Prévia do material em texto
27.1 O código genético 1103 27.2 Síntese proteica 1113 27.3 Endereçamento e degradação das proteínas 1139 As proteínas são os produtos finais da maioria das vias de informação. A toda hora, uma célula típica requer milhares de proteínas diferentes, as quais precisam ser sintetizadas em resposta às necessidades da célula naque- le momento, transportadas (direcionadas) para seus locais apropriados na célula e degradadas quando não mais se fi- zerem necessárias. Muitos dos componentes e mecanismos básicos utilizados pela maquinaria de síntese proteica são notavelmente bem conservados em todas as formas de vida, de bactérias a eucariotos, o que indica que esses compo- nentes e mecanismos já estavam presentes no último an- cestral comum universal de todos os organismos existentes hoje (LUCA, de last universal common ancestor). A compreensão da síntese de proteínas, o mais com- plexo processo de biossíntese, tem sido um dos maiores desafios da bioquímica. A síntese proteica em eucariotos envolve mais de 70 proteínas ribossomais diferentes; 20 ou mais enzimas para ativar os precursores de aminoácidos; uma dúzia ou mais de enzimas auxiliares e outros fatores proteicos para as etapas de iniciação, alongamento e térmi- no de polipeptídeos; talvez 100 enzimas adicionais para o processamento final das diferentes proteínas, e 40 ou mais tipos de RNAs transportadores e ribossomais. Ao todo, qua- se 300 macromoléculas diferentes cooperam para a síntese de polipeptídeos. Muitas dessas macromoléculas estão or- ganizadas dentro da complexa estrutura tridimensional do ribossomo. Para se ter uma ideia do quanto a síntese de proteínas é importante para a célula, considere os recursos celula- res destinados a esse processo. A síntese proteica chega a consumir 90% do total de energia utilizada por uma célula para reações biossintéticas. Todas as células de bactérias, arquibactérias e eucariotos contêm de algumas a milhares de cópias de diferentes proteínas e RNAs. Os 15.000 ribos- somos, 100.000 moléculas de enzimas e fatores proteicos envolvidos na síntese de proteínas e 200.000 moléculas de tRNA em uma célula bacteriana típica correspondem a mais de 35% do peso seco da célula. Apesar da grande complexidade do processo de síntese proteica, as proteínas são produzidas de forma extraordi- nariamente rápida. Um polipeptídeo de 100 resíduos de aminoácidos é sintetizado em uma célula de Escherichia coli (a 37°C) em cerca de 5 segundos. A síntese de milha- res de proteínas diferentes em uma célula é firmemente regulada, de modo que as cópias são feitas apenas em nú- meros suficientes para suprir as necessidades metabólicas daquele dado momento. Para manter a combinação e as concentrações apropriadas de proteínas, os processos de endereçamento e degradação devem estar sincronizados com o de síntese. As pesquisas estão, gradativamente, des- cobrindo a finamente coordenada coreografia celular que guia cada proteína para seu local apropriado na célula e que degrada essa proteína seletivamente quando ela não é mais necessária. O estudo da síntese de pro- teínas oferece outra recompen- sa importante: uma visão de um mundo de catalisadores de RNA que pode ter existido antes do início da vida “como a conhe- cemos”. A elucidação sobre a estrutura tridimensional dos ribossomos, que teve início no ano 2000, tem nos proporcio- nado uma visão cada vez mais detalhada dos mecanismos de síntese proteica. Também confirmou uma hipótese que havia sido levantada primeira- mente por Harry Noller duas décadas atrás: as proteínas são sintetizadas por uma gigantesca enzima formada por RNA! 27.1 O código genético Três grandes avanços estabeleceram o cenário para o nosso atual conhecimento sobre a biossíntese de proteínas. Pri- meiro, no início da década de 1950, Paul Zamecnik e co- laboradores planejaram uma série de experimentos para investigar onde as proteínas são sintetizadas na célula. Eles injetaram aminoácidos radioativos em ratos e, a intervalos diferentes de tempo após a injeção, retiraram o fígado, ho- mogeneizaram-no, fracionaram o material homogeneizado por centrifugação e examinaram a presença de proteína radioativa nas frações subcelulares. Quando se decorriam horas ou dias após a injeção dos aminoácidos marcados, to- das as frações subcelulares continham proteínas marcadas. Por outro lado, quando se deixava passar apenas alguns minutos, as proteínas marcadas apareciam somente em uma fração contendo pequenas partículas de ribonucleo- proteínas. Essas partículas, visíveis nos tecidos animais por Harry Noller 27 Metabolismo das Proteínas 1104 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX microscopia eletrônica, foram então identificadas como o local da síntese de proteínas a partir dos aminoácidos e, mais tarde, foram denominadas ribossomos (Figura 27-1). O segundo avanço-chave foi feito por Mahlon Hoagland e Zamecnik, quando eles des- cobriram que os aminoácidos eram “ativados” quando incu- bados com ATP e com a fração citosólica das células hepáticas. Os aminoácidos se ligavam a um RNA termoestável solúvel do tipo que havia sido descoberto e caracterizado por Robert Holley e mais tarde denominado RNA transportador (tRNA), para formar aminoacil-tRNA. As enzimas que catalisam esse processo são as aminoacil- -tRNA-sintases. O terceiro avanço resultou dos argumentos de Francis Crick acerca de como a informação genética codificada na linguagem de 4 letras dos ácidos nucleicos era capaz de ser traduzida na linguagem de 20 letras das proteínas. Um pe- queno ácido nucleico (talvez RNA) poderia ter o papel de um adaptador, e uma parte da molécula adaptadora ligaria um aminoácido específico, enquanto outra parte reconhe- ceria a sequência nucleotídica que codifica aquele aminoá- cido no mRNA (Figura 27-2). Essa ideia foi logo verificada. O tRNA adaptador “traduz” a sequência nucleotídica de um mRNA na sequência de aminoácidos de um polipeptídeo. O processo geral da síntese proteica dirigida por mRNA é com frequência chamado simplesmente de tradução. Esses três avanços logo levaram à identificação das três etapas principais da síntese proteica e, finalmente, à eluci- dação do código genético que especifica cada aminoácido. O código genético foi decifrado utilizando-se moldes artificiais de mRNA Por volta da década de 1960, já era evidente que pelo me- nos três resíduos de nucleotídeos no DNA eram necessários para codificar cada aminoácido. As quatro letras do código de DNA (A, T, G e C), em grupos de dois, podem gerar ape- nas 42 5 16 combinações diferentes, o que é insuficiente para codificar 20 aminoácidos. Grupos de três, no entanto, geram 43 5 64 combinações diferentes. Várias propriedades-chave do código genético foram es- tabelecidas nos primeiros estudos genéticos (Figuras 27-3 e 27-4). Um códon é um triplete de nucleotídeos que codi- fica um aminoácido específico. A tradução ocorre de forma Paul Zamecnik, 1912–2009 Citosol Lúmen do RE Ribossomos FIGURA 271 Ribossomos e retículo endoplasmático. Micrografia ele- trônica e desenho esquemático de uma porção de uma célula pancreática, mostrando os ribossomos aderidos à superfície externa (citosólica) do retícu- lo endoplasmático (RE). Os ribossomos são os numerosos pontos ao longo das camadas paralelas de membrana. GAUC Aminoácido U C G GG AUAUC mRNA HC R O2 C H3N 1 Sítio de ligação ao aminoácido Adaptador Triplete de nucleotídeos que codifica um aminoácido O FIGURA 272 A hipótese de um adaptador proposta por Crick. Hoje, sabe-se que o aminoácido está ligado covalentemente à extremidade 39 de uma molécula de tRNA e que um triplete de nucleotídeos específico em ou- tra parte do tRNA interage com um códon triplete específico do mRNA por meio de ligações de hidrogênio entre bases complementares. Código não sobreposto A U A C G A G U C 1 2 3 Código sobreposto A U A C G A G U C 1 2 3 FIGURA 273 Códigos genéticos com e sem sobreposição. Em um códigosem sobreposição, os códons (enumerados consecutivamente) não compartilham nucleotídeos. Em um código com sobreposição, alguns nucleotídeos no mRNA são compartilhados por diferentes códons. Em um código triplete com sobreposição máxima, muitos nucleotídeos, como, por exemplo, o terceiro nucleotídeo da esquerda para a direita (A), são compar- tilhados por três códons. Observe que, em um código com sobreposição, a sequência triplete do primeiro códon limita as possíveis sequências para o segundo códon. Um código sem sobreposição permite muito maior flexibi- lidade para as sequências tripletes dos códons vizinhos e, portanto, para as possíveis sequências de aminoácidos designadas pelo código. Hoje, sabe-se que o código genético utilizado por todos os sistemas vivos é sem sobre- posição. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1105 tal que esses tripletes de nucleotídeos são lidos de maneira sucessiva e sem sobreposição. Um primeiro códon específi- co na sequência estabelece a fase de leitura, na qual, a cada três resíduos de nucleotídeos, inicia-se um novo có- don. Não há interrupção entre os códons para os resíduos de aminoácidos sucessivos. A sequência de aminoácidos de uma proteína é definida por uma sequência linear de triple- tes contíguos. A princípio, qualquer sequência de DNA fita simples ou mRNA tem três fases de leitura possíveis. Cada fase de leitura apresenta uma sequência diferente de có- dons (Figura 27-5), mas apenas uma deverá codificar uma dada proteína. Ainda restava uma questão-chave: quais eram as palavras de três letras em código para cada amino- ácido? Em 1961, Marshall Ni- renberg e Heinrich Matthaei relataram a primeira grande descoberta nesse sentido. Eles incubaram poliuridilato sinté- tico, poli(U), com um extrato de E. coli, GTP, ATP e uma mistura dos 20 aminoácidos em 20 tubos diferentes, cada um contendo um dos aminoá- cidos marcado radioativamen- te. Como o mRNA poli(U) é constituído por muitos triple- tes UUU sucessivos, ele deve- ria codificar a síntese de um polipeptídeo contendo apenas o aminoácido codificado por UUU. De fato, um polipeptídeo radioativo foi formado em apenas um dos 20 tubos, aquele contendo fenilalanina ra- dioativa. Assim, Nirenberg e Matthaei concluíram que o có- don UUU codifica a fenilalanina. A mesma abordagem logo mostrou que policitidilato, poli(C), codifica um polipeptí- deo contendo apenas prolina (poliprolina), e poliadenilato, poli(A), codifica polilisina. Poliguanilato não deu origem a qualquer polipeptídeo nesse experimento porque forma, espontaneamente, tétrades (ver Figura 8-20d) que não se ligam nos ribossomos. Os polinucleotídeos sintéticos utilizados nesse experi- mento foram preparados com a polinucleotídeo-fosforilase (p. 1085), que catalisa a formação de polímeros de RNA a partir de ADP, UDP, CDP e GDP. Essa enzima, descoberta por Severo Ochoa, não necessita de molde e forma políme- ros com uma composição de bases que reflete diretamente as concentrações relativas dos precursores, os nucleosí- deos 59-difosfatos presentes no meio. Se a polinucleotídeo- -fosforilase for colocada em meio contendo apenas UDP, ela formará apenas poli(U). Se estiver presente uma mistura contendo 5 partes de ADP e uma parte de CDP, ela formará um polímero no qual cerca de cinco sextos dos resíduos são adenilato e um sexto é citidilato. Esse polímero aleatório provavelmente terá muitos tripletes com a sequência AAA, números menores de tripletes AAC, ACA e CAA, relativa- mente menos tripletes ACC, CCA e CAC, e muito poucos tripletes CCC (Tabela 27-1). Utilizando uma variedade de mRNA artificiais sintetizados pela polinucleotídeo-fosforila- se a partir de diferentes misturas de ADP, GDP, UDP e CDP, os grupos de Nirenberg e de Ochoa logo identificaram as composições de bases dos tripletes que codificam quase to- dos os aminoácidos. Apesar de esses experimentos revela- rem a composição de bases dos tripletes codificadores, eles não foram capazes de revelar a sequência das bases. CONVENÇÃOCHAVE: Grande parte da discussão que se segue trata de tRNA. O aminoácido especificado por um tRNA é indicado por um sobrescrito, como o tRNAAla, e o tRNA ami- noacilado é indicado por um nome com hífen: alanil-tRNAAla ou Ala-tRNAAla. ■ Marshall Nirenberg, 1927-2010 FIGURA 274 O código sem sobreposição em triplete. As evidências para a natureza geral do código genético vieram de muitos tipos de experi- mentos, incluindo experimentos genéticos acerca de efeitos das mutações por deleção* e por inserção. Inserir ou deletar um par de bases (mostrados aqui no transcrito de mRNA) altera a sequência de tripletes em um código sem sobreposição; todos os aminoácidos codificados pelo mRNA após a mu- dança são afetados. A combinação de mutações por inserção e por deleção afeta alguns aminoácidos, mas pode, no final, restabelecer a sequência cor- reta de aminoácidos. A adição ou remoção de três aminoácidos (não mos- trado) mantém os demais tripletes intactos, evidenciando que o códon é constituído por três, e não quatro ou cinco, nucleotídeos. Os códons tripletes sombreados em cinza são aqueles traduzidos a partir do gene original; os códons mostrados em azul são novos códons resultantes de mutações por inserção ou deleção. * N. de T. Deleção, do inglês deletion, ou deletar (do inglês delete, palavras por sua vez derivadas do latim deletum, destruir, apagar) são termos utilizados em genética e bio- logia molecular para designar a remoção de um nucleotídeo, de um aminoácido ou mesmo de um gene. Também pode ser utilizado o termo supressão. mRNA 59 Inserção Deleção G U A G C C U A C G G A U 39 G U A G C C U C A C G G A U G U A C C U A C G G A U Inserção e deleção G U A A G C C A C G G A U (1) (2) (1) (2) Fase de leitura restabelecida Fase de leitura 1 59 U U C U C G G A C C U G 39G A G A U U C A C A G U Fase de leitura 2 U U C U C G G A C C GU G G A G A U U C A C A Fase de leitura 3 U U C U C G G A C C U UG G A G A U U C A C A G U FIGURA 275 Quadros de leitura no código genético. Em um código sem sobreposição em triplete, todos os mRNA têm três fases de leitura pos- síveis, mostradas aqui em cores diferentes. Os tripletes, e consequentemente os aminoácidos codificados, são diferentes em cada fase de leitura. 1106 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX Em 1964, Nirenberg e Philip Leder chegaram a outra grande descoberta experimental. Ribossomos isolados de E. coli se ligam a um aminoacil-tRNA específico na presença do polinucleotídeo mensageiro correspondente. Por exem- plo, ribossomos incubados com poli(U) e fenilalanil-tRNAPhe (Phe-tRNAPhe) se ligam a ambos os RNAs, mas, se incubados com poli(U) e algum outro aminoacil-tRNA, o aminoacil- -tRNA não é ligado, porque não reconhece os tripletes UUU no poli(U) (Tabela 27-2). Mesmo trinucleotídeos eram capa- zes de promover a ligação específica de tRNA apropriados; portanto, esses experimentos podiam ser realizados com pequenos oligonucleotídeos sintetizados artificialmente. Com essa técnica, os pesquisadores determinaram quais aminoacil-tRNA se ligavam a 54 dos 64 códons possíveis. Para alguns códons, ou nenhum ou mais de um aminoacil- -tRNA poderiam ligar-se. Outro método era necessário para completar e confirmar o código genético inteiro. Por volta dessa época, uma abordagem complementar foi fornecida por H. Gobind Khorana, que desenvolveu mé- todos químicos para sintetizar polirribonucleotídeos com sequências repetidas de duas a quatro bases definidas. Os polipeptídeos produzidos a partir desses mRNA possuíam um ou poucos aminoácidos em padrões repetidos. Esses pa- drões, quando combinados com as informações obtidas a partir dos polímeros aleatórios utiliza- dos por Nirenberg e colabora- dores, permitiram designações não ambíguas para os códons. O copolímero (AC)n, por exemplo, tem códons alternados ACA e CAC: ACACACACACACACA. O polipeptídeo sintetizado a par- tirdesse mensageiro continha quantidades iguais de treonina e histidina. Considerando-se que um códon de histidina tem um A e dois C (Tabela 27-1), CAC deve codificar histidina e ACA treonina. A consolidação dos resultados de muitos experimentos permitiu a determinação dos aminoácidos codificados por 61 dos 64 códons possíveis. Os outros três foram identificados como códons de parada, em parte porque eles interrompiam os padrões de codificação de aminoácidos quando apareciam em um polímero sintético de RNA (Figura 27-6). Em 1966, já haviam sido estabelecidos os significados para todas as trincas de códons (organizados no quadro da Figura 27-7), as quais foram verificadas por meio de muitas maneiras dife- rentes. A decifração do código genético é tida como uma das mais importantes descobertas científicas do século XX. Os códons são a chave para a tradução da informação genética, direcionando a síntese de proteínas específicas. A fase de leitura é estabelecida quando a tradução de uma molécula de mRNA é iniciada e é mantida à medida que a maquinaria de síntese vai lendo a mensagem sequencial- mente, de um triplete para outro. Se a fase de leitura inicial estiver com uma ou duas bases desalinhadas, ou se a tra- dução, de alguma forma, pular um nucleotídeo no mRNA, todos os códons subsequentes ficarão fora de registro; o resultado, geralmente, é uma proteína “errada” com uma sequência de aminoácidos distorcida. TABELA 271 Incorporação de aminoácidos em polipeptídeos em resposta a polímeros aleatórios de RNA Aminoácido Frequência de incorporação observada (Lys 5 100) Indicação da tentativa da composição de nucleotídeos do códon correspondente* Frequência esperada de incorporação com base na atribuição (Lys 5 100) Asparagina 24 A2C 20 Glutamina 24 A2C 20 Histidina 6 AC2 4 Lisina 100 AAA 100 Prolina 7 AC2,CCC 4,8 Treonina 26 A2C, AC2 24 Nota: Aqui é apresentado um resumo dos dados de uma parte dos primeiros experimentos planejados para elucidar o código gené- tico. Um RNA sintético contendo apenas resíduos A e C em uma proporção de 5:1 direcionou a síntese de polipeptídeos, e tanto a identidade como a quantidade de aminoácidos incorporados foram determinadas. Com base nas abundâncias relativas de resíduos A e C no RNA sintético, e atribuindo ao códon AAA (o códon mais provável) a frequência de 100, deveria haver três códons diferentes com a composição A2C, cada qual com frequência relativa de 20; três com a composição AC2, cada qual com frequência relativa de 4, e CCC com frequência relativa de 0,8. A indicação de CCC foi com base na informação obtida de estudos anteriores com poli(C). Quando duas indicações tentativas são feitas, propõe-se que ambas codificam o mesmo aminoácido. *Essas indicações da composição de nucleotídeos não contêm informação sobre a sequência nucleotídica (exceto, claro, AAA e CCC). TABELA 272 Trinucleotídeos que induzem a ligação específica de aminoacil-tRNA aos ribossomos Trinucleotídeo Aumento relativo da ligação ao ribossomo de aminoacil-tRNA marcado com 14C* Phe-tRNAPhe Lys-tRNALys Pro-tRNAPro UUU 4,6 0 0 AAA 0 7,7 0 CCC 0 0 3,1 Fonte: Modificada de Nirenberg, M. & Leder, P. (1964) RNA code words and protein synthesis. Science 145, 1399. *Cada número representa o fator de aumento da quantidade de 14C ligado quan- do o trinucleotídeo indicado estava presente, em relação ao controle sem trinu- cleotídeo. H. Gobind Khorana 1922-2011 PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1107 Vários códons apresentam funções especiais (Figura 27- 7). O códon de iniciação AUG é o sinal mais comum para o início de um polipeptídeo em todas as células, além de codificar resíduos Met nas posições internas dos polipeptí- deos. Os códons de parada (UAA, UAG e UGA), também denominados códons de término ou códons sem sentido, geralmente sinalizam o fim da síntese de polipeptídeos e não codificam qualquer aminoácido conhecido. Algumas exceções a essas regras são discutidas no Quadro 27-1. Como será discutido na Seção 27.2, o início da síntese de proteínas na célula é um processo elaborado que depen- de dos códons de iniciação e outros sinais no mRNA. Em uma retrospectiva, os experimentos de Nirenberg, Khorana e outros pesquisadores para identificar a função dos códons não deveriam ter funcionado na ausência dos códons de iniciação. Casualmente, as condições experimentais per- mitiram que a síntese ocorresse sem que essas exigências normais de iniciação estivessem totalmente cumpridas. A diligência e o acaso levaram a uma importante descoberta – fato bastante comum na história da bioquímica. Em uma sequência aleatória de nucleotídeos, 1 a cada 20 códons em cada fase de leitura é, em média, um códon de parada. Geralmente, uma fase de leitura sem um có- don de parada entre 50 ou mais códons é considerada uma fase de leitura aberta (ORF, de open reading frame). Longas fases de leitura aberta geralmente correspondem a genes que codificam proteínas. Na análise de bancos de da- dos de sequências, programas sofisticados são utilizados na busca de fases de leitura aberta para encontrar genes em meio a um imenso mar de DNA não gênico. Um gene inin- terrupto que codifica uma proteína típica de peso molecular de 60.000 requereria uma fase de leitura aberta com 500 códons ou mais. Uma característica intrigante do código genético é que um aminoácido pode ser codificado por mais de um códon, de modo que o código é considerado degenerado. Isso não significa que o código seja falho: apesar de um aminoácido possuir um ou mais códons, cada códon codifica apenas um aminoácido. A degeneração do código não é uniforme. En- quanto a metionina e o triptofano têm, cada um, apenas um códon, três aminoácidos (Arg, Leu, Ser), por exemplo, têm seis códons cada, cinco aminoácidos têm quatro, a isoleu- cina tem três, e nove aminoácidos têm dois (Tabela 27-3). O código genético é quase universal. Com a exceção in- trigante de algumas pequenas variações nas mitocôndrias, em algumas bactérias e em alguns eucariotos unicelulares (Quadro 27-1), os códons dos aminoácidos são idênticos em U A A G U A A G U A A G A A AG U A UG G U A A G U A A G U A A U A A 39A G U GFase de leitura 1 59 Fase de leitura 2 A A G U A A G U A A G U A G U A AAUFase de leitura 3 G A FIGURA 276 Efeito de um códon de parada em um tetranucleotídeo repetitivo. Códons de parada (cor salmão) são encontrados em cada quarto códon em três janelas de leitura diferentes (mostradas em cores dife- rentes). Dipeptídeos ou tripeptídeos são sintetizados, dependendo de onde o ribossomo se ligar inicialmente. UUU UUC UUA UUG Phe Phe Leu Leu UCU UCC UCA UCG Ser Ser Ser Ser UAU UAC UAA UAG Tyr Tyr Parada Parada UGU UGC UGA UGG Cys Cys Parada Trp CUU CUC CUA CUG Leu Leu Leu Leu CCU CCC CCA CCG Pro Pro Pro Pro CAU CAC CAA CAG His His Gln Gln CGU CGC CGA CGG Arg Arg Arg Arg AUU AUC AUA AUG Ile Ile Ile Met ACU ACC ACA ACG Thr Thr Thr Thr AAU AAC AAA AAG Asn Asn Lys Lys AGU AGC AGA AGG Ser Ser Arg Arg GUU GUC GUA GUG Val Val Val Val GCU GCC GCA GCG Ala Ala Ala Ala GAU GAC GAA GAG Asp Asp Glu Glu Gly Gly Gly Gly GGU GGC GGA GGG U C A G U C A G Segunda letra do códon Primeira letra do códon (extremidade 59) FIGURA 277 “Dicionário” das palavras que codificam aminoácidos no mRNA. Os códons são escritos na direção 59 S 39. A terceira base de cada códon (em negrito) desempenha um papel menor na especificação do aminoácido em relação às duas primeiras. Os três códons de parada estão sombreados em cor salmão e o códon de iniciação AUG em verde. Todos os aminoácidos, com exceção da metionina e do triptofano, têm mais de um códon. Na maioria dos casos, os códons que especificam os aminoácidos diferem apenas na terceira base. TABELA 273 A degeneração do código genético Aminoácido Número de códons Aminoácido Número de códons Met 1 Tyr 2 Trp 1 Ile 3 Asn 2 Ala 4 Asp 2 Gly4 Cys 2 Pro 4 Gln 2 Thr 4 Glu 2 Val 4 His 2 Arg 6 Lys 2 Leu 6 Phe 2 Ser 6 1108 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX todas as espécies estudadas até agora. Seres humanos, E. coli, a planta do tabaco, anfíbios e vírus compartilham do mesmo código genético. Portanto, parece que todas as for- mas de vida têm um ancestral comum na escala evolutiva, cujo código genético foi preservado ao longo da evolução biológica. Até mesmo as variações reforçam esse tema. A oscilação permite que alguns tRNA reconheçam mais de um códon Quando vários códons diferentes especificam um amino- ácido, a diferença entre eles geralmente se dá na terceira base (na extremidade 39). Por exemplo, a alanina é codi- Em bioquímica, bem como em outras disciplinas, exce- ções às regras gerais podem ser problemáticas para os professores e frustrantes para os alunos. Ao mesmo tem- po, no entanto, elas nos ensinam que a vida é complexa e nos inspiram para a busca de novas surpresas. Entender as exceções pode até mesmo reforçar a regra original de maneira surpreendente. Seria de se esperar que o código genético tivesse pou- cas variações. Mesmo a substituição em um único amino- ácido pode ter profundos efeitos deletérios na estrutura de uma proteína. Ainda assim, ocorrem variações no có- digo em alguns organismos, e essas variações são interes- santes e instrutivas. Os tipos de variações e sua raridade fornecem fortes evidências de uma origem evolutiva co- mum para todos os seres vivos. Para alterar o código, as mudanças devem ocorrer no(s) gene(s) que codifica(m) um ou mais tRNAs, sendo o anticó- don o alvo mais óbvio para a alteração. Tal mudança levaria a uma inserção sistemática de um aminoácido em um códon que, de acordo com o código padrão (ver Figura 27-7), não é específico para aquele aminoácido. O código genético, na verdade, é definido por dois elementos: (1) os anticódons nos tRNAs (que determinam onde um aminoácido é inse- rido em uma cadeia polipeptídica em crescimento) e (2) a especificidade das enzimas – as aminoacil-tRNA-sintases – que carregam aminoácidos nos tRNAs, assim determinando a identidade do aminoácido ligado a um determinado tRNA. A maioria das mudanças repentinas no código teria efeitos catastróficos nas proteínas celulares; portanto, é mais provável que alterações no código persistiram onde relativamente poucas proteínas seriam afetadas – como em genomas pequenos que codificam poucas proteínas. As consequências biológicas de uma mudança no código poderiam também ser reduzidas restringindo-se as mu- danças aos três códons de parada, os quais geralmente não ocorrem dentro de genes (ver Quadro 27-4 para as exceções a essa regra). Esse padrão é de fato observado. Das pouquíssimas variações conhecidas no código ge- nético, a maioria ocorre no DNA mitocondrial (mtDNA), o qual codifica apenas 10 ou 20 proteínas. As mitocôn- drias têm seus próprios tRNAs; portanto, as variações no seu código não afetam o genoma celular, que é mui- to maior. As mudanças mais comuns nas mitocôndrias envolvem códons de parada. Essas mudanças afetam a terminação nos produtos de apenas um grupo de genes, e às vezes os efeitos são mínimos, porque os genes têm códons de parada múltiplos (redundantes). O mtDNA de vertebrados tem genes que codificam 13 proteínas, 2 rRNAs e 22 tRNAs (ver Figura 19-40a). O pequeno número de alteração nos códons, aliado a um conjunto incomum de regras de oscilação (p. 1110), faz os 22 tRNAs serem suficientes para decodificar os genes que carregam a mensagem para a síntese das 13 proteínas, enquanto no código padrão são necessários 32 tRNAs. Nas mitocôndrias, essas mudanças podem ser vistas como uma aerodinâmica genômica, pois um genoma menor con- fere uma vantagem na replicação para a organela. Quatro famílias de códons (nas quais o aminoácido é determinado pelos dois primeiros nucleotídeos) são decodificadas por um único tRNA com um resíduo U na primeira posição (oscilante) no anticódon. Ou o U pareia, de alguma forma, com qualquer uma das quatro possíveis bases na tercei- ra posição do códon, ou um mecanismo do tipo “dois de três” é utilizado – ou seja, não é necessário o pareamento de bases na terceira posição. Outros tRNAs reconhecem códons com A ou G na terceira posição, e outros, ainda, reconhecem U ou C, de modo que praticamente todos os tRNAs reconhecem dois ou quatro códons. No código padrão, apenas dois aminoácidos são es- pecificados por um único códon: metionina e triptofano (ver Tabela 27-3). Se todos os tRNAs mitocondriais re- conhecem dois códons, seria de se esperar códons adi- cionais para Met e Trp nas mitocôndrias. E foi verificado que a variação de códon mais comum está no códon de parada UGA que especifica o triptofano. O tRNATrp reco- nhece e insere um resíduo Trp tanto para o códon UGA como para o códon normal do Trp, UGG. A segunda va- riação mais comum é a conversão de AUA, de um códon que codifica Ile, para um códon que codifica Met; o có- don normal para Met é AUG, e um único tRNA reconhece ambos os códons. As variações de código conhecidas nas mitocôndrias estão resumidas na Tabela Q-1. Considerando as mudanças bem mais raras que ocor- rem nos códigos de genomas celulares (para diferenciar dos mitocondriais), constatou-se que a única variação em uma bactéria é, novamente, o uso de UGA para codificar resíduos Trp, o que ocorre no organismo unicelular de vida livre mais simples, o Mycoplasma capricolum. Entre os eucariotos, raras mudanças de código extramitocondriais são observadas em algumas espécies de protistas ciliados, em que ambos os códons de parada UAA e UAG podem especificar a glutamina. Também existem casos raros e in- teressantes nos quais códons de parada foram adaptados para codificar aminoácidos que não estão entre os 20 ami- noácidos-padrão, como detalhado no Quadro 27-3. As mudanças no código não precisam ser absolutas; um códon nem sempre codifica um mesmo aminoácido. Por exemplo, em muitas bactérias – incluindo E. coli –, GUG (Val) é, às vezes, utilizado como códon de iniciação que especifica Met. Isso ocorre apenas para aqueles genes QUADRO 271 Exceções que provam a regra: variações naturais no código genético PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1109 ficada pelos tripletes GCU, GCC, GCA e GCG. Os códons para a maioria dos aminoácidos podem ser simbolizados por XYAG ou XY U C. As duas primeiras letras de cada códon são os determinantes primários da especificidade, uma característica que apresenta algumas consequências in- teressantes. Os RNAs transportadores pareiam com códons do mRNA em uma sequência de três bases no tRNA denomi- nada anticódon. A primeira base do códon no mRNA (lido na direção 59S39) pareia com a terceira base do anticódon (Figura 27-8a). Se o triplete do anticódon de um tRNA reconhecesse apenas um triplete de códon no pareamento em que a sequência GUG está apropriadamente localizada em relação a sequências específicas de mRNA que afetam o início da tradução (como discutido na Seção 27.2). A alteração mais surpreendente do código genético é observada em algumas espécies de fungos do gênero Can- dida, como descoberto originalmente em Candida albi- cans. C. albicans é um organismo com alta complexidade genômica, e ainda assim o seu código genético sofreu uma mudança significativa: o códon CUG, que normalmente co- difica Leu, codifica Ser nesse organismo. A pressão de se- leção natural sobre essa mudança é completamente desco- nhecida. Além disso, a natureza química de Ser e Leu são bastante diferentes. Entretanto, até mesmo essa mudança pode ser compreendida com base nas propriedades de um código universal. Quando vários códons codificam um mes- mo aminoácido e faz uso de múltiplos tRNAs, nem todos os códons são utilizados com a mesma frequência. Em um fenômeno denominado viés de códon, alguns códons que codificam um aminoácido específico são utilizados mais fre- quentemente (àsvezes muito mais frequentemente) do que outros. Os tRNAs para os códons mais utilizados estão pre- sentes geralmente em maior concentração do que os tRNAs para códons menos usados. A degeneração de códons leva à existência de seis códons para Leu. Nas bactérias, CUG é usado frequentemente para codificar Leu. No entanto, em fungos de gêneros muito próximos a Candida, mas que não têm a alteração no código, o códon CUG é usado raramente para codificar Leu e geralmente está ausente em proteínas que são altamente expressas. Uma mudança no sentido da codificação do CUG teria, assim, um efeito muito menor no metabolismo celular de fungos do que se todos os códons fossem usados com a mesma frequência. A mudança no có- digo pode ter ocorrido a partir de uma perda gradual dos códons CUG em genes e do tRNA que reconhece CUG como um códon de Leu, seguido por um evento de captura – uma mutação no anticódon de um tRNAser que permitiu que este reconhecesse CUG. Alternativamente, pode ter havido um estágio intermediário no qual CUG fosse reconhecido como códon codificador tanto Leu como Ser, talvez com sinais es- pecíficos nos mRNAs que ajudassem um tRNA ou outro a reconhecerem códons CUG específicos (ver Quadro 27-3). A análise filogenética indica que a redefinição de CUG como um códon de Ser ocorreu nos ancestrais de Candida há cerca de 150 a 170 milhões de anos. Essas variações nos mostram que o código não é tão universal como outrora se acreditava, mas que sua flexibili- dade é rigorosamente restringida. As variações são, obvia- mente, derivadas do código normal, e nunca se encontrou qualquer exemplo de um código totalmente diferente. O limite de variações no código fortalece o princípio de que todas as formas de vida deste planeta evoluíram com base em um único (levemente flexível) código genético. TABELA Q1 Variações do código conhecidas em mitocôndrias Códons* UGA AUA AGA AGG CUN CGG Códon normal Término Ile Arg Leu Arg Animais Vertebrados Drosophila Trp Trp Met Met Parada Ser 1 1 1 1 Leveduras Saccharomyces cerevisiae Torulopsis glabrata Schizosaccharomyces pombe Trp Trp Trp Met Met 1 1 1 1 Thr Thr 1 1 ? 1 Fungos filamentosos Trp 1 1 1 1 Tripanossomas Trp 1 1 1 1 Plantas superiores 1 1 1 1 Trp Chlamydomonas reinhardtii ? 1 1 1 ? *N indica qualquer nucleotídeo; 1, o códon apresenta o mesmo significado que no código normal; ?, o códon não é observado nesse genoma mitocondrial. 1110 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX de bases de Watson-Crick, em todas as três posições, as células teriam um tRNA para cada códon de aminoácido. Entretanto, esse não é o caso, pois os anticódons em alguns tRNA incluem o nucleotídeo inosinato (designado como I), o qual contém uma base incomum, a hipoxantina (ver Fi- gura 8-5b). O inosinato pode formar ligações de hidrogênio com três nucleotídeos diferentes (U, C e A; Figura 27-8b), embora esses pareamentos sejam muito mais fracos do que as ligações de hidrogênio do pareamento de bases G‚C e A“U de Watson-Crick. Em leveduras, um tRNAArg tem o an- ticódon (59)ICG, o qual reconhece três códons de arginina: (59)CGA, (59)CGU e (59)CGC. As duas primeiras bases são idênticas (CG) e formam pares de bases de Watson-Crick fortes com as bases correspondentes do anticódon, mas a terceira base (A, U ou C) forma ligações de hidrogênio mais fracas com o resíduo I na primeira posição do anticódon. A análise desse e de outros pareamentos códon-anticó- don levou Crick a concluir que a terceira base da maioria dos códons pareia de maneira mais frouxa com a base cor- respondente do anticódon; a terceira base desses códons (e a primeira base dos seus anticódons correspondentes) “os- cila”. Crick propôs uma série de quatro relações, chamada de a hipótese da oscilação: 1. As duas primeiras bases de um códon no mRNA sempre estabelecem pareamentos fortes de bases do tipo Watson-Crick com as bases corresponden- tes no anticódon do tRNA e conferem a maior parte da especificidade do código. 2. A primeira base do anticódon (lendo na direção 59S39; essa base pareia com a terceira base do có- don) determina o número de códons reconhecidos pelo tRNA. Quando a primeira base do anticódon é C ou A, o pareamento de bases é específico, e apenas um códon é reconhecido por aquele tRNA. Quando a primeira base é U ou G, a ligação é me- nos específica, e dois códons diferentes podem ser lidos. Quando inosina (I) é o primeiro nucleotídeo (oscilante) de um anticódon, três códons diferen- tes podem ser reconhecidos – o número máximo para qualquer tRNA. Essas relações estão resumi- das na Tabela 27-4. 3. Quando um aminoácido é especificado por diver- sos códons diferentes, os códons que diferem em uma das duas primeiras bases requerem tRNAs di- ferentes. 4. Um mínimo de 32 tRNAs são necessários para tra- duzir todos os 61 códons (31 para codificar os ami- noácidos e 1 para o início da tradução). A base oscilante (ou terceira base) do códon contribui para a especificidade, mas, como ela pareia de forma frou- xa com sua base correspondente no anticódon, ela permite uma dissociação rápida entre o tRNA e seu códon durante a síntese proteica. Se todas as três bases de um códon se envolvessem em fortes pareamentos Watson-Crick com as três bases do anticódon, os tRNAs se dissociariam muito lentamente, e isso limitaria a velocidade da síntese protei- ca. As interações códon-anticódon permitem um equilíbrio entre acuidade e velocidade. O código genético é resistente a mutações O código genético exerce um papel interessante de pro- teger a integridade genômica de todo o organismo vivo. A CUAmRNA 59 tRNA 321 Códon GAU 123 Anticódon 39 59 39 Anticódon (3 9) (5 9) Códon (5 9) (3 9) 3 2 1 G – C – I C – G – C 1 2 3 3 2 1 G – C – I C –G – U 1 2 3 3 2 1 G – C – I C – G – A 1 2 3 (b) (a) FIGURA 278 Pareamento entre códon e anticódon. (a) O alinhamen- to entre os dois RNAs é antiparalelo. O tRNA está mostrado na configuração tradicional de folha-de-trevo. (b) Três pareamentos diferentes com o códon são possíveis quando o anticódon do tRNA contém inosinato. TABELA 274 Como a base oscilante do anticódon determina o número de códons que um tRNA pode reconhecer 1. Um códon reconhecido: Anticódon Códon 2. Dois códons reconhecidos: Anticódon Códon 3. Três códons reconhecidos: Anticódon Códon Nota: X e Y são bases complementares capazes de parear fortemente segundo o pareamento de Watson-Crick com X9 e Y9, respectivamente. As bases oscilantes – na posição 39 dos códons e 59 dos anticódons – estão sombreadas em branco. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1111 evolução não produziu um código no qual a especificidade de cada códon tivesse surgido ao acaso. Em vez disso, o código é extremamente resistente aos efeitos deletérios dos tipos mais comuns de mutações – as mutações sem senti- do ou missense, nas quais um novo par de bases substitui outro. Na terceira posição do códon, que é a base oscilante, substituições de uma única base causam uma mudança no aminoácido codificado apenas em 25% dos casos. Portanto, a maioria dessas alterações consiste em mutações silen- ciosas, nas quais o nucleotídeo é diferente, mas o aminoá- cido codificado permanece o mesmo. Devido aos tipos de danos espontâneos no DNA que afe- tam os genomas (ver Capítulo 8), a mutação sem sentido mais frequente é a mutação de transição, em que uma purina é substituída por uma purina, ou uma pirimidina por uma pirimidina (p. ex., G‚C substituído por A“T). Todas as três posições de um códon evoluíram de forma que exis- te certa resistência a mutações de transição. Uma mutação na primeira posição do códon normalmente resultará em uma mudança na codificação do aminoácido, mas tal mu- dança geralmente envolve um aminoácido com proprieda- des químicas semelhantes. Isso é fato, especialmente para aminoácidos hidrofóbicos que predominam na primeira co- luna do código mostrado naFigura 27-7. Considere o códon GUU para Val. Uma alteração para AUU substituiria Val por Ile. Uma alteração para CUU substituiria Val com Leu. As mudanças resultantes na estrutura e/ou função da proteína codificada por aquele gene seriam geralmente (mas nem sempre) pequenas. Estudos computacionais mostraram que códigos gené- ticos delineados ao acaso são quase sempre menos resis- tentes a mutações do que o código genético existente. Os resultados indicam que o código passou por uma simplifi- cação considerável antes do surgimento de LUCA, a célula ancestral. O código genético nos mostra como a informação para a síntese proteica é armazenada nos ácidos nucleicos e forne- ce algumas pistas de como essa informação é traduzida em uma proteína. Mudança na fase da tradução e edição do RNA afetam a maneira como o código é lido Uma vez estabelecido o quadro de leitura durante a síntese proteica, os códons são traduzidos sem haver sobreposição ou parada até que o complexo ribossomal encontre um có- don de terminação. Os outros dois quadros de leitura possí- veis geralmente não contêm informação genética útil, mas uns poucos genes são estruturados de forma que os ribosso- mos “soluçam” em um determinado ponto durante a tradu- ção dos respectivos mRNAs, mudando o quadro de leitura daquele ponto em diante. Esse parece ser um mecanismo para permitir que duas ou mais proteínas relacionadas, po- rém diferentes, possam ser produzidas a partir de um único transcrito, ou para regular a síntese de uma proteína. Um dos exemplos mais bem documentados de mudança de fase de tradução ocorre durante a tradução do mRNA dos genes sobrepostos gag e pol do vírus do sarcoma de Rous (ver Figura 26-34). A fase de leitura para pol é deslo- cado para a esquerda em um par de bases (fase de leitura –1) em relação à fase de leitura para gag (Figura 27-9). O produto do gene pol (a transcritase reversa) é tra- duzido como uma poliproteína grande, a partir do mesmo mRNA que é usado para a proteína gag sozinha (ver Figura 26-33). A poliproteína, ou proteína gag-pol, é então clivada por digestão proteolítica para originar a transcriptase re- versa madura. A produção da poliproteína requer uma mu- dança de quadro de leitura durante a tradução na região de sobreposição para permitir que o ribossomo contorne o códon de parada UAG no final do gene gag (sombreado em vermelho-claro na Figura 27-9). Mudanças de fase de leitura ocorrem em cerca de 5% das traduções desse mRNA, de modo que a poliproteína gag-pol (e, depois, a transcriptase reversa) é sintetizada com uma frequência que corresponde a cerca de um vigé- simo daquela da proteína gag, um nível suficiente para a reprodução eficiente do vírus. Em alguns retrovírus, outra mudança de fase de leitura permite a tradução de uma poli- proteína ainda maior, que inclui o produto do gene env fun- dido aos produtos dos genes gag e pol (ver Figura 26-33). Um mecanismo semelhante produz ambas as subunidades t e g da DNA-polimerase III de E. coli a partir de um único transcrito do gene dnaX (ver a Tabela 25-2). Alguns mRNAs são editados antes da tradução. A edi- ção do RNA pode envolver a adição, deleção ou alteração de nucleotídeos no RNA de maneira a afetar o significado do transcrito quando esse é traduzido. Adição ou deleção de nucleotídeos tem sido mais comumente observada em RNAs provenientes dos genomas de mitocôndrias e cloro- plastos de eucariotos. A reação requer uma classe especial de moléculas de RNA codificadas por essas mesmas organe- las, com sequências complementares aos mRNAs a serem editados. Esses RNA-guias (RNAg; Figura 27-10) agem como moldes para o processo de edição. Os transcritos iniciais dos genes que codificam a subuni- dade II da citocromo-oxidase nas mitocôndrias de alguns protistas fornecem um exemplo de edição por inserção. Es- ses transcritos não correspondem precisamente às sequên- cias necessárias na extremidade carboxil do produto protei- co. Um processo de edição pós-transcricional insere quatro Fase de leitura para a proteína gag C U A G G G C U C C G C U U G A C A A A U U U A U A G G G A C U A G G G C U C C G C U U G A C A A A U U U A U A G G G A G Ile Gly Arg Ala G G C Fase de leitura para a pol G G G C C A Leu Gly Leu Arg Leu Thr Asn Leu C A Parada 59 39 FIGURA 279 Mudança de fase de leitura para a tradução em um transcrito de retrovírus. Na figura, é mostrada a região de sobreposição gag-pol no RNA do vírus do sarcoma de Rous. 1112 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX resíduos U que alteram a fase de leitura do transcrito. A Figura 27-10 mostra os resíduos U adicionados na pequena porção do transcrito que é afetada pela edição. Observe que o pareamento de bases entre o transcrito inicial e o RNA- -guia envolve alguns pares de base G5U (pontos azuis), os quais são comuns em moléculas de RNA. A edição de RNA por alteração de nucleotídeos envolve, na maioria das vezes, a desaminação enzimática de resíduos de adenosina ou de citidina, formando inosina ou uridina, respectivamente (Figura 27-11), mas outras alterações de base já foram também descritas. A inosina é interpre- tada como um resíduo G durante a tradução. As reações de desaminação da adenosina são realizadas por adenosina- -desaminases que agem sobre o RNA (ADAR). As desami- nações da citidina são realizadas por uma família de enzi- mas formada pelos peptídeos apoB catalíticos de edição de mRNA (APOBEC, de apoB peptídeos editores catalíticos do mRNA), a qual inclui enzimas relacionadas, as desami- nases induzidas por ativação (AID, de activation-induced deaminase). Ambos os grupos de enzimas desaminases têm um domínio catalítico homólogo, o qual contém zinco. Um exemplo bem estudado de edição do RNA por de- saminação ocorre no gene da apolipoproteína B, compo- nente da lipoproteína de baixa densidade de vertebrados. Uma forma de apolipoproteína B, a apoB-100 (Mr 513.000), é sintetizada no fígado; uma outra forma, a apoB-48 (Mr 250.000), é sintetizada no intestino. Ambas são codifica- das por um mRNA produzido a partir do gene da apoB-100. FIGURA 2710 Edição do RNA do transcrito do gene da subunidade II da citocromo-oxidase das mitocôn- drias de Trypanosoma brucei. (a) In- serção de quatro resíduos U (cor-de-rosa) produz um quadro de leitura revisada. (b) Uma classe especial de RNA-guias, com- plementares ao produto editado, agem como molde para o processo de edição. Observe a presença de dois pares de ba- ses G“U, indicados por um ponto azul para representar que o pareamento não é do tipo Watson-Crick. A A A G T A G A G A A C C T G G T A Glu Asn Leu ValLys Val A A A G U A G A U U G U A U A C C U Asp Cys Ile ProLys Val G G Gly (a) U Fita codificadora do DNA mRNA editado A A A G U A G A U U G U A U A C C U G U G U U A U A U C U A A U A U A U G G A U U A mRNA RNA-guia (b) 59 59 39 39 59 39 Citidina NH2 N N O H H H H OHO O Uridina O N NH O H H H H OHO O Adenosina O H H H H OHO N N N NH2 N N N Inosina O N NH OOCH2 H H H H OHO OCH2 OCH2 OCH2 (b) (a) H2O H2O NH3 NH3 H2O H2O NH3 NH3 FIGURA 2711 Reações de desaminação que resultam em edição do RNA. (a) A conversão de nucleotídeos de adenosina em nucleotídeos de inosina é catalisada por enzimas ADAR. (b) Conversões de citidina em uridina são catalisadas pelas enzimas da família APOBEC. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1113 Uma citidina-desaminase APOBEC, encontrada apenas no intestino, liga-se ao mRNA no códon 2.153 (CAA, corres- pondente ao resíduo de aminoácido Gln) e converte o C para um U, originando o códon de parada UAA. A apoB-48 produzida no intestino a partir desse mRNA modificado é simplesmente uma forma abreviada (correspondente à me- tade aminoterminal) da apoB-100 (Figura 27-12). Essa reação permite a síntese tecido-específica de duas proteí- nas diferentes a partir de um gene. A edição de A para I realizada pela ADAR é particular-mente comum em transcritos derivados de genes de pri- matas. É possível que 90% ou mais dessa edição ocorra em elementos Alu, um subgrupo de transposons eucarióticos denominados elementos curtos dispersos (SINE) que são particularmente comuns em genomas de mamíferos. Exis- tem mais de um milhão de elementos Alu de 300 pb no DNA humano, constituindo cerca de 10% do genoma. Esses es- tão concentrados próximos a genes codificadores de proteí- nas, geralmente aparecendo em íntrons e em regiões não traduzidas nas extremidades 39 e 59 dos transcritos. Quan- do recém-sintetizado (antes do processamento), o mRNA humano inclui, em média, de 10 a 20 elementos Alu. As en- zimas ADAR se ligam e realizam a edição de A para I apenas em regiões de fita dupla do RNA. A abundância de elemen- tos Alu oferece muitas oportunidades para pareamentos de bases intramoleculares nos transcritos, fornecendo as fitas duplas necessárias para as ADAR. Algumas edições afetam as sequências codificadoras dos genes. Defeitos na função ADAR têm sido associados a várias condições neurológicas em humanos, incluindo esclerose lateral amiotrófica (ELA), epilepsia e depressão maior. Os genomas dos vertebrados são repletos de SINE, mas muitos tipos diferentes de SINE estão presentes na maioria desses organismos. Os elementos Alu predominam apenas nos primatas. Uma análise cuidadosa de genes e de trans- critos indica que a edição de A para I é de 30 a 40 vezes mais prevalente em humanos do que em camundongos, em grande parte em virtude da presença de muitos elemen- tos Alu. A edição de A para I em grande escala e um nível aumentado de splicing alternativo (ver Figura 26-21) são duas características que separam os genomas de primatas daqueles de outros mamíferos. Ainda não está claro se es- sas reações são incidentes ou se elas tiveram papéis-chave na evolução dos primatas e, posteriormente, dos humanos. RESUMO 27.1 O código genético c A sequência específica de aminoácidos de uma proteína é construída ao longo da tradução da informação contida no mRNA. Esse processo é realizado pelos ribossomos. c Os aminoácidos são especificados pelos códons do mRNA, os quais consistem em tripletes (trincas) de nu- cleotídeos. A tradução requer moléculas adaptadoras, os tRNAs, que reconhecem os códons e inserem os aminoá- cidos de maneira sequencial apropriada no polipeptídeo. c As sequências das bases dos códons foram deduzidas a partir de experimentos empregando mRNAs sintéticos de composição e sequência conhecidas. c O códon AUG sinaliza o início da tradução. Os tripletes UAA, UAG e UGA sinalizam a terminação. c O código genético é degenerado: ele tem múltiplos có- dons para a maioria dos aminoácidos. c O código genético padrão é universal em todas as es- pécies, apresentando pequenas alterações nas mitocôn- drias e em alguns organismos unicelulares. As variações ocorrem em padrões que reforçam o conceito de um código universal. c A terceira posição em cada códon é bem menos específica do que a primeira e a segunda, e é chamada de oscilante. c O código genético é resistente aos efeitos das mutações sem sentido. c A mudança de fase de leitura da tradução e a edição do RNA afetam a maneira como o código genético é lido durante a tradução. 27.2 Síntese proteica Como foi visto para o DNA e o RNA (Capítulos 25 e 26), a síntese de biomoléculas poliméricas pode ser considera- da como consistindo nos estágios de início (ou iniciação), alongamento e término (ou terminação). Geralmente, esses processos fundamentais são acompanhados por dois está- gios adicionais: a ativação de precursores, anterior à sínte- se, e o processamento pós-sintético do polímero completo. A síntese de proteínas segue o mesmo padrão. A ativação dos aminoácidos antes da sua incorporação nos polipeptí- deos e o processamento pós-traducional do polipeptídeo completo desempenham papéis especialmente importantes em garantir tanto a fidelidade da síntese quanto a função adequada do produto proteico. O processo está esquemati- zado na Figura 27-13. Os componentes celulares envolvi- dos nos cinco estágios da síntese proteica em E. coli e em outras bactérias estão listados na Tabela 27-5; os requeri- mentos nas células eucarióticas são bastante semelhantes, mas em alguns casos o número de componentes envolvidos é maior. Um panorama inicial dos estágios da síntese protei- ca fornece um esboço útil para a discussão que segue. C A A C A G A C A U A U A U G C A A Gln Número do resíduo U U U G A U C A G U A U Leu Gln Thr Tyr Met Gln Phe Asp Gln Tyr C U G C A A C A G A C A U A U A U G A U A Gln U A A G A U C A G U A U Leu Gln Thr Tyr Met Ile Parada C U G 2.146 2.148 2.150 2.152 2.154 2.156 Intestino humano (apoB-48) U U U A U A Ile Fígado humano (apoB-100) 3959 FIGURA 2712 Edição do RNA do transcrito do gene do componente apoB-100 da LDL. A desaminação, que ocorre apenas no intestino, con- verte uma citidina específica em uridina, trocando um códon para a Gln em um códon de parada, produzindo uma proteína truncada. 1114 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX A biossíntese de proteínas ocorre em cinco estágios Estágio 1: Ativação de aminoácidos Para a síntese de um poli- peptídeo de sequência definida, dois requerimentos quími- cos fundamentais devem ser alcançados: (1) o grupamento carboxil de cada aminoácido deve ser ativado para facilitar a formação da ligação peptídica, e (2) um elo deve ser es- tabelecido entre cada novo aminoácido e a informação con- tida no mRNA que o codifica. Ambos os requerimentos são cumpridos ligando-se o aminoácido a um tRNA no primeiro estágio da síntese proteica. A ligação do aminoácido certo ao tRNA certo é fundamental nesse processo. Essa reação ocorre no citosol, e não no ribossomo. Cada um dos 20 ami- noácidos é covalentemente ligado a um tRNA específico, às custas da energia do ATP, utilizando enzimas ativadoras dependentes de Mg21, conhecidas como aminoacil-tRNA- -sintases. Quando ligados aos seus aminoácidos (aminoaci- lados), os tRNAs são considerados “carregados”. Estágio 2: Iniciação O mRNA contendo o código para a síntese do polipeptídeo se liga à subunidade menor do ri- bossomo e ao aminoacil-tRNA iniciador. A subunidade ri- bossomal maior se liga então para formar um complexo de iniciação. O aminoacil-tRNA iniciador estabelece um pa- reamento de bases com o códon AUG do mRNA, que sina- liza o começo do polipeptídeo. Esse processo, que requer GTP, é promovido por proteínas citosólicas denominadas fatores de iniciação. Estágio 3: Alongamento O polipeptídeo nascente é alonga- do pela adição de unidades sucessivas de aminoácidos, as quais são ligadas covalentemente após serem levadas até o ribossomo e posicionadas corretamente pelo respectivo tRNA, o qual, por sua vez, realiza um pareamento de bases com o códon correspondente no mRNA. O alongamento re- quer proteínas citosólicas conhecidas como fatores de alon- gamento. A ligação de cada aminoacil-tRNA que entra e o movimento do ribossomo ao longo do mRNA são facilitados pela hidrólise de GTP à medida que cada resíduo é adicio- nado ao polipeptídeo nascente. Estágio 4: Terminação e reciclagem do ribossomo A conclusão da cadeia polipeptídica é sinalizada por um códon de parada no mRNA. O novo polipeptídeo é liberado do ribossomo, au- xiliado por proteínas denominadas fatores de liberação, e o ribossomo é reciclado para um novo ciclo de síntese. Estágio 5: Enovelamento e processamento pós-traducional Para que possa atingir sua forma biologicamente ativa, o novo mRNA Início Término Aminoacil-tRNA Subunidade menor Subunidade maior Aivação de aminoácidos: o tRNA é aminoacilado. Parada: a tradução acaba quando um códon de parada é encontrado. O mRNA e a proteína dissociam-se e as subunidades do ribossomo são recicladas. Enovelamento da proteína Iniciação: o mRNA e o tRNA aminoacilado ligam-se à subunidade menor do ribossomo. Depois, a subunidade maior também se liga. Alongamento:ciclos sucessivos de ligação de aminoacil-tRNA e formação da ligação peptídica ocorrem até o ribossomo atingir um códon de parada. ❶ ➎ ❺ ❷ ❸ 39 59 FIGURA 2713 Visão geral dos cinco estágios da síntese proteica. ➊ Os tRNAs são aminoacilados. ➋ O início da tradução ocorre quando um mRNA e um tRNA aminoacilado ligam-se ao ribossomo. ➌ Durante o alon- gamento, o ribossomo se move ao longo do mRNA, combinando os tRNAs com cada códon e catalisando a formação da ligação peptídica. ➍ A tradu- ção termina em um códon de parada, e as subunidades ribossomais são liberadas e recicladas para um novo ciclo de síntese proteica. ➎ Após ser sintetizada, a proteína precisa ser dobrada para atingir sua conformação ativa e os componentes ribossomais são reciclados. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1115 polipeptídeo precisa dobrar-se em sua conformação tri- dimensional apropriada. Antes ou depois de dobrar-se, o novo polipeptídeo pode sofrer processamento enzimático, incluindo remoção de um ou mais aminoácidos (geralmen- te da extremidade aminoterminal); adição de grupamentos acetil, fosforil, metil, carboxil, ou outros grupos a certos re- síduos de aminoácidos; clivagem proteolítica, e/ou ligação de oligossacarídeos ou grupos prostéticos. Antes de se considerar detalhadamente esses cinco es- tágios, é preciso examinar dois componentes-chave na bios- síntese de proteínas: os ribossomos e os tRNAs. O ribossomo é uma complexa máquina supramolecular Cada célula de E. coli contém 15.000 ribossomos ou mais, o que compreende quase um quarto do peso seco da cé- lula. Os ribossomos bacterianos contêm cerca de 65% de rRNA e 35% de proteína; eles têm um diâmetro de aproximadamente 18 nm e são compostos de duas subu- nidades diferentes, com coeficientes de sedimentação de 30S e 50S e um coeficiente de sedimentação combinado de 70S. Ambas as subunidades têm dúzias de proteínas ribossomais e pelo menos uma molécula grande de rRNA (Tabela 27-6). Após a descoberta de Za- mecnik de que os ribossomos são os complexos responsá- veis pela síntese de proteínas e após a elucidação do códi- go genético, o estudo dos ri- bossomos acelerou. No final da década de 1960, Masaya- su Nomura e colaboradores demonstraram que as duas subunidades ribossomais po- dem ser separadas em RNA e proteínas que as compõem e, depois, reconstituídas in vitro. Sob condições experi- mentais apropriadas, o RNA e as proteínas se reorganizam espontaneamente para formar as subunidades 30S e 50S, quase que de forma idêntica, em estrutura e atividade, às subunidades nati- vas. Essa importante descoberta incentivou décadas de pesquisa acerca da estrutura e da função das proteínas e dos RNAs ribossomais. Ao mesmo tempo, métodos estru- turais cada vez mais sofisticados revelaram mais e mais detalhes da estrutura dos ribossomos. TABELA 275 Componentes necessários para os cinco principais estágios da síntese de proteínas em E. coli Estágio Componentes essenciais 1. Ativação de aminoácidos 20 aminoácidos 20 aminoacil-tRNA-sintases 32 ou mais tRNAs ATP Mg21 2. Iniciação mRNA N-Formilmetionil-tRNAfMet Códon de iniciação no mRNA (AUG) Subunidade ribossomal 30S Subunidade ribossomal 50S Fatores de iniciação (IF-1, IF-2, IF-3) GTP Mg21 3. Alongamento Ribossomo 70S funcional (complexo de iniciação) Aminoacil-tRNAs especificados pelos códons Fatores de alongamento (EF-Tu, EF-Ts, EF-G) GTP Mg21 4. Terminação e reciclagem dos ribossomos Códon de parada no mRNA Fatores de liberação (RF-1, RF-2, RF-3, RRF) EF-G IF-3 5. Enovelamento e processamento pós-traducional Chaperonas e enzimas envolvidas no enovelamen- to de proteínas (PPI, PDI); componentes para remoção de resíduos iniciadores e sequências si- nalizadoras, processamento proteolítico adicional, modificação de resíduos terminais e ligação de grupos acetil, fosforil, metil, carboxil, de carboi- dratos e grupos prostéticos Masayasu Nomura, 1927-2011 1116 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX Com a chegada do novo milênio, foram elucidadas as primeiras estruturas em alta resolução das subunidades ri- bossomais de bactérias, obtidas a partir de estudos de Tho- mas Steitz, Ada Yonath, Venki Ramakrishnan, Harry Noller e outros pesquisadores. Esses trabalhos renderam inúme- ras surpresas (Figura 27-14a). Em primeiro lugar, mudou o foco tradicional, que dava maior importância às proteí- nas que compõem os ribossomos. As subunidades ribosso- mais são imensas moléculas de RNA. Na subunidade 50S, os rRNA 5S e 23S formam o cerne estrutural. As proteínas são elementos secundários no complexo, decorando a su- perfície. Em segundo lugar, e mais importante, não existe proteína no espaço de 18 Å do sítio ativo para a formação da ligação peptídica. Assim, a estrutura em alta resolução confirma o que Harry Noller havia predito anos antes: o ribossomo é uma ribozima. Além do discernimento que as estruturas detalhadas dos ribossomos e suas subunidades fornecem sobre o mecanismo de síntese proteica (como mais bem descrito a seguir), elas estimularam uma nova vi- são sobre a evolução da vida (Quadro 27-2). Os ribossomos das células eucarióticas também foram por fim submetidos à análise estrutural (Figura 27-14b). O ribossomo bacteriano é complexo, com um peso molecular combinado de ,2,7 milhões. As duas subunidades ribos- somais, com formatos irregulares, encai- xam-se de maneira a formar uma fenda, pela qual o mRNA passa à medida que o ribossomo se desloca ao longo dele duran- te a tradução (Figura 27-14a). As 57 pro- teínas nos ribossomos bacterianos variam enormemente em tamanho e estrutura. Os pesos moleculares variam de cerca de 6.000 a 75.000. A maioria das proteínas TABELA 276 RNAs e proteínas que compõem os ribossomos de E. coli Subunidade Número de proteínas diferentes Número total de proteínas Denominação das proteínas Número e tipos de rRNA 30S 21 21 S1-S21 1 (rRNA 16S) 50S 33 36 L1-L36* 2 (rRNA 5S e 23S) * As denominações L1 a L36 não correspondem a 36 proteínas diferentes. A proteína originalmente chamada L7 é, na verdade, uma forma modificada da L12, e L8 é um complexo de três outras proteínas. Além disso, constatou-se que L26 é a mesma proteína que S20 (e não parte da subunidade 50S). Dessa forma, a subunidade maior é constituída por 33 proteínas diferentes. Existem quatro cópias da proteína L7/L12, perfazendo 36 proteínas no total. (b)(a) 50S 30S Sulco Proteína RNA RNA 60S 40S Sulco Proteína RNA RNA FIGURA 2714 A estrutura dos ribossomos. A nossa compreensão acer- ca da estrutura do ribossomo melhorou muito a partir de múltiplas imagens em alta resolução dos ribossomos de bactérias e de leveduras. (a) Ribosso- mo bacteriano (derivado de PDB ID 2OW8 e PDB ID 1VSA). As subunidades 50S e 30S, juntas, formam a unidade ribossomal 70S. O sulco que existe entre as duas subunidades é o local onde ocorre a síntese proteica. (b) O ribosso- mo de leveduras apresenta estrutura semelhante, mas com complexidade um pouco maior (derivado de PDB ID 3O58 e PDB ID 3O2Z). Venkatraman Ramakrishnan Thomas A. Steitz Ada E. Yonath PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1117 tem domínios globulares organizados na superfície do ri- bossomo. Algumas também têm extensões alongadas que se projetam para dentro do cerne de rRNA do ribossomo, estabilizando sua estrutura. As funções de algumas dessas proteínas ainda não foram elucidadas em detalhe, mas pa- rece evidente que muitas delas têm papel estrutural. As sequências dos rRNAs de muitos organismos são hoje conhecidas. Cada um dos três rRNAs fita simples de E. coli tem uma conformação tridimensional específica, que apresenta longos pareamentos de bases intramolecula- res. Os padrões de enovelamento dos rRNAs são altamente conservados em todos os organismos, particularmente as regiões envolvidas em funções-chaves (Figura 27-15). As estruturas secundárias propostas para os rRNAs foram con- firmadas emgrande parte, com base em métodos de análise estrutural, mas falham em transmitir as extensas redes de interações terciárias aparentes na estrutura completa. Os ribossomos das células eucarióticas (exceto os ribos- somos das mitocôndrias e dos cloroplastos) são maiores e mais complexos do que os ribossomos bacterianos (Figura 27-16, compare com a Figura 27-14b), com um diâmetro de cerca de 23 nm e um coeficiente de sedimentação de cer- ca de 80S. Eles também têm duas subunidades, que variam em tamanho entre as espécies, mas têm, em média, 60S e QUADRO 272 De um mundo de RNA para um mundo de proteína As ribozimas existentes hoje geralmente realizam um dos dois seguintes tipos de reações: clivagem hidrolítica de ligações fosfodiéster ou transferências de grupos fosfo- ril (Capítulo 26). Em ambos os casos, os substratos das reações também são moléculas de RNA. Os RNAs ribos- somais fornecem uma importante expansão da classe de ribozimas catalíticas conhecidas. Combinada com a pes- quisa laboratorial acerca das potenciais funções catalíti- cas do RNA (ver Quadro 26-3), a ideia de um mundo de RNA como precursor das formas de vida atuais se torna cada vez mais atraente. Um mundo de RNA viável exigiria um RNA capaz de se autorreplicar, um metabolismo primitivo para ge- rar os ribonucleotídeos precursores necessários, e um limite celular para ajudar a concentrar os precursores e sequestrá-los do meio externo. As exigências para a catálise de reações envolvendo um conjunto crescente de metabólitos e macromoléculas poderiam ter levado ao surgimento de RNAs catalíticos maiores e mais com- plexos. Os muitos grupos fosforil negativamente carre- gados na molécula de RNA limitam a estabilidade das moléculas de RNA muito grandes. Em um mundo de RNA, cátions divalentes ou outros grupos carregados positivamente poderiam ser incorporados nas estrutu- ras para aumentar a estabilidade. Alguns peptídeos poderiam estabilizar moléculas grandes de RNA. Por exemplo, muitas proteínas ri- bossomais em células eucarióticas atuais têm longas extensões, desprovidas de estruturas secundárias, que serpenteiam para dentro dos rRNAs e ajudam a estabi- lizá-los (Figura Q-1). A síntese de peptídeos catalisada por ribozimas poderia, assim, ter evoluído inicialmente como parte de uma solução para manter a estrutura de moléculas grandes de RNA. A síntese de peptídeos pode ter ajudado a estabilizar ribozimas grandes, mas esse avanço também marcou o início do final do mundo de RNA. Uma vez tornada possível a síntese de peptídeos, o potencial catalítico maior das proteínas teria dado início a uma transição irreversível para um sistema metabólico dominado por proteínas. A maioria dos processos enzimáticos foi, então, en- tregue por fim às proteínas – mas não todos. Em todos os organismos, a tarefa crucial de sintetizar proteínas con- tinua, ainda hoje, um processo catalisado por ribozimas. Parece haver apenas um bom arranjo (ou alguns poucos) de resíduos nucleotídicos no sítio ativo de uma ribozima capaz de catalisar a síntese de peptídeos. Os resíduos de rRNA que parecem estar envolvidos na atividade pepti- dil-transferase dos ribossomos são altamente conserva- dos nos rRNAs da subunidade ribossomal maior de todas as espécies. Utilizando evolução in vitro (SELEX; ver Quadro 26-3), pesquisadores isolaram ribozimas artifi- ciais que realizam a síntese de peptídeos. Curiosamente, a maioria delas inclui o octeto de ribonucleotídeos (59) AUAACAGG(39), uma sequência altamente conservada, encontrada no sítio ativo da peptidil-transferase nos ri- bossomos de todas as células. Pode ser que haja apenas uma solução ótima para o problema químico global da síntese de proteínas de sequência definida catalisada por ribozimas. A evolução encontrou essa solução uma vez, e até agora nenhuma forma de vida parece ter conseguido alterá-la. Puromicina 50S FIGURA Q1 A subunidade 50S de um ribossomo bacteriano (PDB ID 1Q7Y). Os esqueletos proteicos são mostrados como estruturas em azul que serpenteiam; os componentes rRNA são transparentes. Extensões não estruturadas de muitas proteínas ribossomais serpenteiam para dentro das estruturas de rRNA, ajudando a estabilizá-las. A puromicina ligada, mostrada em vermelho, indica o sítio ativo para atividade peptidil- -transferase do rRNA. 1118 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX 40S. Os ribossomos eucarióticos contêm, ao todo, mais de 80 proteínas diferentes. Os ribossomos de mitocôndrias e cloroplastos são um pouco menores e mais simples do que os ribossomos das bactérias. Ainda assim, a estrutura e a função dos ribossomos são surpreendentemente semelhan- tes em todos os organismos e organelas. RNA transportadores têm características estruturais próprias Para entender como os tRNAs podem servir como adapta- dores na tradução da linguagem dos ácidos nucleicos para a linguagem das proteínas, é preciso, antes, examinar suas estruturas com mais detalhe. Os RNAs transportadores são relativamente pequenos e consistem em uma única fita de RNA dobrada em uma estrutura tridimensional precisa (ver Figura 8-25a). Os tRNAs presentes nas bactérias e no cito- sol de eucariotos contêm entre 73 e 93 resíduos nucleotídi- cos, correspondendo a pesos moleculares de 24.000 a 31.000. As mitocôndrias e os cloroplastos têm tRNAs dife- rentes e um pouco menores. As células têm pelo menos um tipo de tRNA para cada aminoácido; pelo menos 32 tRNAs são necessários para reconhecer todos os códons de ami- noácidos (alguns reconhecem mais de um códon), mas al- gumas células utilizam mais de 32. O tRNA de alanina (tRNAAla) de leveduras foi o primei- ro ácido nucleico a ser totalmente sequenciado, por Robert Holley em 1965. Ele contém 76 re- síduos nucleotídicos, 10 dos quais têm bases modificadas. Compara- ções de tRNAs de várias espécies revelaram muitas características estruturais comuns a todos eles (Figura 27-17). Oito ou mais re- síduos nucleotídicos têm açúca- res e bases modificadas, muitos dos quais são formas metiladas derivadas das principais bases. A maioria dos tRNAs tem um resíduo guanilato (pG) na extremidade 59, e todos têm a sequência trinucleo- tídica CCA(39) na extremidade 39. Quando desenhados em duas dimensões, o padrão de ligações de hidrogênio de to- dos os tRNAs forma uma estrutura de folha-de-trevo com quatro braços; o tRNA mais longo tem um quinto braço cur- to, ou braço extra. Em três dimensões, o tRNA tem a forma de um L torcido (Figura 27-18). Dois dos braços do tRNA são cruciais para sua função adaptadora. O braço do aminoácido pode carregar um aminoácido específico, esterificado pelo seu grupo carbo- xil, ao grupo 29 ou 39-hidroxila do resíduo A presente na extremidade 39 do tRNA. O braço do anticódon contém o anticódon. Os outros braços importantes são o braço D, que contém o nucleotídeo incomum di-hidrouridina (D), e o braço TcC, o qual contém ribotimidina (T), que não é comum nos RNAs, e pseudouridina (c), que contém uma ligação incomum carbono-carbono entre a base e a ribose (ver Figura 26-22). Os braços D e TcC contribuem com im- portantes interações para o enovelamento das moléculas de tRNAs, e o braço TcC interage com o rRNA da subunidade maior do ribossomo. Robert W. Holley, 1922-1993 Bactérias Arqueias Eucariotos FIGURA 2715 Conservação da estrutura secundária no rRNA da subunidade menor nos três domínios da vida. Vermelho, amarelo e li- lás indicam as regiões em que as estruturas dos rRNAs de bactérias, arqueias e eucariotos divergiram. As regiões conservadas são mostradas em verde. Ribossomo bacteriano 70S Mr 2,7 3 10 6 Ribossomo eucariótico 80S Mr 4,2 3 10 6 50S 60S Mr 1,8 3 106 rRNA 5S (120 nucleotídeos) rRNA 23S (3.200 nucleotídeos) 36 proteínas Mr 2,8 3 106 rRNA 5S (120 nucleotídeos) rRNA 28S (4.700 nucleotídeos) rRNA 5,8S (160 nucleotídeos) 47 proteínas 30S 40S Mr 0,9 3 10 6 rRNA 16S (1.540 nucleotídeos) 21 proteínas Mr 1,4 3 10 6 rRNA 18S (1.900 nucleotídeos)33 proteínas FIGURA 2716 Resumo da composição e da massa dos ribossomos de bactérias e de eucariotos. As subunidades ribossomais estão identifica- das pelos seus valores S (unidade Svedberg), coeficientes de sedimentação que se referem às suas velocidades de sedimentação em uma centrífuga. Os valores S não são aditivos quando as subunidades são combinadas, pois os valores S são proporcionais a aproximadamente 2/3 da força do peso mole- cular e também são afetados pela forma da partícula. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1119 Após a análise das estruturas dos ribossomos e dos tR- NAs, agora serão estudados em detalhe os cinco estágios da síntese proteica. Estágio 1: As aminoacil-tRNA-sintases ligam os aminoácidos corretos aos seus respectivos tRNA Durante a primeira etapa da síntese de proteínas, que ocor- re no citosol, as aminoacil-tRNA-sintases esterificam os 20 aminoácidos aos seus respectivos tRNAs. Cada enzima é específica para um aminoácido e um ou mais tRNAs cor- respondentes. A maioria dos organismos tem uma amino- acil-tRNA-sintase para cada aminoácido. Para aminoácidos com dois ou mais tRNAs correspondentes, a mesma enzima pode, geralmente, aminoacilar todos eles. As estruturas de todas as aminoacil-tRNA-sintases de E. coli já foram determinadas. Os pesquisadores divi- diram-nas em duas classes (Tabela 27-7), com base em diferenças consideráveis nas suas estruturas primária e terciária e no mecanismo de reação (Figura 27-19); essas Braço TcC Braço extra Variável em tamanho, não está presente em todos os tRNA Posição oscilante Contém dois ou três resíduos D em posições diferentes U A Pu G* G A G T Pu C C A Braço do aminoácido Braço D C C Py U Pu Braço do anticódon 39 59 Anticódon 3959 FIGURA 2717 Estrutura secundária geral, em forma de folha-de-tre- vo, dos tRNAs. Os pontos grandes ao longo da estrutura representam resí- duos nucleotídicos; as linhas azuis representam pares de bases. Os resíduos característicos e/ou não variáveis comuns a todos os tRNAs estão mostrados em cor salmão. Os RNAs transportadores variam em comprimento, de 73 a 93 nucleotídeos. Nucleotídeos extras ocorrem no braço extra ou no braço D. Na extremidade do braço do anticódon está a alça do anticódon, a qual sempre contém sete nucleotídeos não pareados. O braço D contém dois ou três resíduos D (5,6-di-hidrouridina), dependendo do tRNA. Em alguns tRNA, o braço D tem apenas três pares de bases ligados por ligações de hidrogê- nio. Os símbolos apresentados são: Pu, nucleotídeo púrico; Py, nucleotídeo pirimídico; G*, guanilato ou 29-O-metilguanilato. (a) (b) 39 59 Braço do aminoácidoBraço TcC Braço do anticódon Braço D Braço D (resíduos 10-25) Braço do anticódon Anticódon Anticódon Braço do aminoácidoBraço TcC 5916454 56 20 44 32 38 26 12 7 69 72 39 AA FIGURA 2718 Estrutura tridimensional do tRNAPhe de levedura, re- solvida a partir de análises de difração por raios X. A forma lembra um L torcido. (a) Diagrama esquemático com os vários braços identificados na Figura 27-17, apresentados em diferentes cores. (b) Um modelo de volume atômico, com o mesmo código de cores (PDB ID 4TRA). A sequência CCA na extremidade 39 (em lilás) é o ponto para a ligação do aminoácido. TABELA 277 As duas classes de aminoacil-tRNA-sintases Classe I Classe II Arg Leu Ala Lys Cys Met Asn Phe Gln Trp Asp Pro Glu Tyr Gly Ser Ile Val His Thr Nota: Aqui, Arg representa arginil-tRNA-sintase, e assim por diante. A classifica- ção se aplica a todos os organismos para os quais as aminoacil-tRNA-sintases já foram analisadas e se baseia nas diferenças estruturais da proteína e nas diferen- ças dos mecanismos de ação esquematizados na Figura 27-19. 1120 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX ATPAminoácido O a-carboxil do aminoácido ataca o fósforo a do ATP, formando 59 aminoaciladenilato. Adenina Adenina 59-Aminoacil-adenilato (aminoacil-AMP) Aminoacil-tRNA- -sintases de classe I Aminoacil-tRNA- -sintases de classe II Adenina Extremidade 39 do tRNA Adenosina Aminoacil-AMP tRNA Transesterificação Adenina Adenina AMP Adenosina Aminoacil-AMP O grupo aminoacil é transferido para a 29-OH do resíduo A do terminal 39 do transportador, liberando AMP. A transesterificação desloca o grupo aminoacil para a 39-OH do mesmo resíduo no tRNA, gerando o produto aminoacil-tRNA O grupo aminoacil é transferido diretamente para a 39-OH do resíduo A na extremidade 39 do tRNA, gerando o produto aminoacil-tRNA. tRNA Adenina Aminoacil-tRNA MECANISMO FIGURA 2719 Aminoacilação do tRNA pelas aminoacil-tRNA-sintases. A etapa ➊ é a formação de um aminoacil-adeni- lato, o qual permanece ligado ao sítio ativo. Na segunda etapa, o grupo aminoacil é transferido ao tRNA. O mecanismo dessa etapa é um pou- co diferente para as duas classes de aminoacil- -tRNA-sintases (ver Tabela 27-7). Para as enzimas da classe I, o grupo aminoacila é inicialmente transferido para o grupo 29 hidroxila do resíduo A presente na extremidade 39, depois para o grupo 39-hidroxila, por meio de uma reação de transesterificação. Para as enzimas da classe II, o grupo aminoacila é transferido direta- mente para o grupo 39-hidroxila do adenilato terminal. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1121 duas classes são as mesmas em todos os organismos. Não existem evidências de que as duas classes compartilham um ancestral comum, e as razões biológicas, químicas ou evolutivas para a existência de duas classes de enzimas participando de processos praticamente idênticos perma- necem obscuras. A reação catalisada por uma aminoacil-tRNA-sintase é Aminoácido 1 tRNA 1 ATP aminoacil-tRNA 1 AMP 1 PPi Essa reação ocorre em duas etapas no sítio ativo da enzima. Na etapa ➊ (Figura 27-19), é formado um intermediário ligado à enzima, o aminoacil-adenilato (aminoacil-AMP). Na segunda etapa, o grupo aminoacila é transferido do aminoacil-AMP ligado à enzima para o seu tRNA específico correspondente. O caminho pelo qual ocorre essa segunda etapa depende da classe à qual pertence a enzima, como mostrado nas etapas e da Figura 27-19. A ligação éster resultante entre o aminoácido e o tRNA (Figura 27-20) tem uma energia livre de hidrólise altamente negativa (ΔG9º 5 –29 kJ/mol). O pirofosfato formado na reação de ativação sofre hidrólise, formando fosfato, pela ação da pirofosfatase inorgânica. Assim, para cada molécula de aminoácido ativa- da, duas ligações fosfato de alta energia são gastas no final, tornando a reação global de ativação de um aminoácido es- sencialmente irreversível: Aminoácido 1 tRNA 1 ATP aminoacil-tRNA 1 AMP 1 2Pi (DG9º ø 229 kJ/mol) Edição pelas aminoacil-tRNA-sintases A aminoacilação do tRNA cumpre duas finalidades: (1) ativa um aminoácido para a formação de uma ligação peptídica e (2) garante o posicio- namento apropriado do aminoácido no polipeptídeo nas- cente. A identidade do aminoácido ligado a um tRNA não é conferida no ribossomo; portanto, a ligação do aminoácido correto ao seu tRNA é essencial para a fidelidade da síntese proteica. Como visto no Capítulo 6, a especificidade de uma en- zima é limitada pela energia de ligação disponível das inte- rações enzima-substrato. A discriminação entre dois subs- tratos (aminoácidos) semelhantes foi estudada em detalhe no caso da Ile-tRNA-sintase, que distingue entre valina e isoleucina, aminoácidos que diferem em apenas um grupo metileno (¬CH2¬): COO2 1 C H CH H3N CH3 CH3 Valina COO2 1 C HH3N C CH3 CH2 H CH3 Isoleucina A Ile-tRNA-sintetase favorece a ativação da isoleucina (para formar Ile-AMP) em relação à valina por um fator de 200 – como seria de se esperar, considerando o quanto um grupo metileno (na Ile) pode intensificar a ligação de um substrato. Ainda assim, a valina é erroneamente incorpo- rada em proteínas em posições normalmente ocupadas por um resíduo de Ile, com uma frequência de apenas cercade 1 em 3.000. Como ocorre esse aumento de mais de 10 vezes na precisão? A Ile-tRNA-sintase, como outras aminoacil- -tRNA-sintases, tem uma função de edição. Lembre-se de um princípio geral da discussão acerca da edição realizada pelas DNA-polimerases (ver Figura 25-7): se as interações de ligação disponíveis não forne- cerem discriminação suficiente entre dois substratos, a especificidade necessária poderá ser obtida pela ligação específica do substrato em duas etapas sucessivas. For- çar o sistema por meio de dois filtros sucessivos tem um efeito multiplicativo. No caso da Ile-tRNA-sintase, o pri- meiro filtro é a ligação inicial do aminoácido à enzima e a sua ativação a aminoacil-AMP. O segundo é a ligação de qualquer produto aminoacil-AMP incorreto em um sítio ativo separado na enzima; um substrato que se ligar nesse segundo sítio ativo é hidrolisado. O grupo R da valina é um pouco menor do que o da isoleucina, de modo que Val-AMP cabe no sítio hidrolítico (de edição) da Ile-tRNA- -sintase, enquanto o Ile-AMP não cabe. Assim, Val-AMP é hidrolisado a valina e AMP no sítio ativo de edição, e o tRNA ligado à sintase não se torna aminoacilado ao ami- noácido errado. Além da edição após a formação do aminoacil-AMP in- termediário, a maioria das aminoacil-tRNA-sintases são capazes de hidrolisar a ligação éster entre aminoácidos e tRNA nos aminoacil-tRNA. Essa hidrólise é bastante acele- rada em tRNA carregados incorretamente, fornecendo um terceiro filtro para melhorar a fidelidade do processo. As poucas aminoacil-tRNA-sintases que ativam aminoácidos Extremidade 39 do tRNA Grupo aminoacila Adenina 59 pG Braço do aminoácido Braço TcC Braço do anticódon Braço D FIGURA 2720 Estrutura geral de um aminoacil-tRNA. O grupo ami- noacila é esterificado à posição 39 do resíduo A terminal. A ligação éster que ativa o aminoácido e o une ao tRNA aparece sombreada em cor salmão na figura. 1122 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX sem parentesco estrutural próximo (p. ex., Cys-tRNA-sin- tase) demonstram pouca ou nenhuma atividade de edição; nesses casos, o sítio ativo para aminoacilação é capaz de discriminar entre o substrato adequado e qualquer outro aminoácido incorreto. A taxa de erro da síntese de proteínas (,1 erro para cada 104 aminoácidos incorporados) não chega perto da- quela da replicação do DNA, que é bem mais baixa. Como os defeitos nas proteínas são eliminados quando as proteí- nas são degradadas e não são passados adiante para as ge- rações seguintes, eles têm um menor significado biológico. O grau de fidelidade da síntese proteica é suficiente para garantir que a maioria das proteínas não contenha erros e que a grande quantidade de energia necessária para sinteti- zar uma proteína não seja desperdiçada. A presença de uma molécula de proteína com defeito geralmente não é impor- tante quando muitas cópias corretas dessa mesma proteína estão presentes. Interação entre uma aminoacil-tRNA-sintase e um tRNA: um “segun- do código genético” Uma dada aminoacil-tRNA-sintetase deve ser específica não apenas para um único aminoácido, mas também para um determinado tRNA. Para a fidelidade da biossíntese de proteínas, discriminar entre dezenas de tRNA é uma tarefa tão importante quanto distinguir entre os diferentes aminoácidos. A interação entre as aminoacil- -tRNA-sintases e os tRNA têm sido considerada um “se- gundo código genético”, refletindo o papel crucial que isso apresenta para manter a precisão da síntese proteica. As regras “de codificação” parecem ser ainda mais complexas do que aquelas do “primeiro” código. A Figura 27-21 resume o atual conhecimento sobre os nucleotídeos envolvidos no reconhecimento dos tRNA por algumas aminoacil-tRNA-sintases. Alguns nucleotídeos são conservados em todos os tRNA e, portanto, não podem ser utilizados para discriminação. Observando mudanças nos nucleotídeos que causam alteração na especificidade pelo substrato, os pesquisadores identificaram as posições dos nucleotídeos que estão envolvidos na discriminação pelas aminoacil-tRNA-sintases. Essas posições parecem estar concentradas no braço do aminoácido e no braço do anti- códon, incluindo os nucleotídeos do próprio anticódon, mas também estão localizadas em outras partes das moléculas de tRNA. A determinação das estruturas cristalográficas das aminoacil-tRNA-sintases formando um complexo com seus respectivos tRNA e ATP colaborou muito para o co- nhecimento acerca dessas interações (Figura 27-22). Dez ou mais nucleotídeos específicos podem estar en- volvidos no reconhecimento de um tRNA pela sua respec- tiva aminoacil-tRNA-sintase. Em alguns casos, contudo, o mecanismo de reconhecimento é bastante simples. Em di- versas classes de organismos – de bactérias a humanos –, o principal determinante para o reconhecimento do tRNA pela Ala-tRNA-sintase é um único par de bases G“U no braço do aminoácido do tRNAAla (Figura 27-23a). Um RNA sintético curto, com apenas 7 pb organizados em uma (a) (b) 39 3959 59 Braço do aminoácido Braço do aminoácido Braço TcC Braço TcC Braço extra Braço do anticódon Braço do anticódon Anticódon Anticódon Braço D Braço D 3959 FIGURA 2721 Posições nos tRNAs dos nucleotídeos reconhecidos pelas aminoacil-tRNA-sintases. (a) Algumas posições (pontos em lilás) são as mesmas em todos os tRNAs e, portanto, não podem ser utilizadas para discriminar um tRNA de outro. Outras posições são conhecidas por servirem de pontos de reconhecimento por uma (cor de laranja) ou mais (azul) aminoacil-tRNA-sintases. Outras características estruturais, além da se- quência, são importantes para o reconhecimento por algumas sintases. (b) (PDB ID 1EHZ) As mesmas características estruturais são mostradas em três dimensões, com os resíduos em cor de laranja e azul representando, nova- mente, as posições reconhecidas por uma ou por mais de uma aminoacil- -tRNA-sintase, respectivamente. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1123 mini-hélice formando um grampo, é de maneira eficiente aminoacilado pela Ala-tRNA-sintetase, desde que o RNA contenha o G“U crítico (Figura 27-23b). Esse sistema re- lativamente simples da alanina pode ser uma relíquia evo- lutiva de um período no qual os oligonucleotídeos de RNA, ancestrais dos tRNAs, eram aminoacilados por meio de um sistema primitivo para a síntese de proteínas. A interação das aminoacil-tRNA-sintases com seus res- pectivos tRNA é crucial para a leitura precisa do código genético. Qualquer expansão do código para incluir novos aminoácidos teria, necessariamente, de incluir um novo par aminoacil-tRNA-sintase: tRNA. Uma expansão limitada do código genético já foi observada na natureza; uma expansão maior foi obtida em laboratório (Quadro 27-3). (a) tRNA tRNA tRNA ATP ATP (b) FIGURA 2722 Aminoacil-tRNA-sintases. Ambas as sintases são mostra- das formando um complexo com seus respectivos tRNAs (verde). O ATP liga- do (vermelho) indica o sítio ativo próximo à extremidade do braço aminoacil. (a) Gln-tRNA-sintase de E. coli, uma sintase monomérica típica da classe I (PDB ID 1QRT). (b) Asp-tRNA-sintase de levedura, uma sintase dimérica típica da classe II (PDB ID 1ASZ). 39 59 76 G U 70 4030 20 10 39 59 76 G U 70 (a) 1 5 10 13 66 Nucleotídeos deletados (b) 60 50 1 FIGURA 2723 Elementos estruturais do tRNAAla são necessários para o reconhecimento pela Ala-tRNA-sintase. (a) Os elementos estruturais do tRNAAla reconhecidos pela Ala-tRNA-sintase são simples de modo não comum. Um único par de bases G“U (em cor salmão) é o único elemento necessário para a ligação específica e para a aminoacilação. (b) Uma mini-hélice curta de RNA sintético, com o par de bases G“U fundamental, mas sem a maior parte das estru- turas de um tRNA. Essa molécula é aminoacilada espe- cificamente com alanina de forma quase tão eficiente quanto o tRNAAla completo. 1124 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M .COX Como foi visto, os 20 aminoácidos comumente encontra- dos nas proteínas oferecem funcionalidade química limi- tada. Os sistemas vivos geralmente superam essas limi- tações utilizando cofatores enzimáticos ou modificando alguns aminoácidos após terem sido incorporados nas proteínas. A princípio, a expansão do código genético para introduzir novos aminoácidos nas proteínas oferece outro caminho para novas funcionalidades, mas é um caminho muito difícil de ser seguido. Tal mudança pode muito bem resultar na inativação de milhares de proteínas celulares. Expandir o código genético para incluir um novo ami- noácido requer várias mudanças celulares. Uma nova ami- noacil-tRNA-sintase precisa, geralmente, estar presente, junto com o tRNA correspondente. Ambos os componen- tes devem ser altamente específicos, interagindo apenas entre si e com o novo aminoácido. O novo aminoácido deve estar presente em concentrações significativas na célula, podendo acarretar a evolução de novas vias meta- bólicas. Como mostrado no Quadro 27-1, o anticódon no tRNA realizaria, provavelmente, um pareamento com um códon que normalmente especifica terminação. Realizar todo esse trabalho em uma célula parece improvável, mas já ocorreu tanto na natureza quanto no laboratório. Existem, na verdade, 22 em vez de 20 aminoácidos especificados pelo código genético. Os dois aminoácidos extras são a selenocisteína e a pirrolisina, cada um sendo encontrado em poucas proteínas, mas ambos oferecem uma noção da complexidade da evolução do código ge- nético. COO2 1 CH CH2 H3N SeH Selenocisteína Pirrolisina COO2 1 CH CH2 H3N CH2 CH2 CH2 CH3 NH C O N Em todas as células, algumas proteínas (como a forma- to-desidrogenase nas bactérias e a glutationa-peroxidase nos mamíferos) requerem selenocisteína para sua ativida- de. Em E.coli, a selenocisteína é introduzida na enzima formato-desidrogenase durante a tradução, em resposta a um códon UGA presente na leitura. Um tipo especial de Ser-tRNA, presente em níveis mais baixos do que outros Ser-tRNA, reconhece UGA e nenhum outro códon. Esse tRNA é carregado com serina pela serina-aminoacil-tRNA- -sintase normal, e a serina é convertida enzimaticamen- te em selenocisteína por uma outra enzima, antes de ser usada no ribossomo. O tRNA carregado não reconhece qualquer códon UGA; algum sinal no contexto do mRNA, ainda a ser identificado, garante que esse tRNA reconhe- ça apenas os poucos códons UGA presentes dentro de alguns genes que especificam selenocisteína. De fato, o UGA apresenta dupla função, codificando a terminação e (muito ocasionalmente) a selenocisteína. Essa expansão do código em particular tem um tRNA específico, como descrito antes, mas não tem uma aminoacil-tRNA-sintase específica. O processo funciona para selenocisteína, mas pode-se considerá-lo uma etapa intermediária na evolução de uma definição de código completamente nova. A pirrolisina é encontrada em um grupo de arquibac- térias anaeróbias denominadas metanogênicas (ver Qua- dro 22-1). Esses organismos produzem metano, como parte de seu metabolismo, sendo que o grupo das Me- thanosarcinaceae pode utilizar metilaminas como subs- tratos para a metanogênese. Produzir metano a partir de monometilamina requer a enzima monometilamina- -metiltransferase. O gene que codifica essa enzima tem um códon de parada UAG na fase de leitura. A estrutura da metiltransferase foi elucidada em 2002, revelando a presença do novo aminoácido pirrolisina na posição es- pecificada pelo códon UAG. Experimentos subsequentes demonstraram que – ao contrário da selenocisteína – a pirrolisina era ligada diretamente a um tRNA específico por uma pirrolisil-tRNA-sintase específica. Essas células produzem pirrolisina por meio de uma via metabólica que ainda precisa ser elucidada. Todo o sistema apresenta as características típicas de um código genético já estabele- cido, mas só funciona para códons UAG presentes nesse gene em particular. Como no caso da selenocisteína, exis- tem, provavelmente, sinais contextuais que direcionam esse tRNA para o códon UAG correto. Será que os cientistas conseguem competir com tal proeza evolutiva? Modificações de proteínas com vários grupos funcionais podem fornecer importantes pistas acerca da atividade e/ou da estrutura das proteínas. No entanto, a modificação de proteínas geralmente é mui- to trabalhosa. Por exemplo, um pesquisador que deseja ligar um novo grupo a um resíduo Cys específico deverá, de alguma maneira, bloquear os demais resíduos Cys que porventura estejam presentes na mesma proteína. Se, em vez disso, ele pudesse adaptar o código genético de for- ma a permitir que a célula inserisse um aminoácido mo- dificado em um local específico na proteína, o processo seria muito mais conveniente. Peter Schultz e colabora- dores fizeram exatamente isso. Para desenvolver uma nova especificação para um códon, são necessários, como já foi citado, uma nova aminoacil-tRNA-sintase e um novo tRNA corresponden- te, ambos adaptados para funcionar com apenas um novo aminoácido. Tentativas para criar tal expansão “não na- tural” do código genético focalizaram, inicialmente, em E. coli. O códon UAG foi escolhido como o melhor alvo para codificar um novo aminoácido. Dos três códons de parada, UAG é o menos utilizado, e linhagens com tRNA selecionados para reconhecer UAG (ver o Quadro 27-4) QUADRO 273 Expansões naturais e não naturais do código genético PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1125 Biblioteca Remover o plasmídeo que contém o gene barnase. Crescimento em meio contendo ampicilina. As células sobrevivem apenas se contiverem os variantes MjtRNATyr aminoacilados pela MjTyrRS. Adicionar plasmídeo contendo o gene MjTyrRS e o gene da b-lactamase construído em laboratório. As células contendo variantes MjtRNATyr aminoacilados pelas tRNA-sintases endógenas morrem. As sobreviventes têm variantes MjtRNATyr que não são aminoacilados. Seleção negativa Seleção positiva Gene MjtRNATyr Gene barnase Gene da b-lactamase Gene MjTyrRS tRNA Adicionar plasmídeo que tem o gene barnase construído em laboratório. Randomizar a sequência do gene MjtRNATyr em 11 posições, transformar as células para criar uma biblioteca. Expressão 39 59 TAG TAG TAG TAG TA G FIGURA Q1 Seleção dos variantes MjtRNATyr que funcionam apenas com a tirosil-tRNA-sintase MjTyrRS. A sequência do gene que codifica a MjtRNATyr, presente em um plasmídeo, é randomizada em 11 posições que não in- teragem com a MjTyrRS (pontos vermelhos). Os plasmídeos mutantes são introduzidos em células de E. coli para gerar uma biblioteca de milhões de variantes MjtRNATyr, representados pelas seis células mostradas aqui. O gene tóxico da barnase, construído em laboratório para conter a sequência TAG, de forma que seu transcrito possua códons UAG, é introduzido em um plas- mídeo separado, fornecendo uma seleção negativa. Se esse gene for ex- presso, as células morrem. Ele apenas será expresso se o variante MjtRNATyr, expresso por essas mesmas células, for aminoacilado pelas aminoacil-tRNA- -sintases endógenas (de E. coli), inserindo um aminoácido em vez de termi- nar a tradução. Um outro gene, que codifica a b-lactamase e que também foi modificado em laboratório para conter a sequência TAG a fim de produ- zir códons de parada UAG, é inserido em um outro plasmídeo, o qual tam- bém expressa o gene que codifica a MjTyrRS. Esse serve como uma forma de seleção positiva para os demais variantes de MjtRNATyr. Aqueles variantes que forem aminoacilados pela MjTyrRS permitem a expressão do gene da b-lactamase, o qual, por sua vez, permite que as células cresçam na presen- ça de ampicilina. Múltiplos ciclos de seleção negativa e de seleção positiva fornecem os melhores variantes de MjtRNATyr aminoacilados unicamente pela MjTyrRS e utilizados de maneira eficiente na tradução. (Continua na próxima página) 1126 DAV I D L . N E L S O N & MIC H A E L M . COX não apresentam defeitos no crescimento das bactérias. Para criar o novo tRNA e a nova tRNA-sintase, os genes para tirosil-tRNA e sua respectiva tirosil-tRNA-sintase foram obtidos da arquibactérias Methanococcus jan- naschii (MjtRNATyr e MjTyrRS). A MjTyrRS não se liga à alça do anticódon do MjtRNATyr, permitindo que a alça do anticódon seja modificada para CUA (complementar a UAG), sem afetar a interação. Como os sistemas das bac- térias e das arquibactérias são ortólogos, os componentes modificados das arquibactérias puderam ser transferidos para células de E. coli sem destruir o sistema de tradu- ção intrínseco das células. Primeiro, o gene que codifica o MjtRNATyr teve de ser modificado para gerar um tRNA ideal – que não fosse re- conhecido por qualquer aminoacil-tRNA-sintase endóge- na de E. coli, mas que fosse aminoacilado pela MjTyrRS. Vários ciclos de seleção negativa e de seleção positiva foram desenhados e realizados para que fosse possível encontrar de maneira eficiente tal variante em meio a ou- tros variantes do gene do tRNA (Figura Q-1). Partes da sequência do MjtRNATyr foram trocadas aleatoriamente, permitindo a criação de uma biblioteca de células, em que cada uma expressava uma versão diferente do tRNA. Um gene codificando barnase (uma ribonuclease tóxica para E. coli) foi modificado de forma que seu transcrito de mRNA contivesse vários códons UAG, e esse gene tam- bém foi introduzido, nas células, por um plasmídeo. Se o variante de MjtRNATyr expresso em uma determinada célula da biblioteca fosse aminoacilado por uma tRNA- -sintase endógena, passaria a expressar o gene da barna- se, e essa célula morreria (seleção negativa). As células sobreviventes conteriam os variantes de MjtRNATyr que não foram aminoacilados pelas tRNA-sintases endógenas, mas com potencial de serem aminoacilados pela MjTyrRS. Uma seleção positiva (Figura Q-1) foi então estabelecida, modificando o gene da b-lactamase (que confere resistên- cia ao antibiótico ampicilina), de forma que seu transcrito contivesse vários códons UAG, e introduzindo esse gene nas células junto com o gene que codifica a MjTyrRS. Os variantes de MjtRNATyr que fossem aminoacilados pela MjTyrRS permitiriam o crescimento em meio com ampici- lina apenas quando a MjTyrRS também fosse expressa na célula. Vários ciclos desse esquema de seleção negativa e de seleção positiva permitiram a identificação de um novo variante de MjtRNATyr que não era afetado por enzimas endógenas, que era aminoacilado pela MjTyrRS e que fun- cionava bem na tradução. Em segundo lugar, a MjTyrRS teve de ser modificada para reconhecer o novo aminoácido. O gene que codifica a MjTyrRS foi dessa vez mutado para criar uma grande biblioteca de variantes. Os variantes que iriam aminoaci- lar o novo variante de MjtRNATyr com aminoácidos endó- genos foram eliminados utilizando a seleção com o gene da barnase. Uma segunda seleção positiva (semelhante à seleção com ampicilina descrita antes) foi realizada de for- ma que as células sobrevivessem somente se o variante de MjtRNATyr fosse aminoacilado apenas na presença do ami- noácido não natural. Vários ciclos de seleção negativa e de seleção positiva geraram um par específico tRNA-sintase- -tRNA que reconhecia apenas o aminoácido não natural. Esses componentes tiveram então o nome alterado a fim de refletir o aminoácido não natural utilizado na seleção. Utilizando essa abordagem, muitas linhagens de E. coli foram construídas, cada uma capaz de incorporar um determinado aminoácido não natural em uma pro- teína em resposta a um códon UAG. A mesma aborda- gem tem sido utilizada para expandir artificialmente o código genético de leveduras e até mesmo de células de mamíferos. Desse modo, mais de 30 aminoácidos dife- rentes (Figura Q-2) podem ser introduzidos de maneira eficiente em sítios específicos de proteínas clonadas. Como resultado, tem-se uma ferramenta cada vez mais útil e flexível para avançar nos estudos sobre a estrutura e a função das proteínas. QUADRO 273 Expansões naturais e não naturais do código genético (Continuação) COO2 1 CH CH2 C O CH3 H3N (a) COO2 1 CH CH2 N N1 N2 H3N (b) COO2 1 CH CH2 CH2 H3N OO OH (d) COO2 1 CH CH2 Br H3N (e) COO2 1 CH CH2 CH2 CH2 CH2 SH H3N (f)(c) COO2 1 CH CH2 N H3N F C C F F N FIGURA Q2 Uma amostra dos aminoácidos não naturais que já foram adicionados ao código genético. Esses aminoácidos contribuem com grupos químicos reativos singulares, como (a) cetona, (b) azida, (c) fo- toconector (grupo funcional desenhado para formar ligações covalentes com um grupo próximo quando ativado pela luz), (d) aminoácido alta- mente fluorescente, (e) aminoácido com átomo pesado (Br) para uso em cristalografia e (f) um análogo de cisteína de cadeia longa, com mais am- pla capacidade de formar pontes dissulfeto. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1127 Estágio 2: Um aminoácido específico inicia a síntese de proteínas A síntese de proteínas começa na extremidade aminoter- minal e procede à adição de aminoácidos passo a passo em direção à extremidade carboxiterminal do polipeptí- deo nascente, como determinado por Howard Dintzis em 1961 (Figura 27-24). O códon de iniciação AUG, dessa maneira, especifica um resíduo de metionina aminotermi- nal. Apesar de a metionina possuir apenas um códon, (59) AUG, todos os organismos têm dois tRNAs para metionina. Um deles é utilizado exclusivamente quando (59)AUG é o códon de iniciação para a síntese de proteínas. O outro é utilizado para codificar resíduos Met em posições internas no polipeptídeo. A distinção entre um (59)AUG iniciador e um interno é direta. Em bactérias, os dois tipos de tRNA específicos para metionina são designados tRNAMet e tRNAfMet. O ami- noácido incorporado em resposta ao códon de iniciação (59)AUG é a N-formilmetionina (fMet). Ele chega ao ribos- somo como N-formilmetionil-tRNAfMet (fMet-tRNAfMet), o qual é formado em duas reações sucessivas. Primeiramen- te, a metionina é ligada ao tRNAfMet pela Met-tRNA sintase (a qual, em E. coli, aminoacila tanto o tRNAfMet quanto o tRNAMet): Metionina 1 tRNAfMet 1 ATP ¡ Met-tRNAfMet 1 AMP 1 PPi Em seguida, uma transformilase transfere um grupo formil do N10-formiltetra-hidrofolato para o grupo amino do resí- duo Met: N10-formiltetra-hidrofolato 1 Met-tRNAfMet ¡ tetra-hidrofolato 1 fMet-tRNAfMet A transformilase é mais seletiva do que a Met-tRNA-sintase; ela é específica para resíduos Met ligados ao tRNAfMet, pre- sumivelmente reconhecendo alguma característica estrutu- ral singular daquele tRNA. Já o Met-tRNAMet insere metioni- na em posições internas nos polipeptídeos. N-formilmetionina N H H S CH2 CH2 CH3 C COO] C O H A adição do grupo N-formil ao grupo amino da metioni- na pela transformilase impede que a fMet entre em posições internas em um polipeptídeo e, ao mesmo tempo, também permite que o fMet-tRNAfMet se ligue em um sítio de inicia- ção específico no ribossomo, o qual não aceita Met-tRNAMet nem qualquer outro aminoacil-tRNA. Em células eucarióticas, todos os polipeptídeos sinteti- zados por ribossomos citosólicos iniciam com um resíduo Met (em vez de fMet), mas, novamente, a célula utiliza um tRNA iniciador especializado, que é diferente do tRNAMet utilizado em códons (59)AUG em posições internas no mRNA. Os polipeptídeos sintetizados pelos ribossomos das mitocôndrias e dos cloroplastos, entretanto, iniciam com N- -formilmetionina. Esse fato dá forte suporte à ideia de que as mitocôndrias e os cloroplastos se originaram de bactérias ancestrais que foram simbioticamente incorporadas em cé- lulas eucarióticas precursoras em um estágio primordial da evolução (ver Figura 1-38). Como pode um único códon (59)AUG determinar se será inserida uma N-formilmetionina inicial (ou metionina, em eucariotos) ou um resíduo Met interno? Detalhes do processo de iniciação fornecem a resposta. As três etapasda iniciação A iniciação da síntese de um po- lipeptídeo nas bactérias requer (1) a subunidade 30S do ribossomo, (2) o mRNA que codifica o polipeptídeo a ser produzido, (3) o fMet-tRNAfMet iniciador, (4) um conjunto de três proteínas denominadas fatores de iniciação (IF-1, IF-2 e IF-3), (5) GTP, (6) a subunidade 50S do ribossomo e (7) Mg21. A formação do complexo de iniciação se dá em três etapas (Figura 27-25). Na etapa ➊, a subunidade 30S do ribossomo se liga a dois fatores de iniciação, IF-1 e IF-3. O fator IF-3 impede que as subunidades 30S e 50S se combinem prematuramen- te. O mRNA se liga, então, à subunidade 30S. O (59)AUG iniciador é guiado até sua posição correta pela sequência de Shine-Dalgarno (assim chamada em virtude dos pes- 4 min Terminal amino Terminal carboxil Direção do crescimento da cadeia 7 min 16 min 60 min 146 Número do resíduo 1 FIGURA 2724 Prova de que os polipeptídeos crescem pela adição de resíduos de aminoácidos em direção à porção carboxiterminal: o experimento de Dintzis. Reticulócitos (eritrócitos imaturos) sinteti- zando ativamente hemoglobina foram incubados com leucina radioativa (selecionada porque ocorre frequentemente nas cadeias de a e b-globina). Amostras de cadeias a completas foram então isoladas dos reticulócitos em vários intervalos de tempo, e a distribuição da radioatividade foi deter- minada. As zonas em vermelho-escuro mostram as porções das cadeias completas de a-globina contendo resíduos de Leu radioativos. Aos 4 min, apenas alguns resíduos na extremidade carboxil da a-globina estavam marcados, pois as únicas cadeias completas de globina com marcador incorporado após 4 min eram aquelas cuja síntese estava praticamente completa no momento em que o marcador foi adicionado. Com tempos de incubação mais longos, segmentos sucessivamente mais longos do polipeptídeo apresentaram resíduos marcados, sempre em um bloco na extremidade carboxil da cadeia. A extremidade não marcada do polipep- tídeo (aminoterminal) foi então definida como a extremidade iniciadora, isto é, os polipeptídeos crescem por adições sucessivas de aminoácidos na extremidade carboxil. 1128 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX quisadores australianos que a identificaram, John Shine e Lynn Dalgarno), presente no mRNA. Essa sequência con- senso é um sinal de iniciação contendo de quatro a nove re- síduos de purina, 8 a 13 pb no lado 59 do códon de iniciação (Figura 27-26a). A sequência realiza um pareamento de bases com uma sequência complementar rica em pirimidina próxima à extremidade 39 do rRNA 16S da subunidade 30S do ribossomo (Figura 27-26b). Essa interação mRNA-rRNA coloca a sequência iniciadora (59)AUG do mRNA em uma posição precisa da subunidade 30S, onde ela é necessária para o início da tradução. O (59)AUG específico no qual o fMet-tRNAfMet deve se ligar é distinguido de outros códons de metionina pela sua proximidade à sequência Shine-Dal- garno no mRNA. Os ribossomos bacterianos têm três sítios que ligam tRNA, o sítio aminoacil (A), o sítio peptidil (P) e o sítio de saída (E) (de exit). Os sítios A e P se ligam a um aminoacil-tRNA, enquanto o sítio E se liga apenas a tRNA não carregados, que já completaram sua tarefa no ribosso- mo. Ambas as subunidades 30S e 50S contribuem para as características dos sítios A e P, enquanto o sítio E é restri- to à subunidade 50S. O (59)AUG iniciador é posicionado no sítio P, o único sítio no qual o fMet-tRNAfMet consegue se ligar (Figura 27-25). O fMet-tRNAfMet é o único aminoacil- -tRNA que se liga primeiro ao sítio P; durante o estágio subsequente de alongamento, todos os outros aminoacil- -tRNA que chegam (incluindo o Met-tRNAMet, que se liga a códons AUG internos), ligam-se primeiro ao sítio A e só depois aos sítios P e E. O sítio E é o sítio pelo qual os tRNA “não carregados” saem durante o alongamento. O fator IF-1 se liga ao sítio A e impede a ligação do tRNA nesse sítio durante a iniciação. Na etapa ➋ do processo de iniciação (Figura 27-25), o complexo constituído da subunidade 30S do ribossomo, do IF-3 e do mRNA se junta ao IF-2 ligado a GTP e ao fMet- -tRNAfMet iniciador. O anticódon desse tRNA pareia então corretamente com o códon iniciador do mRNA. Na etapa ➌, esse grande complexo se combina com a subunidade 50S do ribossomo; simultaneamente, o GTP li- gado ao IF-2 é hidrolisado a GDP e Pi, os quais são liberados do complexo. Nesse ponto, todos os três fatores de inicia- ção saem do ribossomo. O término das etapas mostradas na Figura 27-25 produz um ribossomo funcional 70S chamado de complexo de ini- ciação, o qual contém o mRNA e o fMet-tRNAfMet iniciador. A ligação correta do fMet-tRNAfMet no sítio P no complexo de iniciação 70S é garantida por, pelo menos, três pontos de reconhecimento e de ligação: a interação códon-anticódon envolvendo o AUG iniciador posicionado no sítio P; a in- teração entre a sequência de Shine-Dalgarno do mRNA e o rRNA 16S, e as interações de ligação entre o sítio P do ribossomo e o fMet-tRNAfMet. O complexo de iniciação está agora pronto para o alongamento. A iniciação nas células eucarióticas A tradução é, de modo ge- ral, semelhante em células eucarióticas e em células bac- terianas; a maioria das diferenças significativas estão no número de componentes envolvidos e em detalhes do seu mecanismo. O processo de iniciação em eucariotos está es- — GTP P A E AUG UAC 39 59 P A P E E E AUG UAC fMet fMet 39 59 5939 AUG 39 59 Subunidade 30S A subunidade 30S liga o IF-1 e o IF-3, e depois o mRNA. IF2-GTP liga-se à subunidade 30S e recruta o fMet-tRNAfMet, o qual forma pares de bases com o códon de iniciação. A subunidade 50S associa-se ao complexo, o IF-2 hidrolisa o GTP, e IF-1, IF-2 e IF-3 se dissociam do complexo de iniciação. Anticódon tRNA Subunidade 50S Complexo de iniciação Próximo códon mRNA mRNA IF-3 GTP IF-1 IF-2 IF-31 1 GDP 1 P i Subunidade 50S IF-1 IF-1 IF-2 Sequência de Shine-Dalgarno 16S rRNA ❶ ❷ ❸ P UAC IF-2IF-3 IF-1 fMet IF-3 FIGURA 2725 Formação do complexo de iniciação em bactérias. O complexo é formado em três etapas (descritas no texto) à custa da hidrólise de GTP, gerando GDP e Pi. IF-1, IF-2 e IF-3 são os fatores de iniciação. E designa o sítio de saída, P o sítio peptidil e A o sítio aminoacil. Aqui, o anticódon do tRNA está orientado no sentido de 39 para 59, da esquerda para a direita, como na Figura 27-8, mas contrário à orientação mostrada nas Figuras 27-21 e 27-23. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1129 quematizado na Figura 27-27. O mRNA de eucariotos se liga ao ribossomo formando um complexo com várias pro- teínas ligantes específicas. As células eucarióticas têm pelo menos 12 fatores de iniciação. Os fatores de iniciação eIF1A e eIF3 são homólogos funcionais do IF-1 e IF-3 de bacté- rias, ligando-se à subunidade 40S na etapa ➊, bloqueando a ligação do tRNA ao sítio A e o acoplamento prematuro da subunidade maior com a subunidade menor do ribos- somo, respectivamente. O fator eIF1 liga-se ao sítio E. O tRNA iniciador carregado liga-se ao eIF2, o qual também está ligado a um GTP. Na etapa ➋, esse complexo ternário liga-se à subunidade ribossomal 40S, junto com outras duas proteínas envolvidas em etapas posteriores, eIF5 (que não está mostrada na Figura 27-27) e eIF5B. Esses componen- tes formam o complexo de preiniciação 43S. O mRNA liga- -se ao complexo eIF4F o qual, na etapa ➌, é o intermediário na sua associação com o complexo de preiniciação 43S. O complexo eIF4F é formado pelo eIF4E (ligando o quepe 59), eIF4A (com atividade ATPase e RNA-helicase) e eIF4G (uma proteína ligadora). A proteína eIF4G liga-se ao eIF3 e ao eIF4E, estabelecendo a primeira ligação entre o comple- xo de preiniciação 43S e o mRNA. O eIF4G também se liga à proteína ligadora da cauda poli-A (PABP, de poly(a) bin- ding protein) na extremidade 39 do mRNA, circularizando o mRNA (Figura 27-28) e facilitandoa regulação tradu- cional da expressão gênica, como descrito no Capítulo 28. A ligação do mRNA e dos fatores a ele associados cria o complexo 48S. Esse complexo escaneia o mRNA, inician- do no quepe 59 até que seja encontrado um códon AUG. Esse processo de escaneamento ou varredura (etapa ➍ da Figura 27-27) é facilitado pela atividade de RNA-helicase do eIF4A e por um outro fator (eIF4B, que não aparece na Figura 27-27), cuja atividade molecular exata ainda não é conhecida. Uma vez encontrado o local onde está o AUG inicia- dor, ocorre associação da subunidade ribossomal 60S com o complexo na etapa ➎ e liberação de muitos fatores de iniciação. Isso requer ação do eIF5 e do eIF5B. A proteína eIF5 promove a atividade GTPase do eIF2, produzindo um complexo eIF2-GDP com afinidade reduzida pelo tRNA ini- ciador. A proteína eIF5B é homóloga à IF-2 de bactérias. Ela hidrolisa o GTP que está ligado a ela e dispara a disso- ciação do eIF2-GDP de outros fatores de iniciação, e em seguida ocorre a associação da subunidade 60S. Assim se completa a formação do complexo de iniciação. Os papéis dos vários fatores de iniciação de bactérias e de eucariotos no processo como um todo estão resumi- dos na Tabela 27-8. O mecanismo pelo qual essas proteínas agem constitui uma importante área de pesquisa. Estágio 3: As ligações peptídicas são formadas no estágio de alongamento A terceira etapa da síntese proteica é o alongamento. Ou- tra vez, primeiramente serão analisadas as células bacteria- nas. O alongamento requer (1) o complexo de iniciação des- crito anteriormente, (2) aminoacil-tRNA, (3) um conjunto de três proteínas citosólicas solúveis chamadas de fatores de alongamento (EF-Tu, EF-Ts e EF-G nas bactérias) e (4) GTP. As células realizam três etapas para adicionar cada (59) A G C A C G A G G G G A A A U C U G A U G G A A C G C U A C (39) trpA de E. coli araB de E. coli lacI de E. coli proteína A do fago fX174 cro do fago l U U U G G A U G G A G U G A A A C G A U G G C G A U U G C A C A A U U C A G G G U G G U G A A U G U G A A A C C A G U A A A U C U U G G A G G C U U U U U U A U G G U U C G U U C U A U G U A C U A A G G A G G U U G U A U G G A A C A A C G C Sequência de Shine-Dalgarno; pareia com o rRNA 16S Códon de iniciação; pareia com fMet-tRNAfMet (a) (59) G A U U C C U A G G A G G U U U mRNA bacteriano com a sequência consenso de Shine-Dalgarno (b) Extremidade 39 do rRNA 16S 39 OH A U U C C U C C G A U C A G A C C U A U G C G A G C U U (39)U U A G U FIGURA 2726 Sequências do RNA mensageiro que servem como si- nais para iniciar a síntese proteica nas bactérias. (a) O alinhamento do AUG iniciador (mostrado em verde) no seu local correto na subunidade 30S do ribossomo depende, em parte, das sequências de Shine-Dalgarno situadas a montante (em bege). Porções do transcrito de mRNA de cinco genes bacterianos são mostradas. Observe o raro exemplo da proteína LacI de E. coli, que inicia com o códon GUG (Val) (ver Quadro 27-1). Em E. coli, AUG é o códon de iniciação em cerca de 91% dos genes, com GUG (7%) e UUG (2%) assumindo essa função mais raramente. (b) A sequência de Shine- -Dalgarno do mRNA pareia com uma sequência próxima da extremidade 39 do rRNA 16S. 1130 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX resíduo de aminoácido, e essas etapas são repetidas enquan- to houverem resíduos a ser adicionados. Etapa 1 do alongamento: Ligação de um aminoacil-tRNA Na pri- meira etapa do ciclo de alongamento (Figura 27-29), o aminoacil-tRNA apropriado que entra se liga a um com- plexo que consiste em EF-Tu ligado a GTP. O complexo aminoacil-tRNA–EF-Tu–GTP resultante se liga ao sítio A do complexo de iniciação 70S. O GTP é hidrolisado, e um complexo EF-Tu–GDP é liberado do ribossomo 70S. O com- plexo EF-Tu–GTP é regenerado durante um processo en- volvendo EF-Ts e GTP. Etapa 2 do alongamento: Formação da ligação peptídica Uma liga- ção peptídica é agora formada entre os dois aminoácidos ligados, por meio dos seus tRNAs, aos sítios A e P no ri- bossomo. Isso ocorre por meio da transferência do grupo N-formilmetionil do tRNA iniciador para o grupo amino do segundo aminoácido, agora no sítio A (Figura 27-30). O ❶ ❷ ❸ ❹ ❺ eIF4F AUG AUG 39 3959 59 E P eIF3 eIF3 eIF4F eIF2GTP— eIF5B — GTP ATP ADP + Pi elF1 PE UAC Met elF1A PE A Subunidade ribossomal 40S Complexo 48S Complexo de pré-iniciação 43S Varredura eIF1 eIF3 eIF3 eIF1A UAC Met 5939 Anticódon eIF5B — GTP eIF2GTP— eIF3 eIF2GTP— — GTP PE UAC Met elF1A eIF4F AUG 39 59 eIF3 eIF2GTP— eIF2Pi + GDP— Pi + GDP— eIF5B — GTPelF1 elF1 PE UAC Met elF1A eIF5B 80S elF1A Subunidade ribossomal 60S AUG 3959 eIF4F Met PE UAC eIF1 eIF1A eIF5BelF1 FIGURA 2727 O início da síntese proteica em eucariotos. As cinco etapas são descritas no texto. Os fatores de iniciação eucarióticos medeiam a associação primeiramente do tRNA iniciador carregado para formar um complexo 43S e depois do mRNA (com o quepe 59 mostrado em verme- lho) para formar um complexo 48S. O complexo de iniciação final é formado quando a subunidade 60S se associa, ao mesmo tempo em que ocorre a liberação da maioria dos fatores de iniciação. AAAAAAAAA eIF4F eIF4E eIF4G eIF4A eIF3 Quepe 59 40S AUG Região não traduzida na extremidade 39 (UTR) Proteína ligadora da cauda poli(A) 39 FIGURA 2728 Circularização do mRNA no complexo de iniciação em eucariotos. As extremidades 39 e 59 dos mRNAs de eucariotos são unidas pelo complexo proteico eIF4F. A subunidade eIF4E liga-se ao quepe 59, e a proteína eIF4G liga-se à proteína ligadora da cauda poli(A) (PABP) na extremi- dade 39 do mRNA. A proteína eIF4G também se liga ao eIF3, unindo o mRNA circularizado à subunidade 40S do ribossomo. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1131 TABELA 278 Fatores proteicos necessários para a iniciação da tradução em células bacterianas e eucarióticas Fator Função Bactérias IF-1 Impede a ligação prematura do tRNA no sítio A IF-2 Facilita a ligação do fMet-tRNAfMet à subunidade 30S do ribossomo IF-3 Liga-se à subunidade 30S; impede a associação prematura da subunidade 50S; aumenta a especificidade do sítio P pelo fMet-tRNAfMet Eucariotos eIF1 Liga-se ao sítio E da subunidade 40S; facilita a interação entre o complexo ternário eIF2-tRNA-GTP e a subuni- dade 40S eIF1A Homólogo ao IF-1 de bactérias; impede a ligação prematura do tRNA no sítio A eIF2 GTPase; facilita a ligação do Met-tRNA- Met iniciador à subunidade ribossomal 40S eIF2B*, eIF3 Primeiros fatores a se ligarem na subunidade 40S; facilitam as etapas subsequentes eIF4F Complexo que consiste em eIF4E, eI- F4A e eIF4G eIF4A Atividade de RNA-helicase; remove estruturas secundárias do mRNA para permitir a ligação à subunidade 40S; faz parte do complexo eIF4F eIF4B Liga-se ao mRNA; facilita a varredura do mRNA para localizar o primeiro AUG eIF4E Liga-se ao quepe 59 do mRNA; faz parte do complexo eIF4F eIF4G Liga-se ao eIF4E e à proteína ligante de poli(A) (PABP); faz parte do complexo eIF4F eIF5* Promove a dissociação de vários outros fatores de iniciação da subunidade 40S antes que ocorra a associação dessa com a subunidade 60S para formar o complexo de iniciação 80S eIF5b GTPase homóloga ao IF-2 de bactérias; promove a dissociação dos fatores de iniciação antes da montagem final do ribossomo * Não mostrados na Figura 27-27. P A E AUG UAC 39 mRNA 59 fMet 50S 30S GDP Tu —GTP Tu Ts Ts Ts Tu —GDP + Pi GTP P A E AUG UAC 39 59 fMet AA2 PE AUG UAC 39 59 fMet Ligação do segundo aminoacil-tRNA Hidrólise do GTP e encaixe Segundo aminoacil-tRNA que chega AA2 G TP— GTP— Tu AA2 AA2 A Tu Códon de iniciação Próximo códon FIGURA 2729 Primeira etapa do alongamento em bactérias: ligação do segundo aminoacil-tRNA. O segundo aminoacil-tRNA (AA2) entra no sítio A do ribossomo ligado a EF-Tu, que está ligado a GTP (mostradoaqui como Tu), o qual também contém GTP. A ligação do segundo aminoacil- -tRNA ao sítio A é acompanhada pela hidrólise de GTP a GDP e Pi e liberação do complexo EF-Tu–GDP do ribossomo. O GDP ligado é liberado quando o complexo EF-Tu–GDP se liga ao EF-Ts, e o EF-Ts depois é liberado quando outra molécula de GTP se liga a EF-Tu. Isso recicla o EF-Tu, deixando-o dis- ponível para repetir o ciclo. O encaixe envolve uma mudança na conforma- ção do segundo tRNA, trazendo sua extremidade aminoacil para o sítio da peptidil-transferase. 1132 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX grupo a-amino do aminoácido no sítio A age como um nu- cleófilo, deslocando o tRNA do sítio P para formar a ligação peptídica. Essa reação produz um dipeptidil-tRNA no sítio A, e o tRNAfMet “não carregado” (desacilado) permanece ligado ao sítio P. Os tRNA mudam então para um estado híbrido de ligação, com elementos de cada um deles esten- dendo-se sobre dois sítios diferentes no ribossomo, como mostrado na Figura 27-30. A atividade enzimática que catalisa a formação da liga- ção peptídica tem sido historicamente chamada de pep- tidil-transferase e era considerada intrínseca a uma ou mais proteínas da subunidade maior do ribossomo. Agora sabe-se que essa reação é catalisada pelo rRNA 23S, con- tribuindo para o conhecido repertório catalítico das ribozi- mas. Essa descoberta apresenta implicações interessantes para a evolução da vida (ver Quadro 27-2). Etapa 3 do alongamento: Translocação Na etapa final do ciclo de alongamento, a translocação, o ribossomo se move um códon em direção à extremidade 39 do mRNA (Figura 27-31a). Esse movimento move o anticódon do dipeptidil- -tRNA, o qual ainda está preso ao segundo códon do mRNA, do sítio A para o sítio P, e move o tRNA desacilado do sítio P para o sítio E, a partir do qual o tRNA é liberado para o ci- tosol. O terceiro códon do mRNA se encontra agora no sítio A e o segundo códon no sítio P. O movimento do ribossomo ao longo do mRNA requer o fator EF-G (também conheci- do como translocase) e a energia fornecida pela hidrólise de outra molécula de GTP. Uma mudança na conformação tridimensional de todo o ribossomo resulta no movimento desse ao longo do mRNA. Como a estrutura do EF-G se assemelha à estrutura do complexo EF-Tu–tRNA (Figura 27-31b), o EF-G é capaz de se ligar ao sítio A e, presumivel- mente, deslocar o peptidil-tRNA. Após a translocação, o ribossomo, com o dipeptidil- -tRNA e o mRNA ligados, está pronto para um novo ciclo de alongamento e para a ligação de um terceiro resíduo de aminoácido. Esse processo ocorre da mesma forma que a adição do segundo resíduo (como mostrado nas Figuras 27- 29, 27-30 e 27-31). Para cada resíduo de aminoácido cor- retamente adicionado ao polipeptídeo nascente, dois GTPs são hidrolisados a GDP e Pi, à medida que o ribossomo se move códon a códon ao longo do mRNA em direção à extre- midade 39. O polipeptídeo permanece ligado ao tRNA do último (mais recentemente) aminoácido inserido. Essa associação mantém a conexão funcional entre a informação contida no mRNA e a produção do polipeptídeo decodificado. Ao mes- mo tempo, a ligação éster entre esse tRNA e a extremidade carboxil do polipeptídeo nascente ativa o grupo carboxiter- minal para o ataque nocleofílico pelo aminoácido que chega para formar uma nova ligação peptídica (Figura 27-30). À medida que a ligação éster existente entre o polipeptídeo e o tRNA é quebrada durante a formação da ligação peptí- H HH C N R2 CO .. Formação da ligação peptídica P AE AUG UAC 39 59 AA2 fMet HC HN R2 CO O O O OH Sítio P Sítio E Sítio A HC NH R1 CO C O H HC NH R1 CO O OO O OHOH O O C O H Sítio P Sítio A AA2 AA2fMet P A E AUG UAC 59 39 fMet AA2 fMet Sítio P Sítio A O C C CN C H R2H O H H NH C H O R1 O— + O OO O HO H O O fMet AA2 FIGURA 2730 Segunda etapa do alongamento em bactérias: forma- ção da primeira ligação peptídica. A peptidil-transferase que catalisa essa reação é a ribozima rRNA 23S. O grupo N-formilmetionil é transferido para o grupo amino do segundo aminoacil-tRNA no sítio A, formando um dipeptidil-tRNA. Nesse estágio, ambos os tRNAs ligados ao ribossomo mu- dam de posição na subunidade 50S, adotando um estado híbrido de ligação. O tRNA não carregado se desloca de modo que suas extremidades 39 e 59 ficam no sítio E. De forma semelhante, as extremidades 39 e 59 do peptidil- -tRNA se deslocam para o sítio P. Os anticódons permanecem nos sítios P e A. Observe o envolvimento do grupamento 29-hidroxila da adenosina da extremidade 39 como um catalisador ácido-base geral nesta reação. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1133 (a) (b) Hidrólise de GTP Pi fMet P AE AUG UAC 39 59 AA2 fMet PE AUG UAC 39 59 AA2 EF-G GTP EF-G GTP EF-Tu tRNA EF-G GDP EF-G GDP EF-G GDP P AE AUG UAC 39 59 AA2 fMet P AE AUG UAC 39 59 AA2 fMet dica, a ligação entre o polipeptídeo e a informação contida no mRNA persiste, pois cada novo aminoácido adicionado permanece preso ao seu tRNA. O ciclo de alongamento em eucariotos é bastante seme- lhante ao que ocorre em bactérias. Três fatores de alonga- mento eucarióticos (eEF1a, eEF1bg e eEF2) têm funções análogas àquelas dos fatores de alongamento bacterianos (EF-Tu, EF-Ts e EF-G, respectivamente). Os ribossomos eucarióticos não têm um sítio E; os tRNAs não carregados são expulsos diretamente do sítio P. Edição no ribossomo A atividade GTPásica do EF-Tu duran- te a primeira etapa do alongamento em células bacterianas (Figura 27-29) contribui de maneira importante para a ve- locidade e a fidelidade de todo o processo biossintético. Tanto o complexo EF-Tu–GTP como o EF-Tu–GDP existem por poucos milissegundos antes de se dissociarem. Esses períodos de tempo constituem oportunidades para que ocorra uma leitura para edição das interações códon-anti- códon. Os aminoacil-tRNA incorretos normalmente se dis- sociam do sítio A em um desses momentos. Se o análogo de GTP guanosina 59-O-(3-tiotrifosfato) (GTPgS) for utilizado no lugar do GTP, a hidrólise se torna mais lenta, melhoran- FIGURA 2731 Terceira etapa do alongamento em bactérias: trans- locação. (a) O ribossomo se move a distância de um códon em direção à extremidade 39 do mRNA, utilizando a energia proveniente da hidrólise do GTP ligado ao fator EF-G (translocase). O dipeptidil-tRNA está agora to- talmente no sítio P, deixando o sítio A aberto para a entrada do próximo (terceiro) aminoacil-tRNA. O tRNA não carregado se dissocia, depois, do sítio E, e o ciclo de alongamento inicia novamente. (b) A estrutura do EF-G se as- semelha à estrutura do EF-Tu complexado com tRNA. Mostrados aqui estão (à esquerda) o EF-Tu em complexo com o tRNA (PDB ID 1B23) e (à direita) o EF-G em complexo com GDP (PDB ID 1DAR). A região carboxiterminal do EF-G se assemelha, estruturalmente, à alça do anticódon do tRNA, tanto em forma como em distribuição de cargas. 1134 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX do a fidelidade (aumentando os intervalos de edição), mas reduzindo a velocidade da síntese proteica. ]O O] S P O O] O P NH2 O] O P OO O OH H H H OH H N N O N N CH2 Guanosina 59-O-(3-tiotrifosfato) (GTPgS) O processo de síntese proteica (incluindo as caracterís- ticas do pareamento códon-anticódon já descritas) foi cla- ramente otimizado ao longo da evolução, de forma a equili- brar as exigências de rapidez e fidelidade. Maior fidelidade diminui a velocidade, enquanto aumentos na velocidade provavelmente comprometeriam a fidelidade. E lembre-se que o mecanismo de edição no ribossomo estabelece ape- nas que ocorreu pareamento apropriado entre códon e an- ticódon e não verifica se o aminoácido correto está ligado ao tRNA. Se um tRNA for aminoacilado com sucesso com um aminoácido errado (o que se pode fazer experimental- mente), esse aminoácido incorreto é de maneira eficiente incorporado à proteínaem resposta a qualquer códon que seja reconhecido normalmente por aquele tRNA. Estágio 4: A terminação da síntese de polipeptídeos requer um sinal especial O alongamento continua até que o ribossomo adicione o último aminoácido codificado pelo mRNA. A terminação, quarto estágio da síntese de polipeptídeos, é sinalizada pela presença de um dos três códons de parada no mRNA (UAA, UAG, UGA), imediatamente após o último aminoácido co- dificado. Mutações no anticódon do tRNA que permitem que um aminoácido seja inserido em um códon de parada são geralmente deletérias para a célula (Quadro 27-4). Em bactérias, uma vez que um códon de parada tenha ocupa- do o sítio A do ribossomo, três fatores de terminação, ou fatores de liberação – as proteínas RF-1, RF-2 e RF-3 –, contribuem para (1) hidrólise da ligação peptidil-tRNA ter- minal; (2) liberação do polipeptídeo e do último tRNA, agora não carregado, do sítio P, e (3) dissociação do ribossomo 70S em suas subunidades 30S e 50S, prontas para começar um novo ciclo de síntese de polipeptídeo (Figura 27-32). O RF-1 reconhece os códons de parada UAG e UAA, e o RF-2 reconhece UGA e UAA. O RF-1 ou o RF-2 (dependendo do códon presente) se liga a um códon de parada e induz a peptidil-transferase a transferir o polipeptídeo nascente para uma molécula de água em vez de para outro amino- ácido. Os fatores de liberação têm domínios que parecem assemelhar-se à estrutura do tRNA, como mostrado para o fator de alongamento EF-G na Figura 27-31b. A função es- QUADRO 274 Variação induzida do código genético: supressão sem sentido Quando uma mutação produz um códon de parada no interior de um gene, a tradução é prematuramente in- terrompida, e o polipeptídeo incompleto é, geralmente, inativo. Essas mutações são chamadas de mutações sem sentido. O gene pode ter sua função normal recuperada se uma segunda mutação (1) converter o códon de pa- rada resultante da primeira mutação em um códon que especifique um aminoácido ou (2) suprimir os efeitos do códon de terminação. Essas mutações restauradoras são chamadas de supressores sem sentido; elas geralmente envolvem mutações em genes de tRNA para produzir tR- NAs alterados (supressores) capazes de reconhecer o có- don de parada e inserir um aminoácido naquela posição. A maioria dos tRNAs supressores conhecidos apresentam substituições de uma única base nos seus anticódons. Os tRNAs supressores constituem uma variação expe- rimentalmente induzida do código genético para permitir a leitura de códons que são, geralmente, de terminação, de forma bem parecida com as variações de código que ocor- rem naturalmente, conforme descrito no Quadro 27-1. A supressão sem sentido não quebra totalmente a transferên- cia normal de informação na célula, pois a célula geralmen- te tem várias cópias de cada gene de tRNA; alguns desses genes duplicados são pouco expressos e contribuem ape- nas para uma pequena fração do conjunto de um determi- nado tRNA na célula. As mutações supressoras, em geral, envolvem um tRNA “menos importante”, deixando os tR- NAs principais para que o códon seja lido normalmente. Por exemplo, a E. coli tem três genes idênticos para tRNATyr, sendo que cada um produz um tRNA com o an- ticódon (59)GUA. Um desses genes é expresso em níveis relativamente altos, e, portanto, o seu produto represen- ta a principal fração de tRNATyr; os outros dois genes são transcritos em quantidades pequenas. Uma mudança no anticódon do tRNA produzido a partir de um desses dois genes de tRNATyr, de (59)GUA para (59)CUA, produz, em baixas quantidades, um tipo de tRNATyr que irá inserir tirosina em códons de parada UAG. Essa inserção de ti- rosina em UAG é realizada de maneira pouco eficiente, mas pode produzir quantidades suficientes da proteína inteira, a partir de um gene com mutação sem sentido, de modo a permitir que a célula sobreviva. O tRNATyr majori- tário continua traduzindo o código genético normalmen- te para a maioria das proteínas. A mutação que leva à geração de um tRNA supres- sor nem sempre ocorre no anticódon. A supressão de códons UGA sem sentido geralmente envolve o tRNATrp que reconhece, normalmente, UGG. A alteração que per- mite que ele leia UGA (e insira resíduos de Trp nessas posições) é uma mudança de G para A na posição 24 (em um braço do tRNA ligeiramente afastado do anti- códon); esse tRNA pode agora reconhecer tanto UGG como UGA. Uma mudança semelhante é encontrada em tRNAs envolvidos na variação de código genético mais comumente encontrada na natureza (UGA 5 Trp; ver Quadro 27-1). PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1135 pecífica do RF-3 ainda não foi definitivamente estabelecida, mas acredita-se que ele libera a subunidade ribossomal. Em eucariotos, um único fator de liberação, o eRF, reconhece todos os três códons de parada. A reciclagem do ribossomo leva à dissociação dos com- ponentes envolvidos na tradução. Os fatores de liberação se dissociam do complexo resultante da parada (contendo um tRNA não carregado no sítio P) e são substituídos pelo EF-G e por uma proteína denominada fator de reciclagem do ri- bossomo (RRF, de ribosome recycling factor; Mr 20.300). A hidrólise do GTP pelo EF-G leva à dissociação da subuni- dade 50S, que se separa do complexo 30S tRNA–mRNA. O EF-G e o RRF são substituídos por IF-3, o qual promove a dissociação do tRNA. O mRNA é então liberado. O complexo formado entre o IF-3 e a subunidade 30S está então pronto para iniciar outro ciclo de síntese proteica (Figura 27-25). Custo energético da fidelidade na síntese proteica A síntese de uma proteína fiel à informação especificada pelo seu respec- tivo mRNA requer energia. A formação de cada aminoacil- -tRNA utiliza dois grupos fosfato de alta energia. Um ATP adicional é consumido cada vez que um aminoácido incor- retamente ativado é hidrolisado pela atividade desacilase de uma aminoacil-tRNA-sintase, como parte de sua atividade de edição. Um GTP é clivado em GDP e Pi durante a primei- ra etapa de alongamento, e outro durante a etapa de translo- cação. Assim, para a formação de cada ligação peptídica em um polipeptídeo, é necessária, em média, a energia derivada da hidrólise de mais de quatro NTPs gerando NDPS. Isso representa um “empurrão” termodinâmico excessi- vamente grande na direção da síntese: pelo menos 4 3 30,5 kJ/mol 5 122 kJ/mol de energia de ligação fosfodiéster para gerar uma ligação peptídica, a qual tem uma energia livre pa- drão de hidrólise de apenas aproximadamente –21 kJ/mol. A variação de energia livre durante a síntese de uma ligação peptídica, portanto, tem valor líquido de – 101 kJ/mol. As pro- teínas são polímeros que contêm informação. O objetivo bio- químico não é apenas a formação de uma ligação peptídica, mas a formação de uma ligação peptídica entre dois aminoáci- dos específicos. Cada um dos compostos fosfatados altamen- te energéticos gastos nesse processo têm papel fundamental na manutenção do alinhamento correto entre cada novo có- don no mRNA e o seu respectivo aminoácido na extremidade crescente do polipeptídeo. Essa energia permite uma altíssi- ma fidelidade na tradução biológica da mensagem genética do mRNA para a sequência de aminoácidos das proteínas. Tradução rápida de uma única mensagem pelos polissomos Grandes conjuntos de 10 a 100 ribossomos muito ativos na síntese proteica podem ser isolados de células eucarióticas e bacte- rianas. Micrografias eletrônicas mostram a presença de uma fibra entre ribossomos adjacentes em um conjunto, o qual é chamado de polissomo (Figura 27-33a). A fita conectora é uma única molécula de mRNA que está sendo traduzida simultaneamente por ribossomos muito próximos uns dos outros, permitindo um uso altamente eficiente do mRNA. Em bactérias, a transcrição e a tradução são processos estreitamente acoplados. Os RNAs mensageiros são sinte- tizados e traduzidos na mesma direção 59S39. Os ribosso- mos começam a traduzir a extremidade 59 do mRNA antesA ligação polipeptidil-tRNA é hidrolisada O fator de liberação se liga —COO2 P AE UAG 3959 RF UAG P UAG 3959 –GDP + RRF RRF Os componentes se dissociam RF RF A E 3959 –GTP IF-3 Pi EF-G EF-G IF-3 FIGURA 2732 Terminação da síntese de proteínas em bactérias. A terminação ocorre em resposta a um códon de parada no sítio A. Primeiro, um fator de liberação, RF (RF-1 ou RF-2, dependendo do códon de parada presente), liga-se ao sítio A. Isso causa a hidrólise da ligação éster entre o po- lipeptídeo nascente e o tRNA no sítio P e a liberação do polipeptídeo com- pleto. Finalmente, o mRNA, o tRNA desacilado e o fator de liberação saem do ribossomo, o qual se dissocia em suas subunidades 30S e 50S, auxiliado pelo fator de reciclagem do ribossomo (RRF), pelo IF-3 e pela energia fornecida pela hidrólise de GTP mediada por EF-G. O complexo formado pela subuni- dade 30S e pelo IF-3 está pronto para iniciar um outro ciclo de tradução (ver Figura 27-25). 1136 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX que a transcrição tenha sido completada (Figura 27-33b). A situação é um tanto diferente em células eucarióticas, nas quais os mRNAs recém-sintetizados precisam deixar o nú- cleo antes que possam ser traduzidos. Em geral, os mRNAs bacterianos existem por apenas alguns minutos (p. 1084) antes de serem degradados por nucleases. Para manter altas taxas de síntese proteica, o mRNA para uma dada proteína ou grupo de proteínas preci- sa ser sintetizado continuamente e traduzido com eficiência máxima. O curto tempo de vida dos mRNAs nas bactérias permite a parada rápida da síntese quando a proteína não é mais necessária. Estágio 5: As cadeias polipeptídicas recém-sintetizadas sofrem enovelamento e processamento Na etapa final da síntese proteica, a cadeia polipeptídica nascente é dobrada e processada, adquirindo sua forma biologicamente ativa. Durante ou após a sua síntese, o po- lipeptídeo assume, progressivamente, sua conformação nativa, com a formação de interações/ligações apropriadas, como ligações de hidrogênio, interações hidrofóbicas, iôni- cas e de van der Waals. Dessa forma, a informação genética linear, ou unidimensional, contida no mRNA é convertida na estrutura tridimensional da proteína. Algumas proteí- nas recém-sintetizadas, sejam elas de bactérias, arqueias ou eucariotos, não adquirem sua conformação final biolo- gicamente ativa até que sejam alteradas por uma ou mais reações de processamento, denominadas modificações pós-traducionais. Modificações aminoterminais e carboxiterminais O primeiro resíduo inserido em todos os polipeptídeos é a N-formil- metionina (em bactérias) ou metionina (em eucariotos). Entretanto, o grupo formil, o resíduo Met aminoterminal e, frequentemente, resíduos adicionais da região amino- terminal (e, em alguns casos, da extremidade carboxil) podem ser removidos enzimaticamente para a formação da proteína funcional final. Em até 50% das proteínas euca- rióticas, o grupamento amino do resíduo aminoterminal é N-acetilado após a tradução. Às vezes, resíduos carboxiter- minais são também modificados. Perda das sequências sinalizadoras Como será visto na Seção 27.3, 15 a 30 resíduos da extremidade aminoterminal de al- gumas proteínas têm papel no endereçamento da proteína para seu destino final na célula. Essas sequências sinali- zadoras são removidas no final por peptidases específicas. Modificação de aminoácidos individuais Os grupos hidroxila de certos resíduos Ser, Thr e Tyr de algumas proteínas são en- zimaticamente fosforilados por ATP (Figura 27-34a); os grupos fosfato adicionam cargas negativas a esses polipep- tídeos. O significado funcional dessa modificação varia de uma proteína para outra. Por exemplo, a proteína caseína do leite tem muitos grupos de fosfosserina que ligam Ca21. Cálcio, fosfato e aminoácidos são elementos valiosos para lactentes; a caseína fornece, assim, três nutrientes essen- ciais. E, como foi visto em vários exemplos, os ciclos de fosforilação-desfosforilação regulam a atividade de muitas enzimas e proteínas regulatórias. Grupos carboxil extras podem ser adicionados a resí- duos Glu de algumas proteínas. Por exemplo, a protrom- bina, proteína da coagulação sanguínea, contém vários resíduos de g-carboxiglutamato (Figura 27-34b) na sua região aminoterminal, os quais são introduzidos por uma enzima que necessita de vitamina K. Esses grupos carboxil ligam Ca21, o qual é necessário para iniciar o mecanismo de coagulação. Resíduos de monometil e dimetil-lisina (Figura 27-34c) ocorrem em algumas proteínas musculares e no citocromo c. A calmodulina da maioria dos organismos contém um re- síduo de trimetil-lisina em uma posição específica. Em ou- tras proteínas, os grupos carboxil de alguns resíduos Glu sofrem metilação, que remove suas cargas negativas. Ligação de cadeias laterais de carboidratos As cadeias laterais de carboidratos das glicoproteínas são ligadas covalente- mente durante ou após a síntese do polipeptídeo. Em algu- mas glicoproteínas, a cadeia lateral de carboidrato é ligada enzimaticamente a resíduos Asn (oligossacarídeos N-liga- dos); em outras, a resíduos Ser ou Thr (oligossacarídeos O- (b) (a) RNA- -polimerase Subunidades ribossomais que chegam Polissomo Polissomo DNA DNA Polissomos mRNA 0,5 mm 59 50S 30S 59 59 Direção da tradução Direção da transcrição FIGURA 2733 Acoplamento da transcrição e da traduação em bac- térias. (a) Micrografia eletrônica de polissomos que se formam durante a transcrição de um segmento de DNA de E. coli. Cada molécula de mRNA está sendo traduzida por muitos ribossomos simultaneamente. As cadeias poli- peptídicas nascentes que são formadas nos ribossomos são difíceis de visuali- zar devido às condições sob as quais as amostras mostradas nessas microgra- fias eletrônicas são preparadas. A seta aponta o local aproximado do início do gene que está sendo transcrito. (b) Cada mRNA é traduzido pelos ribossomos enquanto ainda está sendo transcrito do DNA pela RNA-polimerase. Isso é possível porque, em bactérias, o mRNA não precisa ser transportado do nú- cleo para o citoplasma para que encontre os ribossomos. Neste diagrama, os ribossomos são mostrados em tamanho menor do que a RNA-polimerase. Na verdade o tamanho do ribossomo (Mr 2,7 3 10 6) é uma ordem de magnitude maior do que o tamanho da RNA-polimerase (Mr 3,9 3 10 5). PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1137 -ligados) (ver a Figura 7-30). Muitas proteínas com função extracelular, bem como os proteoglicanos lubrificantes que revestem as membranas mucosas, contêm cadeias laterais de oligossacarídeos (ver Figura 7-28). Adição de grupos isoprenila Várias proteínas eucarióticas são modificadas pela adição de grupos derivados do isopreno (grupos isoprenila). Uma ligação tioéter é formada entre o grupo isoprenila e um resíduo Cys da proteína (ver Figura 11-15). Os grupos isoprenila são derivados de intermediá- rios pirofosforilados da via de biossíntese do colesterol (ver Figura 21-35), como o farnesil-pirofosfato (Figura 27-35). Proteínas assim modificadas incluem as proteínas Ras (pe- quenas proteínas G), que são produtos dos oncogenes e proto-oncogenes ras, as proteínas G triméricas (ambas dis- cutidas no Capítulo 12), bem como as laminas, proteínas encontradas na matriz nuclear. O grupo isoprenila ajuda a ancorar a proteína na membrana. A atividade transforma- dora (carcinogênica) do oncogene ras é perdida quando a isoprenilação da proteína Ras é bloqueada, uma descoberta que tem estimulado interesse na identificação de inibidores dessa via de modificação pós-traducional para o uso na qui- mioterapia do câncer. Adição de grupos prostéticos Muitas proteínas exigem, para sua atividade, grupos prostéticos ligados covalentemente. Dois exemplos são a molécula de biotina da acetil-CoA-car- boxilase e o grupo heme da hemoglobina ou do citocromo c. Processamento proteolítico Muitas proteínas são inicialmen-te sintetizadas como polipeptídeos precursores longos e inativos, os quais são clivados proteoliticamente para dar origem às formas menores e ativas das proteínas. Exem- plos incluem a pró-insulina, algumas proteínas virais e pro- teases, como o quimotripsinogênio e o tripsinogênio (ver Figura 6-38). Formação de pontes dissulfeto Após se dobrarem nas suas conformações nativas, algumas proteínas formam pontes dissulfeto entre resíduos de Cys presentes em uma mesma cadeia ou em cadeias diferentes. Nos eucariotos, as pontes dissulfeto são comuns em proteínas secretadas da célula. As pontes assim formadas ajudam a proteger a conforma- ção nativa da molécula proteica da desnaturação no meio extracelular, que é geralmente oxidante e cujas condições podem ser bem diferentes daquelas do meio intracelular. Fosfosserina Fosfotreonina Fosfotirosina g-Carboxiglutamato Metil-lisina Dimetil-lisina Trimetil-lisina Metilglutamato (a) (b) (c) FIGURA 2734 Alguns resíduos de aminoácidos modificados. (a) Aminoácidos fosforilados. (b) Aminoácido carboxilado. (c) Alguns aminoá- cidos metilados. SH O2 OP CH2 2O S P O O O2 O CH2 Farnesil transferase PPi Farnesil-pirofosfato Proteína Ras Proteína Ras farnesilada Ras Ras FIGURA 2735 Farnesilação de um resíduo Cys. A ligação tioéter é mos- trada em vermelho. A proteína Ras é o produto do oncogene ras. 1138 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX A síntese proteica é inibida por muitos antibióticos e toxinas A síntese proteica constitui uma função central na fisiologia celular e é o alvo principal de muitos antibióticos e toxinas naturais. A maioria desses antibióticos inibe a síntese pro- teica nas bactérias. As diferenças entre a síntese de proteí- nas em bactérias e em eucariotos, apesar de muito tênues em alguns casos, bastam para que a maioria dos compostos discutidos a seguir seja relativamente inofensiva para célu- las eucarióticas. A seleção natural favoreceu a evolução de compostos que fazem uso de diferenças mínimas para afe- tar seletivamente os sistemas das bactérias, de forma que essas armas bioquímicas são sintetizadas por alguns micror- ganismos, sendo extremamente tóxicas para outros. Uma vez que quase todas as etapas da síntese proteica podem ser inibidas por um ou outro antibiótico, esses compostos têm se tornado ferramentas valiosas no estudo da biossín- tese de proteínas. A puromicina, produzida pelo fungo Streptomyces alboniger, é um dos mais bem conhecidos antibióticos inibidores da síntese proteica. A sua estrutura é bastante semelhante à extremidade 39 de um aminoacil-tRNA, per- mitindo que ele se ligue ao sítio A do ribossomo e participe na formação da ligação peptídica, produzindo peptidil-pu- romicina (Figura 27-36). No entanto, por se assemelhar apenas à extremidade 39 do tRNA, a puromicina não parti- cipa da translocação e se dissocia do ribossomo logo após se ligar à extremidade carboxil do peptídeo. Isso causa o término prematuro da síntese do polipeptídeo. As tetraciclinas inibem a síntese proteica em bactérias por meio do bloqueio do sítio A do ribossomo, impedindo a ligação do aminoacil-tRNA. O cloranfenicol inibe a sín- tese proteica realizada nos ribossomos das bactérias (bem como das mitocôndrias e dos cloroplastos) pelo bloqueio da atividade peptidil-transferase; ele não afeta a síntese ci- tosólica das proteínas em eucariotos. Por outro lado, a ci- cloeximida bloqueia a peptidil-transferase dos ribossomos 80S de eucariotos, mas não aquela dos ribossomos 70S das bactérias (nem das mitocôndrias nem dos cloroplastos). A estreptomicina, um trissacarídeo básico, causa uma leitu- ra errada do código genético (em bactérias) em concentra- ções relativamente baixas e inibe a iniciação em concentra- ções mais altas. CONH2 OH OH OH O CH3 O CH3 N OH H OH Tetraciclina CH3 OH CH2 CH OH OCH NH C O2N CHCl2 Cloranfenicol HC NH R CO Peptidil- -transferase mRNA AA HC H2C N C O OCH3 NHOH O H H H H CH2 HO H Puromicina Peptidil-puromicina P A E UAG 39 59 P A E UAG 39 59 Peptidil-tRNA no sítio P Puromicina no sítio A H2N O H N N N HO CH3 CH2 OCH3 H3C O H H H H NH C C H2C OH .. O HR N N N NH2 N O CH2 P O H H H H O C C NH OH N N N N N CH3H3C N N FIGURA 2736 Perturbação da formação da ligação peptídica pela puromicina. O antibiótico puromicina é parecido com a extremidade ami- noacil de um tRNA carregado, sendo capaz de se ligar ao sítio A do ribosso- mo e participar da formação da ligação peptídica. O produto dessa reação, a peptidil-puromicina, em vez de ser translocada para o sítio P dissocia-se do ribossomo, causando a terminação prematura da cadeia. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1139 Estreptomicina NH H CH3 O H H C O H HO H CHO H H O H H2N H H H O HO CH3 N OH OH OH NH OH C NH2 CH2OH NHNH ON H CH2 OH3C CHOH CH3 Cicloeximida O H H HH Vários outros inibidores da síntese proteica são notá- veis em razão da sua toxicidade para humanos e outros mamíferos. A toxina diftérica (Mr 58.330) catalisa a ADP-ribosilação de um resíduo de diftamida (histidina modificada) do fator de alongamento eucariótico eEF2, inativando-o. A ricina (Mr 29.895), proteína extrema- mente tóxica da mamona, inativa a subunidade 60S dos ribossomos eucarióticos pela despurinação de uma ade- nosina específica no rRNA 23S. A ricina foi utilizada no infame caso de assassinato de um jornalista búlgaro da BBC, Georgi Markov, morto em 1978 presumivelmente pela polícia búlgara. Utilizando uma seringa escondida na extremidade de uma sombrinha, um membro da polícia se- creta injetou um dispositivo contendo ricina na perna de Markov. Ele morreu 4 dias depois. RESUMO 27.2 A síntese proteica c A síntese proteica ocorre nos ribossomos, que consis- tem em proteínas e rRNA. As bactérias têm ribossomos 70S, com uma subunidade maior (50S) e uma menor (30S). Os ribossomos eucarióticos são significativamen- te maiores (80S) e contêm mais proteínas. c Os RNAs transportadores contêm entre 73 e 93 resíduos nucleotídicos, alguns dos quais têm bases modificadas. Cada tRNA tem o braço aminoacila com a sequência ter- minal CCA(39) – à qual um aminoácido é esterificado –, o braço do anticódon, o braço TcC e o braço D; alguns tRNAs têm um quinto braço. O anticódon é responsável pela especificidade da interação entre o aminoacil-tRNA e o códon complementar do mRNA. c O crescimento da cadeia dos polipeptídeos nos ribos- somos inicia com o aminoácido aminoterminal e ocorre por adições sucessivas de novos resíduos à extremidade carboxil. c A síntese proteica acontece em cinco estágios. 1. Os aminoácidos são ativados no citosol por amino- acil-tRNA-sintetases específicas. Essas enzimas cata- lisam a formação de aminoacil-tRNA, com a clivagem simultânea de ATP, gerando AMP e PPi. A fidelidade da síntese proteica depende da precisão dessa reação, e algumas dessas enzimas realizam etapas de edição em sítios ativos separados. 2. Em bactérias, o aminoacil-tRNA iniciador de todas as proteínas é o N-formilmetionil-tRNAfMet. A iniciação da síntese proteica envolve a formação de um complexo entre a subunidade 30S do ribossomo, o mRNA, GTP, fMet-tRNAfMet, três fatores de iniciação e a subunidade 50S; o GTP é hidrolisado a GDP e Pi. 3. Nos estágios de alongamento, GTP e fatores de alongamento são necessários para a ligação do novo aminoacil-tRNA que chega ao sítio A do ribossomo. Na primeira reação de transferência peptídica, o resíduo fMet é transferido para o grupo amino do novo aminoa- cil-tRNA. O movimento do ribossomo ao longo do mRNA transloca então o dipeptidil-tRNA do sítio A para o sítio P, um processo que requer hidrólise de GTP. O tRNA desacilado se dissocia do sítio E do ribossomo. 4. Após muitos ciclos de alongamento, a síntese do polipeptídeo é finalizada com o auxílio dos fatores de liberação. Pelo menos quatroequivalentes fosfatados de alta energia (do ATP ou do GTP) são necessários para a formação de cada ligação peptídica, investimen- to energético necessário para garantir a fidelidade da tradução. 5. Os polipeptídeos dobram-se nas suas formas ativas tridimensionais. Muitas proteínas são ainda processadas por reações de modificação pós-traducional. c Muitos antibióticos e toxinas bem estudados inibem al- guns aspectos da síntese proteica. 27.3 Endereçamento e degradação das proteínas A célula eucariótica é composta por muitas estruturas, or- ganelas e compartimentos, cada um com funções especí- ficas que requerem conjuntos distintos de proteínas e en- zimas. Essas proteínas (com exceção daquelas produzidas nas mitocôndrias e nos plastídeos) são sintetizadas nos ribossomos, no citosol; então, como elas são direcionadas para seus destinos finais na célula? Hoje, esse complexo e fascinante processo começa a ser compreendido. As proteínas destinadas à secreção, à integração na membrana plasmática ou à inclusão nos li- sossomos geralmente compartilham das primeiras etapas de uma via que inicia no retículo endoplasmático (RE). As proteínas destinadas às mitocôndrias, aos cloroplastos ou ao núcleo utilizam três mecanismos separados. E aquelas destinadas ao citosol simplesmente permanecem no local onde são sintetizadas. 1140 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX O elemento mais importante em muitas dessas vias de endereçamento é uma sequência curta de aminoácidos, de- nominada sequência sinal, ou peptídeo sinalizador, cuja função foi postulada, pela pri- meira vez, por Günter Blobel e colaboradores, em 1970. A se- quência sinal direciona a pro- teína para seu local apropriado na célula, e, em muitas proteí- nas, ela é removida durante o transporte ou depois que a pro- teína tenha alcançado seu desti- no final. Nas proteínas cujo des- tino é o transporte para mitocôndrias, cloroplastos ou RE, a sequência sinal está locali- zada na porção aminoterminal do polipeptídeo recém-sintetizado. Em muitos casos, a ca- pacidade de endereçamento de certas sequências sinal foi confirmada por meio da fusão da sequência sinal de uma proteína com outra proteína, mostrando que o sinal direcio- na a segunda proteína para o local onde a primeira proteína é geralmente encontrada. A degradação seletiva das proteí- nas que não são mais necessárias para a célula também se baseia, em grande parte, em um conjunto de sinais molecu- lares incrustados na estrutura de cada proteína. Nesta seção final, serão examinados o endereçamento e a degradação das proteínas, com ênfase nos sinais e na regulação molecular envolvidos, os quais são fundamentais para o metabolismo celular. Exceto quando citado, o foco agora será nas células eucarióticas. As modificações pós-traducionais de muitas proteínas eucarióticas têm início no retículo endoplasmático Provavelmente, o sistema de endereçamento mais bem ca- racterizado tem início no RE. A maioria das proteínas lisos- somais, das proteínas de membrana e das proteínas secre- tadas tem uma sequência sinal aminoterminal (Figura 27-37) que as marca para o transporte para dentro do lú- men do RE; centenas dessas sequências sinal já foram de- terminadas. O lado carboxil de uma sequência sinal é defini- do por um sítio de clivagem, no qual a protease age removendo a sequência depois que a proteína tenha sido importada para o RE. As sequências sinal variam em com- primento de 13 a 36 resíduos de aminoácidos, mas todas elas têm as seguintes características: (1) entre 10 e 15 resí- duos de aminoácidos hidrofóbicos; (2) um ou mais resíduos carregados positivamente, geralmente próximos à extremi- dade amino e que precede a sequência hidrofóbica, e (3) uma sequência curta na extremidade carboxil (próxima do sítio de clivagem) que é relativamente polar, possuindo ge- ralmente resíduos de aminoácidos com cadeias laterais cur- tas (principalmente Ala) nas posições mais próximas ao sí- tio de clivagem. Como demonstrado origi- nalmente por George Palade, proteínas contendo essas se- quências sinal são sintetizadas nos ribossomos aderidos ao RE. A própria sequência sinal ajuda a direcionar o ribossomo ao RE, como ilustrado nas etapas ➊ a ➒ da Figura 27-38. ➊ A via de endereçamento começa com o início da síntese proteica nos ribossomos livres. ➋ A sequên- cia sinal aparece logo no início do processo de síntese, pois está na extremidade amino, a qual, como foi visto, é sintetizada primeiro. ➌ À medida que vai emergindo do ribossomo, a sequência sinal – e o próprio ribossomo – liga-se à partí- cula de reconhecimento de sinal (SRP); a SRP então se liga ao GTP e suspende o alongamento do polipeptídeo quando esse tiver alcançado um tamanho aproximado de 70 aminoácidos e a sequência sinal tiver emergido comple- tamente do ribossomo. ➍ A SRP ligada ao GTP direciona então o ribossomo (ainda ligado ao mRNA) e o polipeptídeo incompleto para receptores de SRP ligada a GTP, presentes no lado citosólico do RE; o polipeptídeo nascente é leva- do para o complexo de translocação de peptídeos no RE, o qual pode interagir diretamente com o ribossomo. ➎ Ocorre a dissociação da SRP do ribossomo, acompanhada da hidrólise de GTP, tanto na SRP como no receptor de SRP. ➏ O alongamento do polipeptídeo agora continua, com o complexo de translocação promovido por ATP levando o polipeptídeo nascente para dentro do lúmen do RE até que toda a proteína tenha sido sintetizada. ➐ A sequência sinal é removida por uma peptidase de sinal dentro do lúmen do RE; ➑ o ribossomo se dissocia e ➒ é reciclado. Günter Blobel George Palade, 1912-2008 Vírus A da influenza humana Pré-pró-insulina humana Hormônio de crescimento bovino Promelitina da abelha Proteína da cola de Drosophila sítio de clivagem FIGURA 2737 Sequências sinal aminoterminais de algumas pro- teínas eucarióticas que direcionam seu transporte para dentro do RE. O núcleo hidrofóbico (em amarelo) é precedido por um ou mais resí- duos básicos (em azul). Observe os resíduos polares e com cadeias laterais curtas logo antes (à esquerda) do sítio de clivagem (indicado por setas cor- -de-rosa). PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1141 A glicosilação tem um papel-chave no endereçamento de proteínas No lúmen do RE, as proteínas recém-sintetizadas são adi- cionalmente modificadas de várias maneiras. Após a remo- ção das sequências sinal, os polipeptídeos são dobrados, as pontes dissulfeto são formadas, e muitas proteínas são glicosiladas para formar glicoproteínas. Em muitas glico- proteínas, a ligação aos seus oligossacarídeos se dá por meio de resíduos de Asn. Existem diversos oligossacarídeos N-ligados (Capítulo 7), mas as vias pelas quais eles são for- mados apresentam uma primeira etapa em comum. Um oligossacarídeo central de 14 resíduos é formado passo a passo e depois transferido de uma molécula de dolicolfosfa- to doadora para determinados resíduos de Asn na proteína (Figura 27-39). A transferase fica na face luminal do RE e, portanto, não é capaz de catalisar a glicosilação de pro- teínas citosólicas. Após a transferência, o oligossacarídeo central sofre clivagens e ajustes, que variam nas diferentes proteínas, mas todos os oligossacarídeos N-ligados man- têm como cerne um pentassacarídeo derivado do oligossa- carídeo original de 14 resíduos. Vários antibióticos agem interferindo em uma ou mais etapas desse processo e têm ajudado a elucidar os passos da glicosilação de proteínas. O mais bem caracterizado é a tunicamicina, que imita a estrutura da UDP-N-acetilglicosamina e bloqueia a primeira etapa do processo (Figura 27.39, etapa ➊). Algumas proteí- nas são O-glicosiladas no RE, mas a maioria das O-glicosila- ções ocorre no aparelho de Golgi ou no citosol (no caso das proteínas que não entram no RE). N-Acetilglicosamina Uracila Tunicamina Cadeia lateral de ácido graxo Tunicamicina ❽❻ ❺ ❹ ❸ ❷ ❶ ❼ ❾ Citosol Retículo endoplasmáticoReceptor de ribossomo Complexo de translocação de peptídeos Receptor de SRP Lúmen do RE Peptidase do sinal Ciclo do ribossomo Q ue p e 59 mRNA Ciclo da SRP SRP AA A( A) n 3 9 GTP GDP 1 Pi GUA Sequência sinal FIGURA 2738 Endereçamento das proteínas eucarióticas com os sinais apropriados para o retículo endoplasmático. Esse processo envolve o ciclo da SRP, bem como o transporte e a clivagem do polipep- tídeo nascente. As etapas estão descritas no texto. A SRP é um complexo em forma de bastão que contém um RNA de 300 nucleotídeos (7SL-RNA) e seis proteínas diferentes (massa combinada de Mr 325.000). Uma das subu- nidades proteicas da SRP se liga diretamente à sequência sinal, inibindo o alongamento por meio do bloqueio espacial da entrada de aminoacil-tRNA e inibindo a peptidil-transferase. Outra subunidade da proteína se liga ao GTP, hidrolisando-o. O receptor da SRP é um heterodímero de subunidades a (Mr 69.000) e b (Mr 30.000), ambas as quais se ligam a múltiplas moléculas de GTP, hidrolisando-as durante o processo. 1142 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX As proteínas adequadamente modificadas podem, então, ser transportadas para vários destinos na célula. As proteínas vão do RE para o aparelho de Golgi dentro de vesículas de transporte (Figura 27-40). No aparelho de Golgi, oligossa- carídeos são O-ligados a algumas proteínas, e oligossacarídeos N-ligados são modificados. Via mecanismos ainda pouco co- nhecidos, o aparelho de Golgi também seleciona proteínas, enviando-as para seus destinos finais. Os processos por meio dos quais as proteínas que serão secretadas são segregadas daquelas direcionadas para a membrana plasmática ou para os lisossomos precisam distiguir essas proteínas com base em características estruturais que não sejam as sequências sinal, pois essas foram removidas no lúmen do RE. Esse processo de seleção é mais bem compreendido no caso das hidrolases, cujo destino é serem transportadas aos lisossomos. Quando chega uma hidrolase (que é uma glico- proteína) no aparelho de Golgi, uma característica ainda não determinada (às vezes chamada de fragmento sinal) da es- trutura tridimensional da hidrolase é reconhecida por uma fosfotransferase, a qual fosforila certos resíduos de manose do oligossacarídeo (Figura 27-41). A presença de um ou mais resíduos de manose 6-fosfato no seu oligossacarídeo N- -ligado é o sinal estrutural que direciona uma proteína para os lisossomos. Uma proteína receptora na membrana do apa- relho de Golgi reconhece o sinal de manose 6-fosfato e liga a hidrolase assim marcada. Vesículas contendo esses comple- xos de receptor-hidrolase brotam da porção trans do apare- lho de Golgi e vão até vesículas de seleção. Nessas vesículas de seleção, o complexo receptor-hidrolase se dissocia por meio de um processo que é facilitado pelo pH mais baixo da vesícula e pela remoção, catalisada por uma fosfatase, dos grupos fosfato dos resíduos de manose 6-fosfato. O recep- tor é então reciclado para o aparelho de Golgi, e as vesículas contendo as hidrolases brotam das vesículas de seleção e se dirigem aos lisossomos. Em células tratadas com tunicamici- na (Figura 27-39, etapa ➊), as hidrolases que deveriam ser direcionadas aos lisossomos são secretadas, confirmando que o oligossacarídeo N-ligado exerce papel-chave no ende- reçamento dessas enzimas para os lisossomos. As vias que direcionam as proteínas para mitocôndrias e cloroplastos também se baseiam em sequências sinal ami- noterminais. Apesar de mitocôndrias e cloroplastos conte- rem DNA, a maioria das suas proteínas é codificada pelo DNA nuclear e deve ser direcionada às devidas organelas. No entanto, diferentemente de outras vias de endereça- mento, no caso das vias para mitocôndrias e cloroplastos, essas iniciam somente depois que a proteína precursora tenha sido completamente sintetizada e liberada dos ribos- P P P P PP P P P P P P P P P P P P P CH3 CH3 n CH3 CH3 39 59 ❽ ❾ ❼❻❺ ❹ ❸ ❷ ❶ Dolicol 5 GDP-Man5 GDP 2 UDP-GlcNAcUMP 1 UDP Tunicamicina Dolicol-fosfato (n = 9–22) 4 Dolicol Man NH3 1 H3N 1 H3N 1 N-Acetilglicosamina (GlcNAc) Manose (Man) Glicose (Glc) Dolicol- -fosfato reciclado Translocação Retículo endoplasmático Asn Citosol 4 Dolicol 3 Dolicol Glc 3 Dolicol mRNA Pi FIGURA 2739 Síntese do oligossacarídeo central das glicoproteí- nas. O oligossacarídeo central é construído pela adição sucessiva de unida- des de monossacarídeos. ➊, ➋ As primeiras etapas ocorrem na face citosóli- ca do RE. ➌ A translocação move o oligossacarídeo ainda incompleto através da membrana (mecanismo não mostrado), e ➍ a formação do oligossa- carídeo completo ocorre dentro do lúmen do RE. Os precursores que for- necem resíduos adicionais de manose e de glicose ao oligossacarídeo em formação no lúmen são derivados do dolicol-fosfato. Na primeira etapa de montagem da porção de oligossacarídeo N-ligado de uma glicoproteína, ➎, ➏ o oligossacarídeo central é transferido do dolicol-fosfato para um re- síduo de Asn da proteína dentro do lúmen do RE. O oligossacarídeo central é novamente modificado no RE e no aparelho de Golgi, por meio de vias que variam para diferentes proteínas. Os cinco resíduos de açúcar mostrados cercados por uma marcação em bege (após a etapa ➐) são mantidos na es- trutura final de todos os oligossacarídeos N-ligados. ➑ O dolicol-pirofosfato liberado é novamente translocado, de forma que o pirofosfato fica no lado citosólico do RE, e então ➒ um fosfato é removido hidroliticamente para re- generar o dolicol-fosfato. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1143 somos. As proteínas precursoras destinadas a mitocôndrias ou cloroplastos são ligadas por proteínas citosólicas da fa- mília das chaperonas e levadas até receptores presentes na superfície externa da organela de destino. Mecanismos de translocação especializados transportam então a proteína até seu destino final na organela e, após essa etapa, a se- quência sinalizadora é removida. As sequências sinal para o transporte nuclear não são clivadas A comunicação molecular entre o núcleo e o citosol requer o movimento de macromoléculas através de poros na mem- brana nuclear. As moléculas de RNA sintetizadas no núcleo são exportadas para o citosol. Proteínas ribossomais sinte- tizadas em ribossomos citosólicos são importadas para o núcleo e montadas para formar as subunidades 60S e 40S dos ribossomos no nucléolo; as subunidades completas são exportadas de volta para o citosol. Diversas proteínas nucleares (RNA e DNA-polimerases, histonas, topoisome- FIGURA 2740 Via adotada pelas proteínas com destino aos lisosso- mos, à membrana plasmática ou à secreção. As proteínas são transporta- das do RE para a porção cis do aparelho de Golgi dentro de vesículas de trans- porte. A seleção ocorre principalmente no lado trans do aparelho de Golgi. Núcleo RE rugoso RE liso Vesícula de transporte Lisossomo Grânulo secretor Vesículas de transporte Porção cis Porção trans Seleção Aparelho de Golgi Citosol Membrana plasmática Uridina Oligossacarídeo Resíduo de manose 6-fosfato UDP N-acetilglicosamina (UDP-GlcNAc) Oligossacarídeo Enzima Enzima Enzima Hidrolase Oligossacarídeo N-acetilglicosamina- -fosfotransferase Fosfodiesterase Resíduo de manose FIGURA 2741 Fosforilação de resíduos de manose nas en- zimas direcionadas aos lisossomos. A N-acetilglicosamina-fos- fotransferase reconhece alguma característica (ainda não determi- nada) das hidrolases que são destinadas aos lisossomos. 1144 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX rases, proteínas que regulam a expressão gênica e assim por diante) são sintetizadas no citosol e importadas para o núcleo. Esse tráfego é modulado por um complexo sistema que envolve sinais moleculares e proteínas de transporte, o qual vem sendo aos poucos elucidado. Na maioria dos eucariotos multicelulares, o envelope nuclear é rompido a cadadivisão celular; quando a divisão termina e o envelope é restabelecido, as proteínas nuclea- res que haviam se dispersado precisam ser novamente im- portadas para o núcleo. A fim de permitir essa importação repetidas vezes, a sequência sinal que direciona uma pro- teína para o núcleo – a sequência de localização nuclear (NLS) – não é removida depois que a proteína atinge seu destino. Uma NLS, ao contrário de outras sequências sinal, pode estar localizada praticamente em qualquer região da sequência primária da proteína. As NLS podem variar con- sideravelmente, mas muitas consistem em quatro a oito resíduos de aminoácidos e incluem vários resíduos básicos (Arg ou Lys) consecutivos. A importação nuclear é mediada por várias proteínas que circulam entre o citosol e o núcleo (Figura 27-42), incluindo importina a e b e uma pequena GTPase conhe- cida como Ran (proteína nuclear relacionada à Ras). Um heterodímero de importina a e b funciona como um re- ceptor solúvel para proteínas direcionadas ao núcleo, com a subunidade a ligando-se a proteínas que têm NLS no citosol. O complexo da importina com a proteína que tem NLS aporta em um poro nuclear e é transportado através do poro por um mecanismo dependente de energia. No núcleo, a importina b é ligada à Ran GTPase, liberando a importina b da proteína importada. A importina a é li- gada à Ran e à CAS (proteína celular de suscetibilidade à apoptose) e é separada da proteína que tem NLS. As importinas a e b, complexadas com Ran e CAS, são en- tão exportadas do núcleo. A Ran hidrolisa GTP no citosol para liberar as importinas, as quais ficam então livres para iniciar um novo ciclo de importação. A própria Ran é reci- clada de volta para o núcleo pela ligação da Ran-GDP ao 0,2mm Ran- GTP Ran- GTP CAS Envelope nuclear Proteína nuclear Importina Complexo do poro nuclear NLS Citosol Nucleoplasma b b b a a a a (a) GTP GDP Ran- GDP CAS Ran- GDP Ran- GDP Ran- GTP NTF2 Ran GEF (b) NTF2 NTF2 NTF2 ❸ ❻ ❼ ❶ ❷ ❺ ❹ FIGURA 2742 Endereçamento de proteínas nucleares. (a) ➊ Uma proteína com um sinal de localização nuclear (NLS) apropriado é ligada a um complexo de importina a e b. ➋ O complexo resultante se liga a um poro nuclear e é translocado. ➌ Dentro do núcleo, a dissociação da importina b é favorecida pela ligação da Ran-GTP. ➍ A importina a se liga à Ran-GTP e à CAS (proteína celular de sucetibilidade à apoptose), liberando a proteína nuclear. ➎ As importinas a e b e a CAS são transportadas para fora do núcleo e então recicladas. Elas são liberadas no citosol quando a Ran hidrolisa o seu GTP ligado. ➏ A Ran-GDP se liga ao NFT2 e é transportada de volta para o núcleo. ➐ A RanGEF favorece a troca de GDP por GTP no núcleo, e a Ran-GTP fica pronta para processar outro complexo de proteína e importina conten- do NLS. (b) Micrografia eletrônica de varredura da superfície do envelope nuclear, mostrando vários poros nucleares. O complexo do poro nuclear é um dos maiores agregados proteicos presentes na célula (Mr , 5 × 10 7). Ele é formado por múltiplas cópias de mais de 30 proteínas diferentes. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1145 fator 2 de transporte nuclear (NTF2). Dentro do núcleo, o GDP ligado à Ran é substituído por GTP pela ação do fa- tor de troca Ran-nucleotídeo da guanosina (RanGEF; ver Quadro 12-2). As bactérias também usam sequências sinal para o endereçamento das proteínas As bactérias são capazes de direcionar proteínas para a membrana interna ou externa, para o espaço periplásmico entre essas membranas, ou para o meio extracelular. Elas usam sequências sinal presentes na extremidade amino das proteínas (Figura 27-43), de modo semelhante àquelas das proteínas eucarióticas que são direcionadas ao RE, às mitocôndrias e aos cloroplastos. A maioria das proteínas exportadas de E. coli fazem uso da via mostrada na Figura 27-44. Após a tradução, uma proteína a ser exportada se dobra de forma mais lenta, pois a sequência sinal aminoterminal impede o seu enovelamento. A proteína chaperona solúvel SecB se liga à sequência sinal da proteína ou a outras partes da sua estrutura na proteína ainda parcialmente dobrada. A pro- teína ligada é então levada à SecA, proteína associada à superfície interna da membrana plasmática. A SecA atua tanto como receptor quanto como ATPase de transpor- te. Quando liberada da SecB e ligada à SecA, a proteína é levada para um complexo de transporte na membrana, constituído de SecY, E e G, e é transportada, em etapas, através da membrana no complexo SecYEG, sendo que em cada etapa passam cerca de 20 resíduos de aminoácidos. Sítio de clivagem Proteínas da membrana interna Fago fd, proteína maior do envelope Fago fd, proteína menor do envelope Proteínas periplásmicas Fosfatase alcalina Proteína de ligação específica de leucina -Lactamase de pBR322 Proteínas da membrana externa Lipoproteína LamB OmpA Met Lys Lys Ser Leu Val Leu Lys Ala Ser Val Ala Val Ala Thr Leu Val Pro Met Leu Ser Phe Ala Ala Glu Met Lys Lys Leu Leu Phe Ala Ile Pro Leu Val Val Pro Phe Tyr Ser His Ser Ala Glu Met Lys Gln Ser Thr Ile Leu Ala Leu Leu Pro Leu Leu Phe Thr Pro Val Thr Lys Ala Arg Thr Ala Val Ala Leu Ala Met Val Ala Ala Pro Asp Cys Val His Asp Pro Asp Ser Ala Ala Gln Ala Gly Phe Ala Met Ala Thr Pro Leu Gln His Leu Ala Thr Thr Ser Cys Ala Ser Ser Met Gly Phe Ile Phe Val Leu Gly Ala Ala Ala Gly Ile Ala Leu Ala Val Leu Phe Ala Ala Ala Ala Phe Ile Val Val Gly Pro Met Ala Ala Leu Ile Gly Ile Val Val Leu Ala Ala Ala Leu Ile Ala Ile Leu Lys Ile Val Ala Thr Pro Arg Thr Thr Leu Ala Phe Lys Ala His Lys Lys Lys Lys Arg Met Asn Gln Met Leu Thr Ile Ile Ser Met Met Lys Ala Met Met b FIGURA 2743 Sequências sinal que direcionam as proteínas a dife- rentes locais nas bactérias. Aminoácidos básicos (em azul) próximos à extremidade amino e aminoácidos hidrofóbicos do cerne (em amarelo) es- tão destacados. Os sítios de clivagem que marcam o final das sequências sinal estão indicados por setas cor-de-rosa. Observe que a membrana celular interna das bactérias (ver Figura 1-6) é onde o DNA e as proteínas de enve- lope de fagos fd são montadas para formar as partículas virais. A OmpA é a proteína A da membrana externa; a LamB é uma proteína da superfície celular receptora do fago l. FIGURA 2744 Modelo para a exportação de proteí- nas em bactérias. ➊ Um polipeptídeo recém-traduzi- do se liga à proteína chaperona citosólica SecB, a qual ➋ o leva até a SecA, uma proteína associada ao complexo de transporte (SecYEG) na membrana celular bacteriana. ➌ A SecB é liberada, e a SecA se insere na membrana, for- çando a passagem de cerca de 20 resíduos de aminoáci- dos da proteína a ser exportada por meio do complexo de transporte. ➍ A hidrólise de um ATP pela SecA fornece a energia para que ocorra uma mudança conformacio- nal, a qual faz a SecA se soltar da membrana, liberando o polipeptídeo. ➎ A SecA liga outro ATP, e o próximo seg- mento de 20 resíduos de aminoácidos é empurrado por meio do complexo de transporte presente na membra- na. As etapas ➍ e ➎ são repetidas até que ➏ toda a pro- teína tenha passado através da membrana, sendo libera- da no periplasma. O potencial eletroquímico dentro da membrana (definido como 1 e –) também fornece parte da energia necessária para o transporte das proteínas. Citosol Espaço periplásmico ❻ ❺❹❸ ❷ ❶ SecYEG SecA111 222 SecB ATP ADP 1 Pi ATP SecB1 1146 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX Cada etapa é facilitada pela hidrólise de ATP, catalisada pela SecA. Uma proteína exportada é, assim, empurrada através da membrana por uma proteína SecA localizada na super- fície citoplasmática, e não puxada pela membrana por uma proteína localizada na superfícieperiplásmica. Tal diferen- ça pode simplesmente refletir a necessidade de a ATPase estar onde está o ATP. O potencial eletroquímico através da membrana também fornece energia para o transporte da proteína, por meio de um mecanismo ainda desconhecido. Apesar de a maioria das proteínas bacterianas exporta- das utilizar essa via, algumas seguem uma via alternativa que utiliza o reconhecimento de sinais e proteínas recep- toras homólogas aos componentes da SRP e do receptor de SRP eucarióticos (Figura 27-38). As células importam proteínas por meio de endocitose mediada por receptor Algumas proteínas são importadas do meio externo para dentro das células eucarióticas; exemplos são a lipoproteína de baixa densidade (LDL), a proteína carreadora de ferro transferrina, hormônios peptídicos e proteínas circulantes destinadas à degradação. Existem várias vias de importação (Figura 27-45). Em uma das vias, as proteínas se ligam a receptores em invaginações da membrana denominadas de- pressões revestidas, nas quais existe uma concentração preferencial de receptores endocíticos em relação a outras proteínas de superfície celular. As depressões são revestidas, no lado citosólico, por uma rede formada pela proteína cla- trina, a qual forma estruturas poliédricas fechadas (Figura 27-46). A rede de clatrina aumenta à medida que mais re- ceptores vão sendo ocupados pelas proteínas-alvo. Por fim, uma vesícula endocítica completa ainda ligada à membrana se solta da membrana plasmática com ajuda da dinamina, uma GTPase grande, e entra no citoplasma. A clatrina é ra- pidamente removida por enzimas removedoras de revesti- mento, e a vesícula se funde a um endossomo. A atividade ATPásica nas membranas reduz o pH interno do endossomo, facilitando a dissociação dos receptores de suas proteínas- -alvo. Em uma via relacionada, a caveolina causa a invagi- nação de segmentos da membrana contendo balsas lipídicas associadas a certos tipos de receptores (ver Figura 11-22). Essas vesículas endocíticas se fundem então com estrutu- ras internas contendo caveolina, chamadas de caveossomos, nos quais as moléculas internalizadas são selecionadas e re- direcionadas para outras partes da célula, e as caveolinas são preparadas para serem recicladas para a superfície da mem- brana. Também existem vias independentes de clatrina e de caveolina; algumas fazem uso da dinamina, e outras não. FIGURA 2745 Resumo das vias endocí- ticas em células eucarióticas. As vias de- pendentes de clatrina e de caveolina fazem uso da GTPase dinamina para desprender as vesículas da membrana plasmática. Algu- mas vias não utilizam clatrina nem caveoli- na; algumas delas fazem uso da dinamina, enquanto outras não. Endocitose dependente de clatrina Dinamina Clatrina Caveolina Remoção do revestimento Endocitose dependente de caveolina Vias independentes de clatrina e de caveolina Endossomo primário Caveossomo Cadeia leve Cadeia pesada (a) (b) ~80 nm (c) 0,1 mm FIGURA 2746 Clatrina. (a) Três cadeias leves (L) (Mr 35.000) e três cadeias pesadas (H) (Mr 180.000) da unidade de clatrina (HL)3, organizadas em uma es- trutura de três pernas chamada de tríscele. (b) Os trísceles tendem a se agrupar formando redes poliédricas. (c) Micrografia eletrônica de uma depressão reves- tida presente na face citosólica da membrana plasmática de um fibroblasto. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1147 As proteínas e os receptores importados seguem então seus caminhos separados, e seus destinos variam conforme o tipo de célula e de proteína. A transferrina e seu receptor são, no fim, reciclados. Alguns hormônios, fatores de cres- cimento e complexos do sistema imune, após induzirem a resposta celular apropriada, são degradados juntamente com seus receptores. A LDL é degradada depois que o co- lesterol associado a ela tenha sido levado até seu destino, mas o receptor de LDL é reciclado (ver Figura 21-41). A endocitose mediada por receptor é utilizada por algu- mas toxinas e por alguns vírus para a entrada nas células. O vírus da influenza, a toxina diftérica e a toxina da cólera entram na célula desta maneira. A degradação de proteínas é mediada por sistemas especializados em todas as células A degradação de proteínas evita o acúmulo de proteínas anormais ou não desejáveis e permite a reciclagem dos ami- noácidos. A meia-vida das proteínas eucarióticas varia de 30 segundos até muitos dias. Muitas proteínas apresentam uma taxa de renovação rápida, se for considerado o tempo de vida de uma célula, embora umas poucas (como a he- moglobina) possam durar por toda a vida da célula (cerca de 110 dias no caso de um eritrócito). As proteínas rapida- mente degradadas incluem aquelas que são defeituosas em virtude da inserção de aminoácidos errados ou em virtude de danos acumulados durante o funcionamento normal. As enzimas que atuam em pontos-chave da regulação de vias metabólicas geralmente apresentam uma rápida renovação. As proteínas defeituosas e aquelas com meia-vida ca- racteristicamente curta em geral são degradadas tanto nas células bacterianas como nas eucarióticas por sistemas ci- tosólicos seletivos dependentes de ATP. Um segundo siste- ma, que opera nos lisossomos das células de vertebrados, recicla os aminoácidos das proteínas de membrana, das proteínas extracelulares e das proteínas de meia-vida ca- racteristicamente longa. Em E. coli, muitas proteínas são degradadas por uma protease dependente de ATP denominada Lon (o nome se refere à “forma longa” das proteínas, que somente é obser- vada quando essa protease está ausente). Essa protease é ativada na presença de proteínas defeituosas ou de proteí- nas destinadas a uma rápida rotatividade; duas moléculas de ATP são hidrolisadas para cada ligação peptídica clivada. Ainda não está claro qual é o exato papel dessa hidrólise de ATP. Uma vez que a proteína tenha sido reduzida a peque- nos peptídeos inativos, outras proteases independentes de ATP completam o processo de degradação. A via dependente de ATP em células eucarióticas é um tanto diferente, envolvendo a proteína ubiquitina, a qual, como o nome sugere, está presente em todos os rei- nos eucarióticos. Sendo uma das proteínas mais altamente conservadas que se conhece, a ubiquitina (composta por 76 resíduos de aminoácidos) é essencialmente idêntica em organismos muito diferentes, como, por exemplo, em le- veduras e humanos. A ubiquitina é ligada covalentemente a proteínas destinadas à destruição por meio de uma via dependente de ATP, que envolve três tipos diferentes de enzimas, denominadas enzimas ativadoras E1, enzimas con- jugadoras E2 e ligases E3 (Figura 27-47). As proteínas ubiquitinadas são degradadas por um gran- de complexo conhecido como proteassomo 26S (Mr 2,5 3 106) (Figura 27-48). O proteassomo eucariótico consiste em duas cópias, cada uma de, no mínimo, 32 subunidades diferentes, a maioria das quais é altamente conservada, de leveduras até humanos. O proteassomo contém dois tipos principais de subcomplexos, uma partícula central em for- ma de barril e partículas reguladoras em cada lado do bar- O C O O2 C HS HS O C S O C S H2N NH HS ATP1HS Ubiquitina E1 E1 AMP 1 PPi E2 E2 E2 Ubiquitina Ubiquitina Ubiquitina E3 Lys Proteína-alvo Proteína-alvoLys Ciclos repetidos levam à ligação de ubiquitinas adicionais E1 FIGURA 2747 Via em três etapas por meio da qual a ubiquitina é ligada a uma proteína. Dois intermediários diferentes de enzima-ubi- quitina estão envolvidos. O grupo carboxila livre do resíduo de Gly da ex- tremidade carboxil da ubiquitina liga-se primeiro a uma enzima ativadora da classe E1 por meio de um tioéster. A ubiquitina é então transferida para uma enzima conjugadora E2. Uma ligase E3 finalmente catalisa a transfe- rência da ubiquitina da E2 para o alvo, ligando a ubiquitina, por meio de uma ligação amida (isopeptídica), a um grupo «-amino de um resíduo de Lys da proteína-alvo. Ciclosadicionais produzem poliubiquitina, políme- ro covalente composto por subunidades de ubiquitina que direcionam a proteína ligada para que essa seja destruída nos eucariotos. Múltiplas vias desse tipo, com diferentes alvos das proteínas, estão presentes na maioria das células eucarióticas. 1148 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX ril. A partícula central de 20S consiste em quatro anéis; os anéis externos são formados por sete subunidades a, e os internos por sete subunidades b. Três das sete subunida- des em cada anel b apresentam atividade proteásica, cada uma com diferentes especificidades de substrato. Os anéis empilhados da partícula central formam a estrutura seme- lhante a um barril dentro da qual as proteínas-alvo são de- gradadas. A partícula reguladora 19S de cada extremidade da partícula central contém aproximadamente 18 subu- nidades, incluindo algumas que reconhecem e se ligam a proteínas ubiquitinadas. Seis das subunidades são AAA1 ATPases (ver Capítulo 25), que provavelmente funcionam desdobrando as proteínas ubiquitinadas e transportando o polipeptídeo desdobrado para dentro da partícula central, para que ocorra a degradação do mesmo. A partícula 19S também desubiquitina as proteínas à medida que essas vão sendo degradadas no proteassomo. A maioria das células tem complexos de regulação adicionais que podem subs- tituir a partícula 19S. Esses reguladores alternativos não hidrolisam ATP e não ligam ubiquitina, mas são importan- tes para a degradação de proteínas celulares específicas. O proteassomo 26S pode ser efetivamente “assessorado”, com complexos de regulação que mudam conforme mudam as condições na célula. Nem todos os sinais que desencadeiam a ubiquitinação são bem compreendidos ainda. Apesar disso, um sinal sim- ples foi encontrado. Para muitas proteínas, a identidade do primeiro resíduo que permanece após a remoção do resíduo Met aminoterminal, e qualquer outro processamento pro- teolítico pós-traducional da extremidade aminoterminal, apresenta grande influência na meia-vida (Tabela 27-9). Esses sinais aminoterminais foram conservados ao longo de bilhões de anos de evolução e são os mesmos nos sistemas de degradação de proteínas em bactérias e na via de ubi- quitinação em humanos. Sinais mais complexos, como a se- quência de destruição discutida no Capítulo 12 (ver Figura 12-47), também vêm sendo identificados. A proteólise dependente de ubiquitina é importante tanto para a regulação de processos celulares como para a eliminação de proteínas defeituosas. Muitas proteínas so- licitadas em apenas um estágio do ciclo de uma célula eu- cariótica são rapidamente degradadas pela via dependente de ubiquitina após completarem sua função. A destruição da ciclina dependente de ubiquitina é crucial para a regu- lação do ciclo celular (ver Figura 12-47). Os componentes E1, E2 e E3 da via de ubiquitinação (Figura 27-47) são, na verdade, grandes famílias de proteínas. Enzimas E1, E2 e E3 diferentes apresentam especificidades diferentes para proteínas-alvo e, portanto, regulam processos celulares di- ferentes. Algumas dessas enzimas ficam muito concentra- das em determinados compartimentos celulares, refletindo uma função especializada. Não é de surpreender que defeitos na via de ubiquitina- ção tenham implicação em uma variedade de estados patológicos. A incapacidade de degradar algumas proteínas que ativam a divisão celular (produtos de oncogenes) pode levar à formação de tumores, enquanto o mesmo efeito pode ser causado por uma degradação muito rápida de proteínas que atuam como supressores tumorais. A degradação não eficiente ou muito rápida de proteínas celulares também pa- rece desempenhar um papel em uma variedade de outras condições: doenças renais, asma, doenças neurodegenerati- vas como Alzheimer e Parkinson (associadas à formação de estruturas proteináceas características nos neurônios), fi- brose cística (causada, em alguns casos, por uma degradação muito rápida de um canal de cloreto, resultando em sua per- da de função; ver Quadro 11-2), síndrome de Liddle (na qual (a) Poliubiquitina ligada à proteína substrato interage com o proteassomo Partícula reguladora 19S Partícula reguladora 19S (b) Partícula central 20S b a a FIGURA 2748 Estrutura tridimensional do proteassomo eucarióti- co. O proteassomo 26S é altamente conservado em todos os eucariotos. As duas subconstruções são a partícula central de 20S e a partícula regu- ladora de 19S, ou quepe. (a) (PDB ID 3L5Q) A partícula central consiste em quatro anéis, organizados de maneira a formar uma estrutura semelhante a um barril. Cada um dos anéis internos tem sete subunidades b diferentes (marrom-escuro), três das quais têm atividade proteásica. Cada anel externo tem sete subunidades a diferentes (marrom-claro). (b) Uma partícula regu- ladora forma um quepe em cada uma das extremidades da partícula central (cinza). (a). A partícula reguladora liga-se a poteínas ubiquitinadas, desdobra- -as e as transloca para dentro da partícula central, onde elas são degradadas a peptídeos de 3 a 25 aminoácidos TABELA 279 Relações entre a meia-vida de uma proteína e o resíduo de aminoácido da sua extremidade amino Resíduo aminoterminal Meia-vida* Estabilizadores Ala, Gly, Met, Ser, Thr, Val .20 h Desestabilizadores Gln, Ile ,30 min Glu, Tyr ,10 min Pro ,7 min Asp, Leu, Lys, Phe ,3 min Arg ,2 min Fonte: Modificado de Bachmair, A., Finley, D., Varshavsky, A. (1986) In vivo half- -life of a protein is a function of its aminoterminal residue. Science 234, 179-186. *As meias-vidas foram medidas em leveduras para a proteína b-galactosidase, que foi modificada de forma a possuir um resíduo aminoterminal diferente em cada experimento. As meias-vidas variam para diferentes proteínas e em diferen- tes organismos, mas esse padrão geral parece manter-se em todos os organismos. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1149 um canal de sódio no rim não é degradado, levando à absor- ção de Na1 em excesso e a um início precoce de hiperten- são) – e muitas outras doenças. Fármacos desenvolvidos para inibir a função proteassômica estão sendo utilizados como tratamentos potenciais para algumas dessas condi- ções. Em um ambiente metabólico que sofre constantes mu- danças, a degradação de proteínas é tão importante para a sobrevivência de uma célula quanto à síntese proteica, e muito ainda está por ser descoberto a respeito dessas inte- ressantes vias. ■ RESUMO 27.3 Endereçamento e degradação das proteínas c Após serem sintetizadas, muitas proteínas são direcio- nadas para locais específicos na célula. Um dos mecanis- mos de endereçamento envolve uma sequência peptídi- ca sinalizadora, geralmente encontrada na extremidade amino de uma proteína recém-sintetizada. c Nas células eucarióticas, uma classe de sequências sinal é reconhecida pela partícula de reconhecimento de si- nal (SRP), a qual se liga à sequência sinal logo que essa aparece no ribossomo e transfere todo o ribossomo e o polipeptídeo incompleto para o RE. Os polipeptíde- os contendo essas sequências sinal são transportados para dentro do lúmen do RE à medida que vão sendo sintetizados; no lúmen, eles podem ser modificados e transportados para o aparelho de Golgi, para depois se- rem selecionados e enviados para os lisossomos, para a membrana plasmática ou para vesículas de transporte. c As proteínas direcionadas para mitocôndrias e cloro- plastos nas células eucarióticas e aquelas destinadas para exportação nas bactérias também fazem uso de uma sequência sinal aminoterminal. c As proteínas direcionadas para o núcleo têm uma se- quência sinal interna que, diferentemente de outras sequências sinal, não é clivada após o endereçamento adequado da proteína. c Algumas células eucarióticas importam proteínas por meio de endocitose mediada por receptor. c Todas as células no final degradam proteínas utilizando sistemas proteolíticos especializados.As proteínas de- feituosas e aquelas destinadas a uma rápida renovação são geralmente degradadas por um sistema dependente de ATP. Nas células eucarióticas, as proteínas são, pri- meiramente, marcadas pela ligação à ubiquitina, uma proteína altamente conservada. A proteólise dependen- te de ubiquitina é realizada pelos proteassomos – tam- bém altamente conservados – e é crucial para a regula- ção de muitos processos celulares. Termos-chave Termos em negrito estão definidos no glossário. aminoacil-tRNA 1104 aminoacil-tRNA-sintase 1104 tradução 1104 códon 1104 fase de leitura 1105 códon de iniciação 1107 códons de terminação 1107 fase de leitura aberta (ORF) 1107 anticódon 1109 hipótese da oscilação 1110 mudança de fase de leitura de tradução 1111 edição do RNA 1111 iniciação 1127 sequência de Shine-Dalgarno 1127 sítio aminoacil (A) 1128 sítio peptidil (P) 1128 sítio de saída (E) 1128 complexo de iniciação 1128 alongamento 1129 fatores de alongamento 1129 peptidil-transferase 1132 translocação 1132 terminação 1134 fatores de liberação 1134 supressor sem sentido 1134 polissomo 1135 modificação pós-traducional 1136 puromicina 1138 tetraciclina 1138 cloranfenicol 1138 cicloeximida 1138 estreptomicina 1138 toxina diftérica 1139 ricina 1139 sequência sinal 1140 partícula de reconhecimento de sinal (SRP) 1140 complexo de translocação de peptídeos 1140 tunicamicina 1141 sequência de localização nuclear (NLS) 1144 depressões revestidas 1146 clatrina 1146 dinamina 1146 ubiquitina 1147 proteassomo 1147 Leituras adicionais Código genético Ambrogelly, A., Palioura, S., & Söll, D. (2007) Natural expansion of the genetic code. Nat. Chem. Biol. 3, 29–35. Blanc, V. & Davidson, N.O. (2003) C-to-U RNA editing: mechanisms leading to genetic diversity. J. Biol. Chem. 278, 1395–1398. Crick, F.H.C. (1966) The genetic code: III. Sci. Am. 215 (October), 55–62. Uma visão geral criteriosa do código genético em uma época em que as palavras do código haviam sido há pouco desvendadas. Farajollahi, S. & Maas, S. (2010) Molecular diversity through RNA editing: a balancing act. Trends Genet. 26, 221–230. Hohn, M.J., Park, H.S., O’Donoghue, P., Schnitzbauer, M., & Söll, D. (2006) Emergence of the universal genetic code imprinted in an RNA record. Proc. Natl. Acad. Sci. USA 103, 18,095–18,100. Levanon, K., Eisenberg E., Rechavi G., & Levanon, E.Y. (2005) Letter from the editor: adenosine-to-inosine RNA editing in Alu repeats in the human genome. EMBO Rep. 6, 831–835. Liu, M. & Schatz, D.G. (2009) Balancing AID and DNA repair during somatic hypermutation. Trends Immunol. 30, 173–181. Lobanov, A.V., Turanov, A.A., Hatfield, D.L., & Gladyshev, V.N. (2010) Dual functions of codons in the genetic code. Crit. Rev. Biochem. Mol. Biol. 45, 257–265. Neeman, Y., Dahary, D., & Nishikura, K. (2006) Editor meets silencer: crosstalk between RNA editing and RNA interference. Nat. Rev. Mol. Cell Biol. 7, 919–931. Nirenberg, M. (2004) Historical review: deciphering the genetic code—a personal account. Trends Biochem. Sci. 29, 46–54. Schimmel, P. & Beebe, K. (2004) Molecular biology—genetic code seizes pyrrolysine. Nature 431, 257–258. Vetsigian, K., Woese, C., & Goldenfeld, N. (2006) Collective evolution and the genetic code. Proc. Natl. Acad. Sci. USA 103, 10,696–10,701. 1150 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX Yanofsky, C. (2007) Establishing the triplet nature of the genetic code. Cell 128, 815–818. Yarus, M., Caporaso, J.G., & Knight, R. (2005) Origins of the genetic code: the escaped triplet theory. Annu. Rev. Biochem. 74, 179–198. Síntese de proteínas Ban, N., Nissen, P., Hansen, J., Moore, P.B., & Steitz, T.A. (2000) The complete atomic structure of the large ribosomal subunit at 2.4 Å resolution. Science 289, 905–920. A primeira estrutura em alta resolução de uma subunidade ribossomal importante. Ben-Shem, A., de Loubresse, N.G., Melnikov, S., Jenner, L., Yusupova, G., & Yusupov, M. (2011) The structure of the eukaryotic ribosome at 3.0 Å resolution. Science 334, 1524–1529. Chapeville, F., Lipmann, F., von Ehrenstein, G., Weisblum, B., Ray, W.J., Jr., & Benzer, S. (1962) On the role of soluble ribonucleic acid in coding for amino acids. Proc. Natl. Acad. Sci. USA 48, 1086–1092. Experimentos clássicos fornecem provas para a hipótese do adaptador proposta por Crick e mostram que os aminoácidos não são conferidos após se ligarem aos tRNAs. Decatur, W.A. & Fournier, M.J. (2002) rRNA modifications and ribosome function. Trends Biochem. Sci. 27, 344–351. Dintzis, H.M. (1961) Assembly of the peptide chains of hemoglobin. Proc. Natl. Acad. Sci. USA 47, 247–261. Experimento clássico estabelece que as proteínas são montadas a partir da extremidade amino. Dunkle, J.A. & Cate, J.H.D. (2010) Ribosome structure and dynamics during translocation and termination. Annu. Rev. Biophys. 39, 227–244. Gray, N.K. & Wickens, M. (1998) Control of translation initiation in animals. Annu. Rev. Cell Dev. Biol. 14, 399–458. Ibba, M. & Söll, D. (2000) Aminoacyl-tRNA synthesis. Annu. Rev. Biochem. 69, 617–650. Korostelev, A. & Noller, H.F. (2007) The ribosome in focus: new structures bring new insights. Trends Biochem. Sci. 32, 434–441. Korostelev, A., Trakhanov, S., Laurberg, M., & Noller, H.F. (2006) Crystal structure of a 70S ribosome-tRNA complex reveals functional interactions and rearrangements. Cell 126, 1065–1077. Liu, C.C. & Schultz, P. G. (2010) Adding new chemistries to the genetic code. Annu. Rev. Biochem. 79, 413–444. Poehlsgaard, J. & Douthwaite, S. (2005) The bacterial ribosome as a target for antibiotics. Nat. Rev. Microbiol. 3, 870–881. Rodnina, M.V. & Wintermeyer, W. (2001) Fidelity of aminoacyl- tRNA selection on the ribosome: kinetic and structural mechanisms. Annu. Rev. Biochem. 70, 415–435. Woese, C.R., Olsen, G.J., Ibba, M., & Söll, D. (2000) Aminoacyl- tRNA synthetases, the genetic code, and the evolutionary process. Microbiol. Mol. Biol. Rev. 64, 202–236. Endereçamento e degradação das proteínas Bedford, L., Lowe, J., Dick, L.R., Mayer, R.J., & Brownell, J.E. (2011) Ubiquitin-like protein conjugation and the ubiquitin-proteasome system as drug targets. Nat. Rev. Drug Discov. 10, 29–46. DeMartino, G.N. & Gillette, T.G. (2007) Proteasomes: machines for all reasons. Cell 129, 659-662. Ferguson, S.M. & De Camilli, P. (2012) Dynamin, a membrane- remodelling GTPase. Nat. Rev. Mol. Cell Biol. 13, 75–88. Hartmann-Petersen, R., Seeger, M., & Gordon C. (2003) Transferring substrates to the 26S proteasome. Trends Biochem. Sci. 28, 26–31. Komander, D. & Rape, M. (2012) The ubiquitin code. Annu. Rev. Biochem. 81, 203–229. Liu, C.W., Li, X.H., Thompson, D., Wooding, K., Chang, T., Tang, Z., Yu, H., Thomas, P.J., & DeMartino, G.N. (2006) ATP binding and ATP hydrolysis play distinct roles in the function of 26S proteasome. Mol. Cell 24, 39–50. Luzio, J.P., Pryor, P.R., & Bright, N.A. (2007) Lysosomes: fusion and function. Nat. Rev. Mol. Cell Biol. 8, 622–632. Mayor, S. & Pagano, R.E. (2007) Pathways of clathrin-independent endocytosis. Nat. Rev. Mol. Cell Biol. 8, 603–612. McMahon, H.T. & Boucrot, E. (2011) Molecular mechanism and physiological functions of clathrin-mediated endocytosis. Nat. Rev. Mol. Cell Biol. 12, 517–533. Pickart, C.M. & Cohen, R.E. (2004) Proteasomes and their kin: proteases in the machine age. Nat. Rev. Mol. Cell Biol. 5, 177–187. Royle, S.J. (2006) The cellular functions of clathrin. Cell. Mol. Life Sci. 63, 1823–1832. Schekman, R. (2007) How sterols regulate protein sorting and traffic. Proc. Natl. Acad. Sci. USA 104, 6496–6497. Stewart, M. (2007) Molecular mechanism of the nuclear protein import cycle. Nat. Rev. Mol. Cell Biol. 8, 195–208. Strambio-De-Castillia, C., Niepel, M., & Rout, M.P. (2010) The nuclear pore complex: bridging nuclear transport and gene regulation. Nat. Rev. Mol. Cell Biol. 11, 490–501. Tasaki, T., Sriram, S.M., Park, K.S., & Kwon, Y.T. (2012) TheN-end rule pathway. Annu. Rev. Biochem. 81, 261–289. Problemas 1. Tradução do RNA mensageiro Quais seriam as sequên- cias de aminoácidos dos peptídeos formados pelos ribossomos em resposta às seguintes sequências de mRNA, considerando que a fase de leitura inicia com as três primeiras bases em cada sequência? (a) GGUCAGUCGCUCCUGAUU (b) UUGGAUGCGCCAUAAUUUGCU (c) CAUGAUGCCUGUUGCUAC (d) AUGGACGAA 2. Quantas sequências diferentes de mRNA podem es- pecificar uma sequência de aminoácido? Escreva todas as sequências possíveis de mRNA que podem codificar o simples segmento tripeptídico Leu-Met-Tyr. A sua resposta lhe dará uma ideia sobre o número de possíveis mRNA capazes de codi- ficar um polipeptídeo. 3. A sequência de bases de um mRNA pode ser predi- ta a partir da sequência de aminoácidos de seu produto polipeptídico? Se o quadro de leitura for especificado, uma dada sequência de bases de um mRNA codificará uma – e ape- nas uma – sequência de aminoácidos em um polipeptídeo. A partir de uma dada sequência de resíduos de aminoácidos em uma proteína, como, por exemplo, o citocromo c, é possível predizer uma sequência única de bases do seu mRNA codifi- cante? Dê razões para sua resposta. PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1151 4. Codificação de um polipeptídeo a partir de DNA fita dupla. A fita-molde de um segmento de DNA dupla-hélice contém a sequência (59) CTTAACACCCCTGACTTCGCGCCGTCG(39) (a) Qual é a sequência de bases do mRNA que pode ser transcrita a partir dessa fita? (b) Que sequência de aminoácidos poderia ser codificada pelo mRNA em (a), iniciando na extremidade 59? (c) Se a fita complementar (não molde) desse DNA fosse transcrita e traduzida, a sequência de aminoácidos resultante seria a mesma que em (b)? Explique o significado biológico da sua resposta. 5. A metionina tem apenas um códon. A metionina é um dos dois aminoácidos com apenas um códon. Como é que o único códon que codifica a metionina especifica tanto o resí- duo inicial como os resíduos de Met internos dos polipeptídeos sintetizados pela E. coli? 6. mRNAs sintéticos. O código genético foi elucidado com polirribonucleotídeos sintetizados enzimaticamente ou quimi- camente em laboratório. Considerando o atual conhecimento sobre o código genético, como você faria um polirribonucleo- tídeo que pudesse servir como um mRNA codificando predo- minantemente muitos resíduos Phe e um pequeno número de resíduos Leu e Ser? Que outro(s) aminoácido(s) poderia(m) ser codificado(s) por esse polirribonucleotídeo, mas em meno- res quantidades? 7. Custo energético da biossíntese de proteínas. De- termine o mínimo de energia necessário, em termos de equiva- lentes de ATP utilizados, para a biossíntese da cadeia de b-glo- bina da hemoglobina (146 resíduos), tendo como componentes de partida todos os aminoácidos necessários, ATP e GTP. Com- pare sua resposta com a quantidade de energia gasta para a biossíntese de uma cadeia linear de glicogênio de 146 resíduos de glicose unidos por ligações (a1S4), a partir de um conjun- to de precursores incluindo glicose, UTP e ATP (Capítulo 15). Com base nos seus dados, qual é o custo extra de energia para se produzir uma proteína na qual todos os resíduos estão orde- nados em uma sequência específica, quando comparado com o custo de se produzir um polissacarídeo com o mesmo número de resíduos, mas sem o conteúdo de informação da proteína? Além do custo direto de energia para a síntese de uma pro- teína, existem gastos indiretos de energia – aqueles requeridos para que a célula produza as enzimas necessárias para a sín- tese proteica. Compare a magnitude dos custos indiretos para que uma célula eucariótica realize a biossíntese de cadeias de glicogênio lineares (a1S4) e a biossíntese de polipeptídeos, em termos de maquinarias enzimáticas envolvidas. 8. Pressupondo anticódons a partir de códons. A maio- ria dos aminoácidos tem mais de um códon e se liga a mais de um tRNA, cada qual com um anticódon diferente. Escreva todos os anticódons possíveis para os quatro códons de glicina: (59)GGU, GGC, GGA e GGG. (a) Com base na sua resposta, quais posições, nos anticó- dons, são as principais determinantes para a especificidade dos seus códons, no caso da glicina? (b) Qual(is) pareamento(s) códon-anticódon possui(em) um par de bases oscilante? (c) Em qual dos pareamentos códon-anticódon todas as três posições apresentam fortes ligações de hidrogênio de Watson-Crick? 9. Efeito das mudanças em uma única base para a se- quência de aminoácidos. Muitas evidências importantes que confirmam o código genético surgiram analisando-se as mudanças nas sequências de aminoácidos de proteínas mutan- tes após a alteração de uma única base no gene que codifica a proteína. Quais das seguintes substituições de aminoácidos seriam consistentes com o código genético no caso de as alte- rações terem sido causadas pela mudança de uma única base? Quais não resultam de uma única mudança de base? Por quê? (a) PheSLeu (e) IleSLeu (b) LysSAla (f) HisSGlu (c) AlaSThr (g) ProSSer (d) PheSLys 10. A resistência do código genético às mutações. A sequência de RNA abaixo representa o início de uma fase de leitura. Que alterações podem ocorrer em cada posição sem que haja mudança no aminoácido codificado? (59) AUGAUAUUGCUAUCUUGGACU 11. Princípio da mutação das células falciformes. A he- moglobina das células falciformes tem um resíduo de Val na posição 6 da cadeia da b-globina, em vez do resíduo de Glu encontrado na hemoglobina A normal. Você seria capaz de pre- dizer qual mudança ocorreu no códon de DNA para glutamato que causou a substituição do Glu pela Val? 12. Edição pelas aminoacil-tRNA-sintases. A isoleucil- -tRNA-sintase apresenta uma função de revisão que garante a fidelidade da reação de aminoacilação, mas a histidil-tRNA- -sintase não tem essa função. Explique. 13. A importância de um “segundo código genético”. Algumas aminoacil-tRNA-sintases não reconhecem e não se ligam ao anticódon de seus tRNA correspondentes, mas usam outras características estruturais dos tRNA para conferir a es- pecificidade de ligação. Os tRNA para alanina aparentemente se encaixam nessa categoria. (a) Quais características do tRNAAla são reconhecidas pela Ala-tRNA-sintase? (b) Descreva as consequências da mutação CSG na tercei- ra posição do anticódon do tRNAAla. (c) Que outros tipos de mutação podem ter efeitos seme- lhantes? (d) Mutações desses tipos nunca são encontradas em po- pulações naturais de organismos. Por quê? (Dica: considere o que poderia ocorrer tanto em proteínas individuais como no organismo como um todo.) 14. O papel dos fatores de tradução. Um pesquisador isolou variantes mutantes dos fatores de transcrição bacteria- nos IF-2, EF-Tu e EF-G. Em cada caso, a mutação permite o enovelamento apropriado da proteína e a ligação de GTP, mas não permite a hidrólise do GTP. Em qual etapa a tradução seria bloqueada por cada proteína mutante? 15. Mantendo a fidelidade da síntese proteica. Os meca- nismos químicos utilizados para evitar erros na síntese proteica são diferentes daqueles utilizados durante a replicação do DNA. As DNA-polimerases fazem uso da atividade de edição exonu- cleásica 39S59 para remover nucleotídeos pareados incorreta- mente inseridos em uma fita de DNA nascente. Não existe fun- ção de edição análoga nos ribossomos, e, de fato, a identidade de um aminoácido em um tRNA que chega no ribossomo e que é ligado ao polipeptídeo nascente nunca é conferida. Uma etapa 1152 DAV I D L . N E L S O N & MI C H A E L M . COX de revisão que hidrolisasse a recém-formada ligação peptídica depois que um aminoácido incorreto tivesse sido inserido em um polipeptídeo nascente (análoga à etapa de edição das DNA- -polimerases) não seria prática. Por quê? (Dica: Considere como a ligação entre o polipeptídeo nascente e o mRNA é mantida durante o alongamento; ver Figuras 27-29 e 27-30.) 16. Deduzindo a localização celular deuma proteína. O gene para um polipeptídeo eucariótico de 300 resíduos de aminoácidos é alterado de forma que a sequência sinal reco- nhecida pela SRP fica na extremidade aminoterminal do po- lipeptídeo, e um sinal de localização nuclear (NLS) existe na região interna, iniciando no resíduo 150. Em que local da célula essa proteína é provavelmente encontrada? 17. Exigências para o transporte de proteínas através da membrana. A proteína OmpA secretada por bactérias tem um precursor, ProOmpA, o qual tem a sequência sinal amino- terminal necessária para a secreção. Se a ProOmpA purificada é desnaturada com ureia 8 M, e a ureia é posteriormente re- movida (p. ex., passando rapidamente a solução proteica por uma coluna de gel-filtração), a proteína pode ser transportada, in vitro, através de membranas bacterianas internas isoladas. No entanto, o transporte se torna impossível se a ProOmpA for primeiro incubada por algumas horas na ausência de ureia. Além disso, a capacidade de transporte é mantida por um pe- ríodo mais longo se a ProOmpA for antes incubada na presença de outra proteína bacteriana denominada fator de desencadea- mento. Descreva a provável função desse fator. 18. Capacidade de codificação de proteínas de um DNA viral. O genoma de 5.386 pb do bacteriófago fX174 inclui ge- nes para 10 proteínas, designadas de A a K, com os tamanhos mostrados na tabela a seguir. Quanto DNA seria necessário para codificar essas 10 proteínas? Como você conciliaria o ta- manho do genoma do fX174 com sua capacidade de codificar proteínas? Proteína Número de resíduos de aminoácidos Proteína Número de resíduos de aminoácidos A 455 F 427 B 120 G 175 C 86 H 328 D 152 I 38 E 91 J 56 Problema de análise de dados 19. Desenhando proteínas pela utilização de genes gerados ao acaso. Estudos acerca das sequências de ami- noácidos e das correspondentes estruturas tridimensionais de proteínas nativas e mutantes levaram a elucidações significati- vas sobre os princípios que governam o enovelamento de pro- teínas. Uma maneira importante para testar essas ideias seria desenhar uma proteína com base nesses princípios e verificar se ela se dobra conforme esperado. Kamtekar e colaboradores (1993) se basearam em aspec- tos do código genético para gerar sequências aleatórias de proteínas, com padrões definidos de resíduos hidrofílicos e hidrofóbicos. A elegante abordagem empregada combinava o conhecimento acerca da estrutura de proteínas, das proprie- dades dos aminoácidos e do código genético para investigar fatores que influenciam a estrutura das proteínas. Eles se propuseram a gerar um conjunto de proteínas com a estrutura simples de quatro hélices, mostrada no final do pa- rágrafo, com hélices a (mostradas como cilindros) conectadas por segmentos de alças aleatórias (em vermelho-claro). Cada hélice a é anfipática – os grupos R de um lado da hélice são exclusivamente hidrofóbicos (em amarelo), e aqueles do outro lado são exclusivamente hidrofílicos (em azul). Seria de se es- perar que uma proteína consistindo em quatro dessas hélices, separadas por curtos segmentos de alças aleatórias, se dobras- se de forma que os lados hidrofílicos das hélices ficariam volta- dos para o solvente. COO2 NH3 1 1 COO2 NH3 hélice a anfipática Feixe de quatro hélices (a) Que forças ou interações mantêm as quatro hélices a unidas nessa estrutura? A Figura 4-4a mostra um segmento de hélice a consistindo em 10 resíduos de aminoácidos. Com o bastão central cinza atuando como um divisor, quatro dos grupos R (esferas púr- pura) se estendem a partir do lado esquerdo da hélice e seis a partir do lado direito. (b) Numere os grupos R na Figura 4-4a, da parte superior (aminoterminal; 1) para a parte inferior (carboxiterminal; 10). Quais grupos R se estendem a partir do lado esquerdo e quais a partir do lado direito? (c) Suponha que você quisesse desenhar esse segmento de 10 aminoácidos a fim de montar uma hélice anfipática, com o lado esquerdo hidrofílico e o lado direito hidrofóbico. Forneça uma se- quência de 10 aminoácidos que potencialmente se dobraria em tal estrutura. Há muitas respostas corretas para esta questão. (d) Forneça uma sequência de DNA fita dupla que poderia codificar a sequência de aminoácidos que você escolheu em (c). (Sendo a região interna de uma proteína, você não precisa incluir códons iniciadores nem de término.) Em vez de desenhar proteínas com sequências específi- cas, Kamtekar e colaboradores desenharam proteínas com sequências parcialmente aleatórias, com resíduos de aminoá- cidos hidrofílicos e hidrofóbicos posicionados em um padrão controlado. Para isso, eles utilizaram algumas características interessantes do código genético para construir uma biblioteca de moléculas de DNA sintético com sequências parcialmente aleatórias, organizadas seguindo um padrão específico. Para desenhar uma sequência de DNA que codificasse se- quências aleatórias de aminoácidos hidrofóbicos, os pesquisa- dores iniciaram pelo códon degenerado NTN, no qual N pode ser A, G, C ou T. Eles preencheram cada posição N incluindo uma mistura equimolar de A, G, C e T na reação de síntese de DNA, a fim de gerar uma mistura de moléculas de DNA com diferentes nucleotídeos nesta posição (ver Figura 8-35). De PR I N C Í PI O S D E B I O Q U Í M I C A D E LE H N I N G E R 1153 forma semelhante, para codificar sequências aleatórias de ami- noácidos polares, eles partiram do códon degenerado NAN e usaram uma mistura equimolar de A, G e C (mas, nesse caso, sem o T) para preencher as posições N. (e) Quais aminoácidos podem ser codificados pelo triplete NTN? Nesse grupo, todos os aminoácidos são hidrofóbicos? O grupo inclui todos os aminoácidos hidrofóbicos? (f) Quais aminoácidos podem ser codificados pelo triplete NAN? Todos esses aminoácidos são polares? O grupo inclui to- dos os aminoácidos polares? (g) Ao criar os códons NAN, por que foi necessário deixar T fora da mistura de reação? Kamtekar e colaboradores clonaram essa biblioteca de se- quências aleatórias de DNA em plasmídeos, selecionaram 48 que produziam o padrão correto de aminoácidos hidrofóbicos e hidrofílicos e os expressaram em E. coli. O desafio seguinte era determinar se as proteínas se dobravam conforme o esperado. Seria muito demorado expressar cada proteína, cristalizá-la e determinar a sua estrutura tridimensional completa. Em vez disso, os pesquisadores utilizaram a maquinaria de processa- mento proteico de E. coli para excluir as sequências que le- vavam à produção de proteínas muito defeituosas. Nessa fase seletiva inicial, eles mantiveram apenas aqueles clones que resultaram em uma banda de proteínas com o peso molecular esperado na análise por eletroforese em gel de poliacrilamida contendo SDS (ver Figura 3-18). (h) Por que uma proteína grosseiramente mal dobrada não formaria uma banda com o peso molecular esperado, quando analisada eletroforeticamente? Várias proteínas passaram nesse teste inicial, e análises mais aprofundadas mostraram que elas apresentavam, de fato, a estrutura de quatro hélices prevista. (i) Por que nem todas as proteínas com sequências aleató- rias que passaram no primeiro teste seletivo produziram estru- turas de quatro hélices? Referência Kamtekar, S., Schiffer, J.M., Xiong, H., Babik, J.M., & Hecht, M.H. (1993) Protein design by binary patterning of polar and nonpolar amino acids. Science 262, 1680–1685.