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Função integrada: fases cefálica e gástrica O processamento do alimento é envolvido por mecanismos complexos e dividido em três fases: cefálica, gástrica e intes- tinal. 1) Fase cefálica A fase cefálica caracteriza tudo que acontece desde o perí- odo anterior à entrada do alimento no trato gastrointestinal até a sua chegada ao estômago. Será subdividida em fase cefálica, fase oral e fase esofágica. Fase cefálica: se inicia antes do alimento entrar na boca, pro- movendo a ativação do canal alimentar e o deixando em pron- tidão para processar a refeição que se aproxima. Essa res- posta antecipatória é caracterizada por reflexos longos que iniciam no cérebro e finalizam no trato gastrointestinal. Toda- via, pode ocorrer mesmo sem o alimento, já que pode ser es- timulada pelo olfato e pela visão. O estímulo antecipatório sensorial ou a presença do alimento na boca promove a ativação de neurônios no bulbo, esses que mandam eferências autonômicas para as glândulas sali- vares e para o sistema nervoso entérico para estimular as se- creções e promover o aumento da motilidade. Fase oral: eventos que ocorrem dentro da boca, iniciando pela mastigação para quebra mecânica dos alimentos e mis- tura com a saliva para formação do bolo alimentar, contando com o auxílio da língua e dos dentes. O alimento quando entra na boca é umidificado pela saliva, essa que tem função de amolecer e lubrificar o alimento, di- gerir o amido, auxiliar na gustação e no processo de defesa (IgA, IgM e pH que inibe a proliferação de bactérias). Existem três tipos de glândulas sa- livares que se diferenciam pelo tipo predominante de secreção: paró- tida (secreção proteica exclusiva), submandibular (secreção mista, predominantemente serosa) e sub- lingual (secreção mista, predomi- nantemente mucosa). Elas poderão se acometidas por infec- ções, gerando quadros como a paroidite (caxumba). As glândulas salivares possuem tipos celulares distintos, tendo ácinos, células ductais e células mioepiteliais. O ácino é o local em que a saliva é primariamente produzida, sendo jogada no ducto, onde sofre uma modificação, de modo que a saliva é preparada em uma etapa acinar e uma ductal. Em ritmos máximos de secreção as glândulas salivares po- dem secretar até 1ml/min por grama de tecido, ou seja, o pró- prio peso por minuto. Nas células acinares tem-se a secreção primária com amilase salivar, sódio, potássio, cloreto e bicar- bonato (em níveis semelhantes aos do plasma). No ducto elas terão seu conteúdo iônio alterado, em que ocorre reab- sorção de sódio e cloreto, secreção de potássio e adição de bicarbonato para que ele seja o tampão da secreção. As células acinares e ductais serão polarizadas, tendo uma membrana voltada para o lúmen e outra voltada para o inters- tício. A concentração iônica na região apical e basolateral é diferente, já que a disposição de transportadores nas mem- branas será distinta. Célula acinar: a bomba Na+/K+/ATPase na membrana basola- teral da célula acinar gera gradiente para que o potássio saia da célula em direção ao lúmen pela membrana apical. O transportador NKCC na membrana basolateral joga cloreto para dentro da célula, de modo que esse íon será importante para possibilitar um simporte com o bicarbonato, que será se- cretado para o lúmen. Célula ductal: a bomba Na+/K+/ATPase na mem- brana basolateral gera gradiente para que o po- tássio saia da célula em direção ao lúmen (trans- portador H+/K+), ao mesmo tempo que terá gradiente para que o só- dio entre na célula, pro- movendo a reabsorção de sódio. O trocador Cl- /HCO3 promove a reabsorção de cloreto e a secreção de bi- carbonato. O trocador Na+/H+ cria gradiente para que o Envio de eferências autonômicas para SNE e glândulas salivares Ativação de regiões bulbares Estímulo sensorial ou presença do alimento na boca potássio seja secretado no lúmen, por diminuir a concentra- ção de hidrogênio dentro da célula. Assim, enquanto o potás- sio sai para o lúmen o hidrogênio é reabsorvido, promovendo a alcalinização da saliva por reduzir a concentração de íons H+. A secreção salivar será regulada EXCLUSIVAMENTE por vias neurais com reflexos de alça longa com integração dos estímulos em núcleos salivatórios. Existem alguns estímulos que ativam e outros que inibem (como medo e ansiedade) esses núcleos. Os quimiorreceptores orais, estímulos sensoriais ou recepto- res de pressão detectam o alimento e ativam os núcleos sali- vatórios, esses que sinalizam para o bulbo, ativando o sis- tema nervoso parassimpático via vago, que age liberando neurotransmissores (substância P, acetilcolina e peptídeo va- soativo intestinal), ativando uma via de sinalização em um re- ceptor acoplado com proteína Gq, aumentando concentra- ções de DAG e IP3, estimulando a liberação da saliva por concentração da musculatura lisa. A xerostomia é um efeito colateral da ingestão de anticolinér- gicos, por inibir a ação do parassimpático e a liberação de saliva. Depois da ingestão os alimentos também sofrem a ação me- cânica, tendo os dentes como efetores. A mastigação possui um componente voluntário e um componente reflexo, tendo a função de lubrificar o alimento por misturá-lo com a saliva, além de fragmentar o alimento para que ele possa ser direci- onado ao estômago no formato de bolo alimentar. Na região bulbar tem-se um centro gerador de padrão que recebe aferências sensoriais quando o alimento está dentro da boca – principalmente pelo trigêmeo. Assim, essas infor- mações serão levadas por vias sensoriais que fazem uma si- napse intermediária no tálamo e seguem para o córtex (para tornar consciente), a fim de que os movimentos mastigatórios possam ser ajustados. Desse modo, a percepção de consci- ência pelo córtex promove a ação do componente voluntário. Enquanto isso, o alimento na boca promove o abaixamento da mandíbula, promovendo o estiramento dos fusos muscu- lar, informação que será levado pelo trigêmeo até o núcleo mesencefálico trigeminal, de onde sairão impulsos aferentes que serão encaminhados para o núcleo motor trigeminal, de onde partem as eferências motoras que promoverão contra- ção muscular e fechamento da mandíbula. Desse modo, a mastigação é promovida por um reflexo. Na boca também se tem digestão química pela amilase sali- var e pela lipase lingual, todavia, a porcentagem de nutrientes que essas enzimas conseguem digerir é muito pequena, até mesmo pelo tempo em que o alimento fica na boca. Essas enzimas serão secretadas na boca, mas ativadas no fundo do estômago. A língua desempenha um papel importante durante a inges- tão do alimento, além de conter os calículos gustatórios, que são células receptoras que realizam a transdução química em sinais elétricos, mandando aferências para os núcleos gusta- tórios no bulbo, informação que será encaminhada por afe- rências somatossensoriais até o córtex. A língua empurra o bolo contra o palato mole e a parte pos- terior da cavidade oral dispara o reflexo da deglutição. Esse reflexo será integrado no bulbo, de onde partem neurônios somáticos e autonômicos, além de aferentes sensoriais do nervo glossofaríngeo (IX). Assim, o esfíncter esofágico supe- rior relaxa enquanto a epiglote se fecha para manter o mate- rial deglutido fora das vias aéreas. O alimento move-se para baixo no inte- rior do esôfago, propelido por ondas peristálticas e auxi- liado pela gravi- dade. Fase esofágica: passagem do bolo alimentar até o estô- mago, misturado com todas as secreções liberadas na cavi- dade oral. A motilidade esofágica é o principal componente da deglutição, em que a passagem do alimento em direção ao esôfago desencadeia um movimento peristáltico (onda pri- mária) que se desloca desde o início do esôfago com muscu- latura estriada (coordenadas por nervos cranianos) e pro- paga-se ao longo da musculatura lisa. O peristaltismo tam- bém desencadeia o relaxamento do esfíncter esofagiano in-ferior quando o alimento está se aproximando do estômago. A disfagia pode ter causas de origem neurológica, por doen- ças do músculo do esôfago ou por obstruções físicas da fa- ringe ou esôfago. 2) Fase gástrica O alimento passa em direção ao estômago após abertura do esfíncter esofágico inferior, dando início à fase gástrica da di- gestão. A cada dia aproximadamente 3,5L de comida, bebida e saliva entram no fundo do estômago. Esse órgão terá fun- ção de: ▪ Armazenamento; ▪ Secreção de H+ para manutenção do meio ácido, defesa e conversão do pepsinogênio em pepsina; ▪ Secreção de fator intrínseco para absorção de vitamina B12; ▪ Secreção de água para lubrificação e suspensão aquosa de nutrientes; ▪ Promoção de atividades de mistura dos alimentos com as secreções; ▪ Digestão química e mecânica; ▪ Atividade motora para regulação do esvaziamento gás- trico. A fase gástrica é regulada por reflexos vagais longos e por reflexos curtos. O reflexo longo promove uma resposta ante- cipatória, em que a informação de visão, o cheiro ou o gosto da comida sofre integração no bulbo, de onde parte uma efe- rência autonômica em direção ao SNE, que ativa células efe- toras para promover a motilidade e a liberação de secreções. Os reflexos curtos são iniciados pela distensão da parede do estômago ou substâncias quími- cas do bolo alimentar estimulam neurônios sensoriais na mu- cosa gástrica, envi- ando a informação para os plexos mio- entérico e submu- coso, estimulando as células efetoras para aumento da motili- dade e da secreção de substâncias. O enchimento do es- tômago é facilitado pelo relaxamento re- ceptivo e a acomodação gástrica, mecanismos que são me- diados por um reflexo vasovagal. Sabe-se que uma vagoto- mia bloqueia o relaxamento do estômago após entrada do ali- mento. O estômago é dividido em: 1) esfíncter esofágico inferior e cárdia, 2) fundo e corpo e 3) antro e piloro, em que essas regiões se diferenciam conforme secreção luminal e motili- dade. A porção antral possui uma importante função de motilidade, já que é a região responsável por encaminhar o bolo alimen- tar em direção ao duodeno por um mecanismo denominado esvaziamento gástrico. O estômago promove digestão química e mecânica do ali- mento. Os processos de quebra mecânica se dividem em: ▪ Propulsão: empurra o alimento para frente em direção ao piloro fechado. ▪ Mistura: o antro mistura o material retido. ▪ Retropropulsão: empurra o bolo alimentar de volta para a porção proximal do estômago, a fim de que os alimen- tos sejam quebrados em moléculas suficientemente pe- quenas para atravessarem o piloro em direção ao intes- tino. O estômago também recebe e produz uma série de substân- cias que têm como função digestão e proteção, tendo diferen- tes tipos celulares na mucosa gástrica. O suco gástrico será uma mistura das secreções das células da superfície epitelial e a secreção das glândulas gástricas. A secreção de ácido gástrico (HCl) é feita pelas células pari- etais das glândulas gástricas. Como resultado do metabo- lismo celular tem-se liberação de CO2, esse que formará ácido carbônico que se dissocia em H+ e HCO3-. O bi- carbonato sai para o interstício e possi- bilita a entrada do cloreto para a célula. A bomba de sódio e potássio internaliza potássio e cria um gradiente para que o potássio seja enca- minhado ao interstício, de modo que na membrana apical tem-se um trocador que propicia a secreção de H+ no lúmen e a reabsorção de potássio. O cloreto entrará pela membrana basolateral e seguirá para o lúmen da glândula, já que a membrana apical é permeável a esse íon. O íon hidrogênio se encontra com o cloreto e forma o HCl. Como funções do ácido gástrico tem-se ativação do pepsino- gênio em pepsina para digestão de proteínas, liberação de somatostatina (regulador negativo da secreção de HCl), des- naturação de proteínas, destruição de bactérias e inativação da amilase salivar. A regulação da secreção de HCl ocorre por influência de vá- rios mecanismos por diferentes sistemas. A distensão do es- tômago pelo alimento promove reflexos do SNE local (neurô- nio pós-ganglionar parassimpático) e reflexos vagais, esses que estimulam a produção de acetilcolina, neurotransmissor que atuará: ▪ Diretamente na célula parietal para regular a produção de HCl ▪ Nas célula ECL produtoras de histamina, molécula que agirá nas células parietais para controlar a secreção de ácido ▪ Nas células G liberando gastrina, hormônio que agirá re- gulando a secreção de histamina, além de agir na célula parietal para controlar a secreção de ácido. Além disso, a diges- tão proteica promove a liberação de peptí- deos e aminoácidos, esses que atuarão nas células G para li- beração de gastrina. O reflexo vagal tam- bém pode promover a liberação de peptídeo liberador de gastrina. Na via direta a acetil- colina, gastrina e his- tamina estimulam a célula parietal a de- sencadear a secre- ção de H+ no lúmen. Enquanto isso, na via indireta a acetilcolina e a gastrina estimulam as células ECL para secreção de histamina, substância que age sobre a cé- lula parietal. A secreção de HCl também será regulada pela retroalimenta- ção negativa exercida pela somatostatina. A acetilcolina esti- mula as células D para que elas secretem somatostatina, que pode atuar por via endócrina na célula parietal inibindo a se- creção de ácido ou pode atuar nas células G regulando ne- gativamente a secreção de gastrina. Também pode atuar em células ECL para impedir a liberação de histamina. Assim, nota-se que a ativação vagal estimula múltiplas res- postas celulares via neurotransmissores. As células principais liberam as enzimas digestoras no estô- mago, como pepsinogênio. O estômago armazena a forma pró-enzima para evitar sua autodigestão, sendo ativadas ape- nas quando forem liberadas no meio ácido estomacal. Essa secreção será regulada por mecanismos neurais através de um reflexo vago-vagal de alça longa, em que a distensão do estômago é detectada por receptores sensoriais e a informa- ção segue para regiões bulbares, essa que manda eferências vagais para o estômago para aumentar a liberação de H+, pepsinogênio e gastrina. Além disso, tem-se regulação por fatores endócrinos resul- tantes da ação da gastrina nas células principais, estimulando a liberação do pepsinogênio. No estômago também se tem pouca liberação de lipases para degradação dos lipídios em ácidos graxos e glicerol. No estômago tem-se a secreção de muco protetor, processo que é estimulado por medicamentos como a ranitidina. Essa camada protetora tem capacidade de neutralizar o ácido e tamponar o meio, evitando o dano da parede gástrica. Como um dos principais causadores de dano gástrico tem-se o estresse, fator que anula o tamponamento dessa região, tendo ácido se aproximando das células da mucosa. Assim, o próprio ácido em excesso irá atravessar as células e ir para o interstício, onde ativa mastócito, esse que libera mais his- tamina e aumenta a produção de ácido – processo que se perpetua. Além do estresse, existem fatores de risco que podem causar destruição da barreira mucosa, como: AINEs, álcool, H. pylori, síndrome de Zollinger-Ellison (excesso de produção de gastrina), refluxo, entre outros. No estômago apenas uma pequena quantidade de nutrientes é absorvida, pois suas células epiteliais são impermeáveis à maior parte dos materiais. O principal sítio de absorção é o intestino delgado, pela presença de especializações como vi- losidades e microvilosidades.