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AUTISMO - DA ESTRUTURA AO OBJETO

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AUTISMO: DA ESTRUTURA AO OBJETO
Victor de Freitas Rocha
O presente texto pretende, dentro d as contribuiçõ es da psicologia e d a psicanálise, discutir um
dos diagnósticos mais polêmicos estabelecido hoje, o autismo. Pretende-se traçar algumas
justificativas baseadas nessas teorias, desde seu surgimento passando por suas questões
clínicas, até chegar nas formas mais usuais p ara traçar um tr atamento que estimule questões
do desenvolvimento pulsional do diagnosticados com autismo, bem como os demais
transtornos associados esse distúrbio. Metodologicamente, o desenvolvimento do texto passa
pela identificação e do q uadro do autismo, ou seja, quando e por qu em o termo autismo foi
usado pela primeira vez e o avanço clínico a partir daí. Posteriormente aborda-se questões
relativas à estrutura do autismo e, posteriormente, o texto finaliza -se na construção das
contribuições psicanalíticas para se p ensar o tra tamento e desenvolvimento da pessoa com
autismo.
Palavras chave: Autismo; Socialização; Clínica; Estrutura.
INTRODUÇÃO
O quadro que caracteriza o transtorno autista tem hoje causas desconhecidas, em termos
etiológicos, embora haja estudos que confirmem a influência genética, e isso tem enorme
importância identificação na manifestação do autismo. Sendo assim, refere- se a um transtorno
eminentemente complexo com sintomas comportamentais diferenciados.
[...] os Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD), que incluíam o
Autismo, Transtorno desintegrativo da Infância e as Síndromes de Asperger
e Rett foram absorvidos por um único diagnóstico, Transtornos do Espectro
Autista. A mudança refletiu a visão científica de que aqueles transtornos são
na verdade uma mesma condição com gradações em dois grupos de
sintomas: déficit na comunicação e interação social; padrão de
comportamentos, interesses e atividades restritos e repetitivos (ARAUJO;
NETO, 2014, p. 70).
O tratam ento pode ajudar, mas essa síndrom e não tem cura. O Transtorno do Espectro
Autista (TEA) expressa- se ainda nos primeiros meses de vida, advinda de causas etiológicas
desconhecidas, mas comprovado de que grande influência g enética. Trata -se então de
uma síndrome que se manifesta tão complexa e tão extensa (por isso espectro) q ue poderá

existir diagnóstico médic os cobrindo sintomas relativos ao comportament o diferentes. Sendo
assim, esse transtorno tem uma sintomatologi a incerta que pode dificultar um diagnóstico
precoce que ajude no manejo clínico (CUNHA, 2009, p.19).
No campo da psicanálise, afora as proposições biológicas, as questões do autismo
estariam ligadas também à formação psíquica do sujeito algo que não se desenvolveu ou s e
formou fora de uma estrutura esp erada para pens ar em algu ém psicologicamente saud ável -,
advindo daí variadas for mas de manifestação na inst ância do real. Assim, as três grades for ças
do aparelho psíquico, o ‘eu’ o ‘isso’ e o ‘supereu’, surgiram com algum desvio.
Nessa questão da formação do sujeito pode ser estabelecida, nas teorias sociais, um
paralelo no sentido falta do “eu” ser algo que gen eraliza e interrompe as f unções teleológicas
1
do ser. A formação da estrutura do sujeito em forma do “eu” pode ser usada como a razão e
finalidades de socialização impressas de modo não instintivos. Como tal, essa teleologia
também pode assumir aqui um trabalho como algo consequente da formação do eu,
embora inconsciente que vai levar o ser a se socializar, reciprocamente,
Com efeito, a sociabilidade é i nerente a t odas as atividades humanas,
expressando-se no fato ontológico de que o homem pode constituir-se
com tal em relação com outros homens e consequência dessa relação; ela
significa reciprocidade social, reconhecimento mútuo de seres da mesma
espécie que partilham uma mesma atividade e dependem uns dos outros para
viver (Grifos do autor) (BARROCO, 2009, p. 21-22).
Então a falta d essa r eciprocidade lavaria ou impediria o sujeito à sociali zação . Sendo
assim, o autista não co nsegue ou não tem for mado (naturalmente) esse laço social de
identificação dos outros seres.
Hoje traços mais for mais e bem definidos para o d iagnóstico do autismo. Embora se
fale em Espectro Autista, as características comuns das diversas síndromes então incorporadas
são identificadas em grau de severidade, mas se remetendo a um quadro.
Assim, o estudo sobre o autismo, assim como muitos outros, sofreu uma evolução
histórica
2
que mostrou e sofisticou o trato com essa condição clínica.
A IDENTIFICAÇÃO: UM POUCO DE HISTÓRIA CLÍNICA;
1
Embo ra tenh a seu conceito aprox imado com a categoria trabal h o e suas fun ções on tológicas de socializaçã o , o
termo teleologia p ode (e está sendo usado aqui) co mo um a função d e cr iação de finalidade (f ormação do “eu”,
ou o mediador da realidade) do ser social em se socializar, mais ou menos estruturadas, depend endo do grau de
prejuízo d esencadeado pela falta funcio nal da pulsão.
2
Grand e parte do h istórico aqui descrito fo ram retir ados do site: https://autismo.institutop ensi.org.br/inform e -
se/sobre-o- autismo/historia -do-autismo/.

No início do século XX, mais precisamente em 1 908, o psiquiatra suíço Eugen Bleuler
utiliza a terminologia “autismo”
3
para compor a descrição de um grupo de sintomas que tinha
uma relação com à esquizofrenia
4
.
Chamamos Autismo ao desligamento da realidade combinado com a
predominância relativa ou absoluta da vida interior. Para os doentes o mundo
autístico é t ão ver dadeiro como o mundo real ainda que por vezes uma outra
realidade (Eugen Bleuler, 1911 Apud Durval, 2011, p7).
Dessa forma Bleuler identifica que no autismo um rompimento do ser com a
realidade e, por consequência, por parte dess e ser, a criação de uma realidade que seja
regida pelas formas (ou regras de sobrevivência s) do próprio individuo, sem considerar as
construções alheias.
Bleuler entende o mundo irreal do doente com esquizofrenia como um
mundo interno (autista) e a atitude do doente uma reti rada para esse seu
mundo interno, e relaciona este autismo com a perda do contacto com a
realidade exterior e com o evitamento e negação da mesma realidade exterior
(Durval,
2011, p7-8).
Com efeito, o autista (ou o então esquizofrênico) se recolhe ao seu mundo irreal (ou sua
realidade construída) qu e vão acarretar em perdas
5
(recuperáveis ou não), comprometendo
várias esferas da vida deste ser.
3
Analisando etimo logicamente a pala vra autismo , ela tem su as raízes “autos” que significa “por si próprio”, e
“ismo” que estabelece uma situação d e condição e tendência (Cunh a 2012, p. 20).
4
Na sua sem iologia básica os sintom as autist ico se assem elham à esquizo frenia (por isso o au tismo é,
inicialmente, co nsiderado um quadro clín ico dentro da estrutura psicó tica), pois
Chamo à Demência Precoce Esquizofr enia porque conformo pretendo demonstrar, a
cisão d as funções psíquicas mais diversas é uma das su as caracter ísticas mais
importantes. Por razões d e comod idade uso esta palavra n o singular, apesar deste
grupo inclu ir provavelmente diver sas doenças (Eugen Bleuler, 1911 Ap ud Durval,
2011, p7).
E h á d e se verificar que algumas caracter ísticas do autismo são assim identificad as, co mo uma r uptura nas
funções psíquicas q ue lev am a interp retar esse quadro clínico co mo um a psicose. No au tismo assim como e m
algumas esquizofren ias (mais ou men os sever as) as alterações da ling uagem e do pensamento são aco mpanhadas
de déficit co gnitivo maior.
5
Essas “perd as” então podem ser recup erais ou n ão depend endo de alg umas questões qu e vão d esde o
diagnóstico, ou seja quando os sintomas consider ados negativos iniciar am estabelecendo o p rognóstico, até a
forma como essas per das são trab alhadas, pois existe um défic it cognitivo , ou perd as psíquicas, q ue inf luenciam
na capacidad e e desenvolvimento.