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1 07/03/2022 – Bioética – estudo de caso 1: Trans-humanismo O comando das tecnologias, desde as mais remotas eras, é a máxima expressão do poder empreendedor e explorador do homem, o que o levou a se sobressair de todos os outros seres vivos. Essa característica da superioridade intelectual humana foi descrita já na Antiguidade por meio do Mito de Prometeu, o titã que roubou o fogo divino de Zeus e o concedeu à humanidade para que ela o dominasse e se tornasse soberana sobre a natureza. Com o passar do tempo, a capacidade inventiva do homem deu origem a um imenso inventário de itens tecnológicos que facilitaram a sua sobrevivência e conferiram a competência de criação a essa espécie, que outrora havia sido exclusivamente caçadora e coletora. A acessibilidade a esse arsenal não só fez com que a raça humana se colocasse em posição de destaque, mas também culminou na estratificação dos grupos sociais humanos que se estabeleceram subsequentemente, com base na familiaridade com que alguns espécimes produziam e interagiam com esses avanços. Thomas Henry Huxley, um biólogo darwinista, apresentou em sua obra Evidence as to Man’s Place in Nature (1863) o que ele chama de “a grande questão da humanidade”. Ele examinou qual o papel que a humanidade ocuparia na natureza, no sentido de buscar quais os limites de poder do homem sobre a natureza e da natureza sobre o homem1. Essa questão foi resgatada por seus dois netos, Julian e Aldous Huxley, um biólogo evolucionista e um escritor ficcional de sucesso, respectivamente. Nos anos 1920, Julian era professor de Biologia no King’s College London, e um de seus interesses era inferir meios para construir novas formas de vida. O caminho para isso seria a interação entre a tecnologia desenvolvida pelo homem e a evolução biológica. Em 1957, o ensaio Transhumanism – publicado no livro New bottles for new wine - trazia a visão desse cientista a respeito da direção que a evolução levaria no nosso planeta, dirigida pela ação antrópica. Aldous, seu irmão mais novo, inspirado pelos trabalhos de Julian e de seu avô, publicou em 1921 o livro Crome Yellow – sua primeira obra - no qual o sistema familiar seria algo obsoleto e os humanos seriam gerados por incubadoras. Julian, por sua vez, também se enveredou no caminho ficcional, este publicou o conto The tissue culture King na revista Amazing stories, no qual descreve seres clonados e ainda outros, quiméricos, obtidos por manipulações genéticas. Uma diferença básica entre os dois irmãos residia nos desdobramentos que o poder dos homens sobre os elementos naturais poderia gerar. Julian era mais otimista e achava que os avanços trariam benefícios para a humanidade, enquanto Aldous vislumbrava 2 um futuro nebuloso no qual era impossível ter certeza de que os frutos da civilização industrial nos aproximariam de um mundo melhor1. Essa visão é corroborada em outras obras do autor, especialmente no seu livro mais famoso, Admirável Mundo Novo. Neste escrito, Aldous descortina uma realidade baseada no conflito entre o primitivo e o moderno, entre o natural e o planejado, entre a evolução natural e a direcionada, que se relaciona diretamente ao intento transumanista. Julian comparava o estado de transição de humanos ao processo evolutivo de anfíbios (esta metáfora também foi adotada por Aldous em alguns manuscritos). Assim como os primeiros anfíbios fizeram a difícil passagem do ambiente aquático para a terra há mais de 300 milhões de anos, nossa espécie está deixando de submeter-se tão somente à ação da lenta evolução pela seleção natural para adentrar o novo mundo da evolução autodirigida, guiada por nossas descobertas em ciência e tecnologia. Com o passar dos anos, pelas experiências vividas por Julian, em viagens aos 5 continentes pela UNESCO, organização da qual foi o primeiro diretor geral, o biólogo mudou sua visão de mundo, passou a adotar o ceticismo inerente às publicações do seu irmão mais novo. Também passou a ser um entusiasta da preservação ambiental e a criticar o estabelecimento da “tecnosfera” que oprime e sufoca o planeta1. O seguinte trecho da obra Transhumanism de Julian Huxley traz as grandes possibilidades do aumento das potencialidades humanas, ainda sob um ponto de vista otimista que marcou a carreira do biólogo durante muitos anos, e usa pela primeira vez o termo Trans- humanismo: “A nova compreensão do Universo foi resultado de novo conhecimento adquirido nos últimos 100 anos – por psicólogos, biólogos, e outros cientistas, por arqueólogos, antropólogos e historiadores. Essa compreensão definiu a responsabilidade e o destino de humanos – ser um agente para o resto do mundo na tarefa de compreender as suas potencialidades inerentes de forma tão completa quanto possível. ... Nós estamos começando a perceber que mesmo os mais afortunados estão vivendo muito aquém de sua capacidade e que, muitos seres humanos desenvolvem somente uma pequena fração de seu potencial mental e da sua eficiência espiritual. A raça humana, de fato, está rodeada por uma grande área de possibilidades não realizadas, um desafio para o espírito de exploração. ... Até agora, a vida humana tem sido em geral, como Hobbes* a descreveu, ‘desagradável, bruta e curta’; a grande maioria dos seres humanos (se eles não morreram jovens) têm sido afligida por miséria de uma ou outra forma – pobreza, doença, debilidade 3 física, sobrecarga de trabalho, crueldade ou opressão. Eles têm tentado abrandar suas misérias por meio de suas esperanças e ideais. O problema é que esperanças em geral são injustificadas e os ideais falham em corresponder à realidade. A espécie humana pode, se ela desejar, transcender a si mesma – não somente esporadicamente, um indivíduo aqui de uma forma, um outro lá de maneira distinta, mas pode fazer isso inteiramente, como humanidade. Precisamos de um nome para esta nova crença. Talvez Trans-humanismo serviria: homem permanecendo homem, mas transcendendo a si mesmo, por meio da percepção de novas possibilidades de sua natureza humana. ‘Eu acredito em Trans-humanismo’: uma vez que uma quantidade suficiente de pessoas seja capaz de dizer isso de forma verdadeira, a espécie humana estará no limite de um novo tipo de existência, tão diferente da nossa quanto nós somos diferentes do homem de Pekin**. Esse novo ser estaria plenamente consciente de seu real destino.” Com base nas considerações desse texto, do capítulo do livro base da disciplina e dos aspectos que foram discutidos em aula, responda as seguintes questões como anexo. Escreva a sua resposta em no máximo 45 linhas. Submeta um arquivo pdf. Um ser humano convencional e um que tenha sofrido transformação por meio de manipulações genéticas e implantes exógenos de material inorgânico podem ser considerados da mesma espécie, considerando o que Julian Huxley afirma em seu texto retirado do ensaio Transhumanism? Isso dependeria do grau de transformação? O debate ético acerca do recrutamento desses indivíduos transformados para experimentação deve seguir os preceitos e a legislação vigente para humanos? Qualquer transformação que o indivíduo queira fazer deve ser permitida? Em um cenário no qual a transformação dos corpos seja a norma, como ficaria assegurado o respeito à dignidade humana e individualidade de um indivíduo que não queira se transformar? E os princípios bioéticos e do biodireito? Seria um caminho para uma sociedade cuja configuração seria pautada em eugenia*** tecnológica? [1] DEESE, R.S. We are Amphibians: Julian and Aldous Huxley on the future of our species. 1a edição. Oakland: University of California Press, 2015. 240 p. *Thomas Hobbes é o autor de Leviatã, uma obra que também retrata a natureza humana. **O homem de Pekin é a denominação que se deu a um fóssil de hominídeo extinto, da espécie Homo erectus, encontrado nas vizinhanças de Pequim nadécada de 1920. ***Eugenia é a escolha de características de um ser vivo. Pode ser feita de forma genética direta, inserindo genes em um espécime ou pela simples escolha de espécimes mais adequados seguindo um certo padrão.