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1 
NINHO DA SERPENTE 
SOSYETE VODOU DEKA 
 
 
MÓDULO 4 - Intermediário 
Curso Vodu 
 
AS SERPENTES DO VODU 
 
Houngan Alexandhros 
vodubrasil@hotmail.com 
 
 2 
ÍNDICE 
Apresentação da Aula – 3 
Nova Orleans, Um Novo Berço aos Deuses Serpentes – 4 
Li Grand Zombi, Damballah, Simbi, Blanc Dani – 10 
Altar de Li Grand Zombi – 14 
Filomena Lubana – 17 
Lidando com a devoradora de espíritos – 22 
Lidando com a face negra de Lubana – 23 
Uma das Evocações de Lubana, para pedir perdão – 24 
Evocação de Lubana para Pedir Proteção – 25 
Simbis, Dos Zemis Aos Nzambi A Mpungu, Cymbees E Basimbi – 26 
Simbi Andezo, A Serpente das Duas Águas – 29 
Ti Jean Petro ou Ti Jean Dantor – 35 
Magia das Profecias – 38 
Minokan de Cura de Li Grand Zombi – 39 
Grande Ritual de Li Grand Zombi – 41 
Damballah, a Serpente do Céu... – 46 
...Simbi, a Serpente do Riacho... – 48 
... E Um Dos Enigmas Dos Petwos – 49 
A Jornada de um Voduísta (parte IV) – 0 
Vèvè Para Se Desenhar Em Volta Do Buraco Cavado Para Li Grand Zombi – 56 
 
 
 
 
 
 
 3 
APRESENTAÇÃO DA AULA 
De acordo com os cristãos e sua bíblia, as serpentes estão ligadas ao Diabo, inclusive 
ela figurando entre uma das personagens mais importantes do Jardim do Éden. Graças 
a serpente do Éden, todo o pecado, desgraça, mentira e morte vieram ao mundo, tudo 
por causa do Fruto proibido dado à Eva e depois a Adão. Também há muitos ícones da 
Virgem Maria que a representam em pé no topo de um globo e pisando na cabeça de 
uma cobra (desde que seu filho Jesus conquistou o pecado, a morte e o Diabo). Ainda 
outras histórias discutem a “serpente em chamas” que atormentou os israelitas 
durante sua permanência no deserto e a proverbial criança ingrata que traz mais dor 
do que o dente de uma serpente. As histórias são conhecidas para todos no Ocidente, 
mas achei que não custaria lembrar. Na realidade, serpentes estão ligadas ao 
paganismo, e todas as religiões pagãs e politeístas tinham suas serpentes, boas e más. 
A ideia dos cristãos destruindo serpentes nos remete diretamente à ideia do 
cristianismo derrotando o paganismo. 
Entretanto, na África, as cobras foram vistas de forma muito diferente. A veneração da 
serpente foi encontrada em grande parte do continente africano. Um relatório de 
1705 mostra como uma tripulação inglesa que construiu terras no porto africano de 
Ouidá aprendeu isso da maneira mais difícil: um capitão inglês desembarcou alguns de 
seus homens e parte de sua carga e se estabeleceram ali, em pequenas casas. Dentro 
de uma delas, encontraram uma cobra escondida, que por medo a mataram 
imediatamente. Sem o menor escrúpulo, e sem saber da gravidade, consideraram ter 
feito um bom trabalho e a jogaram fora, ali mesmo na rua. Na manhã seguinte, muitos 
negros estavam ali olhando tristes para a serpente morta, e questionaram sobre quem 
teria cometido tamanho ato criminoso, e os ingleses respondendo a pergunta de quem 
tinha feito o fato, atribuíram orgulhosamente a honra a si mesmos. Essa afirmativa 
enfureceu tanto os nativos, que eles caíram com muito ódio sobre os ingleses, 
matando todos eles e queimando suas casas e bens. 
Os povos de língua Fon do Daomé honraram – e ainda honram – a grande serpente 
Ayida e Dã, que se estendiam através do céu como um arco-íris durante o dia e 
brilhava entre as estrelas como a Via Láctea à noite. Os Nagos têm seu Òsùmàrè, 
equivalente à Ayida. Os Tumbuka do centro do Malawi cultuavam a Píton 
Chikangombe, um deus serpente duplo. Os bantos da África central e meridional 
tinham Monyoha, a grande serpente de água que assegurava que os rios e lagos nunca 
secariam para aqueles que a honravam. E durante a Passagem do Meio (comércio 
negreiro) e os horrores da escravidão, essa veneração da cobra foi trazida ao Novo 
Mundo, inclusive Nova Orleans. 
 
Houngan Makout Alexandhros 
 
 4 
NOVA ORLEANS, UM NOVO BERÇO AOS DEUSES SERPENTES 
Um jornalista chamado Henry C. Castellanos descreveu um ritual Vodu que ele 
presenciou em Nova Orleans no ano de 1895 (Relato registrado pela WFP que pode ser 
encontrado nos livros Le Cult Vaudou e Quantum Leap Voodoo 2ª edição). 
“O Rei e a Rainha [sacerdotes Vodu] ocupam suas posições em uma extremidade da 
pequena sala, perto de uma espécie de altar todo branco, sobre o qual é colocada uma 
caixa onde há uma serpente aprisionada e onde os presentes podem vê-la, através das 
grades de madeira. Por segurança, tomam todos os cuidados para que nenhum 
estranho testemunhe o que está prestes a acontecer. Então a cerimônia começa com 
orações e adoração dedicadas à serpente ali presente, com palavras de ordem, 
promessas de fidelidade ao seu culto, e também de submissão aos seus conselhos... O 
Rei [Vodu] de repente pega a preciosa caixa, coloca-a no chão e senta a Rainha [Vodu] 
sobre a tampa. Assim que seu corpo tocou o receptáculo sagrado, ela foi possuída por 
uma fora estranha, tornando-se uma pitonisa. Toda a sua estrutura treme, todo o seu 
corpo está convulsionando, seus olhos ficam brancos e então ela deixa de ser uma 
simples mulher e se torna o oráculo. Assim, começa a pronunciar seus decretos através 
de seus lábios inspirados e secos. Para alguns, ela concede lisonja e promessas de 
sucesso, para outros ela proclama insultos amargos e maldições... Assim que o oráculo 
termina de responder a todas as perguntas propostas, um círculo é formado e o 
espírito sai de sua sacerdotisa e a serpente é colocada novamente no altar. Em 
seguida, cada um apresenta sua oferenda ao animal sagrado, cantam, agradecem e 
parecem mais felizes do que chegaram.” 
Ainda sob comentários da WFP, podemos ler nos livros citados o seguinte: As cobras 
tornaram-se parte integrante dos rituais de vodu em Nova Orleans e em todo o delta 
do rio Mississippi. Numerosos relatos excitantes descreviam como a chegada da 
serpente [animal ou manifestação espiritual] era o prelúdio de orgias selvagens ao som 
de atabaques, com muita libertinagem e uma mistura de raças nunca contada nos 
livros de histórias. Um relatório de 1894 no New York Times descreveu uma cerimônia 
que ocorreu nas margens da Baía de Polecat, em Mobile, Alabama, na qual: 
“... À medida que as batidas de um tambor e o toque do banjo se aceleram, um ar 
bacaniano toma conta do lugar, mudando o comportamento usualmente decoroso do 
negro. Um vigor humanamente desconhecido para a sociedade educada da época, se 
caracterizando por seus passos de dança e contorções corporais semelhantes aos 
movimentos de uma serpente. . . . As mulheres arrancam suas roupas e entram no que 
chamam de ritual. Elas parecem furiosas, estão quase nuas, gritando em voz alta com 
o resto das mulheres palavras ininteligíveis. Uma garota branca e nua agia como uma 
sacerdotisa Vodu, levada ao frenesi por danças e encantamentos que se seguiam ao 
sacrifício de uma galinha branca e outra negra. Uma serpente, treinada de sua parte, e 
tocada pela música, enrolou-se em torno dos membros da garota, seus movimentos 
 
 5 
são observados com alegria pelos devotos dançando ao redor, observando a posse 
como sendo uma das coisas mais mágicas no mundo. O pânico toma conta de todos 
quando a jovem moça começa ter um ataque epilético, rosnar como um animal. Alguns 
se ajoelhavam aos seus pés, outros se afastavam para sua segurança.” 
Em Nova Orleans, muitos praticantes de magia popular (rootworkers) mantinham uma 
ou mais cobras em suas casas. Isso servia para afirmar a sua credibilidade como 
mágicos poderosos. Eles explicavam isso citando a bíblia, mais especificamente Marcos 
16:18, em que se diz que aqueles que creem “pegarão serpentes”. Mas eles também 
usavam seus animais escamosos para colocar medo em seus desafetos. Como a 
maioria de seus vizinhos ficava aterrorizada com as cobras, sua indiferença em relação 
às serpentes poderia ser vista como um sinal de que eles fizeram de fato um pacto 
com o mal. Como os gatos negros das lendas debruxas Europeias, seus répteis eram 
vistos por estranhos como espíritos familiares disfarçados de animais. Isso ajudou a 
consolidar a reputação dos rootworkers como um poderoso feiticeiro que poderia 
fazer milagres para os clientes. 
Mas há evidências de que uma boa parte dessa veneração de cobras, como tem sido 
frequentemente o caso em Nova Orleans, tinha também um caráter marqueteiro, para 
turistas se encantarem com supostos poderes aplicados sobre esses animais tão 
temidos. A nudez ritual descrita na cerimônia do Alabama (e frequentemente 
mencionada em outras descrições do Vodu de Nova Orleans) não é encontrada nas 
práticas religiosas afro-caribenhas. E as descrições lúgubres do manuseio de cobras 
muitas vezes não eram tomadas diretamente de testemunhas oculares, mas de fontes 
de segunda mão ou mesmo de terceira mão. (A história de Castellanos citada acima foi 
plagiada quase palavra por palavra de um relato de 1797 de uma cerimônia de São 
Domingos pelo advogado e historiador francês Moreau de Saint-Méry!) 
O Haiti tinha a reputação de ser um lugar selvagem, repleto de feitiçaria e rituais 
satânicos. Mesmo um século depois, os contos sangrentos da insurreição e a vingança 
dos escravos ainda ressoavam em uma cidade onde os brancos dominantes tentavam 
manter o controle sobre a população negra. Os rumores de rituais primitivos de vodu 
realizados em matas, bosques e lagos, simultaneamente aterrorizavam e excitavam os 
ricos habitantes de Nova Orleans, especialmente quando combinados com relatos de 
sexualidade negra em ação. Como a veneração das serpentes era um dos aspectos 
mais conhecidos e controversos da espiritualidade haitiana, uma serpente acrescentou 
aquele ar de autenticidade a uma "cerimônia religiosa" que era essencialmente um 
espetáculo de nudez para os turistas. 
Isso não quer dizer que as cobras não tenham participado seriamente dos rituais Vodu 
de Nova Orleans. Marie Laveau, que não era estranha à indústria de entretenimento 
da cidade, recorreu aos ensinamentos e práticas de imigrantes de São Domingos e dos 
mais antigos que vieram da África para o seu trabalho. Ao nomear sua famosa 
 
 6 
serpente, “Li Grand Zombi” ou simplesmente “Zombi”, Laveau prestou homenagem 
não a cadáveres animados, mas a um espírito poderoso - o criador do Congo, Nzambi a 
Mpungu. 
Todo o explicado acima foi inteligentemente colocado nos livros citados, por grandes 
autores, sendo um deles haitiano (Dr. Reginald O. Crosley) e grande conhecedor do 
Vodu de Nova Orleans, embora não seja um seguidor. As serpentes não são exclusivas 
das religiões africanas, muito pelo contrário, todas as religiões do mundo tiveram suas 
serpentes boas e más. Muito antes de a bíblia surgir com suas regras e histórias 
equivocadas, as serpentes já eram grandes deuses. Tiamat, que hoje é muitas vezes 
vista como um dragão era, na verdade, uma grande serpente do oceano, e que possuía 
uma contraparte masculina (te lembra de alguma coisa?). Uma das culturas mais 
antigas da terra é a Suméria, onde hoje se encontra o Iraque. Eles já estavam 
consolidados como uma potência antes de 5.500 a.E.C. (antes da Era Comum). Foram 
os Sumérios que mais contribuíram com a cultura de todo o planeta, Oriental e 
Ocidental. A palavra para Serpente, entre os Sumérios, era Tan e também Ta. Deusa 
que criou tudo o que existe sobre a terra e além dela, mãe de todos os deuses, Tayamt 
(Tiamat, em língua suméria) significa literalmente Serpente Marinha. Ningishzida foi 
outra entidade suméria, vista como uma grande serpente branca, ligada às florestas do 
submundo. Esses deuses serpentes da antiga Suméria se espalharam por todo o 
mundo então conhecido, entre os fenícios, hitita, babilônicos e persas. 
Tiamat entrou na bíblia como Leviatã (Livyatan, em Hebraico). Embora Leviatã seja 
visto como um monstro híbrido com muitos animais, como crocodilo, baleias, peixes e 
outros, o mais simbólico e correto é a imagem de Serpente ou Dragão, e com a palavra 
Tan (serpente) no final. A palavra Levi, de Leviatã, é ainda misteriosa. Dã, uma 
corruptela da palavra suméria Tan aparece algumas vezes na bíblia (Genesis 49-17). A 
tribo de Dan, mencionada na bíblia, tinha como símbolo a serpente, o que é 
incoerente, tendo em vista o significado da serpente para esse povo. A tradução para 
Dan em Hebraico seria, segundo alguns, Juiz. Mas sabemos que na verdade se tratava 
exatamente de Dã, ou Tan, a serpente criadora de todas as coisas vistas e não vistas. A 
palavra Dan, escrita em Hebraico, possui duas letras, ן DN. Dois representa a ,דָּ
dualidade natural de Damballah e Ayida Wèdo, da qual o ternário surgiu e tudo passou 
a existir. A letra ד (Daleth) simboliza na Cabala a Natureza, os quatro elementos. A 
letra נ (Nun) representa a Humanidade, o ser humano como cabeça e genital, dual em 
si mesmo. Numericamente, ד (Daleth) representa o número 4, enquanto נ (Nun) 
representa o número 50. 50 + 4 = 54 onde 5+4=9, número da perfeição divina, 
qualquer coisa para além do 9 está fora da compreensão humana. O 9 é representado 
pela letra Hebraica ט (Tet), que simboliza a paz (Damballah está ligado à paz). O ט (Tet) 
originou-se do desenho estilizado de uma serpente, e seu significado hieroglífico é 
Serpente, Cobra. 
 
 7 
A serpente estava também muito forte na religiosidade Egípcia. Os Egípcios, que foram 
fortemente influenciados pelos Sumérios, adotaram a serpente Tiamat como Apep, ou 
Apófis em grego. Apófis não era uma divindade que os egípcios cultuavam, mas sim 
um espírito de caos que queriam manter longe deles e do reino. Apófis era uma 
gigantesca serpente, que vivia no fundo do Nilo espiritual e que lutava eternamente 
todas as manhãs com o deus Sol. Apófis já existia no começo dos tempos nas águas do 
caos primitivo, antes da criação (assim como Damballah). Seu poder era tão grande 
que continuaria existindo num perene circulo vicioso de ataque, derrota e novo 
ataque. Por conta desse entendimento, anualmente os sacerdotes de Rá executavam 
um ritual denominado o Banimento de Apófis. Diante de uma efígie do demônio 
colocada no centro do templo eles rezavam para que toda a maldade no Egito entrasse 
na imagem. Então eles pisoteavam a efígie, quebravam-na, batiam-lhe com paus, 
despejavam lama sobre ela e, eventualmente, queimavam-na e a destruíam. Deste 
modo, acreditavam, o poder de Apófis seria afastado por mais um ano. Rituais de se 
colocar um ser demoníaco dentro de uma estátua ou boneco e posteriormente 
destruí-lo é também uma prática comum no Vodu de Nova Orleans. Wadjet, 
Renenutet, Nehebkau, and Meretseger são outros nomes de deuses serpentes 
cultuados no Egito. 
Apófis chegou na mitologia grega como a Píton que foi morta por Apolo, o deus Sol. 
Essa é uma das muitas representações antigas do poder masculino e solar derrotando 
o matriarcado baseado na deusa serpente, Tan. Segundo a lenda, logo após o grande 
dilúvio (mito sumério), das entranhas lamacentas de Gaia, a Terra, nasceu Píton, uma 
gigantesca serpente (Damballah?). Píton vivia na fonte Castalian, Delfos, Grécia, onde 
ela bebia água e recebia suas oferendas. Píton ajudava a “Pitonisa”, Sacerdotiza de 
Delfos, a ver o oráculo e predizer o futuro e dar conselhos. A Pitonisa se valia do 
Scrying (Muito usado no Vodu), observando o futuro e os conselhos através da água. 
Mas a deusa Hera, para evitar o nascimento de Apolo (Sol) e Ártemis (Lua), mandou a 
grande Píton matar a deusa Leto (Deusa do anoitecer), que já estava grávida de Apolo 
e Ártemis. Píton não teve sucesso em sua tarefa, e voltou para Delfos para cuidar do 
oráculo de Têmis. Quando os gêmeos Apolo e Ártemis nasceram e cresceram, Apolo 
foi até Delfos e se vingou da mãe Leto, matando a serpente Píton e tomando para si o 
Oráculo, tornando-se assim o Deus Sol e dos Oráculos. Isso para não falarmos dos 
outros deuses gregos ligados à serpentes, como a Deusa Serpente Minoica, A Grande 
Serpente quedefendia Atenas, Tifão, Quimera, Hidra, Ladon, Amphisbaena, Asclepios, 
Medeia, Medusa e etc. 
Em Roma, um antigo povo chamado de Marsi cultuava uma deusa chamada Angitia, 
uma mulher com poderes sobre serpentes venenosas, patrona da magia e das 
maldições. Era temida por uns e amada por outros. Angitia é claramente uma 
divindade serpente feminina, e é uma interpretação da junção da Píton grega e sua 
Pitonisa de Delfos. Ainda nas regiões próximas, da Península Ibérica até o reino da 
 
 8 
Prússia, relados do culto de uma serpente branca para a qual eram oferecidos copos 
de leite. Não sabemos exatamente o nome dessa divindade serpente, mas sabemos 
que estava intimamente ligada ao deus Prússio Potrimpus, uma divindade do oceano 
(mais uma vez ligando um deus serpente ao mar ou às águas). Entre os Celtas, Brigitte 
era uma deusa frequentemente ligada à Serpentes. 
Na América do Norte, entre os Hopi, eles cultuavam uma divindade dos céus, em 
forma de serpente. Essa divindade serpente entre os Hopi era dividida em duas, uma 
serpente macho que reinava nos céus e uma serpente fêmea que reinava no 
submundo. Outros espíritos serpentes eram cultuados em todas as tribos da América 
do Norte. Os panteões Mesoamericanos eram repletos de deuses serpentes. Entre 
essas divindades, os principais eram o Maia Kukulkan, e o Asteca Quetzalcoatl. 
Nas religiões asiáticas não era diferente, e as serpentes possuíam status de divindades. 
No Hinduísmo há os espíritos chamados de Nagas, sendo normalmente vistos como 
serpentes que podem ser ruins ou não. Um Naga muito importante na mitologia Hindu 
era Sheshanaga, o Rei de todas as Cobras, o deus que mantinha a ordem cósmica e 
planetária, fazendo os planetas girarem harmonicamente em volta do Sol. Kaliya era 
outra divindade serpente, venenosa e que vivia em um rio. Astika era uma serpente 
dupla, tinha seu lado bom e protetor, e seu lado mal e destruidor. A mãe de Astika era 
chamada Manasa, a rainha de todas as serpentes. Vasuki era o rei das serpentes, mas 
não necessariamente marido de Manasa. Além dessas divindades serpentes, milhares 
de outras podem ser encontradas na mitologia Hindu. 
Na Coreia, Japão e China, as serpentes divinas e gigantescas chegaram na forma de 
dragões, o que se assemelha mais à imagem de Tiamat dos Sumérios. Entre os 
Coreanos, o deus da fortuna se chama Eobshin, uma serpente negra com jeito de 
dragão. Chilseongshin é outra divindade similar à Eobshin, sendo uma cobra fêmea 
com sete filhos serpentes, todos divindades poderosas. Muitos deuses Dragões são 
populares nas religiões chinesa e japonesa, a maioria deles sendo deuses opostosos, 
que contam sempre a história de alguma luta entre forças internas. 
Não há religião que esteja ou já esteve sobre a Terra que não reconheceu a 
importância das divindades serpentes. Tudo começou na África oriental e com a 
migração dos filhos da Eva Mitocondrial em direção à Ásia, o culto à sagrada serpente 
Dã foi se espalhando pelo mundo assim como as pessoas. Na África, o lugar dos 
primeiros cultos à serpente, é ainda o principal continente com os antigos cultos ainda 
vivos, embora um pouco modernizados. O Reino do Daomé era um dos principais 
centros de adoração às Serpentes, embora saibamos que o culto à elas é muito mais 
antigo que o próprio Reino do Daomé. Tribos adoradoras das serpentes paerticiparam 
da conquista de Uidá, no Daomé, levando com eles o culto às serpentes. No centro de 
Uidá ainda se encontra um antigo templo com quase cem serpentes vivas, onde são 
cultuadas com caráter divino. Ferir uma dessas cobras pode levar o culpado a ser 
 
 9 
linchado e morto. Embora homens e mulheres as cultuem em Uidá com o mesmo 
direito, as mulheres possuem um contato em especial com essas serpentes sagradas. 
Há um ritual onde essas serpentes são carregadas por mulheres pelas ruas de Uidá 
com a intenção de afastar todos os males. 
O deus-arco-íris dos Ashanti também foi concebido para ter a forma de uma cobra. A 
lenda dessa criatura explica que a cobra do arco-íris só emergia de sua casa quando 
estava com sede. Mantendo a cauda no chão, a cobra levantava a cabeça para o céu à 
procura do deus da chuva. Ao beber grandes quantidades de água, a cobra derramaria 
algumas gotas que cairiam na terra como chuva. Dizia-se que seu mensageiro era uma 
pequena variedade de boá, mas apenas certos indivíduos, não toda a espécie, eram 
sagrados. Em muitas partes da África, a serpente é encarada como a encarnação de 
parentes falecidos. Entre o Amazulu, como entre o Betsileo de Madagascar, certas 
espécies são designadas como a morada de certos espíritos. Os africanos também 
acreditavam que o espírito da serpente poderia se manifestar em quaisquer objetos 
longos e tortuosos, como raízes de plantas e nervos de animais ou humanos. Eles 
também acreditavam que os deuses serpentes poderiam se manifestar como o cordão 
umbilical, tornando-se um símbolo de fertilidade e vida. Ainda outras divindades 
serpentes, como a família Basimbis e Mami Wata serão tratados algumas páginas à 
frente. São ao todo tantas divindades serpentes que é humanamente impossível de 
quantificar e listar. Não há exceção, todas as religiões do mundo, todas as culturas 
possuem suas divindades serpentes, sejam elas do bem ou do mal. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 10 
LI GRAND ZOMBI, DAMBALLAH, SIMBI e BLANC DANI 
Traduzi para vocês uma das melhores partes do Livro francês Le Culte Vaudou, da 
Editora Calmann-lévy, 1984, escrito por Ian Watson. Essa parte (a única boa do livro) 
dá uma visão bem ampla sobre as crenças do Vodu de Nova Orleans e como aconteceu 
essa “viagem” e adaptação de antigos deuses serpentes da África ao Novo Mudo. Essa 
mesma explicação pode ser encontrada nos livros Divine Thoughts, da Coltrix (1970), 
mas desconheço o autor e também foi reescrito no Livro A Guide to New Orleans 
Voodoo, da Coltrix (1978), Edição Limitada, escrita por Ian Watson. 
Segundo a lenda do Congo, Nzambi criou os céu, a terra e os animais. Então, depois de 
criar o homem e a mulher, ele ensinou-lhes como sobreviver em seu mundo e como 
aproveitar o poder mágico de sua criação. Usando esses ensinamentos, eles poderiam 
eliminar as secas da terra e fazer cair a chuva de verão; eles poderiam curar doenças e 
garantir plantações férteis. Eles também podiam se comunicar com os Mpungas, 
antepassados falecidos e espíritos da natureza que ajudariam Nzambi a manter sua 
criação. Hoje, Nzambi ainda é cultuado em Cuba pelos praticantes do Las Reglas de 
Congo (também conhecido como Palo Mayombe). Mas Nzambi não deve ser visto 
como o Deus cristão, como eu tenho visto com muita frequência. Há muita diferença 
entre eles. 
A cosmologia do Kongo imaginou o cosmos como dois mundos - nza yayi (este mundo) 
e o nsi a bafwa (a terra dos espíritos). Entre esses dois mundos estava o kalunga, um 
vasto oceano que servia de limiar entre os vivos e os mortos. Como as cobras eram 
frequentemente vistas subindo em árvores, enterrando-se sob a terra e repousando 
em rios ou corpos de água ou perto delas, elas eram consideradas viajantes entre os 
reinos (nza yayi, kalunga e nsi a bafwa). Uma vez que as práticas religiosas do Congo se 
preocupavam principalmente com o comércio entre os vários mundos, não é de se 
surpreender que as cobras tenham um papel importante nas religiões do Congo. 
No Haiti, os Voduístas honram a família de Loas chamada de Simbi. Como os basimbi, 
espíritos em forma de cobras que vivem nos rios e riachos da África, os Simbis são 
conhecidos por serem magos tímidos, mas poderosos. Aqueles que se aproximam 
deles com a devida paciência e respeito e ganham sua confiança, descobrem que são 
poderosos aliados que podem agir como intermediários entre os mundos da carne e 
do espírito e da vida e da morte. Um respeitado Houngan do Vodu haitiano, chamado 
Milo Rigaud disse sobre eles: 
O mercúrio do vodu tem o nome de Simbi,uma Loa de muitas formas. Ele é o condutor 
das almas (psicopompo), que conduz as almas dos mortos em todas as direções 
delimitadas pelos quatro orientes mágicos da cruz. Ele é o Messias de Legba, o 
mensageiro do sol. Simbi corresponde ao hermético Mercúrio da alquimia cabalística 
do sacrifício ritual. 
 
 11 
A Loa Simbi Makaya é um dos grandes feiticeiros do Vodu haitiano e bem mais tarde 
entrou para o Vodu de Nova Orleans. Como patrono da sociedade secreta Sanpwel 
(Junto de Sòngó), ele ensina poderosas wangas a seus seguidores minuciosamente 
escolhidos, que podem ser usadas para cura ou destruição. Aqueles que não são 
membros regularmente acusam o Sanpwel de sacrifício humano, profanação de 
cadáveres e todos os tipos de crimes relacionados, o que na maioria das vezes é uma 
grande verdade, embora atualmente as coisas tenham mudado um pouco. Dentro de 
Nova Orleans, o Li Grand Zombi tinha uma reputação similarmente misturada. Crentes 
e praticantes consideravam a grande serpente um protetor benevolente e um sábio 
professor. Aqueles que não eram tão afiliados geralmente associavam o Grand Zombi 
com orgias e adoração ao diabo. Tal como acontece com Simbi Makaya, a atitude em 
relação ao Grand Zombi marcou o seu status dentro do grupo, ora sendo visto de 
forma benevolente, ora como sendo um espírito perigoso. 
Tanto em Nova Orleans quanto no Haiti, o culto à serpente, independente do seu 
nome, era bem similar. Como um viajante entre mundos, Simbi é difícil de definir. Um 
dos Simbis mais populares, Simbi Andezo, reside literalmente “em duas águas”, 
ocupando o espaço onde a água doce se encontra com o oceano salgado. Li Grand 
Zombi é similarmente colocado entre os rituais Vodu públicos para turistas e também 
em devoções secretas, particulares dos envolvidos com a religião, isso quer dizer que Li 
Grand Zombi e Simbi Andezo vivem entre religião e entretenimento, entre raízes 
africanas e espetáculos americanos de fazer dinheiro, entre a magia branca e a magia 
negra. Por essa razão, Li Grand Zombi é um patrono adequado para a cidade de Nova 
Orleans e sua religião com a grande mistura racial do Sul dos EUA. 
A melhor maneira de cultuar Li Grand Zombi é com uma cobra viva, diziam os antigos 
de Nova Orleans. Mas este não é um compromisso a ser assumido por qualquer 
pessoa. Assumir a responsabilidade por um animal de estimação não é pouca coisa, 
especialmente quando esse animal também é um animal espiritual! Embora as cobras 
sejam companhias de manutenção relativamente baixa, elas têm certas necessidades 
que precisam ser atendidas. Se não forem fornecidas temperaturas e umidade 
adequadas, elas provavelmente ficarão doentes e morrerão. Um viveiro 
adequadamente grande deve ser comprado, junto com o suprimento da comida 
apropriada e os cuidados mensais de um especialista em ofídios. Uma cobra que vai 
ser exibida em um ritual público também precisa ter uma disposição adequadamente 
tratável - e, quando estressada, até mesmo a cobra mais dócil pode responder 
mordendo ou defecando no alvo disponível mais próximo. Aquela linda Píton grande 
com a qual você está dançando pode ser menos impressionante quando você está 
encharcado com esterco de cobra escorrendo ou amamentando seu pet com seu 
próprio sangue, logo após uma mordida. Tal como acontece com qualquer outro 
animal de estimação, faça uma pesquisa cuidadosa antes de fazer sua compra e 
 
 12 
certifique-se de que você é capaz de cumprir seu compromisso. Do contrário, você 
tenderá a ofender Li Grand Zombi ao invés de cultuá-lo. 
Se por algum motivo você não puder ter uma serpente e ainda assim quiser cultuar Li 
Gran Zombi, não tem problema algum. Aliás, não ter uma serpente como pet é 
também uma grande vantagem, já que não terá um compromisso tão sério com uma 
vida. Locais onde serpentes gostam de viver, como matas, beiras de rios, aos pés das 
árvores, em estradas de terra, em pântanos, enfim, serpentes podem viver em 
diferentes locais no planeta, de acordo com sua espécie. Li Grand Zombi também pode 
ser cultuado em altares como estátuas ou imagens de cobras, pele de cobra, guizos, 
ossos e etc. Eu não recomendo o uso de peles de cobra sem conhecer a procedência, 
pois elas são colhidas matando os animais. Mas se você encontrar uma pele de cobra a 
partir da troca que o animal fez, então poderá usá-lo sem problemas. Você quer 
honrar a grande serpente, não apresentá-lo com o cadáver de um de seus irmãos! 
Estes podem ser colocados em um altar junto com oferendas de ovos, velas, frutas, 
água de rio, de chuva ou de mar. Tudo isso mostrará sua devoção e o ajudará a 
estabelecer um vínculo com Li Grand Zombi. 
De algum tempo para cá, muitos começaram a identificar a cobra de Marie Laveau 
com a grande serpente branca Damballah. Isso está incorreto. As raízes de Li Grand 
Zombi estão nas religiões do Congo, dos povos Bantu da África central e meridional, e 
não nas culturas da África Ocidental que honram a serpente arco-íris Da. Isso não quer 
dizer que Damballah não seja servido, desde tempos atrás, pelos rootworkers e pelas 
rainhas Vodu de Nova Orleans. Ele é, embora não de uma maneira esperada por quem 
conhece o Vodu haitiano. No Haiti, Damballah é um dos principais espíritos honrados 
em cerimônias públicas de Vodu, enquanto Simbi é um patrono das sociedades 
secretas e é mais conhecido entre as pessoas mais internas dos templos. Já no Vodu de 
Nova Orleans suas posições são invertidas: Li Grand Zombi (que está mais próximo dos 
Simbis) desempenha um papel público, enquanto Damballah é servido em grande 
parte por pessoas muito íntimas do culto e é pouco conhecido por aqueles que não são 
da fé. 
São Miguel Arcanjo tem uma reputação mundial como um poderoso defensor contra o 
mal. De acordo com a lenda cristã, foi ele quem deu a Lúcifer seu celestial aviso de 
despejo. Seus ícones frequentemente mostram-no pisoteando uma figura demoníaca 
com seu escudo em uma mão e sua espada de fogo na outra. Mas em Nova Orleans há 
uma crença popular de que ele [São Miguel] trabalhará para você mais rápido e mais 
eficaz se você se dirigir a ele por seu nome real: o Sr. Daniel Blanc, mas outros dizem 
que seu nome é realmente Danny ou Blanc Dani. Embora isso possa parecer uma 
superstição boba, aqueles que estão familiarizados com o Vodu haitiano reconhecerão 
um nome comum de louvor para Damballah: Blan Dani ou o Branco Dani. Ele não veio 
para Nova Orleans como uma serpente - talvez porque Simbi / Li Grand Zombi já 
 
 13 
tivesse preenchido esse papel - mas como um guerreiro e governante sobre os 
exércitos angélicos. 
Ainda de acordo com os livros citados, em 1904, a jornalista e autora Helen Pitkin 
descreveu um ritual Vodu que chamou o Arcanjo Miguel com essa música: 
Blanc Dani, 
Dans tous pays blanc 
L’a commandé 
Blanc Dani, dans tous pays blanc 
L’a comande 
Blanc Dani, 
Em todos os países brancos 
Ele tem comando 
Blanc Dani, em todos os países brancos 
Ele tem comando 
 
Damballah é geralmente visto como um espírito pacífico e de bom temperamento, 
mas ele pode causar grandes desgraças, vingança e magia negra se for necessário. 
Aqueles que pensam que as cobras são lentas nunca viram um ataque a uma ameaça 
ou a uma presa. O grande amor de pureza e justiça de Damballah é correspondido por 
sua aversão à injustiça. Aqueles que se encontram enfrentando inimigos poderosos 
podem contar com ele para assistência, desde que estejam certos, sejam merecedores 
e tenham bons motivos para incomodar a grande serpente. Não se preocupa 
Damballah com assuntos triviais ou pedir sua ajuda em assuntos ilícitos. 
Para falar com Daniel Blanc, use uma imagem ou estátua de São Miguel Arcanjo, caso 
não tenha problemas com sincretismos. Como Damballah, ele é servido com panos 
brancos limpos e velas brancas, ele é um espírito refinado que prefere ser servido em 
um lar fisicamente e espiritualmente limpo. Coloque seu altar notopo de uma 
prateleira alta ou em um lugar elevado para honrar sua posição no céu. Faça-lhe 
oferendas de doces brancos como coco ou arroz doce. Tudo para Blanc Dani precisa 
ser Branco. 
Blanc Dani não é Li Grand Zombi, o primeiro está muito próximo de Damballah, ou de 
como conhecemos Damballah, enquanto o segundo tem muito a ver com Simbi, 
sobretudo Andezo e sua característica dual. Li Grand Zombi foi muito facilmente 
substituído pela imagem de Simbi trazida pelos haitianos aos EUA, embora Houngans e 
Mambos que preferem manter o culto, tanto quanto possível, inalterado, sigam 
cultuando Li Grand Zombi como um deus à parte da família Simbi. Se você puder 
compreender Li Grand Zombi como sendo uma divindade que pode ser boa e má, 
criadora e destruidora, então você já conseguiu se conectar com a essência primordial 
dessa divindade complexa. 
 
 
 
 
 14 
O ALTAR DE LI GRAND ZOMBI 
Você não é obrigado a ter um altar de Li Gran Zombi, mas achei interessante saber 
como é um e como montamos esse altar peculiar. Faça esse ritual no domingo, dia 
sagrado para Grand Zombi. Os itens do número 01 ao 06 são obrigatórios, com 
exceção da pele de cobra. Os demais itens são opcionais. 
01 – Compre uma mesa de madeira, do tamanho que desejar e que seja quadrada 
(quaternário). O tamanho vai variar de acordo com o seu espaço e os objetos que quer 
usar como decoração. 
02 – Desenhe sobre a mesa o Pwen (ponto mágico) de Li Grand Zombi mostrado 
abaixo. Debaixo da mesa vai desenhar o Pwen Cho mostrado aqui. Use uma tinta 
branca para isso. 
Minokan (Pwen) Sobre a Mesa de Grand Zombi 
 
 
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Pwen Cho desenhado abaixo da mesa! 
 
03 – Depois do desenho estar seco, lave a mesa com a seguinte mistura, sem enxugar 
ela. 250ml de água de rio; 250ml de água de chuva; uma colher de chá de Florida 
Water (ou duas borrifadas de um perfume qualquer); 03 galhos de manjericão 
macerados na água, sem coar; 01 galho de alecrim macerado na água, sem coar; 01 
galho de hortelã macerado na água, sem coar; 100ml de leite bovino; 100ml de água 
de coco e um copo de rum branco. 
04 – Com a mesma mistura anterior, lave a toalha branca escolhida para o altar. Deixe 
a toalha e a mesa secares ao Sol. 
05 – Escolha um local onde o altar ficará, que não seja o quarto e nem o banheiro. 
Coloque a toalha sobre a mesa. Debaixo da mesa, mantenha um potinho branco, com 
tampa, com água dentro. 
 
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06 – Coloque sobre o Altar: dois castiçais, um à direita (vela vermelha, verde ou preta) 
e outro à esquerda (sempre vela branca). No cetro do Altar, uma imagem de serpente, 
que pode estar enrolada com uma pele de serpente que tenha sido produto da troca 
de pele. Um punhal na frente da estátua, com sua ponta virada para a esquerda. Um 
incensário à direita e um copo com água à esquerda. 
07 – Opcionalmente, você poderá decorar seu altar com Guizos, chocalhos, 03 
moedas, 03 búzios, elementos de rio, de mar, de cachoeira, pequenas estátuas 
representando serpentes, arco-íris, um caldeirão de ferro, bonecos vodu coloridos, 
gris-gris, mojos, penas coloridas, ossos humanos ou de animais e cristais coloridos. 
08 – As Oferendas para Grand Zombi são frutas de todos os tipos, flores brancas, água 
de rio, de chuva, de nascente, de mar, ovos brancos crus, rum branco, vinho branco, 
batatas cozidas, vegetais verdes cozidos, carnes brancas cozidas, bolos branco, coco, 
doces de todos os tipos e cores, leite gelado, leite de coco, vinagre de maçã, peixes 
assados, grãos e sementes crus, licor de anis e arroz doce, Grand Zombi odeia sal! 
Só cultuamos Li Grand Zombi quando queremos nos aproximar da antiga serpente Tan, 
de forma que possamos estar protegidos tanto pela magia branca quanto pela magia 
negra. É raríssimo vermos Sevityès ou até iniciados no Vodu de Nova Orleans com um 
altar dedicado à Li Grand Zombi, que é frequentemente substituído por Simbi. É uma 
divindade muito boa para quem quer trabalhar com magia, e podemos unir o altar de 
Li Grand Zombi com o altar de Marie Laveau, tudo no mesmo espaço. Ambos possuem 
o poder de aumentar o nosso poder de magia e os nossos insights. 
Entretanto, não é necessário que o Sevityè tenha um altar de Li Grand Zombi para 
cultuá-lo. Realizar um Parterre em homenagem a ele pode ser suficiente. Da mesma 
forma, não é necessário que o Sevityè tenha o altar dele para poder realizar a wanga 
de cura ensinada aqui. Você pode simplesmente traçar o Minokan dele e realizar o 
ritual. Bruxos e bruxas podem se beneficiar muito com os poderes de Li Grand Zombi 
e, segundo afirmam alguns, os sonhos podem ficar mais claros ou mais frequentes. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 17 
FILOMENA LUBANA (BALIAN) 
Já estudamos bastante sobre Lubana, e já sabemos que ela é um espírito muitíssimo 
perigoso, e para ela te jogar na desgraça é muito rápido. Tratar ela com respeito e 
pensar duas vezes antes de recorrer a sua fúria para se vingar de alguém, podem ser 
conselhos úteis para evitar a maior parte dos problemas que você poderia ter com 
essa deusa. Ela é uma Ghede, embora seja cultuada em um altar próprio e separado 
dos Ghedes (não é uma regra, apenas um costume!). Seu corpo de serpente, dizem, 
possui o formato de um longo e flexível pênis. Sua função primária é a de limpeza e a 
de trazer sensualidade para os presentes. 
Seus servos, que são inúmeros ao redor do mundo, realizam um culto somente 
dedicado a ela ou, pelo menos, enfatizando seu grande poder. Em uma de suas faces 
não muito divulgada, ela se apresenta como sendo Mami Wata e, dessa forma, uma 
das esposas serpentes de Damballah Wèdo. Essa é uma das faces de Lubana, ser o 
lado venenoso e perigoso de Damballah Wèdo. Nesta face, Lubana é vista como ainda 
mais perigosa, sendo a devoradora dos espíritos. Como não lembrar da egípcia Ammit 
aqui? Ammit possuía metade do corpo de um hipopótamo, outra metade de leão e a 
cabeça de crocodilo. Naturalmente que Lubana não é Ammit, mas ambas são muito 
parecidas nesse aspecto de deusa devoradora de almas. 
Lubana pode se apresentar a você em sua face comum, daquela que pode dominar até 
os corações mais cruéis, a que limpa tudo por onde passa e a que te torna mais sexy, 
como uma boa Ghede. Mas não raro, Lubana pode se mostrar como a devoradora de 
almas, a serpente cruel que vive nas águas abissais junto de seu esposo Damballah 
Wèdo. Esta é a face de Lubana que ninguém quer conhecer, pois no dia em que 
morrermos, não queremos encontrar ela pelo caminho. A essa Lubana se acendem 
velas pretas, somente pretas. Também podemos acender somente velas vermelhas, e 
oferecer um abacaxi enrolado em um tecido vermelho, pedindo para que ela ataque 
sem dó nossos inimigos. Mas realmente as pessoas estão prontas para lidar com essa 
força? Eu diria que todos você ainda não estão prontos. 
Originalmente, Mami Wata (Mamãe das Águas) são espíritos femininos ligados tanto à 
água doce quanto à água salgada. Esses espíritos são comuns na religiosidade 
daomeana e conhecidos em boa parte da África. Suas imagens são muito semelhantes 
a de Lubana, provavelmente por mera coincidência. Mami Wata e Lubana não são a 
mesma entidade, pois Mami Wata é na verdade uma família de espíritos, não apenas 
um. Mas em sua face chamada como Mami Wata no Vodu dominicano e dos EUA, 
Lubana deixa de ser a serpente do cemitério e se torna uma serpente d’água e muito 
venenosa, a própria devoradora de almas, como já dito. 
Lubana, independente de sua face, está sempre disposta a atacar, é sua natureza e não 
precisa de muito para sentir a fúria dela. Seu bote está sempre armado, e é conhecida 
 
 18 
por ser uma deusa cruel, que não perdoa as falhas. Sabiamente, você não deverá 
incomodar Lubana por problemas que você mesmo pode resolver. Não é uma Loa para 
ser abordada com muita frequência e não gosta de ser mimada com flores e perfumes. 
Em alguns casos, Lubana pode ser ainda mais cruel que Marinette, e se abordada com 
descuido,rapidamente a pessoa vai perceber sua fúria. Ofender gravemente 
Damballah Wèdo, o deus maior da religião Vodu, pode ser uma péssima ideia. Dessa 
forma, você poderá conhecer a face devoradora e impiedosa de Lubana, que não 
poupará sua força para te ver no chão. 
Outra face monstruosa de Lubana é como uma gigantesca serpente negra, punidora, 
que se alimenta da carne da pessoa em vida, para liberar seu espírito para ser 
devorado por sua outra face, a serpente abissal. Como uma grande serpente negra, 
Lubana é uma deusa fortemente ligada à bruxaria mais negra possível, ela se torna 
mãe de Djabs e Bakas, e é frequentemente evocada por Bòkòrs e Caplatas. É um 
espírito de morte e em Nova Orleans cremos que está ligada à Bawon Kriminel, seu 
principal parceiro espiritual nessa sua face destruidora. Lubana não é o tipo de espírito 
que queremos incomodar e, por sorte, suas faces mais monstruosas geralmente vão 
ignorar pessoas que o espírito não tenha tanta intimidade. Mas caso ela resolva 
atender, esteja preparado para tudo, inclusive para o pior. Só porque você enviou a 
fúria de Lubana contra um alvo, não significa que ela vai devorar somente aquele alvo, 
lembre-se disso! 
A Lubana Serpente Negra é também tratada somente com velas pretas. Como não é a 
melhor cor para se cultuar Lubana, ela vai entender que seu desrespeito é um 
momento de grande desespero e necessidade por ajuda e, queiram os deuses, que de 
fato seja mesmo um desespero. Caso as coisas saiam do controle, Damballah é a 
melhor divindade para te socorrer da fúria de Lubana. Entretanto, se sua morte foi 
decretada por ela, busque ajuda de Samedi. Independente do problema que você 
tenha com essas faces mais agressivas de Lubana, mesmo que você se retrate e 
busque por ajuda, você nunca ficará sem levar um tombo, apenas para lembrar de que 
Lubana não é sua colega de rede social. Eu já vi muitos Voduístas e até curiosos 
brincando com ela sem o mínimo cuidado, assim como já vi muita gente brincando de 
roleta russa e achando divertido, quero dizer, achavam divertido. 
Muitos haitianos vão lhe dizer que Lubana não atende estrangeiros, não é um espírito 
que se pode cultuar fora das fronteiras haitianas. Isso é muito ridículo! O que eles 
querem é tomar o controle de um espírito famoso e que muitas pessoas querem ter 
acesso, assim eles podem ganhar muito dinheiro vendendo a “única e verdadeira 
Lubana” para os turistas e afins. Não existe um ser humano na terra que possa 
prostituir seus deuses, eles são seres vivos e pensantes, e o sacerdote que se diz dono 
dele é muito ousado e poderá cair facilmente em desgraça. Até mesmo as reais origens 
de Lubana, embora conhecemos quais as origens da imagem dela, são um grande 
 
 19 
mistério e cada sacerdote vai lhe dizer uma coisa totalmente diferente. A grande 
verdade é que Lubana não é da família de Mami Wata e nem é Santa Marta 
Dominadora. Se Santa Marta era filha de Lubana, não saberemos nunca, mas não são a 
mesma deidade. 
Vemos infinitamente mais mulheres cultuando Lubana do que homens, embora não 
tenha nada de errado em homens cultuar ela. Como a maioria de suas devotas são 
mulheres querendo dominar homens e se vingar de desafetos, Lubana passou a ser 
conhecida por odiar os homens e, em muitos casos, ela chega a não confiar mesmo 
neles. Ela é uma entidade extremamente ciumenta, dominadora e egoísta, por isso é 
normal que ela controle a vida de seus servos a ferro e fogo, inclusive, não gostando 
de ficar em segundo plano em relação ao parceiro ou parceira de seu servo. Neste 
ponto, é importantíssimo lembrar de que as Loas não precisam receber um pedido 
formal seu para que elas ajam na sua vida, o mesmo vale para Lubana, que pode ou 
não gostar do seu parceiro ou de como você tem levado sua vida. Através de 
obstáculos diversos ela vai procurar educar seus devotos. 
É muito mais seguro servir a Lubana sem enchê-la de pedidos o tempo todo, deixando 
a deusa sempre forte e livre para agir na sua vida em prol de suas necessidades. É 
muito importante não ficar mimando ela, como já foi dito. Lembre-se de que estamos 
falando da deusa dominadora, e isso vale para você, caso a mime demais. Se você tem 
um canto de culto dedicado a Lubana, não permita que outras pessoas a cultuem sem 
a sua permissão estrita. Até mesmo os pedidos que outras pessoas quiserem fazer 
para Lubana, precisa passar pelo seu crivo. Pelo sim, pelo não, sempre mais sábio que 
você mesmo interceda pela pessoa, pois se algo fugir do controle, você será o único 
responsável. Algumas pessoas dizem que Lubana pode atrapalhar casamentos, e cada 
uma dá uma explicação para isso. Mas a melhor explicação que você pode ter é o fato 
que Lubana deixa seus servos irresistíveis, principalmente ao sexo oposto, o que 
facilita encontros extraconjugais para quem a sirva. Aliás, filhos de Lubana não 
resistem a uma aventura extraconjugal, mas é uma observação minha, não uma 
qualidade oficial da deusa. 
Gays (homens ou mulheres) podem cultuar Lubana, vejo muito isso e não acho que 
tenha qualquer problema. Não existe nenhuma literatura oficial que diga que Lubana 
não aceita os homossexuais, o que vemos são sacerdotes Vodu que proíbem dizendo 
que Lubana não deve ser abordada por gays, brancos, listrados, de bolinha e por aí vai. 
Independente de gênero e sexo, Lubana não deve ser abordada por pessoas 
emocionalmente fragilizadas ou que sejam muito dependentes de amor, pois poderão 
abusar da paciência dela, se é que ela tem alguma, e a vida da pessoa ser destruída por 
completo, podendo chegar ao suicídio. Não se sinta tentado a cultuar Lubana na 
esperança de que ela vai suprir suas necessidades emocionais e sádicas, você só vai 
conseguir se enfiar ainda mais num buraco e dali nunca mais sairá. Não é nenhum 
 
 20 
exagero colocar Lubana na classe das Loas mais perigosas do panteão, e não é de se 
surpreender quando ficamos sabendo das grandes desgraças que as pessoas se metem 
com ela. 
Em uma comparação com a religião egípcia, Lubana em sua face serpente abissal e 
devoradora de almas, além de ser comparada com Ammit, ela pode ser também vista 
como Apep, causadora do caos, assassina e dedicada a causar somente os danos. É 
como se ela fosse o lado mais negro e cruel de Damballah Wèdo, mesmo não sendo 
ele. Naturalmente a forma de se entender Lubana é muito diversa, dependendo da 
região em que ela é cultuada. Uma coisa é Lubana em Cuba, outra coisa é como é vista 
no Haiti, ou na República Dominicana e até mesmo nos EUA e Europa, cada um 
considerando uma origem diferente e um culto levemente mudado. A única coisa em 
comum entre todas essas nações é ver que a deusa não é para brincadeira, é um 
espírito que ninguém quer desacatar. 
Em todas as suas manifestações, Lubana é um espírito silencioso, quase sempre se 
enroscando nas pernas dos presentes, enquanto se arrasta pelo chão do templo. Ela 
não precisa falar para se comunicar, seu olhar e toque já mostra exatamente o que ela 
quer naquele momento. Lubana propriamente dita se move lentamente, é muito 
silenciosa e misteriosa. Em sua face devoradora de almas, ela é mais agitada, faz sons 
estranhos com a boca, como se fosse um animal se afogando e ela prefere não se 
aproximar das pessoas, sempre se rasteja até um poço d’água ou uma grande bacia 
d’água para se refrescar. Quando está em sua face mais negra, como uma causadora 
de caos absoluto, ela vem muito agitada, muito agressiva, pode se aproximar das 
pessoas de que ela não gosta, a fim de causar danos em suas vidas. Ela se rasteja 
rapidamente, usando as mãos para se apoiar, age como se fosse um monstro, 
babando, vomitando e fazendo muito barulho ininteligível. 
Quando Lubana está em sua forma comum, ela deixa seus filhos calmos, silenciosos, 
brincalhões, embora a energia dessas pessoas sempre tenda para uma depressão 
grave, auto criticismo e uma raiva interna que não pode ser explicada, somentesentida. Quando ela está com sua face devoradora, esses servos sentem vontade de 
matar, de causar todo tipo de dano, de soltar os demônios de dentro, costumam não 
ter paciência nem com pessoas queridas. O mais grave é quando Lubana se aproxima 
com seu lado negro, causando graves comportamentos emocionais extremos em seus 
servos, podendo ir da raiva extrema ao suicídio e auto mutilação. A deusa pode 
apresentar suas diferentes faces quando ela julga necessário te influenciar com 
determinada energia a fim de tirar você da zona de conforto, te fazer agir contra seus 
algozes, trazer movimento na vida e forçando ao servo tomar decisões urgentes. É 
uma forma de Lubana se comunicar com seus devotos, influenciando seu humor, suas 
atitudes, uma tentativa de comunicar que algo não vai bem, coisas precisam mudar. 
 
 21 
De acordo com o Vodu do Vale do Mississipi, Lubana está sempre atrás de você. Isso 
vai muito além de uma simples posição no espaço físico. A maioria das Loas estarão 
diante de você, na sua frente, durante seu culto Vodu, seu agrado para a divindade. 
Mas Lubana não, ela sempre estará nas suas costas ou atrás de você. Isso porquê 
Lubana não confia em ninguém, ela é a serpente das sombras, e ela fica também nas 
suas sombras, com o bote armado e não vai pensar duas vezes em atacar se houver 
qualquer descuido por parte do servo. Lubana, dizem os antigos, não gosta das 
pessoas, não confia nelas quando estão vivas. Muitos vão lhe dizer que Lubana precisa 
comer no chão, pois ela é uma serpente. Mas por que as outras Loas Serpente não 
precisam comer no chão? A verdade é outra. Lubana se alimenta sempre no chão ou 
muito perto dele porque sua energia, sua força divina vem do centro da terra, vem da 
conexão dela com o chão. Todas as Loas dependem dessa conexão, por isso cultuamos 
descalços, mas com Lubana é diferente, ela realmente depende exclusivamente dessa 
energia que vem da terra, bem lá do centro do planeta, subindo em direção ao 
universo. Neste ponto, creio ser desnecessário falar sobre a importância de ter um 
chão muito limpo para servir uma das grandes divindades dos cemitérios. 
Lubana é tão misteriosa que ela contradiz a si mesma. Ela é naturalmente Ghede, por 
isso vemos algo de sexual nela e em sua mítica forma híbrida que nos lembra algo 
entre uma serpente e um pênis. Ao mesmo tempo, Lubana é violenta, quente, 
selvagem e vingativa, o que nos lembra muito a energia Petwo. No seu aspecto 
protetora, dominadora e que sempre está escoltando seus filhos e servos, ela chega a 
nos lembrar algo quase Maternal comum das Loas Rada. É muito difícil encaixar 
Lubana em uma das categorias e pronto! É como se ela fizesse parte de todas as 
nações e, ao mesmo tempo, de nenhuma. Lubana é um espírito que, assim como todos 
os Ghedes, não segue exatamente uma ética, o que a torna ainda mais perigosa e 
instável. Seus parceiros, Simityè e Kriminel, por óbvio, não são Loas seguras para se 
recorrer a sua ajuda caso tenha problemas com Lubana. 
A grande verdade sobre Lubana é que suas origens são um mistério. Cada expressão 
religiosa que a cultua vai lhe dar uma imagem mais ou menos diferente da mesma 
divindade e, ainda pior, muitas delas vão tentar afirmar que sua visão é a única 
verdadeira. Seu culto é muito forte no Vodu Dominicano, e de lá ele se espalhou por 
outras regiões do mundo. Claro que os haitianos, como sempre, não concordam, e 
querem o direito autoral sobre Lubana. Seu aspecto dominador é o que a torna uma 
entidade disputada e tão amada, pois com isso ela alimenta o sadismo de uma 
sociedade fraca em se impor diante dos obstáculos. As pessoas gostam do Freak Show 
e, embora Lubana seja muito superior a isso, a grande maioria dos Voduístas a 
colocaram nesse picadeiro. Por isso revelar suas faces ocultas é muito perigoso, não 
para a sociedade, mas para o próprio praticante e sua ânsia por poder. Vejo muitas 
pessoas cultuando algumas Loas, o que eu incluo Lubana, mais como forma de 
intimidar os outros, mostrar um poder frágil que na verdade eles não têm, mas amor 
 
 22 
sincero pelos deuses falta e muito. Às vezes, esses deuses já lhe deram as costas há 
muito tempo, mas continuam usando suas imagens como forma de submeter pessoas 
impressionáveis ao suposto poder de um suposto sacerdote. Entre as que são mais 
“usadas” como entidades para causar medo nas pessoas, Lubana está entre as 
principais. É uma realidade muito triste, uma vez que a deusa deve ser tratada como 
DEUSA, não leão de chácara. 
LIDANDO COM A DEVORADORA DE ESPÍRITOS 
Estaria Lubana devorando espíritos que querem te prejudicar ou será que ela quer 
devorar o seu espírito por alguma ofensa da sua parte? Não é muito difícil saber a 
diferença, afinal de contas, você saberá se ofendeu a deusa ou não. Além disso, não é 
uma face da deusa que se ofende por qualquer bobagem, e para ela estar brava com 
você, precisa ser por um motivo muito palpável. Ao lidar com essa Lubana, é muito 
provável que ela te ignore se considerar seus desejos mero luxo de uma mente 
obsessiva. Entretanto, fique de olho se você não cometeu o erro de oferecer somente 
velas negras para ela (proposital ou não) ou ainda se você tem uma dívida com a 
deidade ou se tem desprezado seu culto (Lubana comum), caso seja um servo dela. 
Pode não ser uma boa ideia cultuar Lubana demais, mas pode não ser uma ideia 
inteligente abandonar ela por muito tempo, ignorando a divindade. Acho que uma 
média de cuidados semanais é mais que suficiente, duas vezes ao mês é um bom 
equilíbrio e jamais abandonar ela por mais de um mês sem ter um bom motivo para 
isso. 
Com sua energia mudada para a devoradora de almas, você começará a se sentir com 
muita raiva, quer gritar, botar todo o ódio para fora, quer solidão, evita pessoas, sente 
pavor de multidões. É muito provável que você esteja sob ataque espiritual e Lubana 
está defendendo seu servo, que rapidamente sentirá a energia destruidora da deusa. 
Sua raiva ficará ainda maior e quase incontrolável ao se aproximar da pessoa 
causadora dos ataques, se for este o caso. Mas você precisa também entender se você 
apenas pegou energias ruins ao ir em um local espiritualmente contaminado, e sua 
deusa está devorando esses espíritos. Também precisa saber se Lubana não está brava 
querendo que você tome atitudes em relação à própria vida, sair da zona de conforto. 
Esse pode ser um modo dos deuses nos educarem como filhos. 
A primeira coisa a ser feita é procurar identificar a causa dessa energia densa sobre 
você. Não existe um “não sei o porquê”, sempre saberemos ou os deuses vão intuir a 
causa. Se mesmo assim, você não se sentir seguro em analisar a situação, não tem 
problema, as ações tomadas são sempre as mesmas, independente da causa. Você 
terá que agradar, apaziguar e ter paciência com a deusa em sua face devoradora. 
Tome um banho de 1L de água em temperatura ambiente, na qual um galho de 
manjericão, um galho de alecrim e um pouco de pó de sândalo foi adicionado. 
Amasse bem as folhas, para extrair o máximo possível de sumo. Não coe. Tome esse 
 
 23 
banho da cabeça aos pés, se enxugue. Logo após, compre um abacaxi e o embrulhe 
em um pano azul escuro. Acenda uma vela azul escura perto e converse com a deusa. 
Faça tudo isso no chão. Passado 07 dias, entregue esse abacaxi em uma encruzilhada, 
sem o pano, que poderá ser reutilizado. É uma forma de apaziguar os efeitos da deusa 
em relação a você, mas ao mesmo tempo é uma das formas de fortalecer a energia 
dela como devoradora e pedir sua proteção. Caso necessite evocar essa face de 
Lubana, acenda uma vela preta ou vermelha, de sete dias. Embrulhe um abacaxi em 
pano vermelho e converse com ela, explicando seus motivos. Com o final da vela, 
descarte tudo em um cemitério, inclusive o pano. 
LIDANDO COM A FACE NEGRA DE LUBANA 
Lubana já é por natureza uma divindade Cho, termo Kreyòl que significa Quente. Na 
sua forma comum, nãoé um espírito que deve ser abordado com descuido. Nessa 
terceira face, ela é a manifestação do que há de pior no mundo espiritual. Esse lado só 
é despertado quando seu servo se vê em uma guerra espiritual onde somente o caos 
pode resolver a situação. Também pode ser é uma face de Lubana na qual ela está 
extremamente ofendida com seu servo, e pouco ou nada se pode fazer para salvar a 
pessoa, pois saberemos que a ofensa foi grave. A princípio, é uma face da deusa na 
qual os prejuízos em todas as áreas devem ser esperado, no caso de ser um problema 
dela com você. Se você não aprender nada com essa lição, coisas bem piores podem 
acontecer, podendo ter a vida ceifada. 
Se a questão é uma guerra espiritual e Lubana está mostrando um de seus piores lados 
para proteger seu servo, manter um culto a ela nessa face é o ideal. Assim como 
anteriormente foi falado, embrulhe um abacaxi em um tecido vermelho, acenda uma 
vela de sete dias na cor vermelha e um caldeirão com fogo, no qual queimará os 
nomes dos inimigos que estão nessa guerra. O fogo no caldeirão precisa ser aceso com 
carvão comum e alimentado com gasolina. Mas tenha muito, muito cuidado ao mexer 
com gasolina perto de fogo, não despeje ela sobre o fogo. Molhe o carvão enquanto 
apagado e depois acenda o fogo. Gasolina explode com muita facilidade!!! Depois de 
queimar os devidos nomes escritos em papel sem pauta, deixe ali até que o fogo se 
extingue. No final dos sete dias, descarte o abacaxi embrulhado, com tecido e tudo, 
nos fundos de um cemitério. Dirija-se ao cruzeiro das almas e acenda uma vela 
vermelha e ofereça para Bawon Simityè, junto de um copo de rum com pimenta e um 
charuto. 
Se o problema é com você, se de alguma forma está sob a ira de Lubana, recomendo 
que seja rápido e, se possível, logo ao perceber que fez besteira, já tome uma atitude, 
antes que a deusa chegue. Coisas que Lubana pode querer arrancar sua pele são as 
seguintes: acender uma vela preta para ela sem nenhum motivo plausível, falar mal 
dela em um momento de revolta, ser ingrato com uma ajuda vinda dela, destruir ou 
desmontar o altar dela sem motivo, por raiva da deusa (prefira doar o altar ao invés de 
 
 24 
jogar no lixo), cometer diversos outros desrespeito com ela ou negligenciar seu culto 
por mais de seis meses. Caso você se encontre em uma dessas situações, além de ser 
aconselhável reparar urgentemente o erro, busque apaziguar a deusa com oferendas. 
Um abacaxi embrulhado em um tecido azul escuro, uma vela azul escura de sete dias, 
um copo de vinho tinto doce, três ovos marrons e crus sobre um monte de pó de café, 
tudo coberto com mel verdadeiro e uma berinjela bem saudável com seu nome escrito 
em um papel sem pauta e colocado dentro dela, fazendo uma pequena fenda para 
isso. Evoque Lubana, peça seu perdão e deixe tudo ali por sete dias. No final desse 
prazo, descarte tudo em uma encruzilhada, com o tecido do abacaxi usado como 
toalha no local. 
UMA DAS EVOCAÇÕES DE LUBANA, PARA PEDIR PERDÃO 
Repita três vezes essa reza logo após entregar as ofendas. Essa reza só deve ser feita 
no caso de você ser o causador do mal estar entre você e Lubana. 
Kreyòl 
Sèpan nan simityè, dam pwisan ki mache sou lonbraj yo, koulèv nwa, ki moun ki mwen 
pa janm rele kont mwen. Twa fwa ou avèti m 'ak twa fwa mwen sipliye ou pou 
padonnen ou. Da, mbamka lunpuopongo se mazinga umbu, Da, mbamka 
lunpuopongo se mazinga umbu, Da, mbamka lunpuopongo se mazinga umbu. 
Pronúncia 
Sépã nã simitiê, dam puisã ki maxê sú lonbráj iô, culév nuá, ki mún ki muên pá jám relê 
cónt muên. Tuá fuá u avétim ak tuá fuá muên sipliê u pu padonêmu. Da, umbánka 
lunpuôpongo se mazínga umbu, Da, umbánka lunpuôpongo se mazínga umbu, Da, 
umbánka lunpuôpongo se mazínga umbu. 
Português 
Serpente do cemitério, poderosa senhora que caminha nas sombras, serpente negra, 
aquela que eu nunca chamei contra mim. Três vezes a senhora me avisa e três vezes 
eu imploro por seu perdão. Da, mbamka lunpuopongo se mazinga umbu, Da, 
mbamka lunpuopongo se mazinga umbu, Da, mbamka lunpuopongo se mazinga 
umbu. 
 
 
 
 
 
 25 
EVOCAÇÃO DE LUBANA PARA PEDIR PROTEÇÃO 
Caso a situação seja a de uma guerra, e Lubana tem se mostrado em suas faces mais 
quentes como protetora do servo, em meio a uma guerra, então essa é a evocação a 
ser feita diante das oferendas já mencionadas acima. Faça apenas uma vez. Não será 
dada a tradução! 
Ajo Mami, akobó si awa! Ajo Mami, enu binga Mami! Ajo Mami, akobó si awa! 
Dikulu emi, eme ndimba Mami, ki fukama nse fuá eme papende nso, eme papende 
kwalo, akobó mazinga ndimba kwelo! 
Pronúncia 
Ajô Mámi, akobó siuá! Ajô Mámi, enu bínga Mami! Ajô Mámi, akobó siuá! Diklúmi, 
emendimbá Mámi, ki fukamansê fuáme papendensô, emê papende cualô, akobó 
mazínga undimba cuelô! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 26 
SIMBIS, DOS ZEMIS AOS NZAMBI A MPUNGU, CYMBEES E BASIMBIS 
A família Simbi é muito grande e nenhum pesquisador pode chegar a um consenso 
sobre números e nomes. Obviamente é uma das entidades que se formaram na ilha de 
São Domingos como resultado do encontro de outras quatro classes de divindades, os 
Zemis dos Tainos e Arawaks, Nzambi a Mpungu, Cymbees e Basimbis vindos do Reino 
do Congo. Uma dessas classes se destacou na formação de Simbi, mas não podemos 
ter certeza de qual sobressaiu qual. Simbi é muito único, é diferente da maioria dos 
deuses no Vodu, e por seu caráter mercurial, ele é entendido nas diferentes religiões, 
que vai do neo paganismo e igrejas espirituais ao Vodu. 
ZEMIS 
Antes da chegada do europeu na ilha que viria a se tornar Haiti, os Arawaks e Tainos 
cultuavam espíritos chamados de Zemi. Dois eram muito importantes entre eles, 
Yocahu (Senhor do Aipim) e sua contraparte feminina e mãe, Atabey (Senhora das 
águas). Yocahu é o deus criador todo poderoso, uma divindade com poderes mágicos, 
mas que nunca podia ser visto, não possuía uma forma, era arisco, sempre obervava as 
pessoas escondido na floresta. Yocahu era também a divindade da água do Mar, 
enquanto Atabey era a divindade da fertilidade e águas doces. O principal local de 
culto de Yocahu e Atabey era nos encontros dessas duas águas. Ambos os deuses eram 
vistos com senhores de duas águas. Não há, entretanto, qualquer referência sobre 
serem cobras ou similar. Yocahu era também visto como Solar, enquanto Atabey era 
Lunar, e com a união de ambos, surgiu todas as coisas conhecidas hoje. Mas havia 
outras inteligências antes de Yocahu e Atabey, sendo Yaya a força primordial criadora 
de todos os seres, inclusive os espirituais. Se você observar atentamente as 
explicações dadas acima, vai perceber alguma semelhança com Simbi, sobretudo o 
Simbi Andezo. 
Ainda falando sobre espíritos Zemi, dos Tainos e Arawaks, encontramos um chamado 
Maboya. Esse é cruel, visto como uma gigantesca serpente alada e noturna, que 
seduzia as mulheres Tainas e Arawaks, destruía as plantações, matava pessoas 
inocentes, lançava furacões, tempestades, raios e enchentes contra os nativos. É um 
deus feiticeiro, a ser evitado na maioria dos cultos. Mas a ele eram feitas todas as 
formas de oferendas, tudo para apaziguar sua fúria. A maioria dos espíritos ruins eram 
chamados de Maboya, mas esse a que nos referimos aqui é o “chefe” entre todos os 
Maboyas. Somente feiticeiros de baixo escalão entre os Tainos é que se arriscavam em 
cultuar Maboyas. Na concepção Taina e Arawak, Maboya é o extremo oposto de 
Yocahu e Atabey, formando o que temos como bem e mal. Maboya se encaixa 
perfeitamente em Simbi Makaya. 
 
 27 
Os Tainos e Arawaks faziam desenhos sagrados usando farinha de milho com a 
finalidade de agradar seus deuses Zemis. Dessa forma, Yocahu, Atabey e Maboya 
possuíam seus símbolos, sobre os quais falaremos daqui a pouco. 
NZAMBI A MPUNGU 
Nzambi a Mpungu é hoje uma expressão na língua Kikongo (do Reino do Congo), 
geralmente traduzida como “Deus Todo Poderoso”.Isto certamente não é o que 
originalmente significava. Os missionários católicos que chegaram ao Congo no final do 
século XV presumiram que Nzambi era o equivalente local de Deus e o incorporavam 
como tal nas liturgias e orações. Nos quatrocentos anos seguintes, o ensino e a prática 
católicos afetaram profundamente a cultura do Congo, embora a presença missionária 
ativa tenha diminuído. As missões protestantes e católicas retomaram sua atividade 
evangélica no final do século XIX; a maioria dos Bakongo (Congos, povos que viviam 
nessa região) é agora pelo menos nominalmente cristã. No entanto, a etnografia do 
século 20 permite uma tentativa de reconstrução do que Nzambi originalmente queria 
dizer. O termo nzambi pode ser respeitosamente aplicado a qualquer pessoa morta. 
Acreditava-se que, depois de viver no mundo visível, uma pessoa vai morar na terra 
dos mortos, chamada de nsi a bafwa, onde ele vive até “morrer a segunda morte” e se 
torna um espírito Simbi, que viverá anônimo em um arbusto ou em um corpo de água. 
Mortes sucessivas os deixam cada vez mais distante dos vivos, os levando ainda mais 
perto dos deuses. Nzambi a Mpungu, “Nzambi mais alto”, designa os mais distantes do 
mundo físico e sem características dos mortos, sendo deuses ou algo perto disso. 
Muitas vezes, um adivinho Congo poderia apontar bruxas e feiticeiros entre os vivos, 
ou até espíritos simbi entre os mortos, como a causa dos infortúnios entre os vivos que 
podem ser corrigidos por meios rituais, algumas vezes, entretanto, o diagnóstico de 
que “Nzambi é responsável”, dado pelo adivinho, significa que a causa do infortúnio é 
desconhecido e que nada pode ser feito sobre isso. Em vez de “Deus Todo Poderoso”, 
Nzambi a Mpungu, era, no pensamento tradicional, uma categoria residual ou vazia. 
Não havia sentido de Nzambi como o criador do mundo, mundo esse que sempre 
existiu segundo a crença antiga dos Bacongo. 
As afirmações anteriores são bastante polêmicas, principalmente na visão dos 
candomblecistas que cultuam a fé de angola e entre alguns congoleses ainda hoje, que 
consideram Nzambi a Mpungu como o deus todo poderoso. Mas a pesquisa sobre esse 
assunto foi liderada pela Universidade de Chicago, em 2006, sob o nome de Religion 
and Society in Central Africa. O motivo de interesse nesse assunto é pelo fato de que 
os primeiros negros a chegarem aos EUA em 1620 eram negros Bakongos (Congoleses) 
e o Vodu dos EUA cresceu sobre os alicerces do culto Congolês. Observe no estudo 
acima que o nome Simbi veio do idioma Kikongo, do Reino do Congo, e eram vistos 
como espíritos que perturbavam em sua maioria, energias pós morte que se escondia 
nos arbustos e águas. 
 
 28 
CYMBEE 
Pronunciado como Simbi, os Cymbee são o mesmo resquício energétivo pós morte 
mencionado anteriormente na parte sobre Nzambi a Mpungo. Após uma pessoa 
morrer e seguir seu destino para o mundo espiritual, o Nsi a Bafwa, onde ficará por um 
tempo de acordo com seu merecimento, então morrerá uma segunda vez e se tornará 
um espírito Simbi. Essa é a crença do povo Bakongo, vindos do Reino do Congo e os 
primeiros a chegar nos EUA entre 1619 e 1620. Esses espíritos Cymbee ficavam onde 
tinha água e também em matos e bosques. Alguns eram bons, podiam ajudar e 
recebiam oferendas, outros eram mais cruéis, trabalhavam para mal. 
O nome Cymbee é, provavelmente, a forma escrita de Simbi pelos antigos moradores 
de Nova Orleans. Lá, acreditavam que esses Cymbees eram espíritos que se 
manifestavam em forma de crianças, algumas sendo muito más, feiticeiras, que se 
escondiam em pântanos, lagoas e córregos. Dificilmente eram vistos, por serem ariscos 
e não gostarem de aparecer. Mas sempre estavam nas sombras, à espreita de vítimas. 
É uma visão um pouco diferente daquela que os Bakongo tinham, embora ambas as 
culturas concordem que Cymbee é feiticeiro, morador das sombras e encontrados em 
locais com água e natureza. As primeiras ideias de Cymbee chegaram nos EUA junto 
com os Bakongo em 1619-1620, e ao longo dos anos e o contato com diferentes 
culturas e etnias, ele foi sendo moldado como uma nova deidade, um pouco mais 
afastada do Simbi do Reino do Congo mas ainda diferente do Simbi do Vodu haitiano. 
Com a chegada de escravos que iam junto com seus senhores, do Haiti para os EUA, o 
Cymbee dos Bakongo, em sua forma infantil, mágica e perigosa acabou se encontrando 
com o Simbi serpentes mágicas, perigosas e que viviam próximas das águas. Assim, os 
praticantes do Vodu de Nova Orleans absorveram a ideia de Simbi, muito mais sólido 
do que o que tinham em mente de seus antepassados. Até então, em Nova Orleans, 
Cymbee era muito mal compreendido e geralmente evitado, sendo um espírito no qual 
não confiar. Nos EUA não havia uma ideia Rada/Petwo, que foi também introduzida 
com os haitianos que ali chegaram. 
BASIMBI 
Basimbi, às vezes escrito erradamente como Basimbi, também é uma classe de 
espíritos vinda do Reino do Congo. O Basimbi é um tipo de espírito que fica situado 
entre os mortos humanos e as divindades. A ideia é basicamente a mesma já explicada 
com os Cymbee, sendo espíritos que morreram uma segunda vez. Na antiga crença do 
Congo, quanto mais se morre, mais distante dos humanos fica e mais próximo dos 
deuses estará. Essa segunda morte ocorreria em diferentes planos, deixando em cada 
um deles uma espécie de casca dentro da qual o espírito vivia, até que ele possa se 
livrar de todas as cascas e se tornar uma divindade. 
 
 29 
O Basimbi, ou Cymbee se preferir, é o resultado da segunda morte, isto é, logo depois 
do desencarne humano. Assim, esse tipo de espírito está longe do ser humano, sendo 
superior a ele, mas ainda abaixo dos deuses. Dependendo de como cada pessoa viveu, 
honestamente ou não, ela poderá em sua segunda morte se tornar um bom ou cruel 
Basimbi. Todos os Basimbi possuem poderes mágicos, todos dependem da água para 
existirem e costumam se esconder em moitas próximas de córregos e rios. 
Esses espíritos Simbi do Reino do Congo e os Zemi dos Taínos e Arawaks eram muitos, 
com diferentes funções. Por isso a família Simbi no Vodu é tão grande, pois ela vem 
direto desses antigos espíritos. Cada um dos mencionado pode ter se tornado um 
diferente Simbi. É impossível traçarmos uma única linha em direção à evolução de 
Simbi, pois como é conhecido atualmente, trata-se de uma entidade que surgir a partir 
de muitas outras. Mesmo a visão que temos de Simbi hoje, não é a mesma que 
tínhamos de Simbi nos anos 90, 80, 70, 60, 50... A divindade é exatamente a mesma, 
mas sua esfera de atuação tem aumentado. Simbi é um deus de tecnologia, e ele vai 
evoluir de acordo com essa tecnologia. Na antiga Nova Orleans ou no antigo Haiti, 
Simbis não tinham conotação de serpentes elétricas, por óbvio. Hoje o vemos como 
tal. Não temos certeza do motivo dos Simbis serem considerados serpentes, mas 
certamente houve ainda mais influência que moldou muito mais essa divindade do que 
podemos imaginar. 
SIMBI ANDEZO, A SERPENTE DAS DUAS ÁGUAS 
Simbi já era conhecido desde os primeiros escravos a chegar à ilha de São Domingos. 
Os Simbis chegaram também aos EUA muito antes da revolução haitiana, mas com 
certeza se tornaram muito mais populares ao serem levados em sua forma haitiana 
por imigrantes que chegaram aos EUA do século XIX. Seu nome era originalmente 
escrito em francês Entre Deux Eaux (entre duas águas), e passou para o Crioule como 
Andezo. Dos muitos Simbis nessa família de pequenas serpentes, Andezo é um dos 
mais importantes (ao lado de Dlo e Makaya) e cultuados no Vodu. Todos os Simbis 
estão ligados ao simbolismo mercurial e tudo o que se puder falar sobre eles pode 
simplesmente sempre ter dois lados, nunca as coisas são exatamente fixas com esse 
deus. Quando falamos sobre um Simbi, praticamente falamos de toda a família, pois 
são muito parecidos em sua forma de agir e trabalhar. 
Simbi é uma família de espíritosque veio do Reino do Congo, se encontraram com 
deuses dos Taínos e Arawaks, no caso do Haiti ou permaneceram em sua forma in 
natura no caso dos EUA, sendo atualmente em sua maioria Petwo, mas podem ser 
cultuados também no rito Rada e em seu próprio rito, o Congo. Pode se dizer que há, 
simbolicamente, uma colocação ideal de Andezo entre os outros dois importantes 
Simbis, isto é, Andezo ficaria no meio, entre Dlo e Makaya. Andezo tem um pouco de 
cada, mas não é nenhum deles, Andezo é cultuado com as cores verde (de Dlo) e 
vermelha (de Makaya). Ele é uma espécie de equilíbrio, uma ponte entre os outros 
 
 30 
dois. Claro que você precisa entender essa explicação de uma forma simbólica e 
abstrata, jamais literal. Nada, absolutamente nada que venha de qualquer Simbi deve-
se levar por um lado muito literal. Para entendermos eles, precisamos ter uma mente 
muito abstrata e capaz de entender os símbolos mais complexos, mesmo que não 
possamos explicar eles em palavras. A complexidade de Simbi pode ser resumida em 
uma afirmação: Simbi representa todas as religiões da terra, mesmo sem 
necessariamente ser qualquer uma delas. O Nome Simbi, assim como a raiz dessa 
divindade vem do Reino do Congo e era escrito como Basimbi, espíritos d’água que 
eram ancestrais divinizados. 
Nenhum Simbi pode se fazer presente sem que tenha água no altar ou no ritual. Simbi 
dependem da água de uma forma geral. Se quiser ir até a morada dos Simbis, busque 
por nascentes, poças de chuva e rios. Simbi Andezo faz ligações importantes dentro do 
Panteão Vodu. Em seu lado Rada, ele está especialmente ligado à Damballah, Legba, 
Agwe e Ayida, em seu Lado Petwo está ligado à Legba Petwo, Kalfou, Bossou e 
Makaya, entre muitos outros. Até mesmo à todos os Ogous a Loa Andezo se liga de 
alguma forma, sendo o Chefe da Guarda Costeira e assim tendo acesso a todos os 
reinos da terra e do espiritual. Sem Legba, sabemos que é impossível entrarmos em 
contato com as Loas. Mas sem Simbis é impossível fazer magia! É muito fácil 
encontrarmos afirmações de que Andezo é ainda mais poderoso do que Dlo ou 
Makaya, pois ele é o elo entre seus dois irmãos, tendo as características de ambos e 
também as próprias. Enquanto Dlo é o Simbi da magia branca, nascentes e água de 
chuva, Makaya rege a magia negra, os venenos e as águas pantanosas. Andezo rege 
nascentes, chuvas, águas doces e salgadas, pantanosas, magia branca ou negra, 
remédios e venenos. Não há um limite para a amplitude de Andezo, e isso é o que 
deixa clara a sua importância no culto. 
Entre todos os Simbis, Andezo é o mais equilibrado e pode ser considerado um espírito 
benevolente. É Andezo que une os Ritos Rada e Petwo, dosando a energia de ambos os 
cultos. Seu repozwa é o Limoeiro, onde todos os Simbis poderão ser cultuados. Os 
Simbis não possuem exatamente outras faces, eles são tão complexos que podem por 
livre vontade se apresentar e agir na sua vida de um jeito diferente do que ele faria 
para outra pessoa. É dito que existam pelo menos 27 membros na família Simbi, 
embora muitos digam que esse número vá muito além. Makaya, um dos Simbis que 
mais se fala por aí, não é comumente cultuado nas casas de Vodu. Makaya é o senhor 
dos Bizangos e Sanpwel, e a ele se sacrificava os senhores de escravos. Makaya ficou 
muito conhecido no meio da cultura dark gore e gótica dos EUA. Não é um espírito 
fácil de lidar, nem mesmo se Makaya realmente gostar de você (pois se não gostar, 
considere-se morto). Todos os Simbis são feiticeiros, mas Makaya é visto como o 
grande bruxo da família. O tipo de água que Makaya prefere, além das paradas e 
pantanosas, podemos considerar a água fervente ou até a lava de um vulcão. Makaya 
é tão perigoso e instável quanto Marinette, Kriminel, Krabinay, etc. Temos o Simbi 
 
 31 
Yanpaka, a serpente das florestas, das ervas e de todos os venenos. Yanpaka gosta das 
cores verde e branco, mas não é um Simbi tão popular, nem todas as casas o cultuam e 
é quase desconhecido do Vodu dos EUA. Dlo é um Simbi tranquilo, conhecedor da 
magia branca e da cura, é atualmente uma Loa Petwo, mas que originalmente era 
Rada, e muitos sacerdotes sabem disso e não repassa o ensinamento. Andezo, como já 
dito, é tudo isso, está em todos os lugares, possui todos os poderes e tem acesso a 
todos os reinos. 
Você precisa entender Simbi, sobretudo o Andezo, como sendo bom e mal, ao mesmo 
tempo, mas sem ser exatamente um dos dois. É como se ambas as energias estivessem 
presas em uma mesma esfera, não se repudiam, se completam. De todas as Loas, 
Simbi é sem dúvidas as mais complexas de explicar em palavras. Quando você 
finalmente encontra as palavras certas para definir um Simbi, percebe que tudo 
mudou de sentido e já não se trata mais daquele Simbi, mas de outro. Simbis mudam 
de acordo com o tempo, época, cultura, fé, nível intelectual da pessoa e momento em 
que se apresentam. Na maioria das vezes, você poderá ver Simbi por dez vezes e, no 
final, perceber que foram dez diferentes experiências com eles. Os filhos de Simbi 
mudam de casca tanto quanto seu deus pessoal, tudo dependendo da época que essas 
pessoas estão vivendo. Uma coisa é muito certa nos filhos de Simbi, são geralmente 
muito avançados para a época em que vivem, estão sempre um passo a frente de todo 
o mundo. Isso pode lhes causar a sensação de não pertencer a lugar nenhum. De 
alguma forma, os Simbis não pertencem a nenhum lugar específico, e podem morar 
em todos os mares, lagos, rios e poças. Viajam com a chuva e as correntezas. Não se 
pode explicar muito de Simbi, é uma Loa para ser sentida, nunca compreendida, assim 
como seus filhos. 
Simbis, sobretudo Andezo, não é uma Loa qualquer, mas é um dos elementos sagrados 
de uma tríade de deuses magos: Legba, Simbi e Kalfou. Note como Simbi aqui está 
colocado. Na mesma ordem da leitura latina, da esquerda para direita, temos o 
princípio, meio (elo) e fim. Legba é o Sol, o princípio, a Vida, o Rada; Kalfou é a Lua (Sol 
da Meia Noite), ele é o fim de todas as coisas, não uma morte, mas o fim (como estar 
morto em vida). Simbi é Mercúrio, ele conecta o Sol e a Lua, a magia branca e negra, os 
opostos. Isso torna Simbi oposto em si mesmo, dual, complexo. Simbolicamente, na 
geometria sagrada, Kalfou e Legba ficam na base do triângulo equilátero, sendo um à 
esquerda e outro à direita, respectivamente. Simbi fica no topo do triângulo, 
intermediando ambas as energias. Este é o significado dos triângulos que aparecem 
nos vèvès. Quando são equiláteros, representam os magos do panteão. Se o triângulo 
é isósceles, então temos a tríade de Legba, Loko e Ayizan. Mas se o triângulo for 
invertido (equilátero ou isósceles), então a tríade é de Loko, Ayizan e 
Houngan/Mambo. 
 
 32 
Simbis estão em todos os ritos Vodu, normalmente escondidos nas sombras. Eles são 
os doares do poder que o Houngan e a Mambo têm [emprestado]. Se sem Legba não 
há a comunicação entre nós e os espíritos, sem Simbi não há magia e nem 
incorporação, já que esta é um aspecto da magia. Por ser Simbi um deus fortemente 
ligado à magia, ele acabou sendo muito popular entre os magos e bruxas dos EUA, 
mesmo sem essas pessoas terem qualquer tipo de envolvimento com o Vodu. Não 
cabe ao escopo desse curso ficar discutindo sobre a validade disso, e o mais 
importante é que tenham muito respeito ao lidar com essas pequenas serpentes. Se 
estiverem fazendo bom – e respeitoso – uso do poder de Simbi, então que seja válido a 
eles. 
Legba é o Deus Mensageiro do Vodu, ele intermedia nossa comunicação com os 
deuses, e apesar disso, Legba é um deus Solar, não Mercurial, como seria de se 
esperar. Entretanto, Simbi não só é mercurial como também é um espírito ligado à 
comunicação. Neste ponto, fica bastante complexo diferenciar Simbi de Legba em suas 
funções comunicadoras. Mas quando falamos da comunicação de Legba, estamos 
falando de algo realmente físico, processo da fala,idiomas, rezar, cantar. No caso de 
Simbi, essa comunicação pode ser física, como a de Legba, quando estamos lidando 
com pessoas, mensagens, recados, pedidos, tudo num nível puramente humano. Simbi 
trata da comunicação divina também, não em palavras, mas em conexão energética, 
comunicação simbólica, magia, a comunicação que Simbi nos proporciona com nossas 
divindades é num padrão energético que não podemos compreender em palavras. 
Simbis são responsáveis por nossos insights, nossas sincronias, pelo Deja vù e por 
todas as formas de conexão/comunicação não verbal. Simbi também auxilia na 
comunicação entre as divindades, mas igualmente não num sentido humano da 
palavra. Quando Simbi intermedia duas divindades, ele faz uma fusão dessas energias, 
permitindo que ambas possam trabalhar juntas e em equilíbrio. Como uma entidade 
mercurial, Simbi pode entrar em todos os mundos sem fazer parte deles, sem se sujar 
com as diferentes energias, sem jamais deixar de ser Simbi. 
Simbi pode ser entendido magicamente quando estamos falando sobre o metal 
mercúrio. Este metal é capaz de tomar qualquer forma. Mergulhe nele uma moeda e 
ele aderirá a ela em cada detalhe, então tire a moeda e mergulhe outro objeto e o 
mercúrio tomará uma nova forma. Assim é Simbi, capaz de se moldar em qualquer 
forma, um espírito versátil, que pode parecer diferente, moldado a cada pessoa que o 
servir. O mercúrio é muito utilizado em dispositivos elétricos, pois é um ótimo 
condutor de eletricidade. Da mesma forma, Simbis são serpentes elétricas, capazes de 
viagem na velocidade de um raio. Embora o mercúrio seja 13 vezes mais pesado que a 
água, sua fluidez é infinitamente melhor que essa. Assim é a fluidez de Simbi, mesmo 
sendo um espírito Petwo, muitas vezes selvagem e pesado, ele é fluído e quase 
imperceptível na maioria das vezes. O mercúrio é empregado na medicina e 
odontologia, desde desinfetantes à amálgama odontológica. Foi amplamente usado 
 
 33 
nos séculos passados como curador de feridas e em diversos tratamentos, embora seja 
algo absurdo, pois hoje sabemos que é um elemento químico altamente venenoso. 
Oras, como não observar Simbi novamente e seu poder de cura e sua capacidade 
venenosa de destruir qualquer inimigo? 
Mitologicamente, Simbi não pode ser comparado diretamente a outro deus de outro 
panteão. O antigo deus que mais tem a compartilhar com Simbi é Hermes (Mercúrio 
em Roma). Mas Hermes tem uma ligação simbólica tanto com Legba quanto com 
Simbi. Simbi está muito próximo de todas as Loas, principalmente Legba. É 
interessante perceber que sendo simbolicamente Simbi o mercúrio e Legba o sol, 
devemos lembrar que Mercúrio é o planeta mais próximo do Sol. Simbi, assim como 
Legba, é também um comunicador, mas enquanto Legba é a comunicação de uma 
forma geral e principalmente um intermediário entre humanos e divindades, função 
essa de Hermes, Simbi é mais um comunicador entre as pessoas e entre os deuses, 
mas não exatamente entre pessoas e deuses. Mesmo que pareça estranho, todos os 
Simbis (menos Makaya) são protetores de todas as tecnologias, inclusive os E-mails, 
Mensagens, SMS, ligações telefônicas, internet e por aí vai. 
Os Simbis atualmente são conhecidos de uma forma geral como Petwo, mas podem 
aparecer nos ritos Radas, principalmente Andezo que tem como principal característica 
estar em dois lugares ao mesmo tempo. Mas há um conhecimento já perdido e pouco 
praticado, que nunca se falam por aí, e muitos podem achar a seguintes afirmações 
uma grande loucura. Não é muito comum encontrar Fanmi que coloque Simbi Dlo 
como sendo Rada. Na verdade, isso está muito certo. Ele é Simbi Dlo, da Água, um dos 
elementos sagrados do culto Rada (o outro elemento é o Ar). Dlo é o frescor, a magia 
benéfica entre todos os Simbis, ainda que sua chegada continue violenta e 
ameaçadora. Aqui não se trata de uma suposição simbólica, mas sim de um fato, uma 
verdade que para poucos é revelada. Há também outros Simbis no panteão Rada que 
sequer aparecem nas listas e pouco ou nunca os vemos se manifestar. Enquanto 
Simbis Petwo – em sua maioria – estão ligados ao Fogo-Energia-Água, Simbi Rada está 
ligado somente à Água-Eletricidade. Um Simbi “quase” esquecido de muitos templos é 
Simbi Yan Kita, um opositor entre os Simbis (Ser opositor na família Simbi é uma 
característica comum, tanto dos Simbis quanto de seus filhos). Ele é opositor primeiro 
porque Kita (Nação Kitha), assim como a Boumba, sempre figuram no meio dos Petwo 
em qualidade, segundo porque esse Simbi é Rada. Como podemos ver, ele vai duas 
vezes na contramão. Sua manifestação continua sendo algo violento, assustador e 
ameaçador, mas ainda é um Rada. Simbi Yan Kita cai no solo, logo após sua violenta 
chegada, e como um peixe sem oxigênio, ele se debate no chão, abrindo e fechando 
sua boca, buscando ar, enquanto pede agoniado por água. As pessoas precisam correr 
e providenciar pelo menos uma bacia com água, para que Simbi Yan Kita possa 
mergulhar a cabeça ali, enquanto as pessoas molham seu corpo. Isso é conhecimento 
antigo, já não mais praticado na maioria dos templos Vodu de hoje. Inclusive, já vi 
 
 34 
templos colocando Simbi Yan Kita entre os Petwo e este se comportando como tal, o 
que é muito estranho! É difícil dizer o que é certo e errado no quintal dos outros, 
então é preferível falar o que é incomum, e este é o caso. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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TI JEAN PETRO OU TI JEAN DANTOR 
Ele é um dos espíritos Vodu mais populares no Sul do Haiti e um dos mais recentes no 
panteão Vodu dos EUA, tendo sido introduzido na década de 20. É visto por muitos 
haitianos como sendo filho de Dantor, enquanto nos EUA ele é um deus serpente, 
incendiário e esposo de Marinette Bwa Chèche (No Haiti ele também tem essa 
conotação de esposo de Marinette). Não fazemos diferença entre Jean Dantor e Jean 
Petro, assim como alguns templos haitianos nos EUA também não os separam. Ti Jean 
é um deus do Fogo, assim como também é um mestre na magia negra e profecias, 
sendo também um oráculo no culto. Ele é uma Loa muito perigosa e que não deve ser 
abordada com descuido, que pode punir o desrespeito incendiando casas, templos e 
pessoas. Mas normalmente ele se apresenta como uma divindade muito brincalhona, 
de fácil risada e que ama conversar com os presentes em sua fèt, isso logo após sua 
violenta chegada ao recinto. 
A primeira vez que o vi em um ritual, eu confesso que não gostei. Eu sabia quem era, 
mas não sabia como tudo ia se desenrolar na cerimônia. Uma ovelha branca estava 
amarrada no Potomitan e muitas fogueiras estavam acesas, tanto dentro do templo 
quanto fora. Havia um culto forte ao fogo, tudo muito bonito e claramente primitivo, 
mas de uma forma poética. Ti Jean possuiu um senhor, aparentemente cansado pela 
idade. A violência foi tamanha que eu tinha certeza que o médium iria ao óbito 
naquele momento. No mesmo momento que esse senhor manifestou Ti Jean, em meio 
a um barulho ensurdecedor, as pessoas tiraram seus sapatos e amarraram neles vários 
lenços vermelhos e amarelos. Estávamos no quintal, e uma fogueira que ainda não 
havia sido acesa estava bem na frente dele. As pessoas correram para colocar fogo 
nela, que pegou rapidamente. Enquanto isso, a Mambo Wakenaton trouxe a ovelha 
que estava amarrada no Potomitan. Ti Jean cumprimentou o animal, baforou fumaça 
de seus dois cigarros em todo o corpo do animal, jogou sobre a ovelha pelo menos 
meia garrafa de rum e, para o meu desespero, a jogou viva na fogueira. Eu ainda posso 
ouvir os gritos do animal misturados às gargalhadas de Ti Jean. Para mim, naquele 
momento, foi antipatia imediata! 
O animal foi então retirado da fogueira, ainda vivo, mas todo machucado. Finalmente 
Ti Jean cortou-lhe o pescoço, matando o pobre bichinho que pode descansar. Ti Jean 
bebeu daquele sangue, também cortou pedaços queimados do corpodo animal e 
comeu, assim como serviu para outros presentes ali (menos eu, ainda bem!). O animal 
foi levado para um cômodo dedicado à Ti Jean, e um ritual aconteceu ali dentro. 
Enquanto isso, todos riam, conversavam e cantavam. Certamente era só eu que estava 
catatônico com a cena bizarra. Ti Jean fazia muito mais que isso, ele caminhava 
tranquilamente sobre as fogueiras, ele colocava brasas em sua boca e brincava com os 
demais. Era tudo tão surreal! Eu sentia raiva dele, não conseguia conceber a ideia de 
ter queimado um animal vivo. Todos riam com tanta naturalidade!!! Este foi um dos 
 
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meus momentos de crise pessoal e queria sair do Vodu imediatamente, mas já estava 
atolado na religião até a próxima encarnação. Eu continuo sem aceitar muito bem a 
ideia de um espírito queimar um ser inocente vivo. Ainda que eu entenda (não 
aceite...) que Ti Jean se alimenta da dor do animal, é mais que um simples sadismo 
gratuito. É o mesmo sadismo que vemos em Ezili Danto em relação aos porcos como 
oferendas vivas e à Marinette em relação às ovelhas, cabras e frangas. Tanto 
Marinette quanto Dantor estão intimamente ligadas a Ti Jean. 
Desconhecemos as origens verdadeiras dele. A história sugere que Ti Jean esteja 
intimamente ligado ao culto Congo. Mas, por ser Petwo, ele tem relação muito forte 
com a revolução haitiana. Ele está envolvido com a cerimônia de iniciação por causa da 
importância do Fogo nesse ritual. Ti Jean é o próprio Fogo, ele vive no meio das 
fogueiras, ele se alimenta do calor escaldante delas. Ele é de fato uma serpente de 
Fogo. É uma Loa extremamente importante nas Sociedades Secretas, tanto as famosas 
do Haiti quanto as mais recentes nos EUA. Assim como Simbi Makaya, Ti Jean é um 
mestre na magia negra. Mas enquanto Simbi Makaya protege os magos negros, Ti Jean 
taca fogo em quem estiver na frente e ele considerar merecedor. Ti Jean é um grande 
fiscal dos iniciados Vodu, assim como Lenglessou o é. Na visão simbólica dos EUA, 
sendo Ti Jean o próprio Fogo, e não existindo uma Wanga que não tenha pelo menos 
uma vela acesa, então Ti Jean está presente em todas as Wangas, em todos os Rituais 
e ele pode te observar a partir dali, sabe tudo o que está acontecendo, seja 
envolvendo o nome dele ou não. 
Ti Jean é sem dúvidas um dos espíritos mais agressivos do Vodu e, frequentemente, 
vejo as pessoas se esquecendo de que ele é uma serpente. Ele pode ser visto na 
mesma escala de Loas como Marinette, Kriminèl, Ogou Kriminèl, Ezili Ge Wouj, 
Lenglensou e outros. Sua fúria é praticamente implacável, raramente conseguimos 
evitar uma desgraça quando Ti Jean promete pegar alguém. Nem mesmo um Maryaj 
Lwa pode salvar o alvo da fúria do deus do Fogo. Por essas e outras, eu recomendo 
muito que o praticante tenha muito cuidado ao lidar com Ti Jean. Fazer pedidos tolos a 
ele é muito ofensivo, principalmente se os seus pedidos estão ligados ao seu orgulho. 
Cuidar de Ti Jean sem nenhum pedido, apenas cultuar ele sem nenhuma intenção, é o 
aconselhável. Entretanto, é muito raro vermos o Sevityè trabalhar com Ti Jean, sendo 
uma Loa indicada aos já iniciados, que terão menos chance de se meter em confusão 
com ele. Você pode precisar de Ti Jean quando precisar saber se algo está sendo 
escondido de você, ou quando você vai trabalhar muito com a magia negra sem ter 
muito que perder. Apesar da “suposta” ética que Ti Jean trabalha, ele é 
frequentemente cultuado entre os Bòkòrs, tantos os feiticeiros cruéis e criminosos 
quanto os Bòkòrs devidamente iniciados mas que trabalham com ambas as mãos, não 
se importando tanto com as regras e ética. Assim sendo, concluímos que Ti Jean pode 
aceitar a fazer o seu jogo sujo independente de qualquer coisa, mas nada o impede de 
querer sua cabeça depois. 
 
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Seu repozwa natural é o coqueiro, embora qualquer palmeira alta sirva a esse 
propósito. Ele é saudado com "Azaro!" (Azarrô!) e ele bebe uma bebida especialmente 
feita para ele, chamada de Bouteille ti Jean. Ele sempre está fumando dois cigarros ao 
mesmo tempo e usando um chapéu de palha e um bastão ou bengala. Fogueiras são 
normalmente acesas em louvor de Jean Dantor (Petro), sendo ele o patrono dos 
bombeiros. Ti Jean pode aparecer tanto em sua forma serpente de fogo quanto em 
sua forma anã e com uma só perna. No Haiti, suas cores são o amarelo e branco, 
enquanto nos EUA ele é louvado com Vermelho e Amarelo. Sua possessão está entre 
as mais violentas da religião, e quando Ti Jean entra no seu médium, todos se afastam 
imediatamente, pois ele vai dançar sobre o fogo, comer brasas e, por vezes, queimar 
sem querer as pessoas desavisadas e quebrar itens dentro do templo. Em uma de suas 
danças, Ti Jean joga querosene no chão e ateia fogo nele, então dança girando 
rapidamente seu corpo enquanto pisa no fogo, apagando-o com os pés descalços e 
sem se quimar. 
Bouteille ti Jean, Bebida de Jean Dantor (Petro) 
Rum branco ou amarelo 
Uma colher de sopa de canela em pó 
Uma colher de sopa de anis estrelado 
Uma colher de sopa de casca de maçã 
Uma colher de sopa de casca de limão 
Duas colheres de sopa de açúcar 
Colocar todos os ingredientes na garrafa de rum, guardar ela fora da geladeira e todos 
os dias, no mesmo horário, agitar bem a garrafa. Após nove dias a bebida estará 
pronta. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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 MAGIA DAS PROFECIAS (Ti Jean Petro) 
Magia realizada somente por pessoas iniciadas no Vodu de Nova Orleans, mas que 
poderá ser feita por vocês. A ideia dessa wanga é fazer você descobrir algo escondido, 
caso alguém esteja mentindo para você. Ela também ajuda a revelar o futuro através 
de sonhos ou presságios diários. Ela pode ser repetida quantas vezes quiser. 
 
01 – Em um local limpo, no chão, desenhe com farinha de milho o Minokan acima. 
02 – No meio do Minokan, coloque uma bacia branca com água. Sobre essa bacia, 
coloque um prato esmaltado flutuando sobre a água da bacia. Neste prato, deverá ter 
sete Ti-mesh embebido em azeite de oliva, sendo um ti-mesh no meio e seis em volta 
deste. 
03 – O Minokan possui oito pontas. Coloque em cada ponta uma vela, alternando as 
cores entre vermelho e amarelo. 
04 – Com tudo aceso, faça uma libação para Legba usando rum, pedindo para que ele 
abra os portões e permita que Ti Jean Petwo passe e venha até você. 
05 – Faça a seguinte evocação: 
Nzo kay nba zilo debé, nzo a papa, kay la! Nzo kay nba zilo debé, nzo a papa, kay la! 
Unzô kái unbá zilô debê, unzô a papá, Kai lá! Unzô kái unbá zilô debê, unzô a papá, Kai 
lá! 
06 – Espere no local por uns dez minutos, então poderá ir dormir ou continuar fazendo 
suas coisas normais. Ao terminar todas as velas, descarte tudo o que sobrar em uma 
encruzilhada, menos o prato e a bacia. A água pode ser jogada na rua mesmo. 
 
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MINOKAN DE CURA DE LI GRAND ZOMBI 
Minokans, assim como vèvès, não eram usados originalmente no Vodu de Nova 
Orleans. Mas a partir do século XIX, esses desenhos passaram a fazer parte do Vodu 
dos EUA e muitos Minokans e vèvès únicos dessa religião surgiram. O Minokan a seguir 
é de uso restrito em algumas sociedades secretas de base voduísta nos EUA e tem 
como função curar ou ajudar no restabelecimento do doente. 
 
01 – Tome um banho com água e sal marinho. Vista-se de branco, com Moushwa. 
02 – Coloque uma bacia com um litro de água pura no centro do Minokan. Debaixo da 
bacia, uma foto da pessoa doente. Se a bacia ou recipiente for transparente, melhor! 
03 – No pentagrama, coloque um pratinho com açúcar e uma vela branca nele, no 
meio do açúcar. 
04 – Sobre cada símbolo do esquadro e compasso, coloque uma vela verde (qualquer 
tom). 
05 – Coloque uma vela vermelha no quadriculado à esquerda e uma vela branca no 
triângulo, abaixo à direita. 
06 – Em um recipiente à parte, com 1 litro de água, faça o seguinte banho: raspas de 
casca de limão; raspas de casca de laranja; amasse bem as seguintes ervas no banho, 
até ficar bem escuraa água e sem coar, um maço de manjericão, um maço de hortelã, 
um maço de folhas de pimenta, um maço de folhas de aroeira, três galhos de alecrim, 
 
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um maço de folhas de uma árvore encontrada num cemitério, qualquer árvore serve, 
menos chorão. Amasse pétalas de uma rosa branca e acrescente rum branco, um copo 
basta. 
07 – Adicione essa mistura à água que está no centro do Minokan. 
08 – Faça a seguinte evocação: 
Mono zoclé o, nzo li nfwa se ti fa, mpuzualango masi ngo mono nba. Mono zoclé o, 
nzo li nfwa se ti fa, mpuzualango masi ngo mono nba. Mono zoclé o, nzo li nfwa se ti 
fa, mpuzualango masi ngo mono nba. 
Monô zoclê o, unzô li unfuá se ti fa, umpuzualángo massí ungô monô unbá. Monô zoclê 
o, unzô li unfuá se ti fa, umpuzualángo massí ungô monô unbá. Monô zoclê o, unzô li 
unfuá se ti fa, umpuzualángo massí ungô monô unbá. 
09 – Cubra o banho com um tecido branco. Deixe as velas terminarem por completo. 
Adicione uma pitada da farinha do Minokan ao banho e o tome da cabeça aos pés. Os 
restos do ritual pode ser descartado em uma encruzilhada. A pessoa deverá manter 12 
horas de resguardo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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GRANDE RITUAL DE LI GRAND ZOMBI 
Às vezes, nossa vida fica uma grande bagunça, não sabemos por onde começar a 
consertar e precisamos de soluções imediatas. Nesses momentos, é comum nem 
sabermos o que de fato está acontecendo e não temos certeza a qual divindade 
recorrer. Tradicionalmente, aprendemos que na dúvida, recorremos à Legba. Mas 
quando estamos mais avançados na religião, temos outras opções e uma delas é Li 
Grand Zombi. 
Ele é a grande serpente mágica, conhecedora da magia branca e negra, capaz de 
entender nossa situação humana e agir da melhor forma possível. Principalmente se os 
problemas tem origem mágica. Se for o caso. li Grand Zombi o ajudará a se limpar e 
corrigir os caminhos assim como limpará e corrigirá as energias do local onde essa 
Wanga for realizada. 
Material 
Duas mesas pequenas 
Uma toalha branca 
Uma toalha vermelha 
Duas velas comuns branca 
Duas velas comuns vermelhas 
Três punhais ou facas de ponta 
Dois pratos comuns, qualquer cor 
Um copo com agua 
Um copo com rum branco 
Três ovos brancos 
Três ovos marrons 
Três tipos de frutas vermelhas 
Três tipos de frutas amarelas 
Pó de café 
Açúcar 
Um recipiente para 1 litro de água 
Água 
Um copo de leite 
 
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Uma colher de chá de leite condensado 
Manjericão 
Folhas de laranjeira 
Alecrim 
Uma Rosa branca 
Uma rosa vermelha 
Uma pitada de patchuli 
Uma borrifada de perfume (qualquer tipo) 
Uma colher de sopa de cascarilla branca 
Incenso de olíbano resina 
Carvão 
Farinha de milho 
Um chocalho 
Um cordão vermelho no tamanho da pessoa 
Três moedas de igual valor 
Aparas das unhas das mãos da pessoa a ser limpa 
Uma foto da pessoa 
Um copo de azeite de oliva 
Mel 
Passo a Passo: 
01 – Faça o ritual em qualquer dia e horário. Antes, arrume o local onde será feito, 
limpando o chão e organizando o que estiver ao redor. É importante estar de 
resguardo duas horas antes e manter o resguardo de doze horas depois. 
02 – Arrume os itens do ritual. Posicione as duas mesas, lado a lado, separadas por 
dois metros. Na mesa da esquerda, coloque uma toalha vermelha, uma vela vermelha 
de cada lado, um punhal ou faca, um copo de rum branco, um prato com pó de café, 
três ovos marrons crus sobre o pó de café e três frutas vermelhas. Na mesa da direita, 
coloque a toalha branca, uma vela branca de cada lado, um punhal ou faca, um copo 
com água, um prato com açúcar, três ovos brancos crus sobre o açúcar e três frutas 
amarelas. 
03 – Tome um banho com água e sal marinho. Se estiver ajudando alguém, peça para 
que a pessoa participe, tomando um banho de água com sal marinho. A pessoa a ser 
ajudada deverá sentar-se em uma cadeira entre as duas mesas, e neste caso, as mesas 
 
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precisarão ser trocadas de lado, ficando a branca à sua esquerda (direita de quem está 
sentado) e a vermelha à sua direita (esquerda de quem está sentado). Se o ritual for 
para você mesmo, dispense a cadeira e mantenha as posições originais. Acenda as 
velas dos altares. 
04 – Defume todo o ambiente com carvão e resina de olíbano. 
05 – Após a defumação, comece o desenho do Minokan abaixo. Ele deve ser feito na 
frente das mesas, mas centralizado entre elas. 
 
06 – Minokan feito. Faça três libações para Legba Rada, usando somente água (do 
altar), na frente do altar branco. Peça para que ele abra os portões e permita de Li 
Grand Zombi venha até seu ritual. Depois, faça três libações para Legba Petwo com 
rum (do altar) na frente do altar vermelho. Peça para que ele abra os portões e 
permita de Li Grand Zombi venha até seu ritual. 
07 – Pegue o terceiro punhal ou faca, com a mão direita. Na esquerda, mantenha uma 
vela branca acesa. Aponte a faca entre os altares ou na direção onde a pessoa estaria 
(está) sentada. Diga em voz alta: Nan Nzabwe! (Nã unzabuê) 
Vire-se para trás, apontando o punhal ou faca, e diga em voz alta: 
Nan Za are! (Nã zá arê) 
 
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Vire-se para a sua esquerda, apontando o punhal ou faca, e diga em voz alta: 
Nan Zo! (Nã zô) 
Vire-se para trás, apontando o punhal ou faca, e diga em voz alta: 
Nan Dlo! (Nã dlô) 
08 – Posicione o punhal ou a faca no centro do Minokan, junto com a vela que está 
segurando em sua mão esquerda. 
09 – Pegue o recipiente com um litro d’água. Mostre-o aos quatro pontos cardeais e o 
posicione sobre a estrela grande de oito pontas no Minokan. Caso esteja fazendo para 
alguém, que está sentado na cadeira, então peça para que essa pessoa segura o 
recipiente com um litro de água. 
10 – Misture, nessa ordem, os seguintes ingredientes na bacia com um litro de água: 
Um copo de leite, Uma colher de chá de leite condensado, Manjericão, Folhas de 
laranjeira, Alecrim, Uma Rosa branca, Uma rosa vermelha, Uma pitada de patchuli, 
Uma borrifada de perfume (qualquer tipo) e Uma colher de sopa de cascarilla branca. 
As folhas deve ser amassadas com suas mãos e os bagaços deixados na água. 
11 – Retire a bacia das mãos da pessoa sentada, se for o caso, e a posicione sobre a 
estrela grande do Minokan. Caso seja para você mesmo, a bacia já estará ali 
posicionada, pule essa etapa. 
12 – Acenda nas pontas da estrela, onde a bacia com o banho está no meio, oito velas, 
sendo quatro vermelhas e quatro brancas, alternadas. 
13 – Com a mão esquerda, segure uma vela branca nova. Com sua mão direita, segure 
o chocalho. Faça o cumprimento Rada, começando na direção onde a pessoa estaria 
(está) sentada. 
14 – Posicione esta vela nova, que segurou durante o cumprimento Rada, entre as 
duas mesas, ou na frente da pessoa sentada. 
15 – Com um tecido branco, venda os olhos da pessoa sentada. Se a wanga é para você 
mesmo, pule esta etapa. 
16 – Com o chocalho na sua mão direita, toque-o nessa ordem: na frente do altar 
branco, nove toques; na frente do altar vermelho, seis toques; atrás da pessoa 
sentada, doze toques (pule essa etapa se o ritual for para si mesmo); sobre o banho, 
vinte e um toques. 
17 – Se estiver fazendo para uma pessoa, entregue o banho nas mãos dela, a 
mantenha vendada, guie ela até o banheiro e se retire. Peça para a pessoa colocar o 
banho no chão, retirar a própria venda, as roupas, e jogar o banho da cabeça aos pés. 
Então a pessoa deverá se vestir, se vendar e bater três palmas para te chamar. (a 
pessoa deve ficar muda o ritual inteiro). Leve a pessoa até a cadeira. Enquanto você 
 
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guia a pessoa ao banheiro e depois a leva de volta para a cadeira, vá tocando o 
chocalho sem parar. Caso esteja fazendo para si mesmo, não necessita da venda, nem 
do chocalho, apenas vá ao banheiro, tome o banho, vista-se novamente e volte para o 
local do ritual. 
18 – Com a pessoa vendada, ofereça as três frutas amarelas e peça para que ela 
escolha uma e a segure. Faça o mesmo com as três frutasvermelhas. As frutas não 
escolhidas, devem voltar para o altar. Caso o ritual seja para si mesmo, vá diante do 
altar branco e escolha uma das frutas, depois o mesmo no altar vermelho. 
19 – Leve a pessoa, sem a venda, ou vá você mesmo (se o ritual for teu) até um lugar 
com terra, longe dali. Chegando lá, abra um buraco no chão, desenhe o vèvè no final 
dessa apostila (página 56) sobre a terra, em volta do buraco cavado. Dentro do buraco, 
coloque o seguinte material: Um cordão vermelho no tamanho da pessoa, Três 
moedas de igual valor, Aparas das unhas das mãos da pessoa a ser limpa, Uma foto da 
pessoa, Um copo de azeite de oliva, Mel. Tampe o buraco e coloque as frutas 
escolhidas sobre ele. Vá embora sem olhar para trás. 
20 – Voltando ao local do ritual, sente a pessoa novamente na cadeira, venda ela. Peça 
para que a pessoa mentalize tudo de bom, pense em coisa boas. Enquanto faz isso, 
varra o Minokan do ritual. Coloque essa farinha do Minokan em uma sacola. Tire a 
venda da pessoa, entregue a farinha do Minokan e peça para que ela jogue essa 
farinha em volta da casa dela, no quintal. Se for apartamento, que jogue na sacada e 
ou na frente do prédio. Se o ritual for para você mesmo, varra enquanto mentaliza, e 
jogue a farinha como já ensinado. As velas precisam terminar de queimar, então o 
ritual estará concluído. Nem você e nem a pessoa precisam esperar as velas acabarem, 
deixe elas e sigam suas vidas. A pessoa do ritual, que não seja você, deverá ficar muda 
até o final. Só poderá conversar com você no outro dia. Por isso, explique tudo muito 
bem para ela, se for preciso, faça um guia passo a passo. 
21 – As frutas restantes, pó de café, açúcar, ovos, líquido e farinha do Minokan devem 
ser descartados em uma encruzilhada. 
 
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DAMBALLAH, A SERPENTE DO CÉU... 
Se estivessem no Djevo, este seria um assunto abordado. É fato que podem não 
compreender os segredos que serão revelados aqui, mas uma leitura atenta pode 
marcar a alma de vocês e fazê-los compreender, em poucas linhas, muito do que 
representa essas serpentes. 
Damballah Wèdo é o mais antigo, o venerável pai, criador de todas as coisas; 
Damballah Wèdo é muito mais antigo que a própria terra. Assim, somos todos seus 
filhos, filhos da grande serpente dos céus, o grande pai de quem não se pede nada, 
exceto sua bênção. Ele se manifesta como uma cobra, mergulhando imediatamente na 
grande bacia de água ou num pequeno lago que é construído nos templos unicamente 
para ele, e ali ele se contorce, goteja e desarticula, no chão ou, muitas vezes, sobe em 
uma árvore, indo até os galhos mais altos, onde ele repousará. Damballah é a fonte 
primordial de toda a sabedoria da vida. O tempo todo ele gesticula seus sinais, seus 
gestos de bênçãos; quando ele fala, é um assobio sibilante e imcompreensível. Não há 
quase nenhuma comunicação precisa com ele, como se sua sabedoria fosse de tão 
grande alcance cósmico e tão grande inocência que não pudesse perceber as menores 
ansiedades de sua fala humana. 
No entanto, é esse mesmo desapego que conforta, e que é uma evidência, mais uma 
vez, de algum vigor original e primitivo que de alguma forma permaneceu inacessível a 
qualquer que seja a história, qualquer que seja o imediatismo que possa diminuí-la. A 
própria presença de Damballah, como a carícia simples, até mesmo distraída, da mão 
de um pai, traz a paz. Como Dã, origem e essência da vida, do movimento dinâmico do 
qual seu próprio movimento é uma demonstração de seu poder arrastando todos os 
planetas do sistema solar, Damballah é ele mesmo imutável pela vida, e assim é ao 
mesmo tempo o passado antigo e a garantia do futuro. Damballah e Ayida Wèdo não 
 
 47 
são para ser entendidos pela limitada compreensão humana, eles vão muito além 
desse nosso pequeno e frágil cérebro. Provavelmente, os antigos sumérios o 
compreendiam, assim como todos os povos da antiguidade, da África à Ásia, da Europa 
às Américas. Em algum momento da história, nós, chamados de modernos, perdemos 
essa conexão com as grandes divindades. Estamos cada vez menores diante dos 
grandes deuses, e em algum momento no futuro, certamente seremos engolidos pela 
grande serpente branca, seja ele Tiamat, Tan, Dã, Dan, Dangbé, Damballah, Blanc Dani 
ou qualquer outro. 
Em todas as culturas ele é mostrado como uma cobra arqueada no caminho que o sol 
viaja pelo céu; às vezes metade do arco é composto de sua contraparte feminina, 
Ayida, o arco-íris. Ele é o patrono das águas do céu e domina sobre todas as nascentes 
e rios que as águas celestiais nutrem [pela chuva] e sobre as quais os seres vivos 
nutrem seu corpo, a fim de manter sua centelha divina. À medida que a chuva 
mergulha no mar e na terra, o arco-íris é refletido no céu (ou, na bacia, na qual é 
pintado como reflexo). Damballah e Ayida, que juntos representam a totalidade 
sexual, abrangem o cosmos como uma serpente enrolada sobre o mundo. O ovo do 
mundo [ovo cósmico, uma ideia simbólica de que todo o sistema solar, assim como 
outras galáxias, podem ser colocadas dentro de um ovo de serpente] é o símbolo 
especial para eles; e um ovo sobre um monte de farinha de trigo é a oferenda especial 
para Damballah. Ele bebe, esmagando a casca com os dentes, cada gota do ovo 
sagrado. 
Quando, no decorrer da cerimônia, o houngenikon abre com as palavras: "O wèdo, 
estamos chamando Wèdo, O Wèdo está lá, é Damballah Wèdo", os tambores e o coro 
avançam com um som tão sólido, tão profundo, tão hipnotizante, sem igual, que 
raramente marca a invocação a qualquer outra divindade. Expressa uma profunda 
reverência especial, impressionante ou uma ternura perceptível que costuma marcar 
suas outras evocações. Pois Damballah é a maior benevolência, a poderosa proteção, a 
elevada evidência de um bem justo e eterno. Damballah é tão poderoso, tão imenso, 
que o Ninho da Serpente decidiu que ele é superior ao próprio Bondye, não como um 
deus único, mas como um dos mais importantes da religião. Associados à Damballah, 
como membros do Panteão do céu, estão Badessy, o Vento, Sobo e Agaou Tonerre, o 
Trovão. É possível que tenha havido um tempo em que tais elementos naturais 
tenham sido muito importantes e significativos na vida dos homens e, na ordem ritual, 
eles [Badessy, Sobo e Agaou] não possuem frequentemente o Hounsi (iniciado). Eles 
parecem pertencer a outro período da história. No entanto, são deuses que 
representam um sentido de extensão histórica, da origem antiga da raça. Invocá-los 
(ou evoca-los) hoje é esticar a mão de volta àquele tempo e reunir toda a história num 
solo sólido e contemporâneo sob os pés do voduísta. Não dá para explicar em 
palavras, somente um pouco de filosofia é que pode nos dar um pouquinho da 
dimensão que é Damballah Wèdo ou Dani Blanc, se preferir. 
 
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...SIMBI, A SERPENTE NO RIACHO... 
Visto que, por sua própria natureza, Damballah é uma força positiva e circunda todo o 
universo, ele tem um contraste equivalente, seja no submundo ou no sentido 
negativo, malévolo. Damballah tem, no entanto, um equivalente num plano de ação 
mais imediato, físico, palpável; Simbi, que ocupa uma posição bastante notável no 
panteão, compartilhando características e funções não apenas com o todo poderoso 
Damballah, mas com todas as divindades principais, tanto entre os Rada quanto entre 
os Petwo. De certa forma, ele [Simbi] contém, em si mesmo, todos os princípios 
primários de uma religião e de uma forma muito explícita. Ele é definitivamente uma 
Loa das encruzilhadas e uma das chaves secretas de seu vèvè é uma cobra em um 
campo de cruzes. Desta forma, ele está relacionado com Legba, por um lado, e Kalfou, 
Ghede, Bawon Simitye e Bawon Samedi, por outro, dependendo se ele é chamado no 
"ponto" Rada ou Petwo. No caso de Simbi, o princípio da encruzilhada é estendido ao 
conceito da divisão Rada-Petwo em por um lado, enquanto por outro, ele é conhecido 
como Simbi-en-deux-eaux(Andezo, em Kreyòl) e atravessa as águas acima e as águas 
abaixo da terra, que são entendidas como as águas celestes e abismais, ou como as 
águas doces e salgadas no plano terrestre. Sua principal função Rada é como o 
protetor das fontes e as chuvas, e neste sentido, assim como no símbolo da serpente, 
ele [Simbi] está intimamente relacionado à Damballah e às outras divindades 
"brancas" que são guardiões das fontes, das águas e dos mares. Como protetor das 
chuvas, ele é entendido como sendo ainda mais forte que qualquer outra Loa que 
venha a dominar essa mesma esfera. Tamanha força é parcialmente devida à sua outra 
função principal, a de patrono dos magos, e é nessa conexão que Simbi é mais 
frequentemente chamado. Certamente é um papel para o qual a sua posição crucial no 
cosmo e no panteão o equipa admiravelmente, pois ele irradia em todas as direções a 
partir desta localização central (entenda como a estrela de oito pontas). Ele é a única 
Loa, por exemplo, que se sobrepõe ao domínio de Agwe, mesmo não sendo da família 
de Loas do Mar. Toda a magia do mundo é realizada sob o poder, seja o medicinal, o 
protetor ou o menos benevolente, dos Simbis, sobretudo, Simbi Andezo. No entanto, 
apesar de toda a sua atividade e importância, sua personalidade é mais obscura que a 
de muitas outras Loas, inclusive as mais temidas e menos comentadas. Suas canções 
referem-se repetidamente à sua relutância em entrar no portão do Templo Vodu, sua 
espreita do lado de fora é como a de um vizinho sociável recém chegado à vizinhança e 
que ainda é um pouco tímido, apesar de todo seu conhecimento e poder. 
... E UM DOS ENIGMAS DOS PETWO. 
Em algumas regiões, Simbi é predominantemente associado à nação Petwo, em 
referência não apenas a Kalfou e Bawon Simityè, mas também a Dan Petro, o pai de 
todas as Loas da tribo Petwo. Como tal, Simbi é o elo entre Damballah e as principais 
divindades Petwo que, embora não pudessem ser consideradas como aspectos Petwo 
 
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de Damballah (no sentido de que Legba e Kalfou são opostos geminados), comandam 
uma posição equivalente em sua respectiva hierarquia e também compartilha outras 
características com o Damballah. De fato, há um Damballah La Flambeau (A tocha) que 
é entendido como um Damballah Petwo e La Flambeau é, por sua vez, entendido como 
sinônimo de Saint Blanc ou Petwo Blanc (Termos para se referir a um tipo de Petwo, 
porém branco, da magia benevolente, mas sem sentido no Vodu ortodoxo). Deste 
último, foi dito: Ele é um grande chefe que comanda seus servos, e estes são 
frequentemente maus, sádicos e assassinos impiedosos. De certo modo, até mesmo 
Dan Petro ou Congo Zandor, como também é conhecido, não é ele mesmo um espírito 
cruel. 
A ligação com Damballah é sugerida na figura de Ti Jean Petro, filho de Dan Petro, que 
se caracteriza por ter apenas um pé (formando a cauda de uma serpente), ou talvez 
nenhum pé (tal como as serpentes e cobras), e, simultaneamente, ser extremamente 
ágil na escalada de árvores, que ele quase sempre faz assim que ele aparece nos 
rituais. Se alguém lançasse um enigma, perguntando que criatura não tem pés, mas 
sempre sobe em árvores, só poderia haver uma resposta: uma cobra/serpente. É fato 
que Dan, inclusive Dan Petro, não tenha relação com a palavra espanhola "Don", mas 
sim o princípio da cobra, palavra vinda de mais de 5000 anos a.E.C. 
Assim, as principais divindades Petwo - Dan e Ti Jean Petwo, Congo Savanne e Congo 
Zandor - funcionam, como Damballah, como a referência ancestral do culto, como sua 
fonte de vida, guardiões e patronos da água. Em certo sentido, Damballah, Simbi e as 
serpentes Petwo não são de forma alguma opostos, mas sim mais ou menos como três 
círculos “cobra-concêntricos” que abrangem o mundo conhecido como um todo. O 
mais externo, Damballah, é ao mesmo tempo o mais abstrato, antigo e benevolente; 
Simbi tem tanto o poder quanto a ambivalência de sua posição intermediária; 
enquanto as serpentes Petwo são ao mesmo tempo os mais severos, obstinados e 
fortes na sua magia de destruição. Além disso, eles adicionam um elemento que está 
faltando nos outros dois (Damballah e Simbi); as serpentes Petwo por natureza, como 
Ti Jean, Lubana e Simbi Makaya, são os mais próximos da terra, e os mais preocupados 
com o que acontece sobre ela. Da mesma forma é toda a nação Petwo, que mostram 
uma forte ênfase agrária. 
 
 
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A JORNADA DE UM VODUÍSTA (Parte IV) 
Um ano se passou, chegaram as férias, outubro de 1999. Fui passar as férias na casa do 
meu irmão. Enquanto isso, as coisas não estavam indo bem na casa dos meus pais. 
Desde 1995 as relações políticas entre Turcos e Gregos ainda estavam azedas. Em 
épocas assim, os itens nos mercados são racionados, assim como os itens do campo, 
que chegam bem racionados. Viver num pais a beira de uma guerra é muito ruim. 
Meus pais, empresários, éramos até então de uma família abastada de Atenas, mas 
estávamos entrando na pior fase de nossas vidas. A empresa da família estava para 
fechar as portas, as dívidas estavam engolindo meus pais, as chances de minha família 
passar graves necessidades financeiras e até fome eram reais. A empresa estava 
declarada falida, e eu me sentia de mãos atadas sem poder fazer nada. 
Chegando à casa de meu irmão, no mesmo dia eu vi o Luis. De fato éramos grandes 
amigos, quase irmãos mesmo. Eu cheguei em boa hora, pois ele me disse que a 
Mambo queria falar comigo, e poderia me atender dentro de três dias. Estava tão 
aflito com toda a situação, que realmente uma pessoa para me dar uma luz seria muito 
bem vinda. Tudo o que eu pensava naquele momento era em como ajudar minha 
família, nada mais passava na minha cabeça. Eu me encontrava tão em outra realidade 
paralela que nem vi esses três dias se passarem. 
 
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Fui até a casa da Mambo às 08:00 da manhã, como combinado, mas antes me 
disseram que eu deveria ir vestido de vermelho ou vermelho e preto. Ao chegar lá, o 
cheiro estava horrível, tudo cheirava tão mal, quase vomitei logo na entrada. Haviam 
muitas pessoas no local, todas de vermelho. O Luis pegou para mim um banho e me 
pediu para que eu entrasse no banheiro e o tomasse da cabeça aos pés, só então eu 
poderia falar com a Mambo. Eu não tinha ideia do que eu ia encontrar no cômodo 
usado como templo. Saindo do banheiro, o Luis me levou até a Mambo, que se 
encontrava sentada numa linda cadeira. O ambiente estava cheio de fumaça de sangue 
de dragão (resina), e eu não percebi o tanto de animais mortos sendo limpados pelas 
pessoas. Me abaixei diante da Mambo, beijei suas mãos como haviam me instruído e 
ela, muito bondosa, pediu para me sentar diante dela. As palavras dela ressoam na 
minha mente ainda hoje: 
- Não sei quais momentos ruins está passando, mas vamos te ajudar. Apenas faça o 
que vou pedir. Hoje é a festa de Simbi Makaya, um deus mágico, capaz de realizar 
milagres. Venha, vou te ensinar como limpar essas pombas. 
A Mambo me levou até uma pequena mesa de madeira onde havia um cesto com 
várias pombas já sacrificadas. Elas não tinham cabeça e nem as patinhas. Minha tarefa 
era simples, despenar as pombas o mais rápido possível e coloca-las em outro cesto. 
Onde eu estava, tinha uma visão privilegiada de todo o ambiente. A Mambo observava 
o trabalho de todos, alguns com pombos e outros com frangos. Alguns tiravam as 
penas, outros abriam e separavam órgãos diversos. A Mambo entrava com animais 
vivos em um pequeno cômodo e saia dali com eles mortos e os distribuía nas 
diferentes mesas onde cada pessoa parecia ter uma missão. O cheiro da morte era 
desagradável e se misturava ao cheiro da resina de sangue de dragão. Era a primeira 
vez que eu via algo parecido! Em meio a tudo isso, ninguém conversava, apenas 
cantavam e francês algumas músicas muito bonitas. 
De repente, um som de chocalho silenciou todo o lugar. As pessoas pararam o que 
estavam fazendo e, do meio de toda afumaça, surgiu a Mambo e mais algumas 
pessoas tocando chocalhos e guiando até o poste central um boi negro relativamente 
pequeno. O Boi estava decorado com flores vermelhas na cabeça e uma capa vermelha 
com um desenho nela. Para mim, era quase uma oferenda para a deusa Atena no 
Parthenon, quando os gregos antigos caminhavam pelas ruas de Atenas com um touro 
nas mesmas condições, levavam o animal até a Acrópole, onde era sacrificado. Meu 
corpo todo se tremeu, eu tinha muito medo do que eu ia presenciar ali, meu coração 
quase saía pela boca. Então, algumas pessoas, aparentemente importantes, 
começaram a dançar em volta do animal, tocavam chocalhos, jogavam perfume no boi 
e, subitamente, um dos homens manifestou um espírito muito forte, ofegante, 
barulhento, com pouco controle do próprio corpo. Esse espírito gritava muito, e as 
pessoas aplaudiam e tocavam chocalhos. Foi muito rápido quando esse médium, 
 
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munido com um punhal, pulou no pescoço do boi e literalmente lhe abriu a jugular. O 
sangue jorrava como uma cachoeira, e aparavam todo o líquido em uma grande bacia. 
O médium possuído lambia a faca e os dedos como se fosse a coisa mais saborosa do 
mundo. 
A essa altura, eu estava perplexo com tudo aquilo, queria muito sair dali. O medo 
tomou conta de mim, eu já não respondia pelos meus atos e confesso que tentei sair 
dali sem ninguém ver. Mas fui impedido e claramente proibido de fazê-lo. Eu não 
consigo me lembrar do que aconteceu com o boi no minutos seguintes ao sacrifício, eu 
estava em pânico, minha memória recente havia sido bloqueada para que eu pudesse 
sobreviver a tudo aquilo. Acho que eu estava tão em choque que todos perceberam e 
vieram ajudar a me acalmar como podiam. Enquanto as pessoas tentavam me trazer 
uma palavra de conforto, a minha volta tinha muito sangue e pessoas em estado 
alterado de consciência pingando sangue corpo abaixo e gritando em uma dança 
quase diabólica. As danças, rituais e comidas mágicas sedo feitas com os animais 
sacrificados duraram até perto das 16:00, e eu ajudava como podia, ficando um pouco 
na cozinha, um pouco separando os animais e só queria que aquilo tudo acabasse logo. 
Quando tudo finalmente terminou, era chegado o momento de todos limpar o local, 
que estava imundo. Inclusive a Mambo e outros de aparência importante ajudaram a 
limpar. Todos então entravam no banheiro, um por vez, para tomar outro banho de 
ervas, muito cheiroso dessa vez. Me disseram, após o banho, que a Mambo queria 
falar comigo na cozinha. Fui até ela, a cumprimentei devidamente, e ela me deu uma 
coxa de frango e um prato com um creme de inhame, tudo um pouco ardido. Ela pediu 
para que eu comesse tudo. Então, ela começou a falar coisas que me deram um alívio, 
após um dia tão estressante: 
- Sei que ficou assustado com tudo o que viu, os meninos estavam preocupados com 
você (risos). Mas o que você fez por Simbi será devidamente recompensado, ele ficou 
muito feliz de ver sua dedicação. Confie nele! E não deixa de ir à festa de Damballah 
que vamos fazer mês que vem. 
Então terminei de comer, me despedi de todos e fui para minha casa. Havia sido um 
dia bem longo, eu estava meio atordoado com tanta informação visual. Mas eu estava 
esperançoso com as promessas de tudo ficaria bem, era um momento no qual que eu 
precisava muito de alguma esperança. Para mim, o Vodu tinha algo muito diferente de 
tudo o que eu tinha visto na vida. Era um contato muito palpável com os deuses deles. 
Isso me trazia uma segurança extra. 
Um mês depois, chegou o dia da festa de Damballah. Já havia recebido o convite e o 
endereço do local. Por alguma razão que não sei explicar, fui todo de preto! Assim que 
eu entrei no local, todos pararam a conversa e olharam para mim. Tudo no lugar era 
branco, todas as roupas, todas as decorações e até alguns petiscos eram brancos. Só 
 
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eu estava de preto! O Luis e a namorada dele saíram do meio da multidão e vieram até 
mim em pânico, já me chamando a atenção por eu estar de preto. Disseram que a 
Mambo Wakenaton ia me matar se me visse de preto. Pessoas confusas, não é? Uma 
hora nos manda ir de preto ou vermelho, na outra de branco. Mas rapidamente me 
levaram até um cômodo e arrumaram uma roupa branca pra mim, mas pediram para 
que eu tomasse um banho de ervas antes. Cada vez que me mandam tomar um banho 
de ervas, logo penso que terá uma surpresa quando eu sair do banheiro. 
Ao sair do banheiro, o Luis já estava a minha espera na sala. Ele então me levou para 
cumprimentar a Mambo, que estava no meio de outros Sacerdotes, pensa na minha 
vergonha. A Mambo me apresentou a todos me chamando de Filho da Serpente, achei 
fofo, embora não tivesse entendido. Então a Mambo pediu para que me levassem até 
um pequeno quarto, onde estavam muitas pessoas, todas de branco. Foi quando me 
disseram que eu ia dançar junto com eles na roda Vodu. Entrei em choque, pois eu não 
sabia o que eu tinha que fazer e nem o porquê de fazer. Mal tive tempo de absorver a 
ideia, uma música lenta, tocada em tambores, anunciou que uma fila tinha que ser 
formada ali. O melhor conselho foi para que eu copiasse tudo o que a pessoa na minha 
frente fizesse. Então começamos a entrar no salão. Dançamos em um grande círculo, 
no sentido anti-horário. A dança era mais complexa do que parece, eu errava tudo. De 
momentos em momentos a Mambo chegava por trás das pessoas, inclusive atrás de 
mim, tocando perto do meu ouvido um chocalho colorido. Eu não tinha ideia do que 
eu estava fazendo ali, mas eu estava e deixei rolar. 
Num determinado momento da dança ritual, algumas pessoas começavam a ficar 
muito estranhas. Eram os espíritos possuindo seus corpos. Tudo o que eu pensava 
naquele momento era eu não, eu não e eu não. Ainda bem que alguém me retirou dali 
e pediu para que eu e outras pessoas ficássemos fora da roda, sentados no chão. Dali 
eu pude observar em segurança o que estava acontecendo. Um lençol gigantesco foi 
estendido no chão, mais de uma pessoa caiu sobre esse lençol enquanto estava 
possuída por um espírito. Outras pessoas cobriam esses possuídos com outro lençol 
branco, e tudo o que podíamos ver eram seus corpos tremendo debaixo do lençol. Não 
dava para vermos nada do que estava acontecendo ali debaixo, mas dois frangos 
brancos foram entregues debaixo do lençol e muitas penas voaram por todos os lados. 
Depois de muitos minutos, muitos gritos e muita música, o lençol se aquietou, as 
pessoas tiraram o lençol e o que sobrou foram os dois frangos mortos, sem sangue e 
os médiuns desmaiados, com a boca um pouco suja de sangue. Os outros membros 
“acordaram” esses médiuns, que pareciam confusos, e os levaram para algum lugar, 
ajudando-os a caminhar, pois pareciam zonzos. 
Outras músicas se seguiram ao ritual, e me puxaram para participar da dança. As 
mulheres começaram a vestir um lenço rosa em suas cabeças, dançavam em uma roda 
só delas, interna a nossa. Um cheiro enjoativo de perfume doce tomou o lugar. Após 
 
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algumas canções, as mulheres começaram a ser possuídas por um espírito feminino. 
Era Mambo Ezili Freda Dahomey, amante de Damballah. Era uma posse rápida, até 
suave perto do que eu já tinha visto. A música ficava mais agitada conforme elas 
vinham no ritual. Elas trocavam cumprimentos com os cotovelos, dedo mindinho e 
beijos, por vezes, selinho na boca dos rapazes. As mulheres eram cumprimentadas de 
longe, somente algumas eram cumprimentadas cruzando os dedos mindinhos. Elas, as 
Fredas, ficavam dançando e conversando um pouquinho com cada um. O clima que 
parecia mais pesado e ameaçados com a vinda dos Damballahs, agora tudo parecia 
uma festa comum. Uma delas apenas me disse que eu era muito bem vindo, em 
francês. Outras coisas foram ditas, mas sem um tradutor por perto, apenas concordei e 
sai de perto. Comecei a ajudar, conforme eu estava vendo as pessoas fazerem. Serviam 
comida e bebida aos convidados, entãoachei que eu deveria fazer alguma coisa. 
Comecei a servir as pessoas. Conheci nesse dia muitas pessoas legais. Comecei a 
compreender algumas coisas, sobretudo, a respeito de Damballah e Freda. A festa foi 
tão divertida que não tinha vontade de ir embora. Comecei a frequentar mais o local 
onde a Mambo Wakenaton era a chefe, chamado de Ninho da Serpente, nada mais 
sugestivo. Todas as quartas havia rituais ou reuniões, e eu sempre aparecia. Minhas 
férias estavam acabando e eu tinha que voltar para casa. Os problemas continuavam 
na família e eu tinha que voltar para a minha realidade. 
Chegando em casa, após as férias, a situação estava ainda pior. As duas empresas do 
meu pai faliram, perderam tudo, pois as dívidas consumiram o que tinha sobrado. Já 
não tínhamos mais carro, nem emprego, e a comida escassa. Não havia guerra, era 
apenas uma ameaça no ar. Foi um momento que me machucou demais, ver minha 
família em uma situação tão grave, ver que eles estavam fazendo o possível para 
economizar em tudo, até na comida, isso me marcou até hoje. Como uma boa família 
grega, a gente procura disfarçar os problemas com alegria, fingimos até aquilo ser 
verdadeiro. Dessa forma, conseguíamos manter uma imagem de estar tudo bem. Em 
junho de 2000 eu começaria a universidade (gratuita) de psicologia na cidade de 
Patras. A situação familiar piorava muito, pois já não tínhamos mais o que vender que 
sobrou da empresa para podermos pagar as contas e até comer. Fui morar em Patras, 
na própria universidade (é comum morarmos na universidade na Grécia) e uns dois 
meses depois eu sonhei que tinham muitas cobras pretas e vermelhas, fininhas, se 
enroscavam em mim e sempre que eu as tocava elas se transformavam em um líquido 
dourado e sumia no chão. Acordei do sonho, que era muito real, e logo vi no jornal da 
universidade que estavam contratando professor de mitologia. Imediatamente, 
pensando no meu pai, fui conversar com o diretor, que sem questionar muito, disse 
que eu poderia mandar meu pai lá que ele iria entrevista-lo. No outro dia meu pai foi a 
universidade e o emprego era dele. Isso foi a nossa salvação! Como se o mundo tivesse 
ficado mais leve nas costas de Atlas. Ainda tínhamos problemas, muitas dívidas 
 
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acumuladas, mas nada que o tempo não pudesse resolver. Sem dúvidas que foi Simbi 
Makaya quem nos ajudou. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Vèvè para se desenhar em volta do buraco cavado para Li Grand Zombi 
 
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