tutte e La clemenza di Tito, enquanto o
mistério e a majestosa solução dos elementos estilísticos, aparentemente in-
compatíveis, de A Flauta Mágicase nos afiguram cada vez mais relevantes.
Em suma, o legado de Mozart é uma das melhores razões que jamais po-
deremos encontrar para a existência do Homem e, afinal de contas, talvez
seja ainda uma ténue esperança para a nossa sobrevivência.
H . C. R. L.
Château de Foncoussières
Natal de 1986
12
I
COROAÇÃO EM FRA N KFURT
N o outono de 1790 a situação financeira de Mozart estava se tornando desesperadora. Já não ganhava tanto dinheiro em Viena, pelo menos
para fazer frente ao seu nível de vida, além de ter perdido uma parte subs-
tancial do seu antigo público. Os tempos estavam mudando dramatica-
mente, não só na revolucionária França, como também na Áustria, e um
novo rei, Leopoldo II , estava para ser coroado Santo Imperador Romano da
Nação Alemã na Catedral de São Bartolomeu em Frankfurt-am-Main no dia
9 de outubro. Mozart ainda não havia atraído a atenção pessoal do novo
monarca, mas esperava obter este intento, viajando para Frankfurt. Por is-
so, no dia 22 de setembro, o compositor penhorou sua prataria como paga-
mento da viagem,1 e partiu com Franz Hofer, marido de sua cunhadaJo -
sepha.
Só um otimista incorrigível poderia esperar grandes resultados dessa via-
gem. Fazer cerco a Leopoldo II era uma operação dúbia para um músico, e
de qualquer maneira o Imperador tinha problemas mais importantes a re-
solver; havia ascendido ao trono imperial com a morte do irmão José, dia 20
de fevereiro de 1790, tendo herdado um império profundamente dividido
pelas reformas bem intencionadas, mas por demais apressadas do anteces-
sor. O reino da Hungria fervilhava com idéias revolucionárias, ativamente
fomentadas pela velha inimiga da Áustria, a Prússia; os indisciplinados Paí-
ses Baixos Austríacos (atualmente a Bélgica) haviqm recentemente se decla-
rado independentes e o exército austríaco atolava-se cada vez mais em uma
interminável guerra com o Império Otomano. Felizmente, Leopoldo era
um hábil e experiente administrador:como Grão-Duque da Toscânia havia
gerenciado o ducado com sabedoria, introduzindo diversas reformas bem-
sucedidas, além de granjear a afeição dos seus súditos. Agora, como Im-
perador, tinha que agir rapidamente para resolver os prementes problemas
do país. Em setembro de 1790 assinara um armistício com a Porte (a corte
otomana em Constantinopla), negociara o futuro da Europa oriental com
Frederico Guilherme, Rei da Prússia, e, livre de oposições, partira para a
coroação em Frankfurt. Em dezembro, com a aprovação tácita da Prússia,
os austríacos ocuparam novamente Bruxelas, sendo Leopoldo igualmente
13
bem-sucedido ao lidar com os intransigentes e orgulhosos húngaros, além
de fazer significativos progressos para destrinchar a caótica confusão criada
pelos negócios internos — agricultura, clero e administração — que ha-
viam sido o principal legado de José II à Áustria.2
Tudo isto deixava pouco tempo para a música ou para Mozart. Para co-
meçar, os teatros da corte de Viena ficaram fechados durante vários meses
após a morte de José II e só vieram a abrir as portas depois do período de
luto oficial ter terminado nos primórdios de junho . Portanto, se Leopoldo
quisesse, poderia ter assistido às representações de Cosi fan tutte no Burg-
theater no dia 12 de junho , 6 e 16 de julho ou 7 de agosto (última represen-
tação, após o que a ópera foi retirada do repertório durante a vida de Mo-
zart). O imperador também poderia ter assistido a uma reprise das Bodas de
Fígaro que se manteve no repertório até fevereiro de 1791, mas não o fez.
Sua primeira aparição no Burgtheater3 foi em 20 de setembro de 1790 e a
obra representada foi Axur, re d'Ormus de Antonio Salieri. Leopoldo or-
questrou cuidadosamente sua primeira aparição pública em um teatro vie-
nense: o Conde Carl Z inzendorf, do Serviço Real Imperial, relata em seu
importante (e ainda em grande parte não publicado) Diário que naquele
dia: "Nosso rei chegou quando A xur estava no trono, sendo calorosamente
aplaudido." Desta maneira, Salieri, pelo menos naquele momento, foi o
vencedor, embora logo viesse a cair em desgraça e de uma forma inexorável.
Também não existe qualquer evidência de que Leopoldo estivesse muito
preocupado com Mozart, apesar de confirmar a posição do mesmo (não
muito brilhante) como Compositor de Câmara Real Imperial, uma sinecura
que lhe havia sido conferida por José II em 1787, sendo que o cargo musical
mais importante pertencia a Salieri (que havia sucedido o velho Giuseppe
Bonno) como Kapellmeister* (diretor musical, bem como principal com-
positor dos teatros da corte) em 1788, posição também confirmada por
Leopoldo.
Uma aparição nas festividades da coroação em Frankfurt poderia servir
para dirimir â desatenção do Imperador para com Mozart, ou pelo menos
era o que ele esperava e foi neste estado de espírito que partiu de Viena com
Hofer. Havia diversas maneiras de se viajar de Viena para Frankfurt: uma
era tomar uma carruagem pública, o que era caro, incómodo e bastante te-
dioso; outra alugando uma postchaise, trocando cavalos nas estações, e por
fim, a mais fácil, mais confortável e de longe a mais dispendiosa, que era
viajar numa carruagem própria, que foi o que Mozart fez. Não sabemos se
* O Kapellmeister em responsável pela música da capela da corte, sendo o termo traduzido, no século
XVIII, como Mestre da Capela. Contudo, o posto incluía a regência, e também geralmente a composição
de obras, além de deveres administrativos.
1 4
ele possuía uma carruagem — o que talvez fosse desnecessário e imprová-
vel, uma vez que morava no centro urbano — ou se comprou uma especial-
mente para viajar até Frankfurt. De qualquer maneira, eis a carta que enviou
de Mainz em 28 de setembro de 1790:
A jornada foi muito agradável e tivemos bom tempo exceto
durante um só dia — e este dia não nos causou qualquer des-
conforto porque minha carruagem (gostaria de beijá-la) é
maravilhosa. Em Regensburg tivemos um excelente almoço,
ouvindo uma divina Tafel-Musik (música tocada durante o
jantar), comemos tão bem quanto os ingleses e bebemos um
soberbo vinho Mosel. — Tomamos um desjejum em Nurem-
berg — uma cidade feia. — Reforçamos nossas prezadas bar-
rigas com café em Wúrzburg, uma bela e magnífica cidade —
as despesas para o passadio em todas as partes razoáveis —
exceto em 2 estações e meia para troca de cavalos daqui até
Aschaffenburg onde nosso hoteleiro graciosamente resolveu
nos esfolar horrivelmente...4
De qualquer maneira Mozart fez uma viagem rápida. "Só levamos seis dias",
escreveu a Constanze, acrescentando que estavam "bastante felizes por
terem encontrado um quarto" numa estalagem em um subúrbio de Frank-
furt chamado Sachsenhausen. A cidade da coroação estava repleta de visi-
tantes.
Como Mozart passou as duas primeiras semanas em Frankfurt não está
registrado, mas sabemos que deu um concerto no dia 15 de outubro no
Teatro da Cidade. Neste mesmo dia escreveu à esposa:
hoje às 11 horas dei meu concerto, maravilhoso no que con-
cerne a honrarias, mas que rendeu muito pouco dinheiro...
por má sorte houve um déjeuner oferecido por um príncipe e
também enormes manobras pelas tropas Hessianas — e assim
sempre havia um empecilho qualquer durante todos os dias
da minha estada aqui...3
Acredita-se que Mozart tenha executado dois concertos para piano neste
recital, um novo em Ré (K. 537, mais tarde conhecido como o "Concerto da
Coroação") e um mais antigo em Fá (K. 459, talvez na versão "aumentada"
com trompas e tímpanos, mais tarde perdida).6 Talvez uma das mais novas
sinfonias também tivesse sido planejada — K. 504 (Praga), 543,550 ou 551
Gúpiter), nenhuma delas ainda editada.
15
Possuímos uma descrição interessante e "profissional" sobre Mozart, sua
maneira de tocar e seu concerto, no diário do Conde Ludw ig von Benthei-
me-Steinfurt:
Sexta-feira, dia 15, às 11 horas da manhã na sala do Teatro
Nacional Mozart deu um grand concert. O recital começou
com aquela bela" sinfonia de Mozart que possuo há muito
tempo.21 Em seguida uma soberba scena italiana non so di chi
que Madame Schick cantou com infinita expressão." Mozart
tocou um concerto de sua autoria com delicadeza e extraordi-
nário charme. (K.459?) em um piano Stein de Augsburg que
dizem ser o melhor em sua categoria e cujo preço oscila entre
90 a 100 ducados; este instrumento pertence à Madame Baro-
nesa de Frentz. A execução de Mozart lembra ligeiramente a
do falecido (compositor Johann Friedrich) Klõffler (que havia
sido Kapellmeister a serviço da família Bentheim-Steinfurt)
embora de uma forma infinitamente mais perfeita. O Sr. Mo-
zart é um homem pequeno, de porte harmonioso, e vestia um
casaco de cetim azul-marinho ricamente bordado7; ele foi
contratado pela corte imperial.'" O soprano castrado Ce-
carelli cantou uma bela Scena e Rondeau, embora as árias de
biavura não pareçam ser seu ponto forte; ele possui graça e
uma técnica perfeita, um cantor excelente, mas seu tom está
declinando um pouco ao lado de uma presença desagradável;
quanto ao resto, suas passagens, ornamentos e trinados são
admiráveis, vou procurar obtê-lo para os meses de verão para
dar aulas à minha filha Henriette. Talvez ele pudesse vir com
Edom ou outra pessoa, pois espero que esteja livre, não ligado
ao teatro como Madame Schick que no verão deverá estar em
Frankfurt. Na segunda parte " outro concerto de Mozart
(K.537?) mas que não me agradou tanto quanto o primeiro. w
Um Duo que possuímos e do qual me lembro a frase Per te,
per te com a passagem que se eleva em seguida... 71 Uma
Phantasie sem notas (i.e., interpretada de memória) por Mo-
zart, muito encantadora e na qual ele esteve infinitamente
brilhante mostrando toda a força da sua genialidade. w A úl-
tima sinfonia não foi sequer tocada pois já eram 2 horas e to-
dos estavam muito cansados depois da refeição. A música
durou portanto três horas e o que ocorreu foram intervalos
muito grandes entre cada exibição. A orquestra só poderiaser
fraca, contando com cinco ou seis violinos, além de não ser
16
muito precisa, mas o que me irritou e entristeceu foi o peque-
no número de pessoas presentes; eu estava sentado ao lado de
uma jovem cantora chamada Succarini que fala muito bem
alemão. O Sr. Westerhold, o grande amante da música, estava
sentado atrás de mim.f l
De volta a Viena, Mozart parou em Munique, onde o Eleitor Carlos Teodoro
(para quem o Idomeneo havia sido composto em 1780) o convidou para
participar de um concerto em homenagem ao Rei de Nápoles, Ferdinando
IV, e sua consorte, a Arquiduquesa Maria Carolina da Áustria, que tinham
ido a Viena para casar as duas filhas. "Isto é uma grande honra", escreveu
Mozart à esposa, no princípio de novembro, acrescentando com amargura:
"Uma bela honra para a corte vienense o fato de o Rei me ouvir em um país
estrangeiro...'"7
Em meados de novembro de 1790, Mozart voltou a Viena cada vez mais
premido pela necessidade de ganhar dinheiro e reduzir as dívidas. Uma vez
que os problemas financeiros deveriam pairar tão malignamente sobre o
último ano da vida do compositor, devemos interromper um momento a
narrativa e examinar por que suas preocupações monetárias se tornaram
tão intensas.
A situação financeira de Mozart parecia bastante otimista em 1785,
quando o pai veio visitá-lo em Viena e escreveu à irmã de Wolfgang, Maria
Ánna (Nannerl), no dia 12 de março: "seu irmão arrecadou 559 fl. com seu
concerto" e uns dias mais tarde, em 19 de março: "Acho que meu filho, se
não tiver qualquer dívida a pagar, poderia depositar 2.000 fl. no banco; di-
nheiro certamente existe, pois a casa, no que concerne comida e bebida, é
extremamente económica!"10
Porém, apesar do sucesso dos concertos de assinatura em 1785 e 1786,
do êxito de Fígaro (maio de 1786) em Viena e, um ano e meio mais tarde,
em Praga; do sucesso de Don Giovanni em Praga, e das grandes somas que
Mozart conseguia cobrar pelas poucas obras que decidira publicar (i.e., os
seis quartetos dedicados a Haydn, vendidos para Artaria em 1785 por 100
ducados ou 450 f l .) " , apesar de todas estas provas de crescente afluência, a
verdade é que a popularidade de Mozart, em Viena, começara a declinar em
1788 e com ela sua segurança financeira. Don Giovanni, quando reprisada
em Viena, aquele ano, por pedido expresso de José II , segundo disse, anos
mais tarde, Lorenzo da Ponte, o libretista, "não foi um sucesso".
Entretanto, a fama de Mozart no exterior crescia paulatinamente, em es-
pecial nos países de língua alemã, onde suas óperas no vernáculo, como O
rapto do Serralho e também Figaro e Don Giovanni (logo traduzidas para o
alemão), mostraram ser extremamente populares apesar das dificuldades
17
técnicas, tanto vocais quanto instrumentais. Toda esta popularidade "es-
trangeira", contudo, não melhorou as finanças dc Mozart, a não ser indire-
tamente, no sentido de criar um desejo sempre crescente por parte do pú-
blico de ouvir sua música. Um compositor podia pedir um pagamento para
tocar ou reger sua música, mas ainda não existia "direitos de execução", de
forma que as representações das óperas de Mozart, em alemão, traziam
fama mas não florins. Da mesma maneira, não existiam leis de direito au-
toral e os editores alemães tinham liberdade de imprimir ou reimprimir a
música de Mozart à vontade. A época em que um compositor poderia obter
um rendimento modesto pelos seus esforços, sem a ajuda da aristociacia,
estava se aproximando, mas ainda não havia chegado, e as consequências
disto se tornavam mais e mais patentes para Mozart.
Em meados de 1789, o compositor pintava a situação nas cores mais ne-
gras ao irmão maçónico Michael Puchberg, tesoureiro da Loja Zur wahren
Eintracht:
Deus! Encontro-me numa situação que não desejaria ao meu
pior inimigo, e se você, meu caro amigo e Irmão, me abando-
nar, infeliz e inocente embora seja, eu e minha pobre e doente
esposa e filho estaremos perdidos... Meu destino, Ceús, so-
mente em Viena, é tão contra mim que não posso ganhar di-
nheiro mesmo que queira; durante os últimos quatorze dias
circulei uma lista (para uma nova série de assinaturas) onde
só existe um nome, Swieten...12
Mesmo dando margem a uma certa dose de exagero, parece óbvio que as fi-
nanças de Mozart se encontravam em terrível situação, em parte por causa
das sucessivas gestações de Constanze (geralmente necessitando tratamen-
tos custosos na estação de águas de Baden) e em parte pela interrupção dos
concertos de assinatura de Mozart. Tratava-se de uma série de concertos,
organizados pelo próprio Mozart, para os quais os assinantes pagavam an-
tecipadamente uma determinada quantia. Puchberg, que conhecia Mozart
bastante bem, deve ter reconhecido a premente necessidade monetária do
compositor, pois continuou a enviar-lhe dinheiro sempre que requisitado.
Era esta portanto a situação financeira de Mozart ao partir para a Alema-
nha para se apresentar ao novo imperador. Na mesma carta de 28 de setem-
bro de 1790, na qual Wolfgang relatou à Constanze que havia chegado sem
problemas em Frankfurt, temos a primeira referência sobre uma compli-
cada transação comercial que, segundo o compositor, o ajudaria a resolver
suas dívidas:
18
Aguardo notícias suas ansiosamente — sobre sua saúde, nos-
sos problemas etc. — Agora estou resolvido a tratar dos meus
negócios aqui da melhor forma possível e em seguida, com
todo o coração, anseio voltar para você — que vida maravi-
lhosa poderemos ter! — Trabalharei, e trabalharei ardua-
mente— tudo para que, por circunstâncias inesperadas, não
tenha que ser forçado a uma posição tão difícil. — Ficaria
contente se conseguisse que Lackenbacher (nome a seguir
quase ininteligível) viesse até você através de Stadler e tratas-
se de tudo isto. — A última idéia dele (Stadler) foi conseguir
alguém que adiantasse o dinheiro usando apenas Hofmeister
(sic) como garantia— 1.000 fl. em dinheiro, o resto a crédito
(duas palavras canceladas) — de forma que tudo poderia ser
pago com dinheiro de sobra e quando eu voltar só teria que
trabalhar. Usando uma procuração em branco (carta bianca)
em meu nome, um amigo poderia pôr tudo isto em operação.
— Adieu — Te beijo 1.000 vezes.
Sempre seu Mzt
Constanze parece ter levado o assunto adiante e organizado o emprésti-
mo de 1.000 fl. durante a ausência de Mozart. Ela não era de forma alguma
despreparada em questões monetárias, Como veio a demonstrar após a
morte do compositor; o acordo que fez com Heinrich Lackenbacher, um
mercador vienense, previa um adiantamento de 1.000 fl. em dinheiro para
Mozart, dando como garantia toda a mobília. Segundo o plano original,
Mozart deveria fornecer ao amigo e irmão maçónico Franz Anton Hoffmeis-
ter (forma correta de soletrar o nome) uma série de composições cujos lu -
cros seriam empregados para pagar a dívida. Hoffmeister, além de ser com-
positor, também dirigia uma editora de bastante sucesso com a qual, no
final de 1790, Haydn estava em negociações para vender seus mais recentes
quartetos de cordas, conhecidos como op. 64.11 Entretanto, o nome de Hoff-
meister não aparece no documento datado de 1." de outubro de 1790 que
Mozart assinou ao voltar da Alemanha. O compositor deveria pagar 5% de
juros pelo empréstimo, sendo que o capital deveria ser inteiramente pago
em dois anos, i.e., 1'.' de outubro de 1792. Uma vez que o nome de Lacken-
bacher não aparece na relação dos credores de Mozart, registrada após sua
morte, parece que esta dívida foi paga com juros antes de dezembro de
1791.
A s novas músicas de câmara que Mozart compôs, não só com o intuito de
tocá-las em concertos, como também de vendê-las a um editor, foram os
19
três quartetos Prussianos (K. 575, 589 e 590)14 e dois quintetos de cordas
(K. 593 e 614). Todos estes cinco trabalhos não foram primeiramente pu-
blicados por Hoffmeister e sim por Artaria & Co ., a editora que havia tam-
bém impresso os seis quartetos dedicados a Haydn.
Aliviado temporariamente daspreocupações monetárias, Mozart pôde
aproveitar o inesperado aparecimento, em Viena, de seu melhor amigo
músico, Joseph Haydn. O decano dos compositores austríacos havia repen-
tinamente, através da morte do Príncipe Nicolau Esterházy em 28 de setem-
bro de 1790, se tornado um homem livre. O novo príncipe Esterházy não
necessitava do serviço ativo do Kapellmeister, embora Haydn mantivesse o
título e também uma pensão anual de 1.000 gulden do falecido príncipe. O
compositor logo seguiu para Viena, onde o Rei Ferdinando (a quem Mozart
ainda não havia sido apresentado) tentou induzi-lo a seguir com ele para a
corte napolitana.
Neste momento, contudo, a vida do idoso compositor foi repentina e
dramaticamente modificada pela chegada em Viena de um insinuante vio li-
nista e empresário alemão chamado Johann Peter Salomon que morava em
Londres. Nascido em Bonn e amigo do jovem Beethoven, Salomon havia se
mudado para a Inglaterra, alguns anos antes, e lá se fixara como composi-
tor, violinista e, em especial, empresário de extraordinários dons. Tinha ido
para Colónia contratar cantores para a próxima temporada, quando leu nos
jornais sobre a morte do Príncipe Esterházy. Seguiu imediatamente para
Viena e bateu à porta de Haydn, certa noite, com a seguinte declaração:
"Sou Salomon de Londres e v im buscá-lo . Amanhã chegaremos a um
acordo." A princípio Haydn se mostrou relutante em fazer uma viagem tão
longa, mas Salomon (com quem já mantivera negócios há algum tempo)
formulou propostas financeiras, incluindo um grande adiantamento, que o
compositor achou difícil recusar. Haydn obteve a permissão do novo Prín-
cipe Esterházy e começou a arrumar as malas para a viagem.
Na verdade, Salomon tinha vindo a Viena com dois propósitos. Um era
contratar Haydn, no que obteve um êxito retumbante; o outro, contratar
Mozart, como comprova o obituário de Salomon, em um jornal inglês:
em 1790... ele resolveu contratar Haydn e Mozart, não só
para escreverem exclusivamente para ele, mas para regerem
suas composições pessoalmente. Co m este fim foi a Viena
onde, após diversas entrevistas com esses dois grandes músi-
cos, ficou mutuamente assentado que Haydn iria para Lo n-
dres para a primeira temporada, enquanto Mozart seguiria
para a segunda. Todos jantaram juntos no dia marcado para a
partida dos viajantes; Mozart os conduziu até a porta da car-
20
ruagem, desejando-lhes todo o sucesso e repetindo, en-
quanto partiam, a promessa de cumprir sua parte do acordo
no ano seguinte.
Haydn deveria partir com Salomon, para a Inglaterra, no dia 15 de dezem-
bro de 1791 para viver a maior aventura de sua vida, pacata e retraída. Seu
biógrafo, G. A . Griesinger, transcreve a seguinte informação, narrada pelo
próprio Haydn:
Mozart disse, durante o alegre jantar com Salomon, a Haydn:
— Você não aguentará por muito tempo e logo voltará, pois
não é mais jovem. — Mas eu ainda sou robusto e gozo de boa
saúde, retrucou Haydn.
Outro biógrafo, A . C. Dies, para quem Haydn deu um grande número de
entrevistas, disse:
Mozart, particularmente, se deu ao trabalho de dizer: —
Papa! (como o chamava comumente) Você não foi educado
para a vida mundana e fala muito poucas línguas. — Oh —
respondeu Haydn —, minha língua é entendida em todo o
mundo! [Os viajantes marcaram a data para a partida] e em-
barcaram no dia 15 de dezembro de 1790... Mozart, naquele
dia, não largou seu amigo Haydn. Jantou com ele e, no mo-
mento da partida, disse: — Estamos provavelmente dizendo
nosso último adieu nesta vida. As lágrimas vieram aos olhos
de ambos. Haydn ficou profundamente comovido pois pen-
sou que as palavras de Mozart fossem dirigidas a ele, pois
nunca lhe ocorreu a possibilidade de que o fio da vida de Mo-
zart poderia ser cortado pelas inexoráveis Parcas (Destino) no
ano seguinte."
Um dos alunos prediletos de Haydn, Sigismund von Neukomm, conta em
uma carta:
Durante certo tempo Mozart teve uma espécie de premonição
de sua morte. Lembro-me de meu mestre Haydn dizer: "no
final do ano de 1790, quando fiz a primeira viagem a Lo n-
dres, Mozart me disse adeus com lágrimas nos olhos: 'Receio,
meu Papai, que esta seja a última vez que nos vemo s' ."
Haydn, que era muito mais velho que Mozart, pensou que
2 1
sua idade (de Haydn) e os perigos que enfrentaria nesta via-
gem tivessem dado margem a este medo.1"
Haydn tinha então 58 anos, enquanto Mozart ainda não havia completado
35. Quem suspeitaria que o compositor mais velho sobreviveria ao mais
jovem por mais dezoito anos? Mozart descendia de uma linhagem robusta.
Seu pai morreu com sessenta e sete anos, o que era considerado uma idade
avançada no Século XV III; a irmã vivera até os setenta e nove anos, não ha-
vendo, portanto, razão para se imaginar que a vida de Wolfgang estivesse
pendurada por um fio tão ténue e que só lhe restassem doze meses de vida.
Nenhum indício nesta época, no começo do ano de 1791, induzia a qual-
quer sintoma alarmante ou sinais de cansaço, uma vez que Mozart aparen-
temente se comportava com sua habitual efervescência e energia.
Portanto, enquanto a carruagem de Haydn corria para a Inglaterra, Mo-
zart ficou para trás, pronto para arcar com as dívidas, com a assustadora
incompreensão da nobreza vienense que outrora havia sido sua principal
incentivadora, e com a frieza da corte austríaca que lhe fornecia a única base
financeira regular para sua precária existência.
22
II
A V IEN A D E MO Z A RT
A cidade para a qual Mozart voltou e que obviamente amava, contava, na última década do Século X V III , com uma população de cerca de
210.000 habitantes. Atualmente pensa-se em Viena em termos do Ring-
strasse, a magnífica avenida enfileirada de imponentes edifícios dos mais
variados estilos que cerca a velha cidade. Contudo, até meados do Século
XIX esta área era ocupada por portentosos muros e fortificações de onde se
inclinava o Glacis, um grande e verdejante espaço sobre o qual era proibido
se construir. Mais adiante se encontravam os prósperos subúrbios de Viena,
o Danúbio e diversos parques e jardins maravilhosos, incluindo o famoso
Prater. Dentro dos muros da cidade existiam cerca de 5.500 moradias, em
sua maioria altas e amontoadas como era comum na Idade Média. Embora
erigidas muitos anos antes, as casas tinham sido parcialmente reconstruídas
no estilo barroco. No caso dos palácios, os interiores possuíam pelo menos
um enorme salão decorado com mármore, altas janelas e reluzentes soalhos
de parquê.
Viena era uma cidade elegante e de proporções generosas. A antiga cate-
dral românica e gótiça de São Estevão dominava a paisagem, embora exis-
tissem muitas outras igrejas nobres, algumas de inestimável antiguidade,
como a de São Miguel, em cuja proximidade Haydn havia morado quando
jovem. Esta igreja ficava em frente ao Burgtheater onde, em 1782, Mozart
conduzira seu primeiro grande triunfo operístico, em Viena: O Rapto do
Serralho. O Burgtheater era vizinho ao Hofburg, residência do imperador
José II . Nas ruas, segundo os relatos contemporâneos, o vento e a poeira
eram um perpétuo contratempo, sendo que o trânsito dos pedestres era d i-
ficultado pelo grande número de carruagens e carroças de todos os tipos —
cerca de 4.000.
A classe dominante vienense, no final do Século XV III, vivia fascinada
com a maneira de vestir inglesa que era menos restritiva (literalmente) para
as mulheres e menos formal do que a moda francesa que havia imperado
durante a juventude de Mozart. Os uniformes dos oficiais do exército dos
regimentos reais do Império iam desde as elegantes jaquetas brancas de-
23
bruadas de vermelho até os fantásticos uniformes dos húngaros (grande-
mente imitados no exterior).
Apesar de na época não ter parecido assim para Mozart, a Viena de 1791,
para uma geração posterior, dava a impressão de ser um paraíso musical.1 A
razão disso foi que nos anos da maturidade de Schubert e Beethoven, por
volta de 1820, a situação dos compositores piorou muito. AntonSchindler,
biógrafo de Beethoven, resumiu este ponto de vista de forma admirável:
Uma classe dominante, culta e esclarecida que também pos-
sui enorme fortuna certamente estará em posição de servir
tanto à ciência como às artes. Este estado de coisas prevaleceu
entre os nobres vienenses que tinham um especial pendor
para a música. Havia uma preferência pela música sem osten-
tação — música que, interpretada por quatro ou cem vozes,
encantaria o ouvinte, cultivando a mente e os sentidos, eno-
brecendo-lhes as emoções. Era uma característica de todo o
povo alemão corresponder à despretensiosa grandeza, ao ver-
dadeiro sentimento e às puras emoções humanas inerentes à
sua música. Este povo sabia também como extrair do mistério
dos tons musicais um inexprimível significado e elevado es-
pírito. E mesmo assim não se tratava de um período de sofisti-
cação filosófica, mas sim, uma época de desinibido prazer
cuja pureza persistiu até a primeira década do nosso século.
Tal nostalgia como expressa por Schindler pode ser exagerada, mas no que
tange à nobreza vienense, assim como também à alta burguesia, temos pro-
va desta cultura através da imparcialidade de um estrangeiro, o diploma-
ta sueco Fredrik Samuel Silverstolpe que chegou a Viena em maio de
1797 como encarregado de negócios junto à corte imperial. Fez um dos
primeiros estudos sobre a vida musical da cidade, e se tornou amigo pessoal
de Haydn. No dia 20 de setembro de 1797 escreveu para a família em Esto-
colmo:
Em toda parte onde estive na Alemanha a classe média (Mit-
telstand) é muito culta. Acho que entre as chamadas classes
dominantes raramente encontramos idiotas completos como
ocorre conosco (na Suécia). Os oficiais no momento atual são
supostamente as exceções a essa regra... as mulheres são mui-
to mais lidas que as nossas, (mas)... em Viena é raro se encon-
trar virtudes domésticas neste sexo...2
24
Nos vinte anos seguintes a maior parte das orquestras particulares mantidas
pela nobreza austro-húngara teve que ser desativada em consequência dos
altos custos causados pela inflação; embora, em 1791, algumas das casas
vienenses mais ricas ainda se gabassem de possuir uma orquestra com-
pleta. Além do Príncipe Esterházy, os Príncipes Lobkowitz, Schwarsenberg
e Auersperg — todos patronos tanto de Haydn quanto de Beethoven —
mantinham uma orquestra e ofereciam frequentes concertos em seus palá-
cios vienenses. O Príncipe Grassalkovics, que quisera contratar Haydn
como Kapellmeister, em 1790, depois da morte do Príncipe Nicolaus Es-
terházy, sustentava o que era conhecido como Harmonie-Musique, um
conjunto de sopros que consistia em dois oboés, duas clarinetas, dois fago-
tes e duas trompas. Este conjunto popular era suficientemente pequeno,
permitindo seu patrono levá-lo consigo para o campo, no verão, onde junto
com os convidados podia ouvir os arranjos das mais recentes óperas. O
Conde Zinzendorf já havia ouvido duas vezes um arranjo para conjunto de
sopros das Bodas de Fígaro de Mozart, enquanto percorria diversos castelos
da Boémia em setembro de 1787. O Príncipe Nicolaus II Esterházy também
apreciava um octeto de sopro, sendo que grande parte da música tocada na
década de 1790 e no início da década de 1800 ainda se encontra preservada
nos arquivos Eisenstadt, incluindo arranjos de trechos das óperas de Mozart.
Caso a família não pudesse sustentar uma orquestra inteira ou mesmo uma
Harmonie-Musique, talvez pudesse patrocinar um quarteto de cordas,
como o fazia o Príncipe Carl Lichno w sky, patronp de Beethoven, bem
como quase todo mundo podia formar um trio de piano com bastante rapi-
dez. A famosa Briefe eines Eipeldauers, escrita em dialeto vienense local por
Joseph Richter, inclui esta declaração característica relativa ao ano de 1794:
"Não existe uma moça nobre, nem mesmo uma filha de burguês, que não
saiba tocar piano e cantar também."
Existia ainda uma enorme diferença social entre a classe dominante e a
classe baixa. Um visitante inglês pode observar que "o Imperador se apre-
sentava na rua sem qualquer ostentação; de carruagem ou a cavalo acompa-
nhado de um ou dois criados como um cavalheiro qualquer, sem guardas
ou escolta de qualquer espécie", embora na frase seguinte observasse: "a
nobreza não é, como na Inglaterra, formada de 'Peers' (pares ou iguais), mas
dividida em classes: as mais altas ordens tais como o Príncipe Esterházy —
o Príncipe de Lichtenstein etc. consideram os membros de outras classes
como inferiores".1 Uma observação semelhante foi feita pelo Kapellmeister
e compositor alemão J. F. Reichardt em 1808:
A alta nobreza daqui (Viena) mantém uma opinião bastante
alta, na verdade, muito alta sobre sua própria nobreza, e
25
mesmo para a nobreza estrangeira pertencente às boas casas
não é nada fácil penetrar nos círculos fechados e nas festas
íntimas das famílias.4
A mesma opinião é expressa pela Duquesa Hedvig Elizabeth Charlotte de
Sõdermanland que visitou Viena, junto com o marido, em 1798 e 1799,
escrevendo em seu diário:
De uma forma geral aqui (em Viena) impera uma incrível ar-
rogância nas altas esferas. Só pensam em seus antepassados e
são tão detalhistas a este respeito que podem ocorrer enormes
dificuldades quando alguém é apresentado à corte.
A força musical de Viena não se atinha apenas aos nobres e a quaisquer
concertos públicos correntes, mas também, é claro, aos simples cidadãos. A
este respeito podemos citar a correspondência vienense, anónima, como
sempre, do Allgemeine Musikalische Zeitung (AMZ) que, em um artigo pu-
blicado em 1800, discutiu este aspecto da vida musical da cidade:
Existem poucas cidades onde o amor à música é tão difun-
dido como aqui. Todo mundo toca um instrumento, todos
aprendem música... A s chamadas "academias" particulares,
isto é, concertos nas melhores casas, ocorrem aqui em inu-
merável quantidade durante o inverno. Não existe um ono-
mástico ou um aniversário em que não haja música. Não se
pode dizer muito a respeito destas reuniões sem medo de
parecer ridículo. A maior parte destes (concertos) é muito se-
melhante: primeiro um quarteto ou uma sinfonia, que são en-
carados como um mal necessário (tem que se começar com
alguma coisa) e durante os quais pode-se conversar. Em se-
guida, uma Frãulein após outra apresenta uma sonata ao pia-
no — geralmente não sem encanto e graça — da melhor ma-
neira possível. Depois outras aparecem e cantam algumas
árias das óperas mais recentes, em desempenhos semelhan-
tes. As pessoas parecem satisfeitas, e por que não? E quem
tem o direito de intervir nisto, contanto que a coisa perma-
neça em família?... Toda moça de respeito, tenha ou não
talento, precisa aprender piano ou canto; primeiro, porque é
moda, segundo (e aqui entra a parte comercial) porque é a
maneira mais fácil de aparecer em sociedade e assim, se tiver
sorte, atrair atenção e talvez fazer um bom casamento. Os
26
moços também precisam aprender música, primeiro porque,
de novo, está na moda; segundo, porque os auxilia no conví-
vio social e a experiência demonstra que não são poucos (pelo
menos aqui) que obtiveram através da música uma esposa ri-
ca ou um posto bastante satisfatório.
O artigo concluía dizendo que a situação económica de um músico em Vie-
na não era nada rósea. Os músicos eram malvistos, fama que obtiveram gra-
ças aos modos grosseiros e à falta de educação, sendo, portanto, geralmente
tratados como inferiores pela grande nobreza. É claro que existiam exce-
ções entre os músicos e também, acrescentava o autor, entre a grande no-
breza. Os tempos, naturalmente, haviam mudado desde a juventude de
Mozart, quando os músicos eram tratados como serviçais, embora ainda se
pudesse encontrar no Wiener Zeitung de 23 de junho de 1789 o seguinte
anúncio:
Precisa-se de um valet-de-chambre músico
Precisa-se de um músico que toque bem piano, saiba can-
tar e seja capaz de lecionar ambas as matérias. Este músico
deverá também exercer as funções de valet-de-chambre.Aos
que desejarem aceitar esta função pedir informações no pri-
meiro andar da pequena casa Colloredo, n? 982 em Weih-
burggasse.
Enquanto anúncios como este fossem impressos e estas funções ocupadas,
como provavelmente o eram, tornava-se difícil para um músico profissional
não ser tratado como um empregado doméstico. A frequente confusão de
status profissional com amador, como ocorria em Augarten (um jard im
para passeios do lado extremo do subúrbio de Leopolstadt, onde se realiza-
vam concertos no verão) e também nos salões particulares, ajudaram em
grande parte a tornar o status profissional do músico menos aviltante.
Se o autor do AMZ não parecia muito entusiasmado com a qualidade da
música amadora de Viena, nosso diplomata sueco Silverstolpe tinha alguns
comentários ainda mais arrasadores sobre suas primeiras impressões musi-
cais em Viena. No dia 4 de junho de 1796 escreveu:
Assisti a diversos espetáculos (óperas, peças teatrais), mas
sem qualquer prazer, pois aqui representam com indiferença,
de forma horrivelmente recitativa para o ouvido sueco, sem
apuro e geralmente cantando mal, e além do mais as orques-
tras não cumprem bem suas funções.
27
Silverstolpe logo percebeu a imensa brecha existente entre a sociedade
mundana e o mundo plebeu que falava em dialeto e acorria ao Theater auf
der Wieden de Emanuel Schikaneder. Em 24 de agosto de 1796 relatou:
... assisti recentemente a A Flauta Mágica no palco como tam-
bém conheci as pessoas para quem Mozart escreveu esta obra.
A música é excelente. Contudo, a ópera inteira é montada de
tal modo que certamente não teria sucesso no teatro sueco.
Não desejo que despendam qualquer esforço neste parti-
cular. Não somos suficientemente alemães ( i.e., para o
teatro)...
O correspondente do AMZ teceu também algumas críticas severas sobre a
vida musical da cidade. Embora o artigo fosse publicado em 1800, grande
parte do que está escrito se aplica também a 1791. Após discutir os solistas
italianos, o comentarista diz:
Não falta à orquestra bons elementos, mas sim boa vontade,
união e amor à Arte... O diretor, Herr Conti, não está à altura
da função; acontece geralmente que metade da orquestra é
composta de substitutos enviados pelos participantes quando
têm outros compromissos ou prazeres: o resultado pode-se
imaginar. A escolha das óperas certamente não é feliz: as anti-
gas, que são reconhecidamente boas, são pouco executadas,
enquanto as novas, que como é sabido não podem ser chama-
das de boas en bloc por qualquer conhecedor, são sempre en-
cenadas. Estas obras são encontradas na Itália segundo reco-
mendação deste ou daquele membro da companhia, geral-
mente por causa de um bom papel ou até mesmo por causa de
um ária brilhante. Muitas das óperas apresentadas, até os pró-
prios interessados estão convencidos desde o primeiro ensaio
que não podem obter sucesso.
Portanto, de um lado temos a entusiasmada descrição de Schindler sobre a
vida musical em Viena no fin-de-siècle; enquanto por outro, os comen-
tários negativos de Silverstolpe e do AMZ. Talvez a verdade resida em um
meio-termo entre os dois.
* * *
28
Os vienenses moravam em casas onde a mortalidade infantil era assustado-
ramente alta: dos seis filhos de Mozart, só dois sobreviveram. As crianças
dormiam em quartos que davam para pátios fedorentos, e a higiene não era
uma preocupação das classes média e baixa. Os andares térreos da maior
parte das casas eram usados como lojas ou vendas; como acontecia na casa
de Mozart em Rauhensteingasse (atualmente demolida) da qual possuímos,
por milagre, não só uma visão aérea, como também a planta baixa do apar-
tamento dele. Além do mais, podemos reconstruir com precisão a forma
como as salas eram mobiliadas e as roupas que Mozart usava. Na verdade
sabemos mais sobre a vida cotidiana do compositor do que sobre os gran-
des processos secretos da sua mente que nos legaram A Flauta Mágica e o
Réquiem.
Tudo leva a crer que a situação financeira de Mozart melhorara rapida-
mente na segunda metade de 1791. O fato de só haver 60 gulden na casa de
Mozart no dia 5 de dezembro de 1791, logo após Sua morte, deve-se certa-
mente ao fato de terem usado o pagamento de La clemenza di Tito para
pagar algumas dívidas prementes, assim como não há dúvida que o paga-
mento adiantado do Réquiem deve ter tido o mesmo destino.
As despesas de Mozart eram mais pesadas do que de qualquer outro mú-
sico vienense: suas obrigações incluíam o comparecimento às funções da
corte (i.e., reger a orquestra para os inúmeros bailes da corte onde tocavam
suas composições), frequentar os elegantes salões de pessoas como Johann
Tost e o Conselheiro da corte Greiner e aparecer nos círculos da corte e nas
recepções em Praga como Hofcompositeur (compositor da corte). Em di-
versas destas ocasiões sua esposa o acompanhava e em Baden também se
esperava que ela comparecesse adequadamente vestida para as reuniões no-
turnas. Isto significava que os Mozart tinham que ser bem vestidos e o ca-
belo de Wolfgang regularmente cuidado. Como prova disto, temos a narra-
tiva do testemunho ocular do seu próprio cabeleireiro:1
Enquanto eu penteava o cabelo de Mozart certa manhã e es-
tava ocupado em terminar seu rabo-de-cavalo, M. de repente
deu um pulo e apesar de o estar segurando pelo rabo-de-
cavalo (Mozart penteava seu próprio cabelo aloirado e não
usava peruca) dirigiu-se para a sala ao lado, me arrastando
com ele, e começou a tocar piano. Cheio de admiração pela
sua execução e pelo encantador timbre do instrumento — era
a primeira vez que eu ouvia um daqueles — soltei o rabo-de-
cavalo e só fui refazê-lo quando M. levantou-se outra vez.
Outro d ia, enquanto eu fazia a v o lta pela esquina de
Kàrntnerstrasse com Himmelpfortagasse para atender M. ele
29
chegou a cavalo, estacou, e depois de mais uns passos tirou
uma pequena lousa (do bolso) e escreveu uma música. Falei
com ele novamente e perguntei se podia atendê-lo agora, no
que ele concordou.
Não temos a menor idéia sobre as vestimentas de Constanze: não existe se-
quer uma testemunha ocular da época que nos descreva o tipo de roupas
que ela usava. Porém, sabemos o que Mozart usava em 1791 pelo simples
fato de que suas vestimentas foram arroladas junto com seus bens em um
documento chamado Sperrs-Relation (Ordem de Arresto) por ocasião de
sua morte." A relação é impressionante:
1 sobrecasaca de fazenda com um colete de algodão (Man-
chester)
1 sobrecasaca azul
1 sobrecasaca vermelha
1 sobrecasaca de nanquim (i.e., cor de camurça clara ou
amarela)
1 sobrecasaca de cetim marrom com calções da mesma fa-
zenda bordado de seda7
1 conjunto todo de tecido preto
1 capote cinza (i.e., castanho cinza, cinza-marrom)
1 capote de fazenda mais leve
1 casaca de tecido azul com peliça
1 casaca "Kiria" debruada de peliça
4 coletes variados, 9 calções variados, 2 chapéus comuns, 3
pares de botas, 3 pares de sapatos
9 meias de seda
9 camisas
4 lenços brancos de pescoço, 1 barrete de dormir, 18 lenços
8 peças de baixo, 2 camisolas, 5 pares de meias.
Um guarda-roupa semelhante poderia pertencer a um rico mercador. Mes-
mo nesta relação impessoal podemos notar que se trata de roupas caras, se-
não luxuosas, o que implica que Mozart devia dar uma considerável im-
portância a sua aparência externa. Co m certeza as roupas de Constanze não
deveriam ser menos elegantes.
A casa ("pequena Kaiser-Haus") em Rauhensteingasse" para onde Cons-
tanze Mozart havia se mudado , enquanto o marido se encontrava em
Frankfurt, possuía 4 peças, além de uma cozinha e um vestíbulo, todos lo-
calizados no primeiro andar: esta era a parte da casa que os Mozart haviam
30
alugado e, de forma alguma, significava um passo em direção à pobreza, pois
embora não fosse tão grandiosa, não era muito menor que o antigo aparta-
mento do compositor na Casa Camesina em Domgasse — que também pos-
suía quatro peças principais — local onde Mozart compôs o Fígaro, onde
Leopoldo Mozartmorou em 1785 e no qual Haydn ouviu os quartetos que
lhe foram dedicados. O aluguel fora excessivamente caro: 450 gulden
anuais, ao passo que no novo imóvel em Rauhensteingasse havia espaço
para a mesa de bilhar de Wolfgang, (embora não tivesse outras mobílias)
pois tanto ele quanto Constanze gostavam muito deste jogo. O espaço total
do apartamento era de cerca de 145 metros quadrados e em dezembro de
1791 incluía um grande número de peças de linho (5 toalhas de mesa, 16
guardanapos, 16 toalhas, 10 lençóis) junto com móveis e acessórios distri-
buídos segundo indicações na pág. 2067
O valor oficial atribuído a essa propriedade pode ser ilusório, uma vez
que no interesse dos herdeiros, que deveriam pagar imposto sobre os obje-
tos, as estimativas eram tradicionalmente as mais baixas possíveis. O valor
total dos bens foi relacionado da seguinte maneira:10
fl.kr.
Dinheiro em espécie 60
Dívidas acumuladas [salário devido ao tribunal] 133 20
[Dívidas registradas em outra parte como incobráveis
— 800 fl.: Anton Stadler 500 fl.,
Franz Gilowsky 300 fl. em 1786]
Prataria [o restante penhorado para viagem a Frank-
furt e não resgatado] 7
Roupas e linhos 55
Roupas de mesa e de cama 17
Móveis 296 8
Livros e músicas 23 41
Total 592 9
Mozart possuía em 1791 um pequeno número de livros que incluíam li -
teratura alemã, poesia, história, livros sobre viagens, filosofia, peças de
teatro e (é claro) libretos. Estas obras eram em inglês e italiano, sendo em
francês somente os libretos. Tem-se a impressão de que Mozart deve ter
dado grande parte dos seus livro s" e também das suas músicas — os meiri-
nhos não contaram as peças autografadas do compositor — antes de de-
zembro de 1791.
Entre as dívidas pendentes (totalizando 918 fl. 16 kr.) existiam três con-
tas substanciais: uma conta de alfaiate (282 fl. 7 kr.) , do estofador de mó-
31
veis (280 fl. 3 kr.) e do boticário da corte real imperial (139 fl. 30 kr.) . Havia
também uma outra conta menor do boticário no valor de 40 fl. 53 kr., como
também de outro alfaiate e de um sapateiro, etc. Os Mozart haviam eviden-
temente redecorado o apartamento ou reestofado algumas peças da mo-
bília, pois tanto as contas com os alfaiates como com os estofadores mos-
tram que o casal considerava importante manter uma boa aparência ex-
terna. Temos todos os motivos para acreditar que se vestiam bem, e que
viviam em um apartamento muito confortável, bem mobiliado com (habi-
tualmente) duas empregadas; Wolfgang dispensou uma delas quando a es-
posa foi para Baden e usava o criado'joseph "Primus"12 para trazer as refei-
ções de fora. Não existe a mais leve indicação de que Mozart jogasse (exceto
de forma muito banal, jogos de bilhar e de cartas), mas certamente não
frequentava as famosas casas de jogo de Viena onde não teria dinheiro para
ficar sequer dez minutos." Não existe na realidade dado algum que leve a
acreditar que qualquer um dos Mozart fosse extravagante, apesar de serem
despreocupados e generosos no que tange à hospitalidade, sendo que, em
relação a dinheiro, mal poderiam emprestar a Anton Stadler, por exemplo,
500 gulden em 1791. Porém tal magnanimidade não é nem de longe uma
prova de negligência e irresponsabilidade da qual geralmente têm sido acu-
sados. A impressão que se tem é que os dois não pareciam particularmente
interessados em dinheiro, embora não fossem perdulários na forma de gas-
tá-lo.
32
III
A V ID A M USICA L N A CA PITA L AUSTRÍACA
A primeira obra, em 1791, que Mozart assinalou no seu catálogo temá-tico foi o Concerto para piano em Si menor (K. 595) datado de 5 de
janeiro. Felizmente o manuscrito autografado desta obra não se perdeu,
sendo que as provas d'água sugerem uma curiosa cronologia: o concerto foi
esboçado, pela primeira vez, não em 1790, mas sim em 1788, ano em que
Mozart compôs suas três últimas sinfonias, K. 543 em Mi menor, 550 em
Sol menor e 551 em Dó (Júpiter).1
Em 1791, Mozart não mais realizava concertos por assinatura e, ao con-
trário do que geralmente se acredita, existem provas de que executou uma
derradeira série de concertos por assinatura em 1788. Como se trata de um
assunto de bastante importância e tem uma relação direta com seu último
concerto para piano, proponho examinarmos estas provas outra vez.2
Os trabalhos cruciais em pauta para a temporada de 1788 não são apenas
as três sinfonias, mas também o Concerto K. 537, da "Coroação" (cujo tí-
tulo advém da primeira edição publicada postumamente por André), que,
como o Concerto em Fá (K. 459) foi acima enumerado como tendo sido
executado em Frankfurt em 1790. Em primeiro lugar examinemos o pro-
blema em si, i.e., a série de assinaturas.
O que sabemos desses concertos — da pouca informação que temos so-
bre os mesmos — vem, em sua maior parte, das cartas de Mozart para o pai;
não foram anunciados através dos jornais locais, nem descritos pelo Conde
Zinzendorf (uma valiosa fonte) em seu Diário. Após a morte de Leopold
Mozart em 1787, se extingue nossa principal fonte sobre os detalhes desses
concertos. A prova que possuímos se encontra em uma carta de Mozart a
Puchberg que, infelizmente, não possui data e que erroneamente foi assi-
nalada como tendo sido escrita em junho de 1788.3 'Nessa carta Mozart
pede 100 fl. "mas apenas até a próxima semana (quando começam meus
concertos no Casino)...; por esta altura o dinheiro da minha série de concer-
tos já deve ter entrado com certeza e então poderei facilmente lhe pagar 136 fl.,
com meus sinceros agradecimentos". (Mozart assinala anteriormente na
carta: "ainda lhe devo 8 ducados", i.e., 36 fl.) . No parágrafo seguinte lemos
algo que a maioria dos estudiosos sobre Mozart prefere não notar ou deli-
33
beradamente ignorar: "Tomo a liberdade de lhe oferecer dois bilhetes que
peço, como Irmão, que aceite sem pagamento, uma vez que nunca poderei
recompensar adequadamente a amizade com a qual você me cumulou."
A cronologia da série do Casino depende, é claro, da data da carta. Supo-
nhamos que não tenha sido escrita em junho , mas muito antes (talvez em
março) e neste caso poderia se referir à série de subscrições da Quaresma e
talvez pudesse ter incluído o novo Concerto em Ré da "Coroação" que está
registrado no catálogo de Mozart em 24 de fevereiro de 1788. Porém existe
algo de muito estranho em relação à instrumentação do novo concerto,
uma vez que todos os instrumentos de sopro e os tímpanos estão assinala-
dos ad libitum. Esta medida de precaução parece sugerir não a presença de
uma grande orquestra, mas sim um pequeno conjunto de música de câmara
sem instrumentos de sopro, pelo qual talvez a obra tivesse sido executada.
De qualquer maneira é bastante improvável que a primeira apresentação
tenha ocorrido, como até hoje se imagina, na Corte de Dresden em 14 de
abril de 1789 diante do Eleitor Friedrich August III da Saxônia e sua con-
sorte Amalie von Pfalz-Zweibrúcken.
E se acaso a carta tiver sido escrita em junho de 1788? Então estaria se
referindo a uma série de subscrições que, talvez, tivesse lugar no verão.
Contudo, a cronologia das três últimas sinfonias é a seguinte: Mi bemol em
26 de junho ' Sol menor em 25 de julho; Júpiter em 10 de agosto. A carta
sugere que a série de subscrições é eminente, logo junho é provavelmente
uma data muito próxima; talvez o começo de agosto seja uma data mais
plausível. Além do mais uma série de subscrições no verão não parece pos-
sível, uma vez que a maior parte da aristocracia estaria fora em suas casas de
campo. Por outro lado, uma subscrição de outono seria inteiramente viável.
Novamente a marca do autógrafo na Sinfonia em Sol menor (K. 550) nos
ajuda a estabelecer um interessante fato cronológico. Aventava-se a possi-
bilidade de que as partes de clarineta inclusas (e algumas modificações no
movimento lento para simplificar a partitura dos instrumentos de sopro)
tivessem sido feitas especialmente para um concerto público na Quaresma
de 1791; porém, as marcas d'água nas partesadicionais do manuscrito au-
tografado são, com uma exceção (a folha 7 das partes de clarineta e oboé —
Mozart teve que reescrever as partes do oboé quando adicionou as clarine-
tas), as mesmas existentes no corpo principal da obra. Tudo isso sugere que
Mozart fez as revisões quase imediatamente após completar o manuscrito
autografado e que as fez para um concerto em 1788, portanto é óbvio que
pretendia usá-las. A verdade parece ser irrefutável: Mozart era muito prag-
mático e terminava suas obras com o fito específico de executá-las em pú-
blico.
34
Em seguida devemos examinar melhor o concerto público em 1791; pois
foi nele que certamente foi executada uma das três últimas sinfonias de Mo-
zart. Já vimos que seus concertos de subscrição se encerraram provavel-
mente em 1788, embora houvesse uma outra série anual de concertos da
qual ele participava com frequência: os dois pares de concertos anuais da-
dos pela Tonkúnstler-Societàt (A Sociedade dos Músicos formada em 1772
para ajudar as viúvas e órfãos — Mozart deveria ter sido um dos membros,
mas não conseguiu achar sua certidão de nascimento, prova necessária a ser
apresentada)4. Ele havia contribuído com Davidde penitente (K. 469)1 em
1785 e tocado piano, além de oferecer outras músicas, vocais e instrumen-
tais, durante o correr da última década. Então, em 1791, Antonio Salieri,
Kapellmeister da corte regeu os concertos anuais da Quaresma que ocorre-
ram em 16 e 17 de abril e tiveram início com "Eine neue grose (sic) Simpho-
nie von Herrn Mozart". Qual sinfonia teria oferecido Mozart? Os mitos sub-
sistem e muitos escritores sempre preferiram imaginar que Mozart nunca
tivesse ouvido suas três últimas sinfonias compostas em 1788. Mesmo se
presumirmos que os concertos de subscrição de 1788 nunca tivessem ocor-
rido (o que, como vimos, não parece possível) é óbvio que Mozart levaria
consigo suas quatro últimas sinfonias inéditas, i.e., incluindo a Sinfonia
"Praga" (K. 504) para as excursões na Alemanha em 1789e 1790. Existe até
uma inconfundível tradição das partes manuscritas das quatro últimas sin-
fonias que se originam, obviamente, do material de execução do primeiro
manuscrito e não diretamente dos manuscritos autografados pelo compo-
sitor.
Cada uma das três últimas sinfonias está orquestrada para um conjunto
de sopro diferente: K. 543 tem 1 flauta, 2 clarinetas, 2 fagotes e tímpanos; a
primeira versão de K. 550 é com 1 flauta, 2 oboés, 2 fagotes e 2 trompas
(originariamente deveriam ser 4 trompas); a segunda versão é com 1 flauta,
2 partes revisadas para oboé, 2 clarinetas, 2 fagotes e 2 trompas; K. 551 é
com 1 flauta, 2 oboés, 2 fagotes, 2 trompas e tímpanos. Acontece que a lista
manuscrita dos executantes da Sociedade nos dias 16/ 17 de abril ainda
existe e inclui flautas, oboés e "Clarinetti: / Stadler/ Stadler Jr.", i.e., Anton e
seu irmão mais novo Johann. O único trabalho para flauta, oboés e clarine-
tas, entre as últimas três sinfonias, é a versão revisada de K. 550.6
De certa maneira isto tem pouca importância: uma grande e elegante pla-
téia vienense ouviu uma das três últimas sinfonias da autoria do Composi-
tor de Câmara Imperial regida por — ironia das ironias — Antonio Salieri
que, não importa o que possa ter sido ou não, nunca poderia ser considera-
do amigo de Mozart. Fo i esta provavelmente a última vez que Mozart ouviu
uma grande orquestra: os concertos da Sociedade sempre se gabavam de
possuir mais de 100 executantes. Era de praxe que os músicos doassem
35
seus serviços para a Sociedade, de forma que tudo o que Mozart teria obtido
deste concerto seria mais fama.
Se as sinfonias tivessem que depender dos concertos públicos para conti-
nuar sendo ouvidas, isto ainda era mais patente no caso dos concertos para
piano que, como sabemos, Mozart não só compunha como também execu-
tava. Talvez a série de assinaturas para 1788 tivesse sido menor em número
(três concertos em vez de seis?), o que explicaria por que naquele ano Mo-
zart começou a escrever o Concerto para Piano em Si bemol K. 595 na
forma particella, i.e., uma partitura não realizada inteiramente,7 para em
seguida arquivá-lo durante três anos. Entretanto, a entrada "o ficial" de K.
595 no catálogo de Mozart em 5 de janeiro de 1791 levanta uma outra dú-
vida espinhosa. Os estudiosos já perceberam, de uns tempos para cá, que
estas datas nem sempre indicam o término do trabalho em questão. Às ve-
zes Mozart simplesmente empregava uma data que havia usado para um
outro trabalho: no caso de K. 595, o registro poderia ser um indicador do
dia em que começou a trabalhar outra vez no seu esboço particella. Porém,
de uma maneira geral, Mozart provavelmente dava entrada no seu catálogo
quando terminava uma obra. Além do mais, não parece lógico que tenha
incluído obras inacabadas no seu catálogo. Desta forma, assim que um tra-
balho estava terminado, Mozart dava entrada no mesmo ; p o rtanto , K.
595 não teria entrado em 1788 e sim em 1791, quando (presumivelmente)
foi completado. Como um exemplo concreto, podemos examinar o caso do
último dos seis quartetos para cordas que Mozart compôs para e dedicou a
Haydn, o Quarteto "Dissonância" (K. 465). Leopold Mozart, em uma carta
datada de Salzburg, a 22 de janeiro de 1785, escreveu para a filha, em St.
Gilgen: "...neste momento acabo de receber dez linhas do seu irmão que
escreve que... no último sábado (15 de janeiro) obteve uma apresentação
dos seis quartetos, vendidos para Artaria por 100 ducados, para seu queri-
do amigo Haydn e outros bons amigos..." O quarteto final (K. 465) entrou
no catálogo no dia 14 de janeiro , um dia antes da primeira apresentação (as
partituras tinham que ser copiadas, é claro, e um trabalho novo e compli-
cado tinha que ser ensaiado pelo menos uma vez antes da primeira
apresentação).8 A ssim, por analogia, podemos supor que 5 de janeiro de
1791 aponta a verdadeira data na qual o concerto para piano foi terminado.
Entretanto, se, como parece provável, o novo concerto estivesse pronto
no princípio de janeiro de 1791, por que Mozart estaria tão ansioso por
terminá-lo, uma vez que não havia nenhuma apresentação programada? Na
verdade, pelo que consta, a obra foi apresentada a primeira vez, não em um
dos concertos de Mozart — ele já não tocava em concertos de assinatura —
mas como parte do concerto beneficente no dia 4 de março para um clarine-
tista chamado Joseph Bãhr ou Beer nas chamadas "Jahnscher Saal" (Salas
36
Jahnscher) no "Himmelpfortgasse" não muito longe do apartamento de
Mozart em Rauhensteingasse." Este concerto foi o último no qual Mozart
apareceu em público em Viena;10 logo, K. 595 marca o fim de uma longa e
brilhante série de concertos de piano com a qual havia iniciado tão auspi-
ciosamente sua carreira, em Viena, dez anos antes.
Um curioso adendo a esta história é que Mozart vendeu o novo trabalho
para Artaria, que o anunciou no dia 10 de agosto no Wiener Zeitung"; e
mais estranho ainda é que a maior parte dos primeiros concertos de
1785-88 não foi publicada durante a vida de Mozart — o magnífico Dó
maior K. 503, por exemplo, foi publicado postumamente por Constanze
em 1798 como: "Nr. 1 dei retaggio dei defunto publicato alee spese delia
vedova" (N? 1 do espólio do falecido compositor publicado às custas da
viúva).
Sendo muito mais pragmático do que geralmente se supõe, Mozart se
adaptava rapidamente às circunstâncias. Se então os concerto públicos ti-
vessem diminuído, por que não se concentrar em compor música para os
concertos particulares? Em meados de 1791 foi o que passou a fazer,12 pois
sabemos que naquele ano existiam duas famílias para as quais compunha: a
primeira está associada com o último quinteto de cordas em Mi bemol
(K. 614) do compositor, que entrou no seu catálogo temático em 12 de
abril de 1791. Quando foi postumamente editado em 1793 pela Artaria,
intitulou-se "Composto per un Amatore Ongarese". Sempre se pensou que
o "amador húngaro" fosse o negociante Johann Tost,concertino da orques-
tra de Haydn em Eszterháza, que se casara com uma mulher rica e que en-
comendava música de câmara dos principais compositores. Uma carta de
Constanze para J. A . André de 26 de novembro de 1800 corrobora esta
teoria:
Existe um Herr v(on) Tost aqui — mora em Singerstrasse —
que diz ter partituras autografadas por Mozart. E verdade que
M. trabalhou para ele. T. prometeu enviar os temas..."
Considerando-se que o quinteto tivesse terminado em 12 de abril, sugiro
que tenha havido uma soirée musical na casa dos Tost em 14 de abril onde
este trabalho, o último de outra nobre série, teve sua primeira apresentação.
Naturalmente Tost pagou a Mozart uma quantia pela composição do quin-
teto e também, presume-se, por ter organizado uma apresentação da qual o
próprio Tost tomou parte.
Podemos observar, portanto, uma radical mudança dos concertos públi-
cos — o Tonkúnstler-Societãt foi um dos últimos deste tipo a ter continui-
dade no final do Século XV III em Viena — para as soirées particulares. A
37
aristocracia, é claro, continuava se proporcionando elaboradas noitadas
musicais durante este período, mas a correspondência de Mozart mostra
que ele definitivamente não frequentava salões aristocráticos nesta época, já
que não menciona um sequer, em suas cartas à Constanze. Na vida de Mo-
zart, de qualquer maneira, a sociedade burguesa e o Teatro Schikaneder
estavam lentamente substituindo a ópera da corte e os salões aristocráticos.
O Teatro Schikaneder estava presente na mente de Mozart não só por causa
de A Flauta Mágica, como também por causa de dois outros trabalhos em
elaboração, ambos provavelmente encomendados. O primeiro é a divertida
ária de concerto (que aparece no catálogo de Mozart no dia 8 de março) Per
questa bella mano (K. 612), composta para Franz Geri (o primeiro Sarastro
de A Flauta Mágica) com um solo virtuoso para o contrabaixo (escrito para
Friedrich Pischlberger, membro da orquestra Schikaneder em Freyhaus-
theater). O segundo são as variações para piano sobre uma canção intitula-
da Ein Weib ist das Herrlichste Ding (K. 613) H extraídas de uma ópera que
estava tendo granc^e sucesso no Teatro Schikaneder. Mozart, é óbvio, estava
cada vez mais próximo do pessoal do pequeno e bem-sucedido Teatro Schi-
kaneder (localizado no subúrbio de Wieden, hoje 4? distrito de Viena) para
quem logo começaria a compor A Flauta Mágica.
A correspondência de Mozart perdeu-se em parte, e as primeiras cartas
de que temos conhecimento, no ano de 1791, são para seu amigo e compa-
nheiro de Maçonaria, Michael Puchberg. Como era de se esperar, é um pe-
dido de empréstimo, mas também — o que é mais importante para nós —
notícias sobre uma reunião onde se tocariam quartetos na casa de Hofrat
Greiner:
Muito estimado amigo e Irmão!
No 20 do cor., isto é, dentro de 7 dias, receberei meu salário
quinzenal.11 — Será que você poderia me emprestar até lá uns
vinte e poucos gulden; caso a resposta seja afirmativa ficaria
muito grato, grande amigo, e assim que receber meu dinheiro
terá seu pagamento com meus agradecimentos — até lá, per-
maneço sempre
Seu amigo muito grato
Mozart
13 de abril 1791"1
[Assinado por Michael Puchberg: enviado 30 fl. 13 de abril]
3 8
Pour/ Monsieur de Puchberg/ Chez Lui
Espero que Osler17 tenha devolvido as chaves; portanto, não
foi minha culpa. Também espero que em meu nome ele tenha
lhe pedido um violino e 2 violas — são para um "a quatro" na
casa de Greiner; você já sabe que é importante para mim — se
quiser vir à noite para ouvir a música está cordialmente con-
vidado por ele e por mim.
Mozart
P.S. Por favor perdoe-me se, ao contrário da palavra dada,
não devolvi aquela certa coisa (os 30 fl.) , mas Stadler, que em
meu lugar (pois tenho tantas coisas a fazer) deveria ir para a
coletoria, esqueceu de fazê-lo no dia 20 de abril e portanto
terei que esperar 8 dias (para receber meu salário quinze-
nal) .18
(Após 20 de abril de 1791)
Franz Sales, Hofrat von Greiner (1730-98)18 tinha sido um protegido da
Imperatriz Maria Teresa. Serviu como Secretário de Guerra na Chancelaria
da corte Boêmia-austríaca, foi sagrado nobre em 1771 e recebeu o título de
Wirklicher (presente) Hofrat em 1773. Era assistente do governo para a im-
portação de produtos alimentícios para Viena e como advogado trabalhava
em problemas relacionados à inflação, dando início a uma taxação sobre o
álcool e à abolição dos estatutos trabalhistas na Boémia. Era membro da
Sociedade Imperial de Estudos Reais (Studiengesellchaft) que organizava
inter alia o sistema escolar, sendo considerado um típico funcionário públi-
co esclarecido. Um contemporâneo o chamou de "um homem suave, ho-
nesto, compreensivo e ativo, digno de respeito: um protetor das ciências e
da cultura, inimigo da hipocrisia e do preconceito, e um bom amigo de to-
dos aqueles que demonstrassem algum talento ou habilidade..."20 A filha de
Greiner, Caroline Pichler, poetisa e diarista de renome local, relatou em
suas memórias que "tudo relacionado com novos trabalhos poéticos que
surgisse aqui ou no exterior era imediatamente trazido a nós para ser lido e
discutido".
Outro contemporâneo, Joseph von Hormayr, escreveu o seguinte:
A casa (de Greiner) em Mehlgrube, no Neuer Markt, era um
templo da música, um lugar para se colecionar le bon ton e
tudo o mais que fosse ilustre em matéria de artistas locais e
39
estrangeiros, fossem eles de igual ou mais alto nascimento. A
nenhum estrangeiro ilustre era recusada a nobre hospitali-
dade da casa, nem tampouco o incentivante e culto círculo de
amigos.21
Caroline Pichler lembra que Mozart, após improvisar sobre "Non piu an-
drai" (Fígaro, 1 " Ato) levantou-se aos pulos do piano, saltou sobre cadeiras
e mesas e se pôs a miar como um gato. Frau Pichler anotou pudicamente:
Haydn e Mozart, a quem conheci bem, eram pessoas que não
demonstravam em seu contato com os outros qualquer capa-
cidade intelectual extraordinária e quase nenhum tipo de
treino intelectual, de educação científica ou superior. Um
caráter comum (Sinnesart), anedotas tolas e, no caso do pri-
meiro (Mozart), um estilo de vida irresponsável era tudo que
exibiam aos seus contemporâneos; e, no entanto, que profun-
didades, que mundos de fantasia, harmonia, melodia e senti-
mento jaz iam escondidos naquela improvável aparência!
Através de que revelação secreta advinha sua (deles) compre-
ensão de como exteriorizar efeitos tão gigantescos, e expres-
sar em notas tais sentimentos, pensamentos e paixões que to-
dos os ouvintes eram obrigados a sentir a mesma coisa, que
todos tinham suas almas tão profundamente tocadas?22
O Hofrat, embora sendo um mau poeta amador, tinha bom gosto, e entre
aqueles que frequentavam sua casa hospitaleira sobressaía-se Lorenz Leo-
pold Haschka (secretário do Hofrat desde 1777), autor do texto para o hino
nacional austríaco de Haydn Gott erhalte de 1797, razão suficiente para tor-
nar seu nome imortal; e "com ele", escreveu Caroline, "as Musas entraram
em nossa casa". (Corriam rumores entre as más línguas vienenses que Has-
chka usufruía outras coisas além dos favores literários de Frau von Grei-
ner.) Poetas, autores teatrais, cientistas, estudiosos e doutores frequenta-
vam o salão. O Hofrat era um ardente maçom e membro da loja maçónica
de Haydn: Zur wahren Eintracht. Vários dos seus irmãos maçons eram
bem-vindos como convidados: Johann Baptist von A lxinger (o poeta),
Freiherr von Gebler (conhecido mozartiano — escreveu a peça intitulada
Thamos, Rei do Egito para a qual Mozart escreveu a brilhante música ins-
trumental e vocal K. 345), Freiherr von Jacquin (também amigo de Mo-
zart), Gottfried van Swieten (que não era maçom) e, é claro, o próprio Mo-
zart. No verão, Greiner recebia em Hernals, em sua casa de campo.
De uma certa forma, o aspecto da sociedade vienense estava mudando: o
40
salão de Greiner era burguês, em substituição aos próprios concertos da
assinatura de Mozart no início dosanos 1780, e aos grandes salões aristo-
cráticos. O paulatino fracasso dos concertos de assinatura de Mozart preci-
sam ser examinados em termos mais realistas (e menos românticos) do que
a crescente perda de contato (e consequente falta de sucesso) do composi-
tor junto ao público vienense. A guerra com o Império Turco sangrava a
Áustria: o Conde Zinzendorf em seu diário enumera horrorizado as astro-
nómicas despesas bélicas, ano após ano. Vários homens das grandes fa-
mílias da nobreza se encontravam no que se poderia chamar de "reserva" e
se juntaram a seus regimentos assim que irrompeu a guerra, que por sinal
não era popular, nem bem-sucedida:2' o sítio de Belgrado em 1787 custou
caro à Áustria, especialmente em termos de doença. Várias famílias aristo-
cráticas deixaram os palácios de Viena e foram para suas casas de campo. O
dinheiro sumiu de circulação e não existe dúvida que uma das razões para o
fracasso dos concertos de assinatura de Mozart foi simplesmente a falta de
dinheiro por parte da burguesia e da aristocracia. A s grandes orquestras
da nobreza começaram a desaparecer; a música de câmara, por outro lado,
não só era mais barata, como se tornou moda entre as famílias burguesas.
Os mais poderosos, como os Greiner, pagavam músicos profissionais para
tocarem quartetos, os mais modestos tocavam eles próprios instrumentos e
convidavam os amigos para compartilhar uma boa refeição após o concerto
(como o amigo de Haydn, Dr. Peter von Genzinger, cuja esposa Maria Anna
era uma boa pianista amadora e cujos filhos também eram musicais: um
deles suficientemente dotado a ponto de cantar a cantata de Haydn Arianna
a Naxos em 1790"). Naturalmente Mozart recebia um pagamento para or-
ganizar uma noite de quartetos para os Greiners, embora não tenhamos no-
ção da quantia envolvida.
Passemos rapidamente por várias pequenas encomendas feitas em 1791:
canções, peças para relógios mecânicos (Mozart detestava aquelas engrena-
gens rangentas) e uma pequena obra-prima: o Adagio e Rondó para harmó-
nica, flauta, oboé, viola e violoncelo (K. 617) para a tocadora de harmónica
cega Marianne Kirchgessner." Era quase impossível para Mozart escrever
qualquer coisa que não fosse musicalmente perfeita: mesmo o outro Adagio
sem acompanhamento (K. 356 [617a]) composto para a mesma execu-
tante, neste ano, é de uma inenarrável beleza. Entretanto, nada disso era o
que ele fundamentalmente desejava fazer, e nem o que deveria estar fa-
zendo, isto é, criando obras-primas em grande escala.
4 1
IV
MÚSICA D E DANÇA PA RA A C O RTE IM PERIA L
A carreira musical de Mozart passou a partir deste momento a tomar uma inclinação curiosamente oblíqua, que era uma consequência diretado
contrato com a corte vienense. O Imperador José II empregara Mozart em
1787 por razões que poderiam ser consideradas negativas. Quando, após a
morte de Mozart, Constanze tentou (com sucesso) assegurar uma pensão
da corte, as autoridades pediram a opinião de diversos de seus funcio-
nários. A posição que Mozart ocupava era então considerada supérflua; e
em uma carta de 5 de março de 1792,Johann Rudolph, Conde von Chotek
— diretor do novo departamento financeiro do ministério — escreveu ao
Tesoureiro da corte que Mozart havia sido contratado "simplesmente em
vista do fato... de que um génio tão raro no campo da música não deveria ter
que procurar seu ganha-pão em terras estrangeiras..."'
Um dos géneros musicais de que a corte de Viena necessitava regular-
mente e em grande quantidade era a música de dança para os bailes da corte
oferecidos durante o Carnaval nos grandes e pequenos salões (conhecidos
co letiv amente co mo Redoutensaal o u , ju ntand o as d uas salas,
Redoutensàle) do palácio imperial de Viena. Os bailes em 1791 começaram
dia 6 de janeiro, dia de Reis, pois nesta data o Conde Carl Z inzendorf ano-
tou em seu Diário :"... dali para casa, e em seguida para o baile da corte. A
confusão me deixou entediado. A Rainha de Nápoles me cumprimentou
graciosamente. A Imperatriz jogou."2
Um curioso aspecto da posição de Mozart dentro da corte era o fato de
que um dos seus poucos deveres acarretava a composição de músicas de
dança. Em 1791 ele brindou a corte com uma série completa da melhor
música de dança escrita até então; era o começo de uma grande linha que
viria a incluir as últimas músicas de dança de Joseph Haydn (1792 e mais
tarde) e subsequentemente as primeiras composições orquestrais para Vie-
na de Beethoven, os magníficos (e até bem pouco tempo negligenciados)
minuetos e danças alemãs, as Danças Redoutensaal de 1795,1 atingindo seu
ápice nas valsas de Lanner e da dinastia Strauss. Não resta a menor dúvida
de que os austríacos sempre foram apaixonados pela dança, inclusive o pró-
prio Mozart.
43
Os bailes da corte eram famosos até fora da Áustria e eram sempre co-
mentados nos livros de viagem e nos guias. Os participantes usavam más-
caras, eram servidas deliciosas comidas e bebidas e também podia-se jogar.
Os austríacos adoravam namorar e as máscaras facilitavam conversas atre-
vidas e situações ao estilo de Cosi fan tutte. A Redoutensále tinha capaci-
dade para mais de 3 mil pessoas, embora segundo um guia de viagens italia-
no de 1800 "é muito mais divertido quando só estão presentes mil e qui-
nhentas pessoas". A temporada de Carnaval começava no primeiro do-
mingo após o Natal e nas duas últimas semanas da temporada havia dois
bailes, nas quintas e domingos. Durante o ano também ocorriam bailes em
alguns dias santificados (por exemplo dia de Santa Catarina e de Santa Tere-
sa) como também nos domingos após a Páscoa e o Pentecostes. Os bailes
começavam às nove horas da noite e continuavam até às cinco da manhã do
dia seguinte. O guia italiano salientava que apesar da grande quantidade de
pessoas de diferentes classes sociais, quase não aconteciam incidentes,
sendo os guardas e policiais realmente supérfluos. Nestes bailes, continua-
va o guia, poder-se-ia encontrar uma elegante profusão de amor, juven-
tude, beleza, bom gosto e magníficas vestimentas; como também podia ob-
servar-se "a personalidade pacífica desta nação bem-comportada [brava]".'
Em outros compêndios foi registrado, contudo, que "muitos mascarados
tomam a liberdade, no aperto da multidão, de tocar e beliscar as damas e
que a desejada delicadeza nem sempre é observada na escolha das expres-
sões; tal comportamento é, segundo o comando Real, expressamente proi-
bido". No ano de 1800 esta nota (Advertência de Sua Majestade) foi ane-
xada aos programas de teatro onde se anunciavam os bailes, mas é possível
que estas liberdades já fossem de uso corrente nove anos antes.
O catálogo temático de Mozart no ano de 1791 (ver Apêndice B) enu-
mera conjuntos de danças e minuetos alemães. É claro que tais danças eram
pièces d'occasion, mas certamente Mozart as levava a sério, dedicando-lhes
tanto cuidado, em especial no que dizia respeito à orquestração, quanto às
grandes obras instrumentais. A brilhante instrumentalização reflete a ex-
celência da orquestra da corte para quem, é claro, as óperas de Mozart eram
compostas, sendo que diversos de seus membros eram contratados para
tocar nos concertos de assinatura. Alguns dos executantes eram renomados
compositores, enquanto outros famosos virtuosi nos seus respectivos cam-
pos, como o clarinetista e tocador de clarineta contralto Anton Stadler para
quem Mozart compôs o Quinteto (K. 581) e o Concerto para Clarineta
(K. 622). Um dos trompetistas da Guarda Húngara, Joseph Zahradnieczek,
membro da Loja Maçónica de Mozart Zurgekrõnten Hoffnungem 1790-91
imp rimia música para os ed ito res v ienenses tais como Christo p h
Torricella.1 Na grande Redoutensaal a orquestra, como era costume para os
44
conjuntos de dança da época, não tinha violas, contendo uns quarenta exe-
cutantes, enquanto na sala menor a orquestra consistia de 27 figuras, se-
gundo consta nos bailes do dia de Santa Catarina em 1792, sendo provável
a presença do mesmo númerodo ano anterior."
Não era comum publicarem-se estas músicas para dança com orquestra-
ção completa, de modo que Mozart vendeu várias danças musicadas para
piano, em 1791, para a editora Artaria; um ano depois, Haydn também
achou lucrativo fazer orquestrações para piano da música de dança do Dia
de Santa Catarina, sendo também publicado pela Artaria, junto com os ar-
ranjos para dois violinos e baixo (convenientes para bailes particulares). Os
vienenses tinham outra tradição para disseminar a música de dança e isto
era feito através de copiadores profissionais. Até o final do Século XV III,
estes copiadores continuaram a ganhar a vida, vendendo partituras manus-
critas e trechos de óperas, sinfonias, concertos, música de dança, árias —
enfim, tudo o que pudesse ser comercializado. Era de uma maneira geral
mais barato adquirir um partitura manuscrita de uma ópera do que uma
edição impressa da mesma obra. A impressão de música, embora floresces-
se na Holanda e na França em meados do Século XV III, logo atingindo
também a Alemanha e a Inglaterra, não chegou a Viena em grande escala até
cerca de 1780. Na década dos 60 e 70 a música austríaca circulava por toda
a Europa central através da cópias manuscritas preparadas pelos copistas
vienenses. A música de dança, embora especialmente efémera, era um
campo lucrativo para os copistas porque um conjunto de danças, às vezes, se
tornava extremamente popular durante uma temporada. Algumas das dan-
ças de Mozart eram tão apreciadas que continuaram a ser tocadas mesmo
depois da sua morte, por exemplo , na pequena Redoutensaal em 1793
junto com as danças de Haydn escritas para a temporada de 1792.7
Em março de 1791 nada menos do que três casas vienenses se ofereciam
para vender as últimas músicas de dança de Mozart em cópias manuscritas:
K.599,600, 601,602, 604 e 605 podiam ser compradas em Lorenz Lausch
(uma famosa copiadora vienense), emjo hann Traeg (que tambám impri-
mia música) e na Artaria (a principal editora musical austríaca). Algumas
das grandes danças e minuetos alemães só sobreviveram em cópias manus-
critas, sendo vendidos a um preço fixo determinado pelo número de bifoliP
(seis Bogen ou Bõgen, como são chamadas em alemão, e 5 kreuzer cada
perfaziam 30 kreuzer, doze bifolii 1 gulden [60 kreuzer]). No caso das
óperas, os direitos do manuscrito para aquelas executadas nos teatros im-
periais ou reais de Viena revertiam para os copistas oficiais do teatro da
corte. A boa quantia que os compositores recebiam em Viena por suas
óperas incluía os direitos de venda das cópias nos teatros; uma das cópias de
Cosi fan time, produzida em 1790, apareceu recentemente em um antiquá-
45
rio vienense e se encontra agora em poder de uma coleção particular ingle-
sa. Não sabemos qual o relacionamento entre a música de dança da corte e
os copistas vienenses, mas parece que os compositores podiam fazer suas
próprias transações comerciais e que a venda dos direitos para Lausch,
Traeg e Artaria dava a Mozart uma fonte adicional de renda que era muito
bem-vinda.9
Os estudiosos de Mozart sempre se perguntaram que quantias o compo-
sitor poderia cobrar pelos trabalhos que publicara em 1791, hesitando até
em arriscar um número aproximado. Acredito estarmos capacidados a for-
necer algumas destas informações advindas de duas fontes impecáveis. O
principal editor em 1791 era, no que concernia Mozart, a firma Artaria &
Co, que, como o nome indica, tinha sido fundada por italianos do norte e
que em 1791 era a mais importante (embora não fosse de maneira alguma a
única) das casas editoriais de música em Viena. Artaria era também a princi-
pal editora de Haydn, existindo até hoje uma vasta correspondência entre
ambos.
Como foi registrado no último capítulo, Mozart recebeu 100 ducados
(450 gulden) pela publicação dos seis quartetos de cordas dedicados a
Haydn (K. 387) que a Artaria imprimiu como Opus X em 1785. Este ho-
norário sempre foi considerado bastante alto, embora possa ser compro-
vado que Hayd n recebeu a mesma quantia da Artaria pelos Quartetos
"Prussianos" de 1787. Um ano depois ele escreveu para a Artaria, de Esz-
terháza, o seguinte
(10 de agosto de 1788):
Uma vez que agora me encontro na posição de precisar de um
pouco de dinheiro, proponho escrever para vocês, até o final
de dezembro, ou 3 novos Quartetos ou 3 novas Sonatas para
piano com acompanhamento de violino e violoncelo... é claro
que fica subentendido que então terei terminado os outros 3
Quartetos, ou Sonatas para piano, de forma que a edição
compreenda meia dúzia de números como sempre. NB. —
Para os 6 Quartetos a soma anterior de cem ducados, para as 6
Sonatas para piano (Trios) 300 f l...
As cartas de Haydn também nos dão informações concretas sobre seus ho-
norários para outros tipos de música:
Janeiro 1789: trabalhos para Breitkopf & Hártel em Leipzig,
honorários sugeridos —
46
uma Sonata para piano: 10 ducados (45 fl.)
seis Sonatas para piano: 60 ducados (270 f l . ) 10
Março 1789 : Fantasia para piano (Artaria): 24 ducados
("o preço está um tanto alto")
Janeiro 1790: Doze Minuetos e Trios para Orquestra
(Artaria): 12 ducados
Trios para piano "como sempre": 10 ducados
cada
Janeiro 1790: recibo da Artaria por três Trios para piano: 135
gulden"
Empregando estes números como base, podemos calcular com alguma se-
gurança os tipos de honorários que Mozart receberia da Artaria pelos seus
Quartetos "Prussianos" que foram anunciados no Wiener Zeitung no dia 28
de dezembro de 1791 e intitulados Tre Quartetti Op. XVIII. No dia 12 de
junho de 1790, Mozart escreveu para seu amigo Michael Puchberg: "Agora
sou forçado a dar meus quartetos (esta obra laboriosa) por uma soma de
dinheiro ridícula [Spottgeld]"12. Isto mal poderia se referir aos direitos de
publicação da Artaria, que, é claro, não levaria um ano e meio para editá-los
(os Quartetos), mas sim os direitos dos manuscritos para um dos patronos
de Mozart.
Grande parte da música de dança mozartiana foi editada durante o ano
de 1791 de duas maneiras: uma, as cópias manuscritas, como já vimos, e a
segunda, através dos arranjos para piano publicados pela A rtaria.13 Nova-
mente temos a correspondência de Haydn com a Artaria como indicação
em relação aos preços para a música de dança. Infelizmente não temos re-
gistro dos direitos dos copistas para as versões com orquestra completa,
mas se usarmos o preço de Haydn de 1 ducado ( 4 j fl.) por dança para a
Artaria, um cálculo moderado de tipo de honorários que Mozart poderia
esperar receber dos copistas seria o mínimo de 3 gulden (fl.) por dança.
É de certa forma intrigante que a Artaria não só editasse os arranjos para
piano de nada" menos que 48 danças de Mozart em 1791, como também
editasse —junto com as firmas rivais Johann Traeg e Lorenz Lausch — as
versões com orquestra completa em manuscrito pelo preço fixo usual por
bifolium. Deve ser salientado que todas as impressões possuíam diversas
edições — prova evidente de que a música de Mozart estava se tornando
cada vez mais popular junto a um novo público. Além de tudo era uma
música que agradava a todas as classes da sociedade vienense: os nobres
ricos podiam comprá-la e executá-la em versões orquestradas, enquanto a
esposa prendada do lojista podia tocá-la na versão reduzida para piano.
Haydn, em 1792, vendeu os direitos das suas últimas 24 danças Redou-
47
tensaal para a Artaria por 24 ducados14 — a mesma tabela de preços que
malogradamente pedira em 1790, mas que sem dúvida recebera da Artaria
pela publicação de suas danças anteriores, seja para orquestra completa ou
na versão reduzida. Por estas 48 danças em 1791, Mozart provavelmente
teria esperado e recebido 48 ducados (216 fl.) .
Para o Concerto para piano em Si bemol que a Artaria editou em agosto
de 1791, Mozart talvez esperasse receber os 24 ducados (108 fl.) que
Haydn recebera em 1789 por uma Fantasia para piano. Deve ter havido ho-
norários menores para as seguintes publicações:K. 613, editado pela A r-
taria emjunho de 1791 (Ariette, Pub. n? 341); as canções K. 596-98 (Sehn-
sucht nach dem Frúhlinge, Im Frúhlingsanfange, Das Kinderspiel) editadas
pelo irmão maçom de Mozart, Ignaz Alberti (membro da Zur gekrõnten
Hoffnung) em sua coleção Liedersammlung fúr Kinder und Kinderfreunde
am Clavier, Viena 1791; assim como honorários menores para as diversas
peças encomendadas para relógio com música e harmónica. Portanto, che-
gamos aos seguintes números:
Quartetos (Artaria) 225 fl.
Direitos de manuscritos para 30 danças
Redoutensaal 90 fl.
Direitos de publicação (Artaria) o mesmo 216 fl.
Concerto para piano em Si bemol (Artaria) 108 fl.
639 fl.
Se acrescentarmos uma outra soma de aproximadamente 100 gulden pelas
Variações (Ariette), canções, peças para relógio com música e harmónica
teremos uma estimativa a grosso modo de 739 gulden por execução e/ ou
direitos de publicação em 1791.
Ao examinarmos o número de músicas que Mozart compôs nestes três
primeiros meses de 1791 é curiosa e deprimente a falta de sinfonias, quar-
tetos, quintetos, missas e óperas — na verdade qualquer das grandes for-
mas de expressão a não ser o concerto para piano. Seria isto tudo o que a
corte esperava do compositor oficial para música de câmara: danças e mi-
nuetos alemães não importando quão magníficos fossem? Algumas destas
frustrações pairavam também no pensamento de Mozart. A biografia de
Nissen refere-se a um recibo (hoje perdido) para uma música de dança
onde o compositor escreveu: "Demais para o que fiz, não o bastante para o
que posso fazer."11 Fo i um desperdício chocante, e até criminoso do maior
génio da música.
48
V
NOVOS CA MIN HO S:
UMA NOMEAÇÃO PARA A CA TEDRA L?
D e repente parecia que tudo ia mudar. Mozart soube que Leopold Hof-mann, o antigo rival de Haydn e Kapellmeister da Catedral de Santo
Estevão de Viena, se encontrava mortalmente doente. Este importante
posto, que rendia anualmente 2.000 gulden, além das vantagens usuais (e
enormes!) tais como lenha, velas etc, não era uma designação outorgada
pela corte, e sim pela Magistratura Municipal de Viena. Mozart acreditava
ter muitos amigos entre os cidadãos de sua amada cidade, e requereu uma
nomeação, pedindo para ser designado como assistente não remunerado
do "atual Herr Kapellmeister da Catedral de Santo Estevão". Em uma altiva
carta, escrita no final de abril de 1791, lemos que Mozart decidira solicitar a
nomeação ao saber que "Herr Kapellmeister está doente, que meu talento
musical e minhas obras... são bastante conhecidas no exterior e que meu
nome é citado com o devido respeito em qualquer lugar." "Entretanto, o
Kapellmeister Hofman recuperou-se", acrescenta Mozart, pedindo em se-
guida que a Magistratura o nomeie como "assistente sem remuneração" de
Hofmann "que está agora bastante idoso". Mozart enfatiza especialmente
seu "conhecimento do estilo religioso" em relação ao qual, com razão, se
considerava bastante competente.1 Como Constanze reiteradas vezes decla-
rara, ele tinha uma afinidade particular e uma devoção para com a música
sacra; tinha também idéias específicas sobre missas cantadas e réquiens, as-
sim como sobre peças de música sacra menores e de caráter mais popular
(volkstúmliche).
A Magistratura Municipal outorgou uma decisãQ favorável em relação à
petição de Mozart em 28 de abril de 1791. Ele eventualmente deveria se
tornar Kapellmeister da Catedral de Santo Estevão e a história da música
sacra teria tomado então um rumo bastante diferente. Como se v iu, o velho
Leopold Hofmann se restabeleceu e continuou vivendo até 1793.
Recentemente uma obra fascinante passou a ser associada com o novo
interesse de Mozart pela música sacra: é o sombrio e dramático Kyrie em Ré
menor (K. 341), cuja cópia autografada há muito desapareceu (de forma
que não podemos examinar as marcas d'água, etc) . Esta obra chegou até
nós através de uma cópia feita pelo músico de Leipzig, A . E. Muller (Biblio -
49
teca Estadual de Berlim) e da primeira edição em partitura publicada com o
autógrafo de J. A . André, por volta de 1825. Esta obra extraordinária, que
pode ser comparada estilisticamente apenas com o Réquiem (tendo a
mesma tonalidade principal que este último) é instrumentalizada para uma
enorme orquestra, constando de duas flautas, dois oboés, duas clarinetas,
dois fagotes, quatro trompas, dois trompetes, tímpanos, órgão e cordas. Até
agora, e sem qualquer outra razão a não ser o grande tamanho da orquestra-
ção, esta obra tem sido catalogada como pertencente ao período de Muni-
que de 1780. (Mozart não tinha clarinetas em Salzburg, e uma orquestra
igualmente grande também aparece em Idomeneo composto para Muni-
que.) Porém, parece mais provável que Mozart pretendesse compor uma
grande Missa solemnis em Ré menor para comemorar sua nova designação
em Santo Estevão, completando o Kyrie antes de Hofmann convalescer.2 O
fato de Mozart estar preocupado com música sacra neste período é confir-
mado pela carta a seguir, escrita no final de maio de 1791 para Anton Stoll,
seu amigo assim como de Haydn, professor e diretor de música na igreja
paroquial de Baden.
l m o Gostaria de saber se [Anton] Stadtler (sic) esteve com você
ontem e perguntou pela minha Missa (Mozart em seguida cita
a abertura do K. 317, a "Missa da Coroação"). Sim? Eu , no
entanto, espero recebê-la ainda hoje; se não, por favor tenha a
gentileza de enviá-la imediatamente NB com todas as partes.
Devolve-la-ei logo.
2d o Por favor reserve um pequeno apartamento para minha
esposa (em Baden). — Ela só precisa de dois cómodos — ou
um quarto com um vestíbulo (Kabinetchen). — Porém o
principal é que seja no andar térreo — de preferência aquele
que Goldhahn ocupou no andar térreo do açougueiro. — Pe-
diria que você fosse lá antes — talvez ainda esteja para alugar.
— Minha esposa deverá chegar no sábado ou o mais tardar na
segunda-feira. — Se não conseguirmos este apartamento, o
essencial é localizar um perto dos banhos, mas principal-
mente que seja em um andar térreo — no prédio municipal
onde o Dr. A lt morava no andar térreo também seria satisfa-
tório — mas o do açougueiro seria preferível a todos os de-
mais.
3"° Também gostaria de saber se a temporada teatral em
Baden já começou? — por favor gostaria de obter uma res-
posta rápida além das novidades sobre estes três itens.
Mozart mpria
50
P.S. Meu endereço é: Rauhensteingasse im Kayserhaus n."
970 — primeiro andar —
P.S. Esta é a carta mais idiota que já escrevi na vida, mas é
perfeita para você. — 3
Wolfgang estava ansioso em conseguir um andar térreo para Constanze
pois ela estava grávida, tendo problemas com os pés. Por causa disto é que
aparece a primeira referência a Joseph Odilio Goldhahn (ou Goldhann) que
serviu de testemunha para o documento relacionando os pertences de Mo-
zart após a morte do compositor. Por qualquer razão o nome foi mais tarde
tornado ilegível (por Constanze ou Nissen?) e até o próprio Mozart parece
se referir a ele como " N N " em uma carta para Constanze de 12 de junho. E
quase certo, entretanto, que Goldhann estava envolvido nos negócios fi-
nanceiros de Mozart.
O ponto crucial da carta de Mozart é que ele pretendia executar a já fa-
mosa Missa da "Coroação" — assim chamada por ter sido tocada na coroa-
ção em Frankfurt em 1790 e um ano mais tarde em relação às cerimónias da
coroação em Praga4 — provavelmente na Catedral de Santo Estevão. Entre-
tanto esse espetáculo não ocorreu.
Devido ao decreto de 1783 do Imperador José, restringindo a execução
da música sacra figuraliter (i.e. com orquestra) nas igrejas, as missas or-
questradas tinham perdido o impulso , na Áustria, nesta década. Haydn
compôs apenas uma missa neste período, a chamada Mariazellermesse ou
Missa Cellensis (1782) ao passo que a última missa de Mozart em grande
escala, ou qualquer outro tipo de música sacra nessa época, tinha sido o
Kyrie, Gloria, Sanctus e Benedictus da Missa em Dó menor (K.427) apre-
sentada em Salzburg em outubro de 1783 (a obra nunca foi terminada e
Mozart mais tarde recuperou o Kyrie e Gloria, transformando-os, com duas
adições, em um oratório italiano chamado Daviddepenitente). Co m o Im-
perador Leopoldo II estas restrições foram muito relaxadas enquanto que
para igrejas ricas como Santo Estevão nunca foram estritamente cumpridas.
Mozart escrevia cartas afetuosas para a esposa, então em Baden com o
filho Carl; uma delas foi entregue pela criada de quarto Sabine (que eles
sempre soletravam como "Sabinde") que tinha ido com Constanze para Ba-
den e com quem ficou até morrer em 1806. A outra criada de Mozart chama-
va-se Leonore ("Lo rl"), mas ele a demitiu durante o verão. "Hoje à noite
dormirei na casa de Leutgeb", escreveu ele em 5 de junho , referindo-se ao
seu amigo Joseph Leutgeb, um negociante de queijos e também um ex-
celente trompista, antigo membro do conjunto arquepiscopal de Salzburg e
na época morando em Viena. Mozart tinha um carinho especial por Leut-
51
geb, tendo escrito, para ele, diversos concertos para trompa. Nesta época
Mozart estava começando um novo trabalho, o Concerto em Ré (K. 412
1376b] + 514): dois movimentos (faltando um Andante lento no meio) do
qual só sobrou um fragmento, sendo mais tarde terminado (orquestrado)
por Sussmayr e datado por ele no autógrafo do Rondó "Vienna Venerdi
Santo li 6 Aprile 792" (Sexta-feira Santa, 6 de abril de 1792)7
A correspondência com Constanze é deliciosa:
Acabo de receber sua querida carta e constatar com prazer
que você está bem de saúde e feliz — Mad.1 Leitgeb [sic] pôs
hoje o meu lenço de pescoço , mas de que maneira? Meu
Deus! — embora eu repetisse que esta é a maneira que (Cons-
tanze) o amarra. De nada adiantou. — Estou satisfeito em sa-
ber que você está com bom apetite — mas se comer muito vai
ter que c . . . muito, não quero dizer, andar muito — embora
eu gostaria que você não fizesse caminhadas muito longas
sem mim. — Faça tudo que eu sugerir pois certamente vem
do meu coração. Adieu — querida — minha amada — apa-
nhe-os enquanto voam pelo a r — 2.999 e 1/ 2 beijos voadores,
só esperando para serem apanhados. — Agora vou murmurar
algo em seu ouvido agora é sua vez
agora abrimos e fechamos nossas bocas cada vez mais
e mais — e finalmente dizemos: é por causa de Plumpi-
Strumpi você pode pensar o que quiser durante tudo
isso, mas é por isso que é tão bom — adieu — 1.000 carinho-
sos beijos do
seu sempre
Mozart
6 de junho de 1791."
Mozart esperava poder visitar Constanze na segunda semana de junho ,
mas o concerto dado pela tocadora de harmónica Kirchgessner no qual Mo-
zart obviamente iria participar teve que ser adiado. Wolfgang contou tudo
isto para Constanze no dia 11 de junho , acrescentando que certamente de-
veria chegar na próxima quarta-feira7. Em seguida escreve:
Devo correr, pois são 6:45 e a carruagem parte [para Leo-
poldstadt] às 7:00. — Cuidado para não escorregar nos ba-
nhos e nunca fique sozinha — e seu eu fosse você deixaria de
ir um dia ou dois aos banhos para não forçar demais as coisas.
Espero que alguém passe a noite com você. — Não posso d i-
52
zer o que daria se, em vez de estar aqui, estivesse aí com você
em Baaden [sic]. — De puro fastio compus hoje uma ária para
minha ópera (A Flauta Mágica). Levantei-me às 4:30 — meu
relógio, veja só, consegui abri-lo, mas como não tenho chave
não posso dar corda, não é uma tristeza? — shclumba! —
Uma outra palavra para se pensar — dei corda no relógio
grande — Adieu — querida — hoje almoço na casa de Puch-
berg — envio 1.000 beijos e em meus pensamentos digo a
você: A Morte e o desespero foi sua (dele) recompensa!8 [de
A Flauta Mágica, n." 11. II Ato].
seu apaixonado esposo de sempre
W. A. Mozart
Carl (o filho) deve se comportar,
beije-o por mim.
(tome um eletuário caso tenha constipação — de outra ma-
neira não)
(cuide-se nas manhãs e nas noites quando estiver frio.)
No dia seguinte, 12 de junho , outra carta foi despachada para Baden:
Queridíssima, minha mulherzinha querida!
Por que não recebi uma carta sua ontem à noite? Para ter que
viver apavorado com os banhos? — isto e mais outra coisa
arruinou o dia de ontem para mim — de manhã estive com
N N (Goldhahn) e ele me deu sua parole d'honneuràevvc aqui
entre meio-dia e 1 para podermos arrumar tudo. Portanto,
não pude ir almoçar nos Puchberg, mas tive que esperar
aqui. — Esperei até que deu 2:30 — ele não veio, de modo
que enviei um bilhete para a casa do pai dele pela empregada
— enquanto isto fui ao Ungarische Krone, pois já era muito
tarde para ir a qualquer outro lugar — até lá tive que comer
sozinho porque os outros clientes já tinham se retirado —
com o medo que estava por sua causa e pelo aborrecimento
por causa de N N , você pode bem imaginar como foi meu al-
moço — se ao menos eu tivesse uma alma que pudesse me
consolar um pouco. — Para mim não é bom ficar sozinho
quando tenho alguma preocupação — às 3:30 estava de volta
à casa — a criada ainda não havia voltado — esperei — es-
perei — às 7 horas ela chegou com um bilhete. — A espera é
desagradável na melhor das hipóteses — mas muitomais de-
53
sagradável quando o resultado não justifica a expectativa —
li uma porção de desculpas de que ele ainda não tinha conse-
guido ouvir nada de definitivo, e uma porção de garantias de
que certamente não havia se esquecido de mim e que é claro
manterá sua palavra. — Para me distrair fui então ouvir
KasperP que está causando tanto furor — mas não achei
grande coisa. — No caminho dei uma passada para ver se
Lõbel10 não estava na cafeteria — mas ele também não estava
lá. — De noite jantei no Krone para não ficar sozinho, lá pelo
menos tive oportunidade de conversar e depois fui direto
para a cama — levantei-me outra vez às 5 da manhã — me
vesti e fui ver Montecuculi" que encontrei em casa e em se-
guida à casa de N N que já tinha escapulido — só sinto que
por circunstâncias imprevistas não pude escrever para você
esta manhã — eu gostaria muito de ter podido fazer isto! —
O resto da carta se ocupa das transações comerciais com Goldhahn:
... agora estou prestes a embarcar amanhã e pronto a correr
para você! — se ao menos os meus negócios estivessem em
ordem! — quem, senão eu para dar um empurrão em NN? —
e se ele não for empurrado acaba desanimando...
Mozart correu para despachar a carta (agora está batendo 11 horas. Agora
não posso esperar mais).
Em uma carta não datada para Constanze desta época, ele escreve:
Goldhahn (nome quase ilegível) acaba de partir para Baden
— agora são 9 horas da noite e estive com ele desde as 3 horas
da tarde. — Acho que ele vai manter a palavra... Cumprimen-
tos do seu bobo da corte (Siissmayr?)...12
Mozart foi ter com Constanze tendo tempo de compor uma das suas pe-
ças mais belas e tocantes — o Ave, verum corpus (k.618) ,n destinado a uma
cerimónia religiosa que era, e ainda é, de especial importância na Áustria: a
festa do Corpus Christi.
A tradição do Corpus Christi incluía uma procissão que parava em frente
das Quatro Estações, sendo que o número quatro possuía uma referência
simbólica, o primeiro dos quatro quartos do globo para o qual se dirigia a
bênção e em seguida para a recitação dos quatro evangelistas que servia de
acompanhamento. Toda a comunidade tomava parte na procissão que tam-
54
bém clamava por uma boa colheita; era uma festa que unia a Mãe Igreja com
a Mãe Terra.
O Ave, verum corpus de Mozart celebra esta festa, mas sua significação
vai além do evento eclesiástico isolado para o qual foi composto. Co m esta
composição (assim como com o Réquiem e — se minha teoria sobre esta
cronologia está certa — o Kyrie K.341) Mozart estava estabelecendo o que
ele considerava ser um novo estilo em música sacra. O estilo de Ave, verum
corpus, em seu Volkstumlichkeit, na sua deliberada tentativa de ser despo-
jado, devocional e facilmente compreendido, está inteiramente de acordo
com as reformas iluministasdo Imperador José. Para um conhecedor, é
uma original modulação para Fá, por volta do meio da peça — a obra é em
Ré maior — e as entradas canónicas no final revelam que uma mão de mes-
tre está por detrás de tudo, embora a nota dominante seja de comovente
retidão e simplicidade. 0 Kyrie K.341 e o Réquiem demonstram o outro la-
do da moeda. Austeras e até solenes, ambas em Ré menor, estas obras conser-
vam, contudo, um espírito positivamente inspirado na época de José, de
simples retidão. Mesmo na sua música sacra, Mozart foi um inspirado pro-
duto do Iluminismo: vox populi = vox Dei, isto é, uma volta à voz do povo
na sua forma mais simples e básica, implicando uma espécie de verdade que
por sua vez foi encarada como tendo um toque do divino.
Mozart compôs o Ave, verum corpus para seu amigo Anton Stoll, e a
peça foi executada pela primeira vez na igreja paroquial de Baden, na festa
do Corpus Christi de 1791. O autógrafo de Mozart data de 17 de junho de
1791 e no dia seguinte ele deu entrada no catálogo temático (de onde con-
cluímos que ele levava este livro consigo o tempo todo). A pequena orques-
tra (cordas e órgão) e a escrita coral simples novamente nos remetem aos
tempos de José. Desde sua primeira publicação por André, por volta de
1808, tem sido uma das obras mais apreciadas de Mozart.
55
V I
CREPÚSCULO PARA OS MAÇONS
ozart entrou para a Maçonaria em dezembro de 1784. A Loja onde
1 V 1 ingressou, sempre designada pelo sinal • nos documentos contem-
porâneos ligados à Maçonaria, denominava-se Zur Wohhàtigkett (Benefi-
cência), seu mestre era Otto, Freiherr von Gemmingen-Hornberg, velho
amigo da família, Camareiro Palatino e Conselheiro Particular e que ajudara
Mozart em Mannheim em 1778. Neste mesmo ano, Gemmingen havia se
mudado para Viena, e talvez tenha sido ele o primeiro a sugerir ao jovem
compositor o ingresso na confraria.
A pequena Loja de Mozart tinha sido criada em 2 de fevereiro de 1783, e
seus membros acharam melhor se reunir nas salas de uma Loja maior e mais
influente: Z ur wahren Eintracht (Verdadeira Concórdia) que, com Zur
Wohhàtigkeit (Beneficência) haviam derivado da prestigiosa Lo ja Z ur
gekrõnten Hoffnung (Esperança Coroada). No dia 14 de dezembro de
1784, Mozart foi devidamente iniciado em sua Loja como aprendiz partici-
pante.
Na Inglaterra, a Maçonaria como organização começou a difundir sua
influência após a fundação da Grande Lo ja, em Londres, em 24 de junho de
1717, dia da festa de São João Batista, sob cuja bandeira foram fundadas as
Lojas européias. Na Áustria a primeira Loja foi fundada em 17 de setembro
de 1742 por membros da Aux Trois Squelettes (Três Esqueletos) e denomi-
nada Aux Trois Canons (Três Cânones). A Maçonaria floresceu nas terras da
Áustria e nas vizinhas Boémia e Hungria principalmente pelo exemplo
dado por Francisco Estevão, Duque de Lorena e marido da arquiduquesa
(mais tarde Imperatriz) Maria Teresa, que se tornara membro da confraria
em maio de 1731. Uma bula papal de 1738 que condenava a Maçonaria foi
simplesmente abolida na Áustria, uma vez que o Duque Francisco Estevão
(mais tarde Imperador) conseguiu convencer o Imperador Carlos V I a ig-
norá-la. Maria Teresa, contudo, não aprovava a Maçonaria, e seu filho José II
que reinou com ela a partir de 1765 (depois da morte do pai Francisco
Estevão) até 1780, a princípio encarava a confraria com ceticismo consi-
derável, se bem que tolerante.
57
A maior parte das Lojas austríacas seguia o ritual inglês e os antigos pon-
tos de referência, até que em 26 de março de 1781 — época em que José II
já reinava sozinho — um Decreto Imperial determinou que nenhuma or-
dem espiritual ou secular poderia ser submetida a uma autoridade estran-
geira, não sendo também permitido, a quaisquer dessas ordens, efetuar pa-
gamentos a não ser à Monarquia. Desta forma foi criada, em 22 de abril de
1784, a Grosse Landesloge von Õsterreich (Grande Loja da Áustria) que
açambarcava sete províncias: Áustria com 17 Lojas, Boémia com 7 Lojas,
Lamberg (Galícia) com 4 Lojas, Hungria com 12 Lojas e os Países Baixos
Austríacos com 17 Lojas.
Durante a primeira metade dos anos 1780, na Áustria, a Maçonaria se
tornou extremamente popular, além de ser o ponto de encontro da elite
intelectual. O conhecimento existente sobre os Maçons austríacos advém,
em grande parte, do material coletado pela Polícia Secreta da Áustria. No
entanto, os documentos da famosa Loja Zur wahren Eintracht foram escon-
didos e somente descobertos, mais tarde, quando os muros da cidade foram
arrasados, em meados do Século XIX. Zur wahren Eintracht foi fundada em
1781 e em 1785, época em que Mozart passou a frequentá-la, já contava
com 200 membros, cujo Mestre, Ignaz von Bo m, conhecido cientista, escri-
tor e mineralogista, parece ter servido de modelo para o Sarastro de A Flauta
Mágica de Mozart e Schikaneder. A s listas remanescentes sobre as Lojas vie-
nenses fornecem uma impressionante documentação sobre a importância
da confraria durante aquele período; enumerando nomes de príncipes,
condes e barões, diversos funcionários públicos graduados, oficiais mili-
tares patenteados, diplomatas, escritores, músicos, banqueiros e negocian-
tes. Na Loja de Mozart, que era pequena, mas refinada, havia homens como
Carl, Príncipe Lichnow ski, que acompanhou Mozart a Berlim em 1789 e
mais tarde se tomou famoso como protetor do jovem Beethoven em Viena.
Entre os escritores incluía-se Johann Caspar Riesbeck cujo livro (publicado
na Alemanha) Viagem pela Alemanha através de uma série de cartas (Lon-
dres, 1787) continha uma amarga crítica social, por exemplo, sobre a vida
dos camponeses perto da residência de Haydn, em Eszterháza, na Hungria.
Não era qualquer historiador que escreveria: "... a prova mais evidente de
que um país é infeliz está na diferença entre a maior magnificência e a mais
desgraçada pobreza, e quanto maior a diferença, mais infeliz o país." Trata-
va-se, portanto, quase como em Fígaro, de uma extraordinária visão da
Hungria pré-revolucionária "onde as pessoas vivem como animais em ca-
vernas subterrâneas ou como os mongóis em tendas...". Co m isso concluí-
mos que as conversas na Loja deveriam ser e, provavelmente, eram políticas
e em conformidade com as reformas do Imperador José II . Entre outros es-
critores pertencentes ao Zur Wolhtatigkeit encontravam-se Ignaz de Luca,
58
que publicou o esboço autobiográfico de Haydn em 1776, e o conhecido
cronista vienense Johann Pezzi.
Haydn se inscreveu para ingressar na confraria em dezembro de 1784 e
tomou-se aprendiz participante na Loja Zur wahren Eintrachtem 11 de fe-
vereiro de 1785. Neste ínterim, Mozart passara para o grau de companheiro
em 7 de janeiro de 1785 sob o Mestre Ignaz von Born. Não existem registros
sobre a passagem de Mozart para o terceiro grau, isto é, para Mestre Maçom.
O pai de Wolfgang, Leopoldo, chegou a Viena em 11 de fevereiro de
1785 em tempo de assistir, na mesma noite, à estréia do Concerto para Pia-
no em Ré maior (K.466). O velho Mozart ingressou então na confraria —
com certeza instigado pelo filho — e rapidamente (dado o fato de ficar em
Viena pouco tempo e ter que voltar para a arquiepiscopal Salzburg onde
não existia uma Loja oficial de São João) passou de aprendiz participante (6
de abril) para o grau de companheiro (16 de abril) e daí para Mestre Maçom
(22 de abril), tendo todas as cerimónias, exceto a primeira, sido realizadas
em Zur wahren Eintracht.
Wolfgang foi um dedicado membro da confraria:1 fornecia música para
as cerimónias, sendo seu trabalho mais extraordinário, o maravilhoso e
forte Maurerische Trauermusik (K.477) escrito para uma Loja das Tristezas
(serviço funerário) e dedicado a dois aristocratas confrades: o conde Esz-
terházy e o Duque de Mecklenburg-Strelitz. O forte simbolismo da obra
(conceito "trip lo ") assim como a forma total tripartida (empregando o Te
decet (cantus firmus) encontrado no Réquiem de 1771 de Michael Haydn)
revelam ocompleto envolvimento de Mozart com as teorias e filosofias ma-
çónicas sobre a morte e seu relacionamento simbólico com o Grau de Mes-
tre Maçom. É certamente sobre a passagem simbólica da morte para a vida
na cerimónia maçónica que Wolfgang se refere, numa famosa carta de 4 de
abril de 1787, ao pai então em seu leito de morte:
Como a morte (considerada precisamente) é o verdadeiro
propósito de nossa vida, durante vários anos tenho me tor-
nado bastante familiarizado com esta verdadeira e melhor
amiga da vida, de maneira que sua imagem não apenas não
mais é apavorante para mim, mas ao contrário , de certa
forma, é bastante reconfortante e apaziguadora! E agradeço
ao meu Deus por me permitir, em Sua Graça, a oportunidade
(você me compreende) que ela seja a chave da nossa verda-
deira felicidade. Nunca me deito à noite sem pensar (apesar
de tão jovem) que não viverei para ver o dia seguinte — entre-
tanto ninguém, especialmente aqueles que me conhecem,
pode dizer que no dia-a-dia eu seja teimoso ou triste — e por
5 0
esta felicidade agradeço ao meu Criador diariamente e desejo
a todps os homens o mesmo, do fundo do meu coração..."2
Possuímos, portanto, muitas informações sobre Mozart e os Maçons, mais
até do que ousaríamos imaginar. Deste derradeiro período temos inclusive
uma relação completa dos membros da Loja de Mozart, que não estava mais
funcionando como Z ur Wohhàtigkeit. Como ocorreu esta mudança?
O Imperador José II em um Handbillet de 11 de dezembro de 1785 or-
denou que o número de Lojas vienenses fosse reduzido a três, obviamente
acreditando que os Maçons estavam se tornando por demais poderosos,
além de não existir controle sobre suas atividades. José II desejava que os
números fossem drasticamente reduzidos e de uma forma bastante inteli-
gente forçou uma reorganização entre as Lojas, fazendo com que muitos
membros se retirassem ou simplesmente, como Haydn, ficassem incapaci-
tados de frequentar as reuniões. Os próprios confrades obedeceram a esta
ordem antes da data marcada, de maneira que em 28 de dezembro de 1785
a situação era a seguinte: a elitista Loja Z ur wahren Eintracht, junto com a
Palmbaum (Palmeira) e a Drei Adler (Três Águias) se reuniram sob uma
nova denominação: Z ur Wahrheit (Verdade); a Loja Z ur gekrõnten Hof-
fnung, a Loja de Mozart Z ur Wolhtatigkeit e a Drei Feuem (Três Fogos) se
fundiram com a principal Loja vienense Z ur neugekrõnten Hoffnung (Nova
Esperança Coroada), que abriu suas portas pela primeira vez no dia 14 de
janeiro de 1786. Estas duas antigas Lojas voluntariamente reduziram seus
confrades para 180 membros em cada uma, enquanto duas outras Lojas
mais antigas, Zum heiligen Joseph (São José) e Zur Bestàndigkeit (Constân-
cia) desapareceram inteiramente, embora alguns dos seus membros ingres-
sassem na Zur neugekrõnten Hoffnung. Ignaz von Bo m foi eleito Mestre da
nova loja Z ur Wahrheit, mas demitiu-se em agosto de 1786. O Imperador
também exigiu informações regulares sobre as Lojas, devidamente acompa-
nhadas de rigorosas listas dos membros (ausentes ou presentes) e, como
resultado desta supervisão, diversas listagens, tanto manuscritas quanto
impressas, foram incorporadas às listas secretas dos Arquivos da corte.
A última lista dos membros da Zur gekrõnten Hoffnunga incluir o nome
de Mozart data do ano de 1790. Isto é de suma importância, pois mostra
exatamente quem eram ou não os confrades lojistas do compositor, como
por exemplo Emanuel Schikaneder. A mais marcante presença da lista, que
foi publicada pela primeira vez em 1782, é a do Príncipe Nicolau Esterházy,
protetor de Haydn, como Mestre de Cerimónias, ao lado de três outros
membros daquela ilustre família. O Mestre erajohann, Conde Esterházy,
Camareiro Imperial que tinha sido Mestre da Loja em 1781 e voltaria em
1791 a ocupar novamente esta posição. Talvez tenha sido ele quem dirigiu a
60
Loja quando esta mudou de sede, em novembro daquele ano, época em que
Mozart compôs seu canto do cisne: Eine kleine Freymaurer-Kantate
(K.623). O terceiro Esterházy era o Conde Franz Seraphin, filho de Franz,
Conde Esterházy (conhecido como Quinquim e a quem foi co-dedicada a
Maurerische Trauermusik) que seguiu os passos do pai, tornando-se Co n-
selheiro na Chancelaria da corte da Transilvânia-Hungria. O quarto era
Johann Nepomuk, Conde Esterházy, nesta época vivendo na Transilvânia
onde era Administrador da Província.
A lista de 1790 inclui entre os membros categorizados: o Mestre substi-
tuto Joseph von Metz (membro da Divisão Holandesa do governo). O pri-
meiro diretor (ErsterAufseher) era o Irmão Joseph Bauernjõpl, funcionário
das Chancelarias Adjuntas da corte; o segundo diretor (Zweiter Aufseher)
era Franz Eugen, Conde von Traun und Abensperg, Chanceler Real do Im-
pério; o secretário era Karl Fischer von Ehrenbach, Conselheiro da Legação
dos Sachsen-Coburgs; o orador era Anton Niering von Lõwenfels, escre-
vente (Konzepisf) da Comissão Eclesiástica da corte e o tesoureiro era
Johann Nepomuk von Tõrõk, do Departamento de Contabilidade do Real
Ministério Imperial de Guerra.
Tratava-se de uma Loja divertida, contando uns 200 membros e uma
dúzia de Irmãos Serviçais (dois deles da casa de Johann Esterházy), um
abade dos Cânones Agostinianos de Huy, perto de Liège; o editor Ignaz A l -
berti, que mais tarde publicaria o libreto de A Flauta Mágica; Karl Ludw ig
Gieseke, membro do elenco de Schikaneder; Vittorio Colombazzo, ex-
celente oboísta que tomou parte na orquestra de Haydn em Eszterháza; um
oficial patenteado, o Tenente-Marechal de Campo Ferdinand, Conde von
Harrach, em cujas propriedades Haydn havia nascido; o gravador Joseph
Zaharadnitschek, trompetista da Guarda Húngara, e o Príncipe reinante
A nton de Hohenzollern-Siegmaringen. Esses membros formavam uma
equipe de escol a quem Mozart amava individual e coletivamente. No livro
de citações de um Irmão, Johann Georg Kronauer, professor de línguas,
Mozart escreveu em inglês: "Paciência e tranquilidade da mente contri-
buem mais para a cura de nossas indisposições do que toda a medicina (30
de março de 1787)3."
Porém em 1791 já se aproximava o crepúsculo para os maçons da Áus-
tria. Embora tivessem tido relativa paz sob a hégide de José II , ninguém
sabia ao certo qual seria o comportamento de Leopoldo II em relação à Ma-
çonaria. Durante um certo tempo o monarca não se manifestou a este res-
peito e foi neste interregno que Mozart e Schikaneder arriscaram um tiro no
escuro — salvar a confraria atavés de uma ópera alegórica; A Flauta Mágica.
Nunca ficou esclarecido se, e até que ponto, a Loja ou alguns membros
individuais ajudaram Mozart na crise financeira que o assolou no fim da
61
década de 1780. É claro que o tesoureiro da Loja de Haydn, Zur wahren
Eintracht, Michael Puchberg, demonstrou ser um amigo fiel e protetor da
família Mozart. Não sabemos, com certeza, se Puchberg foi jamais indeni-
zado pela dívida, mas segundo Nissen, ele esperou até que Constanze recu-
perasse a estabilidade financeira para então poder cobrar a quantia devida,4
uma delicadeza aliás bem consistente com o seu caráter. Sabemos de duas
ações concretas realizadas pelos Maçons após a morte de Mozart: uma, im-
primir a nova partitura de Kleine Ereymaurer-Kantate em pro l da viúva e a
outra (uma questão de honra para a Lo ja), a publicação de um discurso feito
na Loja das Tristezas em memória de Wolfgang.
Examinemos, por um momento, a situação financeira de Mozart durante
o ano de 1791. Seu salário, como vimos, era de 800 gulden anuais, dos
quais ele pagava 5% de impostos, perfazendo um total de 886 fl. 40 kr. por
14 meses de salário em 1791.5 Além dessa renda, Mozart conseguiu em-
prestados, de uma outra forma qualquer, nada menos que 200 gulden.
Numa carta a Puchberg datada de 25 de junho de 1791 ele relata ao amigo
que Constanze em Baden precisava de uma certa quantia inesperadamente
e pede que a envie, pois ele próprio não estava em condições de fazê-lo.
"Emalguns dias, não muitos, você poderá receber em meu nome 2.000 fl.
dos quais poderá subtrair esta soma imediatamente."6 Puchberg enviou 25
gulden e Mozart parece, na verdade, ter materializado a soma de 2.000 fl.
que talvez tivesse sido usada para pagar as dívidas com Puchberg. Quanto
aos rendimentos de Mozart em 1791, La clemenza di Tito rendeu-lhe 200
ducados (900 gulden) e 50 ducados (225 gulden) de despesas.7 Acho im-
possível acreditar que Mozart, que se manteve amigo de Schikaneder até o
fim da vida, tivesse recebido menos de 200 ducados por A Flauta Mágica,
especialmente porque desde o começo de dezembro a ópera tinha sido exi-
bida para platéias repletas durante umas 35 noites. Talvez seja possível,
como mais tarde Constanze contou a Rochlitz, que Schikaneder tenha rece-
bido o dinheiro dos direitos para o exterior (Le., a venda das partituras no
exterior) uma vez que Mozart adoeceu antes que essas negociações sobre a
ópera começassem a se tornar financeiramente compensadoras.
Já vimos que Mozart poderia ter recebido 739 gulden em 1791 pelos
direitos da publicação e exibição da ópera, embora esta quantia devesse ser
infinitamente maior. (Pouco sabemos sobre esta faceta da vida de Mozart:
talvez tivesse vendido outros manuscritos e direitos de publicação para o
exterior, embora nunca tenham sido divulgados, e dificilmente venham ao
conhecimento público .) Se presumirmos que os honorários para o Ré-
quiem atingissem 50 ducados (e não 100 ducados) e que Mozart recebeu a
metade em comissão, o que daria, portanto, 25 ducados (112 fl. 30 kr.) ; ao
adicionarmos estas quantias teremos o seguinte resultado:
62
Salário (treze meses)8
Quantias recebidas ao fim de junho
(empréstimo?)
La clemenza di Tito
de 1791
2.000 fl.
900 fl.
225 fl.
900 fl.
739 fl.
886 fl. 40 kr.
(e despesas)
A Flauta Mágica
Direitos de Publicação e outros
Pagamento adiantado p/ o Réquiem 112 fl. 70 kr.
5.763 fl. 10 kr. Total
Certamente trata-se de uma avaliação modesta, uma vez que estamos com
razão omitindo diversos imponderáveis, representando, porém, em essên-
cia, a renda aproximada de Mozart no terrível ano de 1791. Se desejarmos
comparar os rendimentos de outros compositores, o exemplo mais óbvio
seria Haydn. Fo i neste ano, durante o verão, que Mozart se voltou contra
Haydn. Jamais saberemos o motivo desta rixa, embora exista uma relevante
passagem na carta que Haydn enviou de Londres, datada de 13 de outubro,
para Maria A nna von Genzinger:
Inter alia Herr von Kees me escreveu querendo saber detalhes
da minha vida aqui em Londres, uma vez que existem diversos
boatos a meu respeito em Viena. Desde a minha juventude
que vivo exposto à inveja, de forma que não estou surpreso ao
ver as pessoas tentarem esmagar meu modesto talento;
porém, o Todo-Poderoso é meu lenitivo. Minha esposa me
escreveu, mas não acreditei, que Mozart fala muito mal de
mim. Eu o perdoo. Não há dúvida que muita gente, aqui em
Londres, também tem inveja de mim e sei quase todos quem
são, em sua maior parte italianos. Porém não me podem fazer
mal pois meu prestígio junto ao público em geral foi firme-
mente estabelecido há muitos anos. Excetuando os profes-
sores, sou respeitado e amado por todos. Quanto a minha re-
muneração, Mozart pode pedir informações ao Conde Fries
com quem depositei £ 500 e ao meu Príncipe a quem dei
1.000 gulden, o que perfaz 6.000 gulden ao todo. Agradeço
diariamente ao meu Criador por esta dádiva e me gabo de po-
der levar para casa alguns milhares a mais, não obstante os
custos da viagem. Não mais aborrecerei Vossa Graça pelo mo-
mento. Minha escrita não está horrível? Como está Pater — ?
Envie-lhe meus cumprimentos.9
63
As viagens de Haydn a Londres têm sido sempre citadas como o fabuloso fi-
nal triunfante para uma modesta carreira. O compositor calculou ter ga-
nho durante quatro temporadas, em Londres (1791, 1792, 1794 e 1795),
24.000 gulden (£ 2.400, talvez o equivalente hoje em dia a £ 50.000 ou
US$ 85.000). Para melhor esclarecer os ganhos de Haydn durante a tem-
porada de 1791 existem notas relativas à quantia exata por ele depositada
em suas contas: 5.883 gulden10 — apenas 120 gulden a mais do que os
possíveis proventos de Mozart durante aquele ano. (Os vencimentos de
Haydn em Londres eram consoantes com a temporada que tinha início em
fevereiro ou março indo até junho ; portanto, seus proventos não recome-
çariam, em grande escala, até 1792.) É claro que Haydn economizava al-
gum dinheiro para viver na Inglaterra pois tanto suas despesas, como as de
Mozart, eram muito grandes: as de Haydn por ter que alugar aposentos para
morar e ter que comer em restaurantes e as de Mozart por ter que fornecer
casa e comida para quatro adultos (incluindo as criadas), duas crianças,
além de receber muitas visitas. Entretanto, em tudo isto há algo de radical-
mente errado! Como seria possível que os Mozart estivessem em tão pre-
cária situação — não propriamente terrível, mas certamente precária —
com uma renda aproximada deste valor? Concordamos que era bem caro
mandar Herr Joseph "Primus" buscar as refeições para Mozart e que as esta-
ções de águas de Constanze em Baden eram bastante dispendiosas; mesmo
assim a soma total das finanças de Wolfgang, em dezembro de 1791, perfa-
ziam 60 gulden em dinheiro e 133 fl. 20 kr. do salário da corte ainda em
vigor, com dívidas vencidas de 918 fl. 16 kr. Mais tarde, Constanze achou
que 3.000 gulden poderiam pagar todas as dívidas (disseram ao Imperador
Leopoldo que Mozart devia 30.000 gulden)", mas o que importa é saber
como as finanças do casal chegaram a um estado tão caótico.
Para tanto precisamos voltar ao ano de 1789, época em que a situação
financeira de Mozart parecia ser a pior possível, ocasião em que apenas um
nome (Barão von Swieten) foi inscrito para uma possível série de assina-
turas apregoada aos quatro ventos na esperança de cobrir as dívidas do
compositor. Certamente Mozart tomou dinheiro emprestado em grandes
quantidades (i.e., os 100 gulden que Constanze obteve quando Mozart es-
tava em Frankfurt), mas infelizmente não existem registros a este respeito.
Penso que devemos inferir que estas somas foram maiores e em número
mais frequente do que até então imaginado e que somente em 1791 os pro-
ventos do compositor passaram a ser suficientemente grandes para permitir
uma vida confortável e o pagamento em etapas das velhas dívidas. Se os
números de Constanze estão corretos, os 2.000 gulden acima listados como:
"dinheiro recebido" foram, na verdade, um empréstimo (de Goldhahn tal-
64
vez?) que somados aos números 918 f l . 16 kr. perfariam quase 3.000
gulden.
Os maçons sempre primaram em ajudar os confrades necessitados, espe-
cialmente as viúvas e órfãos dos membros da Corporação "que partiam
para o eterno leste". Ninguém conseguiu jamais explicar a contento como
Constanze conseguiu se erguer financeiramente tão depressa após a morte
de Mozart; em 1791 ela pôde emprestar aos Duschek, em Praga, 3.500 gul-
den! Tudo leva a crer que Constanze era uma mulher extraordinária e re-
soluta que enfrentava o futuro com coragem e firmeza, resolvida a levantar
dinheiro de onde quer que fosse através da música do falecido marido —
seja por meio de espetáculos ou da venda de partituras (ver Cap. XIII) . A
viagem que Constanze tez à A lemanha em 1796, exibindo La clemenza di
Tito e outras músicas que pensou serem inéditas, foi um sucesso financeiro
maior do que as duas tournées de Mozart em 1789 e 1790. Dois anos antes
(1794) ela promoveu uma apresentação desta ópera, em Viena, seguida de
outra, em Graz.12 Porém, tirando a admirável determinação e perseverança
de Constanze, parece óbvio que a Loja Zur Gehrõnten Hoffnung enquanto
existiu (até 1794) deve tê-la ajudado, sendo que, antes e depois desta data,
membros isolados devem ter se esmerado em realizar todo o tipo de ações
como, por exemplo, se manterem fiéis assinantes quando da primeira tentativa
séria, por parte daLo ja, em levantar dinheiro para Constanze — um abai-
xo-assinado de 5 de junho de 1792 enviado para as outras Lo jas.13 Em 1792
deu-se outra mudança de cenário em Viena: Leopoldo II morreu em março
e Francisco II se tornou o novo Imperador. Os Maçons ainda tinham es-
perança de salvar as Lojas, montando em 8 de setembro na Zur gekrõnten
Hoffnung uma récita de Kleine Freymaurer-Kantate em honra ao Impera-
dor, com novo texto do confrade Karl Ludw ig Gieseke.14 (Sempre foi dito,
sem qualquer fundamento, que Schikaneder escrevera o texto original;
quando a Loja o publicou ficou claramente especificado que a letra era de
autoria de um membro da Loja; penso que Gieseke foi também o autor do
texto original, por uma questão de lógica.)
Em 25 de janeiro de 1792, o Wiener Zeitung publicou um anúncio de
Joseph Hraschansky, editor de livros da Real Corte Imperial (que publicava
em alemão e hebraico): "Cantata de Mozart: em benefício da viúva e filhos
órfãos... um canto do cisne, cuja récita o compositor regeu diante de um
círculo dos seus melhores amigos dois dias antes da sua doença final. É uma
cantata em benefício da abertura de uma Loja da Maçonaria em Viena, e o
texto é de um membro ..."" A s subscrições (2 gulden) tiveram início em 15
de janeiro e continuaram até 15 dejulho . A partitura foi publicada em 14 de
novembro de 1792 (Wiener Zeitung) e o preço para os não-inscritos era de
3 gulden (9 em papel holandês).
65
Os maçons foram leais à memória de Mozart e magnânimos para com a
viúva.
66
1 Busto em gesso de Mozart de/ou baseado em L. Posch, 1788-89.
2 O grande salão de baile da corte (Redoutensaal) em Viena. Gravura a cores de
Joseph Schútz, c.1800. Observem a orquestra no balcão à esquerda.
3 Subúrbio de São Marcos, Viena. Cemitério onde Mozart foi enterrado em
dezembro de 1791. Gravura a cores de Carl Schútz, 1792.
4 Antonio Salieri,
Kapellmeister da corte e
compositor de ópera. Embora
Salieri tivesse grande inveja
de Mozart, a teoria de que
tivesse envenenado o
compositor é insustentável,
apesar da sua suposta
confissão no leito de morte.
5 Johann Peter Salomon,
violinista alemão, retratado
por Thomas Hardy, 1791.
Salomon viajou para Viena
em 1790 para contratar
Mozart e Haydn para ir a
Londres. Haydn foi
contratado, mas o plano de
levar Mozart foi frustrado
pela morte do jovem
compositor no ano seguinte.
6 Quadro a óleo anónimo retratando uma reunião em uma Loja maçónica
vienense, c. 1790. Está provado hoje em dia que o Mestre de Cerimónias
(centro) é o protetor de Haydn, Príncipe Nicolaus Esterházy. Um documento
registrando o Príncipe junto com Mozart confirma ainda mais que a figura à
extrema direita é Mozart.
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cimb M r i • j t • JM
. v n M t> I I li «In m» *m »' m *"* « (••••*' M t*í *• «WÍ IX-X.
' >C'
7 Programa para a primeira
representação de A Flauta Mágica, 30
de setembro de 1791 no Teatro
Freyhaus no subúrbio vienense de
Wieden.
8 (Embaixo) Retrato em folha de rosto
gravada do empresário (e primeiro
Papageno) Emanuel Schikaneder e a \
folha de rosto mostrando o Teatro
Freyhaus no A lmanach fúr
Theaterfreunde, 1791.
9 (Ao lado) Folha de rosto gravada do
libreto original de A Flauta Mágica
impresso pelo irmão maçónico de
Mozart, Ignaz Alberti, Viena, 1791.
Esta folha de rosto, suprimida nas
edições posteriores, está repleta de
símbolos maçónicos.
o
ruotr
'._X///s//./ //<? uÁ
tC^ rJi r i zrersA • . r t f* .
7 tffôwjteSf.
10 Retrato de
Constanze Mozart
pintado por volta de
1782 em Viena por
Joseph Lange, cunhado
da retratada.
11 Retrato inacabado
de Mozart, também por
Lange, datado de
1789-90 e considerado
por Constanze como o
mais semelhante ao
compositor.
V II
RÉQUIEM PA RA UMA CA SA D E CA MPO
Em iulho de 1791, Mozart havia recém-terminado a maior parte de A Flauta Mágica. Em um dos primeiros relatos de Niemetschek (1798)
Constanze narra uma extraordinária história relacionada à misteriosa enco-
menda de compor uma missa de réquiem. O texto a seguir foi reproduzido
por Nissen, segundo marido de Constanze, em sua maior parte textual-
mente, de forma que podemos ter certeza de tratar-se da versão "o ficial"
aprovada:
Pouco antes da coroação do Imperador Leopoldo, mesmo an-
tes de Mozart ter recebido ordens de viajar para Praga, uma
carta não assinada fo i trazida por um mensageiro desconhe-
cido e (com diversas observações elogiosas) continha a inda-
gação se o compositor estaria disposto a escrever uma missa
de réquiem. Qual seria o custo e quanto tempo ele levaria
para terminá-la?
Mozart, que nunca tomara a menor decisão sem o conhe-
cimento da esposa, relatou à mesma este estranho pedido, ex-
pressando, ao mesmo tempo, desejo de tentar a realização
desde tipo de composição, ainda mais que as formas mais al-
tas da música sacra sempre haviam exercido especial encanto
sobre seu génio. Ela o aconselhou a aceitar a oferta. Ele res-
pondeu ao anónimo patrono que escreveria o Réquiem por
uma determinada soma, sem especificar, no entanto, quanto
tempo levaria. Desejava, contudo, saber onde entregar o tra-
balho quando o mesmo estivesse pronto. Pouco tempo de-
pois o mesmo mensageiro apareceu, trazendo não apenas a
quantia estipulada, mas também a promessa, uma vez que
Mozart havia sido muito modesto em suas pretensões, de que
o músico receberia outro pagamento ao entregar a composi-
ção e que deveria escrever de acordo com suas idéias e incli-
nações, mas sem se preocupar em descobrir quem havia feito
a encomenda, pois isto seria certamente em vão.
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Entrementes, Mozart recebeu uma oferta honrosa e muito
conveniente para escrever a "ópera-séria" para a coroação do
Imperador Leopoldo em Praga. Para ele seria impossível re-
sistir à tentação de ir a Praga escrever música para seus
queridos tchecos.1
No ano de 1798, Friedrich Rochlitz, que conhecera Costanze quando esta tez
uma viagem pela Alemanha em 1796, publicou historietas sobre Mozart,
baseadas em grande parte — embora não exclusivamente — em informa-
ções fornecidas pela própria esposa. Uma vez que algumas destas histórias
enumeradas por Rochlitz foram reproduzidas mais ou menos textualmen-
te na biografia de Nissen, elas pretensamente possuem a mesma au-
tenticidade concedida a Niemetschek. Porém, no caso do Réquiem, a ver-
são de Rochlitz é mais desenvolvida e levanta problemas cronológicos
acima e além da sequência temporal, claramente delineada por Niemets-
chek.
Certo dia em que ele estava em casa... uma carruagem parou à
porta e um estranho se fez anunciar. Ele (Mozart) o recebeu.
Um homem de meia-idade, sério, firme, de porte seguro, e
desconhecido tanto para ele quanto para a esposa, entrou.
— Venho aqui como mensageiro de um cavalheiro muito
distinto — disse o homem.
— Da parte de quem? — perguntou Mozart.
— O cavalheiro não deseja revelar sua identidade.
— Muito bem. O que deseja ele de mim?
— Alguém muito querido e próximo dele morreu. Ele de-
seja lembrar-se do dia da morte dela, discretamente, mas de
uma forma digna, e lhe pede para compor um Réquiem com
este propósito.
Mozart — dado seu estado de ânimo na época — já estava
bastante comovido interiormente com esta conversa: pelo
mistério que envolvia toda a história e pelo tom solene do ho-
mem. Ele (Mozart) prometeu realizar a tarefa. O homem
prosseguiu:
— Execute a obra com toda a diligência possível. O cava-
lheiro em questão é um connoisseur.— Tanto melhor.
— O senhor não estará preso a qualquer data para entrega.
— Excelente.
— Quanto tempo vai necessitar aproximadamente?
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— Cerca de quatro semanas.
— Então voltarei novamente para apanhar a partitura. Que
preço o senhor pede?
— Cem ducados — respondeu Mozart temerariamente.
— A q u i estão — disse o homem, pondo a fileira de moedas
na mesa e se retirando em seguida. Mozart mergulhou outra
vez em profundo devaneio e, sem dar atenção aos conselhos
da esposa, por fim ped iu caneta, tinta e papel e imedia-
tamente começou a compor a encomenda. Seu interesse pela
obra cresciá a cada nota, passou a escrever noite e dia, mas o
corpo não resistiu ao esforço e ele desmaiou diversas vezes
sobre a composição. Qualquer admoestação no sentido de se
moderar era em vão: alguns dias depois, a esposa persuadiu-o
a acompanhá-la de carruagem até o Prater. Ele se manteve
sentado, sem nada dizer e perdido em seus pensamentos. Por
fim não mais negou — que achava com certeza que estava
escrevendo esta obra para seu próprio enterro. Nada o dissua-
dia desta idéia; trabalhava, portanto, como Rafael na sua
"Transfiguração", co m o onipresente sentimento da sua
morte iminente e realizando, como o pintor, sua própria
transfiguração. Até falou de pensamentos estranhos relacio-
nados à curiosa aparição e encomenda do desconhecido.
Caso alguém tentasse dissuadi-lo desta idéia, ele permanecia
calado embora não convencido.
Entrementes, a partida de Leopoldo a Praga para ser coroa-
do se aproximava...2
Nesta versão, a encomenda ocorre pouco tempo antes de o Imperador
Leopoldo partir para Praga (talvez julho?) e Mozart começa a trabalhar no
Réquiem imediatamente até atingir o estado de exaustão. Porém, devemos
notar a presença de Constanze que leva o marido para um passeio de carru-
agem. Na verdade, Constanze estava em Baden durante todo o mês de ju -
nho e meados de julho ; A Flauta Mágica foi terminada, excetuando-se a
Abertura e a Marcha dos Sacerdotes, em meados de julho , segundo nos in-
forma o catálogo temático de Mozart. Veremos também que La clemenza de
Tito deve ter sido encomendada em meados de julho , embora ainda sem
conhecimento preciso dos nomes de alguns dos principais cantores. Sim-
plesmente não havia tempo para Mozart iniciar o Réquiem em grande es-
cala. A cronologia do relato de Rochlitz está errada: diversos episódios rela-
tivos ao Réquiem parecem se fundir. Na versão que escolhi como fonte pri-
mordial está claramente dito que o estranho chegou "um pouco antes da
77
coroação". O fato de que na biografia de Nissen é usada a versão de Nie-
metschek (1798) sugere ser esta a versão mais próxima da verdade (se-
gundo a memória de Constanze).
Podemos ignorar as milhares de páginas publicadas entre 1792 e 1963
sobre o Réquiem, pois foi apenas em 1964 que Otto Erich Deutsch assom-
brou o mundo académico com um longo e sensacional relato manuscrito
sobre as origens do Réquiem, redigido por alguém com conhecimentos de
primeira mão. Finalmente, 172 anos após os primeiros anúncios publica-
dos sobre o trabalho em 1792, a verdade apareceu. Eis aqui o precioso do-
cumento, preservado nos arquivos citadinos de Wiener Neustadt, trinta mi-
lhas ao sul de Viena:
Verdadeira e Detalhada História sobre o Réquiem de W . A .
Mozart. Desde seu começo no ano de 1791 até o atual perío-
do de 1839. [De Anton Herzog, Diretor do Centro de Infor-
mações, da Região, da Escola Principal e Regens chori]
Herr Franz, Conde von Walsegg, dono das propriedades
Shottwien, Klam, Stuppach, Pottschach e Ziegersberg, na
Áustria abaixo do [Rio] Enns... morou desde seu casamento
com A nna, née noble von Flammberg, em seu castelo em
Stuppach como um marido carinhoso e verdadeiro pai para
seus vassalos. Era um apaixonado amante da música e do tea-
tro; portanto, toda semana, às terças e às quintas, sempre
durante três horas inteiras, tocava-se quartetos e os domingos
eram dedicados ao teatro, no qual mais tarde o próprio Se-
nhor Conde, a Senhora Condessa e sua irmã solteira toma-
vam parte, assim como todos os oficiais e a enorme criada-
gem, todos obrigados a representar, cada um de acordo com
suas capacidades. Para auxiliar na execução dos quartetos o
Senhor Conde contratou dois excelentes artistas: Senhor
Johann Benaro como violinista e Senhor Louis Prevost como
violoncelista. O Senhor Conde tocava violoncelo nos quarte-
tos de cordas, e flauta, nos quartetos de flauta e geralmente eu
tocava o segundo violino ou a vio la. Nestes tempos eu era
contratado como professor na Escola Patronato do Senhor
Conde em Klam.
Para que não houvesse falta de quartetos, dada a frequên-
cia com que eram executados, o Senhor Conde não só conse-
guiu todos os que se anunciavam publicamente, como manti-
nha contato com diversos compositores, embora nunca re-
velando sua identidade; em troca recebia as obras, das quais
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mantinha exclusiva propriedade, remunerando-as muito
bem. Para citar um, o Senhor [Franz Anton] Hoffmeister en-
tregou diversos quartetos de flauta nos quais a parte para
flauta era de fácil execução enquanto as três outras partes eram
extremamente difíceis, o que obrigava os executantes a um
grande esforço e constituía motivo de riso para o Senhor
Conde.
Uma vez que o Senhor Conde nunca queria tocar com par-
tituras editadas, ele as fazia copiar primorosamente em papel
de dez pautas onde nunca se anotava o nome do autor. A s
partituras secretamente organizadas ele, na maioria das ve-
zes, copiava sozinho e as entregava para que as partes fossem
copiadas de forma que nunca víamos a partitura original. Os
quartetos eram então executados e tínhamos que adivinhar
quem era o compositor. Geralmente sugeríamos o nome do
próprio Conde, uma vez que de tempos em tempos ele com-
punha algumas pequenas peças; ele sorria e ficava satisfeito
de que (segundo ele imaginava) tínhamos sido enganados,
quando na realidade nos divertíamos por ele nos considerar
tão simplórios.
Éramos todos muito jovens e achávamos ser este um ino-
cente prazer que dávamos ao nosso amo. E desta forma as.
mistificações prosseguiram entre nós durante alguns anos.
Achei necessário dar estas informações para que a origem
do Réquiem, que foi considerada misteriosa, possa ser me-
lhor avaliada.
No dia 14 de fevereiro de 1791 a morte arrancou do se-
nhor Conde van Walsegg sua querida esposa, na flor da vida
(ela ainda não completara vinte e um anos). Ele quis erigir um
memorial duplo para ela e para tanto teve uma excelente
idéia: conseguiu através de seu representante comercial, o Se-
nhor Dr. Johann Sortchan, Advogado da Corte e do Judiciá-
rio , em Viena, que um dos melhores escultores de Viena
[Johann Martin Fischer, 1740-1820] moldasse um epitáfio, e
que Mozart compusesse um Réquiem para o qual ele (o
conde), como sempre, reservou exclusivo direito de posse.
O primeiro item, que custou mais de 3.000 gulden, foi após
certo tempo erigido no vale, junto a uma nascente, ao lado do
Castelo Stuppach, enquanto os restos mortais da senhora
foram levados para o jazigo da família em Schottwien.
Porém o Réquiem, que deveria ser tocado anualmente no
79
aniversário da morte da Senhora Condessa, demorou mais
tempo do que se supunha pois a morte surpreendeu Mozart
no meio desta valorosa tarefa. O que fazer então? Quem ten-
taria ousar imitar um Mozart? Mesmo assim a obra tinha que
ser concluída, pois a viúva de Mozart, como era sabido, não
se encontrava em boa situação e deveria receber cem duca-
dos. Se pagamentos anteriores haviam sido efetuados não era
de nosso conhecimento, embora tivéssemos motivos para
achar que sim.
Por f im, Sussmayr foi persuadido a completar a grande
obra inacabada e ele admite em cartas aos editores musicais
[Breitkopf & Hãrtel] em Leipzig que durante a vida de Mozart
frequentemente tocou e cantou com o compositor as partes
que já tinham sido compostas como o Réquiem, o Kyrie, o Dies
irae, o Domine etc, e que ele (Mozart) geralmentediscu-
tia o término desta obra, comunicando (a Sussmayr) a forma
e as razões de sua orquestração.
[Herzog descreve como Sussmayr completou a obra e
como ficou o autógrafo inacabado de Mozart com as partes
em branco, etc] Desta forma a obra foi concluída. Desta par-
titura foram feitas imediatamente duas cópias. O manuscrito
de Sussmayr foi enviado a quem encomendara a obra; uma
cópia ao editor musical em Leipzig para ser publicada, e a se-
gunda guardada, de onde foram copiadas as partes; depois do
que esta maravilhosa obra foi executada pela primeira vez em
benefício da viúva nos salões Jahn.3 [Herzog tirou estas infor-
mações dos relatos publicados de Stadler. Ele continua a se-
guir;] Portanto, o Senhor Conde von Walsegg jamais recebeu
uma nota sequer de todo o Réquiem escrita pela própria mão
de Mozart [na verdade a cópia de Walsegg consistia do autó-
grafo de Mo z art do Réquiem aeternam assinad o p o r
Sussmayr "dime W : A : Mozart mpria 792" e o autógrafo rela-
tivo ao Kyrie com as edições de Freystádler e Sussmayr; o res-
tante do manuscrito está com a letra de Sussmayr e os outros
originais de Mozart, ao que consta, ficaram em poder de
Constanze]. Deixo os outros decidirem se agiram correta-
mente — não diria honestamente — com o Senhor Conde
von Walsegg, a quem nem mesmo informaram até onde tinha
ido a composição de Mozart, que ele (o Conde) pensava ter
sido até o Agnus Dei.
Isto explicaria o seguinte: mais tarde quando mandei co-
8 0
Fig. 1 — Uma página do manuscrito autografado do Réquiem de Mozart (Kyrie)
escrita a 3 mãos. As partes vocais (pentagramas 8-11) e o baixo contínuo (última
linha, com baixo cifrado para órgão) são da mão de Mozart, as partes de cordas e de
sopros (violinos I e II, viola, clarinetas lelle fagotes, pentagramas 1 -5) são da mão
de F. J. Freystãdtler e as partes de trompete e tímpanos (pentagramas 6-7) são da
mão de F. X. Sussmayr.
piar as orquestrações da partitura publicada em Leipzig, para
meu próprio uso, pedi ao Senhor Conde o 'Organo' do seu
Réquiem (que não figurava na partitura da forma pela qual é
conhecido) e eu queria me poupar o trabalho de copiar o bai-
xo cifrado; ao que ele retrucou que eu não poderia usar a
parte de órgão para a peça inteira, pois ela possuía um Agnus
Dei diferente. Consegui convencer o Senhor Conde do con-
trário, uma vez que todas as notas de sua cópia do Réquiem
me eram conhecidas e porque o Agnus Dei com sua inteli-
gente conexão com as seguintes composições de Mozart: Ré-
quiem e Cum Sanctis me impressionavam sobremaneira.
O Senhor Conde procurou demonstrar que possuía um
Agnus Dei diferente na sua partitura, ao contrário daquela de
8 1
Leipzig, uma vez que sempre dissera ter sido aluno de Mozart
e ter enviado a partitura para Viena para ser examinada em
todos os seus detalhes. Um pouco antes da morte de Mozart
ele havia acabado de enviar ao compositor o texto completo
do Benedictus com este propósito. Após a morte de Mozart
foi encontrada a partitura, do início até o Agnus Dei, e se pen-
sou que era composição de Mozart uma vez que as duas cali-
grafias (a de Walsegg e a de Mozart) eram supostamente mui-
to semelhantes.
O Senhor Conde, portanto, terminou o Réquiem adicio-
nando o Agnus Dei e as outras partes; porém Sussmayr, mais
tarde, mandou acrescentar sua própria composição para pre-
encher esta lacuna. Por isso é que o Senhor Conde possuía
um Agnus Dei diferente daquele encontrado na partitura de
Leipzig. De tudo que já foi acima descrito podemos verificar
até onde o incumbente se ilud iu...
Eu , por minha parte, estou convencido que Mozart não
teria composto o Sanctus em Ré maior e naquele estilo; pois
embora o texto seja igual ao da Missa, as circunstâncias de um
Réquiem são bastante diversas; trata-se de uma Missa de Fi -
nados, a igreja drapeada de negro e os padres envergando
seus hábitos de luto. Não se espera uma música estonteante.
Pode-se gritar "Sacro, Sacro" sem ter que acrescentar o rufar
de tímpanos...
A senhora viúva Mozart e seu círculo poderiam desconhe-
cer o teor do contrato assinado entre o falecido compositor e
o Senhor Doutor Sortschan, segundo o qual o Senhor Conde
von Walsegg deveria ser o único proprietário do Réquiem en-
comendado, pois de outra forma, quando entregaram a parti-
tura ao incumbente não teriam enviado, sem o conhecimento
e permissão do mesmo, uma cópia para ser vendida para o
editor musical em Leipzig. Podemos imaginar a impressão
que isto causou no Senhor Conde quando soube que a parti-
tura de sua propriedade havia aparecido publicamente numa
edição em Leipzig. [Constanze tinha, ao entregar a partitura a
Walsegg, imposto como condição a "possibilidade de poder
vender a partitura a príncipes que, é claro, não a editariam"4,
mas é óbvio que esta operação envolvendo Breitkopf e Hãrtel
não se encontrava naquela especificação.]
O Senhor Conde, a princípio, pensou em tomar sérias me-
82
didas contra a viúva Mozart, mas o caso foi resolvido em co-
mum acordo graças à bondade do nobre coração do conde.
Após o Senhor Conde von Walsegg haver recebido a parti-
tura do Réquiem, ele mesmo copiou tudo, como era seu cos-
tume, nota por nota com sua própria letra e a entregou, movi-
mento por movimento, ao seu violinista Benaro, para que este
pudesse copiar as partes.
Durante este trabalho fiquei durante horas ao lado de Be-
naro, seguindo o desenvolvimento desta extraordinária obra
com crescente interesse; pois a história prévia do Réquiem me
era muito conhecida através do nosso Chefe (Franz Anton)
Leitgeb (1744-1812) a quem tinham mandado pagar os ho-
norários através do escritório da fábrica de gesso em Viena [a
família Walsegg possuía diversas gessarias em Schottwien].
A ssim que todas as partes ind iv iduais foram copiadas,
imediatamente começou-se a preparar a apresentação do Ré-
quiem. Entretanto, como na região de Stuppach não se pu-
desse reunir o número necessário de músicos, ficou estabele-
cido que a primeira apresentação ocorreria no Wiener Neus-
tadt. Entre os músicos, a escolha dos solistas vocais e instru-
mentais foi feita, baseando-se num critério de excelência dis-
ponível, de maneira que a parte de soprano foi desempenha-
da por Ferenz (um coroinha?) do Wiener Neustadt, a de con-
tralto por Kernebeiss de Schottwien, a de tenor por Klein do
Wiener Neustadt e a de baixo por Thuner de Gloggnitz —
estes foram os solistas. No dia 12 de dezembro de 1793 o en-
saio geral foi realizado à noitç, na galeria do coro da Abadia
Cisterciana e Igreja Paroquial de Neustadt e no dia 14 de de-
zembro, às 10 horas da manhã, foi realizado um serviço fúne-
bre em memória, nesta mesma igreja, durante o qual este fa-
moso Réquiem foi apresentado pela primeira vez na forma
pela qual foi originariamente encomendado.
O serviço foi regido pelo Senhor Conde von Walsegg e de
todos os músicos que participaram, ao que me conste no mo-
mento que redijo estas linhas, nenhum deles está vivo a não
ser eu mesmo e o Senhor Anton Plaimschauer, atualmente
Thurnermeister (regente da banda municipal) aqui em Wie-
ner-Neustadt.
No dia 14 de fevereiro de 1794, aniversário da morte da
Senhora Condessa, o Réquiem foi executado na Igreja Patro-
nal do Senhor Conde em Maria-Schutz em Semmering; e
83
deste momento em diante o Senhor Conde não o tocou mais,
exceto sob a forma de quinteto para cordas (arranjado por ele
mesmo) cuja partitura guardei durante muitos anos. [Ele nar-
ra que a partitura total — ao que se supõe erroneamente,
como vimos, escrita pela mão de Sussmayr — nunca tinha
sido vista por ele ou qualquer outro membro da entourage
mas] a partitura que o Senhor Conde me entregou para ser
ensaiada pelos cantores era de seu próprio punho e eu a teria
reconhecido imediatamente.
Que o Senhor Conde nos quisesse confundir com o Ré-
quiem como o fizera com os quartetos era uma particulari-
dade conhecida por todos nós; em nossa presença ele sempre
dissera ser sua composição, mas quando diziaisto sorria.
... seguindo a morte do Senhor Conde von Walsegg (11 de
novembro de 1827) sua irmã e herdeira residual, Madame
Condessa von Sternberg, vendeu todos os arquivos musicais
para seu camareiro Senhor Leitner. Entre estes itens deveriam
existir diversas valiosas peças musicais.
No verão de 1838 o secretário senhorial Hagg morreu no
Castelo Stuppach, deixando todos os seus pertences para um
funcionário da corte de Stuppach, inclusive um pequena
coleção musical e, milagre dos milagres, a partitura manus-
crita do Réquiem de Mozart que foi imediatamente reconhe-
cida como a partitura original escrita pelo próprio composi-
tor. [O que era verdade em relação aos dois primeiros movi-
mentos, enquanto o restante, apesar de parecer com a letra de
Mozart. era na verdade a letra de Sussmayr. 1
Este fato chegou ao conhecimento do Senhor Co nde
Moritz von Dietrichstein e também do Senhor Conde Conse-
lheiro von Mosel e foram tomadas as providências para que a
partitura fosse enviada a Viena, a fim de que pudesse ser com-
prada pela Biblioteca Real da Corte Imperial onde se encontra
atualmente.
Que as cinzas do grande mestre repousem em paz, assim
como as do seu reverenciado patrono (Walsegg), de cuja l i -
beralidade somos devedores em relação a esta valiosa obra de
arte.5
Por alguma razão este documento chamou a atenção das autoridades vienenses.
Talvez Herzog quisesse publicá-lo. A s autoridades, no entanto, encararam a
84
Fig. 2, 3 — Conde Walsegg, o nobre misterioso que encomendou o Réquiem de
Mozart, kz com que esta e outras peças de compositores austríacos fossem exe-
cutadas sob seu próprio nome. Na ilustração aparece um manuscrito contemporâ-
neo de uma obra de Franz Anton Hoffmeister, na qual o nome do compositor foi
substituído pelo nome de Walsegg.
situação com bastante severidade, pois no final do documento foi escrito:
Não é permitida sua divulgação
pelo Ministério Real Imperial
Viena, 8 Fev. 1839
Freyberger mpria.
Existe algo de infinitamente comovente e ingénuo sobre todo este caso
Walsegg; como Nelson, ao morrer, Walsegg poderia ter sussurrado: " Eu
não fui um grande pecador, doutor."6 O que seria verdade, embora certa-
8 5
mente fosse um tanto louco, vivendo como uma caricatura de um grande
senhor do Século XV III no seu belo e remoto castelo, diante do magnífico
panorama das austeras montanhas Semmering, fazendo de conta (sem
grande convicção) de que era um grande compositor manqué. É evidente
que ele era benquisto pelos seus súditos e, afinal de contas, nós devemos o
Réquiem — sua proibitiva majestade acoplada com o profundo cpnsolo —
a ele, assim como à morte da sua bela e jovem esposa. E uma narrativa digna
de um conto de E. T. A . Hoffmann.
Há pouco tempo o brilhante académico austríaco Otto Biba descobriu
restos dos documentos de Walsegg7, nos quais os manuscritos musicais vie-
nenses (preparados por escribas locais) tiveram suas atribuições mudadas
respectivamente de François Devienne e Franz [Anton] Hoffmeister para
"Fr. C.[onte] de Walsegg".
De maneira que o grande mistério do Réquiem cuja encomenda tanto ater-
rorizou o fraco e doente Mozart terminou em farsa. Sua história, no que
concerne o compositor, em 1791, se dividia em duas partes: o período em
que ele recebeu a encomenda e o período durante o qual começou a traba-
lhar na obra com absoluta concentração. Entre estes dois tempos, interrom-
pendo a tarefa, ocorreu a viagem a Praga e as primeiras representações de
A Flauta Mágica.
86
V III
UMA V IA G EM A PRA GA
La ckmenza di Tito, última ópera de Mozart (K.621) permaneceu em obscuridade quase total através da maior parte do Século XIX e da
primeira metade do Século XX. Apenas nos últimos vinte e cinco anos é que
foi reconhecida como uma das mais importantes realizações do compositor.
Teatros de ópera na Europa e na América montaram notáveis produções
desta obra que foi, inclusive, filmada para a televisão numa memorável
adaptação de Jean Pierre Ponnelle, usando como cenário os Banhos de
Caracalla, em Roma. Existem diversas razões para esta demorada negligên-
cia em relação à ópera, e uma delas é que o importante papel de Sextus foi
escrito para um castrato (soprano masculino ou alto), um tipo de cantor
que veio a desaparecer dos teatros de ópera europeus pouco tempo após a
obra ter sido composta. Hoje em dia, contudo, passamos a analisar esta
obra como um trabalho de considerável acuidade psicológica, contendo
pelo menos uma hora da melhor música que Mozart foi capaz de escrever, o
que já é o bastante para lhe assegurar imortalidade.
A história de como Mozart veio a escrever La clemenza di Tito para as
festas da coroação, em Praga, começou de uma forma singular: a ida de
Haydn para a Inglaterra. Como já vimos, Haydn tinha sido convidado para
ir para a Inglaterra por J. P. Salomon, obtendo um espetacular sucesso no
primeiro semestre de 1791. Vimos também que ele foi capaz de economizar
5.883 gulden até meados de julho . No dia 20 de julho , o compositor escre-
veu ao Príncipe Esterházy, dizendo que Salomon o havia convidado para
permanecer por mais uma temporada, requisitando portanto que o Prín-
cipe lhe concedesse um prolongamento da sua licença. Haydn deve ter fi-
cado profundamente desapontado ao ler a resposta enviada de Eisenstadt
no dia 21 de agosto:
É com grande prazer que tomo conhecimento, através da sua
carta de 20 de julho , da forma pela qual seu talento é celebra-
do em Londres, fato que me regozija deveras; porém, ao
mesmo tempo não posso, no momento, deixar de dizer que
sua prolongada licença se tornou para mim urri grande em-
87
baraço além de ser bastante dispendiosa, uma vez que fui
compelido a recorrer a pessoas de fora para as festas que ocor-
rerão em Eszterháza este mês. Portanto, não me queira mal
por não poder lhe conceder o período requisitado de mais um
ano de licença, esperando, ao contrário, receber pelo pró-
ximo correio o dia exato da sua volta para cá.
Entretanto Haydn permaneceu em Londres até o final de junho de 1792 e o
Príncipe Esterházy não demitiu seu fiel Kapellmeister, d izem até que
quando o Príncipe encontrou o compositor durante as festas da coroação
do novo Imperador Francisco II , em Frankfurt, exclamou: "Você, Haydn,
ooderia ter me economizado 40.000 gulden."
.•'oram especificamente as festas realizadas em Eszterháza que colocaram
em movimento toda a série de acontecimentos que culminaram com a ida de
Mozart a Praga. Entre os dias 3 e 6 de agosto de 1791, o Príncipe Anton
Esterházy celebrou sua nomeação como Senhor-Tenente do condado de
Oedenburg (atualmente Sopron, Hungria) ao qual Eszterháza pertencia, no
famoso castelo onde Haydn fora diretor musical de 1766 a 1790.' Corriam
rumores que Esterházy gastara 300.000 gulden, incluindo 40.000 para
uma nova cantata intitulada Venere edAdone, texto de Abbate G. B. Casti e
música composta pelo afilhado de Haydn, Joseph Weigl, então principal
aluno de Antonio Salieri e regente (não-oficial) do Teatro da Corte Imperial
de Viena. Para montar esta nova produção, Weigl mandou que viessem d i-
versos importantes cantores da Ópera de Viena, inclusive Cecília Giuliani,
Dorothea Bussani, Vincenzo Calvesi e Joseph Valentin Adamberger, sendo
que estes três últimos haviam cantado óperas de Mozart sob a regência do
mesmo. Além da cantata, haveria um grande baile, fogos de artifício e caça-
das: o palácio e o parque foram iluminados com 80.000 candeeiros de óleo
com pavios flutuantes.2 O Imperador, é claro, tinha sido convidado, mas foi
impedido de comparecer devido aos inúmeros afazeres e negócios de es-
tado que requeriam sua urgente atenção;3 mas o Arquiduque Francisco,
herdeiro da coroa, o Arquiduque Carlos e Alexandre Leopoldo (o Palatino e
Príncipe-primaz da Hungria) estavam presentes.
Como resultado da ausência de Weigl no teatro de Viena, Salieri foi for-
çado a substituí-lo e este enorme aumento de trabalho, por sua vez, obri-
gou-o a recusar uma ofertamuito interessante. Tomamos conhecimento de
tudo isto através de uma carta autografada escrita no final de agosto de
1791 do compositor para o Príncipe Anton Esterházy, missiva esta recente-
mente descoberta nos arquivos Esterházy em Budapeste.
88
Fig. 4 — Silhueta de Antonio Salieri,
feita por Hieronymus Lõschenkohl,
1786.
Vossa Alteza, imediatamente após a volta da companhia de
ópera italiana que teve a honra de servir Vossa Alteza na úl-
tima magnífica festa em Eszterháza, fui informado de que al-
guém lhe havia escrito que eu recusara permissão ao Ponto
Imperial da Corte de partir para Eszterháza o que causou
certo aborrecimento durante os ensaios da fête, além de lan-
çar as mais humilhantes suspeitas sobre mim.
A pessoa que sugeriu semelhante coisa deve ignorar certa-
mente que durante os últimos sete anos tenho sido professor
do jovem Weigl por cujo talento e hábitos me vanglorio, além
de ter-lhe dado e feito musicar um poema de um famoso poe-
ta para a ópera (i.e., a cantata Venere ed Adone) para Esz-
terháza que eu mesmo havia começado a musicar. Além dis-
so, para permitir ao meu aluno mais tempo livre para termi-
nar sua música dentro do tempo previsto, e para que ele e seu
mestre pudessem brilhar durante ocasião tão maravilhosa, eu
89
mesmo durante mais de dois meses assumi as responsabilida-
des de Weigl no Teatro da Corte, indo até ao ponto de assistir
aos ensaios de menos interesse da ópera-bufa sempre que os
outros afazeres me permitiam. E além do mais, sem me arre-
pender, tive que desistir de escrever a ópera que está sendo
preparada para a coroação na Boémia para a qual o empre-
sário veio cinco vezes de Praga até Viena, forçando de tal ma-
neira que eu aceitasse a encomenda a ponto de me mostrar
200 zecchini (ducados), encomenda esta que não pude acei-
tar uma vez que estava sozinho, respondendo pelos proble-
mas do Teatro da Corte.
Estes sacrifícios se apresentam singularmente contrários às
acusações que me são imputadas. O fato de semelhantes deta-
lhes terem sido ignorados ou propositadamente ignorados
pela pessoa que me acusa de ser o autor de uma possível ou
verdadeira sublevação não me aborreceria tanto ou mesmo de
forma alguma se não fosse meu dever explicar a Vossa Alteza
que um homem honesto, um artista, um chefe de família que
passa as poucas horas livres que sua ocupação lhe permite fa-
zendo o bem aos vizinhos, sem quaisquer motivos ulteriores,
o mesmo bem que sem reservas vem recebendo dos outros,
não pode e não deve permanecer indiferente diante deste tipo
de julgamento.
Soube através dos elementos da troupe que o verdadeiro
autor desta intriga foi finalmente descoberto, mas tenho dú-
vida se este fato é do conhecimento de Vossa Alteza e este é o
motivo pelo qual tomei a decisão de escrever-vos respeitosa-
mente esta justificativa que imploro Vossa A lteza receba
como prova do meu mais profundo respeito pelo qual me
subscrevo como vosso mais humilde e obediente servo,
Antonio Salieri
Principal Kapellmeister da
Corte Imperial de Viena4
Desta fonte até então ignorada é que vimos a saber que Antonio Salieri fora a
primeira escolha do empresário de Praga para compor a nova ópera da
coroação. O empresário citado era Domênico Guardasoni, um agente teatral
italiano que intermitentemente, desde 1788, estava encarregado do Teatro
Nacional de Praga. Pouco tempo depois de 10 de junho de 1791, quando
Guardasoni havia voltado para Praga vindo de Varsóvia, os Estados
Boémios' o procuraram em relação à nova ópera a ser executada durante a
9 0
coroação de Leopoldo II como Rei da Boémia, no dia 6 de setembro. Ev i -
dentemente as autoridades de Praga haviam deixado tudo para a última ho-
ra, pois o contrato com Guardasoni data de 8 de julho de 1791, isto é, menos
de dois meses antes da ópera estrear. O documento (em italiano) diz:
Especificação dos quesitos que eu, abaixo assinado, concordo
manter em relação aos Altos Estados da Boémia... concernen-
tes a uma grande ópera séria a ser encenada neste Teatro Na-
cional por ocasião da coroação de S(uas) R(eais) M(ajestades)
I(mperiais) nos primeiros dias de setembro próximo; para tal
fim deverei receber seis mil florins ou seis mil e quinhentos
caso o castrato Marchesi seja contratado.
l m o Fico obrigado a contratar um excelente castrato de re-
conhecida qualidade como por exemplo Marchesini (Mar-
chesi) ou Rubinelli ou Crescentini ou Vio lani ou qualquer ou-
tro desde que seja de reconhecida qualidade.
Fico igualmente obrigado a contratar uma prima donna
também de reconhecida qualidade e certamente a melhor
nesta categoria que esteja livre e concordo, outrossim, que
minha companhia deverá fornecer os cantores restantes.
2d o Concordo em contratar que um libreto seja escrito em
qualquer um dos dois temas que me foram dados pelo Conde
do Castelo-e que o mesmo seja musicado por um compositor
célebre; porém, caso isto seja impossível dada a exeqúidade
de tempo, fico obrigado a conseguir uma ópera recém-
composta sobre o tema de Tito, de autoria de Metastasio.
3z i0 Fico obrigado a providenciar para esta ópera duas no-
vas mudanças de cenário.
Fico igualmente obrigado a providenciar um novo guarda-
roupa, especificamente para os cantores principais.
4'° Fico obrigado a iluminar e fornecer grinaldas ao teatro,
a montar nos mínimos detalhes a referida ópera e executá-la
gratuitamente durante uma noite à disposição dos Altos Esta-
dos dentro do tempo especificado.
Requisitos urgentes:
l m o O recebimento da soma de seiscentos florins para mi-
nha viagem a Viena e para a Itália através de uma ordem a ser
paga por um banqueiro em Viena e na Itália e que deverei
receber um adiantamento de uns dois mil florins caso os can-
tores necessitem de algum dinheiro adiantado.
9 1
2d 0 Os honorários restantes deverão ser pagos a mim no dia
em que a ópera for exibida.
3Z'° Caso no espaço de 14 dias após o dia da minha partida
para a Itália a ópera seja cancelada, então apenas as despesas
da viagem me serão pagas.
4t0 Guardasoni deverá anunciar imediatamente o dia em
que contratar um cantor; a partir deste dia, caso a ópera não
seja executada, o referido cantor será reembolsado se ele ou
ela já tiverem deixado a Itália.
5'° No caso da referida ópera não ser executada, aqueles
itens comprados com o dinheiro adiantado serão mantidos,
enquanto aqueles para os quais não foi emitido qualquer con-
trato deverão ser devolvidos; e uma remuneração deverá ser
feita a Guardasoni se ele puder provar que as despesas com a
viagem foram maiores do que a soma recebida como adianta-
mento.
Praga, 8 de julho de 1791
Henrico Conte di Rottenhan (Conde do Castelo
Boémio)6
Gasparo Ermanno Conte Kinigl (Kúnig)
Giuseppe Conte di Sweerth
Giovanni Conte Unwerth
Giovanni Baron d'Hennet
Domênico Guardasoni
Impresario7
Fica patente a partir deste documento que mesmo em julho não era absoluta-
mente certo que ocorresse em Praga uma ópera comemorativa da coroação.
Os Estados não demonstravam uma preferência especial por qualquer
compositor e caso os temas (ignorados) fornecidos pelo Conde Heinrich
Rottenhan não pudessem ser transpostos para libreto, então o antigo e
famoso livro La clemenza di Tito de Pietro Metastasio seria o escolhido. Não
existe referência a qualquer outro escritor ou adaptador.
Na verdade Guardasoni já havia aparecido na vida de Mozart, dois anos
antes, e talvez em relação a um outro trabalho. Na Sexta-feira Santa (10 de
abril de 1789) Mozart enviara de Praga para a esposa a seguinte carta: "Fui
visitar Guardasoni que está prestes a conseguir que eu escreva uma ópera
para o próximo outono, para ele, por 200 (ducados) e 50 de despesas de
viagem..."8 Este projeto nunca se concretizou porque Guardasoni foi cha-
mado a Varsóvia naquele mesmo ano e não voltou a Praga até 10 de junho
de 1791.
9 2
A companhia, que o Prager Oberpostamtszeitung de 14 de junho de 1791
informava estar hospedada na estalagem Blauer Stern(Estrela A zul) ,
consistia de: "Sr. Guardasoni, Diretor da Companhia de Ópera Italiana, Sr.
Bassi, Sr. Balleoni [Baglioni], Madame Perini e suas três filhas, Madame Ka-
tharina Mitschelli, Madame Michalowicz, Sr. Bonsiani, Sr. Campi, Sr. Lo lli,
virtuosi da ópera de Varsóvia..."9 Vários destes cantores tomaram parte nas
primeiras representações de La clemenza di Tito.
Em 9 de julho de 1791, um dia após a assinatura do contrato, Guarda-
soni recebeu um adiantamento de 600 gulden, partindo para Viena e em
seguida para Bolonha, local para o qual os Estados da Boémia haviam envia-
do a soma de 2.000 gulden para contratar cantores.10
Entretanto, se Guardasoni fez cinco diferentes viagens de Praga até Viena
para persuadir Salieri a compor a ópera da coroação — segundo o músico
declarou, embora seja difícil de acreditar — , o empresário deveria estar
equivocado ao achar que ele fosse o compositor preferido da corte quando,
na realidade, ao contrário do que geralmente se acredita, Salieri não gozava
dos favores de Leopoldo II . Em suas memórias, Lorenzo da Ponte descreve
um encontro com o Imperador no qual Leopoldo aparentemente teria dito:
A h, não leve em conta Salieri, eu o conheço bem. Sei das suas
intrigas, como sei das intrigas daquela tal de Cav alieri
(amante de Salieri). Salieri é um egoísta insuportável, quer fa-
zer sucesso no meu teatro apenas com suas óperas e com sua
mulher. Ele não é apenas seu inimigo, é inimigo de todos os
compositores, todos os cantores, todos os italianos; e acima
de tudo, meu inimigo, porque sabe que eu o conheço. Não o
quero mais, nem sua mulher alemã aqui no meu teatro..."
Caso a narrativa de Da Ponte contenha um mínimo de verdade — e existem
outras fontes que confirmam a insegurança de Salieri em relação à sua
posição" — seria lógico julgarmos que este não deveria ser o compositor
favorito da corte.
A escolha de Leopoldo — se na verdade ele pudesse encontrar tempo
para se interessar pelo assunto — recairia provavelmente sobre Domênico
Cimarosa. O Imperador tinha planos de convocá-lo da Rússia (onde com-
punha ópera para Catarina, a Grande) até Viena e mandar Salieri passar três
anos em Nápoles, lugar ao qual Cimarosa deveria voltar. Por fim Cimarosa
foi a Viena e escreveu para o teatro da corte sua obra-prima / / matrimonio
segreto em fevereiro de 1792.12 Esta obra agradou tanto ao Imperador que
este pediu pessoalmente que fosse reprisada na mesma noite da estréia, pa-
gando a Cimarosa 1.350 gulden, além da receita da bilheteria da terceira
93
representação (toda vendida, assim como as duas primeiras), e também
uma caixa de rapé dourada incrustada de diamantes.
. E como Mozart apareceu então neste contexto? E como ocorreu que os
Estados tivessem já sugerido a Guardasoni que La clemenza di Tito fosse o
tema escolhido, uma vez que o libreto original não estava pronto? A s res-
postas para estas perguntas se encontram em documentos contemporâneos
autênticos. O primeiro concerne um concerto beneficente patrocinado pela
amiga de Mozart, Josepha Duschek, em Praga, anunciado da seguinte
forma:
Co m alta e graciosa permissão
neste dia, Terça-feira, 26 de abril de 1791
Madame Duschek
terá a honra de apresentar
um Concerto Musical no
Real Teatro Nacional
Programa:
l f : Uma Sinfonia do Sr. Girovetz [Adalbert Gyrowetz]
2.": Uma Área Allegro do Sr. Cimarosa
3f: Um movimento de uma Sinfonia
4.": Uma Grande Cena inteiramente nova do Sr. Mozart
5.": Um Concerto para pianoforte do Sr. Mozart, executado
pelo Sr. Witassek
6.°: Um Rondó do Sr. Mozart com clarineta contralto obligatto
7.°: A conclusão será um movimento de uma Sinfonia11
Se a identificação do quarto número apresenta uma razoável dificuldade, o
sexto aparece como uma verdadeira sensação, uma vez que a única possibili-
dade de um rondó de Mozart (neste contexto uma ária que consistia de um
andamento lento seguido de um andamento rápido) com clarineta contral-
to é Non piú di fiori, cantado por Vitellia no II Ato de La clemenza di Tito.
Entretanto, como poderia isto ser possível? A incumbência de escrever a
ópera não poderia ter sido dada a Mozart antes de 14 de julho de 1791 e no
entanto vemos anunciado no programa que a amiga de Mozart, Madame
Duschek, teria cantado uma ária desta ópera em abril. (O 4? número tam-
bém poderia fazer parte de uma ópera se conseguíssemos identificá-lo.) O
fato do Rondó fazer parte do repertório de Madame Duschek é comprovado
pela inclusão do mesmo num concerto em Viena dia 29 de março de 1798,
intitulado: "Rondó com clarineta contralto obligatto de Mozart, acompa-
nhado pelo Sr. Stadler", sendo a parte em clarineta contralto certamente
9 4
composta por Mozart para seu amigo Anton Stadler que também participou
da primeira récita da ópera em Praga.
Para melhor esclarecermos esta questão, felizmente uma grande parte do
manuscrito autografado de La clemenza di Tito sobreviveu, o que nos au-
xilia a determinar quais partes da ópera foram escritas em Praga, porque o
tipo de papel empregado é o mesmo que Mozart usou para a abertura de
Don Giovanni (reconhecidamente escrita minutos antes da estréia), como
também a ária de concerto Bella mia Fiamma (K.528) composto para Ma-
dame Duschek, quando Mozart se encontrava em Praga em novembro de
1787. As referências relativas à cronologia da composição da ópera serão
discutidas mais tarde, embora exista um fato surpreendente que se refere
diretamente ao nosso Rondó com clarineta-contralto. Antes de revelá-lo,
porém, devemos examinar a estrutura da composição, n." 23 na ordem nu-
mérica da ópera, que é a seguinte:
Cena 15 do II Ato apresenta Vitellia sozinha: canta primeiro um recita-
tivo acompanhado (N." 22), Ecco ilpunto, o Vitellia, que termina com uma
cadência na tonalidade de Si bemol. A cena seguinte, n:' 23, se intitula
Rondó, e se desenvolve da seguinte maneira:
Primeira parte: Larghetto, em 3/ 8, Fá maior. Orquestração.
1 clarineta-contralto, dois oboés, dois fagotes
e duas trompas.
Texto começa Non piú di fiori. Compassos
1-43 incl.
Segunda parte: Allegro, em 4/ 4, mesma orquestração. Texto
começa
Infelice! qual orrore! Compassos 44-180.
Compasso 180: modulação Fá maior para o
próximo número, conduzindo para o N " 24
(Cena 16) Coro (a Marcha, Che dei ciei).
A segunda parte está escrita em um papel que não aparece em qualquer
outro manuscrito autografado de La clemenza di Tito, sendo na verdade
bastante raro em toda a obra de Mozart. Este papel foi encontrado em algu-
mas partituras de Haydn (i.e., uma cópia autêntica da Avia di Rosina, Sig-
rior, voi sapete", uma inserção no II matrimonio per inganno de Anfossi,
representado no Castelo Eszterháza no verão de 1785). As provas d'água
sugerem um papel proveniente do norte da Itália: três crescentes de tama-
nho declinante, coroa sobre as letras G/ FA. A primeira parte, por outro la-
do, está escrita em papel usado em muitos outros números da ópera e o
último compasso musical escrito nele é na verdade o primeiro compasso do
95
Allegro seguinte. E não é só: existe uma versão anterior descartada da Pri-
meira Parte que também está escrita neste mesmo papel. A s implicações
são óbvias: o movimento Allegro, Segunda Parte, originalmente formava
um trecho da antiga partitura; e não é só isso: no seu último compasso (180)
Mozart originariamente escreveu no autógrafo três fermatas ou pausas para
mostrar que a música acabava na primeira nota, em seguida apensou, no
mesmo compasso, a modulação e recomeçou numa página em branco no
compasso 181. Certamente, então, pelo menos, o movimento Allegro do
Rondó fazia, com toda a probabilidade, parte do Rondó com clarineta-
contralto que Madame Duschek cantou anteriormente em 1791. (Ela não
poderia ter cantado a atual Primeira Parte uma vez que a mesma ainda não
tinha sido composta; talvez tivesse havido uma introdução mais antiga que
não foi encontrada.)"
O pesquisador tcheco To mislav Vo lek revo lucionou nosso conheci-
mentosobre este curioso capítulo da vida de Mozart com sua descoberta
sobre os importantes documentos de Praga relacionados com La clemenza
di Ti to.16 Uma vez estabelecida a prioridade (pelo menos parcial) de Non piú
di fiori sobre o restante da ópera, o próximo passo foi sugerir que Mozart já
tivesse começado a se ocupar com a música de La clemenza di Tito muito
antes de existir qualquer compromisso sério de se escrever uma ópera para
a coroação; e que a discussão de uma ópera com Guardasoni, em 1789, a
que nos referíamos acima, deve ter sido feita para esta versão prévia de Tito.
Isto é especulação, contudo. Pressupõe que Mozart já estivesse em contato
com o homem que finalmente adaptou o libreto de Metastasio, moderni-
zando-o, i.e., Caterino Mazzolà, um poeta italiano radicado na corte de
Dresden. Entretanto, não existem provas de que Mozart tivesse se encontra-
do com Mazzolà antes do verão de 1791.
Por outro lado, o texto do famoso n.° 23 não é do original de Metastasio,
escrito em Viena para o compositor da corte Antonio Caldara em 1734. Na-
quele original, a ária de Vitellia ocorre no III Ato (ao contrário da ópera de
Mozart, em que é no II Ato ). O recitativo Ecco ilpunto, o Vitellia é idêntico
ao n:' 22 de Mozart, com exceção de um pequeno corte no final, sendo os
textos idênticos. Porém no original de Metastasio datado de 1734 o texto da
ária é o seguinte:
Getta il nocchier talora
Pur que' tesori alVonde
Che da remote sponde
Per tanto mar portò.
E, giunto al lido amico,
Gli Dei ringrazia ancora
96
Che ritornò mendíco
Ma salvo ritomo.
Parte
Na continuação de Mozart, o Rondó tem as seguintes palavras:
Non piú d i fiori vaghe catene
discenda Imene ad intrecciar
Stretta fra barbare aspre ritorte
veggo la morte ver me avanzar.
Non piú di fiori, ecc.
Infelice! qual orrore!
A h d i me che si dirá?
Chi vedesse i l mio dolore
pur avria de me pietà,
Non piú fiore, ecc.
Infelice! qual orrore! ecc.17
Estas palavras nunca fizeram parte do original de Metastasio ou sequer
apareciam em qualquer ópera do famoso poeta, de forma que não há prova
alguma de que Mozart pensasse estar compondo uma parte de La clemenza
di Tito quando começou a escrever a imponente ária para Madame Dus-
chek. Neste caso, então quem escreveu o texto para esta ária? Teria vindo de
uma ópera desconhecida? E se, como parece possível segundo as provas
atuais, esta música fosse originalmente uma grande ária de concerto para
Madame Duschek, por que então não apareceu no meticuloso catálogo te-
mático de Mozart? Porém, supondo-se que esta cena não tivesse sido uma
peça de concerto, mas parte de um plano para La clemenza di Tito, como
então se encaixaria com Caterino Mazzolà? E em que data Mozart o co-
nheceu?
Para responder a esta pergunta, precisamo s vo ltar a Guard aso ni.
Quando este deixou Praga a caminho de Viena, em óbvio estado de preocu-
pação, tinha como recurso a idéia de arranjar uma pessoa para reescrever o
Tito de Metastasio; porém, antes mesmo que pudesse pensar em contratar
um compositor, Guardasoni precisava encontrar um poeta com quem pu-
desse discutir os dois temas para uma ópera sugeridos pelo Conde Rotte-
nhan. Caso não houvesse tempo para escrever um novo libreto, aprovei-
tando um dos temas propostos, então o poeta teria que adaptar La clemenza
di Tito, modernizando o texto de 1734 para 1791. Guardasoni deve ter che-
97
gado a Viena perto do dia 14 de julho — tendo saído de Praga em 10 ou 11
— e então a atitude mais natural que ele poderia ter tomado seria entrar em
contato com o poeta oficial da corte.
Lorenzo da Ponte tinha sido demitido durante a primavera de 1791 e
para ocupar seu posto a corte designara Mazzolà que estivera trabalhando
em Dresden. Este viajou via Praga, onde chegara no dia 6 de maio .18 O ca-
tálogo da administração geral dos teatros da corte de Viena traz o nome de
Mazzolà a partir de maio até o final de julho quando este foi demitido para
dar lugar ao poeta e libretista muito mais famoso Giovanni Bertati.19
Em meados de julho , entretanto, Mazzolà ainda era o poeta oficial em
Viena20 e foi obviamente a ele que Guardasoni recorreu para a execução do
libreto. Em relação à música, não há provas de que tenha feito uma última
tentativa de persuadir Salieri a realizar esta tarefa, mas a verdade é que pro-
curo u Mo zart, d and o assim início à asso ciação Mazzo là-Mo zart-
Guardasoni.21
Em relação ao possível elenco para La clemenza di Tito, tudo o que Guar-
dasoni sabia era que os dois principais cantores deveriam ser contratados
na Itália, pois antes de Mozart saber quem seriam estes cantores e quais
seriam seus registros vocais, não poderia escrever coisa alguma para eles a
não ser peças em conjunto onde pudesse aplicar um registro adequado, d i-
gamos, para qualquer soprano ou tenor. (A propósito de registros, o movi-
mento Allegro do Rondó de Madame Duschek vai de sol abaixo do dó mé-
dio até lá" com alguma concentração nas notas de peito médias e baixas —
especialidade da cantora — enquanto que a cantora que finalmente foi
contratada para desempenhar o papel de Vitellia, Maria Marchetti-
Fantozzi possuía um registro que ia do dó médio até o dó"; entretanto,
Mozart obviamente percebeu quando ela chegou que a cantora poderia
dar conta das notas baixas do original de Duschek, assim como atingir o
ré" agudo.)
A única voz que Mozart conhecia bem era a do futuro Titus — Antonio
Baglioni, tenor, que havia criado o Don Ottavio de Don Giovanni em Praga,
em 1787. Além da música para este cantor específico, Mozart achou que só
poderia arriscar escrever alguns números em conjunto sem conhecer as vo-
zes que iriam interpretar a partitura. Portanto, foi capaz de delinear alguns
esboços e rascunhos para árias relativas a Sextus, Servilia e A nnius, tendo
certeza somente, pelo contrato, de que o papel de Sextus seria interpretado
por um castrato.
O processo e a sequência composicional podem ser explicados através de
uma análise dos diversos tipos de papel empregados por Mozart. O pesqui-
sador inglês A lan Tyso n, num grande estudo sobre os tipos de papel e mar-
cas d'água dos esboços de La clemenza di Tito21, identificou cinco tipos d i-
98
ferentes. Destes, o tipo I foi empregado por Mozart em obras como Cosi fan
tutte (1789) e outras obras terminadas em 1790. O tipo II foi aquele empre-
gado por Mozart durante o período em que o compositor ainda não estava
disposto a encetar mais do que duas novas árias solo. O tipo III deve ter sido
empregado para os arranjos escritos depois de Guardasoni ter estado na
Itália e voltado a Viena com informações detalhadas sobre o elenco — em
sua maior parte as árias cruciais que Mozart não queria iniciar antes que
estas informações lhe fossem transmitidas.2' Apenas as últimas oito folhas
de uma única ária são do tipo IV, enquanto o tipo V foi usado para a música
composta à última hora, em Praga.
Desta maneira, èom o auxílio das provas dos tipos de papel, uma possí-
vel cronologia dos acontecimentos a partir de meados de julho de 1791
pode ser estabelecida da seguinte forma:
Guardasoni chega a Viena aproximadamente no dia 14 de julho . No dia
15 ou 16 encontra-se com o poeta Mazzolà e ambos concordam com La
clemenza di Tito como tema; Mazzolà decide revisar e principalmente en-
curtar o libreto. Guardasoni faz uma tentativa de última hora para contratar
Antonio Salieri, porém após a quinta recusa (se devemos acreditar no com-
positor) corre até Mozart com a mesma oferta que, em termos financeiros,
era igual à que lhe fora oferecida em Praga em 1789: um pagamento de 200
ducados e mais 50 para despesas de viagem, 250 ducados ou 1.150 gulden
no total. Mozart aceita e Guardasoni segue viagem para Bolonha, voltando
logo depois. Entrementes, Mozart começa a colaborar com Mazzolà, su-
gerindo, entre outras coisas, que a cena (Rondó) já escrita para Madame
Duschek seja inserida no II Ato da ópera; esta revisão sempre foi c o n s i -
derada especialmentebem-sucedida, por melhorar a situação dramática
original. O quanto Mozart influenciou Mazzolà, dada a premência de
tempo em que ambos foram obrigados a trabalhar, continua até hoje uma
questão em aberto. Porém, como veremos a seguir, Mozart descreveu os
esforços de Mazzolà como tendo transformado La clemenza di Tito em
"uma verdadeira ópera". Além do mais, entre meados de julho e de agosto,
Mozart não deve ter escrito mais do que os números listados no Apêndice D
(pág.213) em papel do tipo I e II . Vamos imaginar que Guardasoni tivesse
voltado a Viena em meados de agosto, uma vez que seria quase impossível
tê-lo feito antes desta época. Entre 15 e 25 de agosto, Mozart seria então
capaz de começar a trabalhar nos números alistados no papel tipo III; se ele
chegou em Praga dia 28 de agosto, como sabemos que o fez através do Pra-
ger Oberpostamtszeitung de 30 de agosto, deve ter saído dia 25, uma vez
que a viagem pela rápida carruagem-postal demorava três noites e quatro
dias.24 Provavelmente levava alguns papéis tipo III e sem dúvida empregou
o tempo na carruagem para compor mentalmente os números faltantes, um
99
procedimento que lhe era comum: colocar no papel as notas era para ele
uma operação puramente mecânica.
Mozart encontrou ainda outra maneira de tornar possível esta monu-
mental operação, dando ao seu aluno Sussmayr a tarefa de compor todos os
recitativos secco (aqueles acompanhados apenas pelo cravo com violoncelo
e contrabaixo). Sussmayr acompanhou Mozart e a esposa nesta viagem a
Praga e embora sempre tenha sido dito que o aluno compôs estes recitativos
não se pode prová-lo, uma vez que os autógrafos para os recitativos secco
nunca foram encontrados. Nissen porém afirma que os mesmos foram
"compostos por seu (de Mozart) aluno Sussmayr". Além do mais, como
Sussmayr estava junto com os Mozart durante todos os ensaios em Praga,
não há razão para duvidarmos deste particular; e Mozart certamente super-
visionaria o trabalho do aluno.
É de surpreender, no entanto, o fato de Constanze ter conseguido viajar
também. Ela havia dado à luz o sexto filho do casal, Franz Xaver Wolfgang,
no dia 26 de julho (o batismo tinha sido celebrado na Catedral de Santo
Estevão que também servia de igreja paroquial para os Mozart), tomado as
providências no mês seguinte para deixar a criança (com uma das irmãs
talvez?) e embarcar no que poderia ser uma viagem potencialmente peri-
gosa para uma mulher nas suas condições. Wolfgang devia estar especial-
mente ansioso em tê-la como acompanhante e ela, por sua vez, talvez já
começasse a se preocupar com a saúde do marido que certamente por esta
altura já demonstrava sinais de estafa pelo excessivo acúmulo de trabalho.
Quando estavam para embarcar na carruagem, o mensageiro do Ré-
quiem repentinamente se materializou "como um fantasma" (escreveram
Niemetshek e Nissen) e puxo u a bainha do guarda-pó de Constanze: " E o
que vai ser do Réquiem?" — perguntou ele. Eis o relato dos dois escritores:
Mozart pediu desculpas, dizendo que a viagem era necessária
e explicou que seria impossível relatar ao seu patrono desco-
nhecido os motivos; mas que assim que voltasse seria a pri-
meira tarefa que retomaria; ficava portanto inteiramente a cri-
tério do patrono desconhecido a vontade de esperar tanto
tempo, mas o mensageiro pareceu bastante satisfeito com a
resposta.25
A última viagem de carruagem pela cidade que particularmente sempre
amara sua música e o encorajara, teve lugar na semana final de agosto,
época em que o campo austríaco atinge seu apogeu: a colheita está sendo
recolhida, por homens e mulheres, nas carroças de grandes rodas, os cam-
pos estão lentamente começando a se tornar castanho-escuros e os primei-
100
ros toques de vermelho e dourado começam a aparecer nas folhas dos v i -
nhedos do norte de Viena. Porém, à medida que a carruagem começa a gal-
gar em direção a Z naim, na estrada principal, os vinhedos são por demais
expostos ao vento enquanto a cevada, a aveia e o feno enchem os enormes
campos, transbordando em lentas curvas verticais em direção à Boémia. A
carruagem-postal de quatro cavalos deixou Viena às oito horas da manhã e
levou três dias, parando em 21 estações-postais, para chegar até Praga
também pela manhã; atravessou pelas enormes mansões rurais dos nobres
ao lado do vale do Danúbio, passou pela trepidante cidade-mercado de
Stockerau, em seguida por Sierndorf, o castelo dos Príncipes Colloredo-
Mansfeld e pelas proximidades de Gõllersdorf, a mansão ancestral dos
Condes de Schõnborn. À medida que a carruagem galgava os 2.500 m,
Mozart vislumbrou os vinhedos de Retz que produziam um ácido vinho
branco muito apreciado pelos vienenses; atingindo o Znaim "pitoresca-
mente situado ria margem esquerda do Thaya", sede do velho castelo dos
Margraves da Morávia. Após deixar Z naim, 3.135 m onde ficava a sexta
estação-postal, a carruagem passou arduamente por mais quatro estações
até chegar a Iglau, cidade limítrofe entre a Morávia e a Boémia, situada
numa altitude de 5.593 m. Dali em diante a estrada descia ligeiramente
através das matas e campos do Deutsch-Brod e da antiga cidade-mercado
de Caslau (Czaslau) próxima ao terrível campo de batalha de Chotusitz
onde Frederico, o Grande, derrotou os austríacos em 1742. Por esta altura
a língua principal gradualmente mudava do alemão para o tcheco
(boémio). Dezessete estações-postais a contar de Viena ficava Ko lin (Neu-
Kollin ou Collin) onde outras importantes estradas se ramificavam em
direção a Zittau, na Alemanha, e, em outra direção, para Neisse, na Silésia.
Próximo a Kolin existia um lembrete mais reconfortante da guerra contra
Frederico, o Grande: o Friedrichsberg, local do qual Frederico observou a
grande batalha em que foi derrotado no dia 18 de junho de 1757 pelo
Marechal austríaco Daun e pelo Príncipe Nicolaus Esterházy, então
coronel da cavalaria austríaca que conduziu suas claudicantes tropas até a
vitória, sem jamais poder imaginar que 200 anos mais tarde seu nome
estaria mais associado a Joseph Haydn do que à batalha de Ko lin.26 Os
Mozart devem ter chegado a Praga entrando pelo Novo Portão (Neuthor)
na quarta manhã da viagem, 21 estações-postais e 240 km distante de
Viena.27
A biografia de Nissen descreve da seguinte forma a viagem: "O trabalho
para esta ópera [ Tito] se iniciou na carruagem en route de Viena para Praga
e ele o completou no prazo de 18 dias em Praga..."28 Esta assertiva foi tirada,
mais ou menos verbatim, da biografia de Niemestschek onde esta informa-
ção é dada duas vezes de formas ligeiramente diferentes (ambas as fontes
101
mencionam especificamente 18 dias). Mesmo se admitindo o excepcional
génio de Mozart este dado tem sido geralmente visto como uma descuidada
licença poética, pois se contarmos dezoito dias para trás a partir do dia da
primeira récita da ópera em Praga, em 6 de setembro, estaríamos nos dias
19 ou 2 0 de agosto de 1791. Já vimos acima que Guardasoni deve ter che-
gado em Viena, vindo da Itália, com detalhes sobre o elenco, em meados de
agosto, mas talvez só tivesse chegado no dia 18 e Mozart não tivesse se intei-
rado de todos os detalhes necessários até a tarde de 19. Portanto este nú-
mero de 1 8 dias parece sugerir que, tirante a música escrita antes daquela
data (nos papéis tipo I e II) , a parte principal de Tito realmente foi composta
(empregando os papéis tipo III e o tipo V de Praga) nestes dezoito dias, o
que é de causar espécie até hoje. O tipo V (papel de Praga) era visivelmente
menor em tamanho, portanto há muito foi reconhecido como tendo sido o
papel que continha a música da ópera (incluindo a famosa Abertura), com-
posta à última hora na capital da Boémia. (Ver apêndice D, pág. 213) :
Ao chegarmos, com os Mozart e Sussmayr, na dourada cidade de Praga,
poderíamos nos perguntar, como sem dúvida o devem ter feito os três via-
jantes durante algumas semanas, o porquê de La clemenza di Tito.2' Talvez
a razão óbvia fosse o fato comprovadode ter sido um dos libretti mais famo-
sos e de mais sucesso de Metastasio, tendo sido aproveitado pelos maiores
compositores da Europa como Caldara em 1734 e j . A . Hasse (três vezes),
Wagenseil, Gluck (em 1752 em Nápoles), Holzbauer, Galuppi, Anfossi,
Naumann, Traetta, Sarti, Myslivecek, Guglielmi e o empresário de Haydn,
J. P. Salomon.
A segunda razão era que o Imperador e, num grau muito mais elevado, a
Imperatriz eram fanáticos pela "ópera-séria" como género e não seria, de
qualquer maneira, considerado adequado se montar uma ópera-cômica
para as solenidades da coroação.
A terceira, o tema: um Imperador perdoando seus possíveis assassinos,
demostrando-lhes brandura e bondade, era considerado adequado não só
para a personalidade de Leopoldo II (que havia abolido a tortura na Toscâ-
nia), como para a Era do Iluminismo. La clemenza di Tito em Praga deveria
representar o ideal, o Iluminismo, em marcante contraste com os alarman-
tes acontecimentos em curso na França. Paul Nettl também sugere uma ra-
zão bastante intrigante pela qual os Estados Bóêmios tinham um motivo
especial para escolher o tema sobre Tito :
Também não deve ser esquecido que Mozart já estava bas-
tante próximo das idéias contidas em A Flauta Mágica,
vendo na figura de Tito , o todo-magnânimo, os princípios-da
tolerância maçónica.
102
Aqueles que tiveram a última palavra em relação à escolha
do tema também poderiam estar motivados por estes mesmos
ideais: os Condes Thun, Canal, Pachta, Lazansky, Clary,Har-
tig, Sporck, Kinigl (Kúnigl), todos membros da loja "Verdade
e União nos Três Pilares Coroados" (Wahrheit und Einigkeit
zu den drei gekrõnten Sãulen) ou de qualquer maneira os ma-
çons que através dós seus votos eram obrigados a propagar os
ideais humanitários sempre que possível.10
Embora fosse considerado adequado executar a antiga e famosa ópera de
Metastasio para a coroação, era também, como já vimos, tido como neces-
sário modernizá-la; e Mazzolà o fez com maestria, cortando uma grande
parte do meio e reduzindo todo o drama de três para dois atos. Se Mozart foi
ou não responsável por algumas destas modificações, os resultados certa-
mente se coadunavam com seus pensamentos. Como ilustração podemos
citar a inserção de um quinteto com coro no final do primeiro ato (N.° 12
Deh conservate, Oh Dei, a Roma ilsuo splendof), seguramente o maior nú-
mero da ópera, e que forçou o cancelamento das cenas 8-13 do segundo ato
e a fusão da antiga cena 7 com o II Ato, cenas 14-16, e o antigo III Ato de
forma que só ficariam dois atos. Desta maneira o conteúdo deste grande
quinteto e coro n° 12 foi estabelecido pelo que se segue, nas mãos de Maz-
zolà, terminando com um singular grand finale para o I Ato. A estudiosa
alemã Helga Lúhnig acredita que este procedimento pode ter sido copiado
de um corte semelhante ocorrido no Rapto do Seraglio onde, após ter termi-
nado o primeiro ato, Mozart fez o libretista Stephanie reescrever todo o se-
gundo — "no início do terceiro ato ocorreu um quinteto ou melhor um
finale encantador — mas eu prefereria colocá-lo no final do segundo ato.
Para tanto é preciso haver uma grande mudança, chegando mesmo a plane-
jar uma nova intriga..." (carta de Mozart para o pai, 26 de setembro de
1781).11
Mozart e Mazzolà (que por sinal foi a Praga para o evento embora só
saibamos a data de sua partida de Dresden em 13 de setembro de 1791)"
operaram milagres no curto tempo disponível, sendo que La clemenza di
Tito passou a ser uma "ópera-séria" com um papel de castrato absoluta-
mente diverso da linha de desenvolvimento das outras óperas de Mozart a
partir de 1782. Contudo, a deliberada simplicidade da sua linguagem é en-
ganadora. Atualmente é levada a sério após um longo eclipse, uma vez que
grande parte da obra é digna dos mais altos padrões mozartianos — a partir
da magnífica Abertura até a conclusão do II Ato com a apaixonante Marcha
103
e Coro em Sol (N.° 24) que sucede ao Non piú di fiori. Além do mais foi
composta segundo os ditames das mais recentes óperas-sérias italianas, es-
tilo Paisiello que, longe de ter perecido, na realidade florescia na Itália."
104
IX
DIÁRIO DA COROAÇÃO
S ob qualquer ponto de vista Praga é uma das mais belas cidades da Euro -pa: a imponente posição do velho forte (Vysehrad), onde o semimítico
Príncipe Kiok e sua filha Libussa com o marido camponês Premysl suposta-
mente viveram, é uma das maravilhas da cidade. O turista, hoje em dia, fica
fascinado com a "Velha Cidade" (Stare Mesto, Altstadt) com suas ruas me-
dievais e monumentos parcialmente góticos. Mozart, que não era grande
admirador do estilo gótico, deve ter ficado mais encantado com os belos
palácios barrocos da nobreza na "Pequena Cidade" (Mala Strana, Kleinseite)
onde v iv iam os Wald stein, Rosenberg, Thun e Lo bko w itz e a abadia
Strahov que oferecia uma insuperável vista da cidade. Como Mozart tivesse
muitos amigos e conhecidos judeus, deve ter ido visitar o Bairro Judeu (Jo-
sephstadt), onde ficava a mais velha sinagoga de Praga, a Altneuschule
(Staronová Skola) e o cemitério judeu (Beth-Khayim — Casa da Vida) desa-
tivado desde 1787 (ano do Don Giovanni), cujas lápides cobertas de musgo
trazem lágrimas aos olhos de qualquer um.
Coroando a 'Velha Cidade' temos o Hradcany (Hradschin), um quadrilá-
tero vizinho ao palácio arquiepiscopal e (na época) o palácio do Príncipe
Schwarzenberg. Do lado Este situava-se o Palácio Real (Hofburg) onde
moravam Leopoldo II e sua corte.1
Os amigos de Mozart, os Duschek (o marido de Josepha era o composi-
tor Franz Xaver cujos primeiros quartetos de cordas foram escritos quase
que simultaneamente com os de Haydn), residiam na Villa Bertramka, um
vinhedo no subúrbio de Koschirsch, distante quinze minutos da Ponte
Palacky. Mozart às vezes passava a noite lá, sendo urq assíduo frequentador
desta família hospitaleira.2
O "diário" a seguir é um relato minucioso das festividades da coroação
em Praga com especial referência à participação de Mozart:
Domingo, 28 de agosto de 1791
Wolfgang e Constanze chegaram com Sussmayr; não se sabe onde ficaram,
uma vez que Praga estava repleta, mas supõe-se que tenham se hospedado
105
com os Duschek, pelo menos até encontrarem outras acomodações. Dois
dias antes, 26, o Kapellmeister da corte, Antonio Salieri, passou pelo Novo
Portão com 5 carruagens trazendo vinte músicos da corte que ficaram hos-
pedados em diversos lugares. Na verdade o número de músicos importados
de Viena parece que vem aumentando de minuto em minuto. No dia 1? de
maio a corte ordenou a Salieri que "fizesse uma lista daqueles membros per-
tencentes à orquestra da capela da corte que seriam necessários para a coro-
ação real boémia, entregando-a com a máxima urgência". Salieri achou que
"um Maestro di Capella (ele mesmo), um organista, um baixo, um tenor,
duas contraltos, duas sopranos seriam necessários em Praga", acrescen-
tando que "portanto 'duas vio las, um violoncelo e um contrabaixo não
seriam precisos" uma vez que segundo ele estes instrumentistas poderiam
ser facilmente encontrados nas orquestras locais de Praga. No dia 8 de ju -
nho de 1791, o Obersthofmeisteramt (Mestre da Casa Real) emitiu a Wen-
zel von Ugarte, Hofmusikgraf (Conde encarregado da música da corte) as
seguintes ordens: "Sua Majestade resolveu graciosamente partir no dia 27
de agosto em direção a Praga, para chegar oficialmente em Praga dia 31 de
agosto, abrir o Landtag (Parlamento) dia 3 de setembro, celebrar a missa de
aliança dia 4 e a Coroação dia 6. — Uma vez que S. Majestade ao mesmo
tempo autorizou que o Kapellmeister da corte recebesse um soldo perdiem
de 4 fl. e sete músicos da corte um soldo per diem de 2 fl. para embarcarem
para Praga... o Conde V. Ugarte... deverá requisitar o transporte necessário
junto aos escritórios da Cavalariça da corte..." Dia 10 de junho , Ugarte
pedira a Salieri que indicasse os músicos e entre eles se encontrava Johann
Georg Albrechtsberger, organista dacorte, e amigo de Mozart.3
Entre as obras que Salieri levou para Praga — o leitor ficará surpreso em
saber — havia nada menos que três missas de Mozart em partituras manus-
critas e partes: K.258 (conhecida como a Missa "Piccolomini" não por causa
da ilustre família toscana, mas porque os músicos se referiam a ela como
uma piccolo missa [pequena missa], termo que por corruptela passou a
adotar o nome atual), K-317 (Coroação) e o magnífico e hoje em dia pouco
conhecido K.337. Tratava-se de missas de Salzburg, as últimas duas da-
tando de 1779 e 1780 respectivamente. O falecido Karl Pfannhauser de-
mo nstro u que tanto a K.317 quanto a K.3,37 eram chamad as de
Krõnungsmesse (Missa de Coroação) nos círculos musicais da corte,4 em-
bora a última também fosse ocasionalmente chamada de Missa Áulica (Mis-
sa da Corte). A partitura Hofburg da K.317 se perdeu, mas as partes origi-
nais que datam de cerca de 1790 ainda existem e na partitura da K.337
existem diversas observações e indicações sobre a execução na escrita do
próprio Antonio Salieri. Pfannhauser foi também capaz de demonstrar que
na biografia de I . F. E. Mosel sobre Salieri (1827) foi dito que este regeu
106
"quase as mesmas músicas" em todas as três cerimónias da coroação .5
Frankfurt 1790 (Leopoldo II) , Praga 1791 (Leopoldo II) , Frankfurt 1792
(Francisco II) e que além destas três missas, Salieri também regeu um dos
mais esplêndidos coros do antigo Thamos (K.345) de Mozart, orquestrado
como um moteto latino, como também o magnífico e austero Offertorium
Misericórdias Domini (K.222) em Ré menor em cuja cópia na capela im-
perial vemos a assinatura "Authore W . A mad: Mozart Vienae/ Aulicae Ca-
pellae Magistro/ Francoforti A nno 1792. producta". Seguirei as sugestões de
Pfannhauser sobre a posição ocupada por estas três composições dentro da
rotina litúrgica.
O que é mais difícil de explicar é como foi possível que sete músicos se
transformassem em vinte! Uma sugestão é que alguns instrumentistas espe-
ciais, como o amigo de Mozart, Anton Stadler, tivessem recebido transporte
gratuito à última hora. Stadler deveria tocar os solos de clarineta e clarineta-
contralto em Tito, não existindo registro sobre sua entrada em Praga (o que
não aconteceria se ele tivesse chegado sozinho na carruagem-postal).
No domingo à noite, no teatro do Conde Thun localizado na "Pequena
Cidade", a companhia Sekonda apresentou: Menzikof, ou a Conspiração
contra Pedro, o Grande, uma tragédia em cinco atos do Sr. Kratter.
Além de uma companhia teatral e da equipe de Guardasoni, Praga estava
sediando muitos outros grupos e artistas individuais, ansiosos por arrancar
dinheiro das multidões. Havia, por exemplo, uma "Feira Persa" organizada
pelo Sr. Massieri e Companhia num prédio de dois andares e algumas cen-
tenas de pequenas lojas. Para as representações, Massieri necessitava de 120
pares de crianças, diversos adultos e mais de cem cavalos, alguns disfarça-
dos de camelos. Numa sala da "Porta de Ferro" em Michaelergasse, os "Mes-
sieurs" Pierre e Degabriel apresentavam uma espécie de teatro mágico, onde
se via "terras, paisagens e cidades estranhas... e diversos efeitos da natureza
como o nascer do sol, variadas obras de arte mecânicas, autómatos que se
moviam ao comando do observador, além de responder a todas as pergun-
tas". Havia também fogos de artifício, experiências químicas e assim por
diante. Os espetáculos ocorriam diariamente das 16 às 19 horas.
Havia também um circo cujo mestre de cerimónias era Monsieur Balp,
"Treinador Real da França e da Sardenha" que montou uma escola de equi-
tação no Tummelplatz na "Velha Cidade". Herr Franz Ko ch se exibia para
grupos de uma dúzia até vinte homens, tocando berimbau de boca. Três
músicos da Transilvânia com duas trombetas de caça e uma clarineta ofere-
ciam seus serviços "para ilustres nobres, pela manhã, à noite e para Tafel-
musik (música tocada durante as refeições)". Blanchard, o famoso experi-
mentador de balões, que havia estado em Praga durante o ano anterior, se
107
propunha então flutuar pela 42.a vez no d ia 14 de setembro, sobre um
campo em Bubenecz.
A aristocracia oferecia banquetes, recepções ao ar livre, bailes de máscara
e soirées musicais. No dia da coroação, os fogos de artifício espoucaram por
toda a cidade antiga.
Segunda-feira, 29 de agosto de 1791
O Imperador Leopoldo II chega com todo o seu entourage para se instalar
no castelo da corte situado na colina. Nesta noite a troupe de Guardasoni
apresenta Pirro de Paisiello e a peça Das Galeriengemàlde (Os Quadros
da Galeria) de Karl Friedrich Hensler.
Terça-feira, 30 de agosto de 1791
A Imperatriz Maria Luísa chega com seu cortejo e se instala no castejo cita-
dino conhecido como "Lieben" onde o Imperador e a corte Imperial lhes dão
boas-vindas oficialmente. A peça é Das Portrait der Mutter (O Retrato da
Mãe) de Schrõder, no Teatro Thun.
O Conde von Zinzendorf também chega a Praga.
Quarta-feira, 31 de agosto de 1791
Procissão festiva para celebrar a chegada oficial do casal real, vinda do In-
validenhaus até a Catedral de São Vitus, a Igreja Metropolitana de Praga,
com os membros municipais e militares em traje de gala. A ssim que o casal
entra na Catedral, coros de trompetes e tímpanos soam do poço do órgão.
Os músicos da Capela da Corte em seguida executam a antífona Ecce mitto
angelum e um Te Deum regido por Salieri. À noite o Teatro Thun apresenta
Ermengtsich in alies (Ele se mete em tudo), seguido de Der weiblicheJako-
biner-Chlubb (O Clube Jacobino das senhoras).
Quinta-feira, 1? de setembro de 1791
Do diário de Z inzendorf temos notícias de primeira mão sobre uma peça de
Mozart:
Reunimo-nos na antecâmara da Imperatriz, éramos 100 pes-
soas jantando na sala da coroação... v i-me quase ao pé da
mesa entre os Charwunschers, Lisette Schoenborn e Auguste
Sternberg. O jantar estava bom... inúmeros espectadores...
108
música de Don Juan. Após o jantar ficamos bastante tempo
no salão apesar do mau cheiro da platéia.6
Zinzendorf se refere aqui ao Don Giovanni de Mozart orquestrado como
Tafelmusik e provavelmente executado por um conjunto de sopro: a or-
questração comum para estes arranjos consistia em dois oboés, duas clari-
netas, dois fagotes e duas trompas. Seriam estes talvez os músicos a mais
colocados nas cinco carruagens de Salieri? E o que Mozart estaria fazendo
além de ensaiar os cantores e de terminar freneticamente La clemenza di
Tito? Felizmente existe uma passagem na biografia de Nissen que deve ter
sido relatada por Constanze e que nos conta um divertido episódio sobre
Mozart em sua última visita a Praga.
Enquanto Mozart compunha sua ópera da coroação La cle-
menza di Tito em 1791, ia quase diariamente, com uns ami-
gos, visitar um café que não ficava distante de seu aparta-
mento, para se distrair um pouco jogando bilhar. Durante
uns dias observou-se que enquanto jogava cantarolava para si
muito suavemente um tema, hm, hm, hm, e diversas vezes
enquanto o oútro jogador dava uma tacada, [Mozart] tirava
um livro do seu bolso, examinava-o rapidamente e em segui-
da voltava a jogar. Quão surpresos ficamos ao ver Mozart sen-
tar-se ao piano na casa dos Duschek e tocar para os amigos
um lindo quinteto da Flauta Mágica entre Tamino , Papageno
e as Três Damas (Wie, wie, wie?) (Como, como, como?) que
princip ia com este mesmo tema que rondava Mozart en-
quanto este jogava bilhar. Não só é uma demonstração do
contínuo exercício da sua imaginação criativa que, mesmo
durante as diversões ou distrações, não se interrompia, como
também era a força gigantesca do seu génio capaz de se ocu-
par de duas atividades tão diversas ao mesmo tempo. Como é
sabido, Mozart já estava bem adiantado com A Flauta Mágica
antes de viajar para Praga a fim de compor e executar La cle-
menza di Tito.7
A peça desta no ite é Bruder Moritz der Sonderling (Irmão Mo ritz , o
Intruso) de August von Kotzebue, no Teatro Thun.8
Sexta-feira, 2 de setembrode 1791
O Tagebucb oficial da coroação contém um aviso importante:
109
Hoje no Teatro Nacional na Cidade Velha será exibido: / / dis-
soluto Punito ossia: II Don Giovanni (O dissoluto castigado
o u Do n Ju an) , Ópera-cô mica em do is atos. Música de
Mozart.9
Um relato ainda inédito sobre esta exibição se encontra no Pressburger Zei-
tung n.° 73 de 10 de setembro:
Praga, 5 de setembro... na noite (de 2 de setembro) Suas Im-
periais Majestades Reais com Seus Sereníssimos Príncipes e
Princesas, Suas Altezas Reais, honraram o Teatro Nacional da
Cidade Velha com suas Digníssimas Presenças onde, por alta
requisição, foi exibida a Opera italiana II dissolutopuniro
[sic] ou D.Jiovanni [sic]. O teatro estava belissimamente ilu-
minado por candelabros e o Camarote Imperial decorado.10
Christopher Raeburn, que tanto tem contribuído para a descoberta de
documentos autênticos relativos às primeiras récitas e aos elencos das
óperas de Mozart, encontrou também o seguinte anúncio no Prager
Oberposttamtszeitung de 6 de setembro:
Praga, 4 de setembro.
Anteontem... Suas Excelsas Majestades honraram o Teatro
Nacional na Cidade Velha com Suas Presenças, onde foi re-
presentada a ópera italiana / / dissoluto punito. O espaçoso
teatro, capacitado para receber cerca de mil pessoas, estava
abarrotado até as torrinhas, sendo que o caminho que Suas
Majestades percorreram estava coalhado de observadores.
Sempre foi afirmado que o próprio Mozart teria regido este espetáculo,
mas isto parece pouco provável. O nome de Mozart não aparece nos relatos
dos jornais ou nos anúncios, pois teria sido mais uma exaustiva tarefa para o
compositor em meio aos últimos ensaios de Tito. Por outro lado, uma teste-
munha ocular cita a presença de Mozart, mas aparentemente entre a platéia.
O texto a seguir foi escrito pelo autor alemão Franz Alexander von Kleist,
que havia chegado a Praga no mesmo dia que os Mozart, 28 de agosto
(10:45 da manhã. Sr. Kleist, nobre da Saxônia procedente de Karlsbad).
Este autor publicou suas reminiscências no ano seguinte (Phantasien auf
einer Reise nach Prag von K., Dresden e Leipzig, 1792):
110
Nunca havia saído de um teatro de ópera tão recompensado
quanto hoje, onde v i, numa única sala, tantas pessoas extra-
ordinárias que ocupam posições tão diversas. O Imperador
junto com a família deveria comparecer à ópera hoje, de sorte
que todo o caminho, desde o castelo até o teatro de ópera,
estava repleto de transeuntes curiosos para ver o semblante
do Imperador a caminho do teatro. No teatro todos os ca-
marotes e a platéia estavam repletos e quando finalmente o
Imperador chegou, foi recebido com efusivos aplausos e vi-
vai!... O Imperador parecia satisfeito com as boas-vindas e
agradeceu várias vezes à platéia... [Seguem-se algumas obser-
vações sobre o público, inclusive alguns destacados emigrés
franceses como o General Bo uille, o Duque de Polignac
etc. ] . . . À parte estas pessoas sou levado a ideais mais altos pela
presença de um homenzinho de casaco verde cujos olhos re-
velam o que sua modesta condição esconde. É Mozart, cuja
ópera Don Juan será exibida hoje, e que terá o prazer de pre-
senciar a delícia com que suas belas harmonias encherão os
corações do público. Quem poderia estar mais orgulhoso e
feliz do que ele? Quem poderia estar mais satisfeito consigo
mesmo? Em vão monarcas gastarão suas fortunas, em vão os
idólatras dos seus ancestrais seus patrimónios: mas não po-
derão comprar uma pequena fagulha do sentimento com o
qual a Arte recompensa seus preferidos!... Todos devem te-
mer a morte, menos o artista. Sua imortalidade é sua es-
perança, sua certeza... Atinge as gerações por nascer en-
quanto os corpos dos reis há muito já apodreceram. E cons-
ciente destas verdades Mozart pôde testemunhar como mil
ouvidos seguiram cada vibração das cordas, cada sibilo da
flauta, e como pulsantes seios e acelerados corações palpitan-
tes puderam perceber as sacras impressões que suas melodias
despertaram... Seja Schwàrmerei (entusiasmo apaixonado,
mas possivelmente transitório) ou um sentimento real en-
tre as pessoas, neste momento eu teria preferido ser Mozart
do que ser Leopoldo ...11
Em relação ao elenco da ópera sabemos que o protagonista foi Luigi Bassi
que contava 21 anos de idade quando criou o papél em 1787.12 Como
quase não existem descrições abalizadas sobre sua voz, é com prazer que
descobrimos um relato de dezembro de 1794 de autoria de Niemetschek,
intitulado "Algumas novidades relativas à condição do teatro em Praga",
111
publicad o nu m jo rnal chamad o : Allgemeines europàisches Journal
(Brúnn, atualmente Brno, Tchecoslováquia):
O Sr. Bassi é um bom ator, mas cantor não é, pois não possui
o principal requisito para tal — isto é, voz! Gostaria que a
tivesse ao lado de seus outros atributos pois neste caso então
poderíamos contar com um melhor Don Giovanni, A lmaviva
(nas Bodas de Fígaro) e A xur (no papel-título da ópera de
Salieri), papéis que desempenha incomparavelmente. Ele
possui o mais apurado gosto em comparação com seus cole-
gas cantores e está pronto a admitir suas desvantagens em re-
lação aos artistas alemães. Durante os anos que esteve em Pra-
ga sempre gozou da admiração do público.
Em relação ao papel de Do n Ottavio, Guardasoni pode também contar
com um tenor que havia estudado o papel com Mozart e cantado na estréia
em 1787 — Antonio Baglioni (que já encontramos em relação à La cle-
menza di Tito). No mesmo artigo Niemetschek escreveu:
Este artista deixou a companhia há um ano e passou algum
tempo na Itália; aqui adquiriu todos os maus hábitos dos ar-
tistas e não-artistas italianos e foi desta forma que voltou para
o Sr. Guardasoni. Não canta sequer uma nota como o compo-
sitor escreveu ou espera que seja emitida, afoga os mais belos
pensamentos com seus ornamentos e trilos italianos e per-
mite que seu método uniforme de gesticular com as mãos
tome o lugar da ação, de forma que a platéia tem grande difi-
culdade em reconhecer que ária ele está cantando. É claro que
necessita destes preciosismos para disfarçar sua voz defi-
ciente que é mais para mezzo basso; mas porque o Signor Ba-
glioni não pode fazer frente às árias de Cosi fan tutte de Mo-
zart, não deveria dizer que as árias são mal escritas: pois o
grande Mozart, cujo espírito é por demais incompreensível
para os levianos italianos, não tomou o Signor Baglioni como
padrão quando compunha sua obra.
O fato marcante sobre este artigo é que, mesmo em 1794, os cantores
italianos (especialmente, sem dúvida, os tenores) estavam ornamentando a
música de Mozart frequentemente, muito mais do que o compositor dese-
jaria. Niemetschek critica com severidade Madame Campi por não cantar
112
com simplicidade, acrescentando: "omitindo os preciosismos desneces-
sários nas melodias simples de Mozart, ela lhes daria mais dignidade".13
Nos interessantes comentários de Kleist inferimos que a platéia de Praga
ficou, como sempre, fascinada com Don Giovanni e seus inúmeros efeitos
inovadores, dramáticos e musicais. É também elucidador lermos o relato a
seguir, de um jovem boémio de dezesseis anos que, ao crescer, se tornaria
um respeitável compositor: Wenzel Johann Tomaschek que, em sua auto-
biografia, descreve suas impressões — e especialmente a primeira dramá-
tica aparição do terror num palco de ópera — ao ouvir a ópera em Praga, em
1790.
Envoltos em nossos capotes, nós [Tomaschek e seu irmão]
nos sentamos juntos aguardando o início. Começa a Aber-
tura; suas grandes idéias e seu andamento rápido com sua ri-
ca orquestração ao lado da nobreza daquela obra de arte orgâ-
nica me comoveu a tal ponto que fiquei sentado como um
sonhador, mal respirando; e na minha ventura celestial v i um
sol despertando, sentido como se fosse algo obscuramente
imaginado que aquecesse toda a minha alma com uma força
mágica. Meu interesse pela obra crescia a cada momento e
durante a cena em que o fantasma do Governador (Comen-
dador)aparece meu cabelo ficou em pé de pavor. No cami-
nho de casa agradeci a meu irmão com lágrimas nos olhos,
apertei-lhe a mão e o deixei, sem ser capaz de emitir uma
palavra sequer. Esta noite havia sido, sem qualquer dúvida, a
maior influência sobre minha vida musical. [Ele prossegue
dizendo que a companhia Guardasoni era considerada ex-
celente, cita diversos cantores e acrescenta]: Nada a não ser o
melhor poderia ser esperado, especialmente com cantores
eletrizados por uma orquestra tão perfeita como foi o caso.
Mozart, que possuía uma noção precisa sobre todas as or-
questras da A lemanha, costumava dizer: "Minha orquestra
está em Praga".14
Existe um particular que deve ser enfatizado: embora o casal real aparente-
mente tivesse uma "forte aversão preconcebida em relação à música de Mo-
zart" suas composições eram tocadas em grande escala, algumas até mesmo
diariamente. Don Giovanni em instrumentos de sopro no dia 1? de setem-
bro, a própria ópera no dia seguinte pela "mais alta requisição" (isto signifi-
caria què Leopoldo e Maria Luísa requisitaram especialmente um espetá-
culo de uma ópera de um compositor de cuja música não gostavam?) e mú-
113
sica sacra nos dias 6,8 e 12 assim como Tito no dia 6 e, se inferimos correta-
mente, grande parte da música de dança de Mozart no dia 12. Convenha-
mos que é uma situação estranha! Se eles realmente não gostavam da mú-
sica de Mozart a este ponto, seriam o Imperador e sua esposa incapazes de
evitar que ela fosse tocada?
Sábado, 3 de setembro de 1791
A companhia Sekonda apresenta esta noite Die Sonnen-Jungfrau (A Vir-
gem-Sol), uma peça alemã em cinco atos, no Teatro Nacional.
Domingo, 4 de setembro de 1791 15
A primeira das cerimónias oficiais da coroação, o Erbhuldgung Quramento
de Aliança à Coroa) tem lugar na Catedral de São V i tus. Os músicos da
Corte haviam requisitado uma Missa de Coroação do Kappelmeister da Ca-
tedral de Praga, Johann Anton Kozeluch (1738-1814), primo do conhecido
músico Leopoldo que morava em Viena e que também contribuiria para as
festividades com uma cantata. Por qualquer razão a Missa foi cancelada e
outra (de Mozart?) foi apresentada. Além disso, Salieri regeu o Veni Sancte
Spiritus, o Gradual e o Ofertório; não se sabe quem é o autor destas peças,
mas é inteiramente possível que Salieri tivesse escolhido o Ofertório de Mo-
zart Misericórdias Dominiem Ré menor (K.222), cujo estilo severo e solene
talvez fosse considerado mais próprio para o imponente Juramento de A li-
ança do que os números musicais mais alegres da coroação. De qualquer
maneira, parece evidente que o Offertorium foi uma das obras de Mozart
que Salieri regeu em Praga durante as festividades da coroação.16
Segunda-feira, 5 de setembro de 1791
No seu catálogo temático Mozart enumera sua nova ópera da seguinte ma-
neira:
5 de setembro — apresentada em Praga dia 6 de setembro. La
clemenza di Tito. Opera-séria em dois atos para a coroação de
Sua Majestade o Imperador Leopoldo II . — redução de uma
ópera verdadeira pelo Sig[no]re Mazzolà, poeta de Sua Alteza
Serena o Eleitor da Sàxônia. Atrizes: Sig[no]ra Marchetti Fan-
tozi. Sig[no]ra A nto nini. — Atores: Sig[no]re Bedini. Sig-
[no]ra Carolina Perini (como homem). Sig[no]re Baglioni.
Sig[no]re Campi. — e Coros. — 24 números.17
114
ATTO PRIMO.
S C E N A P R I M A .
Leu1 * otjtâ iil Trvttt ntili rpptité'
mm, di VITELLIA.
V I T E L L I A , r S E S I O .
V I T E L L I A .
MA ch e? Sem pre M í l r i To ,
Se R o, a ò ir m i ve r r a i? So che fedot to
F u Le n t u lo da t e; che i fuoi leguaei
Son p r on ti g i z, che i l Ca m p id o j l io accefo
D a ra m oto a un t u m u l t o, e fa r i i l le gn o,
On de poffiatc u n íti
K ; T i co
J L T T O U r
S C E N A P R I M A .
tortict.
S E S T 0 j W l nl dijlimivt di Com-
Itm ati jut mama.
OH D e i , che fm w ía fe q u e f ia!
Che t u m u lto h o n el co r ' P a lp i t o , i gs h ia cc io,
M in ca m n u n o .m a r r e l io. Ogn 'aiira,Ojn 'ÓSra
M i fa t r e m a r e. I o n on cr ed ea clie iode
Si i f f i c i l c im p r e la t í í cr m a lva g i o,
M a com p ir la c o r w i c n. 0 ' i a p er m i o ccn np
L e n t u lo co r ro al Ca in p id ogl io I o d e çg io
T i t o a fla lir« N ei p r ecip izio o r r e n di
E ÍCOJ-
4
I N T E R L O C U T O R I .
TITO V EIPM IIN O , Imperetor di ROMA ,
V i T i i i i i , Fiflie drlf Impere*
ter Viuliie.
S i i v m i i Serelld di Sr/lo ,
emente £ Annie.
S i n o , Amico di Tito ,
emente di Vktltie .
A U D I O , Amico di Scfio ,
emente di Servi lie.
P V I L I 0 , Prefeito dei Preto-
rio.
La Scena i in Roma,
si» vAstoc i j t r i .
m m r t i mia i n i t i T - - - - - - - - -
va l ie re di Ca m e ra di S. E . Reven od Uà.
Mon fíg. Ve fcovo di P a d o va.
M f f W m ' , U lu fl . Sig. G i r o l a m o.
M*l*l*ii, I l lu ft . Sig. Ab . Doe. F r a n r e &o
Mmetti, Rcve r e n d iú. Sig. D . Giu fep p e,
P ie va no a l ie Ga m b a r a r e.
Hmcerti, U lu f l . Sig. Ca m i l l o.
MamJai, S ig. G i o v a n n i.
Mara/ta,' Re v. Sig. D . G i a c o m o.
* Manai, R e y. Sig. D . An fe lt no BiWio fe-
ca r io deli' E cce Ue n t i f i. Ca la Al b a n i.
Mãrítmci, U lu Ai iú . Sig. G i o va n ni F r a n-
c t fco, Ch i n i r go feftituto n e t t Ar cio fp o-
d a le d l S Sp i r i t o.
Marjiij Uloft . S ig. P i e t r o.
Marulli, Sig. G i o va n ni L n i g l .
M a r t y*/ / » , I l l u f l . Sig. Do t t o re . . .
Ma / W» ', U lu fl . Sig. Do t t o re An t o n i o.
Mi fiai, Sign or» Ve r ó n i ca.
* de Matka K U lu fl . Sig. M a r ch. G i o v a n n a.
Mattei, U lu f l . Sig. Ab . Dom ên ico M a r i a.
M a n a r, Sig. G i a co m o.
MãxxArim, U lu fl . Sig. Dom ên ico G i a m-
p a o lo, Lu ogo t en en t e.
MÍZZOÍÍ, Sig. Ca r e r i n o, P oe ta a ICt t t u al
fe r vía ío di S. A . S. E . di Si fTo n ia.
Merli, Sig. G i o v a n n i.
Migliori, Sig. M i c h e l c, Studen ta i n &
Sp i r i to di R o m a,
Mietti, Re ve r e n d i l j. Sig. D . Bar tolome
m e o, P a r r oco di Cxelp ign ago.
Mlf-
Fig. 5-8— Quatro páginas do libreto de Metastasio para A Clemência de Tito. Essa
edição, feita por A. Zatta em Veneza, era uma das que pertenciam a Mozart. A fig. 7
mostra as dramatis personae, e a fig. 8 uma lista de assinantes desta edição, in-
cluindo o poeta da corte de Dresden, Caterino Mazzolà, que condensou e adaptou
o longo libreto para Mozart.
115
É patente que tudo que se relaciona com esta ópera foi executado sob consi-
derável tensão, como veremos no Diário Oficial da Coroação que informa
que Mozart estava doente quando compunha as últimas partes. Na biogra-
fia de Nissen lemos que "o tempo para preparar a ópera foi tão curto que
Mozart não pôde acompanhar os recitativos e que cada número de ópera,
assim que ficava pronto, tinha que ser diretamente transcrito para orquestra
e coro de forma que tudo pudesse ficar pronto a tempo..."IS
Novamente recorremos a Christopher Raeburn, que foi capaz de precisar
o elenco da estreia:1"
Titus - Antonio Baglioni
Vitellia - Maria Marchetti-Fantozzi (recte)
Servilia - Signora Antonini
Sextus - Domênico Bedini
Annius - Carolina Perini (papel masculino)
Publius - Gaetano Campi
Supõe-se que o ensaio geral ocorreu à tarde, uma vez que o teatro estava
ocupado à noite com uma representação de Der Herbsttag (Dia de Outono)
de Iffland, uma peça em cinco atos encenada pela Companhia Sekonda.20
Dia da Coroação, Terça-feira, 6 de setembro de 1791
A cerimónia da Coroação foi realizada na Catedral de São Vitus. Leopoldo
foi coroado Rei da Boémia e a música sacra regida por Antonio Salieri in-
cluía:
Antífona Ecce mitto angelum
Missa — provavelmente "da Coroação" em Dó (K.317) de
Mozart, talvez a outra Missa "da Coroação" em Dó
(K.337)
Ofertório — provavelmente o moteto Splendente te, Deus
(K.A nh.121) i.e., o arranjo para o primeiro coro Schon
weichet dir, Sonne de Thamos, Rei do Egito (K.345)
Te Deum21
Durante a cerimónia o Arcebispo de Praga desnudou oombro esquerdo do
Imperador, ungindo-o com óleo sacro; após a bênção, o óleo foi removido
com pão e sal. O Imperador, então, recebeu a coroa de São Wenceslau que
foi colocada em sua cabeça, em seguida lhe foi entregue o cetro, e a maçã
dourada do Império foi colocada em sua mão, enquanto a espada cerimo-
nial lhe era atada em torno da cintura. Trompetes e tímpanos soaram no
116
momento em que prestou'o juramento solene, seguido do disparo do
canhão.22
A estréia de Tito teve lugar àquela noite no Teatro Nacional (atualmente
conhecido como Ty l) . Quando a platéia entrou no teatro (a entrada era gra-
tuita àquela noite exceto para as primeiras filas que estavam reservadas para
estrangeiros ilustres) se v iu diante de um libreto bastante simples. O Argo-
mento resume ^ enredo muito sucintamente: embora o Imperador Titus
Vespasius fosse amado universalmente e denominado a Delícia da Humani-
dade, dois jovens patrícios, um deles favorito do Imperador, conspiram
contra o monarca, mas são descobertos e condenados à morte pelo Senado.
"Entretanto o clementíssimo Cesar se limita â admoestá-los de forma pater-
nal, perdoando-os, assim como seus cúmplices, através de um indulto
geral..."23 O libreto foi obviamente escrito antes de se saber quem tomaria
parte no elenco, pois os nomes de nenhum dos cantores aparece, como não
há qualquer referência, pòr algum motivo extraordinário, nem do nome do
poeta Caterino Mazzolà ou mesmo de Pietro Metastasio (a maior parte da
platéia teria conhecimento da participação deste último, porém poucos sa-
beriam da participação de Mazzolà). "A música é totalmente inédita, com-
posta pelo famoso Sr. Wolfgang Amadeus Mozart, Kapellmeister atual-
mente a serviço de Sua'Majestade Imperial. A s primeiras três mudanças de
cenário foram idealizadas pelo Sig. Pietro Travaglia, atualmente a serviço de
Sua Alteza o Príncipe Esterazi [sic]. A quarta mudança de cenário é de au-
toria do Sr. Preisig de Coblenz. O guarda-roupa, tâmbém inédito, ideali-
zado com encanto e riqueza é de autoria do Sig. Cherubino Babbini de
Man tua."
Não se sabe como Pietro Travaglia que durante anos trabalhou com
Haydn no teatro em Eszterháza e mais tarde foi contratado pelo Teatro da
Corte de Viena, conseguiu esta incumbência honrosa. Sobre Preisig ou Bab-
bini não sabemos praticamente coisa alguma a não ser que o primeiro era
conhecido como Johann Breysig (1766-1831).24
O relato mais completo sobre a ocasião se encontra no diário de Z inzen-
dorf:
Às cinco horas dirigi-me ao teatro na Cidade Velha para assis-
tir à ópera patrocinada pelos Estados. Fui colocado num ca-
marote nas primeiras filas, onde estavam o Sr. de Braun, sua
sobrinha M • Destary, M e l l e de Klebersberg e Sr. Tourinette,
M e l l e [Marechal] W al l i s e o Embaixad o r de Veneza. A
corte só chegou após as 7:30. Fo i apresentada ao público uma
das óperas mais chatas chamada La clemenza di Tito. Rote-
nhan estava no camarote do Imperador... Marchetti cantou
IH
bastante bem, o Imperador ficou entusiasmado com ela. Fo i
extremamente difícil sair do teatro... Um dia muito bonito ...25
guem-se diversos relatos contemporâneos:
Tagebuch der bõhmischen Kõnigskrõnung (Diário da Coroa-
ção Real da Boémia): À noite houve ópera gratuita que Sua
Majestade e Sua Mais Serena Família e a corte assistiram em
camarotes preparados para Suas. Eminentes Pessoas, tendo
chegado às 8 horas. Foram recebidos com gerais expressões
de alegria e gritos de vivat por todo o caminho que Suas Emi-
nentes Pessoas percorreram até chegar ao teatro.
Krõnungsjoumal fúr Prag (Diário da Coroação de Praga):
Festividades nos Estados Nobres
No dia 6, dia da Coroação, os Estados Nobres, com o fito de
glorificar Sua Majestade neste dia, patrocinaram uma ópera
recém-composta, baseada num texto italiano de Metastasio,
adaptada contudo pelo Sr. Mazzola [sic], poeta teatral radi-
cado em Dresden. A obra foi composta pelo famoso Mozart o
que lhe faz honra, embora não tenha tido muito tempo para
escrqvê-la, tendo, além do mais, caído doente enquanto es-
tava no processo de terminar a última parte.
Para a representação os Estados Nobres não pouparam es-
forços: enviaram o entrepreneur à Itália para que trouxesse
uma prima donna e um importante cantor. A entrada foi gra-
tuita e muitos bilhetes foram distribuídos. O teatro tem possi-
bilidade de acolher um grande número de pessoas, mas pode-
se imaginar em tal ocasião que o pedido de entradas foi tão
grande que estas logo se esgotaram, de forma que alguns cida-
dãos locais e alguns estrangeiros, mesmo membros da nobre-
za, tiveram que ir embora por não encontrarem acomodação.
Sua Majestade apareceu às 7:30 e foi recebida com altos
vivas da platéia. Membros dos Estados Nobres tomaram para
si alguns bilhetes, atentos para que a ordem fosse mantida de
maneira que ninguém com entrada ficasse sem lugar, assim
como ninguém sem bilhete conseguisse entrar.
Sobre as peças
A corte fez uma visita ao Teatro Nacional e assisitiu a uma
118
representação da Ópera Don Juan ou O Dissoluto Castigado,
cujo texto é de Da Ponte e a música de Mozart. Devemos ad-
mitir que a companhia de Guardasoni representa esta obra de
forma excelente e que diversos cantores individuais se su-
peraram de forma especial a si mesmos...
Entrementes, as peças não tiveram casas cheias, seja por-
que havia outros divertimentos ou porque o alto preço dos
ingressos afastou os entusiastas. Da mesma forma, não teve
muito público a segunda representação da ópera patrocinada
pelos Estados Nobres, nem a do teatro da Pequena Cidade
(onde a ópera de Haydn, Orlando Paladino, estava sendo
montada por uma companhia alemã-boêmia numa tradução
alemã).26
Após a temporada de representações, Guardasoni requisitou aos Estados
Nobres da Boémia diversas somas de dinheiro que ele considerava lhe eram
devidas.27 Uma das suas reivindicações relacionava-se a duas novas peças
de cenário que, segundo o conde Rottenhan observou nos seus comentários
sobre o documento, foram seguramente executadas uma vez que o velho
cenário estava "muito gasto para ser usado numa ópera inédita". Outra re-
clamação era a tentativa de Guardasoni de ser reembolsado pelo fracasso de
bilheteria da nova ópera. Isto seria apenas um ato de bondade, comenta
Rottenhan, uma vez que tudo já ficara assentado no contrato. "Porém é
geralmente reconhecido que por causa das inúmeras festividades da corte,
dos bailes e das festas oferecidas nas residências particulares, as duas com-
panhias teatrais (havia uma segunda companhia que encenava textos fala-
dos, além da troupe operística de Guardasoni) tiveram casas muito fracas,
como também existia na corte uma aversão preconcebida à obra de Mozart,
de sorte que a ópera, após a primeira representação oficial, teve muito pou-
ca audiência; portanto, toda a especulação do entrepreneur, que, fora os
estipêndios pagos pelos Estados, teriam sido consideráveis caso as obras
tivessem sucesso de público, resultaram num erro total." (Um dos mem-
bros da Comissão achou que Guardasoni estava com a razão e que o mesmo
deveria receber um pagamento exgrada de-150 ducados. Neste segundo
protocolo aparecia a nota adicional de que teria havido uma "aversão forte-
mente preconcebida à obra de Mozart". Guardasoni, por fim, foi agraciado
com a recompensa de 150 ducados que perfaziam 675 gulden.)
O Conde Hartmann, quando avaliava a petição de Guardasoni relacio-
nada à recompensa pelos fracos lucros da bilheteria, concluiu que o ímpre-
sario deveria ter recuperado seu dinheiro, uma vez que "a decoração e o
guarda-roupa não corresponderam ao brilho esperado em tão festiva oca-
119
sião", acrescentando: "chamo como testemunha, em relação a estes assun-
tos, a opinião geral e neste caso a totalmente unânime do público".28 Teria
havido elementos de segunda classe na montagem?
O relato mais interessante é novamente de Niemetschek, que escreveu
em 1794:
Tito foi apresentada durante a coroação comouma ópera gra-
tuita, seguida de várias reprises; porém, por azar do destino,
os papéis principais foram interpretados por um castrato hor-
roroso e uma prima donna que cantava mais com as mãos do
que com a voz, e a quem deveríamos considerar uma louca;
uma vez que o tema é simples demais para ser capaz de in-
teressar o grande público preocupado com as festividades da
coroação, com os bailes e fogos de artifício; e uma vez que —
vergonha para nosso tempo — tratando-se de uma ópera
séria agradou menos ao público em geral do que sua música
realmente divina mereceria. Existe na obra uma certa simpli-
cidade grega, uma serenidade sublime, que atinge um cora-
ção sensível de maneira suave, mas apesar disso profunda —
que se encaixa muito bem com o personagem de Titus, com a
época e com o tema em geral, além de honrar o gosto delicado
e o sentido de caracterização de Mozart. A s partes vocais,
deve ser dito, são de uma doçura celestial, cheias de emoção e
expressão, especialmente nos andantes; os coros são repletos
de pompa e dignidade; em resumo, a dignidade de Gluck se
une com a arte original de Mozart, seu fluido sentido de emo-
ção e suas harmonias magníficas. Insuperável e talvez um non
plus ultra da música é o último trio e finale do primeiro ato.
Connoisseurs têm dúvida se Tito na verdade não sobrepuja
Don Giovanni. Esta obra celestial de um espírito imortal (i.e.,
Don Giovanni) nos foi oferecida no dia 3 de dezembro inst.
(i.e., 1794) pelo Sr. Guardasoni, para uma casa abarrotada e
com a mais total aprovação do público ...29
Na literatura mozartiaria tem sido dito repetidamente que a Imperatriz
Maria Luísa descreveu La clemenza di Tito como una porcheria tedesca
(uma porcaria alemã) embora não exista qualquer confirmação contem-
porânea sobre esta observação; entretanto, caso seja verdadeira — e as cir-
cunstâncias acima descritas a tornam uma indubitável possibilidade — a
monarca deixou sua marca nesta obra para sempre. Além disso a desapro-
vação da corte se manifestou nas casas vazias nas quais a ópera foi exibida,
120
excetuando-se, como veremos, na última apresentação que teve lugar no
mesmo dia (30 de setembro) que a estréia de A Flauta Mágica em Viena.
(Mozart foi informado sobre a recepção destas últimas apresentações de
Tito em Praga por Anton Stadler, que havia permanecido na cidade para dar
um concerto beneficente no dia 16 de outubro, onde foi executada a última
peça instrumental completa de Mozart, o Concerto para Clarinete em Lá,
K.622.)
Quinta-feira, 8 de setembro de 1791
A Arquiduquesa Maria A nna é nomeada Abadessa do Convento Real para
Senhoras da Nobreza. Neste local, na igreja do convento, Antonio Salieri e
os músicos da corte foram responsáveis pela parte musical da celebração,
que incluía:
Uma pequena Missa — provavelmente de Mozart, em Dó (K.258), erro-
neamente intitulada Missa "Picco lo mini", da qual uma partitura pelo
mesmo copista vienense que fez o K.337 ainda existe nos arquivos da Real
Capela Imperial; esta obra é a mais curta das três missas de Mozart executa-
das durante as cerimónias da coroação em 1791
Ofertório
Te Deum30
Sexta-feira, 9 de setembro de 1791
Num livro de Alfred Meissner chamado Rococo-Bilder encontra-se um in-
teressante relato sobre o comparecimento de Mozart a uma Loja Maçónica
de Praga durante este período. Meissner, cujo avô, August Gottlieb, assu-
mira a casa editora Schõnfeld em Praga, na qual foi impresso o libreto de La
clemenza di Tito em 1791, não é uma testemunha muito confiável, porém
trata-se de uma informação que ele pode ter obtido do avô em segunda mão
e que transcrevemos com a devida reserva académica (Deutsch também
aceita este relato em seu Dokumenté):^
[Mozart visitou a Loja de Praga Wahrheit und Einigkeit zu
den drei gekrõnten Sãulen (Verdade e União nos Três Pilares
Coroados) diversas vezes durante sua última visita a Praga em
1791.] Quando compareceu pela última vez, os Irmãos esta-
vam de pé em duas fileiras e quando entrou foi recebido com
a cantata Die Maurerfreude (K.471) que havia composto em
1785 em honra a [Ignaz von] Bo m [O Mestre na Lo ja de
Haydn Zur wahren Eintracht em Viena que havia ingressado
121
na maçonaria em Praga e preservado relações amistosas com
os Confrades de Praga]. Mozart ficou profundamente como-
vido com esta atenção e ao agradecer aos membros disse que
breve ofereceria à Maçonaria uma prova de lealdade ainda
maior, que deveria ser A Flauta Mágica, que já estava amadu-
recendo em seu cérebro.
À noite, "por mais alta requisição" — i.e., a pedido de Leopoldo II e/ ou sua
corte — a Companhia Sekonda repetiu a representação, no Teatro Nacio-
nal, de Der Herbsttag e de Der weibliche Jakobiner ChlubbJ1
Sábado, 10 de setembro de 1791
Ninguém parece ter fixado a data da segunda representação de La clemenza
di Tito. Possivelmente ocorreu hoje, dia em que não consta a exibição de
peça alguma no Teatro Nacional.
Domingo, 11 de setembro de 1791
A identificação da Missa executada na Catedral de São Vitus não é conhe-
cida, mas é bastante provável que uma missa de Mozart tenha sido execu-
tada, considerando-se a presença do compositor na cidade.
Segunda-feira, 12 de setembro de 1791
Coroação de Maria Luísa como Rainha da Boémia na Igreja Metropolitana
de Praga (i.e., Catedral de São Vitus). Antonio Salieri e a Real Capela Im-
perial se encarregaram da música apropriada:
Antífona Ecce mitto angelum
Missa — provavelmente a outra missa de Mozart da "Coroa-
ção" em Dó (K.337), possivelmente a primeira missa da
"Coroação" também em Dó (K.317)
Ofertório
Te Deum
No Teatro Nacional aquela noite teve lugar uma outra celebração, sob a
forma de uma ceia de gala e um baile. Durante a ceia, Josepha Duschek
cantou uma nova cantata Huídigungskantate (Cantata da Aliança) de A u-
gust Gottlieb Meissner, música de Leopold Kozeluch na presença de Suas
122
Majestades." Sobre o baile temos um interessante relato no Pressburger
Zeitung n.° 77, de 24 de setembro:
Praga, dia 12... à noite houve um baile gratuito patrocinado
pelos Estados no prédio recém-construído ao lado do Teatro
Nacional. Três orquestras na nova sala e duas na sala que se
junta ao Teatro Nacional equipadas com cerca de 300 músi-
cos dos quais só os melhores foram escolhidos.
É certo que grande parte da música para este acontecimento de gala era da
autoria de Mozart, incluindo alguns minuetos e danças alemãs tão ao gosto
do público de Praga.
Vimos que foi a presença de Haydn em Londres que pôs em movimento
um complicado curso de acontecimentos que ensejou a Mozart escrever La
clemenza di Tito. Vimos também que diversos relatos — incluindo as des-
crições sobre a ópera no dia 6 de setembro — simplesmente omitiam o
nome de Mozart, embora ele fosse com certeza o compositor mais bem re-
presentado durante as festividades da coroação, com duas óperas, três mis-
sas, um ofertório, um moteto e provavelmente diversos minuetos e danças
alemãs. O que deve ter pensado Haydn ao abrir o Morning Chronicle em
Londres no dia 21 de novembro de 1791 e ler um relatório sobre as festivi-
dades da coroação em que o nome de Kozeluch aparece duas vezes, uma
como compositor da cantata exibida em 12 de setembro e outra como re-
gente de um grande concerto orquestral, enquanto que Mozart e La Cle-
menza di Tito não foram sequer citados?" Haydn não tinha grande consi-
deração por Kozeluch e Beethoven o descreveu de uma maneira perfeita:
miserabilisV'
O biógrafo de Mozart, Niemetschek, aparece neste momento pessoal-
mente: ele disse a Breitkopf & Hãrtel que foi durante as festividades da
coroação que se tornou amigo de Mozart. Em 1799 escreveu para a firma
em Leipzig: "Leopold Kozeluch... perseguia continuamente Mozart com
seus ciúmes mesquinhos. Na época da coroação, o caluniou de maneira sór-
dida, chegando mesmo a atacá-lo moralmente. Kozeluch perdeu toda a cre-
dibilidade: Conheci este homenzinho, este compositorzinho, pois ele vivia
na casa de um amigo,não tendo composto a cantata com o texto de Meiss-
ner em quatro semanas, mas com o suor do seu rosto conseguiu remendá-la
e com uma imprecação deu à luz — uma aberração."'6
A cantata foi um grande sucesso. Tanto que foi reprisada. Leopold Ko -
zeluch, miserabilis, tornou-se compositor da corte em Viena no dia 12 de
123
junho de 1792 com o dobro do salário de Mozart. Tinha que compor óperas
e oratórios; seu tipo de música podia ser facilmente compreendido pelos
conselheiros do governo e pelo povo em geral.
124
X
A FLA UTA MÁGICA
O princípio
Esignificativo notar que após a morte do Imperador José II , Mozart não recebeu mais qualquer incumbência de escrever óperas para a corte
vienense, cujo Kapellmeister era Antonio Salieri. O isolamento de Mozart
junto ao teatro oficial da corte ficou ainda mais patente quando, na prima-
vera de 1791, seu colaborador em três óperas italianas, Lorenzo da Ponte,
após se envolver numa série de escândalos, foi finalmente demitido do seu
posto como libretista por ordem real, terminando desta forma uma das
maiores colaborações na história da ópera. É difícil saber se Mozart e Da
Ponte eram amigos íntimos; não parece provável, mas a demissão de Da
Ponte deve ter sido um grande choque para Mozart, pois quaisquer que
fossem as relações entre ambos, o astuto italiano tinha sido o principal elo
de ligação com a ópera oficial da corte e talvez até uma espécie de amortece-
dor entre Mozart e Salieri.
Da Ponte, que estava tendo sérios problemas não só com o Imperador
Leopoldo II como também com sua consorte, a Imperatriz Maria Luísa
("que já não tem boa vontade comigo") recebeu, então, um convite para ir a
São Petersburgo onde seu amigo Martini (Martin y Soler) era compositor
residente; entretanto, a princípio, Leopoldo recusou-se a cancelar o contra-
to de Da Ponte que "ainda seria válido por mais seis meses". Trinta dias
depois, porém, no começo de março dê 1791, a corte vienense mudou de
opinião, pagando não só um libreto inacabado, tarefa que ocupava no mo-
mento Da Ponte, como também seu salário atrasado. Por esta altura ele já
havia escrito para São Petersburgo:
que... eu não poderia ir para a Rússia a não ser daqui há mui-
tos meses. Suspeitando que eles provavelmente já haviam es-
crito para a Itália, requisitando outro poeta, tive uma conver-
sa com Mozart e tentei persuadi-lo a ir comigo para Londres.
Entretanto, um pouco antes ele havia recebido uma pensão
vitalícia (na verdade um contrato comum que um monarca
seguinte poderia renovar ou cancelar à vontade) do Impera-
dor José, em reconhecimento pelas suas óperas divinas; além
125
de estar trabalhando em uma ópera alemã, A Flauta Mágica,
com a qual almeja alcançar novas glórias. Ele me pediu um
prazo de seis meses para se decidir e eu, entrementes, fui viti-
mado por uma série de circunstâncias que me forçaram, qua-
se a contragosto, a tomar diferentes rumos.'
Pouco tempo antes, um dos amigos mais antigos de Mozart havia voltado do
exterior e assumido a direção do Theater auf der Wieden, conhecido
como Freyhaustheater (por ficar localizado num complexo de edifícios co-
nhecidos como "Freyhaus" ou Casa Livre).2 Este amigo era Emanuel Schika-
neder, ator, empresário, escritor de peças de teatro e óperas e fadado a subs-
tituir Da Ponte como o primeiro dos dois novos colaboradores com quem
Mozart trabalhara em 1791 (o outro foi Caterino Mazzolà). Schikaneder
inaugurou o teatro no dia 12 de julho de 1789 com uma ópera-cômica ale-
mã intitulada Der dumme Gartner aus dem Gebirge, oder die zween Anton
(O tolo jardineiro das montanhas ou Os dois Antons) cujo texto era do pró-
prio Schikaneder e a música de dois membros da companhia, o tenor Bene-
dikt Schak e o baixo Franz Xaver Geri (que deveria representar o Sarastro de
Mozart). A ópera foi um sucesso imediato e foi representada trinta e duas
vezes em 1789. Suas "árias" se tornaram a coqueluche da cidade, especial-
mente uma intitulada Ein Weib ist das herrlichste Ding auf der Welt (Uma
garota é a coisa mais maravilhosa do mundo) que, como vimos anterior-
mente, Mozart já usara como tema para um conjunto de variações para pia-
no. A troupe formada por Schikaneder incluía alguns excelentes cantores,
como a cunhada de Mozart, a brilhante soprano 'coloratura'Josepha Hofer
(A Rainha da Noite em A Flauta Mágica). A orquestra consistia de trinta e
cinco músicos, incluindo cinco primeiros violinos, quatro segundos vio li-
nos, quatro violas, dois violoncelos, três contrabaixos, pares de flautas,
oboés, clarinetas, fagotes, trompas e trompetes, três trombones e um
tímpano.' Apesar de se tratar de uma orquestra provincial (i.e. suburbana)
era muito maior do que o comum naquela época, uma vez que até os teatros
da corte, na cidade, raramente incluíam trombones nas suas orquestras a
não ser em ocasiões especiais, como por exemplo para as representações de
Don Giovanni, sendo que a orquestra de Mozart para o concerto em Frank-
furt de 1790 havia sido substancialmente menor (apenas cinco ou seis vio li-
nos; ver págs. 15-17).
Como A Flauta Mágica se tornou uma realidade? Tantos mitos foram
gerados a respeito desta colaboração operística que atualmente é muito difí-
cil separar-se a realidade da ficção. O relato a seguir foi extraído da biografia
de Nissen que, como sempre, infere no conhecimento e na colaboração de
Constanze.'1 Comentando sobre a lista de trabalhos que Mozart escreveu
126
Fig. 9 — Josepha Hofer, posteriormente Mayer,
cunhada de Mozart, a primeira Rainha da Noite m
Flauta Mágica. Silhueta de autor anónimo.
durante os quatro últimos meses da sua vida, Nissen observa que "ele já
estava adoentado e fez duas viagens". (Fora as viagens para Baden, entre-
tanto, Mozart só fez uma grande viagem nestes quatro meses, isto é, a Praga
para a ópera da coroação.)
Mesmo quando compondo a primeira destas óperas [A Flauta
Mágica; a segunda foi La clemenza di Fito] ele que, quando
era presa do génio, não sabia distinguir a noite do dia, geral-
mente se exauria a tal ponto que desmaiava e ficava incons-
ciente durante diversos minutos.
Ele compôs A Flauta Mágica para o teatro de Schikaneder,
que era um velho amigo seu, e a pedido do próprio, para aju-
dá-lo a sair de uma situação financeira embaraçosa. O texto é
de Schikaneder, que desta forma foi levado à imortalidade.
Schikaneder se encontrava, na verdade, em parte por sua
própria culpa, em parte pela falta de incentivo do público, em
grandes dificuldades financeiras. Quase em desespero recor-
reu a Mozart, explicando-lhe a situação e pretextando que só
ele poderia salvá-lo.
— Eu? Como?
— Escreva-me uma ópera inteiramente a gosto do atual
público vienense; você certamente saberá satisfazer não só os
connoisseurs como também salvaguardar sua própria reputa-
127
ção; entretanto, tenha em mente, em primeiro lugar, que está
a serviço do mais baixo denominador comum de todas as
classes. Eu me encarregarei do texto e cuidarei dos cenários,
etc. Tudo aquilo que interessa o público hoje em dia...
— Ótimo. Aceito a tarefa!
— Que estipêndio quer receber?
— Você não tem dinheiro! Bem, vamos fazer de um jeito
que você seja ajudado e que mesmo assim eu não seja preju-
dicado. Entregarei a partitura para você e somente para você;
pague o que achar que me deve, mas sob condição de me pro-
meter que não deixará copiar a música. Se a ópera for um su-
cesso, eu a venderei para outros teatros, e este será meu paga-
mento....
O diretor teatral redigiu um contrato maravilhado, pleno
de solenes promessas. Mozart trabalhou com afinco e total-
mente de acordo com os desejos do empresário. A ópera foi
montada, o sucesso foi grande e sua fama correu célere por
toda a Alemanha. Após algumas semanas foi levada em diver-
sos teatros estrangeiros sem que qualquer das partituras ti-
vesse sido paga a Mozart! Quando Mozart soube da traição
desta pessoa, tudo o que disse foi: O salafrário! — e tudo foi
esquecido. Mozart não se importavacom a ingratidão, ela
nunca o preocupava mais que alguns minutos.
Não se tem certeza de onde provém (com ou sem a participação ativa de
Constanze) esta curiosa descrição sobre os primórdios desta ópera. Deve-
mos entender que Mozart não recebeu coisa alguma, uma vez que ele mal
teria tido tempo de vender a partitura no exterior? E que Schikaneder não
pagou coisa alguma pela partitura de A Flauta Mágica? Apesar de todo o
amor fraternal a história não parece provável. Na primavera de 1791, Mo-
zart não estava de forma alguma em posição de tirar alguns meses de folga
para se "arriscar" a escrever uma ópera trabalhosa. Na minha opinião ele
recebeu 200 ducados.
O problema desta versão, contudo, é que ela também parece parcial-
mente um mito. Schikaneder com certeza não se encontrava em sérias difi-
culdades financeiras em 1791; pelo contrário, suas novas óperas tinham
tido grande sucesso e ele havia, em março de 1791, formado um repertório
completo de peças em alemão e Singspiele (peças musicadas) bem ao gosto
dos vienenses que preferiam comédias picantes faladas no dialeto local. (O
dialeto vienense é quase tão pitoresco quanto o coçkney dos ingleses, e am-
bos têm o mesmo tipo de estranho humor.) É claro que Mozart ficou encan-
128
tado em realizar uma outra ópera alemã, uma vez que o sucesso fenomenal
do Rapto do Serralho em toda a Alemanha lhe era por demais conhecido.
(Ele mesmo havia assistido a uma representação quando fora a Berlim em
1789.)
O problema da participação de Mozart no libreto de A Flauta Mágica
vem sendo acaloradamente discutido por quase duzentos anos sem que ve-
nha à luz qualquer prova evidente, a não ser mudanças relativamente pe-
quenas entre o texto impresso em 1791 e o manuscrito autografado de Mo-
zart, que na verdade são meros detalhes e que não respondem, de forma
alguma, à questão principal. Por outro lado, já foram mais que discutidas as
origens do libreto e as supostas participações de várias pessoas além de
Schikaneder.5 Uma das principais fontes sempre foi reconhecida: a ópera
Oberon de autoria do Kapellmeister da corte Paul W raniz ky (ou W ra-
nitzky), que Schikaneder montou em 1789 e que era bem conhecida de
Mozart (que assistiu à primeira apresentação, além de possuir o texto im-
presso). Uma versão plagiarizada para Schikaneder foi feita pelo confrade-
maçom Karl Ludw ig Gieseke que mais tarde veio a pretextar haver escrito
uma parte substancial de A Flauta Mágica. Outro fator contribuinte para o
libreto da Flauta foi a peça Thamos, Rei do Egito de Tobias Phillip von Ge-
bler, um maçom e importante membro do governo austríaco, para quem
Mozart havia composto música incidental numa escala sem precedentes
(K.345). Nesta peça o tema principal é a vitória da fidelidade, apesar da
adversidade; e a música, que o compositor escreveu parcialmente em Viena
em 1773 e em Salzburg em 1775 e 1779 já demonstra bem quem seria Mo-
zart no futuro, especialmente o Mozart de A Flauta Mágica. Outra fonte
seria a coleção de contos de fadas em três volumes do dramaturgo alemão
Christoph Martin Wieland intitulada Dschinnistan em cujo último volume
(1789) encontra-se uma história chamada Lulu, oder die Zauberflõte (Lulu
ou A Flauta Mágica) de onde derivou o título da ópera.
O problema da autoria de Gieseke, como também de um homem conhe-
cido como Pater Cantes, um "cooperador das Paulinas"6 não requer maiores
elucidações devido ao limitado aspecto de nossas investigações. O libreto
foi certamente organizado, e em grande parte escrito, por Schikaneder, para
quem o papel de Papageno foi também criado. Mozart, na verdade, achava a
espantosa diversidade do tema imensamente atraente. Na partitura final
esta diversidade vai da música de inspiração folclórica haydnesca para os
personagens "simples" como Papageno e Papagena até a música ritualista e
mística para Sarastro e sua corte, e da louca coloratura da Rainha da Noite (e
a furiosa Sturm und Drang da segunda ária em Ré menor, Der Hõlle Rache
[A vingança do Inferno] que lembra tantas outras obras mozartianas nesta
mesma clave), até a inclusão do antigo soar da melodia coral dos luteranos
129
da Alemanha do norte cantado pelos dois homens de armadura. Fo i esta
mesma diversidade que tanto impressionou Beethoven7 (que de qualquer
maneira não aprovava os textos de Da Ponte para as óperas italianas por
considerá-las muito frívolas) e até hoje nos impressiona também.
A Mensagem
Quando surgiu o primeiro libreto impresso de A Flauta Mágica que deveria
coincidir com a estréia da ópera, os leitores se depararam com uma página
de rosto executada pelo próprio gravador, Ignaz Alberti, um membro da
Loja maçónica de Mozart Zur gekrõnten Hoffnung. Para os não-iniciados
esta folha de papel poderia parecer uma então conhecida reprodução de
uma escavação arqueológica no Egito: à esquerda, a base de uma pirâmide
com alguns símbolos (inclusive Ibis); no meio, uma série de arcos condu-
zindo a uma parede com nichos e um portal redondo, tudo isto inundado
de luz. Do arco do meio vê-se pendurada uma corrente com uma estrela de
cinco pontas. À direita, um elaborado vaso rococó com estranhas figuras
agachadas na base; no primeiro plano, uma colher de pedreiro, um par de
compassos, uma ampulheta e fragmentos em ruínas. .Muitas pessoas acre-
ditavam estar vendo uma obscura visão oriental; algumas damas e cavalhei-
ros da classe média, sem dúvida, pensaram no culto de Isis e Osiris. Porém
alguns membros da platéia sabiam que aquele simbolismo referia-se, numa
série completa de inequívocas alusões, à Antiga e Venerável Ordem da Ma-
çonaria. Estes homens (as Lojas maçónicas para mulheres só existiam na
França), que ainda pertenciam à confraria (claudicante em 1791 e não mais
a brilhante sociedade de elite de meados de 1780 como tinha sido em Viena
na época em que Mozart e Haydn ingressaram na Maçonaria) deveriam es-
tar se perguntando se seus segredos não teriam sido revelados. E caso, como
geralmente acontece quando se folheia despreocupadamente um libreto,
deparassem com a última página, teriam lido com considerável apreensão as
seguintes palavras:
Heil sey euch Geweihten! Ihr drángt durch die Nacht!
Dank sey dir, Osiris und Isis, gebracht!
Es siegte die Starke, und krõnet zum Lohn
Die Schõnheit und Weisheit mit ewiger Kro n.
(Salve sagradas criaturas que se impõem através da noite!
Agradecimentos a vós, Osiris e Isis, sejam apresentados!
A força venceu, e como recompensa
Apresenta a eterna coroa à beleza e à sabedoria.)
130
No ritual maçónico de São João , quase no final da reunião na Loja, estas
mesmas palavras (Mozart as teria ouvido na versão alemã) eram proferidas:
"Weisheit... Schõnheit... Stãrke", formando também um triângulo central
do trigésimo terceiro grau do chamado Ritual Maçónico Escocês — que po-
deria ser considerado um paralelo ou uma extensão da cerimónia de São João.
Sentindo-se desconfortavelmente preparados para algo um tanto rela-
cionado com o ritual maçónico, diversos Irmãos naquela platéia de 1791
teriam ficado ainda mais chocados quando, no meio da Abertura, ouviram,
após uma pausa na música, em continuação a um tempo muito lento (Ada-
gio) em três-vezes-três acordes o seguinte ritmo:
i r J 2
Parte do ritual maçónico é o emprego de um bater rítmico três vezes suces-
sivas. Esta é a parte central da cerimónia, sendo repetida diversas vezes —
como o tema em A Flauta Mágica. Meu colega Philippe A . Autexier que pre-
sentemente está preparando um livro sobre Mozart e A Flauta Mágica teve a
gentileza de me transmitir algumas importantes pesquisas que realizou em
relação às "batidas" nas Lojas vienenses do Século XV III. Segundo Autexier
parece que o ritual empregado na época de Mozart continha ritmos carac-
terísticos para cada grau:
— U — para o Aprendiz
U para o Companheiro
U U — para o Mestre
Portanto, os repetitivos acordes três-vezes-três se referem ao Companhei-
ro ou Segundo Grau. À medida que a ópera se desenrolava, osmaçons da
platéia deviam ficar estupefatos: u m símbolo após outro advinha da Co n-
fraria.
O número simbólico três domina toda a obra: três bemóis na clave prin-
cipal (Mi bemol maior), três meninos, três senhoras. Tamino é obviamente
apresentado como um "profano" (i.e., um não-maçom), em seguida como
um neófito (observem sua conversa com o orador, I Ato , Cena 15: o orador
lhe pergunta: "Wo willst du kúhner Fremdling, hin? Was suchst du hier
im Heiligthum?" (Onde queres ir, intrépido estrangeiro? Que procuras neste
lugar sacro?), depois como um jovem maçom com o grau de Aprendiz (com
sua cerimónia de viagem e voto de silêncio) e mais tarde, no segundo grau,
131
como Companheiro (com o voto de jejum), e por hm o terceiro grau, Mes-
tre (II Ato, Cena 21). A passagem simbólica da escuridão para a luz, parte
integral da cerimónia de São João , ocorre com um brilhante efeito em A
Flauta Mágica, sendo claramente indicada na ilustração do libreto de 1791.
Porém Mozart e Schikaneder pretendiam mostrar mais do que a Maço-
naria na cerimónia de São João , representando também os graus mais altos
(os chamados Graus Escoceses). Na cena 28 do II Ato a cortina se abre,
mostrando dois homens vestidos com armaduras negras e em seguida Ta-
mino e Pamina. E o início das famosas provas de fogo e água que nos con-
duzem a um outro mundo maçónico: o soberano Grau Rosa-Cruz, o dé-
cimo oitavo no "Antigo e Aceito Rito Escocês 33:'". O libreto original de
1791 observa discretamente que "eles (os homens armados) lêem para ele
(Tamino) a escrita transparente que está gravada numa pirâmide". Ao som
das palavras "fogo, água, ar e terra" o tetragrama sagrado JH V H talvez apare-
cesse por ser a parte central deste Grau Rosa-Cruz. A 30:' cena no 11 Ato
em que Monostatos, o criado africano, junto com a Rainha da Noite e seu
cortejo, tentam invadir e destruir o templo de Sarastro é um simbolismo do
30:' grau do Rito Escocês, o "Grau da Vingança", enquanto que o final da
ópera, II Ato, Cena 33, quando a escuridão (a Rainha da Noite) foi vencida e
a luz (Sarastro, Tamino/ Pamina, Papageno/ Papagena) triunfa é represen-
tado pelo grau final (33.") do rito escocês — no triângulo cujo significado é
"sabedoria, beleza e força" (Weisheit, Schónheit, Stãrke), como no libreto.
O lema do 33." é Ordo ah Chao (ordem advinda do caos) ou da escuridão
para a luz."
Para sublinhar a parte musical desta importante cena da Cruz Soberana
com os homens armados, Mozart escolheu um tipo de prelúdio coral, em-
pregando a antiga melodia luterana de 1524 "A ch Gott, von Himmel sieh'
darein"10 (ele havia escrito estas palavras num contexto diverso como um
estudo contrapontístico para sua aluna Barbara Ployer ou no livro manus-
crito de outra pessoa em 1784"). A solenidade desta parte da ópera é assim
diferente de qualquer experiência austríaca ou católica. E uma solenidade
bíblica e com isso quero dizer literalmente derivada da Bíblia. Ver Isaías
43:2:
Quando passares pelas águas eu estarei còntigo: quando
pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo
fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.
Caso o leitor passe a encarar todo este simbolismo numerológico com ce-
ticismo, devo acrescentar que a introdução orquestral desta cena contém
precisamente dezoito grupos de notas.Sarastro,o Sumo Sacerdote (i.e.,Ve-
132
nerável Mestre da Loja) aparece pela primeira vez no I Ato, na cena 18. No
começo do II Ato, Sarastro e seus sacerdotes entram: em cena estão (como o
libreto de 1791 faz questão de especificar) precisamente dezoito sacerdotes
e dezoito cadeiras e a primeira parte do coro que eles cantam, O Isis und
Osiris, tem a duração de dezoito compassos. Quando Papageno interroga a
monstruosa velha, que se tornará Papagena, quantos anos tem, ela res-
ponde: Dezoito (provocando sempre hilariedade na platéia). E quando os
três meninos aparecem suspensos no palco em uma máquina (o libreto de
1791 enfatiza) ela está "coberta de rosas". Porém abandonando esta fascina-
ção quase hipnótica com o 18." (Rosa-Cruz) devemos nos lembrar que de-
zoito é formado por seis vezes três, e três é na verdade o número simbólico
crucial e básico da ópera. (Enquanto o Rito Escocês sempre fora uma orga-
nização de elite, o ritual mais comum de São João seria o mais familiar para
os maçons vienenses que assistiam à primeira representação de A Flauta
Mágica?)
Num livreto publicado em Londres em 1725 intitulado O grande mis-
tério da Maçonaria revelado lemos o seguinte trecho: Exame ao 'entrar na
Loja:
P. Quantas Jóias preciosas?
R. Três; u m prato quadrado, um Diamante e um Qua-
drado.
P. Quantas luzes?
R. Três; uma Leste à direita, Sul e Oeste.
P. O que representam?
R. A s Três Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo.
P. Quantos degraus pertencem a um verdadeiro maçom?
R. Três.
P. Quantos Pontos particulares pertencem a um maçom?
R. Três: Fraternidade, Fidelidade e Seriedade.
P. O que representam?
R. A mor Fraternal, Lenitivo e Verdade entre todos os ver-
dadeiros maçons; para o qual todos os maçons foram
ordenados no Edifício da Torre de Babel e no Templo
de Jerusalém.
Em 1723, outra publicação revelava:
133
Se um Mestre-maçom queres ser
Observa bem a Regra dos Três...12
Portanto, ao acabar de ouvir A Flauta Mágica o maçom frequentador do
Freyhaustheater auf der Wieden se deu conta de ter escutado a primeira
ópera maçónica. É evidente que o ritual propriamente dito não era apresen-
tado em cena, mas havia suficientes indícios, exibidos de forma oblíqua e
fortemente ilustrados por numerologia, para não deixar dúvidas sobre seu
conteúdo maçónico. E como isto foi possível? Na publicação de 1725, já
citada, lemos:
P. Em nome de &c, você é um maçom?
O que é um maçom?
R. Um homem vindo de um homem, nascido de uma mu-
lher, Irmão de um Rei.
P. O que é um confrade?
R. Um Companheiro de um Príncipe.
P. Como saberei se você é um maçom?
R. Através de Sinais, Provas e Normas da minha Iniciação.
P. Qual é a Norma da sua Iniciação?
R. Ouço e Escondo, sob a Penalidade de ter minha Garganta
cortada, ou minha Língua arrancada da minha Cabeça..
Deve ter havido , portanto , razões muito prementes para Mozart e Schi-
kaneder haverem rompido este juramento de silêncio (Uma fórmula seme
lhante existia em alemão no Ritual de São João), tendo sido sugerido há mui-
to tempo (sugestão esta que foi reforçada por três médicos alemães num
livro intitulado Mozarts Tod [A Morte de Mozart] publicado em 1971 onde
eles usam o termo "assassinato ritual") que os maçons mataram Mozart.
Existem simplesmente dois fatos que tornam esta teoria — considerada
muito plausível em certos meios até os dias de hoje — não só improvável
como inexequível. A primeira é que ninguém assassinou Schikaneder, que
foi tão responsável quanto Mozart "ao trair os segredos maçónicos". (Schi-
kaneder tinha entrado para a Confraria em Regensburg, mas nunca se aliara
à Lo ja de São Jo ão em Viena.) Schikaneder continuou vivendo , até a "ve-
nerável" (para a época) idade de 61 anos e morreu em 1812 louco , é ver-
dade, mas os maçons não podem ser responsáveis por isso uma vez que
deixaram de existir oficialmente em 1795 e a morte de Schikaneder ocorreu
dezessete anos mais tarde. O segundo fato é igualmente, senão mais, con-
vincente: a própria Lo ja de Mozart Zur Gekrõnten Hoffnung celebrou uma
Loja das Tristezas para o compositor, imprimiu o discurso principal, assim
134
também como a cantata Maçónica (K.623) que Mozart havia escrito pouco
antes de morrer.
Portanto deve ter havido uma outra razão pela qual Mozart e Schikane-
der tiveram permissão para escolher um tema de ópera que glorificava a
Maçonaria. Trata-se de um ponto que muitos pesquisadores negligencia-
ram ou interpretaram mal, mas que pode ser solucionado após se examinar
os arquivos maçónicos mantidos pela polícia austríaca durante aquele pe-
ríodo. A verdade é que a Maçonaria na Áustria estava em perigo iminente
de extinção — comose pode verificar com o fechamento voluntário, pelos
maçons, das suas Lojas em 1794; enquanto que em 1795, um jovem e novo
Imperador proibia todas as sociedades secretas, incluindo, é claro, a Maço-
naria. O motivo para este repentino perigo em que os maçons se encontra-
ram teria sido o pretenso envolvimento dos mesmos com a Revolução Fran-
cesa e o jacobinismo, e com um movimento semelhante na Áustria, que a
polícia secreta — com razão, como foi comprovado mais tarde — suspei-
tava existir.
Este envolvimento com ideais revolucionários já vinha desde 1789, no
começo da Revolução Francesa: na década anterior, a maior parte dos lí-
deres norte-americanos que romperam com a Inglaterra, declarando sua in-
dependência, eram maçons, inclusive Franklin, Washington, Jefferson
(que formulou a extremamente maçónica Declaração da Independência)
além de outros mais, fato conhecido não só pelos membros da Confraria na
Europa, como também pelos soberanos e chefes de polícia. Em 1789, diver-
sos líderes destes grupos favoráveis a um governo republicano na França
pertenciam à Maçonaria; entretanto, a Confraria sucumbiu durante o Ter-
ror: o Grande Oriente em Paris fechou suas portas em 1791, sendo que em
1794, a Maçonaria na França praticamente tinha deixado de existir. Vários
maçons franceses desejavam um tipo de governo republicano, embora em
1789 eles certamente não tivessem intenções regicidas, mas bem ao contrá-
rio, uma vez que diversos maçons importantes eram aristocratas e/ ou mem-
bros do governo real. Desta forma, quando um corajoso maçom conseguiu
reconstituir, em 1795, o Grande Oriente, descobriu que a maior parte dos
seus membros tinha morrido. Um historiador maçom do Século XIX sus-
tenta que: "se considerarmos que os membros do Grande Oriente consis-
tiam, em grande parte, de personagens ligados de uma maneira ou de outra
à corte de Luís XV I, não nos surpreenderemos em descobrir que mesmo em
24 de junho de 1797 o número de membros que se reuniu contava apenas
com quarenta pessoas... A primeira nova constituição foi enviada para uma
Loja de Genebra em 17 de junho de 1796; e o relatório de 24 de junho só
inclui dezoito Lojas, três das quais se reuniam em Paris."13
135
Em Viena, enquanto A Flauta Mágica estava em cartaz, Leopoldo II ob-
servava com crescente apreensão o que acontecia na França e esta mesma
apreensão estava se tornando um medo quase paranóico em sua intensi-
dade nas mentes da polícia secreta e outros membros do governo austríaco.
No começo do seu reinado, Leopoldo II não era de forma alguma hostil à
Confraria, tendo o Conde Zinzendorf ouvido dizer que Leopoldo tinha sido
um membro do Soberano Príncipe Rosa-Cruz na Itália14 — um relato que
naturalmente não pode ser confirmado ou negado. De qualquer maneira,
organizações como os Iluminatti, a "Severa Observância", os "Irmãos Asiáti-
cos", os maçons de São João e até a antiga Rosa-Cruz (caso ele tenha perten-
cido à mesma) pareciam agora muito mais perigosas ao Imperador e seus
conselheiros.
Johann Anton, Conde von Pergen, foi presidente do governo da Baixa
Áustria de 1782 a 1789 e Ministro da Polícia a partir de 1789 até pedir
demissão do cargo em março de 1791. ( Em 1793 foi convencido pelo novo
Imperador, Francisco II , a reassumir o posto.) Em um memorando datado
de 4 de janeiro de 1791", Pergen declarou que os maçons na Áustria e, mais
especificamente, na França, tinham sido imprescindíveis na difusão de
idéias revolucionárias.
Em todas as épocas tem havido sociedades secretas cujos
membros se congregam em irmandades e trabalham juntos
para uma causa comum e descem um véu do maior segredo
sobre suas intenções como também sobre os métodos pelos
quais pretendem realizá-las. Porém nunca esta mania de se
estabelecer sociedades secretas e ambíguas foi maior do que
na nossa época; e sabemos, com certeza, que várias destas so-
ciedades secretas, conhecidas sob vários nomes, não são —
como fingem ser — simplesmente criadas para um inteli-
gente iluminismo e filantropia ativa, mas sim com a firme in-
tenção de sabotar a reputação e o poder dos monarcas, excitar
o sentimento de liberdade entre as nações, mudar os proces-
sos de pensamento entre as pessoas e guiá-las de acordo com
seus princípios através de uma dominante elite secreta. A trai-
ção das colónias inglesas na América foi a primeira operação
desta dominante elite secreta, e daí procurou se expandir, e
não pode haver dúvida que a derrubada da monarquia fran-
cesa é trabalho desta sociedade secreta que não está satisfeita
com o que já conseguiu, como podemos ver pelos emissários
enviados para todos os países e pelas desafiadoras missivas
que conseguem circular por todos os países; as Lojas maçôni-
136
cas francesas, em especial, procuram despertar sentimentos
semelhantes no seio dos seus irmãos em outros países. Uma
passagem de uma destas cartas de uma Loja de Bordeaux é
notável; nela está escrito que os sábios princípios da nova
constituição francesa estão em tal proximidade com os prin-
cípios básicos maçónicos de liberdade, igualdade, justiça,
tolerância, filosofia, caridade e ordem — que na verdade todo
o bom cidadão francês do futuro é digno de ser um maçom
porque é livre...
Houve diversas tentativas para persuadir Leopoldo II a reformar a Confra-
ria — mas não exterminá-la. Uma delas sugeria como "o perigo do siste-
ma francês dentro das Lojas maçónicas poderia ser combatido", dese-
jando criar um Bund (Federação) empregando três homens de Pest (Buda-
pest) sob o nome de "Ordem de Leo po ldo ",16 com o propósito de levar os
cidadãos a se orgulharem do seu status e lutar contra o excessivo poder
exercido pela nobreza. Um secretário do governo aposentado chamado A n-
ton Feldbofer escreveu um memorando relativo à Maçonaria em 15 de
agosto de 1790, no qual declarou enfaticamente que "a cadeia de atuais er-
ros e revoluções na Europa é dirigida pela Irmandade dos maçons"17. Fel-
dhofer não desejava abolir, mas sim reformar a Confraria. "Não, então, dis-
solver esta Sociedade inteiramente, mas colocar limites na mesma de forma
que, na medida do possível, ela se tornasse inócua para Vossa Majestade, o
Estado e todos os seus súditos." Segundo Feldhofer a "Patente Maçónica"
que José II havia instituído em 1785 não tinha sido suficiente em sua dire-
triz a ponto de colocar os maçons sob um controle rígido.
Diante de tal suspeita e hostilidade como poderia ser protegida a Maço-
naria? Como sua grandeza e universalidade poderiam ser apresentadas ao
público em geral? Os dois maçons, Mozart e Schikaneder, decidiram escre-
ver a primeira ópera maçónica — A Flauta Mágica. Sabiamente trataram o
assunto de duas maneiras: com dignidade, amor e respeito — como verda-
deiros confrades — mas também com humor e até uma ponta de sátira
maliciosa. Sempre foi dito que a figura de Sarastro era baseada no grande
cientista Ignaz von Bo m, Mestre da Loja de Haydn, Zur wahren Eintracht.
Porém Bom tinha também suas falhas humanas — era vaidoso e mal tolera-
va outras opiniões além das suas, embora estas fossem, na verdade, sábias e
de longo alcance. Ao assumir a nova Loja que foi fundada em 12 de março
de 1781, Ignaz pretendia torná-la uma espécie de sociedade de ciências,
e dentro de poucos anos a transformou na elite das Lojas de Viena, cercan-
do-a de escritores, cientistas, cléricos católicos e protestantes, membros do
governo — além de Joseph Haydn que ingressou na Ordem em fevereiro de
137
1785. Isto ocorreu cerca de seis meses antes de José II emitir seu famoso e
devastador decreto sobre os maçons (11 de dezembro de 1785), no qual
tentou centralizá-los e limitar seus poderes. Fo i, na verdade, como já disse-
mos, o começo do fim do grande período da Maçonaria .na Áustria (e o co-
meço da queda da Loja de Bo m e consequentemente de Bom como líder
Mestre-Maçom; ele se demitiu da Irmandade em 1786, tendo sua Loja sido
dissolvida no Natal de 1785). Bo m viveu até julho de 1791, exatamente a
época em queMozart assinalou a nova ópera no seu catálogo temático (ex-
ceto a Abertura e a Marcha dos Sacerdotes, que só foram completadas antes
da primeira representação em setembro.18
Se, como a lenda romântica infere, Bo m foi consultado sobre os detalhes
da ópera e se chegou a saber que Sarastro deveria simbolizá-lo como a es-
sência da tolerância, sabedoria e justiça, ninguém jamais saberá. Entre-
tanto, existem alguns traços no caráter de Sarastro que não são de todo sim-
páticos e seguramente não são maçónicos: ele possui escravos, descreve seu
escravb Monostatos como dono de uma alma tão negra quanto sua pele (ho-
je em dia chamaríamos de discriminação racial), condenando-o a ser açoi-
tado setenta e sete vezes nas solas dos pés, além de nomeá-lo como guardião
de Pamina, quase ensejando que ele a violente enquanto a moça dorme,
atos que não são exatamente de um Mestre sábio.
Mozart e Schikaneder não exageraram na medida. Os dogmas básicos da
Maçonaria são apresentados com grande simpatia e Mozart estava certa-
mente em seu elemento nas cenas que glorificam o Iluminismo (In diesen
heiVgen Hallen, O Isis und Osiris, a Marcha dos Sacerdotes e especialmente
os imensos horizontes no coro final He/ 7 sey euch Geweihten!). Porém
Sarastro como Bo m não é um homem perfeito, não havendo qualquer ten-
tativa de esconder o lado antifeminista dos maçons (um aspecto que Leo-
poldo I I , incidentalmente, também considerava ridículo). A Maçonaria
possuía seus informantes e traidores, especialmente após o Decreto de José
II de 1785; Sarastro tem seu Monostatos. Entretanto, a platéia de setembro
de 1791 foi para casa com a sensação de que os maçons eram a corporifica-
ção do Iluminismo de José II — e além do mais, grande parte da ópera era
muito divertida, com alguma coisa para todos os gostos, deixando feliz
tanto o connoisseur quanto o homem comum. Os maçons poderiam até ter
tido esperança de salvar a Confraria da ruína, mas isto não se deu: em 1794
a Maçonaria na Áustria deixou de existir.
O grande estudioso mozartiano, Otto Erich Deutsch, escreveu em 1937 so-
bre o libreto de A Flauta Mágica, prevenindo-nos para não julgá-lo exclusiva-
mente como uma ópera maçónica.
138
Mais misteriosa do que as reais conexões com a Maçonaria é a
verdadeira história sobre as origens da obra, com seu patente
hiato entre a despreocupação da primeira parte e a solenidade
do II Ato , provavelmente como resultado de circunstâncias
externas, como a rivalidade com o Leopoldstadt Theatre;
porém, apesar de tudo, o libreto é também uma obra-prima,
obtendo o efeito desejado sobre jovens e velhos, ricos e po-
bres, tanto hoje em dia quanto seguramente em todas as épo-
cas. Nem a deselegância de alguns versos de Schikaneder os
impediram de se tomarem parte da linguagem.19
A Estréia
O Freyhaus (no alemão moderno Freihaus) era um enorme terreno, situado
outrora numa ilha no meio do rio Wien. Segundo a clássica descrição de
Egon Komorzynski, na época que Mozart frequentava o teatro (e a taberna
que ficava em um dos pátios perto do teatro), o Freihaus:
consistia em um monstruoso complexo de casas ligadas umas
às outras por seis grandes pátios, 32 escadas e 325 aparta-
mentos; possuía sua própria igreja dedicada a Santa Rosália,
oficinas de quase todo tipo de artesanato, uma impressora a
óleo pertencente à família Marsano, um boticário e um moi-
nho cuja roda era movida por um riacho desviado do rio
Wien. Chamava-se Freihaus porque — graças aos seus pro-
prietários — estava livre de impostos. No grande pátio havia
um jard im com aléias, canteiros e um pavilhão de madeira:
onde o grupo de Schikaneder se reunia após os ensaios e as
representações, fazendo um barulho infernal mesmo durante
a noite sob a liderança do jovial diretor que chamava os atores
e atrizes de "suas crianças" e que a tudo presidia com bom
humor. Um lado longitudinal do pátio era ocupado pelo tea-
tro, um impressionante prédio de pedra com teto de azulejo
que Schikaneder havia ampliado e erigido, capaz de acomo-
dar 1.000 pessoas, com trinta metros de comprimento por
quinze de largura. O palco media doze metros de profundi-
dade e estava equipado com todos os recursos necessários —
segurança, conforto e maquinaria teatral; o teatro contava
com duas filas de camarotes, uma orquestra (parterrè) de
139
duas partes e, na época de Mozart, duas galerias às quais mais
tarde Schikaneder acrescentou mais uma.
Como neste imenso local não havia falta de apartamentos,
o diretor e maior parte da sua companhia moravam no
Freihaus...20
A amante de Haydn, Luigia Polzelli, morava lá, no apartamento n.° 161,
durante o período no qual Haydn esteve na Inglaterra, mudando-se ela para
a Itália mais ou menos em agosto de 1791.21 (Certas partes do Freihaus
ainda existiam na década dos 50, mas infelizmente, a última parte deste
edifício histórico foi arrasada pelas máquinas de terraplenagem.)
O pavilhão de madeira já citado se encontra atualmente no jard im do
Mozarteum em Salzburg, ao passo que a mobília está no castelo da família
dos Condes (mais tarde Príncipes) von Starhemberg, proprietários da terra
onde o Freihaus estava localizado, em Eferding na Alta Áustria. Supõe-se
que Mozart tenha composto partes de A Flauta Mágica neste pequeno pavi-
lhão, como também o tenha usado para ensaios, o que deve ser provável, se
imaginarmos a existência de um clavicórdio ou uma espineta, pequeno ins-
trumento que geralmente acompanhava os cantores.
O poeta Ignaz Franz Castelli, que cresceu no bairro vienense de Mariahil,
e que certa vez fez um macaco em A Flauta Mágica, costumava frequentar o
teatro antes deste acabar. A primeira vez em que lá esteve foi em 1798,
tendo pago 7 kreuzer. Segundo ele, tratava-se de um edifício com uma es-
trutura grande, retangular como uma caixa. O interior era decorado com
simplicidade; ao lado da porta de entrada ficava o palco, na frente do qual
viam-se duas estátuas de tamanho natural, à direita um cavaleiro com um
punhal e à esquerda uma mulher seminua. Os bilhetes nas primeiras filas
custavam 17 kreuzer e no alto das galerias uma moeda de 7 kreuzer.
Para conseguir um lugar barato, Castelli teve que chegar ao teatro às três
da tarde.
Depois que o teatro abriu suas portas... tive que ficar sentado
durante três horas, banhado pelo calor e suor e impregnado
pelos odores aliáceos das carnes defumadas consumidas... fi-
nalmente as luzes diminuíram e meu sol começou a se erguer.
Os músicos se dirigiram para a orquestra um a um, estes feli-
zardos que podem se sentar ali diariamente...22
Schikaneder chegou a esse teatro da seguinte maneira: reconstruído e
reinaugurado em 1786, sob a direção de Christian Rohrbach, astro de um
grupo de atores perambulantes, dois anos mais tarde o teatro foi ocupado
por Johann Friedl, com grande sucesso; entretanto, ele logo morreu e no
140
seu testamento deixou a direção do teatro para sua legatária residual Ma-
dame Schikaneder, então com 25 anos, que imediatamente chamou o mari-
do, em Regensburg (Ratisbon), para ajudá-la a montar o teatro. Schikane-
der recebeu o privilégio oficial de fazê-lo do Imperador José II , logo angari-
ando um grande e fiel público com suas "comédias mecânicas" (engenhosas
máquinas no palco que desempenhavam atos de prestidigitação, às vezes
com atores e atrizes), contos de fadas e óperas mágicas — todas em alemão
ou dialeto vienense.
Schikaneder era um autêntico homem de teatro, além de ser um inteli-
gente empresário, sempre cuidadoso em não ludibriar o público. No prefá-
cio do seu libreto DerSpiegel von Arkadien (O Espelho da Arcádia), Viena
1795 (primeira representação no Teatro auf der Wieden, 14 de novembro
de 1794, música de Sussmayr), disse o seguinte:
Escrevo para divertir o público e não desejo me apresentar
como um intelectual. Sou um ator — um diretor — e traba-
lho para a bilheteria; mas não tiro dinheiro do público lud i-
briando-o, pois o homem inteligente só se deixa enganar uma
vez.
Mozartvoltou para Viena pouco depois de 15 de setembro de 1791, menos
de duas semanas antes dos últimos ensaios de A Flauta Mágica. No dia 28
de setembro deu baixa no seu catálogo nas duas últimas peças que compôs,
a Marcha dos Sacerdotes e a A bertura,23 sendo a primeira representação no
Freyhaustheater apenas dois dias depois.
O programa da peça," que milagrosamente ainda existe, diz o seguinte:
O Real Imperial Teatro Particular Wieden
Hoje, Sexta-feira, dia 30 de setembro de 1791
Os atores e atrizes do Real Imperial Teatro Part.
no Wieden têm a honra de apresentar
pela primeira vez
A FLAUTA MÁGICA
Grande ópera em Dois Atos de Emanuel Schikaneder
Personagens
Sarastro
Tamino
Orador
Hr. Geri.
Hr. Schack.
Hr. Winter.
141
Primeiro 1
Segundo ? Sacerdote
Terceiro J
Rainha da Noite
Pramina [sic]
Primeira 1
Segunda > Dama
Hr. Schikaneder, pai
Hr. Kistler.
Hr. Moll.
Mad. Hofer.
M l k . Gottlieb.
M"c . Klõpfler.
M l k . Hofmann.
Mad. Schack.
Hr. Schikaneder, filho
Mad. Geri.
Hr. Nouseul.
Hr. Gieseke.
Hr. Frasel.
Hr. Starke.
Terceira J
Papageno
Uma velha [= Papagena]
Monostatos, um escravo
Primeiro 1
Segundo l Escravo
Terceiro J
Sacerdotes, Escravos, Acólitos.
A música é de Herr Wolfgang Amadeus Mozart, Kapell-
meister e atualmente Compositor de Câmera Real e Imperial.
Herr Mozard [sic] por respeito ao gracioso e amável público e
por amizade ao autor da peça regerá pessoalmente a orques-
tra hoje.
Os textos da ópera que incluem duas gravuras com Herr
Schikaneder no papel de Papageno com as roupas da peça
serão vendidos na bilheteria por 30 kr.
Herr Gayl, cenógrafo teatral e Herr Nesslthaler, dqcorador,
se orgulham de haver colaborado com toda a possível diligên-
cia artística de acordo com o plano pré-concebido para a
obra.
O preço dos ingressos é o mesmo de sempre
O início da peça será às 7 horas
Pela ordem em que aparecem no programa, os cantores (intérpretes) que
tomaram parte neste acontecimento histórico eram: Franz Xaver Geri (bai-
xo ); Benedikt Schack (tenor), um bom amigo de Mozart; Winter (o orador),
um aprendiz na Confraria. O Primeiro Sacerdote foi representado pelo ir-
mão mais velho de Schikaneder, Urban; Johann Michael Kistler fazia o Se-
gundo Sacerdote (tenor) e um baixo chamado Moll o terceiro. Josepha Ho -
fer, irmã de Constanze Mozart, era a Rainha da Noite. A nna Gottlieb já ha-
via cantado o papel de Barbarina em Le nozze di Fígaro na primeira repre-
sentação em 1786 no Burgtheater de Viena (quando tinha doze anos), con-
tando então com 17 anos. Dizia-se que era aluna de Mozart, que estava
apaixonada pelo compositor e que abandonou o palco após A Flauta Má-
142
gica embora nada disso seja fundamentado por fontes contemporâneas. As
primeiras Três Damas foram cantadas por uma soubrette (Srta. Klõpfler), a
Srta. Hofmann (que também interpretava "jovens apaixonadas") e a mulher
de Benedikt Schack, née Weinho ld . Schikaneder, é claro, interpretava Pa-
pageno. A velha foi representada pela esposa de Geri, Barbara née Reisin-
ger. Johann Joseph Nouseul, um ator — era comum saberem cantar um
pouco e serem contratados para cantar e representar — tinha estado no
Burgtheater. O primeiro escravo era o notório Karl Lud w ig Gieseke (cujo
nome verdadeiro era Metzler), que mais tarde foi para Dublin como profes-
sor de mineralogia e que disse ter escrito partes do libreto. O segundo escra-
vo era Wilhelm Frasel e o terceiro era um super ou um "extra" chamado
Starke. Não consta o nome dos Três Meninos. O pintor do cenário foi Jo-
seph Gayl e O. E. Deutsch identificou o decorador de cena como tio do
pintor Andreas Nesslthaler que viv ia em Salzburg desde 1789.
Mozart evidentemente regeu a orquestra tocando piano. Em relação à
receptividade do público, os relatos existentes advêem principalmente do
Século XIX. A maior parte deles não pode ser comprovada e os que podem
acabaram provando ser invencio nices. (O jo v em compositor Jo hann
Schenk teria conseguido um lugar na platéia perto da orquestra e no último
momento após um silêncio mortal que se seguiu à Abertura engatinhou até
o rostrum e beijou a mão de Mozart. Este encantador conto de fadas supos-
tamente adviria da biografia manuscrita de Schenk que se encontra na Aba-
dia de Gõttweig, mas não é verdade.)2'
Após voltar de Praga, Constanze ficou em Viena até a estréia de A Flauta
Mágica, mas na primeira semana de outubro voltou para Baden para conti-
nuar seu tratamento. No final da primeira semana de outubro, nos dias 7 e
8, Mozart escreveu à esposa:
Sexta-feira, 10:30 noite (7 de outubro)
Queridíssima, melhor mulherzinha do mundo!
Acabei de v ir da ópera — estava como sempre lotada. O due-
to Mann und Weib etc, e o Glockenspiel do I Ato , como sem-
pre, foram bisados — também no II Ato o trio dos meninos —
mas o que me agrada mais é o silencioso aplauso — pode-se
perceber quanto esta ópera continua crescendo. Agora minha
biografia: assim que você partiu joguei duas partidas de bi-
lhar com H r. von Mozart (que escreveu a ópera de Schikane-
der). — Depois vendi meu cavalo por 14 ducados — e fiz
Joseph, o Primeiro (o criado) trazer-me café preto e fiquei go-
zando as delícias de um cachimbo; depois orquestrei quase
143
todo o Rondo (do concerto para clarineta em Lá [K.622]) para
Stadler, neste ínterim chegou uma carta de Stadler de Praga:
— todos os Dussek [sic] estão bem; parece que ela (Josepha
Duscheck) não recebeu nenhuma carta sua e — mal posso
acreditar — todos tomaram conhecimento da magnífica re-
cepção concedida à minha ópera alemã.
O que é mais curioso ainda é o fato de que na noite em que
minha nova ópera estava sendo recebida com tanto sucesso
pela primeira vez, nesta.mesma noite, em Praga, Tito estava
sendo representado pela última vez, também com extraordi-
nário sucesso... Ele também escreve (Stodla [Stadler segundo
a grafia boêmia-alemã]) que [palavras mais tarde riscadas por
Nissen; provavelmente "devo confessar que agora me dou
conta que estava errado e que"] é verdade que [Sussmayr] é
uma besta, bem mas disso já sabemos — Stodla é apenas um
pouco besta, não muito ; mas este [Sussmayr] bem, ele é uma
verdadeira besta.
Às 5:30 saí do Stubenthor e fiz meu passeio predileto a pé
pelo Glacis até o teatro [Theater auf der Wieden] e o que vejo?
O que aspiro? Don Primus [o criado] com os Carbonadeln
fcosteletas de porco] — che gusto — Como à tua saúde —
está dando 11 horas — talvez você já esteja dormindo? St! St!
St! — Não quero te acordar! —
Sábado, dia 8! — Você devia ter me visto ontem no jantar!
Não consegui achar o velho serviço de jantar, de maneira que
recorri àquele branco com pingos de neve e usei meu castiçal
de dois braços... Você deve estar dando uma boa nadada en-
quanto escrevo estas linhas. O cabeleireiro chegou pronta-
mente às 6 horas — e Primus veio acender a lareira às 5:30 e
me acordar às 5:45. Por que tinha que chover justamente
agora? Desejei tanto que você tivesse um bom tempo! Mante-
nha-se bem agasalhada para não apanhar um resfriado; es-
pero que os banhos lhe propiciem um bom inverno — pois
foi apenas o desejo de mantê-la em boa saúde que me fez
mandá-la para Baaden [sic]. Já faz muito tempo que você está
fora, mas isto eu já previa — Se eu não tivesse nada para fazer
teria ido com você para passar uns oito dias — mas aí não
tenho nenhum lugar decente para trabalhar; e quero evitar,
o tanto quanto possível, todas as dificuldades; não existe na-
da mais agradável do que ser capaz de viver bem e em sosse-
144
go, e portanto tenho que trabalhar duramente e o faço com
prazer. — ...
Pode dar um tapa nos ouvidos de [nome riscado: provavel-
mente Sussmayr] de minha parte e estou mandando para
[nome riscado: provavelmente Sophia, irmã de Constanze]
1.000 beijos, ela pode dar alguns para ele também — por
Deus veja que não lhe falte nada!
[Seguem-se algumas grosseiras sugestões do que fazer com
Sussmayr.]... adieu, querida mulherzinha! a carruagem [pos-tal] está para partir. — Espero poder ler algo escrito por você
e nesta doce esperança lhe beijo 1.000 vezes e sou sempre seu
amantíssimo marido
W. A . Mozart
Mais tarde, neste mesmo dia, Wolfgang escreve para"Constanze sobre A
Flauta Mágica:
Co m o maior prazer e deleite encontrei sua carta ao voltar da
ópera, embora sábado seja sempre um mau dia porque é dia
de correio, a ópera foi representada para uma casa cheia com
os costumeiros aplausos e encores. Eles darão espetáculo
amanhã, mas não segunda-feira — portanto Siessmayer [sic:
Mozart escreve o nome como o mesmo soaria no dialeto vie-
nense] deverá trazer [Anton] Stoll aqui na terça-feira [para as-
sistir A Flauta Mágica].
... Logo após o almoço fui novamente para casa e escrevi até
a hora de ir para a ópera. Leitgeb [Leutgeb] [o tocador de
trompa] me pediu para levá-lo e o fiz. Amanhã levarei Mama
[a sogra de Mozart]; Hofer já lhe deu o libreto para ler. — No
caso de Mama isto significa que ela verá a ópera, mas não a
ouvirá. [Os nomes a seguir Nissen tornou ilegíveis]... ocupou
um camarote hoje. — . . . estavam prontos para aplaudir tudo
calorosamente, mas ele, o sabe-tudo, se comportou de tal
forma como um bávaro que não consegui ficar, caso contrário
o teria chamado de idiota; — infelizmente eu estava no seu
camarote quando teve início o II Ato justamente na cena sole-
ne — Ele riu de tudo; no começo tentei juntar suficiente pa-
ciência para chamar sua atenção para algumas falas, mas —
ele ria de tudo; foi demais para mim — chamei-o de Papa-
geno e saí — mas acho que o idiota não entendeu. Fui para
outro camarote onde Flamm [Franz Karl Flamm, funcionário
145
do Magistério vienense e um bom músico amador] estava
com sua esposa; fiquei bastante contente e assisti ao espetá-
culo até o fim. — Só fui para trás do palco durante a ária de
Papageno com o Glockenspiel, porque tive vontade de tocá-
lo pessoalmente — resolvi fazer uma brincadeira e quando
Schikaneder disse sua fala, toquei um arpeggio—ele deu um
pulo — olhou para trás do cenário e me v iu — e quando falou
pela segunda vez — não toquei — e ele parou e não queria
continuar — eu li seus pensamentos e toquei novamente um
acorde — aí ele bateu no seu Glockenspiel e disse "Cale a
boca!" — o que fez todo mundo rir — como resultado da
brincadeira, muitas pessoas perceberam pela primeira vez
que ele não toca o instrumento. Em tempo, você não pode
imaginar quão maravilhosa soa a música num camarote perto
da orquestra — muito melhor do que na galeria. — A ssim
que você voltar deve experimentar.
Na sexta-feira, dia 14 de outubro, Mozart escreveu novamente sobre
ópera:
Queridíssima, melhor mulherzinha,
Ontem, quinta-feira 13, Hofer saiu comigo para visitar Carl
[filho de sete anos de Mozart que morava no campo em Per-
chtoldsdorf, perto de Viena], comemos por lá e voltei para cá;
às 6 horas apanhei Salieri e Cavalieri [amante de Salieri, a can-
tora Caterina] na carruagem e os levei até o camarote — em
seguida corri para apanhar Mama e Carl que eu havia deixado
còm os Hofer. Você não acredita quão simpáticos eles foram
[Salieri e Cavalieri] — quanto gostaram não só da música,
como do texto e de tudo o mais — Ambos disseram que se
tratava de uma grande ópera — digna de ser representada nos
maiores festivais para os maiores monarcas, e eles certamente
assistirão à ópera outras vezes pois disseram nunca ter visto
uma produção mais bela ou agradável. — Ele ouviu e obser-
vou com a maior atenção e desde a Abertura até o último coro
não deixou passar uma ária em que não emitisse um "bravo"
ou "bello", sendo que os dois não pararam de me agradecer
pela cortesia dispensada. Eles pretendiam ter ido à ópera on-
tem, mas teriam que chegar às 4 horas para conseguir bons
lugares — portanto, desta outra forma puderam ouvir e ver o
146
espetáculo em paz — Após o teatro tive que levá-los para casa
e então fui cear na casa de Hofer com Carl — Em seguida fui
para casa com ele e ambos dormimos muito bem. Não fiz ne-
nhum grande favor em levar Carl para assistir à ópera — ele
está de ótimo aspecto — e no que diz respeito à saúde não
poderia estar instalado num melhor lugar, porém quanto ao
mais é terrível! Eles [os camponeses com quem Carl estava
morando] provavelmente serão capazes de torná-lo um bom
fazendeiro! — mas chega deste assunto. Uma vez que as aulas
importantes dele não começam até segunda-feira (que Deus o
ajude!) pedi-lhes para ficar com Carl até domingo depois do
almoço; eu lhes disse que vqcê gostaria de vê-lo. — Amanhã,
domingo [sábado a não ser que tenha havido um dia de inter-
rupção na carta que começou na sexta-feira], deverei ir até aí
com ele — e você poderá ficar com ele ou eu posso levá-lo de
volta para Hecker [Wenzel Bernhard Heeger em Perchtolds-
dorf]; pense sobre isso, pois só por um mês ele não poderá
ficar prejudicado, eu acho! — entrementes aquele assunto
com os Piaristas [a ordem religiosa na qual Mozart estava ten-
tando colocar Carl] poderá se resolver, pois estamos traba-
lhando com afinco nisso. — De outro modo , ele não está
pior, nem melhor do que antes. A inda conserva o mesmo uni-
forme, continua irritante como sempre e estuda com ainda
menos afinco do que antes, não fazendo coisa alguma, mas
dando voltas no jard im, durante cinco horas, pela manhã e
cinco horas depois do almoço, como ele mesmo me confes-
sou, em suma, as crianças não fazem coisa alguma a não ser
comer, beber, dormir e andar... Ontem a viagem para Berns-
torf [Mozart quer dizer Perchtoldsdorf que a população local
chama de "Petersdorf"] me tomou o dia inteiro de forma que
não pude trabalhar — mas o fato de você não ter escrito nes-
tes dois dias é imperdoável, porém hoje certamente espero
notícias suas, conversar pessoalmente com você amanhã e
beijá-la do fundo do coração.
Adeus, sempre seu
14 de outubro 791 Mozart26...
Esta é a última carta de Mozart que sobreviveu até os nossos dias. Nela
ele aparece, como sempre, trabalhando demais, primeiro no Concerto para
Clarineta que não foi escrito para esse instrumento, mas para um seme-
lhante a uma clarineta contralto em Lá com um extenso registro declinante
147
— cuja versão original desapareceu — foi apresentada pela primeira vez
por Anton Stadler (para quem foi composta) num concerto de assinatura,
no Teatro Praga em 16 de outubro de 1791.27 Depois de terminar o Con-
certo e enviá-lo para a Boémia, Mozart continuou a trabalhar no Réquiem.
Devemos enfatizar que, embora cronicamente estafado, continuou a escre-
ver na sua habitual forma afetiva para Constanze, parecendo estar calmo,
feliz e profundamente satisfeito com a acolhida concedida a A Flauta Má-
gica. É interessante se observar nestas cartas os cuidados especiais que to-
mou em citar o elogio de Salieri sobre o libreto (implicando, portanto, a
tácita aprovação de Mozart) como também daquela pessoa que não perce-
beu as sérias implicações maçónicas da ópera. Teria Mozart tentado expli-
car talvez para um ouvinte "profano" o conteúdo da mensagem do II Ato?
("tentei juntar suficiente paciência para chamar sua atenção para algumas
falas...") E em todas estas cartas Mozart dá a impressão de um jovem, cheio
de alegria e prazer, no auge da vida, brincando com Schikaneder nos basti-
dores do teatro e bem casado com uma esposa que evidentemente retribuía
sua afeição.
Tendo em vista as atuais lendas em relação a Salieri é confortador lermos
a cuidadosa descrição de Mozart sobre os elogios recebidos do maestro
italiano — que sem dúvida devem ter ocorrido exatamente como descritos
na carta. Salieri poderia ter tanta inveja de Mozart como manifestara no pas-
sado — teria que ser um super-homem para não sentir uma ponta de inveja
de um génio tão avassalador — mas os dois homens observavam cuidado-
samente as amenidades sociais e foi delicadeza da parte de Mozart ir buscar,
de carruagem, Salieri e a provocante Cavalieri.
Uma três semanas depois, no dia 6 de novembro, o Conde Carl von Z in-zendorf foi assistir à nova produção. Eis o seu relato:
às 6:30 fui para o Teatro Starhemberg no subúrbio de Wie-
den, onde no camarote de M. e Mme. Auesperg ouvi a 24?
representação de A Flauta Mágica. A música e os cenários são
bonitos, o mais uma inacreditável farsa. Uma imensa multi-
dão presente. M. de Seilern e de Kinsky no nosso camarote...28
Não pode haver dúvida de que A Flauta Mágica já era o maior sucesso
operístico da vida de Mozart. Deveria ser o começo de uma nova era para o
compositor, embora esta nova era fosse terminar exatamente um mês após
Zinzendorf ter comparecido à 24? representação da ópera.
Aquele último mês testemunhou o que é certamente a maior tragédia da
história da música.
148
XI
A DOENÇA FINA L
amos reencontrar Mozart em Rauhensteingasse, vivendo como um
"marido abandonado". Suas cartas a Constanze durante o mês de outu-
bro, enquanto ela estava em Baden, não demonstram ser de uma pessoa
possuída pela idéia da morte ou mesmo num total estado de exaustão. Pelo
contrário, vemos um homem que, embora trabalhando demais e de uma
forma excessivamente concentrada, nos transmite uma total aparência de
normalidade. Se lermos, no entanto, um relato desta época escrito por Ro-
chlitz no AUgemeine Musikalische Zeitung de 19 de dezembro de 1798,
veremos que Mozart parece ter voltado de Praga já exaurido.
Então, saciado pela magnificência e extravagância [da coroa-
ção em Praga] como se estivesse faminto, ele começou a reto-
mar a continuação do trabalho interrompido, isto é, o Ré-
quiem. O período de quatro semanas que ele mesmo se havia
dado para terminar a obra já se havia esgotado e mal havia
voltado para casa quando o estranho homem surgiu outra
vez.
— Não pude manter minha palavra — disse Mozart.
— Sei disso — foi a resposta. — Fez bem em não se esfor-
çar demais. De quanto tempo ainda vai precisar?
— Outras quatro semanas ... o trabalho se tornou mais e
mais interessante para mim; estou expandindo-o muito mais
do que imaginara a princípio.
— Ótimo ... mas deve receber mais por isso também. A qui
tem outros cem ducados.
— Senhor ... quem o mandou aqui?
— O cavalheiro deseja permanecer no anonimato.
— E quem é o senhor?
— Isto então nem vem ao caso ... em quatro semanas vo l-
tarei a procurá-lo.
E assim partiu. Fo i colocado sob vigilância para ver onde
iria, mas ou oè homens enviados para segui-lo eram muito
149
descuidados, ou foram ardilosamente despistados — o certo-
é que não conseguiram apurar coisa alguma. Desta forma Mo-
zart passou a acreditar piamente (devo na verdade confessar)
que o homem de nobre aspecto era uma pessoa realmente ex-
traordinária, estreitamente ligada ao Outro Mundo ou
mesmo enviado pelo Além para anunciar-lhe seu fim imi-
nente. Desta forma, decidiu com mais afinco criar um monu-
mento digno do seu nome e neste sentido se aprofundou mais
e mais, não sendo, portanto, nenhuma surpresa a realização
de uma obra tão perfeita. Durante a feitura do trabalho, por
vezes, mergulhou em completa exaustão, desmaiando, e con-
tinuou com o mesmo afinco, mas antes das quatro semanas
também estava morto.
Existem diversos pontos que devem ser esclarecidos a respeito deste
longo e interessante relato (que foi, afinal de contas, escrito apenas sete
anos após o ocorrido). O primeiro é que conflita com a cronologia de toda a
obra do Réquiem, embora não haja razão para duvidarmos que o mensagei-
ro tenha aparecido após Mozart voltar de Praga, como também que tenha
feito um segundo pagamento em dinheiro. Quase todas as fontes fazem
menção a este fato, embora a soma total mal possa ter atingido 200 duca-
dos, honorários para a ópera de coroação. (Um relato de 1792, citado na
pág. ló l^diz que a referida quantia era duas vezes 30 ducados, i.e., um total
de 60. Quando toda a história se tornou pública e o Conde Walsegg entrou
em contato com Constanze, disse haver pago ao compositor 50 ducados.)
Constanze recebeu 100 ducados (450 gulden) do Embaixador da Prússia
por uma cópia do Réquiem em 1792; e como veremos, estava bastante in-
teressada em manter o mito de que o Réquiem tinha sido terminado antes
de Mozart morrer.
Não há dúvida que mesmo após sua volta de Praga não era o Réquiem e
sim o Concerto para Clarineta dedicado a Stadler que mais requeria a ur-
gente atenção de Mozart. E mesmo o concerto não podia ser realizado até
que A Flauta Mágica estivesse completa. Por fim, então, tudo estava pronto
para terminar o Réquiem.
Se meus cálculos estão certos, o período total em que Mozart compôs o
Réquiem, ou o que sobrou dele (alguns esboços supostamente se per-
deram), deve ter sido apenas entre 8 de outubro e 20 de novembro, quando
o compositor caiu de cama; e devemos, contudo, subtrair o tempo neces-
sário para compor e escrever a Kleine Freymaurer-Kantate (K.623) que, afi-
nal de contas, consiste em 36 páginas autografadas por Mozart. Se dermos 4
ou 5 dias para a Cantata (ele compôs a Sinfonia Linz [K.425] que é muito
150
maior em cinco dias em 17832, embora estivesse escrevendo muito mais
devagar em novembro de 1791) e dois dias para buscar Constanze em Ba-
den em 16 de outubro, acomodando-se outra vez no apartamento em Vie-
na, resta pouco menos de um mês para se escrever a parte principal do Ré-
quiem. Devemos reiterar que apenas o Réquiem aetemam (Introitus) foi to-
talmente escrito por Mozart; todas as outras partes desde a fuga Kyrie até o
final das Hóstias foram esboçados na particella costumeira de Mozart. A
instrumentação ausente do Kyrie (em grande parte dupla) foi acrescentada
por um Kapellmeister local, um compositor chamado F. J. Freystadtler, ex-
cetuando-se as partes para trompa e tímpano que são, sem dúvida, obras de
Sussmayr.3 Mozart compôs ém forma particella um total de 99 folhas, uma
quantidade de músicas surpreendente, quase incrível para se compor,
mesmo em esboço, em menos de um mês. Mozart não compôs o Réquiem
em ordem litúrgica, deixando a Lachrymosa — que vem antes do Ofertório
— incompleta, com apenas oito compassos esboçados: presumivelmente
esta foi a última música composta por Mozart.
Existem dois tipos diversos de papel (com as correspondentes marcas
d'água) no autógrafo do Réquiem4 que se encontra na Biblioteca Nacional
de Viena:
Tipo I . Introitus (Réquiem aeternam)
Kyrie até o compasso 45.
Sequência: Dies irae até o compasso 10 de Recordare
Tipo II . Restante do Kyrie (compassos 46ff., folha 9)
Restante da Sequência (Recordare, compasso l l f f . , Confutatis)
Fragmento da Lachrymosa (8 compassos)
Ofertório: Hóstia, no final do qual estão as últimas palavras que
Mozart escreveu: Quam olim da capo (i.e., repetir a música do
Quam olim Abrahae do movimento anterior), que foi arrancado do
manuscrito autografado por um ladrão em 1958.5
Pesquisadores anteriores tentaram relacionar estes tipos de papel com o
seguinte plano: Mozart começa o Réquiem ao receber a incumbência em
julho , empregando um papel Tipo I . Em seguida foi obrigado a ir a Praga e
ao voltar recomeça o Réquiem, tendo neste ínterim esgotado o suprimento
de papel Tipo I , recorrendo ao papel Tipo II . Entretanto, esta divisão, em-
bora parecendo inteiramente plausível, pressupõe que Mozart parou de tra-
balhar em A Flauta Mágica assim que o "mensageiro" surgiu, escrevendo
uma substancial parte do Réquiem em particella (a orquestração do Ré-
quiem aeternam foi acrescentada pelo compositor mais tarde, com outra
tinta e possivelmente outra pena de escrever). Porém tudo isto é mera espe-
151
culação. O emprego de diferentes papéis poderia também ser explicado
pelo fato de Mozart ter exaurido seu suprimento de Tipo I enquanto com-
punha, ou pode ser que Constanze tenha comprado o papel Tipo II quando
o marido estava doente (o que explicaria por que existe muito menos mú-
sica neste tipo de papel, uma vez que Mozart estaria enfraquecendo).
Este é o pano de fundo, do ponto de vista da música que Mozart estava
compondo nesse último período da sua vida;e que devemos considerar ao
reconstruir o lado biográfico. Dada a seriedade do assunto e as interpreta-
ções frequentemente erróneas das fontes (e mesmo as flagrantes falsifica-
ções), o melhor caminho seria o estudo dos documentos autênticos que são
mais numerosos do que se supõe e somente após estudá-los poderemos nos
aproximar da verdade desta história pungente.
O primeiro relato, do ponto de vista cronológico, é a biografia de Nie-
metschek do compositor (1789), dedicada a Haydn e preparada com a cola-
boração ativa de Constanze; que foi baseada no testemunho oral da esposa
pode ser atestado pelo fato de ter sido repetida, parcialmente verbatim, na
biografia de Nissen. Niemetschek diz ter escrito como "diversas vezes ouviu
dos lábios da viúva de Mozart..." Em vez de repetirmos as versões de Nie-
metschek e de Nissen, que são quase idênticas, escolhi o relato de Nissen
que pode ser encarado como o mais autêntico, uma vez que se trata do tra-
balho do segundo marido de Constanze:
Depois de ter voltado de Praga, Mozart começou a trabalhar
imediatamente no Réquiem, tarefa da qual se ocupou com ex-
cepcional diligência e v ivo interesse; porém continuava
doente, o que o deprimia. Co m profunda tristeza sua esposa
observava a gradual deterioração da saúde do compositor.
Quando, num belo dia de outono [20 ou 21 de outubro]6 ela
o levou até o Prater com o fim de distraí-lo, enquanto os dois
estavam sentados a sós, Mozart começou a falar sobre a
morte, insistindo em dizer que estava escrevendo o Réquiem
para si mesmo. Nesse momento, as lágrimas lhe vieram aos
olhos e quando ela tentou afastá-lo destes negros pensamen-
tos, ele respondeu: "Não, não, sinto isto com muita força, não
durarei muito, certamente fui envenenado! Não consigo me
libertar desses pensamentos."
Esta conversa muito impressionou o coração da esposa
que mal conseguiu consolá-lo e demonstrar que a melancóli-
ca imaginação do marido não tinha fundamento. Ela era de
opinião que a doença estava se agravando e que o trabalho do
152
Réquiem era exaustivo demais para ele; consultou um mé-
dico e fez com que ele parasse de trabalhar no Réquiem.
E na verdade, o compositor melhorou de certa forma, e
durante este período foi capaz, no dia 15 de novembro de
1791, de completar uma pequena Cantata [Eine kleine Frey-
maurer-Kantate (K.623) ] 7 que tinha sido encomendada por
uma sociedade para uma festividade [abertura de uma nova
sede]. A boa execução e o grande aplauso com que foi rece-
bido este novo trabalho deu novo alento ao seu espírito. Fi -
cou mais alegre e passou a pedir pelo Réquiem a fim de conti-
nuá-lo e terminá-lo. Sua esposa não v iu então motivo para
não lhe devolver a partitura. Porém esta esperançosa melhora
foi de curta duração; em poucos dias ele mergulhou na antiga
depressão, passou a desmaiar e enfraquecer até ser obrigado a
ficar acamado, condição da qual infelizmente nunca se recu-
perou...
Mozart permaneceu inteiramente consciente durante a
doença até o final; morreu serenamente, mas com muita relu-
tância. Qualquer um compreenderia isto se considerarmos
que, após sua volta de Praga, recebera a confirmação do posto
de Kapellmeister da Catedral de Santo Estevão com todos os
rèndimentos que desde os tempos imemoriais estão associa-
dos a esta posição. Ao mesmo tempo, além de incumbências
de trabalho recebidas dos teatros de Viena [Schikaneder?] e
Praga [Guardasoni?] havia tido excelentes ofertas da Hungria
e de Amsterdã para fazer entregas regulares [de composi-
ções], de maneira que se encontrava na feliz expectativa de
viver um futuro inteiramente livre das necessidades de ter
que ganhar a vida.
Tudo tarde demais! Ele já sentia sua força se esvaindo. E
tudo isto inteiramente por causas naturais, sem a necessidade
de achar (como pensava) que estava sendo envenenado. Fora
uma fruta que amadurecera cedo e que só durara pouco
tempo. Na delicada idade em que a natureza ainda está pul-
sando e coletando a seiva da vida, ele impediu o processo não
só pelos hábitos sedentários, como também consumiu, sem
pausa, a própria essência da vida, compondo continuamente.
Este apetite pela composição também apressou sua morte,
sem dúvida bastante ensejada por sua celebridade. Pois como
seria possível que um arcabouço de natureza tão frágil e arrui-
nado pela doença pudesse sobreviver à exaustão dos últimos
153
quatro meses? E nada de partituras fáceis como as de Pergole-
si e Hasse, mas dentro do seu estilo, com o rico e completo
tratamento de todas as partes individuais.
Esta curiosa coincidência — um arauto mais afortunado
de um melhor porvir, o triste estado atual de suas finanças, a
visão do desespero de sua esposa, o'pensamento sobre os dois
filhos órfãos — tudo isto não era nada apropriado para con-
solar um artista admirado que nunca fora estóico, nem para
adoçar o amargor da morte na idade dos trinta e cinco anos.
— Logo agora — ele geralmente se lamentava durante a
doença —, devo morrer quando poderia viver em paz! Agora
deixar minha Arte quando não mais preciso ser um escravo
da moda, não mais atrelado aos especuladores, quando po-
deria seguir os vôos da minha fantasia, quando poderia com-
por livre e independentemente tudo aquilo que meu coração
ditasse! Devo deixar minha família, meus pobres filhos, justa-
mente no momento em que estaria em melhor condição de
cuidar deles...
A doença final, depois de Mozart acamado, durou quinze
dias. Começou com uma inchação nas mãos e pés e uma qua-
se total inabilidade de se mover; seguiram-se repentinos vó-
mitos próprios da febre miliar aguda [hitziges Frieselfieber}.
Ele esteve totalmente consciente até duas horas antes de mor-
rer; as sensações da morte iminente, sua tristeza em ter que
deixar a esposa e as crianças sem amparo certamente tripli-
caram o martírio da doença...
No dia de sua morte, pediu para ver a partitura do Ré-
quiem em seu leito. — Não disse que estava escrevendo este
Réquiem para mim mesmo? A ssim disse ele, observando a
obra atentamente, com lágrimas nos olhos. Fo i o último e
doloroso adeus à sua amada Arte...
O Barão von Swieten veio logo após a morte de Mozart
para chorar com a viúva, que havia entrado na cama com o
marido morto para pegar sua doença e desta forma morrer
com ele... A mortcde Mozart causou grande consternação no
público. Nesse mesmo dia, muitas pessoas ficaram paradas
em frente da casa, demonstrando sua solidariedade de diver-
sas formas. Schikaneder andava de um lado para o outro, gri-
tando: "O fantasma dele me segue o tempo todo: está sem-
pre aqui na minha frente."
A saúde de Mozart, que no último período falhara visivel-
154
mente, sempre fora frágil, e, como é o caso das pessoas de
extrema sensibilidade, ele tinha muito medo da morte.8
Em 1829 o compositor inglês e editor Vincent Novelio e sua esposa Mary
deixaram Londres em direção ao continente. Estavam a caminho de Salz-
burg para presentear (segundo as palavras do editor dos diários) a idosa e
inválida irmã de Mozart com uma modesta soma de dinheiro coletada por
Novelio e seus amigos músicos de Londres; juntar material para escrever
uma biografia do compositor e tomar providências, em Paris, para a educa-
ção musical da sua pequena filha Clara que logo se tornaria uma das mais
famosas cantoras da época.
Os dois Novelio registraram em seus diários as conversas mantidas com
Constanze, dia após dia, pouco tempo depois; as informações recolhidas
são valiosas. Na transcrição a seguir, que só foi publicada a partir de 1955,
V. N . = Vincent Novelio e M. N . = sua esposa. Estavam presentes também a
irmã de Constanze, Sophie Haibel, assim como o filho mais novo de Mo-
zart, Franz Xaver Wolfgang.
M. N . 17 de julho . Seis meses [semanas?] antes de sua morte
ele foi possuído pela idéia de que tinha sido envenenado —
"Sei que devo morrer", exclamou — "alguém me administrou
acqua tofana e calculou o tempo exato da minha morte —
para o qual encomendaram um Réquiem que estouescre-
vendo para mim mesmo." Sua esposa instou com ele para deixar
o trabalho de lado, pretextando que estava doente, senão
não teria uma idéia tão absurda. Ele concordou com ela e es-
creveu uma ode maçónica que tanto encantou as pessoas para
quem foi escrita que Mozart voltou ao trabalho muito feliz;
"Se eu não soubesse que havia escrito melhor, pensaria que
este é o meu melhor trabalho, portanto vou orquestrá-lo.
Sim, percebo, foi a doença que me fez pensar que tinha to-
mado veneno; devolva-me o Réquiem que vou terminá-lo ."
Porém em poucos dias estava mais doente do que nunca, e
possuído pelas mesmas idéias...
Três dias antes da sua morte recebeu o despacho do Im-
perador, nomeando-o diretor musical de Santo Estevão, o
que imediatamente o aliviou das suspeitas de cabala e intriga
de Salieri e dos cantores. Chorou amargamente: "Agora que
fui nomeado para um cargo em que poderia escrever o que
quisesse e realmente fazer algo de útil, devo morrer..."
Pouco antes de sua morte ele cantou com Madame [Cons-
155
tanze] e Sussmayr o Réquiem, sendo que diversas partes o
oprimiam a ponto de chorar; escreveu o Recordare e as partes
principais primeiro, dizendo: "Se eu não viver, estas partes
são as mais importantes." Quando estavam prontas, chamou
Sussmayr de lado e explicou que caso morresse antes de com-
pletar a obra, a fuga que havia escrito no princípio deveria ser
repetida, exemplificando onde e como as outras partes de-
veriam ser preenchidas, uma vez que já estavam esboçadas.
Fo i por isso que Sussmayr, mais tarde, escreveu para Breit-
kopf de Leipzig que havia escrito a parte principal deste Ré-
quiem, mas, como Madame observou com razão, qualquer
um poderia ter escrito o que ele escreveu baseado no esboço e
nas d ireções precisas de Mo zart, sendo que nada que
Sussmayr produziu, antes ou depois, demonstrou um talento
semelhante à obra em questão.
As injúrias que algumas pessoas atiraram sobre este último
trabalho de Mozart tiveram sua origem com Weber, diretor
do jo rnal intitulado Càcilia (nenhum parentesco com C. M.
Weber), que também escreveu um Réquiem, mas como não
possuía a mesma qualidade do trabalho de Mozart, não foi
bem recebido. A inveja o fez desejar vilipendiar este parâme-
tro de perfeição que ele não pudera atingir, mas isso era difí-
cil, uma vez que as pessoas se limitavam a rir das suas intrigas;
desde então passou a negar que Mozart tivesse escrito esta
obra, mantendo tal posição através de uma série de artigos
publicados no jornal que editava. Existem sempre diversas
pobres almas invejosas prontas a engrossar o coro que se le-
vantou contra um grande génio, por não poder imitá-lo ou
apreciá-lo, tendo, nesta ocasião, havido pessoas que deram
ouvido às afirmativas do jornalista. Conseguindo isso, passou
a atacar os méritos da obra e por fim provou sua ignorância,
negando que a mesma possuísse qualquer valor como a obra
de Sussmayr — sem se dar conta que se fosse de autoria deste
último, como seria possível que ele nunca tivesse escrito, antes
ou depois, algo semelhante.
15 de julho . A inimizade de Salieri adveio do fato de Mo-
zart ter continuado o Cosi fan tutte que o italiano tinha inicia-
do, mas da qual desistira por achar a obra indigna de inven-
tiva musical. O filho nega que ele o tivesse envenenado, em-
bora o pai assim pensasse e o próprio Salieri tivesse confes-
sado isso em seus últimos momentos, mas como vivera sem-
156
pre amargurado por cabalas e intrigas poder-se-ia dizer que
havia envenenado a vida de Mozart e seu pensamento e, se-
gundo o filho, isso teria influenciado o pobre homem na hora
da sua morte.
V. N . 15 de julho . Salieri tentou antes musicar esta ópera, mas
não o conseguiu, e o grande sucesso alcançado por Mozart
em realizar o que ele [Salieri] não conseguira fazer parece que
deu o rigem à inimiz ad e e ranco r em relação a Mo zart
(Sussmayr é amigo de Salieri). Cerca de seis meses [semanas?]
antes de morrer ele estava tão impressionado com a terrível
idéia de que alguém o havia envenenado com acqua tofana —
ele se queixou à esposa, certo dia, que sentia uma grande dor
na virilha e um amolecimento geral que se espalhava pelo
corpo todo em etapas — , que algum dos seus inimigos tinha
conseguido lhe administrar a mistura deletéria que lhe cau-
saria a morte, sendo que eles já podiam calcular o momento
preciso em que isto aconteceria. A incumbência do Réquiem
o feriu tanto quanto alimentou estes tristes pensamentos que
naturalmente resultaram na debilidade do seu estado de
saúde.
O grande sucesso da pequena ode maçónica que escreveu
por esta época alegrou seu espírito durante certo tempo, mas
as premonições melancólicas vo ltaram dentro de poucos
dias, quando retomou o trabalho do Réquiem. Certa ocasião
ele próprio com Sussmayr e Madame Mozart tentaram rever
juntos parte do Réquiem, mas algumas das passagens tanto o
excitaram que não pôde deixar de chorar e não conseguiu
prosseguir trabalhando.
Fiquei satisfeito em descobrir que tinha razão em supor
que õ Recordare (um dos mais divinos e encantadores movi-
mentos jamais escritos) era uma das suas peças favoritas.
Ela também confirmou ser verdade que dissera três dias
antes de morrer: "Fu i nomeado para uma posição que me
dará folga para escrever no futuro aquilo que eu gosto e me
sinto capaz de fazer, algo digno da fama que adquiri, mas em
vez disso sei que tenho que morrer."
Quantos gloriosos trabalhos o mundo perdeu com esta in-
feliz e prematura morte — pois, incomparáveis como são
seus trabalhos, não tenho a menor dúvida que ele ainda escre-
157
veria coisas melhores tais como Oratórios e outros grandes
trabalhos épicos caso vivesse.'
Uma das editoras alemãs mais interessantes e diligentes era a empresa de
André em Offenbach am Main, que entrou em contato com Constanze atra-
vés de Haydn quando este passou por Offenbach a caminho da Inglaterra
em 1792 e informou ao co-editor da empresa Johann Anton André qp,e ele e
o pai (fundador da editora) deveriam rapidamente comprar todos os traba-
lhos de Mozart da sua viúva. Passado um certo tempo, o jovem André foi
para Viena e fez exatamente isso. Constanze vinha negociando com a muito
mais conhecida firma de Breitkopf & Hártel em Leipzig, mas André era um
jovem insinuante e conseguiu, no ano de 1799, grande parte dos manuscri-
tos autografados de Mozart que passou a editar durante sucessivas décadas
em volumes de extraordinária erudição e precisão, i.e., a Missa em Dó me-
nor (K.427) em que ele deixou èm branco as passagens da particella de Mo-
zart que o compositor não havia preenchido , e o Kyrie em Ré menor
(K.341). Nestes dois casos os autógrafos já se perderam (partes da Missa
ainda existem, mas não o Benedictus), o que torna a edição de André nossa
fonte principal.
Johann Anton André era um jovem cheio de vivacidade, espirituoso e
sarcástico e também um compositor razoável. Começou a se interessar por
Mozart; não só pela obra do compositor, como também por sua vida, sendo
óbvio que acabaria por se envolver com o Réquiem. Disto resultou uma
grande e fascinante correspondência entre André e diversos amigos e co-
nhecidos com quem esperava esclarecer a história do Réquiem.10
Falando francamente, André achava toda a história do mensageiro e do
inseguro Mozart ter acreditado que a incumbência v inha do "Outro
Mundo" um montão de asneiras; numa carta de 10 de fevereiro de 1826,
escreveu para o genro, Johann Baptist Streicher, filho do famoso fabricante
de pianos de Viena, e amigo de Beethoven:
Acredito que a história difundida sobre o Réquiem não passa
de um conto de fadas inventado pela viúva de Mozart. Tenho
motivos para ter esta opinião e deverei enunciá-los, mas que-
ro proteger a viúva M. o quanto for possível; contudo, gos-
taria de receber informações sobre diversos assuntos que só
podem advir de Viena.
1. Quanto tempo depois da morte de Mozart começou a
circular a história sobre o "desconhecido"? Ou teria sidoum
fato conhecido durante a vida do compositor, nos seus últi-
mos dias?
158
2. Em que época o Réquiem de Mozart ficou conhecido em
Viena e sob quais circunstâncias?
Em outra carta, André exp lico u que a história do Réquiem segundo a
biografia de Niemetschek, que Constanze lhe havia recomendado, deveria
ser reexaminada por ele. "Niemtschek [sic] pode contar isto da maneira que
quiser, ainda assim acho que é um conto de fadas." A resposta de Viena foi
surpreendente, pois existem duas cartas sobre o assunto, a primeira de
Streicher (12 de março de 1826):
Posso lhe dizer o seguinte, garantido pela autenticidade do
Abade Stadler...
A história sobre o desconhecido (pedindo um Réquiem) já
era conhecida durante a existência de Mozart. A história é in-
teiramente verdadeira, e o homem que fez o pedido chama-se
Conde Walseck [sic] e ainda está vivo , mas isto deve ficar en-
tre nós.
O abade Stadler, amigo de Haydn e Mozart, inteligente músico, escreveu
pessoalmente para André, no dia 1? de outubro de 1826 de Viena:
Que o Conde Wallseeg [sic] pediu o Réquiem para Moz. é
uma coisa que soube logo após a morte deste último. Tam-
bém sabia o tempo todo das intenções do incumbente e tudo
o mais que estava sendo mantido em segredo. De tempos em
tempos recebi, sem pedir coisa alguma, notícias da família so-
bre este conde. Porém como não fica bem e é proibido re-
velarmos segredos, nunca me permiti, uma vez sequer, re-
velar o nome do incumbente, pois isto aconteceu através de
outras pessoas... O que é certo é que o próprio Moz. escreveu
os primeiros três movimentos até o Sanctus com bastante es-
forço, diligência e amor. Homens respeitáveis já declararam
publicamente terem se encontrado com Mozart, pouco antes
da sua morte, e que o mesmo estava muito entusiasmado com
este trabalho, sendo que três dias antes de Moz. ser levado
para o leito de onde nunca se levantou, ainda exausto, traba-
lhou nesta obra. O manuscrito original de Moz. e os magis-
trais movimentos que a obra contém foram reconhecidos por
todos os verdadeiros connoisseurs e estes movimentos, e so-
mente eles, são as verdadeiras testemunhas da obra. Tudo o
mais não interessa. Quem tenha examinado estes manuscri-
159
tos em detalhe deve admitir que Moz. foi o único compositor
desta obra e que Sussmayr não teve maior participação do
que qualquer pessoa treinada na realização de baixos cifra-
dos. Tudo o que é essencial vem de Moz.
Esta surpreendente confirmação da versão de Constanze sobre o Ré-
quiem, como ela relatou a Rochlitz, Niemetschek e os Novelio , não era co-
nhecida do mundo erudito até Wolfgang Plath, co-editor geral da nova edi-
ção da coletânea da música de Mozart, publicá-la no Mozart Jahrbuch
1976/77. A terrível história era simplesmente verdadeira, Mozart havia
visto "um cavalo pálido, e o seu cavaleiro se chamava Morte..."
Na segunda metade de outubro de 1791 o fato do tempo ter sido abomi-
nável não ajudou de forma alguma a saúde de Mozart; podemos, hoje em
dia, reconstituí-lo baseando-nos em registros contemporâneos. Os únicos
dias quentes em que Constanze pode ter levado o marido para passear de
carruagem no Prater foram 20 e 21 de outubro quando a temperatura às 3
horas da tarde deve ter se elevado a 18" C. De outra forma, o período entre
16 de outubro-15 de novembro parecia o fim do mundo. Entre 27 e 28 de
outubro, depois de muita chuva, houve uma repentina nevasca que caiu
durante várias horas e só cessou umas poucas horas, ao meio-dia do dia 29.
No dia 31 houve outra nevasca que durou várias horas, eno dia 1? de no-
vembro houve uma pesada e frequente queda de neve acompanhada de for-
tes ventos, uma temperatura típica de janeiro e fevereiro. Em algumas par-
tes do país os grãos não tinham sido colhidos, de forma que tiveram que ser
abandonados.
Esse tempo horrível é sem dúvida a origem do mito de "chuva e neve"
durante o enterro de Mozart; como veremos, o tempo já havia melhorado
bastante por aquela altura, embora na mente das pessoas tenha ficado a
imagem de que a morte de Mozart fora acompanhada pela chuva, granizo e
neve, quando na verdade foi precedida por esse péssimo tempo — o que
certamente apressou a morte de Mozart, tanto quanto a acqua tofana ou as
intrigas de Salieri.
Um memorando não datado de Carl Thomas Mozart, o filho mais velho,
é também valioso. Numa das passagens lê-se o seguinte:
Particularmente extraordinário é, na minha opinião, o fato de
que alguns dias antes da morte do meu pai, seu corpo se tives-
se tornado tão inchado que o paciente não fosse capaz de fa-
zer o menor movimento; além do mais havia um fedor que
160
refletia a desintegração interna e que aumentou depois da
morte e de tal forma que tornou impossível uma autópsia.
Outra circunstância estranha é que o cadável não se tornou
rígido e frio e sim, como foi o caso do Papa Ganganelli e das
pessoas que morreram envenenadas por plantas, permaneceu
flexível e elástico.
Geralmente se acreditava que Ganganelli (Papa Clemente XIV ) tinha
morrido desta mesma maneira, mas a suposição no caso de Mozart é um
disparate em termos de medicina; o corpo de Mozart ficou "flexível e elás-
tico" após a morte porque as células coletaram água através da hidropisia
que é uma característica do colapso terminal dos rins."
Os pareceres médicos mais recentes sobre a morte de Mozart estão no
próximo capítulo, enquanto neste, só ateremos às crónicas contemporâ-
neas. De qualquer modo, se a gélida temperatura invernal em outubro tra-
zia fortes presságios mesmo para os vienenses mais saudáveis, o período
crucial "incubatório" de 11-20 de novembro foi úmido e instável, indo de
brouillard de froid (névoa gélida) a sirocco até chaud et grand vent (vento
forte e quente):12 o barómetro continuava caindo e o vento sul anormal-
mente quente, úmido e opressivo — o Fõhn tão temido em diversas partes
da Europa central por ser o causador de todos os males, desde as avalanches
até a dor de dentes — ensejou um ataque de reumatismo em Mozart. E
sobre a luz de recentes conhecimentos médicos que nos voltamos para ou-
tros documentos na tentativa de reconstruir o último mês da vida do com-
positor, empregando apenas fontes contemporâneas ou relatos de testemu-
nhas oculares.
Um curioso relato sobre o Réquiem apareceu no Salzburg Intelligenz-
blatt de 7 de janeiro de 1792:
Sobre Mozart — Uns meses antes de sua morte ele recebeu
uma carta não assinada, pedindo-lhe que compusesse um Ré-
quiem e que especificasse a quantia desejada para fazê-lo.
Como a idéia não agradasse de forma alguma ao compositor,
ele pensou: — Pedirei tanto que o amador \ Liebhaber] desis-
tirá da empreitada. No dia seguinte um criado veio buscar a
resposta; Mozart escreveu ao desconhecido que não poderia
assumir o trabalho por menos de 60 ducados e além do mais
não poderia iniciar a obra antes de dois ou três meses. O cria-
do voltou, em seguida, com 30 ducados, dizendo que voltaria
outra vez no prazo de três meses e quando a Missa estivesse
pronta traria a outra metade do dinheiro. Destarte, Mozart
161
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teve que escrever a obra, o que fez, às vezes com lágrimas nos
olhos, sempre dizendo: "Esto u escrevendo este Réquiem
para mim mesmo." Terminou a obra uns dias antes de morrer.
Quando se soube da sua morte, o criado voltou à casa do
compositor com os 30 ducados restantes, não inquiriu pelo
Réquiem e desde então ninguém mais reclamou a obra que
deverá ser apresentada, assim que for copiada, em memória
do compositor, na Igreja de São Miguel [em Salzburg].11
A explicação para este relato é extremamente simples: por esta época
(princípio de janeiro) Constanze e seus conselheiros haviam decidido ter-
minar o Réquiem para poder coletar o restante do dinheiro devido ao fale-
cido marido; portanto, ela estava ansiosa em dar a impressão de que o com-
positor o hav ia terminad o . Enquanto isto , a equipe de Sussmay r,
Freystàdler e outro jovem trabalhavam (talvez não simultaneamente) no
términoda obra, usando Sussmayr como principal copista "porque sua letra
era a mais parecida com a de Mozart" (razão pela qual ele fora escolhido para
falsificar a assinatura do compositor no alto do canto direito da primeira
página: "d i me W: A : Mozart mpria. 792"). O terceiro membro da equipe do
Réquiem era um amigo de Haydn e protegido de Mozart: Joseph Eybler, a
quem Mozart obviamente considerava mais talentoso do que Sussmayr.
A partitura apresentada a Walsegg então incluía o começo do Introitus
(Réquiem aeternam) no manuscrito completo autografado por Mozart com
a assinatura falsificada por Sussmayr;1'1 o Kyrie com o esboço manuscrito
autografado por Mozart preenchido por Freystàdler e Sussmayr, e o res-
tante do trabalho copiado ou composto por Sussmayr.
Numa nota autobiográfica para o Allgemeine Musikalische Zeitung, Ey-
bler escreveu o seguinte: "Tive a sorte de manter a amizade de Mozart in-
cólume até a hora da sua morte, de forma que pude ajudá-lo durante sua
dolorosa doença final, levantando-o, deitando-o e ajudando-o ..."" E bas-
tante possível que Eybler tenha na verdade preenchido os trechos do Dies
irae até a Hóstias (que Mozart só havia escrito em particella) diretamente
sob a supervisão do próprio Mozart: foram escritos do lado direito no ma-
nuscrito de Mozart e são incomparavelmente superiqres às edições de
Sussmayr, especialmente os trechos para a trompa e tímpano do Dies irae.
Um certo esclarecimento, neste assunto incrivelmente complexo, foi feito
através da pouco conhecida carta de Constanze, datada de Salzburg 31 de
maio de 1827, ao Abade Stadler, velho amigo da família, que havia re-
cém-granjeado a carinhosa gratidão de Constanze por haver defendido o
Réquiem contra uma calúnia publicada num jornal alemão:
162
Não posso agir de outra forma a não ser relatar-lhe, assim
como a todos os amigos de Mozart, a história do Réquiem,
que é a seguinte: que Mozart nunca pensou começar um Ré-
quiem [em qualquer outra época] e geralmente me dizia que
aceitou este trabalho (i.e., a incumbência feita pelo Anónimo)
com o maior prazer, uma vez que se tratava do seu género
favorito [i.e., música sacra] e que iria realizá-lo e compô-lo
com tal fervor que seus amigos e inimigos o estudariam após
sua morte; "se ao menos pudesse ficar vivo durante este
tempo, pois esta será minha obra-prima e meu canto do
cisne." E ele o compôs com grande fervor; quandose sentia fra-
co, Sussmayr geralmente tinha que cantar comigo e com ele
[Mozart] o que havia escrito e desta forma Sussmayr recebia
verdadeiras aulas de Mozart. E posso ouvi-lo , quando costu-
mava dizer para Sussmayr: " Ei , não fique aí parado como um
pato sob a tempestade; você vai demorar um certo tempo
para compreender isto" e pegava a pena e escrevia os princi-
pais trechos que, creio , eram complicados demais para
Sussmayr. Podemos acusar Mozart de não ser muito ordeiro
com seus papéis e às vezes perder partes do que estava com-
pondo e para ganhar tempo em vez de procurar esses trechos
simplesmente os reescrevia; e é por isso que acontece sur-
girem as mesmas coisas duas vezes, embora a segunda versão
não fosse nada diferente da primeira, pois uma vez tendo de-
cidido dentro da massa de pensamentos, esta idéia permane-
cia sólida como uma pedra e nunca era mudada; o que pode
ser verificado através das suas partituras também, pela forma
bonita, eficiente e limpa com que foram escritas, onde não se
vê uma nota alterada. Vamos imaginar que Sussmayr encon-
tre uns rascunhos de Mozart (para o Sanctus, etc) , isto signi-
ficaria que o Réquiem é afinal de contas uma obra de Mozart.
— O fato de eu ter dado a Eybler para terminá-lo se deu por
estar eu então (não me lembro por que) zangado com
Sussmayr, além do próprio Mozart considerar muito Eybler.
Pensei também que qualquer pessoa poderia fazê-lo, uma vez
que os trechos principais já estavam escritos. Por isso mandei
chamar Eybler e lhe expus meus desejos, mas como ele ime-
diatamente se negasse com belíssimas desculpas, não recebeu
a encomenda...'6
A última afirmativa é errónea: Constanze se esqueceu que, em 21 de dezem-
163
F I G . 10
A assinatura de Mozart no manuscrito autografado do Réquiem (fig. 10) foi na ver-
dade falsificada por Sussmayr — uma descoberta divulgada pela primeira vez no
livro Mozarts Tod (1971) — e datada de 1792. Assinaturas autenticas de Mozart:
fig. 11 (1784). fig. 12 (Ave Verum, 1791, figura também na capa), fig. 13(1790).
Assinatura de Mozart no manuscrito autografado da Kleine Freymaurer-Kantate K.
623 (fig. 14).com a data de 15 novembro de 1791.Note-se que na assinatura falsifi-
cada por Sussmayr. no Réquiem, a letra 'M' foi começada no canto inferior es-
querdo, enquanto as assinaturas autênticas de Mozart começam todas no meio da
letra. Figs. 15-17: assinaturas de Sussmayr. a partir de 1792/3.
164
bro de 1791 havia entregue a partitura para Eybler, que lhe havia dado um
recibo.17 Entretanto, Eybler já poderia ter feito a complementação, de forma
que Sussmayr estava ofendido com eles e com os comentários sarcásticos de
Mozart; ou talvez Eybler examinasse melhor a partitura e depois de consi-
derar o assunto por um ou dois dias o houvesse devolvido "com belíssimas
desculpas". Trata-se apenas de um detalhe do qual Constanze se esqueceu.
Ou talvez, Eybler realmente houvesse levado o manuscrito para casa, com-
pletado as partes faltosas (instrumentais) do autógrafo de Mozart e decidido
que seria muito trabalhoso compor o restante de forma digna.
Constanze então chamou Sussmayr, com quem estava zangada (e ele se-
guramente com ela) e o persuadiu (teria havido dinheiro nesta transação) a
terminar a obra. Ela entregou a Sussmayr tudo o que encontrou e talvez ele
a tivesse ajudado nesta busca, embora deva ter ficado sentido em não ter
sido o primeiro escolhido, apesar de Mozart obviamente ter discutido o Ré-
quiem com ele e até lhe cantado alguns trechos. Na verdade existe uma ou-
tra razão até mais convincente por que ele estaria com o orgulho ferido e
Constanze "com raiva" dele: Sussmayr já se havia bandeado para o grupo de
Salieri! Devemos observar que Constanze ao se referir a Sussmayr com os
Novelio descreveu o jovem como amigo de Salieri e não de Mozart e o fez
dentro do contexto da inveja de Salieri por causa do extraordinário episó-
dio do Cosi fan furte: isto foi "que deu origem à inimizade e ao rancor em
relação a Mozart (Sussmayr é amigo de Salieri)". E como isto aconteceu? A
resposta está, na minha opinião, nos arquivos da capela da corte (atual-
mente na Biblioteca Nacional da Áustria em Viena):
O abaixo-assinado declara então que foi corretamente pago
no escritório de contabilidade do Imperial Real Teatro Nacio-
nal pelos serviços realizados para a Imperial Real Capela da
Corte, substituindo Herr Franz Hofer, violinista, que no mo-
mento estava ocupado em Laxenburg [onde a Corte passava o
verão e assistia óperas, além de música sacra]
12 de junho : Missa Solene no domingo
13 de junho : Missa Solene na segunda
2.-f
2.-f
Total 4.-f
Viena, 30 de julho 1791
Revisto por mim
Ant. Salieri
Mestre Capela18
Franz Xaver Sussmayr
165
Em outra carta, não datada, Sussmayr se recomenda como "questa mia cre-
atura catholica" para obter a proteção de Salieri." É óbvio que Sussmayr
achava que seu futuro estaria mais garantido com Salieri do que com Mo-
zart, e em 1791 já parecia ter posto o pé dentro do "terreno inimigo". Como
leva-e-traz não deve ter sido um grande sucesso. Todos estes detalhes de-
vem ser levados em conta ao se avaliar os documentos deste turbulento
período.
Escrevendo sobre A Flauta Mágica, em 1798, Rochlitz diz que Mozart
"gostava muito desta ópera, embora risse de certos números que eram os
que recebiam mais aplausos".
Fo i levada em Viena quase ininterruptamente e quase tanto
quanto antigamente se levava As bodas de Figaro de Beau-
marchais em Paris, porém a doença de Mozart piorou a tal
ponto que ele só pôde reger [comparecer?]as primeiras dez
representações. Quando não lhe foi mais possível ir pessoal-
mente ao teatro, com muita tristeza colocava o relógio ao seu
lado e ouvia a música em sua imaginação.
"Agora eles terminaram o I Ato — agora é o trecho Dir
grosse Kõnigin der Nacht [Cena 30 do II Ato quase antes do
final]", e assim por diante.2"
A próxima citação extensiva é a famosa carta que Sophie Haibel escreveu a
Nissen para ser incluída na biografia (usei a carta original e não a transcri-
ção abreviada de Nissen). A correspondência partiu de Diakovar onde o
marido de Sophie, Jakob Haibel, era mestre do coro:
Sophie Haibel a Georg Nikolaus von Nissen, Salzburg
Dfiakovar], 7 de abril de 1825
Devo lhe falar agora sobre os últimos dias de Mozart. Bem,
Mozart tornou-se mais e mais apegado a nossa querida e fale-
cida mãe, o mesmo se dando com ela. Na verdade frequente-
mente v inha correndo em grande pressa para o Wieden
(quando ela e eu nos hospedávamos no Goldener Pflug), car-
regando debaixo do braço uma pequena sacola contendo café
e açúcar que entregava à nossa boa mãe, dizendo: "Aí está,
mamãe querida, agora podes tomar um pequeno Jause [café
da tarde]." Ela ficava tão encantada com isso como uma cri-
ança. E ele fazia isto sempre. Em resumo, Mozart nos últimos
tempos nunca vinha nos ver sem trazer alguma coisa.
166
Quando Mozart caiu doente, nós duas lhe fizemos uma ca-
misola de dormir que ele podia colocar de frente, uma vez
que dada sua inchação não lhe era possível virar-se na cama.
Em seguida, como não soubéssemos quão seriamente doente
estava, lhe fizemos um robe acolchoado (embora, na verdade,
sua esposa, minha irmã, tenha nos dado o tecido para as duas
roupas) para que, quando se levantasse, tivesse tudo de que
necessitasse. Nós o visitávamos constantemente e ele parecia
ansioso em experimentar o robe. Eu costumava ir à cidade
diariamente para visitá-lo. Pois bem, um sábado [3 de dezem-
bro] quando estava com ele, Mozart me disse: "Querida So-
phie, diga a Mamãe que estou razoavelmente bem e que serei
capaz de cumprimentá-la na oitava do dia do seu onomás-
tico." *Quem poderia ter ficado mais feliz do que eu em trans-
mitir estas boas novas para minha mãe, que sempre estava
muito ansiosa em saber notícias dele? Portanto , corri para
casa para reconfortá-la ainda mais que ele realmente parecia
alegre e feliz. No dia seguinte [4 de dezembro] era domingo e
naquela época eu era jovem e bastante vaidosa, devo confes-
sar, e gostava de me vestir bem. Entretanto, jamais gostei de
usar minhas melhores roupas para sair do subúrbio para ir à
cidade, e como não tinha dinheiro para ir de carruagem, disse
para nossa boa mãe: "Querida Mamãe, não vou visitar Mo-
zart hoje. Ele estava tão bem ontem que certamente deve estar
bem melhor esta manhã, de modo que um dia mais, um dia
menos não fará d iferença." "Bem — disse minha mãe, —
ouça aqui, me faça uma xícara de café e eu lhe direi o que você
deve fazer." Na verdade ela estava com vontade que eu ficasse
em casa, embora minha irmã soubesse o quanto eu gostaria
de poder estar com ela. Fui para a cozinha, o fogareiro estava
apagado de modo que tive que acender a lamparina para fazer
fogo, pensando todo o tempo em Mozart enquanto fazia o
café e a lamparina bruxuleava. Aí me dei conta de que estava
gastando muito com a lamparina queimando tarlto querosene
e ainda brilhando com intensidade. Olhei para a chama e
pensei comigo mesma: "Como adoraria saber como Mozart
está passando!" E enquanto pensava isso e olhava para a cha-
ma, ela se apagou tão completamente como se nunca tivesse
*Um a oitava correspondia ao oitavo d ia de qualquer festividade. ( N . do T. )
167
sido acesa. Nem uma fagulha restou no pavio principal em-
bora não houvesse a menor corrente de ar — isto eu juro .
Uma terrível sensação tomou conta de mim. Corri até minha
mãe e contei-lhe tudo. Ela disse: "Então tire estas roupas
caras e vá para a cidade e me traga notícias dele. E tome cui-
dado para não se atrasar muito ." Andei o mais depressa possí-
vel, e Céus! quão assustada fiquei quando minha irmã que já
estava ficando desesperançada, mas mesmo assim tentando
manter a calma, veio ao meu encontro, dizendo: "Graças a
Deus você veio, minha querida Sophie. A noite passada ele
esteve tão mal que achei que não estaria vivo hoje de manhã.
Fique comigo hoje pois se ele piorar mais, certamente morre-
rá hoje à noite. Vá até o quarto e veja como ele está passando."
Tentei me controlar e fui até a cabeceira do doente. Chamou-
me para junto dele e disse: "A h, querida Sophie, que bom
que você veio. Precisa ficar aqui esta noite para me ver mor-
rer." Tentei com todas as forças ser corajosa e persuadi-lo do
contrário, mas depois de todas as minhas tentativas ele só re-
trucava: "Ora, já tenho o gosto da morte na boca. E se você
não ficar, quem vai consolar minha pobre Constanze depois
que eu partir?" "Está bem, meu caro Mozart", disse eu, tran-
qúilizando-o," mas primeiro tenho que voltar até a casa da
nossa mãe para avisar que você me pediu para eu passar a
noite com vocês, senão ela vai pensar que lhe aconteceu al-
guma desgraça." "Então faça isto ", disse Mozart, "mas
volte logo." Meu Deus! Quão nervosa fiquei! Minha pobre
irmã me acompanhou até a porta e pediu pelo amor de Deus
que fosse ter com os padres de São Pedro e implorar que um
deles viesse ver Mozart — era uma chance em mil, mas eu
tinha que tentar. Foi o que fiz e durante muito tempo os pa-
dres se recusaram a me atender, de maneira que tive muito
trabalho em convencer um desses cléricos estúpidos a ir aten-
dê-lo. Em seguida corri até minha mãe que estava me aguar-
dando ansiosamente. Por esta altura já estava escuro. Pobre
alma! Ficou tão chocada! Consegui convencê-la a passar a
noite com a filha mais velha, a falecida Josepha Hofer. Depois
corri o mais rápido possível para a casa da minha desacorçoa-
da irmã. Sussmayr estava na cabeceira de Mozart. O célebre
Réquiem estava sobre o acolchoado e Mozart explicava para
ele como, segundo sua opinião, deveria ser terminado o tra-
balho depois que ele morresse. Além do mais instou com a
168
esposa para manter sua morte em segredo até que ela tivesse
informado Albrechtsberger que estava encarregado de todos
os serviços da Catedral dê Santo Estevão. Procurou-se por
muito tempo o Dr. Closset que foi encontrado no teatro, mas
que só veio depois de encerrada a peça. Ele receitou cataplas-
mas frios que deveriam ser aplicados na testa febril de Mozart
que, no entanto, o afetaram de tal forma que ele ficou incons-
ciente e assim permaneceu até morrer. Seu último mo vi-
mento foi uma tentativa de expressar com a boca os trechos
de tambor do Réquiem que até hoje ainda posso o uv ir.
Muller21, da Galeria de Arte, veio e tirou um molde do pálido
rosto do morto. Não tenho palavras, querido irmão, para des-
crever como a devotada esposa em seu total desespero se
atirou ao chão de joelhos, implorando ao Todo-Poderoso por
Sua ajuda. Simplesmente não conseguia se separar de Mozart,
embora eu suplicasse que ela o fizesse. Como se fosse possível
aumentar a dor que sentia, no dia seguinte àquela terrível no i-
te, multidões de pessoas vieram velar o corpo, chorar e se la-
mentar da perda.22
Sophie Haibel relatou esta apavorante história outra vez, quatro anos
mais tarde, para os Novelio em Salzburg.23 Incluí toda a transcrição na Nota
23, mas quero enfatizar, neste momento, apenas dois pontos: os dois No-
velio citam Sophie dizendo que Mozart morreu em seus braços: "o Doutor
insistiu nas suas instruções e Madame Haibl aplicou uma toalha molhada
na testa do paciente. Mozart imediatamente teve um pequeno arrepio e
pouco tempo depois expirou nos braços da cunhada. Neste momento as
únicas pessoas no quarto eram Madame Mozart, o assistente do médico e
ela própria. O quarto em que ele morreu era o da frente, que dava para a rua,
localizado no primeiro andar". O segundo ponto é a enumeração precisa
das pessoas presentesno quarto.
Nissen fez uma série de apontamentos para sua biografia, usando infor-
mações de Constanze; eis a seguir uma delas, que não foi aproveitada e que
nos dá um vivo retrato das derradeiras horas de Mozart naquele domingo,
dia 4 de dezembro de 1791:
Sua morte acirrou a atenção do público. A s pessoas paravam
na rua, em frente das janelas do apartamento e acenavam com
seus lenços. Ele perguntou à esposa o que o Médico Closset
havia dito. Ela respondeu consolando-o, ao que ele retrucou:
"Não é verdade!" E ficou muito deprimido : "A gora devo
169
morrer quando poderia cuidar de você e das crianças. Ach,
agora vou deixar você desamparada." 24
De repente começou a vomitar — gurgitando para fora,
formando um arco — um líquido marrom e estava morto.
Um jovem protegido de Mozart, Ludw ig Gall, relatou que na manhã se-
guinte ele
veio até a cidade por Landstrasse para ir ao agente musical
Lausch e quando lá chegou este disse: "Imagine que desgra-
ça nos aconteceu! Mozart morreu ontem à no ite!" Bastante
transtornado corri imediatamente para o apartamento, ainda
duvidando da informação de Job, mas, por Deus, logo me
convenci da triste verdade. — Mad. Mozart pessoalmente me
abriu a porta do apartamento e me conduziu para um peque-
no quarto à esquerda, onde v i o falecido Mestre no esquife,
deitado num caixão, vestido num traje preto, um capuz sobre
a testa, cobrindo seu cabelo louro, as mão cruzadas sobre o
peito ..."
Mais tarde, naquele mesmo dia, um dos patrocinadores de Mozart, Gott-
fried van Swieten, foi demitido através de um Memorando Imperial da po-
derosa função de Presidente da Comissão de Educação da Corte. (O Conde
havia desempenhado um importante papel em assuntos educacionais e de
censura durante o governo de José II , mas a limpeza de Leopoldo estava
atingindo diversos órgãos.)26 Entretanto, Swieten arrumou tempo para ir ao
apartamento de Mozart e começou a tomar providências em relação ao en-
terro. Muitos anos depois, Constanze disse a Nissen que tinha sido levada
para fora, primeiro para a casa de Herr Bauernfeind. Os estudiosos asse-
veram que trata-se de um erro de grafia, sendo o nome correto Joseph von
Bauernfeld, o "sócio silencioso" de Schikaneder, embora também existisse
um Joseph Bauernfeind que havia sido, em 1785, um aprendiz na Loja Zur
gekrõnten Hoffnung, em cuja lista de membros é citado como funcionário
da Chancelaria da Corte Conjunta Real Imperial.27 (Em outro registro da
Corte — o Hof-Schemaúsmus de 1789 — ele é novamente citado como
funcionário na Chancelaria Co njunta Boêmia-Austríaca: "Sr. Joseph
Bauernfeind mora na Leopoldstadt 232.") Mais tarde Constanze foi levada
para a casa do (mal) afamado "Herr Goldhann", Joseph Odilio Goldhann
(Go ldhahn)28 que apareceu proeminentemente como um dos potenciais
(ou talvez verdadeiros) agiotas de Mozart e que assinou a lista oficial dos
pertences do compositor26 no dia 7 de dezembro, como testemunha, "mas
170
sem ficar em desvantagem ou ser de forma alguma responsável". Desse do-
cumento e de outros que enumeram os bens de Mozart e o conteúdo do
apartamento, fica patente que Constanze não adoeceu em seguida, perma-
necendo na casa a maior parte de dezembro, especificamente nos dias 9,16,
19 e 20, quando recebeu os documentos oficiais e foram feitos os inven-
tários.
Mozart morreu à meia-noite e cinquenta e cinco minutos, segunda-leira,
dia 5 de dezembro. Temos esta informação precisa através de uma carta
assinada por Maria A nna (Nannerl), irmã de Mozart, datada de abril de
1792.30 O diário de Zinzendorf informa que o tempo estava "bom. Três ou
quatro faixas de névoa por dia. durante um certo tempo; esta temperatura
excepcionalmente agradável continuou no dia seguinte, além dos frequen-
tes nevoeiros sem ventos".31
No Registro de Óbitos da Cidade de Viena,32 no dia 5 de dezembro, está
escrito o seguinte: "Mozart, Senhor Nobre: Wolfgang Amadeus. Kapell-
meister Imperial e Compositeur de Câmera, nascido em Salzburg, na Pe-
quena Kaiserhaus n.° 970, em Rauhensteingasse, de febre miliar aguda [hit-
ziges Frieselfieber], tendo sido o corpo examinado, 36 anos [ret. 35] ."
Fo i sugerido a Constanze, dada a sua situação financeira, que desse a
Mozart o funeral mais barato possível. Portanto, ela pagou um enterro de 3:'
classe: 4 f l . 36 kr. despesas com a paróquia; 4 f l . 20 kr. despesas com a
igreja; a carreta que levou o corpo de Rauhensteingasse até a Catedral de
Santo Estevão e em seguida ao cemitério de São Marx custou 3 gulden."
Esta última viagem do Imperial Real Kapellmeister foi reconstituída da
seguinte maneira (imaginando-se que o enterro tivesse ocorrido dia 6 de
dezembro, e não mais tarde, dado o pútrido estado do corpo):
Perto das 2:30 o corpo de Mozart foi levado do apartamento
em Rauhensteingasse, colocado na carreta fúnebre na rua e
então levado ao Santo Estevão, onde o cortejo fúnebre espera-
va. Do lado norte, numa capela conhecida (popular, mas er-
roneamente) como "A Capela do Crucifixo ", na antiga entra-
da para a cripta (e do lado oposto ao apartamento do coveiro),
o caixão foi colocado sobre o esquife; seguindo-se a primeira
bênção, chamada "bênção da casa" feita pelo padre que se
aproximou com o crucifixo e os ministrantes. Isto explicaria a
curiosa versão do por quê Mozart teria recebido a bênção sob
o céu aberto (seria por causa da putrefaçãb?). Em seguida o
pequeno cortejo fúnebre começou a entrar na Catedral, talvez
passando pelo "Portal do Sacristão" do lado norte em frente
ao palácio do Príncipe Arcebispo, provavelmente chegando
171
na verdadeira "Capela do Crucifixo " que ficava localizada jus-
tamente ali dentro; neste lugar foi dada a bênção eclesiástica.
Após o término da cerimónia, a pequena procissão saiu outra
vez em direção ao Púlpito Capistranus (novamente no lado
externo norte), onde a carreta fúnebre aguardava para condu-
zir o caixão na sua última viagem até o Cemitério São Marx.34
São Marx é um subúrbio de Viena, distante mais ou menos uma hora a pé
do centro. Ninguém do cortejo fúnebre — não sabemos os nomes dos parti-
cipantes — quis acompanhar o corpo e ninguém, durante anos, se preocu-
pou em saber onde Mozart tinha sido enterrado: como consequência, sabe-
mos apenas a área aproximada do cemitério sob a qual, em algum lugar, jaz
'o maior génio da música.
Mozart mantinha um livro de apontamentos (Stammbuch), onde Cons-
tanze — com 30 anos — escreveu o seguinte:
O que você escreveu nesta página para seu amigo,35
Escrevo agora, com profunda reverência, para você,
Querido amado marido! Mozart, inesquecível para mim
e para toda a Europa —
Agora você está bem — bem para sempre!
Uma hora após a meia-noite entre 4 e 5 de dezembro deste
ano
Ele partiu, no seu 36:' ano — Ó! tão repentinamente! —
deste bom — mas ingrato mundo — O Deus!
Durante oito anos estivemos ligados pelo mais terno e
inseparável laço deste mundo,
Ó! Se eu pudesse logo me juntar a você para sempre.
Sua esposa desesperada demais
Constanze Mozart née Weber
Viena, 5 de dezembro de 1791
Na segunda edição (1808) da biografia de Niemetschek lemos o seguinte
epitáfio escrito por um dos colegas compositores de Mozart em Viena:
Um compositor, de forma alguma desconhecido, morando
em Viena, disse para um colega, na morte de Mozart, com
bastante sinceridade e retidão: "É claro que é uma pena per-
der um grande gêniõ, mas é bom para nós que ele tenha mor-
172
rido, porque se ele vivesse mais anos, realmente o mundo não
daria uma migalha de pão pelas nossas composições."36
Levou talvez duzentos anos para o mundo compreender totalmente e em
todos os seus aspectos o que esta perda significou para a música — e para a
humanidade. Haydn disse: "A posteridade não verá um talento igual em
100 anos!"37 A posteridade não v iu nem em duzentos.
173
XII
MITOS E TEORIA S
Amorte repentina de Mozart imediatamente deu origem a todo tipo de especulações sobre sua causa real e em pouco tempo começarama sur-
gir boatos sobre o envenenamento. Pouco depois do Ano Novo de 1791,
um jornal de Berlim publicou a seguinte notícia:
Mozart está — morto. Voltou de Praga sentindo-se doente;
pensaram que tivesse contraído hidropisia e ele morreu em
Viena. Por ter seu corpo inchado após a morte, diversas pes-
soas acharam que ele tivesse sido envenenado...1
Já vimos que o filho de Mozart, Carl Thomas, achou a inchação do cadá-
ver do pai estranha, senão suspeita, embora suas referências sobre um enve-
nenamento fossem bastante oblíquas. Contudo, com a passagem do tempo
a teoria do envenenamento foi esquecida. Constanze nunca pareceu dar
muito crédito a estes boatos, embora citasse que o próprio Mozart acredi-
tava nisso (vide as conversas que manteve com os Novelio). Porém em 1820
um acontecimento dramático reabriu a teoria sobre o envenenamento de
uma forma particularmente grotesca, vindo a formar a base para a já legen-
dária peça de Peter Shaffer, Amadeus, cujo protagonista não é Mozart e sim
Antonio Salieri.
Salieri já era o Kapellmeister da Corte quando Mozart chegou a Viena
para fixar residência em 1781 e ao contrário deste, que ainda tinha uma
carreira operística a fazer em Viena, aquele já era uma figura prestigiada na
corte (especialmente por José II) — e portanto também pelo aristocrático
público do teatro de ópera. Em breve, Salieri faria imenso sucesso em Paris
com sua nova ópera francesa Les Danaides (1784), anunciada a princípio
como uma composição conjunta de Gluck e seu aluno Salieri. Reprisada
com sucesso em 1985, Les Danaides mostra um Salieri em seu auge, em-
bora quando não muito inspirado, se torne um autor comum e de forma
alguma comparável a Mozart. Bastou uma geração para que a popularidade
de Salieri declinasse e por fim morresse, embora na década de 1781-91
tanto ele, quanto sua música, estivessem nà vanguarda da vida operística de
175
Viena. O curioso é que apesar do seu sucesso, Salieri, na verdade, parecia
ter muita inveja de Mozart, como atestam diversas fontes contemporâneas.
No nosso relato, Salieri necessariamente ocupa um segundo lugar dentro
do dramático último ano de Mozart; entretanto, o italiano fora um espinho
na vida do músico austríaco durante a última década da sua vida, pois atra-
vés de inúmeras intrigas tornou a carreira operística de Mozart muito mais
penosa do que seria necessário.
Em outubro de 1823, Ignaz Moscheles, aluno de Beethoven, se encon-
trava em Viena e decidiu tentar visitar o velho Salieri que neste ínterim ha-
via sido transferido para o Hospital Geral no subúrbio de Alservorstadt.
Salieri não estava apenas muito velho, como também muito doente, e para
visitá-lo Moscheles teve que obter a permissão da sua filha solteira como
também das autoridades.
Fo i uma triste reunião. Sua aparência me chocou e ele só fala-
va, em frases entrecortadas, sobre sua morte iminente. Mas
no fim da entrevista, disse: "Embora e^ta seja minha última
doença posso lhe garantir, sob minha palavra de honra, que
não existe qualquer verdade neste absurdo boato de que eu
teria envenenado Mozart. Na verdade se trata de intriga, pura
intriga, portanto diga ao mundo, querido Moscheles, que o
velho Salieri, prestes a morrer, lhe disse isso ."2
Pouco tempo depois, em novembro de 1823, Salieri tentou, sem suces-
so, cometer suicídio. Beethoven acompanhou os acontecimentos através de
amigos que lhe escreviam. Schindler, copista de Beethoven, relatou:
Salieri está novamente mal. Está totalmente arruinado. Sofre
de fantasias de que foi responsável pela morte de Mozart, ha-
vendo-o envenenado. Isto é verdade — e ele deseja con-
fessar...
Em outra nota, ligeiramente anterior, um jornalista vienense chamado
Johann Schickh escreveu: "Aposto 100 contra 1 que a declaração de Salieri
é verdadeira. A forma pela qual Mozart morreu confirma esta assertiva." Os
livros de conversação de Beethoven estão saturados com este assunto, com
o qual o compositor parecia impressionado. No início de 1824, Schindler
escreveu:
O senhor está outrçt vez de tão mau humor, grande mestre —
o que aconteceu? Onde foi parar seu bom humor ultima-
176
mente? — Não leve isto muito a sério, pois é a sina dos gran-
des homens! A inda existem muitos homens vivos que podem
atestar como ele [Mozart] morreu e se apresentava ou não sin-
tomas de envenenamento. Ele [Salieri] ainda conspurcará
Moz. mais com seu descrédito do que Mozart o feriu.
Mesmo depois da morte de Salieri, o sobrinho de Beethoven, Carl, escre-
veu: "A inda estão dizendo com grande convicção que Salieri foi o assassino
de Mozart."3
O biógrafo italiano de Haydn, Giuseppe Carpani, partiu vigorosamente
em defesa de Salieri em setembro de 1824, publicando uma enorme carta
num jornal italiano4, onde declarou:
Mozart foi envenenado? Sim? Onde estão as provas? Inútil se
perguntar! Não há provas e será também impossível desco-
bri-las, porque Mozart contraiu uma febre reumática infec-
ciosa que não só o atacou, como também matou todos aque-
les que a contraíram, durante aquele período. Os esforços e a
experiência de dois dos mais famosos professores de medi-
cina, Closset e Sallaba, foram inúteis, como também as lágri-
mas dos filhos, as rezas da esposa e a esperança de toda a ci-
dade de Viena em pro l do querido maestro.5
Carpani teve a sorte de encontrar um médico que havia sido consultado
sobre a doença e a morte de Mozart, o Conselheiro da corte Eduard Vincent
Guldener von Lobes, e requisitou-lhe uma carta, negando com indignação
qualquer envenenamento.6 Fo i enviada também uma carta para o aluno de
Haydn, Sigismund von Neukomm, então morando em Paris, em que se lê:7
É com grande prazer, senhor, que me apresso em lhes comu-
nicar tudo que sei em relação à doença e morte do grande
Mozart. No outono de 1791 ele caiu doente com uma febre
inflamatória que naquela estação estava tão predominante
que poucas pessoas escaparam totalmente da sua influência.
Eu só tomei conhecimento disto depois do compositor estar
sofrendo deste mal; mas recebia informações do Dr. Closset,
que o visitava diariamente e que considerava o estado de Mo-
zart perigoso, acrescentando que desde a aparição do primei-
ro sintoma temera pelo desenlace fatal: uma convulsão
cerebral. Um dia, encontrou o Dr. Sallaba e comentou com
ele que o caso de Mozart não tinha salvação — que não seria
177
possível evitar as convulsões cerebrais. Sallaba imediata-
mente me comunicou este fato; e na verdade Mozart morreu
uns dias depois com os costumeiros sintomas..
A morte do compositor suscitou interesse geral, mas
nunca, uma vez sequer, ocorreu a quem quer que fosse sus-
peitar, mesmo de longe, que essa morte tivesse sido ocasio-
nada por veneno. Inúmeras foram as atenções demonstradas
a ele pela família; acima de tudo, tão escrupulosos foram a
observância e o cuidado dedicados ao compositor pelo valo-
roso e experiente Dr. Closset que, durante todo este doloroso
período, demonstrou mais solicitude de um amigo dó que a
atenção de um médico, sendo impossível que o menor vestí-
gio de qualquer coisa violenta, como veneno, pudesse ter-lhe
escapado. A doença seguiu seu curso natural e o tempo nor-
mal de duração. Dr. Closset havia observado o seu progresso
com tanta atenção que predisse a hora exata do desenlace.
Um grande número de habitantes de Viena estava, por esta
ocasião, lutando com a mesma doença, sendo que o número
de casos que terminaram fatalmente, como o de Mozart, foi
considerável. Vi o corpo após a morte e o mesmo não exibia
qualquer anormalidade que não fosse comum nesses casos.
Eis o resumo do que tenho a acrescentar em relação à
morte de Mozart. Nada seria mais gratificante, ou mais satis-
fatório para minha mente, do que saber que o testemunho
que dou é, pelo menos em certo grau, capaz de contra-atacar
esta horrível calúnia lançada contra a memória do excelente
Salieri. O senhor me desculpará por não haver respondido
antes seu pedido como o teria desejado; somente uma graveindisposição poderia ter me impedido.
Porém, se Mozart não foi envenenado, de que morreu ele? A opinião mé-
dica padrão, até agora, tem sido de que Mozart morreu de rheuma inflam-
matorium ou febre reumática, uma doença febril aguda não-infecciosa
caracterizada por inflamação e dor nas juntas. Dr. Carl Bãr, um dentista
suíço, escreveu o que até bem pouco tempo tinha sido considerada a última
palavra científica sobre o assunto. Negando a descrição do Registro de Óbi-
tos da Cidade de Viena e o livro de Nissen (hitziges Frieselfieber ou aguda
febre miliar) como amadorística — bem intencionada, mas inútil sob o
ponto de vista profissional. "De qualquer maneira", diz ele, "quase todos os
casos terminais resultantes de febre reumática podem remontar a deficiên-
cias coronárias." E depois que sangraram Mozart, "os resultados, consi-
178
derando sua pequena estatura e sua predisposição cardíaca, só poderiam
ser catastróficos." O diagnóstico do Dr. Bár é, por fim, baseado em informa-
ções coletadas através de uma complicada cadeia de circunstâncias, mas
que vem do médico de Mozart, Dr. Closset (que também consultou outro
médico, o Dr. Sallaba). O rápido declínio e curto período de doença "não
foram anormais para aquela época".8
Entretanto, desde 1966, quando o Dr. Bár publicou s*eu marcante traba-
lho, muitos outros cientistas e médicos encetaram a difícil tarefa de identifi-
car não só a doença terminal de Mozart, como também as outras doenças
anteriores na sua curta existência que levaram às fatais três semanas de no-
vembro e dezembro de 1791. E inútil para um leigo tentar entrar neste tipo
de discussão, sendo que para todos os efeitos a palavra final sobre o assunto
foi dada por Peter J. Davies.' Tudo que um leigo poderia fazer nestas cir-
cunstâncias seria resumir as descobertas do Dr. Davies e expressar sua ad-
miração pela lúcida apresentação das mesmas.
A doença até novembro de 1791
Em 1762, Wolfgang contraíra uma infecção nas vias respiratórias superio-
res devido a uma infecção estreptocócica, cujos efeitos podem permanecer
incubados durante semanas, meses e até anos. Anos depois, o menino con-
traiu uma doença que o médico pensou ser escarlatina, mas que na verdade
era um erythema nodosum "quase certamente uma infecção estreptocócica".
Neste mesmo ano, um pouco mais tarde, "contraiu outra infecção estrepto-
cócica" e "sofreu um ataque ameno de febre reumática". Mais tarde, em Paris
e Londres durante o ano de 1764, Wolfgang teve tonsilite "ou mesmo amig-
dalite (abscesso paritonsilar)", padecendo outra vez de "tonsilite complicada
por uma sinusite" (1765).
Em dezembro de 1765, em Haia, Wolfgang entrou em coma e perdeu
muito peso. Os terríveis sintomas incluíam "toxiquemia aguda, pulso fraco,
delírio, erupção de pele, pneumonia, exfoliação hemorrágica da membrana
mucosa oral", sugerindo uma febre tifóide endémica. Em novembro de
1766, Wolfgang adoeceu novamente, desta vez em Munich, "com febre e
reumatismo" que Dr. Davies acha "fo i o segundo ataque de febre reumática
que o acometeu... sendo que ambos os ataques de febre reumática parecem
ter sido benignos e é pouco provável que seu coração tenha sido fortemente
afetado". Em 1776, Wolfgang teve varíola, recuperando-se em Olmútz
(Olomouc). Durante as viagens que fez à Itália contraiu ulcerações causadas
pelo frio (1770) e em (1771) "sofreu de uma infecção nas vias respiratórias
179
superio res e de u m a traqueo bro nquite", além de um a provável icterícia,
que Dav ies d iagno stica co mo send o u m vírus, tipo A , de hepatite.
E m d ezembro de 1774, W o lfg ang foi aco metid o de u m agudo abscesso
dental (que já o hav ia atacado , na Itália, em 1770) e quatro ano s mais tarde,
em Manheim, co ntraiu o utra d o ença que "parece ser um a infecção v irai das
v ias respirató rias sup erio res", d a qual se recup ero u. Enq uanto ensaiava
Idomeneo, em M u nic h em d ezembro de 1780, co ntraiu o utra vez o que
parece ser "u m a infecção nas v ias respiratórias superio res co mp licad a po r
uma bro nquite". Q uand o d eixo u o cargo junto ao A rcebisp o Co llo red o , em
Salzburg (maio 1781) , W o lfg ang co ntraiu uma infecção v irai , mas só em
1784 é que co meço u a padecer de uma d o ença grave, em Viena, que po -
deria dar os ind ício s p ara as causas da sua mo rte sete anos mais tarde. O s
sinto mas eram assustadores ataques de có licas que terminav am em v io len-
tos acessos de vó mito e uma febre reumática inflamatória. A o pinião do D r.
Dav ies é a seguinte:
Mo z art nessa épo ca so fria de u m a infecção estrepto có cica
co ntraída.durante um a ep id emia, o que fo i co mp licad o pelo
d esenv o lv imento da sínd ro me de Schõ nlein-Heno ch. A lém,
d isso ... o depósito de co mpo sto s imuniz ad o s nos rins de Mo -
zart, d urante esta d o ença, v ieram a causar um a g lo merulo ne-
frite cró nica que finalmente o mato u. A có lica intestinal é u m
sinto ma c o m u m da síndro me de Schõ nlein-Heno ch..., que é
um a vasculite alérgica hipersensível na qual os co mpo sto s
imuniz ad o s são depositados nos pequeno s vasos sanguíneo s
da pele, das juntas, do trato intestinal e dos rins, resultando
em lesões purpúreas e ed ema da pele, além de mud anças in-
flamatórias no s outros três ó rgãos. Cerca de 10% dos casos
d esenv o lv em uma d o ença renal cró nica que, se não tratada,
resulta nu m a deficiência renal cró nica e na mo rte.
E m 1787, parece que Mo zart co ntraiu "no v amente um a infecção estrep-
to có cica que causo u u m segundo ataque da sínd ro me Schõ nlein-Heno ch,
p rejud icand o aind a mais seus rins já debilitado s". Po rtanto , quand o teve
início o crucial ano de 1791, Mozart já havia "contraído uma doença renal
(g lo merulo nefrite cró nica) co mo u m agravante d a sínd ro me Schõ nlein-
Heno ch.. . tendo so frido algumas recaídas de abril a agosto de 1790. No s
pacientes c o m nefrite cró nica o co rre u m declínio grad ual na função renal
que é assintomática no s estágios inic iais". Naquela épo ca não existiam tes-
tes de laboratório para d iagno sticar esta fase pré-sinto mática. "Geralmente
ocorre um a elevação d a pressão sanguínea (hipertensão ) e hemo rragias na
180
retina ocular". Não havia, em 1791, qualquer conhecimento sobre nefrite
ou hipertensão. A s depressões de Mozart durante aquele ano (as "carac-
terísticas paranóicas da sua personalidade associadas a um ciúme posses-
sivo e uma instabilidade emocional") advinham de sua deficiência renal crónica
ou uremia.
"Tal depre^;^ mudança de personalidade e delírios mentais num jo -
vem não são raros nob casos de doença urêmica hipertensa" — o que expli-
ca o famoso passeio de carruagem pelo Prater, a preocupação com o Ré-
quiem e sua própria morte (induzida, segundo ele, pela acqua tofana). A s
crises de desmaio (vertigens), citadas nas biografias, são "comuns nos pa-
cientes com deficiência renal crónica, onde às vezes ocorrem repentinas
elevações de pressão sanguínea (encefalopatia hipertensa)".
A Doença Terminal
Dr. Davies desenvolveu uma interessante teoria: que Mozart teria con-
traído sua doença terminal durante um comparecimento à Loja Maçónica
em 18 de novembro de 1791 (havia uma epidemia em Viena na época,
como comprovado em diversas fontes).10 A s dolorosas inchações nas mãos e
pés de Mozart "sugerem uma poliartrite" e à medida que as inchações se
tornaram mais generalizadas e pronunciadas, poderiam ser um edema.
Dada a imobilidade do paciente "podemos concluir que Mozart, nesta
época, sofreu uma hemiparesia e ficou paralisado, de um lado, na parte in-
ferior do corpo".
Como não havia informações nesta época sobre "deficiência renal cró-
nica ... [Dr. Closset] com razão suspeitou que Mozart tivesse um tumor no
cérebro... segundo nossa opinião, Closset devia estar intrigado com os re-
centes sintomas de febre, inchações dolorosas nas juntas e erupções de
pele, razão por que chamou o médico chefe do hospital, Dr. Mathiasvon
Sallaba... que diagnosticou hitziges Frieselfieber (febre miliar aguda), que é
o que consta nos Registros de Óbitos... sendo uma doença inteiramente não
específica e associada a febre e erupção de pele..." Falando sobre o diagnós-
tico de febre reumática aguda dado pelo Dr. Bár, o Dr. Davies diz que "a
exântema é rara na febre reumática e tal diagnóstico não justifica o péssimo
estado de saúde crónico de Mozart em 1791, como também o diagnóstico
de febre reumática não explica os sintomas neurológicos da doença ter-
minal..."
Em resumo, num relato especialmente comovente sobre a morte de Mo-
zart, pois às vezes a verdade é muito mais apaixonante do que a fantasia
181
mais cuidadosamente concebida e delicadamente executada, o Dr. Devies
escreveu:
Mozart morreu das seguintes causas: infecção estreptocócica
— síndrome de Schõnlein-Henoch — deficiência renal —
venisseção(ões) — hemorragia cerebral — broncopneumo-
nia terminal.
Mozart contraiu ainda outra infecção estreptocócica ao
comparecer a um encontro na Loja em 18 de novembro de
1791, durante uma epidemia. A infecção estreptocócica cau-
sou uma exacerbação maior da síndrome Schõnlein-Henoch
e da deficiência renal que se manifestou através de febre, poli-
artrite, mal-estar, inchação dos membros, vómitos e púrpura.
A eventual inchação mais generalizada do corpo foi provavel-
mente causada pela retenção adicional de sal e fluidos devida
à deficiência rènal. Uma ou mais venisseções foram realiza-
das, o que teria agravado a deficiência renal e contribuído
para sua morte. A síndrome Schõnlein-Henoch causou uma
exacerbação da hipertensão, que contribuiu para os vómitos
noturnos e ocasionou um ataque. A paralisia parcial era uma
hemiplegia (paralisia de um lado do corpo) devida a uma he-
morragia cerebral. Cerca de duas horas antes de Mozart mor-
rer, entrou em convulsão e estado comatoso.
Uma hora mais tarde, o paciente tentou se levantar, arre-
galou os olhos e caiu para trás com a cabeça voltada para a
parede; as faces estavam intumescidas. Esses sintomas su-
gerem paralisia do olhar conjugado e paralisia do nervo facial
acompanhado de hemorragia cerebral maciça. Na noite que
percebeu sua morte, Mozart tinha tido febre e suores profu-
sos. A broncopneumonia é frequentemente a causa imediata
da morte dos pacientes urêmicos e ocorre usualmente
quando o doente já está moribundo.
* * *
Ao lado das espantosas hipóteses de que Mozart teria sido assassinado ocor-
reram inúmeras lendas sobre seu envolvimento com mulheres durante o
estágio final de sua vida. Um destes casos foi o degradante ataque cometido
pelo amigo e confrade-maçom de Mozart, Franz Hofdemel, contra sua es-
posa grávida, Magdalena, uma das alunas de piano do compositor. A agres-
182
são ocorreu um dia após a morte de Mozart e no banho de sangue que se
seguiu, Hofdemel mutilou irremediavelmente a esposa com golpes de nava-
lha no rosto e pescoço, suicidando-se em seguida.
A conduta de Beethoven, mais uma vez, fornece um indício sobre os boa-
tos que circulavam em V iena. " Pediram a ele que tocasse (de improviso )
diante de Magdalena Hofdemel, mas ele relutou por acreditar que ela tives-
se sido amante de Mozart (todos sabemos quão puritano Beethoven era!).
Porém não existe em absoluto qualquer prova de que a tragédia de Hofde-
mel possa ser relacionada direta ou indiretamente com Mozart. A impera-
triz Maria Luísa logo se interessou pessoalmente pelo incidente co m Mag-
dalena, o que nãateria feito caso a corte considerasse que o filho que estava
por nascer era de Mozart. (A criança, Johann Alexander Franz, nasceu em
Brúnn [Brno] em 10 de maio de 1792, tendo sido provavelmente concebida
em agosto de 1791, época em que Constanze Mozart dera à luz o seu último
filho, Franz Xavier Wolfgang.)12 Também é bem pouco provável que Hof-
demel tenha sido encarregado pelos maçons de envenenar Mozart como
também foi aventado.
Fo i também dito que uma das amantes de Mozart em 1791 teria sido a
primeira Pamina, A nna Gottlieb, então com dezessete anos (ela havia estre-
ado com doze anos como Barbarina em Le nozze di Fígaro). Não existem
provas (como foi dito) de que fora aluna de Mozart, e muito menos de que o
relacionamento dos dois tivesse sido outra coisa além de uma ligação entre
um compositor e uma diligente intérprete. Fo i dito também que no final de
1791 ou princípio de 1792 ela perdeu a voz e abandonou o palco como
cantora, conseguindo um posto de atriz na campanhia rival Marinelli, no
Teatro Leopolstadt. A morte de Mozart, em outras palavras, teria arrasado
seu coração — e voz.
O que aconteceu na verdade foi totalmente diferente. A nna Gottlieb real-
mente se transferiu para a companhia Marinelli, mas continuou represen-
tando e cantando, como faziam todos os outros membros da companhia de
Schikaneder no Freyhaustheater. Christopher Raeburn descobriu interes-
santes críticas contemporâneas sobre o canto de A nna Gottlieb durante
toda a década de 1790, sendo que ela continuou a cantar e representar
durante muito tempo no século seguinte. A ssim, outra tradição mozartiana
deve ser sumariamente ignorada como um mito .13
Os mitos, entretanto, continuam a perseguir Mozart. O filme e a peça
teatral Amadeus já criaram outro mito e provavelmente será difícil dissua-
dir o público sobre o corrente ponto de vista shafferiano de que o composi-
tor fosse um talentoso palerma alcoolizado perseguido por um invejoso
Salieri.
183
Da mesma forma, Constanze Mozart, que no filme aparece extraordi-
nariamente decotada e dona de um risinho idiota, também precisa ser recu-
perada desta visão de Shaffer.
184
XIII
CONSTA NZ E: UMA DEFESA
Gonstanze Mozart talvez seja a mulher mais vilipendiada da história da música. Durante os últimos cem anos aproximadamente ela tem sido
vítima de um crescente número de ataques caluniosos: ora como uma gata
no cio, ora como uma mulher tola e superficial, incapaz de compreender
Mozart, que teria administrado mal as finanças domésticas e encorajado o
compositor a viver uma existência inconsequente e, por quê não dizer, dis-
soluta. Estes ataques foram engendrados, em sua maior parte, por musi-
cólogos alemães, e nos últimos tempos atingiram o ápice da virulência.
Como os musicólogos chegaram a esta conclusão? Existiriam provas ou
documentos que não conhecemos? A verdade é que não existem, e neste
capítulo nos propomos a examinar relevantes documentos autênticos sobre
Constanze Mozart para verificarmos se existe qualquer motivo para esta di-
famação.
Vimos que no dia 5 de dezembro de 1791, Constanze Mozart se encon-
trava à beira da histeria; que tentou se meter na cama do marido para con-
trair (segundo ela) uma doença infectocontagiosa e que não estava sequer
em condições de comparecer ao enterro do compositor. Os leitores já de-
vem ter formado sua opinião sobre o tipo de casamento dos Mozart — no
que nos foi revelado pela correspondência existente — e seu relaciona-
mento como casal. Continuando esta investigação voltamos imediatamente
para o dia da morte de Mozart, em 5 de dezembro de 1791.
Nossa primeira testemunha é Niemetschek:
Os inimigos e caluniadores de Mozart se tornaram tão vee-
mentes, especialmente no fim da sua vida e após a sua morte,
que alguns destes boatos chegaram até os ouvidos do Im-
perador.
Estas histórias e mentiras eram tão vergonhosas, tão escan-
dalosas que o monarca, não tendo sido informado do contrá-
rio, chegou a ficar indignado. Além das infames invenções e
exageros sobre excessos que Mozart teria cometido, era afir-
mado que ele havia contraído dívidas no montante de pelo
185
menos trinta mil florins, o que deixou o monarca absoluta-
mente abismado.
A viúva havia recém-decidido pedir ao Imperador uma
pensão. Uma senhora bem intencionada, que tinha sido uma
excelente aluna de Mozart, contou a Constanze como o nome
do marido estava sendo enlameado na corte, aconselhando-a,
assim que obtivesse uma audiência, a contar ao benevolenteImperador toda a verdade.
A viúva logo teve oportunidade de seguir este conselho:
"Vossa Majestade, todos nós temos inimigos", disse ela co-
movida durante a audiência, "mas ninguém tem sido mais
exaustiva e continuamente atacado e caluniado pelos seus
inimigos do que meu marido e apenas por ele ter sido tão
talentoso! Várias pessoas tiveram a audácia de contar a Vossa
Majestade muitas mentiras sobre ele, chegando ao exagero de
decuplicar as dívidas que ele deixou. Juro pela minha vida
que três mil florins liquidariam todas as dívidas, sendo que
essas não foram contraídas levianamente, uma vez que não
tínhamos uma renda fixa, tínhamos muitos filhos e sofri uma
doença grave e muito custosa durante o último anb e meio.
Vossa Majestade não poderia com a bondade do seu coração
nos perdoar?"
"Se as coisas são como a senhora diz", replicou o monarca,
"então ainda há tempo de fazermos alguma coisa. Providencie
um concerto com as obras que ele deixou, que eu darei meu
apoio".'
No dia 11 de dezembro de 1791 — talvez o dia em que ocorreu esta
audiência — Constanze entrou com um pedido de pensão.2 Para estar apta
a receber tal benefício, o falecido marido deveria ter estado a serviço do
Império pelo menos durante dez anos e no caso de Mozart, ele só servira a
corte durante quatro anos.
No dia 30 de dezembro de 1791 o pedido havia chegado ao responsável
pela música da corte, Johann Wenzel, Conde Ugarte, que escrevera, a agora
famosa passagem, explicando como o Imperador José II havia inicialmente
contratado Mozart. Ugarte sugeriu conceder a Constanze a quantia anual de
200 gulden e aos órfãos 50 gulden para cada um "como um salário especial
ex gratia", mas esta soma foi considerada inaceitável pelas autoridades (o
Obersthofmeisteramt).
No dia 5 de janeiro de 1792, um mês após a morte de Mozart, estas au-
toridades sugeriram a Constanze que entrasse novamente com o pedido,
186
juntando um testemunho sob juramento, declarando que não tinha direito
a uma pensão da Tonkúnstler-Societàt (Sociedade dos Músicos). Já vimos
que Mozart nunca pôde ser membro da Sociedade porque não queria ou
não podia fornecer um certificado de nascimento; portanto, a Sociedade
deu esta declaração a Constanze, e no dia 25 de fevereiro ela entrou nova-
mente com o pedido junto à corte. No dia 5 de março de 1792, o diretor da
sessão financeira da corte, Johann Rudolph,.Conde Chotek, escreveu que "a
viúva... segundo a estrita interpretação a respeito das normas sobre pensões
não tem direito a coisa alguma salvo um último pagamento que consistiria
de um quarto de salário, i.e., a soma de 200 gulden". Entretanto, parece que
a corte ficou profundamente envergonhada em "fornecer à viúva de um ho-
me de tal talento e que tinha estado a serviço real um estipêndio de men-
digo". Para tal, Chotek sugeriu que "neste caso especial e sem criar prece-
dente" Constanze e as crianças recebessem um terço do salário do falecido
marido, i.e., 266 fl. 40 kr. a contar de 1? de janeiro de 1792. Esta foi a defini-
tiva e última sugestão relativa ao caso da pensão.
Leopoldo II morreu no dia 1? de março e o novo Imperador Francisco
recebeu esta petição dia 12 de março, assinando-a imediatamente: "Placet
— Franz m.p ." Dia 13 de março, a pensão de Constanze foi enviada ao es-
critório competente para registro e implementação.
Não se tratava de uma pensão generosa mas constituía uma "base" e além
disso, Constanze, neste ínterim, já estava cercada de vários amigos e simpa-
tizantes. Em primeiro lugar houve concertos beneficentes e memoriais —
um destes em Praga foi especialmente marcante, tendo ocorrido na Igreja
Paroquial de São Nico lau, no dia 14 de dezembro, com a amada orquestra
de Mozart do Teatro Nacional sob a regência de Joseph Strobach com coro e
solo pela soprano Josepha Duschek, perfazendo um total de 120 músicos,
que executaram o Réquiem de Rosetti. Neste mesmo dia, escreveu o Press-
burger Zeitung:
Todos os sinos da igreja paroquial repicaram durante uma
hora, e quase toda a cidade fluiu em direção à praça de sorte
que tantas carruagens mal puderam caber na Wálscher Platz,
como também a enorme igreja, que possui capacidade para
acomodar 4.000 pessoas, quase não pôde conter todos os ad-
miradores do falecido [Mozart]...3
Este mesmo jo rnal é o único que noticiou um concerto dado em Viena no
Burgtheater, dia 23 de dezembro de 1791, para o qual a corte contribuiu
com 150 ducados (675 gulden) e que no total rendeu 1.500 gulden.4 O
Pressburger Zeitung tinha uma tendência ao exagero a respeito de Mozart,
187
como podemos ver pelo relato de 21 de dezembro "... a viúva do falecido
Herr Kapellmeister Mozart foi amparada por S. M. o Imperador que lhe con-
cedeu o salário integral do marido, enquanto o filho ficou sob a guarda do
Barão von Swieten".5 Na realidade, nenhuma destas duas notícias corres-
pondia à verdade.
Constanze recebeu um presente do Arquiduque Maximiliano Francisco,
Eleitor de Colónia e protetor de Beethoven, que enviou à viúva 24 ducados
(108 gulden). Dia 7 de fevereiro de 1792, Frederico Guilherme II da Prússia
deu ordens ao seu embaixador, Barão von Jacobi (um maçom pertencente à
Loja de Mozart), para comprar diversas composições de Mozart pelo preço
de 100 ducados cada, incluindo o Réquiem, perfazendo um total de 800
ducados (3.600 gulden)." Tratava-se de uma vultosa soma e uma grande
ajuda financeira a Constanze. Todas estas operações inferem que ela era na
verdade uma administradora inteligente (embora fosse preciso Mozart
morrer para que ela pudesse demonstrar este lado de sua personalidade),
além de suscitar então uma grande solidariedade pessoal.
O passo seguinte da viúva foi encomendar uma representação do Ré-
quiem. O Barão von Swieten tratou dos trâmites necessários e no dia 2 de
janeiro de 1793 a obra foi representada, pela primeira vez, no "Jahn
Rooms",7 onde Mozart havia dado seu último concerto público uns dois
anos antes. O jornal húngaro Magyar Hirmortdó assim noticiou o aconteci-
mento:
Mozart, que imortalizou seu nome na música, deixou uma
viúva e dois órfãos em estado de pobreza. Diversos nobres
simpatizantes estão ajudando esta infeliz senhora. Anteon-
tem o Barão von Swieten providenciou um concerto público
com um Réquiem cantado em memória de Mozart. A viúva
recebeu os lucros da bilheteria que montavam a mais de 300
ducados em ouro (1.350 gulden).
No começo de fevereiro de 1794, outro concerto em memória foi reali-
zado em Praga, na "Konviktsaal" da Universidade,8 ao qual Constanze e as
duas crianças estiveram presentes, em lágrimas, como também grande
parte da platéia (Carl, nesta época, estava morando com os Niemetschek). A
orquestra executou as Sinfonias Linz e Praga e o concerto em Ré menor para
piano (K.466); ejosepha Duschek cantou o magnífico Rondo Non piú di
fiori de Tito.
Então Constanze teve uma idéia brilhante: Viena ainda não havia ou-
vido, na íntegra, a última ópera de Mozart, e para tanto ela persuadiu as
autoridades a permitirem a execução de um concerto beneficente no
188
"Kárntnerthortheater" em 29 de dezembro de 1794," no qual Aloysia Lange
cantaria o papel de Sextus.
A viúva já havia se mudado para acomodações mais modestas na "Casa
da Z ibelina A z u l" , n.° 1.046 na Krugerstrasse (onde Haydn iria morar em
1798 quando preparava A Criação). Tito foi um tal sucesso que ela repetiu a
exibição durante a Quaresma de 179510 — novamente com Aloysia Lange e
outros artistas, igualmente famosos como Giuseppe Viganoni como Tito ,
Marianna Sessi como Vitellia e Johann Michael Vogl (mais tarde amigo de
Schubert) como Plubius. Nos intervalos Beethoven tocou o Concerto para
Piano em Ré menor (K.466) de Mozart, provavelmente improvisando as
famosas cadenzas que mais tarde iria anotar (Wo O 58) ."
No dia 1? de maio de 1795, Constanze propôs uma idéia ainda mais auda-
ciosa: a publicação do Idomeneo de Mozart (uma de suas obras favoritas)
através de um sistema de assinaturas.12 Porém,nesta nobre tarefa não ob-
teve êxito, uma vez que a ópera tinha sido totalmente esquecida e não foi
encontrado número suficiente de assinantes. O mundo ainda não estava
pronto para uma das óperas menos conhecidas de Mozart, embora no es-
paço de um ou dois anos tivesse surgido um editor para publicar a parti-
tura, na Alemanha (Schmid & Rauh de Leipzig). Desta forma gradualmente
começaram a surgir os primeiros frutos, em repertório, do génio operístico
maduro de Mozart.
Em setembro de 1795, Constanze montou Tifo em Graz, ficando o lucro
para ela mesma e os dois filhos.13 Aparentemente entusiasmada pelo suces-
so desta obra ainda negligenciada durante todos os concertos beneficentes,
Constanze decidiu então excursionar com Tito por toda a Alemanha, no
papel de Vitellia,14 e incluindo Aloysia Lange no elenco. A primeira parada
foi Leipzig, onde ela apresentou parte de Tito e outras obras no famoso
Gewandhaus (11 de novembro de 1795). Em seguida, foi a Berlim, onde
pediu permissão para o velho admirador de Mozart, Frederico Guilherme II
da Prússia, para dar um concerto beneficente tendo Tito como atração prin-
cipal. O Rei deu permissão para a montagem do concerto na grande casa de
ópera, usando a orquestra real, sendo que o notável acontecimento ocorreu
(sem Madame Lange que, aparentemente, estava cantando na Ópera de
Hamburgo) no domingo, dia 28 de fevereiro de 1796. Na viagem de volta,
Constanze deu um segundo concerto em Leipzig (abril 1796), apresen-
tando o Réquiem, que foi um tal sucesso que houve um terceiro concerto
(25 de abril 1796), do qual Aloysia Lange participou também, e onde foi
apresentada a entrada do coro de Thamos (no arranjo como um moteto
latino). Em seguida apresentou-se em Dresden, em maio, novamente com
Tifo. No final de dezembro de 1796 estava de volta a Graz para conseguir,
com sua própria participação, um concerto beneficente de seleções não só
189
daquela ópera como também, na primeira parte, dos extratos do Idomeneo
que ainda aguardava sua redescoberta. Em todos estes assuntos Constanze
demonstrou um interessante faro pelos trabalhos menos conhecidos do
marido, sempre procurando incluir óperas (que atraíam o público mun-
dano) assim como outras peças, tanto instrumentais como vocais.
* * *
Constanze lembrou-se de que Praga sempre tivera um especial amor e ve-
neração por Mozart. Fo i portanto na capital da Boémia que decidiu iniciar a
carreira musical do filho, Franz Xaver Wolfgang. Ele tinha estado em Praga
desde 1796, primeiro comjosepha Duschek e mais tarde com Niemets-
chek. Em 15 de novembro.de 1797, no histórico Teatro Nacional — ce-
nário de tantos triunfos de Mozart, assim como da vergonhosa estréia de
Tito em 1791 —, Constanze lançou o segundo filho numa carreira musical
que, ela esperava, viria a ser a de um Wunderkind:
Primeira Parte
O início será uma sinfonia de Mozart.
1. Mad. Campi cantará uma ária de bravura de Mozart.
2. Sr. Witassek (pianoforte) interpretará um grande e v i -
goroso concerto de Mozart.
3. Mad. Mozart, Srs. Campi e Benedetti cantam um Trio
póstumo (Mandina amabile, inserção de La villanella
rapita de Bianchi), um excelente trabalho de Mozart.
4. Sr. Campi canta uma ária para baixo de Mozart.
5. Por especial deferência, o filho mais novo de Mozart, de
seis anos, Wolfgang, será apresentado ao prestigioso
público de Praga que demonstrou tanta afeição pelo pai
da criança. Ele dirá algumas palavras de agradecimento
e tentará seguir o grande exemplo do pai, cantando a
ária DerVogelfàngerbin ich (Sou um apanhador de pás-
saros) de A Flauta Mágica acompanhado ao piano. Pe-
de-se desculpas por esta primeira tentativa de demons-
trar seu suave talento.
Segunda Parte
1. Uma Abertura e o subsequente Quarteto de uma ópera
inacabada de Mozart [Lo sposo deluso].
2. Mad. Campi canta uma ária de Mozart.
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http://novembro.de
3. Mad. Mozart, Srs. Benedetti, Zardi e Campi cantam um
quarteto final de Mozart [Dite almeno, inserção de La
villanella rapita de Bianchi].
4. A conclusão é uma cena alemã com um coro final, cele-
brando o alegre retorno da paz [das Guerras Napoleóni-
cas: o tratado de Campo Formio , outubro de 1797]. A
poesia foi especialmente escrita para a ocasião pelo fa-
moso poeta e professor universitário, Sr. A . Meissner.
A música do recitativo é do Sr. Witassek, o coro de La
clemenza di Tito de Mozart, escolhido por esperar-se
que em tão alegre ocasião o público se unirá ao festivo
coro.
O texto publicado poderá ser adquirido na bilheteria
por 7 kr., sendo a renda distribuída para o asilo de po-
bres.
N.B. Todas as obras, exceto o coro, são inéditas e não
foram ainda apresentadas [em Praga]...15
O segundo filho de Mozart seguiu uma carreira muito modesta como com-
positor e músico, tendo morrido em 1844. O filho mais velho, Carl Tho -
mas, estudou música na Itália, mas tornou-se, mais tarde, funcionário pú-
blico, vindo a morrer como guarda-livros para o governo austríaco em
Milão, em 1858. Não existem descendentes vivos deste ramo da família.
Em 1797, o Secretário da Delegação Dinamarquesa, Georg Nikolaus
(mais tarde von) Nissen, que morava em Viena desde 1793, se tornou in-
quilino de Constanze. Tornaram-se amigos e mais tarde amantes. Casaram-
se em 1809 antes de se mudar para Copenhague.16 Nissen desempenhou
um papel ativo na tentativa de Constanze em salvaguardar o legado de Mo-
zart e na venda dos manuscritos musicais do compositor para dois editores
alemães — Breitkopf & Hártel em Leipzig e J. A . André em Offenbach. Nis-
sen, na realidade, escrevia a maior parte da correspondência comercial de
Constanze, dando-lhe amparo nesse sentido.
Por esta altura, é óbvio que Constanze achava que La clemenza di Tito
era o trabalho de Mozart mais negligenciado, tornando a produção do
mesmo um acontecimento anual e às vezes semi-anual, na vida musical de
Viena. Em 1798 ela o apresentou em 27 de abril (Carl Joseph Rosenbaum,
um amigo de Haydn e um oficial da corte de Esterházy, compareceu ao
evento e anotou o mesmo em seu diário)17; no dia 8 de dezembro ela o apre-
sentou outra vez com a irmã Josepha Hofer como Servilia e o segundo mari-
do de Josepha, Friedrich Sebastian Mayer como Publius, no Freyhausthea-
ter de Schikaneder.18 O famoso empresário publicou, no texto, a seguinte
191
nota: "a obra de Mozart é de uma nobreza superior a qualquer elogio; ao
ouvi-la, como acontece com qualquer obra do compositor, sente-se aguda-
mente a perda que a Arte sofreu".
* * *
Como era Constanze em 1798? Havia sofrido muito e feito uma brilhante
reaparição; no ano anterior emprestara aos Duschek de Praga 3.500 gulden
com juros de 6%: Durante'este período, o diplomata suíço F. A. Silverstolpe
se encontrava em Viena e registrou suas impressões sobre Constanze,19 a
quem convidou para jantar, juntamente com Nissen e com quem jogou bi-
lhar. Ao sair de Viena em 1803 para um outro posto, escreveu: "Ela é uma
pessoa de valor e sentirei sua falta enquanto viver." Outra descrição fide-
digna de Constanze Mozart foi feita por Niemetschek (1798) que escreveu:
Mozart foi feliz em seu casamento com Constanze Weber.
Teve nela uma esposa boa e amorosa, capaz de entender to-
dos os seus humores, desta forma conquistando a completa
confiança do marido e exercendo sobre o mesmo uma grande
influência que só usava para impedi-lo de tomar decisões
apressadas. Ele a amava profundamente, confidenciava-lhe
todas as coisas, mesmo os pequenos pecados, e ela o perdoa-
va com amorosa bondade e ternura. Viena foi testemunha
disto e sua viúva ainda pensa com nostalgia nos dias do seu
casamento.*20
Seu maior prazer foi a música. Se a esposa desejasse lhe
oferecer uma surpresa especial durante uma festividade fa-
miliar, ela, em segredo, providenciava uma nova composição
sacra de autoria de Michael ou Joseph Haydn.
Ele gostava muito de bilhar talvez porque com esse jogo se
excercitasse fisicamente. Tinha uma mesa de bilhar em casa,
onde jogava diariamente