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SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO Jocélia Santana Barreto Sociologia do professor global Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Explicar como ocorre o controle da produção do professor. Identificar as causas da reforma contemporânea da formação do professor. Relacionar os motivos da alta rotatividade de professores. Introdução Como você sabe, hoje o mundo é globalizado e grande parte dos países são adeptos do sistema capitalista. A era tecnológica modificou as relações interpessoais, de trabalho e de consumo. Além disso, aumentou a quan- tidade de informações disponíveis. Assim, há muito material circulando pela internet, mas grande parte dele não é confiável. Além disso, junto aos benefícios da rede mundial de computadores, apareceram empregos ilícitos dessa rede, que incluem novos crimes. Neste capítulo, você vai conhecer melhor esse contexto contempo- râneo e ver como o professor se insere nele. A ideia é que você reflita sobre as novas atribuições da educação e sobre o modo como elas se configuram nos atuais sistemas políticos, econômicos e culturais. Controle da produção do professor A docência é em si um desafi o. Os percalços do cotidiano da profi ssão, a rotina e os problemas com alunos exigem que o professor se reinvente continuamente. Viver em um mundo globalizado e refl etir sobre esse mundo é um grande desafi o. A cada dia, novas mudanças acontecem, com uma rapidez assustadora. Tudo se torna novo e instável ao mesmo tempo, não é? Nesse contexto, o conceito de nação já não é mais sufi ciente para explicar as transformações da sociedade global. Se antes se pensava na sociedade relacionada ao Estado, ao Estado-nação, agora é necessário pensar a sociedade a nível mundial. Contudo, tal sociedade mundial não é a soma das sociedades nacionais. Se antes o professor detinha o monopólio do saber e os alunos recebiam as informações já prontas, sem muito espaço para questionamentos quanto à maneira de ensinar, atualmente as coisas são diferentes. Com a velocidade acelerada da transmissão de informações, há mudanças ocorrendo. Assim, o docente se torna um mediador do conhecimento, visto que, com a internet, os alunos conseguem acessar informações que estão além dos livros e da aula do professor. Cabe a este mediar e usar essas informações já adquiridas pelos alunos, inserindo-as em suas aulas e transformando-as em conhecimento útil e crítico. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 116 milhões de pessoas conectadas à internet, o que representa 64,7% de toda a população com idade acima de 10 anos (GOMES, 2018). Contudo, essa dinâmica nem sempre foi assim. Com o projeto iluminista, a educação tinha como finalidade desenvolver um cidadão emancipado e autônomo, adequado às necessidades do capitalismo, que surgiu nos séculos XVII e XVIII. A educação deveria ser igualitária e democrática, direcionada à formação de um indivíduo livre e racional e voltada ao mundo do trabalho na sociedade burguesa. Nesse cenário, o professor era a autoridade máxima, que detinha o conhecimento. A ele cabia transmitir as informações aos estudantes, que o viam com confiança e o encaravam como o detentor do saber. A escola se universalizou, tornando-se pública e laica, baseada na ideia de progresso da humanidade. Contudo, o século XX pôs em xeque a ideia de progresso conduzido pela razão. Os valores iluministas entraram em crise e surgiu uma nova era de incertezas. Hoje, não existem verdades absolutas. Uma nova revolução tecnológica também entrou em curso. A tecnologia cresceu em nível assustador. A invenção do computador, o surgimento da internet conectando as pessoas de forma global e o desenvolvimento de novos aparelhos tecnológicos (como o smartphone e a TV digital) modificaram profundamente o cotidiano da humanidade. Eles influenciam comportamentos e interferem nas formas de se pensar e agir. Sociologia do professor global2 Como todas essas mudanças, como está a educação no século XXI? Qual é o papel do professor na globalização? O que é ser professor em uma sociedade globalizada, perpassada por novas tecnologias e diferentes modos de pensar e fazer história? Pensar a sociologia do professor global é questionar como o tradicional processo de ensino e aprendizagem se transforma em novas maneiras de ensinar. A nova geração de estudantes, que nasceu na era da tecnologia e da ve- locidade das informações, representa um desafio constante. Para lidar com esse desafio, o professor precisa se reinventar a cada dia com o objetivo de construir o conhecimento e socializar o saber. Os estudantes já trazem uma bagagem de informações que devem ser mediadas pelo professor para que se transformem em conhecimento útil e relevante para eles. Qual é a metodologia de ensino do professor global? O que é a nova sala de aula? Quais são as práticas pedagógicas na sociedade globalizada? Em primeiro lugar, como você já viu, o professor torna-se mediador do conhe- cimento. Os métodos e técnicas de ensino e aprendizagem também foram modificados. Houve uma mudança de modelos e o rompimento de estruturas que pareciam fixas. A formação de professores está no centro do debate do mundo da educação. Hoje, se discute muito a necessidade de se realizarem reformas educacionais. O discurso da globalização de organismos internacionais prega a necessi- dade de reformas nas políticas educacionais, que devem se adaptar às exigências de competitividade política e econômica em nível mundial. A educação, por- tanto, se torna um meio para o desenvolvimento e a prosperidade econômica, ficando subordinada a políticas neoliberais. Nesse discurso, se estabelecem metas para que os países alcancem determinados patamares, respondendo às demandas do capital internacional. Exige-se um “novo” professor para uma nova sociedade global. As reformas atuais da formação de professores pregam que houve um fracasso das escolas no passado, pois os professores eram incompetentes e ineficazes. Agora, o governo e os legisladores têm a capacidade de definir o que são um professor efetivo e uma escola eficiente. As reformas direcionam a ação do professor e o avaliam de acordo com os objetivos a ele imputados. Exemplos dessa reforma educacional aconteceram em países como Estados Unidos, Reino Unido e Nova Zelândia. Neles, os professores são direcionados a desenvolverem competências estruturadas em habilidades técnicas por meio de práticas no cotidiano da sala de aula antes de se formarem e poderem le- cionar. Essas práticas são realizadas no estágio e preparam o professor para a docência. A prática docente é baseada em métodos já previamente prescritos, 3Sociologia do professor global e o profissional se transforma puramente em um técnico da educação, sendo que a construção de conhecimento crítico é deixada de lado. Assim, o professor é um mero transmissor do currículo. Somado a esse fato, há um enfraquecimento do trabalho docente. Afinal, também ocorre um processo de flexibilização, modificando contratos e salá- rios. Nesse sentido, se utiliza força de trabalho menos qualificada e também estagiários, sendo que o profissional docente se transforma em um mero contratado, não em um agente de transformação no processo educacional. A Inglaterra passou por uma reforma profunda baseada nesse tipo de parâmetro. Lá, há uma produção de currículo para a formação do professor, e a competência deste é mensurada constantemente, por meio de inspeções. Há um controle rígido desde o início da formação até os anos finais para o cumprimento de metas e o desenvolvimento de habilidades práticas, sem o questionamento crítico sobre a prática docente. Surgem nesse país as figuras do assistente de ensino e do assistente de ensino de nível superior. Eles traba- lham para apoiar o professor e podem substituí-lo nas aulas algumas vezes. Também podem supervisionar e avaliar o desempenho dos alunos. Comovocê pode notar, há um desvio e um enfraquecimento da importância da profissão do docente na sala de aula. A análise de dados estatísticos sobre os resultados do sistema educacional de cada país serve como método comparativo e instrumento para medir a competitividade entre eles. As políticas econômicas, dessa forma, mensuram o fracasso ou o sucesso escolar por meio de indicadores, com o objetivo de cobrar padrões ideais e metas. Cria-se um modelo de professor ideal, outro de aluno ideal e outro ainda de escola ideal, baseados nas performances e nas realizações que devem ser concretizadas. Quando há resultados negativos de desempenho escolar, que não atendem às expectativas para a entrada no mercado de trabalho, a cobrança se intensifica mais. O discurso da globalização prega que os professores são os responsáveis pelo fracasso escolar e que os legisladores e os governos têm mais capacidade de decidir como deve agir um professor com eficiência e eficácia, construído para uma escola “boa”. O professor é encarado como um ser que tem de seguir uma receita pronta. Ele deve se basear em parâmetros curriculares prontos, tecnologias de desempenho e atividades em sala de aula já previamente ela- boradas, com a finalidade de desenvolver resultados para cumprir as metas de alta performance exigidas pelos governos e organismos internacionais. Assim, há a homogeneização: um modelo único do que é ser professor na era da globalização. Sociologia do professor global4 A reforma do ensino implicou mudanças na formação dos professores em diversos países. Nesse sentido, uma nova postura passou a ser cobrada desses profissionais. As reformas como instrumento de regulação social e ajuste das estruturas, bem como os organismos internacionais e os governos, determinam as políticas para uma educação que tem a responsabilidade pelo desenvolvimento econômico. A formação do professor passa por três vieses: a “universitarização”/ profissionalização, isto é, os professores devem se formar em universidades, local por si só tido como detentor do saber; a ênfase na formação para a prática da sala de aula, pois o professor deve assumir a formação continuada; e a educação a distância e a pedagogia das competências. Argumenta-se que a formação anterior do professor fracassou pois era muito teórica, distante da realidade escolar. Por isso é que o desempenho escolar tem apresentado resultados insatisfatórios segundo diferentes indicadores. Na peda- gogia das competências, a escola deve ensinar competências direcionadas e de acordo com o que cobra o mundo do trabalho. A ideia é formar um trabalhador flexível e polivalente, que saiba fazer as atividades exigidas pelo mercado. Assim, não sobra espaço para a reflexão sobre a prática no espaço de trabalho. Contudo, na vida real, no cotidiano, a diferença entre o ideal e o real está presente. Os professores se veem cerceados por cobranças relativas às metas estabelecidas. Assim, o professor é direcionado a somente aplicar provas com conteúdos já determinados pelos currículos nacionais. Ele se torna um técnico, um gerente na sala de aula. Mas será que esse professor global existe de fato em todos os lugares? Ora, a profissão docente é construída por meio da história de vida, dos costumes locais, da cultura e da política de cada país, assumindo singularidades e diferenças. Em países do Hemisfério Norte, como os Estados Unidos e o Reino Unido, tem sido cada vez mais difícil recrutar professores, o que levou à política de licen- ciamento de emergência. Os baixos salários e a queda de status da profissão são fatores que explicam essa tendência. Nesses países, a docência tem se tornado uma atividade de curto prazo, sendo que há uma incoerência entre o discurso de aprender e ensinar, ou seja, entre a noção de que a educação deve ocorrer durante toda a vida e a elevada rotatividade dos professores. Já em países em desenvolvimento, há maior dificuldade para o ingresso dos professores nas escolas públicas. Isso acontece porque os salários das escolas particulares costumam ser mais atraentes. As escolas rurais também acabam enfrentando a falta de professores devido à distância em relação à cidade. Assim, tais escolas muitas vezes são deixadas em segundo plano. 5Sociologia do professor global No Brasil, as salas de aula são lotadas e há pouca valorização dos professores, se- gundo o estudo Políticas Eficazes para Professores: Compreensões do PISA, publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2018 (FERNANDES, 2018). As escolas públicas no País têm 37 alunos por sala de aula no primeiro ano do ensino médio. Além disso, o Brasil possui um dos mais altos números de alunos por professor: 22. Como você pode imaginar, esses dados influenciam significativamente a quantidade de trabalho dos docentes e a qualidade de ensino (FERNANDES, 2018). Cada país possui suas particularidades no que diz respeito ao seu sistema de ensino, aos seus parâmetros curriculares nacionais, ao ingresso e à duração das formações em cada nível de ensino. Também há distinções em relação ao status dado à função de professor e aos salários a eles direcionados. Isso costuma depender da rede de ensino (particular ou pública) e do nível escolar (ensino fundamental, médio ou universitário). Mas, afinal, há um professor global? Ora, existem os imponderáveis da vida real e é no cotidiano que os professores se constroem e podem buscar novas formas de ser, pensar, agir e significar a sua prática docente. O novo professor exigido pela sociedade global Atualmente, a educação é encarada pelo mercado como um dos principais fatores para o desenvolvimento pessoal e profi ssional. Ela é vista como meio de ascensão social e democratização das oportunidades. Continuar sempre estudando: esse é o segredo para o sucesso. Com o mercado cada vez mais competitivo, é necessário desenvolver novas habilidades e competências para ter emprego, permanecer e crescer nele. Nesse sentido, os indivíduos desenvolvem competências, habilidades e atitudes para se adequarem às necessidades do mercado de trabalho capitalista. Esse discurso, muitas vezes pregado por economistas e organizações multi- laterais — como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) —, tem como finalidade a adequação do trabalhador à produção e à reprodução do capital, sem um posicionamento crítico a respeito do modelo econômico. Sociologia do professor global6 Você deve considerar que educar para o trabalho é fundamental, visto que o ser humano necessita do trabalho para garantir a sua sobrevivência. Contudo, sem uma educação voltada para a cidadania, a formação do educando torna-se parcial. Ao se tornar instrumento do capital, a educação molda o trabalhador para a reprodução social, com base nos anseios da sociedade capitalista. É uma educação para a adequação, não para a transformação. Mas o que originou as cobranças por um novo perfil de professor na socie- dade global? A partir da década de 1970, ocorreram profundas transformações na estrutura da sociedade, principalmente no mundo laboral. O processo de trabalho sofreu grandes transformações com o desenvolvimento e a introdução de novas tecnologias e com o declínio do modelo fordista de produção, que predominara por mais de um século. Essas mudanças criaram a necessidade de um novo perfil de trabalhador. O trabalhador do século XXI deveria possuir flexibilidade, ser polivalente, aprender por conta própria, gerir sua própria carreira, ter eficiência, qualificação, competências, habilidades e sobretudo empregabilidade, isto é, conseguir se manter empregável para o mercado de trabalho. O modelo escolar que preparava o trabalhador para o padrão industrial fordista de produção foi considerado defasado, pois não atendia mais às exi- gências da nova fase do capitalismo. A escola foi forçada a se reinventar, sendoapontada como responsável pelo fracasso do ensino, pela falta de preparo dos estudantes em sua formação e pelo distanciamento entre os currículos escolares e as demandas surgidas da globalização. Os professores tornaram-se bodes expiatórios culpados pelo baixo de- sempenho dos alunos, sofrendo muitas críticas. Sua formação passou a ser questionada, tida como apegada a teorias, sem muito vínculo com a prática demandada pela sociedade global. Com a globalização, a educação foi dire- cionada às necessidades do capital. Diversos países tiveram de se adequar e reformar seus sistemas de ensino para aumentar os níveis de sucesso escolar. Surgiram novas políticas públicas de eficácia, eficiência, efetividade e flexi- bilidade para reformar as ofertas de educação no ensino público. Os construtores de políticas públicas e os legisladores defendem a ne- cessidade de um novo professor para uma nova ordem mundial, para que se alcance o progresso por meio da mudança. Existe um discurso que afirma que há a necessidade de reformas estruturais e econômicas para que os países possam competir igualmente entre si os objetivos pregados por organismos multilaterais e internacionais. Assim, como você viu, os sistemas de educação em diferentes países pas- saram por reformas. Essas reformas envolveram diversos aspectos do sistema 7Sociologia do professor global escolar: a estrutura administrativa e pedagógica das instituições, a formação de professores, o currículo escolar e o conteúdo ensinado. Isso influenciou significativamente o processo de ensino e aprendizagem. Contemporanea- mente, ocorre, então, um controle por parte dos organismos internacionais, que passam a regular os sistemas escolares, ditando suas normas de baixo para cima em alguns países, direcionando e decidindo as reformas educativas e, muitas vezes, também as políticas. Você conhece a situação da educação no Brasil? Segundo o estudo Um olhar sobre a educação, da OCDE, mais da metade dos adultos (52%) que possuem entre 25 e 64 anos não concluíram o ensino médio (BBC NEWS, 2018). As reformas no campo da educação tendem a se tornar um meio utilizado pelo Estado para manter a estrutura do sistema de acumulação capitalista. Além disso, tendem a ser uma medida para os ajustes exigidos pelos organismos internacionais aos países em desenvolvimento que possuem dívidas externas, como maneira de garantir o pagamento dessas dívidas. A partir da década de 1990, foram realizados fóruns, encontros e confe- rências com o intuito de elaborar as metas que cada nação deveria alcançar com relação à educação. Indicadores de qualidade da educação foram cons- truídos. Na Comunidade Europeia (CE), tais indicadores estão relacionados às disciplinas de português, matemática e língua estrangeira e principalmente à formação de professores. Tal formação tem a finalidade de homogeneizar o nível de educação nos países, que deveriam se tornar competitivos e eficazes em âmbito global. Como você viu até aqui, o fenômeno da globalização é amplo, de ordem mundial, e perpassa diversos aspectos da vida em sociedade. Há diferentes entendimentos sobre o que é globalização. Em síntese, ela é um processo histórico e social que tende a enfraquecer o Estado-nação na sua capacidade de tomar decisões soberanas e agir com autonomia. Com a globalização, há a internacionalização do capital, principalmente financeiro e especulativo, e a expansão dos mercados econômicos, gerando um grande fluxo de capital, assim como o aumento da circulação de mercadorias, pessoas e serviços ao redor do planeta. A economia mundial baseada no modelo neoliberal é Sociologia do professor global8 desregulamentada. Contudo, os países economicamente mais favorecidos continuam exercendo o poder econômico, político e financeiro sobre os menos desenvolvidos. O neoliberalismo surgiu nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, criado por um grupo de pensadores que elaboraram um conjunto de medidas econômicas. Essas medidas pregam a liberalização do Estado das questões sociais, tais como educação e economia, a liberação das fronteiras de taxas que dificultem as relações de comércio internacional e o controle da emissão da moeda. Além disso, defendem a modificação das leis que controlam o Estado (como as leis trabalhistas), da previdência, da propriedade intelectual, dos impostos, das empresas e instituições públicas e de sua relação com o movimento sindical. Tais medidas têm como finalidade diminuir os gastos públicos. Esse con- junto de modificações é chamado de reforma do Estado. Ela foi posta em prática nos países a partir dos anos 1970, significando a diminuição da presença do Estado em diversos aspectos: na economia, na cultura, enfim, na sociedade. A reforma diminui o papel do Estado em relação à saúde pública, ao cuidado com os aposentados, à infraestrutura — aeroportos, estradas, portos — e ao setor de educação. A solução proferida pelos defensores do neoliberalismo é a privatização dos órgãos e serviços públicos. A política neoliberal se torna uma organização da produção e da vida econômica. Com ela, o mercado dá as cartas e o Estado deixa de intervir diretamente na economia, sendo que as relações sociais ficam subordinadas às demandas do mercado. No contexto dessas políticas neoliberais, ocorre a interferência direta dos organismos internacionais nos Estados, sobretudo no campo educacional, com vistas a adequá-lo às novas demandas da globalização. Exige-se que o trabalhador seja mais qualificado para o mercado de trabalho. Com isso, os governantes buscam melhorar a estrutura do sistema educacional. Além disso, incorpora-se a tecnologia ao ensino com o uso da informática e da educação a distância para que o número de estudantes cresça significativamente. Assim, a internet se acentua como meio de acesso à informação e ao conhecimento. Constrói-se uma “nova” sociedade do saber. Tal sociedade tem como objetivo a competição em âmbito global, adaptando-se aos desejos da globalização. Nesse cenário, você deve ter em mente que a constituição do professor sempre depende do contexto, do local onde ele vive, da sua história de vida e das políticas educacionais do sistema de ensino de cada nação. As políticas neoliberais enfraquecem o Estado-nação. A política de educação, portanto, se torna subordinada à política econômica, às necessidades do capital e à competição em âmbito global. 9Sociologia do professor global O neoliberalismo retoma o liberalismo, ideologia econômica defendida por Jonh Locke (1632–1704) no século XVII. Locke foi um pensador inglês que pregava que os homens são livres e iguais entre si e que não há uma desigualdade natural. Sendo livres e iguais, possuem acesso a tudo, não devendo nada regular o acesso aos bens materiais. Tanto o trabalhador quanto os capitalistas são proprietários; o trabalhador possui a sua força de trabalho, e o capitalista, os meios de produção. Dessa forma, podem trocá-las igualmente e o Estado não deve intervir nessa troca. Alta rotatividade dos professores A rotatividade está relacionada à entrada e à saída de funcionários em uma organização. O problema da alta rotatividade de professores é tema de debate em nível internacional. A rotatividade intensa dos professores infl uencia sig- nifi cativamente o processo de ensino e aprendizagem, a qualidade do ensino, o trabalho dos docentes e, consequentemente, o nível educacional do sistema escolar em nível local, regional ou nacional. Mas quais são as causas da alta rotatividade de professores? Você certamente já ouviu frases como estas: “Futuramente, vão faltar professores” e “Hoje em dia, ninguém mais quer ser professor”. Elas são comuns hoje em dia. As condições de trabalho são um dos principais fatores para a alta rotatividade dos professores. Os baixos salários fazem com que tenham de trabalhar em diferentes turnos em diversas escolas, muitas vezes utilizando várias conduções. Trabalho longe de casa e escolas superlotadas ecom estrutura inadequada são outros elementos negativos. Além disso, falta material básico para ensinar, equipamentos e laboratórios. Muitos professores ainda precisam trocar de local de trabalho com frequência e assinar contratos temporários. Como você pode imaginar, a rotatividade intensa atrapalha o vínculo entre o professor e a turma de alunos. Além disso, provoca a defasagem de conteúdo. Os contratos temporários acabam deixando os professores inseguros quanto ao exercício da sua profissão. Eles não têm a possibilidade de elaborar planos de aulas fixos para as séries que ensinam. Se o professor lecionasse como efetivo, poderia dar continuidade ao ritmo de ensino. Naturalmente, a saída do professor no meio do ano interfere no aprendizado dos alunos. Ocorre prejuízo no projeto pedagógico, já que é preciso tempo de adequação para que Sociologia do professor global10 os conjuntos de professores se adaptem. Também pode acontecer uma quebra de confiança entre professor e aluno. No Brasil, estresse, esgotamento e sofrimento mental são fatores que contribuem para a alta rotatividade de professores. Nas escolas de periferia, que possuem alto índice de vulnerabilidade socioeconômica (gerada pela violência, seja por parte dos traficantes de drogas, seja por parte dos próprios alunos), a rotatividade de professores tende a aumentar. É preciso combater a violência escolar incentivando a participação da comunidade (pais, funcio- nários, administração, alunos) para a construção de uma escola cidadã no que diz respeito à tomada de decisões. Somente dessa forma a escola se torna um espaço democrático, em que há a construção de currículos em conjunto, partindo das vivências, culturas e políticas locais. Para saber mais sobre o tema deste capítulo, leia o artigo As políticas sociais e o neolibera- lismo: reflexões suscitadas pelas experiências latino-americanas, disponível no link a seguir. https://goo.gl/hnG2nw BBC NEWS. Mais da metade dos brasileiros não tem diploma do ensino médio, aponta OCDE. 2018. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45470956>. Acesso em: 21 out. 2018. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. 2018. Disponível em: <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/>. Acesso em: 21 out. 2018. FERNANDES, D. Salas lotadas e pouca valorização: ranking global mostra desgaste dos professores no Brasil. 2018. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/ brasil-44436608>. Acesso em: 21 out. 2018. GOMES, H. S. Brasil tem 116 milhões de pessoas conectadas à internet, diz IBGE. 2018. 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