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BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, 2007. (Coleção primeiros passos; 20) O livro “O que é educação”, escrito por Carlos Rodrigues Brandão, foi publicado pela primeira vez em 1981 pela editora brasiliense. Brandão nasceu no Rio de Janeiro, no qual se formou em psicólogo na PUC. Em 1967 atuou como professor universitário em Brasilia (UnB), Goiânia (UFG) e agora em Campinas (UNICAMP). Se tornou antropólogo através dos cursos na UnS e na USP e hoje em dia dedica seu campo de estudo, pesquisas e aulas de Antropologia Social. A obra gira em torno da educação relatando suas características e história separada em 10 tópicos e o último sendo uma indicação de leitura. Brandão inicia sua obra fazendo uma reflexão acerca de que a educação existe em todos os lugares seja nas ruas, igrejas, tribos que em qualquer ambiente social se pode aprender e ensinar, assim como ele notoriamente afirma “ninguém escapa da educação”, portanto para Brandão não são só as escolas o único lugar que transmite educação, assim como não há um único modelo ou forma de se educar além de o professor profissional também não ser o único que pode exercer essa função são diferentes educações que existem nas sociedades, com base nisso o autor toma como exemplo a carta que os índios fizeram para os colonizadores. Eis um trecho da carta: Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa. Assim como Brandão afirma que a educação é a construção social de um povo e que está envolvida também na transmissão de ideias, trocas de símbolos e etc.… em virtude disso as concepções de educação se tornam diferentes e variam de acordo com as necessidades e interesses, por isso que a educação dos colonizados não era válida para os índios. O autor também mostra que a educação além desse repasse de crenças, por exemplo, pode ser usada como uma espécie de dominação e controle do sistema que detém do saber para fortalecer a desigualdade social. No decorrer de sua obra Brandão continua na mesma linha de pensamento, no qual a educação está em toda parte não sendo necessário um modelo sistemático para que haja o ensino e aprendizagem, pois, o homem consegue transmitir seu conhecimento na convivência e assim passar de geração em geração o autor traz como exemplo a educação nas aldeias dos povos tribais, relatando sobre uma educação familiar voltado à prática, em que as crianças desde cedo no convívio aprendem através da observação e imitando os gestos de quem ensina, por exemplo, as meninas por intermédio das mães e avós são ensinadas a cozinhar e colher bons frutos e os meninos pelos avós e pais a como caçar e produzir arco e flecha. São processos que não possuem mestres especializados o autor apresenta na obra a explicação do sociólogo Émile Durkheim para esse fato: Sob regime tribal, a característica essencial da educação reside no fato de ser difusa e administrada indistintamente por todos os elementos do clã. Não há mestres determinados, nem inspetores especiais para a formação da juventude: esses papéis são desempenhados por todos os anciãos e pelo conjunto das gerações anteriores. Brandão afirma que esses processos estão presentes em vários momentos do cotidiano podendo surgir de forma natural, por exemplo, no trabalho, lazer, no momento de descontração, assim agindo de maneira direta ou indiretamente e inicializando o processo de aprendizagem e treinamento, com isso cada comunidade adquire seu modo de desenvolver, criar técnicas e métodos e todo esse conjunto de saber que cada indivíduo aprende, dependendo do seu meio social, vai formar um tipo de modelo de homem ou de mulher que vai ser projetado aos seus descendentes. Tal conjuntura o autor denomina de socialização. Discorrendo no texto Brandão apresenta o ensino formal que surge a partir da criação de métodos específicos, regras, do tempo e pessoas especializadas o autor vai expor que com a divisão social do trabalho e o poder que ocorrem também nas sociedades primitivas começa a surgir uma hierarquia, no qual o saber vai se dividir desigualmente e assim ser usada para reforçar as diferenças sociais criadas pelas sociedades destruindo aquele saber comunitário e sendo moldado agora sistematicamente, desse modo segundo o autor: “Este é o começo do momento em que a educação vira o ensino’’. Brandão evidencia também que com essa concepção de educação o ensino se torna diferenciado dependendo da classe que se encontra, o que provoca a dominação de uns sobre os outros. O autor traz alguns exemplos de ensinos especializados em lugares, como na África em que as escolas são divididas por sexos, ou seja, existe a escola Poro destinada aos meninos e a escola Saden para as meninas e os conteúdos variam desde as crenças, e tradições até os ofícios de guerra, já na Nova Zelândia o ensino é totalmente distinto todos os ensinamentos são repassados para ambos os sexos por professores-sacerdotes com cursos voltado, tanto para a teoria, quanto para a prática, além de haver uma dupla divisão no ensino na mandíbula superior aprendem sobre os segredos do sagrado e na mandíbula inferior envolve assuntos terrenos. Brandão vai defender que por mais que haja essa hierarquia de saber este ensino formal e dividido não tem como fugir e esquecer totalmente a educação livre e familiar sendo a única troca de saber universal e que ainda persiste no desenvolvimento da humanidade, assim consistindo esse “espaço educacional” denominado por ele o único que aprende e ensina para a vida. Seguindo a obra o autor vai relatar sobre a educação na antiguidade, dando destaque a sociedade grega que tinham como modelo de educação ideal e ético a paidéia, em que consistia na construção do homem perfeito transformando em homens livres e educados adquirindo o pleno desenvolvimento para a vida na polis e era um sistema educacional voltado à busca da verdade e da beleza por meio dos estudos da retórica, matemática, filosofia... Brandão vai relatar que mesmo no ápice da democracia grega o poder e as propriedades eram restritas aos cidadãos do estado, o que reforçava as divisões das classes sócias e consequentemente as camadas inferiores não tinham acesso ao saber da Paidéia, descreve ele: O poder pertence aos estratos mais nobres destes cidadãos ativos, e a vida e o trabalho colocam de um lado os homens livres, senhores e, de outro, os escravos ou outros tipos de trabalhadores manuais expulsos do direito do saber que existe na paidéia. Mas é só quando a participação da cultura e da vida pública coloca como necessidade o acesso do saber a todos é que as escolas se abrem para qualquer menino livre. O autor persiste falando que com essa desigualdade educacional gerada, as diferenças de “saber de classe” fazem com que criem diferentes educadores, tendo assim uma dupla divisão de um lado os mestres-escola e artesãos-professores destinados a instrução para o trabalho e do outro os escravos pedagogos e educadores nobres educando para o poder e para a vida social. Brandão traz um questionamento acerca do pelo qual motivo são os escravos pedagogos que mais educavam e não os mestres-escola, relata que é devido ao maior convívio entre crianças e adolescentes ser com os escravos pedagogos, pois formavam a educação do indivíduo ensinando todos os conceitos da cultura da polis para a vida. Sucedendo na obra o autor disserta sobre a educação na Roma antiga fazendo algumas distinções com a da Grécia. Pontua que a educação era para todos os romanos e destaca também que para os latinos antigos a total responsabilidade da educação das crianças era a doméstica, a qual se dava pelas transferências de valores, crenças e virtudes dos mais velhos, desse modo para que haja a preservação dos valores de seus antepassados o objetivo dessa educação seria o alcance da consciência moral fazendo com que o homem educado abra mão de si mesmo em prol da dedicação integral à suacomunidade, como Brandão destacou eram os pais os primeiros educadores de seus filhos independente da classe social não deixavam seus filhos aos cuidados de servo-pedagogo, assim como na Grécia, outra distinção que o autor pontua é o ideal de educação que aos gregos era voltada a formação de um herói para a polis através da paidéia, enquanto na Roma é a formação de um ser baseado nos preceitos de seus antepassados. Em seguida, Brandão inicia buscando a compreensão a respeito do que é educação em outras concepções, como professores, estudantes, pedagogos e nos dicionários, partindo disso o autor faz severas críticas que na realidade o que existe é uma idealização da educação que envolve interesses políticos e econômicos por parte dos legisladores, no qual iludem garantindo o melhor da educação. Brandão expõe no texto um trecho do artigo da lei a respeito dos objetivos do ensino. Eis um trecho do artigo: Art. 1 ~ O ensino de 1 ~ e 2 ~ graus tem por objetivo geral proporcionar ao educando a formação necessária ao desenvolvimento de suas potencialidades como elemento de auto-realização, preparação para o trabalho e para o exercício consciente da cidadania". (Lei 5.692, de 11 de agosto de 1971) O autor argumenta que mesmo tendo essas leis que garantem uma educação de qualidade na prática se torna falho, por conta desse jogo de interesses e como consequência, o que se observa são professores e estudantes fazendo crítica ao sistema educacional e ressalta que esse tipo de ensino só serve para favorecer a elite. Brandão finaliza expressando que para legislar e definir a educação esses interesses devem ser ocultados, pois não beneficia a nação como deveria ser, além de que entre educadores ainda há concepções de ensino distintas, o que também vai implicar nos seus objetivos. Posteriormente o autor levanta um questionamento a respeito da real finalidade da educação se está designada ao indivíduo ou a sociedade Brandão menciona pontos de vista de alguns filósofos e educadores expondo que a educação se destina diretamente ao indivíduo, pois sendo único meio que vai desenvolver o físico e o intelecto do mesmo, porém o autor traz também algumas definições de estudiosos da educação que vão destiná-la não só ao sujeito individual, mas para a sociedade. Com isso o autor pontua que a educação é uma prática social assim acontecendo de modo natural, como os índios e os camponeses citados que educavam para viver em sociedade mesmo não conhecendo as teorias existentes e critica que nas sociedades desenvolvidas, onde há presença de classes dominante, distorcem a ideia de educação servindo só para uns e ocultando seu verdadeiro significado. Brandão finaliza dizendo que existem diversas maneiras de compreender a educação e vai se diferenciar de acordo com a cultura e o momento histórico e funcionará partindo das exigências, princípios e controles sociais. Posteriormente o autor faz uma síntese sobre a educação partindo dos preceitos de Durkheim e não pretende atribuir mais definições classificando-a como uma prática social que vai reproduzir tipos de sujeitos sociais conforme os requisitos da sociedade, assim Brandão destaca que os diferentes tipos de educação e suas evoluções se dá pela constante mudança na sociedade, são as diversas maneiras que o homem vai se organizar as distintas formas que os sujeitos vão ocupar suas classes que a educação vai ser modificada, com isso expondo a ideia de "utopismo pedagógico" que é quando colocam a educação como sendo o único aparato que transforma as estruturas políticas, econômicas ou culturais, esquecendo que ela é uma prática desta mesma sociedade. Brandão conclui pontuando novamente que em qualquer ordem social quando mais a educação é autoritária e classicista mais tendem a expô-la como democrática voltada "para o bem de todos" presenciando essa prática idealista somente nas leis. Brandão inicia esse último tópico fazendo várias indagações, escreve ele: “porque a educação sobrevive aos sistemas e, se em um ela serve à reprodução da desigualdade e à difusão de idéias que legitimam a opressão, em outro pode servir à criação da igualdade entre os homens e à pregação da liberdade.” E explica que esse fato se dá porque a educação é inevitável e sempre sendo reinventada reforça lembrando que a educação está em toda parte e pertencente a todos, mas quando há jogo de interesses acaba se tornando desigual e passa a ser usada como instrumento político Brandão afirma que com isso geram novas formas de luta, como os movimentos populares, sindicatos… assim gerando mais bagagem para o aprendizado e conclui que são nessas brechas de luta que surge as melhores inovações de educação no Brasil. Um livro “O que é educação" é bastante esclarecedor e instigante faz uma viagem desde as antiguidades até os dias atuais expondo as diversas concepções de educação em vários aspectos sempre pontuado os problemas educacionais que vai ser atingido socialmente, economicamente e politicamente o autor leva a refletir sobre a prática social da educação que não deve ser deixada como algo que reforce a desigualdade e sirva como controle de uma sociedade, mas que sejamos construtores de uma educação mais justa e igualitária até porque deveria ser para todos afinal ninguém escapa dela. A linguagem é acessível e de fácil compreensão, o que torna a leitura agradável. A obra é indicada aos professores, educadores, pesquisadores e a todos que estejam interessados em compreender esse mundo da educação.