FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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lotes, verdadeiros restos das antigas capitanias, onde algumas
dúzias de enfatuados baxás moviam ainda há pouco o azorra-
gue nos agregados. Estes são uma espécie de boêmios sem
domicílio certo, pois que ao menor capricho do senhor das ter-
ras, têm de por os trastes às costas e mudar-se; uma grande co-
ta de seus produtos é para os fazendeiros e senhores de enge-
nho [... ] Assim, pois, não temos a pequena lavoura organiza-
da. A grande, rotineira e pervertida, é uma extorsão cruel feita
aos proletários rurais. Latifundia perdidere Italiam, disse Plí-
nio; as fazendas e os engenhos estão perdendo o Brasil, é o
brado que sai, com razão, de todos os lados"

13
.

Atente-se bem para as últimas palavras de Sílvjo Romero,
que datam de 1888: reconhecimento generalizado, à época, de
que a grande propriedade semifeudal estava arruinando o País.

Então, não é estranhável que, conforme relata André Re-
bouças, em seu Diário, seis meses antes da queda do Império,
convidado para ocupar uma pasta ministerial, o Visconde de
Taunay impusesse, entre outras condições, ao Imperador, a
decretação do "imposto territorial, parcelamento das terras,
pequena propriedade"

14
.

É claro que não iria para o Ministério...

O problema continuou a existir, insolúvel.

O Império cairia meio ano depois e a República não se
atreveria a reformar o status da propriedade territorial. Ao
contrário, quando se impõe a mobilização da maior parte do
Exército brasileiro para esmagar um foco insurrecional de po-
bres do campo, em Canudos, os chefes republicanos não vaci-

13

 História da literatura brasileira, t. I, Rio, 1888 pags. 115-116
14

 André Rebouças, Diário, pág. 337, nota.

24

lam um só instante. São implacáveis: mandam varrê-lo da face
da terra.

Mas, pergunta-se, por que havendo uma tão forte corrente
de opinião em favor da renovação da estrutura agrária, esta
não se efetuou?

Entre outros motivos, porque aquele setor da intelectuali-
dade que se batia por uma medida que considerava comple-
mentar da Abolição da Escravatura traduzia interesses apenas
da parcela mais radical da burguesia brasileira da época. E es-
tes interesses ainda estavam longe de identificar-se com os in-
teresses mais gerais do povo. Quem tinha em suas mãos a mo-
la mestra da economia nacional eram os latifundiários, pois
éramos sobretudo um País exportador de alguns produtos
agropecuários, uma grande fazenda. A burguesia tentava ga-
nhar terreno, mas ainda era reduzida em número e em força
econômica. A burguesia comercial das grandes cidades, em
parte constituída de elementos estrangeiros, não se encontrava
identificada com os interesses nacionais. A burguesia industri-
al, bastante débil, baseada quase exclusivamente nas indústrias
têxtil e alimentares. Teria interesse em ver ampliar-se o mer-
cado interno para a sua produção, o que só seria possível em
larga escala e de maneira mais rápida mediante a reforma da
estrutura agrária; mas não tinha forças suficientes para impô-
la.

Havia, ainda, outro motivo ponderável, e que não estava
em plano secundário: latifúndio e burguesia se ligavam inti-
mamente através de seus domínios territoriais. As iniciativas
de caráter industrial partiam, quase sempre, dos grandes lati-
fundiários do café, cultura que oferecia os capitais excedentes
para tais empreendimentos

15
.

Além disso, a opinião pública formada no País, a mais
sensível às idéias daqueles intelectuais que se constituíam em
ideólogos dos anseios mais avançados da parte radical da bur-
guesia, era a pequena burguesia das principais cidades: Rio,
São Paulo, Recife. Ela poderia ter sido força motriz daquelas
exigências. Mas não chegava sequer a ser comovida por elas.

15

 Ver Roberto Simonsen, A indústria em face da economia nacional, São
Paulo, 1937.

25

O problema discutia-se em livros, em poucos periódicos, em
conversas particulares com o Imperador... O povo alheou-se
dele. Quando veio a Campanha de Canudos, em 1896, esta
mesma opinião pública foi confundida e mistifiçada por uma
propaganda solerte que apresentava a luta como destinada a
salvar a República...

Eliminado o principal foco insurrecional de pobres do
campo até hoje surgido no Nordeste, o latifúndio foi mantido
intato, com todo o seu atraso e suas ignomínias.

Nas zonas rurais do Sul, o capital ia penetrando de qual-
quer forma na agricultura: através do trabalho assalariado (fa-
tor reforçado desde a década de 60 do século XIX com a im-
portação de colonos europeus) nas grandes fazendas, ou com o
emprego de implementos agrícolas. Toma impulso, por isso
mesmo, a economia mercantil.

Não acontece o mesmo no Nordeste. As "soluções" aí são
diferentes. Quando a crise chega ao auge num setor vital da
economia nordestina, aquele ligado ao mercado externo e sem
o qual ela não poderia sobreviver dentro da sua estrutura, re-
nova-se tecnicamente esse setor, mas de forma que sua base
essencial se mantém e o homem continua um semi-servo. As
relações de produção pré-capitalistas são zelosamente conser-
vadas nas usinas de açúcar, que as herdaram dos decadentes
engenhos. A renovação técnica resolve temporariamente a si-
tuação da cúpula do latifúndio semifeudal nordestino, quer di-
zer, preserva-a, mas, nas condições dadas, agrava a situação
das massas sem terra

16
.

16

 Para maiores detalhes no que se refere às sesmarias no Nordeste, ver Fra-
gmon C. Borges, in Estudos sociais, n.° 1-4, Rio, 1958.

26

2

A Emigração em Massa

QUE MODIFICA, ENTÃO, ESTE PANO-

rama, que se particularizava pela imobilidade, uma vez que es-
ta foi finalmente quebrada e as populações interioranas se mo-
vimentaram, entrando em choque aberto com o latifúndio?

Embora pareça paradoxal, a ruptura da estagnação se ini-
cia com o êxodo em massa de emigrantes nordestinos, ini-
cialmente para a Amazônia, mais tarde para São Paulo. É o fe-
nômeno mais progressista que ocorre nos sertões do Nordeste
nesse período.

A emigração em larga escala se inicia com a grande seca
de 1877 a 1879, a qual deixou memória em toda a região, até
os dias de hoje. Três anos seguidos sem chuvas, sem semeadu-
ras, sem colheitas, os rebanhos morrendo, os homens fugindo
para não morrer. É verdade que em secas anteriores haviam-se
registrado já emigrações além das fronteiras da província que
era a principal vítima das faltas de chuvas, o Ceará. João Brí-

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gido afirma que, na seca de 1792, emigrações houve das fron-
teiras do Ceará para as terras úmidas do Piauí, e que o êxodo
dos sertanejos adquiriu maiores proporções em 1825, esten-
dendo-se até o Pará. Reconhece, porém, que só se torna inten-
sa \u2014 "intensíssima" \u2014 depois de 18771.

Agora, atraía o emigrante o surto da borracha na Ama
zônia. E, aberto o caminho, a emigração não cessa mais até o
fim dessa aventura econômica. Estima-se que, num só ano, em
1878, a população deslocada do interior do Ceará totalizou
120 000 pessoas, quando a população total da província era de
pouco mais de 800 000 habitantes. Os deslocados \u2014 em geral,
vaqueiros, moradores, pequenos proprietários \u2014 em parte
conseguem embarcar para fora do Estado (cerca de 55 000
pessoas), em parte morrem de fome e enfermidades nos su-
búrbios de Fortaleza ou nos caminhos dos sertões (somente
nos subúrbios de Fortaleza cerca de 57 000 pessoas). Os es-
cravos são vendidos em grande número pelos seus senhores
para os mercados do Sul. Dez anos depois repete-se a tragédia.
No mesmo ano da Abolição da Escravatura em escala nacional
(1888), embora ela já houvesse ocorrido no Ceará quatro