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Universidade Federal de Uberlândia Instituto de Economia e Relações Internacionais Curso de Relações Internacionais Relações Internacionais da América Latina Profª Drª Bárbara Motta Resenha Crítica do Filme “Machuca” CARVALHO, Beatriz (11711RIT006) SANTOS, Anna Clara (11711RIT007) O filme chileno “Machuca” é de 2004 e foi dirigido por Andrés Wood. A obra conta a história precedente ao golpe militar de 1973 sofrido pelo país, tudo sob o ponto de vista de Gonzalo Infante, um menino de classe alta que acaba conhecendo Pedro Machuca, cuja realidade é bastante distinta daquele que ele conhece. Graças a uma iniciativa de cunho socialista de Allende, colocada em prática pelo diretor, Padre McEnroe, Machuca é um dos garotos mais simples que passam a frequentar o Colégio St. Patrick. Apesar da aparente desigualdade entre os alunos, em razão da raças e vestimentas que se contrapõem, o diretor defende a boa convivência entre as classes e se esforça para que ao menos isso as crianças aprendam. No entanto, a desigualdade também se apresenta de forma intrínseca nos graus de aprendizado e, no caso dos novatos, sua dificuldade. Gonzalo, por sua vez, cresceu em um ambiente de diversos privilégios, mas sofreu muito com problemas em casa, pois era obrigado a presenciar os encontros adúlteros da mãe pelas costas do pai, constantemente sendo “comprado” pelo amante com exemplares do livro Lone Ranger, do qual era fã. A história deste se apresenta como uma analogia para o próprio filme, já que ambos retratam a amizade entre um branco e um nativo, que, apesar de viverem contextos diferentes, cresce com o envolvimento em uma luta por uma causa. O pequeno Gonzalo, que começa a participar ativamente da rotina de Machuca e sua família, acaba se envolvendo em protestos contra e a favor do governo socialista chileno. É bastante visível o dilema que se passava na mente da criança, pois, ao mesmo tempo que se identifica como uma “múmia”, um garoto de classe alta, também compreende as dificuldades vividas pelo amigo Pedro. O filme é muito feliz em retratar o crescimento da consciência política de Gonzalo, ao mesmo tempo que trata de questões bastante humanas, como o período da puberdade. Ele se apaixona (pela primeira vez) por Silvana, uma garota que vive em uma realidade ainda mais difícil que Pedro, pois não vai à escola para ajudar com o sustento e os cuidados da casa. A relação entre os três sofre uma forte tensão durante uma manifestação, na qual Silvana entra em conflito com a senhora Infante, o que os faz perceber o quão diferentes são seus mundos, até mesmo antagônicos. Esta constatação retrata o contexto político da sociedade chilena, que é tomada pelo conflito entre as classes e, consequentemente, a defesa de regimes políticos distintos. A situação se complica ainda mais durante uma reunião do Colégio, que cria uma discussão acalorada entre três pontos de vista diferentes: a mãe de Machuca pelo socialismo, o pai de Gonzalo um tanto moderado e o restante dos pais, pertencentes à classe média alta, pela defesa do neoliberalismo e da dominação de classes. Com a chegada do golpe militar e da destituição do governo Allende, o exército toma conta da direção do colégio dos garotos e reverte os princípios até então defendidos por Padre McEnroe, sendo muitos garotos pobres expulsos e até mesmo os filhos daqueles que defendiam o comunismo, além de intervir violentamente na comunidade onde vivem as famílias de Pedro e Silvana. Quanto a Gonzalo, este assiste, impotente, ao sofrimento dos amigos. Em determinado momento, ao ser abordado por um soldado, ele apela para sua aparência física, a fim de que aquele compreenda a sua realidade, em uma clara e dura representação dos estereótipos que regiam a sociedade naquele momento. Como o filme acaba sem tratar da amizade de Pedro e Gonzalo no futuro, o olhar trocado por eles durante a intervenção militar na comunidade do primeiro levanta duas possibilidades: que as realidades de ambos, tão distintas e cruéis, estavam fadadas a jamais mudar; ou, sob um olhar mais otimista, que a amizade efêmera ainda viria a render frutos de consciência política e de classe, levando, quem sabe, até mesmo a um reencontro. Referência MACHUCA. Direção de Andrés Wood. Santiago: Wood Producciones, 2004. (116 min.).