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“Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del -Rei - Ano I - Número I – janeiro a dezembro de 2005 O PRIMEIRO MOTOR NO LIVRO XII DA METAFISICA DE ARISTÓTELES Auro José da Silva Rafael Grupo PET- Ciências Humanas, Estética e Artes – UFSJ Orientadora: Profa. Dra.Glória Ribeiro (DFIME/UFSJ) Agência Financiadora: MEC/ SESu Resumo: O Programa Especial de Treinamento integra atividades de ensino, pesquisa e exte n- são. O nosso Grupo de Ciências Humanas, Estética e Artes investiga a questão da obra de arte. Para isso o bolsista trabalha o autor de sua preferência – autor que permite estabelecer um diálogo com a perspectiva adotada pela estética contemporânea representada pelo pensador Martin Heidegger. Os resultados dessa pesquisa deverão servir de base teórica para o projeto de extensão e para o ensino da Estética. Nesse tr a- balho iremos nos ater ao pensamento aristotélico, buscando compreender a questão do Primeiro Motor e do movimento de todas as coisas. Palavras-chave: Aristóteles, Existência, Primeiro Motor. ristóteles trata, no Livro XII da Metafísica, de questões acerca da teologia e do mo- vimento de todas as coisas. O cerne da discussão, aí, está no que seja a substâ n- cia primeira de maneira a poder explicar o vir -a-ser das substâncias sensíveis que constituem nosso mundo. Uma vez que sua filosofia busca compreender os primeiros princípios e as causas , Aristóte- les trata a questão da substância como a unidade indivisível de matéria e forma, do particular e universal, de potência e ato. A substância é a primeira coisa que se apreende, porque ela está presente em todos os entes – é o que há de comum entre eles. Ela (a substância) é entendida por Aristóteles como a união entre a matéria e a forma. A matéria é o que resguarda em si a p otência. A potência é o poder que a matéria tem de tornar -se algo, ou seja, assumir uma forma ( eidos). A forma é o que de essencial possui a matéria, o que irá defini -la, delimitá-la. A essência é aquilo que é e não pode ser de outro modo. Assim o Filósofo distingue: Existe três classes de substâncias. Uma é a sensível, que se divide em eterna e corruptível [...]; [essa é,] por exemplo, as plantas e os animais. A outra é a eterna, cujos elementos são necessários inquirir, são um e vários. A terceira é imóvel, [...]As duas primeiras pertencem ao domínio da Física (pois implicam movimento); mas a terceira corresponde a outra ciên cia, que não tem nenhum princípio comum a todas elas (Met. XII, 1, 1069a 30 – 1069b 2). Assim, Aristóteles afirma a existência de duas espécies de substâncias sensíveis: uma suje i- ta à corrupção, ao devir e à geração; e a outra, incorruptível e eterna, qu e inclui, por exemplo, os astros, e que é objeto da Astronomia. “Assim, pois, está claro que são substâncias, e que delas é primeira, e outra, segunda, segundo a mesma ordem das translações dos astros. Para averiguar quantas são as translações tem que buscar à mais afim, à filosofia entre as ciências matemáticas, A RAFAEL, Auro José da Silva “Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei - Ano I - Número I – janeiro a dezembro de 2005 2 é dizer, à Astronomia” (Met. XII, 8, 1073b 1 – 5). Além dessas, existe a substância não sensível igualmente eterna e imóvel. Está é a causa de todo o movimento e objeto de estudo da Metafísica. O Filósofo nos fala que as substâncias sensíveis são os objetos passíveis de mudança. M u- dança esta que se realiza do processo ato - potência - ato. O ser em ato é o que já é existente e, em potência é o que pode ou não vir -a-ser. Em estado de potência, uma substância pode em de- terminado momento apresentar uma característica e em outro momento, outra. O Estagirita co n- cebe o movimento como aquele que se constitui na passagem da potência ao ato, e, o movimento se dá na substância ao fazer com que suas potencialid ades se tornem ato. Para que ocorra a rea- lização do movimento, é necessário que a passagem de um elemento a outro, ou seja a transfo r- mação da semente em árvore, a árvore que produz o fruto e volta a ser semente, o que move não é o contrário em si, mas uma força interna ou externa a este. Pois, a substância é gerada a partir de outra. E o que é produzido, é produzido por arte, ou por azar, ou por sorte, ou ainda, por ca u- salidade. A arte, porém, tem seu princípio em outro, exemplo: o homem que faz uma cadeir a. A natureza tem em si a causa do movimento, seu princípio se dá em si mesma, ou por exemplo um homem gera outro homem. Assim sendo, Aristóteles concebe o movimento, tanto da natureza, quanto o da arte, como aquele que constitui a atualização da potência em que ocorre pela ação de um ser em ato. Três são os modos pelos quais são apresentadas as sub stâncias: I. A material é algo mutável e corruptível, que determina e delimita o ente a partir da forma, ou seja, é a idéia, a essência da coisa, aquilo sem o qual o ente deixaria de ser. É o aparente que é percebido pelos sentidos. A matéria ao aceitar ser determinada, ganha a forma que constitui o ente e possibilita o conhecimento da realidade. Ela se transforma com os efeitos do tempo, prov o- cando no ente, a dinâmica de ato e potência; II. a natural, como algo determinado na tensão do que a matéria vem a ser, ou ganha forma, porém essa disposição é a própria disposição de m u- dança que se encontra no íntimo do ser; e, III. a individual ou singular é composta da uni ão entre a matéria e a forma e é responsável na composição do indivíduo. Para Aristóteles, o que é determ i- nado o é enquanto substância composta e, a existência fora da substância composta seria inco m- preensível para os seres sensíveis, por ser a substância composta a que possibilita a variedade de elementos e coisas. Por outro lado, se é possível a existência fora da substância composta isso ocorreria nos entes produzidos por ante, quando se apresenta a imaterialidade da casa e a saúde como pertencentes à produção artística. Há também a substância eterna, imóvel e imutável que é causa primeira, onde se principia todo esse movimento. E no capítulo 6 (seis), encontra -se uma argumentação acerca dessa sub s- tância: Posto que temos distinguido três classes de subs tâncias, duas naturais e uma imóvel, há que dizer acerca desta última que tem que haver um substância eterna imóvel. As substâncias, com efeito, são os entes primeiros, e se todas fossem corruptíveis, todas as coisas seriam corruptíveis. Mas é impossível que o O PRIMEIRO MOTOR NO LIVRO XII DA METAFISICA DE ARISTÓTELES “Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del -Rei - Ano I - Número I – janeiro a dezembro de 2005 3 movimento se gere ou corrompa (pois, como temos dito, tem existido sempre), nem o tempo. Pois não poderia haver antes nem depois se não houver tempo. E o movimento, por conseguinte, é contínuo no mesmo sentido que o tempo; este, com efeito, ou bem é o mesmo que o movimento ou é uma afeição s u- a. Mas o m ovimento não é contínuo, exceto o movimento local, e deste, o circular (Meta. XII, 6, 1071b 4 - 11) . Se a substância primeira, como causa de todas as coisas, fosse, por hipótese, corruptível, todas as demais substâncias necessariamente deveriam ser também corrupt íveis, incluindo as acidentais. Mas, uma vez que as categor ias de tempo e movimento são eternas, incorruptíveis e têm existência na substância, deve haver uma substância que seja eterna e incor ruptível, que ad- mitem as categorias de tempo e movimento. E os corpos celestes são as únicas substâncias ete r- nas que comportam as tais categorias do movimento e do tempo como contínuos, e o único m o- vimento possível é olocal e deste, o circular, pios não admite possíveis alterações, circulam se m- pre no mesmo local. Já, todas as demais categorias (substância, qualidade, quantidade, rel ação, tempo, situação, posição, ação e paixão), exceto a de lugar, não admitem a possibilidade de pe r- manência contínua, ou seja, podem ou não se tornar algo, distanciando assim, da substância pr i- meira. Aristóteles argumenta que, para tratar da substância móvel, é necessário, porém, referir -se então a fala da substância imóvel, já que, para se chegar à substância móvel tem de hav er a imó- vel, eterna e incorruptível. Essa substância imóvel é o Primeiro Motor. Mas, se tem algo que pode mover ou fazer, mas não opera nada, não haverá movimento; é possível, com efeito, que o que tem potência não atue. De nada serve tampouco, por conseg uinte, que suponhamos substâncias eternas, como os partidários das Espécies, se não tem algum princípio que possa produzir mudanças. Mas tampouco este é suficiente, nem outra substância a parte das Espécies; porque, se não atua, não haverá movimento. E, ai nda que atue, tampouco, se sua substância é potência; pois não será um movimento eterno; é possível, com efeito, que o que existe em potência deixe de existir. Por cons e- guinte, é preciso que haja um princípio tal que sua substâ ncia seja ato. Também, é prec iso que estas substâncias sejam imateriais; pois, se tem alguma coisa eterna, devem ser eternas precisamente elas. São por conseguinte, ato (Meta. XII, 6, 1071b 12 - 22) . O Primeiro Motor ou Motor Imóvel é responsável pelo princípio do movimento dado na causa eficiente ou final. O Motor é o que move sem ser movido. Segundo Aristóteles, o Primeiro Motor é a causa do movimento das estrelas e das esferas celestes. Ele é necessário; existe de um único modo e não pode ser de outro; é eterno, incorruptível e im óvel. Necessário, porque os seres mo- vidos necessitam de um movente que os mova. Eterno, pois não foi criado e se e ncontra dentro da eternidade de movimento e tempo que são eternos. Imóvel, devido ao fato de o movimento exigir uma força infinita que não possa provir dos entes, mas é causa última do movimento dos entes. Incorruptível, pois não possui a matéria que é passível de corrupção. Ora, conclui Aristót e- RAFAEL, Auro José da Silva “Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei - Ano I - Número I – janeiro a dezembro de 2005 4 les, é impossível que ele tenha sido gerado ou que venha a corromper. Ele deve ter existido se m- pre. O Primeiro motor opera como causa final pela atração do amor, o que Aristóteles chama de Théos, ser supremo e forma pura sem matéria. O que muda, muda em substancialidade, quantidade, qualidade ou lugar. Fora dessas cat e- gorias não pode haver o movimento. O movimento ocorre na matéria, exceto o movimento das coisas eternas que são movidas por translação, ou seja, o movimento que exerce em torno de algo – a causa final, ou Théos. Já o Motor Imóvel, move sem ser movido, é eterno, essência pura e ato puro. Maxim ante desejável, assim como inteligível, move sem ser movido, por este motivo, o objeto de desejo é o que parece bom. O bom faz com que ocorra o movimento sem ele se mover. O pensamento é posto em movimento pelo inteligível – o belo e o desejável em si, in tegram- se na ordem do inteligível, o que é primeiro e excelente. A causa final reside nos seres imóveis. O ser imóvel move enquanto é objeto do amor. O movido está em contínua mudança. O movimento de translação é o primeiro movimento que existe em ato. A m udança primeira é o movimento de translação – movimento circular realizado pelo motor imóvel, que é um ser necessário, o necess á- rio é o bem, que por sua vez , é um princípio. Ora, Théos é um pensamento em si, isto, é o pensamento de si em que enfrenta a existên- cia excelente, integralmente realizada em ato, do bem por excelência, pois o pensamento man i- festa sua excelência através da idéia simples e mais excelente de todas, o sumo bem e a sub s- tância primeira. A inteligência pensa-se a si própria ao apreender o inteligível. A inteligência é a faculdade de compreender o inteligível e a essência. E o caráter divino da inteligência encontra -se em maior grau na inteligência divina que contempla. Percebemos que, sem a substância primeira, o movimento não existe, e uma vez que o mo- vimento é algo eterno e existente na substância, deve haver uma substância que seja eterna, a substância primeira – causa de todo movimento. Daí, percebe-se que a substância está presente em todas as coisas desde a material, sensível, até a eterna e incorruptíveis. E, embora o mov i- mento ocorra nas coisas sensíveis, elas (as substâncias) não podem explicar o m ovimento, pois a causa do movimento é o desejo que está na substância imóvel, eterna, inteligível e incorruptível – o Primeiro Motor. Referências bibliográficas: GARCIA YEBRA, Valentin. Metafísica de Aristóteles. In: livro XII. 2 ed. Madri: Editorial Gredos. Edição trilingüe, 1998. 830 p. VIEIRA, Susana de Castro Amaral. O livro lambda da Metafísica, a teologia. In: Sofia – ano VII – Nº 07. 2001/1. p. 244