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História da América I THIAGO DE SOUZA DOS REIS 1ª Edição Brasília/DF - 2018 Autores Thiago de Souza dos Reis Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário Organização do Livro Didático....................................................................................................................................... 4 Introdução ............................................................................................................................................................................. 6 Capítulo 1 Povoamento e povos da América pré-colombiana ........................................................................................... 7 Capítulo 2 Organizações político-sociais complexas: incas, maias e astecas .............................................................16 Capítulo 3 A conquista do “Novo Mundo”: América Espanhola ........................................................................................31 Capítulo 4 A colonização do “Novo Mundo”: Américas Inglesa e Francesa .................................................................44 Capítulo 5 A colonização da América Espanhola ..................................................................................................................61 Capítulo 6 A independência das colônias da América Espanhola ..................................................................................73 Referências ..........................................................................................................................................................................87 4 Organização do Livro Didático Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização do Livro Didático. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Cuidado Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. Importante Indicado para ressaltar trechos importantes do texto. Observe a Lei Conjunto de normas que dispõem sobre determinada matéria, ou seja, ela é origem, a fonte primária sobre um determinado assunto. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. 5 ORgANIzAçãO DO LIvRO DIDátICO Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Posicionamento do autor Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. 6 Introdução Neste Livro Didático teremos a oportunidade de aprofundarmos o nosso conhecimento sobre História da América. Inicialmente, iremos conhecer os povos da América pré-colombiana e discutiremos os aspectos relacionados à chegada de Cristóvão Colombo ao Continente Americano. Num segundo momento, abordaremos o processo de conquista do território, com a colonização da América por espanhóis, ingleses e franceses. Encerramos o conteúdo discutindo a independência das colônias da América Espanhola. Objetivos » Apresentar os Povos da América pré-colombiana; » Discutir a chegada de Cristóvão Colombo ao “Novo Mundo”; » Compreender o processo de colonização da América por espanhóis, ingleses e franceses; » Discutir a independência das colônias da América Espanhola. 7 Apresentação O capítulo 1 do Livro Didático da disciplina História da América I permitirá conhecermos melhor a origem do ser humano na América e os povos que habitavam o continente americano antes da chegada de Cristóvão Colombo. Na primeira parte deste capítulo, veremos que não há um consenso sobre as origens do ser humano na América. E que existem diferentes teorias sobre essa questão. Objetivos Esperamos que, após o estudo do conteúdo deste capítulo, você seja capaz de: » Conhecer as diferentes teorias sobre origem do ser humano na América; » Conhecer os povos primeiros povos da América. 1 CAPÍTULO POvOAMENtO E POvOS DA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA 8 CAPÍTULO 1 • POvOAMENtO E POvOS DA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA Movimentos migratórios: o homem e o território americano Arqueólogos e historiadores ainda discutem as origens do ser humano na América. Ainda não há um consenso. Muitas são as teorias e hipóteses sobre essa questão. A mais aceita entre elas defende que os primeiros grupos humanos que chegaram à América teriam se deslocado a pé e atravessado o norte do continente asiático para o continente americano. Essa travessia só foi possível, pois o estreito que separa os dois continentes, o estreito de Bering, estava congelado no final da última Era Glacial, por isso a essa teoria damos o nome de teoria de Bering. O congelamento, mesmo que por um período relativamente curto, permitiu que pequenas populações de origem asiática, provavelmente buscando alimento ou talvez perseguindo manadas de bisontes atravessassem a região de confluência entre o Oceano Pacífico e o Oceano Ártico, também conhecida como Beríngia. Essa é a base da teoria de Bering. Figura 1. Referência: Imagem de satélite do estreito de Bering, 2000. NASA/gSFC/JPL (Adaptado). Fonte: http://eoimages.gsfc.nasa.gov/images/imagerecords/1000/1050/misr_beringstrait_lrg.jpg. Entretanto, essa não é a única teoria que ajuda a explicar o aparecimento do homem na América. A cada dia torna-se mais aceito que, na verdade, não houve apenas uma onda migratória por uma via única – o estreito de Bering –, mas ocorreram inúmeras ondas migratórias por diversas vias distintas. Segundo essa teoria, denominada teoria das múltiplas migrações, houve um amplo conjunto de migrações em direção à América. 9 POvOAMENtO E POvOS DA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA • CAPÍTULO 1 Observe o mapa a seguir: Figura 2. teoria das migrações múltiplas. Fonte: NAQUEt-vIDAL, Pierre; BERtIN, Jacques. Atlas Histórico: da Pré-história aos nossos dias. Lisboa: Círculo dos Leitores, 1987. p 18. Com base nessa última teoria, pesquisadores defendem que a América teria recebido populações por diversas vias, tanto terrestres, como marítimas. Algumas dessas migrações utilizaram o estreito de Bering para alcançar a América, mas os pesquisadores não estão convencidos de que isso teria ocorrido somente por terra. Há pesquisadores que defendem que essas populações poderiam ter cruzado a Beríngia tanto a pé, como em canoas, contornando os montes de gelo entre o norte da Ásia e da América. Canoas ou outras pequenas embarcações também poderiam ser usadas como veículo para que pequenos grupos humanos, partindo da Europa, acessassem o extremo norte americano através da Groenlândia e de lá o restante da América. Outros pesquisadores defendem que essas embarcações, apesar de precárias, também possibilitariamque grupos percorressem as inúmeras ilhas do Oceânico Pacífico e migrassem em direção à América, principalmente para o sul desse continente. Essa última rota, também conhecida como rota oceânica, é a menos aceita atualmente, mas há indícios importantes que ajudam a defendê-la, como veremos mais à frente. Nos livros didáticos editados nos últimos anos, em geral, vemos a presença cada vez mais frequente das teorias que defendem a existência da rota oceânica e as várias hipóteses relacionadas às múltiplas migrações. 10 CAPÍTULO 1 • POvOAMENtO E POvOS DA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA Mas quais características físicas possuíam os primeiros grupos que chegaram à América? E quando esses grupos começaram a migrar para nosso continente? Esses são temas sobre os quais também não há consenso. Muitos pesquisadores defendem que as primeiras migrações teriam ocorrido entre 12 e 6 mil anos atrás, através da travessia do estreito de Bering da Sibéria para o Alasca. Os principais argumentos que embasam essa teoria foram construídos a partir das escavações arqueológicas da cidade de Clovis (Novo México) em 1932. Lá foram encontrados esqueletos fossilizados de animais e diversos artefatos que comprovaram a existência de núcleos populacionais nesse período. Essas populações, com características próximas às dos povos mongoloides, dos quais descende a grande maioria dos grupos indígenas americanos, teriam iniciado a ocupação do território americano pelo norte e de lá descido em direção ao sul, povoando todo o continente ao passo que se deslocavam buscando abrigo e alimento. Contudo, no início dos anos 1970, em uma escavação no sítio da Lapa Vermelha, na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais, arqueólogos encontraram um fóssil de Homo sapiens do gênero feminino, batizado posteriormente como “Luzia”, que teria cerca de 11.500 a 12.000 anos. Teriam, então, os primeiros grupos que atravessaram a Beríngia conseguido chegar ao centro-sul do atual Brasil em cerca de 500 ou 1.000 anos? Todos estavam seguros de que os primeiros hominídeos começaram a migrar do norte do continente há cerca de 12.000 anos, então a descoberta de Luzia implicou uma reviravolta na, até então, consensual teoria da cultura Clóvis. Para muitos especialistas, não seria possível uma migração tão rápida, dadas as características dos processos migratórios nômades, ou seja, um grupo nômade só se deslocaria em busca de novos recursos para sua sobrevivência. Assim, a presença de hominídeos no centro-sul do atual território brasileiro indicaria, ao menos em teoria, que havia a presença de outros hominídeos próximos a essa região há bem mais tempo. Figura 3. “Reconstituição de Luzia” por Dornicke (Wikimedia Commons). Acervo de Antropologia Biológica do Museu Nacional/UFRJ, Rio de Janeiro. Fonte: http://escolaeducacao.com.br/a-pre-historia-brasileira/. 11 POvOAMENtO E POvOS DA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA • CAPÍTULO 1 Além disso, pesquisas posteriores indicaram que as características físicas desse exemplar, como podemos observar na imagem acima, diferem das características morfológicas dos povos mongoloides, pois Luzia aproximava-se mais dos exemplares encontrados em outros continentes por possuir características similares às dos aborígenes australianos e negroides africanos. Somente com o auxílio da computação gráfica e de outros novos recursos é que os pesquisadores puderam contestar a teoria da cultura de Clóvis. Essa constatação serviu para que a teoria das múltiplas migrações fosse revisada e ampliada. A partir daí, passou-se a enxergar a ocupação do continente americano também como um movimento multiétnico, dado que as ondas migratórias trouxeram não apenas um grupo étnico, mas, ao menos, dois grupos etnicamente distintos. A década de 1970, com a ampliação de novas descobertas arqueológicas, trouxe novas questões. Na região chilena de Monte Verde foram descobertos indícios da passagem de grupos caçadores-coletores que datam de pelo menos 12.500 anos. Essa descoberta seria uma das bases para a teoria da rota oceânica, pois indica a possibilidade de que essas migrações possam ter ocorrido pela costa do Pacífico. Nos sítios arqueológicos do Parque Nacional da Capivara, Piauí, também foram encontrados diversos indícios da presença humana. Muitos deles datam de cerca de 50 mil anos atrás, o que põe em xeque a hipótese de que os primeiros hominídeos teriam chegado só há 14 mil anos via estreito de Bering. A descoberta do fóssil Luzia foi um de vários indícios que provavam ser a ocupação da América bem anterior, por exemplo: segundo Cardoso (1992, p. 12-18) ocorreu a datação de uma ponta de lança em Muaco (Venezuela) entre 14.400 e 12.300 a.C. (estamos falando de produção paleolítica de cerca de 16.000 mil anos atrás!); o sítio de Tlapacoya (México) foi datado em cerca de 21.700 a 24.000 a.C. Esses indícios provariam ser a ocupação do solo americano bem anterior à teoria de Bering. Provocação Você já deve ter ouvido falar do termo ciências auxiliares da História. Tradicionalmente, são enquadradas nessa tipologia a Arqueologia, a Numismática, a Paleografia, a Paleontologia e diversas outras ciências que auxiliam, com suas pesquisas, o historiador a construir teses, analisar indícios... enfim, ajudam o historiador a construir seu objeto de análise. Se por muitos anos esse termo implicava uma hierarquia dessas ciências, com claro protagonismo da História sobre elas, hoje percebemos que cada uma possui seu próprio campo de construção do conhecimento e ambas se “auxiliam”, pois, muitas vezes, argumentos e hipóteses produzidos em um campo são importantes para as análises de outro campo. Foi isso que vimos até aqui. Todas as teorias que já analisamos têm origem nos estudos produzidos por outras ciências. Atualmente, o desenvolvimento tecnológico possibilitou uma ampliação das possibilidades de análise sobre os indícios estudados. Assim, datação pela técnica carbono-14, o uso de programas de computador com a capacidade de transcrever documentos escritos ou orais, escaneamentos que são capazes de indicar camadas mais profundas em obras de arte ou construções edificadas, a possibilidade de realizar escavações mais profundas, inclusive nas profundezas de mares e oceanos, tudo isso amplia a capacidade do homem em recuperar indícios de sua história, o que contribui para tornar nossa ciência mais complexa e dar maior base de fundamentação às nossas pesquisas. Já pensou o que seria de nosso ofício sem essas ciências “auxiliares”? 12 CAPÍTULO 1 • POvOAMENtO E POvOS DA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA Sugestão de estudo O texto a seguir discute a importante contribuição de um pesquisador dinamarquês que revolucionou o estudo da pré- história no Brasil: Dinamarquês das cavernas Ana Paula Almeida Marchesotti1 Para alguns, foi um homem arraigado a teorias científicas ultrapassadas, isolado do mundo civilizado nos confins das Minas Gerais, com comportamento eremita e excêntrico. Para outros, um inovador em diversas áreas, que ousou propor teorias polêmicas e foi ativo até o final da vida, em contato constante com a comunidade científica de seu tempo. Capaz de inspirar interpretações tão antagônicas, o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund foi um dos muitos cientistas estrangeiros que vieram ao Brasil nos anos que se seguiram à transferência da corte portuguesa, em 1808, dispostos a desbravar a riqueza natural dos trópicos. Aos 24 anos, já era graduado em Medicina e Letras em Copenhague, quando desembarcou no Novo Mundo, em dezembro de 1825, para realizar pesquisas no campo da história natural. Nessa primeira estada, concentrou-se nos estudos botânicos e zoológicos nos arredores do Rio de Janeiro. Chegara a exercer a atividade médica na Europa, mas desde a infância viu-se seduzido pelos estudos da natureza. Copenhague, no século XIX, era conhecida como a Atenas do Norte devido à sua grande efervescência cultural e científica. Lund não passou imune a essemomento. Foi o primeiro membro de uma tradicional família de comerciantes a seguir carreira acadêmica e científica. Em 1829 retornou à Europa, publicou obras, inseriu-se na comunidade científica mundial e poderia ter permanecido por lá pesquisando a rica coleção que levara do Brasil. Mas quatro anos depois decidiu voltar à América. Associou-se ao botânico alemão Ludwig Riedel (1790-1861) e juntos percorreram diversos estados, coletando e analisando a flora tropical. Em Curvelo, Minas Gerais, uma coincidência mudou os planos de Peter Lund: outro Peter, também dinamarquês, cruzou seu caminho. Peter Claussen era fazendeiro na região e lhe apresentou a riqueza fóssil do interior das cavernas mineiras. “Meus companheiros permaneceram durante muito tempo mudos à entrada deste templo; depois, involuntariamente, se ajoelharam e, persignando-se, exclamaram, diversas vezes: ‘Milagre! Deus é grande!’. Foi-me impossível dissuadi-los da ideia de que este templo devia servir de morada a Nosso Senhor. Quanto a mim, confesso que nunca meus olhos viram nada mais belo e magnífico nos domínios da natureza e da arte”, relatou Lund, ao descrever sua visita à Gruta de Maquiné. Sua trajetória pessoal e profissional mudou de rumo a partir desse encontro com as entranhas da Terra e seus segredos. Foi também em Curvelo que Lund conheceu aquele que seria seu auxiliar e companheiro por toda a vida: o norueguês Peter Andreas Brandt (1792-1862), responsável pela maior parte das ilustrações das coleções, cavernas e paisagens que explorou. Mais tarde, Lund se separou de Riedel e de Claussen, mas nunca foi capaz de se afastar do solo mineiro. Riedel teve problemas de saúde e decidiu interromper a expedição, retornando ao Rio de Janeiro. Quanto a Claussen, Lund queixou- se diversas vezes de atitudes “desonestas” que o teriam prejudicado profissionalmente. Embora também conhecesse as potencialidades científicas dos fósseis, o compatriota tinha explícito interesse financeiro na exploração das cavernas, vendendo os fósseis encontrados aos museus europeus. Em outubro de 1835, Lund partiu de Curvelo rumo ao Arraial de Nossa Senhora da Saúde de Lagoa Santa, um pequeno povoamento de cerca de 60 casas. Precisava de uma base permanente para explorar as cavernas da região, trabalho ao qual dedicaria os próximos dez anos de sua vida, coletando e estudando fósseis. Assim, revelaria ao mundo à pré-história brasileira. Estudou a fauna de mamíferos da região do Vale do Rio das Velhas, as peculiaridades de sua população, os achados arqueológicos, as formações geomorfológicas e botânicas, as pinturas rupestres. Contribuiu para estudos de outros cientistas que acolheu e orientou, como Eugen Warming (1841-1924), fundador da fitoecologia mundial. Era um momento de grandes mudanças no cenário científico mundial. Lund foi contemporâneo do maior evolucionista e do maior catastrofista da história – Charles Darwin (1809-1882) e Georges Cuvier (1769-1832) – e sofreu influência de ambos: em alguns trabalhos demonstra adesão à interpretação catastrofista, em outros, uma abertura para a constatação de sinais da evolução. Comprometido com a técnica científica e o seu rigor, era capaz de mudar o rumo de sua vida e de suas pesquisas sempre que instigado ou quando constatada a sua necessidade. 1 Ana Paula Almeida Marchesottié gestora da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte e autora de Peter Wilhelm Lund – O naturalista que revelou ao mundo a Pré-História Brasileira (E-Papers, 2011). 13 POvOAMENtO E POvOS DA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA • CAPÍTULO 1 Durante escavações, Lund encontrou na Gruta do Sumidouro fósseis humanos na mesma escala geológica e no mesmo estado de fossilização de antigos animais extintos, provando que viveram na mesma época e que a ocupação da América era bastante remota. Ao estudar os fósseis humanos, percebeu características que os diferenciavam da raça mongólica – que teria dado origem aos indígenas sul-americanos. Diante disso, propôs que aqui os humanos teriam coexistido com os gigantescos mamíferos extintos e que uma população diferente dos primitivos indígenas americanos havia ocupado o Brasil nos tempos remotos. Essas ideias foram levantadas por Lund em meados do século XIX e ainda hoje ocupam a pauta de discussão de cientistas que se debruçam sobre sua obra, sua coleção de fósseis e os sítios arqueológicos que apresentou ao mundo. Após divulgar conclusões tão polêmicas, em 1845 Lund deu por encerradas suas atividades exploratórias nas cavernas, enviou sua coleção para a Dinamarca e doou algumas peças ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Mas decidiu permanecer em Lagoa Santa, onde ficou até a sua morte, em 1880, jamais retornando à Europa. Essa decisão provocou a imaginação coletiva e muitas têm sido as hipóteses para explicá-la: saúde debilitada, dificuldades financeiras, receio de retornar ao cenário científico europeu depois de tão longo afastamento, crise existencial diante de seus achados científicos ou o simples gosto de viver no interior do Brasil. Lund demonstrou ser um homem que não temia mudanças e desafios. Rompeu a tradição familiar de grandes comerciantes e seguiu a carreira acadêmica; abandonou a promissora profissão médica para praticar a história natural; deixou de se dedicar à zoologia e à botânica para penetrar em um novo campo de pesquisa: a paleontologia. Mais tarde, teve a coragem de se desvencilhar da coleção de fósseis que lhe custou tantos anos de árduo trabalho para exercer outras formas de atividade científica. Ao contrário do que se pode imaginar, sua vida cotidiana em Lagoa Santa era bastante movimentada. Atendia à população local como médico, dava aulas às crianças da comunidade e criou a banda de música Santa Cecília, doando-lhe os instrumentos e ensinando fundamentos musicais aos seus componentes. Era constantemente consultado sobre os mais diversos assuntos, pois todos o tinham como uma referência de sabedoria. A cidade tornou-se ponto de parada de inúmeros viajantes e cientistas estrangeiros que buscavam um encontro com o reconhecido dinamarquês. Lund não se casou, nem se tem notícia confiável sobre envolvimentos amorosos que tenha mantido no Brasil. Também não teve filhos, mas educou Nerêo Cecílio dos Santos – o filho de um de seus empregados – como um pai. Nerêo teve uma educação refinada, aprendeu vários idiomas, música, literatura e noções de História Natural. Mais tarde tornou-se um dos auxiliares do pai adotivo e, quando Lund faleceu, foi beneficiado no testamento com bens e uma pensão vitalícia. Merecidamente reconhecido como o “Pai da Paleontologia Brasileira”, Peter Lund fez de seus achados uma fonte permanente de questionamentos sobre a história da Terra e da vida. Referência: MARCHESOTTIÉ, Ana Paula Almeida. Dinamarquês das cavernas. Revista de História da Biblioteca Nacional. (1/12/2013). Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/retrato/dinamarques-das-cavernas> Se a chegada do homem ao continente americano é anterior ao período de passagem pelo estreito de Bering defendido por alguns pesquisadores, então, por onde vieram os primeiros hominídeos? Teriam atravessado o estreito de Bering antes de 14.000 mil anos atrás? Teriam se deslocado por outras vias? Para explicar essas novas descobertas, cientistas criaram a hipótese de que uma rota marítima pelo Oceano Atlântico também pudesse servir como meio de acesso de grupos africanos para a América. No entanto, essa tentativa de explicar os achados arqueológicos da Serra da Capivara encontra muita resistência junto à comunidade científica internacional. Se de um lado percebemos que a chegada dos primeiros humanos à América parece ter sido bem anterior ao que indicam os manuais adeptos da teoria de Bering, por outro ainda temos muitas questões em aberto. Conseguimos visualizar os pontos de ocupação do território americano pelos primeiros grupos humanos que aqui chegaram, mas os “caminhos” percorridos pelas 14 CAPÍTULO 1 • POvOAMENtOE POvOS DA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA ondas migratórias ainda não são claros o suficiente para afirmarmos padrões bem definidos. É certo que as novas pesquisas arqueológicas nos ajudarão a lançar luz sobre os vestígios que aos poucos serão descobertos. Os primeiros assentamentos humanos na América Se os acadêmicos ainda debatem sobre o período de chegada dos primeiros grupos humanos à América, encontram certo consenso na indicação de quando esses grupos começaram a formar sociedades agrícolas mais extensas, ou seja, os achados arqueológicos permitem concluir que o homem, em várias partes do território americano, sedentarizou-se por volta de 4500 a.C. Contudo, não há como afirmar que todos os povos sedentarizaram-se nesse período. Muitos deles permaneceram como “caçadores-coletores”, mesmo que alguns tenham desenvolvido a prática agrícola e a domesticação de animais. Entre esses povos, podemos citar os esquimós que habitavam o nordeste do continente americano. Os descendentes desse povo, ainda hoje, estão intimamente ligados à caça da baleia e de outros animais como meio de sobrevivência. Onde hoje se localizam os estados de Dakota do Sul e Dakota do Norte, nos Estados Unidos, habitava um povo chamado pelos colonizadores europeus de sioux ou homens-búfalo. Essa denominação, ligada ao fato de que os sioux dedicavam-se à caça desse animal, na verdade encobre um erro interessante relacionado aos primeiros contatos do europeu com os nativos da América: o animal, na verdade, não é propriamente um búfalo, mas, sim, um bisão ou bisonte, membro da mesma família com características distintas, mas a denominação foi largamente utilizada, pois os europeus só conheciam o parente de origem asiática e africana. Há indícios claros de que os sioux, apesar de basear sua dieta alimentar nas carnes de caça, também desenvolveram, em alguns momentos, o cultivo de alimentos e, aos poucos, o cultivo de diversas variedades de milho passou a ser uma importante atividade na vida comunitária desses povos. Na região do atual Brasil, os resquícios arqueológicos não indicam a formação de grupamentos agrícolas complexos, mas, sim, de grupos menores, em sua maioria nômades, caçadores-coletores, que também desenvolviam a agricultura em pequena escala. É com a chegada dos europeus que teremos mais informações sobre a organização dos grupos nativos, principalmente sobre sua heterogeneidade cultural e biológica. Entre esses povos, a prática agrícola era comum, apesar dos intensos deslocamentos em busca de alimento. Mandioca, amendoim, abacaxi, milho e feijão eram cultivados no sistema de coivara, ou seja, os ramos secos da colheita anterior eram queimados sobre a terra para a abertura de uma nova roça. Contudo, esgotados os recursos daquela localidade, buscavam novos espaços que pudessem garantir-lhes a subsistência. 15 POvOAMENtO E POvOS DA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA • CAPÍTULO 1 Porém, é no centro do território americano e na região montanhosa ao sul que as principais sociedades agrícolas se desenvolveram, formando, inclusive, grandes sistemas e organizações políticas. Sintetizando Por ora, sabemos que a ocupação do território americano ainda gera acalorados debates, não à toa, pois se trata de buscar o início da história do homem em nosso continente. Mas podemos chegar a algumas conclusões parciais e que têm certo consenso atualmente: » As descobertas de sítios arqueológicos anteriores ao período de deslocamento via estreito de Bering provam que os deslocamentos podem ter se dado por inúmeras frentes distintas e, às vezes, simultâneas; » Há registros da presença do homem nas Américas que datam de 50.000 atrás; » As novas técnicas e o desenvolvimento da produção de diversas ciências auxiliam o historiador a explicar a ocupação do território americano pelos primeiros hominídeos. Atenção Mesmo nômades, muitos dos primeiros grupamentos humanos nas Américas já praticavam uma agricultura menos complexa e domesticavam animais, técnicas essenciais para o processo de sedentarização e construção de cidades que analisaremos no próximo capítulo. Sugestão de estudo Há inúmeros outros grupos e povos que têm recebido especial atenção dos pesquisadores nos últimos anos, contudo, dada a sua diversidade e quantidade, não seria possível analisar todos aqui, pois limitaria nosso curso a um tema apenas. Por outro lado, tendo consciência de que devemos avançar, mas reconhecendo a importância dos estudos sobre as sociedades que primeiro colonizaram o território americano, indicamos a leitura do livro do professor Ciro Flamarion Cardoso (1992), chamado A América pré-colombiana. Esse livro, com várias edições, faz parte de uma série da Editora Brasiliense chamada “Tudo é História”, e é facilmente encontrado em bibliotecas. Além disso, pode ser adquirido em sebos de livros usados. Veja a referência completa na bibliografia disponível ao final deste Livro Didático. 16 Apresentação O capítulo 2 do Livro Didático da disciplina História da América I permitirá conhecermos melhor os povos da América pré-colombiana, sua cultura e organização política, econômica e social. Objetivos Esperamos que, após o estudo do conteúdo deste capítulo, você seja capaz de: » Conhecer os povos da América pré-colombiana, sua cultura e organização política, econômica e social; » Perceber a complexa organização social e política que os europeus encontraram na época dos descobrimentos. 2 CAPÍTULO ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS 17 ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS • CAPÍTULO 2 Povos da América pré-colombiana Antes da chegada de Cristóvão Colombo, em 1492, havia na América sociedades altamente desenvolvidas vivendo na Mesoamérica (região que englobava partes do atual México e grande parte da América Central) e nos Andes (região montanhosa do atual Peru, Equador, norte do Chile e Bolívia). Eram culturas altamente desenvolvidas, urbanizadas, e que possuíam sistemas de escrita, conhecimentos matemáticos e astronômicos. Além disso, uma característica importante desses povos é que formavam verdadeiros impérios, dominando os povos das regiões próximas e submetendo-os ao seu poder político e, às vezes, também ao poder religioso. Entre esses grupos, destacam-se principalmente os Maias, os Incas e os Astecas. Antes de discutirmos cada civilização em particular, vamos observar no mapa a seguir o território e as principais cidades de cada uma dessas civilizações: Figura 4. Principais civilizações da América pré-colombiana. Fonte: CARDOSO, Ciro Flamarion S.: América pré-colombiana. Ed Brasiliense, 1996. (adaptado) 18 CAPÍTULO 2 • ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS Maias: os “homens de milho” Ao olharmos as impressionantes e bem conservadas ruínas da cidade de Tikal, na Guatemala, inscritas como Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1987, podemos esquecer que elas só foram “redescobertas” na metade do século passado – na verdade, a grandiosidade de Tikal sempre esteve viva na memória local, mas diante da dificuldade de acesso por meio da floresta tropical, eram poucos os que se aventuravam a conhecê-la e explorá-la. Figura 5. Pirâmide Maia na cidade de tikal, guatemala. Fonte: Imagem em domínio público. Entre as décadas de 1950 e 1960, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia foram responsáveis por essa “redescoberta”, entre eles destacam-se os arqueólogos Edwin Shook, William Coe e George Guillemin. Esses pesquisadores empreenderam a descoberta dos principais sítios arqueológicos hoje conhecidos, inclusive foram responsáveis por descobrir “as pirâmides maias engolidas pela floresta”. Antes de iniciarmos nossa discussão sobre a História da civilização maia é importante apontarmos a generalidade do termo maia. Sobre essa alcunha agrupam-se correntemente vários povos de Atenção A análise dos mapas é muito importante para a nossa disciplina. “Ler um mapa”, significa observaratentamente suas representações gráficas e buscar transformá-las em conhecimento. Uma forma de fazer isso, no caso acima, seria pensar e comparar essa representação com um mapa político atual. Busque verificar quais territórios dos países de hoje fizeram parte das organizações políticas indicadas no mapa. Outro exercício importante é perceber, apesar de isso não estar indicado, que a divisão representada nesse mapa é uma divisão política e sob ela há características importantes que você pode e deve recuperar, tais como: relevo, clima, vegetação, facilidade de acesso ao mar, incidência de catástrofes climáticas (furacões, tempestades), recorrência de atividades sísmica e vulcânica, que são características que mudam pouco ao longo dos séculos. Com isso, você poderá entender melhor como se deu a formação das sociedades que ocuparam esses territórios. Essa postura também deve ser observada quando você for discutir esse tema com seus alunos, pois tudo isso torna o mapa mais claro e aproxima a discussão de uma realidade mais próxima da realidade do aluno. Fica a dica. Sugestão de estudo Em 1967, uma equipe de pesquisadores da Universidade da Pensilvânia registraram em vídeo os trabalhos realizados em Tikal. O vídeo está disponível na internet e é um importante documento para ampliarmos nossos estudos e percebermos como a Arqueologia ajuda a reconstruir a História dos povos pré-colombianos. Copie o link a seguir, cole em seu navegador e confira um importante documento sobre o trabalho dos arqueólogos norte-americanos em Tikal: https://archive.org/details/ upenn-f16-0504_1967_Bodega 19 ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS • CAPÍTULO 2 culturas afins com um tronco linguístico uniforme. São maias, portanto, os antigos povoadores das terras por onde se estende a Península de Yucatán (México) e as atuais Guatemala e Belize, além da parte ocidental de Honduras e El Salvador. Geograficamente, o território possuía tanto terras montanhosas pouco povoadas, denominadas de Terras Altas, como regiões de planícies ou Terras Baixas que, em geral, eram mais densamente ocupadas. As principais informações acerca da história desse povo chegam até nós por meio das crônicas e relatos dos europeus após o processo de conquista da América. Entre esses trabalhos, destacam- se Relación de las Cosas del Yucatán (1566), escrita pelo Frei Diogo de Landra, que viria a ser o segundo bispo da cidade de Mérida (atual México). Nessa obra, Diogo de Landra descreve, de modo peculiar, as coisas da terra, sua geografia, seu clima, e também as construções que encontrou em Yucatán. Contudo, só os relatos e crônicas não seriam suficientes para que os pesquisadores pudessem reconstruir a história dessa civilização. Diogo de Landra, por conta de sua proximidade com chefes políticos locais, pôde ter acesso aos livros escritos em alfabeto hieroglífico maia, que foram essenciais para o processo de tradução dessa escrita. Outros livros, como os Chilam Balam – coleções de textos díspares atribuídos a um autor lendário, Chilam Balam, que são importantes por trazerem características da cosmogonia e organização político-social maia –, revelam importantes aspectos culturais: mitos fundadores, história, profecias, astronomia, calendários, orientações para aspirantes ao cargo de sacerdotes, ervas medicinais... Além dos textos maias, outra fonte importante para o estudo dessa civilização são as escavações arqueológicas, que se tornaram mais frequentes a partir da segunda metade do século passado. Pela análise dessas fontes, tanto arqueólogos como historiadores costumam dividir a História do desenvolvimento da civilização maia em três grandes períodos: Pré-Clássico (800 a.C. a 300 d.C.), Clássico (300 d.C. a 900 d.C.), Pós-Clássico (900 d.C. a 1520 d.C.). A principal justificativa para essa divisão baseia-se nas distinções encontradas nos padrões estilísticos da arquitetura e da produção cerâmica. As escavações ligadas ao período Pré-Clássico revelaram um conjunto bem modesto de vilas rurais e construções rudimentares. Já os resquícios arqueológicos posteriores, do período Clássico, indicam que esse período teria sido o auge da civilização maia. As escavações revelaram grandes monumentos, palácios e templos, além de uma cerâmica muito sofisticada. O período que antecede a chegada dos europeus seria um período de decadência da civilização maia, momento em que Sugestão de estudo A Relación de las Cosas de Yucatán, do Frei Diogo de Landra, está disponível gratuitamente na rede. Trata-se de um livro escrito em castelhano, mas, com esforço e o auxílio de um dicionário, conseguimos fazer uma boa leitura. Certamente a leitura desse documento nos ajudará a entender a organização social e política dos maias antes e após a chegada dos europeus, ampliando as discussões de nossos dois primeiros capítulos. Copie e cole o link em seu navegador: http://www.wayeb.org/ download/resources/landa.pdf 20 CAPÍTULO 2 • ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS sua organização política e social já apresentava importantes desgastes, o que refletia em sua arquitetura e produção cerâmica. Além disso, no período Pós-Clássico, os europeus observaram muitas cidades abandonadas, o que só facilitou a conquista pelos europeus. Contudo, essa periodização tem recebido importantes releituras, influenciadas pela análise das novas descobertas arqueológicas. Os maias, como todo povo sedentário do continente, tinham como base econômica a agricultura. O principal alimento cultivado era o milho, cereal considerado sagrado, pois, segundo suas lendas, os deuses teriam criado os homens a partir dos grãos de milho. Vamos ler uma dessas lendas? Durante a leitura, observe como o milho se integra aos mitos fundadores daquele povo: Lenda Maia “As Quatro Criações do Homem” No começo do mundo, quando só existiam o Céu e o mar, sete deuses reuniram-se em conselho: os guardiões de cada um dos quatro cantos do Universo, mais Tepeu Operário, Gugumatz Nobre e Huracán, também chamado Coração do Céu. Juntos, eles espalhavam pelas trevas uma claridade resplandecente. Quando se puseram de acordo, Huracán lançou o raio e o relâmpago, fez ribombar o trovão e pronunciou a palavra Terra. No mesmo instante, o solo surgiu na superfície do Mar, as montanhas e os vales foram criados e a paisagem recobriu-se de viçosa vegetação, para grande alegria de Gugumatz, que amava o verde (seu manto de penas era dessa cor) e exclamou: – Obrigado, Huracán! Mas um dos deuses observou: – A obra só terá sentido se houver alguém que nos parabenize por ela. Criemos então seres perfeitos, que nos honrem e enalteçam! Puseram mãos à obra, dando vida aos primeiros habitantes da Terra – aves, serpentes e feras. Depois ordenaram: – Celebrem seus criadores! Invoquem nossos nomes! Glorifiquem-nos! Infelizmente, os animais só se mostravam capazes de gorjear, sibilar ou rugir... Sugestão de estudo O arqueólogo Alexandre Navarro, em A civilização maia: contextualização historiográfica e arqueológica, discute as principais releituras da periodização da História Maia frente às novas descobertas arqueológicas. O texto aqui apresentado é uma importante contribuição para ampliarmos nossa discussão sobre a História dos Maias. Confira: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0101-90742008000100015&lng=en&nrm=iso 21 ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS • CAPÍTULO 2 Vendo que esses primeiros seres não eram perfeitos, os deuses ficaram desapontados e disseram-lhes: – De agora em diante, vocês estão condenados a ser perseguidos, mortos e devorados... Os sete deuses, porém, não se conformaram com o fracasso e resolveram criar os homens, imaginado que estes saberiam demonstrar gratidão a seus criadores. Com terra úmida, modelaram um povo de humanos, mas tiveram outra decepção: embora estivessem vivas e soubessem falar, asestátuas de argila não conseguiam virar a cabeça e olhavam sempre na mesma direção. Pior ainda: desmanchavam-se em contato com a água. Como se não bastasse tudo isso, os deuses também lhes desaprovavam não ter sentimentos e não ser mais inteligentes que os animais. As divindades destruíram-nos e reuniram-se pela terceira vez, buscando um meio de criar homens que se lembrassem deles. – Vamos experimentar a madeira! Bem depressa a Terra povoou-se de bonecos entalhados. Falavam, reproduziam-se, sabiam construir casas, mas não tinham sentimentos, não compreendiam nada, viviam sem objetivo. Tal qual as estátuas de argila, os bonecos de madeira não tomavam conhecimento de seus criadores. Por isso, também caíram em desgraça: ressecaram e foram condenados a desaparecer da face da Terra. Durante dias e noites, os deuses fizeram cair do Céu uma chuva negra como as trevas, acompanhada de torrentes de resina. Para escapar a inundação, os homens de madeira tentaram refugiar-se nos telhados e nas árvores, mas os animais domésticos e as ferramentas, desgostosos com os maus tratos que tinham padecido, revoltaram-se e perseguiram-nos. Alguns raros sobreviventes conseguiram fugir e esconderam-se nas florestas, dando origem a uma espécie de macaquinho que vive nas árvores. Decididos a fabricar homens de verdade, custasse o que custasse, os deuses mais uma vez reuniram-se na escuridão da noite. Tinham de criá-los antes da aurora! – Para fazer a carne e o sangue dos homens e dar-lhes vida, força e inteligência, precisamos de um material nobre. Mas onde vamos encontrá-lo? Enquanto os deuses refletiam, quatro animais vieram a eles: o gato-do-mato, o coiote, o periquito e o gavião. – Nós sabemos que material é esse - anunciaram os bichos - Venham conosco. Levaram os deuses a uma região onde cresciam várias plantas alimentícias, entre as quais o milho branco e o milho amarelo. Debulharam o milho, moeram os grãos brancos e os amarelos e fizeram uma massa, com a qual fabricaram a carne dos quatro homens. Enfim seres inteligentes! Agradeciam a seus criadores 22 CAPÍTULO 2 • ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS invocando-lhes os nomes. Enxergavam no escuro, falavam a mesma língua e logo tornaram-se tão sábios quanto os deuses. Estes acabaram ficando preocupados: – Desta vez deu certo demais. É melhor limitarmos os poderes deles. Então, jogaram nos olhos dos homens uma nuvem de vapor que lhes embaçou a vista. Desde este dia, os humanos só enxergavam no Universo aquilo que estava perto. Finalmente satisfeitos, os deuses criaram quatro mulheres de milho e colocaram-nas ao lado dos homens enquanto estes dormiam. Quando acordaram, eles alegraram-se muitíssimo ao descobrir que tinham companheiras. Assim nasceu o povo maia-quiché. Fonte: RAGACHE, Claude-Catherine; LAVERDET, Marcel. A criação do mundo: mitos e lendas. 2 ed. São Paulo, Ática, 1994, p. 26-27. Se a ligação dos maias com o milho era uma ligação mítica, como vimos, eles também cultivavam outros gêneros que eram muito importantes para sua sociedade. Entre os produtos agrícolas também se destacava o algodão, indispensável para confecção das suas roupas, e o cacau. Há indícios de que o cacau era cultivado antes do ano 600 d.C. para produzir uma bebida vedada à maioria da população, pois só a elite poderia consumi-la: o xocoatl (chocolate). A produção cacaueira também era importante, pois suas sementes eram utilizadas como padrão para as trocas comerciais. As terras eram cultivadas no sistema de coivara, que vimos anteriormente. Esse sistema exigia sempre grandes extensões de terra, pois após a colheita, a terra deveria permanecer algum tempo inculta e recuperar sua fertilidade até que novas sementes pudessem ser lançadas ao solo. Assim, havia grandes extensões de terra reservadas à agricultura. Alguns autores utilizam esse fato para justificar a pouca urbanização do território sob domínio dos maias, pois precisavam sempre de grandes extensões de terra para a prática agrícola. Contudo, principalmente a partir do século IV a.C., surgem grandes cidades como Palenque, Tikal, Copan e Uxmal. Como eram praticamente autônomas umas das outras, possuíam governo e leis próprias, as grandes cidades maias também podem ser chamadas de cidades-Estado. Havia também cidades menores, mesmo estas não pareciam submeter-se politicamente a outras cidades maiores ou a um poder central de onde emanassem as ordens ou o direito de mando governamental. Nessas cidades, a maior autoridade local concentrava, em geral, as prerrogativas política, militar e religiosa, sempre auxiliado pelos nobres, sacerdotes e, principalmente, por um Conselho de Anciãos, formado por parentes próximos do governante. Apesar da existência da figura do governante, halach-uinic (“o homem verdadeiro”), que reunia os poderes político e mítico, a sociedade maia não era, em suma, uma sociedade estritamente Para refletir Lendas e mitos fundadores são importantes registros para entendermos a organização social das sociedades. Quais aspectos da lenda maia que lemos apontam indícios de sua organização enquanto sociedade? Em sua opinião, nossas lendas e mitos fundadores também ajudam a entender a sociedade brasileira, sua cultura e organização social? 23 ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS • CAPÍTULO 2 teocrática, ou seja, não eram os deuses, por si próprios ou por meio dos seus enviados e representantes, que governavam as cidades maias, mas o governante deveria consultar e considerar as recomendações do Conselho de Anciãos. Hierarquicamente, o poder individual do governante era inferior às deliberações e considerações daquele conselho. Eram os governantes, nobres, sacerdotes e altos chefes militares que habitavam as cidades, acompanhados de artesãos e comerciantes. No centro das cidades-Estado maias ficava o centro cerimonial, que reunia as principais construções e onde habitavam os governantes, sacerdotes e militares. Artesãos e comerciantes também tinham acesso a esse ambiente, mas residiam em locais mais periféricos. No período de realização das cerimônias religiosas, os camponeses se dirigiam ao centro cerimonial, onde também adquiriam produtos junto aos comerciantes. Os camponeses – grupo social mais numeroso – viviam mais distantes dos centros urbanos, nas áreas destinadas à agricultura, onde cultivavam coletivamente a terra. Para terem acesso a ela, os camponeses tinham que pagar tributos, uma parcela sobre o que produziam. Como nos aponta a professora Philomena Gebran (1992, p. 56), os homens do campo eram polivalentes, pois “Em tempo de paz, [o camponês] não se dedicava simplesmente ao cuidado da agricultura, mas abria espaços na floresta, cortava árvores para a construção dos grandes templos ou palácios, participava na construção dos edifícios, transportava os enormes blocos de pedra para as construções. [...] abriam estradas, ‘os caminhos’ entre uma cidade e outra, o que exigia um duro trabalho de desmatamento, serviam como emissários entre as cidades, eram artistas, arquitetos, escultores, etc.” Não podemos esquecer que essas eram as atividades típicas dos camponeses, ou seja, papéis sociais exercidos por eles em tempos de paz. Contudo, em tempos de guerra – e são poucos os relatos sobre as guerras travadas pelos maias! – os camponeses transformavam-se em guerreiros comandados por uma classe militar que exercia o poder durante o estado de guerra. Astecas: o povo de Aztlan O povo asteca ou mexica formava um grande império nas terras do atual México quando os espanhóis chegaram em 1519. Era um império recente, provavelmente, consolidado por volta do século XIV. Segundo suas lendas, a origem dos astecas seria uma pequena tribo da mítica Aztlan, localizada no nordeste do México. Depois de um longo processo de peregrinação teriam se estabelecido nas ilhas pantanosas de um lago de águas salgadas, o Texcoco, onde começaram a praticar a agriculturasobre jangadas flutuantes de madeira cobertas com a lama do lago, as chinampas. Em uma dessas ilhas, conta 24 CAPÍTULO 2 • ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS a tradição que, em 1325, fundaram a cidade de Tenochtitlán e construíram o primeiro templo em honra de um de seus heróis civilizadores, Huitzilopochtli. Para um povo peregrino, os astecas conseguiram relativo desenvolvimento. Suas aldeias prosperaram com o cultivo de milho, feijão, baunilha, pimenta, tomates e algodão; além disso, exploravam o lago em que habitavam, por isso, em suas lendas, também eram chamados de povo anfíbio, dada a estreita relação com a pesca e caça de pássaros aquáticos. Seus governantes souberam realizar uma importante política de alianças com os povos vizinhos. Essa política foi estabelecida por meio de acordos matrimoniais e alianças militares para a guerra contra inimigos em comum. Como resultado dessa política, formou-se a chamada Tríplice Aliança entre os astecas de Tenochtitlán e as tribos das cidades de Texcoco e Tlocopan. A base do Império Asteca estava formada. Com o passar dos anos, Texcoco especializou-se nas Artes, na Literatura e no Direito, enquanto Tenochtitlán passou a controlar a força militar no interior dessa liga de cidades. Antes da união, os membros da Tríplice Aliança já dominavam extensos territórios do vale central mexicano, e sua zona de influência ia muito além dessas terras, avançando sobre as regiões montanhosas a noroeste e sobre a região nordeste e sobre as terras litorâneas dos Tuxpan. Os soberanos astecas até Montezuma II, morto em 1519 pelos espanhóis, encabeçaram uma progressiva escalada rumo à hegemonia na região. Isso foi resultado dos longos períodos de governo desses soberanos, o que lhes possibilitou o planejamento e a execução de uma política contínua nesse sentido no interior da Tríplice Aliança. Se a hegemonia asteca estava em curso, a Aliança também prosseguia com relativo sucesso sua expansão rumo às terras vizinhas. Nesse processo, anexava territórios e submetia povos, tribos e cidades inteiras. Os padrões da guerra asteca foram descritos por muitos cronistas como muito violentos e sanguinários, gerando, inclusive, amplos debates sobre a prática do canibalismo e a função de seus rituais sacrificiais. Sugestão de estudo O lago Texcoco está situado a cerca de 2.000 metros de altitude. No período de fixação dos astecas, possuía cerca de 1.200km2, contudo, devido às frequentes inundações nos períodos de fortes chuvas, foi aterrado ao longo dos séculos e hoje não possui mais que alguns poucos Km2 de extensão. O arquiteto mexicano Alfonso Iracheta Cenecorta analisa as implicações para a Cidade do México das diversas intervenções ao longo do processo de colonização e urbanização de seu território, além de perceber os impactos causados pela drenagem e aterramento do lago Texcoco. Copie o link a seguir e cole em seu navegador para acessar um interessante texto sobre a região dos astecas nos dias de hoje: http://www.scielo.br/ scielo.php?script=sci_arttext&pid =S0102-88392000000400007 Sugestão de estudo O geógrafo, antropólogo e cientista social Oscar Calavia Sáez traz uma intrigante análise sobre o canibalismo e rituais sacrificiais entre os astecas no texto O canibalismo asteca: releitura e desdobramentos, que se encontra disponível no seguinte link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132009000100002 25 ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS • CAPÍTULO 2 Os astecas avançaram sobre o norte do território e também conquistaram regiões que estenderam o Império da costa atlântica ao litoral do Pacífico. Todo esse processo fora bem-sucedido até a chegada dos europeus. Contudo, como veremos em um próximo no capítulo, os espanhóis souberam explorar os pontos fracos dessa política de alianças e a insatisfação dos povos dominados para facilitar a conquista. As culturas andinas e a construção do império inca Quando os espanhóis chegaram ao Peru, em 1532, os incas já haviam estabelecido o seu domínio sobre o planalto e a planície da costa do Pacífico dos Andes. O poder de seu vastíssimo Império estendia-se desde Cuzco até a Colômbia, ao norte; e até o Chile e a Argentina, ao sul. Objetos da metalurgia inca foram encontrados até mesmo em regiões do Panamá e na Amazônia e no litoral do Brasil. Eram utensílios de cobre, prata e ouro que nos ajudam a estimar o esplendor desse Império. Contudo, podemos afirmar que o Império Inca foi uma organização política de curta duração, pois o início de sua expansão data do século XV e seu declínio já era observado pelos conquistadores espanhóis, que só fizeram antecipá-lo. Até o século XV, os incas eram praticamente intrusos na região dos Andes, que era ocupada por várias outras culturas, sem uma organização política centralizada que reunisse os povos desse imenso território. Esses grupos, descendentes dos grupos nômades que percorriam a região em busca de caça e alimentos para coletar, tornaram-se sedentários após o recuo das grandes geleiras, o que ocasionou a diminuição da disponibilidade de alimentos. Assim, passaram a praticar a agricultura e formar grupamentos cada vez maiores. Sobre esses grupos, anteriores à formação do Império Inca, podemos destacar dois grandes padrões. Os povos do litoral e das planícies costeiras mais baixas dedicavam-se à pesca e à coleta de produtos oceânicos, além de praticarem uma agricultura complementar, baseada no cultivo de abóbora, vagem e algodão, entre outros gêneros. O estabelecimento desses grupos nessa região ocorreu por volta de 3500 a.C., talvez antes. Por sua vez, os povos que se fixaram nos altos Andes, formavam pequenos grupamentos desde 7000 a.C. Os povos das montanhas domesticaram a lhama por volta de 4000 a.C., animal fundamental para o carregamento de cargas nos desfiladeiros e nos terrenos pedregosos acidentados, e que também fornecia carne e leite, além da lã, que eram essenciais para sua manutenção em tempos de frio mais severo. Sugestão de estudo Como regiões tão distantes como as Cordilheiras dos Andes e a Amazônia brasileira puderam ter contato séculos antes da chegada dos europeus? Se você também ficou intrigado com essa possibilidade, não deixe de ler o artigo A cordilheira e a floresta, que a historiadora e arqueóloga Cristiana Bertazoni escreveu para a Revista de História da Biblioteca Nacional. Confira: http://www.revistadehistoria. com.br/secao/capa/a-cordilheira-e-a- floresta 26 CAPÍTULO 2 • ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS Nas montanhas se cultivavam diversas variedades de batata, pimenta e abóbora, também eram comuns as culturas de amaranto e quinoa. O milho também foi um importante alimento cultivado na região e foi inserido na região por volta de 2500 a.C., provavelmente após a intensificação dos contatos com os povos da região central do continente americano. Pouco a pouco, milho e batata tornaram-se a base da dieta alimentar dos povos das montanhas e litoral andino. A sedentarização ocasionada pelo desenvolvimento da prática agrícola provocou transformações profundas na organização social, política e econômica desses primeiros grupamentos. Houve um crescimento demográfico abrupto, após séculos de estagnação populacional. Além disso, novos e maiores centros urbanos e povoamentos foram formados. Surgem, também, centros cerimoniais e religiosos dominados por uma elite sacerdotal que estimulava a construção de prédios públicos, templos, terraços e pirâmides. Na região setentrional do Peru, a civilização de Chavin, cujas origens remontam a esse período de crescimento populacional, parece ter construído, nas palavras de Henri Favre (1987, p. 9), “uma unidade pelo menos ideológica que conservaram durante muitos séculos” entre as comunidades agrícolas da região dos Andes, sob a direção dos sacerdotes de Chavin, apesar das dificuldades de comunicaçãoimpostas pelo relevo. Não se tratava, contudo, de uma unidade política, sobretudo era religiosa. Com o passar dos séculos, a relativa identidade cultural e religiosa Chavin, foi corroída por processos de regionalização, ou seja, o desenvolvimento cultural e tecnológico de determinados grupos, ocorrido entre os séculos I e VIII d.C., acabou por minar ou diminuir a influência Chavin sobre grandes áreas da região. Um exemplo claro disso foi o surgimento das culturas Mochica, no litoral norte, Paracas-Nasca, na costa sul, e a da cultura Tiahuanaco, nos planaltos meridionais do continente. Essas novas culturas demandaram mais mão de obra para a realização de sua arquitetura, cerâmica e tecelagem elaborada, e, diante disso, exigiram também um aumento na produção de gêneros agrícolas e o acúmulo de excedentes. Como consequência, arqueólogos e historiadores observaram avanços tecnológicos voltados para a produção agrícola, como o prolongamento de canais de irrigação e a construção de terraços destinados ao cultivo de alimentos nas íngremes encostas das montanhas. Para organizar esse trabalho, que exigia um esforço maior na administração da mão de obra, os sacerdotes de Chavin foram substituídos por chefes seculares. Esses chefes, por sua vez, se num primeiro momento mantiveram a influência sobre a vida religiosa, perderam aos poucos o domínio sobre o poder religioso e passaram a exercer apenas o poder político. Esses novos atores políticos foram responsáveis por dirigir as principais obras públicas, entre elas a construção das principais obras arquitetônicas do período, incluindo as maiores pirâmides construídas até então. 27 ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS • CAPÍTULO 2 As primeiras cidades de onde emanava o novo poder político eram edificadas no centro e no sul dos planaltos, e, aos poucos, tendiam a ampliar seus domínios sobre as comunidades rurais localizadas no entorno próximo. Duas dessas cidades destacam-se das demais: Tiahuanaco e Huari, situadas respectivamente às margens do lago Titicaca e no vale médio do Mantaro, ambas no atual Peru. Ambas possibilitaram um desenvolvimento urbano sem precedentes. Para além dos costumeiros centros administrativos e religiosos que formavam as cidades até então construídas, Tiahuanaco e Huari possuíam uma extensa zona habitacional e comercial que as circundava, calculadas em dezenas de quilômetros de extensão. Por volta do século IX, Huari passa a refletir características em comum com Tiahuanaco, provavelmente resultado de uma conquista militar empreendida por esta última. Também no Peru, entre os vales dos rios Moche e Chicama, por volta do século XIII, uma nova etnia começa a se destacar. Trata-se dos chimu, responsáveis por importantes contribuições no desenvolvimento da civilização inca, como veremos adiante. Os chimu recuperaram e ampliaram a extensa rede de canais de irrigação da região que havia sido abandonada após anos de guerras. Isso lhes possibilitou aumentar a produção agrícola e sustentar uma numerosa população, talvez até “mais numerosa do que hoje” (FAVRE, 1987, p. 12). Contudo, a expansão Chimu só se iniciaria no século XIV, com o domínio de outros vales peruanos até os limites com o atual Equador. O Império Chimu estendeu-se por todo o litoral peruano, transformando-o de um deserto árido em uma rica região agrícola, graças às técnicas de irrigação. Ao buscar novos territórios a leste, os chimu defrontaram com outro povo em franca expansão: os incas, que dominavam as depressões e vales orientais das cordilheiras. Os incas, após dominarem as principais fontes de água e nascentes do planalto sul-americano, utilizaram-se dessa posição estratégica para prejudicar a produção agrícola dos chimu. Defende Favre (1987, p. 20-21) que esse foi um dos pontos principais que ajudam a explicar a capitulação do Império Chimu, muito mais rico, populoso e equipado militarmente, frente aos exércitos vindos do vale de Cuzco, o que demandava um esforço maior para o deslocamento de longa distância. Com a queda do Império Chimu, nas proximidades da década de 1460, estabeleceu-se, de fato, o Império Inca, após um longo processo de expansão territorial e política que ampliou não só as terras sob domínio de Cuzco, mas, também, o número de povos subjugados ao poder político, agora centralizado naquela cidade. Vale frisar que os incas não se beneficiaram somente com as pilhagens das ricas cidades do Império Chimu, certamente também foram influenciados por sua cultura, cujos resquícios foram observados mais tarde nas composições arquitetônicas, artísticas e em seus rituais religiosos. 28 CAPÍTULO 2 • ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS Esse processo de expansão prosseguiu por mais uma geração, mas quando os europeus chegaram já havia sinais claros de insubordinação entre os povos dominados e o estacionamento dos exércitos nas fronteiras que não conseguiam avançar diante da resistência – e mesmo dos ataques – de outros povos. Com a chegada dos europeus, chegam também as doenças, principalmente a varíola, para as quais os incas não possuem defesas naturais. Cerca de 200 mil homens morreram entre 1528 e 1532 diante das ondas epidêmicas de varíola. Em 1528, Wayna Kapaq, então imperador inca, sucumbiu frente a uma possível infecção de varíola. O Império começava a desmoronar. Antes de avançarmos sobre essa questão, vamos analisar aspectos da organização do Império Inca. As aldeias incas eram construídas, em geral, em altitudes superiores aos 3.000 metros. No topo de montanhas aplainadas sem uma organização aparente, dadas as dificuldades apresentadas pelo relevo. Podiam reunir centenas de casas, mas eram comuns as aldeias com poucas dezenas de habitações. Cada aldeia inca era habitada por indivíduos que se ligavam por laços familiares, mais ou menos próximos, seja por consanguinidade ou por tutela civil. Contudo, não formavam um clã, pois a descendência era paralela, ou seja, os filhos de um casal não eram necessariamente descendentes de ambos; as filhas mulheres eram descendentes de sua mãe, enquanto os filhos homens descendiam de seu pai. Nesse sentido, mulher e filhas mulheres formariam uma família diferente da família formada por pai e filhos homens, mesmo que mãe e pai formassem um casal e que os filhos fossem gerados por contribuição biológica de ambos. Essa relação parental, relativamente difundida entre os povos andinos, gerava a difusão de ascendência, o que impedia a eleição de um ancestral comum e, por consequência, a formação de um clã. Em alguns momentos, os incas também utilizavam a linha materna como geradora da descendência e dos direitos de sucessão, por isso alguns historiadores consideram os incas uma sociedade matrilinear. As células familiares reconheciam um chefe, geralmente o fundador do grupo, que distribuía as terras, organizava os trabalhos coletivos e resolvia os conflitos dentro do grupo. As áreas de pastagem, onde crescia uma gramínea curta resistente às baixas temperaturas, eram coletivizadas. Não poderiam ser cultivadas e eram destinadas ao pastoreio das lhamas e alpacas que esses povos haviam domesticado. As crianças e adolescentes eram responsáveis por cuidar dos rebanhos, enquanto homens se dedicavam ao cultivo dos alimentos, artesanato e tecelagem, e as mulheres, aos afazeres domésticos. A relação das aldeias e seus indivíduos com a organização política maior do Império se dava por meio da prestação de serviços compulsórios que todos os homens adultos e casados estavam obrigados a realizar em determinadas ocasiões. Assim, não podemos taxar o Império Inca como um império tributário lato sensu, como diversos manuais didáticos ainda insistem em fazer, pois 29 ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS • CAPÍTULO 2 os incas não deviam tributos ou impostos monetários ao Estado, somente lhe devia sua força de trabalho. O instituto de prestação de serviços compulsóriosao Estado Inca foi analogicamente chamado pelos europeus de corveia, dada sua semelhança com a corveia do período medieval europeu. Contudo, apesar do fascínio que o uso dessa explicação didática possa exercer, a semelhança entre os conceitos deve respeitar a distância entre eles. No caso dos incas, o trabalho compulsório não estava justificado numa perspectiva religiosa. O servo na Idade Média europeia devia a corveia ao senhor por sua posição naquela sociedade, e essa posição na hierarquia social era definida por explicações de fundo teológico. Para os incas, era o domínio político, antes do religioso, que definia aqueles que deviam prestar serviços compulsórios. Para garantir o sucesso do sistema de prestação de serviços compulsórios, o Estado desenvolveu uma burocracia eficiente, que controlava, por meio de amplos recenseamentos, o número dos que estavam obrigados e desobrigados ao pagamento em forma de trabalho. O poder devia conhecer prontamente a quantidade de energia humana de que poderia dispor, de forma a alocá-la racionalmente entre os diversos setores concorrentes da economia. Era-lhe necessário manter em dia a lista de súditos que o casamento fazia entrar na categoria dos obrigados ao pagamento, como também daqueles que as enfermidades, a idade ou a morte retiravam dessa categoria. Os recenseamentos enormes e minuciosos, que tanto impressionaram os conquistadores e que não tinham qualquer similar na Europa do século XVI, correspondiam a esse único fim. (FAVRE, 1997, p. 45) Com essas palavras, Favre salienta a importância da organização administrativa sob a instância burocrática para o sucesso das ações e políticas incas. Para manter essa eficiência, os recenseamentos eram realizados regularmente por especialistas, que utilizavam um sistema numérico decimal para facilitar seu trabalho. O Estado utilizava-se da população sujeita ao trabalho compulsório para a realização de atividades que requeriam muita mão de obra, como o cultivo das terras pertencentes ao Estado, tarefas administrativas, construção e realização de obras públicas, além do emprego com finalidades militares. Entre as obras realizadas com o auxílio do trabalho compulsório, da corveia inca, estão o gigantesco sistema de estradas e pontes de 16 mil quilômetros de extensão, que intriga e impressiona até hoje. O trabalho compulsório será ressignificado pelos espanhóis durante o processo de conquista e dará origem a outros institutos jurídicos. Estamos falando da mita e da encomienda, que analisaremos no próximo capítulo. Em 1528, essa organização política, social e econômica estava em perigo. Com a morte de Wayna Kapaq, o interregno leva as chefias locais a se rebelarem contra o poder central do Imperador. 30 CAPÍTULO 2 • ORgANIzAçÕES POLÍtICO-SOCIAIS COMPLEXAS: INCAS, MAIAS E AStECAS A disputa entre os dois filhos de Wayna Kapaq, Ataw Wallpa e Waskarr, coloca em lados opostos o norte e o sul do Império. Após meses de batalha, Ataw Wallpa e os exércitos do norte conseguem vencer as forças do sul e tornar Waskarr prisioneiro. Estaria encerrada a disputa sucessória, caso um novo agente não tivesse entrado em cena: o conquistador espanhol Francisco Pizarro. Subestimando o inimigo espanhol, Ataw Wallpa vai ao encontro de Pizarro na cidade de Cajamarca, onde sofre uma emboscada e se torna prisioneiro dos espanhóis. Temendo uma represália contra a vida de Ataw Wallpa, seus exércitos se retiram da cidade. A notícia da prisão de Ataw Wallpa se espalha pela região e logo os chefes dos povos submetidos buscam o apoio espanhol para se libertar do domínio inca. Ao se propor a apoiar a rebelião dos chefes locais contra os incas, Pizarro obtém a fidelidade de diversas etnias contra os incas. Por pressão desses líderes, e acuado pela execução de Waskarr pelos exércitos de Ataw Wallpa, Pizarro decide julgar seu prisioneiro pelos crimes de fratricídio e usurpação. Toma lugar uma simulação de processo-crime, cheio de lacunas, Ataw Wallpa é condenado e executado. Após esse evento, Pizarro prossegue em marcha até Cuzco, apoiado pelos chefes revoltosos que lhes entregam carregadores, suprimentos e guerreiros. Cuzco não oferece resistência. Daí em diante passa-se dois anos até o completo aniquilamento dos exércitos dispersos, ainda fiéis a Ataw Wallpa. Sintetizando Vimos até agora: » Que incas, maias e astecas possuíam uma complexa organização social, política e cultural; » Que incas, maias e astecas possuíam formas próprias de organizar o trabalho, inclusive com uso do trabalho compulsório, e que sua sociedade mantinha forte apego às tradições religiosas. 31 Apresentação Durante a leitura do capítulo 3, teremos oportunidade de discutir sobre a chegada de Cristóvão Colombo ao Continente Americano. Na segunda parte deste capítulo, conheceremos o processo de conquista do território pelos espanhóis. Objetivos Esperamos que, após o estudo do conteúdo deste capítulo, você seja capaz de: » Refletir sobre a chegada de Cristóvão Colombo ao Continente Americano; » Compreender o processo de conquista da América pela Espanha. 3 CAPÍTULO A CONQUIStA DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA 32 CAPÍTULO 3 • A CONQUIStA DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA O “Novo Mundo” Quando Cristóvão Colombo aportou em terras americanas, pensava ter alcançado as Índias, região que hoje englobaria uma infinidade de territórios pertencentes a diversos países como a própria Índia, China, Siri Lanka, países da Península Arábica e, mais tarde, Japão, Filipinas, Singapura e Malásia. Esse erro conceitual, cuja origem veremos mais detalhadamente nos subtítulos adiante, logo foi superado e as terras descobertas passariam a ser conhecidas como “Novo Mundo”. A expressão Novo Mundo foi cunhada meses depois da chegada de Cristóvão Colombo à América. O responsável por esse novo termo foi o italiano Pedro Mártir de Angleria, então residente na corte de Castela, que sem nunca ter pisado nas novas terras, redigiu diversas cartas às autoridades e personalidades de seu tempo relatando as novas descobertas. Baseando-se nos testemunhos e descrições dos viajantes e navegadores que retornavam para Castela, Mártir percebeu que a descoberta de Colombo não se tratava das Índias, mas, sim, de outras terras, eram um orbe novo (novo mundo). Suas cartas foram reunidas e publicadas em latim poucos anos depois, sob o título de De Orbe Novo (Sobre o Novo Mundo). Em decorrência dessa nova perspectiva, os europeus tiveram acesso a um Novo Mundo e as descrições de Mártir contribuíram para que percebessem que era muito diferente de tudo aquilo que estavam acostumados a imaginar. As viagens de descoberta e os fatores da conquista O historiador Ruggiero Romano (1995), que escreveu um importante livro sobre o processo histórico de conquista do território americano, afirma que nas viagens de descoberta podemos identificar investimentos e capitais de origem diversa inseridos naquele processo. Conhecemos bem a origem do capital que financiou a expedição de Colombo, as joias da coroa da rainha Isabel de Castela. Contudo, os Estados Modernos do século XV e XVI ainda não eram fortes o suficiente para empreender todas as ações econômicas que estão por trás dos descobrimentos e dos subsequentes processos de conquista e colonização. Capitais privados espanhóis, portugueses, franceses, genoveses, flamengos e alemães, entre outros, formam a base do financiamento da grande maioria das expedições. O lucro oriundo dessas iniciativas poderia ser muito grande, daí o interesse de particulares por investir nessas ações mercantis. Se os principais investimentos eram privados, o Estado também intervinha mesmo onde não aplicasse seus recursos financeiros, pois legitimava a aquisição de senhorios e terras. No caso da Coroa de Castela, por meio da concessão dos requerimentos – conhecidos como capitulações – ordenava os direitos e deveres dos particulares que desejassem investir seus recursos no Novo Mundo. 33 A CONQUIStADO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 3 Ao conseguirem as capitulações, os conquistadores comprometiam-se com os gastos da expedição. Também recrutavam a tripulação, erigiam fortes, pagavam os impostos devidos à Coroa e responsabilizavam-se pela conversão e catequese dos nativos. Nesse último aspecto, encontramos um terceiro importante ator: a Igreja. Esta, por sua vez, conferia o caráter moral das expedições ao defender a ampliação do “reino de Deus na terra”. Esses conquistadores, em sua grande maioria, eram hidalgos, ou seja, membros da nobreza que não pertenciam à alta aristocracia do reino e nem possuíam fortuna. O êxito na conquista poderia, por um lado, garantir a fortuna e, por outro, reconhecimento e honra. Nesse sentido, a conquista, mesmo que pareça ter inaugurado a Época Moderna, ainda incorpora muitas características das guerras da Reconquista da Península Ibérica e do direito feudal espanhol, sobretudo no que se refere à proeminência da ação individual sobre a iniciativa do poder estatal. “O encontro entre o velho e o novo mundo, que a descoberta de Colombo tornou possível, é de um tipo particular: é uma guerra, ou melhor, como se dizia então, a Conquista. Um mistério continua ligado à conquista; trata-se do resultado do combate. Por que esta vitória fulgurante, se os habitantes da América são tão superiores em número a seus adversários, já que a civilização mexicana é a mais brilhante do mundo pré-colombiano: como explicar que Cortéz, liderando algumas centenas de homens, tenha conseguido tomar o reino de Montezuma, que dispunha de várias centenas de milhares de guerreiros?” (TODOROV, 1993, p. 51). A conquista do Novo Mundo foi um processo longo e complexo que envolveu diversos fatores, ainda muito discutidos por nossa historiografia contemporânea: superioridade bélica dos espanhóis, extermínio dos grupos nativos, desorganização social e política das sociedades pré-colombianas, rearranjos culturais a partir do choque de culturas tão diversas, sincretismos... Certamente você deve estar se perguntando: Mas como a conquista obteve êxito? Para pôr mais “lenha” nessa curiosidade, vou trazer mais um dado importante: na época da conquista, possivelmente, os nativos somavam entre 57 a 80 milhões de indivíduos. Assim, como os poucos milhares de espanhóis que aportaram em solo americano a partir de 1492 e ao longo do século XVI puderam dominar terras tão vastas? As explicações para essas questões ainda não são consensuais. Contudo, a tese mais tradicional evidencia a superioridade bélica dos brancos. Superioridade assentada sobre três pilares principais: » no uso da pólvora, tendo em vista que o alcance das armas de fogo era muito maior que o dos arcos e flechas nativos. Além disso, o barulho das explosões certamente causou um importante impacto psicológico que abalava a organização das defesas rivais; » no uso de meios de transporte mais eficazes como o cavalo, que garantia a maior e mais ágil mobilidade dos espanhóis, inclusive em terrenos alagadiços; 34 CAPÍTULO 3 • A CONQUIStA DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA » no emprego do aço, essencial para a luta corpo a corpo, tanto para a defesa – na composição de grande parte das armaduras e escudos –, como para o ataque – nas espadas e lanças afiadas. Mas em diversas partes da América, o clima não era tão favorável aos espanhóis, e podia até mesmo inutilizar a base de sua superioridade bélica. A pólvora podia ser facilmente molhada no clima úmido da região, os arcabuzes e armaduras enferrujavam com muita rapidez e os cavalos, dado seu destaque em combate, eram os alvos principais dos nativos, além de serem imprestáveis em terrenos pedregosos e escarpados. Se as armas, o aço e o cavalo não podem explicar sozinhos o avanço espanhol, o que explicaria, então, seu sucesso na conquista? Outro argumento que comumente observamos em nossos livros didáticos é o fator microbiológico e epidemiológico. Gripe, varíola, sarampo, tuberculose, peste e outras infecções foram muito relatados ao longo do processo de conquista e colonização do território americano. Os nativos não possuíam defesas naturais contra os novos microrganismos que foram introduzidos no ecossistema americano. Por isso, muitos “exércitos”, milhares de homens, mulheres e crianças foram dizimados pela ação de um simples vírus ou bactéria desde o estabelecimento dos primeiros contatos, o que ajudou a enfraquecer as defesas nativas e sua resistência aos ataques espanhóis. Contudo, as doenças ajudam a explicar a conquista apenas num prazo mais estendido, pois entre o contágio e o desenvolvimento dos surtos epidêmicos há certamente um período considerável de tempo que não podemos ignorar. Uma vez instaurados, os surtos epidêmicos foram um grande aliado da conquista, dado seu grande poder de letalidade. Para além das doenças e epidemias, cronistas narram épicas batalhas em que havia um espanhol para cada cem, quinhentos e até mil nativos. Muitas dessas batalhas épicas vencidas pelos espanhóis foram travadas contra Estados sólidos, fortemente hierarquizados, em pleno processo de expansão e seus exércitos regulares. Ruggiero Romano (1995, p. 17) destaca que “no México [contra os astecas], e mais particularmente no Peru [contra os incas], certos cronistas avaliam os efetivos do exército indígena em 200.000 homens.” Prossegue o autor defendendo que para vencer essas batalhas, em que a desproporção numérica era desfavorável aos espanhóis, os europeus valeram-se das inimizades e descontentamentos internos dessas sociedades, resultado do processo de expansão desses impérios. Vimos no capítulo 1 que Francisco Pizarro valeu-se desse descontentamento para Sugestão de estudo A História das Doenças é um importante ramo da historiografia contemporânea. Vamos ampliar um pouco nosso conhecimento sobre esse tema? Acesse na Biblioteca Virtual o livro A história da humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microrganismos, de autoria de Stefan Cunha Ujvari. Nessa obra, poderemos ampliar um pouco mais nossos conhecimentos sobre a chegada de novos microrganismos ao continente americano nos séculos XV e XVI. 35 A CONQUIStA DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 3 organizar os esforços e vencer a resistência de Cuzco. Percebemos que naquele momento, os principais das tribos dominadas, diante da infelicidade e posterior captura de Ataw Wallpa, foram ao encontro de Pizarro e com ele propuseram alianças contra os exércitos incas. Principalmente os Impérios Inca e Asteca, Estados em franco processo de expansão no século XVI, sofreram reveses em suas batalhas contra com os espanhóis por revoltas registradas no interior dos seus exércitos ou por alianças firmadas entre os povos dominados por esses impérios com os espanhóis. Se eram os nativos os maiores conhecedores das características da nova terra, ao buscarem aliança com os europeus, os chefes tribais, descontentes com o domínio inca e asteca, anulavam essa vantagem. Não havia uma “identidade nativa”, em que prevaleceria a ideia de que “os nativos deveriam se defender do invasor espanhol”. Na verdade, longe de criarem uma identidade nativa sólida, os revoltosos viam incas e astecas como usurpadores, tendo em vista que foram vencidos, subjugados e mantidos em condição inferior aos seus dominadores. Dessa maneira, com o apoio dos próprios nativos, os espanhóis tiveram acesso a suprimentos, rotas de defesa e ataque, além de guerreiros, o que facilitou o processo da conquista. Figura 6. Conquista do México, litografia colorizada a partir do Lienzo de Tlaxcala, c. 1540, Biblioteca Estadual de Berlim. Nesta gravura é importante notar a presença de outros guerreiros indígenas aliados dos espanhóis na conquista e que eram inimigos do Império Asteca. Fonte: https://sites.google.com/a/oberlin.edu/hist109f11/_/rsrc/1314754748871/home/syllabus/conquest-of-mexico- lienzo-de-tlaxcala.jpg Cada vez mais, a historiografia tem debatidoe provado que as tensões locais geradas pelo expansionismo inca e asteca foram fundamentais para explicar o sucesso da conquista espanhola e que a restrição da explicação à superioridade tecnológica e bélica, além das epidemias, é insuficiente para dar conta desse complexo processo em toda sua amplitude. 36 CAPÍTULO 3 • A CONQUIStA DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA A colonização da América Espanhola: a conquista Para Marianne Mahn-Lot (1990), a conquista do território que viria a ser conhecido como América Espanhola pode ser dividida em três fases bem distintas. A primeira inicia-se com o descobrimento por Colombo, se estende pelo momento de colonização das ilhas e termina com o início da conquista do continente em 1519, por Hernán Cortéz. Trata-se de um período de sondagens da nova terra, período no qual somente as ilhas do Caribe e o litoral mais imediato eram explorados. Nos primeiros momentos do século XVI era esse o padrão da exploração: inexpressivo. Cabia aos nativos a retirada e entrega das madeiras e animais aos conquistadores que em troca lhes retribuíam com objetos europeus diversos. Contudo, após a descoberta do ouro de aluvião e a necessidade de constituir a base para a extração mineira, lançou-se mão da escravização do nativo enquanto força de trabalho, gerando árduas críticas na metrópole, pois os índios não eram propriamente infiéis como os muçulmanos, mas, sim, ignorantes sobre a verdadeira fé. Com o ouro, a exploração do território tornou-se mais intensa. E, cada vez mais, a questão da mão de obra – ou a falta dela – torna-se central, o que leva a um primeiro desembarque de escravos africanos na costa antilhana já em 1505. Se comparada à mão de obra local, o escravo africano era, em geral, bem mais caro. Contudo, diante da limitação da escravização dos índios e da crescente diminuição demográfica das populações locais, o trabalho compulsório africano se mostra uma saída viável. Por outro lado, a abertura de um novo mercado voltado para o comércio transatlântico de escravos, em si, já se mostrava uma atividade rentável, um investimento com ótimo retorno financeiro. Os capitais internacionais, sobretudo ingleses, holandeses, portugueses e espanhóis, ao ofertarem esse novo recurso criaram, pouco a pouco, a demanda necessária para seu crescimento. Cresce, então, a lucratividade do comércio de escravos africanos e esse novo ramo de atividade econômica mostra-se como uma alternativa aos investimentos tradicionais na exploração da América Espanhola. Com a redução demográfica dos grupos nativos e a escassez do ouro de aluvião, a importância econômica das Antilhas para a metrópole espanhola diminui consideravelmente. Progressivamente, as ilhas antilhanas desenvolvem ramos econômicos mais estáveis, como a pecuária de corte e a agricultura. Nesse novo cenário, Cuba se destaca ao iniciar a produção de cana-de-açúcar que, em pouco tempo, se mostra um verdadeiro sucesso, dadas as condições locais de clima, solo e relevo, além da crescente demanda do mercado externo por seu produto mais valioso: o açúcar. Atenção Entender os expansionismos inca e asteca é fundamental para compreender o “sucesso” da conquista espanhola. Talvez tenha sido esse o fator mais significativo descoberto nos últimos anos pela historiografia. Fique atento a esse processo nos tópicos a seguir. 37 A CONQUIStA DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 3 Paralelas a esse desenvolvimento agropastoril novas expedições partindo de Cuba, São Domingos e Porto Rico têm por objetivo alcançar e explorar a costa continental. Inicia-se, então, a segunda fase da conquista. O principal expoente dessa fase é a conquista do México por Hernán Cortéz em 1519. A Confederação Asteca caduca frente à exploração das inimizades internas que formavam aquela política de alianças. Vimos no capítulo anterior que Pizarro também soube explorar a fragilidade dessas políticas de alianças para desintegrar o Império Inca, anos mais tarde. Para ganhar a atenção das lideranças locais e facilitar sua aproximação, aponta Tzvetan Todorov (1993, p. 93) que Cortéz valeu-se de diversos atributos simbólicos que, em muitos casos, podiam até mesmo amedrontar os nativos. Todorov narra que o estrondo produzido pela explosão dos canhões, antes da entrada dos espanhóis nas cidades astecas, levava os índios a caírem de joelhos de tanto pavor. Além dos canhões, havia também o cavalo, animal que não era conhecido dos nativos e que dava aos espanhóis uma vantagem durante as batalhas por sua mobilidade e pelo impacto que causava. Nessa mesma perspectiva, o cuidado dos espanhóis com essa astuta vantagem demonstra que canhões e cavalos eram usados claramente com o intuito de agirem sobre o imaginário dos povos astecas. No início de sua campanha, Cortéz tomava o cuidado de mandar enterrar os corpos de seus cavalos para que os astecas não percebessem que esses animais eram mortais, tática que funcionou por um bom tempo. Canhões e cavalos pareciam batalhar por vontade própria; era a cólera dos deuses contra os astecas. A conquista também foi uma batalha no campo do imaginário que possibilitou o fortalecimento das rixas internas entre os povos submetidos à autoridade de Montezuma II, o líder da Confederação Asteca, e a ascensão de Cortéz. Não se trata de diminuir a superioridade bélica dos espanhóis, pelo contrário, trata-se apenas de considerar outros fatores que por anos foram ignorados. A revolta contra Montezuma II e a capitulação de Tenochtitlán, em 1521, foram os fatores necessários para que a conquista pudesse avançar para o interior do continente até as terras em que hoje se localiza a Califórnia. Após a queda de Montezuma II e o progressivo avanço dos espanhóis pelo interior do continente, segundo Mahn-Lot (1990), inicia-se a terceira fase da conquista. Para efeitos metodológicos, a autora prefere apontar como início da terceira fase da conquista o ano de 1532, ano da queda do último grande império nas Américas, o Império Inca. Essa terceira fase da conquista caracteriza-se pela organização mais sistemática das expedições da conquista. Agora, essas expedições partiam de um local fixo, onde eram armadas e abastecidas com homens e suprimentos: o Panamá. De lá partiram as expedições responsáveis pela queda dos incas (1533) na região do atual Peru e dos araucanos (1550) que dominavam a região mais ao sul, onde hoje se localiza grande parte do território chileno. 38 CAPÍTULO 3 • A CONQUIStA DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA Do Panamá também partiu a expedição responsável pela primeira fundação de Buenos Aires (1536), mais tarde totalmente destruída pelos povos nativos vizinhos e que somente em 1580 seria reconstruída. Com o sucesso dessas últimas empreitadas e com o lucro advindo das riquezas encontradas (a cidade de Potosí foi fundada em 1546 e em poucas décadas se tornaria a maior produtora de prata do mundo), a atenção da metrópole para a América Espanhola torna-se mais detida. A partir da segunda metade do século XVI, os Habsburgos empreendem uma série de transformações na relação entre metrópole e colônias, a fim de controlar a exploração dos recursos naturais e orientar o lucro oriundo dessa exploração para a expansão de seu império na Europa. Outro indício dessas transformações é a preocupação cada vez mais frequente sobre o uso da mão de obra indígena e de sua conservação. O próprio termo conquista e sua flexão conquistadores sofreu com essas mudanças: uma instrução de 1556 orientava que em seu lugar fosse utilizado descobrimento e descobridores. Em 1572, o termo conquista foi totalmente proibido, o que demonstra com clareza uma transformação nos ideais e objetivos da exploração da América pelos espanhóis. É aí que termina a conquista e a metrópole passa a criar políticas de colonização mais efetivas para suas colônias. Organização sociopolítica da América Espanhola Em 1492, os Reis Católicos – Fernando de Aragão e Isabel de Castela – e CristóvãoColombo assinam as Capitulações de Santa Fé, um documento que pela perspectiva jurídica representava um contrato de concessão real, também conhecida como mercê real, no qual o descobridor se comprometia a tomar posse em nome dos monarcas espanhóis de todas as terras que fossem descobertas a ocidente. Em troca, Colombo receberia parte dos lucros da investida e diversos títulos, entre eles o de vice-rei e governador das terras descobertas. Muito comuns no período da conquista, as mercês reais também serão muito utilizadas no período de colonização mais efetiva da América Espanhola. Esse instituto jurídico, em troca de algumas obrigações, garantia uma perspectiva de sucesso econômico para os investimentos realizados por particulares. Assim, a Coroa espanhola, diante da escassez de recursos próprios suficientes, acabava por lançar mão das mercês como forma de incrementar os investimentos na colonização da América. Sugestão de estudo O filme Aguirre, a cólera dos deuses (1972), dirigido por Werner Herzog, é um dos clássicos exemplos de filmografia histórica para o período da América colonial. Esse filme retrata com muita propriedade a organização de uma expedição de espanhóis que partem em busca do Eldorado – uma cidade de ouro – e se deparam com a floresta e todos os percalços desse novo território, do interior desconhecido do continente. O pano de fundo desse filme, além do destaque ao processo de conquista do território americano, é o mercantilismo europeu do século XVI, que certamente será discutido na disciplina de História Moderna. Você não pode deixar de observar que, além da busca por riquezas, honra e poder, o espírito cruzadista de levar a palavra de Deus perseguia os primeiros conquistadores que por aqui aportaram. 39 A CONQUIStA DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 3 A metrópole – e não só a espanhola, pois essa regra também se aplica ao caso português, vide a realidade das capitanias hereditárias estabelecidas por Portugal como forma de colonizar suas terras americanas – não dispunha dos recursos necessários para massificar o processo de colonização. No início da colonização havia a necessidade de uma vigilância constante, de defender o território das invasões e ameaças de outras nações que não concordavam com as regras estabelecidas no Tratado de Tordesilhas. Além disso, também havia a necessidade de povoar os territórios recém-descobertos, dominar os nativos resistentes e hostis, evangelizar os novos povos. Assim, a ação – e os investimentos – dos particulares se fez muito importante para que a colonização das terras americanas obtivesse resultados positivos. Contudo, essa prática possibilitou a ascensão de um grupo de europeus, principalmente espanhóis, que conseguiram enriquecer após essa estreita relação com a Coroa, suas ações no Novo Mundo e os resultados alcançados com a conquista e posterior colonização do território. A busca por riquezas fica clara no texto a seguir, retirado da terceira carta de Hernán Cortéz (1986, p. 98) ao rei Carlos V: “Permanecemos no real uns três dias ou quatro dias descansando, enquanto se fundia o ouro recolhido, o que deu mais de cento e trinta mil castelhanos, do que se entregou o quinto ao tesoureiro de vossa majestade, enquanto que o restante foi repartido entre eu os espanhóis, de acordo com a qualificação e o serviço de cada um. Entre os despojos havia tantos discos de ouro, penachos e plumagens, coisas tão maravilhosas que por escrito não se pode fazer compreender sua beleza.” (Trecho da terceira carta de Cortéz ao Rei Carlos V de 15 de maio de 1522). Os primeiros conquistadores, ou adelantados, mesmo que possam ter obtido sucesso em algumas empreitadas, como Pizarro, no Peru, e Cortéz, no México, incorporando grandes extensões de terra ao domínio espanhol, não foram capazes de prosseguir com sucesso em suas ações seguintes. Não foram capazes de implementar um sistema eficiente de exploração que garantisse um escoamento constante de riquezas para o reino ou mesmo a manutenção de seu controle particular sobre os territórios conquistados. A ineficiência do continuísmo da colonização se deve ao fato de que os primeiros exploradores concorriam entre si, inclusive dentro de uma mesma expedição. A Coroa, para evitar os resultados desastrosos da concorrência entre os primeiros conquistadores, logo que tomava ciência das novas descobertas buscava centralizar o processo de colonização, com o envio de funcionários reais, soldados e também com a anulação ou limitação das concessões feitas aos particulares. Por outro lado, diante das necessidades locais, muitos exploradores acabavam recebendo cargos reais e suas ações agora passavam a ser pautadas pelas ordens diretas de Madri. Madri, por sua vez, buscando garantir o controle da Coroa sobre os novos territórios, cria ou reorganiza instituições e órgãos diversos. Já em 1503, surge a Casa de Contratação, responsável pela regulação do comércio com os territórios americanos. Sediada em Sevilha, adotava o 40 CAPÍTULO 3 • A CONQUIStA DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA sistema do monopólio comercial exercido por um porto único, ou seja, os territórios americanos só poderiam comercializar (comprar ou vender) com o porto de Sevilha, posteriormente também com o porto de Cádiz. No lado americano, Havana (Cuba), Vera Cruz (México), Porto Belo (Panamá) e Cartagena (Colômbia) também centralizavam o escoamento e o recebimento de produtos. Esse mecanismo, ao menos na teoria, visava garantir a taxação dos produtos comercializados entre a metrópole e suas colônias, além de impedir o descaminho, o contrabando das riquezas coloniais. O sistema do porto único também foi importante para a defesa do comércio com o Novo Mundo, tendo em vista que as águas do Atlântico nesse período estavam infestadas de piratas e corsários. De Sevilha partiam as Armadas, que não tinham esse nome sem motivo, frotas de navios que além da finalidade comercial também tinham uma finalidade militar: defender o comércio e os territórios espanhóis dos assaltos das nações inimigas. Outra importante instituição foi o Conselho das Índias, criado em 1524 com a finalidade de organizar o governo das colônias. Cabia a esse conselho nomear as autoridades coloniais: Vice-reis, Capitães Gerais, Governadores, juízes... Todas as principais autoridades que desempenhariam alguma função na administração ou defesa eram nomeadas pelo Rei após sua indicação pelo Conselho. Além dessa prerrogativa, esse órgão também tinha por finalidade assessorar o Rei nos assuntos e decisões relacionadas ao governo, à justiça e à legislação das questões coloniais. A Coroa, buscando ampliar seu poder sobre os territórios coloniais, passa a instituir regiões administrativas, inicialmente os Vice-reinos e, posteriormente, as Capitanias Gerais. O primeiro Vice-Reino, o da Nova Espanha, foi criado em 1535 no território conquistado após a queda do Império Asteca, ao passo que os territórios fossem conquistados, a Coroa estabelecia um governo central que a representava em todas as instâncias, mesmo que com certas limitações. Em 1543, o Vice-Reino do Peru foi criado na cidade de Lima, nas regiões antes dominadas pelos incas. Somente no século XVIII os vice-reinos de Nova Granada (em 1717) e do Rio da Prata (1776), tendo Buenos Aires como capital, foram instituídos. O poder simbólico e político, além do prestígio, emanado do cargo de vice-rei eram cobiçados por muitas famílias nobres. Contudo, a nomeação desses oficiais era prerrogativa direta do monarca, cabia ao rei nomeá-los como representantes da “pessoa real” nas terras americanas, ou seja, “reis no exercício” da dignidade que emanava da Coroa. Por esses motivos (dignidade real, por um lado, e cobiça do cargo, por outro), no ato da escolha, o rei tendia a evitar a nomeação de representantes da pequena nobreza, preferindo os representantes da média nobreza ou filhos secundogênitos das grandes famílias nobresna expectativa de frear o ímpeto pelo enriquecimento fácil e pelo exercício do poder. 41 A CONQUIStA DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 3 Figura 7. Fonte: DUBY, georges. Atlas historique. Paris: Larousse, 1987. P. 282. A criação dos novos cargos que responderiam pela administração dos vice-reinos não foi uma garantia de autonomia dos territórios coloniais. A metrópole, além de indicar os principais ocupantes dos cargos mais altos também criou uma rede de regulação que impedia – ou pelo menos tentava impedir – que decisões fossem tomadas sem o consentimento ou ordem expressa de Madri. Nesse sentido, já nos reportamos aos comboios da Casa de Contratação e ao Conselho das Índias. Além dessas instituições, havia as Audiências, órgão responsável pela fiscalização dos vice-reinos e pela função judiciária, por meio da ação de seus ouvidores que percorriam os territórios coloniais. A distância entre Madri e os territórios coloniais estimulava a criação de instituições como as Audiências, mecanismos de garantia do governo nas áreas coloniais. Pouco a pouco, as Audiências, tão presentes no território colonial, tornam-se instâncias administrativas, auxiliando e limitando o exercício das prerrogativas dos vice-reis e de outras instituições em solo americano. Por outro lado, à medida que a expansão da colonização acontecia e a ocupação dos territórios crescia, foi necessária a criação de instituições que lidassem diretamente com interesses regionais e locais. Uma dessas instituições foram os corregimientos, grandes distritos ao redor de um centro 42 CAPÍTULO 3 • A CONQUIStA DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA urbano, cujos governantes eram apontados pelo rei ou pelo vice-rei. A criação dos corregimientos foi a solução para a imensidão de tarefas e espaços de governo que antes estavam a cargo do vice-rei e dos governadores das capitanias. Outra importante instituição do governo local – talvez a mais importante – eram os cabildos, ou conselhos municipais, que funcionavam com as funções que hoje delegaríamos a uma prefeitura e a uma câmara legislativa municipal. Nessa instituição, como a grande maioria das instituições do início da Era Moderna que foram fortemente influenciadas por características feudais, não havia subdivisão entre os poderes, cabia a ela tanto prerrogativas executivas, legislativas e judiciárias. Os cabildos existiam em qualquer vila ou cidade da América Espanhola, e sua principal função era regular a vida dos habitantes e as propriedades públicas e particulares, de onde provinha a maior parte das rendas e tributos devidos à municipalidade. Pela letra fria da lei, os representantes dos cabildos deveriam ser eleitos de tempos em tempos. Contudo, essa regra nem sempre era observada e as famílias mais abastadas e influentes pouco a pouco passaram a controlar a estrutura do governo da municipalidade. Esse novo padrão formado, o de privilegiar determinadas famílias em detrimento de outras, tem origem nos princípios regimentais que habilitavam o direito de ser eleito como conselheiro para os cabildos. Além de considerar a renda e o prestígio das famílias, havia um interdito, em determinadas localidades, aos pretendentes que exercessem as “artes manuais ou mecânicas” ou mesmo que tivessem, em sua árvore genealógica, parentes próximos que exercessem tais “artes” ou fossem cristãos novos. O número de possíveis candidatos, dessa maneira restringia-se a um pequeno grupo, a uma elite local formada pelas principais famílias. Por outro lado, como demonstra o historiador J. H. Elliott, os cabildos não eram apenas instituições de exercício do poder local ou regional. O alcance de sua influência relacionava-se claramente a uma imensa rede que interligava a metrópole e as municipalidades coloniais, seja por causa das relações que as famílias americanas tinham com seus parentes influentes na Corte, ou pela recorrência das petições que transitavam da América para Madri tentando abrandar ou adequar as regras, despachos e regimentos e regulamentos à realidade colonial. Nesse sentido, a ideia geral de que as regras postuladas pela metrópole para a administração dos territórios coloniais eram sempre seguidas à risca é uma ideia que precisamos discutir. J. H. Elliott e Jack P. Greene afirmam que as relações de governo entre metrópole e colônias tornaram-se mais flexíveis ao longo dos séculos XVII e XVIII, geralmente para favorecer as elites locais. Em momentos de crise econômica, como a vivenciada a partir da segunda década do século XVII, havia uma tendência de contornar localmente as ordens oriundas de uma monarquia distante. Na perspectiva do súdito americano, não havia contestação do poder do rei. Os colonos mantinham-se fiéis aos reis espanhóis, mas, ao mesmo tempo, exerciam novos espaços de relativa autonomia política. Tendo como base essa perspectiva, Elliott e Greene 43 A CONQUIStA DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 3 constroem a ideia de que havia uma “autoridade negociada”, um espaço em que os interesses locais pudessem ser negociados com a autoridade metropolitana sem que houvesse questionamento da centralização do poder exercido por Madri. A relação baseada na ideia de “autoridade negociada” era, muitas vezes, observada na expressão “(...) se acata pero no se cumple (...)” [acata-se, mas não se cumpre]. Essa expressão tornou-se muito comum no diálogo institucional entre Colônias e Metrópole e estampou diversos documentos que os dignitários da elite colonial – e mesmo funcionários da Coroa – mandavam a Madri em resposta a novos decretos ou leis que, segundo a perspectiva colonial, limitavam a liberdade e interesses locais. Isso pode parecer, à primeira vista, o desgoverno, a perda da autoridade real, porém tal mecanismo fora muito importante para amenizar as disputas pelo poder político e, talvez, seja um dos fatores que expliquem a quase inexistência de críticas diretas ao poder real durante o período colonial espanhol até o início dos processos de independência que veremos mais adiante. Perceba: a lei ou decreto é acatada, ou seja, os coloniais respeitavam o poder real; dessa forma, o próprio rei e sua autoridade sobre as colônias estavam resguardados, por outro lado, ao valerem-se dessa artimanha, os habitantes das colônias justificavam que não poderiam cumprir tal determinação e explicavam os motivos para isso, o que resguardava seus próprios interesses frente às determinações de Madri. Sintetizando Vimos até aqui: » que houve um erro geográfico quando da chegada de Cristóvão Colombo à América, o que o levou a chamar os nativos de índios; » que o processo de expansão marítimo-comercial europeu estava cercado de questões simbólicas e religiosas; » que, inicialmente, a Metrópole delegou a terceiros a tarefa de colonizar o território por meio da concessão de mercês reais. Esses eram os conquistadores, também chamados de adelantados, que estavam interessados naquilo que podiam ganhar com a colonização em nome da Coroa espanhola; » que a Metrópole espanhola, à medida que a colonização passou a ser economicamente viável, direcionou suas atenções para as colônias americanas ordenando as relações interpessoais, limitando o poder dos adelantados e criando novas instituições e divisões político-administrativas. 44 Apresentação Durante a leitura do capítulo 4, teremos a oportunidade de discutir o modelo de organização das colônias inglesas e francesas na América. Discutiremos a formação das Treze Colônias e, por fim, entenderemos a presença francesa na América, dando destaque para o assédio francês sobre territórios coloniais espanhóis e portugueses. Objetivos Esperamos que, após o estudo do conteúdo deste capítulo, você seja capaz de: » Observar o processo de colonização da América pela Inglaterra; » Identificar os processos de colonização francesa nos territórios americanos; » Refletir sobre as lógicas coloniais. 4 CAPÍTULO A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESAE FRANCESA 45 A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA • CAPÍTULO 4 A colonização inglesa na América Os governos da dinastia Tudor na Inglaterra foram responsáveis pela paulatina centralização do poder político nas mãos do monarca. Iniciada no século XIII com a ascensão ao trono de Henrique VII, a centralização política visava diminuir a influência dos poderes locais na administração do Estado, especialmente a influência dos senhores feudais. Prosseguindo a ampliação dos poderes do rei, Henrique VIII instituiu o pagamento de tributos sobre as obrigações feudais e aumentou as tarifas alfandegárias, o que incrementou consideravelmente as receitas recebidas pelo tesouro real. Outro ponto importante do governo de Henrique VIII foi a criação da Igreja Anglicana após a chamada ”questão matrimonial”. O casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão, filha do rei espanhol e tia do imperador do Sacro Império Romano-Germânico, tinha motivos políticos: visava à união das duas famílias. Contudo, Catarina foi culpada por não dar um herdeiro ao rei. Diante disso, Henrique VIII, já envolvido com Ana Bolena, escreve ao Papa Clemente VII solicitando a anulação de seu casamento. Para evitar atritos com o Imperador Carlos V, Clemente VII nega o pedido. Diante da recusa do Papa em acatar sua solicitação e justificando seu ato nos privilégios que a Igreja gozava na Inglaterra, Henrique VIII proclama-se chefe da Igreja na Inglaterra em 1531. Ao mesmo tempo, pressionou o Parlamento para abolir as taxas que deveriam ser pagas a Roma. Logo em seguida, divorciou-se de Catarina e casou-se com Ana Bolena. Em 1534, já excomungado pelo Papa, Henrique VIII formaliza o rompimento com Roma por meio da proclamação do Ato de Supremacia, pelo qual o rei torna-se chefe absoluto da Igreja na Inglaterra, ou seja, além de administrar os bens e os dízimos, também era responsável pela doutrina e liturgia. Nascia, oficialmente, a Igreja Anglicana. Muitos foram os nobres, burgueses e intelectuais que apoiaram a ação do monarca inglês, até mesmo camponeses, muito ligados ao imaginário religioso católico, apoiaram a nova Igreja. Precisamos lembrar que, mesmo que sua fundação tenha como pano de fundo um imbróglio político, a Igreja Anglicana está inserida na onda de contestações do poder da Igreja Católica sobre a sociedade moderna, refletindo, inclusive, ideais da Reforma Protestante. Todo àquele que se pusesse contra a nova ordem religiosa, contestava a autoridade real e, nesse sentido, era perseguido, preso e executado. Após o governo de Henrique VIII, ainda não havia uma doutrina definida. Até então, a Igreja Anglicana era filha da Reforma Protestante, mas, por outro lado, ainda mantinha grande parte da estrutura, hierarquia, doutrina e culto católicos. No reinado seguinte, sob o comando de Eduardo VI, os calvinistas ganharam espaço e iniciaram uma série de mudanças para tornar a nova igreja mais próxima dos ideais protestantes; nesse sentido, foram inseridas no ambiente anglicano 46 CAPÍTULO 4 • A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA uma liturgia mais austera, a administração por um conselho de presbíteros e a propagação do dogma da predestinação – todas influências das propostas de João Calvino. Contrária à influência calvinista no seio da Igreja Anglicana e favorável ao retorno da proximidade com a Igreja Católica – ao menos no que tangia à doutrina e ao culto –, a sucessora de Eduardo VI, Maria I, ou, apenas, “a sanguinária”, iniciou um amplo processo de perseguições, o que acabou levando muitos protestantes ingleses ao exílio na Suíça e nos reinos alemães. As perseguições aos puritanos, ou seja, aos protestantes ingleses que se identificavam com a doutrina calvinista, prosseguiu até o reinado de Elizabeth I, quando as perseguições oficiais diminuíram e muitos exilados retornaram à Inglaterra. Mesmo que não houvesse perseguição oficial pelo Estado, os grupos católicos e anglicanos resistiram ao discurso dos puritanos, o que gerou inúmeros confrontos entre os grupos radicais de ambos os lados. Contudo, o cenário se altera ao longo do século XVII. Do ponto de vista econômico, a Inglaterra inicia a fase de uma revolução agrícola, seguida dos cercamentos dos campos e do aumento consequente da tensão social. Essa nova configuração das relações de posse e propriedade das terras nos campos ingleses leva ao surgimento de um novo grupo social, que se destaca do terceiro estado, uma “burguesia agrária” que utiliza a terra como meio de produção para o enriquecimento e enobrecimento naquela sociedade. Nesse mesmo século, a Inglaterra ingressa no comércio ultramarino, utilizando a lã produzida nos campos cercados para produzir tecidos que seriam vendidos no mercado internacional com preços muito competitivos. Por sua vez, os camponeses pobres, que perderam o direito às terras comunais, passaram por um longo processo de empobrecimento e pouco a pouco foram expulsos para as cidades em busca de empregos. Assim, tanto perseguidos religiosos como camponeses pobres migraram para os territórios coloniais, buscando as prometidas terras abundantes dessas regiões. O retorno das perseguições religiosas empreendidas pelo Estado só vieram a incrementar as levas de colonos que partiam da Inglaterra para as colônias americanas. A dinastia que substituiu os Tudor, os Stuart, foi a maior responsável pelas perseguições contra os puritanos ao longo do século XVII. Os Stuart também foram responsáveis por perseguições políticas, dado que o século XVII foi o “século das Revoluções Burguesas” na Inglaterra. Muitos puritanos e perseguidos políticos migraram para as colônias do Novo Mundo, sobretudo para as áreas que ficariam conhecidas como “Treze Colônias”. A formação das treze Colônias Em 1620, fugindo das perseguições religiosas, um grupo composto por 102 puritanos embarcou rumo ao Novo Mundo. Passados cerca de dois meses de viagem, desembarcaram na América 47 A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA • CAPÍTULO 4 e fundaram, possivelmente, a primeira cidade nas colônias inglesas da América do Norte, a cidade de Plymouth, que depois daria origem à colônia de Massachusetts. Contudo, antes da fundação de Plymouth, a Coroa britânica já havia fundado, em 1607, a colônia da Virgínia, que não prosperou devido aos intensos embates com os indígenas locais. Na Virgínia, foi fundada a cidade de Jamestown, que compete com Plymouth pelo título de primeira cidade fundada nas colônias inglesas da América do Norte. De qualquer forma, o povoamento dessa região só se tornou mais efetivo a partir da chegada dos puritanos em 1620. O século XVII foi favorável a essa nova empreitada, pois as perseguições no Reino ampliaram a quantidade de pessoas “dispostas” a emigrar para as colônias da América do Norte, além disso, o comércio ultramarino e os cercamentos deram origem a uma burguesia enriquecida, disposta a investir nas novas terras e proprietária de uma frota grande o suficiente para encurtar a distância entre a ilha e a América. A colonização efetiva também foi auxiliada pela criação de duas empresas privadas que receberam a concessão real e o monopólio para colonizar as terras americanas: a Companhia de Londres, responsável pelas ações mais ao norte do território americano, e a Companhia de Plymouth, responsável pelos territórios ao sul. Foi esta última a responsável pela vinda dos puritanos, como vimos nos parágrafos anteriores. Como a grande maioria dos interessados em vir para a América eram de origem humilde, sem condições financeiras para custear as despesas com o transporte para as colônias, era comum que os colonos estabelecessem um contrato de servidão temporária com seus financiadores, predispondo-se a trabalhar as terras americanas por alguns anos em troca de sua passagem. O prazo desse contrato de servidão era muito variado e, em geral, durava de quatro a sete anos. Ao final do contrato, o colono recebiaum lote de terras para iniciar sua vida na América. A participação das empresas concessionárias e o financiamento de particulares foram fundamentais para criação de novos núcleos urbanos. Após Plymouth, a colonização se alargou e novas cidades e colônias foram formadas seguindo a linha do litoral. Connecticut (1633), Rhode Island (1636) e New Hampshire (1638) são exemplos de que grandes núcleos urbanos foram formados em regiões distantes entre si em pouco tempo. Posteriormente, no ano de 1664, na região limítrofe entre Massachusetts e Virgínia, os ingleses tomaram possessões holandesas e formaram as novas colônias de Delaware, Nova Jersey e Pensilvânia. Também a colônia holandesa de Nova Amsterdã, nesse mesmo ano, passou para as mãos dos ingleses, que a chamaram de Nova York. Ao sul, a fundação de Maryland (1632), Carolina (1663) – depois dividida entre Carolina do Norte e Carolina dos Sul – e Geórgia (1773) completam as treze colônias inglesas na América do Norte. 48 CAPÍTULO 4 • A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA As colônias do sul (Maryland, Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia) têm por base uma colonização caracterizada pelo latifúndio voltado para o mercado agroexportador que utiliza a mão de obra escrava africana para produção monocultora em larga escala, cujo padrão ficou conhecido como plantation. Além disso, havia uma presença maciça de católicos, diferentes das demais áreas nas quais predominava a ocupação por puritanos. O algodão era o principal produto cultivado. Esse e outros itens como o tabaco e o anil atendiam aos interesses da metrópole por matérias-primas que seriam transformadas nas manufaturas inglesas e das colônias do norte. Diferentemente do padrão adotado por Espanha, o comércio entre Inglaterra e suas treze colônias não era regulado de forma exaustiva pela metrópole. O comércio era de responsabilidade das companhias de comércio particulares, concessionárias da Coroa para praticar tal atividade. Nesse sentido, surgem relações comerciais bem mais diversificadas e não somente as unilaterais do padrão “porto único” adotado por Espanha, que discutimos anteriormente. O chamado comércio triangular realizado entre as treze colônias, o Caribe e os portos de venda de escravos no continente africano, sobretudo na região da Costa da Mina, é um bom exemplo da flexibilização das relações comerciais entre colônia e metrópole no caso inglês. O Caribe, grande produtor de açúcar no final do século XVII e ao longo do século XVIII, produzia, como subproduto do açúcar, o melaço. Esse melaço era comprado pelos colonos das colônias mais ao norte, transformado em rum e, juntamente com armas de fogo e tecidos mais nobres de algodão, utilizado como moeda no escambo por ouro e escravos. Os escravos obtidos na troca por rum eram negociados com os produtores de açúcar e trocados por mais melaço e também por açúcar que realimentava o ciclo do comércio triangular. Nessa relação comercial, os produtores agrícolas do sul das treze colônias também se beneficiavam. O excedente de escravos direcionados principalmente para Cuba, Jamaica e Porto Rico acabava por ser comercializado com os produtores das grandes propriedades monocultoras do sul. Essa liberdade comercial também era experimentada na vida política, diferentemente das colônias portuguesas e espanholas; havia nas treze colônias o princípio da liberdade política e religiosa. Sobretudo nas colônias do centro (Nova York, Pensilvânia, Delaware e Nova Jersey) e do norte (Massachusetts, New Hampshire, Rhode Island e Connecticut), a questão da liberdade religiosa falava mais alto, devido sua colonização ser efetivada por puritanos perseguidos no reino. Essa tolerância religiosa também foi oportuna para a imigração de católicos e judeus perseguidos em outras partes da Europa. As colônias do norte também eram chamadas de Nova Inglaterra, nome que representa bem o ideal simbólico envolvido nos processos de perseguição, fuga e recriação de um “Novo” Mundo. Nesse sentido, a crença calvinista na predestinação praticada pelos puritanos foi essencial. Para Calvino, o homem já nasce predestinado à salvação ou à danação, já nasce salvo ou condenado. 49 A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA • CAPÍTULO 4 Deus, antes mesmo do nascimento, já indica os que farão parte de seu reino na eternidade e os que serão condenados ao inferno. Reelaborando a ideia da predestinação para o contexto americano, diante das perseguições sofridas na Europa, os puritanos enxergam-se como “eleitos” de Deus, escolhidos para formar seu reino, e o Novo Mundo seria a “nova Terra Prometida”. Como resultado dessa reelaboração, formaram-se comunidades em que o ideal religioso puritano tomava forma e seu raio de ação ia além da vida religiosa, pois influenciava a condução da vida social e política dessas comunidades; formaram-se grupos em que o papel do líder religioso – um pastor, presbítero ou mesmo o pai da família incorporando também a função de diretor espiritual – se confundia com a função de administrador e juiz. O “eleito” deveria repercutir sua eleição por Deus nas ações sociais e levar uma vida comedida, sem fausto, luxo ou pecado. Os puritanos abominavam o pecado e tudo que dele pudesse ter origem, assim sua vida regrada pelos preceitos cristãos calvinistas também buscava o reordenamento social e político, a transformação das instituições civis. Uma das instituições que foi duramente criticada pelos puritanos foi a escravidão. Segundo a ótica calvinista, a escravidão era uma dessas instituições que refletia o pecado, pois era a expressão máxima da violência contra o homem, criatura mais perfeita de Deus. Na segunda metade do século XIX, a oposição entre as colônias do norte, contrárias à escravidão, e as colônias do sul, que dependiam da escravidão para suprir suas necessidades por mão de obra, em torno da questão escravista será um dos principais motivos para a eclosão da Guerra de Secessão. Também havia uma forte crítica ao alcoolismo e diversas foram as tentativas de implantar uma “lei seca” em vários momentos da História dos Estados Unidos desde os tempos coloniais. O desvirtuamento provocado pela embriaguez também não era tolerado pelos eleitos de Deus. Os núcleos urbanos que surgiram nas colônias do centro e do norte após a formação de Plymouth mantiveram a coesão puritana na organização de suas sociedades. A atividade pesqueira, o cultivo em pequenas propriedades para subsistência ou para o abastecimento local e o comércio eram as bases econômicas dessas comunidades. A agricultura, geralmente familiar, admitia principalmente o trabalho livre, mas regimes de trabalho compulsório também foram observados, contudo em menor grau que nas colônias do sul. Do ponto de vista da organização política, as treze colônias mantinham independência entre si, formavam governos autônomos, mas diretamente subordinados à metrópole. Havia um governador em cada colônia, nomeado pelo rei, além de um conselho que o assessorava. Além dessas instituições, havia uma Assembleia Legislativa, cujos membros eram eleitos. Essas instituições somadas à distância da Inglaterra gerou a percepção da autonomia político-administrativa que também se ligava diretamente ao fato de que a colonização coube, prioritariamente, às iniciativas dos particulares, o que deu origem ao sentimento do autogoverno, de um grande contrato entre os membros da sociedade que buscariam o bem comum a todos. 50 CAPÍTULO 4 • A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA Outro fator fundamental para a construção da ideia de autogoverno foi a ação das Assembleias Legislativas que criaram as normas e leis com as quais o povo seria governado e a definição dos impostos que seriam recolhidos e enviados à metrópole. Fugindo da constante edição de normas jurídicas metropolitanas que assolavam a vida dos colonos da América Espanhola e Portuguesa, as Assembleias Legislativasda América Inglesa produziram sua própria cultura jurídica, certamente muito influenciada pelo Direito metropolitano, mas que reforçou a autonomia colonial e a percepção de que os colonos possuíam “direitos próprios”. Na disciplina de América II, observaremos como essas características serão importantes para que as relações entre as treze colônias e a metrópole se tornem insustentáveis. A colonização francesa na América A França, assim como a Inglaterra, também pode ser considerada uma “retardatária” no processo europeu de expansão marítimo-comercial. Décadas depois de Espanha e Portugal é que as expedições marítimas francesas começam a obter sucesso no ultramar em busca de novas rotas comerciais e mercados para explorar. No início, os franceses contestavam o Tratado de Tordesilhas e exigiam que o papa Júlio II e os reis de Espanha e Portugal apresentassem o “testamento de Adão” para provar o direito de espanhóis e portugueses sobre as terras que eram descobertas. Certamente, não obtiveram retorno a contento. Contudo, o Tratado de Tordesilhas, apesar de ser um empecilho formal, não impediu que os franceses buscassem novas terras na América, mesmo que sua soberania sobre elas viesse a ser questionada depois, ou com o comércio inaugurado com as novas rotas comerciais entre Europa e América. Uma das formas encontradas pelos franceses para burlar o Tratado de Tordesilhas, foi incentivar, oficialmente, a pirataria. Assim, piratas em nome da Coroa francesa – que por isso recebiam o título real de corsários – pilhavam as embarcações de outras nações em toda a costa americana e também nas proximidades dos portos europeus. Essa ação mostrou-se muito lucrativa, dado que, com o corso, a França não precisaria de todo o desgaste da exploração das colônias, apenas beneficiava-se com o produto final. Por outro lado, o corso oferecia riscos altíssimos, dado que Portugal e Espanha começavam a armar sua marinha mercante para se defender dos ataques dos corsários. Como o resultado do saque era incerto, mas sem abandonar o corso, a Coroa francesa também buscou incentivar a instalação de colônias em diversas partes da América, inclusive no Brasil, como veremos mais adiante. A exploração colonial, apesar dos investimentos necessários na colonização e administração da colônia, trazia muitos benefícios por ser mais estável em longo prazo que o corso. A partir do século XVII, observamos que a política francesa cada vez mais incentivava a fixação de colonos 51 A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA • CAPÍTULO 4 em territórios americanos, buscando o estabelecimento de colônias. Uma das primeiras e mais duradoura iniciativa bem-sucedida francesa no continente foi a fixação inicial de um centro comercial em Caiena, atual Guiana Francesa, no final da década de 1630. Apesar disso, esse território foi constantemente assediado pelos holandeses que o tomaram da França por duas vezes nas décadas seguintes ao estabelecimento francês. Retomado o domínio sobre a Guiana Francesa em fins do século XVII, esse território permaneceu como colônia francesa até o final da II Guerra Mundial, quando passou a ser um território francês ultramarino, e seus cidadãos são portadores dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres que qualquer cidadão francês. A Guiana Francesa foi importante colônia para a França desde o século XVII. Nesse território colonial desenvolveu-se a produção de açúcar, principal atividade econômica. Como vimos, o açúcar era um gênero altamente valorizado no comércio internacional, e a produção da Guiana Francesa possibilitou à França concorrer com o produto produzido por portugueses, ingleses e holandeses. Além do açúcar, a Guiana produzia outras especiarias altamente valorizadas, como a baunilha, o algodão e o índigo. Para o comércio francês, a partir do século XVIII, também será muito importante a produção de café na Guiana Francesa, um dos primeiros locais onde esse arbusto será aclimatado. Como aponta Michel Deveze (1977), no processo de colonização, as populações indígenas locais serão praticamente exterminadas pelos franceses e a importação da mão de obra escrava africana será essencial para que as unidades agrícolas de plantation possam produzir seus gêneros tropicais. O escravo africano também era muito importante para que atividades ligadas à manufatura de papel e produção cerâmica de telhas e tijolos se desenvolvessem, assim como a exploração das minas de ouro e de outros minerais. Saiba mais O texto a seguir faz parte de um grande dossiê que a Biblioteca Nacional preparou sobre o ano da França no Brasil, ocorrido em 2009. Com ele, vamos entender um pouco melhor a relação do Brasil com a Guiana Francesa. Caiena e guiana Francesa Com um enfático “pelo amor de Deus”, o presidente Lula tentou incentivar ontem seu colega Nicolas Sarkozy a não deixar apenas no papel a construção de uma ponte sobre o Rio Oiapoque, na divisa do Amapá e a Guiana Francesa. Agência Estado / 24 de dezembro de 2008 Depois de alguns séculos de conflitos, intrigas e discussões, a ligação física por sobre o Rio que serviu como marco de divisão é carregada de simbolismo: se antes a disputa era por separar, agora ela se dá por unir. Esse novo capítulo da história comum dessas duas soberanias promete integração e desenvolvimento para ambos os lados, uma lógica raras vezes presente em se tratando da relação Brasil – Guiana Francesa. 52 CAPÍTULO 4 • A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA O secular litígio territorial, que ficou como sua marca histórica, remonta aos primórdios da colonização das Américas. Dois processos distintos dinamizaram a ocupação das guianas francesa e portuguesa: o primeiro – rígido e exato – visava controlar e determinar a parte que caberia a cada uma das duas nações, produzindo ampla gama de tratados e afins; já o segundo processo transgredia as determinações dos gabinetes, ocorrendo às margens dos acordos e nas margens da cobiçada rede fluvial amazônica. A denominação genérica Guianas e seus problemas de fronteiras não ficaram restritos à França e a Portugal. O território entre os rios Orenoco e Amazonas foi disputado pelas cinco principais nações ultramarinas da Europa, sendo Inglaterra, Espanha e Holanda as detentoras do restante da partilha. Partilha esta nem sempre reconhecida e fonte de conflitos. Os desafios da colonização foram muitos, em especial a imprevisível relação com outras nações que ficaram de fora do “pacto” europeu: seus originais habitantes, os indígenas. A complexidade dessa experiência colonial ganha novos contornos com a introdução de africanos escravizados, proporcionando um constante embate pelo controle do trabalho indígena e negro em regime de servidão. Os dois grupos resistiram, buscando proteção nas muralhas dos sertões, tangenciando fronteiras borradas e suas soberanias oficiais: novos elos de sociabilidade. Dos já mencionados gabinetes europeus, vastas porções de terra americana eram concedidas. Em 1604, o francês Ravardière é nomeado pelo rei francês para explorar e colonizar um imenso território, passando pela foz do Amazonas para além da ilha de Caiena. Muita terra, muita pretensão, mas poucos recursos. Ravardière sequer consegue se estabelecer em São Luís, cidade fundada por ele e outros compatriotas – experiência efêmera de três anos (1612-1615). De uma lógica semelhante tem resultado a doação das terras do Cabo Norte – atual Amapá, Estado limítrofe com a Guiana Francesa, cerca de 730km de fronteira comum – feita a Bento Maciel Parente em 1637, um dos chefes militares que participou da derrocada do estabelecimento francês no Maranhão. A ocupação do território francês e português, em si, foi tímida e demorada. Na segunda metade do século XVII, iniciou- se a fixação em pontos-chave do território do Cabo Norte e da Guiana Francesa. Para os franceses, o estabelecimento definitivo em Caiena só ocorre com a derradeira expulsão dos holandeses em 1676. Osportugueses do Grão-Pará – província portuguesa na América que englobava o vale amazonense – também se viram em conflito com as mesmas nações. O contestado territorial, como já afirmado, foi a principal marca desta história comum entre franceses e portugueses – e depois brasileiros. Ao longo de mais de dois séculos, sucessivos tratados de fronteiras foram assinados: seu conteúdo variando de acordo com contextos políticos e balanças de poder. O cerne dessas disputas se centrou, curiosamente, na identificação de um rio. Ou seriam dois? Embora pareça banal, tal indefinição determinou a (im)possibilidade de os franceses obterem a cobiçada rota do Amazonas. A resolução final do litígio, em 1900, demonstrou “maturidade” das duas nações – ela foi feita mediante arbitragem da Suíça – e contou com a apresentação de memórias de parte a parte: um histórico circunstanciado e documentado dessa longa relação de conflitos, no qual velhos mapas foram revirados, arquivos vasculhados e os relatos dessa experiência reproduzidos ou escondidos. Referência: http://bndigital.bn.br/francebr/caiena.htm Além da Guiana Francesa, a França também conquistou outros territórios no continente americano. Uma das colônias que mais prosperaram foi a parte francesa da Ilha de Hispaniola, chamada pelos franceses de Ilha de São Domingos. Na porção ocidental da ilha localiza-se, hoje, o Haiti que foi colônia francesa desde sua cessão pela Espanha, em 1697, até o início das revoltas escravas que levaram à sua independência, iniciadas em 1791. A colônia dedicou-se por muitos anos à produção agrícola, em especial de gêneros tropicais como tabaco, café, anil, cacau e algodão. No século XVIII, o Haiti foi um dos principais produtores mundiais de açúcar, o que contribuiu com o fim da supremacia do açúcar brasileiro no mercado mundial. Por isso, considerando as dimensões dessa colônia, talvez o Haiti tenha sido a mais pujante economia colonial, pois produzia açúcar em um território diminuto e, mesmo assim, 53 A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA • CAPÍTULO 4 tornou-se por alguns anos do século XVIII o maior produtor desse gênero agrícola. Dadas as suas belezas naturais e pujança econômica, o Haiti ficou conhecido como “Pérola do Caribe” pelos franceses. O solo e o clima contribuíram para aumentar a produtividade dos canaviais e tornar o açúcar haitiano mais barato que o brasileiro. Somado a isso, o Haiti também era favorecido por uma questão geoestratégica, localizava-se mais próximo dos mercados consumidores europeus que o Brasil, o que barateava o frete e ampliava a margem de lucro dos produtores haitianos. C. L. R. James (2000) aponta que o Haiti era uma colônia que utilizava o trabalho escravo africano e chegou a empregar 500.000 escravos na produção do açúcar às vésperas de sua independência, dois terços destes eram africanos, os demais eram crioulos. Para o mesmo autor, no final do século XVIII, a população da colônia não superava seiscentos mil habitantes, dos quais a grande maioria era composta por escravos e seus descendentes, dominados por pouco mais de 30.000 mil brancos. Em uma resenha feita sobre o livro de C. L. R. James, Jacob Gorender (2004) afirma que “O tratamento dado pelos escravistas aos seus servidores era terrivelmente cruel. A par do trabalho, que esgotava rapidamente as energias, pesavam sobre os escravos a alimentação escassa, a moradia sórdida e a inexistência de assistência médica. A labuta diária se processava durante longas jornadas, sob acionamento frequente do açoite dos feitores. Qualquer expressão recalcitrante era logo duramente castigada. Os mais indisciplinados sofriam o castigo de serem enterrados de pé, apenas com a cabeça de fora. Assim imobilizados, acabavam mortos depois de sofrer a horrível tortura de ter o rosto lentamente devorado pelos insetos e abutres”. Logo após essa passagem, Gorender afirma que o regime escravista haitiano se aproximava muito da realidade brasileira, por isso a importância de entendermos aquela dinâmica tão próxima de nossa própria história. Essa conjuntura de trabalho estafante, castigos e péssimas condições de vida somadas às ideias liberais que chegavam à colônia depois da Revolução Francesa no continente acabam por motivar o início de um processo revolucionário com base em revoltas escravas que ocorrerão por todo o território. Saiba mais Nosso foco aqui não é discutir a Independência do Haiti, mas, sim, as bases do sistema colonial aí implantado, por isso não vamos nos aprofundar nas etapas dessa revolta. Para ampliar um pouco mais os dados sobre o levante de escravos no Haiti, suas origens e resultados, recomendamos a leitura do texto de Érica Turci intitulado Povos africanos na América Espanhola: Revolta e independência do Haiti, disponível no site UOL Educação. Apesar da confusão entre América Espanhola e América Francesa que o título induz, pois quando da revolta o Haiti já não era mais colônia de Espanha, o texto traz uma importante introdução sobre o tema e boas indicações bibliográficas para quem quiser se aprofundar. É só acessar: http://educacao.uol. com.br/disciplinas/historia/povos-africanos-na-america-espanhola-revolta-e-independencia-do-haiti.htm 54 CAPÍTULO 4 • A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA O caráter de luta contra o sistema escravista e a busca por direitos fazem com que essa revolução se torne a pauta das relações entre senhores e escravos daí por diante. O medo de uma nova revolução escrava, como a que ocorreu no Haiti, perpassará por todo o século XIX nas colônias e nações que se valem do braço escravo, inclusive no Brasil. Outro importante território conquistado pelos franceses e transformado em colônias foi a porção atlântica do atual Canadá. Lá, em 1608, se instalaram seis famílias – ao todo eram 28 pessoas – formando a colônia de Nova França, atualmente província de Quebec. Além dessas colônias, os franceses também competiram com os ingleses e espanhóis por territórios localizados em outras regiões da América do Norte, como Mississipi, Louisiana e Golfo do México. Manter essas colônias demonstrou ser muito dispendioso, e a França, envolvida em disputas sucessórias internas, guerras e revoltas, não pôde arcar com os investimentos necessários ao desenvolvimento dessas colônias. (CHAUNU, 1969, p. 113-118) Por isso, a atividade econômica de destaque era o comércio de produtos produzidos localmente pelos nativos (peles e madeiras) e colonos. A produção agrícola era incipiente, muito em resultado do pouco investimento da Coroa francesa para desenvolver essa atividade e enviar mais colonos. A baixa densidade demográfica e a pequena importância econômica dessas colônias para a França contribuíram para que a Inglaterra ameaçasse a soberania francesa. Durante as batalhas em solo americano da Guerra dos Sete Anos (1756- 1763), uma a uma, as colônias francesas na América do Norte foram tomadas pelos ingleses. (CHAUNU, 1969) Mesmo tendo perdido as colônias na América do Norte, é notável que a presença francesa na cultura local se manteve ao longo dos anos. Hoje, a província de Quebec possui uma cultura bem distinta do restante do Canadá, mantendo o francês como língua oficial, apesar de o Canadá fazer parte da Commonwealth of Nations (grupo de países das antigas colônias britânicas). Essa distinção faz com que os canadenses considerem Quebec uma nação dentro do Canadá. Até aqui, apresentamos alguns pontos sobre as colônias francesas no continente americano. Contudo, há uma relação entre França e colonização do Brasil que não podemos deixar de lado e que discutiremos a seguir. Para refletir A Revolução do Haiti, iniciada em 1791, é o próprio processo revolucionário que leva à independência dessa colônia da França. Cabe lembrar que a Revolução do Haiti (1791) se inicia após a Revolução Francesa (1789), momento no qual a sociedade francesa aboliu o Antigo Regime, acabando com a monarquia absolutista,com a servidão e com os privilégios do clero e da nobreza. Os princípios norteadores dos revolucionários franceses eram “liberdade, igualdade e fraternidade” e estiveram presentes na redação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) e da primeira Constituição Francesa (1791). Como, então, o regime liberal fruto da Revolução de 1789 pôde tolerar a manutenção de colônias, que contrariavam o princípio da liberdade, e da escravidão, que violaria os demais princípios? Essa é uma questão à qual a historiografia tem se dedicado nos últimos anos. Em sua opinião, havia como conciliar os ideais dos revolucionários franceses com a manutenção das colônias escravistas nas Américas sujeitas ao “exclusivo metropolitano”? 55 A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA • CAPÍTULO 4 França e Brasil “À maneira do lavrador, que sonda a terra e dela tira os proventos, há também os que não se contentam em olhar a face das águas, mas a querem sondar por meio dessa nobre atividade – a navegação. E como, à custa dela, encontram e recolhem inestimáveis riquezas – pois não é outro objetivo das viagens – tornou- se a navegação, pouco a pouco, tão empregada pelos homens que muitos deles, ultrapassando ilhas incertas e mal seguras, conseguiram, afinal, atingir terra firme, boa e fértil. O descobrimento dessas terras firmes, segundo se infere dos escritos antigos, jamais ocorrera, até então, a ninguém. (THEVET, 1944, p. 50) A partir desses dados temos os primeiros relatos da empreitada francesa na América ou, como chamavam os cronistas franceses, a França Antártica. O viajante em questão era o franciscano André Thevet que acompanhava o capitão Nicolas Durand de Villegagnon, Cavaleiro de Malta, na tarefa de singrar os mares em direção ao Atlântico Sul. Sob as ordens do rei francês Henrique II, a expedição partia a 6 de maio de 1555 com o objetivo de instalar núcleos povoadores na América e seguir a lógica colonial vigente: monopólio do comércio, rivalizando com Portugal e Espanha que obtiveram sucesso em suas empreitadas desde o final do século XV. Em novembro de 1555 estabelecia-se na costa do Brasil para a fundação da França Antártica. Na abertura do dossiê da Biblioteca Nacional sobre o ano da França no Brasil, Muniz Sodré afirma que é possível fixar o ano de 1551 como o início da vulgarização do imaginário francês sobre o Brasil, considerando-se a data da aparição do primeiro documento iconográfico sobre o Brasil impresso na França. A gravura trata-se de festividades organizadas para celebrar o rei Henrique II e sua Corte, que em Rouen, assistiram a uma encenação com cinquenta tupinambás e marinheiros normandos. Observe atentamente as características presentes na imagem a seguir: Figura 8. Festa brasileira dada em Rouen em honra do rei Henrique II (1550). http://www.vitruvius.com.br/media/images/magazines/grid_9/0daac5125ef9_torelly.jpg 56 CAPÍTULO 4 • A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA No entanto, a origem propriamente dita do Brasil no imaginário francês é marcada precisamente quando André Thevet, embarcado com Villegagnon, publica as Singularidades da França Antártica (1558), texto de grande repercussão na França. Para Sodré, toda cultura é “antropofágica”, isto é, tendente a absorver o outro que lhe apetece. As constantes visitas de estrangeiros às costas brasileiras, ao longo dos séculos, alimentaram o imaginário, presente em relatos de viagens, nos textos de naturalistas e numa profusa iconografia – o que contribuiu para o intercâmbio civilizatório. Então, ao estudar as “novas Franças” da América embarcamos em um imaginário que perpassa um projeto de colonização, com a França Antártica e Equinocial, nos séculos XVI e XVII. Caminhando para os ataques corsários franceses no século XVIII no Rio de Janeiro, chegando a Missão Artística Francesa do século XIX e as missões francesas de ensino no Brasil do século XX. Convém ressaltar que desde os “Descobrimentos Ibéricos” marinheiros franceses frequentavam a costa brasileira no tráfico de pau-brasil e da ibirapitanga, de cor vermelha, tão utilizado nas tinturas. Essas novas rotas supriam as principais rotas comerciais com as Índias na busca por especiarias. Os contatos com os nativos eram frequentes nessa relação. Não tardou uma resposta portuguesa às alianças entre franceses e ameríndios. A justificativa lusa era o famoso Tratado de Tordesilhas, com o qual Espanha e Portugal consagravam-se possuidores das terras recém-descobertas da América. É notória, pela historiografia, a pouca atenção dada pela Coroa portuguesa a seus territórios na América. Mesmo com a efetiva colonização lusa, em 1548, com a criação do governo-geral, os enclaves franceses persistiam. A partir de 1555, a Coroa francesa, por meio de seus corsários, ocupava a costa litorânea do Rio de Janeiro, para pôr em prática o projeto de estabelecimento de uma “República Cristã” nos trópicos com o apoio do Cardeal Lorraine e do Almirante Coligny. De acordo com a historiadora Andrea Daher, a França Antártica, “o primeiro Brasil francês”, é hoje bem conhecida pelos especialistas da história colonial francesa do século XVI, do qual intitulam a primeira Nouvelle France do Brasil. Apesar do fracasso da França Antártica (1555-1560), a história intramuros do forte de Coligny, fundado por Villegagnon numa ilhota à entrada da baía de Guanabara, distingue-se pelo caráter inaudito. Para a historiadora, Villegagnon consegue organizar um corpo expedicionário formado por soldados e artesãos para resguardar a ilha na entrada da baía. Buscando evitar a hostilidade dos portugueses, preocupados em conservar a hegemonia na região, os franceses constroem um forte que recebe o nome de Coligny. Entretanto, os modos despóticos de governar de Villegagnon provocaram uma debandada de colonos e agravou as divergências religiosas já existentes naquela comunidade francesa nos trópicos. Sugestão de estudo A Biblioteca Nacional Digital, no âmbito das comemorações do Ano da França no Brasil em 2009, lançou um sítio digital com manuscritos, iconografias, relatos de viagens com o título La France au Brésil (A França no Brasil) abordando os séculos XVI-XIX. Sítio: https://bndigital.bn.br/dossies/ franca-no-brasil/ 57 A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA • CAPÍTULO 4 Escrevendo a seu colega de classe, João Calvino, fundador de uma nova corrente sobre a filosofia cristã que conhecemos como calvinismo, Villegagnon pedia que enviasse ao Rio de Janeiro um contingente de partidários da fé reformada, com a intenção de encontrar uma solução para os conflitos dentro da ilha de Coligny. O envio de 14 huguenotes em março de 1557 não surtiu o efeito esperado, e não conseguiram resolver as dissenções que dilaceraram a França Antártica, provocando a desagregação e o desenrolar de um grave conflito religioso. Pelos escritos de Jean de Lery (1961, p. 200), de 1578, temos o relato do fracasso da França Antártica de Villegagnon: “Para bem compreender o motivo de nossa partida do Brasil é preciso ter na memória [...] que depois de estarmos oito dias na ilha em que residia Villegagnon este, rebelando-se contra a religião reformada e arrogando-se autoridade contra nós, procurou domar- nos pela força, o que nos levou a retirar-nos para o Continente onde nos fomos estabelecer ao lado esquerdo de quem entra no rio da Guanabara, também chamado de Janeiro, a meia légua do forte de Coligny, no sítio denominado Olaria. Aí estivemos quase dois meses abrigados em casebres construídos por operários franceses para se repousarem [...]” Andrea Daher destaca que os capítulos finais do efêmero empreendimento colonial do Rio de Janeiro representam antecipadamente os primeiros anos do século XVII, quando religião e colonização caminharam lado a lado. A segunda tentativa de colonização francesa no Brasil datava de meio século depois da efêmera França Antártica. Nesse sentido, a chamadasegunda colonização, a França Equinocial, será imperativamente católica. Essa segunda etapa de colonização teria como objeto o norte do Brasil, área desconhecida dos portugueses e por onde os franceses já traficavam de longa data. Pelos apontamentos de Andrea Daher, a história desse empreendimento colonial francês se inicia em maio de 1594, quando o capitão Jacques Riffault equipa três navios e embarca para o Brasil com o objetivo de colonizar sua porção norte. Com o fracasso da expedição, este retorna deixando parte de sua tripulação. Muitos de seus ex-tripulantes se estabeleceram na ilha do Maranhão. Um desses tripulantes, Charles des Vaux, manteve contato com os índios tupinambás que habitavam aquela região. Essa experiência o faz regressar à França para convencer o rei Henrique IV da importância de estabelecer-se no norte do Brasil. Visto isso, o rei ordena ao nobre Daniel de La Touche que acompanhe Charles des Vaux em uma expedição a ilha do Maranhão. Saiba mais Huguenotes: seguidores do protestantismo, em especial de orientação calvinista, que foram assim denominados pelos católicos franceses durantes os séculos XVI e XVII. Fonte: Dicionário Houaiss Sugestão de estudo Para a compreensão dessa primeira tentativa de povoação francesa na América, leia na íntegra Viagem à terra do Brasil, de Jean de Léry. A edição da Biblioteca do Exército de 1961 encontra-se disponível online para download (http://irpmarica.com.br/livros/ viagem_a_terra_do_brasil.pdf) http://irpmarica.com.br/livros/viagem_a_terra_do_brasil.pdf) http://irpmarica.com.br/livros/viagem_a_terra_do_brasil.pdf) 58 CAPÍTULO 4 • A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA Daniel de La Touche, também conhecido como Senhor de la Ravardière, foi um importante oficial da marinha francesa que empreendeu viagens marítimas pela África, América, rio da Prata, Brasil, rio Amazonas, regiões da Guiana, ilha da Trindade, Cuba, São Domingos, ilhas e Províncias do Peru, do México e da Flórida, todas expedições em nome da Coroa francesa. Tais expedições marítimas tinham por objetivo quebrar os monopólios comercias das demais metrópoles europeias sobre suas colônias no ultramar, seja por meio do tráfico ou do comércio. Dessas expedições origina-se o projeto colonial do Maranhão, a França Equinocial, em 1612. (DAHER, 2007, p. 49) Com a morte do rei francês, o sonho da França Equinocial perde fôlego e fica em segundo plano por alguns meses, até que Ravardière tenta convencer a rainha interina, Maria de Médici, da importância e relevância de uma implantação colonial no Brasil. Como argumentos em sua defesa, o nobre aponta à rainha que já havia uma aliança sólida, estabelecida entre franceses e Tupinambás no Maranhão, além disso, a região se constituía um ponto estratégico à abertura para o mar das Antilhas, permitindo interceptar navios carregados de metais preciosos em regresso à Espanha. (DAHER, 2007, p. 50) Essa experiência colonial francesa na ilha do Maranhão resultou em uma infinidade de impressos e manuscritos enviados do Brasil pelos Capuchinhos, principalmente os do padre Claude d’Abbeville, como os manuscritos compilados em Histoire de la mission des pères Capucins em l’isle de Maragnan (História da missão dos padres capuchinhos na ilha de Maranhão), cuja capa vemos a seguir: Figura 9. Capa da História da missão dos Padres Capuchinhos escrita por Claude d’Abbeville (1614). Fonte: http://www.fis.puc-rio.br/INCAIWorkshop/Apresentacaopdf/Hstory%20of%20Astronomy%20in%20Brazil%20(2011).pdf. 59 A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA • CAPÍTULO 4 Após sua defesa, Ravardière recebe a permissão para prosseguir com o projeto da França Equinocial. Uma das primeiras ações foi a fundação de um povoado que receberia o nome de Saint Louis (São Luís), em homenagem ao rei Luís XIII da França. Após esse ato, os franceses passam a construir na ilha uma fortaleza, logo após os padres capuchinhos terem rezado a primeira missa naquele lugar, em 1612. Mas a empreitada francesa não obteve grandes investimentos e nem atraiu uma quantidade significativa de colonos, o que contribuiu para sua derrota pelos portugueses, em 1614. Vejamos como se deu essa derrota: “[O português, Diogo] Campos Moreno avança sobre a “grande ilha de Maranhão” pelo lado da terra firme, com duzentos e sessenta portugueses e uns quarenta índios, enquanto o capitão [português] Albuquerque parte em um navio com duzentos ou trezentos outros. Eles chegam diante do forte de São Luís em 26 de outubro de 1614, mas a batalha começa apenas quando os portugueses ocupam a região de Guaxinduba, onde batizam um forte denominado Santa Maria. Em 19 de novembro, os franceses, superiores em número, decidem atacar: 200 franceses e uns 1.500 índios tupinambá, sob o comando de Pezieu, partem da “grande ilha” com o propósito de atacar o inimigo em terra firme. Entretanto, uma manobra malsucedida condena a estratégia de ataque francesa: a maré baixa impede La Ravardière de desembarcar, conforme o previsto, com os reforços suplementares esperados por Pezieu. O combate em terra resulta catastrófico: cento e quinze franceses, entre eles o capitão Pezieu, são mortos, e nove caem prisioneiros dos portugueses. Oito dias após a batalha, uma trégua de um ano é acordada, de modo a permitir que as duas partes solucionem o litígio. [...] Em 1º de novembro, antes do término da trégua de um ano, uma armada de nove navios comandados pelo capitão português Alexandre de Moura cerca os franceses na “grande ilha”, enquanto as forças comandadas por Jerônimo de Albuquerque se dirigem, no dia seguinte, para o forte São Luís, onde La Ravardière acaba rendendo-se sem resistência” (DAHER, 2007, p. 70-73) Mesmo diante dos fracassos da tentativa de colonização da costa portuguesa da América nos séculos XVI e XVII, corsários franceses, a mando do rei francês Luís XIV e depois de seu filho Luís XV, invadem a cidade do Rio de Janeiro em dois momentos, 1710 e 1715. O imaginário do medo rondava a capitania fluminense, a consciência dos ataques anteriores, a experiência da França Antártica e agora o assalto da capitania marcavam a forte influência francesa na América (BICALHO, 2003). Para o historiador Victor Hugo Abril, as correspondências da Câmara de Angra dos Reis e Ilha Grande, portos apartados do Rio de Janeiro, fornecem requerimentos minuciosos relativos à presença estrangeira e como foram as formas de contato com franceses, holandeses e demais nações europeias presentes nessas vilas. (ABRIL, 2010, p. 110) Os vereadores da Câmara de Angra dos Reis e Ilha Grande relataram a origem da presença estrangeira naquelas vilas. Como se teciam tais relatos? Segundo estes, em 1680, a “vila fora invadida e roubada de piratas holandeses” onde desrespeitaram os templos erguidos pelos 60 CAPÍTULO 4 • A COLONIzAçãO DO “NOvO MUNDO”: AMÉRICAS INgLESA E FRANCESA moradores de Angra, não privaram “os sacrários, onde roubaram os vasos sagrados com menos razão das relíquias sagradas” e, consequentemente, provocou inúmeras mortes. Feitos os espólios na vila, esta foi invadida pela segunda vez, agora pelo “inimigo francês”, como contavam os vereadores. Em 1709, os franceses saquearam Angra e Ilha Grande, usaram os víveres dos moradores, roubaram embarcações e ainda incendiaram pequenas embarcações que estavam ancoradas nos portos. No ano de 1710, em um dos portos da Ilha Grande, fronteira com Angra, se ergueu uma “lancha francesa armada em guerra com 13 homens de que era oficial um deles, chamado Pedro Dehu”. (ABRIL, 2010, p. 111) Essa lancha se juntara com a frota do comandante francês Jean François Duclerc que invadiu a cidade do Rio de Janeiro em agosto de 1710. Empreitada francesa não tão bem-sucedida, fazendo- os recuar à Ilha Grande, onde aportaram dois navios franceses que dispararam contra a vila de Angra dos Reis mais de “dois mil tiros” cujas balas “mataram três homens e feriram vários”, contava o relatodesses oficiais. Em sua dissertação, Abril nos faz indagar se a invasão francesa teria seus planos iniciais nos portos apartados do Rio de Janeiro. Tem-se por hipótese que os propósitos da invasão francesa na cidade do Rio de Janeiro, no século XVIII, teriam seu cerne nos portos mais distantes do porto principal fluminense, onde iam para se abastecer, se armar e traçar estratégias. Vereadores da Câmara de Angra dos Reis reforçavam que o mesmo “inimigo francês” invadiu novamente a cidade do Rio de Janeiro comandado pela esquadra de Duguay-Trouin. Mais uma vez, em busca de prêmios e privilégios, os vereadores reforçavam a bravura de seus moradores que abandonaram aquela vila para se dirigir ao Rio de Janeiro para combater os franceses. (ABRIL, 2010, p. 111-112) Sintetizando Vimos até aqui: » Que a colonização da América pelos ingleses, sobretudo a formação das chamadas Treze Colônias, teve seu início ligado às questões políticas e religiosas que ocorriam na Inglaterra ao longo dos séculos XVI e XVII, como a crise dinástica dos Tudor e a perseguição religiosa aos puritanos empreendida pelos Stuart; » Que durante a formação das Treze Colônias, desenvolveram-se dois padrões distintos. As colônias do norte tinham caráter ligado ao calvinismo, base de sua organização político-social, enquanto nas colônias do Sul, optou-se pela produção agrícola de gêneros tropicais voltada para a exportação e com o uso da mão de obra escrava; » Que a França se lançou tardiamente no processo de expansão marítimo-comercial e que, por isso, não concordava com a divisão das terras descobertas entre Espanha e Portugal como definia o Tratado de Tordesilhas. Assim, a Coroa francesa estimulou a pirataria visando beneficiar-se do comércio ultramarino já praticado por outras nações; » Que após o apoio ao corso, a Coroa francesa incentivou a conquista de territórios americanos, obtendo sucesso em algumas regiões, como nas regiões de Quebec, Guiana e Haiti; » Que a colonização do Haiti levou à formação de extensas áreas de cultivo de cana-de-açúcar com mão de obra escrava africana e que os padrões de administração dos escravos na produção de açúcar levaram a uma insurreição de escravos conhecida como Revolução do Haiti; » Que também houve tentativas de colonização do território brasileiro por franceses desde o século XVI, mas estas não perduraram por muito tempo. 61 Apresentação No capítulo 5 continuaremos a estudar a História da América Espanhola. Inicialmente, teremos a oportunidade de aprofundar as discussões já realizadas sobre o processo de colonização da América Espanhola. Em seguida, discutiremos a influência da Igreja Católica na conquista da América hispânica. Fecharemos esse capítulo debatendo a exploração da mão de obra indígena, por meio da escravidão e de outras formas de trabalho compulsório. Objetivos Esperamos que, após o estudo do conteúdo deste capítulo, você seja capaz de: » Refletir sobre o processo de colonização da América Espanhola; » Compreender a influência da Igreja Católica na conquista da América hispânica; » Discutir sobre a exploração da mão de obra indígena, por meio da escravidão e de outras formas de trabalho compulsório. 5 CAPÍTULO A COLONIzAçãO DA AMÉRICA ESPANHOLA 62 CAPÍTULO 5 • A COLONIzAçãO DA AMÉRICA ESPANHOLA A colonização da América Espanhola, os nativos e o processo de cristianização No final do século XV, a Espanha passava por um momento de transição, conhecido pela historiografia clássica como a passagem do feudalismo para o capitalismo. Devemos, em tese, dizer que essa passagem da sociedade feudal para a sociedade capitalista não foi imediata e deve ser entendida – tomando emprestado uma expressão de Fernand Braudel – em um movimento histórico de longa duração. Nesse longo processo histórico de rupturas e continuidades, nos interessa analisar a expansão marítimo-comercial europeia dos séculos XV e XVI, da qual participou ativamente a Espanha e que foi motivada por inúmeros fatores. Primeiramente, busquemos perceber que houve uma crise de metais preciosos em outros continentes ante a desmonetarização da economia europeia causada pelo esgotamento dos filões mais superficiais da Europa, únicos acessíveis à tecnologia da época. Com a carência de metais preciosos, os monarcas, banqueiros e particulares financiaram as chamadas grandes navegações. Além da busca por riquezas minerais, os navegadores procuraram, principalmente, no Oriente, artigos de luxo e especiarias (pimenta, corantes, cravo etc.), produtos de alto valor unitário que proporcionavam grandes lucros. A ideia de que as grandes navegações tiveram como escopos principais a busca por metais preciosos, um novo caminho para as Índias e a compra das especiarias por um valor mais acessível é muito comum nos livros didáticos. Contudo, nós devemos ir além, mais precisamente no plano das mentalidades. Diante da fome, da peste e da guerra no século XIV, a Europa vivia em uma crise espiritual. Uma das motivações para a expansão marítimo-comercial, portanto, foi a busca por novos territórios e, consequentemente, a necessidade de converter os novos povos à fé católica. Não seria exagero afirmar que os países ibéricos, sobretudo a Espanha, viviam um espírito cruzadista naquela época (SCHMIDT, 1996, p. 13). Entretanto, antes que cheguemos a estudar a colonização e a consequente cristianização dos povos nativos na América Espanhola, vamos, primeiramente, analisar a Espanha entre os séculos XIV e XV. A Espanha, ou o território que chamamos hoje de Espanha, durante toda a Idade Média envolveu-se em uma luta contra os muçulmanos, que, desde 711, haviam tomado parte da Península Ibérica. Esse processo de retomada do território perdido para os mouros, conhecido como Reconquista, demandou constante formação de exércitos, o repovoamento e a defesa das regiões conquistadas. O chamado “espírito cruzadista”, como já mencionamos, envolveu os nobres cristãos que lutaram na Reconquista, visto que por meio dela, tentaram adquirir novas terras e honrarias (honra y provecho), como também a ampliação da fé católica. O interesse material e a fé se mesclavam naquela conjuntura e teve seu prolongamento na conquista da América. Durante esse período, a Espanha era formada por diversos reinos, entretanto, para fins didáticos, podemos falar de duas grandes Espanhas: uma mediterrânea onde se sobressaía o reino de Aragão; 63 A COLONIzAçãO DA AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 5 e a outra interior e atlântica, com o predomínio de Castela. A crise do século XIV determinou significativas modificações nas duas Espanhas. Por um lado, observou-se o declínio do comércio aragonês ocasionado pelos diversos surtos de peste, concorrência das cidades italianas, revoltas camponesas internas e pela pouca eficiência de sua tecnologia náutica. Nas palavras de John Elliott (2008, p. 138), “A conquista e colonização da América provêm do movimento expansionista dos países ibéricos no século XV e foi uma projeção das aspirações europeias no final da Idade Média em reação às perturbações econômicas e sociais causadas pelas devastações da Peste Negra” Por outro, com as sucessivas vitórias na Reconquista, tem-se uma nova vida comercial em Castela, que se aproximou das praças africanas do norte e disputava com Portugal, o principal concorrente, as rotas da África Ocidental. Afinal, é importante observar que as navegações, a prática dos negócios e das finanças e a procura por metais preciosos e especiarias não eram novidades para os reinos espanhóis. Assim, a expedição de Colombo, em 1492, inseriu-se numa trajetória mais longa de experiências náuticas e comerciais (SCHMIDT, 1996, p. 16). Na segunda metade do século XV, consagrou-se a União Dinástica, consubstanciada com o casamento de Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, em 1469. Todavia, essa aliança não foi suficiente para extinguir as diferenças entre os reinos espanhóis que detinham diversos poderes regionais. Não havia,afinal, uma padronização na cobrança de impostos, na cunhagem de moedas, no sistema de pesos e medidas, entre outros aspectos. Além disso, existia uma série de grupos diversificados culturalmente (castelhanos, galegos, bascos, catalães etc.), que dificultavam qualquer tentativa de centralização de poder. Com o intuito de manter uma unidade mínima do Estado, a coroa espanhola recorreu à religião católica, fonte de prestígio e legitimidade da monarquia. À época da Reconquista foram difundidas as ideias de “guerra santa” contra o infiel muçulmano e de expansão da cristandade. Os monarcas espanhóis, como eram católicos, procuraram criar mecanismos eficazes que possibilitassem a unidade religiosa, base e justificativa da unidade política. Diante disso, eles estabeleceram uma prática nova na Espanha: a intolerância religiosa, voltada, sobretudo contra os muçulmanos e judeus. Os muçulmanos, durante a Reconquista, mesmo submetidos militarmente, podiam continuar professando o Islamismo. Já os judeus, antes da unificação espanhola, eram ligados às atividades artísticas, comerciais e financeiras, além de gozarem de amplos privilégios. Com a crise do século XIV, propagou-se certo antissemitismo não oficial entre a população cristã pauperizada, dirigida especialmente contra os judeus cobradores de impostos (VAINFAS, 1984). Em 1478, foi reativado o Tribunal do Santo Ofício para controlar as práticas heréticas e judaizantes. A nova política dos reis católicos pôs fim a essa Espanha das três religiões. A Inquisição perseguiu não apenas hereges como também inimigos políticos da Coroa. Com a tomada de Granada, em 1492, 64 CAPÍTULO 5 • A COLONIzAçãO DA AMÉRICA ESPANHOLA foi assinado um decreto intimando os judeus a se converterem ao catolicismo ou a deixarem a Espanha. Em 1502, a mesma medida foi estendida aos muçulmanos. Podemos perceber, diante dessas considerações, que para o processo de constituição do Estado espanhol foi formada uma aliança entre a monarquia, a nobreza fundiária e a Igreja Católica. Como consequência da formação dessa Espanha senhorial, com o predomínio de valores aristocráticos, a burguesia espanhola incipiente conservou-se frágil e manteve-se atrelada à nobreza e ao Estado. Segundo Ronaldo Vainfas (1984, p. 15): “As opções da Monarquia Católica definiam-se por uma Espanha agrária e aristocrática, consolidando uma estrutura fundiária patrimonial e uma sociedade apegada à hierarquia e à pureza de sangue.” A pureza de sangue estava associada à nobreza, aos valores senhoriais, aristocráticos e, por conseguinte, não possuir nenhum tipo de envolvimento com judeus, muçulmanos, negros africanos ou qualquer minoria étnico-cultural. Contudo, ainda que agrária, tradicional e aristocrática, a Espanha permaneceu sensível ao grande comércio. Podemos observar isso na competição com Portugal pelo controle da rota atlântica do comércio de especiarias com as Índias. Os dois Estados disputavam o domínio da costa africana e o navegador genovês, Cristóvão Colombo, ofereceu aos monarcas espanhóis uma rota alternativa para as Índias, navegando pelo oeste. O navegador genovês escreveu em seu diário, em 19 de outubro de 1492, que desejava descobrir o máximo que pudesse e que tratava logo de saber se havia ouro naquelas terras. A mente de Colombo também era rodeada por seres típicos do imaginário medieval: ele entendeu que mais além, havia homens com um só olho e outros com focinho de cão (COLOMBO, 1492; TODOROV, 2010, p. 12). Entretanto, após mais três viagens ao Novo Mundo, Colombo não encontrou os resultados esperados na busca por riquezas e logo perdeu seus privilégios e morreu desacreditado. Sendo assim, outros conquistadores chegaram: Hernán Cortéz, no México, e Francisco Pizarro, no Peru. As ações tomadas para submeter os astecas, incas e as demais comunidades foram impregnadas de violência. Violência física, moral e espiritual. Os espanhóis se aliaram a comunidades rivais tanto dos astecas quanto dos incas e subjugaram os ameríndios. Do lado do conquistador estavam a espada, a pólvora, o arcabuz etc. Do lado do conquistado estavam as lanças, os arcos e as flechas. Vimos nos capítulos anteriores como se deu essa relação e como as doenças dos europeus atingiram diversas comunidades que não detinham resistência. Mesmo em maior número, os nativos não conseguiram resistir de forma imediata ao domínio espanhol. Trabalharam duramente nas minas e nas haciendas em regimes de semiescravidão. Além disso, outro instrumento foi empregado para apaziguá-los: a catequização. Afinal, a verdadeira fé para 65 A COLONIzAçãO DA AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 5 a Espanha era a fé católica e para um domínio espiritual das almas dos nativos era necessário constituir práticas de doutrinamento, sobretudo nos anos seguintes, já sob a perspectiva da Reforma Católica. Muitos costumes e atitudes religiosas dos ameríndios foram considerados abomináveis e combatidos com severidade. Os nativos não aceitaram tais imposições de forma passiva. Houve diversos tipos de resistência contra o controle espiritual. Muitos indígenas, apesar de terem se convertido ao catolicismo, acabaram fazendo associações entre os elementos da fé católica com os elementos das religiosidades nativas. Essas associações, que revelaram atitudes sincréticas, serão mais bem explicadas no decorrer deste capítulo. Como vimos, a Coroa espanhola, primeiramente, encarregou alguns particulares de iniciar a conquista, dadas as dificuldades econômicas e materiais desse processo. Em troca dos serviços prestados, a Coroa concedia o direito de explorar as riquezas do lugar e o direito de recolher tributos dos nativos em forma de trabalho compulsório. O instituto que conferia o direito de administrar o trabalho compulsório do nativo, em determinados períodos e sob determinadas condições, era chamado pelos reinóis de encomienda, e aquele que usufruía desse direito era o encomendero. Contudo, o beneficiário dessa instituição se obrigava a evangelizar e civilizar os indígenas sob sua tutela. Dessa maneira, essa instituição criava duas importantes bases para o processo de exploração das colônias: o controle das populações nativas e a disponibilização, de forma organizada, de mão de obra relativamente barata. (SCHMIDT, 1996, p. 16). Realizada a conquista do território, “outra conquista” se impunha aos encomenderos, colonos e funcionários régios: a conquista dos grupos indígenas, seus corpos e suas almas. A ação da Igreja Católica na conquista da América hispânica O que nós vimos até aqui é que a Coroa espanhola desejava obter riquezas e expandir a fé cristã. Afinal, os Reis Católicos estavam decididos a converter os povos conquistados a sua fé. Com isso, o Papa havia reconhecido o direito da Espanha às novas terras. Ao ocupá-las e ensinar a religião de Cristo a seus habitantes, o Estado espanhol estaria prestando um serviço ao catolicismo. Francisco López de Gomara (1568) chegou a mencionar na época que sem uma colonização eficaz não haveria uma boa conquista, e se a terra não fosse conquistada, as pessoas não seriam convertidas (FIGUEIRA, 2009). Assim, como vimos, Madri criou uma série de instituições para auxiliá-la na administração dos territórios conquistados. A Igreja também se fez presente nesse processo. Coube a ela a missão de realizar o culto religioso propriamente dito, fornecer a educação em todos os níveis e sedimentar o controle espiritual das populações nativas. Entre as formas de controle espiritual, destacavam-se as missões, aldeamentos para catequizar os nativos e adequá-los aos moldes convenientes à colonização. Além das missões, outra importante instituição de controle espiritual – e também – temporal – foi a Inquisição, introduzida na América a partir de 1519 para reprimir os suspeitos de infidelidade à Coroa e à Igreja e praticar o poder de censura aos livros. Em 1519, 66 CAPÍTULO 5 • A COLONIzAçãO DA AMÉRICA ESPANHOLA o Tribunal da Inquisição realizou na NovaEspanha seu primeiro auto de fé (solenidade em que se liam e executavam as sentenças dos réus), com execução de três condenados à fogueira (FIGUEIRA, 2009). Entretanto, neste item do capítulo, vamos nos ater à catequização dos ameríndios e no sincretismo construído no bojo das relações entre a religiosidade cristã e a nativa. Perceberemos que as práticas sincréticas ora eram combatidas pelas autoridades eclesiásticas, ora não percebidas por elas. A cristianização dos povos nativos foi marcada por um movimento missionário propagado pelo clero regular: franciscanos, jesuítas e dominicanos, principalmente. As ações de doutrinamento fornecidas por essas ordens foram gradativamente substituídas, tempos depois, pelo clero secular. Contudo, focaremos, neste momento, nas visões e formas de evangelização dos primeiros. Clero regular Religiosos que viviam segundo as regras estabelecidas por determinada ordem religiosa. No caso dos beneditinos, esses foram os primeiros na Europa a vivenciar a experiência de um clero regular segundo a Regra de São Bento (534 d.C). De acordo com os monges beneditinos, os ideais da oração e do trabalho eram compreendidos como as melhores formas de alcançar Deus. Clero secular Religiosos direcionados para as atividades em sociedade: celebrar missas, ministrar batismos, casamentos e outros sacramentos. São diretamente ligados aos bispos locais e, por consequência, ao papa e à Santa Sé. Muitas ordens religiosas participavam das empreitadas da Expansão Marítima com o mesmo espírito em que participaram das Cruzadas, anos antes. Empenhavam-se na evangelização do Novo Mundo e encaravam a catequese dos gentios como uma missão, por isso também são chamados de missionários. Para os missionários, o projeto de evangelização conduzido nas Américas consistia em apagar as distinções e ressaltar as semelhanças entre cristãos e índios. Os nativos, para a maioria dos missionários, eram vistos como pagãos e não como infiéis. Lembremos que na Europa, os cristãos estavam em luta conta os mouros e judeus caracterizados como infiéis e que ainda viviam na Península Ibérica, ou seja, mouros e judeus já mantinham contato com o cristianismo, mas não renegaram sua fé em prol do “verdadeiro Deus”, daí eram tratados por infiéis. Como os missionários não entendiam as religiões praticadas pelos índios e que supostamente esses estavam sendo iludidos pelo diabo, os religiosos acabaram por decidir que os ameríndios eram almas pagãs, mas, ainda assim, almas puras e dispostas a receber os ensinamentos do Cristo. Para tanto, eram necessário, além do batismo e do ensino religioso, que os índios extirpassem 67 A COLONIzAçãO DA AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 5 quaisquer práticas dos seus antigos cultos e suas tradições religiosas consideradas demoníacas. A violência espiritual começava a ganhar forma. Lembremos, também, que nos primeiros anos da conquista, os povos indígenas se sentiram como se seus deuses os tivessem abandonado diante da chegada dos conquistadores. Esse fato alterou, naquele momento, a estrutura psicológica daquelas sociedades que estavam assistindo a verdadeiras cenas de massacre (ROMANO, 1995). Milhares de nativos morreram no processo de conquista e sabemos que as armas e os conflitos armados não pararam devido às inúmeras ações de resistência indígena. Para auxiliar no processo de “pacificação” dos nativos, os missionários se utilizaram da autoridade dos caciques para ajudar a construir igrejas e a estabelecer a frequência dos ameríndios aos serviços religiosos. Uma das atitudes mais eficientes para a catequização foi o fato de que alguns religiosos, entre eles os franciscanos, aprenderam as línguas indígenas e seus costumes. Para combater as religiões dos nativos, era necessário conhecê-las. Assim sendo, os religiosos elaboraram livros dedicados à cristianização dos indígenas em que diversas imagens poderiam ser mais compreensíveis: o batismo, a Virgem Maria, Jesus Cristo e a Santíssima Trindade. O franciscano Pedro de Gante foi um dos primeiros a utilizar os métodos visuais no ensino da doutrina cristã. Figura 10. Catecismo elaborado especialmente para a evangelização dos nativos na região do México, no século XvI. Estas imagens foram utilizadas pelo franciscano Pedro de gante. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Pedro_de_gante Gante também criou uma escola com o nome de San José de Belén de lós naturales, na Cidade do México. Essa escola era dirigida principalmente para os filhos da elite local indígena. O objetivo de Gante era o de formar futuros evangelizadores capazes de se dirigir às populações ameríndias em suas línguas originais. Outras escolas foram criadas e os nativos aprenderam a língua dos invasores, além de obterem, evidentemente, o ensinamento religioso. 68 CAPÍTULO 5 • A COLONIzAçãO DA AMÉRICA ESPANHOLA Os jesuítas, que se diferenciavam dos franciscanos pelas posses e pelas riquezas, atuaram mais nas fronteiras para pregação e salvação das almas dos nativos. Os franciscanos, mais simples, atuaram nas regiões centrais. De qualquer forma, tanto uma quanto outra ordem combatia as práticas religiosas indígenas, comportamentos considerados inadequados (preguiça, embriaguez, poligamia, sodomia, rebeldia etc.) e qualquer ato que remetesse a algum tipo de sincretismo. Vale ainda destacar que a Companhia de Jesus, criada em 1534, recebeu em 1540 a aprovação papal e começou a se expandir por meio da fundação de missões, colégios e seminários. Os membros dessa Companhia eram chamados de jesuítas e cabia a eles a batalha contra os “infiéis” a serviço do Cristo. Na América do Sul, surgiu uma das mais importantes missões jesuítas na região da selva entre o Brasil e o Paraguai, habitada pelos índios guaranis. Com a pacificação dos indígenas por meio de alianças com os caciques da região, os jesuítas receberam direitos exclusivos garantidos pelo Estado espanhol sobre os territórios das missões. Em torno da escravidão indígena e a defesa feita pela Igreja A exploração da mão de obra indígena assumiu inúmeros contornos, desde o começo da conquista. Apesar de os nativos serem considerados vassalos livres pelo ordenamento espanhol, isso não evitou que os colonizadores os submetessem ao trabalho compulsório e à escravidão. Na visão do colonizador, o indígena era fraco, amigo do ócio, da bebida, da luxúria e, em troca dos ensinamentos cristãos, deveria ser compelido a trabalhar. A primeira forma de trabalho compulsório foi a encomienda, introduzida na América a partir de 1503. Nesse regime, o nativo trabalhava exaustivamente para o colono espanhol em troca de assistência material e espiritual. Esse tipo de trabalho exploratório foi logo denunciado por algumas pessoas como o frei dominicano Antônio de Montesinos e, principalmente, pelo também dominicano Bartolomeu de Las Casas. Logo depois das denúncias, o monarca espanhol proibiu esse tipo de trabalho que, contudo, perdurou em algumas regiões. Outra forma de trabalho empregada foi o repartimiento que consistia num trabalho assalariado forçado em que um número de indígenas era obrigado a se deslocar para certos lugares e prestar serviços que lhe fossem designados. O repartimiento já era conhecido dos astecas pelo nome de cuatequil, e dos incas, pelo nome de mita. Tanto o cuatequil quanto a mita eram espécies de pagamento tributário à chefia sobre forma de trabalho. Na verdade, o uso de práticas de trabalho pré-colombianas pelos espanhóis só revelaram uma espécie de adaptação Sugestão de estudo O filme A Missão (1986), dirigido por Roland Joffé, retrata a guerra estabelecida por portugueses e espanhóis contra jesuítas que catequizavam os índios nos Sete Povos das Missões, na América do Sul do século XVIII. Após a morte do irmão, o personagem vivido pelo ator Robert De Niro, um violento mercador de escravos, realiza autopenitência e transforma-se em um missionário jesuíta, obtendo, assim, uma nova visão sobre os indígenas. Contudo,a região marcada por grupos distintos com diversos interesses servirá de palco para as chamadas “Guerras Guaraníticas”. 69 A COLONIzAçãO DA AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 5 às necessidades dos invasores, nunca em prol dos ameríndios, já que a mão de obra destes era explorada em troca de um salário irrisório (FIGUEIRA, 2009). Enquanto que o repartimiento disputava com a encomienda em alguns lugares, nativos que se recusassem a produzir o que lhes era designado ou que simplesmente não alcançassem a cota de produção estipulada eram assassinados a sangue frio. Na verdade, qualquer tipo de descontentamento entre índios e espanhóis era motivo de cenas atrozes cometidas por estes últimos contra os primeiros, como denunciou diversas vezes frei Bartolomeu de Las Casas. O frei dominicano chegou ao Caribe em 1502. No início da sua estadia possuía índios a seu dispor e propriedades para que estes trabalhassem. Após uma pregação do frei Antônio de Montesinos sobre São João Batista, em 1511, Las Casas, impressionado, muda a sua visão sobre os nativos e começa a relatar os abusos e atrocidades cometidos pelos espanhóis contra os índios. Vejamos um trecho escrito por Las Casas (1996, p. 30): “Os espanhóis, com seus cavalos, suas espadas e lanças, começaram a praticar crueldades estranhas; entravam nas vilas, burgos e aldeias, não poupando nem as crianças e os homens velhos, nem as mulheres grávidas e as parturientes, e lhes abriram o ventre e as faziam em pedaços como se estivessem golpeando cordeiros fechados em seu redil (...)”. Saiba mais Las Casas foi fortemente influenciado pela postura de Montesinos. O próprio Las Casas fez questão de relatar em suas memórias o sermão proferido por seu colega de ofício com o qual ficou muito impressionado: Essa voz está bradando: vocês estão todos em pecado mortal, nele vivem e morrem, pela crueldade e tirania que praticam contra este povo inocente. Digam: com que direito e com que justiça vocês mantêm estes índios em tão cruel e horrível servidão? Com que autoridade vocês têm feito guerras tão detestáveis contra esta gente, que estava tranquila e pacífica em suas terras, onde a multidões incontáveis delas, com mortes e danos nunca ouvidos, vocês exterminaram? Como vocês os mantêm na opressão e na fadiga, sem dar-lhes de comer e curar-lhes as enfermidades que contraem em razão dos excessivos trabalhos que vocês lhes impõem? Eles chegaram a morrer, ou, para melhor dizer, vocês os matam para arrancar e adquirir ouro cada dia. Que cuidado vocês têm de que alguém lhes ensine a doutrina e de que conheçam a seu Deus e Criador, sejam batizados, ouçam a missa, guardem as festas e os domingos? Estes não são homens? Não têm almas racionais? Não estão vocês obrigados a amá-los como a vocês mesmos? Isto vocês não entendem? Não sentem? Como estão mergulhados em sono tão letárgico? Estejam certos: no pecado em que estão, vocês não poderão salvar-se mais do que os mouros ou turcos que recusam a fé em Jesus Cristo. (Apud JOSAPHAT, 2000, p. 52-53). 70 CAPÍTULO 5 • A COLONIzAçãO DA AMÉRICA ESPANHOLA De fato, a violência empregada na conquista foi inegável. Os escritos de Las Casas, conforme já mencionamos neste capítulo, fizeram com que a Coroa espanhola mudasse algumas leis com relação às formas de exploração da mão de obra indígena. Em 1603, as Ordenações Filipinas – conjunto de leis tradicionais que foram compiladas pelo monarca espanhol Filipe I e implementadas a partir do governo de Filipe II – reafirmavam a proibição da escravização dos índios, ou gentio, e várias foram as leis, decretos e regulamentos nesse mesmo sentido. O frei dominicano ficou conhecido tempos depois como o defensor, o protetor dos nativos. Porém, não devemos negar que Las Casas era um homem religioso do seu tempo, que embora tenha delatado os abusos cometidos pelos conquistadores, também desejava que os nativos aceitassem a fé cristã como a única verdadeira religião. Para ele, os nativos eram seres puros, sem maldade. Já com relação à mão de obra africana empregada no Caribe e no vice-reino de Nova Granada, o dominicano defendeu sua utilização sob o regime da escravidão. Resistência indígena: idolatrias e milenarismos A falsa concepção de que os ameríndios foram vítimas dos conquistadores espanhóis, aceitando passivamente o domínio já foi algo bastante discutido em nossa historiografia (VAINFAS, 1993; BRUIT, 1995; SCHMIDT, 1996; WACHTEL, 1998). Inúmeros trabalhos ofereceram a visão dos vencidos, ou seja, a história vista por baixo e trataram as culturas indígenas como agentes de sua própria história. As formas de resistência indígena foram inúmeras. Tanto a sociedade asteca quanto a sociedade inca envolveram-se em inúmeros conflitos armados. Se os grandes grupos sedentarizados não foram muito eficazes em oferecer resistência às armas e doenças dos espanhóis, todavia, as comunidades nômades ou seminômades obtiveram vitórias significativas até serem, tempos depois, derrotadas. Podemos citar como exemplos dessas comunidades: os chichimecas, no norte do México; os chiriguanos, nos Andes, e os araucanos, no Chile. Estes últimos aprenderam a montar o cavalo e a usar armas de fogo num processo em que Wachtel (1998) chamou de integração. No âmbito religioso, podemos identificar como formas de resistência as idolatarias e os movimentos milenaristas. Segundo Ricardo Oliveira (2010, p. 68), idolatria pode ser definida como uma prática de adoração a ídolos, valores e ideias em oposição à crença e adoração a um deus único. Ronaldo Vainfas (1992) dividiu as idolatrias indígenas em dois tipos: as insurgentes e as ajustadas. Por sua vez, as idolatrias insurgentes podem ser explicadas por meio da “guerra imaginária” e da luta armada. A “guerra imaginária” ou a guerra de imagens pode ser entendida em um processo em que a arte indígena que remetesse a uma religiosidade pagã fosse lentamente substituída pelas artes sacras, o que levou ao surgimento de um sincretismo cultural combatido pelos espanhóis, mas nem sempre identificado. 71 A COLONIzAçãO DA AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 5 A luta armada, conforme vimos em outros momentos, foi mais significativa em regiões de fronteira em que nativos recusaram a introdução dos elementos do Cristianismo em suas comunidades. Mas também observamos idolatrias insurgentes nas áreas sedentarizadas onde a luta armada ou a violência física aberta foram empregadas. A invasão do território inca pelos espanhóis exemplifica bem o que queremos dizer. Preso, o imperador inca negocia sua libertação, promete ao conquistador espanhol um imenso tesouro em troca de sua liberdade. Embora Ataw Wallpa tivesse cumprido com o prometido, os espanhóis não o soltaram. O imperador foi julgado publicamente e executado em 29 de agosto de 1533. Contudo, antes do julgamento, observamos um claro e radical exemplo de resistência. Vejamos um trecho de um documento escrito por Francisco López de Gomara em que Ataw Wallpa se recusa a aceitar o Deus cristão: “Atabalipa [Ataw Wallpa], ardorosamente, respondeu que não queria ser tributário, uma vez que era livre (...). E não queria obedecer ao Papa, que dava o que pertencia a outrem. Quanto à Religião, disse que a sua era muito boa e que se dava muito bem com ela, que não queria e que também não lhe convinha colocar em discussão e controvérsia uma coisa aprovada há tanto tempo. Dizia, além disso, que Jesus Cristo estava morto, mas que o sol e a lua não morriam, e perguntava ao monge como é que ele sabia que o Deus dos cristãos havia criado o mundo. Frei Vicente lhe respondeu que este livro o contava e assim dizendo, deu-lhe o seu breviário. Atabalipa pegou-o, abriu-o, olhou-o de todos os lados e o folheou. Dizendo que o livro não falava palavra alguma sobre o assunto, jogou-o no chão. Frei Vicente apanhou seu breviário e foi até Pizarro, gritando: ‘Ele atirou os Evangelhos ao chão. Vingança, Cristãos! Atirem!’” (GOMARA 1568, Apud ROMANO, p. 77). Um dado no documento acimaque chama a atenção é a ira propagada pelo Frei Vicente. É muito comum nos livros didáticos a visão de religiosos defendendo os indígenas. No México, por exemplo, diante do massacre de milhares de nativos, o dominicano Bartolomeu de Las Casas delatou as ações sangrentas dos conquistadores em seus escritos. Sobre os escritos desse religioso, nós os estudaremos logo em seguida. Na realidade, as ações da Igreja no Novo Mundo foram muito contraditórias, mas todas elas estavam inseridas num contexto contra mouros, judeus e a propagação das ideias da Reforma Protestante. A Igreja tinha como metas principais: expandir a fé cristã e criar uma nova Jerusalém em terras americanas. Entretanto, os nativos que não se convertessem se transformariam em infiéis. Como o imperador inca não aceitou a religião e jogou os evangelhos ao chão, Frei Vicente, possivelmente, o encarou como um inimigo dos cristãos diante de tamanho sacrilégio, quando recusa o “verdadeiro Deus” e prefere continuar com suas idolatrias. Nem o frei nem os conquistadores poderiam compreender a visão de mundo dos ameríndios. As tradições, os costumes e a religiosidade dos nativos foram bastante combatidos durante a colonização. Já as idolatrias ajustadas representaram uma resistência cotidiana, silenciosa, em espaços privados como o próprio ambiente doméstico. Em muitas casas indígenas eram celebradas 72 CAPÍTULO 5 • A COLONIzAçãO DA AMÉRICA ESPANHOLA cerimônias tradicionais de casamento, práticas divinatórias, culto aos ancestrais e consultas aos velhos calendários (VAINFAS, 1992, p. 31). Imagens de santos conviviam perfeitamente com ídolos indígenas nos altares. Naturalmente, houve um processo de associação entre as imagens sagradas. Um exemplo que podemos citar é a associação da Virgem de Guadalupe, no México, com a deusa asteca Tonantzin, a Mãe dos deuses (ROMANO, 1995, p. 21). Outra forma de resistência é o milenarismo, que pode ser entendido como um movimento atemporal, que ocorre em variados tempos da história e que determina o final do mundo por ordem divina. Na Bíblia Cristã (Apocalipse 20, 1-10) não há um fim propriamente dito, mas o retorno de Jesus Cristo para construir um reino com duração de mil anos (OLIVEIRA, 2010, p. 68-69). Os movimentos milenaristas indígenas previam a volta dos huacas (deuses locais) que restabeleceriam a ordem das coisas e expulsariam os invasores das terras americanas. Destacamos aqui como exemplos desses movimentos: a revolta de Taqui Ongoy, em 1560, nos Andes, liderada por Juan Chocne, e a Guerra de Mixton, em 1541, no México, liderada por Tenamaxtle. Ambos os movimentos foram controlados pelos espanhóis, mas representaram definitivamente formas de resistência cultural indígena que miravam no retorno de seus deuses a possibilidade do livramento dos males que sofriam. Todas as formas de resistência, quando identificadas, eram exemplarmente punidas. A resistência nativa representava um sério obstáculo à implementação da colonização, seja na perspectiva da luta armada contra as instituições metropolitanas ou contra o trabalho compulsório, seja na perspectiva religiosa com a permanência das crenças originais que impediam a cristalização do cristianismo entre os nativos. Sintetizando Vimos até agora: » Que o processo de colonização da América Espanhola contou com forte apoio da Igreja Católica e que a religião auxiliava a Coroa espanhola no controle dos nativos; » Que havia diversas formas de exploração do trabalho indígena, que variavam desde a escravidão, muito criticada pela Igreja Católica, a outras formas de trabalho compulsório, como a mita. Vimos também que essas formas de trabalho não eram desconhecidas dos nativos americanos que viviam nas regiões dos grandes impérios, mas foram reelaboradas ao longo do processo de conquista e colonização; » Que os indígenas também foram protagonistas durante a colonização de seus territórios e que não aceitaram passivos tudo que lhes era imposto, como, por exemplo, na resistência cultural e religiosa. Vimos também que os nativos também souberam se aproveitar das novas instituições em benefício próprio. 73 Apresentação Em nosso último capítulo, conheceremos o processo de independência das colônias da América Espanhola. Para isso, discutiremos os fatores que levaram ao processo de independência, tais como a crise do sistema colonial, a influência do pensamento iluminista e a invasão da Espanha por Napoleão. Objetivos Esperamos que, após o estudo do conteúdo deste capítulo, você seja capaz de: » Refletir sobre o processo de independência das colônias da América Espanhola; » Compreender os fatores que levaram ao processo de independência. 6 CAPÍTULO A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA 74 CAPÍTULO 6 • A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA O processo de independência das colônias da América Espanhola Há poucos anos, antes de seu falecimento, o presidente venezuelano Hugo Chávez dizia encarnar os ideais e objetivos do “grande líder” da independência das principais repúblicas da América do Sul, Simón Bolívar. Após 14 anos de governo na Venezuela, Chávez morre em 2013, após uma longa batalha contra um câncer. Tal como Bolívar, Chávez se posicionava contra a interferência dos países estrangeiros no governo dos países latino-americanos. Nesse sentido, foi ferrenho opositor da ação dos Estados Unidos na região, sobretudo na Colômbia ao longo das décadas de 1990 e 2000. Figura 11. Hugo Chávez discursando em frente ao retrato de Simón Bolívar. Fonte: EPA. The Guardian, 21/7/2010. Mas o legado e histórico de lutas de Simón Bolívar, El Libertador, não foram reivindicados apenas por Chávez na Venezuela. Após mais de 200 anos do início das independências na América Espanhola, há um sem-número de movimentos e personagens que dizem encarnar os ideais do herói morto, do mito. O sucesso de Chávez é prova de que a memória de Bolívar ainda se faz presente entre os sul-americanos. O imaginário sobre o mito fala tão alto que tornou possível a mudança do nome oficial da Venezuela – modificado de República da Venezuela para República Bolivariana da Venezuela – em 1999, juntamente com a aprovação de uma nova Constituição. Mesmo que frequentes, é difícil precisar até onde as reivindicações que fazem os movimentos e personagens sobre a imagem de Bolívar estão comprometidas com os ideais bolivarianos. Nem esse é o nosso propósito aqui. É importante percebermos que a imagem do herói bolivariano funcionou, ao longo dos últimos dois séculos, como um fator de coesão nacional para diversos países. Bolívar lutou e organizou ativamente a resistência pró-independência de muitos países, entre eles Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. Dessa maneira, é bem pragmática a reinterpretação feita sobre sua imagem por diversos grupos locais, das mais variadas origens 75 A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 6 sociais, não só para unidade nacional, mas, também, como argumento de manutenção de determinada ordem, muitas vezes tradicional. A recuperação da imagem de Bolívar e de outros heróis também exerceu forte influência sobre a historiografia independentista das últimas décadas. Para Maria Ligia Coelho Prado (2003) “A independência das colônias espanholas da América é tema consagrado desde o alvorecer das historiografias nacionais do século XIX, amplamente visitado e carregado de interpretações estabelecidas. Consensualmente, apenas se pode afirmar que a independência é vista como momento da quebra da dominação política exercida pela metrópole e do nascimento dos Estados Nacionais. Tema, ainda, atravessado por paixões político-ideológicas, tanto da parte daqueles que defendiam uma perspectiva oficialista e ufanista, que no século XIX elegeram os heróis que comporiam os panteões nacionais, como da parte de uma historiografia crítica, que em particular nos anos 1960 e 1970 entendeu a independência como um movimento destituído de significativarelevância, pois não teria propiciado a ruptura das grandes estruturas que continuariam a manter a dependência do continente.” Nesse sentido, o culto a Bolívar reflete um patriotismo exagerado, a compensação por um processo de independência inacabado. No contexto do desenvolvimento das matrizes historiográficas das décadas de 1960 e 1970, o tema das independências foi por diversas vezes revisitado e novos questionamentos e interpretações sobre pontos consensuais foram experimentados, principalmente naquilo que se refere à manutenção de uma tutela externa sobre as novas repúblicas. Em síntese, esse movimento colocava “De um lado, a crítica àqueles que conferiam às ideias um lugar e um papel centrais como desencadeadoras do movimento da independência. Em oposição, os que privilegiavam as determinações estruturais – econômicas e sociais – como a base para a compreensão do movimento. A primeira perspectiva, que via particularmente nas ideias francesas uma das principais “causas” da emancipação, já foi amplamente criticada. Pensando na produção mais recente, é possível notar que revisões historiográficas distanciaram-se de uma aproximação exclusivamente estrutural de análise do processo de independência.” (PRADO, 2003) Antes, contudo, de nos debruçarmos sobre a ação dos futuros heróis nos processos de independência da América Espanhola, precisamos avaliar as causas que originaram o desgaste com a metrópole e o início das lutas emancipacionistas. A crise do sistema colonial A primeira metade do século XVIII representa para a Espanha o início de uma crise que se apresentou, principalmente, sob duas faces: uma econômica e outra política. A crise econômica 76 CAPÍTULO 6 • A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA refletiu o caráter aplicado à administração dos negócios espanhóis no ultramar, principalmente com as Américas. A exploração colonial tinha como principal objetivo a remessa de riquezas naturais e gêneros tropicais para a metrópole. Nesse sentido, diante de afluxos constantes de riquezas, não havia uma preocupação com a diversificação da base econômica, na verdade, buscava-se outra coisa, o entesouramento. Também conhecido como bulhonismo ou metalismo, o entesouramento tinha por finalidade a manutenção dos metais preciosos no tesouro real ou em circulação no próprio reino. Essa é uma das características do mercantilismo. Segundo a perspectiva dessa teoria econômica, a riqueza de um país podia ser medida pela quantidade de metais preciosos que detinha sobre seu poder. A Espanha, nesse sentido, era uma das mais privilegiadas metrópoles europeias devido à exploração da prata americana, tanto no México como em Potosí, ao mesmo tempo em que a prata explorada na Europa escasseava. Se, por um lado a riqueza do Império espanhol era garantida pela facilidade de acesso aos recursos minerais, por outro, a prata também foi a causa da crise econômica. As remessas constantes do metal desestimularam o desenvolvimento da manufatura espanhola, tanto no reino como nas colônias. Isso gerou a dependência pela importação de produtos manufaturados que, no final das contas, era um “ralo” para os recursos obtidos com a exploração da prata americana. Grande parte do metal americano era utilizada para o pagamento dos mercadores estrangeiros. Agravando a situação econômica, a necessidade das importações e a relativa facilidade na obtenção dos recursos levavam a outro problema crônico para uma economia complexa, a inflação. Havia disponibilidade de meio circulante (moeda) e muita demanda por produtos importados, o que favorecia o inflacionamento dos preços e a consequente fuga de capitais para outros reinos. A outra face dessa crise é a vertente política iniciada pela crise sucessória após a morte de Carlos II, em 1700, e o fim da dinastia dos Habsburgos, logo em seguida. Os Habsburgos eram uma dinastia soberana em vários Estados e territórios desde o século XIII. No final do século XVII, além da Espanha, também governavam o Sacro Império Romano-Germânico. Interessada na manutenção do trono espanhol, a linha austríaca dos Habsburgos contestou a sucessão testamentária de Carlos II, que legou o trono como herança a Filipe de Anjou, neto do monarca francês Luís XIV. O imperador Leopoldo I da Áustria, julgando-se com direitos ao trono de Espanha por ser parente de Carlos II, depois de não obter sucesso na contestação do testamento, iniciou as hostilidades que desencadeariam a Guerra de Sucessão da Espanha, que perduraria até a assinatura dos tratados de Ultrech, Rastatt e Baden entre os anos de 1713 e 1714. Por esses tratados, os Habsburgos reconhecem o direito de Filipe de Anjou ao trono espanhol e, em troca, receberiam, juntamente com a Inglaterra, a soberania sobre vários territórios espanhóis na Europa e no Mar Mediterrâneo. 77 A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 6 Após a resolução da questão sucessória, Filipe de Anjou, reconhecido pelas demais potências europeias, governa com o título de Filipe V de Espanha, um representante da dinastia Bourbon, que ajuda a ampliar as áreas de influência da França na Europa e nas possessões espanholas do ultramar. O reconhecimento de Filipe V saiu caro. As batalhas travadas ao longo dos 13 anos da Guerra de Sucessão Espanhola foram muito dispendiosas para a Espanha que, além dos esforços básicos de uma guerra, contratou centenas de mercenários de outras nacionalidades a peso de ouro, ou prata. Junto disso, a Inglaterra também conseguiu diversos monopólios comerciais nas colônias da América Espanhola. O fornecimento de escravos e de produtos manufaturados ingleses para as colônias foram concessões que a Espanha foi obrigada a acatar após os acordos de 1713 e 1714. Para Cesar Guazzelli, esse quadro de dupla crise foi responsável por encaminhar uma maior flexibilização do exclusivo metropolitano comercial que a Espanha exercia sobre suas colônias americanas. Na perspectiva política, a Espanha se tornava um satélite orbitando uma grande potência, a França. O apoio francês era importante devido ao alinhamento entre Inglaterra e Portugal no plano político internacional. Por outro lado, na perspectiva econômica, não havia distanciamento da Inglaterra, que havia conseguido importantes concessões no comércio colonial. Essa relação dicotômica entre política e economia refletia diretamente as decisões tomadas após a Guerra de Sucessão. Para tentar pôr fim a essa relação econômica desvantajosa com a Inglaterra, ao longo do século XVIII foram realizadas diversas reformas conservadoras intituladas de “reformas bourbônicas”. Entre os anos de 1764 e 1782, as reformas tentavam restabelecer a supremacia da metrópole sobre suas colônias tanto pela perspectiva administrativa, como pela perspectiva econômica. No reino, incentivaram a formação de manufaturas e fortaleceram a agricultura por meio de um sistema protecionista de taxas alfandegárias. Em suma, as medidas apenas reinstituíram padrões anteriores que não fomentavam o desenvolvimento de manufaturas capazes de concorrer com seus produtos no mercado externo, apenas estabeleciam mercados monopolistas e garantiam a subsistência de estruturas parasitárias numa economia mundial cada vez mais diversificada, integrada e pujante. As reformas também exerceram forte interferência no ambiente colonial. Elas tinham a intenção de fortalecer a presença da metrópole espanhola no território americano por meio de uma exploração mais racional e eficiente de suas colônias, o que gerou a adoção de uma série de medidas. Entre essas medidas, podemos destacar a suspensão do sistema de porto único no comércio das colônias com a metrópole. Nesse sentido, essa ação abriu os demais portos espanhóis para o comércio colonial, aumentando a participação dos negociantes e burgueses espanhóis no lucrativo comércio ultramarino. Os novos portos espanhóis buscavam diminuir a dependência das importações inglesas, elemento necessário para o restabelecimentodo exclusivo comercial metropolitano. 78 CAPÍTULO 6 • A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA Ainda buscando o fortalecimento econômico frente à concorrência inglesa, o comércio entre as colônias foi autorizado e a abertura de manufaturas também, desde que os produtos locais não concorressem com os produtos espanhóis. O mesmo princípio se aplicava aos produtos agrícolas. Nesse aspecto, as reformas propiciaram o aumento e a diversificação da produção de diversos gêneros, principalmente de origem agropecuária, para o abastecimento interno e para exportação. As haciendas no vale mexicano do Oaxaca, analisadas pelo historiador William B. Taylor (1975), são clara evidência de que a economia colonial foi fortemente beneficiada com essa maior liberdade. A produção de produtos agrícolas para abastecer as regiões mineradoras do centro e do norte do México. A atividade agrícola em Oaxaca, inicialmente complementar à atividade mineira, aos poucos ganha destaque com a diversificação da produção e o início da produção de gêneros voltados para exportação, como o corante extraído da cochonilha, de um vermelho intenso muito valorizado naquele momento. A produção desse corante respondia, na segunda metade do século XVIII, como segundo produto em importância no México, perdendo somente para a prata. As haciendas de Oaxaca utilizavam mão de obra local via sistema compulsório e também mão de obra remunerada. Taylor (1975) verificou em seu estudo que houve uma progressiva migração do trabalho compulsório para o trabalho assalariado, o que ajudou a desenvolver um mercado local e interprovincial autônomo, distanciado da interferência da metrópole. Também em Cuba desenvolveu-se uma produção diversificada voltada para exportação. Fumo e açúcar encontravam grande receptividade nos mercados europeus e a produção cubana foi pautada pela abertura dessa nova frente. Na Venezuela, havia a produção de cacau para exportação nas planícies costeiras e de gêneros agrícolas no interior para o abastecimento das fazendas mais próximas ao litoral. No Chile também se verificou, assim como no México, uma produção agrícola destinada ao abastecimento das regiões mineradoras. Artesanato de lã, mulas para as tropas, bovinos para o consumo de carne, vinhos e licores também eram produzidos no vice-reino da Prata em articulação direta com a demanda das regiões mineradoras de Potosí, no Alto Peru. Formava-se um mercado local e interprovincial, além de um mercado externo, facilitado pela atuação dos comerciantes metropolitanos e suas ligações com outras províncias e com a Europa, o que ajudou a enfraquecer a presença inglesa na América. Outra medida tomada pela Espanha foi a expulsão dos jesuítas de seus territórios coloniais e do reino em 1767. A Companhia de Jesus, seja por sua ação entre os índios, sobretudo na região do rio da Prata onde suas reduções formavam um verdadeiro “Estado paralelo”, seja por seu caráter supranacional e internacionalista, ou ainda pela sua força política e econômica, encerrava uma instituição que criava sérios problemas para a lógica do absolutismo espanhol. Diminuir os poderes locais e reforçar o poder metropolitano era a métrica da vez. 79 A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 6 A administração das colônias também sofreu alterações. Novas instituições foram criadas nesse período, como as intendências, que paulatinamente substituíram os governadores nas capitanias. Os intendentes detinham enormes prerrogativas, em diversas áreas – jurídica, legislativa, militar... – e seu poder era ligado diretamente ao poder real, do qual era representante. Além disso, parte dos vice-reinos que estudamos no capítulo 2 também foram criados nesse período, visando reafirmar o poder metropolitano nas áreas coloniais. Os novos cargos e instituições, se tinham por objetivo reordenar a organização colonial, muitas vezes contribuíam para aumentar a sensação de conflito e confusão, dada a sobreposição de diversas prerrogativas em cargos distintos. Os atritos eram constantes e a decisão final cabia a Madri, cabia a um seleto grupo que orbitava o rei e que o aconselhava sobre as decisões a serem tomadas, excluindo grande parte dos interessados que viviam nas colônias e mesmo os vice-reis do processo decisório. Se nos primeiros séculos da colonização houve dada autonomia com relação a Madri, o que possibilitou a ascensão de um forte grupo político local que “negociava” a implementação das decisões metropolitanas na América, as reformas bourbônicas tiveram por objetivo justamente limitar tal autonomia e reforçar o domínio e controle da metrópole. Essa autonomia era tão perceptível que possibilitou o surgimento de uma elite econômica e política nas principais vilas e cidades americanas. Os integrantes dessa elite eram chamados de criollos, um termo que no início era pejorativo, pois fazia oposição direta ao espanhol nascido na península Ibérica, já que os criollos eram nascidos na América e, em muitos casos, também eram fruto da miscigenação com outros grupos presentes no contexto colonial, sobretudo africanos e índios. Essa distinção, que no início da colonização era bem funcional, inclusive com reserva de cargos e monopólios para os peninsulares, logo foi diluída com o fortalecimento dos criollos, sobretudo no plano local. Assim, as reformas visavam também limitar a ação e influência dos criollos na principal instituição americana que reverberava seus interesses, o cabildo. Na verdade, as reformas diminuíram as liberdades municipais e, assim, o espaço de representação política dos criollos junto à sua sociedade e à metrópole. Somem-se a esse problema os reflexos da reativação do exclusivo comercial metropolitano. Desde o início do século XVIII, os criollos experimentavam os benefícios e o enriquecimento propiciado pelo comércio com os ingleses após a flexibilização do pacto colonial. Mesmo que o comércio entre colônias e colônias e entre estas e a metrópole tenha se intensificado após a queda do monopólio do porto de Cádiz, isso não foi suficiente para suprir as necessidades de abastecimento por produtos manufaturados demandados pelas colônias americanas. O que fez com que o contrabando de produtos ingleses se intensificasse. 80 CAPÍTULO 6 • A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA Por sua vez, essa crescente regulação não foi suficiente para acabar com a crise econômica que desde o início daquele século se abatia sobre a Espanha. Nesse sentido, não havia outra saída senão lançar mão do aumento dos impostos sobre a produção e o comércio coloniais, o que diminui a quantidade de recursos administrados pelos cabildos e o lucro dos comerciantes, produtores agrícolas e burgueses, muitos deles dignos representantes da elite criolla. Um grupo, a verdadeira classe dominante na América Espanhola, contrariado em seus interesses básicos por autonomia política e econômica com as medidas das reformas metropolitanas não se manteria calado. Se o comércio local era vantajoso, mais vantajoso era o comércio com os produtos ingleses de antes. E a liberdade comercial foi arrancada dos criollos por sua metrópole que também lhes tirou a liberdade política de antes, quando podiam “negociar” as regras sob as quais deveriam ser governados. É o discurso em torno da liberdade que pautará os principais encaminhamentos rumo à ruptura com a metrópole. É perceptível o desgaste do sistema colonial. A ascensão de novas classes dominantes, como os criollos, tornava-se incongruente com a manutenção do exclusivo comercial metropolitano diante da diversificação das atividades coloniais e com a ampliação do poder metropolitano sobre o governo político local. Criollos e outros grupos mostravam-se insatisfeitos e buscavam o retorno à velha autonomia anterior às reformas bourbônicas da metade do século XVIII. A América Espanhola na “Época das Luzes” A circulação de ideias iluministas na América Espanhola tem sido apontada nos últimosanos como um dos fatores que influenciaram o processo de emancipação americano. Muitos autores têm estudado o comportamento de intelectuais americanos e seus argumentos em prol da emancipação. Nesse cenário, Maria Ligia Coelho Prado (2003) destaca que a circulação das ideias iluministas nas últimas décadas do século XVIII e nas primeiras décadas do século XIX esteve ligada diretamente à circulação, lícita ou ilícita, de manifestos, panfletos – muitos deles anônimos – e livros no ambiente colonial... “espalhando as ideias iluministas e contribuindo com seus argumentos para justificar a ação daqueles que começavam a lutar pela independência das colônias na América. Estes textos “subversivos” produzidos pelos criollos nasceram do encontro entre as leituras vindas da Europa e a reflexão original pensada a partir da situação colonial.” (PRADO, 2003) A reprodução de ideias iluministas, por sua vez, não se restringiu às elites criollas, mas foi perceptível entre diversos setores intelectuais na América Espanhola, oriundos dos mais diversificados estratos sociais. O culto à liberdade, a valorização de um ideal de racionalidade em oposição à ignorância e ao obscurantismo das crenças religiosas, a insatisfação contra os excessos do despotismo e a defesa da soberania do povo foram argumentos contundentes nas críticas que reformulavam o ideário iluminista pelo prisma colonial ibero-americano. 81 A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 6 Mesmo membros da Igreja Católica, apesar de inseridos em uma instituição fortemente tradicional e diretamente ligada às estruturas de controle do poder real, tiveram papel importante no incentivo e nas lutas contra o domínio metropolitano, participando ativamente, inclusive, no comando das tropas de resistência contra o exército real durante as guerras pela independência. Hidalgo, Morelos, Camilo Torres, Luis Vieira são membros do clero espanhol que se associaram aos movimentos das classes subalternas. Geralmente frutos do baixo clero viam a luta pela independência como a aplicação dos preceitos evangélicos ao governo dos homens. Há outros fatores que também não podemos negligenciar. Independência dos Estados Unidos e Revolução Francesa foram importantes motivadores para os processos de independência. Ambos os movimentos carregaram em sua essência o mesmo discurso em torno da liberdade apregoado pelo iluminismo na “Época das Luzes”. A Independência dos Estados Unidos, em 1776, cuja insubordinação política foi motivada por questões de ordem econômica e pelo aumento na cobrança de impostos por parte da metrópole, foi o primeiro grande sinal de que era possível a libertação de uma colônia americana do jugo e opressão de uma potência europeia. A Revolução Francesa de 1789, por sua vez, buscava libertar os novos grupos sociais em ascensão na França setecentista das amarras do Antigo Regime. Liberdade de governo, liberdade religiosa, liberdade de expressão, liberdade para comerciar... enfim, liberdade. Contudo, havia uma ressalva à Revolução Francesa. O radicalismo experimentado após 1789 não era visto com bons olhos, sobretudo pelas elites criollas. O resultado claro dessa desordem na França revolucionária foi sentido, como vimos, em uma colônia francesa nas Américas em 1791, a colônia de Saint-Domingue, onde hoje se localiza o Haiti. Nessa colônia francesa, a interpretação dos ideais franceses de liberdade, igualdade e fraternidade gerou uma revolta de escravos sem precedentes que levou à morte de milhares de homens brancos durante a Guerra Civil. Entre as maiores colônias espanholas nas Américas, Cuba e Venezuela destacavam-se também por seu grande número de escravos africanos. Assim, era de se esperar que as elites locais, mesmo que pudessem, em algum momento, defender o fim da escravidão, não estariam totalmente abertas a todas as possibilidades do discurso vindo dos revolucionários franceses. Mas os intelectuais ibero-americanos souberam filtrar os argumentos mais adequados à realidade das colônias de onde proferiam seus discursos. Não pensemos que a liberdade pretendida no discurso dos intelectuais influenciados pelo iluminismo era total e irrestrita. A versão interpretada do iluminismo na América Espanhola era perpassada por um conteúdo ideológico e foi reduzida a uma proposta de modernização política dentro da ordem social já estabelecida, ou seja, era um projeto da classe dominante que visava manter alijada do poder a maior parte dos grupos subalternos, e dessa maneira se aproximava mais do processo de Independência dos Estados Unidos do que da Revolução Francesa. 82 CAPÍTULO 6 • A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA Poucos foram os intelectuais que objetivavam algo mais radical. Em se tratando desses intelectuais, o mais revisitado entre eles e que resume parte do legado iluminista interpretado por uma ótica colonial mais radical é um dos mais destacados representantes da elite criolla venezuelana, Simón Bolívar. “Yo deseo más que outro alguno ver formar em América la más grande nación del mundo, menos por su extensión y riquezas que por su libertad y glória.” (Simón Bolívar) Em suas cartas e discursos, Bolívar frisava a necessidade da liberdade, em todos os seus aspectos. Nesse sentido, também era um ferrenho defensor das bases que se estruturariam sob o liberalismo econômico. Se a crise econômica auxiliou no crescimento do descontentamento da elite criolla com a condução do governo das colônias ao impor a necessidade da adoção de medidas que cercearam seus direitos ao livre comércio com outras nações, se essa mesma crise abriu as portas para o discurso liberal do iluminismo, seria um evento no desenrolar da Revolução Francesa que daria início aos principais embates que levariam à independência das principais colônias espanholas na América. O estopim da crise: a invasão da Espanha por Napoleão A invasão napoleônica da península Ibérica em 1807 provocou mudanças definitivas nos domínios coloniais americanos da Espanha. Diferentemente do que ocorre em Portugal, o monarca espanhol Fernando VII resolve enfrentar os invasores e acaba deposto no mesmo ano. Ao assumir o trono espanhol, o irmão de Napoleão, José Bonaparte, dá início a uma sucessão controversa, parcialmente aceita na península, sobretudo pela força das armas francesas, mas recusada em grande parte das colônias americanas. Tem início um longo processo de experimentação política para o governo dos territórios da América Espanhola. A invasão napoleônica abriu caminho para que a autonomia colonial fosse posta em discussão. A elite crioulla valeu-se desse novo espaço para discutir a soberania, a representação política e o crescente nacionalismo naquelas terras. De início, foram as Juntas de Gobierno que assumiram a soberania no lugar do rei deposto. Na América Espanhola as juntas foram vistas como usurpadoras do poder real e sofreram forte oposição daqueles que se intitulavam “realistas”. No ano seguinte, buscando evitar as cisões, foi criada na Espanha a Junta Suprema Central e Governativa do Reino, que após o avanço do exército francês foi dissolvida e substituída por um Conselho de Regência, que também não gozava do apoio geral. A vacância do poder real era a oportunidade para que os criollos pudessem reivindicar e exercer o autogoverno. Havia uma extrema desconfiança dos funcionários reais, que mesmo empossados 83 A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 6 antes da crise, eram acusados de sedição e conivência com os Bonaparte. Como forma de driblar essa desconfiança, que acabou se generalizando contra todo espanhol nascido na península, houve a instauração de um processo de formação de juntas revolucionárias que tomou corpo a partir de 1810. Bolívar assinalou em uma de suas cartas as características básicas da relação entre os criollos e os peninsulares nos embates e batalhas que se seguiram à deposição de Fernando VII: “O sucesso coroará nossosesforços porque o destino da América está fixado irrevogavelmente; o laço que a unia à Espanha está irrevogavelmente cortado: a opinião era toda sua força, por ela se estreitavam mutuamente as partes daquela imensa monarquia: o que antes as enlaçava já as divide: é maior o ódio que nos tem inspirado a península do que o mar que dela nos separa: é mais fácil unir os dois continentes, do que reconciliar os espíritos de ambos os países.” (Carta da Jamaica. Kingston, 6/9/1815. Apud LECUNA, Vicente (Org.) Cartas del Libertador (1799- 1817), Tomo I, R. 143, p. 215-236.) Ao final desse processo, que perdurou de 1810 a 1825, quase todas as colônias espanholas nas Américas se tornariam repúblicas independentes, com exceção de Cuba e Porto Rico. As juntas revolucionárias, no início, também se revestiam da aura da autoridade real para buscarem o consenso no momento de crise e justificarem suas ações: “Desde que a traiçoeira conduta do Imperador da França arrancou da Espanha o mais amado de seus monarcas, o reino ficou acéfalo, e dissipado o princípio no qual unicamente podiam concentrar-se os verdadeiros direitos da soberania. [...] Fernando VII tinha um reino, mas não podia governa-lo; a monarquia espanhola tinha um rei, mas não podia ser governada por ele; e neste conflito a nação devia recorrer a si mesma para governar-se, defender-se, salvar-se e recuperar seu monarca.” (MORENO, 1998, p. 159) No reino, as Cortes espanholas, uma espécie de Parlamento do povo espanhol, reuniram-se na cidade de Cádiz em 1812 e aprovaram uma nova Constituição, de cunho liberal, que em muitos sentidos buscou uma solução pacífica para o problema da soberania reclamado pelas colônias. Nesse sentido, o resultado foi um documento que atendia a diversos anseios americanos como a abolição de algumas instituições senhoriais e da mita na região andina. Por outro lado, a nova Constituição também limitava o poder real ao subordiná-lo à Carta Constitucional e delegar o poder de decisão, em última instância, às Cortes. As reformas de Cádiz também surtiram efeito sobre os direitos políticos no novo Estado que surgia. O direito ao voto foi ampliado para todos os homens. Sem caráter censitário, esse novo direito só impedia a participação política dos africanos e de seus descendentes diretos. Mas essas concessões não foram suficientes para conter a guerra civil iniciada em 1810 que opunha partidários do Conselho de Regência e das Cortes de Cádiz aos defensores das juntas de governo autônomas nas colônias. 84 CAPÍTULO 6 • A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA Com a expulsão dos franceses em 1814 e a restituição do poder real de Fernando VII, o rei imediatamente aboliu as Cortes e ignorou a Constituição, reativando o absolutismo. A ação de Fernando deu novo fôlego às autoridades régias ainda estabelecidas nos territórios coloniais e aos seus exércitos em solo americano que empreenderam novas retaliações aos movimentos emancipacionistas e às juntas locais. A repressão a esses movimentos desencadeou a ampliação e popularização destes entre o povo e elites locais. A crescente mobilização popular enfraqueceu o domínio dos exércitos realistas em muitas partes do antigo mundo colonial, demonstrando que o projeto do “novo Estado” espanhol, arquitetado pelas Cortes em Cádiz, não mais se sustentaria. Os novos Estados que surgiam após as derrotas das forças militares pró-monarquia refletiam um ideal diferente do propagado pela Constituição de Cádiz. Eram Estados com governos extremamente centralizados. A República da Colômbia ou Grã-Colômbia, que incorporava as regiões do vice-reino de Nova Granada e da Capitania Geral da Venezuela, já independente, oficializa Bolívar como presidente, e sua Constituição lhe atribui poderes autoritários. Em 1818, o militar José de San Martín, consegue garantir o controle sobre a região onde hoje se localizam a Argentina e o Chile. Vencendo as batalhas contra os exércitos realistas, logo se dirige ao Peru para também garantir o controle sobre aquela região. Em 1820, no bojo das diversas revoluções liberais que se iniciavam por toda a Europa, a Espanha aprova uma nova Constituição. Diversas partes da América Espanhola elegeram deputados para representarem os interesses americanos junto às Cortes Espanholas. A instabilidade política da qual a Espanha não conseguiu se recuperar desde a restituição de Fernando VII, motivou os deputados americanos a defenderem ora a manutenção de um governo autônomo no interior da monarquia espanhola, ora a instauração de uma monarquia constitucional independente. Surgiu a proposta de criação de três grandes reinos no Novo Mundo espanhol que seriam governados por príncipes espanhóis. A proposta foi recusada pelas Cortes. Diante da negativa, os partidários da autonomia do vice-reino da Nova Espanha se aliaram ao coronel Agustín de Iturbide e asseguraram a independência do México em 1821. Outras províncias na América Central seguiram o exemplo do México e rumaram para compor o novo Estado. Dois anos mais tarde, separaram-se do México e formaram outro novo Estado independente. Em 1820, as forças lideradas por San Martín chegaram a Lima, mas somente com o apoio das tropas de Bolívar conseguem a rendição dos exércitos realistas depois de alguns anos de batalhas em 1826. 85 A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA • CAPÍTULO 6 Figura 12. Fonte: (CRUzEt, Maurice. Historia General de las Civilizaciones. vol v: El siglo XvIII. Barcelona: Destino, 1963). Fazendo uma retrospectiva dos processos revolucionários na América espanhola, é importante destacar o período compreendido entre 1808 e 1810, quando fica clara a deflagração da crise política e a instituição dos primeiros grandes movimentos independentistas e o início da ruptura do Império Espanhol. A ausência do poder real no centro acarreta a crise de legitimidade de seus representantes na América. Até a restauração de Fernando VII, em 1814, os movimentos revolucionários na América do Sul obtiveram relativo sucesso. Mas a ação real após a restauração do absolutismo possibilitou o envio de tropas e o aumento da repressão aos movimentos emancipacionistas. De 1814 a 1817 o movimento de independências na América do Sul recrudesceu e só foi intensificado a partir daí até 1826, quando cai o último grande foco de reação da monarquia espanhola após as derrotas das tropas realistas no Peru. A contradição presente nos processos revolucionários entre o discurso pela liberdade e o receio de que tais processos pudessem elevar as massas (índios, negros e mestiços) a uma maior participação política nos novos Estados e, por consequência, ameaçar a supremacia das classes dominantes, leva à realização de independências que rompem com o despotismo espanhol, mas instituem regimes autoritários onde a ordem pudesse ser mantida. Por fim, é importante ressaltar que, diferentemente do que estamos acostumados a pensar, os movimentos emancipacionistas não refletiam em seu início um caráter nacionalista. Não era a 86 CAPÍTULO 6 • A INDEPENDÊNCIA DAS COLÔNIAS DA AMÉRICA ESPANHOLA ideia de uma “nação” que estava em jogo em 1808 ou 1810. As nações e a identidade nacional seriam forjadas ao longo das batalhas e guerras pelos novos Estados independentes num processo que só atingiria uma coesão décadas após seu início. Sintetizando Vimos até aqui: » Que a historiografia latino-americana se ocupou durante os séculos XIX e XX com a construção de heróis nacionais, como Simón Bolívar, com vistas a criar uma identidade em torno das novas nações recém-independentes e que atualmente essa historiografia tem sido revisitada e criticada; » Que, com as reformas bourbônicas da metade do século XVIII, houve uma relativa amenização do sistema colonial, o que possibilitou o desenvolvimento econômico das colônias e o surgimento de interesses ligados às novas elites locais que se distanciavam dos interesses metropolitanos; » Que o Iluminismo, enquanto correntefilosófica, e a Independência dos Estados Unidos possibilitaram o acesso a novas formas de organização político-social às quais os intelectuais das colônias espanholas tiveram acesso; » Que os processos que levam à independência das colônias da América Espanhola são muito complexos e conjugam elementos externos, como a expansão napoleônica na Europa, e internos, como o crescente descontentamento com a manutenção do sistema colonial, e que, por isso, não podem ser creditados apenas à ação de um líder. 87 Referências ABRIL, Victor Hugo. “A Governança no Ultramar”. 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Introdução Povoamento e povos da América pré-colombiana Organizações político-sociais complexas: incas, maias e astecas A conquista do “Novo Mundo”: América Espanhola A colonização do “Novo Mundo”: Américas Inglesa e Francesa A colonização da América Espanhola A independência das colônias da América Espanhola Referências