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METODOLOGIA DE PESQUISA AULA 2 Profª Carla Andréia Alves da Silva Marcelino 2 CONVERSA INICIAL Atualmente, a comunidade científica reconhece que há uma tipologia vasta de pesquisas, especialmente nas ciências sociais, a qual, além de se apropriar de parte dos métodos das ciências naturais, ainda conta com procedimentos que foram desenvolvidos com foco em pesquisas cujas relações sociais sejam o objeto. Autores como Gil (1991; 1999), Richardson (1999), Lakatos e Marconi (1994) e Barros e Lehfeld (1986) concordam que a primeira tipologia a ser estabelecida é conforme o objetivo geral da pesquisa, e, nesse sentido, os principais tipos com os quais a comunidade científica trabalha são a pesquisa exploratória, a descritiva e a explicativa, as quais abordaremos no Tema 1. A segunda tipologia é conhecida como delineamento da pesquisa e refere-se aos procedimentos técnicos ou formas que serão adotadas para atingir ao objetivo proposto. Falaremos nesta disciplina sobre os tipos mais conhecidos, com foco especial naqueles mais utilizados pelos estudantes e profissionais da área do serviço social, a exemplo de: pesquisa bibliográfica, documental, experimental, ex post facto e levantamentos de campo. Para que as aulas possam ser melhor aproveitadas, nos Temas 2 a 5 veremos as pesquisas bibliográficas, documentais, experimentais e ex post facto. Os levantamentos de campo, por desdobrarem-se em uma série de métodos e técnicas, serão trabalhados nas Aulas 3 e 4 desta disciplina. TEMA 1 – TIPOS DE PESQUISA CONFORME O OBJETIVO: EXPLORATÓRIA, DESCRITIVA E EXPLICATIVA Neste tema, faremos a apresentação das três classificações de pesquisas conforme seus objetivos, ou seja, conforme o que desejamos mostrar ao aplicá- las. 1.1 Pesquisa exploratória Gil (1999) explica que a pesquisa exploratória é aquela que objetiva tornar um problema explícito, aproximar-se mais dele, visando conhecê-lo melhor e com mais profundidade, ou ainda, dar uma nova visão sobre esse problema. De acordo com o autor, normalmente esse tipo de pesquisa é desenvolvido por meio 3 do uso de pesquisas bibliográficas, entrevistas com experts sobre o tema e uso de exemplos, como estudos de caso, que ajudem a compreender melhor as nuances de um problema. É o tipo de pesquisa mais usado nos Trabalhos de Conclusão de Curso do tipo monográfico, como é o caso do serviço social. 1.2 Pesquisa descritiva Já a pesquisa descritiva objetiva descrever como um fenômeno é, como ele se apresenta, ou então descrever características de determinados grupos. Para a riqueza desse processo de descrição, faz-se necessário quase sempre lançar mão de pesquisas de campo, tais como levantamentos de dados e/ou uso da observação como método. Gil (1999) apresenta vários tipos de pesquisa descritiva, tais como aquelas que pretendem desvendar as características de um grupo ou população, o funcionamento de instituições, as opiniões e atitudes de grupos de pessoas sobre determinados assuntos, ou ainda, as pesquisas descritivas mais complexas, que visam buscar relações entre variáveis, ou seja, explicar como uma coisa ou fato pode influenciar o desenvolvimento de outra. Esse tipo de pesquisa também é bastante utilizado no serviço social, associando pesquisas bibliográficas com levantamentos de campo. 1.3 Pesquisa explicativa A pesquisa explicativa tem como objetivo “identificar os fatores que determinam ou que contribuem para a ocorrência dos fenômenos” (Gil, 1994, p. 46). É o tipo de pesquisa que oferta a maior possibilidade de conhecimento da realidade, maior aproximação com o real e concreto, visto que, com ela, busca- se encontrar o motivo, a razão ou explicação do porquê algo é, acontece ou se apresenta. Gil (1999) adverte que, justamente por buscar dar explicações sobre os fenômenos, é o tipo de pesquisa no qual mais pode-se incorrer em erros de resultados, pois, conforme os contextos, as explicações podem ser errôneas, insuficientes ou não generalizáveis. É o tipo de pesquisa que mais se aproxima da ciência pura, pois normalmente produz novos conhecimentos. Nesse tipo de pesquisa, comumente faz-se uso primeiramente da pesquisa descritiva, visando lançar luz sobre o fenômeno, e depois realizam-se pesquisas de caráter experimental, ex post facto e observação. 4 TEMA 2 – PESQUISA BIBLIOGRÁFICA Praticamente todos os tipos de pesquisa, ou ao menos os registros destas, são precedidos de pesquisa bibliográfica. Trata-se da consulta e apropriação por parte do pesquisador de material que já fora construído e publicado e que se encontra disponível para consulta, tais como livros e periódicos (revistas, revistas científicas, fascículos, entre outros). Existem também tipos de pesquisa que são integralmente construídas a partir de pesquisa bibliográfica, as quais normalmente buscam entender ou comparar os diferentes posicionamentos sobre um mesmo assunto na literatura disponível. Considera-se material bibliográfico todos aqueles que oferecem informações produzidas por outros pesquisadores ou escritores, incluindo-se aí os materiais disponíveis em sítios eletrônicos da internet. Gil (1999) classifica as fontes bibliográficas em: livros de leitura corrente, livros de referência e periódicos. Abordaremos cada um deles na videoaula. TEMA 3 – PESQUISA DOCUMENTAL A pesquisa documental é muito utilizada como método nas ciências sociais, inclusive nas suas modalidades aplicadas, como é o caso do serviço social. O método é similar ao da pesquisa bibliográfica, mas a consulta é feita em documentos disponíveis e não em livros ou revistas. Normalmente, trata-se de fontes ainda não analisadas por nenhum outro pesquisador, ainda encontradas em “estado bruto”, sem terem sido reelaboradas ou lidas com olhar de desvendar o que neles está posto. Trata-se de documentos existentes em órgãos públicos, em instituições privadas, igrejas, universidades ou organizações da sociedade civil, podendo ser até mesmo documentos pessoais, privados, de algum sujeito que importe pesquisar. Importante lembrar que a pesquisa documental não se restringe apenas a material impresso ou escrito, sendo fotos, quadros, gravações, músicas, diários, entre outros, também considerados fontes. As fontes documentais podem ser chamadas de primeira mão ou de segunda mão, sobre as quais falaremos nas videoaulas. Importante ressaltar que, nos dias de hoje, os sítios eletrônicos da internet também oferecem uma imensidão de fontes para pesquisa documental, tais como dados estatísticos, microfilmes de documentos, publicações oficiais on-line, entre outros. 5 TEMA 4 – PESQUISA EXPERIMENTAL Este é o método de pesquisa é o mais utilizado nas ciências naturais, sendo que, nas ciências humanas e sociais, uma das poucas áreas que a utiliza é a psicologia, o que não suprime a possibilidade de uso em outras áreas do conhecimento. É a pesquisa normalmente desenvolvida em laboratórios, nos quais se testam determinados fenômenos, de forma controlada, submetendo-os à influência de determinadas variáveis, no intuito de observar como estas influenciam o objeto, chegando a um resultado que produz um acúmulo de conhecimento científico, dentro do esperado pelos defensores da chamada ciência pura. Gil (1999, p. 53-54) pondera que: Quando os objetos em estudo são entidades físicas, tais como porções de líquidos, bactérias ou ratos, não se identificam grandes limitações quanto à possibilidade de experimentação. Quando, porém, se trata de experimentar com objetos sociais, ou seja, com pessoas, grupos ou instituições as limitações são bastante evidentes. No caso das ciências sociais, pesquisas experimentais envolveriam serem humanos, ocasionando uma série de implicações éticas, podendo, se malconduzida a pesquisa, causar inclusive danos emocionais, exposiçãoe violar direitos humanos. As pesquisas experimentais, de acordo com Gil (1999) podem ser de três modalidades diferentes: experimentos “apenas depois”, “antes- depois” e “antes-depois com dois grupos”. Abordaremos cada um deles na videoaula. TEMA 5 – PESQUISA EX POST FACTO Este é um tipo de método que se assemelha ao experimento, sendo bastante utilizado nas ciências sociais. Isso porque esse tipo de pesquisa se realiza depois dos fatos ocorridos, depois de uma ocorrência ou sucessão deles, a exemplo do estudo dos efeitos de uma crise econômica em um determinado país ou as mudanças após a ocorrência de um fenômeno que não foi provocado, que ocorreu naturalmente ou espontaneamente. Gil (1999) explica que a grande diferença da pesquisa ex post facto e da pesquisa experimental é que não se pode controlar o objeto de pesquisa, uma vez que se trata de fenômenos que normalmente ocorrem espontaneamente, ou sem ser provocado pelo pesquisador. É muito utilizada para estudos mais generalizados, como os que envolvem grandes parcelas da população, bem como grandes extensões 6 territoriais ou de fenômenos que afetam globalmente um grupo de pessoas ou um universo inteiro delas. NA PRÁTICA Após termos visto a classificação das pesquisas conforme seus objetivos, complete o quadro resumo a seguir com as seguintes variáveis. Objetivos: Descrever características ou funções de um fenômeno ou grupo de pessoas. Encontrar relações causais e motivações para a ocorrência de um fenômeno. Maior compreensão de um problema, conhecer diferentes posições já existentes sobre um problema. Principais métodos: Pesquisa bibliográfica, entrevista com especialistas, análise de dados já produzidos (secundários). Experimentos em laboratório. Pesquisas de campo, tais como entrevistas, questionários e observação. Exemplo de tema/objeto: Efeitos da exposição a imagens televisivas violentas em crianças de até cinco anos de idade. Perfil das mulheres atendidas na Casa da Mulher Brasileira do município xxxxxx no ano de 2018. Aproximações e distanciamentos acerca do conceito de Estado em Max Weber e Karl Marx. Pesquisa exploratória Pesquisa descritiva Pesquisa explicativa Objetivos Principais métodos Exemplo de tema/objeto 7 FINALIZANDO Nesta aula, tivemos uma noção das classificações de pesquisas conforme seus objetivos, apresentando as pesquisas exploratórias, descritivas e explicativas, seus principais usos e métodos, apontando que, no serviço social, no âmbito das pesquisas na graduação, fazemos muito uso da pesquisa exploratória, seguida das pesquisas descritivas. Isso porque, sendo o serviço social uma ciência social aplicada, a qual possui como objeto geral de pesquisa as relações sociais, envolvendo, portanto, as relações entre pessoas e pessoas e pessoas e coisas, assim grosseiramente dizendo, as pesquisas experimentais são muito pouco utilizadas e nada recomendadas, visto que estas teriam que ser desenvolvidas com estímulos e controles comportamentais de seres humanos, envolvendo um sem fim de implicações éticas. Importante ressaltar que o conhecimento produzido na área de serviço social não é menos científico pela ausência de experimentos e pelo seu distanciamento das ciências ditas “puras”, mas sim mais contextual: o conhecimento não é generalizável, é aplicado apenas a situações ou grupos de características similares em relação ao tempo, espaço e influências. Iniciamos também nesta aula a apresentação dos métodos de pesquisa mais utilizados na comunidade científica atual, dois deles muito importantes para o serviço social: pesquisa bibliográfica e pesquisa documental. Uma vez mais, por sermos ciência social aplicada, fazemos uso de vasta bibliografia da sociologia, da antropologia, da ciência política, da psicologia, do direito, da economia e de tantos outros, que comumente nos servem de base explicativa para os fenômenos pesquisados pelo serviço social. Embora pouco usados, apresentamos os experimentos e as pesquisas ex post facto, esta última utilizada na maior parte das vezes para analisar efeitos de um fenômeno em grande escala. Na próxima aula, seguiremos abordando os métodos e nos aprofundando em alguns deles. 8 REFERÊNCIAS BARROS, A. J. da S.; LEHFELD, N. A. de S. Fundamentos de metodologia: um guia para a iniciação científica. São Paulo: McGraw Hill, 1986. BASTOS, C. L.; KELLER, V. Aprendendo a aprender: introdução à metodologia científica. 23 ed. Petrópolis: Vozes, 2011. BIANCHETTI, L.; MEKSENAS, P. (Org.). A trama do conhecimento: teoria, método e escrita em ciência e pesquisa. São Paulo: Papirus, 2008. CHIZZOTTI, A. Pesquisa qualitativa em ciências humanas e sociais. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1991. _____. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1999. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Fundamentos de metodologia científica. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1994. MINAYO, M. C. S. (Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 19 ed. Petrópolis: Vozes, 2001. RICHARDSON, R. et al. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1999. SETUBAL, A. A. Pesquisa em serviço social: utopia e realidade. São Paulo: Cortez, 1995.