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Autora: Profa. Juliana Gimenez Amaral Colaboradoras: Profa. Raquel Machado Coutinho Profa. Renata Guzzo Souza Belinelo Profa. Laura Cristina da Cruz Dominciano Enfermagem da Família 2 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Professora conteudista: Juliana Gimenez Amaral Enfermeira, especialista em oncologia pela EE-USP. Mestre em Enfermagem com ênfase em saúde do idoso pela UNG e doutora em Patologia pela UNIP. Professora titular da UNIP nas áreas de saúde do adulto e do idoso. Coordenadora do curso de Enfermagem no campus Alphaville. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) A485e Amaral, Juliana Gimenez. Enfermagem da Família / Juliana Gimenez Amaral. - São Paulo: Editora Sol, 2018. 136 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXIV, n. 2-011/18, ISSN 1517-9230. 1. Enfermagem da família. 2. Atenção domiciliar. 3. Acolhimento. I. Título CDU 616-083-0053.8 W500.60 – 19 3 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Prof. Dr. Yugo Okida Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcelo Souza Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dra. Divane Alves da Silva (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Dra. Valéria de Carvalho (UNIP) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Fabricia Carpinelli Giovanna Oliveira 5 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Sumário Enfermagem da Família APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................7 Unidade I 1 CONCEITO DE FAMÍLIA E SUAS TRANSFORMAÇÕES NO DECORRER DA HISTÓRIA .................9 1.1 A família como um sistema ............................................................................................................. 12 1.2 Enfermagem da família ..................................................................................................................... 15 1.3 Avaliação da família ............................................................................................................................ 18 1.4 Intervenção na família ....................................................................................................................... 24 1.5 Ciclos de vida familiar ........................................................................................................................ 25 1.5.1 Infância ....................................................................................................................................................... 28 1.5.2 Adolescência ............................................................................................................................................. 33 1.5.3 Fase adulta ................................................................................................................................................. 41 1.5.4 Envelhecimento ....................................................................................................................................... 61 2 POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO BÁSICA........................................................................................... 63 3 ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA (ESF) ............................................................................................. 67 3.1 Outras equipes de atuação da atenção básica ......................................................................... 72 3.1.1 Equipes de atenção básica a populações específicas ............................................................... 72 3.2 Territorialização em estratégia de saúde da família .............................................................. 75 4 ATENÇÃO DOMICILIAR .................................................................................................................................. 76 Unidade II 5 ACOLHIMENTO .................................................................................................................................................. 86 6 ACOLHIMENTO E CLASSIFICAÇÃO DE RISCO EM EMERGÊNCIAS ................................................ 94 Unidade III 7 VIOLÊNCIA INTRAFAMILIAR ......................................................................................................................105 8 CUIDADOS PALIATIVOS ...............................................................................................................................114 7 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 APRESENTAÇÃO Quem nunca ficou triste ou sem saber o que fazer perante um membro da família doente? Quem nunca foi chamado para auxiliar no cuidado direto ou transporte de uma pessoa enferma? Sim, a família é um sistema que envolve uma estrutura interna e outras pessoas ao redor, isto é, no trabalho, igreja, escolas, cursos, unidades de saúde etc. Este material introduz os conceitos de família e as suas transformações no decorrer dos tempos, além das implicações causadas por essas modificações. Serão abordados os ciclos de vida como nascimento, infância, adolescência, o ser idoso e a finitude, evidenciando as maiores necessidades do indivíduo e da família em cada fase e o papel do enfermeiro ante cada ciclo. Serão apresentadas formas de avaliação da família, visando identificar as necessidades individuais e comunitárias de cada região, para, assim, respeitar e traçar estratégias específicas para as necessidades, as quais variam muito de um local para outro. Assuntos como cuidados paliativos e violência intrafamiliar também farão parte da nossa leitura, pois demandam alguns cuidados especiais, e o enfermeiro tem papel essencial como educador em saúde e mediador de cuidados e atenção. Ao término da leitura deste material, espera-se que você consiga entender a importância do enfermeiro na saúde da família e da comunidade de forma efetiva e educacional. Bom estudo! INTRODUÇÃO A saúde da família é uma especialidade que vem apresentando grande demanda nos últimos tempos. A família é vista como um sistema que interfere diretamente de forma positiva ou negativa na saúde de seus membros, além de ser considerada a maior rede de apoio de uma pessoa. No Brasil, o governo federal vem buscando atender às demandas apresentadas pela família por meio da Estratégia de Saúde da Família e outras práticas integradas na Política de Humanização, nas quais o enfermeiro é fundamental no desenvolvimento de ações diretamente ligadas a essa população. A saúde da família aborda o cuidado individual e coletivo dos membros da família, avaliando riscos, identificando problemas e auxiliando no contexto do processo de promoção da saúde, adaptação a algum problema de saúde que aconteça e no processo de reabilitação. O enfermeiro visa avaliara família como um todo, em seus contextos sociais, psicológicos, culturais, econômicos entre outros, e não somente no contexto saúde e doença. Para tanto, é importante que o futuro profissional de Enfermagem entenda todo o contexto que envolve o processo saúde e doença da família, os programas e políticas existentes acerca da família, suas formas de atenção e as fases do ciclo de vida. 8 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 O trabalho do profissional de Enfermagem poderá atingir a família no domicílio ou no ambiente hospitalar em diversas vertentes, como, por exemplo, no apoio ao cuidado de um membro com doença crônica, em cuidados paliativos, no nascimento, entre outros. Iniciaremos o material falando um pouco do conceito de família, comunidade, sujeito visando iniciar nosso estudo com conceitos bem definidos. Esse material é de grande importância e permitirá que o futuro enfermeiro tenha o contexto teórico das maiores necessidades da família e de que forma poderá implementar a melhor assistência possível. 9 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Unidade I 1 CONCEITO DE FAMÍLIA E SUAS TRANSFORMAÇÕES NO DECORRER DA HISTÓRIA O conceito tradicional da família como centro de estabilidade e garantia social tem mudado nos últimos tempos. Em um mundo em grande transformação, influenciado pela globalização e aumento das mulheres no mercado de trabalho, a família vem passando por diversas alterações, porém, sem perder o seu valor. É preciso identificar e reconhecer essas mudanças para que ações ilimitadas e efetivas sejam realizadas na construção de um conjunto de estruturas sociais que auxiliem as pessoas a se adaptarem e lidarem com tantas mudanças. É preciso adequar as necessidades atuais das famílias de forma mais dinâmica e adaptada a nossa sociedade. Hoje, com todas essas transformações ocorrendo no contexto da família, fica difícil encontrar um conceito que se encaixe perfeitamente na sociedade atual. Uma concepção mais tradicional seria a que traz Durham (1968, p. 31): “As famílias são grupos sociais, estruturados por meio de relações de afinidade, descendência e consanguidade que se constituem como unidades de reprodução humana”. Antigamente, na Era Romana, por exemplo, a família era constituída pela autoridade do pai, que tinha o poder de vida e morte dos filhos, por castigos e até vendê-los, caso quisesse; já a mulher, esposa, era submissa ao marido, realizava os serviços domésticos e cuidava dos filhos. Nessa época, a instituição familiar era uma unidade econômica, religiosa, política e jurisdicional. No Brasil, a Lei Civil de 1916 (BRASIL, 1916) traz que a família, por meio do matrimônio, realizava várias funções, como a econômica, pois era responsável pela sua sobrevivência, sendo composta por tios, tias, primos e avós, que acabavam residindo no mesmo local e, juntos, trabalhavam para a subsistência. A família limitava-se exclusivamente aos componentes originados do casamento e sua dissolução era proibida. A Constituição de 1988 (BRASIL, 1988) trouxe a não obrigatoriedade do casamento para a proteção da família e, em seu artigo 226, possibilitou o divórcio, desde que houvesse separação conjugal por mais de três anos, permitindo a formação da família monoparental, constituída por um dos pais e sua prole. Essa Constituição passou a priorizar a família como base da sociedade, admitindo suas novas formas e privilegiando o cuidado à criança e ao adolescente baseados na dignidade humana. 10 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Figura 1 – Família nuclear tradicional Figura 2 – Família monoparental Figura 3 – Família homoafetiva 11 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Analisando tal contexto, vemos que a família precisou se adequar às novas exigências que foram surgindo, as quais trouxeram mudanças na cultura, nos costumes, hábitos e tipos de relacionamentos. Não é mais uma celebração de casamento, nem a diferença de sexo do par ou envolvimento sexual. É preciso a presença de um vínculo afetivo a unir as pessoas com objetivos e propósitos em comum, gerando um comprometimento mútuo. Essa visão afasta cada vez mais a ideia de família associada ao casamento. O conceito de família vem se adaptando, buscando ser uma união constituída por carinho, amor, afeto e respeito, sem regras impostas pela sociedade e necessidade de existir somente para procriação. Outra transformação importante é a luta e o reconhecimento da união homoafetiva, isto é, pessoas do mesmo sexo ligadas por elo afetivo que desejam formar uma família. Isso deixa claro o quanto a constituição da família, atualmente, é muito baseada no afeto, fugindo do modelo patriarcal que era focado no poder, hierarquia e autoritarismo. Também não se pode deixar de comentar o conceito de família nuclear, encontrada em muitos lares, que é assentado na presença do pai, da mãe e dos filhos, trazendo o conceito da união pelo casamento e do parentesco como base da família. A família é a base da formação do indivíduo, além de ser responsável por promover educação, saúde, proteção e lazer de seus entes, influenciando o comportamento do indivíduo perante sociedade. Em nossa realidade, podemos dizer que os pais ou responsáveis são o modelo de boas ou más ações para os filhos, impactando diretamente na postura deles em relação ao contexto da educação e da saúde. Por exemplo, estudos mostram que pais que fumam tendem a influenciar os filhos a desenvolverem o mesmo hábito. Pais violentos tendem a ter filhos violentos, que vão reproduzir aquilo que viveram em sua infância (TRINDADE; ALBINO, [s.d.]). Vale resumir algumas conquistas relacionadas à família na Constituição Brasileira após a carta Magna, como a Lei nº 8.009, de 29 de março de 1990 (BRASIL, 1990), que aumentou o amparo do bem familiar; a Lei nº 8.560, de 29 de dezembro de 1992 (BRASIL, 1992), que versou sobre características da investigação de paternidade e da certidão de nascimento dos filhos consagrados fora do matrimônio; e as Leis nros 8.971, de 29 de dezembro de 1994 (BRASIL, 1994), e 9.278, de 10 de maio de 1996 (BRASIL, 1996), que estabeleceram os direitos e obrigações dos companheiros, ambas leis dando amparo às mulheres que eram discriminadas após o divórcio. Hoje em dia também existem famílias que são formadas por outras, que foram dissociadas, como, por exemplo, a união de um casal que já foi casado anteriormente e traz filhos de outras relações. É uma estrutura importante de se conhecer, visto que algumas questões mudam, como a não responsabilidade do padrasto ante demandas vivenciadas pelo enteado. Outro fato que ocorre em algumas regiões do nosso país é o aumento da migração de pessoas devido ao desenvolvimento do capitalismo. Como resultado, temos a dissolução de vínculos matrimoniais e de uniões de origem, a criação de novos relacionamentos conjugais, o aumento do número de famílias sem pai e a dispersão da mulher e dos filhos para casa de parentes, avolumando o número de famílias mais amplas, como, por exemplo, avós que criam netos. 12 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I É notório o aumento da gravidez na adolescência, com o registro do incremento de 25% do número de adolescentes grávidas no país nos últimos tempos. Tal valor traz a possibilidade do crescimento de mães solteiras e pais desertores, causando uma série de conflitos para a adolescente e a criança (MARTINS et al., 2011). O idoso tem perdido seu lugar na família. Devido à necessidade de todos os entes, na maioria da vezes, trabalharem, ele tem ficado deslocado dentro do contexto familiar pela sua potencial falta de atividade. Em outros casos, porém, possui um papel fundamental na economia e naresponsabilidade da família. Em ambos os cenários, existem conflitos que precisam ser identificados e mediados. Lembrete A família é a base da formação do indivíduo, além de ser responsável por promover educação, saúde, proteção e lazer de seus entes, influenciando o comportamento do indivíduo ante a sociedade. Atualmente, lidar com a família é trabalhar com a diversidade, e ela pode ter várias classificações: famílias intactas (que ainda não sofreram processo de separação); em processo de separação; monoparentais; reconstruídas; constituídas por casais homossexuais; com filhos adotivos; e formadas por meio de novas técnicas de reprodução. Esses diversos tipos de família impactam diretamente na forma do cuidado e nas demandas de saúde em que o enfermeiro atua. Saiba mais A fim de saber mais sobre as transições que ocorreram na família, leia: DESSEN, M. A. Estudando a família em desenvolvimento: desafios conceituais e teóricos. Psicologia Ciência e Profissão, v. 30, núm. esp., dez. p. 202-219, 2010. Levando em consideração que a família é influenciada pelos seus membros e por outras redes sociais e de apoio, a seguir detalharemos essa temática. 1.1 A família como um sistema Inicialmente, discutimos a evolução das famílias e seus principais conceitos. Assim, podemos relembrar que família é mais que uma ligação de parentesco, é uma união de afeto entre os membros. A família é considerada um sistema. 13 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA A Teoria Geral dos Sistemas (TGS) foi desenvolvida pelo biólogo húngaro Ludwig von Bertalanffy em 1936. Mas o que é um sistema? Ele pode ser definido como um complexo de elementos em interação mútua. Tal conceito pode ser aplicado ao indivíduo, à família ou mesmo à sociedade. Cada sistema pode se constituir de subsistemas e estar inserido em outros sistemas maiores. A família é composta de vários subsistemas: conjugal, filial, paternal e parental. O conjugal ocorre quando duas pessoas adultas se unem em uma relação interdependente e complementar, formando um casal que identifica uma relação entre os cônjuges. Um fato que poderia afetá-lo seria o divórcio. O filial acontece quando nasce o primeiro filho e os seguintes. O nascimento do bebê pode ser um fato que afete a família positiva ou negativamente, dependendo de alguns contextos, tais como o desejo real da chegada desse filho, preparo para a nova rotina e a probabilidade de doenças congênitas. Já o parental é responsável por questões consideradas básicas, porém fundamentais em uma família, como a educação, a socialização e a proteção. Nesse contexto, um ato de violência em um dos seus membros afeta diretamente a todos os integrantes. Por fim, o fraternal diz respeito à relação entre os irmãos, a qual deveria ser estreita e de companheirismo. A mudança de um irmão para estudar, se casar ou até o adoecimento de um deles pode ser um fato que sensibiliza a família. Os exemplos citados anteriormente nos subsistemas servem para que você, como enfermeiro, tenha a visão crítica da necessidade de intervenção da sua prática com a família e inicie o processo de raciocínio crítico e clínico visando à melhor prática, dependendo da influência externa ou interna que essa família poderá sofrer. Existem também os suprassistemas, os quais estão relacionados com o trabalho, a igreja, os vizinhos e instituições de saúde. Um suprassistema pode atingir positivamente uma família, como na situação de pessoas que possuem a espiritualidade fortalecida e conseguem lidar melhor com as adversidades do processo saúde e doença, assim como um ambiente de moradia com tráfico de drogas e violência ao redor da família poderá comprometer a questão da segurança desta, além de oferecer maus exemplos às crianças e adolescentes. O indivíduo também é considerado um sistema, cuja estrutura é formada por sua rotina e pelas pessoas ao seu redor. É dinâmico e as mudanças ocorrem de acordo com as interações que vivencia. Sua realidade é uma reformulação de experiências vividas. O comportamento de uma pessoa ou do seu meio influencia diretamente o comportamento da outra de forma recíproca. Lembrete Toda e qualquer parte de um sistema está relacionada de tal modo com as demais partes que qualquer mudança em uma delas provocará alterações no sistema total. 14 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Na teoria geral dos sistemas, nada acontece isoladamente, e qualquer episódio que afete um dos componentes atinge todos os outros. A família é vista como um todo e este é muito mais do que a soma das partes, e o enfermeiro precisa ter a dimensão disso. Um exemplo do todo seria o brinquedo móbile, que é um conjunto de peças unidas em interação, em que cada uma interfere no movimento das outras. O móbile, porém, não se esgota nelas, mas enriquece à custa delas. Figura 4 – Modelo de móbile Um dos desafios do enfermeiro é querer atender a família como um todo, relatando que nunca consegue reunir todos, porém, a partir do momento em que atua diante de um membro, indiretamente todos serão afetados. Fazendo uma transposição para a abordagem do cuidado da família como um sistema, um todo único é maior que a soma das partes, pois, no cuidado com essa família, o enfermeiro precisa visar à relação entre os membros, alguém de dentro do sistema que tenha influência sobre o subsistema e estabelecer uma postura de empatia com os membros para uma melhor compreensão do todo. Nessa teoria dos sistemas, o enfermeiro poderá atender a família como um todo e também os indivíduos que fazem parte dela. Ele deve ter flexibilidade conforme o processo for acontecendo e trazendo resultados. É preciso traçar um plano de cuidados e reavaliar cada ação, ou seja, se esta atinge o objetivo individual e/ou grupal. É importante que o enfermeiro saiba o limite de cada sistema. Existem os sistemas considerados abertos, aqueles que têm entrada e saída de influência, estão abertos para o meio; e aqueles que estão fechados para o meio. No que tange aos limites, podemos dizer que cada sistema tem seus valores, regras e normas que determinam até que ponto ocorrem as interações com o ambiente e com o grupo, 15 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA incluindo o enfermeiro. Precisamos entender que o ambiente é um instrumento de troca importante para que a família possa se manter saudável. Por isso, quando falamos do sistema aberto, entende-se que ele precisa ter um equilíbrio fundamentado em regras internas de comportamento. A família precisa ter objetivos grupais e individuais. Aquelas com muitos membros e objetivos individuais geralmente entram em conflito e não conseguem viver em sociedade na construção de um bem comum. Pensando nessa abertura, ou não, do sistema, alguns conceitos foram inseridos, os quais são: a família emaranhada e a desmembrada ou desagregada. Nas emaranhadas, os vários elementos inter-relacionam-se de modo indiferenciado, não se reconhecendo quem é quem, enquanto desmembrada ou desagregada não se verificam trocas efetivas entre os subsistemas, com cada elemento vivendo desgarrado face a outro. O ideal seria um meio-termo entre esses dois conceitos, visto como um possível funcionamento saudável com contato entre os subsistemas e respeito à individualidade. Identificar esses meios e o que está em desequilíbrio é papel do enfermeiro no cuidado à família, porém, ele precisa estar ciente de que nem sempre uma ação de educação em saúde terá o mesmo resultado para todas elas. Isso depende de essa família vir ou não de um sistema aberto ou fechado e o quanto a ação influenciou ou não a dinâmica dela. Podemos dizer que estímulos iguais resultam em respostas diferentes, podendo haver imprevisibilidade das respostas e necessidade de mudança na forma de intervenção profissionalperante essa família. Entender que cada família tem sua estrutura própria e única é importante para que o enfermeiro entenda que as necessidades são específicas de cada uma, assim como as ações deverão ser sistematizadas e direcionadas para cada indivíduo e família de forma única. Dentro de um mesmo sistema, os membros podem absorver a informação de formas variadas, porém, possuem uma maneira individual de organização através da qual, ao final, todos chegam ao objetivo comum. A perspectiva sistêmica da família pressupõe que cada indivíduo/família é um sistema vivo que se gera e desenvolve numa interação dinâmica com os sistemas que vive, no qual os enfermeiros que trabalham com famílias naturalmente estão envolvidos, resultando no cuidado de enfermagem. 1.2 Enfermagem da família A enfermagem, enquanto profissional, é reconhecida como uma prática social que se relaciona e complementa outros trabalhos na saúde em resposta às demandas sociais e de saúde. O cuidado tem perdido o foco do coletivo no decorrer das transformações da sociedade e epidemiologias, mirando-se somente no indivíduo. A saúde da família traz a oportunidade e tem sido a forma de retomarmos o cuidado do coletivo e olhar para o todo. Em qualquer contexto em que os enfermeiros desenvolvam a sua prática profissional, a família surge como uma área de atenção relevante para a sua intervenção. O cuidar é um dos primordiais interesses da enfermagem. Cuidar da família no contexto da promoção, recuperação e reabilitação da saúde traz a questão de tratar da sobrevivência da nossa sociedade, do bem-estar das pessoas, incluindo a saúde; o 16 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I cuidar de um todo, não somente do indivíduo e de que o cuidado de enfermagem em conjunto com a família traz resultados positivos para todos envolvidos. Um dos resultados que o cuidado de enfermagem traz na família deve ser voltado não só para o indivíduo, mas também focado no ambiente em que ele vive. Um dos conceitos de enfermagem na família é: “Uma filosofia é um modo de interação com os clientes, que diz respeito ao modo como os enfermeiros colhem informação, intervêm com pacientes, advogam os pacientes e abordam o cuidado espiritual com as famílias” (SANTOS, 2012, p.12). Figura 5 – Visita de enfermeira indiana à uma família no século passado No decorrer dos anos 1960, o cuidado na família ganhou maior ênfase e foi inserido nos currículos dos cursos de enfermagem, incluindo a forma de avaliação da família por meio dos profissionais enfermeiros. Foi preciso adaptar algumas teorias e práticas que eram voltadas exclusivamente aos indivíduos. Um exemplo é a Teoria de Enfermagem de Callista Roy, criada em 1976 e baseada na Teoria dos Sistemas. Em 1981, ela sofreu uma modificação e introduziu a família como um sistema adaptativo, e o enfermeiro a assiste no processo de adaptação. Ainda nesse contexto, o ambiente e coping surgem como elementos importantes na enfermagem de família. A teorista Imogene King, igualmente, incluiu a interação com a família (também como cliente) e o sujeito como parte de sua teoria. Lembrete A teoria de enfermagem é uma conceituação articulada e comunicada da realidade inventada ou descoberta na enfermagem com a finalidade de descrever, explicar, prever ou prescrever o cuidado de enfermagem. 17 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Hoje, a família é reconhecida como uma unidade importante de cuidados não só da enfermagem, mas também de outros profissionais de saúde, que podem intervir de forma positiva no contexto deste cliente. O cuidado de enfermagem à família pode ser descrito como o processo de prover as necessidades de saúde que estejam no âmbito da prática de enfermagem, podendo ser aplicado diretamente à família, ao indivíduo, à sociedade e ainda como um todo, dando visão da abordagem social complexa que desafia os enfermeiros ao uso de tratamentos sistemáticos da família como cliente. Para outros autores, o enfermeiro pode cuidar da família em três contextos: indivíduo, família ou o todo. No caso do indivíduo, o enfermeiro foca o zelo no indivíduo e preocupa-se com o bem-estar individual, podendo a família participar através de informações complementares e auxiliar nos cuidados, sem, contudo, sofrer avaliação ou intervenção. Quando a doença está relacionada com a família do indivíduo, o enfermeiro avalia e presta os cuidados diretos à família dele, no modo como os entes veem e agem diante de um problema, como, por exemplo, um idoso acamado. Na ocasião em que o foco é o todo, o enfermeiro cuida da família e do sujeito integralmente. Podemos citar como exemplo o nascimento de uma criança, em que há uma adaptação de todos os membros. A ênfase do enfermeiro é integrar a família nos cuidados e a sua forma de interagir com eles. Essas ações são peças-chaves para um bom resultado na assistência a essa população. Saiba mais Para entender um pouco mais sobre comunicação nas práticas de saúde, faça a leitura complementar do texto: CORIOLANO-MARINUS M. W. L. et al. Comunicação nas práticas de saúde: uma revisão integrativa. Saúde Sociedade, São Paulo, v. 23, n. 4, p. 1356-1369, 2014. A comunicação pode ser entendida como prática social que advém da interação entre seres humanos, expressa por meio da fala, escrita, comportamentos gestuais, distância entre os participantes e toque. No sistema de saúde, o encontro em profissionais e usuários é feito por meio da comunicação. Nem sempre ela consegue ser efetiva, ocorrendo ruídos por meio de ambos envolvidos, muitas vezes pela diferença de linguagem e saberes diferentes, limitações orgânicas de uma das partes e valores diferentes. O diálogo é um eterno exercício de estabelecer uma relação que exige treino, reflexão, aprendizagem e prática. É o instrumento básico do cuidado. Com o passar do tempo, o paciente deixou de ser visto como doença, mas sim como um todo, favorecendo a humanização do cuidado. Por meio da interlocução, o enfermeiro passou a conseguir mais informações, as quais o auxiliam na avaliação do paciente e família, para melhor entender suas necessidades e agir de forma efetiva, beneficiando a todos. Quando a confiança entre ambas as partes ocorre, as mensagens são mais claras, e o acamado é convidado a uma ação mais ativa no seu cuidado, em uma interação que permite estratégias para atingir a saúde ideal. 18 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Porém, o enfermeiro precisa estar atento para que esse tipo de relação não seja mecânica, como vivenciamos em vários serviços de saúde e diferentes profissionais. É preciso entender que a comunicação não se resume a falar e ouvir, uma troca de mensagens, mas sim a uma ação que integre bem o ouvir e seja individualizada, levando em consideração as características daquele indivíduo e família. A partir da comunicação desenvolvida com o paciente, o enfermeiro identifica suas necessidades, informa sobre procedimentos ou situações, promove o relacionamento entre pacientes, com a equipe multiprofissional ou com familiares, viabiliza a educação em saúde, troca de experiências e mudança de comportamentos, entre outras ações visando ao melhor resultado possível no cuidado à saúde do paciente. 1.3 Avaliação da família A avaliação e intervenção em saúde exigem a utilização de modelos que permitam a concepção de cuidados orientados tanto para a coleta de dados como para o planejamento das intervenções. Analisar a família como um sistema é apreciá-la na sua dinâmica e estrutura, num processo de interação com outros sistemas. O alcance dessa apreciação depende da habilidade do enfermeiro de identificar os elementos e as interações que definem família, a sua força e a sua necessidade. Wright e Leahey, pesquisadoras da Universidade de Calgary, propuseram um modelode avaliação da família que a analisa como um sistema por meio de identificação dos seus problemas de saúde, seus mecanismos de apoio e recursos potenciais para resolução de problemas. O modelo Calgary contempla uma estrutura multidimensional, com categorias referentes aos aspectos estrutural, de desenvolvimento e funcional, com a possibilidade de obter uma visão ampliada das relações significativas, das redes de apoio familiar, dos laços, dos conflitos e da comunicação. Esse modelo sugere prudência em sua aplicação e atenção a alguns detalhes: • O enfermeiro determina os tipos de informações de que precisa. Todos os membros da família necessitam ser avaliados, porém nem com todos conseguiremos ter contato. • Após a coleta dos dados, tentar discutir com base nas informações que possui e não se deixar levar por dados inferenciais ou sugestivos de alguns membros. • Ter a consciência de que as informações obtidas são o que a família quer falar naquele momento; porém, elas podem mudar em um outro momento de contato. • Enfermeiros precisam estar atentos às várias verdades que podem ocorrer dentro de uma mesma família, não se deixando levar por emoções e sendo imparciais no julgamento. • O foco é menor nas pessoas e maior na interação entre os meios. 19 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Para a avaliação dos familiares, são usados o genograma (desenho da família) e o ecomapa (representação das relações internas e externas da família) que avaliam quem é o grupo social dela, suas influências diretas e indiretas, os tipos de relação de vínculo entre os meios e indivíduos e o contexto em que estão inseridos. Conhecer a estrutura da família, sua composição, como os membros se organizam e interagem entre si e com o ambiente, os problemas de saúde, as situações de risco, os padrões de vulnerabilidade, é vital para o planejamento do cuidado à saúde familiar. À medida que vai colhendo dados, o enfermeiro deverá mentalmente rever a informação e validar com a família a interpretação que faz dela, reformulando e levando os parentes a tecer narrativas compreensivas da situação apresentada. Iniciaremos nossa avaliação pelo genograma, que é o desenho da árvore da família. É uma prática antiga, também chamada de árvore genealógica, por alguns autores, que detalha a história e, a estrutura das famílias, fornece informações sobre os seus membros e suas diferentes gerações, e por meio de entrevista, dá informações significativas para análise e discussão da situação. A entrevista precisa ser estruturada e a comunicação entre o profissional e a família é essencial para que haja recuperação das memórias importantes, informações demográficas, de posição social e funcional, recursos e acontecimentos presentes e passados que atingem e atingiram a dinâmica familiar. A aplicação do genograma em saúde da família permite uma visualização do processo de adoecer, facilitando o plano terapêutico e, à família, uma melhor compreensão sobre o desenvolvimento de suas doenças. Esse instrumento oferece uma visão histórica de como os entes familiares enfrentam situações críticas, inclusive em mudanças do ciclo de vida. No geral, as informações mínimas que o enfermeiro precisa ter para a elaboração do genograma são: identificação das pessoas e sua hierarquia; idade e ano de nascimento; doenças que tiveram ou têm; pessoas ou locais envolvidos na rotina dessa família; datas de casamentos e divórcios. Deve-se também indicar os membros que vivem juntos na mesma casa (família nuclear), os familiares de origem (pai e mãe), estressores, relacionamentos intergerações, interpessoais e os papéis de cada um no seio familiar. Sempre que possível, o genograma deve ser iniciado na primeira consulta, pois é uma boa estratégia para ter acesso ao conhecimento da estrutura da família. Ele precisar ser principiado com o registro da pessoa que suscitou a sua construção. O uso do genograma possibilita ao profissional da saúde uma revisão rápida da estrutura da família, identificando, por exemplo, divórcios ou um novo casamento; sua avaliação e compreensão, visto que olhar a estrutura como um todo em forma de desenho facilita; promove elaboração de um vínculo mais estreito com os familiares; reconhecimento de pacientes de alto risco; e a promoção de mudanças de hábitos positivos. Tais ações mostram que a família é de interesse dos profissionais da saúde. Quais as vantagens do genograma? • observar e analisar barreiras e padrões de comunicação entre as pessoas; 20 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I • explorar aspectos emocionais e comportamentais em um contexto de várias gerações; • auxiliar os membros da família a identificar aspectos comuns e únicos de cada um deles; • discutir e evidenciar opções de mudanças na família; • prevenir o isolamento de um membro dos membros familiares. Existem alguns símbolos que são padrão e devem ser seguidos para a elaboração do genograma. Homem Dois homens normais Ano de nascimento Ano de nascimento e morte Nome Idade (ou ano) da morte Causa da morte Casamento e ano Divórcio e ano Separação e ano Não casado, ano em que começaram a viver juntos Linha contínua ou tracejada indica indivíduos que vivem juntos Relação conflituosa Três mulheres normais Abortamento espontâneo Abortamento induzido Gêmeos dizigóticos Gêmeos monozigóticos Adotado 1982 1975 1977 1964 CA 48 David 30-'48 '55 A Gravidez - criança in útero Quatro nascimentos, sexo não específicado ou desconhecido Mulher ou Morte ou Paciente-índice ou probando Figura 6 – Símbolos padrão do genograma 21 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA '76 '80 Casal casado, cada um com vários cônjuges '84 '82 '76 Problemas matrimoniais Relacionamento fraco Relacionamento próximo Relacionamento extremamente próximo Relacionamento dominante Problemas matrimoniais e namorada Divórcio - a mãe tem a custódia das duas filhas Figura 7 – Símbolos padrão do genograma e ecomapa Vamos a um exemplo de genograma. Atente-se à história clínica a seguir: João, 68 anos, casado com Maria, 66 anos, há 42 anos. Possuem dois filhos, Laura, de 40 anos, e Mauro, de 35 anos. Laura é separada e mora com os pais com a filha Julia, de 21 anos. Laura é atendente de caixa de supermercado e trabalha oito horas por dia, de segunda a sábado. Julia faz faculdade de Letras no período da manhã e auxilia os avós nos outros períodos nos afazeres de casa e idas a médicos etc. Mauro é solteiro, mas mora em outra cidade, pois foi onde arrumou um emprego em sua profissão. João e Maria são aposentados e vivem de uma renda de três salários mínimos. João é hipertenso e cardiopata, fazendo uso de medicamentos contínuos, porém desordenadamente. Vai à igreja com a esposa às quartas e domingos. É ele quem faz compras, paga contas e resolve problemas diários da casa. Fora isso, seu maior lazer é ouvir noticiário. Maria é diabética e possui osteoartrose, o que, às vezes, a impossibilita de realizar os afazeres de casa e ir à igreja às quartas e domingos, como tem costume. Ela lava e passa as roupas em casa e arruma o restante com a ajuda da neta. Maria não tem um bom relacionamento com a filha Laura, pois esta não a ajuda, reclama o tempo todo, nunca cuidou direito da filha e, às vezes, chega alcoolizada em casa, conforme relatou. Fala que sua maior dificuldade é controlar a diabetes, pois se sente mal com os remédios e acaba tomando-os de vez em quando. João e Laura pouco se falam, mas porque João é mais reservado. Laura e sua filha se dão bem e costumam sair juntas. Mauro visita a família a cada três meses aproximadamente. 22 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Diante desta história, o genograma seria da seguinteforma: 42 anos Igreja Supermercado Trabalho Escola Unidade de saúde Unidade de saúde João, 68 anos aposentado hipertenso e cardiopata Mauro, 35 anos mora em outra cidade? Maria, 65 anos aposentada DM + osteorartrose Laura, 40 anos cx. de supermercado Alcoolismo? Julia, 21 anos estudante Figura 8 – Modelo de genograma Perceba que João e Maria estão em destaque. Inicialmente, eles são o foco da nossa história. Porém, no decorrer da entrevista e das visitas a esta família, pode ser que eles não sejam o enfoque da nossa intervenção, isso é possível de acontecer. Percebam também que esta é a estrutura da família. Como não tínhamos informações sobre o ex-companheiro de Laura, incluímos o ponto de interrogação em seu símbolo. O alcoolismo de Laura ficou interrogado, pois temos somente as informações fornecidas pela mãe dela, o que poderemos confirmar, ou não, durante uma avaliação mais detalhada. Ainda não falamos das relações que serão expressas a seguir, após a explicação do ecomapa. O ecomapa é uma avaliação mais ampla, relacionada ao tipo de relação que os membros da família têm entre si e com o ambiente em que vivem. Ele é complementar ao genograma e é considerado dinâmico, pois está ligado ao externo e por isso pode apresentar mudanças. É uma representação do suprassistema, além de um diagrama das relações entre a família e a comunidade, o que ajuda a avaliar os apoios e suportes disponíveis e sua utilização pela família. Devem-se incluir no ecomapa: • serviços da comunidade (creche, escolas, unidade de saúde etc.); • grupos sociais (igrejas, associação de moradores do bairro etc.). 23 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA • relações significativas (amigos, vizinhos, família etc.); • trabalho – outros (lazer etc.). A partir da avaliação das relações dessa família, pode-se dizer ela possui poucas conexões com a comunidade, necessitando de maior atenção e intervenção da enfermagem. Relendo a história clínica que demos no exemplo do genograma, veremos a seguir como seria o ecomapa, complementando a avaliação. 42 anos Igreja Supermercado Trabalho Escola Unidade de saúde Unidade de saúde João, 68 anos aposentado hipertenso e cardiopata ? Julia, 21 anos estudante Mauro, 35 anos mora em outra cidade Maria, 65 anos aposentada DM + osteorartrose Laura, 40 anos cx. de supermercado Alcoolismo? Figura 9 – Modelo de ecomapa Percebe-se que o casal tem uma ótima relação (três traços), enquanto Maria e Laura possuem uma relação conflituosa, demostrada na linha irregular. A ligação do casal e da neta é próxima, demonstrada com dois traços, segundo o padrão de símbolos, e o vínculo de todos com o filho Mauro, que mora fora, é um relacionamento distante, porém ainda não podemos dizer que é um relacionamento fraco. Seguindo na linha da avaliação, é fundamental identificar a maneira como a família enfrenta e supera as adversidades físicas, culturais e espirituais, pois é esse enfrentamento que auxiliará no seu crescimento e desenvolvimento. Conhecer a história de vida da família auxiliará a entender também como ela manteve a estabilidade em face do que já ocorreu. De acordo com Cecílio (2014); Figueiredo (2010) e Souza et al. (2017), o Modelo Calgary não utiliza os diagnósticos de enfermagem em sua avaliação, pois as autoras relatam que esses são pouco flexíveis 24 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I e não abrangem diretamente o problema apresentado. Nesse modelo é importante que o enfermeiro consiga identificar, ao final da avaliação, as forças e as fragilidades do contexto familiar, que seria a última categoria do Modelo Calgary, a funcional, a qual se refere à maneira como as pessoas da família interagem, seus modos de comunicação, solução de problemas, crenças, papéis, regras e alianças. Na atuação junto às famílias, a conclusão da fase da avaliação representa o momento em que o enfermeiro coelabora com os membros familiares um possível diagnóstico e determina com eles se a intervenção é ou não necessária. O Modelo Calgary pode ser utilizado em vários contextos: para analisar a família em face de um momento novo, como o nascimento de uma criança, ou a adaptação a uma cirurgia de mastectomia de um de seus membros. Vale a pena conhecer esse instrumento e utilizá-lo na prática da enfermagem. 1.4 Intervenção na família As intervenções de enfermagem devem centrar-se em dar segurança, aumentar a proximidade do doente e da família/pessoa significativa, tratar de informação, facilitar o conforto e reforçar o apoio. Para que ocorra a efetividade de uma intervenção, todas as etapas discutidas anteriormente precisam ter ocorrido com empatia, criando um vínculo de confiança entre o enfermeiro e a família. Profissionais de enfermagem que não acreditam que a família é núcleo importante no processo de cuidar são os que mais apresentam conflitos com ela. Uma postura positiva com a família possibilita melhores resultados a todos os envolvidos. Por mais que tenhamos dito a todo momento que o enfermeiro precisa atuar junto aos familiares, existe ainda uma dicotomia em relação a sua prática, a qual, por diversas vezes, é voltada para o indivíduo. Ela nem sempre favorece esse cuidado realmente voltado para a família. A intervenção de enfermagem é a ação do enfermeiro perante o modo como a própria família o estimulou a pensar e agir. A resposta dessa interposição será uma resposta da família, eficaz ou não, determinada também pelo seu funcionamento usual e/ou adaptável. A atitude dos profissionais é determinante na qualidade das relações que se estabelecem entre o enfermeiro e os familiares, sendo reconhecido que uma atitude de suporte favorece o desenvolvimento de um trabalho de parceria, de partilha e de corresponsabilização entre os intervenientes. O tratamento de enfermagem eficaz será aquele mais útil à mudança na estrutura biopsicossocial e espiritual dos membros da família, sendo esse o maior desafio de enfermeiros. O Modelo Calgary de intervenções na família possibilita uma estrutura organizadora de intercepção entre um determinado domínio do funcionamento familiar e uma intervenção específica de enfermagem, a qual tem por finalidade a mudança do sistema. A figura a seguir demonstra os elementos do Modelo Calgary de intervenção da família. 25 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Intervenções propostas pelo enfermeiro Cognitivo afetivo comportamental Domínios do funcionamento familiar “Ajuste” ou eficácia Figura 10 – Elementos do Modelo Calgary de intervenção familiar Para a intercessão da enfermagem, a teoria da mudança oferece atributos importantes para essa prática. Nem sempre ela ocorre. Muitas vezes, é preciso que algum desconforto aconteça para que se perceba a sua necessidade e ela efetivamente ocorra. Em geral, toda alteração gera desconforto. Sabe-se, contudo, que a mudança mais profunda e contínua é aquela que ocorre sobre as crenças da família. Ela depende da percepção do problema. Assim, enfermeiro e família podem achar a melhor solução para o problema encontrado. Existem situações em que a proposta do enfermeiro não atende às necessidades ou expectativas da família, a qual pode querer suspender o cuidado ou procurar outro profissional. Alguns exemplos de foco de atenção do enfermeiro com as famílias são: planejamento familiar, adaptação à gravidez, satisfação conjugal, entre outros. 1.5 Ciclos de vida familiar O ciclo de vida familiar tem várias etapas pelas quais as famílias passam desde a sua constituição em uma geração até a morte dos indivíduos que a iniciaram. Elas podem ter impactos sociais, culturais, biológicos ou econômicos. Nessas etapas, algumas mudanças são esperadas enquanto outras não, e o comportamento da família diante disso precisa ser conhecido,demandando avaliação e intervenção quando não são vistas como algo bom. 26 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Figura 11 – Ciclo natural de vida familiar Algumas das modificações que podem ocorrer no ciclo de vida são: casamento, nascimento de um filho, separação, adolescência ou morte, dentre outros. Na literatura, são apontadas seis fases do ciclo de vida, descritas em oito etapas: 1 – Começo da família (casamento). 2 – Família com filhos com até 30 meses. 3 – Família com filhos pré-escolares (entre 30 meses e anos anos de idade). 4 – Família com filhos escolares (entre seis e 13 anos de idade). 5 – Família com adolescentes (entre 13 e 20 anos). 6 – Família em fase de lançar os filhos (filhos saem de casa para estudar, trabalhar, casar etc.). 7 – Famílias maduras (do ninho vazio até a aposentadoria). 8 – Famílias anciãs (aposentadoria até o falecimento de ambos os cônjuges). Quadro 1 – Ciclos de vida, tarefas e problemas que cada ciclo de vida pode apresentar Etapa Tarefa e mudanças familiares necessárias Problemas que podem se apresentar Formar o casal • Compromisso com um sistema familiar novo. • Pactuação de papéis e metas. • Negociação da intimidade. • Reordenação das relações (família ampliada e amigos). • Estabelecimento de relações mutuamente satisfatórias. • Disfunções sexuais. • Infertilidade. • Sintomas inespecíficos (cefaleia, lombalgia, cansaço). 27 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Tornar-se pai e mãe • Integrar um novo membro. • Ajustar o par ao trio. • Negociar papéis parentais. • Restringir a vida social. • Reordenar as relações com a geração dos avós. • Choro dos filhos. • Problemas de alimentação. • Tensão, infidelidade. • Sintomas variados, sobretudo nas mães. Crescimento dos filhos • Obter um equilíbrio entre o lar e o mundo exterior (escola, amigos). • Ensaiar a separação/promover a diferença do subsistema familiar. • Lidar com os irmãos. • Filhos fora de controle. • Enuresis e encopresis. • Sintomas vários (cefaleia, dores). Filhos adolescentes • Alterar a flexibilidade dos limites. • Obter um equilíbrio entre o controle e a independência. • Permitir ao adolescentes entrar e sair da família. • Saídas noturnas e do lugar. • Recusa à escola e faltas não autorizadas. • Violência familiar, transtornos alimentares, problemas sexuais. • Sintomas dos pais. Filhos que se emancipam • Ir e deixar ir. • Reestruturar a relação entre os pais e os filhos. • Pais: começar a construir uma nova relação com o ninho vazio. • Filhos: irem-se do lar e tornarem-se independentes. • Desavenças matrimoniais. • Crise da meia-idade. • Divórcio. Família na vida tardia • Aceitar a mudança geracional dos papéis. • Enfrentar a enfermidade e a morte dos pais e avós. • Aprender a ser avós. • Adaptar-se com o papel de aposentado ou pensionista. • Restabelecer-se da morte do cônjuge. • Dores patológicas. • Depressão. • Demência. • Falta de adesão às orientações médicas. Em famílias de classe social vulnerável, alguns fenômenos contribuem para encurtar as fases do ciclo de vida: em primeiro lugar, a gravidez que ocorre precocemente, geralmente em adolescentes e, assim, as fases do casamento e nascimento do primeiro filho dão lugar a famílias com filhos pequenos. A estrutura, geralmente monoparental, e a aglomeração de gerações sob um mesmo teto faz com que famílias populares tenham ciclos de vida abreviados, de até três fases: Quadro 2 – Os ciclos de vida das famílias vulneráveis Fase do ciclo Características Família composta por jovem adulto. Adolescentes são levados a buscar formas de subsistência fora de casa ou são fonte muito explorada de ajuda, tornando-se um adulto sozinho, que cresce por conta própria, sem que outro adulto se responsabilize por ele. Começa muito precocemente, por volta dos dez anos de idade. Família com filhos pequenos. Ocupa grande parte do ciclo, incluindo dentro da mesma casa três ou quatro gerações. As tarefas dessa fase se misturam: formar um sistema conjugal, assumir papéis paternos e reorganizar os papéis com as famílias de origem. Família no estágio tardio. É mais raro ocorrer um ninho vazio de fato, uma vez que os idosos costumam ser membros ativos da família, com papel de sustentar e educar as gerações mais novas. As mulheres tornam-se avós precocemente, mesmo que ainda estejam consolidando sua fase reprodutiva e reconstruindo sua vida afetiva. Essa é a fase que mais vem crescendo ao longo dos anos. 28 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I A seguir será abordada a assistência de enfermagem nos diferentes ciclos de vida. 1.5.1 Infância Avaliar o crescimento e desenvolvimento infantil é uma das atribuições do enfermeiro na estratégia saúde da família e parte integrante da consulta de enfermagem à criança. É importante que o profissional conheça detalhes sobre condições de nascimento e de vida da criança. Investigar as condições em que a mãe realizou o pré-natal e possível interferências que possam ter ocorrido, como hipertensão arterial, diabetes, infecções, fumantes etc. é tarefa importante. Figura 12 – Criança após nascimento Nessa fase do ciclo vital, avaliar o crescimento e desenvolvimento infantil é papel fundamental do enfermeiro, devendo ser realizado durante a consulta de enfermagem. Medidas antropométricas, assim como os perímetros cefálicos, torácicos e abdominais, fazem parte dessa avaliação para elaborar o gráfico que qualificará o crescimento da criança. Saiba mais Para saber mais sobre a saúde da criança, leia: BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde da criança: crescimento e desenvolvimento. Brasília: Ministério da Saúde, 2012c. (Cadernos de Atenção Básica, n. 33). Dentre outros problemas que podemos encontrar, vale atentar para: • Avaliação do peso: pode ser alterado se a criança sofreu algum agravo de saúde ou se a família tem dificuldades para lidar com as recomendações feitas para determinada faixa etária ou se possui condições socioeconômicas desfavoráveis. 29 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA • Avaliação da altura: pode revelar algum problema crônico e, tardiamente, por desnutrição. • Perímetro cefálico: sua avaliação é útil até que a criança complete dois anos e pode sinalizar algum problema de Sistema Nervoso Central. O Ministério da Saúde (BRASIL, 2012c) sugere que até o primeiro ano de vida a criança passe, pelo menos, por sete consultas médicas; no segundo ano de vida, por duas consultas, e do terceiro ao quinto ano, uma consulta por ano. Essa sequência é para uma criança com crescimento e desenvolvimento dentro do esperado e que não tenha anormalidades identificadas em seu estado de saúde. O enfermeiro deve acompanhar a família desde o pré-natal e identificar quais são as angústias, dúvidas e dificuldades diante da situação de um novo ente familiar, visando auxiliar na melhor forma de adaptação possível. Os laços afetivos formados, em especial entre pais e filhos, influenciam no desenvolvimento saudável do bebê e determinam modos de interação positivos, que possibilitam o ajustamento do indivíduo aos diferentes ambientes de que ele irá participar. É de suma importância incluir o pai nessa avaliação e nas orientações para que ele participe do crescimento e desenvolvimento da criança e assessore nos cuidados. Algumas dificuldades são comuns da fase do nascimento, e o enfermeiro precisa estar atento. A depressão pós-parto é um dos agravos com os quais podemos nos deparar, afetando entre 12% e 19% das puérperas e envolvendo diretamente o bebê e o pai da criança. Um dos problemas ocasionados pela depressão pós-parto é o desmame precoce (primeiros dois meses). O profissional enfermeiro deverá verificar sinais compatíveisde depressão na puérpera, tais como tristeza, irritabilidade, choro frequente, transtornos alimentares e de sono, além de queixas psicossomáticas. O nascimento do segundo filho também merece atenção do enfermeiro. Ele pode causar ciúmes no primogênito e alterações emocionais que levam a diarreia, febre e outros sintomas, além de retrocessos, como voltar a querer mamadeira, fazer xixi na calça etc. É importante que o enfermeiro note as mudanças decorrentes desse acontecimentos, tranquilizando, apoiando e orientando a família para que ela consiga se adaptar e superar esse momento de ambivalência entre a felicidade pelo nascimento de um segundo filho e a ansiedade que pode advir do evento. É importante que o enfermeiro incentive e auxilie os pais a criarem redes de apoio complementares para ajudar nessa fase, passando por ela da melhor forma possível, evitando conflitos. O enfermeiro pode, por meio da avaliação de Calgary, identificar quais são as possíveis redes de apoio disponíveis, como membros da família, amigos, vizinhos, colegas de trabalho e profissionais de saúde como psicólogos, médicos, entre outros. Percebe-se que o fenômeno de distribuição de papéis, que na família tradicional era fortemente delimitado, hoje se encontra flexibilizado, principalmente nas classes mais populares, sendo, muitas vezes, os avós os detentores de maior parte do cuidado da criança. 30 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Com a presença mais frequente do enfermeiro no contexto domiciliar da família, algumas ações se tornam possíveis e os resultados positivos são visíveis. Durante a visita à casa da paciente, o enfermeiro consegue identificar sinais e sintomas de depressão pós-parto, dificuldades no processo de amamentação e cuidados de higiene da mãe e da criança, orientar sobre possíveis dificuldades na nova rotina e no desenvolvimento da paternidade. Em relação à criança, o enfermeiro pode apontar problemas como: dificuldade de alimentação, vômito, apneia, letargia, taquipneia, atividade reduzida, febre, batimento de asas do nariz, icterícia, cianose, problemas de pele entre outros. Para bebês maiores de dois meses, é importante observar se a criança consegue mamar no peito, se vomita tudo o que ingere, se apresenta convulsões ou se está letárgica ou inconsciente. Com frequência, as crianças são acometidas por problemas respiratórios e gastrointestinais. Sendo assim, o enfermeiro deve conseguir distinguir sinais de maior gravidade dessas doenças por meio do conhecimento sobre a fisiopatologia delas. Orientações sobre imunização e alimentação são essenciais para a família. O acompanhamento do desenvolvimento da criança na atenção básica objetiva sua promoção, proteção e a detecção precoce de alterações passíveis de modificação que possam repercutir em sua vida futura. Dentro do que é esperado para um desenvolvimento normal, a família da criança pode interferir e inserir crenças e valores que deixam os pais sem saberem o que é realmente esperado para aquela determinada idade da criança, como, por exemplo, a comparação com outros. A identificação de problemas tais como: atraso no desenvolvimento da fala, alterações relacionais, tendência ao isolamento social, dificuldade no aprendizado, agressividade, entre outros é fundamental para o desenvolvimento e a intervenção precoce para o prognóstico dessas crianças. Para a avaliação do desenvolvimento da criança, podemos obter informações dos pais, da rede de apoio, como pessoas que auxiliam no cuidado, e da escola que a criança frequenta. Um instrumento muito utilizado para tal ação em nosso país é o teste de Denver. Ele foi criado na tentativa de acompanhar objetivamente o desenvolvimento neuropsicomotor de crianças de zero a seis anos. Criado por Frankenburg em 1967, avalia quatro áreas do desenvolvimento infantil: motor-grosseiro e motor fino adaptativo (controle de aquisições motoras), linguagem (percepções de sons, imagens e suas respostas) e pessoal-social (avaliação do comportamento perante estímulos culturais). 31 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Saiba mais Para se aprofundar no assunto, leia: ZAGO, J. T. C. et al. Associação entre o desenvolvimento neuropsicomotor e fatores de risco biológico e ambientais em crianças na primeira infância. Cefac, v. 19, n. 3, p. 320-329, maio-jun. 2017. É importante que o enfermeiro saiba que alterações significativas no crescimento também podem afetar o desenvolvimento da criança, cujo tratamento poderá ser individualizado ou em grupo, dependendo muito de sua complexidade. O manejo adequado poderá ser feito mediante orientações aos pais sobre a importância da relação entre o desenvolvimento da criança e a maneira como eles lidam com ele. A obesidade infantil é outro problema que deve ser visto pelo enfermeiro da família. Hoje, é considerado um problema de saúde pública, pois a prevalência de sobrepeso e obesidade infantil está aumentando em todo o mundo, com incidência entre 10,8% e 33,8% em diferentes regiões e reflexos em curto e longo prazos na saúde pública (BRASIL, 2012c). Intervir precocemente, visando prevenir a obesidade na infância, significa diminuir, de uma forma racional e menos onerosa, a incidência de doenças crônico-degenerativas na fase adulta. Algumas informações que o enfermeiro deve verificar nesse contexto são: • se a criança realizou aleitamento materno; • se há sobrepeso ou obesidade dos pais; • se os pais e a criança realizam alguma atividade física; • avaliar os hábitos alimentares da família, incluindo o horário das refeições. Essas indicações auxiliarão muito na avaliação da família e na elaboração das intervenções. Outro motivo de interferência na família relacionado à criança é a violência. Ela interpõe-se como uma poderosa ameaça ao direito à vida e à saúde da criança e de sua família. A exposição dela a qualquer forma de violência, assim como a negligência e o abandono, principalmente na fase inicial da sua vida, pode comprometer seu crescimento e desenvolvimento físico e mental. Nesse sentido, desde 1996, há uma recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que as violências sejam encaradas como importantes problemas de saúde pública. No Brasil, a violência já atingiu o quinto lugar nos motivos de mortes de crianças até um ano de idade (MAGALHÃES, 2017). 32 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I O enfermeiro precisa entender a violência, seus fatores de risco e avaliar algumas questões: • identificar casos suspeitos de violência; • conhecer e reconhecer sinais de violência; • identificar redes de apoio e proteção social no território; • realizar acompanhamento contínuo da criança e da família em situação de violência; • desempenhar atividades de prevenção da violência com a população. A suspeita de violência, também conhecida como maus-tratos, surge, em geral, no momento em que se procede à anamnese ou ao exame físico da criança. Distúrbios de sono, desnutrição, dificuldade de aprendizado ou fobias são alguns dos muitos sintomas que podemos identificar na criança durante a consulta de enfermagem. Hematomas, queimaduras e fraturas podem ser sugestivos de possível violência física. É importante que o enfermeiro desenvolva ações de prevenção da violência e identificação de sinais e sintomas nas escolas e creches, pois também são ambientes que auxiliam na identificação de possíveis problemas e ajudam no processo de apoio à família e à criança. A atenção básica assume um papel importante para a atenção integral à saúde das crianças e de suas famílias em situações de violência por ser o serviço responsável pela coordenação das ações de cuidado antiviolência. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2009b), existe uma linha de cuidado que precisa ser seguida na atenção básica à saúde, conformefigura a seguir: Acolhimento Atendimento Notificação Seguimento na rede Figura 13 – Linha de cuidado para a criança e família vítimas de violência Ainda em relação à violência à criança, é importante que o enfermeiro conheça os fatores de vulnerabilidade: 33 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA • pais muito jovens; • pais solteiros; • pais de nível socioeconômico baixo; • ambiente familiar instável (uso de drogas e álcool); • pais com baixa autoestima; • fatores que aumentam o nível de conflito, como o desemprego; • crianças com distúrbios psíquicos e mentais, entre outros. Para que o enfermeiro consiga atingir de forma efetiva o cuidado nessa etapa do ciclo vital, é preciso conhecer todas as vulnerabilidades possíveis que a criança vivencia, como as citadas anteriormente. 1.5.2 Adolescência A adolescência é uma das fases mais importantes e peculiares do desenvolvimento humano que chega de uma forma intensa, manifestada por meio de crescimento físico acelerado, além da evolução psicológica. Por mais que tenhamos políticas públicas bem-estruturadas, quando falamos da adolescência, essa não é a realidade. Ainda há muita dificuldade em se assegurar a atenção integral à saúde dessa população, levando em consideração as peculiaridades existentes nessa fase do ciclo vital. O Programa de Saúde do Adolescente (Prosad) criado em 1989, e o Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, são as políticas brasileiras que apresentam diretrizes voltadas para a atenção à saúde e proteção social dos adolescentes, porém, ainda se mostram insuficientes para atingir a integralidade dessa população. A compreensão das demandas e necessidades de saúde dos adolescentes pode subsidiar estratégias de melhoria do cuidado a esse grupo. E a gravidez na adolescência é uma das principais exigências de saúde que merecem atenção. 34 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Figura 14 – Gravidez na adolescência Geralmente, as mulheres descrevem a experiência de ser mãe como maravilhosa e muitas, inclusive, têm a maternidade como um sonho de mulher. Na adolescência, esse contexto passa a ser problema de saúde pública por não ser planejado, e não pela gestação propriamente dita. A adolescente passa por intensas transformações que já impactam diretamente na sua rotina, e uma gravidez não planejada pode ser um problema ainda maior do que se ocorresse na vida adulta. O estilo de vida atual, de mais liberdade de expressão e independência da mulher e da adolescência, associado à grande explosão emocional da fase, são os principais motivos do aumento da incidência de gravidez na gestação. O segundo aspecto é um pouco mais subjetivo e parece não ter relação, mas impacta, sim. Nas populações de classes econômicas mais baixas, que geralmente não têm acesso à saúde, cultura, lazer e emprego, uma gravidez pode representar instantânea elevação de benefícios, como, por exemplo, ter preferência em filas de estabelecimentos comerciais. A adolescente, muitas vezes, apresenta complicações na gestação, pois, em sua maioria, não entende a importância do pré-natal, tem vergonha da barriga, não possui acesso às consultas e não o realiza da forma indicada. Como enfermeiros, precisamos orientar a adolescente sobre as complicações mais comuns na gestação precoce, como: • mortalidade neonatal; • baixo peso ao nascer; • anemia ferropriva; • mortalidade materna; 35 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA • aborto espontâneo; • doença hipertensiva exclusiva da gestação; • prematuridade, entre outros. Figura 15 – Recém-nascido prematuro. Consequência possível na gravidez na adolescência Ainda sobre as consequências, a interrupção dos estudos é uma delas. Infelizmente, escolas e universidades não possuem alguma forma de apoio a essas alunas, ocasionando alto número de evasões escolares, tendo como consequência a falta de preparo para o mercado de trabalho, desemprego e pobreza. Saiba mais Sobre o impacto causado pela gravidez na adolescência, leia: BICA, I. et al. Situação de risco com impacto em toda família: gravidez na adolescência. Millenium, v. 2, n. 1, p. 65-75, 2016. A atuação do profissional enfermeiro é imprescindível por criar oportunidades de diálogo e apoio, os quais a adolescente não possui em sua família e podem ser supridos por uma atenção multiprofissional qualificada. 36 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Outra problemática ainda dentro da gravidez na adolescência não planejada é o aborto. Várias são as opções clandestinas e ilegais oferecidas e sugeridas geralmente pelo companheiro ou amigos. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (GENIOLE, 2011), cerca de metade das gestações são indesejadas e uma em cada nove mulheres recorre ao aborto. A Agência Nacional dos Direitos da Infância (ANDI, 2003) relata que mais da metade das adolescentes grávidas de classe média alta recorrem ao aborto quando não podem ou não querem a gestação. Os abortos malsucedidos, realizados de forma precária e que apresentam complicações, obrigam as mulheres a procurar assistência médica na rede pública de saúde, entrando para as estatísticas nacionais. Exemplo de aplicação Por meio da escuta e do acolhimento, os profissionais de saúde têm a possibilidade de considerar as crenças, os valores e o modo como representa e age a família perante a situação e também suas potencialidades e limitações. Reflita sobre o papel do enfermeiro nesse contexto. Outro problema que pode ocorrer nessa fase do ciclo vital é a violência urbana. Ela inclui acidentes de trânsito, óbitos por arma de fogo, arma branca, afogamento, suicídio entre outros. Este problema acomete principalmente jovens entre 20 e 24 anos e vem aumentando cada vez mais nas estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (BRASIL, 2001). Recentemente, a violência urbana, representada também pelos assaltos, sequestros, estupros, dentre outros tipos, vem sendo executada basicamente por jovens e adolescentes. Figura 16 – Violência urbana na adolescência A violência traz sempre um cunho de poder, de domínio de um sobre o outro; assim, os indivíduos considerados mais frágeis ou pertencentes a classes minoritárias, como as mulheres, idosos, crianças e adolescentes, são sempre os mais atingidos. A promoção da saúde por meio de ações educativas contra qualquer tipo de violência ainda é a melhor forma de conscientizar jovens e adolescentes sobre os riscos diante dessa demanda. Por conta 37 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA desse tipo de problemática, devido aos óbitos precoces, a família sofre uma mudança radical na estrutura e precisa de apoio para lidar com esse tipo de adaptação que poderia ser evitado. O bullying é uma temática nova e atual, que vem tomando dimensões inclusive judiciais e que impacta diretamente na vida do adolescente, podendo ocasionar violência, depressão e isolamento social. É preciso que o enfermeiro auxilie a família e o jovem a lidar com esse tipo de contexto. A prática do bullying não se restringe ao ambiente escolar, podendo estar presente também nas famílias, nos locais de trabalho, nos condomínios residenciais, enfim, onde existam relações interpessoais. Figura 17 – Bullying na adolescência As causas são diversas, tais como: carência afetiva, ausência de limites e modo de afirmação de poder e de autoridade dos pais sobre os filhos, por meio de práticas educativas que incluem maus-tratos físicos e explosões emocionais violentas. Cabe ao enfermeiro estar atento a sinais de bullying durante a avaliação da família e no decorrer do acompanhamento. Assim, como comentamos no ciclo vital da infância, a violênciaintrafamiliar também pode ocorrer na adolescência. Essa prática é constantemente encoberta pelos membros da família, inclusive pela própria vítima, seja por vergonha, medo ou pela situação de dependência da vítima com relação ao agressor. A violência pode ser física, emocional, sexual ou ainda negligência. O enfermeiro que estiver acompanhando uma vítima de violência intrafamiliar deve considerar seus relatos, ainda que se trate de uma criança, não se precipitando na conclusão de que se trata de fantasia. Portanto, deve ficar atento a sinais sugestivos de violência em crianças e adolescentes, como lesões repetidas, isolamento, depressão, exibicionismo, interesse sexual impróprio para a idade, manipulação da genitália, DSTs. O comportamento dos pais também pode ser suspeito, como a criança ser levada com frequência à unidade de saúde e os pais demonstrarem cuidado excessivo, não permitindo que ela fique nem um momento longe de sua presença. Esse tipo de comportamento pode demonstrar insegurança e receio de que a criança relate a realidade. A atuação multiprofissional nesta situação é essencial. 38 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Saiba mais Para saber mais sobre a violência infrafamiliar, leia: MAGALHÃES, J. R. F. et al. Violência intrafamiliar: vivências e percepções de adolescentes. Escola Anna Nery Revista de Enfermagem, v. 21, n. 1, p. 1-7, 2017. O uso e abuso de drogas e álcool na adolescência também é uma problemática possível dentro das famílias e que muitos pais apresentam dificuldade de identificar ou de lidar com essa situação, necessitando de auxílio multiprofissional. Figura 18 – Uso de drogas e álcool entre os adolescentes As características emocionais típicas da adolescência impulsionam o adolescente a experimentar novas sensações e a buscar o prazer imediato, atitudes decorrentes de dois importantes fatores que integram esse processo, a curiosidade e a pressão do grupo. Em nossa cultura e contando com o auxílio da mídia, o álcool tem sido a primeira droga utilizada pelos jovens, muitas vezes até estimulados pelos pais. Acreditava-se que a função de atuar como porta de entrada para o uso de outras drogas era atribuída à maconha; porém, hoje, considera-se principal marcador de risco para a utilização de outras drogas o uso regular de bebidas destiladas. Um dos primeiros sinais de que um jovem está utilizando algum tipo de droga, principalmente no caso da maconha, é a queda do rendimento escolar. O estado apático decorrente do uso dessa droga com frequência compromete os estudos. De uma forma geral, as drogas alteram as funções cognitivas, responsáveis pela noção de tempo e espaço e pelos reflexos de autopreservação. O uso, ainda que em pequenas doses, pode resultar em graves acidentes de trânsito e de trabalho que podem levar a mutilações e óbitos. 39 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Durante a abordagem à família com essa problemática, deve-se considerar na avaliação o tipo de droga utilizada e o tempo de uso. Saiba mais Veja mais sobre o assunto noa rtigo: CANAVEZ, M. F.; ALVES, A. R.; CANAVEZ, L. S. Fatores predisponentes para o uso precoce de drogas por adolescentes. Cadernos Uni FOA, ed. 14, p. 57-63, 2010. É preciso que o enfermeiro esteja preparado para atuar com essa clientela, pois o cuidado deve estar voltado à necessidade de diagnosticar o abuso de drogas e os prejuízos causados por ela à vida do adolescente de forma precoce, minimizando os problemas. A família deve fazer parte desse atendimento, dado o significado do contexto familiar nessas situações. Ela atuará na responsabilização do adolescente perante seu tratamento e ainda necessitará de apoio para lidar de forma compreensível com a situação. O profissional deverá participar da busca de estratégias e parcerias envolvendo uma sensibilização para as causas e consequências do problema; num entendimento biopsicossocial, oferecendo informações sobre as substâncias psicoativas e os problemas relacionados ao seu uso; proporcionando oportunidades para explorar as perdas e ganhos ocorridos no plano pessoal e social quando se escolhe ou se abdica do uso de drogas. Os transtornos alimentares são uma realidade muito presente na adolescência. O capitalismo e o mundo da moda determinam biótipos muitas vezes não saudáveis e que levam adolescentes a desenvolver desordens alimentares com sérias consequências em sua saúde. Figura 19 – Transtornos alimentares na adolescência: anorexia na adolescência 40 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Figura 20 – Transtornos alimentares na adolescência: bulimia na adolescência A anorexia nervosa e a bulimia são os distúrbios alimentares mais comuns entre os adolescentes. Na família, os pais podem não conseguir identificar facilmente esses problemas e precisarão de ajuda do enfermeiro para identificação e tratamento desses distúrbios junto ao adolescente. Saiba mais Obtenha mais informações lendo: MORGAN, C. M.; VECCHIATTI, I. R.; NEGRÃO, A. B. Etiologia dos transtornos alimentares: aspectos biológicos, psicológicos e sócio-culturais. Revista Brasiliera de Psiquiatria, v. 24, supl. III, p. 18-23, 2002. Alterações de saúde graves como alterações cardiológicas (arritmias), endócrinas (hipotireoidismo), anemia, dificuldade de coagulação, depressão, alteração do sono, pele descorada, queda de cabelo entre outras podem ocorrer caso o distúrbio não seja identificado. Observação A anorexia é visivelmente fatal. Pode levar a óbito por falência múltipla dos órgãos. Algumas intervenções de enfermagem numa família vivenciando um adolescente com transtornos alimentares são sugeridas, tais como: • avaliar e explorar o grau de dependência e envolvimento entre os membros da família; • identificar as regras de alimentação dentro da família; 41 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA • distinguir limites adequados para alimentação; • incentivar meio de comunicação entre os familiares sobre o problema; • ajudar o paciente a desenvolver habilidades na resolução de problemas e incentivar a iniciativa; • incentivar a participação em grupos de terapia de família. Como já visto anteriormente com as crianças, é preciso incentivar práticas saudáveis que alcancem cada vez mais o adolescente, que é responsável pela sociedade futura, por meio de informações, acolhimento e escuta de suas necessidades. Esses costumes poderão favorecer um suporte social e emocional ao adolescente, contribuindo para o fortalecimento de ações individuais de enfrentamento frente as demandas dessa fase do ciclo vital. 1.5.3 Fase adulta A fase adulta apresenta várias condições que merecem atenção do enfermeiro. Iniciaremos esse tema falando um pouco das demandas exclusivas das mulheres. Até a década de 1970, a mulher era designada única e exclusivamente para os cuidados domésticos e maternos, e assim também eram as políticas voltadas a sua saúde e para a maternidade (gravidez e parto). A ativação da participação feminina na sociedade e a mudança de papéis foram essenciais para que essa visão exclusiva de mãe e dona do lar ocorresse e outras necessidades recebessem atenção, como a contracepção, as doenças sexualmente transmissíveis, entre outras. Em 1983, o Ministério da Saúde elabora o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM) com objetivo de promover ações educativas, de prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação relacionados ao pré-natal, parto e puerpério, climatério, planejamento familiar, DST, câncer de colo de útero e mama. Lembrete Por mais que tenha evoluído a discussão sobre a saúde da mulher, a prioridade das ações ainda é voltada para a saúde materno-infantil. Durante a consulta de enfermagem, seja no domicílioou na instituição de saúde, o enfermeiro deve aproveitar a oportunidade para ouvir o que a mulher tem a dizer, suas queixas, medos, anseios e dúvidas, e aproveitar esse tempo para auxiliar no que for possível. A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é uma atividade privativa do enfermeiro e suas etapas possibilitam uma avaliação minuciosa da mulher, propiciando diagnósticos de enfermagem para o planejamento de intervenções efetivas e individualizadas, além da possibilidade de realizar educação em saúde. 42 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I A Resolução nº 358/2009 do Conselho Federal de Enfermagem dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem e a implementação do Processo de Enfermagem em ambientes públicos e privados. Saiba mais Para saber os principais motivos da procura de serviços de saúde por mulheres, leia o artigo a seguir: LEVORATO, C. D. et al. Fatores associados à procura por serviços de saúde numa perspectiva relacional de gênero. Ciência & Saúde Coletiva, v. 19, n. 4, p. 1263-1274, jun.-abr. 2014. As doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) são uma das demandas da saúde da mulher. As vulvovaginites são um dos principais motivos de consultas ginecológicas. Apesar de muitas vezes não serem graves, causam desconforto e devem ser identificadas e tratadas. Durante a consulta ginecológica, é realizada a sua avaliação e há a oportunidade de identificar e orientar sobre outras DSTs. Importante lembrar que quando falamos de doenças sexualmente transmissíveis, nossa atenção não deve estar voltada somente para a questão homem-mulher. Hoje, temos muitos casais homossexuais que devemos conscientizar e com os quais atuar de forma preventiva na educação em saúde, pois eles também podem desenvolver doenças como o HIV. Também deve-se ter atenção com as gestantes, que podem transmitir aos filhos, na hora do parto, na transmissão vertical, a conjuntivite gonocócica. As DSTs podem provocar consequências graves como: • infertilidade tanto do homem quanto da mulher; • dor pélvica crônica; • gravidez ectópica; • câncer do colo do útero, além de acarretar graves problemas de saúde aos filhos gerados em uma mãe portadora sem tratamento se a gestação chegar a termo. Muitas vezes, a gravidez poderá ser interrompida por complicações de alguma DST. 43 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Saiba mais Para saber mais sobre as DSTs, leia o material a seguir: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa Nacional de DST e Aids. Manual de Bolso das Doenças Sexualmente Transmissíveis. Brasília: Ministério da Saúde, 2005b. Pensando em dados epidemiológicos atuais e preocupantes, uma doença sexualmente transmissível à qual precisamos estar atentos é a sífilis, pois, quando diagnosticada, na maioria das vezes, o é em sua fase tardia. O enfermeiro deve orientar e acompanhar o casal em todo processo de diagnóstico e tratamento dessa doença. Observação O Ministério da Saúde lançou uma ação nacional de combate à sífilis. A meta é mobilizar gestores e profissionais de saúde para a importância da detecção e tratamento da sífilis durante o pré-natal. O HIV, vírus da imunodeficiência humana, também merece atenção. Antigamente, era associado à população homossexual, porém, hoje, se estende para todos os gêneros, sem distinção. Uma vulvovaginite fúngica de repetição pode ser sinal da presença do vírus e deve ser investigada. Uma informação assustadora e de grande valia para nós, enfermeiros, e outros profissionais de saúde é que estudos realizados pelo Ministério da Saúde apontam que das cerca de 630 mil pessoas infectadas pelo HIV, 330 mil desconhecem seu estado sorológico positivo (BRASIL, 2005b). Assim, cabe ao enfermeiro, durante a consulta de enfermagem, colher dados para investigação efetiva da situação clínica da mulher e encaminhá-la para possível diagnóstico e acompanhamento. Falar sobre isso para a mulher pode ser difícil, assim, o espaço aberto pelo enfermeiro no domicílio ou na instituição de saúde precisa ser propiciado e incentivado para que possamos prevenir agravos e iniciar tratamento o mais rápido possível, evitando uma possível depressão e isolamento social, além da discriminação. O SUS, a participação e mobilização de usuários e da sociedade civil têm sido decisivos para esse enfrentamento e para a melhora da qualidade de vida dos pacientes portadores de HIV. Testes rápidos são disponibilizados em unidades de saúde do SUS, que são referência em atenção a essa doença. 44 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Figura 21 – Teste rápido para diagnóstico de HIV disponível em algumas unidades de saúde do SUS Outra questão para atenção e cuidado das mulheres são os cânceres de colo de útero e de mama, os mais incidentes entre as mulheres. Anualmente, cerca de 500 mil novos casos de câncer são diagnosticados no mundo e, desses casos, em torno 230 mil evoluem para óbito. O câncer de colo de útero representa 20% de todos os casos de câncer na população feminina brasileira. A faixa etária de 20 a 29 anos apresenta maior evidência de casos, porém é entre os 45 e 49 anos que atinge seu pico de maior incidência. Útero Câncer Vagina Cérvix Figura 22 – Câncer de colo de útero Conhecer os fatores de risco para o câncer de colo de útero é essencial para o trabalho do enfermeiro, que deve estar atento às práticas educativas de prevenção e vacinação dos adolescentes conforme protocolo do Ministério da Saúde de identificação precoce da doença. Durante a consulta de enfermagem, o enfermeiro deve atentar para: 45 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA • início precoce da atividade sexual; • multiplicidade de parceiros; • higiene íntima inadequada; • ingestão nutricional com baixa quantidade de vitaminas; • tabagismo; • uso prolongado de anticoncepcionais orais; • relações sexuais sem preservativos; • exame positivo para HPV (Papiloma Vírus Humano). A Organização Mundial de Saúde (OMS) indica o HPV como o principal fator de risco para o câncer de colo de útero. Saiba mais Para saber mais sobre o tema, leia: INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Coordenação Geral de Ações Estratégicas. Divisão de Apoio à Rede de Atenção Oncológica. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero. Instituto Nacional de Câncer. Coordenação Geral de Ações Estratégicas. Divisão de Apoio à Rede de Atenção Oncológica. Rio de Janeiro: 2011. O Instituto Nacional de Combate ao Câncer (Inca), maior referência em pesquisa sobre câncer em nosso país, lançou, em 2011, as diretrizes brasileiras de rastreamento do câncer de colo de útero. Elas trazem informações sobre os possíveis resultados de exame para diagnóstico de câncer de colo de útero e como proceder. O exame de Papanicolau é um exame ginecológico que possibilita o diagnóstico do câncer de colo de útero. O câncer de colo de útero e o de mama causam grande impacto, além de demandarem atenção e acompanhamento do paciente e sua família. Mulheres com câncer de colo de útero se encontram fragilizadas e ansiosas com o diagnóstico, prognóstico e com as mudanças na vida pessoal e familiar provocadas pela doença. O enfermeiro precisa estar preparado e ter conhecimento sobre esse problema, seus sintomas e tratamento, e, a partir daí, identificar as maiores dificuldades que podem envolver o contexto biopsicossocial, espiritual e tomar medidas que possam auxiliar a paciente e sua família por meio de uma equipe multiprofissional. 46 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I O câncer de mama é um dos males mais temidos pelas mulheres. Talvez porque quando falamos do câncer de mama, algumas associama doença com a mutilação, devido à mastectomia, tratamento utilizado em alguns casos da doença. Observação O Inca (2016) estimou 600 mil novos casos de câncer entre 2016 e 2017. Entre os mais comuns entre as mulheres, estão: cânceres de mama (28,1%), intestino (8,6%), colo do útero (7,9%), pulmão (5,3%) e estômago (3,7%). Temos duas informações que precisamos levar em conta quando falamos do câncer de mama. Uma é que o tipo de câncer mais incidente no mundo, porém, a outra é que, se diagnosticado precocemente, tem bom prognóstico. Tumor Gânglios linfáticos Figura 23 – Câncer de mama O enfermeiro deve conhecer e investigar os seguintes fatores de risco para câncer de mama, lembrando que não há uma causa única para essa patologia, e todas devem ser levadas em consideração durante a avaliação: • obesidade e sobrepeso após a menopausa; 47 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA • sedentarismo; • consumo de bebida alcoólica; • exposição frequente a radiações ionizantes (raio x, mamografia e tomografia); • primeira menstruação antes dos 12 anos de idade; • não ter tido filhos; • gravidez após os 30 anos; • não ter amamentado; • parar de menstruar após os 55 anos; • uso de anticoncepcional por tempo prolongado; • ter feito reposição hormonal por mais de cinco anos após a menopausa; • fatores hereditários e genéticos. Além deles, a mulher que possui alterações genéticas herdadas na família, especialmente nos genes BRCA1 e BRCA2, tem risco elevado de câncer de mama. Durante a consulta de enfermagem, o enfermeiro deve investigar possíveis sinais e sintomas que exigem maior atenção, tais como: • caroço (nódulo) fixo e geralmente indolor; • alterações no bico do peito (mamilo); • pele da mama avermelhada, retraída ou parecida com casca de laranja; • pequenos nódulos na região embaixo dos braços (axilas) ou no pescoço; • saída de líquido anormal das mamas. Quando investigamos na literatura quais ações são realizadas pelo enfermeiro na mulher em relação ao câncer de mama, encontramos certa carência na atenção básica, sendo citadas a consulta de enfermagem e o exame clínico das mamas. É preciso que o enfermeiro desenvolva programas de educação em saúde e outras formas de abordagem, de modo a garantir uma atenção de qualidade às usuárias dos serviços de saúde. 48 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Uma das ações educativas que o enfermeiro deve desenvolver é ensinar a mulher a fazer o autoexame de mama, que pode auxiliar no diagnóstico precoce da doença. Figura 24 – Autoexame de mama Segundo o Ministério da Saúde (INCA, 2016), é recomendado que mulheres de 50 a 69 anos façam uma mamografia a cada dois anos. A mamografia diagnóstica serve para avaliar uma alteração suspeita na mama e poderá ser feita em qualquer idade. A mamografia e o exame clínico das mamas identificam alterações suspeitas, mas a confirmação de câncer de mama é feita em laboratório, pelo exame histopatológico, que analisa uma pequena parte retirada da lesão (biópsia). Figura 25 – A mamografia é indicada no rastreamento do câncer de mama O acesso à investigação diagnóstica das alterações suspeitas da mama, de modo ágil e com qualidade, é um direito da mulher. Para aquelas com maior risco de câncer de mama, é recomendado que elas 49 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA conversem com o médico para avaliação do risco e a conduta a ser seguida. Os serviços de saúde devem priorizar a consulta das mulheres com nódulo ou outras alterações suspeitas da mama. A rapidez da avaliação facilita a detecção precoce da doença. Uma ação que vem sendo desenvolvida pelo enfermeiro é o Outubro Rosa. O movimento popular Outubro Rosa é internacional, começou na década de 1990 para estimular a participação da população no controle do câncer de mama. Anualmente, no mês de outubro, várias atividades são realizadas com o objetivo de compartilhar informações sobre o câncer de mama, promover a conscientização sobre a doença, proporcionar maior acesso aos serviços de diagnóstico e de tratamento e contribuir para a redução da mortalidade. Figura 26 – Símbolo do outubro rosa, mês da conscientização do câncer de mama Cabe ao enfermeiro indicar e fornecer orientações relativas às medidas preventivas e de diagnóstico, acompanhar a paciente e a família, e manter em mente que as ações de enfermagem devem ser individualizadas, considerando suas características pessoais e sociais. As orientações na forma impressa têm sido indicadas, pois esse recurso ajuda a elucidar quaisquer dúvidas da paciente e da sua família em um momento em que a equipe médica não esteja disponível. Saiba mais Para mais informações sobre o câncer de mama, leia a obra a seguir: BUSHATSKY, M. et al. Câncer de mama: ações de prevenção na estratégia de saúde da família. Journal of Research: Fundamental Care Online, v. 6, n. 2, p. 663-675, abr./jun. 2014. 50 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Mesmo a gestação sendo vista como um momento de alegria e realização, 25% das mulheres apresentam algum tipo de complicação no pré-natal ou puerpério. Estudos revelam que mais de 90% dos casos de óbito materno ocorrem por causas evitáveis, dentre as quais destacam-se as infecções, doenças hipertensivas e hemorragia (BRASIL, 2005a). O principal objetivo da assistência pré-natal e puerperal realizada pelo enfermeiro é que a mulher e a família sejam assistidas desde o início da gravidez e que essa assistência seja garantida até o término da gestação, garantindo o nascimento de uma criança saudável, assim como conforto e serenidade à mãe, ao recém-nascido e a toda família. Deve ser ofertado e incentivado à mulher a realizar as consultas de pré-natal e, com elas, o acompanhamento pelo enfermeiro, que usa a consulta de enfermagem e a Sistematização da Assistência de Enfermagem para conhecer a gestante, suas fragilidades, dificuldades, dúvidas e amenizar todas as questões de maneira que ela e a família se sintam confortáveis com essa nova fase. É importante também que a família se sinta acolhida pelo profissional enfermeiro para tirar dúvidas e amenizar qualquer anseio que possa ocorrer. Algumas ações podem ser identificadas durante o acompanhamento familiar, além de outras ações às quais o enfermeiro poderá atentar com proatividade para que a gestante ou puérpera seja bem atendida. O Ministério da Saúde publicou o Manual Técnico de Pré-natal e Puerpério, que auxilia muito no direcionamento das ações às quais os profissionais de saúde precisam atentar e nas quais atuar. Algumas delas são: • captação precoce de gestação na comunidade; • garantia de atendimento a todas as gestantes que procuram o serviço de saúde, mínimo de seis consultas de pré-natal; • garantia de realização dos exames complementares a todas as gestantes atendidas; • escuta ativa da mulher e de seus(suas) acompanhantes, esclarecendo dúvidas e informando sobre o que vai ser feito durante a consulta e as condutas a serem adotadas; • atividades educativas a serem realizadas em grupo ou individualmente, com linguagem clara e compreensível, proporcionando respostas às indagações da mulher ou da família e as informações necessárias; • anamnese e exame clínico-obstétrico da gestante; • prevenção e tratamento dos distúrbios nutricionais; • tratamento das intercorrências da gestação, entre outras (BRASIL, 2005a). 51 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Saiba mais Para mais informações sobre o tema, consulte a obra a seguir: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Área Técnica de Saúde da Mulher. Pré-natal e puerpério:atenção qualificada e humanizada – manual técnico. Brasília: Ministério da Saúde, 2005a. 163 p. O enfermeiro deverá se organizar para realizar uma visita domiciliar, preferencialmente na primeira semana após a alta hospitalar, para que o aleitamento materno seja iniciado o mais precocemente possível. Ele deve observar como está sendo a pega do recém-nascido e responder a perguntas quanto ao aleitamento materno e demais dúvidas que surgirem. Se o recém-nascido (RN) tem classificação de risco, recomenda-se que a visita seja realizada nos primeiros três dias após a alta. Durante a assistência ao pré-natal, a gestante deve ser incentivada a procurar a Unidade de Saúde para realização da primeira consulta da mãe e RN; caso a unidade tenha a possibilidade de pré-agendamento, o enfermeiro poderá programar com o agente comunitário de saúde a marcação das consultas para facilitar para a gestante e a família. É imprescindível conscientizar a gestante e os familiares a procurarem a unidade de saúde para apoio e consulta assim que possível, pois há relatos na literatura de que um número pequeno e insuficiente de mulheres consegue receber essa visita no domicílio nos primeiros dias de vida, o que pode prejudicar no processo de criação de elo mãe-filho e na amamentação, a qual, para muitas mulheres, é difícil (BRASIL, 2005a). Durante a primeira consulta, o enfermeiro deverá realizar exame clínico ginecológico minucioso, junto com a Sistematização da Assistência de Enfermagem e orientações sobre cuidados gerais com a mama, a higiene íntima e o RN, além de orientar e sanar as dúvidas sobre amamentação. Caso essa consulta não seja no domicílio da mulher, deve-se avaliar a possibilidade de alguém acompanhá-la para, assim, participar das orientações e ser fonte de apoio próxima dessa puérpera. 52 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Figura 27 – Orientações sobre amamentação pelo enfermeiro Geralmente, a gestante procura algum sistema de apoio mais velho e interno da família para auxiliar na manutenção da amamentação, porém, isso pode ter resultados positivos e negativos, dependendo das crenças e valores. Cabe ao enfermeiro identificá-los e atuar em acordo com eles. A participação do companheiro no contexto geral de cuidados com a criança vem crescendo; assim, podemos dizer que ele também deve ser inserido nesse contexto de orientações e cuidados. É importante que o enfermeiro se sinta capacitado para praticar as orientações e manejo da amamentação de maneira que também consiga melhor adesão da mulher às orientações que irá prestar, sejam elas verbais, folhetos explicativos, entre outras formas, e que saiba identificar a necessidade individual de cuidado de cada puérpera. É preciso que o enfermeiro saia do paradigma de cuidados baseados no tecnicismo, como verificação de pressão arterial, avaliação de lóquios e exame físico, e crie vínculos com a puérpera e a família, propiciando que eles confiem no profissional e expressem todos os medos e anseios, possibilitando que eles sejam minimizados ou sanados pelo enfermeiro. Nesse contexto, a humanização do cuidado é essencial para a prática profissional. Outra demanda importante no cuidado à mulher é o climatério. O que é o climatério? Vamos entender a diferença de climatério e menopausa. O climatério é definido pela Organização Mundial da Saúde como uma fase biológica da vida e não um processo patológico, que compreende a transição entre o período reprodutivo e o não reprodutivo da vida da mulher. A menopausa é um marco dessa fase, correspondendo ao último ciclo menstrual, somente reconhecida depois de passados 12 meses da sua ocorrência e acontece geralmente em torno dos 48 aos 50 anos de idade (BRASIL, 2008b). 53 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA O climatério não é considerado uma doença, e sim uma fase natural da vida da mulher, e muitas passam por ela sem queixas ou necessidade de medicamentos. Outras têm sintomas que variam na sua diversidade e intensidade. No entanto, em ambos os casos, é fundamental que haja, nessa fase da vida, um acompanhamento sistemático visando à promoção da saúde, ao diagnóstico precoce, ao tratamento imediato dos agravos e à prevenção de danos, sendo o enfermeiro também responsável por essas ações, em conjunto com uma equipe multiprofissional. Durante as consultas de enfermagem ginecológicas ou de rotina às mulheres, o enfermeiro deve identificar possíveis sinais e sintomas, e iniciar a orientação sobre o climatério. Pouco se fala dele em instituições de saúde e pouca é a procura dessas mulheres para orientação com enfermeiros. Geralmente, sua principal atitude é marcar o ginecologista para avaliação dos sintomas que desconhecem ser do climatério. Porém, cabe ao enfermeiro identificar na pré-consulta as mulheres que demandam atenção nesse contexto. Após a identificação do climatério, alguns temas são sugeridos pelo Ministério da Saúde para serem abordados com essa clientela. São eles: • sexualidade; • alimentação saudável; • DSTs; • prevenção de câncer (BRASIL, 2008b). É importante que o enfermeiro identifique as maiores necessidades da mulher e a encaminhe para outras opções que não somente medicamentosas, visando à melhor adaptação possível a essa fase do ciclo vital. Muitas modalidades terapêuticas têm sido utilizadas, aliadas a um estilo de vida saudável no que diz respeito à alimentação, atividade física, saúde mental e emocional, as quais podem apoiar de forma satisfatória a mulher durante o climatério. É de suma importância que a mulher saiba identificar os sinais e sintomas, e a educação em saúde dentro das unidades de saúde é essencial para esse resultado. Essas práticas devem ser incentivadas pelo gestor da instituição e incentivadas pelo enfermeiro, de forma que a mulher tenha acesso às informações de forma clara e que permita-lhe buscar ajuda. Dessa forma, evitamos possíveis desconfortos de intervenção, promovendo melhor qualidade de vida a essas mulheres durante esse ciclo de vida. Saiba mais Sobre o climatério, leia o texto a seguir: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Manual de atenção à mulher no climatério/menopausa. Brasília: 2008b. 192 p. 54 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Dando continuidade aos cuidados necessários, iniciaremos a discussão de outras demandas importantes: a saúde do adulto e do idoso. E os problemas que mais necessitam de cuidado e atenção são as doenças crônicas não transmissíveis. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2013c), doenças crônicas são um grupo de condições crônicas relacionadas às múltiplas causas com início gradual ou assintomático de prognóstico incerto de longa duração. Podem ter quadro clínico estável ou que muda ao longo do tempo, com períodos de agudização, podendo gerar alterações funcionais e incapacidade, interferindo diretamente na qualidade de vida do paciente e família. Necessitam de mudanças no estilo de vida, o que requer conscientização e entendimento sobre a doença em um processo contínuo de adaptação para essa fase da vida. A Organização Mundial de Saúde (BRASIL, 2013c) alerta que as doenças crônicas constituem problema de saúde pública importante, correspondendo a 72% das causas de mortes. Hoje, são responsáveis por 60% de todo o ônus decorrente de doenças no mundo. Prevê-se que, no ano 2020, as doenças crônicas serão responsáveis por 80% da carga de doença dos países em desenvolvimento, como o Brasil. Essa necessidade se dá pelo perfil epidemiológico que nosso país passa de envelhecimento acentuado da população. Outros responsáveis por esses números são a obesidade, hipertensão arterial, diabetes, dislipidemias, câncer e outras comorbidades, além dos determinantes sociais importantes,tais como diferenças na aquisição dos bens e dos serviços, baixa escolaridade e desigualdade no acesso à informação, que influenciam diretamente na maior prevalência das doenças crônicas e dos agravos decorrentes de sua evolução. Figura 28 – Controle de hipertensão arterial – doença crônica incidente na fase adulta. Segundo o Ministério da Saúde, a Rede de Atenção às Pessoas com Doenças Crônicas tem por objetivos gerais: 1. Fomentar a mudança do modelo de atenção à saúde, fortalecendo o cuidado às pessoas com doenças crônicas. 55 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA 2. Garantir o cuidado integral às pessoas com doenças crônicas. 3. Impactar positivamente nos indicadores relacionados às doenças crônicas. 4. Contribuir para a promoção da saúde da população e prevenir o desenvolvimento das doenças crônicas e suas complicações (BRASIL, 2013c). Diante do contexto anterior, podemos afirmar que a Estratégia da Saúde da Família é o principal método de organização e expansão da atenção básica de saúde (ABS), e o Programa de Requalificação das Unidades Básicas de Saúde possibilita a qualificação da infraestrutura da ABS. Entende-se que a ação multiprofissional da equipe de saúde que irá atender essa demanda deve ser voltada aos principais problemas de saúde daquela população e coerente com a atuação em rede, respondendo de forma efetiva às necessidades encontradas. O enfermeiro tem papel essencial em ações como orientações sobre a doença, seus sinais e sintomas e complicações, auxílio na adesão ao tratamento e nas orientações de polifarmácia e no autocuidado, essencial para o controle da doença. O acolhimento realizado por esse profissional é uma das ações mais importantes no início do diagnóstico das doenças crônicas. É preciso que o enfermeiro tenha conhecimento sobre todo o contexto que essas doenças envolvem para poder ser o elo de confiança e de cuidado ativo com os pacientes. A acolhida é um modo de operar os processos de trabalho em saúde de forma a atender a todos que procuram os serviços médicos, ouvindo seus pedidos e assumindo uma postura capaz de acolher, escutar e dar respostas adequadas aos usuários. É preciso que o enfermeiro exercite a escuta com responsabilização e resolutividade, e oriente o usuário e a família para a continuidade da assistência por meio de referência e contrarreferência efetivos. Como enfermeiros com foco na família, precisamos entender e atuar com a atenção colaborativa e centrada na pessoa e na família, transformando a relação entre os usuários e os profissionais de saúde. É essencial a participação e colaboração de todos nas decisões, implementação e monitoramento do paciente com a família. Observação A atenção centrada na pessoa e na família baseia-se em dignidade e respeito, bem como no compartilhamento de informações completas entre os envolvidos (usuário, família e profissionais). O resultado dessa tríade (paciente, família e profissionais) resulta em melhor adesão ao tratamento, controle da doença e consequente melhoria na qualidade de vida de ambos. 56 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Dentre as ações comuns à equipe multiprofissional com participação efetiva e direta do enfermeiro, temos: • promoção da saúde (ações educativas com ênfase em mudanças do estilo de vida, correção dos fatores de risco e divulgação de material educativo); • capacitação de profissionais; • encaminhamento a outros profissionais, quando indicado; • ações assistenciais individuais e em grupo; • gerenciamento do programa conforme orientações do Ministério da Saúde. Saiba mais Consulte: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Diretrizes para o cuidado das pessoas com doenças crônicas nas redes de atenção à saúde e nas linhas de cuidado prioritárias. Brasília, 2013c. 28 p. Como educadores em saúde que somos, devemos pensar em ações direcionadas às mudanças de hábito para a prevenção da doença e de agravos que podem piorar a situação clínica do paciente e causar perda da autonomia e dependência funcional, impactando diretamente na qualidade de vida dele e de sua família. Um exemplo é auxiliar o paciente no controle do peso, responsável, hoje, por até 30% dos casos de hipertensão arterial. O ideal seria um índice de massa corporal (IMC) inferior a 25 kg/m2 e circunferência da cintura inferior a 102 cm para homens e 88 cm para mulheres, porém, a diminuição de 5% a 10% do peso corporal inicial já é capaz de produzir redução da pressão arterial. Figura 29 – Incentivar hábitos saudáveis 57 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA A adoção de hábitos alimentares saudáveis é essencial para a meta descrita anteriormente. Para isso, não podemos esquecer aquilo que é privativo do enfermeiro, e, nesse contexto, precisamos trabalhar com a equipe multiprofissional. Falaremos a seguir sobre o Nasf (Núcleo de Apoio de Saúde da Família), que dispõe de nutricionista de apoio às ações voltadas aos pacientes na atenção básica. A dieta desempenha um papel importante no controle das doenças crônicas. Um regime orientado à redução de sódio, à base de frutas, verduras e legumes, cereais integrais, leguminosas, leite e derivados desnatados, quantidade reduzida de gorduras saturadas, trans e colesterol, demonstra ser capaz de reduzir a pressão arterial e comorbidades associadas e impactantes nas outras doenças crônicas como a diabetes mellitus. A orientação referente à redução da ingestão de bebida alcoólica e abandono do tabagismo também é importante, pois estudos relatam o aumento da pressão arterial e da diabetes mellitus sob o uso contínuo de ambas as substâncias. Nesse contexto também é preciso intervir de forma a identificar o uso e atuar com a equipe multidisciplinar, visando à melhor forma de abordagem e intervenção para que essas ações não sejam temporárias, e sim uma real mudança do hábito de vida. O enfermeiro é essencial no processo de conscientização para a adesão a essas mudanças, servindo de apoio ao paciente e a família. A inatividade física é um dos fatores de risco mais importantes para as doenças crônicas, associada à dieta inadequada e ao uso do fumo. É bastante prevalente o sedentarismo entre os adultos e idosos. É importante que o enfermeiro conheça os benefícios da atividade física para incentivar os pacientes a aderir a essa prática. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2013c), são vantagens da prática de exercícios: • melhor funcionamento corporal, diminuindo as perdas funcionais, favorecendo a preservação da independência; • redução no risco de morte por doenças cardiovasculares; • melhora do controle da pressão arterial; • manutenção da densidade mineral óssea, com ossos e articulações mais saudáveis; • melhora da postura e do equilíbrio; • melhor controle do peso corporal; • melhora do perfil lipídico e glicemia. As orientações tratam de uma vida mais ativa e englobam a realização de caminhadas, subir e descer escadas, e atividades em geral que durem de preferência 30 minutos, cinco dias por semana. 58 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Algumas dicas são importantes ao profissional de saúde, para que alcance melhores resultados com o paciente e a família: • estabelecer metas e prazos de controle; • estimular à corresponsabilidade ou empoderamento do paciente e família no processo saúde-doença; • orientar sobre as mudanças do estilo de vida e esquema medicamentoso; • prevenir quanto a apresentação assintomática de algumas doenças crônicas e às consequências de não tratá-las; • enfatizar os benefícios e efeitos da medicação e a importância do acompanhamento. Saiba mais Para saber mais sobre o tema, leia o texto indicado a seguir: MATURATO,S.; MANSO, B. T. S. O trabalho clínico da enfermeira: para além das doenças crônicas. Journal of Research: Fundamental Care Online, v. 7, n. 4, p. 3.430-3.437, out./dez, 2015. Com relação aos homens, a proposição da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem visa qualificar a saúde da população masculina na perspectiva de linhas de cuidado que resguardem a integralidade da atenção. Figura 30 – Saúde do homem 59 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Estudos comparativos entre homens e mulheres têm comprovado o fato de que os homens são mais vulneráveis às doenças, sobretudo às enfermidades graves e crônicas, e que morrem mais precocemente do que as mulheres (BRASIL, 2013c). Muitos agravos poderiam ser evitados caso os homens realizassem, com regularidade, as medidas de prevenção primária, porém, em sua maioria, são resistentes na atenção à saúde. Eles alegam que, como provedores da família, precisam trabalhar e não têm tempo de cuidar da saúde. Os homens têm dificuldade em reconhecer suas necessidades, rejeitando a possibilidade de adoecer. Além disso, os serviços e as estratégias de comunicação privilegiam as ações de saúde para a criança, o adolescente, a mulher e o idoso. A violência é uma das demandas de saúde mais comum no público masculino, principalmente os jovens e adolescentes. É um fenômeno difuso, complexo, multicausal, com raízes em fatores sociais, culturais, políticos, econômicos e psicobiológicos, que envolve práticas em diferentes níveis. As causas externas constituem um grande problema de saúde pública com forte impacto na mortalidade e morbidade da população. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2008c), os óbitos por causas externas constituem a primeira causa de mortalidade no grupo populacional dos 25 aos 59 anos. Nesse contexto, o enfermeiro precisa estar atento aos problemas sociais e à questão multicausal que envolve essa exigência. É preciso atuar de forma que haja abertura do paciente para tal avaliação com a equipe multidisciplinar. O câncer de próstata é uma questão importante, pois é permeada de uma evolução lenta e possível de cura se diagnosticado precocemente, porém, com o perfil do homem em não buscar serviços de saúde, esse tipo de patologia pode levar à morte. Na população masculina, é o segundo tipo de tumor mais incidente, ficando atrás somente do câncer de pele. Os principais fatores de risco aos quais o enfermeiro deve estar atento na avaliação desse paciente são: idade (maior incidência após os 50 anos), alimentação (pobre em frutas e hortaliças e rica em gorduras e carne vermelha), história familiar (pai ou irmão com caso de câncer antes dos 60 anos), consumo excessivo de álcool, tabagismo e vasectomia, que também estão relacionados a fatores de risco para o câncer de próstata. 60 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Figura 31 – Câncer de próstata O toque retal e a dosagem de PSA são as formas de rastreio da doença sugeridos pelo Ministério da Saúde. O diagnóstico do câncer da próstata é feito pelo estudo histopatológico do tecido obtido pela biópsia da próstata, que deve ser considerada sempre que houver anormalidades no toque retal ou na dosagem do PSA. Muitos homens não apresentam sinais e sintomas da doença, e, quando eles aparecem, são similares aos de hiperplasia da próstata. Sendo assim, é essencial realizar o diagnóstico diferencial por meio dos exames de rastreamento e complementares. Inicialmente, os sintomas do câncer de próstata podem ser dificuldade de urinar, necessidade de urinar mais vezes durante o dia ou à noite; em situação tardia, pode provocar dor óssea, sintomas urinários ou, quando mais grave, infecção generalizada ou insuficiência renal. Partindo-se do preceito ético de que o conjunto das estratégias de detecção precoce e tratamento de um câncer deva resultar em mais benefícios do que danos, tanto na perspectiva do indivíduo quanto na da população, o Inca (BRASIL, 2002) recomenda: • sensibilizar a população masculina para a adoção de hábitos saudáveis de vida (dieta rica em fibras e frutas e pobre em gordura animal, atividade física e controle do peso) como uma ação de prevenção do câncer; • indicar o rastreamento oportunístico, ou seja, a sensibilização de homens com idade entre 50 e 70 anos que procuram os serviços de saúde por motivos outros que o câncer da próstata sobre a possibilidade de detecção precoce de câncer de próstata; • sensibilizar os profissionais de quanto a novos avanços nos campos da prevenção, detecção precoce, diagnóstico, tratamento e cuidados paliativos no câncer da próstata; 61 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA • estabelecer parcerias com instituições universitárias visando ao melhor conhecimento de temas relacionados à prevenção, detecção precoce, tratamento e cuidados paliativos no câncer da próstata e sua inclusão no currículo das escolas biomédicas. Cabe ao enfermeiro incentivar o rastreamento do câncer de próstata com os homens do seu território, seja por meio de campanhas educativas de conscientização, por acolhimento daqueles que vão ao serviço de saúde por outro motivo ou por meio de visitas domiciliares. A avaliação pode ser feita através da consulta de enfermagem, levando em consideração os fatores de risco para esse tipo de tumor, sinais e sintomas e outras queixas. Cabe ao enfermeiro achar meios de atingir homens para que eles cuidem de sua saúde e se conscientizem da importância do diagnóstico precoce, evitando mutilações e morte. Saiba mais Para saber mais sobre o câncer de próstata, leia o texto a seguir: PEREIRA, E. P.; SALVADOR, M. C. M.; HARTER, R. G. Conhecimentos, atitudes e práticas acerca da detecção do câncer de próstata. Acta Paulista de Enfermagem, v. 23, n. 1, p. 88-93, 2010. 1.5.4 Envelhecimento O mundo vem sofrendo uma transição demográfica constante, em que o número de idosos tende a ser cada vez maior, isso porque, hoje, os idosos têm maior acesso e melhores cuidados de saúde. O envelhecimento é um processo dinâmico, progressivo e irreversível, ligado intimamente a fatores biológicos, psíquicos e sociais. Pode ser compreendido como um processo natural, de diminuição progressiva da reserva funcional dos indivíduos – senescência –, o que, em condições normais, não costuma provocar qualquer problema. No entanto, em condições de sobrecarga, como, por exemplo, doenças, acidentes e estresse emocional, pode ocasionar uma condição patológica que requeira assistência. Figura 32 – Saúde do idoso 62 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Como enfermeiros, precisamos desmistificar a questão de que tudo que acontece com o idoso é devido ao envelhecimento. É necessário identificar e tratar esses problemas da forma mais rápida possível, visando manter a sua autonomia e qualidade de vida. O Ministério da Saúde disponibilizou a Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa, que é um instrumento valioso que auxilia na identificação das pessoas idosas frágeis ou em risco de fragilização. Para os profissionais de saúde, ela possibilita o planejamento, a organização das ações e um melhor acompanhamento do estado de saúde dessa população. Mais uma vez, o acolhimento é papel essencial do enfermeiro com o idoso e sua família. Para isso, é importante que alguns quesitos sejam levados em conta e valorizados: • estar preparado para lidar com o envelhecimento; • reconhecer a necessidade da interdisciplinaridade no cuidado do idoso; • facilitar o acesso do idoso nas diversas áreas de atenção à saúde; • investir na qualificação dos profissionais que atendem a essa demanda; • estabelecer uma relação respeitosa; • entender que o idoso é capaz de compreender as perguntas que lhe são feitas ou as orientações que lhe sãofornecidas, nunca se dirigindo primeiramente a seu acompanhante; • chamar o idoso pelo nome e manter o contato visual; • utilizar linguagem clara e evitar termos técnicos. As principais exigências dessa população são: doenças crônicas e suas comorbidades, depressão, quedas, vacinação, incontinência urinária, sexualidade e alimentação. Muitos desses contextos já foram comentados neste livro-texto e devem ser direcionados aos idosos também, como na situação de DSTs, doenças crônicas e mudanças de hábito. É preciso que o enfermeiro conheça o perfil epidemiológico da sua população de idosos para posteriormente traçar metas para ações mais efetivas de acordo com as reais necessidades. Além das visitas domiciliares, é necessário que o profissional agende consultas/atendimentos específicos para idosos em sua agenda de atendimentos. Essa população tem necessidade dessa programação para expor suas necessidades e atendimento sistematizado e individualizado. Estimular a independência, a autonomia e o autocuidado são ações essenciais que devem ser estimuladas pelo enfermeiro. Identificar possíveis problemas que podem alterar essa dinâmica é essencial, visando prevenir e/ou minimizar agravos e promover melhor qualidade de vida ao paciente e à família. 63 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA 2 POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO BÁSICA No Sistema Único de Saúde (SUS), por um lado, podemos, apontar avanços na descentralização e na regionalização da atenção e da gestão da saúde, com ampliação dos níveis de universalidade, equidade, integralidade e controle social; por outro, a fragmentação e a verticalização dos processos de trabalho esgarçam as relações entre os diferentes profissionais da saúde e entre estes e os usuários. Lançada em 2003, a Política Nacional de Humanização (PNH) busca produzir mudanças nos modos de gerir e cuidar. Como política, a humanização deve traduzir princípios e modos de operar no conjunto das relações entre profissionais e usuários, entre especialistas de outras áreas, as diversas unidades e serviços de saúde e entre as instâncias que constituem o SUS. Humanizar se traduz, então, como inclusão das diferenças nos processos de gestão e de cuidado. O baixo investimento na qualificação dos trabalhadores, especialmente no que se refere à gestão participativa e ao trabalho em equipe, diminui a possibilidade de um processo crítico e comprometido com as práticas de saúde e com os usuários em suas diferentes necessidades. Figura 33 – Interdisciplinaridade é uma das metas da Política Nacional de Humanização O Ministério da Saúde propõe alguns princípios norteadores da Política de Humanização, são eles: 1. Valorização da dimensão subjetiva e social em todas as práticas de atenção e gestão, fortalecendo/estimulando processos integradores e promotores de compromissos/responsabilização. 2. Estímulo a processos comprometidos com a produção de saúde e com a produção de sujeitos. 3. Fortalecimento de trabalho em equipe multiprofissional, estimulando a transdisciplinaridade e a grupalidade. 64 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I 4. Atuação em rede com alta conectividade, de modo cooperativo e solidário, em conformidade com as diretrizes do SUS. 5. Utilização da informação, da comunicação, da educação permanente e dos espaços da gestão na construção de autonomia e protagonismo de sujeitos e coletivos (BRASIL, 2004). E ainda indica quais serão as prioridades na PNH: 1. Serão reduzidas as filas e o tempo de espera, com ampliação do acesso e atendimento acolhedor e resolutivo baseados em critérios de risco. 2. Todo usuário do SUS saberá quem são os profissionais que cuidam de sua saúde, e os serviços de saúde se responsabilizarão por sua referência territorial. 3. As unidades de saúde garantirão as informações ao usuário, o acompanhamento de pessoas de sua rede social (de livre escolha) e os direitos do código dos usuários do SUS. 4. As unidades de saúde garantirão gestão participativa aos seus trabalhadores e usuários, assim como educação permanente aos trabalhadores (BRASIL, 2004). Cabe ao enfermeiro, gestor de unidade, conhecer essa política e planejar ações com os gestores municipais, profissionais e usuários, visando à humanização e efetivação do cuidado. Várias estratégias são sugeridas nesta política, entre elas as de ação na atenção básica em que o enfermeiro é fundamental: • elaborar projetos de saúde individuais e coletivos para usuários e sua rede social, considerando as políticas intersetoriais e as necessidades de saúde; • incentivar práticas promocionais de saúde; • estabelecer formas de acolhimento e inclusão do usuário que promovam a otimização dos serviços, o fim das filas, a hierarquização de riscos e o acesso aos demais níveis do sistema; • comprometer-se com o trabalho em equipe, de modo a aumentar o grau de corresponsabilidade, e com a rede de apoio profissional, visando maior eficácia na atenção em saúde. 65 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Observação Humanizar requer estratégias que são construídas entre os trabalhadores, usuários e gestores do serviço de saúde. Integrar os trabalhadores na gestão é fundamental para que eles, no dia a dia, reinventem seus processos de trabalho e sejam agentes ativos das mudanças no serviço de saúde. Incluir usuários e suas redes sociofamiliares nos processos de cuidado é um poderoso recurso. Naquilo que a PNH acredita ser uma diretriz, o acolhimento é uma das ações voltadas para a busca da humanização. O profissional de saúde, incluindo o enfermeiro, deve acolher, isto é, entender que cada indivíduo é único e tem necessidades específicas. Por meio do acolhida, o profissional deve sustentar a relação entre a equipe, serviços e usuários. O acolhimento deve ser o elo para a construção da relação de confiança, a qual necessita ser feita de forma coletiva e contínua, criando um compromisso de vínculo entre as equipes, serviços, trabalhadores e usuário. A consulta de enfermagem favorece esse tipo de ação por meio de escuta ativa e sistematizada, atendendo o indivíduo como um ser único, conhecendo suas necessidades para melhor intervenção, bem como de sua família, de acordo com o grau de vulnerabilidade e risco. A família entra no processo de cogestão da PNH, que nada mais é do que inserir outras pessoas (usuários ou profissionais) nas tomadas de decisão, de modo a produzir movimentos de desestabilização que favoreçam mudanças nas práticas de gestão e de atenção. Outra proposta da PNH é a ambiência, que diz respeito a proporcionar um ambiente receptivo e confortável, que permita a privacidade do paciente, sem, contudo, privá-lo de encontrar com outras pessoas. Um exemplo prático de ambiência seria uma brinquedoteca. Figura 34 – Brinquedoteca, modelo de ambiência 66 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I A clínica ampliada e compartilhada também faz parte da PNH, que busca a singularidade do paciente, sem foco exclusivo na doença. Trata-se da prática interdisciplinar, fazendo conexões e parcerias com outros modos de fazer saúde em busca das soluções possíveis para às necessidades do usuário. Isso inclui outros profissionais, tratamentos e até locais onde eles ocorrem. São necessários arranjos e dispositivos de gestão que privilegiem uma comunicação transversal na equipe e entre equipes (nas organizações e rede assistencial). O Ministério da Saúde sugere algumas práticas para profissionais de saúde que visam atuar com a clínica ampliada e compartilhada (BRASIL, 2009b): a) A escuta: em primeiro momento acolher toda queixa e relato do paciente, sem colocar como prioridade sua doença ou tratamento. É preciso ajudá-lo a reconstruir e respeitar os motivos que ocasionaram o seuadoecimento e as correlações que o usuário estabelece entre o que sente e a vida. Pode ser que não seja possível realizar este tipo de escuta com todos os pacientes, porém, temos a capacidade de classificar aqueles que precisam de prioridade. b) Vínculos e afeto: a equipe de referência é muito importante, porque a relação de cada membro da equipe com o usuário e familiares é singular, permitindo que as possibilidades de ajudar o sujeito doente se multipliquem. É preciso que a própria equipe se atente para não criar um mal-estar com o paciente por algum problema pessoal seu. c) Diálogo e informação: se queremos tornar o usuário autor da sua própria saúde, não devemos iniciar o diálogo com perguntas imperativas do tipo: Tomou o remédio? Comeu? Ou de forma a infantilizá-lo, perguntando se comportou-se? Devemos estar atentos também ao tipo de linguagem que deve ser utilizada, não usar termos técnicos. É importante também questionar o que o paciente entendeu do que foi dito pela equipe, pois isso faz todo sentido para adesão ao tratamento ou prática necessária. Auxiliar o indivíduo a lidar com a nova fase de saúde e se adaptar é essencial, lembrando que cada indivíduo se adapta de um jeito. A equipe na atenção básica tem mais chance de conhecer a família, a situação afetiva, as dificuldades, o sistema de apoio, as consequências e o significado do adoecimento de um deles. Assim, mais uma vez, mostramos o quanto a família é um sistema e que a intervenção deve ser conjunta. Saiba mais Leia: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Política Nacional de Humanização da Atenção e Gestão do SUS. Clínica ampliada e compartilhada. Brasília: Ministério da Saúde, 2009b. 67 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA A valorização do trabalhador também é uma meta da PNH. Acredita-se que, com a sua experiência diária, ele seja capaz de auxiliar nas tomadas de decisão com o usuário e a família. Informar o indivíduo e familiares sobre seus os direitos também faz parte das práticas da PNH. O paciente tem direito de saber sobre sua saúde, tratamento e necessidades, a fim de, como já falamos, ser coautor do cuidado à sua própria saúde. Para auxiliar na difusão dos propósitos da PNH, foi criado um portal colaborativo, o Humaniza SUS. Esse portal produz e difunde informações de humanização em saúde para gestores e profissionais envolvidos nessa política, visando à troca de experiências voltadas para o cuidado humanizado. A PNH investe em diversos materiais de formação, como cartilhas, documento base e outras publicações disponíveis on-line no portal do Ministério da Saúde. Observação Segundo o Ministério da Saúde, humanizar é construir relações que firmem os valores que orientam as políticas públicas de saúde. 3 ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA (ESF) No decorrer dos anos, o governo federal vem buscando adequar o SUS à sua realidade sociodemográfica e de saúde. Muitas são as mudanças no perfil epidemiológico da população e medidas precisaram ser tomadas para um melhor atendimento. Na reunião da Comissão Intergestores Tripartite, realizada em setembro de 2011, o Ministério da Saúde pactuou o lançamento da Portaria MS/GM nº 2.488, de 21 de outubro de 2011, que revisou as diretrizes e normas para a organização da Atenção Básica para a ESF e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (Pacs). A ESF segue a linha do que discutimos até agora sobre o cuidado com o indivíduo e a família. Traz a questão do atendimento em equipe, o acolhimento, a escuta, promovendo a saúde e minimizando agravos. São estratégias centrais da ESF: • participar do processo de territorialização; • identificar situações de risco e vulnerabilidade, realizando busca ativa e notificando doenças e agravos de notificação compulsória; • cadastrar famílias e indivíduos, garantindo a qualidade dos dados coletados e a fidedignidade do diagnóstico de saúde do grupo populacional da área adstrita; 68 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I • realizar reuniões sistemáticas interdisciplinares, organizadas de forma compartilhada, para planejamento e avaliação das ações; • incentivar a autonomia do cuidado ao usuário e sua família; • atividades educativas que interfiram no processo saúde-doença; • incentivo à participação da comunidade no processo saúde e doença da sua região. Alguns quesitos são essenciais para o funcionamento da ESF: • Existência de equipe multiprofissional: médico generalista ou da família, enfermeiro generalista ou especialista em saúde da família, auxiliar ou técnico de enfermagem, cirurgião dentista, auxiliar e/ou técnico em saúde bucal. • Cada equipe pode ter até 12 ACS, sendo que cada um deles poderá atender até 750 pessoas. • Cada equipe de ESF poderá ser responsável por até 4 mil pessoas, sendo recomendado 3 mil pessoas. Deve-se respeitar o grau de vulnerabilidade da comunidade. Quanto mais vulnerabilidade e risco a população tiver, menor deverá ser o número de pessoas por equipe. • Os profissionais da ESF deverão trabalhar em 40 h em uma única unidade, com exceção do médico, que poderá atuar em até duas equipes. Os profissionais podem trabalhar 32 h e dedicar 8 h aos serviços de emergência do município caso isso esteja em contrato e seja solicitado pelos gestores públicos (BRASIL, [s.d.]). Quem são os profissionais que atuam na ESF: • Enfermeiro: atende a saúde dos indivíduos da ESF e suas famílias cadastradas, realiza a consulta de enfermagem, procedimentos em geral, como a coleta do exame de Papanicolau (diagnóstico precoce do câncer de colo de útero), realiza atividades em grupo (gestantes, idosos, tabagistas etc.), elabora rotina e protocolos de atendimento que envolvem a equipe de enfermagem, solicita exames e prescreve medicamentos conforme legislação vigente do conselho de classe (Coren, Cofen), gerencia insumos e relatórios referentes à ESF no município, realiza o gerenciamento da equipe e a educação permanente de seus membros, em especial do técnico de enfermagem e agente comunitário de saúde. Exerce papel fundamental no acolhimento e escuta dos pacientes atendidos. • Médico: atua com o enfermeiro na educação permanente da equipe. É um profissional que se ocupa da saúde humana, promovendo a saúde, prevenindo, diagnosticando e tratando doenças 69 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA com competência e resolutividade, responsabilizando-se pelo acompanhamento do plano terapêutico do usuário, seja na unidade de saúde ou no domicílio. • Agente Comunitário De Saúde (ACS): responsável pelo elo entre a comunidade e a equipe, levando informações da sua comunidade para o planejamento e execução de ações direcionadas às necessidades prioritárias. Um pré-requisito para ser ACS é residir na região, para que conheça a realidade da população e do território. Cabe a esses profissionais cadastrar todas as pessoas do território, mantê-las atualizadas e orientar as famílias quanto à utilização dos serviços de saúde disponíveis. Deve acompanhá-las por meio de visitas domiciliares e ações educativas individuais e coletivas. Necessita manter uma visita/família/mês e, se a família demonstrar alguma vulnerabilidade ou risco, essa proporção de visitas deve ser maior. Sua cobertura de atuação deve abranger no máximo 750 pessoas e uma equipe de ESF pode ter no máximo 12 ACSs. • Técnico de Enfermagem: este profissional, sob a supervisão do enfermeiro, deve realizar procedimentos regulamentados no exercício de sua profissão tanto na unidade de saúde quanto em domicílio e outros espaços da comunidade, educação em saúde e educação permanente. • Cirurgião Dentista: deve definir o perfil epidemiológico da população para o planejamento e a programação em saúde bucal, a fim de oferecer atenção individual e coletiva voltadas à promoçãoda saúde e à prevenção de doenças bucais. • Auxiliar e técnico em saúde bucal: sobre a supervisão do cirurgião-dentista, realiza o acolhimento do paciente nos serviços de saúde bucal, a manutenção e a conservação dos equipamentos odontológicos, a remoção do biofilme e as fotografias e tomadas de uso odontológicos, a limpeza e a antissepsia do campo operatório, antes e após atos cirúrgicos, e as medidas de biossegurança de produtos e resíduos odontológicos. Observação Perceba que todos esses profissionais devem ter o compromisso com o acesso, o vínculo entre usuários e profissionais, e a continuidade e a longitudinalidade do cuidado, trabalho que só é possível com muito diálogo. Avaliando o perfil epidemiológico da população atual, muitos agravos vêm sendo considerados problemas de saúde pública e demandam um olhar multifacetado, necessitando de outros profissionais para atender à exigência diversa que vem ocorrendo. Seria um apoio às equipes de ESF que já atuam com o objetivo de atendimento multi e interdisciplinar. Para suprir essa necessidade populacional, foi criado o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf), composto por profissionais de diferentes áreas de atuação, de maneira integrada à ESF, possibilitando práticas de uma vida mais saudável e ativa. O Ministério da Saúde criou os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf), mediante a Portaria GM nº 154, de 24 de janeiro de 2008, republicada em 4 de março de 2008. O principal objetivo foi o de apoiar a inserção da Estratégia de Saúde da Família na rede de serviços, além de ampliar a abrangência 70 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I e o escopo das ações da atenção básica, e aumentar a sua resolutividade, reforçando os processos de territorialização e regionalização em saúde. A composição do Nasf deve ser definida pelos próprios gestores municipais e as equipes de SF mediante critérios de prioridades identificados a partir das necessidades locais e da disponibilidade de profissionais de cada uma das diferentes ocupações. É importante entender que o Nasf não é uma porta de entrada para o usuário, mas uma ponte de apoio à ESF e seus usuários. Os usuários devem ser encaminhados pela equipe de ESF. O Nasf deve atuar dentro de algumas diretrizes relativas à atenção primária a saúde: • ação interdisciplinar e intersetorial; • educação permanente em saúde dos profissionais e da população; • desenvolvimento da noção de território; • integralidade, participação social, educação popular; • promoção da saúde e humanização. O Nasf é composto de nove áreas estratégicas, que representam os diversos capítulos da presente publicação: • saúde da criança/do adolescente e do jovem; • saúde mental/reabilitação/saúde integral da pessoa idosa; • alimentação e nutrição; • serviço social; • saúde da mulher; • assistência farmacêutica; • atividade física/práticas corporais; • práticas integrativas e complementares. 71 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Segundo a Portaria 154, existem duas modalidades de Nasf: • O Nasf 1, composto por no mínimo cinco profissionais com formação universitária, entre os seguintes: psicólogo, assistente social, farmacêutico, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, ginecologista, profissional da educação física, homeopata, nutricionista, acupunturista, pediatra, psiquiatra e terapeuta ocupacional. • Cada um desses Nasf deve estar vinculado a um mínimo de oito e máximo de 20 equipes de SF, exceto nos estados da região Norte, onde o número mínimo passa a ser cinco. • O Nasf 2 deverá ter no mínimo três profissionais, entre os seguintes: psicólogo, assistente social, farmacêutico, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, profissional da educação física, nutricionista e terapeuta ocupacional; e se vincular a no mínimo três equipes de SF (BRASIL, 2008d). A ESF e o Nasf devem priorizar (BRASIL, 2010a): • atendimento compartilhado: com intervenção interdisciplinar, divisão de responsabilidades e saberes; • intervenções específicas dos profissionais do NASF junto ao usuário/ família e equipe de ESF; • ações comuns nos territórios: apoio a consultas, grupos, trabalhos educativos e inclusão social etc. O Nasf compartilha tais desafios da ESF e deve contribuir para o aumento da resolutividade e a efetivação da coordenação integrada do cuidar na atenção básica. Assim, apoio e compartilhamento de responsabilidades são aspectos centrais da missão dos Nasf. Saiba mais Para saber mais sobre esse assunto, leia o texto a seguir: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Diretrizes do NASF: núcleo de apoio a saúde da família. Brasília: Ministério da Saúde, 2010a. 72 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I 3.1 Outras equipes de atuação da atenção básica 3.1.1 Equipes de atenção básica a populações específicas A população de rua é uma das demandas de atenção. Essa população, assim como qualquer outra, é de responsabilidade dos serviços de saúde e dos profissionais que nela atuam. É preciso ampliar o atendimento a ela, e esse é um dos papéis dos profissionais de saúde da atenção básica. Figura 35 – Moradores de rua que demandam atenção à saúde O consultório convencional não é algo que poderia dar certo para moradores de rua. A equipe que atende esse grupo precisa ser itinerante, sempre articulando ações com as unidades de saúde do território que demandarem atenção (Caps, redes de urgência e emergência, ESF). As equipes dos consultórios na rua deverão cumprir a carga horária mínima semanal de 30 horas. O seu horário de funcionamento deverá ser adequado às demandas das pessoas em situação de rua, podendo ser diurno ou noturno. Essas equipes podem estar vinculadas ao Nasf. Segundo o Departamento de Atenção Básica do Ministério da Saúde, para o cálculo do teto das equipes dos consultórios na rua de cada município, são tomados como base os dados dos censos populacionais relacionados à população em situação de rua realizados por órgãos oficiais e reconhecidos pelo Ministério da Saúde (BRASIL, [s.d.]). Se a equipe precisar de locomoção, o gestor poderá acrescer o custo da unidade móvel no incentivo financeiro mensal. Caso isso ocorra, será necessário disponibilizar um veículo que comporte toda equipe, equipamentos, materiais e insumos indispensáveis para a realização do atendimento e a ainda permitir que algumas atividades sejam realizadas no seu interior. 73 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA A população ribeirinha da Amazônia Legal e Pantanal Sul Mato-Grossense é atendida pela atenção básica e apresenta várias demandas de atenção à saúde. Figura 36 – População ribeirinha Para esses indivíduos, pode-se optar por um dos dois arranjos disponíveis para eles: 1. Equipes de Saúde da Família Ribeirinhas (eSFR): desempenham a maior parte de suas funções em unidades básicas de saúde construídas/localizadas nas comunidades pertencentes à área adscrita e cujo acesso se dá por meio fluvial. 2. Equipes de Saúde da Família Fluviais (eSFF): desempenham suas funções em unidades básicas de saúde fluviais (UBSF). Sua composição básica deve conter um médico (generalista ou especialista em saúde da família), um enfermeiro (generalista ou especialista em saúde da família), um auxiliar ou técnico de enfermagem e seis a 12 ACSs. Em regiões endêmicas, é preciso presença de um microscopista, um técnico de laboratório e um bioquímico. Pode-se incluir também na composição básica o cirurgião dentista e um técnico-auxiliar de saúde bucal. O ACS deve trabalhar 40 horas semanais e também residir na área de atuação, assim como os auxiliares e técnicos de enfermagem. O restante da equipe deverá prestar atendimento à população no mínimo 14 dias da semana durante8 horas por dia e dois dias para atividades de educação permanente, planejamento e avaliação das ações e registro de produção. As unidades básicas de saúde fluviais (UBSF) devem: • funcionar, no mínimo, 20 dias/mês, com pelo menos uma equipe de saúde da família fluvial; • nas situações em que não forem possíveis os 20 dias no mês, deve-se fazer uma justificativa ao governo federal e propor o que for possível; 74 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I • planejar circuito de deslocamento que garanta o atendimento a todas as comunidades assistidas, ao menos até 60 dias, para assegurar a execução das ações de atenção básica pelas equipes, como, por exemplo, o pré-natal; • delimitar área de atuação; Devido à grande dispersão populacional, os municípios poderão solicitar ampliação da composição mínima das equipes de saúde da família fluviais e equipes de saúde da família ribeirinhas, podendo ser: • ACS: até 12 agentes para 100 pessoas cada; • auxiliar ou técnico de enfermagem: até quatro profissionais para cada 500 pessoas; • técnico bucal: até um técnico para 500 pessoas; • enfermeiros: até dois enfermeiros para no mínimo 1.000 pessoas. As unidades básicas de saúde fluviais e as equipes de saúde da família ribeirinhas poderão prestar serviços a populações de mais de um município. Outra demanda de grande importância na atenção básica é o Programa Saúde na Escola (PSE). Ele foi instituído pelo Decreto Presidencial nº 6.286, de 5 de dezembro de 2007, e surgiu como uma política intersetorial entre os Ministérios da Saúde e da Educação, com o objetivo de proporcionar atenção integral (promoção, prevenção, diagnóstico e recuperação da saúde e formação) à saúde de crianças, adolescentes e jovens do ensino público básico, no âmbito das escolas e unidades básicas de saúde, realizada pelas equipes de saúde da atenção básica e educação de forma integrada. São ações do PSE: • avaliação clínica e psicossocial que objetivam identificar necessidades de saúde; • promoção e prevenção que articulem práticas de formação, educativas e de saúde, visando à promoção da alimentação saudável, de condutas corporais e atividades físicas nas escolas, à educação para a saúde sexual e reprodutiva, à prevenção ao uso de álcool, tabaco e outras drogas, à promoção da cultura de paz e prevenção das violências, à promoção da saúde ambiental e desenvolvimento sustentável; e • educação permanente para qualificação da atuação dos profissionais da educação e da saúde e formação de jovens. 75 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Saiba mais Para saber um pouco mais sobre os serviços de atenção básica e sua forma de custeio e implantação, leia: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política nacional de atenção básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2012b. 110 p. 3.2 Territorialização em estratégia de saúde da família Como já foi discutido, o perfil epidemiológico da população tem mudado com o tempo. Além disso, as exigências de saúde e o grau de vulnerabilidade variam de região para região, impossibilitando ações padronizadas e unificadas dentro do nosso país. Para cada região, é preciso planejar ações que atendam e auxiliem no perfil daquela população, e, para isso, algumas ferramentas podem ser utilizadas, entre elas a territorialização. O que é territorialização? É a compreensão atual do processo saúde-doença, apontando que as variáveis biológicas, psíquicas e sociais remetem à necessidade de ações que possam intervir nos problemas que afetam um território. A concepção de território diz respeito às áreas econômica, política, cultural e epidemiológica, configurando, assim, uma realidade de saúde sempre em movimento e nunca pronta, em constante construção e reconstrução. A territorialização é essencial para o planejamento das ações da ESF, pois possibilita a visão geral e também detalhada da população, além da elaboração de indicadores de atuação baseados na realidade daquela região. Na avaliação da territorialização, conhecer o perfil socioeconômico é parte importante. Devem ser verificados os hábitos, as condições de moradia, os costumes, a cultura, o estilo de vida, as atividades econômicas desenvolvidas, de onde vem a renda da população, crenças, meios de comunicação, transporte, entidades que fazem parte do cotidiano desse povo (escolas, igrejas, ONGs, conselhos municipais) e, especialmente, que papel a própria comunidade assume perante o coletivo. Outras informações nesse enfoque devem ser: saneamento básico, destino do lixo, rede de abastecimento de água, esgoto, presença de água contaminada e esgoto a céu aberto, foco de vetores, poluição (das mais diversas fontes: visual, sonora, ar, água, radiação, dentre outras), meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Para que ocorra o reconhecimento do território é feita uma visita ao local, sistematizada e planejada. Dessa forma, será possível aprofundar-se nas mais variadas dimensões da realidade da localidade. O território reconhecido é a área de responsabilidade da equipe. Após o seu reconhecimento, é essencial que se avalie a equipe que está disponível para o cadastramento dessa população. 76 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I A cartografia auxilia muito no diagnóstico e planejamento das ações na ESF. A visualização espacial de informações traz subsídios ao processo de vigilância e atenção à saúde através dos mapeamentos das áreas de riscos e dos serviços de saúde. Podemos identificar e marcar unidades de apoio como escolas, igrejas, áreas endêmicas etc. Um espaço bem-demarcado, bem-representado graficamente, com ilustrações e observações, instrumentaliza a organização das ações de saúde e se torna a base de informações sobre o perfil desse território. Geralmente, esse processo é realizado pelo ACS e toda equipe da ESF por meio de visitas locais, entrevistas e observação. A definição do território e a construção dos mapas representam as bases para a realização do diagnóstico da comunidade. Cabe ao enfermeiro entender a dinâmica desse processo e direcionar a equipe para que o diagnóstico da população seja efetivo, além auxiliar no planejamento de ações que ajudem na prevenção de doenças e promoção da saúde dessa comunidade. 4 ATENÇÃO DOMICILIAR A mudança do perfil epidemiológico traz uma realidade: o envelhecimento populacional. À medida que a população envelhece e há aumento da carga de doenças crônico-degenerativas, cresce também o número de pessoas que necessitam de cuidados continuados e mais intensivos, demandando o auxílio domiciliar. Figura 37 – Desospitalização é o eixo da atenção domiciliar Um dos eixos centrais da atenção domiciliar (AD) é a desospitalização. A possibilidade da desospitalização pode: • acelerar o processo de alta hospitalar com cuidado continuado no domicílio; • minimizar intercorrências clínicas a partir da manutenção de cuidado sistemático das equipes de atenção domiciliar; 77 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA • diminuir os riscos de infecções hospitalares por longo tempo de permanência de pacientes no ambiente hospitalar, em especial, os idosos; • oferecer suporte emocional necessário para pacientes em estado grave ou terminal e familiares; • instituir o papel do cuidador, que pode ser um parente, um vizinho, ou qualquer pessoa com vínculo emocional com o paciente e que se responsabilize pelo cuidado em conjunto com os profissionais de saúde; • propor autonomia para o paciente no cuidado fora do hospital. A AD pode ser classificada em AD1, AD2 e AD3. Na AD1 estão os usuários que possuem problemas de saúde controlados/compensados com algum grau de dependência para as atividades da vida diária (não podem se deslocaraté a unidade de saúde). Essa modalidade tem as seguintes características: • permite maior espaçamento entre as visitas; • não necessita de procedimentos e técnicas de maior complexidade; • não precisa de atendimento médico frequente; • o indivíduo possui problemas de saúde controlados/compensados, por exemplo, idoso com hipertensão controlada. Os usuários classificados para AD2 são pacientes que têm problemas de saúde e dificuldade de locomoção até alguma unidade de saúde, necessitam de maior frequência de cuidado, recursos de saúde e acompanhamento contínuo até a estabilização do quadro. Necessitam pelo menos de uma visita por semana. Os usuários classificados como AD3 são semelhantes aos AD2, mas em uso de aparelhos e necessitam de procedimentos especiais, como CPAP, aspiração orotraqueal etc. Segundo a Portaria nº 963, de 27 de maio de 2013, que reorganiza a Portaria anterior de atenção domiciliar nº 2.527, de outubro de 2011, a AD constitui-se como uma [...] modalidade de atenção à saúde substitutiva ou complementar às já existentes, caracterizada por um conjunto de ações de promoção à saúde, prevenção e tratamento de doenças e reabilitação prestadas em domicílio, com garantia de continuidade de cuidados e integrada às Redes de Atenção à Saúde (BRASIL, 2013d). 78 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I A portaria em questão ainda traz os conceitos a seguir: • Serviço de atenção domiciliar (SAD): serviço que poderá substituir ou complementar o cuidado ao paciente em atendimento ambulatorial. • Cuidador: pessoa que pode ou não ter vínculo familiar com o paciente, que deverá ser capacitado para auxiliar nas demandas necessárias do paciente e suas atividades cotidianas. A atenção domiciliar visa à reorganização do processo de trabalho de equipes da atenção básica que prestam serviço no domicílio, em ambulatórios, em serviços de urgência e emergência e hospitais. Essa reorganização visa à desospitalização, à redução do período de permanência do paciente internado e à humanização do cuidado, incentivando sua autonomia. Importante deixar claro que AD não proporciona redução de custos, mas sim o uso mais adequado dos recursos; gasta-se menos para se fazer o mesmo, caracterizando uma ação de gestão de custos. Por ser realizada no domicílio do paciente, expõe as equipes à realidade social na qual a família está inserida, à sua rotina, a seus valores e às formas de cuidar instituídas no senso comum de geração em geração. Ainda de acordo com a Portaria nº 963/2013, a atenção domiciliar deverá seguir algumas diretrizes. São elas: • ter a atenção básica como ordenadora do cuidado e da ação territorial; • estar incorporada ao sistema de regulação, articulando com outros serviços, inclusive o de retaguarda; • ser estruturada de acordo com os princípios de ampliação do acesso (acolhimento, equidade, humanização e integralidade do cuidado); • estar inserida nas linhas de cuidados baseado nas necessidades do usuário, reduzindo a fragmentação da assistência; • adotar modelo de atenção centrado no trabalho em equipe multiprofissional e interdisciplinar; • estimular a participação dos profissionais de saúde envolvidos, usuários e família (BRASIL, 2013d). A atenção domiciliar na atenção básica apresenta alguns princípios (BRASIL, 2012a; idem, 2013b) 1 - Abordagem integral à família: ao profissional de saúde que se insere na dinâmica da vida familiar cabe uma atitude de respeito e valorização das características peculiares daquele convívio humano. A abordagem integral e a construção de ambiente saudável fazem parte da assistência domiciliar por 79 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA envolver múltiplos fatores no processo saúde–doença da família, influenciando as formas de cuidar. Assistir no domicílio é cuidar da saúde da família com integralidade e dinamicidade, reconstruindo relações e significados. 2 - Consentimento da família, participação do usuário e existência do cuidador: a família precisa consentir para que seja iniciada a atenção domiciliar. É preciso que a família tenha sido orientada sobre as necessidades do paciente antes da alta hospitalar, para que tenha ciência sobre a situação que irá vivenciar. É de suma importância a formalização da assinatura do termo de consentimento informado por parte da família e/ou do usuário (se consciente) ou de seu representante legal. 3 - Trabalho em equipe e interdisciplinaridade: para impactar sobre os múltiplos fatores que interferem no processo saúde–doença, é importante que a assistência domiciliar esteja pautada em uma equipe multiprofissional e com prática interdisciplinar. 4 - Estímulo a redes de solidariedade: a participação do usuário em seu processo saúde-doença é fundamental. O enfermeiro e a equipe interdisciplinar devem investir na retomada da autonomia do paciente, no seu empoderamento como sujeito social. Deve-se estimular também a procurar redes de apoio, visando à participação da sociedade civil e à retomada da rotina. Quando falamos de atendimento domiciliar, precisamos estar cientes de que nem todo paciente é eletivo para atendimento profissional de 24 horas; assim, é preciso que a família esteja consciente da necessidade de um ou mais membros que desenvolverão o papel de cuidador, ou seja a pessoa que vai realizar a maior parte do cuidado durante o dia e noite, podendo ser da família ou não. Algumas famílias preferem contratar profissionais cuidadores para auxiliar nessa prática, porém, não é uma realidade comum, tendo em vista o alto custo desse profissional e a característica socioeconômica desfavorável de muitas famílias. Porém, não é preciso que o cuidador tenha formação específica na área da saúde. Figura 38 – O cuidador presente na atenção domiciliar 80 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Independentemente de quem será o cuidador, ele deve ser acolhido e orientado pela equipe de saúde. Suas tarefas devem ser pactuadas entre a equipe, familiares, paciente e cuidador, respeitando saberes e poderes. Geralmente, o cuidador auxilia em atividades como: • cuidado corporal: cabelo, unhas, pele, barba, banho parcial ou completo, higiene oral e íntima; • estímulo e auxílio na alimentação; • ajuda para sair e voltar da cama, mesa, cadeira; • locomoção e atividades físicas apoiadas (andar, tomar sol, movimentar as articulações); • participação do tratamento diretamente observado (TDO); • mudança de decúbito e massagem de conforto; • atuação como elo entre o usuário, a família e a equipe de saúde; • administração de medicações, exceto em vias parenterais, conforme prescrição; • comunicação à equipe de saúde das intercorrências; • encaminhamento de solução quando do agravamento do quadro, conforme orientação da equipe; • suporte emocional aos pacientes em AD. Auxiliar o cuidador a criar um elo de confiança com a equipe é fundamental para um planejamento efetivo das ações e bons resultados. O cuidador será a ligação entre equipe e paciente, e detentor de informações que auxiliarão nas tomadas de decisões para melhor resultado do objetivo proposto. Assim, é importante também que fique claro o papel da equipe com o usuário no atendimento domiciliar. O Ministério da Saúde delimitou no Caderno de Atenção Domiciliar as seguintes atribuições da equipe de saúde da família na atenção domiciliar (BRASIL, 2012a): • respeitar os princípios da assistência domiciliar, buscando estratégias para aprimorá-los; • compreender o indivíduo como sujeito do processo de promoção, manutenção e recuperação de sua saúde e visualizá-lo como agente corresponsável pelo processo de equilíbrio entre a relação saúde-doença; • coordenar, participar e/ou nuclear grupos de educação para a saúde; • fornecer esclarecimentos e orientações à família; • monitorar o estado de saúdedo usuário, facilitando a comunicação entre família e equipe; 81 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA • desenvolver grupos de suporte com os cuidadores; • realizar reuniões com usuário e família para planejamento e avaliação da AD; • otimizar a realização do plano assistencial; • fazer abordagem familiar, considerando o contexto socioeconômico e cultural em que a família se insere; • garantir o registro no prontuário domiciliar e da família na unidade de saúde; • orientar a família sobre sinais de gravidade e condutas a serem adotadas; • dar apoio à família tanto para o desligamento após a alta da AD, quanto para o caso de óbito dos usuários; • avaliar a condição e infraestrutura física do domicílio; • acompanhar o usuário conforme plano de assistência traçado pela equipe e família; • pactuar concordância da família para AD; • buscar garantir assistência integral, resolutiva e livre de danos ao usuário da AD; • trabalhar as relações familiares na busca pela harmonia, otimizando ações para um ambiente familiar terapêutico; • solicitar avaliação da equipe de referência após discussão de caso; • dar apoio emocional; • orientar cuidados de higiene geral com o corpo, alimentos, ambiente e água. Quando alguém da família assume o papel de cuidador, vivencia um misto de ansiedade e medo, devido às novas requisições e alteração no seu papel social e à nova condição de cuidador. Algumas pessoas se adaptam bem a essa nova função, enquanto outras precisarão de apoio e orientação para ajustamento e organização das exigências do dia a dia perante o usuário. A equipe de saúde, com ênfase no enfermeiro, precisa saber identificar essas necessidades e implementar mecanismos que facilitem a rotina do cuidador no cotidiano. Para tanto, é preciso realizar a escuta ativa desse cuidador, criar possibilidade de acesso dele à equipe, criar espaços para a discussão dos casos, auxiliar, por meio de ações educativas, cartilhas, cartazes ou folhetos explicativos e ainda criar oficinas temáticas incluindo outros cuidadores, considerando as dificuldades mais relatada por eles. 82 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Essa oficina com os cuidadores deve envolver a equipe multidisciplinar e deixar que os participantes dividam suas angústias, formas de enfrentamento das dificuldades e experiências boas também. Essa prática possibilita uma espécie de alívio para quem fala e para quem ouve, entendendo que aquela preocupação não é particular, propiciando que outros membros se manifestem para o auxílio e se sintam úteis. A experiência de um participante pode ser valiosa para o outro. Automaticamente, as pessoas envolvidas no grupo formam uma rede de apoio social entre si, possibilitando trocas de grande valia. É interessante que essas oficinas aconteçam na própria unidade, pois será um centro de apoio e referência para esses cuidadores. O cuidador, geralmente, é o cônjuge ou os filhos, ou, em sua maioria, as mulheres da família. Esse cuidado é considerado um ato solidário, sem previsão de término. Quando falamos de cônjuges e filhos, muitas vezes esses apresentam também alguma doença crônica ou comorbidade que precisa de cuidado. Quando tal situação ocorre com o cônjuge, muitos deixam de cuidar de si para cuidar do outro, o que pode acarretar um problema duplicado para a equipe e para a família. Quando a família é grande e estruturada, a sobrecarga pode ser evitada, porém, muitas vezes, devido à rotina do dia a dia, cuidador e paciente estão sós, ocasionando sobrecarga, aflições, medos, anseios, por essa função demandar atenção 24 horas por dia, todos os dias da semana. O enfermeiro precisa estar atento, pois a sobrecarga física e mental do cuidador pode acarretar efeitos negativos em sua vida, como isolamento social, sintomas de depressão e ansiedade. Havendo a possibilidade, a adesão ao cargo de cuidador precisa ser espontânea, estimulada e com a segurança de apoio tanto da instituição de saúde que atende esse paciente quanto da própria família. Esse suporte deve ser técnico, emocional, de referência e de informações. É preciso que a família entenda que ser cuidador demanda cuidados também. Sugere-se que a avaliação emocional e de sobrecarga do cuidador seja avaliada com frequência, podendo ser utilizada a Escala Zarit Burden Interview (ZBI), validada por Scazufca e regularizada para uso no Brasil, se mostrando eficaz para esse fim. A aplicação dessa escala é sugerida no Caderno de Atenção Básica: Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa do Ministério da Saúde. O ambiente domiciliar passa a ser um lugar mais que doméstico: envolve o cuidado do outro que demanda atenção e acolhimento. As equipes de atenção básica e domiciliar precisam resguardar essa família, usuário e cuidador principalmente, visando identificar possíveis fragilidades e apoiar de forma que auxilie na autonomia, na resolução de problemas e do favorecimento de uma rotina menos cansativa e de incertezas. Saiba mais Leia: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Guia prático do cuidador. Brasília: Ministério da Saúde, 2008a. 64 p. 83 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA Resumo A saúde da família envolve diretamente os profissionais de atenção básica e seus usuários. Por meio da atenção básica, o SUS tenta atender todas as demandas das diferentes fases do ciclo vital, visto que cada uma delas tem seus detalhes específicos e importantes. O envelhecimento é um dos assuntos que merece atenção dos profissionais, família e círculo social, pois pode impactar diretamente em todos os âmbitos da vida do indivíduo caso não seja bem atendido e direcionado. A atenção domiciliar vem com uma nova proposta de reorganização do sistema, visando a uma atenção mais humanizada e focada no indivíduo e família. Com essa nova prática, os profissionais conseguem entender melhor as necessidades individuais e grupais dos usuários e desenvolver ações para ambos os contextos na educação em saúde, prevenção de agravos, tratamento e reabilitação da saúde da população. Cabe ao enfermeiro estar atento às práticas, ao perfil da sua população, identificando precocemente suas necessidades e atendendo de forma efetiva a toda população. Exercícios Questão 1. (Fepese 2014) O instrumento de abordagem familiar que permite identificar, de maneira mais rápida a dinâmica familiar e suas possíveis implicações, com criação de vínculo entre profissional e a família/indivíduo é o: A) Geomapa. B) Genograma. C) Territorialização. D) Heredograma. E) Demanda. Resposta correta: alternativa B. 84 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 Unidade I Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: geomapa pertence à área de geoprocessamento, que trata das informações geográficas, ou de dados georreferenciados, por meio de softwares específicos e cálculos. Ou, ainda, o conjunto de técnicas relacionadas ao tratamento da informação espacial. B) Alternativa correta. Justificativa: o genograma é a representação gráfica da família. Nele são representados os diferentes membros da família, o padrão de relacionamento entre eles e as suas principais morbidades. Podem ser acrescentados dados como ocupação, hábitos, grau de escolaridade e dados relevantes da família, entre outros, de acordo com o objetivo do profissional. Enfim, é um diagrama no qual está representada a estrutura familiar. A demonstração gráfica da situação permite que o indivíduo pare e reflita sobre a dinâmica familiar, os problemas mais comuns que a afligem e o enfrentamento do problema pelos membros da família. C) Alternativa incorreta. Justificativa: territorialização é um conceito biogeográficode significados distintos em diferentes escolas teóricas da antropologia, biologia e geografia. O termo está geralmente relacionado a formas de organização e reorganização social, modos distintos de percepção, ordenamento, reordenamento em termos de relações com o espaço. D) Alternativa incorreta. Justificativa: heredograma é um tipo de gráfico que representa a herança genética de determinada característica dos indivíduos representados. E) Alternativa incorreta. Justificativa: demanda é uma solicitação ou manifestação de um pedido. Questão 2. (FCC 2012) Dentre os princípios do programa de atenção à saúde de jovens e adolescentes, consta que: A) Os adolescentes e jovens devem ser atendidos somente na presença de pais ou outro familiar. B) O sigilo profissional e a confidencialidade devem ser mantidos, inclusive nas situações de abuso sexual. C) As visitas domiciliares estão excluídas nas estratégias de captação de jovens para o atendimento em saúde. 85 Re vi sã o: F ab ric ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 2 4/ 01 /1 8 ENFERMAGEM DA FAMÍLIA D) Os menores de 18 anos devem ser atendidos mediante apresentação da carteira de identidade, e a não apresentação do documento acarretará a dispensa do menor no programa. E) As informações obtidas no atendimento em saúde não serão repassadas aos pais e/ou responsáveis sem a concordância explícita do assistido. Resolução desta questão na plataforma.