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Versão Impressa - Língua e Linguagem - Aula 01

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ou signos, que 
permitem a comunicação entre os seres humanos. Quando o signo é centrado na 
palavra escrita ou oral, ele é identificado como linguagem verbal. Os demais tipos 
 
de signos formam outro conjunto de linguagens denominado linguagem não verbal, 
como é o caso da pintura e dos gestos. 
A integração entre diferentes tipos de linguagem é algo muito antigo, mas que se 
intensificou com as tecnologias digitais ou a chamada linguagem hipermidiática. 
 
 
 
MÓDULO 2 
OBJETiVO: Reconhecer as três principais concepções de linguagem 
 
Depois de fazer a distinção entre linguagem verbal e não verbal, é hora de 
prosseguir e apresentar as três principais concepções de linguagem. Veja quais são 
elas a seguir. 
 
LiNGUAGEM COMO EXPRESSÃO 
DO PENSAMENTO 
 
Nesta forma de entender a linguagem, a intenção de expressar alguma coisa é um 
ato monológico. Isso quer dizer que a enunciação ou o ato de fala (o modo como 
nos expressamos) está centrado na pessoa que se expressa por meio da 
linguagem, sem dar tanta importância ao outro e às circunstâncias sociais nas 
quais a enunciação acontece. 
 
O USO DA LÍNGUA É ViSTO COMO ALGO QUE SE LiMiTA A QUEM 
FALA OU ESCREVE. NÃO HÁ PREOCUPAÇÃO SOBRE COMO O OUTRO 
VAi LER OU OUViR NOSSA MENSAGEM. 
 
De acordo com essa concepção, a linguagem corresponde a uma expressão 
que se constrói no interior da mente e tem, na exteriorização, apenas uma 
tradução. A linguagem é entendida como uma forma de expressar 
pensamentos, sentimentos, intenções, vontades, ordens, pedidos etc. 
 
 
 
Assim, a exteriorização do “pensamento por meio de uma linguagem articulada e 
organizada” depende da capacidade de organizar, de maneira lógica, esse mesmo 
pensamento (TRAVAGLIA, 2003, p. 21). 
Nessa concepção de linguagem, a correção no uso da língua (falar e escrever bem 
conforme a gramática normativa) depende das regras às quais o pensamento 
lógico deve estar sujeito. Dessa forma, se as pessoas não se expressam bem ou 
não usam a língua corretamente, isso acontece porque elas não estão pensando 
corretamente. A solução, então, para expressar adequadamente o que se está 
pensando seria a internalização das regras gramaticais e de seu adequado uso. 
 
MAS HÁ UM PROBLEMA. 
esta concepção acaba sendo uma forma parcial de entender como a linguagem 
funciona, pois há outros aspectos envolvidos na linguagem além da intenção de 
exteriorizar o que pensamos. Não é o caso de afirmar que a concepção está 
errada. Precisamos avançar e verificar outras formas complementares de 
compreender a linguagem. 
 
 
LiNGUAGEM COMO iNSTRUMENTO 
DE COMUNiCAÇÃO 
 
Por isso, há outra concepção de linguagem que compreende a língua, por exemplo, 
como um código por meio do qual elaboramos nossas mensagens para serem 
comunicadas. 
A língua, então, é tomada predominantemente como um código, que deve ser 
utilizado com eficiência, ou seja, deve tornar inteligível a mensagem que se quer 
comunicar, levando o receptor a responder adequadamente ao objetivo da 
comunicação. 
Para que haja a comunicação, o código que utilizamos, seja ele a língua ou outro, 
precisa ser conhecido ou dominado pelo nosso interlocutor para que a 
comunicação se realize. O uso do código, no caso, a própria língua, “é um ato social, 
envolvendo consequentemente pelo menos duas pessoas”. Por isso, “é necessário 
que o código seja utilizado de maneira semelhante, preestabelecida, convencionada 
para que a comunicação se efetive” (TRAVAGLIA, 2003, p. 22). 
A concepção da linguagem como instrumento de comunicação tem, porém, uma 
limitação. É uma concepção centrada no código, ou seja, voltada principalmente 
para o funcionamento interno da língua ou de outra linguagem utilizada, deixando 
de lado aspectos como a relação entre a linguagem e o contexto social e histórico. 
Por isso, você precisa conhecer outra concepção de linguagem, que permite 
avançar na compreensão da linguagem e seus usos. 
A linguagem deve ser compreendida além de sua função de expressar o que 
pensamos ou sentimos, pois, ao nos expressarmos, nos dirigimos a alguém, ou 
seja, comunicamos algum tipo de mensagem para uma ou mais pessoas. 
 
LiNGUAGEM COMO LUGAR OU 
EXPERiÊNCiA DE iNTERAÇÃO HUMANA 
 
A linguagem é um “lugar de interação humana, de interação comunicativa pela 
produção de efeitos de sentido entre interlocutores, em uma dada situação de 
comunicação e em um contexto socio-histórico e ideológico” (TRAVAGLIA, 2003, p. 
23). 
Quem utiliza a língua não expressa apenas o pensamento, não comunica somente 
alguma coisa, na verdade, ao usar a língua, o indivíduo ou os interlocutores 
“interagem enquanto sujeitos que ocupam lugares sociais e ‘falam’ e ‘ouvem’ 
desses lugares de acordo com as formações imaginárias (imagens) que a 
sociedade estabeleceu para tais lugares sociais” (TRAVAGLIA, 2003, p. 23). 
Para ilustrar melhor, veja um exemplo: 
Todos já observaram uma situação em que a identificação apenas da linguagem 
oral entre dois sujeitos corresponderia a um ato comunicativo direto. 
No entanto, notamos que a interação social faz com que aquilo que é dito seja muito 
maior. Isso ocorre, por exemplo, quando estamos em um espaço e observamos 
uma mãe e uma filha interagindo, em que a primeira faz referência ao 
comportamento da segunda, com uma ordem direta. A reação da filha cria em nós, 
observadores, uma série de julgamentos, leituras, valores e interações que nos 
remetem à própria relação familiar. 
 
Nessa concepção, a língua é mais do que tradução e exteriorização do 
pensamento e, também, vai além da transmissão de informação ou da 
comunicação. Ao usar a língua, o indivíduo realiza ações, age, atua sobre o 
interlocutor. 
 
Tudo que falamos e ouvimos tem o poder de provocar reações, produzir mudanças, 
despertar sentimentos e paixões, desencadear processos e ações. Quando 
consideramos as palavras de um juiz ao proferir a célebre frase “eu vos declaro 
marido e mulher”, temos um exemplo de que o uso da língua pode ser mais do que 
expressão do pensamento ou comunicação de uma informação. Nesse caso, a fala 
da autoridade faz surgir ou realiza um ato social e jurídico. Se um agente da lei, 
dirigindo-se a uma pessoa, dá voz de prisão e diz “esteja preso!”, ele não está 
simplesmente exteriorizando seu pensamento ou comunicando uma novidade, não 
é mesmo? 
O diálogo também caracteriza a concepção de linguagem como interação social, 
constituindo-se numa dimensão privilegiada do uso da língua. Para estar inserido 
na vida em sociedade, é preciso que a língua seja utilizada para favorecer a abertura 
ao diálogo, a interação entre as pessoas. Além disso, a própria língua é dialógica, ou 
seja, o que falamos e escrevemos se relaciona com aquilo que lemos e ouvimos ao 
longo da vida. 
Como você viu até aqui, é preciso avançar na compreensão da linguagem para 
além da sua finalidade de comunicação e da divisão entre linguagem verbal e não 
verbal. A linguagem pode ser concebida como expressão do pensamento, como 
instrumento de comunicação e, mais adequadamente, como lugar de interação 
humana. 
 
 
As três concepções da linguagem estão resumidas no quadro a seguir: 
EXPRESSÃO DO 
PENSAMENTO 
COMUNICAÇÃO INTERAÇÃO HUMANA 
Exteriorização do 
pensamento 
Meio objetivo para a 
comunicação 
Experiência de interação 
humana 
A expressão se constrói 
no interior da mente 
A expressão nasce da 
necessidade de se 
comunicar 
A expressão é também 
ação 
Ato monológico, 
individual 
Troca de mensagens 
entre emissor e receptor 
Privilegia o diálogo e a 
interatividade 
Regras para a 
organização lógica do 
pensamento: gramática 
normativa 
Existência de códigos 
para a eficiência da 
comunicação 
Valorização do contexto 
dos usuários da língua e 
adequação no uso da 
língua 
Para quem se fala, em 
que situação e para que 
se fala não são 
preocupações no uso da 
língua 
Preocupação