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e-Book 3 Thais Fernanda Martins Hayek LINGUAGEM VISUAL E ESTÉTICA Sumário A LUZ E A PERCEPÇÃO VISUAL �������������������� 4 LUZ E SOMBRA ���������������������������������������������� 6 LUZ E SOMBRA E AS ARTES VISUAIS: RELAÇÕES COM ARTE GÓTICA ������������������� 19 LUZ E SOMBRA E AS ARTES VISUAIS: RELAÇÕES COM ARTE BARROCA ��������������� 29 LUZ E SOMBRA E AS ARTES VISUAIS: RELAÇÕES COM MOVIMENTO IMPRESSIONISTA ���������������������������������������� 42 TOM E COR ��������������������������������������������������� 61 Tom �������������������������������������������������������������������������������������� 63 RELAÇÕES DO TOM COM A FOTOGRAFIA, A EXPLORAÇÃO MÁXIMA DA LUZ ��������������������������������������������������������� 70 Cor ���������������������������������������������������������������������������������������� 78 EXPRESSIONISMO, FAUVISMO E CONSTRUTIVISMO: RELAÇÕES DAS QUALIDADES DA COR ���������������������������������� 99 ELEMENTOS DA LINGUAGEM VISUAL: TEXTURA - CONCEITO E SIGNIFICAÇÕES ��114 A TEXTURA NAS ARTES VISUAIS: RELAÇÕES COM MOVIMENTO BODY ART ����123 A TEXTURA NAS ARTES VISUAIS: RELAÇÕES COM O MOVIMENTO POP ART ���141 DIMENSÕES BIDIMENSIONAL (2D) E TRIDIMENSIONAL (3D) - CONCEITO E SIGNIFICADOS ������������������������������������������� 165 Definição das dimensões �������������������������������������������������167 Planos e sua massa associada ���������������������������������������169 Perspectiva ������������������������������������������������������������������������173 PERSPECTIVA E DIMENSÕES VISUAIS: RELAÇÕES COM A ARTE RENASCENTISTA ��������������������������������������� 180 PERSPECTIVA E DIMENSÕES VISUAIS: RELAÇÕES COM O MOVIMENTO DO SURREALISMO ������������������������������������������� 194 PERSPECTIVA E DIMENSÕES VISUAIS: RELAÇÕES COM O MOVIMENTO DO CUBISMO ��������������������������������������������������� 207 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS & CONSULTADAS ������������������������������������������ 218 4 A LUZ E A PERCEPÇÃO VISUAL A luz é o único meio pelo qual podemos ver. Não é um objeto, nem uma cor, nem perspectiva, ou forma. Podemos ver apenas raios de luz, refle- tidos a partir de uma superfície. A imagem final em nossa mente é um conjunto de todos os raios que atingem nossa retina naquele momento. Esta imagem pode ser ordenada pelas diferenças entre as propriedades de cada raio de luz que vem de direções e distancias diferentes, e pode ter atin- gido muitos objetos antes de chegar aos nossos olhos. A observação é uma das habilidades mais importantes usadas na criação artística, no entan- to, se queremos retratar um objeto tridimensional realista em uma superfície bidimensional, temos que criar uma ilusão de que o espectador acredita ser tridimensional. É nesse momento que ajuda ter um pouco de conhecimento acadêmico e uma compreensão básica de como a luz e as sombras trabalham juntas para adicionar qualidades como profundidade, dimensão, perspectiva e realismo para o desenvolvimento visual de seus projetos de design. A luz pode ser direta do sol, vela, lâmpada ou qualquer substância brilhante, estes lançam sombras fortemente definidas. 5 Tudo o que você desenha é uma representação de ver, assim como as leis da física são uma repre- sentação de processos reais. O que desenhamos não é realidade, ou uma imagem objetiva da rea- lidade. É uma imagem criada pelo cérebro, uma interpretação dos sinais capturados pelos seus olhos. Portanto, o mundo como vemos é apenas uma interpretação da realidade, uma de muitas, e não a mais verdadeira ou a mais perfeita de todas. A pintura em si é uma arte de escurecer, iluminar e colorir certas partes de papel (ou tela) para criar uma ilusão de olhar algo real. Se uma imagem é semelhante ao que vemos em nossas mentes, di- zemos que é realista. Pode ser realista apesar de não ter formas ou contornos reconhecíveis tudo o que você precisa são alguns remendos de cor, luz e sombra para trazer algo familiar à mente. 6 LUZ E SOMBRA A luz pode ser causada por raios difusos ou refle- tida. As luzes difundidas são tal como são forne- cidas por uma janela direcionada para norte, sem a presença direta de luz do sol, ou pelas luzes que recebemos em um dia turvo e enevoado. Essas luzes somam sombras suaves e mais ou menos indefinidas. Uma luz refletida é lançada em uma sala por uma parede externa através de uma janela, e geralmente é uma luz moderada. A luz refletida emitida por um espelho não deve ser considerada como uma luz refletida, pois os raios são quase tão fortes como a própria fonte. O lado de uma nuvem no leste, ao pôr do sol, lançará uma luz refletida sobre a terra. Da mesma forma, o lado de um pedaço de giz de frente para a janela lançará uma luz refletida sobre um objeto oposto à luz, o efeito geral é o mesmo, seja a escala grande ou pequena. Quão claro ou escuro é um objeto ou elemento, independentemente da sua cor usa o valor para re- presentar luz e sombra e mostra seu volume e forma. Em geral, trabalhar usando uma gama completa de valores se destacará mais e será visualmente mais rico e mais agradável. Puramente usando uma gama limitada de valores (todos os negros, cinzas 7 ou luzes) pode definir a disposição da peça, de misterioso o pacífico a etéreo. O trabalho que usa apenas valores muito brilhantes e muito escuros, sem tons de cinza ou meio, é muito contrastante e pode ser muito ousado, rígido e estilizado. Os trabalhos pictóricos que exibem valores na maior parte escuros ou minimamente iluminados em fundo escuro são chamados de chave baixa, (o termo chave está relacionado com a intensidade da luz), enquanto que elementos bem iluminados e fundos desabafados ou brancos são chamados de chave alta. A chave alta é usada na fotografia de retrato feminino, por exemplo, e pode transmi- tir delicadeza, inocência e sonhos. O trabalho de baixa chave pode criar uma sensação de noturna e secreta, de coisas escondidas além da visão. Sombras não são consideradas como linhas, a sombra não tem substância. Ao colocar sombras e tons, os limites da sombra não devem ser con- siderados como linhas, mas simplesmente como parte da superfície pela qual nos esforçamos para representar ou colocar volume, algo na natureza ou como resultado da imaginação. Todo objeto sob a influência de uma única luz recebe-a ape- nas na superfície exposta aos seus raios diretos, portanto evite cores fortes no lado sombreado de um objeto. A luz está alinhada ao tom e descreve a clareza dos raios de luz que iluminam um objeto. 8 Os termos usados para descrever o uso da luz podem incluir: brilhante, destaque, reflexão, am- biente, atmosférico, brilho localizado, iluminante, refratado, difuso, rubor. Os tons são criados pela forma como a luz cai sobre um objeto. As partes do objeto em que a luz é mais forte são chamadas de destaques e as áreas mais escuras são chamadas de sombras. Haverá uma gama de tons entre os destaques e as sombras. Os valores são os diferentes tons de cinza entre branco e preto. Os artistas usam valores para traduzir a luz e sombras que veem em sombreamento, criando assim a ilusão de uma terceira dimensão. Uma das aplicações de valor mais utilizadas e úteis é criar a ilusão de volume e massa em uma superfície bidimensional. Quando uma massa é exposta à luz, um objeto sólido receberá mais luz de um lado do que do outro, quanto mais esse lado estiver próximo da fonte de luz. Uma superfície esférica demonstra isso como um tom de fluxo uniforme de luz para escuro (Figura 1). 9 Figura 1: Projeção luz e sombra. A - Fonte da luz (destaque) B - Sombra própria C - Sombra projetada D - Ausência de luz E - Luz refletida F - Meia sombra A B C D E F Fonte: Foto de OpenClipart-Vectors/Pixabay (adaptado). Espaço intuitivo é apenas um truque que o artista usa para criar profundidade em uma superfície bidimensional. O “espaço intuitivo” é meramente o espaço de ilusão criado usando métodosartísticos para enganar o espectador para ver a profundidade, volume e massa em uma superfície bidimensional. O espaço intuitivo é detectado ou “sentido” em um plano bidimensional. Os métodos intuitivos de controle espacial incluem sobreposição, transpa- rência e outras aplicações de proporção espacial. Existem definições básicas para luz e sombra, vamos conhecer algumas: y Fonte de luz (figura1-A), em um objeto cria luzes e sombras. Sua fonte de luz pode ser o sol, a lua, uma luz através de uma janela ou uma luz artificial. Quando várias fontes de luz estão presentes, os tons claros e escuros variam e são menos previsíveis. 10 y Sombra própria (Figura1-B) é criada quando a fonte de luz é obstruída. Uma superfície angular mostra um contraste repentino de luz e escuridão. Não é uma forma sólida, mas varia em tom e valor, é o objeto que a molda, mais leve e suave e menos definida se torna suas bordas, é o lado escuro me- nos definido em um objeto que não está de frente para a fonte de luz. y Sombra projetada (Figura1-C) possui bordas menos definidas do que uma sombra própria, são sombras sutis essenciais para criar a ilusão de volu- me, massa e profundidade, geralmente é mais escura do que o próprio objeto, porque a parte que recebe a sombra não é capaz de receber as luzes refletidas. y Ausência de luz (Figura 1-D). O vocabulário usado para descrever as sombras de projeção na arte vem das descrições das sombras na astrono- mia. A umbra, a penumbra e a antumbra são os três nomes distintos atribuídos à descrição das sombras de corpos celestes. A umbra é a parte mais escura de uma sombra considerada a ausência de luz. A penumbra é uma sombra externa mais clara onde o objeto está apenas obscurecendo parcialmente a luz. O antumbra é mais obscuro quando é visível, parece que se estende para fora da penumbra de uma maneira mais leve e menos distinta. y Luz refletida (Figura1-E) segue a forma de um objeto definida pela superfície, e por seus ângulos e variação de luz. Para desenhar sombras com absoluta 11 exatidão, devem seguir-se certos conceitos que de- vem ser obtidas somente por um estudo das regras em perspectiva. Quando o objeto a ser representado estiver sentado em uma mesa branca, a luz da mesa reflete de volta ao objeto e torna o lado da sombra mais leve. Se o objeto da pintura estiver descansando por algo negro ou escuro, os valores médios de tom se tornarão uma reflexão escura. O conceito também é verdadeiro quando o objeto representado está sentado em uma superfície colorida. y Meia sombra (Figura1-F), os valores variáveis misturados formam a borda sombria no lado escuro. Novamente, os tons médios escuros são mais escuros do que quaisquer valores no lado da luz. O olho humano pode enganar o cérebro para acreditar nos valores mais claros no lado escuro, são os mesmos que os valores mais sombrios do lado da luz. Se o artista está confuso sobre luzes e negros, a volume é menos compreensível. As mudanças nas formas de sombras requerem uma observação cuidadosa. Quando uma fonte de luz está presente, o lado escuro é “sempre” mais escuro do que o lado da luz do objeto e o lado da luz é “sempre” mais leve do que o lado escuro. Estabe- lecendo um lado claro e um lado escuro, os objetos redondos aparecem redondos e definem a forma de um objeto com precisão. Use esse exemplo simples para compreender as projeções luz e sombra. 12 Fonte de luz é quando você está vendo sombras ou destaques, então deve haver uma fonte de luz. Parece óbvio, mas na maioria dos projetos de design (além de ilustrações que incluem sol, lua, lâmpada, entre outros.), essa fonte de luz não será visível. No entanto, se você determinar a posição de uma fonte de luz imaginária e configurar seus efeitos para aparecer como se fossem todos causados por essa mesma fonte de luz, você acabará com um visual mais realista e consistente no design de um projeto, ao invés de apenas algumas aplicações aleatoriamente para causar efeito. Figura 2: Projeção luz e sombra. Luz Tom de médio escuro Luz refletida Fonte: Elaboração própria. 13 O ponto ou o plano mais leve é onde exatamente a luz atinge a superfície da esfera (Figura 2) entre borda de sombra e a borda do objeto. Um destaque pode ser brilhante e nítido em uma superfície de vidro ou metálica, ou distorcido e silenciado em uma superfície com textura. Projeção das sombras: quando a fonte de luz é bloqueada por um objeto, eleva uma sombra. O comprimento e a forma da sombra do objeto de- pendem da colocação da fonte de luz. Sombras longas são lançadas a partir de uma fonte de luz lateral (como do sol no final da tarde ou no início da noite), e as sombras de projeção curta são lançadas de cima da cabeça (a partir de um sol de meio dia). A forma que uma sombra definida depende da forma do objeto que o molda e de como o recurso é compatível com o objeto. As sombras de formas irregulares e a luz natural do sol estão abertas para interpretação devido à constante mudança de luz solar: enquanto você trabalha no local, o sol continuará avançando e mudando o que você está desenhando. Observe o lugar onde você gostaria que o sol se posicio- nasse e mantenha essa constante para evitar uma disseminação confusa de sombras. A natureza da sombra é afetada pelo clima, luz solar, luz da lua ou luz artificial. Múltiplas fontes de luz ou uma fonte de luz indefinida, minimiza a gradação de valores 14 e aplana a sensação de volume em objetos tridi- mensionais. Devido a esse efeito de iluminação, alguns artistas pintaram cores em áreas planas negligenciando o uso de uma fonte de luz para criar sombras. Uma fonte de luz indefinida causa uma sensação de espaço raso. Alguns críticos de arte acreditam que essa sensação de espaço raso abriu o caminho para usos “não representativos” de valor e cor. Uma gama completa de valores é o ingrediente básico para sombreamento. Quando você pode desenhar muitos valores diferentes, você pode começar a adicionar sombreamento e, portanto, profundidade, aos seus desenhos. Com o sombrea- mento, a ilusão mágica da realidade tridimensional aparece na obra de arte. Você sabe que os objetos ao seu redor são tridimensio- nais porque você pode caminhar até eles, pode vê-los de todos os lados. Tome um momento para olhar em torno de você em objetos familiares. Tente descobrir por que você vê suas formas tridimensionais reais. Procure os diferentes valores criados pela luz e sombras. REFLITA 15 Figura 3: Escala de tons. Fonte: Elaboração própria. A relação de tonalidades na superfície de um objeto tem variações e incrementos sutis no tom, criam uma gradu- ação de tons de cinza ou (neutros) porque a área de luz fica mais escura ou sombreada quando a superfície do objeto se afasta da luz. A gradação de tons (mais graves ou menos graves) nos ajuda a determinar a qualidade da luz, isto é, se é intenso, difuso ou ambiente. A iluminação direta com sombras tem um efeito muito diferente do que a iluminação difusa com sombras difusas. Quanto maior o contraste, menos disperso ou mais poderoso a fonte de luz para o visualizador e deve ser consistente em um todo, ou seja, se um objeto tiver uma sombra, outro objeto também deve ter uma sombra. Dependendo da qualidade da luz, podemos estabelecer uma relação dos tons dentro de uma escala de tons. Esta escala é uma gama de tons múltiplos de escuro que se relacionam entre si com tons mais claros em uma extremidade e tons mais escuros na outra. Os in- crementos de quantidade são o que determina o tempo da escala, ou seja, como são dramáticos os passos nos tons de luz para escuro. Você pode fazer uma escala de valor usando tons incrementais para medir a leve- za ou a escuridão de um tom dentro de um desenho. Lembre-se, desde que sejam mantidos os passos em tons ou relacionamentos tonais, um objeto desenhado em uma superfície 2D aparecerá em 3D. A escala de valor mostrada na (Figura 3) foisimplificada em sete 16 tons. As regiões claras e escuras básicas podem ser mais detalhadas à medida que você lentamente molda o desenho, o que significa que gradualmente adiciona mudanças mais sutis nos tons ao escurecer lentamente as áreas. Isso altera os relacionamentos tonais, então o segredo para construir relacionamentos tonal complexos é construílos lentamente. As margens com que se usa a linha para representar um esboço rápido ou um minucioso projeto mecânico aparecem, na maior parte dos casos, em forma de justa- posição de ions, ou seja, de intensidade da obscuridade ou claridade de qualquer coisa vista. Vemos graças à presença ou à ausência relativa de luz, mas a luz não se irradia com uniformidade no meio ambiente, seja ela emitida pelo Sol, pela Lua Ou por alguma fonte artificial. Se, nos encontraríamos numa obscuridade tão absoluta quanto a que se manifesta na ausência completa de luz. A luz circunda as coisas, é refletida por superfícies brilhantes, incide sobre objetos que têm, eles próprios, claridade ou obscuridade relativa. As variações de luz ou de tom são os meios pelos quais distinguimos eticamen- te a complexidade da informação visual do ambiente. Em outras palavras, vemos o que é escuro porque está próximo ou se superpõe ao claro, e vice-versa. Na natureza, a trajetória que vai da obscuridade humana de reprodução da natureza, tanto na arte quanto no cinema. Quando observamos a tonalidade na natureza, estamos vendo a verdadeira luz. Quando falamos de tonalidade SAIBA MAIS 17 em artes gráficas, pintura, fotografia e cinema, fazem referência a algum tipo de pigmento, tinta ou nitrato de prata, que se usa para simular o tom natural. Entre a luz e obscuridade na natureza existem centenas de gradações tonais específicas, mas nas artes gráficas e na fotografia essas gradações são muito limitadas. Entre o pigmento branco e o preto, a escala tonai mais comumente usada tem cerca de treze gradações. (DON- DIS, D. 1997,p.36) A luz forma tudo o que vemos. Ela constantemente atinge nossos olhos, trazendo informações sobre o meio ambiente. Não podemos separar arte e ciência sem óptica. Iluminação e sombras são usadas dentro de uma variedade de formas de arte para criar efeitos estéticos. O estudo de luz e sombra no cinema e nas artes visuais contemporâneas é sustentado pelas teorias semióticas evolutivas da indiferen- ça e iconicidade. Essas teorias explicam o poder comunicativo e emotivo único da luz e da sombra, quando usado em meios contemporâneos, incluin- do o teatro sombrio, retratos de silhueta, câmera obscura, fotografia e filme. Iconicidade Semelhança entre a forma de um signo linguística, entre a forma e a coisa representada. 18 O significado estético e emocional das sombras, como sinal indexado, mantém uma conexão física com o referente quase presente, como uma pessoa oculta, estimulando a imaginação do espectador e provocando respostas, incluindo ansiedade ou curiosidade. A “sombra cinematográfica” desem- penha um papel estilístico, aumentando a textura da imagem, profundidade de campo e contraste tonal de momentos cinematográficos. Esses apri- moramentos são especialmente importantes em filmes monocromáticos. Para combinar abordagens teóricas e materiais históricos para desenvolver uma compreensão mais profunda do elemento de artes visuais luz e sombra vamos observar como estas teorias estão presentas em alguns movimentos das artes visu- ais e como são representadas nos movimentos artísticos do Gótico ,Barroco e Impressionismo. 19 LUZ E SOMBRA E AS ARTES VISUAIS: RELAÇÕES COM ARTE GÓTICA Figura 4: Meyers Konversations-Lexikon. 1897. A - Arco, ogiva medieval B - Arcobotante C - Abobada nervurada Fonte: Shutterstock. O termo “estilo gótico” refere-se ao estilo de arquite- tura europeia, escultura (e artes menores) que liga a arte românica medieval ao início do Renascimento. Sua principal forma de expressão foi a arquitetura exemplificada pelas grandes catedrais, igrejas e castelos góticos do norte da França, (Figura 5). 20 Figura 5: Fulberto de Chartres. 1145. Catedral de Chartres, França. Fonte: Wikipedia� No design gótico, as formas planas do estilo ro- mânico anterior foram substituídas por um novo foco. E seus arcos e contrafortes aumentaram a abertura das paredes para janelas de vitrais, cheias de imagens translúcidas inspiradas na arte bíblica (Figura 6, 7 e 8), superando o que a pintura mural ou a arte dos mosaicos tinham para oferecer. Tudo isso criou uma atmosfera humanista evocativa bastante diferente do período românico no final do século XIV. https://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Chartres#/media/Ficheiro:Chartres-Cathedral.jpg 21 Figura 6: Fulberto de Chartres. 1145. Catedral de Chartres. França. Fonte: Foto de Marianne Casamance/Wikipedia� https://en.wikipedia.org/wiki/Chartres_Cathedral#/media/File:Chartres_-_Cath%C3%A9drale_16.JPG 22 Figura 7: Catedral de Chartres. 1145. Vitral a rosa do sul. França. Fonte: Foto de Jörg Bittner Unna por Wikipedia 23 Figura 8: Catedral de Chartres. 1145. Catedral Chartres interior. França. Fonte: Foto de PtrQs por Wikimedia. 24 A pintura gótica surgiu depois que a arquitetura gótica e a escultura começaram. Tal como acontece com a pintura cristã e românica, a pintura gótica caracterizou-se fortemente nos afrescos das igre- jas. Os temas da arte gótica são muitas vezes de natureza religiosa, mas o período também marca um interesse pela arte secular. Na arquitetura gótica a luz é símbolo de Deus. Ao trazer mais luz para espaço arquitetônico das catedrais, esperava trazer as pessoas para perto de Deus. O gótico foi uma transformação dramática das construções de catedrais e igrejas, tornando a luz o principal elemento de construção. Para conseguir capturar a luz divina, atingindo altura celestial os engenheiros medievais desenvolveram o sistema construtivo em arcos, ogiva medieval e arcobotan- te, que são elementos básicos da arquitetura das catedrais e igrejas (Figura 4 - B e 5). A abobada nervurada (Figura 4 - C) é o terceiro elemento de inovação da arquitetura gótica, que funciona como estrutura de um esqueleto que suporta as cargas de peso do teto de pedras do edifício e transporta para o solo, permitindo que as paredes pudessem ser construídas mais finas e serem preenchidas com vitrais com vastos espaços de paredes e com luzes coloridas tirando as men- 25 tes medievais da sujeira e escuridão da vida diária, criando uma experiência a outro mundo. Antes da era gótica somente era possível construções altas com muralhas grandes e espessas como resultado construções volumosas e escuras, então tudo isso mudou com a revolução da engenharia. Luzes coloridas brilham através de enormes vitrais iluminando paredes incrivelmente finas e refletindo em tetos altíssimos (Figura 5 e 6). O arco gótico não era apenas estrutura engenhosa. Tinha um valor estético de beleza que influenciava muitas outras características do design gótico, sobretudo o teto abobadado. Os teólogos medievais encontraram uma analogia perfeita na luz visível, especialmente na radiação super abundante do sol, que enche o mundo material e dá vida. O sol a própria luz é uma coisa viva, ativa como o Espírito Santo, rítmica como as estações litúrgicas. Seus diversos modos de disposição tocam na face das janelas em um contínuo drama de luz e sombra. Eles podem estar em chamas e esperança no meio da manhã, ou subjugadas e contemplativas com sombras de inverno. O nascer do sol e o pôr-do-sol irão dar-lhes sangue vermelho. À noite eles descansam na escuridão penitencial, aguardando a ressurreição matinal. Não é insig- nificante que, de fora da igreja, parecem engano- samente sombrias e impenetráveis, que somente 26 dentro da igreja são claros e brilhante e repletos de significado para a visão. O tempo a posição e disposição do espectador estão assim ligados ao significado as aberturas de entradaluz; ao vitral, adicione suas cores prismáticas e sua infinita variedade, e se tornam um modelo dos muitos caminhos para Deus. Ele deve fluir através de uma brilhante ilusão de santos e hierarquias, e antigas imagens escrituráveis, e dogmas simbolizados, roxos, azuis, dourados e uma ampla chama de escarlate. Então, seria apenas uma iluminação como a fé católica permite aos seus crentes. Mas o vitral recebe de forma única luz, por si só, invisível e intangível, e dá uma forma sólida e vi- sível, cada pedaço de vidro está repleto de luz. É, como se Jesus, estivesse escondido na luz, o sol, que subsiste além das paredes físicas da igreja, inacessível aos olhos corporais. Vitrais, do gótico (Figura 7 e 8) ou de qualquer época, podem falhar no campo prático. Mas, como símbolos, estão na fronteira entre o visto e o invisível, brilhando na escuridão com a gloriosa luz de Cristo, a luz que é o lembrete visível da luz invisível. A catedral de Chartres, em Paris (1163-1345), é geral- mente considerada como o melhor exemplo preservado da arquitetura gótica na França, é mundialmente famosa SAIBA MAIS 27 por sua gloriosa arte de vitrais e por sua rica variedade de escultura gótica, cujo significado exato ainda é pon- derado por estudiosos. Com uma abóbada de 34 metros e paredes quase inteiramente feitas de vitrais, 32.292 metros quadrados de vitrais. A catedral tem cerca de 130 metros de extensão e sua nave é de 16,5 metros de largura com seu plano de design cruciforme típico das basílicas góticas francesas. As baías retangulares da nave são cobertas por abóbadas cruzadas com nervuras que se apoiam em elementos cilíndricos e poligonais alternativos que podem ter sido utilizados, já que não eram necessários, para evitar a monotonia excessiva. O resultado é um ritmo contínuo e serrilhado que exalta o efeito da verticalidade do espaço enfatizado por uma acentuação plástica do sistema estrutural. As janelas, tornasse possíveis pelo uso dos contrafortes exteriores, propõem um design inovador baseado em um par de janelas redonda inscrita em uma arcada. Tais são as dimensões enormes que a nave é claramente superior aos corredores, aumen- tando de forma exponencial a sensação de grandeza e monumentalidade. A combinação desses novos elementos arquitetônicos, que definiu o estilo gótico, juntamente com o interesse da Igreja em aumentar a luz interior, espaço e altura, re- sultou em uma nova tecnologia fortemente influenciada pela religião. Os objetivos da religião proporcionaram o ímpeto para uma tecnologia empírica ousada; ao mesmo tempo, os métodos tecnológicos permitiram à igreja alcançar um inovador espaço inspirador dentro de um novo estilo arquitetônico. 28 Desde o início da história arquitetônica, a luz e o espaço interagiram. Essa interação é um reflexo da dinâmica do design por condições geográficas, estrutura social, crenças, religião, economia e política. A luz também é usada para criar efeitos psicológicos e fisiológicos na arquitetura. A luz do dia simbolizava o deus em quase todas as culturas. Este fenômeno moldou a iluminação interior dos edifícios religiosos. Nos espaços religiosos, o design do espaço e da iluminação muda de acordo com o culto e a liturgia. O design de iluminação desejado varia de acordo com religiões e seitas. A quantidade e a qualidade da iluminação juntamente com a combinação de iluminação, cor e sombra afetam a qualidade do es- paço sagrado e do equilíbrio espiritual e místico geral. Este estudo trata da luz do dia dos espaços religiosos que revela a interação entre crenças, valores políticos, sociais e estéticos e as possibilidades tecnológicas. Nave O termo arquitetônico nave é originário do grego naos, referente ao espaço fechado de um templo, e do latim medieval navis. A nave é o termo referente à ala central de uma igreja ou catedral onde se reúnem os fiéis de modo a assistirem ao serviço religioso. Estudamos os efeitos da luz e sombra no espaço arquitetônico do período gótico, vamos analisar como esses elementos são representados na pintura do período barroco. 29 LUZ E SOMBRA E AS ARTES VISUAIS: RELAÇÕES COM ARTE BARROCA A arte barroca, um dos movimentos mais impor- tantes da história da arte ocidental, atingiu o auge de sua popularidade no século XVII na Europa. A arte e a arquitetura barroca caracterizam-se por abundantes ornamentações, emoções exageradas e uso teatral de luz e cor. Na arquitetura barroca, escultura e a pintura de uma natureza lúdica eram poderosas ferramen- tas nas mãos do absolutismo religioso e secular e floresciam ao serviço da Igreja Católica e das monarquias católicas. Os artistas foram particularmente focados em formas naturais, espaços, cores, luzes e a relação entre o observador e o sujeito literário ou retrato, a fim de produzir uma experiência emocional forte. Ao contrário da arte renascentista, que geralmente mostrava o momento antes de um evento, os artis- tas barrocos escolheram o ponto mais dramático, momento em que a ação estava ocorrendo. 30 Talvez mais importante para a paleta barroca do que o matiz fosse o contraste entre luz e sombra. Os artistas barrocos pintaram cenas teatralmen- te iluminadas, em que personagens destacados emergiram de áreas da sombra para mais sombria. Matiz Diferentes tons pelos quais passa uma mesma cor. A justaposição da escuridão e da luz produziu figuras que saltam da superfície da pintura com contraste de cores pretas e brilhantes. Esses elementos de luz e cor foram usados por artistas barrocos, trazendo a emoção e o poder do palco para a superfície de uma pintura estática. Enquanto a iluminação de uma pintura barroca traz à mente a iluminação de um palco de teatro, sua cor e textura evocam as suntuosas cores e materiais de fantasias teatrais. Com essas fer- ramentas, juntamente com poses e expressões exageradas, artistas barrocos pintavam emoções de uma maneira nunca antes tentada O aspecto mais importante da pintura barroca não foi, no entanto, o que foi representado, mas como foi representado. A pintura não estava acesa unifor- memente, mas em manchas; detalhes atingidos por luz brilhante intensa e alternada com áreas 31 de sombra escura. Era um estilo de pintura dra- mático, violento e atormentado, eminentemente adequado a uma época de fortes contrastes estéticos, como era o período barroco. Michelangelo Merisi da Caravaggio, pintor italiano mais conhecido simplesmente como Caravaggio, reconhecido pelo seu habilidoso estilo de pintu- ra que usa a luz para destacar dramaticamente pontos específicos em suas composições. Seu trabalho icônico, A vocação de São Mateus (Fi- gura 9) é propositalmente colocado abaixo de uma janela real na igreja, para criar o efeito da luz que emana da sua abertura. Mais decisivo ainda é o forte raio de sol que ilumina o rosto e mão de Jesus em seu interior sombrio. O forte contraste entre as áreas sombrias e claras em seu trabalho cria uma atmosfera carregada e teatral. Caravaggio fundiu suas obras, com intensidade e energia tão visuais e psicológicas que as formas parecem explodir no plano da imagem. 32 Figura 9: Michelangelo Merisi da Caravaggio. 1599-1600. A vocação de São Mateus. Óleo sobre tela. 340 × 322 cm. Fonte: Dominio Público/Wikipedia� A técnica de claro e escuro é chamada de chia- roscuro, própria da palavra italiana significa “luz e escuridão”. Termo usado pela primeira vez para descrever um tipo de desenho em papel médio-es- curo onde o artista cria áreas mais claras com tinta branca. No que diz respeito à pintura, no entanto, o claro e escuro realmente ganhou vida nas pinturas de Caravaggio no final do século XVI.Ele começou a usar fundos profundos e escuros em muitas de https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:The_Calling_of_Saint_Matthew_by_Carvaggio.jpg 33 suas pinturas que parecia quase se concentrar em suas figuras o alto contraste nessas pinturas feitas para obras de arte intensamente poderosase dramáticas. Por causa de Caravaggio, o claro e escuro tornou- -se muito popular, e hoje a palavra é usada com mais frequência para significar “alto contraste” mais do que qualquer outra coisa, oferecendo aos artistas a chance de explorar silhuetas e outros extremos e, obviamente, tornaram a ênfase na luz e nas sombras mais importante do que a cena em muitas ocasiões. Quando o foco de uma pintura é na forma de objetos, ou a forma de uma figura, então o claro e escuro pode ser extremamente útil. Uma luz direcional forte levará os detalhes e as características e dará uma aparência tridimensional verdadeira. Uma distribuição de luz criteriosa serve para dar unidade e ordem não apenas à configuração de objetos isolados, mas igualmente à de um conjunto inteiro. A totalidade dos objetos que aparecem dentro da moldura de uma pintura ou num palco pode ser tratada como um ou vários objetos grandes, dos quais todos os elementos menores são partes. A luz lateral intensa usada por pintores como Caravaggio simplifica e coordena a or- ganização espacial do quadro. A relação entre claridade REFLITA 34 e orientação espacial sofre interferência das sombras projetadas, porque elas podem escurecer uma área que de outra maneira seria clara, e por reflexos que iluminam lugares escuros. Diferenças de claridade local também interferem no esquema de iluminação. Na escultura, manchas de sujeira sobre o mármore ou irregularida- des de claridade no grão de madeira, com frequência, distorcem a forma sendo passíveis de interpretações errôneas como sendo efeitos de sombra. (ARNHEIM, Rudolf R. Arte e Percepção Visual: uma psi- cologia da visão criadora. São Paulo: Cengage Learning, 2011,p.55) Na pintura de Caravaggio, Judith e Holofernes (Figura 10) conta a história bíblica de Judith, que salvou seu povo seduzindo e decapitando o general assírio Holofernes, que era um tema comum no século XVI. Caravaggio estava certamente ciente da identidade tradicional de Judith como um sím- bolo de triunfo sobre a tirania; mas ele apresentou o tema principalmente como o melodrama, esco- lhendo o momento climático relativamente raro da decapitação de Holofernes. Judith, jovem, linda e fisicamente fraca, retrai-se de forma desagradável quando prende o cabelo de Holofernes e crava a sua própria espada em seu pescoço. Holofernes, em sua cama, poderoso, mas bêbado, nu e gritando impotente, congelou-se na inútil luta de seu último instante de consciência. A velha serva segura a bolsa para colocar a cabeça. 35 Figura 10: Michelangelo Merisi da Caravaggio. 1598-1599. Judith e Holofernes. Óleo sobre tela. 145 cm × 195 cm. Fonte: Domínio público/Wikipedia� É uma imagem chocante, com interesse primor- dial nos estados de espírito dos protagonistas: a triste satisfação da velha, o choque de Holofernes e o senso de determinação de Judith. Caravaggio intensifica a linguagem corporal não apenas nas poses, gestos e expressões faciais, mas também nas mãos apertadas. Os vazios em torno deles são pelo menos tão negros e bidimensionais quanto vazios e tridi- mensionais. A imagem se assemelha a uma fotografia tirada com uma lente grande angular, que se desenvolve panoramicamente em vez de https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Judith_Beheading_Holofernes_by_Caravaggio.jpg 36 uma profundidade penetrante dentro de um único quadro de visão. Diferentes tons de luz e castanho escuro, amarelos, brancos sujos. Traz a atenção do espectador para os vermelhos brilhantes e o coração batendo da pintura. Caravaggio queria que nós saboreássemos o sangue da garganta de Holofernes, ele fez tudo o que pôde para nos direcionar os elementos violentos desta pintu- ra, desde a luz angélica de Judith até a brutal decapitação de Holofernes. O tenebrismo, um jogo intenso de luz e sombra, ilumina a força e a coragem das ações de Judith. Outra obra deste período que nos traz um bom exemplo da utilização da luz e sombra na pintura é, As Meninas, do pintor espanhol Diego Velásquez, em 1656 (Figura 11). A imagem é incrivelmente complexa, os vários planos são indicados pela perspectiva, à interação da luz e da sombra em uso inteligente das cores. As figuras estão bem posicionadas e respiram vitalidade. 37 Figura 11: Diego Velásquez, 1656. As Meninas. Óleo sobre tela, 318 x 276 cm. Fonte: Domínio público/Wikipedia� Um componente essencial de algumas pinturas barrocas é a leveza, os artistas barrocos desistiram em grande parte da convenção renascentista de centralizar um único sujeito com luz. Eles escolhe- ram usar luz de forma a estabelecer vários pontos focais dentro de uma pintura. A luz pode ser usada https://pt.wikipedia.org/wiki/As_Meninas_(Vel%C3%A1zquez)#/media/Ficheiro:Las_Meninas,_by_Diego_Vel%C3%A1zquez,_from_Prado_in_Google_Earth.jpg 38 para criar uma atmosfera poética. Algumas ques- tões são levantadas sobre a natureza da visão e a realidade pictórica lhe confere uma qualidade enigmática. Na verdade, a luz desta pintura parece confuso. Parece vir de um ponto acima do centro horizontal e desligado para a direita. O rosto da princesa é iluminado de cima e ligeiramente para a direita e se estende ao cabelo da anã, sua boche- cha direita é sombreada, o rosto do menino está totalmente na sombra, a luz deve vir ligeiramente da janela atrás da anã sentada. Mas se este for o caso, é difícil explicar como o espelho no fundo parece tão uniformemente iluminado. Ao contrário do ditado que “espelhos nunca men- tem”, o espelho “sugere sua própria irrealidade”. Os rostos dos pais da princesa, o rei e a rainha, aparecem no espelho da parede ao fundo. Terão eles acabado de entrar na sala e estarão vendo a cena tal como nós, ou será que o espelho reflete parte da tela, em que o artista está trabalhando? Está ambiguidade é característica da fascinação de Velásquez pela luz. As variedades de luz direta e refletida, nas meninas não parece refletirem-se uniformemente, e o artista como que nos desafia a descobri-las. A luz começa no rosto iluminado de Margarida, notamos que a clareza vai diminuindo à medida que avançamos ligeiramente para cima e para a direita 39 para a posição empregada doméstica, a mulher e depois o homem. A luz primária definitivamente vem do canto superior direito. A fonte de luz vem da galeria com várias janelas vistas em tamanho decrescente, o que torna a profundidade parecer grande, criando uma sensação como se sala se propagasse sobre a tela; a luz entra em algum lugar, talvez na sala adjacente, e isso se mostra bem no rosto de Velázquez. A obra de Velázquez tem semelhanças notáveis com a pintura de Caravaggio de várias maneiras, os dois artistas compartilham um interesse em assuntos de gênero e na pintura de pessoas da rua, um naturalismo intenso, uma paleta sóbria e efeitos dramáticos da luz e sombra. Mesmo em termos de composição, o trabalho dos dois artis- tas possui semelhanças, as pinturas de Velázquez são simples, diretas e francas em tom e execução, assim como a de Caravaggio. Para Velásquez a luz cria o mundo visível, somente dois séculos mais tarde encontraremos pintores capazes de entender desta descoberta. A pintura barroca decorreu dos estilos de pintores renascentistas como Michelangelo, Raphael, Ticiano e Correggio. Referem-se a elementos como o interesse SAIBA MAIS 40 pela verossimilhança e naturalismo (muitas vezes com forte conteúdo alegórico), representações de estados extremos de sentimento, desejo de sugerir extensões no espaço, movimento dinâmico, intenso envolvimento com a luz (em suas conotações físicas e espirituais) e uma sensibilidade ao impacto das civilizações clássi- cas, como representando alguns dos aspectos mais salientes da arte barroca. Embora o século XVII seja bastante ambivalente em relação a qualquer estilo, os pintores barrocos exibiram várias características em sua pintura que deixaram claro que o trabalho era barroco. Estudamos os efeitos da luz e sombra no períododa arte barroca, vamos estudar a o elemento da luz e sombra no movimento de arte impressionista. O período de arte do realismo foi contemporâneo ao período impressionista, e continha muitos detalhes do barroco. Com arte impressionista, substituíram a textura da representação realista, como vimos na pintura barroca, por pinceladas de pequenos golpes, deixando as marcas de pincel na pintura, não representavam a vida com personagens, o tema era mais casual à arte era feita ao ar livre enquanto com representações da luz e sombra da natureza, no barroco era feita em oficinas nesse período a arte não era portátil. 41 O impressionismo foi o fim da arte convencional da representação não utilizavam a luz e a sombra como efeito pictórico da composição realista, como aconteceu no período barroco com o forte contraste de luz e sombra, ao invés disso ele borraram os contornos dos objetos e buscavam a luminosidade insubstancial através da textura e cor, buscando a incidência de luz nos objetos. 42 LUZ E SOMBRA E AS ARTES VISUAIS: RELAÇÕES COM MOVIMENTO IMPRESSIONISTA O impressionismo foi um movimento de arte na França no final do século XIX. Os impressionistas era um grupo de artistas reconhecidos por suas inovadoras técnicas de pintura e abordagem ao uso de cores na arte. Ficaram entusiasmados com os desenvolvimentos contemporâneos na teoria das cores que ajuda- ram a procurar análises mais exatas dos efeitos da cor e da luz na natureza. Eles abandonaram a ideia convencional de que a sombra de um objeto foi feita a partir de sua cor com alguns tons de marrom ou preto adicionados. Em vez disso, eles enriqueceram suas cores com a ideia de que a sombra de um objeto é quebrada com traços de sua cor complementar. Por exemplo, em uma pintura impressionista, a sombra sobre uma laranja pode ter alguns traços de azul, pintados para aumentar sua vitalidade. Os impressionistas procuraram capturar a atmos- fera de uma determinada hora do dia ou os efeitos de diferentes condições climáticas na paisagem. Para capturar esses efeitos fugazes, eles tiveram 43 que trabalhar com pinceladas rápidas. Eles apli- caram sua pintura em pequenos traços de cores brilhantes, o que significava sacrificar grande parte do esboço e detalhes de seu tema. Sua técnica de pintura colocou-os em desacordo com a academia conservadora do estabelecimento artístico francês que valorizava cores sutis e detalhes precisos, cuidadosamente elaborados com grande habi- lidade no estúdio do artista. O que a academia não conseguiu apreciar foi à dinamicidade da cor impressionista e a energia de suas pinceladas que revelou a espontaneidade do movimento. Os pintores usaram traços grandes e visíveis para ajudar a retratar um espirito sonhador e abstrato. Eles criaram diferentes texturas, visual e fisicamente, com cores variadas em camadas. Os pintores desenvolveram uma forma de aplicar pigmento chamado “cor quebrada” ou “pincela- das quebradas”. A tinta é aplicada em manchas em forma de mosaico, o que cria uma textura de superfície irregular. Neste momento, a fotografia estava em seus estágios iniciais de desenvolvimento. Como ha- via uma diferença entre o que o fotógrafo viu no visor de sua câmera e o que realmente apareceu no negativo, os fotógrafos recortariam suas fotos para melhorar sua composição. Isso resultou em alguns arranjos incomuns que enfatizaram formas 44 na borda da imagem. A iluminação é muitas vezes um dos pontos focais mais importantes na pintura impressionista. Os impressionistas gostavam de jogar com luzes e sombras. Muitos empregaram uma combinação de linhas impressionantes e sólidas com linhas suaves visíveis. A pintura pode ter uma linha de silhueta apurada preenchida com linhas sombrias borradas ou um fundo embaçado com um primeiro plano com- preensivo. O tema do impressionismo é muitas vezes casual, a vida cotidiana, capturado com um imediatismo realçado por efeitos transitórios da luz e da atmosfera. Os pintores impressionistas empregaram uma ampla gama de dispositivos de composição em seus trabalhos. Um deles foi o uso de uma linha de horizonte alto que muitas vezes cria uma pers- pectiva de queda. Claude Monet (1840-1926) é um dos artistas mais importantes e populares do século XX. O artista gostava de experimentar o jogo mutável de luz e cores ao longo do dia e as estações, criando atmosferas que eram mágicas e reconhecíveis. 45 Os impressionistas criaram o efeito do impasto, colocando uma grande quantidade de tinta no pincel e pintando objetos com uma série de pinceladas mais curtas, unidirecionais. A técnica do impasto elimina linhas distintivas e, consequentemente, reflete a percepção humana, em vez de uma descrição extremamente precisa da realidade. A cor quebrada refere-se ao efeito de combinar cores diretamente na tela em vez de na paleta. A cor quebrada elimina a cobertura perfeita e as transições suavemente combinadas. Os pintores usaram camadas de cores e separaram as cama- das superiores para revelar as cores inferiores. O artista pode usar pontos, pinceladas e arranhões para criar esse efeito. Se os traços cruzarem, isso é chamado de cruzamento permite aos artistas capturar melhor os efeitos da luz e a figura do objeto em vez dos detalhes. Claude Monet e sua pintura, (Impressão, nascer do sol) foi celebrado como o símbolo da essência do Movimento Impressionista (Figura 12), foi o tema dessa pintura que deu nome ao movimento artístico. 46 Figura 12: Claude Monet. 1872. Impressão, nascer do sol� Óleo sobre tela. 48x62cm. Fonte: Domínio público/Wikipedia� A imagem desta obra de arte apresenta um foco na sensação calma de uma cena marítima enevo- ada. Ligeiramente abaixo do centro da pintura, um pequeno barco a remo com duas figuras indistintas flutua na baía. O sol do início da manhã é repre- sentado subindo sobre o porto de nevoeiro com navios e outros vários barcos no porto. As sombras dos barcos e das figuras e o reflexo dos raios do sol podem ser vistos na superfície da água. Monet incorpora uma paleta de cores, em geral, frescas e borradas na pintura com azuis e cinzas, mas tam- bém inclui salpicos de cores quentes observados no céu e o sol vermelho-alaranjado. Este uso de https://pt.wikipedia.org/wiki/Impress%C3%A3o,_nascer_do_sol#/media/Ficheiro:Claude_Monet,_Impression,_soleil_levant.jpg 47 uma cor visivelmente brilhante chama a atenção para o foco principal da pintura, o sol. Numerosos elementos verticais podem ser encontrados ao longo desta paisagem nebulosa. À esquerda do centro da tela, um navio entra no porto, enquanto o vapor de água desbota a atmosfera. Guindastes e máquinas pesadas podem ser detectados no lado direito da pintura. As emissões das fábricas, navios e máquinas se misturam com os raios do sol para gerar uma espécie de beleza que é “sur- preendente e sedutora”. Fora a distância, formas mais verticais quebram o horizonte, chaminés podem ser observadas, várias fábricas e mastros de outros navios. Para alcançar esse ambiente natural de luz, ele frequentemente misturou seus pigmentos com grandes quantidades de chumbo branco. Durante sua carreira, a habilidade inata de Monet para capturar esse efeito foi reconhecida por sua reputação como pintor incomparável de luz. A série de trinta pinturas impressionistas com a Catedral gótica de Rouen na França (Figura 13, 14 e 15) foi pintada por Claude Monet entre 1892 e 1894, e apenas adicionou ao seu status como um dos melhores artistas paisagistas de seu tempo. Cada obra capta a fachada da Catedral em diferentes mo- mentos do dia e ano, refletindo as mudanças em sua aparência em diferentes condições de luz, sombra e cor em diferentes dias do ano. Monet ficou intrigado com a mudança de desempenho e forma de um ob- jeto, de acordo com a luz, cada uma com exibições 48 repetitivas sobre o mesmo assunto em diferentes condições de iluminação, foi sua tentativa de ilustrar a contribuiçãoda luz para nossa percepção óptica de um objeto em um determinado momento e lugar. Figura 13: Claude Monet. 1884. Catedral de Rouen, a fa- chada à luz do sol. Óleo sobre tela. 107x 73.5 cm. Fonte: Domínio público/Wikipedia� https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7b/Rouen_Cathedral%2C_West_Facade.JPG 49 Figura 14: Claude Monet. 1884. O Portal da Catedral de Rou- en em Luz da Manhã. Óleo sobre tela. 107 cm × 73.5 cm. Fonte: Domínio público/Wikipedia� https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:The_Portal_of_Rouen_Cathedral_in_Morning_Light,_oil_on_canvas_painting_by_Claude_Monet,_1894,_Getty_Center.JPG https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:The_Portal_of_Rouen_Cathedral_in_Morning_Light,_oil_on_canvas_painting_by_Claude_Monet,_1894,_Getty_Center.JPG 50 Figura 15: Claude Monet. 1892-1894. Catedral de Rouen, Fachada e Tour d’AlbaneI, dia maçante. Óleo sobre tela. 107x 73.5 cm. Fonte: Domínio Público/Wikipedia� https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Claude_Monet_-_Rouen_Cathedral,_Facade_and_Tour_d%27AlbaneI.JPG 51 Ele permaneceu muitos meses, contemplando a fachada principal da catedral e reproduziu seus diversos aspectos em várias imagens simultane- amente, indo de um para o outro de acordo com a hora do dia e o clima. Sua técnica de pintura ainda estava mudando; sua tinta tornou-se uma espécie de cimento pontilhado como se fosse imitar o grão das pedras antigas. Catedral de Rouen, a fachada à luz do sol, (Figura 13) foi pintada com a luz do sol. Outros foram feitos em um amanhecer cinza, ou no crepúsculo, nos fogos do pôr-do-sol, ou novamente todos velados de névoa, (Figura 14 e 15). Usando uma catedral como seu assunto Monet ilustrou o paradoxo entre uma estrutura de pedra relativamente sólida e permanente e a luz eva- nescente que controla nossa percepção. Nessas composições, ele usou camadas grossas de tinta, expressando a natureza do assunto. Essa textura e a sutil mistura de cores de Monet ajudaram a fazer uma série de imagens cintilantes que são inteiramente dignas de seu assunto monumental. Quando a cor é extraída, a pintura se torna um fantasma de seu eu anterior. A maior parte do que faz o trabalho da pintura é perdida porque os contrastes são baseados principalmente na cor, não no valor. Catedral de Rouen é baseada em 52 cerca de 80% em cores e 20% em valor, as cores são avaliadas mais perto do alcance médio, per- mitindo que eles mantenham mais sua identidade colorista e reagem uns com os outros de maneiras mais cromáticas. No sol direto, as sombras em uma fachada como essa provavelmente teriam um contraste muito maior. Mas Monet opta por expressar esse contraste não com o valor, mas com um relacionamento delicadamente equilibra- do baseado em temperatura e complementos. O efeito geral é maior luminosidade. “Quanto mais velho eu me tornar, mais percebo que te- nho que trabalhar muito para reproduzir o que busco: o instantâneo. A influência da atmosfera sobre as coisas e a luz espalhadas”.Claude Monet, 1891 MONET, Claude. Monet by himself, Paintings, Dawing, Pastels, Letters. França Richard Kendall. 2004. P. 328. Nos anos de 1868 e 1869, os pintores Auguste Renoir e Monet foram muitas vezes juntos para a cidade francesa Bougival, que fica nas margens do Sena, a poucos quilômetros de Paris. Eles frequentavam um lugar chamado La Grenouillère (Figura 16). Em um barco antigo, seguramente amarrado a uma cabana flutuante pintada nas cores verde e branca. REFLITA 53 Naquela época, eles não conheciam nenhum negociante de arte, a falta de financiamento para compor as pinturas não os impediu de trabalhar muito. Muitas vezes decidiram pintar o mesmo assunto, quase do mesmo ângulo, e é assim que temos duas versões da Grenouilllère, a de Renoir e a de Monet, todas interessadas em coletar luz diretamente do natural em uma zona dominada pela sombra. Como todos os mestres do impres- sionismo, brilhantes contrastes de sombra e luz, e especialmente o cintilar da água sob o sol: nesta pintura, o artista trata de certa forma, novas refle- xões coloridas tocando na superfície do rio. O trabalho presta atenção às figuras, desenhadas com contatos de pincel rápidos e seguros, locali- zados na área central da tela. Uma pequena parte é ocupada pelos barcos, alguns sendo cortados em uma análise própria da imagem; no fundo, na área mais ensolarada, são os banhistas, criados com contornos vigorosos. As reflexões na água e as diferentes iluminações utilizadas de acordo com as áreas são os elementos mais importan- tes da cena, Renoir empregando um colorido em que a primavera verde e um toque curto, típico do impressionismo. 54 La Grenouillère é uma pintura que parece um esboço, que parece inacabada para os seus contemporâ- neos, em que nenhum detalhe é desenhado, uma cintilação de sol refletindo os movimentos da água, barcos parcialmente truncados para transmitir uma sensação do momento de passagem, e os detalhes individuais suavizaram a favor da imagem em geral. Mas, a representação da realidade ainda existe. Re- noir pintou um verdadeiro momento de vida como aconteceu, um fragmento sem maior profundidade de interpretação. O tema é novo, em vez de algo heroico, temos um trecho casual e insignificante da realidade, mantido juntos pela iluminação. Figura 16: Pierre Auguste Renoir. 1869. La Grenouillère� Óleo sobre tela. 81x 66.5 cm. Fonte: Domnínio público/Wikipedia� https://pt.wikipedia.org/wiki/Banhistas_na_Grenouilli%C3%A8re#/media/Ficheiro:La_Grenouill%C3%A8re_MET_DT833.jpg 55 Na pintura, “Um bar no Folies-Bergère”, do pintor francês Édouard Manet, (Figura 17) a figura central está diante de um espelho. Acertar a presença do espelho tem sido crucial para muitos intérpretes modernos. Ele fornece um paralelo significativo com As Meninas (Figura 11), uma obra-prima de um artista que Manet admirava Diego Velázquez. O jogo parece intencional na perspectiva é a apa- rente violação das operações dos espelhos, atrás dela, estendendo-se por todo o comprimento da pintura do quadro. O espelho como instrumento de uma magia universal que muda as coisas em espetáculos. Nós, os espectadores, ficamos em frente à garçonete do outro lado e olhando a re- flexão no espelho, vendo exatamente o que ela vê. Ela está alienada dos arredores, como se houvesse um painel de vidro entre ela e todos os outros na sala, bebedores, conversadores, amantes, menti- rosos, ladrões e empresários. Manet transmite o desapego de Suzon do seu mundo pelo fato de que ela é a única pessoa nesta pintura que não se reflete no quadro. Todos os outros na pintura são vistos no grande espelho, os rostos e os corpos são rapidamente pintados, rosados e refletidos, uma mulher com luvas com seu amante ou cliente, outra pessoa olhando a cena com binóculos. Outros deta- lhes notáveis incluem o par de pés verdes no canto superior esquerdo, que pertencem a um trapézio 56 que está se apresentando acima dos clientes no restaurante. As garrafas de cerveja descritas são facilmente identificadas pelo triângulo vermelho no rótulo como Bass Pale Ale e a presença evidente desta marca inglesa em vez da cerveja alemã foi interpretada como documentação do sentimento anti-alemão na França na década após a franco- Guerra da Prússia. Os sólidos e os volumes são sugeridos na imagem com sombreamento é superado em alguns traços brilhantes, um pedaço de sombra para girar um pulso, preto e branco, choque preto e branco em uma garrafa de champanhe, linhas abreviadas de branco nas laranjas e copo de flores. A imagem é plana, organiza sinais particulares dessa planicidade, oferecendo ao espectador esses dois círculos de luz elétrica pintados, localizado con- venientemente cada um em uma parede distante. Atrás da garota é um espelho. Pode-se distinguir a moldura amarela do espelho na altura dos pul- sos da Suzon, é possível perceber a neblina geral e deslumbrar no vidro a ilusão sendo mais forte para a esquerda, onde a pintura brancaobscurece a varanda distante, ou sobre as cabeças da multi- dão à direita. Um espelho é palpável: percebe-se a borda do balcão de mármore refletido nele, ou a vista atrás da garrafa de licor rosa, para que a 57 ilusão seja inescapável. O espelho se encaixa na lógica formal da imagem. Foi o último grande trabalho de Manet, e ilustra como carreira de Manet foi marcada por trabalhos inovadores que superaram a diferença entre rea- lismo e impressionismo. Figura 17: Edouard Manet. 1882. Um bar no Folies-Ber- gère. Óleo sobre tela. 93x130cm. Fonte: Domínio público/Wikipedia� “Num rosto, procure a luz principal e a sombra princi- pal; o resto comerá naturalmente - muitas vezes não é importante. E então você deve cultivar sua memória, REFLITA https://pt.wikipedia.org/wiki/Um_Bar_no_Folies-Berg%C3%A8re#/media/Ficheiro:Edouard_Manet_004.jpg 58 porque a natureza só irá fornecer referências. A natureza é como um diretor em um asilo lunático. Isso impede que você se torne banal.”Edouard Manet, 1907, citação: La Rauve “L ‘Arte er la reálite”. LOOKE, Nancy. Manet and the Family romance. New Jersey Princeton University Press. 2001. P. 351-58 Os impressionistas também queriam ser fiéis à sua experiência de luz e cor, mas acreditavam que a cor pura era uma metáfora melhor para a intensidade da luz do que os fortes contrastes de valor eram. Eles começaram a mudar para um sistema de prioridade de cores e conseguiram reter uma maior identidade colorista, mantendo mais de suas cores na faixa do meio, nem muito escuro nem muito leve. Mais cores saturadas evocavam sensações que se sentiam mais como luz real. Além disso, os contrastes de cores como emparelhamentos complementares e diferenças de temperatura, podem ser aumentados. Os efeitos do valor na identidade de cores podem ser vistos em pinturas que usam um sistema de “prioridade de valor” ou “prioridade de cor”. Um sistema de prioridade de valor depende principal- mente de contrastes de valor exagerados para criar a ilusão de luz e evocar uma sensação de drama. 59 Os impressionistas foram vistos como artistas que mudaram os conceitos aceitos em cores e luz, e por que eles desafiaram artistas posteriores para fornecer soluções ainda mais ousadas através de seu trabalho. Como, neste contexto, os impressio- nistas desenvolveram sua própria maneira pessoal de descrever seu mundo moderno, deixando um legado para futuros artistas. Os artistas do final do século XIX estudaram e abraçaram a pesquisa científica em cores e luz, que influencio o desen- volvimento da fotografia como meio artístico. O filme de 1947, The Private Affairs de Bel Ami, faz referência fiel a pintura de Edouard Manet, Um bar no Folies-Bergère (Figura 14) na cena do tempo de 29 mi- nutos do filme você pode observar a atriz e conjunto de adereços, enquanto os personagens principais entram no estabelecimento. https://www.youtube.com/watch?v=dfUXY8PhOwE Conheça um pouco mais as obras dos artistas do período impressionista, no site do museu MoMA. https://www.moma.org/artists?locale=pt&q=impressionism SAIBA MAIS https://www.youtube.com/watch?v=dfUXY8PhOwE https://www.moma.org/artists?locale=pt&q=impressionism 60 O livro Arte Moderna: O livro com cerca de 750 ilustra- ções apresenta uma história geral e um ensaio crítico sobre o desenvolvimento da arte moderna, buscando suas origens na herança artística do Iluminismo e no desenvolvimento urbano e industrial da passagem do século XIX para o século XX. Articula-se materialmen- te em dois eixos principais: uma síntese histórica por períodos, com atenção para as correntes e problemas centrais que os conformam, e uma análise detalhada de certas obras representativas dos artistas., Giulio Garlo Argan, um dos maiores estudiosos e pensadores no campo da arte do nosso século, consegue estruturar um modelo coerente em que o debate sobre os proble- mas estéticos do nosso tempo constitui um verdadeiro sistema conceitual. ARGAN, G. C. Arte Moderna. São Paulo: Companhia de Letras, 1992. FIQUE ATENTO 61 TOM E COR Porque será que vemos em profundidade? Áreas fisicamente disponibilizadas no mesmo plano se separam em profundidade e assumem uma configuração figura e fundo porque a simpli- cidade aumenta quando o fundo pode ser visto sem interrupção separado da figura. Ver em profundidade no mundo físico é natural, e a utilidade da percepção nos seres se dá na localização no espaço. Mas a percepção em pro- fundidade na representação bidimensional, deve ter sua experiência de tridimensionalidade em sua própria imagem. Podemos observar que a profundidade por sobre- posição, consiste em uma construção plástica em que um objeto se sobrepõe a outro. A sobreposição é muito útil para criar uma sequência de objetos visuais na dimensão da profundidade, quando a construção espacial do quadro não se baseia em outros recursos como a perspectiva, conforme podemos analisar na Figura 18� 62 Figura 18: Paul Rand. The NeXT logo. Vetorizado por Mysid. Fonte: Domínio público/Wikipedia� O princípio básico da percepção em profundidade provem da lei da simplicidade e indica que um padrão parecerá tridimensional quando pode ser visto como a projeção de uma situação tridimensional que é estruturalmente mais simples que uma bidimensional. (ARHEIM,R, 2011.p 237) REFLITA https://pt.wikipedia.org/wiki/Um_Bar_no_Folies-Berg%C3%A8re#/media/Ficheiro:Edouard_Manet_004.jpg 63 Os termos figura e fundo são adequados somente quando se trata de um padrão fechado, quando temos um padrão mais complexo, na maioria das vezes este é permeado por um elemento que, segundo Dondis, é o mais complexo de todos e permeia na maioria das vezes todos os outros elementos: o Tom. TOM O Elemento visual do tom define a leveza ou a escu- ridão de uma cor. Os valores tonais de uma obra de arte podem ser ajustados para alterar seu caráter expressivo. O tom pode ser usado: para criar um contraste de luz e sombra, para criar a ilusão de forma, em uma atmosfera dramática ou tranquila, criar uma sensação de profundidade e distância, um ritmo ou padrão dentro de uma composição. As variações do tom são os meios pelos quais distin- guimos a informação visual em sua complexidade. Observe que a natureza é composta por múltiplas gradações, que vai da luz à obscuridade, é quando podemos ver a verdadeira luz. Quando analisamos a tonalidade nas artes gráficas, fotografia, cinema e pintura, utiliza-se como referência algum tipo de pigmento, nitrato de prata ou pixels que usa para similar o tom natural, mas estes nunca conseguirão obter a infinidade de combinações tonais que existem na natureza. No entanto, entre o branco e o preto, a 64 escala tonal mais frequentemente utilizada possui cerca de treze gradações, observe algumas dessas tonalidades na Figura 19. A utilização de um tom através da justaposição pode diminuir as limitações, ao compararmos com os tons da natureza, como na Figura 20 que ao ser colocado em uma escala tonal o cinza pode ter mais ou menos ênfase pictórica. Figura 19: Escala Tonal. Fonte: Elaboração própria. Figura 20: Cinza em Escala Tonal. Fonte: Elaboração própria. A representação do tridimensional em uma superfí- cie bidimensional, muitas vezes é criada a partir da técnica da perspectiva (Figura 21), que é o método para composição de muitos efeitos especiais. Ao utilizarmos essa técnica, temos muitos recursos para simular a tridimensionalidade como escala, linha do horizonte, ponto de fuga e ponto de vista. No entanto, apenas a linha não é suficiente para criar uma ilusão convincente da realidade, para tal é preciso recorrer- mos ao elemento visual tom, que se refere ao grau de leveza ou escuridão de uma área. O tom varia do 65 branco brilhante de uma fonte de luz através de tons de cinza para as sombras pretas mais profundas. Ele depende da leveza ou escuridão real da superfície, cor e textura, fundo e iluminação do objeto. Assim ao colocarmos o fundotonal, é reforçada a aparên- cia da realidade pelas sombras projetadas através da percepção do reflexo da luz. Esse efeito é ainda mais evidente nas formas simples e básicas como na fotografia a seguir, que, sem informação tonal, não pareceria ter dimensão (Figura 22). Figura 21: Perspectiva Linear. Fonte: Elaboração própria. 66 Figura 22: Luz e Sombra. Fonte: PXhere� O mundo é dimensional, e o tom é um dos mais importantes elementos para compreendermos a maneira como enxergamos essa dimensão. O sombreamento é usado para capturar os diferentes tons em um desenho. Isso ajuda a criar uma ilusão tridimensional em uma obra de arte bidimensional. Os tons, que obtemos através da nossa percepção do ambiente da luz e da sombra, são tão importantes que assimilamos uma representação monocro- mática da realidade nas artes visuais, conforme podemos analisar nas Figura 23 e 24� https://pxhere.com/pt/photo/1372736 67 A importância do tom como elemento da linguagem visual para nós, pode ser verificada na facilidade que aceitamos a representação monocromática, somos sensíveis aos valores de sua escala tonal. Quantas variedades de tons você consegue distinguir na Figura 24? Quantas pessoas você acha que tem consciência de que possuem essa sensibilidade? Figura 23: Paisagem. Fonte: PXHere� REFLITA https://pxhere.com/pt/photo/839463 68 Figura 24: Paisagem Monocromática. Fonte: PXHere (adaptado)� A razão desse surpreendente fato visual é que a sensi- bilidade tonal é básica para nossa sobrevivência. Gra- ças a ela vemos o movimento súbito, a profundidade, a distância e outras referências do ambiente. O valor tonal é outra maneira de descrever a luz. Graças a ele, e exclusivamente a ele, é que enxergamos. (DONDIS, D. 1997, p.64) Assim, o tom é a claridade ou escuridão de uma cor ou matiz. Na pintura, as mudanças de valor tonal podem ser alcançadas adicionando preto ou branco à cor escolhida. No entanto, isso também reduz a saturação e aumenta a diluição da cor, porque o valor é usado para criar um ponto focal FIQUE ATENTO https://pxhere.com/pt/photo/839463 69 dentro de uma pintura ou desenho. O olho humano imediatamente percebe um elemento leve contra um elemento escuro e isso cria, o ponto de interesse. Para criar a ilusão de profundidade, também são usadas gradações de valor. Áreas de luz e sombras dão uma ilusão tridimensional de forma ao assunto. Os tons variáveis de cinza no cinema, na televisão, e nas fotografias são substitutos monocromáticos, e representam um mundo visual que só aceitamos devido ao domínio dos valores tonais em nossas percepções. Como podemos perceber na relação da fotografia com esse elemento. 70 RELAÇÕES DO TOM COM A FOTOGRAFIA, A EXPLORAÇÃO MÁXIMA DA LUZ Na fotografia em preto e branco é tom quem determina sua existência. O tom pode ser con- siderado como as várias quantidades de luz e sombra em uma foto. Mais contraste significa mais tons. As fotografias em cores também têm tom, mas também têm um elemento extra de tons que é sua matiz. No entanto, apenas o tom em uma composição pode transmitir tanto ou mais, a resposta emocional perceptiva, comparada a cor. As imagens de alto valor têm uma sensa- ção leve e pura para eles. Ao manipular valores através do controle de exposição, pode-se criar uma imagem de alto ou baixo valor. Um exce- lente exemplo do uso do tom na fotografia é o trabalho do fotógrafo moderno norte americano Edward Steichen. Steichen foi um dos primeiros fotógrafos bem sucedidos de sua época. Ele é considerado o primeiro fotógrafo de moda moderno e trabalhou para grandes agências de publicidade. Contrata- do por Condé Nast, ele disparou para as revistas Vanity Fair e Vogue de 1923-1938, o fotógrafo 71 mais famoso e mais bem pago do mundo durante esse período. Ele ganhou um Oscar por um filme documentário em 1945 e tornou-se chefe da se- ção de Fotografia do Museu de Arte Moderna de Nova York. Seu trabalho teve grande influência nas indústrias comerciais e cinematográficas até a Segunda Guerra Mundial. Na fotografia, “O Jarro de Bronze” (1906), Steichen capta a imagem de uma jovem lânguida com um olhar cansado. Steichen retrata uma figura mal iluminada que emerge de um campo sombrio. A mulher retratada em The Brass Bowl (O jarro de Bronze) permanece não identificada. Observe o uso de tons para criar o drama na imagem (Figura 25), podemos notar que o ponto focal de luz está centralizado no jarro e se abre para o rosto da mulher. É o tom que determina a representação da tridimensionalidade na fotografia. 72 Figura 25: Edward Steichen. O jarro de Bronze, 1906. Fonte: collections.artsmia.org� Na obra de Steichen é possível analisar que a iluminação é um importante elemento criativo de composição. Ao controlar a luz e dirigi-la onde quiser, pode se subjugar objetos ou elementos de distração na cena para dar mais ênfase ao principal ponto de interesse. Nesse caso a luz e sombra, representada pela escala tonal, foram usadas na https://collections.artsmia.org/art/82791/the-brass-bowl-edward-steichen 73 composição para criar humor, chamar a atenção para uma área, e trazer forma e textura a fotografia. As sombras são uma chave para a forma aparente nas fotografias. Sem sombras ela é como um registro sem forma, curvatura ou textura, aparecendo plana e sem vida. Isso não significa que as sombras devem ser duras e pretas para alcançar os efeitos mais dramáticos. Elas também podem ser suaves, mas de densidade suficiente para mostrar a mais delicada forma. Do ponto de vista da composição, as sombras negras podem ser muito úteis para equilibrar uma cena e direcionar a atenção para o ponto de interesse. As sombras ásperas também podem ser excelentes para enfatizar a textura e a forma, para criar padrões interessantes e para direcionar a atenção para o principal ponto de interesse; no entanto, os mesmos elementos também podem obscurecer os detalhes e reduzir a forma. Quando a iluminação é dura, como em um dia claro e ensolarado, as sombras têm bordas bem definidas e provavelmente são muito escuras, às vezes até o ponto em que elas parecem mais fortes do que o foco central da imagem e atraem a atenção para si mesmas. A norte americana Dorothea Lange, foi uma das mulheres pioneiras no ramo da fotografia, e utilizou dos recursos de iluminação para evidenciar a dra- maticidade dos assuntos tratados em sua poética fotográfica. Durante a Grande Depressão (iniciou-se em1929), Dorothea Lange fotografou os homens desempregados que vagavam pelas ruas. Suas fo- 74 tografias de trabalhadores migrantes eram muitas vezes apresentadas com legendas com as palavras dos próprios trabalhadores. A primeira exposição de Lange, realizada em 1934, estabeleceu sua reputação como fotografa documental. Na fotografia, Mãe Mi- grante (1936) é possível ver como a iluminação e a escala tonal foram utilizadas para compor o assunto da obra (Figura 26), que se tornou uma das imagens mais icônicas dos últimos tempos. Figura 26: Dorothea Lange. Mãe Migrante (1936) Fonte: Domínio público/Wikipedia� https://en.wikipedia.org/wiki/File:Lange-MigrantMother02.jpg 75 A fotografia que se tornou conhecida como “Mãe Migrante” é de uma série de fotografias que Do- rothea Lange fez de Florence Owens Thompson e seus filhos em 1936, em Nipomo, Califórnia. Lange estava concluindo uma viagem de um mês foto- grafando o trabalho agrícola migratório em torno do estado para o que era então a Administração do Reassentamento. Momentos antes de tirar essa foto, Florence havia vendido sua tenda e os pneus de seu carro para comprar comida para os seus filhos. O instante captado por Lange retrata o olhar de uma mãe que se vê devastada pela Grande Depressão, e são os tons que imortalizam esse olhar perdido na angustia do amanhã. Essa referência da utilização deste elemento para efeitos de densidade e dramaticidade pode ser analisado também na produção da fotografia con-temporânea. As fotografias do fotografo brasileiro Sebastião Salgado, mostram um bom exemplo desse recurso. Com um estilo foto jornalístico, mo- nocromático que combina complexidade com um alto senso de dramatismo, seu trabalho é dedicado à conscientização de condições de vida selvagem e humana. Na fotografia, de Joceli Borges, 1996, o tom é o elemento vital para a composição da imagem, através de uma iluminação natural, retrata um olhar sobre a infância de quem vive em busca de um pedaço de terra. 76 Figura 27: Sebastião Salgado, Joceli Borges, 1996. Fonte: Flickr� https://www.flickr.com/photos/portalpbh/8401950209 77 Aos cinco anos de idade, Joceli Borges foi retratada pela famosa câmera de Sebastião Salgado ao lado dos pais, que peregrinavam pelo interior do Paraná em busca de um lote de terra. Aquele rosto sujo de olhar provocativo virou capa de livro e ganhou espaço na mídia, em museus e em galerias do Brasil e do exterior. Passados 16 anos, a jovem de 21 anos continua uma trabalhadora rural sem-terra. Vive com o marido e a filha em um acam- pamento do MST e diz ter dois sonhos: um lote e dois exemplares do livro que espalhou sua imagem mundo afora. “Um pra mim e outro pro meu pai. “ O livro “Terra”, com o rosto de Joceli na capa, foi lan- çado em abril de 1997. Além de uma centena de fotos em preto e branco do meio rural brasileiro, o trabalho traz texto de José Saramago e vem acompanhado de um CD com músicas de Chico Buarque. À época, os sem-terra marchavam pelo país para lembrar o primeiro aniversário do massacre de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA), invadiam propriedades aos montes e colocavam a reforma agrária em destaque. Para conhecer mais dos trabalhos do fotógrafo Edward Steichen: https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Steichen Para conhecer mais dos trabalhos do fotógrafo Sebastião Salgado: https://pt.wikipedia.org/wiki/ Sebasti%C3%A3o_Salgado SAIBA MAIS FIQUE ATENTO https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Steichen https://pt.wikipedia.org/wiki/Sebasti%C3%A3o_Salgado https://pt.wikipedia.org/wiki/Sebasti%C3%A3o_Salgado 78 COR A cor é um fenômeno físico, perceptivo e psico- lógico que tem uma expressividade imensa. Por seu caráter ser tão complexo a cor é uma forte aliada na transmissão de ideias e sentimentos, podendo assim captar a atenção do observador de forma sutil ou direta, delicada ou forte, de acordo com a intenção do artista. Assim, a cor oferece inúmeras possibilidades no processo criativo. Ainda sobre a cor podemos analisar que dentro do espectro visível podemos dispor de combinações de tons, luminosidades e matizes diversos, produzindo composições eletrizantes, atrativas, neutras ou impactantes. A cor está, de fato, impregnada de informação, e é uma das mais penetrantes experiências visuais que temos todos em comum. Constitui, portanto, uma fonte de valor inestimável para os comunicadores visuais. No meio ambiente compartilhamos os significados associativos da cor das árvores, da relva, do céu, da terra e de um número infinito de coisas nas quais vemos as cores como estímulos comuns a todos. E a tudo associamos um significado. Também conhecemos a cor em termos de uma vasta categoria de significados simbólicos. (DONDIS, Donis A. 2003, p.64) REFLITA 79 Hoje temos uma compreensão de que os processos intelectuais não separam totalmente o raciocínio das sensações visuais, assim a cor exerce grande influência na nossa formação e capacidade criativa. Para Eva Heller (2013) as cores e os sentimentos não são combinados ao acaso, muito menos apenas uma escolha individual, mas sim vivências comuns que através das nossas experiências determinam o significado e sentimento das cores. A percepção da cor é determinada pela ação da luz sobre o objeto observado. As cores têm um comportamento único, tanto a cor luz, como a cor pigmento. Isaac Newton, em 1672, apresentou seu trabalho sobre a teoria das cores, onde relata que as cores são componentes da luz branca, demonstrando que um raio de luz branca incide sobre um prisma de vidro (Figura 28). A luz dispersa em feixes de cores separadas; vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, índigo, violeta. Essas são as cores componentes da cor luz. 80 Figura 28: Dispersão da luz branca através de um prisma. Fonte: Imagem de Lucas Vieira por Wikipedia� Acrescentou um segundo prisma sobre as cores, onde a cor branca foi reconstituída, desta maneira e comprovou que as cores eram mesmo compo- nentes da luz. Isso leva o nome de mistura de cor “aditiva”, por haver adição de luz com as cores adicionais. Para produzir a luz branca a partir da luz colorida, bastam três cores: azul (azul, violeta) para comprimentos de ondas curtas, verde para comprimentos de ondas médias, vermelho (laran- ja-vermelho) para comprimentos de ondas longas. Uma superfície branca refletirá todas as três cores que formam o branco. Uma superfície preta, como o pigmento preto absorverá todas as cores, uma forma vista azul/violeta absorverá os raios de luz verde e laranja/vermelho. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Light_dispersion_conceptual.gif 81 “As cores primárias aditivas correspondem a substâncias sensíveis a luz encontrada nos cones da retina huma- na, em que se verificou que três tipos principais eram sensíveis a luz azul, verde e vermelha respectivamente.“ (SMITH, 2012 p.345). Figura 29: Cores primárias aditivas: cor luz (RGB: red, green, blue). R BG Fonte: Elaboração própria. A mistura de cor subtrativa é também conhecida como cor pigmento, pois quando se misturam cores para a pintura, cada novo pigmento tornará mais escura a cor e menos pura. As cores subtrativas REFLITA 82 primárias são: vermelho (magenta), azul (ciano) e amarelo (Figura 30). Quando as cores primárias pigmento são combinadas com força total, as misturas das três cores dá um preto imperfeito ou um cinza perfeito, esse preto é considerado chave (CMYK). Esse é o modelo de cores subtrativas, usado na impressão a cores, e também é usado para descrever o próprio processo de impressão. CMYK (Ciane, Magenta, Yellow, Key) refere-se às quatro tintas usadas em algumas impressões a cores: ciano, magenta, amarelo e chave (preto). Figura 30: Cores primárias subtrativas: cor pigmento (CMY: Ciane, Magenta, Yellow). Y CM Fonte: Elaboração própria. 83 A cor possui três dimensões que podem ser defini- das e medidas. A primeira dimensão é a Matiz ou croma, é a cor em si. Cada matiz tem características singulares, e representa qualidades fundamentais (Figura 31). A segunda dimensão é a Saturação (Croma), a pureza relativa de uma cor, do matiz com relação ao cinza (Figura 32). A cor saturada é simples, compõe-se dos matizes primários e secundários (violeta, verde, laranja). A neutralidade cromática é obtida com as cores menos satura- das. Segundo Dondis (2003, p. 64), “Quanto mais intensa ou saturada for a coloração de um objeto ou acontecimento visual, mais carregado estará de expressão e emoção. “ A terceira dimensão da cor é o Brilho (luminosidade) relativo as gradações tonais ou de valor, do claro ao escuro (Figura 33). Figura 31: Matiz Fonte: Elaboração própria. Figura 32: Saturação (Croma) Fonte: Elaboração própria. 84 Figura 33: Brilho (Luminosidade) Fonte: Elaboração própria. A estrutura da cor pode ser analisada através do círculo cromático, que é a representação das cores percebidas pelo olho humano. O círculo é composto por 12 cores (primárias, secundárias e terciárias). Diversos teóricos e artistas desenvolveram cír- culos cromáticos com o objetivo de estudar as cores, dentre eles Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), Johannes Itten (1888-1967), Paul Klee (1879-1940) e Wassily Kandisky (1866-1944). Os estudos de Goethe contribuíram de maneira fundamental para a teoria das cores. Em 1790, ele começa seus estudos sobre o fenômeno cro- mático, onde observa a incisão de luz no prisma (Figura 34), em plena luz do dia. Segundo Barros(2011, p.269) “sua investigação revelou um hori- zonte muito mais amplo do fenômeno cromático, ligando-o a diversas áreas do conhecimento. “ Sua teoria das cores, chamada de Doutrina das cores (1808), questiona a teoria de Newton de que a luz branca era composta por todas as cores. Mesmo que seu pensamento divergente provenha de uma equívoca premissa, suas contribuições com este estudo ampliaram as possibilidades criativas das 85 cores. Se Newton procurou a origem das cores, na análise da natureza física da luz, Goethe procurou o significado na relação perceptiva do fenômeno cor, como é sentida por nós. Sua teoria toca em três pontos principais: histórico, polêmico e didático. A principal descoberta de Goethe se dá na percepção de que “as leis da percepção cromática resultavam de uma interação entre a natureza externa e a na- tureza interna do homem. (BARROS, 2011, p. 274) Em sua teoria dá igual importância à luz e à sombra, ela concede a dinâmica da própria cor. Para Goethe é o componente visual que dialoga diretamente com a luz. Tanto do ponto de vista orgânico, como arquetípico que possibilita diversas interpretações psicológicas e fisiológicas para outros estudiosos. Elas são essenciais para produção da cor, e sua qualidade geral de toda cor, “ser metade luz, metade sombra”, e nessa reside a polaridade cromática tratada por Goethe. Na luz surge o amarelo; na escuridão, o azul. Ambos se intensificam quando se tornam avermelhados, até perderem suas propriedades. Isso acontece quando os extremos do amarelo e do azul (avermelhados) se combinam fisicamente (experiências com o prisma). (BARROS, 2011, p. 280) REFLITA 86 Demonstra a ação do órgão visual diante das reações visuais do claro e escuro, que ele chama de cores fisiológicas, e constata que a retina se encontra em estados opostos, mediante estímulos de luz ou escuridão. Um objeto do mesmo tamanho pode aparecer menor se exposto sobre o fundo negro, do que um mesmo objeto em um fundo branco. Figura 34: Prisma de Goethe. Fonte: Wikipedia� Goethe fez observações na ação da luz com um prisma, colocando cartas pretas e brancas, analisou que as cores que apareciam na borda eram o amarelo e o azul, classificando-as em sua teoria como as cores primárias. Concluiu erroneamente que tanto o verde como o vermelho (magenta) se formavam https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Goethe-LightSpectrum.svg 87 do azul e amarelo. O círculo cromático de Goethe (Figura 35) continha seis cores: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e roxo. O conceito de harmonia é criado com relação as cores complementares, que em relação com o órgão visual complementa a cor inicial com a síntese cromática, “exigindo a totalidade do círculo cromático”. Figura 35: Circulo cromático de Goethe. Fonte: Domínio público/Wikipedia� https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_das_Cores_(livro)#/media/Ficheiro:Goethe,_Farbenkreis_zur_Symbolisierung_des_menschlichen_Geistes-_und_Seelenlebens,_1809.jpg 88 Também percebe que o órgão visual estava muito mais envolvido com a aparência das cores que até então se havia estudado, essa foi a grande des- coberta de Goethe. O efeito sensível e moral das cores, causa efeitos diretos no homem, revelando a importância das cores também ao espírito humano. Relaciona o círculo cromático aos temperamentos, qualidades humanas e profissões. O professor da escola Bauhaus, Johannes Itten (1888-1967) criou uma metodologia didática cen- trada na expressão individual, através de exercícios de experiência, percepção e habilidade. A teoria geral dos contrastes, fundamenta a base de seus ensinamentos, bem como a natureza física da cor, entendida como ondas de luz, proposta por Newton. O agente da cor é o pigmento. Itten, no entanto, entende que ela não é o agente principal, pois depende também da percepção humana, tal como Goethe. A realidade das cores designa o pigmento da cor, tal como é colocado na física e na química, mas recebe seu conteúdo e sentido humano da cor pela maneira vez que o olho enca- minha a informação ao cérebro. Itten trabalha com a ideia da percepção visual da cor e conceitua a harmonia das cores como simetria das forças e equilíbrio, constituindo-se em uma lei objetiva, sem singularidades ou subjetividades. É a justaposição de duas ou mais cores, seu princípio fundamental 89 deriva da lei dos complementares que a fisiologia exige (Figura 36). Para o teórico ainda existe uma distinção entre efeito e agente cromático, sendo o primeiro o efeito que a cor tem sobre o humano, a percepção, e o segundo, o pigmento em si. Exer- cícios de olhar, fixar um quadrado verde por cerca de um minuto, depois olhar para um fundo branco, fará com que o indivíduo veja um “fantasma da imagem do quadrado verde em sua cor comple- mentar: o vermelho. Este efeito ilusório é chamado de pós imagem, e graças a ele pode-se distinguir os contrates. “As fontes de Itten para o conceito de harmonia cromática provém da fisiologia da visão” (BARROS, 2011, p. 91). Figura 36: Círculo Cromático de Joannes Itten. Fonte: Elaboração própria. 90 Na elaboração do círculo cromático, considera-se como ponto de partida as três cores primarias (amarelo, magenta e azul), no centro do círculo. Depois as cores secundárias (verde, roxo, laranja). A mistura das primárias e secundárias, produzem as cores terciárias. Itten percebeu que era possível a indicação de combinações harmônicas, e elabo- rou a teoria dos sete contrastes cromáticos, onde analisa seu efeito visual, expressivo simbólico. Os sete contrastes são: 1) de cores puras (contrastes entre as cores vivas e saturadas), 2) claro-escuro (o uso da luminosidade e valor tonal das cores), 3) quente-frio (efeito intenso entre as cores la- ranja-vermelho e azul-verde), 4) complementar (matrizes opostas no círculo cromático), 5) simultâneo (efeito produzido pela ausência da cor complementar produzida pelo órgão visual), 6) de saturação (contraste entre cores vivas e cores acinzentadas), 7) de quantidade/extensão (representa a quantidade da cor, áreas ocupadas por duas ou mais cores). 91 O artista e professor da Bauhaus Paul Klee (1879- 1940) também elabora sua própria metodologia de ensinar a cor, e tem como ponto de partida o arco íris para fundamentar suas teorias da cor. Ele une as pontas do arco íris fazendo uma representação de sete círculos concêntricos. Para o artista, o violeta e o azul índigo, são interpretados como duas me- tades que se atraem, criando assim uma imagem transcendente, a junção desses dois limites forma o círculo cromático. Depois Klee desenvolve um círculo cromático mostrando a hierarquia das cores segundo sua teoria, as cores primárias maiores, depois as secundárias, e as terciárias. Para visualizar o círculo cromático de Paul Klee https:// br.pinterest.com/pin/301319031293235102/ O artista e professor russo da Bauhaus Wassily Kan- disky (1866- 1944), segue uma teoria que investiga os elementos básicos da composição; cor, ponto, linha e plano. Estão registrados em seus dois livros, O Espiritual na Arte (1912) e Ponto, Linha e Plano (1925), no primeiro livro discorre sobre a os funda- mentos teóricos da arte não figurativa, defendendo a pintura abstrata como uma maneira de expressar a natureza. E no segundo livro analisa esses ele- mentos, não do ponto de vista exterior, mas sim REFLITA https://br.pinterest.com/pin/301319031293235102/ https://br.pinterest.com/pin/301319031293235102/ 92 procurando o contato com sua pulsação interior. Para ele a teoria das cores é o ponto de partida para pensar a composição das formas abstratas, a cor tem um efeito direto na alma humana. Para Kandisky, “do ponto de vista físico o olho sente a cor, experimenta suas propriedades e é fascinado por sua beleza. “ (1996, p. 65) Assim como Goethe, ele mostra a propriedade psicofisiológica da cor, a medida que o humano aprende através de outros sentidos as propriedades físicas da cor,como por exemplo a luz em uma vela, que ao tocar queima os dedos. “A medida que o homem se desenvolve e se completa, aumenta o círculo de propriedades que ele aprende a reconhecer como próprio dos seres e das coisas.” (KANDISKY, 1996, p. 66). A cor também provoca uma vibração psíquica e seu efeito físico é a porta de entrada para um caminho mais profundo que atinge a alma. “Quanto mais cultivado o espírito sobre a qual ela exerce mais profunda é a emoção que essa ação elementar provoca”. (KANDINSKY, 1996, p 66). A cor pode ser utilizada por associação, mas para explicar a ação do cor sobre a alma, é preciso levar em consideração que a cor também exerce influência direta sobre ela. Kandinsky divide as cores em dois grandes gru- pos, as cores quentes e frias, e as cores claras e escuras. As cores quentes são aquelas que ten- 93 dem para amarelo possuindo uma característica material que aproxima o espectador, e as cores frias as que tendem para o azul possuindo uma característica imaterial e seu movimento distan- cia o espectador. Conforme sua teoria, todos os matizes se norteiam pelo contraste e pela relação claro e escuro. O primeiro par de contrastes são o amarelo e o azul e o segundo par de contrastes (claro-escuro) são o preto e o branco. Para ele o vermelho é uma cor que tem uma vibração intensa, é a cor do sangue, e possui um movimento em si. As forças excêntricas e concêntricas presentes no amarelo e no azul determinarão os demais matizes ao serem combinadas com o vermelho. O verde, para Kandinsky, é uma cor de equilíbrio, tem em sua essência as qualidades de força e repouso que os contrastes da união do amarelo e do azul possuem. As cores primárias podem ser associadas às três formas geométricas básicas (triângulo, quadrado e círculo), segundo a teoria de Kandinsky. O amarelo é uma forma radiante, figura angular e pontiaguda que corresponde ao triângulo. O azul, como uma cor imaterial, tem uma forma de círculo, por seu caráter profundo e espiritual. O vermelho, por sua vez pode adquirir características quente ou frias, é uma figura intermediária como o quadrado. 94 Figura 37: As três cores primárias e as formas geométricas Fonte: Elaboração própria. O círculo cromático proposto por Kandinsky (Figura 38) diferencia-se dos outros já mencionados, pois coloca as cores de forma diferente, de acordo com sua própria teoria dos contrates do amarelo e azul, diametralmente no círculo. O preto e o branco, estão dispostos nas laterais, fora do círculo em si. Segundo o artista, os três pares de cores complementares, apresenta-se em um círculo que ele compara com “a serpente que morde a própria cauda (símbolo do infinito e da eternidade). A direita e a esquerda, as duas grandes fontes do silêncio, o silêncio da morte (preto) e do renascimento (branco). ” (KAN- DINSKY, 1996, p 93) 95 Figura 38: Círculo Cromático de Kandinsky. Fonte: Elaboração própria. Sua visão equivocada, das cores complementares: amarelo e azul, laranja e violeta, não compromete sua teoria baseada na interpretação simbólica, com referências das teorias de Goethe, que abrirá “diversas frentes para associações entre cores sons e movimentos e estado de espírito, contribuindo para a arte, para a criatividade e para o ensino. “ (BARROS, 2011, p. 178). Para Kandinsky, cabe ao artista “escolher qual princípio seguir, dependendo da natureza de seu trabalho. “ Em seu trabalho, “Do espiritual na arte”, faz uma análise das cores isoladamente, a partir da imersão em cada uma delas, tanto através das 96 análises perceptivas da cor, como também de seu conteúdo imagético e simbólico, associando assim a conceitos de movimentos, temperaturas e sons musicais. O Amarelo possui o movimento horizontal na direção do espectador, é radiante, uma explosão de energia. É associado a um movimento corpo- ral, que vai ao encontro do espectador. Vê seu simbolismo como material e terrestre. O Amarelo com um pouco de azul, dá um tom esverdeado e torna-se mais sobrenatural. É a cor mais quente de todas. Associa a cor amarelo intenso a sons agudos, e quanto mais claro mais agudo se torna. É a cor que representa a loucura e o delírio, uma explosão emocional onde dispersamos a energia descontrolada por todos os lados. O Azul possui um movimento oposto ao amarelo, é uma cor que absorve o espectador. Somos pu- xados para dentro da cor, é um movimento con- cêntrico. Seu movimento é horizontal, mas parte de fora para dentro, um movimento espiritual, sua ação é interior. Em seu simbolismo, é capaz de transportar o espectador para outras dimensões, e despertar seu lado espiritual. É a cor mais fria de todas. Pode se traduzir em diversos tons musicais de sons graves, mas a medida que se adiciona o branco, vai perdendo sua sonoridade. Traz a paz 97 e a calma, mas a medida que se adiciona o preto, tende a tornam uma cor muito triste e melancólica. O Verde é o equilíbrio entre as cores amarelo e azul, seus movimentos são anulados, sua característica é o repouso. Quando adicionada azul e amarelos em medidas diferentes ela absorve a qualidade e movimento da cor adicionada em maior quantida- de. É a cor mais calma de todas, simbolicamente representa uma satisfação. Não é uma cor nem quente nem fria, o verde soa como os violinos em escala mediana, sons amplos e tranquilos. Em seu estado de espírito há uma energia passiva e imóvel, de satisfação plena e ausência de desejo. O Vermelho possui uma imensa potência, pois não tem direção concentra a energia em si mesmo, pode adquirir qualidades de quente e frio depen- dendo da adição do azul ou amarelo. É a única cor que conserva uma força potencial, é uma cor que exala vida, ardente e efervescente. Ao se mis- turar com o preto torna-se sombrio e mórbido. O vermelho emana diversos tons dependo de seus tons e misturas. O vermelho quente emana força, energia, alegria, decisão. O vermelho médio evoca paixão, se misturado aos tons de azul representa uma paixão abalada. O Laranja tem movimento de expansão e irradia- ção. Em seu simbolismo mistura-se as qualidades 98 das cores vermelha e amarela, sendo uma cor que suaviza a características das duas cores. É uma cor quente, que representa a força e a saúde. O Violeta tem um movimento concêntrico, tende a se distanciar do homem, a medida que o azul absorve o vermelho. É um vermelho sem energia, sombrio. O Branco tem um movimento excêntrico, mas não é uma cor tão ativa como o amarelo, apre- senta uma atitude de resistência, que emana uma energia do vir a ser, como o nascimento. Em seu simbolismo significa pureza, a alegria, o começo. Quando misturada ao preto gera o cinza, que para o artista, tem as mesmas características do verde, já que representa a junção de cores contrárias. O branco e o preto são cores sem qualidade da temperatura, não sendo nem quente, nem fria. O Preto tem um movimento concêntrico, como o azul, é associado a morte, e ao nada. Assim podemos analisar que a cor tem qualidades físicas, óticas, subjetivas, simbólicas e culturais, e inferem diretamente na intenção criativa do artista. É o que podemos analisar a seguir, com a análise das cores nos seguintes movimentos: Expressio- nismo, Fauvismo e Construtivismo. 99 EXPRESSIONISMO, FAUVISMO E CONSTRUTIVISMO: RELAÇÕES DAS QUALIDADES DA COR A cor é muito importante nas artes visuais, e pode ser analisada em toda sua história desde da arte da antiguidade à arte contemporânea. Nesta aula destacaremos três períodos pela intensidade do uso da cor para suas composições visuais. Na arte expressionista, um movimento internacional de arte, arquitetura, cinema, literatura e desempe- nho que floresceu entre 1905 e 1920, a utilização da cor foi intensa e não naturalista, a pincelada era tipicamente livre e a aplicação de tinta tendia a ser generosa e texturizada. A arte expressionista era emocional e, por vezes, mística. Os ângulos extremos, as formas achatadas, as coressatu- radas e as visões distorcidas são características distintivas do expressionismo. Os expressionistas se revoltaram contra o impressionismo, com a sua fidelidade a tornar a natureza tal como apareceu. O objetivo dos expressionistas era descrever o mundo como se sentia visceralmente ao invés de como olhava na superfície e, ao fazê-lo, revigorava arte com autenticidade e força expressiva. 100 Ela tem seu início com Vincent Van Gogh e, em seguida, formar um grande fluxo de arte moder- na abraçando, entre muitos outros, como Edvard Munch. A partir de 1905, à medida que a indústria crescia na Europa, os expressionistas migraram para as cidades. Eles formaram grupos como Die Brücke (A ponte) e Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), estúdios compartilhados, exibidos juntos e publicaram seu trabalho e escrita. Die Brücke foi uma organização de pintores e grava- dores alemães, de 1905 a 1913, foi fundado em 1905 na Alemanha por quatro estudantes de arquitetura em Dresden-Karl Schmidt-Rottluff, Fritz Bleyl, Erich Heckel e Ernst Ludwig Kirchner. O seu primeiro ma- nifesto, escrito por Kirchner em 1905, mostra que o grupo procurou criar uma arte autêntica que desafiou as convenções da pintura tradicional. As pinturas e gravuras dos artistas do Die Brücke englobavam todas as variedades de assunto: a figura humana, a paisagem, o retrato, ainda executados em um estilo simplificado que sublinhou contornos e planos de cores fortes. Como muitos artistas de vanguarda na época, Kirchner e Heckel admiravam a aparente falta de artifício na arte de países como a África e as ilhas do Pacífico e imitavam essa suposta quali- dade “primitiva” em seu próprio trabalho. Podemos analisar na obra de Kirchner, Artistin (Figura 39), a utilização de cores saturadas e intensas, também 101 a maneira como ele utiliza o círculo cromático para trabalhar o contraste de cores. Na obra o verde é a cor principal, no entanto o artista utiliza o vermelho para acentuar através do contraste solidão da mode- lo, também o laranja e o azul para destacar o corpo da figura central. Na obra de Schmidt-Rottluff, Girl Combing (Figura 39), a utilização do contraste de cores torna-se ainda mais evidente, para acentuar a expressividade da modelo que ao pentear seu cabelo olha para o espectador. Figura 39: Ernst Ludwig Kirchner. Artistin - Macella� 1910 Óleo sobre tela. 101x76 cm. Fonte: Domínio Público/Wikipedia� https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ernst_Ludwig_Kirchner_-_Artistin_(Marzella).jpg 102 Figura 40: Karl Schmidt-Rottluff. Girl Combing, 1919. Fonte: Foto de cea por Flickr� A arte de Brücke também foi profundamente in- fluenciada pelas expressivas simplificações das gravuras em madeira gótica alemã e pelas impres- sões do artista norueguês Edvard Munch. O artista também trabalhou a cor de modo a torná-la um elemento essencial na composição plástica. Em sua obra “Separação”, o sofrimento do homem foi https://www.flickr.com/photos/centralasian/6786317813 103 realçado pelo contorno vermelho de suas mãos, quase como seu coração estivesse sangrando pela dor da separação. Figura 41: Edvard Munch. Separação. 1986. Óleo sobre tela. 96x127 cm. Fonte: Domínio público/Wikipedia� Outro movimento do expressionismo alemão foi o Der Blaue Reiter (Cavaleiro Azul), que começou em Munique como uma contrapartida abstrata ao estilo figurativo distorcido de Die Brücke. Enquanto ambos enfrentavam sentimentos de alienação dentro de um mundo cada vez mais moderno, Der Blaue Reiter procurou transcender o mundano ao buscar o valor espiritual da arte. Wassily Kandinsky e Franz Marc foram os mais representativos do https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Edvard_Munch_-_Separation_-_Google_Art_Project.jpg 104 grupo, que incluíam vários imigrantes russos e alemães nativos. Embora não tivesse nenhum manifesto oficial, o tratado de Kandinsky sobre o Espiritual na Arte (1910) apresentava vários dos seus princípios orientadores. Quanto ao Espiritual cristalizou a busca do grupo de pintura não objeti- va ou abstrata e foi amplamente lida em círculos artísticos de vanguarda em toda a Europa. Do espiritual na arte é um trabalho pioneiro do pintor modernista, considerado por muitos como o pai da arte abstrata. Mostra os pensamentos provocativos de Kandinsky sobre a teoria das cores e a natureza da arte. KANDINSKY, Wassily. O espiritual da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1990. A pintura foi estruturada em torno da ideia de que cor e forma carregavam valores espirituais concretos. Assim, o movimento para a abstração resultou, em parte, de separar radicalmente a forma e a cor em elementos discretos dentro de uma pintura ou aplicar uma cor não naturalista a objetos reconhecíveis. O nome “Der Blaue Reiter” referia-se à crença de Kandinsky e Marc de que o azul era a cor mais espiritual e que o cavaleiro simbolizava a capacidade de avançar. A obra SAIBA MAIS 105 “Cavalos azuis” (Figura 42), de Franz Marc, está ligada simbolicamente a concepções originárias do grupo. No símbolo do cavalo como veículo de avanço, na ênfase na espiritualidade do azul e na ideia da espiritualidade que luta contra o materia- lismo, colocou três cavalos, refletindo a influência adicional de Kandinsky, que, seguindo a prática teológica, empregou três em vez de quatro cavalos como reflexo do apocalipse. Mas a ausência de um cavaleiro está de acordo com a própria crença de Marc na supremacia da espiritualidade animal sobre a dos humanos. Figura 42: Franz Marc. Os cavalos azuis. Óleo sobre tela. 105.7 x 181.1 cm Fonte: Domínio público/Wikipedia� Na busca de um idioma que expressasse sua abor- dagem única à forma visual abstrata, os artistas de Der Blaue Reiter desenhavam paralelos entre https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Franz_Marc_005.jpg 106 pintura e música. Muitas vezes suas obras, com- posições, improvisações e estudos, exploraram a música como a arte abstrata por excelência, como manifestação tangível ou figurativa. Isso também os levou a explorar noções de sinestesia, cruzamento ou “união” dos sentidos na percepção de cor, som e outros estímulos. A pintura “Composição número 4” (Figura 43), de Kandinsky é um bom exemplo da utilização da música para sua composição, as cores também são utilizadas para evidenciar o movimento do som. O artista utiliza das cores primárias como ponte de interesse focal, para ampliar a sensação de vibração da música. Figura 43: Vassily Kandinsky - Composição número 4, 1911. Fonte: Domínio público/Wikipedia� https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vassily_Kandinsky,_1911_-_Composition_No_4.jpg 107 O expressionismo alemão é um dos estilos mais reco- nhecidos do cinema mudo, oferecendo uma representa- ção subjetiva do mundo. No cinema, é particularmente associado a inclinações, conjuntos impossíveis, ângulos altos e sombras profundas. O cinema expressionista alemão floresceu após os horrores do campo de batalha da guerra e a devastação econômica causada por suas consequências. Existem alguns filmes que podem ser descritos como o expres- sionismo alemão puro, como O gabinete do Dr. Caligari (1920), dirigido por Robert Wiene e escrito por Hans Janowitz e Carl Mayer. O gabinete do Dr. Caligari (1920) https://www.youtube. com/watch?v=89TVh1jOIPo Outro movimento que utilizou a cor de maneira principal na pintura foi o fauvismo, inicialmente inspirado nos exemplos de Vincent van Gogh, Paul Gauguin, Georges Seurat e Paul Cézanne. Os Fauves (As Feras) tiveram como representantes Henri Matisse, Albert Marquet e Georges Rou- ault. Matisse surgiu como o líder do grupo, cujos membros compartilhavam o uso de cor intensa como veículo para descrever a luz e o espaço, e que redefiniu a cor e forma puras como meio de comunicar o estado emocional do artista. SAIBA MAIS https://www.youtube.com/watch?v=89TVh1jOIPo https://www.youtube.com/watch?v=89TVh1jOIPo 108 Uma das principais contribuições de Fauvismo para a arte modernafoi o objetivo radical de separar a cor do seu propósito descritivo e representacio- nal e permitir que ele existisse na tela como um elemento independente. A cor poderia projetar um humor e estabelecer uma estrutura dentro da obra de arte sem ter que ser fiel ao mundo natural. Como podemos analisar na obra de Henri Matisse, Sala Vermelha Figura 44), onde a cor é elemento vital da obra. Figura 44: Henri Matisse. Sala Vermelha. 1908 Óleo sobre tela. 93 x 73.5 cm Fonte: Wikipedia� https://en.wikipedia.org/wiki/File:Matisse-The-Dessert-Harmony-in-Red-Henri-1908-fast.jpg 109 Outra das preocupações artísticas centrais do Fauvismo foi o equilíbrio geral da composição. As formas simplificadas e as cores saturadas dos Fauves chamavam a atenção para a planície ine- rente da tela. Dentro desse espaço pictórico, cada elemento desempenhou um papel específico. A impressão visual imediata do trabalho é ser forte e unificada. Acima de tudo, Fauvismo valorizava a expressão individual. A experiência direta do artista em seus assuntos, sua resposta emocional à natureza e sua intuição eram mais importantes do que a teoria acadêmica ou a matéria elevada. Todos os elementos da pintura foram empregados no serviço desse objetivo. A Arte Construtivista (Construtivismo) é um termo usado para definir um tipo de construção artística e arquitetônica totalmente abstrata (não repre- sentacional), seja escultura, cinética ou pintura. O trabalho é muitas vezes, mínimo, geométrico, espacial, arquitetônico e experimental com utili- zação de materiais industriais. Os princípios da teoria do construtivismo são deri- vados de três movimentos principais que evoluíram no início do século XX: Suprematismo na Rússia, De Stijl-Neo Plasticismo (já estudado neste ebook) na Holanda e Bauhaus na Alemanha (já estudado no ebook 2). 110 O construtivismo tem sido intimamente asso- ciado à arquitetura e às artes aplicadas desde o início. Esses primeiros movimentos eram ideais, buscando uma nova ordem em arte e arquitetura que tratasse problemas sociais e econômicos. Na Rússia, surgiu em 1910 e foi até 1921, durante a primeira parte deste período, a vanguarda russa abraçou o cubismo e o futurismo e avançou para uma arte não objetiva (arte sem uma temática). Exemplificada pelo desenvolvimento de suprema- tismo de Kasimir Malevich. A invenção do artista russo Kazimir Malevich, foi um dos desenvolvimentos mais radicais na arte abstrata. O nome Suprematismo derivou da crença de Malevich de que essa arte seria superior a toda a arte do passado e que levaria à “supremacia do puro sentimento ou percepção nas artes pictó- ricas”. Pesadamente influenciado por poetas de vanguarda e um movimento emergente na crítica literária, Malevich obteve seu interesse em ignorar as regras da linguagem, desafiando o motivo. Ele acreditava que havia apenas links delicados entre palavras ou sinais e os objetos que eles denota- vam, e disso ele via as possibilidades de uma arte totalmente abstrata. E, assim como os poetas e os críticos literários estavam interessados no que constituía a literatura, Malevich ficou intrigado com a busca dos itens mais básicos da arte. Era 111 um projeto radical e experimental que, às vezes, aproximava-se de um estranho misticismo. Embora as autoridades comunistas tenham atacado mais tarde o movimento, sua influência foi penetrante na Rússia no início da década de 1920, e foi im- portante moldar o Construtivismo, assim como tem inspirado a arte abstrata até hoje. Embora a arte suprematista possa parecer al- tamente austera e séria, houve um forte tom de absurdo que atravessava o movimento. Uma das inspirações iniciais de Malevich para o movimento foi a poesia transracional ou Zaum (conceito utili- zado para designar os experimentos linguísticos de alguns poetas futuristas russos), de alguns de seus contemporâneos, algo que o levou à ideia de “pintura zaum”. Os formalistas russos, um grupo importante e altamente influente de críticos literários, que eram contemporâneos de Malevich, opuseram-se à ideia de que a linguagem é um veículo simples e transparente de comunicação. Eles apontaram que as palavras não eram tão facilmente ligadas aos objetos que denotavam. Isso promoveu a ideia de que a arte poderia servir para tornar o mundo fresco e estranho, a arte poderia nos fazer olhar para o mundo de novas maneiras. A pintura abstrata Suprematista visava fazer o mesmo, removendo o mundo real inteiramente e deixando o espectador 112 contemplar que tipo de imagem do mundo é ofere- cida por, por exemplo, Composição Suprematista (Figura 45), 1916 de Malevich. Nessa obra o artista utiliza apenas das cores e formas saturadas para sua composição. O quadrado azul aparece como ponto focal da obra que tem um ritmo e movimento ditado pelos retângulos laranjas, amarelos, todos dispostos de forma diagonal. As formas retangulares pretas parecem acentuar os contrastes das outras cores, mostrando assim a supremacia das cores e formas presentes na arte. Figura 45: Kasimir Malevich. Composição Suprematista, 1916� Fonte: Wikipedia� https://en.wikipedia.org/wiki/Suprematist_Composition#/media/File:Suprematist_Composition_-_Kazimir_Malevich.jpg 113 O interesse dos Suprematistas em abstração foi desencadeado por uma busca do ponto zero da pintura, o ponto além do qual o meio não poderia ir sem deixar de ser arte. Isso encorajou o uso de motivos muito simples, pois articulavam melhor a forma e a superfície plana das telas em que foram pintadas. Também incentivou muitos suprematis- tas a enfatizar a cor e a textura superficial da tinta sobre tela, sendo essa cor a qualidade essencial do meio de pintura. A cor para esses movimentos, Expressionismo, Fauvismo e Construtivismo foi a própria essência da pintura. E a esse podemos comparar a importância do tom para a fotografia preto e branco. ELEMENTOS DA LINGUAGEM VISUAL: TEXTURA - CONCEITO E SIGNIFICAÇÕES A textura é definida como a qualidade tátil da su- perfície de um objeto, o toque é um dos nossos sentidos. Nossas mãos e pele estão equipadas com nervos sensíveis que distinguem a textura. Além de nos dar informações sobre o mundo que nos rodeia, nosso senso de toque nos dá bem-es- tar, desconforto ou familiaridade. É um aspecto essencial da arte visual pelo mesmo motivo, pois estimula os sentidos da visão e do toque. A textura, como qualquer um dos elementos da arte, também pode aprimorar e apoiar o conceito do artista por trás do trabalho. É essencial na re- presentação gráfica para que os objetos pareçam ser reais. Mesmo em pinturas abstratas, a textu- ra pode servir para melhorar a experiência dos espectadores, sugerindo certos sentimentos em relação à arte, também pode servir para organizar e unificar várias áreas de uma composição. Pode adicionar ou tirar o efeito geral da composição quando é usado ao acaso ou no caminho errado, pode confundir ou desordenar. No entanto, quando usada com habilidade deliberada, a textura trará 115 uma composição criando a ilusão de realismo e adicionando unidade. A textura é o elemento visual que com frequência serve de substituto para as qualidades de outro sentido, o tato. Na verdade, porém, podemos apreciar e reconhe- cer a textura tanto através do tato quanto da visão, ou ainda mediante uma combinação de ambos. É possível que uma textura não apresente qualidades táteis, mas apenas óticas, como no caso das linhas de uma página impressa, dos padrões de um determinado tecido ou dos traços superpostos de um esboço. Onde há uma textura real, as qualidades táteis e óticas coexistem não como tom e cor, que são unificados em um valor comparável e uniforme, mas de uma forma única e específica, que permite à mão e ao olho uma sensação individual, ain- da que projetemos sobre ambos um forte significado associativo. O aspecto da lixa e a sensação por ela provocada têm o mesmo significado intelectual, mas não o mesmo valor. São experiênciassingulares, que podem ou não sugerir-se mutuamente em determina- das circunstâncias. O julgamento do olho costuma ser confirmado pela mão através da objetividade do tato. (DONDIS, D., 1997, p. 42) No contexto da arte, existem dois tipos de textura: tátil e visual. FIQUE ATENTO 116 A textura tátil é a coisa real. É a forma como se sente uma superfície quando é tocada, como ás- pera, lisa, macia, dura, sedosa, viscosa, pegajosa. A textura real refere-se ao volume físico ou às qua- lidades de superfície reais que podemos observar ao tocar um objeto, como a aplicação de emplastos de tinta ou arte tridimensional, como a escultura e as estruturas arquitetônicas, é de natureza tátil porque pode ser sentida. Os artistas tridimensionais também usam um contraste de textura. Um elemento de uma obra de arte pode ser suave como o vidro, enquanto outro elemento áspero como uma pedra. Essa contradição aumenta o impacto do trabalho e pode ajudar a transmitir sua mensagem tão forte como uma peça feita de uma textura uniforme. A textura é a qualidade da superfície ou a sensação de um objeto. A forma como sua pele esfrega contra o tecido áspero do seu manto de lã, a sensação quente das bolhas de sabão que cobrem sua pele no banho ou o toque suave do cabelo caindo pelos ombros são todas sensações e experiências criadas exclu- sivamente pelas qualidades de textura. Ao contrário das texturas puramente visuais, as texturas táteis são aquelas com qualidade física. As texturas táteis vêm uma grande variedade 117 de usos, especialmente na arte impressa, onde o tipo de papel, as camadas de tinta brilhante e as superfícies materiais atraem a atenção dos espectadores e o transformam em um interesse físico para o projeto. Embora a textura tátil descreva a superfície física dos objetos, ela pode ser transferida com sucesso para o design gráfico para criar uma certa sensação. A textura tátil é um elemento de design comum em design de papelaria e revistas, onde a intenção principal do projeto é criar um item memorável que influencia o usuário e cria um vínculo entre as qualidades físicas e visuais do objeto. A textura visual é uma ilusão de textura criada por um artista. A composição artística pode ser mani- pulada para dar a impressão de textura, enquanto a superfície do papel permanece lisa e plana. Os artistas que trabalham em um meio bidimen- sional também trabalham com textura e ela pode ser real ou implícita. Os fotógrafos, quase sempre trabalham com a realidade da textura ao criar arte. No entanto, eles podem melhorar ou minimizar isso através da manipulação de luz e ângulo. Os artistas podem criar a ilusão de textura em suas represen- tações gráficas por simulação ou implicando-a através do uso de vários elementos de arte como forma, sombreamento e cor. Ele é criado através da 118 repetição de linhas, pontos ou outras formas para criar um padrão. Variando o tamanho, densidade e orientação dessas marcas também produzirão outros efeitos desejados. É possível que uma obra de arte contenha numerosas texturas visuais, mas ainda permaneça suave ao toque. À medida que o artista desenvolve um trabalho, pode adicionar mais textura através da técnica. Pode polir, dar lustre a uma superfície lisa ou pode dar-lhe uma pátina. Um bom exercício é pensar em tantas palavras diferentes quanto possível para descrever as texturas que você encontra ao seu redor: polidas, ásperas, viscosas, brisas, lisas, peludas, emaranhadas, torcidas, raspadas, enrugadas, suaves e ásperas, natural, por exemplo, (Figura 46 e 47). No design gráfico, a textura geralmente é apenas uma coisa visual, mas cria uma ilusão física e continua a desempenhar um papel de liderança na criação de todos os tipos de elementos visuais. O uso de texturas naturais pode trazer a vida orgânica aos seus projetos. As imagens de textura natural incluem coisas como a aparência nítida de grama fresca ou o toque suave de uma pequena pena e a inspiração pode ser tomada de todos os cantos do nosso mundo. Implementar elementos naturais em design infunde-o com a vida, trazendo vivacidade, calor e beleza ao resultado (Figura 46). 119 Figura 46: Texturas naturais. Fonte: Imagens de (A) Freepik; (B) vwalakte/Freepik; (C) wirestock/Freepik; (D) Freepik; (E) aopsan/Freepik; (F) Freepik. Muitas vezes você verá a textura usada em pa- drões como uma série de linhas de diagonais que se cruzam e que dão uma superfície. As texturas artificiais, ao contrário das texturas naturais, compreendem uma ampla gama de imagens com padrões surrealistas e objetos fabricados pela pessoa humana. Os gráficos de textura artificial incluem um amplo espectro de elementos criados pela fotografia, design tridimensional e fabricação têxtil, papel amassado, superfícies artificiais, junta- mente com arte de linha simples, podem criar uma infinita seleção de imagens de textura que podem formar um ponto focal em qualquer composição 120 gráfica. Ao usar o poder do moderno software de visualização 3D, os designers podem adicionar uma ampla gama de texturas artificiais aos seus projetos, e os resultados são limitados apenas pela imaginação (Figura 47). Figura 47: Texturas artificiais. Fonte: Imagens de (A) pvproductions/Freepik; (B) aweso- mecontent/Freepik; (C) yingyang/Freepik; (D) jannoon028/ Freepik; (E) rawpixel/Freepik; (F) topntp26/Freepik. A textura é algo que os artistas podem manipular através de seus materiais. Por exemplo, você pode desenhar uma rosa em um papel com textura áspera e não terá a suavidade de uma desenhada em uma superfície lisa. Mesmo as pinceladas utilizadas em uma pintura podem criar uma superfície texturizada que pode ser sentida e vista. A textura pode ser combinada com tipografia para criar efeitos de design, a arte tipográfica oferece um amplo espectro de variações de design que agregam diversidade e acento aos projetos minimalistas modernos. SAIBA MAIS 121 Dependendo do tamanho do tipo, forma, cor e textura, a arte tipográfica pode criar uma mensagem objetiva sem a necessidade de composições de design complexas. Os fundos texturizados são uma das ferramentas po- derosas para a criação de desenhos gráficos de provo- cação visual. Eles criam um acento nas composições de design, capturando a atenção com cores brilhantes e formas diversas. Texturas de fundo e fotografias são uma maneira não convencional de enviar uma mensa- gem para o espectador. Ter uma imagem estruturada estática é uma coisa, mas usar esse fundo para criar a sensação de que seu projeto é tridimensional e em camadas é outro. A conversão de imagens de textura tridimensional em elementos gráficos bidimensionais compreende uma combinação de ajustes de opacidade e transparência que criam a aparência geral do projeto. O uso de texturas é uma das ferramentas para criar arte gráfica convincente sem depender da complexidade de diferentes elementos. As texturas visuais, seja fotografia ou imagens isoladas, podem evocar emoções e trazer vida a qualquer projeto. Começar sua jornada para criar design gráfico inspirado em textura, requer nada mais do que uma ideia clara e um bom conjunto de imagens. Se você está usando as texturas como um ponto focal ou um componente de destaque para complementar outros elementos do design, a textura sempre terá um papel de liderança na criação de arte gráfica contemporânea. 122 Um bom exercício é pensar em tantas palavras diferentes quanto possível para descrever as texturas que você encontra ao seu redor: grosseiras, viscosas, brisas, lisas, peludas, emaranhadas, torcidas, raspadas, enrugadas, suaves e ásperas, por exemplo. Como você representaria essas texturas visualmente? REFLITA 123 A TEXTURA NAS ARTES VISUAIS: RELAÇÕES COM MOVIMENTO BODY ART A Body Art, tradução do inglês; arte do corpo, des- creve um tipo de arte contemporânea que surge na década 1960, abrangendo uma variedade de abordagens e diferentes manifestações artísti-cas. Inclui arte de performance, onde o artista está diretamente preocupado com o corpo sob a forma de ações improvisadas ou coreografadas, acontecimentos e eventos encenados. Arte corporal também é usada para explorações do corpo em uma variedade de outros meios de comunicação, incluindo pintura, escultura, fotogra- fia, filme e vídeo. Na Body Art os artistas usam o próprio corpo como um meio de expressão. Isso é exatamente o que muitos artistas da performance fizeram para expressar seus pontos de vista dis- tintivos e fazer ouvir suas vozes no clima social, político e sexual que surgiu na década de 1960. Foi um tempo de libertação onde os artistas se senti- ram capacitados para tornar a arte cada vez mais pessoal deixando cair os costumes tradicionais da arte e optando por usar-se como escultura ou tela viva. Isso resultou em confronto direto entre artista e público, produzindo uma nova maneira 124 surpreendentemente íntima de experimentar arte. Embora relacionado com a Arte Conceitual e a Performance Art, ou Body Art abarca uma ampla gama de áreas, incluindo: pintura do corpo; arte de tatuagem, pintura facial, estátuas vivas, fotografia, piercings e modificações e intervenções corporais� Às vezes, é feito em privado e depois exibido em fotos ou gravações de vídeo ou é criado «ao vivo» na frente de uma audiência. Apresentações em festivais de arte contemporânea incluindo eventos especializados como festivais de Body Painting (pintura corporal) e também em galerias de arte contemporânea, essas disciplinas corporais exem- plificam a tendência pós-modernista de expandir a definição de arte muito além da esfera tradicionalista de desenho, pintura e escultura. Alguns críticos de arte, no entanto, tomam uma visão mais restrita, preferindo classificar a arte corporal relacionada à performance como entretenimento, ao invés de uma forma independente de arte visual. O nascimento da Body Art durante a revolução cul- tural da década de 1960 foi sincronizado, a ideia do amor livre e das drogas psicodélicas criou novas liberdades para homens e mulheres, as expectativas societárias foram soltas e as pessoas conseguiram se expressar de forma mais significativa através de suas roupas e aparência. Este envolvimento do corpo foi algo que ressoou fortemente com o movimento 125 Feminista, que cresceu desde o início da década de 1960. Um grande número de mulheres artistas, muitas vezes usando seus próprios corpos como veículos poderosos de demonstração, rebelião e voz. A performance e a arte de vídeo tornaram-se escolhas populares para artistas femininas, para contrariar o peso histórico e o ônus de formatos mais tradicionais, como a pintura. As formas atuais refletiram a eletricidade dos tempos de mudança. Esta era uma oportunidade para uma estética fe- minista, na qual o corpo feminino seria o centro do palco, não o subproduto do olhar masculino, mas como objeto artístico auto reivindicado. A Arte Conceitual baseia-se na noção de que a essência da arte é uma ideia, ou conceito, e pode existir distinta e na ausência de um objeto como representação, geralmente manipulado pelas ferramentas da linguagem e às vezes documentado pela fotografia. Suas preocupações são baseadas em ideias e não na forma em si. Em meados da década de 1970, a arte conceitual tornou-se uma abordagem amplamente aceita na arte visual ocidental. Apesar do ressurgimento do trabalho “tradicional” ba- seado na imagem na década de 1980, a arte conceitual foi descrita como um dos movimentos mais influentes do final do século 20, uma extensão lógica do trabalho iniciado pelo artista francês Marcel Duchamp em, 1914, para quebrar o primado da percepção da arte juntamente SAIBA MAIS 126 com a sua crítica da arte visual e conceitual. Houve uma redefinição do relacionamento tradicional entre artista e público, capacitando artistas e permitindo que eles opererassem dentro e fora do sistema de galeria. Alguns artistas conceituais acreditam que a arte é criada pelo espectador, não pelo artista ou pela própria arte. Como as ideias e os conceitos são a principal característica da arte, a estética e as preocupações materiais têm um papel secundário na arte conceitual. Os artistas reconhecem que toda arte é essencialmente conceitual. Para enfatizar esses termos, eles reduzem a presença material do trabalho a um mínimo absoluto uma tendên- cia que alguns se referiram como desmaterialização da arte, que é uma das principais características da arte conceitual. Como muitos exemplos de arte conceitual mostram, o próprio movimento de arte emergiu como uma reação contra os princípios do formalismo. O for- malismo considera que as qualidades formais de um trabalho, como linha, forma e cor são autossuficientes para sua apreciação, e todas as outras considerações como aspectos representativos, éticos ou sociais são secundárias ou redundantes. A frase “arte do corpo” descreve adequadamente a série “Anthropometrie” do artista contemporâneo francês Yves Klein. Ele usou modelos femininos como “pincéis vivos” para fazer suas pinturas de Antropometria performativas, que muitas vezes eram produzidas como apresentações elaboradas na frente de uma audiência. Klein dirigiria as mulheres, cobertas de tinta azul, para fazer impres- sões de seus corpos em grandes folhas de papel. Uma serigrafia de uma de suas Antropometrias (Figura 4), este trabalho apresenta claramente o corpo feminino 127 delineado em vários tons de azul. As impressões estão na fronteira entre o figurativo e o abstrato, mas, em vez de uma expressão dramática de experiências, são sim- plesmente impressões expressivas de corpos. A criação dessas pinturas se transformou em uma espécie de arte de performance como no evento em 1960 na Galerie International d’Art Contemporain em Paris (Figura 48). A cor uniforme das pinturas de Klein não deve implicar uma técnica limitada. Ele estava constantemente à procura de novos métodos de aplicação de tinta: para compor as texturas a partir do uso de tipos de rolos, esponjas e queimadores de gás. Figura 48: Yves Klein. 1960 - Anthropometrie ANT 148. (97,8 X 67,3 cm). Galeria internacional de arte contemporânea em Paris. Fonte: Imagem de eofhafnia por Flickr� O “novo realismo” que Klein ajudou a inaugurar, foi uma maneira de ver toda a arte como sendo representacio- https://www.flickr.com/photos/54187496@N06/5282655805/ 128 nal e de incluir todas as formas de perceber o que a realidade poderia ser. Antes dessa mudança de percepção, o que definiu a arte abstrata era que, de alguma forma, era resultado de uma saída consciente do que poderia ser chamado de objetivo ou representacional. Klein eliminou essa delimitação, propôs que algo que parecia ser abstrato, talvez descrevesse mais precisamente a realidade do que algo que parecia ser representacional. Ele demonstrou que, para retratar completamente a realidade, o nada é tão vital quanto algo; o vazio é tão importante quanto à plenitude; e que o espaço entre dois objetos é tanto uma parte da realidade quanto os próprios objetos. Klein era uma figura central que operava durante um período crítico na história cultural, reagindo contra a introspecção existencial encontrada nos movimentos da arte abstrata no período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial. Sua visão inovadora levou-o a apagar as divisões entre vida e arte, mudando a per- cepção do público, ele mostrou que a arte poderia estar em novas e inesperadas direções. O vídeo, Antropometria da era Azul, apresenta uma parte performance realizado pelo artista Yves Klein em 1960 na Galerie International d’Art Contemporain� https://www.youtube.com/watch?v=gqLwA0yinWg Conheça as obras realizadas pelo artista na pagina da internet Yves Klein. FIQUE ATENTO https://www.youtube.com/watch?v=gqLwA0yinWg 129 http://www.yvesklein.com/en/oeuvres/ http://www.kleinsungallery.com/artists/liu-bolin Desde a década de 1960, os artistasexploraram cada vez mais o uso do corpo humano como veí- culo de expressão. Este método foi popularizado principalmente pelo trabalho Yves Klein, hoje considerado um dos pioneiros da performance arte. Atualmente, a pintura corporal artística é uma forma aceita de arte em todo o mundo. A pintura corporal, conhecida como Bodypainting, é a arte feita, com, ou consistindo, no corpo hu- mano. Ao contrário da tatuagem e outras formas de arte corporal permanente, a pintura do corpo é temporária. A arte Bodypainting também é uma subcategoria de Performance Arte, na qual os artistas usam de seu próprio corpo para criar sua poética plástica. A arte da pintura corporal tem suas origens his- tóricas na arte e cultura pré-histórica. Nas eras antigas, tribos e seus membros costumavam pintar o corpo com argila e outros pigmentos naturais e essa prática ainda está viva. É uma parte inseparável da cultura do tribalismo. Muitos grupos indígenas usam a pintura do corpo como uma forma de expressar sua própria cultura. Na segunda metade do século XX, muitos artistas http://www.yvesklein.com/en/oeuvres/ http://www.kleinsungallery.com/artists/liu-bolin 130 procuraram novas formas visuais que eventual- mente levaram ao renascimento da antiga prática do Bodypainting. Apesar do fato de que a arte da pintura corporal tem sido geralmente relacionada às práticas artísticas das culturas tribais e formas de arte antigas, com os artistas contemporâneos de Bodypainting o corpo foi percebido como uma tela, com uma série de artistas significativos que começaram a criar obras de arte no corpo humano, onde o corpo passa a servir como um meio de arte de performance. Também conhecido como “o homem invisível”, o pintor e fotografo chinês Liu Bolin usa seu corpo para atuar como um “camaleão”, misturando-se perfeitamente ao seu entorno (Figura 49). Um olhar sobre seu processo criativo mostra o incrível esfor- ço desenvolvido para examinar o meio ambiente e fundir-se com ele. Vestindo roupas pintadas a cada detalhe, a ilusão de óptica que Bolin cria em sua arte é o resultado de uma ilusão de uma pessoa invisível. A série de suas pinturas com o tema escondido na cidade o artista camuflado, Liu por meio da pintura corporal faz um protesto silencioso visando s políticas do governo chinês nos anos da Revolução Cultural. 131 Figura 49: LiuBolin - Hiding In Th City - InstatNoodles. Itália. Fonte: liubolinstudio.com� A artista americana Natalie Fletcher pintou dire- tamente na pele humana (Figura 50), e criou uma série de pinturas corporais totalmente manuseadas com um aerógrafo. Surpreendentemente, essas ilusões ópticas flexíveis não são feitas com a aju- da de projeções ou Photoshop, ela chama isso de ilusão, e sua pintura apresentam cores com base brilhantes de fúcsia. Linhas de contorno pretas ajudam a enganar o olho para pensar que partes de um tronco estão aparecendo para nós. www.artbynataliefletcher.com https://liubolinstudio.com/2018/08/16/forbes-liu-bolin-vanishes-into-his-works-filled-with-political-and-social-commentary/ http://www.artbynataliefletcher.com 132 Figura 50: Natalie Fletcher. 2011 - 2018. Ilusão - pintura corporal. EUA. Fonte: artbynataliefletcher.com Inspirado pela natureza, o pintor Italiano, Johannes Stoetter transforma modelos vivos em animais, frutas, flores ou combina com os arredores. Essas pinturas detalhadas levam até cinco meses de planejamento completo e até oito horas de traba- lho para serem concluídas. Stoetter usou cinco pessoas para recriar essa rã tropical e realista (Figura 51). Uma pessoa pode ser vista no centro, agindo como a espinha dorsal da rã, enquanto outros dois podem ser vistos agachados no chão, https://artbynataliefletcher.com/body-art/ 133 agindo como as pernas traseiras da rã. Dois outros estão sentados em ambos os lados da “espinha dorsal” com os braços e as mãos estrategicamente colocados para replicar as pernas da frente. Essa criatividade reflete a influência espiritual e os temas relacionados à natureza de Johannes Stoetter, que é considerado o melhor artista de pintura do corpo do mundo, sua obra também é conhecida por criar movimentos com corpos pintados. Figura 51: Johannes Stoetter. 2013. Rã tropical. Itália. Fonte: www.johannesstoetterart.com� https://gallery.johannesstoetterart.com/Galleries/Illusions-bodypainting-art/ 134 Flora Borsi é uma artista de Budapeste na Hungria, especializada em fotografia digital, seu objetivo é visualizar o fisicamente impossível na forma de manipulação de fotos. Flora teve várias exposições individuais em toda a Europa e América do Norte e sua estética etérea ganhou vários prêmios de arte e reconhecimento mundial na imprensa. Sua obra de arte foi selecionada para a tela de carregamento do Adobe Photoshop em 2014. Sua motivação é inspirar o espectador a pensar, sentir o que sen- tiu e comunicar essas emoções através de suas fotos. Com sua inclinação para autorretratos, seu trabalho é abundante de texturas e cores, Borsi emprega muitos elementos tipicamente femininos (Figura 52). As mulheres são mostradas em um mosaico complexo: forte e destemido, vulnerável, transformado em monstros, preso em uma peça de roupa em um cabide, rebocado com penas ou obscurecido por flores. Borsi está telegrafando uma mensagem sobre mulheres ou feminilidade em seu trabalho. O trabalho muitas vezes apresenta o corpo feminino, o jogo com esconder e revelar os olhos ou o rosto para deixar apenas a forma feminina, explorando questões de representação feminina e a relação entre corpo e a artista. 135 Figura 52: Flori Borsi. 2016. Animeyed (porta retrato ani- mado). Hungria. Fonte: www.floraborsi.com� As Bodyscapes (pinturas de paisagem no corpo) do artista americano John Poppleton combinam seu amor com a pintura e seu conhecimento de fotografia para criar paisagens que brilham sob a luz negra. Usando materiais fluorescentes tempo- rários, as cenas são pintadas diretamente na pele e fotografadas em pose para criar uma peça de arte. Seu trabalho não é a pintura em si, é a tela incomum que ele pinta o corpo humano combinando https://floraborsi.com/animeyed-self-portraits 136 o corpo feminino com elementos da natureza. Em um estúdio escuro, realiza suas pinturas corporais com tinta sob a iluminação da luz negra. Com uma fonte de luz ultravioleta invisível (luz negra) e tintas reativas UV, a pintura torna-se fonte de luz. Figura 53: John Poppleton. 2014. Cachoeira sob a luz negra. EUA. Fonte: www.jpunderblacklight.com https://www.jpunderblacklight.com/bodyscapes 137 Emma Hack se especializou em pintura facial e corporal no iniciou da sua carreira suas habilida- des variadas hoje permitem que ela crie obras de arte detalhadas, que combinam perfeitamente os contornos do corpo humano com objetos e elementos pintados, que muitas vezes tomam inspirações da natureza. Usando a fotografia para capturar suas obras. Ao fundir componentes de alta arte, design e pin- tura corporal, a Emma Hack criou um tipo de arte corporal inovadora com seu processo de detalha- mento de texturas marcantes. A sua ampla coleção de obras é vista como tendo influências que vão desde a cultura popular (Pop) até, aos conceitos audaciosos da década de 1960. As influências nas obras podem ser vistas nas edições de papel de parede mais recentes do Hack (Figura 10). As peças de cores vivas de Hack estão cheias de ideias da natureza e promovem estilos de design afiliados a isso, como o movimento Art Nouveau. Ela tem trabalhado com a técnica de combinar pintura corporal com obras de arte desde 2005 e desde então atingiu um novo status de maturidade e engenhosidade. 138 Figura 54: Emma Hack. 2005-2010. Papel de parede. Austrália. Fonte: www.emmahackartist.com.au Nos últimos anos, houve uma série de artistas con- temporâneos que usaram seu próprio corpo como tela, ou usam outros corpos humanos como telas. Dois artistas contemporâneos estão particularmentefocados em bodypainting: o artista chinês Liu Bolin e a australiana Emma Hack, como parte de sua própria arte política e socialmente envolvida, Liu Bolin usa seu próprio corpo na prática de pintar-se em várias configurações em Pequim, respondendo emocionalmente à demolição de muitas áreas da http://www.emmahackartist.com.au/emma_art/emma_wallpaper05.html#.YbEmL_HMJhE 139 capital chinesa. Por outro lado, Emma Hack pinta as mulheres em papel de parede, enquanto ela transforma seus corpos nus em murais requinta- dos. A prática destes dois artistas representa um sério desafio ao status de bodypainting dentro da arte contemporânea. Na Web Site, indicadas o estudante pode consultar as obras realizadas pelos artista citados no movimento Body Art : Liu Bolin http://www.kleinsungallery.com/artists/liu-bolin Natalie Fletcher http://www.artbynataliefletcher.com/ Johannes Stoetter http://www.johannesstoetterart.com/bodypainting-fine- -art-gallery.html O vídeo de Johannes Stoetter apresenta suas obras de pinturas corporais em movimento, seu trabalho artístico se tornou referencia mundial. https://www.youtube.com/user/johannesstoetterart FIQUE ATENTO http://www.kleinsungallery.com/artists/liu-bolin http://www.artbynataliefletcher.com/ http://www.johannesstoetterart.com/bodypainting-fine-art-gallery.html http://www.johannesstoetterart.com/bodypainting-fine-art-gallery.html https://www.youtube.com/user/johannesstoetterart 140 Flori Borsi http://floraborsi.com/ John Poppleton https://www.jpunderblacklight.com/ Emma Harck http://www.emmahackartist.com.au/emma_art/emma_ collections.html http://floraborsi.com/ http://www.emmahackartist.com.au/emma_art/emma_collections.html http://www.emmahackartist.com.au/emma_art/emma_collections.html A TEXTURA NAS ARTES VISUAIS: RELAÇÕES COM O MOVIMENTO POP ART O movimento Pop Art, foi inspirando em fontes da cultura popular e comercial, reflete a riqueza na sociedade pós-guerra. Emergindo em meados da década de 1950 na Grã-Bretanha e no final da década de 1950 na América do Norte, o pop art atinge seu auge na década de 1960. Começou como uma revolta contra as abordagens dominan- tes para a arte e a cultura e as visões tradicionais sobre o que a arte deveria ser. Embora tenha sido inspirado por assuntos semelhantes, o pop art britânico é muitas vezes visto como distintivo do pop art americano. Nos Estados Unidos, o estilo pop era um retorno à arte representacional (arte que retratava o mundo visual de uma forma reconhecível) e o uso de bordas duras e formas distintas, comparadas com pintura do expressio- nismo abstrato. Ao usar imagens impessoais e mundanas, os artistas pop também queriam se afastar da ênfase em sentimentos pessoais que caracterizava o expressionismo abstrato. Na Grã- -Bretanha, o movimento foi mais acadêmico em sua abordagem. Ao empregar ironia e paródia, ele se concentrou mais no que representa a imagem 142 popular americana e seu poder na manipulação do estilo de vida das pessoas. O grupo de arte dos anos 50, The Independent Group (IG), é considerado o precursor do movimento de pop art britânico. Eduardo Paolozzi pintor e escultor, um dos representantes do grupo The Independent (IG), em 1940 em suas obras de arte abrangeu o clássico e o efêmero. O uso da técnica de colagem permitiu que ele criasse novas unidades radicais a partir de imagens aparentemente não relacionadas (Figura 55). Sua fetichização do não convencional misturava o grosseiro e trivial, era diferente de qual- quer coisa que a austeridade do pós-guerra havia visto na Grã-Bretanha. Em uma das suas obras pioneiras, “Eu era um brinquedo de homem rico” de 1947 (Figura 55), foi à primeira obra de arte que apresentou a palavra “Pop”, o artista se comprome- teu com a fonte direta de seus interesses, mesmo que esse interesse derivasse de coisas efêmeras e propaganda diária. A Pin up é posicionada ao lado de morangos e cerejas brilhantes. Estes são símbolos sexuais indicativos e na gíria america- na e evoca uma brincadeira subversiva. Paolozzi utiliza imagens re-apropriadas para incentivar um novo olhar sobre a cultura popular. A arte já não precisava ser transformada por uma imaginação artística para se tornar arte. 143 Figura 55: Eduardo Paolozzi. 1947. “Eu era um brinquedo de homem rico”. Grã-Bretanha. 35,9 x 23,8 cm. Serigrafia e Colagem. Fonte: Foto de Tate gallery: London por Wikipedia� https://en.wikipedia.org/wiki/File:I_was_a_Rich_Man%27s_Plaything_1947.jpg 144 Conheça um pouco mais das texturas representadas nas obras de Paolozzi, o vídeo apresenta uma serie de imagens do seu trabalho intrigante e híbrido que o artista produziu na sequência do seu envolvimento com o Grupo Independente. h t t p s : / / w w w . y o u t u b e . c o m / watch?time_continue=1&- v=n53KkgH7h4k Na pintura “ Whaam!” (Figura 56), o artista inglês Roy Lichtenstein baseou em fontes de arte comercial, como imagens de quadrinhos ou propagandas, atraídas pelo modo como assunto altamente emo- cional poderia ser representado usando técnicas isoladas. Transferindo isso para um contexto de pintura, poderia apresentar cenas poderosamente carregadas de forma impessoal, deixando o espec- tador decifrar seus significados. Lichtenstein trouxe o que era então uma arte ta- bu-comercial para galeria de arte. Ele sublinhou a artificialidade de suas imagens, pintando-as como se tivessem vindo de uma imprensa comercial, com os pontos planos e monocromáticos. A pintura é uma versão misteriosa e moderna das pinturas de batalha que uma vez decorava palácios europeus. Está em grande escala, dividido em dois painéis que, juntos, medem mais de quatro metros de FIQUE ATENTO https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&-v=n53KkgH7h4k https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&-v=n53KkgH7h4k 145 largura. Em sua descrição um lutador americano desencadeia um surto de fogo que explode um avião inimigo, dando ao piloto nenhuma chance de fuga. O assunto está diretamente relacionado com a guerra fria, e seu título Whaam! Evoca tanto som como a imagem. Nessa obra a arte livre é irônica e paródica. Lichtenstein cuidadosamente recicla com precisão uma imagem e mostra um homem que busca liberdade nas máquinas. À medida que ele dispara, o piloto obtém uma sensação de liberação. A textura é a maneira como ele imagina a superfície da pintura, a quantidade de tinta usada, as cores e usando linhas que criam a textura. Na pintura Whaam! A aeronave parece brilhante e suave. As cores que o fizeram sentir e se parecer com isso era tons cinza e negro. No meio da sombra, ele acrescentava branco e cinza claro para que pare- cesse estar brilhando onde o sol atingiu. Figura 56: Roy Lichtenstein. 1964. Whaam! Acrílica sobre tela. 1,70 × 4,0 m. Reino Unido. Fonte: Foto de cea por Flickr� https://www.flickr.com/photos/centralasian/8553224243/ 146 Inspirado em métodos de impressão de quadrinhos, Lichtenstein pintou paródias de cenas comuns. Em nenhum lugar, você pode ver isso melhor do que em uma de suas pinturas mais populares: “Oh Jeff, eu te amo demais” (Figura 57), chamado para a bolha que contém o discurso, que desperta o interesse focal no espectador. Lichtenstein usou linhas fortes, definidas e cores brilhantes como um reflexo da popular arte de quadrinhos da épo- ca. Nesta pintura particular, ele cria a emoção no rosto da mulher em conflito com apenas algumas linhas fáceis e, ao fazê-lo, ele coloca a tensão na cena sem superá-la. O close-up no rosto da mulher e a maneira como ela segura o telefone de forma tão dramática é uma paródia direta dos quadrinhos de comédia român- tica conhecidas na época, em que o protagonista sofreria um obstáculo temporário em seu relacio- namento. Pintado em 1964, a imagem é cortada muito perto do rosto da mulher, mesmo cortando parte de sua cabeça e cabelos. Isso aumenta a sensação de tensão e frustração na cena, e foca muito fortemente a tragédia potencial. 147Na representação da textura Lichtenstein fazia a pintura parecer manchada com pequenos pontos, para fazer com que sua pintura pareça ser observada por uma lupa em um livro de quadrinhos. Lichtenstein tinha uma maneira muito diferente de representar a textura, usou estênceis metálicos, de papel, para pintar seus pontos,esta nova técnica tornou-se o estilo de marca exclusivo da Roy. Quando você vê os pontos através da imagem ampliada, você pode notar que alguns pontos são maiores do que outros pontos. Alguns pon- tos são separados, para criar cores mais claras, e outros pontos se sobrepõem, para criar cores mais pesadas. Nossos olhos também combinam naturalmente os pontos, de modo que ao invés de ver pequenos pontos individuais, vemos uma cor sólida. Lichtenstein adicionou um toque interessante, deixando a forma positiva incolor. Normalmente, se qualquer área de uma imagem for sem cor, é o espaço negativo. 148 Figura 57: Roy Lichtenstein. 1963. “Oh Jeff, eu te amo demais”. Óleo e Magna em tela. 121,9 x 121,9 cm. Fonte: Wikipedia� Lichtenstein muitas vezes pintou fotos embaladas de ação de acidentes de avião com explosões flamejantes. Esta escultura é uma versão tridi- mensional de uma dessas explosões. Observe na Figura 58 como ele incluiu alguns de seus pontos usando uma chapa de aço perfurados. A malha de aço sugere nuvem, mas também alude aos pontos usados na impressão de quadrinhos e jornais. No entanto, a escultura não tem relação com esse processo e, de fato, os pontos eram pouco visíveis https://en.wikipedia.org/wiki/Oh,_Jeff...I_Love_You,_Too...But...#/media/File:Oh,_Jeff...I_Love_You,_Too...But....jpg 149 na ilustração original. Feito em um momento em que os EUA estavam fortemente envolvidos na Guerra do Vietnã, esta escultura pode ser vista como uma crítica a violência, transformando uma explosão destrutiva em um ícone simplificado da beleza. Esta escultura mural foi baseada em uma pintura feita dois anos antes, intitulada ‘Varoom’. A imagem original para ambos os trabalhos foi uma ilustração para um quadrinho de meninos populares que se concentrou na Segunda Guerra Mundial. Como todo o trabalho de Lichtenstein, essa escul- tura é irônica. Figura 58: Roy Lichtenstein. 1965. Explosão de parede II. Metal. 1,702 x 1,88 x 1,02 cm. Fonte: Wikiart� https://www.wikiart.org/en/roy-lichtenstein/wall-explosion-ii-1965 150 Acesse o canal do youtube para assistir o vídeo com imagens das principais obras do artista Roy Lichtens- tein, observe como o artista produziu a textura nas suas obras de arte ao longo da sua carreira. https://www.youtube.com/watch?v=fQnudFs3Fic Foi Andy Warhol, no entanto, que realmente trouxe o Pop Art ao olho do público. Suas impressões de garrafas de Coca, latas de sopa Campbell e estrelas de cinema fazem parte da iconografia do século XX. O Pop Art devia muito à forma como se zom- bava do mundo da arte estabelecido. Ao abraçar técnicas comerciais e criar arte lisa e produzida por máquina, os artistas pop estavam se sepa- rando das tendências do conceito do movimento expressionista abstrato. Em 1962, Warhol começou a explorar a serigrafia. Este processo de estêncil envolveu a transferência de uma imagem para uma tela porosa, depois apli- cando tinta com um rolo de borracha. Isso marcou outro meio de pintura ao remover vestígios de sua mão. Quando Warhol começou a experimentar a serigrafia na década de 1960, a prática não era um meio amplamente utilizado. Foi um longo processo que exigiu uma quantidade de paciência e um olhar intenso para detalhes. Também não foi entendida FIQUE ATENTO https://www.youtube.com/watch?v=fQnudFs3Fic 151 por unanimidade como uma forma de arte, devido à interferência de uma máquina, que criou o ce- ticismo por muitos, cujas visões tradicionais de arte exigiam contato direto entre o artista e seu meio de escolha. Com os processos de estêncil fotográficos permitidos pelas impressoras ele pode reproduzir a imagem da pintura Latas de sopa Campbell (Figura 14 e 15), permitindo repetir várias vezes, o motivo através da mesma imagem, produ- zindo uma imagem serial sugestiva de produção em massa. Embora as latas de sopa Campbell se assemelhem às propagandas impressas produzi- das em massa, pelas quais Warhol se inspirou, é pintada à mão para ser reproduzida em serigrafia mecanizada. Neste trabalho, ele imitou a repetição e a uniformidade da publicidade, reproduzindo cuidadosamente a mesma imagem em cada tela individual. Ele variou apenas o rótulo na frente de cada lata, distinguindo-os pela sua variedade. Estêncil Um estêncil (do inglês stencil) é uma técnica usada para aplicar um desenho ou ilustração que pode representar um número, letra, símbolo tipográfico ou qualquer outra forma ou imagem figurativa ou abstrata, através da aplicação de tinta, aerossol ou não, através do corte ou perfuração em papel ou acetato. Resultando em uma prancha com o preenchimento do desenho vazado por onde passará a tinta. O estêncil obtido é usado para im- 152 primir imagens sobre inúmeras superfícies, do cimento ao tecido de uma roupa. Por extensão de sentido, um estêncil é também um tipo de folha de papel fino que serve de matriz para impressão por mimeógrafo e a base da pintura serigráfica. Tanto na mimeografia, como na serigrafia, múltiplos estênceis são usados sobre a mesma superfície, produzindo imagens em mais de uma cor. Referencia: Significado / definição de estêncil no Dicio- nário Priberam da Língua Portuguesa� www.priberam.pt� Figura 59: Andy Warhol. 1962. Latas de sopa Campbell. Pintura de polímero sintético. 50,8 x 40,6 cm. Fonte: Wikiart http://www.priberam.pt/dlpo/est%25C3%25AAncil http://www.priberam.pt/dlpo/est%25C3%25AAncil http://www.priberam.pt https://www.wikiart.org/pt/andy-warhol/campbell-s-soup-can-onion 153 Figura 60: Andy Warhol. 1962. Latas de sopa Campbell. Serigrafia 32 telas. 50,8 x 40,6 cm. Fonte: Arte digitaizada por The Museum of Modern Art. A série completa de Marilyn Monroe (Marilyn) foi impressa em 1967 em Nova York. As telas que compõem uma das composições mais reconhecidas de Andy Warhol. (Figura 61) é visto como uma extensão da pintura de serigrafia do período inicial das suas obras. Cada imagem da composição tem 91,44 x 91,44 cm de dimensão com suas impressões vibrantes e coloridas, refletindo sua personalidade vivaz. Em muitas das gravuras os lábios icônicos são coloridos de vermelho escuro e também enfatizam seus cabelos loiros de platina, adicionando variantes de amarelo. Em uma das estampas, a atriz é colorida em prata e preto. Isso traz à mente o efeito de assistir a atriz na tela do cinema em preto e branco. As cores escuras também são um sombrio lembrete da 154 morte da atriz. As cores finalmente trazem à vida o status icônico de Marilyn Monroe e o glamour das celebridades. Ao criar imagens repetitivas, Warhol evoca seu status de celebridade onipresente, toma como tema de sua pintura uma imagem impessoal. Embora ele fosse um ilustrador premiado, em vez de fazer seu próprio desenho de Monroe, ele se apropria de uma imagem que já existe. Além disso, a imagem não é um desenho de outro artista, mas uma fotografia feita para reprodução em massa. Mesmo que reconheçamos a fonte (uma foto de publicidade para o filme de Monroe em 1953, Niá- gara), sabemos que a imagem é uma foto, não só por sua verossimilhança, mas também pelo alto contraste entre as áreas iluminadas e sombreadas dela que associamos ao flash de um fotógrafo. Ao rastrear grandes planos de cor não modificada, o artista remove o sombreamento gradual que cria uma sensação de volume tridimensional e eleva a atriz em um vazio abstrato. Através dessas esco- lhas, Warhol transforma a planicidade literal da foto de publicidade de papel fino em uma “planicidade” emocional, e a atriz em um tipo de autômato. Des- ta forma, a pintura sugere que “Marilyn Monroe”, uma estrela fabricada com um nome inventado, é meramenteum símbolo unidimensional sexual e talvez não seja o objeto mais apropriado de nossa devoção quase religiosa. Enquanto as repetições de serigrafia de Warhol aplanam a identidade de Mon- roe, eles também delineiam sua própria identidade como artista desta obra. O processo de serigrafia 155 permitiu que Warhol (ou seus assistentes) repro- duzisse a mesma imagem uma e outra vez, usando várias cores. Uma vez que as telas são fabricadas e as cores são escolhidas, o artista simplesmente espalha as tintas uniformemente sobre as telas usando um rolo. Embora existam diferenças de um lado para o outro, estes parecem ser os subprodu- tos acidentais de um processo quase mecânico, e não o produto do julgamento do artista. Figura 61: Andy Warhol. 1967. Marilyn Monroe. Impressão de tela no papel. 36” x 36”. Fonte: Digital image, The Museum of Modern Art, New York/Scala, Florence, Museum of Modern Art (MoMA) - New York. 156 O Grupo Independente (IG,) foi um grupo radical de jovens artistas, escritores e críticos que se reuniram no Instituto de Arte Contemporânea (ICA) em Londres na década de 1950 e desafiaram a cultura dominante modernista elitista naquele tempo, para que seja mais inclusivo da cultura popular. No final da década de 1950 e início dos anos 1960, uma “revolução cultural” estava em andamento, liderada por ativistas, pensadores e artistas que procuravam repensar e até derrubar a visão de uma ordem social sufocante governada pela conformidade. A Guerra do Vietnã provocou protestos em massa, o Movimento dos Direitos Civis procurou a igualdade para os afros americanos e o movimento de libertação das mulheres ganhou impulso. Os artistas da Pop Art preferiram o realismo, as imagens cotidianas (e mesmo mundanas), e fortes doses de ironia e humor. Artistas populares como Andy Warhol e Roy Lichtenstein estavam muito conscientes do passado. Eles procuraram conectar tradições de belas artes com elementos da cultura pop da televisão, propagandas, filmes e desenhos animados. SAIBA MAIS 157 No canal do youtube, você pode acessar o vídeo: Andy Warhol - Pop Art. O vídeo apresenta as principais obras realizadas pelo artista. https://www.youtube.com/watch?v=LKbvIebEycI Descoberto por Andy Warhol aos 17 anos, David Lachapelle é um fotógrafo americano conhecido por seu estilo Kitsch Pop e Surrealismo, começou a trabalhar na Revista Interview no limiar de sua prolífica carreira e a ser conhecido por suas representações hiper-reais, distintamente saturadas de cultura de celebridades como: Paris Hilton, Muhammad Ali, Britney Spears, Madonna, Lady Gaga entre outros artistas. Nos primeiros trabalhos de Lachapelle explorou temas de mortalidade e transcendência através de belas artes. Após um grande sucesso em fotografia comercial, vídeos musicais e cinema, Lachapelle retornou às configurações da galeria onde explora os temas metafísicos de seu primeiro trabalho, referenciando a história da arte e a icono- grafia religiosa para fazer comentários profundos sobre o mundo contemporâneo. FIQUE ATENTO https://www.youtube.com/watch?v=LKbvIebEycI 158 “A violação da África” (Figura 62) é uma crítica aberta ao consumismo ocidental e suas consequências para a África. Fazendo referência a pintura de Sandro Botticelli “Vênus e Marte” de 1485, a cena é recap- turada usando a modelo Naomi Campbell, símbolo da beleza feminina africana, representando vênus sob os temas de conquista e saque, imagens de crianças soldados e imagens de mineração ilegal de ouro e diamantes estão integradas em sua fo- tografia. O processo de fotografia foi realizado em um set fotográfico, tudo era real. A mineração no fundo da imagem foi fotografada separadamente, então poderia estar em foco ao mesmo tempo em que o primeiro plano. Através de vários modelos da história da arte, ele recria essas cenas icônicas com personagens de celebridades. Figura 62: David La Chapelle. 2010. A violação da África. Fonte: www.davidlachapelle.com� https://www.davidlachapelle.com/rape-of-africa 159 A composição Catedral (Figura 76) de David La- chapelle é inspirada na narrativa bíblica da grande inundação. Os rostos humanos estão presos dentro dos limites da catedral à medida que as águas da inundação se elevam rapidamente. Suas almas procuram a salvação, mas isso não parece pro- vável. Mesmo que o desastre esteja sobre eles, os temas parecem tranquilos. LaChapelle, como documentador importante da cultura Pop, infunde valores universais de religião e moralidade com significados inteiramente novos. A composição Catedral é sobre a loucura de enfrentar o perigo, com a morte iminente, quando toda coisa material é tirada. Você deve encontrar algum tipo de ilumi- nação quando tudo que você valoriza de repente torna-se inútil. O dilúvio de Michelangelo na Ca- pela Sistina mostra a humanidade no seu melhor, que as pessoas se ajudando mutuamente. Com Michelangelo, temos a ideia de que a perfeição física é igual à divindade. O artista rapidamente percebeu que o que funcionou para pintura de Michelangelo não se aplicaria da mesma forma à fotografia contemporânea. Um tema em uma fotografia significa apenas algo completamente diferente de um tema em uma pintura. 160 Figura 63: David LaChapelle. 2007. Catedral. Fotografia Fonte: www.davidlachapelle.com� A fotografia de David LaChapelle, Pieta, em que a virgem Maria é Courtney Love, a companheira do cantor Kurt Cobain (Figura 64). Em seus braços não há filho, mas sim o companheiro falecido com um estigma não só aos pulsos, mas também aos braços, com sinais de heroína tomados durante sua vida pelo cantor do estilo musical grunge. O estilo segue a fotografia artística devido à imensa criatividade e à pesquisa simbólica e conceitual, e de moda graças ao uso hábil das luzes e das poses de plástico e estereotipado. Existe um claro desejo de misturar sagrado e profano, evidente no brilho da luz criado em torno dos cabelos loiros da mulher, como se fosse um verdadeiro santo. https://www.davidlachapelle.com/after-the-deluge-cathedral 161 Ao lado da mão de Cristo, há uma Bíblia fechada jogada no chão, emblema do sentido negativo do fotógrafo para o catolicismo. Também são rele- vantes os cubos colocados no chão pela criança que compõe a frase: “heaven to hell” (Céu para o inferno). A posição da mão direita está acima do “to” como se a criança estivesse executando a ação de “enviar” Kurt para o inferno, ou pelo contrário, como se estivesse de pé entre “heaven” e “hell”, ele estava no meio, puro, neutro. Figura 64: David LaChapelle. 2007. Pieta com Courtney Love, Céu para o inferno. Fotografia. Fonte: www.davidlachapelle.com� https://www.davidlachapelle.com/books-heaven-to-hell-2006 162 A série de fotos sobre o tema os excessos da socie- dade (Figura 65), Leite de donzelas de David LaCha- pelle aborda questões do tabu sociais largamente ignoradas pelo público em geral, reinterpretado a forma glamorosa, os vícios e obsessões que afli- gem o mundo brilhante de celebridades famosas. Em seu trabalho, nunca expressa pontos de vista moralistas, exibe fantasias e tendências sexuais, exibicionismo e atitudes violentas, mostra como os excessos, qualquer que seja a sua forma, estão intimamente relacionados com o desejo de auto- afirmação. Embora ele esteja claramente ansioso e interessado em ser conhecido como um artista mais do que um fotógrafo de celebridades, suas imagens anteriores estão cheias de ironia, mostra uma modelo esguicho leite de seu peito para outra modelo com prato de flocos de milho. Figura 65: David LaChapelle. 1996. Leite de donzelas. Fotografia. Fonte: www.davidlachapelle.com� https://www.davidlachapelle.com/milk-maidens 163 O fotógrafo David LaChapelle construiu sua esté- tica icônica e de alto impacto, dirigindo meticulo- samente todas as cores em cada quadro, tanto durante uma filmagem quanto mais tarde durante o pós-processamento. A crítica de alguns dos valores consagradosna sociedade contemporânea o vício em fast food, a adoração da beleza anoréxicos das modelos e seu encontro destrutivo são transmitidos através de referências ao pop e ao surrealismo. As fotografias altamente polidas, saturadas e in- trincadas de David LaChapelle possuem a fantasia surreal dos sonhos, inventadas fora das imagens da celebridade, do erotismo e do Americano moderno, e cravadas com alegorias religiosas e presságios da condenação. Esse trabalho tornou entre os fotógrafos mais influentes da arte e da celebridade de sua geração. Você pode dizer que LaChapelle surgiu diretamente da influência de Andy Warhol, cujas filmagens de silks screen do glamour, do transgressivo e do dia a dia mudaram a arte contemporânea. A linguagem visual distin- tiva de LaChapelle desafia a classificação em um gênero tradicional. Em vez disso, ele organiza suas cenas glamourosas e exageradas com referências à religião, à história da arte e à cultura popular gerando seu próprio estilo inconfundível. 164 Na pagina da internet do estúdio do artista David La- Chapelle , você pode acessar os vídeos clip musicais dirigidos pelo artistas e os principais trabalhos realizados. https://www.davidlachapelle.com/davidlachapelle-films No canal do youtube, você pode acessar o vídeo David Lachapelle o artista comenta o processo criativo dos seus trabalhos e apresenta suas series fotográficas. https://www.youtube.com/watch?v=Z-lc4FtLdqc FIQUE ATENTO https://www.davidlachapelle.com/davidlachapelle-films https://www.youtube.com/watch?v=Z-lc4FtLdqc 165 DIMENSÕES BIDIMENSIONAL (2D) E TRIDIMENSIONAL (3D) - CONCEITO E SIGNIFICADOS Formas bidimensionais são figuras planas. Esses tipos de formas ocupam espaço ou área, mas não parecem ter espessura ou volume. A maioria das representações que a humanidade faz de objetos como plantas, desenhos, imagens são represen- tações bidimensionais. A superfície na qual eles são representados é plana. Comprimento e largura geralmente podem ser calculados examinando a representação ou são incluídos como, quadros de referência. Por exemplo, ao construir uma casa, um arquiteto pode fornecer um desenho bidimensional ao dono da casa em perspectiva, para que ele tenha uma melhor compreensão de como será o produto acabado. No entanto, nenhum arquiteto desenha a casa em dimensões reais, uma escala é incluída para ajudar o dono da casa a entender melhor o tamanho do produto final após a conclusão. Em contraste com formas bidimensionais, existem formas tridimensionais, formas que têm compri- mento, largura e espessura. Voltando ao exemplo de uma casa, o arquiteto pode construir uma maquete ou modelo tridimensional da casa para esclarecer ainda mais detalhes específicos para 166 o proprietário. Às vezes é difícil para as pessoas olhar para um desenho bidimensional e imaginar como será o produto tridimensional final. É neste caso que os modelos são mais úteis. Sempre que olhamos para uma superfície plana, uma imagem, uma tela de televisão e assumimos que estamos olhando para espaços e objetos com profundidade, estamos aceitando um conjunto de sinais visuais que criam uma ilusão de espaço tridimensional. Os sinais tridimensionais (3D) são tão comuns hoje que quase não somos conscientes deles. Entender como essas ilusões funcionam é a chave para desenvolver nossa capacidade de pensar espacialmente. Os conceitos espaciais são percebidos, por exemplo, quando estamos tentando encontrar o nosso caminho através das ruas de uma cidade estranha, descobrir como envolver o tecido em torno de um corpo para alcançar uma ideia de moda, visualizar as estruturas internas de um mecanismo complexo ou parte do corpo, ou simplesmente fazer um desenho preciso do que vemos. O termo 2D e 3D são usados para indicar dimensões. O termo 2D significa bidimensional enquanto 3D significa tridimensional, 2D representa um objeto em apenas duas dimensões, enquanto o 3D o representa em três dimensões. 167 As dimensões são usadas para descrever a estrutura de um objeto seja plano ou não, e sua extensão no espaço. DEFINIÇÃO DAS DIMENSÕES y Dimensão 1-D As imagens unidimensionais são aquelas que contêm apenas uma dimensão. Isso somente é possível quando você está lidando com uma linha, pois a única dimensão que você possui é o com- primento, definido por uma única figura. No entanto, uma linha é 1-D apenas em um nível teórico, como na vida real, uma linha tem uma largura de apenas centésimos ou milésimos de metro (Figura 66). y Dimensão 2-D Um tipo de imagem que você pode encontrar na vida real é a de duas dimensões. As duas dimen- sões representadas são comprimento e largura e os objetos na imagem são planos. Exemplos de tais imagens são antigas pinturas de parede egíp- cias da antiguidade, onde os artistas visuais não queriam ou não podiam dar uma representação realista do espaço (Figura 66). 168 y Dimensão 3-D As imagens tridimensionais contêm ainda outra dimensão: a profundidade. Esse tipo é o mais realista, já que a representação de objetos ou ambientes se assemelha à forma como os vemos através de nossos próprios olhos. Os pintores usam a técnica de perspectiva, desenhando objetos e representando ângulos como visíveis através do ponto de vista, enquanto os filmes em 3-D usam duas imagens sobrepostas na mesma tela. No entanto, essas imagens dão apenas a ilusão de profundidade, pois as telas permanecem sempre planas (Figura 66). Figura 66: Ilustração das dimensões. Cumprimento Dimensão 1D Dimensão 2D Altura Largura Dimensão 3D Altura Largura Profundidade Fonte: Elaboração própria. Em matemática e física, 2D é definido como tendo dois eixos, geralmente o eixo x e o eixo y. Esses eixos são indicativos de dois aspectos no mesmo plano, no sistema de coordenadas cartesianas. Da mesma forma, 3D indica três aspectos, que são no eixo x, eixo y e no eixo z (Figura 67). 169 Figura 67: Eixo cartesiano. Z X Y X Y Fonte: Elaboração própria. PLANOS E SUA MASSA ASSOCIADA Os volumes são espaços vazios definidos por su- perfícies, linhas e pontos. Quando preenchemos o espaço ou damos a percepção de que o espaço dentro de um volume foi preenchido o volume contém massa. Se você se lembra da classe de física, densidade = massa / volume, em um design bidimensional, podemos oferecer apenas a percepção de massa, densidade e volume. Quando damos uma superfície ou um plano à ilusão de ser tridimensional, temos um volume. Podemos fazer isso adicionando padrão e tex- tura à superfície ou alterando a cor ou o valor na superfície para imitar o efeito da luz e da sombra. Nós também podemos usar a perspectiva dentro de uma forma para criar a ilusão de que a forma é um volume (Figura 68). 170 Como vivemos em um mundo tridimensional quando adicionamos qualidades volumétricas ao nosso formato bidimensional, adicionamos uma sensação de realismo ao design. Para alguns exemplos, olhe para Figura 68 e considere como os elementos mostrados usam a profundidade para criar o realismo 3D. Figura 68: Forma geometrica dimensão 2D e 3D. Fonte: Elaboração própria. Volume é uma qualidade física que realmente não existe em um formato bidimensional. No mundo físico, objetos com grande massa atraem e puxam outros objetos para eles. No mundo do design visual elementos com grande massa também se 171 atraem. A percepção de massa em um elemento é com que força o elemento atrai seu olhar para ele. Tal como acontece com o volume, a massa é ape- nas algo que podemos sugerir ou representar no formato bidimensional com o qual trabalhamos. Adicionamos massa visual e peso a um elemento, através de tamanho e cor ou outros valores, e atra- vés do nosso uso de massa ou peso controlamos o equilíbrio e o movimento em um objeto. O plano sólido parece avançar para o primeiro plano devido à percepção de que ele carrega mais peso. Os vo- lumes são tridimensionais e a dimensão extra traz consigo a percepção de massae peso. Uma esfera sempre pesa mais do que um círculo. Os volumes são formas tridimensionais, e são representados em um formato bidimensional, mas, assim, dão uma sensação maior de realismo ao design. Os volumes são criados imitando os efeitos da luz e sombra em uma superfície ou plano. Uma representação precisa do volume permite que o espectador participe de uma representação visual. Vemos isso em jogos de vídeo e simulações, bem como arte, fotografia, cinema e ilustração. Em suma, entendemos que há uma diferença entre profundidade e volume, ou seja, ilusão volumétrica. Profundidade é a percepção de que existe dimensão em um projeto bidimensional, porque as formas se sobrepõem e diminuem em escala, criam primeiro 172 plano, meio-fundo e plano de fundo. Isso cria a percepção de que as formas se afastam do plano de primeiro plano para o espaço. Ilusão volumétrica é a representação da forma tridimensional e do espaço em um plano de imagem bidimensional. Podemos usar ambos os princípios ao criar um espaço ilusório. A tecnologia 3D começou a aumentar a proemi- nência no final da década de 1990, particularmente na indústria cinematográfica, mas agora tem uma base sólida em muitos aspectos de gráficos, design e produção. Quando se trata de projetar produção, filmes ou jogos, a animação 3D é muitas vezes preferida, pois imergia os espectadores em um ambiente mais realista, aumentando sua experi- ência geral de visualização. A qualidade do conteúdo em relação ao movi- mento, ao realismo e à complexidade em geral é incomparável em 3D, no entanto, com uma maior oportunidade de experimentar a iluminação e a profundidade da cor. Esta é a forma mais atuali- zada de tecnologia de animação, o que significa que também está cada vez mais em demanda. Por meio de tecnologias recentes, muitas formas tipicamente tridimensionais podem ser represen- tadas por meios bidimensionais. Os computadores tornaram isso uma experiência comum por meio de muitas opções de software. Programas de com- 173 putador, como programas de desenho ou desenho, fornecem a capacidade de inserir as dimensões de um objeto. Eles então utilizam essas dimensões e exibem uma representação do objeto tridimensio- nal em um monitor de computador bidimensional. Este processo ajudou com a visualização de ideias complexas, bem como para melhor compreensão das formas tridimensionais. PERSPECTIVA Perspectiva é a técnica ou processo de represen- tar em um plano ou curva de superfície, a relação espacial de objetos e como eles podem aparecer nos olhos; especificamente: representação em desenho ou pinturas de linhas paralelas, ou que se convergem para dar a ilusão de profundidade e distância. A inovação da perspectiva linear, uma construção pictórica geométrica implícita que data da Europa do século XV, nos proporciona a ilusão precisa do espaço tridimensional em uma superfície plana e parece retrair-se na distância através do uso de uma linha do horizonte e pontos de fuga. A perspectiva linear é um sistema matemático para projetar o mundo tridimensional em uma superfície bidimensional. Esse tipo de perspectiva começa com uma linha do horizonte, que define 174 a distância do fundo e um ponto de fuga central (Figura 69). Para este ponto de fuga, as linhas or- togonais podem ser desenhadas a partir do fundo do plano da imagem, que define o primeiro plano do espaço (Figura 69). As linhas ortogonais, o ponto de fuga e a linha do horizonte estabelecem o espaço em que o artista pode organizar figuras, objetos ou arquitetura, de modo que parecem existir em três dimensões. Uma vez que esses elementos básicos forem estabele- cidos, pode se adicionar elementos para criar um espaço mais complicado, ainda mais realista. O artista escolhe outro ponto na linha do horizonte, chamado ponto de distância, e desenha uma linha através dos ortogonais até um ponto na parte inferior do plano da imagem. Os pontos em que esta linha divide as linhas ortogonais representam a regressão em perspectiva. Esses elementos de perspectiva linear vinculam a ciência da geometria tridimensional com a arte da representação ilusio- nista. Observe nas Figura 69, 70 e 71 a construção de um retângulo a partir do uso de ponto de fuga. 175 Figura 69: Perspectiva Linear - construção do retângulo -1 ponto de fuga. Ponto de fuga Linha do horizonte Linhas ortogonais transversais Fonte: Elaboração própria. Figura 70: Perspectiva Linear - construção do retângulo - 2 pontos de fuga. Ponto de fuga 2Ponto de fuga 1 Linha do horizonte Linhas ortogonais transversais Fonte: Elaboração própria. Figura 71: Perspectiva Linear - construção do retângulo - 3 pontos de fuga. Ponto de fuga 1 Ponto de fuga 2 Ponto de fuga 3 Linhas ortogonais transversais Fonte: Elaboração própria. 176 Embora a perspectiva possa parecer confusa no início, os princípios são bastante diretos. No sentido da perspectiva de um ponto, as linhas convergem para um ponto de fuga. Em 2 pontos do desenho em perspectiva, as linhas convergem para dois pontos de fuga. Em 3 pontos de desenho em perspectiva, as linhas convergem para três pontos de fuga. A perspectiva linear transmite a profundidade atra- vés de linhas e a colocação de formas. Embora as composições possam variar em complexidade, as seguintes dicas e princípios básicos são inerentes a todos os desenhos de perspectiva linear: y Horizonte: o horizonte é a linha onde o céu encontra a terra ou a água. A altura do horizonte influencia a colocação dos pontos de fuga e a elevação da cena. y Ponto de fuga: um ponto de fuga é o lugar onde as linhas paralelas parecem se encontrar na distância. Na Figura 72, as linhas paralelas da estrada recuam para trás e se fundem visivelmente para criar um único ponto de fuga no horizonte. Não há limite para o número de pontos de fuga que uma cena pode ter, (vamos observar este aspecto mais adiante). As linhas ortogonais são linhas dirigidas a um ponto de fuga, como as linhas paralelas da estrada indicadas na Figura 72. Ortogonal significa ângulo 177 reto. Refere-se a ângulos retos que são formados por linhas como o canto de um cubo mostrado em perspectiva. O Ponto de vista não deve ser confundido com o ponto de fuga, o ponto de vista é o lugar a partir do qual uma cena é vista. A colocação do horizonte e os pontos de fuga afetam o ponto de vista. Figura 72: Análise da Perspectiva em uma imagem real. Fonte: Foto de Tom Barrett por Unsplash (adaptada). Quatro princípios caracterizam a forma como a profundidade é transmitida na perspectiva linear. São eles: o tamanho das formas, a sobreposição das formas, a localização das formas e a conver- gência das linhas. Todos os quatro princípios podem e devem ser usados em conjunto para interpretar melhor a perspectiva. 178 Como pode ser observado na Figura 72, as linhas paralelas convergem na distância. Veja que as linhas de estrada (linhas ortogonais) se encon- tram quando se afastam na distância, dando a aparência de profundidade. Um ponto de fuga é formado onde as linhas ortogonais se encontram. O princípio da convergência de linhas compartilha o conceito de profundidade expresso através do tamanho, na medida em que a largura do caminho diminui com a distância. Vamos estudar a perspectiva e seu surgimento no período artístico do Renascimento, os pinto- res ocidentais queriam que a imagem que estava sendo representada em uma superfície plana tornasse tridimensional contendo profundidade e amplitude, assim como o mundo real. Existem muitas maneiras de criar essa ilusão e estamos olhando para um desses dispositivos visuais. Na arte, o que chamamos de perspectiva linear usa, como o nome sugere, linha para criar um efeito de profundidade ou distância. Como você faz as coisas parecerem tridimensionais em uma superfície bidimensional? Técnicas como pers- pectiva linear e gradação tonal podem ser utilizadas. Perspectiva envolve fazer as coisasparecerem maiores REFLITA 179 e mais claras estão próximas, e menores e menos claras quando estão mais distantes. Ao fazer isso, você pode criar a ilusão do espaço. Artistas também usam tons e sombras para criar a ilusão de objetos tridimensionais. Mudando gradualmente a escuridão de uma sombra, você pode fazer algo parecer sólido. PERSPECTIVA E DIMENSÕES VISUAIS: RELAÇÕES COM A ARTE RENASCENTISTA Os antigos romanos tinham a capacidade de retratar a profundidade em suas pinturas. No en- tanto, durante a idade média, os artistas europeus perderam a habilidade de descrever as ilusões tridimensionais com precisão. De fato, esse tipo de realismo não era importante para fins de imagens visual na era cristã primitiva, quando as figuras e as paisagens se destinavam a ser uma espécie de abreviatura genérica para as histórias religiosas e históricas contadas. As cópias realistas do mun- do material não foram avaliadas. Em vez disso, os símbolos estilizados de assuntos históricos e religiosos eram desejados, executados de forma estritamente tradicional, de modo que poderiam ser facilmente reconhecidos por um público de- voto, mas analfabeto. Como resultado, imagens medievais eram geralmente de aparência plana, ou apresentavam sinais mistos sobre o espaço tridimensional representado. Tudo isso mudou no final do século XV, quando arquitetos e artistas descobriram o valor e o po- der dos efeitos tridimensionais no desenho e na 181 pintura. Isso se misturou com as explorações inte- lectuais do período, em que a verdade, o realismo e a individualidade foram apreciados. Os efeitos tridimensionais foram recebidos como uma ilusão sensacional, quase mágica, que transformou a pin- tura em uma espécie de janela mágica do mundo. O arquiteto florentino Filippo Brunelleschi expe- rimentou e formalizou o sistema de perspectiva linear em torno de 1420. Como vimos, a perspectiva linear usa linhas reais ou sugeridas muitas vezes chamadas de ortogonais, convergentes na linha do horizonte ou em nível dos olhos. Quando a perspec- tiva linear foi “descoberta”, os artistas florentinos ficaram obcecados com isso, especialmente depois que instruções detalhadas foram publicadas em um manual de pintura escrito arquiteto florentino Leon Battista Alberti em 1435. O maior salto na representação do espaço tridimensional ocorreu no século XV, com a descoberta de uma perspec- tiva linear que se refere à ilusão de que os objetos parecem crescer e convergem para um “ponto de fuga” na linha do horizonte e o ponto de fuga pode ser visível ou imaginário. Prestar atenção às formas dos objetos em relação à sua posição é essencial para a perspectiva linear. A taxa em que as formas parecem mudar de tamanho e colocação é regular e matematicamente previ- sível. A forma, por exemplo, de um cubo também 182 deve ser distorcida para sugerir perspectiva. Essas descobertas matemáticas estavam intimamente ligadas à arquitetura, mas também levaram a um novo e surpreendente nível de realismo no dese- nho, que se tornou a grande ferramenta para os artistas renascentistas. Por sua vez, as ilusões da perspectiva linear no desenho levaram à criação de efeitos espaciais inovadores na arquitetura. Artistas da Renascença concentraram-se no desenvolvimento de novas técnicas e métodos artísticos de composição e efeito estético. Além do renovado interesse pela antiguidade, estes incluíam a formulação de perspectiva e a ênfase nas formas arquitetônicas. Seu objetivo era criar arte que respeitasse proporções e que se asse- melhasse à realidade. Uma das características distintivas da arte renascentista é o desenvol- vimento da perspectiva linear. Após os estudos de Brunelleschi e Alberti, quase todos os artistas de Florença e Itália tentaram representar objetos tridimensionais usando a perspectiva geométrica em suas pinturas. Um primeiro plano, meio termo e fundo, com a perfeita ilusão de profundidade, baseada na ge- ometria do modelo de Alberti, foi realizado por Pietro Perugino na pintura do afresco, “Entrega das Chaves”, em1481, localizado na Capela Sistina, Vaticano (Figura 7). As linhas convergentes ligam 183 a ação em primeiro plano ao fundo. O resultado final foi um exemplo por excelência da pintura do início da Renascença que reduziu o “nivelamento” da superfície bidimensional e criou uma aparência incrível de uma cena em três dimensões. No que diz respeito à composição, o elemento mais mar- cante é a linha, através da qual Perugino quase nos deixou com um estudo de caso de livro-texto de perspectiva linear de um ponto. Enquanto a série de linhas horizontais divide o primeiro plano do plano de fundo, as linhas ortogonais diagonais criam a aparência de profundidade à medida que convergem no ponto de fuga perto da entrada do prédio em segundo plano. O resultado é que a cena ocorre no que parece ser uma grande grade que permite aos espectadores determinar claramente a distância entre as figuras em primeiro plano, meio termo e fundo. Além disso, Perugino usou a perspectiva aérea para fazer as colinas de ambos os lados do templo parecerem desbotar no fundo. Ambos os tipos de perspectiva ajudam o espectador a entender visualmente que a cena está ancorada realisticamente em três dimensões, mesmo que ela tenha sido obviamente pintada em um plano de imagem bidimensional. Em geral, a cena mostra um episódio bíblico crítico para os papas, em que faz excelente uso de dispositivos de perspectiva renascentistas para criar a ilusão de profundidade em uma superfície bidimensional. Provavelmente 184 seria o afresco mais importante dentro da capela se não fosse por outra série de afrescos pintada cerca de três décadas depois por um pintor que produziria uma das maiores obras-primas da his- tória da arte: Michelangelo e seu ciclo de teto da Capela Sistina. Figura 73: Pietro Perugino. Cristo entregando as chaves para São Pedro. 1481. 335x550cm. Fonte: Domínio Público/Wikipedia (adaptado)� Localizada no andar superior do palácio do Va- ticano, na sala Stanza della Segnatura 1503-13, Raphael Sanzio usou a forma da sala e as divisões do teto como base para o layout de suas pinturas, aceitando-as como limitações, em vez de tentar disfarçá-las. As duas aberturas, a janela e a porta, são usadas como parte do projeto geral. A janela https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0b/Perugino_Keys.jpg 185 é usada como referência para o esquema de pers- pectiva, a porta como suporte para uma arcada pesada que, por sua vez, suporta a encosta íngreme onde as Virtudes são retratadas. Raphael introduz dois pontos de fuga adicionais em uma composição de perspectiva de um ponto. Ambos os novos pontos de fuga caem na linha do horizonte. Raphael expressou a filosofia, na obra A escola de Atenas (Figura 74), como tema para Stanza della Segnatura concluída em 1511. Ele mostra intelecto humano divinamente inspirado em quatro esferas: teologia, poesia, filosofia e lei. O uso da perspectiva linear por Raphael não era apenas para representar uma cena realista. Inteli- gentemente, ele posicionou as duas figuras mais importantes dessa cena no ponto de fuga, um ca- minho que nossos olhos instintivamente seguem. Rafael usa a perspectiva linear com o propósito de uma cena realista e promove a importância de Platão e Aristóteles, dos quais as duas filosofias opostas são representadas pelo afresco. 186 Figura 74: Raphael Sanzio. Escola de Atenas, afresco no Vaticano. 1509. Fonte: Domínio público/Wikipedia� O domínio da perspectiva também permite a re- presentação de pontos de vista únicos, incluindo a ilusão de ver uma cena de baixo, como ilustrado pelas pinturas de Ticiano Vecellio em 1540, que são guardadas na igreja de Santa Maria della Salute em Veneza. A pintura é caracterizada pelo movimento em espiral das figuras, a pose contraposta e as fortes diagonais de interseção. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Escola_de_atenas_-_vaticano.jpg187 Figura 75: Ticiano Vecellio. O Sacrifício de Isaac. 1543. Óleo sobre tela. 328 x 285 cm. Fonte: Domínio público/Wikipedia� Na pintura “O retrato de Arnolfini”, realizada pelo pintor holandês Jan Van Eyck em 1434 (Figura 76), quando observamos por cima dos ombros do casal para o espaço real refletido pelo espelho, somos capazes de ver a fonte dessa luz: uma segunda janela situada naquele espaço real. As duas jane- https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Titian_-_Sacrifice_of_Isaac_-_WGA22780.jpg 188 las funcionam como as partes contíguas de uma dobradiça, mantendo juntas as dimensões real e virtual. Ao reproduzir as informações complexas contidas nos padrões de interferência criados no local dos espelhos, experimentamos a cena como um volume de espaço, oferecendo-nos perspectivas múltiplas e muitas vezes inesperadas. A composição da imagem em três dimensões é cercada pela parede oposta e pelas paredes laterais convergentes da sala, mas a força dire- cional óptica mais surpreendente da imagem é o espelho convexo que leva o olho do observador de volta ao ponto exato em que Van Eyck esta- va de pé ao observar a cena. Este dispositivo sutil, quase chegando a um truque, dá um claro acento a todo o foco da composição no espaço, o fundo é colocado em contato imediato com o primeiro plano. Ele organizou os planos virtual e real do espaço que compõem essa composição, de modo que essas fases e amplitudes possam ser reconstruídas por meio das conjecturas dos espectadores. Por exemplo, embora pareça haver apenas um espelho na pintura, uma inspeção mais detalhada revela que esse único espelho tem uma dimensão pintada e “subdesenvolvida” (o que os hológrafos chamariam de dimensão real e virtual). O primeiro (ou “pintado”) espelho encontra-se no plano da superfície da pintura (seu plano material). 189 Se esse espelho estivesse estritamente confinado ao plano da superfície da pintura, refletiria apenas o que estava na frente da pintura e não o que está por trás das duas figuras, a dimensão virtual. As leis da perspectiva exigem que os espectadores localizem esse espelho ao longo da parede de fun- do da sala, uma parede que constitui um segundo plano projetivo. Este segundo espelho empresta uma qualidade envolvida ao retrato. O plano da superfície da pintura não apenas nos permite reconstruir a dimensão virtual do retrato, mas também contém as informações necessárias para reconstruir uma dimensão real projetando- se a partir do painel. Descrevendo o interior da sala como sendo “construído de acordo com a perspectiva centralizada” a recessão da perspec- tiva não termina na parede traseira, como ocorre em outros lugares, mas continua no espaço em miniatura refletido no espelho. Esse espaço iso- morfo “miniatura” representa um mapeamento ponto-a-ponto dos objetos e figuras nas dimensões real e virtual da pintura. A análise matemática de perspectiva descreve a tendência das figuras de se projetar do espaço da imagem, o efeito de uma tremenda profundidade em um espaço estreito e a compactação do fundo. 190 Figura 76: Jan Van Eyck. O Retrato de Arnolfini.1434. Óleo sobre tela 82 x 59.5cm. Fonte: Domínio Público/Wikipedia (imagem 1; imagem 2). Durante a Renascença, os pintores abraçaram do classicismo a simplicidade, o equilíbrio, a clareza e o realismo físico. O início da Renascença liderado em Florença foi o período formativo dessa abor- dagem. Em outras palavras, foram os primeiros artistas da Renascença que inicialmente desen- volveram e refinaram técnicas de classicismo e realismo físico. Na imaginação popular, o Renascimento é sobre artes visuais. De fato, as mudanças técnicas, sim- bólicas e visuais na arte visual entre a alta idade média e a Renascença são espetaculares, para dizer o mínimo. Há quatro desenvolvimentos distintos no caráter visual da pintura que são tradicional- mente entendidos como a revolução da arte na https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jan_van_Eyck_001.jpg https://commons.wikimedia.org/wiki/File:The_Arnolfini_Portrait,_d%C3%A9tail.jpg 191 Renascença: 1.) o desenvolvimento da perspectiva linear para dar a ilusão de três dimensões numa superfície bidimensional; 2. o desenvolvimento do chiaroscuro, ou pintura “claro-escuro”, que era o uso de pigmentos claros e escuros em estreita proximidade para dar alto contraste às bordas e superfícies de uma pintura; 3) o desenvolvimento de modelos matemáticos de proporção para cor- responder exatamente às proporções de um objeto com as proporções relativas de sua representação; 4) o desenvolvimento de uma linguagem pictórica altamente simbólica, muito baseada na filosofia neoplatônica. A perspectiva linear foi revolucionária porque criou uma ilusão de espaço a partir de um único ponto de vista fixo que formou uma parte fundamental do pensamento renascentista. O Renascimento logo surgiu com a comparação de uma pintura com uma janela, apontando para a capacidade do pintor de criar uma ilusão perfeita com a ajuda da perspectiva de uma realidade externa, como se a superfície da imagem fosse um painel de vidro. A perspectiva atmosférica é quando, ao tentar desenhar cenas naturais como paisagem, paisagem marítima, montanhas ou cenários de florestas, é difícil encontrar REFLITA 192 uma linha reta para mostrar a profundidade tridimen- sional. Felizmente, existem outras técnicas que podem ser empregadas para enganar o espectador e perceber a profundidade da cena. Às vezes, essas são chamadas de perspectivas de ponto zero (0). Você pode implicar em perspectiva pelo tamanho relativo dos objetos, camadas de primeiro plano, meio-termo e elementos de fundo, mudando o foco pela nitidez ou suavização de detalhes e iluminando ou escurecendo elementos à medida que a atmosfera muda a qualidade de ver coisas à distância. Se você puder combinar perspectiva linear com perspec- tiva natural, você pode fazer um desenho convincente que facilmente permite ao observador ser atraído para sua criação. Figura 77: Leonardo Da Vinci. Detalhe da pintura, Virgem das Rochas. 1491-1508. Óleo sobre tela. Fonte: Domínio Público/Wikipedia� https://pt.wikipedia.org/wiki/Virgem_das_Rochas#/media/Ficheiro:Leonardo_da_Vinci_Virgin_of_the_Rocks_(National_Gallery_London).jpg 193 Na pintura de Da Vinci (Figura 77), a perspectiva linear é criada pela ilusão de profundidade da pintura, por meio de um contraste entre as rochas negras pontiagudas na gruta e os perfis nebulosos dos topos das montanhas à distância é um feito não negligenciável, dado o intervalo tonal estreito do fundo monocromático. 194 PERSPECTIVA E DIMENSÕES VISUAIS: RELAÇÕES COM O MOVIMENTO DO SURREALISMO O movimento de arte surrealista começou na década de 1920 e permanece popular até os dias de hoje. Ao contrário da arte religiosa da Renascença, as pinturas sobrenaturais surrealistas não contam uma história narrativa única. Em vez disso, as imagens surrealistas são muitas vezes misteriosas, confusas e abertas à interpretação, assim como os sonhos. Usando uma perspectiva e criando um senso de espaço realista tridimensional, esses artistas atra- em o espectador para seus mundos imaginários. Em 1931, o artista espanhol Salvador Dali, criou uma de suas obras mais famosa chamada “A Per- sistência da Memória” (Figura 78), comunicando a metáfora simbólica de que o tempo não é rígido ou determinista. Imagens no primeiro plano do trabalho retratam relógios derretidos, formigas e moscas devorando relógios, a face do tempo envolta na areia, lentamente desaparecendo nas sombras. A representação é de natureza intencional. Dali retrata os relógios suaves contra uma linha rígida de perspectiva, dando a percepção de que o tempo não é constante ou definido, que é apenas uma criação do momento e nossa interpretação 195 dele. A linha de perspectiva leva o olho ao fundo gelado da pintura que é banhada pela luz do sol e contém representações de uma subida íngreme. Esses símbolospermanecem contracionistas em sua representação de tempo e espaço, no sentido de que a mensagem comunicada é entendida de maneira diferente pela estrutura cultural e percep- tual de cada indivíduo. O fundo é a ideia de que há luz à distância, que o futuro está se desfazendo e continuamos subindo essas colinas a cada dia de nossas vidas, mas atualmente permanecemos nas sombras de nossa percepção construída do tempo que está derretendo nos momentos ao nosso redor. Figura 78: Salvador Dalí. A Persistência da Memória. 1931. Óleo sobre tela. 24 cm x 33 cm. Fonte: Wikipedia� https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Persist%C3%AAncia_da_Mem%C3%B3ria#/media/Ficheiro:A_Persist%C3%AAncia_da_Mem%C3%B3ria.jpg 196 A contribuição significativa de Dali para o estudo do design gráfico se dá em dois aspectos. O primeiro é que Dali influenciou os designers a trazer um nível de profundidade para uma superfície bidimensional que não era usada anteriormente na arte. O segun- do é sua abordagem naturalista à simultaneidade. Ao afastar-se da maneira psicológica e científica do trabalho de Dali para a abordagem estilística, mergulhamos no mundo da coexistência. Em qua- se todo o seu trabalho, era típico haver múltiplos contextos e perspectivas, múltiplos personagens e múltiplas imagens que podem ser interpretadas ao mesmo tempo. A ideia está fortemente enraizada na interpretação de Dali da psique, segundo a qual, dependendo da nossa compreensão e perspectiva, extrairemos o que é a realidade, quando existem duas interpretações para a mesma representação. O conceito tem suas origens fortemente no período surrealista, e ainda é muito usado hoje em dia. Sobre o que parece ser uma nota completamente não relacionada, mas é o calcanhar profundo no mesmo contexto seria o logotipo no design de hoje, por exemplo. A ideia de simultaneidade se mostra em marketing, onde você vê nas estratégias subcons- cientes de hoje, como o logotipo da FedEx, com a imagem simultânea de uma seta e a tipografia do E e do x. Esta estratégia é usada como uma metáfora e um método em muitas áreas do design gráfico hoje, 197 onde as imagens se escondem no espaço negativo, sejam subconscientes ou ostensivamente óbvias, elas se baseiam nos maneirismos do conceito sur- realista de simultaneidade de Dali e também podem ser discutidos, ou a abordagem construcionista da representação em códigos culturais ou a colocação intencional de símbolos por um artista. Outro pintor do movimento surrealista, o artista belga René Magritte, criou em suas representações um desassossego das relações de senso comum entre objetos, imagens e palavras. Sua obra “A condição humana”, de 1933, por exemplo, retrata uma pintura que cobre exatamente uma paisagem “real” do lado de fora de uma janela, levantando assim questões sobre a “localização” da percepção e do pensamento. (Figura 79). Mas, o uso misterioso de perspectiva de Magritte e suas representações de espaços que têm profundidade ambígua, por exemplo, exemplifi- ca como, ao negar e afirmar a opacidade do plano pictórico, a perspectiva transforma a pintura em um objeto transicional que está tanto “lá” quanto “não” simultaneamente. Muitas das obras do pin- tor, sua série de “janelas” em particular, sugerem aproximar-se da própria perspectiva Albertiana como uma questão de relação de objetos, a busca simultânea de autonomia e segurança ontológica através da manipulação de objetos. Uma compre- ensão de como os ambíguos espaços de Magritte 198 sugerem segurança e suas representações de es- paços abertos pode ajudar a vincular sua obra não apenas às tradições da perspectiva renascentista e seus críticos modernistas, mas também à estética do sublime e sua iconografia de colossal, e nature- za indiferente. A sublimação pode ser interpretada psicanaliticamente como nostalgia da escala da experiência infantil para o mundo visto como uma enorme sala na qual pequenos objetos assumem proporções físicas e simbólicas monumentais. Figura 79: René Magritte. A condição humana. 1933. Óleo sobre tela. 100x81cm. Fonte: www.renemagritte.org� https://www.renemagritte.org/the-human-condition.jsp 199 A pintura “Mistério e Melancolia de uma Rua”, é uma das imagens do pintor italiano Giorgio de Chirico, os espaços públicos desertos apresentados em formas geométricas simples. A pintura representa um encontro entre duas figuras: uma menina pe- quena correndo com um arco e uma estátua que está presente na pintura apenas através de sua sombra. A garota está se movendo em direção à fonte de luz brilhante vindo de trás do prédio à direita e iluminando intensamente as arcadas à esquerda. O corredor amarelo brilhante esticado até o horizonte separa duas zonas: luz e escuridão. Se você olhar atentamente para os dois edifícios nitidamente contrastados, você notará que De Chirico usou intencionalmente dois pontos de fuga contraditórios (um ponto no plano da imagem que é a interseção das projeções (ou desenhos) de um conjunto de linhas paralelas), destruindo assim qualquer semelhança com a realidade. Todas as linhas do edifício totalmente iluminado à esquerda se encontram ligeiramente acima do horizonte; os alinhamentos do prédio escuro se encontram em um ponto onde o teto do caminhão toca o amarelo do chão. Um último detalhe sobre a perspectiva é uma representação isométrica de um caminhão, ou vagão de carga, misteriosamente iluminado por uma luz vinda em nenhum lugar. Essa justaposição de fontes de luz e perspectivas permitiu que Chirico criasse um universo misterioso e impossível, onde 200 os espaços nunca convergiriam e a garota nunca alcançaria a estátua. O predecessor do movimento surrealista, Giorgio de Chirico intencionalmente subverteu espaços fictícios, tipicamente quadrados de cidades cerca- dos por arcadas ou paredes de tijolos, para criar uma experiência enigmática e refutar a realidade. O artista interessou-se pela noção do eterno retorno e reencenação do mito influenciado pelos filósofos alemães, particularmente Friedrich Nietzsche. Figura 80: Giorgio de Chirico. Mistério e Melancolia de uma Rua 1914. Óleo sobre tela. 85 x 69 cm. Fonte: Domínio público/Wikiart� https://www.wikiart.org/en/giorgio-de-chirico/mystery-and-melancholy-of-a-street-1914 201 O pintor M.C. Escher usa a perspectiva de três pontos para a litografia “Relatividade” em 1953 (Figura 81). Isso não é muito incomum. Quando você tem três pontos de fuga, eles formam um triângulo. Normalmente, quando usamos a pers- pectiva de três pontos, dois dos pontos de fuga estão no horizonte e este o terceiro está acima do observador. Na relatividade, Escher jogou com esse conceito. Como ele montou os pontos de fuga como um triângulo equilátero, isso significava que ele poderia construir uma estrutura em perspectiva que não parecesse distorcida se você mudasse o horizonte de um lado do triângulo para o outro. Escher utiliza dos efeitos dessa luz misteriosa para criar uma bela curva de contraste nítido no centro superior da imagem. Nossos olhos podem seguir esse arco em qualquer direção e acabamos viajando ao redor da imagem em muitas rotações. Essa curva de contraste, porém, é fundamental para criar uma fonte de luz invisível que parece vir de alguma outra dimensão, a partir desse conceito de luz podemos olhar para o sombreamento que Escher usou para criar formas que parecem sólidas. Ele usa muita hachura e empenamento tanto nas figuras quanto nas estruturas. Em quase todos os casos, podemos ver que a direção dessas linhas de sombreamento funciona como um mapa de contorno que indica uma forma 3D. 202 Escher é um mestre do engano visual, nos descon- certando ao apresentar imagens impossíveis, que realmente parecem possíveis. Na litografia Relativi- dade, usando cores monótonas principalmente de preto e branco, com variações tonais de cinza, as diferentes intensidades dos tons usados realmente trazem a sensação de profundidade, o foco central,que é cercado pela formação triangular das escadas estranhamente posicionadas, é de um tom mais claro em comparação com os arredores. Relativi- dade desafia a noção de ter uma perspectiva única, unindo muitos tipos de perspectivas, fazendo os espectadores questionarem o que é reto e o que não é. Faz uso de espaços positivos e negativos para criar uma sensação de profundidade, trazen- do-nos através de uma imagem aparentemente impossível e desconhecida. Há mais ação e caos, pois a cena toda está ocorrendo em um mundo de cabeça para baixo, desafiando a noção de gravi- dade. Empregando o uso de diagonais para criar a noção de infinito, Escher coloca personagens que estão contribuindo para o sentido de movi- mento e vivacidade nas obras monocromáticas. Os personagens perderam sua identidade pessoal e parecem com os outros personagens, criando uma sensação de uniformidade. Na Relatividade, as formas abstratas e simplificadas humanas são sem rosto, despidas de sua identidade pessoal para tornarem-se sem emoção, pessoas aleatórias são 203 feitas para viver em um mundo impossível. Cada personagem, embora semelhante ao outro, está envolvido em uma atividade específica. Eles po- dem estar subindo as escadas, olhando a sacada, carregando objetos, interagindo entre si. Isso dá aos clones supostamente idênticos uma identidade única, uma vez que são diferentes uns dos outros, tornando cada personagem especial e essencial para a vitalidade do trabalho. Escher joga com a colocação de formas tridimensionais, as formas na Relatividade são retratadas de maneira mais simplificada e abstrata, de modo a evidenciar o uso absurdo da perspectiva presente na obra. Figura 81: M.C. Escher. Relatividade. 1953. Litografia. 27.7 × 29.2 cm. Fonte: Wikiart� https://www.wikiart.org/en/m-c-escher/relativity-lattice 204 Os surrealistas procuraram canalizar o incons- ciente como um meio para desbloquear o poder da imaginação. Desprezando o racionalismo e o realismo literário, e poderosamente influenciado pela psicanálise, os surrealistas acreditavam que a mente racional reprimia o poder da imaginação, sobrecarregando-a com tabus. Influenciados tam- bém por Karl Marx, eles esperavam que a psique tivesse o poder de revelar as contradições do mundo e estimular a revolução. Sua ênfase no poder da imaginação pessoal os coloca na tradição do Ro- mantismo, mas, ao contrário de seus antepassados, eles acreditavam que as revelações podiam ser encontradas na rua e na vida cotidiana. O impulso surrealista de penetrar na mente inconsciente e seus interesses no mito e no primitivismo formaram muitos movimentos posteriores, e o estilo continua sendo influente hoje. Os surrealistas usavam a arte como um alívio de situações políticas violentas e para lidar com o mal-estar que sentiam sobre as incertezas do mundo. Empregando fantasias e imagens de sonhos, os artistas geraram trabalhos criativos em uma variedade de mídias que expuse- ram suas mentes internas de formas excêntricas e simbólicas, revelando ansiedades e tratando-as analiticamente através de meios visuais. Havia dois estilos ou métodos que distinguiam a pintura surrealista. Artistas como Salvador Dalí e 205 Rene Magritte pintaram em um estilo hiper-realista em que os objetos foram retratados em detalhes nítidos e com a ilusão de tridimensionalidade, en- fatizando sua qualidade de sonho. A cor nesses trabalhos era muitas vezes saturada ou mono- cromáticas, ambas as escolhas transmitindo um estado de sonho. O site design obsever, você pode visualizar um dicionário do surrealismo com imagem de design gráfica realizados no período do movimento artístico. h t t p s : / / s p e c k y b o y . c o m / surreal-world-an-outstanding-collection-of-surreal-art/ O vídeo apresenta as principais obras realizadas pelo pintor Salvador Dali. https://www.youtube.com/watch?v=dUamdXDFP8k Acesse o site e conheça as obras do artista René Ma- gritte e sua influencia para o design gráfico. https://www.wikiart.org/pt/rene-magritte Conheça a principais obras do artista Giorgio de Chirico. https://www.wikiart.org/en/giorgio-de-chirico/ mystery-and-melancholy-of-a-street-1914 FIQUE ATENTO https://speckyboy.com/surreal-world-an-outstanding-collection-of-surreal-art/ https://speckyboy.com/surreal-world-an-outstanding-collection-of-surreal-art/ https://www.youtube.com/watch?v=dUamdXDFP8k https://www.wikiart.org/pt/rene-magritte https://www.wikiart.org/en/giorgio-de-chirico/mystery-and-melancholy-of-a-street-1914 https://www.wikiart.org/en/giorgio-de-chirico/mystery-and-melancholy-of-a-street-1914 206 Conheça a principais obras do artista M.C. Escher. http://www.mcescher.com/ Relacionado ao cinema, o surrealista é caracterizado por justaposições, a rejeição da psicologia dramática e o uso frequente de imagens chocantes. O vídeo apresenta os principais títulos de cinema do movimento do surrealismo incluindo títulos contem- porâneos com obras relacionadas com a estética do surrealismo. https://www.youtube.com/watch?v=LBLvGOuDCls http://www.mcescher.com/ https://www.youtube.com/watch?v=LBLvGOuDCls PERSPECTIVA E DIMENSÕES VISUAIS: RELAÇÕES COM O MOVIMENTO DO CUBISMO Por volta de 1907, dois artistas que viviam em Paris chamados Pablo Picasso e Georges Braque desen- volveram um novo estilo de pintura revolucionário que transformou objetos, paisagens e pessoas cotidianas em formas geométricas. Desde a Renascença, no século XV, os artistas europeus tinham como objetivo criar a ilusão do espaço tridimensional em seus desenhos e pinturas. Picasso e Braque têm como objetivo mostrar as coisas como elas realmente são, mas não apenas para mostrar como elas são. Eles achavam que podiam dar ao espectador uma compreensão mais precisa de um objeto, paisagem ou pessoa, mos- trando-o de diferentes ângulos ou pontos de vista, de modo que usavam formas geométricas planas para representar os diferentes lados e ângulos dos objetos. Ao fazer isso, eles poderiam sugerir qualidades e estruturas tridimensionais sem usar técnicas como perspectivas e sombreamento. Essa quebra do mundo real em formas geométri- cas planas também enfatizava a planicidade bidi- mensional da tela. Isso se adequava à crença dos cubistas de que o objetivo da pintura não é fingir 208 que o espectador está olhando através de uma janela, mas fazer o observador ciente da própria superfície da imagem. Os cubistas viam as limitações da perspectiva como um obstáculo ao progresso. O fato de uma imagem desenhada em perspectiva poder funcio- nar apenas de um ponto de vista restringia suas opções. Como a imagem foi tirada de uma posição fixa, o resultado foi congelado, como um instantâ- neo, mas os cubistas queriam fazer imagens que ultrapassassem a geometria rígida da perspectiva. Eles queriam introduzir a ideia de ‘relatividade’ como o artista percebia e selecionava elementos, fundindo suas observações e memórias na ima- gem. Para fazer isso, os cubistas examinaram a maneira como vemos. Quando você olha para um objeto, seu olho o examina, parando para registrar em um determinado detalhe antes de passar para o próximo ponto de interesse e assim por diante. Você também pode mudar seu ponto de vista em relação ao objeto, permitindo que você olhe para ele de cima, de baixo ou de lado. Portanto, os cubistas propuseram que a visão de um objeto é a soma de muitas visões diferentes e a memória de um objeto não é construída de um ângulo, como em perspectiva, mas de muitos ângulos selecionados por sua visão e movimento. 209 Observe a pintura de Georges Braque, “Um copo sobre uma mesa” (Figura 82). Você consegue identificar as técnicas que ele usou para enfatizar o nivelamento da imagem, mas, ao mesmo tempo, faz os objetos parecerem sólidos? Figura 82: Georges Braque. Vidro sobre a mesa. 1909. Óleo sobre tela. 34.9 x 38.7 cm. Fonte: Domínio público/Wikiart O estilo do cubismo sintético começou quando os artistas começaram a adicionar texturase padrões às suas pinturas, experimentando colagem usando jornal impresso e papel padronizado. O estilo do cubismo analítico estava prestes a quebrar um ob- https://uploads1.wikiart.org/images/georges-braque/glass-on-a-table.jpg 210 jeto (como uma garrafa), ponto de vista por ponto de vista, em uma imagem fragmentária; enquanto o cubismo sintético tratava de achatar a imagem e varrer os últimos vestígios de alusão ao espaço tridimensional. O espaço e o volume cubistas tendem a ser des- locados e remontados na superfície da imagem. Os planos de fundo são trazidos para o plano da imagem e unificados com o primeiro plano. A recessão é sugerida, em vez de representada, por contrastes tonais sutis que criam um efeito de planos fragmentados facetados juntos. A mo- delagem em luz e sombra é, portanto, substituída por vibrações de luz que evocam uma sensação de volume e massa sem recorrer ao ilusionismo. O cubismo analítico é um dos dois ramos principais do movimento artístico do cubismo e foi desen- volvido entre 1908 e 1912. Em contraste com o cubismo sintético, os cubistas analíticos analisaram formas naturais e reduziram as formas em partes geométricas básicas no quadro bidimensional. A cor era quase inexistente, exceto pelo uso de um esquema monocromático que frequentemente incluía cinza, azul e ocre. Em vez de uma ênfase na cor, os cubistas analíticos se concentravam em formas como o cilindro, a esfera e o cone para representar o mundo natural. Durante este 211 movimento, os trabalhos produzidos por Picasso e Braque compartilhavam semelhanças estilísticas. Tanto Pablo Picasso quanto Georges Braque foram em direção à abstração, deixando apenas sinais suficientes do mundo real para fornecer uma tensão entre a realidade fora da pintura e as complicadas meditações na linguagem visual dentro do quadro. Uma pintura cubista típica retrata pessoas reais, lugares ou objetos, mas não de um ponto de vista fixo. Em vez disso, ele mostrará muitas partes do assunto de uma só vez, vistas de diferentes ângulos e reconstruídas em uma composição de planos, formas e cores. Toda a ideia de espaço é reconfigurada: a frente, as costas e os lados do sujeito tornam-se elementos intercambiáveis no projeto do trabalho. A técnica de facetagem originou-se de Georges Braque, foi a sua maneira de descrever um objeto natural. Picasso não fazia muito com objetos naturais, mas usava a geome- tria das pinturas facetadas de Braque para criar um estilo que era essencialmente abstrato, arte abstrata quase pura. 212 Figura 83: Pablo Picasso. As senhoritas de Avignon. 1907. Óleo sobre tela. 243,9 × 233,7cm. Fonte: Wikipedia� Picasso abandonou a ilusão renascentista da tridimensionalidade, apresentando, em vez disso, um plano de quadros radicalmente achatado, em fragmentos geométricos. Por exemplo, na pintura “As senhoritas de Avignon” (Figura 84), o corpo da mulher em pé no centro é composto de ângulos e bordas afiadas. Tanto o pano enrolado na parte inferior do corpo quanto o próprio corpo recebem a https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:579px-Les_Demoiselles_d%27Avignon.jpg 213 mesma atenção que o espaço negativo à sua volta, como se todos estivessem em primeiro plano e to- dos fossem igualmente importantes. Retrata uma perspectiva aparentemente distorcida e de alguma forma perturbadora, apresenta rostos femininos exi- bindo simultaneamente uma visão lateral e frontal. Figura 84: Juan Gris. Ainda vida com a janela aberta, Rua Ravignan. 1915. Óleo sobre tela. 115.9 x 88.9 cm. Fonte: Domínio público/Wikiart� https://www.wikiart.org/en/juan-gris/still-life-before-an-open-window-place-ravignan-1915 214 O trabalho de Juan Gris é frequentemente consi- derado o mais próximo de Picasso e Braque, com quem Gris estava em contato desde 1911. Em 1914, Gris desenvolveu técnicas de colagem nas quais colava elementos de jornais e revistas em cenas abstratas desconstruídas. Suas obras às vezes eram colagens reais, mas também podiam ser pinturas que se assemelhavam a colagens, como na pintura “Ainda vida com a janela aberta” (Figura 84), neste trabalho Gris combinou vistas interiores e exteriores através de elementos interli- gados e mudanças sutis na cor, incluindo um azul intenso que difunde o trabalho e, como o Cubismo Sintético, reintroduz a cor ao estilo cubista. Uma natureza morta em primeiro plano apresenta ele- mentos tradicionais, como um livro, e uma garrafa de vinho sobre uma mesa virada para cima. Esses objetos são refratados através de feixes de luz colorida da janela aberta que trazem as casas e árvores vizinhas para a composição, a luz elétrica interna contrasta com a cena iluminada pela lua do lado de fora da janela. As composições de Gris eram mais calculistas que as de outros cubistas. Cada elemento da composição semelhante a uma grade foi refinado para produzir um arranjo de intertravamento sem detalhes desnecessários. Dentro da grade, Gris equilibra diferentes áreas do trabalho: claro a escuro, monocromático para cor e luz dentro da sala e para luar fora. O espectador 215 tem uma noção da natureza morta que existe em seu entorno. O cubismo deixou um legado duradouro no mundo da arte, alterando as expectativas de representação na arte. Trouxe abstração para o mundo da arte e inaugurou a era da arte moderna. Mas como o cubismo se filtrou no mundo do design? A cor estética, plana ou monocromática do movimento, os ângulos rígidos, as formas geométricas e a perspectiva fraturada aparecem em quase todas as áreas do mundo do design, desde a embalagem até a ilustração e a arquitetura. O efeito estético é ousado, até um pouco desorientador. O uso de muitos ângulos e facetas como um estilo de de- sign, como no cubismo analítico, pode dar uma aparência sintética ou mesmo cristalina. Projetar com formas achatadas, rígidas e sobrepostas, como no Cubismo Sintético, pode criar uma aparência moderna e gráfica. O design cubista aparece frequentemente em aplicativos de ilustração e design gráfico, como logotipos, pôsteres e ilustrações de mídia. Porque o cubismo é emblemático do “modernismo clás- sico”, parece aos nossos olhos retro e moderno. Seu visual é arrojado e atraente, tanto dimensional quanto plano. A composição geométrica comum no Cubismo se presta bem à recriação em pro- gramas de design como o Adobe Photoshop e o 216 Illustrator. Até mesmo arquitetos, que trabalham em três dimensões, incorporam estilos cubistas. O visual arrojado da cor monocromática, bordas duras, planos angulados e fachadas dimensionais é um elemento básico do projeto arquitetônico moderno e é visto até mesmo em estruturas co- tidianas, como prédios comerciais e residências particulares. Finalmente, web design e gráficos geralmente seguem uma abordagem cubista. As informações na web são apresentadas de forma não linear como um conjunto simultâneo de links e janelas. Apresentar informação visual de muitos ângulos simultaneamente é verdadeiramente um conceito cubista. No site design culture, apresenta uma serie de imagens de design gráfico com aplicação dos conceitos da arte cubismo para arte digital. http://designculture.com.br/artes-inspiradas-no-cubismo Conheça um pouco mais as obras dos artistas, Pablo Picasso na pagina da internet https://www.pablopicasso.org/picasso-paintings.jsp O site Georges Braque apresenta uma coleção das obras realizadas pelo artista no período do movimento REFLITA http://designculture.com.br/artes-inspiradas-no-cubismo https://www.pablopicasso.org/picasso-paintings.jsp 217 cubismo e obras que influenciaram o design gráfico contemporâneo. http://www.georgesbraque.org/georges-braque-pain- tings.jsp Conheça um pouco mais as obras dos artistas, Juan Gris na pagina da internet. http://www.juangris.org/the-complete-works.html http://www.georgesbraque.org/georges-braque-paintings.jsp http://www.georgesbraque.org/georges-braque-paintings.jsp http://www.juangris.org/the-complete-works.htmlReferências Bibliográficas & Consultadas ABBAGNANO, Nicola. 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